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Última atualização em: 29/11/2021

Contextualização

A história abaixo se passa em uma linha do tempo alternativa e pode não seguir os fatos e eventos do MCU ou HQ’s.

Quando Tive Coragem de Te Beijar

Os meus dias eram sempre iguais. Ir ao trabalho, atender clientes, voltar para casa, esperar o próximo dia. Não que minha vida seja ruim, longe disso. Não tenho muito do que reclamar. Tenho um emprego relativamente estável, um apartamento legal e tempo para fazer o que gosto. Minha vida era simples, mas completa. Até que me vi pensando naquele cara, no modo como ele andava, como parecia deslocado e sempre que entrava na cafeteria pedia a mesma coisa, sendo o cliente mais gentil que eu já tive o prazer de atender na vida. Ele não me parecia estranho, mas caras de boné cobrindo a maior parte da cara e usando uma jaqueta, em Nova York, não é novidade.
Sempre fui muito introvertida no trabalho, quase nunca participava das conversas nos intervalos, preferindo sempre ficar na minha. Porém, naquele dia em particular, o assunto parecia estar muito voltado para uma pessoa em especial…
, vem cá, conta pra gente, como é atender o Capitão América? Diz pra gente que você pelo menos deu uma cantada nele, senão é desperdício. — Maryann, uma das minhas colegas de trabalho, falou, olhando diretamente pra mim. Claro. Ela sabia que, com certeza, eu não teria soltado uma cantada para ele. Todavia, o que me chamou atenção, não foi a ironia na frase, mas a parte do Capitão América. Tudo bem, como eu não associei Steve, a parte do rosto que eu conseguia ver, todo aquele mistério e claro, o tamanho dele, com o Capitão América? Pelo menos, naquele dia ele já tinha ido e pedido o de sempre, caso contrário, com certeza, ficaria travada de vergonha. Não pelo fato dele ser o Capitão América, já que ver um dos vingadores pelas ruas de Nova York não é de todo estranho. A vergonha seria pela estranha atração que eu vinha sentindo por ele.

Um novo dia, novos clientes. Steve Rogers, de novo. A vergonha tomou conta do meu rosto no exato momento em que olhei pela janela e o vi, prestes a entrar na cafeteria, no mesmo horário. Como sempre, ele escolhia o horário menos movimentado, não havia nenhuma fila, apenas alguns clientes dispersos em algumas mesas.
Ele olhou para mim.
Ele sorriu, como sempre.
Todos os dias, eu me sentia um pouco mais perdida naquele rosto gentil.

— Olá! O de sempre, por favor, senhorita. — Alguns segundos tentando parecer uma pessoa normal e não gaguejar com uma simples frase dessas, até que… O que eu tenho a perder afinal?
— Olá, Steve. Que tal provar algo novo hoje? Temos uma nova receita de bolinhos de chocolate que estão deliciosos. — Aquilo foi totalmente inesperado. Para mim, pra ele, talvez para o universo. Ele precisou de alguns segundos para entender que o dia de hoje não seguiria o mesmo script dos anteriores, mas aceitou a oferta, gentil, como sempre.

Depois desse dia, sempre avançávamos um pouco mais. Uma frase mais completa, um comentário sobre alguma notícia do dia anterior, novas receitas de bolinhos. Todos os dias, Steve passava um pouco mais de tempo no balcão. Todos os dias, eu passava um pouco mais de tempo pensando nele e ficava um pouco mais desapontada quando o contato acabava.
Rogers parecia sentir o mesmo, sempre me olhava por alguns segundos, antes de ir embora, como se esperasse algo. Ou seria só minha imaginação me pregando peças para que eu não parasse de pensar nele um segundo sequer?
Inconscientemente, eu também comecei a esperar. Sempre esperando que, no final, ele fosse me falar alguma coisa, perguntar algo, mas ele parecia sempre esperar o mesmo. Nenhum de nós deu o primeiro passo. Alguém teria que arriscar, certo? A única forma de conseguir parar de pensar naquele homem, seria chamar ele para sair. Só tinham duas alternativas, o sim, ou o não. Eu não ia morrer com nenhuma das duas, poderia ficar decepcionada, mas ajudaria a diminuir essa súbita obsessão

Estava decidido. Eu ia chamar Steve para sair. A questão é, até hoje, eu nunca havia chamado ninguém para sair. Minha vida amorosa nunca foi das mais animadas, claro. Mas não tinha mais volta. Seria hoje ou nunca. Eu faria o convite, casualmente, aguardaria sua resposta e tentaria não parecer muito desesperada nesse meio tempo.

Em um piscar de olhos, lá estava ele, novamente, trajando o mesmo estilo de roupas, tentando passar despercebido, sendo a pessoa mais gentil do mundo e conversando banalidades, enquanto eu tentava prolongar aquele contato por mais alguns minutos, só para melhorar o meu dia e criar a coragem necessária para fazer o que tinha planejado. Quando percebi Steve me olhando, naqueles segundos finais, que entendi que o momento era esse.

— Então… Você tem algo para fazer hoje à noite? Lançou aquele filme que falamos semana passada. Você quer ir ver comigo? — Tentei soar o mais casual possível. Percebi uma leve hesitação em Steve. Assim como no dia em que ofereci algo diferente do usual, ele não esperava por isso. Os segundos pareciam triplicar de duração, enquanto aguardava a resposta. Finalmente, ela veio.
— Ah, sim, . Será um prazer te acompanhar ao cinema. Qual o horário da sessão? — Foi necessário um tempo mais longo que o normal e talvez mais um pouco de receio em sua voz. Eu queria que ele aceitasse, eu ansiava por aquilo. Eu só não esperava que ele realmente fosse aceitar. Mas, como tudo já estava ensaiado na minha cabeça, não havia como perder tempo não acreditando nisso.
— Então, a sessão começa às 19h. Eu termino meu turno às 18h. Você pode vir aqui para a cafeteria, que eu te espero na frente para irmos juntos. É no cinema aqui perto. Podemos chegar cedo para escolhermos um bom lugar. — Talvez, só talvez, eu tenha sorrido mais que o normal e falado muito rápido, em pouco tempo. Mas Steve, caso tenha notado, foi o cara perfeito que sempre foi e apenas sorriu, daquele jeito que me faz pensar nele por horas.
— Claro, . Estarei aqui, no horário. Até mais tarde.

Esse foi o dia mais longo de toda a minha vida, quase como se nunca tivesse saído com um cara. O pior, é que talvez ele nem saiba que se trata de um encontro e não uma saída entre amigos, além do mais, não sei se tenho coragem de frisar isso, depois de toda a coragem que precisei reunir.
Finalmente, depois de um dia que valeu por três, vários clientes em horário inusitado e fazer tudo da maneira mais atrapalhada possível, o relógio apontou 18h. Tentei dar um jeito na minha cara cansada e no meu visual da melhor forma possível. Não dei importância alguma aos comentários dos meus colegas de trabalho, que, bem por cima, tinham compreendido toda a situação. Quando passei pelas portas da cafeteria, ignorando o medo crescente dele mudar de ideia e não aparecer, lá estava ele. Parecia ainda mais lindo, visto lá fora. Sorrindo para mim, sem o boné, com uma jaqueta diferente… E aquele perfume, que iria ficar pra sempre impregnado na minha memória.

Talvez, só talvez, eu tenha passado um pouco mais de tempo do que o normal o encarando, já que ele precisou cortar aquele silêncio constrangedor que foi instaurado.

— Então, , como foi o trabalho? — Perguntou, enquanto começamos a andar, olhando para o lado e sorrindo para mim.
— Ah, o de sempre. Cliente… Café… Mais café… Mais clientes. O de sempre. Pelo menos, finalmente, eu vou ver esse filme. Espero por isso desde que li o livro pela primeira vez.
— Espero que seja tão bom quanto o livro, você fala com tanto entusiasmo que eu precisei comprá-lo. É realmente muito bom. — Silêncio e sorrisos constrangidos. O lado bom, é que não faltavam mais do que dez metros para chegarmos até o cinema, sendo necessário apenas alguns minutos. Assim que entramos, levou mais alguns minutos, até que o Steve me convencesse de que ele precisava pagar pelos ingressos e pela pipoca. Tudo bem. O que esperar do cara mais gentil do mundo? Eu já estava me esforçando o suficiente para tentar esconder o nervosismo que estava sentindo, não ia perder tempo discutindo.

Como planejado, entramos na sala faltando pouco mais de meia hora para a sessão começar. Conseguimos escolher os melhores lugares possíveis. Trinta minutos de uma sala quase vazia, meio escura e silenciosa. Steve também parecia se esforçar. Será que ele sabia que aquele não era um encontro entre amigos? Não perguntei. Mas ele pareceu vencer a timidez e puxar todo tipo de assunto, para preencher aquele curto espaço de tempo antes do filme começar. Foi tão simples e natural, que eu já não lembrava mais de timidez alguma. Conversávamos como pessoas que se conhecem a um longo tempo e possuem várias coisas em comum. O problema, é que aquele homem, lindo, me dando toda atenção do mundo, sentado ao meu lado, e sorrindo, me fazia perder o pouco ar que entrava nos meus pulmões. Diversas vezes, me peguei olhando para os seus lábios, imaginando como seria o seu gosto, como seria beijá-lo. Nesses poucos segundos, eu viajava completamente, para um local onde só havia nós dois.
Nós dois, seu abraço, seu cheiro e seus lábios tocando nos meus.

Talvez, se eu já não tivesse tão perdida naquele homem, eu teria percebido seu rosto vermelho, suas mãos suadas e seu olhar, que vez ou outra, caía em meus lábios, mas se forçava a desviar. Talvez eu tivesse esquecido tudo e o beijado de uma vez, para acabar com toda aquela tensão.

Se isso acontecesse, claro, não seria eu. Muito menos ele.

Não percebemos quando a sala encheu, muito menos quando os trailers começaram, tamanha era a concentração na presença um do outro. Só queríamos conversar mais, descobrir mais sobre o outro, ficar naquele momento para sempre.
O filme começou e fomos obrigados a calar a boca e prestar atenção ao filme.

Não durou muito.

Ao longo da trama, estávamos cochichando, falando sobre impressões e momentos do livro, comparado ao filme. Perdemos as contas de quantas vezes ouvimos barulhos pedindo para que calássemos a boca. Ficamos constrangidos, sorrindo um para o outro e tentávamos prestar atenção no filme. Pouco tempo depois, lá estávamos, de volta para a mesma situação, em um ciclo que foi repetido até o fim do filme. Mal conseguimos acreditar quando os créditos começaram a ser apresentados na tela, as luzes acenderam, as pessoas começaram a se levantar e andar em direção à saída. Senti uma tristeza imensa nesse momento. Não queria que aquele dia acabasse, mas precisava trabalhar no outro dia, além do que, Steve também tinha uma vida e provavelmente algo importante para fazer. Com muito pesar, comecei a me levantar, sendo seguida por ele. Reunimos o lixo e caminhamos em direção à saída, assim como o restante das pessoas.

Fomos os primeiros a chegar na sessão, mas os últimos a sair.

Enquanto eu olhava seu rosto, fora daquele cinema, percebi que algo havia mudado. Claro que, eu não poderia falar por Steve, não conseguia decifrar muito bem as expressões das pessoas, mas sabia que já o via de uma forma diferente. Talvez cedo demais para dizer que era paixão, mas tarde demais pra dizer que tratava-se apenas de um bom amigo. Nos encaramos por alguns segundos e, dessa vez, ele foi o primeiro a acabar com aquele silêncio constrangedor.
— Então, o filme é bom, mas o livro é melhor. — Steve sorriu para mim, sabendo que ambos pouco prestaram atenção no filme.
— Mas sabemos que sempre é assim, apesar de esse ter sido um bom filme. — Respondi. Mais silêncio. Por que não podiam continuar da mesma forma que estavam no cinema?

— Então, muito obrigada por me acompanhar hoje, Steve. Você é uma ótima companhia para concordar comigo que adaptações de livros para os cinemas sempre deixam algo a desejar. — O homem à sua frente abriu o sorriso mais lindo, mas talvez ela achasse isso de todos os que ela já viu em seu rosto. Ele parecia envergonhado, pensando no próximo passo.

— Você precisa ir pra casa agora? — Ele pareceu meio sem jeito ao proferir essa pergunta. Eu quase achei que era expectativa. Mas, infelizmente, precisava ir pra casa, além de que tinha medo de passar mais algumas horas na companhia de Steve Rogers e acabar passando uma vergonha maior do que poderia aguentar.
— Então, sim, amanhã infelizmente tenho trabalho, mas, caso você queira, podemos fazer isso mais vezes. — Concordaram, sem necessidade de falar qualquer coisa.

Como já era de se esperar, ele, depois de muito insistir, decidiu que me acompanharia até em casa. Era perto, perto demais para o meu gosto, que sentia que aquele não era um tempo suficiente ao seu lado. Apesar do constrangimento após a saída do cinema, estávamos mais próximos, sempre soltando uma piada ou outra sobre algo relacionado ao filme. Estávamos apenas aproveitando os últimos momentos em sua companhia, naquela noite, fora da cafeteria. Como tudo que é bom dura pouco, chegamos na porta do meu prédio antes do esperado. Eu lembrava que morava perto, mas nem tanto.
Logo estávamos ali, olhando um pro rosto do outro. Eu só queria que naquele momento o tempo parasse, ele chegasse mais perto e finalmente me beijasse, da forma suave e apaixonada que eu imaginava o seu toque.

Não aconteceu.

Depois de nos olharmos por alguns segundos, longos e sofridos segundos, eu me despedi. Por um breve momento, senti uma leve pontada de ansiedade na forma como o Steve estava se comportando. Mas haveria outros momentos, talvez outros mais propícios, ou simplesmente não acontecesse. Precisaria aceitar a última informação também.
— Mais uma vez, Steve, muito obrigada pela companhia. Foi uma noite muito divertida, espero que possamos repetir. — Eu sou tímida, não burra. Claro que, pelo pouco que percebi nele, ele não falaria algo do tipo, com medo de, de alguma forma muito boba, me desrespeitar ou até mesmo me levasse a entender a forma errada.
— Claro, . Eu que agradeço a companhia. Podemos combinar sim. Te vejo amanhã na cafeteria? — Senti seu sorriso mais confiante. Não houveram mais emoções naquela noite. Tomei a iniciativa de abraçá-lo, para que ele ficasse mais confortável em fazer algo do tipo, caso desejasse. Entrei no prédio, sentido uma pontada de decepção, mas ansiosa pelo próximo dia, já que, um novo dia significava um pouco mais de Steve Rogers.

Os dias passaram e, como previsto, ficamos mais próximos. Após o dia do cinema, saímos mais algumas vezes, para o mesmo programa. Nunca passamos de um abraço. Talvez, para um abraço um pouco mais demorado, toques mais frequentes e pequenos flertes, mas nada demais.

Até aquele dia.

Havíamos, mais uma vez, combinado de sair, mas, diferente das outras, seria em meu dia de folga e Steve passaria para me buscar. Segundo ele, iríamos jantar. O dia não podia ter se arrastado mais, extremamente tedioso e demorado, mas, finalmente, na exata hora combinada, Steve estava na frente do meu prédio, sentado na moto, me esperando e sorrindo. Naquele momento, olhando para ele através da minha janela, eu entendi. Eu realmente estava apaixonada por ele e aquela esperança de não me decepcionar, lá no início, já nem passava pela minha cabeça. Sorri de volta e finalmente, desci, ao seu encontro.
Enquanto eu saía do prédio, Steve havia se levantado da moto e tirado o seu capacete, estava apenas me olhando e sorrindo da mesma forma que eu tinha visto anteriormente, escorado na moto. Eu tinha certeza de que já sorria feito uma idiota. Mas havia uma coisa que eu precisava fazer, antes de tudo.

Parei a poucos centímetros da calçada, momentaneamente, me senti tão nervosa que parei de sorrir no mesmo momento.
— Você está ainda mais linda hoje. — Continuou com o mesmo sorriso no rosto, parecia nem ao menos perceber a repentina tensão que se apossou de mim.
De repente, eu precisava dele mais perto, de suas mãos fortes me segurando e de ser a única coisa ao alcance do seu olhar. A timidez e qualquer que fosse o sentimento relacionado a ela, neste momento, não existia. Antes que eu percebesse, já havia dado aqueles passos que nos separavam. Eu estava tremendo e nervosa, mas tudo que consegui enxergar foi o seu rosto, que se tornou sério, mas de uma forma suave. Ele não conseguia decidir entre me olhar nos olhos, ou olhar meus lábios. Eu entendi que ele queria me beijar. Me aproximei ainda mais, nossos rostos muito próximos, ele nem estava completamente em pé, mas, mesmo assim, eu precisei ficar na ponta dos pés para que ficássemos em igualdade. Eu só conseguia sentir o seu perfume maravilhoso, sua respiração, que já batia nos meus lábios. Subi, delicadamente, quase que com receio, as mãos que coloquei em seus ombros, em direção ao seu pescoço, onde se encaixaram em sua pele quente e macia. Fechei os olhos e finalmente acabei com aquela tensão, encostando os lábios nos seus, finalmente fazendo aquilo que eu quis por tanto tempo. Parecia certo, como se eu tivesse perdido todo aquele tempo entre chamá-lo para o cinema e o atual momento, quando na verdade poderia tê-lo beijado muito antes. Seus lábios macios, tocando os meus, de uma forma lenta e que parecia apaixonada, se movimentando devagar, enquanto suas mãos estavam em minha cintura, firme, me abraçando e não me deixando escapar. Quando senti a sua língua na minha, delicadamente deixando toda aquela situação mais intensa, eu achei que fosse explodir de tanta felicidade.

Estávamos na frente do meu prédio, abraçados e nos beijando, como se nada mais houvesse ao nosso redor, como se o tempo fosse insignificante. Eu só precisava de mais, mais daqueles momentos, mais daquele homem, mais de seu toque, mais de seu cheiro. Nada mais seria suficiente, depois disso.

Eu Voltarei Por Você


Steve não estava acostumado com tudo aquilo. Toda aquela atenção. Parecia surreal, coisa que muitos desejam e anseiam.
Não ele.
Desde o início, quis entrar para o exército para lutar por seu país e contra as injustiças da guerra. A última coisa que queria era sair fazendo turnês, com mulheres dançando em um palco e falando palavras de incentivo, que, apesar de serem ditas de forma bonita, não eram verdadeiras, não expressavam coragem. Queria incentivar lutando de frente, usando palavras que encorajassem por suas ações em combate, derrotando os inimigos e sendo o verdadeiro símbolo que o disseram que seria.
Tudo aquilo parecia uma tortura, uma farsa, toda a pompa, todas as apresentações. Civis pareciam amá-lo, mas os verdadeiros heróis, os que iriam para a guerra, pareciam odiá-lo. Na verdade, não parecia, odiavam e externaram isso com bastante vontade em uma de suas apresentações. Precisava de um dia de folga, para clarear a cabeça, pensar em tudo o que estava acontecendo, e nas palavras de Peggy, que horas antes o havia incentivado a ir contra o que o exército queria que ele fizesse e começasse a agir da maneira que queria, ir para a linha de frente e lutar ele mesmo, ser o super soldado que lutou e sofreu para ser. Ser o Capitão América, não apenas um símbolo, mas um combatente e liderar rumo a vitória.
Já não bastasse toda essa guerra interna, ainda precisava lutar contra outros sentimentos. A saudade de sua casa, de seu lar. Não exatamente um local em si, mas o Brooklyn, onde cresceu, desenvolveu-se como um ser humano e onde conheceu as melhores pessoas que existiam na face da terra: Bucky e, claro, . Seus melhores amigos, aqueles que estiveram junto com ele em todos os momentos bons e ruins de sua vida. Bucky, aquele que sempre aparecia para o salvar de alguma encrenca em que se metia, sem pensar nas consequências. Caras duas vezes maiores que ele, sem problema respiratório algum, contra um magrelo e baixinho asmático que só queria defender a justiça.
Bucky sempre estava lá para o salvar, mesmo quando ele não queria ser salvo.
Estava lá para lhe oferecer um amor fraternal que nunca havia sido capaz de sentir, oferecer uma casa, um lar, uma família, onde não precisasse morar sozinho em um apartamento frio.
E , que, junto com Bucky, eram a família inteira de Steve. Juntos, eles eram o seu lar, não se importava em chegar em casa e dormir num apartamento sem seus pais, em não se sentar à mesa com uma família grande e barulhenta, desde que, a partir do momento que saísse do mesmo, encontrasse Bucky e . Eles, no Brooklyn, eram o seu lar. Era tudo que precisava para não se sentir um completo estranho em um mundo louco. Não se sentia o pequeno Steve, o Steve doente. Se sentia o Steve, apenas Steve. O cara que sempre iria estar lá para aguentar Bucky lhe arranjando encontros às cegas com garotas que não lhe interessavam em nada, mas que era recíproco, de toda forma, já que o interesse delas por ele era ainda menor. O cara que não deixava rapaz nenhum encostar ou sequer olhar de forma diferente para , sempre a carregando de vela para cima e para baixo, mesmo que, no fim, as garotas acabassem entediadas, deixando os três sozinhos no restante da noite, ou, quando a garota fosse interessante demais para se deixar entediar, Bucky sorria em desculpas e restavam apenas Steve e , pelo resto da noite.
Bucky protegia e Steve de tudo e de todos. Steve sempre se perguntou o motivo dele nunca haver tentado nada com , já que os dois tinham tanta sintonia. Sempre cheios de piadas internas, olhares silenciosos que normalmente eram compreendidos um pelo outro, um cumplicidade gigante, que faria inveja a qualquer um. Chegou a, um dia, depois de passar horas criando coragem para perguntar o motivo a Bucky. E depois de uma explicação muito pensada por Bucky, finalmente entendeu. Eles se viam como irmãos, um amor tão verdadeiro e puro, que jamais poderia ser levado para esse lado. Por isso sempre implicava com as moças que Bucky arrumava, ou Bucky sempre implicava com os rapazes que davam para um olhar diferente. Irmãos, eles sempre iriam querer o melhor um para o outro. Steve admirava isso e, por incrível que pareça, não sentia ciúmes algum. Chegou a sentir medo, por vários anos, pois sempre acreditou que, no fim, Bucky iria ficar com . Mas, após a explicação tão sincera dada por Bucky, foi como um peso saindo de suas costas. Ainda podia sentir perfeitamente o alívio, o peso saindo de suas costas, no dia que finalmente compreendeu que Bucky não amava da forma como ele a amava.
Secretamente, Steve sempre foi perdidamente apaixonado por , desde o dia que viu a menininha de uns 7 ou 8 anos, se mudando com os pais para o mesmo prédio em que morava, segurando um ursinho nos braços, demonstrando toda a insegurança que sentia no momento. sempre seria sua amiga, estaria lá por ele assim como ele por ela, mas ele, no fundo, sempre desejou mais. Era inocente demais na época para saber, mas, com o passar dos anos, com a convivência, entendeu que o que sentia por ela era amor. O tipo de amor que te faz querer cortejar a garota, leva-la aos melhores lugares, conhecer os pais dela, chamá-la de sua garota, pedir a sua mão em casamento e passar o resto da vida ao seu lado. Porém, sua insegurança nunca o deixava demonstrar ou contar tudo aquilo que sentia. Contentava-se com ser o seu amigo, seu confidente. Sentia-se aliviado e ao mesmo tempo um egoísta, ao perceber que, em todos esses anos de amizade, parecia nunca ter gostado realmente de alguém. Ela merecia ser feliz, merecia uma vida boa e alguém que fizesse de tudo para que todos os dias de sua vida fossem felizes e que, acima de tudo, a deixasse livre para ser a mulher forte e esplêndida que sempre foi.
Sentia falta de , do seu apoio, do seu amor, do seu carinho.
Steve estava tão preso em seus pensamentos, em toda aquela batalha interna que, isolado numa mesa do bar onde os soldados costumavam frequentar, perdeu as contas de quantas doses de Whisky ingeriu e de toda a movimentação do ambiente. Não que o álcool fosse fazer alguma diferença, já que não lhe surtiria efeito, de qualquer maneira. Mas, naquele momento, apesar de todas as decisões que precisava tomar, de tudo o que precisava decidir, tinha apenas uma ideia completamente firmada em seu coração. Nunca desejou tanto que Bucky estivesse ao seu lado, para comemorar e debochar, da maneira que apenas Bucky faria: “Achei que iria ser estúpido pro resto da vida e nunca iria finalmente tomar uma atitude!”. Mas seu amigo estava longe, com o seu batalhão, lutando contra os nazistas.
A única pessoa mais perto possível no momento era . E era sobre ela a decisão. Sabia que acabaria, mais cedo ou mais tarde, indo para a frente da batalha, era uma decisão que sabia que já havia tomado no seu interior, mas precisava de mais tempo para aceitá-la. Além do mais, depois que aceitasse isso, não haveria mais volta. Então, como o seu segundo ato mais corajoso na vida, precisava ir até , encontrá-la, agora, nesse momento, independente do horário e de com quem estivesse. Independentemente de qualquer coisa. Esperou demais por isso, algo de que não se orgulhava. Não iria para a guerra antes de beijá-la e contar que ela sempre foi e sempre será o amor da sua vida. Não esperava resposta, não esperava que o sentimento fosse recíproco. Precisava apenas que ela soubesse, então partiria para o seu destino.
Saiu do bar, a pé, sem se importar com o horário, com quem falava com ele, com nada. Seus pés sabiam muito bem o seu destino, afinal, aquela não seria a primeira vez que eles o faziam. Mas lá no fundo, havia uma pequena chama que o alertava, que criava dentro de si o sentimento de que aquela não era a primeira, mas poderia ser a última. Não deu ouvidos a ela, apenas continuou.
Passando por tantos lugares conhecidos, com tantas memórias por todos os lados, não seria de se espantar que a caminhada o fizesse mudar de ideia.
Não o fez.
Muito pelo contrário, aquilo só o fazia andar cada vez mais rápido, cada vez mais ansioso e nervoso. Era como se o universo estivesse conspirando contra sua ação e o caminho estivesse mais longo, as horas correndo mais devagar e os seus pés estivessem a passos de tartaruga, quando na verdade, estava andando o mais rápido que alguém com o super soro em suas veias poderia, sem correr: muito rápido.

Enquanto se aproximava de seu destino, das ruas tão conhecidas e tão mais cheias de memórias quanto os caminhos pelo qual passou, sentia mais coragem, mais vontade de ver o rosto de . Será que o reconheceria? Afinal, foram meses na preparação, nos treinamentos e aquele Steve, por fora, era completamente diferente do que a , a sua , estava acostumada. Com os pensamentos tão frenéticos e todos esses sentimentos, que Steve achava que a qualquer momento, iria explodir, se viu subindo as escadas do tão conhecido prédio e parando na porta tão conhecida. O apartamento 301B. Apenas aquela visão, aquelas cores, aquele corredor… Tudo tão igual, já fazia Steve se sentir em casa.
Sabia do amor de por música, e que em quase cem por cento das vezes que estivesse em casa, estaria ouvindo alguma canção. Podia ouvir baixinho, a tão conhecida música vindo do apartamento. Respirou fundo e bateu na porta três vezes, com mais força que o necessário. Já não estava mais em controle de algumas ações de seu corpo, então esse não foi um detalhe percebido por ele.
Então estava acontecendo. Ouviu os passos rápidos em direção à porta, a música ainda tocando ao fundo e então, abrindo a porta, ainda mais linda quanto a sua memória lhe mostrava, estava ela.
Por alguns segundos, ficaram os dois, se olhando por longos segundos, sem nem ao menos respirar, tamanha era a emoção do momento.
foi a primeira a mudar suas ações. Abriu mais a porta, olhou Steve dos pés à cabeça, demoradamente, como se quisesse guardar cada um dos seus mínimos detalhes. Parou em seus olhos, mais alguns longos segundos. A única coisa que Steve conseguia sentir no momento era a felicidade em vê-la, o alívio em ter sido a mesma a abrir a porta e a música suave, que combinava tão bem com o momento.
— Tem os olhos do Steve, os cabelos e o mesmo jeito tímido do garoto magrelo que morava no andar de baixo, tudo muito igual, mas ao mesmo tempo tão diferente... Eu não sei se isso é um sonho ou uma brincadeira. — Sua voz chegou aos ouvidos de Steve, lhe tirando do transe momentâneo em que estava, apenas admirando e guardando todo aquele momento em sua memória.
— Oi, . Talvez eu tenha mudado um pouco sim, mas você sabe que eu continuo o mesmo garoto do Brooklyn, que consegue apanhar o dia todo… Ou até o Bucky aparecer pra dar uma surra nos caras…
— … E depois iriam vir até, onde eu ia falar o mesmo sermão sobre serem dois estúpidos, enquanto limpava os ferimentos no seu rosto. Mesmo sabendo que depois vocês fariam o mesmo. — Steve sorriu e nesse momento, ele só queria que o tempo parasse ali mesmo e nunca mais voltasse a girar, apenas para admirar a garota a sua frente até o fim dos tempos. , não aguentando toda a saudade que estava sentindo, foi a primeira a agir, abraçando Steve, passando os seus braços ao redor do pescoço do seu amigo, encostando a cabeça em seu peito e o apertando o máximo que conseguiu. A única reação que o homem teve nesse momento foi aproveitar a posição, passar os seus braços ao redor do corpo de e sentir o cheiro maravilhoso que emanava de seus cabelos. Ele nunca, jamais, esqueceria aquele perfume.

Ainda em um abraço apertado, Steve resolveu falar tudo o que precisava, tudo o que o tinha levado até ali, naquele momento.

… Você sabe as escolhas que eu tomei, o caminho que eu sempre quis seguir e imagino que, por me conhecer tão bem, sabe que o que eu mais quero é lutar por aquilo que eu acredito. A questão é que… Há coisas que eu preciso esclarecer antes e acredite, eu tive que reunir toda essa coragem por anos, para finalmente chegar a esse momento. — A garota então se desvencilhou de seu abraço, olhando em seus olhos, não encurtando a distância, pois precisava daquilo mais que tudo, precisava olhar Steve nos olhos, tão próxima dele e saber se ele finalmente tomou coragem de fazer o que, por tantos anos, ela secretamente também desejou que ele falasse e fizesse.
… Você e o Bucky sempre foram tudo pra mim, em todos os momentos, vocês sempre estiveram lá, mas… Eu quero que você saiba que, no fundo, eu sempre amei você. Não apenas como amiga, como aquela que sempre fez tudo por mim, mas como alguém que eu sempre quis ter em meus braços, que eu sempre quis que fosse minha, que pudéssemos planejar uma vida inteira juntos e todo o resto. Eu nunca tive coragem de te falar isso… Eu sei que deveria ter falado antes, quando tínhamos tempo, quando não havia uma guerra, antes do soro e de toda a responsabilidade, mas eu estou falando agora. Eu não preciso que você me diga que sempre soube, ou que sempre sentiu o mesmo, eu preciso apenas que você saiba. Eu não posso fazer o que preciso fazer sem que você saiba… — Sentia seus olhos arderem e sabia que seria capaz de chorar a qualquer momento, pois ali, todo o sentimento, tudo parecia uma despedida. Enquanto colocava, delicadamente, suas mãos no rosto de , pois precisava olhar para aquele rosto e falar todo o resto, foi interrompido por ela:
— Steve, eu não posso falar com toda a certeza que eu sempre soube, pois eu também levei muito tempo pra notar. A questão é que, eu também sempre senti tudo isso por você. Te ver partir, apesar de saber que era o que você sempre quis, quebrou meu coração em milhares de pedacinhos. Eu sempre esperei que você, de alguma forma, demonstrasse qualquer coisa, qualquer sentimento. O problema é que nós esperamos demais, deixamos tudo passar… Eu também sinto tudo isso por você, independente se agora você é o Capitão América. Eu amo o loiro asmático e estúpido do andar de baixo, o cara mais tímido e uma das melhoras pessoas que existem no mundo… — Lágrimas já caíam, sem controle, pelo rosto de . Steve achou que, naquele momento, nada poderia ser mais perfeito e nada poderia atingi-los.
Entendeu que não esperaram. As coisas aconteceram quando tinham que acontecer. Aquele era o momento certo, apesar de parecer que existiram outros. Nada mais existia. Não havia guerra, nazistas, trabalho a ser feito. Apenas os seus lábios e os de , aproximando-se lentamente um do outro. As suas respirações pesadas, seus olhos fechando, entregues ao momento. O beijo tão esperado, parecia que haviam sido moldados juntos. Os lábios unidos em sincronia, a emoção transmitida de um para o outro. Os corpos unindo-se, buscando cada vez mais contato, desejando em alguns minutos matar o desejo de tantos anos. Os lábios já não possuíam mais controle, as línguas já estavam agindo a sua própria vontade e as mãos começavam a almejar explorar lugares menos acessíveis.
Aos poucos, ambos precisando de ar e de se olharem, mais uma vez, foram deixando tudo menos intenso, o beijo caloroso se transformando em suaves selinhos e logo em seguida, as testas encostadas uma na outra, os corpos colados e a sensação inebriante de conseguir aquilo que tanto se deseja pairando no ar. Steve foi o primeiro a cortar o silêncio, emitindo todo o significado do mundo, naquela frase…
— Eu vou voltar pra você, . Eu prometo que eu vou voltar e iremos fazer tudo certo dessa vez.
Nada mais havia para ser dito, apenas aproveitar tudo, o momento, a entrega, os sentimentos, antes que precisassem se despedir, mesmo que momentaneamente, e retornar para a realidade.

We’ll meet again


Era seu dia de folga e estava no seu apartamento, aproveitando os momentos em sua própria companhia enquanto seus amigos folgados não chegavam. Eles eram folgados sim, viviam na casa de e não desgrudavam da garota quase nunca, mas , na verdade, nunca se importou com isso. Conhecia Steve e Bucky desde… Bom, fazia muito tempo. Lembrava apenas que os dois já eram amigos e a “adotaram”, logo de início. Desde esse dia, são um trio inseparável, que nem mesmo as mudanças da adolescência ou incertezas do início da vida adulta foram capazes de separá-los. perdeu as contas de quantas vezes foi vela, junto com Steve, enquanto Bucky estava com alguma de suas garotas, ou mesmo das vezes o interrompeu em meio a cantadas ou flertes, apenas para ver a cara de raiva dele. Mas claro que de ele nunca sentia raiva por muito tempo. Aliás, nenhum dos três conseguia sentir raiva um do outro por mais que poucos segundos.

Lembrar de tudo, do início, por todas as coisas que passou, a faziam sentir um pouco de nostalgia, uma leve tristeza, mas, principalmente, gratidão, pois se não fosse por Steve e Bucky, ela não saberia como seria sua vida. Lembrar que perdeu a mãe no momento de seu nascimento e do comportamento desleixado de seu pai que, por vezes se tornava abusivo e chegou até mesmo a bater na garota, ou deixá-la sozinha por longos dias, ainda criança, fazia surgir em sua mente uma pergunta que nunca receberia uma resposta: Sem o apoio e suporte deles, estaria perdida. Seu pai apenas ousava fazer ou falar algo contra a garota quando sabia que não teria chances da família de Bucky ou ele ouvirem e presenciarem. Aproveitava-se dos momentos em que o seu amigo e o pai dele não estavam em casa, a mãe estaria no mercado, para ter certeza que não haveriam interrupções enquanto descontava toda a sua angústia e frustrações na pequena. Por vezes, Bucky e seus pais viram as marcas expostas no corpo da garota e o confrontaram, ou a viam chorando nas escadas após ouvir coisas terríveis saídas da boca daquele que deveria amá-la acima de tudo e todos. Claro que como bom covarde, o pai da não era nenhum estúpido. Começou a maneirar nas palavras e evitar encostar em sua filha de qualquer forma, à medida que viu os amigos dela crescendo. Principalmente Bucky, que chegou a dar um bom e merecido soco no nariz dele quando ouviu barulhos de objetos quebrando e gritos desesperados da sua amiga. Esse assunto sempre era lembrado por ambos e era motivo de muitas risadas, mas no fundo, o que sente é gratidão. Já não era mais criança na época e, por conta da amizade que tinha com os dois, ouvia coisas horríveis e insinuações sobre viver colada neles, e seu pai, nesse dia em especial, insinuava que era a meretriz dos dois. Foi maravilhoso ver o soco bem dado e o sangue jorrando no momento, mas ela ainda sentia a humilhação proporcionada por aquelas palavras.

Bucky era seu amigo, seu defensor e confidente. Ambos conversavam sobre tudo, sem pudor ou limites. Sabiam exatamente tudo um sobre o outro, apesar de que, possuía uma bagagem de coisas sobre Bucky muito maior do que ele possuía sobre ela. Ele era sua rocha, a âncora do seu navio. Moravam no mesmo prédio, a um grito de distância e fariam qualquer coisa um pelo outro.

Steve era sua leveza, a doce maresia que tocava seu rosto. Claro que havia a mesma cumplicidade que compartilhava com Bucky, mas Steve Rogers era um cara… Peculiar. Era com ele que partilhava suas crises existenciais, que passava horas discutindo sobre situações políticas e sociais… Sobre artes, de todas as formas. Amava os desenhos que Steve fazia, o incentivava a seguir a tão sonhada carreira artística, mas eram outros tempos, outras decisões precisaram ser tomadas e outros caminhos seguidos. Apesar de não morarem no mesmo prédio, Steve parecia ter uma conexão tão grande com a garota que parecia que sempre que pensava nele, lá ele estava. Seja do outro lado da rua, seja na porta de sua casa, seja em seus sonhos.

A amizade do trio parecia apenas fortalecer-se com o tempo. Cresceram, se viram adultos, passaram junto com Steve pelo período de luto, quando ele perdeu sua mãe. A força que o garoto possuía era gigantesca, quase que como uma piada sórdida, já que por sua altura e condições, Steve se sentia o menor dos homens. Menos com os amigos. Com os amigos os três eram iguais, não havia gênero, idade ou altura. Eram apenas três pessoas que se amavam. Infortúnio foi crescer e viver em uma época tão conturbada. tentava focar no emprego de telefonista que conseguiu, comemorava com os amigos cada salário que recebia e no início do mês sempre vinha com presentes para eles. Apenas pequenos gestos para mostrar sentimentos que não conseguiria descrever nem em cem anos de vida. O problema foi o alistamento, a insistência de Steve de tentar em todos os locais possíveis alistar-se e ir a campo, lutar contra o nazismo e as injustiças que os seres humanos são capazes de cometer uns contra os outros. via e conseguia sentir a frustração dele todas as vezes em que era negado, tentava consolá-lo, mostrar que há outras formas de fazer justiça, mas a situação só piorava. O ápice foi quando Bucky entrou. Para quem estava de fora, pareceria um sentimento de inveja. Mas sabia a verdade. Steve sentia a impotência, o sentimento de saber que é capaz de fazer algo, que não deveria ser julgado por sua forma física ou as condições que possui. Era isso que a garota sentia todos os dias, quando não estava no conforto do lar que era essa amizade, julgada pelo fato de ser mulher, não por aquilo que sabia do que era capaz.

Toda essa incerteza, as situações que estavam passando, traziam para sentimentos que ficaria feliz em nunca ter experimentado. Saber que metade do seu lar iria para a guerra e a outra ansiava por ele. O que faria sem os dois? Dizem que lar é onde o coração está, então o lar de seria distante, enquanto eles não estivessem ali com ela. Não se sentia mais feliz em saber que talvez Steve não fosse, pois sabia que, de uma forma ou de outra, Steve daria um jeito de conseguir ir. O seu coração era composto por três partes, mas duas delas estavam ameaçadas. E a garota sabia que não podia expressar aquilo, jamais poderia impedi-los de fazer o certo. Eles queriam aquilo, então seriam apoiados, mesmo que lhe custasse seu lar.

Enquanto passava por esse turbilhão de memórias e sentimentos, quase beirando as lágrimas, sozinha no seu apartamento e sofrendo antecipadamente por coisas que poderiam ou não acontecer, ouviu as batidas características na porta. Sabia que era Bucky acompanhado de Steve e sim, havia uma batida para quando os dois estavam juntos e uma diferente, para quando estivessem sozinhos. Talvez Steve não fosse o único peculiar daquela relação, afinal. Saiu de sua bolha e foi abrir a porta, se deparando com uma cena que já estava corriqueira: Steve, olhando para a o chão e segurando um lenço no rosto, onde provavelmente seria mais um machucado e Bucky sorrindo, ao lado do amigo, como se nada tivesse acontecido. A garota fechou os olhos e respirou fundo três vezes, antes de falar:
— Olá, senhores. Qual foi a da vez? Eu juro, em nome do que é mais sagrado que se você, Steven, tiver entrado em mais uma briga aleatória, eu vou te chutar pra dentro desse apartamento e te espancar. Espero, carinhosamente, que você tenha desmaiado no meio da rua e o James tenha te achado lá, como se fosse destino. Explicações. Curtas e direto ao ponto. — era uma menina doce, mas tinha um pavio curto, como bem os amigos sabiam.
— Oi , tudo bem? Eu estou bem. Dormiu bem, princesa? Espero que sim! Steve estava brigando, eu botei os caras pra correr e agora você precisa fazer um curativo nele, mas claro que, para isso, a senhorita precisa nos deixar entrar primeiro. — Sonso, como sempre, Bucky deu leves batidas nos ombros do seu amigo, que já o olhava com raiva e sorriu ao final da explicação. Como se o seu sorriso galanteador fosse funcionar com a . Ela o tinha mostrado que aquele sorriso funcionava com as garotas, mas não seria com ela que funcionaria.
Sem mais delongas, cedeu espaço para que eles entrassem na sua casa e, ambos se sentaram no sofá, como sempre faziam, enquanto esperavam fechar a porta. Passaram o caminho inteiro falando no quanto teriam que ouvir da , que parecia já ter o discurso decorado para cada vez que Steve chegava em sua casa daquela forma. Mas, cansada e decidida a aproveitar todos os minutos possíveis com os seus amigos, no seu único dia de folga da semana, a que virou as costas para a porta e olhou em direção aos amigos não estava com o discurso na ponta da língua ou com o rosto vermelho de raiva. Parecia apenas ter aceitado.
— Tudo bem, vou pegar a caixinha de primeiros socorros para vermos o que a gente pode fazer nesse ferimento. Já volto. — Falando isso, deixou os dois imóveis na sala, que assim que viram que a garota não estava presente no recinto, trocaram um olhar cúmplice e ao mesmo tempo desconfiados. Aquele não seria um dia típico, disso tinham certeza. Tamanha a surpresa, não trocaram uma só palavra nos poucos minutos em que levou para achar o que era necessário e voltar. Esta, parou imediatamente em frente a Steve e colocou a caixa, já aberta, no espaço vazio ao lado dele. — Por qual motivo ainda não tirou esse lenço sujo do ferimento? Anda, Steve, nem deve estar tão feio assim. — Bucky apenas se divertia com a situação, sem tirar o sorriso do rosto desde que a garota parou em frente a Steve. Era divertido observar a dinâmica dos dois. Às vezes, sentia como se eles fossem um casal de idosos juntos há anos que já sabiam tudo um sobre o outro. Acompanhou enquanto Steve tirava o lenço e sorria para , mostrando que sim, não foi tão feio assim, apenas um pequeno corte abaixo da sobrancelha que, inclusive, já tinha sido estancado.

ficou ali parada, olhando para Steve e o pequeno corte no seu rosto. Nada muito grave, apenas um antisséptico e uma pomada seriam suficientes. Enquanto Steve sorria, como se pedisse desculpas e olhava em seus olhos, se viu admirada. Não desviou os olhos dos dele, mesmo enquanto se sentava ao seu lado, ficando no mesmo nível.
— Me conta a sua versão, gosto de ouvir sua explicação curta de como você estava fazendo o certo, mesmo quando tinha tudo pra dar errado. — Enquanto começava a pegar o necessário para limpar o ferimento, ainda o olhava, vendo rir e fazendo o que foi pedido por ela:
— Eles estavam roubando uma criança que tinha menos da metade da idade deles, pela altura e pelas roupas… Não tinha como deixar eles lá, então eu só os chamei e fui pra cima…, Mas claro que eu apanhei, como pode ver. O resto, o Bucky já deixou bem claro. — Bucky apenas se ajeitou no sofá e falou, da sua forma despretensiosa:
— De nada, aliás.

Não houve resposta. Curioso com toda a situação e com o silêncio dos amigos, ele se ajeitou melhor no sofá, de modo a ver melhor a cena. Os dois pareciam perdidos, olhando um nos olhos do outro, trocando pequenos sorrisos enquanto limpava e passava a pomada necessária no ferimento de Steve. Pareciam estar em uma bolha e, de certa forma, Bucky começou a se sentir… Deslocado. Não de uma forma ruim, mas, parecia estar acontecendo ali algo que ele não devia estar presenciado, algo que apenas de Steve e . Levantou-se, sem nenhum pouco de pressa, virou de frente para os dois e falou:

— Eu… Vou comprar algumas coisas pra gente comer, volto daqui alguns minutos. Não façam nada de estúpido. — Não esperou resposta. Apenas deu as costas aos dois e saiu do apartamento. Iria no mercado mais longe, dessa vez, e demoraria um pouco mais de tempo escolhendo o que comprar. Talvez os dois hoje precisassem de um pouco mais de tempo a sós.

Steve e se viram sozinhos no apartamento, ambos olharam para a porta fechada e voltaram o olhar um para o outro, ao mesmo tempo.
— Obrigada, . Nem era necessário, foi um corte pequeno, não queria que tivesse trabalho comigo. — Sorriu. sentia sinceridade naquela fala. O garoto genuinamente não queria que ela tivesse tido o simples “trabalho” de limpar um ferimento pequeno, de fazer algo bom por alguém que ela ama. Steve não se sentia digno de quase nada, como ela já havia percebido há muito tempo.
— Você sabe que não é trabalho, Stevie. E você sabe que, lá no fundo, eu sei o motivo pelo qual você anda fazendo essas coisas. Não é assim que você vai se redimir por não conseguir entrar no exército, você não precisa de redenção, não é sua culpa. — Steve olhou para suas mãos, cortando a conexão em que estavam, soltando um longo suspiro de frustração:
— Não é isso, … Aliás, se for, não é apenas isso. Eu não sei, eu só sinto que todos estão fazendo alguma coisa, eu estou parado, incapaz. Eu quero, mas não posso fazer nada. Essa sensação de impotência, está me matando. — bem sabia que, após falar alguma coisa que não queria revelar, Steve não olhava em seus olhos. Exatamente o que aconteceu. Continuou olhando para as mãos, como se ali houvesse algo de importante.
— Eu imagino o quão frustrante deve ser pra você, Steve, mas não é saindo por aí e bancando o super-herói que você vai deixar de sentir isso. Só piora. Eu sei que você vai dar um jeito de conseguir ir pra guerra, mas você precisa estar inteiro pra conseguir isso. Todas as vezes que você se meteu em um briga teve sorte dos caras desistirem ou o Bucky ou até mesmo alguém conhecido estar lá, mas e no dia que não estiver? E se alguém fizer algo pior com você? Até agora, foram só ferimentos pequenos ou alguns que precisassem de três ou quatro pontos, mas e se for pior? Você não vai conseguir nada desse jeito. Você só está se machucando, ficando mais frustrado e nos deixando preocupados.

A cada palavra, a garota se exaltava um pouco mais, a ponto de ficar com os olhos marejados e o rosto vermelho. Estava frustrada, estava cansada. Acima de tudo, preocupada. Da mesma forma que a garota estava se alterando, Steve também estava, nas mesmas proporções, mas por estar entendendo o discurso da pior maneira possível: Sentia como se o enxergasse como incapaz, como um fraco que deveria se contentar dessa forma. As coisas só pioravam para o rapaz. Fechou os olhos com força, contendo as lágrimas. Não iria chorar, não queria deixar transpassar as emoções dessa forma. Foi ensinado que homens não choram, homens lutam. Levantou-se rapidamente e foi andando em direção à porta. Não iria discutir com a . Antes que pudesse encostar a mão na maçaneta, sentiu a mão suave dela em seu pulso esquerdo, o puxando com delicadeza, como se quisesse que olhasse para ela. Assim o fez. Voltou-se para ela e a olhou bem no fundo de seus olhos marejados, se não iria sair, precisaria falar:

— E o que eu vou fazer, ? Ficar sentado em casa, chorando os meus problemas? Já que não me aceitam, eu faço o que eu posso. Se eu vou apanhar, pelo menos eu vou apanhar tentando fazer o que é certo. Todas as vezes em que eu vou tentar me alistar, eu vejo os olhares julgadores deles antes mesmo de que eu possa preencher qualquer papel. Houveram dias em que eu nem consegui chegar a preencher, me olharam, disseram que eu não me encaixava e me mandaram embora. Eu não espero que todos entendam essa frustração, mas eu quero pelo menos tentar do meu jeito, fazer o que eu acho que é certo. — soltou o pulso de Steve, da mesma forma que uma lágrima escapou de seus olhos.
— Você olha pra mim e fala como se eu não entendesse o que é se sentir incapaz? Ver que as pessoas não te enxergam pelo seu potencial? E quanto a todas as vezes em que eu falei com você sobre ser uma mulher, trabalhar fora e ter apenas dois amigos na vida que são homens? Antes de conseguir esse emprego, quantas vezes você acha que me ofereceram coisas nojentas sem nem me entrevistar para o que eu realmente queria? Eu sou uma pessoa, Steve, mas as pessoas, na maioria homens, desdenham de mim por eu ser uma mulher. Eu não sou capaz de nada, já que eu não tenho o mesmo órgão sexual que você tem. Você está se fechando tanto nesse sentimento de incapacidade, que nem parou pra perceber EU, te entendo e sei do que você é capaz. Eu acabei de falar que sei que você vai conseguir. Não foi da boca pra fora, eu não sou esse tipo de pessoa com você.

Ali, olhando nos olhos de , que já estavam molhados devido a toda a emoção do momento, ele viu o quão injusto estava sendo. Claro que ele sabia tudo o que sentia. Era por isso que se davam tão bem. Eram capazes de se enxergar por dentro, de não julgar baseado em premissas. Foi também, naquele exato momento que percebeu o que sempre desconfiou. Sentia por algo mais que admiração, mais do que uma simples amizade. Enquanto continuava olhando em seus olhos, já se aproximando e colando as suas testas, ele percebeu que as histórias sobre o primeiro amor, sobre amores de infância, não eram tão distantes assim. O que sentia por , era tão forte que evoluiu para algo maior, algo que ele jamais será capaz de esquecer. Sempre torceu pela felicidade da mulher a sua frente, olhando em seus olhos. Com as respirações descompassadas e ambas as mãos envolvendo o rosto delicado de , tudo que Steve conseguia pensar era em todos os momentos compartilhados, os segredos compartilhados. O quão sortudo seria o cara que se casasse com , caso fosse o seu desejo e, lá no fundo, se fosse isso que ela realmente quisesse, ele desejava que fosse com ele. Queria que fosse o espírito livre que sempre foi, a mulher independente que se tornou e que não se curvasse a homem nenhum. Ele queria ser esse homem, para estar ao lado dela celebrando suas vitórias e sendo inspirado por suas conquistas, todos os dias. Estavam daquela mesma forma, unidos naquele momento por longos minutos. Sentiam a sincronia dos sentimentos e palavras não precisavam mais ser ditas. Foi quem tomou o primeiro passo. Enquanto fechava os olhos lentamente, levou suas mãos até o rosto do homem à sua frente, imitando o gesto feito inicialmente por ele. Seus lábios, foram em direção aos de Steve, selando-os em um beijo que valia mais do que mil palavras. Estavam entregues, como nunca estiveram antes. O beijo, da mesma forma que iniciou, foi tornando-se mais apaixonado, ambos sentindo o gosto um do outro, querendo gravar na memória cada gosto, cada movimento, cada centímetro tocado naquele gesto.
Envoltos naquela névoa de amor recém-descoberto e de um beijo cada vez mais apaixonado, não perceberam quando a porta do apartamento foi aberta. Lá estava Bucky, presenciando o primeiro beijo de seus melhores amigos, não apenas entre si, mas também de cada um. Sorriu genuinamente. Não poderia dizer que estava esperando que aquilo aconteceria no momento, não conseguia nem estipular um momento que diria ser o ideal, mas no fundo, sempre soube que aconteceria. A forma como os dois agiam, a cumplicidade, tudo neles exalava algo mais. E ali, na porta, sendo totalmente ignorado, Bucky percebeu que pareciam feitos um para o outro. Encaixavam-se perfeitamente, nada, nunca mais, pareceria tão certo aos olhos de James Buchanan Barnes.
Com medo de acabar sendo percebido, fechou a porta sutilmente e foi em direção à ao corredor. Estava feliz. Nunca havia presenciado uma cena tão linda quanto aquela, estava com o bolso cheio de guloseimas que aproveitaria com alguma garota e logo iria rumo à guerra matar nazistas. Lembraria daquele dia, do que sentiu naquele momento, para sempre. Nos piores momentos de sua vida, se apegaria àquela sensação, desejando senti-la novamente.

Enquanto isso, Steve e , que estavam alheios ao fato de que Bucky havia presenciado mesmo que uma pequena parte de toda a situação e despertado um sentimento tão puro no amigo, continuavam aproveitando o beijo, os toques, as carícias e a sensação dos corpos colados. Tudo tão não, mas ao mesmo tempo, tão certo.

Sabiam que Steve daria um jeito de ir pra guerra, cumpriria o dever que sentia que devia cumprir. continuaria a sua vida, o seu trabalho, sendo a mulher independente e autossuficiente que sempre foi. O universo poderia ser contra e, mesmo assim, ambos lutariam, estariam juntos no fim de tudo que precisava ser feito. Haveria tempo, haveriam outros primeiros beijos. Sabiam que aquele não seria o fim.

Ou talvez, apenas não quisessem acreditar.

A Doce e Nostálgica Lembrança Que Ele Deixou

A sensação de vazio, era o que dominava os dias de . Todos os dias pareciam o mesmo, como se estivesse em um looping eterno de uma simulação virtual comandada por um ser egoísta e sádico, que sentia prazer em observar a existência inútil da garota nesse planeta. Não havia sentido, não havia motivo, não havia nada. Se alguém era capaz de chegar ao planeta e dizimar cinquenta por cento da população, transformá-la em pó, aleatoriamente, qual seria o sentido de continuar lutando? Quais foram os critérios escolhidos para a aniquilação? Aleatórios? Se nem mesmo os Vingadores, sendo o grupo de heróis mais poderoso na terra, foram capazes de deter aquela situação, qual era o sentido de continuar? Não havia.

Ainda podia lembrar do desespero, da sensação de abandono e de ódio que a alcançou no dia em que ela sumiu. Evolet era a irmã gêmea de . Um óvulo fecundado que deu origem a duas pessoas, juntas no útero, juntas no berço, juntas na vida. O coração e a mente das duas sempre estiveram ligados. Podiam entender-se como ninguém. As pessoas pareciam admirar a conexão que havia entre as duas. Eram duas, mas juntas formavam um completo, uma apoiando a outra nos momentos difíceis e aproveitando os momentos bons. Juntas eram invencíveis e sentiam que seriam capazes de tudo, apoiando-se. Foi assim quando decidiram sair do interior e mudar-se para a cidade grande, sonho das duas desde que começaram a entender-se por gente. Foi assim quando encontraram empregos que, podiam não ser o dos sonhos, mas seriam capazes de ajudá-las a manter-se, da mesma forma que foi assim quando Evolet acreditou ter achado o amor da sua vida. apoiou a irmã em todas as decisões. Esteve presente no momento em que Evolet a conheceu, estava lá quando a irmã aceitou o convite para sair e também esteve lá para juntar os pedaços do coração dela, quando o mesmo foi quebrado. Elas eram o mundo uma da outra, o apoio, o alicerce.
Foi palpável o vazio que tomou de conta do ambiente em que estava quando a irmã não voltou naquele dia. Perdeu as contas de quantas chamadas fez para o celular da mesma, que nunca chegou a atender. Mensagens que não foram lidas, olhares ansiosos através da janela, para ver se a mesma estava voltando pelo caminho de sempre. Quando as notícias chegaram aos seus ouvidos, os desastres que aconteceram devido ao sumiço das pessoas que o terror começou a tomar de conta de . Relatos de pessoas virando pó, umas na frente das outras, a poeira sumindo, da mesma forma que os corpos. A existência continuava presente, como um histórico de que aquela pessoa não foi uma imaginação, mas nenhuma prova orgânica daquilo restava. O telefonema que tanto relutou em atender, feito por colegas de trabalho de sua irmã informando que, infelizmente, ela havia virado pó na sala de aula, na frente de vários alunos que também presenciaram outros colegas seguindo o mesmo caminho. Metade da sua existência virou pó. Sua metade, sua companheira, aquela que dividiu consigo todos os segundos de sua existência, que conhecia tão bem quanto a palma de sua mão. Tinham uma conexão mental tão forte que acreditavam ser capazes de pensar igual… Ela já não existia.
Além do vazio, acreditava ter sido capaz de ouvir o exato momento em que, com um estalo, sua vida desmoronou. Nunca havia experienciado a depressão. Parecia algo surreal, mas que, agora, era um bichinho presente dentro de si, como que em substituição ao amor incodicional e a ligação de irmã, que lhe foi arrancada tão abruptamente. Aquele bichinho, dentro de si, que a menina não tinha forças para expulsar e que, a cada dia, só crescia, chegando a tomar de conta de todos os seus momentos diários, de todos os seus pensamentos, sugando sempre um pouco mais da sua vida, de onde ela achava que não havia mais nada. Evolet era a única família dela. Sempre foram as duas contra o mundo, mas agora, foi deixada para trás, uma peça quebrada, um produto avariado.
Ela não poderia ser acusada de ser fraca, de não haver tentado. Ela tentou. Tentou mudar de apartamento, tentou acordar todos os dias e acreditar que poderia viver o cotidiano sem Evolet. Mas a cada tentativa um pedaço seu morria. Ouvia, no fundo do seu subconsciente, a voz da sua irmã, da sua alma gêmea, gritando que ela deveria procurar ajuda, que precisava de acompanhamento e que poderia ser feliz, mesmo sem sua metade. tentava ouvir, mas suas forças, a essa altura, já não eram suficientes. Aos poucos, foi deixando de ir ao trabalho, deixando de sair de casa, deixando de olhar a vida pela janela. Sentia que aquilo lhe deixava mais perto da irmã, pois aquele era o mundo delas, a bolha que criaram contra o mundo. Ignorava as batidas na porta, que sabia sempre serem de Andrew, seu vizinho e amigo, que estava cada dia mais preocupado com a garota. Chamadas perdidas, mensagens de texto, e-mails, bilhetes por baixo da porta, todos ignorados.
não sabia ao certo quanto tempo havia se passado, quantos dias de vazio havia experienciado. Até que se olhou no espelho. O reflexo, tão igual a Evolet, parecia ter envelhecido 10 anos. Percebeu então que estava matando a si mesma, levando consigo o que restou dela. A voz continuava em sua cabeça, brigando, gritando, implorando para que a mesma reagisse, seguisse em frente, procurasse por Andrew, voltasse a viver. Não soube quanto tempo ficou observando o reflexo. Ouviu, mais uma vez, o telefone tocar. Tirou forças de onde não havia e atendeu. Houve um longo silêncio quando Andrew percebeu os toques já mudos e a leve respiração do outro lado da linha. havia atendido o telefone.
? Graças a Deus. Eu já estava desesperado e pensando em várias formas de arrombar a sua porta. O que me impedia era ouvir os barulhos aí de dentro, pelo menos que estava viva eu tinha certeza. Por favor, abre a porta pra mim, precisamos conversar. Você sabe que não está sozinha. Por favor…
As lágrimas já banhavam o rosto da garota desde o momento em que ele falou a primeira palavra.
— A porta… Ela vai estar aberta. Pode vir. — Quase não conseguiu responder. Apenas deixou o telefone de lado e se dirigiu até lá, para fazer o que havia informado. Assim que girou a chave, viu-a sendo aberta. Andrew parecia ter corrido, ainda estava com o telefone em mãos e, por um breve momento, viu que o homem também chorava. Fechou os olhos e sentiu o conforto do seu abraço. Até aquele momento não sabia o quanto precisava dele. Chorou por um longo tempo nos braços do amigo. Não tinha forças, jogou todo o seu peso no abraço. Andrew também perdeu as forças ao ver o estado dela. Ambos estavam abraçados, sentados no chão da melhor forma possível, chorando tudo o que não choraram pelo período em que preferiu ficar sozinha. Era como se um botão houvesse sido apertado no momento em que se viram. Ela estava, finalmente, colocando todos os sentimentos pra fora. A angústia, o desespero, o medo… Não teve um luto, não pôde despedir-se da irmã, não houve um adeus. Andrew, por sua vez, chorava por , por tudo que sabia que a garota estava sentindo, pela perda de amigos queridos e de Evolet. Não conseguia imaginar um mundo sem a dupla que tanto amava e não conseguia compreender o vazio que havia ficado dentro de . Eram coisas que jamais iria vivenciar, mas que acabaram com ele, por ser o que a garota estava sentindo. A sensação de impotência, por não conseguir fazer nada, era o que deixava tudo pior. Após um longo silêncio, onde ambos sabiam que não precisavam falar nada, apenas desabafar, Andrew sentiu que a mulher em seus braços estava tão cansada, tão exaurida, que acabou adormecendo. Sentiu-se mais aliviado, pois pelo menos sabia que agora ela poderia descansar por algumas horas e estaria com ela quando acordasse.

Com a ajuda de Andrew, foi capaz de fazer o melhor para si, o que sabia que deixaria sua irmã orgulhosa. A situação em que se encontrava, após a partida de Evolet, não era, nem de longe, uma maneira saudável de continuar. Precisava passar pela fase do luto, precisava experienciar os sentimentos, mas não podia entregar-se a eles. Evolet não voltaria, seria uma perda para sempre sentida. Aquela dor não acabaria, mas era preciso crescer em volta dela. Conseguiu ajuda psicológica, o que não foi fácil, pois tocar em certas feridas doía, mas era necessário. A cada sessão, era possível sentir um pequeno alívio, um peso menor nas costas, que uma a uma, a ajudavam a lidar melhor com a dependência emocional que possuía com a irmã, a sua não existência abrupta e a como lidar com o fato de estar “sozinha”, sendo a única responsável por si mesmo e não havendo outro com quem dividir essa responsabilidade. Não foi fácil, foi um caminho espinhoso, cheio de altos e baixos, mas onde pôde contar com o companheirismo de Andrew e todo o seu apoio. No decorrer dos meses, conseguiu retornar ao emprego. Haviam ainda grandes passos a serem tomados, como doar os pertences da irmã, abandonar alguns hábitos que ainda a fazia entrar em um estado de melancolia, mas eram coisas com a qual poderia lidar aos poucos. Sabia que a sua vida nunca mais voltaria a sua normalidade anterior, mas acreditava que com a ajuda que possuía, conseguiria moldar-se e continuar de uma nova forma.

Era uma quinta-feira, pleno verão na cidade. Muito calor e um tempo úmido, que faziam com que deixasse todas as janelas do apartamento abertas. Estava jogada no chão da varanda, tentando ter o mínimo de uma temperatura normal para conseguir raciocinar com clareza. Foi uma semana bem agitada no trabalho, já havia feito sua terapia e estava quieta, ouvindo os barulhos da cidade, apenas presente no momento, apreciando. Ouviu a porta do seu apartamento abrir e o barulho tão conhecido de Andrew, que jogou-se ao seu lado. Era uma situação comum. Iam ao apartamento um do outro quando sabiam que seriam bem vindos. A amizade havia crescido naquele meio tempo e sabiam que aquilo foi imprescindível para a melhora um do outro. Apoio sempre nos torna mais fortes.
— A reunião do grupo de apoio ontem foi muito boa. A dinâmica é sempre a mesma, mas energia é sempre diferente… Sempre que alguém novo fala sobre seu ponto de vista, de toda a situação… Parece que seus horizontes se abrem, sabe? Você meio que internaliza uma nova forma de lidar com toda essa loucura. — Olhava para o céu enquanto falava. Era uma coisa que Andrew sempre fazia: tentar convencer a a participar de um grupo de apoio para pessoas que perderam alguém no blip, uma forma de encontrar apoio um no outro. Ela não tinha tanto interesse nisso. Não tinha problemas com o fato de ouvir as pessoas e saber como lidaram e lidam com tudo, mas não se sentia à vontade em partilhar a sua experiência… Parecia muito pessoal e até um pouco egoísta, já que sabia que haviam situações bem piores que a sua.
— Você sempre fala nesse grupo de apoio. Desde que entrou nele acho que todos os dias toca no assunto. Parece até esquema de pirâmide. — Ela sempre tentava recusar de uma forma cômica, pois percebia que o grupo era algo importante para Andrew, que fingiu choque ao ouvir as palavras da amiga.
— Se fosse, eu estaria perdido, já que não consigo nem levar uma amiga pra lá, imagina o resto? Mas seria importante pra mim se você fosse. Não quero te forçar, você sabe, há meses eu faço isso e nunca te obriguei a ir, mas eu me sentiria muito melhor com você lá. E eu sei que isso também ia te ajudar, apesar de você ser bastante teimosa. Se serve de incentivo, sempre tem donuts e capuccino... — sabia o quanto estavam sendo benéficas aquelas reuniões para Andrew. Sentiu-se até um pouco culpada em sempre fazer piadas e se esquivar daquela situação. Estava um pouco contrariada em ir, mas sabia que o amigo a havia ajudado em seus piores momentos, então decidiu fazer aquele sacrifício por ele. Nem que fosse uma mísera vez.
— Tudo bem. Eu vou, não pelos donuts, mas por você. Não te aguento mais implorando pra que eu vá. Mas que fique claro: eu vou, aproveito a reunião, mas se não gostar, não volto mais. De acordo? — Andrew continuou na mesma posição, apenas sorriu satisfeito. Estava genuinamente feliz em saber que a amiga iria participar e sentia que no fundo, ela iria gostar do ambiente. Conhecia as pessoas que participavam e sabia que ela se sentiria à vontade. Eram pessoas muito acolhedoras e dispostas a se ajudarem a enfrentar as atribulações e dores resultadas do blip. Ela apenas precisava do sútil empurrão de alguém, ou, como foi o caso, meses de insistência até vencê-la no cansaço.

Já havia passado mais de uma hora que estava naquela sala, reunida com pessoas que compartilhavam com ela as mesmas dores de perder alguém que se desfez como poeira, mas deixou para trás o histórico de sua existência. Foi nesse momento em que refletiu que deveria ter aceito o convite de Andrew a mais tempo. O medo e o desconforto de estar com pessoas desconhecidas não foram sentimentos presentes naquele dia. Sentia-se acolhida, como há muito tempo não sentia em um ambiente com tanta gente. Andrew ao seu lado parecia satisfeito, já havia falado naquela reunião e ela percebia o quanto colocar aquelas palavras para fora o ajudavam. A terapia havia lhe ajudado muito, mais do que imaginaria, mas estar alí também tinha o seu poder de cura. Quando chegou, as pessoas lhe cumprimentaram, se apresentaram e tinham interesse genuíno em saber sobre ela. Agora lá estava ela presenciando o momento em que alguns deles colocavam pra fora suas dores, as situações no dia a dia que os faziam se sentirem fracos, mas também o que fizeram e o que pensaram para dar a volta por cima. Emocionou-se com alguns, sentiu empatia por outros. Não estava ainda no momento dela mesma falar, pois sentia que precisava de um pouco mais de confiança, mas só em estar alí já era reconfortante. Em meio a tantos rostos desconhecidos, havia um conhecido que partilhava as mesmas dores dos presentes, mas tantas inúmeras outras que chegava a pensar ser inimaginável para um ser humano suportar. Steve Rogers, o Capitão América, era quem liderava aquele grupo. Foi o primeiro a cumprimentar , a fazê-la sentir-se aceita e parecia ser o mais ligado às pessoas que falavam. Era como se sentisse o que estavam sentindo. Seu olhar transbordava todas as emoções daqueles a quem ouvia. Ao final, foi a vez do mesmo falar. Era tão bom com palavras, que era como se uma energia saísse de seus lábios e abraçasse todos os presentes. Como uma pessoa que passou por tantas situações traumáticas e de perda conseguia passar força a pessoas que não passaram nem por metade do que ele passou?
Ao fim da reunião, desejou que não houvesse passado tão rápido. Poderia passar dias naquele local de acolhimento, conversando com as pessoas que conheceu, ouvindo a forma de como lidam com toda a situação e a forma empática com que Steve fala, tentando passar para os demais mensagens de força, de união e de esperança.
Estava distraída junto a Andrew, que conversava com mais duas pessoas. Quando viu que o Capitão Rogers estava se dirigindo ao grupo.
— Boa noite. Como vocês estão? Espero que tenham gostado da reunião de hoje. — As pessoas que estavam na conversa com Andrew falaram afirmações à sua pergunta, enquanto lhe mostrou um sorriso tímido. O Capitão olhou para Andrew e parecia bastante animado. — Essa é a amiga da qual você fala, Andrew? — olhou diretamente para , que sentiu seu rosto momentaneamente esquentar. Então, se Andrew já havia falado dela nas reuniões, todos alí sabiam quem era. Não havia cogitado essa ideia antes, mas talvez pudesse ter agido com um pouco menos de timidez, caso soubesse antes.
— Ela mesma, Capitão. Relutou tanto em aparecer, mas parece que acabou gostando! — Rogers se direcionou a garota, estendendo a mão para se apresentar formalmente, pois não o havia feito devidamente no início.
— É muito bom conhecer você, senhorita. Pode me chamar de Steve. Espero que tenha se sentido à vontade na reunião e continue participando conosco. — apertou a sua mão e sorriu.
— Pode me chamar de , Steve. É muito bom conhecer você também. Eu realmente não esperava, mas gostei bastante. Acredito que será bom continuar participando. — Todos os presentes naquela conversa ficaram felizes com a fala da menina. Era sempre bom ouvir novos pontos de vista, conhecer pessoas que precisavam de apoio e que poderiam lhes apoiar.

continuou frequentando as reuniões. Assim como a terapia, estar presente alí a fez visualizar toda a situação de uma nova forma. Os anos que se passaram desde que perdeu a sua irmã não foram fáceis, mas havia conseguido crescer naquela situação, aprendido novas formas de aceitar sua dor e de ser feliz por si só. Não queria dizer que não sentia falta da irmã. Esse era um sentimento que estava sempre lá, mas ao mesmo tempo, era grata por tudo o que viveram juntas. Ainda precisava dar mais alguns passos para a sua melhora, mas sabia de sua evolução. Fez novos amigos naquele novo círculo social que passou a frequentar. Foi a jantares com alguns, ao cinema, ao parque… Com o tempo, passou a ter uma vida relativamente normal, quando se analisa toda a situação. Andrew estava sempre lá, mesmo quando começou a namorar uma das meninas do grupo de apoio, ele não abandonou . Ao contrário, o casal sempre estava com ela. Até uma amizade inesperada desabrochou daquela situação. Nunca, em todo o seu tempo de vida, pensou que se tornaria amiga de Steve Rogers. Cresceu ouvindo suas histórias de guerra, de como havia sido um herói para a nação. Seu avô se considerava o fã número um do rapaz, com direito a coleção de figurinhas e uma cópia fiel do seu escudo pendurado no seu escritório, em posição de honra. Quando o herói foi encontrado congelado e, posteriormente, foi descongelado, retornando para um tempo o qual não conhecia, tudo parecia um filme de ficção científica. desejava saber a reação do seu avô ao presenciar tudo isso, mas o mesmo havia partido já a alguns anos quando os eventos aconteceram.
O tempo tornou a amizade de Steve e mais forte. Ambos frequentavam a casa um do outro, reuniam-se com frequência com os demais. Após um tempo de amizade, o mesmo confidenciou que se aproximou dela pois a sentiu solitária, sabendo de tudo o que perdeu. Era um sentimento empático, pois essa sensação de perda lhe era familiar. conheceu um lado do Capitão Rogers que nunca havia visto antes. Ele era um jovem, como ela. Poderia ser um herói da segunda guerra mundial, que deveria estar com cabelos brancos e com problemas decorrentes da idade, mas na verdade, não era. O gelo lhe tirou a oportunidade de viver na época certa, de viver o amor e lhe restou uma vida fora de seu tempo, deslocado, onde ele sempre seria um idoso, mas com o corpo e mente de um jovem adulto. Ele era descontraído, uma companhia maravilhosa em todos os momentos, mas ao mesmo tempo, um cara que tomava para si muitas responsabilidades e que se sentia culpado por tudo que aconteceu no mundo. Chegou até mesmo a apresentar Natasha Romanoff para a amiga, que se sentiu muito honrada em estar frente a frente com a Vingadora que sempre admirou. Sempre pensou em Natasha como uma mulher quieta e séria, mas ela se mostrou uma mulher bastante descontraída e amigável, apesar de todo o sofrimento que passou no decorrer da vida. No dia em questão, tomaram algumas cervejas e chegaram a compartilhar situações constrangedoras a qual haviam presenciado Steve passar. Foi uma noite memorável. Chegaram, inclusive, a tirar uma foto juntos. Foto essa que estava amorosamente emoldurada e presente em meio a tantas outras fotos de momentos felizes, em uma das paredes do quarto de . A menina, antes de dormir, sempre se pegava admirando as fotos mais antigas, as mais recentes… Era uma sensação nostálgica, mas boa. Saber que houveram momentos de felicidade e, apesar de tudo o que aconteceu em sua vida, ainda era capaz de criar mais memórias felizes sempre trazia esperança e um sentimento de gratidão. Às vezes dormia enquanto olhava aquelas fotos, enquanto admirava as novas, enquanto o rosto de Steve Rogers olhava para a câmera. Na maioria das fotos, sorrindo, um sorriso tão puro e amoroso que lembrava de ter visto apenas na sua metade, na sua gêmea, Evolet.

Era manhã de sábado, um dos dias mais esperados por , pois era sempre nesse dia em que havia certeza de que se encontraria com os amigos. Andrew, Anne, sua namorada e Steve sempre passavam as tardes, as noites e até algumas vezes a madrugada no apartamento dela. Conversando, rindo, trocando histórias de suas vidas. Já se conheciam a tanto tempo que era até engraçado ainda haverem histórias desconhecidas uns pelos outros, mas sempre havia pelo menos uma. Jogar e desafiar Steve a dizer o nome da música enquanto a ouvia eram as coisas preferidas deles, quando os três já estavam levemente embriagados. O homem bebia tanto quanto eles, mas havia a vantagem do super soro, então terminava sempre sendo o bode expiatório da noite. Os quatro riam até chorar sempre que o homem fazia uma careta que mostrava que não fazia a menor ideia de que música esquisita era aquela. Nunca conseguia ficar sério depois de ouvir a risada estridente de . Aqueles dias, aquelas companhias, eram algo necessário na vida de Steve. Estar com pessoas com a mesma faixa etária que deveria ter, que viviam a vida que ele deveria estar vivendo, se estivesse no tempo certo, o deixavam mais leve. Estar com lhe carregava as baterias, sentia-se jovem novamente, como na época em que saía com Bucky na Nova Iorque da década de quarenta. Amava por lhe proporcionar esses sentimentos, seria sempre grato pela sua amizade e pelo rejuvenescimento que a sua companhia lhe proporcionava. Sabia que sempre teria em Romanoff uma amiga, uma pessoa que passou por boa parte dos problemas que ele passou, que lutou junto com ele batalhas inimagináveis e estava presente em sua vida até hoje, mas estar com , era diferente. Sentia com ela um vínculo forte, era engraçado, pois lembrava-se de sentir aquele mesmo vínculo com Bucky. Enquanto estava em devaneio, absorto em seus pensamentos, viu batendo palmas na frente de seu rosto, o chamando de volta para o ambiente:
— Steve, você já dormiu demais nessa vida. Nada de ficar dormindo acordado numa noite de sábado. No que estava pensando? — Sentiu os olhos de Anne e Andrew também voltados para si, meio bêbados, mas prestando atenção.
— Só estava lembrando de algumas coisas… Nada demais. — Sorriu sincero para , pois ele tinha certeza de que ela sabia que era exatamente isso que ele estava fazendo.
— Ah, ótimo, já está tarde, está na hora de ouvirmos mais algumas histórias de Steve Rogers versão quarenta quilos e Bucky Barnes em suas aventuras legais por Nova Iorque. Nos surpreenda. — Todos riram, mas Steve adorava contar aquelas histórias, era sempre bom lembrar de Bucky antes da Hydra, antes da guerra, antes de todo o desastre que tomou conta de sua vida. Era bom lembrar do amigo feliz e cheio de vida e sabia que os três à sua frente amavam ouvir histórias sobre ele.
Contou sobre o dia em que foi encurralado por caras com o dobro do seu tamanho em um beco. Não conseguia lembrar o motivo, mas lembrava da sensação de injustiça e de estar pronto para derrubar os mesmo. Apesar dos sentimentos verdadeiros, acabou apanhando bastante, mas, como sempre, Bucky estava lá, de igual para igual com os caras, defendendo o amigo que gostava de se meter em encrenca. Esse era Bucky. Faria qualquer coisa pelo amigo, inclusive correr o risco de apanhar junto com ele.

Anne e já estavam jogadas em um canto da sala, sobre o tapete e várias almofadas, cobertas com uma colcha que Andrew havia pegado. Já era madrugada e estavam totalmente entregues ao sono. Os dois homens estavam sentados no sofá, conversando banalidades. Andrew já menos bêbado, depois de ter parado de beber, olhava para a namorada de vez em quando. Steve não poderia deixar de reparar no olhar apaixonado do mesmo e do sorriso que brotava nos lábios dele em algumas das vezes.
— Você realmente está apaixonado. Espero que a faça feliz e continue com esse sorriso pra ela. A Anne merece. — Presenciar essas situações entre casais o fazia lembrar de Peggy, do quanto a admirava e de como amava toda vez que ela lhe olhava e sorria.
— Não tem como esconder, Capitão. Inclusive, já que o sono pesado dela não vai deixar ela ouvir… Eu acho que vou pedir pra ela casar comigo. — O olhar de ansiedade de Andrew apenas denunciava que ele esperava uma opinião, quase uma benção, para provar que estava no caminho certo. Steve sorriu com aquilo. Ficaria muito feliz em ver os dois amigos casando e sendo felizes.
— Eu tenho certeza que ela vai dizer sim e espero que, se você realmente fizer isso, faça dela a mulher mais feliz do mundo, todos os dias. — Andrew estava feliz com o apoio dele.
— Já que estamos falando sobre vida amorosa, como anda a sua, Cap? Alguma mulher em vista para se tornar a Senhora América? — Steve, ao ouvir essas palavras, soltou um suspiro curto e sorriu para o mesmo. Pensar em relacionamentos amorosos também o fazia lembrar de Peggy. De tudo que havia perdido, das coisas que não viveu com ela.
— Não… As coisas são um pouco complicadas nesse quesito. Já pensei que estava apaixonado algumas vezes, mas no final… — No final, Steve sempre acabava percebendo que estava projetando nelas aquela mulher que nunca conseguia esquecer. Não era justo com elas, não era justo com ele. Então as coisas sempre desandavam.
— Você sempre procura por ela, não é? A mulher da foto que você carrega. — Andrew sorriu, mas um sorriso de conforto. Não conseguia compreender toda a situação. Sabia da história de Steve, pois ele já havia falado sobre Peggy algumas vezes em reuniões como aquelas, então se compadecia de toda situação. Ele sempre tentava seguir em frente, mas o passado nunca lhe abandonava, a sombra da vida que lhe foi roubada sempre na frente das possibilidades do futuro.
— É, não é justo estar com alguém enquanto você inconscientemente está procurando por outra pessoa. — Foi assim com Sharon, foi assim com Natasha…
— Posso te fazer uma pergunta? — Steve achou engraçada a maneira como Andrew se comportou enquanto proferia aquelas palavras. Chegou mais perto e baixou consideravelmente o volume da sua voz.
— Claro, se eu souber a resposta, garanto que falo pra você.
— Você já pensou em alguma vez, sei lá… Chamar a para sair? Antes que você responda, é só que eu vejo vocês dois, são amigos, se dão bem… Nunca pensou em tentar outra coisa? — Steve refletiu por alguns segundos aquela pergunta. Não a esperava. Olhou momentaneamente para onde estava, deitada da mesma forma em que adormeceu, de costa para os dois.
— Sendo sincero, Andrew, nunca cogitei essa ideia… Eu sei o quanto a é maravilhosa, mas a nossa relação, é realmente uma amizade muito forte. Eu me vejo com ela da mesma forma que me via com o Bucky. Além do mais, sabendo o quão especial ela é, seria injusto sair com ela e, no fim das contas, estar pensando em Peggy. É algo que sempre acontece. Eu já tentei, de diversas maneiras, superar isso. Eu sei o quanto parece sem sentido todo esse sentimento por uma pessoa que já nem está mais entre nós, mas eu não consigo. De alguma forma, quando eu fui congelado, meu sentimento por ela congelou junto. O problema é que eu fui descongelado, em uma época totalmente diferente, mas o sentimento nunca mudou.

estava na mesma posição que antes, mas havia acordado há alguns minutos. Conseguiu acompanhar um pouco da conversa entre os amigos, mas preferiu continuar da mesma forma, pois não queria atrapalhar o momento dos dois. Ao ouvir a pergunta de Andrew, sobre Steve e ela, uma leve sensação de ansiedade tomou conta da mesma. Mas a resposta correu como uma onda, uma sensação de aperto no peito, como se tivesse ouvido algo do qual esperava o contrário. Mas nunca tinha sentido atração, ou pensado em Steve dessa forma, certo? Resolveu, naquele dia, acreditar que a culpa era da bebida e do sono interrompido. Uma combinação que deixa qualquer organismo atrapalhado, a ponto de ter sensações relativas a sentimentos que não existem. O problema é que, depois desse dia, se viu mais atenta à linguagem corporal de Steve sempre que falava sobre Bucky, sobre Peggy… A última, sempre trazendo um brilho diferente no olhar dele, um brilho de saudade, de adoração… Uma combinação que sempre fazia o estômago de gelar, como a sensação de descer de uma vez na montanha russa. Como se, no dia em que ouviu a conversa meio particular entre os seus dois amigos mais próximos algo tivesse sido ligado dentro de si com a expectativa da resposta, mas que, após não ser a que seu corpo considerava como correta, não tivesse sido desligado. Tentava ignorar, desde aquele dia, todos esses sinais e avisos que o seu corpo e sua mente lhe davam. Não era justo consigo, não era justo com Steve. Não podia admitir que estava desenvolvendo sentimentos que considerava como proibidos. Sabia que sairia machucada e que poderia machucar o amigo, pois o homem era consciente de seus sentimentos por uma mulher impossível e que faria todas as que não fossem ela sofrer. Sabia que ele sofreria caso machucasse . Isso não poderia acontecer. Então dia após dia, semana após semana, foi abrindo um espaço em sua mente, onde jogava todas as sensações sentidas por Steve que estivessem relacionadas à sentimentos românticos, cada sensação de esperança, cada pontada de ciúmes ao ver o olhar nostálgico e o nome Peggy ser proferido, ou quando percebia que sempre seria apenas uma amiga. Todas essas sensações eram jogadas lá dentro e trancadas. Foi a única forma que encontrou em continuar sua amizade e sua vida próxima a Steve, em aproveitar os momentos junto com o amigo. Sabia que uma hora ou outra, esse sentimento passaria. Contava com isso. O que não queria dizer que, mesmo tudo aquilo trancado em sua cabeça, não doesse. Sentia-se uma idiota, quase adolescente, em agir dessa forma. Como se o impossível pudesse ser alcançado, ou como se acreditasse que Steve esqueceria o amor de sua vida por ela, como nos contos de fadas que tanto leu junto com Evolet. Doía pensar naquilo, mas acreditava que uma hora passaria. A amizade que construiu com Steve ao longo do tempo em que passaram juntos era algo muito bom em sua vida, para ser jogado ao incerto numa tentativa de conseguir algo que não poderia ter. Ele se tornou uma das peças principais de sua vida e assim continuaria. Sabia que ele também precisava de sua amizade, de sua companhia, portanto, não arriscaria nada daquilo. Era só uma questão de tempo até que tudo em sua mente voltasse ao normal.

Essa era uma ideia com a qual precisava se apegar e acreditar com todas as suas forças.

Em um dia de semana, no qual estava de folga juntamente com Andrew, os dois resolveram sair para passear pela cidade, sem destino certo, apenas caminhar e conversar banalidades. Passaram por ruas lotadas, pessoas atarefadas e apenas curtiam a presença um do outro. Tomaram sorvete, sentaram em bancos e observaram a vida ao seu redor. Em meio àquela distração, Andrew lembrou-se sobre a exposição que estava havendo, sobre os heróis da II Grande Guerra. Sabia que alí haviam fotos e informações sobre Steve, sobre o Sargento Barnes que tanto ouviam falar. Resolveram ir juntos para ver sob outra perspectiva aquelas pessoas que bravamente lutaram por um mundo melhor.

Haviam passado por posters enormes de Steve, informações que já sabiam, outras que os surpreenderam… Era interessante ver sob essa ótica a pessoa com quem tanto conviviam, ver os rostos admirados e concentrados das pessoas analisando as informações apresentadas. Foi impossível não sentirem orgulho em poderem afirmar que eram amigos daquela pessoa maravilhosa. Viram informações sobre o Sargento Barnes, o tão amado Bucky do qual o Capitão tanto falava. Suas informações relatavam um homem de uma bravura gigantesca, que lutou lado a lado com a esperança da América, não o abandonando em qualquer circunstância. Era bonito saber que, apesar de tudo o que sofreu, era reconhecido como o herói que sempre foi. Steve devia sentir muito orgulho do amigo. Pessoas verdadeiramente altruístas não estão no mundo aos montes, mas saber que amamos uma dessas pessoas trás um pouco de calmaria aos nossos corações. Estavam ambos admirados com todas as informações que alí haviam. Algumas já conhecidas, outras nem tanto. Enquanto distanciava-se de Andrew para analisar histórias e imagens de outros tantos heróis, se viu em frente a uma imagem do tão conhecido rosto que tantas vezes presenciou Steve olhar. Estava em frente a uma imagem de Margaret Carter, mais conhecida como Peggy, aquela que incentivou Steve Rogers a seguir o seu verdadeiro caminho, uma das fundadoras da SHIELD… Aquela a que Steve nunca conseguiu esquecer, apesar de tanto haver tentado. Pela primeira vez vendo uma foto da mulher que não havia sido mostrada por Steve, conseguiu entender os motivos que o levaram a amá-la tanto… Era linda, com um olhar decidido, lábios pintados em vermelho e um cabelo meticulosamente penteado. Não apenas isso, todas as informações presentes em sua breve biografia mostravam que era uma mulher à frente de seu tempo, imersa em um meio predominantemente masculino, impôs todas as duas habilidades e provou que era tão valiosa, até mais, que outros tantos homens. Fez coisas inimagináveis para mulheres em plena década de quarenta e abriu caminhos para tantas outras que nela se inspiraram. Era impossível para não sentir um aperto no peito ao ver aquela imagem e absorver todas aquelas informações. Não havia como competir… Mas não havia nenhuma competição. Peggy era a mulher perfeita para Steve, sabia que os dois haviam sido feitos um para o outro. Sentia uma pontada de inveja ao saber que, mesmo não estando mais viva, a mulher era a dona de todos os pensamentos do homem. Não podia impedir esses pensamentos em sua cabeça, era humana, no fim das contas, mas ao mesmo tempo se compadecia da situação. Steve tinha planos, tinha desejos, estava na época certa com a mulher de seus sonhos e todos os “e se” eram possíveis… Mas as coisas não funcionaram a favor e ele acabou em uma época totalmente diferente, sentindo-se isolado e desconectado do mundo ao seu redor. Os “e se” cada vez mais gritantes em sua mente, uma vez que não eram mais possíveis. Qualquer um enlouqueceria com toda aquela situação, não podia julgá-lo por não seguir em frente ou esquecer aquilo tudo. Era impossível, uma vez que todas as possibilidades foram arrancadas de si, sem tempo para aceitação. Era injusto com Steve, consigo mesma e com a amizade que nutriram chegar com todo esse conhecimento e pedir para o homem nutrir em resposta um sentimento que ela sabia que ele não seria capaz de retribuir. Depois de vários minutos contemplando aquelas informações, aquelas imagens… Estava mais que decidido para , que, apesar de agora ter certeza de seus sentimentos para com Steve, eles precisavam ser deixados em segundo plano. Precisava continuar sendo a amiga que ele precisava e recebendo de volta a reciprocidade disso. Sabia que ele a amava e que faria tudo por ela, mas não da forma como lá no fundo desejava.
Graças a terapia e todo o apoio que recebeu após a perda abrupta da irmã, sabia como lidar com sentimentos. Sabia que não adiantava mentir para si mesma, mas também sabia como lidar com eles e com as expectativas. Ela não as possuía, com relação a Steve. Estava tudo bem. Era capaz de seguir em frente e aceitar que nunca seria para ele o que Peggy Carter sempre seria.

Cinco anos haviam se passado desde o dia que perdeu metade de si. Ainda conseguia lembrar de todos os sentimentos ruins que a perseguiram por um longo tempo. Conseguiu viver com aquela perda, o que foi uma grande vitória, pois chegou a imaginar ser impossível, mas estava em uma vida relativamente estável, com amigos maravilhosos que fariam qualquer coisa por ela, da mesma forma que ela o faria por eles. Haviam apenas algumas questões que a incomodavam ultimamente… Sua amizade com Steve continuava, mas ultimamente o homem vinha precisando se ausentar cada vez mais, cumprindo o seu papel como um Vingador. Claro que entendia, mas a falta que sentia da rotina que possuíam era algo que ela não podia negar sentir. Ele sempre entrava em contato de alguma forma, mas cada vez mais distante. Chegou a um ponto em que quase não se viam mais, devido às ocupações dele. Ele tinha suas responsabilidades, as dela e uma hora ou outra as coisas voltariam ao normal. Era capaz de sentir a apreensão crescer em cada contato que ele fazia, sempre algo o incomodando, mas respeitava, pois sabia que a maior parte das coisas não podiam ser ditas. Andrew e Anne continuavam da mesma forma, sempre junto de quando possível, partilhando da mesma preocupação em relação ao amigo.
Ela sabia que as coisas haviam desandando assim que Steve parou de entrar em contato. Sem qualquer sinal do homem, a ansiedade tomava conta de , todos os dias. Como estava? Estava bem? Estaria vivo? A sensação de algo ruim se aproximando rondava não apenas a cabeça de , mas todos os ambientes possíveis. De alguma forma, todo mundo sabia que algo ruim estava acontecendo. Vingadores reunidos, coisas estranhas acontecendo... Era palpável a tensão no ar. E então ele voltou. O ser que levou metade da população, que levou vidas e amores, estava de volta. O caos foi instaurado, ninguém conseguia estar calmo diante daquela situação. O que aconteceria? Levaria o restante das pessoas? só conseguia pensar em Steve, em como estaria. Tinha certeza de que estaria na linha de frente, liderando aquela luta contra Thanos, uma vez mais. Temia por tudo, por si mesma, pelos que amava, mas principalmente por Steve. Não o queria perder, não o podia perder também dessa forma. Talvez a mente de a tenha protegido naqueles dias, daqueles sentimentos, de toda aquela situação, pois pouco lembra realmente de tudo o que aconteceu. Tudo o que lembra é de estar escondida com Andrew e Anne, sem conseguir raciocinar direito, a preocupação tomando conta de todas as células de seu corpo. Não sabia ao certo que horas eram, que dia, quanto tempo se passou… Só lembrava de estar sentada, esperando eternamente. Até que o seu celular vibrou incessantemente, a tirando de todo aquele mar de sentimentos. O sentiu vibrar várias e várias outras vezes até criar forças de tirá-lo do bolso e olhar o visor. Olhou por longos segundos, sentiu lágrimas enchendo os seus olhos e a impedindo de olhar mais. Estava com medo de fechá-los e perceber que se tratava de um sonho, uma alucinação. No visor do seu celular estava a foto de Evolet. Como seria possível, se sua irmã se fora cinco anos atrás, como poeira? Respirou duas, três, quatro vezes. Viu o celular parar de vibrar, o visor apagando, da mesma forma que segundos depois a vibração retornar, junto com a foto de sua gêmea. Andrew e Anne sentiram o nervosismo e a incredulidade da amiga, mas ao verem para onde seu olhar se direcionava, tiveram a mesma reação. Assim que criou coragem e atendeu a ligação, não foi capaz de segurar a emoção. Sua irmã, sua metade, estava do outro lado da linha, desesperada, confusa, sem entender o que estava acontecendo. O medo de ser algum truque, algo da sua imaginação era crescente dentro da menina. Não conseguiria lidar com aquela nova perda. Tão desorientada como estava antes, foi até onde a mesma estaria. Na escola onde sumiu anos atrás. Não sabe como Andrew foi capaz de levá-la até lá, mas perdeu todo o ar no momento em que viu aquela mulher, tão igual, mas tão diferente de si. Abraça-la, após aceitar que a havia perdido, foi uma sensação que sabia que jamais seria capaz de explicar. Nada fazia sentido, aparentemente todas as pessoas que sumiram anos antes haviam voltado. Como? Ela já tinha uma noção de quem tinha a responsabilidade sobre aquilo, mas ultrapassava tudo o que acreditava ser lógico. Precisava de explicações, entender tudo o que aconteceu, mas por enquanto estava satisfeita em apenas sentir sua irmã, estar em seus braços, sentir novamente que estava completa.

O retorno para casa não foi nada fácil. A cidade estava um caos, assim como dentro do veículo. Todos dentro daquele carro estavam confusos, felizes, mas confusos. Não foi nada fácil e nem rápido explicar para Evolet tudo o que aconteceu, foi igualmente difícil para as irmãs chegarem em casa, para explicar como precisou superar a morte dela, como precisou se livrar de seus pertences para não afundar… Mas Evolet compreendeu. Não conseguia imaginar como seria perder sua gêmea, perder era um de seus maiores medos e não queria nem imaginar o quanto sua irmã sofreu, o quanto lutou para conseguir seguir em frente. Para ela, haviam passado apenas algumas horas desde que a viu, mas para , foram cinco longos anos para se acostumar com a ausência de quem sempre esteve junto dela. Um longo caminho percorrido, mas elas estavam juntas novamente. Isso era o suficiente para ambas. Ver a irmã radiante, ouvir suas histórias, saber que fez novas amizades, ver fotos que nunca havia visto… Sabia que a menina sofreu, mas que também houve aquele feixe de felicidade. Saber que Andrew agora era quase que parte da família, assim como Anne, que anos atrás não era conhecida. Ficou totalmente fora de si quando soube que o Capitão Steve Rogers era um amigo e uma família para . Nem em seus mais loucos sonhos poderia imaginar algo do tipo acontecendo. As fotos dos quatro se divertindo juntos… tudo parecia surreal, informações demais para uma pessoa só absorver em tão pouco tempo. Mas Evolet aguentava. Queria saber tudo da irmã, queria que ela não pensasse mais em sua ausência, que não sentisse mais a sua perda. Queria estar exclusivamente presente, sabendo de tudo o que a sua metade queria contar.
Apesar de extasiada com a volta de sua irmã, dos poucos dias que se seguiram onde tudo o que era possível ouvir dentro daquele apartamento eram a sua voz, a de Andrew, Anne e as gargalhadas de Evolet, não conseguia parar de pensar em Steve. Ainda não havia recebido notícias dele, não houve contato, nada. Estava começando a ficar uma pilha de nervos, com medo de que algo tivesse acontecido com ele. Recusava-se a ver notícias, com receio de ver o que não queria. Estava usando a volta da irmã e tudo o que tinha para contar como um escape e manter a sua mente ocupada, mas parecia que ela havia achado uma forma de fazer duas coisas ao mesmo tempo, para incluir a preocupação com o amigo em sua tarefa diária.

Era um novo dia, Andrew e Anne resolveram tentar voltar a sua rotina diária, e Evolet estavam em uma sintonia que parecia que nunca houvera uma separação. Algumas batidas na porta e resolveu atender, deixando sua irmã preparar o café da manhã que tanto tinha saudades. Ao abrir a porta, sentiu seu coração parar por alguns segundos e uma carga de adrenalina ser descarregada rapidamente em todo o seu corpo. Steve estava na sua frente, com alguns machucados no rosto, mas aparentemente bem e sorrindo para ela. Aquela imagem poderia muito bem competir com o abraço que deu em sua irmã, assim que a viu depois de seu retorno. Não conseguiu se conter e pulou em seus braços, o abraçando com toda a força que era possível. Queria se agarrar àquela imagem para ter certeza de que não sumiria. Queria sentir o seu cheiro, ouvir sua risada assim que a abraçasse de volta e dizer o quanto sentiu a sua falta. Haviam mais sentimentos além desses, coisas que gostaria de dizer, mas sabia que não seria capaz de jogar tudo isso nele. Sua presença era o bastante. Estava tão radiante em saber que o mesmo estava vivo e bem que não foi capaz de sentir raiva pela falta de notícias, por ser deixada no escuro. Steve estava igualmente feliz, abraçava a menina com toda a força que sabia ser segura e entrou em seu apartamento. Sabia que a irmã de havia voltado, mas não pôde evitar os segundos de silêncio, após entrar no apartamento e se afastar do abraço para dar de cara com uma cópia fiel da menina à sua frente. Eram iguais, mas de alguma forma que não sabia explicar, diferentes. Evolet foi a primeira a falar algo, direcionando-se a ele e demonstrando o quão feliz estava em conhecê-lo, havia escutado tanto sobre o homem, sobre suas histórias que era como se já o conhecesse. Sabia tudo o que sabia, inclusive o que ela não queria que o homem soubesse. Trocaram algumas palavras até que ela sentiu que o melhor a se fazer seria deixar os dois a sós. Precisavam conversar. Sabia o quanto a irmã sentia a falta dele e não queria deixá-los constrangidos com sua presença. Pediu licença educadamente e foi até o apartamento de Andrew. De uma forma ou de outra, saberia de tudo mais tarde.
Alguns minutos em silêncio, apenas e Steve olhando um para o outro, felizes por finalmente terem se reencontrado. Abraçaram-se novamente, de uma forma mais calma e amorosa. Ambos queriam apenas sentir a presença um do outro. A emoção era tanta que não conseguiu segurar as lágrimas. Foram tantas emoções em tão pouco tempo, algumas semelhantes, outras nem tanto, que aquela parecia ser a única reação plausível ao momento. Steve sentiu as lágrimas da menina em sua camisa e de forma lenta, com as duas mãos, puxou o rosto de sua amiga até que a mesma estivesse lhe olhando

— Ei, eu estou aqui, sua irmã está aqui… Acabou. — Sorriu, dando um beijo leve em sua bochecha, de modo que seus lábios ficaram úmidos devido a presença das lágrimas. Aquele toque, tão carinhoso e íntimo, apenas fez com que chorasse mais. Uma mistura de saudades, alívio e… Frustração. Steve a ajudou a sentar no sofá, que estava próximo de ambos, mas ainda manteve aquele abraço, tentando consolá-la. Estava feliz, mas ao mesmo tempo um pouco tenso. era capaz de sentir a tensão emanando do corpo dele. Logo estava mais calma, já não chorava, então Steve achou que seria o momento de iniciar uma conversa. Separou-se um pouco dela e acomodou-se melhor no sofá, ato que foi espelhado por ela. — Foi difícil, mas nós conseguimos. Houveram momentos em que achei que não iríamos conseguir, mas tivemos muita ajuda… Eu peço desculpas pelo tempo que passei sem te dar notícias, era tudo muito complicado, algumas coisas que eu também não podia compartilhar… Mas acredito que tenha valido a pena. — ele acreditava que a volta da irmã, sã e salva, fosse capaz de amenizar a raiva que possivelmente ela sentiria dele. sorriu ao entender o que ele queria dizer.
— Você não precisa se explicar, Steve. Confesso que em alguns momentos fiquei com raiva pela falta de notícias, mas eu sabia que você estava em algo grande, que não podia deixar de lado. Eu entendo agora o motivo e está tudo bem. Só estou feliz em te ver bem, em ter você aqui. — Era bom ouvir aquilo, saber que tinha o apoio dela. Mas não conseguiu não se sentir culpado com o que viria depois. Precisava de mais alguns minutos para conseguir falar o que o futuro o esperava. Pensou ser melhor conversar sobre como estavam as coisas, o que aconteceu no tempo em que estava planejando as ações junto de seus companheiros… Sobre Bucky. Contou como ficou feliz em vê-lo, mesmo que durante a batalha. Se tivesse morrido naquele instante, morreria feliz sabendo que haviam sido vitoriosos daquela vez.
— Nós conversamos bastante, apesar de termos passado tanto tempo longe um do outro, parece que nossa amizade sempre é a mesma. Eu dou trabalho e ele aparece para me ajudar. Ele ficou feliz em saber que eu consegui novos amigos. Eu espero que ele faça o mesmo, apesar de saber que para ele é tudo um pouco mais complicado. — prestava atenção em todos os detalhes daquela conversa. Havia sentido tanta falta de ouvir aquelas histórias… Ouviu também sobre o restante das pessoas com a qual o homem convivia que voltaram. Ouviu sobre Sam Wilson e o seu humor inabalável, mas também ficou triste ao saber sobre a morte de Natasha. Ela era muito especial na vida de Steve, esteve com ele naqueles longos cinco anos e deu a vida por algo maior. Conseguia entender a sensação de perda que também estava presente nele, apesar da felicidade. Perder alguém especial nunca será fácil.
Ambos perderam a noção do tempo em meio aquela conversa, sentia que a cada minuto que se passava, Steve estava um pouco mais perto de contar o que o deixava tenso. Não queria pressioná-lo, mas estava começando a sentir medo pelo que viria.

— Eu tenho algo que preciso te contar. Não podia deixar de te ver, antes que acontecesse. Eu… tenho uma última missão. Preciso devolver algumas coisas que utilizamos para conseguir desfazer toda essa bagunça que o Thanos provocou, para que fiquem seguras. E quando finalizar… — Parou momentaneamente, com o seu olhar fixo no da mulher à sua frente. Era difícil, muito difícil. Mas precisava daquilo. Passou tantos anos fazendo o melhor para as pessoas e aquela era a sua chance de fazer algo para si mesmo. — ... Eu vou poder voltar no tempo, voltar para a minha época e viver a vida que deveria ter vivido. — Conseguiu acompanhar as reações de . Primeiro surpresa, depois estranhamento, seguido de uma tristeza profunda, acompanhada de lágrimas que ela não conseguiu segurar. Estava quieto, não sabia o que dizer sobre isso, precisava ouvir a voz dela, saber o que estava pensando. De alguma forma, Steve precisava tanto da aprovação de quanto da de Bucky. Estava nervoso, pensou em falar alguma coisa, mas não sabia o que. Antes que conseguisse raciocinar apropriadamente, falou:
— Steve, eu sei o que está pensando lá no fundo e preciso que acredite quando digo que você não está sendo egoísta, de forma nenhuma. Eu entendo o motivo pelo qual pode estar pensando isso, já que viveu toda a sua vida em função de um bem maior, mas você, mais do que qualquer um, merece ser feliz. Eu não consigo saber exatamente como você se sente, já que estar em um tempo diferente do que eu deveria estar é algo que nunca vivenciei, mas eu sinto o quanto isso é complicado pra você. Apesar de tudo, você perdeu a vida que você poderia ter tido, mesmo que não haja certeza de que vai ter. Isso só te torna humano. Você tem a chance de voltar ao local certo, a chance de seguir com os “e se” que você nunca conseguiu tentar. Você nunca esqueceu a Peggy. Se há uma chance de você voltar e conseguir ir àquele encontro que combinou com ela, mas não conseguiu aparecer… Vai. Só vai. — As lágrimas que escorriam de seus olhos eram uma mistura de vários sentimentos.

Saudade antecipada, ausência de alguém importante… Mas havia também aquela pontada de ciúmes. Steve iria voltar para onde pertencia. Iria ter a vida que sempre mereceu. Iria voltar para Peggy… Era egoísmo demais, ela tinha consciência disso, mas desejou, mesmo que por alguns segundos, ser Peggy e saber como era ter todo o amor de Steve. Um amor que supera barreiras físicas, barreiras temporais. Queria ser a Peggy para ele, queria que ela fosse o motivo pelo qual ele voltaria, ou ficaria. Mas não era. Tudo ficaria bem, ela sabia disso. Mas iria doer por algum tempo. Ele merecia isso. Apesar do egoísmo em quere-lo para si, sabia que ele merecia e queria que ele fosse feliz. Levantou e virou-se de frente para o homem. Limpou as lágrimas que insistiam em cair da melhor maneira que conseguiu e puxou as mãos de Steve para si, que seguido por aquele toque macio, levantou-se e continuou olhando para ela. Steve não sabia como responder aquelas palavras, sabia que era uma pessoa maravilhosa e que sempre o amou, sempre desejou o seu bem, mas aquilo superou todas as suas expectativas. Viu que ela iria falar novamente e apenas esperou.

— Eu quero te pedir desculpas, antes de tudo. Você se tornou uma pessoa muito especial pra mim, Steve. Dói demais estar aqui, depois de tudo e saber que isso é um adeus. Mas eu preciso de uma última memória sua. Uma coisa que eu preciso guardar em mim. Eu sei que vai ser uma ação egoísta, mas eu realmente preciso disso... — Steve franziu o cenho, não conseguindo entender muito bem aquela mensagem, mas tudo parou a partir dos poucos segundos de silêncio, após aquela fala ser proferida.

Viu a menina ficar, lentamente, na ponta dos pés, o que os fez ficar quase que na mesma altura, se olhando mais intensamente do que jamais haviam feito. Sentiu as mãos delicadas subindo por seus ombros, chegando a seu pescoço e alí ficando. Ele estava sem ação, não conseguia se mover, mas também não conseguia parar aquele contato visual. Sentiu um leve arrepio quando sentiu seus narizes se tocando e quando percebeu os olhos dela se fechando lentamente, sabia o que estava acontecendo. Os lábios dela tocaram os seus em um selinho longo, mas cheio de sentimentos. Os lábios macios e as mãos delicadas dela, agora nas laterais de seu rosto, como se estivesse temerosa a respeito da reação dele. O beijo foi retribuído, os lábios abrindo em sincronia e movimentando-se lentamente. fez de tudo para prestar atenção a todos os detalhes daquele momento. As mãos dele que pousaram respeitosamente em sua cintura, o corpo mais junto ao seu, a língua quente buscando o contato da sua. A pele de seu rosto sob a palma de suas mãos. Queria aquela última lembrança dele e ficou aliviada quando não o viu recuar.
Steve não soube direito por quanto tempo ficaram unidos naquele beijo de despedida. Poderiam ter sido horas, mas poderiam ter sido segundos. Quando o contato foi cortado por , unindo ambas as testas, Steve pensou que seria o momento de falar algo. Era injusto abandonar assim, mas ela sempre soube de seus sentimentos, nunca os deixou escondidos. Estava com medo do que aconteceria após a sua partida. , por outro lado, já sendo capaz de sentir a aura de remorso que Steve emanava. Ele precisava ir e ela precisava deixar que partisse.

— Steve, eu não quero que você fale nada, eu não quero que continue com esse remorso que eu sei que você está sentindo agora. Você nunca me passou a ideia errada, sempre foi o amigo maravilhoso que todo mundo deveria ter. Não quero que pense que isso foi uma forma de tentar te fazer ficar, não quero que interprete dessa forma. Foi só uma coisa que eu precisava fazer antes de você partir. Não fala nada, por favor… Você já me contou tudo o que deveria contar, você sabe que eu só quero que você vá e seja feliz, seja o mais feliz que conseguir. Vai atrás dela, fica com ela. Você precisa descansar e fazer algo por você. Só… Vai. Você me ensinou muita coisa e eu agradeço por isso. Eu vou ficar bem, o Bucky vai ficar bem. Todos vamos ficar bem. — Ela abriu os olhos e assim que viu Steve fazer o mesmo afastou-se, nunca quebrando o contato visual. — Vai. E vai lembrando que você só deixou coisas boas por aqui. Você me ajudou e ajudou outras milhares de pessoas. Eu amo você. Agora vai! A sua vida está te esperando em algum lugar no tempo. — Ela afastou-se de Steve após pronunciar aquelas palavras.

Ele passou alguns segundos absorvendo tudo o que aconteceu naquele apartamento, lembrando dos momentos bons, dos momentos ruins… Nunca havia conhecido alguém tão bom como ela e sabia que jamais a esqueceria. Entendendo que aquela foi a sua deixa, que silenciosamente havia mostrado que nada mais precisava ser falado, Steve levou sua mão direita até a lateral do rosto dela, apreciando o sorriso que ela mostrava, mesmo em meio às lágrimas. Fez um carinho em sua bochecha, admirando-a. Sorriu de volta, sabendo que seu rosto já estava tão molhado de lágrimas quanto o dela. Após quebrar aquele leve contato no rosto da menina, rumou em passos incertos na direção da porta e se foi. O som da porta fechando e dos passos cada vez mais distantes foram a deixa para que a mulher libertasse todos aqueles sentimentos de uma vez. Estava entregue ao sentimento de um coração quebrado. Mesmo com toda a consciência de que aquele nunca foi um sentimento retribuído da mesma forma, não conseguia anular tudo o que sentia. Não percebeu Evolet retornando, apenas sentiu o abraço tão conhecido e tão necessário naquele momento. Havia aprendido a viver os sentimentos, não ignorá-los e sabia que para cada perda, havia um tempo de cura. Aquilo passaria e ela sabia que ficaria bem. Apesar de tudo, era grata por tudo o que Steve trouxe à sua vida. Trouxe uma amizade verdadeira, companheirismo e lembranças que estariam com ela até o fim de sua vida. Tinha sua irmã, a sua metade, seus amigos e a si mesma. O tempo iria se encarregar de aliviar as dores.

Alguns meses depois…

As dores estavam menores, a vida estava tentando se ajustar novamente ao retorno daqueles que achavam que haviam partido para sempre. Não era um mar de rosas, mas precisavam continuar. Para , pessoalmente, sua vida estava calmamente retornando ao normal. As amizades continuavam, sua irmã estava conseguindo readaptar-se a um mundo que havia se adaptado à sua ausência, seus amigos Andrew e Anne iriam finalmente se casar. Eles haviam até adotado um gatinho que encontraram abandonado junto ao portão do prédio enquanto voltavam para casa após o trabalho.
No dia em particular, estava preparando o jantar enquanto Evolet estava no banho, fazendo o barulho usual que era capaz de ser ouvido no apartamento ao lado. Estava tão concentrada na cantoria da irmã, que quase não ouviu as batidas na porta. Precisou gritar para que a gêmea parasse de cantar e já estava preparada para pedir desculpas caso fosse algum vizinho reclamando do barulho, mas, quando abriu a porta, as palavras se perderam em seus lábios da mesma forma que o ar lhe abandonou por alguns segundos. Sabia quem era aquele que bateu em sua porta momentos atrás, era capaz de identificá-lo devido a todas as descrições precisas que Steve fazia do mesmo e todas as fotos que lhe foram mostradas. Bucky Barnes estava alí, na sua frente, parecendo um tanto quanto desconcertado, sem saber como agir.

— Você é a ? — Estava com medo de entregar o envelope para a gêmea errada. Não que pensasse que era um grande segredo, mas queria garantir que chegasse primeiro nas mãos dela, como solicitado por Steve.
— Sou sim. Você é o James, certo? O Steve falou muito sobre você… — Sorriu para ele, que retribuiu um pequeno sorriso e olhou para o chão.
— Bucky. — Preferia ser chamado pelo apelido, mas entendia que era uma questão de educação chamá-lo de James.
— Desculpa… Você quer entrar? Tomar um café ou uma água? — falou já abrindo totalmente a porta, mas Bucky negou. Estava alí por Steve e sabia que ela precisaria de tempo depois que lhe entregasse o que precisava. Explicou brevemente sobre como o homem havia lhe deixado o endereço dela e solicitado que aquela carta fosse entregue por ele diretamente a . Carta… viu o envelope pardo nas mãos dele assim que chegou, mas não esperava que fosse algo relacionado a Steve. Assim que tocou naquele papel, sentiu toda a nostalgia que era pensar nele. Por alguns segundos, enquanto segurava a carta em suas mãos, olhou para Bucky e pôde sentir que ele também sentia falta de Steve e que lhe entregar aquilo não era fácil.
— Você vai ficar bem? — Ele realmente estava preocupado com ela. Sentiam que havia um vínculo invisível entre os dois, criado por Steve. Ambos sabiam um do outro sem nunca haverem se conhecido. acenou que sim com a cabeça, sabia que não precisavam de palavras.
— E você, vai ficar bem? — Precisou retribuir aquela pergunta. Ele não parecia bem, parecia muito longe disso, mas eram dois estranhos com uma ligação criada por um terceiro. Não sabiam direito como agir, era uma situação completamente nova. Bucky olhou de volta para ela por alguns segundos, deu um sorriso sem ânimo e foi embora. Precisava deixá-la sozinha, precisava ficar sozinho.

Ao retornar para o seu apartamento e fechar a porta, olhava novamente para aquele envelope retirando dele a carta e prestando atenção a todos os detalhes daquele papel em suas mãos, vendo com a caligrafia perfeita de Steve os dizeres:
“Para . De seu velho amigo Steven”.
Sentou-se na poltrona que havia em sua sala, ao lado do sofá. Aquela em que Steve gostava tanto de sentar quando estavam ali reunidos, quando parecia tão pensativo, absorto em pensamentos… Não conseguiu deixar de sorrir, mas também sentia o amargor das lágrimas nos seus olhos. Ela nunca o esqueceria, não apenas por ter desenvolvido um sentimento a mais, mas também porque o mundo era um lugar melhor com Steve Rogers. Ele merecia toda a felicidade que a vida pudesse lhe proporcionar. Deixou os pensamentos egoístas de lado, pois não a levariam mais a nada naquele momento. O tempo estava curando aquela ferida, mas deixando o doce sabor de ter sido por algum tempo uma pessoa tão importante pra ele, para o seu amigo. O homem seria sempre uma lembrança doce e nostálgica em sua mente, mas ainda sim, seria apenas uma pequena parte de uma vida inteira que havia em sua frente. Sorriu mesmo entre as lágrimas e, com essas memórias em mente, abriu o envelope para ler a última mensagem que Steve havia deixado para ela.



A Doce e Nostálgica Lembrança Que Ele Deixou: A Carta

Sentada naquela poltrona, já com a carta aberta e pronta para ser lida, tentava, a todo custo, prolongar todas as sensações sentidas. Queria aproveitar o momento, aproveitar as lembranças que possuía de Steve, de seu toque, de seu abraço, sua presença, seu beijo. Aquela carta, aquela mensagem, havia decidido, seria o ponto final. Não iria esquecer o homem, nem sua presença. Mas decidiu que seria o fim de um capítulo e início de outro. Todo aquele tempo que passou, desde a despedida até a visita de James Barnes à sua porta, para lhe entregar aquele envelope foram regados a uma nostalgia e uma sensação de sonho, como se Steve Rogers nunca tivesse partido, estivesse apenas longe por um tempo. Era um processo de luto, sabia. Da mesma forma que sabia do que se tratava, sabia também que não poderia deixar de sentir aquilo. Meia década convivendo com alguém, alimentando um sentimento forte e companheirismo não se vão em poucos dias ou meses. Mas ali, segurando aquela carta, ela sabia que era um ponto final. Ela não sabia quando seria, como seria… Sabia apenas que haveria um fim. E ali, em suas mãos, estava.
Evolet, depois que saiu do banheiro, precisou apenas de alguns segundos para entender o que se passava. Aquela carta, sua irmã sentada na poltrona tão simbólica… Ela precisava de privacidade.
Ainda na mesma posição, respirou fundo de olhos fechados, os abriu, finalmente e iniciou a leitura da última mensagem que receberia de Steve.

Querida ,

Não sei se possuo o direito de deixar essa carta para você, todos esses sentimentos que guardei por tantos anos..., Mas, em meu íntimo, acredito que seja necessário. Você foi, para mim, uma luz em meio a toda a perda e escuridão que tomava conta naquela época. Eu tinha amigos, tinha o grupo de apoio, mas sua presença e o seu amor, sua essência, me resgataram a sensação de lar. Com você, eu era apenas o Stevie. Você resgatou em mim tudo aquilo que foi perdido, no congelamento, nas batalhas perdidas. O que há dentro de você é o mais puro sentimento, uma pessoa que é capaz de fazer tudo por aqueles que ama. Você, em muito, sempre me lembrou o Bucky. Duas pessoas que, apesar de todo o sofrimento pelo qual passaram, transmitiam luz e leveza para as pessoas mais próximas. Estar perto de você foi o que manteve minha sanidade nos momentos mais difíceis após o blip. É engraçado como mesmo sem nunca haverem partilhado momentos, ambos conhecem um ao outro. Sei que falei dele incansáveis vezes, acho até que você o conhece na mesma proporção que eu. Acredite, o mesmo se passou do outro lado. Falei tanto sobre você, sobre nossas noites apenas matando o tempo, os sábados obrigatórios em que conversávamos horas e horas… Chegou um momento em que eu apenas pude culpar a idade para fazê-lo aguentar as repetições incessantes.
Eu sinto que te devo desculpas, mas não estou aqui escrevendo na esperança de que a obtenha. Não foi justo com você, desenvolver um sentimento tão profundo e ao final, me ver voltando para algo que eu jamais pude esquecer. Haviam sentimentos por você, quero que saiba disso. Em outra época, em outras situações, você, , seria aquela que me faria ficar. Infelizmente, a vida nos pregou peças, me tirou da minha vida e me jogou em outra. Os fantasmas do passado superavam todo o presente. Haviam, em mim, dois Steves. Aquele que queria viver a vida que lhe foi negada e aquele que queria continuar onde lhe foi colocado. Naquele momento, eu fiz o que achava ser o certo. E o foi. Eu fui feliz, vivi com plenitude e, no momento certo, voltei para finalizar os assuntos que deixei em aberto. Há um legado que precisa ser passado para as mãos de um bom homem, há um amigo que precisa do meu apoio e uma mulher maravilhosa, que merece esse ponto final.
Essas palavras não têm o intuito de mostrar para você o quão feliz eu fui ou o quão certa foi a decisão que tomei. Eu quero que você, , viva. Eu fui apenas uma pequena parte da sua vida. Sei que você terá para sempre nossas memórias, nossos momentos e aquele beijo, aquele primeiro e último beijo. Mas essa foi apenas uma parte de tudo o que está por vir. Você é esplêndida, nunca deixe ninguém te fazer acreditar o contrário. Tudo o que eu desejo para você é que continue irradiando este esplendor à sua volta, fazendo bem às pessoas que precisam e amando quem precisa ser amado. Você merece ser feliz, viver com plenitude. Haverá outro amor em sua vida, algo que superará tudo o que eu sei que você sentiu por mim. Essa pessoa será a mais sortuda do mundo. Essa pessoa irá encontrar uma mulher completa, que não precisa de ninguém para afirmar sua existência, que escolherá partilhar a vida por amor. Ame, . Não apenas romanticamente, mas de todas as formas possíveis e desejáveis. Cuide da Evolet, do Andrew, da Anne. Eles têm sorte de viverem na mesma época em que você, de partilharem a vida junto de você.
Entendo que, nesse momento, você já compreendeu que eu voltei para os dias atuais, em algum momento. Deve estar se perguntando o motivo pelo qual eu não fui até você. Não era justo. Apesar de justificáveis as minhas questões, eu te abandonei com um sentimento e, mesmo que houvessem passado anos para mim, para você foram poucos meses. Seria reabrir uma ferida não cicatrizada. Ao ler essa carta, preciso que você saiba que eu já não estou mais aqui. Isso significa que a minha existência como ser humano chegou ao fim. Uma carta foi a maneira menos dolorosa que encontrei para te contar isso. Como mencionado anteriormente, você merece, mais do que ninguém, esse ponto final.
Eu nunca, jamais, deixei de amar você, embora, esse amor não estivesse materializado da forma como deveria. Todos os sábados, até o fim, eu recordava de todos os nossos momentos. Minha família, em tributo, criou uma tradição parecida. É engraçado como, mesmo estando preso em um tempo e sabendo que o certo a se fazer era voltar, ao alcançar esse objetivo, senti falta do tempo em que você pertence. O que eu quero, com todas essas palavras, , é pedir o seu perdão. As coisas poderiam ser diferentes, mas aconteceram da forma como era necessário. Estou aqui, um velho chato, repetitivo e resmungão, mas que jamais esqueceu da sua e de todo o amor que me foi dado por ela. Quero também te pedir outra coisa, mesmo sabendo que você não tem obrigação de nada e que é um pedido difícil e complicado, mas sei que você irá fazer o possível… O Bucky, apesar de estar livre de todo o controle mental, ainda sofre com tudo o que fez, mesmo que no fundo ele saiba que não era ele naquelas situações. Ele precisa de uma amizade como a sua, alguém que seja luz para clarear a escuridão que há na cabeça dele. Eu sei exatamente o que aconteceu, no momento em que ele te entregou a carta, a falta de abertura, a discrição e o distanciamento dele. Por favor, tente uma aproximação. Tente ser para ele o que você foi para mim. Ele se perdeu em meio a todo esse sofrimento, esqueceu da pessoa maravilhosa que é, do amigo que sempre foi. Sua luz é capaz de mostrá-lo o que está escondido. Eu sei que você é uma das únicas pessoas capazes de fazer isso, , pois foi o que você fez comigo. Finalizo aqui tudo o que guardei por anos em minha mente, esperando que você fique bem, viva bem e que a vida seja tão boa para você quanto você é para o mundo.

Com todo o carinho e amor do mundo, esperando que você se sinta abraçada após essa carta,
Steven Grant Rogers


releu aquela carta incontáveis vezes. Podia sentir todo o amor empenhado naquelas palavras. Era como se, literalmente, ele estivesse na sua frente, com aquele vinco no meio das sobrancelhas, os olhos azuis brilhantes, olhando diretamente para os seus e, segurando suas mãos, ao proferir aquelas palavras. Steve era amor, era acalento, era paz. O mundo não o merecia. Estava feliz por saber que finalmente ele viveu o que merecia, o que lhe era por direito. Essa, por fim, era a fase final do luto. A aceitação. Naquele momento, após ler e absorver todas aquelas palavras, aceitou que o seu tempo com Steve havia passado, seu sentimento estaria sempre ali, no fundo, como uma doce memória de tempos que não voltarão. Mas há um futuro, uma vida, e, além de tudo, uma missão. Ela dobrou cuidadosamente aquela carta, colocando-a de volta no envelope. Guardaria para sempre, até os últimos dias de sua vida. Não conseguia imaginar algo menos poético vindo de Steve, do seu Stevie. Ela faria tudo aquilo que estava na carta. Ela amaria, ela viveria, cuidaria dos seus e lutaria para ser feliz, mesmo em meio ao caos. Ela procuraria por Bucky Barnes e faria todo o seu melhor para que ele fizesse o mesmo. Ele precisava de alguém, alguém que não desistisse dele, que o entendesse. o conhecia, e, como Steve mencionara, ele a conhecia também, apesar de que por intermédio de um terceiro. Steve Rogers, o Capitão América, ou apenas o Tevie, seria honrado e sempre lembrado.
A mulher perdeu a noção do tempo, de quantos minutos ou horas passou ali, apenas perdida em pensamentos, absorvendo tudo, pensando em tudo. Sentiu os braços da sua irmã a envolvendo, mostrando apenas que estava ali presente. O abraço foi retribuído. agora seguiria em frente, daria início ao resto de sua vida.

Um ponto final, para dar início a um novo parágrafo.



Continua...





Nota da autora: Um capítulo pequeno, mas que eu achei extremamente carregado de sentimentos. A Violet precisava desse ponto final, assim como o Steve precisava tirar esse sentimento de culpa que ele carregou por tantos anos. É bom saber que, apesar de “till the end of the line” não ter se concretizado em carne e osso, foi uma promessa mantida pelo Steve, que fez questão de voltar, passar um tempo com o Bucky e pedir para a Violet se aproximar dele. Não creio que seria uma tarefa fácil, mas ela é capaz e sei que o ajudaria demais. Fica a critério da imaginação de vocês essa aproximação. Como seria? O Bucky permitiria essa aproximação com facilidade? Ele ia ser difícil? Eles seriam muito amigos? Espero que tenham gostado e lembrem-se que nem só de tristeza e partidas vive ODP, pois o refresco vem. ;)



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