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Última atualização: 04/05/2021

Capítulo 1


estava ignorando os três olhares críticos sobre ele.
Era fácil decifrar o que os caras estavam pensando: parecia tão mais simples alugar um estúdio já montado para produzir um novo álbum.
Mas era a favor do processo completo.
Entrar, compor e gravar? Era fácil demais. Fazíamos isso há anos.
Nós quatro tínhamos que, primeiro, transformar um galpão vazio e aos pedaços em um estúdio minimamente habitável. Era o primeiro passo para o entrosamento da banda em uma nova fase e poderia até render boas músicas, ele dizia.
Tenho certeza que e pensavam o mesmo que eu - se nos entrosarmos mais, acabaríamos casando.
- Dizem que esse lugar é assombrado - quebrou o silêncio, provavelmente tentando elevar nosso interesse.
Ele sempre acreditava no misticismo das coisas.
- Assombrado tipo bruxas e zumbis ou espíritos e fantasmas? - e eu, claro, era sempre o primeiro a entrar na onda dele.
- Pegou fogo no final dos anos noventa. Ou algo do tipo...
- E era nossa única opção? - murmurou, nem um pouco impressionado com a possibilidade de encontrar um vampiro no banheiro.
- Não. Você não está ouvindo, ? Era a melhor opção - ergueu os ombros, tentando mostrar a obviedade - Quem vai querer um estúdio normal quando tem um assombrado?
- Pessoas normais - rolou os olhos.
- Pessoas chatas - o encarou por cima das sobrancelhas, como sempre fazia quando tentava provar que estava certo.
- Acho que acabei de ter uma ideia para uma música - interrompeu a irrelevante discussão, sacando o celular do bolso.
Soltei uma risada, balançando a cabeça negativamente. Ele certamente funcionava em uma sintonia diferente do restante do mundo.
Olhando de longe, o projeto de estúdio parecia velho e sujo. De perto, era ainda pior. No espaço que parecia um extenso salão vazio, o chão de madeira estava todo riscado. As paredes, descascadas, com largas marcas de infiltração nos cantos. As três portas - que levavam a um banheiro, uma segunda e minúscula sala e o que parecia um dia ter sido uma cozinha - imploravam por uma pintura e uma fechadura que funcionasse.
Nós tínhamos muito a fazer.
E, mesmo que não admitíssemos, sabíamos que tinha razão. Tudo que fazíamos juntos acabava sempre sendo minimamente divertido, e cada dia rendia uma boa história. Ou uma boa música.
Passamos o resto da noite ajeitando tudo o que podíamos adiantar. O chão estava limpo, as janelas estavam vedadas e um sofá arcaico e uma pequena mesa vermelha que alguém havia deixado para trás estavam em um canto na pequena sala ao fundo, aguardando o descarte no dia seguinte.
Havia passado das onze da noite quando os três foram embora. E eu resolvi continuar ali porque, bom… Não era como se eu tivesse alguém me esperando em casa. A solidão te atinge em todos lugares; mas se ela te faz companhia no lugar que você costuma chamar de lar, é um pouco pior.
Eu estava tirando as pesadas cortinas de linho da sala menor quando algo me fez parar. Atrás do tecido, logo embaixo da janela que ocupava a parede quase inteira, havia uma caixa. Uma caixa de papelão tão velha que estava quase se desfazendo e exibia um apanhado de objetos empoeirados.

E eu havia assistido The Conjuring vezes o suficiente para saber que eu não devia mexer naquilo.
Mas a curiosidade sempre falava mais alto.
Comecei a revirar a caixa e passar os olhos pela porção de objetos jogados ali de qualquer jeito. Um pequeno espelho rachado. Uma câmera fotográfica enferrujada. Um pedaço de pano que, um dia, devia ter sido uma roupa. Um saco cheio de fichas que pareciam servir naquelas máquinas antigas de refrigerante.
Mas, entre tantas e tantas lembranças pretéritas, uma em especial me chamou atenção.
Era um pequeno relógio. Uma réplica perfeita em miniatura do Big Ben. Cheio de detalhes, dos mais evidentes aos mais sutis.
Peguei o enfeite com cuidado e sentei em uma das almofadas rasgadas do sofá azul.
Ele era… simpático. Acho que poderia fazer parte da nova decoração do estúdio.
Sem pensar muito, dei corda no mecanismo do relógio, esperando que nada acontecesse.
E então um tic tac quase inaudível preencheu timidamente a quietude.
Estreitei os olhos para o objeto em minhas mãos.
Nossa. Não acredito que aquilo ainda funcionava.
O coloquei na mesinha vermelha e deitei no sofá, apoiando a cabeça nos braços flexionados, ainda encarando o simpático relógio.
Ele marcava meia noite e cinquenta e nove minutos.
Estreitei os olhos mais uma vez.
E então peguei meu celular no bolso.
Meia noite e cinquenta e nove.
Encarei o relógio novamente. E então o celular. E o relógio mais uma vez.
E a última coisa que passou na minha mente antes de tudo ficar escuro fora o fato inegável de que eu não acreditava em simples coincidências.


- O que você está fazendo aqui, garoto?
- Me deixa em paz, - murmurei, protegendo, com as mãos, os meus olhos da luminescência repentina.
Não sei que tesão era esse que tinha em me acordar. Acho que, de um jeito quase romântico, ele curtia meu mau humor matinal.
- te deixou entrar aqui? Eu juro por Deus, aquela garota…
?

Não pude evitar uma careta quando tentei abrir os olhos e a claridade fez cócegas nas minhas pálpebras.
A primeira sombra que, gradualmente, tomou forma diante dos meus olhos sonolentos, fora o pequeno relógio sobre a mesa vermelha.
Mas, dessa vez, ele não parecia velho. Estava reluzente, sem partes lascadas e nenhum arranhão sequer.
Arrastei os olhos para o lado e levantei em um pulo quando vi que não era que me encarava com as sobrancelhas erguidas e uma carranca adornando seu rosto. Era um senhor com expressivos olhos castanhos, uma barba rala por fazer e cheio de tatuagens coloridas pelos braços.
Minha atenção faiscou para os quatro cantos da sala. Era, com toda certeza, a sala dos fundos do estúdio em que eu havia adormecido. Ela estava exatamente igual e, ao mesmo tempo, completamente diferente. Caixas e mais caixas de bebida se espalhavam pelo chão e em prateleiras de metal prateado. Uma música suave inundava o ambiente. Eu estava sentado no mesmo sofá, mas agora ele não tinha um rasgo sequer e o tecido parecia ter um tom de azul muito mais brilhante.
Que merda de sonho era aquele?
Murmurei um pedido de desculpas para o senhor que ainda me encarava indócil e levantei um pouco cambaleante. Andei até a porta e, quando a abri, o sonho ficou ainda mais real.
Porque eu não estava apenas vendo cenas desconexas que confundiam minha mente ensonada.
Eu estava sendo bombardeado por todo tipo de sensações.
O cheiro nauseante - uma mistura de cigarro, perfumes adocicados e todo tipo de bebida alcoólica imaginável.
As risadas altas e uma confusão de vozes caóticas, que gritavam e se conglomeravam no ar, chegando à minha mente sem pedir licença.
A atmosfera enérgica que apenas uma noite no centro de Londres era capaz de causar.
Mas, entre tantos sentidos à flor da pele, um em especial me chamou atenção. Um que, inconscientemente, me fez bloquear todo o resto que acontecia à minha volta.
Meus ouvidos eram inundados pela voz mais doce que eu já ouvira.
Dispersando a fumaça que se formava diante de mim, me vi caminhando em direção a um pequeno palco, onde uma garota de vestido branco e longos cabelos castanhos sussurrava as belas palavras de There She Goes em um microfone.
Sim, sussurrava. Sua voz era tão suave que me lembrava um sussurro aveludado.
E, cara… ela era linda. Seu rosto era irretocável. Parecia ter saído diretamente de um daqueles filmes antigos. Ou dos meus sonhos.
Embalado pela melodia graciosa, levei alguns segundos para reparar em todos os detalhes à minha volta.
Eu não fazia ideia de onde estava.
Quer dizer - era, com certeza, o novo-antigo estúdio. Mas não parecia real. Sequer parecia o mesmo lugar. Mesas ladeavam o palco e diversos grupos de pessoas tomavam os lugares nas cadeiras e se espalhavam pelo salão. Atrás de mim, um balcão extenso se estendia de um canto ao outro na parede dos fundos, e geladeiras lotadas de bebidas brilhavam diante dos meus olhos. À esquerda, uma antiga vitrola e uma máquina obsoleta de Coca-Cola pareciam aparelhos tecnológicos de última geração.
Era algo como um cenário retrógrado que eu havia conhecido apenas por fotos e pelos filmes saudosos do começo dos anos noventa.
As pessoas que iam e vinham por todos os lados pareciam ter saído diretamente de uma cápsula do tempo. Todos se vestiam como se o tempo tivesse parado. Parecia que uma festa temática estivesse acontecendo e apenas eu não tivesse sido alertada sobre a fantasia.
A mudança era sutil. Estava mais na atmosfera do que nas imagens rápidas que minha mente em êxtase era capaz de capturar.
Quando o som dos instrumentos se esvaiu pelo ambiente e as palmas ecoaram pelo salão, voltei a atenção para a menina de vestido branco. Ela agora exibia um pequeno sorriso enquanto arrumava o microfone no pedestal.
Não consegui tirar meus olhos dela.
Nem enquanto ela descia do palco e ajeitava os cabelos atrás dos ombros.
Ou enquanto sua expressão mudava de alegre para ímpia quando um garoto que parecia um jovem Tom Cruise sussurrou algo em seu ouvido.
Muito menos quando ela caminhou em minha direção e, tentando fugir do garoto, esbarrou nos meus ombros.
Ela tinha cheiro de morango.
A noite seria interessante.


Uma superfície dura se chocou contra o meu corpo, mas nem consegui pensar em parar para pedir desculpas.
Estava ocupada demais rolando os olhos ao tentar me afastar de Heath.
- Você devia vir comigo, Juliet. O que tem pra você aqui? - ele lançou as palavras por cima do falatório inconfundível de uma sexta-feira à noite no Paul’s.
Dei a volta no balcão para pegar o avental que me esperava ao lado das máquinas de cerveja e o amarrei na cintura.
- Eu não vou a lugar nenhum - grunhi, categórica, controlando a vontade de bater com uma bandeja em sua cabeça.
Eu era irrefutavelmente contra a violência. Mas meu irmão tinha o talento divino de me fazer querer estragar o rostinho bonito dele toda vez que abria a boca.
- Me diga o que acha que vai realizar neste lugar e eu te deixo em paz - ele cruzou os braços enquanto se debruçava sobre o balcão, a testa franzida ao tentar ganhar um pouco de simpatia.
Exalei todo o ar dos meus pulmões enquanto recolhia as canecas vazias espalhadas pela tábua de madeira. Porque ele simplesmente não me deixava em paz?
Movi minimamente o olhar quando alguém tomou o lugar em uma das banquetas, bem ao lado de Heath.
Ótimo. Plateia. Tudo que eu precisava.
- Não preciso ter essa resposta agora. Só sei que meu lugar é aqui.
- Você está desperdiçando sua vida, maninha.
Abri o sorriso mais cínico que eu era capaz.
- Ótimo. Desperdiçar a minha vida é tudo que eu quero.
Ele soltou um suspiro ruidoso, passando as mãos pelos cabelos escuros.
- Juliet…
- Céus, Heath, para de me chamar assim! - praticamente gritei e bati uma garrafa de London Porter na bancada com tanta força que fiquei surpresa por não ter quebrado - É . E eu não vou embora com você, tá legal? Agora, por favor, dá pra ir embora? Eu realmente preciso trabalhar.
Não voltei a olhar para ele. E nem precisava para saber que ele continuava me encarando, com os olhos verdes opacos exalando incredulidade, decepção e uma tonelada de julgamento pueril.
Fingi estar concentrada em limpar uma mancha que adornava a madeira escura do balcão há meses e eu sabia que não sairia dali. Qualquer coisa era melhor do que enfrentar a incompreensão do meu irmão. Então ele estalou os lábios, como sempre fazia quando algo não saia como queria, e bateu as mãos na bancada antes de sair como uma tempestade, rumo à porta do bar.
Reprimi um grito de exaustão.
Era a terceira vez naquele mês que Heath vinha atrás de mim. E era a centésima vez que ele me fazia pensar que eu havia tomado a decisão certa.
Eu não conseguia entender porque era tão difícil pra ele aceitar que eu havia saído de casa.
Meus pais tinham uma vida inteira planejada para nós dois. Colégio particular, contas pagas, roupas mais caras que meu salário atual e a certeza que cursaríamos algo como direito ou economia na faculdade. Tudo sem deixar a entediante Liverpool.
Eu não queria nada daquilo.
Queria experimentar o que a vida tinha para oferecer. Aprender a cuidar de mim. Descobrir no que eu era realmente boa. Desvendar os meus sonhos e ir atrás deles.
E, pra mim, o sonho estava bem aqui. Em Londres. Onde a vida não parava a meia noite e a música enchia as ruas boêmias da cidade até o amanhecer.
Os anos sessenta tinham acabado e levado consigo a era do amor e da paz. Os setenta espantaram a serenidade e iniciaram em um ode à violência, com toda aquela merda da família Manson e a partida precoce de Sharon Tate. Nos oitenta só se falava sobre a onda dos serial killers e o medo percorria livre pela noite.
Os anos noventa traziam esperança. A expectativa da virada do século. A noite já não parecia tão melindrosa. A música era melhor do que nunca. Oasis, Green Day e Blink 182. A era de ouro do cinema havia acontecido em algum lugar entre os anos cinquenta e sessenta, mas agora... Céus, agora tínhamos Leonardo DiCaprio e Brad Pitt.
E eu tinha vinte e seis anos e a sorte de poder aproveitar a juventude na melhor cidade do mundo.
Enquanto organizava os copos limpos nas bandejas prateadas, me senti levemente incomodada. Tinha certeza que alguém estava me observando.
Olhei de relance para o garoto que havia tomado o lugar ao lado de Heath alguns minutos atrás. Eu tinha quase certeza de que era o ombro em que eu havia esbarrado no caminho para o bar.
Talvez ainda estivesse esperando um pedido de desculpas. Eu não o culparia…
Mas quando levantei o rosto para realmente olhá-lo, tudo o que encontrei em seu olhar fora curiosidade genuína.
E senti vontade de sorrir.
Não pelos olhos que pareciam brilhar mais do que a realidade permitia. E nem pelos cabelos , que caiam em um desgrenhar despojado pelo seu rosto de bonitas feições masculinas.
Senti vontade de sorrir simplesmente porque ele era diferente.
Quando todos pareciam tentar se transverter em uma cópia exata de Johnny Depp, era bom ver alguém fugindo do padrão. Aliás, sério, o que tinha demais naquele cara? Ele nem atuava tão bem assim.
Ele provavelmente havia escutado a conversa com meu irmão. E provavelmente estava pensando que eu era dramática demais ou complicada demais. Talvez os dois.
Mas era uma ótima maneira de iniciar uma conversa.
- Quer ouvir algo engraçado? - limpei as mãos no avental e me inclinei sobre a bancada - Eu não sou Juliet. E nem ao menos sou . Eu ainda não sei quem eu sou. Mas é apenas um nome, não acha? Só sei que preciso estar aqui.
O indício de um sorriso floreou em seus lábios. Os olhos azuis faiscaram do meu rosto para o crachá dourado em meu peito, onde o nome reluzia.
Rolei os olhos.
Argh. Eu não conseguia sequer tentar bancar a misteriosa.
É, eu era . Esse era meu nome desde que eu havia me mudado para Londres e decidido começar uma vida nova.


Cara, a garota era ainda mais bonita de perto. Os olhos pareciam juntar em si todos os sentimentos afáveis do universo e tinham um brilho delicado que me faziam querer sorrir sem nenhuma razão aparente. E em uma frase de dez segundos ela havia me contado mais sobre si do que muita gente me permitiu conhecer em meses.
Sentia falta de pessoas assim. Honestidade e simpatia haviam saído de moda e eu simplesmente odiava isso.
- Tenho uma pergunta mais importante do que seu nome - escorreguei para a banqueta ao lado, ficando bem em sua frente - Porque está atrás do balcão e não de volta ao palco? Sua voz é…
Ela balançou a cabeça, um sorriso brincando em seu rosto.
- Sou apenas a garçonete - ela me interrompeu, com um quê encantador de timidez tomando traços - Subo no palco quando precisam de alguém para preencher o horário. É o tipo de lugar em que temos que fazer de tudo. Está vendo Cole? - apontou com o queixo para um menino ruivo que servia três garrafas de cerveja para uma garota na outra extremidade do balcão - Ele dá um show na guitarra aos sábados à noite.
Olhei de para Cole e então para ela novamente.
Sorri, um tanto mesmerizado. Era um lugar peculiar, para dizer o mínimo.
Como As You Are, do Nirvana, tocava em algum lugar. Fazia tanto tempo que eu não ouvia aquela música fora dos meus fones de ouvido.
Eu não conseguia deixar de pensar como eu tinha parado ali. Não podia ser um sonho. Tudo parecia muito real para se limitar a um sonho.
- Qual o seu nome, estranho? - a voz de me trouxe de volta à realidade. Ou ao que quer que aquilo fosse.
- - soprei com um sorriso inconsciente.
Era raro eu ter que me apresentar para alguém. E era bom ser apenas Dougie, e não , do McFLY para variar.
- Combina com você - ela piscou os longos cílios em minha direção, sem tirar os olhos dos meus - O que você faz?
Ao menos por alguns segundos...
- Eu tenho uma banda.
- Ah, eu adoro caras que sabem tocar um instrumento.
Não pude evitar uma risada. Não sabia se ela estava sendo indecente ou era apenas simpática assim com alguém que havia conhecido há cinco minutos. De qualquer forma, eu gostava do jeito expansivo que ela falava.
- É meio genérico, não acha?
- A vida é muito curta para traçar limites demais - ela abriu um pequeno sorriso - Quer alguma coisa?
Que gostava que nada. Eu estava encantado pela maneira simples que ela encarava a vida. Pelo jeito simplório que palavras poéticas vertiam de seus lábios sem ela se dar conta. Se a garota ao menos soubesse o quanto era difícil esbarrar com pessoas que tinham essa prontidão arrebatadora para viver...
- Eu não bebo… - deixei a frase morrer.
E ali estava eu. Ainda escondido em minha própria concha.
Ela fez um biquinho adorável.
- Não gosta?
- É uma longa história.
E eu não queria tirar um terço da felicidade que ela exalava com experiências sombrias. Mas não diria isso em voz alta.
- Certo - ela se afastou para pegar um copo nas bandejas que havia acabado de arrumar - Algo contra Coca-Cola de cereja, suco de manga e folhas de hortelã?
- Além do fato de parecer uma mistura nojenta?
soltou uma risada diante da minha careta.
- Não julgue antes de provar, .
Apenas observei enquanto ela juntava cuidadosamente todos os ingredientes em um copo alto.
Eu era adepto a experimentar coisas novas. Mas quando ela colocou a mistura que não parecia nem Coca-Cola e nem suco de manga na minha frente, quase implorei para que não me fizesse provar aquilo.
Segurei o copo entre os dedos. Fiz menção de levá-lo até a boca, mas parei no meio do caminho e o apoiei não madeira novamente.
- Como eu posso ter a certeza que isso não vai causar minha morte?
- Olha pro seu rosto. Eu não mataria você - um sorriso travesso puxou o canto dos seus lábios - Não antes de me divertir um pouco.
Soltei uma gargalhada. Aquela garota era inacreditável.
Olhei por alguns segundos para seu rosto apreensivo, como se a doçura que ela exalava fosse, de alguma forma, melhorar o sabor daquilo.
Então levei o copo à boca.
E… Nossa, eu não estava esperando por aquilo. Era inacreditavelmente bom. Primeiro senti o gosto de manga, e então o doce mais acentuado da cereja tomou minha língua, entrando em um equilíbrio perfeito com a refrescância do hortelã.
Coloquei o copo no balcão apenas depois de beber o seu conteúdo quase inteiro, e, quando minha atenção voltou para , ela me encarava com os olhos cintilando em triunfo.
Ah, ela sabia que eu tinha gostado.
- Onde aprendeu isso?
- Eu inventei. Tenho muito tempo durante a semana, quando a casa fica vazia - ela apoiou o rosto em uma das mãos, se curvando mais uma vez sobre a bancada entre a gente - Estava tentando encontrar o gosto que eu imaginava que um beijo perfeito teria. E acho que meio que encontrei quando provei isso.
Era um sonho. Ela só podia ser um sonho.
Parecia mesmo uma imagem celestial, com seus lábios avermelhados brilhando em minha direção enquanto falava sobre o gosto de um beijo.
- ?
- Sim?
- Onde eu estou?
Fiquei esperando que ela dissesse que eu realmente havia morrido e tinha ido direto para o céu. Mas a garota apenas apontou com os olhos para a parede, me fazendo seguir o seu olhar.
Ah, não. Literalmente me contorci na cadeira ao segurar uma gargalhada. Aquilo me parecia familiar…
O nome The Ballad Of Paul K reluzia em um letreiro enorme de letras azuis e fosforescentes, pendurado bem na parede ao lado do palco.
- Todo mundo chama de Paul’s. Quer dizer, aquele é um nome meio comprido e cafona, não acha? - sussurrou como se estivesse contando um segredo e eu não pude evitar uma risada sincera.
Ainda bem que não estava ali para ouvir isso.
- Você sabe como escolheram esse nome? - indaguei, honestamente curioso.
Aquilo não podia ser uma simples coincidência e, bom… Eu estava começando a ficar com medo.
- A história não é nada original. Aquele ali é o dono, Paul Kelley - ela indicou com as mãos o senhor emburrado que havia me acordado há algum tempo atrás - Ele abriu a casa nos anos oitenta, e acho que era o lugar na cidade para dançar baladas românticas.
Exibi um sorriso, esperando que ele não parecesse nervoso demais. As imagens da noite começaram a oscilar no fundo da minha mente.
Dizem que esse lugar é assombrado.
Pegou fogo no final dos anos noventa.
O relógio.
A sonolência.

Que merda estava acontecendo? Se eu estava dormindo, era a hora de acordar.
Será que toda aquela parada de Inception era real e os caras tinham arrumado um jeito de implantar aquilo nos meus sonhos como uma pegadinha muito sem graça? Honestamente, eu não duvidava de nada vindo dos três.
- Que dia é hoje?
fez uma careta, parecendo achar graça em minha pergunta.
- Sexta-feira. O que tem de errado com você?
- Não. Qual a data de hoje? Dia, mês e ano.
- Cinco de outubro de mil novecentos e noventa e seis.




Continua...



Nota da autora: oiiiiiiii mozinhos
ahhhh, juro que eu fui transportada pro passado escrevendo essa fic hahaaha a vibe me lembra demais as histórias antigas e levinhas do site. apesar do Dougie ser meu pp fixo em praticamente tudo o que escrevo, nunca escrevi algo propriamente voltado ao mcfly. é uma vontadezinha que tá em mim há tempos, mas nunca tive coragem de me arriscar antes.
a ideia de encaixar o mcfly nessa história (que, sim, é inspirada em midnight in paris) veio de uma frase solta que tá nesse capítulo e provavelmente passou despercebida. tava vendo o documentário do mcfly no japão e o mozão falou que tinha assisto inception e sonhado com o filme hahahaha será que arrumo qualquer desculpa pra escrever fanfic?
apesar de o começo sempre parecer mais lentinho, espero que tenham gostado desse primeiro capítulo. o que vocês esperam acontecer nessa aventura? palpites, sugestões? me contem tudo!!!
beijinhos e nos vemos na próxima atualização <3

*Essa história mistura fantasia e realidade. Alguns detalhes foram alterados para se encaixar no enredo.





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Nota da Scripter: Julia do céu, eu tô besta. Cadê o resto, mulher?
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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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