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Última atualização: 21/05/2022

Prólogo

Tac. Tac. Tac. Tac.
O barulho dos saltos batendo no chão soavam altos e apressados, como se alguém corresse.
— Não, não, não... — a garota sentiu os olhos transbordarem ao tentar virar a maçaneta. Sem sucesso.
Tchap. Tchap. Tchap.
Passos mais pesados e calmos passaram a soar, como se, quem quer que fosse, estivesse andando tranquilamente.
Kira... — uma voz rouca começou a chamar e a menina sentiu as pernas bambearem. — Onde você está, meu amor?
As lágrimas escorriam sem parar pelo rosto da moça, mas ela continuava a tentar abrir a porta de alguma forma.
— Aonde você pensa que vai? — Ele se aproximou de repente, pegando-a pelo pulso.
Tuntum. Tuntum. Tuntum.
Ficaram se encarando durante alguns poucos segundos. Ele, com uma expressão amedrontadora e mal humorada. Ela, com os olhos chorosos e a boca torcida pelo desgosto.
— Me deixe ir, por favor. — Kira sussurrou pela última vez, sem mais forças para tentar se soltar dele outra vez.
Tuntum. Tuntum.
O silêncio era tanto que podia-se ouvir o batimento desesperado dela. O coração parecia sair pela boca a qualquer momento.
— Por que você quer ir embora?
Kira engoliu em seco.
— Eu quero a minha família.
O homem riu, soltando seu pulso.
— Esse é o seu momento de recomeçar. Não era você quem sempre dizia que queria passar em uma faculdade nos Estados Unidos para sair da sua casa?
— E-eu não quero mais isso. — Sua voz falhou.
Tuntum. Tuntum.
— Eu sei. — Um sorriso psicopata nasceu em seus lábios, fazendo com que todo o corpo da garota se arrepiasse. — Você vai viver aqui, comigo, presa. Para sempre.
O homem enfiou a mão no bolso e, num movimento rápido, segurou a cabeça da menina com uma das mãos enquanto a outra pressionava o pano com clorofórmio em seu nariz e boca, fazendo-a respirar o medicamento.
Tuntum.
— Eu te amo tanto, Kira... — foram as últimas palavras que ela pôde ouvir antes de perder a consciência.


Capítulo 1

deu um suspiro antes de levantar-se de seu assento. Os outros passageiros já estavam em fila, andando devagar até a saída do avião. Ela estava em Busan, sua cidade natal e razão de seus pesadelos constantes.
Esticou o corpo até que alcançasse sua mochila, que estava guardada no fundo do armário de bagagens de mão, provocando uma cotovelada em uma das pessoas que já se encontravam na fila para sair.
— Me desculpe — pediu com um fio de voz, sem vontade alguma de ver quem ela havia acertado.
Ajeitando a gravata com uma das mãos e segurando uma maleta na outra, o homem de cabelos vermelhos apenas assentiu levemente, assegurando-a que estava tudo bem.
O papo não continuou, e apenas decidiu continuar se organizando para sair do avião. No entanto, sua mente traiçoeira a fez perder-se nos pensamentos. Ela tinha acabado de conquistar seu distintivo após graduar-se na faculdade de direito de Yale e passar no concurso nacional coreano para tornar-se detetive criminal. Sua vida estava feita, correto?
Errado.
— Senhorita, você precisa se retirar do avião. — Uma comissária aproximou-se com uma expressão tênue, acordando do transe. Com um sorriso envergonhado, a mulher apertou o passo em direção à saída da aeronave.
ajeitou a mochila sobre os ombros e caminhou até a esteira para pegar sua mala, percebendo que o salão de desembarque estava quase todo vazio e apenas a sua bagagem estava largada por ali.
— Espero que eu não acabe me encontrando com ninguém — murmurou enquanto empurrava sua grande mala sobre as quatro rodinhas. Apesar daquela cidade ter sido sua casa por longos anos, não sentia saudade alguma. Apenas mágoa.
Kang!
A mulher levantou o olhar ao ouvir seu nome e soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo. Ok, talvez ela sentisse saudades de alguém naquela cidade.
— DANI! — correu em direção ao amigo, correndo com os braços abertos e derrubando uma das bagagens. O rapaz apenas agarrou-a com força, rodeando a nuca da mulher com uma das mãos enquanto a outra segurava sua cintura, sustentando o abraço.
Os raios fracos do pôr do Sol iluminavam algumas partes do aeroporto por conta das vidraças, deixando o clima ameno e com uma iluminação digna de filme. sentia o peito palpitando fortemente, como se toda sua saudade acumulada tentasse esvair-se no mesmo segundo, numa única batida. Já Daniel poderia jurar que a amiga conseguia escutar as pulsações do seu próprio coração. Ambos sentiam uma falta imensurável um do outro.
— Sete anos se passaram e você ainda me chama de Kang. — disse baixinho, inspirando fundo o perfume do amigo. Um cheiro de noz-moscada invadiu suas narinas, e mil pensamentos passaram por sua mente.
— Sabe como é, a primeira noiva a gente não esquece — ele respondeu com um sorriso, afagando seus cabelos e sentindo-a se aconchegar mais em seus braços. — Senti sua falta.
— Eu também. — Ela deixou algumas das lágrimas escorrerem no meio do abraço. Daniel era bem mais alto, e isso a fazia se sentir totalmente protegida quando se abraçavam. — E, ei! Você nunca foi meu noivo.
— Cala a boca e não estraga o momento — respondeu baixo, pressionando a bochecha sobre o topo da cabeça da amiga. Ele poderia passar horas ali.
Desvencilharam-se do abraço depois de um tempo e Daniel puxou a mala da garota, perguntando:
— E qual será o primeiro lugar que você irá visitar?
— Meu apartamento. — Ela entrelaçou as próprias mãos com força, como se estivesse nervosa. — Eu voltei para trabalhar, não para ficar dando voltas por aí.
— Desculpe-me por tentar ser um bom amigo e te levar para sair, eu hein.
— Qual é, Daniel, não fica chateado com isso.
— Não estou. — Soltou uma leve risada. — Só estava com saudades de sair com você, .
A garota sorriu, soltando as mãos e começando a andar ao lado do amigo até o estacionamento do aeroporto. O céu estava pintado de tons rosados e alguns pontos alaranjados, climatizando um fim de tarde brando.
— Sabia que ninguém me chamava de nos EUA? — A garota comentou enquanto sentia a brisa batendo em seu rosto ao observar o pôr do Sol.
— Claro que não, esse apelido é especial.
— Meu Deus, Kang, você realmente se acha né?
— Kang, você? — O garoto passou o braço sobre os ombros da mais nova, arrancando uma risada de ambos.
— Licença que o meu nome é . Muito mais bonito. — Ela fechou os olhos, convencida.
— Hm... Não, prefiro Kang mesmo.
Daniel e seguiram conversando até o Yaris Hatchback preto, logo deixando a bagagem da mulher no porta-malas e seguindo até os bancos da frente.
— E ai, você continua participando daquelas batalhas de break? — questionou enquanto prendia o cinto de segurança.
— Claro que sim! O que seria de Kang Daniel sem batalhas de break? — Ele desviou o olhar do retrovisor rapidamente, notando um sorriso singelo no rosto da outra. — Mas fica chato sem a minha fã número 1.
— Fico feliz em saber que ninguém roubou o meu posto.
— Ninguém nunca vai roubar, você sabe.
encolheu os ombros, sentindo a profundidade que aquela fala tinha. Ela havia captado a mensagem implícita, mas desejou que não o tivesse feito. Ela e Daniel tinham um passado. Mas era apenas isso: um passado.
— Mas me diga, baixinha. Por que decidiu voltar? — O homem perguntou depois do ambiente ficar meio tenso com sua fala anterior.
— Acabei de receber meu distintivo e recebi a proposta de servir na delegacia de Busan.
Dani já havia dado partida no carro, saído do estacionamento e caído na avenida. Apesar de estar concentrado no trânsito, girou o pescoço vagamente para observar a amiga, que entrelaçava os dedos no próprio colo e mordia o lábio inferior.
— Você tem certeza de que é só isso, ?
Ela apenas suspirou antes de responder:
— Nós dois sabemos que não.
O clima pesado voltou, mas, dessa vez, ele parecia um tanto trágico. Daniel sentiu a língua estalando na garganta, querendo comentar sobre aquele assunto. apenas virou o rosto em direção a janela, assistindo a rua, carros e árvores passando rapidamente.
— Eu sei que não vou conseguir tirar essa sua ideia maluca da cabeça, então só vou oferecer o meu apoio caso precise, ok?
A mulher deixou o sorriso escapar em seus lábios e segurou a mão do amigo, como um sinal de agradecimento. sabia que podia contar com Dani. Ela, inclusive, não sabia se teria voltado para Busan se ele não fosse continuar ao seu lado, mesmo que ela tivesse um objetivo ainda maior. A amizade de Daniel era essencial para a sua persistência.
— Obrigada por tudo.
— Somos melhores amigos, . É isso que amigos fazem.
Ambos voltaram a conversar sobre a vida de Daniel. Ele contava sobre como as boates haviam mudado desde que se mudou e sobre como era engraçado o fato de quase todos os adolescentes o conhecerem por conta da dança. Ele dançava em batalhas de Hip Hop desde novo, e sempre fora sua fã número um. As garotas iam conversar com ela quando se interessavam pelo rapaz, e isso sempre causava uma onda de risadas entre os amigos.
— Isso é tão a sua cara! — Ela riu de um dos casos amorosos do amigo.
— Não sou desses que saem correndo de uma garota, mas eu acordei com ela mordendo a minha cueca! Eu juro que fiquei com medo.
— Essa moça parece ser engraçada.
— Uma pedra no sapato, não parou de me ligar até eu trocar de número.
— Credo, quanta falta de amor-próprio. — Fez uma careta ao tentar se imaginar naquela situação. — Só faltava ela se rastejar por você.
— Nunca mais nos encontramos, mas essa lembrança me assusta.
— Relaxa, você é inesquecível! — Riram juntos, até a garota arfar, medindo as próximas palavras. — Mas, e então... Alguém perguntou sobre mim?
Daniel diminuiu o sorriso aos poucos, tentando se concentrar nas ruas cheias de carros. Ele sabia onde queria chegar, e ele não estava a fim de conversar sobre aquilo, muito menos enquanto estivesse dentro de um carro em movimento.
— E deveriam perguntar sobre o quê? — Fingiu-se de desentendido, fazendo com que a outra revirasse os olhos.
— Você sabe muito bem o que eu quero dizer, Kang.
O rapaz revirou os olhos, cansado antes mesmo de começar uma discussão. Aquele assunto era desgastante até mesmo de lembrar.
, eu senti muitas saudades de ficar contigo, andando de lá pra cá e fazendo besteira. A gente não pode ficar assim por um tempo?
A mulher piscou três vezes rapidamente, refletindo um pouco sobre sua curiosidade iminente. Certo, ela queria, sim, se atualizar de tudo o quanto antes, mas poderia ter sido mais cuidadosa ao tocar naquele assunto, né?
— Me desc-
Ela tentou se desculpar, porém Daniel soltou uma bufada forte, cansado daquele tópico antes mesmo de iniciarem, de fato, uma conversa sobre aquilo. Eles poderiam ter continuado com a conversa leve e descontraída, como chegaram naquele assunto de repente?
— Por que você quer falar sobre algo que aconteceu há dez anos?
— Dani, eu só-
— Você precisa focar em outras coisas, . Sua vida não pode rodar em volta de algo que aconteceu uma década atrás. Por que você é tão obcecada nessa história, hein?
— Porque ela é a minha irmã, Daniel! — esbravejou com lágrimas nos olhos depois de ter travado um pouco para processar. Todos pareciam julgá-la por lutar por algo que acontecera há anos, mas ela não podia fazer nada. Sua vida realmente girava em torno daquele acontecimento.
Sentindo o corpo latejar com o nervoso correndo em suas veias ao ouvir a fungada da amiga, o homem acelerou o carro por um tempo, até chegarem em uma cafeteria de bairro e Daniel estacionar.
— Não vou falar contigo sobre isso enquanto dirijo. — Justificou-se e saiu do carro, adentrando o estabelecimento.
arquejou e soltou-se do cinto de segurança, batendo a porta com força e sentindo-se novamente com treze anos. Uma adolescente estressada que saía batendo portas e pisando forte no chão. A própria birrenta.
— O que vai querer? — Ele perguntou tranquilo, olhando para o cardápio na parede.
— Um macchiato, por favor — a mulher respondeu breve, descansando a bolsa sobre uma mesinha de dois lugares no canto da cafeteria.
Ela pegou o celular e leu algumas das mensagens que recebera. “Boa Viagem, !”; “Se cuida, amiga. Sentirei sua falta, volte logoooo”. Com o coração dolorido, sorriu brevemente, querendo ter dado mais um abraço em seus amigos de Yale, que ela nem ao menos sabia se conseguiria reencontrar.
— Logo eles trarão os cafés — Daniel avisou calmamente, sentando-se de frente para a amiga. — Pois então, pode começar a falar se quiser.
— Não tenho o que falar.
— Larga de ser mentirosa, , eu te conheço. Sei muito bem que você não queria perguntar se o povo sentiu tua falta.
A menina deu um meio sorriso, tentando esconder a felicidade ao notar que nada havia mudado entre ela e Dani. Ele era seu melhor amigo que a conhecia na palma da mão e a lia como um livro.
— Você é tão imodesto.
— Oras, ninguém mandou me ter como melhor amigo. — Kang sorriu, ressaltando suas maçãs do rosto. Era bom amenizar o clima entre eles, e o rapaz sempre o fazia com facilidade.
bateu as unhas longas no tampo da mesa, tentando organizar seus pensamentos enquanto perdia-se no olhar calmo de Dani. Ela queria ser o mais sucinta possível, mas também não queria parecer direta demais.
Sua cabeça estava uma bagunça.
— Daniel chamou-a com a voz baixa enquanto sua mão esquerda escorregava pela mesa até encostar e segurar os dedinhos nervosos da amiga. — Você pode me perguntar o que quiser, eu te respondo com toda a paciência que minha cabeça permitir.
A moça envolveu a mão do amigo com as suas, agradecendo simbolicamente todo o apoio que ele lhe dava. Daniel era, definitivamente, a pessoa mais importante na sua vida além de seu pai.
— Certo. — Ela sorriu tímida, mordendo o lábio inferior. — Eu queria saber sobre o que aconteceu depois que fui embora, só isso. — A voz de continuou mansa, com seus dedos fazendo carinho sobre a pele do melhor amigo. — Só que, se você não quiser comentar sobre isso, não precisa.
— Relaxa, . — Dani sorriu novamente, tentando passar sua calmaria para a amiga. Ambos sabiam o quanto aquela conversa poderia ser dolorosa de alguma forma, por isso queriam soar os mais gentis e seguros possível.
Os dois se olharam nos olhos, transmitindo uma confiança mútua que apenas eles entendiam. Daniel puxou a própria mão quando a garçonete se aproximou com os pedidos.
— Um macchiato e um expresso — a garota, que aparentava ter 15 anos, disse sorridente.
Assim que a menina curvou a cabeça e se afastou, pegou a xícara e deu uma bebericada, sentindo o sabor adocicado do leite com a cafeína.
— A escola ficou um caos. — Ele suspirou, recolhendo as mãos e passando sobre as próprias coxas, enquanto encarava o café. — Na real, a cidade toda ficou caótica. Eu fiquei trancado em casa por mais de um mês pois não conseguia sair na rua.
— Por quê? — arregalou os olhos, não esperando que a cidade parasse por conta de um acontecimento particular de sua família.
— A filha do Major foi sequestrada, a polícia não encontrou nenhum rastro do criminoso e a família foi embora depois que a mãe faleceu. Você acha que a cidade não teria parado?
— O que tem o meu pai?
— Nada, . — Ele sorriu com os olhos preocupados da amiga. — Eu só enfatizei o quanto seu pai é importante na cidade.
A mulher assentiu, se acalmando um pouco enquanto a mão direita seguia até a altura do peito, acariciando o local por conta do leve susto. Seu coração palpitava forte.
— E então...?
— Os policiais estavam atrás da sua irmã, mas ela realmente sumiu. O seu pai deve ter comentado contigo.
negou. Seu pai, apesar de ter uma das maiores patentes no exército, não pôde inteirar-se das buscas. Era uma norma que os militares não deveriam se envolver com casos familiares, assim como é feito na medicina. Apenas uma medida de segurança à sua saúde mental.
Ou, pelo menos, era isso que gostaria de imaginar.
— Bem, eu tentei tirar algumas informações com meu primo, que trabalhava na agência da polícia, mas ele estava isento do caso. Apenas os de maior patente estavam envolvidos.
A mulher suspirou, cansando-se antes mesmo de começar seu trabalho. Independentemente de quem sequestrou Kira, essa pessoa realmente fez de tudo para nunca a encontrarem. Uma onda de desconforto apossou-se de cada parte do corpo da mulher, que jurava ter sentido um soprar em seu pescoço. Aquilo parecia um pesadelo. Tinha que ser.
— Eu darei um jeito, não se preocupe — disse com um leve desdém, tentando afirmar para si mesma de que sim, ela encontraria alguma forma de concluir esse caso.
— Eu não duvido que você fará de tudo para descobrir o que quer, , e o meu medo é justamente esse.
O rapaz bebericou seu café mais uma vez, encarando sobre a xícara as expressões confusas da mulher. Não que se perdesse fácil em uma conversa, longe disso, ela apenas processava minuciosamente cada palavra que outra pessoa proferisse.
— E sua preocupação seria de...? — Questionou novamente enquanto inclinava o corpo em direção ao rapaz. Estava ficando quente ou era impressão dele?
— Você se entrega demais. Eu fico preocupado de isso acabar tirando toda a sua paz.
— Não tenho paz desde que minha irmã desapareceu, Daniel. Eu tenho crises de insônia há mais de sete anos por conta disso tudo, você acha mesmo que estou me importando com esse caso tirar minha paz ou não?
Daniel mais nada disse, apenas ergueu os ombros ao mesmo tempo que tomava o último gole do seu café expresso. Enquanto o líquido quente descia pela sua garganta, o sabor parecia cada vez mais amargo. Ele estava inquieto. Seu pressentimento dizia que algo daria errado, mas não queria colocar nenhuma intriga na cabeça da mulher. Ela não precisava ficar cismada, não ainda.
Quanto menos preocupações rodeando sua mente, melhor.

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— Obrigada pelo café — ela respondeu sorridente, destravando o cinto. — E pela carona também.
— Olha, , tem certeza de que...
— Não, Dani, você não precisa subir. Eu farei isso sozinha, está tudo bem.
O rapaz apenas assentiu, sem coragem de contrariá-la mais uma vez em tão pouco tempo.
— Caso precise, você pode me ligar sempre que precisar. Toma cuidado. — Ele sorriu doce. era como uma irmã para ele, na maior parte do tempo.
— Eu sempre tomo.
A mulher saiu do carro, ajeitando o cabelo enquanto ia até o porta-malas para retirar sua bagagem. Ela não havia trazido tanta coisa, por isso daria conta de carregar tudo sozinha. Certo, talvez ela precisasse da ajuda do porteiro, mas, quem nunca?
Uma brisa leve e gélida trazia algumas nuvens consigo, indicando que a chuva se aproximava. Poucos raios solares cruzavam o céu naquele momento, deixando a sensação de que estava mais tarde do que realmente era. parecia focada em não deixar nenhuma das suas malas escorregar, mas na verdade, sua mente estava em outro lugar.
Aquele prédio era conhecido de outras memórias. A mulher tinha gravado na memória, nitidamente, aquele hall todo amadeirado, com carpete vermelho no chão e os lustres chiquérrimos pendurados no teto. O lugar esbanjava riqueza.
Um senhorzinho que aparentava ter no mínimo sessenta anos, aproximou-se com um uniforme formal. chutou ser o porteiro, mas não disse nada em voz alta além de um:
— Olá.
— Olá senhorita, posso lhe ajudar? — O senhor curvou-se rapidamente antes de estender a mão direita, solicitando que a mulher lhe passasse a bagagem.
— Não se preocupe, eu consigo levar tranquilamente. — Ela sorriu sem graça. Não conseguiria cobrar de um idoso que levasse suas malas até o elevador, isso era, no mínimo, triste.
Apesar de ter negado a ajuda, o senhorzinho caminhou ao lado de até o elevador e, quando ele parou no térreo, ajudou-a a empurrar a mala para dentro.
— Espero que a senhorita tenha uma boa estadia. — Sorriu levemente, fazendo com que seus olhos se curvassem juntos. soltou uma risadinha, encantada com a fofura do homem.
— Eu terei. Obrigada pela ajuda, tenha um bom dia!
Assim que a porta do elevador se fechou, a mulher soltou um suspiro forte, desfazendo a postura. Não que ela não tenha se sentido à vontade com o senhorzinho, ela apenas não estava na vibe de ficar sorrindo aos quatro ventos.
Uma música ambiente soava no cubículo até o décimo terceiro andar, o último do prédio. Era uma melodia leve e calma, mas de certa forma trazia um ar de exuberância, causando uma sensação diferente na mulher, que não estava completamente acostumada com aquele tipo de sentimento. Ela sempre tivera uma boa estabilidade financeira, mas nada que a fizesse parar e pensar: Ah, eu realmente sou rica.
empurrou a mala maior com o pé para que ela não emperrasse nenhuma rodinha no vão. O prédio era chique, muito chique. Olhou as decorações no corredor do andar, se perguntando quantos milhões de wons* havia naquele lugar de poucos metros quadrados.
Suas perguntas eram recicladas da última vez que viera conferir o prédio, aos 13 anos de idade. Era seu sonho de consumo, seu apartamento dos sonhos, mas hoje em dia ela não conseguia se lembrar exatamente do porquê gostava tanto daquele lugar.
Uma única porta de madeira preta, que se destacava na parede branca com decorações douradas, estava com uma placa, também dourada. Cobertura.
parou em frente da porta, com um turbilhão de pensamentos. Seu pai havia presenteado-a com aquele apartamento, que já era dele, mas a mulher ainda sentia um tremor no peito. Ela deveria estar feliz de estar ali, não?
A fechadura digital no lugar do trinco chamou-lhe a atenção. Será que seu pai havia esquecido de lhe contar a senha ou…
Não foi necessário mais nenhum questionamento, visto que a porta se abriu assim que pressionou o dedo sobre a tela. O acesso por biometria desbloqueou um teclado numérico, mas que fora ignorado no momento. se preocuparia em criar uma senha depois.
O apartamento já estava completamente mobiliado, da forma mais possível. Ela nem mesmo reparara no hall de entrada, apenas seguiu reto, encantada com as paredes escuras e os móveis todos em preto e branco. Poucas decorações na sala a não ser um quadro que a mulher não conseguiu reconhecer o artista, mas achara lindo. A cozinha era espaçosa, com uma ilha central de mármore, fogão cooktop, armários suspensos com portas de vidro preto e um balcão branco em formato de L.
Apesar de tudo ser totalmente monocromático, aquele padrão de cores acalmava . Quanto mais simples, melhor.
A mulher puxou as malas pelo corredor até o último quarto, dando de cara com a suíte. Era grande, com as paredes da mesma cor da sala e a mobília branca. As portas do closet e do banheiro também eram claras, dando um contraste.
Decidida a tomar um banho antes de dormir o resto do dia, retirou os sapatos e largou-os no closet, finalmente se lembrando que estava na Coreia e deveria, por costume, voltar a deixar os sapatos na entrada do apartamento.
— Preciso de um banho — concluiu em voz alta assim que se olhou no espelho. Cabelos embaraçados e rosto cansado. Mesmo que a viagem tivesse sido tranquila, sem turbulências, apenas o peso emocional de estar de volta acabava com toda sua aparência.
Sua mente pipocava todo o plano que fora passado em sua cabeça diversas vezes desde que decidiu formar-se em direito. tinha um objetivo final. Não importavam os meios.
Já está em casa? — Ouviu a voz de Daniel assim que atendeu a ligação de vídeo. A mulher descansou o celular sobre uma das estantes do closet enquanto tirava as roupas da mala.
— Você me deixou aqui há menos de uma hora, fica tranquilo. — Riu da preocupação desnecessária do amigo, mesmo sabendo que era a cara dele ligar para perguntar aquele tipo de coisa.
A mulher tirava as roupas com cuidado de dentro da mala, colocando-as de forma organizada por cor em cada gaveta. Decidiu que organizaria as blusas sociais depois que comprasse os cabides.
Daniel ainda falava no telefone, comentando sobre alguma coisa que não compreendeu direito, apenas concordava com a cabeça e ria da voz exasperada do homem. Ela parou por um tempo, prestando atenção no rosto do amigo pela tela do celular. Ele não havia mudado nada. Anos se passaram, mas Dani ainda era o mesmo. Com seu olhar infantil e animado, o sorriso lindo... Era apenas ele. Seu melhor amigo desde sempre.
sorriu para a tela enquanto se recordava daquelas pequenas coisas.
— ... por isso tô preocupado contigo, entendeu?
— Oi? — arregalou os olhos, levantando as sobrancelhas com o susto. Ele riu.
— Nada, . Não falei nada demais.
Com um sorriso envergonhado, ela abaixou o rosto até a mala escancarada no chão do closet, como se procurasse por alguma peça. chacoalhou a cabeça assim que seus pensamentos voaram para o passado, se lembrando de como as coisas eram antes dela se mudar para Seul.
Busan.
Sua querida e traumática cidade natal.

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Se alguém olhasse em sua direção naquele instante, essa pessoa não veria a luz do dia nunca mais. estava quebrada. A noite no novo apartamento não havia sido a melhor de todas, na verdade, tinha sido a pior em meses.
Não que o colchão fosse de má qualidade, mas sua mente simplesmente não desligava. Até mesmo a luz da Lua parecia estar zombando dela enquanto a mulher rolava de um lado para o outro na cama. Sentia-se sozinha e impotente.
Por que havia voltado para Busan mesmo?
passou o batom nude enquanto encarava sua própria imagem refletida no espelho. Não estava feia, mas ela tinha consciência que também não estava bonita.
Serão apenas nos primeiros dias, você vai se acostumar em breve. Vai ficar tudo bem, seu subconsciente repetia em looping, como um mantra.
Calçou os saltos altos e caminhou até a sala, encarando o pequeno cubículo com um armário branco que ia do chão até o teto. Esse deve ser o sapateiro.
Decidiu conferir, abrindo uma das portas e dando de cara com dois pares de pantufas brancas. sorriu, sentindo-se em casa pela primeira vez desde que chegara em Busan. Os costumes ainda eram os mesmos e, por mais aterrorizante que fosse estar ali novamente, ela tinha sentido falta daquilo.
Aqueles detalhes mínimos de sempre trocar os calçados antes de entrar em casa, ou quando decidia ir até a esquina comer ramyun*, pois não queria comer o que tinha em casa. Aquilo era tão… Coreia do Sul.
Ela nunca achou que sentiria falta disso, mas sentiu. E durante todos aqueles anos fora, não havia se dado conta do quanto aquela cidadezinha tomava conta do seu coração.
Um alerta tocou dentro de sua cabeça, lembrado-a de que precisava se apressar até o trabalho. precisava conversar com o delegado antes de começar sua busca secreta.
Voltou para a sala, lembrando-se que deixara a pasta sobre a mesa. Ela definitivamente não podia esquecer aqueles documentos da transferência.
ajeitou os saltos altos antes de ocorrer-lhe que seu carro estava na casa de Daniel, e ela havia esquecido de pedir para o mesmo deixar na frente de seu prédio. Deveria ter solicitado que a concessionária deixasse seu novo bebê ali no prédio.
Decidida a não ligar para o amigo naquela hora da manhã, a mulher pediu para que o porteiro – que não era o senhorzinho do dia anterior – chamasse um táxi para ela. O homem, que aparentava beirar os cinquenta anos, apenas clicou em um botão de chamada, avisando que o táxi chegaria em alguns poucos minutos. agradeceu ao reverenciar levemente com a cabeça, caminhando para a parte exterior do prédio logo em seguida.
Estava surpresa com a forma que o homem chamara o táxi, mas sentia-se grata ao mesmo tempo pois fora extremamente rápido e eficaz. Não demorou mais de cinco minutos até que o carro alaranjado parasse na sua frente.
— Para a Delegacia de Busan, por favor.
O taxista apenas murmurou um “ok”, logo voltando a dirigir. encarava os carros e prédios correrem pela rua, avoada. Sua cabeça, agora, parecia cansada demais.
Saiu do carro assim que pagou pela corrida por transferência. Ela precisava organizar sua carteira logo, pois seus cartões não estavam ali quando precisou. Onde ela os havia deixado, mesmo?
Assim que adentrou a delegacia, seus olhos percorreram por todo o local. Portas de vidro com uma faixa azul na frente, indicando que aquela era a Delegacia Central de Busan. Uma garota organizava alguns papéis por detrás de um balcão, que parecia ser como a secretaria. Se aquela moça fosse funcionária, ou ela era muito nova ou muito bem conservada.
— Bom dia… — deu um sorriso tímido, aproximando-se da outra. A menina abriu um sorriso bem aberto.
— Bom dia! Como posso te ajudar?
— Eu sou nova aqui, vim transferida da central em Seul e…
— Você é a detetive ? — Interrompeu-a, ainda sorrindo. apenas teve tempo para piscar, assustada, e concordar com um aceno. — O delegado Bang está ansioso para conhecê-la. A senhorita pode aguardar por alguns instantes?
Antes mesmo de receber uma resposta, a moça saiu andando para dentro do estabelecimento. piscou uma, duas, três vezes, repassando o que havia acabado de acontecer. Quem era aquela doida?
Optou por não fazer perguntas, apenas sentou-se em uma das cadeiras de espera e aguardou até que a jovem voltasse para o balcão, o que não demorou tanto assim.
— Pode me acompanhar?
se levantou, sentindo as mãos suando frio. Ela pensava que não ficaria nervosa, mas estava. Como seria o seu chefe? O tal delegado Bang iria impedi-la de mexer nos processos antigos? Melhor, será que ela conseguiria confiar nele para contar suas verdadeiras intenções?
Suas perguntas sem respostas concretas foram abafadas assim que a garota, que descobriu se chamar Sue, bateu à porta da sala do delegado.
A madeira era tingida de preto, com uma bonita placa prateada escrita “Delegado Bang”. A voz grossa e potente soou dentro da sala:
— Entrem.
Assim que a porta se abriu, arregalou os olhos. O chão era de madeira escura e muito bem encerado. Havia dois sofás pretos um de frente para o outro em volta de uma mesinha central de vidro, além de uma poltrona na ponta. Bang estava sentado ali.
— Sente-se! — O homem sorriu minimamente. Ele tinha poucos cabelos pretos, com a maior parte das raízes já brancas. Seus olhos eram fundos e estavam escondidos atrás dos óculos grossos de grau. Bang não era atraente, definitivamente, mas ele exalava potência.
se curvou junto de Sue, esta que saiu logo após a mais velha caminhar até um dos sofás e se sentar. Bang pegou a xícara de café que descansava sobre a mesa central, tomando um breve gole antes de começar a falar.
— Fico feliz que tenha vindo para nossa estação, Detetive . Espero que consiga se adaptar.
— Eu que agradeço a oportunidade, delegado. — ela sorriu, proibindo-se mentalmente que sua voz saísse falha. — Será uma honra trabalhar na sua equipe.
O mais velho reprimiu os lábios, repensando em certas coisas que gostaria de dizer para a mulher. Bang esperou que perguntasse mais algo, mas obteve apenas o silêncio.
— Sinta-se livre para conhecer toda a estrutura e documentação da delegacia, . Você pode consultar processos antigos caso queira. — Ele se levantou, deixando a xícara de café e seguiu até sua mesa de trabalho. — A cidade anda tranquila nesses últimos tempos, então o trabalho está bem leve.
— Obrigada pela confiança. — Ela se levantou também, curvando-se levemente antes de sair da sala, já obtendo todas as respostas que queria.
— Só uma coisa. — Bang chamou-a de supetão, pouco antes de alcançar a maçaneta. — Você só terá que me fazer um favor.
— Pode dizer.
O delegado deixou um sorriso de canto escapar, fazendo com que a mulher sentisse um arrepio no corpo, com medo do pedido.
— Você terá que acompanhar um dos policiais durante um tempo.
piscou, pouco antes de arquear as sobrancelhas. Aquilo era sério? Certo, ela sabia que tinha se formado em Direito em outro país e poderia se confundir com as leis e regulamentos, mas ela havia passado na prova para detetive. Por que diabos precisaria de “supervisão”?
— Olha, delegado Bang. — o interrompeu, fechando os olhos por dois segundos enquanto respirava fundo, não querendo soar grosseira. — Com todo o respeito, mas não acho que preciso de supervisão.
Dessa vez foi Bang quem piscou, confuso. Sua mente rapidamente processou o que a mulher falara, dando uma risadinha com o raciocínio dela.
, eu não estou avisando que alguém irá te supervisionar. — Ele riu da cara ainda mais confusa que a outra fez. — Estou pedindo para você ficar de olho em um dos policiais.
A mulher balbuciou algumas palavras, mas não conseguiu prosseguir o diálogo, sentindo-se perdida. Por alguns segundos, refletiu no quão prepotente sua fala deveria ter soado.
— Ele é um bom rapaz, já está trabalhando há um tempo aqui na base, mas não conseguiu seu distintivo de detetive ainda — o delegado continuou, sem olhar para . — Eu só preciso que você o acompanhe e ele a auxiliará nos casos, quando algo surgir.
— C-claro. — Sua voz tremeu, fazendo com que ela quisesse enfiar a cara no chão.
— Obrigado, . — Ele olhou-a com um sorriso antes de segurar uma pasta amarelada e erguê-la em sua direção.
voltou até a mesa, pegando a documentação com uma das mãos e logo abrindo-a, sentindo os olhos se arregalarem ao reconhecer o nome do seu suposto parceiro.
.

Wons* - Moeda coreana
Ramyun* - Macarrão instantâneo coreano (tipo miojo), bem apimentado


Capítulo 2

fechou a porta da sala com firmeza, ainda com a expressão travada. Sua cabeça parecia trabalhar a mil enquanto processava aquele diálogo com seu novo chefe.
Um nome muito bem conhecido parecia martelar em sua visão, como se estivesse escrito em um enorme letreiro brilhante bem à sua frente.
.
E como se trabalhar no mesmo ambiente que ele já não fosse perturbador o bastante, saber que ele seria seu parceiro de trabalho foi a gota d’água.
— Meu Deus, me desculpe. — Pediu sem jeito assim que sentiu seu ombro bater em outra pessoa que também passava por aquele corredor.
percebeu, ali, que estava completamente perdida.
— Fica tranquila… Espera, você não é a mulher do avião?
Os olhos de pararam automaticamente no cabelo vermelho daquele homem. Era ele mesmo.
— Uau, parece que estamos destinados a ficarmos nos encontrando mesmo, hein? — Ele disse rindo quando confirmou que era ela, apesar de ainda não ter respondido nada.
A mulher sorriu ao notar um flerte leve naquela fala, sentindo uma vontade imensa de revirar os olhos de graça. Aquele homem era bonito, não tinha como negar. Suas íris bem escuras, pele clara e olhos puxados como no padrão coreano.
O que mais lhe chamava atenção era o cabelo vermelho escarlate.
— Sou . — Estendeu a mão para cumprimentá-lo.
, é um prazer. — Ele apertou sua mão com leveza, logo trazendo-a para perto do rosto e depositando um selar nas costas.
— Encantador.
— É o meu charme. — Piscou com um sorriso se formando em seus lábios.
Certo, o sorriso dele era de morrer.
— Ok, flertes a parte, por que está aqui na delegacia? — indagou, as sobrancelhas se curvando com a curiosidade estampada. — Não é o primeiro lugar que turistas costumam visitar aqui em Busan.
— Pois eu lhe pergunto o mesmo, por que está na delegacia? — pôs as mãos na cintura, tombando a cabeça para o lado como se fosse óbvio o motivo de ambos estarem ali.
— Sou repórter criminal, eu geralmente estou cobrindo os casos para tentar evitar muitos paparazzis em cima. — Respondeu sem rodeios, com uma expressão mais séria no rosto. — Mas você ainda não me respondeu.
— Sou detetive, passei no concurso em Seul, mas optei por servir aqui.
As sobrancelhas de se ergueram, surpreso. Não que não tivesse o perfil de uma belíssima detetive, mas ele não estava esperando que uma nova oficial fosse enviada para aquela unidade.
Não antes de conseguir seu distintivo.
— Não pareço ser alguém com capacidade se passar no concurso em Seul? — interrompeu os pensamentos do rapaz, fazendo-o piscar.
— Não quis expressar isso, só estou surpreso que a central tenha te transferido para cá.
— Eu que solicitei. — Deu um sorriso mais sem graça, colocando as mãos para trás. — É minha cidade natal.
— Ah sim. — Sorriu, compreendendo.
Durante um curto espaço de tempo, o silêncio entre ambos reinou. Os dois se encaravam sem vontade alguma de desviar o olhar. Até que, de repente, uma luz pareceu acender no fundo da memória do homem.
— Espera, você disse que seu nome é ? — Ele apontou para a garota, logo apontando para atrás de si como se tivesse alguém na outra direção. — Daquela família ?
— A famosa. — deu um sorriso ladino, apesar de estar se sentindo desconfortável com o rumo que a conversa estava tomando.
— Caramba, e você se sente bem em estar aqui de volta? — Perguntou levemente preocupado ao se lembrar da história.
— Eu apenas não penso nas coisas ruins que aconteceram, apenas nas boas lembranças. — Tentou cortar o assunto rapidamente.
Ela sabia que algumas pessoas perguntariam sobre, mas não estava esperando aquela pergunta mais uma vez naquele dia.
Ou talvez era apenas a sua paciência alterada pelas últimas notícias.
— Entendo. — encerrou o assunto se sentindo incomodado. Sentiu a garganta coçar, mas não quis parecer sem jeito na frente da novata. Tossiu um pouco antes de continuar: — Bem, posso te levar até a sala com os outros detetives se você quiser.
arregalou os olhos, finalmente se dando conta de que estava perdida no meio da delegacia, conversando e flertando com o homem com quem esbarrara no avião.
— Eu irei aceitar, sim… — pressionou os lábios em um meio sorriso sem graça.
— Pode vir comigo, então. Eu preciso deixar alguns documentos lá de qualquer forma. — Apontou para a maleta de couro preta em sua mão direita. — Acho que você vai se dar bem com o pessoal.

🧬


À medida que iam se aproximando da suposta nova sala de , o barulho de vozes foi aumentando gradativamente. A mulher conseguiu distinguir uma voz feminina e outra masculina, sendo a última extremamente rouca.
— Você se formou nos Estados Unidos? — perguntou enquanto abria a porta da sala, olhando para .
— Sim, e não me arrependo nem um pouco se ter ido para lá estudar.
— Imagino que tenha sido uma experiência incrível. — Direcionou o olhar para as pessoas que estavam dentro da sala. — Oi gente.
Se outrora aqueles dois policiais estavam conversando demasiadamente alto, assim que viram a figura de acompanhada de uma desconhecida, se calaram. Ambos passaram a encarar , que também se calou assim que entrou na sala.
, deu um passo em frente, apontando para cada um dos citados. — Conheçam a , a nova detetive da delegacia.
Levantando a mão direita e dando um sorriso sem graça, a mulher encolheu os ombros, dizendo:
— Prazer.
jurou que os policiais apenas a cumprimentariam educadamente – ou talvez nem isso, como se ela não fosse bem-vinda. Devem ser amigos de , pensou, encontrando uma justificativa “plausível” para aquele clima esquisito entre eles.
Será que eles sabem quem eu sou?
— Hey, deu um sorriso bem aberto, aproximando-se para abraçar a garota. travou no próprio lugar. — Ah, me desculpe. Minha mãe é brasileira e acabei pegando esse costume.
— Tudo bem… — lançou o mesmo sorriso amarelado de um minuto atrás.
— Eu sou o g , também sou detetive criminal. — O rapaz que antes conversava com a tal se pronunciou. — Desculpe os maus modos, é que você me lembrou muito uma pessoa.
Ele claramente sabe sobre o caso da minha irmã.
— Mas sobre o que vocês estavam falando? — se envolveu na conversa, avançando pela sala e indo até uma pequena mesa nos fundos, na qual tinham algumas comidas.
estava me mostrando as fotos daquela mulher… — g seguiu na direção do outro policial, virando-se de costas para .
As duas mulheres se encararam rapidamente e entrelaçou os próprios dedos das mãos, sentindo-se completamente deslocada. parecia meio absorta enquanto olhava descaradamente na direção que os outros dois seguiram.
Aproveitando o silêncio, percorreu os olhos por toda a sala. Era um lugar consideravelmente aberto, com janelas compridas quase no teto. Provavelmente para privar os policiais e as pessoas não ficarem os encarando do lado de fora, concluiu em seu subconsciente.
Haviam quatro mesas apenas, as quatro viradas uma de frente para a outra, formando um bloco no meio da sala. Elas só se separavam por pequenas divisões de madeira que lembravam as mesas de estudo individuais que usava na faculdade dos Estados Unidos.
— Você é detetive criminal, né? — perguntou de repente, chamando a atenção de . A novata apenas concordou com a cabeça. — Eu sou fotógrafa policial.
— Ah… — concordou, sem saber ao certo o que responder para aquela informação. — Eu admiro vocês que conseguem tirar boas fotos, eu sou péssima com câmeras.
— Uma boa parte dos policiais não sabem tirar boas fotos mesmo. — Ela deu de ombros, com um sorriso tímido nos lábios. — Menos o , ele é muito bom.
O mesmo silêncio se instaurou entre as duas mulheres, o que deixou extremamente desconfortável. Não que ela tivesse achado que fosse uma pessoa chata de conviver.
Ela apenas não se lembrava mais de como interagir com outras pessoas.
— Você já trouxe as suas coisas? — Ela voltou a falar, novamente tirando de seus pensamentos.
— Eu vim de táxi e pedi para um amigo trazer. — Subiu os ombros, logo colocando a mão no bolso da calça, procurando o celular. — Ah, ele deixou na recepção. — Guardou o celular novamente assim que leu a mensagem de Daniel. — Eu vou lá pegar.
— Quer ajuda? — perguntou antes mesmo que se virasse para sair.
— Ham… pode ser.
As duas saíram da sala em silêncio. Começaram a caminhar lado a lado pelo corredor, até que virou para um lado e seguiu reto.
— Ops… — deu um sorriso envergonhado, virando-se para a outra mulher. — Eu ainda fico meio perdida pelos corredores.
deu uma risadinha baixa antes de responder:
— Eu demorei bastante para me acostumar com esse tanto de corredores. Uma hora você pega o jeito, .
respondeu com um riso baixo também, ainda desconcertada. Ainda bem que ela se ofereceu para me ajudar, pois eu não teria coragem alguma de pedir isso a ela.
—Você… — a mulher pigarreou enquanto caminhava para a direção certa. — Pode me chamar de se quiser.
tentou segurar o sorriso, mas suas covinhas nas bochechas ficaram bem evidentes, fazendo com que soltasse uma risada pelo nariz. Fofa.
— Eu não tenho nenhum apelido, então você pode me chamar de mesmo — disse com a voz divertida, arrancando uma risada mais alta de . — Quantos anos você tem? Se você não se importar em dizer…
— 23, mas faço 24 esse ano — respondeu, logo virando a cabeça para olhar . — E você?
— Tenho 23 também, mas já fiz aniversário.
— Não precisa falar de forma formal comigo, por favor — pediu assim que percebeu a mudança no linguajar. — Eu passei muito tempo fora da Coreia, esse costume de falar formalmente com outra pessoa por conta de alguns meses de diferença me dá nos nervos.
riu.
— Tudo bem, me desculpe.
— Não se desculpe por isso. — A mulher se remexeu, incomodada. Odiava quando alguém pedia desculpas por qualquer coisa.
— Mas então quer dizer que você se formou nos Estados Unidos? — perguntou de repente depois de um tempo em silêncio.
— Sim.
Assim que viraram outro corredor, percebeu que estava na recepção. A mulher continuou andando, percebendo que ficara para trás.
— Oi… — se apresentou com um sorriso tímido nos lábios. A suposta secretária permanecia mascando um chiclete, encarando a detetive com um olhar de desdém. — Eu acho que deixaram uma encomenda para mim.
— Ah! — A assistente pareceu se lembrar, virando-se para trás rapidamente e se levantando da cadeira, indo pegar uma caixa sobre a mesa. Caminhou calmamente até , estendendo os braços em sua direção. — Ele avisou que colocou coisas a mais e que é para você decidir se vai querer ficar ou não.
— Certo, obrigada.
Assim que a caixa pesada foi repassada aos braços de , a mulher sentiu seus tríceps chorarem.
— Quer ajuda? — se prontificou, mas a novata apenas negou com a cabeça, suspirando pesado.
— São as minhas coisas, pode deixar que eu me viro com elas.
— Deixa disso! — Ela se esticou e pegou em um dos lados da caixa onde havia um puxador para segurá-la. — Vamos dividir o peso, vai ser mais fácil assim.
— Não. — disse com a voz mais séria, meio absorta de seus próprios movimentos.
Ela só percebeu a forma como negara a ajuda quando encarou os olhos tristonhos de à sua frente.
— Desculpa ter falado daquela forma, eu só… — repensou as palavras. — Não gosto que me ajudem sem eu pedir.
— Tudo bem. — deu de ombros. — Mas se quiser ajuda para carregar, pode avisar.
— Obrigada por isso.
Voltaram à sala em silêncio.
Nesse meio tempo de caminhada entre os corredores, refletiu sobre o que dissera. Ela havia escutado aquela frase diversas vezes enquanto fazia acompanhamento psicológico por conta do trauma do desaparecimento de sua irmã mais velha.
— Obrigada por me acompanhar. — agradeceu assim que percebeu a porta da sala dos policiais bem a sua frente. — E sobre a caixa, eu…
— Relaxa, . A gente acabou de se conhecer, eu entendo caso não se sinta confortável de me ver carregando suas coisas, principalmente por serem suas coisas. — A mais baixa sorriu, colocando as mãos para trás.
— Espero que possamos ser amigas. — Ela estendeu a mão, esperando uma resposta de .
— Eu também.

🧬


Uma vez que carregava a caixa em suas mãos, se prontificou em abrir a porta. Os dois homens ainda conversavam sobre o caso ao lado de uma pequena mesa com um bolinho que a nova detetive não havia reparado.
— É aniversário de alguém? — Perguntou em um sussurro enquanto encarava o doce. custou para entender a pergunta, arqueando as sobrancelhas por um tempo até olhar em volta.
— A gente costuma trazer comida ou petiscos para não precisarmos sair durante o trabalho em algum caso. — Ela deu de ombros, abrindo espaço e andando ao lado de até sua mesa. — Ideia do .
— Ah sim… — respondeu simplesmente, sem vontade de falar sobre o rapaz.
Ainda parecia irreal a cena deles dois trabalhando em um caso juntos. Parecia ainda mais quando ela se lembrava do discurso do delegado Bang, no qual ele havia designado-a para, basicamente, “tomar conta” de .
Justamente dele.
— Você sabe quanto tempo o Jin ainda vai demorar na autópsia? — se virou para com uma pasta nas mãos.
— Como ele estava de folga ontem, acho que até amanhã mesmo. — A mulher caminhou até os homens, colocando as mãos na cintura enquanto encarava os documentos nas mãos de g. — É tudo o que temos por hora.
preferiu ficar em silêncio, colocando seus poucos pertences sobre a sua nova mesa. Seu porta-canetas, todos seus post-its e as mil e uma pastas separadas por cor – seu TOC era útil na hora de organizar os casos.
Os três pareciam bem entretidos na conversa sobre o caso, na qual se esforçou em captar todas as informações soltadas.
— Nós nem sabemos quem é a pessoa, muito menos há quanto tempo ela estava lá. — A voz de g se fazia presente. — Ninguém relatou nada sobre qualquer desaparecimento.
— Isso me deixa ainda mais encucada. — completou com seus pensamentos. — Não parecia um corpo… Fresco.
tentou segurar sua língua, mas quando notou, já havia se metido na conversa:
— Pode ser de algum morador de rua, ou talvez assassinato planejado — disse ainda organizando suas coisas, atraindo os olhares para si. Assim que levantou a cabeça, deu um sorriso sem graça. — Desculpa me intrometer, não pude deixar de ouvir.
— Não tem problema.
— Mas não há muitos casos de moradores de rua por aqui. — interrompeu , que o encarou com seriedade. — Acho que a possibilidade de ser um assassinato planejado parece mais certo.
A detetive parou por um tempo, ainda prestando atenção na conversa, mas agora com os olhos focados no último item de sua caixa.
Por uma fração de segundos, jurou que tudo em sua volta ficou em um completo silêncio. Suas mãos se dirigiram para dentro da caixa e logo seus dedos sentiram o contato com a pequena foto. Uma polaroid.
Uma polaroid dela e Kira.
— Só acho que é algo válido de se destacar. — Captou a voz de um dos rapazes, mas não conseguiu diferenciá-las no momento, mesmo que a voz de e g fossem completamente distintas.
se perdeu em memórias enquanto encarava a polaroid. O sorriso de Kira era tão deslumbrante e alegre, esbanjava vontade de viver.
Por que foi justo você?, escutou seu subconsciente perguntar, fazendo-a engolir em seco. Não podia chorar ali.
— Pelas fotos parece que foi algo bem brutal.
— Eu precisei registrar de perto. — estremeceu, lembrando-se da sensação de tirar aquelas fotos. Ela estava acostumada com assassinatos, mas nada como aquilo. — Dava para ver nitidamente o crânio dela.
— Dela? — arregalou os olhos. — Achei que fosse um homem.
— Eu não sei ao certo. — A mulher pressionou os lábios. — Como não sabemos a identidade da pessoa, eu chutei que fosse uma mulher por conta das vestimentas.
— Isso soou preconceituoso. — g juntou as sobrancelhas.
— Eu juro que não. — cobriu os próprios olhos. — Eu só não sei como devo tratar esse… Cadáver. Não até termos a autópsia.
g apenas concordou, virando-se para seguir até sua mesa. A fotógrafa encarou rapidamente, que apenas deu de ombros como se não tivesse sido nada demais.
Com uma expressão cabisbaixa, a mulher se aproximou da novata.
— Acha que fui preconceituosa? — Perguntou de repente, assustando .
— Com o quê?
— A vítima que encontramos ontem, eu tratei no feminino por conta das vestimentas — choramingou, fazendo um pequeno bico. — Mas eu só não sabia como tratar enquanto não tivermos uma autópsia.
mordeu o lábio inferior, abaixando as mãos e segurando a polaroid atrás de si. Virou seu corpo para ficar na frente de , falando:
— Acho que não, você claramente não fez na intenção e, caso não seja uma mulher, irá tratar da maneira certa, não?
— Claro! — levantou as mãos num ato de desespero. — Aish, eu não quero mais falar desse assunto até termos uma identidade.
— Relaxa. — colocou uma das mãos sobre um dos ombros da fotógrafa, dando um leve afago.
Rapidamente, virou-se de volta a sua mesa e colocou a polaroid presa no monitor do computador com uma fita transparente. Encarou por alguns segundos antes de olhar novamente, que encarava também encarava a pequena fotografia.
— Que lindas — disse simplesmente, abaixando-se para ver melhor. — Quem é essa com você?
— Minha irmã. — respondeu com um sorriso. Kira era realmente muito linda.
— Você se parece muito com ela.
— Obrigada.
não soube dizer se estava apenas com medo de ser invasiva e preferiu não perguntar, ou se ela apenas não sabia sobre o que havia acontecido mesmo.
— Mas e então, — um dos rapazes a chamou, fazendo-a procurar com os olhos pela sala. Percebeu ser g ao vê-lo abrir a boca novamente. — De onde você veio?
— Eu sou nascida de Busan mesmo. — Deu um sorriso, tombando a cabeça para o lado. — Me mudei para Seul com 13 anos e fiz faculdade nos Estados Unidos. Voltei no final do ano passado e consegui me classificar na prova da polícia.
— Invejável. — comentou com a boca cheia, provavelmente com bolo. — tentou também, mas não passou de primeira.
Um silêncio se instaurou assim que o nome do policial faltante foi mencionado. Por um lado, sentia-se bem desconfortável quando falavam dele, mas por motivos pessoais.
Do lado deles, apenas sabiam que o clima dentro da delegacia não estava bom desde que recebera a notícia.
Eles sabiam, principalmente, de como o clima pioraria assim que ele conhecesse a novata.
g olhou em volta, encarando minimamente cada companheiro, e direcionou seu olhar para , que parecia meio perdida. Com um suspiro, ele falou:
— Desculpa esse clima, a gente só está preocupado com .
deu um leve empurrão em seu ombro, como se ele tivesse falado algo indevido. Sua careta de reprovação confirmou aquilo, fazendo prender o ar em nervosismo. apenas assistiu todas as diferentes reações, visualmente indiferente.
— Eu entendo. — A voz de soou extremamente baixa, como um murmúrio. Ela pigarrou, ajeitando a postura e levantando o olhar, tentando passar uma imagem mais confiante. — Imagino que ele nem ao menos saiba que estou como superior imediata dele.
O queixo de pareceu cair, assim como o de g.
— Superior imediata? — questionou, atraindo a atenção de todos na sala para si. — Quer dizer que vocês vão trabalhar em dupla?
A mulher pressionou os lábios antes de confirmar com a cabeça.
— Uau. — O jornalista soltou o ar, com os olhos ainda bem arregalados. — Ele vai pirar.
!
— O que foi? Você sabe muito bem que é verdade. — levantou os ombros, olhando para .
— Não precisa falar assim… — ela entortou a boca, descontente.
O mesmo silêncio reinou entre eles. Dessa vez, ainda mais desconfortável.
— Olha, — a outra mulher a chamou, com a voz mais controlada. A detetive a encarou com as sobrancelhas erguidas. — Não vamos mentir para você. O delegado Bang já deve ter avisado sobre o temperamento do , então…
— Ele não falou muito.
— Bem, não tem tanto assim o que falar. — se pronunciou, apoiando o corpo com o braço em uma das cadeiras. — Ele sempre foi esquentadinho e ainda piorou depois da resposta negativa sobre o distintivo.
— Não foi negativa! — aumentou o tom de voz, batendo o pé no chão e cruzando os braços. As sobrancelhas de se curvaram. — Eles apenas disseram que ele não iria receber por agora, mas mais para frente.
— Tem algum motivo para isso? — A novata perguntou antes que rebatesse a fala da mulher.
— É meio… — g ia dizer, mas escutou o pigarreio de e se calou. — Você só precisa saber que é por motivos exclusivamente dele.
A mulher apenas assentiu, voltando a encarar a própria mesa numa tentativa falha de encerrar o assunto e o clima esquisito.
Bem, o assunto realmente se encerrou, mas o clima…
— Do que estavam falando? — Escutou uma voz atrás de si e conseguiu imaginar perfeitamente quem era o ilustre que chegara ao recinto.
O sorriso bem aberto de apenas confirmou sua teoria.
— Hey, !
O policial caminhou, a passos vagarosos, até a amiga – que era a mais distante da porta. optou por ficar quieta, ainda olhando completamente para baixo enquanto arranjava coisas sobre sua mesa para ter o que arrumar.
Assim que ele deu um high five na amiga, se virou para encarar a novata. Suas vestimentas o deixaram curioso, principalmente porque ele havia se esquecido que ela chegaria naquela semana.
— E você deve ser a… — ele começou a falar, mas não conseguiu se lembrar do nome da mulher. Olhando para ao seu lado, ele sussurrou. — Qual o nome dela mesmo?
. — A dita cuja respondeu, finalmente erguendo a cabeça. — E você deve ser o .
tentou reagir, mas seus olhos se renderam ao fato de que ela parecia ridiculamente familiar. Suas sinapses demoraram apenas uma fração de segundos para finalmente se dar conta de quem ela era.
Ou, pelo menos, com quem ela tanto se parecia.
— Caralho — sussurrou, tentando não transparecer tanto a sua surpresa. Contudo, seus olhos bem abertos e a boca aberta em um ‘o’ perfeito o entregaram.
deu um sorriso amarelado para o rapaz, engolindo em seco antes de virar os olhos para seu computador sobre a mesa novamente. Ela precisava encontrar algo para prender sua atenção e não parecer que ela estava apenas evitando .
A caixa que outrora estava cheia de coisinhas, agora se encontrava vazia. mordisco o próprio lábio antes de utilizar-se de seu último artifício – e o que ela queria evitar.
Seu próprio celular.
nos mostrou as fotos do cadáver de ontem. — voltou a falar, levantando a mão com algumas fotografias entre os dedos, chamando a atenção do recém chegado, que se aproximou. — Acho que você já deve ter dado uma olhada.
— Cheguei agora pouco de viagem, mas comentou pelo telefone. — avisou ainda encarando as fotos, agora em suas mãos. — A coisa foi feia mesmo, hein?
— Foi brutal mesmo, e os peritos tinham algumas desconfianças desse ser o primeiro assassinato de um serial killer. — estremeceu os ombros apenas com a lembrança de ouvir seus parceiros de trabalho dizendo algo do tipo. levantou o olhar. — Espero que tenha sido apenas uma morte infeliz e não planejada.
— Pelas fotos não parece com nenhum padrão que a gente já tenha visto antes. — comentou, olhando para a melhor amiga com cautela. Ele também não queria nem ao menos imaginar um caso com serial killer, não justo naquele momento.
— Teve algum caso recente de assassinato? — A voz ainda não tão conhecida pela equipe soou na sala, fazendo com que todos encarassem a novata.
— Acho que o último foi há uns dez meses. — respondeu-a enquanto encarava o teto, pensativa. g apenas concordou com a cabeça, como se também não soubesse ao certo. — Mas, se não me engano, foi em Gimhae.
— Gimhae não é a cerca de meia hora daqui? — curvou uma das sobrancelhas, descansando o celular sobre a mesa.
cruzou os braços, mexendo a cabeça em claro desconforto. Por que diabos ela está tão curiosa sobre a cidade? O que ela quer?
Sua expressão de desconforto e desconfiança foi bem visível, tanto que não passou despercebido por . A mulher apenas encarou a cara feia e entortou a boca, logo virando o rosto para outro lugar.
Aquilo fora o suficiente para .
O suspiro forte fez um barulho alto, e seus passos pesados até a mesa da novata foram ainda mais barulhentos. levantou o olhar, mas sua feição séria não saiu de seu rosto.
— O que você quer, hein? — Ele perguntou entre dentes, sustentando o olhar nos olhos da outra. Ela permaneceu quieta. — Acabou de chegar e pensa que pode sair por aí afirmando sobre as coisas que você nem ao menos tem ciência, é?
soltou uma risada em escárnio, revirando os olhos antes de encará-la novamente. Nesse meio tempo, uma das sobrancelhas de se arqueou.
… — escutaram a voz baixa e apreensiva de , como se a mulher falasse com a boca quase fechada.
— Eu acho que você deveria me respeitar mais, . — finalmente se pronunciou, agora colocando uma das mãos na cintura e a outra indo em direção a sua mesa.
— Não ligo para quem você é, .
— Pois deveria. — Um meio sorriso irônico se formou em seus lábios. A mão que estava sobre a mesa escorregou até o distintivo da mulher que estava ao lado do monitor. Ela o levantou com calma na altura do próprio rosto, deixando-o visível a , que deixara o queixo cair no mesmo instante. — Eu sou sua chefe a partir de agora, então eu presumo que você deva me respeitar.
Um silêncio mortal se instaurou na sala. Ninguém ousava em se mexer, muito menos em pronunciar qualquer coisa. mordia a ponta dos dedos, se segurando para não roer a própria unha, olhando a feição de surpresa do melhor amigo. Ela sabia que ele não reagiria tão bem e que o seu temperamento ficaria ainda mais instável.
, por sua vez, observava tudo com os olhos arregalados e braços cruzados, também surpreso. Ele não acreditava que tinha coragem de enfrentar .
g parecia chocado, mas ninguém conseguia dizer exatamente o que se passava em sua mente naquele momento.
O policial encarou o distintivo na mão de , ainda sem uma reação exata sobre o que estava sentindo no momento.
Frustração, talvez.
Ainda desnorteado com a notícia, se virou e saiu da sala sem dizer mais nada.




Continua...



Nota da autora: ELE APARECEUUUU 🥳🥳 quem amou? Ok, talvez não tenha sido da maneira mais legal de todas, mas agora o Jungkook está oficialmente entre nós e já sabe sobre a chegada da PP rs
E vocês? Gostaram? Me deixem saber nos coments!
Um cheiro enooooorme,
~xoxo

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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail. Para saber se a história tem atualização pendente, clique aqui


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