Última atualização: 09/05/2021

Prólogo

Em um dia ensolarado de 1997, nascia uma garotinha de olhos azuis como os céus, cabelos escuros que se tornaram castanhos e tão ondulados quanto as ondas do mar, em San Diego, na Califórnia. A descrição extremamente exagerada e um tanto romantizada foi dada pelo meu pai para mim enquanto eu crescia. Sempre me perguntei o que se passou pela cabeça dele e da mamãe quando me viram pela primeira vez.

Era humanamente impossível dizer quais tinham sido as minhas primeiras impressões de meus pais, já que bebês apenas enxergam borrões nos primeiros meses de vida. Mas hoje, 24 anos depois, todas as vezes em que os vejo através dos meus olhos um pouco limitados, sei exatamente o que enxergo: Amor.

O daltonismo nunca me permitiu ver a cor vermelha, a que simbolizava o amor em todas as datas comemorativas; também me impedia de enxergar a real cor dos olhos de minha mãe, que eram verdes e brilhantes. Nem mesmo as rosas vermelhas que eu ganhava quando vencia algum dos vários concursos dos quais participei ao longo da vida, eu só as aproximava do rosto e exalava o perfume delas.

Mas quando olhava para eles, conseguia ter uma noção de como aquela cor poderia ser visualmente e o que ela poderia transmitir. O vermelho era aconchegante e queimava como um fogo que jamais poderia ser apagado; quando focava nos rostos dos dois, sentia meu coração se aquecer e sabia que talvez jamais encontrasse alguém que me fizesse sentir daquele jeito novamente. Amada, plenamente amada.

Desde pequena, fui mimada pelos dois como se meus desejos e vontades fossem a única coisa que importava no mundo. Eu era o pequeno milagre deles, algo em que meu pai investiu tanto dinheiro que quase perdeu seu negócio promissor na época. Como ele mesmo sempre dizia, eu era um sonho muito maior do que sua rede de hotelaria herdada de vovô. Fui fruto de uma inseminação artificial após um longo tratamento para o problema de infertilidade de papai.

Enquanto crescia, vidrada na televisão e no universo feminino, vi pela primeira vez uma transmissão do Miss Universo. Era muito pequena para ligar para minha aparência, porém, enquanto brincava com minhas bonecas, só conseguia me imaginar com uma coroa na cabeça e imaginar uma passarela pronta para que eu pudesse desfilar com a faixa de vencedora. Mamãe comprou aquele meu sonho e, desde então, viajávamos Estados Unidos a dentro, vencendo e perdendo alguns concursos de beleza pelo caminho.

Voltávamos de Atlanta num ônibus com destino a San Diego quando o fatídico dia, que literalmente virou minha vida de cabeça para baixo, chegou. Sempre pensei que o daltonismo seria a única diferença entre minhas mais de 70 competidoras, mas o destino se mostrou tão assustadoramente imprevisível, que uma cadeira de rodas virou o meu mais novo impedimento para vencê-las.

Muito mais do que um impedimento, era o fim de um dos meus maiores sonhos.


Capítulo 1

4 meses depois

Abri meus olhos mais uma vez, pisquei devagar repetidas vezes enquanto lágrimas ameaçavam cair em meu rosto inchado por conta do sono. Tinha me entupido de remédios para dormir, amenizavam as dores nas costas e a da minha alma. Encarei o teto já não conseguindo mais reter meu choro, que escorreu pelas laterais de minhas têmporas e sumiu em meio aos meus cabelos. Funguei, pensando o mesmo que nos outros dias.

Então, a minha vida seria daquele jeito de agora em diante?

A psicóloga do hospital tinha me assegurado de que aquela sensação de vazio iria sumir aos poucos, de que eu me acostumaria com a minha “nova realidade”. Que realidade? Eu não via a rua há tanto tempo que acho que me assustaria com o barulho dos carros lá fora e, sabe-se lá Deus, se eu algum dia iria entrar em algum de novo sem tremer de medo de tudo acontecer de novo.

Eu ainda podia ouvir, bastava que eu fechasse meus olhos e me concentrasse nas lembranças, conseguia me lembrar nitidamente do barulho estrondoso que foi a colisão daquela carreta enorme com o ônibus em que eu e mamãe viajávamos de volta para casa, logo após eu ter vivido um dos dias mais felizes da minha vida. Sabia que não era saudável reviver aquelas memórias, mas eu ainda assim me torturava com elas, buscando algo a que pudesse me agarrar e tentar responder minhas dúvidas, que já não me deixavam dormir sem suas respostas.

Por que eu?

Aquele maldito ônibus estava cheio de passageiros, alguns morreram no local, outros pouco tempo depois já nos hospitais… Por que eu continuei viva? Me sentia culpada pela minha própria desgraça, pensando no quanto eu insisti para que mamãe comprasse as passagens naquele dia e não três dias depois, como era o planejado! Tudo porque eu queria chegar antes para ver minhas amigas de concursos passados! Se eu tivesse lhe dado ouvidos…

Suspirei, passando as mãos pelo meu rosto úmido. Não adiantava entrar naquele emaranhado de paranóias e incógnitas. Nada poderia ser capaz de me fazer voltar no tempo e me impedir de entrar naquele ônibus.

— Que bom que já está acordada, — Abri uma fenda nos meus dedos, espiando minha mãe adentrar o quarto com mudas de roupas nas mãos. Suspirei, revelando meu rosto por completo. — levante-se, tome seu café, seu pai e eu vamos precisar de ajuda hoje.

Levante-se.

Ri internamente, sem humor algum. Ela nem ao menos se tocou do que disse. Me sentia uma completa idiota ao reparar em cada coisa relacionada a caminhar, ficar de pé ou correr que ouvia a minha volta. Era óbvio que as pessoas não iam se policiar a cada letra que saísse de suas bocas temendo me atingir de alguma forma. Eu sabia que não estava sendo fácil para ela e papai, porém ambos insistiam em tentar agir como se nada demais tivesse acontecido.

— Aqui, venha, vá tomar um banho. — O som das rodas deslizando pelo piso do meu quarto me dava vontade de gritar. Senti suas mãos me pegarem pelos braços, a fim de me sentar na cama.

— Mãe, pare! — Empurrei suas mãos, tentando respirar fundo e não exceder meu tom de voz. Segurei o choro que me subia à garganta. — Eu sei fazer isso sozinha, por favor, me deixe em paz!

— Me desculpe, querida. — Murmurou, abaixando a cabeça, tentando esconder a tempestade que se formava em seus olhos claros. Respirei fundo, fechando meus olhos com força.

Eu estava parecendo um monstro, um brutamontes com problemas de controle de raiva, descontando o que sentia em todos a sua volta. Ela não merecia aquilo, não merecia minha ignorância, muito menos meus pedidos para que me deixasse em paz! Ela era a minha paz, sem ela e meu pai do meu lado, eu jamais conseguiria ter forças para sair daquela cama.

Estava me tornando alguém que eu desconhecia, jamais pensei em tratar minha mãe daquela forma ou ao menos ter aquele comportamento explosivo. Até mesmo olhar no espelho me trazia aquela sensação, como se ele refletisse uma estranha. Meus 1,78 de altura, que sempre me trouxeram confiança no meu andar foram reduzidos drasticamente. Já percebia uma ligeira perda muscular em minhas pernas, tinha medo de que afinassem ainda mais, temia o que se tornaria meu reflexo dali pra frente. Eu sabia que meu corpo nunca mais seria o mesmo e me doía olhá-lo no espelho, já prevendo que muita coisa mudaria.

— Mais uma muda de uniformes? A senhora não me deu um limpo ontem, antes do trabalho? — Sentei-me com certa dificuldade, já que minhas pernas pareciam pesar toneladas agora que não funcionavam mais.

— Sim, mas esses estão mais novos, limpos e passados. — Sorri minimamente, olhando-a com as sobrancelhas arqueadas. — Hoje aquele cantor e a equipe dele chegam, seu pai quer que esteja tudo na mais perfeita ordem, inclusive os uniformes dos funcionários. — Sua mão alcançou meus cabelos presos e desgrenhados, onde ela deixou um carinho antes de se afastar, indo até a porta. — Quando terminar, venha tomar café.

Ela me deixou sozinha no quarto. Não tinha muito tempo que eu conseguia ficar muito tempo sozinha daquele jeito, a de antes adorava estar rodeada de pessoas e ser o centro das atenções. Mas eu estava descobrindo aquele meu lado mais solitário, e até gostando mais dele. Toda a minha confiança e desenvoltura diante de grandes públicos e câmeras tinha ido pelos ares após tudo o que aconteceu.

Hoje, estar em lugares cheios me causava pânico, me transportava para o dia do acidente. Parecia que eu podia ver novamente aqueles curiosos, bisbilhotando o ônibus retorcido e completamente destruído, ou a grande equipe médica que me acompanhou até o dia em que tive alta daquele hospital sufocante.

Puxei a cadeira preta para a lateral da minha cama, travando suas rodas e firmando-a no local para evitar uma queda quando eu pulasse para seu assento. Eu já tinha caído tantas vezes, que tinha perdido as contas. A única coisa boa de não sentir minhas pernas era não sentir dor de modo algum. A destravei, indo até o banheiro, onde minha outra cadeira de aço me esperava já debaixo do chuveiro.

Higienizei os aparatos para tirar meu xixi. Enquanto introduzia a sonda, suspirava ao me ver naquela situação, porém me permitia ficar feliz ao saber que, pelo menos, estava fazendo aquilo por conta própria.

Feliz não era bem a palavra certa para usar, mas servia por hora. Ainda era melhor do que ter minha mãe ali, como se eu fosse uma criança de novo, tendo que trocar minhas fraldas. Os dias intermináveis que passei internada e minha volta para casa foram os piores da minha existência. Me vi aos recém completos 24 anos, sendo banhada por desconhecidos e depois por mamãe e minhas tias.

Quatro meses depois, ouvi do meu fisioterapeuta que eu estava me adaptando, já tinha aprendido a tomar banho sozinha, me vestir e até cozinhar. Mesmo assim, meus pais insistiam em ficar em cima de mim, tinham medo de que eu me machucasse. Eu já era uma mulher adulta, e aquela postura deles me fez discutir com ambos algumas vezes. Coisa que eu jamais me imaginei fazendo na vida.

Tomei meu banho e me vesti, colocando o tênis simples, ainda não sabia qual era o propósito de usar calçados se eu não iria caminhar novamente. Meses depois de voltar para casa, tive um acesso de raiva e tentei jogar todos os meus sapatos fora. Meus pais me impediram, mesmo sabendo que eu jamais voltaria a andar. Mamãe disse que eu ainda poderia colocá-los para sair e que eu ficaria linda do mesmo jeito.

Onde eu iria com todos aqueles scarpins altos e minhas sandálias brilhantes de concursos naquela droga de cadeira? Meus vestidos de festa, como eu os usaria se sentada não daria para vê-los delineando meu corpo? Passei a ficar em casa sempre, recusei os milhares de convites de amigos para sair e planejava não ir ao casamento da minha melhor amiga. Ela achava que eu iria ter coragem de ser a madrinha dela naquela cadeira de rodas? Eu era uma Miss! Deveria entrar desfilando junto do meu par, não naquela situação!

Me encarei em frente a minha penteadeira que teve os pés arrancados para que eu pudesse alcançá-la da cadeira, penteei meus cabelos rebeldes, que não eram hidratados há tempos, estavam longos demais para serem usados soltos naquele calor da Califórnia, por isso os prendia num rabo de cavalo alto. No rosto, olheiras disputavam as atenções com minha sobrancelha farta, não tirava nenhum pelo, mesmo que estivesse saindo do desenho que tinha ali antes. Não sentia vontade de me arrumar, apenas passei um protetor solar e me afastei, já não suportando mais me olhar naquele estado.


— Não passou nem um batonzinho? — Enchi a boca com o omelete para não ter que respondê-la. Mamãe parou no meio da cozinha, encarando-me sugestiva. — Quer que eu busque um para você? Aquele seu vermelho vai ficar ótimo! Pra dar uma corzinha ao seu rosto. — Insistiu, na esperança que eu fosse ceder a ela.

— Não, mãe, não tem necessidade nenhuma de toda essa arrumação! — O cara era famoso, podre de rico, era claro que ele e sua equipe iriam fazer como todos os outros hóspedes e nem ao menos iriam nos olhar no rosto enquanto faziam suas exigências.

E mesmo que olhassem, o que tinha para ver em mim? Já passei da fase de querer ser notada, estava apenas querendo terminar meu dia de trabalho e voltar a me esconder em meu quarto.

Como eu era patética.

— Claro que tem! — Revirei os olhos, já sabendo o quanto ela odiava quando eu fazia aquilo. Eu estava voltando a ser adolescente e, pior, uma daquelas revoltadinhas com o mundo, bem diferente do que sempre fui e tentei ser; costumava ser a melhor filha que meus pais podiam e mereciam ter. — Você tem que aparecer bonita, querida, a recepção é o cartão de visitas do estabelecimento. — Arqueei as sobrancelhas, vendo papai surgir na cozinha.

Adiantava dizer não? Relevei, afinal de contas, apesar de não estar no mesmo clima, sabia o quanto era importante para eles a ida do tal até ali. Já podia ouvir o burburinho dos fãs em frente a nossa pousada, aquela exposição toda nos renderia muitos frutos futuros.

— Não adianta tentar realçar nada no meu rosto, sendo que essa droga de cadeira sempre será o centro das atenções.

— Vou ir lá buscar o batom. — Ela saía em passos largos em direção ao meu quarto, enquanto eu apenas piscava rápido, tentando dissipar as lágrimas que se acumularam em minha linha d'água.

— Sua mãe está certa. — Remexi a comida, apoiando o rosto em uma das mãos, já completamente sem apetite. Desde quando meu pai entendia de maquiagem e beleza? Ele sempre ficou super perdido nos concursos que ia prestigiar. — E você é o cartão de visitas mais lindo que nós poderíamos ter. — Se aproximou, abaixando-se para beijar o topo da minha cabeça. — Não é à toa que é considerada a mulher mais linda da Califórnia. — Ofeguei em seu abraço.

— Eu era. — Levantei o rosto, encarando-o. Seu sorriso afetuoso desapareceu à medida em que o meu rosto se contorceu em dor. — Eles com certeza já arranjaram a segunda colocada para ir nos representar no meu lugar.

Não era pelo título, nem ao menos me considerava a mulher mais bonita da Califórnia, aquele estado era grande demais para tal prepotência minha. As próprias competidoras pelo Título de Miss Califórnia provavam aquele ponto. Era pelo meu sonho, ir para o Miss Universo era o maior deles e vê-lo escapar pelas frestas dos meus dedos depois de já tê-lo praticamente nas mãos era dilacerante. Tinha lutado tanto para chegar até ali, nas seletivas para competir pelo prêmio mais importante da minha vida, e quando estive tão perto de conseguir, tudo me foi tirado numa rapidez impressionante.

Tão veloz quanto o momento em que ouvi a batida forte e abri meus olhos já deitada no leito hospitalar, desesperada e sem sentir nada do quadril para baixo.

Não era fácil relembrar os meus primeiros meses de volta ao lar; de todas as visitas de admiradores que recebi e seus olhares de pena, quase conseguia adivinhar seus pensamentos, que, com certeza, lamentavam por eu ser tão nova, e com uma carreira tão promissora pela frente, e acabar daquele jeito. Eles torceram por mim, prometeram ser fiéis no concurso mundial, me mandando energias positivas, tudo isso se reverteu em flores e ursos de pelúcia em busca de me fazerem sentir acolhida. Eu, que já era conhecida por meus concursos de Miss desde pequena, tinha me tornado uma nova fonte de entretenimento: Miss sobrevivente de um acidente catastrófico.

O pior de tudo era que aquele era o título das matérias que saíram na época estampando os jornais locais.

Eu já não era mais um cartão de visitas que estampava as propagandas da pousada em sites de internet ou outdoors nas estradas. Passei a ser um ponto turístico e atraía curiosos que, por alguma razão, gostavam de ouvir histórias de tragédias.

— Sabe que ainda pode participar, não sabe? — Ri sem humor, já sentindo o rosto molhado em lágrimas que nem percebi caírem.

— O senhor, por acaso, já viu uma dessas em algum concurso de beleza? — O meu tom ácido o fez recuar, bati ambas as mãos nas rodas da cadeira. Não obtive resposta, mas recusava receber alguma, eu sabia como as coisas funcionavam e que jamais iria ser aceita em cima de uma cadeira de rodas. — A menos que aconteça um milagre e eu volte a andar, não vou me sujeitar a ser olhada com pena por ninguém!

A grande questão não era somente a pena. Na verdade, aquilo seria o de menos. Eu mal chegaria a ser olhada daquela forma pelo simples fato de ter certeza de que não iria chegar nem perto das últimas eliminatórias, tampouco conseguiria patrocinadores. Quem iria investir num negócio fadado ao fracasso como eu?

Aquele mundo era feito de aparências, qualquer mínimo detalhe que fugisse do padrão ditado por sei-lá-quem já era considerado errado. Vivi sob as luzes brancas dos estúdios de fotografia, fui registrada por muitos ângulos e tipos de câmera, tinha vivência há tempo o bastante para poder afirmar com todas as letras que aquele ambiente era tóxico.

Desde a rivalidade feminina incentivada aos extremos, como se a coroa acompanhada da faixa branca fossem nossa maior obsessão, como se nossas vidas dependessem de tê-la envolta de nossos corpos para fazerem sentido, como se sem aquela coroa não fôssemos ninguém além de simples pesos no mundo. Ouvi ensinamentos sobre como chegar ao topo com graciosidade e decoro, mas nos bastidores aprendi que valia tudo para conseguir pular os degraus que te levariam até lá mais rapidamente.

— Filha, espera… — Ignorei sua voz.

Tudo teria que beirar a perfeição, tudo tinha suas medidas exatas, seios, barriga, coxas, bunda, cintura, ombros e toda e qualquer parte do corpo que ficaria exposta na hora do desfile em trajes de banho. Cabelos alinhados, sem sequer um fio quebradiço ou fora do lugar; ah, e claro, a boa e velha oratória, todas as respostas teriam que estar na ponta da língua. Perguntas estúpidas feitas com o intuito de mostrar ao público que, além de artificialmente bonitas, ainda tínhamos a capacidade cognitiva de pensar na paz mundial!

Aquela cadeira, por mais enfeitada que fosse, jamais passaria pelos filtros de perfeição que eram exigidos como critério de admissão. Era muito mais do que só aparência e palavras bonitas, o desfile era um dos principais marcos dos concursos de Miss, e eu nunca mais estaria apta a realizá-lo.

Deixei a cozinha com um pouco de dificuldade, graças aos móveis que esbarrei por conta do meu estado trêmulo. Encarei o céu na pequena varanda da casa, que ficava nos fundos da grande pousada, mordi meu lábio com força vendo minhas pernas imóveis diante de mim. Passei a estapeá-las em puro ódio enquanto rangia os dentes, tentando abafar meus rugidos de puro desprezo por tudo o que tinha me acontecido.

Parei, ofegando e já descabelada, tentando normalizar minha respiração. Ouvi os passos da minha mãe se aproximarem receosos. Sequei meu rosto rapidamente, tentando colocar os fios de cabelo em seus devidos lugares.

— Aí está você. — Tentei sorrir, atraindo seu olhar desconfiado. Disfarcei para não preocupá-la, não queria ser pega chorando e ter que voltar com minhas sessões exaustivas de terapia com todos aqueles remédios que me deixavam aérea e sonolenta.

Levantei o rosto, esperando-a destampar o batom vermelho, a deixei deslizar a bala em meus lábios, enxergando apenas um bege escuro ao invés de sua real cor. Olhei para seu rosto iluminado pelo sol, parada a fim de não fazê-la borrar e sair da linha da minha boca, que já era carnuda o bastante para não precisar ser aumentada. Esfreguei suavemente meus lábios, vendo-a sorrir abertamente, depositando um beijo em minha testa.

— Vamos, mas antes, ajeite esses cabelos, pelo amor de Deus. — Ri, seguindo-a para dentro, onde peguei minha bolsa com meus acessórios para tirar urina e os remédios que tinha que tomar diariamente. Toda a maquiagem e as nécessaires foram substituídas por toda aquela tralha.

Me acomodei em meu posto de trabalho, já tratando de documentos e registros que ficaram em segundo plano no dia anterior. Eu dividia a recepção com mamãe e papai, que se revezavam entre me auxiliar, cuidar da administração e verificar as dependências da pousada. Passaram-se alguns minutos até que o alvoroço das adolescentes roucas de tanto gritar triplicou de tamanho, tornando-se algo bizarro para mim e minha mãe sentada ao meu lado.

As portas de vidro se abriram revelando um homem alto, de cabelos presos e barba, seus óculos escuros e sua postura cansada com a mochila nas costas foram as primeiras coisas que reparei. Estar em turnê pelos Estados Unidos não devia ser fácil; eu sabia, pois tinha feito muitas daquelas viagens com meus pais para participar de concursos de beleza. Tinha ideia de que não dava para comparar várias apresentações musicais com as coisas que eu fazia, mas ainda assim, estar na estrada e longe de casa era sempre exaustivo.

Eu sentia falta de toda aquela agitação.

— Bom dia. — Sua voz arrastada soou do balcão, mamãe se aproximou já indo prontamente atendê-lo. Ela ficaria responsável por receber e sua equipe, por já ter anos de experiência e ser a mais atenciosa de todos os funcionários.

e seus acompanhantes iriam exigir todo seu profissionalismo, primeiro por não quererem ser incomodados e apenas desejarem chegar e descansar pelas próximas horas que antecederiam os shows do fim de semana. Segundo por parecerem extremamente fechados para a mídia e afins. Nenhuma informação ou fotos deles dentro de nossas dependências deveriam vazar sem que fossem cedidas pelos mesmos, e mais outras milhares de exigências que um artista do porte dele necessitava.

— Mitch Rowland, vou dividir o quarto com Sarah Jones. — Murmurou, mexendo na própria mala de ombro, sem ao menos olhar para minha mãe direito. Suspirei de onde estava, espiando-o pelo canto do olho. Quem era ele? Nunca o tinha visto na vida e ele não me parecia ser empresário. A tal Sarah devia ser a namorada… Ela fazia parte da equipe ou só o acompanhava em viagens?

Minha mãe já estava com todos os cadastros engatilhados, foram feitos por ligação no ato da reserva já para poupar as burocracias que a recepção exigia. Seguido dele, mais duas mulheres igualmente exaustas e reservadas entraram, elas apenas nos cumprimentaram e ficaram ali, paradas atrás dele esperando as chaves para poderem ir. Continuei em meu computador fazendo minhas planilhas e analisando-os discretamente.

Pessoas podres de ricas já passaram por ali, éramos um dos maiores pontos de hospedagem de San Diego, porém por ser em um local afastado do centro, pessoas muito famosas nunca se interessaram em ficar conosco. era o primeiro deles, então era o meu primeiro contato com clientes celebridades e eu estava no mínimo curiosa para saber do modo como eles se comportavam por detrás das câmeras.

— Você pode nos ajudar a encontrar o corredor? — Ele era muito educado, observei. — Aqui parece ser bem grande e na maioria das vezes nós nos perdemos. — A primeira vez que sorriu, lhe ofereceu um sorriso contido e envergonhado. Minha mãe lhe retribuiu acolhedora, pegando de volta a prancheta com o termo de responsabilidade sobre as chaves já assinado, antes de sair detrás do balcão e seguir com eles pela entrada da pousada.

Continuei no computador distraída, se houvesse mais alguém para ter seu atendimento Vip, ela voltaria o mais rápido que pudesse. Eu não sabia ao certo quantas reservas tinham sido feitas, não tive acesso a aquelas informações. A porta se abriu novamente, daquela vez revelando um homem sozinho, puxando sua mala escura e de rodinhas enorme consigo. Instintivamente, olhei para o lado, me vendo sozinha na recepção.

— Bom dia. — Comprimi os lábios pintados de vermelho. Era ele, justo na vez dele.



Capítulo 2

tinha cruzado a porta vestindo roupas muito diferentes das que eu o tinha visto vestido no palco quando joguei seu nome no Google apenas por curiosidade. Não acompanhei muito a banda que ele costumava fazer parte antes e nem ao menos ouvi suas músicas do primeiro álbum solo. As únicas notícias envolvendo ele que me interessaram foi de sua apresentação no Victoria's Secret, que era o sonho de toda modelo desfilar, e seu envolvimento com mulheres do ramo da moda.

Estava de jeans boca de sino, vestia uma camiseta branca estampada e levava no braço um cardigan que não contrastava nem um pouco com o clima absurdamente quente da Califórnia. As cores eram confusas para mim, pude deduzir que o padrão dos quadrados de lã eram vermelhos, verdes e o restante deles eu conseguia reconhecer. Tinha um óculos escuro lhe tapando os olhos. Senti seu perfume quando o mesmo se apoiou no balcão, impondo-me sua altura e tentando chamar minha atenção.

— Bom dia. — Repetiu, daquela vez mais imponente. Desviei meu olhar da tela. Ok, eu não tinha lhe respondido, tinha ficado nervosa com aquela responsabilidade sendo jogada em mim tão repentinamente.

— Bom dia, desculpe. — Tentei sorrir, mas acho que o resultado não foi bem convincente, já que ele apenas continuou a me encarar impassível. Me recompus a contragosto, reparando em seu nariz empinado.

Por que eu não estava surpresa? Pessoas daquele meio artístico eram todas daquele jeito: esnobes e se achavam superiores. Eu só tinha demorado para respondê-lo, não precisava ser antipático só por aquilo.

— Só um minuto, por favor. — Resolvi seguir o protocolo inicial e me arrastei para o lado, alcançando o walk talk que usava para me comunicar com meus pais quando precisava deles lá na recepção. — Mãe, o Sr. está aqui. — Soei mais robótica que o normal, ainda sob seu olhar que já me deixava desconfortável. — Ela já está a caminho. — Me arrastei de volta, abrindo a gaveta onde o termo de responsabilidade estava. — Enquanto ela não vem, poderia assinar, por gentileza?

Lhe estendi o papel, percebendo-o relutante antes de pegá-lo para ler seu conteúdo. Passou os olhos pelas palavras impressas ali, arqueando as sobrancelhas em claro desdém.

— Pensei que esses termos já estariam assinados quando eu chegasse aqui. — Pegou a caneta, deixando sua grafia desleixada na linha final. Reprimi um riso sarcástico. Ele agiu como se eu tivesse lhe pedido um favor que demandasse um esforço enorme.

Imagine ser fã de alguém assim e lhe pedir um autógrafo? Ele, com certeza, devia achar que era um crime lhe pedir algo tão trabalhoso quanto uma simples assinatura.

Me devolveu a prancheta sem fazer esforço nenhum para que eu alcançasse de onde estava, suspirei me esticando sobre minha mesa enquanto apenas estendia o objeto, me olhando com um tédio aparente.

— Você deveria ser mais educada e se levantar enquanto atende algum hóspede. — Respirei fundo, não contendo o sorriso debochado daquela vez. Não era possível que eu tivesse acabado de ouvir aquilo.

Puxei uma grande quantidade de ar enquanto meus olhos subiam em direção aos seus, escondidos nas lentes escuras do óculos, estava pronta para mandá-lo tomar no cu, quando minha mãe chegou, apressada, e entrou dentro do balcão de atendimento.

— Me desculpe o imprevisto, fui acompanhar seus colegas até os quartos. — Sorriu, ainda exasperada.


Ela não devia lhe pedir desculpas, ele havia acabado de ser um babaca com a filha dela e não importava o quanto estava pagando para se hospedar ali, minha mãe nunca aceitou que fizessem algo do tipo contra seus funcionários.

— Ah, sem problemas, eles sempre se perdem. — Lhe abriu um sorriso grande, revelando seus dentes brancos e um par de covinhas lhe furando ambas as bochechas. Alternei meu olhar entre os dois, bufando de raiva, tratando de sair daquela merda de recepção para tomar um ar do lado de fora.

O xingamento ainda estava entalado em minha garganta e poderia sair gratuitamente a qualquer momento. Nunca precisei ser grossa com ninguém ali, trabalhava ao lado dos meus pais desde os dezessete anos enquanto estava de folga de meus trabalhos pequenos como modelo ou tirava férias dos concursos. Nosso público vinha do mundo inteiro conhecer a Califórnia e a famosa San Diego, os britânicos eram de longe os mais grossos durante o atendimento. Aquele sotaque era muito charmoso, devo admitir, porém quando abriam a boca, sua frieza e seu sarcasmo desmanchavam toda a imagem de conquistadores e príncipes encantados que eles tinham.



Desembarquei do carro sentindo minha cabeça explodir. Amava fazer turnês, ver todos os rostos que compravam meus álbuns e me prestigiavam online pessoalmente, ouvir os fãs cantarem minhas músicas comigo ao vivo, mas não poderia dizer que não era exaustivo. Sempre me esforcei para dar o melhor de mim em cima do palco, ser tudo o que elas quisessem que eu fosse e performar de corpo e alma. Todo aquele esforço me esgotava no final da noite.


Estávamos finalmente terminando aquela turnê mundial após passar por diversos países e escolher a Califórnia como ponto final da Love on Tour. Depois daqueles dois shows, iríamos ter nossas merecidas e esperadas férias. Eu ainda não sabia para onde iria, se ficaria um tempo com minha mãe na Inglaterra ou se visitaria meus amigos em LA. A única certeza que eu tinha era que iria usar meu tempo livre para compor.

Me debrucei sobre o balcão da recepção dando de cara com uma recepcionista nada simpática. Estava irritadiço, eu confesso, minha paciência naquele momento oscilava entre relevar sua carranca ou reclamar sobre ela. Escolhi a primeira opção, afinal, ela também não tinha culpa de eu estar cansado e não seria justo se descontasse meus problemas nela. Porém, quando a vi literalmente se arrastando na cadeira e se recusando a me atender direito, não consegui medir minhas palavras e lhe dei um toque. Nunca tinha sido tão mal atendido em toda a minha carreira.

, aquele era o nome escrito no crachá da garota preguiçosa sentada, sem a mínima boa vontade de se levantar nem que fosse para recolher a prancheta que tinha me dado para preencher. Eu não costumava cuidar das burocracias de hospedagem, de alimentação ou de qualquer que fosse o serviço que me seria prestado em lugar algum; minha equipe que lia todos os contratos e termos, afinal, entendiam sobre leis e afins, eram mais qualificados para a função e eu confiava neles de olhos fechados. Mas, mesmo assim, na ausência deles, me prestei a assinar aquele termo.

Fiquei aliviado quando vi a mãe da tal vir me atender do jeito certo. Pensei em denunciá-la pela sua falta de educação, mas tirei a ideia da cabeça por ver que poderia prejudicá-la com a mãe.

Os olhos azuis raivosos dela se focaram em mim antes que ela soltasse um suspiro em pura irritação com o que acabou de ouvir, ela tinha lábios muito bonitos, eu admitia. Eram carnudos e estavam pintados num tom de vermelho que imprimiam sensualidade; o olhar era expressivo, as sobrancelhas, grossas e um rosto incrivelmente bem desenhado. Ela tinha uma beleza exuberante, mesmo estando praticamente sem nenhuma maquiagem no rosto. Fiquei curioso para vê-la de pé, seu corpo devia ser maravilhoso debaixo daquele uniforme simples.

Imaginei como ela deveria ser produzida, num vestido justo e de cabelos soltos. era mal educada, porém jamais poderia ser chamada de feia. Na verdade, ela era de tirar o fôlego. Me perguntei como ninguém nunca a tinha descoberto para ser modelo, seu rosto devia estampar capas de revistas e não estar ali, naquela recepção da pousada dos pais.

— Acontece, os corredores são sempre tão iguais. — A loira sorriu, alheia ao mau humor da filha. Laura, como indicava o crachá, se inclinou sobre a gaveta trancada à chave e buscou pela minha chave enquanto ainda deslizava por de trás dela.

Franzi o cenho estranhando aquilo e seguindo-a discretamente pelo olhar até que a garota estivesse fora do balcão da recepção. Quando avistei as rodas da cadeira escura deslizarem pelo piso liso do local, prendi a respiração, sentindo-me um completo filho da puta.

— Puta merda. — Levei a mão ao rosto, tentando esconder o rubor que me atingiu a face instantaneamente. Eu tinha acabado de mandar uma deficiente física se levantar e acusado-a de ser preguiçosa.

Tudo bem, a segunda parte foi apenas na minha cabeça, ainda bem.

— Desculpe? — Os olhos verdes da mulher à minha frente vacilaram, com certeza achando que interpretou erroneamente minha última fala.

— Desculpe… Eu acho que acabei de ser um completo babaca com sua filha agora. Gostaria muito de lhe pedir desculpas, pode chamá-la, por favor? — Ainda não sabia onde enfiar minha cara. Eu tinha que aprender a ficar calado. Na maioria das vezes conseguia, mas minhas noites mal dormidas não estavam contribuindo muito para minha gentileza ultimamente.

— Acho que não será possível agora, ela deve ter ido ao banheiro, geralmente demora… Enfim. — Gesticulou, tentando mudar o assunto. — Mas eu falo que está procurando ela, sei que deve ter sido apenas um mal entendido. — Assenti, concordando e recolhendo minha chave de sua mão.

— Obrigada, Sra. . — Cocei a nuca, ainda sem graça, indo corredor adentro em busca do meu quarto. Quando o encontrei, larguei minha mala em qualquer canto, trancando a porta com uma placa de não perturbe na fechadura. Após um banho refrescante, me joguei na cama, aproveitando minha oportunidade de tirar uma grande soneca.

Despertei horas depois, o dia já tinha escurecido. Tomei um analgésico para minha dor de cabeça de mais cedo, ainda completamente aéreo verifiquei meu celular vendo as mensagens do pessoal combinando o horário que iríamos jantar. Quando deu a hora, me arrumei, deixando meu quarto e indo em direção ao restaurante do local.

— Chegou a Bela adormecida. — Mitch caçoou, fazendo Sarah e Ny rirem minimamente já sentadas à mesa com ele. O ignorei, sorrindo com a implicância, ocupando a cadeira vaga que estava à minha espera.


Engatamos num assunto sobre o público de Nashville, nosso último show, e continuamos a falar de trabalho, daquela vez comentando o quanto queríamos aquela pausa de viagens e correria. Me dispersei da conversa assim que vi chegar na mesa reservada, longe dos hóspedes. Sarah notou onde meu olhar se demorou e me cutucou levemente com o cotovelo.

— Está de olho na recepcionista? — O que eu temia aconteceu, todos da mesa viraram os pescoços em direção a , revirei os olhos tentando fazê-los desviar o olhar.

— Não é isso...

— Por que está negando? Ela é linda! — O baixista sorriu de testa franzida, a namorada ao lado dele concordou veemente, afinal a beleza de era realmente inquestionável. Continuei negando com a cabeça. — Assuma logo, . — Insistiu, arrancando risos das meninas.

— Não estou de olho em ninguém. Parem de olhar, pelo amor de Deus! — Como se sentisse que estava sendo observada por quatro pares de olhos, a garota virou o pescoço em nossa direção, fazendo todos disfarçarem ao mesmo tempo. — Eu fiz uma merda grande hoje cedo.

Lhes contei a história, tentando ao máximo me justificar. Repeti milhares de vezes que eu não tinha visto a cadeira de rodas dela e nem tinha falado por mal. Mas, no fim das contas, era tudo culpa minha mesmo. Por que não poderia ser uma cadeirante? Aquilo sequer passou pela minha cabeça no momento, como se fosse impossível alguém tão linda e jovem ser deficiente física.

Não era, era a coisa mais normal do mundo e eu não tinha que estranhar aquilo somente para justificar minha burrice.

— Ela foi embora e não tive a chance de me desculpar. — Finalizei, suspirando e sentindo um aperto no peito. Parecia que contar aquilo em voz alta me deixava ainda pior só de lembrar a cara que ela fez ao me ouvir bostejar pela boca.

— Caralho, que vacilo. — Concordei com ele, baixando a cabeça.

— Mas tudo bem, , fale com ela e diga que foi um mal entendido, tenho certeza que ela vai entender. — Sarah levou a mão ao meu ombro, afagando, enquanto sorria afável.

Olhei por cima do ombro para a mesa ao fundo, o casal que a acompanhava ria junto. Reconheci Laura e deduzi que o cara alto e careca fosse seu pai. A garota não parecia muito animada, não tinha esboçado nenhum sorriso sequer e ajeitava a alça do vestido azul no ombro o tempo todo. Seu colo descoberto tinha alguns fios de cabelo sobre si, o restante do castanho ondulado caia sobre suas costas, desci meu olhar para suas pernas debaixo da mesa, os pés imóveis, joelhos e coxas do mesmo jeito. era paraplégica e, de repente, me vi querendo saber como ela tinha ido parar naquela cadeira.

Assim que deixei de analisar seu belo corpo no vestido que a deixava ainda mais bonita, flagrei a morena me encarando de volta, com aquele olhar duro e a mandíbula trincada de raiva. Seus olhos azuis se voltaram para Ny, que também se dispersou e parou de olhar para ela.

parecia se incomodar com os olhares sobre si. Mas como será que ela lidava com o fato de ser tão exuberante e ser notada onde passava? Quero dizer, Ny e eu não éramos os únicos no local que admiravam sua aparência, outras pessoas de outras mesas pareciam fazer o mesmo, só que claramente com mais descrição.

— Ou não. — A loira encolheu os ombros incerta, arrancando-me um pequeno riso.

— Pensei em lhe dar ingressos para o show de amanhã. — Sempre funcionava. Não que eu já tenha usado os ingressos extras para comprar as desculpas de alguém, eu geralmente dava a pessoas que me atendiam bem ou fãs que não podiam ir e ficavam do lado de fora das arenas em que me apresentava.

— Ótimo, assim ela vai te odiar enquanto te assiste cantar. — Sarah estapeou Mitch, que ria da própria fala. Não consegui me conter e gargalhei junto, sentindo-me mais leve.

— Não dê ouvidos a ele, eu acho uma ótima ideia. — A baterista ponderou, fazendo-me assentir antes de enviar mensagens para que providenciassem ao menos três ingressos para a recepcionista.

— Você sabe o que eu acho. — Encarei Mitch, confuso, esperando-o terminar de bebericar seu suco e voltar o copo à mesa. — Que quer pegar ela. — Moveu as sobrancelhas, sugestivo, fazendo-me rir enquanto negava veementemente com a cabeça, desaprovando mais uma de suas palhaçadas.

Durante o jantar, espiei sua mesa mais algumas vezes. Não fui mais pego no flagra pela garota esperta que quase não abria a boca para conversar com os pais. Não queria ficar com ninguém, apenas reparar o erro grotesco que cometi com ela.

Somente isso.

[...]


Após o café da manhã, segui para a área da recepção já que não vi nem sinal de por ali. Encontrei o balcão da recepção vazio e fiquei encostado ali, esperando até que alguém aparecesse.

— Em que posso ajudar? — Dei um pulo de susto, quase derrubando meu celular nas mãos. Me virei deparando-me com a morena parada atrás de mim. tinha alguns frascos de álcool em gel no colo, provavelmente iria fazer a reposição.

— Bom dia. — Lhe sorri minimamente, estranhamente nervoso ao ser analisado por seus olhos claros. — Não preciso de nada, só vim me desculpar por ontem, foi um tremendo mal entendido, eu não teria falado daquele jeito se soubesse que você é…

— Uma inválida? — Engasguei-me com minha própria saliva ao ouvir aquilo.

— Não! Eu não disse isso, eu…

— Inválida, deficiente física, que seja, é tudo a mesma coisa, não é mesmo? — Avançou com a cadeira em minha direção, fazendo-me pular para o lado para não ser acertado.

Com certeza tinha sido proposital.

— Me desculpe se te fiz sentir assim, — Murmurei, ouvindo-a rir sarcástica. — não quis dizer isso. — A procurei, encontrando-a diante da pequena porta que fechava o balcão.

— Você não disse, eu é que estou dizendo. — Esticou-se para abrir a trava.

— Não devia se chamar desse jeito. — Fui ignorado. Ela empurrou a porta com uma das mãos e o impulso que deu com a cadeira fez com que os frascos fossem ao chão, espalhando-se para todos os lados enquanto rolavam para longe de seu alcance limitado. — Eu ajudo.

— O que ainda quer aqui? — Arquei as sobrancelhas, que menina grossa! Eu, que já tinha começado a recolher os frascos, apenas me levantei e parei diante dela, que ainda me encarava de cara fechada.

— Já disse, vim me desculpar. — Abri um sorriso amigável, ela suspirou em tédio, fazendo minha frequência cardíaca se acelerar em ansiedade. — Eu realmente me senti mal pelo que fiz, por isso, para me redimir, te trouxe alguns ingressos pro show de hoje à noite. — Tirei os papéis do bolso, estendendo-os em sua direção.

apenas os olhou parados diante de si e sem esboçar reação alguma, voltou a me encarar. Ela me deixava nervoso, e não era de um jeito legal.

— Não tenho interesse em te ver cantar, não conheço nenhum trabalho seu. — Era para eu relevar aquilo também? Estava sendo difícil me manter ali, diante dela, sem demonstrar insatisfação uma vez sequer. Eu estava sendo legal, não estava?

— Duvido. — Lhe sorri faceiro, exibindo minhas covinhas...Que não tiveram efeito nenhum sobre ela. — Nunca ouviu One Direction? Você não é tão nova assim… — negou com a cabeça em meio a um longo suspiro. — Nenhuma campanha da Gucci, nenhum filme do Nolan…

— Era você? — Estufei o peito tentando fazer graça enquanto assentia veemente. — Achei que era o Charlie Heaton! Lembro de ter comentado com minha mãe que aquela era a pior atuação dele que já vi. — Comprimi os lábios, mordendo minha língua para não ser mal educado com ela. Estava me autoaconselhando a tratar as pessoas com gentileza. Mesmo que algumas delas não colaborassem.

— Ok, eu já entendi, você está se vingando por eu ter sido grosso, pronto, já teve sua vez. — Recolhi os frascos do chão, entrando atrás dela e colocando-os em sua mesa de trabalho. — Eu já me desculpei, pegue os ingressos e estamos quites. — Lhe ofereci de novo, sem nenhuma resposta vinda dela.

— Acho que está enganado, , aqui não é ponto de doação para o Teleton. — Fiquei sem fala novamente, diante de suas ofensas que pareciam ser dirigidas mais para si, do que para me atingir, como deveria ser seu objetivo. — Não preciso que me compre com ingressos do seu show, pode ficar tranquilo que não vou contar o que você pensa que fez a imprensa…

— O que eu penso que fiz? — Pisquei rapidamente com a testa franzida, confuso com sua fala.

— Me ofender, . — Concluiu exasperada. — Está me pedindo desculpas, porque acha que me ofendeu, mas não ofendeu, eu provavelmente já me feri sozinha com palavras piores do que as suas. — O sorriso falso em seus lábios era nítido, seus olhos não ficavam pequenos como os sorrisos genuínos, era tudo muito robótico, apenas seus lábios se curvavam em seu rosto.

E mesmo que fosse um sorriso verdadeiro, eu ainda estaria tão confuso quanto. Não era algo engraçado de se dizer, muito pelo contrário, era preocupante até.

— E por que você faz isso? — desmanchou sua expressão anterior, franzindo o cenho em minha direção antes de negar com a cabeça, balançando seu rabo de cavalo junto. — Me desculpe, não quis ser invasivo, eu...

— Quer saber, já chega dessa conversa. — Me interrompeu, sendo estúpida mais uma vez. — Você quer meu perdão, pronto, eu te perdoo, agora, por favor, me deixe voltar a trabalhar? — Suspirei, sendo colocado contra a pequena porta que tínhamos cruzado antes por e sua cadeira. Antes de fechar a madeira em minha cara, ela respirou fundo segurando-a com seus dedos largos sem nenhuma pintura nas unhas. Olhando-me mais calma daquela vez. — Dê os ingressos para Marie, ela cuida do jardim, as filhas dela são fãs suas, tire fotos com ela, sei lá, grave um vídeo para as meninas...Esse é o preço do meu perdão. — Sua voz soou amena e até agradável aos meus ouvidos. Mas ainda assim, nem sinal de seu sorriso.

— Isso eu posso fazer de graça. — Dei de ombros, encostando-me no batente após guardar os ingressos de volta no bolso. Marie, gravei o nome em minha memória. — Sério, se ainda quiser ir para o show me deixe saber, dou um jeito de te colocar para dentro. — Insisti, fazendo-a revirar os olhos. Ri pelo nariz, ainda encarando seu rosto sério. — Fique à vontade se quiser levar uma amiga ou seu namorado... — Minha voz morreu ali, verifiquei sua reação e a vi assentir com o testa franzida.

— Namorada. — Me corrigiu. Tentei segurar minha expressão de surpresa diante daquela descoberta. Aquilo poderia explicar o fato de ela não ser tão preocupada com a própria aparência, já que naquela manhã não estava nem de batom nos lábios.

Ok, eu estava colocando-a num estereótipo completamente ultrapassado. Meu Deus, já estava prestes a cometer minha segunda gafe com ela. O que tinha de errado comigo, afinal?

— Me desculpe, — Não sei por que pedi desculpas, não tinha como eu saber que ela era lésbica, aquele tipo de coisa não estava escrito na testa de ninguém. — pode levá-la também, garanto que ela vai...

— Por Deus, para! — Seu rosto contorceu-se em constrangimento. Me calei sem saber o que tinha feito de errado daquela vez. — Eu não tenho namorada, na verdade, eu sou hétero. — Voltei a esboçar surpresa de modo exagerado, para logo depois ficar confuso com aquela mentira desnecessária. — Só estava te testando, me colocando em outra minoria para ver você suar para não falar algo ofensivo e te ouvir se desculpar pela milésima vez nesta conversa.

A cara que fiz deve ter sido muito engraçada mesmo, ou no mínimo denunciado que estava certa, afinal eu realmente tinha feito o que ela tinha acabado de listar.

Vi seu rosto se iluminar quando a mesma abriu um sorriso mais do que verdadeiro enquanto gargalhava da minha cara. Os olhos se encheram de lágrimas, brilhando em contraste com a iluminação do local e as bochechas ganharam um leve rubor em sua pele bronzeada. Finalmente, a havia visto sorrindo e, mesmo que fosse as minhas custas, estranhamente sentia que tinha valido a pena.

— Valeu, mesmo. — Murmurou sincera, ainda risonha. — Mas eu não sou muito fã de lugares lotados, — Estreitei os olhos, fingindo duvidar dela. Ela era jovem! Todo jovem gosta de lugares cheios, baladas e shows. — costumava amar, mas hoje...eles me dão pânico. — Ofegou, tentando mais uma vez forjar um sorriso. Ela baixou a cabeça, sem graça.

Eu não iria mais insistir, mesmo que fosse divertido irritá-la daquele modo. não iria ao show e estava tudo bem, apesar dela ter negado, entendi seus motivos e vi que tinha sido perdoado de verdade. Era aquilo que importava, não? Eu tinha ido até ali atrás daquilo, e depois que consegui, iria seguir em frente com minha vida... Como se nada tivesse acontecido...

— Eu vou indo. Não quero mais te atrapalhar, você está trabalhando, não é? — Sorri sem mostrar os dentes, sentindo-me estranho com aquela despedida atípica. Lhe dei as costas, voltando para o lado de fora da recepção e passando pela frente do balcão, onde ainda a olhava enquanto andava em direção ao corredor que dava acesso aos hóspedes.


— Obrigada pela ajuda. — Ela sorriu contida de novo, levantando um dos frascos. Senti meu coração errar as batidas ao ver seus olhos azuis se espremerem, disputando espaço com seus lábios carnudos alargados enfeitando seu belo rosto.

— Até mais, . — Acenei para ela antes de adentrar o corredor e perdê-la de vista.


Não sabia o motivo de estar me sentindo daquela forma, afinal de contas, eu a veria novamente, não? Iria embora na noite do dia seguinte, mas ainda a teria na recepção para lhe dizer adeus. Por que eu sentia que deveria voltar ali antes da hora de fazer o check out?

Parei no meio do corredor batendo em minha própria testa.

Mitch estava certo, eu queria muito pegar .



Capítulo 3


Encarei o frasco que tinha em mãos ainda achando toda aquela situação hilária. Mordi o lábio tentando conter minha risada. Foi divertido caçoar de e vê-lo praticamente suar frio diante de mim, parecia mais um sósia daquele homem que subia no palco e se soltava como nunca.

Sim, eu tinha mentido sobre não conhecer nenhum trabalho dele, já havia ouvido algumas músicas da One Direction - quem nunca ouviu, com certeza, esteve trancafiado em uma caverna por muitos anos. E, depois do dia anterior, tinha escutado algumas do primeiro álbum solo também, apesar de não ser habituada a ouvir aquele estilo de música, podia afirmar que ele era muito bom, tinha uma voz incrível, até mesmo enquanto estava apenas conversando. Também menti sobre o filme, a atuação dele não estava ruim, mas o que disse sobre minha confusão com os atores era real, ele era estranhamente parecido com o Charlie Heaton.

Foi hilário presenciar toda a sua pose de popstar se desmanchar diante de mim. Apesar de tudo, devia admitir que até que era uma pessoa “normal”. Ao ler sobre ele para sanar minha curiosidade sobre nosso futuro hóspede, vi muitas meninas colocando-o num pedestal, onde ele me pareceu bem inalcançável e até mesmo metido. Apesar de ter muitos fãs e ser muito bem sucedido no ramo musical, ele era bem reservado sobre sua vida pessoal e tentava até deixar os relacionamentos privados. Bom, aquilo segundo minha pequena pesquisa. Tinham algumas fotos dele em momentos de descontração com amigos e até com mulheres, que eram apontadas como suas possíveis namoradas.

Resolvi pesquisar mais sobre aquilo e pedi informações ao meu amigo Google. A mais recente era Patton Hill, uma das Angels da Victoria's Secret e uma das modelos mais bem pagas da atualidade. Pelo que li, não era nada confirmado que eles tiveram algo, porém ele não parecia colaborar para que informações sobre sua vida pessoal fossem expostas ou confirmadas. Mas, de qualquer forma, a ruiva de olhos verdes já tinha sido vista com outro cara dias atrás. Talvez eles tivessem terminado ou, talvez, realmente nunca tivessem começado algo.

Balancei minha cabeça, percebendo meu espírito de fofoqueira se aflorando e tomando conta do meu ser. Fechei a aba do navegador do computador da recepção e fui no histórico de pesquisa, apagando os rastros do meu Eu stalker. Por que eu tinha ficado curiosa sobre sua vida amorosa, afinal?

Voltei para os meus frascos de álcool em gel e tratei de enchê-los para colocá-los em seus devidos lugares espalhados pela pousada. Um tempo depois, enquanto estava lá fora, avistei e o tal Mitch saindo juntos com o restante do pessoal que estava hospedado lá, ambos conversavam e riam, caminhando em direção ao grande carro preto que os esperava pronto para sair. Desviei meu olhar rapidamente quando vi o cantor me notar ao longe antes de entrar no veículo, voltei a espiar apenas quando ouvi os pneus se afastando, suspirando em desânimo.

Se eu dissesse que não queria ir ao show estaria mentindo. Apesar de não conhecer a fundo as músicas de , seria legal sair um pouco; fazia tanto tempo que não via gente nova além dos hóspedes que chegavam e iam embora da pousada todos os dias. Minhas amigas não me procuravam mais, as únicas com quem eu falava estavam há quilômetros de distância e, em sua grande maioria, estavam bloqueadas em minhas redes sociais por serem Misses de seus respectivos estados e eu não querer vê-las vivendo meus sonhos.

As invejava e assumia aquilo a mim mesma.

Quando me chamou para ir ao show, apenas Phoebe me veio à cabeça, porém ela estava ocupada demais planejando o próprio casamento e estudando para ser advogada. Logo, minha única opção seria minha mãe e, mesmo que eu não tivesse pavor a grandes públicos, não saberia com que cara eu chegaria lá acompanhada da minha mãe no auge dos meus 24 anos. Era vergonhoso!

Todos à minha volta estavam vivendo suas vidas da melhor maneira possível: viajando, se casando ou apenas namorando, estudando e se formando nas profissões que sempre sonharam em ter. Eu sentia como se minha cadeira estivesse com ambas as travas nas rodas, imóvel, sem sair do lugar, enquanto as pessoas que eu amava passavam por mim e simplesmente seguiam em frente.

As únicas pessoas que permaneceram ao meu lado foram mamãe e papai, mesmo assim, não conseguia julgar quem tinha escolhido sair da minha vida. Às vezes me sentia mal por meus pais, logo seria o aniversário de 10 anos de casamento deles, papai tinha planejado uma viagem há muito tempo, porém deixou claro que seus planos mudaram drasticamente com minha nova condição. Não gostava de vê-los estagnando junto de mim, já me sentia péssima o suficiente por mim mesma.

O restante da tarde se arrastou numa imensidão tediosa. Fiquei no meu posto de trabalho até o horário de almoço, comi sozinha em casa após ouvir uma das hóspedes me reconhecer de longe como a atual Miss Califórnia. Sabia que se fosse me juntar a eles no restaurante seria abordada e estava farta de posar para fotos que seriam jogadas na internet e me fariam alvo de comentários capacitistas ou falariam de mim como se eu fosse uma super vencedora por estar viva após aquele acidente que ninguém parecia disposto a deixar cair no esquecimento.

— Vá para casa jantar — Mamãe surgiu atrás de mim, passando as mãos pelo meu cabelo preso e beijando o topo da minha cabeça. — Seu pai preparou seu prato preferido, eu vou ajeitar as coisas aqui e já vou. — Lhe sorri antes de me afastar do computador já desligado e sair de trás do balcão.

Encarei a entrada da pousada, e sua banda ainda não tinham retornado, e nem o fariam tão cedo. Sorri confusa ao reparar naquilo tão de repente, eu mal o conhecia! Ele só foi legal comigo, não tinha nada demais ali; eu continuava sendo apenas a recepcionista que o atendeu. Bom, pelo menos ele não esqueceria de mim tão cedo após nosso primeiro contato totalmente desastroso.

Com toda a certeza, se lembraria de mim a cada vez que olhasse para uma cadeira de rodas. Iria se recordar do dia em que ofendeu sem querer uma deficiente física e nem que se esforçasse demais iria conseguir se lembrar qual era meu nome. Afinal, as pessoas costumavam esquecer mesmo, me resumiam a uma simples cadeira.

Sentia falta de ser a mulher poderosa que era, a Miss Califórnia ou até a Miss teen USA. Eu me sentia confiante naquele tempo, jamais me sentiria estúpida por pensar em homem algum, porque sabia que os atraía apenas com minha beleza e minha personalidade. Porém, naquela cadeira de rodas, tinha uma outra , que substituiu a antiga logo após o acidente. Comecei a ser insegura e ter certeza de que se algum cara olhasse pra mim, já veria minhas incapacidades e nem tentaria nada por pena ou por puro preconceito.

Era ridículo ficar pensando naquilo, ainda mais sendo de ! Nem tinha passado pela minha cabeça, eu sabia que nunca iria acontecer. Tanto que sequer cogitava tal ideia e freei meus pensamentos antes que eles fossem traiçoeiros o bastante para pensar nele daquela forma.

Tratei de me distrair arranjando um outro motivo para ter pensado nele naquele momento. Já sei! Devia ser por que eu havia sido convidada para ir junto ao show! Sempre que negava algo que no fundo queria muito fazer, ficava imaginando como as pessoas deviam estar se divertindo por lá, enquanto eu tinha ficado trancafiada dentro do meu quarto ou com o rosto em frente àquele computador idiota.

Não fazia por mal, muito pelo contrário, queria voltar a participar da vida das pessoas que amava, porém sabia que jamais conseguiria voltar a estar presente como antes. Além das limitações físicas, meu emocional me traía de vez em quando, e ninguém queria alguém tão complicado assim perto de si.

Jantei com papai enquanto assistíamos a um programa de auditório qualquer e logo fui para o quarto. Tomei um banho rápido, colocando uma camisola leve de alcinhas, já que a noite estava excepcionalmente mais quente naquele dia. Pulei para a minha cama e apaguei as luzes.

Encarei o escuro, suspirando cansada. Fechei meus olhos, me entregando a minha queda em meio à escuridão e à vastidão de memórias da vida que tinha antes; num sono profundo, revisitei meu passado como se fosse um mero sonho. Meu subconsciente me presenteava toda noite daquele jeito, permitindo-me ser a de antes, nem que fosse fora da minha realidade atual, nem que fosse por apenas algumas horas e que nada daquilo fosse real Aquilo era muito melhor do que qualquer fantasia que ele poderia me projetar.

Despertei, remexendo-me sobre o colchão, gemi, mordendo a boca, tentando respirar devagar para tentar suportar as dores nas costas. Já estava acostumada, aquele desconforto sempre voltava para me assombrar. Era impressionante como toda e qualquer dor que eu algum dia poderia sentir nas pernas tinha se alojado em minha coluna logo que fiquei paraplégica. Como se já não bastasse todas aquelas mudanças, claro.

Sentei-me já com os cabelos grudados na testa, suando em meio aos lençóis, tateei a escrivaninha ao lado da cama e encontrei a cordinha da luminária. Com um ponto de luz, encontrei a embalagem do meu analgésico e o peguei, retirando sua tampa com rapidez.

Estava vazio.

Levei a mão à cabeça, suspirando derrotada. Não iria acordar minha mãe só por aquilo.

Pulei para a cadeira estacionada ao lado da cama, ajeitei minhas pernas e fui até o banheiro, jogando um pouco de água no rosto. Uma brisa discreta de ar adentrava minha janela do cômodo, fazendo-me já saber o que fazer para me distrair um pouco daquela dor.

A insônia era uma velha amiga. Antes de tudo acontecer, passava noites em claro estudando sobre assuntos diversos, para responder tudo corretamente na hora em que as perguntas acontecessem no concurso. Me debruçava no batente da janela do meu quarto lindo, que antes ficava no segundo andar da casa, e ficava apreciando a lua brilhante no céu refletindo em uma das piscinas grandes da pousada.

Tive que descer para o andar debaixo e deixar o meu lugar favorito da casa, onde eu tinha colado os posters dos meus atores favoritos de Hollywood na adolescência e as paredes tinham pregos que seguraram minhas faixas de vencedora expostas por anos, para quem quer que fosse me visitar. O antigo quarto de hóspedes era muito menor e jamais me traria tantas recordações boas como o outro. Muito pelo contrário, foi ali que vivi os piores dias da minha vida.

Suspirei e fui porta a fora, passando pelo quintal de casa e destrancando a grande porta de madeira que separava o jardim da pousada da área residencial. Fechei os olhos sentindo o vento bagunçar meus cabelos e beijar meu rosto com delicadeza. Eu sobrevivia de memórias passadas, mas aquele lugar jamais se tornaria uma mera lembrança, afinal nunca mudaria. Avancei com a cadeira pela grama fofinha e bem aparada, já tendo um vislumbre do azulejo azul da piscina.

Parei bruscamente ao ouvir uma melodia soar em meio ao silêncio da madrugada.

We're not talking lately…

Estiquei o pescoço encontrando o dono da voz rouca e cansada dedilhando um violão escuro. Pisquei devagar, ouvindo o som acústico sendo embalado pelos grilos escondidos pelo jardim.

Don't you call him what you used to call me.

se inclinou sobre o violão, fazendo uma anotação no pequeno caderno que tinha consigo e que estava aberto no chão, próximo a ele.

Entendi que estava ocupado compondo e resolvi me retirar o mais discretamente possível. Eu não tinha nada para conversar com ele, nossos assuntos em comum já tinham sido conversados mais cedo, então preferi não incomodá-lo. Dei meia volta com a cadeira e, sem querer, esbarrei num galho solto que havia ali. O barulho o dispersou, atraindo seu olhar atento para mim.

— Oi! — Passou uma das mãos pelos cabelos sedosos enquanto abriu um sorriso tranquilo, expondo-me sua fileira de dentes perfeitos. — Eu te acordei com o barulho? Me desculpe, eu…

— Não! — Me apressei a falar, interrompendo-o em mais um dos seus pedidos de desculpas. — Não dá para ouvir nada lá de casa, fique tranquilo. Eu é que fiquei sem sono e resolvi vir tomar um ar. — Murmurei sem graça, ainda sob seu olhar intenso. Sua atitude me causou um frio na barriga, algo que eu não sentia há muito tempo.

tirou a alça do violão de si, deixando-o de lado enquanto se preparava para se levantar da beira da piscina, onde seus pés estiveram mergulhados. Caminhou ainda descalço, revelando suas calças dobradas até as panturrilhas.

— Não precisa se incomodar! Eu já estou de saída, desculpa por te atrapalhar. — Forcei a cadeira, que estava com a roda bloqueada pelo galho, tentando voltar para dentro de casa.

— Não, nada disso, pode ficar! — Se posicionou atrás de mim, tirando o galho do caminho e empurrando a cadeira para frente. — Não atrapalhou, eu estava apenas vendo se minha ideia daria certo e não quis tocar lá dentro para não perturbar ninguém. — Assenti em compreensão.

devia ser daqueles que aproveitava a inspiração ao máximo quando ela se fazia presente, não importava a hora da madrugada.

— E quanto a você, o que te fez perder o sono? — Apoiou as mãos nos quadris, olhando-me interessado.

Eu não iria falar das minhas dores nas costas com ele. Aliás, não gostava de falar sobre minha condição e suas complicações com ninguém. Até mesmo o fato da maldita cadeira ter ficado presa no galho tinha me incomodado ao acontecer justo diante dele.

Odiava demonstrar fragilidade, aquele era um dos motivos de eu sempre estar tão na defensiva e evitar ao máximo ter muitas interações sociais depois de tudo o que houve.

— Não sei. — Desconversei, dando de ombros, minha coluna deu uma de suas pontadas dolorosas, lembrando-me bem do motivo, sorri forçadamente na tentativa de disfarçar. — Eu achei bem legal...O que você estava tocando. — indiquei com o queixo o violão no chão.

— Ah, obrigada. É uma música que tenho escrita há um tempinho, ainda faltava achar o arranjo perfeito, e acho que agora ela está finalmente pronta. — ficava bem sério enquanto estava falando sobre o trabalho, a palavra perfeito em sua fala demonstrava um lado exigente que ele parecia ter consigo mesmo.

Como se tudo tivesse que estar do jeito que soava em sua cabeça. Me identifiquei com o modo dele de falar, eu era igualzinha na hora de escolher meus vestidos para os concursos, desenhava croquis várias e várias vezes, tentando imprimir o que eu tinha sonhado usar. A costureira não era tão diferente de mim, apesar de às vezes não comprar minhas loucuras, ela sempre conseguia confeccionar vestidos tão maravilhosos quanto a minha imaginação.

Morria de saudades de ter algo pra fazer além de ficar naquela recepção vendo a vida passar diante de meus olhos. Às vezes, tinha receio de pensar no futuro, porque com todos os medos que desenvolvi, parecia que as coisas não mudariam muito dali para frente. Antes, eu tinha tantos planos, e nenhum deles envolvia ficar na pousada de meus pais atendendo hóspedes.

Estava começando a conseguir contratos para dar grandes passos na minha tão sonhada carreira de modelo. Meu Instagram já me possibilitava fazer alguns trabalhos pequenos como influencer. Mas tudo desmoronou, exclui meu perfil repleto de seguidores e meu telefone nunca mais tocou. Era como se eu tivesse deixado de existir depois do acidente.

Parte de mim sabia que aquilo não era uma mentira, e também sabia que eu tinha minha parcela de culpa para que aquilo acontecesse.

— Quer ouvir? — Indagou sem jeito. Sorri quando percebi sua postura tímida.

— Se eu quero ter a honra de ouvir uma música inédita de ? — Levei a mão ao peito, com a voz afetada teatralmente. Ele revirou os olhos, rindo. — É claro que quero ouvir. — Falei séria daquela vez, vendo-o assentir antes de pegar o violão do chão.

encarou o instrumento e se inclinou para espiar as próprias anotações no caderno aberto no chão, tendo dificuldades para compreender sua própria grafia. Ri baixinho, pensando que ele ficaria mais confortável do jeito que estava antes. Me remexi na cadeira, me perguntando se eu talvez não devesse me juntar a ele no chão, colocar as pernas na água, mesmo que não sentisse absolutamente nada ao fazê-lo.

Ainda assim, me vi desejando ter aquele momento, nem que eu ao menos tivesse que fazer um grande esforço para tentar me lembrar da sensação do contato da água em meus pés, ou até mesmo para fingir que nada do que aconteceu naqueles quatro últimos meses era real.

— Você… — Seus olhos claros se voltaram para mim rapidamente, fazendo-me ficar sem graça instantaneamente. — Poderia me ajudar? Queria me sentar na beirada da piscina. — Ao contrário do que eu pensei, ele assentiu, vindo até mim prontamente. — Prometo que não sou pesada. — Soltei uma risadinha, ainda sentindo o rosto esquentar.

— Tenho certeza de que não é. — Murmurou risonho, inclinando-se sobre mim para me tirar da cadeira com uma delicadeza impressionante. parecia ter medo de me quebrar, como uma porcelana extremamente frágil.

Mordi o lábio, reprimindo um sorriso, quando me dei conta de que ele nem ao menos me questionou quando lhe pedi aquele favor.

Talvez, se pedisse o mesmo favor para meu pai, ele me diria que era inútil colocar os pés na água, já que não surtiria efeito algum em mim. Percebi que com , que era um completo desconhecido, me sentia mais segura para tentar fazer coisas novas, por mais estúpidas que fossem. Estranhei o fato de não ter me sentido esquisita ao ser pega no colo por ele, aquela era uma das piores partes de usar uma cadeira de rodas, eu simplesmente odiava quando me pegavam no colo e achava que jamais iria me acostumar com aquilo.

caminhou com cuidado até a borda da piscina por estar descalço e com os pés molhados. Eu me segurava em seus ombros largos e não poderia mentir para mim mesma dizendo que não tinha me aproveitado enquanto o tinha tão perto, sentindo seu perfume tropical. Não sabia se o fato de ele ser uma estrela pop estava influenciando no modo como meus olhos o viam, porém, mesmo com a minha limitação em enxergar o verde de sua íris, eu estava um pouco balançada com sua aparência física.

Claro que não era a primeira vez que o via, já o tinha assistido na TV em algum momento da minha vida e até visto fotos dele circulando pela internet. Porém, devo admitir que, pessoalmente, o carisma dele era quase palpável e, combinado com seu charme britânico, me deixou levemente desconcertada com aquela proximidade toda.

se abaixou com cuidado, tentando um jeito de me colocar devagar sentada ali. Vi uma de suas mãos deslizar pela parte de trás das minhas coxas e num movimento rápido me tocar a bunda. Sua expressão mudou instantaneamente, e ele ficou extremamente sem graça com aquele pequeno acidente.

— Me desculpe. — Sussurrou assim que me deixou devidamente sentada. Suspirei num misto de vergonha e chateação enquanto pegava minhas pernas e as ajeitava dentro da piscina, aproveitando para esticar a barra da minha camisola clara e cobrir minhas coxas à mostra.

— Ah, não se preocupe, não é como se eu tivesse como sentir seu toque, de qualquer forma. — Engoli a seco o resquício de sarcasmo que sobrou em minha boca.

estava sendo legal comigo, eu não precisava falar daquele jeito com ele de novo, e ultimamente tinha que me policiar para não soar amargurada daquele modo. Ninguém queria alguém assim por perto. Ele não teve culpa da mão ter escorregado, qualquer homem normal evitaria aquele tipo de contato com alguém como eu que acabou de conhecer.

— Mas eu senti sua pele. — Olhei para cima, encontrando-o parado atrás de mim. Confusa, baixei minha cabeça encarando a água da piscina à minha frente. — E-E eu não quis te tocar dessa forma… — Apanhou o violão e veio se sentar ao meu lado.

Raciocinei um pouco e percebi que nem deveria ter demorado tanto para fazê-lo, eu já sabia que algo do tipo poderia acontecer na próxima vez que ficasse sozinha com outro homem que não fosse um dos meus familiares. Não que eu tenha aceitado o convite de pensando que algo aconteceria entre nós ali, muito pelo contrário, tinha deixado aquela pretensão para trás quando me vi naquela nova situação.

Os homens que me olhavam não tinham mais interesses amorosos, eram sempre olhares de piedade ou receosos, como se eu não fosse uma adulta normal e sim alguém fragilizada. Não que eu gostasse de antes, quando me comiam com os olhos, não! Porém, para uma garota como eu, no auge da juventude e acostumada a ter uma vida sexual ativa, algumas vezes era completamente frustrante pensar em como eu faria para conseguir um dia suprir aquela ausência de parceiros, já que nenhum cara tinha se aproximado ou demonstrado querer algo comigo desde o acidente.

E, mais uma vez, talvez eu tivesse um pouco de culpa naquilo também por conta da minha forma irônica e sarcástica de lidar com minha deficiência. Eu sabia que aquelas atitudes afastavam pessoas e, às vezes, era o que eu queria mesmo. Espantar possíveis namorados era mais fácil do que tentar descobrir se eu ainda poderia ser capaz de satisfazer alguém na cama ou, como o meu maior medo, se eu conseguiria aceitar um cara na minha vida sem achar que ele talvez mereça alguém que não tivesse nenhuma limitação.



Capítulo 4

— Então… Qual o nome da música? — Sorri forçadamente, mudando o assunto enquanto já posicionava o violão em seu colo.

— Cherry. — Assenti, achando interessante. — É um título provisório, ainda não está decidido. — Franziu o cenho, pegando o caderninho em mãos. Assenti meio sem saber se opinava sobre ou não.

Era estranho estar ali ouvindo uma música inédita de um cantor mundialmente famoso. Além de parecer ser bastante sistemático com seu processo criativo, era algo pessoal dele! E se ele não gostasse do que eu iria falar? E se ofendesse com algo? E se eu não curtisse a música? Bom, o pequeno pedacinho que ouvi estava ótimo, porém comecei a ficar apreensiva sobre aquilo. Se não gostasse, eu iria...Mentir para ele e fingir?

Minhas interações sociais tinham ficado tão escassas que eu já não sabia mais como lidar com coisas normais do cotidiano, como mentiras sociais ou uma sinceridade velada.

— Pode segurar, por favor? — Confirmei, pegando o caderno e deixando fácil para que ele acompanhasse a letra.

Me perguntei como ele poderia ter esquecido a própria composição, porém percebi que,, provavelmente ele tivesse que reter muita informação na cabeça e talvez fosse normal não decorar tão rápido.

Contou baixinho até 4 e começou a dedilhar o violão na mesma melodia de antes. Logo, sua voz começou a soar num volume moderado, acompanhando o violão, lia a letra no caderno enquanto cantarolava concentrado o bastante para não tirar os olhos do que estava fazendo. Eu, que não entendia nada de música, estava achando aquela experiência incrível, era como ter uma apresentação acústica só para mim.

Me concentrei na letra, era uma canção sobre um relacionamento que tinha acabado e, aparentemente, a garota já tinha seguido em frente com outro. Não pude deixar de me lembrar da última pessoa que li que tinha sido apontada como namorada dele, a modelo Patton Hill, que estava de namoro recente com outro cara. Me vi tentada a perguntar se a música era para ela, porém não sabia se iria gostar de ser questionado sobre. Achei melhor só perguntar se ele se mostrasse aberto a falar sobre o assunto. Ainda estava pisando em ovos para formular uma opinião sobre a música.

Continuava absorta em pensamentos quando a música terminou. continuou tocando um pouco o violão depois de finalizar a última estrofe. me olhou com seus olhos brilhantes, estava sério, não sabia o porquê, mas imaginei que fosse por se lembrar da mulher da música. Será que ele ainda sentia a falta dela?

Se bem que se eu namorasse Patton Hill, também teria dificuldades de esquecê-la de tão deusa que ela era. Me compadeci dele após chegar a aquela conclusão.

— E então, o que achou? — Encolhi meus ombros, incerta. — Pode ser sincera, eu aceito críticas negativas numa boa. — Ri exagerada com o que ouvi. Quem era eu para criticar um músico como ele? me deu cotoveladas de leve, incentivando-me a falar.

— Eu achei… sincera. — Roubei sua fala, ainda incerta do que ia falar, porém ele pediu por aquilo, não? franziu o cenho, confuso. — É, sincera. Por exemplo, talvez não pegará bem você assumir estar odiando que sua ex está na melhor fase dela só porque ela não está mais com você. É corajoso assumir esse tipo de coisa, sabe? — concordou pensativo. — Tem que ser corajoso para demonstrar sentimentos que são vistos como ruins por todos.

As outras pessoas não gostavam de ver alguém externar sentimentos como aqueles, mas era inevitável não fazê-lo! Guardar para si apenas machucava mais, assumir que já sentiu inveja ou que é egoísta de vez em quando não deveria ser tão discriminado. Afinal, são sentimentos assim como todos os outros, e éramos humanos, era normal sentir todas aquelas coisas!

Precisávamos, urgentemente, normalizar tudo aquilo. Nunca iria entender por que as pessoas quando iam me visitar depois do acidente falavam tanto que eu deveria me sentir grata por ter sobrevivido. Como se estivesse proibido reclamar só porque ainda estava ali. Eles tinham alguma ideia do que era viver do jeito que eu estava vivendo? Ter que desistir do meu sonho e ver minha vida virar de ponta cabeças?

Eu não tinha o direito de ficar brava, de sentir todas aquelas coisas horríveis? Eu tinha que fingir que não estava odiando tudo aquilo pra ficar bonito diante dos olhos deles?

Tive aquela percepção da música justamente por entender bem daquilo. Afinal, estava naquela guerra interna há exatamente quatro meses, falava e pensava coisas horríveis sobre mim mesma, coisas que jamais teria coragem de falar ou até pensar sobre qualquer outra pessoa. Porém, estava tão anestesiada que minhas pancadas em mim mesma já não doíam. Antes, eu costumava me amar até demais, mas eu já não me reconhecia naquela cadeira, logo, passei a odiar a com quem era obrigada a conviver todos os dias.

Sabia que jamais voltaria a ser a outra. Por isso, passei a colocar a culpa de tudo na que a substituiu.

— Achei que iria dizer que não tinha gostado! — Fingiu respirar aliviado, fazendo-me revirar os olhos. — Não imaginei que pudessem ter essa interpretação, você me trouxe uma coisa nova sobre essa música, não tinha pensando por esse lado. — Encarou a piscina e suspirou, mordendo o lábio, pensativo. Tratei de desviar meu olhar da boca dele quando vi o que estava fazendo. — Acho que escrevi como um desabafo, coisas que eu queria ter falado na época mas não tive coragem... — riu envergonhado. — Eram sentimentos passageiros dentro de mim, que eu queria colocar para fora sem magoar ninguém, sabe?

Não. Eu não sabia. Todos os sentimentos ruins que eu tinha, colocava para fora e, na maioria das vezes, acabavam atingindo as pessoas à minha volta mesmo que não fosse minha intenção descontar nelas.

— Mas… não tem medo de ela se magoar quando ouvir a música? Ela vai saber que é pra ela?

Nunca tinha parado pra pensar como devia ser aquilo de ter uma música escrita sobre si. Será que eles recebiam ligações ou mensagens de pessoas que já passaram por suas vidas comentando sobre o que ouviram? Músicas já fizeram namoros reatarem? Já trouxeram mágoas e sentimentos ruins antigos à tona?

— Sim, ela vai. — Concordou veementemente. — Você sabe, Patton está com outro cara, além disso, ainda temos amigos em comum e eu não consigo me desfazer das roupas que tínhamos parecidas só por lembrar um ao outro. — Passou a mão no cabelo ainda sem me encarar. Tudo se encaixava perfeitamente na letra escrita por ele. — Mas nós ainda temos uma amizade, o que está relatado nessa música é passado. Eu não penso mais nela desse jeito. — Seu rosto se virou para mim enquanto seus olhos encararam os meus numa intensidade que me deixou estranha.

Senti minhas mãos suarem e as passei em meu colo no tecido da camisola, quando abaixei minha cabeça para me livrar daquele olhar que estranhamente estava me afetando de um jeito diferente.

— Imaginei que fosse ela. — Comprimi os lábios ainda sem encará-lo. riu fraco, fazendo-me perceber que falei demais. — Não que eu soubesse de vocês, afinal eram apenas boatos… — Quem tinha citado a palavra ‘boato’? Estava cada vez mais nítido que eu tinha andado pesquisando sobre sua vida na internet. — É que acompanho ela, sabe? Eu gosto de moda e sigo ela, por isso sei sobre isso, das notícias que saem sobre ela...

ainda me encarava, sorrindo contido. Me explicar não estava adiantando. Talvez se eu não tivesse me defendido tanto, ele não teria sacado minhas negações. Resolvi, então, me calar, já tinha falado demais.

— Ela é incrível, não? — Concordei veemente. Patton Hill era uma das maiores modelos da atualidade, ela tinha um dos melhores Catwalks da nova geração de angels, sendo elogiada até pela rainha de todas, Gisele Bundchen. — Gosta de moda, é? — Voltei a assentir, sendo analisada por ele, me remexi desconfortável. — Por que não tenta ser modelo? — Soltei um riso desacreditado. só podia estar zoando com a minha cara, não era possível.

Quantas marcas grandes no mundo da moda têm uma pessoa com deficiência física estralando suas campanhas? Desfilando suas peças nas semanas de moda mundo afora? Eu mesma nunca tinha visto nenhuma. Pessoas como nós eram invisíveis naquele mundo onde só as aparências importavam. Eu tinha tentado ser modelo e estava conseguindo até que tudo mudou na minha vida. Então, não, eu não tentaria, não precisava de mais motivos para me frustrar.

— O que foi? Eu disse algo errado? — Disse, indignado com minha reação. Não respondi, ainda sentindo meu estômago se revirar em nervosismo. Eu gostava de deixá-lo nervoso e de implicar com ele, mas no meu caso era proposital. Já o fazia sem perceber e, pior, me fazia provar do meu próprio veneno. — , você é linda! É impossível uma garota como você não chamar a atenção numa passarela.

Neguei com a cabeça comprimindo meus lábios. Sabia que aquilo era um elogio, mas não o sentia como se fosse. Eu iria chamar atenção pelo quê? Pela cadeira de rodas? Perguntei-me, ainda sem expressão. Não queria ser reconhecida por conta daquilo, queria voltar a desfilar, era algo que eu fazia tão bem, que me empenhei e treinei em meus concursos desde pequena!

— Quando te vi naquela recepção, eu… — Sua mão veio em direção ao meu rosto, fazendo-me ofegar, atingindo o mais alto pico de nervosismo.

O que diabos ele estava fazendo? Seus dedos me tocaram os cabelos, que ele tirou da lateral do meu rosto. O encarei, engolindo a seco e o vi sorrir contido. Afastei sua mão gentilmente, soltando uma risada sem humor.

Não era engraçado brincar comigo daquele jeito.

— Vamos voltar para a música, ainda não terminei de falar o que achei. — Desconversei, vendo-o concordar ao respirar fundo, passando a língua nos lábios rosados que me chamaram tanto a atenção.

Seria muito bom se fosse verdade.

Daquela vez, não freei meus pensamentos sobre . Não havia como negar que eu o achava atraente e para completar ele ainda estava sendo gentil. Mas eu sabia que nunca teria a menor chance com ele. Para alguém que já namorou Patton Hill, eu deveria ter uma beleza, no mínimo, mediana aos olhos dele. E mesmo que eu fosse tão bonita quanto ela, ainda tinha muitas coisas impedindo.

— Sou todo ouvidos. — Apoiou o queixo na mão, ainda com o violão no colo sustentando seu cotovelo. Revirei os olhos com aquele ar de implicância vindo dele, eu não gostava mais que me olhassem daquele jeito, prestando toda a atenção do mundo em mim.

— Pare com isso. — Desferi um tapa de leve em seu ombro, fazendo-o desmanchar sua pose, rindo das minhas bochechas vermelhas de vergonha. Eu simplesmente odiava a pessoa que tinha me tornado. Se fosse antes, eu acho que estaria flertando com uma hora daquelas, de tão corajosa que era.

Tratei de colocar meus neurônios para funcionarem, a fim de procurar algo para lhe dizer sobre a música. Eu tinha, sim, terminado de falar o que tinha achado, porém tive que usar aquela desculpa para poder desviar o assunto sobre minha carreira de modelo que jamais iria acontecer. me olhou, ainda esperando minha fala, então disse a primeira coisa que se passou na minha cabeça.

— Patton é uma modelo incrível, mas não é muito boa em inventar apelidos para namorados. — Encolhi os ombros, ouvindo sua risada alta, que ele tentou abafar com uma das mãos. — É sério, “baby” é algo tão comum, sem graça, sabe? Será que ela tem medo de chamar pelo nome do ex? Aí já chama todos pelo mesmo apelido genérico? — já ria sem ar, jogando a cabeça para trás e me dando uma vista privilegiada de seu pescoço e e de sua mandíbula.

Li em algum lugar que a linguagem corporal transparece coisas sobre nós mesmo que inconscientemente. Eu aprendi muito sobre o assunto para me portar melhor em concursos e aprender a disfarçar que estava tensa e insegura com algo. Falava-se muito sobre o ato de expor o pescoço, que era uma zona erógena convidativa e que quando a pessoa o deixava exposto, era um claro sinal de interesse e um convite mudo para algo a mais.

Afastei aqueles pensamentos da minha cabeça. Estava claro como a luz que vinha da lua acima de nós que era uma exceção àquela regra. Afinal, por ser cantor e ator há muitos anos, ele estava mais acostumado a ser aberto daquele jeito. Talvez eu tenha interpretado errado seu gesto anterior de pegar em meus cabelos, com certeza devia estar agindo normalmente e eu devo ter ficado sem graça à toa.

Realmente, diziam por aí que artistas eram mais libertinos e que nós, meros mortais, que tínhamos pudor demais.

— Ah, é? — Disse, rindo, cruzando os braços e com a voz irregular. Sorri, ainda sentindo vontade de rir junto dele. Fazia tempo que eu não ria daquele jeito. — E como você me chamaria se eu fosse seu namorado? — Deixei meu sorriso morrer quando ouvi o que me disse.

Era estranho pensar que eu tinha ficado tanto tempo sem conversar com algum cara que poderia ser um potencial interesse amoroso meu, que estava tendo dificuldades de entender aquelas brincadeiras de . Não sabia nem o porquê de estar cogitando a possibilidade de ele estar flertando comigo.

Mais uma vez, jamais olharia para mim daquela forma.

— Baseada nas minhas primeiras impressões de você… — Fingi estar pensativa, resolvi entrar na brincadeira dele, afinal, tínhamos construído uma singela amizade naquele pouco tempo de conversa, então não tinha maldade nenhuma em brincar com aquilo, certo? Desde que eu me policiasse para não levar nada do que ele dissesse a sério. — Acho que seu apelido seria...Cuzão. — Sua cara de surpresa me fez gargalhar.

— Você nunca vai se esquecer disso, não é? — Continuei a rir, porém fiquei com dó da cara de cachorro que caiu da mudança que fez.

— Estou brincando. — Peguei em seu braço, afastando meu toque sem graça quando vi seu olhar se pousar em minha mão. — Aliás, falando em nomes e apelidos, o que cherry tem a ver com o resto da música? — Indaguei intrigada, devia ser algo íntimo dos dois, se ele não respondesse eu entenderia.

— Patton tinha um gloss que vivia nos lábios dela, todas as vezes que a beijava, eu sentia o gosto de cerejas. — Levantei as sobrancelhas, tinha mesmo um produto da Dior que ela falava muito no Instagram quando eu a seguia. — Mas não vamos ficar falando sobre ela, sim? — Assenti, não devia estar sendo confortável para ele falar sobre a ex o tempo todo.

Mas eu não fazia ideia do que iríamos falar então, havia acabado de conhecê-lo, não sabia do que ele gostava de conversar. Talvez aquela fosse minha deixa para ir embora tentar dormir.

— Agora o que eu quero mesmo é saber qual é o gosto do seu beijo. — Arregalei os olhos, o assistindo se curvar ainda mais em minha direção, quebrando minha barreira contra o mundo e invadindo meu espaço.

Seu rosto se aproximou do meu. Respirei fundo, apavorada, conseguia sentir sua respiração bater calma contra mim, seus olhos claros estavam cerrados e vi quando umedeceu os lábios antes de avançar contra os meus trêmulos.

Me afastei sem saber o que fazer, completamente perdida naquele olhar gentil e inebriada pelo cheiro que emanava de sua pele quente. Sua expressão mudou imediatamente, franziu a testa também, se afastando de mim, completamente sem graça.

— Oh, você não…? — piscou algumas vezes com seus pares de cílios grandes, ainda me analisando. — Me desculpe, , eu…

Fechei os olhos irritadiça. Tudo bem, eu tinha me afastado, demonstrado algo diferente do que realmente queria fazer, porque sim, eu queria beijá-lo. Não era todos os dias que um cara bonito como ele queria ficar comigo, aliás, cara nenhum ultimamente demonstrava querer se envolver comigo! iria embora no dia seguinte, eu deveria aproveitar que ele queria me beijar e só correspondê-lo.

Mas eu estava com tanto medo que meu coração chegou a acelerar, fiquei tonta com tantas informações circulando pelo meu sistema nervoso. Eu só queria não ser tão complicada!

— Pare de se desculpar! — Expirei com a testa franzida. ficou ainda mais confuso comigo. Porém, ele também estava me deixando confusa. — Não pode me beijar se for se arrepender cinco minutos depois…

— Como eu posso me arrepender de fazer algo que quero fazer desde hoje cedo? — O encarei em dúvida.

Não era possível, não tinha me visto naquela droga de cadeira? Como ele pôde, ainda assim, me achar interessante? Com todo o histórico dele com mulheres maravilhosas, aquilo não parecia ser real!

— Por favor, não brinque comigo desse jeito… — Supliquei, sentindo seus dedos entrarem em contato com meus cabelos próximos a minha nuca. puxou-me para perto, encostando minha testa na sua. — Por favor… — supliquei, trêmula, apertando seu bíceps levemente.

— Não vou… — Tomou minha boca devagar, fazendo-me suspirar antes de correspondê-lo na mesma intensidade.

Girei meu rosto, esbarrando meu nariz no dele, enquanto me agarrava pela cintura, ainda com a outra mão ocupada segurando seu violão no colo. Senti um frio na barriga inexplicável, de tão bizarro que foi. Enroscava minha língua na dele, sentindo minhas pálpebras pesarem toneladas de tão envolvida que estava naquele beijo. Me encontrava numa espécie de transe, completamente mergulhada naquela atmosfera quase mágica que ele tinha me puxado junto de si quando tocou meus lábios com os seus.

Ele se separou de mim apenas para se virar e colocar o violão em segurança, longe da água da piscina. Logo se voltava em minha direção novamente. Avancei contra ele, querendo mais daquela sensação; daquela vez, sendo recebida por seus braços, que me envolveram completamente, puxando-me ainda mais para perto.

Me beijava de um jeito que jamais fui beijada, ou pelo menos não me lembrava… Fazia tanto tempo desde meu último namoro. Eu sentia tanta falta daquilo, daquela adrenalina correndo por minhas veias, da serotonina junto da dopamina tomando conta do meu ser e embriagando-me com aquela sensação viciante.

Senti quando se curvou sobre meu corpo, guiando-me para trás, onde me deixei ser levada apenas sentindo seus braços me segurarem até que minhas costas tocassem o chão gélido. Naquele momento, era como se eu não sentisse mais nada além da sua boca na minha, tanto que nem ao menos me lembrei de quem era. Foi como se eu tivesse voltado a ser a de antes, confiante o bastante para olhá-lo nos olhos e não estranhar o fato de estar sendo beijada por alguém como ele. Desci meus lábios pela linha de sua mandíbula, indo em direção ao seu pescoço.

Inspirei seu cheiro, enquanto meus lábios beijavam a região quente, fazendo-o apertar meu quadril em resposta. Mordisquei a pele fina de seu pescoço, ouvindo-o gemer baixinho sobre mim. Sorri satisfeita, voltando a levantar o rosto para encontrar o dele.

— Está calor aqui, não? — murmurou com a voz arrastada, arrepiando-me com o som delicioso soando tão perto. Selou nossos lábios e apoiou-se num dos braços, ficando de lado próximo de mim. Mordi o lábio, ainda sem graça o suficiente para quase não aguentar ter seus olhos brilhantes me encarando daquele jeito tão intenso. — Estou louco para pular nessa piscina.

— Por que não entra? — me indicou a placa de sinalização que meu pai colocou numa das paredes avisando que a piscina fechava em um determinado horário. E, com certeza, ela estava fechada naquela hora, afinal, já se passava de três da manhã pelos meus cálculos, que deveriam estar bem errados. — Meu pai tem um sono pesadíssimo, tenho certeza que ele não vai nem sonhar que tem alguém na piscina dele uma hora dessas.

Ele levantou as sobrancelhas, provavelmente surpreso por ter a filha do dono da pousada o incentivando a quebrar as regras do local, soltei uma risadinha e fechei os olhos quando o senti se aproximando para deixar um beijo casto em minha boca. se sentou, abrindo os botões de sua camisa vermelha estampada, despindo-se rapidamente.

Observei suas costas e seus ombros largos despidos, seu par de escápulas se moveram quando jogou a peça longe. Meus olhos famintos desciam até seu quadril quando fui interrompida da minha contemplação assim que se virou para mim.

— Você vem? — Suspirei em dúvida, tudo naquela situação me parecia tão convidativo.. — Por favor… — Outro beijo, sorri contra sua boca, apoiando meu tronco pelos cotovelos. — Eu te pego. — Sussurrou ao pé do ouvido, me provocando mais alguns arrepios, cheguei a gemer contra seu rosto, fechando os olhos e aproveitando aquele momento ao máximo.

Eu sabia que era passageiro demais e que, assim como os sentimentos dele pela ex, eu seria apagada da memória dele com o passar dos dias.

Não conseguia arranjar pretexto para reclamar daquilo, afinal, era incrível e beijava extremamente bem. Ele estava me fazendo um bem enorme ao me tratar daquela forma, como se eu fosse a antiga , sem limitação alguma. Queria gravar em minha cabeça a sensação de ter suas mãos agarrando-me a cintura, porque sabia que não teria alguém assim, tão perto de mim, tão cedo novamente.

Assenti, por fim, vendo-o abrir as calças e tirá-las rapidamente, dando-me mais uma visão do paraíso com aquelas coxas grossas e com o volume entre as pernas em evidência dentro da cueca preta que usava. Mordi o lábio, desejosa, porém afastei qualquer pensamento do tipo da minha cabeça, eu não teria coragem de sequer sonhar em ir para a cama com . Seria maravilhoso, porém não sabia se seria capaz de satisfazê-lo, não queria tentar para não me torturar com aquela vergonha para sempre.

Fechei os olhos, protegendo-me com os braços quando o vi pegar impulso para pular na água, que foi espalhada para todos os cantos. Ele não fazia a mínima questão de ser discreto. Gargalhei, sentando-me, enquanto emergia dentro da piscina, nadando até mim.

— Você é louco. — Neguei com a cabeça quando apoiou-se com as mãos uma de cada lado de minhas pernas e subiu até meu rosto, selando nossos lábios antes de voltar à água, pegando-me pelas coxas.

Segurei-me em seus ombros enquanto era descida devagar para dentro da piscina, arrepiando-me com a temperatura gélida da água, molhando minha camisola aos poucos até chegar aos meus cabelos longos. Respirei fundo, já sendo colada contra seu corpo. Passei os braços em volta do seu pescoço, sentindo-o abraçar-me pela cintura enquanto eu me apoiava nele.

— Vamos mergulhar? — Assenti após desgrudar meus lábios dos dele. — Ok, tampe o nariz. — Ri que nem criança, fazendo o que ele mandou antes de pegar fôlego para afundar junto dele.

Era completamente estranho estar vivendo aquela noite ao lado dele, era o significado literal da expressão “só se vive uma vez”. Eu vinha vivendo aquela vida monótona desde sempre, não imaginei que fosse ter um alívio daquele pesadelo tão cedo e que seria tão incrível. E, mais, que ainda seria em grande estilo com um pop star ao meu lado!

Quando eu iria imaginar que estaria naquela piscina, de pijama, e tudo em plena madrugada? E, pra completar, ter saído de casa escondida de meus pais! Estava me sentindo uma adolescente no auge do seu amor inconsequente. Estava me sentindo livre! A água me deixava tão leve que, se não fosse pela cadeira parada ao lado da piscina, eu poderia viver a ilusão de que ainda podia mexer as pernas.

Quando emergimos ofegantes, seus lábios grudaram-se de volta nos meus num beijo delicioso. deu impulso e pegou minhas pernas, abrindo-as e colocando-se entre elas enquanto nos levava para uma das extremidades da piscina azul. Seus dedos pegaram meus cabelos próximos da nuca e puxaram levemente os fios quando o senti avançar contra meu quadril. Sim! Eu tinha sentido seu membro forçar-se contra minha intimidade!

Gemi ao parar o beijo para respirar, feliz por estar sentindo ao menos aquilo. Não tinha conversado com os médicos sobre sexo, se eu iria voltar a sentir aquela área ou não, a única coisa que tinha sido conversada era a questão das necessidades fisiológicas. Mas saber que ainda era capaz de receber prazer era apenas a ponta do iceberg. Porque sexo não era só genitálias se invadindo, eram dois corpos em movimento, e eu não tinha movimentos em metade do meu corpo.

Notei que abafava os gemidos em minha bochecha quando deixou-me respirar um pouco após me beijar por vários minutos sem parar. Seus lábios migravam para o meu pescoço. Eu tinha uma sensibilidade extrema em meu pescoço, senti-lo distribuir beijos molhados ali me fez revirar os olhos de prazer enquanto percebia que tinha ambas as mãos debaixo da água.

Aproveitei sua posição, curvado com o rosto enterrado em meu pescoço, e espiei para ver onde ele tanto tocava. tinha as mãos grandes espalmadas em minha bunda, apertando-as enquanto forçava o quadril em direção ao meu. Achei que ele talvez tivesse se esquecido de que eu não o sentia ali. Então, peguei sua mão e a guiei até um de meus seios, apertando-o sobre seu toque, fazendo-o reagir contra meu pescoço e me olhar nos olhos com um sorrisinho sacana ao ver que era ali onde eu queria ser tocada. Na verdade, queria poder sentir suas mãos passeando pelo meu corpo inteiro, mas como não seria possível, tê-lo massageando meus seios me parecia um bom começo.

Seus dedos brincaram com a alça da minha camisola antes de descê-la por completo, revelando meu seio direito. mordeu o lábio antes de depositar um beijo em meu ombro, descendo mais sua boca quente para finalmente abocanhá-lo, desenhando com a língua envolta de meu mamilo e fazendo-me arquear as costas com as sensações que aquele estímulo trouxe. Puxei seus cabelos macios, gemendo em aprovação, enquanto encarava o céu escuro e repleto de estrelas sobre nós. Deixei minhas pálpebras caírem, desfrutando do prazer que seus lábios estavam me proporcionando.

Até que um barulho foi ouvido próximo à porta que ligava meu quintal ao jardim e à piscina. se dispersou e eu aproveitei para subir a camisola molhada, com medo de ser meu pai e de ele ter testemunhado aquela cena. Eu não saberia nem com que cara eu o olharia se ele estivesse mesmo ali, nos pegando em flagrante.

Desatei a rir quando vi um pequeno esquilo se esgueirar pela grama do jardim, fazendo-nos respirar aliviados ao ver que era apenas ele, e não meu pai. , que ainda ria do susto tomado, passou a andar pela parte da piscina que lhe dava pé, levando-me junto de si. Tinha me esquecido do quão boa era a sensação de ficar na água, apenas relaxando.

— Faz tanto tempo que não entro numa piscina… — Comentei, de olhos fechados, agarrada a ele.

— Por que não? Seu pai poderia instalar algumas barras nas laterais, para que você pudesse entrar de vez em quando. — Me remexi desconfortável, eu não queria falar sobre aquilo com ele, me arrependi de ter aberto a boca. Estava tentando imaginar um conto de fadas onde eu era apenas uma garota normal ali, vivendo o sonho de milhares de adolescentes ao redor do mundo e passando uma madrugada ao lado de . Só.

— Eu não gosto de estar junto dos hóspedes. — De ninguém desconhecido, para falar a verdade. Pessoas desconhecidas faziam perguntas, me lançavam olhares curiosos. Eu não queria ter que contar e recontar toda a droga da história sobre o que aconteceu naquele acidente.

— É, eu percebi. — Deu uma risadinha, fazendo-me encará-lo irônica. — Só te vi no restaurante uma vez desde que cheguei aqui.

— Estava me procurando para que, Sr. ? — Levantei uma das sobrancelhas, sugestiva, e um sorriso surgiu em seus lábios quando ele reparou na minha cara e revirou os olhos em seguida.

— Para te pedir desculp…

— Não! Pelo amor de Deus, chega dessa história, ! — Implorei, ouvindo sua gargalhada com o meu drama. — Se eu te ouvir me pedir desculpas mais uma vez, juro que te afogo nessa piscina!

me olhou com um ar desafiador, fazendo-me semicerrar os olhos em sua direção. Ele estava mesmo duvidando da minha palavra? me roubou um selinho antes de sorrir sapeca, rindo baixinho ao voltar a encarar meus olhos.

— Me desculpa.

Avancei contra seu corpo, tentando afundá-lo pelos ombros. Lógico que não lhe fiz nem cócegas, porém mesmo assim arranquei algumas gargalhadas dele. O som se misturava com minha risada, reproduzindo ruídos esquisitos que apenas me davam mais vontade ainda de rir. Nos debatíamos jogando água para todos os cantos e eu tentava me segurar a ele, a fim de não me afundar na piscina. Minha barriga já doía, fazia tanto tempo desde a última vez que tinha gargalhado tanto.

! — Meu pai surgiu da porta no final do jardim. e eu nos entreolhamos de olhos arregalados. Daquela vez não era um simples esquilo, mas ele era tão inofensivo quanto. — O que está fazendo aí uma hora dessas? — Seu tom se agravou quando seus olhos azuis focaram em , que me segurava pela cintura, tenso, ao julgar pela forma que me apertava.

Ele tinha sido inofensivo nos últimos 24 anos da minha vida. Não sabia o porquê, mas meu pai pareceu possesso naquele momento.



Capítulo 5

— Pai eu…

— Você é um irresponsável! — Esbravejou com o dedo em haste apontado para , que abriu e fechou a boca sem emitir som algum, visivelmente desconcertado. — Tirou minha filha da cadeira para colocá-la em risco, por acaso esqueceu que ela não pode nadar? E se a deixa cair na piscina e acontece algo com ela?

Arregalei os olhos diante daquele exagero todo, enquanto ele vinha em passos largos em direção à piscina, mamãe vinha logo atrás, também espantada com o exagero dele e tentando acalmá-lo sem sucesso. Ambos vestiam seus pijamas e a cena de vê-los daquele jeito em plena piscina da pousada seria hilária se não fosse pela tensão do momento.

Eu sabia que não poderia nadar, andar e mais um milhão de outras coisas, ele não precisava lembrar daquilo justo no único momento em meses que eu pude chegar perto de ter a fantasia de que ainda podia fazer tudo aquilo. Fiquei possessa ao vê-lo fazer aquela tempestade em copo d’água, me tratando como se eu fosse uma criança corrompida!

Tinha 24 anos e o fato de eu estar dependendo deles para realizar algumas tarefas não significava que eu tinha voltado a ser uma criança. Porra! Eu não tinha entrado naquela piscina obrigada por ninguém.

— Foi errado mesmo. Me desculpe, Sr. . — Encarei incrédula, ainda agarrada a seu pescoço. Aquele idiota iria mesmo se desculpar e dar razão ao surto desnecessário do meu pai? Sério mesmo?

— Por Deus, pare de se desculpar! — Ordenei, ignorando meu pai, já na borda da piscina. — Pai, pare com esse dramalhão!

— Querido, ela tem razão, já é adulta e tenho certeza que tomaram cuidado.

— Traga-a aqui! — Ignorou mamãe, que suspirou derrotada e levou as mãos ao rosto.

assentiu, movimentando-se na água até chegar na parte mais rasa que lhe dava pé, logo chegava próximo de meu pai, que tinha as mãos estendidas para me pegar. Revirei os olhos, impaciente, sentindo-me um objeto sem vontade própria. estava tão sem graça que nem ao menos sabia o que dizer, só pedia desculpas para meu pai.

Tinha certeza de que ele nunca tinha passado por algo tão bizarro em toda sua vida. Com certeza, iria rir de mim quando estivesse longe o suficiente para que eu não pudesse vê-lo. Eu queria sumir da face da Terra.

— Eu vou pegar toalhas para vocês. — Minha mãe correu para de dentro, nos deixando sozinhos. Suspirei derrotada, a única pessoa que poderia me ajudar a acalmar meu pai tinha saído.

— Pode até pegar um resfriado indo dormir com esse cabelo todo molhado, . Não pode ficar cometendo essas loucuras, filha. — Sua voz soou mais amena, porém eu continuava furiosa pelo vexame que ele estava me fazendo passar.

Antes eu podia. Chegava de madrugada de baladas que ia com amigas, ia para praia com namorados e passava dias fora, ia para concursos sozinha em cidades vizinhas e longe de casa. Ele nunca falou nada. Ao que parecia, o problema era aquela maldita cadeira, que aparentemente me roubou o intelecto e o senso de responsabilidade segundo meu pai.

— Pai, pare de me falar o que eu posso ou não fazer! — devia estar no auge do desconforto tendo que presenciar aquela discussão ridícula, principalmente depois do que acabou de ouvir. — Está calor, meu cabelo vai secar em cinco minutos! Deixe eu me divertir um pouco ao menos uma vez na vida!

Quando eu pronunciei a palavra “divertir”, os olhos do meu pai repararam que estava apenas de cueca. Sua testa se franziu e eu tive certeza de que precisava de um milagre para que meu pai não desatasse a falar um monte de besteiras para , mais uma vez, como se eu fosse uma criança que foi obrigada a ficar com ele.

— Aqui, as toalhas. — Salva pelo gongo.

Mamãe colocou uma envolta de meus ombros antes de meu pai praticamente me arrancar dos braços tatuados de com uma cara de poucos amigos. Ela deu uma para ele também, ficando tímida ao ver que ele estava todo molhado e de cueca na frente dela. Vi o sorrisinho sem graça dele e quase caí na risada. Aquela noite tinha tudo para acabar em risos, porém meu pai ainda estava estragando tudo.

— Obrigado. — Ouvi sua voz enquanto era levada de volta para a cadeira, suspirei observando meu pai ajeitar meus pés nos apoios e passar a me secar mesmo que de modo superficial. — Peço desculpas mais uma vez. — Papai se posicionou atrás da cadeira e começou a empurra-lá em direção à porta. — Boa noite, Sr. e Sra. . — Apenas minha mãe lhe respondeu, vindo conosco. — Boa noite, linda!

Tentei me virar o máximo que pude para espiá-lo, encontrando-o ainda parado perto da piscina, segurando a toalha com uma das mãos, enquanto com a outra acenava sorrindo. Voltei à minha posição inicial, tentando esconder o sorriso que lutava para se formar em meus lábios enquanto negava com a cabeça.

Meu pai me deixou no quarto, ainda resmungando sobre minha situação, que eu não poderia sair de casa escondida em plena madrugada, que podia ser alguém mal intencionado e blá, blá, blá… Não o escutava, estava tentando manter minhas memórias recém feitas em minha cabeça.

Afinal de contas, iria demorar muito para que algo incrível como aquela madrugada me acontecesse novamente.

— Vá se deitar, querido, amanhã vocês conversam. — Mamãe o empurrou levemente para fora, não antes de ele vir até mim e me dar um beijo na testa, igualzinho fazia quando eu era menor. — Eu já estou indo, só vou ajudar a se secar e trocar as roupas.

— Não precisa mãe, eu me viro. — Desdenhei, já indo com a cadeira para a entrada do banheiro.

— Filha, — Virei o pescoço em sua direção, vendo-a parada no batente da porta, segundo-a pela maçaneta antes de ir e fechá-la por completo. — faz tanto tempo que não te vejo sorrindo assim. Espero ainda ver esse sorriso nos seus lábios amanhã. Boa noite, meu amor.

— Boa noite, mamãe. — encarei a porta fechada enquanto suspirava ao me ver sozinha no quarto.

Parecia que eu tinha acabado de acordar de um sonho bom. Estava com aquela sensação esquisita de ficar triste por ter consciência de que era só um sonho e querer voltar a dormir para sonha-ló de novo.

Infelizmente. aquela noite foi apenas um sonho que não iria ser retomado. Eu não o encontraria novamente, partiria na noite seguinte e voltaria a ser apenas o cantor distante o bastante para ser visto apenas pela tela de um celular ou computador. Mas, mesmo se ele ficasse, sei que eu jamais teria uma chance concreta com ele. Era ! Aquela experiência era algo que guardaria comigo, afinal se eu contasse a alguém, ninguém acreditaria mesmo.

[…]


Despertei no outro dia e senti uma preguiça enorme perdendo-me contra a cama que me abrigou noite passada, quer dizer, apenas por algumas horas. Levantei-me caindo de sono, tinha dormido muito pouco, apesar de não estar animada para encarar o dia sem uma noite de sono decente, tinha que estar na recepção durante o dia todo. Tinham dias que era difícil levantar da cama e encarar o mundo do lado de fora do meu quarto, era complicado ter que deixar minha zona de conforto.

Encarei-me no espelho sentindo-me estranha, suspirei em meio àquela confusão de sentimentos que me invadiam a cada vez que me lembrava o que me manteve por tanto tempo fora da cama na noite passada. Ao mesmo tempo que sentia um frio na barriga ao me lembrar de tudo, sentia o constrangimento me atingir em cheio pelo jeito como tudo acabou. E, por fim, uma tristeza enorme ameaçava se apossar do meu coração.

Eu queria poder viver aquilo mais vezes, estar nos braços de alguém, beijar outra boca, sentir-me desejada do jeito que fui quando estava com . Apesar de ainda ser inacreditável que ele tinha tido vontade de ficar comigo, fazer todas aquelas coisas e me dizer todas aquelas palavras, eu senti que tudo entre nós foi recíproco. Me peguei desejando que não fosse aquela celebridade gigante, queria que ele fosse apenas um cara normal que estranhamente tinha tido algum tipo de interesse em mim e pudesse ficar comigo.

Parei de pensar naquilo imediatamente. Sabia o quão traiçoeira nossa mente poderia ser, não queria e nem iria fazer com que vivi com se transformasse num romance de conto de fadas na minha cabeça, aquela era uma cilada e das grandes. Não podia me apaixonar por alguém como ele, ainda era alguém inalcançável e fora da minha realidade. Talvez, se o tivesse conhecido antes do acidente, as coisas poderiam acontecer de alguma forma entre nós.

Mas não.

Era tarde demais para que eu pudesse querer algo tão incrível como fazer parte da vida dele. Eu não era mais uma garota linda que estava conseguindo um espacinho no mundo da moda, com um futuro promissor nas passarelas e capas de revistas. Jamais conseguiria me imaginar debaixo de holofotes novamente. Só de pensar minhas mãos já tremiam em pânico.

Terminei de me ajeitar e saí do quarto finalmente acordando para o mundo real. Afinal, tudo aquilo que se passou em minha cabeça era utópico demais para ser realidade. Como num dos romances de Shakespeare, eu tinha sido apenas uma diversão em uma noite de verão para . E ele… Bom, ele também tinha sido a minha, só que diferente dele, tinha sido minha única.

Adentrei a cozinha já vendo meus pais tomando café da manhã em silêncio. Sorri amarelo, me aproximando da mesa, onde meu lugar já estava demarcado pelo espaço entre as cadeiras. Papai me encarou por cima dos óculos e voltou sua atenção para a comida, fazendo-me trocar olhares tensos com minha mãe, que apenas encolheu os ombros.

— Bom dia. — Apenas ela respondeu. Suspirei pegando meus talheres para começar a saborear meu omelete. — Pai, o senhor vai falar algo sobre ontem ou vai continuar a me ignorar o dia todo? — Me direcionei a ele, que engoliu o conteúdo que tinha na boca e deu uma grande golada em seu suco de laranja.

— Não tenho nada para falar sobre ontem, sua mãe me disse que minha opinião não importa mais, visto que você já é uma mulher adulta. — Revirei os olhos diante do drama.

— Eu não disse isso! — Ela protestou, incrédula com a distorção dele. — Só falei que era adulta, e que você não tem o direito de espantar pretendentes dela assim, sem antes conhecê-los! — Meu Deus, eram dois exagerados mesmo.

— Pretendentes? — Vociferei tomando um pouco de suco para evitar o engasgo depois de ouvir aquilo. — Mãe, calma lá! e eu não temos nada e nem vamos ter.

— Me pareciam bem íntimos ontem a noite, ele até estava de cuecas. — O comentário ácido vindo de papai me fez enrubescer de tanto constrangimento. Eu definitivamente não estava a fim de detalhar o que aconteceu naquela piscina com meus pais.

— Não somos íntimos, nos conhecemos em um dia só e conversamos por menos de uma hora. — Apesar de saber que ambos discordavam daquela afirmação, eu sabia que não éramos! Nos agarramos na piscina e trocamos alguns beijos, mas aquilo não significava intimidade.

— Pareceram se dar bem. — Se ela soubesse a idiotice que tinha me dito na primeira vez que me dirigiu a palavra, não falaria aquilo. — Formariam um casal bonito. — Sorriu satisfeita, fazendo-me levar a mão a minha têmpora e massageá-la.

E eu estava preocupada com minha própria mente romantizando o acontecido, nada era pior do que meus pais achando que eu iria me casar simplesmente por ter ficado com alguém por uma noite.

— Não mãe, não existe casal nenhum. — Disse, já exasperada. — Ele vai embora hoje e nunca mais vai voltar, só estávamos nos divertindo! Não tem nem motivos para o papai ter ciúmes dele ou a senhora querer que tenhamos algo!

— Se você diz… — Mamãe encolheu os ombros, terminando o próprio suco. Ouvi papai respirar aliviado e me voltei para meu prato, finalmente iria comer em paz. — Mas ele é bem bonito, né? — A encarei assustada pelo comentário, enquanto isso papai parecia um vulcão, prestes a entrar em erupção do outro lado da mesa. — Aquelas tatuagens...Parece os rockstars do meu tempo da adolescência…

— Laura! — Ele a repreendeu, igualmente assustado.

— O que foi? Eu não sou cega! — Prendi o riso ainda vendo-o incrédulo. — Se foi algo casual, espero então que você ao menos tenha tirado uma casquinha… — Ela não parava!

Pisquei para ela, rindo contra o copo que estava em minha boca enquanto eu terminava meu suco. A ouvi comemorar exageradamente, parecia que eu tinha acabado de dar meu primeiro beijo. Papai largou tudo à mesa, resmungando que iria ir na frente, deixando-nos rindo sozinhas.

— Filha, não quer ir passar um batonzinho não? — Ergueu a sobrancelha, sugestiva.

— Não, mãe — Sorri sem graça, deixando a mesa. Não tinha porque eu me arrumar, só apareceria naquela recepção para devolver as chaves e ir embora. Isso se ele não mandasse alguém fazer por ele. — vou só escovar os dentes e já vamos pra recepção. — apesar da negativa que recebeu, mamãe não apareceu se abalar.

Ela estava tão radiante ao saber que eu tinha finalmente beijado alguém após quatro meses de seca, que nada parecia ser capaz de tirar o sorriso de seu rosto.

Passamos a manhã em função de organizar o checkout de e sua equipe. Eu a auxiliei enquanto ela organizava algumas reservas que tinham sido feitas após a visita de na nossa pousada. Ele tinha feito uma propaganda involuntária ao atrair tantos fãs para a porta do estabelecimento do meu pai nos dias em que esteve hospedado ali. Mas, ao que parecia, tinha acabado de ganhar um hater, porque mesmo depois da ajudinha nos negócios, meu pai não iria esquecer que ele tinha pegado sua filha debaixo do nariz dele.

Eu editava minha planilha no computador enquanto ouvia minha mãe cantarolar uma música qualquer quando de repente ela ficou quieta ao meu lado.

! — A encarei de testa franzida ao ouvi-la sussurrar. — Não olhe agora, mas ele está vindo pra cá! — Às vezes, eu achava que minha mãe era uma adolescente presa num corpo de uma mulher adulta.

Infelizmente, eu sucumbi a minha curiosidade e olhei para a porta, de onde entrou vestindo apenas uma bermuda amarela e um boné virado pra trás. Quando desviei os olhos dele já era tarde demais. Nossos olhares se cruzaram e eu passei a encarar a planilha do Excel, como se fosse a coisa mais importante do universo.

— Boa tarde. — Fingi digitar algo e o respondi sem tirar os olhos da tela, demonstrando desinteresse. O que ele estava fazendo ali?! Mamãe o respondeu de imediato, mesmo sem olhá-la, eu já sabia que estava sorrindo para ele.

— E-Eu vou na dispensa… — Olhei para minha mãe em puro desespero. Não acreditava que ela estava fazendo aquilo comigo! — pegar… pegar um grampeador. — Levantou os papéis que tinha nas mãos, sorrindo forçadamente.

— Aqui na gaveta tem um. — Fui rapidamente abrindo-a e apanhando o grampeador vermelho que realmente estava ali dentro.

— Não! Eu preciso pegar mais grampos também. — Abanou o ar, levantando-se e indo em direção à portinha de saída da recepção. Suei frio ainda sob o olhar de . — Vou precisar de muitos grampos… fique aí, eu já venho!

Suspirei, derrotada, quando me vi sozinha ali. Aliás, sozinha não! continuava ali, sem camisa, debruçado sobre o balcão e exibindo suas tatuagens um tanto abstratas gravadas em seu antebraço.

— Em que posso ajudar? — Tentei ser profissional, olhando-o no rosto pela primeira vez naquele dia. Depois do que fizemos na piscina.

Talvez eu precisasse me acalmar! Afinal, às vezes realmente estava precisando de alguma coisa, assim como todos os hóspedes, ele foi atrás de funcionários para auxiliá-lo! Era isso! A única explicação plausível para o fato de ele estar ali, querendo falar comigo depois do modo como meu pai o acusou como se ele tivesse cometido um crime terrível.

— Em nada, eu vim aqui para te ver. — Engoli a seco.

Ele estava se saindo um péssimo pop star galinha e sem coração, se perdeu no personagem indo me procurar após passar uma noite incrível ao meu lado,. deveria seguir o script e sumir sem dar explicações! Não que eu esperasse que ele me desse alguma de qualquer forma. Eu li as matérias sobre e sua vida amorosa agitada, cheia de altos e baixos. Será possível que nem em tabloides de fofocas de celebridades se podia confiar?

— E por que exatamente você faria isso? — soltou uma risadinha, deixando suas covinhas charmosas à vista.

— Será que vou ter que te beijar de novo para você voltar a sorrir pra mim? — Aquela voz rouca… tentei segurar o riso que escapou de meus lábios. — Estou falando sério, , vim te ver, me arriscando a encontrar seu pai no meio do caminho e é assim que me trata? — Fez-se de ofendido. Ele era um bom ator, tinha que admitir.

Meu pai! Era isso! Olhei para o walk talk do outro lado da mesa e cogitei a possibilidade de ir até ele e chamar meu pai com urgência naquela recepção, antes de explicar o que diabos estava fazendo ali. Seria um bom plano, se eu não estivesse nervosa demais com a presença dele ao ponto de sentir minhas mãos trêmulas.

— Sobre isso, fique tranquilo, eu já conversei com ele e expliquei a situação toda. — arqueou as sobrancelhas em resposta.

— Você pode me contar o que disse a ele enquanto estivermos jantando hoje à noite, que tal? Estou louco para saber o que disse a ele para que eu não deva me preocupar em ser morto por aí. — Não consegui acompanhá-lo na risada daquela vez.

Desconcertada com o convite, me mantive em silêncio, tentando pensar em algo para me livrar dele. A única coisa que me vinha à cabeça eram as memórias da noite passada. Elas não estavam me ajudando em nada.

Um jantar seria incrível, porém eu não conseguia achar tão incrível assim quando tinha plena ciência de que quanto mais tempo juntos passássemos, mais eu corria o risco de cair de amores por ele. Não me parecia nada vantajoso gostar de alguém que está prestes a, literalmente, sumir mundo afora.

— Ah, eu adoraria jantar com você, , porém não costumo sair muito da pousada... — Era verdade, eu não me sentia pronta para ir a um encontro, mesmo que fosse algo bem casual.

— Sei que disse que não curte lugares cheios, não se preocupe, falei com o dono de um dos restaurantes próximos daqui e consegui que fechassem mais cedo para nos receber a sós. — Arregalei os olhos com a naturalidade com que tinha dito aquilo.

Os restaurantes que rodeavam a pousada de papai eram disputadíssimos em reservas, ainda mais num sábado à noite! devia ter prometido uma quantia bem significativa para convencer algum deles a ficar fechado justo no horário em que mais se lucrava por ali.

Mesmo assim, ainda não sentia que devia aceitar. Ainda me sentia insegura, talvez fosse melhor seguir meus instintos e não me prolongar com . Ele era tão amável e engraçado que me tornava um alvo fácil diante dele. Não queria me arrumar mais problemas do que já tinha me envolvendo demais com ele.

Além do mais, só eu sabia o trabalho que dava para os outros quando resolvia sair de casa. Não queria ter que precisar de até para sair do carro e ir até o restaurante.

— De qualquer forma, terei que recusar. Algumas das minhas amigas estão vindo de longe para passar a noite em casa, faz tempo que não as vejo, sabe? Infelizmente não vou estar disponível hoje. — Comprimi os lábios num sorrisinho amarelo, recebendo um igual em troca.

— Ah, que pena… — Me senti um monstro por mentir daquela forma para ele, que tinha as melhores intenções do mundo. — Tudo bem, . Eu acho que já vou indo, tenho que me preparar para o show… — coçou a nuca, desconfortável, se afastando do balcão. — De qualquer forma, foi bom te ver. — meus batimentos vacilaram por alguns instantes, não consegui esconder o sorriso que brotou em meus lábios.

— Tchau, . — Acenei em sua direção e o assisti me dar as costas.

Suspirei sozinha, me sentindo uma completa idiota.

Tinha vontade de chamá-lo de volta e me desmentir, ou até mesmo inventar uma desculpa qualquer para justificar o fato de eu ter deixado minhas amigas de longe de lado só para sair pra jantar com ele. Ali, eu enxerguei o auge da minha mediocridade: mentir sobre ter amigas para me visitar e fugir de um encontro com um cara incrível e lindo por medo e vergonha de mim mesma.

Eu merecia ficar sozinha mesmo.



Capítulo 6

Pisquei rapidamente com meus olhos ardendo pelas lágrimas que eu tentava com todas as forças segurar.

, por que fez isso? — Dei um pulo de susto quando mamãe surgiu do nada na porta, encarando-me com a testa franzida e olhos arregalados. — Por que mentiu pra ele desse jeito?

— Porque… porque eu não queria sair com ele, por isso inventei uma desculpa qualquer. — Ri sem humor, dando de ombros, ainda com a voz oscilando e tentando não denunciar minha tristeza.

— Não minta pra mim, eu te conheço desde que você veio a esse mundo, filha. — Ok, ela estava brava. Mamãe odiava mentiras, eu também, porém passei a contar pequenas delas para aprender a me defender do que me assustava ou ameaçava.

— Vou ao banheiro, já venho. — Desviei de seu corpo ainda parado próximo à porta e abri a porta que dava acesso ao quintal de casa, colocando força nas rodas para ir o mais rápido possível.

Eu só queria ficar sozinha um pouco e chorar em paz.

Ann , eu te fiz uma pergunta, o que fez de tão ruim para que você se recuse a sair com ele? Ontem você estava tão leve, feliz!

Parei onde estava no corredor, segurando o choro e já sabendo que teria que contar a verdade a ela, que tinha largado até a recepção vazia para ir atrás de mim arrancar uma explicação plausível.

— Nada, mãe, não fez nada além de ser gentil e amável. — Afirmei com a voz embargada. Era a mais pura verdade, ele era incrível, o jeito como ele me beijou… Me fez até esquecer do nosso começo tortuoso.

— Então po rque está tentando sabotar tudo ao invés de aproveitá-lo enquanto ainda está aqui? — Teimou, exasperada. — Se você mesma disse que era algo casual, saia para jantar com ele e divirta-se pelo menos mais uma vez!

— Mãe, a senhora não entende! — Levei a mão ao rosto, sentindo o coração doer só de pensar em ter que falar na frente dela e em voz alta tudo o que estava se passando na minha cabeça naquele momento. — Olhe para mim! Como eu posso pensar em sair para me divertir com um cara como ? Que é o centro das atenções por onde passa! O que acha que vão falar quando o virem em público com uma garota como eu? Não quero que as pessoas me olhem com pena e nem que comentem por aí que fez uma boa ação ao levar uma deficiente para jantar.

Sua respiração falhou e eu enxerguei em seu olhar uma grande decepção em meio às lágrimas que brotaram em sua linha d’água. Eu sabia que ela não iria gostar do que iria ouvir, por isso geralmente ficava calada e escolhia não desabafar e dividir com ela e papai as coisas horríveis que tinha dentro de mim. Eu sabia que iria machucá-los, e eles eram as últimas pessoas que eu queria ver sofrer por minha culpa.

— Eu cometi um erro terrível ao te inscrever em tantos concursos de beleza quando você era pequena demais para se importar com os olhares alheios. — Solucei, encarando-a sem expressão.

Não sabia se concordava com o que ela me dizia, só sabia que aquela era eu, a que cresci sendo, e não achava que iria mudar meu jeito de pensar tão cedo. A opinião dos outros sempre me interessou demais, e estar naquele estado após tantos anos recebendo elogios sobre minha aparência fazia-me sentir deplorável.

, não pode deixar de se permitir viver bons momentos se preocupando com o que os outros vão pensar! — Suspirei alto, secando minhas lágrimas. Não, ela nunca entenderia. — A vida não é um concurso, não há certo ou errado quando se está tentando algo novo! Saia com esse garoto sem medo de ser feliz!

— Não é só com os olhares alheios que me preocupo, mãe. — Engoli a seco o nó que se formou em minha garganta. — Também é sobre , ou a senhora acha que ele vai se contentar em ficar só nos beijinhos? — Arqueei as sobrancelhas, sugestiva. Minha mãe levou as mãos ao rosto. — Sabe o que acontece depois da janta quando um casal sai, mesmo que as pessoas estejam juntas casualmente? — Mesmo que fosse uma resposta óbvia, me senti na obrigação de falar em alto e bom som. — Elas transam. E eu sei que não conseguirei dar o que ele quer, por mais que queria muito ir pra cama com , sei que não sou capaz de satisfazê-lo.

— Você não sabe. — Negou com a cabeça veemente, já derramando lágrimas de pura tristeza ao me ver daquele jeito frágil. — Se quiser podemos ligar para seu médico, não sei, tirar dúvidas…

— Não! — Exclamei ofegante. — Já viu as garotas que ele levou para a cama? Não quero nem tentar nada com , eu sei que não vou conseguir chegar aos pés delas. — Péssima escolha de palavras, porém, bastante autoexplicativas. — O dispensei, porque vai ser melhor assim. — sequei minhas lágrimas rapidamente. — Não vai fazer diferença alguma, mãe. já está indo embora. Eu vou ficar bem.

Assenti com a cabeça para minha própria afirmativa tentando acreditar piamente no que estava dizendo. Eu tinha que ficar bem. E mesmo temendo que aquela decisão poderia me trazer arrependimentos futuros, ela estava tomada. Já tinha dispensado , já estava feito.


[…]


Tomei um banho longo e relaxante quando cheguei em casa após um dia inteiro naquela recepção. Foi um dia cansativo, não só pelo número grande de hóspedes que estávamos comportando naquele verão, mas também pelo clima que pesava toneladas que ficou entre mim e minha mãe. No horário de almoço, ela mal olhou na minha cara, papai perguntou o que houve, porém ela não respondeu e o deixou desconfiado, criando teorias em sua própria cabeça.

Tinha ciência que o que ela escutou a magoou, sabia que eu estava habituada com meus próprios pensamentos, mas expô-los poderia ser destrutivo para alguém que se importava tanto comigo. Mas ela não entendia que aquele era apenas o modo que escolhi lidar com tudo aquilo! Com sinceridade, eu tentava enganá-los fingindo que estava bem, mas jamais poderia mentir para mim mesma.

Fui direto pra cama sem aceitar jantar. Meus pais ainda estavam decidindo se pediriam comida fora, afinal de contas, estávamos todos muito cansados para pensar em cozinhar. Vi um filme comendo um pouco de pipoca e quando me preparei para dormir, inconscientemente olhei de relance para o relógio. Já estava tarde o bastante para que o show de tivesse terminado, provavelmente ele tinha saído para jantar com sua equipe ou com outra pessoa. Me vi sentindo a mesma sensação de vazio que tive no dia anterior, quando recusei seu convite para o show da noite passada.

No fundo, estava aliviada por saber que ia embora de vez e que ele não tentaria me convidar para mais nada. Depois do segundo não, nem que ele ficasse mais uns dias iria tentar insistir em mim. Era melhor daquele jeito, eu não valia toda aquela insistência, nem ele devia ter tempo para perder comigo.

Desliguei o notebook, apenas o afastando do meu tronco na cama, estiquei-me para pressionar o interruptor quando ouvi batidas na porta. Estranhei, meus pais geralmente entravam sem bater.

— Mãe? — Chamei em dúvida. A porta se abriu, revelando alguém completamente inesperado por mim, porém que havia acabado de estar presente em meus pensamentos. — ?

Ele me sorriu sem graça. Atrás dele, mamãe surgiu com seu sorrisinho cheio de segundas intenções, de ombros encolhidos quando percebeu minha expressão facial. Eu podia não ter um espelho ali, naquele momento, mas sabia que minha cara não deveria ser das melhores.

Contrariando minha mente e meu temperamento, meu coração se acelerou ao vê-lo ali, mais uma vez vestindo seus jeans e com os cabelos levemente molhados. Seu perfume misturado com um cheiro de frescor viajou pelo ar até minhas narinas. Ele parecia ter acabado de sair do banho, e sua expressão, apesar de feliz, demonstrava cansaço. Por que diabos tinha acabado de sair de um show e ao invés de descansar estava ali, querendo me ver?

— Sua mãe me contou a verdade. — Virou-se minimamente para trocar olhares com ela, que assentiu, ficando séria. Desde quando eles eram cúmplices daquele jeito? Ela literalmente só trocou algumas palavras com ele!

— Desculpa, querida. — Ouvi sua voz e me direcionei a ela, que apenas esticou o braço e puxou a maçaneta deixando-nos a sós.

suspirou, encarando-me sério daquela vez, me fez um gesto que interpretei como uma cobrança. Mordi o lábio inferior, culpando-me por ser tão burra. Era só eu ter dado um fora nele, não inventado uma história que poderia ser desmentida por qualquer funcionário daquela pousada.

— Ok, você descobriu, eu não tenho amigas. — Com a voz contida, confessei minha mentira, sabendo que era coisa que eu falaria sobre meus motivos de dispensá-lo, se é que minha mãe não já tinha dado com a língua nos dentes e contado tudo a ele. — Era tudo uma mentira para não sair com você.

— Não queria mesmo ir jantar comigo? — Levei a mão aos meus cabelos soltos, puxando-os para trás em incômodo.

— Sim, eu queria. — Disparei, evitando olhá-lo no rosto. — Mas…

— Se queria, então por que mentiu? — Me interrompeu, vindo até a cama e sentando-se próximo de mim. Respirei fundo, sem voz para respondê-lo. — Eu sei que a ideia de sair comigo pode ser assustadora dada as proporções que tudo toma na internet hoje em dia, mas você não precisaria se preocupar com isso, . Eu jamais iria te expor na mídia ou a ninguém! Iríamos sair discretamente, sem nenhum alarde.

— Não, não. — Fechei os olhos com força. Ninguém era capaz de me entender, porque ninguém estava passando por aquilo no meu lugar. — , isso não é sobre você e a mídia, é sobre mim, como eu me sentiria se fosse vista com você. — Argumentei, sentindo os olhos arderem.

Parecia impossível alguém se colocar em meu lugar ao menos uma vez na vida. Sempre agiam como se eu estivesse perdendo minha sanidade por ter vergonha e não querer ser vista por ninguém. Eu não estava louca por não querer receber olhares de pena, muito pelo contrário, estava bem lúcida e apenas queria ficar confortável comigo mesma! Por isso, escolhia ficar em casa.

— Espera, acha que eu reservei o restaurante só para nós, porque estava com vergonha de ser visto com você? — Suas sobrancelhas se juntaram e pela primeira vez o vi bravo. Na verdade, sua voz denunciou muito mais que aquilo, estava ofendido. — Qual é a porra do seu problema? — Se levantou indo rapidamente até a porta.

Ofeguei em reprovação enquanto sentia meu rosto se esquentar em vergonha, o choro me subiu à garganta e eu me vi na obrigação de respondê-lo. Não somente porque não queria deixá-lo ir, mas também porque tinha sido o único a ter coragem de se enfurecer comigo ao ponto de me fazer aquela pergunta.

Ninguém se importava com o que eu estava sentindo, o fato de eu estar viva já era considerado algo incrível por todos a minha volta.

— Sério que não consegue ver? — Tive tempo de impedir sua ida quando sua mão alcançou a maçaneta. — Olhe pra mim, . — Senti meu queixo tremer e meu coração se descompensar. Quando se virou, seus olhos verdes focaram-se em minhas pernas imóveis sobre a cama. Ele finalmente tinha entendido o que me incomodava. Me surpreendi, foi tão fácil para ele. — Aproveitando que está aqui, olhe em volta, veja aquela parede.

Apontei para onde minha mãe tinha insistido em colocar minhas faixas expostas. Tinha ciência de que aquele gesto foi para me motivar e lembrar das coisas boas que já vivi ao longo da vida, porém às vezes surtia o efeito contrário. Havia dias que eu não suportava nem olhar para elas direito.

— Olhe bem para essas faixas, para as fotos. Essa sou eu, a real , essa sim deveria sair com você, não… essa que está vendo nessa cama.

franziu a testa ao se aproximar dali, esticando a mão e pegando uma das faixas, estendendo-a para ler o que tinha escrito nela.

— Há mais de quatro meses, eu era coroada Miss do estado da Califórnia. Estava tão feliz que nem consegui dormir na noite em que ganhei o concurso, de tanta empolgação.

Estiquei-me, apanhando a coroa em minha cômoda, passei os dedos pelo metal brilhante, sentindo as lágrimas descerem pelo meu rosto. A costumeira dor me atingiu o peito, parecia que um peso invisível me comprimia o tórax, deixando-me sem ar. Solucei audivelmente, atraindo sua atenção.

caminhou até um dos quadros expostos, era uma foto minha vestindo um dos meus vestidos de gala, com uma sandália de salto linda e uma pose imitando o famoso tchauzinho de miss, vestindo minha faixa junto da coroa em minha cabeça. Meu sorriso podia ser visto há quilômetros de distância, eu estava tão radiante que chegava a brilhar.

— Você está… Incrível. — Murmurou com o porta-retrato nas mãos, seus olhos estavam vidrados na garota da foto. Era aquele olhar que eu costumava receber antes.

Concordei com ele, comprimindo meus lábios e vendo-o com dificuldade por conta das lágrimas acumuladas em meus olhos.

— Eu ia concorrer no Miss Universo, realizar o meu maior sonho, e tudo isso foi por água abaixo. Todos esses anos e prêmios perderam seus valores, como se nunca tivessem sido importantes, porque no final das contas eles eram apenas o percurso que eu teria que percorrer até chegar onde tanto almejei. — Tremi os lábios em nervoso, doía tanto falar sobre aquilo, mas ao mesmo tempo era tão libertador finalmente conseguir colocar tudo para fora. Mesmo que fosse para um quase desconhecido. — E agora eu nunca vou conseguir, nunca mais vou andar, nem desfilar, está tudo acabado!

Minha mãe deu batidas na porta perguntando se estava tudo bem, provavelmente ouvindo meu choro do lado de fora. já estava sentado na cama ao meu lado, abraçando-me e deitando minha cabeça em seu ombro, onde meus soluços foram abafados. O ouvi lhe dizer que estava tudo sob controle e aquilo pareceu acalmá-la, já que ela não tornou a bater.

— Às vezes, eu penso que deveria ter morrido naquele maldito acidente! — Praguejei entre os murmúrios que soltava enquanto meu abdômen subia e descia freneticamente devido à alta carga emocional que se apossou do meu corpo. Me agarrava a ele, que tinha os dedos emaranhados em meus cabelos tentando me acalmar.

— Não fale assim, . Sua mãe pode estar ouvindo na porta, por favor, não diga isso. — Reagi a sua voz, abraçando-o ainda mais forte. tinha razão, eu não me importava mais comigo mesma, mas sabia que minha mãe morreria se algo acontecesse comigo. — Sei que não sou íntimo o bastante para te dar conselhos, você pode até me ignorar se quiser, mas por favor, não magoe mais as pessoas que estão ao seu lado, não minta como fez comigo, vai acabar afastando todos desse jeito. E eu posso não te conhecer há muito tempo, mas sei que não quer isso. Ninguém é feliz sozinho.

Me sentia culpada por todas as vezes nas quais fui estúpida com meus pais. Primeiro, porque aquela não era eu, eles sempre foram meus melhores amigos, e segundo, porque eu sabia bem que os maltratava e descontava minhas frustrações neles por saber que jamais me deixariam.

Mas não tinha que ser daquela forma. Eles já se doaram tanto por mim, estava me saindo uma filha da puta mal agradecida priorizando apenas minha dor e me esquecendo do modo como eles se sentiriam ao me ver naquele estado.

— Eu não quero ficar sozinha. — Saí de seus braços com muito custo, era incrivelmente confortável estar ali repousada em seu peito.

Estranhamente, parecia encaixar com perfeição. Mais uma vez, me veio a frustração de saber que iria embora e que o que eu mais temia aconteceu: estava gostando tanto da companhia dele que iria sentir sua falta quando ele fosse. E foram apenas dois dias ao lado dele.

— Não vai, você é uma garota incrível, só precisa abrir seu coração e deixar que as pessoas o acessem. — Sorri com seu jeito de falar, sua voz era suave, me acalmou as batidas do coração. Seu toque gentil veio até meu rosto, secando minhas bochechas. — Sei que está machucada e frustrada, não duvido disso, mas acho que só o amor pode ser o antídoto pra dor que você sente.

Talvez ele estivesse certo sobre aquilo. Apenas aquela conversa já provava o ponto dele. Eu estava me sentindo menos pesada ao finalmente poder falar do que me machucou durante meses, já que as pessoas à minha volta nunca me deixaram reclamar e chorar livremente. Não os julgava por se preocuparem e tentarem me fazer mudar de ideia sobre o que eu sentia naquele momento, senti que muitos deles tiveram medo do meu estado emocional regredir ainda mais.

, apesar de ser um desconhecido e praticamente ter caído de paraquedas em meio aos meus problemas, parecia disposto a me ouvir, mesmo que nada daquilo pudesse lhe ser interessante. A aquela altura eu já estava começando a me sentir envergonhada por estar ali, enchendo o saco dele com meus problemas. O encarei em dúvida, o que estava fazendo ali? Digo, o que o levou até meu quarto e o fez ficar e tentar me consolar quando na verdade nada daquilo era sua obrigação?

— Acho que posso tentar fazer isso. — Funguei, tentando sorrir verdadeiramente. — Ainda é difícil aceitar minha nova realidade. — se inclinou sobre mim, beijando minha testa e concordando com o que eu disse. — Tudo ainda é muito recente.

— Quer me falar sobre isso? — Pegou minhas mãos, entrelaçando nossos dedos.

Suspirei assentindo, já ficando nervosa por antecipação. Eu nunca tinha falado sobre aquilo com ninguém, só com a psicóloga que me fizeram consultar quando ainda estava internada no hospital. Mas decidi dividir mais aquilo com , afinal de contas, ele já estava ali mesmo, talvez fosse a hora de começar a me abrir mais para as pessoas.

— Foi num ônibus de viagem, voltávamos de Atlanta na estrada, tínhamos acabado de fazer minhas inscrições para o Miss Universo. Um caminhão invadiu a pista contrária, ficou sem freio, não sei, a única coisa que sei é que ele nos acertou em cheio.

Me arrepiava inteira só de pensar naquela cena se repetindo em minha memória. Não sabia o que estava acontecendo e só tive tempo de olhar para minha mãe antes de tudo começar a girar assustadoramente rápido demais.

— Não deu tempo de nada, lembro de fechar meus olhos e abri-los apenas um tempo depois, quando tudo já tinha acontecido. — Minha voz voltou a embargar, percebeu que estava emocionada, então apertou minha mão na sua, dando-me força. — Acordei com muita gente em minha volta, tentando me tirar das ferragens. Isso me causa pânico de multidões até hoje. Lembro de perguntar sobre minha mãe e escutar que eu precisava me acalmar e que ficaria tudo bem. — Era estranho acreditar que dava para cair no sono no meio de uma situação como aquelas. Mas eu voltei a fechar os olhos e confiei no que ouvi deles. — Um tempo depois, acordei no hospital, já não sentia minhas pernas, me desesperei e mais uma vez ouvi que tudo ficaria bem e que precisava passar por alguns exames. Mas como está vendo, não ficou tudo bem.

— Como você mesma disse, não é algo reversível, nunca mais vai voltar a andar. Mas isso não significa que sua vida acabou, . — Acariciou meus cabelos, colocando-os atrás da orelha. — Você é jovem, tem muito o que viver ainda. Sei que deve ser doloroso ter que abrir mão de um sonho assim, de repente, mas você ainda pode apostar em algo que goste de fazer!

Tinha ciência de que minha cabeça criava cenários catastróficos sobre minha vida, tinha percebido aquilo desde que recebi meu diagnóstico de paraplegia. Eram pensamentos pessimistas que me impediam de pensar sobre o futuro, era como se nada do que eu quisesse fazer fosse possível na cadeira de rodas. Desde pensar em investir num relacionamento, até mesmo sair da pousada para encontrar amigos ou pensar em sair da recepção e procurar um outro emprego.

Eu tive tantos daqueles pensamentos que passei a acreditar neles, por isso tinha me fechado, decidido por continuar naquela vida monótona dentro da pousada e afastando as pessoas de mim. Era confortável viver daquele jeito. Mas, na verdade, ao ouvir os conselhos de sobre tentar coisas novas e seguir com minha vida, eu percebi que tudo o que me paralisava era o medo.

— Sei que quando te sugeri a carreira de modelo você não pareceu curtir, mas já tem experiência com seus concursos, além de ser linda. — Soltei uma risada envergonhada, arrancando um sorriso grande vindo dele. — Se quiser, posso te ajudar com isso, falar com alguns contatos meus, tenho certeza que independente da sua cadeira de rodas, você pode conseguir uma carreira brilhante no mundo da moda.

Não era preciso acompanhar muito tempo para saber que ele era um dos ícones de moda dos últimos anos, seus ternos em premiações e shows e até mesmo os vestidos que ele usava em ensaios sempre deram o que falar e movimentaram a internet, também não era segredo o envolvimento que ele tinha com a Gucci. Era óbvio que com algumas ligações ele conseguiria algo para mim em algum lugar.

Mas por mais que aquela fosse minha oportunidade dos sonhos, eu não poderia me enganar daquela forma. Sentia que jamais conseguiria colocar os pés numa passarela de novo, e infelizmente, não era só no sentido literal da frase, eu realmente achava que travaria caso tivesse que subir e ser analisada por tantos olhares críticos, já que eu mesma nem ao menos conseguia me olhar no espelho sem desferir ao menos três xingamentos ofensivos contra mim, mesmo que em pensamento.

— Muito obrigada, mas… — Ele me encarou pesaroso quando pronunciei aquele “mas”, eu conhecia aquele olhar.

Era o que sempre me davam quando tinham alguma sugestão para me tirar da bolha que coloquei em minha volta para me proteger do mundo externo; sempre que eu negava, recebia o mesmo olhar e tinha a mesma sensação de impotência. Porque eu sabia que todas as ideias eram ótimas e queria colocá-las em prática, mas não encontrava forças em mim para prosseguir.

— Não acho que isso me faria bem, não como antes. Eu não sou a mesma que você vê nesta foto.

Parecia que ninguém era capaz de enxergar aquilo. Mamãe não verbalizava, mas eu sabia que ela queria a filha de volta, tinha aquela sensação desde que deixei o hospital. Sentia como se eu fosse uma impostora, roubando a vida de alguém que era plenamente feliz.

— Tudo bem, como quiser. — Senti meu coração se aquecer com o sorriso amável que ele me deu e consegui sorrir junto, enquanto ainda secava o rosto, envergonhada por todo aquele drama digno de filme diante dele. Tinha certeza de que estava se arrependendo amargamente de ter inventado de querer ficar comigo, devia estar dando graças a Deus por saber que já iria embora e fugiria da verdadeira confusão que era minha vida. — Mas vamos lá, o que mais você gosta de fazer? — Apoiou o rosto no queixo, deixando-me num misto de confusão e encanto.

Encarei seus olhos claros me olhando daquela maneira e me vi completamente perplexa ao vê-lo insistir em me ajudar daquela forma. parecia não existir de tão incrível que estava se mostrando ser! Na noite da piscina, eu achei que ele apenas quisesse trocar beijos e que nunca mais o veria ou teria sua voz rouca sendo direcionada para mim. Mas não, ele estava ali, insistindo em mim como há muito tempo ninguém além dos meus pais fazia.

Ele tinha uma beleza indescritível, não somente por fora, que era bem notável e jamais passaria despercebida, mas também a tinha por dentro. No pouquíssimo tempo que tive ao lado dele, pude enxergar seu grande coração, me entreguei ao encanto de seu ser quando percebi que o meu receio de me apegar a ele era estúpido! tinha uma luz dentro de si que era capaz de cegar e nos deixar alheia a qualquer aviso de perigo e destruir qualquer barreira que construíssemos para repeli-lo. Me vi completamente conformada com o fato de que, sim, eu iria sentir saudades dele, por mais louco que aquilo pudesse soar. Mas, ainda assim, estava tranquila, porque ter alguém como ele ao lado me parecia imperdível demais para me afastar.

— Por que está fazendo isso? — Ri, ainda desacreditada. Ele apenas deu de ombros. — Eu te agradeço pela intenção, mas são meus problemas, você não deveria tomá-los pra si assim. — A mão de alcançou a minha e deixou um afago carinhoso no dorso dela. — Na verdade, acho que a culpa é minha, está cansado do show e eu comecei a desabafar da minha vida, desculpe por isso. — Levei a mão a minha testa, quebrando o contato com a dele.

Ele se aproximou na cama, pegando meu rosto com delicadeza, afundando os dedos largos em meus cabelos e deixando um carinho gostoso na região da minha nuca. Senti seus lábios recém umedecidos tocarem os meus e sorri com o ato dele, deixando-me ser beijada e levando minhas mãos ao seu ombro e pescoço. Minha língua enroscou-se na dele lentamente enquanto meus olhos fechados permitiram-me apenas apreciar as sensações que ele me causava, sem precisar usar a visão para me auxiliar, tornando tudo mais intenso. Meu coração batia rápido e eu me acostumava com aquela reação do meu corpo ao ter outro tão perto do meu daquela forma.

— Pare de se desculpar. — Ainda segurava meu rosto quando soltei uma gargalhada ao perceber que aquilo havia se tornado uma piada interna nossa, e também pelo fato de uma de minhas falas estarem sendo usadas contra mim daquela forma. — Eu quero ajudar, não aceito não como resposta. — Neguei com a cabeça por pura implicância, fazendo-o me beijar em contra-ataque. — Eu gosto do que eu conheci de você até agora, considere uma ajuda de um amigo.

— Meus amigos não costumavam me beijar assim, não. — Ri contra seu rosto, recebendo um revirar de olhos dele.

— Ok, talvez um pouco mais que um amigo. — Murmurou, concordando com a cabeça. — Mas você tem razão, amigos não fazem o que fizemos na piscina ontem, que, aliás, foi maravilhoso. — Beijou minha bochecha, aproximando o corpo do meu. O frio na barriga me atingiu em cheio, fazendo-me arfar contra seu ouvido. — Falando nisso, eu queria te dizer que mesmo eu querendo muito avançar o sinal, sei que você tem o seu tempo, por isso não vamos fazer nada que você não queria depois do jantar. — Seus dedos tiraram os fios de cabelo do meu rosto, enquanto ele falava olhando no fundo os meus olhos.

Quando interpretei o que ouvi, minha única reação foi a confusão. Como tinha percebido aquilo em mim sendo que eu mesma não tinha demonstrado temer ir pra cama com ele? Encarei a porta atrás dele e logo o motivo de ele estar ali no meu quarto me elucidou de minhas dúvidas, mamãe, é claro. Arregalei os olhos, sentindo meu rosto voltar a esquentar violentamente. Como ela pôde falar algo tão íntimo meu para ?

— Eu não acredito que minha mãe te contou! — Levei as mãos ao rosto, cobrindo-o ao me consumir pela vergonha. Meu Deus, o que devia ter se passado pela cabeça dele quando ela lhe contou que eu queria ir pra cama com ele, mas estava com medo? Antigamente, eu não ligava nem um pouco em demonstrar meus desejos, mas as coisas já não eram mais as mesmas na minha vida. — Já não bastava meu pai dando chilique na piscina, agora minha mãe me faz passar mais essa vergonha!

Eu, com toda a certeza do mundo, iria morrer sozinha, e a culpa não seria só minha, meus pais também tinham parcelas de culpa no meu encalhamento.

— Está tudo bem, . — Ouvi sua voz seguida de uma risada breve. tirou minhas mãos do meu rosto, fazendo-me olhar para ele. — Eu nunca iria saber se ela não me dissesse, já que a senhorita não é muito de falar o que sente. — Arqueou as sobrancelhas, sugestivo; não pude nem negar, ele tinha razão. — Devo confessar que foi minha parte favorita da minha conversa com ela. — Mordeu o lábio, agarrando-me pelos quadris, uma de suas mãos deslizou até minha coxa, onde ele apertou. Queria tanto poder sentir seu toque ali.

A frustração me tomou e eu o empurrei pelos ombros, destruindo completamente a atmosfera que tínhamos criado com nossos beijos molhados e línguas cruzando-se entre si. Me vi completamente sem saída, eu não conseguiria ir até o fim com , então a única coisa que me restava era pará-lo quando o sentia avançando. Apesar de ser gentil e ir com calma, eu sabia que não era aquele o desejo dele, o jeito como ele me agarrava deixava explícito que ele queria mais.

— Então, você veio me buscar para jantarmos. — Sorri amarelo em sua direção, , que mexia no cabelo um pouco sem graça, voltou a postura confiante de antes e assentiu em resposta. — Não é um pouco tarde pra isso? Digo, os restaurantes daqui já devem estar fechando as portas.

— Conheço um lugar que topou abrir só pra nós dois.




Continua...



Nota da autora: A nossa pp tem a história inspirada na Madeline Delp, uma Miss que concorreu pela coroa na Carolina do Norte e ficou no top 10, ganhando o título de Miss simpatia na competição. Foi a única cadeirante a participar e ficou bem conhecida ano passado. Gostaram? Me deixem saber nos comentários!
Deixando bem claro que as opiniões expostas aqui não são minhas opiniões sobre pessoas com deficiência. Não é minha intenção ofender ou incitar ódio contra ninguém, é apenas o modo de pensar da personagem.



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