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Última atualização: 26/06/2021

Prólogo

Tac. Tac. Tac. Tac.
O barulho dos saltos batendo no chão soavam altos e apressados, como se alguém corresse.
— Não, não, não... — a garota sentiu os olhos transbordarem ao tentar virar a maçaneta. Sem sucesso.
Tchap. Tchap. Tchap.
Passos mais pesados e calmos passaram a soar, como se, quem quer que fosse, estivesse andando tranquilamente.
Kira... — uma voz rouca começou a chamar e a menina sentiu as pernas bambearem. — Onde você está, meu amor?
As lágrimas escorriam sem parar pelo rosto da moça, mas ela continuava a tentar abrir a porta de alguma forma.
— Aonde você pensa que vai? — Ele se aproximou de repente, pegando-a pelo pulso.
Tuntum. Tuntum. Tuntum.
Ficaram se encarando durante alguns poucos segundos. Ele, com uma expressão amedrontadora e mal humorada. Ela, com os olhos chorosos e a boca torcida pelo desgosto.
— Me deixe ir, por favor. — Kira sussurrou pela última vez, sem mais forças para tentar se soltar dele outra vez.
Tuntum. Tuntum.
O silêncio era tanto que podia-se ouvir o batimento desesperado dela. O coração parecia sair pela boca a qualquer momento.
— Por que você quer ir embora?
Kira engoliu em seco.
— Eu quero a minha família.
O homem riu, soltando seu pulso.
— Esse é o seu momento de recomeçar. Não era você quem sempre dizia que queria passar em uma faculdade nos Estados Unidos para sair da sua casa?
— E-eu não quero mais isso. — Sua voz falhou.
Tuntum. Tuntum.
— Eu sei. — Um sorriso psicopata nasceu em seus lábios, fazendo com que todo o corpo da garota se arrepiasse. — Você vai viver aqui, comigo, presa. Para sempre.
O homem enfiou a mão no bolso e, num movimento rápido, segurou a cabeça da menina com uma das mãos enquanto a outra pressionava o pano com clorofórmio em seu nariz e boca, fazendo-a respirar o medicamento.
Tuntum.
— Eu te amo tanto, Kira... — foram as últimas palavras que ela pôde ouvir antes de perder a consciência.


Capítulo 1

deu um suspiro antes de levantar-se de seu assento. Os outros passageiros já estavam em fila, andando devagar até a saída do avião. Ela estava em Busan, sua cidade natal e razão de seus pesadelos constantes.
Esticou o corpo até que alcançasse sua mochila, que estava guardada no fundo do armário de bagagens de mão, provocando uma cotovelada em uma das pessoas que já se encontravam na fila para sair.
— Me desculpe — pediu com um fio de voz, sem vontade alguma de ver quem ela havia acertado.
Ajeitando a gravata com uma das mãos e segurando uma maleta na outra, o homem de cabelos vermelhos apenas assentiu levemente, assegurando-a que estava tudo bem.
O papo não continuou, e apenas decidiu continuar se organizando para sair do avião. No entanto, sua mente traiçoeira a fez perder-se nos pensamentos. Ela tinha acabado de conquistar seu distintivo após graduar-se na faculdade de direito de Yale e passar no concurso nacional coreano para tornar-se detetive criminal. Sua vida estava feita, correto?
Errado.
— Senhorita, você precisa se retirar do avião. — Uma comissária aproximou-se com uma expressão tênue, acordando do transe. Com um sorriso envergonhado, a mulher apertou o passo em direção à saída da aeronave.
ajeitou a mochila sobre os ombros e caminhou até a esteira para pegar sua mala, percebendo que o salão de desembarque estava quase todo vazio e apenas a sua bagagem estava largada por ali.
— Espero que eu não acabe me encontrando com ninguém — murmurou enquanto empurrava sua grande mala sobre as quatro rodinhas. Apesar daquela cidade ter sido sua casa por longos anos, não sentia saudade alguma. Apenas mágoa.
Kang!
A mulher levantou o olhar ao ouvir seu nome e soltou a respiração que nem sabia que estava prendendo. Ok, talvez ela sentisse saudades de alguém naquela cidade.
— DANI! — correu em direção ao amigo, correndo com os braços abertos e derrubando uma das bagagens. O rapaz apenas agarrou-a com força, rodeando a nuca da mulher com uma das mãos enquanto a outra segurava sua cintura, sustentando o abraço.
Os raios fracos do pôr do Sol iluminavam algumas partes do aeroporto por conta das vidraças, deixando o clima ameno e com uma iluminação digna de filme. sentia o peito palpitando fortemente, como se toda sua saudade acumulada tentasse esvair-se no mesmo segundo, numa única batida. Já Daniel poderia jurar que a amiga conseguia escutar as pulsações do seu próprio coração. Ambos sentiam uma falta imensurável um do outro.
— Sete anos se passaram e você ainda me chama de Kang. — disse baixinho, inspirando fundo o perfume do amigo. Um cheiro de noz-moscada invadiu suas narinas, e mil pensamentos passaram por sua mente.
— Sabe como é, a primeira noiva a gente não esquece — ele respondeu com um sorriso, afagando seus cabelos e sentindo-a se aconchegar mais em seus braços. — Senti sua falta.
— Eu também. — Ela deixou algumas das lágrimas escorrerem no meio do abraço. Daniel era bem mais alto, e isso a fazia se sentir totalmente protegida quando se abraçavam. — E, ei! Você nunca foi meu noivo.
— Cala a boca e não estraga o momento — respondeu baixo, pressionando a bochecha sobre o topo da cabeça da amiga. Ele poderia passar horas ali.
Desvencilharam-se do abraço depois de um tempo e Daniel puxou a mala da garota, perguntando:
— E qual será o primeiro lugar que você irá visitar?
— Meu apartamento. — Ela entrelaçou as próprias mãos com força, como se estivesse nervosa. — Eu voltei para trabalhar, não para ficar dando voltas por aí.
— Desculpe-me por tentar ser um bom amigo e te levar para sair, eu hein.
— Qual é, Daniel, não fica chateado com isso.
— Não estou. — Soltou uma leve risada. — Só estava com saudades de sair com você, .
A garota sorriu, soltando as mãos e começando a andar ao lado do amigo até o estacionamento do aeroporto. O céu estava pintado de tons rosados e alguns pontos alaranjados, climatizando um fim de tarde brando.
— Sabia que ninguém me chamava de nos EUA? — A garota comentou enquanto sentia a brisa batendo em seu rosto ao observar o pôr do Sol.
— Claro que não, esse apelido é especial.
— Meu Deus, Kang, você realmente se acha né?
— Kang, você? — O garoto passou o braço sobre os ombros da mais nova, arrancando uma risada de ambos.
— Licença que o meu nome é . Muito mais bonito. — Ela fechou os olhos, convencida.
— Hm... Não, prefiro Kang mesmo.
Daniel e seguiram conversando até o Yaris Hatchback preto, logo deixando a bagagem da mulher no porta-malas e seguindo até os bancos da frente.
— E ai, você continua participando daquelas batalhas de break? — questionou enquanto prendia o cinto de segurança.
— Claro que sim! O que seria de Kang Daniel sem batalhas de break? — Ele desviou o olhar do retrovisor rapidamente, notando um sorriso singelo no rosto da outra. — Mas fica chato sem a minha fã número 1.
— Fico feliz em saber que ninguém roubou o meu posto.
— Ninguém nunca vai roubar, você sabe.
encolheu os ombros, sentindo a profundidade que aquela fala tinha. Ela havia captado a mensagem implícita, mas desejou que não o tivesse feito. Ela e Daniel tinham um passado. Mas era apenas isso: um passado.
— Mas me diga, baixinha. Por que decidiu voltar? — O homem perguntou depois do ambiente ficar meio tenso com sua fala anterior.
— Acabei de receber meu distintivo e recebi a proposta de servir na delegacia de Busan.
Dani já havia dado partida no carro, saído do estacionamento e caído na avenida. Apesar de estar concentrado no trânsito, girou o pescoço vagamente para observar a amiga, que entrelaçava os dedos no próprio colo e mordia o lábio inferior.
— Você tem certeza de que é só isso, ?
Ela apenas suspirou antes de responder:
— Nós dois sabemos que não.
O clima pesado voltou, mas, dessa vez, ele parecia um tanto trágico. Daniel sentiu a língua estalando na garganta, querendo comentar sobre aquele assunto. apenas virou o rosto em direção a janela, assistindo a rua, carros e árvores passando rapidamente.
— Eu sei que não vou conseguir tirar essa sua ideia maluca da cabeça, então só vou oferecer o meu apoio caso precise, ok?
A mulher deixou o sorriso escapar em seus lábios e segurou a mão do amigo, como um sinal de agradecimento. sabia que podia contar com Dani. Ela, inclusive, não sabia se teria voltado para Busan se ele não fosse continuar ao seu lado, mesmo que ela tivesse um objetivo ainda maior. A amizade de Daniel era essencial para a sua persistência.
— Obrigada por tudo.
— Somos melhores amigos, . É isso que amigos fazem.
Ambos voltaram a conversar sobre a vida de Daniel. Ele contava sobre como as boates haviam mudado desde que se mudou e sobre como era engraçado o fato de quase todos os adolescentes o conhecerem por conta da dança. Ele dançava em batalhas de Hip Hop desde novo, e sempre fora sua fã número um. As garotas iam conversar com ela quando se interessavam pelo rapaz, e isso sempre causava uma onda de risadas entre os amigos.
— Isso é tão a sua cara! — Ela riu de um dos casos amorosos do amigo.
— Não sou desses que saem correndo de uma garota, mas eu acordei com ela mordendo a minha cueca! Eu juro que fiquei com medo.
— Essa moça parece ser engraçada.
— Uma pedra no sapato, não parou de me ligar até eu trocar de número.
— Credo, quanta falta de amor-próprio. — Fez uma careta ao tentar se imaginar naquela situação. — Só faltava ela se rastejar por você.
— Nunca mais nos encontramos, mas essa lembrança me assusta.
— Relaxa, você é inesquecível! — Riram juntos, até a garota arfar, medindo as próximas palavras. — Mas, e então... Alguém perguntou sobre mim?
Daniel diminuiu o sorriso aos poucos, tentando se concentrar nas ruas cheias de carros. Ele sabia onde queria chegar, e ele não estava a fim de conversar sobre aquilo, muito menos enquanto estivesse dentro de um carro em movimento.
— E deveriam perguntar sobre o quê? — Fingiu-se de desentendido, fazendo com que a outra revirasse os olhos.
— Você sabe muito bem o que eu quero dizer, Kang.
O rapaz revirou os olhos, cansado antes mesmo de começar uma discussão. Aquele assunto era desgastante até mesmo de lembrar.
, eu senti muitas saudades de ficar contigo, andando de lá pra cá e fazendo besteira. A gente não pode ficar assim por um tempo?
A mulher piscou três vezes rapidamente, refletindo um pouco sobre sua curiosidade iminente. Certo, ela queria, sim, se atualizar de tudo o quanto antes, mas poderia ter sido mais cuidadosa ao tocar naquele assunto, né?
— Me desc-
Ela tentou se desculpar, porém Daniel soltou uma bufada forte, cansado daquele tópico antes mesmo de iniciarem, de fato, uma conversa sobre aquilo. Eles poderiam ter continuado com a conversa leve e descontraída, como chegaram naquele assunto de repente?
— Por que você quer falar sobre algo que aconteceu há dez anos?
— Dani, eu só-
— Você precisa focar em outras coisas, . Sua vida não pode rodar em volta de algo que aconteceu uma década atrás. Por que você é tão obcecada nessa história, hein?
— Porque ela é a minha irmã, Daniel! — esbravejou com lágrimas nos olhos depois de ter travado um pouco para processar. Todos pareciam julgá-la por lutar por algo que acontecera há anos, mas ela não podia fazer nada. Sua vida realmente girava em torno daquele acontecimento.
Sentindo o corpo latejar com o nervoso correndo em suas veias ao ouvir a fungada da amiga, o homem acelerou o carro por um tempo, até chegarem em uma cafeteria de bairro e Daniel estacionar.
— Não vou falar contigo sobre isso enquanto dirijo. — Justificou-se e saiu do carro, adentrando o estabelecimento.
arquejou e soltou-se do cinto de segurança, batendo a porta com força e sentindo-se novamente com treze anos. Uma adolescente estressada que saía batendo portas e pisando forte no chão. A própria birrenta.
— O que vai querer? — Ele perguntou tranquilo, olhando para o cardápio na parede.
— Um macchiato, por favor — a mulher respondeu breve, descansando a bolsa sobre uma mesinha de dois lugares no canto da cafeteria.
Ela pegou o celular e leu algumas das mensagens que recebera. “Boa Viagem, !”; “Se cuida, amiga. Sentirei sua falta, volte logoooo”. Com o coração dolorido, sorriu brevemente, querendo ter dado mais um abraço em seus amigos de Yale, que ela nem ao menos sabia se conseguiria reencontrar.
— Logo eles trarão os cafés — Daniel avisou calmamente, sentando-se de frente para a amiga. — Pois então, pode começar a falar se quiser.
— Não tenho o que falar.
— Larga de ser mentirosa, , eu te conheço. Sei muito bem que você não queria perguntar se o povo sentiu tua falta.
A menina deu um meio sorriso, tentando esconder a felicidade ao notar que nada havia mudado entre ela e Dani. Ele era seu melhor amigo que a conhecia na palma da mão e a lia como um livro.
— Você é tão imodesto.
— Oras, ninguém mandou me ter como melhor amigo. — Kang sorriu, ressaltando suas maçãs do rosto. Era bom amenizar o clima entre eles, e o rapaz sempre o fazia com facilidade.
bateu as unhas longas no tampo da mesa, tentando organizar seus pensamentos enquanto perdia-se no olhar calmo de Dani. Ela queria ser o mais sucinta possível, mas também não queria parecer direta demais.
Sua cabeça estava uma bagunça.
— Daniel chamou-a com a voz baixa enquanto sua mão esquerda escorregava pela mesa até encostar e segurar os dedinhos nervosos da amiga. — Você pode me perguntar o que quiser, eu te respondo com toda a paciência que minha cabeça permitir.
A moça envolveu a mão do amigo com as suas, agradecendo simbolicamente todo o apoio que ele lhe dava. Daniel era, definitivamente, a pessoa mais importante na sua vida além de seu pai.
— Certo. — Ela sorriu tímida, mordendo o lábio inferior. — Eu queria saber sobre o que aconteceu depois que fui embora, só isso. — A voz de continuou mansa, com seus dedos fazendo carinho sobre a pele do melhor amigo. — Só que, se você não quiser comentar sobre isso, não precisa.
— Relaxa, . — Dani sorriu novamente, tentando passar sua calmaria para a amiga. Ambos sabiam o quanto aquela conversa poderia ser dolorosa de alguma forma, por isso queriam soar os mais gentis e seguros possível.
Os dois se olharam nos olhos, transmitindo uma confiança mútua que apenas eles entendiam. Daniel puxou a própria mão quando a garçonete se aproximou com os pedidos.
— Um macchiato e um expresso — a garota, que aparentava ter 15 anos, disse sorridente.
Assim que a menina curvou a cabeça e se afastou, pegou a xícara e deu uma bebericada, sentindo o sabor adocicado do leite com a cafeína.
— A escola ficou um caos. — Ele suspirou, recolhendo as mãos e passando sobre as próprias coxas, enquanto encarava o café. — Na real, a cidade toda ficou caótica. Eu fiquei trancado em casa por mais de um mês pois não conseguia sair na rua.
— Por quê? — arregalou os olhos, não esperando que a cidade parasse por conta de um acontecimento particular de sua família.
— A filha do Major foi sequestrada, a polícia não encontrou nenhum rastro do criminoso e a família foi embora depois que a mãe faleceu. Você acha que a cidade não teria parado?
— O que tem o meu pai?
— Nada, . — Ele sorriu com os olhos preocupados da amiga. — Eu só enfatizei o quanto seu pai é importante na cidade.
A mulher assentiu, se acalmando um pouco enquanto a mão direita seguia até a altura do peito, acariciando o local por conta do leve susto. Seu coração palpitava forte.
— E então...?
— Os policiais estavam atrás da sua irmã, mas ela realmente sumiu. O seu pai deve ter comentado contigo.
negou. Seu pai, apesar de ter uma das maiores patentes no exército, não pôde inteirar-se das buscas. Era uma norma que os militares não deveriam se envolver com casos familiares, assim como é feito na medicina. Apenas uma medida de segurança à sua saúde mental.
Ou, pelo menos, era isso que gostaria de imaginar.
— Bem, eu tentei tirar algumas informações com meu primo, que trabalhava na agência da polícia, mas ele estava isento do caso. Apenas os de maior patente estavam envolvidos.
A mulher suspirou, cansando-se antes mesmo de começar seu trabalho. Independentemente de quem sequestrou Kira, essa pessoa realmente fez de tudo para nunca a encontrarem. Uma onda de desconforto apossou-se de cada parte do corpo da mulher, que jurava ter sentido um soprar em seu pescoço. Aquilo parecia um pesadelo. Tinha que ser.
— Eu darei um jeito, não se preocupe — disse com um leve desdém, tentando afirmar para si mesma de que sim, ela encontraria alguma forma de concluir esse caso.
— Eu não duvido que você fará de tudo para descobrir o que quer, , e o meu medo é justamente esse.
O rapaz bebericou seu café mais uma vez, encarando sobre a xícara as expressões confusas da mulher. Não que se perdesse fácil em uma conversa, longe disso, ela apenas processava minuciosamente cada palavra que outra pessoa proferisse.
— E sua preocupação seria de...? — Questionou novamente enquanto inclinava o corpo em direção ao rapaz. Estava ficando quente ou era impressão dele?
— Você se entrega demais. Eu fico preocupado de isso acabar tirando toda a sua paz.
— Não tenho paz desde que minha irmã desapareceu, Daniel. Eu tenho crises de insônia há mais de sete anos por conta disso tudo, você acha mesmo que estou me importando com esse caso tirar minha paz ou não?
Daniel mais nada disse, apenas ergueu os ombros ao mesmo tempo que tomava o último gole do seu café expresso. Enquanto o líquido quente descia pela sua garganta, o sabor parecia cada vez mais amargo. Ele estava inquieto. Seu pressentimento dizia que algo daria errado, mas não queria colocar nenhuma intriga na cabeça da mulher. Ela não precisava ficar cismada, não ainda.
Quanto menos preocupações rodeando sua mente, melhor.

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— Obrigada pelo café — ela respondeu sorridente, destravando o cinto. — E pela carona também.
— Olha, , tem certeza de que...
— Não, Dani, você não precisa subir. Eu farei isso sozinha, está tudo bem.
O rapaz apenas assentiu, sem coragem de contrariá-la mais uma vez em tão pouco tempo.
— Caso precise, você pode me ligar sempre que precisar. Toma cuidado. — Ele sorriu doce. era como uma irmã para ele, na maior parte do tempo.
— Eu sempre tomo.
A mulher saiu do carro, ajeitando o cabelo enquanto ia até o porta-malas para retirar sua bagagem. Ela não havia trazido tanta coisa, por isso daria conta de carregar tudo sozinha. Certo, talvez ela precisasse da ajuda do porteiro, mas, quem nunca?
Uma brisa leve e gélida trazia algumas nuvens consigo, indicando que a chuva se aproximava. Poucos raios solares cruzavam o céu naquele momento, deixando a sensação de que estava mais tarde do que realmente era. parecia focada em não deixar nenhuma das suas malas escorregar, mas na verdade, sua mente estava em outro lugar.
Aquele prédio era conhecido de outras memórias. A mulher tinha gravado na memória, nitidamente, aquele hall todo amadeirado, com carpete vermelho no chão e os lustres chiquérrimos pendurados no teto. O lugar esbanjava riqueza.
Um senhorzinho que aparentava ter no mínimo sessenta anos, aproximou-se com um uniforme formal. chutou ser o porteiro, mas não disse nada em voz alta além de um:
— Olá.
— Olá senhorita, posso lhe ajudar? — O senhor curvou-se rapidamente antes de estender a mão direita, solicitando que a mulher lhe passasse a bagagem.
— Não se preocupe, eu consigo levar tranquilamente. — Ela sorriu sem graça. Não conseguiria cobrar de um idoso que levasse suas malas até o elevador, isso era, no mínimo, triste.
Apesar de ter negado a ajuda, o senhorzinho caminhou ao lado de até o elevador e, quando ele parou no térreo, ajudou-a a empurrar a mala para dentro.
— Espero que a senhorita tenha uma boa estadia. — Sorriu levemente, fazendo com que seus olhos se curvassem juntos. soltou uma risadinha, encantada com a fofura do homem.
— Eu terei. Obrigada pela ajuda, tenha um bom dia!
Assim que a porta do elevador se fechou, a mulher soltou um suspiro forte, desfazendo a postura. Não que ela não tenha se sentido à vontade com o senhorzinho, ela apenas não estava na vibe de ficar sorrindo aos quatro ventos.
Uma música ambiente soava no cubículo até o décimo terceiro andar, o último do prédio. Era uma melodia leve e calma, mas de certa forma trazia um ar de exuberância, causando uma sensação diferente na mulher, que não estava completamente acostumada com aquele tipo de sentimento. Ela sempre tivera uma boa estabilidade financeira, mas nada que a fizesse parar e pensar: Ah, eu realmente sou rica.
empurrou a mala maior com o pé para que ela não emperrasse nenhuma rodinha no vão. O prédio era chique, muito chique. Olhou as decorações no corredor do andar, se perguntando quantos milhões de wons* havia naquele lugar de poucos metros quadrados.
Suas perguntas eram recicladas da última vez que viera conferir o prédio, aos 13 anos de idade. Era seu sonho de consumo, seu apartamento dos sonhos, mas hoje em dia ela não conseguia se lembrar exatamente do porquê gostava tanto daquele lugar.
Uma única porta de madeira preta, que se destacava na parede branca com decorações douradas, estava com uma placa, também dourada. Cobertura.
parou em frente da porta, com um turbilhão de pensamentos. Seu pai havia presenteado-a com aquele apartamento, que já era dele, mas a mulher ainda sentia um tremor no peito. Ela deveria estar feliz de estar ali, não?
A fechadura digital no lugar do trinco chamou-lhe a atenção. Será que seu pai havia esquecido de lhe contar a senha ou…
Não foi necessário mais nenhum questionamento, visto que a porta se abriu assim que pressionou o dedo sobre a tela. O acesso por biometria desbloqueou um teclado numérico, mas que fora ignorado no momento. se preocuparia em criar uma senha depois.
O apartamento já estava completamente mobiliado, da forma mais possível. Ela nem mesmo reparara no hall de entrada, apenas seguiu reto, encantada com as paredes escuras e os móveis todos em preto e branco. Poucas decorações na sala a não ser um quadro que a mulher não conseguiu reconhecer o artista, mas achara lindo. A cozinha era espaçosa, com uma ilha central de mármore, fogão cooktop, armários suspensos com portas de vidro preto e um balcão branco em formato de L.
Apesar de tudo ser totalmente monocromático, aquele padrão de cores acalmava . Quanto mais simples, melhor.
A mulher puxou as malas pelo corredor até o último quarto, dando de cara com a suíte. Era grande, com as paredes da mesma cor da sala e a mobília branca. As portas do closet e do banheiro também eram claras, dando um contraste.
Decidida a tomar um banho antes de dormir o resto do dia, retirou os sapatos e largou-os no closet, finalmente se lembrando que estava na Coreia e deveria, por costume, voltar a deixar os sapatos na entrada do apartamento.
— Preciso de um banho — concluiu em voz alta assim que se olhou no espelho. Cabelos embaraçados e rosto cansado. Mesmo que a viagem tivesse sido tranquila, sem turbulências, apenas o peso emocional de estar de volta acabava com toda sua aparência.
Sua mente pipocava todo o plano que fora passado em sua cabeça diversas vezes desde que decidiu formar-se em direito. tinha um objetivo final. Não importavam os meios.
Já está em casa? — Ouviu a voz de Daniel assim que atendeu a ligação de vídeo. A mulher descansou o celular sobre uma das estantes do closet enquanto tirava as roupas da mala.
— Você me deixou aqui há menos de uma hora, fica tranquilo. — Riu da preocupação desnecessária do amigo, mesmo sabendo que era a cara dele ligar para perguntar aquele tipo de coisa.
A mulher tirava as roupas com cuidado de dentro da mala, colocando-as de forma organizada por cor em cada gaveta. Decidiu que organizaria as blusas sociais depois que comprasse os cabides.
Daniel ainda falava no telefone, comentando sobre alguma coisa que não compreendeu direito, apenas concordava com a cabeça e ria da voz exasperada do homem. Ela parou por um tempo, prestando atenção no rosto do amigo pela tela do celular. Ele não havia mudado nada. Anos se passaram, mas Dani ainda era o mesmo. Com seu olhar infantil e animado, o sorriso lindo... Era apenas ele. Seu melhor amigo desde sempre.
sorriu para a tela enquanto se recordava daquelas pequenas coisas.
— ... por isso tô preocupado contigo, entendeu?
— Oi? — arregalou os olhos, levantando as sobrancelhas com o susto. Ele riu.
— Nada, . Não falei nada demais.
Com um sorriso envergonhado, ela abaixou o rosto até a mala escancarada no chão do closet, como se procurasse por alguma peça. chacoalhou a cabeça assim que seus pensamentos voaram para o passado, se lembrando de como as coisas eram antes dela se mudar para Seul.
Busan.
Sua querida e traumática cidade natal.

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Se alguém olhasse em sua direção naquele instante, essa pessoa não veria a luz do dia nunca mais. estava quebrada. A noite no novo apartamento não havia sido a melhor de todas, na verdade, tinha sido a pior em meses.
Não que o colchão fosse de má qualidade, mas sua mente simplesmente não desligava. Até mesmo a luz da Lua parecia estar zombando dela enquanto a mulher rolava de um lado para o outro na cama. Sentia-se sozinha e impotente.
Por que havia voltado para Busan mesmo?
passou o batom nude enquanto encarava sua própria imagem refletida no espelho. Não estava feia, mas ela tinha consciência que também não estava bonita.
Serão apenas nos primeiros dias, você vai se acostumar em breve. Vai ficar tudo bem, seu subconsciente repetia em looping, como um mantra.
Calçou os saltos altos e caminhou até a sala, encarando o pequeno cubículo com um armário branco que ia do chão até o teto. Esse deve ser o sapateiro.
Decidiu conferir, abrindo uma das portas e dando de cara com dois pares de pantufas brancas. sorriu, sentindo-se em casa pela primeira vez desde que chegara em Busan. Os costumes ainda eram os mesmos e, por mais aterrorizante que fosse estar ali novamente, ela tinha sentido falta daquilo.
Aqueles detalhes mínimos de sempre trocar os calçados antes de entrar em casa, ou quando decidia ir até a esquina comer ramyun*, pois não queria comer o que tinha em casa. Aquilo era tão… Coreia do Sul.
Ela nunca achou que sentiria falta disso, mas sentiu. E durante todos aqueles anos fora, não havia se dado conta do quanto aquela cidadezinha tomava conta do seu coração.
Um alerta tocou dentro de sua cabeça, lembrado-a de que precisava se apressar até o trabalho. precisava conversar com o delegado antes de começar sua busca secreta.
Voltou para a sala, lembrando-se que deixara a pasta sobre a mesa. Ela definitivamente não podia esquecer aqueles documentos da transferência.
ajeitou os saltos altos antes de ocorrer-lhe que seu carro estava na casa de Daniel, e ela havia esquecido de pedir para o mesmo deixar na frente de seu prédio. Deveria ter solicitado que a concessionária deixasse seu novo bebê ali no prédio.
Decidida a não ligar para o amigo naquela hora da manhã, a mulher pediu para que o porteiro – que não era o senhorzinho do dia anterior – chamasse um táxi para ela. O homem, que aparentava beirar os cinquenta anos, apenas clicou em um botão de chamada, avisando que o táxi chegaria em alguns poucos minutos. agradeceu ao reverenciar levemente com a cabeça, caminhando para a parte exterior do prédio logo em seguida.
Estava surpresa com a forma que o homem chamara o táxi, mas sentia-se grata ao mesmo tempo pois fora extremamente rápido e eficaz. Não demorou mais de cinco minutos até que o carro alaranjado parasse na sua frente.
— Para a Delegacia de Busan, por favor.
O taxista apenas murmurou um “ok”, logo voltando a dirigir. encarava os carros e prédios correrem pela rua, avoada. Sua cabeça, agora, parecia cansada demais.
Saiu do carro assim que pagou pela corrida por transferência. Ela precisava organizar sua carteira logo, pois seus cartões não estavam ali quando precisou. Onde ela os havia deixado, mesmo?
Assim que adentrou a delegacia, seus olhos percorreram por todo o local. Portas de vidro com uma faixa azul na frente, indicando que aquela era a Delegacia Central de Busan. Uma garota organizava alguns papéis por detrás de um balcão, que parecia ser como a secretaria. Se aquela moça fosse funcionária, ou ela era muito nova ou muito bem conservada.
— Bom dia… — deu um sorriso tímido, aproximando-se da outra. A menina abriu um sorriso bem aberto.
— Bom dia! Como posso te ajudar?
— Eu sou nova aqui, vim transferida da central em Seul e…
— Você é a detetive ? — Interrompeu-a, ainda sorrindo. apenas teve tempo para piscar, assustada, e concordar com um aceno. — O delegado Bang está ansioso para conhecê-la. A senhorita pode aguardar por alguns instantes?
Antes mesmo de receber uma resposta, a moça saiu andando para dentro do estabelecimento. piscou uma, duas, três vezes, repassando o que havia acabado de acontecer. Quem era aquela doida?
Optou por não fazer perguntas, apenas sentou-se em uma das cadeiras de espera e aguardou até que a jovem voltasse para o balcão, o que não demorou tanto assim.
— Pode me acompanhar?
se levantou, sentindo as mãos suando frio. Ela pensava que não ficaria nervosa, mas estava. Como seria o seu chefe? O tal delegado Bang iria impedi-la de mexer nos processos antigos? Melhor, será que ela conseguiria confiar nele para contar suas verdadeiras intenções?
Suas perguntas sem respostas concretas foram abafadas assim que a garota, que descobriu se chamar Sue, bateu à porta da sala do delegado.
A madeira era tingida de preto, com uma bonita placa prateada escrita “Delegado Bang”. A voz grossa e potente soou dentro da sala:
— Entrem.
Assim que a porta se abriu, arregalou os olhos. O chão era de madeira escura e muito bem encerado. Havia dois sofás pretos um de frente para o outro em volta de uma mesinha central de vidro, além de uma poltrona na ponta. Bang estava sentado ali.
— Sente-se! — O homem sorriu minimamente. Ele tinha poucos cabelos pretos, com a maior parte das raízes já brancas. Seus olhos eram fundos e estavam escondidos atrás dos óculos grossos de grau. Bang não era atraente, definitivamente, mas ele exalava potência.
se curvou junto de Sue, esta que saiu logo após a mais velha caminhar até um dos sofás e se sentar. Bang pegou a xícara de café que descansava sobre a mesa central, tomando um breve gole antes de começar a falar.
— Fico feliz que tenha vindo para nossa estação, Detetive . Espero que consiga se adaptar.
— Eu que agradeço a oportunidade, delegado. — ela sorriu, proibindo-se mentalmente que sua voz saísse falha. — Será uma honra trabalhar na sua equipe.
O mais velho reprimiu os lábios, repensando em certas coisas que gostaria de dizer para a mulher. Bang esperou que perguntasse mais algo, mas obteve apenas o silêncio.
— Sinta-se livre para conhecer toda a estrutura e documentação da delegacia, . Você pode consultar processos antigos caso queira. — Ele se levantou, deixando a xícara de café e seguiu até sua mesa de trabalho. — A cidade anda tranquila nesses últimos tempos, então o trabalho está bem leve.
— Obrigada pela confiança. — Ela se levantou também, curvando-se levemente antes de sair da sala, já obtendo todas as respostas que queria.
— Só uma coisa. — Bang chamou-a de supetão, pouco antes de alcançar a maçaneta. — Você só terá que me fazer um favor.
— Pode dizer.
O delegado deixou um sorriso de canto escapar, fazendo com que a mulher sentisse um arrepio no corpo, com medo do pedido.
— Você terá que acompanhar um dos policiais durante um tempo.
piscou, pouco antes de arquear as sobrancelhas. Aquilo era sério? Certo, ela sabia que tinha se formado em Direito em outro país e poderia se confundir com as leis e regulamentos, mas ela havia passado na prova para detetive. Por que diabos precisaria de “supervisão”?
— Olha, delegado Bang. — o interrompeu, fechando os olhos por dois segundos enquanto respirava fundo, não querendo soar grosseira. — Com todo o respeito, mas não acho que preciso de supervisão.
Dessa vez foi Bang quem piscou, confuso. Sua mente rapidamente processou o que a mulher falara, dando uma risadinha com o raciocínio dela.
, eu não estou avisando que alguém irá te supervisionar. — Ele riu da cara ainda mais confusa que a outra fez. — Estou pedindo para você ficar de olho em um dos policiais.
A mulher balbuciou algumas palavras, mas não conseguiu prosseguir o diálogo, sentindo-se perdida. Por alguns segundos, refletiu no quão prepotente sua fala deveria ter soado.
— Ele é um bom rapaz, já está trabalhando há um tempo aqui na base, mas não conseguiu seu distintivo de detetive ainda — o delegado continuou, sem olhar para . — Eu só preciso que você o acompanhe e ele a auxiliará nos casos, quando algo surgir.
— C-claro. — Sua voz tremeu, fazendo com que ela quisesse enfiar a cara no chão.
— Obrigado, . — Ele olhou-a com um sorriso antes de segurar uma pasta amarelada e erguê-la em sua direção.
voltou até a mesa, pegando a documentação com uma das mãos e logo abrindo-a, sentindo os olhos se arregalarem ao reconhecer o nome do seu suposto parceiro.
.

Wons* - Moeda coreana
Ramyun* - Macarrão instantâneo coreano (tipo miojo), bem apimentado




Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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