Última atualização: 24/03/2022

PALCO UM

2020
San Diego, CA


Já era quase onze da manhã quando estacionamos no lote imenso, usado como estacionamento e acampamento para as bandas que acompanhariam o festival, fosse por dois dias, ou os 50 dias inteiros, como era o nosso caso. A ansiedade me inundou assim que Larry avisou onde tínhamos chegado e saí catando minhas coisas, já que tinha ficado responsável por cadastrar a banda no primeiro dia. Os meninos diziam que eu dava sorte!
A Warped Tour era o maior festival emo da história, carregando um legado imenso de música pop punk, punk e ainda a responsabilidade de revelar novas bandas no mercado. Kevin, o fundador e meu pai – adotivo –, tinha parceria com vários produtores influentes do ramo que sempre davam as caras em alguns dias de show e embora aquele fosse o último ano do festival, eles estavam trabalhando para fazer ser o melhor. Eu iria fazer ser inesquecível para mim e para minha banda!
Fui a primeira a pisar no asfalto e não pude controlar o sorriso que tomava meus lábios, além do tsunami de emoção que me enchia dos pés a cabeça. Aquele festival era uma das únicas coisas que tinha a capacidade de preencher todos os buracos do meu peito e da minha alma. Eu amava música, eu amava fazer música e disseminar música! Outra coisa capaz de preencher meus buracos emocionais, era aquela banda de bagunceiros, eu era gerente de turnê do Just Kids há uns bons seis anos e ficava feliz em saber como nos parecíamos, foi isso que me fez considerá-los uma família dentro da vida louca de turnês.
– Pronta para o melhor festival da sua vida? – a voz rouca de soou perto do meu ouvido e virei a cabeça na direção dele, sem conseguir desmanchar meu sorriso imenso. Ele sorriu junto! Eu amava tanto aquele pateta que nem conseguia dizer o quanto, nós tínhamos vivido as melhores aventuras nos festivais.
– Só não estou pronta para me despedir dele. – era doloroso pensar daquele jeito.
me abraçou de lado em um gesto de força e conforto, beijou minha cabeça e seguiu para cumprimentar uns amigos ao longe. Meu melhor amigo era alto, o mais alto dos três irmãos, corpulento de ombros largos, o peito e o braço tatuados, cabelos escuros curtos e jogados de todo jeito pro lado – o estilo desleixado era um charme a mais que conquistava todas as garotas, além da clave de sol tatuada na diagonal do pescoço. Era sexy.
Cadastrei nosso ônibus junto a um dos estagiários do meu pai e depois de resolver a burocracia, fui a direção do container para ajudar a retirar nossa tralha de acampamento. Tendas, cadeiras, caixas do merchandising que seria montado perto dos palcos e até um fogãozinho de duas bocas que os meninos gostavam de usar para cozinhar ovos.
Aquele ar me deixava feliz!
Mas em um lapso, não sei o que houve, não sei que espírito obsessor tinha tomado conta de mim àquela hora, abri o aplicativo de mensagens e mandei uma mensagem para Leon. Estávamos namorando há uns cinco meses e no geral era um relacionamento legal, por mais que tivéssemos brigado há algumas semanas por motivos fúteis e o cara tivesse se revelado um verdadeiro... Era um relacionamento, relacionamentos eram difíceis.
No fundo, esperava que Leon deixasse as nossas diferenças de lado e me respondesse com a mesma euforia que eu tinha enviado a mensagem. Esperava que ele me apoiasse como o me apoiava, só que era músico, meu amigo e não meu namorado, os dois eram pessoas completamente diferentes. Suspirei e decidi não criar quaisquer expectativas em cima do Leon.
– Veja pelo lado bom, freak... – acordei dos meus pensamentos com a fala do . Lado bom de quê? Ele fez força e abriu a porta do container. – Você acompanhou mais da metade da vida do festival, deve se considerar vitoriosa por isso. – finalmente entendi a conversa e soltei uma risada. Ele falava da Warped. Ponderei com um aceno de cabeça e nos empurramos como duas crianças.
– Por isso mesmo, loser. – dei impulso e subi na caixa de madeira e ferro, procurei a tenda com os olhos e peguei a caixa de papelão, jogando-a nos braços de . – Me apeguei a essa loucura e sei lá, não vejo minha vida sem a Warped Tour.
– Você tem a gente! – ele sorriu como uma criança sapeca depois de reclamar do peso da armação.
– Eu não vou passar o resto da vida sendo babá de vocês. – reclamei, embora amasse ser babá deles, nossa vida na estrada e todas as aventuras que vivíamos. – Você já me encara como uma babá pessoal. – empurrei nele a caixa com a lona personalizada com a logo da banda. – E a tarde de ontem foi a prova disso.
– Hey! Não me maltrate. – ele fez um bico ridículo, mas ao menos eu tinha rido. – E você adorou a tarde de ontem, olha, parece até mais relaxada! – ele se referia ao fato de eu ter passado a tarde com ele e os sobrinhos capetas na praia.
– Vocês conversam demais, pelos céus. – Macon, um dos caras do crew e responsável pelos violões, entrou no container junto comigo.
– Ramanush só me maltrata, cara! – reclamou mais uma vez e lhe mandei um gesto obsceno. Ele riu alto e levou a tenda para lateral do ônibus, onde teria ajuda de Scott e Jean para montá-la.
Quando ajudei a equipe com os materiais no container, a banda já terminava de organizar nossa tenda de apoio e o lote estava lotado de ônibus em todas as vagas. Em uma olhada rápida, localizei vários amigos ali perto, inclusive o irmão do meio do – Charles, vocalista do Addicted To You, acompanhado da esposa e dos dois filhos, na faixa de 20 anos de idade –. Eu estava ferrada com aqueles dois idiotas juntos para fazer bagunça.
Mais ao longe estavam os ônibus do Simple Plan, The Maine, All The American Rejects e uma porrada de bandas que tinham feito parte da minha adolescência e que hoje eu podia chamar de amigos.
O que me lembra de apresentar a minha banda!
A equipe do Just Kids, incluindo todos os profissionais, era de 10 pessoas, onde três eram mulheres com cargos importantes. Confesso que isso me enchia com um orgulho genuíno, até porque eu era uma delas. Meu cargo era na gerência da turnê, dentro e fora dos palcos; Franccie era a baterista mais foda que eu conhecia e garanto que colocava muito homem no chinelo; Hannah era a engenheira de som, responsável por todos os arranjos dentro e fora dos shows. E eu pagava pau demais para elas.
Dentre os homens, era baixista e vocalista, além de compositor e garoto propaganda para maioria das publicidades do grupo – metido –; Scott era guitarrista rítmico, compositor e segunda voz, além de dividir o baixo comigo quando era necessário e também era meu quase futuro provável cunhado nas horas vagas; Jean era o nosso carequinha sexy que cuidava da outra guitarra, aquele som pesado, metálico e impactante que fazia a música ser marcante.
Macon, Chris e Harry, eram o braço forte para ajudar com a estrutura e afinação dos instrumentos, tínhamos um especialista em bateria, outro em guitarras, instrumentos no geral, além dos microfones e nosso fotógrafo. O que me deixava orgulhosa, afinal o Just Kids tinha crescido e amadurecido sabendo o que era preciso para ser uma banda foda. Mas bem, dentro da nossa equipe, não posso esquecer do Larry, o motorista que levava a gente para qualquer lugar.
Olhar para nossa tenda era realmente revigorante. Ficava toda boba em ver como as famílias os apoiavam, principalmente quando Kico, o filhinho de 4 anos de Franccie e o marido dela, vinham ver a gente nos shows. Eu adorava o moleque, ele adorava brincar de pique esconde com a tia e ainda trolávamos o nas horas vagas. Nosso mascotinho fazia a alegria de todo mundo ali, junto com as filhas do Jean, as duas eram maiores que o Kico, mas adoravam pegar no pé do tiozão que o era. Aquilo fazia delas, minhas crianças preferidas.
Não demorou muito para a caravana aparecer na nossa tenda, Charles, junto com a esposa e os filhos, além de Percy e Penny, abraçando o caçulinha que abriu um sorriso tão lindo ao ponto de me fazer sorrir também. Eu estava um pouco afastada, procurando um sinal pro walkie talkie que carregava na alça grossa do tope de academia, mas a verdade é que também procurava um sinal pro celular, ou talvez a esperança de receber a mensagem.
Suspirei, frustrada, e decidi que ele não ia acabar com meu festival, nem que tentasse a todo custo.



Era meia tarde quando estávamos prestes a subir no palco pela primeira vez naquele dia, na verdade, no festival daquele ano. Segundo o convite do Lyman – pai adotivo da , nossa gerente de turnê e minha fiel escudeira – nós abriríamos o festival em grande estilo. O último. Aquela seria a última edição do festival que mudara a minha vida em todos os aspectos, ali eu tinha conhecido o que era música de verdade, o que era energia de verdade e principalmente, o que era amor de verdade. Me sentia extremamente grato em ter começado de uma forma tão incrível.
Atualmente, eu e meus irmãos mais velhos já tínhamos tomado caminhos solidificados na música, fosse com nossas bandas, com a gravadora do Percy, ou pela marca musical que tínhamos lançado no mercado. Marca essa que também promovia shows, em geral só pela costa da Califórnia durante o começo do verão, o pessoal tinha apelidado de “Conexão Triplo B” e acabou ficando esse nome mesmo, já estávamos na quinta edição.
Respirei fundo ao ver o famoso backstage ali atrás do palco, algumas pessoas passavam para lá e para cá levando coisas, trazendo coisas, conversando ou só tentando um lugarzinho para ver as bandas preferidas, curtindo o som que iria começar a tocar no palco ou quem sabe até dando uma flertadinha. Aquele era o lado bom de ser famoso, os flertes acabavam se tornando mais fáceis – algumas vezes –.
Me situei na bagunça e soltei uma risada da piada vagabunda que Franccie tinha soltado sobre nossa solteirice. Sacudi a cabeça ainda rindo e depois a gola da camisa cavada, o calor daquele dia estava particularmente parecido com o que eu considerava de inferno quando me falavam do tal lugar. E só aí percebi que nossa baterista estava pondo o ponto de retorno nos ouvidos, aproveitando para pegar o meu na caixa antes que pegasse no meu pé, embora achasse muito difícil que ela fizesse isso aquele dia. A mulher estava quieta ao ponto de me deixar preocupado, nem parecia que ela tinha sonhado e planejado aquela turnê por meses a fio.
– Tudo ok? Todo mundo de ponto eletrônico? – ela passou entre a gente usando um tom tão mecânico que partiu meu coração. Conferiu a caixa no cós da calça de cada um e levantei minha camisa por inteiro, esperando que ela brigasse por isso. Nada foi dito.
– Sim, senhora! – o coro saiu bem sincronizado e finalmente ela riu baixo, afirmando com um aceno de cabeça.
Bati high five com o Kico, que usava um fone azul quase maior que a cabeça e o garotinho se sacudiu como se só ele escutasse a música. O moleque era uma figura mesmo. As meninas de Jeff estavam mais afastadas e junto com a mãe, ex-esposa do meu amigo guitarrista – a maturidade daqueles dois me impressionava –, faziam a alegria do cara. Scott estava concentrado como sempre, rezando ou seja lá o que fosse que ele fazia antes dos shows. Eu costumava plantar bananeira – o que considerava uma pose de yoga – e concentrar na energia do meu corpo, mas estava foda fazer qualquer exercício de concentração àquele dia.
– Tá funcionando tudo ok? – a ouvi conversar com o pessoal externo pelo ponto, ainda repetindo os passos de dança estranhos do Kico. Aquilo deveria fazer meu ponto cair sem que eu levasse a culpa direta. – Hanna? Harry? – ela direcionou a pergunta novamente, afirmando em seguida.
E caramba, aquela energia maluca começava entrar pelos meus pés, estávamos quase na hora de subir no palco. Porra, era sempre como se fosse a primeira vez!
– Tudo ok, ! – o homem com traços árabes piscou e aproveitou para capturar o momento que ela estava praticamente no meio da gente ditando algumas instruções.
Nós seis, os quatro da banda, e Hannah, planejávamos os shows em conjunto, porém era sempre válido ser lembrado sobre o que tínhamos combinado. Minha cabeça ficava uma loucura na emoção pré-palco e era um mistério como eu lembrava de todas as letras, por mais que a maioria fossem minhas. A energia das pessoas que estavam ali, o ambiente e tudo que acontecia me deixava elétrico, poucas coisas na vida tinham aquele poder sobre mim.
Fui interrompido por uma mão em concha perto da minha cara, ali dentro tinha uns dois chicletes mascados. Eca!
– O que foi? – mantive o meu, que nem me dei conta que estava mascando, entre o dente.
– Seu chiclete. – ela empurrou a mão na minha direção com um olhar tão tedioso.
– Não tenho chiclete. – dei de ombros, desejando terrivelmente que ela reagisse a minha recusa.
– Não queira que eu enfie minha mão na sua boca e tire essa porcaria daí. – prendeu uma risada quando comemorei aos berros sobre a pose agressiva dela. – Vai logo, seu idiota! – ela já estava rindo sem conseguir controlar quando me empurrou pelo ombro e cuspi o chiclete na mão dela com todo gosto. – Nojento!
– Você quem pediu! – pisquei.
Ah porra, agora eu estava feliz em ver que ela estava rindo de qualquer idiotice que eu fizesse, aquela energia tomava ainda mais conta de mim. Até Scott estava abraçando a mulher de lado, tentando ficar um tempinho a mais com a lata de energético, mas sem sucesso. ISSO MESMO, !
– Macon? – ela chamou pelo técnico de instrumentos e recebeu um gesto de ok.
Ramanush se alongou e eu soube, era hora de entrar naquele palco e botar para quebrar. Comecei a pular e fazer alguns exercícios que a fonoaudióloga do Charles tinha passado para mim por precaução. Era ali que o grande show começava!
– Tudo bem, guys! Vocês sabem o que fazer, destruam esse palco hoje! – nossa gerente de turnê encorajou como sempre.
Franccie rodou as baquetas na mão e deu um beijo no Kico, depois ganhou um beijo de boa sorte do marido e só aí encabeçou a fila indiana. estava na abertura no topo do palco como se fosse uma professora que inspecionasse seus alunos, as duas se cumprimentam como sempre e foi a vez do Scott fazer um toque de mão com ela, enquanto Jean ganhava beijos das filhas. Meu ponto ainda estava no lugar e eu precisava soltar o quanto antes. Soltei. Só que soltei errado e o negócio quase caiu no chão, aquilo fez eu me sacudir da forma mais estranha para não derrubar o ponto.
– Ah, não! Como você derrubou isso? – ela fez careta e rapidamente pegou a caixinha preta da minha mão.
– Eu fui subir o short, mulher! – soltei uma risada sem vergonha enquanto a desenrolava os fios. – Sabia que você ia brigar comigo.
– Eu não estou brigando! – nossa gerente de turnê me fez girar e prendeu no meu cinto. Agora eu podia pular que não ia mais cair. – Prontinho!
– Ótimo, ajuda aqui na orelha! – abaixei a postura para ficar da altura dela e a se embolou com o fone. Só aí percebi que todo mundo já tinha entrado no palco. Merda! – Rápido, Ramanush! – ela bufou na minha cara, claramente irritada por eu ter me atrasado e agora apressá-la. – Vai, mulher!
– Não me deixa agoniada, ou eu puxo tudo e você entra no palco sem ponto! – ela rolou os olhos e não controlei na gargalhada. – Ai meu ouvido, idiota! – senti o ponto encaixar no meu ouvido. Estávamos prontos!
– Beijinho de boa sorte! – fiz um bico ridículo.
Ela soltou uma gargalhada espontânea, debochada e depois rolou os olhos.
– Na boa, . Vai te catar! – ela me empurrou na direção do palco. – Você já teve cantadas melhores!
Dei de ombros e fui na direção do palco. Expirei, deixando todos os meus problemas fora daquele lugar e ainda ouvi o grito dela “Bom show, Loser!”. Entrei correndo na plataforma do palco e como combinamos, Franccie rufou os tambores, levando nosso público a loucura e ergui os dois braços para cima quando a melodia alucinante de Heartbeat começou. A letra era linda demais e narrava como as pequenas coisas eram incríveis quando se amava alguém, falava sobre como o coração batia rápido e as mãos suavam.
Como geralmente acontecia na Warped, os shows eram cronometrados com pouco mais de quarenta e cinco minutos, afinal eram mais de 12 bandas durante o dia, todos os dias, para entreter o pessoal. Cada show precisava ser alucinante, como se fosse a primeira experiência de todos os presentes ali e ver como o público reagia as nossas apresentações era o que me fazia ter certeza que eu estava no lugar certo. A música era tudo que eu era! Tudo que eu sabia fazer e fazia muito bem.
Nossa setlist era curta pelo tempo de palco e ainda precisávamos encaixar algumas conversas com o público, interações e vez ou outra, umas piadas do Scott sobre as nerdices dele. Éramos uma banda e tanto. Depois de quase todas as músicas contempladas, nós faríamos um medley de Unperfect e Dream with you, eu comecei a primeira música do mix só no violão acústico – melodramática demais para idade que eu tinha quando escrevi, mas nos rendeu o topo das paradas de sucesso por três meses seguidos – e senti tudo que ela queria dizer, afinal todos éramos imperfeitos. Às vezes, até chorava no palco, confesso.
E o ponto crucial da música havia chegado, o público recitava a letra acapella para mim fazendo cada celulazinha do meu corpo ficar desesperada por uma agitação, olhei para minha banda já pronta. O momento tinha chegado! Despluguei a alça e o fio do violão, o entregando de fininho ao Macon assim que vi entrar pela lateral do palco com meu baixo preferido em mãos. Era tudo milimetricamente planejado e não tínhamos qualquer espaço para erros, por isso eu deixava minhas mãos livres e prendia o fio no suporte do cinto. Finquei os pés no chão e abri o sorriso imenso que dizia “pode jogar”, o necessário para meu baixo preto com adesivos fluorescentes – sim, eu tinha 33 anos – rodopiar pelo ar na minha direção.
O segurei com a firmeza que se segura um bebê e a plateia urrou enlouquecida com a performance. Prendi o Rush na alça que eu já estava usando, pluguei o fio e toquei a primeira nota de Dream with you, estourando nos autofalantes e deixando todo mundo ainda mais alucinado. Toda a diferença de volume e som era controlado pela Hannah, graças a Buda, ou seria uma bagunça do caramba no palco.
Aquela era a força da Warped, sem a menor sombra de dúvidas!

-x-

Saímos do palco de alma lavada, coração feliz e energias renovadas, encontrando meu irmão pronto para mandar a ver. Charles era uma das minhas maiores referências em cima do palco, desde o jeito de me portar, até como ele interagia com o público, já fora dele, era basicamente um espelho de como eu queria ser quando formasse minha família um dia. O cara era completamente rendido pela esposa.
Terry e Leo não estavam no backstage com Charles e Eliot, suspeitei que estivessem no chão entre o palco e a grade, as duas eram loucas por assistir shows da plateia e eu nunca entenderia. Abracei meu irmão com força e com um beijo na bochecha, desejei que o show dele fosse o mais foda. Charlie me devolveu o carinho e disse que estava orgulhoso do nosso show. Eliot pulou nas minhas costas logo em seguida e quis dar um tapa naquele moleque abusado.
– Ai caramba! – reclamei quando ele voltou pro chão e baguncei seu cabelo, ele me empurrou. A relação de amizade que eu tinha com meu sobrinho mais velho era algo sem explicação, nos parecíamos demais em alguns aspectos e, às vezes, eu agia como se tivéssemos a mesma idade, embora eu fosse mais velho uns 13 anos.
– Vamos lá, crianças, se comportem! – gritou quando passou por a gente, recolhendo os pontos. Nós três rimos da cara de pau dela. Decidi implicar e apontei pro Charles, o filho dele fez o mesmo.
– Quem é a criança aqui, garota? – meu irmão revidou a reclamação como se ela fosse a criança. Geralmente eu o aconselharia a não desafiar a Ramanush, mas esse não era o dia.
– Os não são conhecidos por serem maduros, cara. – ela apontou para nós três e fez um gesto com os braços que eu tinha certeza, incluía o Percy também. Ele e Penny estavam lá embaixo com Terry e Leo. – E recebi ordens específicas da sua dona... – apontou pro Charlie – para "Ficar de olho no Charles!".
– É a Terry quem manda, cara! – dei um tapinha no ombro dele, que só arqueou a sobrancelha. deu de ombros, concordando comigo. Eliot prendeu a risada.
– É claro que eu sei disso! – ele soltou um grito ofendido. – Sou muito bem casado, tá, mulher? E outra, eu tenho juízo. – nós três rimos. – Ela tá falando desse Charles aqui! – meu irmão sacudiu o filho e soltou um grito como se só tivesse visto o Eliot àquela hora.
- ELIOT!
- TIA ! – meu sobrinho mais velho gritou tão animado quanto ela e tirou-a do chão em um abraço apertado.

Ventura, CA → Phoenix, AZ


Já estávamos na estrada há quatro dias e as coisas não poderiam estar mais animadas, se não fosse o Leon estar me ignorando por mensagens também, mas como prometido, não ia me fixar naquilo. Tínhamos pegado a estrada meio tarde aquele dia, depois de uma das after parties oficiais da turnê e estava todo mundo ainda elétrico após os energéticos e bebidas alcoólicas, fazendo uma banda de homens e duas mulheres, adultos começarem a rodar uma garrafa na última sala do nosso ônibus.
Passei pela porta da sala quando saí da minha cabine e neguei com um aceno, incrédulo, me impedindo de provocar os cinco, ou acabaria ali dentro junto com eles, rodando aquela garrafa de corona vazia. Iria aproveitar meu tempo para ler alguma coisa na sala da frente onde os meninos do crew estavam vendo TV, ao menos estava mais calmo.
Nosso motor home era dividido em três ambientes bem confortáveis, assim que você entrava no ônibus, via a sala conjugada com a cozinha que ficava rente a lateral do ônibus – equipada para nos atender durante aqueles dias viajando –, na outra lateral, um sofá em L enorme, uma mesa presa ao chão e a TV acima de nossas cabeças. Ao meio, ficava o enorme quarto, com 12 cabines, cada uma delas equivalia a uma cama e era grande o suficiente para caber duas pessoas dentro, além das cortininhas para garantir um pouco da nossa privacidade. O último ambiente era o mais legal, tinha um sofá circular, uma mesa presa ao chão, mais uma TV e nosso videogame, além de dividir espaço com um banheirinho pequeno.
! Onde você vai? – a voz rouca de me atingiu bem no meio do caminho e quando virei, a porta estava aberta. Bom, ao menos não era Strip Poker.
– Tentar ler um pouco lá na frente. – sacudi o livro na mão. Era um escrito por Atena, a quase cunhada de , a mulher era a escritora mais incrível que eu conhecia. – Por quê?
– MARIQUINHA! – ouvi o grito que veio dos fundos, mas não consegui identificar se era Franccie ou Hannah. Ah, mas eu não era mariquinha mesmo, já tinha jogado até strip poker com eles naquela mesma sala e nunca tinha ficado pelada.
– Eu tomo conta de vocês todos, patetas. Vocês acham mesmo que sou mariquinha? Eu sou a mais badass daqui, sweetie!
Eu já tinha largado o livro dentro da minha cabine, iria mostrar como se jogava o jogo da garrafa.
– Duvido, querida! – Scott foi quem soltou aquele deboche horrível e quis matá-lo, afinal ele era quase meu cunhado, poxa! – Se recusar jogar com a gente só mostra que você é arregona!
– Ah, , qual é? É um joguinho inofensivo, para de ser mole! – esticou a mão aberta em minha direção, que combinado a um sorriso filho da mãe no canto dos lábios, seduziria qualquer mulher desavisada. Para minha sorte, eu era blindada disso.
– É sério? Inofensivo? – arqueei minhas sobrancelhas. – Um jogo com vocês e uma garrafa junto, nunca é inofensivo. Sempre, repito, sempre é perigoso! – tentei ser o mais óbvia possível, mas acabei ouvindo algumas risadas de quem estava lá dentro. Será que tinha alguma erva ilícita ali no meio? Juro que se tivesse, ia arrancá-la do na base do tapa! Me estiquei e fiquei aliviada ao ver que não tinha fumaça e nem cigarro.
! – o coro dos cinco preencheu o ônibus e os meninos lá na frente reclamaram da gritaria. Eu não julgava, teria feito o mesmo.
– Vem logo! – sacudiu a mão estendida mais uma vez e me dei por vencida antes que recusasse. Não podia acontecer nada de ruim, poderia?
Eu esperava que não.
– Okay, eu jogo!



PALCO DOIS

Ventura, CA → Phoenix, AZ


Eles tinham mesmo comemorado que eu ia entrar naquela brincadeira maluca? Soltei uma risada com a alegria frouxa e percebi que as garrafas de cerveja estavam empilhadas perto do sofá. Era melhor ditar minhas condições antes que fosse tarde demais.
– Mas com três condições! – levantei três dedos ao sentar do lado do Jean, que parecia estar mais para lá do que para cá. Eu conhecia todo mundo, mas me conhecia também, sabia que depois de bêbada eu fazia umas coisas meio suspeitas. – 1: eu não vou beijar ninguém; 2: não vou ficar pelada e 3: ninguém, absolutamente ninguém, encosta nos meus peitos. Entenderam, bando de pervertidos? – sacudi meu dedo indicador e ouvi risadas generalizadas.
– Pelo amor de Deus, mulher! Você não conhece uma coisa chamada respeito? – meu melhor amigo protestou, indignado com minhas condições. Mas no fundo eu sabia, que se a gente passasse do limite na bebida, eu e ele seríamos os primeiros a fazer aquilo.
– Eu conheço. – apontei pro peito. – Vocês, eu já não sei! – Jean me abraçou de lado, ainda meio cambaleante e prometeu que ia me proteger, beijei sua careca reluzente.
Recebi uma cerveja gelada de Franccie e foi maravilhoso senti-la descer pela garganta, fazia realmente muito tempo que eu não me largava daquele jeito na brincadeira de grupo. A garrafa rodou e as primeiras rodadas depois que eu tinha entrado no jogo foram bem tranquilas. Perguntei duas vezes, uma para Scott e outra para Hannah, ri do Jean passando sufoco nas mãos do – e rezei para que ele não me perguntasse nada, aquele filho da mãe sabia demais sobre a minha vida –. Só que o cenário mudou quando o bico da long neck virou para mim e ele me sorriu cruel.
Será que eu conseguia me esconder dentro do banheiro? Ainda dava tempo?
– Olha bem o que você vai perguntar, loser! – o repreendi, com os olhos bem abertos. Quando tinha álcool no meu sangue, não respondia por mim.
– Para de ser medrosa! – ele riu alto e deu uma piscadinha. Aquele suspense me matava. – É a coisa mais idiota do mundo, vai te lembrar sua adolescência. – meneei a mão, pedindo que seguisse com a tal pergunta. – De nós cinco aqui, quem você beija, transa e mata?
– É sério isso? – Scott olhou para cara do , como se perguntasse se ele não tinha passado dos 15 anos. Aquilo me deixou curiosa também, porque ele tinha fodido nas perguntas pro resto do pessoal.
– Claro que é. Me dá mais uma? – pedi uma garrafa e Scott me entregou. – quer encarnar na resposta e me encher o saco pelo resto da turnê! – falei com uma convicção que eu teria feito o mesmo, se fosse o contrário. Tínhamos uma mente parecida e, às vezes, as únicas coisas que salvavam o dia tedioso era encher o saco do . – Mas tudo bem, vamos lá. – tomei um gole enquanto analisava minhas opções. Elas eram péssimas! – Eu beijaria... hm... o Jean. – porque sabia que ele não ia levar aquilo a sério, completei na mente. – E transaria comigo, porque sou ótima na cama! – tomei um grande gole da cerveja, ouvindo as gargalhadas ensurdecedoras.
Peguei você, !



Ela não sabia, não fazia ideia de como tinha me pegado com aquela resposta filha da mãe, por que de repente eu queria tirar a prova se ela era boa na cama também. Fosse vendo ou participando. Por uma porção de segundos, passei a odiar Ramanush com todas as minhas forças, mas entendi que também queria – terrivelmente – transar com ela, na mesma intensidade. Eu sei que éramos amigos há uns bons 15 anos, sei que ela trabalhava com a gente há mais de seis e que fazia parte da minha vida mais intimamente. Mas caramba, vocês já tinham visto a mulher?
era uma das mulheres mais bonitas que eu já tinha visto na minha vida e a cada ano, ela só ficava ainda mais linda. Os cabelos eram longos, escuros e brilhosos, a textura eu não conseguia entender, porque, às vezes, ela surgia com ele cheio de ondas, e às vezes, quando dormia lá em casa, ele acordava meio cacheado. Só que combinavam demais com a pele bronzeada dela, Ramanush tinha uma pele que eu nunca conseguiria descrever a cor, mas não era branca, era como se ela tivesse nascido bronzeada. Linda pra caramba! Os olhos grandes, curiosos e de uma cor caramelo que eram quase verdes. Os lábios cheios que abriam uma variedade de sorrisos diferentes e wow...
Fui tirado dos meus pensamentos com as conversas paralelas na mesa, por sorte, ninguém percebeu minha viagem mental. Espera, ainda faltava quem ela mataria e se minha amiga pudesse ler pensamentos, aposto que seria eu o alvo da sua morte.
– Tá, Ramanush, mas quem você mata? – os interrompi de uma vez e a mulher me olhou com aquele olhar felino. Ela era um gato e eu o novelo de lã que ela estraçalharia. Me ferrei!
– Você, por ter me enfiado nessa brincadeira idiota! – levantou a garrafa em um brinde e lhe mandei um beijo alado.
Sem mais demoras, ela rodou a garrafa novamente e caramba, não conseguia tirar a hipótese mais idiota do mundo da cabeça. Bebi umas três cervejas seguidas para não pensar naquela merda, porque:
1: era minha amiga e eu a respeitava acima de tudo – por mais que quisesse ir para cama com ela. Era passageiro! – ;
2: ela tinha namorado – era um filho da mãe desgraçado, mas ainda era namorado dela. Não, eu não gostava do Leon e era recíproco.
O jogo continuou enquanto adentrávamos as estradas dos Estados Unidos e a cada cerveja consumida, as perguntas ficavam ainda mais perigosas, embora eu tenha conseguido me esquivar da maioria dando uma de bêbado, ou fingindo não entender o real sentido. Ela fez o mesmo, até aquela hora, quando o gargalo lhe indicou. Hannah perguntaria.
– Você é gay?
Caralho! Certeira. Arregalei os olhos para . Será que ela ia falar de Leon? A mulher nunca tinha o apresentado a banda, ou mencionado a existência dele e nunca entendi o porquê.
– Eita! – Scott deu um gritinho e como uma velha fofoqueira, prestou atenção na conversa.
– Por que você acha isso, cara? – ela parecia se divertir com as dúvidas da nossa engenheira de som.
– Ok, pertinente! – Jean apontou um dedo e tomou um gole da cerveja na garrafa. Precisava confessar, era muito pertinente, várias fãs da banda já tinham perguntado se curtia meninas.
– Eu nunca vi você com ninguém, cara! – a engenheira de som justificou a pergunta e ponderou com um aceno.
– Eu não sou gay, Hannah. – ela sorriu, cordial e bebeu mais da cerveja em mãos.
– Mas que merda, eu sempre tive um crush em você.
Caralho de novo! Me ensina a ser direto como você, Hannah.
– Opa! Vamos fazer acontecer! – Franccie esfregou uma mão na outra, realmente disposta a arrumar aquele affair.
– NÃO! Desculpa, Han, mas eu tenho namorado. – saltou de onde estava. Foi o bastante para deixar todo mundo ainda mais confuso com a história. Sinceramente? Eu entendia demais o espanto de todos eles e suspirei alto demais, atraindo atenção desnecessária.
– Espera, como? – Jean fez careta.
me olhou, pedindo por socorro, o que foi interpretado da forma mais errada que poderiam se esperar, mal abri a boca para tentar defendê-la e uma legião de especuladores quase me espremeram contra a parede.
– Espera, vocês estão juntos? – o choque no rosto de Franccie atingiu a gerente de turnê em cheio. – Ai, meu Deus, agora tudo faz sentido!
– NÃO! NÃO FAZ! – desafinei. Nervoso, eu estava uma pilha de nervos!
– GENTE, CALMA! – Ramanush soltou uma risada, desesperada. Ela estava tão nervosa quanto eu. – Vocês acham mesmo que se eu estivesse com ele ia conseguir esconder qualquer coisa? Ele é emocionado demais!
Pensei em protestar, mas não era uma mentira completa e acabei soltando uma risada.
– Pior que ela tem razão!
– O nome dele é Leon. – procurou algo no celular e nos mostrou uma foto deles dois juntos e completamente mecânicos. O que ela via nele?
A conversa seguinte foi toda sobre aquilo, enquanto eu ficava calado no meu canto, bebendo uma cerveja atrás da outra. Acho que já estávamos perto de Phoenix quando me enfiei na minha cabine e capotei depois de beber tanto.

Phoenix, AZ


Era meia tarde quando a banda estava prestes a entrar no palco mais uma vez naquela semana, o tempo estava extremamente corrido para tudo, quando não estávamos na tenda, estávamos viajando para alguma cidade próxima e quando não estávamos fazendo isso, estávamos zoando e bebendo para despistar o cansaço de uma vida em turnê. Eles, na verdade, eu evitava beber em serviço, por mais que precisasse ceder a uma cerveja para aguentar o tranco. O calor daquele lugar era particularmente escaldante e como se não bastasse, o transformador do ônibus de turnê tinha explodido por causa do tempo quente, sobrando mais uma dor de cabeça para mim e para Franccie resolver.
Depois do susto passado, iríamos repetir aquele espetáculo maravilhoso que mostrávamos todos os dias. Passei, conferindo se todos estavam prontos, se os pontos estavam bem presos e se precisavam de algo antes de entrar em cena, mas percebi uma presença diferente no nosso backstage. Eliot e eram como duas crianças.
– Hora do show, guys.
Confesso que eram ótimos e extremamente responsáveis com as obrigações, mas conseguiam ser crianças pentelhas quando bem entendiam, ou quando tinha um moleque de 20 anos por perto. Não sei que energia o filho do Charles tinha, mas ele saía contagiando todo mundo com aquela eletricidade jovem. Só que no momento, ele e estavam olhando na beirada do palco e eu aposto que tentavam flertar com algumas garotas do outro lado.
– Eles vão te pedir para chamar. – Scott apoiou o braço em meu pescoço e arqueei a sobrancelha.
– Nem fodendo! – fui curta e grossa. Meu amigo, quase cunhado, soltou uma gargalhada espontânea. – Você ri aí, porque tá todo comprometido, né? – o fiz engolir as risadas. Scott Lachini sabia que era verdade. – Senão estava na seca que nem esse bando de punheteiro.
Nós dois rimos ainda mais alto, afinal, sabíamos que era verdade.
– Quer apostar? – ele ajeitou a alça da guitarra azul e bateu no meu quadril de lado, com o dele.
– Quero apostar nada. Vai logo! – apontei para onde o grupo estava se concentrando e neguei com um aceno de cabeça. era inacreditável mesmo, me dava vontade de rir.
Conversei com o Chris sobre a troca de guitarra do Scott durante o show e me comuniquei com Hannah sobre os arranjos daquele dia. O palco era pequeno e não conseguiríamos arremessar o baixo do pela plataforma, então Franccie daria um show solo na bateria para arrasar os corações da galera. A mulher era foda!
Chequei minha lista no telefone e senti uma pontinha de vontade de mandar mais uma mensagem para Leon. Ele finalmente tinha me respondido depois do primeiro dia, mas conversávamos com palavras curtas e por mais que o sentimento de auto-humilhação quisesse aparecer, eu sabia que só estava tentando salvar meu relacionamento. Deixaria aquilo para depois, porque tinha me abraçado pelo pescoço e eu sabia que ele queria alguma coisa. A coisa que o Lachini tinha dito.
– Nem morta! – me adiantei, o empurrando para fora do abraço.
– Ah, Ramanush, qual foi?
– Se você quer, seja homem vá lá e chame! – apontei na direção que ele e o Eliot estavam espreitando e o menino acenou para mim, com um sorriso inocente. Eu deveria contar tudo ao pai dele, apostava que Charles não ia aprovar aquilo, ele era sensato. – Você sabe que eu sou mulher que nem elas e eu não vou me prestar a isso, para você e a criança ali conseguirem sexo. – os dois fizeram careta com minha fala. Que bom que tinha tocado no íntimo. – Vai, , anda! O Show!
! – ele fez manha, uma que não ia me convencer.
– Vai me conseguir sexo com algum gostoso do crew? – arqueei a sobrancelha, decidindo jogar o mesmo jogo que ele, embora aquilo não fosse ser possível porque eu ainda tinha um namorado. Meio merda, mas ainda era meu namorado. Eu só queria que o homem entendesse a situação como se ele precisasse passar por ela.
– Hm. Nops!
– Essa é a minha resposta para você! – o empurrei na direção do palco. Tínhamos exatamente três minutos para entrar.
– Então eu posso te conseguir com algum vocalista gostoso! Han? – ele abriu os braços como se mostrasse tudo que tinha a me oferecer. Espera, era impressão minha ou ele estava dando em cima de mim de uma forma velada? Ai, meu Deus, cara!
– Eu não vou transar com você, . – cortei antes que ele criasse expectativas ilusórias. – O show!
– Eu não estou falando de mim. – ele pareceu ofendido com meu fora e prendi a risada.
Dois minutos para entrar no palco.
– Ok, eu estou. Mas porra, imagina como ia ser bom.
Caramba! Ele estava falando sério? Minha Deusa, , não se meta em um lugar que você não pode sair!
– Não quero imaginar. , você vai se atrasar e a gente tem horário marcado. Sem mais gracinha! – ralhei de novo e finalmente consegui fazer com que o vocalista se juntasse aos outros. Avisei a Hannah que já estavam prontos pelo meu fone perto do ombro e finalmente pude respirar aliviada.
Que conversa torta tinha sido aquela?
Eu precisava desesperadamente da presença Save para me ajudar a decifrar aquela porrada de coisas.

-x-

Vez ou outra eu gostava de ficar até o desmonte total dos palcos do dia, era gostosa a sensação de desapego que logo seria precedida por euforia em saber que aquela estrutura estava sendo montada na cidade seguinte. A Warped Tour era muito maior do que só as viagens, os shows cheios de energia, o sentimento de amor pelos artistas que a gente gostava, a estrutura daquele festival transcendia qualquer expectativa que você criasse na cabeça. Nosso pai, o Kevin, terceirizava equipes de montagem de som e estruturas de palco por cada cidade que iriamos passar e alguém do crew principal sempre estava viajando mais cedo para fiscalizar isso.
Durante anos, eu também fiz esse trabalho por trás da grande magia, o verdadeiro backstage. Era tão gostoso saber que eu era parte da Warped, ela estaria sempre no meu coração, que me pegava com lágrimas nos olhos exatamente como aquele momento. Funguei no meio de uma risada, assim que vi meu pai andar na minha direção e enxuguei meus olhos marejados com o dorso da mão em seguida. Ele era um homem de 60 anos, poucos cabelos na cabeça e feições de um pai bravo, embora fosse um amorzinho.
– É de felicidade, Kev. – justifiquei minhas lágrimas e sem qualquer palavra, ele beijou minha cabeça, abraçando meu corpo amorosamente.
– Esse festival também é a minha vida, querida. – o abracei com força. Nós dois compartilhávamos do mesmo sentimento sobre àquela imensa empresa móvel. – Mas veja pelo lado bom, estamos deixando um legado maravilhoso na música. A maioria das nossas bandas principais começaram de verdade aqui, como a Just Kids. – ele sorriu, orgulhoso, para mim. – Você chegou para gente nesse mesmo festival e foi o nosso maior presente.
– Eu sei. – senti minha voz desafinar no meio da resposta. – Mas é difícil se despedir, pai. – soltei o pranto entalado na garganta e nos abraçamos com mais força.
– Tem certeza que não quer receber o bastão? Save vai ficar tão feliz, quanto você está por ela. – ele me perguntou com todo cuidado do mundo e neguei com um aceno de cabeça.
Tínhamos planejado aquele momento nos últimos seis meses e seria o mais incrivel de toda a Warped Tour. Kevin estava cansado e queria passar o legado da última tour para uma das filhas, ele me oferecera o bastão assim que pensou na possibilidade, mas eu sabia que não tinha estrutura emocional; então decidimos que Save saberia muito mais como comandar aquilo. Afinal de contas, nós dois estaríamos sempre ao seu lado.
– Save Lyman é a pessoa certa para herdar o legado da Warped Tour. – sorri, feliz, e beijei sua bochecha gorda, enquanto andávamos abraçados na direção do estacionamento.

Las Vegas, NV


Finalmente um day off depois de tanta correria para os shows e o cansaço das viagens longas. Não levem a mal, nosso motor home era muito confortável e servia a todas as nossas necessidades, mas eu não tinha mais idade para passar cinquenta dias dormindo num ônibus, bebendo cerveja de café da manhã e comendo pizza no almoço. Ninguém dentro daquele ônibus tinha mais idade para isso, então sempre que a gente tinha folga, fechávamos com um hotel em um quarto para cada. Aquele day off não tinha sido diferente e estar no The Cosmopolitan era realmente maravilhoso, principalmente quando só iriamos fazer show em Vegas no dia seguinte.
Dormi bem, comi melhor ainda e ainda tive sossego para conversar com minha mãe por telefone, era sempre assim em turnê, ela me ligava em dias alternados, preocupada com a minha saúde e bem estar como se eu tivesse cinco anos, pelo visto ela fazia o mesmo com Charlie. Dona Pam tinha feito uma chamada de video comigo e meus dois irmãos. Ela era uma gracinha!
Fiquei feliz pra caramba de ter visto meus cachorros na casa do Percy.

Estar na área de lazer de um hotel daquela magnitude era muito bom, as piscinas eram quase um parque aquático com ondas artificiais, cadeiras de praia ao redor de cada uma delas, bares imersos na água e ao lado dos locais mais movimentados. Além de muita mulher bonita passando de um lado pro outro. Paraíso, aquele era o paraíso!
Me espreguicei, contente e sorri para algumas moças que passavam acenando para mim, outras acabavam se insinuando um pouco mais do que apenas acenar, mas mantive o sorriso cordial. Atendi duas crianças com os pais e decidi que ia aproveitar minha folga ao máximo, afinal a noite tinha festa e das grandes. Baixei os óculos escuro no rosto na mesma hora em que um tapa ardido me atingiu no meio das costas. Depois outro.
– Ai caralho! – virei indignado para encontrar meu melhor amigo e meu irmão do meio, além do Eliot pentelho.
– Olha a boca, tem criança no recinto! – Charles zoou o próprio filho, que se limitou a rolar os olhos.
– Eu mandei esperar! – Scott ajeitou o boné na cabeça. Droga, eu tinha esquecido completamente dele.
– Vocês vão para onde? – direcionei minha pergunta aos outros e Charles apontou na direção do bar.
– Mamãe e a Leo estão lá. Vai com a gente?
Dei um aceno de cabeça na direção do Scott e ele deu de ombros, então seguimos na direção que os dois estavam indo, embalados em conversas amenas sobre como os shows tinham sido, sobre o que a gente esperava e o Eliot falando sobre a temporada passada do hóquei universitário – o moleque tinha ido para Frozen Four com o melhor amigo, que era do time rival –. Foi quando passamos entre as espreguiçadeiras e pegamos algumas bebidas geladas no bar que eu senti meu mundo ir direto pro chão.
Mais ao longe, em uma cadeira branca... eu simplesmente não acreditava um pingo no que estava vendo. Aquela era a ? Aquela mulher de biquíni pequeno azul marinho e que estava deliciosamente exposta ao sol era a Ramanush?
Desde quando ela tinha tantas tatuagens espalhadas pelo corpo? Desde quando minha melhor amiga era tão gostosa? Pelo universo, se existia tentação maior do que aquela, eu sinceramente, ainda não tinha encontrado. Era tão difícil vê-la sem todos os anéis, pulseiras e bijuterias de adorno pelo corpo que uau, era lindo demais quando parecia tão limpa sem os enfeites. As tatuagens escuras em reflexo ao sol; a Deusa no músculo externo do braço – o deltoide eu acho, Terry chamava assim –, a mão da magia na parte interna do antebraço, as fases da lua na base dos seios – que eu nunca tinha reparado tão bem – e uma roda de carroça na parte interna do antebraço. Aquilo era tão ! Ela era regida pela lua, a bruxa mais incrível que eu tivera o prazer de conhecer.
Segurei o braço de Scott, o impedindo de seguir andando quando Charles e Eliot já estavam lá na frente, cumprimentando minha sobrinha e minha cunhada. Não ia passar vergonha na frente da Ramanush, nem a pau.
– Essa é nossa gerente de turnê? – o impacto era vivo em minha voz.
– Meu amigo, ela é! – Lachini soltou uma risada e deu um tapinha em meu ombro como se me consolasse. – Cara, ela é uma mulher, você achou que fosse o quê?
– Bem menos gostosa, para ser sincero! – a honestidade pulou da minha boca. Porra, não era novidade ver a de biquíni, não para mim, mas caramba. Droga! Não sei o que inferno estava acontecendo com minha cabeça.
Scott bateu nela para ajudar a voltar o cérebro pro lugar.
– AI! Eu sei que falei merda, mas caramba... O Leon é um idiota!
– Não poderia concordar mais. merecia alguém melhor. – ao menos concordamos com isso.
Andamos na direção da espreguiçadeira que nossa gerente de turnê estava e só aí percebi que ao lado dela, estavam Terry e Leo, agora com Charles e Eliot sentados perto. Leonor me viu ao longe e acenei como um tio bobão assim que ela sorriu, nos chamando com um movimento de mão.
– Oi, princesa! – cumprimentei-a com um beijo na testa assim que cheguei perto do festival de mulher bonita. – E aí, Tetê? – beijei a bochecha da minha cunhada, chamando-a pelo apelido que só Charles chamava. Vou confessar que adorava implicar com ele.
Scott fez um toque de mão com Leonor e fez o mesmo com Terry, que estava com um chapéu imenso na cabeça, além de um biquíni que estava fazendo meu irmão do meio babar. Ia dar um balde de presente a ele. Por fim, sentei perto dos pés da , minha maior tentação, olhei para seu rosto e a mulher mordia os lábios prendendo uma risada como se fingisse que eu não estava ali. Puxei seu dedão do pé.
– Ai, ! – ela meteu o pé na minha cintura, mas não colocou força e me encolhi exageradamente. – Veio só encher minha paciência?
Scott estava em uma conversa embalada com a Leo sobre produção musical, pude ouvir de longe.
– Estava com saudade. – fiz um bico exagerado, mirando seus olhos fechados por segurança e respeito. – Não me maltrate. – puxei seus dedos novamente e ela fez a maior crueldade do mundo comigo. Me deu um chute leve e virou de bruços na espreguiçadeira, deixando a bunda empinada bem na frente da minha cara; filha da puta! Imediatamente olhei pros meus pés descalços no chão de pedra clara da área da piscina.
– O Leon vem te ver? – perguntei baixinho, me sentindo ridículo demais em querer saber daquilo.
– Basicamente. – ela tentou parecer convicta, mas a conhecia o bastante para saber que até ela duvidava disso. – Ele mora há uns quilômetros daqui, acho que pode ser uma boa oportunidade.
– Aposto que sim, freak. – suspirei, frustrado com meus sentimentos confusos, afinal de contas, antes de condenar aquele cara escroto, precisava apoiá-la nas decisões mesmo sabendo que provavelmente só eu a merecia da forma mais genuína.



PALCO TRÊS

Las Vegas, NV


Depois de passar o dia na piscina, tomando sol na companhia dos e do Scott, eu estava pronta para o que a noite talvez me reservasse. Tinha trocado algumas mensagens com o Leon mais cedo e chegamos a um meio termo de tentar conversar, ele morava em Vegas e eu estava em Vegas.
Toda mulher tinha seus truques, então foram horas hidratando meu cabelo, meu corpo, deixando minhas tatuagens vistosas, além de tentar esconder algumas manias que incomodavam o Leon. Será que eu estava com a pessoa certa? Eu ainda não tinha tido abertura para contar do meu maior segredo, embora já tivesse dado inúmeras pistas daquilo. Sacudi a cabeça. Não queria focar naquilo, mas me magoava muito não receber dele, metade dos elogios que recebi da banda assim que me viram no corredor do décimo andar, indo na direção do elevador.
Escolhi um dos jardins do hotel para ligar para ele, já tinha desistido de ir para boate com o pessoal, pois pretendia passar aquela noite com meu atual namorado.
– Hey! – declarei, animada ao ouvir que tinha sido atendida. – Já estou livre! – eu estava animada e afobada demais para aquela conversa, mas só percebi isso quando Leon soltou um suspiro exausto. Merda!
Oi... . – eu conhecia aquele tom pesaroso e doía tanto no meu peito. Ele não vinha, mais uma vez. – É... eu não vou conseguir ir... te ver hoje à noite.
Não disse? Senti a respiração faltar e pigarreei.
– A gente vai passar dois dias aqui, amanhã é o show, conseguimos nos organizar. – Por que eu estava sendo tão idiota aquele ponto?
Não sei se vai dar certo, mesmo. Não quer mesmo esperar para quando as viagens acabarem?
Não, eu não queria esperar mais nada. Ali eu entendi que ele não ia mudar, não ia mover uma palha para me ver em Vegas, por mais que eu me arrastasse pedindo. Eu estava puta por ter me arrumado no maior perrengue, como se Leon fosse tecer metade dos elogios que eu tinha escutado do , do Scott, do Jean, até da Hannah. Ali eu entendi que ele não era homem para mim, mas parece que ele tinha entendido bem antes.
– Fala logo.
– Eu não vou, . Eu não vou e não dá mais para continuar o namoro. Eu não consigo ser o cara que namora com uma mulher que viaja por mais de meses com, no mínimo, 5 homens em um mesmo ônibus.
– Mas consegue ser o merda machista que fala esse tipo de coisa, não é? – a pergunta saiu espinhosa da minha garganta, porque sinceramente eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. – Eu não acredito que você teve a audácia de insinuar isso, Leon.
Desculpa, . Só que não dá mais.
Foi daquele jeito que aquele filho da mãe acabou a ligação, sem qualquer respeito por mim e a única coisa que consegui foi segurar o telefone para não jogá-lo no chão e soltar um grunhido indignado no meio do jardim.
Leon iria me pagar caro por tudo aquilo!



Estávamos quase saindo do The Cosmopolitan para entrar na van e ir para festa na boate, quando vi a completamente perturbada no jardim da frente do hotel. Ela tinha saído do quarto tão animada, tinha trombado com ela no corredor e a mulher estava estonteante, fazendo planos e nos desejou até uma boa festa, mas fiquei preocupado quando vi que ela estava destruída lá fora. Pedi ao Larry para esperar um pouco e corri de leve até onde minha amiga estava. Já sabia que ela não sairia com a gente para boate nenhuma, mas ia tentar mais uma vez, ao menos para ver se a animava um pouco.
– Wow! Que mulher linda! – diminui a velocidade com que me aproximava e a segurei pela mão livre, induzindo-a a gritar em torno do próprio corpo, mas senti que a tremia. Senti que ela não estava bem, não precisava nem olhar para cara dela, até porque aquela risada triste me destruiu. – Eu sei que você me disse um não, mas eu vim te chamar para... – me interrompi assim que vi como os olhos dela estavam sem brilho, decepcionados e marejados por um choro, que eu apostava, só precisava de um ombro amigo para sair. – Ei... o que houve? – apertei a sua mão com força e carinho.
engoliu seco, acho que o nó na garganta ou a vontade de chorar, e eu controlei o da minha. Odiava vê-la daquele jeito, me quebrava de uma forma que eu nunca consegui entender, era como se tivéssemos uma ligação diferente. Ela fez mais força para não desabar na minha frente e merda, eu quis matar o desgraçado do Leon naquele exato momento, sabia que aquilo era culpa dele.
– Psiu, sou eu, o ! – passei o polegar, da mão que não segurava a dela, embaixo do olho marejado e aquilo foi o necessário para que minha amiga descontrolasse em um pranto penoso. Forcei aquela dor goela abaixo. Não dava para chorar junto com ela.
As lágrimas desciam de quatro em quatro no meio das bochechas, a boca se torcia em um bico triste e o corpo da parecia sucumbir a uma dor que eu tinha certeza ser emocional, embora aliviante pelos suspiros desesperados que saíam da boca dela.
– Shii, não precisa chorar, já passou. – Puxei-a para junto do meu peito sem qualquer resistência, sentindo quando minha melhor amiga se agarrou ao meu abraço desesperadamente. Respirei fundo e passei os dedos pela coluna dela em um carinho confortante. – Calma. – falei contra sua testa. – Vai ficar tudo bem, eu prometo.
– Ele terminou comigo, . – A voz embargada exalava ódio e ressentimento. – Da pior maneira possível. A PORRA DO PIOR JEITO! – tremia levemente e pela voz grave e sombria, eu sabia que era raiva, uma raiva que tomava o coração tão lindo e puro dela. – NO MEIO DO MELHOR MOMENTO DA MINHA VIDA! Eu vou amaldiçoar esse desgraçado!
- HO HO HO. CALM DOWN! – aquilo bateu medo até em mim. Eu acompanhava a na jornada bruxa há tempo o bastante para saber que ela era sim capaz de amaldiçoar qualquer pessoa, principalmente se estava tão cheia de ressentimento. Mas não ia deixá-la estragar a vida por causa de um merda daqueles.
Segurei seus ombros com firmeza e a sacudi de leve, talvez assim a mulher caísse em si.
Que história de amaldiçoar o quê? Se tinha uma coisa que eu tinha aprendido durante anos seguindo uma filosofia budista, ainda que um pouco afastado, era que toda ação tinha uma reação e sabia que os deuses que a acreditava não iam deixá-la impune por amaldiçoar um idiota qualquer.
– Que amaldiçoar o quê, mulher? Calma aí e respira. Eu gosto dele TANTO quanto você nesse momento. – suspiramos. – Mas existe algo chamado carma e você sabe, toda ação tem uma reação. Sua Deusa mãe ia ficar muito furiosa vendo você gastar todo esse poder lindo para amaldiçoar um merdinha qualquer. Vai amaldiçoar ninguém, ok? – induzi sua resposta positiva com um aceno de cabeça, vendo um bico imenso nos lábios da minha amiga.
A repreendi com o olhar. Tínhamos um jeito próprio de nos comunicar por ele. suspirou se dando por vencida e finalmente consegui sorrir, aliviado por ter conseguido que ela mudasse de ideia. Ramanush rolou os olhos para mim, me deixando como única opção, beijar sua testa mostrando que eu estava ali para qualquer coisa.
– Ótimo! O que você vai fazer agora é... – enxuguei seu rosto com o polegar. – Empinar esse narizinho lindo e curtir a festa com a gente, beber, encher a cara, qualquer coisa. Beijar umas bocas! – dei de ombros como se a gente realmente estivesse no clima para aquilo e consegui uma risada, uma daquelas divertidas. – Se quiser beijar a minha, já que agora tá solteira, estou as ordens, viu?! – aproveitei o momento para fazer mais graça, embora nem tanto, conseguindo uma gargalhada mais do que espontânea.
– Você é um idiota! – Ramanush respirou fundo e um sorriso largo varou minhas bochechas quando minha amiga pulou, me abraçando pelo pescoço de surpresa. Envolvi-a com meus braços, sentindo aquela sensação gostosa de lar. – Eu te amo, . Obrigada por tudo!
– Também te amo, freak! E isso nunca, absolutamente nunca, vai mudar! – segurei sua cabeça com delicadeza, lhe dando um beijo carinhoso na testa. – Agora vamos fingir que esse merda nem existiu na sua vida. Vamos curtir, porque a Farewell Warped está só começando! – pisquei, arrancando o sorriso mais lindo do mundo dos lábios dela. – Vem comigo curtir essa aventura?
Estendi a mão aberta e fiquei feliz quando a não hesitou para agarrá-la com força.
– Com certeza, loser!



Eu tinha sim ficado frustrada ao ponto de querer me enfiar num quarto e só sair no outro dia, mas foi reconfortante ver me tirando daquele buraco fundo só com seus abrações e beijos na testa. Era visível o jeito que ele tratava todos os meus assuntos com cuidado, minhas crenças, meu jeito de fazer as coisas, minhas tatuagens, tudo!
Fomos abraçados até a van, onde todo mundo já se amontoava para entrar e pelo visto, eu ia ter que dar um jeito de botar o moleque filho do Charles para dentro da festa. Não me permiti chorar naquele momento depois do que tinha acontecido, não ia ficar remoendo um pé na bunda, quando eu tinha me conscientizado que precisava de coisa melhor. Não, eu não precisava de ninguém, precisava resgatar meu amor-próprio primeiro e viver aquela aventura com meus amigos, as pessoas que tinham me acolhido naquele mundo novo, Save e . Alô, Afrodite, estou chegando para trabalhar com você. Depois mais tarde repassaria na mente quais elementos eu precisaria para montar meu altar móvel.
Ninguém me perguntou nada, nem sobre o Leon, nem sobre eu estar saindo com eles ao invés de ir encontrar o cara. A única pessoa que tentou uma conversa séria comigo, enquanto o resto da equipe ria de qualquer brincadeira, foi o Eliot querendo saber como fazia para entrar na boate sem ser barrado pelo fato de ter 20 anos.
Jean sugeriu um ID falso – que eu, sinceramente, não sei de que buraco ele tiraria –.
mandou o amigo se foder – e eu concordei com ele –.
Franccie disse que era melhor Eliot voltar pro The Cosmopolitan, já que Charles, Terry e Leonor não iriam para festa – e olha, concordei com ela também –.
Hannah disse que ele não seria chutado fora da boate se não bebesse – olha, ela até tinha razão. Mas o moleque era um e está para cachaça, assim como eu também estou. Não ia rolar –.
Scott por outro lado, olhou para mim com uma expressão absurdamente óbvia e disse que era só usar o nome do moleque, ele entrava sem o menor problema – caramba, ele tinha razão! –. O sobrenome abria portas de um jeito que nunca tinha achado ser possível e se caso não abrisse, eu tentaria colocá-lo para dentro pela porta dos fundos, conhecia alguns seguranças camaradas.
Que ele não fizesse merda, ou Theresa arrancaria minha cabeça.
Soltei uma risada com a conversa leve que pairava ali e de uma coisa tive certeza – além de que Scott concordaria comigo – só estava faltando Save para festa ficar ainda melhor. Mandei uma mensagem para ela.
Save
visto por último hoje às 21:35

Sinto sua falta! Você tá perdendo Vegas, babe

Amanhã chego para te tirar desse mar de testosterona! ;)

Acho que fiquei perto demais deles e fui afetada.

AGUENTA FIRME! Você tá bem?

Melhor agora que tô falando com vc 😏

AAAAAH NÃO! Perdi uma guerreira

Ri tão alto que interrompeu até a conversa. Todo mundo olhou para mim.
– Desculpa! – tapei a boca, voltando a tela do meu celular e decidindo que não contaria sobre o Leon por enquanto. Ele não merecia essa atenção toda e eu não queria chorar ao lembrar daquele pé na bunda.
Save
visto por último hoje às 21:35

KKKKKK TAPADA! Mas sério! Preciso mesmo de você aqui!

prometo que estou a caminho, irmãzinha!

Era bom sentir a família perto, meu lar, minha casa. Nós tínhamos crescido nos últimos 15 anos como irmãs e eu não acabaria com aquela relação por nada nesse mundo.

-x-

Inferno. Aquela noite só poderia se resumir em inferno. Se a quantidade de álcool que eu tinha ingerido não havia me feito ficar bêbada, nada mais faria. O ruim de estar sóbria? Ter que literalmente cuidar de cinco marmanjos bêbados, incluindo um de menor idade para beber, que não mediam o tamanho e nem as consequências do perigo de estar em uma boate, com uma mesa cheia de “fãs”, groupies, na verdade. E foi por aquele motivo que saí enfiando camisinha no bolso de todo mundo, por mais que não fosse minha obrigação. Eu gostava demais deles para não me preocupar.
Definitivamente, eu odiava estar sóbria! Pensando bem, também odiava estar decepcionada com Leon, odiava ter levado um fora, odiava não ser a dona ou controladora da situação e odiava meu corpo por não se afogar na quantidade de álcool que tinha bebido. É... estar sóbria era o grande problema ali!
Levantei do banco compartilhado, determinada a conseguir algo que a fizesse perder os sentidos, de tão forte. Passei por entre os palhaços que aproveitavam da área VIP e me recostei ao balcão do mesmo andar, esperando que o barman bonitinho viesse atender. Batuquei os dedos no tampo de acrílico brilhante, enquanto o rapaz não vinha e observei o que acontecia ao seu redor, tirando a conclusão de que estava em uma Warped de Luxo, simplesmente por ver todas as bandas que convivia diariamente por ali.
– Moça?
Virei, assustada pela surpresa da voz.
– Eu quero o que você tem de mais forte aí! Estou a fim de perder os sentidos hoje! – o pedido saiu um pouco imprudente, confesso, mas estava pouco ligando. Pelo visto o barman também já que ele soltou uma risada divertida, provavelmente já tinha uma ideia do que me dar para beber.
– Tem certeza? – ele piscou para mim. Era um flerte? Ai, meu Deus, ele estava flertando comigo? Uau, , isso é... socorro!
Lhe lancei um sorriso bonito.
– Absoluta! Já bebi de tudo, embebedei cinco homens enormes e ainda consigo sentir o gosto do chifre na testa! – abri um sorriso amargo demais para o rapaz que se apresentou por Julius. – Preciso de algo que derrube decepção e, se possível, me derrube junto!
– Saindo um derruba decepção! – ele soltou, animado, e começou preparar o drink com mais bebidas do que eu achava possível, já tinha tomado uma dose de possivelmente cada uma delas, mas não tinha imaginado que todas juntas pudessem finalmente fazer efeito. Recebi a bebida escura com empolgação e agradeci mais uma vez ao meu provedor.
Minutos depois me entreguei a pista de dança da área VIP, saboreando aquele drink do que inferno que, com certeza, deveria ter ao menos uma gota de absinto dentro. Ele era agridoce no começo e depois da primeira golada tinha um leve gosto amargo que arranhava a garganta, era delicioso, mas sem deixar de mostrar a porcentagem de álcool que tinha ali. Era forte, indiscutivelmente era forte e quem sabe seria minha saída aquela noite!
Se a Lyman me visse bebendo aquilo, iria gritar até perder a voz. E com razão!
Me juntei a um grupo de pessoas que dançava e sacudi a cabeça no ritmo do remix que tocava, sentindo a sensação de tontura tomar conta dos meus olhos, ou aquele negócio era muito bom, ou tudo que tinha bebido já começava a pegar. Soltei uma risada deliciosamente satisfeita, sentindo o corpo ficar levinho, a cintura mais mole, a cabeça confusa. Meu equilíbrio estava indo embora e a única coisa que eu conseguia era rir com a situação.
Certificado de bêbada!
Aquela música me lembrava tanta coisa. Era um misto do que eu tinha aprendido a gostar de ouvir quando morava com meus pais, era uma loucura no peito ouvir aquele ritmo de novo e talvez fosse a mãe Lua me dando um sinal de que eu deveria procurá-los novamente. Sacudi a cabeça para não pensar naquilo enquanto estivesse bêbada e senti o ritmo indiano possuir minhas origens ciganas. De repente lembrei de todas as danças que aprendi antes que completasse meus 15 anos e comecei balançar meu quadril para lá e para cá, como se tivesse uma correntinha de medalhas em volta dele. Era como uma dança do ventre meio bêbada.
Soltei uma gargalhada inexplicável antes de sentir que um corpo maior e mais volumoso que o meu se aproximava por trás, querendo dançar junto. Ele – eu acho que era ele, porque não olhei para trás – tocou na lateral da minha cintura muito delicadamente e depois da permissão concedida, soltou um risinho rouco que me deixou arrepiada, senti sua mão enorme deslizar por meu abdome. O homem tinha encaixado o corpo no meu e começado seguir o ritmo que eu dançava. Que safado!
Sabe a merda? Eu poderia muito bem me livrar daquele abusado, mas era gostoso demais estar sendo desejada daquela forma depois de tanto tempo, então não conseguia pensar em um bom motivo para mandar o cara se afastar. Talvez fosse um bom motivo para tentar conhecê-lo. A imagem embaralhada do braço esquerdo dele me abraçando, revelava algumas tatuagens que começavam do pulso e provavelmente seguiam por todo o braço, o perfume também era extremamente familiar, mas o esfregado discreto do quadril me tirava da pouca consciência que ainda restava. Depois eu pensava se conhecia aquele safado!
– Queria ter outro elogio na língua, mas minha cabeça bêbada só consegue processar o quanto sua bunda é bonita. – a voz saiu bem ao pé do meu ouvido, parecia rouca por esforço, embora fosse deliciosa mesmo assim. Arrepiei inteira com o tom obsceno dele.
– Sendo assim, eu agradeço! – aceitei o elogio de bom grado, esfregando meu corpo um pouco mais no dele e senti o suspiro desesperado atingir meu pescoço.
A mão se abriu em meu abdome e timidamente, rebolamos juntos ao som de qualquer batida sem noção que fazia as pessoas gritarem. Que merda, , por que você estava gostando tanto de se esfregar em um desconhecido? Um beijo sem permissão aconteceu bem ao pé do meu ouvido. Arrepiei dos pés à cabeça, mais uma vez, só que dessa vez satisfeita.
Há quanto tempo eu não recebia algo do tipo?
– O que era isso que você estava dançando? – ele enfiou o nariz em meu pescoço, aspirando com força meu perfume e joguei a cabeça para trás, apoiando a nuca em seu ombro. Ele tinha o cabelo escuro, foi o que consegui identificar pela penumbra da boate. Por que as luzes estavam apagadas?
– Uma variação cigana de dança do ventre. – soltei a verdade enquanto sentia a ponta da língua dele passear por minha pele e me deixar em chamas. Será que iriamos acabar transando em algum lugar? Maybe fosse o álcool, ou talvez a dança, quem sabe o beijo também.
– É muito sensual. – a voz vibrou contra meu pescoço. Me parecia tão familiar. – Confesso que é excitante pensar em você dançando ela completa... – o sussurro vagabundo me deixou ainda mais acesa.
Eu não podia transar com ninguém bêbada daquele jeito. ia me matar se eu me arriscasse, do mesmo jeito que eu o mataria se ele fizesse o mesmo.
– Sinto muito, mas vou ficar te devendo essa! – mordi os lábios.
Ia ao menos aproveitar nossa dança gostosa e sensual. Aquilo continuou por mais alguns minutos e entre beijos no pescoço, contato de quadril e algumas puxadas no cabelo dele sem um contato realmente visual. O rapaz precisou ir, se despedindo com um beijo sugado no meu pescoço. Respirei fundo e decidi que era hora de voltar para mesa onde o pessoal estava, talvez o clima para mim melhorasse depois de já estar bêbada.



PALCO QUATRO

Las Vegas, NV


Odiava ressaca. Odiava ter dor de cabeça no meio de uma turnê. Odiava ficar chata porque não tinha dormido direito. Odiava uma porrada de coisas relacionadas aos porres que eu já tinha tomado na vida, mas o do dia anterior parecia realmente necessário, por mais que minha cabeça latejasse. A banda em peso ainda dormia dentro do ônibus quando chegamos ao parque e nós do crew, fomos resolver o que estava pendente para o maior show em estrutura que aconteceria mais tarde.
Conseguiríamos atirar o baixo do , jogar as bolas infláveis e muito provavelmente, fazer um feat com o Charles no palco. Aquilo me lembrou que o filho mais velho dele estava capotado dentro do meu ônibus, Theresa iria matar o e eu aplaudiria de pé.
Tomei mais um gole do meu café quente, rindo com as histórias mais sem noção do Harry sobre o que já tinha fotografado na estrada, mais precisamente dentro do nosso ônibus de turnê e as palhaçadas dos meus meninos, que envolviam se cobrindo só com o baixo – há uns 5 anos –, Jean bêbado com a careca pintada de preto e todos os porres do Scott. Nosso fotógrafo também tinha cliques lindos de todos nós e confesso que as fotos em que eu era o foco da sua lente, eram as minhas preferidas.
Um pouco depois levantei para organizar os shows daquele dia e mandei mensagem para minha melhor amiga, perguntando que horas ela chegaria. Scott também tinha feito isso a manhã toda, então tratamos de trabalhar.
Estava quase terminando de recolher as coisas em cima da mesa quando senti um corpo me abraçar com força pelas costas. Não era grande, provocante ou gostoso; era esguio, magrelo e amoroso. Virei de uma vez e quase tive um treco no coração ao ver minha irmã com um sorriso gigantesco me encarando, não contei conversa e agarrei seu corpo em um abraço de quebrar os ossos.
– FINALMENTE VOCÊ CHEGOU! – gritei e Save me abraçou com ainda mais força. Eu nem conseguia explicar o quanto amava aquela doida.
– Eu não ia perder sua última Warped! Nem por todo dinheiro do mundo, nós prometemos que iriamos curtir juntos, lembra? – minha melhor amiga, que era como uma irmã, me sacudiu e nós duas rimos. – Cadê os patetões? – apertei-a em mais um abraço, não acreditava que ela estava mesmo ali.
Há uns meses, no meio de uma bebedeira lá em nosso apartamento, entre nós duas, e Scott, prometemos curtir aquela turnê como a última de verdade, afinal tinha sido ali que havíamos nos conhecido. Todos nós.
– Estão espalhados por aí. Já viu seu pai? – sacudi seus ombros de leve e minha amiga negou com uma ceno.
– Ainda não vi papai, mas ele estava louco me ligando a cada 10 minutos. – nós duas rimos. Kevin Lyman era bem conhecido por seu cuidado e proteção.
Abracei Save de lado e a levei comigo na direção em que o ônibus do Kevin estava, lá era como uma casa, as vezes quartel general e ainda servia como sala de reuniões para todas as pendencias monstruosas da Warped. O motor home era realmente incrível!
Naquele dia mesmo Savannah teria a maior surpresa do mundo e eu estava cheia de orgulho pela decisão do pai, afinal tinha sugerido e o ajudado a organizar tudo para a passagem do bastão. Isso mesmo, Savannah Lyman, a produtora musical mais incrível e responsável do mundo, comandaria a última Warped Tour. Claro que com o pai e toda a equipe ao seu lado.
Eu estava sufocando de tanta vontade de abrir minha boca e contar tudo a ela, mas tinha prometido ao pai que guardaria segredo.
– Como vai a produção dos moleques? – perguntei sobre a nova banda que Save estava coproduzindo, o Why Don’t We. Eles tinham saído de um estilo padrão boyband e segundo minha amiga, estavam em busca de uma nova era, que incluía muita identidade.
– INSANO! – Savannah soltou um gritinho eufórico, me fazendo ver mais uma vez como ela amava o que fazia e aquele era um dos motivos pelo qual minha amiga e Scott Lachini davam tão certo. Os dois produziam música como ninguém. – Eles são muito bons e estão sendo a peça principal na produção do disco novo. Já gravamos todos os vocais das músicas e eu as trouxe cruas para você dar uma olhada. – olhei para minha amiga cheia de expectativas quando já caminhávamos para o quartel general.
– Eu sinceramente estou ansiosa demais para ouvir. – apertei seu braço enlaçado ao meu.
Minha amiga me olhou com aquela cara, a expressão curiosa e especulativa sobre a noite anterior, quando eu tinha lhe mandado várias mensagens. Pelo que eu conhecia Savannah, ela tinha duas perguntas bem pertinentes, uma delas era sobre eu ter me resolvido com Leon, por mais que ela não gostasse dele, a outra era sobre se eu tinha aproveitado a festa em Vegas.
Suspirei, exausta, além de , ninguém mais sabia daquilo.
– Ele me deu um pé na bunda e ainda insinuou que eu saía com algum dos meninos. – nós duas sabíamos bem qual era a pedra que Leon cantava sobre aquilo. Save me abraçou com força, passando conformação e carinho, nós duas sabíamos que ela queria estar comigo na noite de ontem.
– Nessas horas eu queria muito saber matar alguém só com a força do ódio. – ela bufou, indignada e eu não tirava sua razão, tinha sido uma sacanagem daquelas comigo. – Você contou ao ?
– Impossível não contar. – grunhi, frustrada. – me conhece bem demais para saber quando tudo está acontecendo e ele acabou me consolando.
Savannah me abraçou mais uma vez e retribuí o gesto de carinho. Nós três, eu, ela e tínhamos uma ligação legal e os dois eram minha família dentro daquele país louco que era os Estados Unidos.
– Fico feliz que ele estava aqui. – ela foi sincera e sorri, agradecida. – Mas me conta, ficou amuada pelos cantos ou foi para festa com a banda? – a expectativa na minha amiga era tão engraçada que soltei uma risada.
– Você acha que vou ficar sofrendo por macho, enfurnada num quarto? – tentei ser presunçosa o bastante, mas saiu tão ressentido que rimos juntas. – Fui sofrer enchendo a cara, colocando um menor para dentro de uma boate e me esfregando em desconhecidos. – soltei a última opção como se fosse irrelevante e o queixo da minha melhor amiga quase foi ao chão.
– COMO ASSIM, RAMANUSH? – o grito dela foi a melhor coisa daquele dia, por mais que fizesse minha cabeça latejar. Fiz uma carinha sapeca que instigou ainda mais a curiosidade da minha irmã de alma. – Me conta logo, mulher! Afogou as mágoas beijando outra boca?
– Calma que assim também não! – arregalei de leve os olhos. – Não beijei ninguém, mas amiga, dancei com um desconhecido... PELA LUA! Que homem, minha Deusa!
– VOCÊ TÁ BRINCANDO? E não beijou o cara?
Parecíamos duas mariquinhas fofocando sobre minha festa que tinha saído melhor que o esperado. Ao longo da caminhada, encontramos alguns conhecidos e a maioria deles, eram de bandas.
– Eu nem vi a cara dele, sua louca! Fala baixo que ninguém sabe disso. – sussurrei e belisquei o braço de Save, queria que ela parasse de escândalo. Ela me olhou cheia de expectativa e soltei minha versão fofoqueira. – Eu estava dançando e ele chegou por trás, pediu permissão com um toque na cintura e me abraçou depois. Beijou meu pescoço e conversamos bem pouco, mas socorro, Save, eu achei que iria pegar fogo! Combustão Boooooom!
– Ai, meu Deus! Que delícia. – nos sacudimos, histéricas. – Qual o nome dele? Ou alguma coisa que possa identificar esse homem, . Será que ele é o cigano que a sua avó falou?
Aquela pergunta da Savannah me tirou o chão e os sentidos. Tudo parecia longe demais enquanto eu tentava processar o que estava acontecendo na minha vida. O término catastrófico com Leon, o cara na boate que fizera meu corpo entrar em chamas, minha idade atual. Infelizmente tudo batia bem demais com todos os sonhos da vovó e isso significava que eu precisaria fazer as pazes com meu passado o quanto antes. Só vó Aurora poderia me dizer se era verdade e para isso, eu precisaria encontrá-la.
O grande problema? Era esse, encontrar o acampamento no meio do continente americano.
– Eu não sei. – enfiei os dedos entre os cabelos e refiz o rabo de cavalo. – Foi rápido demais, Save, só consegui sentir o perfume que me parecia familiar, por mais que eu estivesse muito bêbada e vi que ele tinha uma tatuagem no punho.
– Onde você o achou? Praticamente todo cara dentro desse festival tem tatuagem no braço. – bufamos.
– Na pista superior, onde estavam todos os caras que a gente vê diariamente por aqui. – puxei-a com mais rapidez para porta do ônibus do pai. – Na parte VIP, das bandas consagradas.
– Veja pelo lado bom, menos caras para você tentar encontrar. – a safada da minha amiga deu de ombros e a empurrei logo dentro do ônibus, que estava quase cheio, por sinal. Além do crew principal junto com o Kevin, Scott e também estavam ali. Sorri para os dois, cheia de expectativa.
Savannah deu uma corridinha e sem demoras se chocou contra os braços do guitarrista da minha banda, ganhando vários beijos na testa do homem apaixonado. Me perguntava compulsivamente por qual motivo eles não assumiam logo aquele relacionamento, principalmente quando saíam em dates no tempo livre, os vários beijos que eu e já tínhamos presenciado, fora as inúmeras vezes que encontrei Scott só de cueca na nossa cozinha. Por que ser tão complicados?
Bom, ao menos ela não percebeu que todo mundo estava ali para presenciar algo importante. O próximo a receber os abraços fortes da Save tinha sido o pai, ela quase pulou com tudo no colo do velho como se tivesse cinco anos e o homem soltou uma risada tão divertida e animada. Kate, mãe dela e a minha do coração, estava bem ao lado e recebeu o aperto com a mesma intensidade.
– Encomenda entregue, capitão! – andei na direção da minha família quando Savannah cumprimentava e a equipe de apoio com abraços breves. Kevin segurou minha mão e me puxou para um abraço de lado, me olhando ansiosíssimo para dar logo a notícia. Confesso que também estava uma pilha de nervos pela reação dela, aquela seria a Warped comandada por uma mulher, uma mulher e tanto.
– Bom, já que estamos todos aqui no quartel general móvel. – rimos com as brincadeiras do pai. – Tenho um anúncio importante a fazer. – ele respirou fundo e abraçou Save do outro lado, mostrando nós duas como suas duas sucessoras. Ela parecia confusa com a conversa e prendi uma risada.
– Vou aproveitar que minha família está aqui... – ele tropeou as palavras. – Para dizer que estou me aposentando.
Funguei.
– Então quer dizer que é seu último festival? – Save o abraçou com força, beijando a bochecha do pai e ganhou um beijo na cabeça.
– Não, querida, quer dizer que esse é meu último dia de festival. – o homem abriu um sorriso largo demais, um daqueles imensos capazes de fazer o coração ficar quentinho e batendo forte. – A partir de hoje, a Farewell Warped estará sob nova direção. Estou velho, cansado demais e esse festival ficou grande demais para mim, ele é meu terceiro filho depois de vocês duas e... – ele engoliu seco. Eu me odiava por chorar também, mas esfreguei os olhos. – Agradeço a todos vocês por esses anos realizando os sonhos de tanta gente. Esses dois moleques são a prova viva disso. – ele apontou para e Scott, os dois riram baixo, mas com uma expressão triste. O crew principal estava imerso em tanto orgulho do Kevin, até a Kate estava com aquele olhar maravilhoso, só Save estava confusa. – Então depois de tanto conversar com a , nossa maior especialista em Warperd tour – eles soltaram uma risada e eu também – chegamos a uma conclusão sobre quem deve seguir com a última tour do legado.
Aquilo era tão doloroso de ouvir, a última Warped Tour do legado.
– Savannah Lyman, a última Warped Tour é toda sua! – estiquei as mãos para minha amiga e pude ver a surpresa estampada em seu rosto. O grito veio logo depois, assim que fomos abraçadas em um aperto paternal emocionado, o pai beijava nossa cabeça repetidamente, engolindo seco o choro que queria vir. – E se você pedir, eu largo essa marmanjada toda e te ajudo! – abri um sorriso solicito. Save me abraçou pelo pescoço e a esmaguei também.
– Eu sei que eles precisam mais de você do que eu. – nós rimos. – Não dá para deixar a creche sozinha, ou eles tacam fogo no ônibus.
As gargalhadas vieram, junto com as felicitações da equipe braço direito da Save. Kevin não iria largar tudo de vez, só não estaria mais no comando, mas seria o braço direito da filha ajudando no que fosse necessário. Eu estava extremamente orgulhosa da minha irmã e sabia que ela faria daquela última Tour, uma das mais importantes do legado, seria a Warped das Divas, a que exaltaria todas as mulheres e LGBTQIA+ que faziam da música pop punk, um mundo mais igualitário.



Ah, Vegas. Vegas e suas surpresas, ainda estava encucado para saber quem era a mulher tão cheirosa que eu tinha dançado noite passada, não tive qualquer oportunidade de ver seu rosto, mas ela tinha um movimento envolvente demais com a cintura, além da risada gostosa. Estava bêbado? Estava até demais, porém não dava para esquecer o jeito que nossos corpos se encaixaram naquela dança.
Mas nem só de diversão vivia o homem da música e o nosso backstage já estava cheio, além de que o orgulho me inundava toda vez que eu olhava para Savannah, sabendo que ela seria uma líder e tanto na última turnê. Scott estava brilhando ao lado dela, cheio de bonitos sorrisos orgulhosos, ficava feliz que meu amigo tinha encontrado o amor da sua vida. Nós sempre apoiamos muito o relacionamento dos dois, inclusive o pai dela, que tinha acabado de chamá-lo de genro no backstage.
Prendi a risada com a brincadeira do velho Kevin, ou acabaria virando alvo dele também.
– ESTÃO PRONTOS? – nossa gerente de turnê gritou do fundo do backstage, estava conferindo as bolas infláveis.
Gritamos afirmativamente e em coro. Afinados, eu diria.
Mais uma vez a energia entrava pelos meus poros e eu plantava bananeira perto de uma das paredes. De ponta cabeça, eu via Save abraçando meu amigo pelas costas, enquanto recebia carinho nos braços ao redor da cintura do guitarrista; Franccie rodava as baquetas nas mãos e balbuciava uma oração só dela, trabalhávamos juntos há mais de 15 anos e seus rituais eram os mesmos; e Jean estava concentrado na guitarra como se repassasse todas as notas do show em movimentos leves de dedos.
– UM MINUTO! – gritou novamente e voltei meus pés ao chão, saindo da posição de yoga. – Só lembrando: As baquetas da Franccie estão do lado esquerdo da bateria. Colocamos uma palheta a mais pro Jean no suporte do microfone e trocamos o pedal do equipamento de chão. – entrou diretamente no nosso campo de visão, enquanto afirmávamos sobre os avisos dela. – Scott, as guitarras da troca vão ficar bem ao seu lado direito, então é só sinalizar pro Macon. – a mulher indicou o homem empurrando o suporte com as guitarras e ao longe, vi toda a minha família entrar no backstage, sendo inevitável abrir um sorriso largo pelo sentimento bom de apoio que eu sempre tinha antes dos shows. – ?
– Ai caralho! – gritei do susto, minha equipe inteira riu. – O que foi? – eu estava perdido olhando para cara da minha gerente de turnê. Um adendo: que mulher bonita do caralho era aquela? Porra!
– O ponto tá no lugar?
– Não acredito que você tá me cobrando isso, cara. – soltei uma risada divertida, que se completou a dela e estiquei um braço para receber um abraço apertado da Len. Minha sobrinha caçula beijou minha bochecha e cumprimentou todo o pessoal, sendo saudada de volta.
Abracei minha família em gratidão e assim que recebemos o comando da , invadimos o palco para o primeiro show daquele dia em Vegas. Um que iria ser mais do que especial, pois marcava a passagem de bastão para o comando da Warped.
– E AÍ, VEGAS! – cumprimentei minha plateia que foi à loucura. Nossa programação seria diferente àquele dia, já que geralmente entravamos com Heartbeat na ponta da língua. – Hoje vamos começar diferente, então uma salva de palmas para Save Lyman! – mostrei nossa nova chefe que entrava no palco correndo com um microfone na mão, acenando para o público que a recebia com palmas.
Savannah declarou que havia recebido a gerência do festival, sempre com o Kevin ao seu lado. A produtora musical prometeu que faria daquela, a turnê que botaria a mulher como principal figura no mundo da música e preciso confessar que nossas fãs foram a loucura. Franccie fez um solo bateria surreal e e Hannah gritaram em resposta, uma na lateral do palco e a outra pelo fone de apoio da mesa de som. Nossa banda tinha mulheres incríveis e eu era extremamente grato por elas.
Eu, Scott e Jean, fizemos uma referência real as três e mais gritos foram ouvidos. Save agradeceu o espaço e autorizou que começássemos o show foda da nova era.
-x-

Vi sair do ônibus com uma garrafinha de vidro com água e a caixinha dela de madeira com todas as coisas necessárias para fazer os feitiços. Já tinha visto aquela caixa tantas vezes que sabia exatamente a disposição das coisas arrumadas ali, ela tinha vários compartimentos e gavetas escondidas. Na verdade, não era uma caixa pequena, era feita de madeira nobre, escura e resistente, por dentro era forrada com veludo azul royal – sua cor preferida – e na tampa, por dentro, vários cordões para que ela pudesse prender os bastões feitos com várias ervas enroladas, que ela me explicou serem incensos.
Por fora, a madeira era gravada com várias insígnias entalhadas, os sigilos* como a chamava. Toda vez que ela fazia um sigilo permanente novo, riscava na tampa com algo pontiagudo e depois pintava os sulcos com tinta dourada. Eu havia lhe dado aquela caixa no aniversário de 30 anos e nunca tinha visto-a tão emocionada em toda a minha vida.
Automaticamente olhei pro céu e vi a lua cheia, brilhante, poderosa e linda brilhar, roubando toda a cena. Estrela nenhuma se atrevia a tentar brilhar perto dela e por um segundo, fiz aquela analogia colocando minha amiga como a Lua. Ninguém conseguia brilhar naturalmente, tanto quanto ela.
Aquele era dia de feitiço. Dia do ritual da Lua Cheia, na verdade e a julgar pela garrafa, aposto que ela ia fazer água da lua. Eu sabia tanto sobre bruxaria por causa da , que era quase um bruxo. Pulei da cadeira que eu estava sentado depois de um show pesado e corri na direção do ônibus, peguei meu violão e a procurei entre os ônibus que estavam estacionados por ali, encontrando a mulher concentrada enquanto arrumava o altar para sua Deusa mãe, Nyx, organizando os pertences com um jeitinho que era só dela.
– Vai fazer feitiço e não me chamou, mulher? – eu fingi mágoa e ouvi a gargalhada gostosa dela.
usava uma saia longa, toda estampada e que parecia demais com as vestimentas do povo cigano. Sim, aqueles ciganos que viajavam em carroças, ao menos foi assim que aprendi no colégio. Ela usava saia quando ia dançar para lua e me disse que quando estava em casa, dançava sem roupa, mas eu nunca tinha visto. Infelizmente!
– Vai de saia dessa vez?
– Idiota! – rolou os olhos e prendi a risada. – Já expliquei que dançar para Lua é uma forma de autoconhecimento e de explorar nossa feminilidade. Então ou se dança de saia, ou nua. Práticas da bruxaria antiga, sua cabeça tarada não vai entender. – soltei uma risada, colocando o violão encostado a lataria do ônibus, em cima da alça.
– Assim você me magoa. – fiz um biquinho enquanto a ajudava acender os lampiões. Era o melhor jeito de as velas não apagarem durante o ritual, ao menos no meio do nada. – Você já falou com o Larry?
– Sim! A gente sai as 4 da manhã, então eu consigo coletar a água antes que o sol nasça. – Ramanush sorriu, empolgada e sorri junto. Era cedo quando a Lua subiu no céu, então a gente também iria ter tempo de curtir a festa de comemoração sobre a Save ter assumido a direção do festival.
– E aí? Vamos finalmente curtir o festival como sempre sonhamos?
Não precisou muito para que ela me olhasse com um sorriso imenso, surreal e de quem estava para jogo. Desde bem mais novos, combinamos que um dia, curtiríamos a Warped tocando o terror e passando o rodo. Nunca tinha dado certo, porque no ano que eu estava namorando, ela estava solteira e vice e versa. Talvez aquela fosse a nossa chance.
– Finalmente! – ela me olhou com um sorriso largo, terminando de organizar o altar para Lua. – Vai tocar para mim? – soltou um gritinho estridente ao apontar para o violão e me impedi de soltar uma piadinha sexual, ou ia acabar com um lampião enfiado em lugares nada agradáveis.
– Toda hora! – agarrei o braço do meu companheiro de vida, viagens, amores.
Ela encheu os pulmões de ar em uma demonstração maravilhosa de que o poder da luz também lhe tomava, aquele era um momento que ela mais se despia de todos os estereótipos, era só minha melhor amiga que tinha os melhores conselhos, sorrisos e abraços. Não sei exatamente o porquê, mas ela gostava de dançar ao som de algo que parecia flamenco, não só tinha me ensinado tocar aquilo, como também havia me contado toda a história do ritmo, então sempre que eu podia, retribuía tocando violão nos seus rituais para Lua. Era mágico, surreal e poderoso até para mim, foi onde passei a acreditar que também era influenciado pela Lua. Eu sabia disso, pois sempre ao fim dos rituais eu terminava música suado, de alma lava e sem saber como tinha entoado as cordas tão rápido.
Aquele dia não foi diferente, pareceu até mais intenso e só dava para definir a energia com um palavrão. Era uma intensidade tão absurda que eu não conseguia tirar os olhos dela, enquanto esquecia do mundo ao seu redor e dançava.
Foi ali que eu percebi algo apavorante e intrigante, ao mesmo tempo que fez meu coração aliviar por não ter me metido em encrenca. Foi vendo-a movimentar o quadril daquele jeito que tomei consciência. Eu havia dançado com ela na noite passada.


*Sigilos são representações não-óbvias de um desejo, que podem ser usadas magicamente para fazer com que esses desejos se realizem, podem ser permanentes ou temporárias


PALCO CINCO

Las Vegas, NV


Fazia tempo que não me divertia daquele jeito em turnê. Depois do nosso ritual em comemoração à amizade com o famoso “Arriba, abajo, al centro e al dentro” e uma boa dose de tequila, começamos realmente a festa. Nosso – literalmente – casal de amigos passou a festa num grude sem fim, dando beijinhos e abraços que eram gatilho para qualquer solteiro carente. Mais uma dose de tequila para dentro e eu e fizemos uma aposta fodida sobre quem beijaria uma boca primeiro aquela noite.
Bom, eu acho que fui eu, porque depois de ser claramente cantada por Ethan, o engenheiro de som de uma banda amiga nossa, saí com ele para um lugar mais calmo. Confesso que o sexo tinha sido maravilhosamente renovador, eu oficialmente estava na pista de novo. Entre meus suspiros contentes e o retorno para a tenda que ainda rolava música e álcool, trombei em alguém derrubando sua bebida.
Já estava meio bêbada para controlar minha boca, por isso acabei soltando um xingamento em romani, meu idioma de berço. Uma sensação gostosa de pertencimento me preencheu após a pronúncia e ali me dei conta que “caramba, eu ainda era uma roma!”; para minha surpresa, o homem que eu tinha trombado, também. Ele respondeu com a mesma língua antiga e o sotaque perfeito que fez meus ossos tremerem. Levantei a cabeça de uma vez.
Rick era cigano? QUÊ?
Rick era gerente de turnê do Addicted To You, mas nunca imaginara que ele fosse filho da lua assim como eu era, nunca tinha prestado atenção em toda a sua presença, as feições e características tipicamente ciganas. Parecia que eu havia passado anos da minha vida com uma trava nos olhos e só quando me permiti ser cigana novamente, conseguia ver o que estava a um palmo do meu nariz.
Optcha*, ? – o homem fez uma careta que se misturava a um sorriso curioso. Acabei fazendo o mesmo e soltei uma gargalhada.
Optcha! – gritei com meu sotaque francês e nos abraçamos calorosamente. Rick beijou minhas bochechas e rimos mais uma vez. – Santa Sara Kali*! Achei que você fosse um gadjo*.
– Você sabe que essa é sempre a ideia. – ele piscou e soltou uma risada. – A gente se mistura com os gadjos, mas não imaginava que você fosse cigana, mulher. Qual grupo?
Enchi os pulmões de ar para tentar fazer meu cérebro funcionar corretamente.
– Sou Rom também! Mas nasci em algum lugar entre Canadá e Estados Unidos. – soltei uma risada e apertei de leve o braço que ele tinha me oferecido. – Na verdade, acho que agora não sou de lugar nenhum, você sabe como as coisas são mais difíceis para mulheres livres.
– Não são mais assim, bela roma. – estreitei os olhos para ele com o elogio e meu amigo riu. – As coisas estão mudando, .
– Eu espero muito que sim! – sorri, comedida. – E você, Rick, de qual grupo veio?
Ele abriu um sorriso tão orgulhoso que me bateu uma vontade enorme de me sentir daquele jeito de novo sobre as minhas origens, mas acho que aquele sentimento voltaria aos poucos.
– Também sou Rom, mas minha família é Argentina, somos Albano. Eu nasci no Brasil e moro lá desde então. – ele abriu um sorriso tão imenso que eu soube, Rick tinha alguém lhe esperando em casa.
– Você é casado! – soltei um gritinho, animado.
– Noivo! – ele parecia ainda mais radiante. – Ela tem 25 anos, , é a mulher mais incrível do mundo. Minha roma. – só uma mulher para fazer um homem daquele tamanho suspirar todo abestalhado. – Estamos noivos há três anos, o pai dela é daqueles turrões das antigas tradições. Mas você me conhece e sabe que não acredito nesse machismo desenfreado e o sonho dela era estudar, mulher. Não ia negar isso, Santa Sara Kali. Disse que só me casaria assim que ela se formasse na faculdade. – ele deu de ombros como se aquilo não fosse muita coisa e o quis sacudir.
Era muito bom ver como o cenário estava mudando para o lado feminino da situação e que muito provavelmente, seria mais fácil voltar para casa depois de 15 anos. O resto da festa foi pequena para o tanto que conversamos sobre nossas origens, me deixando ainda mais certa de que eu precisava voltar a ser quem eu era.


*Saudação em Romani: Salve!
*Santa protetora e padroeira do povo cigano
*Homem não-cigano



Denver, CO


Estar em turnê com a melhor amiga era a coisa mais insana que me acontecia desde que eu havia conhecido Save. Nossa vida fora compartilhada ali e ela sabia mais sobre a minha vida do que qualquer outra pessoa, inclusive por qual motivo eu tinha fugido de casa. Quem era minha família e a qual cultura eu pertencia.
Naquele exato momento, eu fugia da minha banda pentelha e ela, dos problemas sobre comandar o festival. Tínhamos saído para almoçar juntas em um restaurante vegano ali perto, sem avisar a ninguém. Ou seja, quem quisesse, que nos achasse.
– Até agora nada? – Savannah molhou a batata dela na minha maionese de tofu e dei um tapa em sua mão.
Não sabia se ela falava sobre o cara da boate, ou sobre o cigano do sonho da vovó. Talvez sobre os dois, se os dois caras fossem a mesma pessoa.
– Pior que não. – suspirei, exausta.
Tinha passado um bom tempo inerte a toda essa carga cultural que me envolvia. Nos últimos anos eu tentava ignorar meu destino de encontrar esse cara, mas sempre acontecia algo para que meus namoros não durassem mais que meses, nunca cheguei a completar um ano completo de namoro e confesso, isso me incomodava pra caramba. Na festa da Save em Vegas, tinha ficado com um cara do crew do Dom Broco e juro que saí procurando sinais de que ele fosse cigano.
No fim das contas, descobri que outra pessoa – muito querida por mim – era cigana e fiz uma festa e tanto, estar em contato direto com um cigano me fazia sentir tão mais viva. Ricardo Albano, ou só Rick, era o gerente de turnê do Addicted To You e me senti tão tola por nunca ter percebido antes, que passamos a festa toda conversando sobre várias coisas. Depois corri para fofocar com a Save.
Mas não achava que ele fosse o meu cigano prometido. Era praticamente impossível achar alguém que todos os ancestrais tinham sido assassinados na segunda guerra mundial.
– Eu sinceramente cansei de tentar achar esse homem. – sacudi de leve a cabeça e bati o indicador na mesa.
– Será que não é o Rick? – Save mordeu a boca em expectativa e sei que estava tentando me animar quanto aquilo, porque ela estava tão sem esperança quanto eu e se apegar a ideia do primeiro cara cigano que achamos, era reconfortante.
– O Ricardo? – sacudi a cabeça negativamente. Mas ele tinha me contado sobre um grupo enorme de ciganos entre as equipes de apoio na Warped. – Ele é originalmente brasileiro e é Albano, não Baffermont. – bufei e só aí me dei conta que fora a primeira vez que falara aquele sobrenome em voz alta. O que vinha atormentando minha vida amorosa. – E ele tá noivo, amiga!
– O que exatamente a vó Aurora disse? – Save bebericou a água saborizada.
Tomei fôlego e abri um sorriso imenso, além de sentir meus olhos marejarem só em ter a cena tão clara em minhas memórias, era incrível como ela lembrava de exatamente tudo daquele dia. Todos os detalhes vívidos em sua mente como se tivesse acontecido há algumas horas.

✴✴✴

Eu estava muito animada para mais um dia de lições sobre leitura da sorte com a baba, ela tinha me contado que entre todas as suas netas, eu era a única com uma bruxa interior e seria a sua sucessora dentro da nossa comunidade. Eu era sensitiva tanto com pessoas, quanto com animais, além de sentir a energia da natureza sem precisar de muito esforço, então todos os dias, assim que eu terminava as tarefas de casa com minha mãe e assistia minhas aulas, eu ia para tenda da baba.
– Qual a lição de hoje, baba? – sentei em uma almofada aos seus pés, depois de beijá-la na bochecha.
– Vamos continuar com a leitura da sorte pela mão. – vovó me estendeu as mãos e lhe entreguei a minha.
Ela sempre contornava minhas linhas anatômicas e dizia o que elas significavam, me deixando ainda mais fascinada em como o misticismo e a astrologia explicavam tantas coisas. Respirei fundo, esperando pelo que ela iria falar aquele dia, mas vó Aurora estava imóvel, olhando para meu rosto de um jeito estranho enquanto circulava o polegar na palma da minha mão. Eu já tinha visto aquele tipo de coisa várias vezes quando Gadjos a procuravam para ler a sorte, era como se a baba tivesse visões mais claras sobre seus sonhos. Ela tinha o dom de ver em sonhos e tudo iria sendo costurado como uma longa colcha de retalhos.
– Seu destino não é aqui, querida. Eu já tinha visto isso várias vezes, mas não sabia que era você em meus sonhos. – ela respirou fundo, continuando: – Há um homem, alto, corpulento e com a marca da família Baffermont. É um cigano esquecido e escondido, ele é o seu destino e isso se completará em um quarto de 70 anos.

✴✴✴

– Então uma marca? – Savannah fez uma careta, confusa. – Mas que tipo de marca?
– Ela só disse uma marca de família. – suspirei ainda mais frustrada com aquelas profecias pela metade. Sacudi a cabeça e bebi o resto do meu suco de maçã.
– Quanto é um quarto de 70 anos, amiga?
Soltei uma risada alta pela cara confusa da Save.
– São 17 anos, Save. Eu fiz os cálculos para tentar entender melhor quando o tal cigano atravessaria meu caminho, mas é difícil demais imaginar que alguém, provavelmente morto, vai ser seu destino.
Ela ponderou com uma careta, mas concordava comigo.
– Um homem alto, de grande porte e que tem uma marca da família Baffermont. Juro que conheço os caras procurando uma pinta pelo corpo!
– Você é terrível, Ramanush! – mais uma risada que me fez relaxar diante daquela história. – Mais alguma coisa? Acho que temos opções. – Savannah era a salvadora da pátria, porque eu não conseguia imaginar homem nenhum com aquelas características.
– Baffermont era uma família importante na música cigana. – mordi a boca, pensativa. Meu nome tinha sido uma homenagem a maior cantora cigana de todos os tempos, Emeraude Baffermont. – Movimentaram e guiaram todo um grupo pela França, eram ricos e extremamente importantes. Era tipo a realeza. Então eu suponho que o tal cigano do meu destino ainda seja da música. – minha amiga acenou, convicta e mordeu a boca, parecia estudar melhor suas opções antes de me contar sobre elas. – Quem você vê com essas características? Um cigano alto, grande, com um sinal de família e que trabalhe com música.
– O .
Curta e grossa. Confesso que engasguei com a água que estava tomando. Como diabos ela tinha chegado aquela conclusão?
– Savannah, eu estou falando sério! – tossi quando consegui respirar de novo. Ela me olhava, séria.
– E eu também, amiga. – Save umedeceu os lábios. – Não exatamente O , mas essas características são dos irmãos e bom... – ela começou enumerar nos dedos, enquanto o medo começava a me consumir, porque infelizmente, eu tinha que concordar com ela. – Charles é casado com a Terry. Percy... acho que ele está com a Atena, né? – afirmei que mais ou menos, afinal eu nunca iria entender a relação daqueles dois. – O solteiro que me resta é o . E convenhamos, ele arrasta umas três asas Illyrianas* para você. – soltei uma gargalhada com as referências da Save. O que dizer? Éramos muito boas leitoras.
– Ele não é cigano, Savannah. – rolei os olhos. Era irritante o tanto que a minha amiga tentava achar um jeito de juntar nós dois seja lá como fosse.
– Ok, não tinha lembrado disso. Mas nunca vou parar de querer juntar vocês. Qual é? Vocês namoram, só não sabem. – eu odiava tanto quando minha melhor amiga tinha razão. Eu e tínhamos um relacionamento de cumplicidade e era quase como um namoro, mas fazíamos sacanagens com outras pessoas. Mordi a boca e percebi que algo ainda não encaixava.
– De onde tem marca de família?
– A tatuagem não é? – ela parecia realmente curiosa.
Save se referia a Clave de Sol que os 3 irmãos tinham tatuado pelo corpo, certa vez o havia me dito que era uma forma de representar a ligação de amor que os três tinham um pelo outro e com a música, por isso, resolveram tatuar a nota musical. A do meu melhor amigo era na diagonal do pescoço – sexy para caramba –, a do Charles era no peito, se não me engano no lado esquerdo – já o tinha visto sem camisa nas tendas, não me julguem –, e a do Percy era no antebraço, imensa como a dos irmãos. Três caras gostosos pra caramba e com uma tatuagem linda.
Até Leonor, filha do Charles, que estudava música, tinha uma na lateral do braço. E acho que Lohan, o pai deles, tinha uma nas costas.
– Não?! – respondi com a minha melhor cara de obviedade. – É só algo que ele tem com os irmãos. Não mete o nisso, por favor. – lhe pedi encarecida e minha amiga sorriu de um modo que me confortou, era como se prometesse não tocar mais naquele assunto.


*Referência a saga Corte de Espinhos e Rosas da SJM.


St. Louis, MO


Eu, o Charlie e o Eliot tínhamos aproveitado aquela manhã ensolarada para correr pelo parque ao invés de fazer exercícios com os pesos habituais. Considerava aquilo, uma das melhores coisas de poder viajar em turnê com meu irmão, ele sempre era uma ótima companhia para tudo – com exceção de passar o rodo, então para isso, eu chamava o Eliot. Não me orgulhava, mas estava só aproveitando a vida. –. Nós cantávamos juntos, bebíamos juntos e corríamos juntos, as vezes eu até levava umas broncas por atitudes idiotas, mas era uma forma de me fazer abrir os olhos e corrigir meus erros. Charles era foda!
Queria ser como ele e o Percy quando eu tivesse meus filhos.
– Len não quis ficar? – dei uma parada no ritmo de corrida e Eliot sacudiu a cabeça bem desgostoso. Aqueles dois poderiam ser gêmeos.
– Preferiu voltar para Malibu com a Terry. – Charles arfou pela corrida. A gente já chegava perto das tendas, que estavam vizinhas desde que havíamos saído de Vegas. – Ela não se sente muito confortavel em viver dentro de um ônibus apertado.
E eu não tirava a razão da Len.
– Mas me deixou sozinho nessa. – Eliot reclamou como um moleque mimado e o empurrei como se fosse outro. Ele reclamou de novo e soltei uma gargalhada.
– Deixa sua irmã em paz, cara, coisa chata!
– Não enche! – o moleque me empurrou e Charles rolou os olhos, provavelmente se impedindo de estressar com nossas brincadeiras idiotas. Eu amava aqueles meninos como se fossem meus, Eliot, Len e Penny, os três amores que a vida tinha me dado, meus sobrinhos.
Abracei nosso futuro engenheiro de robótica quando estávamos chegando na tenda. Procurei a banda com o olhar e estranhei a movimentação que envolvia e alguém desconhecido. Soltei o moleque e pedi um tempo aos dois, antes de correr para lá, percebendo que o cara desconhecido era Leon.
O que inferno aquele merda queria ali? Já não tinha machucado a minha amiga o suficiente?
– O que está havendo aqui? – cheguei tentando equilibrar aquela gritaria e deboche, o deboche vinha da nossa gerente de turnê e os gritos de Save, xingando o cara.
O filho da mãe olhou para mim e rolou os olhos, voltando a me ignorar, enquanto insistia em algo relacionado a , provavelmente ele tentava conseguir mais uma chance de tentar conversar com ela de novo, ou quem sabe convencê-la a voltar com ele. Mas aquilo eu ia fazer o possível para não deixar e ela parecia não querer.
O jeito que Ramanush pisava nele era sexy demais.
– Veio tomar as dores dessa puta? – o homem cuspiu aquelas palavras terríveis em cima de mim e senti o sangue ferver, avançando em cima dele, por mais que não pudesse enchê-lo de soco. Em contra partida, Ramanush soltou uma risada deliciosa de quem tinha adorado aquilo.
– Ai, adoro. Obrigada! – mais deboche saindo da boca daquela mulher, me deixando confuso com o sangue frio dela em ser chamada de vadia e dizer que tinha adorado.
– Olha aqui, seu merda! Você respeite a . – abanei o dedo na cara dele e finalmente o cara deu um passo para trás.
– O que foi? Ela está trepando com você também? Cuidado, cara, daqui uns dias ela pega o seu irmão, quem sabe seu sobrinho. – nunca tinha escutado palavras tão imundas em toda a minha vida. Nunca!
nunca faria aquilo, ela tinha caráter e respeito pelas pessoas. Preparei meu punho para acertar o nariz dele, sem me incomodar se seria processado ou não. Depois disso não entendi mais nada, porque ela entrou na minha frente como uma ave pronta para defender o ninho e acertou a mão fechada em punho no nariz do cara sem esperar por mais nada.
Como se não bastasse, Ramanush pegou velocidade mais uma vez acertou novamente o nariz do ex, tirando sangue da tentativa.
Caralho, aquela mulher era maluca!
Como raios ela se enfiava entre nós dois e metia o soco no nariz dele? Eu sabia que não podia bater no Leon – infelizmente –, por causa da minha vida pública e toda a imagem legal que eu passava para minha legião de fãs, confesso que era até um cara bem pacífico. As meditações me ajudavam muito a controlar os impulsos, mas estava me roendo em uma vontade louca e absurda de quebrar a cara dele, até Ramanush fazer isso sozinha e eu ter que tirá-la de cima dele antes que a mulher o quebrasse na porrada. Ela tinha punhos fortes.
O homem urrou de dor ao passar a mão pelo nariz e ver como estava cheio de sangue. tinha feito um belo estrago, ainda que tentasse se soltar do meu aperto firme em sua cintura, não ia soltá-la nem a pau, mas confesso que o sorriso diabólico no rosto dela estava me deixando com medo.
Nossa gerente de turnê pronunciou um par de palavras desconhecidas por mim e uma risada ainda mais psicótica.
– BRUXA DIABÓLICA! – o filho da mãe gritou e eu quis soltá-la na mesma hora, talvez para que ela quebrasse sua cara mais uma vez, ou talvez para eu fazer aquilo.
Odiava quando condenavam tanto as crenças da , pois era lindo o poder que ela tinha, como já tinha me explicado várias vezes o bruxismo era uma filosofia de vida, uma crença para o bem e embora muitas pessoas a usassem para o mal, toda ação tinha uma reação.
O negócio é que ela nem acreditava no diabo, para começo de conversa, então aposto que estava se divertindo com aquilo.
se soltou dos meus braços, estava bem mais calma e acho que não partiria para cima dele de novo, afinal o homem estava se tremendo de medo – aposto tinha se borrado – depois que ela levantou as mãos pro céu em uma pose tão exagerada de quem estava invocando qualquer coisa, que prendi a risada. Ramanush não prestava!
Ela tinha uma voz linda, doce... só percebi quando entendi que a mulher estava cantarolando uma canção em uma língua muito estranha. Eu sentia que não tinha nada a ver com bruxaria, pois já tinha visto-a fazer feitiços e para isso ela usava o francês. Era sexy. A canção era linda, tinha uma melodia e sonoridade que atingia os meus ouvidos como um baque surdo e me levava de volta a minha infância quando passávamos as férias de verão na casa do vovô Pedro.
Merda! Eu estava meio tonto no meio do estacionamento. Vovô cantava para gente, embora eu nunca tivesse entendido o que significava.
Acho que estava ficando louco.
O importante era que Leon meteu o pé, como os espíritos obsessores fugiam dos banimentos da , e nos deixou imersos em gargalhadas. Savannah segurava a barriga e eu estava boquiaberto com a cara de pau daquela mulher genial.
Como ela havia passado tanto tempo namorando com ele? Considerando que Leon era extremamente escroto, cinco meses parecera uma eternidade.



me arrastou para dentro do motor home quase que imediatamente depois de toda a minha maravilhosa atuação. Ganhei até algumas palmas vindas da minha banda. Nunca que eu iria amaldiçoar alguém por diversão, mas se Leon estava tão obstinado a me chamar de diabólica por causa de um xingamentozinho em um idioma diferente, não custou nada ter dado um sustinho que o faria correr as léguas de mim. Melhor assim!
Sentei no sofá lateral do ônibus e vi meu amigo entrar no cômodo das cabines. Olhei para minha mão e os nós estavam vermelhos, meio machucados e doloridos do impacto do soco.
– Autch. – reclamei ao articular meus ossos, vendo se tinha machucado de verdade alguma coisa, mas era só o incômodo do impacto.
– O que foi aquilo que você disse e assustou o paspalho?
voltou para onde eu estava e trazia uma caixinha que eu mantinha no banheiro com algumas coisas necessárias quando se vivia viajando: band aids, spray para dor muscular e até um líquido para limpeza que Terry tinha me dado, segundo ela, aliviava a dor e tirava toda possível bactéria. Aquela mulher era insana. Por um segundo, pelo silêncio que meu amigo fez ao sentar do meu lado, achei que fosse ligar para ela e pedir ajuda com questões médicas.
– Eu só usei um idioma antigo. – soltei uma risada. – Primeiro mandei que ele fosse se foder, depois cantei uma...
– Música de criança completamente aleatória para situação? – se ele estava pálido? Eu mais ainda!
De onde raios conhecia aquela música? Minha santa Sara, me dê forças para tentar entender. Eu tinha cantando uma ciranda cigana que minha mãe cantava para mim enquanto trançava meus cabelos e depois a gente brincava no meio do acampamento com ela. Era algo da minha infância, do meu eu, era uma musica que me trazia boas, ótimas lembranças e momentos de uma infância feliz.
– Você conhece? – minha voz saiu tão baixa que só poderia escutá-la.
Ele parou, ele simplesmente hesitou para me responder, enquanto passava o spray para dor e inchaço em minha mão, como se estivesse concentrado e não conseguisse responder naquele momento. Em um lapso, que considero de loucura, usei o mesmo idioma antigo para perguntar se ele era cigano, para saber se tínhamos as mesmas origens e meu coração bateu rápido e acelerado quando o homem imenso me encarou sem expressão. Repeti a pergunta. Meu coração parecendo os tambores das noites de fogueira. Ele abriu a boca e pude jurar que teria um infarto de tanta ansiedade por aquela resposta.
– Quê? – a interrogação na testa de foi como todo o mar ártico jogado contra minha cabeça. Tossi para disfarçar. – Eu só... Achei familiar às cirandas de criança, principalmente as francesas. – ele deu de ombros e eu não queria confessar nem para mim o quanto estava inconformada com a situação.
Por uma mísera fração de segundos, a conversa de Save parecera tão real.



PALCO SEIS

San Antonio, TX



Já estávamos bem longe do estado do Colorado, no penúltimo dia de uma tríade de shows que estávamos fazendo no Texas e depois daquela conversa estranha que tive com sobre a ciranda, não havíamos tocado mais no assunto. Ela não voltou a falar naquela língua estranha, embora familiar pro meu subconsciente, e eu não voltei a perguntar mais nada. Graças a meu Buda, Leon era outro que tinha evaporado do mapa depois da surra que tinha levado, mas prometi a Ramanush que iríamos procurar um bom advogado se ele ousasse processá-la pelo soco.
Precisava confessar o quão cansativo era estar na estrada, o quão difícil era estar longe do seu conforto, não era todo mundo que levava aquela vida na sobriedade.
A era das drogas? Tinha passado – há muito tempo, graças ao universo e ao Percy, que me deu um esporro de feder a queimado – e eu não me orgulhava de ter usado um dia, mas a vida na estrada te dá várias escolhas e nem sempre elas são dignas.
A era das bebidas? Nem tanto, ainda me pegava enchendo a cara para despistar o cansaço.
A era das mulheres? Só tinha amadurecido e estava cada vez melhor.
Era como eu tentava convencer meu cérebro carente do fato de eu já ter 33 anos nas costas e não ter uma família. Clichê ou não, queria casar e ter filhos para brincar com meus cachorros, bagunçar a casa, sujar minhas guitarras de iogurte e cereal. Eu só queria ser pai antes de morrer, mas queria me casar para isso. E cá entre nós, Charles era minha grande referência como pai. Ele e a Terry eram incríveis com a Len e o Eliot.
Ao menos era divertido viajar com minha banda. Fazíamos várias coisas inúteis na estrada, ou na tenda, como fazer um carrinho de controle remoto pular de uma rampa, ou pegar a música de uns amigos e tentar gravar um videoclipe caseiro. Aquela era a forma de tornar nossos dias menos cansativos antes de se enfiar em um hotel e passar o dia todo dormindo, ou debaixo do chuveiro por causa daquele calor infernal.
Aquela noite tínhamos aproveitado o clima ameno para fazer uma social na tenda, como havíamos terminado o show mais cedo, pegamos um carro alugado e fomos direto para a Walmart mais próxima. Precisávamos reabastecer água, cereais, comprar paninhos para limpeza e mais uma série de coisas que estavam na lista de Franccie. Já itens de higiene pessoal, as meninas compravam em drogarias. Depois do Walmart, passamos em uma casa de bebidas e de frios, garantindo a nossa festa da cerveja.
Tínhamos convidado as bandas mais próximas para nossa social, Simple Plan, Dom Broco e H3O3!, marcaram presença e entre elas, claro, a banda do meu irmão. Charles ajudou a gente com a preparação da tenda e estendemos algumas luzinhas de pisca-pisca por lá enquanto o idiota me zoava por causa da . Eu não tenho culpa se ela estava deslumbrante com o vestido de alças.
– Quando você vai deixar de ser bundão e chamá-la para sair? – meu irmão do meio deu um tapa na aba do meu boné. Fiz um gesto obsceno para ele.
– Chamar para sair? Eu não sou o Eliot, cara. – retruquei, mas tentava desviar, porque a ideia era muito boa. Charles me olhou com a sobrancelha arqueada e quis fingir que tinha algo para fazer do outro lado do parque. Aquela era uma conversa que eu não queria ter com meu irmão.
– É, você tem razão. – Charles prendeu o pisca-pisca no canto da tenda. – Meu moleque tem mais atitude.
– Não graças a você. – agi tal qual um adolescente.
– Ah, eu garanto que é graças a mim sim, não fui eu que passei 15 anos babando na minha melhor amiga. Essa historinha da moto nunca me desceu, moleque. – Charles soltou uma risada e sacudiu a cabeça. Eu odiava tanta coisa naquela frase que nem valia a pena corrigir.
– É exatamente isso que ela é, a minha melhor amiga. – respondi, emburrado.
– Quem? A ? – outro enxerido chegou na conversa e infelizmente, ele tinha o mesmo nome que o meu. Bouvier nos cumprimentou com abraços rápidos e avisou que eles tinham levado mais cerveja para festa.
– Exatamente. – meu irmão me olhou com uma cara de “não sou só eu que pensa assim”. – A .
– Você guarda suas bolas com ela desde que eu consigo lembrar. – o Bouvier prendeu uma risadinha e rolei os olhos. Uau, que descoberta. – A mulher é incrível, cara, investe certo uma vez na vida.
– Sua esposa tá sabendo disso? – tentei desviar do foco e ouvi gargalhadas dos dois tapados.
– Ela concorda. – Bouvier piscou e bateu high five com meu irmão, os dois entrando em uma conversa sobre filhos.
Charles era um dos caras no nosso meio que tinha sido pai cedo demais e isso fazia dele “o senhor dos conselhos sobre os filhos”, ali aproveitei a deixa para sair daquela conversa, que eu não duvidava nada, seria voltada para mim em alguns minutos. Mas guardei na mente a boa ideia sobre chamar para sair.
Depois que todo mundo já tinha chegado e estávamos calibrados com uma boa quantidade de álcool. Eliot sugeriu que brincássemos de flip cup e confesso que foi uma ideia e tanto, formamos dois times separados por uma junção em fileira de várias mesas. estava de frente para mim, segurava com copo vermelho nas mãos e as bochechas coradas pelo álcool, eu poderia estar meio bêbado, mas nunca esqueceria de como era lindo quando ela ria tão espontaneamente como aquela hora. Save estava do seu lado e as duas pareciam extremamente animadas.
Eliot estava do meu lado direito e a gente já tinha virado uns três copos antes que chegasse a nossa vez de jogar. O jogo tinha começado inversamente para cada lado, então quando eu era o último a jogar por estar na ponta, Ramanush, que estava na minha frente, tinha sido a primeira do time dela e naquele momento estava me provocando me chamando de bêbado. Nós cinco, eu ela, a Save, o Scott e o Eliot, demos mais uma brindada e viramos outro gole de cerveja.
– À WARPED!
Gritamos.
– VAMOS! VAMOS! – meu sobrinho mais velho dava tapinhas na madeira que tínhamos improvisado como mesa e gritamos quando Scott virou o copo certo e a bebida no meio da mesa depois. Lá no fim, eles também chegavam perto estreitei os olhos e vi que seria eu contra Charles.
Eliot foi cirúrgico e me perguntei a quantidade de vezes que ele fazia aquilo em Boston.
– VAI LOGO, BONOVIT! – achei que gritava comigo, mas ela encorajava meu irmão.
Me perdi no movimento dela pulando e no jogo também. Só consegui virar o copo depois da quarta vez e mesmo assim, meu lado da mesa gritou. Era só sobre diversão, não sobre competição.

Huston, TX



Destruído. Eu estava todo quebrado depois do show daquela tarde, mas ainda dei graças aos céus que Eliot, meu sobrinho mais velho, assumiu o baixo na sequência de músicas. O moleque era insano, uma pena termos o perdido para a física, a robótica e todo rolê que envolvia um tal de Adam Hayes, um físico contemporâneo e sua teoria não sei das quantas.
– Tá a fim de ir tomar umas hoje? – o moleque parecia ligado no 220 quando passou do meu lado e soltei uma risada. Tirei meu ponto eletrônico e pedi o dele, que já estava fora de seus ouvidos há uns bons minutos.
– Estou quebrado, Ely, hoje eu só quero me enfiar na minha cabine e dormir. – por um momento, me senti péssimo em acabar com os planos do meu sobrinho, mas ele só queria minha maior idade mesmo. O moleque não tinha nem 21 anos e já possuía uma fama catastrófica na faculdade – com dois amigos, a Alba e o Peter – , envolvendo popularidade, festas e garotas. A Santíssima Trindade.
O que dizer? Era meu garoto!
– Cara, você prometeu! – ah não, drama agora não. Rolei os olhos e dei um tapinha em seu ombro, enquanto a caixa dos pontos passava para que a gente os guardasse. – Prometeu que a gente ia curtir o festival!
Culpado! Bufei, indignado com o drama daquele moleque sem vergonha e me dei por vencido.
– A gente vai beber, mas no ônibus! Você conhece a Ramanush e eu não quero contrariá-la. – estiquei a coluna e o mandei se foder, quando ouvi o moleque dizer que eu estava velho. Ele riu.
Sim, existia respeito entre nós, então todos os xingamentos eram com todo respeito.
– Que nada! Aposto como tia vai beber com a gente, ela é mais nova que você. – Eliot abriu um sorrisinho sem vergonha e fiz minha melhor cara de bunda.
Ah, se ele achava que iria me provocar com a idade... estava muito certo.
– Moleque, você não me provoca. – apontei o indicador para ele. – Ou vai viajar com o chato do seu pai pelas próximas oito horas. Você quem sabe! – dei de ombros e ele bufou.
Nós dois amávamos o Charles, mas tínhamos plena consciência de que ele tinha uma alma mais velha que a do Percy. Nem parecia o cara porra louca que eu tinha visto há uns anos atrás – graças ao universo –.
– Ah, para! – Eliot me tratou como se eu fosse a irmã mais nova dele e tive vontade de dar um cascudo, mas acabei rindo da cara de pau.
– Vai, vai tomar banho, que o banheiro do ônibus é para ser usado no último caso. – sacudi a cabeça, rindo, quando já estávamos voltando para as tendas que já estavam sendo desmontadas.
Eliot não podia comprar bebida por causa da menor idade dentro dos EUA, por isso mandei mensagem pro Cris para saber se a gente tinha algum álcool no ônibus. Recebi uma resposta positiva. Depois avisei ao meu irmão que o moleque ia viajar comigo, ele agradeceu o aviso. Nós três, eu, o Charlie e o Percy, tínhamos uma rede de informação bem articulada sobre os Herdeiros, como a mídia costumava chamar meus sobrinhos, assim era fácil de protegê-los de algumas merdas e ajudar a tirar o foco deles, quando necessário.
Dos três, Eliot era o mais escondido, fazia faculdade de física e dificilmente aparecia na TV. Já Leonor e Pennelope... Leonor produzia música como ninguém e disseminava seus remixes nos sistemas de streaming musical, às vezes pagava de DJ também, isso já era o bastante para existirem vários olhos sobre ela, principalmente quando a garota era de uma família musical. Pennelope jogava hóquei como eu nunca tinha visto antes, era a melhor jogadora em disparada, ela tinha saído da escola direto para um time feminino da segunda divisão de Los Angeles, então sempre estava sendo lembrada no canal de esportes.
O que salvava a gente na estrada eram os banheiros de concreto que pareciam vestiários. Então dividíamos os grupos para ir tomar banho. Voltei do chuveiro renovado e encontrei fora do ônibus, com o cabelo molhado e a carinha feliz de quem estava limpinha. Aposto que cheirosa também.
– Eliot disse que você era mais nova e mais legal que eu. – repeti, desgostoso, já abrindo os braços para ganhar um abraço dela. Eu precisava de um abraço e iria conseguir nem que fosse na base da manha. Nossa gerente de turnê soltou uma risada gostosa de ouvir e me abraçou pela cintura, com força e carinho. Encostei o nariz em sua cabeça e quase gemi com a satisfação de sentir o cheiro familiar de seu xampu. – Isso mesmo, estou carente e preciso de um abraço.
– Ele é só um moleque tentando conseguir diversão. – ela me apertou com mais força, também se aconchegando nos meus braços e tive a certeza que a necessidade de carinho era mútua. – Me chamou para beber, porque você era um velho chato e ele queria alguém divertido. Achei corajoso, levando em consideração que eu e a mãe dele somos amigas. – nós rimos.
– Ele viaja com a gente hoje. – falamos ao mesmo tempo e beijei sua cabeça, pretexto para enfiar o nariz nos cabelos e sentir o perfume de novo.
descansou o rosto em meu ombro e inclinei a cabeça sobre a sua, estávamos fresquinhos do banho e pelos Deuses, só queria poder dormir com aquele carinho todo. Por isso eu sentia tanta falta de namorar, eu era carente de contato físico e de carinho até mais do que de sexo. Passamos um tempo em silêncio, só compartilhando aquela energia no abraço e olhei para o céu, vendo a lua minguante e lembrando o que tinha me dito sobre ela. Era o início do recolhimento. Beijei sua cabeça, ouvindo-a suspirar, satisfeita, antes que Hannah e Franccie aparecessem indignadas com alguma coisa, acabei soltando minha amiga para entender qual era o problema, parece que alguém estava objetificando nossas meninas.
– Objetificação do corpo feminino, eu entendo o conceito. – cocei a cabeça. Estava confuso e queria entender para não reproduzir aquilo. – Eu entendo a situação teórica, mas na prática, às vezes, parece tão sútil que dá para ser confundido, não?
Era pertinente entender aquilo, principalmente em uma tour cheia de mulheres para todos os lados. Naquele momento, desejei que Eliot também estivesse na conversa para entender e não repetir ou reproduzir aquilo.
Óbvio que sempre era um ótimo lugar para se divertir com quem também queria se divertir e às vezes, a única maneira era aquele flerte com olhares. Mas será que aquilo poderia ser classificado sutilmente com objetificação do corpo feminino?
– Na verdade, não! – Franccie puxou minha atenção. – Uma coisa é você admirar uma mulher e o corpo dela, outra coisa é você tratá-la como um objeto sexual. Entende? – as outras duas afirmaram e eu acho que começava a entender.
– Sim! Mas, cara, acontece tudo isso com um olhar? Não estou duvidando, eu só estou perdido e com medo de já ter feito isso. – suspirei. Só de pensar em já ter feito alguma mulher se sentir assim, fez meu estômago revirar. – Isso é escroto demais!
– Acontece sim! – Hanna deu um tapinha no meu ombro. – E eu passei um bom tempo sem entender, até ser vítima disso. Tanto vindo de uma porção de homens, como de outras mulheres e garanto que é terrível.
– Mas que merda! – olhei para minha amiga. Será que ela iria falar algo? Garanto que iria ser o mais doloroso de ouvir.
– Pelo visto você vai precisar de uma demonstração para entender. – nossa engenheira de som olhou para como se confirmasse algo e fiquei ainda mais confuso. – ? Faça as honras!
Merda! Aquilo só poderia ser sacanagem comigo, por que logo ela?
A gerente de turnê deu um aceno elegante de cabeça e com um fio de sorriso torto nos lábios chamativos mirou os olhos castanhos nos meus. Já senti o mundo rodar daí, ah para, parecia ser divertido tê-la me encarando como se eu fosse um novelo de lã e ela o gato. Que gata, caramba! Encarei de volta a tempo de perceber a obscenidade com que ela umedeceu os lábios e desceu o olhar por meu peito, escavacando cada lugarzinho como se conseguisse ver através da camisa ou imaginar o que estava ali e já tinha visto antes. Foi naquele momento que a brincadeira começou me incomodar de um jeito que eu não esperava. De repente não era mais divertido receber aquele olhar descarado, era tão constrangedor e desconfortável, principalmente quando eu lembrava que estava descendo os olhos. Me senti violado.
Dito e feito.
– Com todo o prazer. – minha melhor amiga disse aquilo encarando minha virilha e o meu estômago sacudiu violentamente. Eu podia vomitar meu almoço a qualquer momento.
– TÁ BOM, RAMANUSH. JÁ ENTENDI! – gritei para dar um basta.
As três sorriram, astutas, e bateram vários high five, entendi que a missão tinha sido cumprida. Eu tinha entendido o que elas tinham para dizer e garantia que não faria mais aquilo na minha vida. Certa vez vi uma frase que dizia: Ninguém nasce desconstruído, mas podemos nos permitir todos os dias a aprender como se desconstruir e respeitar. Foi ali que entendi de verdade, o que ela queria dizer.
me pediu desculpas pelo que tinha feito e fiz manha, dizendo que só desculparia se ganhasse um abraço. Ganhei um abraço e um beijo na bochecha.

Day Off, Hotel



Finalmente um dia de folga depois de tanto show seguido. Estar em turnê era foda, mas era cansativo na mesma proporção. Tínhamos conseguido um hotel incrível em Huston e cada um se enfiado em seu quarto após o check in, Charles e a banda também estavam hospedados lá. Eu, ele, o Alexie e o Eliot havíamos acabado de almoçar juntos – depois do Scott ter me trocado pela Savannah – e fiquei feliz com a empolgação dos três em fazer show no Canadá dali umas semanas. Eles iriam reencontrar as esposas e os filhos, eu, por outro lado, vou reencontrar meus pais, que no fim das contas, eram pais do Charles também e até Percy iria levar a Penny para o Canadá. A turnê iria virar um enorme encontro de família.
Quando voltei para o andar que estávamos, resolvi bater no quarto da . Ela provavelmente estava tão desocupada quanto eu e... Uau estava coisa mais linda do mundo, quando abriu a porta. Usava um vestido estampado todo folgado e o cabelo solto, na mesinha de cabeceira mais próxima estava um incenso artesanal queimado pela metade, perto de uns cristais de cor rosa e roxo. Ela tinha defumado o quarto. Me preparei para falar e vi um artefato do século passado em suas mãos. Caramba! Aquilo era um ipod? Onde diabos a tinha conseguido aquele negócio?
– Que artefato antigo é esse? – entrei no quarto pela brecha que ela deu e fui logo tirando os sapatos.
– Nem é tão antigo, é do início dos anos 2000 – ela rolou os olhos e deitamos na cama. – Isso é um iPod, senhor super jovem que nunca teve um iPod na vida. Save me deu com os vocais de uma banda que ela está produzindo. – recebi um dos fones de ouvido e aproximei um pouco mais do corpo dela como se o fone tivesse fio.
Ali declarei meu ódio pela tecnologia e seu funcionamento via bluetooth. Passamos as três primeiras demos conversando sobre harmonia, sonoridade e sentido da letra. Os moleques eram bons mesmo no que faziam e aquilo me deixou com vontade de tentar uma parceria futuramente.
– Você gosta dessa área de produção, né? – me lançou a pergunta e soltei uma risada envergonhada. Eu gostava, só não achei que fosse tão evidente.
– Você conhece alguém que conviva com o Percy e não goste? – suspirei, animado, e de canto de olho, vi minha melhor amiga com um sorriso lindo demais. – Ele ama o que faz e isso é lindo demais.
– Eu sei. – aquela mulher incrivel falou com um sorriso e beijou a minha bochecha na surpresa. Suspirei, contente. – Você já ficou com alguém? – ela perguntou, animada, enquanto a música rolava no nosso fone. Queria tanto ter identificado uma pontada de ciúme ali, mas foi só curiosidade. Ponderei teatralmente e riu, me empurrando de lado, acabei beijando sua bochecha.
– Sim, fiquei com umas mulheres esses dias, bem menos que o Eliot, eu garanto. – coloquei os braços atrás da cabeça enquanto a gente ria.
A voz dos moleques da banda da Save era sim muito boa e sonoridade também.
– Ele tá só aproveitando a oportunidade. – ela sacudiu a cabeça. – Mas é um menino encantador e gentil, ainda vai encontrar a garota certa. – minha melhor amiga piscou e eu concordava com ela. – Um ponto: Uau! Você saiu com algumas mulheres? Desde quando deixou de ser "garotas"?
– Acorda, Freak, eu sou mais velho que você. – mostrei a língua, embora a curiosidade sobre ela queimasse dentro do meu peito. – E você? Pegou geral?
Uma risada que fez meu coração despencar. Não entendam mal, eu nunca iria achar que a não poderia ficar com o cara que ela quisesse, eu ficava com a mulher que eu queria – e me queria também –, mas se ela tivesse ficado comi... Esquece.
– Fiquei com o Ethan, sabe? Do crew do Dom Broco? Ele já dava em cima de mim faz eras, acabei cedendo. – ela suspirou, inconformada, e um peso pareceu perfurar meu estômago, caindo embaixo da cama. – Quer dizer, foi bom. O cara manda muito! – o sentimento foi de ter uma faca enfiada e rodando nos intestinos.
, ele não... – deixei a pergunta subentendida.
– Ai, minha Deusa Afrodite! SIM, CLARO QUE SIM, CREDO! Todo mundo gozou, pela Lua, sem pânico, estresse ou esse seu excesso de cuidado. – minha amiga apertou minha bochecha como se eu tivesse a idade do Eliot e não me aguentei, lhe olhei por entre os cílios, encarei Ramanush como nunca tinha feito antes. Ao menos não tão explicitamente. Encarei-a com desejo e a mulher soltou minha bochecha de uma vez.
Bola fora, !
– O que você acha dessa? – bola na Lua, com todo respeito. Ela me perguntou sobre a demo que tocava.
– Penso sobre... – mordi a boca olhando para o teto. – PIANOS! Ela poderia ter um toque clássico.
– ARPAS! – gritou do lado. – MEUS DEUSES, ! EU AMO VOCÊ, CARA!
O que aconteceu depois disso foi a coisa mais confusa da minha vida, ela se levantou, segurou meu rosto e estalou um selinho em meus lábios. Meu estômago deu uma revirada desgraçada com aquilo, meus pés gelaram e o medo me atingiu... eu não sei do que estava com medo, mas eu estava. Não contei conversa para segurar a cabeça dela com minha mão esquerda, mas antes que eu entrasse no paraíso, a me afastou pelo peito, não cheguei nem a encostar os lábios nos dela novamente.
O céu desmoronou e passamos o resto da tarde fazendo comentários estritamente ligados a música. Eu tinha tomado o fora mais épico da minha vida.


PALCO SETE

Nashville, TN


– Calma, calma, espera aí. – Savannah me estendeu as mãos abertas, pedindo que eu respirasse e provavelmente tentasse justificar o que eu tinha acabado de lhe contar. – Então... O , nosso . – ela mediu uma altura maior que sua cabeça, com a mão. – Tentou te beijar... – afirmei e entramos no corredor dos cosméticos. – E você não deixou? – minha melhor amiga estava indignada.
Eu estava indignada com ela, que estava indignada comigo. Por qual raio de motivo eu deixaria que me beijasse? Aquilo era sem noção!
Respirei fundo e comecei escolher um sabonete com cheiro suave no meio do Walmart. Nem só de shows vivia a nossa banda, então, às vezes, precisávamos fazer compras, reabastecer armários e essas coisas que fazemos em uma casa fixa, afinal o ônibus era nossa casa móvel.
Tínhamos nos dividido em dois grupos para não amontoar muito dentro da loja de conveniência, então naquele dia só eu, Franccie e Jean, do Just Kids, tínhamos ido fazer as compras da quinzena. Save tinha ido com o crew do nosso pai e acabamos nos perdendo no meio de tanto material de cosmético, era maravilhoso um esmaltezinho vez ou outra, hidratantes de cheiros diferentes, perfumes de lavanda, produtos para cabelo. Nosso real paraíso das turnês.
Eu iria começar a trabalhar com a deusa Afrodite. Por quê? Primeiro: queria desenterrar de vez meu amor-próprio. Segundo: precisava achar aquele cigano que estava me deixando completamente obcecada. Tinha até sonhado com o cara, ou o que eu imaginava dele, na noite passada – e foi estranho ter visto a imagem do nele, muito estranho –. No fim das contas, acabei pensando em uma explicação plausível e racional para aquilo, o selinho e o fato de ele quase ter me beijado depois, revirou minha cabeça.
O problema maior era o fato de ele estar agindo como se nada tivesse acontecido, quer dizer, o resto da tarde foi o tempo mais esquisito que passamos juntos desde que nos conhecemos. Nem nos olhamos mais, se querem saber. Pela manhã, parecia que nada tinha acontecido e quando me preparei para pisar em ovos, acordou zoando minha legging cor de abóbora.
– Esmeralda! – Savannah gritou aquele nome que arrepiava minha espinha e jurei-a de morte só com o olhar. – Desculpa! – minha amiga se retratou. – Você está fugindo de um assunto importante. Nós duas sabemos bem que essa amizade tem um fundo, bem grande, grande mesmo, de sentimentos.
Grunhi, frustrada.
– Você tá dando importância demais a um assunto... – sacudi as mãos. – Eu acabei de me livrar de um cara escroto. Quero curtir, quero sacanagem, mas não é com o que eu vou fazer isso. – eu era uma mentirosa descarada.
– Você tá obcecada no cigano. – ela foi certeira e senti meu estômago comprimir. Suspiramos.
– É, eu estou obcecada por ele, preciso achar esse cara. – coloquei sabonetinhos cor de rosa em formato de rosas e corações dentro do carrinho.
Pelo som que saiu da boca da minha melhor amiga, soube que ela não estava nem um pouco contente com minha fé no destino, mas conhecia Savannah o bastante para entender que ela nunca criticaria minhas decisões espirituais.
– E o que a gente precisa para fazer isso? – ela pôs uma colônia de lavanda nas compras.
– Encontrar minha avó primeiro. – peguei uma escova de dentes nova para mim e outra para o , a dele estava toda descabelada, nem parecia ter sido comprada há menos de dois meses.
Como eu sei? A última eu tinha comprado também, em uma das vezes que liguei para dizer que ia me atrasar porque estava na farmácia. Ele me pediu uma escova nova e desodorante, mas não julgo, já tinha o feito comprar absorventes para mim.
– Não acredito que finalmente vou conhecer a Baba Aurora. – Save soltou um gritinho animado e eu também. Estava morrendo de saudade da vovó.
– Você vai sim! – esmaguei minha amiga em um abraço apertado quando andávamos para fora do corredor de higiene pessoal.
– Não vai comprar absorvente? – ela apontou para prateleira com vários pacotes coloridos.
– Não estou menstruando, usei injeção de progesterona antes da turnê, aí não ovulo. Vou passar três meses em paz. Você sabe que sangrar na estrada é um saco.
– Uma bela caca. – Save concordou comigo quando estávamos indo na direção do caixa, onde meus colegas de trabalho provavelmente já estariam. – Onie que te indicou o injetável?
Minha amiga perguntou sobre nossa ginecologista – uma amiga antiga – e afirmei com um aceno de cabeça, enquanto engatávamos em uma conversa sobre o Scott e a cara de pau da Savannah em achar um absurdo que ele chamasse nosso pai de sogrão.

-x-

Assim que chegamos das compras, peguei minha caixa de madeira com todas as minhas poções, ervas, incensos, bastões, cristais, velas, pentagramas e meu pequeno caldeirão, a maior prova visual de que eu era sim uma bruxa; aproveitei que o motor home estava vazio e fui para última sala do nosso ônibus. Abri a caixa com todo cuidado do mundo, feliz em saber que aquele presente havia sido toda a prova de apoio do para com as minhas crenças, tirei de dentro todos os materiais que eu precisaria para contatar a Deusa Afrodite.
Primeiro fiz um feitiço de proteção para que os obsessores ficassem longe de mim. Posicionei meu quartzo rosa ao lado do incensário, acendi um incenso de rosas e defumei meus instrumentos de trabalho – ou limpeza energética, como preferirem chamar –, montei um altar pequeno com os sabonetes, perfumes, pétalas de rosas e velas na mesma tonalidade de rosa. Fiz uma oração para a Deusa com toda a minha fé em busca de respostas e enquanto a vela queimava lenta e graciosa, montei uma jarra de amor-próprio.
Usei um frasco de vidro, o purifiquei com o incenso e dentro coloquei: pétalas de rosa, um cubinho de açúcar, alguns raminhos de alecrim, sal rosa, um cristalzinho de quartzo rosa e outro de ametista, umas gotinhas de óleo essencial de laranja e raminhos de lavanda. Fechei meu vidrinho com a rolha e selei com a cera da vela rosa. Respirei fundo, fechei meus olhos e pedi mais uma vez que a deusa Afrodite me orientasse sobre qual era o melhor caminho a seguir.
Aquela noite sonhei com ela, dizendo que eu estava mais perto do cigano do que eu imaginava. No dia seguinte, lhe dei meu perfume preferido.

Nashville, TN → Virginia Beach, VA


Era uma noite estrelada e amena de verão, a lua minguante já estava quase toda tomada pela escuridão e aquilo me atingia assim como a lua cheia, geralmente nesses momentos eu ficava mais quieto e reflexivo. Eu, , Save e Scott tínhamos estendido uma manta velha no chão de grama de um barranco no meio da estrada. O ônibus tinha dado pau no motor, de novo, e enquanto não amanhecia para receber ajuda, paramos no acostamento. Não tinha muito o que fazer mesmo, então aproveitamos o momento, que raramente acontecia, para passar um tempo juntos e a sorte de Save ter viajado com a gente àquela noite.
Naqueles momentos simples, era que celebrávamos nossa amizade de mais de uma década e quando pensava que tudo tinha começado naquele festival, ficava tão saudoso quanto a quando seus olhos marejavam e sua voz embargava no momento em que começava falar da Warped.
Tinha um tabuleiro de tarô entre nós e minha melhor amiga vez ou outra brincava com as cartas sobre nossa situação amorosa, trabalho, futuro e afins. Ela sempre alegava que não tinha tanta experiencia assim com as cartas, mas gostava de treinar com a gente, principalmente porque sabia que não iriamos obcecar com o resultado. Eu discordava completamente, pois era genial com tudo que envolvia leitura da sorte e divinação, acho que era assim que chamava.
Save foi a próxima a escolher o trio de cartas, enquanto eu e o Scott tentávamos entender se poderia ler o próprio futuro através do tarô.
– Na real, são mais de 70 cartas. – ela disse enquanto o dedo indicador com um anel de esmeralda, mostrava as cartas para Save. – Esse meu tarô aqui foi um presente da Save, são só os 22 arcanos maiores. Escolheu?
– Sim, essas! – a ruiva disse, convicta.
Bebemos mais um gole da nossa cerveja que já estava ficando quente.
– Tá, mas você consegue puxar cartas para você? – foi Scott quem perguntou, eu e ele já tínhamos sido alvos das cartas. Para mim saiu: O louco, O carro e A morte, confesso que fiquei com medo, mas era basicamente um sinal de uma mudança drástica e repentina. que disse e preferi acreditar nela.
– Claro que sim, Scott. – ela riu, virando as cartas da Save. – O verso delas são todos iguais e a tiragem da carta é na “sorte”, não tem como manipular se você joga limpo, mas tudo depende da interpretação também. Então prefiro que alguém faça para mim. – bebeu mais um gole de sua cerveja.
– Você pode fazer isso sempre. – constatei, já meio bêbado e ela me olhou por cima do óculos de descanso. Eu nunca tinha reparado em como ficava maravilhosa usando óculos. – Tá, tá, não sempre. Entendi.
Ramanush explicou a Save os significados das cartas dela, que eu particularmente não prestei muita atenção por não ser comigo, mas tinha algo sobre amor e relacionamento no meio. Finalmente, né? Era irritante ver o quanto aqueles dois fingiam não acontecer nada, não na nossa frente, pois só pelas poucas horas ali sentado com meus amigos, Savannah e Scott já tinham se beijado uma porção de vezes. Mas eu queria que os dois mostrassem ao mundo – já que eram pessoas públicas – o quanto eram felizes juntos, meu melhor amigo amava demais a herdeira da Warped Tour e sei que ela também o amava.
Save já tinha começado uma mudança e tanto em toda a estrutura do festival, contratou mais mulheres para estarem dentro da equipe de organização, promoveu treinamentos para evitar qualquer tipo de violência fosse verbal, física, ou sexual e sim, foi obrigatório para todas as bandas. Achei incrível, para ser sincero, e o Just Kids foi uma das principais bandas a divulgar tudo aquilo, junto com o Addicted To You e outras bandas até mais conhecidas que a gente. estava explodindo de orgulho, tanto da irmã, quanto de nós, sua banda. Aquilo me deixava muito feliz por tabela.
Foquei minha atenção na conversa quando Scott perguntava – pela milésima vez – como os deuses da nossa bruxa se comunicava com ela.
– Depende. – embaralhava o tarô de novo. – Eles se manifestam de muitas formas e, às vezes, meio que pedem para se comunicar com você, comigo geralmente acontece por sonho. Eu tenho sonhos bem realísticos com eles e nos comunicamos, mas posso sentir a presença e usar o tarô para entender o que eles querem dizer, também.
Era encantador como ela era uma bruxa espetacular.
– No momento, eu estou começando a trabalhar com a Afrodite. – essa não era a Deusa do amor? – Então comprei vários presentes, ou oferendas, para ela.
– Vários sabonetes em tons de rosa e velas da mesma cor. – Save completou a conversa da amiga. – Já teve alguma resposta, ?
– Pior que ainda não. – Ramanush suspirou, um pouco frustrada. Bebi o resto da minha cerveja, que já estava quente, num gole só. Ela estava mentindo, eu sabia, seu lábio tremia. – Acho que vou deixar meu perfume no altar móvel, ela já disse que gostou dele, então, né? – nós quatro rimos e ela voltou ao tarô. – O que vocês querem saber?
– Eu sei que geralmente elas veem o futuro, mas podem revelar passados? – perguntei de novo. Ela ponderou com a cabeça.
– Elas revelam mais sobre o que você é, do que regressão. Isso só um psicólogo. – ela soltou uma risada e mostrei a língua.
Aquilo era engraçado por que de todos nós, ela era a mais fechada com segredos, passado e todas essas coisas. Em todos esses anos, a única coisa que soube era que minha amiga tinha fugido de casa na adolescência, mas nunca me disse claramente o porquê. Eu tinha certo palpite sobre ela ter sofrido agressão em casa, lembro muito bem da sua expressão de pavor ao ver o pai no meio da nossa primeira Warped. E já tinha perguntado várias vezes sobre a família dela, mas sempre era vaga falando sobre não se encaixar nos padrões da família, por isso fugiu, mas ainda sentia muita falta deles.
Burro eu não era e a tatuagem da roda de uma carroça com a frase “alma cigana” na parte interna do seu braço, combinada a uma série de coisas que ela falava ou fazia, praticamente gritavam que ela tinha alguma descendência cigana. Sim, os ciganos de verdade. Já tinha até pesquisado algumas vezes, mas a internet era uma bosta e não parecia disposta a falar sobre.

Virginia Beach, VA


Sempre gostei do clima dos festivais porque eles são sinônimos de igualdade e liberdade. Todas as bandas que estavam ali eram tratadas igualmente, assim como todos os fãs também; e algo que me fazia amar ainda mais aquele festival em específico, era eu ter me encontrado lá. Foi a certeza de que eu poderia sim trabalhar com música, além de conhecer o squad da minha vida. Eu era extremamente grata por ter Save, e Scott na minha vida.
Me permiti sentar em uma caixa de som depois de programar o horário palco da minha banda aquela tarde e prendi o cabelo em um coque enrolado no topo da cabeça por causa do calor. O clima na Virginia estava de matar e rezava que o ônibus não quebrasse de novo, como tinha acontecido na outra noite em que ficamos presos no meio da estrada por seis horas seguidas. Rolei o feed das minhas redes sociais e curti algumas fotos que o pessoal tinha me marcado, também vi que alguns amigos meus, também das equipes de banda, estavam por ali. Embora só tenha ficado feliz mesmo, assim que vi o Rick andando na minha direção.
Nos cumprimentamos com um abraço e o rom sentou do meu lado, perguntando como estavam as coisas e se eu já tinha encontrado alguma pista sobre meu antigo grupo.
– Rick, estou na saga de achar minha família. – suspirei. – Deixei o acampamento em Pomona há uns 15 anos, mas agora eles podem estar em qualquer lugar dos Estados Unidos.
– Você não tem qualquer pista? – ele me ofereceu uma uva e balancei a cabeça em negativa para as duas coisas. Ricardo suspirou e mordeu a boca como se pensasse em algo. – Em Allentown, depois dos shows, vamos dar uma festa, espero você lá, . – meu amigo sorriu.
– Festas como aquelas? – senti meus olhos encherem de lágrimas quando ele confirmou com um aceno de cabeça animado. As festas rom eram sempre tão animadas, intensas e cheias de amor; nós dançávamos a boa música cigana, comíamos das melhores comidas e minha boca salivava só em lembrar do Rum.
– Exatamente. – Rick sorriu e levantou-se da caixa ao meu lado. – Eu te falei que somos vários rom aqui na Warped, né? Logo vai ser dia de festa e vamos ficar muito felizes em te receber.
Recebi um beijo na cabeça e ele foi embora, me deixando com o corpo explodindo em felicidade. Só de pensar que eu encontraria minha gente de novo era motivo para fazer meu coração descompassar de tão rápido que batia. A esperança só crescia quando eu pensava que alguém poderia me ajudar com a localização dos meus pais.
Não conseguia tirar o sorriso do rosto e juro que tentei várias vezes, mas parecia uma boba sonhadora com aquele sentimento gostoso de paz que me invadia. Nem quando o trio de garotas – que deveriam ter por volta de 15 anos, e uma banda bem legal –, me abordou para falar sobre o fazer participação em um clipe delas, parei de sorrir. Avisei que conversaria com ele sobre aquilo, mas garantia que iria aceitar.
– Quem foi a pessoa responsável por colocar esse sorriso lindo em você? – só percebi a presença do quando ouvi sua voz rouca dentro do espaço pré-palco. Olhei ao redor e vi que todo mundo já tinha ido embora. – Espero que não tenha sido outro cara, ou meu coração vai sangrar até parar de bater. – rolei os olhos.
Meu amigo soltou uma risada bonita e sentou ao meu lado, abriu um sorriso tão largo quanto o meu e me encarou esperando que eu contasse o motivo da minha felicidade. Confesso que queria rasgar toda a felicidade em saber que provavelmente eu estava perto de reencontrar minha família, revelar sobre minha etnia cigana e tudo que eu tinha escondido durante tanto tempo. Mas aquele momento estava sendo tão gostoso de processar que contaria ao depois. Tenho certeza que ele entenderia.
– Não foi nada. – mordi o sorriso. – Só estou feliz. – dei de ombros e ganhei um beijo na bochecha.
– Esse backstage vazio me traz tantas lembranças dos nossos seis últimos anos trabalhando juntos. – suspirou e balancei minhas pernas que estavam penduradas pela altura da caixa.
– Foram incríveis não é, loser? – encostei a cabeça em seu ombro, recebendo mais um beijo carinhoso entre os cabelos.
– Para caralho, freak. Não gosto de pensar que essa é nossa última turnê juntos. – ele beijou minha cabeça novamente e engoli o bolo dolorido na garganta. Meu contrato acabaria exatamente no último dia de Warped Tour e já tinha outro emprego me esperando depois daquele. Save precisava de uma olheira e confiava muito no meu trabalho.
– É só não pensar, cabecinha de vento. – cutuquei seu rosto, ouvindo uma risada triste. – Ah, as meninas da Não Sou Sua Garota queriam saber se você pode participar do videoclipe novo delas. – umedeci os lábios, atraindo, mesmo sem intenção, a atenção dele. – A música é uma delícia de chiclete, você vai adorar. E elas são bem novinhas para ter tanta maturidade, então garanti que você ia.
– Só me dizer o dia. – ele umedeceu os lábios, ainda encarando minha boca entreaberta. Tentei não puxar todo ar ao redor, mas era inadmissível pensar no quanto eu estava nervosa com a situação. – "Me dê um beijo..." – achei não ter entendido o que ele falou, mas antes de interrompê-lo, o homem continuou: – "Não há nada que eu não faria por um beijo seu, nenhuma montanha que eu não escalaria, nenhum rio que não atravessaria, nenhum deserto que não cruzaria." abriu os braços em toda a sua dramatização, como se o parque fosse o vilarejo de Muralha e meu queixo foi ao chão. Ele estava reproduzindo o discurso do Tristan?
Eu estava muito dividida entre rir e ouvir o resto.
O céu estava lindo aquele fim de tarde e mesmo com o sol clareando toda a imensidão azul que cobria o estado da Virginia, a lua nova já se mostrava gravada no céu como se fosse uma fina folha de seda. Seria aquele, o momento perfeito?
Por um beijo. – o vocalista do Just Kids fez uma pausa dramática e meu estômago despencou de vez. – Um beijo, , por um beijo seu, eu traria um pedacinho daquela lua. apontou para o céu.
– Você está citando Neil Gaiman para mim? – foi a única coisa que consegui realmente falar. O Mistério da Estrela era um dos meus livros preferidos por uma série de motivos, um deles me levava a pensar que eu não era muito diferente do Tristan em busca de uma estrela, mas que acabou descobrindo sua verdadeira identidade no caminho. – !
Ele tinha me cantado com uma citação do Neil?
– Óbvio que eu estou citando Neil Gaiman para você, Ramanush. Você me fez ler O Mistério da Estrela e estava todo marcado com as citações mais incríveis, essa me fez pensar que eu queria ser o Tristan algum dia...
Respirei profundamente quando vi sua mão carinhosa em meu joelho.
– Eu não gosto desse tipo de brincadeira sendo feita nesse tom, . – voltei a olhar para seu rosto, mas dessa vez não conseguia desviar dos lábios avermelhados dele. A barba muito rala no queixo, contornando a mandíbula como se a deixasse ainda mais marcada.
– E quem disse que eu estou brincando, babe? – arfei com o apelido carinhoso que pulou de sua boca. Merda, ele estava convicto daquilo. Ele sabia e eu também. – Já falei isso, inclusive tentei te beijar no outro dia. Você só não deixou.
estava perto demais e foi a esse fator que culpei meu ímpeto de agarrar o rosto dele com as duas mãos, segurando seu pescoço tatuado para que ele não saísse dali enquanto não me beijasse. O homem agarrou minha cintura na mesma ânsia de contato entre nossos corpos e lábios, que já estavam se esfregando por pura angústia, mas nada que nos fizesse sentir o gosto das bocas um do outro. Eu odiava toda aquela ansiedade que precedia o beijo. Agarrei os cabelos da sua nuca entre nosso roçar de língua, ouvindo o gemido de vibrar contra a minha boca, se espalhando por todo meu corpo, como se eu absorvesse o som com todas as terminações nervosas. Gemi também.
Era angustiante aquele desejo que tomava todas as minhas entranhas. E confesso, perdi tudo quando meu melhor amigo espalhou uma das mãos enormes entre meu pescoço e nuca, estabilizando minha cabeça para que pudesse me beijar de verdade. Foi ali que me dei conta da intensidade e urgência com que nos beijávamos. Foi ali que me dei conta o quanto seu beijo era intenso, gostoso e fazia todo o meu corpo se eriçar descaradamente, como se eu não conseguisse controlar os meus instintos perto dele. O gosto e o cheiro. Santa Sara, aquele homem era uma delícia.
Puta que pariu! Eu estava beijando .



PALCO OITO

Virginia Beach, VA


Nunca, em toda a minha vida, eu tinha provado de um beijo tão gostoso. Sequer acreditava que era realmente a quem estava me beijando com tanto afinco e desejo, porque, caramba, depois da bagunça que eu fiz nos últimos dias...
Segurei seu rosto com mais carinho, aproveitando o jeito diferente – e delicioso – que ela mexia a língua na minha boca e aproveitei para me apoiar com um dos braços, na caixa de som que estávamos sentados. puxou meus cabelos da nuca e gemi novamente, dessa vez sentindo meu corpo esquentar mais rápido do que eu imaginava ser possível – principalmente depois dos trinta –. Ramanush estava mexendo comigo descaradamente e só estava me beijando, imagine se tentasse qualquer outra coisa naquele meio tempo. Combustão. Infelizmente precisamos nos soltar daquele atracado desesperado e mordi seu lábio sem querer que ela se afastasse. Puxei o ar com força, ainda a encarando, tentando entender por que nossa gerente de turnê parecia transtornada depois do beijo, abrindo a boca várias vezes sem conseguir falar.
Por qual raio de motivo ela tinha que ser tão gostosa?
, minha Deusa... – a súplica saiu baixa e parecia não saber como levar aquilo direito. – Eu, eu, d-desculpa.
O quê? DESCULPA? Como ela simplesmente me encarava com aquele olhar ardente de quem queria beijar muito mais e tinha a pachorra de verbalizar uma desculpa em voz alta?
– Não mesmo, vem cá. – segurei seu rosto de novo.
Viajamos em outro beijo gostoso, dessa vez menos desesperado e... UAU! Que mulher era aquela? O polegar contornava minha tatuagem do pescoço com tanta falta de pudor que acendeu meu corpo novamente e até um pouco mais quente. Mergulhei em sua boca numa viagem só de ida, mas precisei interromper o momento quando senti o joelho da roçar por cima da minha coxa. Suspirei, passando o nariz no seu para aproveitar ao máximo aquele perfume gostoso que vinha dela e percebi que minha amiga só tentava se inclinar um pouco mais na minha direção, por isso o joelho estava ali.
Beijei o canto da sua boca.
Ela beliscou meu ombro, suspirando. Sua mão estava meio trêmula apoiada de qualquer jeito no meu antebraço.
– Eu sei que foi gostoso, mas não precisa tremer. – soprei perto do seu ouvido e ganhei um soco no ombro. Aquela era minha garota! – AI, SUA BRUTA!
– Que Pamella me perdoe, mas você é um filho da puta! – Ramanush pulou da caixa e rimos, juntos, sem qualquer amarra ou bloqueio. Tinha sido um beijo e éramos adultos o suficiente para saber levar aquilo na boa, certo? Certo. Então por que eu queria sair correndo para contar ao meu irmão?
– Ei, foi um beijo, tá? – esclareci quando a vi soltando os cabelos negros do coque. Eu sou um bundão!
– Eu sei. – ela riu. Linda pra caramba. – Você que é o emocionado da relação. – minha gerente de turnê piscou para mim.
– Tá indo embora por que então?
– Alguém precisa trabalhar, cara! – recebi um beijo alado e devolvi o gesto.
Vi quando a desceu a escadinha de ferro correndo, indo na direção oposta a que estávamos e só aí me permiti ficar surpreso, feliz, confuso, cheio de sentimentos conflitantes, mas todos ao mesmo tempo. Enfiei os dedos nos cabelos e soltei um gritinho de incredulidade, porque, caramba, Ramanush tinha me beijado!



Destruída. Eu estava completamente destruída depois de um dos dias mais agitados da nossa turnê – isso sem contar com o amasso que dei no mais cedo –, foi agitação do início ao fim do dia, a noite já tinha começado com burburinho. Provavelmente alguém iria dar uma festa em uma tenda perto da nossa e era muito feio da nossa parte – mentira – não comparecer a uma festa.
Eliot me ajudou com o recolhimento das coisas, parecia eufórico com a festa daquela noite; confesso que aquilo me deixou um pouco mais animada para tomar um banho e tomar umas com o pessoal. Ele era um rapaz incrível, além de inteligente para um senhor caramba e mesmo com toda euforia jovem, era mais calmo que a irmã e a prima, eu nunca me atreveria a colocá-las para dentro de uma boate – clandestinamente – como fiz com ele.
– Estou com saudade das meninas. – o garoto revelou, levando todo o material pesado que se recusou a me deixar manusear. Afaguei seu ombro como um consolo.
– Eu também. – soltei uma risada. – Quando vocês estão perto, seu tio me deixa em paz. – mostrei o local no container para ele largar as caixas e Eliot soltou uma risada. Ele estava debochando de mim?
– Ah, conta outra. O cara é louco por você, só você que não vê. – arqueei a sobrancelha. Aquela conversa era tão recorrente na família do , quanto na minha, embora eu tivesse bem dividida sobre a verdade. O beijo a tarde tinha sido tão bom.
– Já está bêbado uma hora dessas, Charles? – apoiei a mão no quadril. – Achei que você não tivesse idade para isso ainda. – o moleque fechou a cara e gargalhei. Ahá, tinha pegado bem no ponto fraco dele.
– Você não sabe brincar. – o moço bufou, emburrado, parecia ser a mesma criancinha de 7 anos que dizia ser meu amigo e ficava emburrado quando falava que eu era feia.
– Quando elas chegam? – nos escoramos no container depois que ele colocou as caixas lá.
– Sei que as duas vão estar em Montreal por causa dos meus avós. – ele cruzou os braços no peito nu. Vendo aquele gesto, me questionei sobre duas coisas. Primeiro: a quem aquele menino tinha puxando, gostando de tanta tatuagem daquele jeito? Eliot deveria ter umas cinco tatuagens, das que eu conseguia ver, espalhadas por seu tronco e braços, além de serem desenhos enormes. Segundo: Ele estava comendo ração? Ele tinha saído de um moleque meio franzino para um cara enorme. Era aquilo que a universidade fazia com os meninos? – Mas sinto que as duas estão perdendo o festival.
Fiquei na ponta dos pés e baguncei seu cabelo.
– Sinto muito pelas arregonas. – fiz um bico e rimos. – Mas amanhã te ajudo a convencer as duas a voltar para cá. Combinado? – fechei a mão para um soquinho.
Aquele moleque dos infernos abriu os braços e agarrou minha cintura. Seria um abraço grato se ele não tivesse me tirado do chão e beijado minha bochecha, repetidas vezes, do jeito que sabia, eu odiava.
– ELIOT CHARLES! – estapeei seus ombros. – Me põe no chão!
– Ah para, tia ! Você é a melhor. – ele finalmente me soltou. Era tão insuportável quanto o tio. – Vejo você mais tarde! – Eliot mandou um beijo e saiu saltitando, enquanto retribuía os acenos de algumas garotas que andavam pelo estacionamento, provavelmente procurando seus carros.
– FEDIDO! – gritei e só ouvi a gargalhada dele.
Macon chegou com as caixas das guitarras e colocamos tudo para dentro do container, era melhor assegurar a integridade dos nossos instrumentos de trabalho antes que o álcool modificasse nosso poder de sanidade. A maioria da equipe já tinha tomado banho e a outra parte, estava agilizando o processo. Ele me ajudou a conferir as coisas e enquanto eu dava baixa no que precisávamos para o próximo show, ele avisou que iria tomar banho, mas deixaria a água quente do ônibus para mim.
– Aprecio muito seu cavalheirismo, Macon! – gritei, mesmo sem vê-lo.
Descansei o peso do corpo em uma das pernas e mordi a parte interna da boca, precisaria trocar as cordas da guitarra vermelha do Jean amanhã e o grave do baixo preferido do , os dois instrumentos tinham arrebentado aquela tarde. Um tipo de energia maluca tinha tomado conta do meu melhor amigo e ele parecia o diabo da Tasmânia de um lado para o outro em cima do palco.
Lembrei da promessa que tinha feito ao Eliot e abri o aplicativo de mensagens, iria trazer as meninas para o último festival sim, queria que eles curtissem junto com o tio e comigo. Digitei freneticamente e enviei para Leo e Penny, separadamente: “Quero vocês aqui o mais rápido possível. Tá todo mundo sofrendo, inclusive o Eliot”. Guardei o telefone novamente e olhei para bagunça no container. Pedi paciência a Santa Sara dos ciganos, mas ela me deu uma lanterna apagada e ao que parece, um corpo durinho e gostoso me abraçando por trás, quando tentei virar para ver o que tinha acontecido. Era um contato tão familiar que fez meu corpo amolecer instantaneamente.
Respirei fundo para recobrar a consciência, mas aquele perfume tomou minhas narinas, a mão deslizou por meu abdome e quando, lentamente, olhei para baixo quase tive um treco. Era o cara da boate em Vegas.
– Sabia que não seria difícil te achar aqui. – ele soprou ao pé do meu ouvido e prendi um grunhido indignado. – Não achou que ia ficar só naquele beijo a tarde, não é, freak?
era o cara da boate em Vegas. Filho da mãe.
Quando ele beijou meu pescoço, os flashs da festa na boate voltaram com força total a minha mente. Nossos corpos colados, suados e dançando como se não se conhecessem. Daquele jeito eu não conhecia mesmo.
Fui encostada delicadamente contra a parede do container escuro e seu cheiro gostoso me nocauteou. A ideia de um amasso escondido nunca tinha sido tão excitante como parecia naquele momento. Respirei fundo quando senti duas mãos subirem devagarinho pelos meus braços arrepiados, arrastando fogo e desejo por onde iam. Eu tinha plena consciência do quanto meu amigo era lindo, charmoso e gostoso, mas nunca imaginara em como ele era bom em sedução. Mal tinha encostado em mim e eu já estava em chamas.
cobriu meu corpo com o dele quando implorei que me beijasse.
– Me beija! – puxei seu corpo para junto do meu pela camisa clara que vestia.
Senti seu polegar fazer carinho na minha bochecha, a palma grossa roçar na minha pele e fechei os olhos assim que sua respiração atingiu meu rosto. Ele passou o nariz por minha bochecha, encostando os lábios casualmente enquanto me torturava com aquela calma filha da puta. Eu queria sua língua na minha boca. Era tão difícil assim entender?
Finalmente meu amigo encostou os lábios nos meus, um beijo sugado no lábio inferior que me fez suspirar, contente. A língua veio depois, quente e confortável, me agarrei ainda mais nele; inclinou a cabeça para diminuir nossa diferença de altura e pude voltar meus calcanhares ao chão, mas apertei a bunda redondinha dele.
O soltou uma gargalhada gostosa contra a minha boca, roubando mais um beijo molhado.
– Tarada. – ele sussurrou contra meus lábios. Lambi os seus, apertando a bunda dele com as duas mãos.
– Você gosta. – mordi a boca, achando que iria apertar minha bunda também, mas não tive qualquer chance de sentir o aperto.
. – Charles interrompeu antes. O irmão de estava com uma cara de riso tão grande quando olhamos para ele, que quis bater em sua cara.
– O que é, inferno? – ele me soltou visivelmente nervoso, passando a mão no cabelo escuro e molhado. Charles abriu a boca, mas o interrompi.
– Calado, . – desci do container.
– Eu não disse nada, mulher! – o vocalista do ATY soltou a risada presa e nós dois, eu e , mostramos o dedo para ele em um gesto obsceno. – Eu vim falar com o , mas ele estava com a língua em sua garganta.
– Vá se ferrar. – o empurrei com força e o marido de Theresa cambaleou para trás, gargalhando das nossas caras de safados.
– Deixa-a em paz, Charles. – esbravejou, o que só serviu para aquele idiota rir ainda mais.
Rolei meus olhos e deixei os dois se resolverem, ouvindo longe quando brigava com o irmão idiota que tinha. Por mais que o sentimento maravilhoso de selvageria jovem tomasse meu peito.
Aproveitei a água quentinha do banheiro minúsculo, arrumei meus cabelos do jeito que dava, em um rabo de cavalo. Achei um vestido lindo que eu tinha levado para vestir em alguma after party, ele era todo estampado como uma bata indiana, mas tinha um decote profundo e alças grossas franzidas em cima do ombro. Borrifei um pouco de perfume, o que a Afrodite tinha adorado, calcei minhas sandálias e saí do ônibus me sentindo fabulosa.
Depois de passar meia hora abraçada na Save, enchendo-a de apertos – e sentindo o olhar descarado de em cima de mim –, engatamos em uma conversa animada com nossas amigas de outras bandas, sempre a base de muita cerveja gelada.
Era gostoso demais falar sobre todos aqueles assuntos de mulherzinha. Eu sentia que aqueles momentos cheios de frufru me lembravam da mulher perua e feminina que eu era. Amava me enfeitar toda com colares, pulseiras e anéis, era muito fã de todos os tipos de cosméticos, então odiava quando a estrada não conseguia me proporcionar aqueles momentos menininhas pintando unha e usando máscara de pepino na cara. Parecia que um pênis poderia aparecer em mim a qualquer momento.
Depois que marcamos um day off só para um dia de SPA no quarto, pedi licença e fui pegar mais cerveja gelada no canto da tenda que estava os coolers. Aquela organização precária de after party só me lembrava dos bons momentos das festas de faculdade. Enchi o copo vermelho, não resistindo a procurar com o olhar. Aqueles amassos escondidos eram excitantes demais!
– Vem cá comigo. – o sussurro no meu ouvido quase me deixou derretida no chão. Virei só para dar de cara com o caçulinha dos com a mão aberta esperando a minha.
Segurei a sua, mesmo sabendo que ia dar merda – em algum momento –, mas eu estava em uma urgência absurda para transar com aquele homem e eu era muito bem resolvida com minha liberdade sexual para reprimir o tesão. Foi assim que chegamos ao nosso ônibus e entramos nele as escondidas, ainda olhei para ver se alguém estava nos vendo; fiquei feliz quando percebi que não.
– ACHEI! – virei de uma vez com o grito do , mas entendi que era sobre a trava das portas. Ao menos ele estava pensando naquilo e o risco de sermos pegos era bem baixo.
Ele segurou meu rosto com uma das mãos, dando início a um beijo lento e gostoso. Cheio de desejo, luxuria e malícia, que fazia minha pele se eriçar escandalosamente. Baguncei seus cabelos e ele puxou os meus. A mão dele agarrou minha bunda por baixo do vestido – finalmente – e quando esfregou nossos corpos, gemi, manhosa, entre o beijo. O puxei pela camisa para perto da bancada, agradecendo imensamente aos deuses quando aquele homem gostoso entendeu o recado.
Duas mãos firmes seguraram meu corpo entre a cintura e o quadril, me suspenderam do chão colocando sentada na bancada da cozinha do ônibus. O abracei com as pernas, trazendo o corpo do para mais perto do meu, suas mãos quentes enormes subiram por minhas coxas levantando o vestido de um jeito tão gostoso enquanto nos beijávamos. Sua língua se arrastou até meu pescoço, lambendo, beijando, chupando, me deixando louca com nosso esfregado obsceno de quadril.
Adentrei as mãos pela barra de sua camisa clara, sentindo a barriga gostosa dele contrair. não era o tipo de cara sarado com gominhos em um tanquinho, tinha até uma barriguinha sexy no abdome magro, além das entradas definidas em V no fim do abdome. O peito era largo e duro, os ombros definidos e cheios de sinais, as tatuagens espalhadas por todo lugar o deixavam ainda mais sensual e delicioso.
Senti uma mordida no vão do pescoço e aquilo me despertou.
... – arfei, manhosa. Ele murmurou em afirmação. – Como amigos, né? – puxei seu quadril de encontro ao meu. Ele gemeu.
– É o que somos. – meu amigo respondeu, quando botei, satisfeita, sua mão em meu peito.



PALCO NOVE



Senti o corpo inteiro formigar quando ela apertou as pernas em volta do meu quadril, se roçando bem contra a minha virilha já meia bomba. estava deliciosamente apoiada na bancada da cozinha do motor home e usava um vestidinho que me fizera salivar desde a hora que tinha visto. Era folgado da cintura para baixo, o que já facilitaria nossa rapidinha ali e tinha um decote profundo, deixando a curva dos seios que eu mais desejara ver em toda a minha vida, a amostra. Pareciam tão lindos e deliciosos.
Antes que eu pudesse avançar em seu pescoço, ela beijou o meu com uma fome absurda, cravando as unhas curtas em meus braços enquanto eu palpava suas pernas por baixo da roupa. Tá, tinha encontrado o tecido da calcinha, que parecia ser pequena e já tinha começado fazer um carinho com o polegar por cima do tecido úmido. A mulher abafou um gemido em cima da minha tatuagem no pescoço e se esfregou contra meu dedo. Grunhi, desesperado e apertei o seu peito, por cima do vestido, sentindo o mamilo durinho contra a palma.
Ali me dei conta que odiava nossa falta de espaço e conforto. Eu precisava sentir o mamilo duro contra a minha língua, precisava sentir o gosto dela até que ela estivesse sem forças sobre a cama. Precisava mostrar a o que era desejá-la de verdade, satisfazê-la como eu sempre tinha imaginado nas últimas semanas.
Fui tirado dos devaneios quando senti que sua língua contornava toda a clave de sol tatuada em meu pescoço em uma habilidade tão deliciosa que meu pau latejou desejando que fosse lá embaixo. Ainda sem saber quanto tempo tínhamos, afastei sua calcinha para o lado e procurei o pontinho da felicidade com o polegar em meio aquela umidade deliciosa. Eu precisava demais sentir o gosto dela na minha boca. Continuei deslizar por lá e soube que tinha chegado ao lugar certo - mesmo sem ver - quando ela jogou a cabeça para trás e rebolou contra meu dedo, mordendo um sorriso safado e gostoso. Porra, eu ia ficar louco!
Continuei o esfregaço, massageando e avancei contra sua boca, um beijo urgente, desejoso, desesperado e até aflito de tanta ansiedade. Àquela altura minha mão já beliscava seu mamilo enquanto nos beijávamos e fui ao paraíso quando gemeu, manhosa, contra a minha boca.
– Eu quero você, . – ela roçou a coxa contra o volume rígido na perna da calça e garanto que vi as estrelas do Paraíso.
Os segundos que se passaram foram um borrão para minha cabeça nublada, mas ela abriu minha calça, liberou minha ereção, brincando um pouquinho com ela e só me faltava a camisinha.
– Tá no bolso. – minha voz saiu rouca enquanto ela palpava minha bunda, apertando alisando. Aquilo era excitante para mim, cara, e eu não tinha vergonha de assumir. Adorava uma mão na bunda, as unhas cravadas me empurrando para dentro. Ai, caralho! Tirei a mão de entre as pernas dela e lambi meus dedos degustando o máximo que pude. Deliciosa.
– Vai logo, ! – a bravinha deliciosa me deu uma ordem, que fez um sorriso sacana se formar em meus lábios.
Tirei a camisinha do bolso da calça que ainda estava presa na metade da bunda e inclinei a cabeça para baixo para beijar entre os seios enquanto me vestia. Aquela mulher inacreditável puxou o vestido pro lado, me mostrando o par de peitos mais lindos, incríveis e deliciosos que eu já tinha visto em toda a minha vida, com toda certeza do mundo. tinha seios fartos por natureza e eu sabia daquilo porque minha amiga nunca tinha feito implantes. Perfeitos!
Chupei um, o outro, beijei, lambi e fui ao céu com os gemidos baixinhos daquela mulher, beijei a lua cheia tatuada na base dos seios e só não beijei o resto porque a me puxou pela bunda.
– Por favor. – o pedido veio manhoso e um pedido daqueles não se negava.
Puxei-a um pouco mais para beirada do móvel, enquanto segurava sua cintura com força para não a deixar cair e lhe dei um beijinho casto nos lábios entre abertos. Eu queria entrar assim, com a boca encostada na dela, me chamem de rendido, eu não ligo.
me abraçou pelo pescoço com um dos braços, enquanto o outro estava apoiado no tampo de mármore e me beijou, colocando aquela língua maravilhosa dentro da minha boca e só pude recebê-la bem demais. Segurei minha base, afastei a calcinha com a outra mão e procurei abrigo, entrando devagarinho, a dona da casa me recebeu tão bem toda molhada e quentinha e quase gritei que tinha chegado em casa. Ela gemeu, gostosa, entre o beijo e segurei sua cintura com força antes que ela começasse a se mexer, eu queria gravar bem a sensação dentro dela, principalmente sabendo que aquela poderia ser a primeira e a última vez que iria acontecer.
Pelo amor de Buda, eu poderia morar ali pelo resto da minha vida.
A mulher olhou para o nosso corpo unido e agarrou meus cabelos, que já necessitavam de um corte, entre os dedos como se tentasse procurar um apoio para quando começasse a rebolar. Larguei de ser idiota e saí de dentro dela quase que completamente, voltando a preenchê-la com uma firmeza que fez um gemido sair da boca de nós dois, ao mesmo tempo. Ramanush era inclassificável de tão incrível. Afundei meus dedos em sua coxa, ainda me movimentando devagar dentro dela, enquanto a mulher rebolava gostoso me ajudando com os movimentos e fechei os olhos com força.
Acho que estava à beira da morte e aquele sexo delicioso era um aviso do fim do mundo.
Não consegui segurar a calma por muito tempo e nós dois já estávamos em uma busca desesperada pelo orgasmo, eu estocava rápido e com força, enquanto ela se apoiava na bancada atrás de nós dois, sacudindo os quadris no ritmo dos meus. Apoiei minhas mãos, uma no tampo de mármore e a outra no armário acima de nossas cabeças e tive a leve impressão de que se estivéssemos em um veículo menor, ele estaria balançando. Tentei segurar a boca, mas era impossível com todos os gemidos dela me mandando ir mais rápido. Trinquei os dentes e grunhi, desesperado, porque já estava bem perto e nem sinal da Ramanush estar também, talvez fosse aquela péssima posição na bancada, em um clique de sanidade, lembrei da mesinha de apoio a uns 4 passos de nós dois. Agarrei-a pela cintura e ainda trêmulo, pedi que ela abraçasse as pernas em mim, confesso que aquela abraçada foi a deliciosa sensação de céu. Enfiei o nariz em seu pescoço, sentindo o cheiro gostoso do perfume dela entorpecer ainda mais meu cérebro cheio de tesão.
Apoiei a mulher na mesa com carinho, ainda sem sair de dentro dela. não soltou as pernas ao meu redor e por mais que tentasse segurar, quando voltamos ao movimento, vê-la entregue, liberta e esparramada deliciosamente na mesa, me levou ao orgasmo mais rápido do que eu imaginava. Me segurei nas bordas do móvel fixo e deixei o grunhido escapar aliviado, ela gemeu também e embora quisesse me tapear dando uma de relaxada em cima da mesa. Eu já tinha provado de experiências sexuais demais para saber que o corpo de uma mulher era perfeito até nos apertos que me envolvia no momento de um orgasmo e não tinha gozado. Ainda!
Me livrei do preservativo usado, colocando no bolso depois de amarrado - Ia precisar lavar a calça, mesmo depois de recém usada -, botei o moleque para dentro, fechei o zíper e fiquei confuso em ver a sentada na mesa voltando as alças grossas do vestido pro lugar. Me inclinei por cima dela, beijando o pescoço com uma fome absurda enquanto ela gemia que a gente não tinha tempo para uma segunda rodada. Que segunda rodada o quê? A gente nem tinha acabado a primeira.
– Você nem gozou e não é assim que as coisas funcionam por aqui, Ramanush. – chupei sua orelha e a mulher se deu por vencida voltando a deitar sobre a mesa. Isso mesmo, é assim que eu gosto.
Ela era linda pra caralho!
Beijei o meio dos seus seios, depois cada fase da lua que ia de uma ponta a outra, o vestido deixando seu colo completamente nu novamente. Beijei os mamilos rígidos enquanto minhas mãos se agarravam ao tecido de sua calcinha e deslizava caminho abaixo nas pernas firmes e deliciosas. Queria muito poder beijá-las por toda a extensão, mas nosso tempo era curto demais para dar tanta sopa para o azar. Enrolei a calcinha no outro bolso e baixei a cabeça entre as pernas dela, levantando o vestido para cima de sua cintura.
Beijei uma coxa, depois a outra, sentindo que ela se segurava para não esmagar meu rosto entre suas pernas, rapidamente levei os beijos a sua virilha, lambi a porta do Paraíso ouvindo um gemidinho manhoso, que tinha me deixado excitado outra vez. Gostosa demais! A mulher enfiou a mão em meus cabelos e soube que aquilo era um aviso de que a gente não podia perder tempo. Não podia mesmo, embora eu quisesse fazer aquilo devagar, sabia que ela tinha plena razão. Me apressei para chegar logo ao que interessava e quando chupei o clitóris, se arqueou inteira em cima da mesa.
A imagem mais linda que eu já tinha visto em toda a minha vida. Os gemidos eram uma sinfonia completa, harmônica e afinada que me fez repensar meu conceito de música nos últimos 20 anos. Suas mãos em meu cabelo, seu cheiro impregnado em meu nariz, o som da voz rouca... Tudo aquilo fazia meus sentidos aguçarem instantaneamente e entre beijos, chupadas e gemidos, soube que ela tinha chegado ao orgasmo quando pulsou sob minha língua.
Pior que também soube que aquela tinha sido a última vez quando ela gargalhou satisfeita em cima da mesa, me chamou de loser assim que levantei a cabeça e agradeceu o momento com aquele sorriso incrivelmente lindo de cumplicidade.
Para ela, tinha sido uma brincadeira gostosa.
Para mim, o melhor sexo da minha vida.



PALCO DEZ

Camden, NJ

Precisava achar Savannah o mais rápido possível, já que, infelizmente, ela não tinha viajado com a gente durante a manhã. A noite passada tinha sido louca demais, tivemos festa, bebidas e o sexo – acima de quaisquer expectativas – com . Minha deusa Afrodite! Já havia acordado, colocando mais um perfuminho no altar dela, agradecendo todos os mimos que estava recebendo. Depois da minha meditação matinal, de comer uma banana e ajudar a banda com a organização da tenda, peguei a CC 50* e fui em disparada para o ônibus do crew principal, onde eu tinha certeza que encontraria minha irmã.
Abracei o Kevin bem apertado, lhe beijei a cabeça calva o fazendo rir e perguntei pela Save, ele disse que ela provavelmente estava terminando de se arrumar e me mandou entrar. Agradeci com mais um beijo e entrei sem muita cerimônia, precisava urgentemente conversar com ela, contar o que tinha acontecido na noite passada. Mais de uma vez, inclusive, porque depois da meia noite, eu e transamos de novo, mas dentro da cabine dele. O proibido era tão mais gostoso. Embora fosse muito estranho pensar na parte legal que envolvia aquilo e entender que eu estava quebrando, no mínimo, umas 3 cláusulas do seu contrato, as quais tinha pedido pessoalmente para serem colocadas.
– Hey, hey, hey! – gritei assim que vi Save guardar a escova de dentes na necessaire.
O ônibus do nosso pai era um pouco diferente do que eu ocupava com o Just Kids, ele parecia bem mais com uma casa e todas as suas áreas divididas. Lembro de todas as vezes que viajamos nele para todos os lugares e aquilo enchia meu peito de sentimentos bons.
– Uau! Quem morreu para você aparecer aqui antes das – Save checou o horário no celular – 10 da manhã?
– Faltam duas para as dez! – soltei, ofendida com a pouca fé dela em mim e rimos. Recuperei o fôlego e puxei Savannah para salinha mais calma dali, ou seja, o quarto dos nossos pais, eles não estavam lá mesmo. Minha melhor amiga entortou a boca nada feliz com meu desespero e enfiei as mãos entre os cabelos assim que a porta foi fechada. – Acho que cometi o maior erro da minha vida e preciso de alguém para me matar... se for o caso. Esse alguém é você. – deixei claro, como se já não estivesse.
Savannah fez uma careta terrível e ao entender que provavelmente naquilo envolvia homem, mas não sei exatamente se ela entendeu de qual homem eu estava falando, porque parecia querer agarrar os joelhos e chorar quando sentou na cama deixando os ombros caírem.
– Se você me disser que atendeu as ligações do Leon, eu, sinceramente, amiga, vou bater na sua cara. – a ameaça descontente pulou da boca da minha amiga ruiva e não me aguentei, soltei uma gargalhada daquelas. Ela estava bêbada? Que Leon o quê? Quem era Leon na fila do show? – OPA! Se não tem ligação com Leon, não vejo por que você classificar como maior erro da sua vida. – um sorrisinho malicioso dela me fez rolar os olhos, mas eu estava gostando de saber quem eu tinha dado uns pegas. – A antiga voltou pros palcos?
– Pois é, voltou. – fiz uma reverencia, minha amiga sacudiu os braços, comemorando. – E parece que pegou o vocalista dela!
– ESMERALDA! – o grito desenfreado de Savannah me fez a entortar a cara em uma careta desgostosa. Ela só usava meu nome, o nome que meus pais tinham me dado um dia, meu nome cigano, quando estava muito feliz, ou bem descontente com alguma atitude. Pelo tom, feliz ela não parecia estar, ao menos não de primeira.
– O quê? – esganicei como se fosse normal gozar na boca do meu chefe. Credo, que horror, vou fingir que não pensei isso. Pigarreei e sacudi a cabeça, quando mais eu pensasse naquilo, pior as coisas ficariam. – Ok, é... eu sei. – suspiramos frustradas, as duas.
– Meu Deus, vocês estão... – Save mexeu as mãos de uma forma estranha. – Transando? Ficando? Namorando? – ela sussurrou a última palavra. Aquilo fez meu estômago revirar violentamente. Era do jeito ruim, não era? Ele estava embrulhado de pensar no como um namorado. Era isso, embrulhado!
– PELA LUA, NÃO! – arregalei meus olhos, pois meu cérebro não sabia fazer qualquer outra coisa que não fosse uma defensiva ferrada. De repente, soei como se preferisse ser queimada na fogueira do que assumir que a possibilidade de ter algo com o poderia ser legal. Minha irmã de vida percebeu e arqueou a sobrancelha. Esfreguei o rosto, sentindo a maior culpa do mundo. – Não, Save, ele é só o ... – a expectativa nos olhos da ruiva a minha frente foi de quebrar o coração, eu deveria completar com alguma coisa. Não completei, não consegui, não na mesma hora. – Não temos nada. Ele não presta.
– E nem você! – no alvo. Foi onde ela acertou, no alvo.
Eu não valia mesmo e meus namoros nunca duravam mais que meses, nunca soube ao certo se porque eu era um bicho solto que não baixava a cabeça com muita facilidade e odiava estar presa, ou se os caras com quem eu me relacionava eram idiotas ao ponto de ter ciúmes do e achar que eu escolheria alguém que não gostava dele. E o que mais estava me amedrontando há uns dias, talvez aquele fracasso fosse devido ao cigano desconhecido e possivelmente, morto que estava costurado ao meu destino.
– “Não presta” é um pouco demais, você não acha? – Savannah saiu em defesa do .
Ele prestava, sim, era o cara mais gentil que eu tive a sorte de conhecer. Quando eu brincava que ele era emocionado, era a verdade, ele sempre era emocionado em todos os relacionamentos. Namoro, amizade, familiares, qualquer um deles. era um homem incrível.
– Se ele não presta, eu presto muito menos. O problema aqui é outro!
– Você só pode ter perdido o juízo! – ela enfiou as mãos nos cabelos ruivos. Save tinha entendido. – Seu contrato?
- MEU CONTRATO! – desafinei.
Minha melhor amiga cresceu os olhos em uma curiosidade de fofoqueira que era nossa especialidade. Eu não precisava de mais nada para entender a pergunta em seus olhos sobre onde tinha sido a transa.
– No ônibus. – suspirei, derrotada com minha hipocrisia. “Meu ônibus não é motel”, esse era meu lema, obviamente antes de eu fazer dele, um motel.
– Hipócrita! – recebi de bom grado e devolvi uma risada sem vergonha. – "Meu ônibus não é motel!". Por que você não me contou nada ontem, sua vaca?
– Você estava muito ocupada com a boca do Scott! – cerrei os olhos para vê-la abrir um sorrisinho mais sem vergonha que o meu. Safada!
– Em minha defesa, não preciso de um ônibus para fazer de motel. – Savannah Lyman piscou, mostrando que estava anos luz a minha frente.
– SAFADA! – protestei, arrancando uma risada dela.
– Me conta logo! E quero saber de tudo, sem cortes.
Tomei fôlego e não poupei minha irmã de quaisquer detalhes sobre uma das noites mais loucas de toda a minha vida. Sinceramente? Transar com tinha superado qualquer outra loucura grupal que eu tinha feito em toda a minha vida, porque eu nunca – no auge dos meus 31 anos – tinha experimentado um sexo com tanta entrega.
Saí do ônibus do meu pai com o coração mais calmo, ainda levemente culpada pelo que envolvia meu contrato; mas meu estado emocional mudou completamente quando recebi uma mensagem das meninas, Penny e Leo, avisando que já estavam chegando. Nos encontraríamos no dia seguinte em Holmdel.

*Uma mini moto de 50 cilindradas, no estilo de uma daquelas usadas em motocross.

Holmdel, NJ


Sempre pude contar com o Charles e sempre iria poder, independentemente do que acontecesse, se brigássemos ou não, meu irmão sempre me daria os melhores conselhos sobre tudo. Enquanto Percy estava naquele papel de proteção, além de ser nosso irmão mais velho, muitas vezes, agia feito o pai, só que maleavelmente. Eu? Por muito tempo, fui o moleque que só fazia merda atrás de merda, até tomar jeito e virar homem.
Mas a questão é, aquela era a primeira vez que eu levava um assunto do nível "mulheres" aos ouvidos do Charlie, acho que porque muito provavelmente, ele me viu aos amassos com a dentro do container.
– Tá, , mas e qual o problema disso? – ele parecia bem confuso. Larguei os pesos de cimento e sentei em cima deles. – Você tá levando esse beijo a um nível mais complicado do que é.
– Não foi só um beijo. – completei a parte da informação que eu omitia. – A gente transou. Mais de uma vez. – mordi a boca. – Na mesma noite.
! – Charles me repreendeu e senti o estômago dar uma volta inteira. – Puta merda, você não toma jeito viu.
– Você tem zero moral para ficar me repreendendo como se eu fosse uma criança. Você engravidou a Theresa e ela só tinha 17 anos. – me arrependi no exato momento em que fechei a boca.
Charles arqueou a sobrancelha na minha direção e mirei o chão de pista sob nossos pés. Merda, merda, merda grande! Comparei a Theresa em um ato impensado, porém verdadeiro, pois sim, era quase a mesma coisa. Eu só era lerdo demais para ter assumido há mais tempo. Sabia que Charlie ia dizer algo só pelo jeito que me olhou, mas meu celular tocou na mesma hora. Era Percy.
– Charles.
Eu estava indignado de ver que minha vida tinha virado assunto dos meus irmãos fofoqueiros.
– O quê? Eu achei que você já tinha contado. – falsa inocência do caralho. Claro que ele sabia que eu não tinha contado nada, eu nunca tinha contado nada a eles sobre a , porque ia ser um motivo para me envergonharem na frente dela.
Findei atendendo a ligação.
Nosso caçulinha perdeu o BV? – a voz de Perseu soou pelo telefone e rolei os olhos, mandando ele ir à merda, embora minhas bochechas estivessem prestes a enrubescer. Odiava ter aquelas bochechas enormes que só eu tinha herdado.
– Acho que foi mais para um primeiro amasso. – Charles abriu a porra da boca grande. Ali não tive como segurar, eu parecia um pimentão, vermelho de raiva com uma grande ponta de vergonha. Um iceberg de vergonha. Quando exatamente minha vida privada passou a ser da conta deles?
– Vão se foder, vocês dois. – rebati. Eles iam pegar no meu pé o resto da vida em saber que se tratava da .
– E eu nem disse o melhor. – Charles gargalhou e tirou o celular da minha mão.
Ele perdeu o cabaço também? – Perseu era um filho da puta desnecessário.
– Com a ! – os gritos dos meus irmãos eram vergonhosos. Levantei de onde eu estava e sacudi a cabeça, puxando o celular da mão do Charles. Já fui chacota demais em menos de dez minutos.
Qual é ? – Percy segurou a risada. – É a gostosa da . – eu sabia onde aquele vagabundo queria chegar com aquilo.
– Vai à merda! – até eu fiquei abismado com meu ataque em defesa dela. – Sim, eu transei com a , sim a gente deu uns amassos e sim, eu estou louco para repetir. É crime agora?
– Ei, cara. Calma! – Charlie me olhou, assustado.
Que chá de...
– Cala a boca! – interrompi antes que ele terminasse a frase. – Parem de encher minha paciência, eu gosto dela sim. Não é novidade que eu sou doido por ela. – suspirei, frustrado, com a dificuldade enorme em assumir, finalmente, tudo aquilo para os meus irmãos. Você tem 33 anos, , largue de ser frouxo.
Charles bagunçou meu cabelo e afagou meu ombro, tentando me passar conforto. Tenho certeza que ele sabia o que eu sentia e a imensidão daquilo também, talvez até suspeitasse que meu maior medo era ela se afastar de mim se nossos pegas acabasse de um jeito ruim.
Desculpa, eu fui um cuzão. – Percy se desculpou e afirmei com um barulho baixo. – Eu sei como se sente, caçula, não sufoca isso, não. Seja mais corajoso do que eu. O que você vai fazer agora?
Suspirei, frustrado e procurei o olhar do meu irmão do meio. Soube que o Charlie me apoiaria em qualquer decisão que eu tomasse, fosse ela sábia, ou estúpida. Eu tinha a vaga impressão que tentar me afastar da iria ser estúpido, afinal de contas, eu não ia conseguir, mas poderia ao menos tentar.
Provavelmente dar um freio nisso. – passei a mão pelos cabelos. – Ou vou acabar misturando tudo.



Eu não sei ao certo se eu era hipócrita, ou estava pagando minha língua, mas tenho certeza que era algo do gênero. Eu tinha dito a Savannah que iria ficar longe de confusão, ou seja, longe da boca e do corpo do... Enfim, disse que ficaria bem longe do , mas tudo parecia ter se anulado quando a gente começou se agarrar escondido em um cantinho perto da armação do palco – ainda vazio, claro –.
estava prensado entre o espaço de uma armação de ferro e outra, enquanto eu apertava seus braços com força, beijando sua boca num desespero maluco. A gente nem tinha um padrão, o desejo e a urgência eram tantos que estávamos dando os beijos mais desajeitados que eu já tinha dado em toda minha vida. Meu amigo desceu a mão enorme por minhas costas, dobrei a perna em seu quadril e senti um aperto gostoso de mão cheia em minha bunda. Dobrei a perna no seu quadril e ele apertou minha bunda, juntando nossos corpos como se já estar colado não fosse o suficiente. Era angustiante, pela lua!
Ele estava sem camisa e eu, com uma camiseta cavada dele – que geralmente usava nos dias de muito calor, só com um tope por baixo –. Contornei sua tatuagem do pescoço com o polegar, absorvendo o gemidinho manhoso que saiu da boca do entre o beijo. Gemi junto e desci as unhas curtas por seu peito largo, sentindo a pele reagir sob minhas poupas, só aí grunhi, inconformada, assim que meu lábio foi puxado entre seus dentes ao fim do beijo.
– Você é tão gostosa! – o sussurro vagabundo foi dado ao pé do meu ouvido, fazendo meu corpo inteiro entrar em combustão. As duas mãos dele seguraram minha bunda em cheio e gemi contra seu pescoço. Ai, minha Deusa, eu precisava tanto transar com aquele homem de novo.
Passei as mãos por seu abdome, já sabendo que seria agarrada e teria um homem forte de 1,87cm beijando meu pescoço. Arfei, enfiando as mãos em seus cabelos curtos e fazendo o boné dele, com a aba para trás, cair com um barulho seco no chão. já tinha enfiado as mãos enormes pela cava da camisa e juro que senti um roçar gostoso da palma na curva do meu peito, por cima do tope.
Uma parte de mim gritava, queria ser comida ali mesmo, mas a racional prezava demais pela não exposição. Fiz um carinho calmo em seus ombros, sentindo os beijos em meu pescoço ficarem mais calmos.
. – chamei, manhosa. – Sei que é gostoso ficar de amasso escondido, mas é melhor a gente não dar sopa para o azar. – afastei seu rosto do meu pescoço.
O baixista gostoso me olhou por uns bons segundos até processar o que eu tinha dito, me roubou mais um beijo safado com aquela mão imensa na minha bunda e sorriu logo em seguida.
– Concordo com você, babe. – ele beijou minha testa. Eu estava desorientada quando beijou minha bochecha e sorriu novamente, abaixando para pegar o boné escuro no chão.

-x-

Quando chegamos a tenda abraçados casualmente e desconfiados pra caramba, as sobrinhas do já estavam lá e não contaram conversa para correr na direção do tio, gritando o quanto tinham sentido falta dele. Aquilo me fazia sorrir tão encantada, as meninas eram dois mulherões da porra, mas conseguiam parecer duas garotinhas de seis anos quando estavam embaladas por todo aquele amor do tio velho. Ele beijou as bochechas delas e apertou um pouco mais as duas, como se aquele abraço matasse a saudade das semanas que haviam passado.
Também ganhei abraços apertados e graças a Santa Sara, nenhuma das duas fofoqueiras pareciam saber de algo. Para falar a verdade, acho que nem o Eliot sabia, ou ele já teria enchido minha paciência. Charles esse, parecia estar com medo de soltar piadinhas para o meu lado e tomar um sopapo, errado não estava.
– Que saudade que eu estava das meninas que eu mais amo nesse mundo. – tirou as duas do chão no abraço e ouvi as risadas. – Quem trouxe vocês? – meu amigo perguntou quando Eliot estava chegando na conversa. O rapaz estava com um sorriso de dar inveja a qualquer um, era visível o quanto ele estava feliz pela presença da irmã e da prima.
– Sua namorada! – Eliot disse no impulso e lhe belisquei a barriga, nem olhou para gente. Prendi a gargalhada porque ele era péssimo para esconder as coisas.
– Ai, tia ! – ele esfregou onde eu tinha beliscado. me olhou, com um sorriso imenso de gratidão e pedi por tudo que era mais sagrado para que ele não me chamasse de babe na frente dos sobrinhos.
– Você fez isso... ?
– IH, TÁ NAMORANDO É? – Leonor soltou um gritinho histérico e me impedi de suspirar, cansada. Precisava pensar como a de sempre e não ficar na defensiva como a mulher que estava pegando tio deles.
– AI, MEU BUDA! O PERDEU O BV? – Pennelope soltou um grito estrondoso, fazendo o tio mais novo ficar vermelho feito um pimentão porque todo mundo na tenda do Just Kids tinha olhado para gente.
O homem imenso deu um tapa fraco na cabeça dela, reclamando como alguém que tinha culpa no cartório. Me limitei a soltar uma risada divertida e dizer que ele tinha aprendido a beijar direitinho. No fim das contas, conseguimos esconder bem nossa culpa ferrada. acompanhou os três para onde o resto do pessoal estava e fui caminhando atrás enquanto checava minha lista de tarefas daquele dia, mas parei no meio do caminho quando ouvi o grito divertido de alguém que eu conhecia há um tempão.
– MAMÃE ! FINALMENTE TE ACHEI!



PALCO ONZE

Holmdel, NJ


Não sei o que mais me incomodava naquela cena, embora eu tivesse várias opções plausíveis para estar bem incomodado com um moleque de 20 anos – no máximo –, abraçando minha gerente de turnê e tirando-a do chão como se fosse meu sobrinho. O primeiro motivo era obviamente o que eu acabara de citar, o segundo variava entre o fato de ele parecer extremamente abusado e eu não conhecê-lo, o terceiro era um ciúme puro e limpo, no qual eu não tinha costume de sentir. Era só a , seu pamonha e ele deve ser alguém que ela conhece. Aí entrava o quarto motivo: por que ela o conhecia e eu não?
– Quem é esse cara? – Pennelope soltou do abraço. Por que minha sobrinha parecia tão interessada no moleque?
– Não faço ideia, Penny Lane, mas putz, maior gato.
Até Leonor?
– Você não tem um namorado? – rebati a fala da Leo e me doeu saber que ela tinha começado a namorar de verdade com o filho dos Dill, amigos de Charlie e Terry.
– O que tem a ver? Ele é bonito mesmo. – olhei, incrédulo pro Eliot. Até ele? Porra, era para o moleque me ajudar.
Estava ali o quinto motivo. Meus sobrinhos, aparentemente, tinham simpatizado de cara com o moleque abusado que estava em uma bolha com a .
– Isso mesmo, Lenzinha. – Penny nem olhava mais para gente, mirando a cena a nossa frente. – Você tem namorado, mas eu posso e vou dar em cima dele.
Eliot e Leonor vibraram forte com a decisão da garota e rapidamente fui abandonado na conversa deles. Sabe o que eu odiava na situação? Meus sobrinhos não tinham mais 10 anos e eu tinha deixado de ser o cara mais legal do mundo há uns bons anos.
Ignorei toda a situação e puxei meus sobrinhos, precisava aproveitar cada momento que teria com eles naquela turnê.
– E o que vamos fazer hoje? – abracei minhas sobrinhas pelos ombros, uma de cada lado. As duas tinham acabado de chegar na Warped por intermédio da e eu não poderia estar mais feliz. Beijei a bochecha das duas e minhas meninas sorriram. Eliot estava pulando feito um cabrito ao nosso lado, com uma garrafinha de água na mão.
– Quero me divertir! – Leo abriu um sorrisão. – Eu e a Pen viemos exatamente para isso.
– E diversão é diversão. – Pennelope apontou para mim. – Sei lá, fazer umas loucuras! Trouxe insulina suficiente para um batalhão.
Nós rimos. Pen tinha diabetes tipo 1, quando seu corpo não produzia insulina como deveria, por um motivo desconhecido por nós. Não tinha exatamente uma causa, parece que seu pâncreas não funcionava direito, ao menos foi isso que o médico disse. Beijei seus cabelos ruivos e afirmei. Morria de orgulho da minha jogadora de hóquei preferida e a mais foda do mundo inteiro.
– O time liberou você? – prendi uma risada.
– Estamos fora do campeonato, cara, é férias de verão! – a moça arregalou de leve os olhos.
– A gente estava botando o condado abaixo, isso sim. – Leonor saiu em defesa da prima e sacudi a cabeça.
Os três pareciam irmãos quando o quesito era se proteger e se cuidar. Eliot, segurando a mão da irmã, parecia irradiar felicidade, embora estivesse calado, sabia como ele nem acreditava que as duas estavam ali para curtir conosco.
– Ah, , comecei um som novo, queria que você visse depois. – nossa musicista nata disse, animada.
– Claro que sim, meu amor! Estou bem ansioso, inclusive, vou mostrar a também. Ela tem um ouvido e tanto! – pisquei para nossa caçulinha. Tocar no nome da era a gota d'água para que os três começassem a me zoar com barulhos ridículos, mas surpreendentemente, o trio pareceu não ouvir o nome dela. – Nosso show hoje vai ser no início da noite, querem entrar no palco comigo?
– COM AS ARMINHAS D'ÁGUA? – Eliot virou de uma vez para mim e paramos de andar, as meninas pareciam prestes a explodir de felicidade igual a ele.
– E AS BOLAS, POR FAVOR, AS BOLAS! – Leonor arregalou os olhos e eu ainda prendia meu sorriso, animado, estava esperando o surto da Pen.
– EU VOU ENTRAR COM SEU SKATE! – minha ruivinha apertou meu tronco no abraço, mais forte do que eu esperava para ser sincero, e fiz uma careta pelas minhas costelas. Ela não tinha noção da força que tinha.
– CLARO QUE SIM! – gritei junto com eles e ganhei o abraço mais gostoso de toda a minha vida.


estava excepcionalmente carente àquela tarde, carente de verdade, ao ponto de perder o senso do juízo e tentar me dar um selinho no meio da tenda. Só poderia ser diagnosticado como insanidade pelo calor, nada mais, . Como se não bastasse, fugimos do parque, na verdade, ele me levou junto num carro alugado para um lugar que descobri depois ser um hotel simples e nada chamativo. Advinha para quê? Transamos de novo, e de novo, dessa vez numa cama de verdade, enquanto todo mundo deveria estar perguntando onde raios eu estava.
Culpa do . Ele que me levou!
Depois da segunda rodada, me joguei do lado contrário ao que ele estava deitado, vendo seus pés horríveis – única parte feia naquele homem – bem perto da minha fuça. Me espreguicei na cama e ouvi uma risadinha sem vergonha, enquanto sentia um carinho bom demais no tornozelo; olhei de relance e ele brincava com minha tornozeleira de pingentinhos. Aquela era uma faceta do que eu não conhecia, o sorriso confortável pela intimidade, o carinho depois do sexo, o silêncio agradável. Já o tinha visto pelado várias outras vezes – por pura inconveniência do destino –, mas era tão diferente.
Meu telefone tocou no pé da cama e me virei de uma vez para tentar pegá-lo, mas foi mais rápido. Me puxou pelas pernas, deu uma palmada leve em minha bunda e quando percebi, seu corpo já cobria o meu enquanto ele passava o nariz pela minha nuca. Seu peito pressionado nas minhas costas, seu quadril encaixado na minha bunda. Nós dois pelados. Gemi em agonia por não conseguir resistir aquilo. Pela Deusa Afrodite, meu corpo já estava em chamas!
O que me lembra de: Não era ele que eu estava procurando. Será que Ela achou que era?
. – resmunguei, manhosa. Ele já mordia meu ombro como se não ouvisse minhas reclamações. – Deve ser a Franccie querendo saber onde raios eu me meti.
– Você eu não sei, mas eu... – ele soltou uma risadinha sem vergonha contra minha pele.
– Safado! – xinguei nos fazendo rir com aquele momento gostoso que estávamos vivendo.
Ele beijou o meio das minhas costas, desceu mais um pouquinho pela coluna e deu outro beijo, quando suspendeu o corpo me virei de barriga para cima na cama antes que ele segurasse meu quadril e me chupasse naquela bendita posição. Não era que eu não quisesse, porque eu queria, mas tínhamos trabalho a fazer e eu ainda precisava atender meu telefone. Dobrei os joelhos e o afastei pro outro lado da cama, ouvindo os grunhidos ridículos de choro do meu melhor amigo.
– Você é ridículo! – apontei para ele quando pulei fora da cama, capturando meu celular no chão. fez um biquinho, inconformado, colocando os braços atrás da cabeça e voltei a sentar na cama.
Tia ? – a voz do James esganiçou do outro lado assim que atendi. Soltei uma risada com a animação dele.
– Primeiro que é Ramanush, tia é a sua avó. – nós dois rimos. – O que manda, moleque?
Você falou com ele? – o moleque perguntou, esperançoso e olhei para um que me encarava. Então, eu não tinha falado absolutamente nada de trabalho com o na última hora. Meu amigo safado deu uma piscadinha e mordeu a boca.
– Ainda não. – soltei uma risada e desviei o olhar do homem deliciosamente pelado a minha frente. – Mas me ligou para cobrar?
Não, claro que não, poxa! Quero te chamar para gerir nosso show hoje. Como nos velhos tempos. Topa?
Soltei um gritinho estrondoso com o convite do James, eu tinha cuidado daqueles meninos no primeiro ano de carreira deles. Foi meu primeiro trabalho como gerente de turnê e pensar no quanto eu tinha aprendido e feito a diferença na vida de alguém, me deixava ainda mais feliz e convicta de que estava no caminho certo.
– Só me dizer a hora, boy! – sentei na borda da cama.
Vamos tocar as 5pm no palco de suporte ao principal, estamos bem nervosos. É nosso primeiro show de hoje e caralho, você viu o tamanho da multidão? – o moleque soava eufórico e por um momento me peguei sorrindo, minha atual banda era exatamente daquele jeito.
– Vocês vão arrasar, cara! Vai por mim. – sorri largo. – As 5pm vou estar pronta.
Não esquece de falar com o , tá? Essa é a chance da minha vida e você sabe como eu admiro o cara, quero ser igual a ele quando eu crescer. De verdade, não esquece de perguntar se ele topa, por favor!
Primeira lição: nunca especialize ninguém desse jeito. Segunda coisa: ele nem é tudo isso. – nós dois rimos. – Terceiro: ele vai topar, vai por mim! – virei o corpo de lado e puxei o dedão feio do , ele me olhou com uma cara que tive vontade de gargalhar. Meu amigo estava sisudo, com a testa vincada e as expressões tão sérias que parecia até o pai dele. – Beijo, até mais tarde! – fiz questão de me despedir daquela forma. Ouvi um barulho de beijo e desligamos.
Levou um minuto inteiro para que o parasse de me encarar e exteriorizasse todo aquele ciúme acumulado. Eu queria tanto rir da sua cara fechada.
– Quem era?
– James, do The Scraps. Lembra dele? – escorei no ombro como se não desse a mínima pro ciuminho dele. E não dava mesmo, queria fazer as bochechas do explodirem de tão vermelhas.
– Lembro. – ele encarou o colchão barato. – E o que você vai fazer com o James do The Scraps as 5pm? – uma cruzada de braços que tinha me feito quase derreter em cima da cama. CREDO, ESMERALDA! TENHA MODOS.
– Não. É. Da. Sua. Conta. – mostrei minha língua em uma atitude infantil. Eu só precisava confirmar de vez o ciúme e ia infernizá-lo pelo resto da vida. – Por quê? Não quer dividir sua gerente de turnê?
– Não tenho qualquer direito sobre você, . Não tenho que dividir. – ele suspirou e de repente todas as expressões tinham mudado. era taurino e por isso, ciumento por natureza, emocionado, apegado, mas estava desconstruindo isso de um jeito tão incrível que me deixava orgulhosa. Ele entender que ninguém era sua propriedade me deixava feliz.
– James me chamou para gerir o show da banda hoje, mas é bem antes do de vocês. – decidi revelar o motivo, mas só porque ele tinha sido um bom menino. Meu amigo afirmou com um aceno de cabeça. – Não vou deixar o Just Kids na mão.
– Nunca duvidei disso, babe. Mas quantos anos tem esse moleque? 16? Ele usa um moletom com o nome “cervejas”.
Eu não acreditava no que estava ouvindo. tinha a porra do mesmo moletom. A vontade de soltar uma gargalhada era tanta que quase fiquei sem fôlego ao prendê-la. Hora de desarmar .
– Vinte e dois. – calei seu bico com uma única frase. – Eu fui a primeira gerente de turnê da banda, seu turrão. Planejei e executei, junto com eles, a primeira turnê nacional há uns seis anos e foi um sucesso, os moleques são muito bons e vão começar ser produzidos pela Save na primavera. Sabe por que eu não renovei contrato com eles? – meu amigo encolhido na cama, provavelmente morrendo de vergonha da própria postura, negou com um aceno de cabeça. – Porque decidi priorizar o Just Kids. Larguei eles para trabalhar com você. – o encarei.
AHÁ! Eu era uma amiga daquelas que estava com os amigos para qualquer coisa, mas nunca havia passado a mão na cabeça de ninguém e aquela foi a minha hora de passar na cara do o quanto ele estava sendo inconveniente. Aquele foi o momento de fazê-lo colocar os pés no chão. Depois eu falava que o garoto perdia as calças por ele.
– Desculpa, eu fui um cuzão. – passou as mãos pelos cabelos escuros, tinha feições impacientes. – Serve dizer que quero me jogar de um pé de alface? – o homem sentou na cama, projetando o corpo na minha direção, enquanto se jogava de bruços na cama como se fosse me implorar por algo. Confesso que mirei sua bunda redondinha e bronzeada. Era de informação pública que tomava sol pelado no quintal de casa. Fazer o quê? Meu melhor amigo era muito vaidoso.
– Espera até você saber que ele anda me implorando para “uma entrevista no meu canal no youtube com o ”, “Qual é, ? Ele é foda, me ajuda, aposto que se você pedir ele vai aceitar.” E a melhor de todas. – levantei um dedinho, ficava ainda mais verde a cada frase que eu falava. – “Quero ser igual a ele quando eu crescer”. E olha, sinto muito dizer, ele quer mesmo. Você, seu grande idiota, é a maior referência de palco pro Jim.
– PARA, RAMANUSH! – ele gritou em um drama exagerado, levantando da cama e apertando a cabeça como se ela tivesse prestes a estourar. – Eu estou me sentindo ridículo. Será que vão sentir minha falta se eu me jogar da janela? – se aproximou da janela do quarto térreo e soltei uma risada gostosa.
– Vão, porque você tem show as 5:40pm.
– Que ótimo saber o quanto você me ama, Ramanush. Bom mesmo saber o quanto sou importante para você. – o dramático pôs a mão no peito e mandei o dedo. Ele riu.
A luz da meia tarde entrava pela janela e batia contra seu peito, iluminando ainda mais o rosto bonito do . Prendi a respiração com a visão, dando graças a Lua que ele tinha saído dali. Ganhei um beijo sugado nos lábios e um aviso de que a porta do banheiro ficaria aberta, durante seu banho, se eu quisesse entrar.
Não entrei.

-x-x-x-

Chegamos atrasados ao ônibus de turnê – como eu estava prevendo – e a cara de pau do me deixava realmente abismada. O primeiro contato foi com seus sobrinhos encapetados que faziam poeira no meio do chão de terra com a motoca de 50 cilindradas, Charles ao longe, fingia que nem conhecia os filhos, enquanto eu recebia inúmeras mensagens de Atena e Terry, pedindo para ficar de olho neles. Eu seriamente iria pedir um aumento.
Sacudi a cabeça e suspirei, bebendo a minha água. Franccie interrogava sobre o sumiço dele e o homem brincava com a cara dela, ignorando as broncas e cantando qualquer letra da One Direction – ele conhecia a One Direction? –. Encarei aquela briguinha e respirei fundo, se fosse a baterista, já teria lhe dado uns bons sopapos.
! Você pode me ajudar? – ela mostrou o como se ele fosse seu filho de cinco anos. Cocei a testa. – Onde você o achou? – eu tinha medo da fé que Franccie botava em mim.
De repente, toda a equipe saiu de dentro das cabines, ou salinha dos fundos, não sei onde estavam antes de entrarem na sala de estar. Foi engraçado o jeito que já tínhamos uma plateia gigante para ver o barraco. Macon, Harry e Jean estavam de braços cruzados, só observando, Hannah esperava o momento certo para se inserir na conversa e Scott já ria antecipadamente.
– HEY! Eu sou um homem adulto. – meu amigo protestou e foi a minha vez de soltar uma gargalhada. – !
– Cara, se ela, que te atura desde sempre e te conhece com a palma da mão, tá rindo desse jeito. Quem sou eu para julgar? – Hannah cirúrgica como sempre, mas confesso que tive pena da pouca fé que colocavam no .
Isso era extremamente culpa dele, tinha os piores históricos de todas as turnês que eu já tinha visto. Em 2011, no meio de uma turnê pelos Estados Unidos, ele fugiu durante um dia inteiro para gente ver uma estreia de filme em Minnesota, só voltou em cima da hora do show. Em 2015, depois de uma noitada em Dallas, apareceu só de cueca na porta do ônibus. E eu nem vou mencionar 2017, quando ele desapareceu por três dias – de day off – porque tinha ido encontrar com uma garota que estava ficando na época. Quase arranquei os cabelos dele de tanto ódio que fiquei.
– Foi culpa minha, gente. – sacudi a cabeça. – Fui encontrar um parente aqui perto e pedi ao para ir comigo, desculpem. Eu deveria ter avisado, mas achei que seria mais rápido.
– É culpa dela! Não minha. – ele apontou para mim e inclinei a cabeça como se perguntasse “é mesmo?” – Cadê? Não vão brigar com ela?
– Você é louco? – Jean saltou de onde estava. – Implicar com a Ramanush é dar um tiro no pé. – pisquei para em uma comunicação só nossa de “aprenda comigo” e ele prendeu um sorriso sacana. Rapidamente todo mundo que estava ali se dispersou novamente.
Peguei minha parafernália de trabalho e saí para resolver as pendências daquele dia. Estava bem mais relaxada e maleável do que geralmente eu seria, mas caramba, quem negasse que sexo era o melhor remédio até para o cansaço, era maluco. Como nos outros dias, chequei nosso palco, o horário do show, os instrumentos a serem utilizados, todos os pontos eletrônicos – trocando o da Franccie e do Scott – e conheci o novo fotógrafo que estava fazendo um documentário sobre a Warped. Ele passaria um tempo com a gente, filmando nossa rotina e também faria isso com outras bandas. O problema maior? Eu não tinha gostado dele, nem um pouco e se tinha uma coisa na qual eu dava ouvidos, era a minha intuição.
Eu não tinha gostado do John Paul. Minha intuição gritava que algo ruim iria acontecer. Embora eu achasse que era sobre a exposição desnecessária dos sobrinhos do .
O fim da tarde tinha chegado e com ele, minha hora de trabalhar com os moleques do The Scraps. Foi uma festa quando apareci no backstage chamando-os de bebezinhos, acabei levando os sobrinhos do comigo, porque ao que parecia, Pennelope estava super interessada em dar uns pegas no James. Não a culpava, ele era lindo mesmo.
Os meninos interagiram bem demais com a banda, conversaram sobre várias coisas, riram e ainda rolou uma flertada, porque eu vi. Ajudei a banda com os pontos, perguntei como seria a ordem do show e me senti muito orgulhosa pela organização profissional deles. Era incrível ver como tinham aprendido tão bem.
– Hora do show, meus meninos! – passei conferindo se estava tudo ok. – Prontos?
Recebi vários acenos de cabeça e os coloquei para cima do palco, desejando sorte, sucesso e o melhor show do mundo. Recebi sorriso saudosos e alguns beijos na bochecha, além de promessas de que aquele seria o melhor show da minha vida. Eles não estavam errados, tinha entrado no meu top 10.
– Por que você não me disse que era o filho da Petra? – ouvi o cochicho perto do meu ouvido e virei de uma vez, assustada.
estava lindo demais, um passo atrás de mim, o cabelo bagunçado, o cordão pendurado no meio do peito tatuado – eu tinha dado aquele cordão a ele com um pingente pequeno de pedra da Lua, para proteção –, e claro, sem camisa. Eu odiava quando subia nos palcos sem camisa – geralmente nos festivais –, aquilo roubava toda a minha atenção.
O Just Kids já estava todo espalhado atrás da gente no backstage e o Charlie junto, os dois iriam cantar juntos àquela tarde. Era sempre uma euforia ter os dois irmãos mais gatos do pop punk no mesmo palco.
– Porque eu achei que você soubesse que o James era filho da Petra. – recobrei minha consciência.
Petra era, como posso dizer? Uma grande amiga da família do , ela trabalhava com marketing musical e conhecia os há umas duas décadas, mas não trabalhava mais com eles há uns bons anos.
– Só me sinto ainda mais ridículo. – ele bufou, indignado consigo mesmo. Olhei com um deboche maravilhoso e dei de ombros, ele riu e beijou minha cabeça. – O moleque é bom mesmo, viu?
– Eu sei, porra. – sorri, orgulhosa. – Acho que sua sobrinha vai dar uns pegas nele.
– Cala a boca. – a reclamação indignada era muito engraçada. – Conheceu o cara que vai fazer o documentário? – senti a mão do roçar na minha e puxei-a rápido, cruzando os braços no peito. Merda! Uma eletricidade maluca tinha percorrido meu corpo.
– E não gostei nem um pouco dele. – mordi a boca, batendo de leve o pé no chão da lateral do palco, ritmado com o som do The Scraps.
– Ele te ofendeu? – tinha se armado com a pergunta. Aposto que se eu dissesse “sim” ele ia fazer o cara ser chutado para fora da Warped e prendi a risada, sacudindo a cabeça. John mal tinha tido uma conversa longa comigo, mas eu conhecia um embuste há metros de distância e ele era um.
– Credo, não. Mas tenho medo de que ele exponha demais, situações pessoais. – suspirei. – É parte do meu trabalho proteger vocês, .
– Oi, namoradinhos! – Save chegou abraçando a gente de uma vez e mandamos nossa amiga à merda, sincronizados. – Vocês já conheceram o John?
– Estávamos falando no diabo. – ri baixo.
– Eu preferia que tivesse sido a Beth, mas foi escolha de mais da metade do conselho. Yey! – nossa ruiva preferida disse, desgostosa e abraçou-a como uma criança chata, tirando a mulher do chão. – Me solta! , me solta. – ela estapeou seus ombros, enquanto o homem enorme ria. – SCOTT! AMOR, ME AJUDA. – Savannah gritou pelo namorado, pedindo ajuda e meu queixo foi ao chão.
– Desde quando você chama seu namorado de amor, Savannah Lyman? – eu queria dar uns tapas nela por não ter me contado.
– Desde quando você sumiu o almoço inteiro e não deu tempo te contar. – ela já estava no chão quando me encarou com aquela cara de quem tinha razão sobre tudo. Olhou do para mim, de mim pro e nos pegou no flagra com cara de safados. Talvez eu quem merecesse aqueles tapas, não ela.



PALCO DOZE

Holmdel, NJ → Allentown, PA


Decidimos viajar juntos, no ônibus do Just Kids mais uma vez, porque eu e a estávamos nos sentindo péssimos amigos. Eu havia dado um perdido no Scott na hora do almoço mais cedo, enquanto ela havia fugido da Save também e bom, ao que parece, eles tinham dado um passo muito importante no relacionamento. A decisão de assumir publicamente.
Para gente, que vive sendo alvo da mídia, que não sabia mais o que era anonimato desde a adolescência e ainda era colocado como espelho, referência para uma porrada de jovens e adolescentes, assumir um relacionamento publicamente era um ato de muita análise. E coragem, para ser sincero. Você não pode expor alguém que você ama sem pensar ao menos uns cinco palmos a frente dos seus olhos, é a sua vida que está em jogo, é a vida desta pessoa que está em jogo, é a vida dos dois juntos que está em jogo.
Acho que, por isso, durante os 15 anos que o Just Kids bombava nas paradas de sucesso, só assumi dois namoros publicamente. Um deles foi com a Franccie, alguém tão conhecida como eu, mas acabou não dando certo cerca de meses depois. E o outro foi com minha última namorada, a Oniqua, uma pessoa completamente anônima, mas que ainda hoje, é muito querida por meus familiares, a e meus fãs – um ponto bem importante, inclusive, aprovação do fã clube é uma das coisas que mais pesa nos relacionamentos públicos –.
Com a Onie, essa aprovação foi muito natural, por mais que nosso namoro tivesse passado por diversas fases em dois anos, indo de um relacionamento aberto até um quase noivado – que ainda me deixava assustado até hoje –. Mas, como sempre, não deu certo como todo mundo esperava que fosse acontecer, nós dois estávamos em caminhos completamente diferentes. Eu queria casar, ela não, eu queria filhos, ela também não e tá tudo bem, a gente só não combinava mais como antes. Terminamos de forma amigável e somos amigos, ela é a médica da minha melhor amiga.
Estar imerso na situação da Save e do Scott, me fazia pensar muito sobre tudo que já tinha acontecido e o que aconteceria futuramente.
Meu próximo relacionamento seria um definitivo? Ou eu precisaria abrir mão da minha vida musical para conseguir passar o resto dos meus dias com alguém ao meu lado?
Meus filhos iriam ser criados como anônimos, ou iriam ser expostos aos poucos como meus sobrinhos?
Eles teriam o poder de escolha sobre a própria imagem?

E hoje em dia, eu estava cansado de reiniciar tantos ciclos que não dariam em nada demais. Estava cansado de sempre apresentar uma mulher a minha família, aos meus amigos, aos meus fãs, todo mundo gostar dela e a gente não dar certo porque em algum momento, começaríamos a seguir caminhos diferentes.
Eram decisões complicadas que fritavam o meu juízo sempre que eu parava para pensar realmente sobre. Aquilo me fazia voltar ao início da noite, quando Scott contou para gente sobre a decisão dele e de Savannah em assumirem – finalmente – o relacionamento longo e duradouro. Foi ali que abraçou a amiga com força, tal qual ela fosse um bichinho de pelúcia, depois que brindamos com nossas cervejas meio quentes e... Caramba! Ela era linda demais.
Nosso ônibus varava as estradas dos Estados Unidos, mais precisamente, depois do último pedágio, tínhamos entrado no estado da Pensilvânia para uma tríade de shows. deu a ideia de fazer um jantar em família para comemorar, já que teríamos day off na cidade natal dos Lyman. Eu esperava ansiosamente ser convidado para comemoração.
– Desculpem. – se escorou ao meu peito, enquanto se desculpava sinceramente e a abracei. Eu estava sentado em um dos sofás da nossa salinha do fim do ônibus, Save e Scott a minha lateral e , agora escorada ao meu peito. – A gente acabou se perdendo nos nossos próprios assuntos e... – ela suspirou, exausta. Beijei sua cabeça, entre os cabelos cheirosos.
A cerveja começava a cair muito mal, porque meu estômago deu um sacolejo violento quando ela se aconchegou em meus braços, tanto que não prestei qualquer atenção no que o casal vinte falava. Meu coração batia rápido demais, as solas dos pés estavam suando. Eu parecia sucumbir em uma tina bem grande de agonia e desespero, mas era tão... bom. Aquilo não poderia ser paixão, porque eu tinha me apaixonado antes – mais vezes do que o recomendado, segundo meus irmãos – e tinha sido completamente diferente.



Encontrei Rick pela manhã enquanto resolvia nossa sistemática de organização e ele havia me avisado que a festa seria naquela noite. Meu dia foi um borrão. Eu não consegui absorver praticamente nada do que estava acontecendo, porque ai, minha Santa Sara, eu iria a uma festa do nosso povo. Funcionei no piloto automático até a hora do show do Just Kids, aproveitei que os “Herdeiros” estavam com a gente e botei os moleques para trabalhar. Surpreendentemente – só que não –, James deu as caras no nosso backstage e gentilmente ajudou os meninos, em particular a Penny com os trabalhos.
As paixões de verão e seus encantos.
Dei graças a Deus pelo nosso day off no dia seguinte enquanto me arrumava na última sala do ônibus – embora fôssemos ficar no parque mesmo, curtindo os encantos de dividir um ônibus de 60 metros quadrados –. A banda estava lá fora. Eu só tinha contado a uma pessoa aonde eu iria e o que eu iria fazer, Save era a única que sabia toda a minha vida de cor e salteado, minha confidente e sei que torcia muito por mim, assim como eu torcia por ela. Tínhamos marcado um jantar de família assim que chegássemos em Minneapolis, na casa dos nossos pais, para oficializar a decisão dela e do Scott, o pai ainda perguntou “O vai?”, acho que ele também criava expectativas sobre a gente.
Encontrei o grupo no lugar marcado. Era um dos pátios do parque, uma fogueira improvisada em uma lata, vários ciganos ao redor e eu tenho certeza que eram mesmo ciganos. Rick estava em uma roda tocando flamenco com outros homens e fiquei feliz quando vi uma roma junto. Eu a conhecia de vista, mas nunca tinha imaginado que era cigana. Senti meu coração bater forte no peito, os olhos encherem de lágrimas e meus pés se agitaram incontrolavelmente, me juntei mais algumas pessoas que também dançavam e por longos minutos eu me tornei a Esmeralda. Aquela garota de 14 anos que havia fugido de casa em busca de melhores alternativas, mas que amava demais a cultura para esquecê-la completamente. Eu tinha me encontrado dentro da Esmeralda, a única mulher entre quatro filhos, a prometida, a esperada, a neta que herdaria todos os dons da Baba Aurora. Por longos minutos eu tinha me tornado apenas a cigana que um dia eu tivera a pachorra de querer deixar de ser.
A música rápida entrava em cada celulazinha do meu corpo, fazendo com que todas as minhas memorias ganhassem vida pelos meus movimentos. De repente eu só era uma massa que rodava, balançava os cabelos e a saia, sorria, chorava e ria, tudo ao mesmo tempo; aquela era a sensação mais deliciosa que eu já tinha provado em toda a minha vida, era o reencontro da menina sonhadora com a mulher forte. Foi ali que eu soube que a Esmeralda tinha um orgulho imenso da e tudo que ela tinha conquistado.

Harrisburg, PA


Passar um dia de folga no parque era a coisa mais estranha que eu já tinha feito, ficava a sensação que você estava dentro do trabalho, mesmo sem estar trabalhando, mas era mais frequente do que eu gostaria de admitir. Às vezes não valia a pena parar, reservar hotel, tirar mala do ônibus, passar a noite, voltar a mala pro ônibus, se acomodar no ônibus e reclamar do ônibus. Depois que a gente passa dos trinta, uma porrada de coisa deixa de valer a pena e esconder ou mascarar sentimentos é uma delas.
Eu e o Scott estávamos refletindo sobre a questão “relacionamento e vida pública” quando brotou na conversa, pela boca dele. Meu amigo e meu irmão, eram as duas pessoas a quem eu procurava para desabafar ou pedir conselho naquela situação com minha melhor amiga, porque eu tinha medo de estar começando a encarar tudo de uma forma diferente. Contei como me sentia, sobre o que estávamos compartilhando juntos, me abri realmente para que o Lachini me ajudasse a tentar entender Ramanush.
– Tá, mas eu não entendi uma coisa. – meu amigo fixou os olhos verdes em mim e meu estômago revirou, porque sei, eu disse algo que ele não sabia. – Você não ficou com mais ninguém depois da ? – sacudi a cabeça em negativa. – E vocês não deixaram isso acordado? – dessa vez sacudi em positiva. – Caralho, . – Scott coçou a cabeça, parecia meio nervoso, preocupado e atordoado.
Bem-vindo a minha vida, cara.
– Não é segredo que eu sempre senti atração por ela, dude. – passei a mão pelos cabelos, eu precisava cortá-lo urgentemente, mas estava sem juízo para aquilo. Talvez tentasse achar uma barbearia pela Warped mais tarde. – Só que... agora é diferente, acho que estou apaixonado. – falei a última parte bem baixo, firme, porém baixo. Eu tinha quase certeza que estava mesmo apaixonado. – Eu sei que era para ter encarado o sexo com a só como sexo, mas...
. – meu amigo usou um tom de repreensão e suspirei. Não precisava de muito para eu entender o que ele queria dizer.
Abri minha boca para falar e uma figura que eu não esperava nem um pouco, entrou no ônibus de uma vez. O tal do John Paul, que não tinha gostado dele nem um pouco. Estava sem qualquer equipamento.
– Hey, caras! – ele cumprimentou, animado e devolvemos o cumprimento com acenos de cabeça, eu estava preocupado que ele tivesse escutado algo que não deveria. – Macon disse que eu poderia usar o banheiro de vocês.
– Claro, na última sala. – Scott apontou para lá. Ele sorriu agradecido e passou por nós como se nada tivesse acontecendo, mesmo assim encarei suas costas tentando ver através da calça, mas não consegui uma fagulha sequer.



Sentia minha cabeça apertar com força, como se tivesse uma prensa se fechando ao redor dela. Cocei a testa, enquanto toda a minha equipe estava espremida em um sofá pequeno, olhando para mim como se eu fosse uma mãe raivosa. Não, pior, como se fosse uma professora possessa e prestes a colocar a sala toda de castigo, porque não queria entregar o colega levado. Andei de um lado pro outro na pequena sala. Não estava possessa, mas estava bem chateada com o que tinha acontecido.
Harry tinha inventado de tomar banho no banheiro do ônibus – que só usávamos quando geralmente, não tínhamos outra alternativa, afinal o parque tinha chuveiros bem melhores – e até aí, tudo bem, mas nosso fotógrafo foi se trocar na sala das cabines sem fechar a cortininha que tinha no vidro da porta e a própria porta, ela estava entreaberta e vi o que não queria. Entendo que o cansaço àquela altura da viagem deixava todo mundo com o cérebro confuso, mas nós tínhamos regras de convivência, principalmente sobre o pudor de resguardar o próprio corpo. Homens e mulheres dividiam aquele ônibus, homens e mulheres precisavam guardar seu corpo.
Hipócrita? Eu era, pra caramba. Não tinha pensado nisso quando transei com em cima daquela mesa. Palhaça. Suspirei e mudei minha postura, não podia entregar nossos encontros escondidos, mas não podia ser tão escrota ao ponto de fazer uma tempestade em um copo d’água.
– Só toma mais cuidado da próxima vez, tá, Harry? – eu realmente havia pedido, nenhuma autoridade ou grosseria. Ele sorriu fechado e afirmou com um aceno.
– Pode deixar, capitã, não vai mais se repetir.
– Eu juro, que se tiver que ver mais uma bunda de macho nesse ônibus, eu me demito. – levei as reclamações para o lado da brincadeira, quebrando todo aquele clima tenso, até mais ombros estavam mais relaxados. Todos nós rimos, as meninas suspiraram, aliviadas e eu sabia que o recado estava dado.
Save me olhou com um sorriso bonito e piscou, aprovando minha abordagem. Eu amava aquela mulher.
– Ah, qual é, ? A gente até que tem umas bundinhas bonitinhas. – Jean saltou com a brincadeira e não me controlei, soltei uma risada divertida.
– Para quem já viu bunda de , isso é fichinha. – John Paul, o cara do documentário disse aquilo como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Todos nós olhamos para ele escorado a porta da frente. Desde quando ele estava ali? Ou melhor. Quem raios ele achava que era para dizer uma coisa daquelas? Como caralhos ele sabia daquilo?
Senti o mundo se abrir sob meus pés. Merda! O medo, a vontade de fugir, correr e chorar me atingia sem quaisquer precedentes.
– O que você disse? – ser grossa era meu melhor mecanismo para aqueles engraçadinhos que achavam ter qualquer intimidade comigo.
– Que para quem fodeu com , ver bunda de qualquer cara aqui é fichinha. – ele riu, mas não era uma risada de quem queria ser engraçado.
Ele foi maldoso de propósito, ele me ofendeu de propósito, me diminuiu e me humilhou da pior forma possível, me faltando com respeito. Senti todo o meu íntimo ser invadido por alguém completamente aleatório e que tinha pura maldade nos olhos. Era aquilo que a minha intuição estava tentando me mostrar, que eu seria exposta, não os sobrinhos do . Eu seria jogada no meio de um círculo para ser julgada e apedrejada, queimada, torturada, como todas as bruxas foram. Ele era o inquisidor. Eu, a bruxa. Mas se eu iria queimar, ele queimaria junto comigo.
Hannah me olhou como se pedisse para eu tomar qualquer atitude, ou ela mesmo o mataria; Savannah estava chocada demais com a cena e seus olhos estavam fixos em mim “que merda, vocês foram descobertos”, era o que eles diziam; Franccie levantou imediatamente do sofá, em pose de ataque; Scott e Jean estavam perplexos com a falta de respeito e o olhavam fixamente; meu crew parecia tão bravo quanto eu estava e bufou tal qual um búfalo raivoso as minhas costas, nem precisava olhar para saber que seus punhos estavam cerrados e ele vermelho.
Engoli o choro.
– Primeira coisa, John Paul. – dei três passos intimidadores na sua direção, tal qual a bruxa que eu tinha aprendido a ser, com fogo do inferno nos olhos. O encarei com as sobrancelhas vincadas e estiquei o dedo indicador na sua cara.
Ah, eu estava no meu direito.
Ele engoliu as risadas quando viu minha unha preta apontada para o meio dos seus olhos e acho que a tatuagem, da mão com a lua e a magia, no meu antebraço.
– O que eu fiz ou deixei de fazer com , é problema meu e dele. Porque sim, eu fodi com o vocalista dessa banda, mas não interessa nenhum pingo a você. Além do mais, eu sou mulher o bastante para assumir meus atos. Depois, eu exijo respeito, eu não quero ou acho que mereça. Eu exijo respeito de qualquer um e você não vai passar batido, não pense que eu sou abusada por essa penca de homens porque sou uma mulher nesse ônibus. – apontei para cada homem ali. – Ninguém aqui me dirige palavras tão chucras quanto as suas e você também não vai continuar com isso, eu e minhas colegas exigimos respeito. – apontei para porta do ônibus. – E quero você fora do meu ônibus.
Vi o traste engolir seco, seu pomo de adão se movimentou grotescamente na garganta. Continuei a encará-lo esperando minha desculpa. Ele não iria sair dali sem antes se desculpar comigo.
– Peça desculpas a . – Franccesca se pronunciou, estando tão armada quanto eu estava, Hannah se juntou a nós duas encurralando aquele traste.
– Você não ouviu a porra do pedido, Paul? – rosnou a nossas costas e confesso que fiquei assustada pelo tom grosso que havia usado. Nunca tinha o visto tão bravo. – Peça desculpas a Ramanush por isso. AGORA! – todos nos encolhemos pelo grito. – Se você não vai respeitar nossa gerente de turnê, fora daqui!
John passou uns bons segundos nos olhando, provavelmente procurava as melhores palavras para falar, ou só estava blefando, achando que ficaria por isso mesmo. Se era a segunda opção, estava redondamente enganado.
– AGORA, PORRA! – foi minha melhor amiga que deu o segundo grito assustador, se juntando a nós na encurralada. Brava, decepcionada e, também, ofendida.
– Desculpe, Ramanush. Desculpe pela atitude e pela brincadeira de mal gosto. – rolei os olhos com aquela conversinha. – Vocês merecem respeito e vão ter respeito. Isso não vai mais se repetir. – ele engoliu seco mais uma vez.
– Tenho certeza que não. – Savannah rebateu. – Quero você fora da Warped.
Não consegui absorver mais nada do chororô que se seguiu. John pedia para não ser posto para fora do festival, as meninas falavam inúmeras coisas e minha cabeça parecia prestes a explodir. Não aguentei toda aquela bagunça no meu ouvido e saí do ônibus às pressas, como se estivesse no começo de uma crise de pânico onde eu só precisava de ar, de algo que me confortasse, me tirasse daquela realidade absurda.
Olhei para todos os lados em busca de um refúgio e quase deixei o soluço escapar desesperado ao ver o bosque verde mais ao longe, me lembrando que eu não estava sozinha, meu poder vinha da natureza e todos os elementos que ela poderia me oferecer. Peguei a motoca, larguei meu material de trabalho na mesa de apoio na tenda e encontrei o trio zanzando por lá. Merda! Triplamente merda!
Subi na moto e saí de lá antes que eles me perguntassem qualquer coisa e eu desabasse em choro na frente de três crianças. O que mais me doía era saber que o pesadelo não tinha acabado, começaria quando eu voltasse para encarar minha exposição.



PALCO TREZE

Harrisburg, PA


Saí do ônibus desesperado em busca dela e as lágrimas escorriam grossas nas minhas bochechas. Eu nunca quis que aquilo tivesse acontecido, eu nunca contei nada a ninguém que eu não confiasse e principalmente, não contava que aquele merda fosse escutar minha conversa com o Scott e meter o nariz nela. Pisei no chão, sentindo meus pulmões doerem com força, puxei fôlego com a boca aberta e enxuguei os olhos.
– WOW! , o que foi? – era a voz de Leonor chamando minha atenção. Ela, o irmão e a Pen estavam na tenda ao lado do ônibus e estavam assustados. – A saiu daqui feito louca na CC. – minha sobrinha mais nova tocou meu braço e abracei a garota como se ela fosse tirar todo o desespero de dentro de mim. Leonor afagou minhas costas, falando que ia ficar tudo bem e forcei o rosto contra o topo da sua cabeça, sentindo mais dois pares de braços me abraçarem pelos lados.
Solucei por longos minutos até abraçar Eliot e Pennelope, os segurando junto a Leonor dentro dos meus braços. Sabia não ter feito nada de errado, mas a sensação de perda era sufocante.
– Ei, cara, o que foi? – Eliot era sempre cuidadoso, igualzinho ao Charles, sem tirar nem pôr.
Enxuguei o rosto com as mãos e soprei todo o ar dos meus pulmões. Que merda tinha sido aquela? Passei as mãos pelos cabelos e procurei-a ao meu redor antes de falar para os meninos sobre a confusão. Confesso que a queria junto. Contei o que estava acontecendo desde o começo porque eu confiava nos meus sobrinhos e sabia que eles torciam para que desse certo, tanto quanto eu. Falei como me sentia em relação a ela e por fim, sobre o que o Paul tinha jogado no ventilador sem saber da história completa. Era sufocante relembrar de toda a cena e do quanto a tinha sido exposta por um merdinha qualquer.
– Vai ficar tudo bem, , você vai ver. – Pennelope abriu um sorriso que era o sorriso do pai todinho e encostou o rosto de lado em meu ombro. Eu não sabia se ia ficar tudo bem, muito menos achava que fosse, mas era reconfortante saber que os três estavam ao meu lado e iriam me ajudar se eu precisasse.



Gritei. Gritei de desespero, frustração e raiva dentro do bosque. Gritei por todas as mulheres que já tinham sido expostas, condenadas e julgadas. Chorei pela minha própria liberdade e lamentei à mãe natureza, tudo que tinha acontecido, mas ainda precisava encarar o que estava por vir. O que mais pesava na minha cabeça era estarmos a frente de um projeto tão lindo contra qualquer tipo de violência, assédio, desmoralização e saber que qualquer boato espalhado por aquele cara poderia acabar com a nossa festa.
Voltei pro estacionamento de nariz empinado e cabeça erguida, por mais que a imagem do desolado na tenda, com os sobrinhos ao redor, tenha quebrado meu coração em pedacinhos. O chamei com um aceno de cabeça, sabendo que ele me acompanharia sem pestanejar e entramos no ônibus. Eu não tinha qualquer estrutura para levar uma conversa séria com o naquele momento, ou cairia num pranto incontrolável. A equipe toda estava lá, menos Save e o filho da puta do John, Franccie pareceu aliviada assim que nos viu, levantando de uma vez do sofá.
Os meninos estavam com uma expressão terrível de dor, se compadecendo com a minha dor, eu sabia que sim. Eles eram como irmãos para mim, eram família. não tinha dado uma palavra enquanto caminhava no meu encalço, suspeito que pelo entendimento e gravidade da minha confissão embravecida sobre nós termos transado, entendendo que eu precisava de um pouco de espaço.
Nos reunimos na última sala do ônibus, a mais calma e confortável para reuniões, decisões e tudo que envolvia um consenso grupal. Hannah me abraçou com força e baixinho, falou que Save tinha ido resolver de vez a expulsão do John Paul. Sentamos espalhados pelo sofá em L e em momento algum, as duas saíram do meu lado, Han segurava minha mão com força, Franccie beijou minha bochecha e abriu um sorriso de apoio. Agradeci as duas com beijos na bochecha, embora sentisse minha alma doer por ver do outro lado com os olhos baixos, eu tinha certeza que ele tinha chorado. Chorado por minha causa.
Engoli seco.
– Acho que a gente precisa esclarecer o que aconteceu e o que está acontecendo entre vocês dois. – Franccesca passou a mão pelos cabelos amarelados. bagunçou os dele, cruzou os braços atrás da cabeça e ao descruzar, apertou as mãos até os nós dos dedos ficarem brancos. Ele estava nervoso, bem nervoso, conhecia o bastante para saber que a beira de um ataque de nervos e quis lhe abraçar em conforto.
– Franccie, nós dois acabamos de ser expostos da pior maneira possível. Você não acha melhor a gente digerir um pouco antes de conversar? – afundou no sofá.
– A gente não tem tempo de esperar digerir nada, . – Hannah se pronunciou dessa vez, mas com calma. – Você quer que os meninos saíam para você conversar melhor? – nossa engenheira de som direcionou a pergunta para mim. Senti o clima de apreensão dentro do ônibus e todos me olhavam curiosos pela minha decisão, afinal de contas, só por ela daria para decifrar toda a situação.
Quando uma mulher sofria qualquer tipo de violência, aquele era o protocolo para guardar nossa privacidade e nos dar apoio, mulheres ouviriam mulheres e apoiariam mulheres. Aquilo foi parte do treinamento que havíamos feito junto a equipe da Save e tinha sido importante para todo mundo.
– Não, claro que não, pelo amor da mãe Lua. Os meninos podem ficar. – suspirei, exausta e todos que estavam ali sorriram, satisfeitos, pela minha resposta. não era agressor e muito menos assediador, mas protocolo era protocolo. – Primeiro, eu quero agradecer todo o apoio de vocês com o que acabou de acontecer, foi muito importante para mim. – pigarreei com força. Aquele bolo horrível já queria se instalar na garganta. Olhei para o e ele estava com as mãos postas e o queixo apoiado nelas, prestando atenção em tudo que eu dizia. – Foi 100% consensual, tudo, absolutamente tudo. Foi uma decisão nossa, inclusive a de não contar para ninguém porque não sabíamos exatamente o que ia acontecer até... – abri os braços para tentar abranger o tamanho do problema. Ele me abriu um sorriso grato e sibilou um obrigado, um dos gestos mais sinceros que eu já tinha recebido em toda a minha vida.
– Qual a frequência que vocês estavam...
Confesso que nem eu queria responder aquilo. Sei que em algum momento, nossas tardes de sexo ultrapassavam os limites do pessoal e atingiam o profissional, mas aquilo era tão nosso.
– Dunts! – repreendi antes que ficasse verde e caísse para trás.
– Desculpa, eu sei que parece escroto, mas a gente precisa saber o máximo possível para conseguir proteger vocês. Os dois estão cientes de que esse cara não vai manter o bico fechado, não é? As especulações vão vir.
Merda, ela tinha razão!
Afundei no sofá, desolada. Eu queria tanto a minha mãe.
– Nós... – esfregou o rosto. – Foram atos completamente ligados a nossas vidas pessoais, Fran, não tem nada de profissional no meio disso. E não é que não confiemos em vocês, sabe? A gente confia pra caramba, mas a intenção era que ficasse o mais interno possível, para justamente evitar... isso. – ele tentou explicar e eu concordava plenamente, só que não adiantava mais chorar pelo leite derramado.
Eu estava num misto muito louco, por um lado, queria saber como John Paul tinha descoberto tudo, mas por outro, não queria mais tocar no assunto. Não queria sequer imaginar a forma que aquela história tinha saído do nosso domínio.
– Nós sabemos, mas precisamos pensar no que fazer. Pode ter sido pessoal, mas chegou a níveis profissionais. – Hannah abriu nossos olhos. Ela tinha completa razão daquilo.
– Merda. – encostei o rosto nas mãos. Pense como uma gerente de turnê, Esmeralda!
? – o chamado do estava amedrontado demais. Ele sempre sabia o que fazer para proteger os sobrinhos, mas ali a gente precisava tirar o nosso da reta. – O que a gente vai fazer?
– Eu não sei, ! – enfiei as mãos entre os cabelos. As meninas afagaram minhas costas, um conforto familiar me tomou quando senti mais uma prova do apoio.
– A gente precisa falar com o advogado primeiro. – Franccie olhou para nós dois, primeiro para mim, depois para o . – Tem cláusulas sobre “relacionamento” no seu contrato, . A gente precisa mudar isso antes que essa história toda exploda.
Me limitei a um suspiro exausto. Mas sabe o que era estranho? Eu não me arrependia de absolutamente nada.
– Vamos logo resolver isso. – levantei daquele banco e apertei meu rabo de cavalo na cabeça, pronta para a batalha.

-x-

Aquela estava sendo uma das decisões mais difíceis que eu estava tendo na minha vida, não era nem pela parte burocrática do trabalho, porque em meio toda a conversa pesada sobre reestruturar meu contrato, Fran declarou que gostava muito da ideia de ter eu e como um casal. Infelizmente, concordava plenamente com ela, aquele filho da mãe me completava de um jeito surreal, mas não dava mais para me enganar e enganá-lo. Foi com base naquilo que tomei – de longe – a pior decisão da minha vida.
? – toquei de leve no ombro dele, sentindo todo o meu ser se revirar em tristeza e revolta. Em troca, ganhei um par de olhos amedrontados na minha direção. – Nós precisamos conversar.
...
– Por favor, me escuta. – respirei fundo. – Quanto mais você ficar recusando, vai ser pior para gente e para mim. – seus ombros baixaram instantaneamente assim que fechei a boca e eu sabia que meu melhor amigo tinha entendido o sentido da conversa. colocou o cabelo, já meio grande, para trás e enfiou as mãos nos bolsos, todo encolhido. – Acho melhor acabarmos com isso por aqui e não foi por causa da exposição não, antes que você ache que foi. Preciso parar com isso por uma série de questões pessoais que eu não tenho qualquer estrutura para explicar agora, mas uma delas, é que não quero perder você. Você entende?
– Não, , eu não entendo. – ele sacudiu a cabeça, olhando para os pés e ali eu soube que era uma vaca destruidora de corações. Mas não dava para continuar ficando (?) com o , quando meu destino estava longe de ser ao lado dele.
Aquele cara tinha se tornado minha família nos últimos cinco anos e eu sentia que já tinha perdido muito mais do que eu achava que era possível. Assumir que estava apaixonada por ele – e eu estava mesmo, de verdade. Acho que nunca tinha tido tanta certeza de um sentimento na minha vida depois de encará-lo nos olhos – não iria resolver a questão “cigano do meu destino”. Já era crescidinha o bastante para saber que muitas das vezes, o destino e a felicidade não andavam juntos e pelo visto, aquele caso era o meu.
– Mas vou respeitar a sua decisão. – ele me encarou uma última vez no fundo dos olhos, o momento de fraquejar e voltar atrás na minha decisão. Desviei o olhar. Ele beijou minha testa com força e senti sua respiração vacilar.
Minha garganta tapou com força e prendi a respiração, ou desabaria bem ali, na frente dele, quebrando ainda mais nós dois. beijou meus cabelos e desceu do ônibus, sem olhar mais para minha cara. Caí no sofá aos prantos, dividida entre sentir ódio dele por não ter insistido mais um pouco, por ter respeitado minha decisão e por destruir todas as minhas esperanças de que poderíamos lutar contra o destino juntos; mas por outro lado, não me surpreendia que ele tivesse agido com tanta cautela e respeito. sempre fora assim, respeitoso, cauteloso e homem mais precioso que eu já tinha conhecido em toda a minha vida.
No fundo, eu sabia que o merecia mais do que qualquer outra mulher no mundo.



PALCO QUATORZE

Cleveland, OH


Era devastador pensar na péssima decisão que eu tinha tomado e que, miseravelmente, ainda martelava na minha cabeça quando eu via , o que era sempre. Dividíamos um ônibus, dividíamos um trabalho e o mais complexo de tudo, dividíamos uma vida. Estar inserida na vida dele era uma das coisas mais incríveis dos últimos 15 anos, eu conhecia sua rotina, seus defeitos, todos os trejeitos que davam nos nervos – mas sentia falta quando estava longe –, e sua família. O conhecia de cabo a rabo e ali soube, amava cada pedacinho.
Depois de refletir, percebi que a exposição tinha sido um baque forte naquele momento, mas depois de tudo resolvido, havia se tornado só mais uma história que eu não queria repetir. John Paul tinha sido posto para fora do meu festival, já estávamos respaldados diante da lei e conseguiríamos rebater qualquer coisa. Conseguiríamos! Outra coisa importante foi o fato de que a banda nos apoiou incondicionalmente e juro ter visto expressões derrotadas com a ideia de que eu e não estávamos juntos. Pois é, eu também estava.
Como sempre, Save estava sendo meu braço forte dentro daquela situação, não por estar ouvindo minhas lamentações e toda a energia negativa que me rondava – porque, inclusive, eu odiava aquilo –, mas minha melhor amiga não me deixava sucumbir no sentimento ruim. Nossas últimas conversas tinham girado em torno do meu novo trabalho, com ela, e seu relacionamento lindo com Scott. Fiquei sabendo que o Lachini estava se relevando ainda mais apaixonado e só aquela semana, tinha dado vários presentinhos a Save que significavam e muito dentro do relacionamento dos dois.
A quem eu queria enganar? Adorava aqueles romantismos desenfreados que vinham em forma de bombons, flores, declarações na janela, beijos na chuva e os bilhetinhos enfiados por debaixo da porta. Tinha sido criada em uma cultura onde o cortejo a mulher era tão passional e romântico que, confesso, me fazia falta quando olhava ao meu redor. Os Rom, precisamente o meu grupo, cortejavam suas futuras esposas de uma forma bem peculiar, geralmente presentes forjados em cobre e cristais, uma dança a beira da fogueira, um pouco de comida do próprio prato, as melhores porções – mostrando que a mulher seria tratada com tudo do melhor quando fosse sair da asa dos pais –. Mas na minha atual situação de vida? Era como se as pessoas esquecessem da importância em mostrar o quanto o outro significava para elas.
Então quando meu melhor amigo citou meu livro favorito, para me pedir um beijo, perdi tudo.
? – sacudi minha cabeça para espantar aquelas reflexões quando Leonor me chamou e usando um tom culpado. Percebi que estava no piloto automático.
Apertei meu rabo de cavalo e olhei para garota. Puta merda, ela era a cara da mãe.
– O que foi, Leo? – fiz uma careta ao ver o Rush na mão dela com uma corda arrebentada.
– Desculpa. Eu mal peguei nele e a corda arrebentou. – a moça parecia falar a verdade e nem importava muito se estava mentindo. era apaixonado pelos sobrinhos para sequer dizer um A com eles. – Será que o vai ficar bravo comigo?
– Tenho absoluta certeza que não, gatinha. Dá ele aqui, eu troco a corda para você. – pisquei para lhe dar conforto e vi a menina suspirar, aliviada.
Leonor era uma musicista nata pelo apoio integral da família – como eu queria ter sido um dia – e assim como eu, ela tratava os instrumentos com carinho e respeito, tirava o som deles sem precisar de qualquer esforço, fazendo carinho para conseguir o som. E eu nem ia mencionar a voz da menina, era melhor que a dos três juntos. Tinha certeza que aquilo era a maior herança de família, afinal o trio tratava música com tanto carinho quanto ela, não dava mais para separá-la deles. Pensar em música, era pensar em um .
Peguei o contrabaixo do e o apoiei na perna direita, enquanto calmamente tirava a corda arrebentada e pedia que Leonor pegasse o fio no calibre certo. Ela me trouxe a bobina com o cabo e o alicate, troquei, afinei e dedilhei algumas notas. O grave vibrou contra a ponta dos meus dedos, levando toda aquela sensação para dentro do meu corpo enquanto eu dedilhava as notas de “Tiago”, canção que pertencia a Kendji Girac, um cantor cigano catalão que estava se destacando na Europa depois do The Voice.
– Uau, que som é esse, ? – a garota estava com os olhos castanhos do pai acesos e brilhantes. Soltei uma risadinha animada.
– Procure Kendji Girac na internet – pisquei para ela, lhe entregando o baixo do . – Aposto que você vai gostar do som dele.
– Ah, ... – Leonor parecia envergonhada quando chamou minha atenção novamente, balancei a cabeça. – Você pode me ensinar aquele ritmo que você ensinou o a tocar? O que ele toca no violão que parece flamenco. – a garota mordeu a boca e parecia ansiosa pela minha resposta.
– Claro que sim, querida! – abri um sorrio imenso com o pedido e ela pareceu abrir um ainda maior, estava animada e eufórica. Igualzinha ao pai.
Leonor me abraçou de uma vez, retribuí o gesto de carinho com toda a minha sinceridade, ali soube que nenhum acontecimento entre mim e mudaria minha relação com os sobrinhos ou os irmãos dele. De repente o abraço da Leo ficou mais forte, cheio de maturidade, sororidade e mais uma porção de sentimentos que eu não conseguia descrever. Aquele apoio vindo da família dele estava sendo imprescindível para mim, até a Pamella, que eu não tinha tanto contato quanto eu tinha com seus irmãos, havia me ligado para demonstrar o quanto estava triste com o acontecimento.
– Ainda não tive a oportunidade de dizer o quanto sinto muito por tudo isso. – a menina beijou minha bochecha, me deixei sucumbir no conforto. – Queria que nada tivesse acontecido e vocês ainda fossem amigos.
Creck! Foi o som do meu coração se partindo.
– Obrigada! – fui sincera. – E nós ainda somos amigos, Leo. Só precisamos digerir tudo que aconteceu, prometo que com o tempo, tudo vai voltar ao normal.
Menti descaradamente. A única certeza que me restava era, nem que eu e quiséssemos, voltaríamos a ser como antes, tínhamos avançado limites demais para fingir que nada tinha acontecido.

-x-

O show daquela tarde tinha sido muito estranho, principalmente porque eu estava na mira de todo mundo, parecia que todos que estavam naquele backstage sabiam do que tinha acontecido entre e eu. Nos olhavam como se estivessem cheios de expectativa para que em um deslize, nos beijássemos ou demonstrássemos qualquer afeto exagerado e era extremamente desconfortável ser alvo de olhares tão especulativos.
Sacudi a cabeça, só deveria ser coisa da minha cabeça. Estar exposta à mídia há tanto tempo tinha me deixado com os dois pés atrás sobre tudo.
Organizei minha banda para entrar em cena, chequei ponto eletrônico – por um milagre, o do estava no lugar –, conferimos os instrumentos que seriam trocados durante o show e o nosso vocalista, decidiu por vontade própria, que não ia repetir a jogada do baixo pelo palco aquele dia. Respeitei, ele deveria estar tão confuso mentalmente quanto eu, então era melhor evitar um desastre com o Rush espatifando no chão durante o show. Desejei boa sorte como de costume, beijei suas bochechas e os mandei para o público, desejando que arrasassem aquela tarde.
Passei as mãos por meus cabelos que já escapavam do rabo de cavalo, sacudi a imensa camisa cavada – que nem de longe era meu tamanho – e acenei para os sobrinhos do a uns metros de distância. Foi ali que aconteceu a coisa mais esquisita da tarde, Charles controlava os dois filhos e a sobrinha que pareciam querer vir na minha direção e estavam indignados com algo no celular.
Todas as pulgas do mundo estavam atrás da minha orelha.
De repente tinha começado a fazer sentido todos os olhares estranhos que recebi àquela tarde, sem falar no sumiço de Savannah, embora eu achasse que acontecera pelo serviço de comandar uma turnê, mas não tínhamos nos falado nem por mensagem. As fãs atrás da bateria me olhavam cheias de expectativas e juro que se não fosse o vocalista daquela banda, poderia jurar que era eu, só pelo jeito que as meninas me encaravam.
Merda, John Paul tinha dado com a língua nos dentes.
Foi o que confirmei assim que perguntei a Pennelope o que estava acontecendo, a mais indignada dos três e a cria que eu tinha mais contato por morarmos praticamente na mesma cidade. Na Manchete do TMZ dizia que fontes internas da Warped havia afirmado que eu e tínhamos um affair.

EXTRA: Paixão ardente ou conflito de interesse? Entenda o Affair entre e sua gerente de turnê.”

Meu estômago embrulhou diante daquela manchete horrível e respirei fundo, saí da página e digitei o nome dele no navegador. A busca me trouxe mais uma porção de links em sites diferentes que pareciam uma surra em meu estômago. Os herdeiros e Charles tentavam me confortar, mas eu escutava tudo tão longe.

e novo caso movimentam o festival de música pop punk”
Ramanush será a nova mulher a ser apresentada publicamente como namorada do vocalista da Just Kids?”
NAMORO ESCONDIDO: Conheça Ramanush, gerente de turnê que está causando ao lado do mais cobiçado”


Senti o estômago revirar, nojo de mim por ter virado alvo de fofoca sem sentido e levado junto. Nojo daquela mídia imunda que acreditava em um punhado de palavras soltas vindas de um fotografo mal caráter. Será que ia ficar com raiva de mim quando visse tudo aquilo?
Se a minha missão era protegê-lo, por que eu tinha falhado na missão de proteger nós dois?
Não consegui assimilar muita coisa, até sentir os braços fortes de Charles me abraçarem com carinho e conforto, dizendo que ia ficar tudo bem e iriamos conseguir resolver tudo. Me encolhi no abraço apertado do meu amigo e me permiti soluçar como uma criança inconformada e amedrontada. Recebi afago nas costas, carinho no cabelo e mais outros três abraços carinhosos de quem sabia bem como era ruim ser exposto por algo que nem tinha culpa. Penny, Eliot e Leo eram crianças de ouro e meu maior anseio era criar meus filhos daquele jeito.
– Eu e o Percy já estamos correndo para tirar as notícias de circulação. – Charles beijou minha cabeça como um irmão mais velho. Me afastei e enxuguei meu rosto inchado.
– Vai dar certo, tia . – Eliot me abraçou com força e sorri, contida, sem humor pelo jeito que ele me chamara.
– As manchetes saíram com menos de uma hora, , te juro. Assim que eu vi já liguei logo para o meu pai. – Penny apertou minha mão com força. – O nem sabe ainda e a gente só ia te contar depois do show.
– Eu e o Perseu já passamos para equipe jurídica do grupo , já estão trabalhando para tirar de circulação e pediram que vocês não declarassem ou comentassem nada para imprensa. Não sem antes decidir o que falar e pensar bem sobre isso. – Charlie me informou e tinha seriedade em sua voz. Afirmei e abri um sorriso grato por toda aquela proteção, aquilo me fazia sentir como se fosse uma também.
– Tenho medo do que os fãs vão achar de tudo isso, você mais do que ninguém sabe como pode ser difícil, Charlie. – suspirei, frustrada. Os três fizeram uma careta nada agradável e foi a vez de Leonor saltar com a hipótese mais maluca que eu já tinha escutado.
Piesme vai voltar, gata, com força total. – olhamos com uma interrogação gigantesca na testa, ao menos eu e o Charles. – Qual é? Vocês sabem do que eu estou falando.
Não tive qualquer chance de responder que não sabia o que diabos era aquilo, Pennelope soltou um gritinho animado e bateu high five com a prima. Merda, o que aquelas duas malucas iriam aprontar?
Uma hora depois, parecia que aquelas manchetes nunca existiram. Poeira era o que elas haviam se tornado.

Day Off, Casa dos Lyman


Era tão bom estar em casa. Um dos lugares que eu considerava casa, onde tinha passado todo o resto da minha adolescência, dado meu primeiro beijo em um amigo esquisito da Savannah, meu primeiro namorado – que tinha gostado de mim e não estava sendo amarrado a mim por tradição –, o resultado do meu supletivo por ter estudado em casa a vida toda, graças a Emmanuelle, minha mãe biológica que é pedagoga e se tornou professora de todas as crianças do grupo quando fugiu com meu pai. Ela nunca admitira uma criança que não queria estudar.
De repente uma saudade absurda me atingiu. O que será que ela me falaria sobre o ? Ela iria gostar dele com certeza. E seu Ramón turrão, será que ele ia aprovar o ?
Suspirei, cheia de nostalgia e quase chorei ao lembrar da baba Aurora. Ela era a única que poderia me dizer como me livrar do rom filho da mãe que estava costurado ao meu destino, precisava dela e precisava saber como ser feliz com .
Suspirei e fui tirada das minhas reflexões pela figura maternal escorada ao batente da porta do quarto que eu dividira com Save durante anos.
– Vim te chamar para comer, saco vazio não para em pé. – Kate piscou para mim e quando sentou ao meu lado, abracei-a com força. Minha outra mãezinha.
Estávamos na casa dos meus pais adotivos em Minneapolis para um almoço de família só nosso, eu, a Save, Scott e o também, Kevin fez questão que meu melhor amigo fosse, mesmo depois de algumas desculpas esfarrapadas dele e uma pergunta calma para mim se estava tudo bem. Óbvio que estava e eu queria que ele estivesse presente. Nas três horas que estivemos lá desde que chegamos, parecia que tudo ainda era como antes de termos beijado a boca um do outro, as brincadeiras, as piadas, o jeito que meus pais tratavam os dois. Acabei lembrando de uma vez que eu e Save convidamos os meninos para passar uma semana de inverno com a gente e aquilo aquecia meu coração.
– Fiquei pensando que talvez seja hora de procurar por minha família. – falei baixinho. Ela sabia a que família eu me referia. Os Lyman me acolheram muito bem, desde que eu contasse toda a verdade e fosse sincera com eles.
– Se você acha que esse é o momento de encarar seu passado, saiba que eu e o Kev estamos aqui para te apoiar acima de tudo. – senti um beijo na cabeça e abracei seu corpo magro. – Já tentou falar com os rom que estão espalhados pela Warped?
Eu tinha contado a ela na noite passada quando fugi instantaneamente – depois do show – para casa e chorei em seus braços pelas manchetes terríveis. O carinho e o alento de uma mãe que me mostrou não precisar ter vergonha, me fez um chá quente e me abraçou até que parasse de chorar. Remédio nenhum no mundo era como o abraço cheio de amor vindo de uma mãe. Save chegou logo depois com várias sacolas do Walmart para nossa noite das garotas.
Pintamos as unhas – a minha estava com um esmalte rosa choque gritante –, fizemos máscaras faciais com açúcar, enquanto minha irmã reclamava que se as formigas atacassem o lindo rostinho dela na madrugada a culpa era minha. Assistimos comédias bobas que nos fizeram rir até chorar e ainda me atrevi a cortar a franja de Savannah, por mais que alegasse não ter coordenação para aquilo. Passamos de duas mulheres de trinta e poucos anos a apenas duas pessoas precisando do conforto uma da outra e a confirmação de que ela era #team tanto quanto as sobrinhas dele.
Meu fim de noite terminou com uma ligação do , ele finalmente tinha se inteirado do assunto, entendido a minha fuga e me dado tempo para digerir. Incrível, ele era um homem incrível.

[...]

– Tudo bem por aí? – ouvi a pergunta já deitada na cama de baixo e enrolada até o pescoço por uma coberta florada.
– Estou bem. – soltei uma risada baixa e chequei se Save estava mesmo dormindo. – Precisava do conforto de casa, desculpa ter fugido e não ter falado com você.
Aquela era a primeira conversa que tínhamos depois da última semana, ao menos sobre nós dois.
– Ei, babe, eu entendo. Essas situações assustam todo mundo. – ouvi seu suspiro cansado, fiz o mesmo. – Mas ao menos uma notícia boa em meio ao caos, conseguimos tirar tudo de circulação e nossa honra está intacta, cara senhora. – usou uma voz pomposa e precisei tapar a boca para não gargalhar e acordar Savannah.
– Você é ridículo! – ri baixinho e me permiti suspirar, aliviada, porque parecia que nada tinha mudado. – Como você está?
– Com saudade. – aquele filho da mãe não mediu esforços para esfregar aquilo na minha cara. Soltei um grunhido desgostoso. – É tão ruim a ideia de ter um affair comigo, Ramanush? Me respeite!
Não consegui segurar e rimos com a indignação dele.
– Você sabe que não é isso, seu idiota – puxei fôlego. – Seus fãs me assustam um pouco, porque por mais que eles gostem de mim, a chave pode virar, cara. Aí, já era!
– Hey! – ele protestou. – Não é tão ruim assim e aposto como eles gostam mais de você do que de mim.
Alguns segundos seguiram em um silêncio tão confortável que meu coração bateu contente. Tinha visto aquilo em algum lugar, sobre a confiança no outro ao ponto de o silêncio se tornar parte da conversa e ser tão aproveitado quanto as palavras.
– Sinto muito, babe. – não precisou de uma explicação sobre o que ele sentia muito, eu sabia exatamente sobre o quê.
sentia muito por todos os desencontros das nossas vidas e confesso que eu também.
– Obrigada, . Agora vou dormir em paz, sabendo que você não está puto comigo. – espiei Save de novo, dormindo como um anjinho.
– Boatos de affair com você são uma esperança, não uma ofensa, babe.
Só precisou daquilo para eu sorrir feito uma tonta. Pelo universo, mulher, se controle!

[...]

Aquela noite eu dormi tão bem que nem parecia estar no olho de um furacão chamado Crazy Kids, o fandom do Just Kids.


PALCO QUINZE

Minneapolis, MN


O show daquela tarde tinha sido insano. Um estouro de energia correndo por minhas veias, eletricidade pura por todos os meus ossos e a sensação incrível de que o nosso show ficava ainda mais perfeito a cada dia que passava. Já tínhamos feito várias participações em shows de amigos, recebemos amigos no nosso, Charles sempre dava um pulinho no palco e caramba, era bom demais saber que éramos uma família grande e sólida.
Minha energia descontrolada poderia ser a lua crescente, me dissera uma vez que ela me afetava mais do que a cheia, mas nunca entendemos o porquê exatamente. Mas também poderia ser por causa de uma certa mulher, linda e incrível que ficava sempre na lateral do palco, a mesma que fazia meu coração acelerar quando me encarava profundamente com aqueles olhos castanhos escuros brilhantes.
Aquela que brigava quando meu ponto caía misteriosamente, que tinha um magnetismo inexplicável e era torturante me manter longe de todo seu corpo e sua energia. A mulher que estava ao meu lado desde os meus 18 anos e segurou minha mão nas piores fases da minha vida: a ascensão desenfreada, o vício, o pós-vício, o primeiro namoro público com uma anônima. A que tinha comemorado minhas maiores conquistas comigo: as primeiras milhões de cópias vendidas, o primeiro Billboard Music Awards, meu primeiro apartamento. Nossa primeira adoção de Kobi e Ken, nossos cachorros que ficavam na minha casa por ser maior que a dela.
Eu estava perdidamente apaixonado por Ramanush.
E por isso, as notícias maldosas tinham me afetado de uma forma surreal, nunca imaginei que um boato mexeria tanto com minha cabeça e com meus sentimentos. Não queria que a expusessem daquela forma, minha amiga não merecia ser exposta ao mundo daquele jeito. Assim que meus sobrinhos e meus irmãos me contaram o que estava acontecendo, corri contra o tempo para ajudar a tirar tudo de circulação, embora soubesse que as redes sociais já tinham espalhado aquilo no vento. O nome da já deveria estar na boca dos meus fãs, restava saber em que sentido.
Depois do show, Eliot – principalmente ele –, Len e Penny disseram que iriam para uma boate perto do parque com algumas fãs. Passei uma mensagem para o Charles avisando sobre aquilo e meu irmão pediu que eu fosse com eles, não tivesse qualquer chance de recusar porque sabia os riscos que era jogar três crianças no meio de uma boate com “fãs”. Eu sei, eles não eram crianças e pelo que vi, as fãs não eram só fãs, eram groupies. Abri mão de tentar ter um tempo confortável com a e me arrumei para sair com o trio.

-x-

Estava em uma mesa, rodeado de "crianças", meus sobrinhos e um punhado de fãs diferenciadas. Aquelas garotas tinham no máximo, uns 25 anos e olhe lá, por isso Jean tinha dado no pé antes que a conversa se estendesse muito. Eu só esperava a minha deixa, porque transar com qualquer mulher de menos de 27 anos, cheirava a problemas para mim, sérios problemas. Ainda mais se fossem groupies. Já tinha vivido tempo demais naquele meio obscuro para entender onde acabava a diversão e começavam os problemas.
Soltei uma risada baixa e aleatória junto com meus sobrinhos, embora procurasse qualquer sinal dela ao redor, nada da , fosse a minha amiga, ou a mulher que eu amava. Aquela festa ia ser um pesadelo. Eliot, por outro lado, levava as garotas no papo de nerd bonito que estudava em uma faculdade foda, aquele filho da mãe tinha aprendido bem a manha das turnês. Ao menos Leo e Penny pareciam estar se divertindo com a conversa, enquanto o irmão flertava.
O que raios eu estava fazendo ali feito um velho de oitenta anos, emburrado e de braço cruzado?
Tomei um gole da cerveja que estava esquentando na pequena mesa circular, tendo consciência de que eu tinha virado a babá do rolê, que poderia ser preso inclusive, afinal de contas, meus três sobrinhos nem tinham idade legal para beber ainda. Que falta eu sentia da Ramanush para fazer piadas sobre isso. Passei a mão pelos cabelos, que tinha cortado há uns dois dias e vi uma das garotas com um celular a postos para fazer uma selfie. Pennelope me olhava, desesperada, pálida e com um semblante de quem poderia vomitar a qualquer momento – não tirava sua razão, ela ia começar uma nova temporada do hóquei feminino e não podia ser vista daquele jeito, na farra – ; Len parecia confusa e o safado do Eliot, estava com cada um dos braços nos ombros de duas garotas diferentes. Pelo amor de Buda, aqui não é Boston, cara.
– Ei. – chamei a atenção dela e a moça me olhou com um sorriso meio invasivo demais para situação. – Combinamos que nada de fotos, lembra? – minha voz sóbria e séria pareceu quebrar todo o clima descontraído da mesa.
– Mas era só uma selfie e... – a garota de cabelos coloridos tentou argumentar e respirei fundo. Não seja grosso, , não seja grosso.
– Por favor, querida, nós combinamos que nada de fotos. – soei firme, porém educado.
Que falta eu sentia da me salvando na porra desses momentos, ela sempre chegava na hora certa para me chamar de grandão, dizer que estava na hora de ir e se desculpar com as garotas. A moça finalmente baixou o telefone, mas tinha certeza que já devia ter tirado fotos nossas sem o consentimento, bom, o lado positivo é que tanto Charles quanto Perseu sabiam que seus filhos estavam ali comigo, mas não ficaríamos ali por muito tempo.
Tirei o celular do bolso, destravei a tela e fingi responder uma mensagem, cocei o pescoço com uma cara desgostosa e bufei, rolando os olhos.
– O que foi, dude? – o safado do Eliot me perguntou. Leonor me olhava com expectativa nos olhos e uma risada presa, ela tinha entendido.
– Ramanush tá dizendo que o ônibus vai sair em 20 minutos, se não correr, a gente perde. – levantei da cadeira e suspirei, frustrado. Fingido. – Bom, meninas, foi ótimo conhecer vocês. – sorri galante e pisquei para elas quando minhas sobrinhas já levantavam das cadeiras, se despedindo simpaticamente. Aquelas duas eram meu orgulho.
As garotas se levantaram também para se despedir e cada uma delas, ganhou um beijo meu, na bochecha. Acho que bastava. Abracei Leo e Penny, beijando suas cabeças, enquanto Eliot ficava para trás, acho que sugando a alma de alguma das meninas pela boca. Moleque safado do caramba.
Beijei a cabeça das duas meninas que ainda gostavam de mim e junto do Eliot, que já nos acompanhava, chegamos ao ponto de encontro onde o ônibus estava estacionado. Todo mundo chegava de um lado diferente, o dia anterior tinha sido de day off, um dos mais divertidos das últimas semanas. Fomos almoçar na casa do Kevin, eu e o Scott, encontrando e Save lá. Durante todo o dia, uma enxurrada de nostalgia me tomou quando lembrei de quantas vezes eu tinha passado dias por lá com o Scott e as duas, era uma família para mim. Minha família americana.
Quanto a canadense? Encontraríamos nossos pais em seis dias na nossa cidade natal, Trois-Rivieres em Quebec para quase três dias de folga, um almoço de família e chamego de mãe. Eu precisava muito de todo o amor que a dona Pam tinha para me dar, estava morrendo de saudade tanto dela quanto do meu pai, o Lohan. Os dois estavam incrivelmente animados com a nossa visita e já tinha organizado tudo para nos receber.
– Olha, a ! – Penny indicou a mulher com um aceno de cabeça assim que pisamos na calçada perto do motor home.
Ao longe, ela vinha na direção do ônibus, estava linda demais com os cabelos soltos cobrindo os ombros, uma saia colorida em degradê que quase cobria seus pés e uma camiseta curta; daquelas que as meninas chamavam de crooped. Além de ter um sorriso incrivelmente lindo nos lábios. Eu já não estava bêbado, mas fiquei sóbrio na mesma hora em que a vi acompanhada do Rick, gerente de turnê do Addicted To You. Por qual raio de motivo os dois estavam de braços dados? Não é da sua conta, !

Milwaukee, WI


Olhei para os três caras de pau, bem sentados no sofá do motor home do Addicted To You, ter aquela conversa ali era a melhor escolha para evitar fofoqueiros interferindo nos meus planos. Eliot, com um energético na mão, me olhava confuso; Pennelope estava com as pernas cruzadas e o queixo encostado na mão, como se seu tempo fosse precioso demais para estar esperando eu falar; Leonor, essa, estava muito mais entretida com o celular e aposto que trocava mensagens com o namorado.
– Vocês me tiraram o resto de tempo que eu tinha para ficar com a ontem e me levaram para uma noite furada numa boate. – soltei, indignado e os três prenderam a risada, até Leonor tirou a cara do celular para me olhar. Rolei os olhos e bufei com aquele olhar de julgamento fodido, sim eu gostava da . E daí que eu gostava dela? – Que foi?
– Nada, cara. Sai da defensiva. – Eliot prendeu uma risada sem vergonha. Eu queria sacolejar aquele moleque, porque, caramba, eu estava muito na defensiva e droga, estava agindo feito os amigos dele de faculdade. – Como a gente pode te ajudar a recuperar seu precioso tempo com sua gata gostosa.
– Respeito é bom e eu gosto! – apontei o dedo esticado para ele e aquele trio do capeta soltou uma gargalhada estridente. Ah, bando de capetas, eles estavam me testando? Filhos da mãe. Eu não merecia sobrinhos tão malvados. – Ah, vão se lascar. – sacudi a mão perto da minha cabeça.
, é muito bonitinho te ver na defensiva por alguém. – Penny fez um biquinho depois de recuperar o fôlego, sorriu e passou a mão no cabelo cortado no estilo Joãozinho, eu acho. – Queremos muito ajudar!
– Não liga para o Eliot, ele é só um universitário tarado! – Len sorriu meiga para mim e seu irmão, como uma criança, puxou seu cabelo. – AI, ELIOT CHARLES!
– TARADO É SEU NAMORADO! – o moleque rebateu. Penny rolou os olhos para cena infantil e pressionei meus dedos nas têmporas.
– Pelo universo! – aumentei minha voz para acabar com aquela discussão idiota. – Vocês podem parar com essa merda? Os dois são universitários tarados!
! – ao menos eu tinha conseguido a atenção dos dois e a aprovação da Penny, que levantou o polegar para mim. Soltei uma risada meio desesperada.
– Preciso de ajuda, quero reatar com a e... – suspirei, frustrado. – Faz tempo que não flerto com ninguém e quero fazer isso direito.
– Caramba, faz tempo mesmo, você ainda usa a palavra “flerte”, cara. – meu sobrinho debochou de mim na cara dura e engoli o deboche. Eu ia devolver, ah, eu ia. Me limitei a rolar os olhos.
– Não importa a merda de palavra que eu estou usando, só preciso da criatividade adolescente de vocês. gosta de romantismo, de presentes, gestos simples e clichês. – mordi a boca, ao menos os três estavam me olhando com atenção. – Preciso de ideias legais, porque, sinceramente, eu sou do tempo de escrever poemas em bilhetinhos.
Soltei uma risada desesperada e passei a mão pelos cabelos. Os três me olhavam sorrindo, sorrisos imensos e sinceros que confortavam meu coração e confirmavam que iriam me ajudar. Eles eram os melhores sobrinhos do mundo.
– Poemas em bilhetinhos são a coisinha mais fofa do mundo! – Leonor esmagou os dedos das mãos e Penny soltou um “Awn”.
– Aposto que ela vai adorar receber bilhetes. – Penny encorajou a ideia e afirmei com um sorriso. – Presentes sentimentais também são legais, , e você pode escolher algo que seja ela completamente.
é bem vaidosa, acho que um colar ou uma pulseira? – Eliot olhou para as meninas em busca de aprovação e confesso, eu também. As duas afirmaram veemente. Afirmei com vários acenos, enquanto enchia a minha lista mental com ideias sobre cortejar a e os três iam jogando em mim todas as ideias que poderiam me ajudar a recuperar Ramanush.

-x-

A minha entrevista com o The Scraps tinha sido marcada para aquela tarde, então depois da conversa com o trio, corri para tenda da banda. tinha me mandado uma mensagem avisando o horário para que eu não me atrasasse. O clima entre eles era de brincadeira e descontração, me deixando animado sobre saber um pouco mais sobre a banda e contar mais sobre a minha.
– Hey, cara, é um prazer receber você. – o moleque da Petra me cumprimentou, animado e o abracei brevemente, dando um tapinha em suas costas.
– Que nada! O prazer é meu em estar aqui, assisti seus últimos shows e caramba, vocês são bem fodas. – apontei para o resto da banda que estava por perto, aproveitei para cumprimentá-los também. Entre eles, duas moças, uma tocava baixo e a outra, guitarra, tinha me deixado feliz, era importante ver como as mulheres estavam tomando ainda mais o mundo da música.
Tiramos umas fotos juntos, umas legais, outras zoadas, tudo a pedido da Bea, a fotografa deles e que já tinha acompanhado a gente em uns shows na Califórnia.
Além de abraços gratos, recebi um tratamento que eu não gostava nem um pouco, daqueles que te especializam demais e porra, nós éramos todos iguais ali, eu só estava há um pouco mais de tempo na estrada. Por isso, pedi que nos sentássemos todos ao redor da pequena mesa dobrável de madeira, o tripé com a câmera estava a nossa frente e uma luz vermelha indicava que ela estava ligada. Os ventos daquela manhã traziam um clima mais ameno para o calor infernal e eu apostava que não demoraria muito para que uma chuva de verão caísse pesada sobre nós.
– E aí? Como vocês se sentem na primeira Warped Tour? – encabecei as perguntas e o moleque soltou uma risada animada, parecia bem empolgado.
– Caralho, tá sendo a realização do sonho de todo mundo aqui. – James apontou para banda espalhada ao nosso redor e olhei para eles, sorrindo.
– Acho que nunca tocamos para uma plateia tão grande. – Mary, a baixista, disse à minha esquerda, com os braços cruzados e um sorriso imenso. – Quando recebemos o convite da equipe do Lyman foi um surto só.
– Puts, dude tá sendo maluco demais. – James apertou os dedos, parecia estar nervoso. Mas não estava nervoso para beijar minha sobrinha, não era? Afirmei com um aceno de cabeça. – Como foi sua primeira Warped?
— INCRÍVEL! Foi a melhor turnê da minha vida, foi quando eu senti realmente o que era estar em cima de um palco, presença de palco, comandar um show... Você sabe do que eu estou falando, James. – apontei para ele, que afirmou com um aceno de cabeça. – Foi a primeira vez que a adrenalina atingiu cada célula do meu corpo com a mesma intensidade e eu só me deixei levar pela emoção, de repente era só minha banda e o público. Mas confesso a vocês, o melhor momento daquele show foi quando recebemos gritos e aplausos de aprovação. Ali eu senti que tinha nascido para música.
Eles sorriram encantados para mim.
– Ainda bate o mesmo friozinho na barriga? – Aranha, o baterista da banda, me perguntou e soltei uma risada animada. Respirei fundo e cruzei as pernas em uma posição confortável.
– Sempre, cara! É sempre a mesma coisa antes de subir ao palco, por isso eu tenho meus rituais de concentração e a energia do público, é insana. Basta eu ouvir os gritos de longe que já arrepia tudo. – sorri, animado.
– Achei que era só com a gente! – Jesse, a guitarrista, parecia mais calma com a revelação.
A conversa continuou embalada e dentre várias perguntas sobre minha carreira, vida pessoal, meus irmãos e nosso grupo empresarial que havia tornado o nome uma marca musical, eles ficaram curiosos sobre as vergonhas da Warped. Não me orgulhava, mas tinha quase um livro de tantas histórias malucas.
– Qual a sua maior loucura de Warped?
Olhei para banda inteira como se olhasse para os meus sobrinhos. Eles já eram maiores de idade, né?
– Alguém tem menos de 21 anos aqui? – perguntei, receoso e ouvi risadas, além das várias respostas negativas. – Apareci na porta do ônibus só de cueca, porque perdi tudo em uma festa cassino em Denver. – sacudi a cabeça ao lembrar da cena. Os moleques gargalharam. – Caramba e o foda não foi nem ter perdido tudo na festa, foi encarar a cara da Ramanush, ela estava irada, vocês devem ter uma noção. – toquei no nome da e vi cada olho dali brilhar, ela tinha mesmo feito a diferença na vida deles e confesso que na minha também. – Levei o esporro do século, nem minha mãe tinha me reclamado daquele jeito. – dessa vez, todos nós gargalhamos, eles afirmaram.
– Ela é incrível! – Aranha se pronunciou e afirmei com um aceno bobo. Um sorriso imenso despontou na cara de todos eles.
– É sim, tenho sorte de tê-la em minha vida. – sorri da mesma forma.
– Hm... ? – Mary me olhava cheia de curiosidade, os olhos brilhantes, eu tinha um palpite sobre qual seria a pergunta dela. As manchetes ainda tinham deixado resquícios aparentemente e por isso, deixei de dar tanta atenção as minhas redes sociais. Conselho dos meus advogados, ao menos naqueles próximos dias. – Acho que você deve estar acompanhando as últimas notícias. – afirmei com a cabeça. – Você acha que pode falar um pouco sobre todo o seu fandom e Piesme?
Fiz uma careta. O que diabos era Piesme?
... o quê? – franzi a testa e virei o tronco na direção dela, qualquer coisa pediria que eles editassem a entrevista antes de ir ao ar. Os quatro me olharam bem apreensivos, antes que Mary continuasse.
A garota só me entregou o telefone dela, quando recebi e mirei a tela, estava aberto em uma hastag do twitter, que ao que parecia tinha ganhado os trend topics nas últimas 24 horas. #Piesme era o assunto mais falado entre os meus fãs, muito provavelmente pelos boatos que o fotógrafo de merda saiu espalhando na mídia suja daquele país. Eu tinha certeza de que ele tinha feito de propósito para queimar minha imagem e a da no meu próprio fandom, mas ao que parecia quando comecei rolar a página, era tudo o contrário. Estavam apoiando a , exaltando a mulher e mostrando o quanto ela era incrível, simpática com os fãs e amada. Além disso, estavam apoiando algo entre nós dois e aparentemente era nosso shipp.
– Caralho! – não medi o palavrão, ainda rolando a página até o fim para acreditar de vez no quanto minha base de fãs amavam a minha amiga.
A gente tinha um shipp, uma # nos trends e várias threads explicando por que deveríamos ficar juntos. Será que ela entenderia se eu mandasse o link por mensagem? Confesso que aquela aceitação era tudo que eu tinha sonhado.
– Eu acho que preciso digerir isso primeiro e falar com ela, óbvio. Não sabia que tinha tomado essa repercussão toda. – entreguei o telefone da garota. Estava feliz, quase explodindo de tanta felicidade pela aceitação instantânea. – Prefiro não falar sobre isso, tudo bem para vocês?
– Claro, cara! – o coro veio educado. – Não tem problema, editamos essa parte da entrevista. Você quer falar alguma coisa para fechar?
Sorri, agradecido.
– Primeiro quero chamar vocês para subir no palco comigo essa tarde. – disse só para ouvir quando eles fizeram a maior alegria, agradecendo pela oportunidade, me dando tapinhas gratos nas costas e abrindo sorrisos ainda mais bonitos. – Depois, só tenho a agradecer o convite de vocês, foi realmente incrível esse papo e tenho certeza que a Petra tá orgulhosa de você, moleque. – pisquei e James ficou sem jeito em saber que eu tinha o reconhecido. Os outros riram. – Estamos dando o nosso melhor e vamos que vamos, Warped Farewell! Esse ano é nosso! – acenei para câmera e mandei beijos.
Combinados que eles cantariam Heartbeat junto com a nossa banda, acertamos o horário e saí de lá em disparada, precisava achar a o mais rápido possivel e contar as boas novas, contar que meus fãs não só a aceitavam, como também esperavam que ficássemos juntos. Sinceramente? Aquele era a porra do cenário perfeito da minha vida.



PALCO DEZESSEIS

Milwaukee, WI


Eu estava exatamente no meio do caminho para o estacionamento quando a chuva caiu do nada, parecia que um balde imenso tinha derramado seu conteúdo dentro do estado do Wisconsin, em uma hora eu estava seca – sem uma gota de suor sequer, porque o sol tinha levado tudo – e na outra, encharcada por uma chuva de verão que estava molhando até minhas roupas de baixo. Xinguei, indignada e a mãe natureza me respondeu com uma trovoada assustadora.
– Desculpa! – gritei, olhando para o céu.
As pessoas ao redor estavam correndo feito formigas em meio a chuva, tirando cadeiras, equipamentos e qualquer coisa que não pudesse tomar um banho do meio, levando tudo para debaixo das tendas ou para dentro dos ônibus. No estacionamento, vi crianças brincando como se nunca tivessem aproveitado uma chuva na vida e na mesma hora, desfiz minha cara de bunda por estar sendo molhada, decidi que ia encarar aquele momento lindo da natureza com tanta pureza quanto o filho do Chuck, baterista do Simple Plan, que brincava de ciranda ao lado da mãe. Do outro lado, os filhos de mais amigos meus corriam uns atrás dos outros, descalço, rindo e abrindo os braços para chuva.
Sorri involuntariamente com a linda cena. Crianças tinham o coração tão lindo e puro, era tão gostoso tentar ver o mundo com os olhos delas que uma simples chuva se tornava a diversão mais gostosa do mundo. Suspirei, contente e parei exatamente onde estava, fechei os olhos e me concentrei em sentir cada gotinha que tocava meu rosto, ombros e braços descobertos. Senti cada pingo gelado se espalhando em minha pele, inclinei meu rosto para cima, de olhos fechados e o sorriso mais largo que eu conseguia esboçar enquanto aproveitava toda aquela energia maravilhosa que vinha da natureza.
As tempestades de verão eram a forma mais simples de explicar como os sentimentos tomavam nosso coração, eram repentinas e intensas e a maioria das vezes, sumiam assim como surgiam, repentinamente. Abri os braços para receber toda aquela água gelada que acordava meu espírito e me dava ainda mais certeza que meus sentimentos por não eram como um vendaval, ele se adequava a cada estação, a cada obstáculo e era fixo como a Lua. Tínhamos a certeza que ela estava ali, fosse noite ou dia, mesmo que não conseguíssemos vê-la.
Soltei uma risada gostosa e assim como as crianças, impulsionei meus pés para girar no meio das poças que se formavam no chão. De fato, girei. Girei mais rápido do que achei que conseguia girar e meus pés nem estavam no chão, tinha dois braços confortáveis em volta da minha cintura me suspendendo como se estivéssemos em “Diário de uma paixão”, ou qualquer filme clichê adolescente. Me apoiei em seus ombros e baixei a cabeça de uma vez para tentar ver quem era. Eu sabia quem era!
Sorrimos, cúmplices em meio a chuva que escorria por nosso rosto, o cabelo dele pregado na testa me lembrava da época das franjas escovadas e só consegui rir ainda mais. O meu estava grudado no pescoço, ainda no rabo de cavalo e alguns fios pregavam na bochecha. Seu nariz afilado e esculpido era tão lindo que eu tinha raiva as vezes, a boca carnuda e vermelha que eu tinha descoberto adorar beijar como se minha vida dependesse daquilo e os olhos, ah, minha Deusa. Se os olhos eram a porta da alma, aquelas írises esverdeadas do eram a porta para o paraíso, eram expressivos e no momento, estavam sorrindo tanto quanto seus lábios curvados em um sorriso tão lindo que fazia meu estômago revirar.
– Você é louco! – soltei uma risada gostosa e abracei seu pescoço com força, enterrando meu rosto por lá. Sentia tanta falta daquele cheirinho gostoso e reconfortante dele.
– Sou louco por você, Ramanush. – abraçou meu corpo de um jeito tão gostoso que não consegui fazer outra coisa a não ser me entregar a todo aquele sentimento. – LOUCO POR VOCÊ! – rodamos de novo quando ele gritou aquilo no meio do estacionamento para o backstage inteiro ouvir.
Ah, meus deuses. Ele era louco por mim! Segurei seu rosto com as duas mãos e como em uma cena perfeita, beijei seus lábios molhados e levemente gelados da chuva. Senti meus pés voltarem ao chão delicadamente e logo depois segurar minha nuca com firmeza, mas com um carinho imensurável. O conforto que sua língua quente me trazia e a certeza de que ele sentia por mim o mesmo que eu sentia por ele.
Sorrimos ao fim do beijo, de bocas coladas. Fiz carinho em sua bochecha com polegar e quando lhe roubei mais um beijo, meu corpo foi inclinado no ar e os gritos e assovios tomaram o estacionamento. Caralho, a gente tinha plateia! Vários amigos nossos comemoraram ao mesmo tempo pelo nosso beijo e o sinal que tínhamos reatado, finalmente. Com uma olhada rápida, consegui identificar a nossa banda, a família do , o Addicted To You, Simple Plan, The Scraps e mais uns amigos do crew, comemorando.
– Acho que temos plateia, babe. – ri novamente. Sentia meu corpo tão leve e solto.
– Nós temos até um Shipp. Meus fãs e, aparentemente, todo mundo que tem Twitter nos chamam de Piesme. – beijou minha cabeça, agarrou minha cintura e me tirou do chão de novo, ainda no meio da chuva de verão. O sorriso não saía do meu rosto quando enlacei as pernas em seu corpo.
– VÃO CUIDAR DA VIDA DE VOCÊS, FOFOQUEIROS! – gritei para o backstage inteiro, arrancando uma risada satisfeita do homem incrível que tinha assumido ser louco por mim.



PALCO DEZESSETE

Indianapolis, IN


Acho que posso considerar aqueles dias que tinham passado, como a melhor semana da minha vida. Dois dias, 48 horas foram resumidos na melhor semana da minha vida porque depois da chuva em Wisconsin, a declaração de e nosso beijo público, as coisas só pareciam melhorar. De fato, o Crazy Kids tinha gostado da ideia, senão um ou outro comentário maldoso – o que era normal quando se estava na mídia – e eu até tinha reativado minha conta no Twitter, mesmo sem escrever nada, para entender o turbilhão que era Piesme. Assustador, devo confessar. Mas era importante demais receber aquele apoio de pessoas que apoiavam o meu trabalho.
E falando nisso, era gostoso demais manter o profissionalismo em cima do palco e dar uns pegas no embaixo dele, literalmente. Geralmente era calmo e ninguém iria aparecer para implicar ou ficar soltando piadinhas e com isso, me refiro aos três sobrinhos capetas dele, porque Charles e Perseu estavam me enchendo a paciência depois que assumimos internamente. O mais velho tinha me mandado um monte de mensagens infantis e me limitei a ser tão infantil quanto, respondendo com um emoji do dedo médio. Já o do meio, adorava olhar para gente com a mesma cara de pau que o filho tinha, ah, tá bom, como se ele também não transasse. Fora isso, eles foram bem queridos e simpáticos, dizendo que estavam felizes por nós dois.
Eu também estava! Save estava radiante de tão feliz por nós, além de sempre ressalvar o quanto tinha dito que iriamos ficar juntos.
E embora não tivéssemos conversado ou cogitado a hipótese de levar nosso início de relacionamento a público, as pessoas continuavam insistindo que nós ficássemos juntos, enquanto fingíamos demência. Era engraçado, não vou negar.
Sabe o que ainda martelava na minha cabeça? – E, claro, consumia toda minha sanidade quando eu botava a minha cabecinha no travesseiro; a história que envolvia um rom – que eu nem sabia se estava vivo –, destino e o . Sinceramente? Duvidava muito que os dois fossem a mesma pessoa ou tivesse qualquer parentesco. Sem falar que eu ainda continuava na minha busca incessante por minha família e sobre isso, tinha ao menos uma fagulha de notícias boas. Rick havia me dito na noite passada que tinha um bairro nos confins de Quebec com vários ciganos instalados há anos. Se eles não fossem minha família, ao menos poderiam ter informações, certo?
Acho que era hora de contar a verdade ao , então se ele tocasse novamente no assunto da tatuagem, eu contaria que era cigana.
– Picolé! – voltei a realidade quando vi o saco transparente sacudir bem perto da minha cara.
Soltei uma risada divertida e recebi o agrado, tinha pedaços de morango, kiwi e parecia ser feito de água de coco. Eu estava sentada em uma muretinha de cimento, checando a lista de tarefas do dia e organizando minhas ideias para os próximos.
– É vegano, mulher, depois dos tapas que levei, decidi nunca mais te enganar com comida. – ele sorriu e sentou ao meu lado, só de bermuda.
A verdade é que tinha esquecido a existência das camisas nos últimos dias, deixando aquele peito maravilhoso e deliciosamente tatuado a amostra. Ele só usava bermudas, o colar de pedra da lua como um pêndulo no meio do peito e um boné escuro com um B em amarelo gritante na frente. Era a coisinha mais lindinha do mundo. Atestado de apaixonadinha, Ramanush, se recomponha!
Abri o saquinho do picolé e senti o paraíso gelado tomar a minha boca assim que mordi um pedaço.
– Obrigada! – agradeci com um sorriso imenso, não conseguia conter a felicidade daquele gesto, me trazia tantas sensações boas. Reafirmava nosso relacionamento de amizade que já durava 15 anos, sempre me trazia picolés quando o dia estava infernal. Sempre. E, também, mostrava o quanto era bonitinho que ele ainda me trouxesse picolés, mesmo que tivéssemos começado a sair. – Vocês ainda têm um show hoje e não sei se sobrevivo até lá. – soltei um gemidinho contente em mais uma mordida no picolé e peguei no pulo, sorrindo enquanto me observava. – Vou derreter feito vela no meio desse parque.
Achamos graça.
Eu estava com o mínimo de roupa que dava para usar naquele calor, shortinho folgado, um tope de alça fina e meus tênis com amortecedores. No cabelo, eu tinha feito duas tranças no estilo boxeadoras.
– Você é exagerada demais. – ele sacudiu a cabeça, mordendo seu picolé também. Não sabia onde ele tinha conseguido algo tão bom e saudável, mas estava adorando que tinha largado dos energéticos. – Imagina a gente que vai fazer o show.
– Nada de energético, hoje é isotônico, já avisei a todo mundo. – dei meu ultimato para receber uma careta muito inconformada. Fingi que não tinha nem visto. – Onde você conseguiu esse picolé? – perguntei de boca cheia, enquanto sacudia o sorvete que derretia pelo calor, o enfiei na boca de novo, fazendo careta por sentir o cérebro começando a congelar.
soltou uma gargalhada gostosa de ouvir e fixou os olhos na minha tatuagem da roda cigana no braço.
– Penny fez uma dúzia desses no ônibus do ATY e mandou para você. – sorrimos. Seus olhos ainda fixos no meu braço.
Aquela era uma ilustração que eu tinha há mais ou menos um ano, primeiro tinha feito só a roda cigana na parte interna do braço, só perceberia quem prestasse muita atenção no meu corpo – ele era uma dessas pessoas –. Antes da Warped, eu tinha completado a tatuagem com a frase “gypsy soul”, para um bom entendedor, meia palavra basta. Eu gostava que ele nunca tinha me forçado a falar nada do meu passado, tudo que já havia dito fora por espontânea vontade e conforto. Já sobre minha etnia, só havia me sentido segura para falar nos últimos dias.
Pergunte, . Por favor, pergunte!
Meu subconsciente implorava.
– O que significa essa tatuagem, babe? – curiosidade faiscou em seus olhos quando me perguntou com a voz mansa, calma e profunda. Senti o coração palpitar com tamanha atenção sobre algo novo para ele.
Abri meu maior sorriso, o mais saudoso e o mais feliz, era como se aquele homem conseguisse ler meus pensamentos de tão certeira que a sua pergunta tinha sido. E sabe lá se não poderia mesmo? Meus olhos marejaram de tanta saudade e pertencimento, era como se tudo se tornasse mais real à medida que eu revelava de onde tinha vindo, a pequena Esmeralda já tinha tomado o lugar da a mandado calar a boca, porque aquele era o momento dela. A moça esperta, inteligente e amada por toda a sua tribo. Fechei os olhos e pude ouvir os tambores no ritmo do meu coração e o banjo tão claro dentro da cabeça, que não tinha outra reação senão sorrir para a pergunta do .
Olhei para meu braço, deixando a marca ainda mais visível.
– Meu povo! – o encarei com o sorriso fixo no rosto, tudo em mim sorria, arrancando um sorriso lindíssimo dele.
– Seu povo? – inclinou de leve a cabeça e eu o conhecia bastante para saber que ele estava se roendo de curiosidade, então ri baixo.
– É... – mordi a boca, mexendo meu braço desenhado. – Basicamente tudo que eu sou! O povo da rua, os viajantes, não pertencentes a um lugar fixo. Minha tribo, particularmente, se intitula como o povo da Lua, já que somos regidos intimamente por Ela. – vi seus olhos claros implorarem pela confirmação e eu sabia qual palavra ele queria que eu falasse. – Eu sou cigana, cresci em um acampamento próximo a Pomona. Não sei exatamente a localização e nem se eles estão mais lá. – mordi o lábio. Meu peito explodia de ansiedade à espera da reação dele, precisava que só gostasse de mim, independente do que eu era ou deixava de ser.
Ele finalmente se manifestou em uma risada aliviada. Espera o quê?
– Caralho, babe! Você é cigana? UAU! – os olhinhos esverdeados brilharam ainda mais e juro que aquela reação, aquela simples e eufórica reação tirou o peso do mundo das minhas costas. Não que eu não soubesse, mas a confirmação da aceitação de era uma das coisas mais importantes para mim naquele exato momento. Eu poderia ter o mundo inteiro contra mim, contanto que ele estivesse ao meu lado.
– SOCORRO! – soltei um gritinho alegre e esbaforido. – Confesso que essa foi a reação mais diferente que já vi sobre minha etnia. – agarrei seu rosto e beijei sua bochecha vermelha.
– Vou confessar que já suspeitava. – o homem soltou uma risada linda, roubando um selinho meu em seguida. – E passei várias horas no google pesquisando sobre ciganos. Mas sabia que seu povo é bem raro de achar informações confiáveis na internet? – sorriu com os olhos e afirmei, o abraçando de lado com força, meu vocalista levantou o braço e circundou meu corpo com ele. Estava tão feliz que a reação dele tinha sido de euforia e animação, curiosidade.
– Ainda somos tão hostilizados, , você não tem ideia. – suspirei, pesarosa e senti um beijo em minha cabeça.
– Sinto muito por isso, . As pessoas são bem ridículas, maioria das vezes. – senti um aperto confortavel em minha mão, como se me passasse força e cuidado. – Sempre tive uma curiosidade imensa sobre a cultura cigana, desde que estudei uma série de coisas no colégio. Às vezes, parece que sou puxado para as informações sem nem mesmo pesquisar, meu navegador, por exemplo, sempre sugere alguma coisa sobre sua cultura. – riu baixo. – Mas ainda pode ser o algoritmo, né? – nós dois achamos graça e afirmei com o cabeça. – Me ensina mais sobre seu povo?
Aquele pedido me fez perder o fôlego por alguns segundos. O encarei com um sorriso imenso e umedeci os lábios para começar.
“Nós somos descendentes do povo nômade lá de antes de Cristo, dos povos hindus que eram nômades e posteriormente os da Península Ibérica. Mas eu, Ramanush, sou descendente de ciganos que vieram dos países balcânicos, acho que meu avô nasceu na Croácia. Logo depois a tribo toda se espalhou pelos países europeus, encontrando mais ciganos por lá. Minha família é uma mistura de croatas, franceses e espanhóis, mas a maioria são franceses. Nossa tribo é do grupo Rom. Existem três, especificamente: Os Rom, os Calon e os Sinti. – enumerei nos dedos e o afirmou, atento. – Depois do holocausto, quando os povos ciganos passaram a ter um pouco mais de foco para os estudiosos, passamos a ser chamados de Roma, ou Rom, justamente para evitar toda essa hostilidade no tom de quem nos chama de ciganos.”
Umedeci os lábios mais uma vez e pude ver um homem ainda mais interessado sobre minha história, meu povo e minhas origens, podia sentir seu corpo vibrar com a minha energia entrópica. Estávamos na mesma frequência energética e nunca havia me sentido tão bem em explicar tudo aquilo para alguém.
– Reza a lenda da nossa origem, que o jovem Shiva, sim, o deus Shiva, criou o povo mais alegre, animado e caloroso de todo o mundo. E boom! OPTCHA! – bati duas palminhas ritmadas que fez o homem ao meu lado suspirar, encantado, seu rosto parecia brilhar com tudo que eu havia falado. Nossos olhares estavam conectados e senti que era parte daquilo também.
Eu precisava urgentemente da vó Aurora.
– Essa palavra, o que significa? – a voz mansa dele fez carinho nos meus ouvidos.
– Salve! É uma forma de saldar outros Rom. – beijei o canto da sua boca, sem conseguir me conter. – E daí vem nossa fama de festeiros, mas, na verdade, somos alegres, livres, muito bem articulados e organizados dentro da nossa própria sociedade. Damos valor as coisas simples da vida como a família, aos mais velhos, a natureza, a magia e o misticismo que nos guia pelos caminhos da lua e da fé. Então as tradições são bem presentes, principalmente nos ritos e festas.
– Eu fico encantado com todo esse desprendimento, sabe, ? – nosso olhar continuava conectado e era impossível desviar. – Eu sei que vocês são um povo imensamente rico, mas que trabalham muito na perspectiva do desprendimento e de escolher a simplicidade, sem esbanjar por aí. A humildade ao invés do orgulho. – ele respirou e afirmei com um aceno. – Ainda existem os Rom que viajam de um lugar para outro? Sem moradia fixa? Eu sei que é uma pergunta estereotipada, mas é isso que ensinam a gente nos colégios. Você sabe... – ele coçou a cabeça e parecia tão desconfortável em me perguntar aquilo, como se pudesse ser uma ofensa. Sorri e mais uma vez, beijei seus lábios com leveza.
Ele não tinha um pingo de culpa pelo fato de nossa etnia não ser difundida da forma certa. Foram tantos anos de repressão que a melhor forma de proteger, era ocultar, se misturar e camuflar entre as populações e enquanto não fôssemos respeitados como devia, nossa cultura continuaria restrita a quem merecia.
– Olha, ainda existem sim, embora as tribos tenham se fixado em alguns lugares. Se misturar é o melhor jeito de conviver em paz. – alisei seu ombro nu. – No condado de Los Angeles, por exemplo, em Pomona tem um bairro cigano e é um dos mais lindos que já vi na vida!
– Foi lá que você nasceu? – a curiosidade explodiu por seus lábios.
– Na verdade, o acampamento era nômade quando eu nasci. Meus pais não estão em Pomona, não sei onde eles realmente estão, para ser sincera. – encostei a cabeça em seu ombro, sentindo meu corpo ser abraçado com carinho. Ele sabia que eu estava frustrada. – Tento encontrá-los desde o início da Warped. Inclusive, tenho vários amigos Rom por aqui.
– Sinto muito por isso, babe. – mais um beijo em minha cabeça. – Ninguém sabe de nada sobre o paradeiro deles?
– Rick me disse sobre algumas possibilidades, mas nada com certeza. – suspirei, exausta. Precisava de uma folga inteirinha dentro daquele abraço gostoso.
– Por que você nunca me disse nada?
Não tinha qualquer ressentimento naquela pergunta, apenas curiosidade, o interesse em saber por que guardei aquilo para mim durante tanto tempo.
– Você nunca perguntou, gadjo*! – pisquei com divertimento e me olhou com uma interrogação na testa.
– E eu ia perguntar isso do nada? – nós dois rimos. – Você mal quis me contar por que tinha fugido de casa e encontrado os Lyman. O que é isso que você me chamou?
– Gadjo. – inclinei a cabeça, querendo enchê-los de aperto por tamanha fofura. – É como a gente chama um homem não-cigano, mas alguns ciganos usam da palavra para hostilizar, afinal tudo vai de como o tom é usado. – ele mordeu a boca e afirmou com um aceno. – A palavra faz parte de um idioma próprio do grupo Rom, o romani. Uma língua antiga sem registros oficiais escritos e que é passada de geração em geração.
– Uau! – esbravejou surpreso com tanta coisa que eu tinha falado. – Isso é insano, babe, eu... caralho. – ele riu baixinho. – Obrigado por compartilhar suas raízes comigo, , isso me fez sentir como se fizesse parte do seu mundo particular e confesso que a partir de agora, quero fazer. – aquele homem incrível levou minhas duas mãos aos seus lábios e beijou-as ternamente.
– Esmeralda.
Declamei com calma e com o sotaque do seu idioma de origem, o espanhol. Meu amigo me olhou confuso.
– Esmeralda. É meu nome Rom, de nascença. Nasci Esmeralda Ramanush.
E como se fosse possível, se sorriso se alargou ainda mais. O curvar de lábios ia de orelha a orelha, mostrando a carreira de dentes claros em uma das reações mais lindas que eu já tinha visto em toda a minha vida.
– Esmeralda Ramanush. – repetiu como se estudasse o som que meu nome fazia, como se saboreasse cada sílaba. – Minha Esmeralda. – ele sorriu de cabeça inclinada, mostrando um imenso respeito com os lábios ainda encostados em minhas mãos.



Continua...




Nota da autora: OI, AMORES! Esse capítulo é muito lindinho e o que mais a Esme estava esperando do Pierre sobre a etnia dela.
Preciso confessar pra vocês que todas essas informações contidas no capítulo foram frutos de muuuita pesquisa em livros, sites, artigos, materiais de leitura disponibilizados pela embaixada cigana brasileira. Daqui pra frente vai ter muita coisa legal e eu só agradeço por todooo o apoio de vocês para com a história! Eu, Pie e Esme, estamos muito gratos <3





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Nota da beta: Capítulo muito fofinho mesmo, Taty! Arrasando muito na pesquisa, e ansiosa por entender muito mais da cultura da pp! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.


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