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Última atualização: 25/01/2021

Capítulo 1

Eles estavam atrás de mim. Não apenas por uma hora ou duas horas. Na verdade, eles estavam atrás de mim o tempo todo. E não apenas atrás de mim, eles apareciam por todos os lados. E tudo bem quando eu estava em casa ou sozinho em algum outro lugar, mas eles não tinham escrúpulos sobre tempo e espaço para aparecerem. Isso me deixava maluco. Como quando eles resolvem dar as caras dentro da lanchonete ou até mesmo durante as minhas aulas. A minha capacidade de ignorá-los melhorou muito com o passar dos anos, mas isso não conta quando eles resolvem te chutar ou até mesmo fazer qualquer contato físico com você. Porque sim, eles podem. Pelo menos comigo.
Desde que me entendo por gente eu consigo vê-los. E não apenas vê-los. Consigo cheirá-los, senti-los, tocá-los, como se fossem um outro ser humano. Não me admira o rótulo de esquisito que me foi posto pelos outros. Mas, como lidar quando ambos os seres, vivos e mortos, conseguem te tocar e falar como todas as outras pessoas?
Por sorte, diferenciá-los nunca foi problema pra mim. Sendo redundante, os mortos têm uma aura... Bem... Mórbida. Eles andam pela multidão o tempo todo, são muito pálidos e quase sempre parecem estar perdidos. Um fantasma novato é o que há de mais simples a reconhecer: eles têm muita dificuldade em aceitar que estão mortos e conseguem ser bastante escandalosos ao gritarem aos quatro ventos, perguntando a todos por que não conseguem vê-los. Estes são os maiores perturbadores da minha paz.
Basicamente, os mortos costumavam vir a mim para resolverem suas pendências aqui na Terra. Se isso soar como algo legal, procure um médico. Não há nada mais incômodo do que um fantasma te seguindo o tempo inteiro para que você possa levar um pedido de desculpas a um membro da família que fica a duas cidades de distância, ou simplesmente para entregar seu amado cão a um abrigo de qualidade. Sem contar nas vezes que uma adolescente que morreu sem nunca ter ido a um encontro resolve usar você de cobaia.
Eu nunca considerei tal habilidade como um dom. Muito pelo contrário, ajudar fantasmas só me dava dor de cabeça e cada vez mais distanciamento social. Meu melhor amigo, , é o único remanescente na minha vida que parece não se importar de ter um amigo que fala sozinho diversas vezes e vive desaparecendo sem mais nem menos. Nos conhecemos no ensino médio e ingressamos na mesma universidade, o que foi um alívio, porque fazer novos amigos nunca esteve em nenhum tópico da minha lista de conquistas. Fora o , as únicas pessoas vivas com quem eu mantinha contatos recorrentes eram meus pais, Jane e... Minha vó. Ok, talvez esta última não esteja mais viva.
Eu estava no quinto semestre de Medicina na Columbia University. A escolha do curso e da universidade tinham motivos plausíveis, ao menos para mim. Minha meta de especialização era acabar na Oncologia, o que me traria pacientes que esperariam pela morte e eu poderia, de algum jeito, incitá-los a resolverem suas pendências ainda em vida, já que visavam a morte iminente. Poderia ser egoísta, mas era menos um morto que voltaria para me pedir ajuda depois. A escolha de NY também não foi por acaso. Uma cidade grande poderia esconder talentos, e dentre estes talentos eu quero dizer pessoas como eu. Eu não entendia bem como a seleção de mortos acontecia para nós, mas eu torcia para que eles sejam bem distribuídos de acordo com o número de pessoas disponíveis. Era mais um plano para mantê-los longe.
A faculdade de Medicina deixava meus pais felizes, ao menos. Desde que eles me buscaram no Orfanato Melbourne, eu tenho sido motivo de orgulho em praticamente todas as minhas ações, mesmo quando meus desaparecimentos e surtos de rebeldia aconteciam frequentemente. Ou mesmo quando tive que ser buscado na delegacia diversas vezes entre o ensino fundamental e médio, com as acusações variando entre invasão de domicílio e desacato à autoridade. Mesmo nas situações difíceis em que eu era posto por causa dos mortos, eles dificilmente me davam uma crítica dura. Minha mãe chorava no travesseiro à noite, assim como eu sabia que meu pai bebia seu whisky mais do que o normal quando esses eventos aconteciam, o que me fazia pensar se eles se arrependiam de alguma forma por ter colocado um garoto estranho dentro de suas próprias casas. Na verdade, eles se sentiam frustrados por não conseguirem a comunicação desejada comigo, o que admito também ser culpa minha.
A família era dona de uma companhia de advocacia bastante rentável em São Francisco. O nome do meu pai, Ryan , era creditado e citado em várias entregas de prêmios empresariais por toda a Califórnia e era exemplo de gestão em vários outros estados. Os flashes dos eventos de gala, jantares executivos na sala e pessoas estranhas trocando minhas roupas me lembravam do legítimo sentimento de peixe fora d'água. A única solução para dar fim à exposição do único filho da família , era me tornar um gênio que deveria estar sempre estudando e se esforçando para a próxima prova ou um novo prêmio da feira de ciências.
Não deu outra, meus pais passaram a aceitar de bom grado que seu filho tinha outros interesses. Apesar disso, foi difícil convencê-los a me deixarem estudar do outro lado do país e ouvi os choros da minha mãe por semanas, mas por fim eles concordaram, junto à promessa de que me visitariam regularmente e que eu deveria ligar sempre. Isso também fazia parte do plano, visto que é difícil meus pais se frustrarem com minhas atitudes estando tão longe.
Apesar de minha constante negação, meus pais insistiram que eu não fosse parar em um dormitório da universidade cheio de pessoas estranhas e com intenções desconhecidas. Guiados pela super proteção da minha mãe, eu residia em um apartamento bem localizado em Manhattan, no quinto andar e com janelas imensas do chão ao teto que me concediam uma vista panorâmica da cidade que nunca dorme. Tudo havia sido escolhido à dedo pela Sra. e eu não me atrevia a palpitar. Apesar de todo o esforço exagerado, eu gostava do meu próprio canto e, sem ignorar meu problema com os mortos, aquela foi a melhor decisão que deixei que tomassem por mim.
Em mais uma quinta feira, eu saía da biblioteca, enquanto atendia uma chamada de no telefone.
— O que é dessa vez? — falei, enquanto posicionava o celular no ombro e terminava de guardar os livros.
— Onde você está? Eu tô morrendo de fome e você ainda não deu o ar da graça pro almoço, e hoje tem aquela carne de...
— Você não tem membros ou dinheiro? Caso tenha membros, acho que você pode comer sem mim.
— Qual é, ? Você sabe que minha grana foi reduzida a zero no Queens semana passada. Pode me dizer ao menos onde está?
— Bem aqui.
Ele estava de pé no meio do refeitório e pareceu feliz em me ver.
— Por que demorou tanto? Achei que você estava sem aula nesse horário — ele disse quando me aproximei.
— Estava na biblioteca, andei preparando um artigo novo.
— Ah é? Sobre o que é dessa vez? Bactérias que produzem plástico? — perguntou, enquanto digitava no celular.
— Não, é só um artigo simples sobre saúde pública, que eu espero conseguir publicar no Citizen. Agora vamos te alimentar.
Nós entramos na fila da lanchonete, que hoje parecia mais cheia que o normal. O cardápio era carne bovina, um dos poucos que me animava a vir para o almoço. Para o , tudo que fosse comestível era aceitável.
— Você viu o ranking semestral que saiu hoje? Parabéns, ficou no top 5 de novo — disse, sem tirar os olhos do celular e sem nenhum tom de surpresa. Eu apenas bufei em resposta.
Todo começo do semestre, a Columbia divulgava um ranking dos alunos que foram mais bem sucedidos de acordo com o semestre anterior. Havia um para cada departamento e um dos alunos em geral da universidade. Como eu faço parte dos cinco primeiros desde o primeiro semestre, aquilo não me pegava mais de surpresa e me senti cansado só de lembrar que dali a algumas horas eu receberia uma ligação de felicitação vinda dos meus pais.
Estar entre os cinco primeiros sempre foi motivo de bajulação entre meus colegas de classe e professores, por mais que eu não desse a mínima pra isso. Contudo, não foi de todo mal; meus artigos eram elogiados pelos professores mais renomados e o reitor até havia me chamado pra jantar. Meu desempenho era um exemplo para todos.
Enquanto estava concentrado em algo como uma rede social, um vento gélido arrepiou os cabelos da minha nuca. Antes que eu pudesse constatar, uma voz rouca surgiu em meu ouvido:
— Olá!
Continuei olhando para frente, apesar de saber que isso não funcionaria por muito tempo. Pude sentir que ela virou o rosto para os lados, perdida. Abri meu celular, fuçando qualquer coisa sem sentido, torcendo para que ela percebesse que ninguém podia vê-la e se mandasse dali. Não era uma boa hora para lidar com mortos.
Infelizmente, ela não só saiu do meu lado, como começou a tentar tocar em e em tudo que aparecesse à sua frente. Para elucidar, quando os mortos tocam as pessoas comuns, elas apenas sentem no máximo aquele arrepio e um momento frio que gela a espinha. Os humanos, para os mortos, não eram muito diferentes: ao tocá-los, era como se tocassem em uma massa cinzenta, derretida, escapando de suas mãos. Mas eram ótimos pegando objetos, meus hematomas comprovam isso.
Pessoas como eu conseguiam senti-los totalmente — e jamais me pergunte o porquê. Isso tornava muito mais fácil para os mortos nos acharem e nos fazerem de gato e sapato para cumprirmos suas malditas pendências. E era por isso que eu estava apavorado com a ideia daquele fantasma resolver me tocar naquele momento.
Eu vi tremer com os calafrios que o toque do fantasma produzia nele, o que o fez reclamar do clima, mas novamente fingi que não estava vendo, enquanto nos aproximávamos das bancadas. No momento seguinte, deu um passo à frente e eu o segui, mas o fantasma não se mexeu, o que fez com que nossos braços roçassem um no outro por um breve segundo.
Como um amador, aquilo fez com que eu olhasse diretamente pra ela e desviasse o olhar no mesmo segundo. Tarde demais. Senti as mãos dela agarrarem meu braço direito.
— Você pode me ver! Ei! Você consegue me ver, não é?
Balancei o braço para sinalizar que me soltasse, mas ela me ignorou. Fechei os olhos, nervoso, implorando pra que ela não fizesse um escândalo aqui.
— Por favor, você precisa me ajudar! Eu não sei o que aconteceu, eu... Ninguém me vê... Eu morri...
Os olhos dela pairavam em uma expressão entorpecida, ela parecia lamentável. Virei os olhos para observá-la e vi uma menina de uns vinte e tantos anos, os cabelos ruivos desgrenhados, pálida como um papel. Ela usava um moletom com o brasão da Columbia.
Eu não podia dar atenção a ela de forma alguma naquele momento, mas ela parecia que não me deixaria em paz. Sinalizei com a cabeça do jeito mais discreto que consegui para que ela desse o fora, mas infelizmente ela pareceu não apenas entender o gesto como negar veemente segui-lo, mostrando isso agarrando meu braço com ainda mais força.
— Por favor, eu te imploro, me ajuda! Você precisa me dizer o que aconteceu, eu estava no meu dormitório e de repente... — Ela pausou sua fala, os olhos tão arregalados que já estavam me deixando em pânico. Ela parecia que iria surtar a qualquer momento.
A fila avançava e ela não soltava o meu braço de forma alguma. Respirei fundo, tentando pensar rápido em como resolveria a situação. As pessoas ao meu redor riam e conversavam, não fazendo ideia do que estava acontecendo ali, mas se ela resolvesse pirar, eles iriam saber, de uma forma ou de outra. Ela agora cravava as unhas em minha pele, com uma força que eu sabia que era adquirida pelos mortos porque eles não eram mais... bem, humanos. Suas súplicas enchiam os meus ouvidos e mesmo minha comunicação pelo olhar não estava adiantando.
— Agora não... — Sussurrei o mais baixo que consegui, sem olhá-la, e agradeci por ninguém ter notado, tamanha era a falação do ambiente. Mas isso pareceu ter piorado a situação.
Vendo que eu realmente podia vê-la e ouvi-la, suas unhas cravaram tão fundo em minha pele que senti o sangue dar as caras e fui puxado como um boneco para o lado direito, bem onde havia pessoas com suas bandejas após pegarem a comida. O próximo cenário que vi foi minha roupa encharcada com o que parecia ser suco de laranja e meus joelhos batendo no chão, seguido de um grito agudo de uma garota que caiu à minha frente, com a mistura da comida que caiu sem dó em sua camisa e calça.
Todos os olhos presentes se viraram para a cena. estava estático e vi em seu rosto que ele não sabia se ria ou se ajudava. Eu me sentia surpreso e ao mesmo tempo puto e imediatamente virei os olhos para procurar a maldita que havia causado isso, mas ela havia desaparecido.
Senti um empurrão no meu peito e caí pro lado, voltando à realidade caótica.
— Você é maluco? — a garota à minha frente gritou, tentando se levantar sem escorregar nos restos de macarrão e torta de legumes destruídos. — Você tem noção do que fez? Não acredito...
Ela bufava, indignada, e algumas garotas se aproximaram dela com guardanapos, todas olhando pra mim com um misto de choque e desprezo. Me levantei do chão, rápido, torcendo pra que as pessoas seguissem suas vidas e esquecessem o show.
— Me desculpa. Foi totalmente minha culpa. — Na verdade não foi. — Eu te pago um outro almoço, como...
— Você é epilético? Como me atingiu dessa forma? Foi de propósito? — o tom de voz dela aumentava a cada pergunta e suas bochechas estavam levemente vermelhas. Ótimo, tudo que eu precisava agora era de problemas com terceiros por causa dos mortos em plena universidade, o lugar onde eu havia feito todo o possível para ser uma zona quase intacta dos meus problemas extracurriculares.
— Claro que não! Eu já disse, eu sinto muito! Eu posso te pagar o almoço, me deixa só...
— Não quero saber do seu dinheiro, imbecil. Tenho uma apresentação muito importante hoje e ela pode ter sido arruinada pela sua síndrome de Tourette. Portanto, se eu puder não te ver nunca mais na minha vida, já é ganhar na loteria. Agora sai da minha frente.
Ela bateu no meu ombro ao sair e foi seguida por pelo menos três garotas, estas com olhares menos assassinos e posturas menos avantajadas. Fiquei em choque por pelo menos um segundo, até as funcionárias da limpeza me tirarem do local com comida destroçada por toda parte. Olhei em volta pela primeira vez e me senti como se estivesse nu com tantos olhares direcionados a mim. Senti meu ombro sendo puxado em direção à saída e eu agradeci internamente, percebendo que minha fome já havia ido pro ralo àquela altura.


Capítulo 2 - Não use copos plásticos

— Cara... O que foi aquilo? — perguntou quando chegamos ao banheiro do dormitório onde ele morava. Estava vazio, o que me deu a chance de arrancar a camisa e jogá-la na pia, bufando de tensão.
— Eu não sei, não foi de propósito... Acho que eu escorreguei.
— O quê? Escorregou? Tá doido? O chão estava tão limpo que eu poderia lambê-lo. Não tinha nada pra você escorregar.
É, só havia um fantasma.
— Eu não sei, acho que apenas me distraí. — Dei de ombros, torcendo para que esquecesse essa situação tão rápido como quanto aconteceu. — Anda, me empresta uma camisa porque ainda tenho duas aulas depois do almoço.
— Cara, você tá legal? Não tá tomando nenhum desses remédios malucos pra ajudar na concentração, né? Essas coisas são perigosas, mano. E que negócio é esse no seu braço? Tá sangrando...
— Até parece. Não é nada, deve ter sido por causa da queda... — Dei uma risada e arranquei meu braço de sua vista, enquanto abria o pequeno armário dele, pegando a primeira camisa preta que estava semi pendurada em um cabide. — Estou perfeitamente saudável, foi apenas um pequeno acidente.
— Você tem ideia em quem resolveu causar um pequeno acidente? — ele perguntou e eu fiquei calado. — Cara! Aquela era !
— Esse nome deveria significar alguma coisa pra mim?
— Já te falei dela algumas vezes. Das vezes que vi ela e as amigas no Square's, às vezes no Queens, do ...
— Ah... Claro. — O único momento em que não falava de mulheres era quando estava comendo ou jogando, então eu aceitei em meu íntimo que jamais gravaria qualquer uma delas porque havia seriamente coisas mais importantes a me preocupar. — Espero que pelo menos ela esqueça disso tudo muito depressa.
— Eu torço por isso, cara. Essas pessoas do Jornalismo não são de esquecer algo fácil. Lembro de uma garota que eu peguei do departamento...
Como um botão em meu corpo, apertei no desligar e deixei que as palavras de não fossem absorvidas pelo meu cérebro. De repente, me lembrei do fantasma e de que ela me procuraria de novo. Isso era certo. Assim como sua roupa entregava que ela era aluna da Columbia e havia morrido há pouco tempo. A notícia se espalharia pelo campus mais cedo ou mais tarde. Dessa vez eu estaria preparado e torcia para que seu problema fosse apenas uma carta ou um abraço. Terminei de vestir a camiseta de , limpei o que deu da minha mochila e fui para a aula.
As próximas três horas passaram voando, mesmo eu tendo que me concentrar mais que o normal para não pensar na aparição repentina que poderia acontecer. Era fim de tarde e os ventos de outono já começavam a ser sentidos, o que me lembrava do casaco que havia deixado no banco do carona. Sem poder adiar mais o problema, dispensei o professor de Histologia, que insistia em comentar sobre minha última análise das lâminas da aula anterior, e fui andando a passos largos para o estacionamento, que ficava em um grande pavilhão coberto na parte de trás da universidade.
O sol ficava cada vez mais apagado e as luzes do estacionamento ainda não estavam acesas, o que me garantia um momento a sós na escuridão que se formava. Havia estacionado meu Jeep Renegade atrás de uma pilastra e não havia outros carros por perto, pelo menos por enquanto. Fechei a porta do motorista ao entrar e esperei.
Dois minutos depois, o ar pesou, gélido e macabro por dentro do veículo.
— Tá legal, quem diabos é você?
Ela parecia menos desesperada do que mais cedo, com os olhos menos perdidos, mas ainda confusa.
— Eu... Você está realmente me vendo? O quê...
— Ok, vamos pular a parte óbvia da coisa. Eu te vejo, eu te sinto, como ficou bem claro mais cedo, e você está morta. O que posso fazer por você?
— Morta? Mas como... — Seu rosto começou a enrugar-se em um choro. — Como isso aconteceu? Eu estava apenas...
— Olha só, preciso que me conte exatamente o que se lembra. Ainda dá tempo de participar de uma confraternização no outro lado, então preciso que você se lembre porque ainda não foi pra lá.
Era nesses momentos que meu esforço ia na tentativa de juntar toda a compaixão e paciência que eu poderia reunir. A última coisa que eu queria era perder horas com um fantasma que não sabia, bem, que estava morto.
— Ash, ele apenas... Ele disse que as pílulas eram pra dormir. Eu estava muito estressada com o projeto de finalização do curso, com o trabalho, então eu tomei. Acabei adormecendo, eu... Foi isso.
Os olhos dela eram vazios enquanto tentavam se lembrar de tudo.
— Quem é Ash?
— Um cara do departamento de ciências da saúde... Ele cursa Farmácia, eu acho. Não sei muita coisa sobre ele e esse nem é seu nome verdadeiro. Estávamos saindo há duas semanas, ele me vendeu uns remédios pra dormir...
— Que remédios?
— Não consigo me lembrar, ele me entregou em uma caixa sem nome.
Revirei os olhos, prevendo o caminho que viria pela frente.
— Escuta, qual é o seu nome?
— Me chamo Margot. Margot Abbott.
— É o seguinte, Margot. Eu sinto te dizer que você de fato morreu e esses remédios que você tomou parecem ser a causa. Agora o que te falta saber para enfim atravessar o limbo...
— Mas eu nem tomei tantos assim. Ele me disse para tomar apenas três comprimidos e que isso bastaria para que eu dormisse por um dia inteiro. Ele disse... — Ela havia recomeçado a chorar, dessa vez mais alto. — Eu confiei nele. Ele disse que não me faria mal.
Suspirei, cavando até o fundo dos meus sentimentos para tentar resolver aquela situação. Talvez não seria tão fácil quanto eu pensava.
— Tudo bem, o que você quer? Vingança? Podemos discutir os termos.
— O quê? Não. Eu só... Estou confusa. Eu havia planejado tudo, meu emprego em Wall Street, meu apartamento em Manhattan, apresentar Ash pros meus pais...
— Ei, não é hora de pensar nessas coisas. Você precisa se concentrar para o que ainda está fazendo aqui e o que precisa resolver para alcançar o tal paraíso, então precisa me ajudar. O que mais poderia prendê-la nesse mundo?
— Eu não sei. Eu passei a vida toda estudando e não fui a uma festa de fraternidade sequer. Fui beijada apenas uma vez no ensino fundamental e agora por Ash e nunca fiquei de porre, ainda sou virgem...
— Vai sonhando, garota! — falei mais alto do que pretendia e visualizei uma pessoa passando em silêncio alguns metros à frente do meu carro, e aquele olhar que me lançou com certeza confirmou que ela me achava maluco. — Meu contrato não inclui participar de orgias ou reencenar American Pie, então eu sugiro que você pense melhor.
— Não é isso! Preciso achar o Ash, preciso saber o que tomei... Preciso saber como exatamente morri. — Ela suspirou e balançou a cabeça como se sentisse dores. — Ele é um cara popular, frequenta as festas e vende outros produtos. Tenho certeza de que não vai ser difícil encontrá-lo. Preciso saber se foi ele que me matou... — A voz dela falhou.
— Ei, ei, vamos com calma. Você parece ter morrido há pouco tempo, com certeza já estão sabendo da sua morte. Quanto à causa, autópsias servem pra isso. Tudo vai ser divulgado, Ash ficará sabendo. Estamos entendidos?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Preciso saber o que era aquilo. Preciso saber se ele sabia o que estava me dando, só assim posso ficar tranquila.
Ela enterrou o rosto entre as mãos e os ombros se mexeram para recomeçar mais uma crise de choro. A luz forte do meu telefone piscou e vibrou com uma mensagem de , chegando uma após a outra. Para me distrair um pouco de Margot, li as mensagens que apareciam no visor: "Onde você está?", "Estacionamento, não é?", "NÃO OUSE TER IDO EMBORA SEM ME DAR CARONA", "Me deixe na Park Avenue", "TÁ AÍ????", "VOCÊ NÃO ACREDITA NO QUE ACABEI DE SABER"...
Mesmo que eu não respondesse, estaria no estacionamento de um jeito ou de outro e isso significava que eu teria que me livrar de Margot naquele instante.
— Tudo bem, eu vou procurar esse tal de Ash e me certificar de saber o que ele te vendeu e se sabia o que estava vendendo. Agora você precisa sumir do meu carro.
— Mas... Qual é o seu nome?
, muito prazer. Agora... — Apontei para a porta do carona.
— ela repetiu meu nome e deu um sorriso pela primeira vez. — Você parece ser um cara legal, . Eu confio em você pra me ajudar. E... Sinto muito pelo seu braço. Muito obrigada.
Ela evaporou na mesma hora que as luzes do estacionamento finalmente se acenderam e o topo da cabeça de surgiu no meio dos carros, correndo mais do que o normal.
Não demorou para que ele me avistasse, já que eu normalmente estacionava no mesmo lugar. Ele entrou ofegante, com as mãos no peito, e abriu a janela.
— Cara... Tem um cigarro?
— O que aconteceu? O prédio não é tão longe — respondi, enquanto fuçava meu porta luvas e tirava um maço, entregando-o em seguida. — Você precisa parar de fumar.
— Como você conseguiu parar? — ele respondeu, enquanto pegava um isqueiro no bolso da frente da mochila.
— Não parei. — Dei de ombros, acendendo um maço e tragando logo em seguida. A nicotina tirava todo meu estresse recém passado com Margot.
voltou a falar, depois de respirar algumas vezes.
— Cara, você não vai acreditar. Uma garota foi encontrada morta no dormitório feminino. Parece que ela morreu hoje, um pouco antes do almoço. Está uma loucura lá dentro...
— É mesmo? Quem é a garota? — Tentei reunir todo o interesse que podia fingir.
— Uma tal de Margot, ela cursava Direito... Cara, você tinha que ouvir o que disseram sobre como ela estava. Um horror. Parece que ela teve uma overdose, então tem vômito pra todo lado, ela está roxa, os olhos estavam abertos... — Ele tremeu por uns instantes. — Um filme de terror. Nem imagino como a pessoa que a encontrou ficou...
— Uma overdose? — perguntei, tentando acumular o máximo de informações possíveis. — Eles disseram que foi isso?
— Ah, eles ainda não sabem de nada. A ambulância acabou de buscar o corpo. Eles devem examiná-la no Hospital Universitário. A universidade fez questão de não causar alarde enquanto eles resolviam isso. Mas já é um dos assuntos mais comentados do Twitter, também publicaram no fórum...
Enquanto falava, eu tentava encaixar as peças. Provavelmente Margot havia tomado os remédios na noite de ontem, morreu um pouco antes do almoço e as pessoas alegavam que parecia ter sido overdose, mas ela não havia tomado pílulas o suficiente para isso. Tentei expulsar da minha mente o quanto tudo aquilo parecia estranho e pensar apenas em bolar uma trilha onde eu encontrava com Ash e o fazia me falar de alguma forma se sabia que o produto que havia vendido para Margot podia matá-la. Não que perguntar de frente resolveria alguma coisa, no mínimo ele me acharia maluco. Tentaria pensar em algo assim que possível.
Deixei na Park Avenue, a umas quadras de onde uma tal Emma morava, não fazendo qualquer esforço para lembrar de mais informação do que isso. dizia estar muito apavorado para voltar ao dormitório naquela noite. Se ele soubesse que eu havia sido informado do incidente pela própria vítima, ele estaria mais traumatizado.
Minha rua estava calma e quieta naquela noite, o que era comum numa quinta considerando que eu morava em uma área residencial sem muitos universitários. A vida badalada de NY começava cedo, e, mesmo sem eu ter conhecimento do cronograma geral da cidade, teria de dar um jeito de me enturmar, mesmo que temporariamente, para achar Ash.
Mesmo na era digital, é difícil achar uma pessoa que é conhecida sob um nome falso. Margot não havia me dado muitos detalhes sobre o cara e eu não tinha qualquer interesse em encontrá-la antes de obter a informação que ela desejava. Poderia perguntar ao , mas eu tinha grande receio por sua boca ser maior do que o próprio rosto e pretendia levar esse caso com a máxima discrição possível.
Ao chegar em casa, limpei o pequeno ferimento em forma de pequenas luas vindas das unhas de Margot no meu braço e tomei um banho.
Entrei no fórum pela primeira vez e me informei sobre o caso daquela tarde, mas não havia nada de muito relevante; ela tinha sido encontrada pela colega de quarto, uma garota chamada Naomi Bailey, que cursava Arquitetura. A única foto publicada era do corpo de Margot envolto em um saco preto e uma enorme faixa amarela atravessando a porta do dormitório. No final da matéria, havia um comunicado que dizia que a autópsia só ocorreria depois de uma autorização por escrito dos pais de Margot, que haviam sido avisados imediatamente e iriam tentar se deslocar o mais rápido possível a NY. Isso poderia atrasar ainda mais os meus planos de me livrar dela, por isso as soluções que me surgiam não eram nada confortáveis.

***


A Columbia University regia um jornal que era administrado pelos próprios alunos e ficava localizado no departamento de Jornalismo. Prezando pela abolição das notícias em papel e consequentemente a preservação das florestas, eles mantinham um site bem informativo e claro que também chamavam de fórum. Lá estavam todas as informações sobre a Columbia e fatos importantes que aconteciam por lá, como eventos, congressos, simpósios e, claro, o top 5 dos alunos. Cada aluno tinha seu próprio login e funcionava como uma rede social, porém restrito apenas aos alunos da universidade e com postagens feitas apenas pelos funcionários do jornal. Se existe um lugar onde você poderia achar tudo sobre algum aluno da Columbia, esse lugar era o Citizen Co.
Claro que eu não esperava conseguir informações sobre Ash de uma forma tão descaradamente errada, mas esperava que alguma ideia aflorasse. Eu já havia visitado o Citizen algumas vezes, quando meus artigos precisavam de alguma correção e eu tinha que me deslocar até a sala do professor responsável pela gestão do jornal, o Sr. Miller. Hoje eu iria submetê-lo a uma análise do novo artigo que eu havia preparado ontem, mas minha maior preocupação se ele iria publicá-lo ou não agora não me incomodava tanto.
Chegar ao Citizen significava estacionar em um espaço apertado e atarracado de bikes e motocicletas. Ele ficava localizado próximo ao prédio das exatas, que era enorme e havia uma quantidade absurda de pessoas correndo. Os jornalistas em formação não eram diferentes.
O prédio era um dos menores, mas era bem estruturado e limpo. As paredes estavam com a pintura em dia e, pela janela de vidro onde se podia ver o escritório, os equipamentos eram bem modernos e atendiam às demandas. O Citizen era uma referência no ramo de jornais universitários sem fins lucrativos pelo país. Pelo menos uns dez alunos ali presentes seriam os próximos âncoras da CNN e editores chefes do New York Times.
A porta branca no final do corredor estava fechada, mas visualizei a correria das pessoas pela janela de vidro ao lado da porta. Elas atendiam telefonemas, digitavam, gritavam umas com as outras de uma ponta à outra da sala, o que fez com que absolutamente ninguém me notasse assim que entrei. Virei à direita e segui para a porta com o nome "Prof. Dr. Jonah Miller" e bati duas vezes, ouvindo um "entre" em seguida.
— Senhor ! — Ele tirou os óculos e se levantou da cadeira com um grande sorriso.
— Bom dia, professor, como vai? — Apertamos as mãos e ele apontou para a cadeira à sua frente. Sua mesa estava tão abarrotada que eu fiquei em dúvida se ele podia realmente me ver.
— O que o traz aqui tão cedo, meu jovem? Ainda não trouxeram o meu café, estamos um pouco apertados hoje, mas aceita uma água, um chá...
— Não, professor, tudo bem. O professor Dalton me pediu pra escrever mais um artigo, eu o terminei ontem, então eu vim trazer para o senhor dar os toques finais nele. — Tirei a pasta da mochila e a coloquei em cima da mesa.
— Ah, o artigo sobre saúde pública, claro... Dalton me informou ontem. — Ele voltou a colocar os óculos e passou os olhos por cima do papel. — Muito bem, muito bem... Farei os preparativos, é claro. Mas, infelizmente, creio que ele não poderá ser publicado hoje, meu caro. Você está sabendo do que aconteceu em nosso campus ontem? — Ele baixou os óculos até o meio do nariz e me observou.
— Ah, claro... A garota. Eu fiquei sabendo.
— Pois é, pois é, uma tragédia — ele suspirou. — Por esse motivo, nossa equipe está trabalhando dobrado hoje, praticamente todos deixaram os assuntos secundários de lado e estão se concentrando apenas no caso da Abbott. A CNN veio aqui e foi uma dor de cabeça mandá-los embora, então estamos bem atarefados. Mas pode deixar que a publicação do artigo não passará muito do prazo.
— Não se preocupe com isso, senhor. — Eu dei um sorriso leve. — Tudo vai se resolver, eles pegarão o culpado...
— Culpado? Não há culpado, meu jovem. — Ele soltou uma risada divertida, como se gostasse do fato de ter de explicar o caso pra mim. — Isso é um caso claro de suicídio! Oh, meu Deus! Encontraram a pobre garota sufocada no próprio vômito. Não me espanta os pais estarem enrolando para virem reconhecer o corpo e não duvido que não vão sequer autorizar uma autópsia. Céus, o uso de drogas entre os estudantes tem aumentado significativamente nos últimos anos. Seria uma ótima sugestão se o professor Dalton lhe pedisse para escrever sobre isso, os riscos são sérios...
O sr. Miller tagarelou por mais alguns minutos, enquanto eu balançava a cabeça e concordava. Jogar pra cima dele como se eu mal tivesse lido sobre o caso foi uma boa, já que ele não se incomodava em mostrar serviço. Aquilo era uma das confirmações que eu tinha que coletar para resolver aquele caso: a autópsia não sairia tão rápido como eu pensava e eu não podia esperar tanto com um fantasma atrás de mim.
Após um breve bate papo sobre minhas notas e minha futura residência no hospital universitário, me despedi do sr. Miller e me preparei para sair da sala dele. O barulho havia aumentado no pequeno espaço do escritório e o telefone não parecia parar por um minuto. Fechei a porta atrás de mim, avistei um bebedouro ao lado e percebi como minha garganta estava seca. Havia uma placa acima do galão escrita com letras em caixa alta e negrito: "NÃO USE COPOS PLÁSTICOS, TRAGA SUA PRÓPRIA CANECA". Infelizmente, eu teria de beber água em outro prédio.
Como se tivesse brotado de alguma parede divisória do ambiente, uma pessoa passou andando a passos largos ao meu lado, enquanto eu saía da frente do bebedouro. O esbarrão foi tão intenso que eu vi papeis voarem e meu braço tentar segurar em algo antes que eu atingisse o chão e infelizmente esse algo foi o galão cheio de água que me deu um banho e na pessoa que constatei ter caído exatamente em cima de mim.
Antes de mais nada, dessa vez fantasmas não tiveram nada a ver com isso. A pessoa que estava em cima de mim era humana e uma garota com uma expressão tão estupefata quanto a minha. Seu cabelo estava meio molhado meio seco, e seus olhos estavam cravados nos meus. O barulho do telefone no ambiente continuava, mas as conversas cessaram, o que demonstrava que todos estavam olhando pra nós. Espera, esta não é...
Tarde demais. Ela pareceu ter se lembrado no mesmo momento que eu e toda a situação caótica do refeitório veio à minha mente.
— Não acredito! — ela bufou, saindo de cima do meu peito como se quisesse que eu atravessasse o chão. Minha cabeça doeu com o que estava por vir. — Como é possível que até aqui você decide arruinar o meu dia? O que está fazendo aqui, afinal?
— Olha, você deveria olhar pra onde anda — eu disse, enquanto tentava salvar os papeis menos encharcados do chão.
— EU deveria olhar por onde ando assim como olhei ontem? Me dá licença. — Ela arrancou os papeis da minha mão e olhou pra mim. — Você tem ideia do trabalho que foi escrever e corrigir esses depoimentos? Tem ideia do tamanho de tarefas que temos que fazer hoje? Mas é claro que não, você deve ser algum aluno turista que está aqui pra pedir alguma revisão de trabalho mal feito ao senhor Miller e eu já vou te avisando que pessoas como você não são o tipo dele, o seu empenho precisa ser mais...
— Mas o que está acontecendo aqui? — Miller abriu a porta, olhando para mim e a garota. — , por que está brigando com o rapaz?
— Professor, esse cara causou o maior estrago nos depoimentos que eu havia coletado sobre a ação da polícia. Eu iria levá-las à edição e aí...
O sr. Miller levantou a mão direita e se calou na mesma hora. As bochechas dela estavam vermelhas e ela lançava olhares de desprezo em minha direção. Agora eu percebia como a água que havia caído sobre nós estava gelada e ela estava sem nenhum casaco.
O sr. Miller se virou para mim e para ela simultaneamente.
— Não discutam aqui, há muito trabalho a ser feito. Sei que o senhor não fez de propósito, inclusive ele estava de saída. — Ele deu umas batidinhas no meu ombro. — Quanto à você, senhorita , pode se ocupar com uma nova tarefa que lhe darei agora. — O professor Miller entrou na sala tão rápido quanto saiu e trouxe uma pasta consigo. — Digitalize, edite e faça todo o processo de publicação do artigo deste jovem, que foi o que ele veio fazer aqui hoje, caso responda às suas dúvidas sobre a presença dele aqui.
olhou de mim para o professor e pegou a pasta, passando o olho rápido sobre o conteúdo.
— Você... é o ?
— O próprio — o senhor Miller respondeu. — Agora, se me dão licença, preciso atender às milhares de chamadas e e-mails de emissoras sem mais o que fazer querendo nos importunar por informações que ainda nem temos — ele suspirou e se virou para os demais que ainda nos observavam. — E vocês aí! Voltem ao trabalho, ou vão levar pontos de demérito! , tenho certeza que pode resolver o assunto do senhor e voltar ao que estava fazendo antes. Confio em você, é uma das melhores graduandas que temos. Agora chame a moça da limpeza para dar um jeito nessa bagunça. Mil perdões por todo esse incômodo, senhor . Volte em segurança pro departamento. — Ele deu um sorriso caloroso em minha direção e em seguida entrou para sua sala.
A expressão de era um misto de choque e desgosto. Estava claro que era a primeira vez que ela via o senhor Miller falar com alguém daquela forma.
— Então... Você está bem?
— Você pode sair, por favor? Preciso chamar o serviço de limpeza e você está no caminho. Pode deixar que seu artigo será publicado assim que possível.
Ela deu as costas e desapareceu por outra sala, me deixando à vista de alguns outros remanescentes que ainda observavam a cena. Não demorou muito para que eu retornasse do meu estado estático e seguisse pra porta de saída, farto de mais uma confusão com terceiros em um tempo de recorde, o que era inédito pra mim. Geralmente eu entrava em situações constrangedoras e problemáticas apenas com os mortos.
Na saída do prédio, comecei a pensar que teria que recorrer ao mais uma vez no dormitório para trocar minhas roupas. O mesmo casaco que eu havia esquecido ontem estava no mesmo lugar no banco do carona, e de repente quis pegá-lo e oferecê-lo à tal , mas a ideia passou tão rápido quanto veio. Também porque minha atenção foi presa à outra coisa.
Em um mural de madeira na parede ao lado da porta de vidro da entrada, estavam colados cartazes e panfletos. Havia divulgação de eventos jornalísticos, como congressos e visitas técnicas, mas havia um cartaz colorido e maior do que todos com os dizeres: "FESTA NA GIBBON'S! VENHA E TRAGA MAIS UM & A CERVEJA! SEXTA 20H!".
A ideia mais desequilibrada passou pela minha cabeça. Me lembrei das palavras de Margot, que eu encontraria Ash em todas as festas da universidade e onde as pessoas geralmente se reuniam. Sem acreditar no que eu estava prestes a fazer, entrei no carro e liguei para .


Capítulo 3 - Qual é o segredo?

Eu estava realmente preocupado que não conseguisse encontrar a biblioteca nem mesmo com o Google Maps. Sua demora demonstrava isso e seu histórico de ser um dos poucos alunos que ainda não havia pisado a biblioteca também.
Depois de meia hora, vi ele entrar meio perdido pela porta da frente e olhar para os lados. Acenei do fundo do salão e ele foi se aproximando mais rápido à medida que me viu.
— E aí, cara? O que houve? — falou especialmente alto, enquanto afastava a cadeira à minha frente, recebemos a primeira advertência das pessoas com um "shh" bem agressivo e eu me perguntei por que diabos havia marcado de encontrar com logo em uma biblioteca. — Foi mal — ele sussurrou para nossos vizinhos mais à frente. — Galera bem nervosinha...
— O pessoal da computação não costuma visitar esse espaço da universidade, não é mesmo?
— Ei, esse negócio de livros é coisa do passado. Isso aqui é mórbido, cara. — Ele olhou em volta com uma expressão de desprezo. — Mas e aí, o que tá pegando? Tá quase na hora do almoço, quer ir ao Amadeus? O cardápio de hoje não está dos melhores... Ei, cara, sua roupa...
— Vamos sair na sexta à noite.
piscou duas vezes.
— O quê?
Abri o banner de divulgação da festa que havia visto mais cedo no prédio do Citizen no computador e virei para .
— A festa no Gibbon's? Cara, essa é uma das maiores fraternidades do lado leste! Não acredito! — Ele soltou uma risada, o que nos rendeu uma segunda advertência. — Foi mal — ele sussurrou mais uma vez, mas não parou de sorrir. — Você tá legal, ? Por que de repente você quer virar um universitário?
— Não sei, de repente quero ir nessa. — Dei de ombros, agindo com indiferença. — Vai dar bastante gente?
— Oh, pode apostar que sim! A festa no Gibbon's não decepciona nunca e dessa vez eu posso ir sem os fracassados do meu departamento. Cara, preciso postar isso... — Ele pegou o celular e começou a digitar sem fim.
— Não precisa publicar qualquer coisinha, infeliz digital. Que exagero...
— Não é qualquer coisinha! Olha a situação, vai a uma festa, meus amigos! Finalmente vai dar às caras!
— Prefiro que você pare de falar como se fosse um grande evento. E é claro, não poste nada! Já ouviu falar em invasão de privacidade?
— Você sabe o que é, grande gênio? Não se faça de inocente. Você é a celebridade sem rosto, o seu nome é o primeiro no fórum, se liga! E o melhor de tudo: as pessoas não vão se decepcionar quando te virem, com certeza. — Ele soltou mais uma risada, enquanto digitava.
— Mas o quê...? — Franzi as sobrancelhas, surpreso com as informações.
parou de digitar e olhou pra mim, arregalando os olhos ao ver que eu estava realmente confuso com tudo que ele estava despejando pra cima de mim. Eu achei que era apenas uma festa.
— Cara, tá falando sério? — ele suspirou. — Você não pode esperar que as pessoas vão passar batido pelo aluno número um. Elas vão se surpreender em saber que você não é um nerd esquisito acneico. Na verdade, você não é tão desagradável de se olhar. As garotas vão cair pra cima de você, então pode se preparar. Talvez sobre algumas pra mim...
— Esse não é exatamente meu objetivo...
— Isso não importa, meu amigo, apenas vai acontecer.
— Se você diz... — Dei de ombros e fechei meu computador. — Agora, vamos almoçar. E, sim, vamos ao Amadeus.
deu um gritinho animado, o que fez com que recebêssemos a última advertência antes de sairmos da biblioteca.

***


É complicado quando um suicídio acontece no seu campus. A pessoa e seus possíveis motivos viram o assunto número um no final da aula, nas refeições, nos laboratórios, corredores, em tudo. O caso de Margot não havia ganhado proporção nacional — afinal, ninguém estava interessado em uma garota que havia se matado por "não aguentar a pressão". Pelo menos foi isso que a mãe dela havia dito em uma entrevista ao Citizen, como bem foi publicado e disseminado pela cidade inteira. Os pais de Margot realmente negaram a autópsia, disseram que não queriam mais viver aquele pesadelo.
Havia flores e velas acesas na entrada de seu quarto no dormitório feminino e também em seu armário. O departamento de Direito havia feito uma homenagem à aluna formanda e o reitor havia dado uma palestra sobre saúde mental e os perigos dos narcóticos.
Não conversei com Margot desde o nosso trato do carro. De vez em quando, eu a via vagando pelos corredores, olhando as pessoas que colocavam suas flores e às vezes sentada na biblioteca. Eu não fingia mais que ela não existia — sabia que ela estava ali e sabia que ela sabia; eu só não queria ser cobrado pelo nosso acordo e desde que mostrei o cartaz da festa de sexta pra ela, ela pareceu ficar mais tranquila. Com tudo isso, foi uma semana bem agitada. Pelo menos até na quinta feira. Na sexta, todos só falavam em uma coisa.
Nunca havia me arrumado para uma festa na vida. Na verdade, eu sempre fui mais do tipo caseiro, que sai pra comer de vez em quando com os amigos, tirando a parte do plural porque só havia feito isso com e meus pais. Eu gostava de visitar lugares novos e principalmente recém construídos, lugares onde eu tinha certeza de que ninguém havia morrido e deixado algo para trás. Construções antigas eram o lugar que eu mais evitava na vida — geralmente costumavam ser um antro de reuniões de fantasmas sem fim. Então, vocês podem imaginar como fiquei quando soube que a Gibbons ficava em uma antiga propriedade do século XVIII restaurada e magnífica.
O quintal da frente estava infestado de pessoas chegando e carros estacionados nas ruas congestionavam o pequeno trânsito. Parei o Jeep a uma quadra de distância, torcendo para que o efeito do álcool não acionasse o vandalismo de ninguém naquele dia.
— Como eu esperava! — disse fora do carro. — Hoje vai ser épico!
Dei uma risada, enquanto pegava meu casaco no banco de trás e olhou pra mim.
— O que está fazendo?
— Pegando meu casaco? — respondi. — Estamos às portas do inverno, caso você não tenha percebido...
— Tá maluco? — Ele se aproximou e devolveu meu casaco ao carro. — Lá dentro vai estar um forno, , eu te garanto. Vai ser QUENTE — ele soletrou a palavra lentamente. — Deixa alguém além do seu espelho ver um pouco mais desse corpo, tá legal? Levanta as mangas dessa camisa assim, desse jeito, deixa as garotas olharem essas tatuagens legais também e dá um sorriso que me convença. Agora vamos nessa.
Ele puxou meu braço para andarmos mais rápido. Cada vez mais perto da enorme porta dupla de madeira na entrada, os ombros já começavam a se esbarrar e nós tínhamos que nos apertar um pouco para entrar. Finalmente lá dentro, percebi que estava certo quando frisou que estaria quente. O vento gélido lá de fora não conseguia penetrar e ganhar força com tanta gente se esbarrando e literalmente se esfregando, dançando com o som altíssimo que tornava os gritos de quase inaudíveis e garotas com os seios de fora em cima de mesas. Em menos de cinco minutos, já haviam colocado um copo de plástico vermelho na minha mão e de , com um líquido estranho dentro.
— Manda ver, ! — gritou em meio ao som e em seguida fez uma contagem com os dedos até três e eu havia entendido o recado. O líquido desceu rasgando a garganta, quente e forte, de uma só vez. Minha intuição dizia que era melhor não saber o que acabei de tomar.
disse que precisávamos de mais bebidas e exigiu que fôssemos à cozinha, que estava apinhada de gente que aparentemente havia pensado o mesmo que nós. Havia vasos e recipientes térmicos espalhados por toda parte, que continham vários tipos de cervejas e vodcas. pegou duas Budweiser dentro de uma das bolsas ao lado da pia e entregou uma pra mim, junto a um cigarro, que também aceitei.
estava muito animado. Desde o ensino médio, eu já havia visto todos os seus lados possíveis, mas sabia como ele era o típico cara que tenta se enturmar e nem sempre consegue. Ele vestia um jeans claro e uma camiseta branca, junto a uma jaqueta bomber ridiculamente estampada que eu particularmente não me atreveria a usar. Ele olhava cada garota minuciosamente que passava e tentava puxar assunto, nem sempre dando certo.
Depois de uma hora naquele lugar, eu decidi que era o momento de colocar meu objetivo em prática: achar Ash. Todas as formas que eu havia pensado eram no mínimo estranhas e eu não podia fazê-las sozinho. Infelizmente, eu teria de fazer a última coisa que eu queria: falar com as pessoas.
Subitamente, saiu do meu lado e se meteu em uma roda de garotas a alguns metros de nós. Ele já havia bebido o bastante para começar a passar vergonha, mas eu não ia julgá-lo — era ótimo que ele estivesse distraído. Precisava pensar em resolver o meu problema e me mandar daqui o mais rápido possível.
Comecei a olhar em volta. Depois que chegamos, eu e perambulamos um pouco dentro da fraternidade e agora estávamos em um cômodo amplo entre o jardim com a piscina e a cozinha de inox, agora com menos pessoas, depois de as bolsas térmicas serem distribuídas pela casa. À esquerda do cômodo, havia uma imensa escada que levava a um segundo andar, onde havia pessoas conversando e casais se beijando por toda parte, e alguns terminavam de subi-la, o que imaginei ser o andar de quartos. A luz estava baixa, com as lâmpadas de led giratórias despejando feixes coloridos por toda parte, o que diminuía meu campo de visão.
Eu estava parado no meio de toda aquela gente, ainda com uma long neck na mão e tragando um cigarro, pensando por que diabos os mortos me forçavam àquilo quando voltei a olhar e procurar por , e acabei olhando mais adiante, para a cozinha. Ela estava parada junto das mesmas garotas do refeitório, com o quadril encostado na bancada e um copo vermelho na mão, sorrindo pela primeira vez. Pareceu virar a cabeça na mesma hora que eu e olhou na minha direção.
Mesmo com pouca luz, pude ver seu sorriso sumir e por algum motivo inexplicável não consegui me desfazer desse instante. Continuei olhando-a, como se quanto mais eu fizesse isso, talvez ela voltasse a sorrir como antes. Ou talvez eu torcia para que ela simplesmente virasse o rosto e esquecesse que eu estava ali.
No entanto, não consegui ver sua próxima reação, pois fui abordado por e mais ou menos umas cinco garotas, que me rodearam como predadoras, todas elas sorrindo admiradas pra mim.
— E aí, , adivinha só: eu contei pra essas gatas que tinha vindo com meu melhor amigo, o próprio , e elas não acreditaram. — Ele balançou a cabeça como se fosse um absurdo. — Aí eu vim te mostrar pra elas...
Uma das garotas deu um empurrão de leve em para que ficasse na minha frente. Ela tinha um cabelo loiro longo e liso e usava um batom vermelho.
— Olá, senhor . — Ela tinha um grande e sedutor sorriso no rosto e elas se amontoaram imediatamente em mim. — Eu e minhas amigas estamos no segundo ano de medicina e confesso que você sempre foi minha inspiração. Você poderia nos dar umas dicas, falar sobre o estágio...
As palavras seguintes dela foram parcialmente ouvidas graças ao aumento súbito do som, que já estava absurdo. Tentei dialogar por alguns minutos, mas, vendo que era uma missão quase impossível, as garotas nos puxaram para um local mais afastado do meio do salão, no jardim, onde estava concentrado uma menor quantidade de pessoas do que lá dentro. Também estava mais frio, o que explicava.
Eu geralmente sou um ótimo observador. Também pudera, era quase uma profissão prestar atenção redobrada em todos os lugares que eu pisava, sempre me preparando para alguma abordagem inesperada. Isso me fez ser bom em observar as pessoas e suas intenções — isso não era muito, mas me fazia entender completamente o motivo das vinganças que eu precisava infligir aos outros por causa dos mortos —, e com toda certeza a garota loira já havia ultrapassado o limite das chamadas segundas intenções. E como eu precisava reunir toda minha compaixão e consideração para serem usadas nos mortos, não sobrava muito na hora de lidar com os vivos.
Por causa disso, eu não hesitei em treinar minhas melhores expressões para demonstrar interesse em tudo que vinha daquela garota. Nós nos sentamos mais afastados de e das outras garotas que, por incrível que pareça, estava conseguindo distraí-las muito bem — ou elas já haviam aceitado que a amiga havia levado a melhor.
Fiz o meu melhor para encarar bem a situação em que ela tagarelava sobre qualquer coisa de seus interesses pessoais — sempre me ligando a eles —, enquanto a própria dava um jeito nada discreto de me apalpar onde conseguisse enxergar na luz fraca. Senti ela chegando cada vez mais perto de mim na espreguiçadeira à beira da piscina e com certeza qualquer coisa que envolvesse me atracar com uma garota desconhecida não estava nos meus planos.
— Então... Becca. — Sorri aliviado ao me lembrar do nome. — A sua história sobre o experimento de difusão simples na célula foi incrível. Deve ter sido muito trabalhoso, estou realmente impressionado.
— Jura? É uma honra de verdade escutar isso vindo de você, visto que eu peguei a ideia de um artigo seu, que por sinal foi um dos melhores até hoje. O jeito como você explicou sobre a osmose e as aqu... — Mais uma mão acariciava meus braços sem permissão.
— Mas então... — eu limpei a garganta e tentei novamente me afastar. — Deve ter sido difícil esse processo de preparação do experimento, para apresentar também, sei bem como a professora Fitz pode ser rígida. Devem ter sido várias noites sem dormir, bastante pressão...
— Ah, realmente foi. Quase pensei em desistir do curso. — Ela riu sem graça. — Nunca fiquei tão exausta em toda a minha vida. Mas dei um jeito, fiquei ligada por dois dias e deu tudo certo no projeto.
— Sério? Que malandragem foi essa? — Sorri brincalhão e ela retribuiu.
— É um segredo, não precisamos falar disso. Queria te contar sobre o que a Doutora Sekli disse sobre o anatômico assim que entrei...
— Qual é o segredo? — tornei meu tom de voz mais firme e me aproximei um pouco mais dela. Tive o resultado esperado e ela cedeu um pouco mais. — As pessoas pensam que os gênios não se cansam, mas eu ando bem exausto esses dias com a residência se aproximando e meio departamento me pressionando com formulários. — Dei um riso seco e irônico e me aproximei mais dela. — E aí? Não mereço descansar um pouquinho também?
O peito dela desceu e subiu em uma respiração funda e controlada. Estava na cara que ela pensava inicialmente em não me contar, mas não conseguia resistir em fazer o que eu pedia — também porque minha expressão dizia que ela receberia algo em troca por aquilo.
— Comprei uns remédios com um cara do campus. Ele vende várias coisas pra várias finalidades, mas eles são... Bem, ilegais. Não sei onde ele consegue as coisas, mas muita gente consome.
— Hum... — balbuciei, quase como se não estivesse interessado. — E qual é o nome desse cara? Onde eu posso encontrá-lo?
— Bem... Acho que o nome dele é Ash. Mas fiquei sabendo que esse não é seu nome verdadeiro. Entrei em contato com ele por um e-mail que uma amiga minha passou, dizem que você só se comunica com ele por lá. Mas, como eu disse, essa é uma medida impopular. Com certeza você não precisa disso...
— Na verdade, preciso. — Tentei ao máximo fazer uma expressão abatida que a fizesse se conectar a mim. — Como eu disse, a pressão está sendo assombrosa pro meu lado. E eu sou um cara que não gosta de decepcionar ninguém, se é que você me entende...
— Claro! Como entendo! Eu imagino o que você deve passar pra ser o número um e...
— Por isso eu preciso urgentemente desse e-mail. Você pode me arrumar?
A garota hesitou, mas eu sorri e, estupidamente, esse foi o gatilho para que ela tirasse uma caneta da bolsa, o que achei bem estranho, e escrevesse as curtas palavras na palma da minha mão, olhando para os lados, como se o ato fosse proibido.
— É só mandar e aguardar a resposta dele — ela diminuiu o tom de voz. — Ele vai te dizer onde encontrá-lo.
— Uau, Becca. Nem sei como te agradecer! — Dei um sorriso animado e vi um olhar clemente no rosto dela. — Você acabou de me salvar. Vou te recompensar com uma bebida...
— Só uma bebida? — Ela pegou na minha mão e descaradamente se aproximou até o seu rosto ficar a centímetros perto do meu. Tentando disfarçar meu desconforto, passei os dedos na sua bochecha enquanto sussurrei:
— Ei, gata... Você sabe que acabamos de compartilhar um segredo aqui, não sabe? Não quero as pessoas comentando sobre assuntos triviais da minha vida, você entende, não é? — Ela balançou a cabeça tão rápido que quase perguntei se estava tonta. — Eu agradeço muito pela sua consideração e por isso eu espero te encontrar aqui depois de buscar as bebidas... — Ela acenou mais uma vez e me vi obrigado a dar um beijo no rosto dela, sendo básico e não ultrapassando o limite, pois estava realmente agradecido. Ela me acompanhou com os olhos enquanto eu levantava e não disse mais nenhuma palavra — talvez não conseguisse.
Eu era um ótimo mentiroso. Qual é? Eu vejo fantasmas! Precisei inventar desculpas a vida toda pra não ser internado em um manicômio e fazer meus pais acreditarem que eu era o cara mais desastrado do mundo para explicar meus machucados e até minha rebeldia. Eu consigo fingir interesse em uma garota que acabei de conhecer, apesar de que não estava acostumado a me prestar àquilo. Assim que me afastei de Becca, mandei uma mensagem para avisando da minha partida e que ele teria que voltar de táxi — ou qualquer outro meio de locomoção que ele poderia arrumar. Eu não podia perder tempo de forma alguma.
Consegui achar a porta da casa com algum custo, visto que parecia que o número de pessoas havia duplicado desde a hora que eu cheguei. Senti uns olhares pra cima de mim à medida que eu andava, mas resolvi pensar que era impressão minha. Já deviam ser duas da manhã e a temperatura lá fora havia caído bastante. Andei até o Jeep e fiquei aliviado por encontrá-lo são e salvo — porém com um empecilho.
Por algum motivo que jamais vou entender, uma grande SUV preta estava parada bem na frente da porta do motorista do meu Jeep, bloqueando não só a minha entrada, mas também grande parte da rua. Não que alguém fosse se queixar àquela altura, visto que eu era o único a sair da festa enquanto ainda havia pessoas chegando. Mas com aquele carro naquela posição, eu não conseguiria ir embora nunca, visto que já tinham carros estacionados à minha frente e trás.
O mais embaraçoso foi quando percebi, ao chegar mais perto, que havia um casal engolindo um ao outro encostados na porta do carona da SUV, ficando entre o Jeep e o carro ao lado, impossibilitando ainda mais a minha passagem. A garota estava encostada com as costas no vidro da janela, com o vestido a muitos centímetros acima do joelho e pelo jeito que o cara a beijava me faz questão de repetir o termo "engolir".
Limpei a garganta duas vezes antes que eles parassem e olhassem pra mim. Para completar o constrangimento, a garota era ninguém menos do que , que, quando me viu, também deve ter se constrangido, principalmente porque suas bochechas ficaram vermelhas e sua armadura não estava presente.
— E aí, amigo — o cara disse e sua voz embargada denunciava a sua embriaguez. — Alguma coisa interessante pra você aqui?
— O carro é seu? — Apontei com a cabeça para a SUV. Ele acenou com a cabeça. — Pode por gentileza me dar espaço pra sair? — Agora gesticulei para o Jeep.
Ele olhou de mim para o Jeep e em seguida para a SUV, como se as engrenagens em seu cérebro ainda estivessem rodando. Foi então que ele largou e se aproximou de mim.
— Isso precisa ser agora? Eu estou no meio de uma coisa aqui...
— Nós já vamos — falou, pegando na mão do cara. — Vamos, , me dê as chaves...
— Que chaves? — Ele soltou a mão de de forma abrupta, fazendo a garota dar um passo pra trás. — Vem cá, cara, você não acha que tá indo embora muito cedo, não? Fica aí e curte mais um pouquinho. Você é calouro, não é? Esse é seu momento, você pode...
— Você pode dar um jeito no seu namorado? — falei ríspido, sem olhar pra ela. — Eu estou com um pouco de pressa aqui.
...
— Amigo, como você fala assim com a garota dos outros? Quem você...
!
O grito dela me fez olhá-la. Ela não parecia mais constrangida por eu tê-la pegado aos beijos com esse cara, mas parecia estranhamente desconfortável com a situação — como se estivesse amedrontada com o grito que acabou de dar.
— Vamos embora, a gente pode ir pra sua casa. Que tal?
A frase fez com que o cara desviasse os olhos de mim e lançasse um olhar malicioso pra . Por mais que ela tenha usado o tom de voz mais sedutor que pode, seu olhar entregava que aquela era só mais uma estratégia pra arrastar dali — e no estado que estava, ele jamais perceberia isso.
Finalmente, ele deu uma risada que particularmente comparei à uma gralha e, sem mais nem menos, deu um tapa na bunda de seguido por um beijo no rosto e caminhou até a porta do motorista da SUV. ficou parada por uns segundos ainda, tentando fugir do meu olhar, mas no final acabou me encarando. Um sentimento muito estranho surgiu no meu estômago e não entendi por que de repente eu quis socar o cara chamado .
Antes de entrar no carro, ela olhou nos meus olhos de novo por um breve segundo e vi algo difícil de explicar. Um vulto preto, sem forma, sem rosto, apenas... Uma sombra. Estava parado atrás de , quase colado, espreitando-a. Ouvi o som do motor ligando e o carro se afastando, enquanto meus olhos ainda estavam pregados naquela coisa, que sumiu tão rápido quanto apareceu. O que era aquilo? Será que havia sido coisa da minha cabeça?


Capítulo 4 - Garotas mortas estragam o clima

foi o nome que usei no e-mail enviado para Ash. A falta da minha criatividade poderia ser evidente, mas eu jamais poderia usar meu nome verdadeiro lidando com aquele tipo de situação em que eu poderia ser exposto — e até pior do que isso. Foi fácil me comunicar com ele: usando o drama de estudante esgotado física e emocionalmente, eu obtive até uma resposta bem rápida. Por um momento, pensei em solicitar o conhecimento de e pedir que rastreasse o IP do computador ou de onde quer que seja que aquele e-mail estava sendo enviado, mas duvidei na mesma hora que seria tão fácil assim. Pelos motivos de: a) não tem como um cara que comanda um esquema daquele tamanho, reconhecido em todo o campus, ser tão descuidado com os negócios; b) faria perguntas que eu não queria responder; c) não me deixaria em paz até que eu o respondesse e isso acarretaria uma série de traumas nele e consequentemente a perda do meu melhor amigo.
Decidi levar as coisas da forma tradicional. Segundo as palavras de Ash, era para nos encontrarmos à uma da manhã no terceiro quarto à esquerda, durante a festa na Gibbons, que continuaria suas festividades hoje também. A ideia de ter que voltar ao mesmo lugar de onde eu havia praticamente fugido ontem não me era agradável, mas pretendia acabar com tudo aquilo hoje mesmo.
Anteriormente eu havia pensado em abordar Ash de forma mais inteligente. O que eu pretendia fazer não era nem de perto uma decisão lúcida e tinha tudo para dar errado. Eu só esperava que não fosse tão ruim a um ponto que eu não esperasse.
Se eu não soubesse que fantasmas geralmente ficam presos aos locais onde morreram, também ficaria pilhado com a possibilidade de Margot aparecer também na minha casa. Não que ela não pudesse fazer — ela apenas não deveria saber como. O som estridente do meu interfone tocou e eu sabia quem era pelo ritmo das badaladas.
— Cara! — gritou ao entrar pela porta do apartamento e se jogou no sofá retrátil. — Você não vai acreditar onde eu estava...
— Então não precisa contar. — Me levantei e fui pra cozinha. — Tá com fome?
— Claro! — ele suspirou, como se eu tivesse feito uma pergunta óbvia. — E sim, eu posso dizer oficialmente que você é um ótimo amigo! Eu já posso riscar o ménage da lista de coisas pra fazer antes de morrer.
— Mas achei que tinha quatro garotas.
— Uma delas estava mais interessada nas outras do que em mim, então fica quieto e apenas considere como um típico ménage.
Eu ri, enquanto terminava os sanduíches e os colocava na bancada da cozinha. levantou do sofá e se sentou à minha frente.
— Mas e aí, cara, você sumiu — ele disse, enquanto mastigava. — Procurei você que nem doido depois e meu celular havia acabado a bateria, sorte que as garotas me levaram pra casa. — Ele sorriu.
— Ah, eu estava cansado.
— Mas e a Becca? De longe, ela era a mais gata das quatro. Você tinha tudo pra se dar bem com ela.
— Sei lá... — Dei de ombros. — Não rolou.
— Isso é por causa da Jane?
— O quê? — Eu ri sem graça. — Como a Jane veio parar nessa conversa?
— Eu não sei, ela é a única garota que preenche a parte sexual da sua vida.
— Ei, ela é só uma amiga, tá bom? Não faz sentido você mencioná-la nesse caso. Eu só não quis ficar com a Becca...
— Amigos que transam? — levantou uma sobrancelha, enquanto passava mais pasta de amendoim no sanduíche. — Onde você consegue amigas assim? Será que no "clube" onde ela trabalha existem mais "amigas" que ela possa me oferecer? — ele enfatizou as aspas com os dedos.
Balancei a cabeça e peguei meu sanduíche enquanto ia pra sala. Encerrar o assunto ignorando era uma das minhas maiores especialidades e ele já havia acostumado tanto com isso que não enchia mais o saco depois de perceber que eu não queria falar do assunto, ainda mais quando o assunto era Jane.
Para elucidar, Jane era minha única e melhor amiga, e sim, à primeira vista pode parecer que temos um relacionamento um pouco complexo. Nós nos conhecemos desde que me entendo por gente, dois órfãos no Orfanato Melbourne que gostavam de uma brincadeira muito peculiar: quem ajudava o Sr./Sra. Fantasma primeiro.
Sim, Jane era igual a mim.
De cara isso já se tornava um dos principais motivos do porquê nós éramos amigos. Nos 23 anos da minha vida, eu jamais havia encontrado outra pessoa que conseguia enxergar os mortos e, por mais que eu sempre reclame dessa capacidade incômoda, era muito mais fácil lidar com ela com outra pessoa.
Jane jamais conseguiu ser adotada definitivamente. Eu sempre fui quieto e na minha e ela era desbocada, sem educação e bagunceira. O dia que meus pais foram me buscar, ela lançou uns bons xingamentos aos prantos para eles e até correu atrás do carro quando fomos embora. Aquela cena havia me deixado desolado por um bom tempo, mas eu sempre me lembrava que tínhamos prometido nunca deixar de ser amigos e sempre manter contato. Ela foi a primeira pessoa que realmente me interessou e me proporcionou uma das coisas que hoje eu considero valerem mais do que tudo: a oportunidade de ser você mesmo.
Nos anos posteriores, eu telefonava para o Orfanato diversas vezes, sempre perguntando de Jane. Estava louco pra contar a ela minhas novas experiências com os senhores fantasmas e também queria ouvir as dela. Várias vezes ouvi da senhora Dundy que Jane havia fugido do lar temporário, brigado na escola e também tentado fugir do orfanato. Ela não era autorizada a ter um celular e desde então falei com ela poucas vezes até chegar ao ensino médio.
Os primeiros anos sem Jane foram os mais difíceis, não ter com quem falar sobre um assunto tão particular que só nós compartilhávamos era estressante. Me sufocava tanto que eu automaticamente fui me fechando para tudo e todos, até para os meus pais, tentando reprimir todas as minhas experiências que nunca poderiam ser contadas livremente.
Depois que conheci , no primeiro ano, toda essa pseudo solidão se atenuou. Ele é um cara muito despreocupado pra prestar atenção e se importar com todas as esquisitices que eu mostrava — como falar sozinho no vestiário da educação física ou saber que fui detido por invasão de domicílio. As perguntas dele surgiam, mas ele tinha a incrível capacidade de saber deixar pra lá e respeitar o meu espaço, não mudando absolutamente nada no relacionamento entre nós. Ele me lembrava um pouco a Jane, sobre o sentimento que eu tinha com ela, tirando a parte dos fantasmas, e isso atenuava cada vez mais o desconforto de não saber mais dela.
Foi então que um pouco antes da formatura do colegial, eu e , acompanhados de mais dois garotos da nossa turma, decidimos nos aventurar nas ruas de São Francisco após uma das últimas aulas extras e acabamos dentro de um clube de strip no norte da cidade. O clube estava parcialmente cheio e não deram a mínima pra adolescentes pré-formandos, que só queriam se divertir antes de enfrentar a vida adulta — a prática de suborno também cai como uma luva nessas horas. Eu particularmente estava sendo levado para onde quer que eles fossem, visto que eu não era tão tolerante ao álcool e não estava nas melhores condições. Nós nos sentamos numa mesa esperando que o show começasse e de repente um holofote no palco refletiu a última pessoa que eu esperava ver: Jane.
Ela estava com os seios de fora e uma lingerie acompanhada de muito brilho e lantejoulas. Mesmo com os vários anos que se passaram e seu rosto lotado de maquiagem, eu fui capaz de reconhecê-la como se ainda fosse no orfanato. Se não fosse a pouca luz do ambiente e meus amigos surtando, eles teriam notado meu choque.
Reencontrá-la naquela noite foi o pontapé da retomada oficial do nosso relacionamento. Desde então, ela me passou o número de seu celular e seu e-mail, como uma garantia de que não perderíamos contato nunca mais. Passei aquela noite com Jane e, segundo , foi quando eu provei que não era assexual. As coisas não foram premeditadas: ela havia me visto no meio da multidão no final de seu show e de repente já estávamos no calor do reencontro. Conversamos a noite inteira e eu soube de toda a sua história desde que havíamos perdido contato definitivo — desde a saída do orfanato aos 17 anos até os vários bicos e viagens até chegar aonde estava. Aquilo não me incomodava nem um pouco. Jane era dois anos mais velha do que eu e sempre foi esperta e decidida, sempre fez o que queria fazer. O fato de ela dançar nua em um pole não mudava um terço do sentimento que eu tinha, pelo contrário, eu admirava o quanto ela era boa naquilo.
Sempre mantínhamos contato, principalmente por e-mail, já que Jane alegava que vivia perdendo seu telefone. Há um ano, ela havia se mudado para New Jersey, integrando em uma nova equipe de um clube mais requisitado e dizia estar ganhando mais — tanto amigos quanto dinheiro. Agora, perto um do outro, nós podíamos nos ver mais e vez ou outra ela me tirava de enrascadas com os mortos. Nós jantávamos juntos e eu valorizava cada segundo que eu podia passar sendo plenamente quem eu sou, sem segredos e pessoas prontas pra te colocar em uma camisa de força.
não entendia essa relação. Na verdade, poucas pessoas iriam entender julgando a situação com um olhar tão superficial. Eu e Jane tínhamos uma relação de carinho mútuo e tudo bem que nas diversas noites de bebedeira e conversas paralelas eu acabava acordando com ela em meus braços, mas não conseguia rotular aquilo. Não me importava com esses acontecimentos, e aparentemente ela também não, mas não deixava de chamá-la de minha namorada.
Me sentei na escrivaninha do segundo quarto que eu usava de sala de estudos e lembrei de forma relâmpago do estudo dirigido que deveria entregar na próxima semana. Verifiquei meus e-mails e Jane ainda não havia respondido ao último que eu havia mandado, mas tinha apenas dois dias. Ela com certeza teria comentários sobre o caso de Margot. Eu pretendia não deixar nada pendente para conseguir resolver o caso na Gibbons.
— Ei, o que pretende fazer hoje? — perguntou , entrando no cômodo e se jogando na poltrona embaixo da janela.
— Vou ao Gibbons de novo — respondi, sem parar de digitar.
É incrível como consigo visualizar o choque na cara de mesmo sem olhar.
— O quê? — ele usou um tom de voz agudo. — Espera... Como assim? Você se divertiu tanto assim ontem e eu não percebi?
— É... Foi mais legal do que eu pensei.
— Eu sei, mas... Foi TÃO legal assim?
— Sim. — Dei de ombros. — Espero que você possa me acompanhar de novo, se quiser.
levantou do sofá tão rápido que parecia ter sido alfinetado na bunda.
— Cara... Eu não sei o que você tá tomando esses dias, mas a resposta é sim, meu amigo, pra tudo que você quiser! Se eu faturar mais três essa noite, eu posso ir pro Guiness, tá bom?
— Na verdade, não...
— Cala a boca! Vamos vestir você pra que você esteja muito mais desejável hoje. As pessoas podem até querer tirar fotos, as meninas vão suar, se excitar...
— Ei, se controla! Se ficar muito afobado, elas vão correr de você.
— Tudo bem, eu ainda terei você pra trazê-las de volta. — Ele deu uma piscadinha e voltou a se sentar na poltrona, ligando seu celular.

***


Eu estava ridículo.
Eu não acredito que deixei que as coisas chegassem a esse ponto.
sabia que eu odiava verde. E sabia que eu odiava mocassins. Mesmo assim, ele me vestiu exatamente como se fosse St. Patrick Day's na Irlanda e eu só queria queimar aquilo tudo. Tentei ao máximo aceitar que aquilo era um negócio, eu não precisava impressionar ninguém — mas também não precisava perder tanto da minha identidade por causa de um negócio.
Acabou que eu me dei bem com uma regata branca, uma jaqueta de couro e jeans escuros com botas. Não era o que eu costumava usar, mas fazia eu me sentir, bem... Menos verde. optou por usar bomber de novo, dessa vez com uma estampa que parecia vômito, o que me fez concluir que ele estava quase explodindo de confiança depois do ménage.
Por incrível que pareça, parecia haver mais gente hoje do que no dia anterior. explicou brevemente que a divulgação nas redes sociais era bastante eficaz e agora havia pessoas de cidades vizinhas na festa. Isso explicava os milhões de ombros e cotovelos que senti ao atravessar o hall principal e chegar ao grande cômodo do centro. Com a comunicação completamente vedada neste lugar, sinalizou que iria pegar bebidas e que não era pra eu sair de onde estava. Eu acenei e concordei, e logo em seguida segui prontamente para as escadas em semi espiral procurar o local combinado com Ash.
Se tudo desse certo, aquela história acabaria hoje e eu não teria mais que me preocupar com Margot. Geralmente os mortos despejavam suas tralhas (mais conhecidas como pendências) todas de uma vez em cima de mim e jamais apareciam de novo logo após fossem resolvidas. Eu esperava que Margot seguisse na mesma linha.
Subi as escadas em zigue zague para me desviar de casais se pegando e algumas pessoas que já haviam perdido a consciência. Contei os quartos até chegar ao terceiro e verifiquei se estava sendo observado como algum instinto automático. No andar debaixo, eu havia notado alguns olhares sobre mim e explicou algo como meu nome aparecendo no Twitter da noite anterior e certas expectativas de pessoas que esperavam me ver hoje. Isso não me deixava nada confortável, visto que eu estava prestes a ter uma conversa um pouco difícil com um cara que trabalhava com tráfico de medicamentos.
A porta do quarto estava fechada e estranhamente não havia pessoas ao redor dela, como acontecia nos quartos vizinhos. A minha única opção era esperar por um cara que eu não sabia como era, quando de repente a porta abriu tão rápido quanto fui puxado para dentro e, se eu não estava tão surpreso, ouvi o trinco assim que entrei.
O ambiente do quarto era medonho. A iluminação era tão baixa que limitava seriamente a minha visão panorâmica e eu só consegui focar onde havia o maior ponto de luz: na mesa do lado direito do cômodo. Ela era grande e retangular, de madeira escura e polida e um cara estava sentado atrás dela, com os pés pro alto. Então, vi que havia mais duas pessoas no cômodo, incluindo a que havia me puxado. Estranhamente me senti no gabinete da mansão Corleone — e essa sensação não era nada animadora.
O cara sentado atrás da mesa se levantou lentamente e caminhou até mim. Ele usava um sobretudo preto, jeans claros e um coturno surrado que dava pra perceber mesmo à meia luz. Havia uma leve fumaça no local que vinha do cigarro aceso de sua mesa. Pela aura, já dava pra saber quem era.
? — perguntou ele e em seguida estendeu sua mão. — Sou Ash.
Apertei sua mão sem dizer uma palavra.
— Não precisa ficar tímido, todo mundo aqui é amigo. — Ele deu um sorriso sacana que não me passou nem um pingo de confiança. — E então, trouxe a grana?
Acenei com a cabeça e tirei os 300 dólares do bolso. Se eu encontrasse Ash no campus montando uma Harley ou dirigindo um Audi, eu não iria achar estranho.
Ele contou nota por nota na minha frente, meteu o dinheiro no bolso e gesticulou a cabeça pra um dos caras parados junto à porta. Ele pareceu entender o que aquele gesto significava e sumiu por uns segundos na escuridão do cômodo, surgindo depois com uma maleta preta e colocando-a em cima da mesa.
— E então, vamos às suas necessidades — disse Ash, voltando para trás da mesa. — Do que você precisa? Relaxar, curtir, se concentrar, apagar... Temos tudo que você pode imaginar.
Eu havia ensaiado mentalmente aquela conversa várias vezes, mas mesmo agora eu estava seriamente preocupado em qual seria a reação do cara. Também não imaginava que teria mais pessoas nesse encontro, as quais poderiam facilmente me segurar enquanto eu apanhava pra valer. Eu queria acreditar que estava preparado caso as coisas chegassem àquele ponto, mas na verdade não estava — eu nunca estava.
— Você está bem? — ele me perguntou, visto que eu não havia dito nem uma palavra e minha mente trabalhava a mil.
Literalmente, pensei "que se dane". Se eu já estava aqui e havia aceitado seguir com aquilo, tinha que chegar até o final, mesmo se fosse um final onde eu teria que relembrar os golpes básicos de defesa pessoal que eu usava contra os mortos.
— Quero a mesma coisa que você deu à Margot Abbott.
Eu não sei como minha voz saiu tão firme e clara.
Ash me olhou com o choque vívido em seu rosto, que logo desapareceu. Mesmo eu não olhando, sabia que os dois caras da porta também começaram a prestar atenção na conversa.
— O quê... — Ele deu uma risada nervosa. — O que você acabou de dizer?
— O remédio que você deu à Margot. Sabe a Margot? A garota suicida da semana passada... Pois é, quero a mesma coisa que vendeu a ela. Pelo visto, dá o maior barato...
Rapidamente, Ash já estava na minha frente e dava pra ver como ele se controlava pra não me socar. Isso o entregaria, então ele apenas rangia os dentes e me lançava um olhar mortal.
— Eu não faço ideia do que você está falando, amigo. Vendo coisas para várias pessoas todos os dias, então se você não quer nada e veio até aqui pra ficar de papo furado, melhor sair logo.
— Então a gente precisa ter algum tipo de relacionamento amoroso pra eu conseguir o produto também? — Dei de ombros. — Isso é uma pena, porque infelizmente não vai rolar. Se existir outra maneira, talvez...
Ash se aproximou de mim como uma bala e segurou na gola da minha regata, ao passo que os dois caras da porta também se aproximaram um pouco mais.
— Como você sabe disso? — o cara sussurrou e um leve pânico passou pelo seu rosto. — Quem é você?
— Você não precisa mesmo saber disso.
— O que você quer?
— Quero saber se você a matou.
— Margot? Eu jamais faria isso...
— Pelo visto faria, visto que ela morreu depois de consumir seus produtos nada inocentes!
— Espera aí, como você sabe disso? — Ele me soltou em um impulso tão forte que me fez segurar nos calcanhares pra não cair e ele não parava de tremer. — Ela saía com você também? Eu devia saber que ela não era tão inocente assim..
— Acredite, esse é o menor dos seus problemas — suspirei. — Você sabia o que estava dando pra ela? Sabia que ela morreria por isso?
— Mas é claro que não! — Ele passou as mãos na cabeça e andava de um lado pro outro. — Eu vendi Lorazepam pra ela, mas foi só isso! Nem disse pra ela tomar tantos assim. Eu também fiquei surpreso quando soube, jamais imaginei que ela faria isso.
— Mas ela não fez, tá legal? Ela tomou os três comprimidos que você disse a ela e acordou morta. Não é possível que não tenha algo de errado nisso! Quero que você confesse!
— Opa, o que está havendo aqui?
Várias coisas aconteceram ao mesmo tempo naquele instante. A voz nova que surgiu veio da porta do quarto e era de ninguém mais, ninguém menos do que , o cara bêbado que eu havia expulsado da frente do meu carro no dia anterior. Claro que hoje ele parecia menos embriagado, mas ainda tinha uma cara de maluco pela minha singela opinião. Olhei para a porta na mesma hora que o ouvi e só então percebi como eu havia aumentado o tom de voz nas minhas últimas palavras. Ash estava me olhando um tanto quanto atônito. entrou no cômodo e percebi que ele estava acompanhado por alguém que eu não esperava ver ali, naquela situação: . Pelo olhar que ela me lançou, ela pensava o mesmo.
parou a minha frente e olhou de mim para Ash e vice versa.
— Alguém pode me explicar o que tá havendo aqui? — A pergunta era mais direcionada a Ash do que a mim. — Posso saber o que esse bosta tá fazendo aqui?
Ah, então ele se lembrava de mim.
— Como... Como você sabia? — Ash, ainda atônito, pareceu ignorar completamente a presença de . — Como sabia que a mandei tomar três comprimidos?
Eu engoli em seco. Chegar ali e questionar Ash fazia parte do plano, mas minha mente realmente deu um branco com toda situação presente. Como eu explicaria aquilo? Eu não deveria ter dado tantos detalhes...
Mas eu também não conseguia ir embora, então a situação estava pior do que eu pensava. Janelas? Eu não conseguia enxergar direito naquela escuridão. A porta estava fora de cogitação, pelos dois caras parados que não iriam relaxar enquanto não me socassem até a morte. Armas? Nada que pudesse neutralizar quatro pessoas de uma vez. De repente desejei mais do que tudo que , em seu momento pleno de embriaguez, abrisse mais uma porta errada na vida e me desse uma brecha.
cutucou Ash para que ele "acordasse" do transe de olhar pra mim e levantou as sobrancelhas. Ash balançou a cabeça e de repente a mesma expressão de bad boy que tinha assim que entrei retornou.
— Esse cara veio aqui me perguntar se eu matei a Margot.
— O quê? — deu uma risada e olhou para mim. — Você é maluco? O que te faz pensar uma coisa dessas?
— Ele sabe que eu saía com ela — Ash quase sussurrou e revirou os olhos.
— E daí que ele sabe disso? Foi um lance passageiro, não foi? Você nem estava mais com ela quando ela decidiu fazer merda. Não tem que deixar esses cretinos entrarem aqui e perguntarem isso. — deu mais uma risada e Ash permaneceu sério como uma pedra. Depois de um segundo, o rosto de também mudou. — Você não estava mais com ela, não é? A gente conversou sobre isso, eu te disse pra largar aquela infeliz...
— Mas ele não fez, tá legal? — falei pela primeira vez e todos os olhares se voltaram pra mim. — E não só isso, ele a vendeu Lorazepam, que foi o responsável pela morte dela, mas ela nunca quis se matar. Na verdade, ela nem sabia o que estava tomando. Ela apenas confiou nele! — Joguei os braços para apontar para Ash. Pelo canto do olho olhei para atrás de , na escuridão, e ela me olhava chocada. parecia mais com raiva.
— Que porra é essa? — ele disse mais para si mesmo. — Então, aquela meretriz também tava dando pra esse aí? — Ele riu maldosamente e se aproximou de mim, colocando uma mão nos meus ombros. — Qual é, cara? Vai pra casa. Tem coisas muito mais interessantes nessa festa do que discutir sobre uma garota morta. Você tá estragando todo o clima do lugar.
A voz dele era suave e calma, mas por que ao ouvi-la eu sentia uma força sombria prestes a me engolir?
— Ei, não acredita em tudo que aquela garota te disse. Não vê que ela estava te enganando?
— Quero que ele confesse — falei firme, olhando em seus olhos. A expressão de tornou-se séria de novo.
— Vai pra casa, estou te avisando.
— Eu já disse que não a matei — Ash disse, o desespero novamente salpicando seus olhos. — Eu menti, . Não havíamos terminado. Eu... sei lá, talvez gostasse um pouco dela.
— Cala sua boca! — rangeu os dentes ao falar com o amigo e seu olhar até me assustou. — Olha o que sua estupidez nos causou.
— O que você tem a ver com tudo isso? — perguntei e só depois de meio segundo percebi o que fiz.
Na verdade, também pareceu perceber o que tinha feito. Mas não tive tempo de questioná-lo por mais tempo, pois, sem mais nem menos, o cara resolveu me socar. Mas não um simples soco. Foi um baita soco que parecia que ele tinha soco inglês entre os dedos. Foi tão forte na minha boca que me fez perder o equilíbrio e ser lançado para trás, batendo o canto da testa em um tipo de quina e somente em seguida caindo no chão.
Bom, eu não podia negar que isso era possível de acontecer. A primeira reação do meu cérebro foi ficar embaralhado com o baque e minha visão ficou turva, então eu sabia que alguém tinha gritado alguma coisa assim que caí, mas era como se eu estivesse embaixo d'água. E antes que eu pudesse me recuperar, senti a gola da minha camisa sendo puxada e mais um soco. Depois outro. E mais outro. Ele nem me dava tempo de sentir dor.
Se eu fosse dizer que os socos me ajudaram em algo, foi em desentupir meus ouvidos e me ajudar a voltar ao meu estado de equilíbrio. Agora eu ouvia um pouco mais claramente a situação e com certeza aquele grito era de . Mas não levou muito tempo até eu sentir um forte impacto na barriga e percebi que só os socos não os estavam deixando satisfeitos.
Percebi que eu estava apanhando pra valer quando tentei enxergar alguma coisa na minha frente e o sangue pingando da minha testa não deixava. Ainda assim eu consegui identificar as risadas de , que pareciam um pouco longe pra quem estava me socando, o que me fez lembrar do papel dos outros dois caras na porta. Particularmente, eles não eram nenhum brutamontes e ambos pareciam ser estudantes, mas era difícil encontrar uma brecha pra escapar quando são dois contra um.
Eu ainda ouvia a voz de , mas era difícil entender o que ela dizia. Eram gritos, mas não pareciam direcionados a mim. Talvez eu pudesse escutar com mais clareza se eles parassem de me bater, mas era complicado tentar se defender contra uma surra e ao mesmo tempo tentar não perder a consciência, eu estava quase nesse nível e não queria perder a consciência aqui de jeito nenhum.
De repente, eles pararam. Absolutamente tudo no meu corpo doía, mas consegui abrir os olhos e tentei fingir que minha visão não estava arruinada. Vi o sorriso largo de e ele segurava o braço de . Se eu não me engano, ela estava gritando meu nome e depois de forçar mais algumas vezes, conseguiu se soltar do aperto de e vir até mim, se abaixou e levantou minha cabeça jogada no chão, forçando-me a olhá-la nos olhos.
— Ei, você está bem? — Ela me balançou, apesar de não ser o certo a se fazer, mas reconheci o seu desespero: ela também não queria que eu apagasse. — Por favor, aguenta, você consegue falar? Fale alguma coisa, por favor...
, o que você está fazendo? — Ouvi a voz de . — Vem pra cá agora mesmo!
— Já chega! — ela gritou, olhando pra ele. Senti sua voz trêmula de novo, sempre que precisava se dirigir a ele. — Parem com essa loucura! Você tem noção de quem ele é? Se o reitor o ver desse jeito, pode rolar até uma investigação e então a casa vai cair pra vocês! Uma coisa vai ligar à outra, será que vocês não entendem isso? Ele é Jungook , caramba!
Se eu soubesse que o meu nome faria todos ficarem em silêncio e os socadores se afastarem rapidamente de mim, eu teria feito isso muito antes.
— O que um cara desse tá fazendo aqui? — Ouvi a voz de Ash depois de um tempo. Um barulho de maleta e uma mochila surgiram rápidos e agudos por causa do silêncio e depois de passos apressados.
— Você está indo embora? — gritou.
— Sim, estou! Se o seu pai descobrir sobre isso, vai ser muita sorte se eu apenas perder a bolsa de estudos! — Ash respondeu.
— Meu pai é um idiota, vai acobertar tudo. Ninguém vai sair prejudicado.
— Só se for pra você, meu chapa. Ele continua sendo o reitor e não vai deixar isso barato pra nenhum de nós. Vamos embora, galera! — ele gritou para os outros dois caras e desapareceram pela porta.
ainda estava tremendo, uma luz forte me indicou que ela estava tentando digitar uns números no telefone e minha cabeça tornava a tarefa um pouco difícil. Ouvi passos se aproximando e a sombra de escurecendo ainda mais o ambiente.
— Vamos embora, . Anda, larga esse moribundo. — Ele se abaixou e pegou novamente no braço dela.
— Não... — ela sussurrou, a voz trêmula voltando a aparecer.
— Eu não vou dizer duas vezes.
— Não! — ela gritou, soltando seu braço repentinamente, deixando um meio chocado com a atitude. — Se eu o deixar aqui só vão encontrá-lo amanhã, você sabe disso. Tenho que levá-lo pra um hospital imediatamente.
ficou calado por uns segundos e encaixou uma única mão nas bochechas de , forçando-a a olhá-lo de perto. Suas mãos estavam mais trêmulas do que antes.
— Você vai se arrepender por isso, — ele sussurrou perto de sua boca e eu pude sentir aquela sensação estranha no estômago novamente. Depois que vi tremendo mais do que o normal, uma pontada de raiva me fez começar a me mover lentamente, tentando segurar meu corpo para levantar e eu juro que seria capaz de devolver o soco de se ele não tivesse se levantado e saído tão rápido do quarto.
Ela respirou várias vezes para se acalmar e pegou o telefone novamente, mas dessa vez coloquei minha mão na frente do visor, o que fez com que ela me olhasse.
— Nada... de hospital — consegui balbuciar e devo dizer que aquilo doeu muito. Eu tinha 95% de certeza que havia quebrado o nariz.
Dizer aquilo foi necessário antes que chegasse uma ambulância no meio daquela festa causando um alvoroço sem necessidade. Que eu precisava de cuidados médicos era óbvio, mas não me conhecia. E se eu fosse parar em um hospital com uma pessoa que não me conhecia, meus pais ficariam sabendo e estariam em NY surtando antes que o sol nascesse.
— O quê? — ela disse surpresa. — Nada de hospital? Você ficou maluco de vez? Já olhou seu estado? Você está sangrando... Ei, você não pode se levantar!
— Eu preciso ir. — Fiz um esforço sobre-humano para conseguir segurar na mesma quina onde havia batido, que percebi agora que se tratava de um pequeno criado mudo, e uma dor aguda no abdome me fez gemer e cair novamente, um jato de sangue expeliu da minha boca, revelando algo que eu temia: além dos socos, eles poderiam ter me dado de brinde uma leve contusão pulmonar.
! — gritou novamente e pelo menos agora sua tremedeira era pelo medo de que eu morresse a qualquer momento e ela fosse a única testemunha. — Por favor, aguenta, não apaga! Que se dane o que você diz, você vai pra um hospital agora mesmo...
— Não, por favor... — Consegui segurar seus pulsos antes que ela pegasse o celular. — Você não entende... Não posso...
Eu vi o desespero nos seus olhos, que estavam marejados. Eu poderia estar sendo cruel com ela, mas eu jamais imaginei que estaria numa situação assim com . E por mais que eu não queira admitir, seria uma tarefa bem mais árdua conseguir chegar em casa naquele estado sozinho, por mais que eu não quisesse de forma alguma envolver mais alguém naquilo.
— O que foi? Por que não pode? Ei, acorda! Você não pode dormir, entendeu? Cadê seu amigo? Posso chamá-lo aqui... Ei!
Só que a escuridão me puxava cada vez mais e ficava mais difícil respirar. Nos meus últimos minutos de consciência, eu lembro de sentir a dor por todo meu corpo e a sensação quente do sangue latejando. A voz de foi ficando cada vez mais distante e me lembro de murmurar algo como "enfermaria" antes de desmaiar.


Capítulo 5 - Perdendo o controle

Nunca levantem rápido depois de terem sidos atingidos em várias partes do corpo. A dor que provêm disso é horrível. Mas eu abri os olhos e me vi em um local que não era minha casa, então eu não pude me controlar.
Com a dor, fui obrigado a voltar a deitar. O ambiente estava escuro, mas com alguns feixes fracos de luz entrando pelas aberturas das persianas e gelado pelo ar-condicionado ligado. Eu estava em uma maca no canto e sem camisa, com uma faixa enrolada pelo meu abdome. Olhei em volta e reconheci os outros três leitos dispostos pela sala, cada qual com as cortinas azuis abertas e uma poltrona preta característica à frente da mesa quadrada de madeira. Todas as lembranças da noite vieram à mente. Ela realmente havia me trazido à enfermaria do campus.
Me forcei a sentar novamente e a dor lancinante me fez ficar zonzo, mas eu não podia ficar ali por muito tempo — visto que eu não fazia ideia de como havia entrado. Com alguma dificuldade, consegui ficar de pé. Tentei prestar atenção no meu corpo nos mínimo detalhes, para me autodiagnosticar. Eu já respirava um pouco melhor e aparentemente não tinha costelas quebradas. A contusão iria passar com o medicamento correto, mas eu ainda teria que ver um médico depois. Visualizei uma pequena pia no canto da sala com um espelho e a imagem que eu vi me fez gemer de frustração.
Alguém havia limpado todo o sangue do meu rosto, então os estragos estavam bastante explícitos. Meu nariz parecia uma bola de tênis, a ponte levemente curvada para o lado e lá se foram as dúvidas se ele estava quebrado ou não. Havia um curativo torto que entregava que fora feito às pressas no lado esquerdo da testa e um hematoma ainda vermelho no canto da boca. O nariz quebrado fazia meu rosto parecer pálido e, literalmente, doente. As marcas roxas já começavam a invadir a área abaixo dos meus olhos. Se não fosse por isso, talvez eu conseguisse disfarçar as demais fraturas. Infelizmente, aquilo teria de ser resolvido da única forma rápida e não recomendada que eu conhecia.
Respirei fundo e simplesmente fui. Gritei mais alto do que deveria quando ouvi o "slac" do osso voltando para o lugar, sem falar da dor.
— O que você está fazendo em pé?
Ouvi a voz de entrando na sala e jamais imaginei como ficaria aliviado em escutá-la. Ela pegou por um dos meus braços, me guiou novamente até a maca e agradeci internamente por isso porque se não, eu já teria caído no chão de novo.
— Gelo... — murmurei, ainda com a mão no nariz que eu havia acabado de pôr no lugar.
Ela me olhou como se eu fosse louco após ver o que eu tinha feito, mas não disse nada. Me colocou de volta na maca e saiu quase correndo da sala, voltando em menos de cinco minutos com uma compressa improvisada feita com gaze. Ela tirou o casaco que estava usando e se sentou ao meu lado no leito, posicionando a compressa com cuidado no meu nariz.
Prestei atenção nela pela primeira vez. Ela tinha uma expressão exausta e seu vestido estava manchado de sangue, então ela ainda não havia ido pra casa. Olhei pelo canto do olho e vi que o casaco que ela havia tirado e pendurado na cadeira na verdade era meu.
Ela acabou seguindo o meu olhar e a senti corar levemente.
— Ah... Me desculpa, peguei ele emprestado pra ir à cafeteria. Espero que não se importe. — Ela revirou os olhos e soltou a compressa em minhas mãos, me fazendo ver claramente as marcas vermelhas dos dedos de nos seus braços desnudos perto dos cotovelos.
— Você está bem? — Perguntei, tentando ser coerente por trás da compressa. Ela me olhou confusa e viu pra onde eu olhava.
— Ah... Isso. Não é nada, eu estou bem. — Ela respondeu, não me convencendo — Você deve se preocupar com você. Nem imagina o quanto me assustou.
— O que aconteceu? — Tirei a compressa — Como eu cheguei aqui?
— Bem... Você não quis ir a um hospital de jeito nenhum e falou da enfermaria antes de apagar. Nem sei como não surtei, mas consegui com que você se arrastasse até seu carro. As pessoas estavam bêbadas demais pra reparar em um cara inconsciente, sabe como é. E então chegamos até aqui.
— Você dirigiu o meu carro?
— Ah não, de jeito nenhum! Eu o levei até seu carro pra que fosse mais fácil pedir um táxi de lá. Relaxa, o motorista não era de fazer perguntas. Mas eu trouxe sua chave... — Ela apontou rapidamente para sua bolsa.
Continuei olhando pra ela ainda confuso, me perguntando por que raios ela havia deixado meu carro para trás, na frente de uma fraternidade cheia de pessoas com grande potencial ao vandalismo.
— Eu já entendi o seu olhar — Ela balançou a cabeça e riu sem graça. — Bom, eu não dirijo.
— Ah! — Agora estava explicado. — Você pareceu saber dirigir aquele dia com seu namorado bêbado.
— Não disse que não sei dirigir. Apenas não dirijo. — Ela deu de ombros. — Pode ficar tranquilo, avisei uma amiga que estava na festa e ela ficou de vigiar o seu carro algumas vezes, apesar de isso ter gerado algumas perguntas que eu não soube responder, mas esse é o último dos problemas.
— Você não precisava ter feito isso.
— Ah, que isso, como eu disse, eu me propus a ajudar e não ia deixar de fazer isso por causa de obstáculos como mobilidade, então tá tudo certo.
— Não... Eu quis dizer isso. — Apontei para mim. — Você não precisava ter se envolvido nisso, entendeu? Esse era um assunto que eu tinha que resolver sozinho, jamais carrego outras pessoas nos meus problemas.
— Ah... Entendi. — Ela me encarou enquanto acenava. — Na verdade, mal pude acreditar quando te vi naquele quarto. Sabe, as pessoas que vão lá têm um certo objetivo, e eu não pensei que o fosse desse grupo de pessoas.
— Ah, você diz desse esquema de tráfico de medicamentos? — Ela arregalou os olhos por um instante e automaticamente olhou para os lados — Relaxa, não é algo que eu queira me envolver.
— Como assim não quer se envolver? Quem marca um encontro com o Ash não quer fazer uma vistoria sem compromisso daquele quarto.
— É, eu imaginei. — Dei de ombros. — Mas isso é um assunto meu, você não entenderia. Também não vou perguntar sobre o que você fazia lá. Acredite, você já ajudou bastante.
— Mas... Fiquei curiosa sobre as coisas que escutei lá. O lance da Margot e tudo mais. Não sabia que você também tinha um lance com ela, ela parecia bem apaixonada pelo Ash.
— Ah... Não. Você não entendeu. Eu jamais tive algo com a Margot, na verdade eu nem a conhe...
Parei por um instante, porque a situação já estava dando merda. E então eu não soube explicar como de repente fiquei tão falante com essa garota, a ponto de quase me entregar. Claro que eu não iria oferecer de bandeja a história toda, mas eu não queria aguçar o sentido investigativo dela.
— Espera, o quê? Você ia dizer que não a conhecia?
— Não é bem assim, nós só não éramos tão próximos como seu namorado pensou.
— Você sabia informações demais pra quem não era tão próximo dela.
— O que é isso agora? Tá me fazendo um interrogatório policial sem eu saber? Amanhã essa conversa vai estar no Fórum ou no jornal?
— Ei, ei, nós só estamos conversando, nem tudo aqui precisa ser tão preto no branco. Você só me deixou curiosa, só isso. Eu tenho acompanhado o caso da Margot desde o início e até agora não surgiu nenhuma nova informação, então você me intrigou com as coisas que disse.
— É, só que eu não posso te ajudar com isso. — Me levantei novamente e comecei a procurar as minhas roupas.
— Você já vai? E o resto dos seus machucados? Eu te trouxe pra cá porque eu não iria discutir com um cara inconsciente, mas você precisa de um hospital urgente.
— Eu posso me cuidar, muito obrigado. Agora se você não se importa, preciso chamar um táxi pra ir buscar meu carro.
— Ei, cara! — Ela entrou na minha frente e colocou a mão no meu peito. — É sério, eu realmente não quero me meter nos seus problemas malucos porque já percebi o quanto você é um. Mas você não pode sair desse jeito.
— Você saiu desse jeito. — Dei de ombros, apontando para a parte mediana do vestido suja de sangue.
— É, ok, o seu casaco ajudou. Mas a questão é que já amanheceu e vai ser bem estranho se alguém colocar a cabeça pra funcionar e tentar adivinhar o que aconteceu com a gente. Então, eu tô pedindo encarecidamente pra você sentar por mais uns minutos nessa bendita cama até que eu traga umas roupas emprestadas clandestinamente no achados e perdidos e tomar o café que já deve estar frio. Portanto...
Ela nem me deu tempo de protestar e já foi saindo pela porta. Por um lado ela estava certa, não seria nada bom se o que aconteceu ontem fosse descoberto por pessoas de fora — e eu digo de tudo, incluindo a briga e tudo que resultou dela. Apesar de que impunha isso como uma ameaça velada, como se estivesse me aconselhando silenciosamente a manter minha boca fechada sobre isso, ou o querido namorado poderia fazer algo nada galanteador à meu respeito — e também ao dela, visto que havia o enfrentado de forma tão escancarada. Eu não tinha qualquer interesse em levar aquele assunto adiante. Meus problemas agora eram outros, e o principal deles era como eu iria resolver os problemas novos que surgiram da falha de resolução de um deles.
voltou depois de um tempo, já vestida com uma camisa meia manga listrada e um macacão branco e me jogou um jeans e uma camiseta nova. Sem dizer uma palavra, começou a recolher as roupas manchadas e a enfiá-las em uma sacola de pano da enfermaria.
— Vou lá fora tentar apagar mais alguns rastros da nossa presença aqui, enquanto você troca de roupa — Ela recolheu mais alguns itens em cima da mesinha ao lado da maca, que só agora percebi como estava bagunçada.
— Você fez o curativo? — perguntei.
— Ah... Sim. Nada ao nível da medicina, mas o Google era o único professor disponível, então espero que não se importe. Estava sangrando tanto que eu achei que você fosse literalmente morrer, e eu não queria mais esse trauma.
— Claro.
Fui até a bolsa de e vi café e água dentro de uma sacola de padaria. Peguei a água imediatamente e percebi o quanto estava com sede, e exausto. Depois de alguns minutos ela saiu e eu troquei de roupa, um jeans simples e uma camiseta preta. Coloquei as outras na sacola que ela havia separado para mim e saí da enfermaria, encontrando-a encostada na parede enquanto olhava o teto.
Assim que me viu, ela remexeu em sua bolsa e me entregou na mesma mão minha carteira, minhas chaves e meu celular.
— Tive que desligá-lo porque um tal de não parava de ligar. Acho melhor você acalmá-lo antes que ele enfarte.
— Mais tarde eu ligo. Valeu.
— Tá legal, é o seguinte, não é porque é domingo que o campus está fechado, o movimento de pessoas é bem baixo mas não é inexistente, então sugiro que a gente saia bem de fininho e separados pra não ter que rolar perguntas se formos vistos. Já foi bem difícil mexer meus pauzinhos pra enfiar a gente aqui de madrugada, não quero burocracia pra sair também.
— Ah... Tudo bem.
— Então... Eu já vou nessa. — Ela acenou e deu as costas.
, espera... — Ela se virou novamente. — Valeu por ter feito tudo isso. Como eu disse, você não precisava. Espero que isso fique entre nós, tudo bem?
Ela deu uma risada.
— Pode ficar tranquilo que ninguém vai saber que eu carreguei em um táxi até a enfermaria do campus. Se bem que daria uma ótima matéria pro jornal. — Ela fez uma pausa. — É brincadeira! Acredite, eu não quero ser relacionada à esse assunto em momento nenhum.
— Ótimo. Ficamos entendidos assim.
— É, ficamos. — Ela acenou e deu as costas para ir novamente, mas se virou mais uma vez. — Mas, sabe, , você realmente é uma peça mais estranha do que eu pensei. E tudo bem você ser assim, desde que não esbarre nas pessoas sempre como você faz. Mas uma coisa que eu não consigo sossegar foi o jeito que você falou da Margot, e acredite, eu não tô interessada em te chamar pra uma entrevista e nem nada disso. Mas eu sei que você sabe de alguma coisa. E essa matéria é muito importante pra mim, não que isso seja do seu interesse. Eu também sempre achei esse caso muito do suspeito e mal contado, e pra casos assim eles geralmente arquivam na pasta do suicídio, mas tem mais história nisso aí, eu sei que tem. E eu tô afim de descobrir. E você foi um dos responsáveis por me motivar a voltar a investigar isso, então na verdade eu que tenho que te agradecer.
— Espera aí, eu não pretendia...
— Adeus, senhor . — Ela acenou com as mãos e saiu com pressa.
— Você não vai achar nada! — Gritei, mas duvido que ela havia escutado.

***


Depois do que pareceram horas, estacionei o carro na frente do prédio. Não encontrar plantado na porta da minha casa já foi um alívio. Eu ainda não havia pensado na desculpa que daria sobre o meu estado, então quanto mais tempo eu o evitava melhor. Fui correndo fazer a primeira coisa que fazia sempre que passava por esse tipo de situação: encher a banheira com gelo.
Eu achei que estava acostumado com aquela dor, já tendo sentindo-a tantas vezes com o passar dos anos, mas alguma coisa parecia diferente daquela vez. Não nos machucados, acredite, os mortos poderiam ter acabado comigo bem mais rápido do que aqueles caras. A sensação estranha quando afundei na banheira foi diferente, eu só não sabia o que era.
Ficar por uns minutos submerso me deu tempo de reorganizar os meus pensamentos. Eu não sabia se poderia confiar totalmente que deixaria aquela história pra trás, ou se ela estava falando sério sobre investigar o caso de Margot. Não que eu me importe de vê-la dando com a cara na parede, mas em algum momento ela poderia realmente estar certa de que eu sei de algo e não seria fácil me livrar dela. Apesar de que em uma coisa que ela disse martelava na minha mente: aquela história estava sim muito mal contada.
Tudo bem que eu sabia era que Margot não havia se suicidado. A notícia chegou a mim pela própria. E eu não acreditava que poderia continuar com aquela história, se não ela teria que investigar os amigos do namorado — Ash e os demais, até poderia estar envolvido em todo aquele esquema. E se estava naquele quarto ontem e conhecia Margot por Ash, ela também não estava por fora de toda aquela história. Então, decidi esquecer e concluir que ela só falou aquilo no calor do momento.
Refiz todos os curativos da tentativa de e o gelo havia ajudado bastante com os inchaços. Meu nariz seria o mais difícil de esconder, mas existia um milhão de histórias para narizes quebrados, então eu estava tranquilo quanto a isso. não levantaria minha camisa nem nada parecido, então os hematomas das costelas também estavam em local seguro. Nem que eu tomasse um caminhão de analgésicos, precisava parecer bem para ele, porque a minha história ainda não estava completa e eu não tinha clareza sobre todos os acontecimentos porque, bem... Eu estava desmaiado na maior parte deles.
Mesmo com tudo sob controle, na verdade eu sentia que não estava. E eu raramente me sentia daquele jeito — e não me era nada agradável. A minha vida PRECISAVA de controle, e um controle muito minucioso. Como acham que eu cheguei até aqui com essa vida dupla maluca? Controle. E organização. Se houvesse pontas soltas e situações que poderiam vir a se tornar uma bola de neve, eu deveria resolvê-los logo, antes que tudo fosse pro ralo e homens de branco invadissem meu apartamento.
Uma prioridade desse controle era afastar toda e qualquer tipo de pessoa que desconfiasse minimamente que eu não era muito normal. Geralmente nunca tive muita dificuldade nessa parte — as pessoas tendem a se afastar automaticamente de quem parece meio maluco. Só que a minha intenção nunca foi parecer meio maluco — as situações com os mortos é o bloco do diagrama onde eu abro mão de todo controle, porque simplesmente não dá. Os mortos são imprevisíveis. E eu já havia aceitado aquilo, portanto quanto menos pessoas houvessem no meu ciclo social, menos satisfações e desculpas eu precisaria inventar.
Talvez por isso eu tenha me fechado, além do fator Jane. Depois que saí do orfanato, era muito difícil passar pelas situações com os fantasmas em todos os cantos que eu passava e não poder contar pra ninguém. Meus pais, por mais maravilhosos que sejam, estavam marcando um horário com o terapeuta da família assim que eu falei pela primeira — e última vez — dos mortos, o qual frequentei até os 13 anos. Foi quando bati o pé e me declarei curado do meu "mal", e percebi que era muito mais fácil mentir e inventar desculpas do que simplesmente falar a verdade. Era cansativo os olhares e as frustrações, e esse era um caminho mais fácil. Por isso era muito mais descomplicado ir simplesmente deixando as pessoas passarem pela minha vida e não fazendo questão de nenhuma delas — elas jamais entenderiam.
é uma exceção por inúmeros motivos, mas expô-lo a todo esse circo nunca esteve na minha lista. Apesar das mentiras e eu consciente de como sou um péssimo amigo, eu gostava da nossa amizade. E não é que eu não confiava nele, ou que achasse que ele iria espalhar a notícia com um megafone, mas tinha a impressão de que ele simplesmente... Correria. E isso eu poderia evitar.
Com tantos pensamentos, dormir foi uma tarefa impossível, então decidi adiantar alguns relatórios de laboratório. Voltei a ligar meu celular e esperar a próxima ligação de , que decidi atender. Depois de uma hora que ele não havia ligado, concluí que ele deveria estar apagado ou pior, deveria estar vindo pra cá. Suspirei e apenas esperei o inevitável. Decidi que esperaria pelo menos tomando uma cerveja, que não seria uma boa combinação com os analgésicos que eu já havia tomado, mas mesmo assim levantei para buscar na cozinha.
Mas infelizmente eu nem consegui ingeri-la pois um grito ensurdecedor encheu a cozinha e todo o ambiente, fazendo com que eu largasse a cerveja de susto e de quebra alguns copos estouraram.
Virei para trás em um pulo e dei um suspiro de nervoso.
— Muito obrigado por isso, vó. Sabia que era minha última cerveja?
— Mas o que aconteceu com você?! — Ela se materializou na minha frente, observando cada machucado visível. — O que você aprontou dessa vez, garoto?
— É uma longa história. A senhora morreria de tédio.
Haha, muito engraçado. Eu falei sério, seu insolente. — Ela me deu um tapa no braço, que fiz questão de encenar uma dor horrenda — Oh, meu Deus, me desculpa, me desculpa... Mas que raios aconteceu com você!? Quem fez isso? Me diz o nome dessa alma penada que eu o encontro nem que já tenha passado do limbo.
— Relaxa, vó, isso não foi trabalho de um morto nem nada parecido. Foi uma briga normal com gente de carne e osso. — Respondi, enquanto limpava a sujeira de vidros que ela havia causado.
— Como assim?! Você agora deu pra ser um delinquente rolando no chão com outros brutamontes a troco de quê?! Ah, se seu pai soubesse disso...
— Eu nunca sei de qual pai você está falando. — Dei de ombros, enquanto jogava os cacos na lixeira — Relaxa que o Sr. nem faz ideia disso, nem vai saber. Fiquei bom em apagar meus rastros, a senhora sabe bem disso. Agora se a senhora está falando do meu outro pai...
— Não estou falando de ninguém! — Sua voz tremeu e como sempre ela desviou do assunto — Isso tudo foi por causa de alguma garota por acaso? Eu a conheço? Ou foi Jane que te envolveu em alguma furada desta vez?
— Não tem nada a ver com garotas também, senhora preocupada. Apesar de que tive a ajuda de uma dessa vez.
— Ajuda? — Ela balançou a cabeça, como se tentasse adivinhar como havia sido minha noite inteira, e posso apostar meu carro que a malícia estava presente nisso. Apesar de seu dom genuíno de falar com os mortos — do qual eu puxei — ela era uma péssima na arte da adivinhação.
Enquanto ela se esforçava para colocar os pensamentos no lugar, voltei para minha escrivaninha e a peguei novamente na minha frente.
— Que tipo de ajuda é essa que você disse? Foi algo a ver com algum fantasma? Você enfrentou um deles na noite anterior? Eram muito perigosos? Você deixou que uma humana te pegasse...
— Ei, sei que a senhora não precisa, mas poderia respirar um pouco? Não aconteceu nada demais, está tudo sob controle como sempre.
— Você não está me convencendo. Vai, quero que você me conte.
Suspirei e despejei a história toda em cima dela, desde Margot, a surra que eu havia recebido dos capangas de Ash e a ajuda inesperada de . Minha vó escutava tudo com muita atenção, com suas expressões variando de furiosa quando contei sobre Ash e até curiosa quando contei sobre . Mesmo não gostando da forma como ela sempre aparecia do nada quando vinha me ver, aquilo foi uma descarga que eu não sabia que precisava.
— Então você conseguiu resolver o problema dessa menina Margot?
— Ah, não sei, vó... Eu consegui descobrir as informações que ela queria, mas não sei se vai ser o suficiente pra ela ir, sabe... Pro outro lado.
— É... É complicado, mas você fez a sua parte. Se ela não o deixar em paz depois disso, eu mesma mando ela pastar. — Nós rimos. — Mas e essa garota que te ajudou a sair da festa? Você não acha estranho ela ter estado presente com esse cara que fez isso com você e depois ter dito que vai investigar o caso que ele pode estar envolvido? Você confia nas intenções dela?
— Vó, eu não confio em nada. Eu já disse, eu não quero saber o que essa garota pensa ou deixa de pensar. Já vacilei quando não pensei direito e falei coisas que não devia perto dela, mas não vai passar disso. Acredite, ela não vai chegar em lugar nenhum, não precisa levar tão a sério.
— Mas então por que você parece tão preocupado com esse assunto?
— Ah... Eu não estou preocupado. — Dei de ombros, olhando para a tela do computador. — Ela só é um pouco desmiolada e namora um completo babaca, então eu tenho receio. Mas ela vai se esquecer rápido de tudo que aconteceu.
Minha vó acenou e pareceu aceitar esse ponto. Mas ela não havia mentido ao supor que eu estava de certa forma preocupado com , principalmente depois do que eu havia visto naquela noite. Não que isso fosse me consumir, mas eu não parava de pensar como ela faria o que disse. Me fazia pensar o que aquele boçal faria com ela, ou, como eu me convencia a pensar, não deveria acreditar que ele tinha algo a ver com a situação, muito diferente do que eu pensava.
Mas será que Margot sabia? Se as confissões de Ash não fizessem efeito em sua permanência aqui desse lado, o que mais a estaria prendendo aqui?
Fui puxado para a realidade quando a campainha começou a tocar incessamente, o que não é nenhuma surpresa vindo da visita que eu estava prestes a receber. Dispensei minha vó, que sumiu em um piscar de olhos ao chamar de "moleque pervertido" e abri a porta, a qual ele foi entrando sem ao menos me olhar.
— Eu espero que você tenha uma boa explicação pra ter me deixado plantado no meio da festa e que ela diga como você sumiu deixando seu carro pr… — Virou-se, reparando em meu rosto. — Mas que porra é essa, ?! — gritou e eu podia jurar que o porteiro havia escutado. — Você não atende as ligações a noite toda e agora parece que se meteu em briga de gangue?
— Sabia que isso poderia ser facilmente interpretado como briga de casal, não é?
Ele olhou para os lados, como se realmente estivesse preocupado de ser ouvido.
— Irmão, o que tá pegando? Eu passei horas pensando que você estava em um necrotério.
— Que isso, cara?! — Dei uma risada, mas ele não se convenceu — Tá legal, aconteceu que eu sofri um pequeno acidente, só isso. Me perdi na festa no começo, bebi um pouco demais, me envolvi em uma briga. Acho que toda festa tem um pouco disso, não é?
— Espera aí, eu não tava falando sério do lance da briga... Calma, você realmente levou uma surra?!
— Ah... Pois é, mas não foi nada grave, eu já tô bem melhor e...
— Cara, como assim?! Me diz quem foram esses covardes que já já eu descubro algum podre deles e exponho tudo no Fórum! Ninguém vai conseguir escapar!
— Ei, calma aí, Snowden, é sério, está tudo bem. Eu mal lembro do motivo da briga quanto mais quem se envolveu nela, então você pode sossegar e voltar ao normal.
— Cara, mas... Olha pra você, ! Como que você considera isso uma mera briga de bêbado? Qual foi o motivo que esses caras tiveram? Você precisa me contar...
— Eu acabei de te contar tudo que aconteceu. Ou melhor, do que eu lembro que aconteceu. Sinceramente, essas coisas não importam agora, eu só sei que eu tô bastante exausto e preciso descansar antes de terminar os relatórios pra aula de amanhã e...
— Você tá maluco? — Ele me interrompeu, colocando uma mão em meu ombro — Desde o ensino médio eu não te vejo com tantos curativos, e você era mestre em arrumar briga naquela época. Se estava com problemas, por que não me ligou? O que você arrumou dessa vez que eu também não podia ajudar?
... Que isso, cara, também não é pra tanto. Eu realmente sinto muito por ter sumido do nada, foi vacilo, eu sei. Mas eu estou bem, é sério.
— Como seu parceiro, eu sei que você está bem. E não vou dizer que não é do seu feitio se meter em pancadarias porque sabemos que não é bem verdade. — Ele deu de ombros. — Mas desde que nos mudamos você parecia mais calmo, de bem com a vida, e você sabe qual seria a reação da sua mãe se recebesse uma ligação da polícia de NY com uma cobrança de fiança?
, sei que foi atípico isso acontecer em uma festa, mas coisas acontecem pela primeira vez. Eu prometo que tomarei mais cuidado da próxima.
Lancei-lhe um sorriso tranquilo, sem mostrar os dentes, e ele pareceu engolir a minha história — não que ele fosse me deixar em paz sobre os detalhes dela.
— Tudo bem, . Mas o que raios aconteceu? Onde você se meteu nessa confusão? Nem vem inventar desculpas porque eu vi seu carro até o final da festa.
Passei as mãos na cabeça e tentei pensar. Eu sabia de algo que faria acreditar no mesmo minuto, mas tinha plena certeza de que provavelmente ele não me deixaria em paz.
— Encontrei uma colega do departamento.
Os olhos dele brilharam de empolgação.
— Tá zoando! — Ele riu. — E aí, como foi? Vocês foram pra um dos quartos? Como é o nome dela?
— Não lembro. E devo dizer que até agora não dormi direito, então se você puder me deixar descansar…
— Mentira! Foi tão bom assim? Não acredito como pode não me contar isso assim que cheguei…
Foi uma dor de cabeça me livrar dele depois dessa. Deixei explícito que eu não me lembrava quem era a tal garota e que não me lembrava de absolutamente nada entre nós e, por mais suspeito que fosse, apenas aceitou por causa do meu “jeito fechado” e consegui expulsá-lo amigavelmente do meu apartamento, alegando o quanto eu precisava dormir.
O efeito dos analgésicos estavam passando e a dor que eu tanto evitava estava dando caras às caras, então sem nem pensar duas vezes engoli dois comprimidos e caí no sono antes que eu pudesse chegar ao quinto carneirinho.


Capítulo 6 - Fuga da inevitável bola de neve

Eu não havia colocado nenhum despertador, mas nesse trabalho minha mãe era a melhor. Nem o sono mais profundo era capaz de se manter à insistência telefônica da Sra. Meredith. Alcancei o celular na mesa de cabeceira, sem abrir os olhos, dando fim ao Jack the Bear de Duke Ellington que enchia meus ouvidos.
— A partir de hoje vou mudar esse toque — murmurei, assim que consegui arrastar o ícone verde para o lado.
— De jeito nenhum! — ela respondeu em voz alta, mas para mim que ainda estava acordando havia soado três oitavas acima — Como vai saber que sou eu?
— Já conversamos sobre identificadores de chamadas, mãe. Hoje em dia as pessoas não precisam de toques específicos para cada número gravado.
— Eu não sou qualquer número gravado — pude senti-la fazer um bico de desaprovação; sempre fazia isso toda vez que eu tentava argumentar contra seus costumes bregas e ultrapassados.
Barulhos repetitivos em cima de uma superfície de madeira e, em seguida, o chiar de uma panela no fogo indicavam que ela estava na cozinha. Sentei-me lentamente na cama, sufocando um gemido de dor pelo esforço, deparando-me com o escuro impenetrável que estava no quarto. Eu não fazia ideia de que horas eram.
— Eu te acordei? — ela continuou, e pude ouvir o tilintar de talheres e outras conversas baixas ao seu lado — Por que está dormindo uma hora dessas?
— São as aulas — a resposta estava pronta imediatamente, como sempre — Preciso preencher os formulários para o estágio no próximo semestre, têm sido corrido.
— Oh, meu amor! É claro, como pude esquecer! Você foi o número um de novo, meus parabéns! Bertha, foi o número um de novo! — ela afastou o telefone para chamar nossa empregada. Pude ouvir as felicitações dela ao fundo — Seu pai está em uma reunião importante com convidados de Londres na sala de estar, mas ele também ficou feliz! Com certeza vai te ligar amanhã — Com certeza ela estava com um sorriso de ponta a ponta — Já escolheu seus orientadores? Eu e seu pai estávamos fazendo uma lista, e vimos que o Dr. Noah Smith está disponível e adoraria te conhecer! Tenho certeza que se eu conversar com o reitor ele o contrata para o centro médico.
— Não precisa ter tanto trabalho — usei um tom calmo, porém sério. Precisava pará-la antes que ela tomasse a frente de tudo relacionado a mim — Ainda falta um semestre, vou ter tudo preparado até lá, eu prometo. O que está cozinhando?
— Adivinhe só! Vieiras com parma! — ela riu e tagarelou um pouco sobre os temperos, tempo de cozimento e a importância do tipo de louça que usaria para aquela ocasião. Fiquei aliviado só por tê-la desviado do assunto do estágio — O doutor Griffin trouxe uma louça tailandesa de presente e seria falta de educação não usar no jantar, apesar de eu particularmente preferir aquela que compramos em Roma, você lembra? Mas seu pai insistiu que usássemos a dele — ela bufou e pude sentir seus olhos se revirando nas órbitas.
Ouvir minha mãe tagarelar sobre jantares executivos em casa, enquanto picava os legumes, preparava o molho, conversava com Bertha e ouvia jazz baixinho, me deixava nostálgico e com saudades de casa. Podia visualizá-la usando seu avental rosa com bolinhas brancas, um coque perfeitamente alinhado, preparando uma comida deliciosa usando salto e maquiagem.
— Não vejo a hora de ver você em casa, meu bem! Sua avó virá para o natal e nós prepararemos aquele clam chowder que você adora. E por falar nisso, como está o clima por aí? Aqui o inverno se aproxima, mas as pessoas continuam indo à praia, você bem sabe como. Um cliente do seu pai da Flórida nos convidou para passarmos o feriado de ação de graças na fazenda, e eu estaria melhor se você pudesse ir junto. — Seu suspiro de indignação era mais um pedido.
— Também já conversamos sobre isso, senhora . Esse semestre está sendo bem corrido, e não vai fazer mal você e papai passarem o feriado com outras pessoas. A sua comida fará todos bem mais felizes, então se anime. Vou ligar duas vezes para ter certeza que você está se comportando.
Ouvi uma fungada e adivinhei que ela já estava ficando emotiva.
— Vai ser a primeira e última vez — Sua voz começou embargada, mas logo se recuperou — Não gosto dessa ideia. Sinto sua falta! Eu e seu pai vamos te ver assim que ele conseguir fechar esse contrato hoje, com certeza será antes do natal. Aí podemos voltar todos juntos.
— Combinado.
Eu esperava ter resolvido todos os problemas antes do natal.
Ouvi Bertha falar algo sobre pôr a mesa e mais tilintar de talheres.
— Vou ter que desligar, sweetheart. Aparentemente a reunião terminou.
— Tudo bem, mãe. Manda um abraço e boa sorte ao papai.
— Você está bem, não é? Estou tão atarefada que até me esqueci de perguntar… — sua voz estava estourada, provavelmente ela estava equilibrando o telefone no ombro com a cabeça tombada e andando pela cozinha — Está precisando de alguma coisa? Você está se alimentando direito? Essas comidas de delivery e refeitórios de universidade não são nada nutritivas, quando eu for farei questão de te levar uma comida saudável.
Lancei uma série de “sim”, “aham” e “não”.
— Está fazendo alguma atividade física? É importante se exercitar, mesmo que você não tenha muito tempo. E não quero te ver com um cigarro na boca de novo!
— Pode deixar, mãe, sempre corro no meu tempo livre — não pretendia contar quando foi a última vez que aquilo havia acontecido.
— E o ? Está te fazendo companhia? Besteira, esse garoto não larga do seu pé — ela suspirou e ouvi os pratos sendo empilhados um a um. Ouvi mais uma vez a voz de Bertha.
— Está tudo em ordem, mãe. Vá servir o jantar antes que papai comece a ter de contar as piadas de golfe para entreter os convidados.
— Você tem razão! — ela riu — Te amamos, sweetheart. Estou com muitas saudades!
— Eu também, mãe.
O visor do celular marcava 10:45 da noite assim que desliguei. Ainda não me sentia completamente descansado. Absolutamente tudo no meu corpo doía e eu já havia tomado analgésicos demais. Caminhei até o banheiro, ligando a torneira e em seguida jogando um pouco de água no rosto. A palidez não era nada convidativa e eu parecia doente. Os hematomas foram de vermelho para roxo e eu sabia que teria de preparar outra banheira de gelo.
Voltei para a cama com o intuito de tentar dormir novamente. Senti que poderia dormir por pelo menos dois dias, mas não consegui conter meus pensamentos desenfreados. No silêncio do cômodo, de repente fui invadido por eles. Como um flashback, me recordando de tudo que havia acontecido nos últimos dois dias.
Levantei novamente, colocando um jeans, tênis e um casaco. Precisava entregar a mensagem à Margot, afinal, era aquilo que eu fazia. E daria fim aquela história hoje mesmo. Afinal, ela só queria saber a resposta de Ash, não é mesmo? Não havia porquê estender o assunto.
Eu mal fazia ideia de como estava errado.
Nunca havia ido ao campus fora dos horários letivos desde que cheguei em NY e de repente aqui estava eu, tentando burlar as normas pela segunda vez no mesmo dia. Sair não havia sido tão difícil; não havia problemas na movimentação de estudantes aos fins de semana, visto que a biblioteca, laboratórios, restaurantes e demais instalações com projetos ativos funcionavam normalmente. A enfermaria não era uma delas, o que me fez pensar em como havia me colocado lá dentro. Não apenas isso. Agora eu estava arrependido de não ter perguntado como raios ela havia conseguido entrar no prédio em plena madrugada — o que exatamente eu estava tentando fazer agora. Aparentemente, havia muitas coisas para ensinar.
Estacionei do outro lado da avenida, em frente ao enorme portão de grades pretas. Um único vigia noturno estava dentro da guarita ao lado do portão. Não parecia estar prestando muita atenção em intrusos, o que era ótimo para os meios não convencionais que eu pretendia usar.
Desci do carro e dei a volta nas grades principais. Em um ângulo de 180 graus, eu já estava bem longe da vista do vigia. As grades deviam ter uns 6 metros, mas continham várias linhas horizontais, facilitando minha entrada. Do outro lado, coloquei o capuz e comecei a caminhar com a cabeça baixa. As luzes estavam acesas por toda extensão do campus. Tive que me esquivar atrás de árvores e pilastras de pelo menos dois vigias que vagavam com lanternas; avistei as luzes acesas dos dormitórios e agradeci mentalmente pelo JJ’s não abrir aos domingos. Na direção de Morningside Heights, cruzei com algumas pessoas, estudantes voltando de uma social clandestina ao que parecia. Eu não era o único a vagar sem permissão aquela hora.
Cheguei ao John Jay Hall sem grande alarde. Eu tinha um certo conhecimento com fechaduras (e grampos), e agradeci em todas as línguas que conhecia por aquela ainda não ser a digital.
O John Jay Hall era um prédio de 15 andares na extremidade sudoeste do campus. Ali não apenas abrigava o JJ’s e algumas instalações de serviços de saúde, mas também alguns estudantes nos dormitórios. Inclusive . Pensando sobre isso, eu definitivamente não deveria estar aqui. Graças à ausência do JJ’s, ninguém estaria nos corredores naquela hora. Pelo menos era o que eu esperava. Lá dentro havia apenas uma iluminação baixa, quase inexistente. Eu não havia vindo preparado, então a lanterna do meu celular teria que bastar para que eu chegasse ao terceiro piso pelas escadas de emergência. De forma alguma poderia pensar em pegar o elevador.
O restaurante estava vazio e silencioso. Olhando-o dessa forma, parecia muito maior do que era normalmente, com a aglomeração de pessoas impedindo uma visão panorâmica do local. As mesas de madeiras vazias, os pilares também de madeira, o pé direito alto com o teto em mármore branco, os lustres espalhados pelo lugar totalmente apagados. Foi aqui que eu havia encontrado Margot pela primeira vez, naquela cena infame de queda. Hoje, se eu caísse, contava que pelo menos ninguém veria.
Não é que eu pudesse chamar os mortos a hora que eu quisesse. Mesmo se eu pudesse, isso seria algo que eu definitivamente nunca faria. E não era como se eles pudessem me encontrar onde quer que eu esteja. Se eu não soubesse que eles ficavam presos aos arredores de onde haviam morrido, ficaria preocupado de receber uma visita em minha casa, mas felizmente sabia que não era possível. Eles até poderiam, mas não sabiam como. Não haviam lembranças.
Em situações como aquela, bastava que eu chamasse seu nome. Sempre eficaz, não demorou muito para que ela se materializasse no escuro, pálida e com uma expressão confusa, como se ainda não entendesse muito bem como aquilo acontecia.
, é você? — ela olhou para os lados — Está sozinho?
— Como vai, Margot?
— Estou ótima — ela abriu um sorriso, que logo desapareceu — Quer dizer, na medida do possível. Eu queria olhar os jogos de sinuca do JJ’s, mas eles estão fechados hoje. Muitos colegas meus jogavam ali...
— Escuta, vou ser breve — interrompi-a antes que começasse um monólogo — Precisamos conversar sobre Ash.
— Você o encontrou?
— Encontrei. Ele foi bem gentil — meu tom sarcástico fez com que ela inclinasse a cabeça curiosa. Em um piscar de olhos, ela estava próxima do meu rosto, quase encostando em meu nariz, e abaixou meu capuz.
— Meu Deus! — sua boca se abriu em choque enquanto ela dava um passo para trás — O que aconteceu com seu rosto? Você brigou com Ash?
— É, mais ou menos. Pode-se dizer que ele tem muitos amigos.
Ela abriu ainda mais a boca.
— Não acredito que ele mandou Dylan e Bruce fazerem isso! Eu devia imaginar que ele teria esse tipo de atitude… Nem sei o que dizer, Jungkook… — ela respirou fundo, claramente indignada.
— Relaxa, não foi a primeira briga que eu me envolvi. Mesmo que essa tenha sido um trabalho em conjunto, eu já estou bem. O mais importante é que confrontei Ash, e devo dizer que ele negou a história toda.
— Negou?
— Ele disse que não te matou. E parecia estar dizendo a verdade.
Ela ficou em silêncio e andou um pouco em círculos. Pensei em mais alguma coisa para dizer, mas não havia nada. Ela deveria sumir agora, não é?
— Então… Agora está tudo bem? — perguntei, após vários minutos de silêncio.
Ela parou de andar, mas ainda mantinha os olhos no chão.
— Isso não faz o menor sentido — murmurou em voz baixa. Ela levantou a cabeça e havia algo novo e estranho nos seus olhos: uma raiva que não estava ali antes — Tem que ter sido ele!
Engoli em seco. Aquilo não era um bom sinal.
— Margot, olha… Ash te vendeu Lorazepam. É um remédio forte para ansiedade, mas com três comprimidos você no máximo perderia suas aulas do dia seguinte. Na sua idade, uma overdose estava fora de cogitação. O que não deixa de ser uma irresponsabilidade tomá-lo, mas ele não te mataria.
— Ele pode ter alterado o medicamento. Sabia que Ash produz algumas de suas drogas? Deve ter feito esta especialmente pra mim… — sua boca se curvou em uma careta de choro, apesar de seu corpo tremer em raiva.
— Sendo racional, uma overdose só seria possível se você já estivesse sob efeito de outra droga antes de tomar o remédio. O seu corpo não aguentou.
Ela olhou para mim estupefata.
— O que você disse? — havia um vinco em sua testa. Pude ver que ela começou a dar passos em minha direção — Está dizendo que eu usei drogas naquele dia? — abri a boca para responder, mas ela foi mais rápida — Não que te interesse, mas eu nunca usei drogas. Aquela era a primeira vez que eu iria embarcar nessa. Se eu adivinhasse que nunca mais voltaria dessa maldita experiência, eu jamais teria aceitado, você me entendeu?!
Ela aumentou a voz na última frase, não que mais alguém pudesse ouvir. Sua raiva e frustração eram explícitas, ela não estava levando o assunto muito bem.
— Como você pode pensar isso de mim?! — ela continuou — Naomi me dizia que eu era sem graça por não ceder ao estilo de vida de Ash, mas eu não conseguia. Mesmo assim, eu sentia que nós… — ela respirou fundo, tentando não chorar — Ele negou completamente sua participação nisso tudo?! Eu devia saber que ele pularia fora de uma forma ou de outra!
O problema não eram os gritos e a expressão furiosa de Margot. O problema é que quando um fantasma resolvia se revoltar, eles não tinham muita pena do lugar ao redor — e nem das pessoas. Então quando algumas cadeiras voaram acima de mim e os vidros do salão começaram a balançar, eu notei que precisava tomar uma providência.
— Margot, se acalma...
— Me acalmar?! Eu fui ASSASSINADA, ! Eu tinha planos, tinha um futuro brilhante pela frente! E tudo isso foi tirado de mim da noite pro dia! Para as pessoas ainda pensarem que eu fiz isso comigo mesma — ela recomeçou a chorar, e isso fez com que os vidros tremessem com mais intensidade — O que meus pais devem estar pensando, toda a minha família na Virginia, devem estar decepcionados comigo...
— Tenho certeza que sua família também entendeu que você jamais faria isso.
— Mas eles não liberaram a autópsia, não é mesmo? Como era de se esperar! Minha mãe quer evitar a vergonha de ter uma filha que se drogou e não aguentou a pressão, que não soube ir em frente!
— Agora não é hora de se preocupar com o que sua mãe pensa ou deixa de pensar! Se você me disser exatamente o que aconteceu naquele dia, talvez possamos chegar a uma conclusão…
— Não está claro?! Ash fez isso comigo! Ele fez isso comigo! — uma cadeira da lateral do salão voou acima do chão e se espatifou no teto, e aquilo com certeza foi ouvido por toda a área do corredor — Ele vai me pagar, ele vai...
— Margot, se acalma! — falei, entre dentes, olhando para trás em direção à porta de entrada. Alguém com certeza havia escutado — Por que Ash te mataria?! Você não me contou...
— Eu já te contei tudo, mas você não vai me ajudar! Ninguém vai me ajudar a fazer com que ele pague! Ele me avisou que seria assim, que você não estava do meu lado… — ela me encarou, o ódio escancarado em seu rosto — Eu mesma vou resolver essa história! — ela deu as costas para sair, mas a peguei pelo braço antes que ela fizesse isso.
— Do que está falando? Quem é ele? — ela me ignorou e tentou se soltar — Eu tô falando muito sério, Margot. Ou você se acalma e acaba com esse show, ou...
Eu não era tão ingênuo a ponto de pensar que ela me escutaria. Mas também não esperava que ela fosse me dar um empurrão e eu seria literalmente jogado pelos ares até bater na parede ao lado da porta de entrada do refeitório. A dor foi tamanha que eu tenho certeza que apaguei por três ou quatro segundos, mas quando abri meus olhos ela já havia desaparecido. Uma explosão do lado de fora, quebrando o restante dos vidros e janelas de pé e em seguida um apagão mostravam a extensão das atitudes de Margot: a energia já era.
As mesas antes perfeitamente enfileiradas agora estavam dispostas em uma confusão de balbúrdia. Uma das cadeiras havia ido parar janela afora, e outra estava pendurada no vidro da cozinha. Um dos lustres espatifou-se no chão. Agora literalmente o prédio inteiro estava um breu.
Xinguei-a mentalmente, e confesso que não esperava que as coisas fossem chegar àquele ponto. Essa era a bola de neve que eu tanto queria evitar. Margot havia desaparecido e do jeito que estava transtornada, eu tinha certeza que ela havia saído do prédio — e isso era a coisa mais perigosa que poderia acontecer com ela naquele estado. Felizmente, ela não conseguiria chegar à casa de Ash naquele dia, visto que suas memórias ainda deveriam estar turvas e ela precisaria de um tempo para se adequar lá fora. Infelizmente, agora Ash era um alvo e de fato estava em perigo.
Margot havia deixado o salão em caos, e não demoraria muito para que alunos e seguranças chegassem ali, e isso significava que eu tinha que sair dali o mais rápido possível. Me levantei com dificuldade e tentei ligar minha lanterna novamente, mas a queda havia deixado meu celular em frangalhos, e não sabia se ele funcionaria novamente. Completamente no escuro, tateei as paredes até achar a porta por onde havia entrado e ao tocar na maçaneta, um choque na minha testa fez com que eu fosse jogado novamente ao chão e gemer de dor. Avistei um fio de luz chegando perto de mim, que vinha da boca de uma lanterna e um rosto conhecido se ajoelhando ao meu lado.
— Não acredito. — gemi, tentando me levantar.
— Era só o que me faltava — bufou, sussurrando — Mas que raios você está fazendo aqui, garoto?
— Eu também deveria perguntar isso, você acabou de literalmente bater com a porta na minha cara.
— A minha bola de cristal quebrou, então foi difícil adivinhar que você estivesse aqui — ela revirou os olhos — Posso saber por que você está nesse breu parecendo um marginal e fazendo... — ela parou de falar assim que iluminou o restante do salão — Mas que merda aconteceu aqui?! Eu ouvi uns barulhos e vim...
— Não dá tempo de explicar, temos que sair daqui agora.
— Não é possível que você tenha feito tudo isso. Eu ouvi vozes antes de chegar, com quem você tava falando?
Antes de responder, ouvi passos correndo e mais feixes de luz porta afora.
— A gente precisa correr!
Antes que ela protestasse, peguei em sua mão e puxei-a porta afora, em direção contrária às escadas por onde eu havia subido — e por onde agora subia uma quantidade considerável de pessoas pela falta do elevador.
As escadas eram a única saída existente do prédio àquela altura. Se alguém nos visse naquela cena ao lado da destruição, não precisava pensar muito pra saber quais conclusões tirariam. Os dormitórios ficavam muitos andares acima, o que me dava tempo de abrir a segunda saída de emergência, ouvindo os gritos estarrecidos dos alunos ao longe. Desci os dois lances o mais rápido que consegui, estabilizando as costas na porta vermelha e tentando pensar o mais rápido que podia. Eu não sabia exatamente o que teria no corredor à minha frente, mas os guardas não iriam descansar agora que já haviam visto nossas silhuetas (e depois de verem a bagunça que estava no refeitório). Maldita Margot, que havia praticamente feito um convite à pessoas de fora com todo aquele circo.
Eu e não tínhamos muito pra onde correr. Àquela altura, os guardas já deveriam ter acionado mais colegas de trabalho e até mesmo a polícia, não por conta de dois penetras mas sim pelo vandalismo no refeitório — fora todo o desespero dos alunos que com certeza teorizavam um ataque terrorista. Eu precisava urgentemente lidar com aquela reviravolta.
, o que está acontecendo? — sussurrou e pude ver que ela estava com medo — Foi você…
— Não, mas seria difícil explicar às pessoas caso elas nos pegassem.
O barulho de vozes na rádio patrulha ia ficando mais alto. Era questão de tempo até que eles chegassem àquela porta. Estávamos no térreo e mapeei a direção da entrada dos fundos por onde eu havia entrado. Não muito longe dela, havia uma sala estreita de almoxarifado com uma porta azul na frente. Poderia não ser uma ótima ideia. Eu contava com a aglomeração de pessoas estar reunida principalmente à frente do restaurante, três andares acima. Meu peito arfava e cada respiração eram como lascas de pedra nas minhas costelas, mas eu não podia descansar. Encostei na parede antes de entrar no corredor, e pude ouvir os passos dos guardas à pouco mais de 50 metros.
... — respirava acelerado, ainda segurando minha mão — O que você tem na cabeça? Ainda não estou entendendo...
— Precisamos nos esconder. Se formos pegos aqui hoje vai ser um desastre, e eu vou precisar da sua ajuda pra isso.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos antes de concordar. sabia perfeitamente que aquela era a verdade; e ela também estava envolvida.
— Vou colocar na sua conta — ela se endireitou, encostando na parede ao meu lado — O que você quer fazer?
— A gente precisa chegar ao almoxarifado.
— Sem chance, ele está trancado uma hora dessas.
— Isso não é problema.
Dessa vez eu não pude observar o olhar que ela me lançou — como se eu fosse louco — e rapidamente a puxei na primeira brecha que as vozes ficaram mais distantes. Andamos rápido, sem correr, rente à parede e abaixados para as luzes que vinham do pátio não correrem o risco de nos pegar e chegamos à pequena porta azul. De joelhos, puxei novamente o grampo do bolso e entreguei a lanterna à , que apontou para a fechadura enquanto eu fazia o trabalho de destrancá-la.
— Uau — ela disse, assim que ouviu o clique — O que mais você esconde embaixo desse capuz?
— Vá por ali — uma voz não tão distante soou como se estivesse ao nosso lado, e de repente passos correndo pareciam vir em nossa direção.
Em um impulso, empurrei para dentro da sala e entrei logo em seguida, fechando a porta e apagando a lanterna mais rápido que consegui. Segundos depois, pelo menos quatro guardas passaram em frente à porta e de repente começaram a vasculhar o corredor à nossa frente minuciosamente. Olhei para e imediatamente tapei sua boca com minha mão ao ouvir sua respiração tão acelerada e alta, a ponto de surtar.
Havia uma pequena fresta de vidro em forma de quadrado na porta azul, não grande o suficiente para ver algo no escuro, mas se eles ficassem curiosos o suficiente a ponto de abrir a porta, não teríamos saída. Um suor escorreu pelo meu rosto ao ver uma lanterna passeando perto do vidro, e senti as mãos de pegarem com força em meu casaco. Ela estava com medo. Olhei em seus olhos, que estavam arregalados e visíveis mesmo no breu, e lhe lancei um olhar firme, tentando acalmá-la de alguma forma.
O feixe de luz parou por alguns segundos ao lado do vidro e se afastou depressa, junto com as vozes. Suspirei aliviado e soltei meus ombros, como se um caminhão tivesse saído das minhas costas. Tirei a mão da boca de e pela primeira vez reparei como estávamos grudados. Não que a sala desse vazão para que ficássemos muito mais longe do que aquilo — era um cubículo que já estava um pouco abarrotado pelas vassouras e produtos de limpeza. Mas ao ver que, sem o obstáculo da minha mão nossos narizes estavam quase se encostando, dei um passo pra trás, de repente constrangido pelo momento.
— Me desculpa — sussurrei, passando as mãos pelo cabelo.
— Que loucura — ela balançou a cabeça, ainda atônita com a situação — Quando vamos sair daqui?
— Quando eles derem uma brecha pra gente chegar até os fundos.
— Ah sim, Kim Possible. E quando seria isso? Você viu o estado do refeitório, daqui a pouco vamos ter que nos esconder da polícia, e não apenas dos vigias noturnos.
— Pois é, e se você resolver ajudar podemos fugir dos dois. — disse, enquanto me abaixava para revirar umas caixas de papelão.
— O que você tá fazendo agora? Tem certeza que tá em condições de se mexer desse jeito?
— Esse é o menor dos meus problemas agora. — levantei e peguei um dos esfregões, quebrando a ponta pelo joelho e amarrando um pano branco em uma de suas extremidades.
— Tá legal, é sério, o que é isso? Não... Você poderia me dizer o que raios está fazendo aqui pra começo de conversa?
— E você? O que tá fazendo aqui? — me virei para ela.
— Vim ver uma amiga. — ela deu de ombros.
— Os dormitórios estão no oitavo piso, você deveria estar presa no elevador a essa hora.
— Não ando de elevadores. Pelo visto foi a coisa certa a se fazer.
— Não precisa inventar desculpas pra mim. O que há pra investigar aqui a essa hora?
Ela levantou as sobrancelhas surpresa, e uma vermelhidão aparentemente até no escuro mostrou que ela estava constrangida.
— Bem... De certa forma é um assunto confidencial, pra minha matéria. Não preciso te responder sobre isso, ao menos a minha vinda aqui não causou um crime ao patrimônio.
Revirei os olhos e voltei ao que estava fazendo. Achei um vidro de álcool na primeira prateleira, já que era algo que era bastante usado e estava sempre à vista, e despejei sobre o pano.
— Tá legal, o plano é o seguinte: um de nós vai jogar esse pedaço de madeira bem perto da porta de entrada e isso vai chamar a atenção dos guardas por perto. Enquanto eles se concentram nisso, nós corremos até o portão dos fundos e os guardas que estão lá já vão ter sido acionados pelos guardas daqui da frente, então vamos ter exatamente pouquíssimos segundos de brecha pra ir embora. Você me entendeu?
Ela me olhou chocada por alguns segundos, mas acenou. Procurei um isqueiro nos meus bolsos e bufei ao perceber que eu estava realmente seguindo aquela medida para parar de fumar. pareceu perceber o que eu procurava e sacou um isqueiro da bolsa, entregando-o pra mim. Automaticamente olhei em dúvida pra ela.
— O quê? Eu sou precavida.
Acenei e me preparei pra ligar o fogo no pano, quando ela segurou minha mão.
— Deixa que eu faço.
— Ah... Não precisa, é melhor eu fazer.
— Quer parar de ser teimoso? Olha seu estado, você vai nos atrasar até chegarmos aos fundos. Pode me dar isso.
Ela agarrou o bastão de mim e abriu a porta devagar, me lançando um último olhar antes de correr para a direita. Sem perder tempo, corri para o lado contrário em direção aos fundos. Ouvi algumas vozes dos guardas do lado de fora gritando para prestarem atenção ao fogo, e visualizei a porta dos fundos por onde eu havia chegado. De repente eu parei, tomado por uma preocupação com que eu havia deixado para trás. Olhei para fora, onde de bem longe eu conseguia ver a silhueta das grades. Olhei para trás, sem nem sinal de e a sirene da polícia já podia ser escutada ao longe. Em um dilema como esse, eu precisava escolher o meu lado sem dúvidas. Se eu fosse pego no meio daquela confusão, as consequências seriam tamanhas que me dava até dor de cabeça. Eu mal poderia adivinhar a reação dos meus pais. O reitor me daria tantos pontos de demérito fossem necessários, isso se eu não fosse detido na delegacia mais próxima e tivesse que pagar uma fortuna de fiança, ou talvez fazer trabalhos voluntários durante toda a minha vida quem sabe. E não sei porque depois de citar exatamente todas as possibilidades de consequências que poderiam advir daquele evento, eu decidi voltar atrás pra buscar .
A minha perna já não estava funcionando muito bem, e a dor que eu sentia não me deixava pensar direito. Para minha sorte, andei alguns passos e avistei correndo com os olhos arregalados em minha direção. Sem dizer nada, ela agarrou meu braço e me puxou direto para a porta de saída, onde saímos pelo pátio extenso e nos embrenhando no escuro até o portão.
Tenho certeza que alguém nos viu. Jurei escutar um “Eles foram por ali” e uma lanterna pegar a ponta do meu capuz, o que me fez correr a plenos pulmões. Segui em direção á Riverside Dr, saindo de Morningside Heights, entrando em Washington Heights, próximo ao centro médico. Cheguei às grades mais afastadas do hospital, onde com certeza seríamos vistos. Meu carro deveria estar há pelo menos 1km de distância dali.
— Droga — ela murmurou olhando para o muro, e a vi tremendo um pouco.
— Está tudo bem? — perguntei, já posicionando meu pé nas linhas horizontais.
— Ah... Sim.
— Ei, olha pra mim — fiquei de frente pra ela, falando baixo — Eu vou primeiro e você vai atrás de mim, do outro lado eu te seguro. Ok?
Ela acenou, mas parecia nem estar respirando.
— Promete? — sua voz falhou e eu mal a escutei, mas acenei do mesmo jeito — Anda, eles estão chegando.
Consegui escalar o muro de 5 metros facilmente assim como na chegada, só que dessa vez tive que morder os lábios pra não gemer de dor. Ao chegar do outro lado, a bolsa de voou em minha direção e por pouco não a deixo cair; isso sinalizava que ela estava pronta para subir.
— Tenha cuidado — tentei falar o mais alto que a situação me permitia. Ela não respondeu e depois de alguns segundos escutei um grito agudo vindo do outro lado das grades e um estrondo no chão — ! , tá tudo bem? O que aconteceu? — ok, dessa vez eu gritei.
— Cala a boca! — ela gritou entre dentes — Eu estou bem! Foi só um mal jeito.
Depois de quase 3 minutos, a cabeça de apareceu no topo do muro onde ela de apoiava com o braço esquerdo, que estava sangrando na área do cotovelo. Como ela havia se machucado daquele jeito de uma distância tão pequena?
Estendi os braços, pronto para pegá-la, esperando que ela fosse cair objetivamente, mas ela simplesmente se desequilibrou ao tentar se sentar e caiu de qualquer jeito em cima de mim, que como não estava nas melhores condições, tentei segurá-la da melhor forma possível, mas quando me dei conta ela já estava em cima de mim e nós dois no chão.
— É sério... Você precisa parar de fazer isso — resmunguei, e fiquei extremamente nervoso ao perceber como eu sentia sua respiração pesada em minha boca. Por que ela sempre tinha que ficar tão perto de mim?
— Oh meu deus, me desculpa — ela rapidamente saiu de cima de mim, estendendo a mão para me ajudar a levantar. Reparei que um dos seus joelhos também estava sangrando.
— Você tá legal? — apontei para seus machucados.
— É, parece que sim. Só está um pouco dolorido, mas nada que um curativo não resolva.
As sirenes começaram ao longe com mais força e voltamos à realidade.
— O que a gente faz agora?
— Entra no carro! — falei e não dei tempo de ela protestar. Ela rapidamente abriu a porta do carona e dei a partida para finalmente sair dali.


Capítulo 7 - Sombras no vermelho

Um dilúvio inesperado começou a cair assim que a Columbia foi ficando cada vez mais distante na imagem do retrovisor. Queria poder dizer que havia um destino em mente, mas quando me dei conta já estava atravessando a ponte do Brooklyn. permaneceu calada durante todo o percurso, e, nas poucas vezes que a observei, estava pálida como se fosse vomitar e segurava o cinto de segurança com as duas mãos.
Estacionei nas redondezas da Bedford-Stuyvesant por volta das 3 da manhã, o que não era nada recomendado. A rua estava escura e vazia, somente com um bar aberto em nossa frente, com um letreiro em neon parcialmente ligado que dizia "Wilden's", pequeno e com várias spotlights vermelhas que davam um ar de cassino ao lugar. Olhei para novamente, e ela não havia se mexido um centímetro sequer.
— Você está bem? — perguntei, ao vê-la afrouxando aos poucos os dedos do cinto. Percebi que ela estava tremendo levemente.
— Você só sabe perguntar isso? — ela respondeu rude, e logo em seguida suspirou — Foi mal. Sim, estou bem... Acho que sim. Você sempre dirige como um maluco? E onde estamos, afinal?
— Na situação especial, posso ter me excedido um pouco na velocidade. — dei de ombros e a encarei com uma expressão de desculpas pois ela parecia realmente que iria vomitar — Acredito que estamos no Brooklyn, se a nova-yorkina puder me confirmar. Talvez tenha me excedido nisso também, mas não costumo dar carona para muitas pessoas. — ela apenas acenou com a cabeça, ainda olhando para frente — Você está com fome?
— Não. Quer dizer, sim. Não... — ela olhou para mim, como se ainda estivesse analisando se podia confiar em mim — Acho que posso aceitar um café.
Soltei o cinto de segurança e desliguei o aquecedor, e em seguida percebi que havia voltado a tremer. A chuva havia parado, deixando um frio gélido no ar e ela usava apenas um jeans e suéter. Lembrando-me na hora certa do casaco que eu sempre guardava no banco de trás, curvei o corpo para pegá-lo e coloquei-o no colo dela no momento em que ela desatava o cinto. "Vista", sem esperar sua resposta, abri a porta e saí.
Haviam mais pessoas do que eu esperava dentro do bar. Uma grande quantidade de fumaça provinda dos cigarros e o forte cheiro de cerveja e café tornavam o ambiente um tanto desagradável à primeira vista, mas parecia bem limpo. Havia uns três caras jogando cartas em uma mesa nos fundos do local e um casal sentados um ao lado do outro em outra mesa. Pelo meu senso observador, ela parecia mais uma garota que ele havia pego na esquina mais próxima. Eu e nos sentamos um de frente para o outro nos bancos acolchoados do bar, e, graças à luminária com led amarela colocada exatamente em cima da mesa, eu pude ver melhor seu rosto.
A palidez estava melhorando e ela parecia mais aquecida com meu casaco. Ela também pareceu me avaliar com seu olhar, mas de alguma forma parecia ser mais do que isso.
Uma garota loira e alta se aproximou de nós dois com um bloquinho de papel.
— Boa noite, pombinhos. O que vão querer? — ela tinha um largo sorriso no rosto e olhava de mim para .
— Pode me trazer um X-burguer e um café, por favor. — respondi e a garota girou o corpo em minha direção para anotar meu pedido, e deu mais um sorriso, dessa vez bem caloroso.
— Só um café, por favor. — disse, porém a garçonete apenas anotou o pedido, disse "Já volto" e seguiu para a cozinha, parecendo ajeitar o cabelo e caminhar de forma não natural.
soltou uma risada seca.
— Uau. Até com a cara arrebentada você consegue seduzir as garotas.
— Não é bem essa minha intenção. — revirei os olhos irônicamente. Ela apenas riu. — E você? Tem certeza que não quer comer nada?
— Eles não devem ter nada sem carne por aqui. E eu acho que não vou conseguir engolir alguma coisa até amanhã, então... — ela deu de ombros e abaixou os olhos, brincando com os guardanapos.
— Você realmente parece que vai vomitar.
— É a minha primeira vez fugindo da polícia, o que você queria? — ela parou com guardanapos e me olhou.
— Não fugimos exatamente da polícia...
— Você entendeu! — ela aumentou o tom de voz um pouco irritada, e em seguida olhou assustada para os lados — Oh, meu deus... É inacreditável as situações que eu tenho passado toda vez que você aparece na minha frente. Como eu ia adivinhar que eu acabaria essa noite em um bar estranho tão longe da minha casa?
— Você acreditaria se eu dissesse que esse sempre foi meu sonho? — levantei as sobrancelhas, irônico. Ela apenas revirou os olhos.
A garçonete colocou os pedidos à nossa frente e pegou o bloquinho mais uma vez, virando-se inteiramente para mim.
— Desejam mais alguma coisa? — ela perguntou, sorridente.
— Por enquanto é só isso, obrigado. — acenei com a cabeça e ela se retirou, ainda com seu caminhar peculiar. não parecia disposta a tirar sarro dessa vez.
— Tá legal, Ethan Hunt, precisamos conversar. Posso guardar todos os segredos possíveis sobre você que, acredite, são mais dos que os que eu tenho com minha prima mais velha, mas nada é de graça, ok? Eu preciso que você me conte sobre o que estava fazendo lá.
— Agora você vai me interrogar como se eu fosse um criminoso?
— Isso é sério, ! Penny já deve ter enchido minha caixa de recados, o pessoal do jornal já está sabendo da baderna que aconteceu no John Jay, e eu vou participar da execução dessa matéria, e por mais que você duvide, eu minto terrivelmente mal. Então, pra eu não me sentir tão culpada por ter estado na cena do crime e mais, por ter encontrado você lá, eu preciso não ficar no escuro nessa situação.
— Eu já disse que eu não fiz aquilo. — dei de ombros enquanto dava uma mordida no x-burguer. Eu sabia que as perguntas dela viriam mais cedo ou mais tarde.
— Mas você estava lá antes que eu chegasse, e tenho certeza de ter te ouvido falando com alguém. Você está acobertando outra pessoa, não é?
Suspirei, tentando desesperadamente pensar em alguma coisa.
— Eu já disse, não havia mais ninguém lá. Você deve ter me ouvido falar sozinho, já que eu também fiquei bem surpreso.
— Isso ainda não explica...
— Eu fui ao laboratório averiguar um experimento pro meu relatório. Não é tão distante assim do John Jay, um amigo vive lá. Foi apenas um caminho que eu tomei. Não é nada tão alarmante, fora o horário que eu resolvi fazer isso. — levantei as sobrancelhas — E eu tenho certeza que mais do que isso não lhe diz respeito algum.
Ela acenou a cabeça me encarando e por mais desconfiada que fosse, pareceu acreditar na minha palavra.
— Mas... Será que eu posso devolver a pergunta? O que você estava fazendo lá?
— Já disse, fui ver uma amiga — estreitei os olhos, esperando que ela continuasse — E investigar.
— Ainda o caso da Margot?
— Bem, sim. Como eu disse, depois do que você falou me deixou bem curiosa, então eu vim olhar os arquivos dela no Citizen.
Levantei as sobrancelhas e ficou em silêncio, até que arregalou os olhos, percebendo o que fez.
, em hipótese alguma isso pode sair daqui! É sério, isso é caso de expulsão!
Dei uma risada com toda a ironia da situação.
— Fica tranquila, . Você consultou informações sigilosas de outro aluno e eu fui visitar um traficante. Ambos fugimos de uma cena de crime, então acho que já temos o bastante pra guardar um do outro.
— Também acho que não precisamos de mais — senti-a corar um pouco e abaixar a cabeça — E seus machucados? Estão melhorando? Porque sua cara eu te garanto que não está.
— Muito obrigado pelo feedback — dei uma risada seca — E, bem, considerando o fato de que ganhei eles há um pouco mais de 24 horas, a resposta é não. Eles não estão melhorando, mas acho que consigo dar uma boa maquiada neles.
— Você foi ao hospital?
— Fui. — menti, tomando um gole do café — Relaxa, eu vou ficar bem.
— É... Aquele dia foi muito intenso. Nunca imaginei que Ash, ou ... — ela abaixou o tom de voz e desviou os olhos — Que nenhum dos dois pudesse fazer isso. Foi um terror.
— Mesmo? Podia jurar que você já estava acostumada com aquele comportamento sutil do seu namorado.
— Não preciso que você acredite, mas ele não é sempre assim... — ela disse, não me convencendo nem um pouco — Não que tenha sido certo.
— Ele nem sempre parte pra cima de quem o contraria? Ah, claro, posso acreditar nisso. Afinal, como ele e Ash continuariam com a parceria amigável no esquema do tráfico, não é? — ela me encarou um pouco chocada, abrindo a boca pra falar algo, mas eu a interrompi — Você simplesmente é conivente com tudo isso, mesmo sabendo que eles podem ter algo a ver com a morte de Margot?
— Como você tem tanta certeza disso?
— Eu não tenho certeza de nada, tanto que foi essa dúvida que fui tirar naquele dia. Mas ele não pareceu levar muito na boa...
— O que no mundo te faria pensar que Ash faria uma coisa dessas com Margot? Se você os conhecesse...
— É, mas não o conheço. Mas não vou mentir, eu realmente não sinto que tenha sido ele que tenha feito isso. Mas alguém fez.
— Então levando pro lado do homicídio, quem faria isso então?
— Não sei. — dei de ombros — Não é você que está encarregada desse trabalho?
— Qual é, — ela aproximou seu rosto para mais perto de mim, mesmo estando do outro lado da mesa — Eu sei que você sabe de algo que não quer me contar. E acho que já provei o bastante que não vou espalhar suas maluquices por aí, porque, né... De certa forma eu estou envolvida também. Então de algum jeito nós podemos trabalhar juntos nisso, eu publico a matéria e ganho créditos quem sabe a nível nacional e até cito seu nome pra ganhar mais bajulações. O que você acha?
— Acho que você não deveria se meter nisso — eu disse sério, ela me olhou confusa — Nada me garante qual será a reação de se ele souber que você está mexendo com isso.
Ela revirou os olhos, voltando a se encolher no banco.
— Esse é um assunto bem complicado, acho que não vale a pena falarmos dele.
— Você paga de certinha, mas tem um caso gigantesco bem embaixo do seu nariz e não o entrega pra proteger seu namorado? Um otário de primeira, posso te garantir.
— O que você disse? — ela riu de nervoso — Em primeiro lugar, não estou protegendo ninguém. Eu apenas foco em coisas maiores do que universitários tomando pílulas sem receita, e jamais imaginei que isso poderia matar algum deles. — ela respirou fundo, mas dava pra ver que estava nervosa — E sobre , você não tem o direito de criticá-lo, você nem o conhece. Ele é apenas um cara complicado, se enfurece com facilidade, foi culpa sua provocá-lo...
— Você tem medo dele. — a interrompi, e ela abriu a boca para continuar falando, mas de repente se calou.
— E-eu... Da onde você tirou isso? Não tenho medo dele, estamos juntos há muito tempo.
— Não vê como ele te trata? Isso é um diagnóstico para idiotas com toda certeza.
— Você apenas o pegou em um dia ruim. E ele é filho do reitor, automaticamente é uma figura importante, não é tão simples assim acusá-lo de ser cúmplice no esquema de Ash.
Eu dei uma risada, que pareceu a deixar mais nervosa ainda.
— Acredite, seu namorado e todo esse esquema são o menor dos meus problemas. Eu só quero saber quem matou a Margot.
— Então nós dois queremos a mesma coisa! Por que não podemos nos ajudar?
— Nos ajudar. — soltei uma risada — Temos objetivos completamente diferentes com essa história, então não acho que seja benéfico pra nenhum dos dois se trabalharmos juntos.
— Ao menos eu te disse qual é meu objetivo. Qual seria o seu?
— Isso realmente não é da sua conta.
— Tudo bem, lobo solitário, pode fazer isso sozinho. Também consigo interrogar o Ash, e aposto que de uma forma bem menos agressiva do que você.
— Eu não faria isso se fosse você. — disse, sério, pensando sobre a promessa de Margot e que não demoraria para que ela o achasse.
— O quê? Você acha que ele vai mandar o Tico e Teco pra acabarem comigo também? Ele tem um pouco de noção.
— Afinal, por que raios você está tão obcecada com esse assunto? Eu tenho certeza que outras oportunidades surgirão pra sua ascensão na sociedade, e talvez até melhores ainda.
— Porque é injusto! Desde o começo eu tinha certeza que Margot não havia feito isso com ela mesma, eu sabia um pouco sobre ela. Só que como iria provar algo que estava tão bem resolvido para os outros? Eu desanimei. Graças àquela sua conversa aquele dia, eu finalmente pensei que seria possível provar que todos estavam errados, e quem sabe amolecer o coração da mãe dela. — ela suspirou — Nós havíamos conversado quando ela saía com Ash. Eu e Margot tínhamos muitas coisas em comum.
— Namorar idiotas está incluso nessa lista?
Haha, muito engraçado. Pode-se dizer que tínhamos os mesmos ideais.
— Ah, você diz de toda essa coisa vegana? Pode deixar que existem um milhão de grupos por aí que não vão deixá-la se sentir só, principalmente na hora de comer aquilo que tem gosto de sola de sapato.
— O quê? — ela ameaçou um riso — Você deveria experimentar mais as opções veganas do John Jay. Dá pra comer praticamente tudo que você come sem derivados.
— Os sorvetes são péssimos.
— Também é uma questão de acostumar o paladar — ela deu de ombros — O que você come nas segundas sem carne?
— Eu vou ao Hewitt.
me olhou espantada e soltou uma risada alta, colocando as mãos na boca.
— O Hewitt não é uma opção! — ela ainda ria — Qual é a sua comida favorita? Tenho certeza de que pode encontrá-la na minha versão.
— Quer saber mesmo? — ela assentiu — Bolo de carne.
Ela balançou a cabeça e riu, e não consegui me conter. Senti o peito ficar quente ao lembrar do bolo de carne da sra. Dundy no orfanato. Não era nada igual às iguarias que minha mãe havia me servido a vida toda.
— Isso não é justo. Achei que seu gosto fosse mais…
— Refinado? — completei sua frase e ela concordou lentamente depois — Achou que eu só bebesse vinho do Porto e fumasse Insígnia? Ou melhor, deve ter achado que eu passo meu tempo livre em um campo de golfe usando camisa polo...
— Infelizmente eu não consigo me segurar para julgar as pessoas — ela estreitou os olhos — Sempre pensei que o notável aluno número 1 fosse um cara sério, sofisticado, com gostos elegantes bem diferentes de tatuagens, brincos e x-burguer em bares suspeitos no meio da noite. É incrível como um cérebro brilhante pode habitar em um cara boêmio, delinquente e um tanto esquisito — ela deu uma risadinha, sem maldade — Será seguro agendar uma consulta futura com você, doutor?
— Ei, isso é preconceito — apontei o dedo para ela, mas não consegui assumir uma expressão séria — E como oncologista, eu espero que você jamais agende consulta alguma comigo. Posso não ser muito confiável pra cuidar de você.
Dei um sorriso divertido e ela corou, desviando os olhos para o café. Depois de um segundo percebi como a ambiguidade era uma merda. Onde havia ido parar o filtro entre minha mente e boca para não ser mal interpretado daquela maneira?
Depois de alguns minutos de um silêncio constrangedor, dei um pigarro antes de continuar:
— Então… — falamos ao mesmo tempo. Fiquei em silêncio para que ela falasse.
— Oncologia? Tem algum motivo especial pra isso? — ela gesticulou com as mãos, parecendo nervosa. Sua tentativa de mudar o assunto era evidente.
Tinha um motivo. Não que eu pudesse contar.
Levantei os ombros, descontraído.
— Acho que me identifico com a área — estendi minha mão sobre a mesa, brincando com a barra do meu casaco — E você? Por que a profissão mais enxerida de todas?
— Ei, informação é uma coisa importante. E sempre gostei de me manter bem informada. Pelo menos para a maioria das coisas… — ela baixou os olhos repentinamente e bebeu um gole do café. Pareceu uma forma de não querer falar mais sobre o assunto.
Ficamos em silêncio novamente. Fiquei com vontade de perguntá-la se havia algo errado, mas era óbvio que havia.
Parecia a hora certa de dizer que era hora de irmos. Uma música baixa começou a tocar ao fundo, e reconheci os acordes de Something. Encarei a janela, cantarolando uma parte da letra e automaticamente tamborilei os dedos de leve na mesa, acompanhando o ritmo da música.
Olhei para ela. Ela inclinou os ouvidos e também parecia estar reconhecendo a música. Seus olhos cintilavam em minha direção e não consegui desviar desse olhar. Uma sensação estranha me tomou e de repente senti como se apenas nós dois existíssemos dentro daquele lugar, e o mundo porta afora não havia a menor importância. Como se os olhos dela fossem a porta para um universo estranho e denso e eu estivesse com uma vontade súbita de mergulhar nele.
“Something in the way she moves, attracts me like no other lover..”

Um berro ensurdecedor calou a música ao redor e me fez pular de susto, acordando do torpor e da sensação esquisita que fiz o dever de varrer o mais rápido possível da minha mente. Olhei para trás e um dos caras na mesa do baralho pareceu ter levado toda a grana da noite.
— Beatles, é? — ela deu um sorriso de canto, parecia um pouco envergonhada — Você é realmente uma caixinha de surpresas, senhor .
Ela deu uma risadinha e pude perceber que ela havia voltado à missão de me zoar.
Revirei os olhos, também rindo no final das contas.
— Vá, me diga: achou que eu escutava Mozart, tocasse piano e frequentasse óperas? Ah, não vamos nos esquecer do vinho do Porto…
Ela soltou uma gargalhada.
— Eu não fui tão longe assim a ponto de fazer suposições sobre o seu gosto musical.
— Mentirosa — cerrei os olhos e soltei uma risada.
acompanhou minha gargalhada. E foi tão contagiosa que me fez rir junto, e de repente estávamos rindo um do outro sem motivo algum — e foi tão bom, tão envolvente, e tão... Estranho. Foi inexplicável o que senti no meu estômago naquela hora. Deviam ser as risadas.
O ar pesou repentinamente. Minha risada imediatamente desapareceu quando vi uma pessoa atrás de . Uma pessoa que não estava lá antes.
"É apenas mais um morto, se não lhes der atenção, eles vão embora rápido". Era esse o meu pensamento padrão quando aquelas coisas aconteciam. Mas aquele não era um fantasma normal.
Ele surgiu em meio à um vulto negro e espesso, se materializando em um cara alto e magro, de roupas igualmente pretas da cabeça aos pés e grandes rodelas escuras embaixo dos olhos, pálido como... Bem, um fantasma.
Ele olhava diretamente para , nada mais. Seu olhar era firme, arrisco dizer que até furioso. De repente aquela sensação ruim, sugadora, angustiante que eu havia sentido naquele primeiro dia da festa veio à tona. Quando eu vi aquela aparição estranha pela primeira vez. Mas agora eu tinha certeza que não era coisa da minha cabeça — e tinha certeza que ele tinha um alvo.
Um pequeno desespero começou a se formar no meu peito. ainda balbuciava algumas palavras, e eu fazia o possível para agir normalmente, mas não dava pra mentir: eu estava extremamente absorto com aquela situação totalmente nova. O que estava acontecendo? Por que esse cara não parava de olhar pra ela?
— Mas o que você está olhando... — ela perguntou, virando-se para trás.
— Vamos embora! — falei impetuosamente, tirando minha carteira do casaco e jogando algumas notas na mesa.
Ela me olhou confusa e em seguida olhou o relógio.
— É... Melhor nós irmos, eu ainda nem pensei na desculpa que vou dar à minha mãe caso ela resolva acordar no meio da noite. Será que existem pontos de táxi aqui perto?
— O quê? — dei uma risada até um pouco alta — Olha, sei que eu não sou sua pessoa favorita, mas não precisa descontar na boa educação que ganhei dos meus pais. Jamais te deixaria pegar um táxi uma hora dessas.
— Você não está entendendo, meu caro cavalheiro. Se alguém por acaso me ver saindo de um carro desconhecido a essa hora, isso não vai pegar nada bem...
— Levanta antes que eu te carregue, e é sério!
Ela arregalou os olhos para mim, mas levantou. Nosso momento descontraído, ou seja lá o que foi aquilo, havia acabado.
— Mas o que está acontecendo!?
Peguei na mão de e andei a passos largos para fora do bar. Escondi-a atrás de mim ao passar do lado do fantasma estranho, e ele não olhou para mim nem sequer uma vez; continuava com seus olhos cravados nela a cada passo. Aquilo não era bom, não era.
Felizmente, ao sairmos do bar, ele continuou lá. Quando olhei para trás pela última vez, ele havia sumido. Fui tomado por um alívio instantâneo, mesmo eu não tendo a menor ideia do que tinha acabado de acontecer.
! — gritou, o que me fez acordar e voltar para o momento presente. Olhei pra ela, que parecia irritada, e soltei nossas mãos rapidamente como se pegassem fogo. — Você realmente tem um parafuso a menos, é impressionante. Como você me arrasta de um local assim? E se alguém nos visse?
— Foi... Foi instinto, me desculpa. Podemos ir agora?
— Instinto? — ela arqueou as sobrancelhas — Você é mais galinha do que eu pensei. — ela balançou a cabeça e entrou no carro.
— Onde você mora? — perguntei, ainda olhando pela janela de vidro onde estávamos sentados há um minuto atrás, onde agora a garçonete limpava a mesa.
respondeu o Queens e eu já estava dando a partida no carro, talvez indo mais rápido do que quando saímos da Columbia. Não vou negar que eu estava um pouco apavorado com o desconhecido — e eu não me lembro a última vez que fiquei daquele jeito, talvez quando eu vi o primeiro fantasma da minha vida ao pé da escada no orfanato quando eu tinha dois anos, e por isso eu não estava sabendo controlar muito a questão do comportamento de normalidade. Eu não sabia o que era aquilo, mas sabia o que eu estava sentindo: ele com certeza estava atrás dela e isso me perturbava mais do que a própria aparição.
Estacionei na frente da enorme mansão onde morava. Não que me interessasse quanto dinheiro ela tinha, mas pelo visto era muito. As luzes estavam apagadas e sua rua era particularmente escura e deserta, e tinha um ar sombrio de madrugada.
— Bem... Obrigada pela carona. — ela desatou o cinto de segurança e me deu um meio sorriso, tirando o meu casaco — Acho que já estamos entendidos sobre o que aconteceu hoje, não é? E espero que seus machucados melhorem. Então... — ela abriu a porta do carro.
, espera! — disse rápido, o que a fez girar o corpo para mim — Sobre o assunto da Margot... Acho que podemos trabalhar juntos.
abriu a boca e voltou a fechar a porta.
— O quê? — ela sorriu — Você tá falando sério? Mas o que aconteceu? O que o fez mudar de ideia?
— Não temos tempo pra isso agora. Você topa ou não?
— É claro que eu topo! Isso é demais! — ela ficou tão extasiada que se aproximou de mim para talvez me dar um abraço, mas desistiu na última hora. Em vez disso, ela abriu a bolsa e escreveu um número em um Post-It, colando-o acima do painel — Liga pra mim amanhã bem cedo, manda mensagem, o que for. Precisamos discutir sobre isso urgentemente. — ela deu mais um sorriso e voltou a abrir a porta — Se não me ligar, eu vou ao seu departamento. — ela deu uma piscadinha e saiu do carro. Mas qual é o problema do meu coração?
Depois de ver entrando em casa, ainda aguardei mais uns minutos antes de ir embora.


Capítulo 8 - A morte está bem à frente

Queria poder dizer que havia dormido bem, mas duas horas não é tempo suficiente pra isso. A imagem daquela aparição medonha não saía da minha cabeça e nunca desejei tanto ver minha vó. Ela poderia não ter as respostas, mas eu precisava saber que não estava louco. Também queria falar com Jane, mas hesitei com o pensamento de tirá-la de qualquer serviço que estivesse tendo no momento. O jeito foi ficar andando de um lado a outro tentando lembrar de qualquer referência sobre tudo que eu vivi até hoje com os mortos, e se eu pudesse ligá-las aquilo.
Mas não havia referência. Eu nunca havia presenciado tal coisa antes, e pensei bastante nisso. Na maioria das vezes, eu era procurado pelos fantasmas que haviam acabado de morrer, e geralmente tinham problemas bem simples, apesar de irritantes. Vez ou outra sempre tinham aqueles mais pirados, que já estavam aqui há um tempo, e mal se lembravam de sua própria identidade. Era com esses que eu havia ganhado grande parte das minhas cicatrizes e faziam minha mãe pensar que eu era completamente problemático.
Mas eu nunca, jamais havia visto um fantasma com aquela aura negra e perturbadora. Sua presença era tão esmagadora que eu ainda podia sentir minha garganta fechando, uma estranha sensação de estar sendo sufocado. Era algo sinistro.
E eu não sabia nada sobre isso. Tentei chamar minha vó dezenas de vezes, mas infelizmente quando eu mais precisava ela nunca estava presente. A única coisa que eu tinha certeza absoluta era de que era o alvo daquela aparição estranha. Ele esteve presente naquela festa e estava presente no bar, e deveria estar presente agora mesmo ao lado dela enquanto ela dorme. Esses pensamentos me deixavam maluco de desespero. Aquilo definitivamente não era nenhum fantasminha protetor. Ele queria matá-la.
Pensei que ficando perto dela talvez eu pudesse decifrar melhor aquela coisa, e de quebra não deixar que morresse. No momento do impulso eu disse a ela que a ajudaria a investigar o caso de Margot, mas agora não sabia como contornar aquela situação. Em um final de semana, eu acumulei todos os problemas que evitei a vida inteira.
Antes de dormir, consegui ligar meu celular com algum custo e mandei uma mensagem para o número que havia anotado no Post-It. Era apenas um ponto de exclamação, mas eu sabia que ela iria entender. Desejei que ela fosse a primeira coisa que eu visse assim que abrisse os olhos, e por um momento esse pensamento me deixou ansioso.
A Columbia estava um caos àquela manhã. Haviam avisos por toda universidade e meu celular agora recebia notificações do fórum por causa do aplicativo que havia instalado nele. Todos se perguntavam como o refeitório do John Jay havia sido destruído na noite anterior justo em um momento de um baita pico de energia, onde as câmeras não puderam filmar nada. Aparentemente a polícia falaria com pelo menos umas vinte pessoas e, claro, teríamos de almoçar no JJ’s ou no Ferris Booth, já que havia uma enorme faixa amarela cercando o local.
Fui até a enfermaria e a senhora Vanderbilt quase teve um ataque ao ver meu estado, mas pedi sigilo a ela como sempre — NY já havia me trazido problemas com os mortos antes, mas nada naquele nível. Não sei se é porque ela já era idosa, mas a desculpa dos meus supostos treinos de boxe sempre caíam como uma luva para ela.
Depois de meia hora, eu me sentia bem melhor com os curativos e remédios certos, mas ela deixou claro que eu precisava ir pra casa e descansar — e, claro, ir a um hospital. Mesmo que eu não estivesse pensando em fazê-lo, agradeci a ela e me preparei para a próxima resolução de problemas do dia.
Não liguei porque meu celular agora funcionava a hora que queria. Fui direto para o departamento da computação, na "biblioteca" que era uma sala com várias mesas compridas e computadores que parecia mais uma lan house. Sabia que gostava de passar o tempo aqui quando não estava comigo, então foi fácil enxergá-lo nos fundos da sala, com um headphone na cabeça e concentrado no que eu adivinhei ser algum jogo online.
Parei ao seu lado, mas ele continuou concentrado. Puxei uma cadeira e dei uma leve cutucada em seu ombro, o que o fez olhar pra mim e em seguida revirar os olhos.
— Não se pausa jogos online — ele murmurou, ainda olhando para a tela.
— Tenho um pedido importante pro meu hacker particular.
não disse nada por alguns segundos, e em seguida digitou rápido algumas palavras em algum tipo de chat e retirou o fone, fechando a tela.
— Você sabe que eu recebo multa por abandonar a partida, não é? Portanto, se for pra você me pedir pra baixar um dos seus livros de Anatomia na deep web, pode transferir o dinheiro pra minha conta.
— Preciso que você me dê informações — puxei a cadeira ao seu lado — Na verdade… Sobre a surra que eu levei na festa, eu sei quem foram os caras.
— Como é?! — ele sussurrou, se aproximando — Eu devia saber, você jamais esquece das coisas. Por que não me contou antes? Eles te assustaram tanto assim?
— Não foi esse o caso. Eu vou te contar, mas você precisa me prometer que além de não contar pra ninguém, não vai fazer nenhuma gracinha como hackear qualquer coisa que seja sobre eles. — ele revirou os olhos, mas apenas assentiu concordando — Tá legal... — suspirei — Eu tive uma briga com o namorado da , e...
— Você brigou com ? — falou um pouco alto demais, e duas das únicas pessoas que não usavam fones enormes na cabeça se viraram para nós, com uma certa cara feia. Dei um soco de leve na perna de e dei um sorriso amarelo de desculpas — Desculpa, cara. Mas... Como assim?! O que te levou a isso? Ele ficou maluco só por causa do seu tombo com a ? Ele é bem mais medonho do que eu pensei...
— Não... Quer dizer... Não foi só ele. Tinha um cara chamado Ash, e mais dois...
— Ash?! Você está falando do Ash do esquema dos entorpecentes?
— Shiu! — alguém balbuciou ali perto e eu escondi meu rosto entre as mãos, me perguntando por que eu insistia em ter conversas reveladoras com em lugares fechados.
— Espera aí, ), como você sabe da existência do Ash? Só quem sabe sobre ele já... Você sabe... — ele fez um gesto colocando um dedo no nariz.
— Não foi pra nada disso que você está pensando. E agora quer me contar sobre você? Como você conhece o Ash?
— Eu não o conheço necessariamente, o conheci em uma festa aleatória onde Bryan fez uma compra dele, eu só vi tudo, mas não achei relevante. Agora por que diabos você se meteria em uma briga com ele?! O que foi que você comprou?
— Eu não comprei nada, eu só... — suspirei e fechei os olhos por um minuto. Eu não sabia como explicar aquilo sem ter que falar tudo — Eu estava interessado em algo, foi isso. — dei de ombros — Mas na hora, o entrou no quarto e acabamos discutindo. E aí rolou a briga.
— Meu irmão, esse cara é maluco mesmo — balançou a cabeça e se recostou na cadeira — Olha o estado em que ele te deixou. Ah, mas eu juro que se ele aparecer na minha frente...
— Você não vai fazer nada, esqueceu o que conversamos? Fora que ele só deu o primeiro soco, o resto do trabalho foi concluído por dois caras aleatórios que estavam com Ash.
— Covardes! — rangeu os dentes, e tinha uma expressão realmente furiosa — Mas por que afinal foi toda essa discussão com para as putinhas de Ash fazerem isso com você? Tem realmente algo a ver com a ? ), não me diga que você e ela...
— Ei, ei, tá maluco? A garota não tem nada a ver com essa história, eu nem a conheço, esqueceu? Acho que eu só fui... Exigente demais com os produtos, só isso. E já tinha rolado um estranhamento entre nós no primeiro dia da festa, nada que venha ao caso. — dei de ombros — Talvez ele já estava alto naquele ponto da festa, mas não importa. O que importa é que eu quero saber o que você sabe sobre o Ash.
— Puts, nada — levantou os ombros, dando uma risada baixa — Na verdade, acho que nem os amigos dele sabem alguma coisa. O cara é conhecido sob um nome falso e ninguém é interessado o bastante pra consultar a pauta de presença das aulas dele. Sei o que todo mundo sabe: que ele vende todo tipo de coisa. Existem até teorias sobre isso, tipo que ele traz as mercadorias do México ou que ele tem um trailer pra cozinhar metanfetamina, coisas assim.
— Não é exatamente esse tipo de coisa que eu quero saber — suspirei, tentando pensar em outro método — Ele tinha uma namorada? Sei lá, alguém que ele andava vendo…
— Não faço a mínima ideia, ele estava com uma garota diferente a cada festa que eu o via. Mas, espera, eu acho que… — ele juntou as sobrancelhas — Tenho quase certeza que já o vi com a Margot — ele olhou para os lados lentamente, como se estivesse falando algo proibido — Sabe a Margot Abbott? A garota que morreu semana passada? — um arrepio passou pela sua espinha.
era o tipo de cara que acreditava que falar o nome das pessoas mortas automaticamente era um ritual de invocação. Bom, pelo menos ele poderia ficar tranquilo com relação à isso.
— Sei… — acenei.
— Por que o interesse nesse cara? Tá pensando em se vingar? Pode contar comigo!
— Claro que não — olhei-o como se fosse o maior absurdo de todos — Eu só acho estranho esse cara viver no anonimato em pleno século XXI.
— Isso é conveniente pro negócio dele — deu de ombros e começou a desligar o computador — Afinal, como iriam entregar alguém que ninguém sabe o nome? E fica fácil provar que não é ele, ainda mais com a parceria que ele tem com o por baixo dos panos, o que já é ameaçador para qualquer um por si só — ele pegou a mochila — Onde vamos almoçar hoje? Com todo esse circo sinistro que aconteceu no refeitório. — tremeu — Parece até coisa de fantasma.
Dei um sorriso de lado e caminhamos pra fora da sala. Ele mal fazia ideia.

***


Mais uma sessão de burburinhos e deduções estava acontecendo durante as minhas aulas daquele dia. Parte delas eram adivinhações em relação ao que poderia ter causado o alvoroço no John Jay e parte sobre a festa do fim de semana. Depois do professor ter de pedir silêncio mais de duas vezes, eu havia desistido de prestar atenção, não que eu já não estivesse tendencioso à isso à medida que qualquer perda de foco que eu tinha, a aparição horrenda voltava a tomar meus pensamentos. Consequentemente, eu encarava meu celular a cada minuto para verificar se havia respondido minha mensagem, e não vê-la estava me deixando agoniado, e já era quase meio dia. Será que ela havia faltado às aulas? Será que estava tão cansada que dormira até agora? Será que não estava em casa? Eu precisava urgentemente me focar para não enlouquecer.
Com o sinal do fim da aula, meu celular apitou uma vez, e duas, e três. Olhei apressadamente e nem posso descrever o alívio quando vi o nome dela no visor, logo abaixo do nome de que dizia que estaria esperando em frente ao Lerner Hall para irmos ao Ferris Booth. A mensagem de tinha apenas uma frase que dizia: "John Jay, 1º piso, agora!”.
Meu coração disparou. Eu tinha aulas no centro médico em Washington Heights, e até chegar em Morningside Heights era uma caminhada de dez minutos. não se importaria de esperar um pouco. Juntei as minhas coisas rapidamente e atropelei algumas pessoas ao sair da sala, e não pude controlar meus pés até chegar ao meu carro que eu havia deixado na frente do prédio. Em poucos minutos eu cheguei corredor indicado.
Ele estava vazio, a não ser por duas ou três pessoas em frente ao prédio mexendo no celular ou conversando entre si, e comecei a pensar que aquilo não poderia ser o que eu estava pensando.
Antes que eu me desesperasse, fui puxado pelo braço para dentro da mesma salinha azul da outra noite, com a porta sendo fechada rapidamente atrás de mim. Não estava mais tão escuro, e pude ver colocando o dedo indicador na boca para que eu não fizesse barulho.
Observei-a sem dizer nada. Ela estava bem. Ao menos parecia bem. Havia um curativo em seu cotovelo e joelho onde ela havia se machucado ao cair do muro, mas fora isso ela estava perfeitamente bem. O cabelo estava solto, com duas mechas presas atrás e ela usava um vestido azul sem mangas com detalhes em vermelho. Não havia olheiras em seu rosto e nem outros machucados, nem aura diabólica alguma atrás dela.
! — ela falou mais alto, estalando os dedos à minha frente e voltei à realidade — O que deu em você? Tem alguma coisa no meu rosto?
— Ah... Foi mal, estou meio distraído. Não dormi muito bem essa noite. E você?
— Eu... O quê?
— Você dormiu bem? Está tudo bem?
— Ah... Sim. — ela juntou as sobrancelhas, confusa — Não dormi as horas necessárias, mas dormi muito bem. Nós precisamos...
— E os seus machucados? Como cuidou deles?
— Eu mesma cuidei disso, um kit de primeiros socorros básico. Não é a primeira vez que eu tenho que fazer isso... — deu de ombros.
— Como assim não é a primeira vez? — interrompi. me olhou confuso mais uma vez.
— Bem, eu não sei qual é o seu problema hoje, mas as pessoas se machucam. E ponto final, nada disso mais importa. Podemos ir direto ao ponto?
Sei que ela me olhava como se eu fosse maluco, e sei que eu estava me entregando ao tratá-la com toda aquela ansiedade, mas eu não sabia como agir. Eu não sabia quando o fantasma voltaria a aparecer, e mesmo que aparecesse, eu não sabia como lidaria com ele. Percebendo meu silêncio, continuou:
— É o seguinte, o que vou te dizer é um pouco chocante, mas isso não saiu da minha mente nem por um minuto e eu preciso saber se você está disposto a qualquer coisa pra descobrir quem matou a Margot.
— Sim... Sim? Você está me assustando, o que você está pensando?
— De todos os lados que eu olho nessa história, não vamos conseguir nada dando um passo maior que a perna, então precisamos começar do começo. Nós temos que descobrir como exatamente ela morreu, só aí a gente vai poder fazer alguma coisa. — ela falava rápido e gesticulava bastante com as mãos, parecendo se esforçar para colocar as palavras em ordem em sua cabeça. Apenas assenti com a cabeça, com uma certa expressão confusa — E... Bem, nós só vamos descobrir isso com a autópsia.
— E você acha que essa não foi a primeira coisa que eu pensei? Mas não dá, os pais dela já negaram, e não há possibilidade mais...
— Eu estou dizendo de nós fazermos isso, . — ela me interrompeu, abaixando o tom de voz na última frase — Quer dizer, você fazer isso.
Fiquei sem fala por alguns segundos, e me olhava com um certo desespero pela minha resposta. Quando reencontrei minha voz, só consegui proferir tais palavras:
— Você ficou maluca?
— Eu sei, eu sei. — ela respirou fundo e me olhou um pouco perdida, sem nexo. Era o que aquela proposta era: sem nexo — Sei que isso parece loucura, mas eu não sei de que outra forma forma a gente pode descobrir isso, tá legal? Eu nem sei se é possível, eu apenas pensei, eu...
— Talvez você tenha se esquecido de que precisamos de uma coisa muito importante pra fazer uma autópsia, que é o corpo da pessoa! — disse entre dentes, ainda com a expressão de choque — Aliás, dado o tempo, isso não seria mais uma autópsia e sim uma exumação! Você tem ideia de que está propondo que desenterramos um cadáver?!
— Pode até ser, mas...
— Sabia que o tempo mínimo para uma exumação é de 3 anos? Margot morreu há uma semana e está enterrada há menos tempo que isso, o corpo dela mal começou a deterioração...
— É exatamente por isso! Eu tenho certeza que ainda dá pra descobrir alguma coisa, a decomposição é mais lenta embaixo da terra, e a maluca da mãe dela não concedeu o mínimo de dignidade à Margot de ser enterrada na própria cidade e resolveu fazer um velório aqui, eu estava presente, eu sei...
— Foi pra isso que você pediu minha ajuda? Por que não quer ir pra cadeia sozinha? Eu tô realmente impressionado...
— Olha, eu sei, eu sei. Talvez eu não esteja dando um exemplo de cidadania te propondo isso pra minha matéria, mas se nós não conseguirmos provar que Margot não cometeu suicídio, a polícia nunca vai reabrir esse caso, entendeu?
Abri a boca para protestar, mas as palavras se perderam. Eu realmente não sabia o que dizer, e mesmo sendo totalmente contra à ideia, não sabia como convencer do contrário. Realmente era necessário provar que Margot não havia cometido suicídio, mas fazer isso daquela forma nos levaria à consequências desastrosas. E eu nem digo da polícia em si, que já seria calamidade o suficiente, mas não sabia do que eu sabia: o quão desconfortável seria para Margot toda aquela cena? Ela já não estava bem da cabeça com toda a raiva e o rancor com Ash, a última coisa que ela precisava era de dois enxeridos abrindo seu corpo sem mais nem menos.
As engrenagens na minha mente giravam desesperadamente tentando me trazer soluções enquanto ainda me encarava, esperando uma resposta. Seu olhar me passava o quanto ela estava incerta com aquela proposta, e eu sabia que ela não insistiria caso eu negasse. Mas como eu explicaria que de alguma forma eu sabia que fantasmas não ficam lá muito felizes com pessoas estranhas mexendo em seus corpos, principalmente os que já estão um pouco desequilibrados?
, olha... Não vamos fazer isso, ok? Podemos pensar em outra coisa. Tenho certeza que existe outra solução pra isso, uma não tão radical.
— Então eu imploro que você me diga qual é. — ela deu de ombros, um pouco menos ansiosa do que antes.
Na verdade, realmente havia um jeito, igualmente não muito recomendado. Um jeito que só eu poderia resolver, mas não sabia como iria convencer disso.
— Você confia em mim? — perguntei sério, me aproximando um pouco de seu rosto para falar mais baixo. Senti-a ter um calafrio, mas não desviou do meu olhar.
— Acho que ainda não sei responder isso.
— Eu quero evitar que você se meta em uma enrascada, então só dessa vez, será que pode confiar um pouco em mim?
— Eu posso saber o que você está pretendendo fazer? É pedir muito que você me deixe participar também?
— Sim, é! Eu tô falando muito sério, pelo menos por dois dias, não faz nada, me entendeu? Sai com suas amigas, se concentra no seu trabalho, mas não inventa de fazer nenhuma loucura. — olhei no relógio do celular e vi que já havia deixado esperando tempo demais, e eu não estava afim de responder mais perguntas naquele dia — Preciso ir, está me esperando. A gente pode continuar essa conversa depois.
não disse nada e pegou a bolsa que havia deixado no chão, colocando-a no ombro. Abri a pequena porta pronto para sair, mas eu não esperava que ela fosse sair junto comigo ao mesmo tempo. Por sorte, não havia ninguém no corredor naquele momento. Ao menos, ninguém desconhecido.
Tive poucos momentos na vida em que literalmente fui "pego em flagrante". Resultado de muitos cálculos e organização das situações, o que sempre dava certo quando eu lidava com pessoas normais. Mas já estava claro que ultimamente minha vida estava passando por um enorme kamikaze, só que ele estava preso de cabeça para baixo maior parte do tempo. Então pode-se imaginar o quão embasbacado fiquei ao ver que havia parado exatamente em frente à porta azul, no exato momento em que eu e deixávamos a sala.
Acho que chocado era pouco para descrever a cara que ele realmente fez.
)? Mas o que vocês dois... — ele olhava e apontava para mim e ela, que estava com as bochechas vermelhas — Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
Ninguém disse nada. Eu literalmente não sabia o que fazer diante de tanto constrangimento. Mas eu não podia ficar calado — caso contrário, aquilo seria o começo de um mal entendido terrível.
... Como você veio parar aqui? Não disse que ia me esperar lá na frente? — dei uma risada seca, me aproximando dele e dando um tapa leve em seu ombro. Ele me olhou como se estivesse me sacudindo mentalmente.
— É, e você demorou, então eu estava indo até o meu quarto e... — ele olhou novamente de mim para , ainda com a expressão confusa.
Fiquei calado novamente, e tampouco falava. Na verdade, ela parecia louca para sair correndo.
— Então, você está com fome, não é? Eu também tô morrendo de fome, é melhor a gente se apressar se não as mesas no Ferris vão estar todas lotadas. Ah, essa é a , você a conhece, não é? Que ótimo. Agora vamos, eu tô realmente com muita fome... — falei sem pausas e procurando não dar espaço para as respostas de . Ele ficou ainda mais confuso e se deixou ser arrastado por mim direto para longe do corredor, cumprimentando brevemente antes de sairmos.
Eu andava a passos largos para fora, até deixando para trás em um momento. Quando chegamos ao meu carro, eu já me preparei pelo que estava por vir.
— Você quer começar a me explicar o que diabos você estava fazendo preso com em um cubículo agora ou depois de comermos? — perguntou enquanto entrava no banco do carona.
— Não é nada disso que você está pensando. — respondi enquanto pegava um cigarro do maço que eu guardava no porta-luvas para situações onde eu, bem, não queria falar.
— Já saquei, não quer me contar. — disse enquanto me oferecia um isqueiro ao ver que eu tateava meus bolsos — Mas se você pensa que eu vou te deixar em paz até saber dessa história, pode parar de sonhar.
— Não tem história nenhuma. Eu e ela só... Nós só estávamos conversando.
— Irmão, eu juro que não tô te julgando pro que quer que tenha rolado dentro daquela sala, muito pelo contrário, a é responsável pelas fantasias de qualquer pessoa que goste de mulher nesse Campus, sacou? O problema é que ela tem namorado! E não um namorado qualquer, ela namora o filho do reitor, que não é nada aconselhável de se arranjar um problema, você estava ciente disso antes de entrar naquela sala com ela?!
— Você não tá entendendo...
— Quem não tá entendendo é você, )! E o papo da sua briga com não ter sido por causa dela, isso foi mais uma mentira? Hoje mesmo você falou dela como se nunca tivessem trocado três palavras, e agora saem de uma cena totalmente comprometedora juntos. Já imaginou o que aquele maluco faria se soubesse disso? Já pensou se não fosse eu que tivesse visto aquela cena?! Você por acaso sabia que ele tem mais informantes que o FBI? Eu estou te falando, tem doido pra tudo nesse mundo, e aquele lá é um doido de primeira. Você já ouviu os rumores sobre ele? São medonhos, dizem que ele já atropelou e matou um cara, mas o pai dele encobriu a história toda, ele nem foi à julgamento. Teve outra vez que ele...
Liguei o carro e deixei falando, novamente não me prestando à lhe dar atenção. Eu não precisava saber do que era capaz, ele já havia me deixado bem claro que o que ele quisesse, simplesmente teria. Isso não o tornava assustador pra mim, pelo contrário. Talvez lidar com fantasmas medonhos tenha me tirado o temor dos vivos, vai saber.

***


Não falei com desde o incidente com no almoço. Talvez ela estivesse preocupada demais para me mandar uma mensagem, como se aquilo fosse chamar a atenção de mais alguém. Ela era extremamente preocupada com imagem e reputação, o que era difícil de entender, considerando que ela tinha uma personalidade justiceira bem forte, mas nada defensiva. Isso me fazia questionar novamente o que ela fazia com o boçal que chamava de namorado.
Mesmo que ela não me contactasse naquele dia, senti que ela iria atender o meu pedido. Ela confiaria em mim. E por conta disso eu precisava encontrar Margot novamente o mais rápido possível. Desde nosso fatídico encontro da noite passada, eu não a via em lugar nenhum em torno da Columbia, e isso me preocupava. Para definir a situação: um fantasma em busca de vingança é algo extremamente incômodo, maçante e desagradável. Eram os responsáveis que mais tinha me ferrado até hoje, mas eu sabia que no estágio de espectro que Margot estava naquele momento, ela não conseguiria fazer muita coisa. Depois de deixarem essa vida, os mortos que ainda não estavam preparados para deixar essa terra geralmente vagavam com uma ideia fixa na cabeça, a pendência que eles tanto precisam resolver para enfim atravessarem o limbo — ou irem para o céu, ou o inferno, ou para a próxima vida, a lista de teorias era infinita e eu nunca estive animado a saber. Eles perambulavam por aí até encontrarem um pobre ser humano que por um infeliz acaso consegue vê-los e automaticamente ajudá-los — mais conhecidos como eu, Jane e outras pobres pessoas. Um fantasma novato era fácil de ajudar, e até tinham prioridade na minha lista de tarefas extracurriculares. Ao verem que o problema da sua ideia fixa havia sido resolvido, eles simplesmente partiam, e nunca mais apareciam.
O problema era quando um fantasma começava a se desviar dessa ideia fixa. Quando encontrei Margot no dia de sua morte, ela havia apenas um objetivo: descobrir se Ash a havia matado, com intenção ou não. Porém, mais rápido do que jamais presenciei, Margot parecia ter se apartado desse pensamento e fazer algo que era a ponta do iceberg de todo fantasma problemático: começar a questionar. Da garota assustada que não entendia como sua vida fora acabar daquele jeito, ela tinha upado para uma versão determinada e furiosa. E isso não era algo que eu esperava, o que tornava tudo mais estranho.
Não é que Margot deveria acreditar que Ash dizia a verdade. Ela simplesmente não queria e decidiu não acreditar nele, decretando assim que resolveria com as próprias mãos. E aquilo não era nada bom. Isso era de se esperar de fantasmas que estavam vagando há tanto tempo que mal se lembravam de sua identidade e muito menos do porquê ainda estavam aqui, e isso os corroía até certo ponto que os deixava totalmente surtados e perigosos, com uma única meta de perseguir, perturbar, assombrar e até matar outras pessoas. Ou acham que os espíritos malignos sempre foram malignos?
Mas Margot estava sendo um caso atípico, e era por isso que era perigoso deixá-la à mercê. Uma garota morta há uma semana não tinha todo aquele ódio — até fantasmas assassinados brutalmente ainda levavam um tempo para me darem todas as informações claramente para terem seus problemas resolvidos. A mente deles ainda estava enevoada, ficavam presos aos lugares que morreram por simplesmente não se lembrarem de como sair. Mas Margot havia saído e mesmo que eu torcesse internamente que ela não achasse a casa de Ash, eu já não tinha mais tanta certeza disso após o seu sumiço.
Depois do Ferris, voltei ao campus e, após despistar , fiz algo que eu já não estava mais acostumado: matar aula.
Não que fosse muito inteligente matar aula na própria universidade, mas eu não podia perder mais tempo no caso de Margot. Procurei cruzar por todo o campus, desde o primeiro edifício até o último, o que totalizam uns seis quarteirões. Eu a chamava incessantemente, com a maior discrição aprendida durante esses anos, mas ela parecia ter desaparecido do campus — e aquilo dificultaria caso eu chegasse no ponto de ter de invocá-la de outros métodos. E se minha vó não facilitaria minha vida resolvendo aparecer, eu teria de dar outro jeito.
Já era quase fim de tarde quando desisti de procurar por Margot, e decidi voltar ao meu carro, ainda pensando em como eu executaria um plano de chamá-la de forma mais eficiente. O estacionamento estava abarrotado de carros, mas sem sinal de muitas pessoas. Peguei as chaves no meu bolso ao passo que meu celular apitou com uma mensagem, e o nome de na tela apareceu com a pergunta: "Onde você está?", "No estacionamento, não é? NÃO SE ATREVA A IR EMBORA SEM MIM!". Em seguida, eu já começava a digitar a resposta dizendo que estava realmente com muita pressa quando vi uma pessoa conhecida há poucos metros à minha direita.
Como eu estacionava na maior parte das vezes atrás de uma enorme pilastra, era viável observar muito e não ser visto. Do outro lado do estacionamento, à direita, uma fila de motos preenchiam as delimitações em forma de linhas amarelas, e Ash acabava de subir em uma delas. Rapidamente me abaixei no banco do motorista até que apenas a parte superior da minha cabeça fosse visível. Ele descartou o cigarro que fumava no chão ao mesmo tempo em que seu telefone vibrou. O diálogo era baixo e parecia tranquilo, como se ele estivesse falando com um parente. Mas o que ele dizia não era nada tão alarmante quanto ver o que estava à sua frente — ou melhor, quem.
Margot havia se materializado do nada em frente a Harley-Davidson preta de Ash, e por um momento prendi a respiração. Ele conversava calmamente no telefone, mas os olhos dela estavam fixos, arregalados, completamente medonhos, o que denunciava algo que eu já sabia, e precisava fazer algo imediatamente.
Por muitos minutos ela ficou daquele jeito, imóvel, com a mesma expressão assustadora sem desviar os olhos de Ash. Ela vai surtar, ela vai surtar. Eu tinha certeza daquilo. Imediatamente usei toda a força estranha de minha mente para chamá-la, sussurrando quase que inaudivelmente, implorando para que ela fosse embora. Não posso dizer que ela me ignorou; em vez disso, ela virou o rosto lentamente para mim, e me fitou por um momento. Ela estava assustadoramente macabra com aquele olhar e não fez absolutamente nada. Balancei a cabeça inúmeras vezes em negação, como uma súplica silenciosa. Quando ela simplesmente me ignorou e voltou a olhar para Ash e de repente as vigas de metal acima de sua cabeça começaram a tremer lentamente, eu soube que aquilo não estava indo terminar bem.
As vigas tremeram com mais violência e eu soube que Margot não iria parar. Xinguei-a violentamente, de repente querendo socá-la e mandá-la para bem longe, mas naquele momento eu precisava fazer algo bem mais urgente, que era impedir que Ash fosse esmagado pela viga que estava prestes a cair à uns 8 metros de altura.
Margot abriu um sorriso medonho enquanto eu saía do carro o mais rápido que conseguia e de repente já era possível escutar o "crac" da viga, e Ash pareceu perceber que algo estava errado justo no momento em que uma das instalações cederam, e a viga ficando pendurada por um dos lados.
— SAI DAÍ! — gritei a plenos pulmões, e ele continuava paralisado — PARA COM ISSO AGORA, MARGOT! VOCÊ VAI MATÁ-LO!
Em minha impulsividade, talvez eu a tenha deixado mais irritada — ou até mais ansiosa pra terminar o serviço, porque em seguida a outra instalação da viga se rompeu em um estalo e atingiu em cheio não só a moto de Ash, mas como todas as outras vizinhas à dele, causando um estrondo parecido com uma bomba e fazendo alguns dos carros acionarem o alarme pelo impacto.
A viga estava ligada diretamente a uma pequena parte da rede elétrica do estacionamento, e toda a alarde de faíscas e lâmpadas explodindo me cegaram por uns minutos, me jogando para trás e automaticamente protegendo meu rosto com os braços. Quando voltei a mim, Margot ainda estava no mesmo lugar com um olhar carregado de ódio e ouvi claramente um grito vindo do meio dos escombros. Levantei rapidamente e avistei Ash, que aparentemente havia pulado no último segundo da queda da viga, mas não havia conseguido salvar uma de suas pernas que estava presa embaixo do enorme bloco de metal.
Uma poça de sangue começava a se formar na área onde sua perna havia sido soterrada, e constatei que a barra de ferro que ligava à viga na pilastra havia penetrado logo acima do joelho. Ele gemia de dor, e parecia ter ficado apagado por alguns segundos.
— Ei, você consegue me ouvir? EI! — gritei, balanço-o um pouco com o intuito que ele não dormisse. Tateei meus bolsos rapidamente e percebi que havia deixado meu celular no carro na pressa de correr até aqui, o que me deixou frustrado.
— Me... ajuda... — ele parecia grogue, seu corpo devia estar tomado pela dor. Olhei mais de perto de tive a certeza de que sua perna havia sido esmagada — Está doendo tanto, por favor, me ajuda! Por favor...
— Fica calmo, eu vou tirar você daí. Aguenta mais um pouco! — me levantei, tentando pensar rápido naquela situação. Tentei empurrar a viga, chutá-la, puxá-la, mas ela nem se movia.
— É tudo culpa sua, . — de repente Margot havia decidido falar, depois de minutos em silêncio. Não havia se mexido um centímetro desde a queda do objeto, e ainda olhava fixamente para Ash — Você fez isso comigo! Agora se arrepende e chora pelos cantos como se eu fosse acreditar, seu miserável...
? O que você disse? — olhei diretamente para ela, a confusão estampada em meu rosto. Como ela sabia o nome verdadeiro de Ash se havia me deixado claro que ele nunca a contara?
Pelo visto eu estava com a péssima mania de pensar em voz alta ultimamente. Ash agarrou com força a barra da minha camisa, me fazendo girar o corpo para ele. As veias em sua testa estavam dilatadas e seu rosto estava contorcido em dor, de forma que eu tinha a certeza de que ele iria desmaiar a qualquer momento. Mas ainda assim, ele abriu a boca para pronunciar:
— Como... — sua respiração estava ofegante, ele tentava se concentrar na frase em vez da dor — Como sabe o meu nome? Com quem está falando... Margot...
Mas ele não foi capaz de terminar a frase. Merda, merda, merda. Olhei para trás e Margot havia desaparecido, e se eu não tirasse Ash debaixo daquela viga naquele momento, ele poderia dar adeus à uma das pernas. Mesmo ainda debilitado pelo final de semana, fiz o maior esforço que consegui para ao menos levantar um pouco do que fosse da viga para que eu alcançasse o joelho de Ash. Aquilo havia me deixado estampado de suor. Tirei meu casaco rapidamente, rasgando um pedaço do tecido e envolvendo na parte mais exposta de seu joelho, amarrando com o máximo de força que havia conseguido. Se ele sangrasse mais, não perderia apenas a perna.
Me preparei para correr novamente até meu carro pegar meu celular e quem sabe gritar por ajuda, mas de repente uma pancada em minha nuca embaçou minha visão e me senti inebriado por alguns segundos. Senti minha cabeça sendo puxada para trás, e de repente estava no chão.
Tudo acontecia em câmera lenta. Avistei Margot e seu sorriso divertido, irônico, debochado. Ao lado dela, um vulto preto, destemido, assustador.
Meus braços não me obedeciam, e eu sentia meu peito se afundando, e minha consciência sendo bifurcada. Como se cordas gigantes e espessas estivessem me perseguindo e finalmente haviam conseguido se agarrar a mim, e me puxavam para uma escuridão desconhecida. Um novo tipo de pânico me tomou. Não era o medo da morte, parecia o medo de ser... tomado. Eu sentia a tentativa de separação de meu corpo com minha alma de forma atenuante. Era desesperador, uma angústia sem fim. A escuridão foi me tomando cada vez mais, e de repente eu não via mais nada, não sentia mais nada, e estava no nada, vazio, escutando apenas uma voz que parecia tão ao longe, mas fazia todos os pelos do meu corpo se eriçarem: uma risada maléfica, inescrupulosa, cortante. E foi ficando cada vez mais longe até que não pude distinguir mais coisa alguma.


Capítulo 9 - Os cálculos não mentem

O rosto de pairou no escuro, às vezes longe, às vezes perto. Estiquei as mãos para alcançá-lo, mas ele continuava se afastando, balançando, parecendo fazer uma brincadeira comigo. Sua imagem parecia borrada, como se eu estivesse vendo seu reflexo em uma poça, que se desmanchava a cada segundo mais. Ela sorria e depois contorcia o rosto para chorar em um looping infinito. Por que eu estava vendo isso? O que estava acontecendo?
Em vez de tentar escapar da escuridão estranha ao redor — e esticar os ouvidos para captar os resquícios de Margot e o vulto —, eu adentrava ainda mais nela, procurando aquele rosto, querendo tocá-lo, puxá-lo para mim. De repente, o rosto no reflexo repuxou os lábios em uma linha dura, séria, os olhos pairando, fitando-me seriamente. Uma lâmina invisível surgiu rasgando sua garganta em um corte fundo e preciso que fez o sangue ser jorrado para frente, matando-a sem ela ao menos dar um mísero grito. “Não!”, escapou de minha garganta e corri desesperadamente até a imagem dela.
Uma lufada de ar invadiu meus pulmões violentamente e fui impulsionado para frente, abrindo os olhos e deparando-me com uma luz branca e forte. Desnorteado, eu ofegava como se tivesse corrido uma maratona, notando alguns poucos fios de cabelo que grudaram na testa molhada de suor. Eu não estava mais mergulhado na escuridão. Não via mais .
Virei para o lado, tentando respirar fundo e me acalmar, e abri os olhos novamente, dessa vez bem devagar. Eu não estava mais no estacionamento. Pisquei os olhos várias vezes para me certificar disso, mas o som de uma porta sendo aberta e algo sendo derrubado me fizeram acordar.
! — Reconheci a voz de , que me pegou pelos ombros e me deitou de barriga para cima. — Meu Deus, cara, você acordou! Enfermeira, ei! Tem alguém aí? Enfe...
Enfermeira?
Puxei a barra de sua camisa, fazendo-o olhar para mim e me apoiando em seu braço para me sentar. Foi quando percebi que estava em uma maca, sem camisa, e algo me incomodou no nariz. Olhei lentamente para o lado, onde havia uma infusão de soro em meu antebraço esquerdo, ligado a um equipamento ao lado da minha cama. Coloquei as mãos no nariz e senti o cateter nasal indo desde atrás de minhas orelhas até o pescoço. Tentei retirá-los, mas eu estava lento demais.
— Ei, cara, tá maluco? — retirou minhas mãos rapidamente. — Você vai ficar bem quietinho aqui enquanto eu vou atrás de uma enfermeira. Ei, tem alguém escutando? Eu quero...
— O que eu estou fazendo aqui? — Puxei-o novamente, dessa vez falando entre dentes e fitando-o de maneira séria, quase desesperada. abriu a boca para responder, mas pareceu estar pensando melhor no que diria. — Anda logo, , o que aconteceu? Por que eu estou aqui?
— Você não se lembra de nada?
— Me lembro do estacionamento e da viga, e de que Ash estava... — Interrompi minha frase antes que eu dissesse que também me lembrava de Margot e de como ela quase o matou — Aliás, o que aconteceu? Como ele está? Você pediu ajuda? Ele ainda deve estar lá, temos que ir lá! — comecei novamente a tentar retirar todas as infusões que haviam colocado em mim, mas fui parado por novamente, dessa vez com uma expressão até amedrontada.
, isso foi há três dias. Ele está vivo, vocês dois foram trazidos pra cá.
Pisquei, tentando absorver o que ele havia acabado de dizer. Três dias.
Aquilo não fazia sentido algum.
Infelizmente, antes que eu pudesse refletir sobre toda a situação atual ou refazer todos os meus passos, uma mulher de branco entrou correndo pelo quarto, vindo até mim e colocando o estetoscópio em meu peito.
— Há quanto tempo ele acordou? — ela disse enquanto pegava um pequeno equipamento de medir pressão nos bolsos.
— Tem uns 5 minutos... Eu gritei, ele estava virado para o lado quando entrei, achei que... — respondeu, mas foi interrompido pela enfermeira.
— O senhor deveria ter apertado o botão — ela disse ríspida, apontando para o grande botão vermelho na mesa de cabeceira ao lado da cama. deu um sorriso sem graça e se desculpou. — Como se sente, Sr. ?
— Estou ótimo, nunca estive melhor. Inclusive acho que não preciso de mais nada disso... — Apontei para os tubos e tentei me levantar, mas ela também não me permitiu.
— O senhor chegou aqui desacordado, com vários hematomas, uma costela quebrada, pontos abertos, uma tentativa falha de colocar um nariz quebrado no lugar, lotado de aspirina no sangue e ficou em coma por três dias. Mesmo tendo feito todos os exames, sinto informá-lo que só sairá daqui com a permissão do médico — ela recitou tudo isso sem ao menos olhar para mim, apenas anotando algo na prancheta de plástico em sua mão e colocando-a de volta na base da cama. — Eu vou chamá-lo agora mesmo. Sugiro que não faça nenhuma tentativa de fuga, será pior para o senhor.
Ela disse e desapareceu pela porta. Fiquei estático, ainda com as palavras de pairando em minha mente, tentando desesperadamente me lembrar de algo. Aquilo não era possível, eu não poderia ter perdido a consciência por todo aquele tempo. Aquela sensação, o sufoco, o vazio... Eu ainda podia senti-lo, como se tivesse passado por ele há minutos atrás.
Olhei em volta, fazendo o possível para manter minha respiração a um nível regulado. Recostei-me de volta na cama, agora com as costas levantadas, e olhei novamente para — e de repente para algo que estava atrás dele.
— Cara, você sabe o susto que me deu? — ele voltou a falar, sentando-se na cama ao lados dos meus pés. — Foi uma loucura chegar lá e ver você naquele estado, e o Ash também... Foi muito sinistro! E todas aquelas pessoas em volta, a ambulância, os bombeiros e todo o caos para tirar...
— Quem mais sabe que eu estou aqui? — interrompi-o, com uma expressão séria.
— Acredito que toda NY. Seu fã clube aumentou drasticamente o número de membros. — Ele apontou para as flores e cestas de chocolate espalhadas em um canto do quarto que eu só reparava agora. — Eles te acham um herói.
— Merda — murmurei, passando as mãos na cabeça. — Os meus pais... Diga que eles não avisaram meus pais.
— Eles bem que tentaram, mas o sistema da Advocacia é um lixo. Interceptei todo e-mail e ligação que mandaram, ainda respondi à Columbia com a assinatura eletrônica dos seus pais. O reitor acredita fielmente que eles pegaram o primeiro voo e vieram ficar de olho em você, mas eu te garanto: Eles estão totalmente fora da situação.
— Obrig…
— Nem pensa em me agradecer! Se você demorasse mais um dia pra acordar, eu teria de avisar os seus pais, mesmo sabendo que sua mãe me colocaria numa lápide. Isso foi de longe a situação mais insana que você se meteu!
— Valeu — falei, repuxando os lábios para dar o melhor sorriso que pude, mas eu estava muito grato. sabia exatamente o que aconteceria se meus pais ficassem sabendo daquele ocorrido e não seria nada legal. — Você pode buscar água pra mim? De repente, fiquei com muita sede.
— Eu vou, se me prometer que não vai sair daí.
— Eu prometo. — Ri, sendo sincero com a promessa.
Esperei que a porta se fechasse para começar a falar.
— O que a senhora está fazendo aqui?
Ela não me respondeu de imediato. Em vez disso, apenas se aproximou da minha cama e colocou a mão em meu rosto, de forma maternal. Geralmente eu conseguia ler seus olhos, mas hoje ela parecia querer esconder o que sentia e deixar transparecer apenas o alívio.
— Meu querido... Estou tão, mas tão feliz de ver você acordado. Não sabe o quanto eu vivi na agonia durante esses dias.
Coloquei minha mão sobre a dela ainda em minha bochecha, acariciei-a e também devolvi seu olhar de compaixão. A sensação de tê-la por perto naquele momento deixou meu coração um pouco mais quente e um pouco menos desesperado.
— Como você está se sentindo? — ela perguntou enquanto se sentava ao meu lado. Retirou suas mãos da minha bochecha, mas ainda segurava minha outra mão.
— Estou bem, eu acho. Foi tudo muito rápido, ainda estou tentando entender o que aconteceu. — Suspirei, coçando os olhos levemente. Tinha certeza de que eu parecia mais cansado do que realmente estava. — Onde estava esse tempo todo? Te chamei várias vezes e você não apareceu.
Ela desviou os olhos, envergonhada. A culpa era o próximo sentimento que ela agora deixava transparecer. A mão que segurava a minha estreitou o aperto e vi seus olhos ficarem marejados quando teve coragem de me olhar.
— Eu não sabia... Eu não fazia ideia. Estou tão arrependida. — Ela fungou com o nariz de repente vermelho e abaixou a cabeça, acariciando minhas mãos. — Eu deveria ter escutado, deveria estar aqui quando tudo aconteceu. O quanto deve ter ficado assustado, eu sinto tanto...
— Está tudo bem, vó. Não precisa ficar assim, não é a primeira vez que isso me acontece. Aliás, eu mal sei direito o que me aconteceu dessa vez.
— Você não se lembra de nada? — ela perguntou agora me fitando atentamente, ansiosa pela minha resposta. Não soube dizer o que ela queria ouvir.
— Você ouviu minha conversa com . Eu me lembro que tentei impedir Margot de matar Ash, ou , seja lá quem for. Mas ela estava diferente, parecia... Transtornada. Ela estava com tanto ódio, eu tenho certeza de que ela o mataria se eu não estivesse lá. — Enquanto eu contava, minha avó acenava com a cabeça, parecendo absorver cada palavra com muita atenção. — O que está havendo, vó? Margot enlouqueceu tão rápido, eu nunca presenciei isso. Achava que os mortos ainda levavam um tempo até chegarem àquele comportamento, mas ela se lembrava de tudo, ela até sabia o nome de Ash. Tudo foi bastante estranho.
— Eu sei, eu entendo. Pra ela ter conseguido fazer você ficar nesse estado e causar aquela calamidade, não consigo nem imaginar quais forças estejam atuando sobre essa garota...
Minha vó bufou indignada com a situação, uma lâmpada acendeu em minha mente e de repente fazia total sentido existirem forças estranhas atuando sobre Margot, ela jamais ficaria daquele jeito sozinha. Daí me lembrei do vulto ao seu lado e de que não era a primeira vez que nos encontrávamos.
Havia algo acontecendo, mesmo eu não fazendo ideia nem do que poderia ser.
Meu olhar distante chamou a atenção dela, que franziu o rosto, e não vi saída a não ser contar.
— Pode não ter sido Margot quem fez isso comigo — disse muito sério.
— Como assim? — Ela franziu as sobrancelhas. — Você não me disse que estava lidando com duas assombrações.
— Não estou. Quer dizer... Mais ou menos. Há algo acontecendo que estou tentando descobrir o que é.
Ela não se moveu e ficou séria, esperando que eu continuasse. Contei tudo, desde que vi a aparição pela primeira vez na festa até a vez no bar. Tentei detalhar a forma como aquele fantasma era estranho, como a força que emanava dele era assassina e sombria, mas não tenho certeza se fui bem claro. As sensações eram complexas demais para colocá-las em palavras.
A posição dela havia passado de parcialmente relaxada para totalmente rígida. A mão que segurava a minha foi para o peito e ela parecia chocada e confusa ao mesmo tempo. Ela se levantou e, se fosse possível, parecia mais pálida do que o normal. Ela parecia estar desesperadamente tentando se lembrar de alguma coisa.
— O que foi? O que a senhora tem? — perguntei ansioso, visto que ela não relaxava uma vez sequer. — Você já viu isso antes?
— Digamos que sim — ela sussurrou. — E isso não é nada bom.
— O que ele é? Ou melhor, o que ele quer com a ? Como eu me comunico com ele...
— Você não vai.
— Como assim? — Juntei minhas sobrancelhas. Ela voltou a se aproximar de mim e a pegar em minhas mãos, dessa vez com mais urgência e medo.
— Você vai se afastar dessa garota imediatamente e ele nunca mais aparecerá na sua frente. Isso não tem nada a ver com você, , e a sua segurança é a minha maior prioridade, então eu estou te implorando: fique-fora-disso.
De acordo com os meus cálculos, 100% das vezes que eu ignorava um conselho da minha avó, eu acabava me dando mal. Nunca havia tido motivo para duvidar dela, ela simplesmente sabia de tudo. Quando viva, ela levava o nome de Madame Kang e trabalhava como cartomante em algum lugar nas ruas de Seul. Fora essas informações e histórias de suas experiências com os mortos, eu não sabia muito mais. Também não adiantava muito perguntar: sua capacidade de se esquivar de assuntos importantes era mágica.
Aos quatro anos, ela apareceu para mim pela primeira vez, não para pedir ajuda ou coisa do gênero. Oi, pequenino, ela começou dizendo. Você é o , não é? Eu sou a sua avó.
Minha primeira reação foi sair correndo. Não por medo dela, longe disso. Mas a verdade me provocava um medo ainda mais profundo do que os fantasmas. A verdade de que eu estava frente a frente com alguém que tivesse qualquer relação sanguínea comigo e isso era apavorante.
Pois, oras, eu estava em um orfanato.
As perguntas vinham de vez em quando, mas eu não sabia realmente se queria as respostas. Ela também não colaborava nessa parte, então aceitei que esse era um assunto proibido. Ela estava mais interessada em me situar sobre o meu dom e me dar aulas sobre como melhor lidar com os fantasmas em suas diferentes facetas. Tinha sido assim desde aquele dia. Sem mais perguntas sobre quaisquer coisas da minha provável origem.
Mesmo a tendo conhecido apenas como fantasma, havia uma conexão inexplicável que eu sentia, e dessa conexão vinha toda a confiança que eu depositava nela e em tudo que dizia — inclusive o fato de ser minha avó biológica. O conhecimento que ela tinha sobre o outro lado era extenso, porém não muito detalhado. O jeito que suas mãos me apertaram indicavam que ela estava aflita por mim, de uma forma que eu nunca a vi antes.
Apesar disso, não consegui controlar o sentimento que me tomou. Aquilo parecia errado, injusto, cruel.
— O que você está dizendo? — Soltei minhas mãos, explicitamente indignado. — Você entendeu a parte de que ele com certeza vai matá-la? Ele só está esperando o momento certo e eu não posso deixar isso acontecer.
— Quantas vezes preciso dizer? A sua missão é com os mortos, você precisa ajudá-los a seguir em frente, a encontrar a paz. Pessoas vivas irão morrer um dia, você não pode interferir nisso. Foque-se em ajudar essa garota depois da morte, e...
— Como é que é? — falei um pouco mais alto do que pretendia e automaticamente olhei para a porta. Não demoraria muito para aparecer, mas eu não conseguia encerrar aquela conversa. Ela se afastou de mim mais uma vez, com um olhar frio que eu jamais vira. — Tá dizendo pra eu deixá-la simplesmente morrer?
— Espíritos malignos existem, , e são impossíveis de lidar. Se algum deles está atrás dessa garota, podemos chamar de destino, pode acreditar que não é algo aleatório, não há nada que você possa fazer! Estou exigindo que você se afaste dessa menina agora mesmo e muito menos tente fazer algo, ou ele vai te matar também!
— O que pode ter feito pra um fantasma desses estar atrás dela? Eu não posso...
— Tudo que eu mais temia aconteceu! Desde que me comuniquei com você pela primeira vez, há dezenove anos, durante todo esse tempo, fiz de tudo para você nunca encontrar nenhum deles! — Ela bufou, ainda com uma expressão de medo. — Por favor, me prometa que você não vai mais se envolver nessa história! Será que você consegue entender o perigo disso tudo? Já imaginou como seria se ele tentasse roubar a sua alma?
A lembrança da escuridão, do medo e do vazio vieram à minha mente, junto com a frustração da impotência que eu senti. "Acho que sim", murmurei para ela, não me atrevendo a contar os detalhes da experiência. Eu estive lá por alguns minutos que se transformaram em três dias e um calafrio atravessou minha espinha ao imaginar o que poderia acontecer se ele fizesse isso comigo de novo.
— Ela é só uma garota — murmurou. — Anda, quero que me prometa. Diga que não vai mais se envolver com esse assunto.
Olhei pra ela em silêncio. Seu olhar era frio, mas passava uma sincera preocupação com toda a situação. Em contrapartida, tinha certeza do ardente contragosto que estampava meu olhar. Mesmo assim, me vi concordando com a cabeça, vendo-a desaparecer no momento seguinte, quando e o médico adentraram a sala.

***


Meu celular estava oficialmente morto quando o peguei dentro de um saco plástico, junto às minhas chaves, carteira e tudo que estava nos meus bolsos. Por mais que eu tenha protestado, não recebi a alta no dia que acordei e ainda me prenderam por mais dois dias, por questões de observação, disseram eles. Nesse meio tempo, havia ido na minha casa e voltou com uma muda de roupas e meu carro. Era o começo de uma noite fria quando eu terminava de me trocar no quarto, me preparando para ir embora. Ao menos o tempo no hospital havia me renovado totalmente. Eu não sentia mais dores e os hematomas haviam praticamente desaparecido. Senti como se tivesse matado dois coelhos numa cajadada só, ainda que indiretamente.
parecia estar bem, de acordo com as informações de . Havia desmaiado de dor várias vezes no caminho até o hospital e teria de usar muletas por um bom tempo, mas estava vivo. No fundo eu torcia para que ele estivesse sem memórias do acidente, assim não poderia se lembrar que eu sabia seu nome verdadeiro e muito menos que havia chamado Margot na sua frente.
entrou no quarto assim que eu terminava de colocar o casaco.
— Eu te disse que não precisava vir me buscar, estou perfeitamente bem pra dirigir. Posso ir pra casa sozinho.
— E quem disse que você vai pra casa? — Ele sorriu. — Pensei que não seria nada mal se fôssemos comemorar sua alta depois de todo esse susto, e antes que você rejeite a ideia imediatamente, eu trouxe alguém pra me ajudar a te convencer!
Abri a boca para protestar, mas só consegui abri-la ainda mais ao ver Jane entrando pela porta. Ela correu e me envolveu em um abraço apertado, que correspondi. Ela murmurou algumas palavras rapidamente no meu ouvido, que não consegui entender bem, mas pude jurar ter ouvido um "você está ferrado" e logo depois me deu um selinho demorado.
— Feliz em me ver? — Ela abriu um largo sorriso.
— Claro, mas... — Balancei a cabeça e olhei feio para .
— Ei, não olha pra ele desse jeito! Se não fosse por , eu jamais ficaria sabendo dessa sua nova empreitada. Tentei te ligar um milhão de vezes e nada, já estava achando que você tinha morrido. Aí ele me liga e me vem com essa! — Ela suspirou.
— Me desculpa, estou meio sem celular. — Dei de ombros — Você está de folga? Não queria recebê-la em um ambiente desse. — Apontei para o quarto.
— Você sabe que tiro folga quando bem entendo. — Ela me deu uma piscadinha. — Mas sim, já estava planejando vir te ver há um tempo. E trouxe presentes. — Ela ergueu uma sacola de papelão que trazia em uma das mãos. — Portanto, você não tem opção de rejeitar a nossa saída de hoje.
sorriu empolgadíssimo, acenando com a cabeça para mim. Sair com ele e Jane seria uma receita para o desastre — e uma grande ressaca —, mas eu sentia que se não fizesse, seria engolido pelos meus próprios pensamentos, e talvez fizesse uma besteira. Por fim, acabei aceitando, o que rendeu os gritinhos de e um enorme sorriso de Jane.
Em menos de uma hora, eu apertava o Jeep entre dois carros no estacionamento abarrotado sem organização alguma do Cliff Glory, no Brooklyn. As batidas da música eletrônica podiam ser ouvidas há cinco quarteirões de distância e as pessoas se amontoavam na entrada, barrada por dois caras enormes e mal encarados. Jane bateu a porta quando saímos e ajeitou sua blusa, que era frente única e por pouco não mostrava os seios. Ela pegou na minha mão, me puxou para a entrada e veio atrás da gente.
— É... Acho que tem muita gente, que tal nós irmos pra outro lugar? — comentou ao ver a enorme quantidade de pessoas na fila.
Jane riu, virando-se para ele.
— Você não aprendeu nada, não é?
Ela andou até os seguranças e algumas vaias vieram das pessoas na fila. Jane murmurou algo que não consegui entender por alguns minutos e de repente os grandalhões simplesmente desataram a faixa da porta, abrindo passagem para que ela entrasse. abriu a boca chocado e eu apenas ri, enquanto ela virava e acenava para seguirmos em frente.
— O que é dessa vez? O dono daqui é seu cliente? — perguntei, já começando a falar mais alto por causa do som.
— Eca, não! — Ela fez uma careta. — Mas ele gosta das minhas apresentações a ponto de me dar um cartão vip. — Ela riu ao mostrar o cartão roxo em neon.
Ao entrar na arena do clube, quase perdi o fôlego. Eu não sabia se não estava muito bem ainda ou as luzes coloridas e spotlights piscantes me davam uma certa fotofobia, mas o lugar era fascinante. Estava lotado, com os ombros batendo aqui e ali, e parecia mais animado do que nunca. Jane usou seu cartão mais uma vez para nos levar ao final de uma escada, onde nos sentamos em uma mesa redonda e imediatamente um cara montado em um smoking colocou um drink vermelho com frutas à nossa frente e Jane gesticulou algo para ele que novamente não pude entender.
— Uau! O que você é, algum tipo de magnata desconhecida? — perguntou, tomando um grande gole do drink.
— Tenho poder sobre os magnatas, isso conta? — Ela levantou a sobrancelha e tenho certeza de que ficou excitado. Antes que ele pudesse estender mais o papo, três garotas se aproximaram de nossa mesa, vestindo nada mais que um conjunto de lingerie, com a pele brilhando em glitter e usando máscaras como em um baile. Elas foram em direção a e começaram a acariciá-lo. parecia pasmo e olhou para mim e Jane, que soltou uma gargalhada.
— Podem levá-lo, meninas! Ele merece o melhor tratamento!
fez a cara mais embasbacada que já vi e se deixou ser levado pelo trio, que desapareceu no meio da luz baixa.
O garçom foi até nossa mesa novamente, dessa vez trazendo um enorme balde de gelo repleto de uma mistura de cervejas que incluíam Budweiser e Heineken e se retirou, e Jane arrastou sua cadeira para mais perto de mim.
— E então, quer começar a me contar de livre e espontânea vontade ou terei que te embebedar pra isso? — ela perguntou enquanto enchia um copo.
— Não há nada pra contar. — Dei de ombros e bebi um gole farto da cerveja.
— Ah, então você acha mesmo que vou considerar natural ir te avisar em um hospital depois de ter ficado em coma? E sobre o e-mail que me mandou da tal Margot... Foi culpa dela isso ter acontecido com você?
— Não é isso... Eu só prefiro realmente não falar sobre isso agora.
Ela balançou a cabeça e olhou em meus olhos de uma forma intensa.
— Você está bem? — ela perguntou baixo, mas ainda assim pude entender seus lábios. Ela colocou suas mãos em meu rosto, acariciando-o. Apenas concordei com a cabeça e ela deu um sorriso. — Não sabe como senti sua falta! Mas vou deixar os assuntos chatos para depois e te dar uma noite incrível hoje! Anda, vem comigo!
Uma noite incrível ao estilo Jane era uma série de eventos imprevisíveis. Apesar disso, deixei que ela me carregasse escada abaixo para o centro da pista de dança livremente. Estava disposto a entornar qualquer bebida pela frente assim que meus pensamentos se desviassem do momento presente e tentassem fugir para o que eu não queria pensar. Ou para quem.
Sempre tive um total de zero habilidades de dança, mas eu perdia toda a minha decência com Jane e a bebida também estava ajudando. A quantidade de pessoas não permitia que nos mexêssemos livremente, mas o trunfo dela era sempre o mesmo: ela dançaria em qualquer lugar, mesmo que tivesse que subir na mesa do barman, e cativaria mais do que as próprias atrações da festa. Depois de pouco tempo, o ambiente já estava mais quente e abafado do que quando cheguei, e tudo parecia tão engraçado, enérgico e despreocupado. Eu — ou alguém — já havia me livrado da minha camisa, assim como outras pessoas, e a batida pesada da música de repente se tornou um refúgio. Além disso, tinha plena consciência de que o que Jane havia me dado não era um cigarro. De repente, tudo parecia se mover em câmera lenta, inebriante, eu sentia o toque corporal das outras pessoas sem me importar. Fechei os olhos por alguns instantes, sentindo totalmente o momento presente, desejando que toda a culpa, cobrança, passado, que tudo desaparecesse.
Passei um braço pela cintura de Jane, que dançava à minha frente de costas e a puxei para mais perto. Apesar de chapado, eu conseguia identificar o cheiro de seu cabelo, que não havia mudado em nada durante todos esses anos. Ela moveu o quadril de forma tão sensual que meu corpo começou a reagir e afundei meu rosto em seu pescoço, sentindo novamente o cheiro familiar, a presença, o toque. Não existia nada que me agradasse mais do que a sensação de cordialidade, intimidade.
Sem tempo, ela rapidamente se virou para me beijar. Um beijo intenso, urgente, praticamente em chamas. Não era uma novidade, nada havia mudado. Apertei seu cabelo na nuca, puxando-o para trás afim de olhar em seus olhos por um momento.
Só que não foi Jane que eu vi.
O rosto de estava a centímetros do meu e eu ainda segurava sua nuca. Ela deu um sorriso fraco sem mostrar os dentes e disse a seguinte frase: "Vai me deixar morrer, ?"
As palavras me acertaram como uma bala e me afastaram de Jane há três passos. Ela me olhou confusa e pegou em meus ombros, murmurando algumas palavras que não consegui escutar. Um breve zumbido invadiu meus ouvidos e balancei a cabeça para me reposicionar no ambiente, de repente achando que não estava bêbado o suficiente. Jane parecia preocupada e a encarei por cinco segundos antes de forçar uma gargalhada e voltar ao bar, onde definitivamente faria qualquer coisa para não pensar em mais nada.


Capítulo 10 - Na contramão da experiência

A luz forte que invadiu meu quarto naquela primeira manhã de inverno foi uma das primeiras coisas erradas do dia. Abri um pouco os olhos, me arrependendo no mesmo instante pela dor de cabeça tremenda que senti, consequência da noite anterior. Não era preciso levantar para constatar que eu estava completamente um trapo. De barriga pra baixo pude ver o tapete persa vermelho aos pés da cama, presente da minha tia Guida logo após saber da minha aprovação no vestibular. Ao menos eu havia acordado na minha casa.
Virei para o lado e vi as costas nuas de Jane, coberta com apenas uma parte do lençol em sua cintura. Os cabelos loiros estavam bagunçados em cima do travesseiro e ela parecia dormir profundamente. Suspirei e levantei da cama nu em silêncio para não acordá-la e fui direto para o banheiro, abrindo a gaveta e pegando meu kit de primeiros socorros, que diga-se de passagem, poderiam facilmente pensar que eu havia assaltado o estoque de um hospital. Tomei duas aspirinas e lavei o rosto, sentindo ainda mais desconforto com a água gelada.
Voltei ao quarto e coloquei uma calça de moletom e desci para a cozinha, ligando a cafeteira e pegando ovos, bacon, pão e tudo que eu pudesse achar para preparar o café da manhã. Não que Jane fosse exigente, é só que repentinamente parecia que eu não comia há dias.
— Bom dia! — Jane falou logo após o bacon começar a estalar. Ela usava uma camisa minha xadrez, que pegava até um pouco acima do joelho — Hmmm, ovos com bacon? Você é um clichê total.
— Me desculpa não ter comprado croissant. — nós rimos — Pode sentar, já está quase pronto.
— Você pode fazer sem pressa nenhuma, sr. Le Cordon Bleu. Eu preciso de um banho urgentemente. Essa noite foi quente demais! — ela me mandou um beijo no ar e entrou no banheiro.
Enquanto eu ouvia o chuveiro, terminei os ovos, peguei umas maçãs que eu tinha há algum tempo e o café, colocando-os à mesa. Quando eu começava a organizar as louças dentro da pia, a campainha tocou.
não pode estar aqui tão cedo, pensei. Não depois da noite que ele deve ter tido ontem. Mas se não fosse , quem mais estaria ali?
Ao abrir a porta, meu coração disparou.
? — falei, em um tom sinceramente surpreso.
Ela olhou pra mim e de repente desviou os olhos, o rosto corando até a raiz dos cabelos. Foi então que percebi que eu ainda estava sem camisa e minha calça de moletom estava posicionada em um cós tão baixo que era visível que eu só estava usando ela.
— Ah... O que faz aqui? Está tudo bem? — perguntei, tentando mudar o foco da situação constrangedora.
— Eu não sei. — ela deu uma risada forçada e deu de ombros — Talvez verificar que você não estava morto. Você resolveu ficar em coma depois de ter me pedido pra esperar, e foi tão... — ela mordeu o lábio inferior, e suspirou — Sabe quantas vezes tentei ligar? Quantos recados eu deixei? Eu fui ao hospital depois que você acordou, mas você não estava.
— Eu sinto muito. Meu celular parece que morreu no acidente.
Ela balançou a cabeça, ainda mordendo o lábio inferior, como se estivesse se impedindo de falar mais alguma coisa. Mal posso imaginar quantas perguntas teria.
— E como você está? Está sentindo alguma dor, desconforto, pelo menos dessa vez vai respeitar o tempo de repouso? — ela me olhou séria, mas o canto de sua boca se repuxou em um leve sorriso. Ela parecia realmente feliz em me ver vivo, e o formigamento estranho no meu peito me fez querer sorrir também, como um sentimento mútuo.
— Sim, eu estou bem. Está satisfeita agora?
— Não vou ficar satisfeita até conversarmos. — ela disse, voltando ao estado sério de novo, mas relaxado — Tem um tempo livre pra um café?
Ela me fitou como se tivesse tomado vinte segundos de coragem para dizer aquilo. A pessoa mais cismada de ser vista comigo estava agora me chamando para um café. E eu automaticamente quis cancelar tudo para aceitar o convite.
De repente a voz da minha vó invadiu minha mente, repassando toda a conversa que eu havia tido com ela naquele quarto de hospital. E depois a lembrança do rosto de no meio da festa, e a lembrança de seu rosto na escuridão. O emaranhado de imagens brigavam entre si, chocando-se, loucos para verem quem eu iria escolher seguir. levantou uma sobrancelha, ainda aguardando minha resposta.
— Na verdade...
— Com quem você está falando, ?
Oh, merda! Eu havia esquecido completamente que Jane estava aqui.
Não só isso, ela adentrou no ambiente, enrolada em uma toalha branca e secando o cabelo com outra menor. Ao vê-la, os olhos de se arregalaram por um breve momento e Jane se aproximou de nós na porta.
— Ora, ora, quem é essa aí? Você não me disse que tinha feito uma amiga nova, . Olá, muito prazer, sou a Jane. — ela estendeu as mãos para , que ruborizou e demorou alguns segundos para cumprimentá-la com um sorriso fraco.
Isso definitivamente não deveria estar acontecendo.
— Jane, essa é a... — minha voz saiu mais rouca que o normal, e eu olhava fixamente para . Uma colega da faculdade.
— É muito bom saber que você fez mais amizades depois de se mudar, além do panaca do . — Jane riu — É um prazer te conhecer, . Quer entrar pra tomar café da manhã com a gente? Esse lindinho caprichou hoje! — ela pegou em meu braço e recostou a cabeça no meu ombro.
Nunca desejei tanto que a viagem no tempo fosse real. Meu olhar, cravado em , passava uma mensagem, que eu não fazia ideia se ela estava entendendo ou não: não é nada disso que você está pensando! Mas quem eu queria enganar? Não havia como interpretar errado em uma situação daquelas.
E eu não sabia por que diabos eu não queria que ela visse nada daquilo. Nunca me importei de ser visto com Jane, de deixar que as pessoas achassem e rotulassem do jeito que quisessem, mas de repente quis abrir a boca e despejar uma enxurrada de explicações, não que isso fosse mudar alguma coisa.
ainda parecia surpresa, mas conseguiu imprimir um sorriso de canto.
— Hoje não vai ser possível, eu preciso resolver um assunto urgente. — ela me fitou por um segundo ao dizer isso — Pelo visto você está melhor do que eu pensei, . Parece que eu não precisava me preocupar. Tenho que ir, então tenham um ótimo dia. — ela me olhou pela última vez antes de se virar e ir embora.
Dei um passo à frente automaticamente, pronto para ir atrás dela. Mas eu não podia. E nunca me senti tão idiota por isso.
Fechei a porta e Jane estava parada atrás de mim, de braços cruzados.
— Então agora você tem uma amiga? — ela tinha um olhar divertido, achando graça de toda a situação.
— Ela não é uma amiga. — murmurei, caminhando até a mesa. Eu não sabia o que era.
Antes de sentar, pude jurar ouvir Jane murmurar um "acho bom".

***


Jane não se demorou muito na minha casa após o café. Ela disse ter negócios a resolver no Queens, mas garantiu que jantaria comigo. E por jantar eu quero dizer uma sessão de perguntas minuciosamente feitas por ela.
Eu não podia escapar da sociedade por muito tempo, então assim que Jane saiu fui checar meus e-mails. A maioria dos não lidos na minha caixa de entrada pertenciam à minha mãe, que ficou sabendo, graças à mágica de , que eu estava sem celular e que compraria outro assim que possível. Não abri minha conta do banco para verificar que ela com certeza havia mandado o valor de um telefone novo ou até mais, pois seus e-mails mais recentes pareciam desesperados e furiosos por eu não atender suas ligações. Suspirei e comecei a respondê-la, dizendo que tempo era o único empecilho que havia me impedido de comprar um telefone novo. Me empenhei para redigir uma mensagem grande e convincente, para acalmá-la o bastante para não pegar o primeiro avião para NY. Fiz o pedido de um celular novo na loja mais próxima que eu conhecia dali para conseguir falar com ela ainda hoje. Se ela aparecesse por aqui seria desastroso.
Fora os e-mails dos professores que fizeram questão de me passar absolutamente tudo que havia sido dado, havia um e-mail do reitor. Um enviado de sua conta pessoal. Fiquei confuso e por um segundo pensei que tivesse algo a ver com , mas não era nada disso. Era um convite para uma festa beneficente.
Uma festa beneficente de uma das universidades da Ivy League era um evento apenas para a maior classe de NY, e quem sabe de outras partes do país. Ele seria oferecido pelo reitor em pessoa em prol da nova reforma do estacionamento, refeitório do John Jay e da construção do novo prédio laboratorial ao sul do campus. Pensei imediatamente em ignorar o convite e apenas não ir, apesar de as letras pequenas indicarem que apenas alunos selecionados à dedo haviam recebido, e que seria encarecidamente respeitoso que todos comparecessem àquele grande momento. Um outro e-mail também do reitor era diretamente para mim, me desejando uma boa recuperação e um bom retorno à Columbia.
O restante do meu dia foi uma eterna tentativa de colocar os estudos em dia, mas eu falhava em todas as vezes. Minha cabeça simplesmente não me obedecia e continuava voltando sem parar para os eventos anteriores, desde a queda da viga até aparecer na minha porta. Eu não me surpreendi como ela sabia onde eu morava, afinal, ela tinha acesso a esse tipo de informação, mesmo que clandestinamente. Mas o jeito que toda aquela situação havia me incomodado era no mínimo atípico. Eu só podia constatar que coisas estranhas andavam me acontecendo ultimamente. Pensar em e concomitantemente na conversa com minha vó me deixava ansioso de uma forma que eu nunca havia estado, e quase matei metade de um maço de cigarros. Agradeci internamente por não ter um celular naquele momento para não avacalhar todo o meu acordo com minha vó.
As horas passaram bem rápido e de repente já era hora de eu me encontrar com Jane. A temperatura lá fora havia caído drasticamente, e eu senti que a primeira neve se aproximava. Coloquei jeans e botas pretas, e um casaco jeans escuro. Esperava que aquilo me mantivesse quente, mas não estava muito confiante. Ao descer o elevador, verifiquei minha caixa de correio na entrada e vi a caixa do celular. Joguei-a no banco do passageiro e dei a partida.
Jane já me aguardava em uma mesa ao lado do imenso aquário do Le Bernardin. Ela estava com um vestido verde escuro, com uma fenda que ia muitos centímetros acima do joelho e com uma postura elegante — e incrivelmente sexy. O vinho já estava na mesa, e tenho certeza que ela havia pedido o mais caro.
O garçom me guiou até a mesa, servindo uma grande taça de vinho logo em seguida.
— Desculpa, acho que eu estava em falta do smoking. — dei de ombros, apontando para minha roupa, que parecia drasticamente fora de ocasião.
— Sem problemas, sabe que prefiro você assim. — ela sorriu e abriu o cardápio. Em seguida, estalou os dedos e logo um garçom se aproximou da nossa mesa, trazendo consigo um tablet para anotar os pedidos. Não fiz questão de nada em especial e logo ela já havia finalizado essa parte. Quando ele se retirou, ela tomou um gole da taça, deixando uma marca do batom vermelho na mesma — E então, . Por mais quanto tempo você vai ficar calado?
— Até você se esquecer completamente daquilo. — suspirei, brincando com o guardanapo.
— Você deve pensar que eu tô brincando. — ela trincou os dentes, seus lábios formando uma linha fina — A diversão de ontem já acabou. Sabe como eu fiquei ao receber a ligação de me avisando que você estava em uma cama de hospital? Ainda por cima, em coma?! Mas o que raios aconteceu? É tudo culpa da maldita que você estava ajudando?
— Mais ou menos. Não... — suspirei, tentando pensar por onde eu começaria.
Acabei por despejar tudo pra ela. Desde a primeira vez que vi Margot até o acidente com a viga. Jane escutava tudo com atenção e enchia a taça de vinho várias vezes, até pedir outro. Ela bebia bastante quando estava nervosa.
Ao final do meu relato, ela me encarava com um olhar distante, quase parecido com a expressão inicial da minha vó. A taça de vinho balançava em seus dedos e ela mordia levemente o lábio inferior, parecendo pensar de uma forma profunda sobre a história.
— Então você encontrou um deles. — ela afirmou em voz baixa, e seus outros dedos começaram a dedilhar a mesa — Isso aconteceria algum dia.
— Você também já os viu? — perguntei, aproximando meu tronco da mesa — Você e minha vó... Essa é uma situação nova só pra mim? Por que nunca me contou antes?
— Porque não era importante. — respondeu ela, mas senti seu lábio tremer — Quer dizer, é só mais um fantasma, com algumas habilidades um pouco mais especiais talvez, mas é só mais um espectro.
— Como assim habilidades especiais? — questionei, e ela desviou os olhos — Que habilidades, Jane? Que papo é esse?
— Nenhuma, . Eles só são um pouco mais demoníacos do que os outros e não são passíveis de ajuda. Então sua avó está totalmente certa ao dizer pra você ficar longe desses malucos.
— Por que eles não se lembram de nada, não é? Mas ele estava perseguindo alguém... Como uma retaliação, algo do tipo. — Jane olhou para o lado e estalou os dedos mais uma vez, pedindo indiretamente outra bebida. Levantei uma sobrancelha, mas ela não disse nada — Você não pode ficar em silêncio em uma situação dessas. Vai, diz o que tá pensando.
O garçom surgiu com a terceira taça de vinho e com o aviso que nossos pedidos já estariam prontos. Jane encheu nossas taças e ainda não dizia nada.
— Jane... — falei entre dentes.
— Tá bom, tá bom! — ela bufou, largando a taça na mesa — Desde que eu te conheço, você sempre teve horror à nossa... — ela olhou de soslaio para os cantos rapidamente — Particularidade. Você sempre fez o que tinha que fazer e só. Mas eu não, eu queria entender porque eu era desse jeito, porque eu sou... E o que eu tinha que fazer. Então fiz umas pesquisas.
— Pesquisas. — repeti e soltei uma risada irônica — Eu já te falei...
— Sim, você pensa que todas essas pesquisas são fajutas que vieram de lunáticos ou fraude, mas eu realmente fiz alguma coisa, . Eu tive de fazer, depois de encontrar com um deles. — ela suspirou e bebeu um gole do vinho — Foi no ensino médio, quando eu tinha matado aula com algumas meninas que me ofereceram um cigarro. A gente foi pra cobertura de um edifício abandonado e lá tinha um cara em pé no parapeito, pronto pra pular. As meninas se assustaram e até tentaram gritar aos quatro ventos para que ele não fizesse aquilo, mas elas não estavam vendo o que eu estava. Que aquele cara não estava ali por vontade própria. — ela baixou os olhos, passando o dedo indicador pela circunferência da taça — O espírito estranho me deixou com tanto medo que eu não consegui fazer nada. Ele segurava o cara naquela posição, e de repente... Jogou ele de lá de cima.
Minha respiração saiu entrecortada. Queria poder dizer que estava chocado, mas eu estava apenas paralisado. Como se Jane estivesse confirmando todas as dúvidas que eu tinha sobre aquilo, e o resultado disso não era bom.
— Jane... — minha voz saiu rouca, e eu não encontrava as palavras seguintes — Eu não sabia, você nunca disse...
— Claro que eu nunca disse, sempre quis esquecer esse dia. Você não tem ideia de como foi assustador e bizarro... Foi o primeiro fantasma que eu vi que não estava ali para pedir ajuda, e sim pra matar alguém. E ele podia tocar outro ser humano, então automaticamente fiquei com medo por mim. — ela fechou os olhos por um segundo antes de continuar — Depois daquilo, eu fiquei desesperada e me meti em uma biblioteca pela primeira vez. Não que fosse ajudar muito, mas lá tinham computadores e você sabe como é a Dundy com tecnologia. Daquela vez eu peguei até alguns livros, e li alguns relatos. Alguns completamente sem pé nem cabeça, e outros até que convincentes... E uma parte que me deixou completamente atordoada.
Ergui uma sobrancelha, e pela cara que Jane fez, aquela era exatamente a parte que ela não queria contar.
— Eram só alguns livros velhos e idiotas, não sei porque...
— Jane. — encarei ela muito sério.
Ela passou a língua nos lábios antes de continuar, odiando o fato de não poder se livrar de mim.
— Em um dos livros dizia algo sobre espíritos malignos tentarem roubar a alma de seres humanos. Era algo bem específico, caso eles fossem... interrompidos. Ou até quem sabe tomar seus corpos. — ela desviou os olhos novamente — Mas esses livros são velhos, ninguém deveria dar importância à eles. E você está aqui, não é? É só ficar longe deles, bem como sua vó te aconselhou. — concordei devagar com a cabeça, agora eu desviando os olhos. Eu mentia muito bem, mas não para Jane. Ela sempre sabia quando algo partia de mim sem convicção — Você acredita no inferno, ?
Dei uma risada seca, dando um gole do vinho.
— Você sabe que não.
— Pois deveria. — ela levantou a sobrancelha, remexendo na taça de vinho novamente — O espírito que você viu veio direto de lá.

***


O silêncio recém instaurado tornou a comida menos apetitosa. Jane ainda tentou conversar mais um pouco, mas algo se embrulhava em meu estômago e me impedia de falar muito, apesar de eu ter tentado. Toda a sua história parecia me dar ânsia, e eu não conseguia focar no momento presente.
Era revoltante ter de dar às costas para um fantasma matar livremente porque "é assim que tem que ser". Não que eu sempre tive essa aura justiceira e vigilante e protegi os oprimidos a vida toda. É só que tudo aquilo parecia cruel, e desumano, e extremamente perigoso.
Não conseguia ficar parado. Minha vontade era levantar e ir embora, mas não faria isso com Jane. A preocupação dela e da minha vó eram relevantes, eram temores baseados em experiências reais, eu é que parecia estar indo na contra mão de todos os ancestrais por simplesmente querer saber mais sobre aquilo.
Mas afinal, por que eu queria? Eu pude ver e sentir que não ficar longe daquela coisa me traria a morte certa, mas ainda assim... Deixar morrer livremente, por qualquer que seja o motivo, contrariava todos os músculos do meu corpo, e minha cabeça doía com o dilema. Se fosse outra pessoa, eu estaria sentindo o mesmo? Estou me sentindo tão angustiado porque, afinal, é com ela? Eu não sabia o que responder e a dualidade me matava e me paralisava.
Por fim, pedi licença à Jane para ir ao banheiro. Ela quis protestar, mas não disse nada. Sabia que havia algo na minha cabeça que eu não conseguia me livrar, e sabia também pela comida praticamente intocada na mesa. Havia algo preso em minha garganta que eu não sabia o que era.
O banheiro inteiro de mármore negro deixava o ambiente escuro, apesar da máxima iluminação. Parei em frente ao espelho, meu subconsciente julgando o cara do reflexo. Não era uma boa ideia, não era uma boa ideia. Fechei os olhos por um instante, tentando me recordar da sensação de ter a alma praticamente roubada. Das outras vezes que ignorei os conselhos de minha vó e sempre não dava certo. Que aquele era provavelmente o conselho mais importante que ela já me dera na vida! Lembrei de sua expressão fria, a história de Jane, e de como eu negligenciei tudo que eu era. Uma onda de remorso me bateu por não ter estado com ela naquele momento, e como era desrespeitoso com tudo que nós éramos correr atrás de um fato tão sombrio em sua vida, tão traumático.
Liguei a torneira da pia e me abaixei para jogar uma água no rosto. Eu ficaria bem. Eu esqueceria aquela história. Eu voltaria para a mesa e automaticamente eu e Jane voltaríamos a ser quem sempre fomos. Eu não estragaria mais nada hoje.
Joguei a água no rosto mais uma vez e imobilizei minhas mãos na região dos olhos por mais um tempo, a ponto de sentir até o último segundo do frescor. Mas quando levantei o tronco para dar uma última olhada no espelho, percebi que não estava sozinho no banheiro.
E muito menos bem acompanhado.
Antes que eu pudesse reagir, Margot me empurrou como um trapo para a parede, cravando sua mão em meu pescoço, com um olhar horripilante. O aperto não estava tão forte, então imaginei de cara que ela talvez não tenha vindo me matar.
— Então você está vivo! — murmurou uma risada seca — Eu achei que tínhamos um acordo, ! — sua voz saiu rouca, entrecortada, medonha. Ela definitivamente não era a garotinha assustada do carro.
— Margot, se acalma... Eu tentei conversar...
— Você estava tentando me enganar! Assim como Ash! E ainda teve coragem de salvá-lo, seu miserável de merda! — ela restringiu o aperto, e o ar passava cada vez menos pela minha garganta — E ainda trouxe aquela vadia pra se meter na minha vida! Nosso acordo já era!
— Margot... — eu tentava pronunciar algumas palavras, mas com sua força sobre humana ficava cada vez mais difícil à medida que ela se irritava.
— Eu deveria acabar com você agora, sabia? Mas primeiro vou acabar com a puta que se acha no direito de remexer no meu corpo, como se eu fosse mais uma marionete! — ela berrou à centímetros do meu rosto, que fizeram alguns fios de cabelo balançarem.
Sem saber da onde me surgiram forças, puxei a perna esquerda e consegui atingi-la um pouco acima da barriga. O golpe fez o aperto em meu pescoço afrouxar e assim eu enfiar o cotovelo do braço esquerdo direto em seu nariz, fazendo-a dar vários passos para trás e se apoiar na pia. Respirei ofegante enquanto tossia algumas vezes, sem perdê-la de vista caso tentasse me atacar de novo.
— O que... Você acabou de dizer? — perguntei em meio às tossidas — ...
Margot deu uma gargalhada, e senti o vidro do banheiro tremer.
— Seu estúpido! A vagabunda da sua parceira está nesse momento em Woodlawn se achando no direito de cavar minha cova como uma imbecil. Só que ela não parou pra pensar que eu não gostaria nem um pouco disso. — ela disse, dando um sorriso perverso — Ela sempre foi assim, metendo o nariz onde não deve. Agora finalmente ela pode aprender uma lição.
Margot deu um último sorriso e simplesmente desapareceu no ar.
Não, não, não, não, não.
não podia estar fazendo aquilo. Absolutamente não podia.
Minha boca ficou seca. Direcionei meus pensamentos para o dia da nossa conversa atrás da porta azul. Não vi em qual minuto eu fiz, mas meus pés se moveram por conta própria e de repente eu já havia corrido para fora do restaurante. Se ouvi gritos de Jane ou de qualquer outro funcionário local foram incoerentes. Eu só conseguia pensar em como chegar no túmulo de Margot.


Capítulo 11 - Sussurros em Woodlawn

Woodlawn. Woodlawn. Eu dirigia cegamente, como um louco, e tinha certeza de já ter ultrapassado dois sinais vermelhos. O celular novo parecia levar uma eternidade pra ligar e passar as configurações, quando finalmente pude ouvir a voz da máquina me ensinando a usar o controle de voz. Gritei sobre a localização de Woodlawn e foram mais segundos arrastados até que ela pesquisasse, ao mesmo tempo em que eu sentia uma gota de suor em minha testa. Pensei em parar até achar a localização exata do cemitério, mas eu simplesmente não sabia se conseguiria. Eu dobrava o World Trade Center quando o telefone finalmente disse o endereço, no Bronx. Bufei e, como um maluco, derrapei o carro para a direita, cantando pneu, e me enfiei do outro lado da pista, recebendo várias buzinas e gritos que duraram milésimos de segundos. Eu já estava muito longe.
Pelo horário, o portão de ferro batido já estava fechado, com algumas lâmpadas dos postes da entrada apagados, o que deixava ainda mais escuro. Havia uma neblina densa e bizarra no ar, deixando o ambiente ainda mais macabro. Estacionei o carro a uma longa distância e em hipótese alguma eu poderia escalar o portão da frente. Já deveria estar em uns 10 graus e a temperatura só cairia mais à medida que as horas passassem, e me preocupei com a possibilidade de nevar, apesar de o inverno ainda nem ter começado.
Eu jamais visitava cemitérios. Era um local que sempre havia uma remota chance de ter um fantasma e eu não precisava necessariamente visitar túmulos para me comunicar com quem quer que seja. Mas invadir um cemitério ou a sala de provas da polícia que diferença fazia.
Havia câmeras principalmente na entrada. Dei a volta em um ângulo de 360º pelos muros, onde havia uma grande quantidade de árvores e muita moita. havia entrado de alguma forma. E tinha dado certo, visto que não havia nenhum carro de polícia ou pessoas correndo pra lá e pra cá.
Os arbustos atrás dos muros eram tão espessos que não era difícil escalar uma das árvores grossas para chegar ao topo. Caí de joelhos do outro lado, mas meus músculos estavam tão tensos que mal senti o impacto. O breu impossibilitava a minha visão e eu não fazia ideia de como acharia . O túmulo de Margot era algo que eu definitivamente não procurei saber e o cemitério era enorme. A cada minuto que passava minha garganta se fechava ainda mais e me senti um idiota por não lembrar o número de de cor para poder usar o telefone.
Depois de andar alguns metros pelo leste do cemitério, avistei uma luz fraca ao longe. Parecia vir da boca de uma lanterna e estava se mexendo rápido e depois devagar, como se a pessoa estivesse em movimento. Não parei para tentar adivinhar muito e corri a plenos pulmões em direção à luz, torcendo para que Margot tivesse desistido da ideia do ataque.
A neblina ficava mais densa à medida que eu me aproximava da luz e aquilo me causava arrepios intensos, como se me dissessem o que estava por vir. Sem perceber, gritei o nome de e imediatamente o pequeno foco de luz virou-se totalmente pra mim, me cegando por alguns momentos e me fazendo parar. A próxima coisa que senti foram braços passando em volta de meu pescoço,e um cheiro que estranhamente eu já reconhecia.
! — arfava, seu peito descendo e subindo tão rápido que parecia que havia corrido há pouco. Um soluço denunciava que ela segurava um choro.
Instintivamente, puxei seu rosto para olhá-lo melhor. Ela parecia totalmente apavorada e estava com a testa molhada de suor. Usava um vestido com os ombros desnudos e tremia naquela noite gelada. Parecia assustadoramente pálida.
Ela rispidamente me soltou ao ver que eu encarava demais, parecendo perceber o que havia feito. De repente, toda a sua postura estava de volta e ela passou as costas das mãos embaixo dos olhos.
— Você está bem? — perguntei, pegando em seu braço e me aproximando para enxergá-lo melhor. Olhei para os lados, atordoado com a pouca visão, e me preparando para Margot aparecer a qualquer momento. — Tá machucada? Viu algo estranho? Por que você está assim...
— Eu estava... Eu... — ela começou e sua voz era abafada na tentativa de segurar mais soluços. — Como você chegou aqui? Como você sabia...
— Isso não importa agora! Você não deveria estar aqui! — Olhei pra ela, dizendo entredentes, minha irritação evidente. — Achei que tínhamos combinado que essa não era uma boa ideia! E o que raios aconteceu com você...
— Eu não sei! Eu estava na lápide de Margot... Aí... — Ela ficou com os olhos perdidos e meu coração de repente se apertou. Peguei a lanterna ainda acesa em sua mão direita e rolei a luz para averiguar o ambiente rapidamente.
Bem atrás dela, havia uma estátua imensa de uns seis metros de pedra branca, com a forma de um anjo. A pintura estava lascada, as últimas folhas do outono ainda estavam espalhadas pelo chão e um vento gélido as empurrou para longe. O silêncio era um tormento, gritava no fundo de minha mente. Algo de bom não iria acontecer se continuássemos ali.
— Temos que sair daqui agora mesmo — falei e virei o corpo para andar na outra direção.
— Espera...
— Se disser algo sobre terminar seu serviço, eu nem sei o que faço com você, ! Vamos sair daqui antes que alguém nos pegue!
— Serviço? — Ela juntou as sobrancelhas. — Não é nada disso que você tá pens....
Eu não podia ouvir suas explicações. Peguei em sua mão e a lanterna e a puxei para a direção que eu me lembrava do muro. Meus músculos ainda estavam tensos e talvez eu apertasse demais a mão dela, mas nada se comparava à rigidez que senti ao ouvir aquele sussurro na escuridão.
— Não tão rápido, . — A voz de Margot soou surpreendentemente macia e abafada, tão diferente da voz arrastada que eu ouvira no banheiro.
Abruptamente, virei meu corpo para trás. Não havia absolutamente nada ao redor, mas cada nervo do meu corpo estava alerta. Ouvi mais uma risadinha e mais um sopro frio, e desloquei para trás de mim, não soltando sua mão em momento algum.
Margot estava brincando comigo. Desde o início sabia que eu viria atrás de e queria machucá-la na minha frente. Eu movia a lanterna por todos os lados, mas ela não aparecia e ficava repetindo palavras e risadas que eu não conseguia compreender, com uma voz que não era mais dela.

"Você não pode escapar de mim."
"Você não tem vergonha de se fazer minha amiga agora que estou morta?"
"Você permitiu que ele fizesse isso comigo."
"Me matou igual fez com seu irmão, com seu pai, com mais quem, ? Quem será o próximo da sua lista? Amiga..."


Que merda de papo era aquele?
, o que foi? — sussurrou e parecia estar tremendo mais. Aquelas palavras não eram direcionadas a mim e Margot não aparecia, então o que diabos era todo aquele jogo?
Em um milésimo de segundo, soltou de meu aperto e gritou quando teve o corpo arrastado pelo chão e lançado de costas à estátua do anjo, que tremeu com o baque e a fez cair de bruços. Imediatamente corri em sua direção, mas um puxão invisível me fez tombar para trás e também cair. Na mesma hora, Margot se materializou à minha frente, com um sorriso macabro no rosto.
— Filha da puta! — resmunguei, tentando me levantar. — O que você pensa que está fazendo?
— Estou fazendo o que ninguém fará por mim. Ou você pensa que vou ficar sentada, olhando a vida de todos aqueles que colocaram Ash propenso a me assassinar seguirem seus caminhos felizes? A resposta é não. — Sua voz ficou baixa e ela aproximou o rosto do meu. — Vou te dar uma última chance, . Você não tem nada a ver com isso, então sugiro que...
Só que ela não terminou de falar, pois meu punho a impossibilitou. Acertei seu nariz em cheio, fazendo-a gemer e cambalear pra trás e atingi seus tornozelos, o que a fez cair finalmente. Isso me daria tempo de chegar a , mas não atrasaria Margot por muito tempo.
Me abaixei ao lado de , que ainda estava no chão, porém parecia acordada.
— Ei! , olha pra mim! Você está bem? — eu ofegava desesperadamente, pensando em uma forma de me livrar de Margot para sairmos dali. — Fala comigo, você se machucou?
... — ela grunhiu, tentando se levantar e colocando as mãos na cabeça, como se sentisse dores. — O que aconteceu? Você ouviu... As vozes... Tinham vozes...
Minha garganta ficou seca e desviei os olhos. Aquela era uma variável que eu não esperava.
— Temos que sair daqui agora mesmo, depois nós...
— Você não vai a lugar nenhum! — Ouvi o grito de Margot na mesma hora em que ela puxou a gola do meu casaco, me jogando para trás violentamente.
Tudo à minha volta estava girando. Eu havia rolado como uma bola por pelo menos uns quatro metros e tenho certeza de ter ouvido chamar meu nome. Antes que eu pudesse me recompor, senti um chute direto no abdômen e depois um punho forte direto no olho.
— Primeiro será você então... — Margot murmurou enquanto apertava novamente meu pescoço, dessa vez com tanta força que eu poderia levar a sério o lance de me matar. — Depois eu me resolvo com a garota e então Naomi, Ash, todos eles...
Senti o ar passar cada vez menos pela minha glote e meus olhos quase saltaram das órbitas. Movi uma das mãos para o pescoço de Margot, tentando causá-la algum dano para que afrouxasse o meu aperto, mas pelo visto estava sendo sem sucesso. Ouvi a voz de mais uma vez, dessa vez se levantando por completo e correndo até mim.
— Não... — tentei falar, gritar, gesticular para que ela não chegasse perto.
Mas ela não pareceu me entender e continuou em frente, com uma expressão assustada no rosto. Eu sabia que ela não podia ver Margot, mas deveria ser desesperador ver uma pessoa prestes a morrer de asfixia sozinho. Assim que ela se aproximou de mim, uma das mãos de Margot soltou do aperto em meu pescoço e brevemente tocaram , fazendo-a ser lançada novamente para trás, desta vez a poucos metros. Pelo seu grito, ela havia batido em algo. Uma raiva aterradora me tomou e puxei a outra mão de Margot, tirando do meu pescoço e jogando a testa em seu nariz, empurrando-a para o lado e depois dando mais um soco, e depois mais outro. Ela gemeu e tossiu, e lhe incitei um pontapé no tórax.
— Estou te avisando... — disse entre dentes, meu punho lhe dando mais um golpe no rosto. — Se chegar perto dela de novo, vou te mandar direto pro inferno!
Ela parecia fraca, mas mesmo assim deu um sorriso irônico, mostrando dois dentes quebrados que logo voltariam ao normal.
— Seu burro. — Ela gargalhou como uma bruxa. — Ele vai atrás dela! — Ela riu e tossiu logo em seguida. — E ele… Com ele você não...
Ela tossiu mais uma vez, dessa vez com mais violência, e simplesmente desapareceu no ar.
Sem perder mais nenhum segundo, levantei rapidamente e me abaixei ao lado de , pegando seu rosto em minhas mãos. Havia um corte aparentemente superficial acima de sua sobrancelha esquerda que sangrava, e ela parecia estar um pouco grogue por causa do segundo impacto. Seus olhos se abriram lentamente e sua respiração estava pesada e profunda.
. Ei — falei devagar, sussurrando, afastando seu cabelo do rosto. — Você pode levantar? Fala comigo... Temos que...
As pontas de seus dedos foram direto para minha boca, calando-me. Sua cabeça se levantou e pude sentir sua respiração quando ela tocou sua testa na minha, ainda de olhos fechados. Senti uma queimação em minha pele e meu coração desestabilizar.
— Você... está bem? — ela perguntou, se afastando do toque por um breve momento. — Você estava... Eu não sei...
— Eu prometo que vou te explicar tudo. Agora, por favor, me diga que consegue levantar, nós precisamos urgent...
Como uma série de coincidências ruins, uma sirene começou a apitar e luzes vermelhas e azuis estavam piscando ao longe. Não, não, não, não. Xinguei raivosamente ao observar um par de lanternas correndo ao longe, se movimentando aleatoriamente, procurando o local da confusão. Parecia que toda a algazarra havia finalmente atraído a atenção dos coveiros. Era tudo que eu não precisava.
pareceu perceber e imediatamente se levantou, ainda que cambaleante.
— Ai meu Deus... — ela arfou, olhando desesperadamente para os lados. — ... O que a gente faz?
— Faça o que eu disser! Vamos! — Puxei-a rapidamente pela mão pela direção que eu me lembrava do muro.
O problema não era apenas escalar o muro para sair do cemitério. Os coveiros poderiam não nos pegar, mas a polícia com certeza iria, visto que eles estavam dirigindo em círculos ao redor do local. Puxei para a escuridão da base do muro há poucos metros da estátua e mesmo que eu não fazia ideia de qual direção sairíamos do outro lado, não tínhamos outra escolha.
— Ah não... — ela murmurou, engolindo em seco olhando para a altura do muro, que era maior do que o da Columbia.
— Eu vou primeiro — falei, olhando firme em seus olhos, tentando passar confiança. — Vamos pela árvore e saltamos do outro lado.
— Nunca subi em uma árvore. — Ela olhou para cima e pude ver o medo que ela sentia.
— Você vai conseguir. Como da outra vez. — Coloquei a mão em seu ombro e senti o formigamento estranho de novo, fazendo-me soltá-la depressa. Ela concordou com a cabeça e eu comecei a escalada.
Visto que não era a mesma árvore que eu havia subido na chegada, essa estava mais e difícil de alcançar o topo. Depois de ter ralado as palmas das mãos umas duas vezes quando quase escorreguei, consegui chegar ao ápice da árvore e pular para o muro, que era mais espesso nesta parte. Olhei para de cima, esperando-a, olhando para os lados nervoso com a iminência da outra ronda da viatura, que parecia estar do outro lado.
Apesar de nunca ter feito aquilo, se saiu bem. Conseguiu chegar ao alcance de minhas mãos bem mais depressa do que eu esperava e a puxei para o muro, onde ela se sentou, com os olhos fechados e respirando pesadamente. Independentemente do seu medo de altura, ela havia chegado bem e com apenas os machucados que havia ganhado lá embaixo.
— Eu vou pular e te seguro — disse mais uma vez, em voz baixa, e ela apenas concordou com a cabeça sem abrir os olhos.
Pular daquela altura não foi tão difícil, e dessa vez consegui cair de forma mais digna. O problema foi que o barulho pareceu ser mil vezes mais alto no asfalto por conta do silêncio ensurdecedor da rua parcialmente iluminada por postes amarelos e sem uma alma penada, apenas o barulho da sirene que se aproximava cada vez mais. Sussurrei para pular e a vi concordando com a cabeça novamente, passando as pernas para o outro lado do muro, finalmente abrindo os olhos.
Ela respirou fundo e pulou direto para os meus braços estendidos. Dessa vez a segurei firme, sem cair, e coloquei-a no chão, xingando aquele formigamento persistente que eu não sabia de onde vinha.
Não dava tempo de perguntar se ela estava bem, apesar de que seu semblante denunciava novamente que ela queria vomitar. As sirenes estavam altas, as luzes se aproximavam cada vez mais e o barulho do impacto dos meus pés havia feito os policiais pisarem o acelerador.
Olhei em volta. Não era o lugar onde eu havia escalado na chegada com toda certeza, e a única forma de encontrar meu carro seria contornando todo o muro do cemitério até o portão de entrada, o que seria extremamente suspeito se fôssemos pegos e não havia tempo para encontrar um esconderijo.
Na verdade, não havia tempo pra nada. Tentei correr alguns metros com , mas não éramos mais rápidos do que um carro. Sem chance de não sermos colocados na viatura se fôssemos pegos naquela situação em meio a uma correria e não estava nas melhores condições físicas pra isso.
Por fim, havia um jeito. Impopular, eu diria.
— Para! Não vamos conseguir. — Puxei seu braço e ela juntou as sobrancelhas, usando sua expressão normal quando queria dizer que eu estava maluco.
— O que você quer dizer? Eu realmente não quero dormir em uma cela... — ela sussurrou entredentes, olhando nervosa para os lados.
— Lembra que eu disse pra fazer o que eu disser? — Ela concordou com a cabeça, ansiosa. — Preciso que você fique parada.
Foi nessa hora que eu a beijei.


Capítulo 12 - Silêncios e Segredos

A buzina soou uma, duas, talvez até três vezes. Era um barulho incômodo, como o zumbido de um mosquito, soando bem ao fundo do ambiente. Pelo menos era assim que parecia quando minha mente estava completamente focada em outra coisa.
Beijar não foi premeditado, de forma alguma. Foi uma decisão tomada impulsivamente, visando um objetivo em comum: distração. Então esperava que mais tarde isso explicasse por que estávamos imprensados no muro nos beijando de forma tão ardente.
Uma luz branca e forte iluminou a lateral de meu rosto e eu voltei ao foco. Abri um dos olhos e vi um policial se aproximar de nós, com a lanterna em nosso rosto. Afrouxei o aperto no cabelo de e mantive o braço em sua cintura, que não fazia ideia de como fora parar lá. Ela continuava me beijando de olhos fechados, aparentemente não percebendo que tínhamos sido descobertos.
— Ei, vocês aí! — O policial foi chegando perto, eu me afastei lentamente do beijo e ela pareceu finalmente voltar à vida real e tentar se afastar, mas a impedi com meu braço. Seu rosto estava inteiramente pintado de vermelho. — Não acham um pouco inapropriado fazer esse tipo de coisa aqui a esta hora?
O policial desligou a lanterna e nos encarou. abaixou a cabeça, envergonhada, e eu dei um pigarro antes de falar:
— Sentimos muito, senhor. Nós já estamos de saída...
— O que aconteceu com a roupa dela? — ele me interrompeu, apontando para o vestido de sujo de terra e seus joelhos ralados. — A senhorita está bem? Esse rapaz tentou fazer alguma coisa com você? — Ele foi se aproximando lentamente de mim.
— Não, não! — falou depois de um tempo. — Isso... É difícil explicar, senhor...
Ela olhou brevemente para mim, como um pedido de ajuda para formular uma história que ainda não tínhamos.
— Difícil, é? — O policial semicerrou os olhos e olhou desconfiado para nós dois. — Posso saber de onde os dois estão vindo?
— Senhor, como eu disse, é um pouco complicado...
— Recebemos uma denúncia de possíveis vândalos aqui no cemitério jardim. Pelo estado de vocês, parece que estavam fazendo algo bem trabalhoso. Vocês sabem algo sobre isso? — Ele levantou a sobrancelha e abri a boca pra falar, mas minha mente deu um branco. olhou de soslaio para mim, como quem dissesse "fiz minha parte, agora faça a sua".
E o único jeito que achei talvez não a agradasse tanto.
— Senhor, é um pouco constrangedor... — respondi, sorrindo amarelo.
— Falem logo ou vão ter de falar na delegacia — ele disse firme.
— Nós só estávamos tentando fazer... o senhor sabe... em um lugar diferente! — despejei, e eu não sabia que poderia ficar mais vermelha do que já estava. Ela virou o rosto pra mim na mesma hora, com um grande ponto de interrogação na testa. — Não deu muito certo, como pode perceber.
O policial continuava nos encarando, analisando toda a situação. De repente, sua boca se abriu em surpresa e ele deu uma gargalhada.
— Ah... Certo, certo, esses jovens. Sempre se aventurando. — Ele riu mais uma vez, guardando a lanterna no bolso de trás do uniforme. Eu e demos risos forçados. — Compreendo a situação, mas vocês precisam sair daqui. Já passa da meia noite e estamos procurando suspeitos, então vão tentar fazer, sabe, aquilo em outro lugar. Meu cunhado é dono de um motel nessas redondezas. — Ele tirou um cartão retangular do bolso e me entregou. — Não é cinco estrelas, mas é melhor lá do que o que vocês estavam tentando fazer nesse muro. — Alerta rosto vermelho de novo. — Então é isso. Vou completar a ronda e quando eu passar por aqui de novo, não quero ver vocês.
— Muito obrigado, senhor. Tenha uma boa noite.
Ele retribuiu o cumprimento e entrou novamente na viatura, ligando a sirene antes de arrancar e sair. Olhei para , que ainda estava com as bochechas vermelhas e fazia de tudo para não olhar em meus olhos enquanto ajeitava seu cabelo e vestido.
— Então... — comecei a falar, mas ela levantou a palma da mão para me interromper.
— Você ouviu o policial, temos que sair daqui agora — ela disse e começou a andar em frente, na direção que estávamos indo antes. Por um momento, ela parou e se virou. — O que ainda está fazendo com esse cartão?
Bufei e joguei o cartão na lixeira mais próxima.

***


Eu estava pronto para o bombardeio de perguntas que me lançaria. Comecei a pensar em histórias, doenças, as desculpas mais esfarrapadas possíveis para explicar os eventos daquela noite. Pensava seriamente em confirmar seu julgamento de que eu realmente deveria ser epilético. Ou que eu era só doido mesmo.
Mas as perguntas não vieram. Não recebi palavra alguma desde que entramos no carro. E isso não me fazia sentir nada bem. Ela estava encolhida no banco, com o olhar distante, vazio, e eu nem acredito que daria tudo para saber o que ela estava pensando.
Não sabia se deveria levá-la pra casa, pra um hospital ou qualquer lugar que seja. Não tinha coragem de perguntar. Tentei pensar que ela estava daquele jeito por causa do beijo, mas parecia mais do que isso. Ela não era lá de se sentir tão afetada por causa de um beijo.
Ela não mostrou reação alguma quando estacionei o Jeep nas redondezas da baía de NY, de frente para o mar e o Upper Bay, com a estátua da liberdade brilhando ao longe. Não havia ninguém próximo, o silêncio era tanto que ouvíamos as batidas das ondas nas rochas.
Acendi a luz do carro e ela pareceu acordar. Não queria, mas vi medo nos seus olhos. Seria de mim? Se não, de quem mais seria?
Estiquei o corpo em sua direção e ela se encolheu ainda mais. Olhei pra ela, cauteloso, e abri lentamente o porta-luvas à sua frente, pegando um pequeno kit de primeiros socorros que eu mantinha para situações que eu sabia que iria passar.
Olhei para sua perna esquerda, pro ralado vermelho bem no centro do joelho e algumas feridas mais leves pela panturrilha. Ela acompanhou meu olhar, mas não relaxou.
— O que estamos fazendo aqui? — Sua voz não era ansiosa e nem apavorada. Ela parecia cansada.
— Não achei que você fosse querer chegar em casa assim — mantive minha voz firme, apesar de saber que fingir que nada aconteceu não resolveria nada. — Posso cuidar disso — disse em um sussurro.
Se ela dissesse para levá-la embora, eu a levaria sem piscar. Estava disposto a fazer qualquer coisa que ela pedisse para que tirasse a expressão de desconforto que havia tomado. Uma sensação estranha me invadia quando eu a olhava, parecia que estava me machucando.
Para minha surpresa — e não posso negar, alívio — ela girou o corpo em minha direção e estendeu a perna em cima da minha. Ela segurou a barra do vestido que havia subido alguns centímetros, procurando cobrir o máximo de pele que conseguia. O olhar dela era cauteloso, parecia estar me vigiando.
Sem dizer nada, abri a caixa e comecei a fazer o curativo em silêncio. Ela encostou a cabeça na janela e fechou os olhos com força quando mexi em seu joelho, e não me senti nada bem vendo-a sentir dor.
— Ai! — ela gemeu, ficando trêmula por alguns segundos. — Acho que eu mesma posso fazer isso… — Ela ameaçou retirar a perna, mas puxei-a de volta para o lugar.
— Já estou terminando — murmurei. Não queria parecer ameaçador, mas posso ter deixado um pouco da minha irritação vir à tona. Se ela queria me torturar com seu silêncio, tudo bem, mas que saiba que eu não estava gostando nada daquilo.
Ela não brigou ou discutiu, deixou que eu terminasse o curativo. Posicionei sua perna com cuidado para debaixo do banco e em seguida encarei o corte em sua testa.
— Posso te ajudar com isso também? — falei baixo novamente.
Dessa vez ela não tentou negar. Se aproximou lentamente de mim e eu dela, uma aproximação que fez meu sangue ferver. Apliquei a clorexidina, ela deu leves espasmos e usei minha outra mão para estabilizar seu rosto. Eu via que ela estava com os olhos fixos em mim, me estudando, cada centímetro do meu rosto. Sentia que ela estava procurando traços de que tudo que havia visto fora real, que eu estava realmente ali, cuidando de seu machucado depois de tê-la visto voar pela estátua e ter quedas inexplicáveis. Que eu realmente havia sido lançado ao ar por uma força invisível e dando socos ao vento.
Eu sabia que as perguntas estavam ali, nos seus olhos. Eu só não sabia se ela queria saber as respostas. E era exatamente por isso que ela ainda não havia fugido: porque não tinha certeza do que tinha acabado de ver.
A maioria das pessoas era assim. Fantasmas agem no cotidiano o tempo todo, mas as pessoas preferem simplesmente ignorar e aceitar que eram coisas de sua cabeça. Que não era real. Que fantasmas não existem. Era mais fácil. A ignorância é uma benção.
Mas ali, com seu rosto tão próximo do meu que era capaz de sentir sua respiração, eu sabia que ela estava além. Que eu havia aguçado sua curiosidade — ela só não sabia como lidar com ela naquele momento.
Terminei o curativo e guardei a caixa no porta-luvas. Voltei as mãos ao volante e as coloquei nas chaves, pronto para ir embora.
— Você ainda não me respondeu — ela falou, impedindo que eu desse a partida.
Ela iria começar a falar e eu não sabia se isso era bom ou ruim.
Apenas olhei pra ela, esperando.
— Como sabia que eu estava lá?
Pensei. Costumava lançar a primeira resposta que vinha à minha mente para e sempre obtive 100% de sucesso. Mas algo me dizia que com não seria bem assim.
— Já disse que isso não importa. — Tateei a entrada abaixo do rádio e achei o maço que guardava. — O importante é que eu estava lá. — Acendi o cigarro, mesmo sabendo que não entendia essa mensagem.
Ela continuou olhando para mim fixamente. O medo ainda estava lá, mas agora eu também via um novo tipo de sentimento, como frustração.
— Não vai perguntar se estou bem? — Ela deu de ombros.
A fumaça enchia o carro, mas ela não parecia se importar. Ela parecia estar me desafiando a dar a resposta correta.
— Espero que esteja — respondi em um fio de voz. Oras, eu não tinha coragem de lhe perguntar isso.
— Pois não estou! — ela vociferou e me deixou preocupado. Agora eu via a raiva. A veia dilatada na têmpora. Ela desejava gritar. — O que… O que foi aquilo? Como você… Como eu…
Ela não sabia por onde começar. A pergunta estava na ponta da língua, mas as palavras se perdiam. Ela estava confusa e isso não era bom. Quis bater minha cabeça na parede por ter vindo até aqui. Quis me socar até a morte por ter deixado o restaurante e ido até Woodlawn. Mas daí teria passado por tudo que passou hoje e poderia estar morta. Eu sentia raiva de mim mesmo por não poder explicar.
Permaneci frio frente à sua confusão. Eu não podia envolvê-la mais. Aquilo tinha sido um erro. Precisava me afastar e dessa vez definitivamente. Poderia observá-la de longe, vigiar o fantasma estranho sem englobá-la nesse meu mundo.
— Você parece cansada — falei, colocando o cigarro na boca e metendo as mãos novamente no volante. — Vou te levar pra casa.
Ela jogou o corpo pro meu lado, tirando o cigarro à força dos meus lábios e jogando-o pela janela. Estava com um olhar furioso, frustrado e ao mesmo tempo amedrontado.
— Eu lembro. Eu vi. Eu não sou louca — ela sussurrou, seu nariz praticamente encostando no meu. Ela sabia o que queria falar, mas seu tom de voz não era firme; ela parecia apavorada só de proferir aquelas palavras. — Eu ouvi… Ela disse… Sobre o … — Seu rosto se curvou em uma careta de choro, mas ela se conteve. Seus olhos marejaram e não demorou muito para deixar uma lágrima sair.
Ela abaixou a cabeça e seu corpo tremeu para segurar os soluços. Trinquei o maxilar, com uma vontade súbita de socar Margot mais umas dezenas de vezes. Como ela havia feito aquilo com eu não fazia ideia, mas não podia ceder e bater um papo com ela sobre aquilo naquele momento, por mais que eu estranhamente quisesse isso.
— Deixa eu te levar pra casa — repeti mais uma vez, em voz baixa. Minha voz estava o mais nula possível.
Ela ergueu a cabeça e me olhou feio, agarrando a minha camisa e me puxando pra mais perto.
— Você… — ela ofegou. — Você viu alguma coisa. Estava vendo alguma coisa. — Não era uma pergunta. — Você estava lá! Você se lembra, você a ouviu! Ela falou sobre o meu pai, sobre , oh meu Deus, … — Seu corpo sacudiu em soluços e ela fechou os olhos com força, mais lágrimas rolando. — Fui visitá-lo e ela te machucou, você a viu! É igual daquela vez, ele também podia vê-los…
— Não faço ideia do que você está falando. — Mantive a expressão séria a fim de que ela entendesse. — Você levou uns tombos, não sabia que era tão desastrada. Até me derrubou em uma das vezes.
Sua boca se abriu em um choque. Me senti um cretino. Ela buscou a verdade em meus olhos, que permaneciam frios e até insensíveis.
— Não, você também ouviu — seu tom de voz ficou mais firme, com raiva. — Você conversou com ela, na escuridão… Eu sei que tinha algo na escuridão, você se lembra!
Nervoso, agarrei seu cabelo com uma das mãos e aproximei nossos rostos até encostar em seu nariz. Tornei meu olhar furioso, impaciente, deixando explícito que queria que ela calasse a boca.
— Quer saber do que eu me lembro? — entredentes, minha voz saía como um rugido. — Lembro disso… — Contornei seus lábios com os dedos, detendo meu olhar ali. — E disso… — Coloquei mais força no aperto em seu cabelo. Senti a agressividade dela se dissipando e ela fechar os olhos ao toque, ofegando. Um súbito desejo doentio e aproveitador me inundou. — Não se lembra?
Larguei seu cabelo com força e a vez de quem se encolher foi minha. Queria sair do carro, gritar. Queria que alguém tirasse essa mulher atraente do meu carro, queria não ter tanta vontade de contá-la sobre o que aconteceu, queria não sentir a curiosidade latente sobre absolutamente tudo de sua vida, queria não me sentir um lixo por vê-la chorar e não fazer nada.
Ela ainda parecia com raiva, mas voltou ao banco. Seu choro havia cessado, transformado em apenas pequenas fungadas. Eu sabia que, se pudesse, ela sairia do meu carro naquele momento e iria embora de outra forma. Eu havia agido como um perfeito babaca e, mesmo que propositalmente, não conseguia evitar de me sentir mal. Eu havia literalmente desprezado toda a sua dor e a tratado como fui tratado sempre que toquei nesse assunto poucas vezes na vida.
Ela estava sofrendo pelas palavras de Margot e meu corpo queimava de curiosidade, mas eu não podia me permitir adentrar a intimidade de . Tinha medo de conhecê-la melhor. Tinha medo de não querer ir embora.
— Nunca mais faça isso — ela murmurou, encostando a cabeça no banco.
— Te oferecer uma carona? — Olhei para frente, os dedos apertando o volante.
— Me beijar. E… me tocar desse jeito. — Ela me olhou de soslaio, mas não me atrevi a retribuir. Tinha que deixar claro que aquilo não importava.
— Claro — respondi seco, girando a chave. — Nunca mais vou te beijar.

***


Jane devia estar uma fera, e com toda razão. Assim que eu havia completado o pensamento de que não estragaria mais a noite, eu fiz isso e muito mais. Pensei em várias formas de como explicaria o que havia acontecido naquele dia, que ainda continuava nebuloso.
Mas não precisei pensar tanto, pois Jane estava parada no meio da minha sala assim que abri a porta, usando um roupão azul marinho e bebendo uma taça de vinho, com os Beatles tocando ao fundo.
Ela se virou ao me ver entrar e não disse nada. Eu respirei fundo enquanto fechava a porta atrás de mim.
— Eu juro que posso explicar.
— A bela NY agora anda ensinando rapazes a largarem damas plantadas no meio do jantar?
— Eu não devia... Não foi... — Fechei os olhos, balançando a cabeça. — Me desculpa. Foi um vacilo terrível. Eu prometo que vou te compensar.
— Vai mesmo? — Ela levantou a sobrancelha e colocou a taça na mesa de centro. Em seguida, ela desamarrou o roupão e deixou que este caísse no chão, revelando seu corpo completamente nu. — Vamos ver como você vai se sair nisso.
Jane me beijou, violenta e sedutora, passando a língua pelos meus lábios e jogando meu casaco ao chão. Puxou pela gola da minha camisa até a bancada da cozinha, onde se sentou e passou as pernas pela minha cintura.
— Lembra como a gente queria experimentar na cozinha? — ela sussurrou em minha orelha entre os beijos nessa região. Arfei, o sangue indo à toda velocidade entre as minhas pernas, deixando que ela tirasse minha camisa.
Beijei seu pescoço e desci até os seios enquanto ela desatava o zíper da minha calça. Respirando pesado, ela repentinamente desceu da bancada e virou de costas para mim, inclinando e encostando todo o tronco em cima da superfície retangular, virando a cabeça de lado.
— Você sabe como eu gosto — ela falou baixo, mordendo os lábios, olhando para mim de soslaio.
Foi o que bastou para eu terminar de retirar minhas roupas. Peguei em sua cintura e dei a primeira estocada, enquanto colocava a outra mão em seu cabelo. Minha visão de suas costas nuas, os cabelos jogados para o lado enquanto ela gemia... de repente fui transportado para o carro mais cedo, o rosto de perto do meu, sua perna na minha, sua pele macia, os cabelos sendo postos de lado e uma cena que não havia acontecido: ela se virando de frente para mim, me permitindo beijá-la de novo, observá-la, tirando o resto das roupas, um beijo tão ardente quanto o do muro ou mais.
Fechei os olhos com força, lutando para voltar à realidade. Ouvi Jane pedir que eu fosse mais rápido, visto que eu havia perdido o ritmo. Abri os olhos novamente e tentei de novo, mas dessa vez a lembrança do muro veio com força total, as mãos de indo para o meu cabelo, sua língua que havia começado relutante, mas no final já explorava toda a minha boca em um ritmo frenético e intenso. Fechei os olhos novamente, revivendo o toque e senti meu corpo arder em chamas. Em mais um abrir de olhos, visualizei as costas de Jane, o cabelo loiro nada parecido com o cabelo que eu havia tocado mais cedo, nem a boca, as costas; e eu quis voltar loucamente para a lembrança de , a situação e tudo.
De repente, eu não conseguia mais.
Me afastei de Jane, ofegante, coçando os olhos e vestindo minhas roupas de volta. Eu mal havia notado que eu brochei, mas ela com certeza percebeu. Procurei um cigarro nos meus bolsos e não achei, andando até o outro lado da bancada.
— Qual é o problema? — Jane caminhou até mim, colocando a mão em meu rosto e desviei o olhar. — Você está bem? Aconteceu alguma coisa hoje?
— Não aconteceu nada — respondi rápido, me desvencilhando sem perceber e caminhando até uma das gavetas da pia, achando um maço.
— Realmente não aconteceu nada. — Senti o tom irônico em sua voz. — E isso não é normal. Vai, me diz o que aconteceu hoje.
Suspirei e acendi o cigarro, em seguida pegando duas cervejas na geladeira.
— Olha, me perdoa. — Entreguei uma pra ela, junto com minha camisa que peguei do chão. — Eu não sei o que aconteceu, devo estar preocupado com as provas e toda a matéria perdida nesse tempo que passei no hospital, não sei.
— E desde quando você se preocupa com essas coisas? — Ela vestiu minha camisa e nós dois nos sentamos no tapete em frente à enorme janela da sala, olhando o horizonte brilhante de NY. — O que está havendo? Conversa comigo. — Ela passou a mão em meu cabelo.
Olhei pra ela, que tinha uma expressão calma, mas seu olhar era ansioso. Ela bebeu um gole da cerveja e roubou meu cigarro antes que eu o colocasse na boca, pois ela sabia que era uma forma de eu ficar sem falar. Respirei fundo e não vi escapatória.
— Eu vi Margot no banheiro. — Dei de ombros. — Ela enlouqueceu e me atacou... — Bebi um gole da cerveja e me calei.
— E? — ela perguntou depois de um tempo. — Estava esse tempo todo lutando com uma assombração? Me recuso a acreditar.
— Não exatamente... Ela estava indo matar alguém.
Jane balançou a cabeça devagar.
— Um espírito vingativo? Não é muito cedo pra essa garota?
— Pois é, foi meu primeiro pensamento. É tudo muito estranho. Até semana passada ela mal conseguia sair do campus e agora me encontrou em um lugar onde eu nem frequento. Fico pensando se ela não pode aparecer aqui a qualquer momento...
— Ela não irá fazer isso. — Jane disse tranquila enquanto bebia outro gole da cerveja.
— Como tem tanta certeza disso?
— Porque eu tenho. — Ela deu uma piscadinha. — Você devia ler mais sobre os mortos, . Como é esperado, você despreza tudo que vem do lado de lá, mas sua vó é capaz de mais coisas do que você pensa. Ela com certeza protege esse lugar com tudo que tem.
— Do que está falando? — Eu ri debochado, roubando meu cigarro de volta da mão dela. — Minha vó é só um fantasma que quando viva podia ver outros fantasmas. Não há nenhuma habilidade especial a mais.
— Claro, claro. Não subestime a Madame Kang. — Jane concordou com a cabeça, dando um sorriso maroto. — Mas e então, é com isso que você está preocupado? Não fica assim, essa garota não vai achá-lo de novo nem tão cedo.
— Não é comigo que estou preocupado — murmurei, olhando para frente.
— Então o que é? — Suas sobrancelhas se juntaram por alguns segundos antes de ela soltar um "Ahh" da descoberta. — A pessoa que ela queria matar, claro. Por acaso tem algo a ver com o cara entrevado em uma cama de hospital com a perna arruinada nesse momento?
Repentinamente, eu estava em um dilema. Sobre os mortos, eu não costumava esconder nada de Jane. Absolutamente nada. Parecia extremamente errado fazer aquilo com a única pessoa que eu conhecia que compartilhava aquela realidade comigo, como se fosse um código de irmandade desde o nascimento.
— Mais ou menos — respondi. Ela piscou os olhos, esperando o resto da resposta. — Ela queria matar outra pessoa.
— Uau. Nervosinha ela. — Ela soltou uma risada enquanto bebia outro gole. — O que foi isso? Bullying coletivo? Quem era o próximo alvo?
Novamente o dilema sondando a minha cabeça.
— Era... uma garota. Margot me disse pra onde estava indo e que pretendia matá-la... Eu nem pensei direito e fui.
— Hmmm — ela murmurou e ficou em silêncio por algum tempo. — Saiu correndo para salvar uma garota, que situação atípica de . Devo ficar com ciúmes?
— Claro que não. — Dei uma risada, mas pareceu meio engasgada. — Eu nem a conhecia, mas a situação de Margot me deixa inquieto, ela precisa ser detida.
— Entendi, senhor vigilante. Agora a pergunta que não quer calar: por que não me levou junto? — Ela ergueu as mãos para frente como uma pergunta óbvia. — Esqueceu que estamos juntos nessa? Eu nunca recuso uma boa briga com esses indigentes penados e você sabe bem disso. Tudo isso poderia ter sido resolvido bem rapidinho e agora estaríamos fazendo coisas bem mais interessantes... — Ela passou as mãos pelos meus ombros, se aproximando de mim de joelhos, chegando perto da minha boca.
Novamente no automático, desviei antes que nossos lábios se tocassem, dando um sorriso fraco de volta.
— É, você está certa. Na hora eu não pensei em te meter nessa, me desculpa.
Ela concordou com a cabeça, mas sua testa estava enrugada levemente, com uma expressão desconfiada.
— Aconteceu mais alguma coisa hoje, ?
O dilema. Dessa vez me apertava como paredes em movimento, prontas a me esmagarem se eu não achasse uma saída. Sim, havia acontecido mais alguma coisa que eu estranhamente não queria falar sobre.
Percebi que eu nunca havia tido uma conversa daquelas com Jane. Digo sobre outras garotas. Por mais que eu buscasse em todo o histórico da nossa história, eu nunca havia tido motivos pra sequer tocar no assunto. A verdade nua e crua era que Jane era a única.
Não que não pudesse haver outras. Eu não estava preso à Jane, nunca me sentira assim. Mas quando eu pensava em falar sobre , sentia a garganta fechar. Como se eu quisesse guardar aquele momento só pra mim dessa vez, sem contar para terceiros, mesmo que este fosse Jane. E, por um lado, eu não imaginava qual seria sua reação e o rumo que a conversa teria — e não estava disposto a tê-la naquele momento.
Ela ainda esperava uma resposta e tentei bolar uma explicação no meio da minha cabeça confusa.
— Já disse que não. — Dei de ombros. — Só tive problemas técnicos na hora da fuga. — Mostrei as palmas das mãos raladas da árvore.
Ela deu uma risada e pegou as palmas de minhas mãos, passando os dedos de leve sobre os machucados. Seu olhar parecia estar viajando para outro lugar.
— Eu devia saber que não havia acontecido nada grave — ela dizia com um sorriso em linha reta. — É que depois do que você me contou e de tudo que passou... Sei lá, apenas pensei... — Ela balançou a cabeça e o sorriso foi desaparecendo aos poucos enquanto ela se abraçava.
Jane só me permitia ver esses momentos de fraqueza poucas vezes durante a vida. No fim, ela estava preocupada comigo e isso a assustava porque ela bem sabia como eu podia me virar bem em qualquer situação quando se tratava dos fantasmas. Mas eu não podia julgá-la daquela vez, não depois de tudo que havia acontecido.
— Por um momento pensei que você tinha ido atrás dela. — Ela deu uma risada seca, sem graça. — Sabe? Da garota que está sendo perseguida por aquele... — Ela teve um arrepio e balançou a cabeça. — Enfim. Foi uma ideia maluca, não é? Você não faria isso depois do que ele lhe fez.
Com a boca seca, apenas concordei. Jane ainda não relacionava a garota que havia aparecido em minha porta naquela manhã com a que estava exposta à morte e eu mais uma vez não fiz questão de dizer. Essa sim seria a reação dela que eu não queria ver. Apesar de que, se fosse para afastar , poderia ser bastante necessária.
Conversamos por mais um tempo madrugada adentro. Ela me contou que havia ligado pra ela, porque não conseguia falar comigo, pois eu ainda não havia feito o favor de comprar um celular novo. Lembrei-me que o havia deixado largado no carro e prometi que ligaria para Jane e com o número novo assim que eu dormisse um pouco. Como de praxe, Jane avisou que eu não a veria saindo pela manhã pois seu voo era muito cedo. Dessa vez, ela tinha negócios na Flórida e brincou que mandaria lembranças à minha mãe.
Finalmente senti o sono me alcançando e fui para o quarto, deitando ao lado de Jane. Fechei os olhos e, infelizmente, os pensamentos continuavam ali. Como um repeteco dos acontecimentos, um resumo de tudo que havia se passado. Eu não sabia se deveria refletir ou ficar ainda mais ansioso. Eu havia quebrado a promessa com minha vó sem nem pensar duas vezes por causa de uma garota que eu mal conhecia — e que estranhamente me fazia querer protegê-la — e que, pelas frases de Margot, escondia algum tipo de segredo. Mas era mais do que isso. Nos últimos dias, eu havia me deparado com muitas situações novas que me deixavam cada vez mais em dúvida e perdido sobre o que eu estava fazendo, e isso por si só já era novidade. Como se tudo isso fosse por um propósito desconhecido, mas a sensação de que alguma coisa terrível iria acontecer ainda estava aqui.
E eu não fazia ideia de como o prevenir.


Capítulo 13 - Hereditário

Eu tinha certeza de que estava sonhando.
Os pés descalços mergulhados na poça não me deixavam mentir. Até porque minha última lembrança havia sido na minha casa, no meu quarto, deitado ao lado de Jane. Mas ali, naquela escuridão enevoada e medonha, nada tinha a ver com o apartamento, muito menos com a sensação de familiaridade e de segurança que eu experimentava ao lado dela. Era apenas… o nada.

Se preferir, coloque para tocar Dreamscape - Nox Arcana.

Aos poucos, o cenário foi tomando forma. Paredes levantaram-se do chão, escuras e mofadas. Uma única luz tênue amarelada vinha de algum ponto do local que eu nem sabia do que se tratava. Queria dizer que estava com medo, mas a minha curiosidade abafou esse sentimento antes que ele pudesse dar as caras. Isso porque havia outro par de pés submersos na água, que corriam timidamente à medida que a outra pessoa se aproximava.
Ele se aproximou tão rápido, correndo, pisando forte no chão molhado e fazendo com que os respingos me atingissem. Pelo reflexo turvo na água eu não o reconheci. Ergui os olhos e obtive o mesmo sentimento de estranhamento. Era apenas um homem, um desconhecido. Tinha um olhar de puro pânico e o corpo encharcado. Ele havia surgido de lugar nenhum, estava fugindo.
Ele corria exatamente na minha direção e com certeza me derrubaria se eu não saísse de seu caminho. Mas eu precisava pará-lo, perguntar o que estava acontecendo, que lugar era aquele, o que eu estava fazendo ali. Entretanto, mesmo com o choque iminente que sofreríamos caso eu não me mexesse, ele não parecia estar me vendo. Tinha os olhos cravados em mim, mas confusos, concentrados, amedrontados em um ponto à frente. Como se eu não estivesse ali. E gostaria de dizer que essa foi a parte mais bizarra da coisa.
Mas, ao faltarem menos de dois passos para o impacto de nossos corpos, tudo ao redor ficou em câmera lenta. A imagem do homem à minha frente tremulou e se transformou. Tinha os mesmos olhos assustados, o mesmo medo e desespero de antes. Mas, em um piscar de olhos, não havia mais homem desconhecido algum.
Eu estava correndo de algo que se escondia no escuro. Eu era o dono dos pés espalhafatosos que lançavam as gotas da água corrente ao redor, com as roupas molhadas grudando na pele. Eu era a pessoa com o semblante destilando puro terror.
E ele — ou eu — estava prestes a me acertar em cheio. No último milésimo de um segundo, senti seus olhos cravarem nos meus, duros como pedra. Minhas pernas viraram chumbo. Levantei a mão para tocá-lo, mas ele simplesmente me atravessou. Como fumaça. Girei o corpo para trás, mas ele não estava. Havia simplesmente desaparecido, como se fosse uma ilusão.
Mas uma segunda presença, muito mais atenuante e devoradora, surgiu pelas minhas costas. E quando me virei, fui tomado por uma mão fria e atroz em meu pescoço, em um aperto que revelava diretamente sua intenção de me matar — e também todo o intuito daquele sonho.
Não precisei olhar para o seu rosto. Eu já sabia. Toda a aura negra e medonha me foram familiares no mesmo instante, fazendo-me reviver o vazio e o ataque. Tentei lutar contra ele, mas era inútil — inútil de uma forma diferente, uma impotência que eu jamais havia sentido. Todo e qualquer movimento não parecia atingi-lo e eu mal saía do lugar, por mais que tentasse. Com o ar faltando cada vez mais em meus pulmões, questionei-me se aquele era realmente um sonho, se o medo que começava a me desesperar era real e motivo suficiente para que eu me preocupasse. Seus lábios se abriram lentamente em um sorriso feio, distorcido, mostrando os dentes lascados e sujos. Ele aproximou seu rosto do meu, não afrouxando o aperto em momento algum, e sussurrou apenas uma palavra:
“Destino”.
Era aí que eu acordava, sentando-me veloz na cama e levando as mãos automaticamente para o pescoço, arfando e encharcado de suor. Foi um sonho. Um sonho que me acompanharia não apenas naquela noite. Um sonho que me perturbava com a sensação inteiramente realista de se estar morrendo.
? — A voz de Jane soou grogue e sonolenta ao meu lado. — Que horas são?
Eu não sabia, mas os raios de sol já penetravam as janelas.
Joguei as pernas pra fora da cama, controlando minha respiração pesada para que Jane não percebesse e fizesse perguntas. Tudo que eu menos queria e precisava naquele momento era preocupá-la com coisas que nem eu sabia o que eram.
— Sete horas — respondi ao olhar o aparelho de som na mesinha de cabeceira. Levantei-me logo em seguida, seguindo para o banheiro.
Diante do reflexo no espelho, pousei os olhos imediatamente sobre o meu pescoço. Não havia nada de anormal. Absolutamente nada. Mesmo que a sensação e o medo cortante estivessem ali há poucos instantes, a imagem vívida de seu rosto e suas palavras imprimidas em minha mente. Um arrepio atravessou a minha espinha ao me lembrar do enigma de estar vendo a mim mesmo como um espectador, da mesma forma que me olhava agora mesmo nesse espelho. Sem contar na outra maldita figura do homem desconhecido, que eu nunca havia visto em toda minha vida.
Me despi rapidamente e entrei no box, ligando a água gelada em plena manhã de outono. Apesar de odiar o frio, ele era o único capaz de desviar meus pensamentos para outras coisas no momento. Sem pensar em que diabos foi aquele sonho, quem diabos era aquele espírito e o que “Destino” significava. E eu torcia para não ter relação alguma com a conversa que tive com minha avó no hospital.
Mal senti quando os braços de Jane envolveram minha cintura, contrastando a água fria com seu corpo quente como sempre foi. Como um idiota, um lapso de memória do muro da noite anterior veio à tona, fazendo-me fechar os olhos de frustração.
— O que é isso, babe — ela murmurou, soltando-se do abraço e ficando na ponta dos pés para mudar a temperatura do chuveiro. — Você está tomando um banho frio de manhã? O inverno é daqui a pouco. — Ela soltou uma risada e puxou meu braço, virando-me pra ela. — Tá tudo bem? Ainda pensando na Margot?
Concordei com a cabeça, sorrindo timidamente enquanto pegava uma embalagem de shampoo qualquer. Só assim para que ela talvez não me perguntasse mais nada e eu não tivesse que mentir, ou esconder o que estava sentindo e pensando, algo que eu nunca fizera com Jane.
A verdade era que eu mal conseguia colocar em palavras o turbilhão de coisas que eu sentia no momento. Como iria agir com quando a visse no campus? Se é que a visse. Como explicaria os eventos inexplicáveis da noite anterior, agora que ela tivera tempo de refletir e aguçar sua curiosidade, mesmo com minhas atitudes cretinas logo após no carro. Pensar nisso só alimentava o bolo em minha garganta. O que raios ela deveria estar pensando de mim?
Eu definitivamente não deveria estar me importando com essa última parte.
— Ei, não fica assim. — Jane murmurou enquanto massageava meu cabelo molhado. — Tudo vai se ajeitar. Não é a primeira vez que você tem problemas desse tipo.
Na verdade, parecia que era. Eu só não sabia como explicar isso.
— É, você tá certa. — Suspirei, e em seguida Jane grudou seu corpo no meu embaixo da água que agora caía mais quente, tão quente quanto aquele abraço.
Queria contá-la do sonho estranho que me fez acordar em pavor. Queria contá-la a verdade sobre ontem, que eu havia ido atrás de e que todos os motivos para fazer aquilo continuavam confusos dentro de mim. Queria contar do beijo, minhas suspeitas e teorias sobre aquele caso, mas só consegui afogar minha cabeça na curva de seu pescoço e ficar em silêncio.
— Vai me levar ao aeroporto? — ela perguntou e eu apenas balancei a cabeça positivamente. — Quer fugir de toda essa merda e ir passar uns dias no México?
— Quero. — Minha risada não durou nem meio segundo. — Mas não posso.
— Então você não quer de verdade — sussurrou, correndo os dedos levemente pelas minhas costas e ombros.
Eu queria. Queria tanto deixar aquela casa, aquela cidade e até mesmo o país por pelo menos um dia. A ideia me enchia de alívio, a possibilidade de esquecer nem que fosse um pouco dos últimos acontecimentos me enchia de excitação.
Entretanto, a probabilidade de algo extremamente ruim acontecer na minha ausência era alta demais. Eu não fazia a menor ideia de qual seria o próximo passo de Margot e duvido muito que apertemos as mãos depois dos golpes que dei nela. E havia . Principalmente . E absolutamente tudo que a envolvia.
E odiava admitir que tudo aquilo não saía da minha cabeça um minuto sequer. Mesmo a caminho do aeroporto de LaGuardia, as névoas de minhas preocupações ainda estavam presentes, tão reais e palpáveis quanto poderiam ser. Eu mal ouvia o que Jane dizia e pude ver claramente sua inquietação ao meu dar um último abraço antes de seguir para a plataforma de embarque.

***


Eu odiava ser o centro das atenções.
Como quando Hilary Smith me pegou no meio de uma discussão um tanto acalorada com um fantasma atrás das arquibancadas na oitava série. No outro dia, os dedos em minha direção e os murmúrios sobre como eu era alucinado me fizeram dar um murro em Jimmy Payne por ter me confrontado a chamar meus “amigos” bem no meio do refeitório após ele ter decidido derrubar minha bandeja. O número de dias que eu havia pegado de suspensão são totalmente irrelevantes agora.
Desta vez, ao menos, eu tinha certeza de que aqueles olhares e acenos nada tinham a ver com os mortos. De acordo com , o aumento considerável da minha desconhecida popularidade se devia ao fato de eu não ter deixado que Ash morresse no acidente da viga, provando assim o “quão brilhantes eram minhas habilidades práticas”.
Considerando o fato de que ninguém sabia da metade do que realmente havia acontecido, eu não me sentia no clima de retribuir nenhum dos sorrisos.
Mais constrangedor ainda foram os tapinhas nas costas e perguntas carregadas de preocupação provindas dos meus professores, que estavam “preocupados com meu estado de saúde” e que eu simplesmente poderia ir embora se quisesse. Dei logo um jeito de cortar o assunto antes que aquilo se tornasse ainda mais humilhante.
Academicamente falando, a primeira parte do dia passou tranquila, visto que eu não havia me enrolado tanto sobre os conteúdos. Ao menos, preenchia tanto meu tempo que eu não tinha oportunidade de pensar em outra coisa — ou em outra pessoa. Digo, outras pessoas. E espíritos malignos. E fantasmas vingativos.
Entre um intervalo e outro, finalmente consegui ligar para minha mãe e levei pelo menos vinte minutos para acalmá-la. Se eu demorasse mais algumas horas para dar notícias, ela seria capaz de ligar para o reitor ou, pior ainda, pegar um avião. Ela descobriria sobre a minha estadia no hospital e aí me arrastaria de volta para a Califórnia sem nem me dar tempo de fazer as malas.
Na hora do almoço, disse que precisava fazer um trabalho que havia deixado para última hora e fomos para o Ferris Booth novamente. Com o John Jay interditado, nos restava abarrotar o Ferris, que geralmente era a primeira opção apenas para os calouros.
— Que merda é essa no seu prato? — mastigava enquanto abria o notebook na mesa.
Olhei confuso para sua careta de desgosto. Havia uma torta de batatas com cogumelos, falafel e um hambúrguer de grão de bico.
— Ah… Não sei, queria experimentar. — Dei de ombros, dando uma mordida no hambúrguer. Não posso dizer que era horrível. Na verdade, não era nada mal.
— Por favor, me diga que não vai vestir uma camisa preta e comprar um porco de estimação.
Revirei os olhos.
— Volta pro que estava fazendo.
Eu acabava de enviar uma mensagem para Jane perguntando se ela havia chegado bem quando ouvi xingar.
— O que foi? — perguntei.
— Eu estou completamente morto! — disse enquanto digitava com força no notebook. — Jane poderia avisar com antecedência quando for me dar o melhor final de semana de todos, assim pelo menos eu deixo os trabalhos prontos. — Soltei uma risada e ele me olhou com ironia. — E vocês? Como foi o super final de semana?
— A mesma coisa de sempre. — Dei de ombros, bebendo um gole do suco.
— Eu duvido que com aquela lá seja sempre a mesma coisa. — me lançou um sorriso malicioso. — Em qual posição fizeram dessa vez?
— Cara, não...
— Ah, qual é, você costumava me contar essas coisas!
— Eu só contei uma vez e foi na formatura. Algum dia você vai parar de perguntar?
— Eu pararia se você pegasse outra garota que não fosse Jane Sullivan! — Ele deu de ombros, dando um sorriso de canto. — E não me olhe assim, você insiste em dizer que ela não é sua namorada. E na Gibbons poderia muito bem ter rolado com a Becca, mas acabou rolando com outra garota desconhecida que nunca mais falou nela de novo, por sinal. Eu juro que não entendo seu critério de seleção, quer dizer, a Jane é a maior gostosa, mas a Becca também te daria um bom trato. Se for igual às amigas daquela vez...
falava, mas eu já não estava mais escutando. Uma cena que acontecia logo mais à frente prendeu totalmente minha atenção.
entrou no Ferris, acompanhada de . Uma das mãos dele envolvia sua cintura, ou pelo menos estaria se não estivessem baixas demais. Ela usava um jeans e um suéter vermelho e parecia muito melhor do que ontem. Constatei que vermelho ficava muito bem nela. E não entendi por que reparei em uma coisa dessas.
Os dois se sentaram a algumas mesas de distância, no meio do salão. Ambos ocuparam duas cadeiras do mesmo lado da mesa, como se esperassem mais pessoas. A posição deixava-os quase de frente para mim. sussurrou algo no ouvido de , que sorriu abertamente e em seguida começou a beijá-la como se não estivessem em um local público.
Desviei os olhos, tentando voltar à conversa de , mas acabava olhando de novo. Ele beijava o pescoço dela e voltava a beijá-la, e ela ria de uma forma que eu nunca havia visto — totalmente diferente das reações anteriores que demonstrou perto dele. Bufei e peguei um guardanapo da mesa, tentando me distrair, mas meu sangue fervia. De repente nunca desejei tanto que alguém tivesse a coragem de repreendê-los por aquela pegação, para que não tivessem a chance de continuar. Mas ninguém faria isso com o filho do reitor.
havia percebido meu estado incomum.
! — ele deu quase um grito, me dando um soco de leve no ombro. — Acorda, cara. O que houve? O guardanapo te fez alguma coisa?
Pisquei algumas vezes e soltei o guardanapo de papel, que agora eram apenas pedacinhos espalhados pelo tampo da mesa. Em que momento eu fiz aquilo?
— Mas o que diabos você está olhando? — disse, virando-se para trás. Bem na hora que e se levantaram para comer. Por um minuto, que pareceu uma eternidade, nossos olhos se encontraram. Eu não fazia ideia de como estava minha expressão, mas o sorriso dela desapareceu assim que me viu. Por um milésimo de segundo, pareceu que ela estava corando, mas disso já não tenho muita certeza. Porém a velocidade com que meu coração se comportou assim que a vi, ah... Disso eu tinha certeza.
Tudo acabou quando passou um braço pelos ombros dela, carregando-a para dentro do restaurante enquanto dava beijos nada calmos em sua bochecha, batendo em sua bunda sempre que podia. Tentei ignorar meu sangue fervilhando novamente.
— Ei... Ei! — deu mais um grito e eu acordei novamente. — Para de encarar! O que está havendo com você?
— Nada. Nada — respondi rápido, dando um gole longo do suco, que estava quase quente.
— Nada? — Ele soltou uma risada irônica. — Você pode me contar afinal que raios está rolando entre você e a ?
— De onde você tirou isso? Não tem nada entre mim e .
— Então por que pareceu que eu teria que te segurar pra não pular no ? — Ele levantou uma sobrancelha. — O que é, tá afim dela por acaso?
— Não — respondi muito sério, bebendo o restante do suco. — Claro que não.
Olhei automaticamente para eles de novo, que já haviam sentado novamente. Uma garota loira de salto alto e um cara que eu poderia chutar que tivesse dois metros de altura sentaram-se nas duas outras cadeiras da mesa. Eles pareciam conversar alegremente, como um típico grupo de amigos. Mas não era isso que prendia minha atenção.
Ele passava a mão pelas pernas dela por debaixo da mesa e segurava em seu cabelo com nenhum carinho. Um ponto branco em sua testa indicava o curativo que eu havia feito pelo corte de ontem, mas parecia não se importar; puxava seu rosto para o dele com rapidez, rude, mesmo que ela fizesse a mínima careta de dor. Esse cara tinha algum pingo de noção? Não via que ela estava machucada?
...
— Podemos ir embora? Acho que você pode terminar isso na biblioteca — disse, juntando minhas coisas um pouco desnorteado pela cabeça latejando.
— Ei, nós dissemos que ficaríamos mais meia hora... Não, espera, você estava encarando de novo — ele disse, rindo com ironia, apontando o dedo para mim. — É sério, , me conta o que tá pegando! Tem algo a ver com o episódio do almoxarifado?
— Eu já disse que não tem nada.
— E eu sei que você está mentindo! Pra um cara completamente desinteressado nas outras pessoas, você tá agindo bem estranho ultimamente, eu sei que tem algo entre você e a , mas infelizmente mal consigo adivinhar porque você sempre foge desse assunto e eu não posso simplesmente chegar pra ela e perguntar e...
— Ela é a “outra garota que não seja Jane Sullivan”! Está satisfeito agora? — A resposta saiu antes que eu refletisse a respeito e também não pude segurar o tom de voz mais alto que saiu junto.
Olhei para os lados automaticamente, me recostando na cadeira, passando as mãos no cabelo rapidamente. cortou sua fala na mesma hora, assumindo uma postura paralisada.
— Como... O que você disse? — ele sussurrou, como se eu tivesse revelado um segredo de Estado.
— Podemos ir agora? — disse, fechando minha mochila e largando umas notas na mesa, me levantando sem esperar por ele.

***


Eu havia cavado minha própria cova ao soltar aquilo para .
Também pudera, ultimamente eu parecia estar fazendo bastante aquilo: agir sem pensar. E isso era muito atípico da minha parte. Eu já não tinha mais espaço na lista de problemas a resolver, eles iam apenas se acumulando. Estávamos no final de novembro, mas eu parecia estar vivendo um Dia das Bruxas bem prolongado.
— Você enlouqueceu de vez! — disse , e não era uma pergunta.
Acendi um cigarro, usando minha técnica clássica de demonstrar que não queria papo, mas parecia estar imune à essa cartada.
— Ei, ei! — Ele puxou meu braço quando estávamos na Broadway, me fazendo parar. — Eu já sei que você é pirado, tá legal? E um pouco estranho, ainda é aceitável. Mas não sabia que você era suicida. — Ele respirou fundo, me encarando estupefato. — Como assim você beijou ... — Ele se interrompeu e olhou para os lados. — Por favor, me diga que apenas beijou — sussurrou.
— Eu realmente não quero falar sobre isso agora... — Me virei para recomeçar a andar.
— Ah, mas você vai falar! — Ele puxou meu braço de volta. — Como isso aconteceu? Ou melhor, quando. Foi naquela festa? No almoxarifado? É mais um dos fatos que você estava escondendo? Faz todo o sentido...
— Ei, espera aí...
— Imagina só a situação! Cara, ninguém pode saber disso! — Ele colocou a mão no meu ombro. — É sério, . Eu gosto de ser seu amigo, mas você tá brincando com fogo. A não é pra você. Ela já tá envolvida em relações de poder demais, não precisa se enfiar nisso...
...
— Eu sei que deve ser difícil resistir a uma das beldades deste campus, mas o namorado dela é um maluco, já tentei conversar com você sobre isso. Você tem certeza de que ninguém viu vocês?
, sério...
— Não, não, como você me lança uma bomba dessas e depois "não quer falar sobre isso"? — Ele frisou as aspas. — Tirando todos os fatos preocupantes dessa situação, isso é simplesmente irado! Quer dizer, ninguém nem imaginaria isso. Onde foi? Como foi? Até onde vocês chegaram?
— Foi por acaso, tá legal? É complicado te explicar agora e eu realmente preciso ir pra aula. Te vejo depois.
— Ei, espera aí...
Ignorei-o e segui rápido em direção ao carro estacionado do outro lado da rua, respirando fundo para conter minha irritação. Como eu explicaria aquilo pra ? Aliás, como fui me deixar levar por um momento completamente emocional? E que sentimento era aquele? Minha cabeça latejava só de pensar na cena de e anterior, e eu odiava ainda mais estar sentindo aquilo. Como se eu estivesse esperando algo depois de ontem, mesmo depois de eu ter sido um completo babaca.
Afastei todos esses sentimentos bem rapidamente para conseguir ver as coisas com clareza. Sempre fui lógico, objetivo. Olhava para situações com a razão, nunca fui uma pessoa emotiva, guiada por sentimentos. O que fiz ontem foi uma ação precipitada, guiada por um sentimento estranho que eu ainda não sabia o que era. Mas foi tão intenso que eu não pude me segurar e isso me incomodava mais do que tudo. Eu não podia sentir aquilo por ela, não podia fazer aquelas coisas por ela. Eu escondia um segredo lunático demais para envolvê-la na minha vida e, pelo que Margot havia dado a entender, ela também tinha segredos.
Cada vez que eu pensava nisso, eu lembrava novamente do espírito. E do acidente, e do meu recente sonho, e de como tudo parecia absurdamente ligado. E do que minha avó havia dito, que ele não estava atrás dela por acaso: que era destino. Destino. A mesma palavra que ele me disse no sonho. Aquilo me deixava cada vez mais curioso com a situação e completamente desconcentrado nos meus afazeres. Fora toda a minha ainda preocupação de que Margot pudesse aparecer do nada, e dessa vez ainda mais raivosa, ainda tinha o fato de que quase perdera a perna e devia estar nesse momento tentando juntar as pecinhas depois de ter me ouvido dizer seu tão misterioso nome — e eu não imaginava a retaliação que poderia prover disso.
Eu realmente queria saber o que raios havia acontecido para tantas coisas estarem se juntando ao mesmo tempo neste ano e eu infelizmente estar no meio disso tudo.
O professor falava e gesticulava várias vezes, mas eu não estava ouvindo. Meu pensamento pulava de um fato para outro e eu não conseguia parar de pensar na noite passada. Em tudo que Margot havia dito, na reação de à toda cena que ela havia visto e como agi feito um escroto. Eu daria tudo para saber o que ela estava pensando.
Tentei me convencer de que, por um lado, aquilo era bom. Era melhor que ela me ignorasse e seguisse sua vida depois de ver em primeira mão o quanto eu podia parecer desequilibrado — ou totalmente alheio ao sofrimento das pessoas. E como presenciar aquilo não daria crédito nenhum à sua carreira, ela também não contaria pra ninguém. Nós não nos falaríamos mais e tudo voltaria ao normal.
Mas ela continuaria investigando a morte de Margot. E Margot não iria parar tão facilmente. E ainda havia o espírito estranho atrás dela, que poderia atacar a qualquer momento. Era literalmente quem conseguisse chegar primeiro e só essa ideia já era suficiente pro meu estômago embrulhar de ansiedade. Por que eu não poderia simplesmente ouvir minha avó e deixar pra lá? Por um lado, ela estava certa, as pessoas morriam, impedir isso não era meu departamento e eu nunca havia parado pra pensar sobre salvar pessoas, visto que só havia encontrado os mortos que me pediam ajuda para resolver pendências aleatórias. Os espíritos malignos nunca estiveram em minha lista de encontros e isso ficava cada vez mais estranho a cada vez que pensava nisso.
Mal ouvi quando o professor finalmente liberou a turma, o que foi um alívio para o que eu estava pretendendo fazer. Juntei minhas coisas com rapidez para não dar tempo de ninguém resolver me parar pra tirar alguma dúvida e andei depressa para a Butler Library. Talvez não desse em nada, mas eu precisava verificar.

***


Eu estava prestes a morder a minha língua. Sempre censurei e desprezei todas as vezes que Jane tentava me dizer que fizera "pesquisas" sobre a nossa "mediunidade" porque aquilo por si só já soava absurdo. Eu sabia perfeitamente que as coisas não eram tão simples quanto o que a internet mostrava e eu não acreditava que houvesse um livro com relatos reais de pessoas iguais a mim. Por 23 anos da minha vida, eu só conhecia Jane, o que me fazia teorizar bastante sobre o número de pessoas que nasceram daquele jeito a cada geração.
A Butler Library ficava em um prédio colossal na parte central do campus em Morningside Heights, com pilares grossos de gesso branco enfileirados por toda a sua extensão, fazendo-a parecer uma construção grega do século XVII. No gramado à frente da porta, havia alguns estudantes sentados e outros espalhados pelos bancos aos arredores do pátio. Entrei rapidamente no salão amplo, com janelas imensas dispostas também em fileiras, deixando entrar a totalidade da luz cinza que vinha do dia frio lá fora. Os lustres com lâmpadas amarelas davam um ar medieval ao lugar e um silêncio pairava perfeitamente no ar, sendo possível escutar até o som das páginas sendo viradas. Dei um sorrisinho de canto à bibliotecária que não me recordava o nome, andei até o computador de consultas ao final do imenso corredor e suspirei antes de digitar a seguinte palavra: "mediadores".
Eu me sentia ridículo. Uma lista de nomes apareceu na tela, com alguns livros de ciências, matemática e a maioria na parte da história. Todos eles eram o que eu esperava: uma baboseira sem fim sobre negócios e filosofia. Tentei "médium" e passei a odiar ainda mais o termo depois de ver os resultados. Por fim, com certa relutância, escrevi "espírito maligno" na lupa de pesquisa.
Devo admitir que os resultados me chamaram mais atenção. Não havia muitas opções para aquela palavra, apenas um monte de livros de ficção e suspense, histórias do Drácula e livros técnicos do gênero terror. Apenas um livro dentre tantos me chamou a atenção.
Levantei-me e segui para a seção indicada no computador. Ela era uma das últimas, no fim do segundo corredor, enclausurada entre tantas outras em um lugar onde nem havia as mesas dos estudantes. Olhei as diversas capas até achar uma velha e gasta, com a tinta vermelha desbotada. Peguei o livro em mãos e quase tossi com a poeira que veio ao meu nariz, o que deu a entender que ninguém costumava limpar aquela área recorrentemente. Recostei-me na prateleira de livros e observei o que estava em minha mão. O título do livro estava quase apagado, mas eu consegui entender a palavra "Memórias" e o nome do autor. Padre Jeffords Khan. As páginas estavam amareladas e as letras eram cursivas, escritas à mão. Parecia uma enorme carta. Juntei a sobrancelha e com certeza estava achando aquilo tudo muito confuso.
Li um pouco das primeiras páginas. Basicamente, o padre Jeffords contava a história de um homem chamado Mark Davis que viveu no século XII, que era "médium" — uma pessoa que se comunicava e interagia com os mortos. Mas este não se contentava em não fazer uso algum daquele dom e também não achava certo os fantasmas vagarem por aí sem nenhuma paz. Daí veio a ideia de que ele precisava ajudar aquelas pobres almas a alcançar essa paz — o outro lado, o paraíso, inferno, purgatório, seja o que for. Ele acreditava no paraíso, é lógico. Daí surgiu o termo mediador — e a bendita missão de guiar os mortos. O legado avançou por várias gerações futuras desde então, sendo passado de pai para filho.
Meu coração deu um pequeno salto. De pai para filho. Senti que eu deveria parar de ler aquele livro imediatamente antes que eu começasse a acreditar no que ele dizia — ou pior: que eu começasse a ficar mais curioso. Eu não poderia me afundar naquela história de forma alguma, ainda mais uma parte da minha história que eu já havia superado fazia tempo.
Respirei fundo e pulei algumas páginas. Segundo o padre, Mark Davis foi bem sucedido na tarefa de ser a ponte para a paz das almas que vagavam nesta terra, teve muitos filhos e boa saúde; também teve boa sorte na colheita, já que era camponês, e tudo indicava que aquela realmente era uma missão divina. Até que um dia ele encontrou um fantasma diferente dos outros.
Mark vivia em uma pequena propriedade longe do vilarejo. Em uma das muitas colheitas vigorosas, ele pegou seu primogênito e juntos foram vender as batatas, cenouras e rabanetes que haviam cultivado nas ruas da comunidade. Mark se dava bem com os habitantes, era bem querido por todos e conseguia sempre voltar para casa com os sacos vazios. Mas aquele dia foi marcado como a mudança de toda sua vida.
Havia um senhor ranzinza e resmungão que vivia mal dizendo os produtos de outros comerciantes locais, inclusive Mark, que vendiam bem mais do que ele e seu trigo e arroz. Não era uma pessoa muito confiável, por isso não vendia, sem contar nos preços exorbitantes. Era um homem avarento que só pensava em dinheiro. Naquele fatídico dia, este homem decidiu ter uma atitude radical, pensada por meses, talvez por anos: tirar a vida de Mark, que mais lucrava na vila e era amado por todos, mesmo com produtos "meia boca". Ele não abriu sua tenda naquele dia e esperou que Mark finalizasse mais um expediente de sucesso ao final do entardecer para atacá-lo quando menos esperasse.
Mark e o filho terminavam de guardar os pertences na carruagem quando o velho apareceu, carregado com uma espada afiada que havia mandado forjar especialmente para aquele momento. Mark tentou acalmá-lo, não tinha armas para lutar contra aquela coisa e tinha que proteger seu filho e sua própria vida. Porém, antes que o velho pudesse agir, uma sombra negra e espessa pairou entre Mark e ele, materializando-se em uma mulher inteiramente de preto, olhando diretamente para o velho. Mark nunca havia visto nada igual. A aparição era medonha, cravada de medo e parecia sugar toda a sua energia só de estar por perto. O velho continuava olhando para Mark, apesar de sentir o ambiente pesar ao seu redor repentinamente. O filho de Mark tinha as pernas bambas, podendo ver claramente o que estava à sua frente. Mesmo imóvel, a criatura estava ali para matar — ambos sabiam disso. E mesmo sabendo, Mark não soube o que fazer, apenas ficou paralisado de medo.
As mãos da mulher se moveram lentamente para o velho e, sem dizer uma palavra, virou a espada para ele, dando a entender para os olhos humanos normais que o velho estava apontando a arma para si mesmo. Os olhos deste ficaram arregalados de horror e por algum motivo ele não conseguia emitir som algum. Mark sabia o que iria acontecer. Não sabia se podia impedir, estava com medo de tentar. Portanto, seu filho foi mais rápido. O menino de 14 anos gritou a plenos pulmões para a aparição, correndo e se colocando à frente do velho, empurrando as mãos do fantasma da arma. O velho caiu para trás, apavorado, se escondendo em posição fetal enquanto o garoto tomava uma posição defensiva em seu favor.
Foi quando o pior aconteceu. Sem hesitar, o fantasma de repente desapareceu e reapareceu atrás do garoto, que não teve tempo de se virar ao ter as mãos do fantasma em seu crânio, e a cena que se seguiu foi um desespero silencioso. O garoto abriu a boca para gritar, mas nada saiu. Seus olhos giraram nas órbitas e suas pupilas desapareceram, sua pele empalideceu e em seguida caiu duro no chão, com os olhos abertos brancos sem o azul que dava brilho ao seu rosto. Foi então que o fantasma simplesmente desapareceu.
O desespero de Mark foi aterrador. Ele balançava o filho, gritava, batia e nada. Sua pele estava fria como gelo e não havia dúvidas de que ele estava morto. Após a constatação, ele olhava angustiado para os lados, à procura da outra coisa: a alma de seu filho não estava ali. Ele não havia visto. Ela também havia sumido.
Um arrepio leve atravessou minha espinha e passei mais algumas páginas. Dizia que, após alguns dias do enterro do filho, Mark havia recebido a notícia de que o velho havia sido encontrado morto em sua casa alguns dias atrás. Também descobriu os crimes que aquele homem havia cometido: além de roubar e matar o antigo dono de sua propriedade pela posse de suas terras, havia estuprado a filha dele, que morreu ao dar à luz a um menino, que foi morto por suas mãos e os dois enterrados na propriedade roubada. Tamanho o choque do vilarejo, os pertences e a propriedade do velho foram à leilão e algumas coisas estavam sendo vendidas livremente pelo comércio do vilarejo.
Apesar do sofrimento da perda do filho, Mark voltou ao vilarejo para continuar levando o sustento de sua família. Ao lado de sua tenda, o local de venda de apetrechos aleatórios da casa do velho estava ali. Além de colchas, mantas, algumas antiguidades de ferro, havia desenhos em papel pendurados em uma corda na extremidade superior da tenda. Mark deu uma olhada rápida no conteúdo e um dos desenhos fez seu sangue gelar e sua boca ficar seca. Mark cambaleou até a tenda e perguntou quem era a moça bonita de cabelos negros do desenho. O funcionário do banco explicou que aquela era a filha do antigo proprietário, assassinado por Mark, a qual havia sido enterrada junto com seu filho recém-nascido, atrás da casa. Mark não ouviu mais nada, estava atônito, chocado. A mulher na foto era ninguém menos do que o espírito que havia levado a alma de seu filho.
O espírito não estava atrás de Mark e nem de seu filho. Ele tinha um objetivo, apenas um alvo. Mas foi interceptado por terceiros e agiu sem pesar algum sobre ele. E, no final, ainda foi atrás de seu alvo. Um arrepio perpassou por toda a minha coluna e eu sabia que o frio que eu havia sentido não era por causa do clima. Meus dedos tremiam quando eu passei mais páginas, mas não li por muito mais tempo, pois uma voz surgiu do nada atrás da minha orelha, fazendo-me praticamente saltar de susto:
! — sussurrou e ao me virar vi seu rosto através de um espaço entre os livros, do outro lado da prateleira.
— Quase me matou de susto — murmurei, fechando o livro vermelho em minhas mãos. Não demorou muito para que andasse até mim, caminhando rápido para atravessar a seção.
Ela se aproximou de mim com um sorriso sem graça estampado. Olhei para os lados, como se aquilo fosse uma pegadinha. Esperava uma expressão amargurada, chateada comigo. Podia jurar que ela parecia feliz em me ver.
Um frio na barriga me invadiu. Será que ela finalmente viera me confrontar sobre ontem? Pela forma como a tratei, pela verdade, pelo beijo, como eu havia tomado conhecimento de onde ela estava, entre outras coisas.
— Não sabia que voltava hoje — falou baixo, com um tom acolhedor. — Você, hã… Está bem? Está com uma cara estranha.
Desfiz o vinco em minha testa e me endireitei em uma posição ereta, mas continuava curioso. Ela não podia ser tão imprevisível.
— Não é nada, eu estou bem. — Passei uma mão nos cabelos. — E você?
— Estou bem, mas isso não vem ao caso. Eu queria saber de você… do seu estado de saúde.
— Meu estado de saúde? — Levantei a sobrancelha e abri os braços. — Estou ótimo, como você pode ver. Era só isso?
Ela iria fingir que nada aconteceu e tudo bem. Eu poderia seguir com o plano de ignorá-la, ou simplesmente mostrar que não queria mais nada daquela interação que eu não sabia como chamar. Ela se afastaria de mim assim que visse o quanto eu era escroto e não merecia sua companhia.
Mas o que veio a seguir não foi exatamente isso.
— Eu... Na verdade, eu tentei te ligar, mas pelo visto você ainda não arrumou um celular. Sinceramente, eu queria dizer... — ela atropelava as palavras e gesticulava bastante com as mãos, parecia nervosa. — Na verdade, quero que saiba que as coisas não precisam ficar estranhas entre nós depois de ontem.
Fiquei estático por um momento, só com meu coração batendo descontrolado com a lembrança automática do muro vindo com toda força na minha cabeça. Afastei-o imediatamente antes que ele tomasse todo o resto da minha mente e me fizesse perder a compostura.
— Ah... Aquilo? — Coloquei uma mão desajeitada na cintura, dando de ombros. — Pode ficar tranquila, eu já esqueci o que aconteceu.
Ela abriu um sorriso.
— Isso é ótimo! Eu estava pensando em uma forma de te pedir desculpas por aquilo. Foi péssimo e sua namorada não deve ter ficado nada feliz...
— Jane não é minha namorada! — interrompi-a e quis bater minha cabeça na parede. Droga, desnecessário. — Quer dizer... Tá tudo bem, não precisa se preocupar com isso, não é algo que eu tenha comentado com alguém, de qualquer maneira. Afinal, foi só um beijo sem importância.
— O quê? — Me olhou confusa.
Mordi o lábio inferior. Eu não queria falar do beijo. Não entendia por que, de tudo que aconteceu, ela viera falar daquilo. Não fazia o menor sentido. Não sabia até onde iam minhas habilidades de mentir.
— Que foi, achou que começaríamos uma história ou algo assim? — Soltei uma risada que pareceu mais amarga do que divertida. Ela continuava imóvel com a mesma expressão. — Bem, como eu disse, pode ficar relaxada. Eu disse que nunca mais vou te beijar de novo. Mesmo se for por um motivo maior, como nos livrar de preencher formulários de saída da prisão como estaríamos fazendo agora.
De repente, se aproximou de mim com a expressão mais confusa do que antes.
— Do que você está falando, ? — ela sussurrou entre dentes, olhando novamente para os lados. — Que beijo? Que prisão?
Pisquei os olhos, não sabendo o que responder de imediato.
— Muito esperta, levando a sério o papo de esquecer tudo que aconteceu. — Sorri mais uma vez. — Mas pode ficar tranquila, só tem nós dois aqui...
— Eu estou levando cada vez mais a sério o fato de você ser um lunático! — Ela deu uma risada sem graça, corando. — Que história é essa? Andou tendo sonhos eróticos comigo?
— O que... — Agora quem fazia a expressão confusa era eu.
— E beijo? Céus, você enlouqueceu de vez. Eu jamais te beijaria. Você sabe perfeitamente que eu tenho namorado... — Ela bufou, baixando os olhos, mas suas bochechas estavam totalmente vermelhas.
Peguei em seu queixo, interrompendo sua fala. Aproximei-me o bastante para olhar firme em seus olhos, que estavam um tanto arregalados.
— O que está fazendo? — ela protestou, tentando se afastar.
— Você está fazendo algum tipo de brincadeira comigo? Porque essa sua amnésia não tem graça nenhuma.
— O que você tá dizendo? — Ela se afastou de minhas mãos, parecendo irritada. — Eu vim falar com você na boa depois de ter atrapalhado o seu café da manhã ontem e te pegado com a sua nam... Quem quer que seja. E eu estava realmente preocupada com seu estado de saúde depois do coma e...
— Espera, o quê? — Agora quem estava nervoso era eu, e não de um jeito bom. — Você só se lembra disso? E o cemitério, a sua ideia maluca de ir à lápide de Margot, suas costas e os outros machucados...
— O quê? Cemitério, Margot, do que você está falando? — ela aumentou um pouco o tom de voz, olhando preocupada para os lados novamente. — Eu não fui a cemitério nenhum ontem. Eu disse que te esperaria, só não esperava que você fosse se envolver em um acidente nesse meio tempo. — Ela bufou, passando as mãos nos cabelos.
De repente, ela parou e pareceu estar lembrando de algo, me olhando curiosa em seguida.
— Espera, como sabe das minhas costas?
— O que tem suas costas? — perguntei rápido, tentando avaliar a situação como um todo em um curto espaço de tempo. Na verdade, eu não estava entendendo nada.
— Ontem à noite eu tive um pequeno acidente nas escadas da minha casa e machuquei a testa e... as costas. — Ela juntou as sobrancelhas, como se tentasse se lembrar do ocorrido. — Mas eu não disse nada a ninguém sobre minhas costas. Como você sabia?
— Acidente nas escadas? Que papo é esse? — Me aproximei dela novamente, agora claramente irritado. — Estávamos juntos ontem à noite, eu te salvei da sua própria tolice de ir ao cemitério colocar a sua péssima ideia de uma exumação precoce do corpo de Margot atrás de provas pro seu caso. Como pode estar fingindo que nada aconteceu só por causa de um maldito beijo?
— Eu não estou fingindo coisa alguma, ! — Ela me deu um leve empurrão, ofegante. — Meu deus, você é louco! Andou me espionando por acaso? Você é algum tipo de pervertido para saber das minhas feridas não expostas e ainda por cima ter sonhos estranhos comigo? Qual é o seu problema?
Ela bufou e se virou para sair.
, espera... — Peguei em seu braço novamente.
— Não toca em mim. — Ela se desvencilhou rapidamente e foi embora, me deixando parado e imóvel.
Eu estava literalmente chocado. Ou estava atuando bem demais ou ela realmente havia perdido a memória. Que merda era aquela? Como isso era possível?! Seria um mecanismo de defesa a tudo que ela havia presenciado na noite anterior?
— Ela não vai se lembrar de nada.
Virei para trás a tempo de ver minha avó prostrada à minha frente. Minha respiração saía pesada, entrecortada, minha cabeça presa na conversa anterior. Ao constatar sua presença, reparei que ela não estava com uma expressão muito calorosa.
— O que está fazendo aqui? — sussurrei. Estava ansioso e desinteressado por qualquer sermão que sabia que iria levar. — Não posso conversar agora, preciso resolver uma coisa.
— Você quebrou a nossa promessa — ela disse assim que virei as costas. — Pior do que isso, você mentiu pra mim. Isso nunca aconteceu!
— Eu não... — comecei a falar, mas vi que não havia como argumentar contra aquilo. Ela estava certa, eu havia mentido e descumprido nossa promessa.
Respirei fundo e estava pronto para pedir desculpas e cedê-la um monte de justificativas, mas não o fiz.
— Como assim ela não vai se lembrar de nada? — lembrei-me repentinamente do que ela havia falado quando chegou. — Como você sabe... — De repente me calei, uma irritação tomando conta dos meus nervos, os lábios travados em uma linha dura. — O que você fez?
— Acho que você deveria se preocupar com o que você fez. — Ela rangeu os dentes, claramente com raiva. Seus olhos castanhos brilhavam. — Você tem ideia do que quase causou? Quase se revelar pra essa garota, como pode agir sem pensar desse jeito?
— Você estava lá? — questionei, aumentando o tom de voz. — Então com certeza viu que Margot a mataria se eu não tivesse chegado a tempo! Talvez eu não consiga concordar com a sua abordagem de simplesmente deixar a garota morrer. Isso não me parece nada certo...
— Irresponsável! Não posso ver você se matando sem fazer nada! Se aproximar dessa garota vai te fazer um alvo! Se depender de mim, vou fazer o que tiver ao meu alcance pra que ela não esqueça apenas aquela noite, mas tudo relacionado a você!
— Então foi isso que você fez? — Dei uma risada irônica, mas senti as mãos tremendo de irritação. — Bem que Jane havia me dito que a senhora era mais do que aparentava. Esqueceu de me contar esse detalhe nos últimos 18 anos?
— Há muitas coisas que você não sabe, , e é bem melhor que continue assim. Estou exigindo que os eventos daquela noite não se repitam. Se afaste dessa garota imediatamente, antes que você seja pego pelo destino dela!
— Eu não sei que maldito destino é esse! Você por acaso sabe de alguma coisa? Conhece ela ao ponto de sair do caminho e deixar que uma sombra a pegue a qualquer momento? Destino uma ova! Isso é retaliação! — Respirei fundo, tentando controlar o tom de voz. Ainda estava na biblioteca. — E sabemos bem que nem toda retaliação é justa.
— Estou falando sério, ! Posso fazê-la se esquecer do próprio nome caso você continue com essa ideia...
— Está me ameaçando?
— Estou pedindo pra você ser honesto comigo!
— Honestidade? — Soltei uma risada. — Você quer falar de honestidade comigo? Logo você...
Parei e puxei o ar, percebendo que eu não poderia continuar aquela conversa naquele lugar. Logo mais as pessoas iriam perceber os burburinhos e iriam averiguar para me mandarem calar a boca, mas na verdade me veriam falando sozinho. No entanto, absolutamente tudo que saía da boca dela estava me deixando nervoso, de uma forma que eu nunca havia ficado.
— Então me diga, quem é meu pai? — questionei e a vi arregalar os olhos de surpresa. — De onde eu vim, onde eu nasci, como fui parar naquele orfanato? Qual era o nome da minha mãe? Hein? — Me aproximei dela, sussurrando. — Você não consegue me responder essas coisas, não é? Nunca conseguiu. É por causa dele que eu sou assim, não é?
Acredito que aquela foi a única vez em toda a minha vida que eu havia deixado minha avó sem palavras. Ela abria a boca para responder, mas as palavras não saíam.
— Não venha me cobrar honestidade quando você não está disposta a devolvê-la na mesma moeda. — Dei as costas para sair, mas voltei a me virar. — E sim, eu realmente não sei de muitas coisas, mas isso vai acabar. Cansei de fechar os olhos.
Larguei o livro vermelho em qualquer prateleira e segui porta afora da biblioteca.

Fechei a porta do carro com mais força do que pretendia. Desferi um golpe brutal contra o volante, ofegante. Eu espumava de raiva, frustração e, não posso negar, de mágoa. Jamais imaginei que minha avó pudesse ir tão longe e tão baixo. Não medi as consequências dos meus atos e agora deu no que estava acontecendo agora: não se lembrava de nada daquela noite. E, avaliando a situação minuciosamente, eu não entendia por que estava naquele estado caótico de decepção.
Porque sim, racionalmente, aquele havia sido um caminho alternativo efetivo. Sabendo como era perigoso colocar uma pulga atrás da orelha de , era melhor que eu não desse gatilhos para que ela se interessasse em qualquer coisa a meu respeito. No fundo eu sabia que já era hora daquilo parar. Alguma hora ela estaria refletindo sobre aquele dia e existiria um risco enorme de sua curiosidade cutucá-la e ela resolver investigar. As coisas poderiam fluir problematicamente caso aquilo acontecesse.
Eu sabia. Eu precisava deixá-la em paz. Deveria permitir que ela pensasse que eu realmente fosse um cara desequilibrado e pervertido, que ela deveria manter distância. Deveria deixar que minha avó fizesse seja lá o que fez para fazê-la se esquecer de mim de uma vez por todas, assim nunca mais teríamos qualquer tipo de contato. Era a melhor escolha.
Mas então por que eu tinha vontade de esmurrar qualquer coisa que se mexesse quando pensava que ela não se lembrava do beijo? E que sua última lembrança comigo foi aquela cena constrangedora com Jane. Eu tinha vontade de gritar.
Seria melhor se ela estivesse com raiva de mim. Raiva por tê-la agarrado, por presenciar coisas assustadoras ao seu lado e depois tratar seu sofrimento com indiferença; raiva por toda frieza que demonstrei ao tocá-la. A raiva era melhor.
Ela não estava com raiva e, da mesma forma, consegui estragar tudo.
Foi melhor assim, repeti para mim mesmo várias vezes. Ainda assim, não conseguia parar de sentir raiva da minha avó. A forma como ela havia interferido na situação era baixa, apesar das boas intenções. E me ameaçar daquele jeito foi a gota d’água para que ela descesse vários degraus no meu conceito.
Dei a partida no carro, tendo a certeza apenas de que não queria ver ninguém pelo resto do dia.


Capítulo 14 — Sangue e loucura como a cereja do bolo

Não existia artifício mais desnecessário do que a neve.
Essa ocorrência meteorológica era admirada por uma quantidade esmagadora de pessoas. Visualmente, ela caía levemente do céu, tornando a paisagem calma e serena, virando palco para superstições românticas e declarações ao ar livre.
Na vida real, ela só servia para deixar tudo ainda mais frio e incômodo. E, como se não bastasse todo o frio que já fazia à medida que dezembro avançava, ela havia decidido cair mais cedo aquele ano, entupindo as ruas com seu rastro nas calçadas e em cima do meu carro. Era a época que eu sentia falta do sol e do calor da Califórnia.
Entretanto, ultimamente eu parecia sentir falta apenas de poder dormir normalmente. Além do frio piorar drasticamente o meu humor, eu estava a própria definição de zumbi por quase todas as manhãs devido às noites mal dormidas regadas a café e cigarro. Eram constantes as reclamações de por ter de repetir a mesma coisa várias vezes para que eu prestasse atenção e eu não lhe dava uma resposta muito educada toda vez que isso acontecia. Na última semana, meu ar irritadiço e calado, mais do que o normal, fizeram com que ele decidisse passar um tempo com seus outros amigos, que eu não fazia o menor esforço para me lembrar de quem eram.
As aulas eram apenas um conjunto tosco de frases sem sentido. Por pelo menos duas vezes, eu havia recebido uma advertência amigável do meu professor quando troquei os nomes dos ossos esfenóide e etmóide no esqueleto do anatômico, ou quando errei o diagnóstico de neurocisticercose, mesmo com a imagem clara do raio x do cérebro do paciente. A Sra. Sekli quase teve uma convulsão.
Eu fazia alguma ideia sobre as suposições que o corpo docente — e discente — andava fazendo sobre minha recente perda de rendimento. Talvez falassem sobre uma consequência do breve coma, que meu sistema nervoso ainda devia estar “acordando”. Que deveriam acionar o serviço psiquiátrico da universidade, para que eu lidasse melhor com a recente experiência de quase morte. Ou, de acordo com as más línguas, eu havia percebido que a vida era muito curta para perder meu tempo em plantões intermináveis e ousando em tratamentos para o câncer.
A verdade era que ninguém fazia a menor ideia dos pesadelos. Ou dos sussurros que eu brevemente escutava em plena cafeteria, ou nas aulas, e nas refeições. Uma voz grave que me espreitava, repetindo palavras sem sentido, fazendo-me olhar em volta e não encontrar absolutamente nada. A sensação de estar sendo constantemente observado me acompanhava agora quase o tempo todo e isso me inquietava de forma anormal, mesmo sabendo que não se tratava de uma pessoa viva.
Era esse o motivo que me fazia levantar à noite e me enfiar em quaisquer referências, relatos, e dirigir até a New York Public Library atrás de trabalhos parecidos com o do padre Jeffords. Eu não obtive tanto sucesso como esperava. Não conseguia achar nenhuma solução registrada por alguém nesta vida. A ideia de que fosse algo realmente impossível lidar com fantasmas malignos literalmente me tirava o sono.
O tempo era algo que me intrigava. Em um dos diversos livros de ocultismo, dizia que esses seres gostavam de observar sua presa e atacá-la no momento mais oportuno, definido por eles próprios. Poderiam ser dias, meses, anos; ninguém sabia explicar o critério de escolha. As tentativas de comunicação com os mesmos acabavam em falhas — ou até pior do que isso. Portanto, eu não sabia explicar por que ele ainda não havia agido.
Por um lado, eu não me sentia como um alvo na linha de fogo. Isso porque, gradativamente, pude sentir os sussurros desaparecendo, assim como os pesadelos também — apesar de que isso não me impedia de continuar sem dormir. Concluí que ele queria me passar um aviso, fazendo o mesmo sonho se repetir, trazendo-me lembranças do escuro e do vazio no estacionamento, desta vez não apenas mostrando o rosto de , mas também de meus pais, Jane, , jurava até ter visto lapsos do rosto de minha avó. Ver minha vida transparente e exposta perante a ele não me deixava nada tranquilo. Eu sabia que não era um alvo, mas ainda assim sofria com o jogo mental, ameaçador e diabólico dele, que parecia começar a relaxar assim que viu que eu não havia agido também.
Independente do que fosse, o recado estava claro: ele queria que eu me afastasse daquilo. Que eu me afastasse dela e de todas as tentativas malucas de frear seus planos. Só que desta vez não era apenas que estava em perigo. A imagem do estado de Margot sendo diretamente influenciado pelo espírito repetia-se em minha mente diversas vezes, mesmo eu não fazendo ideia de como ele estava fazendo aquilo. Não saber quais seriam seus próximos passos me deixava em estado de alerta e eu não imaginava o nível de sua fúria na próxima vez que nos encontrássemos.
Apesar de tudo, eu estava curioso sobre ele — mais precisamente sobre quem era. Queria entendê-lo, saber mais sobre suas habilidades anormais, por que ele me mostrava o mesmo sonho no mesmo ambiente úmido e mofado todos os dias e quem era o homem desconhecido que corria até mim e de repente se transformava em minha própria imagem. Mas, acima de tudo, queria saber por que ele estava atrás de e por quanto tempo mais a pouparia. Mesmo que ela estivesse envolta em segredos bizarros que culminaram na situação atual.
Não era preciso dizer como estávamos depois do episódio na Butler, apesar de que não foram poucas as tentativas de de perguntar. O contato estava reduzido a zero e eu não a via muito ultimamente, mas isso não era nenhuma novidade. Normalmente, não frequentamos os mesmos prédios ou corredores do campus. Ainda assim eu, que nunca fui de reparar em pessoa alguma, me via de vez em quando fazendo uma vistoria completa por qualquer lugar que eu pisasse à procura de vê-la.
Consegui o feito no Ferris uma vez. Ela me encarou, mas não parecia muito disposta a conversar, seguindo em frente com as amigas e sua indiferença. No mesmo momento, me perguntei se minha avó havia cumprido a ameaça de fazê-la se esquecer de mim. Mas quando virei a cabeça para trás e a peguei dando uma última espiada, sabia que isso não tinha acontecido.
Não pretendia lutar contra sua decisão de não falar comigo. Quanto mais eu ficava longe dela, mais os sonhos e as vozes desapareciam, e eu não conseguia não ligar uma coisa à outra. Ele se certificava de que eu cumpria com suas advertências e assim, pouco a pouco, me deixava em paz.
Mas ele deixaria em paz?
Era pouco provável.
E era por isso que eu ainda não conseguia dormir. Todavia, também não sabia o que fazer.

***


Na primeira quinzena de dezembro eu já havia achado uso de todos os casacos e sobretudos que ganhara no inverno anterior. No meio da multidão de estudantes era fácil adivinhar quem vinha de fora e quem era nativo da cidade: no final do outono, os nova iorquinos ainda não estavam sentindo os sete graus tanto quanto eu estava.
Bati a porta do carro ao chegar ao estacionamento, fazendo com que um acúmulo de gelo e neve caísse aos meus pés, molhando minhas botas. Eu estava exausto para me estressar, mas mesmo assim quis xingar e bater naquele estúpido pedaço de gelo como se ele tivesse me atacado no peito.
Respirei fundo e voltei à realidade. Havia decidido que eu levaria aquele dia de forma normal e leve. Absolutamente me controlava para não socar qualquer parede em busca de calar meus pensamentos. Eu voltaria a ser um cara normal.
Infelizmente, essas coisas não dependem apenas de você.
Ao virar e seguir para o departamento, dois caras se aproximaram de mim. Eram altos e não muito esqueléticos, mas devo repetir: eram bem altos. Olhei de um para o outro enquanto estes estacionaram bem à minha frente, com os braços flexionados à frente do peito, me encarando praticamente imóveis.
Não disse nada. Achei que não deveria. Tentei ignorar a intervenção estranha e dar a volta, mas um terceiro cara surgiu de trás do meu carro, barrando minha segunda opção de caminho, igual ou até mais alto do que os outros dois.
Fodeu. Eu não fazia ideia do que estava acontecendo. Voltei-me novamente para os dois caras e repentinamente me lembrei deles: eram os cretinos que haviam gentilmente quebrado meu nariz na Gibbons alguns dias atrás.
À luz do dia eram bastante diferentes, infelizmente pareciam bem mais ameaçadores, se é que isso era possível. Ou haviam se exercitado nesse meio tempo.
— Posso ajudá-los? — perguntei, deixando claro a minha falta de vontade de jogar aquele jogo.
Um dos dois, de cabelo loiro curto e impecavelmente penteado, deu um passo à frente.
— Você precisa vir conosco.
Ele esticou a mão para pegar em meu braço, mas me afastei de imediato.
— Precisa me dizer mais do que isso pra me fazer ir com vocês — tentei manter meu tom de voz firme, mas na verdade eu repassava todos os golpes que conhecia na situação de ter de usá-los naquele momento. — O que está acontecendo?
— Você vai vir agora...
— Não vou.
— Você vem! Se não...
— Se não o quê? — aumentei o tom de voz, dando dois passos para trás.
O outro cara ao seu lado, o mais forte, se aproximou de mim e agarrou o colarinho da minha blusa antes que eu escapasse. Ele chegou perto do meu rosto e sussurrou bem perto do meu nariz:
— Ou se não todos vão ficar sabendo que você é um lunático que fala com fantasmas.
Congelei.
Mal percebi minhas pernas se movendo à medida que eles agarraram meu braço e me conduziram por um caminho que eu não estava prestando atenção. Não conseguia nem lutar contra; só conseguia pensar de que merda eles estavam falando e como haviam chegado àquela conclusão.
Depois de andar o que pareceu ser um quarteirão, passamos por uma porta de metal enferrujada e adentramos em um ambiente escuro e úmido, com algumas lâmpadas amarelas espalhadas pelo teto e parede, com prateleiras industriais gastas pelo tempo e caixas de papelão jogadas nos cantos. Lá dentro parecia pelo menos três vezes mais frio do que lá fora, mas eles não pareciam estar sentindo isso. Sem dizer uma palavra, colocaram as mãos nos meus ombros e me jogaram em uma cadeira de metal em frente a uma mesa quadrada branca, com alguns rabiscos.
Aquilo era uma cena de sequestro com toda certeza, o cenário casava com essa temática. Será que haviam chamado a NASA ou qualquer outro laboratório prontos para fazer um novo MK Ultra em mim? E visto que eu havia vindo parar aqui contra minha vontade, só me restava esperar o que viria — enquanto eu ainda repassava todos os golpes na cabeça.
Um barulho lento de passos junto a um impacto leve no concreto foi ficando mais próximo e eu senti que alguém se aproximava.
— E aí, amigo.
Ash foi surgindo lentamente à meia luz, saindo de um fundo escuro que eu não sabia o que era. Ele usava um boné preto virado para frente, que escondia uma parte do seu rosto e se arrastava em duas muletas, puxando o encosto de uma cadeira até à frente da mesa.
— Ash? — falei involuntariamente, mesmo sabendo que era ele; por um lado, ele não parecia muito igual à última vez que eu o vi. Parecia ter perdido peso e estava mais pálido.
Ash levantou uma das mãos e fez um movimento estranho, como se estivesse limpando o ar à sua volta, e balançou a cabeça em direção à porta. Ouvi os passos dos três caras que haviam me arrastado até aqui se afastarem até a porta bater.
— Deixemos as formalidades de lado, pode me chamar de — ele disse, posicionando as muletas em cima da mesa. — Sei que você conhece o meu nome.
Apenas balancei a cabeça e automaticamente olhei para os lados. Eu não fazia ideia de onde estava, mas sabia que ainda era no campus. O escuro não me deixava enxergar, aquilo parecia um depósito. O que queria comigo em um depósito?
— Sinto muito pela abordagem que eu usei, mas duvido muito que você viria voluntariamente se soubesse que era eu. — Ele deu de ombros e seguiu meu olhar em volta. — Esse é o antigo almoxarifado, atualmente na lista dos lugares a serem reformados na universidade. Você o conhecia?
— Não — respondi e virei-me para ele com uma certa ansiedade. Ou ele me dizia o que diabos eu estava fazendo ali ou teria de dar um jeito de sair. — Afinal, o que você quer?
deu uma risada, ajeitando o boné.
— Certo, certo — ele limpou a garganta, fitando-me sério. — Eu queria te agradecer.
Continuei olhando-o, como se não tivesse entendido.
— Sabe, o acidente que me deu essas gracinhas de presente. — Ele apontou para as muletas na mesa. — Se você não estivesse lá, talvez eu teria ganhado uma super cadeira tunada ou apenas um caixão. — Ele riu novamente.
— Não precisa agradecer, não fiz muita coisa. Algumas pessoas só estão no lugar certo na hora certa — respondi ainda sério.
— Eu sei que sim. — Ele concordou com a cabeça, sem tirar o sorriso sacana do rosto. — Por isso que eu também quero me desculpar. Sinceramente. Aquela noite na fraternidade foi uma loucura e como infelizmente não podemos voltar na droga do tempo, só me resta te pedir desculpas.
— Ah... — Concordei com a cabeça, desviando os olhos. — Sem problemas. Foi só uma festa. E quanto ao acidente, foi uma coincidência, nada com que...
— Eu sei que aquilo não foi um acidente, — ele me interrompeu, dando um sorrisinho de canto. — Sei que alguém estava tentando me matar.
Engoli a seco, não encontrando as próximas palavras a serem ditas. mal deveria se lembrar que eu havia falado com Margot, que ela havia soltado aquela viga em cima dele e que havia me dito seu nome.
— Do que você está...
— Sério, . — Ele soltou mais uma risada sacana, dessa vez mais curta e irônica. — Acho que você ainda está se situando, então vou deixar mais claro: eu sei que você falou com Margot. E sei que ela tentou me matar. Não precisa fazer essa cara.
Ele sabia. sabia de tudo. Como raios ele sabia de tudo?
Havia espanto e surpresa em meu semblante, eu tinha certeza. Nunca havia passado por um ultimato como aquele em toda minha vida. Na verdade, não poderia chamar aquilo de ultimato — estava apenas me informando que sabia de tudo. E eu não sabia como reagir àquela revelação.
Tentei manter o máximo de discrição possível, mas não conseguia controlar meus olhos, que estavam fixos em seu rosto. Senti a boca seca e me lembrei do que sempre disse que faria se passasse por aquela situação algum dia.
Primeiro, soltei uma risada para atenuar a tensão, ainda que não fosse convincente.
— Você é mais louco do que eu pensei — falei, e fui me levantando da cadeira. — Se era só isso que você queria me dizer, sinto que não posso contribuir com os seus delírios, então... — Dei as costas para começar a sair.
— Quando ela vai voltar? — Parei novamente. — Sinto que da próxima vez ela não vai apenas destroçar minha perna e me fazer comprar uma moto nova. Ela vai vir com tudo. Sei que ela acha que eu a matei.
Fechei os olhos e recomecei a andar. Eu deveria ignorá-lo, apesar de tudo em mim queimar de curiosidade, e um pouco de desespero me tomava querendo saber como raios ele sabia de tudo que estava falando.
— Eu sei de você e da .
Parei e virei-me bruscamente. O sorriso ladino que saiu de seus lábios avisou que ele havia me pegado. Não só nisso, como em todo o resto. Voltei à mesa a passos largos, colocando as palmas das mãos na superfície com força, aproximando-me dele.
— O que você sabe? — apesar da voz baixa, eu emitia um grunhido estranho na garganta. Eu queria sacudi-lo até que me contasse toda a verdade.
— A conversa vai ser bem mais proveitosa se você se sentar. — Ele apontou a cabeça para a cadeira que eu havia deixado poucos minutos atrás.
Sentei-me novamente, não tirando os olhos dele.
— Antes de mais nada, vou responder à sua pergunta não dita: não, eu não vejo os fantasmas. — Ele deu de ombros, dando um sorriso de canto. — Acredite, eu sou só um garoto de família humilde do Ohio. Não tenho nada de especial. Mas isso não quer dizer que eu não saiba que existam pessoas como você.
Ele tamborilou os dedos na mesa e eu continuava sem palavras. Mesmo não sabendo por que, meu corpo continuava em total estado de alerta, como se eu tivesse de esperar que algo pudesse acontecer.
— Como você sabia? — praticamente sussurrei e se ele ainda estava jogando verde, eu havia acabado de dar-lhe a confirmação que ele precisava.
— Ah, eu não sabia. — Ele levantou as sobrancelhas, balançando as mãos em negação. — Foi como em um quebra cabeça, entende? Juntei cada peça e de repente, bum! Eu entendi tudo. — Ele deu um sorriso divertido e eu o olhei confuso. — De qualquer forma, desconfiei desde que você pisou naquele quarto e disse aquelas coisas. Na hora eu estava nervoso o bastante para não raciocinar e aí fiquei sabendo que você era… Bem, você. Mas depois foi fácil pensar nisso. O acidente com a viga só serviu para confirmar a minha suspeita.
— O que te levou a pensar que eu havia falado com Margot? E que porra é essa de eu ser eu...
— Sabe, eu tenho uma irmãzinha de nove anos — ele divagou, parecendo ignorar minha pergunta. — Estava conversando com ela no dia do acidente. Ela é a coisa mais adorável de todas e extremamente inteligente. Mais da metade da minha renda com os medicamentos vão para uma poupança com o nome dela, pro caso de ela não ter que se virar como eu faço pra conseguir um diploma. E ela é muito especial, sabe? Quando ela contava à nossa mãe sobre os amigos que ela encontrava por todo canto, minha mãe sempre justificou como os amigos imaginários que toda criança tem. Eu também cheguei a acreditar nisso, mas no fundo eu sabia que ela estava vendo algo. Sabia que era algo tão importante que ela não queria perder tempo tentando nos convencer se era verdade, ela continuava ajudando aquelas pessoas, seja lá no que for. — Ele me encarou. — Tudo bem que ela é só uma criança e às vezes não pode fazer muito. Espero que ela aprenda a lidar com esse dom, assim como você deve ter aprendido.
Meus ombros cederam e me senti ficando surpreso novamente. Eu não fazia a menor ideia de que tinha uma irmã igual a mim.
— Pensando nisso, foi fácil adivinhar que Margot havia falado com você e que pediu para você fazer o que fez naquela noite. Sinto dizer que desde então minha resposta não mudou. Eu realmente não a matei. — Ele deu de ombros.
— Acredito em você — respondi, sem pestanejar. Era verdade, não havia por que mentir em um momento daqueles.
— Eu sei que sim, se não, eu estaria morto agora. Mas ela não acredita em mim, não é? Por isso tentou me matar.
Não respondi, apenas concordei de leve com a cabeça. Apesar de que o fato de Margot acreditar nele ou não era bem mais complexo do que aquilo.
— Entendo... — ele suspirou. — Acredito que ela não vá parar até conseguir o que quer.
— Ela vai parar quando descobrir o que aconteceu — respondi, de repente ansioso. — Ela só não sabe disso ainda. Ultimamente ela não anda muito bem.
— Você deve estar investigando isso, não é? Ir me perguntar foi o seu primeiro passo.
— É, pode-se dizer que sim. Mas ainda não conseguimos nada, e por mais que...
— Conseguimos? — Ele vincou as sobrancelhas e depois tornou a levantá-las. — Ah, claro... Você e a estão juntos nessa.
— Não estamos… Como sabe de mim e da ? — perguntei rápido, atropelando as palavras. — Tenho plena certeza de que Margot não foi te contar isso.
— Devo alertar que vocês dois não são exatamente do tipo discretos — ele disse irônico. — Conheço cada centímetro desse lugar, é literalmente meu local de trabalho. Olhe por aquela janela ali. — Ele apontou para uma das poucas janelas do local, retangular e suja de poeira.
Nos primeiros segundos não consegui interpretar o que ele havia pedido. Mas depois, ao longe, quando avistei uma pequena parte do muro aos fundos do campus, ao final do pátio, entendi tudo.
— Você estava aqui aquela noite? — arfei, curioso.
— É, e eu sempre achei muito difícil vocês dois sozinhos terem feito aquela merda no John Jay. — Ele levantou as sobrancelhas. — Foi Margot também, não foi?
Concordei, ainda de boca aberta.
— Cara, ela está pior do que eu pensei — ele disse a si mesmo, em seguida voltando a me encarar. — Talvez eu possa te ajudar com essa investigação.
— Você sabe quem a matou?
— Definitivamente, não. Mas tenho minhas suspeitas.
tem algo a ver com isso? — perguntei ansioso novamente. Talvez eu devesse medir melhor minhas palavras, pois a postura de Ash mudou ao ouvir aquele nome.
— Não... Acho que não — ele disse em voz baixa. — Ele é um pouco esquentado, mas ainda somos amigos. Ele não faria isso com ela. Tem algumas pessoas que precisam ser ouvidas antes de tirar conclusões precipitadas. — Aproximei a cadeira da mesa, esperando que ele continuasse. — Vocês falaram com a Naomi?
— A colega de quarto de Margot? — respondi, lembrando-me da garota repentinamente. Neguei com a cabeça.
— Margot não costumava reclamar dela, na verdade elas até pareciam se dar muito bem. Porém, a garota é um pouco... Estranha — ele disse a palavra lentamente. — Não sei te explicar. Ela parecia ter algo.
Realmente nunca havia passado pela minha cabeça interrogar a colega de quarto de Margot, pelo menos até aquele momento.
— Você acha que ela...?
— Eu não sei de nada, meu chapa. Estou apenas contando o que presenciei. Isso fica na sua mão a partir de agora. — Ele começou a se levantar, tirando as muletas de cima da mesa e as colocando no chão. — De qualquer forma, isso me interessa também. Ainda não estou afim de morrer, então implicitamente estou ajudando a mim mesmo.
Ele apoiou os dois braços nas muletas e saiu de trás da mesa. Me levantei da cadeira e ele se aproximou de mim lentamente, dando-me um pedaço de papel dobrado.
— Esse é meu número. Quer dizer, o número do . — Ele sorriu de canto. — Pode me ligar quando precisar, tenho mais amigos do que imagina e amigos de confiança. Os caras não vão dizer uma palavra sequer. E consigo ser mais discreto do que vocês dois. — Ele riu e deu as costas para ir, mas virou-se novamente. — A propósito, imagino que não faz ideia sobre você, não é?
— Não — respondi em voz baixa. — E nem deve saber.
— Entendo. Então você também deveria ser mais discreto. — Ele deu de ombros. — Falando nisso... Sei que essa parceria entre você e ela deve ter surgido depois daquela noite da festa, mas espero que seja apenas isso. Se o descobrir, creio que eu não vou poder fazer muita coisa por você.
Dei uma risada irônica, contabilizando mais um aviso sobre . Era palpável que de todas as direções vinham pessoas e motivos para me manterem longe de .
— Acredito que essa parceria não exista mais.
— Pois então recupere. é durona, mas é justa e esperta. Ela deve conseguir o depoimento de Naomi à polícia no dia que achou Margot e também mais informações importantes. Vocês vão conseguir.
— Eu preciso saber mais. — Ergui uma sobrancelha. — Preciso saber da sua versão.
— Pois então você terá. Mas acredito que Naomi fará trabalho melhor.
Ele deu um leve aceno e em seguida voltou a dar as costas e se retirar.
— chamei-o no último instante. — Você não está com medo?
Ele apenas virou a cabeça e deu um sorriso.
— Estou apavorado.

***


Quando eu tinha 16 anos, minha tia Guida, irmã do meu pai, havia decidido que precisava se reencontrar depois do terceiro divórcio.
Ela se enfiou em um avião e passou alguns meses em um mochilão pelo sudeste da Ásia, passando por mosteiros budistas e templos de dinastias antigas. Seja lá como isso ajudava no processo. Ela voltou para casa bronzeada e distribuindo amuletos e previsões ao ler as mãos de todos da família.
Não que isso fosse algum problema, ao menos para mim. Meu pai parecia irritado com mais uma “fase” da irmã, que sempre foi indecisa sobre tudo em sua vida e se enfiava em aventuras que levavam sua existência ao limite. Era uma rebelde genuína, nada parecida com o irmão mais velho advogado.
Nos meus dez anos, ela estava estacionada na fase groupie e me sequestrou no dia anterior ao meu aniversário para me levar a um show do The Cure para que eu a fizesse companhia. Eu só não contava que ela me deixaria sozinho, no meio de uma multidão insana entupida de cocaína e cerveja barata, para que ela acordasse no dia seguinte na cama de Jason Cooper, o baterista.
A fúria de meus pais daquele dia afastaria até o mais terrível dos espíritos malignos. Mesmo que minha tentativa de defender minha tia ao dizer que, pelo menos, o show era perto de um ponto de táxi e que havia sido uma das noites mais divertidas da minha vida — o que não era mentira, visto que eu havia me amarrado no som que praticamente definiu meu gosto musical dali para frente —, meus pais ignoraram absolutamente tudo que eu dizia e proibiram que minha tia chegasse perto de mim de novo. Ao menos essa conversa não durou muito tempo e ela já estava de volta no jantar de ação de graças.
Eu gostava muito de tia Guida. Além dos meus pais, ela foi uma das primeiras da família que abraçou completamente a ideia de Meredith e Ryan decidirem adotar uma criança de seis anos. E devo dizer que ela não poupou esforços para me enturmar nas primeiras festas de fim de ano com seu alto astral. Eu até havia criado coragem para contar a ela sobre meu primeiro beijo com Ashley Wilson aos doze anos na piscina ao fim da aula de natação. Eu deixei claro que não pretendia convidá-la para o baile de inverno.
Mas quando tia Guida pegou na minha mão após voltar de sua nova peripécia, comecei a pensar se realmente estava fazendo as coisas direito. Isso porque os seus olhos faltaram quase para saltar das órbitas quando ela repetiu para mim em um tom abafado: você fala com os mortos.
É claro que a sala de estar inteira explodiu em risadas, as do meu pai totalmente forçadas e engasgadas, dando tapinhas de leve nos ombros dela para que voltasse ao seu lugar e parasse com seu show. A atmosfera estava tão despreocupada que ninguém reparou como eu tinha congelado no meu lugar, a boca repentinamente seca, os olhos estáticos. Uma mão em meu ombro me acordou e tive de me esforçar para acompanhar o convite amigável de meu avô materno, me chamando para pescar quando fôssemos à fazenda novamente, e ainda tentar rir com as histórias dele sobre como andava a plantação de café.
Mas eu não conseguia contribuir muito com a conversa. Do outro lado da sala, tia Guida ainda me olhava boquiaberta, sentada em uma das poltronas, não dando a mínima atenção para o bebê da Sra. Moore, nossa vizinha, que era o motivo de todos estarmos ali reunidos. Ela parecia estar em um tipo de transe, perguntando-se o que havia acabado de acontecer, seja lá o que foi aquilo. De repente, ela balançou a cabeça e desviou o olhar, voltando-se para a vizinha e seu filho.
Assim como as demais, essa fase dela também não foi permanente, apesar de que por muitas vezes se auto intitulou budista. Mesmo hoje, no quarto casamento com um jogador de beisebol da segunda divisão, nunca mais consegui ficar do mesmo jeito ao lado dela, por mais que eu tentasse. Ela, ainda que disfarçasse melhor do que eu, também não conseguia fingir que não havia visto, ou sentido, alguma coisa estranha sobre mim. Que eu não era muito normal. Ela só não sabia explicar como. Apesar disso, eu tentava fazer o possível para manter o comportamento natural.
Desde então, o pensamento de que alguém poderia descobrir o meu segredo me infernizava vez ou outra. Digo, eu gostava de parecer normal. Odiava ser o centro das atenções até mesmo quando era para os elogios do meu histórico escolar e desempenho acadêmico, no entanto, nenhuma dessas pessoas me olhava com medo ou saía correndo por causa disso.
Mas se aparecesse alguém que realmente acreditasse que eu podia bater um papo com fantasmas por aí, eu não imaginaria quais seriam as consequências porque, bem, era uma ideia tão ridícula que elas logo afastavam do pensamento. Afinal, fantasmas não existem.
Nas poucas vezes em que fui flagrado, era fácil inventar qualquer tipo de estresse para falar sozinho — ou gritar aos quatro ventos e desferir um soco no ar, dependia muito do meu humor —, mesmo que as testemunhas insistissem em me dar um diagnóstico de esquizofrenia na mesma hora. Não me importava com suas suspeitas, afinal, elas jamais admitiriam a si mesmas que aquilo poderia ser verdade. Era loucura demais.
Mas revelou sua desconfiança com tanta naturalidade que me tirava toda a escolha sobre confirmá-la ou não. Ele já sabia da resposta antes mesmo de eu dizê-la. Contudo, confiar nele cegamente não era uma opção. Mesmo que tenha me confiado histórias pessoais demais.
E por toda essa informação, eu estava prestes a fazer algo realmente perigoso.

***


Quatro graus era o que dizia na tela do meu celular. O frio que eu sentia era bem mais intenso do que isso.
O vento gélido da madrugada balançava meu cabelo enquanto eu escalava o muro de pedra do cemitério de Woodlawn, desta vez com mais agilidade. Do outro lado, certifiquei-me de cair mais graciosamente do que da última vez, com os joelhos e as mãos intactas. Ajustei a luz da lanterna para que não passasse de uma fraca iluminação e apressei-me a correr pela direção que lembrava estar o túmulo de Margot.
O som dos meus passos batendo ruidosamente em cima do cascalho soava três oitavas a mais na noite silenciosa. Flocos mínimos de neve começavam a cair, misturando-se com a fumaça branca que saía pesada de meu nariz e boca. A neblina espessa cobria grande parte do ambiente, atravessando entre uma lápide e outra, moldando-se pelo vento em formas humanas assustadoras, como um passeio coletivo dos mortos. Estremeci com a ideia, torcendo para não encontrar nenhum fantasma além de Margot hoje.
Parei de correr ao chegar à estátua do anjo. Parecia exatamente como naquela noite, assim como todo o resto. Apesar de que agora eu tinha a estranha sensação de que seus olhos brancos de pedra me observavam, como uma testemunha viva do fatídico dia. Afastei logo o pensamento, continuando em frente, por onde havia corrido.
Em poucos metros, visualizei o nome de Margot talhado em letras cursivas na lápide de granito acima de sua sepultura. Um ramalhete de rosas brancas e vivas perfumava o pequeno espaço, recentemente colocado. Ao lado dele, uma foto em miniatura da garota de cabelos ruivos e olhos verdes sorria para mim. Aquele pequeno retrato emanava tanta vida e pujança que despertaria o sentimento de compaixão em qualquer visitante. Tão jovem e bonita, uma vida inteira pela frente. Nem de perto parecia com a garota raivosa que vagava por aí em busca de vingança cega.
Ajoelhei em frente à pedra, tateando os bolsos do casaco até encontrar a pequena navalha. O nervosismo já esperado me tomou. Fechei os olhos e respirei fundo antes de passar a lâmina pela palma da mão.
Aos quinze anos, eu havia gritado pela dor aguda do sangue quente escorrendo pelo meu pulso. Hoje, me limitei a trincar os dentes enquanto apertava a ferida acima do chão, deixando que o sangue caísse mais rápido do que a neve, empapando a grama e penetrando aos poucos a terra, em direção a um corpo mofado dentro de um recipiente de madeira.
Fechei os olhos com força e pensei em Margot. Eu era ridiculamente inexperiente naquilo e, em vez disso, comecei a pensar em minha avó, que havia me ensinado a técnica. Como se eu estivesse pedindo uma ajudinha. Não iria funcionar, eu sabia. Não era sobre o corpo dela que eu derramava meu sangue, formando a conexão invisível e medonha que puxá-la-ia até mim, seja lá onde estivesse. Eu nem sabia onde estava seu corpo. Não tinha qualquer item pessoal para substituí-lo, naquele caso. Eu não sabia nada a seu respeito, como suas habilidades secretas de mexer na memória das pessoas.
Foi bom lembrar disso naquela hora, me deu a raiva necessária para parar de pensar nela e me concentrar em Margot novamente. Pensei em seus olhos assustados no John Jay da primeira vez, seus lamentos no meu carro e seu andar preguiçoso por entre as prateleiras da Butler. Pensei na garota inocente que havia sido assassinada sem mais nem menos, por razões desconhecidas. Desejei que fosse essa Margot que surgisse à minha frente naquele momento.
Um farfalhar de folhas às minhas costas entregava que eu havia ganhado algum êxito. Girei o corpo para o barulho, encontrando uma Margot olhando confusa para os lados, perguntando-se como havia ido parar ali repentinamente.
Eu só sabia que era ela, pois essa técnica não admitia esse tipo de falhas. O cabelo longo estava ralo e falho, mais curto, grotescamente bagunçado. Os círculos escuros tomavam conta de seus olhos e lábios, e seus dedos longos e esguios apresentavam tremores contínuos, que percebi também em suas pálpebras.
Ela estava definhando.
Levantei enquanto enrolava a ferida com uma gaze que me certifiquei de trazer. Ela olhou para mim com puro espanto, ainda olhando para os lados, como se não fosse real.
— O que é isso? — murmurou, a voz cortante e seca. — Como vim parar aqui? O que você fez?
— Precisamos conversar — mantive meu tom de voz firme, olhando fixamente para ela.
Ela sumiu bem diante dos meus olhos, mas desta vez eu estava preparado. Virei para trás imediatamente quando ela avançou para mim, pegando em seu braço direito e torcendo-o nas costas, fazendo seu corpo curvar-se para o outro lado, para a lápide com seu nome.
Aquilo pareceu enfraquecê-la. Seus rugidos diminuíram e ela pareceu parar de lutar, encarando o retrato ao lado das flores.
— Me-me solta! — ela balbuciou, balançando a cabeça violentamente. Eu não sabia se podia segurá-la o bastante caso resolvesse se agitar, mas não podia demonstrar isso.
— Se prometer se comportar, eu solto! — falei entredentes. — Não adianta tentar fugir, tenho umas boas horas com você presa aqui comigo.
Ela agitou os braços de forma agressiva por um momento e segurei-a com mais força ainda, pressionando o corte recente, manchando a gaze com mais sangue. Ela xingou e desferiu palavrões horrendos quando finalmente bufou e se acalmou.
— Seu desgraçado de merda! — ela arfou, já com os joelhos no chão. — Me solta logo, não vou para a porra de lugar nenhum!
Esperei quase um minuto inteiro antes de soltá-la, mordendo os lábios para esconder a dor do corte. Ela ficou de pé e me encarou enquanto balançava o braço que eu sabia que tinha quebrado, abrindo o sorriso feio e medonho em minha direção.
— Você não tem mesmo medo de morrer, não é, ?
— Quando isso acontecer, espero sair logo de cena, sem alvoroço. — Dei de ombros, apertando o nó da gaze. — Pode me dizer por que raios você não fez isso ainda?
Seu sorriso diminuiu, mas sem perder o brilho divertido nos olhos. Tudo aquilo parecia uma piada.
— Porque preciso levar algumas pessoas junto comigo antes disso.
— Achei que eu tinha sido bem claro ao informar que Ash não te matou.
— E você, como uma donzela, acreditou nele, mesmo depois de ter levado uma surra! — Ela soltou uma gargalhada. — Devia ser mais inteligente, . pode ser muito bom na arte da manipulação, ele precisa disso.
Tentei responder, mas desisti. Não adiantava argumentar com Margot naquele estado, quando ela estava — ou acreditava estar — tão certa sobre . Eu só estaria perdendo meu tempo.
— Pelo que me lembro, você disse que gostava muito dele. Queria apresentá-lo aos seus pais e coisa e tal — falei, e suas pálpebras se moveram de nervosismo. — E levei a surra depois de ele ter me dito que também gostava de você. Então pode me explicar por que diabos ele te mataria?
— Ele é um mentiroso! Filho da puta cafaje…
— Não adianta fugir das perguntas, Margot! Quanto mais sangue eu derramar nesse solo, mais tempo você vai permanecer aqui. E então tudo depende de você me responder. Como vai ser?
Na verdade, eu não sabia ao certo daquilo, não tinha prestado muita atenção nessa parte da aula quando minha avó aplicou a técnica, estava ocupado demais me segurando para não chorar pelo corte errado e profundo na palma da mão. Mas sabia mentir e era isso que importava no momento.
Ela soltou um barulho estranho do fundo da garganta, aparentemente deixando o ódio vir à tona.
— Posso quebrar o seu pescoço…
— Por que te mataria?
— ...assim seu sangue não derramaria…
— Responda! — Dei um passo à frente, gritando mais alto do que ela, torcendo para que ninguém tenha escutado.
— Porque ele é um covarde desgraçado que tinha medo de estar comigo! — ela gritou, arregalando os olhos. — Ele… Tudo estava indo bem, mas então… Ele e brigaram, então ele gritou comigo. Foi repentino, não havia nada de errado entre nós e ele simplesmente saiu… Sumiu por três dias.
A tremedeira em suas pálpebras aumentou drasticamente e seus olhos se arregalavam e tomavam uma expressão confusa e irreal, como se ela não estivesse entendendo as lembranças que a tomavam subitamente. Percebi que aquela deveria ser a primeira vez que Margot se esforçava para lembrar o que havia acontecido antes dos remédios. E eu não sabia dizer se isso era bom ou ruim.
Fora isso, me prendi na informação. Automaticamente, lembrei-me das palavras de a na Gibbons àquela noite. “A gente conversou sobre isso, eu te disse pra largar aquela infeliz…”
Nunca havia me perguntado porque ele disse tal coisa. Porque tinha de terminar com Margot. A sensação de que ele tinha algo a esconder não havia me abandonado nem por um segundo.
— Por que e brigaram? — perguntei, ao ver que ela olhava com um certo desespero para os lados, como se suas memórias tivessem tomado forma e espreitavam-na.
— Eu não sei — ela gemeu, lentamente colocando as duas mãos na cabeça. — Eles estavam sempre brigando, eu não fazia ideia sobre o quê. Ele entrou em contato comigo depois desse tempo, me pediu desculpas, voltamos a ser o que sempre fomos… — ela respirou fundo, a tremedeira agora tomando suas mãos. — Ele estava sendo amoroso, atencioso, me ofereceu os remédios… — Seus olhos ficaram frios e duros e ela grunhiu. — E então eu morri! Por causa dele eu estou aqui!
Não.
Aquilo definitivamente era estranho demais.
não te matou, Margot — falei firme, mesmo que ela tenha me lançado o ódio que a consumia. — Independente de quão estranha é a situação, preciso que você se lembre de mais coisas, de mais pessoas. Onde estava sua colega de quarto?
— Ela não estava lá…
— Onde ela estava?
— Eu não sei, eu não sei. — Ela levou as mãos à cabeça novamente, como se sentisse dores. — Eu não me lembro… Ela tinha um emprego...
— Mas vocês eram amigas…
— Ela não era minha amiga! — gritou. — Ela só sabia me humilhar com seu tom implícito e gentil, dizendo como eu não era boa o suficiente para ficar com um cara como Ash! Se gabava para mim dizendo que se ele ainda não tinha dito seu nome, era porque me considerava como mais um de seus brinquedos, que nunca me levaria a sério! Me dizia isso várias vezes! E no fim estava certa, mas isso não diminui seu posto de vadia!
Eu devia ser louco por manter Margot presa prestes a ter mais um surto de raiva. Era por isso que aquela técnica nunca era recomendada — e minha avó com certeza me mataria se soubesse. Esperava que ela nunca soubesse.
Mas eu me sentia tentado a arrancar ainda mais informações à medida que ela me dava resultados. Quando o tempo se esgotasse, eu não sabia se teria uma chance daquelas de novo.
De repente, ela soltou um berro horrendo, caindo de joelhos no gramado molhado. Seu corpo inteiro tremia e ela respirava com dificuldade, os olhos catatônicos, um pavor que eu não sabia de onde vinha.
— Margot! — Corri até ela, ajoelhando-me, pegando em seus ombros. — O que está acontecendo? Fala comigo! Você está se lembrando?
— Não… Para com isso… — Ela olhava para todos os lados em pânico. — O que são essas coisas? Quando foi isso...
— Margot, presta atenção em mim. Olha pra mim! — gritei, conseguindo sua atenção por um momento. — Me diz o que está se lembrando! Preciso que você me diga!
— Não… Não faz sentido. Ele não me disse isso, não foi isso que me mostrou… — Ela agarrou o colarinho do meu casaco, aproximando-se do meu rosto. — KL… D... 89… 6… Um acidente… Naomi… Ela me ofereceu…
Cada palavra era pronunciada com dor e todo ódio de Margot parecia ter desaparecido. Eu a olhava ansioso, esperando que isso não a pressionasse, mas ela nem parecia estar me vendo. Só repetia palavras desconexas, para o vento, as árvores, qualquer coisa que estivesse no ambiente.
— Que acidente? — tentei perguntar e ela balbuciou algumas palavras. — O que Naomi fez? Margot, preciso que continue se lembrando. Vamos, sei que você consegue, eu posso te ajud…
De repente, sua boca se escancarou em um grito seco, olhando para algum ponto atrás de mim. Um horror genuíno estampou seu rosto e eu não sabia que era possível sua palidez fantasmagórica piorar.
— Ele está aqui… — sua voz saiu em um fio, quase inaudível, mas que pude compreender com toda a clareza.
Virei para trás tão rápido que precisei apoiar um dos braços para não cair. Não havia ninguém. Me levantei do chão, anando cada mísero pedaço da cena onde eu me encontrava, para qualquer lugar que meus olhos alcançassem. Uma gota de suor desceu pelas minhas costas. O silêncio era o mais pesado que eu já havia presenciado — o terror de presenciar o absoluto nada. Eu podia ouvir até as batidas aceleradas do meu coração.
E o choro de Margot continuou.
… — sua voz foi a quebra do silêncio e não virei imediatamente. Continuava olhando para todos os lados, o sangue pulsando nos tímpanos, em absoluto estado de alerta.
Quando me virei novamente para ela, já não estávamos mais sozinhos.
Apesar das mudanças bruscas, ela finalmente parecia a garota perdida e frustrada que havia invadido meu carro novamente. Estava de pé, com o choro preso na garganta, tentando contê-lo. Olhava para baixo, intimidada pela presença que agarrava seu braço direito e olhava diretamente para mim.
Senti que poderia passar por aquela situação milhares de vezes e ainda assim não me acostumar nunca com a sensação sufocante que ele trazia consigo. Parecia que eu adentrava em um mundo paralelo quando ele chegava perto, tamanha era a vastidão da angústia e desespero que ele infligiu apenas por estar ali, parado, sem mover um músculo. Ele era envolto por uma fumaça negra, como se tivesse pintado toda a neblina que serpenteava aos nossos pés, tornando tudo ainda mais escuro e ameaçador. E se era sua intenção me deixar com medo, ele havia conseguido. Eu estava.
Aquilo definitivamente não estava nos meus planos.
Meus pés não se moveram, nem sei se deveriam. Até o ar estava mais pesado com aquela presença, fazendo-me inspirar com mais força do que o normal.
Em um movimento gracioso, ele inclinou-se levemente para o lado, aproximando os lábios próximos à orelha de Margot, sussurrando palavras que eu não conseguia ouvir.
Aos poucos, o choro dela foi cessando e sua tremedeira também era levada embora à medida que ela escutava seja lá o que fosse aquilo. Um desespero, misturado com raiva, tomou conta de mim tão abruptamente que me esqueci do fato de que estava com medo.
— Margot, não escute ele! — gritei, fazendo-o parar no ato. — Saia de perto dele agora! Não escute o que ele tem a dizer, olha pra mim! MARGOT, OLHA PRA MIM!
Dei um passo à frente na mesma hora em que ela levantou a cabeça. Não soube explicar o que vi. Eu não sabia o que ele estava fazendo, mas eu havia interrompido seu processo pela metade. Ela havia parado de chorar, mas os mesmos olhos preenchiam a expressão perdida que ela tinha segundos atrás, que tinha desde que eu a conhecera. Ela olhou de mim para ele lentamente, como se não soubesse o que fazer.
Ele deu uma risada sarcástica e voltou-se para ela.
— Solta ela! — gritei novamente, desta vez para ele. — Disse para soltá-la AGORA!
Eu não sabia o que tinha feito.
Eu não tinha nada em vantagem para uma luta.
Ele soltou lentamente o braço de Margot, virando o rosto para mim. Quando cravou os olhos totalmente negros nos meus, eu sabia que iria morrer.
Não tive tempo de ponderar sobre o assunto. Em meio segundo, ele estava na minha frente, vários centímetros mais alto do que eu, e senti como se um toldo escuro e impenetrável caísse sobre nós dois. Eu não via mais nada ao redor, nem árvores, lápides ou Margot. Mas também não conseguia virar a cabeça para olhar. Era como se ele tivesse amarrado minhas pernas ao chão e me hipnotizasse para olhar somente em seus olhos.
Olhos esses que me gelava a espinha e eu não conseguia mais disfarçar a tremedeira sobre todo o corpo. Eu nem sabia como ainda estava de pé. Ele me avaliou de cima a baixo, um sorriso grotesco atravessando os lábios, claramente se divertindo com o meu terror.
— ele murmurou, a voz arrastada e rouca que me atingiu como um soco. — Tsc, tsc. Você é teimoso. Tal qual o seu pai.
Minha garganta fechou. Tentei encontrar palavras, mas não conseguia proferir coisa alguma. Minha mente não funcionava. Ele riu de minha confusão.
— O seu desejo de morrer é absolutamente esplêndido. Espetacular! Arriba, à toda essa genética! — Ele gargalhou, com os braços levantados lado a lado, cantando uma vitória.
Quando finalmente achei minha voz, ela saiu em um sussurro árido, espesso, como se não proferisse palavras há vários dias:
— O-o q-que… — Eu tinha certeza de que minha boca estampava rachaduras. — Do que…
— Oh, não, pobre rapaz! — Ele levou uma mão ao peito, teatralmente. — Peço que me perdoe a inconveniência, sempre insisto em esquecer de sua vida atual totalmente maquiada sob um sobrenome aleatório que lhe foi dado por duas amadas almas extremamente tediosas. — Ele balançou a cabeça e passou o dedo indicador pelo meu ombro, me provocando ainda mais arrepios. — Mas você gosta deles, não é? Mesmo que a curiosidade sobre sua origem te tome algumas vezes, você a afoga prontamente porque pensa no doce e gentil casal , entristecidos pela infertilidade, mas reencontrando a felicidade em um garotinho do Melbourne. E eles cuidaram tão bem de você, todos assistiram. Como poderia sequer cogitar pensar quem foram as pessoas que o deixaram na frente daquele portão sujo e fedorento quando ainda nem sabia falar? Adorável, , simplesmente adorável! — Ele bateu pequenas palminhas.
Cerrei os punhos, mas não conseguia fazer mais do que isso. Ainda me sentia preso, com algo apertando meu peito, sem fazer ideia do que era.
— Ainda assim, sua personalidade é fascinante, espantosa. Existem pouquíssimas pessoas em seu acervo de sentimentos, mas estas ainda são interessantíssimas. Como a belíssima Jane Sullivan, selvagem e sedutora! Gostaria muito de vê-la de perto…
O ar escapou de meus pulmões e consegui dar um passo à frente, mas seus dedos me tocaram mais uma vez, parando-me. Meu corpo não reagia àquele toque. Eu queria falar, gritar, fazer qualquer coisa. Simplesmente não conseguia.
— Calma, meu jovem. Tenho que destilar algum elogio sobre aquela gata loura. Acredito que, sem ela, você não seria quem é hoje, lidando com a habilidade infame que permite nossa comunicação neste exato momento. Esse cômico senso de justiça está no seu sangue, mas posso apostar que ela o ajudou a moldá-lo, mesmo que indiretamente. — Ele sorriu, com um brilho estranho nos olhos. — É uma pena, ela não merecia ter sido largada daquele jeito, até pior do que você. Mas com a família que teria, acredito que ela teve sorte ao ser encontrada por aquela velha gorda.
Eu não podia escutar isso. Não podia deixar que ele entrasse na minha vida desse jeito, na vida das pessoas que eu gostava! Tentei novamente me mexer, mas sua voz se tornou ainda mais cortante.
— E quanto ao garoto esquisito que correria se descobrisse seu segredo? Como é mesmo o nome dele… — Ele juntou as sobrancelhas, atuando, rindo em seguida. — … Outro na sua lista de pessoas importantes. Fascinante! Esse jovem sempre dá um jeito de me surpreender, e acredite, não sou facilmente surpreendido. A lealdade que ele possui por você é, no mínimo, assombrosa. E com certeza você já deve ter notado isso, mesmo com toda a estupidez que o envolve. Mas não se sente pronto a incluí-lo nessa parte da sua rotina. Não posso dizer que é uma má ideia. — Ele deu de ombros. — Afinal, ele é seu único amigo e posso sentir o seu desespero por mantê-lo em sua vida. Faz ela parecer mais normal, não é? Ter alguém que divida uma bebida ou um cigarro com você, sem considerar o fato de que você pode estar vendo uma alma morta vagando por detrás de suas costas e que eles podem falar. E até atacar. É um fardo muito grande para atribuir a alguém. Vemos que a maldita nobreza também te apetece, assim como seu pai. Deslumbrante!
Eu tinha certeza de que meus dedos já estavam brancos com a força de meus punhos. Alguma coisa queimava dentro de mim, lutando para sair, mas não obtinha sucesso. Ele parecia estar controlando até minhas reações. E seu sorriso debochado me deixava em conflito: eu não sabia se partia para cima dele, correndo o risco real de morrer, ou se fazia as perguntas que eu sabia que estavam vindo, uma tonelada delas. E ele estava certo, eu me odiava por isso.
Fechei os olhos com força, em uma tentativa desesperada. “Vó, se você estiver ouvindo, agora seria uma boa hora para aparecer e se meter nos meus problemas de novo.”
— Ela não vem, garoto.
Abri os olhos, verdadeiramente assustado. Ele ainda sorria, agora com um prazer genuíno pela minha surpresa.
— Não vou mentir, não se pode subestimar aquela velha, ela soube muito bem como proteger você por todos esses anos. Apesar de tudo que fez! — Ele gargalhou novamente, dessa vez exagerando de uma forma que me fez pensar por um minuto que alguém escutaria. — É hilário assistir à compensação de seus erros, te educando em sua habilidade e ensinando-lhe técnicas perigosas como aprisionar um fantasma raivoso. Brilhante! Não bastasse tudo isso, ainda tendo sucesso em te privar de toda a verdade sobre seus progenitores. Realmente, ela não é qualquer mulher. Não excluindo sua notável habilidade extra com as mentes, mesmo que ela diminua drasticamente no outro plano. Ou você acha mesmo que eu sou o primeiro que você vê?
Firmei os joelhos para não desabar. Puxei o ar com força e não sei como ainda encarava firmemente seus olhos. Suas palavras, desde o começo, me atingiam como lascas desesperadas, mas agora foi como se ele tivesse cravado uma espada no meu peito.
Não conseguia responder à altura com a mente embaralhada do jeito que estava. Só queria sair dali, precisava sair dali.
— Cala a boca… — murmurei, levando a mão direita ao peito, apertando a camisa, como se isso diminuísse o aperto que eu sentia. — Não quero ouvir mais nada de você, não preciso…
— Não quer ouvir? — De repente ele estava a centímetros de mim e eu arfei. — Mas ainda nem começamos a falar sobre o principal. Sobre o motivo de todo esse infortúnio. Você sabe de quem estou falando, não é mesmo?
O sorriso em seu rosto lascado desapareceu de imediato. Arrisco dizer que uma raiva sem igual tomou conta de mim ao mesmo tempo que vi o lampejo da mesma raiva salpicar seus olhos. Eu sabia o que ele diria antes mesmo das palavras saírem de sua boca.
— Por onde começamos a dialogar sobre minha doce garota do Queens, que agora dorme profundamente em sua cama vitoriana, trajada de uma linda camisola de seda com detal…
Eu nem sei como aconteceu. Esse tempo todo me sentia grudado ao chão, petrificado de um medo que tentava me tomar, o espanto por todas as coisas que ouvia. Mas aquele ardor que parecia preso, um ódio sufocado por aquela presença, finalmente havia conseguido ser liberado. Não notei quando meu punho acertou em cheio seu nariz, mas de repente o desequilíbrio que sua presença emanava no ar evaporou e pude respirar normalmente.
Pousei as mãos nos joelhos, arqueando as costas com o ar frio que entrava por minhas narinas. Eu podia ver tudo novamente. A grama misturada com a neve que ainda caía, as árvores ao redor, as diversas pedras cinzas marcadas com nomes, as flores que enfeitavam as sepulturas. Pude ver Margot no mesmo lugar, parada com o rosto em choque, como se estivesse me vendo pela primeira vez.
Seja qual fosse o casulo onde ele havia nos metido, eu estava fora dele.
Pude jurar que havia investido toda a minha força naquele soco, mas ele apenas cobriu a área atingida, dando um passo para trás, sem emitir som algum. Quando os dedos se afastaram o suficiente para que eu visse seus olhos de novo, eles haviam tomado um brilho estranho e a risada que escapou de seus lábios me atravessou o corpo.
Ele estava se divertindo com toda a situação, se divertindo em me ver falhar, se deliciando com a minha impotência. Igualmente ao meu sonho.
Uma onda de ódio me fez partir para cima dele de novo, dando socos aleatórios como uma criança, sem saber o que estava atingindo. Um rugido agudo escapou de minha garganta e soquei-o com mais força, descontrolado, sem estratégia. Não era mais por Margot e por tudo que ele estava fazendo com ela. Não era mais pela perseguição mortal em . Era por mim, pela minha vida, por coisas que eu não sabia e ele sim, por coisas que eu repeti a mim mesmo que não queria saber, por todos os sentimentos que ele estava arrancando de mim à força. Ele tinha de pagar por aquilo, por tudo aquilo, e eu pensei que meus socos seriam capazes de fazer todo o trabalho.
Mas então, como se tivesse deixado eu extravasar toda a minha raiva nele por pura gentileza e agora decidisse que a brincadeira tinha acabado, ele pegou em meu pescoço com uma mão só e, em um movimento rápido e firme, como se seus pés apenas deslizassem pelo gramado, lançou-me com brutalidade na árvore mais próxima, batendo a lateral de meu rosto como se fosse uma bola de tênis na madeira.
Fiquei zonzo por alguns instantes, mas ele não me deu tempo de me firmar. Pelo colarinho do meu casaco, ele me levantou novamente, forçando-me a encarar seus olhos negros e diabólicos, ainda levemente elevados pelo sorriso insistente no rosto. Ele ainda estava sorrindo.
Por um momento, pude sentir a sombra negra novamente tentando aparecer e me fechar ali, junto a ele, para me deixar imóvel e vulnerável de novo. Mas agora eu sabia. Sabia que aquilo era um truque, que ele estava na minha mente. Sabia que sim, ele era real, era bem real, mas não aquela sombra, não a redoma sombria que pairava sobre nós. E eu não a deixaria me tomar de novo.
E pela faísca em seus olhos, ele pareceu perceber a minha convicção.
— Formidável — ele murmurou em voz doce, o sorriso se alargando, a mão firme em meu peito, prendendo-me contra o tronco da árvore. Percebi que algo latejava na minha testa. — Você é… especial. De alguma forma maluca, mas é, garoto, acredite, é sim.
Eu arfava, não conseguindo me livrar do sentimento angustiante de sua voz tão próxima de mim novamente. E aqueles olhos, Deus, pareciam olhar através de mim. Os mesmos olhos dos pesadelos, os mesmos olhos assassinos que encaravam na madrugada chuvosa sob as luzes vermelhas. Eram os olhos de um demônio.
Talvez era essa a palavra que Jane buscava para descrevê-los. Talvez ela só não tinha coragem de dizer.
Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, avaliando-me, como se estivesse procurando por uma guarda baixa, ou algum outro segredo ou sentimento que não estivesse escondido o suficiente para puxar e esfregá-lo na minha cara. Meu coração pulsava loucamente no peito, tentando pensar o que era, o que poderia ser. Por mais maluco que parecesse, preferia que ele me surrasse até a morte a ter que ouvir seus relatórios sobre meu subconsciente.
Ou ele estava vendo algo que, bem, somente ele estava vendo. Algo que eu nem sequer desconfiava. E pareceu feliz com o que quer tenha sido, pois soltou uma gargalhada escandalosa que fez os ombros tremerem tanto que pensei que me soltaria sem querer. Mas seu aperto não se afrouxou nem um milímetro.
— Meu jovem, estou deveras encantado com o nosso encontro, não posso negar, você é mais interessante do que eu pensei! E oras, infelizmente nem posso explicar por quê. — Mais uma risada, desta vez com um tom aveludado e amargo ao mesmo tempo. — Preciso concordar com aquela velha. Em seu caso, a ignorância é a maior das bênçãos.
Trinquei os dentes e tentei me mover antes que ele começasse mais um monólogo invasivo, mas mal pude me mexer. Ele restringiu o aperto e, de uma forma inexplicável, minhas pernas não se moviam. Mesmo sem a redoma, mesmo sem a escuridão.
— Você acha que aprendeu todos os meus truques? — Ele ergueu uma sobrancelha sutilmente, agora tirando o sorriso sacana dos lábios, retornando a expressão séria, o rosto duro como pedra, exalando um terror infindável em mim. — Vamos começar a conversar: seus números de heroísmo perderam a graça. No dia daquela festividade horrenda, cheia de humanos imundos querendo provar alguma coisa enquanto bebiam cerveja ancorados de cabeça para baixo, eu sabia que havia sido visto. Ah, eu sabia. Por um momento, achei que estava louco. Não era possível, um deles por aqui, depois de tantos anos que havia visto o último. Mas não me importei, afinal, você não tinha nada a ver com a minha garota. Ou, ao menos, pensei que não teria.
“Mas então você estava com ela naquele bar sujo e fedido, e desta vez pude notar que você estava disposto a interferir. Não sabia o que estava fazendo, era óbvio, mas sabia o que eu pretendia fazer e não se segurou até executar seu primeiro ato de herói. Moleque estúpido. Naquela mesma noite, observei você. Observei dentro de você. Pensei em agir de uma vez, de forma limpa e rápida, mas eu sabia que era questão de tempo até que você se abrisse com sua velha mentora e ela te alertasse sobre a situação. Ah, com certeza ela te alertaria.”
“Mas, antes disso, você resolveu atacar novamente com o seu heroísmo. Veja bem, , vou te dar uma breve explicação dos fatos: aquela garota bem atrás de nós, a estudante de Direito mirrada e estúpida que foi assassinada sem motivos aparentes, quer uma coisa muito simples: vingança. E ela precisa disso, compreende? Ela precisa matar a pessoa que causou isso primeiro, é um raciocínio evidente. Se vai levar algumas outras pessoas ou arquiteturas colossais no processo? Francamente, não me interessa. Sei que minha garota está bastante interessada nela, o que a torna uma bela isca para todo o espetáculo que eu planejo e ainda assim ajudo uma morta desesperada por justiça. Acredite quando eu digo que não há espaço para você e suas manobras nesta festa graciosa.”
“Ainda assim, tive de lidar com sua intromissão mais uma vez naquele estacionamento. Eu havia finalmente conseguido entrar na mente da garota Abbott, plantando a certeza de uma vez por todas que aquele marginal havia feito isso com ela, mostrando-lhe lembranças convenientes, até lhe revelei seu nome verdadeiro, apertei ainda mais o cerco para deixar claro que ela tinha de agir com as próprias mãos, que só assim ela iria conseguir toda essa conversa fiada de paraíso e que mediador nenhum faria isso por ela. E eu estava conseguindo, ah, como estava, meu rapaz, ela foi atraída pela justiça rápida e menos burocrática que não conseguiria confiando em você.”
Engoli em seco, o rosto lívido demais para tentar disfarçar o sentimento explícito de choque.
— S-seu… — tentei falar, tentei manter a voz firme. Senti os dentes trincando, a raiva voltando à tona. — Você sabe que não a matou…
— E afinal, quem sabe? — Ele deu uma risada sarcástica, levantando os ombros, aproximando um pouco mais o rosto de mim. — Acho que você ainda não entendeu minha total falta de interesse pela garota Abbott e tudo que aconteceu a ela. Ela estava fraca, vulnerável, desprotegida e tinha alguém em mente. Bingo! Foi como dar a mão a uma criança perdida e guiá-la pelo caminho de casa. Tão, mas tão fácil.
“Se o garoto das drogas morresse naquele dia, minha garota ficaria aflita. Ela poderia ligar os pontos, mesmo que não fosse encontrar nada, mas se afundaria neste caso, pode ter certeza que sim. Ela é inteligente, muito inteligente, aposto que sabe, e tem sentimentos guardados tão pesados que não a tornam 100% cética, você compreende? São coisas realmente sombrias, que tomam forma de vez em quando com a minha ajuda, com certeza. Tenho um passatempo peculiar de visitar os seus sonhos de vez em quando.”
Mais uma vez a raiva, a vontade de atacá-lo e mandar que calasse a boca, mas novamente sua habilidade estranha não me permitia, e ele continuou:
— Aos poucos, eu entraria tão fundo, mas tão fundo em sua mente que drenaria toda a sanidade dela, garoto, não duvide disso. Às vezes é difícil, eu admito, tenho tentado por sete anos e fiz pouco progresso. Ela também é uma garota especial, não como você certamente, mas é especial. Mas o acidente seria uma ladeira difícil de pará-la. Ela encararia como um desafio e se entregaria, e isso me abriria portas para seu interior, e sua morte aconteceria de forma quase cinematográfica, honrosa até. O sangue e a loucura dela são como a enorme cereja do maldito bolo. Tudo estava encaminhado. Mas, como disse, você não se aguentou.
“Naquela hora, você não era mais apenas um garoto inconveniente, metendo o nariz onde não era chamado. Você me deixou com raiva. E, acredite, o que fiz com você naquele dia não chegou nem perto do que eu poderia. Poderia te deixar em coma pelo resto da sua vida e seus pais patéticos jamais desligariam os aparelhos com a esperança de te ver retornar, mas ninguém os avisaria que era uma perda de tempo porque você não teria mais a sua alma. E ela estaria presa no vazio para sempre, convivendo consigo próprio até definhar e virar parte do próprio nada.”
“Tive paciência e me levei a crer que você era, afinal, um garotinho assustado. Que minha demonstração te deixaria tão apavorado que você nunca mais ousaria olhar para minha garota de novo. Mas então algo realmente magnífico ocorreu fora dos meus planos e nada teve a ver com você, . Tudo aconteceu por culpa da vadia ruiva bem atrás de nós, que tentou descaradamente roubar a vida da minha garota, como um mero teste da minha paciência. Me vejo obrigado a te informar que ela luta mais do que eu gostaria quanto ao controle que eu imponho, mas, no final, ela sempre volta para mim. Nisso você pode ter certeza.”
“Naquele dia, neste mesmo cenário onde conversamos agora, você chegou aqui tão rápido como uma bala ao menor sinal de ameaça da ruiva em relação à garota. Tsc, tsc — ele estalou a língua. — A Abbott não sabia de absolutamente nada naquele dia. Ela estava lutando contra mim de novo e viu sair de casa para vir a este mesmo lugar. Ela caminhou lentamente até a avenida, passou pela F&J Daisy para comprar o mesmo ramalhete de orquídeas e pegou o primeiro táxi. Chegou aqui minutos antes de fecharem as portas e se lamentou por horas a fio nas duas sepulturas conjuntas do pai e do irmão. Ela repete esse ritual mais vezes do que você imagina. A única diferença é que, naquela ocasião, ela guardou uma única flor para deixar no túmulo de Abbott, como um sinal da mais pura solidariedade.”
De repente, lembrei-me daquela noite. De estar tão apavorado com a iminência de Margot que queria arrastar dali o mais rápido possível e não dei atenção alguma a suas palavras. “Não é nada disso que você está pensando…”
“Depois de seu resgate ao garoto da Harley, Margot ficou desacreditada com a minha promessa e quis descontar na minha garota. Não vou negar, acho que exagerei um pouco com ela, mas acredite, ela não seria capaz de fazer algum mal a . Eu chegaria primeiro de qualquer forma. Mas foi tocante vê-lo correr para salvá-la, ao mesmo tempo que extremamente irritante. Ali eu tive a certeza de que você não havia entendido nada e muito menos aprendido a lição. Isso me deixou com raiva, garoto, muita raiva. Você ainda estava tentando interferir, mesmo agora sabendo dos riscos.”
“Tive de tomar medidas um tanto inesperadas, como perder o meu precioso tempo entrando em sua mente dia após dia, dando-lhe pequenas doses do que eu poderia fazer e ainda posso caso você não se aprumasse e sumisse do meu caminho. Ah sim, rapaz, sei o quanto você ficou perturbado com todos os sonhos enigmáticos e as lembranças do desespero, eu sei bem, mas eu esperava que o recado estivesse no mínimo simplório: desapareça de toda a história que não te envolve e continue a viver sua vida patética como viveu até agora. Aprenda de uma vez por todas que o destino é mais forte do que eu, você e todos nós. Não costumo avisar duas vezes, muito menos três, portanto considere-se com sorte de eu te deixar viver mais um dia.”
Suas últimas palavras saíram como lâminas afiadas em direção a todo o meu corpo, uma ameaça velada — uma última ameaça. Ele deu um sorriso sarcástico e começou a se afastar lentamente, deixando-me parado ainda junto à árvore, sentindo de novo as minhas pernas e o meu punho, soltando o ar forte e rápido, percebendo naquele momento que havia ficado sem respirar por alguns minutos.
Se eu ficasse quieto, ele iria embora. Levaria Margot com ele e juntos concluiriam o seu plano maligno que terminaria não só com e mortos, eu tinha certeza. E ele apenas pedia que eu aceitasse e ficasse fora de seu caminho. Bufei, tentando controlar a respiração, tentando ainda mais digerir tudo que havia acontecido.
Mas ele não podia ir embora. Não ainda.
— Por quê? — minha voz saiu seca, rugosa, e mesmo sem ver eu sabia que a cor havia deixado meu rosto. — Por que quer matá-la? O que há por trás disso?
Ele parou no mesmo momento e o ombro subiu e desceu com risadas. Ele virou-se para mim novamente, caminhando de forma descontraída, como se eu finalmente tivesse feito a pergunta que ele tanto queria ouvir, a qual ele explicaria com prazer — ou apenas brincaria comigo com enigmas, como estava fazendo a noite toda.
— Ora essa, é claro que você perguntaria isso, não é mesmo? — Ele riu novamente, juntando os dois braços atrás das costas. — Veja bem, garoto, queria muito poder respondê-la, mas sinto que não devo. Já lhe revelei muitas coisas em uma só noite e posso acreditar rigorosamente que terá muito o que pensar — ou simplesmente sonhar — daqui para frente, sem interferência minha. E ah, sim, eu não mencionei sobre esses sentimentos confusos que você insiste em nutrir pela minha garota, mas é desnecessário. Acho que consegui deixar bem preciso que não é muito inteligente mantê-los.
— Não tenho… — comecei a dizer, mas travei. E tinha certeza de que nenhum truque dele estava agindo sobre mim naquele momento.
Ele arqueou as sobrancelhas, esperando que eu continuasse.
Seu sorriso vitorioso me fez ter vontade de quebrar todos aqueles dentes.
— Você é um rapaz de atitudes, , lembre-se disso. Se estivéssemos em um dia comum, eu lhe aconselharia a ser mais honesto consigo mesmo em relação a toda essa coisa sentimental, mas hoje não. Não por ela. Hoje quero apenas que você volte para casa lembrando-se porque ainda está vivo. Porque eu permiti.
E então ele desapareceu em um piscar de olhos, levando Margot junto a ele, deixando-me sozinho com os fantasmas que havia plantado na minha cabeça.


Continua...



Nota da autora: Oi, gente! MUITO MUITO obrigada por todo o carinho que eu tenho recebido em Ghost Feelings. Eu espero realmente que vocês estejam gostando muitooo, isso me motiva a continuar e abala seriamente minha criatividade de forma produtiva hahaha. Quero lançar logo pro mundo tudo que eu tenho preparado pra essa fic, que tem muito fogo ainda pra pegar no parquinho!
Não tenho muito o que dizer hoje, só agradecer de coração mesmo. E quem for adepta das teorias, podem lançar hahahah um beijo pra todas! <3

Alguns avisos/curiosidades fixados:
— A fic foi escrita originalmente com o Jungkook fixo, então no decorrer da história podem haver algumas características próprias dele, como as tattoos e a idade, mas acredito que isso não vai atrapalhar a sua leitura.
— Apesar de ser uma fic com grupo musical, a história não vai por esse lado em momento algum. Criei essa aventura por pura paixão pelo gênero e também pelos meninos rsrs e queria dar uma diferenciada. Pra esse outro fim, eu tenho uma fic bonitinha e gostosinha (+18) que preparei pro especial K-Pop Extreme, que já já vai estar no ar e com o link prontinho aqui pra vocês (com o JK também porque sou cadela).
— Eu sou a pessoa mais curiosa do mundo pra saber dos pps das minhas leitoras! Então migas, pode fazer comentário mais profundo gritando o nome do seu pp que eu vou amar!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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