My Romance

Última atualização: 01/09/2021

Prólogo

Viajar com um membro da realeza era definitivamente diferente de tudo que ele já havia feito antes. O avião particular mais parecia um hotel de luxo ou um teatro de grandes produções: tinha detalhes dourados, que possivelmente eram de ouro, com assentos de couro branco e fotos do Elton John. Era estranho isso, estar usando avião privado de um dos maiores cantores do mundo, mas lá estava ele. Sir Elton, quando soube que e Lola iriam retornar à Inglaterra, fez questão de mandar seu avião particular para buscá-los em Nova Iorque. Ele adorava Lola - e quem não adorava? - e era seu padrinho. Bem, pelo menos padrinho de consideração, já que Lola nunca teve um batizado ou algo do gênero. Mas Sir Elton a adorava e não deixaria sua afilhada de consideração voar em um avião comercial, de jeito nenhum.
Era muito mais fácil viajar desse jeito. já havia feito milhões de viagens no seu tempo como ator, voando de set a set em aviões desconfortáveis, esperando horas na imigração e segurança. Ele odiava tudo aquilo, então gostava das vantagens de viajar desse jeito. A segurança funcionava para eles e por eles: eles nem tiveram que tirar os sapatos e casacos. Uma breve inspeção de rotina foi feita apenas por protocolo e logo eles foram liberados para embarcar. Um carro os levou até o avião e toda a documentação necessária para viajar foi cuidada por um assessor da realeza.
Ele estava tomando uma taça de vinho branco enquanto Lola dormia, assistindo às nuvens que ficavam mais espessas conforme eles se aproximavam da Inglaterra. Era uma mudança de cenário, definitivamente. No último ano, ele e Lola ficaram na casa de seus pais, em Middletown, uma cidade do interior de Nova Iorque, que ficava há duas horas da capital do estado. Era uma vida tranquila que eles levavam - tomavam sorvete de iogurte na frente do mercado, caminhavam pelo centro da cidade sem seguranças os seguindo, passeavam no parque e jantavam em família na varanda. Era uma boa vida, uma vida tranquila, mas não podia durar para sempre.
Tinha sido um acordo entre e a família de Lola. Eles passariam um ano longe, para o bem da garota. precisava de apoio para cuidar da menina e só poderia ter isso em sua casa, com seus pais o ajudando. Por mais que os avós de Lola fossem carinhosos e prestativos, as coisas eram muito mais complicadas quando se vivia num castelo com a maior autoridade da monarquia atual.
Então, aceitou a chance assim que lhe foi dada e voltou para os Estados Unidos, sentindo como se aquele tempo em casa pudesse curá-lo. Mas não pôde. Nem todo tempo no mundo poderia resolver a bagunça que ele estava.
Ele fez o que pôde com o que tinha. Ainda estava fragilizado e mal conseguia dormir, e cuidar de Lola era definitivamente um desafio. Mas ele tinha a ajuda dos pais, que largaram tudo para ajudá-lo a criar a filha por aquele ano. Agora que voltava para a terra natal de Lola, ele estava assustado demais, morrendo de medo de como tudo seria. As coisas eram complicadas com a família real e todo mundo sabia, ele sabia quando se meteu naquilo tudo. Mas não se arrependia, de forma alguma. Não trocaria o que tinha por nada naquele mundo.

- Senhor - Uma aeromoça chamou sua atenção - Estamos prontos para aterrisar. Existe mais alguma coisa que posso fazer pelo senhor? - O loiro balançou a cabeça negativamente e a aeromoça sorriu ao se afastar.

Logo, tudo seria diferente. Toda a sua vida estava prestes a mudar mais uma vez e ele não sabia se estava preparado para lidar com tudo aquilo. Mas ele sabia que não tinha muita opção, então apenas respirou fundo e se ajeitou na cadeira de couro extremamente confortável. Quando ele abrisse os olhos, teria uma nova vida. Pelo menos, ele não estava sozinho nessa loucura toda.


Capítulo 1

- Foi uma merda! - falou ao se jogar na cama, soltando um murmúrio de cansaço - Desculpe.
- Eu já disse que não precisa me pedir desculpas toda vez que você fala palavrão - Jon resmungou e ouviu uma risada de - Não é como se eu fosse te pedir para fazer uma penitência ou algo assim.
- Você é um padre legal - disse em tom de risada e logo o irmão concordou.
- Eu sou um padre legal - Jon repetiu, mas logo mudou o tom da conversa - Mas agora me diz, o que pode ter acontecido de tão errado desde que eu te vi 24 horas atrás?

fechou os olhos, recordando o dia que estava finalmente chegando ao fim. Ao chegar ao Palácio, teve aquela visão que era sempre esplêndida e o deixava meio embasbacado conforme o carro atravessava os portões. Ele viu Lola se endireitar na cadeirinha, tentando ver mais do palácio e abriu um sorriso com aquilo.
Logo estavam estacionados no portão principal e a loucura começou. Diversas pessoas apareceram, todas em ordem, para pegar as malas com rapidez e perfeita organização. Não deu nem tempo de se esticar para tirar Lola de seu assento, pois logo uma mulher - que ele reconheceu como a babá que cuidou da menina quando ela nasceu - surgiu, tirando Lola dali com maestria. A porta ao seu lado foi aberta por um rapaz que aparentava ser jovem demais para estar trabalhando e logo ele saiu do carro, sentindo o ar gelado do verão londrino. Apesar da onda de calor que invadia o país, aquele dia parecia um pouco mais gélido do que esperado. usava uma blusa de manga comprida em um tom de cinza escuro e calça jeans - e ele se arrependeu de ter guardado seu casaco na mala de mão.

- Senhor - Um dos milhares de homens que usavam ternos pretos falou. Todos eram iguais e acenou educadamente - Por favor, me acompanhe.
- Lola, vamos - Ele estendeu a mão para a filha, que já estava de mãos dadas com a babá. A garotinha sorriu, andando em seus passos desengonçados até o pai - Obrigado - Ele agradeceu e a mulher acenou, se juntando à linha de homens e mulheres que havia se formado para recebê-los.
- Vossa Alteza Real Príncipe Albert e Vossa Alteza Real Duquesa Renée estão à sua espera no salão 1844.

Eram 775 cômodos naquele palácio e sempre se via perdido quando adentrava. Por mais que tivesse morado lá por quase um ano e aquela fosse ser sua residência por algum tempo, era tudo muito imponente: A decoração vitoriana era cheia de ouro e pompa e provavelmente um tapete daquele lugar valia mais do que sua casa em Middletown. Lola ficou cansada de andar antes mesmo da metade do caminho e a carregou no colo pelo restante do percurso até o salão 1844. Era ali que as fotos de Natal eram tiradas e que as reuniões oficiais aconteciam, mas era também a onde a realeza marcava os encontros. Talvez por ser o local mais conhecido do palácio, talvez por ser um dos maiores e mais fáceis de encontrar, ele não sabia direito - e nem ia perder tempo perguntando, se não ia ganhar uma aula de doze horas sobre a história do palácio do avô de Lola.
Assim que pisaram no salão 1844, um homem anunciou:

- Vossa Alteza Real Lourdes e Senhor - Ele sempre achava engraçado quando se referiam a Lola como Lourdes e como a chamavam de Sua Alteza Real. Ela nem tinha três anos ainda e tinha um título desses! Era algo surreal. logo voltou à realidade e abriu um sorriso quando viu os avós de Lola se aproximando.
- Lourdes, minha querida - Renée falou, se abaixando para receber um abraço da neta, que foi prontamente posta no chão e correu para os braços da avó. Por mais que ela não visse essa parte da família há um ano, ela ainda falava com eles diariamente pelo telefone e se lembrava, pelo menos, dos avós - Minha nossa, como você cresceu! Está enorme, veja isso, Albert.

reverenciou o príncipe e a duquesa com um aceno simples, porém formal. Era estranho ter que voltar a fazer essas coisas fora de um filme de época, mas tudo bem, ele iria se acostumar com isso em algum momento.

- , querido, como vai? - Renée disse com um sorriso no rosto, segurando a neta em seu colo - Você parece ótimo.
- Eu estou bem, duquesa. Muito obrigado pela recepção e por ter nos trazido de volta.
- Aquilo tudo foi sir Elton - Foi a vez de Albert falar - Ele mal pode esperar para ver vocês. Olá, meu docinho, como você está?
- Meeeoww - Lola respondeu, causando risadas nos avós e fazendo o pai sorrir meio envergonhado. O fato da garota decidir se comunicar como um gato no reencontro com seus avós da realeza não era lá muito empolgante. Eles provavelmente implicariam com isso depois.
- Agora em inglês - falou e a menina apenas riu. Aquelas bochechas rosadas que envolviam um grande sorriso sempre derretiam o coração de . Lola era um presente, definitivamente. Ela era especial e doce, derretia o coração de todos.
- Ela está igualzinha à - Renée falou com um sorriso entristecido no rosto. Ele pôde ver o pesar no olhar da mulher, mas logo ela pareceu afastar aqueles sentimentos - , você deve estar exausto da viagem. Se quiser se retirar até a Majestade estar pronta para te receber.
- A majestade gostaria de me ver? - Ele engasgou, um tanto nervoso.
- Sim - Renée respondeu - Ela gostaria de discutir a questão da sua moradia e da educação de Lourdes.
- Sim, claro, com certeza - Falou, nervosamente. A duquesa sorriu e se virou para brincar com a neta - Até mais tarde, alteza.
- Bem vindo de volta, rapaz - O príncipe falou - Estamos todos muito felizes em ter vocês de volta.

respondeu com um sorriso e logo foi guiado para seus aposentos. O quarto que ficaria era maior do que seu apartamento em Nova Iorque e tinha enormes janelas com pesadas cortinas brancas. Suas poucas malas já estavam ali e em breve ele sabia que seriam desfeitas e arrumadas perfeitamente nos armários. Ele não sabia por quanto tempo ficaria no palácio, afinal, a rainha queria discutir sua moradia. não tinha pensado muito nisso antes, ele simplesmente achou que ficariam no palácio. Por algum motivo que ele não sabia, Albert era o único filho da rainha que ainda morava no palácio de Buckingham. Todos os outros tinham residências em Surrey ou moravam em outros palácios pela Inglaterra. Albert trabalhava lado a lado da rainha, apesar de ser o oitavo na linha de sucessão ao trono - ficando atrás do irmão mais velho, dos sobrinhos e dos sobrinhos netos. Ele era o terceiro filho da rainha, o segundo homem, e nasceu sendo o segundo na linhagem ao trono - mas foi perdendo o posto com a chegada dos novos membros da realeza. Lola era a décima na linhagem para o trono, o que era absurdamente estranho. Sua filha era da realeza e ele nunca ia entender como ele havia entrado nesse filme distópico da Disney onde as fadas não existiam, mas os monstros eram muitos.

- Então você falou com a rainha? - Jon perguntou, se sentindo um pouco angustiado pela situação do irmão. Ele também ficaria bem nervoso se tivesse que falar com a rainha da Inglaterra. Provavelmente, não saberia o que falar e isso era algo raro de acontecer, pois ele sempre sabia o que falar.
- Sim. É tão estranho isso. Eu literalmente acabei de falar com a rainha - contou entre risos nervosos - Eu tinha me esquecido como isso tudo é surreal.
E tinha sido realmente surreal. foi chamado por volta das cinco da tarde para tomar chá com a rainha em um aposento perto do jardim. Lá dentro era tudo tão calmo que era fácil esquecer que aproximadamente oitocentas pessoas moravam lá. Ele podia sentir sua respiração falhar enquanto caminhava até a sala, pensando em todas as possibilidades que o rumo da conversa poderia tomar. A rainha era uma mulher imprevisível. Nas muitas vezes que havia tido a honra de encontrar-se com ela, a Rainha Elizabeth sempre fora muito calma e simpática. Sorridente, segurando sua bolsa e com cabelos perfeitamente penteados, ela tinha aquela presença imponente, mas era apenas uma pequena senhora adorável. Porém, ele já tinha escutado histórias sobre o temperamento forte da monarca e preferia sempre estar em seu agrado.

Quando sua presença foi anunciada, a rainha desviou seu olhar da janela para e ele sentiu seu corpo congelar. Se ela era uma reptiliana ou não ele não sabia, mas, definitivamente, ela tinha um olhar que podia matar qualquer um do coração. a reverenciou e ela estendeu a mão direita para um aperto de mão. Duas balançadas, olhando diretamente nos olhos da rainha, ele podia sentir sua alma saindo do corpo.

- Como vai, senhor ? - Ele tinha trinta e seis anos, era absurdamente estranho ser chamado de senhor, mas ele apenas sorriu.
- Excelente, vossa majestade - Ela apontou para a poltrona a sua frente e logo sentou. Com um aceno chá foi servido para ele, que agradeceu a gentileza. Era tudo muito rápido por lá.
- Ótimo - A Rainha sorriu - Estamos radiantes com a chegada de Lourdes ao palácio. Porém, tenho algumas preocupações que gostaria de discutir com você. - Claro - Ele segurou as mãos, que estavam suadas, e ficou preocupado se a rainha tinha percebido que suas mãos pareciam manteiga. - Não houve nenhuma melhora, como você sabe - assentiu pesarosamente - E eu estava pensando, junto a Albert, que talvez fosse melhor vocês irem para alguma de nossas residências no campo. Nós providenciaremos tudo, obviamente, para que vocês tenham todo conforto. Quando Lourdes chegar na idade escolar, quem sabe, vocês poderiam retornar para Londres. Mas talvez agora a melhor coisa para vocês seria ficar em um ambiente mais sereno. O que você acha, Senhor ?
- Eu… Eu acho incrível, vossa majestade. Não queremos dar trabalho.
- Ora, não será trabalho nenhum. É um prazer ter a pequena Lourdes por aqui, mas não consigo imaginar uma criança crescendo em tais circunstâncias atualmente - Ela deu de ombros e sorriu. Logo trocou a bolsa que carregava de lado e soube que era hora de partir.
- Muito obrigado, vossa majestade.
- Espero ver o senhor e Lourdes mais tarde no jantar. Convidei William, Catherine e as crianças para recebê-los. Eles ficaram muito alegres ao saber do seu retorno.

agradeceu novamente e reverenciou a rainha mais uma vez, antes de ser escoltado para fora do salão. Ele nem tinha tocado no chá que lhe fora servido, mas era melhor assim, pois, além de odiar chás, ele queria realmente sair da presença da rainha para poder respirar normalmente.
A notícia foi boa. Seria um alívio não ter que morar naquele lugar com tanta gente, tanta informação. Ele gostava do campo, seria um bom ambiente para Lola crescer. Poderia criá-la com mais liberdade. Ainda que, se os avós de Lola fossem morar com eles, as coisas acabariam sendo quase iguais as no palácio, seria melhor do que viver no centro da monarquia moderna.
Então, quando ele se deitou na cama, se sentiu aliviado. Despediu-se do irmão e ficou olhando para o teto por algum tempo, pensando no dia que tivera e na vida que ia levar dali em diante. Ele sempre soube que seria difícil, mas nunca pensou que fosse ser tão difícil assim.
Foi então que, finalmente, ele tomou coragem de fazer aquilo que mais precisava. Respirou fundo ao levantar-se da cama, sentindo todo o seu corpo arrepiar; aquele nervoso que fazia parecer que aquela seria a primeira vez que a veria. Mas era como se fosse a primeira vez, de qualquer jeito. Ele sempre se sentia assim, com o estômago revirado e com as mãos suadas, quando atravessava o corredor em direção ao quarto.
Abriu a porta, sendo tomado pelo ar gelado do cômodo. Apesar de ter a mesma decoração vitoriana, aquele quarto não era como os outros do palácio. Ele sentou-se na cadeira ao lado da cama e abriu um sorriso, apesar de seu coração estar totalmente partido.



Capítulo 2

They've managed to get rid of me
I'm gone without a trace,
But sear the soul and leave a scar
No treatment can erase.
They cut away the cancer,
But forgot to fill the hole;
They moved me from your memory
I'm still there in your soul.
Aftershocks - Next to Normal


e Lola chegaram ao salão um pouco suados depois de atravessar o que parecia ser o palácio inteiro. Ele não sabia como a Rainha, em seus 94 anos de idade, conseguia fazer tudo aquilo e continuar viva. Provavelmente, existia um elevador ou uma passagem secreta apenas para ela e para o duque de Edimburgo usarem. Se ele, nos seus 36 anos, se sentia exausto e dolorido depois de subir as escadas, nem podia imaginar como a Rainha se sentia.
Logo que entraram foram anunciados - Senhor e Vossa Alteza Real Lourdes - e os acenos e cumprimentos começaram. teve que segurar a filha um pouco mais apertado, para que ela não saísse correndo para os braços dos avós ou fosse direto brincar com os primos. Se era chato para ele ter que falar com tantas pessoas, imagine para uma criança daquele tamanho?

- , como vai? - Príncipe William, que estava perto da porta, foi o primeiro a falar. Ele estendeu a mão para , que logo retribuiu, e os dois sorriram um para o outro - Como foi a temporada nos Estados Unidos?
- Ah, foi excelente - disse, tentando parecer calmo. Ele estava à frente do futuro rei da Inglaterra e ele parecia mais calvo do que da última vez. só conseguia olhar para suas entradas evidentes - Lola, digo, Lourdes adorou - Ele corrigiu rapidamente, pois apelidos não eram comumente permitidos entre a realeza. Claro que alguns passaram, como Harry e , mas não era muito comum. Por ser tão extremamente de fora da realeza, preferia manter as normas para não ter nenhum problema.
- Nós estivemos nos Estados Unidos recentemente - William falou - Fomos a um jantar na casa branca. Aquele homem definitivamente é algo fora do comum - soltou uma risada - Para não dizer completamente pirado. Não conseguia olhar para ele sem ter vontade de rir.
- Ele definitivamente é…
- , como vai? - A duquesa Catherine disse, interrompendo a conversa com seu enorme sorriso - Lourdes, querida, como você cresceu!

gostava muito de Will e Kate. Eles eram quase pessoas normais, apesar de serem perfeitos e educados demais para serem humanos. Eram sempre muito simpáticos e solícitos, com seus sorrisos largos e conversas agradáveis. Uma coisa que o confortava era saber que Lola iria crescer com seus primos, os filhos de Will e Kate, e não ficaria totalmente sozinha e isolada nessa vida absolutamente louca de realeza. Mesmo que se eles se mudassem para o campo, eles ficariam um tanto afastados, mas não era nada que o desesperasse tanto - como todas as outras coisas que o deixavam completamente maluco.

- Grande! - Lola falou toda empolgada. Kate pediu para segurá-la no colo e logo a menina se juntou aos primos mais velhos.

Logo, o príncipe Philip, o príncipe Charles e o príncipe Albert se juntaram numa conversa agradável sobre polo, que não entendia bem. As mulheres, incluindo Lola e a rainha, estavam sentadas perto da janela. Lola ria ao falar com a bisavó e só pode sorrir, desejando tanto que estivesse ali para ver como as coisas tinham dado certo. Como tudo tinha ficado bem. Seu coração se encheu daquele sentimento esquisito que nunca passava, era como se todo o seu corpo estivesse sendo tomado por um vazio, como se ele estivesse sendo engolido vivo por um buraco negro. Suas palmas das mãos estavam suadas e logo ele sentiu um tremor invadir seu corpo. Ele tentou agir como se nada estivesse acontecendo, mas sabia que estava.
sorriu por todo o jantar, sentindo aquele vazio se expandir a cada segundo. A conversa desinteressante o mantinha ali. Ele prestava atenção em cada palavra para não focar no que estava sentindo. Sua cabeça parecia pesar e o ar lhe faltava. Quando a Rainha colocou os talheres, dando a entender que o jantar havia terminado, se sentiu aliviado. Despediu-se de todos o mais rápido que pode, sendo o mais educado possível, com um sorriso amarelado e testa suada. Levou Lola até seus aposentos, onde uma babá a esperava e informou que colocaria a menina para dormir. Era tudo muito estranho, pois ele estava acostumado a ter aquela rotina com Lola, colocá-la para dormir e ficar com ela por algumas horas ao seu lado, apenas a olhando, até que ele conseguisse relaxar o suficiente para dormir. Mas naquela noite, na primeira noite de volta ao palácio, ele decidiu seguir pelas regras. Despediu-se da filha com um abraço apertado, que lhe trouxe lágrimas aos olhos, e foi o mais rápido possível para seu quarto.
Suas mãos estavam tremendo mais do que ele gostaria de assumir. Seus olhos ardiam e aquele vazio já não consumia apenas o seu peito, mas sim todo o seu corpo. Sua garganta estava seca e faltava-lhe ar.
Ele deitou na cama, olhando para o teto, tentando focar sua visão no lustre. Era um belo lustre, deveria ser bem caro. Será que estava limpo? Ele não sabia, mas precisava saber. De repente, ele se sentiu inquieto, uma onda de adrenalina o invadindo, e ele começou a revirar o quarto em busca de coisas que podia usar para limpar o lustre. Ele nem conseguia alcançar o lustre, apesar de ter tentado, e aquilo lhe causou tremenda frustração.
Antigamente, quando ele se sentia frustrado ou abatido, ele cantava. Era um grande fã de música pop. Sempre descontava suas frustrações em canções da Taylor Swift enquanto dirigia de um ponto a outro em Midtown. Gostava de ouvir os clássicos, como Frank Sinatra e Elton John, e às vezes se pegava ouvindo um pouco de country por influência de seu pai. Mas ele sempre voltava para os showtunes. Amava as canções da Broadway com todo o seu coração. Elas o transportavam para outro mundo, para outro universo. Era como se vivesse uma vida dentro de sua própria vida.
Mas agora, enquanto estava abalado e abatido, ele não conseguia pensar em música. Sua cabeça ecoava. Fazia tempo que não ouvia nada, que não pensava em música. Nem cantar para Lola ele cantava mais. Nunca pensou que fosse chegar ao ponto de enjoar de música, mas ele havia enjoado. Não se sentia mais capaz de usar a sua voz, era como se sua garganta estivesse fechada.
Então, agora, enquanto seu corpo parecia falhar e ele ia se sentindo mais perdido e fraco, tudo que ele podia repetir era um mantra que havia lido em algum lugar: Você não quer morrer essa noite. Você não quer morrer essa noite. Era tudo que ele podia pensar e repetir. Você não quer morrer essa noite.
Era o único jeito de afastar aqueles pensamentos, que tão sorrateiramente invadiam sua mente. Ele tinha que se agarrar a algo de qualquer jeito, qualquer coisa que o fizesse continuar já era o suficiente.
fechou os olhos. Sua mente o traía, o levando para lugares sombrios. Mesmo em seu pior pesadelo, em seus pensamentos mais pessimistas, ele jamais havia pensado que chegaria aquele ponto. Mas, quando se está no fundo do poço, tudo que você pode fazer é cavar para ir mais para o fundo. Então se levantou, tomou seus remédios prescritos por um médico judeu com problemas de audição e deitou-se no chão. Era frio ali, apesar do carpete, mas era melhor do que na cama. Deixou os remédios fazerem seus efeitos, sentindo seu corpo relaxar, mas nunca totalmente.

Você não quer morrer essa noite foi seu último pensamento antes de dormir.


Capítulo 3

But baby, you gotta believe me when I say
I'm helpless without you
Love has flown
All alone, I sit, I wonder why
Oh, why you left me?
Sandy - Grease


- Como você está? - Jon perguntou assim que o irmão atendeu a ligação. Ele estava preocupado, obviamente. Quem não estaria? Jon, apesar de ser cinco anos mais novo que , sempre cuidou do irmão. Era Jon que o consolava por papéis perdidos em filmes e peças; era Jon quem o ajudava a se recuperar do coração partido; e agora era Jon quem ajudava a botar sua cabeça no lugar. Podia ser sexto sentido de irmãos, mas Jon normalmente sabia quando não estava bem, o que ultimamente era mais frequente do que ele gostaria de assumir. E aquele era um desses dias.
- Ótimo - disse com sua voz mais convincente. Ele podia estar enganando as pessoas daquele castelo, afinal, elas não lhe davam muita atenção. Era como se fosse parte do papel de parede do castelo. Eles podiam saber de sua presença, mas não percebiam que ele estava lá. Ele comparecia aos jantares e tomava chá da tarde com duques e princesas, mas como não fazia parte da família real, não tinha um trabalho ou algo assim. Era um agregado, basicamente.
Ele acordava cedo, antes de baterem à sua porta para avisar que o café da manhã havia sido servido. Tomava um banho longo e bem gelado para espantar tudo que estava sentindo na noite anterior. Depois, ia até Lola e quebrava os protocolos, ajudando a garota a se preparar para o dia. Os dois tomavam café da manhã juntos, às vezes acompanhados do príncipe Albert e da Duquesa Renée, às vezes sozinhos, dependia muito dos compromissos da família naquele dia. Depois, Lola era levada por tutores, que a ensinavam coisas básicas e muito maduras para uma criança de um ano e quatro meses. Ela tinha aulas de etiqueta e até mesmo já sabia reverenciar a rainha - o que achava a coisa mais adorável e precoce do mundo. Ela estudava francês, como todos os membros da realeza. Tudo era ensinado por tutores que realmente se importavam com ela e, para Lola, tudo aquilo era uma grande brincadeira. Às vezes, podia ficar e ver as aulas, mas na maioria dos dias não era permitido, então ele ia correr pelos jardins da Rainha. Fazia isso algumas vezes por dia e estava na melhor forma que um dia já esteve, até mais do que quando tinha que subir e descer um bilhão de escadas em Next to Normal, ou dançar por horas a fio em Wicked.
Depois do almoço, ele passava um tempo com Lola. Brincavam nos jardins, pintavam e dançavam juntos. ficava impressionado com o quanto a menina estava crescendo e se desenvolvendo bem. Ela era uma criança muito engraçada e divertida, sempre fazendo graça e se exibindo para todos ao seu redor. Ria de tudo e para tudo; adorava os cachorros da rainha e seu conto de fadas favorito era o da Branca de Neve.
Ao entardecer, boa parte da família real que morava no castelo se reunia para tomar chá e comer biscoitos, juntos aos cachorros e às crianças. Lola, no começo, corria sem parar de um canto a outro, rindo e falando alto, mas agora já estava se comportando mais nos padrões da realeza, o que para era uma pena. Ainda assim, ele sabia que era melhor ela ir se adaptando aos moldes da família real, já que aquela era sua família, e seu futuro era ali, com eles.
Depois, levava Lola para dormir e seguia para o quarto no fim do corredor. Ficava lá por algumas horas, lendo ou falando com os amigos por mensagem. Quando era hora de dormir, ele apenas se despedia e voltava para seu quarto, tomava seus remédios e tentava dormir o mais rápido possível.
Havia muitas regras a serem seguidas e tentava entender e respeitar todas. Ele tentava, na maioria das vezes, em vão se encaixar naquele mundo. Mas não conseguia e aquilo pesava mais nele do que gostaria de assumir.
Mas aquilo era o de menos. Ele podia lidar com a apatia monarca facilmente se não se encontrasse na situação que estava.
Desde que chegou no palácio, tudo havia ficado mais confuso. Nos tempos em que esteve na casa dos pais era mais fácil esconder sua dor. Ele cuidava obsessivamente de Lola e aquilo ocupava sua mente. Mas, agora, nesse lugar onde tudo era feito para ele, seus pensamentos facilmente iam para aquele lugar sombrio.
E, além do mais, tudo lhe lembrava . Aquele palácio lhe trazia tantas memórias, tantas lembranças tão boas, que ele se via perdido nelas mesmo quando não percebia. E isso estava afetando seu emocional - e seu corpo - mais do que ele conseguia colocar para fora em palavras.
Suas mãos estavam sempre tremendo e não era por causa do clima da Inglaterra. Estava sempre enjoado e tinha dores de cabeça bem fortes. Nunca estava se sentindo bem, ou ao menos confortável. E Jon sabia bem disso.
- Sua voz mudou - Jon comentou calmamente. Não queria assustar o irmão ou pressioná-lo, mas sabia que aquela conversa não seria lá muito agradável - Mal parece você.
- Não seja ridículo - falou - Minha voz está a mesma. Talvez eu esteja ficando um pouco resfriado.
- Você sabe que pode voltar para casa se quiser, não é?
- E deixar a Lola sozinha? - Sua voz, dessa vez, mudou. Ficou um pouco mais trêmula. Não era como se ele não pensasse nisso todos os dias. Tudo que queria era poder voltar para casa e fugir daqueles fantasmas que o assombravam, que agora estavam mais perto do que nunca.
- Não é como se você fosse um prisioneiro, - Jon disse - Eu aposto que se você conversar com a Rainha, ela vai entender.
- Ela já quebrou regras demais me deixando ficar esse ano longe - Ele falou pesarosamente - Eu tenho que ficar aqui, eu tenho que estar com ela.
- Você realmente acha que é isso que iria querer para ela? Pra você?
- Como eu vou saber o que ela iria querer, Jon?- Seu sangue pareceu ferver e ele sentiu seus olhos queimarem, falando mais alto do que deveria. Apesar de estar bem afastado no jardim, ele estava com uma governanta enquanto Lola corria alegremente pelo vasto campo verde. A governanta olhou para ele e tudo que pôde fazer foi acenar para ela, o que provavelmente pareceu falso demais - Ela não está aqui pra me ajudar nessa.
- Eu sei, eu sinto muito por isso, mas…
- Não tem mas nenhum, Jon. Eu tenho que me virar nessa bagunça, sozinho.
- Você não está sozinho…
- Eu sei, eu tenho Deus - se ajeitou no banco, respirando fundo. O irmão riu.
- Sim, claro. Mas não é sobre isso. Talvez mamãe possa ir passar uns tempos com você…
- Jon, não sei se você entende, mas não funciona assim. Eu tenho que ficar aqui e eu tenho que fazer isso sozinho.
- Tudo bem, . Mas você sabe que não precisa necessariamente ser assim. Eu li que a princesa Kate tem ajuda dos pais quando viaja. E eu posso pedir um afastamento e ir ficar com você.
- Você acabou de conseguir seu ministério, Jon. Eu não seria louco de te pedir isso. Mas obrigado por tentar, de verdade. Eu vou ficar bem, eu só preciso de algum tempo para colocar minha cabeça no lugar - Repetiu a frase que vinha falando no último ano para todos que lhe perguntavam como ele estava.
- Você tem todo o tempo do mundo. Não deixe isso te matar, cara. Não foi sua culpa. desligou a ligação se sentindo mais lixo do que nunca. Ele podia saber que não havia sido sua culpa, mas mesmo assim isso não tornava nada mais fácil. Quanto mais ele pensava no que tinha acontecido, mais culpado se sentia. E a culpa era algo pesado demais para ele carregar.


Capítulo 4

Every now and then
A madman’s
Bound to come along.
Doesn't stop the story-
Story's pretty strong.
Doesn't change the song…
The ballad of Booth - Assassins


Era um jantar oficial para comemorar o fim do maldito verão que trouxe uma onda de calor absurda para a Inglaterra. Todos estavam de péssimo humor devido ao calor, apesar de terem dias lindos e quentes, ninguém realmente aguentava mais aquela temperatura quente. O outono estava chegando, trazendo os Pumpkin Pie Lattes e as folhas caindo. Lola estava empolgadíssima com aquela festa de fim de verão nos jardins da Rainha. Usava um lindo vestidinho de mangas rosa com detalhes em renda e seus poucos cabelos ruivos estavam adornados com um lacinho da mesma cor. A festa, que aconteceria durante a tarde, teria os membros da família - que já eram suficientes para encher um auditório! - e as melhores comidas que a Inglaterra podia oferecer. Não era lá um churrasco americano com cachorro-quente e salada de batata, mas era o mais próximo de reunião familiar que Lola teria durante um tempo.
O jardim já estava cheio, todos bem arrumados com suas taças de champanhe e seus perfumes caros. foi andando, timidamente, entre as pessoas. Cumprimentava uma ou outra quando era reconhecido - para muitos, ele ainda era o ator americano que havia invadido a família real. Logo, ele avistou príncipe Albert conversando com príncipe Harry, que, como sempre, foi muito simpático ao vê-los.
- Lola, como você está enorme! Venha cá, minha companheira de cabelos! - Harry falou, abrindo os braços para a prima. sorriu com a cena, pois era sempre bom ver que Lola era querida pela própria família.
- Ruivo! - Lola contou a palavra que tinha aprendido essa semana, impressionando o pai, que só faltava se derreter pela menina.
- Bate aqui! - A garota o fez, causando risadas em - Como vai, ? Se adaptando à vida no palácio?
- Ele já está se enturmando. Só falta aprender a jogar squash - Albert contou, apesar de não ser muito verdade. Ele nunca tinha convidado para jogar squash.
- Excelente! - Harry comentou - Aliás, qual é o seu time de futebol?
- Dallas Cowboys - Falou, sem nem perceber, e Harry começou a rir - É mais forte do que eu.
- Com tanto time no mundo… - Harry falou - Você precisa aprender a torcer pelo nosso futebol. Estamos marcando de ir ao jogo do Arsenal contra Real Madrid essa semana, você gostaria de ir?
- Wow, claro! - respondeu, um tanto surpreso - Eu tenho amigos no Real Madrid, na verdade. Vai ser ótimo.
- Então, está combinado! - Harry sorriu antes de pedir licença e se retirar.
- Bom trabalho, garoto - Albert disse, dando dois tapinhas no ombro de , que estranhou, mas ficou quieto. Logo, o mais velho se retirou, deixando e Lola sozinhos no meio do gramado.
Um sorriso amarelado estava em seu rosto e seus olhos ardiam. Suas mãos tremiam, mas ele não deixaria Lola notar qualquer coisa. Logo, a garota viu seus primos e foi até eles, deixando sozinho ali. Aquele sentimento que sempre vinha o deixou tonto e ele precisou sair dali para buscar ar, por mais que estivessem em ambiente aberto.
Ficou sozinho por algum tempo, suas mão trêmulas, tentando respirar melhor. Nem percebeu quando o futuro Rei da Inglaterra - isso é, se Elizabeth um dia fosse descer do trono - chegou até ele.
- Espero não ter te assustado - Príncipe Charles falou com um sorriso no rosto - Como vai, rapaz?
- Bem, vossa alteza - Disse ao reverenciar o homem.
- Faz tempo que não te vejo. Você estava na América, não é mesmo? - assentiu positivamente - E como anda a situação? Nenhuma melhora?
- Nenhuma, senhor.
- Não é melhor simplesmente desligar os aparelhos? Eu nem imagino o sofrimento que isto causa a ela e ao meu irmão.
ficou sem saber o que falar, pois essa possibilidade nunca lhe passou pela cabeça e apenas a ideia dela o deixava com falta de ar. Precisou de alguns segundos para se recompor e o príncipe percebeu.
- Não quero me meter onde não devo, obviamente. Mas essa situação claramente já se estendeu por tempo demais. Talvez seja melhor começar a pensar nisso, pois mais cedo ou mais tarde vai acontecer - O príncipe falou e abriu um sorriso - Boa noite, rapaz.
não sabia o que dizer. Estava com raiva. Que atrevimento! Ele podia ser o futuro rei da onde fosse, mas ele não tinha o direito de falar aquelas coisas e sair como se nada tivesse acontecido. Como se não fosse nada.
A cada dia, ele acreditava mais que aquelas pessoas não entendiam o que estava acontecendo, ou acreditavam que a situação fosse ser contornada. Parecia que só ele continuava acreditando e isso o deixava louco.
Teve que se retirar. Não tinha jeito, ele tinha que sair dali. Lola ficaria bem, estava com os avós, tios e primos. Ele precisava dela, precisava vê-la, precisava ter certeza de que ela estava ali e que nada mudaria isso.
Foi andando em passos longos e rápidos até o quarto no fim do corredor, onde a realeza ficava. Não pediu licença, não esperou ser recepcionado, ele apenas entrou e segurou sua mão. Não conseguia falar, tinha um bolo em sua garganta e ele apenas podia chorar. E chorava muito, não conseguia parar nem para respirar. Estava guardando aquilo desde que havia chegado e o peso estava o deixando louco. E foi aí que ele sentiu algo, um toque dócil, mas firme, que o fez se afastar no susto. Sua cabeça estava lhe pregando peças e aquela era a mais dolorosa delas. Mas quando sentiu o aperto firme novamente em sua mão, não conseguiu conter o riso de surpresa e admiração.
Príncipe Charles podia enfiar aquela ideia no rabo.


Capítulo 5

Now that we've met one another
It's clear we deserve each other
You're perfect
You're perfect, so we're perfect together
Born to be forever
Dancing through life - Wicked


- Então, ela é tipo uma princesa de verdade? - perguntou a Jamie enquanto os dois caminhavam pelos corredores do Menier Chocolate Factory. Era o primeiro dia de ensaio e Jamie, um britânico conhecido por seu trabalho nas obras de Shakespeare, estava apresentando ao resto do elenco. Os dois haviam se conhecido poucas horas antes, mas já se davam muito bem, o admirava. Aliás, era impossível não admirar o ator de cabelos castanhos e pele clara. Ele era excelente no que fazia, tinha uma voz incrível e estava se tornando cada vez mais reconhecido. Assim como para , estar numa peça de Sondheim era um sonho e uma grande oportunidade para Jamie, pois atrairia muito a mídia. E estar numa peça de Sondheim sobre os homens que assassinaram os presidentes dos Estados Unidos ao lado de - que estava absurdamente na moda desde que estrelara em Les Miserables alguns anos antes - era algo muito bom. Os shows de lotavam qualquer cabaret musical e sua presença era altamente antecipada, pois seria sua primeira vez atuando na Inglaterra em um musical. já era querido pelo mundo todo com seu Enjolras, que partia corações e fazia meninas de quatorze anos ovularem, ou com Mike, sua personagem em Graceland. A série podia não ter o reconhecimento que merecia, mas tinha uma fanbase forte que sempre garantia que a série seria renovada.
estava na melhor fase de sua carreira, depois de ter sido rejeitado para o papel de Finn, em Glee - o que no fim das contas, fora melhor desse jeito -, por ser “perfeito demais, como um modelo da abercrombie”. Essas foram as palavras de Ryan Murphy sobre ele! Às vezes, ele pensava que podia escrever essas palavras e tatuá-las. Desde que começou sua carreira, ainda na faculdade, para entrar na turnê nacional de Rent - para depois voltar para o colégio por uns meses e logo sair para fazer Hairspray -, as coisas simplesmente aconteceram muito rápido e muito intensamente. Em menos de um ano, estava na Broadway. Ele tinha um papel principal numa peça da Broadway! Hairspray, o clássico Hairspray! Ele seria Link Larkin, na Broadway!
Dali em diante, tudo mudou para sempre. Em 2007, ele originou o papel de Gabe, num musical audacioso e emocionalmente intenso, chamado Next To Normal. Ele interpretava o filho morto da personagem principal. Ele cantava sobre suicídio e subia escadas. Todos, de repente, começaram a notar sua existência, seu poder e talento. De repente, ele estava em rádios e revistas, dando entrevistas, sem nem entender direito como tudo aquilo começou a dar certo e como ele estava sendo nomeado para prémios - claro, não para os Tony’s, mas tudo bem. Dois anos antes, ele estava na faculdade, sem um tostão no bolso, e agora ele tinha um apartamento em Astoria, onde podia trabalhar com o que mais amava. Entre uma peça e outra, acabou caindo em Wicked, como Fiyero - o papel que seu ídolo, Norbert Leo Butz, tinha originado. Ele nem conseguia entender em como estava nas mesmas roupas de Norbert, como estava tão próximo do homem que o inspirava. ouvia o cd de The Last Five Years todos os dias e pensava “um dia estarei trabalhando com Norbert Leo Butz”. Ele só não esperava que seu próximo grande show na Broadway seria com ele, com Norbert Leo Butz. Sonhos aconteciam mais rápido do que ele poderia esperar e ele tinha a impressão de que estava tudo indo rápido demais e ele gostava assim. Era pra ser assim.
Norbert e ele se tornaram melhores amigos, daqueles inseparáveis, que choram quando se veem depois de um tempo longe. Norbert viu em o filho que nunca teve e sentia-se acolhido por uma amizade mais forte do que ele mesmo podia entender.
Em agosto do mesmo ano, ele foi Roger em Rent, mas dessa vez no Hollywood Bowl, numa peça dirigida por Neil Patrick Harris. O pobre coração de não conseguia conter tanta alegria. Logo, ele estava de volta à Broadway com Catch me If you Can, que foi nomeada a todos os prêmios da noite. não foi nomeado a nenhum. Pela segunda vez. E foi aí que ele começou a se sentir um tanto para baixo, afinal, ele estava dando tudo de si e ainda assim não estava sendo reconhecido.
Começou a atirar para todos os lados. Começou a fazer pequenas pontas em filmes e séries de televisão; fez Gossip Girl e Law and Order. Se sentiu, por um momento, estagnado.
E então foi chamado para fazer Les Miserables e, no mesmo dia, recebeu a ligação para ser Mike Warren em Graceland. Ele havia atuado ao lado de seus ídolos, cantado no Oscar e tinha fãs por todos os cantos que imploravam por um pedacinho dele. Seu primeiro CD, gravado em 2013, foi sucesso de vendas e ele já estava pensando num próximo.
E agora, entre uma temporada e outra de Graceland, ele estava fazendo seu debut em uma peça de Sondheim, na Inglaterra. Com uma princesa e a mulher esquisita de The Office. 2014 estava sendo um ano surpreendente, cheio de trabalho e de coisas boas. Mas, pessoalmente, as coisas não iam lá muito bem. Seu relacionamento com Lauren tinha chegado ao fim depois de pouco menos de um ano alguns meses atrás. Ele tinha tentado manter o relacionamento o mais discreto possível, mas a diferença entre o trabalho dos dois acabou destruindo o relacionamento. Era estranho estar numa relação na qual os dois fossem tão diferentes, apesar de tão similares. E não era amor, definitivamente. Gostavam da companhia um do outro e aproveitaram esse tempo juntos, mas foi só isso. Cada um seguiu para o seu lado e nunca mais se falaram.
Mas ele estava na Inglaterra e as coisas só podiam melhorar dali para frente. Era uma nova vida, uma nova aventura. Ele estava feliz por ter aquela chance e estar reunido com alguns dos melhores artistas da West End - que era o equivalente da Broadway britânica -, numa peça tão icônica quanto Assassins. Ia se consolidar por ali, quem sabe entrar numa turnê europeia no verão e conseguir uns belos contatos para as próximas temporadas. Como ator, nada nunca era garantido e o sucesso podia muito bem desaparecer em questão de segundos.
- Sim, uma princesa de verdade - Jamie contou - Ela é neta da Rainha.
- Wow - Falou, um tanto chocado. Nunca tinha atuado com, nem visto para ser honesto, um membro da realeza - E ela vai ser…
- Squeaky.
- Da seita do Charles Manson? - soltou uma risada e olhou para Jamie, que assentiu - Estou um pouco chocado, devo assumir.
- Eu também! E foi algo de última hora, ela foi a última a ser escolhida para o elenco. Vamos, eu vou te apresentar a ela.
- O quê? Assim, do nada?
- Oras, estamos falando sobre ela, nada melhor do que você pôr uma face no nome.
- Mas eu nem sei o nome dela! - começou a seguir o colega, meio apressado, já que ele estava bem à frente.
- Vossa Alteza Real Princesa , Duquesa de Kent - Jamie explicou - Isso é muito estranho, mas é assim mesmo.
- Se você diz…
Os dois caminharam juntos até uma porta no fim do corredor com uma placa escrito Catherine Tate / HRH Kent. Jamie deu duas batidas e logo a porta foi aberta por uma mulher ruiva de meia idade, que logo reconheceu como Catherine Tate. Ele era fã de The Office, apesar de não gostar da personagem de Catherine, estava bastante empolgado em atuar ao lado de uma atriz que fez parte de um programa tão maravilhoso. Catherine abriu um sorriso e logo abriu a porta. Atrás dela, sentada em uma cadeira a frente da penteadeira estava uma mulher, também ruiva, em seus vinte e tantos anos. Ela logo se virou quando Catherine abriu a porta por completo. Usava uma blusa de gola alta preta e mangas compridas e diferentemente do que imaginava, não usava nenhuma jóia ou coroa.
- Olá, rapazes - Catherine falou com um sorriso no rosto - Ao que devo a visita?
- Estou apresentando ao elenco - Jamie respondeu, sorrindo também. só pôde sorrir, era a coisa mais educada a fazer. Catherine estendeu a mão e logo a apertou - Catherine, esse é o . , essa é a Catherine.
- Muito prazer - Ele respondeu. A princesa se levantou e foi até eles. não sabia muito como agir então fez uma reverência um tanto exagerada e a princesa começou a gargalhar num riso contagiante.
- Por favor, não faça isso! - Todos acompanharam as risadas e se sentiu um bocado idiota, mas quando viu as bochechas coradas da garota, acabou rindo também - Essas coisas são só para minha avó e olhe lá - Ela disse antes de estender a mão. - Me chamo , mas por favor, me chame de .
- Muito prazer, princesa… - já foi logo o repreendendo e ele se corrigiu - .
- Isso, só - Ela sorriu - Olá, Jamie. Essa foi boa.
- Eu disse que ele ia ter uma reação exagerada - Catherine comentou aos risos e Jamie concordou.
- Isso foi uma pegadinha? - se fez de chocado, olhando para Jamie cheio de surpresa. Jamie estava vermelho de tanto rir.
- A gente queria pegar no pé do americano novato - Jamie explicou - Foi ideia dela! - Ele apontou para , que cobria os lábios tentando segurar o riso.
- Eu achei que você ia beijar a mão dela, que nem nos filmes - Catherine continuou a rir - Isso foi ótimo. Há! Fez meu dia.
- O meu também - Jamie disse.
- Pois eu achei um absurdo! Só porque nós, americanos, não temos nenhuma noção de como nos comportarmos perante a realeza, vocês acham graça?
- Sim - Os três responderam e caíram na gargalhada.
- Eu estou absurdamente ofendido - também ria - Tudo bem, eu assumo que faria exatamente o mesmo se fosse ao contrário.

Os quatro conversaram por mais um tempo e logo foram chamados para começar o primeiro ensaio. Era uma peça enorme, com músicas poderosas, músicas em grupo cheias de coreografias e um bocado de sarcasmo e ironia. Afinal, era uma peça sobre como matar os presidentes dos Estados Unidos era a solução para todos os problemas do país e das pessoas. Era uma sátira ácida sobre a loucura por trás da liberdade americana. Quando soube que fariam o revival da peça em Londres, ela logo pediu para seu agente enviar uma fita com sua audição, mas não esperava ser chamada para fazer um teste, muito menos conseguir o papel. Sabia que sua família ficaria em choque e que os tabloides iriam pirar, mas não ligava muito para isso. Os tabloides só apareciam quando ela fazia alguma coisa errada, nunca quando fazia algo certo, então ia aproveitar a atenção para mostrar que era boa no que fazia; que não conseguia papéis apenas por ser neta da Rainha - o que, aliás, dificultava muito seu trabalho como atriz -, mas sim por seu talento. Ela era boa no que fazia, pelo menos ela achava, e nunca tinha recebido reclamações.
Seu currículo não era muito extenso. Havia começado alguns anos antes, quando tinha 22 anos. Agora, com 27, havia conseguido um dos melhores papéis: o da lunática Squeaky, seguidora e amante de Manson, que tentou assassinar o presidente Ford e falhou. Antes, sempre era a atriz substituta e seu maior papel até então fora como Nessarose, irmã de Elphaba, em Wicked. Ela amava Nessarose e tinha adorado seu tempo na peça, mas estava pronta para ser o nome principal das produções. Ainda não tinha chegado sua hora e, enquanto isso, ela aumentava seu currículo em peças como Assassins.
Fazer parte de um elenco tão poderoso, com artistas tão completos da TV, do cinema e do teatro era uma honra para . Mas, ainda assim, na maioria das vezes, sabia que sua presença incomodava os colegas. Em Wicked, demorou meses para conseguir fazer amigos e ainda assim sentia que as pessoas ficavam nervosas com sua presença. Mas agora, neste cast, ela havia dado sorte. Catherine era hilária e Jamie era um doce. Os três logo ficaram amigos e decidiram pregar uma pequena peça em . conhecia , todo mundo conhecia. Ele havia feito Les Miserables, um dos melhores filmes musicais de todos os tempos e era um nome conhecido na cena da Broadway. Ela estava atuando com um cara que cantou no Oscar! Isso era muito empolgante.
Apesar de ter uma família, digamos, um tanto influente e ser amiga pessoal de diversas celebridades - Elton John era seu padrinho! O que mais ela podia querer? -, preferia manter tudo separado na sua vida pessoal. Não queria atalhos ou facilidades. Queria estar lá por merecer.
Então, no fim daquele primeiro ensaio, ela arrumou suas coisas e saiu do teatro. Estava chovendo, como sempre, e ela logo avistou sem um guarda-chuva, procurando em seu celular alguma coisa. Ele parecia perdido e levemente desesperado.
- Precisa de ajuda? - perguntou, chegando ao lado do rapaz, que levou um susto. A barba dele estava começando a crescer em um cavanhaque engraçado e ela sorriu para ele, que a olhou em gratidão.
- Princesa! - disse e rolou os olhos, apesar daquele ser seu título oficial - Estou um pouco perdido.
- Para onde você vai? - se aproximou e seu guarda chuva cobriu , que sorriu aliviado.
- Canary… Wharf? - Ele ousou - Fica perto de um shopping.
- Você precisa pegar a linha Jubilee, a linha cinza - explicou - São só algumas paradas daqui. Vem, eu te levo. Também pego essa linha - a olhou com certa dúvida - Nem sempre eu sei os horários que vou sair e fico com pena de pedir para o motorista ficar esperando, então vou de metrô.
- Bem, - A garota sorriu quando o loiro falou seu nome e não seu título - Eu aceito pegar carona no seu guarda-chuva. document.write(Addie) guiando como uma londrina nata. Ela conhecia aquelas ruas muito bem, afinal, London Bridge é um lugar bastante conhecido e ela sempre escapava com os amigos para ir num pub chamado The Minories, que ficava bem embaixo da estação de DLR. Adorava ir ao Borough Market também, então sempre estava naquela área.
- Está gostando de Londres? - perguntou.
- Sim, estou! Nunca tinha vindo para passar tanto tempo assim. Tudo bem que eu cheguei alguns dias atrás, mas estou gostando bastante. Só preciso me adaptar a essas estações de metrô escondidas…
- Mas nossas estações são enormes!
- Mas são escondidas! - retrucou, rindo e olhando para o lado errado na hora de atravessar a rua. o segurou - E eu ainda vou morrer atropelado qualquer dia.
- Eu também ficaria assim se fosse para a América - adicionou - Ficaria completamente perdida.
- Você já visitou os Estados Unidos?
- Muito rapidamente, no meu aniversário de dezesseis anos. Meus pais são muito ocupados e as visitas reais para países assim normalmente não ficam com a minha parte da família. Mas para a Austrália eu já fui um bilhão de vezes.
- Nunca fui à Austrália. Ainda! Tenho muita vontade.
- Bem, você provavelmente já conheceu os únicos dois australianos que importam, Hugh Jackman e Nicole Kidman. Isso porque Heath Ledger já morreu, claro.
- Já estive no mesmo lugar que a Nicole Kidman, mas não a conheço. Mas Hugh Jackman, bem… Gosto de pensar que ele sabe meu nome.
- Esta é a maior honra da sua vida. Agarre-a com tudo que tem - brincou e soltou uma gargalhada - Acredita que quando minha avó o recebeu no palácio, eu estava na faculdade em Dublin? Ninguém me avisou que ele iria, se não, eu teria largado tudo!
- Ouch! - falou, rindo da naturalidade em como falava sobre sua família e a vida que levavam - Eu ficaria devastado.
- Foi uma das piores coisas que aconteceram na minha vida - Ela disse. - Enfim, chegamos - Ela apontou para o sinal que indicava a estação - Vou te levar até lá. Pegue seu oyster.
- Meu o que?
- Seu cartão Oyster, do metrô! - Ela falou quando passavam pela estação ainda movimentada.
- Aqui está! - o tirou do bolso - Vamos pegar o mesmo trem?
- Não, infelizmente vou para o lado oposto - comentou enquanto eles passavam pela catraca. Era tão bom estar rodeada de pessoas que nem ligavam para o fato dela ser da realeza. Todos só queriam chegar em casa e nem percebiam quem ela era - E é aqui que nós nos separamos. Só pegar a linha jubilee em direção a North Greenwich ou Stratford e sair na estação de Canary Wharf. Você vai sair no Cabot Place, um shopping. Compre seu jantar lá, passe no Waitrose e compre um vinho ou algo assim, e vá descansar. Amanhã vai ser um longo dia.
queria convidá-la para ir jantar e tomar um vinho, mas se sentiu um pouco receoso. Ela era da realeza! O que ela pensaria desse mero mortal, que não conhecia ninguém na cidade e tinha gostado da companhia dela? Então, ele agradeceu a explicação e ficou de mandar uma foto do vinho quando chegasse em casa.
- Mas, pra isso, eu preciso do seu número - falou meio embolada. Ela parecia mais nervosa e suas bochechas estavam avermelhadas, possivelmente pelo frio - Ou do seu Twitter ou Instagram.
- Estou fora das redes sociais, mas… - ele entregou seu celular para que pudesse colocar seu número - Nos falamos por aqui.
- Okay, .
- Obrigado pela ajuda, princesa. Até mais.
, então, seguiu em direção a seu trem e , com um pequeno sorriso, seguiu ao seu. Era só o que lhe faltava: trazer o crush pelo Enjolras para o ator que deu-lhe vida no filme. Mas ela tirou essas ideias da cabeça quando viu seu segurança entrando no mesmo comboio.
Ela ficou a pequena viagem de apenas algumas estações em pé, segurando sua bolsa contra o corpo. Não demorou mais do que cinco minutos para chegar em Green Park, onde desceu do trem e foi em direção ao Palácio de Buckingham. Eram quinze minutos andando e estava chovendo bastante, mas ela logo colocou seu fone de ouvido e o caminho pareceu mais rápido. Estava tentando memorizar seu solo, “Unworthy of your love”, que basicamente era uma balada de amor a Charles Manson. Ela achava incrível poder interpretar alguém tão diferente de si mesma e ficava impressionada com a maestria de Sondheim. Nem percebeu que havia chegado ao palácio, mas logo estava tirando seu casaco e entregando a um dos muitos mordomos.
- Vossa alteza Renée está te esperando no salão de jantar - Um deles falou e sorriu, acenando positivamente e seguindo até lá. Não tinha percebido até aquele momento como estava exausta. Tudo que queria era tirar seus sapatos e se jogar na cama. Seus pais estavam sentados, com a mesa posta, esperando por ela.
- Por que você veio de metrô? Está chovendo! - Renée reclamou - Você está encharcada! Vá tomar um banho e se trocar antes do jantar.
Para seus pais, ainda tinha doze anos e não tinha nenhuma noção da vida. Ela ficava exausta desse tratamento tão infantil, mas ao mesmo tempo, não fazia nada para mudar a situação. Morava com os avós e os pais, pois era mais fácil. Seus pais eram o único casal que não tinha uma residência própria, não por falta de residências da realeza, mas porque seu pai era realmente muito próximo da rainha. E, desde que nascera e ele largou seus dias de rebeldia, trabalhava diretamente com a mãe, como um verdadeiro organizador dos eventos da realeza. Então, era simplesmente mais fácil para Albert morar em Buckingham.
gostava de lá, apesar de preferir os meses que passava em Windsor, mas gostava de estar perto de tudo. A localização do palácio era obviamente privilegiada e ela podia se deslocar por Londres facilmente. Além de economizar bastante, afinal, um aluguel naquela cidade era absurdo.
Tomou seu banho e colocou uma roupa confortável para ir jantar. Estava tão cansada que nem prestou muita atenção nas reclamações dos pais e demorou um bom tempo para notar que havia recebido uma mensagem. Abriu um sorriso quando viu a foto.
Era uma taça de vinho pela metade em frente a um sanduíche do Nando’s com a frase “segui o seu conselho. Tenha uma boa noite, Princesa.” Logo tirou uma foto de sua própria taça de vinho branco, desejando uma boa noite para .
Depois disso, não pararam de se falar.


Capítulo 6

I've been in love and lost my senses
Spinning through the town
Sooner or later, the fever ends
And I wind up feeling down
I need a man who'll take a chance
On a love that burns hot enough to last
So when the night falls
My lonely heart calls

Somebody to dance - and Alexa Green


Era sexta feira à noite. O último ensaio antes das previews começarem havia terminado e todo o elenco se juntou no The Minories para beber e celebrar. Haviam sido meses longos até aquela sexta-feira, dia quatorze de novembro. A decoração natalina já estava sendo colocada em todo o lugar, com árvores de Natal sendo montadas nas praças e shoppings. Apesar de Assassins ser tudo menos um musical natalino, sua estreia seria no dia primeiro de dezembro e prometia ser a atração principal da temporada daquele ano.
e trocavam mensagens todos os dias e sempre estavam juntos. Apesar de terem pouquíssimas cenas em conjunto, eles sempre ficavam conversando durante os ensaios junto à Catherine e ao Jamie. Sempre saíam depois dos ensaios para beber e se encontravam para brunchs todo o domingo. já não se sentia mais tão solitário na Inglaterra, pois estava sempre rodeado de pessoas incríveis, e aqueles meses estavam se tornando muito mais divertidos do que ele poderia antecipar.
E, agora, estava sentado no bar com Jamie, esperando as bebidas para voltar para a mesa, enquanto Catherine e comiam batatas fritas. , sem nem perceber, estava olhando para o homem do outro lado do bar. Seu rosto se abriu num sorriso bobo e quando percebeu que ela estava olhando para ele, acenou e deu uma risada. Ela sentiu suas bochechas queimarem e Catherine começou a rir.
- Vocês dois são muito bonitinhos - Catherine disse e revirou os olhos - O quê? Eu só estou falando.
- Você tem dito isso a semana inteira - retrucou - E não tem nada de bonitinho entre a gente.
- , meu anjo, você fala como se eu fosse cega - A mais velha disse - Olha só para Aaron te olhando do balcão! Alguém deveria colocar um babador nele - Catherine virou para trás para checar , confirmando que ele ainda olhava para a mesa que estavam. cobriu o rosto - Não precisa ter vergonha, querida. Essas coisas acontecem. Quem nunca teve uma paixãozinha por alguém do elenco? Comigo era toda peça. Não agora, claro, porque só tem homem horrível nessa produção - As duas gargalharam juntas - Aproveite que é jovem e pode se divertir.
- Não fale assim. Eu nem sou mais tão jovem…
- Você tem 27 anos! Olhe pra mim, com meus belos trinta… Mais quinze - Mais gargalhadas - Eu fui casada por nove anos e, agora que estou livre, tudo que eu quero é aproveitar. E você, solteira e linda desse jeito, deveria fazer o mesmo.
- Eu não sou boa nessas coisas… - comentou, tampando o rosto com as mãos - Meu último namorado foi há cinco anos, ainda na faculdade. Ele terminou comigo para ficar com Sandro, um italiano, e eu tive que fingir continuar namorando com ele por mais dois meses até William e Kate anunciarem o noivado deles.
- Mas por quê?
- Assim os tabloides não dariam muita atenção pra mim - deu de ombros - E realmente não deram. Nunca mais vi Brent na minha vida, mas aposto que ele deve ter ficado bem grato por não ter seu novo relacionamento exposto em todos os jornais da Inglaterra. Depois disso, eu meio que fiquei com medo de me envolver e envolver alguém nessa loucura toda.
- Querida, olhe, eu entendo seu medo. Deve ser uma merda estar nessa situação, mas veja só… Ora, veja só quem chegou! - Catherine cortou o assunto na hora que e Jamie chegaram com as bebidas - Vocês foram fabricar essas cervejas ou o quê?
- São cervejas irlandesas! - Jamie anunciou, entregando uma garrafa de cerveja para e outra para Catherine. se sentou e abriu um sorriso para . Logo, ele tomou um gole da cerveja e fez uma careta.
- Isso é tão amargo! - falou, fazendo todos rirem dele.
- Americanos nem sabem o que é cerveja - Catherine disse - Vocês bebem água com fermento e álcool em gel.
- Claro que não! Nossas cervejas são ótimas - defendeu e todos riram novamente - Qual é? Vocês nunca tomaram uma Sierra Nevada! É delicioso.
- Sim, delicioso como mijo - Jamie disse - Um brinde?
document.write(Addie) propôs e todos levantaram suas garrafas e brindaram ao grande gênio por trás de Assassins e tantas outras obras maravilhosas. deu outro gole na cerveja e continuou com a careta.
- Isso é ruim demais, chega, por mim.
Muita cerveja foi bebida em pouco tempo e o grupo já estava no ponto de gargalhar por nada. Cantarolavam, tiravam fotos e conversavam alto - o que não era lá problema, porque todas as outras mesas faziam o mesmo. , apesar de ter parado de beber, continuava no mesmo clima dos amigos. tinha as bochechas vermelhas de tanto rir - e talvez a bebida tivesse subido um pouco à cabeça. Mas estavam se divertindo aos montes e era isso que importava. Bem, isso até olhar o celular e dar um gritinho de susto. - A essa hora? - Jamie perguntou. - Ela ficou de chegar às nove e quarenta - disse - São nove e vinte. Ela vai me dar uma chinelada!
- Relaxa, ninguém vai te dar uma chinelada - Catherine falou enquanto pegava suas coisas da mesa, mas acabou derrubando uma garrafa de cerveja e deixando seu celular cair. - Merda! - Eu acho que você está um pouquinho bêbada - Jamie comentou enquanto ria - Levemente bêbada.
- Eu estou bem! - retrucou, mas deixou cair sua carteira - Okay, levemente bêbada. Mas Higgins está me esperando lá fora, provavelmente. Eu vou ficar bem.
- Por que o não vai com você? - Catherine sugeriu e a olhou em dúvida - Assim você não fica sozinha.
- Mas eu não vou estar sozinha, eu vou estar com o Higgins.
- Mesmo assim, ele poderia ir com você, te fazer companhia. Em qual aeroporto ela vai chegar? De qualquer jeito, qualquer aeroporto que seja, não vai ser menos do que meia hora de carro.
- Eu posso ir - disse.
- Eu não quero incomodar - recolheu suas coisas.
- Não vai ser incômodo! Vai ser ótimo. Assim eu não tenho que ficar aturando essas duas pestes! - Ele arrancou risadas dos outros dois e assentiu - Então, é isso, meus amigos. Até mais tarde.
- Quem vai pagar a conta? - Jamie perguntou.
- Põe na conta da rainha - respondeu, já saindo de perto dos amigos junto a , que soltou uma gargalhada alta. Os dois saíram do bar lotado e logo encontraram um carro preto estacionado perto do pub - Eu não sei como ele sempre consegue arranjar essas vagas ótimas. Eu nem sei dirigir direito - Eles entraram no carro - Boa noite, Higgins.
- Boa noite, Vossa Alteza - Ele logo respondeu - Aeroporto de Gatwick?
- Sim, por favor - se jogou no assento e se ajeitou ao seu lado. Ela bocejou - Eu estou morta e aposto com você que Nina vai querer sair para alguma festa.
- Mas são quase dez da noite!
- Ela é completamente pirada. E vai te arrastar para ir junto!
- Meu Deus, no que eu me meti? - riu - Mas tudo bem. Estou pronto para me aventurar com vocês.
- Você vai adorar a Nina. Ela é ótima! - comentou - E você não é jogador de futebol, então vocês fariam um casal ótimo.
- ! - se fingiu de ofendido, deixando os lábios abertos num “o” dramático. - Como você é exagerada!
- Não sou nada - Ela retrucou, bocejando novamente - Talvez um pouquinho só - Mais um bocejo.
- Você está exausta - concluiu e a garota apenas assentiu positivamente com a cabeça - Quer deitar no meu ombro e tirar um cochilo?
- O quê? - Ela o olhou meio em choque, rindo, mas viu que o rapaz falava sério - Eu honestamente estou cansada demais para negar.
- Fique à vontade. Não deve lá ser muito confortável - Disse com um sorriso no rosto. sentiu suas bochechas queimarem. Ainda assim, naquele momento, a ideia pareceu tentadora demais. Então, ela encostou sua cabeça no ombro do rapaz, se ajeitando naquele espaço e fechando os olhos rapidamente antes que mudasse de ideia e se arrependesse por ser uma boba que caaí em atos fofos assim - Bons sonhos.
passou algum tempo absorvendo tudo. O cheiro do rapaz era de perfume masculino amadeirado. Era um ombro, logo não era lá o local mais confortável do mundo para se dormir, mas era estranhamente aconchegante. Ela logo relaxou, talvez fosse o cansaço junto com a bebida e o balançar do carro na estrada, mas rapidamente ela estava dormindo.
não conseguia parar de olhar para . Era quase impossível desviar o olhar. O jeito adorável como ela dormia em seu ombro; ele queria que cenas como aquela fossem normais. Não sabia direito como tinha acontecido, como tinha começado a se interessar por de uma forma diferente. Talvez tivesse sido no dia em que eles foram ao Borough Market na hora do almoço para fazer uma competição de quem comeria a comida mais estranha naquele dia. ganhou, obviamente, ela já havia comido tanta coisa esquisita em suas viagens pelo mundo que comer um inseto não seria nada demais para ela.
- Eu gostaria de levar um kebab de cabra, por favor - pediu ao atendente do Gourmet Goat.
- 5 libras e 50 - Ele respondeu e pagou - Quer com nosso molho da casa?
- Sim, por favor - Disse, virando-se para - Quero ver você superar essa.
- Apenas espere - A ruiva sorriu, já começando a se afastar de . Demorou um longo tempo, mas chegou até o banco onde estava sentado segurando um hambúrguer simples.
- Eu venci! Eu sabia que podia ser mais ousado que você! - se sentou com um sorriso debochado no rosto.
- Quer um pedaço do meu hambúrguer de avestruz?
riu tanto que deixou um pedaço do seu kebab cair no chão. Ele declarou a vitória à , que devorou o hambúrguer como se fosse fácil. E era, porque era bom.
Talvez ele tenha começado a desenvolver esse sentimento quando ela quebrou um dedinho do pé na primeira semana de ensaios e mesmo assim continuou fazendo suas cenas todos os dias por 8 horas.
Poderia ter sido no dia em que eles foram ao cinema e dividiram a pipoca. Ou quando foram ao parque e ela viu um grupo de criancinhas precisando de ajuda para montar uma tenda para brincar de escoteiros e ela não apenas montou a tenda, como oficiou os escoteiros como “os escoteiros leais e fiéis da princesa de Kent”. Addie pegou o endereço de todos eles e enviou um agradecimento por servirem tão bem à realeza. Poderia ter sido enquanto estavam sentados na grama, assistindo ao show de um cantor que não conheciam e ele a observou, de canto, cantarolando todas as canções e aplaudindo o homem como se fosse sua maior fã. Ou, talvez, quando eles fizeram um jantar de ação de graças completamente às avessas no apartamento de .
Ele não sabia qual desses muitos pequenos momentos havia transformado aquele sentimento de amizade para o que quer que ele sentisse agora. Mas ele sentia e era forte. E definitivamente estava crescendo.


Capítulo 7

I felt it in my chest as she looked at me
I knew we were born to be together
Born to be together
She took my arm
I don't know how it happened
We took the floor and she said

Oh, don't you dare look back
Just keep your eyes on me
I said: You're holding back
She said: Shut up and dance with me
This woman is my destiny

Shut up and Raise your glass - Moulin Rouge! Broadway


Estavam no portão de desembarque há alguns minutos. Como sempre os vôos da Ryanair atrasavam bastante - também, o que esperar de passagens que custavam cinco libras? Dessa vez, não havia sido diferente. Segundo o painel, o vôo vindo de Madrid já havia chegado, então era só uma questão de tempo até que Marina estivesse ali.
não conseguia olhar para direito. Estava morrendo de vergonha dele agora que estava basicamente sóbria. Tinha tomado uma garrafa inteira de água em um minuto e agora se sentia disposta para uma noite daquelas. Mas, mesmo assim, estava morrendo de vergonha por ter aceitado dormir no ombro do rapaz. A culpa era dele, claro. Era ridículo ele ter oferecido. E era mais ridículo ainda ela ter aceitado. Não conseguia entender como aquela ideia tinha parecido boa, pois não era mesmo.
Ela já vinha se sentindo assim, meio confusa, há algum tempo. Afinal, era muito fácil gostar de . Ele era maravilhoso e educado, tinha uma voz tão linda e definitivamente tinha seu charme. Gostar dele havia se tornado inevitável. Eles passavam tanto tempo juntos e se falavam o dia inteiro praticamente, o que tornava as coisas mais complicadas. Mas tudo que ela menos queria era estar apaixonada por um colega de elenco que morava em outro país. Mas estava.
negava aquele sentimento de todas as formas e evitava pensar nisso, mas toda vez que ele estava perto, ela sentia seu corpo se arrepiar por inteiro e um sorriso despercebido aparecia em seu rosto. Era tão fácil, tão natural. Mas não era certo. Ela tinha sua vida e finalmente estava alcançando seus objetivos como atriz. E ela se conhecia, iria se envolver demais, acabaria se machucando e isso só iria prejudicar as coisas. Seu grande problema era se preocupar muito com coisas que ainda não tinham acontecido e que poderiam talvez nunca acontecer. Talvez, não passasse de um amigo e não havia nada de errado em ter a amizade dele. Talvez as coisas fossem dar certo. Mas vindo da família que ela vinha, onde sentimentos verdadeiros não eram lá muito apreciados, ela tinha medo de sentir qualquer coisa.
- Da onde você conhece a Marina? - perguntou, tentando quebrar aquele momento de silêncio desconfortável. Os dois estavam sentados em bancos bem em frente ao desembarque.
- Ela é irmã de um jogador do Real Madrid - contou, olhando para o portão como se sua vida dependesse disso. Não olharia para de jeito algum - Eu e Harry fomos a um jogo do Arsenal contra o Real Madrid e nós conhecemos lá.
- Tem muito tempo?
- Não, um ano ou dois no máximo. Mas agora ela arranjou um emprego e tirou férias para vir me visitar, já que eu nunca consigo ir pra lá - Ela disse, finalmente desviando o olhar para . Suas bochechas ficaram vermelhas quando seus olhos encontraram os dele.
- É difícil morar longe dos amigos - comentou - Eu não vejo meus amigos há tanto tempo… E como eu não tenho nenhuma rede social, fica mais difícil de manter contato. Então, eu acho muito legal sua amiga estar vindo te ver.
- Você é um bicho do mato - falou e riu mais alto. Quando Marina passou pelos portões, deu um pulo e saiu correndo até a amiga, que vinha empurrando sua mala de mão. Ela abriu os braços de forma exagerada, como se falasse “olha quem chegou” e esperou pelo abraço de . se levantou também para ir ao encontro das duas, um tanto tímido por estar atrapalhando o reencontro.
- , essa é a Marina. Marina, esse é o - Ela apresentou assim que se separou do abraço demorado. estendeu a mão para Marina, que logo a apertou de volta.
- Então, você é o famoso - Marina disse e só faltou pular no pescoço da amiga - Pode me chamar de Nina.
- Okay, Nina - Ele falou - Eu não tenho apelido, mas fique livre pra me chamar do que quiser.
- Uhmmm - Marina implicou e deu uma risada sem graça, desviando o olhar para , que estava olhando para os próprios pés - E, então, para onde vamos?
- Você realmente quer fazer alguma coisa? São quase onze da noite! - questionou e Marina abriu um sorriso.
- Eu trabalhei o dia inteiro, passei horas num avião lotado… Eu mereço pelo menos apreciar uns britânicos para poder dormir em paz.
- Ela tem razão - disse - Harry tem uma mesa reservada no The Box, podíamos ir para lá.
- Ah, The box não - Marina falou na maior naturalidade, chocando um pouco . Ele podia não saber muito dos lugares exclusivos de Londres, mas sabia que uma mesa nesse lugar valia mais de 2 mil libras. Era muito dinheiro. E eles já tinham uma mesa lá! De graça! - Eu quero dançar! Não quero ficar vendo homens com sungas minúsculas dançando na minha frente e pagar 20 libras numa taça de vinho.
- Então, vamos para Raffles, em Chelsea - logo ofereceu.
- A fila vai estar enorme a essa hora - disse quando e Marina começaram a andar para fora do aeroporto.
- Fila? - Marina riu - Com ela não tem fila, cara - Os dois se olharam e logo desviou o olhar. Não achava legal abusar de seu privilégio, mas ela realmente tinha pago a anuidade do clube - Ela é VIP. Very Important Princess.
- Cala a boca, Nina! - resmungou. Higgins já estava aguardando os três do lado de fora do carro, fumando um cigarro na maior tranquilidade. Seus olhos se arregalaram quando ele viu , mas logo ela pediu para que ele terminasse seu cigarro em paz. Então, por alguns minutos, eles ficaram no frio do fim de novembro em Londres, esperando o motorista parar de fumar. Logo, eles estavam no carro, se aquecendo, e e Nina conversavam sobre quais roupas usariam. Eles iriam parar primeiro no hotel de Nina - obviamente ela não quis ficar no palácio de Buckingham, pois aquilo tudo era muito louco e Marina não queria se envolver com a família de mais do que deveria - e agradecia, pois seus pais e avós podiam ser um pé no saco. Então, eles pararam no hotel de Nina no Soho para deixar as coisas e trocarem de roupa.
- Você pode desistir se quiser - disse quando entraram no quarto. Nina jogou suas coisas e foi direto tomar um banho rápido. - Você quer que eu desista? - perguntou, seus olhos voltados para , que se viu grudada neles.
- Eu? Não, claro que não! - Ela disse e parou bem em frente a ela. A distância entre os dois era mínima. sentiu todo o seu corpo se arrepiar enquanto olhava para , que sorria para ela com os lábios fechados. Parecia que eles estavam conversando, mas não usavam palavras ou nada assim. Era só os olhos, aquela troca entre os olhares, a respiração meio descompassada por causa da proximidade. se aproximou mais, quase como se pedisse permissão à para fazer o que ele tanto queria fazer. E , apesar de saber o quão errado seria aquilo, estava cedendo como uma parede num terremoto.
Era aquilo. queria aquilo, ela queria muito aquilo. Tinha fantasiado sobre como seria, e definitivamente seria diferente do que estava acontecendo. Mas envolveu seu rosto com suas mãos, suas mãos geladas contra sua pele macia e quente, acariciando-a com cuidado enquanto seu olhar não saía dos dela. Seu coração batia tão forte que estava até se sentindo meio tonta.
- Eu não estou vendo nada - Nina falou assim que abriu a porta, enrolada na toalha - Eu só vim pegar minha escova de dente. Por favor, continuem, eu não estou aqui - E fechou a porta, como se nada tivesse acontecido.
Mas tinha. havia se sentado na poltrona de frente para o espelho e continuava de pé, tentando entender como havia perdido aquele momento. Estava tentando se acalmar. Se for para ser, será. Em algum momento. Ele esperava, ao menos.
começou a aplicar maquiagem em seu rosto e se jogou na cama, tentando não parecer um babaca olhando cada passo que a mulher dava. Mas ela era um tanto hipnotizante e sempre se pegava a olhando, mesmo sem querer.
- Nem pense em ir com essa roupa - Marina falou, saindo do banheiro já completamente vestida - Sério, eu te amo, mas gola alta para ir pra balada é o fim.
- Nina! Fala sério. E eu só tenho essa roupa.
- Eu trouxe roupa para um time feminino de futebol inteiro - Ela brincou - Vem, vamos escolher.
acabou por escolher um vestido preto de mangas compridas sheer through enquanto Marina usava uma blusa preta decotada e um casaco de couro sintético com uma bolsa transpassada. continuava do mesmo jeito, mas tinha penteado o cabelo, pelo menos.
Logo, eles estavam de volta ao carro e Higgins os guiava para Chelsea, um bairro nobre no sudeste de Londres, conhecido por ser um lugar estiloso e descolado. Não ficava muito longe do hotel e, em menos de quinze minutos, eles estavam na porta do Raffles. E estava lotado, o que se era esperado de uma sexta-feira.
já estava pronto para falar de quão cheio o lugar estava, mas acabou acompanhando e Marina, que andavam como se fossem donas do lugar. Eles passaram por toda a fila, observando as pessoas com roupas caras e perfumes fortes, até chegarem à porta. O bouncer reverenciou com um aceno com a cabeça e já foi abrindo a porta para que eles entrassem. As três mulheres, que eram até então as primeiras da fila, ficaram um pouco chocadas com a presença de e principalmente pelo fato de ela ter segurado uma delas pelo pulso.
- Eu te disse que você não precisava ter esperado na fila! - falou - Elas estão comigo.
- Claro, vossa alteza - O homem alto e realmente bonito falou - Fiquem à vontade e divirtam-se.
- Nós iremos! - Uma das mulheres respondeu ao entrar.
já tinha ido a muitos clubes na sua vida. Clubes chiques e caros em Nova York e Los Angeles. Mas nenhum tinha aquele ar aconchegante como o Raffles. Com uma decoração moderna mas ainda assim tradicional, Raffle my feathers brilhava em neon. Uma atendente chegou, com sorriso no rosto e olhos brilhando.
- Consiga uma boa mesa para essas três mulheres divinas - falou - E ponha na conta de Harry - A atendente sorriu - Nós podemos usar a sala lá em cima?
- Vossa alteza real Príncipe Harry está usando. Vocês estão juntos?
- Sim - sorriu, não duvidando da mudança de planos do primo. The box era legal nas primeiras vezes e Harry havia ido ao The box na semana anterior, então já devia ter enjoado dos homens de sunguinha e dos longos shows.
- Obrigada, vossa alteza real - Uma das moças falou - Me chamo Chrissy. É uma honra conhecer a vossa alteza.
- Por favor, pare com isso - riu e os olhos de Chrissy se esbugalharam - Me chame de .
- Okay, . Obrigada.
- Espero que se divirtam - deu tchau e as mulheres alegremente acenaram enquanto , e Nina eram guiados até o salão VIP no segundo andar.
A música era boa e atual. Não tinha muito R&B (ou seja lá o que eles tocam hoje em dia em festas) e hip hop. Logo, eles estavam na porta da sala VIP e Harry a abriu, segurava uma taça de champanhe e tinha um enorme sorriso no rosto.
- ! - Ele falou cheio de surpresa, puxando a prima para um abraço - Vamos, entre! Quem são seus amigos? Ei, eu conheço você! - Ele disse ao reconhecer - É o garoto de Les Miserables!
- Sou eu mesmo, senh… Vossa alteza, me desculpe! - se embolou e Harry deu uma gargalhada.
- E você… - Harry virou-se para Marina - Como eu poderia me esquecer do seu dedo podre contra o Arsenal? - Marina só pôde rir ao receber um abraço de Harry.
- O que eu posso fazer se seu time é um absurdo de ruim?
- Não diga isso! - Harry dramatizou - Talvez não seja o melhor do mundo, mas estamos chegando lá.
- Estão bem longe. Tipo… Longe mesmo.
- Se eu te pagar uma bebida, você vai parar de falar mal do meu pobre time? - Harry suplicou e Marina assentiu, rindo - Venha comigo.
e foram direto para a mesa. Em silêncio, observaram Harry e Marina conversando no bar.
- Você acha que eles vão… - ousou perguntar. Não sabia como essas coisas funcionavam na vida da realeza. Era uma realidade muito estranha essa que ele estava vivendo.
- Marina vai deixá-lo completamente louco - Ela riu - É assim que ela é. Ela deixa todos loucos, sério. Nina é tipo minha musa inspiradora.
- Mas por quê?
- Ela tem essa presença, sabe? Todos adoram estar com ela. Os homens ficam loucos por ela, as mulheres ficam loucas por ela. Ela hipnotiza todo mundo. Eu acho que ela toma banho de mel e açúcar.
- Ela é realmente muito legal.
- Apenas legal? - perguntou, tomada por aquela dúvida que vinha a perturbando durante as últimas horas. Não que estivesse com ciúmes de , claro. Talvez só um pouquinho.
- Qual seria a resposta certa aqui? - ergueu o cenho, mas foi salvo por Marina, que chegou com as bebidas.
- A resposta certa seria ir dançar - Nina disse antes de tomar sua champanhe inteira num gole - Levantem, vocês dois!
- Okay, calma! - riu, se levantando, e fez o mesmo. Harry já tinha tomado sua taça inteira e estava dançando sozinho, caminhando como um verdadeiro bocó para a pequena pista de dança VIP - Que maldade.
- O quê?
- Ele dançar tão mal assim - riu e só pôde rir também. Os três, então, seguiram Harry e começaram a dançar algo que nenhum deles conhecia, mas dava para o gasto. bebeu sua champanhe com calma, tentando se enturmar. Não era muito de dançar assim, apesar de adorar uma boa balada. Precisava de um tempinho para começar a se jogar de cabeça e fazer suas dancinhas ridículas. Preferia sempre vir nas noites temáticas, como na noite dos anos 80 ou nas festas de rock. Ela era um pouco chata. Mas , pelo contrário, ele estava amando. Assim que a primeira música começou a tocar, ele já estava em outro mundo. Era o maior fã de pop que existia, conhecia cada canção já inventada - ou era pelo menos isso que ele gostava de dizer para todo mundo. Para o ator, nada era mais legal do que relaxar ao som de Iggy Azalea.
Marina e Harry estavam se entrosando bem, dançando daquela forma mais próxima, apesar da música tocando não ser nada sensual. Marina tinha aquilo nela, então estava apenas se divertindo. Harry logo voltou ao bar para pegar shots para todos e aí sim a festa começou.
Mas, para , a diversão mesmo começou quando Blank Space, da Taylor Swift, começou a tocar. Ela amava aquela canção demais e logo pôde perceber que se sentia da mesma forma. Eles não começaram a cantar, eles começaram a performar juntos. se sentiu solta, como se visse uma parte de que jamais tivesse visto antes - e ela estava adorando essa parte.
Os dois seguiram a noite nesse mesmo clima. Performando canções de forma dramática - afinal, dois atores da Broadway devem agir desse jeito! - e fazendo pequenas coreografias. Os dois estavam se divertindo tanto que nem perceberam que Marina estava desaparecida, mas ela retornou por volta de meia hora depois, acompanhada de Harry. a zoaria horrores, mas isso era problema da Marina do outro dia. No caso, daquela noite, pois, naquele momento, já era quase cinco da manhã e o clube estava para fechar.
Depois de tomarem algumas saideiras, os quatro finalmente decidiram que era hora de ir para casa.
Foram todos - menos Harry, que tinha um compromisso com a rainha às onze da manhã - para o hotel de Marina. , naquele ponto, não tinha nem o poder de escolher para onde ir, já mal sabia seu nome. A única coisa que ele realmente tinha certeza era de que era a mulher mais linda que ele havia visto na vida e que, debaixo das luzes da festa, ela parecia reluzir, como a fada verde de Moulin Rouge. Parecia figura de sua imaginação alguém tão perfeito como ela. Mas ela existia e, quando entrou no quarto de Marina, se jogou na cama como se fosse dela. Marina se jogou do outro lado, de sapato e tudo, e foi lá, mesmo super bêbado, e cuidou delas. Tirou seus sapatos e casacos. Por fim, deitou-se no chão ao lado de . A mão da garota estava caída próxima de si e, por algum impulso, ele segurou sua mão. pareceu perceber, então, morto de vergonha, soltou a mão da garota, mas ela foi mais rápida e apertou as mãos dos dois juntas novamente. Ela se virou para ele, seu rosto amassado entre travesseiros, e abriu um sorriso.
- Eu vou vomitar em você.
Não deu nem tempo direito de rolar para o outro lado. começou a vomitar com Marina ao seu lado, que nem se mexia. , mesmo afetado, cuidou de e limpou a sujeira - e a si mesmo - da melhor forma que pôde. Quando colocou na cama, a ruiva o puxou e murmurou:
- Vem, deita aqui.
- , eu não sei…
- A gente pode dormir abraçados e amanhã fingir que isso nunca aconteceu? - Ela falou e demorou um tempo para responder. Ele não queria fingir que nunca havia acontecido no dia seguinte.
- Por que nós não fazemos isso quando nós dois estivermos sóbrios o suficiente para lembrar? - Ele propôs com um sorriso calmo no rosto. sorriu também. Ela se virou para Marina e abraçou a amiga. acabou dormindo no chão que não havia sido vomitado.
foi o primeiro a acordar. Tomou um banho, escovou os dentes com o dedo e logo foi comprar café da manhã - e aspirina - para todo mundo. Quando as meninas acordaram, elas estavam se sentindo um lixo.
- Nossa, espantamos o - Marina falou - O que foi que você fez?
- Eu vomitei nele - tampou o rosto - Marina, por favor, me mata. Eu te imploro, de verdade.
- E eu fiz coisas com o seu primo. Eu quebrei minha segunda regra.
- Você tem uma segunda regra?
- Não, eu acabei de inventar, mas eu deveria ter uma regra sobre não beijar membros da realeza.
- Nós somos legais, eu já falei. Você seria uma excelente esposa para Harry…
- , com todo respeito, vá se foder - As duas gargalharam, mas sentiram uma dor de cabeça forte e latejante - Eu nunca mais vou rir na vida.
- E eu nunca mais vou olhar o na vida - resmungou - Estou com medo de sei lá, ter me declarado ou algo assim.
- Então, você realmente gosta dele?
- Cala boca, Marina - murmurou - Acho que sim. Talvez. Infelizmente. Mas não vai dar certo. Minha família é ridícula e nunca vão deixar acontecer. Eu provavelmente vou ter que casar com um duque narigudo e feio.
- Grace Kelly conseguiu casar com o amor da vida dela - Marina disse.
- Grace Kelly não era neta de Elizabeth - resmungou, segundos antes de entrar com donuts e croissants fresquinhos. Além de café.
Todos estavam famintos e devoraram o café da manhã improvisado. Marina voltou-se a deitar e logo fez o mesmo. , então, ficou de pé.
- Garotas, esse foi o role mais aleatório que dei na minha vida, e eu amei. Mas vou deixar vocês curtirem…
- Quer ir ao teatro com a gente? - Marina perguntou - Vamos ver a matinée de Les Miserables.
- Ele não vai querer, ele fez Les Miserables - falou toda cheia de vergonha.
- Tem anos que não vejo Les Mis. Quer saber, eu vou querer sim.
- Então, está marcado. Uma e quarenta e cinco, no teatro.
- Okay. Estarei lá. Obrigado, meninas.
- Tá agradecendo pra quê?
- Vocês me chamaram, vão ter que pagar meu ingresso - abriu a porta e as duas riram - Até mais tarde.
Ele não sabia o que aquilo significava. Se realmente queria a presença dele dessa forma. Mas pelo que parecia - e pelo que ele sentia -, ela queria sim. E ele queria aquilo mais do que tudo.




Continua...



Nota da autora: Tudo que eu quero agora é ir no Raffles dançar uns bons pop com os amigos que eu gosto. Espero que estejam gostando e não esqueçam de dar amor a Lana por ter criado LE que é uma obra prima. Sigam a no instagram @adelaideofkent. Xx beijos mãe



Nota da beta: ESSA FIC É UMA FOFURINHA! Eu estou v-i-v-e-n-d-o pelo beijo do Aaron e da Addie, sinceramente. Que eles tenham muuuuitas chances ainda de pegar um na mão do outro (de preferência, sem envolver vômitos HAHAHA). Tu manda muitíssimo, Bru! =D
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