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Última atualização: 12/06/2021

Chapter 1


La Rose R.


Não tinha nem uma semana que havíamos chegado em Bristol, e parecia que aquele homem já conhecia todo mundo na cidade e ficava me apresentando a todos. A maior parte do tempo eu ficava apenas calado ouvindo tudo, e só abria a minha boca quando algo era perguntado diretamente a mim. Ralph, meu pai, dizia que era bom para os negócios conhecer muitas pessoas, e por isso era ele quem organizava sempre tudo, porque eu não tinha a menor paciência para me socializar, mas às vezes era obrigado a fazer isso. Ainda mais quando era com seus sócios.
Ralph tinha conseguido arrumar amizade com um dos caras que tinha vários imóveis na cidade, Robert Castles, além de mexer com algumas coisas ilegais. Mas meu pai não se importava com isso quando só precisava de um lugar para o nosso Clube da Luta particular, onde eu era o seu lutador favorito e ele sempre fazia suas apostas em mim quando havia me treinado sempre para ganhar. De qualquer forma, isso não importava muito quando eu permanecia invicto. O que estava realmente me incomodando agora era o fato de ir em uma festa que seu sócio estava dando em seu clube, meu pai queria que eu causasse boa impressão para que Castles investisse dinheiro em mim nas lutas. Isso era um saco.
Eu era teimoso demais, meu pai sempre falava isso, e ele tinha total razão. Apesar de Bristol ser pequena, eu consegui me perder quando virei a rua errada. Para variar, a porra do meu iPhone tinha descarregado, e nem dava para usar o GPS do carro porque tinha esquecido de baixar o mapa da cidade, além de ter esquecido também o carregador em casa, só para variar um pouco.
Consegui chegar na maldita festa depois de uma hora rodando pelas aquelas ruas perdido, e não tinha ninguém para pedir informação. Parecia que do nada a cidade tinha ficado deserta. Estacionei o carro em um lugar um pouco longe por não querer chamar atenção, mas, antes de descer, olhei meu cabelo no espelho, puxando os longos fios cacheados para trás, não tinha muito que eu pudesse fazer para os deixar no lugar quando tinham vida própria. Então eles só caíram para o lado e eu deixei daquele jeito. Peguei meu cigarro e isqueiro zippo do Constantine, que era o meu bem mais precioso, e saltei do carro. Puxei as mangas longas da minha camisa para baixo, vendo se estavam bem fechadas em meus pulsos, e estava perfeitamente preto. Coloquei o cigarro e o isqueiro nos bolsos da frente da minha calça jeans.
Andei apressado pela calçada em rumo ao clube Castle’s e só de olhar aquela fila enorme já me irritou. Odiava filas e ainda mais esperar por algo. Então dei a volta no lugar e subornei o segurança para entrar pelos fundos. Gostava de como algumas libras podiam fazer literalmente portas se abrirem. Adentrei o lugar e fui passando por entre as pessoas, até que vi Robert e Allie, uma das garotas que trabalhavam com ele, Ralph disse que aquela mulher era osso duro.
Não acenei e nem nada, apenas fui andando na direção dele até o balcão e, quando estava me aproximando, alguém me esbarrou muito forte, vi que era uma garota morena. Isso me fez unir as sobrancelhas já puto, e ela nem pediu desculpas por aquilo.
— Bela educação que você tem — falei irritado com aquela merda e dei as costas.
— La Rose! — Robert falou de forma saudosa levantando um de seus braços para fazer um toque de mãos.
— Castles — disse forçando uma emoção totalmente falsa pegando sua mão.
— Pensei que não viria — comentou dando uma pequena risada.
— Não ia perder uma festa — respondi e me virei no balcão pedindo uma bebida.
Meu pedido não demorou muito para chegar. Dei um gole em meu drink enquanto escutava Castles e Allie conversando sobre alguns negócios. Como não gostava de conversar, a maior parte do tempo fiquei calado mesmo ouvindo os dois. Estava totalmente distraído quando senti algo molhado ensopar minha camisa social.
— Aí. — Ergui minha cabeça e vi a morena que tinha esbarrado em mim quando cheguei. O cheiro de cerveja invadiu meu nariz. Ela estava com a mão na boca, sem jeito. — Além de ter uma bela educação, eu tenho belos pés esquerdos. — Sorriu piscando diversas vezes.
— Tá de sacanagem? — berrei com ela querendo enforcar aquela garota, e, como não podia bater nela, joguei simplesmente minha bebida em sua cara. — Aí. — A imitei forçando um pouco a minha voz. — Acho que molhou um pouco aqui. — Passei o indicador em seu rosto e peguei sua mãozinha colocando meu copo vazio nela. — Não cruza a minha frente de novo — falei em seu ouvido e sai andando, fazendo questão de esbarrar em seu ombro, precisava dar um jeito naquilo.
— Não cruza a minha frente de novo. — Ouvi sua voz imitando como uma criança faria.
Castles me puxou para dançar com ele e Allie, certamente prevendo que daria merda, e eu poderia cometer um assassinato em seu clube. Não falei nada, apenas fui mesmo todo molhado de cerveja. Foda-se, daqui a pouco aquela merda secava mesmo que fosse ficar fedendo, e aquilo seria uma desculpa ótima para me fazer ir embora, mas meu pai iria ficar me enchendo a paciência por isso. Então apenas decidi ficar.
— Hey, idiota. — Senti alguém bater em meu ombro, então parei, vendo que ainda era aquele projeto de gente.
Aquela garota ainda não tinha entendido que não era para cruzar comigo ou será que ela era uma babaca sem noção mesmo? Quando fui reclamar, ela enfiou o copo na minha boca. Tirei aquilo na mesma hora respirando fundo. Aquilo só podia ser a filha de Lúcifer!
— Estava procurando um lixo, como não achei, vai você mesmo, lindinho. — Sorriu e saiu andando.
Eu a fuzilava com o olhar. Olhei por cima de meu ombro encarando Castles, que tinha um olhar preocupado. Por mais raiva que estivesse, não iria fazer nada contra aquela garota, então apenas suspirei, e deixei que ela fosse embora. Fechei meus olhos e respirei mais algumas vezes. Me virei e voltei até onde Castles estava.
— Desculpe a demora — disse pegando a bebida que tinha em sua mão e dando um gole. — Você se importa se eu fumar aqui dentro?
Castles sorriu e negou com a cabeça. Então peguei sem cerimônia um dos meus rolinhos pretos. Coloquei o cigarro entre meus lábios e acendi, dando uma tragada longa.
— Valeu. — Coloquei o isqueiro de volta em meu bolso.
Fiquei fumando mais tranquilo com Castles e Allis enquanto dançávamos, até que o loiro disse que já voltava. Então o segui com o olhar quando saiu rapidamente e me espantei momentaneamente quando vi com seus cabelos ainda mais claros na luz negra. A mulher estava apenas de calcinha dentro do clube. Aquilo sim me fez rir, ela era louca demais, e aquele ato me fez gostar um pouco mais dela, quando já tinha simpatizado antes quando eu e meu pai fomos visitar o Madam Simmons, uma boate na cidade onde ela trabalhava de dançarina. E sem que percebesse tinha ficado com um sorriso pequeno em meus lábios, então percebi que Allis olhou para a mesma direção, e ela riu também. Meu olhar desviou para a mulher na minha frente.
Um cara apareceu falando com Allis, e isso foi a minha deixa para sair dali. Me sentei em um sofá e acabei de fumar aquele meu cigarro. Fiquei ali por um tempo e até falei com algumas pessoas que se sentavam ali puxando assunto, mas a verdade é que aquela festa estava um saco. Acho que já tinha socializado o suficiente e já podia ir embora.
Levantei e fui para a porta, a festa estava lotada, e estava até mesmo difícil sair do lugar. Depois de uma luta quase sem fim, cheguei do lado de fora sentindo a brisa de Bristol acertar meu peito e gelar a minha camisa, me dando um pequeno arrepio. Parei na porta do clube e apalpei os bolsos procurando meu cigarro para fumar de novo, até que vi com seu celular na mão saindo do Castle’s. A olhei por alguns segundos e mordi de leve minha boca por dentro. Não sabia se deveria falar com ela, e muito menos se lembrava quem eu era. Umedeci meus lábios e peguei meu cigarro. Era melhor fumar.
— Quer uma carona, boneca? — ouvi um cara se aproximar dela e a mulher o encarar no mesmo momento com uma expressão de nojo. Uni as sobrancelhas de leve. Ele não ia tocar nela, ia? Seu olhar voltou para o celular e ela simplesmente o ignorou. — Não está vendo que estou falando contigo? Posso te mostrar umas notas e provar que não vai ser nada de graça. — Aquele babaca estava mesmo falando aquilo ou eu estava escutando errado?
— Umas notas? Nem por diamantes, meu caro — ela respondeu com a voz ríspida, e aquilo me fez dar um pequeno sorriso gostando mais um pouco dela. — Só pela carona, depois o apelidinho sujo e me oferecer apenas umas notas, eu sei bem que seria preferível estar no hospital do que estar vendo seu pau, que deve ser minúsculo. Agora me deixe em paz! — seus olhos entediados voltaram a tela de seu celular.
— Vou mostrar o que é minúsculo para você, vadia. — O sujeito rosnou e a pegou pelo braço fazendo ela derrubar o celular pela forma como a puxou.
— Solta ela. — Mandei com a voz baixa e rouca, fumando meu cigarro e me aproximando agora.
— Não se intromete, cara. — Me olhou feio e vi os olhos de me encarando agora.
— Solta. Ela. — falei mais pausadamente para ver se aquele quadrúpede entendia agora. — Estou pedindo com educação, você não vai querer ver a falta dela.
Então a mulher deu uma baita joelhada no meio das pernas dele e um tapa na cara dele, conseguindo se soltar. Mas ele mesmo assim conseguiu puxá-la pelo cabelo, grunhindo de dor. Joguei meu cigarro no chão e minha mão fechada passou pela lateral do rosto de acertando o nariz do sujeito, fazendo com que soltasse ela na mesma hora. Me desviei da mulher, pegando a mão do cara que estava no chão se contorcendo de dor, e ajoelhei em seu peito fazendo com que não se levantasse, e comecei a quebrar dedo por dedo para ele nunca mais tocar em ninguém daquele jeito.
— Da próxima vez que só de passar pela sua cabeça que acha que tem o direito de colocar a mão em alguém, espero que você lembre o quanto isso pode doer. — Então apertei seus dedos quebrados, o ouvindo grunhir alto. — E isso aqui é cortesia minha. — Peguei sua outra mão e quebrei seu pulso em um movimento seco e rápido. — Oras, não sabia que você podia chorar. Geralmente babacas como você não fazem isso, mas eu acho que estava enganado. — Levantei calmamente e olhei para , que tinha um sorriso divertido nos lábios ao assistir aquilo. — Você está bem?
— Um segundo. — Ela pediu para mim, então chutou de novo o saco do cara no chão e depois esfregou suas palmas como se estivessem sujas. Eu ri fraco daquilo. — Estou perfeitamente bem — respondeu, voltando a me olhar com um sorriso maior. — É La Rose, certo? — concordei com a cabeça.
— Me desculpe me meter na sua briga, sei que é deselegante fazer isso, mas ele me irritou — expliquei olhando para o homem que chorava no chão gemendo. — Cala boca. — Chutei de leve sua perna. — Não vê que está atrapalhando a conversa com esses gemidos infernais? — perguntei o olhando feio e ouvi ela rir.
— Pois saiba que eu achei extremamente elegante a forma como você quebrou os dedos dele. Como faz isso? — ela apontou para o cara indicando os dedos e me olhava curiosa, me tirando outro pequeno sorriso. — Valeu mesmo por isso. A festa inteira só valeu a pena por ter assistido essa cena. Não é todo dia que se vê alguém quebrando os dedos e o pulso de um babaca. — Seu sorriso fechado aumentou e então olhou para o homem com um certo desprezo.
— Vem cá que te mostro. — Acenei com a cabeça para vir até onde o homem estava e peguei sua mão que tinha quebrado o pulso, ela se aproximou no mesmo instante com o olhar intrigado. — Tem duas formas. — Comecei a falar. — Segura a mão dele assim e você pode pressionar o dedo dele para baixo em cima da dobra dessa forma. — Mostrei como fazer ouvindo o estalo que tinha feito, vendo ela morder seu lábio inferior e seus olhos brilharem. — Ou assim. — Peguei outro dedo o envolvendo com força e o puxei para trás, ouvindo outro estalo ignorando totalmente o sujeito urrando. — Você tem alguma coisa para enfiar na boca dele? — perguntei unindo as sobrancelhas e ela ponderou com a cabeça. — Quer tentar? Eu prefiro o primeiro, mas precisa de mais força, e seu dedo também pode escorregar e acabar se machucando. Toma cuidado nisso — avisei. — Por nada. — Sorri de leve.
— Certo, quero tentar sim — respondeu bem animada até, pegando a mão do cara em seguida. — Antes de tentar…Tenho algo sim para tampar a boca dele. — Riu baixinho e abriu sua bolsa, tirando um pau de borracha de dentro dela e então simplesmente enfiou na boca do cara. Aquilo conseguiu me tirar uma risada que eu não soltava tinha algum tempo. — Aposto que é maior que o seu, docinho. — Piscou para o cara e então me olhou. — Seu sorriso é bonito — disse para mim, e ele sumiu no mesmo instante. Seus olhos voltaram para os dedos do cara e ela seguiu a segunda instrução, puxou o dedo do cara de forma rápida para trás como eu havia feito e então ouvimos o estalo. O homem se engasgou com o pau de borracha quando gritou. — Isso é ainda melhor do que chutar sacos! Adorei! — soltou bem animada, dando uma risadinha. Segurei o sorriso e concordei com a cabeça.
— Vem, tenta do outro jeito, eu te ajudo. — Ofereci, porque dependendo de sua raiva ela conseguiria fazer aquilo com facilidade. — Posso? — perguntei em relação a tocar sua mão e ela me olhou um pouco surpresa por aquilo, mas balançou a cabeça rapidamente em afirmação. Então toquei de leve nela, e coloquei seu dedo na forma correta na dobra do dedo do sujeito, com o meu por cima. — Força agora — pedi com a voz calma e suave, vendo ela assentir e respirar fundo. Seu dedo forçou o do cara e eu a ajudei, aplicando força sobre o seu, até ouvir o estalo, então a soltei em seguida. Ela virou seu rosto e olhou em meus olhos, abrindo um pouco mais os seus e eu pude ver satisfação em seus tons claros.
— É definitivamente bem melhor do que chutar sacos mesmo! — soltou de novo, rindo um pouco e olhou para o sujeito no chão. — Pode ficar com o pau para você brincar — falou com o cara até de um jeito doce.
— Aposto que ele vai se divertir horrores, né? — olhei para ele lhe dando uma piscadinha. — Quando alguém te segurar pelo cabelo daquela forma você pode tentar acertar com uma cotovelada na costela. Pisar no pé da pessoa é uma ótima saída. Se estiver de salto vai ser ainda melhor — falei me colocando de pé e olhando para a agora.
— Na parte debaixo tem o nome da loja, caso você queira um maior — sugeriu para o cara, levantando os ombros em sinal de dúvida. — Já tentei a cotovelada uma vez e não deu muito certo, quase tive o braço torcido — contou, fazendo uma careta. Torci o nariz por causa daquilo. — Mas o pisão no pé é uma ideia ótima mesmo. Eu vivo de salto alto mesmo devido ao Madam Simmons… — gesticulou a mão em sinal de que eu já sabia onde ela trabalhava.
— Geralmente quando a pessoa te pega por trás ela fica na defensiva já esperando um ataque seu na região do tronco ou nos braços. Já o pé eles geralmente esquecem, e dá tempo de você correr. Mas usar um taser seria ótimo também. Será que tem um em formato de pau? — perguntei com certo humor na voz e ela soltou um riso nasalado.
— Vim para uma festa e estou tendo aula de defesa pessoal. Obrigada pelo convite, Castles! — disse como se ele pudesse ouvir e sorriu de leve para mim. Ri nasalado com aquilo. — Ah, eu tenho um taser, mas realmente esqueci de trazer hoje. No MS somos meio que obrigadas a saber usar esse tipo de defesa mesmo porque é óbvio que homens idiotas acham que podem nos tocar só porque tiramos a roupa toda noite. — Rolou seus olhos ao falar isso. — Geralmente eu andava armada, mas eu não confio muito na minha raiva e sei que não pensaria duas vezes para estourar os miolos de um filho da puta desses. — Torceu de leve seu nariz. Ponderei com a cabeça.
— Ao seu dispor. — Fiz uma pequena reverência. — Não sabia disso. Mas é ótimo. Homens não têm muita noção das coisas, se forem héteros, então, pior ainda. — Rolei meus olhos também, eles me cansam demais, não tinha a menor paciência para lidar com esse tipinho de gente. — O taser é mais seguro, não acho que seria bom você ser presa por causa dessas merdas. — Olhei de novo para o cara, que pelo menos ainda estava respirando, mas meu olhar foi atraído quando ouvi o som de sirenes de ambulância e polícia. — Vem! Vamos sair daqui — falei já dando uns passos apressados para trás.
— Muito obrigada. — Agradeceu, abrindo mais o sorriso. — Pior raça. — Fez uma careta de nojo, e eu concordei veemente. — Por isso eu torço pelo dia em que matar de TPM seja legalizado — comentou, juntando suas mãos como se fosse rezar e então começou a se afastar também, olhando em volta e pegando seu celular do chão rapidamente.
— Por nada, madame — falei que nem aqueles lordes de antigamente fazendo outra reverência e vi o sorriso dela ficar ainda maior. — Pode contar que nesse dia eu vou pedir para você matar umas pessoas para mim. — Pisquei um olho para ela que soltou uma risada. — Você quer uma carona? Meu carro está para lá. — Indiquei a direção. — Ou eu posso tentar arranjar um táxi contigo, esperar um uber, ou chamar alguém para isso. Uma das meninas que estavam comigo — ofereci enquanto andávamos rapidamente agora para sairmos dali antes que os canas chegassem.
— Só me dizer o nome e como quer que a pessoa morra, fechamos os negócios. — Piscou seu olho, rindo baixinho. — Seria muita folga minha aceitar sua carona depois do que você fez… — deu um sorriso triste. — Mas eu sou folgada. Então, eu aceito a carona sim. — Estalou a língua no céu da boca, dando de ombros.
— Fechado! — exclamei com empolgação. — Certo, você só vai ter que me guiar pela cidade, eu não sei onde fica nada aqui — expliquei torcendo de leve o nariz. Antes de conseguirmos chegar no meu Land Rouver, um carro de polícia já entrou na rua. — Por aqui — chamei entrando entre um prédio e outro e me encostando na parede, vendo ela fazer o mesmo e então esperamos a viatura passar junto com a ambulância. — Vem — falei mais baixo e seguimos para meu Evoque preta. Tirei a chave do bolso e já destravei as portas, entrando no lado do motorista.
— Pode deixar. Sei imitar certinho a voz da mulher do GPS, se quiser — respondeu de uma forma divertida. — Achei que seria só mais uma festa sem graça e olha só que noite divertida, quebrei dedos, chutei sacos e fugi da polícia. — Brincou ao entrar do lado do passageiro e fechar a porta.
— Aceito. Acho super sexy a voz da mulher do google. Em duzentos metros vire à direita. — Brinquei tentando imitar aquela voz mecânica, mas claramente que ficou uma merda. Ouvi ela soltar uma risada mais alta, então a olhei por um momento gostando do som. — Realmente, a noite só ficou boa nessa parte. — Tive que concordar com isso, ela tinha praticamente me salvado do tédio.
— Já dá para você mandar currículo para o Google — falou como sugestão mesmo, mas sorriu querendo segurar a risada. — Estou vendo que você adorou a festa. — Sua voz saiu em tom de ironia e ela negou de leve com a cabeça.
— Será que vão me contratar? — perguntei de forma pensativa, negando com a cabeça em seguida. — Está falando do meu cheiro de cerveja? — e naquele momento percebi que estava conversando com ela mais do que eu deveria ter feito o mês todo. Então joguei a chave no porta copos do carro e apertei o botão de start.
— Você tem o meu apoio total. Tenta sim, aposto que vão! — ela falou dando mesmo a maior força e riu nasalado logo depois. Então concordei como se fosse mesmo enviar o currículo. — Ah, estava só me referindo da parte que só ficou boa depois que você saiu da festa. Mas já que mencionou…Que cheiro adorável! — debochou no final e riu fraco em seguida.
— Essa parte realmente foi a melhor. A que saí daquela festa. — Confirmei e ela fez um biquinho. — Vai, me fala para onde eu vou. — segurei o volante.
— Com a temperatura sempre fria da cidade gelada do interior da Inglaterra, não esqueça de pegar seu casaco quando sair de casa. Então, ligue os faróis e a seta, vire à próxima esquerda com cuidado porque é via de mão dupla — disse exatamente com a voz da mulher do GPS, mordendo sua bochecha para não rir. Eu a olhei com um ar de riso, mas me contive também, aquilo estava ótimo. Então fiz exatamente o que disse. — Agora siga reto nessa avenida e cuidado com senhoras atravessando a rua sem o semáforo fechar. — Brincou, dando um sorriso divertido. — E a dica de hoje é tomar um chocolate quente ou uma taça de vinho… Será que não existe o modo delas falarem umas sacanagens? — perguntou curiosa e pensativa. A encarei por um segundo querendo rir alto daquilo.
— E a senhora está sem casaco! Vai pegar um baita resfriado — avisei, já que estava sentada no banco do carona vestindo apenas seus saltos e uma calcinha que não era muito grande. — Se realmente estiver com frio, tem casaco no banco de trás — ofereci, porque realmente a brisa estava gelada ao ponto que eu tinha sentido frio quando saí do Castle’s. — Odeio velhinhas, vou atropelar todas se passarem na minha frente. — Brinquei com um ar de riso em minha voz e ela soltou mais uma risada alta. — O que custa esperar o semáforo fechar? Não vai doer mais a coluna delas. — agora falei em tom de reclamação mesmo. — Chocolate quente seria ótimo mesmo — comentei, pensando que tinha ficado meio enjoado por causa daqueles drinks que tomei. — Olha, aposto que algum tarado já conseguiu essa proeza — falei pensativo sobre aquilo enquanto dirigia pelas ruas de Bristol, ouvindo ela rir daquilo.
— Eita, porra! Até esqueci que estava quase pelada. Foi mal. — Bateu na sua testa e então tirou um vestido amarrotado de sua bolsa que era absurdamente fino e o vestiu rapidamente. — Olha, se toda vez que eu ficasse pelada eu pegasse um resfriado eu estaria desempregada — comentou em tom divertido. — Obrigada por oferecer o casaco, mas eu realmente me acostumei com o clima de Bristol. E eu adoro o frio, adoro sentir o vento batendo em meu rosto e de como a sensação dele praticamente ser de cortar sua pele é tão forte, mas mesmo assim ele ser apenas um clima, apenas o vento. — Seus olhos foram para a janela enquanto ela falava e tinha um sorriso pequeno em seus lábios. — O senhor acabará cumprindo uns dez anos na condicional se ultrapassar o sinal vermelho, mas ninguém se importará com a morte das velhinhas. — Brincou com a voz da mulher do GPS ainda e riu em seguida. — La Rose, claro que vai doer mais as costas delas. Elas são velhinhas, né? — fez um biquinho e depois sorriu de novo. — Chocolate quente com pipoca — comentou, sorrindo ao ponderar com a cabeça sobre aquela ideia. — Pode virar à direita agora. — Indicou.
— Tudo bem. — Dei de ombros. De qualquer forma eu nem tinha olhado para o corpo dela ou coisa parecida. Não me incomodava e nem nada do tipo, na verdade, não atraía o meu olhar. — Então eu tenho uma coisa para você — falei e apertei o botão que abria o teto solar todo, fazendo o vento entrar e ela me deu outro sorrisão por isso. — Se você quiser pode ir lá em cima sentir o vento na sua pele — ofereci a olhando rapidamente e ela ergueu uma sobrancelha, olhando para cima em seguida. — Ok, sem ultrapassar o sinal vermelho. — Fiz uma nota mental. — E você acha que eu ligo para elas?! Que esperem o sinal fechar! — rebati como se estivesse bem indignado com aquilo, com as velhinhas abusadas que queriam morrer logo atravessando a rua quando não deveriam. riu um pouco alto disso, negando com sua cabeça. — Pipoca de chocolate — disse com um tom divertido e virei à direita.
— Está liberado só o amarelo, ok? — apontou o dedo como se fosse outro lembrete que eu deveria anotar. — Por isso e por muitos outros motivos que eu não dirijo — contou, estalando a língua no céu da boca. — Com calda em cima — respondeu no mesmo tom e sorriu de leve. — Continua reto e então na rotatória você pega à esquerda, então meu prédio vai aparecer piscando e brilhando para você. — Sua voz saiu em um tom infantil e então ela levantou no banco e realmente foi olhar a rua pelo teto solar. Olhei para cima vendo seus fios voando ao vento de um jeito bonito, e aquilo me tirou um sorriso.
— Certo, certo. No amarelo. — Balancei minha cabeça e ela fez um joinha com seu polegar. — Eu só dirijo porque odeio depender de qualquer pessoa para fazer o que eu quiser. Porque isso aqui me deixa mais estressado do que já sou naturalmente — contei soltando um suspiro longo. — Pare, mulher! Estou ficando com vontade de comer pipoca doce com calda! — reclamei a olhando feio agora. Eu teria que achar um lugar para comprar pipoca e calda de chocolate agora. — Ok — respondi seguindo suas instruções.
— Adorei mesmo o seu humor — comentou, rindo um pouco, mas continha sinceridade em seu tom de voz. Ela não podia estar mesmo falando sério. Eu era estressado, brigão e calado, apesar de estar falando muito com ela naquele momento. Então a olhei por um segundo e vi ela devolvendo o olhar, me dizendo através deles que ela falava sério. Prendi meus lábios em uma linha reta e assenti com a cabeça, voltando a prestar atenção na rua. — Manda o endereço da sua casa que eu te envio a pipoca. Não existe melhor que a minha, a Saph sempre diz isso — contou de um jeito gentil, sorrindo de leve. Então concordei, ia mandar mesmo, porque agora eu queria pipoca. — Ei, — ouvi ela me chamar lá de cima, ergui minha cabeça olhando para . — você poderia acelerar só um pouquinho? — pediu com um sorriso arteiro nos lábios, e meu pé afundou no acelerador enquanto eu a olhava de uma forma séria, vendo seus cabelos dançarem ainda mais ao vento. Ela riu de um jeito leve e feliz, tentando colocar suas mechas atrás da orelha enquanto voavam de formas desconexas por todo seu rosto. — Isso é como voar, La Rose! — ela soltou, rindo ainda mais e abriu seus braços, e eu pude sentir como se meus olhos estivessem brilhando naquele momento vendo aquela cena tão linda.
— Então voa, — falei mais alto para ela me ouvir olhando para frente acelerando um pouco mais.
— Estou voando e nem preciso de asas! É como ser a própria liberdade! — falou em voz alta muito empolgada, aquilo só me fez sorrir ainda mais, e a olhei de novo, vendo sua cabeça jogada para trás.
— Você é a sua própria liberdade — disse para que me ouvisse, a olhando ainda. Então ela abaixou a cabeça e me olhou de volta, sorrindo para mim e deixando seus olhos presos nos meus por alguns segundos enquanto segurava seu cabelo para trás. Sorri de lado e voltei a olhar para a rua, vendo o prédio realmente piscando. Então diminuí a velocidade e parei. Ela voltou a se sentar no banco no instante seguinte. — Está entregue, senhorita . — Usei um tom cortez.
— Terás para sempre a minha eterna gratidão, caro e respeitadíssimo senhor. — Fez uma reverência, jogando um pouco seu cabelo para frente e quando voltou o jogou para trás, sorrindo de forma divertida.
— Gratidão coisa nenhuma, você está me devendo uma pipoca. Pode me passar seu número para que eu te mande meu endereço… Na verdade. Anota o meu número e me manda mensagem, o meu celular está sem bateria. — Me lembrei daquele empecilho.
— Oras, é verdade! Minha memória anda horrorosa, até esqueço que estou pelada hoje em dia. — Negou com a cabeça, rindo um pouco. — Você prefere calda de caramelo ou chocolate? — perguntou de forma séria enquanto pegava seu celular, então me entregou o iPhone para eu anotar meu número nele.
— Isso é coisa de gente velha, está ficando senil. Tem que tomar remedinho para isso — falei segurando o pequeno riso que quis sair. — Chocolate — respondi pegando o aparelho e anotando o meu número, e colocando o nome do contato de “Quebra Nozes”. — Quando eu colocar o meu celular na carga, eu te respondo caso tenha me mandado mensagem. — Lhe estendi seu iPhone de volta.
— Meu cabelo já está até branco e eu ainda aceitei carona de um cara que mata velhinhas. Santo Deus! — arregalou seus olhos e levou a mão no rosto. — Boa escolha — respondeu sobre a calda e então soltou uma gargalhada quando olhou a tela do celular. — Não tinha nome melhor, devo dizer. — Brincou, rindo um pouco mais, e então abriu a porta do carro. — Não responde para ver! Fica sem pipoca — disse em tom de bronca, mas sorriu em seguida. — A gente se vê por aí, Quebra Nozes. — Piscou seu olho para mim e saiu do carro.
— Olha que perigo, eu poderia ter te jogado do carro em movimento. — Arregalei meus olhos com aquilo, e segurei o pequeno riso que quis vir. — Achei que iria combinar. — Dei de ombros sobre o nome que coloquei em seu contato. — Claro que vou responder! Quero minha pipoca com chocolate! — disse unindo as sobrancelhas com indignação. — Mas é sério agora. Se precisar de qualquer coisa pode me ligar, ok? — fui sincero com ela quanto a isso enquanto meus olhos encaravam os seus.
— Eu tenho que parar de ficar sofrendo esses riscos. Que perigo mesmo! — continuou me olhando assustada, neguei com a cabeça de leve. — Combinou mesmo. Vai salvar meu nome como no seu? — perguntou em tom divertido. — Você vai ter. Juro juradinho — falou, balançando a cabeça afirmativamente. — Obrigada, La Rose. — Sua voz era mais baixa agora, seus olhos sérios e intensos em mim, então soltou o ar e sorriu de leve. Assenti. — Boa noite. — Acenou com a mão e fechou a porta, se afastando do carro.
— Ainda não sei. Vou pensar — contei com um pequeno semblante de sorriso em meus lábios, olhando para ela e pensando em como poderia chamá-la. Ela assentiu com um sorriso leve nos lábios. — Boa noite, . — desejei em um tom baixo, vendo ela se afastar.
Fiquei olhando até ela entrar no prédio e ter certeza que estava segura agora, sem nenhum louco surtado tentando estuprar ela só por achar que tinha esse direito. Eu deveria ter arrebentado mais aquele filho da puta, mas foi satisfatório ver aquela mulher quebrando os dedos dele e ainda enfiar um pau de borracha em sua boca para ficar quietinho. Aquilo definitivamente foi perfeito, só não conseguia vencer dela no teto solar se sentindo bem e livre com o vento soprando seus fios dourados daquela forma tão bela.
Eu não sabia o que tinha, mas ela conseguiu fazer o que muitos nunca ao menos chegaram perto, e com extrema facilidade, ela me fez sorrir novamente.

Welcome to my dark side
We're gonna have a good time

Chapter 2




Aumentei a música no quarto e estiquei os braços para cima, jogando minha cabeça para trás e me alongando conforme ia pisando naquele chão gelado com meus pés descalços. Estalei a língua no céu da boca, pendendo a cabeça para o lado e depois para o outro enquanto ouvia Dua Lipa cantar Scared to be lonely. Movi meu quadril lentamente conforme a melodia ia entrando por dentro da minha pele e abraçando minha alma. Fechei meus olhos, os forçando, e soltei o ar que segurei. Impulsionei meu tronco para frente e dei uma estrela no chão, mas deixei meu corpo no chão mesmo, levantando apenas as pernas para cima, as balançando exatamente como as paradas da música, e consegui erguer meu quadril também.

Is it just our bodies? Are we both losing our minds?
Is the only reason you're holding me tonight 'cause we're scared to be lonely?


Sorri de leve com aquela parte, cantando mentalmente, e joguei minhas pernas para trás, apoiando meus pés atrás da minha cabeça mesmo. Dei uma cambalhota lenta e levantei jogando meu cabelo de um lado e depois para o outro. Levantando meus braços no ar e os movimentando de leve como se eu tivesse tocando em algo imaginário, era como se eu estivesse tocando as notas daquela melodia que pareciam coloridas para mim. Sim, eu realmente sentia minha alma conversar com as músicas quando eu dançava. Então aquela mesma sensação que estava sentindo naquele instante era o que senti na noite com o La Rose, em seu carro e sentindo o vento bater no meu cabelo. Foi como sentir a liberdade batendo contra o meu rosto.
Então lembrei do que mandei para ele: "Quebra-Nozes, preciso saber do seu reino para enviar a pipoca de chocolate.” E ri daquilo. Voltei a balançar meu quadril, jogando de um lado para o outro, enquanto meus braços se moviam de forma sincronizada e lenta no ar, indo para o lado e para a frente, até eu erguê-los por completo e descer a minha mão esquerda pelo direito, deslizando meus dedos até chegar em minha cabeça, então passei pela minha nuca, puxando minhas mechas para a frente.

Do we need somebody just to feel like we're alright?
Is the only reason you're holding me tonight 'cause we're scared to be lonely?


Deixei minha mão deslizar pela lateral do meu corpo todo até chegar na minha coxa e então ergui aquela perna para cima e depois a dobrei e deixei meu pé apoiado na minha outra coxa, como pose de bailarina, e girei com força, usando ela mesma para dar impulso e força ao giro e depois a coloquei no chão de novo, jogando o cabelo para o lado esquerdo. Vi meu celular apitar, olhei a tela e vi que era a resposta de La Rose.

O meu reino fica do outro lado do rio, atrás do reino do seguidores de Madonna


Ri um pouco alto daquilo e neguei com a cabeça, desbloqueando a tela e aproveitando para beber um pouco de água, e digitei a resposta: “Acho que gostei mais do seu reino do que do meu, sabia?”. Então apertei para enviar, terminando de beber água e me mover pelo quarto de forma mais sutil e cantarolando a música.

Você pode vir ao meu reino sempre que desejar. Será muito bem-vinda, além de saber que seria uma ótima conselheira também.


Li aquela mensagem e abri um sorriso, mordendo de leve minha bochecha internamente e então girei mais algumas vezes no quarto, ainda cantando a música e testando alguns passos com o pé enquanto digitava: “Como você sabe que sou uma ótima conselheira? kkk E vai ser uma honra poder te visitar e conhecer melhor seu reino também.

— Mamãe! Mamãe! — ouvi os berros de Saphira pelo apartamento e depois entrando no meu quarto feito um furacão. Seu cabelo loiro estava impecável com os dois coquinhos perfeitamente penteados, mas seu rosto tinha bastante glitter.
— Saphira, você roubou o glitter de quem agora? Do Julian ou do meu? — coloquei as mãos na cintura, sentando na cama.
— O primeiro que eu vi. — Deu de ombros com aqueles ombrinhos super pequeninos e eu quis apertar ela demais. — Quero brilhar na escola. Tio Juju disse que eu nasci para brilhar e pisar nas piranhas — falou toda confiante e eu arregalei meus olhos.
— O que eu falei sobre ficar repetindo as coisas que o Julian fala, hein? — cruzei os braços na frente do corpo e ela fez um biquinho toda manhosa, então meu celular vibrou e eu sorri de leve de novo ao ver a resposta dele.

Porque eu vi isso em seus olhos. Iria me sentir honrado em ter a companhia de vossa majestade em meu humilde reino.


— Posso levar aquele negócio de chocolate do tio Ju para a escola? — neguei rapidamente com a cabeça para ela na mesma hora e digitei:

Estou bem longe de ser uma majestade, rainhas não costumam ficar sem roupas por aí. Eu acho, pelo menos. Mas a honra seria toda minha, sério. E eu fiz sua pipoca de chocolate, foi uma receita nova e eu adoraria que você fosse sincero quando comesse.

Enviei a mensagem e fui tirar um pouco de glitter do rosto de Saphira, e vesti um shorts por cima daquela camiseta larga, então peguei ela pela mão e saímos do apartamento juntas. Assim que passamos pela recepção, sorri para um dos motoristas que trabalhava do MS e que nos levava para os lugares mais em segurança, ainda mais quando estava com ela. Entramos no carro e ele já começou a dirigir em direção à escola.

Existem muitos tipos de rainha e você é a de Bristol, com ou sem roupa. Estou te esperando aqui então para provarmos essa pipoca juntos.
Aposto que está deliciosa.


Dei outro sorriso largo com aquela mensagem, porque era mesmo difícil pensar em mim como uma rainha, apesar da Saph dizer que eu era uma princesa e que logo eu encontraria meu príncipe.

Já que o Quebra-Nozes está dizendo, vou concordar e aceitar. Adoraria ser uma rainha mesmo kkkk. Então me manda a sua localização que eu levo aí mais tarde, pode ser?

Puxei Saph para o meu colo, a enchendo de beijinhos e ouvindo sua risadinha ecoar pelo carro todo e seus pézinhos balançarem no ar enquanto ela tentava fugir para contra-atacar. Saphira era bem dessas. Ela adorava se proteger até arranjar a brecha e atacar. Nunca vi uma garotinha com uma personalidade tão forte e sabia o quanto eu era julgada por criá-la sendo quem sou, com o que eu trabalho e ainda mais por criá-la junto do meu coreógrafo gay maravilhoso. Eu também não via problema algum em ela conhecer o pessoal que trabalhava na boate, porque eram todos excelentes pessoas. As únicas que me acolheram como parte da família mesmo.

Isso. Não discorda. Kkk. Pode sim.


Sorri de leve com sua resposta e vi que ele me enviou a localização logo em seguida. Apenas mandei que o avisaria quando saísse de casa, então deixei Saph me encher de beijos de volta até chegarmos em sua escola, a levei até a porta e senti olhares em mim. Aqueles mesmos olhares que eu procurava sempre ignorar e fingir que não era comigo. Foda-se! Era o que eu sempre pensava. Nenhum deles pagava as drogas das minhas contas. Então eles que me olhassem feio mesmo.

[...]


Saphira estava na casa de uma amiguinha da escola. Julian estava trabalhando e eu tinha saído do Madam Simmons com um acompanhante. Eu não era mais prostituta, só que eu sentia falta de sexo como meu corpo sentia falta do oxigênio praticamente. Como muitos diziam, parecia que eu tinha nascido transando já. O sexo tinha sido péssimo, o cara tinha sido um escroto e eu não sabia nem o porquê de ter trazido esse filho da puta pra casa hoje. Eu não trazia desconhecidos pra casa. Ele tomava banho e eu controlava minha vontade de quebrar o crânio dele no vaso sanitário.
Peguei o cigarro do lado da cabeceira e traguei profundamente, sentindo minhas mãos tremerem de ódio. O cara desligou o chuveiro e saiu do banheiro apenas de toalha. Revirei meus olhos e quis berrar de tanto ódio de mim mesma e dele.
— Essa sua boceta é uma delícia mesmo — ele disse de uma maneira bem porca.
Isso foi a gota d’água pra mim, odiava esses escrotos. Joguei o cigarro no cinzeiro e levantei da cama, pegando o calibre 39 embaixo do travesseiro.
— Sai daqui, agora! Sai da porra do meu campo de visão antes que eu atire nessa merda que você chama de pau. — Apontei no pau dele e o cara arregalou os olhos. Ficou desesperado, pegando suas roupas, mas eu não deixei. — Pelado. Sem a toalha, esse algodão é caro demais pra você, seu pedaço de lixo. — Destravei a arma como se fosse realmente atirar.
Ele imediatamente soltou tudo e inclusive a toalha, saindo correndo do quarto e do meu apartamento. Joguei a arma na cama, ajeitando a lingerie preta rendada que eu usava, soltando meus cabelos quase prata enquanto caminhava até a carteira dele, bufando por ter apenas cem libras ali.
— Merda, — murmurei para mim mesma, batendo na minha testa com muita muita raiva. Senti toda aquela merda de raiva se explodir enquanto eu pegava o primeiro vaso na minha frente e jogava contra a parede, berrando e grunhindo de ódio. Peguei outro vaso e acertei no vidro da sacada, estourando ambos. — Filho da puta! — e dessa vez joguei o salto alto contra o espelho.
Peguei meu celular e fui até o banheiro. Liguei o chuveiro e me enfiei debaixo dele com a lingerie mesmo. Disquei o número do La Rose, estava com o sangue fervendo, sem nem saber porque estava ligando para ele. O garoto bonito de olhos verdes tinha me dito que eu podia confiar nele, ele já tinha me ajudado com um desgraçado esses dias atrás. Ele era bom em dar uns socos. Isso me fez criar uma certa confiança nele que eu geralmente não criava com ninguém. Eu era péssima em confiança, mas com ele tinha sido diferente.
A ligação tinha caído na caixa postal, mas resolvi deixar a mensagem mesmo assim:

Eu preciso de você. Deu merda.


Então desliguei, jogando o celular pra fora do box e deixando meu corpo escorregar entre a parede molhada e escorregadia. Sentindo a maquiagem escorrer em minhas bochechas, fechei meus olhos com força e fiquei batendo minha testa em meus joelhos. Estava furiosa por ter trepado com outro lixo sendo que eu não precisava mais disso. Qual era a porra do meu problema? Não era possível que eu precisasse mesmo dar para aqueles lixos.

Eu era e não precisava de ninguém. Não precisava ser tratada daquela forma nunca mais. E não seria mais. Não mais. Nunca mais.

Ouvi o celular vibrar contra o mármore, mas ignorei. Já pensando o que eu tinha na cabeça pra ligar para o La Rose naquele estado? Rolei meus olhos com raiva, frustração, sentimento de me sentir perdida. Aquele mesmo sentimento que a adolescente sentia no meio daqueles jovens normais. Engoli a seco, secando meus olhos, nem sabendo o que era lágrima e o que era água do chuveiro. A água estava quente, mas o meu corpo estava frio. Passei as mãos em meus cabelos molhados, então reparei em meus dedos, que estavam pretos, talvez pela maquiagem que agora provavelmente tinha espalhado pelo meu rosto.
Só queria estar mais calma pra me levantar, pegar o celular e dizer ao La Rose que estava tudo bem mesmo que não estivesse, queria poder colocar uma música e acabar com outra garrafa de vinho, mas não queria nada disso. Abaixei minha cabeça, a colocando entre meus joelhos, deixando as lágrimas caírem ali em uma mistura com a água mesmo, engolindo a seco. Ouvi alguém entrar no banheiro e eu sabia quem era, sabia porque ele tinha me dito que eu podia confiar nele e eu confiei, eu confiava.

Em um completo estranho, mas eu confiava. Era bizarro, mas eu confiava.

, sou eu, La Rose. — Ouvi sua voz e tremi ao sentir seu toque em minha canela, levantei aos poucos minha cabeça, mas não o encarei, olhei para o vidro do box, encostando minha cabeça na parede atrás de mim. — Você está ferida? — perguntou preocupado.
— Eu sempre estive ferida, aquelas feridas incuráveis. Sabe? — minha voz era baixa, um tanto fria e ressentida. — Claro que você sabe — respondi antes dele, sorrindo morbidamente. — Você e eu temos uma conexão, não sei como e nem porquê, nunca sentamos para contar sobre a vida um do outro. Nem queremos isso. — Olhei à minha volta, mas não o encarei. — Você tem uma ferida incurável também dentro de si, como eu também tenho. Sempre teremos. E por isso confiamos um no outro, por isso você está aqui por mim mesmo sem nem saber que tipo de monstro eu sou. — Então encarei seus olhos, mesmo estando escuro eu consigo ver o verde se sobressaltar ali. — Eu transei com um filho da puta escroto, não foi o primeiro e acredito que nem será o último. E estou me sentindo o lixo que eu sou. Nada de novo — contei a ele, passando as costas das minhas mãos embaixo dos meus olhos, limpando o rímel que tinha se escorrido. — Não queria ter feito você perder seu tempo comigo. — Então desviei meu olhar dele, fechando meus olhos e sentindo a água molhar meu rosto.
Gostei de que La Rose me ouviu, sem intromissões, sem fazer a expressão de pena que costumavam fazer desde sempre, aquela cara de “Pobre menina bonita e quebrada”. Não precisava que ninguém me dissesse que eu era quebrada, eu sabia que era e isso me parecia o suficiente, eu mesma me lembrava todo santo dia sobre isso. Ele era um desconhecido, mas eu sentia esse elo entre nós desde a primeira vez que bati os olhos nele. Não queria saber o motivo e sabia que nem ele e nem eu iríamos pentear o cabelo um do outro e contar todos nossos segredinhos sujos, mas nossos olhos já conversavam mais do que nós mesmos. Era como se eles fossem amigos íntimos que compartilhavam nossos segredos um para o outro e nós dois não podíamos fazer nada.
— Monstros não são como nós — comentou e me olhou agora, encarando meus olhos de volta.
— Não são? — perguntei de volta, esfregando o rímel que tinha escorrido embaixo dos meus olhos.
— Não. Eles não tem piedade. Você tem vida no olhar, o monstro tem apenas o vazio. — Meus olhos passearam pelas gotas que escorriam pelo vidro ao ouvir o que La Rose tinha me respondido sobre os monstros. Eu tinha conhecido muitos desses monstros e talvez até tinha me comparado com eles pela tamanha convivência, um deles tinha sido minha mãe, meu pai e o escroto pai da minha filha.
Suspirei baixinho ao permitir esses pensamentos, odiava lembrar de cada um deles, mas eles existiam dentro de mim e provavelmente nunca me deixariam.
— Você tá certo. Um vazio eternamente apavorante. — Retraí os lábios, não me permitindo mais lembrar de nenhum monstro, chega por hoje.
Os olhos dele me transmitiam um certo tipo de conforto, eu costumava confiar no espelho dos olhos desde a minha infância. As pessoas sempre se mostravam o que eram pelos olhos, eles sempre me diziam a verdade. E os de La Rose me mostravam algo que eu via nos meus próprios. Ele tinha seus demônios como eu também tinha e isso parecia nos unir.
— Quem nunca transou com um babaca e se sentiu na merda por isso? — perguntou com um humor no tom de voz e eu soltei uma risadinha amarga com o que ele diz, podendo olhar em seus olhos ao ver ele tirar uma mecha de cabelo do meu rosto. — Você não precisa se sentir assim por causa de alguém que não mereceu seu tempo. Estou aqui agora e podemos fazer algo para que esqueça o que acabou de acontecer. Momentos bons podem apagar momentos ruins. — Beliscou meu braço de leve com a ponta de seus dedos. Comecei a secar ou limpar meu rosto com as costas da mão, ouvindo ele me fazer sentir um pouquinho melhor, menos lixo do que minutos atrás. — Você não sabe o que é perder tempo, então. — Isso fez meus olhos encararem os dele em agradecimento, mesmo que eu não conseguisse dizer em voz alta ainda.
Eu era um porre em demonstrar sentimentos bons para as pessoas. E isso eu culpo minha infância de merda mesmo, uma delícia. Senti os olhos dele presos nos meus naqueles segundos que pareceram até ter parado o tempo, então vi o quanto seus olhos me disseram que tudo ficaria bem. Droga, eu confiava mesmo naquele cara bonito de olhos intensos.
— Acho que todo mundo precisa de uma fossa, certo? — dei de ombros, tentando deixar meu tom de voz mais leve pra soar como uma brincadeira porque era mesmo e ele entenderia que era. — Eu topo fazer qualquer coisa pra esquecer o sexo de merda que eu tive — murmurei baixinho, até soando como uma menininha inocente querendo sorvete depois de ter aprontado e aceitado a surra que levou. — Ah, eu sei sim. Não consigo nem te enumerar o tanto que eu já perdi meu tempo com babacas e não foi na época que eu recebia para isso, hein. — Tinha soado outra brincadeira, mas não era dessa vez.
— Te faz mais forte — ele respondeu sobre a fossa, e eu não podia discordar. — Podemos colocar um saco de cocô em chamas na frente da porta dele se você quiser — sugeriu, e eu mordisquei meu lábio inferior pela sugestão dele, sorrindo maldosamente por realmente ponderar aquilo. — Podemos fazer o que você quiser. — Sorri por aquilo mesmo minimamente. — É melhor não contar e pensar que isso serviu para você ver o quão bosta as pessoas podem ser.
— Sim, a cada merda que passamos é uma muralha que construímos. — Soltei o ar pesadamente, desviando meu olhar dele para as gotas que ainda escorriam no vidro e faziam uma dança praticamente. — Seria glorioso, confesso. — Aprofundei meu olhar e deixei o sorriso crescer ao imaginar a cena que seria triunfante mesmo. — Logo logo eu penso em algo — respondi, deixando aquela poeira abaixar um pouquinho dentro de mim pra poder pensar em algo que pudesse me fazer melhor naquela noite de merda. — É, elas podem ser bem bostas mesmo. E eu não me tiro dessa lista aí porque eu mesma já fui perda de tempo para muitas pessoas. — Soltei uma risadinha amarga porque era a pura verdade.
— Uma vez me falaram uma coisa. — Seu olhar intenso e profundo voltou para frente, desviando dos meus. — Que, quando eu estivesse triste ou mal com alguma coisa, era para me lembrar de algum momento bom. — Vi ele fechar seus dedos com certa força. Permaneci o olhando e absorvendo o que ele me contou, achando interessante aquilo. Poderia funcionar de fato, era óbvio que a alegria era mais forte que a tristeza. Um sorriso espontâneo era melhor do que chorar. — Conta um momento bom seu. — Enchi um lado da minha bochecha de ar e o soltei ainda pensando no que ele me tinha me pedido.
— Todo tempo que eu passo com a Saphira é um momento bom para o show de horrores que é minha vida — contei a ele, sorrindo levemente ao lembrar da minha princesa. — Mas quando eu comprei esse apartamento foi um momento espetacular na minha vida, sabe? Eu tinha deixado de ser a adolescente rebelde que vivia no teto dos meus pais que me odeiam. Tinha conseguido minha independência com muito muito custo mesmo, tinha me sentido livre e completamente feliz. Eu poderia ser eu mesma, poderia fazer o que eu quisesse, poderia ser a mãe que eu nunca tive. Era uma chance de recomeçar. , a piranha sem coração de Bristol, tinha conseguido sua liberdade e poderia incendiar a cidade — Sorri de canto ao dizer a última parte, me sentindo melhor por lembrar da minha euforia naquele dia espetacular.
Então voltei a encará-lo em silêncio, segurando sua mão em um sinal de que eu estava imensamente agradecida por ele ter feito aquilo. Seus olhos caíram para nossas mãos e senti ele fazendo um carinho em meu polegar com o dele, mas logo a soltou e esticou suas pernas.
— Para uma piranha sem coração, você está se saindo com um coração e tanto. Aposto que a Saphira tem sorte em ter uma mãe como você. — Aquilo que tinha me feito um bem danado e ele não fazia ideia, talvez agora ele poderia ter uma ideia, meus olhos mostravam aquilo.
— Obrigada, é muito bom ouvir isso com sinceridade. Eu criei um coração por ela e só por ela, porque ela vale a pena — disse com sinceridade, era minha menina apesar de tudo. Ela fazia valer a pena cada sexo de bosta que eu tive pra pagar as nossas contas, cada perrengue horrível e todas as merdas que eu fazia.
— Acho que uma parte do seu plano falhou. A cidade ainda não foi queimada. — Ele olhou para os lados ao dizer isso, e eu ri fraco.
— Eles arrumaram meu estrago, mas um dia eu queimo de novo. Quer me ajudar nisso? — balancei as sobrancelhas em sugestão. — Me conta algum momento seu. Algo engraçado. Algo bom. — pedi.
— Hmm. — Então ponderou com a cabeça, pensativo. — Há uns anos, quando conheci o Ralph, ele me ensinou a lutar. Estávamos treinando e apareceu um babaca com o dobro do meu tamanho que sou hoje, na época ele era três vezes maior — comentou e voltou a me olhar. Encostei minha cabeça na parede e abracei minhas pernas novamente, ouvindo ele me contar sobre seu treino e me deixando intrigada a cada parada que ele dava. — Ele me empurrou e disse que eu era um merda, que nem deveria estar lá. — Umedeceu seus lábios e respirou fundo. — Então Ralph se meteu e disse que poderíamos resolver aquilo de forma fácil. Se eu merecesse ficar, eu tinha que lutar com o cara e ganhar. Aquilo era loucura, logo pensei que iria morrer ali, mas estava com tanta raiva que topei na mesma hora. — Uma espécie de riso saiu dele, como um sopro entre seus lábios e um balanço de cabeça. Aquilo me fez sorrir e o olhar com mais curiosidade esperando ansiosamente que ele tenha dado uma surra no babaca gigante. — Sempre fui um idiota. Eu tive a audácia de falar que o cara era grande, mas não era dois. — Ele pausou e passou a língua entre seus dentes. — Nunca apanhei tanto na minha vida, mas eu deixei porque sabia que, por ser grande, logo se cansaria, e ele se cansou. Ralph, antes de me ensinar a lutar, ele me fez criar uma resistência absurda, porque assim poderia apanhar e não me machucaria tão fácilmente, isso sempre seria minha vantagem. — Seus olhos vieram até mim e ele me encarou. — Então eu levantei e soquei aquele filho da puta até ele implorar para que eu parasse, e parei quando o nocautiei com um gancho de direita. — Ergueu a mão que tinha a tatuagem da Rosa. — Então começaram a me chamar de La Rose por isso. Porque o babaca tinha beijado a rosa. Nunca tinha me sentido tão bem em toda a minha vida como naquele dia — me explicou. O sorriso aumentou quando ele contou que tinha socado o cara, encarei sua mão com a tatuagem da rosa ali e voltei a olhar seus olhos, entendendo por que o chamavam assim.
— Eu me sentiria bem pra caralho se fosse comigo também. Socar babacas deve ser uma delícia! — comentei, olhando para cima e imaginando como deveria ser prazeroso fazer isso com bastante frequência. — Combina contigo. — Apontei a tatuagem e quis indicar com o nome também, tinha sido um momento bom pra cacete e condizia com o nome perfeitamente.
— Quer pedir uma pizza? — Abri um sorriso pequeno com aquela sugestão.
— Com certeza, eu quero com muito queijo e bacon! — revirei meus olhos de fome e me levantei rapidamente, desligando o chuveiro e saindo dali, pegando uma toalha pra mim e outra pra ele. — Uma piroca de chocolate do Julian seria perfeito também — comentei, rindo baixinho por isso.
— Se você está falando, vou confiar — disse se levantando e segurando a toalha, mas não a puxou de minha mão. Seus olhos verdes ficaram nos meus por alguns segundos, onde podia ver claramente um único aviso “estou aqui contigo agora”.
E eu acreditei que ele estaria mesmo comigo.
Não eram apenas palavras ditas, mas sim o que seus olhos prometiam aos meus.
E não dizem que os olhos são a janela da alma?


Chapter 3


La Rose R.


Ralph tinha me pedido para ir ao mercado fazer as compras do mês, e eu não achava nada mais chato do que isso. Pessoas me olhando e querendo entender porque um cara estranho estava parado na frente da prateleira de enlatados olhando fixamente para as sopas escolhendo qual deveria levar. O olhar sobre mim não era algo agradável. Era questionável, com repulsa, dúvida, medo, e uma curiosidade irritante.
Coloquei uma mecha de cabelo para trás e peguei logo a porcaria da sopa. Quando me virei, tinha uma senhora me olhando fixamente de um jeito bizarro. Seus óculos de grau faziam seus olhos ficarem maiores, além de ela ser baixa e curvada. Ergui uma sobrancelha e desviei dela, porém ela se virou, me acompanhando, olhando bem para meu rosto. Coloquei as latas no carrinho e ela segurou meu braço. A encarei no mesmo instante com raiva pra ver se me soltava.
— Eu te conheço. Você é o filho do Pope. — Aquele nome fez meu coração acelerar, assim como seu forte sotaque francês, mas não esbocei nenhuma reação.
Puxei meu braço, mas ela não o soltou. Suas unhas começaram a afundar por cima do tecido de minha camisa de manga longa.
— O que você fez com seus pais? A cidade toda te procurou. — Minhas narinas inflaram e eu puxei meu braço com força, sentindo suas unhas me arranharem. Velha maluca!
Empurrei o carrinho a fim de sair dali.
— Assassino — começou a berrar no meio do corredor e eu tive mesmo vontade de matar aquela mulher.
Ela veio andando atrás de mim, agora o mercado todo olhava para minha direção. Praguejei mentalmente. Não deveria ter voltado para a Europa. Parei no caixa enquanto ignorava a mulher berrando que eu era um assassino no meio do mercado, até que um segurança a abordou e pediu para que parasse com aquilo.
Era só o que me faltava. Virar fofoca na cidade pequena. Paguei as compras e saí sem olhar para trás. Guardei as sacolas no porta-malas e me encostei nele depois que o fechei, pegando o celular que vibrou em meu bolso. Ignorei as mensagens. Não queria falar com ninguém. Estava irritado e algo me incomodava profundamente. Não qualquer coisa, eu sabia o que era. Só queria desaparecer de mim mesmo por algumas horas. Ir para longe e quem sabe não voltar mais.
Enfiei o aparelho no bolso e entrei no carro. Dei a partida e sai daquele maldito mercado. Dirigi pela cidade sem um destino, com o braço encostado na porta e minha cabeça apoiada em minha mão, olhando de forma vazia para as ruas pelas quais passava, pensando em outras coisas. Sabia que aquilo iria piorar se eu não fizesse alguma coisa. Às vezes conviver comigo mesmo era mais difícil do que o normal.
Parei na frente da universidade e fui até a tesouraria. Pedi uma informação a garota que estava lá, e que desse um recado para a . Ela não queria, mas, depois de lhe entregar algumas notas, acabou aceitando. Desde que Ralph me ensinou a fazer aquilo, tinha virado realmente uma benção.
Saí e me encostei na lateral do meu Land Rover; abri minha jaqueta e tirei um cigarro do maço que tinha no bolso interno, e o acendi. Fiquei ali fumando enquanto esperava.
Depois de um tempo, avistei de longe saindo da universidade, e, pela feição endurecida, percebi que seu dia estava tão péssimo quanto o meu. Mantive meus olhos nela enquanto se aproximava, até que parou na minha frente e tirou o cigarro de meus dedos, levou até seus lábios, dando uma longa tragada, e me devolveu o cigarro o qual peguei e fiz o mesmo. Segui com o olhar a fumaça sair por entre seus lábios e se desfazer no ar lentamente. Quando subi meu olhar, percebi que seus tons estavam fixos nos meus.
— Qual a boa pra hoje? — perguntou de um jeito curioso
— Entra no carro — falei sem delongas.
Seus olhos ainda olhavam dentro dos meus, certamente já percebendo que tinha algo de errado, e não me importei que tivesse notado isso. Então me virei sem muita explicação, meu humor estava péssimo e eu não queria falar muito, só queria sair dali antes que outra velha louca começasse a gritar simplesmente do nada.
Fiquei grato por ela ter entrado no carro sem perguntar muito. Talvez fosse boa de silêncio do mesmo jeito que eu era. Não sei por que tinha ido até ali quando só queria sumir. Mas acho que tinha encontrado uma amizade ali, alguém que eu poderia mostrar minhas partes ruins e não sairia apavorada, porque éramos parecidos, como na noite em que me ligou. Ela tinha confiado em mim e agora eu estava confiando nela. Uma garota estranha que tinha o coração tão estraçalhado quanto o meu. Dois estranhos. Eu estava longe de ser alguém normal quando tinha tantos demônios circulando ao meu redor, demônios esses que eu mesmo tinha criado.
Entrei no Lander e esperei que fizesse o mesmo. Assim que apertei o start, o som que estava desligado ligou e começou a tocar Unsteady, do X Ambassadors.
— Se quiser pode trocar a playlist — disse a quando entrou, já que a playlist era de músicas depressivas, então a vi sorrindo de leve e negando com a cabeça.
— Não, eu adoro essa música — respondeu de imediato.
A olhei de relance quando disse aquilo e uma parte minha gostou daquilo. Ficamos ouvindo a música em silêncio. A vi encostar a cabeça no banco e ficar olhando pelo vidro a paisagem que passava.
Cause I'm a little unsteady — cantarolou baixinho o refrão, inspirando profundamente, e a olhei de novo.
A little unsteady — sussurrei, voltando a olhar para frente e segurando minha cabeça com a mão que tinha o braço apoiado na porta. E isso fez com que me olhasse rapidamente, podia sentir isso.
Aquela música pegava bem na ferida. E eu nem sabia porque ainda a ouvia, ela me fazia sentir mais do que deveria, as coisas sangravam por dentro. Então a música acabou e começou Oceans, do Seafret, bem no momento em que abaixou o vidro, deixando o vento soprar seus cabelos para trás do mesmo jeito da outra noite. A olhei por breves segundos admirando a cena, ela parecia relaxar com aquilo, e, quando fechou os olhos, aquilo fez um sorriso mínimo aparecer em meus lábios. Ela não estava feliz que nem na última vez, era mais como se esperasse que o vento levasse sua melancolia para longe.
Então seus olhos voltaram a aparecer. E ela começou a brincar com o vento como uma criança fazia, colocando o braço para fora, e isso me fez soltar uma risada nasalada. Voltei a prestar atenção na estrada.
We hide our emotions — falei como se fosse comigo mesmo aquela parte da música.
Senti o olhar de em mim, e a olhei de relance para ver se estava tudo bem. Ela me pareceu distraída, pensando em algo enquanto deixava seus olhos passarem pelo meu corpo. Apenas voltei a encarar a estrada de volta.
— A Saphíra sem querer levou brinquedos eróticos para a creche semana passada — resolveu contar do nada, e isso me fez olhá-la, vendo um sorriso em seus lábios. Aquilo definitivamente me fez rir, e sorriu um pouco mais. Umedeci meus lábios, não acreditando que ela tinha tirado uma risada minha mais uma vez. — Você deveria fazer mais isso. — Apontou em minha direção, indicando a risada. Ergui uma sobrancelha e a olhei de rabo de olho, achando graça naquilo, mas sem rir novamente de fato. — Ficou ótimo em você. — Seu tom foi sincero, dando de ombros e sorrindo. Teve uma época que eu ria bastante, e sorria sempre, mas agora ela estava tão distante que nem me lembrava mais direito. Poderia ter respondido que não sabia mais como fazer aquilo, só que me limitei apenas em negar com a cabeça, no fim ficando levemente sem graça por ter “elogiado” meu sorriso. Não tinha nada demais nele, mas as pessoas sempre o admiravam e eu não entendia o porquê. — A cara da professora dela ao ver todas crianças brincando com plugues anais, vibradores e não lembro mais o que, mas a cara dela foi impagável. — Soltou uma risadinha.
— Deve ter sido engraçado. Você deveria ter gravado — comentei, relaxando um pouco.
— Deveria mesmo, mas ela tava brava. — Crispou os lábios como se tivesse com medo. Então virou seu corpo no banco para ficar de frente para mim, ainda sorrindo, e estranhamente não me incomodei com aquele fato. Era como se tivesse permitido que me olhasse. No final das contas acho que não tinha o que esconder dela, caso visse algo acho que dificilmente perguntaria. A sabia ser discreta quanto a isso, mantinha a descrição.
— Teria sido mais engraçado ainda — disse, imaginando a professora com muita raiva sendo gravada; provavelmente iria querer agredir a por isso. Eu adorava uma coisa mal feita, eram sempre engraçadas, talvez eu tivesse um humor negro que não devesse ser revelado. Ela no final concordou comigo dando uma risada baixa — Você fica ótima sorrindo. — falei agora quando ela sorriu abertamente. A loira fez uma pequena careta e achei engraçado, mas não cheguei a rir.
— Algo me diz que a Saph vai dar mais trabalho pra ela, então quem sabe na próxima eu não filme. — Abriu os braços em talvez. A olhei na esperança que fosse mesmo gravar a cara de ódio da professora quando Saphíra levasse mais alguma coisa que não deveria para aula, ou aprontasse qualquer coisa. Seria cômico e eu sem dúvidas queria ver aquilo, certamente me arrancaria alguma risada. Achei engraçado a careta que ela fez, mas não cheguei a rir. — Wow, faz tempo que alguém elogia meu sorriso — comentou, soltando o ar. Ergui uma sobrancelha, achando aquele fato estranho. era bonita, logo achei que deveria receber vários elogios, então me lembrei que certamente os caras deveriam chamá-la de gostosa e coisas pejorativas, bem coisa me macho babaca mesmo, era o que tinha aos montes por aí. Convivia com bastante gente do tipo para saber que eles só olhavam para o corpo das mulheres. — Obrigada. — agradeceu e apenas assenti. A olhei, vendo como sorria agora, e, mesmo fazendo bobeira, eu gostei de ver ela assim. Curtia ver as pessoas bem perto de mim, de mau humorado já bastava eu. Na verdade, ficar naquele humor sombrio tinha virado um costume do qual não conseguia mais me livrar, até porque nem via motivo para isso.
— Sinal que você está saindo com as pessoas erradas. — brinquei com ela, ouvindo a risada abafada que soltou.
— Também estou achando. Onde será que eu acho as certas? — a olhei, vendo-a batucar o dedo no seu queixo, brincando de volta enquanto me olhava com um sorriso divertido nos lábios, e gostei daquilo. Meus olhos voltaram para a estrada
— Olha, se eu descobrir, com toda certeza te falo — contei e a olhei rapidamente de novo. Pessoas certas, esse era o tipo mais raro de se achar. Eram especiais demais e geralmente o mundo acabava com elas antes mesmo de termos o prazer de conhecer.
— Ah, por favor! — reforçou o pedido, deixando o sorriso brincar em seus lábios com aquela brincadeira leve. Apenas concordei com a cabeça voltando a prestar atenção na estrada.
— Eu acho bonita a forma como você fala da Saphíra — disse, voltando no assunto anterior, e olhei novamente para rapidamente vendo que ela sorriu de forma imediata, e em seguida voltei a encarar a estrada à minha frente. Me perguntava se minha mãe falava assim de mim. De qualquer forma eu nunca saberia. — Tem muito amor e orgulho na sua voz. — Eu deveria parar de ficar reparando nas pessoas.
— Ela é a única parte boa em mim. — Não gostei do tom de voz que usou.
— Mentira — rebati e a olhei por alguns instantes com o cenho franzido. — Você tem mais coisas boas — contei como se fosse um enorme segredo, e ela retorceu seus lábios. — Não faz essa cara — repreendi, vendo a careta dela. Então puxei seu pé para que colocasse sobre minha coxa, e vi um sorriso leve formando em seus lábios. Deixei minha mão sobre sua canela enquanto olhava distraído para o asfalto, deixando com que meus dedos acariciarem de leve sua pele onde tinha levantado um pouco a barra de sua calça, e sua cabeça encostou no banco relaxado um pouco. — Temos a tendência de achar que não existe nada de bom dentro de nós, mas isso não é verdade. Sabe disso — disse como se a lembrasse das coisas boas enquanto intercalava meu olhar entre a estrada e , que agora tinha enchido suas bochechas de ar e ponderava sobre as minhas palavras. — Me fale mais uma parte boa sua — pedi.
— Não fiz cara alguma. — Brincou, achando graça por causa do meu tom de voz. — Eu sei cozinhar muito bem. — Sorri minimamente para aquilo, lembrando da pipoca que tinha me mandado, tinha ficado deliciosa. — Me conta uma coisa boa sua também — pediu um tanto manhosa.
— Sonsa — chamei enquanto olhava para a estrada. — Já é um começo — disse, e sabia que ela tinha mais coisas, e também sabia que não faria questão de ressaltar nenhuma. A vi dando um sorriso fechado e balançando a cabeça em concordância. — Minha? Eu não faço nada de bom. — Seus olhos se estreitaram em minha direção. Não esperava que fosse pedir de volta, aquilo me pegou de surpresa. Meus dedos apertaram o volante com mais força pensando sobre aquilo. Mordi minha bochecha por dentro e soltei o ar, relaxando. — Por mais insano que pareça, eu toco violino, ou tocava... — uni minhas sobrancelhas e vi as suas se erguendo em surpresa. Aquilo era algo bom, certo? Acho que uma das poucas coisas boas que eu já fiz um dia. Gostava de sentir as músicas, elas sempre eram tão cheias de sentimentos.
— Ei, olha o respeito. — Apertou seu braço levemente, deixando o sorriso crescer em vez de rir dessa vez. — Eu duvido muito disso. — disse bem sincera. — Violino? Pagaria pra ver você tocando, com certeza. — parecia uma criança curiosa e isso era engraçado, porque eu não estava incomodado com aquilo como geralmente ficaria com pessoas querendo saber sobre mim.
— Que respeito? Acho que ele foi embora. — disse e a olhei divertido quando apertou meu braço, abrindo sua boca como se tivesse ficado ofendida, então riu e negou com a cabeça. O engraçado de tudo aquilo era que minha raiva tinha passado. , com seu jeito, conseguiu me distrair. — Nem todo dinheiro do mundo. — respondi, vendo a mulher ao meu lado dar uma pequena risadinha.
Ela não me veria tocando. Ninguém nunca viu, sempre tocava à noite quando todos estavam dormindo e ninguém ouviria. Era como se tocar fosse um grande segredo, ou como se pudessem ver minha alma assim e descobrir que eu não estava morto por dentro.
— Vou imaginar, então. — Fechou seus olhos como se fosse fazer isso naquele momento mesmo, então abriu mais o sorriso, mantendo os olhos fechados por mais alguns segundos.
— Como você vai imaginar? Nem sabe se eu toco bem — rebati erguendo levemente as sobrancelhas em mera implicância.
Será que estava imaginando aquilo? Aquilo me fez olhar para frente. Era estranho saber que ela estava pensando em mim naquele exato momento tocando violino. Era algo que não deixava que as pessoas fizessem. Tentei não pensar nisso, mas sabia que mais tarde, quando voltasse daquela viagem, eu me pegaria refletindo sobre tudo aquilo, na forma como estava deixando como se aproximasse e descobrisse quem eu realmente era. conseguiu.
— Então devemos parar o carro e dar carona pra ele. — Se referiu ao respeito que tinha ido embora. Então a vi segurar a risada.
Apertei o freio rapidamente como se fosse parar para dar carona ao respeito, mas tirei o pé no segundo seguinte, quase fazendo cair do banco do carona. Ri bem fraco com o susto que ela tomou achando que algo tinha acontecido, se agarrando no banco e me olhando com os olhos arregalados. Então deu um tapa em meu ombro.
— Palhaço! — passou as mãos em meus cabelos, ainda rindo pelo susto.
A olhei de um jeito engraçado, vendo ela me mostrar sua língua e rindo em seguida. Não me lembrava se já tinham me chamado de tal forma alguma vez, afinal, eu não era de fazer brincadeiras. Tinha me perdido em mim mesmo há muitos anos, e não me lembrava mais como era antes de tudo. Eu sorria? Me permitia chegar perto das pessoas? Era solitário? Quem eu era antes? Parecia que tudo em mim tinha sido apagado. E aquilo me incomodou. Porque não sabia mais ser de outro jeito. Não sabia mais sorrir e deixar que me vejam.
— Obviamente que você toca bem. — Retrucou na mesma hora. E depois de um tempo voltou a abrir seus olhos e sorrir ao me olhar, sem dizer absolutamente nada.
— Se você diz, vou acreditar — falei sobre tocar bem. De qualquer forma eu achava que tocava bem, pelo menos gostava do que ouvia saindo das cordas do violino.
— Pode acreditar — falou confiante, sorrindo da mesma maneira. Então apenas assenti.
— É só você e a Saphíra? — perguntei, mudando de assunto agora.
— E o viado mais viado que existe em Bristol — respondeu, rindo em seguida. — O Julian é meu melhor amigo, ele mora comigo e me ajuda com a Saph. Ele fez a primeira palavra dela ser “cu”, isso não foi legal, mas ele é ótimo — contou sobre Julian em meio de risadas e sorrisos carinhosos, e por um momento não consegui tirar meus olhos daquela mulher, gostando do jeito que falava sobre seu amigo.
— Ainda não o conheci. — comentei. Não me lembrava de nenhum Julian. — Cu? — sorri minimamente como se risse daquilo, e ela concordou com a cabeça, rindo de novo. — Claro que foi legal. — Discordei dela, unindo as sobrancelhas de leve. — Falar mamãe ou papai é tão clichê, então Saphíra só provou que é sua filha e quebrou qualquer tipo de estereótipo. Única igual a mãe — falei o que achava sem deboche e nem nada, mas também não a olhei dessa vez, mas a ouvi rir.
— Julian vai crushar em você, com certeza! — afirmou, rindo baixinho. — É… acho que vou ter que esperar mais coisas do tipo vindo dela. — a olhei, vendo-a desviar o olhar encarando a estrada à nossa frente.
— Vai? Ele é gato? — perguntei fingindo estar bem interessado, mas a verdade era que não estava interessado em ninguém, mesmo que ele fosse o cara mais sexy e gato de Bristol. Eu só estava afim mesmo de passar um pouco do meu tempo com , ela fazia meu humor ficar menos pior. Ouvi a mulher ao meu lado soltar um risinho. — Com toda certeza. Ela é uma , afinal. — A lembrei, e sabia que Saphíra faria ótimas histórias assim como sabia algumas de sua mãe.
— Uhum, muito gato e tem uma bunda linda. — Seu tom de voz tinha total sinceridade, então realmente acreditei nela. — Coitados dos crushes dela, então. — A olhei querendo rir e vi seus lábios crispados demonstrando que não tinha dó alguma.
— Ah, tem? Vou querer conferir qualquer dia — respondi de um jeito engraçado, sem ligar se ela desconfiaria que eu gostava de ficar com caras, que era outro fato que quase ninguém sabia também. Eu era reservado demais e estar deixando que soubesse mais sobre mim era algo novo. — Ela vai acabar com muitos corações. — comentei e olhei para a loira ao meu lado como se insinuasse que ela fazia a mesma coisa, que me encarou bem nos olhos.
— Não vai se arrepender. — Garantiu, ainda usando o mesmo tom de voz que eu usava. Apenas concordei. — Ela certamente vai, mas sem esses olhares aí pra mim, hein. Eu sou só uma stripper inocente. — Aquela frase não fazia sentido algum, e nos fez rir.
— Alguém já te disse que a palavra stripper e inocente só andam na mesma frase se tiver um não entre elas? — perguntei com um leve deboche, deixando o sorriso em meus lábios ainda por alguns instantes.
— Tudo bem, tudo bem. Você me pegou, não sou uma stripper inocente. — Fez um biquinho como se fosse culpada por isso, rindo em seguida.
Neguei com a cabeça com um sorriso bem sutil em meus lábios. Nem de muito longe ela era inocente, mas talvez eu só tivesse essa impressão por ter conhecido ela vestindo apenas uma calcinha em uma festa. De qualquer forma aquilo não me conduzia ao respeito, o que importava era quem estava sendo comigo. O resto era só um grande foda-se.
— Posso te pedir uma coisa? — retorceu seus lábios ao olhar de uma forma indecisa.
— Depende do que é. — Deixei claro que não faria qualquer coisa, eu não era do tipo que fazia coisas que não queria; se fosse relevante poderia fazer, e claro, se fosse do meu agrado. Como Ralph dizia, eu só fazia o que tinha vontade, não adiantava me obrigar a nada, e que eu era que nem um burro chucro. balançou a cabeça em concordância.
— Não tem problema se você não topar, sério — disse antes de pedir, soando bem tranquila mesmo.
O suspense me deixava curioso. O que eu podia oferecer a ela? Não via nada em que fosse realmente útil para , a não ser quebrar a cara de algum babaca. Isso eu sabia fazer muito bem
— Eu queria aprender a me defender melhor sem ter que usar aquela arma debaixo do meu travesseiro. — O pedido estava embutido nessa confissão. — Eu me envolvo com muitos babacas por causa de quem eu sou e do meu trabalho e eu nunca usei aquela arma, mas eu sinto que talvez um dia… Enfim. — A encarei por alguns segundos, vendo-a rolar seus olhos. Eu a entendia. As pessoas eram perigosas, e infelizmente, por ela ser mulher, os caras tiravam proveito.
— Ok — respondi simplesmente. — Eu te ensino. — A olhei rapidamente e deixei minha mão apertar de leve sua canela, vendo um sorriso vir em seus lábios e seu olhar se suavizar. — Mas sabe que se tiver algum problema pode me chamar. — Lembrei disso. Eu sabia muito bem como homens reagiam quando alguma mulher os agredia, eles agiam ainda com mais agressividade, e, sabendo brevemente como era , ela poderia ser quem morreria em uma situação dessas. A ideia não me agradou muito, de saber que ela poderia se machucar de verdade.
— Eu adoraria ver você socando alguns babacas que passaram na minha vida mesmo, confesso. — Foi sincera, suspirando pesadamente e rindo amargamente por isso.
— Eu adoraria que me apontasse eles para ter o prazer de fazer isso. — Deixei um esboço de meio sorriso nascer no lado direto de meus lábios. Então vi o sorriso de lado vir em seus lábios.
— Seria ótimo pra mim e uma perda de tempo total para você — falou e eu neguei com a cabeça. — Igual sexo, uma perda de tempo pra mim e ótimo pra eles. — Rolou os olhos com isso, dando de ombros.
— Não seria perda de tempo, eu gosto mesmo de socar a cara de uns idiotas. — Dei de ombros, aquilo era verdade, e com toda certeza iria me satisfazer por saber que aqueles idiotas estariam recebendo o que realmente merecem. — Pelo menos você arranca a grana deles. — Aquilo pelo menos tinha que ter um lado bom. No meu caso nem dinheiro eu tirava deles, eu só ia embora mesmo puto da vida comigo por ter feito aquela merda. Adorava o quanto era bom em escolher pessoas para ficar, eu sempre queria ficar com a pior possível. Nunca entendi porque me atraio por imbecis.
— Ótimo, tem um que mora no meu prédio mesmo. — Sorriu maldosa, negando com a cabeça em seguida. A olhei de uma forma interessada. — De alguns sim — concordou sobre a grana.
— Me fala qual é o apartamento dele que vou fazer uma visita — pedi e eu iria mesmo. Então a vi olhar para frente enquanto enrolava uma mecha de cabelo. — Ele já mexeu contigo? — perguntei sobre o vizinho dela. Se ele tivesse feito algo, aí sim seria bem pior para ele. — Só foi babaca, mas ele é com todo mundo. Não ligo dele ser babaca comigo, mas a esposa dele não merece — contou. Em breve seria um babaca sem dentes. — Ele mora no 302 — falou de uma vez, ainda encarando a estrada vazia à nossa frente. Afirmei com a cabeça gravando o número. Faria uma visita qualquer hora.
— Algum cara já chegou a te bater? — Não sabia se queria mesmo ouvir aquela resposta, ela poderia me deixar irritado mesmo que não pudesse fazer nada a respeito. — Se não quiser responder, tudo bem — disse rapidamente. Às vezes as pessoas tinham vergonha de falar sobre isso. Coloquei uma mecha de cabelo para trás.
Percebi que ela tinha ficado tensa com a minha pergunta e me odiei por isso. Era bom em ficar calado, então deveria ficar assim. Não gostava de me meter na vida dos outros e agora tinha acabado de fazer isso. Ótimo, La Rose, você está de parabéns. A vi negando com a cabeça, e isso me fez segurar o volante com mais força, praguejando mentalmente agora. Fiquei meio que estático quando senti sua mão em meu rosto, até que colocou uma mecha atrás de minha orelha. Deixei o ar entrar lentamente em meus pulmões e meus olhos se fecharam muito brevemente quando as costas de seus dedos passaram por minha pele. Tinha tanto tempo que não sentia esse tipo de contato que era estranho agora. Carinho. Eu não sabia mais como receber isso depois de tudo. Mas sua mão logo recuou, me fazendo abrir os olhos, encarando a estrada, e soltar o ar.
— Não, nenhum nunca chegou a me bater — Sua resposta me deixou calmo, e minha mão que apertava o volante com força se suavizou. — Mas... — aquilo me fez olhá-la por um breve instante, sentindo meu corpo ficar tenso de novo. Seus olhos estavam fechados. Era como um letreiro brilhante, tinha algo errado. Alguma coisa aconteceu com ela. Eu não deveria ter tocado no assunto. — A Saph é filha de um estupro — contou, abrindo seus olhos, que se tornaram vazios.
O que saiu de sua boca me pegou desprevenido. Fiquei totalmente sem reação. Meus olhos se voltaram ao asfalto na nossa frente. Só que algo se revirou dentro de mim, e eu apenas parei o carro no acostamento para respirar fundo. Continuei olhando para frente tentando organizar as coisas dentro de mim, tentando encontrar uma reação que não fosse a de pura raiva e ódio por saber que fizeram tal coisa horrível com ela.
Soltei o volante, sentindo meus dedos doerem por ter segurado muito forte, então olhei para , sério, com a minha típica cara. Claramente me olhava sem entender nada que eu estava fazendo, mas logo veria. Eu simplesmente não conseguia falar nada naquele segundo. Então apenas me virei e sai do carro, dando a volta por ele e abrindo a porta do carona, já segurando sua mão e a trazendo para fora, e a única coisa que fiz foi lhe abraçar. Um abraço forte como se fosse apagar aquele fato.
Deixei meu rosto se esconder na curva de seu pescoço. Lamentar não faria com que esquecesse aquilo e minhas palavras jamais fariam as coisas melhorarem, e sabia que nem aquele abraço faria, mas eu era bom usando elas para demonstrar as coisas. Ela ficou ali, parada. Até que seus braços me envolveram de volta. Mais alguém sabia daquilo? Provavelmente seu amigo Julian. Guardar algo do tipo era pesado, e carregar aquilo deveria ser algo sufocante.
Seus braços vieram e me abraçaram apertados e eu a puxei para mais perto, deixando nossos corpos totalmente colados. Seu corpo foi relaxando aos poucos. Senti suas mãos subirem suavemente até minha nuca e seus dedos se perderam ali de um jeito bom. Deixei minha respiração pesada sair. Afaguei suas costas. não precisava falar nada, só pelo jeito como me abraçava eu já sabia como estava se sentindo, estava me agradecendo por aquilo. Então, no fim, meus braços a soltaram e me afastei um pouco, olhando dentro de seus olhos , vendo soltar o ar de forma calma, olhando bem dentro de meus olhos. Minhas mãos subiram para as laterais de seu rosto, e seus olhos se fecharam. Levei lábios meus até sua testa, tocando sua pele com sutileza. Meus dedos colocaram seu cabelo para trás da orelha. Seus olhos abriram e me olharam mais uma vez.
— Vamos. Ainda falta uma hora para chegarmos — avisei, vendo seu olhar confuso, mas concordou com a cabeça, já entrando no Land Rover.
Dei uns passos para trás, dando a volta no carro e entrando no lado do motorista, já apertando o start e voltando a dirigir em direção a Londres. Vi encostar a cabeça na janela dessa vez e olhando para a estrada durante o caminho. Ficamos em silêncio por um bom tempo apenas ouvindo a música do carro tomar conta de um jeito gostoso.
Começou a tocar Howling, do RY X.
Hot nights coming, keep the car running — Cantou junto com o cantor. Olhei para curtindo a voz dela. Seus olhos se abriram e sua cabeça balançava bem suavemente de um lado para o outro conforme a música que era bem calma e gostosinha. — Cold I fell into your skin on the night you led me under your sin
Um sorriso de lado veio para meus lábios ouvindo a segunda parte que cantava. Ela abriu levemente um sorriso e virou seu rosto em minha direção. Meu olhar divertido caiu rapidamente para seus dedos, que tocavam meu braço como se fosse um sintetizador ou quem sabe um piano.
Voltei a encarar a rua, vendo ela começar a tomar outra forma. Londres. Tínhamos chegado. Dirigi procurando uma vaga. Assim que achei, desci do carro e esperei que fizesse o mesmo, então, quando desceu, a menina olhou para os lados totalmente maravilhada e isso me agradou. Dava para ver uma luz em seu rosto, e parecia uma doce criança naquele momento. Ela só faltava rodopiar para ver tudo de uma só vez. Meu coração pareceu ter vida naquele momento, já que esquentou por ver que tinha feito algo bom. Estendi a mão em sua direção e, assim que a pegou, começamos a andar indo em direção a London Eye.
— Já foi ali? — perguntei apontando para a enorme roda gigante, e ela olhou para lá maravilhada, negando com a cabeça.
Só tinha ido ali uma vez quando era pequeno. Foi quando eu fui visitar minha avó, mas no mesmo ano ela morreu e nunca mais voltamos.
— Nunca — respondeu mesmo assim, e me olhou em expectativa.
— Então fico contente em ser o primeiro — disse contente.
Olhei para o lado rapidamente ouvindo as cordas de um violino começando a serem tocadas alto, provavelmente através de uma caixa de som. Vi rapidamente qual seria o horário de fechamento da London Eye, tínhamos tempo de sobra. Puxei comigo sem falar nada, até que paramos em uma roda que estava começando a ser formada. Soltei a mão dela automaticamente caso quisesse comprar algo ou se afastar também.
Meus olhos foram para a menina que aparentava ter uns doze anos que tocava violino. Meu olhar se fixou nela, sentindo a melodia me acertar com muita força, porque não era qualquer uma, era Lovely, da Billie Eilish. A letra, me lembrava perfeitamente de cada palavra. E ela se encaixava tão perfeitamente com o dia de hoje, comigo, com nós.
Fechei meus olhos brevemente visualizando cada corda sendo tocada as cordas, os dedos no braço do violino, a madeira, o arco correndo de um lado para o outro suavemente, e como aquilo entrava dentro de meu peito. Wanna feel alive, outside I can fight my fear. Isn't it lovely, all alone. Heart made of glass, my mind of stone. Abri meus olhos, sentindo eles queimarem, e me minha respiração perdeu o compasso, ela se tornou pesada e arrastada, e não me deixava engolir nada, nem meu próprio ar, então a prendi brevemente, assim como tudo o que eu sentia, ainda vendo as coisas ficarem levemente embaçadas. Need a place to hide, but I can't find one near. Não existia um lugar. Era só isso.
Umedeci de leve meus lábios, ainda olhando a garotinha tocando, e eu só conseguia ouvir ela, aquela melodia, e mesmo se o mundo estivesse caindo à minha volta, eu não teria a menor reação. Senti os dedos de em minha mão, e por um milésimo de segundos recuei apenas por ter sido trazido de volta a realidade, mas no momento seguinte deixei meus dedos deslizarem por entre os dela de forma suave
— Eu consigo te ver, sabia? — sua voz saiu por meio de todas aquelas notas finais. — E você é lindo. — Fechei meus olhos, suspirando ouvindo o que ela havia dito.
Tinha sido pego de guarda baixa pela mulher que todos em Bristol julgavam não ter segredos. Só que isso não era verdade, eu via mais mistérios em do que em um quebra cabeça de cinco mil peças. Ela tinha segredos sombrios, assim como os meus, e sabia que não era porque a tinha conhecido agora, era bem mais que isso. Poderia perguntar a qualquer um de Bristol sobre aquela mulher, e saberia perfeitamente qual seria a resposta de todos. Quem era ? era a garota que tinha visto quem R. era por alguns segundos, talvez a única pessoa viva que tivesse visto.
Abri meus olhos e deixei meu olhar recair sobre ela, tinha muitas coisas dentro de meus olhos naquele segundo, não era mais o vazio que sempre estava presente, realmente deixei que visse, não importava. Tinha dor ali, e estava tudo bem naquele momento. Seus olhos estavam olhando dentro dos meus de volta, sem máscaras, sem frieza, só verdades. Apenas nós dois ali no meio da multidão, e apesar disso parecia que estávamos sozinhos, talvez em nosso próprio mundo onde ninguém pudesse nos ver ou ouvir. Não estava me importando com as outras pessoas naquele momento, porque para mim simplesmente não existiam. Nem ao menos conseguia ouvir as cordas do violino da menina que tocava.
Sua língua percorreu seus lábios, os deixando lustrosos, e seus olhos se estreitaram quando perceberam o que tinha dentro dos meus. Pensei em desviar o olhar, mas ela me prendia, seus olhos me prendiam como cordas em uma âncora que estava no fundo do mar. Sentia minhas emoções dançarem em meu peito, dor, medo, tristeza, e até mesmo paz, só que essa era nova por ali, mas não se importava com as outras, ela também queria seu lugar. Ali todas juntas brigando para quem ficaria com a maior parte, e eu gostava disso, de sentir, me lembrava de que ainda estava vivo. me olhava de forma destemida, sem medo, ela não queria correr, ela queria ficar ali e ver mais, e eu deveria dizer não, mas tinha certeza que aquela mulher não iria embora, e de qualquer forma não queria que fosse.
— As vezes quando gostamos de algo temos tendência a achar aquilo bonito — falei sabendo que não tinha nada de lindo em minha alma tingida de vermelho, mas compreendia ela, entendia porque tinha dito aquilo. — Mesmo que seja um reflexo distorcido nosso em cima da água. — Virei de frente para . Diria que estava surpresa se não tivesse parecido feliz por reconhecer algo no que eu dizia, e sabia que veria isso. reconheceria aquilo, porque ela era assim também. — Ele continua sendo lindo. — As pontas dos meus dedos tocaram de leve seu rosto, vendo seus olhos se fecharem e minha cabeça tombou ligeiramente para o lado, olhando seu rosto com atenção, percebendo como estava relaxado, admirando sua paz naquele momento e trazendo ela para dentro de mim também. — Porque no fundo nós amamos o que somos mesmo quando o mundo ao nosso redor seja um caos. — Meus olhos seguiram o caminho que meus dedos fariam, deslizando por sua bochecha e maxilar. Seus lábios entreabertos deixaram um suspiro sair por eles leve como aquela menina estava, e eu compartilhava da mesma sensação. Seus olhos voltaram a se abrir encarando os meus de volta como se fosse um abismo.
— E assim como eu. — Apontou para si, deixando seus olhos caminharem calmamente em meus traços até voltar para os meus olhos. Concordei brevemente com a cabeça me limitando apenas em um balançar. — Você também deve achar beleza e arte no caos. Combinamos com ele porque só nós dois sabemos o quão maluco é aqui dentro. — Prendeu seus lábios. Seus dedos tocando minha têmpora me fez fechar os olhos brevemente. Assim como ela, assim como eu. O caos era o que fazia nossos olhos brilharem, nosso sangue ferver, nossas vidas girarem. Ela sabia disso tanto quanto eu e amava aquilo. — Eu não sei o que você vê quando olha para o seu próprio reflexo. Mas o que eu vejo quando olho para você me atrai. Se isso é bom? — levantou os ombros em sinal de que vai saber, mas alargou o sorriso para o lado. — Sua bagunça combina com a minha e já sabemos disso. Nossos olhares conversam sem nossas permissões. — Soltou uma risadinha ao confirmar aquilo em voz alta, deixando seu olhar se prender no dele. Suas palavras tinham razão.
— Insanos. — A palavra saiu como se descrevesse tudo o que éramos. Porque aquela palavra era a única que se encaixava na nossa loucura. — Eu vejo você — respondi abrindo meus olhos. Meu reflexo era aquela mulher e não precisava de muito para saber disso quando conseguia ver as coisas tão nitidamente. E pela primeira vez concordei com os pensamentos de alguém quando achava que os meus eram os únicos que faziam algum sentido. Prendi meus lábios em uma linha reta. — Não me importo com o que dizem sobre você. Você vai se importar com o que vão dizer sobre mim? — perguntei sabendo qual seria a resposta, mas uma parte minha ficou com medo de ser outra que eu sinceramente não queria ouvir. Ela sorriu, e não precisava ser um sorriso largo para saber que tinha gostado do que eu havia dito.
Nós dois éramos problemas, e sabíamos muito bem que problema atraía mais problema, só que tinha ciência de que tinha a perder se eu continuasse por perto, enquanto eu não tinha nada. Quando desistimos de algo é quando achamos o verdadeiro tesouro. Você passa anos esperando por algo, o tempo te leva arrastado enquanto os berros dos dias passam te ensurdecendo, te deixando completamente perdido, surtado, sem saber para onde ir, sem ter a menor ideia de como parar aquilo. Até que então você para de esperar, e deixa o tempo te levar como uma maré mansa. Os dias viram noite e as noites viram dias, tanto faz se o céu está azul ou preto, você o aprecia do mesmo jeito. O tempo passa a andar contigo e não contra você, e é aí que as coisas se tornam belas. Belas como as cores dos olhos de . Límpido como o mar.
— Insanos — repetiu, deixando o brilho em seus olhos mostrarem como concordava com aquilo. A palavra saiu de seus lábios com intensidade, na medida perfeita. Gostei de como soou, parecia uma melodia agradável, assim como cordas de um violino sendo tocadas. Seus dedos seguram minha mão, meus olhos seguiram seus movimentos e minha pele sentiu seus lábios quentes e macios sobre ela em um beijo singelo. Meu olhos sorriram, se fechando minimamente. Ela deixou um beijo em minha palma, aumentando mais o sorriso. — Jamais — respondeu então.
não se importaria, era só isso que eu precisava saber quando grande parte da minha vida foi cercada por pessoas que se preocupavam demais com o que os outros falariam. Ela sabia que eu arrastaria problemas por aquela cidade, devido à minha personalidade e coisas que fazia, e, ainda assim, não ligaria. Ela tinha um sorriso bonito, e gostava da forma como fazia aquilo de um jeito tão solto. Apesar do caos, ainda sorria, e isso a deixava ainda mais incrível. Seu sorriso era como uma rebelião contra o mundo à sua volta. Enquanto todos choravam ou lhe apontavam o dedo lhe acusando de algo, ela não abaixava sua cabeça, sorria, forte e inabalável. Mesmo que eu tenha visto uma de suas quedas de perto, ainda assim ela estava de pé. E se pudesse a ajudaria a continuar dessa forma por mais que tentem arrastá-la para baixo.
— Eu sou gay, — contei e segurei a porrada que senti em meu peito por dentro.
Sua boca se abriu. Sua expressão me fez querer rir. Tinha acabado de quebrar o clima, sabia disso, mas me conhecia bem para saber que poderia entender aquilo de outra forma, e também sabia que eu era imprevisível o suficiente para ser impulsivo e fazer algo. De qualquer forma, só não queria que criasse expectativas comigo quando eu era uma caixa de Pandora, nunca sabia o que faria ou deixaria de fazer, apenas vivia o que sentia vontade no momento. Um fato era que sentia atração física por homem, outro fato era que poderia sentir atração por ela de uma hora para a outra por ser quem ela é, mas não precisava saber disso. Arregalei meus olhos quando a menina sorriu e pulou em meu pescoço, e fiquei sem reação com aquilo, sentindo seus braços ao meu redor, até que minha mão foi até o meio de suas costas.
— Por isso que nos damos bem — comentou, e eu simplesmente sorri ao ouvir aquilo. — Eu sou casada com um, então... — abriu os braços, deixando sua cabeça tombar para o lado e deixou uma risadinha escapar. Uni as sobrancelhas e minha cabeça deu um nó. Achei engraçado aquilo, mas não perguntei nada. Neguei com a cabeça. — Ei, podemos ser quem somos de verdade perto um do outro. Eu nunca vou te julgar por ser quem você é e eu sei que você nunca faria isso comigo. — Sorriu sincera de forma sincera, piscando um olho em seguida. — E já que estamos sendo sinceros e eu estou muito feliz por você ter me contado isso. — Parou de novo na minha frente. Umedeci meus lábios e cruzei meus braços quando começou a mexer suas sobrancelhas. — Você aceitaria ser meu padrinho de casamento? — juntou as palmas de suas mãos na frente do seu rosto, esperando minha resposta.
— Não é verdade isso. — Rebati. — Nos damos bem pelo que somos, não pelo que eu pego. — A corrigi. Aquilo não influenciava em nada quando eu dificilmente me dava bem com as pessoas. — Já somos nós mesmo perto um do outro. Mas fico contente que esse fato não tenha mudado o que pensa — falei e mordi minha bochecha querendo rir da cara que fez. — Mas você já não é casada? — perguntei quando minha confusão mental já começava a berrar.
— Eu sei, mas é que garotos héteros têm tendências de serem babacas, acho que chega a ser inevitável para eles — disse rindo um pouco. — Nada mudaria o que eu penso. — Manteve o sorriso nos lábios, me olhando ele em seguida. — Sou, Julian e eu nos casamos no papel há um tempinho atrás — respondeu. Afirmei com a cabeça. Isso me fez ficar surpreso. — Mas decidimos oficializar com uma festa de arromba mesmo. Então... por que não ser meu padrinho? — ergueu uma sobrancelha com o convite. Coloquei as mãos dentro dos bolsos traseiros de meu jeans ouvindo falar sobre o casamento e a festa.
— Pessoas são babacas. Hétero com mulher gata é pior ainda — comentei de um jeito divertido. Conheço bem como eram, via de perto como chegavam e como tratavam as mulheres, até mesmo como me tratava quando ficava com algum que se dizia pseudohetero. Todos babacas. Me perguntava ainda porque me relacionava com as pessoas, mas olhar para a ali me deu uma resposta. Eu esperava encontrar alguém como ela. Mas pessoas como aquela menina eram raras, e sinceramente não estava afim de perder ela por algo idiota, então era melhor assim. Ela abriu um sorriso fechado, concordando. — Eu estava dando em cima de uma mulher casada? Sou uma vergonha mesmo. — brinquei com aquilo. acabou rindo da brincadeira e negou levemente com a cabeça. — Bristol ficará chocada com o casamento. Não posso perder isso. E aceito sim ser seu padrinho. — A puxei para perto, vendo o sorriso enorme que deu, e lhe dei um abraço, encostando meu queixo no topo de sua cabeça. As coisas tinham sido rápidas, mas não me importava com isso, porque sabia que era verdadeiro e nada disso diminuía a intensidade delas, só fazia ficar maior. O tempo ali não queria dizer nada. Não precisávamos de números para sentir qualquer coisa, só sentíamos.
— Obrigada pelo "gata". — Fez uma reverência lisonjeada e até exagerada com o elogio para zoar também. — E sim, eles são babacas mesmo, as pessoas em geral também. Natureza humana talvez. — Divagou sobre isso. — Ah, relaxa, ele não é ciumento. — Devolveu e brincadeira, voltando a rir. — Obrigada por aceitar. Vai ser ótimo ter você lá! — falou baixinho entre o abraço, fechando seus olhos só por alguns segundos.
— Disponha, madame. — Brinquei com ela imitando a reverência, que fez uma pose de madame mesmo, mantendo seu olhar com aquele brilho leve. — Eu sou babaca a maior parte das vezes — comentei. O que me fazia questionar o por que não tinha sido babaca com aquela mulher. — Ainda bem que não. — respondi de volta. — E ele teve sorte, eu também não sou ciumento — disse em tom de brincadeira, mas parei, a olhando de novo. Talvez estivesse mentindo sobre aquilo, ou não, eu só sabia que ficava puto quando via meu ex com outra pessoa. Não sabia se poderia definir isso como ciúmes ou ego ferido, acho que a segunda opção era mais válida. Eu tinha tantos sentimentos dentro de mim que às vezes era difícil distinguir o que era exatamente o que. Eu só gostava de sentir, e pronto. — Vai ser ótimo te ver feliz. — Fui sincero.
Se ser o padrinho dela fosse a fazer feliz, eu faria todas as vezes que me pedisse. Queria que recebesse tudo de bom que o universo poderia lhe dar, ela já tinha passado por coisas demais, e, mesmo que não soubesse nem do começo, sabia como aquilo tinha a ferido. Então pegaria todas as oportunidades que achasse para mudar algo e a fazer sorrir, ela merecia aquilo. Seus sorrisos vinham e os meus queriam sair. Ela me contagiava. E eu gostava disso em nós.
— Aposto que é só mais um ponto do seu charme — respondeu meu comentário sobre ser babaca a maior parte do tempo. Ergui uma sobrancelha com isso. — Que delícia isso de não serem ciumentos, bom que eu aproveito. — Sorriu sapeca, rindo baixinho. Neguei com a cabeça como se demonstrasse que era feio o que estava fazendo, se aproveitando de nós dois. — Uma pena que não posso dizer o mesmo de mim. — Fez um biquinho de lamentação, dando de ombros em seguida. — Já estou feliz demais por você ter aceitado. — respondeu, mostrando sua empolgação para o dia.
— Tenho mais pontos? — perguntei curioso sobre aquilo, logo eu que não ligava para o que achavam, mas a opinião dela valia para mim. Seus olhos encararam os meus. — Devo avisar isso ao Julian? — falei do cara como se o conhecesse há muito tempo, mas eu tinha essa impressão por causa de , da forma como falava dele. Ela segurou o riso. — Então você é ciumenta. Bom saber, isso será divertido. — Brinquei lhe lançando um olhar de quem tiraria proveito daquilo, e talvez não fosse totalmente mentira. Às vezes eu gostava de provocar quando tinha paciência para isso. Ela semicerrou seus olhos em minha direção.
— Não revelarei todos. — Ficou me olhando como se analisasse mais e até mordeu o canto da minha boca. Pendi a cabeça de lado fazendo um leve bico como se aquilo fosse fazer falar qual era um de meus charmes. E ela sorriu divertida. — Mas outro ponto são esses olhos verdes intensos, com certeza. — Voltou a sorrir levemente. Isso me fez soltar uma lufada de ar pelo nariz e abaixar a cabeça, negando, fazendo meu cabelo cair sobre meu rosto. — Avisar que estou aproveitando de vocês? Que maldade sua. — Fez um biquinho de menina inocente que estava arrependido pelos pecados, mas piscou rapidamente um dos seus olhos, voltando a sorrir divertida. Até parece que ela se arrependia de algo. Tive vontade de sorrir. — É como colocar lenha na fogueira e ainda jogar álcool, hein. — Alertou, sendo sincera com aquilo apesar de ter dado risada.
— As pessoas não costumam reparar em meus olhos, na verdade elas os evitam — contei. Sabia que tinha algo nos meus olhos que faziam as pessoas desviarem, mas continuava me surpreendendo a cada segundo, e ela olhava dentro deles, sem medo. Gostava de como fazia isso. — Nunca disse que era bom. — Ergui minhas sobrancelhas. Ela fez um “u” com minha boca em seguida. tinha uma alma de criança, leve e bonita. — Adoro ver o parquinho pegando fogo mesmo. — dei de ombros e lhe lancei um olhar, pela forma como me olhou de voltar, soube que estava falando a verdade. soltou uma risada alta.
— Hm, dizem que os olhos são os espelhos das nossas almas. Será que elas têm medo de olhar para sua? — balançou as sobrancelhas, sorrindo levemente. — Elas não sabem o que tão perdendo. — Um sorriso pequeno veio em meus lábios. — Ótimo, o bom é sem graça mesmo. — Piscou um olho em apreciação, e neguei de leve com a cabeça a olhando de forma divertida. — E eu adoro tacar fogo no parquinho mesmo. — Dou de ombros sorrindo de canto.
— Pode ser que sim. Mas não me importo com isso. — Declarei por fim. — Sempre soube disso. — Vem, vamos na London Eye agora. Você vai gostar das luzes. — A soltei e peguei em sua mão, a levando daí.
— Tenho certeza que sim mesmo — respondeu entusiasmada e toda boba.
Então notei a forma leve que me sentia naquele momento com . Um dia já me senti assim? Eu mesmo, sem precisar me esconder? Não sabia para ser sincero, mas sabia que tinha gostado daquela sensação. Era como fechar os olhos e sentir uma melodia que me acalmasse. Permaneci alguns segundos olhando para o rosto da mulher ao meu lado pensando naquilo, sentindo aquilo. Estava me divertindo ali, tornava as coisas mais fáceis. E então entendi o que queria dizer se sentir em casa. Casa não era um lugar, casa era uma pessoa. Sorri, um pequeno sorriso que quase não dava para ser notado.
Caminhamos até a London Eye, e furei a fila descaradamente. Odiava esperar. A garota atrás de mim reclamou, mas apenas a olhei com minha típica cara de ódio, e ela se calou. acabou rindo baixinho do meu lado e apertou de leve minha mão, me fazendo rir nasalado. Afaguei o dorso de sua mão e dei um cheiro em seu ombro. Percebi se divertindo, ela gostava de uma coisa errada mesmo, e vai ver que era por isso que tinha gostado de mim.
— Você é adorável mesmo. — Brincou, então mandou um beijo pelo ar para a menina e segurei o riso..
— Obrigado — disse com um leve tom de deboche, e ela riu maldosa.
Paguei os ingressos e puxei para correr comigo até a fila da cápsula, que pelo menos era pequena; ela deu um suspiro empolgada e animada. Logo entramos, e por fim soltei sua mão. Caminhei até a ponta. Fiquei olhando , que entrou e girou ali no meio da cápsula totalmente maravilhada com o que via. Coloquei as mãos no bolso da frente de minha calça enquanto a observava, e só depois notei que tinha surgido um pequeno sorriso em meus lábios.
— Vem cá — chamei sem tirar os olhos do lado de fora agora. A cápsula já começava a se mover, subindo um pouco para que as próximas pessoas embarcarem.
Assim que chegou, suas mãos repousaram na barra de segurança, passei por trás dela a cerquei com meus braços sem a tocar, segurando a barra também e afastando meu corpo para ficar quase da sua altura, quase apoiando meu queixo em seu ombro, deixando nossos rostos um do lado do outro enquanto olhávamos para fora.
— Feche os olhos e pense em um sonho o qual deseje que se torne real — pedi em um sussurro, deixando minha voz sair levemente rouca, vendo seus olhos se fecharem. — Qualquer coisa. Pode ser o impossível. — disse fechando meus olhos também. — Dentro do nosso mundo tudo é possível. — Eu ouvia sua respiração descompassada por tamanha empolgação. Esperei por sua resposta.
— Um mundo onde as pessoas pudessem ser quem elas quisessem ser, um mundo onde todos pudessem fazer as coisas e não serem rotuladas por seus atos. — Divagou sobre seu desejo profundo e negou levemente com a cabeça. Meus olhos abriram. E sua resposta fez meu peito se apertar. Aquele mundo que ela desejava era o mesmo que eu queria que fosse real. — Quero ter você na minha vida não só nos momentos difíceis que estou surtando debaixo do chuveiro, mas sim em dias em que eu quero compartilhar minhas alegrias com você. — Soltou com sinceridade, abrindo seus olhos e encarando a cidade parecendo menor por estarmos na altura. Aquele segundo pedido me pegou de surpresa. — Quero poder ver mais esse sorriso bonito que você tem. — Olhou para mim, sorrindo suavemente, e então voltou a encarar a paisagem. — Sua vez.
— Então... — falei e coloquei minha mão direita sobre a dela, a que tinha a rosa. Pude ver seu olhar descendo para aquele toque. — esse é o nosso dia 1 de momentos de alegria. — Aquilo soou engraçado, porque nunca me imaginei falando tal tipo de coisa. Alegria não era algo que rodeava minha vida, e talvez nunca tivesse acontecido antes. Era algo difícil de lembrar. Mas sorriu. — Não posso prometer, meus sorrisos têm vida própria, mas garanto que eles aparecem às vezes — contei e respirei fundo. Ela sorriu mais e assentiu. — Devo fechar os olhos também? — perguntei umedecendo os lábios e sorrindo fraco, já buscando algo em minha mente.
— Merecemos mais momentos assim — comentou, suspirando. Olhei para a minha mão sobre a dela, e isso até me trouxe um certo conforto, pelo menos não tinha a tirado dali e se afastado. — Fico feliz em já ter visto alguns deles. — Abriu mais seu sorriso e olhou para a vista abaixo de nós. Afirmei com a cabeça e deixei meu polegar passar pelas costas de sua mão. — Sim, por favor — respondeu sobre fechar meus olhos. Quando fechei os olhos soube que ela estava me olhando, e esse fato não me incomodou também. Me sentia seguro perto dela, talvez fosse isso.
— Uhum. — Merecíamos mesmo, ela merecia bem mais do que eu. Queria ver seu sorriso contagiante mais vezes. — Ser feliz. — disse simplesmente.
Apesar de tudo, o que eu mais sonhava era em ser feliz, e isso eu sabia que nunca conseguiria ter, mas ali dentro eu podia ser feliz por alguns minutos, poderia me permitir isso sem que me sentisse culpado e egoísta. Deixar toda a minha vida de fora daquela bolha e só viver um pouco aquele momento, sorrir e apreciar o sorriso da . Olhar a paisagem e deixar que tudo aquilo me tomasse, sem passado, sem futuro, apenas o presente. Queria aproveitar nossos sonhos, e fazer eles virarem reais. Pensei nos olhos dela. Tons , seus tons, os tons de . Ela ia do mais escuro ao mais claro. Das sombras à luz.
— O que eu puder fazer pra te ver feliz, eu com certeza vou fazer sem medir esforços. — Fiquei feliz por ouvir aquilo de quando ninguém mais ousou fazer o mesmo. Não esperaria nada dela, mas a intenção já tinha sido boa, e ela tinha acabado de me deixar feliz. Abri meus olhos. Senti sua outra minha outra mão repousar sobre a minha que estava em cima da sua, deixando seus dedos seguirem os traços de minha tatuagem. Ela se virou e eu pude olhar dentro de seus olhos , e lá estava seu magnífico sorriso. Então eu dei um pequeno sorriso, ela tinha conseguido me roubar mais um deles. — A felicidade fica fantástica em você! — disse bem convicta, dando um beijinho em minha bochecha. era carinhosa, e seu beijo deixou bem claro que eu estava incluso em seus atos de carinho agora, e gostei de saber disso.
— Obrigado — agradeci, sentindo seus dedos desenharem a rosa de minha mão, me causando uma leve cócegas. Levei minha mão até seu rosto e deixei meu polegar acariciar sua pele macia enquanto olhava dentro de seus olhos. Sorriu como uma menininha orgulhosa, olhando dentro dos meus olhos e não tive medo disso. Cheguei mais perto e fechei meus olhos, deixando meus lábios tocarem sua bochecha e a ponta do meu nariz passar por ali. — Quero ver mais desses seus sorrisos sinceros de felicidade. — Aquele era outro desejo meu, o qual queria ver fora daquela cápsula. Sabia que talvez nunca mais conseguisse tirar aqueles sorrisos dela, mas eu tentaria.
— De nada — respondeu simplesmente. — Acho que sempre que você estiver por perto pode surgir alguns desses — sussurrou, dando outro sorriso confiante daquela promessa. — O que vem à sua mente quando você olha lá pra baixo? — perguntou, ficando na ponta dos pés ao olhar mais para baixo.
Encostei minha testa ao lado da sua e abri meus olhos e a vi piscando de forma admirada enquanto me olhava com um sorriso nos lábios, fiquei a olhando de perto por um tempo enquanto me devolvia aquele olhar. Então me afastei e soltei sua mão, dando um passo para trás, e indo para seu lado, segurando as barras de segurança, olhando lá pra baixo pensando em sua pergunta.
— Eu penso em como somos pequenos neste mundo, e que, mesmo assim, as pessoas ainda tentam nos fazer ficar menores — respondi, sendo sincero. — E tem pessoas que se permitem a isso, mas com toda certeza não somos uma dessas. — Olhei para . — Nós somos diferentes. — Ela sabia do que eu estava falando. Enquanto o mundo tentava nos diminuir, nós só ficávamos maiores e mais fortes, e ela era um exemplo vivo disso. — E o que você pensa? — perguntei, agora me virando e encostando na barra, cruzando meus braços enquanto a olhava, vendo que encarava Londres agora.
— Eu penso que você e eu juntos podemos esmagar essas mentes pequenas se quiséssemos — disse com sua voz saindo rouca devido à intensidade do pensamento. Aquilo me fez sorrir de lado. Então me encarou de volta, deixando meu olhar conversar com o meu como era de costume. — Nós somos gigantes, porra. — Apontou para nós, deixando o sorriso crescer, puxando o meu. — WE ARE FUCKING GIANTS, MAD WORLD! — gritou lá pra baixo, rindo ao ver as pessoas a olharem como se fosse uma maluca.
— Vamos esmagar todos eles — concordei com ela, rindo um pouco e chegando mais perto, parando ao seu lado e segurando a barra de segurança. — WE ARE FUCKING GIANTS, MAD WORLD! — gritei também, soltando uma pequena risada. — Foda-se o mundo. — Agora disse olhando para com um sorriso nos lábios, deixando meus olhos mergulharem em seus tons . Foda-se tudo.


Chapter 4




Estava jogada no sofá do camarim, apenas de lingerie. A ansiedade, o desespero, o nervoso que eu nunca tinha tido em toda minha vida eu estava sentindo naquele momento. Estava prestes a sair gritando "SOCORRO" pelo MS inteiro apenas de lingerie, até porque até pelada todos ali já tinham até cansado de me ver. A maquiagem já estava feita, o vestido no cabide e a lingerie era linda, perfeita e tão sexy que aff. Tudo estava lindo, era o dia perfeito e eu estava com medo por essa perfeição toda.
Minha vida era toda cagada, nada era perfeito nela. Meus pais me odiavam, meu irmão fazia questão de nem me cumprimentar se me visse na rua. Fui estuprada na adolescência, engravidei e ouvi que a culpa era minha, que era muito ousada e assanhada. Saph foi para adoção e eu visitei o inferno pra conseguir a guarda dela. Mas conheci pessoas incríveis no caminho, pessoas que fizeram todas essas merdas valerem a pena. Eu casaria com uma delas hoje. Julian entrou nessa comigo, agora teríamos nosso dia de princesa. Sentei no sofá, sentindo meu estômago se revirar. A porta se abriu e um dos meninos apareceu ali todo de terninho.
— Sai daqui, estou tendo um surto. — Já o deixei avisado, então ele tirou o sorriso dos lábios e saiu.
Mas a porta se abre de novo e vejo Saph entrar e ela estava perfeita, uma verdadeira princesinha. O vestido era tão rodado, todo cheio de brilho que eu já sabia que ela não iria querer tirar ele nunca mais.
— Que coisinha mais perfeita! — Abri os braços pra ela, que veio correndo até mim, me apertando em seus bracinhos curtinhos.
— Mamãe, todo mundo já chegou e você ainda nem está vestida. — Soltei uma risadinha com ela e balancei a cabeça em concordância.
— Estou com medo de desmaiar logo na entrada — confessei baixinho pra ela, então ela arregalou seus olhos tão quanto os meus.
— Você está com medo? Minha mamãe não tem medo de nada. Devolve ela porque ela precisa casar hoje ou eu vou chamar o tio Juju. — Ela foi bem convincente com a ameaça, tão convincente que eu tive que rir.
— Você tá certa, eu não tenho medo. Não preciso ter medo, já fui atração no palco muitas vezes e o Julian iria comer meu cu de um modo ruim. — Então fiz uma careta por ter falado 'cu" perto dela. Ela soltou uma gargalhada deliciosa e deu um beijo estalado em minha bochecha.
— Vou atrás da minha babá, até mais, mamãe. — Acenei para ela, vendo ela sair, e então criei coragem.
Peguei o vestido e o vesti de uma vez, sorrindo ao ver como ele tinha ficado perfeito. Era colado no meu corpo, inteiro rendado e longo, mas com cortes perfeitos nas pernas que as deixavam à mostra. Soltei os cabelos que estavam cacheados e com um volume sexy até. Peguei a capa em cima da poltrona, ela parecia com outro vestido de noiva. Era enorme, arrastava no chão e tudo, bem comportada. Tampando praticamente meu corpo inteiro. Deixei meus cabelos para dentro também como se eu o tivesse cortado. A capa era leve, mas era rodada como um vestido de noiva tradicional. Peguei a coroa prata em cima do balcão e coloquei em cima da cabeça, a prendendo com algumas mechas do meu cabelo, e sorri mais abertamente ao me ver no espelho. Quem diria que iria casar um dia? Um dia em meu passado cheguei a acreditar que seria com o dito cujo que eu me recusava a lembrar o nome justo agora, a maneira como ele falava que me amava fazia eu acreditar que seria algo para sempre. Mas agradeço pelo aprendizado e, como diz Ariana Grande: Thank U, next.
Tinha atrasado umas duas horas e meia pelo que vi no relógio quando saí no corredor, meu coração só batia mais aceleradamente a cada passo que eu dava ao barulho da festa. Parei no meio do caminho querendo me mandar tomar no cu por estar com aquela porra de insegurança.
— Todos daquele lugar te viram pelada, a maioria já transou com você de tudo quanto é jeito… Se recomponha! — Falei para mim mesma, inspirando e caminhando até o lugar. Avistei os seguranças, que sorriram para mim.
— Tá perfeita, ! — Sorri para eles e fiquei mais animada; vi que eles fizeram um sinal para a Luna, já que ela ficaria responsável pelo som, ela era incrível demais.
Começou com a entrada de casamento, o famoso "tã tã tã tam" e isso já me fez querer rir; vi todos se levantando ao som, comecei a entrar com um sorriso singelo nos lábios e os rapazes de terno preto atrás de mim, dois deles. Não estava aguentando a emoção e, se eu fosse dessas que chorava fácil, já derramaria altas lágrimas. Todos estavam lindos, estavam perfeitos. Todos coloridos no altar, Noah perfeito de cerimonialista. Meu amado Julian perfeito de rosa, isso fez eu sorrir tão abertamente que mal conseguia me controlar, ele estava absurdamente perfeito.
Olhei para meus padrinhos, sentindo meus olhos brilharem em cada um. Stephen lindo com aquela calça cintura alta, Analy com aquelas pernas lindas. Meus olhos ficaram um tiquinho marejados ao ver Pietro ali e como seu cabelo estava péssimo, como sempre, mas ele era bonito de qualquer jeito. Porém apanharia depois. Minha Dite perfeita com o vestido que tinha escolhido, uma deusa mesmo. Laurel roubando a beleza do próprio fogo, que mulher, puta que pariu! Jesse era um sortudo mesmo, ele estava lindo ao lado dela também, um puta casalzão com a Luna, que era outra deusa. Então não aguentei mesmo e abri um sorriso ainda maior ao ver Sam ali, fazia tanto tempo que não o via que já quis correr ali mesmo da entrada para lhe dar um abração, mas estragaria toda a entrada da noiva. Olhei para o seu lado e dei um bela piscadela para Clare, a loira extraordinariamente bela que Sam havia trazido como sua acompanhante. Samuel Berkowitz e o bom gosto, era o que eu sempre dizia.
Meus olhos foram até Viola, que brilhava naquele lugar com aquele verde lindo, queria beijar ela inteirinha de tão perfeita, puta que pariu. O sorriso em meus lábios aumentou um pouco mais por ter me apaixonado no blazer que La Rose usava, tinha deixado seus olhos mais verdes e ele estava absolutamente lindo, quer dizer, lindo ele já era e eu não sabia nem mais o que pensar, estava sem fôlego olhando para ele. Aquele sorriso em seus lábios, sabia o quanto ele era difícil de sorrir, porém aqui estava ele sorrindo daquela forma para mim e me dizendo com seus olhos o quanto queria me abraçar, estava sendo recíproco. Queria muito o abraçar naquele momento também.
Voltei meu olhar para Julian e pisquei um olho pra ele, parando depois de uns passos só para dentro. A música parou também, olhei assustada para Juju e soltei uma risadinha alta. Então começou a tocar Crazy in love da Beyoncé, os meninos atrás de mim puxam a capa de uma vez mostrando meu verdadeiro vestido. Joguei meu quadril para o lado e depois para o outro, jogando meus cabelos para trás, e desfilei como a Queen B fazia em seus shows ao som dessa música icônica. Tive que segurar a risada ao ver o grito que Julian deu quando tocou Queen B, sabia que ele iria surtar e foi em homenagem mesmo, já que vivíamos assistindo o show dela e surtando, obviamente. Mas o sorrisão aumentou mais ao ver ele marchando sem sair do lugar, como se tivéssemos ensaiado aquilo tudo. Comecei a rebolar como, ou pelo menos tentando, a Queen B quando Julian aponta pra mim e faz o "One, two, three, four", até joguei meus cabelos para um lado ao remexer o quadril, mordendo a ponta da língua ao soltar uma risadinha.
Quase que parei apenas pra abraçar ele bem forte mesmo quando vi seus olhos ficarem brilhando como ele, sabia que ele tava querendo chorar. Meu viado emocionado não tinha como saber lidar mesmo, mas dizem que em casamentos é normal haver choro e eu não seguraria o meu caso ele viesse. Dei um giro ali mesmo, tirando a cinta-liga e jogando para um dos meninos e o outro me jogou o buquê de rosas vermelhas. Voltei a caminhar em direção ao altar, mandando um beijo para meus padrinhos e madrinhas, parando em frente ao Juju e tirando minha coroa, colocando em seus cabelos.
Got me looking so crazy right now — cantei pra ele, mandando um beijo. — Estou mais apaixonada por você e que bom que sua bunda tá pra jogo, para verem que ela é minha. — Sorri maliciosa pra ele, rindo baixinho e voltando para Noah, dando a permissão para ele começar.
Looking so crazy in love's got me looking, got me looking so crazy in love — Julian cantou de volta para mim. — Minha bundinha é todinha sua, vadia! Repete de novo que sou a paixão da sua life?
— O amor da minha vida todinhaaaaaaa! — estendi a última palavra a cantarolando e arregalei meus olhos ao ver que ele parecia passar mal, por causa do buquê e o calor do momento, acabou que o Noah foi mais rápido que eu e o segurou antes que ele caísse no chão.
— Puta merda, Julian, desmaia depois! — exclamei, abanando com a minha mão livre mesmo.
— Dá a piloca...pileca...piroca de chocolate pra ele, mamãe! — Saph gritou de longe, tirando boas risadas dos convidados, e acabou que até eu dei risada também, mas Julian parece se recuperar.
Saphira tinha hora que nem existia, mas o bom é que todos pareceram rir do comentário dela, ou melhor dizer, uma de suas pérolas. Uma criança daquele tamanho falando "piroca" tinha que ser minha filha mesmo e criada pelo Julian. Dão um copo d'água pra ele e eu suspiro aliviada, começando a me abanar porque eu que começaria a passar mal daqui a pouco.
— Ela não tá errada. — Julian comentou, já recuperado.
— Nunca tô! — Ouvimos lá atrás a resposta de Saph para ele.
— Com quem ela aprendeu isso? — Ele sibilou para mim, bem sonso mesmo, e eu apenas dei risada, negando com a cabeça. — Tô orgulhoso. — Ele conseguiu me tirar outro sorriso largo quando diz que estava orgulhoso.
— Foi pra você mesmo. — Pisquei um olho pra ele, sorrindo feito uma menina orgulhosa também de ter conseguido fazer a entrada sem desmaiar.
Encostei minha cabeça em seu ombro assim que ele encostou a sua na minha e ficamos ouvindo Noah arrasar na cerimônia, do jeitinho que esperávamos que ele arrasaria mesmo. Pisquei meus olhos, engolindo qualquer indício de que eu iria começar a chorar naquela hora, pelo amor, ainda não. Olhei para Juju quando ele segurou minha mão e a apertou com um carinho absurdo que eu deixei transbordar nos meus olhos, gostando daqueles sentimentos serem transbordados naquele dia que ficaria pra sempre guardado no meu coração. Todas as pessoas que importavam pra mim estavam aqui, estava naquele momento casando com aquele que me deu uma casa apenas com um sorriso. Seria sempre grata por ter Julian na minha vida. Voltei minha atenção para Noah. Ele prosseguia o discurso perfeitamente, conseguimos ver até os momentos que ele segurou a emoção e, se eu não tivesse tão emocionada assim, eu poderia zoar com Julian, sabia que ele queria era mesmo lamber o Noah inteirinho naquele altar.
— Diante de todos os convidados presentes, essa união será selada pela entrega das alianças.
Então nossa atenção foi para a adorável Saphíra, que adorou ser o centro das atenções enquanto caminhava no meio de todos até o altar com as alianças em uma almofadinha vermelha. Abaixei meu corpo pra pegar a almofada com ela e então beijei o topo de sua cabeça, ela me abraçou e depois apertou Julian, então correu atrás de Luna. Olhei pra Juju em expectativa.
— Os noivos podem dizer seus votos antes da troca de alianças, por favor. — Noah anunciou.
— Que dia — ele murmurou e respirou fundo depois das risadas, soltando meu braço e ficando de frente para mim. Entreguei meu buquê para Noah segurar. — Não vou desmaiar de novo, I promise — ri fraco daquilo, querendo chorar, e senti ele segurar minhas mãos com força. — Não tinha pensado nisso até agora, mas hoje é o melhor dia da minha vida. — Senti meus olhos ficarem marejados quando ele começou, sorrindo ao concordar porque era o meu melhor dia também. — Me disseram pra escrever o que eu diria e eu fiz: puff! Não é assim que funciona, mas fiquei com o cu na mão de me perder hoje — ri junto dele, o entendendo plenamente. — Mas eu soube exatamente o que falar depois que desenhei.
Soltou uma das minhas mãos e apontou para um ponto atrás da rainha Viola, era um quadro em preto e branco do dia em que ele estava me mostrando seus nudes de desenho e rimos bastante; senti meu peito ficar apertado de tanta emoção ao ver o quadro, minha mente me levou ao exato momento que ele me mostrou seus quadros e foi onde tudo começou. Onde nossas vidas ficaram ligadas para sempre. Voltei meu olhar pra ele, sentindo que tudo que eu sentia estava praticamente saindo pra fora dos meus olhos em lágrimas, mas as segurei assim que soltei o ar.
— Você é perfeita, viado. O deus dos gays sabe o quanto invejei e adorei essa sua bundinha dura e esses seus peitos maravilhosos, podia ser eu, mas fico feliz em ser a pessoa que mais importa na minha vida. Tenho favorita sim, fazer o quê! Todo mundo aqui tem! — ele continuou dando aquele aviso, me fazendo alargar o sorriso, quase que rindo com seus elogios perfeitos, e olhei para todos com uma expressão de "fazer o quê", eu era sim a favorita dele. — Ah, quer saber? Eu amo o Madam Simmons, amo porque ele primeiro me deu uma casa quando eu não tinha nenhuma, depois ele me deu uma família quando a minha desistiu de mim, em seguida ele me trouxe você. Eu não fazia ideia do quanto iríamos ser e, quando pisquei, já éramos. E eu prometo nunca desistir de você, vadia linda da porra. Você é a vadia da minha vida, minha melhor amiga, meu porto seguro, minha confidente, e, se eu fosse hétero, até transava com você — riu baixinho daquilo e eu ri junto. — Não sei se tem algo que eu não faria por você, e sei que se alguém te magoar eu vou ser preso por homicídio. Fica aí o aviso. Eu amo você. Eu não sei se eu já te disse isso diretamente, mas eu amo você de verdade. E você é meu mundinho rosa, minha caixinha de glitter, meu pincel de esfumado, meu batom vermelho, meu salto 15 favorito e a gente vai botar pra foder! Uhuuul!
Meu coração quase, bem quase mesmo, por bem pouco, não saiu pela minha boca quando ele falou que me ama. Então sinto lágrimas saírem de meus olhos, mas logo as seco pra não estragar mesmo a maquiagem de horas. Joguei minha cabeça pra trás em uma risada gostosa ao vê-lo requebrar deliciosamente. Noah tocou meu ombro como se desse a liberdade de começar os meus, assenti e soltei o ar como se fosse ajudar em algo. Apertei as mãos de Juju mais uma vez.
— Você merecia apanhar com o buquê por ter me feito chorar — murmurei, ouvindo umas risadas por isso. — Eu nunca me senti completa, sei que eu sou uma pessoa difícil de lidar. Cresci num lar onde nunca me ensinaram o que era "amor" e eu realmente comecei a não me importar com isso. Acreditei que a vida era uma fodida que adorava foder, então eu aprendi a foder e aprendi cedo. Sempre achei que sexo era a única coisa que importava, sabia que era apenas isso que viam quando me olhavam. — Respirei fundo, ignorando aquelas ondas de sentimentos me molharem. — Quando eu conheci o MS eu aprendi que sexo não era a coisa mais importante, eu aprendi o valor da amizade, da fidelidade, da união e o verdadeiro sentido de lar. E eu sei agora que o amor está presente em tudo isso. Quando você me mostrou seus quadros eu vi em seus olhos que eu era muito mais do que a garota que fodia bem. Eu vi uma que podia amar, podia ser feliz, podia ser a melhor amiga, a confidente, seu porto seguro e a sua vadia. — Abri o sorriso para ele, beijando seus dedos rapidamente. — Mas antes de tudo isso você me ganhou por completa, você se tornou tudo isso pra mim naquele mesmo dia e eu soube naquele dia que seria você e eu para todo sempre. Não me importa se você e eu gostamos de piroca, temos assunto de sobra por isso... — soltei uma risadinha. — Você é perfeito e nasceu pra ser meu marido, Julian Dawkins. Meus dias não são completos se não tem aquele momento em que eu e você deitamos na cama apenas pra jogar umas fofocas fora, mesmo que sejam pequenos pelo cansaço do dia, mas todo dia temos que ter esse momento e são nesses momentos que eu sei que você é o meu lar. — Fechei meus olhos, permitindo que o ar entrasse e saísse ou eu desmaiaria agora. — Eu não acreditava no amor porque para mim ele era uma farsa, apenas uma história da Disney para crianças. — Levantei um ombro. — Mas agora eu acredito e… Eu te amo também. — Julian sabia que essa era a primeira vez que eu tinha falado aquela frase em toda minha vida, ele sabia o quanto eu era travada com ela.
Então Noah prosseguiu com o casamento antes que nós dois começássemos a chorar, então iríamos nos abraçar e não ia rolar mais o casamento porque Noah nos conhecia bem demais para isso. Logo foi para a pergunta do “Aceito”, a qual Julian e eu respondemos ainda com as emoções à flor da pele. Assim que Noah nos declarou marido e mulher, soltei um gritinho de pura animação, pedindo desculpas a Noah por isso, então ele finalizou falando que o Juju podia me beijar. Soltei uma risada alta quando Julian me girou e me fez girá-lo, abraçando sua nuca quando ele me tascou um beijão mesmo daqueles de perder o fôlego. Até levantei uma de minhas pernas pra deixar mais cena de filme ainda, deslizando minhas mãos para os seus ombros quando ele se afastou, e sorri abertamente ao sentir seu beijo em minhas bochechas. O abracei de lado, pela cintura, assim que ele nos virou para o pessoal e soltou um "uhul".
— Casamos! — berrei em seguida. Levantei os braços pra agitar ainda quando ele dá a largada da festa.
Então os padrinhos começaram a nos cumprimentar, não aguentava e abraçava cada um de forma extremamente apertada mesmo. Realmente adorava cada um com todo meu ser, cada um fazendo parte de cada fase da minha vida, todos gostando e me aceitando da forma como eu realmente sou. Sempre fui julgada, desde que me entendo por gente sempre fui julgada por falar o que penso, por não ser tão feminina quanto as outras garotas, por ser sempre abusada e ousada, sempre fazer o que eu quis. Mas encontrar todas aquelas pessoas pelo caminho só me ajudou a continuar sendo quem sempre fui, aprendendo a me amar primeiramente e dizer: Foda-se o resto.
Quando Viola estava abraçando Juju, abracei La Rose bem apertado mesmo, sentindo seus braços me envolverem bem apertados.
— Não lembro onde que eu deixei você vir tão bonito desse jeito, hein? — falei entre o abraço, não querendo soltá-lo não — Estou tão absurdamente feliz mesmo por você ter vindo, sério. E obrigada pelo sorriso lindo na hora que eu entrei — sussurrei com a voz tão baixa que saiu mais rouca do que já era. — Já foi o meu presente de casamento.
— Posso dizer o mesmo para você. Quando aceitei ser padrinho não sabia que a noiva ficaria tão linda assim. — Tinha um tom de humor em sua voz, mas conseguia sentir carinho em suas palavras. — Eu estou honrado de ter sido chamado para um momento tão importante da sua vida, isso me deixa extremamente feliz, e o sorriso ao te ver foi apenas o reflexo disso. Era todo para você — contou mais baixo, como se fosse um segredo só nosso. — Mas a melhor parte nem chegou — disse, se afastando e me olhando com aqueles olhos que eram tão intensos, então seu polegar passou pela lateral de meu rosto com cuidado fazendo com que meu sorriso aumentasse um pouco mais ao encarar seus olhos da mesma maneira.
— Ah, eu estou divinamente maravilhosa mesmo. Eu sei! — brinquei, rindo um pouco daquilo, mas ao mesmo tempo feliz demais e de uma forma que jamais pude imaginar antes. Seus dedos me apertaram um pouco, e consegui ouvir um pequeno riso nasalado dele. — Sua felicidade é um presente para mim e você sabe disso. Então, obrigada. — Fechei meus olhos um pouquinho naquele abraço, apenas curtindo aqueles segundos. — A melhor parte? Qual seria a melhor parte? — ergui as sobrancelhas, bem curiosa mesmo.
— Posso dizer o mesmo sobre a sua felicidade. Ela se torna a minha — sussurrou, então respirou bem fundo, me apertando um pouco mais em seus braços e soltando em seguida. Sorri ainda mais com aquilo, mas não por fora e sim por dentro. Existiam poucas pessoas no mundo que poderiam te falar algo como isso, elas eram únicas e especiais, eu sabia bem disso. Nunca tive muitas pessoas que realmente falavam aquilo para alguém como eu, então eu valorizava demais tudo que aquele belo rapaz de olhos verdes representava para mim desde a primeira vez que nos falamos. — Não posso contar, é surpresa — respondeu unindo as sobrancelhas, mas sorriu ainda me olhando.
— Surpresa? Poxa, La Rose! Mas eu quero saber. — Cruzei os braços na frente dele e fiz um bico como Saphira costumava fazer comigo. — Uma dica?
— Não — falou bem firme, e até mesmo como se fosse uma pequena bronca. — Sem dicas. Nem adianta fazer essa cara — avisou, e apertou minhas bochechas com uma só mão, fazendo meu bico ficar ainda maior, então seu olhar desceu para meus lábios pintados de vermelho.
— Quando eu vou poder saber então? — estreitei levemente meus olhos na direção dele como se buscasse qualquer pista em sua feição.
— Na hora certa — respondeu subindo seu olhar até encontrar o meu, então me soltou. — Cadê a Saph?
— Provavelmente causando o caos no meu casamento — respondi, soltando um riso nasalado e olhando em volta, achando ela perto da mesa com os docinhos, assistindo ela descaradamente pegar os doces e enfiar no vestido. — Eu disse. — Apontei para ele ver aquela sapeca aprontando.
— É tão adorável quanto você — riu olhando a cena e me olhou de um jeito de quem ia aprontar.
La Rose fez sinal de que era para não falasse nada e que era para apenas observar. Ele saiu andando por entre as pessoas rapidamente sem esbarrar em ninguém, até chegar por trás de Saphira, dando um baita susto nela, que a fez berrar por estar roubando mais doce. Acabei gargalhando com aquilo, levando minhas mãos até minha boca e jogando minha cabeça para trás, vendo a cara da abusada derrubando todos os doces no chão e fazendo cara de quem tinha sido pega mesmo. Até La Rose acabou rindo, e fez cara de espanto para os doces que estavam espalhados na frente deles. Aquilo foi impagável! Então ele se abaixou e pegou todos rapidamente, colocando todos na mesa ao lado deles e depois pegou um guardanapo e começou a limpar Saphira que estava toda suja de glacê e chocolate. Nem consegui controlar o sorriso enorme que apareceu em meus lábios com aquela cena e alisei de leve o braço de Julian em sinal de que iria me afastar, mas ele estava empolgado conversando com outros convidados. Caminhei calmamente até onde os dois estavam e vi Saphira virar o rosto assim que me viu chegando.
— Os doces não eram meus — ela começou dizendo, retraindo os lábios. La Rose claramente estava segurando o riso. — Estava ajudando o moço que parece um príncipe pegar eles do chão. Eu juro. — Ainda sorriu amarelo para mim.
— Ah, é verdade, príncipe? — questionei para ele, segurando a risada.
— Sim. É sim. Ela estava me ajudando. — La Rose piscou um olho para Saphira e depois me olhou bem sério. — Acho que deveremos investigar quem estava roubando os doces da mesa. Você quer me ajudar, Saph? — Então voltou a olhar para a minha filha. — O misterioso caso dos doces roubados.
— Aceito. A minha linda mamãe disse que não pode pegar os doces antes de cortar o bolo e não pode ir contra ela porque ela é brava — respondeu mais baixo e depois voltou a sorrir para mim. La Rose fez a cara de espanto com aquela informação e depois concordou com a cabeça. — Ninguém mais vai roubar os doces, mãe. É uma promessa.
— Saphira , você ainda não me viu brava, espertinha. Quero só ver essa fiscalização de doces — respondi, olhando bem séria para ela e depois para ele, que olhou super inocente, até piscou os olhos várias vezes. — Isso vale para o senhor também.
— Ela é brava mesmo. — La Rose fofocou com Saphira e balançou a mão demonstrando que eles estariam encrencados se fossem pegos. — Sim, senhora. — Fez sinal de condolência. — Vamos, detetive Saphira ? Procurar os ladrões de doces? — estendeu a mão para minha filha.
— Vamos! — respondeu toda animada, segurando a mão dele, e em seguida chupou seus dedinhos da outra mão que estavam sujos de chocolate. Ele a pegou e colocou sentada em seus ombros, então se levantou. — Posso roubar chocolate do tio Juju pelo menos? — perguntou para mim.
— Sem pirocas de chocolate, Saphira! Já falamos disso. — Apontei para ela, que fez uma careta, vendo La Rose rindo.
— Que tal Kit Kat? Eu acho que vi em algum lugar — La Rose ofereceu olhando para cima, encarando Saph sobre seus ombros.
— Chocolates sem formatos eróticos é uma boa ideia mesmo — comentei baixo.
— O que é “elótico”? — ela perguntou.
— É uma coisa estranha. Muito estranha mesmo. Tipo aqueles monstros que tem no armário, sabe? Ou aqueles que ficam embaixo da cama — respondeu La Rose fazendo uma cara de assustado para minha menina. — Horríveis, cabeludos e enormes. — Acabei tendo que segurar a risada que queria sair.
— Odeio monstro no armário! Não quero isso não, mesmo que o tio Juju me disse que se um monstro me perseguir eu podia chutar o saco dele — contou toda orgulhosa e cheia de si, me fazendo revirar os olhos.
— Deus, Julian! — resmunguei, negando com a cabeça. — Chutar sacos é bem importante mesmo. Mas, Saph, sem repetir as coisas que o Julian fala, tá bom? Seja uma boa menina e cuidado com as coisas que você fala, vai constranger o príncipe. — Brinquei agora, segurando a risada ao olhar para ele.
— Chutar monstros é muito bom. Ele te ensinou como fazer? — La Rose perguntou curioso, olhando para ela de novo. — O príncipe não conta nada se você não contar. — Deu uma piscadinha cúmplice para Saphira.
— Não ensinou não. Nem todos têm sacos nas mãos. Não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso — respondeu, parecendo ficar bem pensativa, e eu olhei para ele naquele momento, negando com a cabeça para ele não ensinar, e o vi mordendo a ponta de sua língua. — Combinado — sussurrou para ele, sorrindo falsamente inocente.
— Bom que não ensinou. E nem o príncipe vai, não é? — ergui as sobrancelhas para ele. — Sabe como é essa dona Saphira, além desse rostinho angelical, esses lindos olhos e os cachos loiros, ela realmente pratica tudo que ensinam para ela e depois a professora berra com quem? — cruzei meus braços esperando ela responder aquela. Mas ela apenas ficou emburrada, virando o rosto para o lado.
— Não sei nem chutar uma bola, quem dirá sacos. Parece ser algo difícil de se fazer — La Rose disse todo inocente, mas o vi lambendo os lábios segurando o riso. Fiz uma expressão de puro deboche para aquilo. Tá bom. — Ninguém vai berrar com ninguém aqui, general. — Brincou comigo, me olhando de um jeito divertido.
— Estou de olho em vocês dois — avisei apenas, levando meu indicador e dedo médio até perto dos meus olhos e depois apontei com eles para os dois em sinal de que estava os vigiando mesmo. Saphira acabou fazendo o mesmo comigo, mostrando que estava de olho também.
— Vamos, príncipe. Tem muito, muito e muito doce para confiscar! — falou, gesticulando com os braços e apontando para todas as mesas de doces com os olhos brilhando. — E eu quero Kit Kat também — pediu toda pomposa. — Espere eu voltar para dançar, mamãe. Quero assistir! — soltou empolgada.
— Confiscar? Claro. Vamos sim, detetive Saphira — La Rose concordou e me olhou com um pequeno sorriso. — Quero dançar contigo depois — pediu em um tom mais baixo.
— Dança reservada — respondi para ele, sorrindo um pouco mais abertamente.
— O príncipe sempre dança com a princesa mesmo — Saph comentou, sorrindo para nós dois, e eu neguei com a cabeça.
— Não sou princesa, boba! — mostrei a língua para ela.
— Quem disse que não? — La Rose rebateu erguendo suas sobrancelhas. — Se eu posso ser um príncipe, você pode ser uma princesa, mesmo que te ache uma rainha mesmo.
— Outro bobo também! — neguei com a cabeça, rindo um pouco. Então ele me mostrou a língua rapidamente. — Abusado ainda — comentei com humor, e ouvi Saphira rir de um jeito gostoso.
— Ele é o melhor príncipe! — falou ainda rindo e eu sabia que era porque ele tinha me mostrado a língua.
— Você que lute agora com a sua nova fã — avisei, apontando para ela, e fui dando uns passos para trás. — Vou falar com as outras pessoas. — Pisquei para eles.
— Eu luto — disse com divertimento em sua voz. — Vai lá, eu cuido dela. — Piscou um olho para mim de volta, se virando e saindo com Saphira em seus ombros.
Acabei ficando um pouco mais de tempo que o esperado com os outros convidados, ajudando Julian a falar com todos e também segurando ele para não falar mal da roupa dos outros na cara da pessoa. Mas foi em vão, obviamente. Ele expulsou três pessoas da festa porque odiou a roupa, disse que ninguém mal vestido entrava no casamento dele porque a Deusa Beyoncé jamais permitiria isso. Acabei também me distraindo com ele bebendo demais e indo provocar o Noah, o que sempre me tirava boas risadas. Mas senti falta de La Rose e Saphira, que realmente desapareceram. Nem sinal de vida deles pelos cantos da festa. Então fui atrás deles, saindo do salão de festa e caminhando pelo Madam Simmons à procura dos dois até que um dos garçons me chamou pelo corredor perto da cozinha.
— Sua filha e um dos padrinhos estão roubando os doces ali dentro — avisou com uma cara nada boa. — Tentei impedi-los, mas ele disse que ia me bater. — Levou sua mão até seu peito e eu acabei rindo daquilo.
— Desculpa! — pedi em meio às gargalhadas. — Pode deixar que eu lido com eles. Fique tranquilo. — Apertei de leve seu ombro como um sinal para o rapaz se acalmar. — Ele estava brincando com você. Não iria te socar não. — Era mentira, provavelmente ele iria sim, mas o cara não precisava saber.
— Obrigado, senhora . — Fiz uma careta com aquele “senhora”, mas não corrigi, apenas passei por ele e fui até a cozinha.
Entrei lá sorrateiramente, vendo apenas a caixa de doces abertas em cima de um dos balcões e ouvi barulhos vindo depois dele. Então caminhei tentando não fazer barulho até olhar por cima do balcão, não acreditando no que estava vendo, mesmo que já tivesse sido avisada. Além de Saphira estar se entupindo com os doces, rodeada pelos papéis no chão, o próprio La Rose também estava da mesma forma, e ainda com uma jarra de água no meio deles e copinhos plásticos.
— Isso é confiscar os doces? — perguntei, fazendo Saphira dar um pulinho de susto e tampar sua boca. La Rose jogou sua cabeça para trás, me olhando sobre o balcão, e limpou sua boca rapidamente, que estava toda suja de chocolate.
— Oh, não! — ela soltou baixinho, ainda com a boca tampada.
— Nós confiscamos, oras — respondeu La Rose descaradamente. — E agora estamos fazendo o controle de qualidade. Prova. — Ergueu o bolinho mordido em minha direção.
— E qual é a nota de vocês para o controle de qualidade? — ergui as sobrancelhas, e me debrucei mais no balcão, mordendo o bolinho. — Céus, eu estou faminta — assumi, sentindo minha barriga roncando mesmo, e sai do balcão, dando a volta e me ajoelhando na frente deles, puxando meu vestido um pouco para cima para não sujar.
— Eu dou nota dez para o de damasco, mas o de chocolate branco dou uns oito e meio, está muito doce. — Fez uma careta com aquilo e olhou para a Saphira. — Você dá quanto?
— Dez para o de chocolate e dez para aquele rosinha ali. Do que você disse que era mesmo? — apontou o de morango e eu ri fraquinho. — Esse aí que ele falou de damasco é muito ruim, mãe. Só ele gostou — contou, fazendo uma careta. La Rose rolou os olhos e estalou a língua no céu da boca.
— Você comeu errado, come de novo. — Ele pegou o de damasco e entregou para a Saphira comer.
— Vou ter que comer um por um para saber meu julgamento — decretei, umedecendo meus lábios e assistindo ela colocar o doce na boca que ele entregou, mas em seguida cuspiu disfarçadamente com a mãozinha e jogou para o lado.
— Prefiro ainda o de chocolate, príncipe — respondeu, se fingindo toda que tinha acabado de comer mesmo. — Vem, mamãe. Come esse. — Pegou o de morango e ergueu sua mão na minha direção, fazendo com que eu pegasse o doce com meus lábios.
— Muito bom! — falei e mordi de leve a mãozinha dela, a fazendo gargalhar e ir para trás de novo.
— Você é muito sem graça gostando só dos tradicionais — disse La Rose mostrando a língua para Saphira, então pegou outro de damasco e estendeu em minha direção. — Prova você agora. Se me falar que não gostou vou esfregar ele na sua cara — ameaçou erguendo as sobrancelhas, me olhando sério.
— Sem ameaças, príncipe — mandei, estreitando meus olhos na sua direção, e então me aproximei, pegando o doce de seus dedos, e só para irritá-lo fiz uma careta assim que comecei mastigar. — Esse é o seu preferido? — deixei a careta ficar maior.
… — soltou em um tom de aviso, e simplesmente enfiou o doce em meu decote. Arregalei meus olhos com aquilo, pegando o doce de lá de dentro e jogando nele de volta. — Sua desaforada! — reclamou e comeu o doce mesmo.
— Você não joga doces em mim não! Eu sou a noiva, mais respeito! — mostrei a língua em seguida e peguei outro de damasco perto dele, comendo em seguida. — Mas é muito gostoso mesmo. Você comeu errado mesmo, filha. — Fiz um biquinho para ela, que rolou seus olhos.
— O doce é horrível! O tio Juju ia ficar do meu lado aqui, tenho certeza — comentou, fazendo um bico.
— E você acha que eu ligo se você é a noiva? Podia ser o papa, querida! — rolou os olhos e fez um pequeno bico. — É nada. — La Rose mostrou a língua para ela. — Pode deixar que eu e a sua mãe comemos todos, pode ficar com os de chocolate.
— Olha aqui, La Rose, eu sujo seu cabelo de chocolate! — avisei, apontando meu dedo para ele, segurando o riso. — Comemos mesmo. E o Julian não conta, ele come qualquer coisa — respondi, estalando a língua no céu da boca, pegando outro de damasco, comendo e jogando a bolinha de papel nela, que pegou e jogou nele, que pegou e jogou em mim.
— Vou pedir pipoca para assistir vocês se sujando — Saph debochou do jeitinho que Julian ensinou para ela.
— Vou te sujar também, sua abusada! — La Rose sujou seu dedo de glacê e passou na ponta do nariz de Saphira, que deu um gritinho, rindo em seguida. — E você também! — sujou meu rosto com seu dedo melado.
— Olha só que príncipe mais… — estreitei os olhos na direção dele e depois olhei para Saph. — Ele tá pedindo guerra, Saph. Já sabe, não é? — balancei as sobrancelhas e ela sorriu, sujando seus dedinhos, e foi para cima dele tentando sujar seu rosto e eu segurei as mãos dele, o prendendo, rindo em seguida.
! — La Rose soltou alto em tom de aviso. — O cabelo não! No cabelo não! — pediu soltando uma de suas mãos e me puxando para cima dele, me colocando entre ele e Saphira. — Suja a sua mãe! Suja, vai! — ele me segurou pela cintura para que não me levantasse.
— Saphira, não faça isso! É nele que tem que sujar! — mandei, tentando me soltar de seus braços, gargalhando junto. Ele mordeu meu ombro com isso. — La Rose, me solta! Não pode me sujar, o meu vestido é branquinho! — pedi, virando meu rosto para ela, que se aproximava com suas mãos sujas de chocolate. — Saph, aproveita que as mãos dele estão ocupadas, vai nele, filha! Confia na mamãe! — tentei, rindo mais ainda. Então senti ela passar sua mão na minha bochecha e a outra passou nele também, sujando nós dois ao mesmo tempo.
— Ah, que pena que seu vestido é branco, vai ficar colorido agora. — Seus braço me apertou mais, enquanto ele ria baixinho. Ri mais daquilo e balancei nossos troncos. — Sua filha é perfeita. — Soltou, rindo um pouco mais, e seu braço se afrouxou ao meu redor. La Rose pegou um guardanapo e o molhou no copo de água. — Vem cá, deixa eu te limpar — pediu de forma gentil, me soltando para que me virasse para que pudesse ver onde sujou.
— Você merecia levar o bolo todo em seu cabelo, sabia? — rebati sobre meu vestido, soltando um riso em seguida. — Ela é terrível! — falei, dando risada e vendo ela rindo também, lambendo seus dedinhos sujos. — Deixa eu te limpar também antes que seu cabelo grude no doce — pedi, sorrindo carinhosamente para ele enquanto me virava de lado, pegando um dos guardanapos também e o molhando só um pouquinho. — A senhorita é a próxima também — avisei Saphira.
— Merecia nada. Pare com isso. — Fiz um biquinho bem falso. Neguei com a cabeça, segurando a risada. — Não, ela é maravilhosa. — Corrigiu com carinho em sua voz. — Isso é importante, não sujar meu cabelo. — Ele deu um pequeno sorriso e passou o guardanapo com cuidado em meu rosto, olhando o que fazia e me tirando um sorriso maior. — Pronto.
— Ela é meu tesourinho — comentei baixinho, sorrindo amorosamente ao olhar brevemente para ela, que comia mais doces. — Nada de sujar o cabelo do príncipe — falei com certo humor, passando o guardanapo em sua bochecha onde estava suja e depois passei ele do canto de seus lábios. — Parece uma criança comendo doce mesmo. — Brinquei, olhando em seus olhos agora. Isso o fez sorrir de leve. — Obrigada. — Então La Rose chegou mais perto e deu um beijo em minha testa. Era completamente novo alguém me tratando daquela forma e isso era bom.
— Ela é sim. Preciosa demais — disse ainda com o mesmo tom de antes. Concordei, deixando o sorriso alargar. — Ainda bem que você está aqui para me ajudar — riu fraquinho, piscando um olho para mim. — Vai dançar agora?
— Te digo o mesmo. Obrigada por me sujar e limpar — agradeci, rindo baixinho. — Contigo? Quero. — Sorri fechado, apertando o nariz dele antes de me afastar e me levantar. — Espero de verdade que nenhum de vocês dois tenha dor de barriga depois desse mundo de doces que comeram. — Fiz uma careta.
— Quem te sujou foi ela. — Apontou com o queixo para Saphira, que parecia se aproveitar da nossa distração e comer ainda mais doces. Ri daquilo, concordando com o que ele tinha dito. — Sim, comigo. — Sorriu ligeiramente enquanto me olhava. — Seria ótimo se não desse mesmo uma dor de barriga daquelas na gente. — Então se levantou e abaixou na frente de Saphira. — Vou dançar com a sua mãe. Quer ir ver? — perguntou para ela, colocando uma mecha loira atrás de sua orelha.
— Claro que eu quero! Minha mãe vai dançar com o príncipe! — soltou animada, parando de comer e se levantando também, bem ansiosa. — E mesmo ela falando que não é, ela é sim uma princesa — falou bem baixinho para ele como se eu não fosse ouvir e eu fingi mesmo não ter ouvido, pegando os papéis que estavam no chão.
— Ela é sim. Uma linda princesa, mas para mim ela é uma rainha mesmo — disse baixinho para ela, e a pegou no colo, a levando até a pia. Sorri fechado daquilo, terminando de limpar ali com o sorriso nos lábios. — Hora de lavar as mãos. — Ficou segurando Saphira enquanto ela abria a torneira e brincava com a água. — Lava isso direito, não quero ver uma sujeira nesses dedinhos.
— A água tá gelada — reclamou, mas observei por cima dos meus ombros ela lavando, esfregando melhor seus dedos. — Você vai continuar vindo no nosso reino, príncipe? — perguntou e eu ergui de leve as sobrancelhas com aquilo.
— Mas é com água gelada mesmo que lava a mão. Vamos, estou olhando. — La Rose disse mais sério, esperando ela lavar as mãos enquanto ainda a segurava. — Sempre que sua rainha me convidar — respondeu, então olhou para mim.
— Não existe água quente? — perguntou, dando uma pequena risadinha e então levantou suas mãos para ele ver se estavam mesmo limpinhas. — Ela quer sim. Dá para ver nos olhos dela, não é? — ela sussurrou para ele, me olhando também. Então mordi de leve meu lábio em um sorriso pequeno, assentindo com a cabeça porque ela estava certa.
— Água quente é para tomar banho — respondeu, e pelo seu tom de voz estava segurando a risada. — Ah, dá? — continuou conversando com ela, e a colocou sentada sobre o balcão, pegando um pano e secando suas mãos com cuidado.
— Que triste, agora minhas mãozinhas vão congelar — comentou, fingindo bater os dentes. Então La Rose começou a esfregar suas mãos para esquentá-las. — Posso pegar uma das suas roupas no camarim, mãe? — perguntou, voltando a me olhar por alguns instantes. — Dá sim. É bom ouvir minha mamãe rindo — contou bem baixinho para ele.
— Para de drama, Saphira. Nem está frio. Nada de pegar nada do meu camarim que eu bem sei que você quer ir lá para tomar banho de glitter. — Rolei meus olhos e me aproximei deles agora, sorrindo agradecida para ele por estar fazendo aquilo com ela.
— Já vai passar o frio. — La Rose então tirou o seu blazer e colocou nos ombros dela. — Está quentinho agora? — perguntou carinhosamente, dando um pequeno sorriso. — É muito bom mesmo. A risada dela é maravilhosa — contou baixinho, e vi o seu sorriso ficando ainda maior, tirando mais um meu. — Vamos?
— Está quentinho sim. Obrigada por me emprestar sua capa de príncipe — falou toda fofa, sorrindo abertamente para ele, o fazendo rir fraco.
— Quanto mimo que a senhorita tá recebendo hoje — comentei, sorrindo um pouco mais. — Vamos. Chega de doces para os dois. Vou até proibir o garçom de servir bolo para vocês dois. — Então estiquei meus braços para ela vir comigo, mas ela segurou o braço de La Rose. Ele riu de novo e a pegou nos braços. — Você que lute agora — ri um pouco daquilo.
— Ok, você vai guardar um pedaço bem grande para nós comermos amanhã. — Ele piscou um olho para mim, dando um sorriso maior. — Tudo bem. Eu luto — riu, já se virando com Saph no colo.
— Combinado — respondi, piscando de volta e então segui pela cozinha, esperando ele sair com ela primeiro para depois fechar a porta. — Ah, qual dos dois ameaçou socar o garçom? — brinquei, tentando soar séria enquanto voltava a caminhar ao lado dele.
— Ninguém. Que garçom? — Saph respondeu, olhando para La Rose e depois para mim.
— Não sei do que você está falando também. — Se fez de sonso.
— Sei. Sei. — Estreitei meus olhos para os dois e então entramos novamente no salão de festas. — Quer ficar no colo do Stephen com a Analy? — perguntei para Saphira, que concordou com a cabeça, então La Rose a colocou no chão.
— Obrigada pela capa, príncipe. Mas pode pegar agora para dançar — falou de forma gentil, tirando o blazer dele em volta dela e entregando para ele de volta.
— Nada. Qualquer coisa que precisar é só me chamar — disse pegando seu blazer e se abaixou. — Você me dá um abraço? — pediu dando um pequeno sorriso.
— Quantos você quiser — ela respondeu contente, sorrindo abertamente, e então o abraçou, jogando seus pequenos braços em volta de seu pescoço. — Você é o melhor príncipe — falou baixinho no abraço.
— Você é a melhor princesa! — respondeu, a abraçando de volta e dando um beijo em sua bochecha. — Vai lá com o tio Stephen. — A soltou para que fosse.
Ela sorriu e balançou seu corpo toda pomposa, então se virou e correu em direção aos dois, já pulando no colo de Stephen sem ele nem perceber, o fazendo rir.
— Vou fumar antes. Quer ir lá fora comigo? Deixei o cigarro no carro — La Rose disse vestindo seu blazer.
— Claro — respondi sorrindo e já o acompanhando. — Você se deu muito bem com a Saph. — Olhei para ele rapidamente com aquela observação.
— Um milagre, porque geralmente olho crianças e corro. Mas ela é extremamente agradável. — Sorriu um pouco ao me olhar.
— Falou muitas barbaridades para você? — ri fraco, acenando com a cabeça para os seguranças que estavam na porta.
— Não. Ela me contou sobre os amigos dela da escola, depois sobre os nomes das bonecas e a história que deu para cada uma delas. Ficamos debatendo sobre o Ken não gostar da Barbie e sim do namorado da Susi — contou, rindo um pouco daquilo, e eu gargalhei. — Sabia que o Ken beijou ele e a Barbie viu?
— O Ken tinha muita cara de quem gostava de pau, não é? — comentei entre as risadas, negando de leve com a cabeça. La Rose concordou. — E o que a Barbie fez? Ficou assistindo? Seria o certo. — Dei outro riso com aquilo.
— Tirou o carro dele. Ken está a pé agora — disse rindo mais ainda daquilo. — Ken terá que encontrar o namorado de ônibus.
— Vai ser feliz de ônibus. Bom que a Barbie podia agora pegar a Susi — comentei, pensativa sobre o assunto. — Isso só pode ter sido ideia do Julian — ri ao falar isso.
— Vai mesmo. Vai chupar o namoradinho loucamente agora. — Brincou, negando com a cabeça também. — Certeza que a Susi ia pegar a Barbie com mais vontade que o Ken pegava, hein. — Observou de forma pensativa.
— No ônibus não daria certo a chupada — falei, torcendo de leve os lábios. — Ah, ela ia cair de boca na Barbie de uma forma que o Ken jamais fez. — Soltei outra risada daquela bobeira. — Agora você imagina ela brincando disso com as outras crianças! — coloquei a mão no rosto.
— Não sei. Nunca chupei ninguém no ônibus ainda. — Deu de ombros, e fez uma careta em seguida. — Ah, com toda certeza. Vai lamber a Barbie todinha — concordou comigo, rindo em seguida e me tirando mais risos. — Aposto que devem achar um nojo, porque mulher tem que ficar com homem. — Rolou seus olhos, dando uns passos à frente e puxando a chave do bolso, já abrindo o carro.
— Já tentei chupar quando tinha dezesseis anos e foi péssimo — comentei, dando mais risadas ainda com a careta na feição. La Rose fez uma cara terrível. — Exatamente. Às vezes penso em como deve ser solitário para ela na escola porque eu sei que ela é julgada como eu sou. Mas ela realmente não parece se importar com nada disso, ela é bem feliz em tudo que fala ou faz. — Suspirei com aquilo, me encostando no muro do MS, o vendo abrir o porta-mala do carro e mexer em algo lá dentro.
— Infelizmente ela sempre vai ser julgada, porque as pessoas são um bando de filhos da puta que não se importa com o sentimento dos outros, mas espero que Saphira consiga não dar ouvidos a elas e continue sendo feliz, porque sei que por enquanto ela não entende, mas um dia vai. Desejo que isso não a machuque do mesmo jeito que aconteceu contigo. — E nesse momento olhou por cima de seu ombro. Suspirei triste com aquilo, concordando com suas palavras porque eu desejava o mesmo. — De qualquer forma, não vamos falar disso hoje, ok? É para você esquecer disso e só focar no que te faz sorrir. E eu quero tentar fazer isso hoje mais uma vez. — Então tirou seu violino de dentro do porta-malas junto com o arco. Arregalei meus olhos e abri minha boca, completamente surpresa.
— Essa era a surpresa? Meu Deus! Não acredito! — soltei ainda em choque por realmente não esperar, até mesmo levei minhas mãos até meu rosto. — Você vai tocar? Deus! Certo. Posso berrar depois que você tocar porque eu quero berrar de felicidade! — comentei extremamente entusiasmada e completamente ansiosa. Ele riu fraquinho.
— Sim. Não é nada demais, mas esperava te fazer sorrir pelo menos — contou mais baixo, me olhando com atenção, e eu deixei o sorriso ainda mais largo. — Foi difícil escolher a música, tem muito tempo que não toco, então me perdoe se não ficar bom.
Ele respirou fundo, apoiou o violino entre seu ombro e seu queixo, e olhando para mim com seus intensos olhos verdes, ergueu o arco e o deixou deslizar suavemente pelas cordas enquanto seus dedos as apertavam rapidamente de um lado para o outro. Logo reconheci as notas de Lost Stars, do Adam Levine. La Rose então fechou seus olhos suavemente, movimentando seu corpo de um lado para o outro, sua expressão se torceu de leve, fazendo suas sobrancelhas se unirem. Respirei fundo, sentindo tudo dentro de mim ficando intenso como em seus olhos, aquele mar de imensidão que continha o caos, os monstros; e sentia eles agitados e ao mesmo tempo calmos, a calmaria que combinava perfeitamente com ele, aquela calmaria única que era trazida por aquele belo homem tocando violino. Seu cabelo era jogado para trás pela brisa gélida de Bristol, então voltou a me olhar, e pude ver como estava leve agora, me deixando ver mais dele naquele estacionamento onde estava apenas nós dois. Deixei o ar sair com suavidade, enquanto meus olhos mergulhavam nos seus por alguns longos segundos até deslizar por seus braços até o instrumento, fazendo-me suspirar bem baixo. Ele andou lentamente em minha direção, tocando com toda a sua suavidade, pareciam que seus dedos eram penas tocando as cordas enquanto o arco deslizava por elas da mesma forma em seus movimentos leves. La Rose estava sentindo cada nota tocada, enquanto seu peito subia e descia lentamente sob sua camisa preta. E mais uma vez eu o vi de verdade, como naquele dia em Londres. Não me importava o que ele pensava de si mesmo, nem o que as pessoas pensavam sobre ele. Só me importava o que eu realmente via e ele era como um céu infinitamente azul escuro, profundo e misterioso, aquele tipo de céu que as pessoas diziam que eram “noites frias e sem estrelas”, mas apenas aqueles que olhassem de verdade viam que ele era o mais belo e estrelado céu. La Rose era o meu céu escuro com estrelas escondidas. Ele parou bem na minha frente, deixando seus olhos se afundarem mais nos meus, mergulhando neles sem ao menos prender seu ar para fazer isso, então foi descendo ainda mais a cada nota. Não eram seus dedos tocando, era seu coração, sua alma, seus sentimentos e tudo o que existia de mais profundo dentro de si. Puxei de novo o ar, sentindo as notas me tocarem, e eu me arrepiei, soltando o ar completamente em um outro suspiro conforme meus olhos desenhavam seus traços, voltando a olhar em seus olhos.
Suas sobrancelhas se juntaram levemente e seu corpo voltou a se mover de lá para cá. Seu tronco se abaixou, e ele começou a tocar as notas com mais fervor na segunda parte da música. Seus dedos apertavam as cordas mais rapidamente, então voltou a se erguer, fazendo seu cabelo vir para trás junto, e ele me olhou novamente nos olhos, cada nota transbordando por aqueles tons verdes. Deixei um sorriso sincero e verdadeiro se desenhar com sutileza e carinho em meus lábios, falando para ele o quanto aquele momento estava sendo basicamente a melhor parte da noite. Aquele presente estava sendo gravado dentro do meu peito, bem no meu coração, e esses tipos de presentes eram para sempre. La Rose abaixou um pouco, e começou a andar ao meu redor em uma pequena dança lenta, e sentia seu olhar ainda preso em mim, como se fosse um imã. Sorri ainda mais e meu rosto se virava, o acompanhando em cada movimento, sentindo meus fios claros irem junto conforme eu me virava. Seus passos eram lentos, a música era doce, e o ar parecia ter se tornado leve. Até que ele voltou a parar na minha frente, deixando de tocar as últimas notas.
But are we all lost stars trying to light up the dark? — cantou baixo estendendo a mão em minha direção.
O sorriso aumentou ainda mais e eu simplesmente bati palmas com bastante fervor mesmo, deixando elas ficarem altas enquanto sentia meus olhos ficarem levemente lustrosos, então segurei sua mão no instante seguinte, fechando meus olhos por alguns segundos apenas para controlar tudo aquilo dentro de mim. La Rose me puxou para perto e me girou, fazendo com que fosse de costas contra seu peito, então me abraçou e senti sua respiração em meu ouvido, quente e lenta. Ri baixinho daquilo e encostei minha cabeça em seu ombro.
— Olha para o céu — pediu baixinho com sua voz rouca e doce. Abri meus olhos e encarei o céu como ele tinha pedido. — Olha como as estrelas estão sorrindo para você, e dizendo o quanto é especial. Declarando a mulher incrível que é, forte e maravilhosa. Elas sempre vão estar te olhando e contemplando por existirem no mesmo universo que você, porque é uma honra te ter tão perto delas, pois todos os dias você voa tão alto que pode tocá-las — disse bem baixo em meu ouvido, acariciando minha barriga. Como reagir àquelas palavras? Não tinha como. Era isso. Então apenas mergulhei em cada uma delas. — Obrigado por existir, Dawkins, e por fazer desse mundo um lugar lindo apenas por sua presença. — Então me virei de frente para ele e o abracei com força.
— Então foi o universo que me presenteou com o melhor presente que eu poderia ter ganho, que é a sua amizade, a sua companhia, os seus momentos únicos que está sorrindo e mostrando essas covinhas adoráveis que você tem nas bochechas. Eu também sou grata por existir no mesmo mundo que você existe e por você ter aparecido para me lembrar de como era se sentir leve, bem e feliz. Você me mostra que não tem problema ter escuridão dentro de si mesmo, ter seus demônios e seus monstros para enfrentar todo santo dia, você me lembra de como é bom sorrir em meio ao terror e faz tudo isso desaparecer. Obrigada por ser o meu presente e obrigada por ter me deixado te ver mais uma vez hoje. O que eu te disse aquele dia em Londres é a mesma coisa que eu falaria agora. Mas sabemos que não há necessidade de se repetir porque você pode ler nos meus olhos tudo que eu não consigo falar — soltei palavra por palavra com bastante sinceridade e exatidão em cada uma, puxando o ar enquanto o abraçava bem forte, sentindo seus braços me apertando contra o seu corpo. — O universo todo sorri quando você está feliz, La Rose.
— Então vamos dançar com nossos demônios essa noite também — disse baixinho, passando seu nariz pelo meu cabelo e beijando o topo da minha cabeça. — Então hoje o universo está festejando.
— Com o maior prazer — respondi, me afastando e olhando para ele com um sorriso largo e extremamente feliz em meus lábios. — Vamos festejar com ele — sussurrei, piscando para ele e segurando sua mão.
— É o que mais quero — respondeu abrindo um sorriso que veio manso em seus lábios.
— Ia te chamar para dançar para as estrelas aqui mesmo na rua, mas lembrei que temos uma fã lá dentro esperando nossa dança — contei, me referindo a Saphira e rindo por aquilo.
— Temos mesmo. Sua fã número um ficaria muito triste de não nos ver dançar — disse e se afastou, voltando até o carro e guardando o violino no porta malas, e o fechando em seguida, vindo então em minha direção. — Vamos, minha rainha? — estendeu a mão e deu um de seus lindos sorrisos.
— Sua fã também, príncipe — respondi, sorrindo abertamente e então segurando sua mão sem nem hesitar. — Vou me acostumar mal desse jeito. — Girei meu corpo, passando por baixo de seu braço e rindo um pouco, voltando a caminhar com ele para dentro do MS.
— Não é não. — Soltou de um jeito divertido. — Apenas dei doces para ela, só isso. — Levantou os ombros como se aquilo não fosse nada demais. — Pode se acostumar do jeito que quiser — La Rose riu um pouco e me puxou para perto dele enquanto entrávamos novamente na festa daquele jeito.
— Ela te convidou para aparecer mais vezes e ela não é de fazer isso — contei como se fosse um segredo. — Fica me mimando que eu vou acabar te engordando. Você vai ver só. — Brinquei, fazendo uma careta engraçada. Ele apenas riu fraco, negando com a cabeça. — Vou guardar umas mini pizzas para você porque elas estão irrecusáveis. Sério. — Apontei para ele a mesa com elas quando caminhávamos entre as mesas.
— Não? — perguntou parecendo surpreso agora. — Sempre sobra comida no casamento, amanhã vou na sua casa comer, e provavelmente o resto da semana — falou, divertido e me girando com a música que tocava.
— Não. Ela nunca me disse, mas imagino que seja medo de se machucar em convidar e insistir para alguém ir ou ficar e a pessoa nunca mais voltar — respondi mais baixo, torcendo os lábios. Os olhos verdes de La Rose me olharam atentos. — Vai ser ótimo ter alguém para ajudar a comer, porque a Saphira comendo doces ela não vai dormir por uma semana e daí quem enlouquece sou eu — dei outra risada com aquilo. Ele assentiu, dando um sorriso maior.
— Pelo jeito não é só ela que tem esse medo — comentou mais baixo, apenas para que eu escutasse.
Respirei fundo com aquilo, retraindo os lábios e não respondendo. La Rose também não falou mais nada, apenas levou minha mão até seus lábios dando um pequeno beijo em seu dorso, e seus olhos diziam claramente que ele estava ali comigo e que estava tudo bem. Confiava nele e em tudo que seus olhos me diziam, já não era mais novidade ou surpresa que com um simples olhar eu me acalmava. Então ele me puxou para a pista de dança, e apontou para Saphira, que dançava com Stephen toda feliz. Ri daquilo de um jeito alegre e leve, voltando meu olhar para seus olhos verdes logo em seguida enquanto colocava minha mão em seu ombro, então me aproximei um pouco mais, deixando a melodia nos guiar. Sua mão veio até minha cintura e deslizou para minhas costas, parando no meio delas e me puxando ligeiramente para mais perto, movendo seu corpo de um lado para o outro enquanto seus olhos voltaram a mergulhar nos meus como lá fora. Sorri bem levemente enquanto deixava os meus presos nos dele, daquela forma como eles sempre costumavam conversar sem que nós percebêssemos. Olhar para ele foi como se estivéssemos sozinhos naquele salão, naquele instante, apenas nós dois e a melodia que tocava e invadia o ambiente todo. Aquilo me deixou mais leve e até mesmo flutuando, fazendo com que eu me afastasse um pouco apenas para girar novamente e voltar para perto dele, deixando meus dedos deslizarem de forma lenta em seus dedos, tocando-os com uma certa intensidade como se as notas musicais estivessem dançando sobre eles e nos tocando junto. Meus olhos desceram e foram até nossas mãos, assistindo aquilo até que os fechei e encostei meu rosto em seu peito, sem parar de me movimentar conforme a melodia, conseguindo ouvir como seu coração batia forte e até um pouco rápido naquele momento. Seu braço me envolveu com gentileza, me dando um pequeno abraço no meio daquela dança, e senti ele dando um beijo no topo da minha cabeça. Era como se estivesse me protegendo de tudo, sentia que La Rose não deixaria mais nada de mal acontecer, era isso que me passava naquele abraço.


Continua...



Nota da Sereia: Feliz dia dos namorados para quem tá em casa lendo fanfic! IHUUUL! kkkkk parei. Quero primeiramente dizer que o Julian é um personagem da Saby Gomes, assim como a Viola. Então, obrigada de coração por ter emprestado eles para a fanfic, amiga. Jamais conseguiria fazer um personagem como o Juju. Queria também agradecer a Aurora C. por ter emprestado a Laurel um pouquinho que é outra personagem que eu sou perdidamente apaixonada. PS: Quero Laurel e Jesse de volta. (Nota da Jaden: ISSO É UMA PALHAÇADA COM A MINHA CARA! QUERO ELES JUNTOS DE NOVO. SE VIRE!) E o que falar do La Rose com a Saphira? Estou sem condições alguma de falar sobre isso porque estou MORRENDO de amores neste exato momento. Eles pareceram tanto uma família feliz naquela cena da cozinha, não é? O pai, a mãe e a filha. A autora iludida tá liberado, né? haha. Achei bem digno mandarmos esse capítulo no especial do dia dos namorados por ele representar que o amor não é somente romântico e sim valendo as amizades e quem tá realmente junto contigo em qualquer ocasião. só ganhou neste capítulo e eu estou orgulhosa demais dela. Obrigada, La Rose por fazê-la feliz desse jeito. Lara, Larinha e beta mais linda da vida!!! Obrigada por sempre surtar com os capítulos, você não tem noção do quanto a Jaden e eu ficamos felizes com seus surtos (N/J: E surtamos juntas lendo o que você acha). Aquele seu comentário do cap 3 tá nos meus prints salvos para a vida todinha de tanto que aqueceu meu coração. Você é perfeita e eu amo te ter de beta e leitora! (N/J: Hey, eu amo também! Amamos juntas, viu?! Você é muito especial, e vou te roubar e colocar em um potinho. Você que lute! Adeus!) Beijos, meus amores e até o capítulo 5!!



Nota da Jaden: Hello, gentis! Feliz dia dos namorados para vocês, e espero que tenham gostado desse capítulo do casamento da ! Foi tão perfeito essa mulher casando! Ela feliz desse jeito é tudo para mim! E não vou nem comentar o presente que o La Rose deu para a , né? Eu fiquei negoçada, a verdade é que dei até uma choradinha quando ele falou do lance das estrelas. Olha, ele está totalmente certo, a Meri é tudo aquilo e muito mais. Sou apaixonada demais por essa mulher. Então, é isso. Espero que tenham gostado e até a próxima! Beijos




Nota da beta: PARA TUDOOOOO COM O VIOLINOOOOOO!!!!!! Eu tava esperando que viesse, mas não tava esperando que viesse agora e fui pega totalmente desprevenida ( = estado ideal pra ser emocionalmente abalada pelo La Rose; novidade? nenhuma). Esse homem não consegue ser menos perfeito não???? É um príncipe mesmo!
Aaaaaah, eu ameeeeei esse casamento no dia dos namorados, que delícia!!! A união Saphira + La Rose é pra matar qualquer um de amores, né não??? Ela chamando ele de príncipe e acabando com os doces da festa, vê se aguento.
É bom demais ver a feliz e amada, ela e a Saph merecem tudo de melhor do mundo inteiro; espero que possa vê-las assim por muito tempo (ao lado do príncipe, é CLARO!)
E, ah, meninas, vocês são incríveis!! Obrigada por todas as palavras de carinho, eu adoro surtar com vocês!!!! <3<3

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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