Meant To Be Us

Última atualização: 23/04/2021

Prólogo

O pequeno era um garoto sonhador. Mesmo sendo tão novo, ele tinha tantos sonhos e ideias que, às vezes, chegava a ser assustador. Sua tia Gigi costumava dizer que ele era um pequeno garotinho com uma grande mente, e que, um dia, o mundo seria pequeno demais para Cooper. Quando sua mãe morreu e seu pai o abandonou, foi Gigi que o amparou e deu todo amor do mundo ao garotinho. amava quando Gigi o levava à Fontana di Trevi.*

*A Fontana di Trevi é a maior e mais ambiciosa construção de fontes barrocas da Itália e está localizada no rione Trevi, em Roma. A fonte está encostada na fachada do Palazzo Poli, muito conhecida como “Fonte dos Desejos”.

sempre acreditou que cada moeda e desejo que ele depositou naquela fonte, ao longo dos anos, se realizaram, e, um dia, ele seria feliz, Gigi seria feliz e o mundo seria um lugar bom. Sempre curioso e apaixonado por histórias, o garoto sempre levava consigo um bloco de anotações e uma velha máquina fotográfica. Ele costumava tirar fotos das pessoas e tentar adivinhar seus desejos e escrever sobre eles – era como o garotinho gostava de passar o tempo.
De todas as histórias no mundo, sua favorita era a que Gigi lhe contou quando achava que estava apaixonado pela primeira vez. Uma frase de toda essa história o acompanhou por toda sua vida, e continuava com ele mesmo quando deixou de ser o pequeno e se tornou um adulto.

“Um dia, o amor vai simplesmente bater na sua porta. Pode demorar muito tempo, mas ele vai bater. Você pode querer correr, mas, mesmo assim, o amor vai entrar e mudar toda a sua vida. Esse sentimento vai te fazer a pessoa mais completa no mundo, . Foi desta forma comigo e sei que será com você também.”

Essas palavras fizeram o pequeno garotinho crescer cheio de esperança que, um dia, o amor ia bater em sua porta e mudar toda sua vida. Não importava o quanto isso ia demorar – um dia, ele chegaria.
cresceu e conheceu várias pessoas, mas ele não estava desesperado, tentando achar aquela que seria a pessoa. Ele sabia que, quando fosse a hora, a pessoa apareceria e ele saberia.
Cooper se tornou um homem e realizou a maioria dos sonhos que seu pequeno-eu tinha feito para o futuro. Gigi tinha razão, afinal, o mundo era pequeno para Cooper. Ele conhecia milhares de lugares no mundo, diversas culturas, falava várias línguas e tinha mais histórias em seus cadernos de anotações do que ele imaginava que um dia teria. Apenas um pedido que fizera à fonte ainda não tinha sido concedido. Esse pedido foi o que o fez retornar da Índia meses antes do previsto. Esse desejo fez voltar para Roma.
Gigi sempre foi a pessoa mais importante na vida de , e, na opinião dele, sempre seria. Ele devia sua vida a ela e, por mais que a chamasse de tia, em seu coração, era ela a sua mãe. Tudo o que importava para ele sempre foi a felicidade de Gigi. Por mais que a senhora sempre fora alegre e sorridente, desde muito pequeno ele percebia que faltava alguma coisa na vida da mulher. Seus olhos não eram tão brilhantes como antes e, quanto mais o tempo passava, mais esse brilho se apagava, como se ela estivesse perdendo esperança. E como se, pouco a pouco, ele estivesse se conformando com aquilo. Cooper achava completamente errado Gigi perder as esperanças. Ele já tentou ajudar a senhora mais de um milhão de vezes, porém, tudo que recebia em troca era:

, não podemos tentar mudar o destino. Aquilo que é destinado a ser, vai ser. Se meu grande amor for destinado a retornar para mim, no momento exato, ele vai.”

Mas, a cada dia, ele sentia essa fé de Gigi perder um pouco de força. Cooper tinha medo de que, um dia, ela partiria e não realizaria o maior desejo de seu coração. nunca se perdoaria por isso. A mulher foi responsável pelo sucesso de cada sonho que ele sonhou; ela era a única que o incentivava e dava força. Ele nunca desistiria de realizar o sonho de Gigi, mesmo ela achando que isso era impossível.
O homem estava sentado no sofá, encarando a tia que lia um livro de receitas em uma poltrona – ela estava tão focada que nem ao menos percebeu por quanto tempo ele a encarava. Cooper amava estar em casa. Se bem que, mesmo se ele estivesse do outro lado do mundo, se Gigi estivesse lá com seus biscoitos quentinhos, ele estava em casa.
Essa era a definição de casa para , não uma estrutura de materiais e um teto. A casa era onde seu coração estivesse em paz, onde você se sentisse seguro, onde as pessoas que você ama estão.
— Pensei em chamar Clara para jantar hoje. O que você acha, querido? — Gigi perguntou, desviando o olhar do livro e focando em . — Você está estranho desde que chegou da Índia. Me diga, mio piccolo (meu pequeno) , o que te incomoda?
— Você é feliz, Gigi? Digo, completamente feliz?
Mio amore, tenho você, Clara e Pietro, três filhos fantásticos. Tive uma vida incrível, . Sou feliz por ter vocês e por estar viva, mesmo que eu já não tenha mais vinte anos. Andiamo, me diga, eu pareço infeliz para você? — Gigi disse, fechando o seu livro de receitas e encarando com uma careta
Gigi estava com seus quase 70 anos e continuava bela aos olhos de . Ele imaginava quantos homens a tia teve ao seus pés na juventude, e como apenas um capturou seu coração por todos esses anos, mesmo não estando presente.
— Parece que alguma coisa está faltando para você, e eu odeio não saber como preencher isso. Não consigo ver você perder sua esperança dia após dia e não poder te ajudar a encontrar aquilo que tanto procura, capisci?
Ovviamente il mio angelo (obviamente, meu anjo). Não estou perdendo esperança, estou é com medo de estar ficando sem tempo, — ela se levantou e fez um carinho no rosto do homem. — Você me ajuda apenas por me apoiar e por ainda acreditar no amor. Não se angustie com isso. Tudo acontece como deve ser, meu filho. Eu irei encontrá-lo no momento certo.
— Assim como, um dia, eu irei encontrar o amor.
— Exatamente, meu menino. No momento certo, tudo vai se encaixar nas nossas vidas — Gigi disse, depositando um beijo na testa de . — Então, chamamos Clara para jantar?
apenas assentiu antes de a mulher sair da sala, o deixando imerso em pensamentos. Uma ova que ficaria sentado, esperando o tempo; ele iria mexer seus pauzinhos e encontrar André. Iria recompensar todos os anos de dedicação de Gigi para com ele – ia dar esse presente para ela.
Seu celular vibrou na mesinha de centro, chamando sua atenção.
Alguns anos atrás, com ajuda de alguns amigos mais ligados a tecnologia, Cooper havia desenvolvido um aplicativo o qual ele compartilhava suas viagens, fotos de todos os lugares que conheceu, dicas e algumas informações importantes… Tinha também um pequeno espaço reservado aos grandes sonhadores, onde, anonimamente, eles mandavam histórias sobre seus grandes sonhos e realizações. passava horas lendo e respondendo alguns – aquilo o fazia feliz.
A nova notificação significa um novo post, uma nova história. O homem pegou o celular com um sorriso no rosto, vendo um comentário sobre sua postagem de seus últimos dias na Índia. O festival das cores havia rendido fotos incríveis, e tinha achado o festival uma das comemorações mais belas que já presenciara.

@violet comentou no seu post: Um dia, espero poder conhecer o mundo assim como você. Até lá, fico feliz por suas histórias e por suas lentes, sempre me transportando a lugares magníficos.

sorriu, logo respondendo o usuário.

@Cooper. respondeu a um comentário: Quando conhecer o fantástico mundo que te espera lá fora, me conte sua história. Nada vai me deixar mais FELIZ do que ouvi-la.

Por alguma razão, aquele ou aquela estranha acabou mandando uma mensagem privada para , perguntando sobre Roma… E, ali, com aquela pessoa totalmente desconhecida, teve uma conversa por horas, que se estendeu a dias e, assim, continuou.


○ ● ○


Quase do outro lado do mundo estava Mancini, em uma pequena floricultura em Queenstown, Nova Zelândia, esperando pelo momento em que ela finalmente conseguiria ser livre de todos os seus traumas e ir para longe.
sempre foi uma criança mais quieta – para alguns, até meio solitária. Durante a maior parte do tempo, estava no jardim de seu avô, com suas amadas violetas e uma boa música. Ela sempre quis ser bailarina quando criança, porém, sua dismetria dos membros inferiores não permitiu que a garota seguisse em frente com seu sonho. Então, logo sua paixão pelas flores falou mais alto, e era isso que ela queria.
Muito da personalidade fechada de se dava pelos seis centímetros de diferença da sua perna esquerda para a direita. Ela se via diferente das outras crianças pela marcha diferenciada e pelas muitas órteses que usou durante sua vida. Já tinha sido motivo de muita piada, e isso só fazia se fechar cada vez mais em seu casulo.
Quando era uma garotinha, ela vivia em um ambiente que a fazia questionar se o amor realmente existia, e se, um dia, seria merecedora desse sentimento. Com o tempo, seus pais se acertaram, e toda a vida da menina entrou nos eixos. Porém, continuava acreditando que o amor não era para pessoas como ela.
Tudo que ela desejava era conhecer lugares, cuidar de suas amadas flores e viver uma vida fora de seu casulo. Mas ela sabia que não estava pronta. Isso a assustava. Ela tinha medo de nunca estar.
queria ser feliz, mas teria que aprender a se amar e a se sentir suficiente antes de qualquer coisa. Ela queria se sentir forte e corajosa para encarar seus medos e voar.
Na primeira vez que tentou sair de Queenstown, aquele maldito acidente aconteceu e quase custou sua vida. Desde então, tudo que faz é tentar deixar isso no passado e tentar superar, mas era mais difícil do que parecia ser.
O movimento da floricultura às sextas durante a manhã era calmo, então geralmente tirava a amanhã para ler sobre flores e olhar algumas coisas na internet.
Há alguns meses, tinha achado um aplicativo de um fotógrafo que usava o nome CooperS. Ele compartilhava suas viagens pelo mundo e milhares de histórias. Aquele aplicativo, as fotos e todas as histórias faziam viajar e se encantar com o mundo sem ao menos ter saído de Queenstown.
Nos últimos dias, ela tinha conversado muito com o dono do aplicativo, CooperS. contava histórias para ela sobre a Itália, e ela amava aquele país.
Seu avô nasceu em uma pequena vila na Toscana, porém, saiu de lá perto de seus vinte anos e nunca falava a respeito. Parecia que tinha perdido muita coisa lá, e, para ele, sempre era doloroso se lembrar. Na Nova Zelândia, ele conheceu uma garota e os dois se casaram pouco tempo depois. Tiveram um único filho, Luigi, que se casou com Charlotte Carter. Eles tiveram quatro filhos: , , Arthur e Mariana.
amava muito a família, mas nem sempre tudo foi um mar de rosas. Com o problema de e a dificuldade de Charlotte aceitar, o ambiente era um pouco pesado. Porém, com o tempo, o amor falou mais alto e a paz reinou para os Mancini.
O celular de apitou duas vezes seguidas, indicando uma mensagem nova no aplicativo onde ela usava o nome de @violet.

@Cooper te enviou uma nova mensagem privada: Conversamos por semanas, e hoje me peguei questionando sobre como seria seu nome. Tudo bem que o usuário é justamente para não revelá-lo, mas você me intrigou com toda sua história... EU ME CHAMO , INCLUSIVE.

já tinha imaginado que essa curiosidade surgiria. Naquelas semanas, ela também tinha se questionado sobre o que o S. do usuário de Cooper queria dizer. Agora, ela sabia o nome do fotógrafo.

@violet respondeu uma mensagem privada de @Cooper: Prazer em te conhecer oficialmente, . Entendo perfeitamente sua curiosidade. Não nego que estava curiosa para saber seu nome também! É , e Violet é a minha flor favorita.

Antes de a garota fechar o aplicativo, uma nova mensagem chegou:

@Cooper respondeu sua mensagem privada: É um prazer conhecer você, que ama violetas.


○ ● ○


Ali estava o destino trabalhando, puxando pela primeira vez o fio invisível que ligava e , colocando-os um passo mais próximos um do outro. Mesmo estando em lados opostos do mundo, ele foi tecido pelo destino. Era inquebrável e seria o responsável que uniria os dois para que suas missões aqui na Terra fossem completas.
O destino puxava também o fio que ligava Gigi a seu grande amor. André já não acreditava mais que a encontraria, porém, o que dependesse da história que as estrelas haviam escrito, logo eles estariam juntos e teriam a missão de provar para todos que, o amor, quando é destinado a ser, nem mesmo o tempo é capaz de romper o fio.

“O amor é um sentimento tão forte que é o único que transcende qualquer espaço de tempo, superando qualquer obstáculo e crescendo a cada dia. O amor não tem pontos finais, apenas vírgulas. Até mesmo a morte é uma vírgula, que indica o começo da eternidade.”


Capítulo Um

We were both young when I first saw you

Roma, 1965
Fontana di Trevi

Desde muito pequena, Giulia ouvia histórias sobre desejos que eram atendidos e sonhos que se realizavam. Ela sempre acreditou fielmente que, tudo aquilo que fosse desejado do fundo do seu coração, se tornaria real.
No momento, tudoo que ela desejava era não se sentir mais sozinha. Ela não se sentia amada por sua família e sabia que, se continuasse de braços cruzados, seu destino seria igual ao de sua irmã: com dezoito anos e casada com uma pessoa que não conhecia, apenas por ser conveniente para todos os negócios da família.
— Eu desejo que, um dia, eu não me sinta sozinha — ela murmurou baixinho.
O lugar estava quase vazio, e a brisa fria do inverno fazia Giulia tremer um pouco, mas ela não se importava. Sabia que estaria encrencada quando voltasse para casa. Já era início de noite, e seu pai não gostava que ela estivesse fora de casa.
Giulia estava perto do seu décimo sétimo aniversário, e isso a deixava cada vez mais amedrontada. Ela não desejava terminar como a irmã.
A garota sentou-se à borda da fonte e observou suas esculturas. Tudo parecia magnífico, olhando daquela perspectiva.
— Alguns dizem que se deve fazer um pedido — uma voz disse, chamando a atenção da garota totalmente alheia à sua volta. Ela deu um salto, assustada. — Perdonami (me perdoe), não queria assustá-la. Conhece a história de antes da construção dessa fonte?
Giulia parou por um minuto e encarou o garoto. Ele aparentava ter sua idade, tinha cabelos escuros e olhos tão claros como o mar. Sua pele, um pouco mais bronzeada, e o sotaque entregava que ele não era de Roma. Talvez de algum lugar na Toscana, ela arriscaria dizer.
— Não me lembro de ter ouvido essa história — ela disse, voltando a atenção à água.
— Diz a lenda que foi uma jovem virgem que, no século 19 a.C, indicou às tropas cansadas e com sede de Marcus Vispânio Agripa onde havia uma fonte de água limpa. Anos depois, aqui estamos nós — o garoto contou, encarando a menina à sua frente. — Muito prazer, me chamo André.
— É uma história interessante, André — ela disse, encarando-o de volta e estendendo a mão para cumprimentá-lo. — Meu nome é Giullia.


Roma, 54 anos depois

Gigi se despertou de seu devaneio com Clara, que a encarava séria. Às vezes, ela desejava que a filha tivesse a mesma leveza que seus irmãos, mas Clara estava sempre preocupada demais, com os olhos atentos e a língua afiada.
— Mamma, não concorda comigo que devia encontrar um lugar aqui em Roma, um emprego estável e começar a pensar no futuro? — Clara repetiu, ainda encarando a mãe.
— Acho que ele está certo em seguir o sonho dele, mia figlia. é adulto, ele sabe o que está fazendo — Gigi disse, despreocupada.
— Obrigado, Gigi — falou, terminando de secar o último prato que a irmã havia lavado. — Não me vejo preso em um único lugar, Clara. Sei que é difícil entender, mas eu não consigo.
— Eu apenas me preocupo com vocês. Mamma fica tempo demais imersa em um mundo só dela, você sempre em algum lugar exótico, Pietro não sai daquele escritório nem mesmo pra ver a mamma — Clara disse, os encarando. — Eu tenho que cuidar de vocês, porque sou a única que parece ter algum juízo aqui.
— Pois devia começar a se preocupar com você, Clarita — deu um beijinho na testa da irmã. — Aproveita que seus filhos não são mais dependentes e vamos viajar comigo também! Podemos surfar no Havaí.
Mio buon Dio (meu bom Deus), . Eu odeio calor e você sabe disso — Clara respondeu. — Quer me arrastar para uma praia? Nunca.
— Acho que seria bom para ambos. Clarita, você precisa relaxar um pouco. Todos estamos bem — Gigi afirmou para a filha.
— Eu estou relaxada. Só quero estar por perto, mamma. Não vamos discutir mais sobre isso, per favore.
Os três tomaram mais uma taça de vinho até que Clara anunciou que já era hora de ir. Giulio, seu filho mais velho, chegaria de Florença pela manhã, e ela iria recebê-lo.
estava sentado na sacada do quarto, observando o movimento dos carros. Por um minuto, ele desejou estar em um lugar diferente, e isso o angustiou. Ele estava em casa, então por qual razão sentia essa vontade imensa de sair mundo afora? Ele estava com as pessoas que amava, se sentia seguro e amado ali. Mas um vazio estranho estava instalado em seu peito, e isso estava o tirando de órbita.
No quarto ao lado, Gigi observava as estrelas pela janela, segurando a pequena caixa que guardava com tanto cuidado. Junho sempre foi um mês melancólico para ela. De alguma maneira, a mulher sempre esperava que, em algum momento, aquela melancolia daria lugar à felicidade de ter André novamente em sua vida.
Uma brisa fria adentrou o quarto, fazendo Gigi se encolher e fechar a janela. Mas, antes de fazê-lo, ela não se deu conta do pedaço de papel que voou para fora, caindo exatamente onde deveria.
pegou o pequeno bilhete que caíra em seus pés, sem entender muito bem como aquilo tinha parado ali. Mas, ao ver a letra de Gigi, imaginou que, talvez, a mulher o tivesse deixado cair em algum MOMENTO ali em seu quarto, e a brisa o arrastou até ele.

"Tudo tem seu momento certo. Talvez, hoje, seja difícil de entender, mas amanhã tudo ficará mais claro, e a paz em seu coração voltará a reinar."

deu um sorriso de lado e colocou o papel em seu bolso, pegando seu celular. @Cooper. enviou uma mensagem privada para @violet: Hey! Você sumiu nos últimos dias. Quero apenas me certificar de que está tudo bem!


Roma, 1968
Fontana di Trevi

As estrelas estavam tão brilhantes naquela noite... Alguns diriam que aquela era a noite perfeita, mas, para André, ela era a mais difícil de toda sua vida. Ele teria que partir, dizer adeus a única coisa que ele não queria perder. Mas por amá-la tanto que ele tinha que dizer adeus. Tnha que partir para não prejudicar Giulia.
Ela sabia que esse momento chegaria, mas, por mais que soubesse há muito tempo que essa hora se aproximava, ela não estava preparada, tampouco ele. Agora, tudo que restava era encarar a situação e ter fé que aquele amor suportaria aquilo.
— Existe uma lenda antiga grega que diz que Afrodite ajuda os casais que encontram dificuldades a ficarem juntos, ou até mesmo casais que não sabem que devem ficar juntos — André disse, chamando a atenção da amada. — Quem sabe não somos apadrinhados por Afrodite? E aquilo que é apadrinhado por Afrodite não tem fim.
— Você sabe que eu acredito em destino, amore mio. Acredito que tudo que se deseja, com toda sua força, se torna real. Eu desejei nunca estar sozinha, e, no minuto seguinte, você apareceu bem aqui — Giulia sorriu, com os olhos cheios de lágrimas. — Sei que esse não é o fim da nossa história, André. Eu sinto.
— Prometa não se esquecer de mim — ele falou, melancólico, pegando na mão da garota.
— Mesmo se quisesse. Sei indimenticabile (você é inesquecível), André — ela disse, tirando a correntinha que sempre tinha em seu pescoço e colocando-a nas mãos do rapaz. — Fique com isso, para garantir que vai voltar para mim.
O destino garantirá que voltarei para ti, assim como são incontáveis as estrelas no céu, também é imensurável o tamanho do meu amor por você. Não somos feitos para ser um, somos destinados a ser nós — André disse. — Eu te amo, amore mio.
— Eu te amo eternamente — Giulia respondeu, deixando cair uma lágrima de seus olhos.


Nova Zelândia, 51 anos depois

André segurava com força a correntinha em suas mãos – ele sempre fazia isso quando estava com os pensamentos em Giulia –, enquanto encarava os netos com um sorriso; Arthur e Mariana sempre vibrados na história que o nonno (avô) contava sobre a Itália. Porém, tinha os olhos nas mãos do senhor. Ela sabia o quanto aquela correntinha significava para André, e sabia que alguma coisa estava errada apenas pela forma tensa que o avô a apertava.
— Mari, acho que está na hora da sua aula de balé — disse, olhando o celular e alertando a irmã mais nova. — Você prometeu levá-la hoje, Arthur.
— Estamos atrasados — Arthur levantou-se rápido e foi seguido por Mari.
Arthur estava com seus dezoito anos, enquanto Mari com quatorze. Ambos tinham um vínculo que deixava André encantado – era ótimo saber que sempre teriam um ao outro. Então, quando ele olhava para , tudo que conseguia ver era tristeza. Um dia, ela foi próxima assim da irmã, . Mas, agora, tudo que restou foi o ódio que cultivava da irmã mais velha, e, por mais que escondesse seus sentimentos, todo mundo sabia que ela estava em constante agonia.
— Notei que o senhor não deixou de apertar essa corrente por um mísero segundo. Quer me dizer o que tem te afligido, nonno? — perguntou, assim que os irmãos saíram puxando uma cadeira para se sentar de frente ao avô, que encarava o arranjo de tulipas vermelhas que a neta pôs sobre a mesa.
— Tulipas vermelhas representam o amor verdadeiro — disse ele, olhando para a neta.
— É isso que tem te afligido? Tem pensado nela? — questionou, pegando uma mão do avô.
— Não se passa um único dia que não penso nela, minha florzinha! — André exclamou, fazendo um carinho na mão da neta. — Eu fiz uma promessa e não cumpri. Tenho que fazer isso antes que seja tarde, isso se já não for tarde.
— O que precisa ser feito, nonno? Me diga, e faremos — ela disse, confiante.
— Não é o que faremos, e sim aquilo que eu farei, minha florzinha — ele falou, terno. — Acho que chegou o momento de cumprir minha promessa.
— Do que está falando, nonno?
— Preciso voltar para a Itália. Tenho que encontrar-me com Giulia, preciso cumprir minha promessa — ele disse. — Antes que diga alguma coisa, preciso encontrá-la, e sei que devo começar voltando para casa.
— Sua casa é aqui, nonno! — exclamou.
— Não é e nunca foi. Sabemos disso.
— O senhor não pode me deixar aqui sozinha — estava com os olhos marejados.
— Venha comigo. Você sabe que já passou da hora de bater suas asas e voar para longe — ele disse, fazendo um carinho na neta. — Nada que aconteceu foi sua culpa. Pare de se culpar e viva, . Não seja como seu velho nonno e jogue fora sua vida por medo de arriscar.
— Sabemos que a culpa é toda minha. Não precisa mentir, nonno! — falou. — Tenho medo. E se eu for embora e isso fizer a me odiar mais?
— Você passou a vida vivendo pela família. Chegou a hora, minha florzinha, você merece finalmente ter paz — ele sorriu. — O mundo merece conhecer a menina brilhante que você é. Além do mais, quem melhor que você para me ajudar a encontrar minha Giulia?
— Nonno? Acha que ela esperou pelo senhor? — perguntou, séria.
— Giulia sempre levou muito a sério suas promessas. Sei que ela está em algum lugar, esperando por mim.
— Vamos encontrá-la, então. Apenas prometa não me deixar sozinha — esticou o dedinho para o avô, como fazia quando era criança.
— Nunca, florzinha — ele disse, entrelaçando seu dedinho ao dela.


Florença, 1966

O clima da primavera deixava os campos de Florença lindos e floridos; a brisa fresca e o sol ameno deixavam a cidade mais bonita do que em qualquer estação do ano. Giulia amava Florença, mas, nesse ano, ela tinha um motivo mais que especial para ter ido à casa de seus avós durante as comemorações de Páscoa. André estava em Florença, e estar perto dele era tudo que importava para ela.
A enorme vinícola da família de Giulia ficava no interior da cidade, em uma área rural. Aquele lugar era o refúgio dela por todos os anos, desde que era uma menininha. Ali, ela se sentia em paz e, quanto mais perto de André estava, mais essa paz parecia se fazer presente em seu coração.
Era começo de tarde quando ela pediu permissão para dar uma caminhada pelos campos da propriedade. André a esperava onde apelidaram como o lugar deles.
No final da propriedade, um lindo jardim de tulipas era a atração da paisagem. Naquela época do ano, então, era o lugar mais fantástico de toda a Itália na opinião de André, que amava as flores. Era tudo tão lindo; o jardim e aquela mulher era tudo de precioso que André já contemplou em sua vida.
Il fiore più bello di tutti i giardini del mondo (A flor mais bela de todos os jardins do mundo) — André abriu um sorriso quando Giulia se aproximou. — Sempre magnífica.
— Sempre com belas palavras prontas, meu amor — ela disse, se aproximando do homem e o beijando ternamente.
— Tenho sempre a mais das inspiradoras visões — ele respondeu, entregando uma tulipa vermelha para ela.
— Tulipas significam o amor perfeito — Gigi deu um sorriso largo, cheirando a flor.
— O amor verdadeiro. Elas representam o meu amor por você — André completou, pegando na mão da amada e a trazendo para mais perto de si.
— Ainda somos tão jovens, mas tudo que sinto por você é tão imensurável — ela fez um carinho no rosto dele. — No dia que te conheci na fonte, eu tinha acabado de fazer um pedido. Desejei nunca mais me sentir sozinha, e, desde então, todos os meus dias têm sido floridos e cheio de vida. Não sinto nada menos que amada.
— É exatamente isso que você é, muito amada. O destino me levou até você aquela noite, amore mio. E prometo que, independente de onde esteja, sempre estarei ao seu lado. Sempre vou te encontrar.
— Somos destinados a ser.


Nova Zelândia, 53 anos depois
Aeroporto de Queenstown

Nos seus trinta e dois anos de vida, nunca se sentiu tão confiante como quando recebeu a mensagem de Luca. Meses atrás, ele pediu para Luca tentar saber alguma coisa sobre André, então, há uma semana, a notícia chegou e trouxe esperança para .

“Conhece Queenstown, Nova Zelândia? Acho que a pessoa que procura está lá.”

Luca pediu alguns dias para confirmar, porém, estava ansioso e tenso. A primeira coisa que fez foi comprar sua passagem para a Nova Zelândia.
Agora, ali no aeroporto quente no meio de todas aquelas pessoas, se sentiu arrependido por ter agido por impulso. Ele não tinha ideia por onde começar. Mas, mesmo que Luca estivesse equivocado, pelo menos estava em um belo lugar e certamente aproveitaria a viagem.
Ele estava animado com todas as probabilidades; a possibilidade de talvez voltar para casa com André o deixava em êxtase. Ele estava tão aéreo que não previu o momento seguinte: esbarrou-se com uma mulher e fez os dois caírem no chão.
Perdonami disse em italiano, mas logo corrigiu. — Me perdoe.
— Tudo bem! — a moça o desculpou, chamando a atenção dele.
Ainda sem olhar para ela, se levantou estendendo a mão para ajudá-la.
— Se machucou?
No momento que suas mãos tocaram uma na outra, uma eletricidade pareceu passar pelo corpo de . Quando seus olhares se cruzaram, uma sensação estranha passou pelo seu corpo. Ela era linda, e o sorriso de canto que deu quando disse que estava tudo bem, quase desmontou o fotógrafo.
— Tem certeza que está tudo bem, moça? — perguntou, se abaixando para pegar a bolsa da mulher e a entregando.
— Sim, obrigada — ela respondeu, tímida.
No minuto seguinte, um garoto um pouco mais novo que ela se aproximou e falou rápido coisas que não entendeu, puxando a menina e dizendo que ela ia se atrasar. Ela conseguiu apenas acenar para .
O fotógrafo estava atordoado. Ele se abaixou para pegar sua mala que havia caído, quando viu uma pulseira enganchada nela – uma delicada pulseira com um M e uma tulipa. Ele se virou, procurando pela moça em quem tinha se esbarrado, mas ela havia se perdido em meio à multidão.
— Pelo menos tenho uma coisa para garantir que você foi real, e não uma miragem! — exclamou para si mesmo.
Ele fez seu caminho até o hotel com a garota misteriosa em sua mente. Aquela sensação foi tão forte que ele nem ao menos conseguiu focar no que foi fazer na Nova Zelândia. Tudo o que sua mente projetava era o brilho nos olhos dela e o seu cheiro.
— Você deve estar ficando louco, — esse foi o último pensamento do fotógrafo antes de fechar os olhos naquela noite. E ele nem imaginava que, nas semanas seguintes, também terminariam assim.
Ainda no avião, rumo ao desconhecido junto com seu avô, estava prestes a conhecer melhor o país que tanto queria conhecer. Ela passou a mão pelo pulso, entrando em desespero ao ver que a pulseira que seu avô lhe dera quando fez quinze anos não estava mais lá. Ela nunca a tirava.
— Alguma coisa errada, minha florzinha? — André perguntou para a neta.
— Perdi minha pulseira — respondeu, frustrada.
— Tudo bem, querida. Logo você a encontra.
Talvez ela tivesse perdido quando deu aquele esbarrão com o estranho no aeroporto, ou talvez antes. Apenas pensar sobre aquele evento no aeroporto deixou aérea. O sentimento estranho de paz que se instalou quando ela olhou nos olhos daquele homem foi assustador.
De alguma forma, queria encontrar aquele homem novamente, mesmo sabendo que isso nunca aconteceria.
— Você deve estar ficando louca, — ela resmungou baixinho.
— Disse alguma coisa, querida? — perguntou André.
— Não, nonno, apenas feliz por estar com o senhor.
— Sabe, minha flor, tenho o sentimento que essa viagem vai mudar muita coisa para você — ele comentou. — , você precisa se permitir. Você tem que deixar a paz voltar a reinar em seu coração.
— Como faço isso? Como seguir em frente?
— Deixando o passado na Nova Zelândia e começando sua vida na Itália.
Para , era quase impossível deixar o passado enterrado e seguir em frente. A culpa a consumia, e nada parecia certo em sua vida. Ela passou a mão pelo pulso mais uma vez, se sentindo frustrada. De todas as coisas que ela poderia perder, aquela era a única que ela não queria.
Então, novamente sua mente vagou até o estranho do aeroporto, e esse sentimento continuou durante quase toda a viagem, fixado em sua mente. Já na Itália, quando avisou sua família que ela e André estavam bem e instalados, ela decidiu responder uma mensagem que não teve tempo nos últimos dias.

@violet respondeu a uma mensagem privada de @Cooper.: Desculpa toda demora para responder, eu estava simplesmente seguindo seu conselho e saindo do meu casulo , estou em Florença agora, e esse é o lugar mais lindo que eu já vi em minha vida.

No minuto seguinte, o celular apitou, anunciando uma nova mensagem.

@Cooper. respondeu sua mensagem sua mensagem privada: Droga, eu estou agora a 18.527 km de distância de você, na Nova Zelândia… Você perdeu a chance de ter um ótimo guia turístico italiano. Aproveite Florença por mim até eu voltar, (Espero que ainda esteja por aí quando eu voltar)

@violet para @Cooper.: Nova Zelândia? Você está no meu país e eu estou no seu. Parece que forças maiores querem nos deixar longe kkkkkk Brincadeiras a parte, vou ficar aqui por um tempo. Espero ainda conhecer o melhor fotógrafo da Itália.

@Cooper. para @violet: Espero conhecer a garota chamada que ama violetas! Aproveite sua viagem, .

sorriu e guardou seu celular. Ela faria o necessário para ajudar seu nonno a encontrar Giulia, e, nesse tempo, ela esperava se encontrar também. Estava cansada de se sentir perdida. Era tempo de deixar o passado no passado, enfrentar o futuro e se preparar para aquilo que o destino estava reservando para ela: aquilo que ele já estava fazendo acontecer.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.

Nota da beta: O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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