Contador:
Última atualização: 05/01/2022

Chapter 1

La Rose R.

Não tinha nem uma semana que havíamos chegado em Bristol e parecia que aquele homem já conhecia todo mundo na cidade, me apresentando a todos. Na maior parte do tempo, eu ficava apenas calado ouvindo tudo – só abria minha boca quando algo era perguntado diretamente a mim. Ralph, meu pai, dizia que conhecer muitas pessoas era bom para os negócios. Por isso era ele quem organizava tudo sempre, porque eu não tinha a menor paciência para me socializar; mas, às vezes, era obrigado a fazer isso. Ainda mais quando era com seus sócios.
Ralph tinha conseguido arrumar amizade com um dos caras que tinha vários imóveis na cidade, Robert Castles, além de mexer com algumas coisas ilegais. Mas meu pai não se importava com isso quando só precisava de um lugar para o nosso Clube da Luta particular, onde eu era seu lutador favorito e ele sempre fazia suas apostas em mim, quando havia me treinado sempre para ganhar. De qualquer forma, isso não importava muito quando eu permanecia invicto. O que estava realmente me incomodando agora era o fato de ir em uma festa que seu sócio estava dando em seu clube. Meu pai queria que eu causasse boa impressão para que Castles investisse dinheiro em mim nas lutas. Isso era um saco.
Eu era teimoso demais. Meu pai sempre falava isso, e ele tinha total razão. Apesar de Bristol ser pequena, consegui me perder quando virei a rua errada. Para variar, a porra do meu iPhone tinha descarregado, e nem dava para usar o GPS do carro, porque tinha esquecido de baixar o mapa da cidade, além de ter esquecido também o carregador em casa, só para variar um pouco.
Consegui chegar na maldita festa depois de uma hora rodando por aquelas ruas, perdido, e não tinha ninguém para pedir informação. Parecia que, do nada, a cidade tinha ficado deserta. Estacionei o carro em um lugar um pouco longe por não querer chamar atenção, mas, antes de descer, olhei meu cabelo no espelho e puxei os longos fios cacheados para trás. Não tinha muito que eu pudesse fazer para deixá-los no lugar quando tinham vida própria. Eles só caíram para o lado e eu os deixei daquele jeito. Peguei meu cigarro e isqueiro Zippo do Constantine, que era o meu bem mais precioso, e saltei do carro. Puxei as mangas longas da minha camisa para baixo, vendo se estavam bem fechadas em meus pulsos, e estava perfeitamente preto. Coloquei o cigarro e o isqueiro nos bolsos da frente da minha calça jeans.
Andei apressado pela calçada em rumo ao clube Castle’s, e, só de olhar aquela fila enorme, já me irritou. Odiava filas, ainda mais esperar por algo. Então, dei a volta no lugar e subornei o segurança para entrar pelos fundos. Gostava de como algumas libras podiam fazer literalmente portas se abrirem. Adentrei o lugar e fui passando por entre as pessoas, até que vi Robert e Allie, uma das garotas que trabalhavam com ele. Ralph disse que aquela mulher era osso duro.
Não acenei nem nada, apenas fui andando na direção dele até o balcão. Quando estava me aproximando, alguém me esbarrou muito forte e vi que era uma garota morena. Aquilo me fez unir as sobrancelhas, já puto, e ela nem pediu desculpas.
— Bela educação você tem — falei, irritado com aquela merda, então dei as costas.
— La Rose! — Robert falou de forma saudosa, levantando um de seus braços para fazer um toque de mãos.
— Castles — respondi, forçando uma emoção totalmente falsa e pegando sua mão.
— Pensei que não viria — comentou, dando uma pequena risada.
— Não ia perder uma festa — disse, me virando no balcão e pedindo uma bebida.
Meu pedido não demorou muito para chegar. Dei um gole em meu drink enquanto escutava Castles e Allie conversando sobre alguns negócios. Como não gostava de conversar, na maior parte do tempo fiquei calado, mesmo ouvindo os dois. Estava totalmente distraído quando senti algo molhado ensopar minha camisa social.
— Ai — ergui minha cabeça e vi a morena que tinha esbarrado em mim quando cheguei. O cheiro de cerveja invadiu meu nariz. Ela estava com a mão na boca, sem jeito. — Além de ter uma bela educação, eu tenho belos pés esquerdos — sorriu, piscando diversas vezes.
— Tá de sacanagem? — berrei, querendo enforcar aquela garota. Como não podia bater nela, simplesmente joguei minha bebida em sua cara. — Ai — a imitei, forçando um pouco a minha voz. — Acho que molhou um pouco aqui — passei o indicador em seu rosto e peguei sua mãozinha, colocando meu copo vazio nela. — Não cruza a minha frente de novo — falei em seu ouvido e saí andando, fazendo questão de esbarrar em seu ombro. Precisava dar um jeito naquilo.
— “Não cruza a minha frente de novo” — ouvi sua voz me imitando, como uma criança faria.
Castles me puxou para dançar com ele e Allie, certamente prevendo que daria merda e eu poderia cometer um assassinato em seu clube. Não falei nada, apenas fui todo molhado de cerveja mesmo. Foda-se, daqui a pouco aquela merda secava, mesmo que fosse ficar fedendo. E aquilo seria uma desculpa ótima para me fazer ir embora, mas meu pai ficaria me enchendo a paciência por isso. Então, apenas decidi ficar.
— Hey, idiota — senti alguém bater em meu ombro, então parei, vendo que ainda era aquele projeto de gente.
Aquela garota ainda não tinha entendido que não era para cruzar comigo ou será que era uma babaca sem noção mesmo? Quando fui reclamar, ela enfiou o copo na minha boca. Tirei-o na mesma hora, respirando fundo. Aquilo só podia ser a filha de Lúcifer!
— Estava procurando um lixo. Como não achei, vai você mesmo, lindinho — ela sorriu e saiu andando.
Eu a fuzilava com o olhar. Olhei por cima de meu ombro e encarei Castles, que tinha um olhar preocupado. Por mais raiva que estivesse sentindo, eu não faria nada contra aquela garota. Apenas suspirei e deixei que ela fosse embora. Fechei meus olhos e respirei mais algumas vezes, depois me virei e voltei até onde Castles estava.
— Desculpe a demora — falei, pegando a bebida que tinha em sua mão e dando um gole. — Você se importa se eu fumar aqui dentro?
Castles sorriu e negou com a cabeça. Então, peguei sem cerimônia um dos meus rolinhos pretos. Coloquei o cigarro entre meus lábios e o acendi, dando uma longa tragada.
— Valeu — coloquei o isqueiro de volta em meu bolso.
Fiquei fumando mais tranquilo com Castles e Allis enquanto dançávamos, até que o loiro disse que já voltava. Então, o segui com o olhar. Quando saiu, me espantei momentaneamente quando vi com seus cabelos , ainda mais claros na luz negra. A mulher estava apenas de calcinha dentro do clube. Aquilo sim me fez rir. Ela era louca demais, e aquele ato me fez gostar um pouco mais dela. Já tinha simpatizado antes, quando eu e meu pai fomos visitar o Madam Simmons, uma boate na cidade onde ela trabalhava de dançarina. Sem perceber, fiquei com um sorriso pequeno em meus lábios. Então notei que Allie olhou para a mesma direção, e ela riu também. Meu olhar desviou para a mulher na minha frente.
Um cara apareceu falando com Allie, e isso foi a minha deixa para sair dali. Me sentei em um sofá e acabei de fumar aquele meu cigarro. Fiquei ali por um tempo e até falei com algumas pessoas que se sentavam para puxar assunto, mas a verdade era que aquela festa estava um saco. Acho que já tinha socializado o suficiente e podia ir embora.
Levantei e fui para a porta. A festa estava lotada, e estava até mesmo difícil sair do lugar. Depois de uma luta quase sem fim, cheguei do lado de fora, sentindo a brisa de Bristol acertar meu peito e gelar a minha camisa, me dando um pequeno arrepio. Parei na porta do clube e apalpei os bolsos, procurando meu cigarro para fumar de novo. Até que vi com seu celular na mão, saindo do Castle’s. Olhei para ela por alguns segundos e mordi de leve minha boca por dentro. Não sabia se deveria falar com ela, muito menos se ela se lembrava de quem eu era. Umedeci meus lábios e peguei meu cigarro. Era melhor fumar.
— Quer uma carona, boneca? — ouvi um cara se aproximar da mulher, e ela o encarou no mesmo momento com uma expressão de nojo. Uni as sobrancelhas de leve. Ele não ia tocar nela, ia? Seu olhar voltou para o celular e ela simplesmente o ignorou. — Não está vendo que estou falando contigo? Posso te mostrar umas notas e provar que não vai ser nada de graça.
Aquele babaca estava mesmo falando aquilo ou eu estava escutando errado?
— Umas notas? Nem por diamantes, meu caro — respondeu com a voz ríspida, e aquilo me fez dar um pequeno sorriso, gostando mais um pouco dela. — Só pela carona, depois pelo apelidinho sujo e me oferecer apenas umas notas, eu sei bem que seria preferível estar no hospital do que estar vendo seu pau, que deve ser minúsculo. Agora me deixe em paz! — seus olhos entediados voltaram para a tela de seu celular.
— Vou mostrar o que é minúsculo pra você, vadia — o sujeito rosnou e a pegou pelo braço, fazendo-a derrubar o celular.
— Solta ela — mandei, com a voz baixa e rouca, fumando meu cigarro e me aproximando.
— Não se intromete, cara — ele me olhou feio, e vi os olhos de agora me encarando.
— Solta. Ela. — Falei mais pausadamente, para ver se aquele quadrúpede entendia agora. — Estou pedindo com educação. Você não vai querer ver a falta dela.
Então, a mulher deu uma baita joelhada no meio das pernas dele e um tapa em sua cara, conseguindo se soltar. Mesmo assim, o homem conseguiu puxá-la pelo cabelo, grunhindo de dor. Joguei meu cigarro no chão; minha mão fechada passou pela lateral do rosto de e acertou o nariz do sujeito, fazendo com que ele a soltasse na mesma hora. Me desviei da mulher, pegando a mão do cara que estava no chão, se contorcendo de dor, e ajoelhei em seu peito para que ele não se levantasse. Comecei a quebrar dedo por dedo, para ele nunca mais tocar em ninguém daquele jeito.
— Da próxima vez que passar pela sua cabeça que tem o direito de colocar a mão em alguém, espero que se lembre o quanto isso pode doer — apertei seus dedos quebrados, o ouvindo grunhir alto. — E isso aqui é cortesia minha — peguei sua outra mão e quebrei seu pulso em um movimento seco e rápido. — Oras, não sabia que você podia chorar. Geralmente, babacas como você não fazem isso. Mas eu acho que estava enganado — levantei-me calmamente e olhei para , que tinha um sorriso divertido nos lábios ao assistir aquilo. — Você está bem?
— Um segundo — ela pediu para mim, então chutou de novo o saco do cara no chão, depois esfregou suas palmas como se estivessem sujas. Eu ri fraco daquilo. — Estou perfeitamente bem — respondeu, voltando a me olhar com um sorriso maior. — É La Rose, certo?
Concordei com a cabeça.
— Me desculpe me meter na sua briga. Sei que é deselegante fazer isso, mas ele me irritou — expliquei, olhando para o homem que gemia e chorava no chão. — Cala a boca — chutei de leve sua perna. — Não vê que está atrapalhando a conversa com esses gemidos infernais? — o olhei feio, e ouvi ela rir.
— Pois saiba que achei extremamente elegante a forma como você quebrou os dedos dele. Como faz isso? — ela apontou para o cara, indicando seus dedos. E me olhava curiosa, me tirando outro pequeno sorriso. — Valeu mesmo por isso. A festa inteira só valeu a pena por ter assistido essa cena. Não é todo dia que se vê alguém quebrando os dedos e o pulso de um babaca — seu sorriso fechado aumentou, então olhou para o homem com um certo desprezo.
— Vem cá que te mostro — acenei com a cabeça, para que ela viesse até onde o homem estava, e peguei a mão que tinha quebrado o pulso. se aproximou no mesmo instante com o olhar intrigado. — Tem duas formas — comecei a falar —, segura a mão dele assim e você pode pressionar um dedo para baixo em cima da dobra, dessa forma — mostrei como fazer, ouvindo o estalo que tinha feito. Ela mordeu o lábio inferior, e seus olhos brilharam. — Ou assim — peguei outro dedo, o envolvi com força e o puxei para trás. Ouvimos outro estalo, ignorando totalmente o sujeito urrando. — Você tem alguma coisa para enfiar na boca dele? — perguntei, unindo as sobrancelhas, e ela ponderou com a cabeça. — Quer tentar? Eu prefiro o primeiro, mas precisa de mais força. E seu dedo também pode escorregar e acabar se machucando. Toma cuidado nisso — avisei. — Por nada — sorri de leve.
— Certo, quero tentar sim — respondeu, bem animada até, pegando a mão do cara em seguida. — Antes de tentar… Tenho algo sim para tampar a boca dele — ela riu baixinho e abriu sua bolsa, tirando um pau de borracha de dentro dela. Então, simplesmente o enfiou na boca do cara. Aquilo conseguiu me tirar uma risada que eu não soltava tinha algum tempo. — Aposto que é maior que o seu, docinho — piscou para o cara, então me olhou. — Seu sorriso é bonito — disse para mim, e ele sumiu no mesmo instante. Seus olhos voltaram para os dedos do cara e ela seguiu a segunda instrução: puxou um dedo de forma rápida para trás, como eu havia feito, então ouvimos o estalo. O homem se engasgou com o pau de borracha quando gritava. — Isso é ainda melhor do que chutar sacos! Adorei! — soltou, bem animada e dando uma risadinha. Segurei o sorriso e concordei com a cabeça.
— Vem, tenta do outro jeito, eu te ajudo — ofereci, porque, dependendo de sua raiva, ela conseguiria fazer aquilo com facilidade. — Posso? — perguntei em relação a tocar sua mão. Ela me olhou um pouco surpresa por aquilo, mas balançou a cabeça rapidamente em afirmação. Então, a toquei de leve e coloquei seu dedo da forma correta, na dobra do dedo do sujeito, com o meu por cima. — Força agora — pedi com a voz calma e suave, vendo-a assentir e respirar fundo.
Seu dedo forçou o do cara e eu a ajudei, aplicando força sobre o seu, até ouvir outro estalo. Soltei-a em seguida. Ela virou seu rosto e olhou em meus olhos, abrindo um pouco mais os seus. Pude ver a satisfação em seus tons claros.
— É definitivamente bem melhor do que chutar sacos! — soltou de novo, rindo um pouco e olhando para o sujeito no chão. — Pode ficar com o pau pra você brincar — falou com o cara, até de um jeito doce.
— Aposto que ele vai se divertir horrores, né? — olhei para ele, lhe dando uma piscadinha.
— Na parte de baixo tem o nome da loja, caso você queira um maior — ela sugeriu para o cara, levantando os ombros em sinal de dúvida.
— Quando alguém te segurar pelo cabelo daquela forma, você pode tentar acertar com uma cotovelada na costela — falei, me colocando de pé e olhando para a agora. — Pisar no pé da pessoa é uma ótima saída. Se estiver de salto, vai ser ainda melhor.
— Já tentei a cotovelada uma vez e não deu muito certo, quase tive o braço torcido — contou, fazendo uma careta. Torci o nariz por causa daquilo. — Mas o pisão no pé é uma ideia ótima mesmo. Eu vivo de salto alto mesmo, devido ao Madam Simmons… — gesticulou a mão, em sinal de que eu já sabia onde ela trabalhava.
— Geralmente, quando a pessoa te pega por trás, ela fica na defensiva, já esperando um ataque seu na região do tronco ou nos braços. Já o pé eles normalmente esquecem, e dá tempo de você correr. Mas usar um taser seria ótimo também. Será que tem um em formato de pau? — perguntei com certo humor na voz, e ela soltou um riso nasalado.
— Vim para uma festa e estou tendo aula de defesa pessoal. Obrigada pelo convite, Castles! — disse, como se ele pudesse ouvir, então sorriu de leve para mim. Ri nasalado com aquilo.
— Ao seu dispor — fiz uma pequena reverência.
— Ah, eu tenho um taser, mas realmente esqueci de trazê-lo hoje. No MS somos meio que obrigadas a saber usar esse tipo de defesa, mesmo porque é óbvio que homens idiotas acham que podem nos tocar só porque tiramos a roupa toda noite — ela rolou os olhos.
— Não sabia disso. Mas é ótimo. Homens não têm muita noção das coisas. Se forem héteros, então, pior ainda — rolei meus olhos também. Eles me cansavam demais. Eu não tinha a menor paciência para lidar com esse tipinho de gente.
— Pior raça — ela fez uma careta de nojo, e eu concordei veementemente. — Eu costumava andava armada, mas não confio muito na minha raiva. E sei que não pensaria duas vezes antes de estourar os miolos de um filho da puta desses — torceu de leve seu nariz. Ponderei com a cabeça.
— O taser é mais seguro. Não acho que seria bom você ser presa por causa dessas merdas — olhei de novo para o cara, que pelo menos ainda estava respirando.
— Por isso eu torço pelo dia em que matar de TPM seja legalizado — comentou, juntando suas mãos como se fosse rezar. — Muito obrigada — ela agradeceu, abrindo mais o sorriso.
— Por nada, madame — falei que nem aqueles lordes de antigamente, fazendo outra reverência. Vi o sorriso dela ficar ainda maior. — E pode contar que nesse dia eu vou pedir pra você matar umas pessoas para mim — pisquei um olho para ela, que soltou uma risada.
— Só me dizer o nome e como quer que a pessoa morra, então fechamos os negócios — piscou seu olho, rindo baixinho. Mas meu olhar foi atraído quando ouvi o som de sirenes de ambulância e polícia.
— Vem! Vamos sair daqui — falei, já dando uns passos apressados para trás. começou a se afastar também, olhando em volta e pegando seu celular do chão rapidamente. — Você quer uma carona? Meu carro está para lá — indiquei a direção. — Ou eu posso tentar arranjar um táxi contigo, esperar um Uber, ou chamar alguém para isso, como uma das meninas que estavam comigo — ofereci, enquanto andávamos rapidamente para sairmos dali antes que os canas chegassem.
— Seria muita folga minha aceitar sua carona depois do que você fez… — deu um sorriso triste. — Mas eu sou folgada. Então, aceito a carona sim — estalou a língua no céu da boca, dando de ombros.
— Fechado! — exclamei com empolgação. Antes de conseguirmos chegar no meu Land Rover, um carro da polícia já havia entrado na rua. — Por aqui — a chamei, entrando entre um prédio e outro e me encostando na parede, vendo-a fazer o mesmo. Esperamos a viatura passar junto com a ambulância. — Vem — falei mais baixo e seguimos para meu Evoque preto. Tirei a chave do bolso e já destravei as portas, entrando no lado do motorista. — Certo, você só vai ter que me guiar pela cidade. Eu não sei onde fica nada aqui — expliquei, torcendo de leve o nariz.
— Pode deixar. Sei imitar certinho a voz da mulher do GPS, se quiser — brincou ao entrar do lado do passageiro e fechar a porta.
— Aceito. Acho super sexy a voz da mulher do Google. “Em duzentos metros, vire à direita” — brinquei, tentando imitar aquela voz mecânica, mas que claramente tinha ficado uma merda. Ouvi ela soltar uma risada mais alta, então a olhei por um momento, gostando do som.
— Já dá pra você mandar currículo para o Google — falou como sugestão mesmo, mas sorriu, querendo segurar a risada.
— Será que vão me contratar? — perguntei de forma pensativa, negando com a cabeça em seguida.
— Você tem o meu apoio total. Tenta sim, aposto que vão! — ela falou, dando mesmo a maior força, e riu nasalado logo depois. Concordei como se fosse mesmo enviar o currículo. — Achei que seria só mais uma festa sem graça, e olha só que noite divertida. Quebrei dedos, chutei sacos e fugi da polícia.
— Realmente, a noite só ficou boa nessa parte — tive que concordar com aquilo. tinha praticamente me salvado do tédio.
— Estou vendo que você adorou a festa — sua voz saiu em tom de ironia, e ela negou de leve com a cabeça.
— Está falando do meu cheiro de cerveja?
E, naquele momento, percebi que estava conversando com ela mais do que eu deveria ter feito o mês todo. Então, joguei a chave no porta-copos do carro e apertei o botão de start.
— Ah, estava só me referindo à parte que só ficou boa depois que você saiu da festa. Mas já que mencionou… Que cheiro adorável! — debochou e riu fraco em seguida.
— Essa parte realmente foi a melhor. A que saí daquela festa — confirmei, e ela fez um biquinho. — Vai, me fala para onde eu vou — segurei o volante.
— Com a temperatura sempre fria da cidade gelada do interior da Inglaterra, não se esqueça de pegar seu casaco quando sair de casa. Então, ligue os faróis e a seta e vire à próxima esquerda com cuidado, porque é via de mão dupla — disse, exatamente com a voz da mulher do GPS, mordendo sua bochecha para não rir. Eu a olhei com um ar de riso, mas me contive também. Aquilo estava ótimo. Então, fiz exatamente o que disse. — E a dica de hoje é tomar um chocolate quente ou uma taça de vinho…
— Chocolate quente realmente seria ótimo — comentei, pensando que tinha ficado meio enjoado por causa daqueles drinks que tomei.
— Chocolate quente com pipoca — ela sorriu ao ponderar sobre aquela ideia. — Pode virar a direita agora — indicou.
— Pipoca de chocolate — falei com um tom divertido e virei à direita.
— Com calda em cima — respondeu no mesmo tom e sorriu de leve.
— Pare, mulher! Estou ficando com vontade de comer pipoca doce com calda! — reclamei, a olhando feio. Eu teria que achar um lugar para comprar pipoca e calda de chocolate agora.
— Manda o endereço da sua casa que eu te envio a pipoca. Não existe melhor que a minha, a Saph sempre diz isso — contou de um jeito gentil, sorrindo de leve. Então, concordei. E ia mandar mesmo, porque agora eu queria pipoca. — Agora siga reto nessa avenida, e cuidado com senhoras atravessando a rua sem o semáforo fechar — brincou, dando um sorriso divertido.
— Odeio velhinhas, vou atropelar todas se passarem na minha frente — brinquei com um ar de riso em minha voz, e ela soltou mais uma risada alta.
— O senhor acabará cumprindo uns dez anos na condicional se ultrapassar o sinal vermelho, mas ninguém se importará com a morte das velhinhas — brincou, ainda com a voz da mulher do GPS, e riu em seguida.
— Ok, sem ultrapassar o sinal vermelho — fiz uma nota mental. — O que custa esperar o semáforo fechar? Não vai doer mais a coluna delas — agora falei em tom de reclamação mesmo.
— La Rose, claro que vai doer mais as costas delas. São velhinhas, né? — fez um biquinho e depois sorriu de novo.
— E você acha que eu ligo pra elas?! Que esperem o sinal fechar! — rebati, como se estivesse bem indignado com aquilo, com as velhinhas abusadas que queriam morrer logo atravessando a rua quando não deveriam.
riu um pouco alto, negando com a cabeça.
— Será que não existe o modo de elas falarem umas sacanagens? — perguntou, curiosa e pensativa. Encarei-a por um segundo, querendo rir alto daquilo.
— Olha, aposto que algum tarado já conseguiu essa proeza — falei, pensativo sobre aquilo, enquanto dirigia pelas ruas de Bristol ouvindo ela rir.
— Está liberado ultrapassar só o sinal amarelo, ok? — apontou o dedo, como se fosse outro lembrete que eu deveria anotar.
— Certo, certo. No amarelo — balancei minha cabeça, e ela fez um joinha com seu polegar.
— Por isso e por muitos outros motivos que eu não dirijo — contou, estalando a língua no céu da boca.
— Eu só dirijo porque odeio depender de qualquer pessoa para fazer o que eu quiser. Porque isso aqui me deixa mais estressado do que já sou naturalmente — contei, soltando um suspiro longo.
— Adorei mesmo o seu humor — ela comentou, rindo um pouco, mas seu tom de voz continha sinceridade.
não podia estar mesmo falando sério. Eu era estressado, brigão e calado, apesar de estar falando muito com ela naquele momento. Quando a olhei por um segundo, vi ela devolvendo o olhar, me dizendo através deles que falava sério. Prendi meus lábios em uma linha reta e assenti com a cabeça, voltando a prestar atenção na rua.
— Continua reto. Na rotatória você pega a esquerda, então meu prédio vai aparecer piscando e brilhando para você — sua voz saiu em um tom infantil.
— Ok — respondi, seguindo suas instruções. — E a senhora está sem casaco! Vai pegar um baita resfriado — avisei, já que ela estava sentada no banco do carona vestindo apenas seus saltos e uma calcinha que não era muito grande.
— Eita, porra! Até esqueci que estava quase pelada. Foi mal — bateu na sua testa, então tirou um vestido amarrotado de sua bolsa que era absurdamente fino e o vestiu rapidamente. — Olha, se toda vez que eu ficasse pelada pegasse um resfriado, estaria desempregada — comentou, em tom divertido.
— Tudo bem — dei de ombros. De qualquer forma, eu nem tinha olhado para o corpo dela ou coisa parecida. Não me incomodava nem nada do tipo. Na verdade, não atraía o meu olhar. — Se realmente estiver com frio, tem um casaco no banco de trás — ofereci, porque realmente a brisa estava gelada, ao ponto que eu tinha sentido frio quando saí do Castle’s.
— Obrigada, mas eu realmente me acostumei com o clima de Bristol. E adoro o frio. Adoro sentir o vento batendo em meu rosto e de como a sensação de praticamente cortar sua pele é tão forte. Mas, mesmo assim, o frio é apenas um clima, apenas o vento — seus olhos foram para a janela enquanto ela falava, e havia um sorriso pequeno em seus lábios.
— Então eu tenho uma coisa para você — apertei o botão que abria o teto solar todo, fazendo o vento entrar. Ela me deu outro sorrisão por isso. — Se você quiser, pode ir lá em cima sentir o vento na sua pele — ofereci, a olhando rapidamente.
Ela ergueu uma sobrancelha, olhando para cima em seguida. Então, se levantou no banco e realmente foi olhar a rua pelo teto solar. Olhei para cima e vi seus fios voando ao vento de um jeito bonito. Aquilo me tirou um sorriso.
— Ei — a ouvi me chamar lá de cima. Ergui minha cabeça, olhando para . — Você poderia acelerar só um pouquinho? — pediu, com um sorriso arteiro nos lábios.
Meu pé afundou no acelerador, enquanto eu a olhava de uma forma séria, vendo seus cabelos dançarem ainda mais ao vento. Ela riu de um jeito leve e feliz, tentando colocar suas mechas atrás da orelha enquanto voavam de formas desconexas por todo seu rosto.
— Isso é como voar, La Rose! — ela soltou, rindo ainda mais e abrindo seus braços. Pude sentir como se meus olhos estivessem brilhando naquele momento, vendo aquela cena tão linda.
— Então voa, — falei mais alto para ela me ouvir, olhando para frente e acelerando um pouco mais.
— Estou voando e nem preciso de asas! É como ser a própria liberdade! — falou em voz alta, muito empolgada. Aquilo só me fez sorrir ainda mais, e a olhei de novo, vendo sua cabeça jogada para trás.
— Você é a sua própria liberdade — falei para que me ouvisse, a olhando ainda.
Então, ela abaixou a cabeça e me olhou de volta, sorrindo para mim e deixando seus olhos presos nos meus por alguns segundos, enquanto segurava seu cabelo para trás. Sorri de lado e voltei a olhar para a rua, vendo o prédio realmente piscando. Diminuí a velocidade e parei, e ela voltou a se sentar no banco no instante seguinte.
— Está entregue, senhorita — usei um tom cortez.
— Terás para sempre a minha eterna gratidão, caro e respeitadíssimo senhor — ela fez uma reverência, jogando um pouco seu cabelo para frente e, quando voltou, o jogou para trás, sorrindo de forma divertida.
— Gratidão coisa nenhuma, você está me devendo uma pipoca. Pode me passar seu número para eu te mandar meu endereço… Na verdade, anota o meu número e me manda uma mensagem. Meu celular está sem bateria — me lembrei daquele empecilho.
— Oras, é verdade! Minha memória anda horrorosa, até esqueço que estou pelada hoje em dia — negou com a cabeça, rindo um pouco.
— Isso é coisa de gente velha, está ficando senil. Tem que tomar remedinho pra isso — falei, segurando o pequeno riso que quis sair.
— Meu cabelo já está até branco, e eu ainda aceitei carona de um cara que mata velhinhas. Santo Deus! — arregalou seus olhos e levou a mão no rosto. — Você prefere calda de caramelo ou chocolate? — perguntou de forma séria enquanto pegava seu celular. Então, me entregou seu iPhone.
— Chocolate — respondi, enquanto pegava o aparelho e anotava o meu número.
— Boa escolha.
— Quando eu colocar o meu celular na carga, te respondo caso tenha me mandado uma mensagem — estendi seu iPhone de volta. Ela soltou uma gargalhada quando olhou a tela do celular e viu que eu tinha colocado o nome do meu contato como “Quebra-Nozes”.
— Não tinha nome melhor, devo dizer — brincou, rindo um pouco mais e abrindo a porta do carro.
— Olha que perigo, eu poderia ter te jogado do carro em movimento — arregalei meus olhos e segurei o pequeno riso que quis vir.
— Eu tenho que parar de ficar sofrendo esses riscos. Que perigo mesmo! — continuou me olhando assustada, neguei com a cabeça de leve. — Não responde minhas mensagens pra você ver! Fica sem pipoca — disse em tom de bronca, mas sorriu em seguida.
— Claro que vou responder! Quero minha pipoca com chocolate! — uni as sobrancelhas com indignação.
— Você vai ter. Juro juradinho — falou, balançando a cabeça afirmativamente. — A gente se vê por aí, Quebra-Nozes — piscou seu olho para mim e saiu do carro.
— Achei que iria combinar — dei de ombros sobre o nome que coloquei em seu contato.
— Combinou mesmo. Vai salvar meu nome como no seu? — perguntou em tom divertido.
— Ainda não sei. Vou pensar — contei com um pequeno semblante de sorriso em meus lábios, olhando para ela e pensando em como poderia chamá-la. — Mas é sério agora. Se precisar de qualquer coisa pode me ligar, ok? — fui sincero, enquanto meus olhos encaravam os seus. Ela assentiu com um sorriso leve nos lábios.
— Obrigada, La Rose — sua voz era mais baixa agora; seus olhos sérios e intensos em mim. Então, soltou o ar e sorriu de leve. Assenti. — Boa noite — ela acenou e fechou a porta, se afastando do carro.
— Boa noite, — desejei em um tom baixo, vendo-a se afastar.
Fiquei olhando até ela entrar no prédio, para ter certeza que estava segura agora e sem nenhum louco surtado tentando estuprá-la só por achar que tinha esse direito. Eu deveria ter arrebentado mais aquele filho da puta, mas foi satisfatório ver aquela mulher quebrando os dedos dele e ainda enfiar um pau de borracha em sua boca para ficar quietinho. Aquilo definitivamente foi perfeito. Só não conseguia vencer dela no teto solar, se sentindo bem e livre com o vento soprando seus fios dourados daquela forma tão bela.
Eu não sabia o que tinha, mas ela conseguiu fazer o que muitos nunca chegaram perto, e com extrema facilidade. Ela me fez sorrir novamente.

Welcome to my dark side
We're gonna have a good time


Chapter 2


Aumentei a música no quarto e estiquei os braços para cima, jogando minha cabeça para trás e me alongando conforme ia pisando naquele chão gelado com meus pés descalços. Estalei a língua no céu da boca, pendendo a cabeça para o lado e depois para o outro, enquanto ouvia Dua Lipa cantar Scared To Be Lonely. Movi meu quadril lentamente, conforme a melodia ia entrando por dentro da minha pele e abraçando minha alma. Fechei meus olhos, os forçando, e soltei o ar que segurei. Impulsionei meu tronco para frente e dei uma estrela no chão; mas deixei meu corpo no chão mesmo, levantando apenas as pernas para cima, balançando-as exatamente como as paradas da música. Consegui erguer meu quadril também.

Is it just our bodies? Are we both losing our minds?
Is the only reason you're holding me tonight 'cause we're scared to be lonely?

Sorri de leve com aquela parte, cantando mentalmente. Joguei minhas pernas para trás e apoiei meus pés atrás da minha cabeça mesmo. Dei uma cambalhota lenta e me levantei, jogando meu cabelo de um lado e depois para o outro. Levantei meus braços no ar e os movimentei de leve, como se eu tivesse tocando em algo imaginário. Era como se eu estivesse tocando as notas daquela melodia que pareciam coloridas para mim. Sim, eu realmente sentia minha alma conversar com as músicas quando eu dançava. Então, aquela mesma sensação daquele instante era a mesma que senti na noite com o La Rose, em seu carro, sentindo o vento bater no meu cabelo. Foi como sentir a liberdade batendo contra o meu rosto.
Então, me lembrei do que mandei para ele: “Quebra-Nozes, preciso saber do seu reino para enviar a pipoca de chocolate.” E ri daquilo. Voltei a balançar meu quadril, jogando-o de um lado para o outro, enquanto meus braços se moviam de forma sincronizada e lenta no ar, indo para o lado e para a frente. Até que os ergui por completo e desci a mão esquerda pelo direito, deslizando meus dedos até chegar em minha cabeça. Então passei-os pela minha nuca, puxando minhas mechas para frente.

Do we need somebody just to feel like we're alright?
Is the only reason you're holding me tonight 'cause we're scared to be lonely?

Deixei minha mão deslizar pela lateral do meu corpo todo, até chegar na minha coxa. Então, ergui aquela perna para cima e, depois, dobrei-a e deixei meu pé apoiado na minha outra coxa, como pose de bailarina. Girei com força, usando ela mesma para dar impulso e força ao giro. Depois coloquei-a no chão de novo, jogando o cabelo para o lado esquerdo. Vi meu celular apitar, olhei a tela e vi que era a resposta de La Rose:

“O meu reino fica do outro lado do rio, atrás do reino do seguidores de Madonna.”

Ri um pouco alto daquilo e neguei com a cabeça, desbloqueando a tela e aproveitando para beber um pouco de água. Em seguida, digitei a resposta:

Acho que gostei mais do seu reino do que do meu, sabia?”

Quando apertei para enviá-la, terminei de beber água e me movi pelo quarto de forma mais sutil, cantarolando a música.

Você pode vir ao meu reino sempre que desejar. Será muito bem-vinda, além de saber que seria uma ótima conselheira.”

Li aquela mensagem e abri um sorriso, mordendo de leve minha bochecha internamente. Então, girei mais algumas vezes no quarto, ainda cantando a música e testando alguns passos com o pé enquanto digitava:

“Como você sabe que sou uma ótima conselheira? kkkk E vai ser uma honra poder te visitar e conhecer melhor seu reino também.”

— Mamãe! Mamãe! — ouvi os berros de Saphira pelo apartamento, depois entrando no meu quarto feito um furacão. Seu cabelo loiro estava impecável, com os dois coquinhos perfeitamente penteados. Mas seu rosto tinha bastante glitter.
— Saphira, você roubou o glitter de quem agora? Do Julian ou do meu? — coloquei as mãos na cintura, me sentando na cama.
— O primeiro que eu vi — ela deu de ombros, com aqueles ombrinhos super pequeninos. Quis apertá-la demais. — Quero brilhar na escola. Tio Juju disse que eu nasci para brilhar e pisar nas piranhas — falou, toda confiante, e eu arregalei meus olhos.
— O que eu falei sobre ficar repetindo as coisas que o Julian fala, hein? — cruzei os braços na frente do corpo, e ela fez um biquinho, toda manhosa.
Então, meu celular vibrou e eu sorri de leve outra vez ao ver a resposta dele.

“Porque eu vi isso em seus olhos. Me sentiria honrado em ter a companhia de Vossa Majestade em meu humilde reino.”

— Posso levar aquele negócio de chocolate do tio Ju pra escola?
Na mesma hora, neguei rapidamente com a cabeça para ela, então digitei:

“Estou bem longe de ser uma Majestade, rainhas não costumam ficar sem roupas por aí. Eu acho, pelo menos. Mas a honra seria toda minha, sério. E eu fiz sua pipoca de chocolate. Foi uma receita nova e eu adoraria que você fosse sincero quando comesse.”

Enviei a mensagem e fui tirar um pouco de glitter do rosto de Saphira. Vesti um short por cima daquela camiseta larga, então peguei minha filha pela mão para saírmos do apartamento juntas. Assim que passamos pela recepção, sorri para um dos motoristas que trabalhava no MS e que nos levava para os lugares mais em segurança, ainda mais quando estava com ela. Entramos no carro e ele já começou a dirigir em direção à escola.

“Existem muitos tipos de rainha, e você é a de Bristol, com ou sem roupa. Estou te esperando aqui, então, para provarmos essa pipoca juntos.”
“Aposto que está deliciosa.”

Dei outro sorriso largo com aquela mensagem, porque era mesmo difícil pensar em mim como uma rainha; apesar da Saph dizer que eu era uma princesa e que logo encontraria meu príncipe.

“Já que o Quebra-Nozes está dizendo, vou concordar e aceitar. Adoraria ser uma rainha mesmo kkkk. Então me manda a sua localização que eu levo aí mais tarde, pode ser?”

Puxei Saph para o meu colo, a enchendo de beijinhos e ouvindo sua risadinha ecoar pelo carro todo. Seus pézinhos balançaram no ar enquanto ela tentava fugir para contra-atacar. Saphira era bem dessas. Ela adorava se proteger até arranjar a brecha e atacar. Nunca vi uma garotinha com uma personalidade tão forte, e sabia o quanto eu era julgada por criá-la sendo quem sou e com o que trabalho – ainda mais por criá-la junto do meu coreógrafo gay maravilhoso. Eu também não via problema algum em Saph conhecer o pessoal que trabalhava na boate, porque eram todas excelentes pessoas. As únicas que me acolheram como parte da família mesmo.

“Isso. Não discorda. Kkkk. Pode sim.”

Sorri de leve com sua resposta e vi que ele me enviou a localização logo em seguida. Apenas mandei que o avisaria quando saísse de casa, então deixei Saph me encher de beijos de volta até chegarmos em sua escola. Levei-a até a porta e senti olhares em mim. Aqueles mesmos olhares que eu procurava sempre ignorar e fingir que não era comigo. Foda-se! Era o que eu sempre pensava. Nenhum deles pagava a droga das minhas contas. Então eles que me olhassem feio mesmo.


•••


Saphira estava na casa de uma amiguinha da escola. Julian estava trabalhando e eu tinha saído do Madam Simmons com um acompanhante. Eu não era mais prostituta, só que sentia falta de sexo como meu corpo sentia falta do oxigênio, praticamente. Como muitos diziam, parecia que eu tinha nascido transando já.
O sexo tinha sido péssimo, o cara tinha sido um escroto e eu não sabia nem por que trouxe esse filho da puta pra casa hoje. Eu não trazia desconhecidos pra casa. Ele tomava banho e eu controlava minha vontade de quebrar seu crânio no vaso sanitário.
Peguei o cigarro ao lado da cabeceira e traguei profundamente, sentindo minhas mãos tremerem de ódio. O cara desligou o chuveiro e saiu do banheiro apenas de toalha. Revirei meus olhos e quis berrar de tanto ódio de mim mesma e dele.
— Essa sua boceta é uma delícia mesmo — ele disse de uma maneira bem porca.
Aquilo foi a gota d’água para mim. Eu odiava esses escrotos. Joguei o cigarro no cinzeiro e me levantei da cama, pegando o calibre 39 embaixo do travesseiro.
— Sai daqui, agora! Sai da porra do meu campo de visão antes que eu atire nessa merda que você chama de pau — apontei para o pau dele e o cara arregalou os olhos. Ficou desesperado e pegou suas roupas, mas eu não deixei. — Pelado. Sem a toalha. Esse algodão é caro demais pra você, seu pedaço de lixo — destravei a arma, como se fosse realmente atirar.
Ele imediatamente soltou tudo, inclusive a toalha, e saiu correndo do quarto e do meu apartamento. Joguei a arma na cama, ajeitei a lingerie preta rendada que estava usando e soltei meus cabelos , quase pratas. Caminhei até a carteira dele, bufando por ter apenas cem libras ali.
— Merda, — murmurei para mim mesma, batendo na minha testa com muita, muita raiva. Senti toda aquela merda de raiva explodir enquanto eu pegava o primeiro vaso na minha frente e jogava contra a parede, berrando e grunhindo de ódio. Peguei outro vaso e acertei no vidro da sacada, estourando ambos. — Filho da puta! — dessa vez, joguei o salto alto contra o espelho.
Peguei meu celular e fui até o banheiro. Liguei o chuveiro e me enfiei debaixo dele com a lingerie mesmo. Disquei o número do La Rose. Eu estava com o sangue fervendo, sem nem saber por que estava ligando para ele. O garoto bonito de olhos verdes tinha me dito que eu podia confiar nele; ele já tinha me ajudado com um desgraçado esses dias atrás. La Rose era bom em dar uns socos, e isso me fez criar uma certa confiança nele que eu geralmente não criava com ninguém. Eu era péssima em confiança, mas com ele tinha sido diferente.
A ligação tinha caído na caixa postal, mas resolvi deixar uma mensagem mesmo assim:

“Eu preciso de você. Deu merda.”

Então desliguei, jogando o celular para fora do box e deixando meu corpo escorregar entre a parede molhada e escorregadia. Senti a maquiagem escorrer em minhas bochechas, fechei meus olhos com força e fiquei batendo minha testa em meus joelhos. Estava furiosa por ter trepado com outro lixo, sendo que eu não precisava mais disso. Qual era a porra do meu problema? Não era possível que eu precisasse mesmo dar para aqueles lixos.
Eu era e não precisava de ninguém. Não precisava ser tratada daquela forma nunca mais. E não seria mais. Não mais. Nunca mais.
Ouvi o celular vibrar contra o mármore, mas ignorei. O que eu tinha na cabeça pra ligar pro La Rose naquele estado? Rolei meus olhos com raiva, frustração, me sentindo perdida. Aquele mesmo sentimento que a adolescente sentia no meio daqueles jovens normais. Engoli em seco e sequei meus olhos, nem sabendo o que era lágrima e o que era água do chuveiro. A água estava quente, mas meu corpo estava frio. Passei as mãos em meus cabelos molhados, então reparei em meus dedos. Estavam pretos, talvez pela maquiagem que, agora, provavelmente tinha espalhado pelo meu rosto.
Eu só queria estar mais calma para me levantar, pegar o celular e dizer ao La Rose que estava tudo bem, mesmo que não estivesse. Queria poder colocar uma música e acabar com outra garrafa de vinho, mas não queria nada disso. Abaixei minha cabeça e coloquei-a entre meus joelhos, deixando as lágrimas caírem em uma mistura com a água mesmo, engolindo em seco. Ouvi alguém entrar no banheiro, e eu sabia quem era. Sabia porque ele tinha me dito que eu podia confiar nele, e eu confiei.
Eu confiava em um completo estranho, mas confiava. Era bizarro, mas confiava.
, sou eu, La Rose — ouvi sua voz e tremi ao sentir seu toque em minha canela. Levantei aos poucos minha cabeça, mas não o encarei. Olhei para o vidro do box, encostando minha cabeça na parede atrás de mim. — Você está ferida? — perguntou, preocupado.
— Eu sempre estive ferida, aquelas feridas incuráveis. Sabe? — minha voz era baixa, um tanto fria e ressentida. — Claro que você sabe — respondi antes dele, sorrindo morbidamente. — Você e eu temos uma conexão, não sei como e nem por quê. Nunca sentamos pra contar sobre a vida um do outro. Nem queremos isso — olhei à minha volta, mas não o encarei. — Você tem uma ferida incurável também dentro de si, como eu também tenho. Sempre teremos. E por isso confiamos um no outro. Por isso você está aqui por mim, mesmo sem nem saber que tipo de monstro eu sou — finalmente encarei seus olhos. Mesmo no escuro, consegui ver o verde se sobressaltar ali. — Eu transei com um filho da puta escroto. Não foi o primeiro e acredito que nem será o último. E estou me sentindo o lixo que sou. Nada de novo — contei a ele, passando as costas das minhas mãos embaixo dos meus olhos, limpando o rímel que tinha se escorrido. — Não queria ter feito você perder seu tempo comigo — desviei meu olhar do dele, fechando meus olhos e sentindo a água molhar meu rosto.
Gostei de que La Rose me ouviu, sem intromissões. Sem fazer a expressão de pena que costumavam fazer desde sempre, aquela cara de “pobre menina bonita e quebrada”. Não precisava que ninguém me dissesse que eu era quebrada; eu sabia que era, e isso me parecia o suficiente. Eu mesma me lembrava todo santo dia sobre isso. La Rose era um desconhecido, mas eu sentia esse elo entre nós desde a primeira vez que bati os olhos nele. Não queria saber o motivo e sabia que nem ele nem eu pentearíamos o cabelo um do outro e contar todos nossos segredinhos sujos. Mas nossos olhos já conversavam mais do que nós mesmos. Era como se eles fossem amigos íntimos que compartilhavam nossos segredos um para o outro, e nós dois não podíamos fazer nada.
— Monstros não são como nós — ele comentou, encarando meus olhos de volta.
— Não são? — perguntei de volta, esfregando o rímel que tinha escorrido embaixo dos meus olhos.
— Não. Eles não têm piedade. Você tem vida no olhar, o monstro tem apenas o vazio.
Meus olhos passearam pelas gotas que escorriam pelo vidro ao ouvir o que La Rose tinha me respondido. Eu tinha conhecido muitos desses monstros e, talvez, até tinha me comparado com eles pela tamanha convivência. Um deles tinha sido minha mãe, meu pai e o escroto do pai da minha filha.
Suspirei baixinho ao me permitir ter esses pensamentos. Eu odiava me lembrar de cada um deles, mas existiam dentro de mim e, provavelmente, nunca me deixariam.
— Você tá certo. Um vazio eternamente apavorante — retraí os lábios, não me permitindo mais lembrar de nenhum monstro. Chega por hoje.
Os olhos dele me transmitiam um certo tipo de conforto. Eu costumava confiar no espelho dos olhos desde a minha infância. As pessoas sempre se mostravam o que eram pelos olhos; eles sempre me diziam a verdade. E os de La Rose me mostravam algo que eu via nos meus próprios. Ele tinha seus demônios como eu também tinha, e isso parecia nos unir.
— Quem nunca transou com um babaca e se sentiu na merda por isso? — perguntou, com um humor no tom de voz.
Soltei uma risadinha amarga, olhando em seus olhos ao vê-lo tirar uma mecha de cabelo do meu rosto.
— Acho que todo mundo precisa de uma fossa, certo? — dei de ombros, tentando deixar meu tom de voz mais leve pra soar como uma brincadeira, porque era mesmo. E ele entenderia que era.
— Te faz mais forte — ele respondeu, e eu não podia discordar.
— Sim, a cada merda que passamos é uma muralha que construímos — soltei o ar pesadamente, desviando meu olhar dele para as gotas que ainda escorriam no vidro e faziam uma dança praticamente.
— Você não sabe o que é perder tempo, então.
— Ah, eu sei sim. Não consigo nem te enumerar o tanto de tempo que já perdi com babacas. E não foi na época que eu recebia para isso, hein? — tinha soado como outra brincadeira, mas não era dessa vez.
— É melhor nem contar, e pensar que isso serviu pra você ver o quão bosta as pessoas podem ser.
— É, elas podem ser bem bostas mesmo. E eu não me tiro dessa lista aí, porque eu mesma já fui perda de tempo para muitas pessoas — soltei uma risadinha amarga, porque era pura verdade.
— Você não precisa se sentir assim por causa de alguém que não mereceu seu tempo. Estou aqui agora, e podemos fazer algo para que esqueça o que acabou de acontecer. Momentos bons podem apagar momentos ruins — ele beliscou meu braço de leve com a ponta de seus dedos. Comecei a secar ou limpar meu rosto com as costas da mão, ouvindo-o me fazer sentir um pouquinho melhor, menos lixo do que minutos atrás.
Aquilo fez meus olhos encararem os dele em agradecimento, mesmo que eu não conseguisse dizer em voz alta ainda.
Eu era um porre em demonstrar sentimentos bons para as pessoas. E culpo minha infância de merda por isso, uma delícia. Senti os olhos dele presos nos meus, naqueles segundos que pareceram até ter parado o tempo. Então vi o quanto eles me disseram que tudo ficaria bem. Droga, eu confiava mesmo naquele cara bonito de olhos intensos.
— Eu topo fazer qualquer coisa pra esquecer o sexo de merda que tive — murmurei baixinho, até soando como uma menininha inocente que queria um sorvete depois de ter aprontado e aceitado a surra que levou.
— Podemos colocar um saco de cocô em chamas na frente da porta dele se você quiser — ele sugeriu, e eu mordisquei meu lábio inferior, sorrindo maldosamente por realmente ponderar sobre aquilo.
— Seria glorioso, confesso — aprofundei meu olhar e deixei o sorriso crescer ao imaginar a cena triunfante.
— Podemos fazer o que você quiser.
Sorri por aquilo, mesmo que minimamente.
— Logo, logo eu penso em algo — respondi, deixando aquela poeira abaixar um pouquinho dentro de mim, para poder pensar em algo que pudesse me fazer melhor naquela noite de merda.
— Uma vez me falaram uma coisa — seu olhar intenso e profundo voltou para frente, desviando dos meus. — Que quando eu estivesse triste ou mal com alguma coisa, era para me lembrar de algum momento bom — o vi fechar seus dedos com certa força.
Permaneci o observando e absorvendo o que ele havia me contado, achando aquilo interessante. Poderia funcionar, de fato. Era óbvio que a alegria era mais forte que a tristeza. Um sorriso espontâneo era melhor do que chorar.
— Me conta um momento bom seu — ele pediu.
Enchi um lado da minha bochecha de ar e o soltei, ainda pensando no que ele me tinha pedido.
— Todo tempo que eu passo com a Saphira é um momento bom para o show de horrores que é minha vida — sorri levemente ao me lembrar da minha princesa. — Mas, quando comprei esse apartamento, foi um momento espetacular na minha vida, sabe? Eu tinha deixado de ser a adolescente rebelde que vivia no teto dos meus pais que me odiavam. Tinha conseguido minha independência com muito muito custo, tinha me sentido livre e completamente feliz. Eu poderia ser eu mesma, poderia fazer o que eu quisesse, poderia ser a mãe que eu nunca tive. Era uma chance de recomeçar. , a piranha sem coração de Bristol, tinha conseguido sua liberdade e poderia incendiar a cidade — sorri de canto, me sentindo melhor por lembrar da minha euforia naquele dia espetacular.
Então, voltei a encará-lo em silêncio, segurando sua mão em um sinal de que eu estava imensamente agradecida por ele ter feito aquilo. Seus olhos caíram para nossas mãos, e o senti fazendo um carinho em meu polegar com o dele, mas logo a soltou e esticou suas pernas.
— Para uma piranha sem coração, você está se saindo com um coração e tanto. Aposto que a Saphira tem sorte em ter uma mãe como você.
Sua fala tinha me feito um bem danado, e ele não fazia ideia. Talvez agora ele pudesse ter uma ideia, afinal, meus olhos mostravam aquilo.
— Obrigada. É muito bom ouvir isso com sinceridade. Eu criei um coração por ela e só por ela, porque ela vale a pena.
Era minha menina, apesar de tudo. Ela fazia valer a pena cada sexo de bosta que eu tive para pagar nossas contas, cada perrengue horrível e cada merda que eu fazia.
— Acho que uma parte do seu plano falhou. A cidade ainda não foi queimada — ele olhou para os lados, e eu ri fraco.
— Eles arrumaram meu estrago, mas um dia eu queimo de novo. Quer me ajudar nisso? — balancei as sobrancelhas em sugestão. — Me conta algum momento seu. Algo engraçado. Algo bom.
— Hmm — ponderou com a cabeça, pensativo. — Há uns anos, quando conheci o Ralph, ele me ensinou a lutar. Estávamos treinando e apareceu um babaca com o dobro do meu tamanho que sou hoje. Na época, ele era três vezes maior — comentou e voltou a me olhar. Encostei minha cabeça na parede e abracei minhas pernas novamente, o ouvindo me contar sobre seu treino e me deixando intrigada a cada parada que ele dava. — Ele me empurrou e disse que eu era um merda, que nem deveria estar lá — umedeceu seus lábios e respirou fundo. — Então, Ralph se meteu e disse que poderíamos resolver aquilo de forma fácil. Se eu merecesse ficar, tinha que lutar com o cara e ganhar. Aquilo era loucura. Logo pensei que morreria ali, mas estava com tanta raiva que topei na mesma hora — uma espécie de riso saiu dele, como um sopro entre seus lábios e um balanço de cabeça. Aquilo me fez sorrir e o olhá-lo com mais curiosidade, esperando ansiosamente que ele tenha dado uma surra no babaca gigante. — Sempre fui um idiota. Eu tive a audácia de falar que o cara era grande, mas não era dois — fez uma pausa e passou a língua entre seus dentes. — Nunca apanhei tanto na minha vida, mas eu deixei porque sabia que, por ser grande, logo se cansaria, e ele se cansou. Ralph, antes de me ensinar a lutar, me fez criar uma resistência absurda, porque assim poderia apanhar e não me machucaria tão facilmente. Essa sempre seria minha vantagem — seus olhos vieram até mim, e ele me encarou. — Então eu levantei e soquei aquele filho da puta até ele implorar para que eu parasse. Parei quando o nocauteei com um gancho de direita — ele ergueu a mão que tinha a tatuagem da rosa. — Então, começaram a me chamar de La Rose por isso. Porque o babaca tinha beijado a rosa. Nunca tinha me sentido tão bem em toda a minha vida como naquele dia — o sorriso aumentou quando ele contou que tinha socado o cara.
Encarei sua mão com a tatuagem da rosa e voltei a olhar em seus olhos, entendendo por quê o chamavam assim.
— Eu me sentiria bem pra caralho se fosse comigo também. Socar babacas deve ser uma delícia! — comentei, olhando para cima e imaginando como deveria ser prazeroso fazer isso com bastante frequência. — Combina contigo — apontei para a tatuagem e quis indicar com o nome também. Tinha sido um momento bom pra cacete e condizia com o nome perfeitamente.
— Quer pedir uma pizza?
Abri um sorriso pequeno com aquela sugestão.
— Com certeza. Eu quero com muito queijo e bacon! — revirei meus olhos de fome e me levantei rapidamente. Desliguei o chuveiro e saí dali, pegando uma toalha pra mim e outra pra ele. — Uma piroca de chocolate do Julian seria perfeito também — comentei, rindo baixinho.
— Se você está falando, vou confiar — ele se levantou e segurou a toalha, mas não a puxou de minha mão. Seus olhos verdes ficaram nos meus por alguns segundos, onde eu podia ver claramente um único aviso: “Estou aqui contigo agora.”
E eu acreditei que ele estaria mesmo comigo.
Não eram apenas palavras ditas, mas sim o que seus olhos prometiam aos meus.
E não dizem que os olhos são a janela da alma?


Chapter 3

La Rose R.

Ralph tinha me pedido para ir ao mercado fazer as compras do mês, e eu não achava nada mais chato do que isso. Pessoas me olhando e querendo entender por que um cara estranho estava parado na frente da prateleira de enlatados, olhando fixamente para sopas e escolhendo qual deveria levar. O olhar sobre mim não era algo agradável. Era questionável, com repulsa, dúvida, medo e uma curiosidade irritante.
Coloquei uma mecha de cabelo para trás e peguei logo a porcaria da sopa. Quando me virei, tinha uma senhora me olhando fixamente de um jeito bizarro. Ela era baixa e curvada, e seus óculos de grau faziam seus olhos ficarem maiores. Ergui uma sobrancelha e desviei dela; porém, ela se virou e me acompanhou, olhando bem para o meu rosto. Coloquei as latas no carrinho e ela segurou meu braço. Encarei-a no mesmo instante, com raiva, para ver se me soltava.
— Eu te conheço. Você é o filho do Pope.
Aquele nome fez meu coração acelerar, assim como seu forte sotaque francês. Mas não esbocei nenhuma reação. Puxei meu braço, mas ela não o soltou. Suas unhas começaram a afundar por cima do tecido da minha camisa de manga longa.
— O que você fez com seus pais? A cidade toda te procurou.
Minhas narinas inflaram, e eu puxei meu braço com força, sentindo suas unhas me arranharem. Velha maluca! Empurrei o carrinho a fim de sair dali.
— Assassino! — ela começou a berrar no meio do corredor. Tive mesmo vontade de matá-la.
Ela veio andando atrás de mim, e agora o mercado todo olhava para minha direção. Praguejei mentalmente. Não deveria ter voltado para a Europa.
Parei no caixa enquanto ignorava a mulher berrando que eu era um assassino no meio do mercado, até que um segurança a abordou e pediu para que parasse com aquilo. Era só o que me faltava: virar fofoca numa cidade pequena.
Paguei as compras e saí sem olhar para trás. Guardei as sacolas no porta-malas e me encostei nele depois que o fechei. Em seguida, peguei o celular que vibrou em meu bolso, mas ignorei as mensagens. Não queria falar com ninguém. Estava irritado e algo me incomodava profundamente. Não qualquer coisa – eu sabia o que era –, mas só queria desaparecer de mim mesmo por algumas horas. Ir para longe e, quem sabe, não voltar mais.
Enfiei o aparelho no bolso, entrei no carro, dei a partida e saí daquele maldito mercado. Dirigi pela cidade sem um destino, com o braço encostado na porta e a cabeça apoiada em minha mão, olhando de forma vazia para as ruas pelas quais passava, pensando em outras coisas. Sabia que aquilo ia piorar se eu não fizesse alguma coisa. Às vezes, conviver comigo mesmo era mais difícil do que o normal.
Parei na frente da universidade e fui até a tesouraria. Pedi uma informação sobre a garota que estava lá e que dessem um recado para . Ela não queria, mas, depois de lhe entregar algumas notas, acabou aceitando. Desde que Ralph me ensinou a fazer aquilo, tinha virado realmente uma bênção.
Saí e me encostei na lateral do meu Land Rover; abri minha jaqueta e tirei um cigarro do maço que tinha no bolso interno. O acendi e fiquei ali fumando enquanto esperava.
Depois de um tempo, avistei de longe saindo da universidade, e, pela feição endurecida, percebi que seu dia estava tão péssimo quanto o meu. Mantive meus olhos nela enquanto se aproximava, até que parou na minha frente e tirou o cigarro de meus dedos; levou-o até seus lábios, deu uma longa tragada e me devolveu, então o peguei e fiz o mesmo. Segui com o olhar a fumaça sair por entre seus lábios e se desfazer no ar lentamente. Quando subi meu olhar, percebi que seus tons estavam fixos nos meus.
— Qual a boa pra hoje? — perguntou de um jeito curioso.
— Entra no carro — falei sem delongas.
Seus olhos ainda olhavam dentro dos meus, certamente já percebendo que tinha algo de errado, e não me importei que tivesse notado isso. Então, me virei sem muita explicação. Meu humor estava péssimo e eu não queria falar muito. Só queria sair dali antes que outra velha louca começasse a gritar simplesmente do nada.
Fiquei grato por ela ter entrado no carro sem perguntar muito. Talvez fosse boa de silêncio do mesmo jeito que eu era. Não sei por que eu tinha ido até ali quando só queria sumir. Mas acho que tinha encontrado uma amizade nela, alguém que eu poderia mostrar minhas partes ruins e não sairia apavorada, porque éramos parecidos, como na noite em que me ligou. Ela tinha confiado em mim, e agora eu estava confiando nela. Uma garota estranha que tinha o coração tão estraçalhado quanto o meu. Dois estranhos. Eu estava longe de ser alguém normal quando tinha tantos demônios circulando ao meu redor; demônios estes que eu mesmo tinha criado.
Entrei no Lander e esperei que fizesse o mesmo. Assim que apertei o start, o som ligou e começou a tocar Unsteady, do X Ambassadors.
— Se quiser, pode trocar a playlist — falei quando ela entrou, já que a playlist era de músicas depressivas. Então, a vi sorrindo de leve e negando com a cabeça.
— Não, eu adoro essa música — respondeu de imediato. Olhei de relance para ela, e uma parte minha gostou daquilo.
Ficamos ouvindo a música em silêncio. A vi encostar a cabeça no banco e ficar olhando pelo vidro a paisagem que passava.
Cause I'm a little unsteady — cantarolou baixinho o refrão, inspirando profundamente, e a olhei de novo.
A little unsteady — sussurrei, voltando a olhar para frente e segurando minha cabeça com a mão que tinha o braço apoiado na porta. E isso fez com que me olhasse rapidamente, eu podia sentir.
Aquela música pegava bem na ferida. E eu nem sabia por que ainda a ouvia. Ela me fazia sentir mais do que deveria, e as coisas sangravam por dentro. Então, a música acabou e começou Oceans, do Seafret, bem no momento em que abaixou o vidro, deixando o vento soprar seus cabelos para trás do mesmo jeito da outra noite. Olhei-a por breves segundos, admirando a cena. Ela parecia se relaxar com aquilo, e, quando fechou os olhos, um sorriso mínimo apareceu em meus lábios. Ela não estava feliz que nem na última vez; era mais como se esperasse que o vento levasse sua melancolia para longe.
Então, seus olhos voltaram a aparecer. E ela começou a brincar com o vento como uma criança fazia, colocando o braço para fora. Soltei uma risada nasalada e voltei a prestar atenção na estrada.
We hide our emotions — falei como se fosse comigo mesmo aquela parte da música.
Senti o olhar de em mim, e a olhei de relance para ver se estava tudo bem. Ela me pareceu distraída, pensando em algo enquanto deixava seus olhos passarem pelo meu corpo. Apenas voltei a encarar a estrada de volta.
— A Saphira sem querer levou brinquedos eróticos para a creche semana passada — resolveu contar do nada, e isso me fez olhá-la, vendo um sorriso em seus lábios. Aquilo definitivamente me fez rir, e sorriu um pouco mais. Umedeci meus lábios, não acreditando que ela tinha tirado uma risada minha mais uma vez. — Você deveria fazer mais isso — apontou em minha direção, indicando a risada. Ergui uma sobrancelha e a olhei de rabo de olho, achando graça naquilo, mas sem rir novamente. — Ficou ótimo em você — seu tom foi sincero, dando de ombros e sorrindo.
Teve uma época que eu ria bastante e sorria sempre, mas agora estava tão distante que eu nem me lembrava mais direito. Poderia ter respondido que não sabia mais como fazer aquilo, só que me limitei apenas em negar com a cabeça, no fim ficando levemente sem graça por ter elogiado meu sorriso. Não tinha nada de mais nele, mas as pessoas sempre o admiravam e eu não entendia o porquê.
— A cara da professora dela ao ver todas as crianças brincando com plugues anais, vibradores e não lembro mais o quê... A cara dela foi impagável — soltou uma risadinha.
— Deve ter sido engraçado. Você deveria ter gravado — comentei, relaxando um pouco.
— Deveria mesmo, mas ela tava brava — crispou os lábios, como se tivesse com medo. Então, virou seu corpo no banco para ficar de frente para mim, ainda sorrindo, e estranhamente não me incomodei com aquele fato. Era como se tivesse permitido que me olhasse. No final das contas, acho que não tinha o que esconder dela, caso visse algo acho que dificilmente perguntaria. sabia ser discreta quanto a isso, mantinha a discrição.
— Teria sido mais engraçado ainda — falei, imaginando a professora com muita raiva sendo gravada; provavelmente ia querer agredir por isso.
Eu adorava uma coisa mal feita. Eram sempre engraçadas. Talvez eu tivesse um humor negro que não deveria ser revelado. No final, ela concordou comigo, dando uma risada baixa.
— Algo me diz que a Saph vai dar mais trabalho pra ela, então quem sabe na próxima eu não filme? — abriu os braços em um talvez.
Eu a olhei na esperança que fosse mesmo gravar a cara de ódio da professora quando Saphira levasse mais alguma coisa que não deveria para aula, ou aprontasse qualquer coisa. Seria cômico, e eu sem dúvidas queria ver aquilo. Certamente me arrancaria alguma risada.
— Você fica ótima sorrindo — comentei quando ela sorriu abertamente. A fez uma pequena careta que achei engraçada, mas não cheguei a rir.
— Wow, faz tempo que alguém elogia meu sorriso — comentou, soltando o ar.
Ergui uma sobrancelha, achando aquele fato estranho. era bonita, logo achei que deveria receber vários elogios, então me lembrei que os caras deveriam chamá-la de gostosa e coisas pejorativas; bem coisa me macho babaca mesmo, era o que tinha aos montes por aí. Convivia com bastante gente do tipo para saber que eles só olhavam para o corpo das mulheres.
— Obrigada — agradeceu, e apenas assenti.
Vi como ela sorria agora, e, mesmo fazendo bobeira, gostei de vê-la assim. Curtia ver as pessoas bem perto de mim. De mal-humorado já bastava eu. Na verdade, ficar naquele humor sombrio tinha virado um costume que eu não conseguia mais me livrar, até porque nem via motivo para isso.
— Sinal que você está saindo com as pessoas erradas — brinquei com ela, ouvindo a risada abafada que soltou.
— Também estou achando. Onde será que eu acho as certas? — ela batucou o dedo no queixo, brincando de volta enquanto me olhava com um sorriso divertido nos lábios, e gostei daquilo.
— Olha, se eu descobrir, com toda certeza te falo — a olhei rapidamente de novo.
Pessoas certas: esse era o tipo mais raro de se achar. Eram especiais demais, e, geralmente, o mundo acabava com elas antes mesmo de termos o prazer de conhecê-las.
— Ah, por favor! — ela reforçou o pedido, deixando o sorriso brincar em seus lábios com aquela leve brincadeira. Apenas concordei com a cabeça, voltando a prestar atenção na estrada.
— Eu acho bonita a forma como você fala da Saphira — comentei, voltando ao assunto anterior. Olhei novamente para , vendo que ela sorriu de forma imediata. Em seguida, voltei a encarar a estrada à minha frente. Me perguntava se minha mãe falava assim de mim. De qualquer forma, eu nunca saberia. — Tem muito amor e orgulho na sua voz.
Eu deveria parar de ficar reparando nas pessoas.
— Ela é a única parte boa em mim.
Não gostei do tom de voz que ela usou.
— Mentira — rebati e a olhei por alguns instantes, com o cenho franzido. — Você tem mais coisas boas — contei como se fosse um enorme segredo, e ela retorceu seus lábios. — Não faz essa cara — repreendi, vendo sua careta.
— Não fiz cara alguma — brincou, achando graça por causa do meu tom de voz.
— Sonsa — chamei enquanto olhava para a estrada.
— Ei, olha o respeito — ela apertou seu braço levemente, deixando o sorriso crescer em vez de rir dessa vez.
— Que respeito? Acho que ele foi embora — retruquei, olhando divertido para ela quando apertou meu braço, abrindo a boca como se tivesse ficado ofendida. Então, riu e negou com a cabeça.
— Então devemos parar o carro e dar carona pra ele.
Apertei o freio rapidamente, como se fosse parar e realmente dar carona ao respeito, mas tirei o pé no segundo seguinte, quase fazendo cair do banco. Ri bem fraco com o susto que ela tomou, achando que algo tinha acontecido, se agarrando no banco e me olhando com os olhos arregalados. Então, deu um tapa em meu ombro.
— Palhaço! — passou as mãos em meus cabelos, ainda rindo pelo susto.
Olhei de um jeito engraçado para ela, vendo-a me mostrar a língua e rindo em seguida. Não me lembrava se já tinham me chamado de tal forma alguma vez, afinal, eu não era de fazer brincadeiras. Tinha me perdido em mim mesmo há muitos anos, e não me lembrava mais como era antes de tudo. Eu sorria? Me permitia chegar perto das pessoas? Era solitário? Quem eu era antes? Parecia que tudo em mim tinha sido apagado. E aquilo me incomodou, porque não sabia mais ser de outro jeito. Não sabia mais sorrir e deixar que me vissem.
O engraçado de tudo aquilo era que minha raiva tinha passado. , com seu jeito, conseguiu me distrair. Então, puxei seu pé, para que colocasse sobre minha coxa, e vi um sorriso leve formando em seus lábios. Deixei minha mão sobre sua canela enquanto olhava distraído para o asfalto, deixando meus dedos acariciarem de leve sua pele, onde tinha levantado um pouco a barra de sua calça. Sua cabeça encostou no banco, relaxando um pouco.
— Temos a tendência de achar que não existe nada de bom dentro de nós, mas isso não é verdade. Sabe disso — falei, como se a lembrasse das coisas boas enquanto intercalava meu olhar entre a estrada e , que agora tinha enchido suas bochechas de ar e ponderava sobre as minhas palavras. — Me fale mais uma parte boa sua — pedi.
— Eu sei cozinhar muito bem.
Sorri minimamente para aquilo, lembrando da pipoca que tinha me mandado. Tinha ficado deliciosa.
— Já é um começo — falei, e sabia que ela tinha mais coisas, e também sabia que não faria questão de ressaltar nenhuma. Deu um sorriso fechado e balançou a cabeça em concordância.
— Me conta uma coisa boa sua também — pediu, um tanto manhosa.
— Minha? Eu não faço nada de bom.
Não esperava que fosse pedir de volta, aquilo me pegou de surpresa.
— Eu duvido muito disso — disse, bem sincera. Seus olhos se estreitaram em minha direção.
Meus dedos apertaram o volante com mais força ao pensar sobre aquilo. Mordi minha bochecha por dentro e soltei o ar, relaxando.
— Por mais insano que pareça, eu toco violino, ou tocava... — uni minhas sobrancelhas e vi as suas se erguendo em surpresa.
Aquilo era algo bom, certo? Acho que uma das poucas coisas boas que eu já fiz um dia. Gostava de sentir as músicas, elas sempre eram tão cheias de sentimentos.
— Violino? Pagaria pra ver você tocando, com certeza — parecia uma criança curiosa e isso era engraçado, porque eu não estava incomodado como geralmente ficaria com pessoas querendo saber sobre mim.
— Nem todo dinheiro do mundo — respondi, vendo a mulher ao meu lado dar uma pequena risadinha.
Ela não me veria tocando. Ninguém nunca viu. Eu sempre tocava à noite, quando todos estavam dormindo e ninguém ouviria. Era como se tocar fosse um grande segredo, ou como se pudessem ver minha alma assim e descobrissem que eu não estava morto por dentro.
— Vou imaginar, então — ela fechou os olhos, como se fosse mesmo fazer isso naquele momento. Então, abriu mais o sorriso, mantendo os olhos fechados por mais alguns segundos.
Será que ela estava me imaginando mesmo? Aquilo me fez olhar para frente. Era estranho saber que estava pensando em mim, naquele exato momento, tocando violino. Era algo que eu não deixava que as pessoas fizessem. Tentei não pensar nisso, mas sabia que, mais tarde, quando voltasse daquela viagem, eu me pegaria refletindo sobre tudo aquilo; na forma como estava deixando que ela se aproximasse e descobrisse quem eu realmente era. conseguiu.
— Como você vai imaginar? Nem sabe se eu toco bem — rebati, erguendo levemente as sobrancelhas em mera implicância.
— Obviamente você toca bem — ela retrucou na mesma hora. Depois de um tempo voltou a abrir seus olhos e sorriu ao me olhar, sem dizer absolutamente nada.
— Se você diz, vou acreditar.
De qualquer forma, eu achava que tocava bem; pelo menos gostava do que ouvia saindo das cordas do violino.
— Pode acreditar — falou, confiante, sorrindo da mesma maneira. Então, apenas assenti.
— É só você e a Saphira? — perguntei, mudando de assunto.
— E o viado mais viado que existe em Bristol — respondeu, rindo em seguida. — O Julian é meu melhor amigo. Ele mora comigo e me ajuda com a Saph.
Por um momento, não consegui tirar meus olhos daquela mulher, gostando do jeito que falava sobre seu amigo.
— Ainda não o conheci — comentei. Não me lembrava de nenhum Julian.
— Ele vai crushar em você, com certeza! — afirmou, rindo baixinho.
— Vai? Ele é gato? — perguntei, fingindo estar bem interessado. Mas a verdade era que eu não estava interessado em ninguém, mesmo que ele fosse o cara mais sexy e gato de Bristol. Eu só estava a fim mesmo de passar um pouco do meu tempo com ; ela fazia meu humor ficar menos pior.
Ouvi a mulher ao meu lado soltar um risinho.
— Uhum, muito gato e tem uma bunda linda — seu tom de voz tinha total sinceridade, então realmente acreditei nela.
— Ah, tem? Vou querer conferir qualquer dia — respondi de um jeito engraçado, sem ligar se ela desconfiaria que eu gostava de ficar com caras, que era outro fato que quase ninguém sabia também. Eu era reservado demais, e deixar que soubesse mais sobre mim era algo novo.
— Não vai se arrepender — garantiu, ainda usando o mesmo tom de voz que eu usava. Apenas concordei. — Julian fez a primeira palavra de Saphira ser “cu”. Isso não foi legal, mas ele é ótimo — contou, em meio a risadas e sorrisos carinhosos.
— Cu? — sorri minimamente, e ela concordou com a cabeça, rindo de novo. — Claro que foi legal — discordei, unindo as sobrancelhas de leve. — Falar “mamãe” ou “papai” é tão clichê, então Saphira só provou que é sua filha e quebrou qualquer tipo de estereótipo. Única igual a mãe — falei o que achava, sem deboche nem nada. Mas também não a olhei dessa vez, só a ouvi rir.
— É… Acho que vou ter que esperar mais coisas do tipo vindo dela — desviou o olhar, encarando a estrada à nossa frente.
— Com toda certeza. Ela é uma , afinal — lembrei a ela, e sabia que Saphira faria ótimas histórias assim como eu sabia algumas de sua mãe.
— Coitados dos crushes dela, então — ela queria rir, e vi seus lábios crispados demonstrando que não tinha dó alguma.
— Ela vai acabar com muitos corações — comentei e olhei para a ao meu lado, como se insinuasse que ela fazia a mesma coisa. me encarou bem nos olhos.
— Ela certamente vai, mas sem esses olhares aí pra mim, hein. Eu sou só uma stripper inocente — aquela frase não fazia sentido algum, o que nos fez rir.
— Alguém já te disse que a palavra stripper e inocente só andam na mesma frase se tiver um “não” entre elas? — perguntei com um leve deboche, deixando o sorriso em meus lábios por alguns instantes.
— Tudo bem, tudo bem. Você me pegou, não sou uma stripper inocente — fez um biquinho, como se fosse culpada por isso, rindo em seguida.
Neguei com a cabeça, com um sorriso bem sutil em meus lábios. Nem de muito longe ela era inocente, mas talvez eu só tivesse aquela impressão por tê-la conhecido vestindo apenas uma calcinha em uma festa. De qualquer forma, aquilo não me conduzia ao respeito. O que importava era quem estava sendo comigo. O resto era só um grande foda-se.
— Posso te pedir uma coisa? — retorceu seus lábios ao me olhar de uma forma indecisa.
— Depende do que é.
Deixei claro que não faria qualquer coisa. Eu não era do tipo que fazia coisas que não queria; se fosse relevante, poderia fazer, e claro, se fosse do meu agrado. Como Ralph dizia, eu só fazia o que tinha vontade, não adiantava me obrigar a nada. Eu era que nem um burro chucro.
balançou a cabeça em concordância.
— Não tem problema se você não topar, sério — disse antes de pedir, soando bem tranquila.
O suspense me deixava curioso. O que eu podia oferecer a ela? Não via nada que fosse realmente útil para , a não ser quebrar a cara de algum babaca. Isso eu sabia fazer muito bem.
— Eu queria aprender a me defender melhor sem ter que usar aquela arma embaixo do meu travesseiro — o pedido estava embutido em sua confissão. — Eu me envolvo com muitos babacas por causa de quem eu sou e do meu trabalho. Nunca usei aquela arma, mas sinto que talvez um dia… Enfim.
Encarei-a por alguns segundos, vendo-a rolar seus olhos. Eu a entendia. As pessoas eram perigosas, e, infelizmente, por ela ser mulher, os caras tiravam proveito.
— Ok — respondi simplesmente. — Eu te ensino — olhei-a rapidamente e deixei minha mão apertar de leve sua canela, vendo um sorriso vir em seus lábios e seu olhar se suavizar. — Mas saiba que, se tiver algum problema, pode me chamar.
Eu sabia muito bem como homens reagiam quando alguma mulher os agredia: com ainda mais agressividade. Sabendo brevemente como era , ela poderia ser quem morreria em uma situação dessas. A ideia não me agradou muito, saber que ela poderia se machucar de verdade.
— Eu adoraria ver você socando alguns babacas que passaram na minha vida, confesso — foi sincera, suspirando pesadamente e soltando um riso amargo por isso.
— Eu adoraria que me apontasse eles para ter o prazer de fazer isso — deixei um esboço de meio sorriso nascer no lado direto de meus lábios.
— Seria ótimo pra mim e uma perda de tempo total pra você — falou, e eu neguei com a cabeça. — Igual sexo, uma perda de tempo pra mim e ótimo pra eles — rolou os olhos, dando de ombros.
— Não seria perda de tempo, eu gosto mesmo de socar a cara de uns idiotas — dei de ombros. Aquilo era verdade, e com toda certeza iria me satisfazer, por saber que aqueles idiotas estariam recebendo o que realmente mereciam. — Pelo menos você arranca a grana deles.
— De alguns sim.
Aquilo pelo menos tinha que ter um lado bom. No meu caso, nem dinheiro eu tirava deles. Só ia embora mesmo, puto da vida comigo por ter feito aquela merda. Adorava como era bom em escolher pessoas para ficar; eu sempre queria ficar com a pior possível. Nunca entendi por que me atraía por imbecis.
— Ótimo, tem um que mora no meu prédio mesmo — ela sorriu maldosa, negando com a cabeça em seguida. A olhei de uma forma interessada.
— Me fala qual é o apartamento dele que vou fazer uma visita — pedi, e eu iria mesmo. olhou para frente enquanto enrolava uma mecha de cabelo. — Ele já mexeu contigo? — perguntei. Se tivesse feito algo, aí sim seria bem pior para ele.
— Só foi babaca, mas ele é com todo mundo. Não ligo de ele ser babaca comigo, mas a esposa dele não merece — contou. Em breve seria um babaca sem dentes. — Ele mora no 302 — falou de uma vez, ainda encarando a estrada vazia à nossa frente.
Afirmei com a cabeça, gravando o número. Faria uma visita qualquer hora.
— Algum cara já chegou a te bater? — perguntei, mas não sabia se queria mesmo ouvir aquela resposta. Poderia me deixar irritado, mesmo sem poder fazer nada a respeito. — Se não quiser responder, tudo bem — disse rapidamente. Às vezes, as pessoas tinham vergonha de falar sobre isso. Coloquei uma mecha de cabelo para trás.
Percebi que ela tinha ficado tensa com a minha pergunta e me odiei por isso. Eu ra bom em ficar calado, então deveria ficar assim. Não gostava de me meter na vida dos outros, e agora tinha acabado de fazer isso. Ótimo, La Rose, você está de parabéns.
negou com a cabeça, e isso me fez segurar o volante com mais força, agora praguejando mentalmente. Fiquei meio estático quando senti sua mão em meu rosto, até que colocou uma mecha atrás de minha orelha. Deixei o ar entrar lentamente em meus pulmões, e meus olhos se fecharam muito brevemente quando as costas de seus dedos passaram por minha pele. Tinha tanto tempo que não sentia esse tipo de contato que era estranho agora. Carinho. Eu não sabia mais como receber isso depois de tudo. Mas sua mão logo recuou, me fazendo abrir os olhos, encarar a estrada e soltar o ar.
— Não, nenhum nunca chegou a me bater — sua resposta me deixou calmo, e minha mão, que apertava o volante com força, se suavizou. — Mas... — aquilo me fez olhá-la por um breve instante, sentindo meu corpo ficar tenso de novo. Seus olhos estavam fechados. Era como um letreiro brilhante: tinha algo errado. Alguma coisa aconteceu com ela. Eu não deveria ter tocado no assunto. — A Saph é filha de um estupro — contou, abrindo seus olhos, que se tornaram vazios.
O que saiu de sua boca me pegou desprevenido. Fiquei totalmente sem reação. Meus olhos se voltaram ao asfalto à nossa frente, só que algo se revirou dentro de mim, e eu apenas parei o carro no acostamento para respirar fundo. Continuei olhando para frente, tentando organizar as coisas dentro de mim. Tentando encontrar uma reação que não fosse a de pura raiva e ódio por saber que fizeram tal coisa horrível com ela.
Soltei o volante, sentindo meus dedos doerem por tê-lo segurado muito forte. Então, olhei sério para com a minha típica cara. Claramente ela me olhava sem entender nada do que eu estava fazendo, mas logo veria. Eu simplesmente não conseguia falar nada naquele segundo. Apenas me virei e saí do carro, dando a volta por ele e abrindo a porta do carona. Segurei sua mão e a trouxe para fora, e a única coisa que fiz foi abraçá-la. Um abraço forte como se fosse apagar aquele fato.
Deixei meu rosto se esconder na curva de seu pescoço. Lamentar não faria com que se esquecesse daquilo, e minhas palavras jamais fariam as coisas melhorarem. Eu sabia que nem aquele abraço faria, mas eu era bom usando elas para demonstrar as coisas.
ficou ali, parada, até que seus braços me envolveram de volta. Mais alguém sabia daquilo? Provavelmente seu amigo Julian. Guardar algo do tipo era pesado, e carregar aquilo deveria ser sufocante.
Seus braços vieram e me abraçaram apertado. Puxei-a para mais perto, deixando nossos corpos totalmente colados. Seu corpo foi relaxando aos poucos. Senti suas mãos subirem suavemente até minha nuca e seus dedos se perderam ali de um jeito bom. Deixei minha respiração pesada sair e afaguei suas costas. não precisava falar nada; só pelo jeito como me abraçava eu já sabia como estava se sentindo. Estava me agradecendo por aquilo.
Então, no fim, meus braços soltaram-na e eu me afastei um pouco, olhando dentro de seus olhos . Ela soltou o ar de forma calma e olhou bem dentro de meus olhos. Minhas mãos subiram para as laterais de seu rosto, e suas pálpebras se fecharam. Levei meus lábios até sua testa, tocando sua pele com sutileza. Meus dedos colocaram seu cabelo para trás de sua orelha. Então, seus olhos abriram e me olharam mais uma vez.
— Vamos. Ainda falta uma hora para chegarmos — avisei, vendo seu olhar confuso. Mas ela concordou com a cabeça, já entrando no Land Rover.
Dei uns passos para trás, dei a volta no carro e entrei no lado do motorista, já apertando o start e voltando a dirigir em direção a Londres. Vi encostar a cabeça na janela dessa vez, olhando para a estrada durante o caminho. Ficamos em silêncio por um bom tempo, apenas ouvindo a música do carro tomar conta de um jeito gostoso.
Começou a tocar Howling, do RY X.
Hot nights coming, keep the car running — cantou, junto com o cantor. Olhei para , curtindo a voz dela. Seus olhos se abriram e sua cabeça balançava bem suavemente, de um lado para o outro conforme a música, que era bem calma e gostosinha. — Cold I fell into your skin on the night you led me under your sin...
Um sorriso de lado veio para meus lábios ao ouvir a segunda parte que cantava. Ela abriu levemente um sorriso e virou seu rosto em minha direção. Meu olhar divertido caiu rapidamente para seus dedos, que tocavam meu braço como se fosse um sintetizador, ou quem sabe um piano.
Voltei a encarar a rua, que começava a tomar outra forma: Londres. Tínhamos chegado. Dirigi à procura de uma vaga e, assim que achei, desci do carro e esperei que fizesse o mesmo; então, quando desceu, a menina olhou para os lados totalmente maravilhada, e isso me agradou. Dava para ver uma luz em seu rosto, e parecia uma doce criança naquele momento. Ela só faltava rodopiar para ver tudo de uma só vez. Meu coração pareceu ter vida naquele momento, já que esquentou por ver que tinha feito algo bom.
Estendi a mão em sua direção, e, assim que a pegou, começamos a andar, indo em direção à London Eye.
— Já foi ali? — perguntei, apontando para a enorme roda-gigante. Ela olhou para lá maravilhada, negando com a cabeça.
Eu só tinha ido lá uma vez quando era pequeno, quando fui visitar minha avó. Mas, no mesmo ano, ela morreu e nunca mais voltamos.
— Nunca — ela respondeu mesmo assim, e me olhou em expectativa.
— Então fico contente em ser o primeiro a te levar.
Olhei para o lado ao ouvir as cordas de um violino começando a serem tocadas alto, provavelmente através de uma caixa de som. Vi rapidamente qual seria o horário de fechamento da London Eye: tínhamos tempo de sobra. Puxei comigo sem falar nada, até que paramos em uma roda que estava começando a ser formada. Soltei a mão dela automaticamente, caso quisesse comprar algo ou se afastar também.
Meus olhos foram para a menina que aparentava ter uns doze anos que tocava violino. Meu olhar se fixou nela, sentindo a melodia me acertar com muita força, porque não era qualquer uma. Era Lovely, da Billie Eilish. A letra me lembrava perfeitamente de cada palavra. E ela se encaixava tão perfeitamente com o dia de hoje, comigo, conosco.
Fechei meus olhos brevemente e visualizei cada corda sendo tocada, os dedos no braço do violino, a madeira, o arco correndo de um lado para o outro suavemente, e como aquilo entrava dentro do meu peito.
Wanna feel alive? Outside I can fight my fear. Isn't it lovely, all alone? Heart made of glass, my mind of stone.
Abri meus olhos, sentindo-os queimarem. Minha respiração perdeu o compasso, se tornou pesada e arrastada, e não me deixava engolir nada, nem meu próprio ar. Então, a prendi brevemente, assim como tudo o que eu sentia, ainda vendo as coisas ficarem levemente embaçadas.
Need a place to hide, but I can't find one near. Não existia um lugar. Era só isso.
Umedeci de leve meus lábios, ainda observando a garotinha tocando. Eu só conseguia ouvi-la e ouvir aquela melodia. Mesmo se o mundo estivesse caindo à minha volta, eu não teria a menor reação. Senti os dedos de em minha mão e, por um milésimo de segundo, recuei, apenas por ter sido trazido de volta à realidade. Porém, no momento seguinte, deixei meus dedos deslizarem por entre os dela de forma suave.
— Eu consigo te ver, sabia? — sua voz saiu no meio de todas aquelas notas finais. — E você é lindo.
Fechei meus olhos, suspirando ao ouvir o que ela havia dito. Tinha sido pego de guarda baixa pela mulher que todos em Bristol julgavam não ter segredos. Só que isso não era verdade; eu via mais mistérios em do que em um quebra-cabeça de cinco mil peças. Ela tinha segredos sombrios assim como os meus, eu sabia que não era porque tinha a conhecido agora. Era bem mais que isso.
Poderia perguntar a qualquer um de Bristol sobre aquela mulher, e eu saberia perfeitamente qual seria a resposta de todos. Quem era ? era a garota que tinha visto quem R. era por alguns segundos; talvez a única pessoa viva que tivesse o feito.
Abri minhas pálpebras e deixei meu olhar recair sobre ela. Havia muita coisa dentro dos meus olhos naquele segundo. Não era mais o vazio que sempre estava presente – realmente deixei que visse, não me importava –, tinha dor ali, e estava tudo bem naquele momento. Seus olhos estavam olhando dentro dos meus de volta, sem máscaras, sem frieza, só verdades. Apenas nós dois ali, no meio da multidão. E apesar disso, parecia que estávamos sozinhos. Talvez em nosso próprio mundo, onde ninguém pudesse nos ver ou ouvir. Não estava me importando com as outras pessoas naquele momento, porque, para mim, elas simplesmente não existiam. Nem ao menos conseguia mais ouvir as cordas do violino da menina que tocava.
Sua língua percorreu seus lábios, os deixando lustrosos, e seus olhos se estreitaram quando perceberam o que tinha dentro dos meus. Pensei em desviar o olhar, mas ela me prendia. Seus olhos me prendiam como cordas em uma âncora que estava no fundo do mar. Eu sentia as emoções dançarem em meu peito: dor, medo, tristeza, e até mesmo paz; só que esta era nova por ali, mas não se importava com as outras. Ela também queria seu lugar. Ali, todas juntas brigavam para ver quem ficaria com a maior parte, e eu gostava disso, de sentir. Me lembrava de que ainda estava vivo.
me olhava de forma destemida. Ela não queria correr, queria ficar ali e ver mais. E eu deveria dizer não, mas tinha certeza que aquela mulher não iria embora. De qualquer forma, não queria que ela fosse.
— Às vezes, quando gostamos de algo, temos tendência a achar aquilo bonito — falei, sabendo que não tinha nada de lindo em minha alma tingida de vermelho. Mas eu compreendia ela, e entendia por que tinha dito aquilo. — Mesmo que seja um reflexo distorcido nosso em cima da água — me virei de frente para . Diria que estava surpresa se não tivesse parecido feliz por reconhecer algo no que eu dizia, e sabia que veria isso. reconheceria aquilo, porque ela era assim também. — Ele continua sendo lindo — as pontas dos meus dedos tocaram de leve seu rosto. Seus olhos se fecharam e minha cabeça tombou ligeiramente para o lado, observando seu rosto com atenção. Percebi como estava relaxado, e admirei sua paz naquele momento, trazendo-a para dentro de mim também. — Porque, no fundo, nós amamos o que somos, mesmo quando o mundo ao nosso redor seja um caos — meus olhos seguiram o caminho que meus dedos fariam, deslizando por sua bochecha e maxilar.
Seus lábios entreabertos deixaram um suspiro sair, leve como aquela menina estava, e eu compartilhava da mesma sensação. Seus olhos voltaram a se abrir e encararam os meus de volta, como se fosse um abismo.
— E assim como eu — ela apontou para si, deixando seus olhos caminharem calmamente em meus traços até voltar para os meus olhos. Concordei brevemente com a cabeça, me limitando apenas em um balançar. — Você também deve achar beleza e arte no caos. Combinamos com ele porque só nós dois sabemos o quão maluco é aqui dentro — ela prendeu seus lábios. Seus dedos tocando minha têmpora me fez fechar os olhos brevemente.
Assim como ela, assim como eu. O caos era o que fazia nossos olhos brilharem, nosso sangue ferver, nossas vidas girarem. Ela sabia disso tanto quanto eu, e amava aquilo.
— Eu não sei o que você vê quando olha para o seu próprio reflexo. Mas o que eu vejo quando olho para você me atrai. Se isso é bom? — levantou os ombros em sinal de “vai saber”, mas alargou o sorriso para o lado.
— Nunca disse que era bom — ergui minhas sobrancelhas. Ela fez um “u” com minha boca em seguida. tinha uma alma de criança, leve e bonita.
— Ótimo, o bom é sem graça mesmo — piscou um olho em apreciação, e neguei de leve com a cabeça, olhando-a de forma divertida.
— Pode ser que sim. Mas não me importo com isso — declarei, por fim.
— Sua bagunça combina com a minha, e já sabemos disso. Nossos olhares conversam sem nossas permissões — soltou uma risadinha ao confirmar aquilo em voz alta, deixando seu olhar se prender no meu. Suas palavras tinham razão.
— Insanos — a palavra saiu da minha boca como se descrevesse tudo o que éramos. Porque era a única que se encaixava na nossa loucura.
— Insanos — repetiu, deixando o brilho em seus olhos mostrarem como concordava com aquilo. A palavra saiu de seus lábios com intensidade, na medida perfeita. Gostei de como soou. Parecia uma melodia agradável, assim como cordas de um violino sendo tocadas.
Nós dois éramos problemas, e sabíamos muito bem que problema atraía mais problema. Só que eu tinha ciência do que tinha a perder se eu continuasse por perto, ao passo que eu não tinha nada.
Quando desistimos de algo, achamos o verdadeiro tesouro. Você passa anos esperando por isso. O tempo te leva arrastado, enquanto os berros dos dias passam te ensurdecendo, te deixando completamente perdido, surtado, sem saber para onde ir, sem ter a menor ideia de como parar aquilo. Até que você para de esperar e deixa o tempo te levar como uma maré mansa. Os dias viram noite e as noites viram dias. Tanto faz se o céu está azul ou preto, você o aprecia do mesmo jeito. O tempo passa a andar contigo e não contra você, e é aí que as coisas se tornam belas. Belas como as cores dos olhos de . Límpido como o mar.
Seus dedos seguram minha mão. Meus olhos seguiram seus movimentos, e minha pele sentiu seus lábios quentes e macios em um beijo singelo. Meu olhos sorriram, se fechando minimamente. Ela deixou um beijo em minha palma, aumentando mais o sorriso.
— Eu vejo você — respondi, abrindo os olhos.
Meu reflexo era aquela mulher, e eu não precisava de muito para saber disso quando conseguia ver as coisas tão nitidamente. E, pela primeira, vez concordei com os pensamentos de alguém quando achava que os meus eram os únicos que faziam algum sentido. Prendi meus lábios em uma linha reta.
— Não me importo com o que dizem sobre você. Você vai se importar com o que vão dizer sobre mim? — perguntei, sabendo qual seria a resposta. Mas uma parte minha ficou com medo de ser outra, que eu sinceramente não queria ouvir.
Ela sorriu, e não precisava ser um sorriso largo para saber que tinha gostado do que eu havia dito.
— Jamais — respondeu então.
não se importaria, era só isso que eu precisava saber quando grande parte da minha vida foi cercada por pessoas que se preocupavam demais com o que os outros falariam. Ela sabia que eu arrastaria problemas por aquela cidade, devido à minha personalidade e coisas que fazia, e, ainda assim, não ligaria. Ela tinha um sorriso bonito, e eu gostava da forma como fazia aquilo de um jeito tão solto. Apesar do caos, ela ainda sorria, e isso a deixava ainda mais incrível. Seu sorriso era como uma rebelião contra o mundo à sua volta. Enquanto todos choravam ou lhe apontavam o dedo, lhe acusando de algo, ela não abaixava a cabeça; sorria, forte e inabalável. Mesmo que eu tenha visto uma de suas quedas de perto, ainda assim ela estava de pé. E se pudesse, a ajudaria a continuar dessa forma, por mais que tentassem arrastá-la para baixo.
— Eu sou gay, — contei, segurando a porrada que senti em meu peito por dentro.
Sua boca se abriu. Sua expressão me fez querer rir. Eu tinha acabado de quebrar o clima, sabia disso, mas me conhecia bem para saber que ela poderia entender aquilo de outra forma. E também sabia que eu era imprevisível o suficiente para ser impulsivo e fazer algo. De qualquer forma, só não queria que criasse expectativas comigo quando eu era uma caixa de Pandora. Nunca sabia o que faria ou deixaria de fazer, apenas vivia o que sentia vontade no momento. Um fato era que eu sentia atração física por homens; outro fato era que eu poderia sentir atração por ela de uma hora para a outra por ser quem ela é. Mas não precisava saber disso.
Arregalei meus olhos quando a menina sorriu e pulou em meu pescoço. Fiquei sem reação com aquilo, sentindo seus braços ao meu redor. Minha mão foi até o meio de suas costas.
— Por isso que nos damos bem — comentou, e eu simplesmente sorri ao ouvir aquilo. — Eu sou casada com um, então... — abriu os braços, deixando sua cabeça tombar para o lado e uma risadinha escapar. Uni as sobrancelhas e minha cabeça deu um nó. Achei engraçado aquilo, mas não perguntei nada.
— Não é verdade isso — rebati. — Nos damos bem pelo que somos, não pelo que eu pego — a corrigi. Aquilo não influenciava em nada quando eu dificilmente me dava bem com as pessoas.
— Eu sei, mas é que garotos héteros têm tendência a serem babacas. Acho que chega a ser inevitável para eles.
— Pessoas são babacas. Hétero com mulher gata é pior ainda — comentei de um jeito divertido.
Eu conhecia bem como eram. Via de perto como chegavam e como tratavam as mulheres; até mesmo como me tratava quando ficava com algum que se dizia pseudo-hétero. Todos babacas. Me perguntava ainda por que me relacionava com as pessoas, mas olhar para ali me deu uma resposta. Eu esperava encontrar alguém como ela. Mas pessoas como aquela menina eram raras, e eu sinceramente não estava a fim de perdê-la por algo idiota. Então, era melhor assim.
Ela abriu um sorriso fechado, concordando.
— Obrigada pelo “gata” — fez uma reverência lisonjeada e até exagerada com o elogio, para zoar também.
— Disponha, madame — brinquei, imitando a reverência. Ela fez uma pose de madame mesmo, mantendo seu olhar com aquele brilho leve.
— E sim, eles são babacas mesmo. As pessoas em geral também. Natureza humana, talvez.
— Eu sou babaca a maior parte das vezes — comentei, o que me fazia questionar por quê não tinha sido babaca com aquela mulher.
— Aposto que é só mais um ponto do seu charme.
Ergui uma sobrancelha.
— Tenho mais pontos? — perguntei, curioso sobre aquilo. Logo eu que não ligava para o que achavam, mas a opinião dela valia para mim.
Seus olhos encararam os meus.
— Não revelarei todos — ficou me olhando como se me analisasse mais, e até mordeu o canto da boca. Pendi a cabeça de lado e fiz um leve bico, como se aquilo fosse fazer falar qual era um de meus charmes. Ela sorriu, divertida. — Mas outro ponto são esses olhos verdes intensos, com certeza — voltou a sorrir levemente. Isso me fez soltar uma lufada de ar pelo nariz e abaixar a cabeça, negando, fazendo meu cabelo cair sobre o rosto.
— As pessoas não costumam reparar em meus olhos. Na verdade, elas os evitam.
Eu sabia que tinha algo nos meus olhos que faziam as pessoas desviarem, mas continuava me surpreendendo a cada segundo. E ela olhava dentro deles, sem medo. Gostava de como fazia isso.
— Hm, dizem que os olhos são os espelhos das nossas almas. Será que elas têm medo de olhar para a sua? Não sabem o que estão perdendo — balançou as sobrancelhas, sorrindo levemente. — Ei, podemos ser quem somos de verdade perto um do outro. Eu nunca vou te julgar por ser quem você é, e eu sei que você nunca faria isso comigo — sorriu de forma sincera, piscando um olho em seguida.
— Sempre soube disso — um sorriso pequeno veio em meus lábios.
— E já que estamos sendo sinceros, estou muito feliz por você ter me contado isso — parou de novo na minha frente. Umedeci meus lábios e cruzei meus braços quando começou a mexer suas sobrancelhas.
— Já somos nós mesmos perto um do outro. Mas fico contente que esse fato não tenha mudado o que pensa — falei e mordi minha bochecha, querendo rir da cara que fez.
— Nada mudaria o que eu penso — manteve o sorriso nos lábios, me olhando em seguida. — Você aceitaria ser meu padrinho de casamento? — juntou as palmas de suas mãos na frente do seu rosto, esperando minha resposta.
— Mas você já não é casada? — perguntei, quando minha confusão mental já começava a berrar.
— Sou. Julian e eu nos casamos no papel um tempinho atrás — respondeu. Afirmei com a cabeça e coloquei as mãos dentro dos bolsos traseiros de meu jeans. Isso me fez ficar surpreso. — Mas decidimos oficializar com uma festa de arromba mesmo. Então... por que não ser meu padrinho? — ergueu uma sobrancelha com o convite.
— Eu estava dando em cima de uma mulher casada? Sou uma vergonha mesmo — brinquei, e acabou rindo, negando levemente com a cabeça.
— Ah, relaxa, Julian não é ciumento — devolveu a brincadeira, voltando a rir.
— Ainda bem que não. E ele teve sorte, eu também não sou ciumento — falei em tom de brincadeira, mas parei, a olhando de novo.
Talvez estivesse mentindo sobre aquilo, ou não. Só sabia que eu ficava puto quando via meu ex com outra pessoa. Não sabia se poderia definir isso como ciúmes ou ego ferido, mas acho que a segunda opção era mais válida. Eu tinha tantos sentimentos dentro de mim que, às vezes, era difícil distinguir o que era exatamente o quê. Eu só gostava de sentir e pronto.
— Que delícia isso de não serem ciumentos, bom que eu aproveito — ela sorriu sapeca, rindo baixinho. Neguei com a cabeça, como se demonstrasse que era feio o que estava fazendo, se aproveitando de nós dois. — Uma pena que não posso dizer o mesmo de mim — fez um biquinho de lamentação, dando de ombros em seguida.
— Devo avisar isso ao Julian? — falei do cara como se o conhecesse há muito tempo, mas eu tinha essa impressão por causa de , da forma como falava dele. Ela segurou o riso. — Então você é ciumenta. Bom saber, isso será divertido — brinquei, lhe lançando um olhar de quem tiraria proveito daquilo, e talvez não fosse totalmente mentira. Às vezes eu gostava de provocar quando tinha paciência para isso.
Ela semicerrou seus olhos em minha direção.
— Avisar que estou aproveitando de vocês? Que maldade sua — fez um biquinho de menina inocente que estava arrependida pelos pecados, mas piscou rapidamente um dos seus olhos, voltando a sorrir, divertida. Até parece que ela se arrependia de algo. Tive vontade de sorrir. — É como colocar lenha na fogueira e ainda jogar álcool, hein? — alertou, sendo sincera apesar de ter dado risada.
— Adoro ver o parquinho pegando fogo mesmo — dei de ombros e lhe lancei um olhar. Pela forma como ela me olhou de volta, soube que estava falando a verdade. soltou uma risada alta. — Bristol ficará chocada com o casamento. Não posso perder isso. E aceito sim ser seu padrinho — puxei-a para perto, vendo o sorriso enorme que deu.
Dei-lhe um abraço, encostando meu queixo no topo de sua cabeça. As coisas tinham sido rápidas, mas não me importava com isso, porque sabia que era verdadeiro e nada disso diminuía a intensidade delas. Só a fazia ficar maior. O tempo ali não queria dizer nada. Não precisávamos de números para sentir qualquer coisa, só sentíamos.
— Obrigada por aceitar. Vai ser ótimo ter você lá! — falou baixinho entre o abraço, fechando seus olhos só por alguns segundos.
— Vai ser ótimo te ver feliz — fui sincero.
— Já estou feliz demais por você ter aceitado — respondeu, mostrando sua empolgação para o dia.
Se ser o padrinho fosse fazê-la feliz, eu o faria todas as vezes que me pedisse. Queria que recebesse tudo de bom que o Universo poderia lhe dar. Ela já tinha passado por coisas demais, e, mesmo que eu não soubesse nem do começo, sabia como aquilo tinha a ferido. Então, pegaria todas as oportunidades que achasse para mudar algo e fazê-la sorrir. Ela merecia aquilo. Seus sorrisos vinham, e os meus, queriam sair. Ela me contagiava. E eu gostava disso em nós.
— Vem, vamos na London Eye agora. Você vai gostar das luzes — soltei-a e peguei em sua mão, a levando embora dali.
— Tenho certeza que sim — respondeu, entusiasmada e toda boba.
Notei a forma leve que eu me sentia naquele momento com . Um dia já me senti assim? Eu mesmo, sem precisar me esconder? Não sabia, para ser sincero. Mas sabia que tinha gostado daquela sensação. Era como fechar os olhos e sentir uma melodia que me acalmasse.
Permaneci alguns segundos olhando para o rosto da mulher ao meu lado, pensando naquilo, sentindo aquilo. Estava me divertindo ali; tornava as coisas mais fáceis. Então, entendi o que queria dizer se sentir em casa. Casa não era um lugar, era uma pessoa. Sorri, mas um pequeno sorriso que quase não dava para ser notado.
Caminhamos até a London Eye e furei a fila descaradamente. Odiava esperar. A garota atrás de mim reclamou, mas apenas a olhei com minha típica cara de ódio, e ela se calou. acabou rindo baixinho do meu lado e apertou de leve minha mão, me fazendo rir nasalado. Afaguei o dorso de sua mão e dei um cheiro em seu ombro. Percebi ela se divertindo, gostava de uma coisa errada mesmo. Vai ver que era por isso que tinha gostado de mim.
— Você é adorável mesmo — brincou, então mandou um beijo pelo ar para a menina. Segurei o riso.
— Obrigado — respondi com um leve tom de deboche, e ela riu maldosa.
Paguei os ingressos e puxei para correr comigo até a fila da cápsula, que pelo menos era pequena. Ela deu um suspiro, empolgada e animada. Logo entramos e, por fim, soltei sua mão.
Caminhei até a ponta e fiquei olhando para , que entrou e girou ali no meio da cápsula, totalmente maravilhada com o que via. Coloquei as mãos no bolso da frente da minha calça enquanto a observava, e só depois notei que tinha surgido um pequeno sorriso em meus lábios.
— Vem cá — a chamei, sem tirar os olhos do lado de fora.
A cápsula já começava a se mover, subindo um pouco para que as próximas pessoas embarcarem. Assim que chegou, suas mãos repousaram na barra de segurança. Passei por trás dela e a cerquei com meus braços, sem tocá-la, segurando a barra também. Afastei meu corpo para ficar quase da sua altura, quase apoiando meu queixo em seu ombro. Deixei nossos rostos um do lado do outro enquanto olhávamos para fora.
— Feche os olhos e pense em um sonho o que você deseja que se torne real — pedi em um sussurro, deixando minha voz sair levemente rouca, vendo seus olhos se fecharem. — Qualquer coisa. Pode ser o impossível — fechei meus olhos também. — Dentro do nosso mundo, tudo é possível.
Eu ouvia sua respiração descompassada por tamanha empolgação. Esperei por sua resposta.
— Um mundo onde as pessoas pudessem ser quem elas quisessem ser. Um mundo onde todos pudessem fazer as coisas e não serem rotuladas por seus atos — divagou sobre seu desejo profundo e negou levemente com a cabeça. Meus olhos se abriram, e sua resposta apertou meu peito. Aquele mundo que ela desejava era o mesmo que eu queria que fosse real. — Quero ter você na minha vida. Não só nos momentos difíceis em que estou surtando debaixo do chuveiro, mas sim em dias em que quero compartilhar minhas alegrias com você — soltou com sinceridade, abrindo os olhos e encarando a cidade, parecendo menor por estarmos na altura. Aquele segundo pedido me pegou de surpresa.
— Então... — falei e coloquei minha mão direita sobre a dela, a que tinha a rosa. Pude ver seu olhar descendo para aquele toque. — Esse é o nosso dia um de momentos de alegria.
Aquilo soou engraçado, porque nunca me imaginei falando tal tipo de coisa. Alegria não era algo que rodeava minha vida, e talvez nunca tivesse acontecido antes. Era algo difícil de lembrar. Mas sorriu.
— Merecemos mais momentos assim — comentou, suspirando.
— Uhum.
Merecíamos mesmo; ela merecia bem mais do que eu. Queria ver seu sorriso contagiante mais vezes. Olhei para a minha mão sobre a dela, e isso até me trouxe um certo conforto. Pelo menos não tinha a tirado dali e se afastado.
— Também quero poder ver mais esse sorriso bonito que você tem — olhou para mim e sorriu suavemente.
— Não posso prometer. Meus sorrisos têm vida própria, mas garanto que eles aparecem às vezes — respirei fundo.
— Fico feliz em já ter visto alguns deles — abriu mais seu sorriso e olhou para a vista abaixo de nós. Afirmei com a cabeça e deixei meu polegar passar pelas costas de sua mão.
Ela sorriu mais e assentiu, então voltou a encarar a paisagem.
— Sua vez.
— Devo fechar os olhos também? — perguntei, umedecendo os lábios e sorrindo fraco, já buscando algo em minha mente.
— Sim, por favor.
Quando fechei os olhos, soube que ela estava me olhando, e esse fato não me incomodou também. Me sentia seguro perto dela, talvez fosse isso.
— Ser feliz — disse simplesmente.
Apesar de tudo, o que eu mais sonhava era em ser feliz, e isso eu sabia que nunca conseguiria ser. Mas, ali dentro, eu podia ser feliz por alguns minutos. Poderia me permitir isso sem que me sentisse culpado e egoísta. Deixar toda a minha vida de fora daquela bolha e só viver um pouco aquele momento, sorrir e apreciar o sorriso da . Olhar a paisagem e deixar que tudo aquilo me tomasse; sem passado, sem futuro, apenas o presente. Queria aproveitar nossos sonhos e fazê-los virarem reais. Pensei nos olhos dela. Tons ; seus tons, os tons de . Ela ia do mais escuro ao mais claro. Das sombras à luz.
— O que eu puder fazer pra te ver feliz, com certeza farei sem medir esforços.
Fiquei feliz por ouvir aquilo dela, quando ninguém mais ousou fazer o mesmo. Não esperaria nada de , mas a intenção já tinha sido boa, e ela tinha acabado de me deixar feliz.
Abri meus olhos. Senti sua outra minha outra mão repousar sobre a minha, que estava em cima da sua, deixando seus dedos seguirem os traços de minha tatuagem. Ela se virou e eu pude olhar dentro de seus olhos , e lá estava seu magnífico sorriso. Então, dei um pequeno sorriso. Ela tinha conseguido me roubar mais um deles.
— Obrigado — agradeci, sentindo seus dedos desenharem a rosa de minha mão, me causando uma leve cócegas.
— De nada — respondeu simplesmente. — A felicidade fica fantástica em você! — disse bem convicta, dando um beijinho em minha bochecha. era carinhosa, e seu beijo deixou bem claro que eu estava incluso em seus atos de carinho agora, e gostei de saber disso.
Levei minha mão até seu rosto e deixei meu polegar acariciar sua pele macia. Ela sorriu como uma menininha orgulhosa, olhando dentro dos meus olhos, e não tive medo disso. Cheguei mais perto e fechei os meus, deixando os lábios tocarem sua bochecha e a ponta do meu nariz passar por ali.
— Quero ver mais desses seus sorrisos sinceros de felicidade — aquele era outro desejo meu, o qual queria ver fora daquela cápsula. Sabia que talvez nunca mais conseguisse tirar aqueles sorrisos dela, mas eu tentaria.
— Acho que sempre que você estiver por perto, pode surgir alguns desses — sussurrou, dando outro sorriso confiante daquela promessa.
Encostei minha testa ao lado da sua, abri meus olhos e a vi piscando de forma admirada enquanto me olhava com um sorriso nos lábios. Fiquei a olhando de perto por um tempo, enquanto me devolvia aquele olhar.
— O que vem à sua mente quando você olha lá pra baixo? — perguntou, ficando na ponta dos pés.
Então, me afastei e soltei sua mão, dando um passo para trás. Parei ao seu lado e segurei as barras de segurança, olhando lá para baixo e pensando em sua pergunta.
— Eu penso em como somos pequenos neste mundo, e que, mesmo assim, as pessoas ainda tentam nos fazer ficar menores — respondi, sendo sincero. — E tem pessoas que se permitem a isso, mas com toda certeza não somos uma dessas — olhei para . — E o que você pensa? — perguntei, agora me virando e encostando na barra, cruzando meus braços enquanto a olhava, vendo que encarava Londres.
— Eu penso que você e eu juntos poderíamos esmagar essas mentes pequenas se quiséssemos — sua voz saiu rouca devido à intensidade de seu pensamento.
Aquilo me fez sorrir de lado. Então, ela me encarou de volta, deixando meu olhar conversar com o seu como era de costume.
— Vamos esmagar todos eles — concordei com ela, rindo um pouco e chegando mais perto. — Nós somos diferentes.
sabia do que eu estava falando. Enquanto o mundo tentava nos diminuir, nós só ficávamos maiores e mais fortes, e ela era um exemplo vivo disso.
— Nós somos gigantes, porra — ela apontou para nós, deixando o sorriso crescer, puxando o meu. — WE ARE FUCKING GIANTS, MAD WORLD! — gritou lá para baixo, rindo ao ver as pessoas a olharem como se fosse uma maluca.
WE ARE FUCKING GIANTS, MAD WORLD! — gritei também, soltando uma pequena risada. — Foda-se o mundo — agora olhei para com um sorriso nos lábios, deixando meus olhos mergulharem em seus tons .
Foda-se tudo.


Chapter 4


Estava jogada no sofá do camarim apenas de lingerie. A ansiedade, o desespero e o nervoso que nunca tinha tido em toda minha vida eu estava sentindo naquele momento. Estava prestes a sair gritando “SOCORRO” pelo MS inteiro apenas de lingerie, até porque pelada todos ali já tinham cansado de me ver. A maquiagem já estava feita, o vestido no cabide, e a lingerie era linda, perfeita e tão sexy que aff. Tudo estava lindo. Era o dia perfeito e eu estava com medo por essa perfeição toda.
Minha vida era toda cagada, nada era perfeito nela. Meus pais me odiavam, meu irmão fazia questão de nem me cumprimentar se me visse na rua. Fui estuprada na adolescência, engravidei e ouvi que a culpa era minha, que era muito ousada e assanhada. Saph foi para adoção e eu visitei o inferno pra conseguir sua guarda. Mas conheci pessoas incríveis no caminho, pessoas que fizeram todas essas merdas valerem a pena. E eu me casaria com uma delas hoje. Julian tinha entrado nessa comigo, agora teríamos nosso dia de princesa.
Sentei no sofá sentindo meu estômago se revirar. A porta se abriu e um dos meninos apareceu ali todo de terninho.
— Sai daqui, estou tendo um surto — já o deixei avisado, então ele tirou o sorriso dos lábios e saiu.
Mas a porta se abriu de novo, e vi Saph entrar. Ela estava perfeita, uma verdadeira princesinha. O vestido era tão rodado e cheio de brilho que eu já sabia que ela não ia querer tirá-lo nunca mais.
— Que coisinha mais perfeita! — abri os braços para ela, que veio correndo até mim, me apertando em seus bracinhos curtinhos.
— Mamãe, todo mundo já chegou e você ainda nem está vestida.
Soltei uma risadinha e balancei a cabeça em concordância.
— Estou com medo de desmaiar logo na entrada — confessei baixinho para ela, então Saph arregalou seus olhos tão quanto os meus.
— Você está com medo? Minha mamãe não tem medo de nada. Devolve ela porque ela precisa casar hoje, ou eu vou chamar o tio Juju — minha filha foi bem convincente com a ameaça. Tão convincente que eu tive que rir.
— Você tá certa, eu não tenho medo. Não preciso ter medo, já fui atração no palco muitas vezes, e o Julian iria comer meu cu de um modo ruim — fiz uma careta por ter falado “cu” perto dela.
Saphira soltou uma gargalhada deliciosa e deu um beijo estalado em minha bochecha.
— Vou atrás da minha babá. Até mais, mamãe.
Acenei para ela, vendo-a sair. Então, criei coragem.
Peguei o vestido e o vesti de uma vez, sorrindo ao ver como ele tinha ficado perfeito. Era colado no meu corpo, inteiro rendado e longo, mas com cortes perfeitos nas pernas que as deixavam à mostra. Soltei os cabelos, que estavam cacheados e com um volume sexy até. Peguei a capa em cima da poltrona, que parecia outro vestido de noiva. Era enorme, arrastava no chão e tudo, bem comportada; tampava praticamente meu corpo inteiro. Deixei meus cabelos para dentro também, como se eu tivesse o cortado. A capa era leve, mas rodada como um vestido de noiva tradicional. Em seguida, peguei a coroa prata em cima do balcão e coloquei-a em cima da cabeça, prendendo com algumas mechas do meu cabelo.
Sorri mais abertamente ao me ver no espelho. Quem diria que iria se casar um dia? Um dia em meu passado cheguei a acreditar que seria com o dito cujo que eu me recusava a lembrar o nome justo agora. A maneira como ele falava que me amava me fazia acreditar que seria algo para sempre. Mas agradeço pelo aprendizado, e como diz Ariana Grande: “thank u, next”.
Tinha atrasado umas duas horas e meia pelo que vi no relógio quando saí no corredor. Meu coração só batia mais acelerado a cada passo que eu dava ao barulho da festa. Parei no meio do caminho e quis me mandar tomar no cu por estar com aquela porra de insegurança.
— Todos daquele lugar te viram pelada, a maioria já transou com você de tudo quanto é jeito… Se recomponha! — falei para mim mesma, inspirando e caminhando até o lugar.
Então, avistei os seguranças, que sorriram para mim.
— Tá perfeita, !
Sorri para eles de volta e fiquei mais animada. Depois, vi que fizeram um sinal para Luna, já que ela ficaria responsável pelo som. Ela era incrível demais.
Começou com a entrada de casamento, o famoso “tã tã tã tam”, e isso já me fez querer rir. Vi todos se levantando ao som, então comecei a entrar com um sorriso singelo nos lábios. Os rapazes de terno preto vieram atrás de mim, dois deles.
Não estava aguentando a emoção. Se eu fosse dessas que chorava fácil, já derramaria altas lágrimas. Todos estavam lindos e coloridos no altar: Noah perfeito de cerimonialista; meu amado Julian perfeito de rosa. Aquilo me fez sorrir tão abertamente que mal consegui me controlar. Ele estava absurdamente perfeito.
Olhei para meus padrinhos, sentindo meus olhos brilharem em cada um. Stephen, lindo com aquela calça cintura alta; Analy, com aquelas pernas lindas. Meus olhos ficaram um tiquinho marejados ao ver Pietro ali – e como seu cabelo estava péssimo, como sempre –, mas ele era bonito de qualquer jeito; porém, apanharia depois. Minha Dite perfeita com o vestido que tinha escolhido, uma deusa mesmo. Laurel roubando a beleza do próprio fogo. Que mulher, puta que pariu! Jesse era um sortudo mesmo, estava lindo ao lado dela também. Um puta casalzão com a Luna, que era outra deusa.
Então, não aguentei e abri um sorriso ainda maior ao ver Sam ali. Fazia tanto tempo que não o via que já quis correr ali mesmo da entrada para lhe dar um abração, mas estragaria toda a entrada da noiva. Olhei para o seu lado e dei uma piscadela para Clare, a loira extraordinariamente bela que Sam havia trazido como sua acompanhante. Samuel Berkowitz e o bom gosto, era o que eu sempre dizia. Meus olhos foram até Viola, que brilhava naquele lugar com aquele verde lindo. Queria beijá-la inteirinha de tão perfeita, puta que pariu.
O sorriso em meus lábios aumentou um pouco mais por ter me apaixonado no blazer que La Rose usava, que tinha deixado seus olhos ainda mais verdes. Ele estava absolutamente lindo, quer dizer, lindo ele já era, e eu não sabia nem mais o que pensar. Estava sem fôlego olhando para ele. Aquele sorriso em seus lábios... Eu sabia o quanto La Rose era difícil de sorrir; porém, aqui estava ele, sorrindo daquela forma para mim e me dizendo com seus olhos o quanto queria me abraçar. E estava sendo recíproco. Queria muito abraçá-lo naquele momento também.
Voltei meu olhar para Julian e pisquei um olho para ele, parando depois de uns passos só para dentro. A música parou também. Olhei assustada para Juju e soltei uma risadinha alta. Então, começou a tocar Crazy In Love da Beyoncé e os meninos atrás de mim puxaram a capa de uma vez, mostrando meu verdadeiro vestido. Joguei meu quadril para o lado e depois para o outro, jogando meus cabelos para trás, e desfilei como a Queen B fazia em seus shows ao som dessa música icônica. Tive que segurar a risada ao ver o grito que Julian deu quando tocou Beyoncé. Sabia que ele iria surtar, e foi em homenagem mesmo, já que vivíamos assistindo ao show dela e surtando, obviamente. Mas o sorrisão aumentou mais ao vê-lo marchando sem sair do lugar, como se tivéssemos ensaiado aquilo tudo. Comecei a rebolar – ou pelo menos tentar – como a Queen B, quando Julian apontou para mim e fez o “one, two, three, four”. Até joguei meus cabelos para um lado ao remexer o quadril, mordendo a ponta da língua e soltando uma risadinha.
Quase parei, apenas pra abraçá-lo bem forte, quando vi seus olhos brilharem como ele. Eu sabia que Julia tava querendo chorar. Meu viado emocionado não tinha como saber lidar mesmo. Mas dizem que em casamentos é normal haver choro, e eu não seguraria o meu caso ele viesse.
Dei um giro ali mesmo, tirando a cinta-liga e jogando-a para um dos meninos; o outro me jogou o buquê de rosas vermelhas. Voltei a caminhar em direção ao altar, mandando um beijo para meus padrinhos e madrinhas, parando em frente ao Juju e tirando minha coroa para colocá-la em seus cabelos.
Got me looking so crazy right now — cantei para ele, mandando um beijo.
Looking so crazy in love's got me looking, got me looking so crazy in love — Julian cantou de volta para mim.
— Estou mais apaixonada por você. E que bom que sua bunda tá pra jogo, pra verem que ela é minha — sorri maliciosa, rindo baixinho e me voltando para Noah, lhe dando permissão para começar.
— Minha bundinha é todinha sua, vadia! Repete de novo que sou a paixão da sua life?
— O amor da minha vida todinhaaaaaaa! — estendi a última palavra, cantarolando.
Então, arregalei meus olhos ao ver que ele parecia passar mal, por causa do buquê e o calor do momento. Acabou que Noah foi mais rápido que eu e o segurou, antes que ele caísse no chão.
— Puta merda, Julian, desmaia depois! — exclamei, abanando com a minha mão livre mesmo.
— Dá a piloca... pileca... piroca de chocolate pra ele, mamãe! — Saph gritou de longe, tirando boas risadas dos convidados. Acabou que até eu dei risada também, mas Julian pareceu se recuperar.
Saphira tinha hora que nem existia, mas o bom era que todos pareceram rir do comentário dela – ou melhor dizendo, de uma de suas pérolas. Uma criança daquele tamanho falando “piroca” tinha que ser minha filha e criada pelo Julian mesmo. Deram um copo d’água para ele e eu suspirei aliviada, começando a me abanar, porque eu que começaria a passar mal daqui a pouco.
— Ela não tá errada — Julian comentou, já recuperado.
— Nunca tô! — ouvimos lá atrás a resposta de Saph para ele.
— Com quem ela aprendeu isso? — ele sibilou para mim, bem sonso mesmo. Apenas dei risada, negando com a cabeça. — Tô orgulhoso — quando disse isso, conseguiu me tirar outro sorriso largo.
— Foi pra você mesmo — pisquei um olho para ele, sorrindo feito uma menina também orgulhosa por ter conseguido fazer a entrada sem desmaiar.
Encostei minha cabeça em seu ombro assim que ele encostou a sua na minha, e ficamos ouvindo Noah arrasar na cerimônia, do jeitinho que esperávamos que ele arrasaria mesmo. Pisquei meus olhos, engolindo qualquer indício de que eu iria começar a chorar naquela hora. Pelo amor, ainda não. Olhei para Juju quando segurou minha mão e a apertou, com um carinho absurdo que eu deixei transbordar nos meus olhos. Eu estava gostando daqueles sentimentos serem transbordados naquele dia, que ficaria para sempre guardado no meu coração. Todas as pessoas que importavam para mim estavam ali. Naquele momento, eu estava me casando com aquele que me deu uma casa apenas com um sorriso. Seria sempre grata por ter Julian na minha vida.
Voltei minha atenção para Noah, que prosseguia o discurso perfeitamente. Conseguimos ver até os momentos que ele segurou a emoção, e, se eu não tivesse tão emocionada assim, poderia até zoar com Julian. Sabia que ele queria era mesmo lamber o Noah inteirinho naquele altar.
— Diante de todos os convidados presentes, essa união será selada pela entrega das alianças.
Então, nossa atenção foi para a adorável Saphira, que adorou ser o centro das atenções enquanto caminhava no meio de todos até o altar com as alianças sobre uma almofadinha vermelha. Abaixei meu corpo para pegá-las e, então, beijei o topo de sua cabeça. Ela me abraçou e depois apertou Julian, então correu atrás de Luna. Olhei pra Juju em expectativa.
— Os noivos podem dizer seus votos antes da troca de alianças, por favor — Noah anunciou.
— Que dia — Julian murmurou e respirou fundo depois das risadas, soltando meu braço e ficando de frente para mim. Entreguei meu buquê para Noah segurar. — Não vou desmaiar de novo, I promise — ri fraco daquilo, querendo chorar, e o senti segurar minhas mãos com força. — Não tinha pensado nisso até agora, mas hoje é o melhor dia da minha vida — senti meus olhos ficarem marejados quando ele começou. E sorri ao concordar, porque era o meu melhor dia também. — Me disseram pra escrever o que eu diria, e eu fiz: puff! Não é assim que funciona, mas fiquei com o cu na mão de me perder hoje — ri junto dele, o entendendo plenamente. — Mas soube exatamente o que falar depois que desenhei.
Ele soltou uma das minhas mãos e apontou, para um ponto atrás da rainha Viola, um quadro em preto e branco do dia em que me mostrou seus nudes de desenho, e rimos bastante. Senti meu peito ficar apertado de tanta emoção ao ver o quadro. Minha mente me levou ao exato momento em que ele me mostrou seus quadros, onde tudo começou. Onde nossas vidas ficaram ligadas para sempre.
Voltei meu olhar pra ele, sentindo que tudo o que eu sentia estava praticamente saindo para fora dos meus olhos em lágrimas, mas as segurei assim que soltei o ar.
— Você é perfeita, viado. O deus dos gays sabe o quanto invejei e adorei essa sua bundinha dura e esses seus peitos maravilhosos. Podia ser eu, mas fico feliz em você ser a pessoa que mais importa na minha vida. Tenho favorita sim, fazer o quê?! Todo mundo aqui tem! — ele continuou dando aquele aviso, me fazendo alargar o sorriso, quase rindo com seus elogios perfeitos. Também olhei para todos com uma expressão de “fazer o quê?”. Eu era sim a favorita dele. — Ah, quer saber? Eu amo o Madam Simmons. Amo porque, primeiro, ele me deu uma casa quando eu não tinha nenhuma. Depois, me deu uma família quando a minha desistiu de mim. Em seguida, ele me trouxe você. Eu não fazia ideia do quanto iríamos ser e, quando pisquei, já éramos. E eu prometo nunca desistir de você, vadia linda da porra. Você é a vadia da minha vida, minha melhor amiga, meu porto seguro, minha confidente, e, se eu fosse hétero, até transava com você — riu baixinho, e eu ri junto. — Não sei se tem algo que eu não faria por você, e sei que, se alguém te magoar, vou ser preso por homicídio. Fica aí o aviso. Eu amo você. Não sei se já te disse isso diretamente, mas eu amo você de verdade. E você é meu mundinho rosa, minha caixinha de glitter, meu pincel de esfumado, meu batom vermelho, meu salto 15 favorito, e a gente vai botar pra foder! Uhuuul!
Meu coração quase – bem quase mesmo, por bem pouco – não saiu pela minha boca quando ele falou que me amava. Então, senti lágrimas saírem de meus olhos, mas logo as sequei para não estragar a maquiagem de horas. Joguei minha cabeça para trás em uma risada gostosa ao vê-lo requebrar deliciosamente.
Noah tocou meu ombro, como se desse a liberdade de começar os meus votos. Assenti e soltei o ar, como se fosse ajudar em algo. Então, apertei as mãos de Juju mais uma vez.
— Você merecia apanhar com o buquê por ter me feito chorar — murmurei, ouvindo umas risadas por isso. — Eu nunca me senti completa. Sei que sou uma pessoa difícil de lidar. Cresci num lar onde nunca me ensinaram o que era amor, e eu realmente comecei a não me importar com isso. Acreditei que a vida era uma fodida que adorava foder, então aprendi a foder, e aprendi cedo. Sempre achei que sexo era a única coisa que importava. Sabia que era apenas isso que viam quando me olhavam — respirei fundo, ignorando aquelas ondas de sentimentos me molharem. — Quando conheci o MS, aprendi que sexo não era a coisa mais importante. Aprendi o valor da amizade, da fidelidade, da união e o verdadeiro sentido de lar. E agora sei que o amor está presente em tudo isso. Quando você me mostrou seus quadros, vi em seus olhos que eu era muito mais do que a garota que fodia bem. Eu vi uma que podia amar, podia ser feliz, podia ser a melhor amiga, a confidente, seu porto seguro e a sua vadia — abri o sorriso para ele, beijando seus dedos rapidamente. — Mas, antes de tudo isso, você me ganhou por completa. Você se tornou tudo isso pra mim naquele mesmo dia, e eu soube que seria você e eu para todo sempre. Não me importa se você e eu gostamos de piroca, temos assunto de sobra por isso... — soltei uma risadinha. — Você é perfeito e nasceu pra ser meu marido, Julian Dawkins. Meus dias não são completos se não tem aquele momento em que eu e você nos deitamos na cama apenas pra jogar umas fofocas fora, mesmo que sejam pequenas pelo cansaço do dia. Mas todo dia temos que ter esse momento, e são neles que eu sei que você é o meu lar — fechei meus olhos, permitindo que o ar entrasse e saísse, ou eu desmaiaria agora. — Eu não acreditava no amor, porque, para mim, ele era uma farsa. Apenas uma história da Disney para crianças — levantei um ombro. — Mas agora eu acredito e… eu te amo também.
Julian sabia que essa era a primeira vez que eu tinha falado aquela frase em toda minha vida. Ele sabia o quanto eu era travada com ela.
Noah prosseguiu com o casamento antes que nós dois começássemos a chorar. Então, nos abraçaríamos e o casamento não rolaria mais, porque Noah nos conhecia bem demais para isso. Ele logo foi para a pergunta do “aceito”, a qual Julian e eu respondemos ainda com as emoções à flor da pele. Assim que Noah nos declarou marido e mulher, soltei um gritinho de pura animação, pedindo desculpas a ele por isso. Então, Noah finalizou, falando que o Juju podia me beijar.
Soltei uma risada alta quando Julian me girou e também me fez girá-lo, abraçando sua nuca quando ele me tascou um beijão mesmo, daqueles de perder o fôlego. Até levantei uma de minhas pernas, pra deixar mais cena de filme ainda. Deslizei minhas mãos para seus ombros quando ele se afastou, e sorri abertamente ao sentir seu beijo em minhas bochechas. Abracei-o de lado, pela cintura, assim que ele nos virou para o pessoal e soltou um “uhul”.
— Casamos! — berrei em seguida. Levantei os braços para agitar ainda quando ele deu a largada da festa.
Então, os padrinhos começaram a nos cumprimentar. Eu não aguentava e abraçava cada um de forma extremamente apertada. Realmente adorava cada um com todo meu ser, cada um fazendo parte de cada fase da minha vida; todos gostando e me aceitando da forma como eu realmente era.
Sempre fui julgada, desde que me entendia por gente. Sempre fui julgada por falar o que pensava, por não ser tão feminina quanto as outras garotas, por ser sempre abusada e ousada, sempre fazer o que eu queria. Mas encontrar todas aquelas pessoas pelo caminho só me ajudou a continuar sendo quem sempre fui, aprendendo a me amar primeiramente e dizer: foda-se o resto.
Quando Viola estava abraçando Juju, abracei La Rose bem apertado mesmo, sentindo seus braços me envolverem também bem apertados.
— Não lembro quando deixei você vir tão bonito desse jeito, hein? — falei entre o abraço, não querendo soltá-lo.
— Posso dizer o mesmo pra você. Quando aceitei ser padrinho, não sabia que a noiva ficaria tão linda assim — ele tinha um tom de humor em sua voz, mas eu conseguia sentir carinho em suas palavras.
— Ah, estou divinamente maravilhosa mesmo. Eu sei! — brinquei, rindo um pouco daquilo, mas ao mesmo tempo feliz demais e de uma forma que jamais pude imaginar antes. Seus dedos me apertaram um pouco, e consegui ouvir um pequeno riso nasalado dele. — Estou tão absurdamente feliz por você ter vindo, sério. E obrigada pelo sorriso lindo na hora que eu entrei — sussurrei com a voz tão baixa que saiu mais rouca do que já era. — Já foi o meu presente de casamento.
— Estou honrado por ter sido chamado para um momento tão importante da sua vida, isso me deixa extremamente feliz. E o sorriso ao te ver foi apenas o reflexo disso. Era todo pra você — contou mais baixo, como se fosse um segredo só nosso.
— Sua felicidade é um presente para mim e você sabe disso. Então, obrigada — fechei meus olhos um pouquinho naquele abraço, apenas curtindo aqueles segundos.
— Posso dizer o mesmo sobre a sua felicidade. Ela se torna a minha — sussurrou, então respirou bem fundo, me apertando um pouco mais em seus braços e me soltando em seguida.
Sorri ainda mais com aquilo; mas não por fora, e sim por dentro. Existiam poucas pessoas no mundo que poderiam te falar algo como isso. Elas eram únicas e especiais, eu sabia bem disso. Nunca tive muitas pessoas que realmente falavam aquilo para alguém como eu, então valorizava demais tudo o que aquele belo rapaz de olhos verdes representava para mim desde a primeira vez que nos falamos.
— Mas a melhor parte nem chegou — ele disse, se afastando e me olhando com aqueles olhos que eram tão intensos. Seu polegar passou pela lateral de meu rosto com cuidado, fazendo com que meu sorriso aumentasse um pouco mais ao encarar seus olhos da mesma maneira.
— A melhor parte? Qual seria a melhor parte? — ergui as sobrancelhas, bem curiosa mesmo.
— Não posso contar, é surpresa — respondeu e uniu as sobrancelhas, mas também sorriu, ainda me olhando.
— Surpresa? Poxa, La Rose! Mas eu quero saber — cruzei os braços na frente dele e fiz um bico como Saphira costumava fazer comigo. — Uma dica?
— Não — falou bem firme, até mesmo como se fosse uma pequena bronca. — Sem dicas. Nem adianta fazer essa cara — avisou, depois apertou minhas bochechas com uma só mão, fazendo meu bico ficar ainda maior. Então, seu olhar desceu para meus lábios pintados de vermelho.
— Quando eu vou poder saber, então? — estreitei levemente meus olhos na direção dele, como se buscasse qualquer pista em sua feição.
— Na hora certa — respondeu, subindo seu olhar até encontrar o meu. — Cadê a Saph?
— Provavelmente causando o caos no meu casamento — respondi, soltando um riso nasalado e olhando em volta. Até que a achei perto da mesa com os docinhos, assistindo-a descaradamente pegar os doces e enfiá-los no vestido. — Eu disse — apontei, para ele ver aquela sapeca aprontando.
— É tão adorável quanto você — riu ao observar a cena, depois me olhou de um jeito de quem ia aprontar.
La Rose fez sinal para eu não falar nada, apenas observar. Ele saiu andando entre as pessoas rapidamente, sem esbarrar em ninguém. Até que chegou por trás de Saphira, dando um baita susto nela, o que a fez berrar por estar roubando mais doce. Acabei gargalhando com aquilo, levando minhas mãos até minha boca e jogando minha cabeça para trás, vendo a cara da abusada derrubando todos os doces no chão e fazendo cara de quem tinha sido pega mesmo. Até La Rose acabou rindo e fez cara de espanto para os doces que estavam espalhados na frente deles. Aquilo foi impagável!
Então, ele se abaixou e pegou todos rapidamente, colocando-os na mesa ao lado. Depois, pegou um guardanapo e começou a limpar Saphira, que estava toda suja de glacê e chocolate. Nem consegui controlar o sorriso enorme que apareceu em meus lábios com aquela cena.
Alisei de leve o braço de Julian, em sinal de que iria me afastar; ele estava empolgado conversando com outros convidados. Caminhei calmamente até onde os dois estavam e vi Saphira virar o rosto assim que me viu chegando.
— Os doces não eram meus — ela começou dizendo, retraindo os lábios. La Rose claramente estava segurando o riso. — Estava ajudando o moço que parece um príncipe pegar eles do chão. Eu juro — ainda sorriu amarelo para mim.
— Ah, é verdade, príncipe? — questionei para ele, segurando a risada.
— Sim. É sim. Ela estava me ajudando — La Rose piscou um olho para Saphira, depois me olhou bem sério. — Acho que deveremos investigar quem estava roubando os doces da mesa. Você quer me ajudar, Saph? — ele voltou a olhar para minha filha. — O misterioso caso dos doces roubados.
— Aceito. A minha linda mamãe disse que não pode pegar os doces antes de cortar o bolo. E não pode ir contra ela, porque ela é brava — respondeu mais baixo, depois voltou a sorrir para mim.
La Rose fez uma cara de espanto com aquela informação; em seguida, concordou com a cabeça.
— Ela é brava mesmo — ele fofocou com Saphira e balançou a mão, demonstrando que estariam encrencados se fossem pegos.
— Ninguém mais vai roubar os doces, mãe. É uma promessa.
— Saphira , você ainda não me viu brava, espertinha. Quero só ver essa fiscalização de doces — respondi, olhando bem séria para ela e depois para ele, que me olhou super inocente. Até piscou os olhos várias vezes. — Isso vale para o senhor também.
— Sim, senhora — fez sinal de condolência. — Vamos, detetive Saphira ? Procurar os ladrões de doces? — ele estendeu a mão para minha filha.
— Vamos! — ela respondeu toda animada, segurando a mão dele. Em seguida, chupou seus dedinhos da outra mão, que estavam sujos de chocolate. La Rose a pegou no colo e colocou-a sentada em seus ombros. — Posso roubar chocolate do tio Juju pelo menos? — perguntou para mim.
— Sem pirocas de chocolate, Saphira! Já falamos disso — apontei para ela, que fez uma careta, vendo La Rose rindo.
— Que tal Kit Kat? Eu acho que vi em algum lugar — ele ofereceu, olhando para cima e encarando Saph sobre seus ombros.
— Chocolates sem formatos eróticos é uma boa ideia mesmo — comentei baixo.
— O que é “elótico”? — ela perguntou.
— É uma coisa estranha. Muito estranha mesmo — respondeu La Rose, fazendo uma cara de assustado para minha menina. — Tipo aqueles monstros que tem no armário, sabe? Ou aqueles que ficam embaixo da cama. Horríveis, cabeludos e enormes.
Acabei tendo que segurar a risada que queria sair.
— Odeio monstro no armário! Não quero isso não, mas o tio Juju me disse que, se um monstro me perseguir, eu podia chutar o saco dele — contou toda orgulhosa e cheia de si, me fazendo revirar os olhos.
— Deus, Julian! — resmunguei, negando com a cabeça.
— Chutar monstros é muito bom. Ele te ensinou como fazer? — La Rose perguntou, curioso, olhando para ela de novo.
— Não ensinou não. Nem todos têm sacos nas mãos. Não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso — respondeu, parecendo ficar bem pensativa.
Olhei para La Rose naquele momento, negando com a cabeça para ele não ensinar nada, e o vi mordendo a ponta de sua língua.
— Bom que não ensinou. E nem o príncipe vai, não é? — ergui as sobrancelhas para ele.
— Não sei nem chutar uma bola, quem dirá sacos. Parece ser algo difícil de se fazer — La Rose disse todo inocente, mas o vi lambendo os lábios e segurando o riso.
Fiz uma expressão de puro deboche para aquilo. Tá bom.
— Chutar sacos é bem importante mesmo. Mas, Saph, sem repetir as coisas que o Julian fala, tá bom? Seja uma boa menina. E cuidado com as coisas que você fala, vai constranger o príncipe — brinquei agora, segurando a risada ao olhar para ele.
— O príncipe não conta nada se você não contar — ele deu uma piscadinha cúmplice para Saphira.
— Combinado — ela sussurrou, sorrindo falsamente inocente.
— Sabe como é essa dona Saphira. Além desse rostinho angelical, esses lindos olhos e os cachos loiros, ela realmente pratica tudo que ensinam para ela, e depois a professora berra com quem? — cruzei meus braços, esperando-a responder aquela. Mas minha filha apenas ficou emburrada e virou o rosto para o lado.
— Ninguém vai berrar com ninguém aqui, general — La Rose brincou comigo, me olhando de um jeito divertido.
— Estou de olho em vocês dois — avisei apenas, levando meu indicador e dedo médio até perto dos meus olhos, depois apontando-os para os dois em sinal de que estava os vigiando mesmo. Saphira acabou fazendo o mesmo comigo, mostrando que estava de olho também.
— Vamos, príncipe. Tem muito, muito e muito doce pra confiscar! — gesticulou com os braços e apontou para todas as mesas de doces, com os olhos brilhando. — E eu quero Kit Kat também — pediu, toda pomposa.
— Confiscar? Claro. Vamos sim, detetive Saphira — La Rose concordou e me olhou com um pequeno sorriso.
— Espere eu voltar para dançar, mamãe. Quero assistir! — soltou, empolgada.
— Quero dançar contigo depois — ele pediu em um tom mais baixo.
— Dança reservada — respondi para ele, sorrindo um pouco mais abertamente.
— O príncipe sempre dança com a princesa mesmo — Saph comentou, sorrindo para nós dois, e eu neguei com a cabeça.
— Não sou princesa, boba! — mostrei a língua para ela.
— Quem disse que não? — La Rose rebateu, erguendo suas sobrancelhas. — Se eu posso ser um príncipe, você pode ser uma princesa, mesmo que eu te ache uma rainha mesmo.
— Outro bobo também! — neguei com a cabeça, rindo um pouco. Então, ele me mostrou a língua rapidamente. — Abusado ainda — comentei com humor, e ouvi Saphira rir de um jeito gostoso.
— Ele é o melhor príncipe! — falou ainda rindo, e eu sabia que era porque ele tinha me mostrado a língua.
— Você que lute agora com a sua nova fã — avisei, apontando para ela, e fui dando uns passos para trás.
— Eu luto — disse, com divertimento em sua voz.
— Vou falar com as outras pessoas — pisquei para eles.
— Vai lá, eu cuido dela — piscou um olho para mim de volta, se virando e saindo com Saphira em seus ombros.
Acabei ficando um pouco mais de tempo que o esperado com os outros convidados, ajudando Julian a falar com todos e também o segurando para não falar mal da roupa das pessoas na cara delas. Mas foi em vão, obviamente. Ele expulsou três da festa porque odiou suas roupas. Disse que ninguém malvestido entrava no casamento dele, porque a deusa Beyoncé jamais permitiria isso.
Acabei me distraindo e bebendo demais. Fui provocar o Noah, que sempre me tirava boas risadas, mas senti falta de La Rose e Saphira, que realmente desapareceram. Nem sinal de vida deles pelos cantos da festa. Então, resolvi ir atrás deles, saindo do salão de festa e caminhando pelo Madam Simmons à procura dos dois. Até que um dos garçons me chamou pelo corredor perto da cozinha.
— Sua filha e um dos padrinhos estão roubando os doces ali dentro — avisou, com uma cara nada boa. — Tentei impedi-los, mas ele disse que ia me bater — levou sua mão até o peito, e eu acabei rindo daquilo.
— Desculpa! — pedi em meio às gargalhadas. — Pode deixar que eu lido com eles. Fique tranquilo — apertei de leve seu ombro, como um sinal para o rapaz se acalmar. — Ele estava brincando com você. Não iria te socar não.
Era mentira. Provavelmente, ele iria sim, mas o cara não precisava saber.
— Obrigado, senhora .
Fiz uma careta com aquele “senhora”, mas não o corrigi. Apenas passei por ele e fui até a cozinha. Entrei lá sorrateiramente e vi apenas a caixa de doces abertas em cima de um dos balcões, ouvindo alguns barulhos em seguida. Caminhei tentando não fazer barulho, até olhar por cima do balcão e não acreditar no que estava vendo, mesmo que já tivesse sido avisada. Além de Saphira estar se entupindo com os doces, rodeada pelos papéis no chão, o próprio La Rose estava da mesma forma; ainda com uma jarra de água no meio deles e vários copinhos plásticos.
— Isso é confiscar os doces? — perguntei, fazendo Saphira dar um pulinho de susto e tampar sua boca.
La Rose jogou sua cabeça para trás, me olhou sobre o balcão e limpou sua boca rapidamente, que estava toda suja de chocolate.
— Oh, não! — ela soltou baixinho, ainda com a boca tampada.
— Nós confiscamos, oras — respondeu ele descaradamente. — E agora estamos fazendo o controle de qualidade. Prova — ergueu o bolinho mordido em minha direção.
— E qual é a nota de vocês para o controle de qualidade? — ergui as sobrancelhas e me debrucei mais sobre o balcão, mordendo o bolinho. — Céus, estou faminta — assumi, sentindo minha barriga roncando mesmo. Dei a volta e me ajoelhei na frente deles, puxando meu vestido um pouco para cima para não sujá-lo.
— Eu dou nota dez pro de damasco, mas o de chocolate branco dou uns oito e meio. Está muito doce — La Rose fez uma careta e olhou para a Saphira. — Você dá quanto?
— Dez pro de chocolate e dez para aquele rosinha ali. Do que você disse que era mesmo? — apontou para o de morango, e eu ri fraquinho. — Esse aí que ele falou de damasco é muito ruim, mãe. Só ele gostou — contou, fazendo uma careta. La Rose rolou os olhos e estalou a língua no céu da boca.
— Você comeu errado, come de novo — ele pegou o de damasco e entregou para Saphira comer.
— Vou ter que comer um por um pra saber meu julgamento — decretei, umedecendo os lábios e a assistindo colocar o doce na boca. Porém, em seguida, ela cuspiu disfarçadamente com a mãozinha e o jogou o doce para o lado.
— Prefiro ainda o de chocolate, príncipe — respondeu, se fingindo toda que tinha acabado de comer mesmo. — Vem, mamãe, come esse — pegou o de morango e ergueu sua mão na minha direção, fazendo com que eu pegasse o doce com meus lábios.
— Muito bom! — falei e mordi de leve a mãozinha dela, fazendo-a gargalhar e ir para trás de novo.
— Você é muito sem graça, gostando só dos tradicionais — disse La Rose, mostrando a língua para Saphira. Então, pegou outro de damasco e o estendeu em minha direção. — Prova você agora. Se me falar que não gostou, vou esfregar ele na sua cara — ameaçou, erguendo as sobrancelhas e me olhando sério.
— Sem ameaças, príncipe — mandei, estreitando meus olhos na sua direção. Então, me aproximei, peguei o doce de seus dedos e, só para irritá-lo, fiz uma careta assim que comecei mastigá-lo. — Esse é o seu preferido? — deixei a careta ficar maior.
… — soltou em um tom de aviso, e simplesmente enfiou o doce em meu decote. Arregalei meus olhos com aquilo, pegando a guloseima lá de dentro e a jogando nele de volta. — Sua desaforada! — ele reclamou, mas comeu assim mesmo.
— Você não joga doces em mim não! Eu sou a noiva, mais respeito! — mostrei a língua e peguei outro de damasco perto dele, comendo em seguida.
— E você acha que eu ligo se você é a noiva? Podia ser o papa, querida! — rolou os olhos e fez um pequeno bico.
— Olha aqui, La Rose, eu sujo seu cabelo de chocolate! — avisei, apontando meu dedo para ele e segurando o riso. — Mas é muito gostoso mesmo. Você comeu errado, filha — fiz um biquinho para ela, que rolou os olhos.
— O doce é horrível! O tio Juju ia ficar do meu lado aqui, tenho certeza — comentou, fazendo um bico.
— É nada — La Rose mostrou a língua para ela. — Pode deixar que eu e a sua mãe comemos todos. Pode ficar com os de chocolate.
— Comemos mesmo. E o Julian não conta, ele come qualquer coisa — respondi, estalando a língua no céu da boca.
Peguei outro de damasco, comendo e jogando a bolinha de papel nela, que pegou e jogou nele, que pegou e jogou em mim.
— Vou pedir pipoca pra assistir vocês se sujando — Saph debochou do jeitinho que Julian a ensinou.
— Vou te sujar também, sua abusada! — La Rose sujou seu dedo de glacê e passou na ponta do nariz de Saphira, que deu um gritinho e riu em seguida. — E você também! — sujou meu rosto com seu dedo melado.
— Olha só que príncipe mais… — estreitei os olhos na direção dele, depois olhei para minha filha. — Ele tá pedindo guerra, Saph. Já sabe, não é? — balancei as sobrancelhas e ela sorriu. Sujou seus dedinhos e foi para cima dele, tentando sujar seu rosto, e eu segurei suas mãos, o prendendo e rindo em seguida.
! — La Rose soltou alto, em tom de aviso. — O cabelo não! No cabelo não! — pediu, soltando uma de suas mãos e me puxando para cima dele, me colocando entre ele e Saphira. — Suja a sua mãe! Suja, vai! — me segurou pela cintura para que eu não me levantasse.
— Saphira, não faça isso! É ele que tem que sujar! — mandei, tentando me soltar de seus braços, gargalhando junto. Ele mordeu meu ombro com isso. — La Rose, me solta! Não pode me sujar, meu vestido é branquinho! — pedi, virando meu rosto para ela, que se aproximava com suas mãos sujas de chocolate.
— Ah, que pena que seu vestido é branco. Vai ficar colorido agora — seu braço me apertou mais enquanto ele ria baixinho. Ri mais daquilo e balancei nossos troncos.
— Você merecia levar o bolo todo em seu cabelo, sabia? — rebati, soltando um riso em seguida.
— Merecia nada. Pare com isso — ele fez um biquinho bem falso.
— Saph, aproveita que as mãos dele estão ocupadas e vai nele, filha! Confia na mamãe! — tentei, rindo mais ainda.
Então, senti ela passar sua mão na minha bochecha, e com a outra passou nele também, sujando nós dois ao mesmo tempo.
— Sua filha é perfeita — ele soltou, rindo um pouco mais, e seu braço se afrouxou ao meu redor.
— Ela é terrível! — falei, dando risada e vendo ela rindo também, lambendo seus dedinhos sujos.
— Não, ela é maravilhosa — corrigiu, com carinho na voz.
— Ela é meu tesourinho — comentei baixinho, sorrindo amorosa ao olhar brevemente para ela, que comia mais doces.
— É sim. Preciosa demais — respondeu, ainda com o mesmo tom de antes. Concordei, deixando o sorriso alargar. La Rose pegou um guardanapo e o molhou no copo de água. — Vem cá, deixa eu te limpar — pediu de forma gentil, me soltando para que me virasse e pudesse ver onde sujou.
— Deixa eu te limpar também, antes que seu cabelo grude no doce — pedi, sorrindo carinhosamente para ele enquanto me virava de lado, pegando um dos guardanapos e o molhando só um pouquinho. — A senhorita é a próxima também — avisei Saphira.
— Isso é importante, não sujar meu cabelo — ele deu um pequeno sorriso e passou o guardanapo com cuidado em meu rosto, olhando o que fazia e me tirando um sorriso maior. — Pronto.
— Nada de sujar o cabelo do príncipe — falei com certo humor, passando o guardanapo em sua bochecha onde estava suja. Depois, passei-o no canto de seus lábios. — Parece uma criança comendo doce mesmo — brinquei, olhando em seus olhos agora. Isso o fez sorrir de leve.
— Obrigado — La Rose chegou mais perto e deu um beijo em minha testa. Era completamente novo alguém me tratando daquela forma, e isso era bom. — Ainda bem que você está aqui para me ajudar — riu fraquinho, piscando um olho para mim.
— Te digo o mesmo. Obrigada por me sujar e limpar — agradeci, rindo baixinho.
— Quem te sujou foi ela — ele apontou com o queixo para Saphira, que parecia se aproveitar da nossa distração para comer ainda mais doces. Ri daquilo, concordando com o que ele tinha dito.
— Espero de verdade que nenhum de vocês dois tenha dor de barriga depois desse mundo de doces que comeram — fiz uma careta.
— Seria ótimo se não desse mesmo uma dor de barriga daquelas na gente... Então, vai dançar agora?
— Contigo? Quero — sorri fechado, apertando o nariz dele antes de me afastar e me levantar.
— Sim, comigo — sorriu ligeiramente enquanto me olhava. Então, se levantou e abaixou na frente de Saphira. — Vou dançar com a sua mãe. Quer ir ver? — perguntou para ela, colocando uma mecha loira atrás de sua orelha.
— Claro que quero! Minha mãe vai dançar com o príncipe! — soltou animada, parando de comer e se levantando também, bem ansiosa. — E mesmo ela falando que não é, ela é sim uma princesa — falou bem baixinho para ele, como se eu não fosse ouvir. E eu fingi mesmo não ter ouvido enquanto pegava os papéis que estavam no chão.
— Ela é sim. Uma linda princesa, mas, para mim, ela é uma rainha mesmo — ele respondeu baixinho para Saph, então pegou-a no colo e a levou até a pia. Sorri fechado daquilo, terminando de limpar ali com o sorriso nos lábios. — Hora de lavar as mãos — ficou segurando minha filha enquanto ela abria a torneira e brincava com a água. — Lava isso direito, não quero ver uma sujeira nesses dedinhos.
— A água tá gelada — reclamou, mas a observei, por cima dos meus ombros, lavando e esfregando melhor seus dedos.
— Mas é com água gelada mesmo que lava a mão. Vamos, estou olhando — La Rose disse mais sério, esperando-a lavar as mãos enquanto ainda a segurava.
— Não existe água quente? — perguntou, dando uma pequena risadinha. Então, levantou suas mãos para ele ver se estavam mesmo limpinhas.
— Água quente é pra tomar banho — respondeu, e, pelo seu tom de voz, estava segurando a risada.
— Que triste, agora minhas mãozinhas vão congelar — comentou, fingindo bater os dentes. La Rose começou a esfregar suas mãos para esquentá-las.
— Para de drama, Saphira. Nem está frio — rolei meus olhos e me aproximei deles, sorrindo agradecida para ele por estar fazendo aquilo com minha filha.
— Já vai passar o frio — La Rose, então, tirou seu blazer e o colocou nos ombros dela. — Está quentinho agora? — perguntou carinhosamente, dando um pequeno sorriso.
— Está sim. Obrigada por me emprestar sua capa de príncipe — falou toda fofa, sorrindo abertamente para ele, o fazendo rir fraco.
— Quanto mimo a senhorita tá recebendo hoje — comentei, sorrindo um pouco mais.
— Você vai continuar vindo ao nosso reino, príncipe? — ela perguntou, e eu ergui de leve as sobrancelhas com aquilo.
— Sempre que sua rainha me convidar — respondeu, então olhou para mim.
— Ela quer sim. Dá pra ver nos olhos dela, não é? — Saph sussurrou para ele, me olhando também.
Mordi de leve meu lábio em um sorriso pequeno e assenti com a cabeça, porque ela estava certa.
— Ah, dá? — La Rose continuou conversando com ela. Depois, colocou-a sentada sobre o balcão e pegou um pano para secar suas mãos com cuidado.
— Dá sim. É bom ouvir minha mamãe rindo — contou bem baixinho para ele.
— É muito bom mesmo. A risada dela é maravilhosa — sussurrou de volta. Vi seu sorriso ficando ainda maior, tirando mais um meu.
— Posso pegar uma das suas roupas no camarim, mãe? — Saph perguntou, voltando a me olhar por alguns instantes.
— Nada de pegar nada do meu camarim que eu bem sei que você quer ir lá pra tomar banho de glitter.
— Obrigada pela capa, príncipe. Mas pode pegar ela agora pra dançar — Saphira falou de forma gentil, tirando o blazer de La Rose em volta de si e o entregando de volta.
— Nada. Qualquer coisa que precisar, é só me chamar — ele pegou seu blazer e se abaixou. — Você me dá um abraço? — pediu, dando um pequeno sorriso.
— Quantos você quiser — ela respondeu contente, sorrindo abertamente. Então o abraçou, jogando seus pequenos braços em volta de seu pescoço. — Você é o melhor príncipe — falou baixinho no abraço.
— Você é a melhor princesa! — respondeu, a abraçando de volta e dando um beijo em sua bochecha. — Vamos?
— Vamos — respondi. — Chega de doces para os dois. Vou até proibir o garçom de servir bolo para vocês — estiquei meus braços para minha filha vir comigo, mas ela segurou o braço de La Rose. Ele riu de novo e a pegou nos braços. — Você que lute agora — ri um pouco daquilo.
— Tudo bem. Eu luto — ele também riu, já se virando com Saph no colo. — E ok, você vai guardar um pedaço bem grande para comermos amanhã — piscou um olho para mim, dando um sorriso maior.
— Combinado — respondi, piscando de volta. Então, segui pela cozinha, o esperando sair com ela primeiro para depois fechar a porta. — Ah, qual dos dois ameaçou socar o garçom? — brinquei, tentando soar séria enquanto voltava a caminhar ao lado dele.
— Ninguém. Que garçom? — Saph respondeu, olhando para La Rose e depois para mim.
— Não sei do que você está falando também — ele se fez de sonso.
— Sei. Sei — estreitei meus olhos para os dois, até que entramos novamente no salão de festas. — Quer ficar no colo do Stephen com a Analy? — perguntei para Saphira, que concordou com a cabeça.
— Vai lá com o tio Stephen — La Rose a colocou no chão.
Ela sorriu e balançou seu corpo, toda pomposa. Então, se virou e correu em direção aos dois, já pulando no colo de Stephen sem ele nem perceber, o fazendo rir.
— Vou fumar antes. Quer ir lá fora comigo? Deixei o cigarro no carro — La Rose disse, vestindo seu blazer.
— Claro — respondi, sorrindo e já o acompanhando. — Você se deu muito bem com a Saph — olhei para ele rapidamente ao fazer aquela observação.
— Um milagre, porque geralmente olho para crianças e corro. Mas ela é extremamente agradável — sorriu um pouco ao me olhar.
— Falou muitas barbaridades pra você? — ri fraco, acenando com a cabeça para os seguranças que estavam na porta.
— Não. Ela me contou sobre seus amigos da escola, depois sobre os nomes das bonecas e a história que deu para cada uma delas. Ficamos debatendo sobre o Ken não gostar da Barbie, e sim do namorado da Susi — contou, rindo um pouco daquilo, e eu gargalhei. — Sabia que o Ken beijou ele e a Barbie viu?
— O Ken tinha muita cara de quem gostava de pau, não é? — comentei entre as risadas, negando de leve com a cabeça. La Rose concordou. — E o que a Barbie fez? Ficou assistindo? Seria o certo — dei outro riso com aquilo.
— Tirou o carro dele. Ken está a pé agora — explicou, rindo mais ainda. — Ken terá que encontrar o namorado de ônibus.
— Vai ser feliz de ônibus. Bom que a Barbie podia pegar a Susi agora — comentei, pensativa sobre o assunto. — Isso só pode ter sido ideia do Julian...
— Vai mesmo. Vai chupar o namoradinho loucamente agora — brincou, negando com a cabeça também.
— No ônibus não daria certo a chupada — falei, torcendo de leve os lábios.
— Não sei. Nunca chupei ninguém no ônibus ainda — deu de ombros e fez uma careta em seguida.
— Já tentei chupar quando tinha dezesseis anos e foi péssimo — comentei, dando mais risadas ainda com a cara terrível que La Rose fez.
— Certeza que a Susi ia pegar a Barbie com mais vontade que o Ken pegava, hein? — observou, de forma pensativa.
— Ah, ela ia cair de boca na Barbie de uma forma que o Ken jamais faria — soltei outra risada daquela bobeira.
— Ah, com toda certeza. Vai lamber a Barbie todinha — concordou comigo, rindo em seguida e me tirando mais risos. — Aposto que devem achar um nojo, porque mulher tem que ficar com homem — rolou seus olhos, dando uns passos à frente e puxando a chave do bolso, já abrindo o carro.
— Exatamente. Às vezes penso em como deve ser solitário para ela na escola, porque sei que ela é julgada como eu sou. Mas Saphira realmente não parece se importar com nada disso. É bem feliz em tudo que fala ou faz — suspirei com aquilo, me encostando no muro do MS e vendo La Rose abrir o porta-malas do carro para mexer em algo lá dentro. — Agora você imagina ela brincando disso com as outras crianças! — coloquei a mão no rosto.
— Infelizmente ela sempre vai ser julgada, porque as pessoas são um bando de filhas da putas que não se importa com o sentimento dos outros. Mas espero que Saphira consiga não dar ouvidos a elas e continue sendo feliz, porque sei que por enquanto ela não entende, mas um dia vai. Desejo que isso não a machuque do mesmo jeito que aconteceu contigo — nesse momento, ele olhou por cima de seu ombro. Suspirei triste com aquilo e concordei com suas palavras, porque eu desejava o mesmo. — De qualquer forma, não vamos falar disso hoje, ok? É para você esquecer disso e só focar no que te faz sorrir. E eu quero tentar fazer isso hoje mais uma vez.
Então, La Rose tirou seu violino e o arco de dentro do porta-malas. Arregalei meus olhos e abri minha boca, completamente surpresa.
— Essa era a surpresa? Meu Deus! Não acredito! — soltei, ainda em choque, por realmente não esperar. Até mesmo levei minhas mãos até meu rosto. — Você vai tocar? Deus! Certo. Posso berrar depois que você tocar? Porque eu quero berrar de felicidade! — comentei, extremamente entusiasmada e completamente ansiosa. Ele riu fraquinho.
— Sim. Não é nada de mais, mas esperava te fazer sorrir, pelo menos — contou mais baixo, me olhando com atenção, e eu deixei o sorriso ainda mais largo. — Foi difícil escolher a música. Tem muito tempo que não toco, então me perdoe se não ficar bom.
Ele respirou fundo, apoiou o violino entre seu ombro e queixo, e, olhando para mim com seus intensos olhos verdes, ergueu o arco e o deixou deslizar suavemente pelas cordas, enquanto seus dedos as apertavam rapidamente de um lado para o outro. Logo reconheci as notas de Lost Stars, do Adam Levine.
La Rose fechou seus olhos suavemente, movimentando seu corpo de um lado para o outro. Sua expressão se torceu de leve, fazendo suas sobrancelhas se unirem. Respirei fundo, sentindo tudo dentro de mim ficando intenso como em seus olhos; aquele mar de imensidão que continha o caos, os monstros. Eu os sentia agitados e, ao mesmo tempo, calmos. A calmaria que combinava perfeitamente com ele. Aquela calmaria única que era trazida por aquele belo homem tocando violino.
Seu cabelo foi jogado para trás pela brisa gélida de Bristol. Quando voltou a me olhar, pude ver como estava leve agora, me deixando ver mais dele naquele estacionamento, onde estavávamos apenas nós dois. Deixei o ar sair com suavidade, enquanto meus olhos mergulhavam nos seus por longos segundos, deslizando por seus braços até o instrumento, fazendo-me suspirar bem baixo. Ele andou lentamente em minha direção, tocando com toda a sua suavidade. Parecia que seus dedos eram penas tocando as cordas, enquanto o arco deslizava por elas da mesma forma em seus movimentos leves. La Rose estava sentindo cada nota tocada, enquanto seu peito subia e descia lentamente sob sua camisa preta. E mais uma vez eu o vi de verdade, como naquele dia em Londres.
Não me importava o que ele pensava de si mesmo, nem o que as pessoas pensavam sobre ele. Só me importava o que eu realmente via, e ele era como um céu infinitamente azul escuro, profundo e misterioso; aquele tipo que as pessoas diziam que eram “noites frias e sem estrelas”. Mas apenas aqueles que olhassem de verdade veriam que ele era o mais belo e estrelado céu. La Rose era o meu céu escuro com estrelas escondidas.
Ele parou bem na minha frente e deixou seus olhos se afundarem mais nos meus, mergulhando neles sem ao menos prender seu ar para fazer isso. Então, foi descendo ainda mais a cada nota. Não eram seus dedos tocando; era seu coração, sua alma, seus sentimentos e tudo o que existia de mais profundo dentro de si.
Puxei de novo o ar, sentindo as notas me tocarem. Me arrepiei e soltei o ar completamente em um outro suspiro conforme meus olhos desenhavam seus traços, voltando a olhar em seus olhos. Suas sobrancelhas se juntaram levemente e seu corpo voltou a se mover de lá para cá. Seu tronco se abaixou, e ele começou a tocar as notas com mais fervor na segunda parte da música. Seus dedos apertavam as cordas mais rapidamente; então, voltou a se erguer, fazendo seu cabelo vir junto para trás. Ele me olhou novamente nos olhos, cada nota transbordando por aqueles tons verdes. Deixei um sorriso sincero e verdadeiro se desenhar com sutileza e carinho em meus lábios, falando para ele o quanto aquele momento estava sendo basicamente a melhor parte da noite. Aquele presente estava sendo gravado dentro do meu peito, bem no meu coração, e esses tipos de presentes eram para sempre.
La Rose abaixou um pouco e começou a andar ao meu redor em uma pequena dança lenta. Pude sentir seu olhar ainda preso em mim, como se fosse um ímã, e sorri ainda mais. Meu rosto se virava, o acompanhando em cada movimento, e eu sentia meus fios claros irem junto conforme me virava. Seus passos eram lentos, a música era doce e o ar parecia ter se tornado leve. Até que ele voltou a parar na minha frente, deixando de tocar as últimas notas.
But are we all lost stars trying to light up the dark? — cantou baixo, estendendo a mão em minha direção.
O sorriso aumentou ainda mais, e eu simplesmente bati palmas com bastante fervor mesmo, deixando-as ficarem altas enquanto sentia meus olhos ficarem levemente lustrosos. Segurei sua mão no instante seguinte e fechei meus olhos por alguns segundos, apenas para controlar tudo aquilo dentro de mim. La Rose me puxou para perto e me girou, fazendo com que fosse de costas contra seu peito. Então, me abraçou, e senti sua respiração quente e lenta em meu ouvido. Ri baixinho daquilo e encostei minha cabeça em seu ombro.
— Olhe para o céu — pediu baixinho, com sua voz rouca e doce. Abri meus olhos e encarei o céu como ele tinha pedido. — Olhe como as estrelas estão sorrindo para você, dizendo o quanto é especial. Declarando a mulher incrível que é, forte e maravilhosa. Elas sempre vão estar te olhando e contemplando por existirem no mesmo universo que você. É uma honra te ter tão perto delas, porque todos os dias você voa tão alto que pode tocá-las — disse bem baixo em meu ouvido, acariciando minha barriga.
Como reagir àquelas palavras? Não tinha como. Era isso. Então, apenas mergulhei em cada uma delas.
— Obrigado por existir, Dawkins, e por fazer desse mundo um lugar lindo apenas por sua presença.
Me virei de frente para ele e o abracei com força.
— Então foi o universo que me presenteou com o melhor presente que eu poderia ter ganho, que é a sua amizade, a sua companhia, os seus momentos únicos que está sorrindo e mostrando essas covinhas adoráveis que você tem nas bochechas. Eu também sou grata por existir no mesmo mundo que você, e por ter aparecido para me lembrar de como é se sentir leve, bem e feliz. Você me mostra que não tem problema ter escuridão dentro de si mesmo, ter seus demônios e seus monstros para enfrentar todo santo dia. Você me lembra de como é bom sorrir em meio ao terror, e faz tudo isso desaparecer.
— Então vamos dançar com nossos demônios essa noite também — disse baixinho, passando seu nariz pelo meu cabelo e beijando o topo da minha cabeça.
— Obrigada por ser o meu presente e obrigada por ter me deixado te ver mais uma vez hoje. O que eu te disse aquele dia em Londres é a mesma coisa que eu falaria agora. Mas sabemos que não há necessidade de se repetir, porque você pode ler nos meus olhos tudo que eu não consigo falar — soltei palavra por palavra com bastante sinceridade e exatidão em cada uma. Eu puxava o ar enquanto o abraçava bem forte, sentindo seus braços me apertando contra seu corpo. — O universo todo sorri quando você está feliz, La Rose.
— Então hoje o universo está festejando.
— Com o maior prazer — respondi, me afastando e o olhando com um sorriso largo e extremamente feliz em meus lábios. — Vamos festejar com ele — sussurrei, piscando para ele e segurando sua mão.
— É o que mais quero — abriu um sorriso que veio manso em seus lábios.
— Ia te chamar pra dançar para as estrelas aqui mesmo na rua, mas lembrei que temos uma fã lá dentro esperando nossa dança — contei, me referindo à Saphira e rindo por aquilo.
— Temos mesmo. Sua fã número um ficaria muito triste de não nos ver dançar — disse e se afastou, voltando até o carro e guardando o violino no porta-malas. Ele o fechou em seguida e veio em minha direção.
— Sua fã também, príncipe — respondi, sorrindo abertamente e, então, segurando sua mão sem nem hesitar.
— Não é, não — soltou de um jeito divertido. — Apenas dei doces para ela, só isso — levantou os ombros, como se aquilo não fosse nada de mais.
— Ela te convidou para aparecer mais vezes, e ela não é de fazer isso — contei como se fosse um segredo.
— Não? — perguntou, parecendo surpreso agora.
— Não. Ela nunca me disse, mas imagino que seja medo de se machucar em convidar e insistir para alguém ir ou ficar e a pessoa nunca mais voltar — respondi mais baixo, torcendo os lábios. Os olhos verdes de La Rose me olharam atentos.
— Pelo jeito não é só ela que tem esse medo — comentou mais baixo, apenas para que eu escutasse.
Respirei fundo com aquilo, retraindo os lábios e não respondendo. La Rose também não falou mais nada, apenas levou minha mão até seus lábios e deu um pequeno beijo em seu dorso. Seus olhos diziam claramente que ele estava ali comigo e que estava tudo bem. Eu confiava nele e em tudo que seus olhos me diziam. Já não era mais novidade ou surpresa que, com um simples olhar, eu me acalmava.
— Vamos, minha rainha? — estendeu a mão e deu um de seus lindos sorrisos.
— Vou me acostumar mal desse jeito — girei meu corpo, passei por baixo de seu braço e ri um pouco, voltando a caminhar com ele para dentro do MS.
— Pode se acostumar do jeito que quiser — La Rose riu um pouco e me puxou para perto dele, enquanto entrávamos novamente na festa daquele jeito.
— Fica me mimando que eu vou acabar te engordando. Você vai ver só — brinquei, fazendo uma careta engraçada. Ele apenas riu fraco, negando com a cabeça. — Vou guardar umas mini pizzas pra você, porque elas estão irrecusáveis. Sério — apontei para a mesa onde elas estavam enquanto caminhávamos entre as mesas.
— Sempre sobra comida no casamento. Amanhã vou na sua casa comer, e provavelmente o resto da semana — falou, divertido, me girando com a música que tocava.
— Vai ser ótimo ter alguém para ajudar a comer, porque a Saphira comendo doces não vai dormir por uma semana, e daí quem enlouquece sou eu — dei outra risada com aquilo. Ele assentiu, dando um sorriso maior.
Então, me puxou para a pista de dança e apontou para Saph, que dançava com Stephen toda feliz. Ri daquilo de um jeito alegre e leve, voltando meu olhar para seus olhos verdes logo em seguida, enquanto colocava minha mão em seu ombro. Me aproximei um pouco mais e deixei a melodia nos guiar. Sua mão veio até minha cintura e deslizou para minhas costas, parando no meio delas e me puxando ligeiramente para mais perto. Ele moveu seu corpo de um lado para o outro, enquanto seus olhos voltaram a mergulhar nos meus como lá fora. Sorri bem levemente enquanto deixava os meus presos nos dele, daquela forma como eles sempre costumavam conversar sem que percebêssemos.
Olhar para La Rose foi como se estivéssemos sozinhos naquele salão. Naquele instante, havia apenas nós dois e a melodia que tocava e invadia o ambiente todo. Aquilo me deixou mais leve e até mesmo flutuando, fazendo com que eu me afastasse um pouco apenas para girar novamente e voltar para perto dele.
Deixei meus dedos deslizarem de forma lenta nos seus, tocando-os com uma certa intensidade, como se as notas musicais estivessem dançando sobre eles e nos tocando junto. Meus olhos desceram e foram até nossas mãos, assistindo aquilo. Até que os fechei e encostei meu rosto em seu peito, sem parar de me movimentar conforme a melodia. Consegui ouvir como seu coração batia forte, até um pouco rápido naquele momento. Seu braço me envolveu com gentileza, me dando um pequeno abraço no meio daquela dança, e o senti dar um beijo no topo da minha cabeça.
Era como se estivesse me protegendo de tudo. Eu sentia que La Rose não deixaria mais nada de mal acontecer, era isso que me passava naquele abraço.


Chapter 5

La Rose R.

Entrei no elevador com e Saphira. A garotinha estava empoleirada em meus ombros enquanto mexia em meu cabelo, falando o quanto ele era bonito e perguntando a opinião de sua mãe sobre isso, querendo que ela concordasse. Eu apenas olhava para ao meu lado pelo canto dos olhos, segurando um pequeno riso que queria sair de mim. Não sei por que estava achando graça daquilo, mas estava.
As portas dos elevadores já estavam se fechando quando uma mão a segurou, impedindo que nos deixasse subir. Elas abriram e o vizinho da entrou. Eu o conhecia; ela já tinha me falado sobre ele e me mostrado quem era. O babaca batia na mulher e ainda dava em cima de . Ele deu boa noite a ela, mas me ignorou como se apenas estivesse no elevador. Fiquei calado e cheguei mais para trás, segurando as perninhas de Saphira e apenas olhando para aquele imbecil. Os olhos dele desceram lentamente pelo corpo de como se nem se importasse. Sua língua umedeceu seus lábios e seu olhar subiu para os seios dela, encarando-os descaradamente pelo decote da sua blusa. Tombei minha cabeça ligeiramente de lado ao observar aquilo. A filha dela estava ali, porra! Saph parecia distraída demais com meus cachos para notar qualquer coisa, mas mesmo assim.
Ele ainda teve a ousadia de chegar perto de . Meu olhar desceu para os dedos dele se movendo e tentando tocar na coxa dela. Mas, antes que a tocasse, soltei uma das perninhas de Saphira e segurei a mão de , a puxando para trás de repente, e assim ela veio contra meu peito. O olhar dele finalmente se voltou para mim, e, naquele momento, pareceu notar que eu estava ali também. Encarei-o fervorosamente, querendo enfiar aqueles dedos em sua boca até que se engasgasse com eles.
As portas se abriram e ele continuou ali, parado, no meio da porra do caminho. Passei a mão pela cintura de , ainda olhando para aquele sem noção do caralho e o esperando sair para que pudéssemos fazer isso também. Eu não podia falar nada porque Saphira estava ali. Então ele olhou para mais uma vez, encarou os peitos dela novamente e depois se virou, saindo do elevador. Respirei fundo. Aquela porra não ficaria assim.
Soltei para que pudesse sair e fui logo atrás dela, voltando a segurar a perninha de Saph que estava sobre meu ombro. Passamos pelo corredor e olhei bem para a porta do apartamento dele, quando pensamentos sórdidos vieram à minha mente. Ele nunca mais olharia daquele jeito para ela, talvez nunca mais olhasse para ninguém.
Entramos no apartamento de e coloquei Saphira no chão, para que ela pudesse correr para seu quarto. Continuei calado e caminhei até a sacada da sala, pegando meu maço no bolso e apanhando um cigarro, acendendo-o e tragando com força. Lambi meus lábios e, enquanto olhava para os carros passando pela rua, soltei a fumaça lentamente.
Eu odiava esse tipo de pessoa. Odiava esses homens que se achavam no direito de olhar para a mulher só porque ela estava vestindo uma roupa mais curta ou decotada. Eles não tinham a porra de direito nenhum! Além do mais, o filho da puta era casado, o que piorava um pouco mais sua situação.
— Se estiver planejando a morte daquele babaca, me deixe participar, por favor — ouvi a voz de atrás de mim.
Então, olhei por cima do meu ombro e um pequeno riso saiu logo em seguida de seus lábios.
— A morte seria algo bom para ele — respondi baixinho, voltando a olhar para a rua. — Mas vou precisar da sua ajuda — declarei e traguei novamente o cigarro.
— Pra fazer maldade? — ela encostou ao meu lado e, só pelo tom de sua voz, não precisava olhar para saber que estava sorrindo maldosamente.
— Maldade? Eu não faço maldade com ninguém — disse bem cínico, soltando a fumaça para cima para que não fosse para cima dela.
— E eu sou virgem — falou, estalando a língua no céu da boca em puro deboche. Ri nasalado. — Não precisa pedir de novo.
— Não iria pedir — olhei para com um pequeno sorriso em meus lábios. — Quer que eu te conte agora ou depois o que estou pensando?
— Sou curiosa demais para deixar pra depois. Conte agora, por favor.
— Preciso só que faça um striptease para ele — contei, a olhando bem seriamente. — Não precisa fazer se não quiser.
esboçou uma careta de primeira, mas depois ponderou com a cabeça, dando de ombros. Estendi meu cigarro para ela, sabendo que tinha aceitado o que lhe pedi.
— Onde? — perguntou, pegando o cigarro e tragando.
— No apartamento dele mesmo — dei de ombros e me virei de costas para o parapeito, me encostando nele. — A esposa dele pode cuidar de Saph hoje à noite aqui? — perguntei, erguendo de leve uma sobrancelha.
— A esposa dele? — ela arregalou seus olhos .
— Sim. Não acho que ela gostaria de ver você fazendo um striptease para o marido dela no apartamento deles — falei, dando um sorrisinho. Então, cheguei mais perto de , peguei o cigarro de seus dedos e o trouxe até meus lábios, sem tirar meus tons verdes dos seus . — Precisamos distraí-la de alguma forma, e Saphira é ótima nisso.
Ela deu um pequeno riso e concordou com a cabeça, pegando o cigarro de novo e dando mais uma tragada longa. Depois, jogou sua cabeça para trás e soltou a fumaça para cima. Meu olhar desceu por seu queixo e ficou em seu pescoço. Ele era bonito, sua era pele lisinha e com as curvas perfeitas.
— Combinado, então — sussurrou com seu tom mais rouco, e seus olhos voltaram aos meus. Assenti para ela, deixando meus tons afundarem nos seus.
— Você vai lá falar com a esposa dele?
— Vou sim. A pobre coitada — negou com a cabeça. — Vou até caprichar no striptease — riu agora, lambendo seus lábios vagarosamente.
— Capricha mesmo. Ele vai adorar — debochei, dando um riso nasalado.
— É claro que ele vai. Impossível não adorar — falou e, confiante disso, sorriu de lado. Ponderei quanto àquilo, e me olhou feio.
— Não me olhe assim, não posso falar muita coisa. Nunca te vi fazendo um strip — dei de ombros e me aproximei mais uma vez; peguei o cigarro, mas não me afastei. Levei meus lábios até seu ouvido. — Porém, como é você, vou concordar em dizer que deve ser perfeito.
Porque tudo o que fazia era, e dançar jamais seria diferente.
— Confia tanto assim em dizer que é perfeito sem ter visto? — ela virou seu rosto e abriu um sorriso. Desci meus olhos pelos seus traços, mas voltei a encarar suas orbes .
— Não consigo ver algo que você faça que não seja perfeito — contei com sinceridade, sem tirar meus olhos dos seus. Ela sorriu ainda mais.
— Devo dizer que, se eu fosse dançar para você, seria diferente de todos os outros — seu sorriso aumentou um pouco mais. Uni de leve as sobrancelhas, ainda perto dela.
— Por que seria diferente? Só porque sou gay? — questionei, ainda a olhando da mesma maneira que antes.
— Não. Eu danço para o Julian, e, bem… — ela riu fraco. Permaneci olhando para ela naquela pouca distância que tinha entre nós. — Não seria por dinheiro. Não seria para ganhar apenas uma foda. Não seria um treino para mostrar os passos novos. Seria apenas eu mostrando minha alma a você — falou baixo, sem tirar seus olhos dos meus.
Aquilo me pegou de forma inesperada, e eu parei de respirar por um segundo. Apenas fiquei olhando para seus olhos. Prendi meus lábios em uma linha reta e cheguei mais perto de ), então lhe dei um beijo em sua testa, deixando meus lábios se demorarem contra sua pele quente e macia.
— Eu adoraria ver a sua alma de outra forma — sussurrei, pois sempre que olhava em seus olhos, já conseguia vê-la. — Tenho certeza que me deixaria ainda mais fascinado.
— Espero mesmo que sim — falou no mesmo tom, e a vi respirar fundo. — Só você me olha dessa forma.
— As pessoas não gostam de almas, gostam de corpos. Mas se esquecem que eles envelhecem, e tudo o que resta é a essência — comentei, passando o nariz de leve em sua testa. Então, me afastei. — Isso que deveria importar — traguei meu cigarro lentamente e olhei para o céu.
— Por isso o jovem Dorian Gray vendeu sua alma ao Diabo para poder ser belo para sempre, mesmo que sua alma fosse podre — sorriu de um jeito amargo. — Ele é a representação da humanidade em cada detalhe.
— Por isso ambos são horríveis — respondi e soltei a fumaça pelos meus lábios. — E você é linda.
— Posso te dizer a mesma coisa, príncipe — falou, dando um sorriso mais verdadeiro agora. Olhei-a e neguei de leve com a cabeça.
— Pegando a mania da Saph? — perguntei com um pequeno riso.
— Ou será que ela pegou minha? — ela ergueu seus braços em questionamento.
— Você andou me chamando de príncipe pra ela? — uni as sobrancelhas com aquilo.
não respondeu, apenas fez uma expressão de mistério, murmurando um “será?” conseguinte. Rolei meus olhos, dei um riso nasalado e neguei com a cabeça, voltando a olhar para cima. era terrível mesmo, mas fez um pequeno sorriso vir em meus lábios por causa daquilo. Eu estava longe de ser um príncipe – certamente era o carrasco que arrancaria a cabeça dele –, mas ela sabia muito bem disso e ainda assim me achava lindo. Sabia que achávamos nossos demônios lindos, porque eles tinham nos tornado quem éramos hoje. Estávamos cheios de cicatrizes, remendados, com pedaços faltando, e até mesmo ainda sangramos em alguns momentos; porém, ainda assim, achava aquela mulher linda, a mais linda que eu já tinha visto. E ela achava a mesma coisa de mim. Gostávamos um do outro exatamente daquele jeito, e eu nunca mudaria nada em . Ela era perfeita exatamente daquele jeito.
A melhor parte de tê-la ao meu lado era que podíamos estar em um total silêncio e, mesmo assim, não ficava desconfortável. Eu gostava da sua presença. Ela para mim já bastava. Gostava do som da sua respiração, da forma que era mansa e compassada e dificilmente perdia o ritmo; era como uma doce melodia para mim, e eu a ouviria para sempre se pudesse. Sem mencionar seu olhar, que era mais profundo do que qualquer oceano. E eu adorava nadar nele, me acalmava de uma forma que nunca poderia explicar e, sinceramente, nem queria. A única necessidade que sentia era de ficar olhando para aqueles tons . E também tinha o seu cheiro. Eu não sabia ao certo descrevê-lo; era um cheiro único que só ela tinha, mas era inebriante. Me fazia querer fechar os olhos e ficar ali, sentindo-o ao meu redor, se tornando parte da nossa atmosfera e trazendo uma sensação de leveza. Estar com ela era ao mesmo tempo mergulhar em águas profundas e flutuar nelas. Intenso e relaxante, as duas coisas se tornando uma só. Se tornando o efeito .
Acabei de fumar meu cigarro e fiquei ali mais um tempo. foi se arrumar e pedir a esposa do babacão para vir ficar com Saphira para que pudéssemos sair. Sabia que era filha da putagem minha pedir para a mulher ficar aqui enquanto nos vingávamos do marido dela, mas era uma ótima justificativa. De qualquer forma, eu não sentia o menor remorso por isso, muito pelo contrário. Teria o maior prazer em fazer aquilo.
Fui dar um beijo de boa noite em Saphira antes de sair. Entrei em seu quarto e ela estava sentada no chão, brincando com seus brinquedos. Sentei-me na frente dela com as pernas cruzadas e fiquei a olhando por um tempo. Ela era muito parecida com , e a coisa que eu mais amava naquela pequena garotinha era como o seu sorriso era tão doce quanto o de sua mãe, e ambos me faziam querer sorrir.
— Qual é o nome dela? — perguntei sobre a boneca que estava em sua mão.
— Beyoncé — ela respondeu, dando um sorriso largo. — Tio Juju disse que a Beyoncé é rainha. Quero que ela seja uma rainha também. Rainha dos gays — riu, toda feliz. Aquilo me fez sorrir.
— Qual o nome do reino dela? — a olhei com admiração.
— Reino da purpurina — contou. — Mas não conta a mamãe que eu roubei o glitter dela, por favor.
Assenti com a cabeça e fiz um sinal de zíper em meus lábios.
— E o reino dela é muito brilhante? — quis saber, usando um tom mais baixinho, como se estivéssemos compartilhando um segredo.
— Muito! É o mais brilhante de todos os reinos! Onde todos podem usar muito glitter na rua e ninguém falar nada — seu sorriso aumentou ainda mais, puxando o meu.
— Até eu posso usar glitter nesse reino? — abri mais meus olhos em empolgação.
— Claro que pode! — ela balançou a cabeça afirmativamente. — Todo mundo pode usar o que quiser, sem ter gente para gritar depois — fez um bico.
— Olha só! Adorei. Você pode depois passar um pouco de glitter em mim? — pedi, já imaginando a cara que faria se me visse assim, e isso me tirou um pequeno riso.
— Posso mesmo? Até no seu cabelo? — arregalou seus olhos , ficando bem empolgada.
— Pode! Mas quero verde. Você vai passar nele todo? — eu estaria fodido depois para tirar aquilo do cabelo, mas valia a pena vê-la sorrindo e se divertindo enquanto fazia aquilo.
— Sim! Nos seus lindos cachos de príncipe! — balançou seu corpo de um lado para o outro, bastante feliz. Concordei com a cabeça. — Nesse reino todos podem comer piloca de chocolate no café da manhã também.
Acabei rindo com aquilo.
— Qual é o seu favorito? Chocolate preto ou branco? — tentei não rir dessa vez.
— Gosto dos dois, até mesmo misturado.
— Vou trazer depois muito chocolate para você.
— Eba! Você é o melhor príncipe — bateu palminhas, então sorri.
— Vai se comportar enquanto eu e a rainha dos unicórnios saímos?
— Juro juradinho que sim! — ela beijou seus dedinhos em promessa.
— Se a Elle me falar que você foi boazinha com ela, vou trazer dois chocolates! — prometi, sorrindo mais para Saph.
— Quem é Elle? — ela franziu o cenho.
— A moça que vai ficar brincando contigo enquanto nós saímos — contei e a olhei com atenção para ver como reagiria.
— Tá bem. Prometo me comportar — falou de um jeito fofo.
— Perfeito. Vou indo agora — dei um beijo no topo da sua cabeça e passei a mão em seus fios claros. — Boa noite.
— Boa noite, príncipe — desejou, me dando um beijo na bochecha.
Sorri para ela e me levantei, deixando que Saphira ficasse brincando com suas bonecas. Caminhei até a sala e vi a pronta. Parei e olhei como estava, então cruzei meus braços e fiz um pequeno bico de lado.
— Não vamos mais — declarei com a voz baixa, bem sério.
— Por que não? — ela me olhou, confusa.
— Você está linda demais para aquele babaca — respondi, fechando ainda mais a cara.
— Ah, mas faz parte do plano — fez um pequeno bico. — Pensa que eu me arrumei para ver ele se foder — sorriu de lado.
— Hm, melhorou. Então você está perfeita — declarei, sorrindo fraco para ela. Então, me aproximei. — Independente do que acontecer, não pare de dançar — pedi baixinho, tocando de leve seu queixo com a ponta dos meus dedos. — Tudo bem?
— Agora fiquei preocupada — falou, torcendo os lábios.
— Não se preocupe — disse baixinho e sorri de leve para ela. — E também não olhe, por favor.
Eu não queria que visse se algo desse errado.
— Tudo bem — respondeu, um pouco incerta. — Promete que não vai se machucar por causa daquele merda? — ela me olhou bem séria. Uni as sobrancelhas e sorri um pouco mais.
— Mas eu não vou me machucar — garanti, olhando bem dentro dos seus olhos.
— Então perfeito — falou, dando um sorriso.
— Vamos, senhora ? — perguntei, me afastando e estendendo a mão em sua direção de forma cordial.
— Pra já — ela piscou um de seus olhos e segurou minha mão.
Apertei a sua de leve, então saímos de seu apartamento e fomos até o de seu vizinho. Toquei a campainha e não demorou muito para Elle abrir a porta. A mulher sorriu para nós e saiu. passou algumas informações para ela sobre Saph, então Elle foi em direção ao apartamento. Caminhamos fingindo que estávamos indo para o elevador, e ficamos ali esperando até a mulher entrar. Assim que o fez, voltamos e entramos no apartamento de seu vizinho. Tranquei a porta e passei a trava extra. Fiz sinal para a seguir para o quarto do casal.
— Traz ele para a sala de jantar — pedi baixinho, mas segurei sua mão, então a puxei para perto e dei um beijo em sua testa. — Qualquer coisa, se der algo errado nisso, me chama — sussurrei para ela.
— Tudo bem. E não vai dar errado — falou com segurança e respirou fundo.
Ela se virou e mexeu no cabelo, mas, antes de prosseguir para o quarto, voltou até mim e me abraçou apertado. A envolvi com meus braços e prendi seu corpo contra o meu por alguns instantes, então desci meu rosto até a curva do seu pescoço e respirei fundo, sentindo o efeito me tomando.
— Obrigada — sussurrou enquanto me apertava. — O mundo só é melhor por ter você nele — então me soltou e alisou levemente meu rosto antes de se afastar para o seu destino.
Fiquei olhando para ela indo atrás daquele babaca até sumir da minha vista. Fechei meus olhos, ainda sentindo a sensação que ela causava em mim, que aos poucos foi sumindo. Abri meus olhos e segui até a cozinha. Caminhei até o balcão e abri as gavetas, achando a que eu queria, a de talheres. Peguei uma faca de lâmina lisa e ponta fina. Era pequena, do tamanho da minha mão. Ia servir para o que eu queria.
Fechei a gaveta e andei silenciosamente pela casa até a sala de jantar, espreitando atrás de uma cristaleira de madeira. Então, esperei. Não demorou muito para que trouxesse mesmo o babaca para o local. Love Sex Magic tocava no ambiente. O homem se sentou em uma das cadeiras, bastante feliz por achar que tinha conseguido o que queria. subiu em cima da mesa de jantar mesmo, caminhando por ela enquanto rebolava de acordo com o toque da música. Saí de trás da cristaleira vagarosamente. O sujeito estava entretido demais para perceber a minha presença, então parei atrás dele e girei a pena faca em meus dedos, segurando-a com força. Em um movimento rápido, cravei-a na superfície da mesa bem na sua frente. Ele se assustou e tentou se levantar, mas o segurei para continuar onde estava.
— Você já viu como um jacaré faz quando ataca sua presa? — perguntei com a voz arrastada em seu ouvido, me curvando atrás dele.
— O que você está fazendo na minha casa? — ele perguntou, completamente assustado. Então, tentou se levantar de novo, mas segurei seus ombros com força. — Vou chamar a polícia!
— Ok, eu vou te contar o que acontece — sussurrei, enquanto continuava dançando. — Seus dentes afiados prendem a presa e a torcem, quebrando seus ossos enquanto faz isso — informei. — Depois, ele puxa para a água e afoga o que quer que seja — contei, dando um sorriso. — Está vendo aquela faca? Ela vai entrar em seus olhos e torcer se você olhar para agora ou qualquer outra vez. Um e depois o outro, bem lentamente, e vou deixar você se afogar no sangue que vai escorrer deles e vai entrar em sua boca — falei bem manso, apertando seus ombros com as minhas mãos. — Se você ficar excitado vendo a dançar, essa faca vai cortar o seu pau fora — avisei, e meu sorriso ficou maior. — Se você encostar de novo na sua mulher para machucá-la, essa faca vai cortar seus dedos, um por um, e depois suas mãos — deixei minha respiração sair pesada contra sua orelha. — Entendeu?
Pude vê-lo engolir em seco, até mesmo começando a suar pela lateral de seu rosto. Seu corpo também tremia. Isso me fez sorrir e lamber meus lábios lentamente.
— Só me deixe em paz, por favor — ele pediu medrosamente.
— Não quero — respondi simplesmente.
— Nunca mais farei nada disso.
— Aprecia o show — mandei de forma perversa e o soltei, peguei a faca e dei a volta na mesa, me sentando na frente dele com dançando entre nós. — Não esqueça do que eu falei — avisei.
Apoiei a ponta da faca na mesa, fazendo-a girar em meus dedos enquanto o observava, vendo se ele olharia para enquanto ela dançava. O homem abaixou a cabeça e olhou para baixo, fechando seus olhos imediatamente.
— Olha para mim, seu animal — ordenei, com raiva. — Olha nos meus olhos! — minha voz era grossa e rasteira.
O babaca negou com a cabeça, forçando suas pálpebras e abaixando ainda seu rosto, se escondendo.
— Vai ser pior se não me olhar — ressaltei, enquanto o olhava severamente. — Você teve a porra da coragem de encarar os peitos de e tentar tocá-la no elevador enquanto eu e a filha dela estávamos lá, mas não tem o caralho da coragem de olhar nos meus olhos agora?! — rosnei, querendo avançar nele. Minhas mãos espalmaram sobre a madeira da mesa. — Olha para mim, agora!
Tremendo e com muita relutância, o homem abriu seus olhos e aos poucos subiu o olhar até mim, me olhando com certo pavor. Olhei em seus olhos com raiva, muita raiva mesmo. Queria que ele visse isso e sentisse realmente medo, porque eu não queria sair daquele apartamento em paz. Uma das peças de caiu na mesa, e esperei para ver se ele desviaria o olhar para a roupa ou para ela. Ele vacilou um pouco, mas logo retornou seu olhar no meu, engolindo em seco e encolhendo seus ombros. Deixei o ar sair de forma lenta de meus pulmões, olhando para ele e deixando que continuasse sua apresentação. Podia notá-lo suar ainda mais e se forçar a me encarar, ao passo que a música ia se encaminhando do meio para o final. Mais peças de roupas eram jogadas na mesa, até quando uma delas voou no rosto do homem, sendo ela a calcinha. Ouvi a risada de logo em seguida, pela feição que o homem fez, como se fosse morrer por isso naquele exato momento.
Peguei a faca e me levantei bruscamente da cadeira, fazendo seus pés arrastarem pelo chão. Caminhei lentamente em volta da mesa, olhando para o sujeito e vendo se seus olhos ainda estavam em mim. Teve um momento que o vi fechá-los ou piscar mais demoradamente, mas logo voltou a olhar para mim quando não estava mais em seu campo de visão. Parei atrás dele, e minha mão repousou em seu ombro. Deslizei-a por seu peito, barriga, até chegar em seu pau, o pegando com brutalidade para ver se ele tinha ficado nem que fosse um pouco excitado. Mas senti que estava molhado.
, fecha os olhos — falei com ela antes, a olhando para ver se faria isso. Ela, então, o fez rapidamente.
— Me deixe em paz — ele pediu mais uma vez. — Não vou olhar mais para ela. Não vou.
— Uma pena, eu não acredito em você — sussurrei e o soltei. Coloquei minha mão em sua boca para que não fizesse barulho, e com a outra, que segurava a faca, enfiei em seu olho direito e a torci lentamente. — Você não vai mais olhar para ela. Nunca mais — rosnei em seu ouvido.
O homem grunhiu de dor e se contorceu na mesa, batendo seus pés no chão, tentando fazer a cadeira virar. Suas mãos bateram na madeira da mesa, mas o segurei com força. Senti seu sangue escorrer e entrar em seu nariz, porque puxei sua cabeça ligeiramente para trás. Ele começou a se engasgar, e isso me fez torcer um pouco mais a faca.
— Você vai inventar uma historinha bem bonita que nem faz quando bate na sua esposa. E se alguém vier atrás de nós, ou fizer qualquer coisa de ruim que possa nos afetar, eu vou arrancar suas pernas com a porra dessa faca, seu desgraçado — avisei e puxei a faca, empurrando seu corpo para frente, então finquei-a na mesa mais uma vez. Em seguida, limpei minhas mãos nas costas da sua camisa e tirei meu casaco. — Pode abrir os olhos. E veste isso, por favor — estendi a peça para e virei meu rosto para o lado, para lhe dar privacidade.
Senti ela pegar a roupa da minha mão, depois a ouvi descer da mesa.
— Pronto — falou baixo.
— Vem cá, não pisa nisso — chamei, e a peguei em meus braços para não sujar seus pés no sangue.
— Mas é um príncipe mesmo — disse, me dando um sorriso doce enquanto passava seu braço ao redor do meu pescoço. Segurei com firmeza suas pernas contra meu corpo, assim como seu tronco. — Um príncipe que fura o olho dos outros — riu fraquinho.
— Oras, eu disse pra você fechar os olhos — falei em um pequeno tom de bronca, a olhando com as sobrancelhas unidas enquanto saía da sala de jantar de forma despreocupada.
— Mas eu fechei — respondeu inocentemente. — O sangue tá vindo da cabeça dele e pela sua ameaça… — estalou a língua no céu da boca.
— Eu poderia ter cortado a língua dele. O que seria uma ótima ideia, e os dedos também… — ponderei quanto àquilo, colocando-a sentada no sofá. — Vou pegar suas roupas — beijei sua cabeça.
— Você é um homem de palavra. Ameaçou os olhos, e não a língua — retrucou e riu um pouco mais. Aquilo me fez rir nasalado e negar com a cabeça.
— Eu gosto de surpresas — pisquei um olho para ela.
Então, abaixei meu tronco para que meu rosto ficasse da altura do seu e o segurei com a ponta dos meus dedos, e isso sujou um pouco sua pele por eles não estarem totalmente limpos.
— Obrigada de verdade — agora ela falou mais séria.
— Não precisa me agradecer. Eu furaria um milhão de olhos se todos eles o olhassem com desrespeito — contei, olhando dentro de suas orbes.
— Vou agradecer todos os dias da minha vida — respondeu com sinceridade. Um sorriso pequeno veio em meus lábios. — E eu adoraria ser sua parceira de crime. Formamos uma boa dupla. Já é o segundo que a gente faz chorar, não é? — deu outra risada.
— Você já é minha parceira de crime, somos perfeitos juntos — pisquei novamente para ela, sorrindo de lado.
— Não discordo — falou, erguendo sua mão para que eu batesse.
Bati em sua mão e ergui meu tronco, depois voltei à sala de jantar. Aquele imbecil ainda estava lá, chorando e gemendo. O ignorei e peguei as roupas de , mesmo que tivessem algumas peças sujas; não iria deixá-las ali. Coloquei as que estavam meladas de sangue em uma sacola que busquei na cozinha, e as que estavam limpas, entreguei para ela quando voltei para a sala. Deixei-a ali e fui até o banheiro. Lavei minhas mãos e peguei a toalha de rosto, então comecei a limpar todos os lugares que toquei, e também. Perguntei para ela também para saber por onde passar. Peguei a faca e a levei comigo. Ainda lhe fiz o favor de ligar do seu telefone para a emergência. Não queria que morresse, queria que vivesse para poder se lembrar do que aconteceu naquela noite.
— Para onde você quer ir? — perguntei para quando terminei de arrumar as coisas.
— Seria estranho dizer que quero comer doce? — falou, esboçando uma careta.
— Qual você quer? — quis saber, e me aproximei dela com um pequeno sorriso, parando na sua frente.
— Tem uma doceria italiana no final da rua — comentou, enquanto vestia suas sandálias de salto.
— Perfeito. Vamos até lá? — estendi a mão em sua direção.
— Com muito prazer. Afinal, tem palhas italianas me esperando — ela jogou seus fios loiros para o lado e sorriu.
— Aposto que são deliciosas — ri nasalado enquanto a olhava.


Chapter 6


Estava ainda gargalhando pela maneira como La Rose tinha olhado para o babaca no elevador. Estávamos mesmo rodeados de idiotas, mas o cara ficar falando merda no telefone dentro de um elevador era de se perder a merda da paciência. La Rose não me olhava, e eu sabia que seria porque ele sentiria vontade de rir. Mas, mesmo assim, eu ri na cara do palhaço. Gargalhei até entrar em casa, mesmo porque tinha sido ótimo.
Foi ótimo demais e por isso eu ainda dava muitas risadas, mas tive que me controlar mais quando cheguei e a babá me disse que Saphira estava dormindo feito um anjinho. Agradeci a ela e fui pegar seu dinheiro na minha bolsa, foi quando vi a menina babando no meu carpete ao olhar para La Rose. Abracei-a de lado e entreguei o dinheiro. Consegui ver rapidamente a maneira como ele olhava para a garota e segurei o riso também, mas fingi que nem reparei.
— Eu sei, eu sei. Ele é mesmo — falei baixinho para a babá, que sorriu sem graça, ainda o encarando feito uma adolescente virgem, que parecia ser mesmo. Levei-a até a porta e depois fechei. — Vou pedir pizza. Me fala um sabor, e não aceito “qualquer um” — peguei o telefone.
— Tem pizza de ? — perguntou, implicando comigo, batendo a cinza no cinzeiro em sua coxa enquanto me olhava de um jeito divertido.
— Seria uma delícia mesmo se tivesse. Mas pra isso você não precisaria nem ligar para uma pizzaria, eu já to bem aqui — mandei um beijo para ele, sorrindo divertida pela brincadeira.
— Que delícia, hein. Vem cá, então — bateu com a mão em sua coxa, como se me chamasse para me sentar ali.
Joguei meus cabelos para o lado para complementar a pose quando seus olhos passaram por mim de cima para baixo. Comecei a caminhar como se fosse me sentar mesmo em seu colo, mas parei antes de chegar. Então, sorri brincalhona.
Ah se não fosse uma brincadeira dele… Pizza, ! Pizza! Era meu foco no momento.
— Arregou? — implicou enquanto fumava.
Só aquele olhar fixo dele no meu foi o que me fez ter começado a pensar seriamente em me sentar em seu colo. La Rose fumava calmamente, como se realmente esperasse que eu fizesse isso. Dei meia-volta e fui até ele de uma vez; coloquei meu joelho um de cada lado dele, tirei seu cinzeiro da perna e me sentei ali. Peguei seu cigarro e dei um trago, soltando a fumaça para cima em seguida.
— Quem arregou? — perguntei pertinho do seu rosto.
— O que mais você tem coragem de fazer? — perguntou enquanto se afastava e tirava o cigarro de mim, jogando sua cabeça para trás e dando uma longa tragada.
Ao mesmo tempo que seus olhos me tentavam, eu queria bater nele por estar fazendo aquilo. Odiava ser provocada ou testada, porque eu dava a cara a tapa mesmo. Mordi a ponta da minha língua quando senti seu olhar nos meus olhos enquanto fumava calmamente. Então, neguei com a cabeça com sua pergunta, olhando para La Rose quando se afastou. Coloquei minhas duas mãos na guarda do sofá atrás dele, uma de cada lado e na altura dos seus ombros, impulsionei meu tronco para frente e o colei no dele.
— De muitas coisas — respondi, sorrindo sugestiva. — Mas a pergunta mesmo é se devo ou não fazer? — ergui a sobrancelha em questionamento até me afastar de novo.
— Não achava que você se fazia esse tipo de pergunta — respondeu sem se afastar.
Por que ele não estava desviando o olhar ou fugindo? Ou mandando eu sair de seu colo? Seria algo que ele deveria fazer, e não me provocar daquela forma. Aonde ele queria chegar com aquilo? Se fosse no ponto de me fazer trocar a calcinha, ele não precisaria se esforçar muito. E não era como se eu não quisesse me sentar em seu colo, porque estava uma delícia, e tantas coisas passavam na minha cabeça com o que fazer... Pizza, pizza, pizza.
La Rose se aproximou de novo e meu olhar caiu em seus lábios, mas os fechei rapidamente, os abrindo e observando em seus olhos verdes.
— Não faço — respondi, passando meus olhos por todo seu rosto. — Mas eu quero testar nossos limites aqui. Temos, não temos?
Aproximei meu rosto do dele, quase tocando seus lábios com os meus – mas não toquei, como se houvesse um limite ali que me impedisse, então encarei seus olhos de novo. Quando ele se afastou, eu soube exatamente sua resposta – era o que me impedia de me aproximar mais do que isso. Havia um limite entre a gente, e eu sempre o respeitaria. La Rose era meu amigo e estava ótimo assim. Às vezes, valia a pena estipular barreiras e limites; com ele eu conseguia ver isso e procurar entender também. Nem tudo é o que a gente quer, e eu sabia muito bem disso.
Levantei e fui até o telefone, ligando para a pizzaria.
— Pode ser de frango — La Rose de ombros, respondendo agora o sabor da pizza. — E uma bem grande. Estou com fome — tragou novamente seu cigarro.
— Enorme, se tiver — completei seu pedido.
Enquanto estava na linha, meus olhos desceram por ele todo no sofá, e automaticamente lambi meus lábios. La Rose era sim meu amigo e ele era sim gay, como ele mesmo tinha me confessado. Mas não me impedia de olhá-lo dessa forma quando ele não estivesse olhando. A culpa não era minha se ele era mesmo lindo pra cacete.
Então, desviei meu olhar quando terminei o pedido e o vi se levantar do sofá. Devolvi o olhar dele quando o notei olhando para mim.
— Quer uma dança, é? — provoquei, rindo baixinho e mostrando que era só mais uma brincadeirinha. Desliguei o telefone quando fiz o pedido e voltei a encarar seus tons verdes.
— Só se for de graça, porque não tenho dinheiro — respondeu.
— Não faço nada de graça. Mas não precisa pagar com dinheiro — desci meus olhos por ele, dando de ombros.
— Posso pagar de que jeito, então? — quis saber enquanto eu reparava que ele segurava o sorriso.
Desci meu olhar por ele todo com sua pergunta e passei a língua em meu lábio superior, como se eu tivesse pensando besteira. Talvez eu até tenha tido um pensamento obsceno ou outro, mas, quando voltei aos seus olhos, já tinha a resposta.
— Um sorriso pode ser o pagamento — falei simplesmente, sorrindo de lado.
— Um sorriso? Vou pensar nessa proposta — respondeu em um tom de brincadeira.
Fechei as portas em volta da cozinha e da copa, para não chegar barulho no quarto da Saphira. Peguei o vinho na geladeira e duas taças, colocando-as no balcão.
— Pode colocar música. Gosto do seu gosto musical — pedi a ele, sorrindo levemente. — Vou só tirar essa roupa de stripper e já volto — soltei uma risadinha, correndo pro meu quarto.
Tirei o corpete de couro, a meia, todos os acessórios e as botas de couro que chegavam até minha coxa. Sem demorar uma eternidade, consegui tomar uma ducha. Abri a gaveta onde continha meu estoque de cuecas – sim, eu adorava usar cuecas em casa –, peguei uma branca e a vesti, colocando uma camiseta com o rosto do Kurt Cobain por cima. Soltei meu cabelo e calcei minhas pantufas infantis, voltando para a cozinha.
Quando voltei, pude vislumbrar um pouco La Rose dançar, e isso me fez sorrir abertamente, o admirando enquanto pude até ele me notar ali.
— Está virando stalker agora? — provocou.
— Não posso olhar pra você, não? — rebati sua provocação.
— Não faço nada de graça. Se for me olhar, vai ter que pagar — brincou, jogando seu cabelo para trás e fazendo uma cara de nojento.
Soltei uma risadinha com sua brincadeira, ainda mais pela sua expressão.
— Vou ter que pagar? E o que seria esse pagamento? — cruzei meus braços, me mostrando interessada.
— Te ver feliz.
O sorriso se aumentou com o preço que La Rose me disse, e o olhei daquela maneira de que ele parecia irreal em certas horas.
— Te olhar me faz feliz — levantei um dos meus ombros, já que ele tinha me cobrado por olhar para ele, e era uma das coisas que eu gostava de fazer. Mas aquele olhar em específico eu queria manter em segredo só pra mim.
— Golpe baixo.
Soltei uma risadinha nasalada e fiz uma dancinha da vitória para mim, rebolando de um lado para o outro. Assim que La Rose deu risada, sorri, tão animada quanto a Saph quando ela ganhava pirulito. Era impossível não sorrir com aquele som, era incrível demais. Muitas vezes eu sentia vontade de bater nele por ter uma risada tão linda daquelas, mas eu me sentia feliz em saber que eram poucos privilegiados que podiam ouvi-la, e eu estava entre eles.
— Ah! E sem zoeiras com minhas pantufas — apontei o dedo pra ele em riste, rindo baixinho.
— Ah, que bonitinho. Te contar um segredo. Você ficou mais sexy assim do que com aquela roupa de couro, só acho — deu um pequeno gole em seu vinho.
— Obrigada. E olha que você nem viu minha calcinha da Mulher-Maravilha — contei a ele como se fosse meu maior orgulho.
— Hm, realmente. É de algodão? Se for, vou até pedir emprestado — soltou, e ele mesmo não se aguentou, começando a rir.
— Ai, ai, essa risada — tive que comentar. — Mas posso te emprestar sim, é de algodão — sorri abertamente pela brincadeira.
Ele não sabia lidar com certos tipos de elogios, e eu o entendia – também não sabia. Eu conseguia lidar com “gostosa”, mas não com os elogios que o La Rose me fazia.
Quando peguei a taça, escutei tocar a campainha, então salivei de fome. Fui até a porta e, antes de abrir, olhei para La Rose com um sorrisinho sapeca nos lábios.
— Vou te mostrar um truque infalível! — sussurrei para ele. Então, abri a porta com meu melhor sorriso para o mesmo entregador da semana passada. Ele sorriu todo encantado ao me ver, e vi seu olhar descer por mim inteira. — Você ficou uma delícia com esse colete, sabia? Estou quase te pedindo junto com a pizza — falei com a voz mais rouca que o normal, sorrindo maliciosa.
Ele riu feito bobo e jogou um xaveco broxante, mas mantive a pose. Encostando meu corpo no batente da porta, coloquei a mão na cintura e joguei meus cabelos para o lado.
— Quanto ficou a pizza? — perguntei com o mesmo tom de voz, mas meus olhos o encaravam como se fosse um pedaço de carne que eu morderia todinho.
Ele gaguejou todo, esquecendo o valor, e apostei que até seu nome. Soltei uma risada gostosa e joguei minha cabeça para trás, desencostando do batente e derrubando de propósito uma moeda da minha mão. Abaixei lentamente para pegá-la, empinando minha bunda e conseguindo ouvir o garoto até suspirar. Joguei meus cabelos para trás ao me levantar.
— Acho que não vou ter trocado — fiz um biquinho e bati no meu queixo, como se lamentasse demais.
— Não precisa pagar, quê isso! Você é a nossa melhor cliente, a melhor de todas… Nossa, a melhor mesmo — respondeu todo nervoso ao encarar meu corpo de novo, e o coitado até mesmo parecia suar frio.
— Você é um doce mesmo! — toquei a ponta do seu nariz e peguei a pizza de suas mãos. — Te espero na semana que vem com minha próxima pizza. Estou maluca pra saber qual vai ser o recheio que eu vou me lambuzar toda — passei a língua no meu lábio superior lentamente.
O homem quase entrou comigo no apartamento, como se tivesse hipnotizado, mas fechei a porta na cara dele. Virei-me para La Rose e soltei uma risadinha.
— Eles sempre caem — revirei meus olhos, negando com a cabeça. Coloquei as pizzas em cima do balcão e pulei em cima dele. Me senti ali, pegando um pedaço com as mãos mesmo e mordendo um pedaço.
— Como não cair? Se lambuzar toda? Isso foi tão pesado, até eu pensei besteira — falou, claramente me zoando.
— Desculpa por ativar seus pensamentos eróticos — fiz uma reverência engraçada por devolver a zoeira. La Rose fez um sinal banal com a mão que me fez rir. — Mi casa, su casa — disse a ele para ficar bem à vontade.
— Hm. Não me dê confiança desse jeito, que daqui a pouco vou trazer uns caras pra cá — brincou, pegando um pedaço de pizza e dando uma mordida.
— Pode trazer se me deixar assistir — falei baixinho para ele, piscando meu olho como se fosse brincadeira. Podia ser ou podia não ser.
— Não sabia que você curtia um voyeur — disse de um jeito interessado, me olhando com atenção.
— Curto muitas coisas — respondi, aprofundando meu olhar no dele por alguns longos segundos. Seria uma delícia assistir qualquer coisa que o envolvia sem roupas, principalmente com outro cara.
— Eu também — rebateu e umedeceu seus lábios, bebendo seu vinho e, em seguida, mantendo seu olhar no meu. — Achei sua estratégia interessante. Sempre que quiser comer pizza, virei pra cá e fazer você pedir uma — mudou de assunto, me tirando um riso.
— Um abusado mesmo! — neguei levemente com a cabeça, sorrindo divertida. — Na próxima eu atendo de toalha e deixo ela cair. Quem sabe não ganhamos a bebida também — balancei as sobrancelhas com a ideia.
— Aposto que, se fizer isso, ganharíamos cortesia pelo resto do ano mesmo — implicou comigo.
— Não duvido, eu sou muito gostosa — levantei um ombro, como se me achasse mesmo, e soltei uma risada, o ouvindo rir junto.
Antes que eu pegasse outro pedaço, vi La Rose estalar os dedos e o olhei confusa. Então, sorri por ver que era pela música da Banks que tocava, Gemini Feed. Balancei a cabeça com a batida e arregalei meus olhos quando ele me chamou para dançar. Deixei a taça no balcão, desci dele e fui puxada para dançar. Segurei sua mão e me girei embaixo do seu braço, balançando os quadris e a cabeça.
Open up your eyes, there’s nothing on my body left to see. I tried a thousand times — cantarolei baixinho, o puxando para mais perto. Soltei sua mão e rebolei até o chão rapidamente, depois voltei a subir.
Peguei uma mecha de seu cabelo e enrolei em meu dedo; joguei-a para trás e fiz meu punho de microfone, apontando para ele cantar. A voz dele era ótima, e eu já me questionava o que não era ótimo nele.
Ode to my two thighs. I still want you to kiss ‘em ‘cause they're lonely — cantou enquanto me olhava.
Continuei jogando os quadris de um lado para o outro. Lancei meu braço em seu ombro enquanto admirava sua voz, sorrindo empolgada. Quando ele me soltou, continuei cantando com a música e fingi não notar La Rose morder seu lábio e passar a mão em seu cabelo de uma forma sexy. Peguei minha taça de vinho no balcão apenas para beber mais um pouco, ainda dançando, então peguei sua mão de novo para poder me girar e senti seus dedos machucados – sabia que era das lutas. Levei-os até meus lábios e beijei os nós de seus dedos, um por um.
— Saphira diz que meu beijo é curativo — contei a ele, sorrindo fechado.
— Saphira é uma criança especial, como a mãe dela — puxou sua mão, chegou mais perto de mim e pegou seu vinho, dando um belo gole e enchendo mais a sua taça. — Quer mais? — ofereceu, ainda com a garrafa na mão.
— Para de me mimar assim — o empurrei levemente pelo ombro. — Por favor — virei a taça para ele poder encher melhor.
— Ok, vou parar — brincou.
— Vamos jogar um jogo só de perguntas? Só podemos responder à pergunta do outro se for com outra pergunta. E só temos cinco segundos pra responder — expliquei a ele algo que vi num filme e adorei a brincadeira, enquanto me sentava no balcão de volta. — O que me diz? — impulsionei meu tronco para frente para olhá-lo mais de perto e também para instigá-lo a aceitar.
— O que acontece se o outro não responder?
— Não sei, mas acho que podemos fugir de certas perguntas se não quisermos respondê-las. Se essa garrafa de vinho fosse tequila, eu com certeza diria para termos desafios, mas… — beijei minha taça em agradecimento ao vinho.
— Não precisamos beber pra fazer um desafio. Se um não conseguir responder, o outro faz algo que o outro pedir — deu de ombros.
— Então trocamos as perguntas não respondidas por desafios? — perguntei, só para afirmar mesmo antes de começarmos.
Ele assentiu.
— Posso fazer perguntas sobre sexo? — comecei o jogo. Peguei a garrafa de vinho e enchi mais minha taça, vendo que precisaríamos de mais bebida.
— E por que não? — ele ergueu de leve a sobrancelha e levou o cigarro até seus lábios.
— Então sexo não é uma zona proibida? Bom saber — sussurrei a última parte. Era uma pergunta retórica, mas não deixava de ser uma pergunta.
— Deveria ser? — deu um gole em seu vinho.
— Então não temos segredos sobre esse assunto? — lambi meus lábios, enchendo mais a minha taça.
— E por que teria? Tem problema para você?
— Hmm, e por que teria?
— Na verdade, eu achei que teria por conta do que aconteceu — ele ergueu de leve uma sobrancelha, deixando bem entrelinhas o que queria dizer.
Minha expressão mudou ao compreender o que ele queria dizer com aquilo. Então, assenti brevemente, sabendo do que ele falava. Abaixei a cabeça e soltei o ar pesado, sabendo que ele tinha razão. Aquele assunto era delicado, e talvez eu mesma tenha problemas para falar de sexo. Era algo tão normal e cotidiano que eu achava que era totalmente aberta a isso, mas talvez não fosse.
Enchi um lado da minha bochecha, esvaziando minha mente e não querendo pensar mais naquilo. Era uma lembrança bloqueada na minha mente já. Passado, já passou.
— Você já ficou com garotas? — ouvi sua pergunta e olhei em seus tons verdes.
— Ah, o tempo todo. E você, já ficou com garotas? — devolvi a pergunta, sentindo até um toque a mais de interesse da minha parte.
— Por que quer saber? Está interessada? — ele pegou um cigarro e o acendeu.
— Por quê? Você quer que eu esteja interessada? — fugi da pergunta com outra, deixando o sorriso de canto.
— E a pergunta não está errada? Por que eu estar interessado seria relevante? — ergueu de leve as sobrancelhas enquanto tragava lentamente, olhando para mim.
— Está mesmo errada ou você está fugindo das minhas perguntas, La Rose? — aprofundei mais o meu olhar no dele.
— Você quer saber se eu já beijei ou se já transei com garotas? — rebateu e umedeceu os lábios. — A resposta mudaria algo aqui? — gesticulou, indicando nós dois. — Seja totalmente sincera.
Pisquei meus olhos, desviando meu olhar do dele e negando rapidamente com a cabeça.
— Nunca. Não mudaria nada — respondi, dando de ombros e me sentindo um tantinho nervosa por dentro. — Mas não precisa responder, deixa pra lá — sorri amigavelmente. Pulei do balcão e fui até ele, o abraçando brevemente. — Nossa amizade é importante demais pra ser afetada por qualquer outra coisa, quero que saiba disso — meu tom saiu sussurrante ainda entre o abraço.
Não queria que ele olhasse em meus olhos e descobrisse que, talvez, se ele tivesse respondido, poderia acender alguma esperança dentro de mim. E talvez por isso eu havia decidido que não precisava daquela resposta, e fim de jogo.
La Rose ficou em silêncio e isso me fez me sentir melhor, sem questionamentos. Algumas perguntas eram melhores não serem respondidas mesmo. Senti seu braço na minha cintura, e ele encostou seu queixo no meu ombro durante o abraço. Isso me fez sorrir fechado, onde pude afagar seu cabelo em um carinho suave. Queria ter voltado no tempo para não ter começado aquele jogo idiota ou simplesmente ter respeitado nossas barreiras, mas elas eram difíceis para uma pessoa como eu, que nunca tive barreiras. Porém, eu tentaria por ele, continuaria tentando por ele.
Fechei meus olhos durante o abraço, podendo me sentir mais calma e como se aquelas perguntas nunca tivessem acontecido. Ouvindo o celular dele tocar, me afastei quando La Rose saiu do abraço e foi atender a ligação. Peguei nossas taças e as deixei na pia, guardando o resto da pizza também enquanto ele estava no telefone. Parecia ser algo sério.
Meus olhos se encontraram com os dele quando ele disse para a pessoa do outro lado da linha passar o endereço. Encarei La Rose um tanto preocupada, mas o observei anotar um endereço no bloco de notas e, então, desligar.
— Preciso ir — falou, arrancando o papel e enfiando em seu bolso.
— Claro — respondi baixinho.
Mantive minha cabeça baixa até ele se aproximar de mim, então levantei meu olhar até encontrar o dele. Meus olhos se perderam ali, tentando atravessar aquele labirinto sedutor verde e só me fazendo me perder cada vez mais. Não gostei da maneira como me olhou, porque pareceu uma despedida, e isso fez meu peito doer.
Fechei meus olhos quando ele se aproximou e encostou seus lábios macios em minha testa. Alisei seu braço com uma de minhas mãos e forcei meus olhos por ainda sentir a dor invadir meu peito, pela maneira que ele beijava minha testa ou como ele me olhava. E, quando ele se afastou, mantive meus olhos fechados por mais um tempinho.
— Se alguém que você não conhece bater na porta, não abra — pediu.
— Promete pra mim que vai tomar cuidado? — pedi, indo com ele até a porta. — Não me olha desse jeito como se nunca mais fôssemos nos ver, porque eu sei que vamos.
Aquela sensação horrível estava tomando conta de mim; de que, se ele não voltasse mais, eu seria abandonada de novo, isso me doía. Era um sentimento horrível e devastador, como um trauma. E eu tinha esse trauma. Era por causa dele que eu era fechada ao mundo e às pessoas. Não permitia que elas entrassem em minha vida porque sabia que elas tinham essa mania de me abandonar. Quando vi em seus olhos que talvez La Rose não voltaria, o ar me faltou. Tive que segurar a vontade de surtar, e eu segurei tanto que meu peito doía como se alguém estivesse roubando o meu fôlego.
Engoli em seco, engolindo o que se parecia com uma angústia e um certo tipo de choro quando vi em seus olhos um certo de tipo de incômodo pelo meu pedido. Mas eu pediria de novo se fosse necessário.
— Eu prometo que vou voltar. Nós vamos nos ver — disse e me olhou por cima do seu ombro. — Eu prometi, e não gosto de quebrar minhas promessas.
Soltei o ar, aliviada quando ele me prometeu que voltaria. Poderia ser algo banal, mas, para mim, era a coisa mais importante que poderiam me prometer. Saber que a pessoa prometeu voltar e não me abandonar era tudo para mim.
— Eu confio em você — fui sincera, olhando no fundo de seus olhos ao dizer isso. La Rose já sabia que eu confiava nele, meus olhos já tinham prometido aquilo para os dele muito tempo atrás.
Só rompi nosso olhar quando ele pegou minha mão e colocou seu isqueiro na minha palma. Umedeci meus lábios por sentir as emoções se aflorarem pela minha pele por aquele seu ato. Então, voltei a olhar em seus olhos, fechando minha mão com o isqueiro nela e o trazendo perto do meu peito.
— Até — La Rose saiu.
— Até — respondi baixinho, o vendo sair e fechando a porta como tinha prometido a ele.
Tranquei-a, mas ainda olhava para ela com aquele aperto no peito, aquele aperto de que ele não faria algo bom, e eu estava de mãos atadas por não poder fazer nada por ele. Odiava essa sensação. Fui me afastando da porta aos poucos, sentindo algumas lágrimas quentes caírem de meus olhos e molharem meu rosto. Segui para o meu quarto e, antes que eu entrasse nele, fui interceptada por uma miniatura vestida de rosa esfregando seus olhos bem sonolenta.
— Você está chorando, mamãe? Não chora, não — ouvi sua voz sair baixinha e preocupada. Sequei meu rosto rapidamente e neguei com a cabeça.
— Não estou, não, meu amor. Preocupada apenas. Mas vem cá, vem dormir comigo hoje — estendi a mão para ela, que veio correndo na minha direção, segurou minha mão e veio comigo para meu quarto.
— Eu tô aqui, mamãe — Saph disse baixinho quando já estávamos deitadas, e isso me fez sorrir e abraçá-la apertado para perto de mim.
— O que a princesa fica fazendo quando o príncipe vai pra guerra? — perguntei, observando ela levantar sua cabeça e me olhar, sorrindo animada pela pergunta.
— Ela ajuda ele a vencer os malvados apenas pelo pensamento, mamãe. As princesas podem fazer isso pela mente — tocou minha têmpora, e meu sorriso se abriu todo por ela ser tão esperta.
— Só pela mente, huh?
Saphira assentiu, sorrindo e voltando a se deitar.
— Vem, mamãe. Eu te ajudo a vencer os malvados para o nosso príncipe voltar — sussurrou, bocejando e ficando quietinha.
Beijei sua cabecinha e fechei meus olhos, acreditando em suas palavras. Eu não era nenhuma princesa e o La Rose não era meu príncipe, mas ele era um de fato, e eu sabia que ele venceria suas batalhas.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



CAIXINHA DE COMENTÁRIOS: Se o Disqus não aparecer, deixe a autora feliz com um comentário clicando AQUI.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus