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Finalizada em: 19/01/2020

Capítulo 1

Seoul, Dinastia Joseon, Coréia do Sul.
1757

Os arbustos das praças desabrochavam as primeiras flores da estação, trazendo uma paisagem mais colorida e feliz. O clima ameno, com nuvens cobrindo o sol e a brisa batendo levemente nas copas das árvores anunciava a chegada da primavera na cidade. O início da estação mais esperada pela população vinha com um dia alegre, porém, não dentro do palácio Changdeokgung.
Com passos pesados, que podiam ser ouvidos por todos os corredores do palácio, Yoongi andava em direção à sala do trono, onde provavelmente encontraria o rei.
— Onde ele está? — questionou assim que adentrou o cômodo e deparou-se com o vazio, a não ser por um guarda que vigiava a sala.
— O rei está em seus aposentos e...
Sem esperar pela continuação, Yoongi deu meia volta e voltou a andar apressadamente pelos corredores do palácio real, demorando pouco mais de três minutos para chegar aos aposentos do rei. O rapaz respirou fundo, tentando manter a postura, e ordenou que os guardas do quarto do rei anunciassem sua chegada.
— Olá filho. — o mais velho disse baixo, tossindo logo em seguida. Ao mesmo tempo, Yoongi se curvava em respeito à Sua Majestade.
— Como está se sentindo? — Firmou a voz enquanto tentava manter a postura de um verdadeiro príncipe.
— Péssimo. — O rei deu um leve sorriso, em uma tentativa falha de amenizar o clima pesado que havia se instaurado naquele aposento. — Yoongi, você não deve se preocupar comigo, precisa se concentrar na sua coroação.
O jovem sentiu suas entranhas pulsarem mais forte quando o evento fora mencionado. Não estava preparado mentalmente para tornar-se rei, ainda não se sentia pronto.
Uma serva surgiu no quarto – que fora esvaziado para que o rei e o herdeiro tivessem uma conversa privada – com uma bandeja, carregando um bule de chá e duas cumbucas.
— Chame o Conselheiro Real. — o soberano ordenou para a mulher, que apenas maneou a cabeça, apressando-se para sair e chamar o inspetor.
Yoongi questionou-se durante um minuto em silêncio sobre o que viveria em breve, quando recebesse a coroa e se tornasse, oficialmente, rei de Joseon.
— Sabe, Yoongi, você parece nervoso com essa situação.
— Jamais, pai. — o jovem disse num pio de voz, sentindo o nervosismo correr por suas veias novamente. — Digo, farei o que for preciso para ser um bom rei.
— Sua dedicação me tranquiliza, pelo menos um pouco. Eu tinha muito medo de que continuasse sendo inútil como quando criança e se tornasse um rei incapaz, mas você vem melhorando nos últimos anos.
Seu coração deu um solavanco e Yoongi sentiu a sua garganta secar repentinamente, provocando um leve tossir desconfortável. Não era a primeira vez que ouvia seu pai insultando-o de inútil e ele tinha certeza de que não seria a última. Aquela era uma fala com a qual o príncipe sabia lidar, certo?
Errado.
Apesar de ouvir a mesma coisa desde novo, Yoongi ainda se esforçava para trazer orgulho a seu pai. Talvez por ter vivido uma infância solitária, sem amigos e sem a própria mãe, ele sentia que precisava se tornar um bom herdeiro, alguém digno de sentar-se ao trono e comandar um país inteiro, assim como seu pai viera fazendo durantes anos. Sua insegurança, no entanto, não permitia que ele sentisse aquilo.
Permaneceram quietos por poucos segundos até que o inspetor solicitasse entrada no aposento.
— Vossa Majestade, Vossa Alteza. — Os guardas abriram a porta do cômodo para que o senhor entrasse. Yoongi caminhou lentamente para o canto do quarto, onde deveria permanecer enquanto o conselheiro ajoelhava-se perante o rei.
— Como foi a reunião com os outros conselheiros? — o supremo perguntou assim que o inspetor se levantou. — Yoongi deve assumir o trono o quanto antes, ou esperam que eu morra para aplicarem um golpe de estado?
Ambos, tanto o conselheiro quanto o príncipe, engoliram em seco ao ouvir a pergunta debochada do monarca. Enquanto o herdeiro permanecia de cabeça baixa e sem saber se comentava algo sobre aquilo ou continuava em silêncio, o inspetor retomou a fala, sem tremedeira alguma.
— Jamais faríamos algo do tipo, Vossa Majestade! Entretanto, alguns inspetores trouxeram um tópico importante.
Por algum motivo, o Conselheiro Real levantou o canto da boca, formando um leve sorriso debochado que não passou despercebido por Yoongi.
— E qual seria o ponto? — Intrometeu-se na conversa, puxando a atenção para sua figura no canto do quarto, que anteriormente estava sendo ignorada.
— O conselho votou e quer que Vossa Alteza se case antes de subir ao trono.
Durante dois segundos o príncipe sentiu as pernas fraquejarem por conta da informação surpresa. Ele quis questionar os motivos para aquela decisão repentina, mas nem precisou.
— Houve um debate, pois uma parte dos conselheiros acreditava fielmente na capacidade da Vossa Alteza em governar nosso país... — deu uma pausa dramática, a fim de deixar o príncipe ainda mais nervoso. — Entretanto, a outra metade dúvida de que a Vossa Alteza esteja realmente preparada.
— E acham que um casamento mudaria em algo? — Yoongi rangeu os dentes, segurando-se para não se exaltar.
— Eles acreditam que ao se casar com uma nobre, sua esposa poderia ajudar-lhe a conduzir o povo.
— Escolher a rainha repentinamente não me parece uma boa ideia.
— Vossa Alteza, nós não estaríamos escolhendo a vossa rainha de forma despreocupada e despreparada. O senhor pode acreditar nos inspetores.
Yoongi sentiu a pele arder com a raiva, apossando-se de seu quarto. Não, ele definitivamente não iria se casar com uma nobre desconhecida.
— Encontrem alguma nobre com boa descendência, não podemos nos envolver em controvérsias nesse período próximo da coroação — o rei começou a falar, interrompendo os pensamentos raivosos do filho e provocando o mesmo sorriso debochado no Conselheiro Real.
— O que Vossa Majestade determina, assim será feito. — O homem se curvou antes de sair dos aposentos, deixando o príncipe e o supremo sozinhos novamente.
Antes mesmo que o rei pudesse falar algo, o herdeiro saiu de sua posição de respeito e aproximou-se da figura paterna, sentindo a ira tomar conta de sua mente.
— Como pôde prometer minha mão à uma estranha?
— Yoongi, eu tenho certeza de que o conselho encontrará uma boa esposa para ti. Você deve se acalmar, pois isso já era provável de acontecer. Quando se está no topo do poder, não tem opção de escolha na maioria das vezes. Você se casará com a nobre e pronto.
O rapaz respirou fundo, fechando seu punho com tanta força que os nós dos dedos ficaram esbranquiçados. Sem o devido respeito, abandonou os aposentos reais, caminhando até o jardim do palácio onde, se os céus permitissem, iria desestressar.

Seul, Coreia do Sul.
1988

O som esganiçado da guitarra triunfou por cada metro quadrado do cubículo sujo e abarrotado do Boohwal àquela noite, seguido pelo impacto das baquetas de madeira na bateria, enchendo os ouvidos dos presentes com a sincronia conjunta do baixo e teclado. O vocal forte de Jungkook sobressaía os instrumentos, cantando com energia um cover de “Highest Trails Above”, não demonstrando seu contragosto pela negação dos outros colegas de banda a tocarem sua música autoral.
Ele ainda tentava manter o ritmo mesmo depois de duas garrafas vazias voarem pelo palco, ou quando pedaços de alga e arroz atingiram seus pés, e ainda tentou cantar mais alto do que as vaias advindas do público. No entanto, quando um cliente aleatório e claramente embriagado chutou o suporte de microfone, fazendo com que Jungkook parasse de cantar, este trincou os dentes e se preparou para avançar em direção ao homem, impedido pelo aperto de Joo Hyuk.
— Jungkook, se controla! — ele disse enquanto puxava o garoto irritado para trás, que estava ainda mais furioso depois do cliente bagunceiro ter se afastado em meio às risadas. — Não faz a gente perder mais um cachê.
— Que se foda o cachê! Essa gente não liga pra nossa música.
— É fácil dizer isso quando não se precisa da grana! Seu egoísta de merda.
— Joon Soo, cala a merd...
— Ei, seus vermes! — um homem corpulento aproximou-se do palco, falando com um cigarro entre os lábios. — Estou pagando para assistir alguma briga de mulherzinha por acaso? Voltem a tocar esse lixo antes que eu chute suas bundas para fora daqui!
Jungkook rosnou para o homem quando este deu as costas, recebendo um olhar firme de Joo Hyuk, que geralmente era o suficiente para amenizar sua fúria. Ele lembrou Jungkook de que só faltavam algumas músicas para irem embora e, por mais que as vaias continuassem, ele deveria apenas fazer o seu melhor. Quando arranhou o último acorde da guitarra e Joon Soo arrebentou o último prato da bateria, Jungkook saiu trotando porta afora do bar, ignorando a voz de Joo Hyuk sem ao menos esperar a divisão dos ganhos. Aquela jamais fez parte das suas preocupações.
A Honda CB-400 estava estacionada do outro lado da rua, levemente molhada por gotículas da chuva que havia caído pouco tempo antes. Jungkook girou a chave e atravessou a cidade, cantando pneus pelo asfalto molhado e costurando os carros apressadamente. Não queria ir pra casa, não queria voltar ao bar, não queria ter de se explicar pela milésima vez, só queria sentir o vento gelado no rosto, a adrenalina da velocidade, os únicos capazes de clarear suas ideias naquele momento.
Seus sonhos, tão distantes e desacreditados, eram o que o faziam ser quem era. Sem eles lhe restaria a vida comum e monótona usando o crachá da Nong-cha, mandando e desmandando em funcionários, casando-se com a filha de um cliente importante, formando uma família e todas essas coisas que seu pai e os pais de todos que ele conhecia haviam feito. Era frustrante pensar que sua vida não estava em seu controle, então tentar mudar isso era o mínimo que poderia fazer por si mesmo.
Chovia levemente quando estacionou na vaga habitual em frente ao Eomeoni Eumsig. As ruas estavam mais cheias que o normal, com os turistas visitando cada um dos bares da Bokwang Street. Jungkook atravessou a entrada, metendo-se numa escuridão que beiraria o breu se não fossem as lanternas de papel amareladas no teto. O cheiro de tabaco, makgeolli e carne de porco enchiam o ambiente, impregnado nas paredes. Passou direto pelos mesmos rostos que batiam ponto no local, assim como ele. No entanto, isso não os fazia seus amigos, pelo menos não para ele.
A mesa do fundo estava vazia, como se a Sra. Kang a guardasse especialmente para ele. Sentou-se no capacho, cruzando as pernas enquanto colocava o último cigarro do maço na boca e tentou acendê-lo, mas o isqueiro se recusou a funcionar, deixando-o frustrado.
— Achei que não viria hoje. — Uma voz nasalada surgiu à sua frente, materializando-se em uma mulher de meia idade vestindo um hanbok amarelo e com maquiagem pesada. Ela aproximou a mão do garoto, acendendo seu cigarro com seu próprio isqueiro, e lançou-lhe um sorriso simpático. — Já jantou?
— Só quero uma cerveja — respondeu após dar a primeira tragada, jogando a fumaça característica que a mulher já não mais se importava.
— Não quer um soju? — Ela deu de ombros, guardando o isqueiro em algum lugar da saia colorida.
— Só se for destilação original. Não quero essa porcaria destilada com trigo. — Ele murmurou com sua expressão característica de desprezo pela bebida.
Ela revirou os olhos e deu as costas, desaparecendo pela cortina de lantejoulas e voltando em menos de dois minutos com uma garrafa metálica cinza, depositando-a em um copo.
— Sabe que podemos ser presos por isso, não sabe?
— Não seria minha primeira vez. — Jungkook entornou o líquido morno pela garganta.
— Seu moleque… — A mulher rangeu os dentes, mas sorria descontraída pelo tom informal como Jungkook se dirigia a ela. — Está saindo de mais uma de suas badernas com aquela coisa barulhenta?
— Você bem que gosta quando eu toco pra você.
— Porque você é atrevido e sonhador. Quebra meu coração te trazer à realidade todas as vezes. — Ela deu um suspiro dramático, o que fez o garoto rir. — Vai cantar Arirang para mim?
— Só se for com o som da guitarra.
— Petulante. — Bebeu um grande gole do soju. — Como vai o trabalho na concessionária?
— Sabia que teria um motivo para você se sentar. — Ele deu uma risada amarga. — Não quero falar nisso.
— Seu pai veio aqui, garoto. De novo. Como se eu tivesse alguma culpa por você estar jogando fora um futuro brilhante e promissor por causa de um sonho maluco.
— O estabelecimento é seu, pode mandá-lo embora quando bem entender.
— Bom, ainda tenho uma dívida com ele e, no final, ainda somos família. — Ela abaixou os olhos, para encher novamente os dois copos. — Deixá-lo entrar aqui para se queixar é o mínimo que posso fazer, e a forma como leva sua vida é motivo o bastante para visitas recorrentes.
Aish, eu realmente não quero falar dele! — Bufou, apoiando a testa em uma das mãos. — Ele não… Ele só não me entende. Não quero que minha vida acabe atrás de uma mesa de escritório vendendo carros para estrangeiros e não quero entrar na faculdade de Direito, só quero conduzir minha vida do meu jeito.
— Acho que você só precisa de uma motivação.
— Nada me motiva mais do que a música, ahjumma. Nada.
A mulher suspirou, contendo-se apenas em beber o copo que havia completado e ficar em silêncio, observando o garoto fazer o mesmo. Os dois sabiam definir quando um assunto não valia a pena a discussão.
— Ao menos arrume uma esposa — ela disse de repente — E um emprego de verdade. Será o suficiente para acalmar os nervos de seu pai.
— Não tenho tempo para essas coisas. — Ele remexeu em seus bolsos até tirar de lá duas notas aleatórias, jogando-as na mesa. — Preciso ir. — Levantou-se para sair.
— Garoto... — A mulher chamou, fazendo-o se virar — Lembre-se que o tempo corre e o destino ultrapassa nossas escolhas.
Ele riu em deboche, curvando-se brevemente para a senhora e dizendo-lhe um “boa noite, tia” antes de sair. O caminho até sua casa seguiu sem chuva e trânsito, mas mesmo se houvesse algum contratempo, ele não perceberia. As últimas palavras da mulher atravessavam sua mente vez ou outra e não o agradava se pegar refletindo sobre aquilo.
Não que fosse a primeira vez que escutara, e provavelmente não seria a última, mas o sentimento de desgosto pela frase ainda estava presente como na primeira vez que a ouviu, como se tivesse de ficar relaxado sabendo que tudo em sua vida já estava escrito e todo seu esforço de conduzi-la por si próprio foi e estava sendo em vão. Ele trincou os dentes só de imaginar tal coisa. Sua tia estava velha, viúva e solitária, não sabia do que falava. Perdia seu tempo acreditando em filosofias antigas e crenças ultrapassadas, não daria ouvidos a ela.
As luzes estavam parcialmente apagadas quando passou pela porta de entrada. Com alívio, percebeu que não havia ninguém na sala ou cozinha, que eles deveriam estar dormindo há muito tempo. Deixou o casaco de couro ainda um pouco molhado da chuva de mais cedo em cima da cama e saiu pelo corredor, entrando em uma segunda porta à esquerda da sua.
A pequena garotinha parecia dormir profundamente, agarrada a uma espécie de coelho de pelúcia que havia ganhado de Jungkook com o primeiro dinheiro que ganhou com a música. Ele riu baixinho, observando o pequeno foco de luz embaixo do cobertor, quase aos pés da menina.
— Esqueceu a lanterna ligada de novo — ele disse e ela abriu os olhos repentinamente. Nunca estivera dormindo.
Desengonçadamente, ela apanhou e desligou a lanterna, suspirando aliviada enquanto Jungkook entrava no quarto e se sentava na beira da cama.
— Eu pensei que fosse a mamãe! — Ela sussurrou, jogando a lanterna para o lado e tirando um livro grosso do colo. — Ela me mataria se me pegasse acordada de novo.
— Ela nunca te mataria. — Ele guardou o livro na pequena mesa de cabeceira e ajeitou os travesseiros — O que está lendo agora?
— Stephen Hawking. Você sabia que existem buracos negros e uma nova versão da teoria das cordas, a teoria das supercordas? Tudo isso se relaciona com a teoria da relatividade, e com a viagem no tempo va...
— Ok, ok, a mamãe vai realmente te matar. — Ele a interrompeu, puxando o cobertor até seus ombros — Onde achou esse livro?
— Ah, Min Hyuk disse que o pai dele trouxe do exterior, mas como ele odeia ciências decidiu me dar e depois inventaria que perdeu. É novo, foi lançado esse ano. Dá para acreditar? — Os olhos da garota brilharam ao olhar novamente para o livro na mesinha.
— Eu acredito, sim. Agora trate de esconder bem isso antes que a mamãe te pegue. — Ele se abaixou para beijar sua testa.
— Papai está uma fera porque você saiu para tocar de novo. — Ela se desfez das cobertas e sentou-se novamente. — Ele disse que se não começar a trabalhar com ele, vai te mandar para o exército. Oppa, eu não quero que você vá para o exército! — Ela agarrou uma das mãos de Jungkook, os olhinhos de repente tomados por desespero.
— Ei, eu não vou a lugar algum! O papai, ele só… — Suspirou, fazendo um carinho leve no cabelo dela. — Eu e ele só precisamos conversar com mais calma, só isso.
— Ele disse que você vai ser um fracassado. — Ela disse, inocente, e Jungkook riu.
— Talvez eu seja, mas não vamos nos adiantar como ele. Anda, você precisa dormir. — Colocou-a de volta embaixo das cobertas, mas a garota não parecia disposta a dormir ainda.
— Quando você vai tomar jeito na vida? — Sua pergunta não parecia grosseira e nem uma cobrança, como os adultos faziam quando se dirigiam a ele. Parecia sincera, inocente, realmente interessada pela resposta.
Ele repuxou os lábios, refletindo por um momento na melhor resposta para que pudesse encerrar o assunto.
— Hum... Digamos que quando algo surpreendente acontecer na minha vida. — Ele sorriu de forma doce, começando a se levantar para sair.
Oppa, você já ouviu falar de Carl Sagan? — Ele virou-se novamente, balançando a cabeça em negação. — Ele disse, "em algum lugar, algo incrível está esperando para ser descoberto".
Ela deu um sorriso radiante para o irmão, como se tivesse soprado a pequena semente de esperança e pousado dentro do peito do garoto. Jungkook se sentiu satisfeito pela expressão da garota, tão inteligente, alegre, inabalável.
— Boa noite, pirralha.
Ele fechou a porta assim que ela se afundou novamente debaixo das cobertas. Se existia ou não algo incrível para ser vivido, ele tentava e esperava alcançar por si próprio. Nenhuma frase instigante o faria mudar de ideia.

Seul, Coreia do Sul.
2019

As cores em tons amarelados já dominavam o céu de Seul, anunciado o ar matutino. A janela localizada no canto direito do quarto deixava escapar alguns feixes de luz devido ao esquecimento da pessoa que descansava ali de fechá-la na noite anterior. O barulho da sua respiração rouca devido ao estado de sono que se encontrava ecoava no ambiente e o despertador estava prestes a tocar, o barulho comaçando no mesmo horário. Ele sempre tapeava sua cabeceira em busca do objeto, o desligava e voltava a dormir, se perguntando o porquê de continuar o deixando despertar no mesmo horário se nunca se dispunha a mudar.
Depois de fazer o habitual, cinco minutos mais tarde, ele voltou a tocar. Hoseok tentou abafar o som cobrindo a sua cabeça com o travesseiro, mas logo desistiu e resolveu se levantar para seguir com sua rotina do dia: fazer a higiene pessoal, se vestir, dar uma leve arrumada no apartamento já que a vida de morar sozinho pedia por isso e tomar seu café da manhã. Nunca saia de casa sem fazer isso, considerava esse passo muito importante para o seu dia devido à rotina de trabalho.
Terminou tudo que tinha para fazer dentro do apartamento, pegou as chaves e seguiu em direção ao que amava fazer. Tinha vantagens por ter conseguido um lugar perto de onde passava a maior parte do seu dia, Hoseok tinha orgulho da sua conquista e toda vez que olhava para o estúdio de dança quando chegava para trabalhar sentia-se realizado.
Começou a dançar quando tinha apenas quatro anos de idade. Estava passeando com sua mãe pelo centro de sua cidade natal quando viu uma demonstração de street dance. Dois homens faziam passos incríveis na calçada e ele se lembrava até hoje de como ficou encantado e como a imagem dos homens que pareciam voar enquanto dançavam não saía mais de sua cabeça. Logo depois sua mãe o matriculou na aula de dança e ele sempre soube que seu destino seria acabar tornando-se um dançarino. Ele até tentou se encaixar em outras coisas que seu pai gostava, mas sabia que uma vez que se acha aquilo para o qual foi destinado, não há como voltar atrás.
Já havia chegado ao seu destino, então retirou as chaves do bolso da calça jeans, colocou na fechadura e girou, adentrando o local. Ligou todas as luzes cujo interruptor ficava bem ao lado da entrada principal e passou a mão no cabelo, seguindo para sua sala, que ficava no fundo do estúdio, perto do vestiário. Jogou em cima da sua mesa as chaves que estavam ainda em suas mãos e a carteira, parando por um segundo para começar a listar mentalmente tudo que tinha para fazer no dia. Assim que terminou, seguiu para o vestiário a fim de conferir se tudo estava certo por lá, e ficou pronto para receber os alunos.

— Bom dia Hoseok! – Ju falou animada e pegou de surpresa seu chefe, que estava abaixado conferindo algo em um dos armários do vestiário.
— Ai! – Colocou a mão na cabeça devido à dor que se fez presente por conta da batida que ocorreu diante do susto. – Bom dia, Ju! Nossa, nem te escutei entrando.
— Tentei fazer o menor barulho possível exatamente para não te assustar, mas parece que não adiantou muito. Desculpa! – Ju respondeu com cara de culpada, mas logo seguiu para dentro do vestiário também, tirando sua bolsa do ombro e colocando em um dos armários ali presente.
Olhou para o homem presente no recinto e ele entendeu, pela mão dela que se encontrava na barra da camiseta, que a garota queria fazer a troca de roupa para começar seu dia de trabalho. Ele então se retirou, a deixando à vontade.
Na parte da manhã havia ficado o tempo todo no escritório tentando resolver coisas burocráticas das quais faziam parte de se ter um negócio e fazia altas caretas para os papeis presentes. Entendia muito bem o que estava ali, apenas não gostava daquela parte, mas entendia que era necessário. Escutava de relance a voz de Ju guiando sua aula. Havia a contratado há alguns meses e se lembrava exatamente de como havia acontecido.
Colocou o papel na frente do estúdio dizendo que procurava uma professora de dança e no outro dia, quando chegou, havia um pen-drive na correspondência, onde estava o vídeo de dança de sua futura parceira de rotina de trabalho. Ele enxergou potencial nela, contratou-a, e ela estava evoluindo muito desde então. Sentia-se orgulhoso por isso.
Fez sua segunda refeição do dia ainda em sua sala, determinado a terminar tudo logo para conseguir dar aula até o final do dia. Quando já era quase três horas da tarde, ele havia finalizado tudo e se jogou para trás na cadeira, suspirando aliviado com tudo que tinha feito. Olhou o relógio e levantou rapidamente, disposto a se trocar para dar a aula que iria começar daqui quinze minutos.
Seguiu para o vestiário masculino, localizado bem ao lado do qual ele se encontrava mais cedo, entrou e foi até o último armário da longa fileira. Sempre deixava aquele lugar reservado para guardar suas coisas, afinal, nem sempre ia com uma roupa confortável o suficiente para isso. Tirou a calça jeans, colocando uma de moletom que havia pegado dentro do espaço, trocou a camiseta também para uma com tecido mais leve que tinha lá dentro e mudou de tênis para um mais confortável. Sorriu ao se encarar no espelho, pensando em como estava pronto para dançar.
Ele foi até uma das salas que se localizavam uma do lado da outra, bem na parte da frente do estúdio. Enquanto passava pelas outras salas até chegar ao ambiente da ponta aproveitava para cumprimentar todo mundo: professores, alunos e até alguns pais que esperavam pelos filhos devido às aulas para crianças e adolescentes que Jhope tinha decido incluir no plano há pouco tempo. Quando chegou onde desejava pediu licença à Ju e perguntou se poderia comandar a aula daquele dia. Ela lhe cedeu o espaço, pois adorava vê-lo dançar e sempre aproveitava quando ele estava disposto para dar aula.
A turma era do nível intermediário de street dance, gênero que particularmente considerava um de seus favoritos, e ele olhou para a caixa de som no canto da sala. Pegou seu celular, o conectou e ficou passando as músicas de sua playlist por alguns minutos até que quase no final bateu o olho em uma canção que fazia algum tempo que não escutava e, mesmo sendo um ritmo um pouco diferente, achou que seria interessante mostrar para seus alunos como diferentes tipos de dança podem ser encaixados em diferentes canções.
Apertou o play e a melodia começou a ecoar pelo ambiente. Ele começou a mexer seu corpo, primeiramente com movimentos curtos, mas conforme a música ia seguindo, sua dança ficava mais intensa. Os alunos o olhavam, admirados com o poder que seus movimentos emanavam. Era isso, não importava onde estava, mas se estivesse dançando, aquele seria seu lugar.

Seul, Coreia do Sul.
2052

A Synapse Corporation (S.Co) era um dos lugares mais visíveis daquele ponto da cidade e a movimentação ali não era tão grande quanto o mesmo. O acesso era bem restrito, com somente pessoas credenciadas mesmo que o local parecesse um ponto turístico de tão bonito. O prédio laboratorial de pesquisa era todo espelhado por conta de suas janelas e a única coisa que o diferenciava eram as portas automáticas e a segurança eletrônica na entrada.

Era um dos maiores, se não melhores, centros de pesquisa de Seul, a qual também fazia a maioria das pesquisas mais importantes de todos os países, incluindo pesquisas desde ciência e tecnologia até a área da genética clínica e citogenética. Era uma das empresas mais tecnológicas e avançadas já conhecidas, principalmente no ramo de pesquisas farmacêuticas e inteligência artificial.
Se fosse falar realmente sobre a empresa e todo o seu campo de pesquisa, não seria possível explicar em poucas palavras. A corporação tinha mesmo uma história e tanto, seu ramo era tão amplo ao ponto de receber variadas pessoas de muitos países, que podiam colaborar com suas pesquisas e trabalhos.
Jimin era uma dessas pessoas. O rapaz residia em Seul desde que se conhecia por gente e todo o seu percurso estudantil havia sido na cidade também. Finalizou o curso de Biomedicina já estagiando na corporação e ali já conseguiu se permanecer, crescendo ainda mais na área que estava, mas a verdade era que aquela não era que a Jimin realmente queria.
Não.
O ramo pelo qual Jimin se interessava e era fascinado, para ele, era muito mais do que a simples genética em que trabalhava todos os dias, muito mais do que descobrir um novo gene ou uma nova medicação revolucionária. Infelizmente, aquela era a área menos conhecida e estudada por ali.
A verdade era que ninguém se interessava em saber mais sobre Genealogia e até mesmo olhavam torto para o rapaz toda vez que comentava sobre, não conseguia entender como o estudo conseguia ser deixado de lado se era tão fascinante, era como uma incógnita pronta para ser desvendada.
Ele sabia bem daquilo, não conseguia nem explicar como todas as vezes que conseguia tempo para estudar sobre o assunto, se sentia fascinado e de forma que absorver o novo era mais do que podia pedir. Descobrir toda a origem de algo ou alguém, toda a evolução... Era coisa de outro mundo.
Jimin respirou fundo, saindo de sua sala enquanto terminava mais um dia de trabalho árduo e cansativo, se dividindo entre pesquisar sobre um espécime de protótipo e descobrir como alguns genes se interligavam e seus graus de parentesco. Era cansativo, sim, só que ele não ligava nem um pouco. Por mais que não estivesse na área que realmente queria, ao menos tinha tempo para estudar sobre seu interesse enquanto trabalhava sobre outra coisa. Sabia bem que era uma das vantagens de ter o QI elevadíssimo e ser considerado um dos funcionários mais inteligentes e eficazes da corporação.
Caminhou em passos largos em direção ao elevador, que o esperava com suas portas abertas, e antes de adentrá-lo, o observou por alguns instantes. Mesmo já tendo o visto por tantas vezes, ainda ficava fascinado em ver como a tecnologia estava avançada comparada ao que já tinha ouvido falar antes. A estrutura era completamente transparente e, ao invés de ser interna, era presa à parede externa do prédio, deixando as paredes de vidro mostrarem todo o horizonte da Synapse.
Já dentro do cubículo, ele levou um dos dedos até seus óculos de grau, passando sobre a armação levemente, e no mesmo instante uma tela se projetou à sua frente, de forma que só ele pudesse ver. Era sua assistente sendo iniciada.
Olá, Jimin. Boa tarde!
Ouviu a voz de sua assistente pessoal ecoar por detrás de seu ouvido, pronto para receber notícias sobre o dia e sua agenda diária. Aquela era Ash, a assistente que o acompanhava para tudo que era lugar e Jimin agradecia muito por isso. Ela estava presente em seus óculos, relógio e aparelho celular. Sempre que ele precisava ou tinha alguma dúvida, ela surgia com a imediata solução.
Ash, que horas são? Poderia adiantar algo para que eu possa comer? Estou a caminho de casa. – Assim que a porta de vidro do elevador deslizou para o lado, o rapaz se adiantou, saindo do mesmo e seguindo para fora da corporação.
Do lado de fora, ele observou vagamente alguns drones sobrevoando a parte frontal da empresa. Todo dia era a mesma coisa: funcionavam como câmeras de vigilância em tempo real, captando qualquer e todo movimento que faziam, fosse funcionário ou algum visitante.
— São exatamente duas e trinta e seis da tarde – comentou para o rapaz. — O que você gostaria de comer? Levará cerca de vinte minutos para chegar em casa, aconselho Kimbap, já que consigo fazer neste meio tempo.
— Está ótimo, Ash, pode começar! Já vou estar no caminho. Obrigado!
Sabia que Ash reconhecia agradecimentos, mas não de forma que pudesse agradecer com o mesmo sentimento, era somente uma inteligência artificial. Exigir sentimentos já era demais. Jimin quis rir de seu pensamento e se pegou pensando em como aquilo talvez pudesse mudar com mais alguns estudos. Não que ele fosse fazer aquilo, mas seria interessante se surgisse algum pesquisador interessado no assunto.
Encarou o carro à frente e assim que o reconhecimento facial o identificou, a porta dele abriu, se elevando. Aquela Mercedes era seu xodó mesmo sabendo que não poderia se apegar tanto a um bem material. Logo o trocaria, era um fato, mas aquele carro em especial tinha toda sua atenção. Os vidros escuros e a lataria quase transparente fazia qualquer um observá-lo com distinção da mesma forma que as rodas escuras e quase imperceptíveis eram de emocionar.
— Seu Kimbap já está pronto, Jimin. Posso ajudá-lo com mais alguma coisa?
— Não, Ash. Já é o suficiente.
Respondeu assim que adentrou o veículo e, apenas com sua voz, ativou a ignição. Por mais que a maioria dos carros daquele ano fossem os mais silenciosos possíveis, Jimin havia alterado sua Mercedes. Ele adorava o leve ronco que aquele motor anunciava toda vez que ia a algum lugar. O mecanismo computável era simples, de forma que o rapaz pudesse alterar qualquer coisa que quisesse. Bom, para ele era simples.
Jimin morava na cobertura de um apartamento bem localizado no centro de Seul, ganhava relativamente bem, ainda mais sendo sozinho, então podia muito bem bancar o que quisesse. De dentro do carro, ele observou a sacada espelhada nas alturas e assim que se aproximou do apartamento a garagem começou a se abrir vagarosamente, sem mesmo ele ter solicitado. A abertura era detectada pela sonoridade do motor do carro, somente da Mercedes.
Jimin a havia feito justamente para isso. Por mais que fosse um geneticista, adorava descobrir e brincar com coisas diferentes e que não fizesse parte de sua área de atuação, o que explicava o interesse pela Genealogia.
Assim que estacionou o carro ele esperou até que a porta se abrisse, saindo do mesmo e, antes que pudesse trancá-lo, o observou terminar de estacionar sozinho. Caminhou até o elevador próximo da entrada e solicitou que o mesmo parasse no andar dele, logo o levando em direção a seu apartamento. Antes que pudesse entrar, a porta da sala se abriu.
— Seja bem-vindo, Jimin. – Ouviu a voz da assistente inundar o apartamento.
Observou o dia nublado pela enorme janela de vidro que acompanhava toda a extensão da sala de estar.
— Já lhe disse que não precisa da formalidade, Ash. — O rapaz suspirou, depositando o jaleco branco no dispositivo eletrônico que o esperava. O aparelho suspendia suas roupas, limpando-as ali mesmo e fazendo com que ficassem sempre limpas e arrumadas. — Você já está aqui há praticamente três anos, ainda não aprendeu?
Disse de forma divertida, olhando ao redor. Era quase um louco falando com Ash daquela forma, mas ele não ligava nem um pouco.
— Aprendi, sim, mas sempre lhe tratarei como meu proprietário – comentou para o rapaz, fazendo com o silêncio inundasse o local novamente.
— É, eu sei. Pode preparar minha refeição enquanto tomo um banho, por favor, Ash? – A assistente concordou com o pedido do rapaz enquanto ele seguia rapidamente para debaixo de seu chuveiro.
O banheiro de sua suíte era enorme, tanto que talvez pudesse ser considerado até outro cômodo do lugar. Era quase que totalmente branco, com alguns detalhes cromados e transparentes. Havia dois chuveiros, um em cada parede, e logo que o rapaz o adentrou, automaticamente ele era ligado, fazendo com que a água fosse de encontro ao corpo de Jimin.
O rapaz sentiu o corpo relaxar no momento em que a água morna encostou-se à sua pele e se permitiu soltar um longo suspiro cansado. Não podia reclamar de sua rotina, muito menos de seu trabalho, mas queria e precisava mudar, não porque aquilo não fosse bom, mas porque ele queria trabalhar com o que gostava, focar no que realmente fazia sentido para ele.
Assim que saiu do banheiro, ele ativou o jato de ar fresco em seu corpo, secando-o rapidamente. Aquilo era interessante, quase não precisava usar mais toalhas ou algum material do tipo para se secar. De volta à sala, sentou-se em sua bancada, observando a refeição posta na mesma. Ash era quase como sua empregada, mas a diferença era que ela não estava ali o tempo inteiro, somente quando ele precisava e isso era bom.
Continuou se alimentando devidamente e ergueu o olhar para toda aquela vista de Seul que tinha de seu apartamento. As nuvens estavam cinzentas naquele dia e o clima parecia ameno, mas de forma desanimada. Por alguns instantes, pôde compará-lo a si mesmo, o que era triste.
Jimin se sentia exatamente daquela forma nos últimos tempos e não era algo que se orgulhava de admitir, só que toda vez que o pensamento vinha à mente, ele tratava de afastá-los, afinal, tinha muito com o que se preocupar nos próximos meses e isso não incluía seus sentimentos.


Continua...



Nota da autora: Oiiiii amores, tudo bem? Esperamos que sim ❤️
Como começar a falar dessa collab? A ideia dela surgiu tão do nada como a amizade das quatro autoras aqui presentes, a gente foi se conhecendo e conforme fomos escrevendo sentíamos cada vez mais conectadas, esse é o primeiro capítulo, o começo de uma jornada que esperamos que vocês continuem aqui para acompanhar, porque estamos muito ansiosas para ver onde tudo isso vai dar e as evoluções pessoais, por fim esperamos que tenham gostado do primeiro capítulo, deixem nos comentários o que acharam, vamos adorar ler ❤️❤️❤️ Mais uma vez muito obrigada, nos vemos logo logo 💜

De: Bianca, Isy, Peach Lee, Sial.


Grupo da autora (Bianca)
Grupo da autora (Isy)



Outras Fanfics:
Histórias da Bianca: One Chance
Immergere
Clouds
04. Make It Right
11. Someone Like You
01. Start Of Something New

Histórias da Isy:
West Coast
Bold As Love
11. Lost Boy
01. Naive
04. Can We Dance
18. Mr. Brightside
I Kept It All For You

Histórias da Sial:
Ghost Feelings

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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