O Peso da Coroa

Última atualização: 23/08/2021

#1 Diário da Eleanor

Nem toda escolha que fazemos é de fato o que queremos.
Eu precisei deixá-lo.
Eu tive que vê-lo partir.
Eu assumi responsabilidades cedo demais.
Era tudo ou nada. Meus pais se foram e deixaram tudo em minhas mãos.
Pegar ou largar?
Seguir em frente ou deixar tudo para trás?
Eu nunca assumi um compromisso que não pudesse cumprir e era por isso que hoje seria coroada.
Agora eu me tornaria a rainha e era meu dever proteger a todos.
Disse adeus para quem eu não gostaria, mas abracei outros que puderam ficar ao meu lado.
Eu não desistiria.
Eu não seria mais Eleanor, a princesa.
Agora eu sou Vossa Majestade, Eleanor, a Rainha de Atra.




Capítulo 1

Minha imagem refletia no espelho, meus cabelos acobreados estavam todos presos, os grampos agarrando-se no meu coro cabeludo, impedindo que um mísero fio sequer caísse. Minha roupa velha e rasgada me deixaria passar despercebida, assim como o pano que eu havia enrolado na cabeça, formando um capuz. Eu só precisava tomar cuidado, se evitasse a todos poderia ter pelo menos algum vislumbre da vida lá fora.
Eu já tinha feito isso, era só colocar um aspecto sujo na pele e no vestuário que as pessoas não dariam a mínima para mim, afinal, desde quando os outros se preocupam com alguém que parece uma desabrigada?
Enfiei o último grampo — o que agora seguraria o tecido em minha cabeça —, a base que usava em meu rosto me deixava mais morena e as sombras escuras, esquisita. No entanto, era a minha máscara, o meu ingresso para sair daqui.
Pousei a mão no coração, como se o simples ato fosse fazer com que as palpitações pudessem parar, mas não adiantava, o medo de ser pega e que minha mãe descobrisse latejava todas as vezes, independentemente da quantidade de fugas que eu repetisse. Abaixei a minha mão e, ainda trêmula, ergui-a até a maçaneta. Hesitei, porém, respirei fundo e lembrei-me do motivo que havia feito tudo isso em primeiro lugar.
Liberdade.
A única coisa que eu nunca poderia alcançar.
Abri a porta e passei pelo corredor escuro, um caminho que poucos tinham acesso e conheciam, apenas a realeza e soldados de alta patente. O local era estreito e fedia a mofo, mas era a única forma que eu conseguiria chegar ao lado de fora.
Quando criança, eu me perdia no meio dos túneis secretos. Uma vez minha mãe mobilizou todos os soldados do castelo para me encontrar, mas quem me achou foi o meu pai, eu estava em prantos e em pânico, não conseguia voltar e quanto mais eu tentava sair, mais perdida ficava. O choque me fez estagnar, não saía do lugar mesmo que meu pai me chamasse diversas vezes e me balançasse para sair desse transe. Quando viu que nada dava certo, ele apenas sentou-se ao meu lado, me puxou para seus braços e começou a cantar uma canção nos meus ouvidos, até que eu me acalmasse. Lembro com clareza de tudo o que se passou depois, ele me disse “, o medo existe para todos, no entanto, a capacidade de enfrentá-lo só depende de você”.
Não passou muito tempo e eu voltei aos túneis. Não fiz como das outras vezes, entrando sem rumo e direção. Apenas caminhei aos poucos, gravando e transcrevendo o caminho até que eu pudesse dominá-lo e me tornar maior do que o meu medo.
Era por isso que agora, embora ainda sentisse minhas mãos suando ou o frio percorrer a minha espinha, eu poderia caminhar por cada buraco escondido desse castelo, conhecendo cada saída, curva e trajeto.
Após cerca de meia hora, eu estava diante de uma pequena portinha no fundo do palácio, corri por meio dos arbustos, pausando e arfando em cada parada em que eu me escondia, esperando a passagem dos guardas. Outro ponto positivo de ser fugitiva, eu decorei cada horário, com os anos você acaba aprimorando as técnicas e sabe quando cada guarnição passa e os intervalos que eles fazem.
Como a última passagem era um túnel, a saída dava para o lado de fora do castelo, após correr até onde eu sabia não ter mais nenhum guarda, peguei o cavalo que havia selado mais cedo e escondido entre as árvores. Saltei sobre ele, o vento cortando a minha pele e minha boca ressecando com o frio, cavalguei por minutos afins até ouvir o doce som da melodia das canções, os risos ecoando pela floresta, os batuques dos tambores bombeando o meu sangue.
Desci um pouco antes de chegar na vila, amarrei o meu cavalo em um galho e puxei um pouco do pano para cobrir o meu rosto, andei pelas beiradas até entrar no meio das pessoas. Pelo canto do olho ia observando a festa, crianças, jovens e velhos pulando e saltando, outros tocando flautas, percussões e violões. A magia de tudo era intensa, meus dedos tamborilavam em minha coxa enquanto eu cantarolava baixinho as canções entoadas.
— Não fique aí parada, vamos? — uma criança me gritou, puxando a minha mão e me arrastando até uma das rodas cheia dos pequeninos que se formavam ali.
Gargalhei e acompanhei-a, girando e rodopiando com aquelas miniaturinhas de gente que não se importavam se eu parecia uma mendiga, apenas brincavam e riam, acolhendo-me no meio delas. Cantei até meus pulmões arderem, permiti que o suor escorresse em minhas costas e deixei a música me levar. Nesse momento, toda hesitação, medo e angústia se desfez. Era isso o que eu queria, a sensação de liberdade tomando conta do meu ser.
Nessas horas não existiam responsabilidades ou deveres, muito menos manual de comportamento ou rédeas para me restringir, eu apenas me jogava e deixava o meu próprio ritmo me guiar, permitindo que o engano de uma vida diferente me guiasse nem que fosse por pouco tempo.
Parei por alguns segundos, segurando o peito com uma mão e a outra me abanando, sentindo o efeito da quantidade de panos me cobrindo surtirem.
— Eu preciso de uma pausa — murmurei para a criança ao meu lado e sorri para ela.
Demorou apenas dois segundos para ela trocar de par e segurar a mão de outra pessoa, pulando e dançando da mesma forma. Sorri e me afastei, caminhando até a mesa de comidas e bebidas expostas na lateral da festa.
De tempos em tempos as aldeias marcavam seus festejos, reunindo todos para cantar, comer e beber, uma festa livre e dançante, diferente das que eu tinha no castelo, cheio de normas e formalidades.
Peguei um copo e derramei um pouco de água nele, precisava me refrescar e tudo o que eu menos precisava era tentar chegar escondido em casa alcoolizada. Virei-me para poder continuar assistindo a festa, mas assim que fiz o movimento, meu braço esbarrou em um corpo duro e o líquido derramou por toda a roupa da pessoa.
— Ei, você não presta atenção? — uma voz dura e raivosa rugiu contra mim.
Ergui os meus olhos, minha visão pairando no peitoral molhado de um homem bem afeiçoado. Subi mais um pouco até focar no rosto da pessoa que eu havia trombado, o vinco entre os olhos proeminentes e seus glóbulos azuis encarando-me diretamente.
Meu coração disparou e eu dei um passo em falso para trás, esbarrando na mesa e cambaleando até sentir a mão dele segurar o meu braço e me puxar, impedindo que eu tropeçasse.
Eu não conseguia parar de encará-lo. Com tantas pessoas para eu encontrar, por que justo ele estava aqui?
Na minha frente estava a quem eu mais odiava. Aliás, a segunda pessoa que eu mais odiava. , filho do governador Marcus , pupilo e queridinho de toda Lavarelli, principal comunidade da ilha de Artra e, em consequência, capital e local onde o castelo se localizava.
Mas por que ele estaria aqui neste vilarejo?
era o rapaz modelo, desde cedo havia ingressado na política e sempre esteve ao lado do seu pai nas campanhas. Apesar de receber muitos chamados para tentar a liderança de algumas vilas, boatos diziam que ele preferiu esperar um pouco mais para apoiar o seu pai na carreira e com isso poder aprender por mais tempo antes de assumir algum cargo de valor.
Por que eu sei disso?
Pelas inúmeras vezes que minha mãe havia me comparado com ele, mostrando-me como eu deveria ser e como eu não atendia às suas expectativas frustradas.
Eu não podia negar que era bom. Eu já havia assistido inúmeros dos seus discursos e, para alguém tão novo, ele conseguia hipnotizar o público com suas palavras eloquentes e invejáveis.
Em contrapartida, tanto ele como o seu pai aproveitavam de todas as brechas que conseguiam para criticar e desmoralizar a realeza, principalmente a mim, a princesa desafortunada.
Em épocas mais antigas, isso poderia ter levado a morte, no entanto, nos dias de hoje, tal punição já não existia. As pessoas tinham voz e opinião desde que não fossem ofensivos. Claro que, para mim, os seus discursos eram bem daí para pior, mas, ao que parece, para todos os demais, era "apenas" uma forma de mostrar os pontos negativos da administração atual e propor melhorias ao governo.
Desde então eu os odiava.
Acho que era a única coisa que minha mãe e eu concordávamos.
— Desculpa — respondi-o e desviei o olhar para o chão, dei um passo para o lado a fim de me desviar dele e fugir dali, mas ele me bloqueou, acompanhando-me e impedindo a minha passagem.
— Eu não conheço você? — inclinou a cabeça e franziu o cenho, não pude evitar que meus olhos pousassem nele de novo, no entanto, eu não poderia me deixar ludibriar pelo seu cabelo loiro sujo caído por sobre os olhos, ou a barba rala que cobria o seu rosto, e pior, nem mesmo pelos ombros largos atrelados ao impactante azul dos seus olhos.
Se tinha uma boa fama na política, dentre as mulheres, ela era a pior, o que só adicionava ainda mais aos fatores que me levavam a ficar longe dele, seja nas festas no castelo no qual era obrigada a ir ou nos eventos políticos em que eu era arrastada.
— Acredito que não. — Tentei dar mais um passo, contudo, novamente ele me acompanhou, a sobrancelha agora arqueada e uma das suas mãos em sua cintura.
— Tem certeza? Porque eu posso jurar que eu te conheço de algum lugar.
Minhas mãos começaram a suar, meus olhos se desviaram rapidamente dele e passaram de um lado para o outro, ainda que, ao redor, as pessoas pulassem e dançassem. Era como se eu não conseguisse escutar nada, apenas as batidas desesperadas do meu coração.
Pior do que a minha mãe descobrir sobre as minhas fugas, seria fazer essa descoberta pela boca do nosso pior inimigo. Saber que eu estava aqui seria um prato em cheio para Marcus e eu já poderia imaginar todo o tipo de piada que ele jogaria contra a minha pessoa.
— Eu preciso ir. — Apertei minhas mãos em punhos e dei um passo à frente, determinada a ultrapassá-lo ainda que ele tentasse me deter.
Ele deu um passo para trás, confuso, e deixou seus ombros caírem um pouco em uma postura mais relaxada, sua mão voou até o seu cabelo, jogando-o para trás, mas não impedindo que uma mecha caísse de volta na sua testa.
— Desculpe, acredito que eu tenha sido grosso com você no primeiro momento e talvez tenha te assustado. Foi a água. — Elevou um pouco o lábio em um sorriso e apontou para a camiseta molhada.
Meus olhos foram até o local apontado, mas logo desviei, virando-me para ele e analisando o seu sorriso fácil moldar o seu rosto. Se eu não o conhecesse, talvez pudesse acreditar na inocência e gentileza das suas palavras, contudo, era um articulador e se ele estava desconfiado de algo, era melhor que eu fosse embora já.
— Eu sou , e você? — ele me surpreendeu erguendo a mão e estendendo-a para mim.
Encarei-a sem saber muito bem o que fazer. Se eu saísse correndo agora, chamaria muita atenção e era tudo o que eu menos queria nesse instante. A outra opção era pensar rápido, me apresentar e torcer para que ele me deixasse em paz.
— Mellanie Strith. — Estendi vagarosamente a minha mão e toquei a dele, o suficiente para cumprimentá-lo e ir embora.
Assim que minha pele encontrou a dele e eu tentei puxar de volta, apertou seus dedos em volta e carregou a minha mão até a sua boca, depositando um lento beijo ali. Seus lábios estavam quentes, fato que eu não conseguia entender, pois a temperatura da noite estava mais gelada do que o habitual. Ele permaneceu ali por alguns segundos, até que eu balançasse a cabeça desconcertada e puxasse a minha mão contra o meu corpo, dando um passo em falso para trás.
Pela segunda vez na noite, segurou-me para que eu não caísse, só que dessa vez eu estava dentre os seus braços, tomada por um abraço, sua cabeça um palmo acima da minha, mas o seu rosto inclinadamente para baixo, a boca perto do meu ouvido.
— Prazer, Mellanie. Nunca conheci alguém com este nome, mas continuo pensando que seu rosto é estranhamente familiar — murmurou contra a minha orelha e meu corpo se empertigou em seus braços. Empurrei-o levemente até que eu conseguisse me desvencilhar e apenas a sua mão ainda segurava a minha. — Nós poderíamos dançar e nos conhecer mais, eu não conseguirei dormir enquanto essa dúvida continuar latejando em minha cabeça.
Aquele sorriso fácil surgiu em seus lábios novamente e a cabeça levemente arqueada me estudava enquanto eu não respondia.
— O senhor não vai querer dançar com alguém como eu — respondi da forma mais formal possível, deixando que minha mão escorregasse e criando uma barreira invisível entre nós.
— E por que não iria querer dançar com uma moça bonita como você? — Suas sobrancelhas franziram e ele deu um passo à frente.
estava intrigado e pelo visto não cessaria em seu interrogatório enquanto não se desse por satisfeito. Talvez o melhor que eu poderia fazer era aceitar o pedido, pelo menos enquanto dançássemos, não teria como me interrogar e, se eu tivesse sorte, eu poderia ao final me misturar na multidão e ir embora, já que a presença dele aqui havia estragado todos os meus planos de uma noite livre e divertida.
— Aceitarei o seu pedido só porque eu quero muito dançar, mas fique sabendo que seus elogios vazios não me afetam. — Segurei a barra do vestido e virei-me antes que pudesse ver a sua reação. Ele teria duas escolhas, me deixar em paz ou vir atrás de mim mesmo com a minha má resposta, e pelos passos que eu escutei, provavelmente ele havia escolhido a última opção.
Já que ele estava me importunando tanto, o mínimo que eu podia fazer era dar-lhe uma boa resposta, jamais que eu deixaria pensar que eu havia caído em um dos seus truques de sedução baratos.
Entrei na área onde as pessoas dançavam e virei-me, pronta para ver o garoto prodígio de Atra atrás de mim. Não consegui disfarçar o sorriso satisfatório em meu rosto, no entanto, pelo jeito, ele não se importava tanto também, porque sua boca continha uma leve inclinação e suas sobrancelhas se arquearam de uma maneira que indicava que ele havia entrado bem na “brincadeira”.
inclinou-se para mim em um cumprimento, uma mão pousada sobre o seu coração e a outra estendida para mim. A música que tocava agora era alegre e agitada, levei a minha mão para a dele e ambos nos posicionamos juntos com os demais e começamos os movimentos. As danças em grupo geralmente eram as mais divertidas, dançávamos em pares, mas continha saltos, giros e trocas de pares.
Demos um passo em salto para perto do outro, nossos rostos bem próximos por um segundo até girarmos e darmos um outro passo para o lado. As mãos para cima e depois para baixo, meio giro, um passo para a trás, outro meio giro voltando e de novo para frente. Erguemos as mãos e entrelaçamos os dedos levando-as para cima, depois trocamos de posição, de forma que nossos braços se cruzassem ainda com as mãos unidas, eu virada de costas para o seu peito, depois voltando para a posição original. Uma mão minha foi libertada e me rodopiou até que eu fosse parar com outro par e ele continuasse a dança com uma jovenzinha que estava ao seu lado.
Na hora de dar um passo para frente, a menininha deu um maior que o normal, quase trombando cara a cara com , que cambaleou para trás na tentativa de se afastar. Uma gargalhada saiu pela minha garganta e ele me olhou pelo canto do olho, observando-me rir. Logo ele recuperou a sua postura e piscou para mim no momento antes de estarmos de costas um para o outro. Meu sorriso caiu e uma carranca se formou em meu rosto.
Eu não deveria estar aqui me divertindo ou mesmo rindo do , muito menos recebendo piscadinhas dele em meio a uma dança informal no vilarejo. Nós não éramos amigos.
Lembrar disso me fez estagnar e parar a dança automaticamente, no entanto, era tarde demais e o homem no qual eu dançava já havia me empurrado para retornar ao meu par, ainda que meu corpo estivesse como uma estátua diante dele agora.
— O que foi? — perguntou-me intrigado, com certeza conseguia ver a minha resignação estampada em minha face.
— Nada. — Balancei a cabeça e segurei a saia do meu vestido. — Eu só preciso ir embora agora.
Ficar ali não era mais uma opção, eu não podia vacilar e acabar revelando a minha identidade, muito menos perder meu tempo tentando ser cordial com um cara que detestava a mim e a minha mãe.
— Por que está fugindo tão depressa? — Ouvi a sua pergunta ressoar atrás de mim quando me virei para ir embora, apressando os meus passos para que ele não me alcançasse.
Saí empurrando todos que estavam a minha frente até estar em um local mais afastado, tentando chegar logo onde eu havia escondido o meu cavalo para poder fugir dali. Porém, antes que me desse conta, correu mais rápido do que eu e parou em minha frente, estendendo a mão em um pedido mudo para parar enquanto ele ofegava e passava a outra entre o seu cabelo.
— Por que está fugindo assim?
— Não acredito que seja da sua conta — cuspi e me empertiguei, passando meus braços pelo meu corpo e sentindo a brisa fria saindo de dentro da floresta.
se endireitou com a resposta que eu lhe dei e cruzou os braços diante de mim.
— Eu não sei o que possa ter feito para que você me tratasse com tamanha rispidez, além do que, você foi a única que derramou água em mim, lembra?
Levei as minhas mãos até o meu rosto e esfreguei-o, nervosa com a sua insistência e teimosia em me deixar em paz. Queria gritar para ele todos os motivos que me faziam ter vontade de sumir da frente dele, a começar pelas provocações que ele e seu pai causavam em nossa pequena ilha, Atra. Nós já éramos um povo pequeno e isolado, não precisávamos de discórdias internas provocadas por pura intriga da oposição.
Eu precisei morder a minha língua mordaz antes que falasse demais. Minha mãe sempre dizia que um dia eu poderia ser derrubada por falar pelos cotovelos, por isso, eu não iria dar essa chance para o rapaz em minha frente.
— Veja bem, senhor , eu não sei se você está acostumado a ter tudo do jeito que você quer, mas quando as pessoas não querem conversar ou ficar em sua presença, você não pode obrigá-las, principalmente quando se trata de uma dama. Desde que a lei 1.931 de Atra foi sancionada que, nós mulheres, podemos ir, vir, falar ou não falar com quem nós quisermos. Ou seja, não importa se você fez algo ou não, mas sim o que eu quero, que no caso, é ficar livre de você! — Apontei para ele e puxei o vestido de novo, entrando no meio da floresta apressadamente, certa de que independente do que ele fizesse, dessa vez eu não pararia, só pegaria o meu cavalo e daria o fora dali.
O vento frio adicionado a minha raiva, arrepiava a minha pele até a ponta do pé, continuei caminhando até ouvir um som alto que me fez vacilar um pouco. Era longe, mas eu ainda conseguia ouvir o grito de . No entanto, o problema não era que ele havia me retrucado, mas a frase em questão que ele havia emitido, fazendo meu estômago embrulhar e meus passos continuarem ainda mais rápidos para alcançar o meu cavalo.
Você pode até querer ser livre, mas não sei se tem tanta liberdade assim como diz, princesa .



Capítulo 2

Eu não sei quando consegui dormir depois que cheguei em casa. Passei horas e horas revirando-me na cama e perpassando em minha cabeça a fala que havia gritado contra mim. Eu sabia que ele desconfiava de algo, mas acreditava estar bem diferente do meu eu habitual para que ele não pudesse me reconhecer, afinal, eu já havia feito isso inúmeras vezes e em nenhuma delas havia acontecido tal coisa.
Se minha mãe soubesse, ela iria me matar.
Eu ainda tinha esperanças que ela me deixaria fazer uma viagem ao exterior enquanto não me tornasse rainha, mas, se isso viesse à tona, eu poderia dar adeus ao sonho de conhecer algo além do que essa ilha oferecia.
Atra era um país esquecido pelo mundo, 7.127 km de água nos separavam da civilização mais próxima, isso é, se as contas estiverem realmente corretas. Nossa energia era racionalizada e não tínhamos praticamente nenhuma das tecnologias que ouvi dizer que os países do mundo tinham. Éramos uma ilha pequena que se auto sustentava, um paraíso natural, mas que, no entanto, era coberto por montanhas rochosas, penhascos e altos recifes em sua costa, impedindo que qualquer tipo de avião ou helicóptero pudessem pousar aqui. O clima costuma ser chuvoso em grande parte do ano, quase 20 dias por mês de água e apenas 10 de pura luz do sol, o que faz com que as viagens para cá em alto mar sejam altamente perigosas e demoradas. Muitos navios não conseguiam chegar e, com o tempo, as pessoas perderam a vontade de se arriscar ou não quiseram demorar quase sessenta dias em alto mar apenas para poder conhecer o nosso lugar.
Por isso, não temos muitas coisas inovadoras e nos consideram um tanto rudimentais. Mas como querer desenvolvimento para um local isolado e com uma cultura quase que intacta? Isso não quer dizer que não somos felizes como somos, a natureza nos provê o que é necessário para a nossa agricultura e mantimentos. Além disso, tudo o que precisamos de extremamente necessidade, minha mãe, como rainha, faz o pedido para a ONU e ela dá um jeito de nos enviar duas vezes ao ano, que é o máximo que eles consideram se arriscar por nós.
Nessas duas únicas vezes que eles aparecem — isso é, se nada trágico acontecer —, o povo tem a oportunidade de poder sair daqui e desbravar novas aventuras. Assim como fica aberto a visita de turistas a nossa região, caso sejam devidamente registrados com antecedência, se não vira bagunça.
Eram poucos que se ousavam a ir. Em gerações anteriores isso era proibido, mas quando a minha família subiu ao poder, tudo mudou, e foi lhes dado a escolha entre ir ou ficar. Não que tenha mudado tanto a realidade, afinal, não é uma viagem muito atrativa. Mas eu queria, havia implorado aos meus pais para me deixarem e eu estava cansada de ouvir o não sair da boca da minha mãe.
Provavelmente ela acha que se eu fosse, nunca mais voltaria. E em alguns momentos, eu também achava o mesmo.
A maioria das pessoas nasciam e tinham toda uma vida para frente para planejar o que quisessem ser, contudo, eu, desde o meu primeiro respiro, estava fadada a uma responsabilidade que nunca escolhi ter.
Talvez para muitos, ser princesa fosse uma dádiva, mas, para mim, soava como uma maldição. Regras para como me vestir, como conversar, como comer, com quem me relacionar… Cada passo meu era supervisionado e cada erro exposto para toda Atra, o que já não era difícil acontecer, pois um lugar pequeno como esse, a fofoca corria como o vento.
Eu não conseguia me conformar com isso. Se todos eram livres, por que não nós da realeza? Estaríamos fadados para sempre em sermos um padrão? E se eu não quisesse? E se eu não gostasse? O peso da dinastia estava em minhas mãos. Mas e se eu não fosse boa o suficiente? A única coisa que me dava forças para continuar era saber todo o empenho que meus avós fizeram pelo povo, ao ponto de morrer por uma causa. Se eu tivesse que fazer alguma coisa e manter o legado, seria por eles.
Eu vi e ouvi coisas no castelo que eu não queria para mim. Minha mãe raramente sorria e sempre tinha uma expressão séria para tudo. Meu pai dizia que nem sempre ela foi assim, apesar do gênio forte. Eu não conseguia imaginar diferente, ainda mais quando algumas atrocidades eram jogadas contra os seus ouvidos, nessas horas, até eu tinha medo do seu olhar.
Algumas pessoas diziam coisas horrorosas, principalmente do fato da minha mãe ter rompido um relacionamento anterior para casar com o meu pai. Palavras como traição e adultério eram recorrentes entre aqueles que eram contra a coroa, até mesmo foi chamada maldosamente de assassina, e, todos os dias, eu precisei ver minha mãe escutar tudo calada, deixando palavra por palavra cair por terra.
Havia uma época que eu perguntava ao meu pai sobre isso, mas ele apenas me dizia que as pessoas eram maldosas demais e preferiam acreditar em vãs mentiras do que apenas ver a realidade. Já a minha mãe, ela limitava-se a dizer que nunca foi noiva de ninguém e que eu esquecesse o assunto, pois fofoca quanto mais se explicava, mais difícil era de ser esquecida.
Talvez fosse verdade. Hoje não se ouve mais falar tanto sobre isso como quando eu era nova. Acredito que as pessoas não gostam de fofoca velha, os anos trataram de colocar assuntos novos no lugar. Mas até onde eu sei, minha mãe tinha um namorado que faleceu no auge da Rebelião dos Portos, mesma época em que meus avós também morreram.
De qualquer forma, pensar em tudo isso me trazia dor de cabeça e ainda mais insônia. Virei-me para o lado, na tentativa de dormir mais um pouco, no entanto, um som alto de socos na minha porta me fizeram pular da cama assustada. Eu escutava o barulho e uma voz ao fundo, contudo, o sono não permitia que meus olhos se abrissem direito e nem que a minha mente conseguisse processar o que estava acontecendo. A impressão que eu tinha é que não havia dormido nem uma hora completa esta noite, minhas pálpebras pregavam e eu fazia um esforço enorme para abri-las.
, abre essa porta agora! — a voz ecoou mais alto, batendo na porta novamente.
— Calma, estou indo — respondi, sonolenta, empurrei meus pés para fora da cama e cambaleei até conseguir me arrastar a porta e abri-la, topando com uma Eleanor furiosa na minha frente.
Suas mãos estavam em punhos em sua cintura, os olhos como fogo em minha direção, no entanto, sua postura impecável, ereta e contida, com exceção da veia proeminente na lateral da sua testa e as sobrancelhas tão franzidas que quase se uniam entre os olhos.
— Onde é o incêndio para esse alvoroço todo? — reclamei e dei meia volta, deixando que ela entrasse no quarto. Caminhando até a minha cama, joguei-me de volta no meu colchão fofo e afundei a minha cabeça no travesseiro.
Os passos da minha mãe soaram forte no chão e, pelo seu barulho, eu podia identificar que ela já estava ao meu lado.
— Quantas vezes eu já lhe falei para não trancar a porta do quarto? Esperamos você para o café da manhã e como não apareceu, ficamos preocupados. Seu pai e eu pedimos para que Lylliane viesse te chamar, mas ela disse que bateu diversas vezes e você não atendeu.
— Se eu não atendi era porque estava dormindo, mãe. E trancar a porta do quarto é o mínimo de privacidade que uma garota precisa para viver.
Minha mãe bufou ao meu lado e puxou a coberta que eu havia colocado sobre as minhas pernas, jogando-a no chão. Resmunguei e virei-me para impedi-la, mas ela puxou o meu travesseiro debaixo da minha cabeça e jogou-o para longe também.
— Protocolos, ! É o mínimo que eu peço para você seguir. Os tempos são outros, mas nunca sabemos quando pode acontecer uma emergência no castelo. Se o pior vier, como os soldados poderão te retirar às pressas se você estiver aqui trancada em seu quarto e hibernando em um sono profundo?
— Pelo menos se eu morrer, vou morrer dormindo. Quer coisa melhor? Partir para o paraíso sem sofrimento? — retruquei-a rindo e balançando a cabeça, enquanto me levantava e sentava na cama, afinal, dormir eu não iria voltar mesmo.
Minha mãe avançou na minha frente, ficando de pé diante de mim, apontou o seu dedo indicador em meu rosto e inclinou a sua coluna para que ficássemos cara a cara.
— Nem ouse brincar com uma coisa dessa, está me ouvindo, ? Não. Repita. Isso. Jamais! Já tivemos mortes demais nesse castelo — disse ela abruptamente e girou de costas para mim, permitindo que eu percebesse apenas suas costas se moverem para cima e para baixo em um movimento longo e profundo.
Eu havia me esquecido que citar a palavra morte era algo delicado por aqui. Minha mãe não era a pessoa mais aberta do mundo, então ficava difícil adivinhar todos os seus sentimentos, lidávamos com as coisas de formas diferentes e se ela não se permitia conversar comigo sobre o que lhe afligia, eu jamais saberia o que poderia a incomodar.
— Desculpa — respondi com um pouco de remorso, mas logo uma pontada de indignação me surgiu. Eu não deveria pisar em ovos dentro da minha própria casa. — Talvez se você me falasse o motivo de uma simples brincadeira te afetar tanto, talvez eu pudesse compreender o peso que isso tem para você — destilei contra ela, farta de tantas omissões.
Levantei-me da cama e caminhei direto para a minha penteadeira, pegando um pente e permanecendo de costas para ela, nem um pouco a fim de continuar essa conversa.
— A morte dos seus avós não é o suficiente para você? — ouvi sua voz carregada de raiva virar-se contra mim.
Virei-me chateada e pousei o pente com força sobre o móvel.
— Na verdade não, eu nunca os conheci! Talvez esteja na hora de você superar isso, seja lá o que tenha acontecido no seu passado que você quer tanto guardar a sete chaves de mim. E não venha me dizer que isso tudo é pelo vovô e vovó porque eu escuto as coisas, eu sei o que…
— Cale a boca, ! — gritou me interrompendo, sua fúria ondulando pelo nosso espaço e batendo diretamente em mim. — Só cale… a boca — terminou arfando e passou a mão por seu rosto, antes de caminhar até mim vagarosamente, como uma leoa age quando vai capturar a sua presa.
Essa era a verdadeira Eleanor, a que todos conheciam. A mulher que exalava uma supremacia poderosa, como se não houvesse ninguém maior do que ela, até eu acreditava que ela era inabalável. Isso é, quando eu me esquecia dos lapsos, dos raros instantes como há pouco que ela mostrava vislumbres de uma fragilidade que quase ninguém sabia que existia. Momentos esses que só apareciam quando lembranças de um passado doloroso surgiam diante dela.
— Você não precisa saber nada, , sabe por quê? Você não está pronta. Se é uma princesa que não compreende a importância de seguir uma simples norma fundamental do castelo, por que mereceria entender qualquer outra coisa do que se passa por aqui? — contra-atacou, suas palavras mais afiadas do que qualquer espada. — E eu não vim aqui para conversar trivialidades, nem mesmo para ouvir sua malcriação contra mim. Seu pai e eu precisamos conversar algo muito mais sério com você, então arrume-se e desça, nós não temos o tempo todo mundo para te esperar.
Assim que completou, minha mãe virou-se e saiu do meu quarto apressadamente, não me dando chance de sequer perguntar nada ou retrucá-la. Não demorou muito para a minha ficha cair… eu havia saído ontem, descobriu a minha farsa e já de manhã meus pais queriam conversar comigo.
Este era o meu fim.
Eu havia sido delatada.
Já podia até imaginar os livros de história contando como o fim da dinastia havia se encerrado com a morte da princesa , porque, com certeza, se minha mãe não me matasse, no mínimo me castigaria até a morte.
Eu poderia pensar em alguma desculpa, inventar alguma mentira.
Eu ainda tinha alguns minutos, não tinha?
Pior era que qualquer coisa que eu dissesse talvez enganasse a minha mãe, mas não o meu pai. Ele me conhecia demais e sabia me ler com excelência. Nunca que eu conseguiria enganá-lo e isso não era algo que eu tinha hábito de fazer. Omitir sim, mentir… não.
Corri para fazer a minha higiene matinal e trocar de roupa, assim que terminei de me aprontar, passei pelo corredor correndo e desci as escadas, chegando rapidamente para a sala de descanso, que é onde meus pais costumavam ficar após o café da manhã.
Chegando lá, meu pai estava sentado sobre o sofá com os pés sobre a mesinha de centro, ele lia uns papéis em suas mãos e tinha o cenho franzido. Seus cabelos compridos e castanhos cobriam suas orelhas e os fios estavam despojados de uma forma que ele parecia que havia acabado de acordar e eu tinha certeza que tinha irritado a minha mãe.
Meu pai era um homem bonito e era incrível como seus olhos verdes seduziam todas as moças dos bailes que frequentávamos. Difícil alguma que não suspirava por ele, mas, para o azar delas, o olhar dele só se dignava a uma pessoa, e o nome dela era Eleanor .
Ao contrário do meu pai, minha mãe estava sentada elegantemente ao seu lado com uma xícara de chá em mãos. Só precisou de um passo meu adentro para que seu olhar pousasse em mim com fulgor e ela abaixasse lentamente o copo e o depositasse na mesa, colocando-se prontamente para fazer a minha cova.
— Desculpe, mãe, eu prometo nunca mais repetir isso, sei os riscos implicados, mas eu juro que vou consertar. Eu serei uma boa menina e a princesa que você deseja que eu seja, mas, por favor, não me tire a oportunidade de fazer a viagem. Você prometeu pensar. É a única coisa que te peço. A viagem seria uma boa para minha experiência e todo conhecimento obtido será refletido no meu desempenho como rainha um dia. Por favor, mãe, me perdoa — discursei rápido, soltando um monte de frases atropeladas e sem sentido. As lágrimas já se acumulavam em meus olhos, mas segurei o máximo que pude, pois tinha que mostrar que era tão forte quanto ela, apesar da escolha ruim que havia feito ontem à noite.
Assim que terminei, reparei que meu peito arfava em uma respiração acelerada e minhas mãos tremiam. Minha mãe me encarava com uma expressão confusa, a cabeça levemente inclinada para o lado e o cenho franzido em minha direção.
— Do que está falando, ? O que você aprontou?
Empertiguei o meu corpo e enruguei a testa. Ela estava me perguntando o que eu fiz? Mas se ela não havia me chamado porque tinha descoberto sobre a minha fuga…
Nossa! Eu havia feito um furo enorme!
— O que você queria falar comigo? — rebati, curiosa.
… Não brinque comigo. Você chegou aqui baforada pedindo desculpas e agora eu exijo que você me conte o que aprontou!
Se ela não sabia, não seria eu que iria contar. Uma coisa era ela descobrir e eu ter que confessar a minha “versão” das coisas, outra era ela nem imaginar e eu jogar a bomba no seu colo. Não mesmo. Além do que, por mais que eu tenha perdido a minha noite de sono pensando no que poderia amenizar a minha situação, não encontrei nada que fosse plausível. Precisava de mais tempo para preparar o terreno.
— Eu estava pedindo perdão pela nossa discussão lá em cima. Eu sei que errei em trancar a porta e reconheço o quanto é importante não fazer isso, o risco de se manter trancada caso seja necessário uma fuga pelos esconderijos secretos durante uma invasão é alta ou mesmo para a entrada dos guardas para me protegerem. Fora que, se os esconderijos fossem invadidos e meu quarto estiver trancado, seria o fim. — falei, lembrando de todas as aulas de emergência que já tive e quantas vezes isso já havia sido repetido para mim. — Além disso, eu fui longe demais nas coisas que falei com você lá em cima. Me desculpe — terminei de montar a minha historinha, torcendo para que isso fosse o suficiente para corrigir o meu gafe.
Minha mãe me olhou intrigada e se eu a conhecesse bem, ela ainda estava desconfiada de algo, no entanto, não ia muito longe nisso, ela era ardilosa o suficiente para me deixar enforcar com a minha própria mentira.
— Não sei se acredito muito bem nisso, . Mas você sabe o que pode acontecer caso saia dos trilhos. Eu te passei todas as condições para que eu permitisse que você saísse de Atra, no entanto, não é porque você não estaria nos limites do nosso país que deixaria o seu legado de princesa para trás. Não se deixa a coroa, , a coroa é que deixa você. Lembre-se disso. Não se pode fugir daquilo que foi destinada a herdar. Eu acredito em você, mas você precisa acreditar em si mesma e se dar uma chance também. — Suspirou profundamente, os ombros caindo em exaustão.
Já havíamos tido várias conversas semelhantes e em todas elas minha mãe parecia sair frustrada. Um pouco da sua ferocidade se foi e ela aparentava mais calma agora, os vincos da sua testa se suavizaram e ela passou os dedos lentamente entre os olhos antes de abaixar a mão e voltar a falar.
― Sei o que pensa, filha, você acha que a coroa é apenas um peso, um fardo que estamos destinados a carregar. Por um lado você está certa, realmente temos que abdicar muitas coisas e até a nossa própria vida por ela. Nem sempre as escolhas que queríamos fazer são a que realmente devemos fazer, e isso não é fácil de decidir. Perdas, dores, abdicações, aflições, tudo isso é inevitável em algum momento da nossa vida, mas, por outro lado, há muita gratificação. Todo poder que temos nas mãos pode converter-se aos outros, fazer o nosso país crescer, fazer coisas que ninguém mais pode. Podemos transformar vidas! Você não consegue enxergar como isso é importante?! ― exclamou com os olhos brilhando e eram sempre nesses momentos que eu tinha certeza que seja a dor que minha mãe havia passado um dia, ela não se arrependeria de nenhuma das suas decisões.
Respirei fundo e desviei o olhar até meu pai, agora ele já havia largado os papéis sobre a mesa e tinha as mãos juntas e entrelaçadas sobre a perna, observando a interação entre minha mãe e eu.
― Eu só… A verdade é que na maioria das vezes eu só queria ser invisível. Poder ser eu mesma. Eu não posso nem me dar ao luxo de errar, vocês têm ideia de como isso é desgastante? ― consternei, gesticulando com as mãos e colocando para fora a minha frustração.
― Mas sua mãe e eu já não tentamos te ajudar nessa transição? ― meu pai falou, intrometendo-se pela primeira vez na conversa.
― Eu sei… ― Passei a mão no meu rosto e grunhi. ― Vocês têm me permitido sair mais e participar de alguns eventos da cidade, mas é horrível sair com um bando de guarda atrás de você, ou mesmo ter um monte de pessoas te vigiando e esperando qualquer passo falso que dê para te jogar do penhasco ― desabafei, cansada de tudo isso. ― Vocês falam como se parecesse tão fácil, como se todos os contras dessa realidade não afetassem vocês. Como se essa coroa tivesse algo tão bom que isentasse tudo de ruim que ela pode trazer. Como pode falar tranquilamente se eu sei que não é totalmente verdade? Não é fácil assim como você tenta demonstrar ser, mãe ― cuspi duramente.
Eles tentavam colocar algo na minha cabeça que não entrava de jeito nenhum. Não havia justificativa que me dessem que iria mudar a minha opinião. Eu odiava essa coroa maldita, odiava ser princesa e odiava ser filha de quem eu era, porque isso significava ter nascido debaixo de um jugo que eu nunca quis.
Minha mãe respirou fundo e bateu a mão ao lado dela do sofá, balancei a cabeça consternada, mas fui até ela e sentei-me ao seu lado. Senti seus dedos pousarem acima dos meus e um olhar diferente vindo dela em minha direção.
, querida… Eu tenho sim muita noção de como é desgastante e difícil. Só eu sei o que passei para chegar até aqui. Um dia talvez você entenda, talvez um dia você saiba por si só, ou mesmo eu conte a você. Então, se estou dizendo que vale a pena, é porque é verdade. Chega um momento que seria muito egoísmo da nossa parte simplesmente abandonar todo o povo por um sentimento que é só seu. Você pode até achar que não está preparada para o cargo, mas para isso chegará o momento certo. O que não pode acontecer é você querer deixar a coroa para viver sua própria vida e caprichos quando tantos esperam por nós. Quando aprender a usufruir do que é seu, descobrir todas as vantagens e tudo que pode fazer com o poder que lhe é dado, tenho certeza que esquecerá até de si própria para um bem muito maior, afinal, você é uma , está em nosso sangue.
Minha mãe deu dois tapinhas na minha mão e meu pai riu da outra ponta do sofá.
― Engraçado, pai? ― Sorri em falso pra ele, rolando os olhos.
― Acho incrível o poder que vocês duas têm de estarem quase se batendo há meia hora e agora estarem sentadas lado a lado, sua mãe saindo da fera para esse amor de pessoa. ― Piscou para ela e minha mãe sorriu.
― Se eu não soubesse que a minha mãe conta tudo para o senhor, eu acharia que você tinha ouvido nossos berros aqui de baixo ― brinquei, ficando em pé e indo até ele, me joguei para o seu lado no sofá e abracei-o.
― Você está certa, ela me disse, mas, ainda assim, acho que toda Lavarelli devem ter ouvido vocês ― gracejou e passou a mão pelo meu ombro, trazendo-me para o seu peito e me abraçando.
― Engraçadinho. ― Rolei os olhos e vi a boca da minha mãe se inclinar com a nossa interação, ela sempre aparentava satisfação quando nos via juntos.
― Tudo bem, Enrico, agora que colocou a conversa em dia com a , acredito que você possa falar para ela o motivo de termos a chamado aqui. ― Inclinou sua sobrancelha e estendeu a mão para apontá-lo, sinal para que ele seguisse em frente.
Eu havia até me esquecido disso após o alívio de não ser o que eu pensava.
― Ainda não, amor… ― Ele inclinou-se na direção dela e deu-lhe um beijo.
― Enric, Enric… Sempre mimando a nossa filha ― consternou docemente para ele. Minha mãe tinha um jeito completamente diferente de falar quando se travava do meu pai, não sei que poder ele tinha sobre ela. ― Vai deixar para que eu diga para , não é? Medroso… ― completou, balançando a cabeça para ele.
― Você sempre sabe de tudo, meu bem ― meu pai respondeu com um sorriso de orelha a orelha. ― Com certeza a me dobraria facilmente. Eu preciso de você, sempre. ― Deu-lhe outro selinho, olhando para ela com aquela cara de bobo apaixonado que ele sempre fazia.
― Dá para vocês pararem com o mel, por favor, e me digam de uma vez o que tanto querem conversar comigo. Deve ser muito grave ao ponto do meu pai não ter coragem para me dizer ― reclamei, coloquei uma mão em minha cintura e virei meu tronco para eles.
― Filha, você sabe em qual estação estamos? ― minha mãe perguntou.
― Primavera.
― Então… Como deve saber, a primavera sempre é uma estação especial para nós. É quando recebemos o navio, repomos as nossas mercadorias, ganhamos presentes e comemoramos.
― Óbvio que sei. Como esquecer do Famoso Baile Real da primavera de Atra ― respondi, querendo saber onde que chegaria tudo isso.
― Ótimo ― minha mãe prosseguiu. ― O baile, além de ser importantíssimo para a história da nossa família, hoje é um evento muito aguardado por todo o povo. A vinda dos governadores e suas famílias também é importante para estreitarmos os laços com eles. Faz algum tempo que não há ataques e a paz tem se ponderado em nosso reino. Não vou te dizer que as relações estão perfeitas, filha, muito pelo contrário... ― falou, franzindo o cenho e olhando de esguio para o meu pai.
Ele acenou a cabeça para ela e minha mãe respirou fundo, continuando o seu discurso.
― Já tem um tempo que certas coisas têm acontecido e estamos preocupados. Não sabemos realmente se as alianças do conselho estão firmes como antigamente. Por isso, o evento deste ano tem como objetivo estreitar estes laços de novo. Seus avós lutaram muito por isso e eu também. Foi muito difícil chegarmos a um acordo de paz e não será por mesquinharias de um ou de outro que vamos deixar isso acabar ― completou, pensativa.
Atra era composta por cinco governadores, cada um deles responsável por uma região da ilha de Atra. Os cinco compunham o conselho real, que tinha como objetivo apurar as decisões mais importantes da realeza. Por isso era importante manter a harmonia com eles e tê-los ao nosso favor e não como inimigos.
― Ok, mas onde eu me encaixo nessa história? ― perguntei, impacientemente.
Minha mãe não costumava me contar detalhes sobre os problemas do reino. Parte porque eu mesma não me interessava por isso e outra porque, se havia algum segredo embutido, ela faria questão de me deixar por fora.
― Sempre apressada, não é, , não é à toa que nasceu antes do tempo ― Meu pai retrucou-me em gracejo e eu lhe dei um empurrãozinho em resposta.
― Já que você cortou o belo discurso que eu fazia, vou ir direto ao ponto principal. ― minha mãe chamou a minha atenção de volta, agora com uma postura não mais tão relaxada, seus olhos eram sérios e cravaram-se aos meus, de forma que eu não desviasse. Meu pai segurou a mão dela e a olhou antes de se voltar para mim, também esperando que eu finalmente soubesse o motivo daquilo tudo. Toda essa demora e hesitação só me deixavam mais nervosa.
O que estava acontecendo, afinal?
― Seu pai e eu conversamos muito durante essa semana e cremos que já é a hora de você assumir certas responsabilidades por aqui, . Com isso chegamos a seguinte conclusão… ― Fez uma pequena pausa, antes de completar a frase que derrubou o meu chão. ― Queremos que você organize o Baile de Primavera deste ano.



Capítulo 3

― O quê? ― interpelei, levantando-me consternada com o que estavam me propondo. ― Vocês não podem me pedir isso, aliás, vocês não devem me pedir isso. ― Apontei para eles.
Minhas mãos suaram instantaneamente, meu coração batia forte no meu peito e minha cabeça zumbia. Só de pensar no pedido deles minha pele formigava.
― Posso saber o motivo, ? Você, como princesa e futura rainha, organizará todos os eventos do nosso reino posteriormente, nada melhor do que começar por esse. Na sua idade eu já auxiliava a sua avó e, ainda por cima, arcava com muitas outras atribuições ― minha mãe justificou tranquilamente, como se estivesse pedindo para pegar para ela um copo de café.
― Falou certo, mãe, você auxiliava, agora você quer que eu organize sozinha?! ― retruquei, ainda sem acreditar. ― Você acabou de dizer como o evento é importante e ainda tem coragem de deixar isso nas minhas mãos? Pai.. ― Olhei para ele em súplica. ― Convença ela, pelo amor de Deus. Isso vai ser um desastre!
Meu pai deixou o ar sair do peito em um suspiro e ergueu a sua mão até a minha, apertando-a numa tentativa falha de me acalmar.
― Filha, ouça a sua mãe. Nós conversamos bastante sobre isso e acreditamos na sua capacidade. Você sempre foi muito esforçada e organizada, o seu desempenho nos estudos sempre foi excelente também, só queremos que aplique o seu potencial em algo importante para nós ― justificou, suas palavras saindo em um tom tranquilo enquanto ele passava o polegar no dorso da minha mão.
Eu não podia acreditar. O Baile Real da Primavera era simplesmente, não só o maior evento de Atra, mas o mais importante também. Eu o adorava, o empecilho não era esse. Tínhamos uma semana inteira de festividades, a começar pelas ruas da nossa ilha, toda a população parava para cantar, dançar e comemorar. No meio da semana minha mãe pegava as mercadorias de doações que chegavam e distribuía para que os governadores levassem para seus territórios. Livros, brinquedos modernos, tecidos, entre outras coisas. Era muito variável e nunca sabíamos de fato o que viria. No entanto, era sempre uma grande comemoração. No último dia havia a festa no castelo, que era mais para um fim político, mas não deixava de ser estonteante.
Então, como podem ver, eu amava o evento, o único problema era eu ficar responsável por ele.
E se eu fizesse alguma coisa errada? Não queria ser a responsável por estragar a semana mais esperada de Atra. E se alguma coisa que eu fizesse causasse insatisfação no reino?
Só de imaginar meu peito doía e o ar sumia dos meus pulmões.
Não, definitivamente não.
Eu não poderia tomar essa responsabilidade para mim. Como meu pai poderia ser conivente com esse plano maléfico da minha mãe?
― Não, não e não. Nem pensar! Sério que vocês estão cogitando mesmo isso? ― Arranquei a mão que o meu pai segurava e afastei-me deles.
Minha mãe levantou devagar, mas, sombriamente, do sofá. Eu era um pouco mais alta que ela, no entanto, ainda que fosse menor, a sua postura era intimidante. Sua boca formou uma linha fina e sua veia latejada na lateral da sua testa.
― Chega! ― Sua mão cortou o ar em um movimento de basta e depois pousou em sua cintura. ― Isso não está em discussão! Nós já pegamos muito leve com você, , não queria ter que impor isso como uma obrigação, mas você não me dá escolha. Não há outras opções, somente uma. Ou você organiza o baile ou você organiza o baile. Quer manter as suas regalias? Então faça o que estamos mandando ― ordenou, alterando seu tom de voz e me olhando com a carranca proeminente.
― Lea... ― meu pai tentou interrompê-la, mas ela ergueu a mão para pará-lo.
― Eric, não! Não tente amenizar as coisas ― exclamou para ele e depois voltou o seu olhar novamente para mim. ― Me escute bem, , isso será apenas a primeirade muitas coisas que você fará por aqui. Já cansei de você fugindo das suas responsabilidades. Você nunca parou para olhar para si mesma e ver como é egoísta? E pode adicionar também mimada e ingrata.
Não conseguia abrir a boca para dizer nada, as palavras que ela soltava me chocavam e me tiravam o chão. Minha mãe e eu sempre discutimos, mas nunca ela havia sido tão agressiva comigo ou perdido a sua compostura dessa forma.
Eu fiquei calada e atônita, encarando-a.
― Veja, eu não sei onde posso ter errado com você, mas muita gente se sacrificou até aqui para manter isso tudo de pé e você precisa continuar esse legado. Eu espero muito que em algum momento você possa acordar para vida e ver que temos muito mais responsabilidades e deveres do que simplesmente ter tudo a disposição às nossas mãos. Somos um país pequeno e ilhado do mundo, precisamos racionalizar tudo o que fazemos para não faltar para o povo. Há pessoas que passam fome, sabia? Ou outras que estão desempregadas porque aqui não há muitas opções. Crianças sem lares, idosos abandonados, vícios e violência. Não é porque temos tudo em menor proporção que estejamos isentos.
Minha mãe explanava enquanto sua respiração ia acelerando a cada segundo.
― Eu luto todos os dias para fazer o melhor para Atra, tento manter tudo aquilo que meus pais começaram e trazer ainda melhorias de acordo com as nossas possibilidades, mas eu não faço milagres. Sei que somos limitados e tento com todas as minhas forças fazer a diferença. Mas você, , está tão preocupada em viver a sua vidinha tranquila, com suas pernoites por aí... ― Fez uma pequena pausa e eu senti o meu sangue ser drenado completamente fora do meu corpo nesse instante. ― Ah, não fique surpresa, querida, eu sei de tudo. Não há nada nesse reino que não me passe aos olhos e se você acha que não foi descoberta ainda porque tem disfarces mirabolantes, sinto em lhe informar que foi eu que encobri muito das suas travessuras.
Gesticulou com a mão e depois ambas estavam em punhos em sua cintura enquanto ela dava um passo para ficar mais perto de mim.
― Enfim, o que quero dizer é que esse seu tempo acabou. Chega de olhar para o seu próprio umbigo, fazer o que bem entende e correr das suas obrigações. Não deixe que eu perca o resquício de fé que eu tenho em você. Estamos entendidas? ― terminou com uma interrogação, mas, por acaso, depois de tudo, tinha eu espaço para pestanejar?
Óbvio que não.
Engoli em seco e meus olhos pinicaram, cerrei minhas mãos ao meu lado e mordi o lábio inferior com força, impedindo que qualquer lágrima caísse. Uma mistura de mágoa e raiva subiram pela minha espinha, mas assenti com a cabeça, olhando por último para o meu pai e vendo o rosto dele cabisbaixo, sem nem mesmo me encarar.
― Se me dão licença, vou me retirar, pois tenho um baile para organizar ― despedi-me com a voz embargada, um bolo se formando em minha garganta e a única coisa que eu desejava era voltar ao meu quarto.
Eu não permitiria que ela visse minhas lágrimas caindo e já que era para atuar como uma princesa, então eu seria, e princesas jamais deviam chorar em público.
Caminhei depressa até chegar aos meus aposentos e me joguei contra a minha cama, abraçando o travesseiro e deixando o choro que estava entalado escorrer pelas minhas bochechas.
Eu odiava a minha vida e odiava esse cargo. Tudo o que eu queria era sumir, mas, para completar, vivíamos em uma ilha isolada do mundo que não me dava nem chances de escolher quem eu realmente queria ser.
Escutei passos adentrarem o meu quarto e virei-me bruscamente em direção a porta, vendo o meu pai parado ali, seu olhar perdido e as mãos dentro do bolso.
― Posso entrar? ― perguntou e eu dei de ombros, fingindo não me importar.
Ele caminhou até a minha cama e senti o colchão afundar assim que ele se sentou, sua mão foi até os meus cabelos e ele retirou do meu rosto devagar, colhendo com o indicador uma das lágrimas que haviam escorrido.
― Sua mãe e eu só queremos o seu bem… ― murmurou e eu virei para olhá-lo, a raiva brotando novamente eu meu coração.
― Me obrigando a viver uma vida que eu não quero? ― repeli e depois voltei a enfiar a minha cabeça na cama, evitando o seu olhar.
Ficamos ambos em silêncio, meu pai sabia que conversar comigo nesse instante seria perda de tempo, ainda mais depois dessa briga fenomenal com a minha mãe. Não sei quantos minutos se passaram, mas meu pai continuou ali do meu lado até que o choro passasse e eu fosse me tranquilizando.
Quando eu me senti um pouco melhor, virei-me de lado na cama e dei um sorriso fechado para ele, recebendo um de volta também. Levantei-me e sentei-me com as pernas cruzadas em sua direção, colocando o travesseiro por cima delas para que eu pudesse apoiar o meu braço.
― Ainda quer conversar? ― perguntei.
― Não sobre isso… Acho que hoje já foi o suficiente, não é? ― Sorriu e piscou para mim e eu acabei por acompanhá-lo. ― Que tal aproveitar que o seu humor melhorou e me contar para onde você foi ontem à noite?
― Por que eu suspeitei que essa pergunta viria cedo? ― Balancei a cabeça e me preparei para conversar com ele.
Meu pai, diferente da minha mãe, sempre tinha calma comigo e uma forma diferente de conversar. Eu não sei que poder ele possuía sobre mim, mas sempre me arrancava até os segredos mais sórdidos.
― Não foi nada, pai. Havia uma festa no vilarejo e eu queria muito ir. Eu tenho 19 anos e tenho toda essa energia ainda na minha pele. Nada anormal, a única diferença é que lá fora os jovens podem extravasar e eu não.
Meu pai franziu levemente a sobrancelha e passou a mão por seu cabelo, deixando-a descer sobre o seu rosto, aparentando cansaço.
― Você sabe que eu nunca te castiguei ou briguei com você por querer aproveitar a sua juventude, no entanto, eu seria um péssimo pai se não te pedisse cautela quanto aos perigos lá fora. Por mais que você dê seu jeito para fugir sem ser reconhecida, o risco existe. Ser da realeza nos cobra uma postura diferente que as pessoas não entenderiam se vissem de outra forma, além disso, você é uma pessoa importante, filha, e não podemos confiar que toda a população de Atra, ainda que pequena, tenha um bom coração.
― Eu sei pai, eu sei... Mas eu precisava desse momento. Antes eu tinha a escola para poder me socializar mais e me distrair, mas agora não tenho mais nada. As oportunidades que eu tinha de me sentir um pouco normal acabaram e a qualquer hora eu vou ter que assumir de vez o meu espaço no trono. Eu precisava aproveitar minhas últimas oportunidades! ― elucidei com pesar, lembrando-me das poucas boas épocas que eu havia tido quando convenci a minha mãe que estudar na escola junto com o povo era o melhor a se fazer.
― Eu entendo, , mas, mesmo assim, preciso que tenha cuidado. Acredito que seria melhor você diminuir essas saídas aos poucos para já ir se habituando e, quem sabe, começar fazer uma ou outra coisa que sua mãe te peça. Quem sabe você perceba que nem tudo é tão ruim quanto pensa?!
― Talvez... Mas eu costumo ser bem tranquila nas minhas saídas. Sempre dá certo. Bem… ― Fiz uma pausa recordando-me do ocorrido da noite anterior. ― Pelo menos na maioria das vezes.
… ― meu pai chamou a minha atenção. ― O que aconteceu?
Olhei para os meus dedos e comecei a brincar com eles, uma gotícula de suor frio escorrendo pela minha nuca.
― Você se lembra do ? ― indaguei baixinho, ainda sem encará-lo.
― O filho do governador? ― jogou de volta, sua voz endurecendo um pouco.
Se até o meu pai, que tinha um coração de ouro, ficava assim quando o nome desse homem era tocado, já é de se imaginar que ele não é nem um pouco bem vindo aqui.
― Ele mesmo ― confirmei. ― Eu o encontrei na festa do vilarejo e de alguma forma ele me reconheceu ― contei, lembrando-me da última frase que havia me dito.
― O quê? Mas como?
― A gente meio que se esbarrou, depois ele acabou me chamando para dançar, e… ― parei quando as risadas do meu pai me interromperam.
― Então ele te chamou para dançar, foi? ― A boca dele se ergueu levemente e sua sobrancelha direita foi arqueada.
― Na verdade ele foi bem insistente quanto a isso… ― falei, arrancando os fiozinhos soltos do meu travesseiro enquanto me lembrava da noite embaraçosa.
― Hum…
― Hum o quê? ― Parei o que estava fazendo e franzi o cenho para o meu pai.
― Nada, só acho um tanto irônico logo o filho do , o pior inimigo da sua mãe, se interessar por você ― gracejou.
― Ele não estava interessado em mim, está louco?
― E por que não? Você é linda e nunca te faltou pretendentes. Esse não deve ser ileso a isso também.
― Ai, pai ― murmurei e coloquei as mãos sobre o meu rosto. ― Ele não estava interessado em mim, e se eu estiver certa, ele deve me odiar tanto quanto eu odeio ele. e eu nunca nem sequer conversamos, a gente se evita o máximo que pode. Por que você acha que agora seria diferente? Com certeza ele só me chamou para dançar para me provocar.
― Imagina só se vocês namorassem? Marcus iria enlouquecer. Eu pagaria para ver essa cena. ― Gargalhou com a mão no queixo e olhando para cima, parecendo nem ter ouvido a minha explicação.
― Eca! ― Coloquei a língua para fora. ― Nem que ele fosse o último homem de Atra. Eu fugiria dessa ilha nadando antes de ficar com alguém como o .
― Cuidado, quem muito desdenha... ― brincou e eu abri a boca, ultrajada.
― Você está engraçadinho hoje, não é? ― Rolei os olhos e ele me puxou para os seus braços, sacudindo o meu cabelo como quando eu era pequena, e eu grunhi reclamando até me desvencilhar dele, sorrindo.
― Ok. Vamos voltar a seriedade do assunto. Se sua mãe não ficou sabendo até agora, então é porque ele não contou que te viu. Talvez ele não se importe ou esteja planejando alguma outra coisa. Um suborno talvez?
― Não sei, eu espero de tudo vindo dessa família. Talvez ele só quis me provocar, mas não dá para confiar.
― Sua mãe vai ficar louca se ele usar isso contra ela ― suspirou e segurou a ponte do nariz enquanto cerrava os olhos.
Inspirei lentamente e soltei o ar devagar, querendo evitar até imaginar o que poderia acontecer.
― Você acha que ela vai ficar muito brava? Não é como se ela não soubesse das minhas escapadas. Ela mesmo falou isso agorinha.
Meu pai olhou para mim e arqueou a sobrancelha como se dissesse: “sério?”
― Uma coisa é ela saber, outra é ter Marcus usando isso contra ela.
― Ai, meu Deus… ― Trouxe o meu travesseiro até a minha cara e grunhi contra ele.
Na verdade eu queria gritar, mas não podia.
― Vamos torcer para que guarde isso para si, ok? Talvez nada aconteça e sua mãe não terá mais com o que lidar além do que já tem.
Balancei a cabeça, mesmo sem acreditar em uma única palavra dele. Ainda bem que ele tinha fé por nós dois.
― Agora eu vou tentar colocar um sorriso no rosto da outra mulher que eu mais amo aqui nesse palácio. ― Inclinou, me deu um beijo na cabeça e levantou-se da cama.
Meu pai sempre tinha o poder de acalmar a mim e a minha mãe. Só ele mesmo para trazer paz para casa. E, uma coisa era certa, se tinha alguém que conseguia fazê-la sorrir, essa pessoa era ele.
Várias vezes ele me contava histórias de uma juventude que eu não conseguia imaginar. Um tempo onde minha mãe sorria e era talvez tão aventureira quanto eu.
Eu não conseguia conceber isso, mas meu pai não era de mentir.
― Pai, quem foi? ― questionei e ele se virou, olhando para mim por cima do ombro.
― Quem foi o quê? ― lançou a pergunta de volta com o cenho franzido.
― Quem fez com que a minha mãe ficasse como ela é hoje?
As sobrancelhas dele caíram e ele mordeu levemente a bochecha interna, desviando o olhar por um segundo para o chão.
Ele me deu um sorriso triste e balançou a cabeça. Não fora preciso palavras, ele não ia contar. E, por isso, eu era a única que poderia tentar juntar as lembranças e tentar descobrir mais informações sobre a vida antiga e secreta da minha mãe.



Capítulo 4

10 anos atrás

Os pássaros cantavam e sobrevoavam sobre o jardim florido. A fonte que ficava em nosso quintal estava coberta por trepadeiras e jorrava, tornando-se um manancial para os animais matarem a sua sede. O canto das aves era música para meus ouvidos e o cheiro das flores da primavera como perfume enquanto eu corria pelo jardim.
Minhas pernas doíam e o suor escorria pela minha testa, fazendo meus cabelos pregarem em meu rosto, uma dorzinha lateral na minha barriga me incomodava, mas não era o suficiente para me parar.
A primavera era a minha época do ano preferida, eu corria pela relva, erguendo a mão e tocando as flores enquanto aspirava o aroma e deixava a luz do sol me aquecer. A adrenalina subia em minhas veias e eu me esquecia o quanto era sozinha no castelo. Às vezes eu encontrava uma criança ou outra para brincar, no entanto, ser princesa vinha com um título subscrito de intocável. Nenhum pai queria que seu filho brincasse comigo e acabasse levando a culpa caso eu me machucasse. Ou então, caso eu aprontasse alguma coisa, dificilmente levaria os danos por isso, ao contrário deles.
Contudo, essa semana seria diferente, além do lindo cenário que a primavera nos fornecia, teríamos a grande festa. Muitos convidados viriam, os governantes e suas famílias, pessoas que eram mais próximas a minha realidade e eu poderia me divertir pela primeira vez com menos ressalvas. Se eu tivesse sorte, os governadores trariam sobrinhos e sobrinhas, aumentando meu leque de oportunidades de me divertir, já que poucos eram os filhos biológicos.
Seria meu primeiro baile oficial, já que a realeza só era autorizada a participar quando completasse nove anos de idade. Os demais não poderiam, apenas quando completassem a maioridade, no entanto, esse ano seria diferente, meus pais abriram para que eles pudessem trazer a todos e eu finalmente teria a oportunidade de conhecer mais pessoas.
Corri para dentro do palácio assim que escutei o som das trombetas anunciando a chegada dos convidados. Eu esperava que fosse Katherine, minha única amiga de verdade e a única pessoa que vinha me visitar em outras datas que não fossem o Baile da Primavera. Não que a gente fosse do tipo de fazer pulseirinha uma para outra ou pacto de cuspe, mas era a pessoa mais próxima a mim e eu gostava de dizer que possuía pelo menos alguém no meu rol de amizade.
Apesar da proibição de participar do baile, a mãe da Kath e a minha eram amigas, então ela sempre vinha e a gente ficava no meu quarto brincando enquanto os adultos permaneciam na festa.
Assim que cheguei no local, escondi-me atrás de uma pilastra, pois se minha mãe me visse no estado em que eu estava, ia arrancar o meu pescoço fora. Eu aparentava uma mendiga, suada, os cabelos desgrenhados e a roupa suja de terra.
Ouvi uma agitação do lado de fora e esgueirei meu pescoço para que pudesse ver melhor, dois homens estavam ao lado da minha mãe, cada um deles tinha um menino ao seu lado. Um deles parecia ser um pouco mais velho do que eu, era magro e tinha um cabelo liso escorrido castanho, ele estava meio escondido atrás das pernas do seu pai e encarava o garoto do outro lado, que estava perto de um homem que gritava e gesticulava fortemente.
O homem parecia zangado e seu filho não aparentava ter a cara mais sociável do mundo. Seu cabelo loiro escuro caía sobre a sua testa e seus braços estavam cruzados ao lado do seu pai. Era fácil notar o seu parentesco porque eles eram muito parecidos, até na cara ranzinza.
O garoto sério olhou para o lado e franziu as sobrancelhas assim que pousou seu olhar em mim, eu me escondi rapidamente atrás da coluna, sentindo meu coração saltar pela garganta. Inclinei-me um pouquinho, só para tentar ver alguma coisa de novo e o garoto ainda me olhava, agora inclinando um pouco o lábio antes de voltar o olhar para o seu pai e continuar prestando atenção na conversa.
A sua ação deve ter chamado a atenção do menino magrinho, porque ele também me olhou e logo em seguida puxou a camiseta do homem ao seu lado e este inclinou em sua direção. Ele cochichou algo para o mais velho e recebeu uma confirmação de cabeça dele, que fez com que ele saísse do local e desaparecesse.
Olhei de um lado para outro sem compreender muito bem, mas voltei a prestar atenção na agitação dos adultos.
Você não é obrigado a participar, Marcus, se quiser pode ir embora ― minha mãe exclamou alto.
Meu pai chegou nesse mesmo momento e segurou em seu ombro, ele fez um sinal com a mão, que eu achava que era um pedido de silêncio ou calma, não sei bem. O homem brigão respondeu algo, mas não consegui escutar. Desviei meus olhos para o garoto novamente, mas senti um dedo cutucar meu ombro e eu pulei de susto, caindo de bunda no chão.
O que está fazendo?
O menino magricelo agora estava na minha frente, seu cenho franzido para mim e a cabeça inclinada para o lado, me analisando. De perto agora eu podia notar seus olhos azuis e o cabelo castanho brilhoso. Juro que o dele era bem mais bonito que o meu.
Levantei-me depressa e bati a mão em minha roupa, que ficou mais amarrotada do que já estava. Minha mãe ia me matar e, se ela soubesse que eu tinha encontrado os convidados desse jeito, nunca mais ia me deixar sair do meu quarto.
Você não fala? ― perguntou-me novamente e eu mordi o lábio inferior, pensando em uma rota de fuga rápida que me fizesse chegar a tempo em meu aposento, antes que minha mãe me flagrasse também.
O garoto tinha as roupas impecavelmente passadas, vestia um terno azul escuro, sem gravata e os sapatos pretos brilhantes. Bem diferente do meu estado atual.
Meu nome é Koddy ― ele estendeu a sua mão para mim e sorriu. Quando ele fez isso, seus olhos ficaram pequeninhos e sua feição amigável me coagiu a cumprimentá-lo.
Estendi a minha mão para apertar a dele, mas logo notei as unhas cheias de terra embaixo e a sujeira que a cobria. Meu rosto queimou de vergonha e minhas bochechas esquentaram. Puxei a minha mão de volta em punho e escondi-a atrás das costas, enquanto saía correndo do garoto. Corri o máximo que pude para sair do salão e fui em direção ao jardim.
Olhei para os lados, notando os empregados pararem o que estavam fazendo para me ver como uma louca fugitiva e antes que conseguisse olhar para frente de novo, meu corpo trombou com algo e eu caí, batendo minha lateral no chão.
Rolei e resmunguei de dor, enquanto ouvia uma voz de menino fazer o mesmo. Tentei me levantar e olhei para o lado, notando que havia batido no garoto estranho que estava ao lado do pai briguento. Coloquei-me de pé e pensei em estender a minha mão para ajudá-lo a levantar, mas recordei-me que ela estava imunda, então achei melhor não fazer nada.
Desculpe ― murmurei, olhando para baixo e colocando minhas mãos entrelaçadas para trás.
O garoto tinha o cenho franzido com raiva e levantou-se em um pulo rápido. Ele me esquadrinhou de baixo para cima e depois olhou para o lado, focando a sua visão na pequena tiara real que eu usava, mas que, na queda, havia parado longe.
Ele caminhou até ela, abaixou-se e a pegou, girou-a de um lado para o outro, analisando-a, e depois voltou seu olhar para mim, andando em minha direção. Ele era bem mais alto do que eu e seu olhar de desdenho intimidou-me. Ele levantou o meu adorno e colocou-o em minha cabeça de qualquer jeito, dando um passo para trás em seguida, cruzando os braços e deixando que seu lábio se inclinasse como mais cedo.
Essa é a princesa de Atra? ― soltou, o veneno explícito em suas palavras. ― Eu esperava algo melhor. ― Girou o seu corpo e saiu, como se não tivesse me insultado segundos antes.
Minha boca caiu aberta pelo choque e uma onda de raiva inundou a minha pele.
Quem aquele garoto era para me insultar assim?
Antes que eu dominasse a minha língua ou me lembrasse da minha mãe dizendo que princesas devem manter a compostura, eu já havia soltado o verbo.
Imbecil! ― gritei e o garoto olhou para trás imediatamente.
Minha respiração era pesada e meus punhos estavam fechados ao meu lado enquanto olhava para ele com raiva, o menino me encarou por alguns segundos e depois rolou os olhos, continuando a se afastar.
Bati o pé no chão com raiva e voltei furiosa para o meu quarto, deixando que a porta colidisse e fizesse um alto som ao fechar. Andei de um lado para outro até alguém bater, interrompendo meu momento de fúria.
Cadê a minha princesinha rebelde? ― uma voz feminina gritou do lado de fora e eu saltei para lá correndo, abrindo a porta de uma só vez.
Kath! ― exclamei e abracei-a. ― Já estava achando que não viria.
Katherine Beluzzo era filha da governadora de Swaina, seus cabelos loiros longos e ondulados iam até a cintura e seu olhar pertinente era o que mais chamava atenção.
E você acha que eu perderia a oportunidade de participar do baile pela primeira vez? ― Sorriu assim que eu a soltei e puxei-a até a minha cama para podermos nos sentar. ― Quais as novidades?
O de sempre. ― Balancei a cabeça em descaso. ― Aulas chatas de etiqueta e um monte de “ você não pode fazer isso”. Nada muito diferente do que você já saiba. ― Dei de ombros.
Aí que se engana, a minha vida é muito mais divertida.
Uma pequena e dolorida verdade.
Katherine poderia ser filha da governadora e ter suas responsabilidades para lidar, mas não era como eu. Não era à toa que ela tinha muito mais coragem para se meter em confusão do que eu também.
Enquanto eu tinha medo das represálias, Kath me dava força para enfrentar a lei. Eu era uma pessoa mais corajosa perto dela, não queria ser conhecida como a medrosa e ser chamada de princesinha pela minha amiga, apesar do apelido já ter pegado.
Então, senhorita divertida, o que sua cabecinha mirabolante planejou para nós hoje? ― perguntei, sabendo que ela sempre tinha um plano.
Kath dizia que se fosse para ser princesa e não dominar o mundo, nem precisava carregar, então, a coroa.
Hoje não, princesinha. Hoje vamos somente ouvir as conversas dos mais velhos. ― Deu uma risada maquiavélica, típica de quando íamos aprontar algo. ― Você viu a confusão lá fora? Sua mãe puxou a minha na hora que chegamos e parecia que o assunto era sério. Você não quer saber? ― Esfregou uma mão na outra.
Onde elas foram?
Acho que estão naquela salinha que elas sempre ficam quando vão fofocar.
Ok, mas como vamos fazer isso?
Fácil, . Para que servem todas as passagens secretas de um castelo se não for para ouvir as conversas alheias? ― gargalhou e eu a acompanhei.
Então vamos, o que estamos esperando? ― Levantei-me e ajeitei a minha roupa, sendo seguida por Katherine.
Esgueiramo-nos pelos corredores e fomos direto para a portinhola da biblioteca, que eu sabia que, após um tempo percorrido nos corredores escuros, sairia direto na sala secreta de reuniões onde estavam as nossas mães. Eu ainda não conhecia todas as passagens, mas essa era uma das mais fáceis de decorar.
Com o coração palpitando pelo medo de ser descoberta, abri a portinhola e entramos naquele beco escuro e fedido a mofo que nos levaria a saciar nossa curiosidade.
É aqui. — Apontei depois de um tempo para o local. — Elas estão atrás dessa porta, já ouço até os sussurros. — Coloquei meu ouvido na porta e já podia ouvir claramente uma movimentação por detrás dela. — Kath, o outro lado dessa porta é disfarçado em forma de quadro, mas se não abrirmos não vamos conseguir entender nada. E, definitivamente, eu não vou me arriscar abrindo essa porta e ficando de castigo pelo resto da minha vida. Não mesmo!
Larga de ser uma chata medrosa, . Nossa vida já é um castigo, não sei o que mais poderia mudar aqui. Vamos lá, não precisa abrir a porta toda, só uma gretinha para conseguirmos ouvir o som direito.
Kath passou na minha frente, me deu um leve empurrão e, devagar, abriu um pouco a porta falsa, nos permitindo ver a mãe dela e a minha mãe conversando.
Eleanor, você tem que superar. A vida continua, você não pode viver no passado.
Não consigo, Elza. É como se fosse um pesadelo revivido todas as noites. Eu tentei de tudo, tentei seguir minha vida, tentei fazer tudo direito e nos conformes, mas nada consegue tirar a dor do meu peito.
Lea… Você tem uma filha linda e um marido incrível. Isso deveria ser motivo suficiente para você deixar o passado para trás e olhar para o futuro. Quantos anos já se passaram? Não deixe essa tristeza formar essa barreira gélida em torno de você. Você é uma pessoa formidável, permita que as pessoas vejam isso e não afaste o seu marido. O que tanto te aflige? A tragédia que aconteceu ou o arrependimento por ter deixado aquela pessoa partir?
Eu não entendia o que elas estavam falando, mas imaginava que talvez tinha a ver com a morte dos meus avós. Minha mãe parecia fragilizada, eu nunca tinha lhe visto assim, ela sempre aparentava ser tão forte.
Do outro lado da sala, meu pai entrava cautelosamente, como se não soubesse se seria bem-vindo.
Posso interromper, garotas?
Enric — a mãe de Kath exclamou, sorrindo para ele.
Olá, Elza, você está linda! Stuart é privilegiado por ter tamanha beleza ao seu lado. Claro que perde apenas para a minha querida esposa, obviamente. — Sorriu para minha mãe e olhou-a com encanto.
Meu pai era a pessoa mais carinhosa que eu conhecia. Enquanto minha mãe era o gelo, ele era o sol que derretia qualquer coisa. A forma que ele a tratava, falava e a olhava, transbordava claramente todo o amor que sentia. Eu ainda era criança e não entendia muito bem o amor, mas eu podia compreender que, quando chegasse a minha vez, eu queria alguém que gostasse de mim tanto quanto o meu pai gostava da minha mãe.
Obrigada, Enric. Vou te perdoar por tamanha ofensa porque sei que você é cego de amor pela Lea. Se não fosse por isso, claramente diria que eu sou a mulher mais bela desse castelo. — Elza retrucou-o em meios aos risos.
Você sabe que sou mesmo — meu pai respondeu e sentou-se ao lado da minha mãe, encarando e tocando o seu queixo para que ela olhasse para ele. — Amor?! — perguntou, incerto. — Aconteceu alguma coisa?
Elza pigarreou e levantou-se, caminhando até a porta em seguida.
Acho que devo deixar vocês um pouco sozinhos. Depois colocamos mais o papo em dia, tudo bem? — despediu-se e foi se retirando da sala. Ao chegar na porta, virou-se para minha mãe e disse: — Não se esqueça do que conversamos, Lea. — Piscou e saiu.
Tentei chegar mais perto da porta para entender o que estava acontecendo, mas minha amiga tomava a minha frente e eu não conseguia entender direito.
Dá licença, Kath, são meus pais aí, eu preciso ouvir melhor — resmunguei, empurrando-a e me colocando a frente.
Ai, princesinha! — resmungou. — Cadê a sua educação e gentileza? Assim você decepciona o apelido que te coloquei. — Cruzou os braços, emburrada por trocar de lugar comigo.
Isso ficou lá no meu quarto no momento que você inventou de me fazer espionar as nossas mães.
Já que está reclamando, então vamos voltar. Duvido que você não estava tentada a descobrir o que elas estão falando — Kath me desafiou, presunçosamente.
Ai, cala a boca que eu quero ouvir. — retruquei-a e voltei a colocar os olhos na greta para observar meus pais.
Meu pai estava abraçado a minha mãe e falava algo em seu ouvido. Lágrimas escorriam dos seus olhos, eu nunca tinha visto ela chorar em toda a minha vida. Ela parecia tão frágil…
Eleanor, você sabe que eu te amo e estarei sempre para você, não é? — meu pai perguntou a ela e acarinhou seu rosto. — Eu sei que foram tempos difíceis, você teve que fazer escolhas duras que refletiram em sua vida. A dor do que aconteceu ainda pesa no seu coração, mas lembre-se que também dói no meu. Ele era tão importante para mim quanto era para você. Não deixe as amarras do passado ofuscarem a bela mulher que você é e que eu conheço tão bem.
Me desculpe, Enric, você não merece nada disso. Você sempre foi tão bom pra mim, meu porto seguro. Se não tivesse me ajudado tanto nesse período, eu nem sei o que seria de mim. Me perdoa, Enric, me perdoa. — Minha mãe recostou-se no peito do meu pai e ele passou seus braços por suas costas, trazendo-a ainda mais para si, as lágrimas rolavam pelo rosto dela e, sem perceber, eu mesma chorava sem nem compreender.
Ver ela dessa forma me machucava, eu não queria que ela sofresse. Por que ela estava chorando?
Não tem porque se desculpar, meu amor. Eu te compreendo, o peso da coroa sempre foi maior para você do que para mim. Eu sempre soube disso tudo antes de nos casarmos e, ainda assim, estou aqui, não estou? — Sorriu para ela e beijou a sua cabeça. — Agora respire fundo e enxugue essas lágrimas, pois nós temos uma festa para conduzir e eu preciso mostrar para toda Atra quem é a rainha mais bela desse mundo. — Meu pai riu e abraçou-a ainda mais forte.
Eu não conseguia mais suportar isso, me sentia mal por bisbilhotar um momento como aquele.
Vamos embora. — Virei-me para Kath ainda com os olhos marejados e passei por ela, indo em direção a saída do esconderijo.
Mas, ... — tentou me parar, mas eu apenas balancei a cabeça em negativa.
Eu não queria mais saber, eu não correria mais atrás dessas coisas. Seja lá o que tivesse feito minha mãe chorar daquela forma, se trazia tanto sofrimento, era que melhor que ficasse no esquecimento então.



#2 Diário da Eleanor

22 de fevereiro de 2000

Duas vezes por ano chegavam coisas novas a Atra. Dentre elas, alguns livros velhos e usados, doados para nós. Os que vinham repetidos, iam para a biblioteca nacional, os exemplares únicos, para o palácio. Eu gostava de me aventurar por lá, lendo histórias de cavalheiros, princesas, fantasias e sapos que viravam príncipes. Mas, o mais legal de todos, era o que contava a história de três jovens, os três mosqueteiros.
Eu gostava porque me identificava com aquele tipo de amizade. Eu também tinha meus parceiros e os intitulei como os meus três mosqueteiros. Enquanto éramos adolescentes bobos e cheios de energia, foi fácil lidar. Éramos sempre nós contra o mundo. Eles eram o que eu precisava para viver. Paz, razão e coração. Cada um me completava de uma forma.
Éramos sonhadores e risonhos, achávamos que eu dominaria o mundo e eles seriam os cavalheiros que trabalhariam ao meu favor. Um por todos e todos por um, para sempre.
Mas como sonhos bobos da infância, a gente cresce e as coisas mudam.
Como o vento que não sabe sua origem ou destino, fraco, forte, ou destruidor.
Aí você começa a ver que os sonhos morrem, a realidade aparece e tudo muda tão bruscamente que fica impossível voltar.
Nada nunca mais foi o mesmo.
Nada nunca mais voltaria.
E dos meus três mosqueteiros, só me restou um.



Capítulo 5

Eu poderia começar a minha semana de diversas formas, no entanto, aqui estava eu, a coroa na cabeça, um belo e formal vestido longo com adornos bordados nas mangas e no colarinho e um salto alto nos pés, ainda que todo esse vestuário nem combine com Atra, contudo, éramos da realeza, precisávamos destacar dos demais.
Meus pais e eu havíamos acabado de descer da carruagem, aqui na ilha não tínhamos o costume de usar outros tipos de veículos além dos animais. As estradas eram rústicas, no intuito de não mudar a ambientação e preservar a naturalidade do ambiente e também, para que teríamos carros ou motos? Os combustíveis teriam que ser importados e, nas duas vezes que já vinham as cargas para Atra, tínhamos coisas mais importantes como trazer o diesel para gerar energia.
Hoje seria a inauguração da Casa do Turismo e um grande número de pessoas haviam se reunido para prestigiar esse grande passo para Atra.
Normalmente éramos autossustentáveis, no entanto, ainda precisávamos importar coisas como medicamentos ou contratar profissionais externos como alguns professores, médicos, dentistas ou até mesmo financiar que alguns cidadãos pudessem sair do nosso país para estudar e se capacitar no exterior, voltando em seguida para atuar aqui, devolvendo o conhecimento para a ilha. Era o sistema de bolsas de estudo que o meu avô havia implantado.
Tudo isso custava dinheiro e, apesar da minha mãe ter lutado por parcerias, ainda não era o suficiente para conseguir tudo o que precisávamos.
A ideia da casa da cultura era aproveitar os talentos dos artesãos de Atra para confeccionar coisas que pudessem ser vendidas e exportadas, aproveitando os navios cargueiros para levar a mercadoria. As praias da nossa ilha possuíam conchas raras que só eram encontradas por aqui, assim como outras especiarias. Minha mãe esperava que isso pudesse elevar a nossa renda e nos trazer benefícios, arcando com as despesas que tínhamos.
Eu não gostava de participar dessas formalidades, mas não é como se hoje eu tivesse escolha, pior ainda depois do final de semana que tive. Agora eu precisava estar ali como a filha modelo, sorrindo e acenando.
No ano passado meu tio Otto havia voltado da sua expedição à Dinamarca, ele era um aventureiro, vivia indo para o exterior e voltando, trazendo novidades e auxiliando minha mãe nas necessidades que ela precisava. Ele era o nosso porta voz no mundo lá fora, o braço direito da minha mãe e a pessoa que nos representava diante do restante dos países. Além disso, na época que ele estudou na Inglaterra, ele fez um curso de fotografia ― o que eu achava o máximo com aquela máquina que conseguia captar a nossa imagem. Ele vivia trazendo-me fotos das suas viagens e eu costumava colecioná-las em meu quarto, sonhando pelo dia que eu mesma poderia visitar cada um desses locais.
A vida que o meu tio Otto tinha, era o que eu queria para mim. Mas como filha única, isso era um sonho distante que a cada dia ia se apagando.
No final do ano passado, o meu tio havia voltado, por isso ele estava aqui no evento, tirando as fotos que, segundo ele, serviria como propaganda para nós. Após a semana da primavera, ele iria embora no cargueiro e eu já chorava internamente por sua ida. Tio Otto era a pessoa mais divertida da minha família e eu o adorava.
Mas como não amar o meu tio?
Aquele ruivo divertido conseguia dobrar até a minha mãe se bobeasse.
O início do discurso se daria daqui uns minutos ainda, antes minha mãe iria socializar com alguns representantes do comércio, artesãos e alguns governadores que haviam vindo para o evento. Meu pai a acompanhou e eu, que não tinha muito saco para conversa chata de política, resolvi aproveitar para dar uma volta no local ― que ainda estava fechado ― e conhecê-lo.
A casa do turismo era como um grande local comercial cheio de lojinhas internas. Cada uma tinha produtos específicos. Havia o setor dos perfumes, comidas, entalhes de madeira, artesanatos de coco, entre outros. Eu entrei no de adereços, os balcões tinham colares, brincos e anéis, um mais lindo que o outro, o que só não me trazia inveja porque nós sempre recebíamos algumas dessas regalias.
Passei meus dedos por alguns dos objetos que estavam lá expostos, admirando como as pessoas conseguiam produzir artes tão belas através das coisas naturais. Estendi minha mão e toquei em um colar que estava no fundo da exposição, ele era diferente dos demais e estava dentro de um pequeno baú de joias aberto, destoando de todos a sua volta. Ele era fino e delicado, feito de uma das nossas conchas mais raras. Seu aspecto era metalizado, como uma mistura entre o prata e o dourado e, dentro dele, havia uma pequena pérola, rodeada por mini conchas internas, que adornavam a concha maior.
― Não sabia que além de vigarista a princesa ainda era uma ladra ― uma voz soou atrás de mim e eu pulei com o susto, recolhendo a minha mão instantaneamente.
Girei o meu corpo para trás e deparei-me com e seu sorriso presunçoso no rosto, as mãos cruzadas para trás e os olhos encarando-me em meio as frestas do seu cabelo.
― O que está fazendo aqui? ― retruquei, recuando um passo e trazendo a minha mão para o meu peito.
― Bom... ― Ele deu um passo à frente. ― Eu que deveria perguntar, não fui eu que estava furtando os colares da exposição da Casa da Cultura. ― Inclinou a cabeça na tentativa de observar atrás de mim.
― Eu não estava roubando nada!
olhou-me de soslaio e abriu um pequeno sorriso, ignorou-me e caminhou até onde eu estava. Afastei-me, tentando manter a distância dele e ele passou por mim, parando em frente ao balcão que eu estava e fitando o mesmo colar que eu. Seu corpo se empertigou e ele franziu o cenho duramente, linhas de expressões profundas vincando a sua testa.
Sua postura durou alguns segundos, até que se lembrasse novamente de mim e virasse seu corpo, apoiando seu braço esquerdo no balcão em uma postura relaxada e voltando a me encarar.
― Não sei se dá para dar credibilidade a uma pessoa que costuma se fantasiar para andar no meio do povo e se autointitula Mellanie Strith.
― Você não sabe nada sobre mim! ― cuspi.
― Realmente... ― Balançou a cabeça e riu. ― Depois do nosso encontro eu fiquei meio na dúvida. Como devo chamá-la? Vossa alteza? Srta. ? Ou melhor... Mellanie, não é? Você se apresenta de tantas formas que fica difícil escolher.
Meu sangue ferveu em minha pele enquanto ele usava o seu tom de desdenho para comigo. Eu nunca deveria ter aceitado dançar com ele e provavelmente enxotá-lo ou sair correndo teria sido alternativas bem melhores a serem feitas.
― Para você, Sr. , Vossa Alteza é o suficiente. ― Tentei usar a mesma feição apática que ele, mostrando que o desprezo era mútuo entre nós.
desencostou do balcão, deu um passo à frente e passou seus olhos lentamente pelo meu rosto, sua língua molhou seus lábios e ele abaixou um pouco a cabeça para baixo, fitando-me entre os cílios e mordendo o lábio inferior para segurar o sorriso.
― A gente precisa parar de ter esses encontros escondidos, sabia? ― entoou baixo, sua voz saindo um pouco mais grave.
Engoli em seco e pisquei, um calafrio deslizando pela minha pele. Meu pai sempre dizia que o diabo nunca ia se mostrar na sua forma original, feia e assustadora. Sua aparência seria sempre bela e atrativa, pronta para nos seduzir. Nesse momento eu tinha a certeza absoluta que era a personificação do diabo, porque só isso explicaria porque uma pessoa tão intragável poderia vir em um pacote tão lindo.
― O que quer comigo? ― rosnei, apoiando-me no balcão e o segurando com força.
― E por que acha que eu quero algo com você? ― Abriu um sorriso travesso e deu mais um passo em minha direção.
― Não sei, talvez porque me perseguiu na festa? Ou porque me convidou para dançar? Ah... ― Olhei para cima e coloquei o dedo em meu queixo, fingindo pensar. ― Talvez porque está aqui nesse exato momento conversando comigo quando parece claro que não me suporta. Então, quais das três opções quer responder? ― Apontei para ele e depois cruzei os braços, um sorriso vitorioso nos lábios.
Eu acreditava que talvez isso o intimidaria, mas estava errada. O sorriso de ficou ainda mais largo e ele aproximou-se mais, caminhando com toda a sua elegância, como se estivesse pronto para devorar uma presa. Seu corpo parou bem a minha frente, ambos quase colados, a ponto de eu poder sentir a sua respiração na altura dos meus olhos. Ele inclinou-se até o meu ouvido, erguendo a mão para tocar o meu cabelo e colocá-lo para trás lentamente, abrindo espaço para o que ele queria dizer.
― Talvez, princesa, eu só queira provocar você ― sussurrou e deu um passo para trás, recuando.
Meu estômago se revirou com a adrenalina e a raiva cultivada pelo ser ultrajante na minha frente. Empurrei-o com força para que ele se afastasse ainda mais e passei por ele com passos fortes, parando assim que cheguei na abertura que dava para fora daquela sala.
Virei-me para ele, ainda tinha aquele sorriso presunçoso, o corpo escorado no balcão e os braços cruzados. Deixei que ele visse os meus olhos, todo gelo e ódio que eu tinha naquele momento transpassado em sua direção.
― Você pode achar que é engraçado provocar-me, . Mas não se esqueça que eu ainda sou a princesa de Atra e é melhor que você saiba bem quem está enfrentando antes de entrar nessa batalha.
Segui direto a saída, topando com meu pai logo em seguida. Ele estava sozinho e seus olhos voavam de uma direção a outra.
― Onde estava? ― perguntou assim que me viu.
Abri a boca, mas resolvi deixar para lá. Engoli as palavras e dei de ombros, como se não fosse importante.
― Já está na hora do discurso? ― perguntei, evitando o seu questionamento.
Meu pai franziu o cenho, mas olhou para trás, apontando com a cabeça na direção onde minha mãe estava. Ao lado dela estavam alguns governadores e ela se postava para começar. Fomos andando até perto, a fim de apoiá-la, e admiramos a sua eloquência assim que começou.
Minha mãe era uma líder nata, seus olhos emanavam firmeza e convicção de cada sílaba que soava. Talvez seja a sua couraça dura que tenha conquistado o povo afinal. Ela não era sociável, divertida ou cativante como meus avós eram. Eles eram a sensação da realeza, talvez a geração mais amada que já passou por Atra. Era difícil competir. Já a minha mãe, justamente o oposto. Fria, contida, porém, firme. Uma liderança diferente, oposta e difícil de se acostumar. Mas ela conseguiu dar a volta por cima e segurar as pontas por aqui.
Enquanto ela discursava, aproximou-se e parou ao lado do meu pai e eu. Olhei-o pelo canto do olho e lutei contra a vontade de torcer o nariz e me afastar. Contudo, estávamos na área exclusiva, era um direito dele ficar ali tanto quanto nós, já que o seu pai também estava no palanque com a minha mãe e deveria falar logo após ela.
Ficamos lá por algum tempo até que terminasse as solenidades, a faixa vermelha do local foi cortado, dando oficialmente a abertura e inauguração da Casa do Turismo. Minha mãe olhou para nós e fomos até ela, juntando aos demais políticos. Passamos alguns minutos sendo apresentados para cada sala interna com os produtos e conhecendo os departamentos. Ao entrar onde e eu estávamos anteriormente, eu jurava ter ouvido um pequeno riso dele perto de mim, mas preferi não virar para conferir, adotando a ignorância para manter a minha serenidade perto dele.
Sair de lá foi como um refresco e tudo o que eu queria era voltar para casa, mas, como tudo na vida, nem sempre é como desejamos, assim que deslizei pela porta a fora, fui abordada por cinco senhores me cercando e impedindo a minha passagem.
― Ei, princesa, não vai falar com seus súditos? ― Um deles estendeu o braço, impedindo minha passagem, e eu olhei para ele furiosa.
― O quê? Você é muito importante para falar com o povo? ― outro cuspiu, fazendo uma reverência estúpida e desleixada.
Meu coração começou palpitar e um frio percorreu a minha coluna. Tentei ultrapassá-los, empurrando-os com o ombro, eles abriram passagem, mas apenas o suficiente para que me afastasse um pouco. Logo eles estavam em meu entorno novamente, agora mais pessoas se unindo a eles.
― Estúpida! ― uma voz do fundo gritou e meus olhos se arregalaram.
― Mimada!
― Volte para o seu palácio!
As palavras sambaram em meio à multidão que se formava, enquanto aqueles homens me cercavam e riam da minha cara. Vozes e mais vozes zombavam enquanto eu tentava fugir entre eles e acabei sendo arremessada para trás novamente.
Senti uma pancada em meu braço e levei minha mão a ele instintivamente, olhei para baixo e vi uma laranja rolando. Meus olhos lacrimejaram e eu os fechei, a dor irradiando pelo meu músculo.
O pavor começou a tomar conta de mim, senti-me sufocada enquanto o ar se esvaía dos meus pulmões. As lágrimas salpicaram os meus olhos e quando vi uma onda de novas coisas serem arremessadas contra mim, levantei o braço até o meu rosto para tentar me proteger, ao mesmo tempo que me encolhi, girando para trás. Contudo, as pancadas não me atingiram e, no lugar delas, senti um corpo quente me abraçar e grunhir contra mim.
Ergui as minhas mãos para afastá-lo, trêmula e assustada com a invasão, no entanto, percebi que era . Seu corpo alto e forte me cobriu e me impediu de ver a multidão atrás dele, sua mão estava em minha nuca, empurrando o meu rosto contra o seu peito enquanto sua pele tremulava.
Não tive tempo para pensar, logo fui arrastada por entre as pessoas, a voz dele saindo como um trovão. Eu não consegui entender, estava atordoada com o barulho. Meus olhos cerrados pelo medo e assustada com o que havia acontecido. Não demorou muito até que eu sentisse o silêncio e suas mãos pousassem no meu rosto, pude sentir os dedos trêmulos dele me tocar, mas eu ainda não conseguia abrir os olhos.
― Está tudo bem, . Está tudo bem... ― A voz dele saiu entre suspiros e, lentamente, eu pude abrir meus olhos e vê-lo.
Sua roupa estava uma bagunça, os cabelos loiros grudados na testa suada e o peito subindo e descendo sem parar. Quando olhei para baixo, vi os restos de tomate mancharem sua camisa.
Não sabia o que dizer a ele.
Ainda estava estupefata.
― Que bagunça, hein? ― A voz de roubou a minha atenção e eu o olhei imediatamente, um pequeno sorriso cobria a ponta da sua boca, contrastando com seu rosto cansado.
― O que foi isso? ― perguntei, levando a mão ao meu coração e olhando em volta até um corredor vazio onde ele havia me trazido.
― Acredito que sejam alguns desafetos, nem todo mundo gosta da realeza, princesa. ― Seu olhar fugiu de mim e perpassou ao redor, observando atentamente se estávamos sozinhos.
A verdade crua fez com que a bile subisse a minha garganta, trazendo um gosto amargo. Eu sabia que nem todo mundo era obrigado a amar-nos, mas...
Aquelas palavras, aquelas pessoas... elas foram cruéis.
Eu estava mais que habituada com o desafeto do governador Marcus, ou mesmo com , porém aquilo... aquele tipo de agressão...
Minha mão voou até onde o meu braço fora atingido e eu senti os olhos de sobre mim. Ele se aproximou e tocou-me, levantando um pouco o meu membro, a mancha vermelha marcada na minha pele.
― Droga... ― praguejou baixinho antes de me soltar. ― Acho melhor você procurar o seu pai e ir embora, precisará colocar um gelo ou isso vai ficar feio.
se afastou rapidamente e encostou-se no muro, cruzando os braços e mantendo uma distância considerável.
Franzi a testa para ele.
― Por que me ajudou? ― indaguei-o com o questionamento que me atormentava.
Eu jamais imaginaria que alguém como ele faria isso por mim, se colocar a frente para me proteger assim... Eu não conseguia compreender.
A expressão dele mudou imediatamente para zombeteira e ele balançou a cabeça, pousando um sorriso irônico nos lábios.
― Você ainda é uma princesa, eu ainda sinto um resquício de dever como cidadão em honrar os meus monarcas. ― Piscou, tirando por menos.
Não engoli suas palavras, mas também não quis perder tempo com elas. Ainda estava assustada e tudo o que eu queria nesse momento era ir embora. Meu braço latejava e se estivesse correto, além de uma bolsa de gelo eu precisaria de um belo analgésico.
― Vamos, vou te levar embora. ― Ele desencostou-se de onde estava e pousou as mãos nas minhas costas.
Nesse momento eu pouco me importava que ele fosse um ou um dos nossos desafetos. Aproveitei-me por um instante da sua gentileza para poder partir. Amanhã eu lidaria com isso, pois agora, qualquer intriga entre nós era muito pequena, eu só conseguia pensar no quanto o meu próprio povo me odiava.



Capítulo 6

― Onde você estava? ― meu pai perguntou assim que o encontrei.
Mordi o lábio e pousei a mão sobre o braço machucado e puxei a manga o máximo que consegui para que ele não o visse, não queria criar uma confusão ali, em casa eu o colocaria a par do que aconteceu.
― Me perdi. ― Dei de ombros.
― Com o ? ― Ele arqueou a sobrancelha e desviou o olhar rapidamente para o filho do Marcus, que estava um pouco afastado da gente, mas ainda por ali.
― Claro que não! ― repudiei imediatamente. ― Ele me encontrou e me trouxe de volta, só isso ― esclareci antes que meu pai começasse a pensar o que não devia.
poderia ter sua beleza, seus cabelos loiros escuros brilhantes, aqueles olhos azuis intimidantes ou até mesmo aquele sorriso debochado que o deixava ainda mais atraente. Ele poderia ter o mundo aos seus pés, mas não eu. Para mim ele era apenas irritante e nossas divergências eram suficientes para que houvesse mais do que um oceano entre nós, apesar de morarmos na mesma ilha.
― Tudo bem. Vamos, sua mãe quer falar com você.
Meu pai me guiou para dentro do local novamente, levando-me até uma sala onde minha mãe estava sentada com outros governadores que haviam vindo para a inauguração. Se eu me recordava bem, estavam ali Trotton Neguesí, líder da região de Glassoi, Paul Pervarti, da região de Repotte e Marcus , que era o líder de Lavarelli.
― Ela chegou ― a voz da minha mãe sobrepôs a deles e sua mão se estendeu para que eu caminhasse até lá.
Ela parecia sociável, mas o breve olhar que me deu rapidamente era o suficiente para que eu soubesse que estava encrencada de alguma forma.
― Olá, princesa. Cada dia mais linda, como é possível? ― o governador de Glassoi levantou-se e me cumprimentou.
― Obrigada, Sr. Neguesí ― respondi sorrindo de volta, ele sempre era muito amável comigo, ao contrário do Sr. Pervati, que sempre tinha cara de quem chupou limão e o Marcus que mal balançou a cabeça para mim.
― minha mãe roubou a atenção da conversa ―, eu estava dizendo para os senhores que você será a responsável pelo baile desse ano.
Arregalei um pouco os olhos e examinei os homens ali, minha mãe me encarava esperando que eu dissesse alguma coisa, mas fiquei um pouco em choque pelo anúncio dessa forma. A mão do meu pai tocou as minhas costas, dando-me coragem, e eu suspirei sutilmente, tentando colocar um sorriso no meu rosto em pânico.
― Oh, claro. Espero atender as expectativas para termos um baile tão grandioso como sempre ― respondi e ouvi um bufo vir do meu lado direito.
― Você tem alguma coisa a dizer sobre isso, Sr. Marcus? ― Minha mãe franziu as sobrancelhas e olhou gelidamente para ele.
O Sr. era uma versão mais velha do , os dois eram muito parecidos e ambos continham aquele sorriso debochado no rosto.
― Na verdade eu tenho sim ― ele respondeu, levantando-se.
O Sr. Pervarti reclinou-se mais na sua cadeira, como se estivesse apreciando um show, enquanto o Sr. Neguesí tinha uma expressão preocupada no rosto.
― Eu não acredito que a sua filha possa dar conta de uma responsabilidade tão grande como essa e não sei se estou seguro com o nosso maior evento nas mãos dessa menina.
O sangue ferveu pelas minhas veias e eu abri a boca para retrucar, contudo, antes que eu dissesse alguma coisa, meu pai passou na minha frente, cruzando os braços diante dele.
― E com quais argumentos você pode dizer algo desse tipo?
― Fácil! ― Marcus abanou a mão em desdenho e riu. ― A princesa não participa de nada da política de Atra, ela nem mesmo deve conhecer os líderes ou pessoas importantes a serem convidados ou ter alguma ideia do que o povo precisa para esse ano. É impossível que alguém tão alheio a nós, agora, subitamente, consiga se envolver dessa forma.
― Discordo, ― minha mãe contrapôs, as mãos cruzadas sobre o queixo. ― tem total capacidade para dar este passo, além disso, ela será a futura rainha, estar à frente desse evento ajudará a conectá-la ao povo e lhe dará responsabilidades para assumir como princesa enquanto a sua posse não chega.
― Somos o conselho de Atra, acho que posso opinar com veemência que não me sinto confortável quanto a isso ― Marcus prosseguiu. ― Pergunte aos demais, com certeza não sou o único a pensar o mesmo.
Ele apontou para os outros dois homens e eu acompanhei-os com o olhar. Todos falavam de mim como se eu nem tivesse ali, mas eu estava e eu ouvia cada acusação.
No fundo eu sabia que ele não estava errado, eu nunca dei motivos para que pensassem diferente, contudo, aquele homem me irritava e eu faria questão de fazer a melhor festa de todas se necessário fosse, só para poder esfregar na cara daquele sujeito.
― Paul? Trotton? ― minha mãe virou para os outros dois homens e os indagou.
― Eu estou com o Marcus. Infelizmente, Majestade, nós nunca nem tivemos contato com a sua filha, não posso saber se ela tem essa capacidade. ― Paul Pervarti respondeu e virou-se para Trotton Neguesí, todos aguardando agora a sua opinião.
O homem lambeu os lábios e engoliu em seco, seus olhos desviando dos da minha mãe. Deixei meus ombros caírem, pois já imaginava o que ele ia dizer. Ninguém acreditava em mim e até o pobre e doce governador de Glassoi achava isso, só não tinha coragem de dizer.
Minha mãe suspirou e fechou os olhos brevemente, a decepção estampada em seu rosto. Ainda que fosse a rainha, o conselho era parte fundamental do reinado, não era ideal que ela batesse de frente com eles, ainda que só houvessem três deles ali.
― O que sugerem? ― ela perguntou, encostando suas costas na cadeira. ― Eu prossigo com minha proposta, creio que o ideal é que deixem que tome essa liderança.
― Bom... ― Sr. Neguesí finalmente abriu a boca. ― Eu penso que realmente é importante que a princesa se integre e que o povo a veja como uma alguém conectada ao reino, no entanto ― fez uma pequena pausa ―, talvez ainda seja cedo para que ela pegue algo tão grande. Porém, talvez haja uma forma de equilibrar isso. Por que não colocar alguém para ajudá-la? Alguém que seja mais conectado conosco e faça essa ponte entre ela e as necessidades do povo durante a semana festiva. Eu não tenho dúvidas que ela possa fazer uma grande festa, contudo, como o Marcus falou, o baile da primavera é muito mais que só o baile, é uma semana para o povo, é relacionado com as necessidades, nossas conexões com o mundo externo... São muitas coisas em cheque que realmente trazem um cuidado especial.
Os dedos da minha mãe batucaram a mesa e ela franziu o cenho, pensativa. O ar parecia rarefeito e a apreensão era notável ali.
― Tudo bem ― minha mãe falou, enfim, e eu pude ouvir alguns suspiros percorrerem.
― Se for de acordo com todos, eu tenho um nome para sugestão. ― Marcus levantou o dedo.
Claro que tinha, ele sempre queria palpitar em tudo.
― Pressuponho que meu filho seja a pessoa ideal para acompanhar a princesa ― completou.
O quê?!
― Claro que não!
― Ótima ideia!
Minha mãe e eu respondemos ao mesmo tempo.
― Você tem algo que queira nos dizer, ? ― minha mãe questionou e todos olharam para mim ao mesmo tempo.
Minha garganta secou enquanto minha pele pinicava. Isso seria um desastre!
Abri a minha boca para argumentar, mas o que eu diria?
― Eu... N-não sei se é uma boa ideia ― gaguejei, apertando as mãos em punho.
― Bom, eu acho excelente. Diga a ele, Marcus, que caso concorde, aguardo-o no castelo para que eu possa passar as informações necessárias para os dois.
O sorriso do Sr. se abriu e ele balançou a cabeça em seguida, confirmando. Todos pareciam satisfeitos enquanto eu transpirava e sentia meus pulmões se fecharem.
― Eu preciso tomar um ar puro, com licença ― sussurrei para o meu pai e sai de fininho, aproveitando-me que eles agora conversavam sobre outros assuntos e mal olhavam para mim.
Parecia que a vida tinha uma forma bem ridícula de conspirar contra mim, uma topada a cada passo.
Como que eu faria para lidar com nos preparativos de todo o festival?
Eu nem mesmo sabia como organizaria isso, agora ainda teria que tomar cuidado para não fazer nada errado e que desse motivo para ele usar contra mim.
Parei em um corredor e escorei minhas costas na parede, cerrando os olhos e tentando dominar a minha respiração afoita. Meu estômago remexia freneticamente em meu interior e gotículas de suor escorriam da minha nuca, o meu braço ainda latejando e minhas pernas tremendo.
Minha vida estava um caos.
A vontade de fugir e ir embora desse lugar batia contra mim cada vez mais forte. Eu precisava partir e obter um novo ar, ficar longe de todo o julgamento e tudo o que me prendia aqui. Eu não queria assumir nenhuma responsabilidade, eu não queria ser rainha um dia.
A tiara delicada que cobria a minha cabeça agora parecia um peso que eu não poderia carregar. Levei minha mão até ela e senti as pontas ásperas, desejando arrancá-la e jogá-la para longe, tornando-me apenas uma garota normal, , sem a carga que o meu sobrenome me trazia, uma prisão invisível no qual eu não era capaz de me libertar.
Ouvi um barulho à minha direita e virei o meu rosto rapidamente para ver surgir no corredor. A ira e tudo o que tinha me acometido nesse dia queimou a minha pele e antes que eu pudesse me controlar, estava marchando contra ele, o fogo sendo expelido pelos meus olhos, os punhos cerrados e prontos para atacá-lo.
― Foi você! ― infligi contra ele, rugindo com toda frustração que ruminava em mim.
virou o rosto em minha direção, só agora se dando conta da minha presença, sua sobrancelha direita foi arqueada enquanto eu pairava na frente dele.
― Quê?
― A culpa é toda sua! ― vociferei, sem lhe dar chance de contra atacar. ― Já não basta provocar-me o tempo todo, você tinha que se infiltrar na minha vida apenas para ter a chance de ter um arsenal de coisas contra mim. Você não tem mais nada interessante para fazer do que me provocar?
O rapaz a minha frente balançou a cabeça e franziu a testa, seus braços cruzando em seu peito.
― Ow! Calma aí, esquentadinha. Uma coisa de cada vez, eu não consegui acompanhar todas as sete pedras que você jogou contra mim, mas se estiver disposta a me explicar, estarei feliz em te escutar e compreender ― respondeu-me, firmando o seu sorriso travesso no canto da boca no final.
Grunhi, cansada das gracinhas.
― Chega, ! ― rugi, não suportando mais. ― Você vai me responder como você armou isso e é agora! ― completei, apontando meu indicador para ele e sua feição caiu no mesmo instante.
Seu olhar passou a ser mais intenso e raivoso, sua boca desceu e já não mostrava mais o sorriso ladino a que era acostumado. Ele deu um passo na minha direção, deixando-nos mais próximos e eu estufei e empinei o meu nariz, mostrando que não tinha medo da sua cara amarrada.
― Preste atenção, ... ― falou meu nome com desdenho. ― Sua posição de princesa não lhe dá direito de falar comigo como bem entender e nem me transformar em um cachorrinho no qual você aponta o dedo na cara com desdém. Você se acha importante por morar no palácio e ter uma coroa na cabeça, mas deixe eu te dizer uma coisa... Isso ― apontou para mim dos pés a cabeças até terminar na minha tiara ―, é a única coisa que você tem, no entanto, não te faz merecer o título que carrega. Você é apenas uma garota mimada atrás das suas próprias vontades, uma menina estúpida que fica se esgueirando pelos vilarejos à noite enquanto o resto de nós trabalha duro.
Acredito que recuei um passo com suas palavras ferozes contra mim, porém, ao invés de me intimidar, fez despertar uma fúria ainda maior. Eu precisava de um alvo e havia acabado de pintar um bem grande sobre ele e eu não me responsabilizaria por isso.
― E quem você acha que é? ― perguntei lentamente, deixando o veneno escorrer da minha boca. ― Trabalho duro? Você? ― gargalhei sem humor algum e deixando meu escárnio sobressair. ― Um mísero assistente do papai que vive à sua sombra, um papagaio domesticado que repete as palavras que ele diz sem ao menos ter as próprias opiniões. Pelo menos eu tento fazer minhas próprias escolhas, mas e você, ? Até quando vai viver na asa do papaizinho? ― Cruzei os meus braços, imitando o seu gesto e fiz a minha melhor cara de desdenho para ele. ― Você é uma vergonha ― finalizei, sussurrando e abrindo um sorriso.
Sua boca abriu e fechou e eu tinha certeza que ele não esperava por essa. Me chamem do que quiser, mas a visão da sua consternação encheu e aqueceu o meu peito. Eu fiz o meu ponto, havia ganhado a batalha. Encaramo-nos por alguns segundos até um pequeno sorriso crescer e sua cabeça balançar, fazendo seu cabelo cair um pouco por sobre seus olhos.
― Oh, ... Eu não sou uma vergonha. ― Riu baixinho enquanto soltava os braços e enlaçava os seus polegares no passante da sua calça. ― Animais tendem a dar o bote quando se sentem acuados, mas... Princesa ― deu um passo e inclinou-se um pouco, sua boca pairando perto do meu ouvido ―, não diga para mim coisas que na verdade pensa sobre si própria. ― Voltou a sua posição original e abriu um sorriso largo em minha direção, como se tivesse ganhando uma merda de prêmio.
Antes que eu contra-atacasse, minha mãe e sua comitiva pararam em nossa volta, interrompendo a nossa troca de farpas, o sorriso maldito ainda estava em sua face e eu fui obrigada a dar o meu mais falso para as pessoas que se achegavam ali.
― Olhem eles, já estão até se dando bem. Já contou a novidade para o , ? ― meu pai inseriu-se e eu quis estrangulá-lo só um pouco pela sugestão que fez.
― Olá, senhor. Acredito que não tivemos tempo para isso, mas adoraria saber o que a princesa tem para me dizer. Na verdade, acho que ela veio até aqui para me falar mesmo alguma coisa, o que estava dizendo, Vossa Alteza? ― cumprimentou o meu pai e depois olhou para mim, seu sorriso agora ainda mais largo.
Se eu contasse aqui um terço do assunto que passava na minha cabeça, eu estaria morta diante da minha mãe. Se queria ser falso, eu daria isso a ele e entraria no seu jogo, dois podiam ter a mesma artimanha.
― Oh, claro, deixe-me continuar. ― Tentei alargar o meu sorriso e fazer uma expressão dócil, já que estávamos diante das pessoas do conselho. Minha mãe encarava-me à minha espera e eu não podia vacilar em meu aspecto teatral. ― Eu vim aqui fora um instante e encontrei o Sr. , vejam que coincidência?! ― dei uma pequena risada. ― Eu já estava indo dizer-lhe, no momento que vocês chegaram, da alegria que será para mim tê-lo como companheiro durante as organizações do evento da primavera ― completei e pude ver as sobrancelhas do meu algoz subirem.
Durou exatamente três segundos, esse foi o momento do choque que ele teve até a lateral direita da sua boca se curvar lentamente para cima e seu sorriso crescer juntos aos olhos brilhantes. Sua mão foi até o seu peito e ele inclinou o tronco lentamente, nunca tirando sua visão da minha, a linha da boca agora mais contida e disfarçada, mas aquela pequena ponta arqueada ainda estava lá, mostrando o quanto estava se divertindo às minhas custas.
― Eu não sei como demonstrar a minha gratidão por tamanha honra que será para mim colaborar com o reino ― assinalou, agora virando-se para minha mãe em agradecimento.
Ela apenas fez um pequeno aceno com a cabeça, sem mostrar comoção e o pai deu apenas um sorriso fechado. Os outros dois homens andaram até e ergueram as suas mãos para cumprimentá-lo e iniciaram uma conversa, relembrando dos eventos antigos e falando besteiras políticas que não me interessavam.
Fiquei um pouco a par deles, recuando um passo e sentindo-me sufocada. Observei a interação de todos ali e o quanto eu era deslocada. Eu não conseguia entrar em nenhum diálogo e não sabia metade das coisas que eles falavam, enquanto sorria e encantava todos eles, se bobeasse até a minha mãe.
Meu coração comprimiu-se e fui levada aos momentos anteriores, quando aqueles homens me cercaram e as ofensas que jogaram contra mim. No final, acho que eles tinham razão. Eu era como um animal selvagem em meio a civilização, aquilo não era o meu habitat e eu não conseguia me adaptar. olhou levemente para mim por cima do ombro, abriu um sorriso e piscou rapidamente, voltando a sua mágica para os conselheiros, como se fosse fluente e PhD nisso, o que só fez um peso cair ainda mais sobre meus ombros.
Aquilo seria um desastre e se eu não conseguisse reverter a situação rapidamente, iria me engolir nos eventos que organizaremos juntos e, pelo visto, se eles pudessem, o povo arrancaria a minha coroa e colocaria na dele num piscar de olhos.



Capítulo 7

Ao findar aquele dia, tudo o que eu mais queria era afogar minhas mágoas sozinha em meu quarto. Depois de manter o máximo de compostura que era possível em público e ter minhas bochechas doendo de tanto sorrir falsamente, voltei para casa em silêncio e tranquei-me no único lugar que eu poderia ser apenas... Eu.
Antes de escapar, minha mãe pediu para que eu a encontrasse no escritório, no entanto, eu não estava em condição de ter nenhuma conversa com a toda poderosa Eleanor naquele momento. Joguei-me contra os meus lençóis, enfiei a cara no travesseiro e fiquei a espera de Lilian, minha criada, trazer a bolsa de gelo que eu pedi quando a encontrei no caminho para o meu quarto.
Uma batida ressoou na porta e eu grunhi contra o meu travesseiro, odiando o fato de que, provavelmente, meus pais estavam ali para conversar a respeito do evento.
― Já vou! ― gritei e me lancei para fora da cama, tendo certo que ainda ouviria um bê-á-bá porque havia trancado a porta, de novo. ― Eu só queria alguns momentos em paz, será que é pedir demais? ― ralhei assim que abri, tendo uma surpresa ao me deparar com o ruivo na minha frente.
― Não tem tempo nem para o seu próprio tio? ― O homem diante de mim abriu os braços e o sorriso. Dei um pequeno gritinho e me joguei nele, abraçando-o com força.
Na inauguração mais cedo eu só o tinha visto de longe e logo ele havia desaparecido. Ele não voltou com a gente e eu pensei que não o veria mais hoje, o que era comum para ele.
Meu tio me abraçou com força e me ergueu como não se eu pesasse nada. Vê-lo era sempre renovador, ele era a minha esperança e meu objetivo de vida, minha mãe sabia que eu ficava extasiada toda vez que passava muito tempo com tio Otto. Meus sonhos de viajar e conhecer o mundo palpitavam mais quando estava perto dele e não ajudava que ele me trazia sempre presentes e cartões postais.
― O que tem para mim? ― perguntei assim que nos soltamos.
― Nossa, eu sabia que era interesseira, mas nem tanto. Achei que a falta que sentia era de mim e não dos meus presentes ― gracejou e eu lhe dei um soquinho.
Apesar de ter voltado ano passado, meu tio ficava pouco no castelo, preferindo passar o tempo nas aldeias e percorrendo cada lugarejo de Atra. Quando estava na ilha, era ele quem fazia a conexão com os outros governadores e assessorava-os de acordo com as necessidades. Contudo, com a próxima viagem quase à porta, ele passaria os últimos dias aqui.
Meu tio era bem mais novo que a minha mãe e não tão mais velho do que eu, então acabou sendo um grande parceiro além de um parente.
― Você sabe que faz falta, sem você eu preciso enfrentar a fera sozinha ― falei e ele fingiu estremecer.
― Ela ainda pega no seu pé?
― Sempre ― suspirei.
Tio Otto me deu um leve tapinha nas costas em lamento, sabendo muito bem como era estar debaixo das garras da dona Eleanor. Claro que não na mesma proporção que eu, mas até ele provar que queria seguir o seu próprio caminho, foi um tempo difícil, minha mãe achava que toda a família real deveria ficar presa na ilha.
― Me conte o segredo ― pedi.
― Como? ― Meu tio arqueou a sobrancelha em incompreensão enquanto se sentava.
― O segredo para ir embora e poder ser como você ― revelei, arrancando um elevar de lábios dele. ― Como conseguiu convencê-la?
― Ah... Foi um longo trajeto, pode ter certeza ― Ele riu e inclinou-se para trás na cama, apoiando-se em seus cotovelos.
― Só me ajude, tio. Qualquer coisa... ― implorei.
O semblante dele caiu um pouco, ele sabia como eu me sentia e como isso era importante. Nossas almas eram parecidas demais e talvez ele fosse a única pessoa que me compreendesse ao invés de me julgar.
... ― lamentou. ― Não creio que isso seja tão fácil para você. Eu sou apenas o irmão da rainha, você é a única herdeira.
― Nessas horas eu só queria que meus pais tivessem tido mais filhos! ― resmunguei, jogando minhas costas na cama e levando meu antebraço até meus olhos.
― E ter a chance de ter várias minis Ayshas por aqui?! Sua mãe enlouqueceria ― provocou-me.
― Pare! É sério.
― Eu tenho minhas próprias cartas na manga, querida sobrinha. Foi um trajeto árduo até conseguir usar meus truques contra a minha linda irmã. Não dá para simplesmente entregar o ouro tão fácil, não é?
― Na verdade, eu esperava que sim. Não sei para que complicar tanto. ― Sorri.
― Há-há ― ironizou. ― Trace o seu próprio caminho, . Quem sabe você conseguirá também. ― Ele levantou-se, sacolejando meus cabelos, e caminhou em direção à porta. ― Já estou indo, tenho um compromisso com sua mãe, só passei para dizer um oi.
― E o meu presente? ― chamei-o.
― Mais tarde ― respondeu piscando e saiu, fazendo-me bufar e jogar a minha cabeça para trás novamente.



― Mãe? ― chamei-a depois que bati à porta do escritório.
Já era noite e eu finalmente resolvi sair do quarto. Meu machucado já não doía como antes, porém um grande e intenso roxo havia ficado no local, por isso optei por usar um vestido de manga comprida.
Após momentos de reflexões no meu quarto, decidi que era melhor não contar nada aos meus pais, seria humilhante e traria mais desavenças entre nós. Minha mãe diria que isso era o resultado do meu desprezo às minhas obrigações, o que não era errado em tudo, mas eu não queria ouvir isso mesmo assim. Portanto, falei comigo mesma que, se eles não soubessem do ocorrido, não seria por mim que eles ouviriam.
― Pode entrar ― respondeu e eu abri a porta, vendo meu tio Otto e meu pai reunidos com ela lá.
O clima parecia meio tenso, meu tio, que outrora parecia leve e despreocupado, agora tinha um vinco em sua testa, ainda que ele tenha tentado disfarçar dando-me um longo sorriso. Meu pai parecia pensar em qualquer coisa, menos notar a minha presença e somente a minha mãe possuía a mesma expressão séria de sempre.
― Estou interrompendo alguma coisa? ― questionei, varrendo meus olhos para os três, cautelosamente.
― Não, pode entrar, precisava mesmo falar com você. ― Minha mãe estendeu a mão direita para mim e indicou para que me sentasse em uma das cadeiras vazias e com a esquerda pegou um livro e jogou por cima de uns papéis que estavam em sua mesa.
― Espero que não esteja chateada por ainda não ter dado o presente ― Tio Otto falou baixinho para mim e cutucou a minha costela.
― Sempre mimando a . Não é, irmão?
― O que posso fazer?! É a minha única sobrinha. ― Ele repousou suas costas na cadeira de uma forma agora relaxada e cruzou a perna, formando um quatro.
Não sei como poderiam ser tão diferentes. Meu tio alegre e despojado, seus cabelos ruivos brilhantes e o sorriso sempre fácil. Enquanto minha mãe tinha os seus pretos brilhantes e sua carranca eterna. No entanto, ambos tinham a mesma cor de olhos, que enquanto no meu tio lhe dava um ar divertido, no da minha mãe provocava terror.
― Vamos ao que interessa. ― Minha mãe voltou-se para mim. ― , agora você tem um parceiro para organizar o Baile da primavera. Reclamou tanto que não queria fazer sozinha que por uma ironia, não está mais.
― Eu ainda não sei como você pode aceitar isso ― murmurei em meio a um resmungo.
― E você acha que a culpa é minha? ― Sua boca encheu-se de amargor.
Não era. Mas se tinha alguém poderoso o suficiente para impedir essa tragédia, o nome desse alguém era Eleanor .
Meu pai ergueu a mão para interromper a tempestade que vinha, mas minha mãe foi mais rápida em continuar.
― Se a sua postura como princesa de Atra fosse diferente, provavelmente o conselho sequer teria imposto isso. No entanto, você não é uma pessoa confiável e essa foi mais uma prova de tudo o que já andei falando com você. Por isso, agora terá que trabalhar com o , quer queira, ou não.
― Espera! ― Meu tio se empertigou na cadeira. ― Esse não é aquele salafrário que vive enchendo o saco da nossa família?
― Sim e não. Na verdade, esse é o pai do . O garoto não costuma dar muito trabalho para nós, ele trabalha com o Marcus ― meu pai explicou.
Meu tio não conseguiu conter a careta e olhou para mim com pesar e como se dissesse: boa sorte.
― Ele é terrível, mãe.
― E agora você entenderá um pouco como é ter que trabalhar com alguém que não se gosta ― respondeu e eu acho que vislumbrei um pequeno sorriso na ponta da sua boca, caçoando de mim. ― Pelo menos é um bom rapaz e responsável. Já o observei e tive a oportunidade de conversar com ele algumas vezes, não me surpreenderia se fosse um altíssimo candidato para o próximo cargo de governador.
Fiz uma careta e fechei a cara.
, , ... Até o infeliz tinha alguma consideração da minha mãe. Mesmo sendo um pé no saco.
― Falei com o pai dele e vocês começam as programações amanhã. Quanto antes se organizarem, maiores as chances de sair tudo certo ― ela prosseguiu.
― Se a gente não se matar antes, talvez...
― agora quem falava era o meu pai ―, tenho certeza que ele estará tão focado no evento quanto você. Apesar de eu não ter intimidade com o jovem, sei que ele tem planos políticos, com certeza não gostaria de ver o nome dele manchado por não conseguir dar conta do maior evento da ilha.
Fechei os olhos e balancei a cabeça, frustrada. O que meu pai dizia fazia sentido, mas eu não conseguia imaginar meus nervos não serem consumidos durante todo o tempo que eu teria que passar com o . E eu tinha convicção que ele faria de tudo para me irritar nesse período.
― Se for bonitinho, pelo menos você pode apreciar melhor o tempo juntos ― meu tio interrompeu meus pensamentos.
― Otto! ― meu pai e minha mãe exclamaram ao mesmo tempo que eu ralhava: ― Tio!
― Calma, estou só brincando. Vocês levam tudo tão a sério! ― Rolou os olhos e riu.
― Acho que já passou tempo demais com os povos estrangeiros, irmão ― minha mãe replicou com uma mão no coração, acredito eu que se acalmando. ― Vou mudá-lo de cargo, Otto. Acho que sinto falta do meu irmão comigo aqui.
― Nem pense nisso! ― ele exclamou, seus olhos saltando um pouco e uma risadinha saindo do meu pai.
― Não acha que precisa se aquietar, Otto? ― minha mãe questionou.
Aquilo era uma versão dela fazendo uma brincadeira?
Meu Deus! Meu tio precisava passar mais tempo em casa. Quem sabe aliviaria a barra.
― Para que vou me aquietar se tenho a oportunidade de conhecer todas as belezas do mundo? ― Sua sobrancelha se arqueou e um sorriso travesso despontou dos seus lábios.
― Quando conhecer a pessoa certa, talvez mude de ideia ― meu pai respondeu, seu olhar passando pela minha mãe cheio de brilho.
Mirei-a de soslaio e vi seus olhos caírem para a mesa e subirem rapidamente, durou apenas um segundo, mas logo ela tinha a mesma expressão neutra de sempre, destoando apenas um pequeno arquear de lábios em resposta ao meu pai.
― Bom, nem todos tem essa sorte, não é? ― Meu tio piscou para eles. ― Enquanto isso, eu aproveito como posso. E nossa pequena aqui também pode por enquanto.
― Não vem jogar a bagunça para mim porque eu já tenho problemas demais com meus pais, obrigada ― desvencilhei-me e voltei-me para minha mãe, querendo desviar do assunto " e eu". ― Você sabe quando a Katherine chega?
― Elza havia me dito que eles chegariam uma semana antes do evento. Na verdade, acredito que todos os governadores chegarão com alguns dias de antecedência. Averígue isso também, tudo bem? Pois caso assim seja, precisaremos providenciar a hospedagem aqui no castelo o quanto antes.
― Será que a família do Sr. Pervarti vem? ― meu pai perguntou com ligeiro temor.
― Acredito que sim.
― Serão dias difíceis ― suspirou.
A família do governador de Repotte era praticamente toda intragável. A começar pelos seus três filhos, que incluía Prina, que achava que era apaixonada pelo meu pai e o seguia por todos os cantos quando vinha para cá.
― Acho bom você prender a filha dele antes que ela queira roubar o seu marido, mãe.
― Sem chance ― respondeu confiantemente e meu pai inclinou-se para ela para lhe dar um beijo.
― Idade? ― meu tio perguntou, interessado.
― Pode esquecer, ela é mais nova que eu ― respondi e o sorriso dele morreu, revirando os olhos.
― Estou fora.
Todos nós rimos e por dentro eu desejei que a menina colasse no meu tio, só para que ele sofresse um pouco.
― Ah, o filho do Trotton Neguesí também vem ― falou minha mãe. ― Você se lembra dele, ?
― Koddy?!
― Sim, ele vem junto com a embarcação e, pelo o que o pai disse, é para ficar.
Meus olhos cresceram em interesse. Faziam anos que não via-o, ele havia se mudado de Atra e crescido no exterior. A curiosidade e excitação me bateu e o tal baile acabava de ficar menos pesaroso para mim.
― Isso é ótimo ― respondi, sem conseguir me conter.
Meu pai arqueou a sobrancelha e eu o ignorei, nem um pouco a fim de vê-lo bancar o cupido novamente. Já não bastava as piadinhas com o .
Minha mãe roubou a minha atenção novamente ao passar algumas outras orientações sobre minhas tarefas para os futuros eventos, o que conseguiu murchar toda a minha empolgação. Era tanta coisa que minha mente não dava conta, por isso estiquei a mão para pegar um papel para anotar, mas minha mãe me deteve, segurando o meu pulso com firmeza logo que uma folha rabiscada veio junto.
― O que...? ― comecei a perguntar, mas fui interrompida, antes que eu pudesse ler qualquer coisa além do nome dela no papel.
Os olhos dela saltaram-se e por um momento parecia assustada. Ela levantou-se apressadamente da cadeira e jogou um livro sobre o papel, fazendo com que eu tivesse que puxar a mão rapidamente antes que eu fosse socada pelo objeto.
― Acho que está bom por hoje, amanhã podemos terminar de passar o que for preciso ― falou um pouco desajeitada e franzindo a boca ao final.
― Mas, mãe, voc...
― Pode ir, ― retrucou-me, firme e rude.
Não compreendi nada, olhei para meu pai que tinha os olhos um pouco arregalados e depois para o meu tio, que parecia olhar para qualquer canto, menos para mim.
Eu estava perdida no meio daquela situação embaraçadora e ninguém se dignava nem mesmo a me explicar, eu era enxotada e as duas pessoas que eu mais gostava nesse palácio e nessa família nem mesmo se opuseram.
Levantei-me chateada e analisei como todos eles estavam agindo como loucos só porque eu peguei um pedaço de papel que não devia da mesa.
― Se isso é tudo, então, boa noite! ― Deixei minha indisposição transcender pelo tom de voz e virei-me, dando de costas para eles.
O que eles não contavam era que situações ridículas como essa moviam a minha raiva e a raiva... me levava a certeza que eu poderia não saber o que significava aquilo agora, mas eu daria um jeito para que todos os segredos desse castelo caíssem uma hora ou outra e eu nunca mais seria tratada dessa maneira depois disso.



#3 Diário da Eleanor

25 de agosto de 1999

Eu não sabia quando as coisas haviam mudado entre nós. Quando um simples olhar havia significado muito mais, quando só estar perto fazia meu estômago revirar. Talvez fosse efeito da adolescência, talvez ele tivesse mudado, ou mesmo eu. Não sei.
Mas agora tudo era diferente e não sei até quando eu poderia esconder isso dos demais.
Foi um momento bobo, estávamos fazendo o mesmo que sempre, jogando conversa fora e olhando para o horizonte em um ponto do telhado do palácio. Aquele sempre foi o nosso canto, pois de lá podíamos ver quase todas as belezas de Atra.
Ele que havia achado o esconderijo, uma escadinha suspensa no terraço superior, um dos pontos mais altos do castelo.
No início eu tinha medo, mas ele pegou a minha mão dizendo que tudo valeria a pena quando eu observasse a vista.
E tinha razão.
Naquele dia eu estava chateada, algumas rebeliões estavam ocorrendo na ilha, pessoas que eram contrárias a minha ascensão à realeza. Diziam que uma mulher não poderia assumir o trono, mas eu era a mais velha e Otto, bom... Otto não queria ser rei, enquanto eu desejava isso mais do que tudo. Meus pais disseram que eu precisava me casar - não que a ideia fosse originada deles, mas eles não enxergavam outra alternativa para acalmar o povo.
Por isso eu estava ali no telhado sozinha até ele me encontrar.
Sem dizer nada, ele sabia que eu estava chateada.
Mesmo assim eu contei. Desabafei e deixei as lágrimas correrem no meu rosto por ser imposta a um casamento para ser dada valor.
Ele enxugou o meu rosto e passou o polegar pela minha bochecha.
― Lea... Não deve ser ruim desde que você se case com alguém a que tenha apreço.
Contanto, eu nunca sequer havia pensado em casamento. Pior ainda dessa forma, como uma obrigação.
― Eu caso com você se for preciso ― ele falou, assustando-me. ― Deve ser menos ruim comigo, não é? Somos amigos e você vai poder reinar livremente como sempre quis.
― Mas como...? Isso mudaria tudo entre nós ― respondi, passando o dorso da minha mão pelo rosto.
Um pequeno sorriso despontou do seu rosto e ele inclinou a cabeça, repousando a bochecha no braço que estava apoiado no joelho enquanto me encarava.
― Não deve ser tão mau. ― Sorriu. ― A gente pode testar antes se não tiver certeza.
― Você está se oferecendo para me beijar? ― Ri e balancei a cabeça, enquanto via o seu sorriso se alargar.
― Dizem que não sou tão ruim assim. ― Um pequeno sorriso travesso apontou em seus lábios e eu lhe dei um leve empurrão.
Ambos gargalhamos, mas aos poucos as risadas foram esmorecendo enquanto nos encarávamos.
Não vou dizer que nunca tinha imaginado isso, mas há certas coisas que você prefere guardar no baú antes que bagunce tudo. No entanto, agora ele estava propondo exatamente o mesmo fato e foi impossível pensar de outra forma e não desejar, nem que fosse por curiosidade, tal feito.
― Tem certeza? ― sussurrei um pouco temerosa.
― Claro ― respondeu, mas percebi o pomo de adão dele subir e descer lentamente.
Ele se aconchegou um pouco mais perto de mim e, lentamente e um pouco trêmulo, ergueu a sua mão até que pousasse em minha bochecha.
Seu toque era quente e irradiava faísca pela minha pele, de repente, não era apenas ali, mas todo o meu corpo parecia queimar por antecipação. Ele inclinou-se e sua respiração abafou-se na minha até que, timidamente, nossos lábios se tocaram.
Parecia estranho beijar um amigo, mas, mais do que isso, parecia incrivelmente certo e excitante.



Capítulo 8

Eu não sei por que eu tinha que encontrar ao invés dele ir até o castelo falar comigo. Mas, como eu gostava de aproveitar todos os momentos que tinha para sair do palácio, cedi ao seu desejo.
Ele pediu que o encontrasse no escritório dele, ou melhor, do pai, já que ele trabalhava com o Sr. Marcus.
Fui deixada pela charrete em frente ao local, já que não possuíamos carros em Atra e eu não poderia vir montada a cavalo, normas da realeza. A porta estava fechada e eu bati, esperando que abrisse logo e me permitisse sair do calor que fazia aqui fora. Hoje era um daqueles dias ensolarados, onde tudo o que eu mais queria era tomar um banho na praia, o calor estava insuportável.
Um minuto se passou, dois...
Cansada de esperar, resolvi abrir e entrar por conta própria.
? ― chamei assim que entrei, mas não recebi nada em resposta, apesar de ouvir alguns murmúrios.
A mesa da secretária estava vazia, por isso passei direto. A porta da sala do pai do estava aberta e não tinha ninguém lá, então continuei o percurso até uma sala que tinha uma plaquinha com o nome do . Ouvi algumas vozes vindo de dentro dela e estiquei minha mão vagarosamente até a porta, abrindo-a com cuidado.
Assim que o fiz, quatro olhos se arregalaram em minha direção. Uma mulher loira estava sentada sobre a mesa, as pernas cruzadas para dentro, na direção de , seu peito inclinado sobre ele, assim como a mão dela sobre o seu ombro. , que tinha a mão na cintura da moça, inclinou-se para trás no momento que me viu, deixando-me notar a sua aparência um pouco bagunçada, os cabelos desgrenhados e uma mancha de batom na sua boca.
― Ora, ora... Olha o que temos aqui? Parece que alguém não é tão certinho como demonstra ser. Misturando prazer com o trabalho, ? Esperava mais de você. ― Cruzei os braços na direção deles e estalei a língua no céu da boca, fingindo indignação.
A mulher pulou por sobre a mesa imediatamente, mas não afastou-se dele. Seu semblante tinha um misto de susto por ter sido pega no flagra e frustração, pelo mesmo motivo, provavelmente. Seus cabelos loiros eram compridos e os olhos azuis inextinguíveis.
Annyelle Travics.
Impossível não reconhecer.
Annyelle era famosa por ser uma alpinista social. Em Atra havia muitos deles, sejam homens ou mulheres. Pessoas que se aproximavam de outras mais importantes para ter uma vida mais afável, já que em um país rústico como o nosso, qualquer sombra e água fresca já era melhor.
Ela me olhou de baixo para cima, um pequeno sorriso formando em sua boca enquanto sua mão esquerda ia para o ombro direito de .
Falando nele, parecia que estava um pouco sem ação ao ser pego no flagra, mas o toque dela o despertou, fazendo com que ele empurrasse sua cadeira para trás e ficasse de pé, fazendo com que a mão dela caísse e ela o olhasse com indignação.
― Annyelle, poderia me deixar a sós com a princesa, por favor? ― pediu, sem olhar para ela.
― Mas... zinho ― falou com uma voz melodiosa que embrulhou o meu estômago. Não por ela, mas pelo dito cujo ser chamado dessa forma.
Que raios de apelido era esse?
O nariz de se franziu ligeiramente, mas logo estava impassível. Eu arqueei a sobrancelha para a garota, esperando que ela saísse, pois não estava a fim de perder meu tempo ali enquanto ele ficava com a namoradinha.
― Então? ― perguntei, meu pé batendo no chão.
― Você chegou em um mal momento, querida ― Ela franziu o beiço e deu um pequeno passo para mais perto do .
Abri minha boca para respondê-la, mas foi mais rápido que eu.
― Annyelle, saia, por favor.
― Mas...
― O que a gente conversou a respeito? ― virou-se para ela pela primeira vez depois que eu cheguei e olhou-a com frustração.
Annyelle murchou, não satisfeita, mas girou para poder sair do escritório, esbarrando em mim na saída.
― Se eu soubesse que atrapalharia tanto assim a sua manhã, poderíamos ter marcado um outro horário. Sua amiguinha não me pareceu gostar ― resmunguei em desdenho, descruzando os braços e caminhando até onde era a sua mesa.
passou a mão por sobre o rosto e esfregou-o, em seguida sentou-se em sua cadeira e apontou para que eu fizesse o mesmo.
― Desculpe por isso.
Respondeu simplesmente, pegando-me de surpresa.
― Uau, será que eu escutei bem? ― provoquei.
― Espero que sim, pois não vou repetir. ― Rolou os olhos, irritado.
― Bom, e eu espero que esse tipo de situação também não se repita mais.
A expressão cansada dele foi abafada pelo pequeno sorriso que surgiu em sua boca.
― Se quer exclusividade, , precisa entrar em um relacionamento sério comigo primeiro. ― O ar travesso estava sobre os seus olhos e ele apoiou os cotovelos na mesa e cruzou as mãos, repousando o seu queixo sobre elas.
― Prefiro ir embora de Atra a nado ― respondi em meio a uma careta.
― Não acho que seja uma boa nadadora assim. ― sorriu.
― Situações de calamidades fazem com que a gente faça coisas que nem mesmo imaginaríamos.
― De fato. ― piscou e pareceu pensativo por um segundo antes de voltar a falar. ― Bom, acho que podemos começar, não? ― disse, recuperando-se.
Analisei-o por um tempinho mais e tive que morder a minha bochecha interna para conter o riso que queria sair pela minha boca, o que não adiantou muito, pois logo minha risada ecoou pelo lugar e eu precisei colocar a mão sobre meus lábios para impedir-me.
― Perdi alguma coisa? ― arqueou a sobrancelha e pousou seus braços sobre a mesa. ― Achei que levaríamos a sério nosso compromisso aqui, Alteza.
― Oh, eu levo! ― Sacudi a mão em sua direção, pontadas de lágrimas divertidas molhavam os cantos dos meus olhos. ― Quero que as festividades sejam um sucesso tanto quanto você. No entanto, é difícil conversar qualquer coisa quando a pessoa na sua frente está com a boca toda borrada de batom vermelho. ― Ergui o meu dedo e apontei para ele.
― Droga. ― abaixou-se de imediato e levou a mão até seus lábios, esfregando o dorso e piorando um pouco a situação. ― Saiu?
Eu poderia mentir e dizer que sim, deixá-lo passar vergonha quando ele encontrasse a próxima pessoa do dia. Contudo, eu jamais conseguiria conversar qualquer coisa séria com com seus lábios borrados e agora a bochecha também.
― Oh, pelo amor de Deus. Deixe-me te ajudar.
Saquei um lenço de dentro da minha bolsa e levantei-me, andando até ele. Senti seu corpo rijo por um instante quando dei a volta à mesa e me aproximei. Sua atitude acabou me fazendo hesitar e me vi com a mão que segurava o pedaço de pano erguida perto da sua bochecha, porém, paralisada. Ele deixou seus ombros caírem e o ar se esvaziar dos seus pulmões e eu levei isso como sua permissão para que eu o tocasse.
Eu havia feito isso no impulso, contudo, agora que havia percebido nossa proximidade, fiquei constrangida. Não éramos amigos, nem mesmo íntimos. Mas já que estava ali, então continuaria como se fosse algo completamente normal.
Levei meus dedos até o queixo dele e o ergui com delicadeza. Seu rosto virou-se para mim, seus olhos cravando-se nos meus. Desviei o olhar e foquei em seus lábios. Eles eram bem delineados, nem muito pequenos, nem muito grandes. A boca estava rosada por conta do batom, e parte dele se estendia pela lateral direita, onde ele tinha tentado limpar. Levei o lenço até o local e passei-o, sentindo o constrangimento do ato.
Eu estava tocando os lábios de .
Onde eu estava com a cabeça quando decidi fazer essa boa ação?
Tive que aplicar um pouco mais de força para conseguir ir retirando a cor que havia ficado grudada. O pano passava pelos lábios dele, que às vezes eram repuxados. Precisei me inclinar um pouco para a região da bochecha, devido a barba curta que dificultava a retirada do batom. Quando meu rosto se aproximou, senti a respiração dele ficar mais forte à medida que eu deslizava o pano com minha mão, agora um pouco trêmula.
Não consegui me impedir de deslizar meus olhos para o encontro dos dele de novo. Estavam fitados em mim de uma forma... O que era isso?
Um frio embrulhou meu estômago com a tensão e quando senti sua cabeça se inclinar milimetricamente, percebi que estávamos nos encarando, uma das minhas mãos ainda segurando o seu queixo e a outra em sua bochecha.
A pequena ação foi o suficiente para me fazer recuar e tirar minhas mãos dele como se pegassem fogo. Não sei se havia sido sutil, mas sutileza era o que eu menos me importava agora, eu só não queria que pensasse que alguma coisa tinha acontecido aqui.
Mas não havia acontecido nada, não é?
Talvez fosse tudo fruto da minha imaginação.
― Er... ― pigarrei. ― Agora sim. ― Coloquei o meu melhor sorriso, como se estivesse tudo normal. ― Podemos nos concentrar.
Voltei, sentei na cadeira que estava anteriormente e encarei-o, estranhando o silêncio. não havia respondido nada, apenas me olhava, o cenho levemente franzido, o corpo ainda paralisado.
...? ― chamei-o, cautelosamente.
Ele piscou uma vez e balançou ligeiramente a cabeça, acenando em seguida.
― Sim, claro. Por onde quer começar?

*

Fiquei surpresa quando horas se passaram e eu ainda me via ali com .
O início tinha sido estranho, mas, no momento que nos concentramos no nosso objetivo em comum ali, todo resto foi deixado.
A ideia inicial nessa primeira reunião era colocar os pontos na mesa, ver as ideias e coisas que fizeram sucesso no festival passado. havia rabiscado várias folhas, fazendo mapas e conexões que eu pouco entendia, contudo, eu tinha feito minhas próprias anotações, e era o suficiente.
Fiquei surpresa sobre como ele estava levando a sério isso. Imaginei que passaríamos a maior parte do tempo trocando farpas ou ele tentando me atrapalhar de alguma forma, contudo, parecia realmente empenhado em colaborar e, inclusive, havia dado várias boas ideias para a semana de festividades.
Havíamos conseguido dividir algumas coisas. Alguns projetos sociais que eram feitos, ficaria a cargo dele organizar, enquanto a parte do dia principal que compunha a grande festa, ficou comigo. Já que ele não levava jeito para isso, em suas palavras. Eu achei justo, já que eu também tampouco sabia das necessidades de Atra e ele já trabalhava na área.
Nos encontraríamos daqui uma semana com novos levantamentos. Ele traria mais sugestões para o que tinha ficado ao seu encargo e eu as minhas.
Não fora de tudo ruim.
Tirando a parte...
Deixa para lá.
De alguma forma, havia me surpreendido.
Lembrei-me das nossas brigas de alguns dias para trás. Ele havia falado coisas que haviam me magoado e eu também tinha sido bem rude com ele. Mas não é como se ele não tivesse provocado isso tudo.
Eu não retiraria o que eu disse, apesar dos nossos minutos de trégua.
Eu ainda acreditava que era um seguidor cego do pai e ele ainda estava na minha lista número um de inimigos, ocupando a posição dois. O que era uma pena, porque o pouco que eu havia conversado hoje com ele, realmente dava para perceber que era inteligente e esperto, assim como eloquente. Ele tinha um jeito com as palavras que fazia com que a gente se tornasse parte delas, sendo levado pelos seus diálogos entusiasmantes.
Contudo, isso não me fez baixar a guarda.
Eu sabia que era assim que ele hipnotizava as pessoas. Sua voz grave e melódica, a aparência bonita e jovem, acompanhado de seu aspecto corajoso e cheio de vigor.
Eu compartilhei minhas ideias com cautela, eu conversei com ele com cuidado para não dar munição para poder usar contra mim.
As coisas não haviam mudado porque éramos obrigados a trabalhar juntos.
Seu pai ainda odiava a minha mãe. E minha mãe ainda odiava o seu pai.
E tudo isso por conta de uma antiga história, um ódio contínuo perpetuado de gerações em gerações.
Os faziam parte de uma linhagem familiar antiga de Atra, assim como os . Eram um grupo de amigos que ficaram ilhados aqui e acabaram fixando sua residência. Alguns deles eram irmãos, os . À medida que os anos passaram, eles foram tendo filhos e mais filhos, até que certo dia, uma expedição chegou, encontrando-os na ilha. O lugar já estava mais habitável e eles não quiseram ser resgatados, contudo, precisavam de um representante, alguém que pudesse falar por eles quando outras pessoas de fora chegassem. Não foi surpresa para ninguém quando, por votação, um dos fora escolhido. Dizem que ele era um líder nato. Contudo, um homem da família não concordou, pois se achava no direito à posição, já que alegava que fora por causa de seu antepassado que haviam encontrado a ilha.
Isso é um resumo porco apenas do início da briga entre 's e 's.
Houveram muitas outras brigas e coisas muito mais horríveis no decorrer dos anos. A Rebelião dos Portos fora uma delas, o que suspeitamos que tenha sido liderada pelo Marcus , ainda que não seja muito comprovado o fato.
Então, talvez se perguntem, por que ele ainda é governador e um dos Conselheiros de Atra?
Uma oferta de paz.
Após muitas mortes e destruições, minha mãe estava disposta a ceder isso para que Atra não entrasse em um caos de destruição. Fora assim que os rebeldes foram contidos, pelo menos na teoria.
Ainda haviam pessoas que nos odiavam, seguidores do Sr. Marcus, que achava que ele poderia ser um rei muito melhor que minha mãe.
Na verdade, o ódio era gratuito. A rebelião realmente começou porque não aceitavam que a minha mãe, como mulher, poderia assumir e gerir o reino com maestria. Por isso ela lutava arduamente todo dia para mostrar a eles o contrário.
Para mim, era perda de tempo. Por que gastar a sua vida se sacrificando para provar um ponto para pessoas que não dão a mínima por você?
Eu apenas odiava a realeza e o sacrifício que vinha com ela.
Eu havia perdido meus avós.
Eu havia perdido a minha liberdade de escolha.
E eu perderia muito mais quando assumisse a coroa.
Enfim, manter Marcus no poder era uma estratégia de paz, de supervisão ― a fim de poder observá-lo mais de perto ― e, em partes, porque ele era bom nisso. Verdade seja dita.
Assim como seu filho era bom, apesar de eu ainda odiá-lo.



Capítulo 9

― Onde está a minha garotinha? ― uma voz surgiu no salão e todos nós levantamos nossos rostos e olhamos em direção à porta.
― Vovô! ― Levantei-me depressa, largando meu café da manhã na mesa, e corri para ele, jogando-me em seu abraço como uma pequena criança.
Ele e meu tio Otto eram os únicos familiares que eu tinha, além dos meus pais. E ambos eram maravilhosos. Vovô era um dos membros do conselho e governador de Hagen por muitos e muitos anos. Por conta dos seus afazeres, ele não conseguia vir com muita frequência, mas cada vez que conseguíamos nos ver, eu costumava não me desgrudar dele.
― Aí está ela. ― Ele afagou meus cabelos. ― Você cresceu? Cada vez que eu te vejo parece maior. Aqui não é terra de gigantes, menina ― brincou e eu ri.
Ele sempre insinuava que eu havia crescido, mas, a verdade era que ele nunca me via velha demais, eu sempre seria sua garotinha.
― Bartollo. ― Minha mãe se ergueu e sorriu para ele.
Meu avô me soltou e foi até ela.
― Minha nora mais linda. ― Beijou o seu rosto e depois andou em direção ao meu pai. ― Filho ― cumprimentou-o.
― Ela é a única que você tem ― meu pai respondeu, trocando algum tapinha nas costas com ele.
― De fato, mas ainda assim... ― Piscou para ela e todos sorriram.
― Quer tomar café conosco? ― minha mãe lhe dirigiu a pergunta.
― Vocês tem o prazer de querer me ver gordo, não é? Sua mãe era da mesma forma, sempre que eu vinha aqui tinha uma torta de morango para me oferecer ― gracejou e puxou uma cadeira para se sentar.
Vi um relance estranho no olhar da minha mãe com a citação, mas ela piscou e recuperou-se rapidamente.
― Bom, hoje eu tenho de chocolate. Talvez te agrade ainda mais ― ela respondeu.
― Enrico ― vovô girou seu corpo em direção ao meu pai ―, quanto você quer por ela? ― falou sério, mas conhecíamos bem para saber que era mais uma de suas gracinhas.
― Não está à venda, papai, lamento.
― Droga. Uma pena para você, Eleanor. ― Piscou.
― Garanto que estou bem. ― Mamãe emitiu um sorriso.
Tio Otto interrompeu a conversa entrando no recinto. Suas roupas estavam amarrotadas, a cara inchada e o cabelo ruivo desgrenhado. Se eu me recordava bem, ele vestia a mesma coisa do dia anterior, o que eu supunha...
Arqueei a sobrancelha para ele, preferindo nem concluir o pensamento.
― Otto, a que devo a honra da sua presença, irmão? ― minha mãe questionou-o, sarcástica, observando-o quando ele se jogava em uma cadeira perto de nós.
― Ah não, Lea. Ainda está cedo para o sermão ― resmungou, passando a mão por sobre o rosto.
― Na verdade, já está até um pouco tarde ― meu pai comentou. ― Não que eu queira colocar lenha na fogueira. ― Sua boca se inclinou levemente e ele deslizou seu olhar para minha mãe.
― Bons tempos de juventude ― meu avô disse, sonhador. ― Ah, quem me dera...
― Papai!
― O quê? Nem todo mundo usava cinto de castidade na juventude como você, Enrico ― vovô retrucou e eu quis queimar meus ouvidos com esse comentário.
A cor das bochechas do meu pai se avermelharam e ele passou a mão por sobre o cabelo.
― Minha filha está na mesa, vigie seus modos. ― Apontou para mim em frustração.
― Oh! ― Vovô olhou para mim. ― Desculpe, querida. Mas não é como se você não soubesse dessas coisas, não é? Na sua idade você já deve...
― Chega! ― minha mãe exclamou, as mãos por sobre a mesa. ― Acho que todo mundo aqui já entendeu. Já é suficiente, Bartollo ― cortou, sua voz um pouco aguda e constrangida ao mesmo tempo.
― Eu adoro esse homem ― Tio Otto sussurrou para mim e sorriu. Seus olhos inchados da noite provavelmente mal dormida.
Eu não consegui me impedir de rir junto.
Minha casa costumava ser tão séria que, apesar dos constrangimento a parte, ter vovô e meu tio aqui, era a melhor diversão que esse castelo poderia ter.

*

Entre troca de conversa fiada e muito bate-papo, assim que terminamos o nosso café da manhã, meu avô se reuniu com minha mãe e meu pai na sala de reuniões. O clima logo mudou e eu pude perceber uma certa tensão no ar, ainda que eu não soubesse do que se tratava. Assim que se retiraram, meu tio me solicitou em seu quarto, finalmente disposto a entregar o meu presente.
― Por que eu acho que todos estão escondendo algo de mim? ― perguntei, enquanto caminhava com meu tio.
Ele jogou seus cabelos ruivos para o lado e deixou seu sorriso crescer, dando de ombros.
― E quando sua mãe não esconde alguma coisa? ― Arqueou a sobrancelha duas vezes, olhando para trás em minha direção, depois voltou a cabeça para frente e estendeu a mão para abrir a porta, dando-me passagem para entrar primeiro.
Eu suspirei profundamente, deixando o sentimento ruim entrar na minha pele.
― O vovô veio para isso não foi? E eu achando que ele estava com saudades.
... ― Tio Otto me repreendeu com um tom de acusação. ― Você sabe que é difícil para ele. Eu admiro muito o seu avô e o adoro, ele aparentemente é o cara mais feliz que a gente conhece, mas nenhum de nós dois sabemos como é a dor de perder um filho, ainda mais pelas circunstâncias que foi...
Eu balancei a cabeça tentando deixar passar.
É, eu sabia.
Em partes.
O castelo trazia lembranças para o vovô, por isso ele frequentava o lugar a menor quantidade de vezes possíveis. Eu o visitava mais do que ele vinha aqui.
― Tudo bem, vamos falar de coisas boas, cadê meu presente? ― Virei para tio Otto sorrindo, preferindo não entrar em questões polêmicas.
― Interesseira, hein? ― Sorriu e foi até uma gaveta, retirando de lá um pacote. ― Toma aqui, agoniada, espero que goste.
Rasguei o embrulho rapidamente, deixando a curiosidade falar mais do que meus próprios modos. Assim que consegui tirar toda a papelada, de dentro da caixa saiu um pequeno objeto. Ele tinha uma plataforma de madeira e, acima dele, uma bola de vidro anexada. Virei-o na minha mão e trouxe para mais perto da minha vista, dentro da redoma tinha uma menina que parecia uma princesa, seus cabelos eram loiros e seu vestido azul.
― Balance ― Tio Otto indicou-me e eu o fiz, vendo vários pontinhos brancos se espalharem pelo globo.
― Isso é neve? ― perguntei, recordando-me de alguns dos cartões-postais que tio Otto havia me dado.
― Sim! Algo que você nunca verá em Atra, mas achei que poderia trazer pelo menos uma amostra para mais perto de você. É só balançar que poderá ver a neve cair.
Eu sacudi novamente, achando o máximo os floquinhos brancos inundarem o objeto, parecia uma grande miniatura de um lugar gelado.
― Quem é essa? ― perguntei, apontando para a garota de dentro do globo.
Tio Otto riu, pegando o presente das minhas mãos.
― É uma personagem muito famosa de um filme de desenho animado lá fora. O nome dela é Elsa.
― É um nome bonito, gostaria de conhecê-la.
― É sim, comprei esse porque me lembrei de você. Elsa é uma rainha que vive isolada no castelo por causa dos seus poderes, ela não tem contato com o mundo e tudo que ela gostaria é de poder ter uma vida lá fora. Ela canta uma musiquinha também que achei a sua cara. Acho que se apertar o botão aí embaixo vai poder ouvi-la, pelo menos foi o que o fabricante me garantiu.
Peguei de volta o presente e virei-o de cabeça para baixo, procurando o local, achei um pequeno botão e cliquei, ouvindo soar um cântico bonitinho e contagiante.

Livre estou, livre estou
Não posso mais segurar
Livre estou, livre estou
Eu saí pra não voltar

Ouvi a música atentamente, fechando meus olhos brevemente para apreciar a canção e sentindo meu coração arder.
― Ela conseguiu? ― perguntei em um sussurro, tendo certeza que meu tio entenderia o questionamento.
Ele esticou o braço, levando a mão até uma mecha do meu cabelo e deixando um pequeno afago.
― Sim. Mas acredito que você teria que assistir para compreender melhor a profundidade da história.
Senti meus olhos pinicarem e balancei a cabeça assentindo. Funguei rapidamente e abracei-o, a fim de afastar qualquer sentimentalismo e para agradecê-lo. Sem ele saber, aquele era o melhor presente de todos e, talvez, um gesto de esperança para mim.
― Obrigada.
― Não é nada ― respondeu enquanto nos afastávamos. ― É o mínimo que eu posso fazer para deixar seus dias aqui mais agradáveis.
― Já é mais do que muitos fazem por mim.
― É o peso de ser filha única ― ele tentou gracejar, mas o sorriso não chegou aos seus olhos.
― Você tem sorte ― confessei. ― Queria eu ter tido a mesma.
― Eu acho que Atra é que tem sorte, eu seria um péssimo rei. Sua mãe nasceu para isso.
― No meu caso, ela não tem outra opção. ― Dei de ombros, sabendo que era uma decepção para minha mãe e para o povo.
― Sua mãe desde sempre teve um espírito de liderança, ela sabia que queria ser rainha quase ao mesmo tempo que aprendeu a falar e andar. No entanto, isso não quer dizer que você tenha que ser a mesma pessoa, . Se você sempre se colocar a sombra do que as pessoas acham que é melhor para você, nunca se deixará descobrir seu verdadeiro potencial. Cada pessoa é única ao seu próprio modo.
― Eu não... ― comecei, mas me impedi de continuar essas palavras.
A verdade era que eu não conseguia me enxergar como rainha.
Eu nunca poderia ser alguém bom para o povo sendo que só tinha olhos para fora deles.
Minha mãe poderia me chamar de egoísta, ou mesquinha, ou qualquer outro nome que seja. Contudo, não é algo que dava para controlar. A minha prisão me fez detestar o meu cargo e, me imaginar ter que passar o resto da minha vida aqui, era um martírio para mim.
― Talvez eu nunca me encontre. O que vai acontecer se nada mudar? Como eu posso ser uma boa rainha se tudo o que eu quero é ir embora daqui? ― joguei para o meu tio.
― Eu poderia parafrasear várias frases de efeito aqui, , mas a verdade é que eu não sei. Não sei como tirar você dessa, não tenho resposta para como mudar a sua mente, até porque, eu bem sei como seria para mim se fosse eu no seu lugar. A única coisa que eu posso fazer é orar para que as coisas se ajeitem de alguma forma porque... , a realidade é que, se as coisas não mudarem, não só você será infeliz, mas o povo também, porque não há nada pior do que ser governado por uma rainha insatisfeita.
O gelo subiu pela minha coluna e meus temores nebularam meus olhos.
Eu sabia disso.
Não era só o meu que estava na reta.
Cada cidadão de Atra acabaria pagando por isso, ainda que eu me esforçasse para tentar gostar.
Um som nos interrompeu e uma das criadas entrou, fazendo uma reverência.
― Senhorita , desculpe interromper, mas Vossa Alteza possui uma visita.
Arqueei a sobrancelha e levantei-me, passando a mão por sobre a saia do vestido.
― E quem gostaria? ― perguntei.
― Ele se apresentou como Onmar Brito.
Olhei para o meu tio em um questionamento silencioso e ele deu de ombros, reconhecendo esse nome tão pouco como eu.
― Bom, diga que eu já vou ― respondi-a e virei-me para meu tio. ― Muito obrigada pelo presente novamente.
― Não há de quê.
Girei e segui os corredores até chegar ao salão de entrada. Um jovem estava parado, olhando para alguns de nossos quadros que estampavam as paredes. Mesmo de costas eu poderia reconhecer o porte altivo e os cabelos lisos e revoltos.
Onmar Brito uma ova.
― Olá, .



Capítulo 10

Ele se virou, seu sorriso largo alcançando todo o seu rosto, debochando diretamente para mim.
― Olá. ― respondeu, como se nada estivesse acontecendo.
― Falsidade ideológica é crime, sabia? ― irrompi, enquanto me aproximava dele.
Ele arqueou a sobrancelha ironizando.
― Sério, Mellanie Strith? ― A ponta do lábio curvou-se levemente para a direita.
Rolei os olhos e cruzei os braços.
― O que faz aqui?
― Vim te buscar. ― respondeu, dando de ombros e ainda analisando um dos nossos quadros.
― Marcamos um encontro e eu não fui avisada? É assim que agora você leva as garotas para saírem? ― Bufei uma risada e isso roubou a atenção dele, que virou e levou o indicador até o meu queixo rapidamente.
― Pode ter certeza que se um dia saíssemos juntos, você saberia. Não sequestro meninas, se elas querem estar comigo, tem que ser por escolha. ― Piscou e voltou seus olhos para o quadro.
― Graças a Deus não verei isso acontecer. ― Levantei as mãos para o céu e depois deixei meus olhos correrem na direção que ele olhava. ― Achou interessante?
― Curioso. A história do filho do governador que se suicidou sempre traz curiosidades.
― Shiiu. ― ralhei e levei minha mão até a sua boca. ― Não diga isso aqui! Pare!
Os olhos dele se arregalaram e ele se encolheu levemente.
― Perdão. Não quis ofender. É porque é tão comum lá fora as pessoas dizerem isso que... Desculpe. Deve ser difícil para você. ― Desviou os olhos e me pareceu verdadeiramente constrangido.
― Nem tanto, porque não o conheci. Mas para meus pais sim. ― comentei, observando a foto no qual meu pai abraçava o outro homem. ― Eu agradeceria se não tocasse no assunto.
balançou a cabeça, concordando e depois voltou a olhar para mim.
― Então, vamos?
― Se você me disser o local, talvez. ― respondi.
― Achei que poderia me acompanhar em um projeto e aproveitar o tempo para conversar algumas demandas do festival.
respondeu formalmente, deixando claro que não havia truque ali. Chamei uma criada para trazer o meu chapéu e pedi para que avisasse a minha mãe. Confirmado a nossa saída, me dirigi para fora, um guarda nos acompanhava enquanto descíamos as escadas da saída. caminhava ao meu lado e, ao chegar em frente a charrete, ele estendeu a mão para me ajudar subir.
Enruguei o nariz, mas me apoiei nele, sentando o mais encostada no lado oposto possível e evitando ao máximo colar o meu corpo ao dele quando subiu. Dois guardas iam a cavalo na frente e dois atrás a fim de fazer a segurança, havia dado a instrução para onde ir, porém eu não tinha conseguido entender, por já estar um pouco longe.
Dada a largada, ficamos em silêncio. Só queria alguns minutos em paz antes que começasse a me encher novamente, contudo, a minha esperança logo foi rompida, pois ele bateu seu joelho ao meu, chamando-me a atenção.
― Como está?
Franzi quase que inconscientemente o nariz com a pergunta formal, mas respondi-o.
― Ótima, e o senhor?
Sua testa enrugou levemente, mas logo ele desfez a carranca.
― Estou falando sobre isso. ― Ergueu sua mão e tocou levemente o meu braço, coberto pela manga do vestido.
Eu repeli o seu toque em imediato, sentindo-me vulnerável pela lembrança e por saber que ele viu toda a minha desgraça aquele dia.
― Estou ótima! ― repeti com mais ênfase dessa vez.
soltou um pouco o ar pelo nariz e passou a mão por entre seus fios de cabelo. Ele empurrou-se de leve para mais perto de mim, diminuindo o espaço entre nós, e abaixou sua cabeça até que sua boca estivesse perto do meu ouvido.
― Você não precisa fingir, ... Não para mim. Eu estava lá, esqueceu? ― falou baixinho, impedindo que o cocheiro o ouvisse.
― Não, eu não esqueci que estava lá, . Não precisa me lembrar disso. ― Virei-me para ele com raiva, encarando os olhos azuis que me miravam.
ficou em silêncio enquanto me fitava, eu gostaria de saber o que ele pensava ou o que ele queria tentando forçar a barra com essa conversa barata. Nós não éramos amigos e ele seria a última pessoa que eu faria um desabafo.
Os olhos dele viajaram rapidamente pelo meu rosto e foi quando percebi o quão perto estávamos. Corrigi a minha postura e me afastei dele, levando meu olhar para o lado oposto, preferindo reparar na estrada que corríamos do que no rapaz ao meu lado. Ouvi um "tudo bem" murmurado por ele e isso foi a última coisa que falamos até que chegássemos ao nosso local de destino.

Eu não esperava que parássemos ali e muito menos que veria nesse local de forma tão familiarizada.
Fazia dez minutos que tínhamos chegado ao abrigo infantil de Atra, Ilha Lar. Não tínhamos muitas crianças órfãs, mas, por vezes, alguma tragédia poderia acontecer e aquele era o local que cuidava desses pequeninos até conseguirem um lar – se conseguissem.
Eu já havia ido lá algumas vezes com minha mãe quando era mais nova e não me recordava de ter tido a mesma recepção que agora. Desde o momento que pisei os pés dentro do abrigo, as crianças vieram correndo e gritando. Mas não foram para mim. Foram em direção a .
Elas falavam todas ao mesmo tempo e eu pouco conseguia distinguir, mas cada uma que estava ali queria chamar a atenção dele de alguma forma, seja puxando a sua blusa, ou balançando o braço ou grudando na perna dele.
A coisa foi tão intensa que eu estava ainda no mesmo local de entrada, mas mais de escanteio, ainda constrangida e deslocada no meio da festa. tinha o sorriso mais sincero que já tinha visto em seus lábios, bem diferente dos que ele dava quando estava sendo político ou dos irônicos e malandros que mandava para mim.
Ele abraçava uma por uma, conversava com elas e gesticulava bastante. Até que em um momento ele olhou para trás e me viu. Seu sorriso parecia um pouco tímido agora, como se eu tivesse pego-o no flagra. No entanto, isso não impediu que ele estendesse a mão em minha direção, chamando-me, e desse um passo para trás, tentando colocar um espaço confortável para que eu me aproximasse.
― Turminha, eu sei que estão muito animados hoje, mas eu gostaria muito que desse um Oi bem grande para uma pessoa que eu trouxe aqui. ― falou, pousando sua mão em minhas costas assim que aproximei.
Dei um pequeno sorriso em direção as crianças, que pareciam me notar somente agora. Vi a carinha de espanto de algumas e outras apenas com olhares intrigados. Não era surpresa para mim que talvez alguns desses pequeninos não me reconhecessem, mas confesso que choquei quando vi uma menininha se encolher.
― Essa é , a nossa princesa de Atra. ― iniciou e acho que foi a primeira vez que o ouvi dizer isso sem um pingo de desdém na sua voz. ― Ela veio passar o dia com a gente hoje, não é legal?
Alguns gritaram e pularam, mas meus olhos só conseguiam focar na pequena menininha escondida detrás das pernas de uma funcionária do local. Ainda que eu sorrisse e cumprimentasse a criançada a minha volta, minha atenção fora roubada para a pequena menininha ruiva amedrontada.
Queria ir até ela, mas era difícil e tinha muita gente para conversar. Abaixei-me e fui cercada de abraços, ao ponto de quase cair se não tivesse colocado a mão nos meus ombros para me apoiar enquanto ria. Um dos guardas que acompanhavam trouxeram alguns sacos e as crianças começaram a gritar e pular ao mesmo tempo, me deixando perdida.
― É a hora dos presentes. ― ele sussurrou para mim, explicando.
Ele estendeu a mão para me ajudar a cumprimentar o restante e me orientou até um dos sacos.
― Quer fazer a honra? ― Apontou para um deles.
Nem havia sido eu que comprei os brinquedos, mas, ainda assim, me permitiu participar disso. Ele poderia apenas usufruir do momento e me deixar de lado, mostrando que ele era o herói daquelas criancinhas. Mas não o fez e eu não conseguia entender esse ato de bondade. Não era o que eu esperava dele.
― O que está tramando? ― cochichei de volta com o cenho franzido.
Sua expressão era confusa e ele aguardava uma explicação, no entanto, provavelmente entendeu o que eu quis dizer porque balançou a cabeça e ficou levemente sério.
― Eu não sou o monstro que você pensa, . ― retrucou, deixando-me constrangida.
Não continuou olhando para mim, apenas abriu o seu próprio saco e começou a distribuir os brinquedos. A fila na minha frente já estava formada, então também comecei meu próprio processo.
À medida que eu deixava o presente na mão de um dos meninos, o sorriso deles cresciam e o meu coração se aquecia. Eu nem mesmo me lembrava das suspeitas com relação a , as crianças haviam me conquistado por completo.
― Você é a melhor princesa do mundo. ― Um dos meninos me agarrou pelo pescoço e me abraçou apertado, deixando um beijo estalado na minha bochecha e saindo correndo depois com a bola na mão.
Melhor princesa...
Crianças eram tão inocentes.
Eu era uma impostora ali. O mérito era todo do .
Com o tempo ali no abrigo, fui descobrindo algumas coisas como: o toda semana ia lá, brincava de futebol com os meninos, lia para eles e brincava de boneca com as meninas. Um das recepcionistas até comentaram que ele deixava que as crianças fizessem trancinha ou amarrasse seus cabelos.
Isso me dava uma imagem diferente do cara que eu conhecia. Não que eu tivesse como saber essas coisas de outra forma, mas fazia um mais humano e não apenas o cara que eu achava que queria me derrubar.
Eu não queria vê-lo dessa forma, mas era impossível quando eu ouvia sua risada genuína enquanto rolava com os garotos no carpete ou quando ele segurava um bebê no colo e fazia careta para que ele risse.
― Ele é ótimo, não é? ― Uma das funcionárias me flagrou observando-o e eu tentei me recompor. ― Não há problema em admitir. ― Ela sorriu para mim antes que eu negasse. ― Eu vejo ele nos palanques dos discursos, mas aqui... ele é diferente. O Sr. sempre está ajudando as crianças e ele tenta negar, mas sabemos que parte do que conseguimos aqui veio do próprio bolso dele. Nenhum dos outros políticos costumam vir fora da época dos eventos, mas o é frequente e as crianças o adoram.
Eu não sabia o que dizer, então apenas assenti, aproveitando do momento para saber mais sobre ele.
― Muitos dos meninos foram abandonados e se lembram disso. Não é todo mundo que gosta de viver em Atra. ― Ela deu de ombros e eu entendi bem esse sentimento.
Mas a ponto de deixar um filho para trás? Essa não seria eu.
― Por que não os levam? ― perguntei, sentindo a bile formar na minha garganta.
― Pode ser uma viagem difícil. Deus sabe quantos barcos já naufragaram no processo e os navios mais seguros têm limite de passageiros, então... Alguns ainda tentam se esconder e fugir de alguma forma neles, por isso levar uma criança só seria mais trabalhoso.
― Como alguém pode deixar o próprio filho para trás? ― perguntei indignada.
― Eu me faço a mesma pergunta todos os dias ― respondeu, um olhar triste nos olhos. ― Enquanto há pessoas que daria tudo para tê-los.
― Qual seu nome? ― perguntei curiosa.
― Hope.
― Nome curioso, é inglês?
― Sim ― respondeu rindo, um pouco do brilho em seu olhar voltando. ― Minha mãe não podia ter filhos e me adotou.
― Oh! ― Fiquei sem saber muito o que dizer, imaginando a sua própria história.
― Não sinta por mim, minha mãe adotiva é maravilhosa, eu mal me lembro dos meus verdadeiros pais. ― Passou a mão por seus cabelos escuros, o olhar jovial varrendo as crianças e parando na menininha que eu tinha visto anteriormente.
Fixei meu olhar nela novamente, a garotinha acuada no canto, sem brincar com nenhuma outra criança.
― Ela é introspectiva. ― Hope me esclareceu, percebendo o meu olhar. ― Sua mãe a deixou para trás. Ela passou horas na beira da ilha gritando para que ela voltasse até que alguém a encontrou. Agora ela quase não fala mais.
Eu tinha certeza que conseguiria ouvir o estalo da rachadura do meu coração naquele instante e sem perceber, caminhei até a menininha, agachando-me perto dela ao mesmo tempo em que ela se encolhia para ficar longe de mim.
― Olá. ― falei o mais doce possível, mas a menina permaneceu quieta. ― Não vejo nenhum presente em suas mãos. Não quis nenhum dos brinquedos?
Ela encolheu-se mais um pouco e eu estremeci com a minha tentativa frustrada de ter uma conexão com a garotinha.
Seus olhos não encaravam o meu por muito tempo, mas eu percebi que fixava no alto da minha cabeça. Olhei para trás para ver se tinha algo que chamava a sua atenção, mas não vi nada importante.
― O que você quer? ― perguntei e ela apenas piscou, mas seus olhos ainda fixados um pouco para cima me fizeram compreender. ― É isso aqui? ― Apontei para minha tiara e percebi seus olhos brilharem levemente.
Sorri para ela e retirei-a da minha cabeça.
― Você quer? ― perguntei e os olhos dela se arregalaram. ― Vamos, pode tocar. ― incentivei.
No início ela permaneceu quieta, mas logo sua mãozinha se estendeu com temor até tocar a tiara que eu havia estendido para ela. A menina segurou e seus olhos não cabiam em seu rosto. Ela tentou colocar em sua cabeça, mas ficou meio desajeitado e caiu. A garota se assustou e encolheu-se contra a parede. Peguei a tiara do chão e levantei vagarosamente em sua direção.
― Posso? ― Elevei acima da sua cabeça, dando a entender que queria colocar nela.
Aos poucos ela acenou e abaixou um pouco, permitindo que eu completasse o ato. Enfiei a tiara no meio dos seus cabelos ruivos e fixei-a para que não caísse.
― Uma verdadeira princesa. É seu, pode ficar. ― Sorri para ela e a menina levantou-se de uma só vez e saiu correndo, me deixando sem saber o que aconteceu.
Fui em sua direção, tentando segui-la, até parar no quarto que ela havia entrado e encontrá-la de frente ao espelho com a boca aberta e os olhos luminosos, deixando os meus próprios cheios de água.
Não percebi a presença de Hope e ao meu lado, por isso, enxuguei rapidamente uma lágrima que havia escorrido em minha bochecha.
― Ela não é a criança mais fácil daqui, mas é maravilhosa e precisa de todo amor. Obrigada por entender isso, Alteza. ― Hope murmurou ao meu lado, seus próprios olhos embaçados também. ― Um dia terei condições de levá-la para casa. Eu a amo.
― Entendo. ― respondi. Nunca tinha passado por isso, mas de alguma forma conseguia entender aquilo, era inexplicável.
Hope entrou no quarto e passou seus braços pela garotinha que sorriu para ela. Eu nem imaginava que pudesse sorrir, mas a menina havia feito isso para a jovem ao seu lado.
A mão de foi até o meu ombro e seus dedos roçaram o local levemente.
― Você percebe que deu uma coroa que vale alguns zeros antes da vírgula para a criança, não é? ― perguntou-me, mas eu não senti acusação em seu tom.
― Eu tenho outras, ela merecia mais do que eu. ― respondi, dando de ombros e me retirando do local para deixar as garotas a sós.
também não disse mais nada, voltamos para o salão e passamos o resto da tarde com as outras crianças, brincando e conhecendo mais cada uma delas. E, de alguma forma, o dia que eu pensei que seria um martírio para mim, tinha sido surpreendente. E o cara que eu achava que sabia tudo sobre ele, apenas me mostrou que era uma verdadeira incógnita.



Capítulo 11 – Em Busca de Respostas

A semana passou rapidamente enquanto eu me esforçava ainda mais para transformar o Baile Real da Primavera em algo de respeito e admiração. Cada dia meu coração estremecia ao lembrar que era um dia a menos para a chegada da festividade. Já havia feito coisas grandes e até ridículas: Desde de fazer o levantamento com dos locais com maior necessidade de receber as mercadorias que chegariam no navio, até experimentar todos os tipos doces existentes em Atra para a festa, além de escolher tecidos para ornamentação, arte para os convites, entre outras milhares de afazeres. Definitivamente um saco. Porém, um saco que ficaria um resultado muito bonito. Modéstia à parte.
― Estou orgulhoso de você, filha ― disse meu pai, assim que entrou no salão e me viu com dezenas de papéis espalhados, revistas internacionais que achei na biblioteca e outros rabiscos que eu utilizava para planejar o evento.
Ergui o rosto e sorri para ele, satisfeita que estivesse percebendo todo meu esforço.
― Fico feliz em ouvir isso. O senhor, mais do que ninguém, sabe que eu não queria organizar nada, mas já que estou incumbida de tal cargo, não quero meu nome sendo desmoralizado por aí. Se é para fazer algo, que seja bem-feito, não é? ― respondi enquanto me levantava para dar-lhe um abraço.
Seus braços envolveram meu tronco e sua mão afagou meus cabelos. Ele deu um suspiro profundo, como se um peso saísse de si. Talvez achasse que eu daria mais trabalho ou bateria mais o pé. Eu tentei isso no início, porém, foi em vão. Então agora tinha que colocar as mãos para a obra. Além disso, no fundo, acho que eu estava me divertindo um pouco, por incrível que pareça. Não era tão ruim se sentir útil.
― Não esperaria nada diferente de você. Sei bem que é capaz ― murmurou com um sorriso.
Desfiz o abraço e caminhei até a mesinha de centro para pegar os modelos dos convites. Uma assistente havia me enviado alguns pela manhã e até o final de semana eu deveria fechar tudo para poder enviá-los. Ao lado deles, uma lista de todos os convidados e alguns nomes passados especialmente pela minha mãe, que dizia que o convite deveria ser reforçado.
― Foi ótimo você ter chegado nesse momento. Estou com algumas dúvidas e creio que o senhor pode me ajudar.
― Claro. O que precisa?
― Assim que eu escolher o modelo do convite definitivo, já vou começar enviá-los aos convidados. Vi as marcações que mamãe fez dos convites especiais. Alguns como os governadores eu entendo, gostando de todos ou não, eles precisam estar aqui, até mesmo esse Paul Pervarti que ninguém suporta. Aí vem alguns secretários, líderes de aldeias e tudo bem, no entanto... há uma família em especial que nunca ouvi falar. Sr. e Sra. Westfall e Jolie Westfall. Dois convites, apesar de ser da mesma família, pelo que percebi. Por quê? Quem são eles?
Não era como se o nome me lembrasse alguma coisa, se fosse alguém ligado a política, eu deveria ter, pelo menos, ouvido falar.
Por que eles teriam um convite especial? Se forem apenas plebeus, o que os torna privilegiados para um convite para o baile?
Meu pai suspirou e passou as mãos em seus cabelos, enquanto parecia pensar no que responder. Sua demora só me constatava mais que havia algo por trás daquilo. Eu não sabia o que era, como sempre, mas descobriria. Já estava farta de segredos naquela casa. Se não quisessem me contar, tudo bem, mas eu iria atrás de respostas assim mesmo dessa vez.
― Como posso te dizer... São antigos amigos da família e sua mãe sente-se em dívida com eles.
Ergui a sobrancelha sem entender. A expressão dele era preocupada e franzia o lábio meio perdido na conversa.
― Dívida? Como a família mais poderosa de Atra poderia ter dívida com alguém que nunca ouvi falar? Financeira eu tenho plena certeza que não é. Então que tipo de dívida minha mãe poderia ter com eles? Além disso, nunca ouvi falar desses amigos, nem mesmo os vi.
... ― retrucou-me com repreensão. ― Você sabe que há coisas que estão além da sua compreensão, filha. Não vejo necessidade de querer cavar situações que não estão ao seu alcance.
Aquilo me irritou profundamente. Era sempre assim! A mesma ladainha.
― Não, pai. Para mim já chega! ― refutei. ― Tudo está longe da minha compreensão porque vocês não me deixam a par das coisas. Como querem que eu seja uma rainha um dia se eu não sei nem as coisas do meu próprio palácio? Vou ser a rainha vendada, que não enxerga um palmo diante do seu nariz. Querem que eu mude? Que eu assuma o trono? Tenha responsabilidades? Certo. Posso fazer isso um dia. Mas no escuro não. Me recuso.
― Querida, entenda, não é nada contra você, só que há coisas... coisas intensas demais, tristes por demasia. Há feridas não totalmente cicatrizadas que é melhor ficar onde estão. Tocá-las só faria que a expusessem de novo e eu temo que o curativo desta vez não seja suficiente para estancar o sangue que pode jorrar. ― Esticou a mão um pouco trêmulo para me acalmar, mas eu recuei.
Suspirei com cansaço e me assentei. Coloquei minhas mãos em minhas têmporas, massageando-as enquanto pensava no que dizer, tentando resgatar na memória todos os boatos vis que já havia escutado.
― Tem a ver com o passado da minha mãe, não é? Tudo tem a ver com aquele tempo fatídico, tenho certeza. São tantas perguntas sem respostas, tanta coisa que eu gostaria de entender. Por que, pai? Por que isso mexe tanto com ela? Eu não entendo. Foi por causa da morte do... ― Engoli, sabendo que isso deveria ser doloroso para ele também. ― Ela... Ela o amava? ― criei coragem para perguntar, mesmo querendo poder morder de volta tais palavras.
Eu não queria sugerir nada, pelo contrário, se minha mãe tivesse casado com qualquer outro, não seria eu que estaria aqui. Não queria ferir meu pai com nenhuma ideia e estava me esforçando para me controlar, mas tive plena certeza que deveria ter ficado quieta quando em um súbito a expressão dele se tornou dolorida.
... ― Papai engoliu e passou a mão no rosto em frustração. ― Eu não posso, querida, desculpe. Não é minha história para contar, pergunte a sua mãe se assim quiser.
― Tudo bem. O relacionamento anterior foi dela, mas o casamento de vocês pertence aos dois. Me diga, então, como foi que ela casou com você. Eu sei que eram amigos e que você e o tio viviam aqui no castelo desde sempre por causa do cargo político do vovô Bartollo. Como se apaixonaram? Ela descobriu que gostava de você por isso dispensou o... o outro? Ela traiu ele com você? Havia mais alguém?
Vi o rosto do meu pai paralisar, sua boca fez uma linha fina, acompanhado de um olhar pálido. Caminhou um pouco de um lado para o outro até sentar-se ao meu lado. Segurou minha mão, tentando passar um conforto e tranquilidade que nem mesmo ele possuía, eu sabia que estava tão atordoado quanto eu. Ele olhou para frente e deu um longo suspiro até começar a falar.
― Eu era o filho do governador, por isso meu pai sempre me trazia durante suas viagens a capital. Neste processo, sua mãe e eu nos tornamos amigos, nunca mais que isso. Eu sabia muito bem o meu lugar no grupo e jamais ultrapassaria essa linha. Algumas coisas aconteceram para sua mãe nesse tempo e... como posso explicar? ― Pensou durante uns segundos. ― Vamos dizer que, depois da morte dos pais da Eleanor, seus avós, eu era a pessoa certa no momento certo em que sua mãe precisava. Ela estava muito machucada e eu era o amigo que estaria sempre ao seu lado para consolá-la. E hoje estou aqui. ― Abriu um sorriso para mim ao final, quando se referiu ao casamento.
Era inegável o que ele sentia pela minha mãe. Era só observar seus olhos e sua expressão, tudo exalava o seu amor.
― Espere, deixa eu ver se eu entendi. Você disse que sabia o seu lugar no grupo. Que grupo é esse? Quem fazia parte dele? Tio Harry era um desses, né?
― Quantas perguntas! ― Deu uma risada levemente humorada, ainda que carregado de tensão. ― Sim, ele era um, mas não era só nós.
― Então quem?
― Você não o conhece. Era um outro amigo de longa data, seus pais trabalhavam no castelo...
. ― A voz da minha mãe retumbou na sala, interrompendo o meu pai. ― Que bom que te encontrei. Gostaria de saber como andam os preparativos para o Baile ― falou em alto e bom som, entrando no salão com uma expressão severa. Vi rapidamente uma troca de olhares entre meus pais e no mesmo momento soube que aquele assunto terminaria ali. Pelo menos por hoje.
Respirei fundo e colei um grande sorriso falso para ela.
É, não seria dessa vez.

*

Já havia anoitecido e eu aguardava todos irem dormir para colocar meu plano em prática. Se a dona Eleanor pensava mesmo que iria me ludibriar, ela estava redondamente enganada. Meu pai postergava e não me revelava tudo, apesar de sempre soltar alguma informação a mais. Minha mãe era dura como uma rocha, dali eu poderia bater o que fosse que nunca jorraria nada. A única saída, então, seria descobrir as coisas por mim mesma. Eu já estava encucada há tempos, mas agora algo cintilava em meu cérebro e eu não poderia deixar passar de jeito nenhum.
Quando percebi que todos já estavam adormecidos no castelo, calcei minhas meias e fui andando vagarosamente para não fazer barulho, rumo ao escritório da minha mãe. Sabia que se tinha algo que eu poderia descobrir nesse lugar, seria ali ou no quarto dela. Mas como o quarto era meio que impossível de se invadir, a solução seria o escritório mesmo. Me esgueirei até a porta e, ao chegar lá, vi que a mesma estava trancada. Droga. Teria que arrumar outra maneira para entrar. Lembrei-me de todas as artimanhas que fiz com Kath durante a nossa infância e recordei-me de uma passagem secreta que ia até o local. Percorri o caminho e, chegando lá, respirei aliviada por conseguir entrar sem muita dificuldade.
Do que adiantava trancar a porta se havia passagem secreta? Se bem que essas passagens eram exclusivas para a realeza e no máximo poucos soldados de alto escalão tinham conhecimento, sendo protegida dos criados, visitantes ou invasores.
Comecei a abrir as portas dos armários em busca de algo que pudesse saciar a minha curiosidade. Achei muitos relatórios, papéis de despesas, memorandos dos governadores, cartas internacionais, nada que pudesse me interessar. Nenhuma novidade, apenas coisas que eu sabia que com um tempo minha mãe até me obrigaria a ler.
Tentei então as gavetas da sua mesa, muitas estavam trancadas, me levando a pensar que talvez aquela invasão não fosse de tudo perdida. Pelo menos eu sairia dali sabendo que havia algo a ser escondido, depois eu voltaria mais bem preparada. Ao abrir a terceira gaveta da esquerda, ao fundo, embaixo de vários papéis aleatórios, achei um álbum. Ele era bonito e chamava bastante atenção. Peguei-o com interesse e comecei a folheá-lo.
Em sua capa, por dentro, estava escrito o título:
"Nossas Memórias",
Para minha querida Alexandra, com amor Michael.
Meus olhos se embargaram. Era do meu avô, aliás, dele para a minha avó. Minha mãe já havia me contado que ele adorava colecionar fotos. Vi que ali tinha algo que parecia uma recontagem da vida no palácio. Tinha uma foto dele com a minha avó, seus cabelos ruivos como os do tio Otto. Eles estavam no jardim e pareciam bem novos na época, ambos com sorrisos largos e emocionados, a mão do meu avô tocando a barriga da minha avó. Em outra eles tinham uma garotinha no colo, minha mãe, com um pirulito na boca. Logo após essa era uma foto da minha mãe com o Tio Otto, ela emburrada enquanto seu irmão puxava o seu cabelo.
Observei que em uma foto estava minha mãe e tio Otto, com cerca de 7 anos, eu acho, junto com outro garoto. Suas mãozinhas estavam dadas e o cabelo da minha mãe estava pregado ao rosto. Provavelmente estavam brincando e meu avô os pegou de surpresa com a foto. Foi impossível não sorrir com essa imagem selvagem dela. Até me fez esquecer Eleanor, antes de ser rainha ou qualquer coisa parecida, foi uma criança que brincou, riu e se divertiu. Até mesmo teve muita gente ao seu redor, ao contrário de mim, que sempre fui mais solitária.
Fui passando as fotos da infância da minha mãe. Em algumas o menino de antes continuava aparecendo. E, não muito depois, encontrei uma dela com mais outros dois, além dele. Olhei atentamente até perceber que um deles era meu pai, o outro eu não conseguiria reconhecer se não fosse os traços semelhantes da família. Reparei que minha mãe sorria bastante, os garotos estavam em volta dela e todos pareciam felizes. Daí em diante era comum sempre ver os três nas fotos, com raras exceções. Uma delas era a que agora eu encarava. O menino desconhecido estava sentado junto a uma pequena mesa e desenhava algo enquanto minha mãe o encarava, não era como se eles tivessem visto que a foto estava sendo tirada. O menino tinha um pequeno sorriso no canto dos lábios e um lápis na mão, enquanto seus olhos, mesmo com a cabeça abaixada, olhavam de canto para minha mãe. Ela sorria largo e parecia brilhar na direção dele. Era uma linda foto, mas não era meu pai. Quem era ele?
Os boatos diziam que minha mãe tinha tido um relacionamento antes do meu pai. No entanto, se eu fosse acreditar nos boatos, isso significaria que meu tio havia morrido por culpa dela. Ou que ela havia o traído com o meu pai. E eu me recusava a pensar tão baixo disso tudo.
De todos os boatos, o mais fácil de lidar era que talvez ela tinha tido um outro relacionamento. Mas se ela gostava tanto dessa pessoa e sofresse com isso até hoje, por que ela casaria com meu pai? Ou pior... o que o meu falecido tio tinha a ver com tudo isso?
Continuei a encarar a foto, se eu pudesse interpretar toda a história apenas por elas, eu diria que ela e esse garoto tinham algo. Eu só havia visto esses mesmos olhos quando minha mãe olhava para meu pai. Porém, aquele sorriso parecia mais genuíno e leve, minha mãe parecia apenas uma garota... uma garota apaixonada.
Retirei a foto do álbum para observar melhor, queria ver de perto quem era o rapaz que estava com minha mãe, contudo, no mesmo momento, ouvi um barulho vindo de fora da sala. Um frio percorreu na minha nuca descendo pela minha coluna até o dedo mindinho do pé. Ouvi o som da fechadura da porta, apontando que alguém estava entrando ali. Não tive muito tempo para pensar, precisava sair dali de alguma forma ou mesmo me esconder. Se minha mãe soubesse que estava me esgueirando pela noite, eu perderia toda a minha vantagem. Com certeza ela esconderia qualquer coisa que estivesse disponível por ali e que pudesse me dar algum tipo de resposta. Com agilidade, desliguei o abajur, joguei o álbum novamente na gaveta e carreguei a foto comigo já que não daria tempo de guardá-la. Corri para a passagem secreta enquanto eu ouvi a porta ranger ao se abrir e a luz do escritório se acender.
Ufa, essa havia sido por pouco.
Não fui embora, pelo contrário, fiz como antigamente com Kath, fiquei observando pela porta falsa, disfarçada de quadro, a fim de saber quem havia entrado ali naquela hora e o que queria. Abri uma fresta para observar e me deparei com minha mãe. Ela tinha um semblante abatido e suas olheiras estavam expostas sem a maquiagem que usava no dia a dia. Ela percorreu a sala até chegar perto de um quadro que estava na parede. Retirou-o dali, revelando um cofre escondido, que ela abriu rapidamente. Dentro continha uma caixa que eu não conseguia definir de longe, mas acompanhei ela carregá-la até a sua mesa.
De dentro dela minha mãe retirou algumas folhas e colocou de lado, porém, fixou-se em uma com um olhar perdido e tenebroso. Por muito tempo ela ficou estática ali, olhando para aquele papel. Não havia como eu saber o que havia escrito, mas pude perceber a seriedade quando comecei ouvir soluços e fungadas vindo dela. Minha mãe elevou a mão direita, colocando sobre a boca enquanto as lágrimas desciam copiosamente sem parar. Já havia visto ela chorar escondida, mas não daquela forma. Foi como o desmantelamento de uma estátua, minha mãe sempre mantinha uma pose dura, porém, ali sozinha, ela se quebrou e deixou todos os seus sentimentos descarregarem.
Ela largou o papel sobre a mesa e colocou as duas mãos sobre o rosto. O seu soluço era alto e não consegui entender a minha própria emoção diante daquilo. Ela exalava uma dor tão profunda que cortava a minha alma. Eu só queria poder entrar ali, abraçá-la e dizer que tudo ficaria bem, de uma forma ou de outra, porém, não podia.
Alguns minutos depois, minha mãe olhou para cima, parecendo conseguir recuperar o fôlego para respirar. Dobrou a folha e colocou-a juntamente com os outros papéis que estavam dentro da caixa, procurou uma outra e, ao achá-la, franziu o cenho e a observou. Desta vez o papel era bem pequeno, apenas uma tira. Ela olhava-o por um bom tempo com o cenho franzido, como se quisesse desvendar algo ou estivesse intrigada. Vi seu semblante sofrido ser trocado para furioso. Seus olhos exalavam raiva e suas unhas fincaram em seu próprio punho. Ela amassou o pequeno papel, jogou-o para longe com um alto rugido e deu um soco na mesa, fazendo-me cair de bunda assustada no chão.
Gelei com medo que ela estivesse escutado o barulho da minha queda e desconfiasse da minha espionagem. Voltei para a minha posição e pude ver que ela havia ido para o quadro falso que tampava a saída para o esconderijo, mas depois deu meia volta. Andou pequenos passos no escritório, bem meticulosamente, e eu tranquei a respiração com medo que apenas o meu expirar denunciasse a minha posição ali.
Ainda com um olhar desconfiado, minha mãe virou-se para o lado onde havia jogado o papel, abaixou-se e pegou-o, desembrulhando-o. Caminhou novamente para onde estava a caixa, guardou o pequeno pedaço, fechou a caixa e trancou-a novamente no cofre. Logo em seguida desligou as luzes e saiu do escritório, fazendo-me respirar aliviada novamente.
Voltei ao meu quarto pela passagem secreta e guardei a foto no mesmo baú onde escondia meus acessórios de disfarce. Por essa noite eu havia dado um passo mais perto para uma resposta, o problema era que ela só me levava para mais milhões de perguntas.



Capítulo 12

Durante a semana, passado o susto, resolvi guardar um pouco meus planos mirabolantes e continuar a organizar a festa. Já havia concluído que tirar algo do meu pai seria uma missão inútil. O melhor a se fazer era esperar a poeira baixar e tentar uma abordagem sutil. É claro que, como não sou boba, já estava planejando também uma forma de voltar ao escritório e conseguir chegar ao cofre. Algo me dizia que aquelas folhas que estavam com minha mãe me trariam muitas respostas.
Faltavam apenas duas semanas para o baile e os convites haviam ficado lindíssimos, mesmo dentro de nossas limitações. Eles tinham um estilo rústico e foi feito manualmente pelos nossos artesãos de Atra. Nele estava inserido o brasão da ilha e aos lados, em dourado, haviam flores que saíam de perto do brasão até as laterais do papel. O convite ficava dentro de uma caixinha de madeira decorada e, no centro, o nome do convidado. Estupendo.
Eu já havia mandado enviar todos os convites para os governadores e demais convidados especiais de Atra, com exceção de um. Este último estava bem guardado comigo e eu faria questão de entregar pessoalmente. Não que eu quisesse estar em sua presença, mas seria uma forma de abordá-lo novamente. Olhei para as letras impressas: " ". O petulante rapaz que vinha tirando minha paz e meu sono.
Analisei o restante da lista de afazeres, já estava praticamente tudo adiantado. Com as instruções que havia seguido de nossa cerimonialista, eu consegui praticamente resolver todas as pendências. O trabalho árduo mesmo eu não faria, como, por exemplo, a arrumação, mas eu precisava estar a par de tudo e saber todos os comandos. Os artefatos para decoração já estavam todos devidamente escolhidos. Sem muito exagero, mas nem simples demais, apenas atraente o suficiente para impressionar. As comidas também já estavam todas encomendadas.
Minha mãe disse que o baile era uma forma de investirmos e potencializarmos o que tínhamos em nosso país, por isso, haveria comidas típicas da ilha, dando oportunidade de crescimento para os comerciantes, além de fazer com que os visitantes que chegassem experimentassem das primícias e iguarias do reino.
Mais tarde, Lylliane trouxe o vestido que eu havia encomendado. Experimentei, auxiliada pela minha funcionária, e olhei-me no espelho, amando o resultado.
― O que acha, Lylli? ― perguntei, virando-me para ela.
― Está linda, Alteza. O tom champanhe faz jus com o tema Primavera, além disso, combinará perfeitamente com seus cabelos e olhos.
― Esse é meu primeiro evento como anfitriã, estou nervosa ― confessei, passando a mão pela saia do vestido e olhando-me novamente pelo reflexo.
― Vai dar tudo certo, Princesa. ― Sorriu para mim e entrelaçou seus dedos na frente do corpo. ― Observei a senhorita correr atrás das coisas durante a semana toda, tenho certeza que tudo ficará perfeito. Quanto às vestimentas, você já é linda, o vestido apenas realçará ainda mais a sua beleza. Quem sabe arrume até um pretendente ― murmurou, colocando a mão na frente da boca para disfarçar, como se não estivéssemos sozinhas no meu quarto.
― Nada de pretendentes, pelo menos não por enquanto. Tenho outros focos em mente primeiro, por isso, creio que não ocorrerá tão cedo. Além disso, se depender da minha mãe, terei tantos afazeres para governar que mal terei tempo para namorar. ― Suspirei.
― Ah, mas não diga que não tem ninguém em mente... Uma moça tão bela e importante como a senhorita deve ter todos os rapazes de Atra aos pés.
Ri de sua inocência. Se ela bem soubesse o quanto era difícil estar no cargo onde estou. Os homens de Atra basicamente dividiam-se em dois: os que se aproximavam devido a minha coroa e os que se intimidavam pela minha posição e não tinham coragem de se aproximar.
Bem trágico.
― Lylli, as coisas são bem mais difíceis do que você pensa. Não vejo homens em Atra para mim.
― Então a senhorita importará um rapaz estrangeiro? ― Gargalhei com sua pergunta, porque se bem a conhecia, não estava brincando com minha cara, ela realmente pensava que eu detinha de tal poder.
― Claro que não, Lylli. Se bem que... lá fora deve ter alguns muito interessantes ― falei, dando-lhe um sorriso malicioso e arrancando-lhe um outro de volta.
― Bem que eu sabia que algum rapaz, com certeza, já havia mexido com você.
― Calma lá! Eu só disse que são interessantes e não que estou planejando casamento ou algo do tipo. Quem sabe o navio me traga homens bonitos. ― Alarguei meu sorriso, lembrando de como eu adorava os Bailes. Ah, como eu gostava. Era a oportunidade de "conhecer" melhor os convidados. Desta vez como anfitriã oficial, com certeza serei mais requisitada ainda.
Ri internamente enquanto pensava em mil formas de me esbaldar durante a minha tarefa e após muita conversa jogada fora, retirei o vestido e entreguei-o para que Lylliane levasse-o de volta e o guardasse.
Terminado os meus afazeres, resolvi entregar o convite que faltava. Se me lembrava bem, neste horário ainda estaria no escritório. Chamei George para poder me levar até lá e, antes que eu saísse, ouvi minha mãe me chamar.
, espere. Irei com vocês ao centro. Preciso fazer umas visitas filantrópicas e aproveitarei o George para me levar ― disse, entrando na charrete comigo.
― Irá demorar? ― perguntei a ela.
― Provavelmente. Tenho que passar em algumas instituições, talvez só chegue em casa à noite. ― Arqueei a sobrancelha.
― Mas se não voltará tão cedo por que quer ir no mesmo carro que eu? Como irei voltar se você estará com o George para lá e para cá? Até onde eu sei o George é o meu motorista.
― Sim, mas eu quero passar um tempo a mais com minha filha, nem que seja poucos minutos ― respondeu, revirando os olhos com a minha pergunta. ― Tenho visto que tem se dedicado e quero parabenizá-la por isso. Ficou tão envolvida que tenho tido pouco tempo com você nos últimos dias. E quanto ao George, fique tranquila. Pedirei outra pessoa para te buscar.
― Obrigada ― murmurei pelo seu elogio. Pelo menos meu esforço não estava sendo em vão e estava acalmando a fera. ― Já está tudo pronto, pelo menos na teoria. As programações estão todas organizadas, as pautas em dia e fechamos a recepção do dia que o navio atracar. Os comandos para o baile também estão todos prontos e os convites enviados. Agora só falta a mão na massa, que no caso não é comigo ― informei-a e quando virei em sua direção, seus olhos estavam arregalados como em espanto. ― O que foi?
― Desculpe, filha. Não esperava que pudesse se sair bem tão rápido. Já acabou tudo mesmo?
― O problema é que sempre me subestima, mãe ― respondi, dando de ombros, fingindo não me importar. ― Tudo já está definido. Só falta um convite para entregar, mas farei isso agora.
― Sinto muito se lhe fiz pensar que não era capaz, . Você sabe que não é isso, pelo contrário, sei como pode ser eficiente quando quer, só achei que... talvez fizesse mais birra.
― E adiantaria? ― Arqueei a sobrancelha para ela.
― Na verdade não ― respondeu com um sorriso no canto dos lábios.
― Pois então! Para que retardar algo que não vou me livrar. Melhor concluí-lo logo e com êxito.
― Muito bem. ― Voltou a olhar para frente, ainda com uma expressão tranquila. Estaria minha mãe pela primeira vez orgulhosa de mim?
Assim que paramos em frente ao escritório do Sr. Marcus, desci e despedi da minha mãe. Meu foco era chegar até , mas acabei esbarrando com o seu pai na entrada e tive que cumprimentá-lo. Para a minha sorte, ele não estava com muita aptidão para conversa, tão pouco eu, então pude continuar andando até chegar ao meu destino, dessa vez não encontrando Annyelle, graças a Deus.
Ao chegar à porta, avistei-o com a cabeça baixa escrevendo alguma coisa. Encostei na lateral da entrada e esperei que ele desocupasse, não querendo ser mal educada, apesar do meu instinto provocador querer irritá-lo. Acho que fiz algum tipo de barulho, pois no momento que me escorei para esperá-lo, ele ergueu sua cabeça e olhou em minha direção com um sorriso soslaio.
― Ora, ora, ora! Olha quem está aqui! ― exclamou, encostando suas costas na cadeira e cruzando seus braços por sobre a mesa preguiçosamente. ― Sabe, , eu estou acostumado a ter mulheres vindo até mim, mas até mesmo eu esperava que você demorasse mais ― concluiu, levantando e andando até mim devagar até encostar do outro lado do batente da porta.
Ele inclinou-se, apoiou a mão na parede ao meu lado e esticou sua mão para pegar uma mecha do meu cabelo, deixando-me desconfortável com a proximidade. Dei um passo para o lado, desvencilhando-me dele e forcei um sorriso sorrateiro para que ele não percebesse.
― Seu ego deve ser do tamanho da sua cabeça oca, não é, ?! Pois saiba que eu estou atrás de você sim, mas por outros motivos.
― Ok... ― Riu e caminhou para o centro da sala novamente, fazendo um movimento para que eu pudesse entrar também.
Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a mesa, colocando a caixa do convite em cima dela para mostrar o verdadeiro motivo de estar ali. Ele olhou e deu uma risada.
― Essa é a sua desculpa?
― Não, , essa é a verdade. Vim trazer o seu convite para o Baile deste ano que, caso tenha esquecido, fiquei incumbida de fazer. ― Ele arqueou uma sobrancelha, ainda com um sorrisinho petulante nos lábios.
― E o que me torna tão especial para que a princesa e anfitriã da bela festa venha pessoalmente entregar a mim o convite? Ah, que por sinal, eu estou na organização também, caso ela tenha esquecido.
Rolei os olhos porque eu não tinha resposta para isso, na verdade. Eu vim porque queria provocá-lo de alguma forma, eu acho. Preferia ver esse lado do do que o lado bonzinho que brinca com criancinhas, era mais fácil lidar com o filho do Marcus petulante do que o bondoso que se colocava diante de uma chuva de tomates para me proteger. Talvez eu só quisesse ver qual deles eu encontraria hoje.
― Não se ache tanto, eu estava de passagem e resolvi parar ― menti, mas ele não saberia mesmo.
― Eu acho... ― começou lentamente enquanto um sorriso se desenrolava ― que você veio garantir que eu guarde uma dança para você.
Gargalhei porque por essa eu não esperava.
― Sério? ― zombei.
― Não diga que não tem curiosidade de saber como seria valsar comigo. Talvez se não tivesse me evitado todos os anos anteriores já saberia.
― Tive pares melhores, eu garanto. ― Pisquei, lembrando de uns bonitinhos estrangeiros que eu já tinha dançado. Tá bom que eles não eram bons na valsa, mas, pelo menos, valia os beijos nos corredores escondido.
― Você não pode afirmar que não gosta de algo sem provar ― refutou, contraindo levemente a sobrancelha.
― Então talvez eu prove ― devolvi, sabendo que a frase tinha saído com um tom muito mais malicioso do que era a minha intenção, mas dane-se, o efeito foi o pretendido porque os olhos arregalados de não conseguiam esconder o choque que ele levou com a minha resposta.
Levantei e sorri para ele. Meu troco estava dado. Se ele achava que poderia brincar comigo, agora ele saberia que eu entraria nesse jogo também, seja lá qual fosse. Eu estava cansada de me sentir intimidada e perdendo para as insinuações dele, não deixaria isso se repetir. Ele queria me desestabilizar ou era apenas o jeito dele? Eu não sabia, mas se ele achava que poderia jogar, ele que se preparasse, porque eu também poderia.
Saí do escritório com um sorriso no rosto. Era muito bom ter a última palavra, ter o deixado lá boquiaberto me deu uma sensação maravilhosa. Eu deveria fazer isso mais vezes.
Quando saí, lembrei que George não estaria ali e minha visita a havia sido tão rápida que era capaz da minha mãe nem ter mandado outra pessoa me buscar. Fiquei na entrada, não querendo esperar no calor escaldante de hoje e sem querer também ter que lidar com algum outro rebelde com tomate.
Passados alguns minutos, minhas pernas já doíam de ficar em pé e eu já estava cogitando pedir carona a qualquer pessoa que passasse.
― Parece que alguém ficou na mão hoje. ― Ouvi uma voz sussurrada atrás de mim, soprando em minha orelha. Arrepiei no mesmo momento e dei um salto para o lado com o susto, não evitando revirar os olhos ao olhar para a face do indivíduo.
― Não que seja da sua conta, claro ― respondi, não querendo estragar toda a minha performance anterior.
― Talvez seja mais do que você pensa, princesa. ― Posicionou-se ao meu lado e apontou para um lado da estrada de onde vinha um homem puxando a charrete, que vinha com um brasão da família . ― Passei no escritório do meu pai e tinha uma nota, parece que você precisa de uma carona.
― Você não pode estar falando sério? ― A vida não colaborava também nem um pouquinho comigo, valha-me Deus.
― A não ser que você queira ir embora a pé, sim, é sério.
― Que raio caiu no mundo para minha mãe achar que de todas as pessoas eu iria querer mais algum tempo com você? ― reclamei, irritada.
A gente tinha não sei quantos cavalariços, mas não... Minha mãe precisava me fazer ir logo com .
― Olha, Alteza ― falou em tom de deboche, agora irritado. ― Não que eu ache você a melhor companhia do mundo, mas eu só estou atendendo às ordens da toda poderosa rainha ― disse com desdenho. ― Ao que parece ela convocou uma reunião para hoje ainda e meu pai quer que eu esteja presente também. Como estamos indo para o mesmo local, não custava nada que fôssemos juntos ao invés de ter que deslocar um motorista de lá só para buscar a madame aqui.
O problema não era eu ter que pegar carona, mas sim pegar carona com ele. Essa situação toda entre a gente estava me sufocando e eu me sentia instável perto de . Hora eu queria ir até ele, irritá-lo e provocá-lo e, momentos como agora, eu precisava de uma distância segura para respirar.
Bufei, revoltada com a ideia, mas caminhei ao seu lado até o veículo estacionado.
― Relaxa, . Quem sabe depois vai até querer pegar carona comigo mais vezes. Cuidado para não se apaixonar ― provocou com um sorriso de canto e abrindo a porta para que eu entrasse.
Fiquei surpresa com o gesto, porém não demonstrei. Um belo gesto associado a uma fala desprezível não mudaria meu conceito sobre ele.
― Há, há. Até parece, . Já lhe disse que preferia atravessar o mar de Atra e faria isso até pelada antes que tal coisa acontecesse ― falei sem pensar.
― Tá aí uma cena que seria maravilhosa de se ver. ― Olhou-me de canto e abriu um sorriso safado que me fez corar.
Normalmente eu não demonstrava meu constrangimento, mas com aquela frase, eu queria me esganar por ter lhe dado um arsenal tão grande para usar contra mim. Fiquei tão sem graça que não pude prosseguir com minhas alfinetadas e permaneci calada boa parte do percurso. depois disso também não me dirigiu a palavra, ficando apenas absorto em algum tipo de pensamento que eu esperava muito não estar relacionado a conversa anterior.
Fiquei distraída até o veículo parar em algum lugar que não era nem de perto o caminho para o castelo. Me assustei de início. Será que meus pensamentos sobre alguém sair morto ao final do "passeio" era realmente verídico na cabeça dele? Olhei-o, espantada, porém ele apenas acenou e saiu. Observei em volta até que ouvi o barulho da minha porta ser aberta. abriu-a e estendeu sua mão para mim, me deixando estarrecida. Demorei alguns segundos para entender o que queria, pois estava atordoada com tudo isso.
― Onde estamos? ― perguntei, vendo pular da charrete e estendendo a sua mão para mim.
Estava confusa, mas aceitei a sua mão. poderia ser filho do inimigo e muito irritante, mas nunca imaginei ele como um assassino, então sentia mais curiosidade do que medo.
― Muitas perguntas, princesa. Aguarde e verá ― respondeu, fazendo mistério.
― Você por acaso está me sequestrando? ― Olhei para ele, desconfiada.
mirou-me de volta e riu da minha pergunta.
― Apenas venha, , deixe de ser tão arredia apenas por um momento. ― Senti sua mão me puxar de leve e me fazendo caminhar em direção aonde ele queria.
Dei-me conta naquele instante que nossas mãos ainda se tocavam e a recolhi no mesmo instante. percebendo meu afastamento abrupto, olhou-me pelo canto e apenas balançou a cabeça.
Atravessamos por vários minutos um pequeno caminho de pedras e passamos por algumas árvores em uma pequena mata que havia no local. O mato ia se fechando até o fim da estradinha, mas, assim que chegamos ao final, o espaço se abriu e lá havia uma praia magnífica. Haviam cascalhos de pedras que formavam piscinas naturais com as águas que as ondas traziam. As folhas das árvores na costa faziam sombra e refletiam na transparência do mar. Era lindo.
― Por que me trouxe aqui? ― Virei-me para ele emocionada com a paisagem, mas, ao mesmo tempo, desconfiada de tudo.
― Você precisa relaxar mais, . Te vejo sempre tensa e arredia por aí, achei que precisasse de um tempo para espairecer ― respondeu, enquanto olhava o mar.
― Estou sempre assim porque você consegue extrair o pior de mim, ― contra-ataquei e fechei a cara para ele. Ele não podia simplesmente chegar para mim e falar coisas como se me conhecesse.
― Eu sei que causo algumas coisas em você. Mas, não falo disso, . Você quase não sai do castelo, tem os afazeres com sua mãe, agora o baile... Achei que seria bom só não fazer nada por um instante e admirar a natureza. Olha.. Que tal fazer um jogo?
Arqueei a sobrancelha sem entender aonde ele queria chegar com isso.
― Vou te propor algo, mas fique tranquila, pois não é nada indecente ― prosseguiu, dando uma risada.― É apenas uma forma para que a gente possa conversar sem entrarmos em uma disputa de quem ataca mais o outro.
― Estou ouvindo...
― Então... é o seguinte. Vamos chamar de Hora da Verdade, quando pedirmos esse momento, falaremos como duas pessoas civilizadas, sem xingamentos ou ofensas. Apenas conversaremos como duas pessoas normais. O que acha?
Ri da sua sugestão. Na verdade, nem saberia se daria certo. Estava tão acostumada já ao jeito agressivo e irritante que não ficaria à vontade sendo apenas normal com ele. E outro detalhe... Para que eu iria querer ter uma conversa civilizada com ? Eu não poderia esquecer quem ele realmente era. Filho do Marcus .
― E por que acha que eu aceitaria isso?
― Ah, vamos lá, , não seja tão dura – interpelou, virando-se em minha direção e ficando de frente para mim. ― O que tem a perder? É só por alguns minutos, eu não vou te amarrar em uma cadeira da verdade. Só quero poder ter algum momento normal com você caso um dia precisemos conversar algo que seja realmente sério.
Pensei em sua proposta. Realmente era muito difícil ter algum momento com ele em que nós não estivéssemos nos atacando. Se algum dia fosse necessário algo diferente, acho que eu nem saberia como abordá-lo.
― Caso eu aceite... ― iniciei, fazendo suspense ―, saiba que esse nome é péssimo. Até eu dizer as três palavras, já desisti de ter algum tipo de conversa com você.
― Então o que sugere? ― Abriu um sorriso que aparentava apenas feliz, nada dos cheios de insinuações.
― Verdade. Uma palavra só. Quando quisermos conversar algo basta dizer essa palavra que abaixaremos as armas. O que acha? ― perguntei, olhando para ele.
― Para mim está perfeito ― respondeu, me encarando com seus olhos azuis. – Venha comigo. ― Segurou minha mão novamente e puxou-me em direção a um tronco de madeira que havia mais adiante.
Sentamos ali e olhamos para a água, o sol estava se pondo e alguns pássaros sobrevoavam, o canto junto com o barulho da água era incrível... O sol parecia "afundar" no mar. A mesclagem do alaranjado, o entardecer e o encontro com a água tornava tudo surreal.
Eu estava embasbacada com a imagem ali quando senti se remexer ao meu lado e sua voz murmurar baixinho.
― Verdade ― pediu, encarando-me, e meus olhos voaram para ele. ― Eu realmente te trouxe aqui para que relaxasse, . Podemos ter nossas desavenças, porém imagino que deve ser difícil estar na sua posição. Não concordo com tudo que diz ou faz, mas, de qualquer forma, todos merecem um tempo para si mesmo.
Apenas consegui assentir com a cabeça. Acho que ainda não era boa em simplesmente conversar. Vendo que eu não diria nada, ele resolveu prosseguir.
― Sei que eu te irrito e você me irrita também. Porém venho te observando estes dias e vi que parece mais cansada e estressada do que o normal. Achei que talvez fosse bom apenas passar aqui, esquecer um pouco das obrigações e relaxar. Fiz mal?
― Não ― murmurei. ― Apenas ainda não sei o que dizer... Foi... inesperado. ― Engoli em seco suas palavras. Ele disse que estava me observando? Por quê? Nada fazia sentido na minha cabeça, mas como estávamos no momento da "Verdade", foi a única coisa que consegui proferir.
Como já disse, preferia lidar com o outro , esse me confundia.
― Como conhece este lugar? ― perguntei a primeira coisa que saiu da minha cabeça confusa.
― É apenas um local que eu gosto de vir quando estou com a cabeça cheia. Vi como estava pensativa e longe no caminho e pensei que fosse bom te trazer aqui também. Parecia precisar mais do que eu no momento.
Apenas arqueei minha sobrancelha. Não podia falar nada por causa do trato, mas o acordo não dizia nada sobre expressões faciais, né?
― Ah, qual é ? Eu te perturbo, mas também sou um cavalheiro. Fui criado em meios nobres como você. Não sou um monstro, posso até ser mais legal se tentar ― gracejou e soltou uma risada para mim. Apenas dei um sorriso fechado, erguendo o canto da boca e assentindo com suas palavras.
Voltamos a ficar em silêncio, apenas observando o sol terminar de se pôr. O vento soprava mais forte naquele fim de tarde, fazendo com que meus cabelos voassem e tampassem meu rosto. Em um dos momentos olhei para o lado e vi o perfil de em contraste com aquela paisagem. O sol que ainda restava ali batia em seus fios loiros escuros, fazendo-o ficar ainda mais bonito. Neste instante, parte do meu cabelo voou pela minha face. , olhando para o lado, viu a minha bagunça, ergueu a mão, pegou a mecha rebelde do meu cabelo e colocou atrás da minha orelha.
O gesto parecia simples, mas em meio àquele momento absorto, a forma gentil e a beleza presente, era muito... muito mais. Aquela proximidade estava mexendo comigo de uma forma que eu não saberia explicar e eu não me sentia à vontade. Engoli em seco no mesmo instante e virei minha cabeça novamente para frente.
― Acho que deveríamos voltar. Nossos pais já devem estar preocupados com a nossa demora. ― Cortei o momento levantando-me abruptamente e acabando com qualquer situação que tivéssemos tendo ali.
― Tem razão. ― Vi vestir aquela capa séria novamente e trazer de volta o olhar superior. Talvez não tivesse gostado da minha "fuga". ― Vamos. ― Guiou-nos novamente para ir embora.
Voltamos a charrete e ao chegar no castelo, saí apressada. Não queria ter que me despedir dele ou explicar para alguém porquê demoramos a chegar. foi direto para a sala de reunião e eu estava muito atordoada para conceber aquele momento atípico que tínhamos passado. Só queria tomar um banho, relaxar e não pensar em nada daquilo. Até porque, com certeza, não significava nada. Ele apenas me viu absorta com as coisas do baile durante as últimas semanas e quis fazer uma boa ação, pois como disse, querendo ou não, ainda era um cavalheiro.
Argh.
Quanto mais eu tentava afastá-lo da minha cabeça, parecia que meus pensamentos queriam voltar ao infeliz. Antes eram suas discórdias, insinuações e agora seu gesto gentil. Por que ele não poderia ser apenas aquele petulante? Ele já estava fazendo seu trabalho bem o suficiente me tirando do sério, não precisava me confundir com seu ato de bondade.
Decidida a não pensar mais sobre isso, tentei ler um livro em meu quarto para me entreter, no entanto, mais de uma hora depois, precisei sair e beber um copo de água, quando acabei avistando minha mãe caminhando pelo corredor. Meu pai veio ao seu encontro e pareciam conversar algum assunto sério de acordo com suas expressões. Não esperei, apenas dei passos apressados e quis interceptá-la ali mesmo.
― Como você pôde arrumar um qualquer para me dar carona? ― exclamei, indignada.
Minha mãe arqueou as sobrancelhas, assustada com a forma que a abordei, e meu pai me olhou com uma expressão questionável.
― Não entendo o problema, ― falou, séria.
― Como assim não sabe? O , um . Esqueceu quem eles são?
Minha mãe revirou os olhos com impaciência diante dos meus questionamentos.
― Não, , eu não esqueci. E sim, se houvesse outra forma eu até pediria outra pessoa, mas também não vejo motivo para essa arruaça por causa desse rapaz ― rechaçou-me.
― Talvez porque ele é irritante, nos provoca e segue os mesmos caminhos do pai. Simplesmente por isso. Você poderia ter pedido qualquer outra pessoa, qualquer uma das dezenas de pessoas que trabalham no palácio, mas me fez voltar com ele.
, querida ― minha mãe manteve o tom firme e brando, tentando manter a calma ―, eu estava ocupada quando surgiu um imprevisto e tive que convocar o conselho imediatamente. Voltei, encontrei o Sr. e ele me pediu que o filho também comparecesse. Vocês estavam juntos no escritório, ambos viriam para cá, então ele ofereceu a condução. Por qual motivo eu negaria? Queria que dissesse "Não, Marcus, não é necessário porque minha filha tem uma birra adolescente com o seu filho então não podem vir juntos"?!
― Na verdade eu gostaria sim que tivesse falado isso, mas sem a parte da birra adolescente. Você poderia trocar facilmente por "seu filho é intragável". Eu ficaria muitíssimo feliz. ― respondi com sarcasmo.
― Chega de me ocupar com bobagens, . Já expliquei, chega! ― retrucou, saindo impaciente enquanto meu pai ficou para trás, incrédulo.
Claro que ele não deixaria isso passar, já que eu havia contado antes o meu problema com o na festa.
― Pode me explicar o que foi isso? ― questionou-me.
― Nada, pai. Eu só não suporto ficar no mesmo ambiente que aquele rapaz ― desdenhei.
― E desde quando mentimos um para o outro, ? ― retrucou, suspirando com pesar.
― Não mentimos, pai, mas, pelo visto, alguém omite bastante. No fim, acho que é a mesma coisa. Se não confia em mim para contar os seus segredos por que contaria os meus? – joguei de volta, minhas palavras exalando minha raiva.
Meu pai piscou em minha direção, um pouco chocado com a rudez da minha voz. Não queria tratá-lo desta maneira, mas estava nervosa por causa do e acabei descontando nele.
― Já te expliquei tantas vezes os meus motivos... ― começou.
― Não quero mais desculpas, pai, sinto muito. Estou farta! Cansada de segredos, cansada de ser cobrada, cansada desse baile idiota e, mais ainda, não tenho condições emocionais para suportar, ou mesmo, entender o .
― Este garoto está mexendo com você.
― Sim, pai, mas não da forma que você pensa. Ele está mexendo é com meus nervos... ― Quis deixar claro antes que ele romantizasse a situação.
― Se é o que pensa, tudo bem. Só quero que tome cuidado. Estarei aqui para você se precisar ― falou com doçura, contrapondo o meu jeito agitado.
Seus braços me rodearam e me trouxeram para dentro do seu abraço, deixando um beijo no topo da minha cabeça e um longo suspiro.
― Eu te amo, filha.
Pisquei, deixando sair toda irritação que eu estava carregando. Dentro do carinho paterno, segurei as lágrimas e apenas me confortei.
― Também te amo, pai.



#4 Diário da Eleanor

23 de maio 1999

― Você está com ele? ― perguntou e meu coração deu um solavanco com o susto.
Abri a boca para tentar retrucar, mas ele levantou a mão pedindo que eu parasse.
― Eu os vi, não negue. ― Sua expressão se fechou e ele parecia desolado. ― Eu achei que sempre seria nós três.
― E nós somos… ― Dei um passo para frente, tentando tocá-lo. ― Isso não muda nada, eu sempre serei amiga de todos vocês.
― Amiga… ― repetiu, sua mão fechando ao lado de si. ― Achei que essa linha nunca se cruzaria. Não que um dia tivéssemos feito algum acordo, mas achei que estava claro que era nós três ou ninguém. Não acredito que ele passou na frente de todos nós.
― Não estou entendendo. ― Franzi a sobrancelha, ainda atordoada e tentando compreender onde ele queria chegar.
― Por que não eu? ― perguntou-me.
― O quê?
Ele chegou mais perto rapidamente e, quando percebi, já estava na minha frente, suas mãos em meu rosto e a respiração misturando-se com a minha.
― Eu não posso permitir, Eleanor, se ele tentou, eu também posso. O que não posso é deixar que o amor da minha vida passe diante dos meus olhos antes que eu não faça nada.
― Mas… ― comecei, mas fui interrompida com seus lábios sobre os meus.
Fiquei em choque por poucos segundos, minhas mãos voaram para os braços dele e empurrei-os para que me soltassem, não que tivesse grande efeito devido a diferença de força. No entanto, ele soltou assim que ouvimos murmúrios de pessoas chocadas ao redor. Olhei para o lado e vi alguns dos criados do castelo, que logo se afastaram ao se verem pegos no flagra olhando para nossa situação. No fundo, estava o meu Coração, um olhar decepcionado em seu rosto antes de virar-se e sair juntamente com as pessoas ali.
Virei-me novamente para o rapaz que há muito chamava de amigo e que agora não sabia nem como portar diante dele. Meus olhos cheios de água e minha voz quebrada quando sussurrei:
― Você não devia ter feito isso.



Capítulo 13

Hoje Atra inteira estava em polvorosa, os auxiliares do palácio corriam de um lado para outro e eu podia ouvir da janela do meu quarto os murmúrios do povo lá fora, alegres com a chegada do navio.
Eu havia sido acordada quase de madrugada, pois ele tinha atracado antes do previsto. Eu não ia reclamar, pois isso era um bom sinal, se atrasasse, estaríamos ansiosos e com medo da viagem não ter dado certo. Não iria ser a primeira vez que os navios não haviam conseguido chegar à ilha. Mas, graças a Deus, ele estava aqui, e eu me encontrava mais do que ansiosa para ver quem estava chegando, o que eles trariam e todas as notícias do mundo lá fora.
Já estava vestida e do lado de fora do castelo, batendo o pé de nervosismo ao esperar que meus pais saíssem também. Por mim já estaria lá, mas minha mãe já tinha me barrado, dizendo que a família deveria chegar unida.
Passados uns cinco minutos eles chegaram e entramos todos na charrete. O castelo não ficava muito distante do lugar de atracagem dos navios imigrantes. Então, não muito tempo depois, chegamos ao local. Haviam muitas pessoas aglomeradas, os soldados de Atra formavam uma fila, contendo a população e mantendo o lugar reservado mais acessível a nós.
Havia uma área destinada aos governadores, onde iríamos acenar e receber os convidados. Descemos da charrete e fomos diretos para lá, encontrando já alguns conhecidos no local.
Não importava que o sol ainda não havia nascido, todos aguardavam uma das eventualidades mais promissoras de Atra, além disso, não queríamos deixar a tripulação esperando, já que a porta do navio só era aberta após a chegada da realeza.
Logo de cara encontramos o governador de Glassoi, Tretton Neguesí, com um sorriso de orelha a orelha. Fomos até ele cumprimentá-lo e o homem parecia um raio de sol, seu sorriso não saía nem por um instante.
― Vejo que está ansioso, Sr. Neguesí ― minha mãe esboçou um cumprimento.
― Como não? Depois de ficar tanto tempo sem ver meu filho! ― respondeu, esfregando uma mão na outra e logo depois olhando para mim. ― Espero que vocês possam se dar bem como quando crianças, . Tenho certeza que Koddy sentiu muita sua falta.
― E eu a dele! ― respondi, com um sorriso. ― Apesar de que talvez nem o reconheça... faz tanto tempo. Ele mal deve se lembrar de mim, ainda mais depois de conhecer tantas pessoas novas.
― Ah, doce menina. Claro que irá lembrar. Ele não parava de falar sobre você um instante quando era mais novo. Amores infantis dificilmente são esquecidos. ― Ele elevou levemente o lábio e voltou o seu olhar para o navio com ansiedade.
Ainda bem que não estava mais me encarando, porque era certo que eu estava sem graça com o seu comentário.
Eu não sabia que o Koddy tinha uma queda infantil por mim, andávamos juntos nos eventos, brincávamos, e era isso. Eu sempre andei mais com a Katherine, minha amiga de longa data. E ... bom, sempre foi intragável desde criança, então eu nunca dei bola e ele sempre ficou de fora das brincadeiras.
Meus pais se afastaram para cumprimentar outras pessoas e eu olhei o navio, meu coração palpitando por vários motivos, mas a mente indo longe e imaginando quando poderia ser eu a embarcar em um desses.
― Se você encarar mais, vai fazer um furo nesse barco! ― uma voz altamente conhecida por mim falou no meu ouvido por trás, me dando um susto e me fazendo dar um pequeno salto.
― Katherine! ― exclamei e joguei meus braços em sua volta, ela fez o mesmo e nós ficamos lá dando pequenos saltos e abraços apertados, bem aquela coisa brega que as amigas fazem quando ficam muito tempo sem se ver, mas que está pouco se lixando com o que as pessoas pensam em volta.
― Eu mesma, garota! Nem acredito que finalmente estou te vendo. Quanto tempo foi dessa vez? Meses? Não é possível que em uma ilha tão pequena as pessoas demorem tanto a assim a se ver! ― rugiu, colocando a mão na cintura e jogando seus cabelos loiros para o lado.
Katherine era maravilhosa e chamava atenção por qualquer lugar que passasse, é aquele tipo de pessoa que vai além da aparência, ela tinha uma presença que atraía todos olhares como um imã. Provavelmente minha coroa combinava muito mais com ela do que comigo, mas ela não nasceu na família real, então era apenas a filha da governadora. O que não tinha muita relevância, a não ser que fosse um da vida que se dedicava a política desde pequeno.
― Você precisa vir me visitar mais vezes ― ralhei, mas com um sorriso emocionado ainda no meu rosto. No entanto, o dela deu uma leve vacilada, mas foi controlado rapidamente.
― Você sabe... Minha mãe acha que eu preciso de um controle. ― Revirou os olhos com sarcasmo.
― O que tem aprontado?
― E por que acha que aprontei algo? ― Elevou uma sobrancelha, mas a cara dela não negava.
― Imagina... Você é uma santa! ― gracejei.
― Ainda bem que você sabe. ― Piscou para mim e logo soltou um suspiro. ― Tão lindo, mas tão babaca. Por que?
― Quem? ― Virei-me para ver para onde olhava e ela deu uma leve sacudida com a cabeça para apontar a direção.
Eu devia ter imaginado a quem ela se referia, esses dois adjetivos só se aplicavam a uma pessoa que eu conhecia.
― cantarolou. ― Oh, ele está vindo para cá ― falou, surpresa.
Meu corpo inteiro se retesou. Minha amiga não sabia dos últimos ocorridos entre ele e eu, então, ver qualquer interação da parte dele conosco era algo inédito.
― Estou trabalhando com ele ― tentei adiantar antes que ele chegasse.
― O quê? ― ela exclamou, mas não teve muito tempo de continuar a conversa, pois logo estava à nossa frente, com um pequeno elevar no canto da sua boca e com seu estilo altamente charmoso ligado a todo vapor.
― Olá, Vossa Alteza! ― cumprimentou-me e virou para minha amiga. ― Srta. Beluzzo, quanto tempo!
Kath por um segundo estava sem fala e eu tratei de tomar conta da situação.
― Ei, ― respondi friamente e desviei o olhar para ignorá-lo.
― Tá... Ok. Alguém me explica o que está acontecendo aqui. ― Katherine parecia que havia encontrado a sua voz novamente.
veio para o meu lado com um sorriso cínico em seu rosto e posicionou o braço para que eu me apoiasse nele, o que fez com que as sobrancelhas da minha amiga quase chegassem ao fim da sua testa e eu olhasse para ele sem entender.
― Nós somos os anfitriões dessa organização, acredito eu que as pessoas esperam que a gente apareça juntos na hora da abertura das portas do navio. Além disso, seu pai pediu para que eu a buscasse!
Meu pai traidor!
Contive minha pequena fúria, percebendo que vários olhos eram atraídos para nós. Mas como não? A princesa, o jovem solteiro mais popular e querido de Atra e Katherine, que ainda que não fosse filha da governadora, já atrairia uma multidão de admiradores. Guiei minha mão e apoiei no seu braço e ele colocou a dele em cima da minha, fazendo um pequeno carinho que me pegou desprevenida.
Por pouco não recolhi a mão no susto, mas a minha reação foi rapidamente ficar estática, um leve arrepio passando pelo meu corpo e um frio pesado encontrando o meu estômago.
― Vai dar tudo certo, nós vamos fazer a nossa parte e as pessoas terão o seu grande show. Não há nada com o que se preocupar. ― Ele cochichou baixinho apenas para que eu o ouvisse.
Eu quis rir internamente por ele ter achado que a minha reação era porque eu estava nervosa com o dia de hoje. Bom, era melhor assim do que ele perceber que era por causa dele. Além disso, eu não conseguia entender o , uma hora ele era o babaca que eu odiava e outra era o cara atencioso que fazia coisas como essa.
Não querendo gastar meus neurônios agora, apenas assenti com a cabeça e caminhamos os três para a entrada da área exclusiva. Cumprimentamos algumas pessoas por lá, incluindo o asqueroso do Sr. Pervarti e o pai do , que estava ao lado dos nossos pais e do governador Trotton.
Minha mãe fez um aceno assim que me viu, aparentando estar satisfeita ao me ver em bom tom com . Nós passamos por todos até estarmos a frente da grande fita, meu estômago gelou em nervosismo, mas eu lutei para que as pessoas não me vissem tremer enquanto um funcionário me entregava a garrafa de champanhe e eu a sacudia. pousou a sua mão na parte inferior das minhas costas e por algum mistério o seu gesto me trouxe um pouco de tranquilidade. Eu não estava sozinha.
Fiz o anúncio em alta voz e estourei a garrafa, a rolha voando junto com a espuma. me auxiliou, levando a garrafa um pouco para longe para que não me sujasse, ele virou-a sobre a garganta e a ergueu para o povo, antes de a entregar de volta ao funcionário. Todo mundo foi à loucura, gritando ao mesmo tempo que viam a grande porta do navio abaixar e as pessoas saírem, sorrisos em seu rostos e canções sendo entoadas de alegria.
Haviam familiares, amigos e velhos conhecidos. Um chororô podia ser escutado no momento que os entes queridos se reviam. Tinham também estrangeiros, apesar de não muitos. Nós tínhamos uma equipe liderada por tio Otto para recepcioná-los, já que ele sabia falar várias línguas e conhecia outras culturas, por ter ficado um tempo fora também.
Meus pais, , eu e outros ministros fazíamos uma fila, recepcionando cada um que passava. Uma cabeça alta com cabelos lisos escuros se destacou na fila com um grande sorriso em seus lábios. Seus traços eram familiares e eu pude confirmar sua identidade assim que o Sr. Neguesí atropelou a fila e o puxou para os seus braços. Meus pais e eu nos aproximamos um pouco mais para que fossem feitas as apresentações. Sr. Neguesí o soltou após uns bons minutos, dando uns tapas nas costas do filho e em seguida enxugando os olhos de emoção. O rapaz sorria de volta para ele e tentou endireitar a sua roupa, que amassou diante a demonstração de afeto.
― Majestade, você deve se lembrar do meu filho, Koddy ― O pai se aproximou, colocou o braço nos ombros do filho e virou-se para minha mãe. Ela deu um pequeno sorriso e fez um aceno com a cabeça, enquanto o meu pai estendia a sua mão para cumprimentá-lo.
Fiquei um pouco para trás, um pouco tímida com a situação. Eu conheci Koddy a minha infância quase toda, apesar de não poder dizer que éramos melhores amigos, já que a frequência no palácio não era tão constante. Mas brincávamos juntos até o início da adolescência, quando o seu pai o mandou para fora.
Nosso último encontro havia sido... constrangedor. E a última imagem que eu tinha de Koddy na minha cabeça foi quando ele me roubou um beijo detrás das cortinas do palácio.
Não era um bom momento para lembrar disso, visto que agora eu estava sendo empurrada pela mão do meu pai até ele, a fim de cumprimentá-lo.
O antigo garotinho, que agora mais parecia um belo rapaz, deu um passo à frente e se curvou, estendendo a mão em seguida. Coloquei minha mão sobre a dele e ele a levou até seus lábios, dando-me um sorriso no fim do seu gesto.
― É um prazer te ver novamente, Alteza ― falou, enquanto me encarava.
― O prazer é meu, Sr. Neguesí. Seja bem-vindo novamente ― respondi educadamente, como uma princesa faria. Minha mãe deveria estar orgulhosa.
Koddy deu uma pequena risada.
― Só Koddy, por favor. Me sinto o meu pai com o "senhor".
Minha mãe arqueou levemente o lábio com a interação. Parece que alguém tinha ganhado pontos com ela.
― Oh, ei, ― Koddy desviou seu olhar e estendeu a sua mão para a pessoa que eu nem sabia que estava atrás de mim.
Virei um pouco o pescoço levemente para trás, notando sério e com um uma postura impecável. Levou um segundo para que ele estendesse a mão de volta para Koddy. Poderia ser insignificante, mas dado que eu estava do lado de desde que começou as felicitações e ele praticamente já andava com a mão estendida e com um sorriso no rosto para todos, então notei a diferença.
― Olá, Koddy. De volta a sua terra, hein? ― A versão irônica e maléfica de estava de volta.
― Sim! ― Koddy sorriu, sem se afetar, balançando levemente os cabelos escorridos que caíam aos olhos. ― Viajei pelo tanto que esse mundo permitiu, estou cheio de ideias e novos projetos. Agora vim para ficar e ajudar Atra da melhor forma que puder. ― completou, colocando as mãos para trás e virando para mim com um sorriso.
― Com certeza eu vou adorar saber tudo! ― exclamei, exultante.
Koddy alargou ainda mais o sorriso e deu um passo em minha direção.
― Me sentirei honrado em compartilhar, Alteza.
― Mas não agora, , querida ― minha mãe interrompeu com um tom educado. ― Precisamos dar continuidade aos eventos. Mas, Koddy ― virou-se para ele ― sinta-se à vontade de nos visitar no castelo e ficar lá durante as festividades.
― Obrigado, Majestade. ― Fez um pequeno aceno. ― , se me permite, gostaria de acompanhá-la. Posso? ― Estendeu o braço para mim.
Eu havia vindo com até aqui, mas não tínhamos combinado nada, apesar de ser de bom tom que ficássemos juntos. Mas dar o braço para Koddy não significava que não poderia estar junto e seria feio da minha parte negar. Ou talvez, lá no fundo, também havia um tom provocador da minha parte. Por isso, sorri de volta e acenei concordando.
O Sr. Neguesí tinha um largo sorriso no rosto, meus pais caminharam juntos na frente e Koddy e eu fomos atrás. Não olhei para ver se nos acompanhava, mas era bem provável que sim, já que eu ouvia som de passos. A Kath eu não fazia nem ideia de onde estava, já que havia desaparecido desde que vim fazer a recepção dos tripulantes.
― Então... como estão as coisas em Atra? Foi tanto tempo fora. ― Olhou-me pelo canto do olho e deu um pequeno sorriso.
― Como se tivesse muita coisa para contar ― zombei com um rolar de olhos e senti seu corpo tremer com uma risada.
― Eu queria poder ter te levado. ― Deu uma palminha na minha mão. ― Bom... pelo menos pude levar a lembrança. ― falou mais baixo, inclinando um pouco a cabeça na direção do meu ouvido.
Minha pele esquentou de constrangimento e eu quis me enterrar.
― Koddy! ― exclamei.
― Desculpe. ― Voltou a olhar para frente, mas seu tom de voz e o elevar de lábios em seu rosto mostrava que não havia desculpa alguma da sua parte. ― Acho que não deveria tocar nesse assunto logo no nosso reencontro.
― Eu agradeceria ― murmurei, olhando para frente e sem querer encará-lo durante o caminho.
― Mas eu realmente senti sua falta, . ― Levou sua mão direita até a minha que agarrava o seu braço e fez um pequeno carinho. ― As pessoas lá fora são... diferentes. As ambições, desejos, a correria. Levou um tempo para adaptar. Foi louco, mas consegui perceber várias coisas e absorver muita informação que acredito que poderá ajudar por aqui.
― Espero que tenha tempo para me contar, pelo menos, a maioria delas ― falei, sorrindo, e agora mais entusiasmada pelo rumo da conversa. Koddy sempre soube meus anseios, com certeza não me pouparia de muitas histórias.
― Não só contar, pequena . Acredito que você poderá participar de toda essa bagagem que trouxe comigo.
― Ei, não sou pequena mais! Não me chame assim.
― Mas eu lembro da época que parecia uma nanica. ― Riu.
― Não mais. ― Acabei desencostando dele e soltando-me enquanto me virava e colocava a mão na cintura para encará-lo.
Koddy fez uma pausa e seu olhar varreu por mim com diversão até parar nos meus olhos e deixar apenas um sorriso sutil no seu rosto.
― Posso perceber ― respondeu, estendendo a mão novamente para que pudéssemos continuar.
Meu sorriso vacilou levemente e eu pigarreei, dando um passo à frente para poder voltarmos a nossa posição, mas, antes que eu pudesse encostar em Koddy, passou entre nós um pouco duro e andando à frente. Ele fez uma pequena pausa e virou levemente a cabeça para trás para nos ver. Seu olhar era duro, sua mandíbula estava cerrada e eu nunca havia o visto tão sério.
― Se pararem para conversar a cada instante, nunca chegaremos a tempo para o próximo evento. Alteza, você sabe que precisamos estar à frente da programação ― reclamou e eu me empertiguei com a raiva que parecia estar no seu tom.
Passei meu braço por Koddy novamente e meu semblante caiu. Pelo visto havíamos voltado à estaca zero novamente.
― Pode deixar, Sr. , estarei lá logo atrás de você. Pode ir. ― Fiz um sinal com a mão que ele pudesse ir em frente, enxotando-o.
Talvez não tivesse sido a melhor escolha de palavras, porque seu rosto endureceu mais ainda com o meu gesto. Seus olhos passaram rapidamente por Koddy e depois voltou para mim.
― Como quiser... Alteza. ― Fez uma reverência que eu sabia que ele achava estúpida e virou-se para frente, sem olhar novamente para nós.
Fiquei olhando ele partir, até ser interrompida por Koddy.
― Bom... Ele parece que não mudou muita coisa, não? ― meu par zombou, voltando a andar novamente comigo.
Lembrei de todas as vezes que Koddy e eu havíamos falado mal de e seu jeito sério e ranzinza, ou como ele era um mini Marcus, intragável. No entanto, também lembrei do outro lado que não tinha conhecido antes, quando ele me protegeu ou como ele era doce com as crianças do orfanato.
Minha língua coçou para em partes defendê-lo, mas Koddy não conhecia essa parte de e não é como se precisasse de defesa. Ele realmente tinha o seu lado intragável.
― É o , não é? ― Coloquei um sorriso falso e falei com desdenho, mesmo que houvesse sentido o amargo do falso desprezo na minha língua. ― Vamos? ― chamei-o, antes que eu pudesse dar razão para a reclamação do meu pseudo-inimigo.
Koddy sorriu, ignorando o ataque anterior e eu só orei internamente para que o dia conseguisse terminar sem mais alguma explosão da nossa parte.



Capítulo 14

Após quase ter um infarto e desmaiar em frente a uma multidão, fiz o meu discurso, seguido por . Por incrível que pareça, as pessoas me ouviram, talvez atrelado ao fato que minha mãe estivesse ao meu lado.
Os recém chegados a ilha tiveram que passar pela triagem de saúde e em seguida estavam aptos para poderem se registrar e passear pelas tendas e outras coisas que eram vendidas pelos aldeões. Foi quase uma tarde inteira de eventos, muitos apertos de mãos, sorrisos e calor. Agora que todo mundo estava disperso e eu já tinha cumprido com todas as minhas obrigações, tentei escapar e ir em direção ao navio.
Não foi tão difícil, não é como se eu fosse embora com ele. O transporte nem sairia por esses dias. Eu só queria conhecer, ter a sensação de como era entrar naquele barco tão grande e passar semanas nele rumo a infinitude de oportunidades que o mundo poderia me levar.
Os soldados que ficavam na entrada e guardavam o navio me deram passagem e eu entrei com o coração palpitando por pisar ali. Minhas mãos suavam enquanto eu tocava o corrimão e subia a plataforma até chegar ao solo do navio. Eu imaginei que ele balançaria mais, mas era apenas uma leve ondulação junto ao cheiro da água salgada do mar que o vento trazia enquanto bagunçava os fios dos meus cabelos.
Andei devagar, observando o máximo possível e guardando na memória o local que era o transporte para o meu sonho. Passando por um corredor, fui observando os cômodos. Ainda havia algumas pessoas remanescentes, trabalhadores do navio que terminavam de ajeitar algumas coisas por lá. Quando uns começaram a arregalar os olhos ao me ver, paralisar ou mesmo fazer reverência, achei por bem ser mais sutil. Assim que vi uma porta que dava ao que parecia ser um quarto vazio, entrei, parando de frente para o espelho para retirar a minha tiara real. Isso não ajudaria muito a não me identificarem, mas, pelo menos, chamaria menos atenção do que circular com pedras de diamante e ouro na cabeça.
Enquanto tentava terminar de ajeitar o meu cabelo, o barulho de uma porta se fechando dentro do quarto me assustou. Virei-me, trazendo a tiara junto ao meu peito e encontrando um homem sair de dentro do banheiro minúsculo que havia ali.
O homem arregalou seus olhos ao me ver e estancou no lugar. Eu não imaginava encontrar alguém ali ainda, mas agora, olhando ao redor, havia uma mala feita em cima da cama e alguns poucos itens masculinos espalhados pelo local.
Os olhos dele voaram direto para a minha tiara, perpassando por mim em uma análise tão profunda que fiquei constrangida. Eu mudei o peso do meu corpo de lugar com minhas pernas e pigarreei, tentando tomar o controle da situação. Eu havia sido pega em flagrante ali e estava invadindo, mas ainda era a princesa de Atra, eu era a autoridade ali.
― Você parece com a sua mãe ― ele falou, após o silêncio constrangedor, porém antes que a minha própria voz pudesse ter tempo de alcançar a boca.
Franzi o cenho levemente e o encarei.
― Não é algo que costumo ouvir com frequência ― refutei, pensando nos meus cabelos mais claros.
Ele abriu um pequeno sorriso, ainda de lábios fechados, e sua postura relaxou um pouco, aparentando mais leveza.
― Aí está. ― Ele apontou para a região da minha testa e eu entendi que ele dizia sobre a minha expressão.
Não sei que careta fiz nesse momento, mas o sorriso dele se alargou e fui tomada imediatamente de um sentimento de preservação. Não gostei do tom dele ou do seu modo de falar intimista, ainda mais aparentando saber mais do que um cidadão comum.
Dei um passo para trás, colocando mais distância entre nós.
― Fala como se a conhecesse.
Sua boca abriu e fechou rapidamente, mas eu deveria dar pontos a ele pela agilidade.
― E alguém em Atra por acaso não conhece a rainha? ― Ergueu a sobrancelha e cruzou os braços estrategicamente em bloqueio a sua resposta evasiva.
Eu queria ter perguntado quem era ele, mas fomos interrompidos pela voz da última pessoa que eu esperava encontrar ali naquele navio.
― Aí está você. Te procurei por toda parte.
entrou de supetão no aposento e com um tom irritado. Seu vinco estava franzido e seus olhos pregados em mim com uma mistura de alívio e raiva. Contudo, aqueles sentimentos que me estavam dirigidos foram realocados no momento que ele notou o homem naquele quarto. Seus dedos se fecharam e sua coluna se endireitou, voltando-se completamente para o desconhecido antes de passar o olho entre nós rapidamente.
― Não é o que você… ― comecei a dizer, tentando imaginar a quantidade de coisas que ele deveria estar pensando ao me pegar num quarto estranho com um cara qualquer.
― Quem é você? ― Sua voz sobressaiu a minha quando ele voltou-se ao homem para interrogá-lo.
O desconhecido não pareceu intimado com a pergunta, na verdade, ele parecia mais curioso. Talvez fosse o seu jeito ou os vários anos mais velho do que que lhe impedia abaixar a cabeça para um jovenzinho de tom autoritário.
― Eu poderia te fazer essa mesma pergunta ― retrucou.
Suspirei, sabendo que não chegaria a lugar algum e estava cansada de perder meu tempo ali, afinal, a minha missão de passear pelo navio sem ser vista já havia ido para os ares de qualquer forma.
― Vamos, . Preciso voltar. Eu só entrei por acaso nesse quarto, mas descobri que estava ocupado. Foi um engano. ― Tirei por menos enquanto balançava a mão. Afinal, era verdade.
Ele não pareceu muito satisfeito com minha resposta, mas o desconhecido não parecia que cederia ao questionamento dele e não tinha posição para exigir que ninguém falasse seu nome, e nem motivo para isso. E vendo que eu já me virava para ir embora, ele simplesmente me seguiu.
Apressei meus passos, querendo fugir do cara atrás de mim, mas eu sabia que era em vão. Assim que passamos pelo corredor apertado e ele tratou de observar se estávamos só, me encurralou. Não corporalmente, apenas com o seu interrogatório.
― O que você pensa que estava fazendo nesse navio sozinha? ― perguntou, apenas com uma virada leve do queixo. Ninguém que nos visse acharia que ele estava irritado ou falando qualquer coisa importante. Seus olhos nem estavam em mim, continuávamos andando de volta ao píer olhando para frente como se nada tivesse acontecido.
― Não sabia que devia me reportar a você. ― Passei o olho por ele rapidamente antes de voltar o foco adiante, bem a tempo de perceber a veia do seu pescoço mais proeminente com a minha resposta. ― Até onde eu sei eu ainda sou a princesa e você… bom... ― Dei de ombros, sem precisar completar. ― E como me achou, afinal?
Ele riu sem humor algum, esquecendo por um segundo sua pose imaculável.
― Eu sempre sei onde você está ― respondeu. E simples assim, parecia que o assunto estava finalizado e resolvido.
Andamos em silêncio, já no topo do navio, quando senti seus dedos suavemente me tocarem no braço, parando-me. Ele me puxou para uma porta que levava a uma sala cheia de maquinário, a sala do capitão talvez.
Ele parou um segundo, respirando fundo, antes que seus olhos encarassem os meus.
― Quando vi você entrar aqui sozinha eu pensei naquele incidente ― disse baixinho, lentamente levando sua mão a minha e a segurando entre nós. Não sei mesmo se ele percebeu o seu gesto ou se me sentiu estremecer ao lembrar daquele dia. Eu ainda tinha pesadelos com aquilo. ― As pessoas são más, , e muitos querem o seu mal. Eu nem mesmo sei que tipo de gente pode estar chegando nesse navio, então me perdoe se eu me preocupei com você ― completou com um leve vinco na testa.
Eu poderia ter achado fofo o seu gesto se ele não tivesse terminado me cutucando de alguma forma. Puxei minha mão da dele e dei um passo ao lado, porém seu corpo me impedia de passar por completo, a menos que eu quisesse me espremer contra ele - o que estava fora de cogitação.
― Eu não o nomeei como meu protetor! ― ralhei, espalmando minhas mãos contra o seu peito.
Ele passou a mão pelo rosto e deu um passo para trás, frustrado.
…― interpelou com um suspiro ― É que… Eu não entendo, por que você viria aqui sozinha?
Eu não devia explicações a ele, eu poderia ir embora naquele momento se quisesse e não seria impedida. Mas a nítida preocupação em sua voz, apesar dos seus modos grotescos, me fizeram querer aliviá-lo. De certa forma, eu gostaria que ele me entendesse. Não porque era , mas porque praticamente ninguém me compreendia.
― Minha mãe não me deixaria. ― Suspirei ― Você não tem ideia do que é ter um sonho que jamais poderá cumprir, o considerando bobo ou não. Estar aqui ― apontei em volta ― é o mais perto que vou chegar um dia de velejar, saber o que é ser livre ou conhecer o mundo além da nossa ilha. Então sim, eu vim sozinha ou mesmo escondida, se assim você quer julgar, porque quando se tem a oportunidade de chegar mais próximo do que se quer, você a agarra sem pestanejar.
me encarou por alguns segundos sem nada dizer, já eu, sentia minha respiração ofegante com a resposta e meus dedos tremiam levemente. Ele virou-se de lado, me dando passagem enquanto abria a porta para sairmos, mas antes que voltássemos para o caminho que levava a saída, ele estendeu seu braço em um gesto para acompanhá-lo.
― Acho que podemos passar em um local antes de voltarmos para a loucura lá de fora. O que acha? Confia em mim?
Olhei para ele um momento antes de passar meu braço pelo seu.
― Não. ― respondi com honestidade, mas deixando um pequeno levantar de lábios sair no final. ― Mas topo.
Pelo canto do olho vi seu lábio se erguer num pequeno sorriso, que fez seu rosto mais belo. E por algum motivo que não conseguia compreender, meu coração deu um pequeno salto, que tratei de enterrar no mais profundo abismo da minha mente.
me guiou até umas escadas que levavam para uma área vazia no ponto mais alto do navio. O local ficava na ponta voltada para o mar e eu podia sentir a maresia do vento grudando e bagunçando meus cabelos, quase que podendo imaginar o sal na ponta dos meus lábios. Foi impossível não chegar até a grade e fechar os olhos, pouco me importando que quando eu descesse não estaria tão apresentável como antes. Ouvi o som longe da conversa dos funcionários do navio, mas o que me preenchia era o barulho do mar, as ondas batendo na proa do navio e o seu balanço me jogando levemente de um lado para o outro.
― Gostou? ― O som da voz de interrompeu a minha apreciação após alguns minutos.
Fui pega de surpresa com o calor do seu corpo atrás do meu, mesmo que o toque fosse sutil, apenas um roçar de roupas, mas poderia ser como um abraço. O sopro da sua voz bateu em minha orelha, me fazendo virar para trás com brusquidão, meu rosto ficando a poucos centímetros do dele.
Acho que nem meu algoz previu o meu gesto, pois ele teve um pequeno desequilíbrio, que foi corrigido rapidamente ao colocar suas mãos na grade, uma de cada lado do meu corpo. Seus olhos correram pelo meu rosto, descendo lentamente até minha boca e voltando. Eu não conseguia me mexer, de alguma forma minha visão ia para seus cabelos bagunçados pelo vento que vinha do mar, o sol refletindo sua íris e deixando sua aparência menos formal e mais selvagem. Ou talvez fossem a intensidade dos seus olhos que focavam os meus.
Não o mar ou qualquer outra coisa nesse navio. Mas a mim.
Percebi ele se mexer, sutilmente. Tão vagarosamente que não tive oportunidade de sequer imaginar o que seria, pois o som de uma gaivota voando bem perto de onde estávamos nos assustou e fez com que ele desse um passo para trás.
Inspirei profundamente, recuperando o ar e colocando minha mente em ordem novamente.
― Então,,, ― pigarreou. ― Gostou?
― Sim, é claro. Obrigada, ― agradeci, sendo bem sincera.
Não esperava essa atitude benéfica da parte dele e nem compreendia porque havia de certa forma me ajudado, mas como eu disse anteriormente sobre oportunidades… eu as agarraria.
E essa foi a nossa última troca de frases, findando com um aceno de cabeça dele em retribuição enquanto voltávamos para as festividades que nos esperavam.





Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Quanto tempo!
Tenho até vergonha de dizer de novo que vou organizar minha vida e fazer promessas aqui haha, porém, uma coisa posso garantir. Não vou abandonar a história!
Eu achei que após uns meses de ganhar neném a vida voltaria a rotina, mas foi uma doce ilusão. Agora é que realmente estou conseguindo mais um tempinho para mim. E como a história está entrando numa parte que não vou precisar escrever tantos capítulos novos, será mais reescrever o que já tem, ficará mais fácil <3
Bom, sem mais delongas... Temos um personagem desconhecido (ou conhecido de alguns hahaha ) que desembarcou no navio! E ele promete muitas emoções nessa história.
Temos também mais uma interação entre Thomas e Aysha, que sempre provocam faíscas e... Estamos perto de acontecimentos bombásticos. Aguarde!




Nota da beta: Maravilhosa como sempre, né, Lud? Aliás, eu tenho minhas desconfianças sobre esse homem aí, acho que ele tem a ver com o passado da rainha hhaha. E esses dois? Ai, eu estava aqui chorando achando que ia rolar um beijinho, mas não foi dessa vez hahah! Ansiosa pela continuação!

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.
Para saber quando essa fic vai atualizar, acompanhe aqui.

Caixinha de comentários: O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI


comments powered by Disqus