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Última atualização: 27/07/2021

PALCO UM

2020
San Diego, CA


Já era quase onze da manhã quando estacionamos no lote imenso, usado como estacionamento e acampamento para as bandas que acompanhariam o festival, fosse por dois dias, ou os 50 dias inteiros, como era o nosso caso. A ansiedade me inundou assim que Larry avisou onde tínhamos chegado e saí catando minhas coisas, já que tinha ficado responsável por cadastrar a banda no primeiro dia. Os meninos diziam que eu dava sorte!
A Warped Tour era o maior festival emo da história, carregando um legado imenso de música pop punk, punk e ainda a responsabilidade de revelar novas bandas no mercado. Kevin, o fundador e meu pai – adotivo –, tinha parceria com vários produtores influentes do ramo que sempre davam as caras em alguns dias de show e embora aquele fosse o último ano do festival, eles estavam trabalhando para fazer ser o melhor. Eu iria fazer ser inesquecível para mim e para minha banda!
Fui a primeira a pisar no asfalto e não pude controlar o sorriso que tomava meus lábios, além do tsunami de emoção que me enchia dos pés a cabeça. Aquele festival era uma das únicas coisas que tinha a capacidade de preencher todos os buracos do meu peito e da minha alma. Eu amava música, eu amava fazer música e disseminar música! Outra coisa capaz de preencher meus buracos emocionais, era aquela banda de bagunceiros, eu era gerente de turnê do Just Kids há uns bons seis anos e ficava feliz em saber como nos parecíamos, foi isso que me fez considerá-los uma família dentro da vida louca de turnês.
– Pronta para o melhor festival da sua vida? – a voz rouca de soou perto do meu ouvido e virei a cabeça na direção dele, sem conseguir desmanchar meu sorriso imenso. Ele sorriu junto! Eu amava tanto aquele pateta que nem conseguia dizer o quanto, nós tínhamos vivido as melhores aventuras nos festivais.
– Só não estou pronta para me despedir dele. – era doloroso pensar daquele jeito.
me abraçou de lado em um gesto de força e conforto, beijou minha cabeça e seguiu para cumprimentar uns amigos ao longe. Meu melhor amigo era alto, o mais alto dos três irmãos, corpulento de ombros largos, o peito e o braço tatuados, cabelos escuros curtos e jogados de todo jeito pro lado – o estilo desleixado era um charme a mais que conquistava todas as garotas, além da clave de sol tatuada na diagonal do pescoço. Era sexy.
Cadastrei nosso ônibus junto a um dos estagiários do meu pai e depois de resolver a burocracia, fui a direção do container para ajudar a retirar nossa tralha de acampamento. Tendas, cadeiras, caixas do merchandising que seria montado perto dos palcos e até um fogãozinho de duas bocas que os meninos gostavam de usar para cozinhar ovos.
Aquele ar me deixava feliz!
Mas em um lapso, não sei o que houve, não sei que espírito obsessor tinha tomado conta de mim àquela hora, abri o aplicativo de mensagens e mandei uma mensagem para Leon. Estávamos namorando há uns cinco meses e no geral era um relacionamento legal, por mais que tivéssemos brigado há algumas semanas por motivos fúteis e o cara tivesse se revelado um verdadeiro... Era um relacionamento, relacionamentos eram difíceis.
No fundo, esperava que Leon deixasse as nossas diferenças de lado e me respondesse com a mesma euforia que eu tinha enviado a mensagem. Esperava que ele me apoiasse como o me apoiava, só que era músico, meu amigo e não meu namorado, os dois eram pessoas completamente diferentes. Suspirei e decidi não criar quaisquer expectativas em cima do Leon.
– Veja pelo lado bom, freak... – acordei dos meus pensamentos com a fala do . Lado bom de quê? Ele fez força e abriu a porta do container. – Você acompanhou mais da metade da vida do festival, deve se considerar vitoriosa por isso. – finalmente entendi a conversa e soltei uma risada. Ele falava da Warped. Ponderei com um aceno de cabeça e nos empurramos como duas crianças.
– Por isso mesmo, loser. – dei impulso e subi na caixa de madeira e ferro, procurei a tenda com os olhos e peguei a caixa de papelão, jogando-a nos braços de . – Me apeguei a essa loucura e sei lá, não vejo minha vida sem a Warped Tour.
– Você tem a gente! – ele sorriu como uma criança sapeca depois de reclamar do peso da armação.
– Eu não vou passar o resto da vida sendo babá de vocês. – reclamei, embora amasse ser babá deles, nossa vida na estrada e todas as aventuras que vivíamos. – Você já me encara como uma babá pessoal. – empurrei nele a caixa com a lona personalizada com a logo da banda. – E a tarde de ontem foi a prova disso.
– Hey! Não me maltrate. – ele fez um bico ridículo, mas ao menos eu tinha rido. – E você adorou a tarde de ontem, olha, parece até mais relaxada! – ele se referia ao fato de eu ter passado a tarde com ele e os sobrinhos capetas na praia.
– Vocês conversam demais, pelos céus. – Macon, um dos caras do crew e responsável pelos violões, entrou no container junto comigo.
– Ramanush só me maltrata, cara! – reclamou mais uma vez e lhe mandei um gesto obsceno. Ele riu alto e levou a tenda para lateral do ônibus, onde teria ajuda de Scott e Jean para montá-la.
Quando ajudei a equipe com os materiais no container, a banda já terminava de organizar nossa tenda de apoio e o lote estava lotado de ônibus em todas as vagas. Em uma olhada rápida, localizei vários amigos ali perto, inclusive o irmão do meio do – Charles, vocalista do Addicted To You, acompanhado da esposa e dos dois filhos, na faixa de 20 anos de idade –. Eu estava ferrada com aqueles dois idiotas juntos para fazer bagunça.
Mais ao longe estavam os ônibus do Simple Plan, The Maine, All The American Rejects e uma porrada de bandas que tinham feito parte da minha adolescência e que hoje eu podia chamar de amigos.
O que me lembra de apresentar a minha banda!
A equipe do Just Kids, incluindo todos os profissionais, era de 10 pessoas, onde três eram mulheres com cargos importantes. Confesso que isso me enchia com um orgulho genuíno, até porque eu era uma delas. Meu cargo era na gerência da turnê, dentro e fora dos palcos; Franccie era a baterista mais foda que eu conhecia e garanto que colocava muito homem no chinelo; Hannah era a engenheira de som, responsável por todos os arranjos dentro e fora dos shows. E eu pagava pau demais para elas.
Dentre os homens, era baixista e vocalista, além de compositor e garoto propaganda para maioria das publicidades do grupo – metido –; Scott era guitarrista rítmico, compositor e segunda voz, além de dividir o baixo comigo quando era necessário e também era meu quase futuro provável cunhado nas horas vagas; Jean era o nosso carequinha sexy que cuidava da outra guitarra, aquele som pesado, metálico e impactante que fazia a música ser marcante.
Macon, Chris e Harry, eram o braço forte para ajudar com a estrutura e afinação dos instrumentos, tínhamos um especialista em bateria, outro em guitarras, instrumentos no geral, além dos microfones e nosso fotógrafo. O que me deixava orgulhosa, afinal o Just Kids tinha crescido e amadurecido sabendo o que era preciso para ser uma banda foda. Mas bem, dentro da nossa equipe, não posso esquecer do Larry, o motorista que levava a gente para qualquer lugar.
Olhar para nossa tenda era realmente revigorante. Ficava toda boba em ver como as famílias os apoiavam, principalmente quando Kico, o filhinho de 4 anos de Franccie e o marido dela, vinham ver a gente nos shows. Eu adorava o moleque, ele adorava brincar de pique esconde com a tia e ainda trolávamos o nas horas vagas. Nosso mascotinho fazia a alegria de todo mundo ali, junto com as filhas do Jean, as duas eram maiores que o Kico, mas adoravam pegar no pé do tiozão que o era. Aquilo fazia delas, minhas crianças preferidas.
Não demorou muito para a caravana aparecer na nossa tenda, Charles, junto com a esposa e os filhos, além de Percy e Penny, abraçando o caçulinha que abriu um sorriso tão lindo ao ponto de me fazer sorrir também. Eu estava um pouco afastada, procurando um sinal pro walkie talkie que carregava na alça grossa do tope de academia, mas a verdade é que também procurava um sinal pro celular, ou talvez a esperança de receber a mensagem.
Suspirei, frustrada, e decidi que ele não ia acabar com meu festival, nem que tentasse a todo custo.



Era meia tarde quando estávamos prestes a subir no palco pela primeira vez naquele dia, na verdade, no festival daquele ano. Segundo o convite do Lyman – pai adotivo da , nossa gerente de turnê e minha fiel escudeira – nós abriríamos o festival em grande estilo. O último. Aquela seria a última edição do festival que mudara a minha vida em todos os aspectos, ali eu tinha conhecido o que era música de verdade, o que era energia de verdade e principalmente, o que era amor de verdade. Me sentia extremamente grato em ter começado de uma forma tão incrível.
Atualmente, eu e meus irmãos mais velhos já tínhamos tomado caminhos solidificados na música, fosse com nossas bandas, com a gravadora do Percy, ou pela marca musical que tínhamos lançado no mercado. Marca essa que também promovia shows, em geral só pela costa da Califórnia durante o começo do verão, o pessoal tinha apelidado de “Conexão Triplo B” e acabou ficando esse nome mesmo, já estávamos na quinta edição.
Respirei fundo ao ver o famoso backstage ali atrás do palco, algumas pessoas passavam para lá e para cá levando coisas, trazendo coisas, conversando ou só tentando um lugarzinho para ver as bandas preferidas, curtindo o som que iria começar a tocar no palco ou quem sabe até dando uma flertadinha. Aquele era o lado bom de ser famoso, os flertes acabavam se tornando mais fáceis – algumas vezes –.
Me situei na bagunça e soltei uma risada da piada vagabunda que Franccie tinha soltado sobre nossa solteirice. Sacudi a cabeça ainda rindo e depois a gola da camisa cavada, o calor daquele dia estava particularmente parecido com o que eu considerava de inferno quando me falavam do tal lugar. E só aí percebi que nossa baterista estava pondo o ponto de retorno nos ouvidos, aproveitando para pegar o meu na caixa antes que pegasse no meu pé, embora achasse muito difícil que ela fizesse isso aquele dia. A mulher estava quieta ao ponto de me deixar preocupado, nem parecia que ela tinha sonhado e planejado aquela turnê por meses a fio.
– Tudo ok? Todo mundo de ponto eletrônico? – ela passou entre a gente usando um tom tão mecânico que partiu meu coração. Conferiu a caixa no cós da calça de cada um e levantei minha camisa por inteiro, esperando que ela brigasse por isso. Nada foi dito.
– Sim, senhora! – o coro saiu bem sincronizado e finalmente ela riu baixo, afirmando com um aceno de cabeça.
Bati high five com o Kico, que usava um fone azul quase maior que a cabeça e o garotinho se sacudiu como se só ele escutasse a música. O moleque era uma figura mesmo. As meninas de Jeff estavam mais afastadas e junto com a mãe, ex-esposa do meu amigo guitarrista – a maturidade daqueles dois me impressionava –, faziam a alegria do cara. Scott estava concentrado como sempre, rezando ou seja lá o que fosse que ele fazia antes dos shows. Eu costumava plantar bananeira – o que considerava uma pose de yoga – e concentrar na energia do meu corpo, mas estava foda fazer qualquer exercício de concentração àquele dia.
– Tá funcionando tudo ok? – a ouvi conversar com o pessoal externo pelo ponto, ainda repetindo os passos de dança estranhos do Kico. Aquilo deveria fazer meu ponto cair sem que eu levasse a culpa direta. – Hanna? Harry? – ela direcionou a pergunta novamente, afirmando em seguida.
E caramba, aquela energia maluca começava entrar pelos meus pés, estávamos quase na hora de subir no palco. Porra, era sempre como se fosse a primeira vez!
– Tudo ok, ! – o homem com traços árabes piscou e aproveitou para capturar o momento que ela estava praticamente no meio da gente ditando algumas instruções.
Nós seis, os quatro da banda, e Hannah, planejávamos os shows em conjunto, porém era sempre válido ser lembrado sobre o que tínhamos combinado. Minha cabeça ficava uma loucura na emoção pré-palco e era um mistério como eu lembrava de todas as letras, por mais que a maioria fossem minhas. A energia das pessoas que estavam ali, o ambiente e tudo que acontecia me deixava elétrico, poucas coisas na vida tinham aquele poder sobre mim.
Fui interrompido por uma mão em concha perto da minha cara, ali dentro tinha uns dois chicletes mascados. Eca!
– O que foi? – mantive o meu, que nem me dei conta que estava mascando, entre o dente.
– Seu chiclete. – ela empurrou a mão na minha direção com um olhar tão tedioso.
– Não tenho chiclete. – dei de ombros, desejando terrivelmente que ela reagisse a minha recusa.
– Não queira que eu enfie minha mão na sua boca e tire essa porcaria daí. – prendeu uma risada quando comemorei aos berros sobre a pose agressiva dela. – Vai logo, seu idiota! – ela já estava rindo sem conseguir controlar quando me empurrou pelo ombro e cuspi o chiclete na mão dela com todo gosto. – Nojento!
– Você quem pediu! – pisquei.
Ah porra, agora eu estava feliz em ver que ela estava rindo de qualquer idiotice que eu fizesse, aquela energia tomava ainda mais conta de mim. Até Scott estava abraçando a mulher de lado, tentando ficar um tempinho a mais com a lata de energético, mas sem sucesso. ISSO MESMO, !
– Macon? – ela chamou pelo técnico de instrumentos e recebeu um gesto de ok.
Ramanush se alongou e eu soube, era hora de entrar naquele palco e botar para quebrar. Comecei a pular e fazer alguns exercícios que a fonoaudióloga do Charles tinha passado para mim por precaução. Era ali que o grande show começava!
– Tudo bem, guys! Vocês sabem o que fazer, destruam esse palco hoje! – nossa gerente de turnê encorajou como sempre.
Franccie rodou as baquetas na mão e deu um beijo no Kico, depois ganhou um beijo de boa sorte do marido e só aí encabeçou a fila indiana. estava na abertura no topo do palco como se fosse uma professora que inspecionasse seus alunos, as duas se cumprimentam como sempre e foi a vez do Scott fazer um toque de mão com ela, enquanto Jean ganhava beijos das filhas. Meu ponto ainda estava no lugar e eu precisava soltar o quanto antes. Soltei. Só que soltei errado e o negócio quase caiu no chão, aquilo fez eu me sacudir da forma mais estranha para não derrubar o ponto.
– Ah, não! Como você derrubou isso? – ela fez careta e rapidamente pegou a caixinha preta da minha mão.
– Eu fui subir o short, mulher! – soltei uma risada sem vergonha enquanto a desenrolava os fios. – Sabia que você ia brigar comigo.
– Eu não estou brigando! – nossa gerente de turnê me fez girar e prendeu no meu cinto. Agora eu podia pular que não ia mais cair. – Prontinho!
– Ótimo, ajuda aqui na orelha! – abaixei a postura para ficar da altura dela e a se embolou com o fone. Só aí percebi que todo mundo já tinha entrado no palco. Merda! – Rápido, Ramanush! – ela bufou na minha cara, claramente irritada por eu ter me atrasado e agora apressá-la. – Vai, mulher!
– Não me deixa agoniada, ou eu puxo tudo e você entra no palco sem ponto! – ela rolou os olhos e não controlei na gargalhada. – Ai meu ouvido, idiota! – senti o ponto encaixar no meu ouvido. Estávamos prontos!
– Beijinho de boa sorte! – fiz um bico ridículo.
Ela soltou uma gargalhada espontânea, debochada e depois rolou os olhos.
– Na boa, . Vai te catar! – ela me empurrou na direção do palco. – Você já teve cantadas melhores!
Dei de ombros e fui na direção do palco. Expirei, deixando todos os meus problemas fora daquele lugar e ainda ouvi o grito dela “Bom show, Loser!”. Entrei correndo na plataforma do palco e como combinamos, Franccie rufou os tambores, levando nosso público a loucura e ergui os dois braços para cima quando a melodia alucinante de Heartbeat começou. A letra era linda demais e narrava como as pequenas coisas eram incríveis quando se amava alguém, falava sobre como o coração batia rápido e as mãos suavam.
Como geralmente acontecia na Warped, os shows eram cronometrados com pouco mais de quarenta e cinco minutos, afinal eram mais de 12 bandas durante o dia, todos os dias, para entreter o pessoal. Cada show precisava ser alucinante, como se fosse a primeira experiência de todos os presentes ali e ver como o público reagia as nossas apresentações era o que me fazia ter certeza que eu estava no lugar certo. A música era tudo que eu era! Tudo que eu sabia fazer e fazia muito bem.
Nossa setlist era curta pelo tempo de palco e ainda precisávamos encaixar algumas conversas com o público, interações e vez ou outra, umas piadas do Scott sobre as nerdices dele. Éramos uma banda e tanto. Depois de quase todas as músicas contempladas, nós faríamos um medley de Unperfect e Dream with you, eu comecei a primeira música do mix só no violão acústico – melodramática demais para idade que eu tinha quando escrevi, mas nos rendeu o topo das paradas de sucesso por três meses seguidos – e senti tudo que ela queria dizer, afinal todos éramos imperfeitos. Às vezes, até chorava no palco, confesso.
E o ponto crucial da música havia chegado, o público recitava a letra acapella para mim fazendo cada celulazinha do meu corpo ficar desesperada por uma agitação, olhei para minha banda já pronta. O momento tinha chegado! Despluguei a alça e o fio do violão, o entregando de fininho ao Macon assim que vi entrar pela lateral do palco com meu baixo preferido em mãos. Era tudo milimetricamente planejado e não tínhamos qualquer espaço para erros, por isso eu deixava minhas mãos livres e prendia o fio no suporte do cinto. Finquei os pés no chão e abri o sorriso imenso que dizia “pode jogar”, o necessário para meu baixo preto com adesivos fluorescentes – sim, eu tinha 33 anos – rodopiar pelo ar na minha direção.
O segurei com a firmeza que se segura um bebê e a plateia urrou enlouquecida com a performance. Prendi o Rush na alça que eu já estava usando, pluguei o fio e toquei a primeira nota de Dream with you, estourando nos autofalantes e deixando todo mundo ainda mais alucinado. Toda a diferença de volume e som era controlado pela Hannah, graças a Buda, ou seria uma bagunça do caramba no palco.
Aquela era a força da Warped, sem a menor sombra de dúvidas!

-x-

Saímos do palco de alma lavada, coração feliz e energias renovadas, encontrando meu irmão pronto para mandar a ver. Charles era uma das minhas maiores referências em cima do palco, desde o jeito de me portar, até como ele interagia com o público, já fora dele, era basicamente um espelho de como eu queria ser quando formasse minha família um dia. O cara era completamente rendido pela esposa.
Terry e Leo não estavam no backstage com Charles e Eliot, suspeitei que estivessem no chão entre o palco e a grade, as duas eram loucas por assistir shows da plateia e eu nunca entenderia. Abracei meu irmão com força e com um beijo na bochecha, desejei que o show dele fosse o mais foda. Charlie me devolveu o carinho e disse que estava orgulhoso do nosso show. Eliot pulou nas minhas costas logo em seguida e quis dar um tapa naquele moleque abusado.
– Ai caramba! – reclamei quando ele voltou pro chão e baguncei seu cabelo, ele me empurrou. A relação de amizade que eu tinha com meu sobrinho mais velho era algo sem explicação, nos parecíamos demais em alguns aspectos e, às vezes, eu agia como se tivéssemos a mesma idade, embora eu fosse mais velho uns 13 anos.
– Vamos lá, crianças, se comportem! – gritou quando passou por a gente, recolhendo os pontos. Nós três rimos da cara de pau dela. Decidi implicar e apontei pro Charles, o filho dele fez o mesmo.
– Quem é a criança aqui, garota? – meu irmão revidou a reclamação como se ela fosse a criança. Geralmente eu o aconselharia a não desafiar a Ramanush, mas esse não era o dia.
– Os não são conhecidos por serem maduros, cara. – ela apontou para nós três e fez um gesto com os braços que eu tinha certeza, incluía o Percy também. Ele e Penny estavam lá embaixo com Terry e Leo. – E recebi ordens específicas da sua dona... – apontou pro Charlie – para "Ficar de olho no Charles!".
– É a Terry quem manda, cara! – dei um tapinha no ombro dele, que só arqueou a sobrancelha. deu de ombros, concordando comigo. Eliot prendeu a risada.
– É claro que eu sei disso! – ele soltou um grito ofendido. – Sou muito bem casado, tá, mulher? E outra, eu tenho juízo. – nós três rimos. – Ela tá falando desse Charles aqui! – meu irmão sacudiu o filho e soltou um grito como se só tivesse visto o Eliot àquela hora.
- ELIOT!
- TIA ! – meu sobrinho mais velho gritou tão animado quanto ela e tirou-a do chão em um abraço apertado.

Ventura, CA → Phoenix, AZ


Já estávamos na estrada há quatro dias e as coisas não poderiam estar mais animadas, se não fosse o Leon estar me ignorando por mensagens também, mas como prometido, não ia me fixar naquilo. Tínhamos pegado a estrada meio tarde aquele dia, depois de uma das after parties oficiais da turnê e estava todo mundo ainda elétrico após os energéticos e bebidas alcoólicas, fazendo uma banda de homens e duas mulheres, adultos começarem a rodar uma garrafa na última sala do nosso ônibus.
Passei pela porta da sala quando saí da minha cabine e neguei com um aceno, incrédulo, me impedindo de provocar os cinco, ou acabaria ali dentro junto com eles, rodando aquela garrafa de corona vazia. Iria aproveitar meu tempo para ler alguma coisa na sala da frente onde os meninos do crew estavam vendo TV, ao menos estava mais calmo.
Nosso motor home era dividido em três ambientes bem confortáveis, assim que você entrava no ônibus, via a sala conjugada com a cozinha que ficava rente a lateral do ônibus – equipada para nos atender durante aqueles dias viajando –, na outra lateral, um sofá em L enorme, uma mesa presa ao chão e a TV acima de nossas cabeças. Ao meio, ficava o enorme quarto, com 12 cabines, cada uma delas equivalia a uma cama e era grande o suficiente para caber duas pessoas dentro, além das cortininhas para garantir um pouco da nossa privacidade. O último ambiente era o mais legal, tinha um sofá circular, uma mesa presa ao chão, mais uma TV e nosso videogame, além de dividir espaço com um banheirinho pequeno.
! Onde você vai? – a voz rouca de me atingiu bem no meio do caminho e quando virei, a porta estava aberta. Bom, ao menos não era Strip Poker.
– Tentar ler um pouco lá na frente. – sacudi o livro na mão. Era um escrito por Atena, a quase cunhada de , a mulher era a escritora mais incrível que eu conhecia. – Por quê?
– MARIQUINHA! – ouvi o grito que veio dos fundos, mas não consegui identificar se era Franccie ou Hannah. Ah, mas eu não era mariquinha mesmo, já tinha jogado até strip poker com eles naquela mesma sala e nunca tinha ficado pelada.
– Eu tomo conta de vocês todos, patetas. Vocês acham mesmo que sou mariquinha? Eu sou a mais badass daqui, sweetie!
Eu já tinha largado o livro dentro da minha cabine, iria mostrar como se jogava o jogo da garrafa.
– Duvido, querida! – Scott foi quem soltou aquele deboche horrível e quis matá-lo, afinal ele era quase meu cunhado, poxa! – Se recusar jogar com a gente só mostra que você é arregona!
– Ah, , qual é? É um joguinho inofensivo, para de ser mole! – esticou a mão aberta em minha direção, que combinado a um sorriso filho da mãe no canto dos lábios, seduziria qualquer mulher desavisada. Para minha sorte, eu era blindada disso.
– É sério? Inofensivo? – arqueei minhas sobrancelhas. – Um jogo com vocês e uma garrafa junto, nunca é inofensivo. Sempre, repito, sempre é perigoso! – tentei ser o mais óbvia possível, mas acabei ouvindo algumas risadas de quem estava lá dentro. Será que tinha alguma erva ilícita ali no meio? Juro que se tivesse, ia arrancá-la do na base do tapa! Me estiquei e fiquei aliviada ao ver que não tinha fumaça e nem cigarro.
! – o coro dos cinco preencheu o ônibus e os meninos lá na frente reclamaram da gritaria. Eu não julgava, teria feito o mesmo.
– Vem logo! – sacudiu a mão estendida mais uma vez e me dei por vencida antes que recusasse. Não podia acontecer nada de ruim, poderia?
Eu esperava que não.
– Okay, eu jogo!



PALCO DOIS

Ventura, CA → Phoenix, AZ


Eles tinham mesmo comemorado que eu ia entrar naquela brincadeira maluca? Soltei uma risada com a alegria frouxa e percebi que as garrafas de cerveja estavam empilhadas perto do sofá. Era melhor ditar minhas condições antes que fosse tarde demais.
– Mas com três condições! – levantei três dedos ao sentar do lado do Jean, que parecia estar mais para lá do que para cá. Eu conhecia todo mundo, mas me conhecia também, sabia que depois de bêbada eu fazia umas coisas meio suspeitas. – 1: eu não vou beijar ninguém; 2: não vou ficar pelada e 3: ninguém, absolutamente ninguém, encosta nos meus peitos. Entenderam, bando de pervertidos? – sacudi meu dedo indicador e ouvi risadas generalizadas.
– Pelo amor de Deus, mulher! Você não conhece uma coisa chamada respeito? – meu melhor amigo protestou, indignado com minhas condições. Mas no fundo eu sabia, que se a gente passasse do limite na bebida, eu e ele seríamos os primeiros a fazer aquilo.
– Eu conheço. – apontei pro peito. – Vocês, eu já não sei! – Jean me abraçou de lado, ainda meio cambaleante e prometeu que ia me proteger, beijei sua careca reluzente.
Recebi uma cerveja gelada de Franccie e foi maravilhoso senti-la descer pela garganta, fazia realmente muito tempo que eu não me largava daquele jeito na brincadeira de grupo. A garrafa rodou e as primeiras rodadas depois que eu tinha entrado no jogo foram bem tranquilas. Perguntei duas vezes, uma para Scott e outra para Hannah, ri do Jean passando sufoco nas mãos do – e rezei para que ele não me perguntasse nada, aquele filho da mãe sabia demais sobre a minha vida –. Só que o cenário mudou quando o bico da long neck virou para mim e ele me sorriu cruel.
Será que eu conseguia me esconder dentro do banheiro? Ainda dava tempo?
– Olha bem o que você vai perguntar, loser! – o repreendi, com os olhos bem abertos. Quando tinha álcool no meu sangue, não respondia por mim.
– Para de ser medrosa! – ele riu alto e deu uma piscadinha. Aquele suspense me matava. – É a coisa mais idiota do mundo, vai te lembrar sua adolescência. – meneei a mão, pedindo que seguisse com a tal pergunta. – De nós cinco aqui, quem você beija, transa e mata?
– É sério isso? – Scott olhou para cara do , como se perguntasse se ele não tinha passado dos 15 anos. Aquilo me deixou curiosa também, porque ele tinha fodido nas perguntas pro resto do pessoal.
– Claro que é. Me dá mais uma? – pedi uma garrafa e Scott me entregou. – quer encarnar na resposta e me encher o saco pelo resto da turnê! – falei com uma convicção que eu teria feito o mesmo, se fosse o contrário. Tínhamos uma mente parecida e, às vezes, as únicas coisas que salvavam o dia tedioso era encher o saco do . – Mas tudo bem, vamos lá. – tomei um gole enquanto analisava minhas opções. Elas eram péssimas! – Eu beijaria... hm... o Jean. – porque sabia que ele não ia levar aquilo a sério, completei na mente. – E transaria comigo, porque sou ótima na cama! – tomei um grande gole da cerveja, ouvindo as gargalhadas ensurdecedoras.
Peguei você, !



Ela não sabia, não fazia ideia de como tinha me pegado com aquela resposta filha da mãe, por que de repente eu queria tirar a prova se ela era boa na cama também. Fosse vendo ou participando. Por uma porção de segundos, passei a odiar Ramanush com todas as minhas forças, mas entendi que também queria – terrivelmente – transar com ela, na mesma intensidade. Eu sei que éramos amigos há uns bons 15 anos, sei que ela trabalhava com a gente há mais de seis e que fazia parte da minha vida mais intimamente. Mas caramba, vocês já tinham visto a mulher?
era uma das mulheres mais bonitas que eu já tinha visto na minha vida e a cada ano, ela só ficava ainda mais linda. Os cabelos eram longos, escuros e brilhosos, a textura eu não conseguia entender, porque, às vezes, ela surgia com ele cheio de ondas, e às vezes, quando dormia lá em casa, ele acordava meio cacheado. Só que combinavam demais com a pele bronzeada dela, Ramanush tinha uma pele que eu nunca conseguiria descrever a cor, mas não era branca, era como se ela tivesse nascido bronzeada. Linda pra caramba! Os olhos grandes, curiosos e de uma cor caramelo que eram quase verdes. Os lábios cheios que abriam uma variedade de sorrisos diferentes e wow...
Fui tirado dos meus pensamentos com as conversas paralelas na mesa, por sorte, ninguém percebeu minha viagem mental. Espera, ainda faltava quem ela mataria e se minha amiga pudesse ler pensamentos, aposto que seria eu o alvo da sua morte.
– Tá, Ramanush, mas quem você mata? – os interrompi de uma vez e a mulher me olhou com aquele olhar felino. Ela era um gato e eu o novelo de lã que ela estraçalharia. Me ferrei!
– Você, por ter me enfiado nessa brincadeira idiota! – levantou a garrafa em um brinde e lhe mandei um beijo alado.
Sem mais demoras, ela rodou a garrafa novamente e caramba, não conseguia tirar a hipótese mais idiota do mundo da cabeça. Bebi umas três cervejas seguidas para não pensar naquela merda, porque:
1: era minha amiga e eu a respeitava acima de tudo – por mais que quisesse ir para cama com ela. Era passageiro! – ;
2: ela tinha namorado – era um filho da mãe desgraçado, mas ainda era namorado dela. Não, eu não gostava do Leon e era recíproco.
O jogo continuou enquanto adentrávamos as estradas dos Estados Unidos e a cada cerveja consumida, as perguntas ficavam ainda mais perigosas, embora eu tenha conseguido me esquivar da maioria dando uma de bêbado, ou fingindo não entender o real sentido. Ela fez o mesmo, até aquela hora, quando o gargalo lhe indicou. Hannah perguntaria.
– Você é gay?
Caralho! Certeira. Arregalei os olhos para . Será que ela ia falar de Leon? A mulher nunca tinha o apresentado a banda, ou mencionado a existência dele e nunca entendi o porquê.
– Eita! – Scott deu um gritinho e como uma velha fofoqueira, prestou atenção na conversa.
– Por que você acha isso, cara? – ela parecia se divertir com as dúvidas da nossa engenheira de som.
– Ok, pertinente! – Jean apontou um dedo e tomou um gole da cerveja na garrafa. Precisava confessar, era muito pertinente, várias fãs da banda já tinham perguntado se curtia meninas.
– Eu nunca vi você com ninguém, cara! – a engenheira de som justificou a pergunta e ponderou com um aceno.
– Eu não sou gay, Hannah. – ela sorriu, cordial e bebeu mais da cerveja em mãos.
– Mas que merda, eu sempre tive um crush em você.
Caralho de novo! Me ensina a ser direto como você, Hannah.
– Opa! Vamos fazer acontecer! – Franccie esfregou uma mão na outra, realmente disposta a arrumar aquele affair.
– NÃO! Desculpa, Han, mas eu tenho namorado. – saltou de onde estava. Foi o bastante para deixar todo mundo ainda mais confuso com a história. Sinceramente? Eu entendia demais o espanto de todos eles e suspirei alto demais, atraindo atenção desnecessária.
– Espera, como? – Jean fez careta.
me olhou, pedindo por socorro, o que foi interpretado da forma mais errada que poderiam se esperar, mal abri a boca para tentar defendê-la e uma legião de especuladores quase me espremeram contra a parede.
– Espera, vocês estão juntos? – o choque no rosto de Franccie atingiu a gerente de turnê em cheio. – Ai, meu Deus, agora tudo faz sentido!
– NÃO! NÃO FAZ! – desafinei. Nervoso, eu estava uma pilha de nervos!
– GENTE, CALMA! – Ramanush soltou uma risada, desesperada. Ela estava tão nervosa quanto eu. – Vocês acham mesmo que se eu estivesse com ele ia conseguir esconder qualquer coisa? Ele é emocionado demais!
Pensei em protestar, mas não era uma mentira completa e acabei soltando uma risada.
– Pior que ela tem razão!
– O nome dele é Leon. – procurou algo no celular e nos mostrou uma foto deles dois juntos e completamente mecânicos. O que ela via nele?
A conversa seguinte foi toda sobre aquilo, enquanto eu ficava calado no meu canto, bebendo uma cerveja atrás da outra. Acho que já estávamos perto de Phoenix quando me enfiei na minha cabine e capotei depois de beber tanto.

Phoenix, AZ


Era meia tarde quando a banda estava prestes a entrar no palco mais uma vez naquela semana, o tempo estava extremamente corrido para tudo, quando não estávamos na tenda, estávamos viajando para alguma cidade próxima e quando não estávamos fazendo isso, estávamos zoando e bebendo para despistar o cansaço de uma vida em turnê. Eles, na verdade, eu evitava beber em serviço, por mais que precisasse ceder a uma cerveja para aguentar o tranco. O calor daquele lugar era particularmente escaldante e como se não bastasse, o transformador do ônibus de turnê tinha explodido por causa do tempo quente, sobrando mais uma dor de cabeça para mim e para Franccie resolver.
Depois do susto passado, iríamos repetir aquele espetáculo maravilhoso que mostrávamos todos os dias. Passei, conferindo se todos estavam prontos, se os pontos estavam bem presos e se precisavam de algo antes de entrar em cena, mas percebi uma presença diferente no nosso backstage. Eliot e eram como duas crianças.
– Hora do show, guys.
Confesso que eram ótimos e extremamente responsáveis com as obrigações, mas conseguiam ser crianças pentelhas quando bem entendiam, ou quando tinha um moleque de 20 anos por perto. Não sei que energia o filho do Charles tinha, mas ele saía contagiando todo mundo com aquela eletricidade jovem. Só que no momento, ele e estavam olhando na beirada do palco e eu aposto que tentavam flertar com algumas garotas do outro lado.
– Eles vão te pedir para chamar. – Scott apoiou o braço em meu pescoço e arqueei a sobrancelha.
– Nem fodendo! – fui curta e grossa. Meu amigo, quase cunhado, soltou uma gargalhada espontânea. – Você ri aí, porque tá todo comprometido, né? – o fiz engolir as risadas. Scott Lachini sabia que era verdade. – Senão estava na seca que nem esse bando de punheteiro.
Nós dois rimos ainda mais alto, afinal, sabíamos que era verdade.
– Quer apostar? – ele ajeitou a alça da guitarra azul e bateu no meu quadril de lado, com o dele.
– Quero apostar nada. Vai logo! – apontei para onde o grupo estava se concentrando e neguei com um aceno de cabeça. era inacreditável mesmo, me dava vontade de rir.
Conversei com o Chris sobre a troca de guitarra do Scott durante o show e me comuniquei com Hannah sobre os arranjos daquele dia. O palco era pequeno e não conseguiríamos arremessar o baixo do pela plataforma, então Franccie daria um show solo na bateria para arrasar os corações da galera. A mulher era foda!
Chequei minha lista no telefone e senti uma pontinha de vontade de mandar mais uma mensagem para Leon. Ele finalmente tinha me respondido depois do primeiro dia, mas conversávamos com palavras curtas e por mais que o sentimento de auto-humilhação quisesse aparecer, eu sabia que só estava tentando salvar meu relacionamento. Deixaria aquilo para depois, porque tinha me abraçado pelo pescoço e eu sabia que ele queria alguma coisa. A coisa que o Lachini tinha dito.
– Nem morta! – me adiantei, o empurrando para fora do abraço.
– Ah, Ramanush, qual foi?
– Se você quer, seja homem vá lá e chame! – apontei na direção que ele e o Eliot estavam espreitando e o menino acenou para mim, com um sorriso inocente. Eu deveria contar tudo ao pai dele, apostava que Charles não ia aprovar aquilo, ele era sensato. – Você sabe que eu sou mulher que nem elas e eu não vou me prestar a isso, para você e a criança ali conseguirem sexo. – os dois fizeram careta com minha fala. Que bom que tinha tocado no íntimo. – Vai, , anda! O Show!
! – ele fez manha, uma que não ia me convencer.
– Vai me conseguir sexo com algum gostoso do crew? – arqueei a sobrancelha, decidindo jogar o mesmo jogo que ele, embora aquilo não fosse ser possível porque eu ainda tinha um namorado. Meio merda, mas ainda era meu namorado. Eu só queria que o homem entendesse a situação como se ele precisasse passar por ela.
– Hm. Nops!
– Essa é a minha resposta para você! – o empurrei na direção do palco. Tínhamos exatamente três minutos para entrar.
– Então eu posso te conseguir com algum vocalista gostoso! Han? – ele abriu os braços como se mostrasse tudo que tinha a me oferecer. Espera, era impressão minha ou ele estava dando em cima de mim de uma forma velada? Ai, meu Deus, cara!
– Eu não vou transar com você, . – cortei antes que ele criasse expectativas ilusórias. – O show!
– Eu não estou falando de mim. – ele pareceu ofendido com meu fora e prendi a risada.
Dois minutos para entrar no palco.
– Ok, eu estou. Mas porra, imagina como ia ser bom.
Caramba! Ele estava falando sério? Minha Deusa, , não se meta em um lugar que você não pode sair!
– Não quero imaginar. , você vai se atrasar e a gente tem horário marcado. Sem mais gracinha! – ralhei de novo e finalmente consegui fazer com que o vocalista se juntasse aos outros. Avisei a Hannah que já estavam prontos pelo meu fone perto do ombro e finalmente pude respirar aliviada.
Que conversa torta tinha sido aquela?
Eu precisava desesperadamente da presença Save para me ajudar a decifrar aquela porrada de coisas.

-x-

Vez ou outra eu gostava de ficar até o desmonte total dos palcos do dia, era gostosa a sensação de desapego que logo seria precedida por euforia em saber que aquela estrutura estava sendo montada na cidade seguinte. A Warped Tour era muito maior do que só as viagens, os shows cheios de energia, o sentimento de amor pelos artistas que a gente gostava, a estrutura daquele festival transcendia qualquer expectativa que você criasse na cabeça. Nosso pai, o Kevin, terceirizava equipes de montagem de som e estruturas de palco por cada cidade que iriamos passar e alguém do crew principal sempre estava viajando mais cedo para fiscalizar isso.
Durante anos, eu também fiz esse trabalho por trás da grande magia, o verdadeiro backstage. Era tão gostoso saber que eu era parte da Warped, ela estaria sempre no meu coração, que me pegava com lágrimas nos olhos exatamente como aquele momento. Funguei no meio de uma risada, assim que vi meu pai andar na minha direção e enxuguei meus olhos marejados com o dorso da mão em seguida. Ele era um homem de 60 anos, poucos cabelos na cabeça e feições de um pai bravo, embora fosse um amorzinho.
– É de felicidade, Kev. – justifiquei minhas lágrimas e sem qualquer palavra, ele beijou minha cabeça, abraçando meu corpo amorosamente.
– Esse festival também é a minha vida, querida. – o abracei com força. Nós dois compartilhávamos do mesmo sentimento sobre àquela imensa empresa móvel. – Mas veja pelo lado bom, estamos deixando um legado maravilhoso na música. A maioria das nossas bandas principais começaram de verdade aqui, como a Just Kids. – ele sorriu, orgulhoso, para mim. – Você chegou para gente nesse mesmo festival e foi o nosso maior presente.
– Eu sei. – senti minha voz desafinar no meio da resposta. – Mas é difícil se despedir, pai. – soltei o pranto entalado na garganta e nos abraçamos com mais força.
– Tem certeza que não quer receber o bastão? Save vai ficar tão feliz, quanto você está por ela. – ele me perguntou com todo cuidado do mundo e neguei com um aceno de cabeça.
Tínhamos planejado aquele momento nos últimos seis meses e seria o mais incrivel de toda a Warped Tour. Kevin estava cansado e queria passar o legado da última tour para uma das filhas, ele me oferecera o bastão assim que pensou na possibilidade, mas eu sabia que não tinha estrutura emocional; então decidimos que Save saberia muito mais como comandar aquilo. Afinal de contas, nós dois estaríamos sempre ao seu lado.
– Save Lyman é a pessoa certa para herdar o legado da Warped Tour. – sorri, feliz, e beijei sua bochecha gorda, enquanto andávamos abraçados na direção do estacionamento.

Las Vegas, NV


Finalmente um day off depois de tanta correria para os shows e o cansaço das viagens longas. Não levem a mal, nosso motor home era muito confortável e servia a todas as nossas necessidades, mas eu não tinha mais idade para passar cinquenta dias dormindo num ônibus, bebendo cerveja de café da manhã e comendo pizza no almoço. Ninguém dentro daquele ônibus tinha mais idade para isso, então sempre que a gente tinha folga, fechávamos com um hotel em um quarto para cada. Aquele day off não tinha sido diferente e estar no The Cosmopolitan era realmente maravilhoso, principalmente quando só iriamos fazer show em Vegas no dia seguinte.
Dormi bem, comi melhor ainda e ainda tive sossego para conversar com minha mãe por telefone, era sempre assim em turnê, ela me ligava em dias alternados, preocupada com a minha saúde e bem estar como se eu tivesse cinco anos, pelo visto ela fazia o mesmo com Charlie. Dona Pam tinha feito uma chamada de video comigo e meus dois irmãos. Ela era uma gracinha!
Fiquei feliz pra caramba de ter visto meus cachorros na casa do Percy.

Estar na área de lazer de um hotel daquela magnitude era muito bom, as piscinas eram quase um parque aquático com ondas artificiais, cadeiras de praia ao redor de cada uma delas, bares imersos na água e ao lado dos locais mais movimentados. Além de muita mulher bonita passando de um lado pro outro. Paraíso, aquele era o paraíso!
Me espreguicei, contente e sorri para algumas moças que passavam acenando para mim, outras acabavam se insinuando um pouco mais do que apenas acenar, mas mantive o sorriso cordial. Atendi duas crianças com os pais e decidi que ia aproveitar minha folga ao máximo, afinal a noite tinha festa e das grandes. Baixei os óculos escuro no rosto na mesma hora em que um tapa ardido me atingiu no meio das costas. Depois outro.
– Ai caralho! – virei indignado para encontrar meu melhor amigo e meu irmão do meio, além do Eliot pentelho.
– Olha a boca, tem criança no recinto! – Charles zoou o próprio filho, que se limitou a rolar os olhos.
– Eu mandei esperar! – Scott ajeitou o boné na cabeça. Droga, eu tinha esquecido completamente dele.
– Vocês vão para onde? – direcionei minha pergunta aos outros e Charles apontou na direção do bar.
– Mamãe e a Leo estão lá. Vai com a gente?
Dei um aceno de cabeça na direção do Scott e ele deu de ombros, então seguimos na direção que os dois estavam indo, embalados em conversas amenas sobre como os shows tinham sido, sobre o que a gente esperava e o Eliot falando sobre a temporada passada do hóquei universitário – o moleque tinha ido para Frozen Four com o melhor amigo, que era do time rival –. Foi quando passamos entre as espreguiçadeiras e pegamos algumas bebidas geladas no bar que eu senti meu mundo ir direto pro chão.
Mais ao longe, em uma cadeira branca... eu simplesmente não acreditava um pingo no que estava vendo. Aquela era a ? Aquela mulher de biquíni pequeno azul marinho e que estava deliciosamente exposta ao sol era a Ramanush?
Desde quando ela tinha tantas tatuagens espalhadas pelo corpo? Desde quando minha melhor amiga era tão gostosa? Pelo universo, se existia tentação maior do que aquela, eu sinceramente, ainda não tinha encontrado. Era tão difícil vê-la sem todos os anéis, pulseiras e bijuterias de adorno pelo corpo que uau, era lindo demais quando parecia tão limpa sem os enfeites. As tatuagens escuras em reflexo ao sol; a Deusa no músculo externo do braço – o deltoide eu acho, Terry chamava assim –, a mão da magia na parte interna do antebraço, as fases da lua na base dos seios – que eu nunca tinha reparado tão bem – e uma roda de carroça na parte interna do antebraço. Aquilo era tão ! Ela era regida pela lua, a bruxa mais incrível que eu tivera o prazer de conhecer.
Segurei o braço de Scott, o impedindo de seguir andando quando Charles e Eliot já estavam lá na frente, cumprimentando minha sobrinha e minha cunhada. Não ia passar vergonha na frente da Ramanush, nem a pau.
– Essa é nossa gerente de turnê? – o impacto era vivo em minha voz.
– Meu amigo, ela é! – Lachini soltou uma risada e deu um tapinha em meu ombro como se me consolasse. – Cara, ela é uma mulher, você achou que fosse o quê?
– Bem menos gostosa, para ser sincero! – a honestidade pulou da minha boca. Porra, não era novidade ver a de biquíni, não para mim, mas caramba. Droga! Não sei o que inferno estava acontecendo com minha cabeça.
Scott bateu nela para ajudar a voltar o cérebro pro lugar.
– AI! Eu sei que falei merda, mas caramba... O Leon é um idiota!
– Não poderia concordar mais. merecia alguém melhor. – ao menos concordamos com isso.
Andamos na direção da espreguiçadeira que nossa gerente de turnê estava e só aí percebi que ao lado dela, estavam Terry e Leo, agora com Charles e Eliot sentados perto. Leonor me viu ao longe e acenei como um tio bobão assim que ela sorriu, nos chamando com um movimento de mão.
– Oi, princesa! – cumprimentei-a com um beijo na testa assim que cheguei perto do festival de mulher bonita. – E aí, Tetê? – beijei a bochecha da minha cunhada, chamando-a pelo apelido que só Charles chamava. Vou confessar que adorava implicar com ele.
Scott fez um toque de mão com Leonor e fez o mesmo com Terry, que estava com um chapéu imenso na cabeça, além de um biquíni que estava fazendo meu irmão do meio babar. Ia dar um balde de presente a ele. Por fim, sentei perto dos pés da , minha maior tentação, olhei para seu rosto e a mulher mordia os lábios prendendo uma risada como se fingisse que eu não estava ali. Puxei seu dedão do pé.
– Ai, ! – ela meteu o pé na minha cintura, mas não colocou força e me encolhi exageradamente. – Veio só encher minha paciência?
Scott estava em uma conversa embalada com a Leo sobre produção musical, pude ouvir de longe.
– Estava com saudade. – fiz um bico exagerado, mirando seus olhos fechados por segurança e respeito. – Não me maltrate. – puxei seus dedos novamente e ela fez a maior crueldade do mundo comigo. Me deu um chute leve e virou de bruços na espreguiçadeira, deixando a bunda empinada bem na frente da minha cara; filha da puta! Imediatamente olhei pros meus pés descalços no chão de pedra clara da área da piscina.
– O Leon vem te ver? – perguntei baixinho, me sentindo ridículo demais em querer saber daquilo.
– Basicamente. – ela tentou parecer convicta, mas a conhecia o bastante para saber que até ela duvidava disso. – Ele mora há uns quilômetros daqui, acho que pode ser uma boa oportunidade.
– Aposto que sim, freak. – suspirei, frustrado com meus sentimentos confusos, afinal de contas, antes de condenar aquele cara escroto, precisava apoiá-la nas decisões mesmo sabendo que provavelmente só eu a merecia da forma mais genuína.



PALCO TRÊS

Las Vegas, NV


Depois de passar o dia na piscina, tomando sol na companhia dos e do Scott, eu estava pronta para o que a noite talvez me reservasse. Tinha trocado algumas mensagens com o Leon mais cedo e chegamos a um meio termo de tentar conversar, ele morava em Vegas e eu estava em Vegas.
Toda mulher tinha seus truques, então foram horas hidratando meu cabelo, meu corpo, deixando minhas tatuagens vistosas, além de tentar esconder algumas manias que incomodavam o Leon. Será que eu estava com a pessoa certa? Eu ainda não tinha tido abertura para contar do meu maior segredo, embora já tivesse dado inúmeras pistas daquilo. Sacudi a cabeça. Não queria focar naquilo, mas me magoava muito não receber dele, metade dos elogios que recebi da banda assim que me viram no corredor do décimo andar, indo na direção do elevador.
Escolhi um dos jardins do hotel para ligar para ele, já tinha desistido de ir para boate com o pessoal, pois pretendia passar aquela noite com meu atual namorado.
– Hey! – declarei, animada ao ouvir que tinha sido atendida. – Já estou livre! – eu estava animada e afobada demais para aquela conversa, mas só percebi isso quando Leon soltou um suspiro exausto. Merda!
Oi... . – eu conhecia aquele tom pesaroso e doía tanto no meu peito. Ele não vinha, mais uma vez. – É... eu não vou conseguir ir... te ver hoje à noite.
Não disse? Senti a respiração faltar e pigarreei.
– A gente vai passar dois dias aqui, amanhã é o show, conseguimos nos organizar. – Por que eu estava sendo tão idiota aquele ponto?
Não sei se vai dar certo, mesmo. Não quer mesmo esperar para quando as viagens acabarem?
Não, eu não queria esperar mais nada. Ali eu entendi que ele não ia mudar, não ia mover uma palha para me ver em Vegas, por mais que eu me arrastasse pedindo. Eu estava puta por ter me arrumado no maior perrengue, como se Leon fosse tecer metade dos elogios que eu tinha escutado do , do Scott, do Jean, até da Hannah. Ali eu entendi que ele não era homem para mim, mas parece que ele tinha entendido bem antes.
– Fala logo.
– Eu não vou, . Eu não vou e não dá mais para continuar o namoro. Eu não consigo ser o cara que namora com uma mulher que viaja por mais de meses com, no mínimo, 5 homens em um mesmo ônibus.
– Mas consegue ser o merda machista que fala esse tipo de coisa, não é? – a pergunta saiu espinhosa da minha garganta, porque sinceramente eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. – Eu não acredito que você teve a audácia de insinuar isso, Leon.
Desculpa, . Só que não dá mais.
Foi daquele jeito que aquele filho da mãe acabou a ligação, sem qualquer respeito por mim e a única coisa que consegui foi segurar o telefone para não jogá-lo no chão e soltar um grunhido indignado no meio do jardim.
Leon iria me pagar caro por tudo aquilo!



Estávamos quase saindo do The Cosmopolitan para entrar na van e ir para festa na boate, quando vi a completamente perturbada no jardim da frente do hotel. Ela tinha saído do quarto tão animada, tinha trombado com ela no corredor e a mulher estava estonteante, fazendo planos e nos desejou até uma boa festa, mas fiquei preocupado quando vi que ela estava destruída lá fora. Pedi ao Larry para esperar um pouco e corri de leve até onde minha amiga estava. Já sabia que ela não sairia com a gente para boate nenhuma, mas ia tentar mais uma vez, ao menos para ver se a animava um pouco.
– Wow! Que mulher linda! – diminui a velocidade com que me aproximava e a segurei pela mão livre, induzindo-a a gritar em torno do próprio corpo, mas senti que a tremia. Senti que ela não estava bem, não precisava nem olhar para cara dela, até porque aquela risada triste me destruiu. – Eu sei que você me disse um não, mas eu vim te chamar para... – me interrompi assim que vi como os olhos dela estavam sem brilho, decepcionados e marejados por um choro, que eu apostava, só precisava de um ombro amigo para sair. – Ei... o que houve? – apertei a sua mão com força e carinho.
engoliu seco, acho que o nó na garganta ou a vontade de chorar, e eu controlei o da minha. Odiava vê-la daquele jeito, me quebrava de uma forma que eu nunca consegui entender, era como se tivéssemos uma ligação diferente. Ela fez mais força para não desabar na minha frente e merda, eu quis matar o desgraçado do Leon naquele exato momento, sabia que aquilo era culpa dele.
– Psiu, sou eu, o ! – passei o polegar, da mão que não segurava a dela, embaixo do olho marejado e aquilo foi o necessário para que minha amiga descontrolasse em um pranto penoso. Forcei aquela dor goela abaixo. Não dava para chorar junto com ela.
As lágrimas desciam de quatro em quatro no meio das bochechas, a boca se torcia em um bico triste e o corpo da parecia sucumbir a uma dor que eu tinha certeza ser emocional, embora aliviante pelos suspiros desesperados que saíam da boca dela.
– Shii, não precisa chorar, já passou. – Puxei-a para junto do meu peito sem qualquer resistência, sentindo quando minha melhor amiga se agarrou ao meu abraço desesperadamente. Respirei fundo e passei os dedos pela coluna dela em um carinho confortante. – Calma. – falei contra sua testa. – Vai ficar tudo bem, eu prometo.
– Ele terminou comigo, . – A voz embargada exalava ódio e ressentimento. – Da pior maneira possível. A PORRA DO PIOR JEITO! – tremia levemente e pela voz grave e sombria, eu sabia que era raiva, uma raiva que tomava o coração tão lindo e puro dela. – NO MEIO DO MELHOR MOMENTO DA MINHA VIDA! Eu vou amaldiçoar esse desgraçado!
- HO HO HO. CALM DOWN! – aquilo bateu medo até em mim. Eu acompanhava a na jornada bruxa há tempo o bastante para saber que ela era sim capaz de amaldiçoar qualquer pessoa, principalmente se estava tão cheia de ressentimento. Mas não ia deixá-la estragar a vida por causa de um merda daqueles.
Segurei seus ombros com firmeza e a sacudi de leve, talvez assim a mulher caísse em si.
Que história de amaldiçoar o quê? Se tinha uma coisa que eu tinha aprendido durante anos seguindo uma filosofia budista, ainda que um pouco afastado, era que toda ação tinha uma reação e sabia que os deuses que a acreditava não iam deixá-la impune por amaldiçoar um idiota qualquer.
– Que amaldiçoar o quê, mulher? Calma aí e respira. Eu gosto dele TANTO quanto você nesse momento. – suspiramos. – Mas existe algo chamado carma e você sabe, toda ação tem uma reação. Sua Deusa mãe ia ficar muito furiosa vendo você gastar todo esse poder lindo para amaldiçoar um merdinha qualquer. Vai amaldiçoar ninguém, ok? – induzi sua resposta positiva com um aceno de cabeça, vendo um bico imenso nos lábios da minha amiga.
A repreendi com o olhar. Tínhamos um jeito próprio de nos comunicar por ele. suspirou se dando por vencida e finalmente consegui sorrir, aliviado por ter conseguido que ela mudasse de ideia. Ramanush rolou os olhos para mim, me deixando como única opção, beijar sua testa mostrando que eu estava ali para qualquer coisa.
– Ótimo! O que você vai fazer agora é... – enxuguei seu rosto com o polegar. – Empinar esse narizinho lindo e curtir a festa com a gente, beber, encher a cara, qualquer coisa. Beijar umas bocas! – dei de ombros como se a gente realmente estivesse no clima para aquilo e consegui uma risada, uma daquelas divertidas. – Se quiser beijar a minha, já que agora tá solteira, estou as ordens, viu?! – aproveitei o momento para fazer mais graça, embora nem tanto, conseguindo uma gargalhada mais do que espontânea.
– Você é um idiota! – Ramanush respirou fundo e um sorriso largo varou minhas bochechas quando minha amiga pulou, me abraçando pelo pescoço de surpresa. Envolvi-a com meus braços, sentindo aquela sensação gostosa de lar. – Eu te amo, . Obrigada por tudo!
– Também te amo, freak! E isso nunca, absolutamente nunca, vai mudar! – segurei sua cabeça com delicadeza, lhe dando um beijo carinhoso na testa. – Agora vamos fingir que esse merda nem existiu na sua vida. Vamos curtir, porque a Farewell Warped está só começando! – pisquei, arrancando o sorriso mais lindo do mundo dos lábios dela. – Vem comigo curtir essa aventura?
Estendi a mão aberta e fiquei feliz quando a não hesitou para agarrá-la com força.
– Com certeza, loser!



Eu tinha sim ficado frustrada ao ponto de querer me enfiar num quarto e só sair no outro dia, mas foi reconfortante ver me tirando daquele buraco fundo só com seus abrações e beijos na testa. Era visível o jeito que ele tratava todos os meus assuntos com cuidado, minhas crenças, meu jeito de fazer as coisas, minhas tatuagens, tudo!
Fomos abraçados até a van, onde todo mundo já se amontoava para entrar e pelo visto, eu ia ter que dar um jeito de botar o moleque filho do Charles para dentro da festa. Não me permiti chorar naquele momento depois do que tinha acontecido, não ia ficar remoendo um pé na bunda, quando eu tinha me conscientizado que precisava de coisa melhor. Não, eu não precisava de ninguém, precisava resgatar meu amor-próprio primeiro e viver aquela aventura com meus amigos, as pessoas que tinham me acolhido naquele mundo novo, Save e . Alô, Afrodite, estou chegando para trabalhar com você. Depois mais tarde repassaria na mente quais elementos eu precisaria para montar meu altar móvel.
Ninguém me perguntou nada, nem sobre o Leon, nem sobre eu estar saindo com eles ao invés de ir encontrar o cara. A única pessoa que tentou uma conversa séria comigo, enquanto o resto da equipe ria de qualquer brincadeira, foi o Eliot querendo saber como fazia para entrar na boate sem ser barrado pelo fato de ter 20 anos.
Jean sugeriu um ID falso – que eu, sinceramente, não sei de que buraco ele tiraria –.
mandou o amigo se foder – e eu concordei com ele –.
Franccie disse que era melhor Eliot voltar pro The Cosmopolitan, já que Charles, Terry e Leonor não iriam para festa – e olha, concordei com ela também –.
Hannah disse que ele não seria chutado fora da boate se não bebesse – olha, ela até tinha razão. Mas o moleque era um e está para cachaça, assim como eu também estou. Não ia rolar –.
Scott por outro lado, olhou para mim com uma expressão absurdamente óbvia e disse que era só usar o nome do moleque, ele entrava sem o menor problema – caramba, ele tinha razão! –. O sobrenome abria portas de um jeito que nunca tinha achado ser possível e se caso não abrisse, eu tentaria colocá-lo para dentro pela porta dos fundos, conhecia alguns seguranças camaradas.
Que ele não fizesse merda, ou Theresa arrancaria minha cabeça.
Soltei uma risada com a conversa leve que pairava ali e de uma coisa tive certeza – além de que Scott concordaria comigo – só estava faltando Save para festa ficar ainda melhor. Mandei uma mensagem para ela.
Save
visto por último hoje às 21:35

Sinto sua falta! Você tá perdendo Vegas, babe

Amanhã chego para te tirar desse mar de testosterona! ;)

Acho que fiquei perto demais deles e fui afetada.

AGUENTA FIRME! Você tá bem?

Melhor agora que tô falando com vc 😏

AAAAAH NÃO! Perdi uma guerreira

Ri tão alto que interrompeu até a conversa. Todo mundo olhou para mim.
– Desculpa! – tapei a boca, voltando a tela do meu celular e decidindo que não contaria sobre o Leon por enquanto. Ele não merecia essa atenção toda e eu não queria chorar ao lembrar daquele pé na bunda.
Save
visto por último hoje às 21:35

KKKKKK TAPADA! Mas sério! Preciso mesmo de você aqui!

prometo que estou a caminho, irmãzinha!

Era bom sentir a família perto, meu lar, minha casa. Nós tínhamos crescido nos últimos 15 anos como irmãs e eu não acabaria com aquela relação por nada nesse mundo.

-x-

Inferno. Aquela noite só poderia se resumir em inferno. Se a quantidade de álcool que eu tinha ingerido não havia me feito ficar bêbada, nada mais faria. O ruim de estar sóbria? Ter que literalmente cuidar de cinco marmanjos bêbados, incluindo um de menor idade para beber, que não mediam o tamanho e nem as consequências do perigo de estar em uma boate, com uma mesa cheia de “fãs”, groupies, na verdade. E foi por aquele motivo que saí enfiando camisinha no bolso de todo mundo, por mais que não fosse minha obrigação. Eu gostava demais deles para não me preocupar.
Definitivamente, eu odiava estar sóbria! Pensando bem, também odiava estar decepcionada com Leon, odiava ter levado um fora, odiava não ser a dona ou controladora da situação e odiava meu corpo por não se afogar na quantidade de álcool que tinha bebido. É... estar sóbria era o grande problema ali!
Levantei do banco compartilhado, determinada a conseguir algo que a fizesse perder os sentidos, de tão forte. Passei por entre os palhaços que aproveitavam da área VIP e me recostei ao balcão do mesmo andar, esperando que o barman bonitinho viesse atender. Batuquei os dedos no tampo de acrílico brilhante, enquanto o rapaz não vinha e observei o que acontecia ao seu redor, tirando a conclusão de que estava em uma Warped de Luxo, simplesmente por ver todas as bandas que convivia diariamente por ali.
– Moça?
Virei, assustada pela surpresa da voz.
– Eu quero o que você tem de mais forte aí! Estou a fim de perder os sentidos hoje! – o pedido saiu um pouco imprudente, confesso, mas estava pouco ligando. Pelo visto o barman também já que ele soltou uma risada divertida, provavelmente já tinha uma ideia do que me dar para beber.
– Tem certeza? – ele piscou para mim. Era um flerte? Ai, meu Deus, ele estava flertando comigo? Uau, , isso é... socorro!
Lhe lancei um sorriso bonito.
– Absoluta! Já bebi de tudo, embebedei cinco homens enormes e ainda consigo sentir o gosto do chifre na testa! – abri um sorriso amargo demais para o rapaz que se apresentou por Julius. – Preciso de algo que derrube decepção e, se possível, me derrube junto!
– Saindo um derruba decepção! – ele soltou, animado, e começou preparar o drink com mais bebidas do que eu achava possível, já tinha tomado uma dose de possivelmente cada uma delas, mas não tinha imaginado que todas juntas pudessem finalmente fazer efeito. Recebi a bebida escura com empolgação e agradeci mais uma vez ao meu provedor.
Minutos depois me entreguei a pista de dança da área VIP, saboreando aquele drink do que inferno que, com certeza, deveria ter ao menos uma gota de absinto dentro. Ele era agridoce no começo e depois da primeira golada tinha um leve gosto amargo que arranhava a garganta, era delicioso, mas sem deixar de mostrar a porcentagem de álcool que tinha ali. Era forte, indiscutivelmente era forte e quem sabe seria minha saída aquela noite!
Se a Lyman me visse bebendo aquilo, iria gritar até perder a voz. E com razão!
Me juntei a um grupo de pessoas que dançava e sacudi a cabeça no ritmo do remix que tocava, sentindo a sensação de tontura tomar conta dos meus olhos, ou aquele negócio era muito bom, ou tudo que tinha bebido já começava a pegar. Soltei uma risada deliciosamente satisfeita, sentindo o corpo ficar levinho, a cintura mais mole, a cabeça confusa. Meu equilíbrio estava indo embora e a única coisa que eu conseguia era rir com a situação.
Certificado de bêbada!
Aquela música me lembrava tanta coisa. Era um misto do que eu tinha aprendido a gostar de ouvir quando morava com meus pais, era uma loucura no peito ouvir aquele ritmo de novo e talvez fosse a mãe Lua me dando um sinal de que eu deveria procurá-los novamente. Sacudi a cabeça para não pensar naquilo enquanto estivesse bêbada e senti o ritmo indiano possuir minhas origens ciganas. De repente lembrei de todas as danças que aprendi antes que completasse meus 15 anos e comecei balançar meu quadril para lá e para cá, como se tivesse uma correntinha de medalhas em volta dele. Era como uma dança do ventre meio bêbada.
Soltei uma gargalhada inexplicável antes de sentir que um corpo maior e mais volumoso que o meu se aproximava por trás, querendo dançar junto. Ele – eu acho que era ele, porque não olhei para trás – tocou na lateral da minha cintura muito delicadamente e depois da permissão concedida, soltou um risinho rouco que me deixou arrepiada, senti sua mão enorme deslizar por meu abdome. O homem tinha encaixado o corpo no meu e começado seguir o ritmo que eu dançava. Que safado!
Sabe a merda? Eu poderia muito bem me livrar daquele abusado, mas era gostoso demais estar sendo desejada daquela forma depois de tanto tempo, então não conseguia pensar em um bom motivo para mandar o cara se afastar. Talvez fosse um bom motivo para tentar conhecê-lo. A imagem embaralhada do braço esquerdo dele me abraçando, revelava algumas tatuagens que começavam do pulso e provavelmente seguiam por todo o braço, o perfume também era extremamente familiar, mas o esfregado discreto do quadril me tirava da pouca consciência que ainda restava. Depois eu pensava se conhecia aquele safado!
– Queria ter outro elogio na língua, mas minha cabeça bêbada só consegue processar o quanto sua bunda é bonita. – a voz saiu bem ao pé do meu ouvido, parecia rouca por esforço, embora fosse deliciosa mesmo assim. Arrepiei inteira com o tom obsceno dele.
– Sendo assim, eu agradeço! – aceitei o elogio de bom grado, esfregando meu corpo um pouco mais no dele e senti o suspiro desesperado atingir meu pescoço.
A mão se abriu em meu abdome e timidamente, rebolamos juntos ao som de qualquer batida sem noção que fazia as pessoas gritarem. Que merda, , por que você estava gostando tanto de se esfregar em um desconhecido? Um beijo sem permissão aconteceu bem ao pé do meu ouvido. Arrepiei dos pés à cabeça, mais uma vez, só que dessa vez satisfeita.
Há quanto tempo eu não recebia algo do tipo?
– O que era isso que você estava dançando? – ele enfiou o nariz em meu pescoço, aspirando com força meu perfume e joguei a cabeça para trás, apoiando a nuca em seu ombro. Ele tinha o cabelo escuro, foi o que consegui identificar pela penumbra da boate. Por que as luzes estavam apagadas?
– Uma variação cigana de dança do ventre. – soltei a verdade enquanto sentia a ponta da língua dele passear por minha pele e me deixar em chamas. Será que iriamos acabar transando em algum lugar? Maybe fosse o álcool, ou talvez a dança, quem sabe o beijo também.
– É muito sensual. – a voz vibrou contra meu pescoço. Me parecia tão familiar. – Confesso que é excitante pensar em você dançando ela completa... – o sussurro vagabundo me deixou ainda mais acesa.
Eu não podia transar com ninguém bêbada daquele jeito. ia me matar se eu me arriscasse, do mesmo jeito que eu o mataria se ele fizesse o mesmo.
– Sinto muito, mas vou ficar te devendo essa! – mordi os lábios.
Ia ao menos aproveitar nossa dança gostosa e sensual. Aquilo continuou por mais alguns minutos e entre beijos no pescoço, contato de quadril e algumas puxadas no cabelo dele sem um contato realmente visual. O rapaz precisou ir, se despedindo com um beijo sugado no meu pescoço. Respirei fundo e decidi que era hora de voltar para mesa onde o pessoal estava, talvez o clima para mim melhorasse depois de já estar bêbada.



PALCO QUATRO

Las Vegas, NV


Odiava ressaca. Odiava ter dor de cabeça no meio de uma turnê. Odiava ficar chata porque não tinha dormido direito. Odiava uma porrada de coisas relacionadas aos porres que eu já tinha tomado na vida, mas o do dia anterior parecia realmente necessário, por mais que minha cabeça latejasse. A banda em peso ainda dormia dentro do ônibus quando chegamos ao parque e nós do crew, fomos resolver o que estava pendente para o maior show em estrutura que aconteceria mais tarde.
Conseguiríamos atirar o baixo do , jogar as bolas infláveis e muito provavelmente, fazer um feat com o Charles no palco. Aquilo me lembrou que o filho mais velho dele estava capotado dentro do meu ônibus, Theresa iria matar o e eu aplaudiria de pé.
Tomei mais um gole do meu café quente, rindo com as histórias mais sem noção do Harry sobre o que já tinha fotografado na estrada, mais precisamente dentro do nosso ônibus de turnê e as palhaçadas dos meus meninos, que envolviam se cobrindo só com o baixo – há uns 5 anos –, Jean bêbado com a careca pintada de preto e todos os porres do Scott. Nosso fotógrafo também tinha cliques lindos de todos nós e confesso que as fotos em que eu era o foco da sua lente, eram as minhas preferidas.
Um pouco depois levantei para organizar os shows daquele dia e mandei mensagem para minha melhor amiga, perguntando que horas ela chegaria. Scott também tinha feito isso a manhã toda, então tratamos de trabalhar.
Estava quase terminando de recolher as coisas em cima da mesa quando senti um corpo me abraçar com força pelas costas. Não era grande, provocante ou gostoso; era esguio, magrelo e amoroso. Virei de uma vez e quase tive um treco no coração ao ver minha irmã com um sorriso gigantesco me encarando, não contei conversa e agarrei seu corpo em um abraço de quebrar os ossos.
– FINALMENTE VOCÊ CHEGOU! – gritei e Save me abraçou com ainda mais força. Eu nem conseguia explicar o quanto amava aquela doida.
– Eu não ia perder sua última Warped! Nem por todo dinheiro do mundo, nós prometemos que iriamos curtir juntos, lembra? – minha melhor amiga, que era como uma irmã, me sacudiu e nós duas rimos. – Cadê os patetões? – apertei-a em mais um abraço, não acreditava que ela estava mesmo ali.
Há uns meses, no meio de uma bebedeira lá em nosso apartamento, entre nós duas, e Scott, prometemos curtir aquela turnê como a última de verdade, afinal tinha sido ali que havíamos nos conhecido. Todos nós.
– Estão espalhados por aí. Já viu seu pai? – sacudi seus ombros de leve e minha amiga negou com uma ceno.
– Ainda não vi papai, mas ele estava louco me ligando a cada 10 minutos. – nós duas rimos. Kevin Lyman era bem conhecido por seu cuidado e proteção.
Abracei Save de lado e a levei comigo na direção em que o ônibus do Kevin estava, lá era como uma casa, as vezes quartel general e ainda servia como sala de reuniões para todas as pendencias monstruosas da Warped. O motor home era realmente incrível!
Naquele dia mesmo Savannah teria a maior surpresa do mundo e eu estava cheia de orgulho pela decisão do pai, afinal tinha sugerido e o ajudado a organizar tudo para a passagem do bastão. Isso mesmo, Savannah Lyman, a produtora musical mais incrível e responsável do mundo, comandaria a última Warped Tour. Claro que com o pai e toda a equipe ao seu lado.
Eu estava sufocando de tanta vontade de abrir minha boca e contar tudo a ela, mas tinha prometido ao pai que guardaria segredo.
– Como vai a produção dos moleques? – perguntei sobre a nova banda que Save estava coproduzindo, o Why Don’t We. Eles tinham saído de um estilo padrão boyband e segundo minha amiga, estavam em busca de uma nova era, que incluía muita identidade.
– INSANO! – Savannah soltou um gritinho eufórico, me fazendo ver mais uma vez como ela amava o que fazia e aquele era um dos motivos pelo qual minha amiga e Scott Lachini davam tão certo. Os dois produziam música como ninguém. – Eles são muito bons e estão sendo a peça principal na produção do disco novo. Já gravamos todos os vocais das músicas e eu as trouxe cruas para você dar uma olhada. – olhei para minha amiga cheia de expectativas quando já caminhávamos para o quartel general.
– Eu sinceramente estou ansiosa demais para ouvir. – apertei seu braço enlaçado ao meu.
Minha amiga me olhou com aquela cara, a expressão curiosa e especulativa sobre a noite anterior, quando eu tinha lhe mandado várias mensagens. Pelo que eu conhecia Savannah, ela tinha duas perguntas bem pertinentes, uma delas era sobre eu ter me resolvido com Leon, por mais que ela não gostasse dele, a outra era sobre se eu tinha aproveitado a festa em Vegas.
Suspirei, exausta, além de , ninguém mais sabia daquilo.
– Ele me deu um pé na bunda e ainda insinuou que eu saía com algum dos meninos. – nós duas sabíamos bem qual era a pedra que Leon cantava sobre aquilo. Save me abraçou com força, passando conformação e carinho, nós duas sabíamos que ela queria estar comigo na noite de ontem.
– Nessas horas eu queria muito saber matar alguém só com a força do ódio. – ela bufou, indignada e eu não tirava sua razão, tinha sido uma sacanagem daquelas comigo. – Você contou ao ?
– Impossível não contar. – grunhi, frustrada. – me conhece bem demais para saber quando tudo está acontecendo e ele acabou me consolando.
Savannah me abraçou mais uma vez e retribuí o gesto de carinho. Nós três, eu, ela e tínhamos uma ligação legal e os dois eram minha família dentro daquele país louco que era os Estados Unidos.
– Fico feliz que ele estava aqui. – ela foi sincera e sorri, agradecida. – Mas me conta, ficou amuada pelos cantos ou foi para festa com a banda? – a expectativa na minha amiga era tão engraçada que soltei uma risada.
– Você acha que vou ficar sofrendo por macho, enfurnada num quarto? – tentei ser presunçosa o bastante, mas saiu tão ressentido que rimos juntas. – Fui sofrer enchendo a cara, colocando um menor para dentro de uma boate e me esfregando em desconhecidos. – soltei a última opção como se fosse irrelevante e o queixo da minha melhor amiga quase foi ao chão.
– COMO ASSIM, RAMANUSH? – o grito dela foi a melhor coisa daquele dia, por mais que fizesse minha cabeça latejar. Fiz uma carinha sapeca que instigou ainda mais a curiosidade da minha irmã de alma. – Me conta logo, mulher! Afogou as mágoas beijando outra boca?
– Calma que assim também não! – arregalei de leve os olhos. – Não beijei ninguém, mas amiga, dancei com um desconhecido... PELA LUA! Que homem, minha Deusa!
– VOCÊ TÁ BRINCANDO? E não beijou o cara?
Parecíamos duas mariquinhas fofocando sobre minha festa que tinha saído melhor que o esperado. Ao longo da caminhada, encontramos alguns conhecidos e a maioria deles, eram de bandas.
– Eu nem vi a cara dele, sua louca! Fala baixo que ninguém sabe disso. – sussurrei e belisquei o braço de Save, queria que ela parasse de escândalo. Ela me olhou cheia de expectativa e soltei minha versão fofoqueira. – Eu estava dançando e ele chegou por trás, pediu permissão com um toque na cintura e me abraçou depois. Beijou meu pescoço e conversamos bem pouco, mas socorro, Save, eu achei que iria pegar fogo! Combustão Boooooom!
– Ai, meu Deus! Que delícia. – nos sacudimos, histéricas. – Qual o nome dele? Ou alguma coisa que possa identificar esse homem, . Será que ele é o cigano que a sua avó falou?
Aquela pergunta da Savannah me tirou o chão e os sentidos. Tudo parecia longe demais enquanto eu tentava processar o que estava acontecendo na minha vida. O término catastrófico com Leon, o cara na boate que fizera meu corpo entrar em chamas, minha idade atual. Infelizmente tudo batia bem demais com todos os sonhos da vovó e isso significava que eu precisaria fazer as pazes com meu passado o quanto antes. Só vó Aurora poderia me dizer se era verdade e para isso, eu precisaria encontrá-la.
O grande problema? Era esse, encontrar o acampamento no meio do continente americano.
– Eu não sei. – enfiei os dedos entre os cabelos e refiz o rabo de cavalo. – Foi rápido demais, Save, só consegui sentir o perfume que me parecia familiar, por mais que eu estivesse muito bêbada e vi que ele tinha uma tatuagem no punho.
– Onde você o achou? Praticamente todo cara dentro desse festival tem tatuagem no braço. – bufamos.
– Na pista superior, onde estavam todos os caras que a gente vê diariamente por aqui. – puxei-a com mais rapidez para porta do ônibus do pai. – Na parte VIP, das bandas consagradas.
– Veja pelo lado bom, menos caras para você tentar encontrar. – a safada da minha amiga deu de ombros e a empurrei logo dentro do ônibus, que estava quase cheio, por sinal. Além do crew principal junto com o Kevin, Scott e também estavam ali. Sorri para os dois, cheia de expectativa.
Savannah deu uma corridinha e sem demoras se chocou contra os braços do guitarrista da minha banda, ganhando vários beijos na testa do homem apaixonado. Me perguntava compulsivamente por qual motivo eles não assumiam logo aquele relacionamento, principalmente quando saíam em dates no tempo livre, os vários beijos que eu e já tínhamos presenciado, fora as inúmeras vezes que encontrei Scott só de cueca na nossa cozinha. Por que ser tão complicados?
Bom, ao menos ela não percebeu que todo mundo estava ali para presenciar algo importante. O próximo a receber os abraços fortes da Save tinha sido o pai, ela quase pulou com tudo no colo do velho como se tivesse cinco anos e o homem soltou uma risada tão divertida e animada. Kate, mãe dela e a minha do coração, estava bem ao lado e recebeu o aperto com a mesma intensidade.
– Encomenda entregue, capitão! – andei na direção da minha família quando Savannah cumprimentava e a equipe de apoio com abraços breves. Kevin segurou minha mão e me puxou para um abraço de lado, me olhando ansiosíssimo para dar logo a notícia. Confesso que também estava uma pilha de nervos pela reação dela, aquela seria a Warped comandada por uma mulher, uma mulher e tanto.
– Bom, já que estamos todos aqui no quartel general móvel. – rimos com as brincadeiras do pai. – Tenho um anúncio importante a fazer. – ele respirou fundo e abraçou Save do outro lado, mostrando nós duas como suas duas sucessoras. Ela parecia confusa com a conversa e prendi uma risada.
– Vou aproveitar que minha família está aqui... – ele tropeou as palavras. – Para dizer que estou me aposentando.
Funguei.
– Então quer dizer que é seu último festival? – Save o abraçou com força, beijando a bochecha do pai e ganhou um beijo na cabeça.
– Não, querida, quer dizer que esse é meu último dia de festival. – o homem abriu um sorriso largo demais, um daqueles imensos capazes de fazer o coração ficar quentinho e batendo forte. – A partir de hoje, a Farewell Warped estará sob nova direção. Estou velho, cansado demais e esse festival ficou grande demais para mim, ele é meu terceiro filho depois de vocês duas e... – ele engoliu seco. Eu me odiava por chorar também, mas esfreguei os olhos. – Agradeço a todos vocês por esses anos realizando os sonhos de tanta gente. Esses dois moleques são a prova viva disso. – ele apontou para e Scott, os dois riram baixo, mas com uma expressão triste. O crew principal estava imerso em tanto orgulho do Kevin, até a Kate estava com aquele olhar maravilhoso, só Save estava confusa. – Então depois de tanto conversar com a , nossa maior especialista em Warperd tour – eles soltaram uma risada e eu também – chegamos a uma conclusão sobre quem deve seguir com a última tour do legado.
Aquilo era tão doloroso de ouvir, a última Warped Tour do legado.
– Savannah Lyman, a última Warped Tour é toda sua! – estiquei as mãos para minha amiga e pude ver a surpresa estampada em seu rosto. O grito veio logo depois, assim que fomos abraçadas em um aperto paternal emocionado, o pai beijava nossa cabeça repetidamente, engolindo seco o choro que queria vir. – E se você pedir, eu largo essa marmanjada toda e te ajudo! – abri um sorriso solicito. Save me abraçou pelo pescoço e a esmaguei também.
– Eu sei que eles precisam mais de você do que eu. – nós rimos. – Não dá para deixar a creche sozinha, ou eles tacam fogo no ônibus.
As gargalhadas vieram, junto com as felicitações da equipe braço direito da Save. Kevin não iria largar tudo de vez, só não estaria mais no comando, mas seria o braço direito da filha ajudando no que fosse necessário. Eu estava extremamente orgulhosa da minha irmã e sabia que ela faria daquela última Tour, uma das mais importantes do legado, seria a Warped das Divas, a que exaltaria todas as mulheres e LGBTQIA+ que faziam da música pop punk, um mundo mais igualitário.



Ah, Vegas. Vegas e suas surpresas, ainda estava encucado para saber quem era a mulher tão cheirosa que eu tinha dançado noite passada, não tive qualquer oportunidade de ver seu rosto, mas ela tinha um movimento envolvente demais com a cintura, além da risada gostosa. Estava bêbado? Estava até demais, porém não dava para esquecer o jeito que nossos corpos se encaixaram naquela dança.
Mas nem só de diversão vivia o homem da música e o nosso backstage já estava cheio, além de que o orgulho me inundava toda vez que eu olhava para Savannah, sabendo que ela seria uma líder e tanto na última turnê. Scott estava brilhando ao lado dela, cheio de bonitos sorrisos orgulhosos, ficava feliz que meu amigo tinha encontrado o amor da sua vida. Nós sempre apoiamos muito o relacionamento dos dois, inclusive o pai dela, que tinha acabado de chamá-lo de genro no backstage.
Prendi a risada com a brincadeira do velho Kevin, ou acabaria virando alvo dele também.
– ESTÃO PRONTOS? – nossa gerente de turnê gritou do fundo do backstage, estava conferindo as bolas infláveis.
Gritamos afirmativamente e em coro. Afinados, eu diria.
Mais uma vez a energia entrava pelos meus poros e eu plantava bananeira perto de uma das paredes. De ponta cabeça, eu via Save abraçando meu amigo pelas costas, enquanto recebia carinho nos braços ao redor da cintura do guitarrista; Franccie rodava as baquetas nas mãos e balbuciava uma oração só dela, trabalhávamos juntos há mais de 15 anos e seus rituais eram os mesmos; e Jean estava concentrado na guitarra como se repassasse todas as notas do show em movimentos leves de dedos.
– UM MINUTO! – gritou novamente e voltei meus pés ao chão, saindo da posição de yoga. – Só lembrando: As baquetas da Franccie estão do lado esquerdo da bateria. Colocamos uma palheta a mais pro Jean no suporte do microfone e trocamos o pedal do equipamento de chão. – entrou diretamente no nosso campo de visão, enquanto afirmávamos sobre os avisos dela. – Scott, as guitarras da troca vão ficar bem ao seu lado direito, então é só sinalizar pro Macon. – a mulher indicou o homem empurrando o suporte com as guitarras e ao longe, vi toda a minha família entrar no backstage, sendo inevitável abrir um sorriso largo pelo sentimento bom de apoio que eu sempre tinha antes dos shows. – ?
– Ai caralho! – gritei do susto, minha equipe inteira riu. – O que foi? – eu estava perdido olhando para cara da minha gerente de turnê. Um adendo: que mulher bonita do caralho era aquela? Porra!
– O ponto tá no lugar?
– Não acredito que você tá me cobrando isso, cara. – soltei uma risada divertida, que se completou a dela e estiquei um braço para receber um abraço apertado da Len. Minha sobrinha caçula beijou minha bochecha e cumprimentou todo o pessoal, sendo saudada de volta.
Abracei minha família em gratidão e assim que recebemos o comando da , invadimos o palco para o primeiro show daquele dia em Vegas. Um que iria ser mais do que especial, pois marcava a passagem de bastão para o comando da Warped.
– E AÍ, VEGAS! – cumprimentei minha plateia que foi à loucura. Nossa programação seria diferente àquele dia, já que geralmente entravamos com Heartbeat na ponta da língua. – Hoje vamos começar diferente, então uma salva de palmas para Save Lyman! – mostrei nossa nova chefe que entrava no palco correndo com um microfone na mão, acenando para o público que a recebia com palmas.
Savannah declarou que havia recebido a gerência do festival, sempre com o Kevin ao seu lado. A produtora musical prometeu que faria daquela, a turnê que botaria a mulher como principal figura no mundo da música e preciso confessar que nossas fãs foram a loucura. Franccie fez um solo bateria surreal e e Hannah gritaram em resposta, uma na lateral do palco e a outra pelo fone de apoio da mesa de som. Nossa banda tinha mulheres incríveis e eu era extremamente grato por elas.
Eu, Scott e Jean, fizemos uma referência real as três e mais gritos foram ouvidos. Save agradeceu o espaço e autorizou que começássemos o show foda da nova era.
-x-

Vi sair do ônibus com uma garrafinha de vidro com água e a caixinha dela de madeira com todas as coisas necessárias para fazer os feitiços. Já tinha visto aquela caixa tantas vezes que sabia exatamente a disposição das coisas arrumadas ali, ela tinha vários compartimentos e gavetas escondidas. Na verdade, não era uma caixa pequena, era feita de madeira nobre, escura e resistente, por dentro era forrada com veludo azul royal – sua cor preferida – e na tampa, por dentro, vários cordões para que ela pudesse prender os bastões feitos com várias ervas enroladas, que ela me explicou serem incensos.
Por fora, a madeira era gravada com várias insígnias entalhadas, os sigilos* como a chamava. Toda vez que ela fazia um sigilo permanente novo, riscava na tampa com algo pontiagudo e depois pintava os sulcos com tinta dourada. Eu havia lhe dado aquela caixa no aniversário de 30 anos e nunca tinha visto-a tão emocionada em toda a minha vida.
Automaticamente olhei pro céu e vi a lua cheia, brilhante, poderosa e linda brilhar, roubando toda a cena. Estrela nenhuma se atrevia a tentar brilhar perto dela e por um segundo, fiz aquela analogia colocando minha amiga como a Lua. Ninguém conseguia brilhar naturalmente, tanto quanto ela.
Aquele era dia de feitiço. Dia do ritual da Lua Cheia, na verdade e a julgar pela garrafa, aposto que ela ia fazer água da lua. Eu sabia tanto sobre bruxaria por causa da , que era quase um bruxo. Pulei da cadeira que eu estava sentado depois de um show pesado e corri na direção do ônibus, peguei meu violão e a procurei entre os ônibus que estavam estacionados por ali, encontrando a mulher concentrada enquanto arrumava o altar para sua Deusa mãe, Nyx, organizando os pertences com um jeitinho que era só dela.
– Vai fazer feitiço e não me chamou, mulher? – eu fingi mágoa e ouvi a gargalhada gostosa dela.
usava uma saia longa, toda estampada e que parecia demais com as vestimentas do povo cigano. Sim, aqueles ciganos que viajavam em carroças, ao menos foi assim que aprendi no colégio. Ela usava saia quando ia dançar para lua e me disse que quando estava em casa, dançava sem roupa, mas eu nunca tinha visto. Infelizmente!
– Vai de saia dessa vez?
– Idiota! – rolou os olhos e prendi a risada. – Já expliquei que dançar para Lua é uma forma de autoconhecimento e de explorar nossa feminilidade. Então ou se dança de saia, ou nua. Práticas da bruxaria antiga, sua cabeça tarada não vai entender. – soltei uma risada, colocando o violão encostado a lataria do ônibus, em cima da alça.
– Assim você me magoa. – fiz um biquinho enquanto a ajudava acender os lampiões. Era o melhor jeito de as velas não apagarem durante o ritual, ao menos no meio do nada. – Você já falou com o Larry?
– Sim! A gente sai as 4 da manhã, então eu consigo coletar a água antes que o sol nasça. – Ramanush sorriu, empolgada e sorri junto. Era cedo quando a Lua subiu no céu, então a gente também iria ter tempo de curtir a festa de comemoração sobre a Save ter assumido a direção do festival.
– E aí? Vamos finalmente curtir o festival como sempre sonhamos?
Não precisou muito para que ela me olhasse com um sorriso imenso, surreal e de quem estava para jogo. Desde bem mais novos, combinamos que um dia, curtiríamos a Warped tocando o terror e passando o rodo. Nunca tinha dado certo, porque no ano que eu estava namorando, ela estava solteira e vice e versa. Talvez aquela fosse a nossa chance.
– Finalmente! – ela me olhou com um sorriso largo, terminando de organizar o altar para Lua. – Vai tocar para mim? – soltou um gritinho estridente ao apontar para o violão e me impedi de soltar uma piadinha sexual, ou ia acabar com um lampião enfiado em lugares nada agradáveis.
– Toda hora! – agarrei o braço do meu companheiro de vida, viagens, amores.
Ela encheu os pulmões de ar em uma demonstração maravilhosa de que o poder da luz também lhe tomava, aquele era um momento que ela mais se despia de todos os estereótipos, era só minha melhor amiga que tinha os melhores conselhos, sorrisos e abraços. Não sei exatamente o porquê, mas ela gostava de dançar ao som de algo que parecia flamenco, não só tinha me ensinado tocar aquilo, como também havia me contado toda a história do ritmo, então sempre que eu podia, retribuía tocando violão nos seus rituais para Lua. Era mágico, surreal e poderoso até para mim, foi onde passei a acreditar que também era influenciado pela Lua. Eu sabia disso, pois sempre ao fim dos rituais eu terminava música suado, de alma lava e sem saber como tinha entoado as cordas tão rápido.
Aquele dia não foi diferente, pareceu até mais intenso e só dava para definir a energia com um palavrão. Era uma intensidade tão absurda que eu não conseguia tirar os olhos dela, enquanto esquecia do mundo ao seu redor e dançava.
Foi ali que eu percebi algo apavorante e intrigante, ao mesmo tempo que fez meu coração aliviar por não ter me metido em encrenca. Foi vendo-a movimentar o quadril daquele jeito que tomei consciência. Eu havia dançado com ela na noite passada.


*Sigilos são representações não-óbvias de um desejo, que podem ser usadas magicamente para fazer com que esses desejos se realizem, podem ser permanentes ou temporárias


PALCO CINCO

Las Vegas, NV


Fazia tempo que não me divertia daquele jeito em turnê. Depois do nosso ritual em comemoração à amizade com o famoso “Arriba, abajo, al centro e al dentro” e uma boa dose de tequila, começamos realmente a festa. Nosso – literalmente – casal de amigos passou a festa num grude sem fim, dando beijinhos e abraços que eram gatilho para qualquer solteiro carente. Mais uma dose de tequila para dentro e eu e fizemos uma aposta fodida sobre quem beijaria uma boca primeiro aquela noite.
Bom, eu acho que fui eu, porque depois de ser claramente cantada por Ethan, o engenheiro de som de uma banda amiga nossa, saí com ele para um lugar mais calmo. Confesso que o sexo tinha sido maravilhosamente renovador, eu oficialmente estava na pista de novo. Entre meus suspiros contentes e o retorno para a tenda que ainda rolava música e álcool, trombei em alguém derrubando sua bebida.
Já estava meio bêbada para controlar minha boca, por isso acabei soltando um xingamento em romani, meu idioma de berço. Uma sensação gostosa de pertencimento me preencheu após a pronúncia e ali me dei conta que “caramba, eu ainda era uma roma!”; para minha surpresa, o homem que eu tinha trombado, também. Ele respondeu com a mesma língua antiga e o sotaque perfeito que fez meus ossos tremerem. Levantei a cabeça de uma vez.
Rick era cigano? QUÊ?
Rick era gerente de turnê do Addicted To You, mas nunca imaginara que ele fosse filho da lua assim como eu era, nunca tinha prestado atenção em toda a sua presença, as feições e características tipicamente ciganas. Parecia que eu havia passado anos da minha vida com uma trava nos olhos e só quando me permiti ser cigana novamente, conseguia ver o que estava a um palmo do meu nariz.
Optcha*, ? – o homem fez uma careta que se misturava a um sorriso curioso. Acabei fazendo o mesmo e soltei uma gargalhada.
Optcha! – gritei com meu sotaque francês e nos abraçamos calorosamente. Rick beijou minhas bochechas e rimos mais uma vez. – Santa Sara Kali*! Achei que você fosse um gadjo*.
– Você sabe que essa é sempre a ideia. – ele piscou e soltou uma risada. – A gente se mistura com os gadjos, mas não imaginava que você fosse cigana, mulher. Qual grupo?
Enchi os pulmões de ar para tentar fazer meu cérebro funcionar corretamente.
– Sou Rom também! Mas nasci em algum lugar entre Canadá e Estados Unidos. – soltei uma risada e apertei de leve o braço que ele tinha me oferecido. – Na verdade, acho que agora não sou de lugar nenhum, você sabe como as coisas são mais difíceis para mulheres livres.
– Não são mais assim, bela roma. – estreitei os olhos para ele com o elogio e meu amigo riu. – As coisas estão mudando, .
– Eu espero muito que sim! – sorri, comedida. – E você, Rick, de qual grupo veio?
Ele abriu um sorriso tão orgulhoso que me bateu uma vontade enorme de me sentir daquele jeito de novo sobre as minhas origens, mas acho que aquele sentimento voltaria aos poucos.
– Também sou Rom, mas minha família é Argentina, somos Albano. Eu nasci no Brasil e moro lá desde então. – ele abriu um sorriso tão imenso que eu soube, Rick tinha alguém lhe esperando em casa.
– Você é casado! – soltei um gritinho, animado.
– Noivo! – ele parecia ainda mais radiante. – Ela tem 25 anos, , é a mulher mais incrível do mundo. Minha roma. – só uma mulher para fazer um homem daquele tamanho suspirar todo abestalhado. – Estamos noivos há três anos, o pai dela é daqueles turrões das antigas tradições. Mas você me conhece e sabe que não acredito nesse machismo desenfreado e o sonho dela era estudar, mulher. Não ia negar isso, Santa Sara Kali. Disse que só me casaria assim que ela se formasse na faculdade. – ele deu de ombros como se aquilo não fosse muita coisa e o quis sacudir.
Era muito bom ver como o cenário estava mudando para o lado feminino da situação e que muito provavelmente, seria mais fácil voltar para casa depois de 15 anos. O resto da festa foi pequena para o tanto que conversamos sobre nossas origens, me deixando ainda mais certa de que eu precisava voltar a ser quem eu era.


*Saudação em Romani: Salve!
*Santa protetora e padroeira do povo cigano
*Homem não-cigano



Denver, CO


Estar em turnê com a melhor amiga era a coisa mais insana que me acontecia desde que eu havia conhecido Save. Nossa vida fora compartilhada ali e ela sabia mais sobre a minha vida do que qualquer outra pessoa, inclusive por qual motivo eu tinha fugido de casa. Quem era minha família e a qual cultura eu pertencia.
Naquele exato momento, eu fugia da minha banda pentelha e ela, dos problemas sobre comandar o festival. Tínhamos saído para almoçar juntas em um restaurante vegano ali perto, sem avisar a ninguém. Ou seja, quem quisesse, que nos achasse.
– Até agora nada? – Savannah molhou a batata dela na minha maionese de tofu e dei um tapa em sua mão.
Não sabia se ela falava sobre o cara da boate, ou sobre o cigano do sonho da vovó. Talvez sobre os dois, se os dois caras fossem a mesma pessoa.
– Pior que não. – suspirei, exausta.
Tinha passado um bom tempo inerte a toda essa carga cultural que me envolvia. Nos últimos anos eu tentava ignorar meu destino de encontrar esse cara, mas sempre acontecia algo para que meus namoros não durassem mais que meses, nunca cheguei a completar um ano completo de namoro e confesso, isso me incomodava pra caramba. Na festa da Save em Vegas, tinha ficado com um cara do crew do Dom Broco e juro que saí procurando sinais de que ele fosse cigano.
No fim das contas, descobri que outra pessoa – muito querida por mim – era cigana e fiz uma festa e tanto, estar em contato direto com um cigano me fazia sentir tão mais viva. Ricardo Albano, ou só Rick, era o gerente de turnê do Addicted To You e me senti tão tola por nunca ter percebido antes, que passamos a festa toda conversando sobre várias coisas. Depois corri para fofocar com a Save.
Mas não achava que ele fosse o meu cigano prometido. Era praticamente impossível achar alguém que todos os ancestrais tinham sido assassinados na segunda guerra mundial.
– Eu sinceramente cansei de tentar achar esse homem. – sacudi de leve a cabeça e bati o indicador na mesa.
– Será que não é o Rick? – Save mordeu a boca em expectativa e sei que estava tentando me animar quanto aquilo, porque ela estava tão sem esperança quanto eu e se apegar a ideia do primeiro cara cigano que achamos, era reconfortante.
– O Ricardo? – sacudi a cabeça negativamente. Mas ele tinha me contado sobre um grupo enorme de ciganos entre as equipes de apoio na Warped. – Ele é originalmente brasileiro e é Albano, não Baffermont. – bufei e só aí me dei conta que fora a primeira vez que falara aquele sobrenome em voz alta. O que vinha atormentando minha vida amorosa. – E ele tá noivo, amiga!
– O que exatamente a vó Aurora disse? – Save bebericou a água saborizada.
Tomei fôlego e abri um sorriso imenso, além de sentir meus olhos marejarem só em ter a cena tão clara em minhas memórias, era incrível como ela lembrava de exatamente tudo daquele dia. Todos os detalhes vívidos em sua mente como se tivesse acontecido há algumas horas.

✴✴✴

Eu estava muito animada para mais um dia de lições sobre leitura da sorte com a baba, ela tinha me contado que entre todas as suas netas, eu era a única com uma bruxa interior e seria a sua sucessora dentro da nossa comunidade. Eu era sensitiva tanto com pessoas, quanto com animais, além de sentir a energia da natureza sem precisar de muito esforço, então todos os dias, assim que eu terminava as tarefas de casa com minha mãe e assistia minhas aulas, eu ia para tenda da baba.
– Qual a lição de hoje, baba? – sentei em uma almofada aos seus pés, depois de beijá-la na bochecha.
– Vamos continuar com a leitura da sorte pela mão. – vovó me estendeu as mãos e lhe entreguei a minha.
Ela sempre contornava minhas linhas anatômicas e dizia o que elas significavam, me deixando ainda mais fascinada em como o misticismo e a astrologia explicavam tantas coisas. Respirei fundo, esperando pelo que ela iria falar aquele dia, mas vó Aurora estava imóvel, olhando para meu rosto de um jeito estranho enquanto circulava o polegar na palma da minha mão. Eu já tinha visto aquele tipo de coisa várias vezes quando Gadjos a procuravam para ler a sorte, era como se a baba tivesse visões mais claras sobre seus sonhos. Ela tinha o dom de ver em sonhos e tudo iria sendo costurado como uma longa colcha de retalhos.
– Seu destino não é aqui, querida. Eu já tinha visto isso várias vezes, mas não sabia que era você em meus sonhos. – ela respirou fundo, continuando: – Há um homem, alto, corpulento e com a marca da família Baffermont. É um cigano esquecido e escondido, ele é o seu destino e isso se completará em um quarto de 70 anos.

✴✴✴

– Então uma marca? – Savannah fez uma careta, confusa. – Mas que tipo de marca?
– Ela só disse uma marca de família. – suspirei ainda mais frustrada com aquelas profecias pela metade. Sacudi a cabeça e bebi o resto do meu suco de maçã.
– Quanto é um quarto de 70 anos, amiga?
Soltei uma risada alta pela cara confusa da Save.
– São 17 anos, Save. Eu fiz os cálculos para tentar entender melhor quando o tal cigano atravessaria meu caminho, mas é difícil demais imaginar que alguém, provavelmente morto, vai ser seu destino.
Ela ponderou com uma careta, mas concordava comigo.
– Um homem alto, de grande porte e que tem uma marca da família Baffermont. Juro que conheço os caras procurando uma pinta pelo corpo!
– Você é terrível, Ramanush! – mais uma risada que me fez relaxar diante daquela história. – Mais alguma coisa? Acho que temos opções. – Savannah era a salvadora da pátria, porque eu não conseguia imaginar homem nenhum com aquelas características.
– Baffermont era uma família importante na música cigana. – mordi a boca, pensativa. Meu nome tinha sido uma homenagem a maior cantora cigana de todos os tempos, Emeraude Baffermont. – Movimentaram e guiaram todo um grupo pela França, eram ricos e extremamente importantes. Era tipo a realeza. Então eu suponho que o tal cigano do meu destino ainda seja da música. – minha amiga acenou, convicta e mordeu a boca, parecia estudar melhor suas opções antes de me contar sobre elas. – Quem você vê com essas características? Um cigano alto, grande, com um sinal de família e que trabalhe com música.
– O .
Curta e grossa. Confesso que engasguei com a água que estava tomando. Como diabos ela tinha chegado aquela conclusão?
– Savannah, eu estou falando sério! – tossi quando consegui respirar de novo. Ela me olhava, séria.
– E eu também, amiga. – Save umedeceu os lábios. – Não exatamente O , mas essas características são dos irmãos e bom... – ela começou enumerar nos dedos, enquanto o medo começava a me consumir, porque infelizmente, eu tinha que concordar com ela. – Charles é casado com a Terry. Percy... acho que ele está com a Atena, né? – afirmei que mais ou menos, afinal eu nunca iria entender a relação daqueles dois. – O solteiro que me resta é o . E convenhamos, ele arrasta umas três asas Illyrianas* para você. – soltei uma gargalhada com as referências da Save. O que dizer? Éramos muito boas leitoras.
– Ele não é cigano, Savannah. – rolei os olhos. Era irritante o tanto que a minha amiga tentava achar um jeito de juntar nós dois seja lá como fosse.
– Ok, não tinha lembrado disso. Mas nunca vou parar de querer juntar vocês. Qual é? Vocês namoram, só não sabem. – eu odiava tanto quando minha melhor amiga tinha razão. Eu e tínhamos um relacionamento de cumplicidade e era quase como um namoro, mas fazíamos sacanagens com outras pessoas. Mordi a boca e percebi que algo ainda não encaixava.
– De onde tem marca de família?
– A tatuagem não é? – ela parecia realmente curiosa.
Save se referia a Clave de Sol que os 3 irmãos tinham tatuado pelo corpo, certa vez o havia me dito que era uma forma de representar a ligação de amor que os três tinham um pelo outro e com a música, por isso, resolveram tatuar a nota musical. A do meu melhor amigo era na diagonal do pescoço – sexy para caramba –, a do Charles era no peito, se não me engano no lado esquerdo – já o tinha visto sem camisa nas tendas, não me julguem –, e a do Percy era no antebraço, imensa como a dos irmãos. Três caras gostosos pra caramba e com uma tatuagem linda.
Até Leonor, filha do Charles, que estudava música, tinha uma na lateral do braço. E acho que Lohan, o pai deles, tinha uma nas costas.
– Não?! – respondi com a minha melhor cara de obviedade. – É só algo que ele tem com os irmãos. Não mete o nisso, por favor. – lhe pedi encarecida e minha amiga sorriu de um modo que me confortou, era como se prometesse não tocar mais naquele assunto.


*Referência a saga Corte de Espinhos e Rosas da SJM.


St. Louis, MO


Eu, o Charlie e o Eliot tínhamos aproveitado aquela manhã ensolarada para correr pelo parque ao invés de fazer exercícios com os pesos habituais. Considerava aquilo, uma das melhores coisas de poder viajar em turnê com meu irmão, ele sempre era uma ótima companhia para tudo – com exceção de passar o rodo, então para isso, eu chamava o Eliot. Não me orgulhava, mas estava só aproveitando a vida. –. Nós cantávamos juntos, bebíamos juntos e corríamos juntos, as vezes eu até levava umas broncas por atitudes idiotas, mas era uma forma de me fazer abrir os olhos e corrigir meus erros. Charles era foda!
Queria ser como ele e o Percy quando eu tivesse meus filhos.
– Len não quis ficar? – dei uma parada no ritmo de corrida e Eliot sacudiu a cabeça bem desgostoso. Aqueles dois poderiam ser gêmeos.
– Preferiu voltar para Malibu com a Terry. – Charles arfou pela corrida. A gente já chegava perto das tendas, que estavam vizinhas desde que havíamos saído de Vegas. – Ela não se sente muito confortavel em viver dentro de um ônibus apertado.
E eu não tirava a razão da Len.
– Mas me deixou sozinho nessa. – Eliot reclamou como um moleque mimado e o empurrei como se fosse outro. Ele reclamou de novo e soltei uma gargalhada.
– Deixa sua irmã em paz, cara, coisa chata!
– Não enche! – o moleque me empurrou e Charles rolou os olhos, provavelmente se impedindo de estressar com nossas brincadeiras idiotas. Eu amava aqueles meninos como se fossem meus, Eliot, Len e Penny, os três amores que a vida tinha me dado, meus sobrinhos.
Abracei nosso futuro engenheiro de robótica quando estávamos chegando na tenda. Procurei a banda com o olhar e estranhei a movimentação que envolvia e alguém desconhecido. Soltei o moleque e pedi um tempo aos dois, antes de correr para lá, percebendo que o cara desconhecido era Leon.
O que inferno aquele merda queria ali? Já não tinha machucado a minha amiga o suficiente?
– O que está havendo aqui? – cheguei tentando equilibrar aquela gritaria e deboche, o deboche vinha da nossa gerente de turnê e os gritos de Save, xingando o cara.
O filho da mãe olhou para mim e rolou os olhos, voltando a me ignorar, enquanto insistia em algo relacionado a , provavelmente ele tentava conseguir mais uma chance de tentar conversar com ela de novo, ou quem sabe convencê-la a voltar com ele. Mas aquilo eu ia fazer o possível para não deixar e ela parecia não querer.
O jeito que Ramanush pisava nele era sexy demais.
– Veio tomar as dores dessa puta? – o homem cuspiu aquelas palavras terríveis em cima de mim e senti o sangue ferver, avançando em cima dele, por mais que não pudesse enchê-lo de soco. Em contra partida, Ramanush soltou uma risada deliciosa de quem tinha adorado aquilo.
– Ai, adoro. Obrigada! – mais deboche saindo da boca daquela mulher, me deixando confuso com o sangue frio dela em ser chamada de vadia e dizer que tinha adorado.
– Olha aqui, seu merda! Você respeite a . – abanei o dedo na cara dele e finalmente o cara deu um passo para trás.
– O que foi? Ela está trepando com você também? Cuidado, cara, daqui uns dias ela pega o seu irmão, quem sabe seu sobrinho. – nunca tinha escutado palavras tão imundas em toda a minha vida. Nunca!
nunca faria aquilo, ela tinha caráter e respeito pelas pessoas. Preparei meu punho para acertar o nariz dele, sem me incomodar se seria processado ou não. Depois disso não entendi mais nada, porque ela entrou na minha frente como uma ave pronta para defender o ninho e acertou a mão fechada em punho no nariz do cara sem esperar por mais nada.
Como se não bastasse, Ramanush pegou velocidade mais uma vez acertou novamente o nariz do ex, tirando sangue da tentativa.
Caralho, aquela mulher era maluca!
Como raios ela se enfiava entre nós dois e metia o soco no nariz dele? Eu sabia que não podia bater no Leon – infelizmente –, por causa da minha vida pública e toda a imagem legal que eu passava para minha legião de fãs, confesso que era até um cara bem pacífico. As meditações me ajudavam muito a controlar os impulsos, mas estava me roendo em uma vontade louca e absurda de quebrar a cara dele, até Ramanush fazer isso sozinha e eu ter que tirá-la de cima dele antes que a mulher o quebrasse na porrada. Ela tinha punhos fortes.
O homem urrou de dor ao passar a mão pelo nariz e ver como estava cheio de sangue. tinha feito um belo estrago, ainda que tentasse se soltar do meu aperto firme em sua cintura, não ia soltá-la nem a pau, mas confesso que o sorriso diabólico no rosto dela estava me deixando com medo.
Nossa gerente de turnê pronunciou um par de palavras desconhecidas por mim e uma risada ainda mais psicótica.
– BRUXA DIABÓLICA! – o filho da mãe gritou e eu quis soltá-la na mesma hora, talvez para que ela quebrasse sua cara mais uma vez, ou talvez para eu fazer aquilo.
Odiava quando condenavam tanto as crenças da , pois era lindo o poder que ela tinha, como já tinha me explicado várias vezes o bruxismo era uma filosofia de vida, uma crença para o bem e embora muitas pessoas a usassem para o mal, toda ação tinha uma reação.
O negócio é que ela nem acreditava no diabo, para começo de conversa, então aposto que estava se divertindo com aquilo.
se soltou dos meus braços, estava bem mais calma e acho que não partiria para cima dele de novo, afinal o homem estava se tremendo de medo – aposto tinha se borrado – depois que ela levantou as mãos pro céu em uma pose tão exagerada de quem estava invocando qualquer coisa, que prendi a risada. Ramanush não prestava!
Ela tinha uma voz linda, doce... só percebi quando entendi que a mulher estava cantarolando uma canção em uma língua muito estranha. Eu sentia que não tinha nada a ver com bruxaria, pois já tinha visto-a fazer feitiços e para isso ela usava o francês. Era sexy. A canção era linda, tinha uma melodia e sonoridade que atingia os meus ouvidos como um baque surdo e me levava de volta a minha infância quando passávamos as férias de verão na casa do vovô Pedro.
Merda! Eu estava meio tonto no meio do estacionamento. Vovô cantava para gente, embora eu nunca tivesse entendido o que significava.
Acho que estava ficando louco.
O importante era que Leon meteu o pé, como os espíritos obsessores fugiam dos banimentos da , e nos deixou imersos em gargalhadas. Savannah segurava a barriga e eu estava boquiaberto com a cara de pau daquela mulher genial.
Como ela havia passado tanto tempo namorando com ele? Considerando que Leon era extremamente escroto, cinco meses parecera uma eternidade.



me arrastou para dentro do motor home quase que imediatamente depois de toda a minha maravilhosa atuação. Ganhei até algumas palmas vindas da minha banda. Nunca que eu iria amaldiçoar alguém por diversão, mas se Leon estava tão obstinado a me chamar de diabólica por causa de um xingamentozinho em um idioma diferente, não custou nada ter dado um sustinho que o faria correr as léguas de mim. Melhor assim!
Sentei no sofá lateral do ônibus e vi meu amigo entrar no cômodo das cabines. Olhei para minha mão e os nós estavam vermelhos, meio machucados e doloridos do impacto do soco.
– Autch. – reclamei ao articular meus ossos, vendo se tinha machucado de verdade alguma coisa, mas era só o incômodo do impacto.
– O que foi aquilo que você disse e assustou o paspalho?
voltou para onde eu estava e trazia uma caixinha que eu mantinha no banheiro com algumas coisas necessárias quando se vivia viajando: band aids, spray para dor muscular e até um líquido para limpeza que Terry tinha me dado, segundo ela, aliviava a dor e tirava toda possível bactéria. Aquela mulher era insana. Por um segundo, pelo silêncio que meu amigo fez ao sentar do meu lado, achei que fosse ligar para ela e pedir ajuda com questões médicas.
– Eu só usei um idioma antigo. – soltei uma risada. – Primeiro mandei que ele fosse se foder, depois cantei uma...
– Música de criança completamente aleatória para situação? – se ele estava pálido? Eu mais ainda!
De onde raios conhecia aquela música? Minha santa Sara, me dê forças para tentar entender. Eu tinha cantando uma ciranda cigana que minha mãe cantava para mim enquanto trançava meus cabelos e depois a gente brincava no meio do acampamento com ela. Era algo da minha infância, do meu eu, era uma musica que me trazia boas, ótimas lembranças e momentos de uma infância feliz.
– Você conhece? – minha voz saiu tão baixa que só poderia escutá-la.
Ele parou, ele simplesmente hesitou para me responder, enquanto passava o spray para dor e inchaço em minha mão, como se estivesse concentrado e não conseguisse responder naquele momento. Em um lapso, que considero de loucura, usei o mesmo idioma antigo para perguntar se ele era cigano, para saber se tínhamos as mesmas origens e meu coração bateu rápido e acelerado quando o homem imenso me encarou sem expressão. Repeti a pergunta. Meu coração parecendo os tambores das noites de fogueira. Ele abriu a boca e pude jurar que teria um infarto de tanta ansiedade por aquela resposta.
– Quê? – a interrogação na testa de foi como todo o mar ártico jogado contra minha cabeça. Tossi para disfarçar. – Eu só... Achei familiar às cirandas de criança, principalmente as francesas. – ele deu de ombros e eu não queria confessar nem para mim o quanto estava inconformada com a situação.
Por uma mísera fração de segundos, a conversa de Save parecera tão real.



PALCO SEIS

San Antonio, TX



Já estávamos bem longe do estado do Colorado, no penúltimo dia de uma tríade de shows que estávamos fazendo no Texas e depois daquela conversa estranha que tive com sobre a ciranda, não havíamos tocado mais no assunto. Ela não voltou a falar naquela língua estranha, embora familiar pro meu subconsciente, e eu não voltei a perguntar mais nada. Graças a meu Buda, Leon era outro que tinha evaporado do mapa depois da surra que tinha levado, mas prometi a Ramanush que iríamos procurar um bom advogado se ele ousasse processá-la pelo soco.
Precisava confessar o quão cansativo era estar na estrada, o quão difícil era estar longe do seu conforto, não era todo mundo que levava aquela vida na sobriedade.
A era das drogas? Tinha passado – há muito tempo, graças ao universo e ao Percy, que me deu um esporro de feder a queimado – e eu não me orgulhava de ter usado um dia, mas a vida na estrada te dá várias escolhas e nem sempre elas são dignas.
A era das bebidas? Nem tanto, ainda me pegava enchendo a cara para despistar o cansaço.
A era das mulheres? Só tinha amadurecido e estava cada vez melhor.
Era como eu tentava convencer meu cérebro carente do fato de eu já ter 33 anos nas costas e não ter uma família. Clichê ou não, queria casar e ter filhos para brincar com meus cachorros, bagunçar a casa, sujar minhas guitarras de iogurte e cereal. Eu só queria ser pai antes de morrer, mas queria me casar para isso. E cá entre nós, Charles era minha grande referência como pai. Ele e a Terry eram incríveis com a Len e o Eliot.
Ao menos era divertido viajar com minha banda. Fazíamos várias coisas inúteis na estrada, ou na tenda, como fazer um carrinho de controle remoto pular de uma rampa, ou pegar a música de uns amigos e tentar gravar um videoclipe caseiro. Aquela era a forma de tornar nossos dias menos cansativos antes de se enfiar em um hotel e passar o dia todo dormindo, ou debaixo do chuveiro por causa daquele calor infernal.
Aquela noite tínhamos aproveitado o clima ameno para fazer uma social na tenda, como havíamos terminado o show mais cedo, pegamos um carro alugado e fomos direto para a Walmart mais próxima. Precisávamos reabastecer água, cereais, comprar paninhos para limpeza e mais uma série de coisas que estavam na lista de Franccie. Já itens de higiene pessoal, as meninas compravam em drogarias. Depois do Walmart, passamos em uma casa de bebidas e de frios, garantindo a nossa festa da cerveja.
Tínhamos convidado as bandas mais próximas para nossa social, Simple Plan, Dom Broco e H3O3!, marcaram presença e entre elas, claro, a banda do meu irmão. Charles ajudou a gente com a preparação da tenda e estendemos algumas luzinhas de pisca-pisca por lá enquanto o idiota me zoava por causa da . Eu não tenho culpa se ela estava deslumbrante com o vestido de alças.
– Quando você vai deixar de ser bundão e chamá-la para sair? – meu irmão do meio deu um tapa na aba do meu boné. Fiz um gesto obsceno para ele.
– Chamar para sair? Eu não sou o Eliot, cara. – retruquei, mas tentava desviar, porque a ideia era muito boa. Charles me olhou com a sobrancelha arqueada e quis fingir que tinha algo para fazer do outro lado do parque. Aquela era uma conversa que eu não queria ter com meu irmão.
– É, você tem razão. – Charles prendeu o pisca-pisca no canto da tenda. – Meu moleque tem mais atitude.
– Não graças a você. – agi tal qual um adolescente.
– Ah, eu garanto que é graças a mim sim, não fui eu que passei 15 anos babando na minha melhor amiga. Essa historinha da moto nunca me desceu, moleque. – Charles soltou uma risada e sacudiu a cabeça. Eu odiava tanta coisa naquela frase que nem valia a pena corrigir.
– É exatamente isso que ela é, a minha melhor amiga. – respondi, emburrado.
– Quem? A ? – outro enxerido chegou na conversa e infelizmente, ele tinha o mesmo nome que o meu. Bouvier nos cumprimentou com abraços rápidos e avisou que eles tinham levado mais cerveja para festa.
– Exatamente. – meu irmão me olhou com uma cara de “não sou só eu que pensa assim”. – A .
– Você guarda suas bolas com ela desde que eu consigo lembrar. – o Bouvier prendeu uma risadinha e rolei os olhos. Uau, que descoberta. – A mulher é incrível, cara, investe certo uma vez na vida.
– Sua esposa tá sabendo disso? – tentei desviar do foco e ouvi gargalhadas dos dois tapados.
– Ela concorda. – Bouvier piscou e bateu high five com meu irmão, os dois entrando em uma conversa sobre filhos.
Charles era um dos caras no nosso meio que tinha sido pai cedo demais e isso fazia dele “o senhor dos conselhos sobre os filhos”, ali aproveitei a deixa para sair daquela conversa, que eu não duvidava nada, seria voltada para mim em alguns minutos. Mas guardei na mente a boa ideia sobre chamar para sair.
Depois que todo mundo já tinha chegado e estávamos calibrados com uma boa quantidade de álcool. Eliot sugeriu que brincássemos de flip cup e confesso que foi uma ideia e tanto, formamos dois times separados por uma junção em fileira de várias mesas. estava de frente para mim, segurava com copo vermelho nas mãos e as bochechas coradas pelo álcool, eu poderia estar meio bêbado, mas nunca esqueceria de como era lindo quando ela ria tão espontaneamente como aquela hora. Save estava do seu lado e as duas pareciam extremamente animadas.
Eliot estava do meu lado direito e a gente já tinha virado uns três copos antes que chegasse a nossa vez de jogar. O jogo tinha começado inversamente para cada lado, então quando eu era o último a jogar por estar na ponta, Ramanush, que estava na minha frente, tinha sido a primeira do time dela e naquele momento estava me provocando me chamando de bêbado. Nós cinco, eu ela, a Save, o Scott e o Eliot, demos mais uma brindada e viramos outro gole de cerveja.
– À WARPED!
Gritamos.
– VAMOS! VAMOS! – meu sobrinho mais velho dava tapinhas na madeira que tínhamos improvisado como mesa e gritamos quando Scott virou o copo certo e a bebida no meio da mesa depois. Lá no fim, eles também chegavam perto estreitei os olhos e vi que seria eu contra Charles.
Eliot foi cirúrgico e me perguntei a quantidade de vezes que ele fazia aquilo em Boston.
– VAI LOGO, BONOVIT! – achei que gritava comigo, mas ela encorajava meu irmão.
Me perdi no movimento dela pulando e no jogo também. Só consegui virar o copo depois da quarta vez e mesmo assim, meu lado da mesa gritou. Era só sobre diversão, não sobre competição.

Huston, TX



Destruído. Eu estava todo quebrado depois do show daquela tarde, mas ainda dei graças aos céus que Eliot, meu sobrinho mais velho, assumiu o baixo na sequência de músicas. O moleque era insano, uma pena termos o perdido para a física, a robótica e todo rolê que envolvia um tal de Adam Hayes, um físico contemporâneo e sua teoria não sei das quantas.
– Tá a fim de ir tomar umas hoje? – o moleque parecia ligado no 220 quando passou do meu lado e soltei uma risada. Tirei meu ponto eletrônico e pedi o dele, que já estava fora de seus ouvidos há uns bons minutos.
– Estou quebrado, Ely, hoje eu só quero me enfiar na minha cabine e dormir. – por um momento, me senti péssimo em acabar com os planos do meu sobrinho, mas ele só queria minha maior idade mesmo. O moleque não tinha nem 21 anos e já possuía uma fama catastrófica na faculdade – com dois amigos, a Alba e o Peter – , envolvendo popularidade, festas e garotas. A Santíssima Trindade.
O que dizer? Era meu garoto!
– Cara, você prometeu! – ah não, drama agora não. Rolei os olhos e dei um tapinha em seu ombro, enquanto a caixa dos pontos passava para que a gente os guardasse. – Prometeu que a gente ia curtir o festival!
Culpado! Bufei, indignado com o drama daquele moleque sem vergonha e me dei por vencido.
– A gente vai beber, mas no ônibus! Você conhece a Ramanush e eu não quero contrariá-la. – estiquei a coluna e o mandei se foder, quando ouvi o moleque dizer que eu estava velho. Ele riu.
Sim, existia respeito entre nós, então todos os xingamentos eram com todo respeito.
– Que nada! Aposto como tia vai beber com a gente, ela é mais nova que você. – Eliot abriu um sorrisinho sem vergonha e fiz minha melhor cara de bunda.
Ah, se ele achava que iria me provocar com a idade... estava muito certo.
– Moleque, você não me provoca. – apontei o indicador para ele. – Ou vai viajar com o chato do seu pai pelas próximas oito horas. Você quem sabe! – dei de ombros e ele bufou.
Nós dois amávamos o Charles, mas tínhamos plena consciência de que ele tinha uma alma mais velha que a do Percy. Nem parecia o cara porra louca que eu tinha visto há uns anos atrás – graças ao universo –.
– Ah, para! – Eliot me tratou como se eu fosse a irmã mais nova dele e tive vontade de dar um cascudo, mas acabei rindo da cara de pau.
– Vai, vai tomar banho, que o banheiro do ônibus é para ser usado no último caso. – sacudi a cabeça, rindo, quando já estávamos voltando para as tendas que já estavam sendo desmontadas.
Eliot não podia comprar bebida por causa da menor idade dentro dos EUA, por isso mandei mensagem pro Cris para saber se a gente tinha algum álcool no ônibus. Recebi uma resposta positiva. Depois avisei ao meu irmão que o moleque ia viajar comigo, ele agradeceu o aviso. Nós três, eu, o Charlie e o Percy, tínhamos uma rede de informação bem articulada sobre os Herdeiros, como a mídia costumava chamar meus sobrinhos, assim era fácil de protegê-los de algumas merdas e ajudar a tirar o foco deles, quando necessário.
Dos três, Eliot era o mais escondido, fazia faculdade de física e dificilmente aparecia na TV. Já Leonor e Pennelope... Leonor produzia música como ninguém e disseminava seus remixes nos sistemas de streaming musical, às vezes pagava de DJ também, isso já era o bastante para existirem vários olhos sobre ela, principalmente quando a garota era de uma família musical. Pennelope jogava hóquei como eu nunca tinha visto antes, era a melhor jogadora em disparada, ela tinha saído da escola direto para um time feminino da segunda divisão de Los Angeles, então sempre estava sendo lembrada no canal de esportes.
O que salvava a gente na estrada eram os banheiros de concreto que pareciam vestiários. Então dividíamos os grupos para ir tomar banho. Voltei do chuveiro renovado e encontrei fora do ônibus, com o cabelo molhado e a carinha feliz de quem estava limpinha. Aposto que cheirosa também.
– Eliot disse que você era mais nova e mais legal que eu. – repeti, desgostoso, já abrindo os braços para ganhar um abraço dela. Eu precisava de um abraço e iria conseguir nem que fosse na base da manha. Nossa gerente de turnê soltou uma risada gostosa de ouvir e me abraçou pela cintura, com força e carinho. Encostei o nariz em sua cabeça e quase gemi com a satisfação de sentir o cheiro familiar de seu xampu. – Isso mesmo, estou carente e preciso de um abraço.
– Ele é só um moleque tentando conseguir diversão. – ela me apertou com mais força, também se aconchegando nos meus braços e tive a certeza que a necessidade de carinho era mútua. – Me chamou para beber, porque você era um velho chato e ele queria alguém divertido. Achei corajoso, levando em consideração que eu e a mãe dele somos amigas. – nós rimos.
– Ele viaja com a gente hoje. – falamos ao mesmo tempo e beijei sua cabeça, pretexto para enfiar o nariz nos cabelos e sentir o perfume de novo.
descansou o rosto em meu ombro e inclinei a cabeça sobre a sua, estávamos fresquinhos do banho e pelos Deuses, só queria poder dormir com aquele carinho todo. Por isso eu sentia tanta falta de namorar, eu era carente de contato físico e de carinho até mais do que de sexo. Passamos um tempo em silêncio, só compartilhando aquela energia no abraço e olhei para o céu, vendo a lua minguante e lembrando o que tinha me dito sobre ela. Era o início do recolhimento. Beijei sua cabeça, ouvindo-a suspirar, satisfeita, antes que Hannah e Franccie aparecessem indignadas com alguma coisa, acabei soltando minha amiga para entender qual era o problema, parece que alguém estava objetificando nossas meninas.
– Objetificação do corpo feminino, eu entendo o conceito. – cocei a cabeça. Estava confuso e queria entender para não reproduzir aquilo. – Eu entendo a situação teórica, mas na prática, às vezes, parece tão sútil que dá para ser confundido, não?
Era pertinente entender aquilo, principalmente em uma tour cheia de mulheres para todos os lados. Naquele momento, desejei que Eliot também estivesse na conversa para entender e não repetir ou reproduzir aquilo.
Óbvio que sempre era um ótimo lugar para se divertir com quem também queria se divertir e às vezes, a única maneira era aquele flerte com olhares. Mas será que aquilo poderia ser classificado sutilmente com objetificação do corpo feminino?
– Na verdade, não! – Franccie puxou minha atenção. – Uma coisa é você admirar uma mulher e o corpo dela, outra coisa é você tratá-la como um objeto sexual. Entende? – as outras duas afirmaram e eu acho que começava a entender.
– Sim! Mas, cara, acontece tudo isso com um olhar? Não estou duvidando, eu só estou perdido e com medo de já ter feito isso. – suspirei. Só de pensar em já ter feito alguma mulher se sentir assim, fez meu estômago revirar. – Isso é escroto demais!
– Acontece sim! – Hanna deu um tapinha no meu ombro. – E eu passei um bom tempo sem entender, até ser vítima disso. Tanto vindo de uma porção de homens, como de outras mulheres e garanto que é terrível.
– Mas que merda! – olhei para minha amiga. Será que ela iria falar algo? Garanto que iria ser o mais doloroso de ouvir.
– Pelo visto você vai precisar de uma demonstração para entender. – nossa engenheira de som olhou para como se confirmasse algo e fiquei ainda mais confuso. – ? Faça as honras!
Merda! Aquilo só poderia ser sacanagem comigo, por que logo ela?
A gerente de turnê deu um aceno elegante de cabeça e com um fio de sorriso torto nos lábios chamativos mirou os olhos castanhos nos meus. Já senti o mundo rodar daí, ah para, parecia ser divertido tê-la me encarando como se eu fosse um novelo de lã e ela o gato. Que gata, caramba! Encarei de volta a tempo de perceber a obscenidade com que ela umedeceu os lábios e desceu o olhar por meu peito, escavacando cada lugarzinho como se conseguisse ver através da camisa ou imaginar o que estava ali e já tinha visto antes. Foi naquele momento que a brincadeira começou me incomodar de um jeito que eu não esperava. De repente não era mais divertido receber aquele olhar descarado, era tão constrangedor e desconfortável, principalmente quando eu lembrava que estava descendo os olhos. Me senti violado.
Dito e feito.
– Com todo o prazer. – minha melhor amiga disse aquilo encarando minha virilha e o meu estômago sacudiu violentamente. Eu podia vomitar meu almoço a qualquer momento.
– TÁ BOM, RAMANUSH. JÁ ENTENDI! – gritei para dar um basta.
As três sorriram, astutas, e bateram vários high five, entendi que a missão tinha sido cumprida. Eu tinha entendido o que elas tinham para dizer e garantia que não faria mais aquilo na minha vida. Certa vez vi uma frase que dizia: Ninguém nasce desconstruído, mas podemos nos permitir todos os dias a aprender como se desconstruir e respeitar. Foi ali que entendi de verdade, o que ela queria dizer.
me pediu desculpas pelo que tinha feito e fiz manha, dizendo que só desculparia se ganhasse um abraço. Ganhei um abraço e um beijo na bochecha.

Day Off, Hotel



Finalmente um dia de folga depois de tanto show seguido. Estar em turnê era foda, mas era cansativo na mesma proporção. Tínhamos conseguido um hotel incrível em Huston e cada um se enfiado em seu quarto após o check in, Charles e a banda também estavam hospedados lá. Eu, ele, o Alexie e o Eliot havíamos acabado de almoçar juntos – depois do Scott ter me trocado pela Savannah – e fiquei feliz com a empolgação dos três em fazer show no Canadá dali umas semanas. Eles iriam reencontrar as esposas e os filhos, eu, por outro lado, vou reencontrar meus pais, que no fim das contas, eram pais do Charles também e até Percy iria levar a Penny para o Canadá. A turnê iria virar um enorme encontro de família.
Quando voltei para o andar que estávamos, resolvi bater no quarto da . Ela provavelmente estava tão desocupada quanto eu e... Uau estava coisa mais linda do mundo, quando abriu a porta. Usava um vestido estampado todo folgado e o cabelo solto, na mesinha de cabeceira mais próxima estava um incenso artesanal queimado pela metade, perto de uns cristais de cor rosa e roxo. Ela tinha defumado o quarto. Me preparei para falar e vi um artefato do século passado em suas mãos. Caramba! Aquilo era um ipod? Onde diabos a tinha conseguido aquele negócio?
– Que artefato antigo é esse? – entrei no quarto pela brecha que ela deu e fui logo tirando os sapatos.
– Nem é tão antigo, é do início dos anos 2000 – ela rolou os olhos e deitamos na cama. – Isso é um iPod, senhor super jovem que nunca teve um iPod na vida. Save me deu com os vocais de uma banda que ela está produzindo. – recebi um dos fones de ouvido e aproximei um pouco mais do corpo dela como se o fone tivesse fio.
Ali declarei meu ódio pela tecnologia e seu funcionamento via bluetooth. Passamos as três primeiras demos conversando sobre harmonia, sonoridade e sentido da letra. Os moleques eram bons mesmo no que faziam e aquilo me deixou com vontade de tentar uma parceria futuramente.
– Você gosta dessa área de produção, né? – me lançou a pergunta e soltei uma risada envergonhada. Eu gostava, só não achei que fosse tão evidente.
– Você conhece alguém que conviva com o Percy e não goste? – suspirei, animado, e de canto de olho, vi minha melhor amiga com um sorriso lindo demais. – Ele ama o que faz e isso é lindo demais.
– Eu sei. – aquela mulher incrivel falou com um sorriso e beijou a minha bochecha na surpresa. Suspirei, contente. – Você já ficou com alguém? – ela perguntou, animada, enquanto a música rolava no nosso fone. Queria tanto ter identificado uma pontada de ciúme ali, mas foi só curiosidade. Ponderei teatralmente e riu, me empurrando de lado, acabei beijando sua bochecha.
– Sim, fiquei com umas mulheres esses dias, bem menos que o Eliot, eu garanto. – coloquei os braços atrás da cabeça enquanto a gente ria.
A voz dos moleques da banda da Save era sim muito boa e sonoridade também.
– Ele tá só aproveitando a oportunidade. – ela sacudiu a cabeça. – Mas é um menino encantador e gentil, ainda vai encontrar a garota certa. – minha melhor amiga piscou e eu concordava com ela. – Um ponto: Uau! Você saiu com algumas mulheres? Desde quando deixou de ser "garotas"?
– Acorda, Freak, eu sou mais velho que você. – mostrei a língua, embora a curiosidade sobre ela queimasse dentro do meu peito. – E você? Pegou geral?
Uma risada que fez meu coração despencar. Não entendam mal, eu nunca iria achar que a não poderia ficar com o cara que ela quisesse, eu ficava com a mulher que eu queria – e me queria também –, mas se ela tivesse ficado comi... Esquece.
– Fiquei com o Ethan, sabe? Do crew do Dom Broco? Ele já dava em cima de mim faz eras, acabei cedendo. – ela suspirou, inconformada, e um peso pareceu perfurar meu estômago, caindo embaixo da cama. – Quer dizer, foi bom. O cara manda muito! – o sentimento foi de ter uma faca enfiada e rodando nos intestinos.
, ele não... – deixei a pergunta subentendida.
– Ai, minha Deusa Afrodite! SIM, CLARO QUE SIM, CREDO! Todo mundo gozou, pela Lua, sem pânico, estresse ou esse seu excesso de cuidado. – minha amiga apertou minha bochecha como se eu tivesse a idade do Eliot e não me aguentei, lhe olhei por entre os cílios, encarei Ramanush como nunca tinha feito antes. Ao menos não tão explicitamente. Encarei-a com desejo e a mulher soltou minha bochecha de uma vez.
Bola fora, !
– O que você acha dessa? – bola na Lua, com todo respeito. Ela me perguntou sobre a demo que tocava.
– Penso sobre... – mordi a boca olhando para o teto. – PIANOS! Ela poderia ter um toque clássico.
– ARPAS! – gritou do lado. – MEUS DEUSES, ! EU AMO VOCÊ, CARA!
O que aconteceu depois disso foi a coisa mais confusa da minha vida, ela se levantou, segurou meu rosto e estalou um selinho em meus lábios. Meu estômago deu uma revirada desgraçada com aquilo, meus pés gelaram e o medo me atingiu... eu não sei do que estava com medo, mas eu estava. Não contei conversa para segurar a cabeça dela com minha mão esquerda, mas antes que eu entrasse no paraíso, a me afastou pelo peito, não cheguei nem a encostar os lábios nos dela novamente.
O céu desmoronou e passamos o resto da tarde fazendo comentários estritamente ligados a música. Eu tinha tomado o fora mais épico da minha vida.


Continua...




Nota da autora: OI, QUERIDAS!
Gostando do rumo da história? A partir de agora, nós vamos entrar um pouco mais na cabeça deles dois e começar a entender sobre o íntimo de cada um.
O que foi esse quase beijo, hein?
O.O





Nota da beta: Nossa, que dó, meu Deus, ele é caidinho por ela, e ela deu um chega para lá, nele, hahahahah eu fiquei com pena dele, coitado. Tatye, tá incrível como sempre, vê se não maltrata a gente e manda logo a atualização.!

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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