Remissão

Última atualização: 26/10/2021

Prólogo

Queria poder dizer que não gostava do que fazia. Queria poder dizer que só estava ali pelo dinheiro. Queria poder dizer que tremia toda vez que Louis abria a porta do carro para mim. Mas, céus, eu jamais poderia negar o prazer que me invadia somente de imaginar o que aconteceria depois que caminhasse pela entrada, e então fosse convidada para dentro da casa.
- Quem é o cliente da vez, senhorita Mason? – Meu motorista indagou, encarando-me curioso pelo retrovisor.
Sorri, com falsa inocência.
- Se eu dissesse, teria que te matar. – Dei uma piscadela. – Confidencialidade, Louis, é o que eles mais prezam.
- Cuidado com as ameaças, Clarice, elas podem voltar três vezes mais fortes. – Louis soltou uma risada descontraída, não demorando a estacionar próximo ao meio fio. Virou-se eufórico para mim, que retocava o batom, despreocupada. – Cuide-se, senhorita Mason. E boa sorte. Ligue-me quando terminar.
- Com certeza. – Com um leve aperto de conforto em seu ombro, e um beijo em sua bochecha, lhe assegurei mais uma vez de que tudo ficaria bem. – Eu sei me virar, tenho até spray de pimenta na bolsa!
Nós dois rimos, e Louis desceu do carro para abrir minha porta, enquanto murmurava:
- Como se você fosse usá-lo para se defender...
Fingi não escutar, e aceitei quando estendeu sua mão para me ajudar a descer. O carro não era necessariamente alto, mas eu admirava seu cavalheirismo.
O baque do salto contra a calçada ecoava pela rua vazia, e meu sangue fervia a cada passo que eu dava, aproximando-me cada vez mais da porta; ainda faltavam-me alguns metros quando a mesma se abriu, revelando um homem alto, com um terno vinho impecável. Seus cabelos grisalhos na cabeça que carregava um rosto relativamente jovem, denunciavam que trabalhava em um cargo importante e estressante. Ah, claro, a casa enorme também denunciou.
- Boa noite, senhor Gallahad. – Sorri, confiante, e estendi minha mão em sua direção. – Clarice Mason.
Gallahad me retribuiu o sorriso, saindo então de sua pose contraída, tirando as mãos dos bolsos.
- Pulemos as cordialidades, Clarice. – Declarou, mesmo assim segurando minha mão, até puxá-la delicadamente em direção aos seus lábios. – Mas é um prazer, com certeza.
- Com certeza. – Assenti, permitindo que o homem enrolasse seu braço por minha cintura e me encaminhasse para dentro da casa.
O hall era enorme, o que diminuiu minha surpresa ao chegar à cozinha e constatar seu tamanho. Sobre um balcão, que se encontrava no centro do recinto, duas taças já estavam dispostas.
- Vinho? – Meu cliente perguntou, já com a garrafa em mãos, o rótulo voltado em minha direção. – Tinto, acertei?
- Ah, não, não tomo vinho. – Neguei levemente com a cabeça, com um sorriso amarelo no rosto.
Sua cara de espanto não me foi surpreendente.
- Como assim uma mulher como você não toma vinho? – Gallahad encarou-me perplexo por alguns momentos, mas não se demorou a guardar a garrafa, enquanto ainda resmungava: - Você é o vinho em pessoa, é sensual e romântica, quente e acolhedora.
- Talvez. – Elevei um pouco a voz, ciente de que ele pensava que eu não havia o ouvido. – Mas penso que é uma bebida solitária. Pode se encaixar em sua descrição por ser algo de uma noite só, para preencher um coração vazio e esquentar um homem solitário. – Sentei-me em uma banqueta que estava próxima à bancada. – Uísque, por favor.
Gallahad riu, apontando-me o dedo.
– Ah, Clarice... Devo esperar mais surpresas de você esta noite?
- Você ainda não viu nada... – Dirigi-lhe uma piscadela e mordi meu lábio vermelho, torcendo internamente para que o batom não manchasse meus dentes. Varri a cozinha com o olhar, buscando algo que me tirasse do assunto. – Bonita geladeira. Parece você.
- Se te conhecesse em um bar qualquer, não tenho certeza de como resistiria a sua forma tão impecável de flertar. – Pude constatar seu riso pelos ombros que balançavam enquanto bebia o uísque recém servido.
- Que bom que não me conheceu em um bar qualquer, ou eu ficaria sem pagamento. – Arqueei as sobrancelhas, descontraída, enquanto também tomava um gole de minha bebida.
Quando dei por mim, Gallahad estava parado a minha frente, e sua mão segurava firmemente meu queixo.
- Tão linda... – Lentamente aproximou seu rosto do meu, em direção aos meus lábios, logo se desviando para minha orelha. – As coisas que eu quero fazer com você, fazem meu lugar no inferno valer à pena. – Soltei um suspiro, não me permitindo perder as rédeas da situação.
- Estou aqui, Gallahad. E sou toda sua. – Seu aperto em meu queixo ficou mais leve, e aproveitei para me levantar e deslizar para longe de sua tentativa de me agarrar.
Sorri, maliciosa, e parei no início do corredor, chamando-o com meu dedo. Não esperei que me seguisse para continuar meu caminho, ansiosa para o que me aguardava.
Luzes apagadas, a respiração masculina pesada, o quarto já estava quente. Empurrei meu cliente na cama, e fiquei por cima, trilhando com meus lábios o caminho de sua clavícula, para o pescoço e então orelha.
- Sabe, é uma pena... – Retirei de minha cinta-liga o objeto metálico, passando-o lentamente pelo abdômen malhado de Gallahad. – Você parecia ser bom de cama.
Antes que ele pudesse entender, cravei a faca em seu peito, girando-a ao som de seu engasgo de surpresa. Beijei-lhe o rosto e me levantei, caçando meu celular dentro da bolsa, pronta para ligar para meu motorista.
- Louis? – Ri ao ouvir seu resmungo. – Estou pronta. Venha me buscar, sim?


Capítulo 1

- Desde quando matamos sem provas?! – Martha bateu seu punho contra a mesa, seus olhos indignados fixados aos meus.
- Sem provas? – Se contrapôs Janice. – Você é nova aqui, entendemos, mas lhe recrutamos porque críamos que você teria ao menos um pouco de bom senso.
Suspirei, enquanto Janice rolava os olhos.
- Martha. – Comecei, nossos olhares ainda fixos um ao outro. – Você está me dizendo que não acredita no que nossa amiga nos disse? – Sua boca se abriu para falar, mas continuei antes que o fizesse. – Está me dizendo, olhando em meus olhos, que ela mentiu sobre ter sido violada?
A mulher assentiu.
- Então me diga: por que você crê nisso?
- Bom, eu não vejo nenhuma prova à minha frente agora, e também não vi nenhuma prova an...
- Você está acusando ela de ter mentido? Por quê?! Por que aquele estuprador de merda não chegou em você e falou “ah, sim, eu enfiei meu membro nojento dentro da moça sem a permissão dela, podem me matar”?! – A fúria estava explícita na voz de Janice. - Ela se matou por sua causa, Martha! Porque você apontou o dedo no rosto da coitada e a chamou de mentirosa, fez com que ela se sentisse culpada...
- Se ele morreu devido a uma mentira por parte dela, então ela é culpada, sim! – Martha rosnou, sua fúria se igualando a de Janice.
- Chega! – Levantei-me abruptamente, arrastando minha cadeira para trás. – Nós não duvidamos das palavras de nossas iguais, Martha, e se você não consegue aprender isto, então não pertence conosco. Entendeu bem? – A mulher somente abaixou a cabeça, sem se pronunciar, e se sentou na cadeira. Aproximei-me e me curvei ao seu lado. – Eu preciso que você entenda se quiser permanecer aqui. Se você continuar a duvidar e trazer mais receio e medo para as vítimas... Esse não é seu lugar.
Tomei seu silêncio como prova de sua indecisão, e após uma breve troca de olhares com o restante das mulheres sentadas à mesa redonda, a conclusão era óbvia. Regina se levantou, o pesar em seus olhos.
- Martha Elizabeth Sparks, considerada suas crenças para com nossa causa, nós... – Em uma pausa, todas dissemos nossos nomes, demonstrando concordância com o que havia de ser dito. - Declaramos que você está exonerada do Clã de Nalsea, e ciente de que não deverá nunca pronunciar o nome desta família ou de qualquer uma de suas integrantes novamente enquanto viver, pois, se tomarmos conhecimento de que qualquer tipo de informação pessoal relacionada ao Clã chegou às mãos de autoridades regidas pelo rei, futura rainha, ou alguém relacionado à família real, seu rosto será o primeiro que virá até nossas mentes, nos instigando a lhe caçar e abater.
A expressão de Martha era uma mistura de tristeza e desprezo, e, por um breve momento, senti pena dela, mas então me lembrei das consequências de seus atos, e de como enterrávamos hoje uma mulher inocente, vítima da maldade e da descrença. Mas não era a primeira, afinal, e infelizmente também não seria a última.
- Que sua consciência se vire contra ti e lhe mostre os erros em seus pensamentos. – Os olhos de Regina agora miravam frios as lágrimas que ameaçavam correr pelas bochechas de Martha. – Agora saia. Você não é mais bem-vinda aqui, Martha Elizabeth Sparks.
Com o queixo elevado em uma tentativa desesperada de se mostrar superior, a mulher marchou sem olhar para trás, a sola de seus pés trazendo um baque alto aos nossos ouvidos enquanto ela subia a escada.
- Já vai tarde. – Resmungou Janice. Repreendi-a com o olhar, logo o desviando para Regina.
- Ela não está errada. – Murmurou Yuko, com os olhos baixos, tímida. – Ela me dava vontade de vomitar.
Uma risada soou alta e me surpreendi ao constatar que vinha de Regina, agora jogada em sua cadeira. Arqueei uma sobrancelha em sua direção, descrente.
- Clarice. – A mulher se pronunciou, e pude notar claramente o divertimento em sua voz. – Nós duas sabemos que Martha não pertencia conosco. E, Deusa, ela realmente trazia a bile à garganta em todas nós. – Com um gesto de sua mão, Regina mostrou todas que estavam sentadas ao redor da mesa, e não demorou a receber murmúrios de concordância. – Nós demos a ela a chance que nos foi pedida, mas não deu certo.
Sua expressão agora havia se fechado, e percebi ser a única pessoa que permanecia em pé. Antes que pudesse falar algo, Lola elevou a voz.
- Se isso é tudo... – Levantou-se de sua cadeira e sorriu. – Havemos de comparecer ao funeral de Nala.
- Certo. – Desta vez Yuko soou confiante, lembrando-se de seu comprometimento com a causa, enquanto se punha ao lado de Lola. – Infelizmente, não poderemos todas estar presentes, ainda mais considerando a morte de Gallahad. O rei já possui suspeitas o suficiente, e não seria sábio ficarmos todas juntas no mesmo lugar em público.
- Mas estejam cientes, garotas, que vocês podem honrar sua morte ao continuar trabalhando. Precisamos continuar a agir. Sempre haverá mortes partidas da estupidez humana. – Lola suspirou. – Ao invés de se abalarem com isso, usem como motivação.
Todas as mulheres fecharam os olhos, absorvendo as energias boas e ruins presentes no recinto, buscando a tão aclamada motivação.
Pigarreei, chamando a atenção dos olhos recém-abertos.
- Gostaria de pedir um minuto de silêncio. Gostaria que reunissem todas suas energias e pedissem à Deusa que guarde o espírito de Nala, e que nos dê forças para continuar.
Podia dizer que havia se passado mais que um minuto, mas simplesmente não queria abrir meus olhos ou minha boca. Só conseguia pensar nas palavras de Martha. Não precisaríamos de um minuto de silêncio, se não fosse por ela. Senti o ácido em minha garganta, e então me forcei a voltar e me pronunciar.
- Muito obrigada. Agora vão.
Sentia que Regina me encarava do lado oposto da mesa, um leve sorriso pintado em seus lábios.
- Meus parabéns, Clarice. – Ela quase sussurrava, andando em minha direção. Agora estávamos sozinhas. – Está aprendendo a manter a postura.
Não sorri. Não queria sorrir.
- Obrigada.
O sorriso de Regina, porém, permanecia em seu rosto.
- Você merece reconhecimento, Clarice. – Seu dedo passou por minha bochecha. Próxima demais, pensei.
Seu sorriso se partiu para que seus lábios se dirigissem entreabertos até meu ouvido.
- E eu estou disposta a te dar isso.
O dedo agora contornava minha clavícula, e eu pude sentir seu hálito batendo contra minha pele enquanto Regina soltava um riso convencido.
- Eu não estou fazendo nada além do meu trabalho. – Dei um passo para trás, mantendo minha expressão séria.
- Como uma pedra. – O sorriso voltou ao seu rosto, e então ela se encaminhou às cortinas que separavam os recintos. – Helena deseja te ver.
Examinei-a de cima a baixo e constatei que dizia a verdade. Caminhei em passos decididos até o outro quarto, recebendo uma piscadela da mais velha enquanto passava pelo tecido leve.
- Clarice. – A mulher ruiva estava sentada em uma poltrona, o cigarro entre os dedos. Então, levantou-se rapidamente e puxou a cortina atrás de mim. – Ótimo, ninguém por aqui.
Meu rosto denunciou minha confusão, o que trouxe um sorriso genuíno ao rosto de Helena, até que a mesma me puxou para a varanda.
- Como você está? – Questionou, com a voz preocupada. Apagou o cigarro para que suas mãos alcançassem as minhas, seu corpo posto em frente ao meu.
- Não se preocupe comigo. – Lhe assegurei, apertando levemente seus dedos. – Estou me sentindo muito bem.
Os lábios de Helena se comprimiram até se resumirem a uma fina linha.
– Presumo que ainda não saiba. – A mulher forçou-me a sentar no grande balanço presente na varanda, e então sentou-se ao meu lado.
Respirei fundo, buscando acalmar o coração que batia acelerado em meu peito. Apesar de minha tentativa de conter minhas emoções, minha voz saiu embargada.
- Eu estou ciente. – Soltei o ar trêmulo, e fixei meus olhos nas árvores infindáveis ao horizonte. – Quem você pretende mandar?
- Você sabe quem será. – Sua voz quase não passava de um sussurro. Helena se recompôs com um pigarreio. – Você tem dez dias para se preparar. Entendo que pode ser difícil, mas eu pre...
- Helena. – A cortei, finalmente virando meu rosto para mirá-la. – Allison se uniu ao inimigo. Ela é, portanto, uma inimiga. Isto é tudo que ela significa para mim, nada mais.
Um sorriso maldoso surgiu nos lábios de Helena, e quase pude ver o fogo em seus olhos.
- Sendo assim... – Seu sorriso aumentou. – Temos um casamento para o qual nos preparar.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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