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Última atualização: 20/06/2022

Prólogo

Já passava das duas da manhã quando chegou ao local do crime, na região nobre de Detroit. Em dias como aquele, ela se questionava sobre o motivo de ter escolhido aquela profissão. Seria pedir muito ter mais de uma hora de descanso entre um caso e outro?
Ao seu redor, todos os agentes pareciam querer entender aquele crime que mal ocorrera e já estava em todas as mídias, fazendo com que milhares de vozes pudessem ser ouvidas ao mesmo tempo. respirou fundo antes de cruzar a faixa amarela da polícia que isolava o local. As fotos que recebera assim que seu chefe ligou, alguns minutos atrás, já não eram por si só muito animadoras, mas, assim que cruzou a faixa e se aproximou do corpo, percebeu que a realidade era muito pior.
À sua frente, um corpo feminino se encontrava. A mulher, que não devia ter mais de 25 anos, tinha os cabelos loiros amarrados em um coque perfeitamente arrumado, apenas com a franja levemente solta, e seu corpo era coberto por um vestido de cetim azul claro. Uma gargantilha preta adornava seu pescoço e o modo como seu corpo se encontrava, perfeitamente alinhado, com as mãos perfeitamente cruzadas sobre o abdômen... aquela cena fora perfeitamente montada para condizer com uma história muito conhecida por e a prova disso era um sapato deixado a poucos centímetros de distância do corpo, que reluzia quase que como se feito de cristal.

- Cinderela, minha linda, não é sobre o “felizes para sempre” com o amor da sua vida, que vai lutar por você acima de tudo. – Nancy, a babá de , falava, depois de ter lido a história para a menina, em mais um de seus momentos de história para dormir. adorava aqueles momentos, pois a babá sempre terminava a história com alguma explicação sobre a moral do conto e aquilo fazia com que a história ganhasse um significado totalmente novo para a garotinha. – É sobre perdão. Cinderela tinha todos os motivos para se vingar da madrasta e das meias-irmãs, ainda mais com o príncipe ao lado dela, mas preferiu esquecer tudo aquilo e ser feliz com o amor da vida dela. Às vezes, o maior “castigo” que podemos dar a alguém é o perdão; e ele, ao mesmo tempo, é a maior libertação que podemos dar a nós mesmos.
A garota concordou de leve com a cabeça, sentindo os olhos pesarem cada vez mais. Não demorou muito até sentir o beijo de Nancy em sua testa. Quando a luz do quarto foi apagada e a porta fechada após a saída de Nancy, já se encontrava imersa em seus sonhos.


Balançando de leve a cabeça, a mulher se cobrou a voltar à cena do crime. Retirou um par de luvas plástica do bolso traseiro da calça e as colocou, logo em seguida se abaixando para se aproximar do corpo. Como de costume, começou sua análise mais minunciosamente, primeiro pelo cabelo. Apesar da boa aparência dos fios, eles possuíam um brilho diferente, mais intenso, o que chamou a atenção de e a fez logo constatar que se tratava de uma peruca. Assim que levantou a franja, a agente pode observar os pontos, realizados com uma linha transparente, quase como a de pesca... a peruca havia sido costurada ao couro cabeludo. Ao constatar aquilo, sentiu seu jantar voltar com certa força e teve que respirar fundo e desviar o olhar por alguns segundos. Como alguém podia ser capaz de tal ato? Deixando os julgamentos de lado, ela seguiu a linha e pode perceber que sua utilização tinha sido proposital, para que a estética não fosse afetada, já que os pontos eram grosseiros, como que feitos às pressas (o que provavelmente era verdade).
O cadáver usava maquiagem, mas não se importou muito com isso, uma vez que provavelmente fora feita para o evento social do qual participava. Continuando sua análise, a agente chegou ao pescoço, onde pode constatar, em uma linha quase que invisível de tão fina, a marca da causa da morte: estrangulamento; e, a julgar pela marca, provavelmente por algo semelhante a um arame. A posição da marca era proposital, logo no início do pescoço, camuflada pela sombra do queixo e maxilar. Aquilo era parte de um modus operandi, ela tinha certeza.
Em um salto, ela se afastou do corpo e virou para o agente mais próximo, removendo rapidamente as luvas e as enrolando como recomendado em treinamento, antes de guardá-las em um saco plástico específico.
- Ligue para as delegacias da região, pergunte se há algum crime semelhante a esse, com ambiente de história infantil criado e vítima estrangulada.
- Já o fiz. A polícia de Chicago reportou um crime há pouco menos de 24h, com vítima morta onde há uma mulher loira, vestida de rosa, com uma rosa vermelha na mão e uma torre deixada ao lado. – O agente respondeu, verificando o celular em busca das imagens enviadas pela outra delegacia.
- Bela adormecida... – falou baixo e o agente concordou com um aceno.
- Peruca costurada também. Anne Hoock foi estrangulada e a perícia custa a aceitar que foi por um arame, mas também não chegou a muitas outras opções, considerando-se a marca.
A mente de não parava. Inúmeras perguntas estavam sendo feitas, mas pouquíssimas possuíam respostas.
- Ligue para a agente Jareau e diga que temos um caso para a UAC – A agente se ouviu dizer, quando percebeu que talvez não fosse capaz de lidar com aquilo sozinha.


Capítulo 1

Reid passou pela porta da sala de reuniões da UAC a passos lentos, seu cabelo estava despenteado e seu corpo exausto. Fazia menos de um dia que haviam retornado de um caso em Idaho com um imitador e toda a equipe estava contando muito com a folga que deveriam estar tendo, especialmente ele, que se sentia esgotado mentalmente depois de tantas análises realizadas; imitadores sempre eram casos extremamente exaustivos.
A caneca em suas mãos exalava um cheiro reconfortante de café e ele se sentia grato por possuir aquele companheiro de tão longa data e de tantos casos com quem contar. Ao notar que todos já se encontravam na sala, se aproximou da mesa e se sentou na cadeira vazia mais próxima.
- Sinto muito tê-los chamado aqui, mas o caso é realmente um dos nossos. – JJ começou a falar, dando um sorriso sem graça e logo em seguida apertando o botão no controle em suas mãos para que as imagens enviadas pela polícia de Detroit e Chicago pudessem ser exibidas.
- Santo Deus! – Garcia soltou em choque, piscando uma série de vezes, como se tentasse aceitar que as imagens eram reais.
- Parecem bonecas – Emily comentou, enrugando a testa e inclinando levemente a cabeça para a direita.
- As polícias de Detroit e Chicago nos enviaram essas fotos há uma hora. Anne Hoock, de 23 anos, – A loira apertou mais um botão no controle e duas fotos de uma mulher morena apareceram na tela, a primeira de seu documento de identidade, e a segunda tirada pelo legista. – foi encontrada morta em uma rua do campus da Universidade de Chicago. – A loira apertou novamente um botão no controle em suas mãos e as fotos dão lugar a outras duas fotos de uma mulher loira. – Emma Johnson, de 32 anos, foi encontrada morta pela polícia de Detroit na rua lateral a um salão de festas. Ao que parece, Emma estava na festa, na região nobre de Detroit. Nossa unidade foi acionada devido às peculiaridades dos crimes. Em ambos os casos não houve notificação de desaparecimento, as vítimas foram vistas em eventos públicos horas antes de serem mortas.
- Estranho, geralmente os elementos sentem prazer em torturar suas vítimas de alguma forma – Emily comentou.
- E não é só isso... Em ambos os casos, toda cena foi montada para parecer com alguma história infantil. – JJ apertou um botão do controle e as imagens mudam novamente. – Temos Bela adormecida – Ela disse, assim que as fotos do corpo de Anne e o entorno da cena do crime aparecem – e Cinderela – Finalizou, assim que as fotos mudam para as do caso de Emma. – As vítimas foram estranguladas pelo que a polícia está considerando ser arame – JJ deu zoom em uma das fotos que exibia a marca quase invisível no pescoço das vítimas. – e o cabelo é falso, costurado com uma espécie de linha de pesca, mesmo para Emma, que já era loira.
- Ninguém consegue matar alguém com arame, é extremamente maleável, precisaria de uma força muito grande. – Derek comentou.
- Parece um caso de colecionador – Emily disse.
- Claramente todo o contexto é importante para o elemento. Olhem as roupas, o alinhamento dos corpos no chão, todo o entorno... é como se fosse uma música para ele, onde o crime é toda a melodia, que deve estar perfeitamente alinhada com a letra. Quem fez isso é meticuloso, frio e perfeccionista. – Reid expôs suas deduções.
- Estamos lidando com uma mulher? – Rossi perguntou e Spencer concordou.
- Possivelmente.
- Estejam prontos, decolamos em trinta. – Hotch falou, reunindo os papéis do caso novamente e indo em direção à saída da sala.

- Por que acha que é um caso de colecionador? – Reid perguntou, se aproximando de Emily que observava pela janela do avião as nuvens passarem rapidamente.
- Todo o contexto meticulosamente pensado... é como se fosse uma criança brincando de boneca. – Emily falou calmamente, a voz levemente embargada de sono.
- Mas, se for, não faz muito sentido, pois o elemento não passa muito tempo com as vítimas, não têm tempo para admirar sua coleção... – Spencer rebateu, sentido as engrenagens de sua mente funcionarem a todo vapor.
- E se o elemento se considerar um artista. Ele cria sua coleção, suas obras de arte e as deixa para serem apreciadas.
Reid não respondeu, começando a pensar segundo a linha de raciocínio de Emily.

📍 Departamento de Polícia de Detroit, 10:36
- , UAC chegou - O agente Martinez abriu a porta do escritório de e falou da porta, retirando a agente de seus pensamentos e fazendo-a se levantar em um salto e caminhar rumo à entrada do prédio.
- Bem-vindos, sou a investigadora , a responsável pelo caso. – se apresentou, esticando a mão cumprimentar a equipe.
- Sou o agente Hotcher – Hotch se apresentou, apertando a mão de – e estes são os agentes Morgan, Prentiss, Rossi, Jareau e o Doutor Reid. – Disse enquanto apontava para cada um.
- É um prazer tê-los aqui. – sorriu. – Separamos uma sala, com o quadro branco e seis cadeiras, conforme solicitado. Se quiserem me acompanhar, mostrarei onde fica... – A agente disse, enquanto começa a caminhar pelos corredores do DP, sendo seguida por Hotch e sua equipe. – A maioria aqui é policial de patrulha, sem muita experiência em crimes que não envolvam a Narcóticos, portanto precisei solicitar ajuda para esse caso estranhamente peculiar. – comentou, assim que chegam à sala reservada para a equipe e param à porta.
- É seu primeiro caso desse porte? – JJ perguntou e deu de ombros.
- As coisas por aqui geralmente são mais comuns, a maioria das mortes está relacionada a briga de gangues e disputa de territórios para o comércio de drogas....
- Por acaso havia câmeras no local do crime? – Penélope perguntou, enquanto todos entram na sala e começam a se organizar.
- No salão onde o baile estava ocorrendo não, é um local conhecido por eventos da alta sociedade e pelo sigilo de seus eventos, mas encontramos uma filmagem da rua do incidente e já enviei para a técnica de vocês – respondeu. – Preciso dizer, se me permitem, que a cada nova pista esse crime me parece mais estranho.
- Ficamos felizes em ajudar. – JJ falou, dando um sorriso reconfortante para . – Há testemunhas em algum dos crimes?
- Apenas as que realizaram as denúncias. Vou pedir para chamar a que nos ligou, mas a de Chicago é de responsabilidade da outra jurisdição. – respondeu e JJ concordou com a cabeça, antes da investigadora sair da sala.
- Garcia... – Hotch, que já se encontrava ao telefone, deu o aval para que a agente começasse a reproduzir o vídeo do pen drive, assim que todos se encontravam devidamente preparados para o início das análises do caso.
No vídeo era possível observar Emma Johnson correndo para fora de um prédio, provavelmente o local do evento. Ela estava com o cabelo loiro, que ia até a metade das costas, solto e usava um vestido midi vermelho. Enquanto corre, a vítima olha para todos os lados, especialmente para trás, por cima do ombro esquerdo, como se fugisse de algo ou alguém, mas não há nenhum sinal de estar sendo seguida. Em questão de segundos, ela desaparece, com o ponto cego da câmera de vigilância favorecendo totalmente a ação do elemento.
- Garcia, meu amor, é possível dar um zoom no rosto dela enquanto corre? – Morgan perguntou, debruçado sobre a mesa e o aparelho celular, tentando captar a maior riqueza de detalhes do vídeo.
- O que você não me pede sorrindo que eu não faça, meu galã? – Penelope respondeu, mexendo no computador para que o zoom pudesse ser aplicado à filmagem.
- Congela, por favor, Garcia – Morgan pediu e a técnica assim o fez. – Esse olhar... o que o resultado da autópsia falou? Alguma substância encontrada?
- Hum… nada convencional. Os exames deram quase normais e os técnicos ainda estão realizando exames mais aprofundados, devido à alta concentração de adrenalina. – JJ respondeu.
- Adrenalina é produzida por uma série de fatores: medo, luta, fuga, excitação... O simples fato dela estar correndo já é motivo o suficiente para os níveis de adrenalina aumentarem. – Reid comentou.
- Não sei, ela me parece fora de si... – Emily comentou – e não estou dizendo isso pelo simples fato de estar correndo com medo.

A equipe continuou por mais algum tempo sua análise, com muitas perguntas sendo feitas e poucas sendo respondidas. A peculiaridade do caso o torna ao mesmo tempo óbvio e único, o que faz com que os agentes fiquem divididos entre qual caminho seguir.
- JJ, veja com a investigadora sobre a testemunha e parentes e vizinhos de Emma, quero conversar com todos. Garcia, quero que consiga a maior quantidade possível de informações sobre as duas vítimas, onde frequentavam, se possuíam algo em comum... Reid e Morgan quero que investiguem a cena do crime de Chicago; Prentiss e Rossi a de Detroit. Como foram cenas ao ar livre, temos pouco tempo antes de serem alteradas. O elemento pode estar perseguindo a próxima vítima a essa hora e precisamos divulgar o perfil o quanto antes. – Hotch passou as instruções e logo todos estavam saindo da sala.

- Esta é Angela Jones, foi ela quem encontrou o corpo de Emma – JJ se aproximou, com uma mulher de cerca de 45 anos em seu encalço e a apresentou para Hotch, que estava sentado na sala de interrogatório.
- Prazer em conhecê-la, senhora Jones, sou o agente Hotcher, chefe da equipe responsável pelo caso. Por favor, sente-se. – Hotch falou e a mulher assentiu, se sentando na cadeira do outro lado da mesa. – Poderia, por gentileza, nos descrever o que vi naquela noite?
- Eu estava passeando com meu cachorro, quando ele começou a ficar agitado e a me puxar em direção a um canto meio escuro do quarteirão. No começo, tentei contê-lo, por achar que ele estava apenas agitado, mas ele não parava, então decidi deixá-lo me conduzir. Foi quando eu vi o corpo. De imediato, liguei para a polícia. Moro naquela região há 15 anos e nunca sequer fiquei sabendo de algum crime ali, até furtos são raros.
- E a mulher, Emma, já a havia visto na região? – Foi a vez de JJ perguntar.
- Sim, Emma era membro do nosso clube de ginástica. Ela não morava ali, mas estava sempre por perto e nas festas mais badaladas. Conversamos poucas vezes e ela sempre me pareceu tranquila, não entendo por que alguém iria querer matá-la. – Amelia falou e em seguida baixou o olhar.

O interrogatório continuou por mais algum tempo, antes de JJ sair com a mulher e retornar com um rapaz.
- Este é James, melhor amigo de Emma, eles dividiam apartamento. – JJ apresentou o rapaz para Hotch, que o cumprimentou com um aperto de mão.
- Prazer em conhecê-lo, sou o agente Hotcher. Você e Emma eram muito próximos? Há quanto tempo dividiam apartamento? – Hotch iniciou o pequeno interrogatório, tentando criar todo o cenário por trás da morte da mulher e esclarecer algumas perguntas.
- Somos melhores amigos desde o colégio, fizemos universidade juntos e depois nos mudamos para cá.
- E Emma estava diferente nos últimos dias, James? Comentou algo sobre achar que estava sendo seguida ou algo do tipo? - Foi a vez de JJ perguntar.
- Não, não. Emma e eu éramos muito grudados, então, se fosse o caso, imagino que eu teria sido seguido também, ou teria notado algo.
- Ela não possuía nenhum inimigo?
- Não, Emma sempre foi um amor de pessoa, sociável e companheira.
- Você considera que Emma tinha uma rotina previsível? Seria fácil saber onde estaria agora, por exemplo?
- Mais ou menos, quer dizer, era fácil saber onde ela estaria caso estivesse tendo algum evento no salão perto de onde a encontraram, ela adorava as festas que tinham ali, não faltava uma.
- E Emma fazia o uso de drogas e alucinógenos?
- Santo Deus, não! Ela era fã de festas, bebidas e curtição, mas ainda assim era filha de pais advogados, então, fora a vez que experimentamos maconha em uma festa da universidade, nunca mais nem cogitou voltar a usar..

Assim como o primeiro, o interrogatório continuou por mais algum tempo. Hotch e JJ tentavam a todo custo entender as circunstâncias por trás do fato, mas se viam cada vez mais com perguntas sem respostas.
Algumas horas depois, Emily e David voltaram da análise do crime e ficaram reunidos na sala com Hotch e Garcia. JJ havia sido chamada para atender alguns repórteres e não devia demorar.
- Os resultados que faltavam da autópsia chegaram, vocês devem querer ler. – apareceu na sala, com alguns papéis em mãos e os entregou a Hotch. – Ao que parece, as vítimas foram drogadas com alucinógenos fora dos conhecidos pela perícia.
- O elemento é detalhista, ele sabe o que quer que vejamos e o que não quer. – Emily comentou.
- Esse alucinógeno não seria detectado pela perícia de rotina. – Foi a vez de Rossi falar. – Se a investigadora não tivesse questionado o alto nível de adrenalina e pedido exames complementares, provavelmente nunca teríamos percebido.
- Tem razão, obrigado, agente . – Hotch agradeceu e apenas acenou com a cabeça.
- Liguei para Morgan e Reid e pedi para voltarem o mais rápido possível. – JJ falou, entrando apressadamente na sala. – A polícia de Indianápolis ligou, eles possuem outro caso lá que parece ser do nosso elemento.


Capítulo 2

estava sentada em sua mesa com uma caneca ao seu lado e a cabeça enfiada nos inúmeros papéis do caso.
- Alexander King disse uma vez: “A necessidade básica do coração humano durante uma crise é uma boa xícara de café quente”. – Reid disse, se aproximando de e indicando sua caneca com a cabeça.
- No meu caso, é caneca de chá. Preciso de calmaria para minha mente inquieta e não o oposto. – A agente brincou, assim que o leve susto provocado pela presença repentina do analista passou, e fez sinal para que ele se sentasse na cadeira à sua frente.
- Acho que nunca saberei qual a sensação de ter uma mente calma. – Ele brincou, sem jeito, se sentando.
- Não consigo imaginar como deve ser para você, doutor.
- Vamos apenas dizer que os efeitos pós caso que todo agente sofre, eu sofro constantemente. Porém, também é o que sou, não consigo me ver de outro modo. E, por favor, me chame de Spencer ou Reid. – Ele diz, dando de ombros e lhe oferecendo um sorriso gentil.
- Apenas se me chamar de . – Ela retribuiu o sorriso e ele concordou com um aceno. – Se me permite dizer, dou... Spencer. – O tratamento quase saiu automaticamente, mas conseguiu contornar a situação. Houve um período em silêncio enquanto Reid não sabia ao certo o que mais dizer – nunca fora muito bom em interações sociais com pessoas além de sua mãe e equipe – e bebia um pouco de seu chá.
- Qual a sua opinião sobre o caso? – Reid perguntou, tentando focar em algo que realmente se sentia bom o suficiente para debater sobre.
- Acho que além de uma mulher, estamos lidando com um farmacêutica ou química. A formulação do alucinógeno foi cuidadosamente pensada para passar pelos exames habituais da polícia. A pessoa sabe exatamente o que está fazendo, como tentar nos enganar e, o mais importante, aonde quer chegar. Ela planejou esses crimes há muito tempo e tem tudo perfeitamente organizado. As vítimas não são ocasionais e elas as conhece bem o suficiente para que até a menor alteração em suas rotinas não afete seu planejamento para seu crime. Não me surpreenderia se, enquanto esperamos as informações de Indianápolis, ela já não estivesse com outro crime em execução.
Spencer ouviu cada argumento da agente e quase podia enxergar as engrenagens de sua mente funcionando, tão rapidamente quanto as dele.
Ao fundo, Hotch ouvia a opinião da investigadora, esperando que terminasse antes de interrompê-los:
- Garcia achou alguns detalhes em comum entre as vítimas e as fotos de Indianápolis chegaram. – O chefe da investigação disse, fazendo com que Reid se levantasse rapidamente e ameaçasse voltar a encarar seus papéis. – Seria pertinente sua participação, investigadora.
A policial se levantou rapidamente, sentindo-se feliz apenas por poder participar da reunião com eles e poder expor sua opinião aos demais, e se apressou em segui-los.
Com todos reunidos na sala, JJ voltou a exibir algumas fotos, dessa vez do caso de Indianápolis, onde era possível notar uma mulher de cabelos pretos lisos, traços ocidentais e veste vermelha, ao lado de algumas Magnólias. não precisou ver muito mais para saber que se tratava da história de Mulan, outra de suas histórias favoritas quando criança.

- Por que esse apego tanto a essa história, criança? – Nancy perguntava em tom divertido, depois da menina pedir para que lesse aquela história para dormir, pela terceira vez na semana.
- Gostaria de ser como ela um dia. – A pequena respondeu, com o peito estufado e um sorriso decidido no rosto, o que fez a babá quase rir, dividida entre a fofura do momento e a leve graça do sorriso sem os dois dentes frontais de . Se existia criança mais fofa que aquela, Nancy desconhecia.
- É uma história sobre coragem, determinação e amor. É preciso muita coragem para enfrentar as regras e mais ainda para enfrentar quem se ama. E tudo isso só é possível ter e manter com muita determinação. Claro que o amor dela pela família dela era maior que qualquer medo que pudesse ter, mas a determinação de ter continuado a lutar mesmo depois de ter sido descoberta, essa, se duvidar, era maior ainda. Desejo que você seja igual ela um dia, criança, linda, corajosa e determinada. – Nancy disse, dando um sorriso para e começando a ler a história.

- Para mim o elemento é um homem, é necessária muita força para estrangular alguém assim. – Prentiss falava, quando voltou a si e à reunião.
- Todo o apego aos detalhes contradiz esse ponto. O que temos aqui é uma colecionadora com habilidade em trabalhos manuais, talvez uma artesã ou costureira. – Morgan disse, tentando contribuir com mais detalhes para o perfil.
- Garcia, o que conseguiu? – Hotch perguntou, dando o aval para a técnica, que participava da reunião através de uma ligação, escutando tudo pelo viva-voz, assumir a fala.
- As vítimas possuem estilos de vida bem diferentes. Anne Hoock era estudante de Literatura e instrutora de Yoga, a maioria dos gastos em seu cartão são em lojas de produtos naturais. Emma Johnson adorava um evento social e há uma lista infinita de gastos em bares no cartão de crédito. Ainda estou trabalhando nas informações da terceira vítima, mas uma coisa me chamou a atenção: Anne e Emma receberam dois pacotes no dia que desapareceram: um de uma rede de lojas chamada Nancy’s e outro de uma floricultura que fica a exatos 57 km de Detroit e Chicago.
- Deixe-me adivinhar, também fica a 57 km de Indianápolis. - Morgan falou, em leve tom de brincadeira.
- Santo Deus, sim! - Garcia respondeu e choque, após cruzar algumas informações.
- Uma florista tem habilidade manual o suficiente para montar todas as cenas que já vimos. - Prentiss sugeriu.
- Uma rede de lojas é algo muito abrangente até para essa nossa colecionadora. Ao menos que todas tenham comprado na mesma unidade. Garcia? - Rossi comentou e logo se ouviu barulho das teclas do computador da técnica.
- Não, cada uma realizava compras em uma unidade diferente.
- Garcia nos envie o endereço da floricultura. - Hotch ordenou.
- Em um piscar de olhos. - A técnica respondeu e finalizou a ligação.
- Ficarei aqui traçando o perfil geográfico do elemento e tentando observar algo novo. - Reid disse, enquanto todos, exceto JJ, se levantavam às pressas.
- Tudo bem. - Hotch disse, pouco antes de continuar a falar, passando novas instruções para a equipe: - JJ quero que veja se mais algum familiar das vítimas chegou e entre em contato com Indianápolis e avise que estamos a caminho; Rossi e Morgan, quero vocês dois na floricultura, Prentiss e eu vamos à Indianápolis, me mantenham informado. - os quatro concordaram com um aceno, pouco antes de deixarem a sala.
- É, doutor, parece que seremos só nós dois por algum tempo… - comentou em tom brincalhão, recebendo uma expressão desconcertada de Reid como resposta.


Capítulo 3

📍 Departamento de Polícia de Detroit, 15:27
- Algo para mim não faz sentido… - começa a falar, fazendo com que Spencer interrompa sua análise do mapa e demarcações e passe a encará-la, enquanto ela analisa uma série de fotos e laudos. - Ela não passa muito tempo com as vítimas, o que demonstra que a cena do crime é que a satisfaz, a exibição de sua obra.
- Ela estrangula, mas de forma rápida, não para curtir a sensação, mas para ter mais tempo na montagem de suas cenas. - É a vez de Spencer falar, começando a seguir a linha de raciocínio de .
- Mas por que então não envenenar?
- Envenenar alguém pode ser muito mais difícil do que se pensa, além de todo o risco, ela precisaria se aproximar da vítima e isso poderia comprometer sua identidade…
- Estrangular alguém, ainda mais da forma que ela o faz, não é assim tão fácil também, precisaria praticar. Fora o curto prazo entre uma vítima e outra… não está sendo maior que 2 dias.
- O curto espaço de tempo pode ser um sinal de ansiedade, ou uma demonstração de poder e controle, para nos mostrar que o elemento planejou todas as etapas desses crimes e quer finalizar logo, provavelmente porque sente que já esperou demais.
- Certo. Então estamos lidando com uma mulher, com domínio em Química e substâncias, com boas habilidades manuais e que teve condições de treinar estrangulamento humano sem ser notada? Por que todo esse perfil não me parece o de uma florista?
- Porque não é. - Spencer fala simplesmente, percebendo que mais uma vez foram conduzidos para o suspeito errado, provavelmente o que a assassina queria.
- E se estivermos lidando com uma farmacêutica? Isso explicaria o conhecimento em anatomia humana e o domínio em combinações químicas.
- Faz sentido. As habilidades manuais e a força podem ser adquiridas. Além do mais, acabei de ver aqui que foi encontrado Arsênico nos corpos das vítimas. A julgar pela concentração imagino que ele contribua para um princípio de envenenamento e para o estado alucinógeno em que a vítima de Detroit se encontrava.
- Ainda assim… tamanha força exigiria muito condicionamento físico. E se estivermos lidando com uma dupla?
- Acho muito difícil, até mesmo as mais fracas personalidades submissas possuem algum traço de participação sendo exibida nas cenas dos crimes. Esse elemento é meticuloso demais para deixar que algo afete sua obra.
Os dois ficam algum tempo em silêncio, pensando em suas teorias, até serem interrompidos pelo celular de Reid que toca:
- Hotch, você está no viva voz. - Reid fala ao telefone.
- O dono e o entregador da floricultura são ambos homens. Vamos voltar e divulgar o perfil. Peça a JJ para reunir a imprensa.
Reid encerra a ligação e volta a analisar seu perfil geográfico, tendo seus movimentos acompanhados por .
- 90% dos casos ocorrem na zona de conforto do elemento, então finalizei o perfil geográfico e posso afirmar que o elemento mora nessa região aqui. - Reid terminou de explicar e apontou para a região circulada no mapa, estava focada demais no que acontecia do lado de fora do departamento de polícia, para prestar atenção. De onde estava, a investigadora conseguia ver indícios de uma entrada ao vivo acontecendo.
Rapidamente, a investigadora ligou a TV e percebeu que seu caso havia vazado. A chamada "Fada Madrinha do Mal" deslizava na parte inferior da tela, enquanto uma repórter falava ao vivo, diretamente da frente do departamento de polícia, dos detalhes do caso, quando JJ apareceu na sala:
– Isso não é bom. - ela fala, parada ao batente da porta, com uma mão em cada madeira branca.

📍 Em algum lugar dos Estados Unidos, 18:43
Molly sentia suas pernas doerem e a dificuldade em respirar aumentar a cada passo. A rua deserta do entorno da academia havia se transformado em uma confusão de luzes coloridas, que a cegavam a todo instante, deixando seus passos trôpegos, e corpos disformes, o que dificultava correr, com a constante sensação de poder atingir algo - quando ela pensava que não era nada, alguma sombra sem forma a sua frente se revelava algo, fosse parede, poste ou algo do gênero, assim que colidiam.
Sabe que não vai conseguir fugir de mim, Molly…
Molly…
Molly…
Molly...

Aquela voz… não sabia a quem pertencia a voz, mas ela conseguia ouvi-la, em alto e bom som, ecoando ao seu redor, chamando seu nome e gargalhando, enquanto sua sombra a perseguia pela rua. Quanto mais tentava correr e fugir, mais perto da sombra que a perseguia ela ficava.
O desespero crescia em seu íntimo, a sensação da morte iminente era quase impossível de ignorar. Entre um olhar por cima do ombro, um desvio de uma sombra desforme, Molly sentiu seu corpo de chocar com algo. Diferentemente dos choques anteriores, dessa vez Molly não sentiu dor, não sentiu nada… apenas, apagou.

📍 Em algum lugar dos Estados Unidos, 19:34
- Essa precisa ser a última! - ouviu o reflexo à sua frente dizer.
- Eu decido quando vai ser a última. - respondeu, antes de pegar o vestido costurado a mão, a peruca, a agulha e a linha.

Olhou para a garota, Molly ainda se debatia na cadeira onde foi amarrada.
Chegou a cogitar ter dado uma dose maior do que a necessária para a garota, mas logo descartou tal pensamento. Ela nunca errava.
Ao se aproximar da garota, foi até as costas dela e apertou ainda mais o arame em volta de seu pescoço, percebendo os reflexos da garota se intensificarem - mesmo dopada, numa tentativa de se livrar da sensação de morrer asfixiada.
Enquanto os reflexos da garota diminuiam e sua respiração se tornava menos urgente, se sentiu Deus, capaz de definir entre a vida e a morte de alguém apenas com sua força.

Estaria ela pensando nela, na pessoa por de trás de todos aqueles crimes? Será que conseguia dormir? Desejava com todas suas forças que a resposta fosse não, ansiava que a investigadora perdesse seu sono com ela, com seus crimes, suas obras de artes, suas demonizações das doces lembranças da amada investigadora.Ela, que a fizera perder os melhores anos de sua vida, tudo por conta da doce document.write(Kiara).
O ódio lhe toma de tal modo que nem percebe que a garota já não respira e que quase lhe impôs força demais. Como pânico de ter estragado sua ‘modelo’, corre para a frente da garota, erguendo com pudor seu queixo com os dedos, observando uma marca mais forte do que o necessário. Droga, precisaria de uma base para amenizar aquela marca.

📍 Departamento de Polícia de Detroit, 05:54
- Temos outro corpo - JJ é direta, enquanto entrega copos de café para os companheiros de equipe que estão sentados à mesa.
- Não é possível que alguém consiga matar tanta gente em tão pouco tempo. É o que, o quarto corpo em uma semana e meia? - Rossi desabafa, bebendo um gole de café.
- Nessa velocidade ela não possui tempo hábil para aproveitar das emoções de cada morte. Não há porque matar se não pelo próprio prazer, e ela não parece se importar com isso. - Morgan comenta, visivelmente exausto.
- Bom dia, agentes. - fala, se aproximando da equipe, com uma caneca em mãos.
- Chá? - Reid pergunta, levemente mais disposto do que segundos antes, se arrumando na cadeira. Morgan não consegue evitar perceber a cena e dá um sorriso ladino na direção do amigo, que não percebe.
- Café dessa vez. - responde, erguendo a caneca na direção do rapaz, pouco antes de se sentar na mesa.
Aproveitando a presença de todos, JJ entrega as pastas de cada um, onde constam as informações de Molly e as fotos do crime. Poucos segundos de análise se passam antes de Hotch falar:
- JJ, fale com a mídia e não deixe que liberem nada sobre essa atualização no caso. - A loira concordou com um aceno, antes de pegar uma pasta e sair da sala. - Emily, vá ao legista e veja se deixamos passar algo. Rossi e Morgan quero vocês no local onde encontraram o corpo. Reid e eu vamos ficar aqui e ver com a Garcia se conseguimos reduzir a lista de nomes que se encaixem no perfil que divulgamos ontem. - os demais agentes concordaram com a cabeça e se levantaram, com o copo de café em mãos, dando início às atividades do dia.
Reid deu alguns passos em direção à saída da sala, antes de ser segurado de leve no braço por Hotch.
- Vou ligar para a Garcia, fique aqui e termine o seu café. - o líder da equipe disse, sorrindo gentil, indicando , que continuava à mesa, com a pasta em mãos, com a cabeça.
Reid ficou meio confuso, mas não o questionou, voltando a se sentar na mesa, enquanto Hotch deixava a sala.
analisava atentamente cada página e foto contida na pasta, imersa em pensamentos. Reid apenas ficou ali, esperando o momento em que a mulher quisesse falar algo.
- Já teve a sensação de que o caso é mais do que aparenta ser?

- Algumas vezes. Por quê?
- Quando achamos o corpo de Emma, eu fui tomada por uma sensação de que aquilo tudo era para mim, era um caso meu, onde a peça principal e mais necessária seria eu mesma. Agora, com três corpos onde a colecionadora apresenta as minhas histórias favoritas quando criança, eu passo a ter cada vez mais certeza de que o planejamento dela inclui até a mim na investigação do caso.
- Não pude deixar de ouvir isso, investigadora . - Hotch falou, se aproximando dos dois, já de volta à sala, assustando aos dois. - Receio que, caso isso seja verdade, você seja obrigada a se afastar da investigação e colocada no programa de proteção.
- Mas… - Reid tentou falar algo, mas não conseguiu pensar em nada para falar.
- O problema, agente Hotcher, é que eu possuo uma cerimônia para comparecer amanhã. - foi tudo o que falou, entendendo a necessidade de seguirem todo o procedimento; se a situação fosse outra, ela faria o mesmo.
- Nesse caso, acho que precisará de escolta… Reid, espero que saiba dançar. - Hotch comenta, sorrindo levemente brincalhão em direção ao mais novo.
- Apesar de ser matemática básica… - o rapaz começa a falar, se enrolando com as palavras.
- Espero que tenha um terno em sua mala, doutor.


Continua...



Nota da autora: Oiee!
Quem é vivo sempre aparece, não?

Queria ter divulgado o perfil já para vocês, mas preferi trazer um trecho de uma conversa conturbada do elemento, para incentivar teorias hahaha
Comentários são sempre bem-vindos, eu leio todos e respondo com carinho S2


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