Última atualização: 17/08/2021

Prólogo

"Preciso de reforços na Quinta Avenida. Quatro policiais já foram enviados e não respondem. Estamos enviando mais quatro. Mas precisamos de ajuda, urgente!"
Peter recebeu o pedido de reforços dos policiais três minutos antes das dez horas, horário que havia prometido voltar. Três minutos antes de ir para casa para os braços de sua noiva. Passara o dia inteiro pedindo por algo interessante contudo, sem sorte. Agora que finalmente estava prestes a voltar para casa, seus pedidos foram "atendidos". Peter bufou, colocou a máscara de volta e atirou sua teia no topo do prédio mais próximo em direção à Quinta Avenida.
- Trabalho é trabalho... Desculpe, MJ.
O lugar estava cercado de viaturas, seis que ele podia contar e provavelmente mais algumas a caminho. O motivo era bem claro. Algo estava acontecendo na casa do Prefeito de Nova Iorque. Peter desceu até os carros e perguntou qual era o status a John, um policial que conhecia há anos e que sempre fora simpático com o Amigão da Vizinhança. Tendo uma vez inclusive pedido ao herói que tirassem uma selfie juntos para seu filho que era um grande fã dos Avengers.
- Fala Johnny! Eu estava prestes a ir pra casa, cara. O que tá acontecendo aqui?
- É ela de novo. - John disse com um olhar preocupado e cansado. Ele não precisava dizer o nome, Peter sabia bem de quem se tratava. Hayley (ou Tiffany, ou Karen), cada dia que a encontrava, ela se apresentava com um nome diferente. Não importava, nome ou não, ela era um pé no saco de Peter, e da NYPD.
A “ladra sem nome” apareceu pela primeira vez há cinco meses, quando roubou o cofre de um deputado que havia sido acusado de contrabandear cocaína da Colômbia duas semanas antes. Três semanas depois, Peter a encontrou roubando as joias de um multimilionário, dono de uma empresa de imobiliária, também conhecido por ter ligações com crimes. Em seguida foi a vez de uma gangue de narcotráfico, claro que ninguém se opôs a esse roubo, porém fora uma bagunça. Hayley se aproveitara de um tiroteio entre policiais e traficantes, para calma e furtivamente entrar no cofre dos bandidos e roubar todo o seu lucro. Porém, como ela mesmo havia admitido, não sem antes fazer questão de que Peter a visse para que ele a seguisse.
O problema é que Hayley não era uma bandida comum, o que a fazia não se importar com quem fosse atrás dela e manter sempre um sorriso sarcástico no rosto. Ela tinha o poder de controlar a pressão. Logo, sempre que ele a encontrava, ela criava uma parede invisível entre eles e Peter era incapaz de sequer encostar nela, quem dirá lutar contra a mulher. O que dificultava a vida dele e principalmente dos policiais.
Peter seguiu para o vigésimo sexto andar do edifício, do qual ouvia barulhos de tiros e gritos. Eles ainda não haviam aprendido que era impossível quebrar a barreira dela com meros tiros de calibre 9mm? A sala era bem iluminada, com diversas pequenas mesas portando objetos valiosos protegidos por vidros, sejam vasos, joias ou objetos antigos. Além de quadros espalhados pelas paredes escuras. Peter notou que a maioria dos vidros estavam quebrados e suas mesas vazias.
- Ah Aranha, já era hora! Estava achando que não viria me ver hoje. - Hayley disse fazendo beicinho e com a voz manhosa. Ela adorava mexer com os nervos de Peter de todas as formas possíveis, inclusive flertando com ele todas as vezes que se viam. - Pode pedir aos seus amigos se retirarem, por favor? Estou trabalhando e eles estão começando a me irritar.
- Primeiramente, isso não é trabalho, é roubo. Segundamente, senhores, talvez vocês devessem deixar essa comigo mesmo, acho que já perceberam que as balas não vão atingi-la.
- Como se você conseguisse fazer algo melhor. - Disse um dos policiais presentes sem abaixar o revólver apontado para a criminosa.
- É, qual é Homem-Aranha! Você ao menos tenta pará-la ou deixa a sua cabeça de baixo decidir o que é certo e errado? - Outro policial, a quem Peter reconheceu de outros crimes disse zombeteiro fazendo Hayley virar a cabeça para trás e gargalhar alto. Não fosse ela uma criminosa, talvez, mas só talvez, se deixasse admitir que fora pego de surpresa pela bela risada da mulher. Não que fosse incomum ela rir da cara dele, e não como se fosse a primeira vez que ele pensara isso.
- Eu tenho que concordar com o Rosquinha, eu acho que você nem tenta me pegar. - Hayley disse com a voz sedutora e um meio sorriso que Peter já havia visto diversas vezes. Para logo em seguida, mudar o tom de voz para um brincalhão. - À propósito, que tal brincar de Pegar o Policial? Você começa!
Sem ter tempo para responder, Peter sentiu um vento fortíssimo passar por ele e atingir os oito policiais presentes na sala, jogando-os bruscamente janela afora. Peter correu para janela, agora totalmente quebrada e atirou suas teias oito vezes com os dois pulsos, unindo-as em suas mãos e descendo os policiais que gritavam desesperadamente até o chão. Finalmente soltando o ar que nem sequer havia notado estar segurando.
- VOCÊ ESTÁ LOUCA? NUNCA FEZ ALGO ASSIM! - Peter gritou em desespero enquanto a garota ria. Era verdade, em nenhum dos encontros com Hayley, ela havia feito algo sequer parecido. Nunca havia machucado nenhum policial ou civil que estivesse presente. Escolhendo sempre barrar suas tentativas de prendê-la do que revidar.
- Ah eu confio em você, Teioso! E você precisa concordar comigo que foi divertido. - Hayley disse com um sorriso maroto no rosto.
- Não, não foi! - Peter bufou, esfregando a mão direita sobre a máscara enquanto tentava se acalmar. - Agora dá pra devolver tudo o que roubou? Ou ao menos, quebrar essa barreira idiota e me dar uma chance de tentar te prender.
- Hmm, só se você pedir por favorzinho e me der um beijo, mas tem que ser de língua. - Peter revirou os olhos. Lá vem... Não podia negar, ela era linda. Mesmo com a máscara bordô cobrindo parte de seu rosto, Peter podia ver quão bonita ela era. Estava sempre vestida toda de preto, com uma roupa justa que deixava suas curvas mais acentuadas. Porém o cabelo sempre mudava, um dia era roxo e curto, outro loiro e ondulado. Hoje estava vermelho e liso, amarrado em um coque bagunçado com alguns fios caindo sobre o rosto, destacando a máscara e os lábios pintados de vermelho sangue. Mas nunca, nem em um milhão de anos trairia MJ. Nem em sonhos! Ela sempre fora o amor de sua vida e finalmente estavam noivos e planejando o casamento. Peter não poderia estar mais feliz, e não arriscaria tudo por uma criminosa. Por mais atraente que fosse.
- Por favor, Hayley. - Peter disse com uma mão no rosto, estava cansado desses encontros. Já havia pedido a Fury por uma arma capaz de ultrapassar a barreira de pressão que ela fazia, mas ainda não tinha obtido resposta.
- Meu nome não é Hayley, seu bobo! Pode me chamar de Diana, porque eu sou uma maravilha!
- Por favor, Diana... - Peter cedeu bufando. - Ele é o prefeito! Sabe que não vai deixar barato.
- Ele é mais ladrão que eu! Se é que dá para comparar essas coisas. - Diana disse de forma frustrada e com as mãos na cintura. Era de ciência de todos que o prefeito de Nova Iorque era corrupto, porém isso não dava a ela o direito de roubá-lo, dava? - De qualquer forma, sabe que não posso fazer isso. Não enquanto eu não roubar um beijo seu.
- Quebre a barreira e eu te dou um beijo.
- Tire a máscara e eu quebro a barreira.
- Você primeiro. - Diana sorriu e elevou a mão ao rosto dando a entender que atenderia ao pedido, para apenas mostrar o dedo do meio e rir como uma criança.
- Você é gostoso, mas não vale a prisão perpétua. - Disse juntando as malas pretas, provavelmente cheias com os pertences do prefeito. - Bom, agora se me dá licença, eu tenho joias para vender. Quem sabe da próxima vez eu não roube o seu coração ao invés de dinheiro. Até mais, Aranha!
Diana saltou da janela, voando sobre os policiais que não perderam tempo em atirar contra ela, apenas para terem suas balas perdidas. Peter nem precisava tentar se mover para saber que não conseguiria. Era sempre assim, ela ia embora, mas não sem antes criar um campo de pressão sobre ele tão forte que ele no máximo conseguiria dar três passos. A pressão acabava cerca de um minuto depois, tempo o suficiente para ela sumir de vista. Bom, isso foi uma total perda de tempo. Peter checou o horário no relógio de parede da sala que indicava dez horas e trinta e nove minutos. Mary Jane vai me matar! Correu em direção da mesma janela que Diana, saltou juntando as pernas e abrindo os braços, formando um T com o corpo. Após se deixar cair por alguns metros, sentindo a adrenalina lhe atingir, atirou um teia no prédio mais próximo, finalmente seguindo ao apartamento que dividia com a noiva. Ansioso por um banho e o calor de MJ.


Capítulo 1

- Peter, acorda! Vai se atrasar pro trabalho. - Peter ouviu a voz de MJ à distância, e resmungou sem abrir os olhos. Há pouco tempo, havia conseguido a vaga de editor da divisão de ciência do jornal Clarim Diário. Não era nem de longe o seu trabalho dos sonhos, ou o que planejava estar fazendo com 26 anos, mas pagava as contas e envolvia o que mais gostava de trabalhar, ciência. Porém, o dia se arrastava sempre de maneira tão entediante que o fazia sentir falta das Indústrias Parker. A excitação de criar novas tecnologias e trabalhar com outros cientistas. Ele não se arrependia de ter destruído sua empresa, do contrário Doutor Octavius teria acesso a uma das maiores tecnologias da época e a usaria contra o próprio criador e o restante do mundo. - PETER!
- Tô indo, tô indo. - Peter se forçou a abrir os olhos lentamente enquanto deixava suas retinas se acostumarem à luz intensa do sol matinal. Odiava o fato de não terem uma cortina escura, mas não fosse por isso, provavelmente perderia a hora mais vezes do que já o fazia.
Tomou um banho, escovou os dentes e se vestiu, botando o traje na mochila enquanto se dirigia à cozinha para um café rápido. MJ já havia saído, mas na mesa pequena viu um prato com linguiça e ovos mexidos, e um copo de suco de laranja. Comeu tudo rapidamente e se dirigiu ao trabalho, fosse um dia bom e calmo como havia sido nas duas últimas semanas desde o último encontro com Hayley, não!, Diana, não passaria mais do que uma hora como Homem-Aranha e levaria MJ para um jantar e talvez um cinema. Por mais que fosse difícil admitir a si mesmo, precisavam desesperadamente de um encontro romântico que reacendesse a paixão entre eles. A verdade é que desde que destruíra as Industrias Parker, Peter e Mary Jane mal passavam tempo juntos. MJ conseguira um emprego em um canal de TV e passava o dia inteiro e às vezes a noite inteira se dedicando a ele. E bom, o trabalho não era mais fácil para Peter que tinha que se dividir entre as atividades do Jornal e o papel de herói. Os dois conversaram e acharam que noivando e eventualmente casando, o relacionamento melhoraria. E portanto, Peter a pediu em casamento. Entretanto, qualquer um dos amigos do casal, principalmente aqueles que sabiam da identidade secreta do Homem-Aranha, concordaria que talvez o compromisso não tenha resolvido em nada os seus problemas. Então, às quatro horas daquela tarde entediante, Peter mandou uma mensagem para Mary Jane perguntando até que horas ela ficaria no estúdio e se podiam fazer algo à noite.

"Desculpe, Peter... Estou atolada aqui, estamos atrasados com as gravações então ninguém vai embora até que esteja tudo em ordem. Podemos remarcar?
Te amo!!!"


Peter respirou fundo e respondeu da melhor maneira que conseguia. Apoiava a noiva em tudo, obviamente. E sabia que um papel em uma novela a deixava feliz, porém sentia tanta falta dela que chegava a doer. Ele se preocupava cada vez que tinham encontros cancelados, ou dormiam em horários diferentes, ou até mesmo passavam semanas sem se falarem direito. Peter constantemente se lembrava de que embora não tivessem concretizado o matrimônio, eles moravam juntos há anos e tinham uma rotina de pessoas casadas. E bom, a vida de casado era assim mesmo, não? Quando o relógio bateu as cinco da tarde, Peter rapidamente juntou suas coisas e saiu do prédio, mal se despedindo de seus colegas. Correu para o beco mais próximo, que já estava familiarizado, e se trocou. Grudando a mochila na parede do fundo com suas teias como já havia feito milhares de vezes. Escalou a parede lateral e começou a balançar de prédio em prédio, observando a movimentação na rua para um possível crime. Após duas horas esperando, sem sucesso, algo acontecer Peter ouviu seu estômago roncar. Geralmente levava um ou dois sanduíches consigo para comer enquanto aguardava algum pedido de socorro, porém ele acreditara que jantaria com a noiva aquela noite, e esquecera completamente de que super heróis também sentem fome. Checou mais uma vez as estações de rádio policiais e deu-se por vencido, voltando ao beco em que deixara sua mochila para trocar-se. Peter sabia exatamente onde comeria, Prachya Thai. A verdade é que adorava o pequeno restaurante e a ótima comida que serviam, lembrava-se sempre das diversas (muitas mesmo) noites em que jantara lá com tia May. Mas por algum motivo que não entendia, MJ odiava comida tailandesa, o que impedia Peter de comer no Prachya também. Bem, mas como sua noiva não jantaria com ele, sabia que estava mais do que na hora de matar a saudade. Abriu a porta e adentrou o pequeno local. Estava exatamente como se lembrava, paredes azuis, algumas mesas, uma pequena televisão e o grande balcão no fundo. Peter dirigiu-se à fila de três pessoas que aguardavam fazer seus pedidos. Quando finalmente sua vez chegara, abriu um sorriso para a atendente, mas quando começara a falar, fora interrompido por uma voz animada.
- Achara, meu anjo lindo! Sawasdee Ka! - Peter mal conseguia acreditar que a garota havia entrado na sua frente e apoiava-se no balcão como se não o tivesse visto ali, ou as duas outras pessoas que esperavam na fila atrás dele. - Como vai? Seu tio melhorou? A última vez que estive aqui, ele estava super mal.
- , hm, já falamos que você não pode simplesmente cortar a fila assim. Mas sim, ele está melhor, obrigada.
- Ah que nada, ele não se importa. Não é mesmo, gatinho? - A mulher de cabelos pretos e olhar divertido virou-se com um sorriso de canto e piscou. Provavelmente havia feito o mesmo com vários outros homens (e talvez mulheres), e Peter sabia que a grande maioria cairia na dela. Mas ele não era a grande maioria. Era noivo de uma mulher incrível, e não se deixaria levar pelos encantos de outra qualquer. De fato, talvez realmente nem sequer falasse nada e a deixasse seguir com seu pedido, não fosse o fato de ter sido ousada a ponto de achar que pudesse usar seus dotes femininos para conseguir o que queria com ele.
- Na verdade, eu me importo, sim! Me importo bastante, então se me der licença, pode voltar para o final da fila.
A mulher levantou uma sobrancelha e abriu um pequeno sorriso que Peter não conseguiu decifrar, levantou as mãos em rendimento e voltou ao final da fila, sem sequer falar mais uma palavra. Peter não sabia o porquê, mas seu corpo formigou quando ela passou ao seu lado. O famoso sentido aranha o tentando alertar sobre algo, só não sabia o quê. Olhou ao redor esperando por algo que explicasse. Balançou a cabeça, espantando os pensamentos desconexos, e seguiu com seu pedido. Peter havia dado apenas duas colheradas em seu arroz com frango e ervas quando sentiu uma presença. Levantou os olhos e viu que quem se aproximava era , a garota mal educada que tentara cortar fila. Sentiu novamente seu sentido aranha estremecer seu corpo, mas antes que pudesse refletir mais sobre, a cadeira a sua frente fora puxada, e ocupada pela bela mulher.
- Vim pedir desculpas pelo meu mau comportamento. - Disse ela com um sorriso gentil.
- Não tem problemas, agora se não se importa, eu gostaria de comer sozinho. - Esperou que ela se levantasse, ou ao menos rebatesse seu pedido. Mas tudo que fizera fora estreitar os olhos e o observar. - Então?!
- Por acaso, já nos conhecemos antes? - Disse após um tempo, esticando a mão direita - Prazer, . para os mais íntimos.
- Não. Acredito que me lembraria se tivéssemos nos conhecido. - Falou ignorando a mão esticada e voltando a comer sua comida, que parecia agora não ter mais gosto nenhum.
- Por que não esqueceria um rosto lindo como o meu?
- Porque não esqueceria uma pessoa rude como você.
- Ouch! - colocou a mão sobre o peito fingindo sentir dor. - Mas então, vai se apresentar também ou seus pais não te deram educação?
Peter rangeu os dentes e apertou o garfo com força. Como ela ousava mencionar seus pais? Pior, dizer que tia May não o havia educado direito. Engoliu em seco, e decidiu que talvez, se fizesse o que ela queria, ela fosse embora mais cedo, deixando-o aproveitar a tão esperada refeição em paz.
- Peter Parker. - Aceitou sua mão e a apertou. Novamente sentindo seus sentidos despertarem. Mas que droga?
- Parker? Das Indústrias Parker?
- O mesmo. - Embora tenha notado seu entusiasmo, e parte de si gostava de ter pessoas interessadas em seus projetos, voltou ao focar no prato à sua frente, decidindo que ignorá-la seria, desta vez, a melhor solução. Algo sobre engatar uma conversa animada com uma mulher bonita que há pouco tentara flertar com ele não soava certo.
- Não acredito! Que prazer! Eu fiquei tão chateada quando vocês fecharam, tinham projetos ótimos!
- É, bom... Longa história.
- Eu tenho tempo! - disse animada, com um sorriso que pela primeira vez parecia verdadeiro e não zombeteiro ou sedutor. - Sou doutora em física especializada em nanotecnologia. Adoraria ouvir mais sobre seus projetos. - Wow.
- Bom, eu não tenho tempo. Estou tentando jantar rapidamente pra ir pra casa e encontrar a minha noiva. - Tentou enfatizar a última palavra, como último recurso para a mulher à sua frente desistir de se aproximar ainda mais dele.
- Noiva, é? Agora tudo faz sentido. - Peter levantou os olhos a tempo de ver a mulher olhando suas unhas pintadas de vermelho com desdém. - Como é tão relutante em falar comigo.
- O que te faz ter tanta certeza de que esse é o motivo? Talvez eu apenas te ache desinteressante.
jogou a cabeça para trás e gargalhou. Aquela risada... Seu sentido aranha, mais forte do que nunca percorreu todo seu corpo e Peter sentiu os pelos de seus braços e nuca eriçarem. Um arrepio percorrendo sua espinha. Não podia ser.
- Impossível, querido!
- Diana?
- O que disse? - imediatamente parou de rir e o olhou com olhos arregalados e a boca aberta. Peter a viu levantar-se da cadeira, mas antes que ela pudesse fazer mais algum movimento, jogou a mesa contra ela. A mesa caiu sobre a mesma, e enquanto ela tentava se levantar, Peter procurou por seus lançadores de teia. Que merda! Que merda! Por que colocou aquela droga na mochila? Já deveria ter aprendido a nunca os tirar.
- O que vai fazer, Peter? Se expor aqui pra todo mundo? - Diana, não!,- disse calmamente, se levantando e erguendo as mãos em rendição. - Vai, atira em mim! Aproveita e pega a sua máscara pra todo mundo finalmente descobrir quem você é!
- Algumas coisas valem a pena se sacrificar.
- E sacrificar as pessoas que você ama também? Sua noiva? - Peter virou-se, congelando totalmente. - O que acha que vai acontecer quando descobrirem? Acha que as pessoas, os monstros, que te odeiam não irão atrás dela? Claro, eu vou pra cadeia, mas acredite, a sua perda será infinitamente maior que a minha.
Peter não sabia o que fazer, seu instinto de herói sabia que deveria prendê-la, ou tentar pelo menos. Mas todo o seu corpo sabia que jamais poderia colocar Mary Jane em risco assim. Ou tia May, ou Ned... Todos que amava. Seu momento de hesitação fora tudo que precisava para se mover. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, sentiu algo perfurar seu braço, olhou para baixo a busca do dardo, mas tudo o que viu foi o chão embaçado se aproximar rápido demais e o impacto de seu corpo na superfície gelada.


Capítulo 2

- Droga! Merda! Porra! Atende logo, Ollie!!! – andava de um lado para o outro dentro da sala principal de sua Base. Intercalava entre roer os dentes e olhar para o corpo desfalecido na pequena cama da também pequena cela que ficava localizada no canto esquerdo ao fundo. Nunca imaginou que a utilizariam, até mesmo riu de Ollie quando ele propôs que tivessem uma apenas por precaução, mas hoje agradecia mentalmente a paranoia do amigo e parceiro de trabalho.
“É bom que esteja morrendo, porque eu estava no meio de uma coisa, ou melhor, de alguém.” ouviu a risada do homem do outro lado da linha.
- É pior! Preciso que venha pra Base agora, já! Te explico quando chegar. – desligou a ligação sem esperar uma resposta. Sabia que o amigo havia entendido o recado. Olhou mais uma vez para o herói que ainda tinha os olhos fechados e se amaldiçoou mentalmente pela falta de sorte. Eu tenho que parar de dar em cima de tanta gente estranha.
Mas ela sabia que parte do que aconteceu fora inevitável. O momento em que o homem abriu a boca para reclamar de sua ousadia, percebeu que havia algo a mais sobre ele. Algo que a deixou intrigada, apenas não conseguira decifrar o quê. E como ela sempre gostara de quebra-cabeças, viu ali uma oportunidade para se divertir um pouco. Puta sorte do caralho! De todos os homens de NYC, tinha que ser você? Ouviu o herói grunhir e pensou se deveria usar mais tranquilizante. Mas mudou de ideia, sabia que uma hora ele teria que acordar. Além de que já o havia injetado três vezes, para ter tempo de trancá-lo na cela e esconder seus pertences que sabia poderem ser rastreados. E se fosse ser sincera consigo mesma, não sabia exatamente quão forte era a droga ou quais danos poderia fazer ao corpo humano, ou até super humano. Afinal de contas, ela era formada em física, não biologia. Passaram-se quase trinta minutos quando ouviu o portão de fora ser destrancado, checou as câmeras e viu Ollie entrando pelo corredor que levava ao andar inferior do prédio que parecia estar abandonado. Levantou-se da cadeira rapidamente, dirigindo-se à porta.
-Por que demorou tanto? Eu falei que era urgente!
-Hey! Sabe quão difícil é achar um taxi a essa hora? Está todo mundo indo pra casa. Mas estou aqui, não estou? Qual o drama da vez? Você parece viva.
-Veja por si mesmo... - apontou atrás de si, mostrando que não estavam sozinhos. Ollie arregalou os olhos e mal conseguiu perguntar.
-O que você fez? Quem é esse?
-Eu... Esse... - Mas antes que pudesse responder, Peter que tinha finalmente despertado após a conversa alta dos dois, levantou-se da pequena cama, indo em direção às barras, tentando afastá-las, ou quebrá-las, ou qualquer coisa que o permitisse se libertar. - Não vai conseguir, a não ser que seja forte o suficiente para quebrar Adamantium.
-Você é louca! O que vai fazer? Me matar?
-É claro que não, seu tolo! Não sou uma assassina. Eu só preciso de tempo.
-Alguém vai perceber a minha ausência, minha noiva vai mandar uma mensagem pro Nick Fury e ele vai me encontrar!
-NICK FURY? , por que diabos o Nick Fury se importaria com ele , quem é esse...?
-Prazer, Peter Parker. Também conhecido como Homem-Aranha. Sabe, o Amigão da Vizinhança? Pois é, sua amiga louca me sequestrou, mas se você me ajudar, eu prometo pegar leve com você. Redução de sentença, enquanto ela aí apodrece na cadeia.
Ollie estava tão atônito que demorou cerca de cinco segundos parar finalmente falar algo. Seus olhos saltando das órbitas, seu corpo estremecendo e suando frio.
-O HOMEM-ARANHA? - sentou-se no estofado branco de dois lugares adjacente à cela, sabia que precisava deixar o amigo processar e explodir. Sabia também que ela merecia sua raiva. - VOCÊ PIROU DE VEZ? ESTÁ TÃO OBCECADA POR ELE QUE TEVE QUE SEQUESTRÁ-LO? POR QUÊ? NÃO! Não pode ser... Ah! HAHAHA – Ollie começou a rir desesperadamente. Olhando de Peter para , e então apontando para cantos aleatórios do recinto. - Entendi! Essa foi boa! Caralho, me pegou legal!
-Do que está falando? - perguntou com as sobrancelhas arqueadas, seu amigo tinha definitivamente ficado louco.
-É uma pegadinha! Muito boa por sinal, vai ter volta! Onde estão as câmeras?
-Ollie, por que eu brincaria com algo assim? Não tem pegadinha nenhuma. Eu o encontrei no Prythia e ele descobriu quem eu sou. Não tive outra escolha a não ser sedá-lo e trazê-lo para cá.
-Não teve outra escolha? NÃO TEVE OUTRA ESCOLHA?! - Ollie gritou estendendo os braços e olhando ao redor por uma solução que não viria. - Que tal não sequestrar o maldito herói favorito da cidade? - Disse Ollie enquanto sacava um joint de maconha do bolso.
-Hey, eu já falei pra você não- odiava qualquer tipo de fumaça. Já tiveram algumas discussões sobre Ollie fumar dentro da Base, mas desta vez sabia que não venceria o argumento. Se não tivesse que achar uma solução o mais rápido possível para o problema talvez até se juntasse ao amigo. Precisava desesperadamente relaxar. - Deixa pra lá. - Revirou os olhos bufando.
-Como você conseguiu convencer as pessoas do restaurante a não chamarem a polícia? Você me sedou e me sequestrou na frente de todo mundo. - O herói, parecendo mais calmo, apoiava os braços entre as barras.
-Disse que era uma agente do FBI disfarçada e que você era um criminoso altamente perigoso. Eles me imploraram pra te tirar de lá.
-Não acredito que caíram nisso. - Peter voltou a sentar-se na cama, suspirando pesadamente. Não tinha o que fazer a não ser esperar alguém notar sua ausência ou ela o liberar.
-Nem eu, sinceramente. Foi uma péssima mentira. Eu não tinha distintivo nem arma, mas como você me atacou primeiro, acho que deixou mais fácil pra mim. - o olhou de canto, estava cansada, perdida, frustrada. - Eu sempre quis saber quem você era, sabia? Mas não desse jeito. Desculpa. - Sussurrou a última palavra como se não soubesse que ele conseguiria ouvi-la com seus super sentidos, afundando-se mais ao sofá. Se for um sonho, por favor me acordem agora.
-Qual o plano então? O que vamos fazer com ele? - Ollie disse sentando-se ao lado da amiga. Estava começando a aceitar a situação. Fosse o que fosse, sabia que podia contar com ele. Uma parte egoísta estava feliz por tê-lo ali, embora soubesse que teria sido melhor para ele se tivesse lidado com a situação sozinha. Talvez ele ainda pudesse ter tido uma vida normal se apenas ela tivesse sido pega. Mas agora era tarde demais, estavam juntos nessa, bem como haviam prometido há dois anos.
-Não faço ideia. Apagar a memória dele? Conhecemos alguém com esse tipo de tecnologia?
-É uma boa, mas não consigo pensar em ninguém que possa nos ajudar. - Ollie disse tragando e oferecendo o cigarro a ela que negou. Precisava estar lúcida, não conseguiria sair dessa enroscada com os pensamentos confusos pela droga. Peter apenas observava os dois criminosos conversando como se estivessem decidindo aonde deveriam ir no final de semana.
-A S.H.I.E.L.D tem esse tipo de tecnologia. Fazem isso o tempo todo. - O herói disse dando de ombros.
-E como espera que consigamos algo da S.H.I.E.L.D, gênio? - Ollie respondeu sem paciência.
-Como eu vou saber? Vocês são os ladrões aqui.
Passaram um tempo em silêncio. Todos perdidos em seus próprios pensamentos, igualmente frustrados pela falta de opções.
E se... - começou, e se levantou ainda pensando. Andava de um lado para o outro novamente, com os pensamentos a mil. Ollie quase podia ver fumaça saindo de suas orelhas. - E se nós não roubarmos, mas pedirmos ao Nick Fury?
Ollie nunca se decepcionou tão fortemente na vida. A olhou com uma expressão que dizia “Você não pode estar falando sério”. Revirou os olhos e a encarou desacreditadamente. Aquela era a mesma pessoa que havia inventado uma tecnologia que a permitia voar e criar barreiras impenetráveis?
-E como planeja fazer isso? Pedindo por favorzinho? Já sei!, vai beijá-lo de língua! - Foi Peter quem respondeu, lembrando-se do último encontro que tiveram em que ela o havia pedido um beijo exatamente assim.
-O QUÊ?! Credo! Se bem que...
-Ollie! Não vou beijar ninguém! De fato, não serei nem eu quem vai pedir, mas sim o bonitinho ali. Ele inventa uma história de que uma pessoa do trabalho dele o viu se trocando, ou sei lá. E que precisa urgentemente apagar a memória dela antes que ela conte pra todo mundo. Mas diz que está ocupado, e para ele deixar em um local combinado que ele pega depois e aí - teve seu plano mirabolante interrompido pela risada de Peter. - Do que tá rindo, Oito Patas?
-Nada, nada... É só que a sua ideia é ridícula. No momento em que eu falar a primeira palavra, Fury já vai descobrir que algo está errado. Na verdade, quer saber? Faz isso mesmo! Melhor pra mim.
-Droga! - amaldiçoou. Ele estava certo, seu plano tinha tantas falhas que as chances deles saírem disso impunes eram mínimas, senão inexistentes. Balançou a cabeça negativamente, estavam mais que mortos.
Após um tempo em silêncio, voltou a jogar-se no estofado. Até que ouviram o bipe de um dos computadores indicando que uma mensagem criptografada acabara de chegar. Olhou para o amigo e bufou. O que quer que fosse podia esperar. Viu Ollie levantar-se e ir em direção à grande mesa com computadores, digitar a senha e ler em silêncio. Deixou a cabeça cair sobre o encosto do sofá e passou a encarar o teto branco sujo, sua mente pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo. Até que teve sua atenção chamada para o parceiro novamente.
-... Acho que vai querer ver isso.


Capítulo 3

Quando Peter acordou seu primeiro pensamento foi de que estava em sua própria cama vazia. Há tanto tempo ia dormir depois que Mary Jane já estava em um sono profundo e acordava depois dela ter saído de casa, que já não estranhava não sentir o corpo quente de sua noiva ao seu lado. Porém quando seus olhos finalmente se focaram à luz forte meio azulada vinda de diversas telas de computadores, percebeu que aquele não era seu quarto. As paredes desgastadas mostravam rachaduras e os tijolos por trás da pintura em diversos pontos. À sua frente, do outro lado da sala havia nove computadores, todos ligados mostrando diferentes informações. Um mostrava o mapa da cidade de Nova Iorque com pequenos pontos vermelhos piscando. Outro mostrava o mapa do mundo inteiro com diversos pontos vermelhos e verdes. Alguns mostravam planilhas. E outros, muitos outros, mostravam as mais diversas obras de arte e peças de joias. Do lado esquerdo de sua cela havia um pequeno sofá branco de dois lugares e uma porta que percebera estar fechada. Mas do lado direito podia ver apenas uma televisão média, uma vez que havia uma parede impedindo que Peter visse o restante no esconderijo.
No entanto, fora a porta o que mais chamara a atenção de Peter, quando o mesmo viu os dois criminosos com olhares preocupados passarem por ela após verificar algo no computador. Queria saber o que estava por trás dela, os objetos roubados talvez. Ou quem sabe um local de tortura onde eles o amarrariam a uma maca e cortariam seus dedos. Peter riu fraco do pensamento tolo.
-NÃO! É arriscado demais! - Peter viu o homem, Ollie, sair pela porta e logo após segui-lo.
-Shh! Temos companhia, lembra?
-E COMO EU PODERIA ESQUECER?! - Ollie passou a mão pelo rosto visivelmente frustrado, bufou e continuou calmamente. - , eu sei que quer ajudá-los. Mas agora não é a hora. Precisamos cuidar do problema maior primeiro. Além do mais, nem temos um alvo certo ainda.
-Claro que temos! E o banqueiro pedófilo? - suspirou pesadamente. - Precisamos fazer algo, Ollie! Por favor, eles estão morrendo! - Embora a última parte tenha sido sussurrada, Peter não teve problema em ouvir. Morrendo? Peraí, do que eles estavam falando? Mas antes que pudesse perguntar, andou em direção ao lado direito do esconderijo, e em seguida Peter pode ouvir uma porta bater.
Ollie mordeu a mão para abafar um grito, então virou-se para os computadores e começou a digitar rapidamente. Em poucos minutos, estava de volta. Peter a viu parar em frente às telas junto a seu parceiro e notou que ela vestia sua roupa preta justa, e que seu cabelo agora estava azul em uma trança.
-Hey! O que está fazendo? Você não pode me largar aqui e ir roubar alguém! - Peter foi até as barras, e novamente tentou abri-las sem sucesso.
-E o que você vai fazer? Me impedir? - o olhou com um sorriso irônico nos lábios e riu de suas tentativas falhas de escapar.
-Pelo menos me fala o que está acontecendo! - Peter bufou quando ambos o ignoraram e continuaram com sua atenção virada para os computadores. Tentou entender o que eles viam nas telas, mas o máximo que conseguiu identificar foi o mapa de Nova Iorque se expandindo revelando agora apenas um ponto vermelho piscando. O que quer que estivesse acontecendo, não poderia ser bom. Eles deveriam estar focados em como resolver o caso de Peter, o que poderia ser mais urgente que isso? Mas ela havia falado sobre como pessoas estavam morrendo. - E se eu te ajudar?
A última frase atraiu a atenção dos dois e Peter continuou.
-Você disse que pessoas estão morrendo, não disse? Bom, então eu quero ajudar!
-Que nobre. E depois o quê? Vai prometer voltar quietinho pra sua cela? - respondeu revirando os olhos. - Ah já sei, vai prometer não contar pra ninguém sobre nós. Acho que não, Aranha.
Peter bufou, mas não respondeu nada. Realmente não poderia perdoá-los, muito menos se deixaria ser pego novamente. Eles seriam burros se confiassem nele. Porém, nada apagava o pensamento de impotência de sua cabeça. Pessoas precisavam dele, e não havia nada que ele pudesse fazer.
O herói assistiu à mulher sussurrar baixinho algumas poucas palavras para o amigo, e então este levantar-se e a abraçar com força. “Eu volto logo.” Foram as últimas palavras de antes dela pegar a bolsa preta que sempre usava em seus roubos e sumir novamente de vista. Peter sabia que desta vez ela demoraria mais tempo a voltar.

...


O herói estava deitado na pequena, porém macia cama de sua cela quando sentiu Ollie se aproximar. Virou o rosto e o viu sentar-se no pequeno sofá, em sua mão direita havia um prato pequeno com um sanduíche, e sua mão esquerda segurava uma garrafa de água. Percebeu que o homem que aparentava ter mais ou menos a sua idade, definitivamente não mais do que 30 anos, parecia nervoso. Abria a boca diversas vezes sem emitir som algum.
-Sabe que eu não sou o vilão aqui, não é? - Peter decidiu acabar com o nervosismo do homem. - Não vou te machucar.
-Eu... Eu sei. - Ollie começou ainda não conseguindo encarar o herói. - Eu acho que sei. me disse para tomar cuidado com você. Que não deveria me aproximar da cela. Mas... - Ollie finalmente o encarou com um sorriso envergonhado. - Mas eu acho que ouvi seu estômago roncar umas cinco vezes, e bom... Eu sei que acha que somos os vilões aqui, mas não somos assim tão maus, sabe?
-Não sei se concordo, sua amiga nem sequer me deixou terminar meu jantar antes de acabar com o meu dia. - Peter riu fraco e suspirou. - Prometo não te atacar se me der esse sanduíche aí.
Ollie pareceu pensar nas possibilidades de ele estar mentindo. Olhou ao redor da sala, depois para a cela, e por fim parou em Peter.
-Não é que eu não confie em você, mas você sabe, não é? Eu já assisti a bastante filmes em que isso dá errado. Então eu preciso que você fique de ponta cabeça no teto, eu vou colocar o prato e a água no chão perto das barras e você desce e pega, ok?
Peter riu e o olhou incrédulo, mas quando viu que o homem continuava sério esperando uma resposta, confirmou com a cabeça e pulou no teto de sua cela rapidamente, decidindo virar-se de costas, para que Ollie visse que ele realmente não tinha intenções de machucá-lo. Não podia negar que a ideia passara por sua cabeça, mas quando estudou as grades, viu que a cela não possuía nenhum tipo de buraco de fechadura, o que só poderia indicar que era eletrônico. E se eles só conseguissem abri-la pelos computadores, ele perderia a confiança do rapaz e a oportunidade de se alimentar pelo tempo em que passasse preso. E Peter estava de fato faminto.
-Pode descer. - Peter engatinhou pela parede até chegar na cama. - Tava torcendo pra você dar um mortal pra trás.
-Não é como se tivesse espaço nessa cela de um metro e meio de largura. - Disse enquanto agachava-se no chão e esticava o braço, pegando primeiro a garrafa de água e então o sanduíche, deixando o prato ali mesmo. Mordeu e sentiu o gosto de presunto e queijo, não era melhor que o jantar que perdera, porém ainda assim devorou tudo em segundos, sentindo seu estômago acalmar um pouco.
-Quer mais um?
-Se tiver mais dois, eu agradeceria. - Peter o viu acenar e sair pela porta que havia chamado a sua atenção quando acordara. Por que eu estou quase decepcionado que “a sala de tortura” é apenas uma cozinha?
Ollie voltou com três sanduíches desta vez. Sem que precisasse pedir, Peter mais uma vez se pendurou no teto de ponta cabeça e esperou ouvir a confirmação para descer. Os dois comeram em silêncio, com pensamentos longe. Peter notou que Ollie checava seu celular a cada 30 segundos, ansioso talvez pela ausência da parceira de crime.
-Por que está tão preocupado com ela? É impossível encostar nela. Acredite, eu sei bem.
-Aí é que você se engana... - Ollie parou e pareceu pensar se deveria continuar falando com ele, porém deu de ombros e continuou. - Ela não deveria ter ido hoje, não estávamos preparados o suficiente. Parte do motivo de ela se sair tão bem nos roubos, é porque sempre nos informamos bem antes. Sabemos mais ou menos quantos policiais vão responder ao chamado e quanto tempo eles demorarão pra chegar lá. Estudamos os horários dos funcionários, e já até ligamos algumas vezes marcando uma consulta ou alegando emergência familiar para que não houvessem civis no local. E então esperamos até que todos ou a maioria dos heróis daqui estejam ocupados. - Ollie o olhou de canto. - Se bem que pra ser sincero, ultimamente ela tem feito questão de ir apenas quando soubesse que você estaria livre.
-Para esfregar na minha cara que eu nunca vou conseguir prendê-la. - Ollie riu e apenas balançou a cabeça confirmando. - Sabe que eu vou usar tudo isso que está me contando contra vocês, não é?
-Sei. - Deu de ombros. - Mas não é como se tivéssemos um futuro livre depois de te libertar, então não importa.
-Sinto muito, mesmo. - Peter finalmente se deixou reparar no rapaz. Em seus traços bonitos e cabelos loiros bem penteados. Ele vestia uma camiseta preta com desenhos abstratos em branco, e calças jeans escuras. - Você parece um cara decente, pena que faça escolhas erradas. Bem erradas.
-E se eu tivesse que escolher, faria tudo de novo. - O homem sorriu fraco encarando o chão.
-Tudo isso apenas por dinheiro?
-Não exatamente. - Ollie bufou e olhou para ele com seriedade. - Eu sei que o fazemos é errado, mas fazemos pelos motivos certos.
-É por isso que a saiu hoje? Quem está morrendo, Ollie? - Peter tentou soar o mais calmo possível, embora seu corpo todo estivesse rígido com a expectativa de poder ajudar quem quer fossem. - Por favor, Ollie. Pode confiar em mim. Você sabe que apesar de tudo, a minha prioridade é ajudar civis.
-Crianças... No sul da África. - O homem suspirou respondendo baixinho.
-Como assim? Eu não soube de nenhum ataque a crianças na África. - Peter respondeu confuso.
Certamente, os Avenger teriam pedido ajuda se alguém estivesse atacando um continente inteiro. E principalmente crianças. Ou pelo menos teria lhe falado algo.
-Isso porque não são ataques alienígenas ou monstros criados em laboratórios. - Peter notou que o tom de voz do loiro havia se tornado frio, como se ele estivesse nervoso com o próprio herói. O que não fazia sentido nenhum. É óbvio que se ele soubesse que crianças, de qualquer parte do mundo, estivessem em perigo teria feito algo para ajudar. - São apenas crianças, e homens e mulheres, passando fome. Sem água, ou roupas ou uma casa para morar. E claro, não somente na África, mas como no mundo inteiro. Porém, por não ser algo que você pode destruir com as suas teias e socos, o Amigão da Vizinhança não perde tempo com isso, certo?
Peter não conseguia encontrar palavras para respondê-lo. Era como se ele o houvesse socado no estômago. É claro que se importava com esses problemas no mundo. Mas como ajudar, quando ele mal tinha dinheiro para pagar as contas no final do mês? Porém, sabia que se isso era verdade, por que não havia feito mais quando tinha as Indústrias Parker e o dinheiro sobrava?
-Olha, eu sinto muito. Não gritar ou apontar dedos. Eu só estou preocupado. - Ollie esfregou a mão no rosto. - Com o que vamos fazer com você. Com . E com as crianças. - O homem sentou-se direito no sofá e após algum tempo em silêncio, decidiu por contar-lhe o que acontecia.
Aparentemente, os dois mantinham contato com alguns orfanatos e ONGs ao redor do mundo, e aquela mensagem havia sido de um pequeno orfanato na Angola, onde a diretora pedia ajuda com dinheiro para médicos e remédios, pois havia uma infecção atacando as crianças de forma rápida e tão forte que em pouco tempo havia tirado a vida de duas meninas de 5 e 7 anos.
-E sabe, não é que a não faria isso por qualquer outro lugar que pedisse ajuda, mas esse orfanato em si é bem importante pra ela.
-Por quê? - Peter arriscou a sorte, sabendo que a qualquer momento, ele poderia parar de responder.
Ollie suspirou pesadamente, e encostou a cabeça no sofá, copiando a amiga há pouco tempo.
-A cresceu em um orfanato. Eu não posso contar onde, mas o pai dela a abandonou quando a mãe ficou grávida, e ela não quis ou não pode criá-la sozinha. Ela diz que o orfanato e as cuidadoras eram boas, que cuidavam bem dela e de suas irmãs. Mas que o lugar em si era muito pobre e negligenciado. Que não recebia ajuda nenhuma do governo e por isso, passavam fome e frio com frequência. Até que ela achou que sua sorte fosse mudar quando fora adotada por um multi-milionário aos 12 anos. Que logo no início mostrou que não estava interessado em ser seu pai, mas sim seu chefe. Ele começou a treiná-la em todas as formas possíveis de luta, e contratou os melhores tutores particulares para ela. Mas ele era um homem ruim, sabe? Tudo isso era para que ela seguisse seus passos e virasse seu braço direito. Ele roubava e matava sem pensar duas vezes. Além de vender drogas. Porém, até então ela nunca havia de fato se importado. Sempre focando em toda atenção, que embora tóxica, fosse a primeira que ela tivesse recebido na vida.
Peter ouvia tudo atentamente. Absorvendo todas as informações que recebia e aos poucos entendendo um pouco o lado da ladra.
-Até que... - Ollie suspirou novamente. Peter esperou calmamente que ele continuasse. - Até que quando ela ficou mais velha, ele tentou forçá-la a... você sabe. E bom, ela sempre para aí e diz que pegou tudo o que pode, dinheiro joias e fugiu. Foi para a Europa e lá criou uma nova identidade, com um novo nome e rosto. Se matriculou no curso de física em Oxford e se especializou em nanotecnologia. Se mudou pra Nova Iorque há uns três anos, me conheceu e aqui estamos nós. Tentando mudar o mundo um pouquinho de cada vez, fazendo o que homens ricos e poderosos não fazem. Mesmo que isso consuma nossas almas e acabamos parando no inferno.
Peter precisou de um tempo para processar a última parte do que ouvira. Era difícil pensar em mais nova fugindo de seus abusadores. Ela que sempre tinha um sorriso sarcástico no rosto e não deixava ninguém chegar perto. ... Se é que esse era realmente seu nome. Peter não entendia o porquê de estar frustrado por perceber que após finalmente ter descoberto sua verdadeira identidade, não poderia estar mais enganado.
Por que ela simplesmente não contava logo qual era seu nome verdadeiro? Bom, ele não poderia ser hipócrita a ponto de fingir não saber o motivo. Talvez se usasse seu nome real, seu pai adotivo a acharia mesmo aqui. Se era mesmo um homem rico, com certeza teria recursos para isso. Mas então, por que diabos não conseguia impedir sua curiosidade?
Finalmente, Peter optou por perguntar de uma vez por todas. Não esperava que fosse obter resposta desta vez. Certamente seria esperar demais, mas...
- Você sabe o nome dela? O nome dela de verdade?
Ollie estava prestes a responder, quando ouviram o som do portão de fora ser destrancado. Peter o viu se levantar e caminhar até os computadores, checando rapidamente e em seguida correr para o lado da sala que não conseguia ver. Ouviu o som de uma porta ser aberta e passos apressados. Segundos depois, pode ouvir os dois de volta. Ollie apareceu segurando com um braço em volta de seu pescoço, enquanto ela resmungava dizendo estar bem, e a deitando no sofá branco ao lado de sua cela. Peter se levantou e colocou as mãos em volta das barras, se aproximando o máximo possível.
-O que aconteceu?
-Nada Aranha, fica de boa aí.
-Eu falei pra você não ir! Eu falei, !!! Por que não me escutou?
-Não foi nada, Ollie! Vai logo pegar o kit de primeiros socorros. Ou quer que eu mesma pegue?
-Idiota, não se mexe. Eu já volto.
Peter viu Ollie correr parar o lado oculto da sala, sumindo novamente de vista. Enquanto segurava um pano encharcado de sangue no lado direito de seu abdômen.
-Você levou um tiro?
-Foi de raspão apenas.
-Achei que fosse impossível quebrar sua barreira.
-Eu me distraí.
-Você está bem?
-Como se você se importasse.
Mas ele se importava. É claro que se importava! Não porque sentia afeto por ela, mas porque qualquer pessoa com o mínimo de consciência se importaria em ver alguém levar um tiro. E além de se importar com o fato de ela ter se sido ferida, se perguntava o motivo disso ter acontecido. Quando nem mesmo ele utilizando as armas de seu traje conseguira quebrar sua barreira.
Em pouco tempo Ollie voltou com uma pequena maleta branca, gazes, uma garrafa de água oxigenada, e um par de tesouras. Peter o assistiu cortar horizontalmente a roupa da mulher, o permitindo acesso ao ferimento. Então umedecer um pouco de gaze com a água oxigenada, mover o pano sujo e... ter um refluxo, tapando a boca com a gaze.
-Caralho, Ollie! Não vai vomitar em mim. Sai daqui, deixa que eu faço isso. - pegou outra gaze e a umedeceu com água oxigenada também, levando-a lentamente ao ferimento, enquanto Ollie corria em direção à parte escondida da sala.
Ela parecia concentrada e calma enquanto limpava o ferimento, deixando alguns poucos assobios de dor escaparem. Peter a viu descartar a gaze e lentamente pegar outra, a depositando gentilmente no ferimento. Então enquanto a segurava com uma mão, com a outra abriu a pequena maleta e tirou de lá um pacote pequeno que Peter reconheceu de tantas vezes que ele mesmo usara. Era um tipo de adesivo que substituía pontos, muito prático e útil quando não se podia ir ao hospital. Ele a viu colocar o adesivo com destreza e logo em seguida cobrir a ferida com um curativo esterilizado.
-Você já fez isso antes.
-Algumas vezes. - Ela respondeu, descartando o restante do lixo no chão e encostando a cabeça no sofá. Peter a viu fechar os olhos no momento em que Ollie reaparecera na sala.
-Já terminou? - Tudo o que puderam ouvir fora um “Mhmm” como resposta. - Então vai contar o que aconteceu agora?
-Não foi nada, Ollie, já falei. Vai lá ver o que você consegue vender, precisamos mandar o quanto antes.
-Como assim, não foi nada? Você me prometeu que nunca se machucaria. E olha pra você! VOCÊ QUASE MORREU!!! - O rosto de Ollie que antes estava pálido após ver o ferimento de , agora estava completamente vermelho de raiva.
-Nossa, que exagero, Oliver! Pegou de raspão, longe de qualquer órgão vital. Em dois dias, será como se nada tivesse acontecido.
-Vou perguntar pela última vez! O-QUE-A-CON-TE-CEU?!
bufou, revirou os olhos e finalmente respondeu.
-Um funcionário estava lá. Ele estava escondido e ninguém o tinha visto, nem mesmo os policiais. E quando os idiotas começaram a atirar. Sério porque eles ainda fazem isso? - virou-se, perguntando a Peter, que apenas deu de ombros. - O senhorzinho se assustou e tentou correr, mas ele entrou bem na linha de tiros. Eu perdi o foco quando o vi, joguei a barreira nele e acabei não percebendo que tirei a minha própria proteção. Por sorte, os Fardinhas também se assustaram com ele e todos, com exceção de um, atiraram nele. E pelo jeito o único que continuou mirando em mim era um Stormtrooper.
riu de sua própria piada e em seguida gemeu de dor, mas Ollie continuava sério a encarando. Peter, no entanto, não sabia o que pensar.
-Você é uma idiota. - Ollie suspirou e passou a mão no rosto. - Mas pelo menos está bem.
-Estou. Agora dá pra seguir com o plano, por favor? Eu não quase morri por nada...
-!!!
-Estou brincando! Estou brincando! Já falei que não foi nada, só queria ver a sua cara. - deu uma piscadinha e se levantou com certa dificuldade do sofá. - Bom, agora se me dão licença, vou tomar um banho e trocar essa roupa nojenta. Quando eu voltar, resolvemos o que faremos com você, Peter. - virou-se em direção ao lado direito da sala que Peter não conseguia enxergar, porém voltou a encará-lo com um sorriso sedutor nos lábios. Ele já sabia o que esperar. - A não ser, é claro, que queira se juntar a mim.
-Não perderia por nada. Abre a cela e tomamos até dois banhos juntos se quiser. - Peter respondeu, copiando o sorriso da mulher e piscando para ela. Ela o olhou de cima a baixo lentamente, entortou a cabeça, fez um biquinho frustrado e suspirou antes de responder.
-Talvez um dia, Aranha. - Virou-se novamente, e desta vez continuou andando até sumir de vista. Peter não conseguiu impedir seus olhos de irem em direção a sua bunda, desviando o olhar rapidamente e se amaldiçoando baixinho por ser tão fraco. Porém, antes de uma porta bater, ainda a ouvira repetir em voz alta. - Um dia!


Capítulo 4

sabia que o correto era esperar pelo menos dois dias por causa de seus pontos, mas precisava desesperadamente sentir a água quente cair sobre seu corpo. Então achou suficiente envolver parte do abdômen com plástico filme cobrindo todo o curativo, e depois limpar com a toalha úmida o que não fora tocado totalmente pela água e sabão, fazendo questão de secar bem os pontos e trocar o curativo. Não era o melhor banho de sua vida, mas definitivamente um dos que mais precisara.
Enrolou-se na toalha e observou seu reflexo no espelho parcialmente embaçado do banheiro. Quase não reconhecia o rosto que a encarava de volta. Não via aquele olhar perdido há muito tempo, desde que decidiu virar quem era hoje. Mas agora com tudo tão perto de chegar ao fim, e por causa de um erro tão idiota... Você é uma idiota. Deu às costas ao espelho e respirou fundo, não querendo causar lembranças de uma época que jurara não deixar atormentá-la mais. Ok, um passo de cada vez. Terminou de se enxugar e sorriu ao ver a roupa que o amigo trouxera para ela dobrada em cima da tampa da privada. Geralmente não se importava em andar seminua pela Base porque sabia que nada nunca aconteceria entre Ollie e ela, então esquecera-se de trazer roupas novas, mas o bom e fiel amigo aparentemente não a deixaria andar apenas de toalha em frente ao “visitante”, não que ela se importasse... Droga, ! Se controla! Ele tem uma noiva. E também tem o fato de que te odeia e que é seu inimigo e que quer te ver atrás das grades assim como você o botou. Deu de ombros e bufou, enfim colocando a calça moletom azul escura e a camiseta branca, decidindo deixar os cabelos soltos para que secassem naturalmente.
Quando chegou à sala principal de sua Base, Ollie estava em frente aos computadores contatando os compradores que mais confiavam enquanto cantava distraída e desafinadamente Umbrella, que saia da pequena caixa de som que tinham.
-Under my umbrella, ella, ella, eh, eh, eh. Under my umbre- -Algum progresso? - A mulher perguntou interrompendo o amigo que embora não tenha gostado de ter que parar de cantar, respondeu prontamente.
-Já vendi quase tudo, tem uma peça que estou em negociação e uma outra que estou com dificuldades pra achar um comprador. Ninguém a quer porque aparentemente poderia ser facilmente rastreável.
-Aquele coelho maldito, né? - Ela disse indo em direção ao pequeno e único sofá e sentando-se com as pernas esticadas no estofado. Peter os assistia atentamente, mas ela não se importava. Não é como se essa venda fosse fazer alguma diferença em sua sentença caso ele conseguisse prendê-la. - Precisamos vender aquela coisa, é a peça que vale mais. Fora que foi super pesado, quase acabou com meu estoque.
-Eu sei! Por isso mesmo que é tão difícil. - Ollie virou-se na cadeira para olhar a amiga. - Mas você sabe quem talvez se interessaria...
-Não! Já falei que não fazemos mais acordos com eles.
-Talvez seja a nossa única chance, !
-Eu já disse que não. Pelo menos não enquanto o imbecíl do Antônio estiver vivo. - A mulher disse cruzando os braços e virando o olhar para a tela escura da televisão.
Antônio, o cara nojento com o dobro de sua idade que tentara forçá-la a dormir com ele quando fora entregar a encomenda, um colar de diamantes e rubis, que ele e sua família de traficantes italianos compraram. Estava tão animada por finalmente ter conseguido achar um comprador para uma das peças mais valiosas que tinha roubado até então, que fora ela mesma pessoalmente entregar. Com sua máscara e peruca, é claro, omitindo sua identidade, mas isso não o impediu de se sentir no direito de tentar clamar o corpo da mulher como seu. Porém, não demorara muito para que ele se arrependesse amargamente das tentativas. decidiu manter a calma, pedindo educadamente que parasse, pois queria manter a paz entre eles para mais acordos futuros. Entretanto, quando o homem preferiu ignorar seus pedidos, a jovem fingiu que tinha aceitado, apenas para agarrar seu órgão genital com força e torcê-lo. Ouvindo o seu grito desesperado que mais parecia música para os seus ouvidos. Esperou que tivesse que lutar contra seus homens, preparando-se mentalmente para o que viria a seguir, mas quando um de seus irmãos fora socorrê-lo, entendeu o que estava acontecendo e começou a gargalhar, correndo para contar aos demais que para a sorte de também acharam engraçado.
-Olha, eu sei e apoio a sua decisão de querer distância deles, mas para pra pensar no que está em jogo. Olha o que você arriscou pra ajudar elas. Vai mesmo desistir agora? - Ollie apontou para a cela.
- Não é como se tivéssemos tempo para pensar em uma solução melhor.
bufou e apenas resmungou um quase inaudível “ok”. Ollie, satisfeito, virou-se novamente para as telas voltando a digitar rapidamente. Ele tinha razão, a peça valia quase 1 bilhão de dólares sozinha, precisavam daquele dinheiro. Não apenas para cumprir a missão, mas também para fugir do país indetectavelmente, o que infelizmente seria a única solução. Enquanto tomava seu banho, ela pensara em como gostava de morar em Nova Iorque. Estava longe de ser uma cidade perfeita, mas era o mais próximo de um lar que encontrara. Sentiria falta de seu apartamento simples, porém decorado do jeitinho que ela sempre sonhara. Sentiria falta da Base, que mesmo velha, permitia que realizassem seus trabalhos sem chamar atenção. Mas sentiria ainda mais falta de Ollie, o homem que desde o início a apoiou em seu plano maluco e se tornou com ela um criminoso por um bem maior. Sabia que estariam mais seguros separados, porém isso não impedia a dor em seu peito.
entrou na galeria bem iluminada exibindo seu melhor sorriso e aceitando uma taça de champagne que um garçom a oferecera. Tomou um gole e olhou ao redor, procurando pelo seu alvo da noite. Viu homens e mulheres de diferentes idades, acompanhados e desacompanhados, portando joias, bolsas e relógios caros. Era como um oceano cheio de peixes, e ela era um tubarão.
Andou pela galeria, ora observando a arte exposta, ora procurando quem atendesse a todos os seus critérios. Notou diversos olhares em sua direção, alguns famintos, outros invejosos, outros admirados. Sabia que havia acertado quando escolhera o vestido preto justo no busto e aberto nas costas inteiras até o quadril, cujo cumprimento ia até o chão em um pano leve e esvoaçante, e tinha uma fenda na perna direita mostrando quase toda a sua coxa. Simples, porém perfeito.
Quando viu um homem de pouco mais de 25 anos, elegante e definitivamente atraente observando sozinho tão atentamente um quadro a sua frente, decidiu que ele seria a sua companhia pelo restante da noite. Aproximou-se dele, parando ao seu lado e observou a tela.
-Um dos quadros mais bonitos, com certeza. - Disse olhando-o de canto enquanto tomava mais um pequeno gole de sua bebida.
-Se é o mais bonito, eu não sei. Mas com certeza é o mais caro... - Ele disse suspirando profundamente, e virando-se para olhá-la com um sorriso lindo nos lábios vermelhos.
-E deixe-me adivinhar... Estará pendurado na sua sala amanhã à tarde.
-Há! Eu não tenho dinheiro pra isso não. E mesmo se tivesse, não seria com uma tela com tinta que eu gastaria. - O homem disse zombeteiro, notando o olhar confuso e chocado da mulher. - Perdão, não quis ofender. Aposto que ficaria lindo na sua sala.
Ela o observou com os olhos cerrados, aparentemente havia se enganado. O que, se se permitisse dizer, nunca acontecia. Pelo menos não quando se tratava de seus alvos. Há dois meses, escolhia homens que sabia terem o ego tão grande que os cegaria para o golpe que ela daria. Ignorantes ao fato de que ela os convidaria para um lugar mais “tranquilo” apenas para dopá-los e roubar seus pertences mais valiosos. Deixando-os confusos na manhã seguinte, sem memórias da noite que tiveram, apenas com um bilhete explicando que ele tinha pagado por seus serviços com seu relógio, corrente, anel e todo o dinheiro de sua carteira. Sempre ria do fato de que era a “prostituta” mais cara que já ouvira falar, mas pelo menos isso os impedia de ir à polícia com medo de serem presos, ou até mesmo de suas esposas descobrirem a traição.
-E o que você faria se tivesse o dinheiro para comprar esse quadro? - Ela perguntou sinceramente interessada, não era todo dia que encontrava alguém em uma galeria dessas que não almejasse comprar as peças mais caras apenas para aumentar seu status.
-Não sei... - Ele pensou, olhando novamente a pintura à frente. - Acho que doaria para a ONG que eu trabalho.
-Doaria tudo? - Ela o olhou com dúvida. - Impossível!
-Ah, não sei. Talvez não tudo, mas eu trabalho há dois anos vendo tanta gente passando fome, sem água, sem saneamento básico. Acho que eu ia preferir ajudá-los, sabe? 500 milhões é muito dinheiro, e embora eu não seja rico, tenho uma vida legal. Eles não têm quase nada.
Ainda não acreditava totalmente, pensou que talvez ele apenas a estivesse tentando impressionar. Tinha que admitir que era uma tática nova para o ambiente em que se conheceram. Geralmente, as pessoas ali pensavam completamente o oposto, querendo o máximo de peças que podiam comprar.
-Então está aqui apenas para admirar a beleza dos quadros e das esculturas?
-Se eu posso ser sincero, – Ele começou e aproximou os lábios do ouvido dela falando baixinho. - Eu nem sequer acho isso bonito, estou aqui apenas porque o cara que me convidou é um dos homens mais lindos que já vi na vida, não tive como recusar.
riu e o olhou descrente. Aparentemente se engara mais do que o esperado. O homem ao seu lado não só não era um esnobe egocêntrico, como também não estava interessado em suas tentativas de levá-lo a um lugar em que pudessem ficar sozinhos. Porém, sentira algo especial nele, talvez o brilho no olhar quando falara que preferiria ajudar quem precisava do que gastar com uma pintura. Talvez o fato de que pensavam parecidos. Fosse o que fosse, ela sentia que precisava conhecê-lo mais.
-Prazer, . - A mulher disse esticando a mão. - Mas pode me chamar de .
-É um prazer, senhorita . - Ele aceitou seu cumprimento e disse cordialmente, porém escondendo uma risada nos lábios. - Ollie.



Continua...



Nota da autora: Enfim, após um tempo desanimada, voltei a escrever a fanfic! Reescrevi algumas coisas nos primeiros capítulos, e a boa notícia é que desta vez já está quase tudo terminado, então as atualizações devem sair rapidamente. Lembrem-se que cada comentário seu gera um sorriso meu! Um beijo, e até a próxima!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


Caixinha de comentários: Olá, leitora! O link do DISQUS está um pouco instável atualmente e pode não aparecer para você. Se quiser deixar um comentário para autora, é só clicar AQUI


comments powered by Disqus