Mar de Lírios

Última atualização: 01/05/2022

Capítulo 1 – Sempre Há Uma Esperança

- Deixe-me apresentá-los... – ele se aproximou com um homem, uma mulher e um rapaz. – Sr. e Sra. Stewart, essa é minha esposa, Helena, e minha filha, Susana. Helen, Su, esses são George e Laura Stewart, e este é seu filho, Phil – papai nos apresentou.
- É uma honra, senhoritas – disse o Sr. Stewart.
- A honra é nossa. – mamãe respondeu sorridente. Eu apenas sorri e acenei com a cabeça.
Devia ser a quinta ou sexta família de amigos americanos que papai nos apresentava na singela meia hora em que estávamos ali. Era um chá de trabalho para meu pai e muitos outros, mas reunia também suas famílias. Como uma reunião informal, pois o assunto sempre seria trabalho - ou a guerra. A maioria ali era militar, ou filhos de militares, muitos haviam voltado dos campos de batalha, outros partiriam logo. Outra parte, aquela no mural de fotografias, nunca voltou. Em menos de uma hora e meia, já conheci Fábio e Julie Willendorf e seus filhos Félix e Felícia, o Sr. e a Sra. Brand e sua filha, Melina; Joseph e Vera Drummond, e seus netos, Jessica, Olívia e Robert. Mais duas famílias que desisti de gravar os nomes e, agora, os Stewart.
Estar ali não era meu programa preferido, definitivamente, mas era importante para meus pais, então lá eu estava. Devo confessar que participar dessas reuniões sociais era um martírio no início, mas, para meu conforto, passou a ser agradável depois de um tempo. Ouso dizer que poderia me acostumar - talvez até gostar mais - daqueles encontros futuramente. Por enquanto, não funcionava melhor do que as caminhadas pelo parque, ou as horas na biblioteca da Universidade ou os fins de tarde desenhando na varanda. A parte de mim que contava as horas para voltar à Londres, para perto de meus irmãos, conseguia um descanso nesses momentos. Os Estados Unidos eram legais, não digo diferente, mas a saudade que sentia de Pedro, Lúcia e Edmundo só crescia a cada dia.
Eu até concordaria em ficar na casa de Eustáquio se a chance de voltar à Londres me fosse ofertada. Porém, mesmo assim, são tempos complicados e não está seguro atravessar o Atlântico, nem há previsões de quando estará. A saída era abusar das cartas, escrevia para eles dia sim, dia não e sempre tínhamos uma lauda ou duas falando sobre Nárnia. Pedro, que estava com Professor Kirke, era quem mais nos abastecia de histórias de Nárnia, pois nosso antigo tutor sempre se recordava de coisas novas. Era uma forma de acalentar a saudade que Nárnia havia deixado em Pedro, e em mim.
Mamãe constantemente se mostrava preocupada comigo. Helen Pevensie sempre foi muito observadora e essa característica era infinitamente mais aguçada quando se tratava de seus filhos. Os momentos em que a saudade e o aperto no peito me acometiam não passavam despercebidos para ela. Mamãe dizia que eu parecia estar em outro mundo e eu realmente estava, minha mente não saíra de Nárnia ou de seu rei, nem sairia tão cedo. Mas como explicar? Basicamente, tudo se resumia a saudade dos meus irmãos, e mamãe se deixava convencer.
Suspirei sentindo a brisa, debruçada no parapeito de um dos coretos presentes ali no jardim onde ocorria a confraternização. O dia estava belíssimo e o clima agradável, o céu tão azul quanto meu vestido fazia a lagoa brilhar, destacando também a paleta de cores cuidadosamente escolhida para as estruturas daquele jardim. Ouvi passos atrás de mim, mas era como o zumbido do silêncio em minha mente, como o sussurro da brisa.
- Está tudo bem, Srtª. Pevensie? – uma voz masculina me assustou. Virei para ela e encontrei Phil, olhando-me com um brilho curioso e gentil.
- Claro. – tentei sorrir. Em silêncio, ele debruçou-se ao meu lado, observando a paisagem, levei os olhos de volta ao entorno, à beira de me perder em pensamentos novamente.
- Está uma bela tarde. – observou ele. Apenas concordei com a cabeça, sorrindo levemente. – Soube que a senhoria tem três irmãos – puxou assunto.
- Sim, mas eles ficaram na Inglaterra. – soou como um lamento, para meu desgosto.
- Meu irmão, Tommy, está na França; - disse, e senti o peso de sua informação. - Sente a falta deles, não é?
- Sinto. – sorri e leve – Estou a ponto de saltar no próximo navio em direção a Inglaterra. – nós rimos.
- Soube que pretendem retomar as viagens em dois meses. – deu corda. Eu ri.
- Bem, eu partiria daqui dois meses, mas meu pai ainda precisa estar aqui pelos próximos três, então... – falei, não havia muitas saídas para mim.
- Que sorte a minha… Quero dizer, e-eu sinto, sinto muito por você ter que esperar tanto tempo e… – Phil se atrapalhou, constrangido pela possibilidade de ter soado insensível e não pude evitar o sorriso ao vê-lo corar levemente depois de pigarrear, decidindo que era melhor parar de falar.
- Serão bons meses. - disse, para tentar ajudá-lo com a situação. Phil ergueu o olhar e sorriu de leve. Ao longe vi meus pais, nos observando - Hum... Eu preciso falar com meus pais, com licença. – falei gentilmente, já seguindo para os degraus. Caminhei sobre os saltos até meus onde meus pais estavam.
- O que houve, querida? – perguntou meu pai.
- Er... Eu não estou muito bem aqui, queria saber se posso voltar para casa...
- Não se sente bem? O que você tem? – minha mãe pôs a mão em minha testa.
- O menino dos Stewart não lhe faltou com respeito, faltou? - Papai indagou, cauteloso enquanto eu tentava me desvencilhar da mão de mamãe.
- De forma alguma, e não tenho nada demais, só... Quero ir para casa... Tudo bem? – perguntei. Meu pai hesitou.
- Achei que estava se divertindo - comentou.
- Estava, mas hoje chegará a encomenda de Lúcia, lembra?
- Oh, sim, claro! - lembrou-se. - Pode ir, mas não ouse ficar com meu Manjar.
- Raphael! - mamãe reclamou. Eu ri.
- Sim, Sr. Pevensie.

[...]


Larguei o casaco em qualquer canto, tirei os sapatos e corri para minha cama com o embrulho em mãos. Como previsto, o pacote já havia sido entregue, assim como outras cartas, e aguardava na varanda. Sequer precisei conferir o remetente, de cara reconheci a caligrafia de Lúcia no papel pardo. No silêncio do quarto e feliz por estar um pouco só, preferi começar pela carta endereçada a mim. Olhei para a cabeceira da cama, esticando o braço para apanhar o abridor de cartas. Rasguei com cuidado e retirei o papel amarelado lá de dentro, desdobrei-o e comecei a ler.
“Oi, Su, sentiu saudades? Eu sei que sim! Bem, escrevi para avisar que prestei os últimos exames nesta última semana, logo mais terei os resultados em mãos e, se tudo correr bem, você terá um irmão médico dentro de algum tempo. Não é demais? Escreverei mais em breve para falar sobre algumas ideias nas quais o Professor e eu estamos trabalhando, só queria contar logo sobre os exames. Por favor, contenha sua curiosidade...” – comecei a rir, quase podia imaginar a cara cínica de Pedro ao escrever aquilo, era óbvio que ele deixaria a todos curiosos - “Se tudo der certo, me mudarei para perto da Universidade. Não é longe, vai me permitir sempre estar aqui com o Professor, mas terei mais espaço e poderei, finalmente, trazer o Ed e a Lu de volta. Parece que a convivência dele com Eustáquio está cada vez pior. Quanto a você, tem minha completa e absoluta permissão para retornar antes! Espero que esteja tudo bem por aí, mande lembranças ao nosso pai e muitos beijos para nossa mãe. Por favor, conte a novidade para eles. Mando mais notícias em breve.
Beijos de seu irmão preferido,
Pedro.

Eu sorri com a sensação de quase poder ouvi-lo dizer cada palavra, bem como ter a plena certeza de cada expressão que ele havia feito. Pedro seria sempre Pedro, um livro fácil de se ler para quem o conhece. Lúcia parecia muito com ele nesse ponto. Guardei a carta de volta ao envelope e o deixei ali sobre a cama, ainda aconchegada pela lembrança de meus irmãos, comecei a abrir o pacote maior. Nárnia e a respectiva saudade que me causa, anda me fazendo chorar com frequência ultimamente, mas não é algo com o qual pretendo preocupar meus irmãos. No fim do mesmo ano em que voltamos de lá pela segunda vez, papai conseguiu esse emprego como professor temporário aqui na América. Ficaria muito caro trazer todos os filhos e, como Pedro tinha que estudar e não havia lugar para Edmundo, Lúcia e eu na casa de nossa tia, só eu pude vir com eles. Não sei se isso é sorte, como diz Edmundo, ou azar, por eu ter que ficar longe deles. Acho que um pouco dos dois.
Dentro da caixa, tinha uma embalagem com os doces que Lúcia havia prometido a papai, um bordado especial para mamãe e um envelope para mim. Abri devagar encontrando um papel diferente do de carta que Lúcia normalmente usava, era um retângulo que logo identifiquei: uma fotografia. O primeiro lado que vi foi o verso, cuja caligrafia de Lúcia também enfeitava com uma simples informação:
"Cambridge, 1942”
Na foto, Lúcia sorria ao lado de Edmundo. Sorri sem perceber. Eles haviam crescido tanto em tão pouco tempo. Parecia que não os via há séculos. Edmundo estava mais alto, e quase pude ouvir sua voz ao olhar seus olhos naquela imagem. Sorri com o coração apertado de saudade. O sorriso de Lúcia parecia ganhar mais brilho a cada dia que passava, como se ela florescesse a todo momento. Era como se a magia de Nárnia transbordasse dela em nosso mundo, e já cheguei a me perguntar se Aslam não esperava isso de nós também.
Na carta, Lúcia contou como andavam as coisas na casa de tia Alberta e tio Arnaldo. Não havia nada novo: nossos tios e seus costumes continuavam estranhos e Eustáquio se mantinha extremamente desagradável, aproveitando cada oportunidade para provocá-los quanto a Nárnia - informação que ele conseguiu após ouvi-los conversando. Ela estava animada com a ideia de morar com Pedro e, por fim, contou-me um sonho que tiveram com Nárnia e com Caspian. Se desculpou nas entrelinhas por me falar dele, mas precisava contar seu sonho, que não saía de sua mente.
Desde nosso segundo retorno, este rosto em particular ocupa minha mente sempre que ela está vaga. Não só o rosto, como os olhos negros, o sorriso branco, o sotaque telmarino. Caspian, apesar do que meus irmãos pensaram a princípio, me traz ótimas recordações. A sua ausência é que tem me dado mais trabalho. Com ele, eu experimentei um sentimento novo que dominou todo o meu ser, algo que nunca imaginei ser possível existir e que estava longe de ser um segredo. Depois de voltar, pude afirmar a mim mesma - e somente a mim - que o amo e estar longe dele, principalmente sabendo que nunca mais vou vê-lo, dói. Isso é inevitável, mas eu não me permito sentir ou demonstrar tanta dor assim. Afinal, não há lógica em sentir tristeza num sentimento que só me faz feliz. Porém, essa questão era a única que eu evitava falar com meus irmãos pois só serviria para deixá-los preocupados. Sabia que também sentiam falta de Caspian como sentiam de Nárnia e Aslam, e eu havia decidido não dar-lhes mais motivos, guardaria essa falta em particular para mim.
Ao contrário do que eu temia no princípio, pensar nele consolava meu coração, de certa forma. O próprio Aslam disse que Pedro e eu não voltaríamos à Nárnia, então só o que me restava eram lembranças. Nem sempre cumpriam seu papel de consolo, mas sim de dor. No entanto, ainda sentia vivo em mim um calor reconfortante, uma chama de esperança que também podia encontrar nos olhos de Lúcia, mesmo na fotografia. Levantei-me e fui até a mesa, pronta para responder as cartas. Não sabia como nem para que rumo aquela pequena esperança levaria, mas era o que me restava para seguir. Independente de que situação nos encontrássemos, o próprio Leão disse que sempre há esperança.


Capítulo 2 – Um Desenho Desaparecido

Não dei por mim quando peguei no sono. Acordei abrindo os olhos devagar, as cortinas na janela ainda abertas balançavam ao vento frio que enchia o quarto. Já era noite, o quarto todo estava frio e mergulhado em breu. Sentei ainda sonolenta, respirando fundo o ar da noite. A casa estava em silêncio, mas gradativamente ruídos foram chegando aos meus ouvidos. Eram passos, vindos do primeiro andar, em seguida vieram vozes que pude reconhecer como as de meus pais. Acendi o abajur de cabeceira e busquei o relógio logo abaixo dele. Vinte horas. Ouvi meu nome ser dito ao longe, então decidi levantar e ir cumprimentá- los. Como única filha morando na casa, havia um banheiro conjugado ao quarto à minha disposição, era um dos poucos privilégios de que gostava. Fui em direção a ele e lavei o rosto, passei a mão nos cabelos e deixei o quarto, seguindo descalça rumo às escadas, sem causar ruídos.
- Acho que ela pode estar dormindo. – disse minha mãe, lá embaixo na sala – Sobre o que você estava falando com o Sr. Stewart? – continuou ela. Ouvi alguém sentar, jogar- se no sofá. Papai, com certeza. Ele suspirou.
- Você viu Susana e Phil conversando hoje. Não lhe pareceram formar um belo casal?
Parei, no topo da escada, meio escondida atrás da parede, cedendo a curiosidade apesar de saber que não deveria.
- Sim, realmente. Mas Susana não me pareceu muito confortável. – pontuou mamãe.
- Você sabe de algo, Helen? – perguntou ele – Susana está na idade em que as moças costumam buscar um pretendente, mas já venho observando há algum tempo e percebo que ela não parece estar aberta a ninguém que tenha se aproximado dela. Pergunto-me se, por acaso, não ficou alguém na Inglaterra.
Colei-me ainda mais à parede, como se fosse cair.
- Já tentei conversar com Susana sobre esse assunto, mas você sabe como ela é reservada demais – contou mamãe. Não podia negar, ela realmente tentara e, por mais que eu quisesse falar sobre, não seria possível. – Sempre que tento ela se torna escorregadia e aproveita a primeira oportunidade para mudar de assunto.
- Não entendo por que seria um assunto tão terrível assim. Sabemos que chegará a hora de ela arrumar um marido. – disse meu pai. Meu coração apertou no peito. É claro que eu sabia, mas o plano imediato era adiar essa ideia o máximo possível.
- Ela só tem 16 anos, querido. – ponderou minha mãe, em tom ameno. – Conhecendo Susana, creio que ela tenha outras coisas em mente.
- Você tinha essa idade quando nos casamos. – argumentou ele. – Em sua última carta, Lúcia contou que a filha dos Wales se casou na primavera, e a filha dos Miles está noiva. Você se lembra delas, não? Estudaram com Susana.
- O que lhe preocupa exatamente, Raphael?
- Susana não segue o mesmo ritmo das amigas, ou das outras moças. – começou ele – Não me entenda mal, você sabe que isso me agrada. Tenho muito orgulho de minhas filhas, mas ao mesmo tempo Susana me preocupa.
- Entendo o que quer dizer. – mamãe se pronunciou. Busquei na mente qualquer coisa que poderia ter levantado preocupação além do óbvio, mas não encontrei nada. Nada cujo motivo pudesse ser dito abertamente, é claro.
- Susana é uma ótima moça, mas está sempre sozinha. Isso tem me preocupado bastante ultimamente. Susana não é tão aberta a conversas quando algo a incomoda. Ela ter evitado suas conversas só me preocupa mais. – falou papai. – Seria mais fácil se ela fosse como Lúcia nesse ponto.
Um silêncio recaiu na sala. Eu queria, pai, queria realmente ter a mesma facilidade de Lúcia. Sua fé, inclusive. Respirei fundo devagar. A troca de cartas com meus irmãos não eram suficientes para conversar sobre o que me afligia e essa era a principal desvantagem de estar aqui. De fato, me sentia só.
- Eu estive observando o filho dos Stewart. Phil. É um ótimo garoto, vem de boa família e quando o vi conversando com Susana hoje pensei que dariam um ótimo par, se viessem a ser, claro.
- E você não se oporia? Era sobre isso que você estava falando com o pai dele?
- Ora, querida, você mais do que ninguém sabe que, para mim, não existem homens completos e totalmente dignos das minhas meninas. Mas sei que a hora vai chegar. O próprio George disse, nas palavras dele, como seria “um bom negócio” se os dois fossem mais a frente.
- Ora, mas eles se conheceram hoje e Susana não me pareceu muito à vontade com ele. Não seria cedo demais para pensar em um relacionamento? – quase pude ver o cenho franzido de mamãe, só por seu tom de voz.
- Ele parece ser um bom rapaz, mas também não o conheço o suficiente.
- Seria bom para ela fazer amigos, pelo menos. – comentou mamãe – Ela anda estranha de uns tempos para cá. – contou, como um desabafo.
- Estranha como?
- Só... Estranha. Susana sempre foi de poucas palavras, mas não distraída. Ultimamente parece que tem a cabeça nas nuvens.
- Deve ser só um momento.
- Não, é algo mais que isso.
- Já experimentou perguntar à Lúcia? Ela e Susana são muito unidas, talvez ela saiba o que está acontecendo com a irmã. – o ouvi se levantar e preparei-me para finalmente descer as escadas.
Não adiantaria perguntar nada à Lúcia, claro. O que me leva ao ponto que estava evitando havia tempo: pensar em algo para fazer. Estive evitando isto por dois motivos, primeiro: estaria me colocando entre contar a verdade, continuar omitindo e consequentemente mentindo, ou agir conforme todos esperavam, como se tudo não houvesse existido. Segundo: nenhuma opção era confortável.
- Ah, olá, querida! – cumprimentou papai quando comecei a descer as escadas tranquilamente. Sorri de leve.
- Como foi lá? – perguntei ao abraçá-lo e receber um beijo no alto da cabeça.
- Muito agradável, querida. – respondeu mamãe – Você está bem?
- Sim, acabei pegando no sono.
- Se você tivesse ficado mais um pouco, teria feito mais amizades, tenho certeza. Você causa uma perda tremenda aos jovens dessa cidade não lhes permitindo sua amizade.
- Não exagere, pai. – pedi, depois de rir alto.
- Eles terão outras oportunidades. – mamãe falou, sorrindo. Sorri-lhe de volta.
- Phil certamente terá mais uma. – complementou papai, baixo, como quem diz por acaso. Cruzei os braços.
- O que o senhor está tramando?
- O quê? Só porque você tem dificuldades em fazer amigos não quer dizer que eu fico de tramoias por aí, meu bem.
- Eu o que?
- Céus, parece que estou diante de Edmundo! Vou fazer um chá. – mamãe se levantou para se dirigir a cozinha.
- Convidei George e a família para vir aqui tomar chá no domingo. – falou meu pai. Ergui a sobrancelhas involuntariamente.
- Meu bem, estar aqui é uma grande oportunidade que você poderia aproveitar mais. No melhor sentido de todos. Mas sua mãe e eu achamos que há algo lhe incomodando. Sabe que pode nos contar por que você está tão distante.
Suspirei, descruzando os braços e pensando em algo sensato a dizer.
- Não há nada. – sussurrei, pondo uma mecha de cabelo atrás da orelha e tentando sorrir levemente. Espero ter conseguido. – Sinto falta de meus irmãos, só isso.
E lá estava a mentira. Não completa, fatiada, mas estava.
- Quem nada é peixe, Susana. Acha que não percebemos que aconteceu alguma coisa? Somos seus pais, Susana, pode contar. – minha mãe tentou, falando lá da cozinha, logo sendo abafada pelo apito da chaleira.
- Não é nada. Nada mesmo. E dizer que não fiz amigos é um exagero. – insisti – Jane, da casa em frente, é uma ótima pessoa.
- O que achou de Phil? – mamãe lançou, direta e sem rodeios, pousando a bandeja com o chá e as xícaras na mesa de centro, deixando-me atordoada com a pergunta repentina. Engasguei brevemente, com a mente em branco.
- Bom, – maneei, ganhando tempo para ordenar as palavras enquanto servia-me de chá – parece ser uma boa pessoa.
- Seu pai acha que formariam um belo casal.
- O quê?! – grasnei, lívida. Não esperava que fossem tão diretos assim.
- Helen! – protestou papai, com a xícara a meio caminho da boca.
- Isso é ótimo. – falei voltando a equilibrar a xícara com cuidado – Já tenho um motivo para passar o dia no quarto domingo.
- Ora, não fale assim. Não é para tanto. – mãe disse, dispensando com um gesto de mão. Eu tomei outro gole, erguendo as sobrancelhas para papai por trás da porcelana.
- Ora, é apenas um chá, está bem? – concluiu ele – Vamos recebê-los para o chá e ter uma tarde agradável. E, gentil do jeito que é, seu que tratará bem o rapaz, e consequentemente vai dar a oportunidade de conversarem, é algo natural. E então, se virarem amigos, será natural também. – deu de ombros e gesticulou com a mão, descontraído, do jeito que falava quando queria deixar seus pensamentos de forma subjetivamente claros.
Respirei devagar, levando a xícara a boca e torcendo para que o chá trouxesse certa calma frente ao aperto em meu peito. Meus pais estavam criando expectativas, normalmente elas viriam com o tempo mas eu não estava disposta a atendê-las. Não ainda. Tinha certeza de que Phil podia ser um bom pretendente, não se tratava dele. Eu só não estava preparada, e duvidava que algum dia estaria de fato.
Querer evitar seguir a vida a todo custo não estava nos meus planos. O sonho de um dia voltar para Nárnia e viver uma vida inteira – com Caspian – já havia parado de conduzir minha vida, não havia mais essa esperança ardente. Eu pretendia seguir, é claro. Queria ter uma profissão e sabia que poderia ter uma família um dia. No entanto, apesar disso, confesso que uma parte de mim queria adiar esse momento. Regressar para lá e viver uma vida conforme sonhei já havia deixado de ser uma esperança.
Desde que voltara para a Inglaterra, tentei várias coisas para manter a mente ocupada e de todas elas, somente o desenho havia conseguido chegar perto do objetivo. Desde então pratico com frequência, tornou-se uma forma de expressão silenciosa, as minhas preferidas. Aproveitando o silêncio da casa quando meus pais se recolheram e a falta de sono por conta da tarde, sentei à mesa que tinha próxima a janela e retomei o último papel, ainda incompleto.
Quando cheguei aos Estados Unidos, intensifiquei ainda mais e pude continuar me aventurando no registro de lembranças nossas na Inglaterra, em Nárnia, até que um dia a memória adormecida de um momento me compeliu a desenhar o dono de sua expressão. Depois de três anos, via novamente o rosto de Caspian, embora estivesse no papel. No entanto, um belo dia algum tempo atrás, o desenho desapareceu.
[...]

Quando o domingo chegou, mamãe apareceu na porta atrás de mim. Olhei-a pelo espelho, confirmando que já desceria, então ela desceu, mas não sem antes me lançar uma piscadela provocando-me um riso contido. Apanhei o anel sobre a penteadeira, pondo-o lentamente no dedo anelar da mão esquerda. Era o meu preferido, Pedro me dera no Natal passado, ele só servia naquele dedo e escolhi-o propositalmente, embora ele combinasse com minha roupa. Suspirei, o chá já não me preocupava mais. Havia procurado o desenho por toda parte, não fazia ideia por onde mais olhar, e já temia que fosse encontrado por mais alguém.
Dei uma última olhada em meu reflexo, levantei e fui rumo à porta. Caminhei pelo corredor em passos tranquilos. Suspirei mais uma vez chegando ao topo da escada, revisando mentalmente onde deveria procurar novamente. Desci com uma mão no corrimão e logo encontrei todos na sala de estar.
- Ah! – meu pai sorriu. – Aí está ela!
Pude ver George, Laura e Phil todos com roupas elegantes para aquela tarde de verão. Mamãe veio da cozinha. Sorri gentil, parando ao lado de papai para cumprimentá-los. George e Laura responderam com educação e sorrisos enormes, Phil, por outro lado, entregou-me um beijo no dorso da mão e uma fala simples e educada.
Mamãe chamou a todos para sala de jantar, pois o chá já seria servido. Fui ajudá-la na cozinha e não havia discrição alguma em seus sorrisinhos em minha direção. Para minha sorte, Laura veio nos ajudar e mamãe parou com as gracinhas. Com tudo pronto, retornamos para a sala de jantar e assumimos nossos lugares e o chá foi servido.
- Sua mãe me disse que você pretende ir para a Universidade. O que pretende cursar? – perguntou Laura, gentilmente. Não tive pressa em terminar meu gole de chá, sorrindo levemente e descobrindo que meus pais haviam falado mais do que eu imaginara.
- Ainda não me decidi. – sorri dando outro gole.
- Ora, tenho certeza de que seria uma professora maravilhosa, se quisesse! – comentou George.
- Igualzinha ao seu pai. – comentou mamãe. Sorri para ela e vi papai sorrindo, pelo canto do olho.
- E você, Phil? Soube que você já está na faculdade. – desconversou ele, servindo-se novamente.
- Sim, eu estou no segundo ano de direito. – respondeu Phil. Ele me pareceu levemente desconfortável, mas tranquilo.
- Direito? Isso é ótimo! – começou meu pai enquanto eu me escondia atrás da xícara de chá em outro gole.
- E qual seus planos para o futuro, Susana? Certamente uma profissão ocupará muito do seu tempo. – Laura perguntou, inclinando-se em minha direção enquanto os homens estreitam- se com outra conversa. Isso, aquela era uma reunião muito, mas muito, estratégica. Os pais do rapaz sondavam a moça e os pais da moça sondavam o rapaz. Phil e eu estávamos na berlinda bombardeados por perguntas – Pretende casar, ter filhos...? – pousei a xícara no pires.
- Bom, não penso em casamento ainda. Quero me formar em alguma coisa, ter um emprego, talvez depois eu pense em casamento. – respondi.
Novamente de esguelha, pude ver quando Phil escondeu o riso bebendo um gole de chá. Laura pareceu um pouco surpresa com minha resposta, mas sorriu um pouco, educadamente e assentiu uma vez.
- E você, Phil. – mamãe mudou de assunto, um pouco alto demais. Phil foi pego de surpresa. - Seus planos para o futuro...?
- Bem, pretendo terminar a faculdade, casar... Filhos? Quem sabe? – tomou mais um gole.
- Parece um bom plano também. - disse mãe, simpática, pondo mel em seu chá.
Sem querer, meu olhar se cruzou com o de Phil. Vi refletido ali a mesma sensação que encontrava em mim. Estávamos os dois em uma situação que não gostávamos, mas que decidimos enfrentar com cordialidade e maturidade. Ele sorriu, compreendendo. Sorri de volta para ele.
- Raphael, e seus outros filhos? Espero que estejam bem na Inglaterra. – falou George, mudando de assunto.
- Ah, estão bem. Pedro, o mais velho, foi para a casa de um velho amigo meu estudar. Os mais novos, Edmundo e Lúcia estão na casa de meu irmão, Arnaldo.
- Aposto como eles devem estar bem crescidos. – Laura sorriu. – Com quantos anos eles estão?
- Pedro fez 19 há alguns meses. Edmundo completou 15 e Lúcia 14. – respondeu minha mãe, orgulhosa.
- Lembra, George? A última vez que os vimos eles eram tão pequenos, Lúcia era apenas um bebê! Ela deve ter se tornado uma linda moça, assim como a irmã. – me lançou um olhar de canto. Eu sorri de leve, agradecendo.
- Eu tenho fotos deles aqui, deixe-me lhe mostrar. – mamãe levantou e foi até o armário de onde tirou um álbum pesado.
Então, meu pai, George e Phil, entretidos outra vez, foram para o gabinete, conversando sobre alguma coisa enquanto nós mulheres permanecemos na sala. Mamãe sentou ao meu lado e Laura ao seu lado. Helena Pevensie abriu o álbum sobre o próprio colo e procurou a foto em que estava Lúcia, Pedro e Edmundo. Eu também estava, só que atrás da câmera.
Papai havia comprado uma máquina fotográfica havia pouco tempo, e usei para tirar aquela foto para trazer para os Estados Unidos. Lúcia estava sentada sobre a mesa do escritório com um livro aberto sobre as pernas, os cabelos longos e avermelhados estavam jogados por cima de um dos ombros e ela sorria para mim. Edmundo estava sentado na cadeira de papai com os pés sobre a mesa, olhando-me com um sorriso torto e a mão no queixo. Pedro estava de pé, mexendo na estante cheia de livros atrás da mesa quando eu o chamei para a foto, ele virou parcialmente para mim com a mão em um dos livros da estante, sorriu, e eu tirei a foto.
Sorri sem notar que o fazia, olhando a foto, enquanto Laura fazia comentários sobre meus irmãos, comentários que eu não ouvia. A saudade bateu marteladas no peito e eu impedi as lágrimas. Mamãe virou a página e eu reprimi o susto. Ali estava o desenho que eu vinha procurando há alguns dias. Os olhos escuros e cabelos na altura dos ombros, dono de um olhar penetrante, que olhava para longe, acima de seus olhos estavam as sobrancelhas levemente unidas, completando a expressão séria do rosto direcionado para o lado, usava uma camisa larga, medieval e branca. Os traços do desenho se estendiam até o final da folha, até a espada em sua bainha. Passei a mão no desenho, apanhando- o.
- Está aí! – falei, mais para mim, de supetão.
- É um dos seus? – perguntou minha mãe, desconfiada.
- Hm... Sim – respondi, dobrando o desenho, sem vincar a folha.
- Quem seria esse rapaz? – perguntou Laura.
- Hm... É só um desenho. Eu vou levar isso lá para cima, com licença. – levantei e subi as escadas. Fechei a porta do quarto e escorei-me nela, apertando o papel contra o peito.
Respirei profundamente. Em seguida, um riso engasgado escapou da garganta. Havia certo humor em ficar tão apreensiva por um desenho desaparecido. Olhei a imagem novamente. Que hora para aparecer, não?
Dei três largos passos até minha mesa, abaixo da janela, abri a gaveta e tirei de lá o maior caderno. A capa era de couro e seu lacre era uma delicada fita de cetim rosa. Desatei o laço abrindo onde as folhas de meus desenhos estavam soltas. Subitamente, um vento entrou pela janela, agitando os papeis que voaram espalhando-se pelo quarto. Suspirei. Estiquei-me por cima da mesa até fechar a janela e em seguida ajoelhei-me pelo chão para catar as folhas.
Ouvi um barulho vindo do banheiro. Era a torneira aberta. Um arrepio percorreu meu corpo. Pus-me de pé e fui até lá, fechando- a. Assim que o fiz, o chuveiro abriu, jorrando água. Fechei-o, tentando me molhar o menos possível. Voltei para o quarto fechando a porta do banheiro. Um susto. Na mesa, meu caderno estava fechado com todas as folhas dentro. Exceto uma. O desenho de Caspian estava sobre a capa. Em passos lentos eu cheguei até a mesa e peguei o desenho em minhas mãos olhando- o confusa.
- Mas o que...?
Um rugido fez meus cabelos balançarem. Com o coração a galope, sorri sem acreditar.
Água respingou em meu rosto. Virei para ver de onde ela vinha: jorrava do quadro pendurado na parede. Era meu quadro preferido. Nele, Lúcia retratou o Espelho d’Água com um navio ao fundo. Havia chegado junto com uma carta dela mês passado, dizendo que serviria para eu “viajar para Nárnia quando eu quisesse”. A princípio, meu ceticismo fez-me aproximar da parede, andando com cuidado pela água que já chegava aos joelhos, e afastar levemente o quadro, apenas para confirmar i que já sabia: não havia conexão alguma com a parede.
O quarto continuava enchendo rápido e eu já tinha a água na cintura quando afastei. Eu sorri quase rasgando as bochechas. Sim, era exatamente o que eu pensava. Afastei-me mais do quadro, devagar, recuando em direção a porta, sem dar as costas a ele. No entanto, um jato forte de água saiu da pintura, me derrubando já na profundidade considerável. Afundei mais metros do que o chão do quarto permitiria. Impulsionei-me, nadando em direção a superfície cada vez mais longe. Quando cheguei até ela, em vez do teto, deparei-me com um lindo céu azul, o oceano de águas tão azuis quanto o firmamento, se estendia a perder de vista, e em minha direção vinha um grande navio.


Capítulo 3 – Nova Tripulante

Caspian
Três anos haviam se passado até ali. Em mais uma manhã a bordo do Peregrino da Alvorada, observando o mar tranquilo e sentindo o vento fresco, cheguei – pela milésima vez – a conclusão de que aquela sensação insistente certamente se tratava de loucura. Mas, ainda assim, mais do que nunca eu podia sentir – com bastante convicção, asseguro - que ela parecia estar cada vez mais perto de mim do que esteve nesses três anos.
Não era possível, é claro. No entanto, aquela sensação se instalara em algum ponto muito relevante de minha mente, que insistia nesse assunto apesar da racionalidade. Susana permaneceu em meus pensamentos dia após dia, por todo esse tempo, e, a esta altura, sabia que não se ausentaria. Devo confessar que até tentei, não esquecê-la de fato, porque era sobre-humano, mas fazer-me acreditar que esse sentimento não passara de uma simples atração passageira e que viver com sua ausência seria algo simples ao qual eu logo me acostumaria. Porém, da mesma forma, logo admiti que não seria passageiro e muito menos simples.
A única maneira era prosseguir. Como as obrigações reais impõem, aceitei com mais facilidade encontrar outra pessoa, a fim de acelerar esse processo que não andaria naturalmente. Decidi encontrar alguém para satisfazer as necessidades do reino, uma que fosse tão bela quanto ela, se possível, mas, principalmente, invariavelmente tão boa e gentil quanto Susana. Se, porventura, a moça em questão ocupasse espaço especial em meu coração, melhor seria. Confesso que, talvez por este último motivo, não encontrei. E nem tinha ânimo em continuar à procura. Precisei cansar dessa busca para perceber que se não fosse por Susana não seria por mais ninguém. Eu sei que não a veria de novo, o próprio Aslam dissera que ela não voltaria, isso era suficiente para qualquer pessoa perder as esperanças. Deveria ser o suficiente para mim. Mas não foi.
Descobri bem como dói ficar longe dela e meu consolo são as lembranças, a lealdade ao reino e ao cotidiano, sem contar, é claro, uma viagem por mar vez ou outra. Nos raros momentos em que eu ficava a sós com meus pensamentos, costumava seguir para meu quarto e era inevitável lembrar o sorriso dela, admirar a trompa que mantinha na antecâmara junto com as armas dos outros irmãos – e sentir novamente, ao fechar os olhos, o gosto daquele beijo casto e ligeiro demais. Sabia que estava afundando em um ciclo de autotortura permitindo-me reviver todas aquelas lembranças, mas como também sabia, era inevitável.
A viagem do Peregrino da Alvorada surgiu em um momento excelente para minha sanidade. O projeto grande de uma jornada a longo prazo requer muitos preparativos, questões que me mantinham bastante ocupado. Quando estavam construindo o navio, decidi que queria a presença de Aslam e dos antigos Reis e Rainhas na cabine principal, de forma simbólica. Os artesãos de Nárnia foram primorosos nos detalhes, trazendo-os a bordo através de pinturas, esculturas e objetos. Prometi a Pedro que guardaria a espada dele por quanto tempo eu pudesse, mas depois que eles partiram, decidi o que logicamente faria independente da promessa: guardei com zelo e estima as armas e demais objetos de Lúcia, Susana e Edmundo, que eram tratados como tesouros do reino. Ninguém se opôs a sugestão de Ripchip e então as armas agora estão aqui na cabine principal, compondo a presença Pevensie junto com as pinturas.
Hoje, completamos um mês a bordo do melhor navio da marinha de Nárnia, na longa e imprevisível jornada a procura dos melhores amigos do meu pai, expulsos de Telmar por Miraz pouco antes de que o derrotássemos e eu recuperasse o trono. Era um dia de clima calmo e agradável, tranquilo, se não fosse aquela sensação sem nexo e cada vez mais intensa. Revisava alguns mapas que Drinian e eu usávamos para o planejamento, quando um brado soou lá de fora.
HOMENS AO MAR! – era Drinian, o capitão. Saí da cabine e corri pelo convés em direção a estibordo, debruçando-me na beira do navio.
Lá embaixo, vi surgir na superfície do mar a pessoa que achei que nunca mais veria. Era ela, com toda a certeza que havia em mim. Como, eu não saberia dizer e sequer houve tempo para pensar. Sem hesitar, pulei para a água. Ela não me viu, provavelmente por causa da luz do sol contra seus olhos, mas viu o navio indo a sua direção e começou a nadar para longe dele, ela era rápida na água, mas eu consegui alcançá-la e segurá-la pela cintura.
– Calma, te peguei. – falei. Ela parou de nadar e olhou para mim.
– Caspian?! – ela sorriu, surpresa, permitindo-me vislumbrar o azul do mar em seus olhos.
– Susana. – sorri também.
– Espera. Onde estamos?
– No mar. – soltei. Ela me jogou um pouco de água e eu ri. – Vamos para o navio, lá eu explico. – nadamos de volta para lá, os marinheiros nos puxaram de volta ao navio e trouxeram toalhas, não poupando os olhares de surpresa – Como chegou aqui? – perguntei a Susana.
– Não faço ideia! – ela sorriu. Parei, observando-a. Como eu senti falta daquele sorriso.
– Não sabe como estou feliz em ter você aqui de novo. – abracei-a apertado, porém rápido, apesar da plateia imensa, e fui correspondido. Diversos impulsos lutavam entre si para me conduzir, tinha vontade de tomar seus lábios nos meus naquele mesmo momento, ou enchê-la de perguntas, ou ambos e muitos outros, mas me contive.
– É uma honra tê-la conosco, majestade. – Ripchip fez uma reverência.
– Obrigada, Rip. - ela sorriu amplamente - É muito bom estar aqui!
– Homens! – chamei, após subir alguns dos degraus que levavam ao manche – Esta é a Rainha Susana, a Gentil, grande Rainha de Nárnia... Nossa nova tripulante! – acrescentei. Os marinheiros faziam reverências enquanto voltei para seu lado – Venha, eu vou acompanhá-la até seus aposentos. – falei penas a ela e levei-a até a cabine principal.

Susana
– Não temos vestimentas femininas no navio, obviamente. – Caspian riu de leve. – Mas pode usar o que quiser, vou apenas pegar algumas peças para mim. – falou, tirando camisas e calças do armário. Abracei a mim mesma, envolvendo-me mais com a toalha, na vã tentativa de acalmar aquele ardor na boca do estômago, quando ele se virou para mim com um sorriso relutante: - Espero que fique à vontade, nos vemos daqui a pouco.
E ele se retirou depois de um rápido olhar demorado, deixando-me a sós. Parece que só então o ar conseguiu ser sentido entrando em meu peito. Olhei em volta, para a cabine do navio, tudo tinha cara e cheiro de Nárnia, de casa. Eu estava de volta, tentando respirar com calma sem ser dominada pelo batuque insistente e eufórico em meu peito, eu estava de volta! Não me pergunte como, pois sequer entendo! No atual estado efervescente em que me encontrava, sentia-me feliz demais para sequer pensar sobre isso. Obrigada, Aslam, obrigada!
Por um momento, mal me movi da posição em que estava quando Caspian saiu. Meu coração e meus pensamentos viajaram pelo mundo inteiro antes que eu pudesse racionar outra vez, graças a um calafrio causado pelo vento e pela roupa molhada. Tinha vontade de gritar, e quem sabe saltar também, embora só pudesse sorrir como aquela alegria que pouco havia sentido nos últimos tempos. Não que estivesse completamente infeliz em meu mundo, mas havia uma alegria que só provinha de Nárnia. Melhor do que isto, somente poder correr para meus irmãos e contar o que acontecia. Dessa vez, no entanto, seria diferente neste ponto.
Sequei-me e busquei por roupas onde Caspian indicara. Vesti uma calça marrom e uma camisa branca, sentindo o aroma da lavagem recente. Aquela roupa de Caspian não serviu muito bem, mas nada que enrolar os punhos e um cinto não pudessem resolver. Encontrei um largo e prendi-o na cintura, penteei os cabelos e deixei-os soltos, busquei pela cabine até encontrar uma caixa de lata pequena e adornada, com linhas e agulhas para acertar a barra da calça. Lamentei apenas ter de ficar descalça por hora.
Enxuta e com a euforia um pouco mais controlada, dei uma nova olhada para a cabine, dessa vez com mais calma. Havia diversas pinturas nas paredes e sorri ao reconhecer a mim e a meus irmãos nelas. Aslam também surgia por ali, imponente e dourado pelo ouro, no ponto em que era impossível não o ver, logo acima da pequena lareira. Logo acima desta e abaixo do Leão, em um suporte de cristal, estava minha trompa. Em outro ponto na lateral do cômodo, abaixo da pintura onde eu era retratada, estava meu arco com a aljava e as flechas. Eu sorri. Havia tantas recordações, tantas histórias gloriosas ali.
– Pode entrar. – respondi para a batida na porta, sem olhar para ela ou para quem estava entrando, distraída enquanto sentia a maciez das penas vermelhas em meus dedos.
– Elas ficaram bem em você. – ouvi a voz de Caspian. Automaticamente virei para ele.
– Hum... Obrigada. – sorri sem jeito, ajeitando o cabelo atrás da orelha e cruzando os braços em frente ao corpo.
– Achei que ficariam mais largas – brincou.
– Ah, eu dei alguns pontos. – dei de ombros. - Espero que não se importe.
– De modo algum. Assim que atracarmos, providenciaremos algumas mais adequadas... E sapatos também. - Caspian riu, lançando um rápido olhar para meus pés.
Ri também, uma risada fraca e desconcertante, na verdade, suficiente para embarcarmos em um silêncio igualmente desconcertante, sem desviar nossos olhares um do outro. Caspian deu mais um passo em minha direção, fazendo um frio percorrer meu corpo diante de seu olhar hesitante, mas repleto de coisas não ditas. Não consegui olhar para outro lado, ou sequer piscar, apenas respirar e olhá-lo. De uma vez, ele se aproximou o máximo possível.
– Estou feliz que esteja aqui. – sussurrou, fazendo meu coração vacilar. Sorri de leve.
– Estou feliz por estar aqui.
Caspian estendeu as mãos até pegar as minhas, envolvendo-as em um toque gentil e cálido que me lançou uma corrente elétrica pelo corpo. Mordi o lábio observando o gesto, antes de olhar em seus olhos novamente. Caspian me observava intensamente, quase como se pudesse ver meu interior por completo. Segurei sua mão com mais firmeza e acabei com o espaço entre nós, abraçando-o. Caspian correspondeu imediatamente, enlaçando minha cintura enquanto eu enterrava meus dedos em seus cabelos e era inundada pelo seu cheiro.
– Senti tanto a sua falta... – ele sussurrou contra meus cabelos ainda úmidos, apertando ainda mais os braços em volta de mim, mantendo-nos colados um ao outro.
– Pensei que nunca mais fosse vê-lo. – eu mal continha o sorriso e pude sentir que ele fazia o mesmo. Afastamo-nos apenas o suficiente para olhar nos olhos um do outro. Afaguei a lateral do rosto de Caspian tão próximo ao meu, encantada com seus olhos brilhantes que também refletiam em seu sorriso, alvo em meio a barba por fazer.
Ele se aproximou lentamente, meu coração acelerou à medida que sua respiração estava cada vez mais próxima. Fechei os olhos e senti seus lábios macios chegarem aos meus, um toque cálido, casto e gentil, mais que suficiente para eletrizar meu corpo inteiro enquanto o tempo parava completamente. Ele levou uma das mãos para a lateral do meu rosto, seu calor contrastando com a umidade de meu cabelo. Meu coração palpitava. Por intermináveis meses eu almejei estar com ele novamente e por mais que ninguém me desse esperança, a não ser Lúcia, eu sentia, lá no fundo, que um dia essa dor acabaria. Agora, sentia como se ela nunca tivesse existido, minha alma parecia descansar na calmaria do navio e daquele beijo.
Caspian, então, o interrompeu hesitante e suavemente, deixando-me mais um, dois beijos antes de realmente se afastar. Com os lábios ainda formigando, olhando-o nos olhos outra vez, antes que pudesse perceber, escaparam por meus lábios aquilo que queria ter-lhe dito há muito tempo, o que ficou mais claro e irrevogável para mim em todos aqueles anos afastados.
– Eu o amo... - sussurrei, tão baixo que eu mesma quase não pude ouvir.
Algo no olhar de Caspian mudou, clareou, contemplou, ávido, quando seus olhos encontraram os meus de novo, buscando como se quisesse não ter dúvidas quanto ao que ouviu. Eu desconhecia o que havia se passado em sua vida, ou quanto tempo havia ido embora enquanto estive longe, sabia quais obrigações recaíam sobre ele e os rumos diferentes que podia ter tomado. Não era tola, meu lado racional me convencia, na mais esperançosa fantasia de reencontro, que ele não passaria a vida todo no aguardo de alguém que não voltaria. Mas ali, quando aquela confissão escapou de mim, me dei conta de que o que se passara não importava. Se houvesse qualquer circunstância que nos impedisse, lidaria com ela depois. Precisava ser dito, precisava ser ouvido, e eu não abriria mão desse momento de novo.
– Espero por isso há três anos. – Caspian sussurrou, acariciando meu rosto com o polegar e abrindo um sorriso amplo e sincero. Então, ele reiniciou o beijo com mais urgência, aprofundando-o. Por um momento achei que o chão sairia de sob meus pés, ou que eu desfaleceria até ele. Meus dedos mergulharam no cabelo de Caspian, amparando-me e trazendo-o mais para mim enquanto seus braços apertaram mais minha cintura. Aquele frio que antigamente se alojava em minha barriga agora subia pelas costas junto com as mãos de Caspian. Quebramos o beijo por falta de ar, ofegando levemente. Sua testa tocou a minha e ele não se afastou um centímetro sequer.
– Por todo esse tempo, não houve um momento em que eu não a desejasse de volta, ou que a amasse menos. – comentou, fazendo-me corar mais. - Temos muita coisa para conversar.
– Com certeza. – ri um pouco. Caspian sorriu e mergulhamos em um silêncio novamente, conectados pelo olhar, a euforia do reencontro começava a se acalmar, pelo menos por enquanto.
– Gostaria de ficar mais, mas preciso ir, Drinian está me esperando. – disse, um pouco relutante. Assenti um par de vezes.
– Certo. – concordei, subitamente desconcertada pelo alvoroço que ocorria em mim.
– Junte-se a nós quando estiver pronta. – acrescentou, casual.
– Sim! Claro, irei daqui a pouco.
Ele assentiu, olhou-me mais uma vez antes de deixar um beijo em minha testa e despedir-se em silêncio. Caspian caminhou até a porta, mas parou com a mão na maçaneta, dirigindo-me um último olhar. Aquele sorriso branco e leve se fez presente em rosto outra vez e foi impossível não retribuir. Caspian balançou a cabeça levemente, lambendo os lábios antes sair e fechar a porta. Cobri o rosto com a mão como se o gesto pudesse acalmar, de algum modo, a explosão que estava prestes a acontecer. Permaneci no mesmo lugar porque se me movesse um centímetro que fosse, cairia com as pernas fracas, tinha certeza.
Ofeguei ao lembrar a sensação de seus braços me envolvendo, a carícia dos lábios nos meus, a corrente elétrica ainda percorria cada canto de meu ser. Concentrei toda minha atenção na tentativa de retomar o domínio e a firmeza de meu corpo. Fui bem-sucedida alguns minutos depois e, após conferir mais uma vez minha imagem no espelho para confirmar que tudo estava em ordem, saí da cabine, sendo recebida por cumprimentos gentis, uma brisa fresca que trazia o cheiro do mar, um céu azul límpido e o começo de uma aventura inesquecível.


Capítulo 4 – Nossa posição é esta

Quando saí da cabine, adentrando o convés, encontrei-o muito movimentado. Os marinheiros passavam para lá e para cá sem parar, concentrados em suas tarefas. Um deles veio em minha direção e me entregou algo para beber, agradeci e caminhei até a lateral do navio – estibordo, como Edmundo me ensinara uma vez – e debrucei-me na beirada, olhando para o horizonte de águas que só se distinguiam do céu por causa da tonalidade do azul. Senti a brisa mexer meus cabelos ainda úmidos e agitar o algodão das mangas da camisa envolta do corpo. Tomei um gole da bebida que me entregaram, saboreando a deliciosa limonada.
– Está bem instalada? – uma voz grave soou ao meu lado. Empertiguei-me, ajustando distraidamente o colete que optara por usar antes de sair da cabine.
– Sim, a cabine é perfeita. – respondi, sorrindo levemente. Caspian assentiu de volta e parecia não saber o que dizer, então perguntei: – Para onde estamos indo?
– Estamos à procura dos sete fidalgos de Telmar. – respondeu. – Eram os melhores amigos de meu pai. Miraz os mandou para bem longe pouco antes da nossa batalha contra os telmarinos e eles nunca mais foram vistos em Nárnia ou em Telmar, nem temos qualquer notícia desde então. A única coisa que sabemos é que seguiram pelo mar, para Leste.
Assenti devagar. Uma missão de resgate, então.
Estão no mar há muito tempo?
– Algumas semanas, apenas.
– Cheguei a tempo de pegar a maior parte da aventura, então. – maneei. Caspian sorriu e concordou com a cabeça.
– E seus irmãos, como estão? – emendou, continuando nossa conversa trivial. Agradeci por isso. Algum tempo certamente havia se passado, por mais que me preocupasse a respeito, sabia que talvez nem tudo correria como já tinha sido um dia. Aquele lado de minha mente que precisava de toda segurança possível me deixava ainda mais grata por não ser precipitada.
– Ah, bom... Estão muito bem, até onde me contaram. – Caspian inclinou a cabeça levemente ao passo que uma quase imperceptível ruga aparecesse entre suas sobrancelhas. Tomei um gole da limonada antes de continuar: – Não os vejo há algum tempo. Estou... Ou estava... Morando com meus pais em outro país. Pedro, Edmundo e Lúcia permaneceram na Inglaterra. Mas trocamos cartas com muita frequência.
– É difícil imaginá-los separados. – comentou. Eu sorri.
– Sim, bastante.
O silêncio quis recair outra vez, então devolvi a pergunta.
– E como vai você? Como vão coisas em Nárnia?
– Estavam agitadas, mas esperei tudo se acertar antes de partirmos nessa viagem. – contou. – Conseguimos resolver problemas antigos. Depois que você e seus irmãos partiram, os Gigantes do Norte se renderam de uma vez por todas e derrotamos os exércitos da Calormânia no Grande Deserto. A paz reina em toda Nárnia... Em apenas três anos... – acrescentou meio orgulhoso. Eu sorri. – Parece que eu comecei bem. – observou, olhando o horizonte.
– Não, Caspian. Você começou bem lutando ao lado de Nárnia contra seu próprio povo. Agora você está indo bem. Meus irmãos e eu sabíamos que seria assim. – corrigi e Caspian sorriu.
– É uma honra receber um elogio assim vindo de uma das Grandes Rainhas. – olhou para mim com um leve sorriso, corei levemente sorrindo também. – Mas me fale de você. – mudou de assunto apoiando os cotovelos no parapeito, com o vento fazendo seu cabelo, agora mais comprido, balançar. – O que aconteceu depois que voltaram? Deve ser estranho para você ficar afastada de seus irmãos.
O máximo que consegui fazer foi dar um leve sorriso melancólico, lembrando dos últimos acontecimentos em meu mundo. Desviei o olhar de volta para o mar.
– Bom... – comecei. – Nosso pai conseguiu um emprego em outro país e minha mãe decidiu ir com ele, mas sairia muito caro levar os quatro filhos, então só eu pude ir. Pedro foi para a casa do Professor Kirke por causa dos estudos e Edmundo e Lúcia foram para a casa de nosso primo. Lamento por eles.
– Por quê?
– Porque o garoto é... Difícil, para não dizer insuportável. – eu ri e ele me acompanhou. Continuei: – Eu estava nos Estados Unidos quando vim parar aqui. – sorri, mas esse sorriso foi se desfazendo contra minha vontade, deixando em meu rosto um ar de preocupação.
– Está tudo bem? – perguntou Caspian calmamente, intrigado com o silêncio. Suspirei.
– Não... Não é nada.
– Tem certeza?
– Sim... É só um pouco confuso estar aqui, subitamente. Hoje mesmo, horas antes de vir para cá, estava em um chá com amigos do meu pai. – encarei as águas que corriam lá embaixo. – Já faz algum tempo desde a última vez que aconteceu.
– Nunca atravessei mundos, mas acredito que deve mesmo ser estranho. – Caspian brincou.
– Maravilhoso e assombroso. – descrevi.
Ele apenas sorriu e, de repente, o silêncio que evitávamos recaiu entre nós. De uma hora para outra, foi impossível desviar o olhar do dele. Até que alguém derrubou alguma coisa e o barulho fez aquele torpor se dissolver. Tomei um pouco mais da limonada. Caspian pareceu pensar em algo.
– Venha, posso lhe mostrar o navio se quiser.
– Seria ótimo!
Ele começou a andar para longe da beirada, e eu estava prestes a segui-lo quando uma voz alta e grave soou acima de nós.
TERRA À VISTA! – anunciou o marujo lá no alto do mastro. Caspian, desviou o caminho e correu, subindo os degraus que levavam ao manche. Subi também e olhei na direção em que ele mirava a luneta, para a mancha escura que se formava no horizonte.

Caspian

Estávamos chegando às Ilhas Solitárias. Foi o que Drinian me informou enquanto olhava pela luneta. Senti que Susana se aproximou de nós, mas concentrei minha atenção adiante. O conjunto de ilhas parecia deserto, mesmo de tão longe... Esse cheiro... Engoli em seco. A brisa soprava contra Susana e contra mim em seguida, atraindo meus sentidos para o perfume dela. Algo que lutei para ignorar há poucos minutos. Drinian dizia alguma coisa ao meu lado, competindo com o som acelerado em meu peito, e me apeguei a ele para vencer aquela luta.
Eu havia me recriminado internamente por procurar qualquer vestígio de compromisso nos dedos de Susana. Mesmo tendo consciência de que fiz, não queria admitir. Durante aqueles anos desde a coroação muitas coisas haviam mudado, eu havia crescido, sentia isso. Porém, vê-la novamente desestabilizou qualquer segurança dentro de mim. Num passe de mágica, mais uma vez era o príncipe de coração acelerado e mente paralisada que mal conseguia pensar em algo a dizer quando ela se aproximava. Buscar por um anel em seu dedo é um exemplo óbvio. Ficar aliviado por não encontrar, também.
Percebi, então, que ficara em silêncio por tempo demais.
– Está tudo bem, Caspian? – perguntou ela. Baixei o objeto.
– Há uma bandeira de Nárnia a vista. – comentei.
– Mas as Ilhas Solitárias pertencem a Nárnia há muito tempo. – disse ela. Tinha razão, mas, mesmo assim, havia alguma coisa estranha. – Quanto tempo daqui até lá? – perguntou.
– Chegaremos ao pôr-do-sol, majestade. – respondeu Drinian. – Umas duas horas mais ou menos.
– Mande deixarem os botes a postos. – falei. – Nos encontre na cabine com Ripchip.
– Sim, senhor. – fez uma leve reverência e desceu para o convés.
– Venha. – chamei Susana, tocando em seu cotovelo antes de ir para a escada enquanto Drinian dava ordens aos marujos. Seguimos para a cabine principal, que usávamos para reuniões. Peguei um mapa enrolado sobre a mesa e estiquei-o na superfície.
– São os fidalgos? – perguntou Susana, passando por mim e olhando para a parede onde estavam os sete desenhos, cada um retratando um dos lordes. Ela tocou uma das imagens, analisando-a com os olhos estreitos e concentração analítica, como se pudesse perceber cada risca tracejada pela tinta.
– São sim. – confirmei, parando logo atrás dela, o suficiente para esticar o braço ao seu lado a fim de indicar as imagens – Lorde Bern, – podia sentir a umidade ainda em seus cabelos. Continuei: – Lorde Revilian, Lorde Argos, Lorde Mavramorn...

Susana

Lorde Mavramorn... – a voz de Caspian soava grave e serena atrás de mim, lenta, quase sussurrando em minha orelha à medida que indicava os retratos. Podia sentir seu hálito doce afagar minha face, atiçando borboletas a voarem em meu estomago. – Lorde Octasiano, Lorde Restimar... E Lorde Rupe.
O silêncio pairou entre nós, ao ponto de eu temer que o som em meu peito ecoasse por toda a cabine. Como uma defesa contra o transe, uma observação saltou à minha frente.
– Suponho que, como eles eram amigos de seu pai, Miraz os mandou para longe de Nárnia, para que não ficassem ao seu lado. – falei baixo.
– Sim. Ele os mandou explorar os Mares Orientais além das Ilhas Solitárias, mas claramente era um pretexto que os levaria à morte. – Uma batida na porta o fez se afastar de mim sábia e cordialmente, voltando para perto da mesa. – Entre. – permitiu. Drinian e Ripchip atravessaram a porta enquanto eu me posicionava do outro lado da mesa, de frente para Caspian.
– Majestades. – Rip fez uma reverência animado, antes de saltar para a mesa e permanecer no canto que o mapa não ocupava. Drinian se aproximou, parando de frente para a mesa e de costas para a porta da cabine.
– Rip. – sorri.
– Você explicaria melhor do que eu nossa trajetória até aqui. – Caspian explicou sorrindo de leve e olhando de Drinian para o mapa. O segundo assentiu uma única vez.
– Nossa posição é esta. – respondeu o capitão, apontando com o dedo um lugar no mapa a apenas alguns centímetros das formas irregulares do arquipélago das Ilhas – Pelo menos era ao meio–-dia de hoje. Tivemos um vento esplendido desde que saímos do porto de Cair Parável e paramos ao norte de Galma, aonde chegamos no dia seguinte. Estivemos no porto durante uma semana já que o duque de Galma tinha organizado um grande torneio em honra de Sua Majestade, que desmontou muitos cavaleiros... – ele ergueu os olhos em direção a Caspian.
– E levei também umas tremendas quedas, Drinian. – Caspian riu. – Ainda tenho as marcas... – ri de leve, cruzando os braços em frente ao corpo.
– Desmontou muitos cavaleiros. – repetiu o capitão, dando de ombros. Ajeitei uma mecha do cabelo atrás da orelha, a mesma em que Caspian sussurrava agora há pouco. Podia jurar que ainda a sentia quente.
– Pareceu-me que o duque teria ficado muito contente se o rei tivesse casado com a filha dele. – adicionou Rip. Evitei o impulso de morder o lábio.
– Sem chance, Rip! – Caspian protestou.
– Saímos de Galma. – continuou Drinian, mudando de assunto e eu agradeci mentalmente por isso. – E por dias pegamos uma grande calmaria que nos obrigou a remar, mas o vento voltou e levamos quatro dias para chegar a Terabíntia. Aí, o rei nos mandou um recado para que não desembarcássemos, pois havia peste no país. Assim, dobramos o cabo, ancoramos numa pequena enseada longe da cidade e recolhemos água. Tivemos que ficar ancorados três dias nesse lugar, antes que apanhássemos um vento sudoeste para seguir a caminho das Sete Ilhas. – apontou para as tais ilhas – Cinco dias mais tarde estávamos à vista de Muil, que, como sabem, é a mais ocidental das Sete Ilhas. Remamos através dos estreitos e, perto do anoitecer, chegamos a Porto Vermelho, na ilha de Brena, onde nos receberam festivamente, e onde nos abastecemos à vontade de víveres e água. Deixamos Porto Vermelho há seis dias e temos navegado com tanta rapidez que esperávamos ver as Ilhas Solitárias só depois de amanhã, mas aí estão elas. Em resumo, estamos no mar há cerca de 30 dias e já navegamos mais de quatrocentas léguas desde Nárnia.
– Ninguém sabe o que há depois das Ilhas Solitárias... A não ser que os próprios habitantes saibam nos informar. – acrescentou Caspian.
– Não sabiam quando eu e meus irmãos governávamos, e é muito improvável que alguém tenha tido coragem de ir explorar. – comentei casualmente.
– Por isso... – disse Ripchip – É depois das Ilhas Solitárias que a aventura é para valer!
Sorri com o entusiasmo e a bravura dele.

Caspian

Drinian ainda repassou mais alguns detalhes de nossa viagem até ali e, assim que terminamos de colocá-la a par de tudo que acontecia, encerramos a breve reunião. Após Ripchip passar pela porta, dei espaço para Susana deixar a cabine e segui logo atrás dela. Ela parou e se virou para mim, prestes a falar alguma coisa, quando escutamos o alerta da sentinela.
– HOMEM AO MAR!
Corremos para a borda do navio a tempo de ver, lá na superfície azul e ondulada, surgir um rosto desconhecido para mim. Ouvi Susana reprimir o susto ao meu lado, os olhos arregalados fixos no menino na água. O garoto se debatia lá embaixo e a ordem para resgatá-lo chegou à minha garganta e lá entalou, pois Susana deu impulso e pulou na água de forma graciosa. Minha mente gritou um pedido de espera, mas não sei dizer se foi verbalizado.
– Eu quero voltar para casa! – o vento trouxe o grito do menino, em meio a soluços e tentativas desesperadas para respirar, lutando para não afundar. – Eu quero voltar para casa! Parem com essa brincadeira! Edmundo, eu sei que é você! Vou contar tudo para a Alberta!
– Eustáquio! – chamou Susana.
A cena que começou a tomar forma em minha mente me fez chutar as botas para longe. O garoto deu a entender que escutara algo distante. Ele olhou em volta e viu Susana, que se aproximava mais e mais. Um alívio pareceu percorrer sua expressão, mas durou apenas o tempo de sua próxima frase.
– SUSANA! Ainda bem! Me tire daqui! Edmundo vai...! – num momento impensado, ele se lançou em direção a ela. Saltei do navio, deixando para trás os marinheiros que se acumulavam ali. Nadamos até o garoto que começava a tossir e bradar.
– Não, Eustá... – Susana tentou impedi-lo, mas ele se agarrou a ela e os dois começaram a afundar a algumas braçadas de mim.
Acelerei e o esforço fez meus braços arderem. Mais perto, mergulhei. Eles estavam alguns metros abaixo e, agora mais desesperado do que nunca, o garoto não largava Susana, sem perceber que isso só os levava cada vez mais para o fundo. Pude ver que ela tentava fazê-lo soltá-la, mas não conseguia. Impulsionei mais e alcancei os dois, fazendo-o largá-la, acertando-lhe o rosto. Livre, Susana voltou imediatamente para a superfície. O garoto, atordoado, entendeu que só estava piorando tudo e voltou à superfície sozinho.
O ar invadiu meus pulmões violentamente assim que alcancei a superfície. A alguns metros, os marinheiros içavam Susana de volta ao navio, sinalizei para que o menino nos acompanhasse e como um misto de indignação e confusão, ele o fez. Logo foi a nossa vez. Quando cheguei ao convés, vi Susana de joelhos, tossindo de maneira compulsiva. O menino caiu em algum lugar do assoalho enquanto segui até ela, agachando-me ao seu lado e tocando seu ombro gelado.
– Você está bem? – ofeguei. Parecia uma pergunta idiota vendo seu estado, mas eu sabia que ela diria que sim, e eu precisava ouvir que ela estava. Ela tossiu, sacudindo a cabeça.
– Estou sim. – a voz saiu fraca, mas a tosse parou. Para confirmar, ela ergueu os olhos para mim e assentiu com segurança. Susana se ergueu e seguiu até o garoto jogado no chão, que parava de tossir e ofegava intensamente, como se alguém pisasse em seu peito – Eustáquio... – ela tossiu. – Você está bem?
O som despertou o garoto de volta para a realidade. Seus olhos se arregalaram e ele encarou Susana, lívido. Estava quase esperneando.
– Eu estou péssimo! Vou matar Edmundo por toda essa brincadeira idiota! Ele vai ver só, vou contar tudo para a Alberta! Vou dizer também que a Lúcia participou! É isso que eu vou fazer quando voltar! – soltou um protesto infantil. – Eu quero ir para casa! Eu quero voltar para a Inglaterra, eu quero a Inglaterra! Me tira daqui, Susana! – ele se agarrou a ela desesperadamente, quase a derrubando. Ela o afastou pelos ombros.
– Acho que ele engoliu muita água salgada. – comentou Ripchip ao meu lado, os marinheiros que escutaram, riram. Todos observavam a cena com muita confusão – Tente se pôr de pé primeiro, rapaz! – gritou ele ao garoto que parou subitamente, erguendo– se do chão num rompante.
– Quem disse isso?! – perguntou assustado, olhando em volta.
– Eu disse.
Rip chegou mais perto do rapaz. Ele arregalou os olhos enquanto recuava alguns passos para trás, tremendo dos pés à cabeça. Fiquei de pé, Susana passou as mãos no rosto. Continuava a encarar o menino como se não acreditasse em seus próprios olhos. A menção de Lúcia e Edmundo deixava clara a relação entre os irmãos e aquele garoto em pânico. Com mais curiosidade do que irritação, me aproximei deles.
– Ti-ti-ti-r-ra esse bi-bi-cho daqui! Fica longe de mim! – ele se escondeu atrás de Susana enquanto um murmúrio de ultraje percorreu os homens. Ripchip levou a mão ao cabo da espada. Certamente uma ofensa desse tipo não seria cobrada de forma barata.
– Eustáquio, pare com isso! – Susana arguiu, o único motivo que deve ter impedido Ripchip de sacar sua lâmina.
– Você também está envolvida em toda essa brincadeira de mal gosto, Susana?! Eu não acredito! Pedro, se você também está aí apareça, moleque, eu não tenho medo de vocês! Vocês quatro vão se ver com a Alberta! – ele gritou para o nada. O murmúrio de exasperação foi ainda maior diante a ofensa contra os reis.
– Como ousa falar assim do Grande Rei?! – exigiram alguns dos marinheiros.
– Você poderia ser morto por isso! – exclamou outro. Algo em minha mente me lembrou de que precisaria intervir na confusão caso o garoto prosseguisse com as ofensas. Ninguém ali ouviria tais absurdos por muito mais tempo, muito menos vindos de alguém que deveria estar grato por termos lhe salvado a vida.
– Você está sendo ridículo. – Susana disse, em uma calma aborrecida.
– Se continuar assim – falei, me aproximando dele. – jogarei você no mar de novo com muito prazer. – falei firme. Aslam sabia que a ofensa daqueles homens era a minha própria. – Você não deve ter mais idade para chorar e espernear desse jeito, comporte-se como homem – ele me encarou ofendido e depois olhou para Susana como se quisesse que ela o defendesse.
– Você ouviu. – ela deu de ombros.
– Eu exijo que você e qualquer um dos seus irmãos que esteja envolvido nisso me levem de volta a Inglaterra imediatamente! – ele gritou para Susana, que rolou os olhos.
– Isso não será possível, Eustáquio. – falou. – E pare de falar mal dos meus irmãos porque eu tenho certeza de que eles não têm nada a ver com tudo isso. – cruzou os braços.
– Isso mesmo! Não aturaremos que você continue a insultar nossos Reis e Rainhas! – disse Rip, furioso. Eustáquio parou.
– Reis? – questionou. – Oh, não, não, não...
Susana sorriu de lado. Um sorriso que vi poucas vezes em seu rosto. Era um desafio e uma provocação nada sutis. Então, como um trunfo secreto contra o garoto, ela disse:
– Bem-vindo à Nárnia, Eustáquio.
Foi o suficiente para ele arregalar os olhos, todo sangue deixar seu rosto e seu corpo cair para trás, desfalecido. Susana suspirou, balançando a cabeça de um lado a outro. O sorriso havia sumido, mas aquele brilho de vitória continuava no azul pálido de seus olhos.
– Ainda dá tempo de fingir que não o conheço, não é?
– Er... Não. – balancei a cabeça para ela, sentindo um riso despontar em meus lábios, espantando a recente irritação. Em resposta, Susana suspirou.
O sorriso se fez sozinho.
– Obrigado por fazê-lo calar a boca, Majestade! – alguém disse.
– Ele... Você o conhece, Majestade? – perguntou Rip, numa mistura de surpresa e incredulidade, parando aos nossos pés e olhando de Susana para o menino desmaiado.
– Eu queria poder dizer que não. – Susana murmurou. Os marinheiros riram. – Eustáquio é meu primo.
Houve um segundo de silêncio surpreso, inclusive meu.
– Bem... Tarvos, pode cuidar dele? – perguntei.
– Sim, majestade. – ele fez uma rápida reverência, falando com sua voz grave. Ripchip riu, enquanto Susana e eu recebíamos as toalhas que nos foram trazidas. A pena vermelha tremeluziu com a travessura quando Rip declarou:
– Quero ver a surpresa que ele vai ter quando acordar e dar de cara com Tarvos! – e logo saiu no mesmo rumo do Minotauro. Sequei o rosto.
– Voltem ao trabalho, homens! – ordenou Drinian.
Logo todos se distraíram com seus afazeres e acho que nenhum deles percebeu quando entrei na cabine com Susana, mas deixei a porta aberta despretensiosamente. Ela suspirou enquanto secava os cabelos com a toalha, parecendo inquieta.
– Então, ele é seu primo. – comentei, secando o cabelo e o pescoço.
– Sim. É na casa dele que Lúcia e Edmundo estão hospedados. Acho que deu para perceber que ele não uma das melhores companhias. – disse ela. Concordei:
– Você não estava mesmo brincando.
Ela selecionou outra roupa e a deixou sobre o encosto de uma das cadeiras, continuou a secar os cabelos.
– Não mesmo. – riu, ficando de costas, voltando sua atenção para onde havia deixado a escova.
E bastou olhá-la mais uma vez para notar a roupa molhada que grudava ao seu corpo, deixando minha mente em branco. O tecido marcava o vale vertiginoso da cintura fina e, nos pontos mais críticos, permitia vislumbrar a pele clara dos ombros e braços. Para a minha sorte, o colete escuro impedia qualquer outra coisa. Não permiti que meus olhos avançassem para suas pernas. Pigarreei para assumir o controle outra vez, envergonhado, despertando o senso de decoro que fora desligado momentaneamente sem minha permissão.
– Tarvos deve tê-lo levado para o dormitório lá embaixo, caso queira vê-lo.
Susana olhou-me fixamente nos olhos e parou, apenas assentindo para mim. Isso fez a camisa molhada pesar em meus ombros ao mesmo tempo que um suave e sutil tom rosado apareceu em seu rosto. Soube que era minha hora de ir. Com um sinal desajeitado, disse que nos veríamos mais tarde. Caminhei somente até a porta aberta e parei, voltando-me para dentro mais uma vez.
– Chegaremos às Ilhas Solitárias ao pôr-do-sol – lembrei. – Devemos estar preparados, há algo muito estranho vindo daquela ilha, não sabemos o que vamos encontrar lá.
Ela apenas assentiu outra vez e nada mais impediu a urgência de sair dali.




Continua...



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