Última atualização: dezembro/2023

Prefácio

Aquele era um péssimo dia para uma reunião emergencial que eu nem sabia do que se tratava. Bem à meia-noite daquele dia dez, mercúrio retrógrado havia entrado em ação. Minha ansiedade era tanta só de saber daquele ilustríssimo fato, e ela não me deixou por bastante tempo até eu conseguir dormir tarde da madrugada. Quando meu despertador tocou no horário, me permiti dormir um pouco a mais do tempo que deveria, e isso me resultou num atraso de pelo menos trinta minutos. Corri pelos corredores numa tentativa frustrada de me fazer chegar “cedo”, e suspirei quando observei através da parede de vidro que faltava bastante gente chegar.
Ufa. Dessa vez o universo deve ter me ajudado.
— Estou no escuro aqui, sobre o que exatamente é essa reunião? — perguntei ao me sentar ao lado de Patrick, meu chefe.
— Salvação do contrato mais caro que essa empresa já viu — ele cochichou, olhando para os lados, verificando se ninguém tinha ouvido.
— É um filme? — perguntei, curiosa.
— Uma cinebiografia — ele falou mais baixo que da última vez, eu não estava entendendo o porquê de todo aquele suspense. E isso só me instigou mais a perguntar.
— Nossa, parece alguém importante, então. Você sabe quem é?
— Lewis Hamilton — Patrick falou por último.
Eu estava em estado de choque, porque não conseguia entender como uma produtora mediana havia conseguido um contrato daqueles. Desde que me enfiei naquela empresa – literalmente, pois ainda sou uma mera prestadora de serviço –, não tinha esbarrado com ninguém tão famoso. E apesar de considerar Cobie Smulders muito importante na minha trajetória humana, eu sabia que seus anos de glória haviam sido quando estrelava a desapegada Robin Scherbatsky em How I Met Your Mother.
A grande mesa retangular de vidro mantinha todos reunidos, apenas aguardando a chegada do piloto. Era engraçado perceber que talvez eu estivesse menos arrumada comparado ao restante dos funcionários, porque aparentemente cada um escolheu a roupa mais elegante que tinha no guarda-roupa para esse encontro.
E eu estava literalmente menos arrumada, porque mal vestida eu nunca estava.
Algumas conversas paralelas podiam ser ouvidas, mas a maioria das pessoas estavam caladas, com feições aflitas e ansiosas, já que todos sabiam dos riscos e sentiam o peso do contrato em seus ombros. Os murmúrios cessaram pouco a pouco quando vozes do lado de fora do cubículo de vidro ficaram mais altas e, de repente, toda a sala ficou em silêncio.
— Bom dia, pessoal! Sou Lewis — o piloto nos cumprimentou, e todos responderam seu bom dia em uníssono.
Como em qualquer dia do ano, ele aparentava estar em uma passarela. Sua vestimenta era simples, porém, Lewis conseguiu torná-la impecável. Vestia uma calça jeans de lavagem clara, destruída na bainha, e uma camiseta básica da cor mostarda. Ele logo se dirigiu para a ponta da mesa, bem em frente ao telão.
O roteirista principal da empresa logo se dirigiu para a frente do telão, ajeitando o paletó ao seu corpo, como se estivesse desconfortável com o discurso genérico que estava prestes a fazer.
— A grande ideia do projeto é fazermos um passeio pela sua carreira enquanto exibimos seus principais rivais em todas as modalidades que você correu, num formato de Drive to Survive* — Richard começou explicando enquanto trocava as imagens exibidas na tela. Nela continha Lewis em alguns pódios com outros pilotos que tiveram embates fervorosos com ele durante sua carreira. — Teremos os depoimentos da sua família, contando um pouco da sua trajetória na infância e como eles lhe apoiaram todo esse tempo — ele continuou, e dessa vez, fotos do piloto em momentos fora das pistas com seus familiares eram exibidas. — Além deles, teremos as equipes McLaren e Mercedes para contar um pouco do seu envolvimento com as escuderias.
Uma grande pausa feita por Richard deixava claro que o que ele havia imaginado para o documentário fora apenas aquilo. Todas as cabeças existentes fizeram menção para observar a reação do Lewis. Uma linha fina estava presa em seus lábios, demonstrando zero sinal de aprovação ao se deparar com o que tinha acabado de assistir, além de transmitir uma intensidade no olhar que gritava crítica.
— Era isso? — o piloto perguntou para Richard num tom desdenhoso.
— Be-bem, sim — o roteirista gaguejou em claro sinal de medo pelo que viria a partir dali.
— Bem, eu estava esperando algo a mais — Hamilton pausou como se estivesse procurando as palavras certas. — Eu não quero que vocês mostrem meus rivais, afinal, o documentário não é sobre eles. Além disso, a ideia de Drive to Survive não me agrada em nada, porque toda a trama é criada para forçar uma rivalidade inexistente. Você pensou em algo mais?
A sala ficou silenciosa por alguns segundos. Todos se entreolharam porque não havia um plano B, nem mesmo um plano C. Estaríamos completamente fodidos se não houvesse nenhuma outra ideia para fazer o piloto aceitar aquele documentário. O nervosismo parecia atravessar os poros de todos, mas aquilo despertou em mim uma onda de risos que eu não consegui controlar. E vinha cada vez mais alto e forte. Todas as pessoas me olharam como se eu fosse louca, e talvez eu fosse.
— Eu falei algo engraçado? — Lewis perguntou com uma fala arrastada, confuso com a razão da minha risada.
— Me desculpe, mas não. Perdão. É só que… — falei pausadamente, tentando encontrar as palavras certas, fazendo minha mente ganhar tempo para respondê-lo.
— … Que essa ideia é patética, certo? — ele completou meu pensamento. Sua voz reverberou pelo ambiente, deixando todos tensos.
De repente, percebi a mancada que eu havia dado. Eu era a única mulher da sala. Isso significava que eu ia daqui direto para a porta da rua. Todos agora tinham seus olhares julgadores para mim, esperando uma resposta digna de alguém muito corajosa.
— É, na verdade, sim. Esse script limita toda a sua trajetória de vida em um único tópico. Entendo que mostrar as rivalidades que você teve dentro do esporte atrairia olhares curiosos, mas você vai ser resumido a isso — comecei falando; percebi que tinha atenção dele, então continuei. Aquilo estava funcionando. — Lewis, você tem um papel social gigante, dentro e fora das pistas. Seu nome é mencionado em todos os cantos, inclusive no mundo da moda. Para mim, você é um artista nato! Esse documentário tem que ser sobre você e mais ninguém.
— Qual seu nome?
Travei com aquela simples pergunta. Qual nome meu pai havia me dado, mesmo?
— respondi séria, como se alguma parte da minha postura segura ajudasse naquele momento de conflito. Hamilton continuava com uma feição de poucos amigos, aquilo não poderia ser nada bom.
— Pessoal, ficará à frente do projeto, caso contrário, não teremos documentário — Lewis determinou com o único sorriso que deu desde que entrou naquela sala.

*Drive to Survive é uma série documental produzida pela Netflix juntamente com a Fórmula 1, onde mostra os bastidores dos pilotos e da corrida durante o Campeonato Mundial de Fórmula 1.


1.

Essa minha constante busca pela beleza e profundidade das palavras finalmente teriam algum propósito. Finalmente todos, que de alguma forma viessem a cruzar os meus caminhos roteirísticos, iriam enxergar a vida pelas minhas lentes. Esse era meu principal objetivo de vida, o meu meio do céu, o ponto alto do meu mapa astral. O segundo, se houvesse, eu ainda viria a descobrir.
Todas as pessoas têm algo para comunicar ou para transmitir. E apesar de toda linha de apoio e estrutura organizacional de uma obra cinematográfica fossem importantes, eu acreditava que, de todo aquele cenário, o papel mais importante ainda era do roteirista. Não estou querendo puxar sardinha para o meu lado, estou apenas assegurando um fato. Afinal, se algo não estivesse escrito com todas as nuances, nunca estaria nas telas de forma correta.
E era por isso que eu queria fazer aquilo. Mesmo que meu rosto não brilhasse nos holofotes, minhas palavras brilhariam.
— O que você sabe de Fórmula 1? — Patrick indagou assim que fecho a porta de vidro. Eu entendia absolutamente nada, mal conseguia trocar um pneu de um carro, avalie entender sobre um esporte a motor.
— Praticamente tudo, tenho uma paixão ávida por carros! — forcei um sorriso, tinha certeza que ele acreditaria em mim. — Mas para algo desse nível, eu teria que fazer algumas pesquisas, claro — concluí, observando o homem suspirar e coçar parte sua nuca, inquieto.
— As pessoas estão enlouquecidas com o que você fez na sala, . Você tem a obrigação de escrever um puta roteiro! — ele aumentou a voz, me fazendo temer meu futuro.
— Bom, Lewis iria abandonar o projeto de qualquer jeito. A empresa deveria agradecer pelo meu atrevimento — dei a única resposta possível.
— Eu sei disso — ele passou a mão na sua careca, ajeitando os três fios de cabelo restantes.
— Não foi minha intenção causar esse burburinho todo, sabe? — menti. — Ah, na verdade, foi sim! Um projeto merda desses… Richard deveria ter vergonha de mostrar aquilo pro Lewis. Eu…

— Oi — suspirei, esperando minha demissão.
— Se você conseguir fazer esse projeto andar… — ele começou falando calmamente, enquanto eu me preenchia de esperança. — … Eu crio uma vaga de Roteirista Júnior. Não é o que você queria?
O que eu queria? Porra! Aquilo era o que eu mais almejava na vida, mesmo que numa vaga júnior.
Patrick representava muitas coisas naquela empresa, e uma delas era uma figura paterna para mim desde quando nos conhecemos. Em uma das milhares palestras que participei durante meu mestrado em roteiros, ele simpatizou comigo quando fui a única a me posicionar contrária a estruturas convencionais de roteiros, e me ofereceu um estágio no final daquele dia. Apesar de ter conquistado uma bolsa de estudos, eu também trabalhava na cafeteria da universidade para ter alguns luxos no fim do mês.
Quando olho para trás, não consigo acreditar como consegui aguentar aquilo por tanto tempo, até porque Patrick me fazia muitas exigências, mas eu sabia que tudo aquilo seria para uma honraria maior. No final do estágio, ele me ofereceu uma vaga para ser sua assistente de produção, na esperança de um dia poder ser contratada como roteirista.
— MEU DEUS! — corri em sua direção, o abraçando forte. — Você não vai se arrepender! Obrigada, obrigada, obrigada.
— Tá bom — ele se afastou, odiando aquela intimidade toda —, agora precisamos nos mobilizar para que isso saia perfeito. Já que você é familiar com a Fórmula 1, tire o resto da semana para estudar sobre o Hamilton. Você precisa estar pronta para documentar a vida dele. Entendeu? — ele terminou de falar e eu travei um pouco. Meu coração iria sair pela boca a qualquer momento.
— Perfeitamente!
— Enquanto isso, vou entrar em reunião e vejo como tudo vai seguir daqui.
Assenti e saí da sala.
Eu estava ferrada.
Eu genuinamente tinha me colocado naquela situação que, por incrível que pareça, não gostaria de sair dela. Oportunidades não caem do céu, principalmente para pessoas como eu. Só eu sabia o quanto dei um duro danado para chegar naquela cidade, enfrentar as adversidades e me colocar naquela empresa. Mas ainda tinha muitos obstáculos até chegar no meu objetivo, e se mentir sobre um assunto me levaria até ele, então era isso que eu faria. Não poderia deixar essa chance escorregar pelos meus dedos. Então eu contaria uma mentirinha ou duas.
Caminho em passos largos até minha mesa, desligo o monitor do computador, pego a bolsa e rumo para casa, desesperada para alimentar minha mente sobre o mundo automobilístico.
Durante meu trajeto, eu sempre tinha tempo para divagar sobre ideias de futuros projetos que só existiam na minha imaginação – pelo menos, por enquanto. Mas, naquele momento, o que predominava meus pensamentos era que talvez eu pudesse ligar para a única pessoa que eu tinha certeza que daria uma aula sobre aquele assunto, sem que eu precisasse implorar muito para isso. Deslizo a tela pela lista de contatos e aperto o verde. Sua voz ecoa nos meus ouvidos e eu sorrio em resposta.
— Oi, painho. Benção.
Alô, ! Minha filha, Deus te abençoe. Como você está? — ouço a voz serena dele, acalmando meus anseios como ele sempre fazia. A saudade parecia apertar mais agora do que nunca.
— Estou com saudades. Liguei para contar uma novidade. Vou finalmente ter a oportunidade de ser roteirista.
Ah, eu sabia que conseguiria! Você sempre foi muito criativa. Lembro quando fez uma peça de teatro sobre como eu e sua mãe nos conhecemos. Você nos fez ensaiar as falas que criou, tudo perfeitamente pensado — ele se lembrou com orgulho. E pelo seu tom de voz, eu tinha certeza de que estava sorrindo.
A configuração de uma família quando se é filha única resulta numa conexão mais intensa. Minha mãe sempre soube tudo sobre a minha vida. Chegava até ser bizarro o fato de eu nunca ter mentido para ela sobre qualquer coisa, principalmente na adolescência, quando mentir se torna parte da nossa personalidade. E com meu pai não era diferente, mas eu sentia que de alguma forma tínhamos um vínculo exclusivo, e ele sempre conheceu muito bem meus interesses e aspirações, talvez mais do que minha mãe.
— Eu sempre fui uma criança meio mirabolante das ideias — ri ao me lembrar de todas outras peripécias que eu inventava na infância. — Mas ainda trabalho como assistente de produção, e agora surgiu uma oportunidade de escrever esse roteiro. Se eu conseguir que nosso cliente se interesse, vou conseguir uma vaga de Roteirista Júnior.
Tenho certeza que você vai se sair muito bem, filha. E sobre o que é o filme? — perguntou com um tom suave que sempre usava quando demonstrava atenção no que eu falava.
— Na verdade, é um documentário sobre a vida do Lewis Hamilton. A trajetória da sua infância até se tornar um dos maiores pilotos da Fórmula 1.
Ele realmente é o maior de todos os tempos. Depois do Senna, óbvio! — Eu ri com sua ênfase. — Não sabia que estava interessada em roteiros de documentários.
O senhor Francisco nunca deixaria de falar do piloto favorito dele. Isso de alguma forma me transportou para a minha infância, quando, nas manhãs de domingo, eu estava enrolada num lençol junto a ele no sofá assistindo às corridas. E nunca, em hipótese alguma, ele pararia de reclamar sobre como sentia falta dos tempos do Senna.
— Eu não estava realmente procurando esse segmento, mas surgiu a oportunidade e eu agarrei, sabe? Não poderia deixar essa passar. Mas, pai, você não quer me falar sobre o esporte? Sinto que não sei muito sobre e você sempre gostou tanto, achei que poderia me ajudar nessa.
Claro que sim, com todo prazer, meu bem — ele pigarreou antes de iniciar sua aula. Ri silenciosamente, porque era algo que ele sempre fazia quando tentava me ensinar matemática. — Veja, pra que você entenda, existem várias categorias do automobilismo, mas a mais popular e mais avançada é a Fórmula um. É onde tem os melhores pilotos, que vieram de outras categorias menos famosas — ele começou explicando. Meu notebook já estava aberto em um documento para escrever todas aquelas informações básicas.
— E são quantos pilotos no total?
São vinte pilotos distribuídos em dez equipes.
— Nossa, mas tem muita gente na pista, e raramente se ouve falar em mais de dois ou três nomes.
É porque sempre tem aqueles que se destacam mais, tanto pela sua habilidade, quanto pela sua equipe.
— Faz sentido, mesmo. Mas e a equipe também entra na competição?
Sim, eles participam do campeonato de construtores. Cada vez que os pilotos pontuam, a equipe também pontua. Então, é claro que o objetivo da corrida é ganhar, mas além disso, é importante que o piloto chegue até a décima colocação para reunir pontos para sua equipe.
— Tá, deixa eu ver se entendi. Nem sempre ganhar uma corrida é importante?
Mais ou menos isso, mas todo mundo quer ganhar. Hoje em dia, a categoria é basicamente uma combinação perfeita entre habilidade do piloto, estratégia da equipe e tecnologia do carro.
— Nossa, tudo parece complexo para mim. Era melhor quando eu acreditava que eles usavam nitro como em Velozes e Furiosos.
Ouvi a gargalhada gostosa do meu pai, como ele sempre fazia quando eu citava isso no meio de uma corrida.
Eu sempre te disse que esse filme era uma mentira completa.
Apesar de saber que tudo era uma mentirada, sou fã da franquia Velozes e Furiosos. Sim, esse era um desvio da minha personalidade, mas eu não tenho vergonha de admitir. E digo mais, não existe filme maior e melhor do que o desafio em Tóquio. Eu ainda sonho em poder fazer um belo drift.
— Tá bem, agora acredito nisso. Mas, painho, como era na época do Senna?
Ah, aqueles sim eram anos de ouro! Não existia essa tecnologia toda nos carros. Era praticamente tudo sobre a habilidade dos pilotos. Hoje em dia eles têm muitos recursos eletrônicos e aerodinâmicos.
— Agora eles usam nitro, eu tenho certeza! — eu disse, ouvindo novamente a risada do meu pai.
Não querendo ser um velho ranzinza, mas no tempo do Senna havia pilotos muito bons, que competiam pau a pau com ele, sabe? Sinto que existe uma zona de conforto quando se tem o melhor carro. A competitividade não existe como antigamente, o que torna tudo muito monótono.
— Ah, pai, deve ter sido emocionante acompanhar tudo isso do começo! Você fala com tanto amor desses tempos. Qual sua lembrança mais vívida de uma corrida?
Tenho muitas, mas uma que eu nunca vou esquecer foi de quando arrastei sua mãe para assistir comigo em Interlagos em 91. Foi a primeira vez que ela me viu bêbado desde que começamos o nosso namoro.
— Não acredito! Coitada de mainha — gargalhei ao me lembrar da relação disfuncional deles.
Toda família era um pouco disfuncional, era um fato, e se a sua não for, talvez não tenha olhado com tantos detalhes ao seu redor. Como casal, Francisco e Rosa eram incrivelmente opostos, com anos de diferença um do outro, mas que funcionavam perfeitamente de alguma maneira. Confesso que não percebia muito trocas físicas de amor entre eles, mas havia outras linguagens que eles transbordavam. Existia uma cumplicidade profunda entre eles nos altos e baixos na jornada da vida, além do fato de sempre terem priorizado a mim acima de tudo. Hoje em dia, vejo como sair de casa fortaleceu mais ainda o laço entre eles, o que foi algo que eu sempre almejei para meus pais.
— Mas o que o Senna fez de tão incrível nessa corrida? — citei o piloto, porque era óbvio que era sobre ele; do contrário, ele não se lembraria.
Ele não só liderou a corrida com uma marcha a menos no câmbio, como também venceu com uma vantagem de 36 segundos sobre o segundo colocado — contou ele com aquele tom de voz de quem estava sorrindo durante toda aquela lembrança acolhedora, de quem havia realizado um sonho. Me lembrava o sentimento de quando assisti ao show de Jimmy Eat World pela primeira e única vez. — Tudo isso sob uma chuva fina que caiu no autódromo no final da corrida, o que fez o que de trás se segurasse mais. Foi simplesmente histórico!
— Obrigada por compartilhar essa história comigo — suspirei, sentindo o peso da autossabotagem chegar. — Confesso que não sei se fiz certo em falar que sabia do assunto. Me sinto um pouco perdida, sabe? Mas o senhor clareou minhas ideias, só preciso pesquisar sobre Hamilton agora.
Não comece com seus boicotes, ! Tem muito sabichão nesse mundo que basta ter confiança que tem um emprego. Olha onde você está, lembre-se do caminho que percorreu. Não se sabote! Estou ansioso para essa sua nova fase.
— Obrigada, estava precisando desse puxão de orelha.
Qualquer coisa, não hesite em me ligar, ok? Tenho que ir agora, vou buscar dona Rosa no mercado.
— Depois eu falo com mainha. Beijos, estou com saudades.
Não mais que eu… — falou cantando, como sempre fazia.
E desligou.
Tinha a sensação que minha cabeça estava prestes a explodir com a enxurrada de informações, mas finalmente tinha um norte para começar a esboçar o roteiro. A injeção de ânimo do meu pai nunca falhava em me impulsionar para frente, e agora me sinto mais inspirada como nunca.


2.

O apartamento está uma tremenda bagunça. Roupas espalhadas pelo sofá. Sapatos em cima do tapete da sala. A louça na pia desde a noite passada. E para piorar, o fogão está um nojo, porque meus dois amigos bêbados haviam feito um belo de um macarrão ao molho branco quando estavam chapados de madrugada.
Já eu, sentada há dias em frente àquele notebook, tinha os dedos nervosos voando pelo teclado e a cabeça prestes a explodir, tentando terminar aquele esboço do que futuramente seria um roteiro.
— Não, . Sério! Você tem que ir na próxima festa. A Heather sabe dar uma festa como ninguém — Brooke se direciona a mim no meio de uma conversa animada que estava tendo com Lucas.
— É, o DJ mandou bem. E aqueles petiscos? S-e-n-s-a-c-i-o-n-a-i-s! — meu amigo continua, dando muita ênfase na comida. Fico triste momentaneamente por lembrar que meu jantar tinha sido um pão integral com frango.
— E drogas, né? Porque vocês chegaram louquíssimos e não era de álcool — me pronuncio, dando a indireta sobre a bagunça da cozinha.
Conheci Brooke nas primeiras semanas morando na Califórnia, bem quando minhas únicas companhias em bares eram algumas taças de vinho e um livro, que eu colocava embaixo do braço ao sair de casa. Bem, eu saía bastante sozinha quando ainda não tinha amizades, fruto da frieza dos estadunidenses, mas em uma dessas noites solitárias, minha amiga me cutucou com seus olhos verdes e amendoados e elogiou minhas tranças recém-colocadas, e foi bem ali que ela me ganhou. Brooke tinha uma beleza absurda, com belíssimos cachos abertos e volumosos em sua tonalidade ruiva, que combinava idealmente com seu tom de pele, que era um pouco mais clara que a minha.
O Lucas veio junto como num combo, já que se conheciam desde a adolescência, além de trabalharem juntos numa agência de publicidade. Na primeira vez que nos vimos, ele não gostou de mim. Obviamente eu era totalmente culpada por isso, já que meus atrasos rotineiros fizeram ambos esperarem por mim do lado de fora de uma festa, num frio congelante de inverno. Mas, com o tempo, naquele mesmo dia eu ganhei seu coração, e alguns beijos também – essa parte é totalmente esquecível, blame it on the alcohol. O fato era que Lucas era muito bonito para não ser notado. Meu amigo tinha esse corpo musculoso que ele adorava exibir, junto com esses olhos castanhos que faziam qualquer segredo obscuro escapar.
— Totalmente irrelevante para a conversa esse detalhe. E nós falamos que vamos arrumar a cozinha — ele se pronuncia, se ligando no que eu estava dizendo.
Ótimo, não precisaria falar duas vezes e me estressar com algo além do meu roteiro.
— Anotado! — digo.
— Não, mas o que eram aqueles homens, Lucas?!
— Eu falo com tranquilidade que beijei mais mulheres do que homens ontem. Nunca tinha visto tanta gente bonita reunida.
— Vivendo seu próprio bi panic — brinco rapidamente, e eles riem.
— É, você perdeu. Você sabe que perdeu, .
Olho para cima por um momento, para respirar, mas rapidamente volto a me concentrar.
— Não importa, eu só quero terminar isso daqui, e para isso preciso de silêncio.
Lucas e Brooke rolam os olhos, mas continuam conversando.
— Ah, você deveria ter visto a cara do Jake quando a gente contou que você não ia. Ele ficou cabisbaixo a festa inteira — informa Brooke.
— Não poderia me importar menos.
— Como pode ser tão virginiana — vejo minha amiga sorrir, balançando a cabeça.
— O que posso dizer? É o meu jeitinho prático de ser.
Jake era um carinha que eu conheci uns meses atrás, mas que não sentia tanta conexão com ele como gostaria ou como ele idealizava. Lidar com isso em alguns momentos chegava a me estressar; primeiramente porque parecia que eu tinha que lidar com as expectativas de outras pessoas, além das dele. E segundo, eu estava tão focada no autocuidado que o restante das coisas pareciam fúteis e supérfluas. Eu não estava em um relacionamento justamente para não atender às expectativas alheias, mas aparentemente isso não importava, já que as pessoas já ligavam-nos um ao outro.
— Bem, só queria dizer que ele sentiu sua falta e nós também. Heather também quer te conhecer, você vai na próxima?
Suspiro, completamente frustrada. Eu só queria conseguir escrever alguma merda que tivesse significado.
— Gente, não prometo nada. Estou meio sem tempo para festas. Meu único compromisso é escrever algo decente.
Os dois continuam a fofocar animadamente, me ignorando. Olho para a tela, onde apenas duas linhas estavam escritas, e suspiro. Sabia que não conseguiria trabalhar em casa, então decido pegar meu notebook, caderno de anotações, meu mísero cérebro e partir para algum lugar onde eu teria completa e serena paz.
Me levanto da mesa, pego minha bolsa e me despeço dos dois, que não notam minha partida, ainda imersos em suas conversas sobre a festa.
Coloco meus fones e caminho pelas ruas movimentadas do meu bairro, em busca de um lugar para escrever. Depois de uns dez minutos, curtindo a brisa deliciosa daquele dia, encontro uma cafeteria aconchegante que nunca tinha notado por ali, parecia ser novidade.
Não muito tempo após eu me sentar, sinto toda a inspiração fluir novamente. As palavras choviam na minha mente e iam parar na tela, e eu finalmente parecia estar fazendo progresso. Me sentia realizada o tempo todo por ter a oportunidade de contar a história do Hamilton. Ao mesmo tempo que eu teria que exibir seu lado humano no cenário, eu deveria, também, transmitir a paixão e seu espírito competitivo. Ao passo que aquela era uma grande oportunidade, eu estava carregando comigo uma tremenda responsabilidade. Meu dever era inspirar pessoas, e eu torcia para que minha visão e trabalho pudesse honrar a história e o legado do Lewis, de forma autêntica e emocionante.
As horas passam tão rápido que não percebo quando a cafeteria está quase fechando. Uma onda de satisfação me preenche, sabendo que eu havia sido tão produtiva que eu encarava meu beat sheet finalizado. Pego minha bolsa, pago meu café e caminho de volta com o coração leve e com o sentimento de que tudo se encaixaria.
Eu iria conseguir aquela vaga.

Passo a chave na fechadura, mas ela não abre a porta. Aqueles dois distraídos devem ter deixado a chave pendurada do lado de dentro. Toquei a campainha freneticamente até que abriram.
— Vocês sempre deixam essa chave no lugar errado, não aprendem nunca — reclamo e retiro a chave da porta com força, levantando meu olhar em seguida. Tomo um susto quando não vejo ninguém que eu imaginava. — O que você está fazendo aqui? — franzo a testa em um claro sinal de confusão.
— Decidi te fazer uma surpresa, já que não apareceu ontem. Nem conseguimos sair essa semana. Estava com saudades — Jake, vulgo meu ficante, me responde. Então se inclina para um selinho, que correspondo sem vontade.
Desde quando ele tinha essa liberdade para aparecer na minha casa sem me avisar?
Jake claramente sente meu desconforto, porque logo se desculpa por essa presepada.
— Me desculpe, eu só queria surpreendê-la. Brooke abriu para mim antes de sair — ele trata de me explicar sem que eu não pronunciasse nenhuma palavra desde que o vi.
Toda a satisfação que existia no meu corpo sobre terminar meu projeto, havia sido sugada por essa “surpresa”. Eu estava irritada. Desconfortável. Além de sentir que meu espaço pessoal havia sido invadido.
— Como está seu roteiro? — ele pergunta animado, pegando minha bolsa para descansar meu ombro direito.
Eu teria que disfarçar melhor minha insatisfação, então dei um sorriso e falei para ele sobre meu dia.
— Eu consegui terminar o esboço, agora preciso preparar minha apresentação.
— Sobre quem é esse documentário? Acho que você não estaria tão preocupada se não fosse alguém importante.
— Não posso falar, mas não importa a pessoa, eu só quero muito que dê certo. Não quero fazer trinta anos sendo uma mera assistente — argumento, o que já era claro. Porque não importava o quão relevante fosse a pessoa exibida no documentário, apenas que o meu roteiro estivesse à altura de algo televisivo. — Enfim, você já jantou?
— Não, o que acha de pedir pizza? Trouxe o vinho que você gosta — ele diz a última frase me puxando para sentar em seu colo. Dou um risinho, porque ser mimada era bom.
— Gostei da ideia. Vou tomar banho enquanto você pede a pizza — me levanto rapidamente, mas ele me interrompe.
— Tudo bem. Ei, ei, você esqueceu algo — ele me puxa pelo braço, me fazendo cair em seu colo novamente. — Preciso de um incentivo antes de pedir a pizza.
Eu rio, achando engraçadinho esse jeito dele.
Sua mão para no meu rosto; Jake me analisa por um instante com sua respiração próxima da minha boca antes de tocar meus lábios suavemente. Deixo que nosso beijo se aprofunde, explorando nossa química que ainda era verde, mas muito nítida. Nos separamos e ficamos nos encarando por um tempinho. Logo sigo para o banheiro, ainda sentindo seus olhos em minhas costas.

O restante da noite não é como o começo dela. Estou mais solta, mais confortável com sua presença – devo tudo isso ao vinho. Jake passa a me contar histórias de quando morou numa república, na época da faculdade, e explica o quanto foi essencial para ele amadurecer como pessoa e aprender coisas básicas para morar sozinho no futuro. Aproveito para falar sobre minha própria experiência, já que no Brasil era muito diferente dos Estados Unidos, e ao contrário dele, não tive a oportunidade de morar sozinha, sequer mudar de país.
Jake vai embora durante a madrugada, percebendo que eu queria ficar um pouco sozinha. Antes de deixar que meu corpo hiberne, começo a refletir sobre essa noite, percebendo que talvez estivesse sendo muito inflexível com a ideia de me relacionar. Ele é um cara legal, independente financeiramente, e sempre me tratou muito bem, porém algo parecia não estar no lugar certo. Por isso, eu enxergava aquele relacionamento muito casual, sem esperar um grande despertar da minha vida amorosa. A vida era imprevisível, então eu só iria deixar fluir e aproveitar o momento com Jake da melhor maneira possível.


🏎🎬


— Bom, vamos lá — Richard se posiciona à frente de todos.
— Por que a não vai apresentar? — Lewis questiona. Meu nome tinha saído completamente errado da sua boca, mas eu jamais o corrigiria naquele momento tenso.
— Eu geralmente faço as apresentações dos projetos, mas foi ela que criou.
— Se foi ela que planejou, nada mais justo que ela apresentar — o piloto diz calmamente, mas eu sentia em seu tom de voz que ele estava com pouca paciência para Richard. O que eu não reclamo, ele era um cuzão.
— Está em suas mãos, — o roteirista fala, descontando sua raiva ao me entregar o controle do projetor com força.
Atravesso a sala sob vários olhares nas minhas costas. Rezo mentalmente até virar meu corpo para a plateia. Era aquele momento que eu garantiria se minha jornada seria de bênçãos ou de derrotas.
— Bem, como eu havia iniciado a ideia na semana passada, Hamilton é um homem que trilhou a carreira profissional, social e cultural, transformando o esporte em uma escala global. Ele veio de uma família humilde, trabalhadora, que não mediu esforços para alcançar o sonho do filho. Esse vai ser o start do nosso documentário! Sua família vai fazer parte desse primeiro ato, se tivermos seu apoio para fazer as entrevistas e se eles aceitarem, é claro — pauso um pouco para respirar. Parecia que eu estava sendo julgada num tribunal com um júri popular pronto para me jogar na cadeia dos roteiristas.
— Claro que sim, tem todo meu apoio. Pode continuar.
— No segundo ato, abordaremos o seu sucesso em um esporte onde as oportunidades não estavam a seu favor desde sua infância. Sendo o único piloto preto a correr na Fórmula 1, você ainda enfrenta adversidades, mesmo estando no topo. Lewis, você sempre precisou trabalhar mais do que todas aquelas crianças que competiam com você no Kart e todos os pilotos do grid para chegar onde está hoje. Nós sabemos o porquê disso e todas as pessoas que estiverem assistindo também precisam saber — continuo argumentando.
— Como você pretende abordar isso, de fato? — ele questiona, se mostrando interessado. Isso queria dizer que eu não estava falando asneira.
— Vão ser exibidos fotos ou vídeos de momentos em que você enfrentou essas adversidades. E, a cada momento, traremos perguntas que te farão refletir sobre como você se sentiu; como você enfrentou aquela situação e o que te fez impulsionar ou crescer a partir disso. Pode ser durante sua infância ou em sua vida adulta. Dentro ou fora da Fórmula 1. — Observo como ele estava atento a tudo que eu estava falando, então continuo: — Não posso te dar essas perguntas agora, porque perderia a essência de uma primeira resposta sem que você pense muito para respondê-las, entende? Porque a minha ideia não é que você tenha discursos prontos, mas que você me traga do coração.
— Achei fantástica essa ideia! Pode continuar, vou tentar não te atrapalhar mais — ele sorri sem mostrar os dentes, e volto a falar.
— No terceiro ato, vamos mostrar sua trajetória pela Fórmula 1. Isso vai contar com os chefes das equipes que você participou, engenheiros, mecânicos, suas duplas do grid em cada momento. E, claro, como dentro do esporte você buscou trazer mudanças positivas para as próximas gerações. — Pauso novamente para respirar, mas continuo pulando para a próxima tela. — Combinado a isso, vamos destacar seus momentos de filantropia e ativismo, mostrando que você é mais que um piloto de corrida. É um ser humano com valores e crenças profundas.
— Acho que essa é uma das partes mais importantes que eu quero mostrar. Me lembre de conversarmos sobre todos meus projetos para que você não se esqueça de nenhum, ok?
— Claro! Bom, para finalizar, também pensei em incluir seus hobbies e interesses pessoais nisso. Acredito que te aproxima dos seus fãs, te dá uma imagem mais humana. O que acha?
— Ah, isso seria maravilhoso! Eu adoro música, então poderíamos incluir cenas minhas tocando alguns instrumentos, gravando no estúdio. E minhas viagens de férias também, já que eu sempre me aventuro em um lugar diferente do globo.
— Perfeito, os fãs vão gostar de ver esse seu lado mais pessoal.
Eu havia passado dias e noites pedindo opinião do meu pai sobre o assunto, já que muitas vezes passávamos nossas manhãs de domingo grudados na TV assistindo às corridas. Era óbvio que eu não entendia absolutamente nada na época, mas sentia que era importante ter algo para compartilhar com ele quando criança. Agora, eu sentia que isso viria muito mais forte, porque eu não teria que criar laços com o mundo automobilístico por uma conexão paternal. Eu queria criar uma conexão emocional com a audiência para que eles sintam como se realmente conhecessem o homem por trás do capacete.
— Então, isso foi o que eu pensei ser ideal para apresentar sua vida para o mundo.
— Está fantástico, era isso que eu queria desde o início! Quais seriam os próximos passos?
Sorrio em resposta enquanto as vozes iam falando todas ao mesmo tempo. Olho para Patrick e ele levantou seu polegar para mim em sinal positivo. Eu consegui aquilo. Mas ainda era a parte mais fácil: consegui convencer Lewis a continuar conosco. Agora, a parte mais difícil, a que eu literalmente nunca havia feito, era o que me levaria a arrancar meus fios de cabelo.
— Na próxima semana, será iniciada a escrita do roteiro — Tomás, o diretor do projeto, respondeu. — Você disse que tinha uma biblioteca onde reunia tudo sobre sua carreira, ou estou enganado?
— Claro, faço questão que vocês recolham o que quiserem. Estarei em casa na primeira semana de dezembro, o que acham de voarem para lá?
Era bem aqui que iniciava minha nova skin: Roteirista.
Quando Hamilton saiu de cena, começamos a discutir os próximos passos para o desenvolvimento do roteiro. Estavam presentes os produtores, o diretor, os editores e outros roteiristas.
Em determinado momento, Patrick parecia determinado em querer minha evolução quando sugeriu que eu deveria trabalhar sozinha no roteiro e começou a dialogar os motivos aparentes.
— Olha, temos um prazo apertadíssimo para começarmos a filmar. Ter outros roteiristas trabalhando nisso atrasaria bastante coisa, vocês não acham?
— Eu concordo um pouco com isso. Não acho que deveríamos nos sustentar que conseguimos aprovar o projeto por Lewis e, de repente, começar a desandar tudo. Atrasando gravações. É um projeto importante para se cometer erros — Tomás levanta um ponto que deveria ser levado muito em consideração.
— Eu discordo. trabalhando sozinha vai deixar o trabalho limitado a visão dela — Richard dá a resposta que eu esperaria dele. Claramente ele odiava a ideia de não estar envolvido nesse projeto tanto quanto eu.
— Mas foi a minha visão que fez o projeto ser aprovado, não? — constato o fato e todos concordam com a cabeça. Sinto quando Richard olha para mim incrédulo com meu atrevimento.
— Você tem um ponto! — Patrick concorda comigo.
— Concordo com Richard. Acho que seria melhor trabalharmos juntos para garantir que a história seja bem desenvolvida e criativa — Adam, um roteirista bajulador dele, acrescenta.
— Dando opinião da minha parte do projeto, eu prefiro lidar com um roteirista único. A comunicação é mais direta e consigo me certificar que a história se adeque a uma visão. E durante nosso encontro com Lewis, ficou claro que conseguiu retratar tudo que ele imaginava do projeto. Então, por mim, apenas ela estaria envolvida nisso — Tomás fala tudo que eu sonhava em dizer, mas não podia.
— Eu concordo com Tomás nessa. ? — Patrick me passa a bola.
— Entendo a preocupação de vocês — aponto para os dois outros roteiristas presentes na sala. — Mas eu consigo fazer isso, tudo já está muito claro em como vou caminhar nesse roteiro. E, claro, podemos manter a comunicação aberta e colaborativa durante todo o projeto.
— Ótimo! trabalhará sozinha — Tomás conclui e eu sorrio em resposta.
— Então nós daremos os feedbacks para ela? — Richard pergunta, e eu estava rezando na minha mente que não. Odiaria ter que receber feedbacks dele.
— Não acho que tenha necessidade. Eu mesmo posso fazer isso por vocês, e Patrick também — Tomás declara, murchando Adam e Richard de uma só vez. — Tenho outros projetos que podem interessá-los, podemos falar sobre isso depois.
— Eu tenho um pedido… — pondero antes de continuar. Todos estavam esperando que eu concluísse.
— Sim?
— Se eu vou trabalhar sozinha, com uma responsabilidade enorme nas minhas costas, o mínimo que eu deveria ter é um cargo Pleno. Já sou assistente há uns bons anos na empresa, nada mais justo que eu ganhar de acordo com a minha carga de trabalho.
Richard solta uma risada debochada que ecoa nos meus nervos, além da sala inteira.
— Era só o que faltava. Você acabou de chegar, garota!
— Garota?! Do jeito que você não cansa de passar vergonha, acho que essa nomeação de infantilidade é sua!
Os olhares para nós iam de assustados para desconfortáveis. Toda aquela discussão ficaria mais acalorada, mas eu não poderia me importar menos, já que estava determinada a provar meu ponto de vista, além de não suportar mais ser menosprezada por Richard.
— Querido, eu tenho feito meu papel de assistente muito bem há muito tempo, e provei que estou mais que pronta para assumir mais responsabilidades. Se você não consegue enxergar um palmo do seu ego, isso não é problema meu.
— Ego? Que discursinho fajuto, . Você ainda é inexperiente em comparação comigo e precisa provar muito mais que isso antes de reivindicar um cargo mais alto.
Antes que eu pudesse rebater mais uma vez seus insulto, uma voz autoritária interviu:
— EI! CHEGA! Isso é um ambiente profissional, vamos nos acalmar — Tomás suspira. — Podem sair todos, apenas e Patrick permanecem aqui.
Todos levantam-se sem dizer uma palavra sequer. Não direciono meu olhar para ninguém, apenas para o copo d’água que estava parado na minha frente. Beberico um pouco, na tentativa de engolir toda raiva que estava sentindo, antes de voltar a argumentar com meus chefes.
Além de diretor, Tomás também é o dono da Golden Screen Productions, o que o deixava sob a responsabilidade de tudo que acontecia ali dentro, inclusive dos salários. Pela feição séria de Patrick, eu sabia que ele não havia aprovado minha atitude, mas eu bem sei que nem tudo ele pode fazer por mim, então eu fui diretamente à fonte. E, sinceramente, não poderia ligar menos para essa mini confusão que arranjei – a empresa jamais me mandaria embora por medo de perder esse projeto. Eu só buscava justiça e igualdade de salário. O idiota do Richard já ganhava mais que eu para escrever roteiros medíocres, imagina se eu ia ficar ganhando um salário abaixo da média tendo um trabalhão de roteirizar um documentário desse porte.
— Olha, é o meu direito de exigir que tenha o salário igual ao dos dois que saíram agora.
— Eu concordo com você, . Você só não precisava ter falado na frente deles.
— Não poderia perder a oportunidade, já que claramente ele vem me depreciando o tempo todo.
— Já percebi, e ele vai tomar uma advertência por isso. Não se preocupe. Mas vamos falar do seu salário… Qual sua pretensão?
Um sorriso brota em meu rosto, finalmente. Discutimos sobre o quanto era justo que eu ganhasse pelo meu trabalho, e em breve eu assinaria o contrato de curto prazo, apenas por um tempo. Continuaria como prestadora de serviço, mas futuramente poderia ser contratada, de fato.
— Bem, suas passagens para Mônaco vão estar no seu e-mail hoje à noite — Tomás me informa.
Finalmente me sinto aliviada, mesmo que minha preocupação agora fosse com a carga de trabalho. Estava feliz com minha luta. Ter controle total do processo criativo, e ainda tendo apoio de quem realmente importava. Iria para casa com o coração cheio de gratidão e ansiedade para fazer minhas malas o mais rápido possível.

Beat sheet: é um documento de todos os pontos principais da trama. Uma forma de entender o encadeamento das ações e situações. Ele ajuda no desenvolvimento, e principalmente, na estrutura da trama.


3.

O barulho dos meus saltos ecoa pelo corredor iluminado por pequenas luzes no chão. Enquanto caminho por aquele jardim, me pergunto o porquê daquela produção toda, se era uma comemoração minimalista de aprovação do projeto. Nem o roteiro havia sido escrito ainda – o que me deixava nervosa, já que essa tarefa era completa e unicamente minha.
Eu havia planejado chegar uma hora depois do informado no convite, mas por conta do trânsito, consegui meia hora de acréscimo. Queria apenas marcar presença, já que faltar não era uma opção. Quando entro no ambiente, muitas pessoas estão perto do palco que tinha por ali, observando um telão gigantesco que passava um trailer brega com vídeos da estrela do nosso documentário. Logo me aposso de uma taça de champanhe que o garçom me ofereceu na entrada e me mantenho no canto observando tudo.
O diretor começa a falar no microfone algumas palavras bonitas – que não tinham significado nenhum – logo após o telão se apagar, além de algumas intervenções para bajular os produtores executivos que fizeram seus investimentos milionários.
Agradecimentos, agradecimentos e gratidão.
Engulo a bebida na minha mão rapidamente para pegar outra de uma bandeja que passava na minha frente, porque sóbria eu não conseguiria passar trinta minutos nessa festa. Cato meu olhar quando o discurso é interrompido por algum funcionário que cochichava no ouvido do diretor.
— Ele está aqui entre nós — Tomás informa. Mas ele quem? — Sir Lewis Hamilton!
Eu não podia acreditar que haviam convidado esse homem para essa festa brega. Tinha certeza que ele só pisaria aqui para se manter de olho em tudo, porque não era possível que alguém tivesse vindo por espontânea vontade. Foi num vislumbre que todos os presentes direcionam seus corpos para a entrada e lá estava, atravessando a porta, Lewis Hamilton, vestido num perfeito conjunto denim num tom musgo e suas tranças envolvidas num coque. O homem estava lindo, diga-se de passagem, e tinha bastante presença, como eu bem sabia.
— Que honra você poder comparecer à nossa comemoração, Sir Lewis — o diretor pronuncia ao microfone. — Suba aqui, por favor. Temos uma surpresa para você.
Em meio a aplausos, o piloto sobe as escadas laterais rapidamente e cumprimenta Tomás, que logo lhe entrega o microfone. Mas antes que ele pudesse falar, reproduzem novamente o trailer e dessa vez eu presto melhor atenção nas cenas. Eram capturas de Hamilton em corridas emocionantes, ultrapassagens dignas de tirar o fôlego de qualquer torcedor e celebrações no pódio, mas tudo isso sob efeitos visuais exagerados e uma trilha sonora muito dramática. Não era de todo mal, mas poderiam ter realizado um trabalho melhor, principalmente sabendo que existia uma possibilidade de que iria ser exibido para Lewis. Espero, do fundo do meu coração, que ele não imagine que sua biografia vá ser tão vergonhosa quanto esse vídeo.
O piloto se posiciona de frente para a plateia, segurando o microfone perto da boca, prestes a dar um discurso.
— Eu pareço muito radical nesse vídeo! — ele começa, o que gera uma onda de risadas em todo o salão. Até eu sorrio, afinal, o cara tinha carisma. — Brincadeiras a parte, estou muito emocionado de poder compartilhar minha vida, e eu pude enxergar quanta dedicação vocês têm para contar essa história — ele continua enquanto todos ouviam com bastante atenção. — Produzir um documentário parece desafiador, mas é uma oportunidade incrível de capturar e transmitir a essência de uma jornada. Acredito que cada um de nós tem uma história poderosa a contar, e estou animado para ver como iremos juntos dar vida a essa narrativa.
Hamilton continua falando, enfatizando a importância que isso tinha para ele.
— Não tenho dúvidas que esse projeto será um sucesso, e eu prometo colaborar o máximo que puder com vocês — ele faz uma pausa, olhando para todos com um sorriso encorajador nos lábios. — Tenho total consciência de como biografias podem ultrapassar barreiras, trazer inspiração e conexão entre pessoas. E nós temos a oportunidade de contar uma história que sobressai as pistas de corrida falando sobre resiliência e superação.
Nossa, como ele podia ser tão bom em tudo que se propunha a fazer? O piloto sabia como cativar uma plateia, ser extremamente otimista e inspirar qualquer pessoa que tivesse ouvidos para escutar. Aquilo era puro ouro.
— Minha principal motivação para a realização desse documentário é ele ser mais uma porta de entrada para levantar questões importantes que vão além do meu trabalho. O esporte tem um poder transformador, socialmente falando, e eu quero incentivar essas reflexões sobre igualdade, inclusão e sustentabilidade.
De repente, o champanhe passa a ter um sabor de “vontade de vencer”. Eu estava completamente rendida àquele discurso; simplesmente tudo entrava na minha mente e coração porque, de alguma forma, não eram só palavras bonitas. Apesar de ser uma pessoa não tão crédula em discursos motivacionais, Lewis Hamilton me parecia muito convincente.
— Para não tomar mais o tempo de vocês, quero dizer que estou muito ansioso para mais esse desafio. Confio plenamente nessa equipe para criar algo maior que nós mesmos e gerar mais uma plataforma para debatermos pautas que merecem nossa atenção. Meu desejo é que a minha história, pelos seus olhos, ressoe nos corações de cada pessoa que assistir, assim como o documentário do Senna ressoou em mim — ele conclui com um sorriso sem mostrar os dentes, colocando a mão no coração ao escutar a ovação para ele.
Qualquer um com o mínimo de orgulho pelo trabalho estava se sentindo inspirado naquele momento, e acho que depois de toda essa mensagem positiva, eu definitivamente tinha a certeza que estava prestes a embarcar na jornada mais significativa e louca da minha vida.
— Sir Lewis Hamilton — digo quando já estou perto o suficiente. Abaixo meu tronco em sua direção e estico minha mão em sinal de reverência, como se de fato ele fosse uma realeza, já que todo mundo estava o bajulando pelos cantos.
— Ah, não, até você? — ele dá uma risada gostosa com minha palhaçada. Eu claramente estava bêbada para fazer algo assim.
— Não sabia que vinha pra Confra da Firma, Sir Lewis! — minha voz sai num tom bem carregado de ironia, que talvez ele nem tinha entendido.
— E por que não viria, senhorita ?
— Não sei se alguém tão ocupado como você teria a sã consciência de vir assistir um vídeo daquele no telão — aponto com a cabeça para o palco, onde resolveram passar em looping sua apresentação.
— Ah, mas eu gostei! Achei o vídeo… — ele pausa e olha para cima, resgatando alguma palavra. — Excêntrico.
— A palavra mais justa é brega, mas tá tudo bem. Fica entre a gente — troco olhares e ele ri depois de um tempo, comprovando minha teoria.
— Não é contra a lei falar mal da própria empresa?
— Estou bêbada, eu nem vou lembrar disso amanhã. E nem você — o fuzilo com os olhos.
— Minha boca é um túmulo — ele passa os dedos próximo aos lábios como se estivesse fechando um zíper. Um garçom aproxima-se da gente e oferece bebida; Lewis pega um drink sem álcool, o que me intriga. — O que vai querer? — ele me olha, esperando que eu respondesse para pegar para mim.
— Champanhe, por favor — respondo. Lewis pega uma taça e a entrega para mim logo em seguida. — Obrigada. A garrafa desse aqui deve ser mais cara que meu salário.
— Qual é sua função na empresa?
— Assistente de produção, mas agora o universo me concedeu a graça de escrever seu roteiro. Completamente sozinha! — digo a última frase quase sentindo meu coração pular da boca. — Então acho que alguma vírgula deve mudar de posição na minha conta bancária.
— Ah, você mereceu! — ele pausa no meio. — Desculpe, como fala mesmo o seu nome? Sinto que estou sempre errando.
— Ah, eu não ligo, isso acontece sempre. Mas é — pronuncio pausadamente, do jeito mais claro possível.
Lewis pronuncia lentamente meu nome, completamente equivocado, e minha honesta reação é uma risada espontânea, o achando um fofo.
— Não.
Então, falo o começo novamente, a parte que ele tinha mais dificuldade, e o espero repetir.
! — Lewis passou de uma feição confusa para sorridente quando pronunciou meu nome pela segunda vez, sacando que havia acertado. Sorri junto.
— Isso! É que em inglês, vocês sempre tentam encaixar numa palavra com pronúncia semelhante. Enfim, pode me chamar de também, acho que é mais fácil.
— É um nome bonito, qual descendência?
— Tem descendência africana. Meu pai fez questão de que eu sempre estivesse ligada a minhas raízes.
— Ah, adorei saber disso. Ele tem muito bom gosto! Mas você é brasileira, certo? Seu sotaque não me é estranho...
— Sim, como desconfiou?
— Vocês falam de um modo mais relaxado, sabe? — ele tenta explicar, prolongando algumas vogais nas palavras. Dou uma risada porque ninguém nunca havia citado isso para mim.
— Ninguém nunca reparou nisso, gostei de saber. Às vezes acho até que sou muito agitada.
— Jura? Pois eu acho que você é a pessoa mais calma que existe nessa empresa. Eu senti uma afobação fora do normal nos dias que eu fui.
— Talvez porque tenha sido a sua presença que alterou os nervos de todo mundo — respondo sendo um pouco óbvia, mesmo que todo mundo na Golden tivesse os neurônios anormais. — Mas eu estou chocada em como minha personalidade transparece para você. Meu Deus! — coloco a mão na boca, em choque. Aquela era a confirmação para comprar um outro vidrinho do meu floral Rescue Remedy*.
— Então você tem um temperamento frenético?
— Normalmente, principalmente porque eu gosto de resolver as coisas rápido. Se eu não vejo ninguém se movimentando para fazer algo, eu vou lá e faço.
— Isso responde bastante coisa — Lewis beberica sua bebida como se estivesse refletindo sobre minha personalidade. Acho intrigante e, no mínimo, excitante. — Mas eu te prometo que essa agitação não transparece para as pessoas.
— Bom saber disso! Acho que minha trajetória com a meditação está finalmente me trazendo resultados.
— Você medita? — o piloto me pergunta, e concordo com a cabeça enquanto pego outra taça com o garçom. Ele coloca seu copo vazio na bandeja e agradece. — Nossa, eu adoro! Mas sempre acabo me desconcentrando em pouco tempo.
— É um exercício diário, sabe? Requer muito esforço, desapegar de muitos sentimentos, mas eu acho que você pode estar no caminho certo. Lewis, se você consegue se concentrar numa corrida, você consegue se concentrar numa meditação.
— Mas eu tô silenciando o caos à minha volta na corrida.
— Ué, na meditação também. Mas o caos é o mundo externo, e não os carros querendo te ultrapassar — digo o óbvio que ele parecia não ter entendido antes. Então, sua expressão muda drasticamente.
— Nossa! — ele abre a boca em formato de “O” com a sobrancelha levantada, completamente em choque. — Que sacada genial…
Nossas risadas são interrompidas por uma sombra, que logo percebo que tratava-se de ninguém mais ninguém menos do que Richard, que se aproximava para cumprimentar Lewis.
— Sir Lewis Hamilton, muita satisfação, sou Richard — ele estende sua mão em cumprimento. — Acho que não se lembra de mim…
— Você é roteirista, certo? Me desculpe, são muitas pessoas.
— Que ótima memória! Sou sim, mas infelizmente não estarei à frente do seu documentário.
— Ah, é uma pena — Lewis responde com uma expressão chateada, mas eu tenho certeza que ele só está sendo irônico. Afinal, ele odiou o que Richard havia imaginado para a cinebiografia.
— Mas fará isso completamente sozinha. Acredito que já saiba… — o roteirista com síndrome narcisista claramente ia trazer isso à tona. Olho para o lado para rolar meus olhos.
— Não acredito! Não estava sabendo, meus parabéns — Lewis responde fingindo que havia acabado de descobrir. Ele direciona um sorriso para mim, e eu prontamente lhe respondo com outro. De repente, atores. — É uma honra, eu adorei as ideias dela pro projeto. Conseguiu externar tudo que eu imaginava.
— É, mas é estranho que seu primeiro roteiro seja tão independente, . Geralmente, quando se é tão jovem, passa por outros profissionais com mais experiência — Richard se direciona para mim, eu fico em choque com sua audácia. Na verdade, é uma tamanha falta de educação ser tão atirado na frente do cliente.
Abro minha boca para responder, mas sou interrompida:
— Todos temos nossas primeiras vezes, não é? Temos que começar de algum lugar. Tenho certeza que não foi escolhida à toa — Hamilton continua falando com seu tom mais baixo, mas parece mais sério, ou até mesmo com raiva. Richard logo percebe. Ele se remexe desconfortável, concordando com o piloto em seguida, mas eu não ficaria calada ouvindo aquele afronte.
— Não se preocupe, Richard, com certeza precisarei da sua vasta experiência. Qualquer coisa falo com você — digo logo depois, bebericando o champanhe para engolir as verdadeiras palavras que eu gostaria de ter dito.
— Ansioso por isso — ele responde. — Se me der licença, preciso falar com outras pessoas. Foi um prazer, Sir Hamilton — e acena com a cabeça para Lewis.
Percebo quando o piloto curva seus lábios sem muito esforço, demonstrando um total desconforto. Chegava a ser fascinante como tudo transparecia nele. Que comunicação não-verbal maravilhosa esse cara tinha!
— Essa conversa realmente existiu? Por um momento eu achei que estava em algum programa de pegadinha — ele me pergunta, incrédulo.
— Esse cara é um pé no saco, ele faz questão de ser inconveniente. Geralmente isso não me incomoda, mas ser subestimada na frente de um cliente foi osso! — confesso, demonstrando totalmente o meu descontentamento.
— Não liga, não, ! Claramente ele está com dor de cotovelo porque não ficou no projeto.
— Obrigada — sorrio sem mostrar os dentes, me sentindo totalmente constrangida depois disso. — Você não come nesses eventos? — desvio do assunto rapidamente, até porque falar mal de um funcionário para um cliente era falta de respeito.
— Geralmente eu janto antes, porque na maioria das vezes eles esquecem que existem veganos no mundo — o piloto dá de ombros.
— Não acredito, mas acho que vi no cardápio. Vamos dar uma olhada — o puxo pelo braço até a mesa de petiscos que ficava no canto do salão. Observo se existe alguma plaquinha com uma plantinha indicando que a comida era vegana, mas não vejo nada. Perto da mesa ficava a porta da cozinha, de onde estava saindo um funcionário. — Liam? — o chamo pelo nome que tinha no seu peito.
— Sim?
— Vocês têm opção vegana no cardápio? O anfitrião da festa está com fome.
— Ah, me perdoe, senhorita, vou verificar na cozinha — ele responde aflito, dando um rápido olhar para Lewis, e sai apressadamente para a porta de onde havia acabado de sair.
— Você é maluca — o piloto fala atrás de mim com uma risada baixa. — Sabe que não precisava, não é?
Viro meu corpo e fico de frente para Lewis, um sorriso lascivo estampado em seu rosto, e o observo com meus olhos levemente enevoados pela bebida. Sua postura está leve, descontraída; uma mão no bolso da calça e a outra segurava sua bebida, como se estivesse se divertindo com a situação.
— Me dê um desconto, estou entediada nessa festa, Sir. Tenho que me divertir de diversas formas.
— Então, eu estou te entediando? — o piloto pergunta, cravando seus olhos em mim. Suas sobrancelhas estão levemente levantadas, deixando seu olhar intenso e curioso.
Aquilo foi um flerte?
Passo as mãos suavemente pelo meu cabelo e jogo parte dele para trás, sorrindo sutilmente com sua pergunta. Não pude deixar de notar que, ao fazer esse simples gesto, seus olhos vasculham parte do meu corpo, mais precisamente, meu decote.
— Acho que é difícil você entediar alguém — respondo com um sorriso dançante nos lábios.
O sorriso do piloto cresce à medida em que ele se encosta casualmente contra a parede. Logo faz questão de cruzar os braços em frente ao corpo, que, por um segundo, eu desejava que estivesse descoberto para eu admirar seus músculos e observar suas milhares de tatuagens que eu sabia que existiam. Lewis passa a língua em seus lábios inferiores e permanece com os olhos grudados em mim, ponderando uma resposta que já estava na ponta de sua língua.
— Acredite, eu tenho meus momentos entediantes. Mas não posso falar o mesmo de você, já que todas as vezes que te encontro, você me mantém entretido.
Não contenho meu sorriso. Já começo a sentir o efeito da bebida me deixando menos inibida e eu claramente poderia culpá-la por tudo que sairia da minha boca a partir desse momento. Mas nem mesmo se estivesse sóbria, eu nunca, em hipótese alguma, deixaria aquele momento passar. Toda essa brincadeira tinha me deixado quente por dentro. Lewis tinha esse brilho intenso nos olhos que transcendia qualquer escolha de palavras.
Desvio o olhar por um segundo para pegar algum fôlego e dou alguns passos para chegar mais perto dele.
— Acho que você tem me dado crédito demais.
— É mesmo?
— Uhum, mas é bom saber que eu estou te surpreendendo.
O rumo daquela conversa estava indo longe demais. Mordo meu lábio inferior na tentativa de conter meu desejo explícito, quando meu pingo de consciência se revelou num piscar de olhos pela nossa proximidade. Me afasto lentamente dele e me encosto ao seu lado na parede, tendo uma visão panorâmica de todo o salão do evento.
— Bem, já que estamos nessa temática de veganismo e tudo — começo, fazendo com que o assunto tome outro rumo —, teve essa vez em que tentei fazer um bolo vegano pra um amigo… Eu queria impressioná-lo com meus dotes culinários.
Olho para o lado e percebo a curiosidade de Lewis na minha história transparecer em seus olhos, então continuo:
— Nunca havia feito um antes, então o nervosismo me fez misturar ingredientes errados ou eu deixei de colocar algo na mistura, não sei e… O bolo explodiu dentro do forno.
Lewis solta uma gargalhada sincera, incrédulo, e balança a cabeça.
— Não!
— Juro, meu forno parecia uma cena de crime — afirmo mais uma vez, rindo junto.
— E seu amigo ficou sem provar esse maravilhoso bolo?
— Claro que não, corri pra uma loja e até hoje ele acha que eu sou a melhor boleira vegana que ele conhece — dou de ombros, rindo.
— Como eu disse, pelo menos você é boa entretendo as pessoas — ele pisca, me gerando um sorriso tímido. — Posso apostar que contou uma história mirabolante de como foi fazer o bolo.
— Como adivinhou? — finjo surpresa.
Compartilhamos o momento de risada, que pareceu uma ótima forma de quebrar a tensão e o flerte, que aos poucos se tornou evidente demais para evitar. Antes de puxarmos outro assunto, nossa atenção é desviada para uma mulher que se aproxima de nós com um sorriso acolhedor nos lábios. Seu avental impecável e mangas perfeitamente enroladas gritava que ela era a chefe da cozinha.
— Boa noite, me chamo Helena Ramsay. Sou a responsável pelo menu da noite. Posso apresentar os pratos para vocês?
— Olá, sou Lewis e essa é — ele responde me apresentando. Dou um aceno com a cabeça. — Será um prazer.
Helena explica com muito cuidado e maestria todo o desenvolvimento do cardápio. Lewis a todo momento tinha uma expressão facial com um misto de expectativa e entusiasmo ao ouvir sobre os detalhes dos ingredientes frescos utilizados pela chefe.
— Tudo maravilhoso! Esse quiche de alho poró é dos deuses! — digo antes que ela conclua a apresentação. — Vou precisar pedir licença a vocês, mas Helena, obrigada pela explicação.
— É um prazer para mim — ela responde, agradecendo.
Lewis me olha como se questionasse onde eu estava indo, então indico o banheiro com a cabeça enquanto ele continua entretido no veganismo em forma de buffet.
Chego ao banheiro perfeitamente gelado por causa do ar condicionado. Algumas mulheres estão retocando seus batons no espelho, e sem trocar nenhuma palavra, me olham. Não me lembro de ter visto nenhuma delas na empresa de qualquer forma, então não faço questão de ser educada. Logo, elas me deixaram sozinha.
Observo meu rosto no espelho; nitidamente meu olhar baixo entregava que eu estava bebendo há algum tempo. Passo um pó embaixo dos olhos para dar uma revigorada, além do batom que havia saído boa parte enquanto degustava o cardápio. Retiro o frasco pequeno de perfume da bolsa e, no momento em que passo nos pontos principais, recebo uma mensagem de texto. É Jake perguntando onde eu estava. Odeio ser cobrada de alguma forma, então não respondo. Guardo o celular, passo um gloss nos lábios e volto para o salão.
Vasculho com meu olhar para onde eu iria agora, acabo encontrando Patrick super empolgado conversando com o anfitrião. Há uma mulher ao seu lado, que tenho certeza que é sua esposa, e no mesmo instante o considero sortudo por ter alguém para levar para esses eventos chatos. Apesar de gostar da companhia de Lewis durante a noite, tive uma sensação esquisita depois que Richard se intrometeu na conversa, Começo a sentir o peso da minha responsabilidade cair em meus ombros; além do mais, depois de toda a nossa conversa, ficou claro que o piloto estava colocando muita fé em mim. Não só ele, mas uma equipe inteira.
Meus olhos continuam a observar o ambiente enquanto tento engolir essa sensação desconfortável que crescia dentro de mim, porque eu tinha medo de falhar, de decepcionar as pessoas que estavam confiando em mim. Toda essa pressão me fazia sentir insegura, e naquele momento, tudo que eu sonhava era poder fugir dali e me enfiar nas minhas cobertas, onde estaria salva das expectativas alheias.
Desperto dos meus anseios quando um aceno longilíneo me chama atenção. É Patrick me convidando para a conversa. Suspiro fundo, ando até a rodinha que ele está e mantenho um sorriso no rosto, sentindo que a bebida já tomava aquele espaço no meu inconsciente para julgamentos interpessoais.
— Aí está meu prodígio — o produtor diz ao me aproximar. Nossa, como eu queria vomitar de nervoso.
— Não comece, Patrick — rolo os olhos e sorrio. — Deve ser ótimo ter um bajulador em casa — me direciono para sua esposa.
— Às vezes é exaustivo, confie em mim — ela diz. — Sou Amélia! Patrick fala bastante de você.
— Seu esposo é meu fã, mas eu já disse que ele está atrás do meu pai — comento e todos riem.
— Eu fico atrás do Patrick, então — Lewis pronuncia. Eu poderia desmaiar ali mesmo. — Apenas com a persuasão dela, acreditam que pela primeira vez eu jantei num evento?
Seus lábios se curvam num sorriso aberto, evidenciando o espaço que tinha entre seus dentes. Observo esse traço ancestral pela primeira vez. Ele já deveria saber que aquilo o deixava único, e por isso não se desfez dessa particularidade que o deixava lindo. Argh, eu o estava elogiando por tempo demais na minha mente, definitivamente estava bêbada. É o momento de ir para meu cobertor.
— Você já foi picado pelo poder de convencimento da ? É uma luta sem volta — o produtor também fala, me deixando sem graça.
— Ok, meus fãs. Tenho que decepcionar vocês com a minha partida — começo a me despedir antes que eles me fizessem perder o foco e ficar para mais um assunto interminável. Minha mente já estava confabulando demais.
— Nós vamos também, vou me despedir de outras pessoas. Nos vemos em breve, Lewis — Patrick diz, se despedindo junto com a esposa.
— Foi um prazer te conhecer, Amélia — dou um abraço caloroso nela. Os dois saem da nossa vista, nos deixando a sós. — Ok, essa é minha deixa! Preciso ir.
— Você está bem? Precisa de carona? O motorista pode te deixar em casa.
— Está tudo bem, e apesar de estar tentada a aceitar, as pessoas comentariam bastante. Então minha resposta é não.
— Você tem razão.
— Te vejo em Mônaco?
— Sim, nos vemos na próxima semana.
Me aproximo dele e deixo um beijo em sua bochecha. Respiro seu perfume e, por um momento, quero morar ali. Desvio rapidamente esse pensamento, ainda deixando brecha para uma troca de olhares. Seu toque rápido na minha cintura intensifica tudo aquilo. É perigoso e confortável. Nos afastamos sob uma tensão implícita e talvez um aperto de mão teria sido uma escolha melhor de despedida.

*Rescue Remedy é uma combinação de emergência criada por Dr. Bach. Composto de cinco essências florais: Impatiens, Star of Bethlehem, Cherry Plum, Rock Rose e Clematis, é o floral do socorro e do resgate. É utilizado para sofrimentos agudos e emergenciais físicos e emocionais, mas também pode auxiliar no alívio da ansiedade.


Continua...



Nota da autora: Oiii, estou aqui com uma nova história, agora com minha nova obsessão: Lewis Hamilton e Fórmula 1. Ela está guardada há um tempinho, e agora está aí no mundo. Espero que vocês gostem muito! Comentem por aqui ou pelo Instagram de autora. Estarei pronta para teorias e surtos de vocês.
Os links de outras histórias está abaixo para vocês conferirem, em breve trago a playlist da história, é isso! Até o próximo capítulo 🫶🏽


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Dancing Chain
05. Daylight
MV: Baila Conmigo
MV: Closer
04. High Forever


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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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