Paralisia

Última atualização: 29/01/2021

Prefácio

SETEMBRO, 1937
Verona, Itália.


O inverno dominava aquela noite, em meio aos pequenos flocos de neve. Um véu intenso de neblina recaiu em volta da enorme floresta, cobrindo a escuridão que ali habitava entre a pequena nevasca, tornando o ar ainda mais perturbador para o garoto que continuava sua corrida.
Os flocos de neve caiam à sua volta, a nevasca estava apenas no começo naquela noite. O frio predominava no local ainda mais forte, mas mesmo assim ele não parou. Seus passos se mantinham acelerados enquanto seu coração batia mais contra o seu peito, o sufocando. As botas afundavam na neve enquanto o enorme casaco negro se tornava ainda mais gélido em seu fraco corpo.
O garoto se apoiava entre as árvores enquanto seus lábios tremiam junto ao seu corpo. Os olhos recaíram em suas mãos, que se encontravam agora totalmente irreconhecíveis, sentindo os dedos se misturarem com o sangue metálico proporcionado pelo seu ato de momentos antes. Ele sentia sua visão nublada por conta da intensidade que dominou todo aquele tempo. Kentin continuava correndo em desespero, mas ele sabia que nada ia salvá-lo da sua própria mente.
As árvores surgiam cada vez mais e o vento assoprava as folhas pelo ar. O garoto sentia dificuldade para respirar e também em tentar controlar o que estava sentindo naquele momento. Ele tinha gostado e isso era o que mais o assustava. Era só ele se lembrar do corpo morto, em como estava satisfeito em tê-lo tirado do caminho. Ele sabia que sua ganância ia levá-lo a algum lugar, mas não imaginava que iria tão longe.
Eles eram amigos, melhores amigos. Costumavam dividir tudo, guardar segredos, os piores deles. Não era para aquilo acontecer, mas ele sabia o porquê de aquilo ter saído tudo de seu controle.
Ela.
Ele sabia que ela era problema para os dois quando seus olhos e do outro garoto se colocaram na pequena garota dos cabelos ruivos. Naquele momento, Kentin sentiu que ela iria dividir a amizade deles e fazer tudo virar uma grande tormenta como ele tanto temia. A obsessão começou a ficar presente, assim como o descontrole depois de descobrir a escolha dela, que não havia sido ele.
Algo começou a surgir dentro dele como um furacão, que começou a abalar todo o seu sistema. A dor, o ódio, a rejeição, tudo começou a rodar em sua mente. Ele não se reconhecia mais, os sussurros desconhecidos e o que eles falavam, o incentivando, o que ele devia fazer. Sua consciência começou a se esvaziar lentamente até que ele, aos poucos, começou a se perder neles.
Kentin olhou para o céu coberto pela neblina, escondendo as poucas estrelas que ali tinham. A arma ainda se mantinha em uma de suas mãos coberta pelo sangue enquanto ele começou a perder as forças dos próprios pés, caindo de joelhos no chão entre a neve. Com pesar, ele suspirou e tentou buscar algum arrependimento para o que fez, mas não havia nada.
Seus olhos se mantinham paralisados no chão, observando o tom vermelho pintando a neve. No entanto, suas mãos se mantinham em punho com o maxilar completamente travado. De longe se podia ouvir o som de galhos quebrando enquanto passos começavam a se aproximar de onde ele estava. O garoto segurou a respiração, olhando o revólver em sua mão, entre o punho, mas apenas se manteve paralisado.
Aos poucos ele pôde notar vários pares de botas ao seu redor, formando um círculo e o cercando. O sangue de Kentin gelou, assim como a neve, quando um dos pares de botas começou a se aproximar do seu corpo e, com rapidez, o socar. O rosto do garoto se virou, o fazendo tossir enquanto o grupo de garotos mais velhos compartilhou o ódio, o observando.
– Maldito! – um deles gritou enquanto começou a socá-lo várias vezes, mas Kentin não revidou a nenhum momento. – Mil vezes maldito. – Os gritos de ódio aumentavam, mas o garoto mais novo apenas ficou em silêncio, sentindo o seu corpo adormecer pela dor. – Vou te matar! – O rapaz loiro o puxou pelo casaco, fulminando-o com os olhos enquanto Kentin o observava com nenhuma expressão no rosto. – Seu bastardo de merda. – murmurou, segurando o maxilar do garoto mais novo com força, o fazendo gemer de dor. – Maldito doente! Irei te queimar no inferno pelo que fez.
Socos eram dados no rosto do garoto enquanto ele ainda se mantinha paralisado, sendo alvo das agressões do outro garoto à sua frente.
– Você matou o meu irmão. – O mais velho rosnou enquanto Kentin abriu um sorriso largo, observando a face dolorosa do garoto, fazendo-o se sentir ainda mais diferente por isso.
– E-ele foi tarde – Soltou, assim que olhou nos olhos do mais velho que, com uma rapidez, o socou com mais força.
– Você vai pagar, Marlow. Nem a morte vai te livrar do que irei fazer você passar dessa vez. – Ele o derrubou, fazendo com que caísse no chão com força enquanto sangue saía entre seus lábios.
– Irei ferrar tanto com o seu rosto que ninguém irá suportar olhar pra você. – Ele pegou a faca no bolso do sobretudo, olhando em seus olhos tão negros como carvão e agarrando o garoto mais uma vez, só que dessa vez pelo pescoço. – Mas sei que nem irei fazer tanto esforço assim. – O mais velho sorriu friamente quando começou a deslizar a lâmina da faca na pele do garoto, o fazendo gritar. – Você já é ferrado de nascença, uma carne podre no mundo. O meu irmão foi um tolo por ter confiado em um lixo como você.
E, com isso, os golpes na pele começaram com força, fazendo Kentin gritar com ódio enquanto o garoto mais velho praticava sua sede de vingança.
– Os corvos irão se arrastar enquanto comem sua carne, e lá você se juntará com o inferno. – O garoto loiro gritou, alterado, fazendo sua voz ecoar entre os troncos das árvores.
Kentin caiu novamente no chão, só que agora completamente inconsciente enquanto o garoto mais velho o olhou com desdém, cuspindo em seu corpo com um ódio profundo e torcendo para que aquela nevasca fizesse o trabalho de tirar a sua vida enquanto ele se afastava relutante com o grupo, para fora da floresta.
O frio, durante o tempo, começou a ficar mais intenso na floresta e a neve cobriu o garoto pela metade, deixando o seu quase falecimento mais notável enquanto milhares de corvos negros se aproximavam em sua direção. O seu sangue ainda deslizava na neve, ele se mantinha paralisado, com os olhos abertos e vidrados na luz da lua, que brilhava em sua direção junto aos corvos naquela noite.


✞ ✞ ✞

Capitolo Primo: Além da Colina

Anos Depois...

"Tudo vai ficar bem, vai ser melhor pra você...". As palavras da minha avó ainda rodavam minha mente após longas horas se passarem, assim que entrei naquele automóvel, onde partimos pela primeira vez depois de tanto tempo. Estava no banco de trás, imóvel, segurando um dos meus livros que ela sempre dava quando chegava meu aniversário. Ela adorava me presentear com eles e, às vezes, eu a culpava por ter me viciado em cada um.
Observei no lado de fora da janela a velocidade em que o veículo nos levava enquanto analisava o clima péssimo que se mantinha entre nós. As nuvens se uniram ainda mais e alguns trovões quebravam o céu naquela tarde de sábado. Parecia que iria chover, o sinal era meio óbvio, e logo as gotas de chuva começaram aparecer, deixando o tempo ainda mais monótono.
Encostei-me ao vidro da janela, me encolhendo ainda mais no cachecol de lã em meu pescoço, tentando me livrar do frio, mas meu nariz se mantinha gelado pela pressão forte do inverno que era proporcionado por aquele lado, distante de onde morávamos. Fechei um pouco meus olhos enquanto ouvia a minha avó cantarolar no banco da frente algumas das suas músicas favoritas em um sussurro, se misturando com o som sonoro da chuva. Meu avô, no entanto, mantinha os olhos sobre a estrada com o semblante cansado e fechado, como sempre.
Eu sabia para onde iriam me levar, minha avó tinha deixado claro antes de sair e eu não estava nem um pouco animada com isso, principalmente no dia do meu aniversário. Era só pensar em agulhas na minha pele e naqueles lugares frios e sem vida que já sentia o estômago se embrulhar completamente Mas eu sabia, como todas as vezes, que não teria escolha, era o melhor para mim e, como sempre, eu necessitava deles para sobreviver, assim como aquelas infelizes agulhas e comprimidos de remédio.
Uma visita ao médico não faria mal, alguns dias em uma clínica não pioraria o meu estado, certo? Iria apenas me ajudar, assim como todas as vezes que tinha que ser consultada por um deles. Eles apenas iriam tentar me ajudar. Às vezes a proteção deles me sufocava, e ainda mais quando eu não podia ter alguma escolha. Tentava não odiar tudo aquilo, mas não suportava ficar dependendo o tempo todo de alguém, sem poder se ajudar porque era incapaz, porque para todos você era muito frágil. A maior parte da minha vida eu tentava não ligar, mas tudo começou a piorar durante o tempo. Quanto mais eu crescia, mais me sentia mal em meu próprio corpo.
Voltei abrir os olhos quando senti um barulho forte no lado de fora, direcionado ainda mais pelo som agonizante dos trovões, e meus olhos começaram a viajar para os lados até analisar o ambiente onde estávamos naquele momento. Era uma passagem de terra, não havia mais estrada e varias árvores começaram a surgir por aquele caminho, no entanto, o local se mantinha mais escuro pelo tempo.
O céu por aquele lado parecia voltado ao noturno, as árvores não pareciam ter vida, eram apenas em forma de galhos sem nenhuma folha sequer para demonstrar juventude, eram mortas e secas, sem nenhuma tonalidade, deixando aquele ambiente ainda mais desconfortável. Senti que minha respiração começou a ficar pesada e que o veículo se tornou ainda mais frio conforme ficávamos mais próximos do caminho. Apertei com força meu livro com as mãos quando o automóvel parou de repente, me dando a ilustre visão de um portão enorme de ferro que barrava a nossa passagem.
Suspirei e ouvi meu avô dar um resmungo baixo e abrir a porta do automóvel, começando a correr em desespero e puxar os portões com força, o abrindo. Ele logo voltou ao seu assento e continuou a dirigir com mais pressa pela passagem. Assim que entramos nada parecia ter mudado, aquele caminho começou a ficar mais longe, como se o mesmo fosse um labirinto em forma de árvores enquanto mais neve parecia surgir em meu campo de visão. Senti que o automóvel começou a deslizar várias e várias vezes até que o motor do mesmo estivesse forte o suficiente para que ele conseguisse se mover mais rápido.
Quando enfim o mesmo parou definitivamente, senti que tínhamos chegado ao destino, então meu avô saiu novamente do veículo, abrindo o seu guarda chuva. Ele começou a se distanciar de onde eu e minha avó estávamos, no silêncio, e caminhou até a enorme porta que parecia pertencer à clínica, começando a bater nela várias vezes sem nenhuma paciência até que ela enfim fosse aberta, dando a visão de uma silhueta feminina.
Meu avô pareceu ter uma breve conversa com ela enquanto se mantinha de costas, com o seu enorme guarda chuva negro cobrindo um pouco o rosto da mulher à sua frente. Ajeitei-me no banco, no entanto, ouvi minha avó suspirando, cansada pela viagem, fazendo que eu piscasse os meus olhos para todos os lados, analisando o enorme edifício. A clínica era enorme e tinha uma pintura preta e cinza, e possuía várias janelas por todo lado, me fazendo imaginar que lá havia muito cômodos espalhados. Raspei os meus dedos pela janela úmida do automóvel, analisando ainda mais a imagem à minha frente.
De repente, enquanto observava, algo apareceu rapidamente como uma sombra, me fazendo estreitar os olhos em sua direção. Parecia ser uma silhueta preta no interior da enorme janela do andar de cima, ela parecia bem focada, me observando enquanto transparecia apenas um borrão que cobria sua face por completo. Ela não se movia, apenas se mantinha paralisada, me analisando entre a sombra daquele cômodo e fazendo com que meus músculos endurecessem rapidamente. Meus lábios começaram a tremer do nada, mas eu ainda continuava com os olhos fixos naquela sombra da janela.
Fiquei um bom tempo o observando, como se não conseguisse desviar os olhos daquela figura que se mantinha parada no mesmo lugar. No entanto, o contato foi cortado assim que meu avô abriu a porta do passageiro e me analisou, ainda segurando seu enorme guarda chuva em mãos.


✞ ✞ ✞


, essa é a senhora Wood. — Meu avô murmurou enquanto eu analisava a mulher sorridente à minha frente.
Ela era alta, os cabelos incrivelmente castanhos que chegavam até os ombros, assim como seus brilhantes olhos cor de avelã, que me analisavam detalhadamente do mesmo modo como que eu a analisava naquele momento. Ela parecia beirar os vinte e poucos anos e possuía uma beleza fora do comum. Vestia um terno feminino que destacava um pouco suas curvas, assim como saltos negros, e continuava com um sorriso doce em seus lábios avermelhados.
Eu já estava sentada em minha cadeira de rodas e as poucas malas que levei também já estavam dentro da clínica, assim como eu, e se mantinham no chão. Rapidamente avistei uma enorme sala com móveis e cores escuras que me causou uma série de calafrios e, ao lado dela, havia duas poltronas em volta de uma lareira e uma pequena televisão, onde um enorme com corpete cor de vinho se mantinha em cima do piso de madeira. Também no meio da sala havia uma enorme e larga escada, as cores escuras dominavam ainda mais aquele ambiente em que eu estava.
No entanto, senti algo forte me deixando ainda mais nervosa, causando uma sensação estranha e o modo como eu entrei me trouxe peso e desconforto, como se tudo em mim gritasse em desespero pra sair dali o quanto antes.
— É um prazer te conhecer, querida — a mulher disse, simplesmente, enquanto eu tentei sorrir para ela, mas falhei miseravelmente no mesmo instante.
— E-Eu... — Comecei, mas fui cortada rapidamente antes que a respondesse. Meu avô puxou a mulher para outra conversa e, enquanto eles se mantinham distantes, eu os acompanhei com o olhar.
Praticamente no mesmo momento senti as mãos leves da minha avó tocar meu rosto, fazendo que eu a olhasse e prestasse atenção nela, que já estava com cabelos brancos entre os poucos fios ruivos que sempre adorei. Ela me observava com seus olhos azuis brilhantes, as rugas do seu rosto demonstravam a velhice.
— Você sabe o que tem que fazer, não é? — perguntou, me fazendo assentir no mesmo momento. Ela sempre dizia aquilo quando saíamos para algum lugar e queria que eu me comportasse. — Seja uma boa menina, como sempre faz.
Os olhos dela transmitiam tanta emoção, mas tão vazios, me deixando cada vez mais nervosa. Nunca a vi tão triste como estava sendo naquele momento, nem quando ela brigava com meu avô por minha causa.
— Está tudo bem? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta, fazendo a mulher engolir em seco enquanto mantinha seus lábios em uma linha fina.
— Mas é claro que está! — Me lançou um sorriso fraco, fazendo com que eu mordesse minhas bochechas, tentando controlar ainda mais o nervosismo que sentia.
Ela automaticamente se virou na direção de uma das minhas malas, ficando de costas pra mim, e abriu a mesma, fazendo com que eu procurasse meu avô novamente com o olhar, ainda sentindo a respiração acelerada. Ele ainda estava conversando com a mulher dos cabelos castanhos e ambos se mantinham sérios, até mesmo ela, que estava com os braços cruzados na altura dos seios enquanto mantinha o corpo rígido.
— Ele deveria estar aqui, esse foi o trato! — Sua voz pareceu um pouco exaltada, mas em nenhum momento ele se preocupou se eu estava ouvindo ou não aquela discussão repentina.
— Ele teve que tratar de um assunto de última hora, foi inevitável esperar a sua chegada. O senhor sabe muito bem que deveria ter trazido a garota na semana passada, mas falhou com a sua parte, não foi ele — ela murmurou, fazendo meu avô bufar enquanto segurava com força seu guarda chuva, ainda encarando a mulher a sua frente.
— Ela não é mais problema meu — disse enquanto deslizava seus dedos na barba mal feita, fazendo com que meu coração disparasse pelas suas palavras.
— Deveria saber como funcionam as coisas comigo, deixei claro na última vez. — Continuou, fazendo a mulher suspirar e se aproximar um pouco do mesmo. Meu avô a olhou, em desconfiança.
— Essa é a metade, a próxima parte ele dará ao senhor assim que voltar — ela pegou um envelope e ergueu na direção dele, fazendo com que o homem o pegasse e guardasse no bolso de seu sobretudo, levantando uma de suas sobrancelhas.
— Eu disse que não era necessário. — O homem velho murmurou em um som baixo, parecendo nervoso. — Já iria trazer ela para cá, sem que ele me desse algo em troca.
— O senhor sabe como ele trabalha. — Ela lhe lançou um sorriso de lado enquanto eu desviava os meus olhos dos dois, abaixando a cabeça, ainda sentindo meu coração acelerado tal qual minha respiração.
Rapidamente senti tudo rodar e comecei a ficar sem ar enquanto um sentimento negativo surgiu, completamente diferente e desconhecido dos quais eu era acostumada. Aquilo começou assim que notei que meus avós estavam agindo de modo estranho.
— Querida, você está bem? — Minha avó murmurava, preocupada, mas eu não podia dizer nada, apenas conseguia ficar paralisada e sem me mover. Até mesmo minha cabeça doía ao olhar ela, nem eu mesma sabia como tinha ficado daquele jeito.
As vozes começam a surgir assim como o som de passos que seguiam até onde eu estava. Os trovões no lado de fora também, mas eu sabia que nada poderia me manter mais assustada do que estava naquele instante.
— O que houve com ela? — A voz suave da mulher surgiu enquanto eu sentia a mesma se aproximando.
— Eu não sei nunca a vi dessa forma. — Minha avó disse com a voz um pouco falhada, parecendo desesperada.
— É realmente estranho. — A mulher diz como se estivesse me observando, pensativa. Ouvi um som de suspiro enquanto me sentia sendo ainda mais rodeada, sem conseguir ver algo.
— Ela deve estar assustada, nunca a deixamos sozinha como agora. — Meu avô sugeriu com descrença enquanto eu sentia algo queimar dentro de mim.
— Ela também pode estar sofrendo algum tipo de choque. — A voz da senhora Wood invadiu ainda mais meus ouvidos. — Acho melhor já levá-la para cima.
Como se fosse algo que me tirasse das profundezas e até daquela situação na qual eu entrei, comecei a piscar os olhos na direção dos três, sentindo meu coração quase sair pela boca enquanto observando suas faces direcionadas a mim.
Aquilo havia sido estranho.

— Querida, como está se sentindo? — Minha avó murmurou, ainda preocupada, mas eu não conseguia dizer ao certo como me sentia naquele momento, apenas queria sair dali e voltar para casa.
O silêncio começou a se formar naquele ambiente enquanto eu ouvia o som do meu coração. Minha garganta trabalhava, engolindo o nó que se formava.
— Chega, precisamos ir Rose. — Meu avô disse enquanto se virava na direção da porta, ainda segurando seu guarda chuva úmido em uma das mãos.
— Mas calma, Jorge, acabamos de chegar e... — Ele a interrompeu com um olhar rígido, fazendo com que ela abaixasse a cabeça rapidamente.
— Entendo. — A mulher dos cabelos castanhos se aproximou de mim, tocando a cadeira de rodas e me fazendo estremecer.
— O Doutor irá te deixar a par de tudo o quanto antes, principalmente do tratamento. — Ela murmurou, começando a me puxar para junto de si.
— Creio que não será necessário. — Meus olhos saltaram, fazendo com que eu o olhasse rapidamente.
Ele não me olhava de volta. Acreditava que não tivesse coragem ou talvez não se importasse, mas nunca pensei que fosse tão frio comigo como naquele momento.
— Compreendo. — Posso notar um sorriso sem graça aparecer nos lábios da mulher que me segurava, me fazendo buscar os olhos de minha avó.
Ela se mantinha de cabeça baixa e começou a dar passos para frente, se aproximando mais de mim até que se ajoelhou, me olhando enquanto segurava um sorriso falso no rosto.
— Tudo vai ficar bem, vai ser melhor para você. — Ela usou as mesmas palavras que havia dito para mim há algumas horas, tocando meu rosto com uma de suas mãos, com certa delicadeza. — Sempre pensamos no melhor para você.
Meus olhos ainda se mantinham presos aos dela enquanto se erguia e depositava um beijo em minha testa, me abraçando sem que a correspondesse.
— Eu te amo. — Ela sussurrou em meu ouvido, se afastando e levantando logo depois, se aproximando de meu avô sem que olhassem para trás.
— Obrigado pela atenção, senhora Wood, espero que ele faça um ótimo trabalho. — Meu avô murmurou pra mulher, sem me olhar em nenhum momento, e logo a puxou pelo braço como se fosse algum boneco.
— Espero vê-lo novamente, Senhor Barnes. — A mulher murmurou atrás de mim, com um sorriso simpático no rosto.
Meu avô abriu a enorme porta da clínica, ainda sem respondê-la. Ainda chovia no lado de fora e isso fez que ele abrisse novamente seu guarda chuva enquanto minha avó se agarrava ao seu braço. Por um momento, antes de sair, ela me lançou um último olhar de tristeza antes de sair, fechando a porta bruscamente.

Um vazio enorme começou a rodar ali, junto comigo, enquanto me mantinha paralisada na cadeira de rodas. O silêncio era quebrado apenas pelas gotas de chuva que batiam na janela da enorme sala enquanto eu suspirava pesadamente, me sentindo sozinha pela primeira vez.
— Então... — Ouço um suspiro enquanto a mulher começava a puxar a cadeira de rodas e movimentá-la pela sala. — Você deve estar curiosa para conhecer seu quarto e também como é aqui dentro. — Ela murmurou, parecendo um pouco animada, totalmente diferente de mim.
Não a respondi e apenas me encolhi, mas a mulher começou a caminhar, me puxando para algum lugar, e eu apenas deixei que ela me levasse.

Capitolo Due: Uma Misteriosa Presença

215, 216, 217, 218, 219.
Números surgiam cada vez mais onde eu passava, lançando borrões conforme um era substituído pelo outro enquanto eu me aproximava do final do corredor, que aparentava ser infinito. Tudo se mantinha em silêncio, exceto os metais da minha cadeira de rodas, que faziam um som agonizante contra o chão frio do longo corredor.
As portas com números surgiam cada vez mais, fechadas como se escondessem segredos dentro delas. Eram altas, enferrujadas e silenciosas, tornando o ambiente ainda mais gélido devido à sua cor metálica. A mulher atrás de mim ainda me guiava enquanto eu apertava forçadamente as dobras do vestido. Eu mordia o lábio inferior mediante a aproximação de cada porta, sendo tomada pela ansiedade de saber qual delas seria a minha e para que eu me preparasse para vê-la. Seria ela horrível?
Eu estava temendo e torcendo para que não fosse igual aos corredores e aquelas portas frias e agoniantes. Com cada passo e som que era emitido pelas rodas, eu me sentia ainda mais nervosa pela chegada, fechando os olhos várias vezes até que, depois de um longo instante, senti a cadeira sendo parada bruscamente, me fazendo suspirar e olhar na direção de mais uma porta.
235.
Pisquei um pouco os olhos, analisando o número que havia surgido enquanto a mulher que se mantinha atrás de mim. Ela começou a ser aproximar da maçaneta da porta e logo depois abriu a mesma, me puxando em sua direção. Rapidamente a visão do quarto me golpeou enquanto a mulher continuava me puxando até que eu ficasse no meio do cômodo.
Ele era cinza e com as paredes largas enquanto uma tonalidade de branco o abraçava na direção do teto. De um lado havia uma cama de ferro que se mantinha próxima à uma enorme janela que cobria a maior parte de uma das paredes, como se a mesma fosse substituí-la. Busquei os olhos castanhos da mulher, que ainda se mantinham focados em minha direção, me fazendo espremer os lábios e me sentir ainda mais desconfortável.
— As minhas malas — disse e abaixei a cabeça rapidamente na direção do chão, não sabendo ao certo o que dizer uma vez que estava perto de alguém que era completamente desconhecida.
— Claro. — Ela sorriu e caminhou até a enorme janela, abrindo a longa cortina branca que se misturava com um tom amarelado, fazendo com que um pouco de luz dominasse a escuridão que se mantinha no quarto.
— Irei trazer para cima logo. Você deve estar exausta da viajem, certo? — Perguntou enquanto passava uma de suas mãos nos fios castanhos de seus cabelos, me fazendo assentir em silêncio.
Meus olhos novamente analisaram a mulher enquanto ela se aproximava ainda mais perto de mim. Ela certamente era um pouco diferente do que eu imaginaria que fosse e de como a encontraria por ser alguma enfermeira. Esperava que ela estivesse em algum uniforme naquela ocasião, e não da forma como estava.
— Logo irei preparar o seu banho. — Ela se inclinou e abriu ainda mais o sorriso para mim, como se eu fosse uma criança. — Para que você possa descansar, querida. — Meus olhos se estreitaram um pouco, mas assenti novamente enquanto ela se aproximava da outra porta, sumindo por ela logo depois.
Suspirei pesadamente, ainda olhando na mesma direção pela qual ela se foi, apenas mantendo a visão das cores gélidas das portas em minha visão, me fazendo agarrar as rodas de metal e puxar as mesmas para caminhar na direção da janela. Aproximei-me ainda mais e, levando uma de minhas mãos ao vidro, senti a umidade que a chuva deixou. Comecei a vagar os olhos para o lado de fora, notando que estava provavelmente no segundo andar.
Rapidamente deslizei minha mão no vidro, tirando um pouco de vapor que tinha deixado enquanto observei ainda mais de perto a altura gritante que se mantinha ao meu redor. A altura fez com que um suspiro escapasse de mim outra vez quando comecei a analisar o enorme portão negro no lado de fora, totalmente fechado. Senti como se meu coração tivesse sido esmagado em toneladas, quando a visão deserta e o silêncio tomaram a minha volta, me fazendo notar mais uma vez que meus avós não estavam mais comigo e que definitivamente eu estava sozinha em um lugar completamente desconhecido.
Lentamente me virei, observando o quarto novamente. Ele parecia um pouco confortável e eu fiquei meio aliviada por isso. Forcei as rodas de metal no chão, voltando a me mover na direção da cama enquanto me inclinava para mais perto dela, fazendo minhas mãos tocarem e sentirem o material leve do fino lençol branco. Tudo parecia tão vazio, tão solitário.
Senti um nó se formar em minha garganta quando tentei me inclinar para que me erguesse o suficiente para alcançar a cama. Depois de um longo esforço e cuidado que minha avó me ensinara a fazer, finalmente conseguir me sentar nela, tentando segurar as pernas para que conseguisse definitivamente ter sucesso. Inclinei-me mais uma vez enquanto olhava para o teto completamente vazio e sem uma cor sequer confortante.


◇♤◇


— Você não precisa ter vergonha de mim — a mulher disse enquanto se aproximava ainda mais, tentando abrir meu vestido.
Senti meu rosto ferver enquanto tentava respirar pela boca, ainda analisando o banheiro gélido branco no qual entrei minutos antes.
— É que eu nunca fiquei nua na frente de outra pessoa antes, que não fosse a minha avó — murmurei. Ela era a única que me ajudava a tomar banho.
A mulher dos cabelos castanhos abriu um sorriso como se eu fosse algo divertido enquanto se inclina, fechando a torneira que se mantinha aberta naquele momento e me fazendo analisar a enorme banheira enferrujada.
— Prometo que vai ser rápido, não irei olhar nada. — Ela riu. — Não queria que ficasse desconfortável, mas não posso te deixar dessa forma. — murmurou, me fazendo morder o lábio inferior com força e olhar novamente para a mulher, que se encontrava me observando.
Ela me fez assentir para que voltasse a retirar os botões do meu vestido e logo depois as roupas íntimas, me ajudando a entrar na banheira enquanto eu me segurava nas laterais da mesma pra que suportasse um pouco o peso do meu corpo, sentindo logo depois a água quente em minhas costas. A mulher rapidamente voltou a sorrir, começando a desmanchar minhas tranças e fazendo com que o meu cabelo ficasse livre, caindo em minhas costas e ombro, me deixando um pouco tensa.
— Relaxe. — ela disse, me fazendo lentamente suspirar e levantar uma de minhas sobrancelhas enquanto ela começava a deslizar o sabão líquido em uma das mãos.
Fechei um pouco os olhos, me sentindo ainda mais constrangida enquanto a mulher desconhecida começou a ensaboar meus cabelos e massagear o couro cabeludo com delicadeza. Lentamente relaxei os ombros, ainda sentindo um pouco de desconforto, mas tentando, no mínimo, não pensar naquela situação constrangedora à qual eu estava metida. Minha avó sempre fazia o mesmo ato quando me ajudava a tomar banho. Durante a maior parte da minha vida tinha sido assim, mas estando perto de outra pessoa sem que ela fosse familiar para mim era muito novo.
Alguns minutos começaram a passar enquanto eu continuava me enxugando e terminando minha limpeza. A Sra. Wood voltava a me ajudar quando eu precisava ou até quando não conseguia alcançar alguma parte do meu corpo, como as costas. Ela estava lá, com a esponja na mão, e continuava a me apoiar para me limpar.
Depois de algum tempo a banheira estava cheia de espuma de sabão, me fazendo sorrir um pouco quando elas flutuavam um pouco pelo ar. O ambiente começou a ficar ainda mais gélido, me fazendo dar uma olhada pela janela e notar que já estava de noite. Rapidamente após o banho, a Sra. Wood ajudou-me a levantar enquanto eu me mantinha enrolada no pano. Quando ela aproximou a cadeira de rodas para me ajudar a sentar na mesma eu suspirei fracamente, sentindo os músculos tremerem pelo frio, e aproximei-me ainda mais da mulher, que estava perto de mim.
Quando fiquei ainda mais próxima da cadeira de rodas, um frio ultrapassou meu corpo e eu olhei para a porta do banheiro. Congelei e meus olhos se arregalaram quando eu percebi que ela estava aberta o tempo todo. Senti meu coração se acelerar, batendo forte em meu peito, quando analisei ainda mais a porta. Pouco a pouco algo apareceu lá, me fazendo estremecer ainda mais. Dedos pequenos e pálidos começaram aparecer no batente e logo depois foram acompanhados de cabelos castanhos e encaracolados, completamente bagunçados e seguidos de olhos negros, como se eles estivessem me observando assim como na janela, horas antes que eu entrasse na clínica.
Paralisei-me, me sentindo ainda mais em choque e com a respiração totalmente presa, piscando ainda mais os olhos na direção da porta, não conseguindo, em nenhum momento, tirá-los de sua direção.
— Está tudo Bem? — A voz sussurrou em meu ouvido, me fazendo virar em sua direção tão rápido quanto meu coração batia naquele momento. Meus lábios se separaram quando olhei nos olhos castanhos da mulher, que me analisaram com preocupação, sentindo o forte frio ainda ultrapassando meu corpo.
— Sim. — Sussurrei fracamente, respirando ainda mais forte e olhando em seus olhos quando ela me ajudou a sentar na cadeira de rodas, embolada na toalha. — Acho que sim.
Abaixei a cabeça, tentando controlar a respiração e lutando para voltar a olhar na direção da porta. Fechei os olhos com força e virei a cadeira de rodas, suspirando e voltando a olhar para a mulher com o cenho franzido em confusão, percebendo rapidamente que ele não estava mais ali.

Capitolo True: Black

Ainda naquela noite voltei ao mesmo quarto que estava antes, sentindo meu coração acelerado enquanto a mulher me ajudava a me trocar, colocando o pijama e logo depois me ajeitando para deitar na cama. Senti o desconforto cada vez mais forte, me lembrando do que se mantinha atrás daquela porta. A cena dos dedos pálidos e olhos negros presos em minha direção não paravam de se reproduzir na minha mente, me deixando mais nervosa. Tentei dizer para mim mesma que devia ter sido apenas algo da minha cabeça e que eu poderia ter imaginado ou ter visto coisas sem nenhum sentido. Entretanto, tudo gritava que tinha alguém ali, observando e me perturbando cada vez mais.
Fechei os olhos com força enquanto me mantinha em volta de um cobertor que não me aquecia quase nada. A Sra. Wood há algum tempo atrás, havia levado o jantar. Ela tinha sido gentil e fez o mínimo para me manter calma, me fazendo sentir que era acolhida e eu realmente estava agradecida por isso, mas eu estava ali, deitada em uma cama que não era minha, em um quarto que não me pertencia e também em um lugar desconhecido. Realmente não sabia o que sentir naquele momento além do vazio que crescia em mim e pelo quarto, que estava cada vez mais solitário com meu silêncio.
Encolhi-me mais nas cobertas, tentando aquecer meus braços enquanto suspirava, sentindo o ar gelado. A chuva estava intensa quando voltei para o quarto e os trovões se mantinham raivosos do lado de fora, fazendo com que eu estremecesse no quarto cada vez mais escuro. Às vezes olhava para a enorme janela, onde a claridade era causada pelos raios. Ela era tão larga que eu não pensei que havia algo como ela e as cortinas, que eram brancas amareladas, se mexiam conforme os trovões ficavam mais barulhentos. O ar frio foi para meus pulmões, me fazendo estremecer.
Tentei fechar meus olhos, pesados pelo sono, talvez por estarem sentindo o cansaço daquele dia intenso e agonizante. Aquela era a minha primeira noite longe de casa, a primeira vez longe dos meus avós e eu tentei não deixar minha mente apavorada por isso. Olhei mais uma vez para o teto branco, mesmo que não houvesse nada exatamente tão interessante nele, e tentei não pensar nos meus avós ou me castigar com perguntas sobre o que estavam fazendo naquele momento. Eles sentiam a minha falta? Se talvez minha avó estivesse sentindo, era tanta quanto eu sentia a dela?
Senti a umidade das lágrimas deslizando em minha pele e meus olhos piscaram enquanto elas os queimavam pelas pálpebras. "Eles voltam", disse a mim mesma. "Vou ficar só por uns dias". Precisava me manter com essas palavras e confiar nelas, teria que suportar a aflição e saudade que sentia e aprender a esperar o tempo que fosse até que eles decidissem voltar para mim. Tudo ficaria como era antes.
E com isso, meus olhos se fecharam mais uma vez e a escuridão e o silêncio me acolheram em um abraço peculiar.


● ● ● ●


A claridade do dia seguinte fez meus olhos se abrirem e o calor entrando pela janela semi aberta me fez perceber que já era de manhã. Pisquei um pouco os olhos, sentindo ainda o sono forte em volta de mim. O peso da minha cabeça era enorme, assim como a dor que surgia, parecendo que eu não tinha dormido quase nada. Um bocejo saiu pela minha boca e me foquei no teto, percebendo alguns pontos pretos nele, como se houvesse sido pintado de alguma forma estranha. Apoiei os meus braços na cama e me ergui, respirando um pouco enquanto me encostava à cabeceira de ferro e estremecia com a sensação gélida. Então suspirei, virando o rosto para a porta, que estava entreaberta.
O ar gélido do corredor me atingiu, fazendo com que eu estreitasse ainda mais os olhos, tentando ver qualquer coisa que estivesse por lá. Mas assim como o quarto, o corredor estava vazio, deixando apenas o silêncio como minha companhia. "Será um dia longo", pensei comigo mesma, tendo certeza de que ficaria trancada dentro do quarto. Suspirei, abaixando a cabeça em direção às minhas mãos entrelaçadas, e depois a ergui novamente, focando em minha cadeira de rodas que estava no canto da parede perto da enorme janela. Queria tanto poder me mover, sair da cama e me aproximar dela sem nenhum esforço, sentir minhas pernas assim como meus pés. Seria um sonho, algo que eu mais desejava ter.
Sorri, sentindo os meus lábios tremerem pelo frio do quarto. Não sabia quando a Sra. Wood iria aparecer ou se demoraria, mas tinha certeza que nada de emocionante poderia acontecer, mas era claro que o doutor se apresentaria. Tinha certeza que, como todos os outros antes dele, acabaria dizendo a mesma coisa: que ninguém poderia me curar, que eu nasci daquela forma e ficaria daquele jeito.
Olhei minhas pernas, as quais eu as detestava. Eram tão fracas e magras, sem força suficiente para fazer nem um movimento sequer. Sempre estariam ali, paralisadas na minha frente, mostrando que eu jamais teria o que sonhava. Minha avó sempre dizia que eu precisava acreditar, que aquele novo doutor seria diferente, que todos que se consultaram com ele tinham conseguido o que desejavam. Só que eu não era boba, tudo que ela me dizia era o mesmo discurso para me manter animada e dar esperanças, não a realidade. Aquilo me dava a certeza de que, quem quer que fosse aquele Dr. Marlow, ele não era muito diferente dos outros. Possivelmente ele seria um senhor de cinquenta anos, careca e meio cegueta, além de possuir uma barriga protuberante que se destacava nos terninhos alinhados que parecia adorar usar, também seria dono da maior e mais estranha clínica que eu já vira.
Encostei-me novamente na cabeceira, fechando os olhos devagar e tentando dormir outra vez enquanto o frio crescia no quarto. Alguns minutos se passaram à medida que eu permanecia de olhos fechados e me concentrando no sono que não vinha. Então, de repente, um som no corredor me obrigou a abrir os olhos rapidamente. Minha cabeça se virou e eu comecei a forçar a visão, tentando enxergar alguma coisa. Apesar disso, só o som de algo se movimentando em alta velocidade era ouvido naquele momento. Logo a porta antes encostada foi aberta, me fazendo paralisar. Segurei a respiração quando notei vários pelos negros e um corpo enorme perto da cama. Ele andava e se movia próximo a mim, depois se virou em minha direção, mostrando um focinho negro, enormes olhos verdes e dentes pontudos e afiados. Ele rosnou para mim e eu gritei.
— Deus! — chorei, paralisada, o observando apavorada enquanto ele ainda grunhia para mim. Senti minhas mãos tremerem e levarem a coberta até a boca, tentando sufocar os gritos de medo.
Meus olhos estavam cada vez mais arregalados, olhando para o animal que não parava de rosnar com raiva de mim. Aqueles dentes horríveis poderiam arrancar meus braços em apenas uma mordida. Sufoquei um soluço quando ele pulou na cama, ainda rosnando, e pude jurar que saiu saliva de seus dentes. Lágrimas de desespero desceram em meu rosto enquanto mais soluços saiam. Aquele bicho se aproximou cada vez mais do meu rosto, abrindo a enorme boca como se fosse me morder, e eu fechei os olhos com força, gritando o mais alto que consegui.
— Black! — uma voz grave berrou em desespero enquanto sons de passos se aproximaram dos corredores. A porta foi empurrada com força contra a parede e eu sufoquei um novo grito, abrindo os olhos lentamente.
Braços pálidos e pequenos estavam em volta do pescoço peludo e negro do animal, que instantaneamente parou de rosnar para mim. Seus olhos, porém, ainda estavam presos em minha direção, me fazendo estremecer e sentir o coração acelerado.
— Tire isso de cima de mim! — Gritei mais uma vez, sem controlar meus lábios trêmulos, assim como as minhas mãos, que também estavam sem controle no cobertor que eu apertava com força.
Com isso, o animal começou a ser empurrado por alguém e eu permaneci sem tirar meus olhos, paralisados, dos seus verdes. Ele se ergueu mais uma vez e soltou um rosnado alto. Logo depois ouvi um uivo, como se ele estivesse sendo estrangulado pelos pequenos braços que estavam ao seu redor. Estremeci, mais uma vez, percebendo naquele momento o que ele era.
— Isso é um l-lobo? — As palavras saíram da minha boca, ainda aberta em choque, observando o animal à minha frente.
— Não, é um pássaro. — A voz grave do começo bufou, me fazendo procurá-lo, ainda segurando a coberta com força. — É claro que ele é um lobo.
Meus olhos pararam no pequeno corpo perto do lobo. Os cabelos castanhos encaracolados, com um chapéu marrom e a pena vermelha foram as primeiras coisas que vi, seguidas pelo rosto jovem e pálido com bochechas coradas e cílios grandes. Congelei mais uma vez e voltei a olhar em seus olhos negros, que me observavam pesadamente. Eram os mesmos olhos e cabelos que estavam na porta do banheiro na noite passada.
— Você! — Acusei, retirando a coberta do rosto enquanto o menino piscava na minha direção. — Era você quem estava no banheiro.
Ele abriu um largo sorriso amarelado, que parecia adorável e perverso.
— Eu não sei do que você está falando — ele disse, inclinando o nariz pálido para cima.
— Era você, sim — murmurei com os ombros tensos e levantei a mão, apontando em sua direção, ainda tremendo. — Agora eu me lembro e também vejo. Você estava me espiando na porta do banheiro.
A criança virou o rosto e me analisou na cama, balançando a cabeça enquanto passava a mão no pelo do lobo, que me encarava com aqueles enormes olhos verdes.
— Você é estranha e louca — murmurou, com um riso, e deu de ombros.
Ele foi até a janela e a abriu com força, fazendo com que a claridade do lado de fora fosse com tudo em meu rosto, fazendo com que meus olhos se fechassem e minha mão se levantasse para parar a luz que me incomodava.
— Mas... você estava... — Tentei mais uma vez, sentindo a boca secar e ouvindo um novo bufo vindo do rapaz — Quem é você? — perguntei, liberando a minha área de visão.
O menino estava de costas para mim e aquele lobo, parado bem do seu lado. Um som de desgosto saiu de sua boca e ele se virou, caminhando até mim com um olhar entediado. Meu coração começou a palpitar.
— É um paciente? — perguntei, fazendo o menino rir mais uma vez e se aproximar de mim, olhando na direção do meu cabelo enquanto revirava os olhos negros.
— Não sou como você. — Debochou, com a voz entediada como se não tivesse nenhuma paciência para alguém do seu tamanho, o que me fez estreitar os olhos em confusão.
— Então quem é? — Insisti e, de repente, o lobo se virou em minha direção e rosnou novamente pra mim, me fazendo puxar a coberta um pouco mais para cima.
— Por que eu contaria para você? — O menino sorriu, sem estar incomodado, e agarrou o pelo negro do lobo, o puxando e fazendo o animal choramingar.
— Eu só...
Estava em choque e não sabia o que falar. As palavras haviam sumido da minha boca e tudo que eu podia fazer era observar a criança, que fazia o mesmo comigo.
— Você está tremendo? — Ele quis saber, chegando mais perto. Tinha um leve sorriso no canto da sua boca, que aumentou. Ele apontou para o lobo e meus olhos se estreitaram em confusão — Está com medo? Você está com medo… do Black?
A criatura colocou as enormes patas negras na cama e eu estremeci, me encolhendo um pouquinho mais. O rosto do menino estava próximo do meu e eu sentia seu hálito desagradável, assim como via claramente aqueles dentes amarelados. Tudo aquilo fez meu estômago embrulhar.
— É bom ter — murmurou, se afastando com um sorriso no rosto. — Ele adora comer carne podre como a sua.
Minha boca caiu no chão enquanto eu observava a criança se aproximando da porta com um sorriso perturbador, agarrando o pelo do lobo para que ele o seguisse. O vi apertar a orelha do animal, fazendo o bicho rosnar para ele, o que o garoto respondeu com um revirar de olhos e levantar de sobrancelhas.
— Nunca entre no quarto de loucos, Black. Já repeti várias vezes pra você — ele disse, olhando para o lobo e fazendo com que ele levantasse a cabeça e rosnasse como se o entendesse.
Fiquei pasma e quieta, em silêncio, enquanto a criança ajustava o chapéu marrom na cabeça e continuava a andar, se afastando como se eu não estivesse parada, o observando.
— Espere! — gritei rapidamente, o fazendo parar e suspirar, virando a cabeça com desgosto para me olhar.
— O que deseja? — perguntou com a voz baixa, segurando o lobo com a mão e a maçaneta da porta com a outra.
— Me diga seu nome — pedi.
Mais uma vez, ele revirou os olhos e saiu, me ignorando. O estrondo veio quando a porta se fechou com força e eu fiquei sozinha outra vez naquele quarto silencioso, em estado de choque.


Continua...



Nota da autora: Olá, Eu agradeço imensamente pela leitura, espero que tenham gostado e que se preparem por essa aventura e mistério com os personagens. Um grande abraço e até o próximo.
Maven lux

Nota da Beta: Essa história traz uma sensação de que MUITA coisa ainda vai acontecer e eu mal posso esperar para vê-las. E esse lobo, minha gente??? Anseio por atualizações o quanto antes hahaha.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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