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Última atualização: 01/02/2021

Prólogo

3 de outubro de 1921:

Ao longo desse ano, aprendi a não sentir. Vejo seu vulto me cercando depressa, sinto seu braço se erguer em minha direção, ouço o barulho do contato rígido da sua palma em minha pele, mas não sinto nada. Olho-me no espelho, vejo as marcas e não consigo nem ao menos chorar. Não consigo denominar isso como força — aliás, essa é a última coisa que sinto ter dentro de mim. Ele me tornou oca. Suas agressões me tornaram uma pessoa vazia, livre de qualquer sentimento, qualquer dor. E isso pra mim não é força... é desistência. Desisti de viver. Apenas sobrevivo por meus filhos, para que eles nunca precisem passar o que eu passo.

— Rosa



Capítulo 1

Happy hour hoje, galera?
ouviu gritar do outro lado do escritório.
Era sexta-feira, fim de expediente. Ouviu quatro dos cinco funcionários que ainda restavam na empresa concordarem e sorriu triste. Seria mais uma confraternização que ela não participaria. Seu namorado, Josh, estava viajando a trabalho e não gostava quando ela saía com os amigos sozinha. Tinha ciúmes, era compreensível... Né? Ela gostava de pensar que sim. A última vez que tentou sair sem ele com seus amigos foi uma guerra e, desde então, fazia absolutamente tudo para evitar que se repetisse. Não custava esperar que ele retornasse.
— Eu passo dessa vez, . — falou, enquanto ajustava a alça da bolsa nos ombros e fechava seu notebook. — Hoje sou eu, um bom vinho e minhas séries.
— Dessa vez, ? — Riu, irônico. — Dessa e todas as outras vezes. Que dia vou ter a honra de assistir sentada ao meu lado numa mesa de bar tomando uma cerveja?
— Na próxima, prometo! — Ela deu um largo sorriso, que logo se desfez quando olhou para seu amigo .
Ele sabia por que não estava indo. Sabia por que evitava a todo custo qualquer evento social que Josh não estivesse presente. E ele odiava Josh com todas as forças do seu ser.
— Na próxima, claro! — exclamou com ironia e bufou. Se não poderia contar com o apoio do melhor amigo nessa situação, estaria perdida.
— Vou indo, pessoal. Divirtam-se, bom final de semana! — E saiu apressada pela porta.
Seu ônibus era pontual. Passava às dezoito e dois, e vinte minutos depois estava no conforto de seu lar.
morava sozinha em uma casa próxima ao centro, herança da família que nunca conheceu. Ela e sua mãe eram sozinhas e esta nunca falou muito sobre seu passado ou qualquer parente vivo ou morto. O que já era solitário ficou ainda mais quando sua mãe faleceu de câncer no último verão. Agora, a única lembrança ou laço que tinha com sua família era aquele velho imóvel. Talvez por isso fosse tão apegada. Talvez por isso já tivesse negado vendê-lo (por consideráveis quantias) todas as quatro vezes que um investidor bateu em sua porta. Sentia-se segura ali, como se seus ancestrais que nem ao menos conheceu a protegessem de alguma forma.
Jogou sua bolsa de qualquer maneira no sofá e correu para tomar um banho. Mesmo triste de não comparecer ao happy hour do escritório, sabia valorizar esses momentos a sós consigo mesma. Adorava botar seu pijama, pedir uma pizza grande só para si e afundar no sofá confortável, assistindo televisão com uma taça de vinho barato na mão sem ninguém para encher o seu saco.
Já estava no quarto episódio da nova temporada da série que assistia, quando sua mente deu um estalo.
ROSA!!! — Gritou empolgada, batendo palmas.
Correu em seu quarto, abriu o armário com uma alegria acima do considerado normal e de lá pegou um baú de madeira.
Tinha encontrado a caixa em uma das milhões de faxinas que passou a dar na casa desde que sua mãe faleceu. Aparentemente, uma música e uma vassoura acalmavam sua mente. Varrendo um cantinho de seu quarto, percebeu que a madeira do rodapé estava solta. Quando se abaixou para colocá-la no lugar, viu um buraco e, curiosa, colocou seu braço ali. Não pergunte por que, pois ela nunca vai saber explicar o que a levou a querer enfiar seu braço em um buraco desconhecido no canto de um quarto em um apartamento velho. Mas nunca se arrependeu do feito! Encontrou escondido no rodapé esse baú empoeirado e correu para descobrir seu conteúdo.
Eram cartas... Inúmeras cartas. Lendo, descobriu que era quase como um diário. E essa passou a ser sua maior distração quando o ócio batia em sua porta.
As cartas eram datadas da década de mil novecentos e vinte e assinadas por Rosa. Para que sua diversão não acabasse rápido, prometeu que leria no máximo uma por semana. Da descoberta até então, já tinham sido cerca de doze e ela já era completamente apaixonada por Rosa. Pela sua maneira de escrever, pela sua história de vida, por sua garra e seu amor aos filhos. Sentia-se até amiga, se Rosa permitisse onde quer que ela estivesse, ser chamada assim.
descobrira algumas coisas com a leitura: ela era casada, tinha três filhos e tinha como paixão cozinhar. Encontrou inclusive algumas receitas no meio de todas as folhas e já até se atrevera a replicar: o bolo de laranja da Rosa era o melhor!
Mas se sentia péssima por outro lado: Rosa era agredida constantemente por seu marido. Vivia em um relacionamento abusivo que já a fez chorar duas ou três vezes enquanto lia seus relatos. A sensação de impotência ao ler as cartas era absurda, e a curiosidade só aumentava de descobrir quem era aquela mulher. Será que poderia ser da sua família?
Levou o baú para a sala e se sentou confortavelmente de novo. Apoiou a taça de vinho no braço do sofá e pegou, aleatoriamente, mais uma carta. Com a correria do dia-a-dia, tinha se esquecido de Rosa e aquela seria a primeira carta que leria em um mês.
Rindo incrédula de pensar que conseguiu se afastar disso por longas quatro semanas, começou a leitura.

9 de janeiro de 1921:

Miguel me pediu desculpas hoje. De joelhos! Com direito a lágrimas. Fiquei feliz. Acho que todo mundo tem direito de errar, não é? Eu o perdoei, é claro! Ele é pai dos meus filhos e não posso permitir que algo assim abale o nosso casamento. Preciso avisar Francis sobre isso.

— Rosa

suspirou. Não acreditava que tinha gastado sua carta da semana com um relato de quatro linhas. Não teria problema quebrar a regra dessa vez, certo? Quem era Francis? Quando levou a mão ao baú novamente, seu celular tocou.
Salva pelo gongo, Rosa!
Sorriu ao olhar a tela do aparelho.
— Amor! — falou, apaixonada, enquanto arrastava o baú para o lado com a perna e encostava o corpo no sofá. — Como você está? Que saudade!
Oi, amor. Vou bem e você? — Josh respondeu, desanimado. Qualquer um que não o conhecesse, talvez achasse que toda aquela ligação fosse por completa obrigação. Mas não .
— Eu vou bem também. Hoje li mais uma das cartas que comentei com você aquela vez, lembra? — Ela falava empolgada, enquanto tomava um gole de vinho. — Josh, você não tem ideia! Fico cada dia mais curiosa com essa história toda. Hoje o marido da Rosa pediu perdão pra ela, você acredita? Aquele canalha. Tomara que um dia eu leia alguma carta em que ela conte que está saindo de casa.
Ah, maneiro. Te liguei para dar boa noite mesmo. Vou sair com uns amigos hoje para comemorar o sucesso do projeto, então talvez você não consiga mais falar comigo. Conversamos depois, tudo bem?
— Ahn... ok... Divirta-se, eu acho.
Obrigado. Tchau, !
— Boa noite, Josh. Eu te amo! — E não obteve resposta. Suspirou. Devia estar com pressa para sair.
Esse era um dos motivos de não gostar do namorado de . A via com frequência triste por atitudes de Josh e já tinha presenciado algumas atitudes grosseiras do homem com a amiga, nas pouquíssimas vezes que se viram. Tentou alertá-la várias vezes, mas a resposta de era sempre a mesma: “você não o conhece direito, nunca deu a oportunidade. Não tire conclusões sobre alguém com fatos isolados”. desistiu. Era aquele típico caso de ver com os próprios olhos para crer. Enquanto não enxergasse sozinha como o namorado era um lixo, de nada adiantaria.
A ligação fez com que esquecesse sua animação com o antigo baú de Rosa. Colocou sua taça quase vazia de vinho na mesa de centro e foi em direção ao seu quarto. Sentiu o peso em seus ombros quando deitou na cama e percebeu que estava realmente cansada. Aconchegou-se em seus travesseiros e, antes que pudesse fechar os olhos, sentiu seu celular vibrar na mesinha de cabeceira. Sorriu esperançosa. Poderia ser Josh mandando alguma mensagem.
Pegou o aparelho em um reflexo rápido e viu toda sua animação se esvair com a leitura de uma só frase: nova notificação de . Sabia o que era. E sabia que doeria, mesmo que gostasse de tentar se convencer que não.
Ao abrir a conversa do amigo, viu o que esperava: uma foto com seus colegas de empresa, todos meio jogados em cima um dos outros com grandes canecas de chopp na mão. Faziam caretas e sorriam. Na legenda da imagem, uma pequena mensagem: “Queríamos você aqui, . Na próxima, certo? Beijos”.
Suspirou triste.
— Na próxima, .



Capítulo 2

— Olha se não é a certinha mais certinha desse mundo! — exclamou ao ver entrando no escritório na segunda de manhã.
A garota recebera mais fotos, áudios e ligações (conforme o álcool ia entrando no organismo dos amigos) ao longo da madrugada. Sorriu.
— A certinha teve uma noite incrível de sono na sexta, obrigada! Eu estava precisando. — se sentou na cadeira vazia ao lado do colega e bebericou um pouco do café da xícara de .
Hey! Já ouviu falar de educação? Pedir? — Ele falou com um semblante sério, que não enganaria o maior dos ingênuos.
— Já. Com quem merece. Mas você, sinto que é quase uma obrigação sua me fornecer café depois de me despertar do meu sono cinquenta e seis vezes me mandando mensagens.
— Não seja injusta, não foram cinquenta e seis. Acredito que chegamos em quarenta e quatro, no máximo. — Ele riu. — Mas ... Sério agora. Vamos sair mais com a gente. Sentimos a sua falta.
— Obrigada, . — Ela sorriu, sincera. — Na próxim-
— Na próxima você vai, eu sei. É sempre o mesmo discurso, . Posso ser sincero, então? Tentei apelar pra educação, mas acho que somos íntimos o suficiente.
— Ahn... Posso não querer sua sinceridade? — Ela sorriu, nervosa, sabendo que não seria uma opção. Já tinha entendido tudo. Ela não estar presente + álcool no sangue do amigo era a receita perfeita pra desabafar tudo o que sentia para . Poderia apostar seu próprio fígado no mercado de órgãos.
— Não. — Ele ajustou a coluna e olhou para amiga. — Você tem medo do Josh, . Isso não é normal. Não é normal ele não deixar você beber uma cerveja com seus amigos numa sexta à noite. Ele nem na cidade estava, por Deus!
, não começa!
— Não, . Começo sim. Você acha mesmo, de verdade, que nessas viagens à trabalho ele não sai pra beber? Por que diabos ele pode e você não?
— Eu... — ela não teria resposta pra essa pergunta.
Lembrou da ligação que recebeu na sexta-feira... Josh havia realmente saído. Nunca tinha parado pra pensar, na verdade. Mas não era hora disso, estava passando dos limites.
— Você está passando dos limites. — Repetiu a frase que ecoou em sua cabeça. — Josh é um ótimo namorado, só prefere que ele esteja ao meu lado quando saímos e não tem absolutamente nada de errado nisso. E, sinceramente? — Plhou no relógio e viu que já eram oito e dez. — Estou dez minutos atrasada para bater o ponto. Bom trabalho, ! — E saiu como um furacão para iniciar o seu dia. Dia esse que passou voando.
era arquiteta em um escritório razoavelmente famoso na cidade e sempre que voltava de um fim de semana em que não levava trabalho pra casa, se atolava. Reunião para aprovação de projeto, reunião com novos clientes, detalhamento, visita em obra... Ela só queria chegar em casa.
Pensar nisso lhe deu um quentinho no coração. Hoje era o dia que Josh retornava e ele iria direto ficar com ela. Como ela morava sozinha, seu namorado ficava constantemente em sua casa, viviam praticamente uma vida de casados e, sinceramente? Não era nada ruim!
Ao fim do dia, pegou o seu mesmo ônibus de sempre, mas, dessa vez, conseguindo um lugar para se sentar. O universo estava sendo muito generoso com ela! Aproveitou o conforto que só um banco vazio de ônibus no fim do expediente proporciona e iniciou uma conversa com Josh:
“Hey, lindo. Ansiosa pra vc chegar! Quer comer alguma coisa diferente?”, apertou o enter e viu uma resposta chegar mais rápido que o normal.
“Não mais que eu! E adoraria comer o seu strogonoff. Se não estiver muito cansada para cozinhar, claro! Sei como seu trabalho é complicado.”
sorriu, confusa. Não que ele a tratasse mal, longe disso, mas ele estava muito... carinhoso? Não sabia nem como denominar, mas aproveitaria. Depois de um dia extremamente cansativo, um carinho do seu namorado era tudo que precisava.
“Nunca estou cansada para te agradar. Espere um strogonoff quentinho quando chegar! Te amo!”, enviou a mensagem e nem esperou resposta.
Levantou-se, estava chegando em casa. Um sorriso moldava o seu rosto de orelha a orelha. Seus amigos definitivamente não conheciam Josh.

já estava de banho tomado dando os toques finais ao jantar que preparava para Josh, quando ouviu a campainha tocar. Correu para atender e nem deu espaço para seu namorado respirar ao abrir a porta. Enlaçou seus braços no pescoço do homem à sua frente e o beijou demoradamente.
— Saudade, .
Ela não gostava muito desse apelido, pra ser sincera. Preferia “”, como todos a chamavam, mas ele dizia que “” era mais bonito e exclusivo, porque só ele usava. Resolveu ignorar, afinal de contas, era só um apelido, não é?
— Eu também, amor. Entra, tome um banho... o jantar está quase pronto!
— Estou sentindo o cheirinho daqui! Não demoro, tudo bem? — E seguiu em direção ao banheiro.
sorriu sozinha e foi para a sala preparar a mesa.
O jantar aconteceu sem problemas. estava pensando muito em tudo que e falaram pra ela e tentava enxergar cada palavra nas atitudes do namorado. Nada! A única coisa que via ali, era um homem engraçado, carinhoso e entusiasmado contando sobre cada detalhe de sua viagem. Não conseguia entender qual era a dificuldade dos amigos de tentar dar uma chance a Josh. Mas ela ia tentar, ao menos. Iria fazer que os dois lados mais importantes da sua vida se dessem bem. Questão de honra!

•••

— E é isso. Não aceito não como resposta, tudo bem? — falava cada palavra como se tentasse explicar de onde os bebês vinham para crianças. Aquilo era importante pra ela e nada poderia dar errado.
— Por mim tudo bem, . Se vai te fazer feliz, eu topo. — disse no seu já conhecido tom compreensivo. Ela não poderia desejar um amigo melhor.
— Não espere de mim a mesma animosidade do . Não gosto do Josh e não acho que sentarmos em uma mesa de bar vai mudar alguma coisa. — dizia, enquanto brincava com o canudinho de metal da sua bebida.
Estavam os três na cozinha do escritório durante o horário de almoço.
— Pega leve, . Estamos fazendo isso pela , certo? — disse e quis apertar suas bochechas por isso.
Ele não cansava de ser fofo?
— Tá, tá. Por você, certinha. E só por você. — Ele levantou, jogou fora a embalagem do seu almoço e se direcionou à porta. — É só me falar data e horário. Mas não espere muito de mim, tudo bem? — E saiu sem olhar pra trás.
— Pff... Já me arrependi e o encontro ainda nem aconteceu. Não sei mais o que fazer com o . — desabafou com o amigo, que continuava ao seu lado.
— Tente entender o lado dele também, . Ele se preocupa com você, assim como eu me preocupo.
— Vocês não têm nada com o que se preocupar gente, por Deus! Josh é uma ótima pessoa, só é diferente do que vocês estão acostumados. E isso não é uma coisa ruim. — Ela falou sem paciência, apoiando as mãos na mesa e erguendo o corpo para se levantar da cadeira, quando a interrompeu pegando com calma em seu braço.
— Ei, não é pra ficar brava. — soltou o braço de quando viu que a amiga olhava diretamente para sua mão. Continuou, desconcertado. — Somos seus amigos e estamos aqui por você, tudo bem? Vai dar tudo certo.
— Obrigada, . Mesmo. — Saiu, não sem antes dar um beijo na bochecha do amigo. Tinha sorte em tê-los, apesar de tudo.
A semana passou rápido. O encontro entre os quatro aconteceria no sábado e não podia se conter de alegria. Josh estava com um ótimo humor desde que chegou da viagem e concordou com certa facilidade em sair com os amigos da namorada.
— Nos vemos amanhã, amor. Beijos! — desligou a ligação e seguiu para o sofá.
Era sexta e ela estava novamente sozinha em casa, mas dessa vez era diferente. Era por escolha própria. Josh havia chamado para dormir em sua casa, mas ela negou. Hoje era um daqueles dias em que ela verdadeiramente queria sentar no sofá, curtir sua própria companhia e tomar um vinho. O baú já estava devidamente posicionado na sua frente e a taça ao seu lado. Era hora da Rosa!

6 de abril de 1921:

Precisei usar blusas longas hoje. Miguel já se desculpou, só que as marcas em meu braço não sumiram. Mas não deixaria de sair por isso. Ainda mais em um dia especial como hoje! Eu sempre amei as quermesses da cidade, não perderia por nada! Encontrei Francis já no centro, próximo à festa. Miguel não poderia sonhar que ele foi a minha companhia. Já não gostava que eu saísse sozinha, imagina com um homem.

Parou a leitura por um segundo e prendeu o ar. Depois de pensar um pouco, balançou a cabeça e afastou os pensamentos. Rosa era fisicamente agredida, céus. Ela estava longe dessa realidade.

Foi uma tarde bem agradável. Francis me contou um pouco mais sobre seu amor secreto pelo melhor amigo de seu pai, o que me causou gargalhadas. Aquela, claro, seria uma conversa que morreria ali. E eu sentia muito por Francis. Infelizmente não vivemos em uma sociedade onde ele possa abrir esse sentimento dessa maneira. Pergunto-me se no futuro esse momento vai chegar. Espero que sim!
Enfim, estou indo dormir com o coração tranquilo. Foi um bom dia.

— Rosa

O coração de ficou igualmente sereno lendo aquela carta. A cada uma que lia, gostava mais de Rosa. Era uma mulher tão à frente de seu tempo, querida, carinhosa, dedicada aos filhos, talentosa... Como queria ter a conhecido!
Quase quebrou sua regra com o baú, mas estava com tanto sono que conseguiu resistir. Guardou toda a pequena bagunça que fez na sala e foi se deitar. Amanhã seria o grande dia!



Capítulo 3

— Obrigada por estar fazendo isso pro mim, Josh. É muito importante. — falou, enquanto folheava o cardápio. Já estavam no restaurante escolhido para o encontro esperando e .
— Claro, . Sei que é importante para você. E também gostaria de ser mais próximo dos seus amigos. — Josh disse, tomando um gole de sua cerveja com o olhar entediado.
não percebeu, estava animada demais para isso.
— Ah, ali vem eles! Meninos! — acenou, alegre.
Eles perceberam e vieram ao encontro dos dois.
— Boa tarde, casal. — cumprimentou simpático e se sentou na cadeira em frente .
— Tarde, ! — disse dando um beijinho no rosto da amiga, percebendo olhares atravessados de Josh em sua direção. Que ele tirasse uma foto pra encarar e continuar com raiva mais tarde. Não deixaria de tratar como sempre tratava por seu namorado babaca. — Olá, Josh. — E se sentou ao lado de .
— Aceitam uma cerveja? — Josh disse, forçando uma educação que não lhe era tão comum, e fez uma careta.
— Não combina com o meu humor hoje. Vou querer um cosmopolitan.
— Eu vou na sua, Josh! — sorriu, levantando o braço para chamar atenção do garçom.
Fizeram seus pedidos, enquanto conversavam trivialidades do trabalho.
— Mas, sinceramente, você pediu essa resposta dele, amigo! — disse com lágrimas nos olhos, enquanto ria alto de um caso que contava.
Um Josh confuso olhava para os três.
— Calma aí... Você disse pro seu chefe que ele poderia te repreender se você fosse um garoto mau?
— Muito, muito mau. — e falaram juntos e uma nova rodada de gargalhadas ecoou o restaurante.
cerrou seus olhos, o rosto vermelho como seu cosmopolitan que acabara de chegar.
— Estávamos em tom descontraído na cozinha, ele quis se enturmar como um funcionário comum, o tratei como tal, ué. — Ele disse, enquanto tomava um gole de seu drink. Riram e continuaram batendo papo e decidindo o que almoçar.
, a disse que você talvez trouxesse sua namorada... não pôde vir? Ai, ! O que eu fiz? — Josh massageou sua costela, onde tinha acabado de receber uma cotovelada.
— Acredito que você foi levemente agredido, porque o correto é namorado, querido Josh. — Ele disse, cínico. — Não se preocupe, amiga. Mas não, ele não pôde vir. — Deu ênfase no pronome masculino.
— Você é gay? — Ele gargalhou e um silêncio se fez na mesa.
não poderia estar mais envergonhada.
— Eu estava preocupado à toa então!
— Você tem algum problema com isso, Josh? — o desafiou, olhando nos olhos do homem à sua frente.
— Não, de forma alguma. Só não esperava isso de você. Mas eu devia ter desconfiado quando você pediu essa bebida rosinha aí! — Ele riu e tomou um gole de sua cerveja.
— Josh, pelo amor de Deus! — falou, sentida. — Me desculpa, , ele só está brincando.
— É, cara, eu estou só brincando. — Falou rindo mais um pouco. — Você não, né, ? Com você então não posso baixar minha guarda.
— Minha opção sexual não interfere no meu caráter, fique tranquilo. — finalizou o assunto pela primeira vez com um semblante de poucos amigos.
Havia uma linha bem tênue entre tentar agradar a e aguentar esse tipo de conversa. E ela sabia disso. Não poderia estar mais decepcionada.
O almoço estava acabado antes mesmo de começar, sabia que não haveria como recuperar dali. A vontade real era de levantar e ir embora, mas já tinham feito seus pedidos, o que restava agora era tentar fazer com que os últimos minutos do trágico encontro não dessem ainda mais errado.
— A comida está com a cara deliciosa, não é? — disse com uma falsa esperança de melhorar o clima, enquanto seus pratos eram servidos.
viu nos seus olhos o desespero e teve pena. A amiga estava desesperada tentando ajustar o que o namorado fez — mesmo ela não tendo culpa alguma —, enquanto ele bebia sua cerveja despreocupadamente, sem se importar se magoou ou deixou de magoar alguém. Teria que concordar com : ele era um idiota que não merecia chance alguma. Mas com a sua amiga era diferente. Aquela ali merecia todas as chances e ajudas do mundo, e não seria agora que ele a abandonaria.
— Sim, ! O cheiro também está delicioso, né, ? — Olhou direto para o amigo, que entendeu o recado.
— Sim, amiga, você escolheu perfeitamente o lugar. Vamos atacar, então? — completou, sorrindo verdadeiramente.
Faria o seguinte: seguiria o almoço, fingindo que Josh não existia. era uma pessoa incrível que, infelizmente, estava cega de amores por um cara idiota. Faria isso por ela e rezaria todos os dias para que um dia ela enxergasse isso.
Com a decisão de e de ignorarem o namorado da amiga, o almoço seguiu tranquilo. Os três riam e conversavam o tempo inteiro, enquanto Josh tomava sua vigésima caneca de cerveja olhando para o jogo que passava na televisão. Quando o juiz apitou no fim do segundo tempo, ele se manifestou.
, vamos embora? Estou cansado.
— Ahn... vamos sim, amor. — Olhou para os amigos, que sorriram e assentiram. — Vamos pagar a conta.
— Paguei nossa parte quando fui ao banheiro. Vamos logo. — Disse já se levantando. — Tchau, casal! — Disse rindo, olhando para e , que não fizeram nenhum esforço para responder.
— Me desculpa. — sussurrou para os amigos, apertando o passo para alcançar o namorado que já estava próximo à porta. — Você poderia ter fingido que tem educação, Josh. — falou com raiva assim que passaram pela grande porta de vidro do restaurante.
— Ah, para, né, ? Seus amigos não aceitam brincadeira?
— E você realmente considera “brincadeira” falar dessa maneira da opção sexual de alguém que você está tentando conhecer melhor?
— Sim. Que frescura... — ele disse ríspido, afastando-se um pouco ao acender um cigarro. — E, sinceramente, se não gostou, é só não voltarmos a nos encontrar. Não vai fazer falta alguma.
— Você realmente não se importa, não é, Josh? Comigo, com meus sentimentos? Você não percebe que isso era importante pra mim? — Ela disse olhando pra ele, que não devolveu a cortesia.
Continuou fumando seu cigarro, observando o movimento dos carros em sua frente.
— E o que tem a ver seus sentimentos com isso tudo, ? O mundo não gira em torno da porra do seu umbigo. Eu tentei, com bastante esforço, me aproximar dos seus amigos. Mas pelo visto são uns imbecis que não aceitam uma brincadeirinha, francamente. Acho que você não vai morrer se a gente nunca mais se ver.
— É... Pensando melhor, você está certo. — Ela disse com raiva, usando toda a ironia que continha em seu corpo. — Vou embora sozinha, não se preocupe em me levar em casa. — Disse, dando as costas para o namorado.
— Quem você pensa que é para me dar as costas dessa maneira? — Ele disse levantando um pouco a voz, puxando-a forte pelo braço para si. — Você não vai embora sem mim. Não vai me desrespeitar desse jeito no meio da rua.
— Você tá me machucando, solta! — Ela falou já sentindo o olho arder. Mas não iria chorar, não ali na frente dele.
— Tá tudo bem, senhorita? — O segurança do restaurante saiu do seu posto e foi em direção a eles.
— Tá tudo ótimo. — Josh respondeu, com um sorriso forçado para o homem à sua frente.
— Eu não perguntei para você. — Ele disse, olhando fundo nos olhos de . — Senhorita, está tudo bem aqui? — Reforçou a pergunta.
— Está tudo ótimo, moço, obrigada pela preocupação. — Ela aproveitou o momento para se soltar das mãos de Josh, que continuava apertando seu braço na mesma intensidade. — Já estamos indo embora.
— Eu disse. — Josh falou, jogando seu cigarro no chão e pisando em cima. — Se me der licença... — e pegou as mãos da namorada, levando-a ao ponto de táxi localizado em frente ao estabelecimento.
O trajeto até em casa foi silencioso. começou a passar em sua cabeça cada vírgula da conversa com o namorado em frente ao restaurante e um frio desconhecido na espinha surgiu. Ele nunca tinha sido tão estúpido com ela em todo o tempo do relacionamento deles.
Olhou para o braço em que ele agarrara mais cedo e viu uma tímida manchinha roxa começar a despontar ali. Respirou fundo, permitindo que algumas lágrimas teimosas caíssem, enquanto ela olhava pela janela. O que estava acontecendo?



Capítulo 4

O restante do fim de semana passou sem problemas. Josh pediu desculpas à pelo acontecido no sábado e voltou a tratá-la com paciência e carinho, o que foi suficiente para fazê-la esquecer de suas paranoias. Estava tudo bem novamente.
Chegou cedo ao trabalho na segunda-feira, queria conversar com os amigos direito sobre o almoço e pedir desculpas. Assim que bateu seu ponto e subiu para sua estação de trabalho, viu seu amigo já sentado em sua mesa.
— Bom dia, amigo. — Ela disse carinhosa e ele retribuiu. — Podemos conversar rapidinho?
— Claro, . Vamos para a cozinha.
Seguiram juntos e ela já começou a vomitar as palavras assim que a porta se fechou.
— Eu não sei dizer, de verdade, o quão envergonhada eu estou com o comportamento do Josh. Me desculpa, mesmo! Eu não esperava isso dele e...
Ele a interrompeu.
— Amiga, você não tem que pedir desculpas. E eu já esperava isso dele. — Ele falou sincero, mas em tom sereno. — De verdade, não se desculpe por ele. Eu só fico na esperança de que um dia você enxergue que esse tipo de atitude não é normal. Que Josh não é para você. Mas enquanto esse dia não chega... não se desculpe por ele, nunca mais.
— Eu não consigo entender, ... ele simplesmente surta às vezes. — Ela disse gesticulando, fazendo com que percebesse o grande hematoma roxo em seu braço.
— Que isso, ? — Ele falou, assustado. Se tinha uma coisa que sabia ser, essa coisa era observador. Aquilo não estava ali no sábado.
— Ah... — ela tampou o braço com a mão, sem graça. — Isso? Distração minha. Bati no batente da porta chegando em casa.
Ahn... Como exatamente você conseguiu fazer isso? — disse, desconfiado. Aquele roxo não foi causado por uma batida na porta nem aqui, nem na China.
— Ué, ... fui entrar, medi errado o espaço que meu corpo ocuparia e bati o braço. Não tem muito que explicar. — Ela disse desconcertada, o que só o deixou ainda mais desconfiado.
— Ok, tudo bem. Toma cuidado, garota! — Ele disse, tentando aliviar a conversa, mas ainda não acreditando na palavra da amiga.
Josh não seria capaz de encostar em , seria? Esperava muito que não.
— Vamos trabalhar, então. Cuidado com a porta. — Ele disse, irônico, abrindo-a e deixando um grande espaço para ela passar.
— Dã, idiota! — Riram e se encaminharam a seus postos de trabalho.

O relógio marcava meio-dia e quarenta e oito, quando seu celular vibrou ao seu lado, avisando que uma notificação chegou. Era , no grupo dos três amigos.

» : Olá, senhores. Gostaria de saber se eu poderia ter o privilégio da companhia de vocês hoje durante o almoço. Mas queria muito que fôssemos ao japonês que abriu na rua de cima. Aguardo resposta, atenciosamente.

“Japonês? No fim do mês? Ganhou na loteria, xuxu?” respondeu, rindo.
“Ele vai pagar pra gente amiga. É isso!” mandou logo em seguida, arrancando gargalhadas da amiga.

» : Ahh, aí sim! Então podemos ir.
» : Nossa, a mão de vocês não pesa de ficar sempre fechada assim? Eu nunca peço nada pra vocês e quando peço, ficam nessa aí.

“Aunnn, ele ficou chateado. Nós vamos, ! Minha boca salivou por um salmão agora. Vou só enviar uns e-mails e estou liberada.” respondeu, desligando o seu celular logo em seguida.
Em poucos minutos, estavam os três andando em direção ao tal restaurante.
— Espero que esse japonês valha meu rico dinheirinho de fim de mês, . — disse divertido, enquanto subiam a rua.
— Ah, vai valer mais que o bife que você comeu sábado em um tal almoço aí. — disse divertido e sorriu.
Não adiantava fingir que nada daquilo tinha acontecido e sabia que não tinha falado para magoá-la.
— Ouch, mas nem respirou pra jogar essa na minha cara. — Ela fechou o semblante, fingindo-se ofendida.
, eu tô brincando! — Ele disse, abraçando-a de lado, enquanto ela gargalhava, segurando a mão dele em seu ombro.
— Eu sei, . E, inclusive, preciso te pedir desculpas por tudo. Já conversei com o hoje... estou muito envergonhada.
— Desculpas pelo quê? Não foi você quem fez a bobeira. Para de se desculpar pelos outros.
— FALEI A MESMA COISA! — gritou, apontando para a amiga.
— Tá gritando por que, minha filha? — revirou os olhos, rindo. — Preciso pedir desculpa sim, gente. Afinal de contas, a péssima ideia foi minha. Não vou mais forçar isso. O Josh é difícil, eu sei... mas sei que ele tem um coração bom. Um dia vocês vão ver isso, naturalmente.
— Me paga uma cerveja no happy hour de sexta e te perdoo. — disse, esperando a resposta negativa da amiga, que tinha certeza que viria. e happy hour não eram coisas que combinavam.
— Fechado! — Ela disse, surpreendendo os dois.
Fe... fechado? Desde quando você vai em social dos seus amigos? Ah, não, você vai levar ele... — fez cara de nojo, fingindo vomitar.
— Eu vou sozinha. Josh também sai com os amigos dele, eu preciso ter o mesmo direito. — Ela disse firme, tentando convencer mais a ela do que os amigos.
Eles pararam de andar e começaram a bater palmas, reverenciando a amiga no meio da rua.
— Parem com isso, idiotas!
acordou, pessoal! Essa é minha amiga! — disse alto, chamando atenção de algumas pessoas ao redor.
— Eu não conheço vocês. — Ela disse, abrindo a porta do restaurante japonês e deixando eles para trás.
Foram atendidos rapidamente e sentaram em uma mesa no fundo, fazendo seus pedidos logo em seguida.
, mas agora é sério: estou muito orgulhoso de você. E vamos amar sua presença sexta, vai ser o melhor happy hour do ano! — disse empolgado, fazendo a amiga sorrir boba.
— Eu também ‘tô feliz por mim. Obrigada, ! Que venha sexta-feira, para brindarmos com algo de verdade. Mas enquanto não dá... — ela levantou seu copo de refrigerante, sendo acompanhada por seus amigos. — Um brinde à minha companhia! — Riu.

Como sempre era quando estavam juntos, o almoço seguiu leve. Entre (muitos) risos e conversas, eles terminaram de comer e estavam se preparando para ir embora, quando decidiu tocar em um assunto que o estava incomodando.
— Que isso no seu braço, ? — Ele apontou para a amiga.
— Essa tonta bateu o braço na porta, você acredita, ? — Ele falou olhando para o amigo, esperando que conseguisse passar no seu olhar o quanto ele não acreditava naquilo. Funcionou.
— O quê? Não acredito não! Que lerda, . Como foi?
— Deixa ela te contar, enquanto vou ao banheiro... — se levantou, deixando os dois sozinhos.
— Ah, não foi nada. Eu só fui descuidada, bati na porta entrando em casa. — Ela disse baixo, cansada daquele assunto.
— Mentira. — disse firme e simplesmente.
— Quê? Como assim, mentira? Eu já falei, bati na port-
— Não, não bateu. Eu estava saindo do restaurante, enquanto o pagava a parte dele e vi quando Josh te pegou bem aí. — Ele apontou, a expressão séria e fria como nunca tinha visto. — Estava pronto para pará-lo, quando o segurança chegou. O Josh fez isso com você, .
— Eu...
— Não precisa falar nada. Aliás, precisa sim. Ele faz isso com frequência? Te machuca?
— Claro que não, !! Pelo amor de Deus! — Ela disse assustada só de pensar na situação.
— Mesmo, ? — Ele insistiu, preocupado.
Pensou em questionar o casal no dia, mas tudo aconteceu muito rápido entre a chegada do segurança e a saída deles do estacionamento, então preferiu deixar pra lá. Não sabia a gravidade da situação até ver o hematoma no braço da amiga.
— Mesmo, . Não se preocupe. E, por favor, não conte ao . Foi um acidente, só isso.
— Eu não vou contar, se você prometer me dizer se o Josh encostar um dedo em qualquer fio de cabelo seu. Estamos combinados assim?
— Estamos. Mas não vai precisar, de maneira alguma. — disse, finalizando o assunto quando viu voltar do banheiro. — Vamos embora? Estamos atrasados para bater o ponto.
— Certinhaaaaa! — Os dois amigos repetiram seu apelido em uníssono, rindo.

•••

A semana passou rápido e só tinha uma coisa em mente: precisava se impor para Josh. Ela deu sua palavra que sairia com os amigos do escritório na sexta e não pretendia voltar atrás. Ela precisava ter seu espaço e liberdade dentro do relacionamento. Não estava pedindo muito, estava? Mas o medo a impediu de fazer a ligação até na quinta-feira. Adiou o quanto podia, mas dali não podia passar.
Ela podia sentir o seu coração batendo quase na garganta, enquanto ouvia o celular do namorado chamando. Ele atendeu no segundo toque, para sua decepção.
Oi, ! — Ele respondeu, com alguns barulhos de panela no fundo. — Você não morre tão cedo, sabe o que estou tentando fazer? Seu strogonoff. Mas está tudo dando errado. — Ele completou rindo.
prendeu o ar. Josh estava de bom humor, talvez seja o momento perfeito para falar de sua saída.
— Ahh, não é tão difícil assim, vai? — Ela disse divertida. — Me conta, em qual etapa você está? Posso te ajudar de longe.
Já coloquei o creme de leite no frango, mas o tempero não está igual ao seu. Não ‘tô gostando. Coloquei ketchup, pimenta do reino, sal, um pouquinho de molho de tomate... mas ‘tá ruim, ! — Ele falou com voz de pirraça.
— É porque tá faltando o melhor ingrediente, amor! — Ela exclamou. — Falta mostarda. Ela é o toque do meu strogonoff, vai por mim.
Ahhh, é verdade. Calma só um segundo, vou testar.
Ela ouviu o barulho da geladeira sendo aberta e esperou uns minutos.
— E aí?
Eu te amo! Ficou maravilhoso, era isso que estava faltando. — Ele disse com alegria na voz. — Agora só faltava você aqui pra comer comigo!
— O fim de semana já está chegando, deixa uma sobrinha pra eu provar.
Com certeza! Amanhã você prova um pouquinho. — Ele falou, fazendo com que uma onda de calor passasse pelo corpo de .
Era isso. Tinha chegado o momento.
— Ah, amor, sobre amanhã... Eu queria te falar uma coisa. — Ela falou e recebeu um resmungo de incentivo do outro lado da linha. Suspirou e continuou. — Amanhã eu queria muito... — e interrompeu sua fala. Ela não estava pedindo permissão e sim avisando. Precisava mudar a forma de falar com o namorado.
Não estou te entendendo, . — Josh falou, a conhecida impaciência já voltando a se mostrar.
— Amanhã eu vou sair com o pessoal do escritório. — Ela falou firme e fechou os olhos, apertando o celular com mais força que o necessário.
Josh ficou em silêncio.
Quando pensou em chamar sua atenção, ele respondeu.
Ok.
— Ok? Só isso?
Quer que eu fale o quê? Ok, ué. Pode sair com seus amiguinhos. Já deu pra perceber aquele dia que eles não me oferecem perigo algum. — Ele disse, fazendo pensar.
Josh teria que aceitar a sua saída independente do que achava dos amigos, e não porque ele simplesmente decidiu que não há “perigo” para a relação deles. Ia contestar isso, mas preferiu ficar calada. Já tinha conseguido o que queria, não causaria nenhuma briga.
— Ahn, tudo bem, então. Posso ir para sua casa quando eu sair de lá, se preferir! Aí dormimos juntos.
Melhor não. Você deve chegar tarde, a gente se vê no sábado. Vou desligar agora, , meu jantar está esfriando. Beijos.
— Beij- — e a ligação foi terminada.
levantou do sofá que estava sentada, dando pulinhos. Josh finalmente aceitara sua saída, estava se sentindo livre e feliz. Abriu a conversa com os amigos no celular e mandou uma mensagem.

» : Hey, bitchessss! Já decidiram aonde vamos amanhã? Vão se arrepender de terem implorado tanto por nessa saidinha de vocês!
» : Olha pra isso, . Mal chegou e já está sentando na janela, essa folgada. Não sabe do que somos capazes não.
» : Eu ainda não acredito nem que ela vai, . Avisa que quando ela chegar no bar a gente conversa, por favor?
» : EI, eu tô aqui! Parem de conversar como se eu não estivesse?

“Boa noite, .”, disse, encerrando a conversa.
sorriu desafiada e foi para a cama. Provaria para seus amigos que também podia ser divertida e não essa “certinha” que eles tanto gostavam de chamá-la.



Capítulo 5

— Já mudou de ideia, certinha? — perguntou, quando viu a amiga chegando no escritório no dia seguinte.
— Olha, se as coisas não mudaram enquanto eu dormia, o educado é dar bom dia primeiro quando as pessoas chegam de manhã. — Ela riu, sentando-se em sua mesa e ligando o notebook.
— Bom dia. Já mudou de ideia, certinha? — se intrometeu, sentando na ponta da mesa da amiga, olhando divertido para ela e ajustando sua gravata.
— Vocês são insuportáveis. E não, não mudei. Vocês realmente não me dão crédito, né?
— Seu saldo ‘tá negativo nessa aí de crédito, . — falou, atirando uma bolinha de papel na direção da amiga, que foi interceptada por .
— Vou deixar seu saldo positivo, tá, ? — Falou, recebendo um olhar de reprovação do amigo, que disfarçava o riso. — Mas se você decepcionar... — ele se abaixou, ficando na altura do rosto dela. — Na próxima, não vai ter ninguém pra impedir isso aqui de te acertar. — Falou mais baixo e se levantou, arremessando a bolinha no lixo ao lado de .
Balançou a cabeça rindo e endireitou o corpo. Quando sua atenção cruzou a de , recebeu um olhar malicioso que a deixou confusa. Ignorou o amigo e iniciou seu dia de trabalho.

— Eu não reclamaria se você e a dessem uns pegas. — falou, chegando por trás de , enquanto ele enchia sua caneca de café.
— Que susto, filho da puta. Do que você tá falando?
— Ah, , me ajude a te ajudar. Eu sei que no fundinho aí da sua cabeça você já pensou nisso também.
— A namora, seu doente. — Ele falou rindo e se virando com a caneca cheia, sentando em uma cadeira no canto da cozinha, que estava vazia. — E eu também estou naquele lance com a Claire, você sabe.
— Namora um idiota que não merece nem um pouquinho do amor dela. E a Claire? Me poupe. Dou duas semanas para acabar.
— Uau, obrigado meu amigo, pelo apoio incondicional ao meu relacionamento. E quanto à , só a gente sabe disso tudo. Quem precisa entender mesmo, segue achando que vive um conto de fadas. Então tira essa ideia da sua cabeça.
— Tarde demais. Eu já estou cem por cento dedicado a fazer esse casal acontecer. Tchau, Petezinho. — E saiu da cozinha, deixando um refletivo.
Seria mentira se ele falasse que nunca tinha olhado a amiga com esses olhos. Mas sempre respeitou muito o namoro com Josh, até porque, sabia o quanto ela era apaixonada por ele.
Balançou a cabeça, rindo, afastando seus pensamentos e foi em direção à sua mesa.
Josh podia ser um canalha, mas ele não seria um ainda maior. Enquanto namorasse ou ele estivesse nesse rolo com Claire, essa possibilidade não existiria.

estava tão empolgada com a saída com os amigos, que a tarde passou arrastando para ela. A hora simplesmente não passava. Por isso, foi uma alegria imensa olhar no relógio e perceber que ele indicava cinco horas.
— CINCO HORAS! — Ela deu um gritinho para , que riu.
— Você realmente não desistiu? Tudo bem, eu assumo, mordi minha língua. — Ele disse, levantando os braços em sinal de rendição. — Eu pago sua primeira cerveja por isso.
— E eu pago a segunda. — completou, já preparado para ir embora, passando pela mesa dos dois amigos.
— Opa, vou enrolar mais para sair com vocês. Com duas cervejas eu já consigo ficar alegrinha. — Ela disse rindo, enquanto arrumava suas coisas.
— Toma vergonha nessa cara, . Duas cervejas não dão nem pro cheiro. — disse, juntando-se a na saída do escritório, enquanto continuava sentada, mexendo em seu celular. — Vamos, criatura!
— Espera só um pouquinho. — Ela disse vagamente, abrindo a mensagem que acabara de receber.

» Josh: Estou quase arrependido de ter te deixado ir nesse negócio. Onde vão? Quem vai estar lá? Me avise.

fez uma careta ao ler e resolveu ignorar a mensagem do namorado. Não ia deixá-lo estragar sua noite.
— Vaaamooss! — Ela passou pelos dois. — Quem mais vai? Só nós três? Poxa...
— Nossa presença não é suficiente para você, ? — disse ofendido.
— Não, idiota. Só achei que mais gente iria. Queria um happy hour de respeito quando eu participasse, né!
— Eles vão, . — disse sorrindo para a empolgação da amiga. — Adam, Jamie e Claire vão nos encontrar lá. Tinham algumas coisas para fazer depois do trabalho.
— Ahhh, eba! Tudo bem então, vamos. Nosso carro chegou. — E entraram os três no Uber, em direção ao destino tão espero pela garota.
O lugar escolhido era do jeito que ela gostava. Tinha dois ambientes: um com o bar, com algumas mesinhas e banquetas espalhadas pelo local e o outro, no segundo andar, virava uma boate após as nove horas da noite. mal podia esperar para dançar um pouco! Fazia tempos que ela não saía para isso.
— Amiga, ainda nem acredito que você está aqui com a gente! — disse alegre, abraçando a amiga de lado, enquanto escolhiam a mesa que sentariam.
— Amigo, eu tambééém! — Ela retribuiu o abraço antes de se sentar na cadeira em sua frente. — Vamos aproveitar e recuperar o tempo perdido, tá?
— Então vamos começar. Cerveja para todo mundo? — perguntou, levantando o braço para chamar a atenção do garçom.
— Cerveja! — falou e concordou. — Ah, e também quero algo para comer. Não almocei hoje, preciso colocar algo no estômago. Pode ser um hambúrguer de cheddar com fritas, . — Ela falou ao amigo, que prontamente fez o pedido deles.
— Desse jeito você não vai ficar bêbada. Quero drunk ! — reclamou.
— Se eu não comer, você vai ter uma dead do seu lado em no máximo uma hora. Não serve de muita coisa também. — Ela riu.
— Falando em dead, e a Rosa, ? — puxou o assunto, enquanto bebia um gole da sua cerveja que acabara de chegar.
— Credo, ! Que péssimo jeito de associar ela. — Ela reclamou, agradecendo com um sorriso ao garçom pela cerveja, mas deixando a caneca de lado. Esperaria seu lanche chegar para beber.
— A mulher ‘tá morta, quer que associe com o quê? — falou, também dando um longo gole em sua bebida.
— Credo, vocês são muito insensíveis. Não falem assim dela. — Ela fingiu estar ofendida e riu. — Essa semana eu ainda não li nada. Hoje era o dia. Na verdade... — ela disse, sorrindo largamente.
— Lá vem. — respondeu, olhando divertido para .
— Eu trouxe uma carta hoje. — Ela disse abrindo a bolsa e pegando um papel. — Vamos ler antes de todo mundo chegar?
fez uma careta e olhou rindo para a amiga, que tinha os olhos brilhando.
— Por favoooooor, seria incrível ler uma carta da minha melhor amiga Rosa com meus dois melhores amigos.
— Para de chamar a moça que já morreu de sua melhor amiga, que eu leio. — falou entre risos.
— Não paro e você vai ouvir mesmo assim. Vamos lá. — Ela disse por fim, abrindo com cuidado o papel.

7 de agosto de 1920:

Hoje foi o dia em que comecei a vender os meus bolos. Eu não poderia estar mais feliz!

— AH, MEU DEUS! Rosa vendia seus bolos para fora. EU ESTOU TÃO FELIZ POR ELA! — interrompeu a leitura empolgada, causando risos nos amigos.
— Vai, continua, ‘tô curioso! — falou sincero, incentivando a amiga.

Ainda me magoa muito saber que Miguel não me apoia, mas eu finalmente consegui driblar seu egoísmo e ter a minha liberdade. Se quero vender meus bolos, não será ele quem vai me impedir.

e se entreolharam.

Ter amigos nesse momento é o que verdadeiramente importa. A alegria do Francis ao me ver vender os bolos é impagável. Estou muito feliz!
Agora vou indo, a cozinha me espera!

— Rosa

— Nossa... A Rosa nunca cansa de me impressionar. — disse verdadeiramente tocada, ainda olhando para o papel.
...? Sério? — disse, levando um chute debaixo da mesa de . Não seria assim que entrariam nessa questão.
— Como assim? — Ela disse confusa, sendo interrompida por .
— Já não se acostumou com as viagens do , ? — Ele falou com um sorriso amarelo, tentando mudar o assunto.
Nesse momento, o sanduíche de chegou, fazendo com que ela se esquecesse da fala do amigo. Aproveitando a distração dela, roubou uma batata e passou em um pedacinho de queijo que escorria por seu sanduíche.
— Obrigado. — Ele disse, piscando para , que sorriu, suas bochechas ficando inexplicavelmente vermelhas.
— Faça de novo e vai conhecer a ira da mulher que tem seu cheddar roubado.
— Cheddar é o melhor queijo, né? Sem discussões. — completou, tomando mais um gole de sua cerveja.
— Percebe-se de longe que vocês não sabem apreciar um bom queijo. — falou, fazendo uma careta de desaprovação.
— Fala pra gente qual é o melhor queijo, então, senhor dos alimentos lácteos. — provocou, antes de dar mais uma mordida em seu sanduíche.
Gruyère, gouda, camembert... Isso se eu for citar os básicos, que vocês podem encontrar em qualquer lugar. Cheddar tem gosto de pé e noventa por cento dos que são servidos por aí não tem qualidade, tem cor de massa extraída de Chernob... — foi interrompido por uma batata que acertou seu rosto, jogada por .
— Pelo amor de Deus, cala a boca, eu te imploro. — falou suplicante, fazendo gargalhar, limpando rastros do seu lanche no rosto com um guardanapo.
— Dois contra um, amor. Você perdeu. Cheddar wins! falou, enquanto mandava beijos no ar para o amigo.
— Vocês se merecem mesmo. Péssimos. Vou pegar outra cerveja no bar, querem? — Recebeu resposta afirmativa dos amigos e saiu em direção à bancada para fazer seus pedidos.
, posso te pedir uma coisa? — falou, olhando para a amiga.
— Claro, . Se eu puder te ajudar. — Ela disse simpática, bebendo o resto do que sobrou em sua caneca.
— Posso ler as próximas cartas da Rosa com você? De verdade, eu me interessei muito na história dela. — Ele falou genuíno, fazendo abrir um sorriso de orelha a orelha e seu olho se encher de lágrimas.
Pra qualquer um, essa reação seria boba, mas só sabia a importância das cartas para ela. Foi sua maior distração após a mãe falecer, mas ninguém dava a menor atenção para isso. Josh sequer ouvia, era obrigado, mas, ela conseguia sentir que ele não tinha o menor interesse em nada do que ela falava. Então ter alguém para dividir isso era, no mínimo, incrível.
, você tá chorando?
— Não! Eu só estou feliz. De verdade. A Rosa significa muito pra mim e, como você sabe, não tenho com quem dividir isso. Então ouvir que você quer acompanhar comigo, deixou-me genuinamente emocionada. É CLARO que você pode. Vou te ligar todas as sextas então, pra gente ler junto. Quando você tiver na rua eu envio mensagem, não tem problema. E aí, na segunda, podemos conversar sobre tudo o que achamos! Nossa, vai ser muito legal. Você pode me ajudar também a tentar descobrir quem é a Rosa. Não é curioso? Eu só consigo pensar nisso ultimamente e...
? — Ele falou baixo, prendendo a atenção da amiga.
— Oi?
— Acho que deu problema na sua configuração, tem uns sete minutos que você tá falando sozinha sem parar, estou um pouco preocupado. — Ele falou segurando o riso.
— Ai, que idiota. Eu estava só empolgada! Retiro o que eu disse, não vai mais ler nada da Rosa comigo. — Ela falou pirraçando e recebeu um abraço desengonçado como resposta.
— Eu ‘tô brincando! Acho muito legal sua empolgação com esse assunto. Estamos combinados, então! Sexta-feira é dia de Rosa.
— Há! Muito combinados. — Ela disse, erguendo a sua cerveja para que brindasse.
Assim que terminaram o brinde, os colegas de trabalho chegaram. Todos se cumprimentaram e se juntaram aos amigos na mesa. Para surpresa de , Claire cumprimentou com um selinho e se sentou ao seu lado.
— E aí, do que vocês estão falando? — Claire perguntou, bebendo a cerveja que ainda restava no copo de , evidenciando ainda mais a intimidade entre os dois.
Por algum motivo desconhecido, se incomodou.
— Nada demais. — A garota se antecipou, impedindo que tocasse no assunto de suas cartas com outras pessoas. — Só reclamando do trabalho hoje. Não sei para vocês, mas a minha sexta-feira foi cansativa. — Ela sorriu, convencendo Claire do assunto.
— Nossa, nem me fale! — Ela bateu o punho na mesa. — Hoje eles estavam completamente descontrolados! — Claire falou, referindo-se aos seus chefes.
— Não é? — Adam se intrometeu, após fazer seu pedido para o garçom. — A Cassy pediu para eu fazer o detalhamento de uma fachada inteira em uma hora. Uma hora! Eu não consigo nem escrever um e-mail nesse tempo. — Ele completou, fazendo os amigos rirem.
— Mas conseguiu? — perguntou, interessado.
— É claro que não. — Adam falou, agradecendo com um sorriso sua cerveja que chegara. — ‘Tá maluco? E confesso que fiz força pra não conseguir também. Se eu entrego uma fachada em uma hora, amanhã ela ‘tá me pedindo o projeto inteiro em trinta minutos. Não pode dar espaço, que eles crescem.
sorriu concordando e ficou observando seus amigos continuarem a conversa. Estava tão feliz por estar ali! É incrível como sentar e falar dos problemas diários com quem sofre o mesmo que você fazia bem.
Seus pensamentos foram interrompidos por seu celular, que não parava de vibrar em sua bolsa. Já sabia quem era. Pegou e leu as notificações:

» Josh: Não vai me responder?
» , estou falando com você! Não larga o celular e agora não me responde.
» Me diga onde estão e eu vou te encontrar.
» Você não sai mais!
» está aí?

Suspirou profundamente, buscando calma de um lugar que nem ela sabia onde encontrar. Não era possível que Josh atrapalharia a sua noite.
Desbloqueou o celular, disposta a dar uma resposta que encerrasse o assunto. Talvez se arrependesse disso mais tarde, mas, agora, parecia o mais sensato a se fazer.

» : Josh, estou em um bar com os meus amigos falando sobre trivialidades do trabalho. Você não vai vir aqui. Por favor, me deixe curtir a noite com tranquilidade, tudo bem? Você não tem com o que se preocupar, eu te amo. Boa noite, até amanhã. Te aviso quando chegar em casa.

Apertou o enter com uma dorzinha conhecida no coração. Sabia que as consequências dessa mensagem não seriam boas. Mas, poxa, estava tão feliz! Por que ele não a deixava em paz um pouco?
Quando sentiu seu nariz arder e uma conhecida vontade de chorar tomar conta do seu corpo, sentiu um peso nos seus ombros.
— Prova essa bebida! — entregou-lhe uma taça contendo um líquido azul e um morango na borda.
— Eu já comecei com cerveja, amigo. Vai dar ruim. — Ela falou resistente, cheirando a bebida em sua frente.
, por mim! Experimenta! Eu te conheço, é do seu gosto! Você só tomou uma cerveja, qualquer coisa continua só com o drink daqui pra frente. — Ele disse suplicante.
— Tá bom, tá bom. O que você não me pede sorrindo, que eu não faço chorando? — Ela sorriu, bebericando o líquido azul. Realmente, seu amigo a conhecia. A bebida era uma delícia e ela queria mais vários daquele. — Hummm, que delícia. Ok, você venceu. Vou querer mesmo. Vamos no bar pedir outro comigo? — Ela pediu e ele concordou, dando o braço para a amiga.
Chegaram ao bar e fizeram o pedido para o barman, que prontamente foi atendido. O lugar ainda estava um pouco vazio.
— Ami, preciso te perguntar uma coisa. — Ela falou receosa, olhando para .
— Ih, que que foi? Eu tentei fazer o apelido “ami” pegar há anos e você nunca gostou! O que você quer? — Ele falou, já esperando alguma coisa de Josh vindo por aí.
— O tá ficando com a Claire? — Ela perguntou com um tom de indignação, que não passou despercebido por , que sorriu.
— Ficaram naquela última saída que você não quis ir. Desde então a Claire não larga do pé dele. Mas por quê? — Ele disse alargando o sorriso, colocando o canudinho da sua bebida na boca.
— Ué... Por nada. Curiosidade. Eu não sabia, ninguém me conta nada. — Ela falou, disfarçando o incômodo, afinal de contas, nem ela mesma sabia o motivo disso.
— Ele não contou, porque como eu mesmo disse para ele, não dura duas semanas. Ele ‘tá de saco cheio dela, mas você conhece o ... Fofo demais pra dar um fora. E ele não ‘tá fazendo nada mesmo... — ele falou e ela olhou em direção aos dois.
Claire falava algo no ouvido de , que sorriu largamente.
— É, não parece. Acho que ele está gostando. — Ela virou o resto de sua bebida que tinha sido servida há alguns poucos minutos, fazendo gargalhar.
— Você não ‘tá bêbada o suficiente pra ouvir o que eu queria falar. Outro? — Ele sugeriu, indicando o cardápio.
— Vamos experimentar todos? — Ela falou animada, batendo palminhas.
— Essa é a minha drunk ! — Ele falou, abraçando a amiga e concordando. — Vamos. Qual o próximo da lista?

e continuaram experimentando bebidas no bar por um bom tempo. Quando sentiu que os efeitos do álcool já estavam dominando seu corpo, resolveu parar.
— Amigo, cansei. Sua drunk já chegou. — Ela disse rindo, segurando no ombro de .
YES! Vamos voltar pra mesa então, estamos muito socialmente isolados nesse bar. — Ele disse, pegando-a pelo braço, enquanto iam em direção aos amigos.
— Resolveram parar de segredinho e se juntar a nós? — falou, olhando para os dois.
— Quem é você pra cobrar alguma coisa em relação a segredo aqui, né, Petezinho? — Ela falou irônica, bagunçando o cabelo de e se sentando na outra extremidade da mesa.
— Quê? — Ele perguntou confuso, olhando para , que segurava o riso.
— Não é nada, . Isso é efeito de cinco drinks do bar em menos de meia hora. Não se preocupe. — respondeu, encerrando o assunto e salvando a pele da amiga.
A noite passou rápido e estava se divertindo cada vez mais. Quando deu o horário da boate do segundo andar abrir, ela foi a primeira a entrar. Queria aproveitar cada minuto que tinha no lugar! Depois da mensagem que enviou para Josh, sabia que as coisas ficariam difíceis. Ela sabia que demoraria a voltar ali.
Dançou sozinha por vários minutos, até ver Jamie bem próximo, dando pequenos passos ritmados, enquanto bebia uma cerveja.
— James! Não sabia que dançava. — se aproximou do amigo e falou um pouco mais alto em seu ouvido, para que ele ouvisse além da música.
— Eu tento, né? — Ele riu. — Gosto de dançar, mas não sei fazer isso.
— Ah, é tão fácil! — Ela respondeu alegre. — Faz assim, oh. — E segurou a cintura de Jamie, ajudando-o a se mover com o ritmo da música que tocava.
Bem perto dali, observava a cena com .
— Quanto de bebida você deu para a ? — Ele perguntou, enquanto ainda olhava para amiga.
— Não muito... O suficiente para se divertir. Deixe-a.
— Amanhã ela vai se arrepender daquilo ali, . E o Jamie está se aproveitando. Segura aqui. — Ele entregou sua garrafa para o amigo e foi em direção aos dois na pista de dança.
! — Falou, puxando a amiga carinhosamente pelo braço, tirando a atenção dela de sua pequena aula de dança. — Fiquei sabendo de um drink legal que você tomou. Não quer ir ali no bar me ajudar?
— A gente ‘tá dançando, cara. Não pode ser depois? — Jamie falou impaciente, olhando firme para .
— Não, não pode. Bora, . — Ele falou, empurrando de leve a amiga em direção às escadas da boate.
— Por que você tá chato assim? — Ela falou emburrada, enquanto era levada ao primeiro andar.
— Não ‘tô chato, bebinha. Estou cuidando de você, é diferente. — Ele se sentou na mesa onde estavam antes da boate abrir e o acompanhou.
— Cuidando de quê? Não preciso de cuidados! — Ela falou, ainda com a cara fechada, parecendo uma criança.
sorriu.
— Quando você estiver sóbria, talvez você entenda. Vamos comer alguma coisa? — falou, sem vontade alguma de comer, mas pensando na amiga. definitivamente precisava de açúcar no sangue. — Sorvete?
— Sorveeteee! — Ela confirmou e fez o pedido.

— E aí, a mocinha aceitou o pedido de desculpas, você acredita nisso, ? — falava há minutos sozinha sobre um filme que tinha assistido na noite anterior e, por incrível que pareça, ele não se entediava. A empolgação da amiga em passar as emoções para ele era tão grande, que ele achava engraçado.
— Não acredito não, . Que absurdo. — Falou irônico, recebendo um tapa no braço logo em seguida. — Toma aí logo o seu sorvete, vai derreter. — Ele disse, enquanto colocava a taça em frente .
— Você não quer? — Ela disse, após se servir de uma colherada, recebendo um não com a cabeça do amigo em resposta. — Ah... Só um pouquinho... — e sem pensar, em um ato rápido, colocou seu dedo na taça, pegando uma boa porção de sorvete e sujando o rosto de .
— Ah, ... Sério? — Ele disse, tentando parecer nervoso, mas falhando.
Os dois gargalhavam, enquanto tentava sujar ainda mais o rosto da amiga. Foram minutos assim, até o celular de interromper com um toque alto. Ela bufou.
— Josh não para de me ligar. Não aguento mais.
— Atende, . É melhor. Bom que ele te deixa em paz depois. — disse sereno. Se fosse por ele, Josh poderia ser mais um ex de que ele não ligaria. Mas como isso ainda não tinha acontecido e sabendo da relação conturbada dos dois, não seria o melhor conselho pedir que a amiga ignorasse o namorado.
bufou e seguiu o amigo.
— Alô. — Ela disse seca, ouvindo um suspiro forte do outro lado.
Está solteira e não estou sabendo, ? — Josh disse ríspido.
— Quando você estava na sua viagem e saiu com seus amigos sem me dar a mínima satisfação, você estava solteiro sem eu saber, Josh? — Ela disse na mesma entonação, com uma coragem que sóbria jamais teria.
olhava atento.
Quando você vem pra casa? — Ele disse, abaixando a voz após a resposta da namorada, tentando se acalmar. Josh conhecia e sabia como controlar cada atitude que vinha dela.
— Você disse que não me queria aí hoje.
Agora quero. Vem, . — A voz de Josh mudou da água para o vinho. Se antes o tom era ríspido, agora era carinhoso.
suspirou quando ouviu ele a chamar pelo apelido.
— Você vai ficar bem comigo?
O homem sorriu do outro lado da linha. Tinha conseguido o que queria.
Eu estou ótimo com você. Só estou com saudades... Queria você comigo agora.
— Então eu vou. Só vou pagar a minha conta e pedir um Uber, tudo bem? Beijos. — Ela disse, percebendo um olhar confuso do amigo à sua frente. — Josh me pediu para ir embora. Mas fica tranquilo, ele não está bravo. Só está com saudade. — Ela sorriu, tentando convencer .
— Ah, , me poupe. Desisto de você. — Ele disse impaciente e percebeu a amiga abaixando os ombros, desanimada. — Desculpa. Não queria ter falado assim. É só que...
, obrigada pela preocupação. — Ela o interrompeu. — Mas te juro, está tudo bem, prometo. Avise o que fui embora, tá? E aqui... — pegou duas notas de cinquenta reais dentro da bolsa e entregou ao amigo junto com sua comanda. — Paga minha conta pra mim, por favor? Meu Uber já está chegando, vou correr. Beijinho ! — Ela disse, já se encaminhando para a saída, quando lembrou de uma coisa.
Drunk ainda estava presente, afinal de contas.
— Ah, ! — Ela chegou perto do amigo, apertando as suas bochechas com uma só mão sem nenhuma delicadeza e falando em seu ouvido. — A próxima vez que esconder de mim seus casinhos dentro do escritório, eu corto um braço seu fora. — E saiu, deixando um confuso e arrepiado só de lembrar-se da voz baixa da amiga tão próxima. Mas isso ninguém precisava saber.

— Demorou, ! — Josh falou, abrindo a porta para a namorada.
— Demorei nada, para de exagero. — Ela falou com a voz arrastada pela bebida, detalhe que não passou despercebido por Josh.
— Você bebeu? — Ele disse, tentando controlar seus ânimos.
— Claro, né, dã! — respondeu rindo, batendo fraco na testa de Josh. — Eu estava em um bar com meus amigos e não ia beber? Você por acaso bebe cerveja zero por cento álcool quando sai com seus amigos, amor? — Ela falou gargalhando, como se fosse a piada mais engraçada que havia contado.
Josh não estava achando graça, mas disfarçou.
— ‘Tá certa, você venceu. — Ele disse, forçando um sorriso e puxando a cintura da namorada. — Estava com muitas saudades de você... Do seu corpo... — ele disse, enquanto beijava sem delicadeza o pescoço de .
— Saudades de você também, meu amor. — Ela disse manhosa, colocando uma de suas mãos na nuca do namorado e iniciando um beijo lento, que rapidamente mudou sua velocidade com a agressividade que Josh passou a colocar no ato.
— Você lembrou a noite toda que era minha, né? — Ele falou, deitando por cima de no sofá, enquanto apertava forte seu corpo.
— Lem... Lembrei... — ela disse, desistindo de tentar pela milésima vez ter um momento carinhoso com o namorado. Era sempre assim. Forte, rápido, possessivo, do jeito que ele queria. Sempre.
— Acho bom. — Encerrou a conversa, puxando o vestido de para cima e tirando suas próprias roupas com rapidez.
Mais uma vez as coisas foram do jeito dele. Mais uma vez iria dormir se perguntando como as coisas seriam se fossem diferentes.



Capítulo 6

— Alô? — falou animada, quando seu amigo atendeu ao telefone.
— Fala comigo, ! — respondeu, após engolir rápido o resto de maçã que estava na boca.
Quando viu o nome de no visor do celular, nem pensou antes de atender.
— Já está sentado? Vou começar.
— Começar o quê?
, você está brincando comigo! Hoje é sexta-feira! — Ela disse fingindo ofensa e rindo depois. — Você não disse que queria ler as cartas da Rosa comigo? Pois bem. Vou ler uma agora.
— Ah! — Ele bateu na testa, rindo com ela. — Verdade! Calma, deixa eu me arrumar. — Ele disse, indo em direção ao sofá depois de pegar uma long neck de cerveja na geladeira. — Estou pronto. Pode começar.
abriu a primeira carta que encontrou no baú, limpou a garganta como se estivesse se preparando para um discurso, e começou a ler:

12 de outubro de 1920:

Não estou com vontade de escrever. Vim só porque fiz um compromisso comigo mesma de deixar registrado nessas folhas tudo o que acontece. E sei que um dia eu vou reler todos os meus próprios relatos e suspirar aliviada que consegui superar tudo isso.
Hoje Miguel se descontrolou de novo. Chegou bêbado em casa e me encontrou na cozinha preparando a massa dos meus bolos. Eu iria vendê-los amanhã em uma feirinha próxima à praça.

— Não quero continuar. Já vi que vai ser feio. — suspirou.
— Que vontade de quebrar o nariz desse sujeito.

Ele nunca gostou muito da ideia de sua esposa trabalhar vendendo bolos e deixou bem claro isso pra mim hoje. Além dos puxões no cabelo e mordidas no braço, ele fez questão de derrubar todos os tabuleiros com massas prontas, só esperando ir ao forno, no chão. Terminei a noite limpando a bagunça que ele fez na cozinha. Perdi toda a minha produção e agora não vou poder participar da feira.

— Rosa

— Ela nem se despediu dessa vez. Foi realmente só um desabafo. — disse, limpando uma lágrima solitária que insistiu em cair. — Você não tem ideia da vontade que eu tenho de voltar cem anos pra ajudar a Rosa.
— Pior que eu tenho, . E olha que estou me envolvendo na história dela só agora.
— Espero de verdade que na semana que vem eu sorteie uma carta mais alegre. — Sorriu fraco. — Vou dormir, . Estou cansada, hoje o dia foi cansativo demais.
— Realmente! Claire me chamou para ir ao cinema, não pensei duas vezes antes de recusar. O escritório está uma loucura.
— Humm... Claire! Estão sérios ainda?
— Ah, não diria “sério”. Mas estou gostando de ficar com ela. Quem sabe...
— Entendi. Vou indo, . Boa noite. — E desligou, fechando o baú de Rosa e indo em direção ao seu quarto.
De novo ela tinha se incomodado de ouvir o nome Claire e aquilo estava tirando sua paz. Era seu amigo, ele estava feliz. Qual era seu problema?
Balançou a cabeça para afastar os pensamentos e se deitou na cama. Fechou os olhos e graças ao seu dia exaustivo, dormiu rapidamente.

•••

acordou cedo naquele sábado, o que não era um costume seu. A garota adorava se manter na cama até o sol alcançar o seu ponto máximo no céu. Mas aquele era o seu dia! Ela esperava ansiosamente, desde que se entendia por gente, os trezentos e sessenta e quatro dias que antecediam o seu aniversário passarem. Quando ele chegava, ela pre-ci-sa-va aproveitar cada minuto dele! Acordar tarde não seria uma opção.
Abriu as cortinas de seu quarto e levantou em um pulo. Viu uma chamada não atendida do seu namorado no celular e sorriu. Ele tentou ser o primeiro! Rapidamente retornou à ligação.
— Bom dia!
— Bom dia, ! Liguei para falar que vou demorar um pouco para chegar na sua casa hoje, ok? Coisas do escritório. Mas em breve estou aí!
sorriu ainda mais. Aquela era a certeza que ela precisava!
— Tudo bem, amor. Te espero então! Até daqui a pouco. — E desligou sem esperar uma resposta.
Ela passou a semana inteira desconfiada de que seus amigos estavam organizando uma festa surpresa pra ela e Josh não lhe desejar parabéns com uma desculpa para se atrasar só confirmou seus pensamentos. Ninguém conseguia esconder uma surpresa dela!
— Bobinhos... — gargalhou e seguiu para o banheiro.
Um bom aniversário começava com uma ducha caprichada.
As horas foram passando e sua inquietude aumentou. Alguns amigos já haviam mandado mensagens de parabéns, mas ela continuava sozinha em casa olhando para o teto. Tempo suficiente para se incomodar com uma manchinha preta próxima à lâmpada que, se não fosse por esse tempo de análise, passaria despercebida.
Quando levantou para buscar um pano na cozinha para tentar solucionar aquele problema, ouviu a campainha. Josh!
Correu para atender e ao abrir, viu seu amigo na porta com uma garrafa na mão. Sorriu.
! O que está fazendo aqui?
— Parabéns, minha certinha preferida! Acha que eu ia ficar longe da minha melhor amiga no aniversário dela? Trouxe vinho, espero que Josh não se importe em te dividir comigo hoje. — Falou virando os olhos, enquanto entrava pela porta.
Er... Na verdade, Josh não está aqui. Agarrou com umas coisas do trabalho, mas já deve estar chegando! E claro que ele não vai se importar. — Terminou de fechar a porta atrás de si e seguiu o amigo, que levava o vinho para a cozinha.
— O Josh não está aqui? Como assim? — falou rápido, massageando as têmporas após deixar a garrafa em cima da pia.
É claro que ele não poderia fazer uma coisa certa ao menos uma vez na vida.
estava certa, afinal: haveria uma festa surpresa. E parte da história para enganá-la seria fundada ali, com e Josh levando para beber alguma coisa, convencendo-a a não ficar em casa, até que chegariam em seu bar preferido e seus amigos estariam esperando lá, com faixa, balões e bolo, algo bem brega e grandioso do jeito que ela gostava. E isso tudo aconteceria em — olhou o relógio em seu pulso, impaciente — quarenta e cinco minutos.
— O trabalho dele exige muito, , você sabe! Mas ele não deve demorar. Vamos começar nós dois! — pegou as taças e serviu o vinho.
brindou desconfiado, pedindo aos céus que Josh não pisasse na bola, pelo menos hoje. Já tinha sido um sacrifício enorme entrar em contato com ele para combinar essa surpresa, pensou que depois do fatídico almoço, iria falar com ele apenas o básico... Enfim, ele tinha meia hora para aparecer.
— Me conta, ! Alguma novidade na semana da aniversariante? — falou, enquanto sentava no sofá após o brinde, olhando para a amiga ainda em pé na sua frente, matando o tempo que precisava para Josh chegar e os amigos se prepararem no bar.
— Nenh... Na verdade, tem sim! — Ela deu um pulinho. — Sabe quem descobri que faz aniversário no mesmo mês que eu? — Ela falou com um brilho nos olhos, que só um assunto específico trazia ultimamente.
— Há, me deixa adivinhar... Rosa?
— SIM! Olha só, que coincidência. Hoje acordei e me permiti ler outra carta dela como presente de aniversário. Eu já tinha lido uma ontem com o . — Pegou um papel em cima da mesa e entregou para o amigo, enquanto tomava um gole de seu vinho.
— Você e essa Rosa, ... já está virando obsessão. — Ele riu, pegando o papel da mão da amiga.
— Ela é minha amiga, não fale assim. — Sentou ao lado de , acompanhando a leitura dele.

4 de maio de 1921:

Hoje é meu aniversário. Não que exista muito o que comemorar ultimamente. Miguel nem sequer se lembrou da data, saiu para beber com os amigos bem cedo e ainda não retornou. Começo a achar que as suas desculpas não adiantam de muita coisa, no final das contas.
A única coisa boa de hoje aconteceu graças aos meus filhos. Dora fez um bolo delicioso pra mim e cantamos parabéns juntos, nós quatro. Criei filhos incríveis. Deram-me também uma rosa branca de presente, dizendo que era tão bela quanto eu. “A mamãe é ainda mais linda, Dora!” meu mais novo completou, quando minha filha mais velha entregou o presente. Emocionei-me. Muita coincidência a escolha da flor, não é mesmo?
Agora preciso ir. Acho que Miguel chegou.

— Rosa

— Essa mulher sofria muito, . É quase sádico que você goste de ler essas coisas. — Ele entregou o papel para a amiga e tomou mais um gole.
— É muito interessante, . E percebe? No final? Como assim coincidência a escolha da flor? O nome dela não é Rosa? Como seria coincidência? Sério, a cada linha que eu leio, fico mais fissurada com a história toda. Parece que sinto ela em cada lugar dessa casa e... — ela parou de repente, olhando o amigo, que parecia não estar nem um pouco interessado na conversa. — Poxa, ! Hoje é meu aniversário, quem pode ser mais interessante que eu? — brincou, puxando o celular da mão dele com um semblante falso de tristeza.
— Me perdoa amiga, de verdade. — falou aflito, recuperando seu celular. Estava enviando a vigésima mensagem pra Josh para saber do seu paradeiro, sem resposta. — Vamos passear? Beber alguma coisa? Ninguém merece passar o seu aniversário dentro de casa. — completou, depois de perceber que já havia passado do horário de encontrar os amigos para a surpresa.
Não esperaria Josh, que se ferrasse pra lá. Ele sabia muito bem do programado e se estivesse minimamente interessado, que encontrasse com eles no lugar combinado.
— Tá doido, ? Preciso esperar o Josh, ele vai chegar a qualquer momento!
— Mande uma mensagem pra ele, . Peça para que nos encontre no seu bar preferido. Hoje é seu aniversário, ele vai entender! — falou, tentando convencer a amiga.
olhou desconfiada, mas concordou. Afinal, era sim o seu aniversário, o seu dia preferido do ano e não o passaria dentro de casa. Josh entenderia.
— Então vamos! — Ela falou sorrindo, correndo para o quarto. — Me deixa só trocar de roupa bem rapidinho.

e saíram de casa pouco tempo depois em direção ao local onde aconteceria a surpresa. Durante o dia, até se esqueceu da sua suposição sobre a festa surpresa, mas quando Josh não apareceu e a convenceu a vir para o seu lugar predileto, voltou a ter certeza. Ele estaria lá com seus amigos, sem dúvida.
SURPRESAAAAA! — Viu os amigos gritarem quando viram sua presença.
Sentiu uma chuva de confeitos alcançarem o seu rosto, balões voarem e não poderia estar mais feliz. Seus olhos correram pelas pessoas à sua frente: os amigos do trabalho e da época da faculdade estavam ali em peso. Mas sentiu falta de alguém: onde estava Josh?
— Ahhhh! Vocês me enganaram direitinho! Obrigada, pessoal! — Ela falou, fingindo.
Recebeu seus presentes, distribuiu abraços e se sentou na ponta da mesa, ao lado do amigo , abraçando-o de lado.
— Obrigada, amigo. Isso é coisa sua, né? — Falou, cutucando-o na costela, fazendo-o se esquivar e gargalhar.
— Pode-se dizer que sim. Sei como você gosta de comemorar essa data. Parabéns, certinha. — Disse, usando o apelido que usavam na empresa. era completamente correta em suas atitudes. — Nós te amamos. — Ergueu o seu copo, convidando-a para um brinde.
— E eu amo mais! — Ela estalou seu copo com o do amigo e o abaixou novamente. — Você sabe do Josh? Calma... , não vai dizer que você não convidou o meu namorado?
— Para, né, ?! Claro que convidei! Combinei com ele na sua casa, viríamos os três juntos para cá. Mas ele sumiu, não responde minhas mensagens... Por isso te trouxe sozinho.
— Será que aconteceu alguma coisa? Eu vou tentar ligar pra ele. — levantou, indo para fora do bar, não sem antes perceber o rolar de olhos do amigo.
Dois toques. Três toques. Cinco toques. Nada! Ligou para Josh incontáveis vezes sem nenhuma resposta. Sentiu um comichão incomodar, um princípio de preocupação, mas resolveu ignorar. Ele já havia falado que demoraria no trabalho, certo? Talvez fosse isso. Resolveu esperar mais alguns minutos.
Voltou para dentro do bar e encontrou seus amigos em uma roda, dançando e cantando ao som da música que tocava alta no bar. A brincadeira consistia em, basicamente, escolher aleatoriamente quem iria para o meio da roda dançar, enquanto batiam palma e gritavam mais do que sua sobriedade achava certo.
Sorriu, pegou seu copo na mesa, tomou-o por inteiro em um só gole sentindo uma leve tontura tomar conta do seu corpo e foi em direção aos amigos. Agora sim estava preparada para a brincadeira.
— ALEATORIAMENTE ESCOLHI A ! — gritou afetado, puxando o braço da amiga para o meio da roda antes mesmo dela chegar próximo ao grupo, mesmo que essa já fosse sua intenção.
Ela gargalhou e dançou desengonçada, enquanto coros de “Vai, !” ecoavam em sua cabeça. Gostava da música que estava tocando e deixou seu corpo a levar. Não era nenhuma dança sensual nem muito complexa, mas foi o suficiente para atrair alguns olhares.
— Que porra é essa aqui? — Ouviu uma voz familiar ao fundo e sentiu seu corpo congelar.
Conhecia aquela voz. Sabia de quem era e pior: sabia o que vinha a seguir.
— Tá ficando maluca, ? Que showzinho é esse? — Josh puxou com violência o seu braço, tirando-a do meio da roda, que a essa altura já nem existia mais.
— Ei, cara, calma! Estávamos só brincando. — tentou amenizar a situação.
Péssima ideia.
— Eu não estou falando com você. — Josh chegou bem próximo ao rosto de , com o dedo indicador em riste. — E se eu fosse você, ficava longe da minha namorada.
— Amor, estávamos apenas dançando! Era uma brinc... Ai, você está me machucando! — tentou se desvencilhar da mão do namorado, que a apertava forte no braço. Aquela sensação não lhe era estranha.
— Josh, solta a agora! — veio com uma raiva no olhar que ninguém nunca havia visto antes. — Eu não tô brincando com você! Solta ou eu chamo a polícia!
, para! — defendeu, conseguindo enfim se soltar do namorado. — Ele não está fazendo nada. Nós vamos embora agora, não é, Josh? — Ela olhou firme para o homem, que em silêncio concordou. — Isso, vamos embora. Amigos, muito obrigado pela festa, estava tudo realmente ótimo. Nos vemos depois, tudo bem? — Ela disse, pegando a sua bolsa e empurrando o namorado para fora.
Tinha medo de ficar à sós com Josh nesse momento, sabia como ele podia ficar com raiva, mas tinha ainda mais medo da junção Josh + seus amigos.
— Como você chegou até aqui? Você está completamente bêbado, Josh, onde estava? — exclamou, quando chegaram à porta do bar, enquanto pedia um motorista por aplicativo em seu celular.
Sua garganta estava fechada, lágrimas teimosas ardiam seus olhos pedindo permissão para desaguarem.
— Não é da sua conta, . Quem deveria estar fazendo perguntas aqui sou eu!
— Calma, tudo bem? Vamos pra casa. Ali está o nosso carro. — Entraram e foram em silêncio durante todo o trajeto.
Sentiu seu celular vibrar algumas vezes dentro da bolsa e o ignorou. Sabia que eram mensagens de ou perguntando como ela estava, e, sinceramente? Nesse momento nem ela saberia responder essa questão.

O caminho até em casa foi rápido. Rápido até demais. Se ela pudesse escolher, daria mais uns vinte minutos para sua mente refletir a maneira certa de tentar explicar para Josh o que aconteceu. Ao pegar a chave, percebeu sua mão tremendo, quase não conseguia destrancar sua própria casa. Que medo anormal era esse? Era Josh ali, seu namorado, afinal de contas!
— Entra. Vamos tomar uma água, relaxar. — Ela disse temerosa, enquanto colocava a bolsa e as chaves em cima da mesa.
— Eu não quero relaxar. Quero que me explique que cena ridícula foi aquela que eu vi. Você se exibindo toda para aquele ! — Ele disse com a voz mais alta, encurralando a garota contra a parede.
— Josh, eu posso explicar! Era uma brincadeira, todos estavam dançando, você só chegou na minha hora, é isso! Não estava me exibindo para ningu-
— MENTIRA, ! Você gosta quando te olham assim, não é? — Ele terminou de encostá-la na parede, puxando seus cabelos e direcionando seu rosto para que ela olhasse dentro dos seus olhos. — Gosta de mostrar por aí o que é meu.
— Josh, você está me machucando, por favor... — ela falou baixinho, enquanto finalmente as lágrimas desciam sem controle por seu rosto. — Por favor, me solta.
— Você é uma vadia, . — Falou bem perto do seu rosto, seu hálito de álcool transparecendo ainda mais nesse momento. — Uma vadia que não merece a minha consideração. — Ele a jogou pelos cabelos no sofá, fazendo-a bater a cabeça no apoio de copo de madeira que ficava na extremidade da mobília. — Eu vou embora daqui, não aguento mais olhar pra essa sua cara desprezível. — E bateu a porta atrás de si.
chorou. Chorou até não ter mais forças. Chorou de soluçar. Chorou e desejou ter sua mãe ali para abraçá-la. Sentiu-se sozinha de novo. Logo no seu dia...
Não quis levantar dali. Encolheu-se e desejou que o sono viesse, que algo a levasse para outra dimensão que não aquela. Não estava suportando tanta dor. Sentiu algo a incomodar abaixo de suas costelas e puxou o objeto culpado: a carta de Rosa que mostrara mais cedo ao .
Lembrou-se do conteúdo e chorou mais um pouco. Talvez existisse outra coincidência entre elas, afinal.
— Como você suportou isso, Rosa? — Ela falou baixinho, sentindo os olhos pesados. Ao menos conseguiria dormir.



Capítulo 7

Mal consegui dormir de preocupação com a . falou, assim que atendeu ao telefone.
A amiga tinha desaparecido desde o momento que foi embora de sua festa de aniversário.
— Eu sei. Também tentei falar com ela, mas ela não re-
Não responde às mensagens, eu sei, tô ficando louco! completou a frase do amigo.
— Você precisa ficar calmo. Independentemente do que esteja acontecendo, pode ter certeza que ela vai precisar mais que nós. O equilíbrio vai ter que partir de nós dois.
Eu vou na casa dela. Não aguento mais ficar aqui sem saber o que tá acontecendo.
— Você? Assim? Não mesmo, só vai piorar as coisas. Deixa que eu faço isso!
Ai, , às vezes acho que você não entende o que acontece ao seu redor. Eu sou o amigo gay que toma cosmopolitan, você é, supostamente, na cabeça louca daquele imbecil do Josh, o cara para quem estava dançando. Se ele estiver na casa dela, me conta como você acha que vai ser sua recepção?
— Você tá certo... — ele suspirou. — Mas vamos esperar então. Não acho que seria saudável se nenhum de nós dois chegássemos com ele por lá. Eu vou tentar ligar mais uma vez, espere um segundo. — E desligou sem esperar resposta.
Discou mais uma, duas, quase três vezes para . Na quarta, uma voz arrastada atendeu e o coração de disparou.
? Graças a Deus, como você está?
O-oi. Eu estou bem. — Ela disse baixinho.
— Você está sozinha?
Estou sim. Ei, ? Não precisa se preocup-
— Só um segundo, . — E desligou.
ficou olhando para o celular sem entender o que ele quis dizer com aquilo, mas ignorou. Estava muito fraca pra pensar em qualquer coisa. Tinha dormido no sofá, estava com cada extremidade de seu corpo doendo e sede. Muita sede! Precisava de um grande copo d’água para resolver esse Saara que se instalara em sua boca.

Estava na cozinha, terminando de guardar a jarra de água na geladeira, quando ouviu a campainha tocar. Seu coração disparou só de imaginar ser Josh na porta. Não estava preparada para olhar pro seu namorado depois de tudo o que aconteceu.
Com passos lentos, foi em direção à porta e espiou pelo olho mágico. Sorriu fraco... maldito apartamento de que ficava a dois quarteirões de sua casa.
Destrancou a porta e recebeu o amigo.
— O que você está fazendo aqui, garoto? — Ela fez uma voz afetada, dando espaço para passar.
, o que é isso? — Ele encostou de leve na testa de , com o semblante preocupado.
— O que é isso o que, ? Tá doido?
— Você já se olhou no espelho hoje? Como você fez isso? — Ele perguntou já sabendo a resposta. Ele mataria Josh, dessa vez mataria.
Ela foi em direção ao seu banheiro, procurando o espelho mais próximo. Ao olhar sua imagem no reflexo, desabou. Sentiu sua garganta secar, os olhos marejarem e quis que um buraco se abrisse debaixo dos pés. Seus olhos estavam inchados por ter chorado até dormir na noite anterior, os cabelos esganiçados e o motivo da preocupação de escancarado bem perto de sua sobrancelha: um corte razoavelmente fundo, já com sangue seco, que ela não havia sentido a dor até olhar-se no espelho. Foi como se o seu corpo se despertasse de um transe... Devia ter se machucado quando Josh a jogou no sofá. Mas a dor da decepção foi tão maior que a física, que ela não se permitiu sentir.
Quando a ficha caiu do que estava acontecendo, deixou que grossas lágrimas rolassem por seu rosto. Lágrimas essas que foram prontamente secas pelo amigo.
— Ei, ? Vamos cuidar disso, tudo bem? Senta aqui. — Ele a colocou sentada no vaso sanitário, enquanto abria os armários da bancada da pia. — Tem algum kit de primeiros socorros por aqui? — Viu que não teria respostas e continuou procurando sozinho. Achou uma bolsinha com algodão, antisséptico e alguns band-aids. Aquilo serviria.
— Vem aqui, . — Molhou um pouco o algodão com o remédio e passou levemente no machucado da amiga.
— Ai... — ela falou, encolhendo-se.
— Eu sei, vai arder um pouquinho, tá bom? Mas calma que já vai passar. — Ele disse sereno, aproximando-se mais um pouco, colocando o cabelo de para trás da orelha e dando novamente leves batidinhas com o algodão embebedado do remédio no corte.
estava tão próximo de , que era possível ela sentir sua respiração em seu rosto.
— Pronto. — Ele disse, finalizando o curativo após colocar o band-aid na testa da amiga.
— Obrigada, . Mas realmente não precisava de nada disso. — Ela disse envergonhada, levantando-se e indo em direção à cozinha.
, calma! — Ele puxou a amiga pelo braço. — Não precisa falar assim comigo. Eu só quero te ajudar.
Algo nos olhos de fez desabar de novo. Era tão terno, sensível, sincero... Era tudo que ela queria enxergar nos olhos de Josh. O pensamento só a fez chorar mais.
abraçou a amiga e deixou que ela chorasse o quanto precisasse. Quando percebeu um silêncio por parte dela, resolveu quebrar o gelo.
— Ei, já tomou café hoje? Tá com fome? — Ele perguntou.
O estômago de roncou alto, fazendo os dois sorrirem.
— Vamos comer alguma coisa.
Foram para a cozinha e preparou um café reforçado com o que encontrou na despensa da amiga.
— Pronto. Come tudo. — Ele falou carinhoso, quando se sentaram na mesa de jantar de .
— Não estou com fome pra isso. — Ela fez uma careta.
— Não te perguntei. Come. — Ele finalizou rindo.
Depois de alguns bons minutos comendo em silêncio, o telefone de tocou.
— Alô? — Rapidamente afastou o aparelho da orelha, tamanho o grito que a pessoa do outro lado da linha deu.
riu, já tinha entendido quem era.
QUAL A PARTE DO “DOU NOTÍCIAS” VOCÊ ESQUECEU QUANDO CHEGOU AÍ? VOCÊ ACHA REALMENTE JUSTO ME DEIXAR AQUI, DESSE JEITO, SEM SABER DE NADA? E OUTRA COISA, SE EU SOUBESSE QUE A ESTARIA SOZ-
— CALMA, GAROTO! — gritou para que pudesse ouvir do outro lado da linha e riu.
colocou a ligação no viva-voz para que os três pudessem conversar.
Ô, meu amor, estou preocupado. Como você está? Vocês são uns ingratos, sinceramente!
— Não se preocupe comigo, amigo. Está tudo bem. — Ela disse séria, tentando convencer e a ela mesmo.
Quer que eu dê uma passada aí depois? perguntou.
— Podemos combinar! Vou terminar o meu café agora, . Beijo! — E desligou o telefone de , colocando-o de lado. — Obrigada, de verdade, por toda a ajuda de vocês. — Ela falou tímida, colocando uma das mãos em cima da mão de , que ficou sem reação.
— Não tem que agradecer. Somos seus amigos... Isso é o que amigos fazem, não é? — Ele falou, olhando discretamente para a proximidade da mão dos dois, fazendo com que percebesse.
Err... Claro. Fico devendo essa. Mas não se preocupem comigo, tá? Vai ficar tudo bem.
— Você ainda não me contou como fez esse machucado na sua testa. — Ele falou, já sabendo a resposta.
— Eu caí e bati na quin...
— Não, . Você me prometeu. — Ele falou firme.
Ela suspirou... Tinha prometido, e, sinceramente? Nem o maior dos imbecis acreditaria no que ela estava tentando falar.
— Tudo bem. Eu prometi. — Ela se endireitou no sofá. — Ontem eu e Josh brigamos feio pelo ocorrido no meu aniversário. E aí, ele se estressou um pouco e me afastou dele. Acabei me desequilibrando e caindo no sofá. — Ela tentava achar as palavras certas para explicar a situação para o amigo. — Não era a intenção dele me machucar, entende? Mas acabei batendo nesse porta copo. — Apontou para o objeto acoplado no braço do sofá, nas costas do amigo. — E aí me machuquei. Não foi ele!
— Ele te empurrou, ! Como não foi ele? — falou levantando, exasperado.
— Eu não usei essa palavra! Ele não me empurrou! — Ela falou irritada, levantando-se também.
... — ele falou, buscando a maior das paciências para conversar. A culpa não era dela, estava cega. — Presta atenção em mim. Eu sei o que significa “me afastou”. Eu tenho certeza que ele não fez isso com delicadeza. Ele te agrediu, . Você não pode aceitar isso.
, eu não vou aceitar que você fale isso dessa maneira. Olha, muito obrigada pelo apoio e pelo café da manhã. Mas eu realmente quero ficar sozinha... Você pode ir embora, por favor?
suspirou. Não adiantava insistir, por mais que se preocupasse. Ir contra Josh agora só pioraria as coisas. Precisava sentar com para que pensassem a melhor maneira de ajudar a amiga.
— Tudo bem, eu vou. Mas nosso combinado continua, ok? Qualquer coisa, por favor, me liga. — Ele deu um beijo no rosto de e se afastou. — Fica bem.
E saiu. Ouviu a porta bater atrás de si e suspirou. Seria mais difícil do que ele pensava.

Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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