Imprévisible

Última atualização: 25/12/2021

Prólogo

A música soava alto pela cidade, cada homem, mulher, criança, idoso, e até mesmo os andarilhos, haviam saído para comemorar o fim do inverno e o começo de mais uma primavera. Como em todos os anos, uma enorme comemoração estava sendo realizada na praça principal, cada um comemorava e agradecia por algo diferente. Os floristas sequer esperavam a hora de poderem iniciar seus jardins novamente, os agricultores já traçavam planos para as colheitas abundantes que buscavam naquele ano. Todos celebravam a primavera, mas para o Duque Velland e sua esposa, aquela noite tinha muito mais significado. A mulher se encontrava em seus aposentos, cercada de parteiras, serviçais e de seu marido. Havia chegado a hora do nascimento de seu primeiro filho. Marcus Velland estava extremamente confiante naquele momento, seu primogênito prestes a nascer, um menino para carregar seu nome e seu ducado quando ele próprio se fosse.
— Força, minha senhora! – Zuria, a governanta da casa, dizia à sua patroa enquanto segurava sua mão.
— Força, querida. Nosso filho já está vindo! – Marcus andava impaciente de um lado para o outro, mas nunca deixando a lateral da cama da mulher. – Que dia glorioso para se ganhar um herdeiro.
Os gritos de Lady Velland preenchiam a casa toda, seus longos cabelos ruivos já se encontravam úmidos de suor, assim como o tecido fino de sua camisola e as colchas da cama. Os minutos pareciam passar lentamente desde o início da noite, quando os primeiros sinais de que a duquesa estava em trabalho de parto haviam se mostrado. Marcus já começava a se desesperar, acreditando que havia algo de errado com seu filho e sua esposa, porém foi preciso mais um grito alto de Louise. Todos pareceram prender a respiração, o único som no ambiente era o choro da criança recém nascida, que agora era enrolada em um lençol branco e entregue para a mãe. Louise tinha lagrimas nos olhos, tamanha a emoção por finalmente segurar seu filho nos braços, poder finalmente admirar cada detalhe daquele pequeno ser que havia gerado com seu amado marido. Não era segredo para ninguém que o casamento, apesar de arranjado, do Duque Velland com Louise De Vane sempre fora cheio de amor, fidelidade e o grande desejo de ambos de conceber um filho para dar continuidade a linhagem da família. Foram quase cinco anos de casamento, muitas tentativas frustradas, mas, finalmente, haviam conseguido. Tinham seu precioso filho em mãos, seu herdeiro, e não poderiam estar mais felizes.
— Meu senhor, tem algo que eu devo lhe dizer. – Uma das parteiras disse ao ver o duque se aproximar de sua esposa e filho.
— O que é? Há algo de errado com ele? – Marcus questionou ao encarar a mulher. – Diga logo.
— Senhor... Não é um menino. – A mulher de meia idade disse, engolindo em seco ao ver a feição desacreditada do homem. – É uma menina, linda e saudável.
O coração de Louise não poderia bater mais forte quanto naquele momento, tamanho o nervosismo que atravessara seu corpo. Marcus parecia em choque com a notícia desgostosa que havia recebido, enquanto mudava o foco de seu olhar entre a parteira e a criança nos braços de sua esposa.
— Isso é impossível! Você deve esta enganada! – o homem, já sentindo seu corpo tremer de raiva, apontou o dedo para a mulher.
Lady Velland logo tratou de abrir o lençol onde seu, até então, filho estava envolto, para em poucos segundos constatar que o que carregou em seu ventre durante nove meses e agora carregava nos braços, era uma menina!
— Marcus... É uma menina! – a voz desesperada de Louise foi o necessário para o homem se virar para ela.
A única coisa que se passava na cabeça do homem naquele momento era que havia sido enganado. Não por sua esposa, não pelas parteiras ou médicos que diziam que era quase certeza que teriam um filho homem, mas se sentia enganado pelo destino. Era uma brincadeira de muito mal gosto, fazer com que o homem esperasse tanto tempo para receber aquilo em troca. Uma menina! Quando, em todos os anos já passados, uma mulher conseguiu levar para frente um ducado? Era inadmissível para um duque demorar tanto tempo para ter um herdeiro e nascer uma menina.
— Tirem ela daqui! – Marcus vociferou com as criadas, vendo todas paralisadas no lugar. – Não estão ouvindo? AGORA!
— Marcus, o que está fazendo? – Lady Velland se encolheu na cama, abraçando a criança com força para protege-la. – Ela é nossa filha!
— Ela não é minha filha! Eu quero um filho! Um homem! – o homem disse passando as mãos pelos cabelos loiros.
Um segundo, esse foi o tempo necessário para que Louise Velland percebesse o que seu marido iria fazer. O loiro foi até a cama e esticou os braços em direção da criança, a tirando do colo de sua esposa e se dirigindo até Zuria, com o olhar firme e sem demonstrar qualquer outro sentimento que não fosse raiva.
— Eu não quero ver essa criança nunca mais. – Marcus disse ao entregar a menina para a criada. – Não me importa que destino ela vai ter, que ela suma daqui.
— Sim, meu senhor! – Zuria respondeu, mesmo que sua vontade fosse negar a ordem que havia recebido.

XXX


O duque de Velland caminhava de um lado para o outro, uma expressão nervosa tomava conta de seu rosto e ninguém, nem mesmo sua esposa, ousava lhe dirigir a palavra. Fazia pouco mais de uma hora que Zuria havia saído, levando com ela a criança e a ordem de se livrar dela.
— Senhor, trago uma notícia que talvez possa ser uma solução para o seu problema. – O filho do cocheiro disse, ao ser anunciado e se apresentar ao seu patrão. – Uma de minhas irmãs teve um filho, mas não pode cuidar da criança. Um menino.
— Não, eu não vou aceitar isso! – a duquesa se levantou irritada, ainda cansada e completamente desolada com os últimos acontecimentos daquela noite.
— Você não vê? É o universo me recompensando por todos os meus esforços! – Marcus bradou para a esposa. – Traga o menino!

XXX


Zuria caminhava apressada pelas ruas, desviando de qualquer pessoa que pudesse atrapalhar seu caminho até seu destino. A pequena criança dormia em seu colo, tão tranquila e alheia aos acontecimentos ao seu redor, tão inocente e frágil. A mulher caminhou mais rápido ao reconhecer a imponente construção da casa do Capitão da Guarda Real, Liam Gallagher, e sua esposa, Mary, apressando ainda mais o passo, com todo cuidado para não acordar a criança. Após passar pelo pequeno portão e se certificar que ninguém havia lhe visto, Zuria depositou a criança perto da porta, colocando um bilhete junto aos lençóis, para que ao menos o casal tivesse uma explicação.
— Boa sorte pequena, espero que sua vida seja melhor daqui para frente. – A mulher disse e bateu na porta, logo se afastando apressada e indo embora.
A mulher ainda teve tempo suficiente de se esconder e observar o momento em que Mary abriu a porta e se deparou com o pequeno embrulho aos seus pés, logo chamando o marido e ambos entrando em casa. Queria ver a criança novamente algum dia, longe de todo aquele caos que rondava sua vinda ao mundo, e que um dia o duque se arrependesse de todo mal que tentou fazer a sua própria filha.

XXX


A mansão Velland estava em festa, tamanha era a alegria de Marcus, seus pais e os pais de sua esposa, com a notícia do nascimento do filho do casal. Louise se encontrava deitada na cama do casal, a feição cansada, o rosto suado e os lençóis sujos de sangue do parto de seu primeiro filho. Mas por dentro a mulher estava destruída, a que ponto seu marido havia chegado para ter poder e sucesso? Alimentar uma mentira, forjar o parto de um menino que sequer era seu filho, somente para que todos o vissem com bons olhos.
— Oh, minha querida, é um lindo menino. – Sua mãe dizia enquanto pegava o neto em seu colo. – Finalmente um herdeiro.
— Sim, finalmente. – A duquesa respondeu sem emoção.
— Tem algo de errado? – A mais velha perguntou.
— Estou cansada, foi uma noite difícil.
Difícil. A palavra sequer conseguia chegar perto de descrever o que a sentia realmente, estava possessa de raiva com seu marido, imensuravelmente triste por perder sua filha e completamente irritada por ter que fingir para todas aquelas pessoas que a criança que carregaria seu sobrenome era seu herdeiro, fruto de seu próprio ventre. A mulher havia garantido a si mesma que nunca se esqueceria de sua menina, mesmo sabendo que nunca mais a veria, carregaria com ela a lembrança da criança que teve em seu colo por tão pouco tempo, mas que amou com tanta força.





Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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