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Última atualização: 30/09/2020

Prólogo

Juramento de Nightingale (Juramento
das Enfermeiras da Segunda Guerra Mundial)


Comprometo-me solenemente perante Deus
e na presença desta assembleia a passar a minha vida
com pureza e a exercer a minha profissão com
fidelidade.

Vou me abster de tudo que for prejudicial e
não vou tomar ou administrar conscientemente
qualquer droga prejudicial.

Farei tudo que estiver ao meu alcance para
manter e elevar o padrão de minha profissão e
manterei em sigilo todos os assuntos pessoais
comprometidos com minha guarda e todos os assuntos
familiares que venham a meu conhecimento na prática
de meu chamado.

Com lealdade, ajudarei o médico em seu
trabalho e, como missionária da saúde, dedicarei-me
ao serviço devotado ao bem-estar humano.


1943

Ele sorriu para mim, como quem sorri após dizer "Nos vemos daqui a pouco, meu amor", antes de sair para o trabalho ou para buscar pão na padaria.
Eu nunca me esqueci daquele sorriso.
Me afundei em seu peito, naquela malha áspera dos casacos baratos dos partisans¹ que cheirava a óleo de baleia e poeira. Ele me abraçou com força. Suas mãos grandes, quando não estavam segurando uma Ruby Pistol ou um rifle Meunier, me abraçavam com toda força que tinha. Eu sentia os dedos dele me pressionando, querendo entrar na minha pele a todo custo como se a força que brotasse deles fossem capazes de me proteger de um bombardeio.
Antes de fechar os olhos, encarei a braçadeira da bandeira com as cores que não eram do meu país, mas eram da luta pelo nosso direito de existir, pelo direito de resistir: vermelho, pela fraternidade, azul, pela igualdade e branco pela liberdade.
Antes de morrer, eu sabia que estava do lado certo da história.
— Eu te amo. Je t'aime.— Ele me falou, em inglês e francês, nossas duas línguas. Eu poderia ouvir aquele homem em todos os idiomas, sua voz foi feita para conversar todas as línguas e falar todas as palavras já criadas.
Eu respondi, mas o barulho do estouro do nosso túnel encobriu minha voz. Tijolos se desprenderam da parede e bateram contra nós, o teto rompeu e encheu o túnel da luz do dia.
De todos os ferimentos que tive nesse dia, o que mais me doeu foi não saber se ele me ouviu.

¹ nome dado aos membros da resistência

Capítulo 1

Daqui a pouco, quando me atirar no meio
dos absintos, a fim de que seu perfume penetre meu
corpo, terei consciência, contra todos os
preconceitos, de estar realizando uma verdade que
é a do sol e que será também a de minha morte. Em
certo sentido, é justamente a minha vida que estou
representando aqui, uma vida com sabor de pedra
quente, repleta de suspiros do mar e de cigarras,
que agora começam a cantar. A brisa é fresca e o
céu, azul. Gosto imensamente desta vida e desejo
falar sobre ela com liberdade: dá-me o orgulho de
minha condição humana.
Albert Camus - Núpcias


2019

Quando o relógio despertou, demorei para me levantar.
A tática era deixar o celular longe da cama, mas ultimamente nem o barulho irritante do constante bip era suficiente para me fazer locomover. Até as mínimas tarefas eram difíceis de ser iniciadas - e completadas.
— Querida, algo errado? — Ouvi uma voz conhecida da porta.
Tudo errado, senhor Gray. Me virei no travesseiro para vê-lo.
— É uma nova terapia que estou testando, papai, serve para entender quanto tempo demora para endorfina descer pelo meu hipotálamo e me fazer ter coragem de levantar e desligar o despertador. — Claro que era mentira, mas eu só queria impressionar meu pai com palavras científicas.
Ele me olhou enquanto me arrastei até a escrivaninha e desliguei o alarme que já tocava há 5 minutos. A sorte de ter um quarto pequeno era que eu poderia ter feito esse movimento sem me levantar, mas como meu pai estava na porta, fiz um esforço.
— Entendi. Que tal continuar o teste enquanto toma o café? — Ele sabia que era mentira. Eu não estudava há dias, não seria agora que eu ia pegar em um livro.
Enquanto me arrumei para encarar o dia, ainda sentindo o carimbo dos olhos do meu pai diretamente nos bolsões roxos embaixo dos meus olhos, me perguntei qual sentido faria eu mentir que estava bem.
Meu pai e minha mãe me ajudaram a voltar para casa, assinaram termos de confidencialidade e colocaram as notas gordas nas mãos dos professores, suas parcas economias. Eles sabiam muito bem que havia algo errado comigo.
Não era problema algum desmaiar no meio do campus uma vez, ficar com taquicardia em algumas provas e até receber uma advertência o por dormir na biblioteca porque eu esqueci de ir embora. Mas enfiar um bisturi no meio de um baço inchado e espalhar sangue no meio da aula de Microcirurgia de propósito, era. Ainda mais que foi apenas por um centímetro que não acertei a mão da minha colega de turma, que analisava o órgão com os dedos ao meu lado.
Meus pais me trouxeram para casa imediatamente e respeitaram meu espaço, sabiam muito bem a filha que tinham. Não invadiram meus momentos de tristeza, mas sempre me convidavam para as refeições que eu me esquecia. A cada gesto calmo e tranquilo executado por eles, mais eu me preocupava. Eu realmente merecia ser tratada com tanto carinho? Afinal, ao que tudo indicava, eu era uma médica impedida de me graduar por "problemas de controle de raiva".
Pensamentos fluíam pela minha cabeça quando saí do quarto. Agradeci pelo cheiro de amêndoas torradas que invadiam a casa e senti uma felicidade tímida, daquelas que só a comida faz a gente ter, ao ver a fatia de bolo marrom de açúcar mascavo e um copo de leite quente me esperando no balcão da cozinha, em frente a TV pequena que tínhamos no cômodo. De repente, tudo passou.
— Dá para acreditar nessa família? 800 anos, com um castelo que nunca foi invadido… Se estrepar na mídia por conta de um incêndio?
— Eles devem estar mentindo. Com certeza existem mais informações nessa história do que sabemos.
— Quanto drama, quanta intriga. Os alemães são tão dramáticos.
— Em breve deve ter um filme sobre isso e podemos assistir no cinema.
Minha mãe era muito ruiva, com os fios grisalhos surgindo da sua testa numa cascata brilhante, sempre muito penteado e limpo. Ela descolou os olhos claros da TV e apontou, com o olhar, para o bolo quando me viu. Era preferência dela tomar o café no balcão da cozinha, onde meu pai sentava ao lado do fogão para aquecer as orelhas e ver o jornal tomando um earl gray com mais baunilha que cafeína.
— Está quentinho, meu amor. — mamãe me disse.
— Obrigado, querida. — Meu pai apanhou a fatia no meu lugar.
— Não era para você. É pra .
— Tudo bem. — Ele mordeu e devolveu para o prato sem me olhar, mas eu sabia que ele estava sorrindo.
Dei um riso fraco e mordi minha fatia violada. Contemplei a cabeça do meu pai, brilhante como uma bola de bilhar ainda virada para a tv. Ele já estava vestido para sair, com crachá já no pescoço e o celular pipocando notificações da empresa.
— Eu não entendo isso, 800 anos é muita coisa, Lizzie. Já pensou, ter uma linha de descendentes mapeada desse jeito? A responsabilidade histórica disso é muito para um patriarca.
— Querido, claro que não. Eles devem ser felizes e conseguem organizar a herança bem. Eu digo… a maior parte das famílias que ainda possuem títulos após as últimas guerras… Fizeram um bom trabalho. Imagine manter o título de conde e o castelo mesmo a Alemanha saindo arrasada das últimas Grandes Guerras? — Mamãe levava a monarquia muito a sério.
— Bobagem. Incêndio, mãe, em pleno 2018? Isso foi proposital. Existem centenas de fontes open source possíveis de fazer um aplicativo que detecta fiação instável e outros fatores de risco em uma estrutura. É quase impossível que isso não tenha sido proposital. Existe uma legislação no Japão, inclusive, que considera doloso um incêndio em uma casa que não tem um sistema automatizado de prevenção.
Minha mãe fez uma expressão de dúvida e tomou seu café, com certeza ela estava pegando as palavras que eu disse e tentando encaixar de um modo que fizesse sentido.
— Podemos instalar aqui em casa? — Meu pai se virou para mim.
— Ah, já instalei, pai. Isso foi o meu trabalho de ciências na sétima série.
Ele riu e me abraçou, minha mãe o olhou assustada. Tínhamos um acordo para eu não ser tocada em excesso, mas não me lembrei disso na hora que os braços do meu pai me envolveram. Eu adorava seus abraços.
— Você é a filha mais brilhante que eu tenho.
— Eu sou filha única.
— Até então é o que sabemos. — Minha mãe foi sarcástica.
Tomamos o resto do café ainda rindo do escândalo dos Eltz, aparentemente uma família alemã que teve o castelo incendiado e trocou de conde. Meu pai disse que eles eram uma das últimas famílias da Europa que ainda tinham as terras e o castelo em seu nome, sem influência do governo. Meu pai fez alguma piada sobre privatização de terras enquanto os dois colocavam um cachecol e saíram para trabalhar.
A tv não passava mais a reportagem sobre o incêndio no castelo, mas aquilo me intrigou. E bom, após ser afastada da universidade, eu estava bem desocupada.
Passei algumas horas procurando pelo assunto na internet. Famílias com a mesma geração há 800 anos, grandes linhagens, dinastias. Sinceramente, quando você não está estudando nem trabalhando, o tempo passa lento demais e até o bater de asas de uma mosca pode te distrair.
Assim, como tudo que se pesquisa na internet, achei um bando de pervertidos, extorquistas e por último… os conspiradores, meus preferidos.
Milhares de teorias sobre os Eltz fervilhavam.

Corbie12: Eu já fui lá. O castelo é assustador no inverno, não pode entrar.

Lana452092: Tem a teoria de que contrataram uma historiadora parecida com uma pintura que tem no castelo. Estamos discutindo sobre ela nesse tópico.

34_OzMagic: Vocês acreditam em reencarnação? Imaginem se essa mulher for uma encarnação de uma outra que foi morta pelos Eltz e agora busca justiça? Tacou fogo no castelo porque sabe que eles fizeram mal pra tatatatataravó dela. LOL.

Corbie12 para @34_OzMagic: Para esse tópico, estamos discutindo aqui. Por favor, não vamos insultar a Dr. Konig neste tópico [SUJEITO A BAN]

CeliaStJames: Vocês acham mesmo que é possível encontrar… pessoas do passado…?


Eu hesitei quando vi a barra piscando. Já estava na hora do almoço e eu passei tantas horas no Reddit que começava a pensar como o 34_OZMagic e a Lana452092.

Corbie12: Nada é por acaso, @CeliaStJames.

==


Eu interrompi minha pesquisa quando recebi uma mensagem no meu celular. Imediatamente troquei os moletons surrados por uma parca sobre minha camiseta "this is not a tee" e calcei meu par preferido de tênis e também o mais fácil de encontrar. Ainda estava calçando o pé direito quando saí correndo pela porta de casa e corri pela rua.
A mensagem era simples. "Vou te dar uma chance. Me encontre no nosso Café, as 4 pm."
Eram 4:05 p.m quando entrei esbaforida no pequeno café. Nosso café. Meu coração saía pela boca. Encontrei quem procurava no canto mais afastado. Ela vestia-se do tradicional casual chic, um estilo que um dia eu ainda iria tentar replicar: blazer, um salto fino e uma calça de jeans lavado. Ela era sim chic. E casual.
Quando me sentei na mesa, me senti ainda mais idiota.
— Verity…
— Antes de mais nada, Delaney, só estou aqui porque minha mãe implorou, porque a sua implorou para ela. — Verity apontou com o rosto para o canto esquerdo, onde uma senhora de cabelos enrolados e rosto liso acenou e sorriu. Me senti ainda mais diminuta, mesmo amando a mãe de Verity, vê-la ali me deixou frágil.
— Eu…
— O quê? Vai pedir desculpas?
— Nem preciso, não é?
— Você não dá conta de falar. É por que não sente que errou.
— Verity, por favor. Eu estou tentando falar com você desde… desde setembro.
— Estou aqui, não estou? Pode falar.
— Foi um acidente. Eu a admiro tanto, você é a minha melhor amiga. Somos melhores amigas desde sempre.
Verity não me olhava. Ela olhava para o próprio Ristretto sem açúcar - que eu sabia que era esse tipo de café só de olhar para o pequeno copo a sua frente - para a mancha clara na manga da minha parca, para o teto. Nunca para mim.
— Éramos até você tentar me incapacitar.
Se meus ombros já estavam encolhidos, encolheram ainda mais.
— Verity…
— Escute, , eu… — Eram lágrimas? Ali, naquele par de olhos negros e profundos dela?
Sim, Verity estava chorando e soltou tudo. As lágrimas rolaram nas suas bochechas morenas, contornaram sua boca larga e bonita. Como eu estava com saudade dela. E bom, eu também chorei nessa hora.
— Existe algo que eu possa fazer para que você me perdoe?
Verity limpou as lágrimas, bebeu o café amargo.
— Sim. Existe.
— Eu faria qualquer coisa.
— Se trate.
Engoli seco, minhas mãos apertaram meu jeans.
, eu a amo, com todo meu coração. Sempre a admirei. Você foi a mais brilhante de nós duas… Sabia tudo de cabeça enquanto eu me matava de decorar a fórmula química do plasma… — Verity teria sorrido nesse momento, se não tivesse tão profundamente triste. — Cuide disso… do que te deixou brava.
— Eu estou tratando. Estou tomando alguns remédios e fazendo terapia…
— E você está acreditando no tratamento ou só obedecendo, cumprindo ordens? Como sempre? Você é ótima para obedecer, mas é péssima para acreditar.
Nesse momento eu entendi o que estava acontecendo. Verity não tinha mesmo me perdoado. O jeito que me olhou, tinha até um pouco de raiva em cima de tristeza. Eu não soube responder.
— Acredite na sua recuperação, . Ou nada vai te ajudar. Ou você se encontra, ou fica para sempre nessa.
— Nessa o quê? — Não quis, mas soei muito bruta.
— Nessa merda. Você sabe.
— Não, não sei. Desembucha. — Eu fechei os punhos sobre minhas coxas.
— Nessa busca pelo que não tem. Você pode ir até o final de todos os livros, dissecar todos os cadáveres, executar perfeitamente uma microcirurgia num intestino delgado. Se não se conhecer, não irá a lugar nenhum. Se continuar fugindo de você mesma, não vai se encontrar em lugar nenhum.
Eu respirei fundo. Aquilo me dava raiva, mas eu não sabia porquê.
— Se encontre, Delaney Grey, ou nunca irá ser uma boa profissional em nada.
— Você não tem direito de afirmar isso!
— Eu não vou retirar meu processo. Você claramente não está em condições de dialogar, ou de operar alguém. — Verity se ergueu e apanhou a bolsa. Me levantei na mesma hora. — Nos vemos no tribunal.
A senhora Trust, mãe de Verity viu a cena de longe e veio amparar Verity, que saia do café sem olhar para trás.
Verity Trust. Um nome forte e de confiança, como ela sempre foi para mim, meu porto seguro, a pessoa que poderia bater no meu rosto e beijar minha testa no intervalo de um minuto, a minha melhor amiga.
E desde o acidente em que quase enfiei um bisturi na sua mão direita e quase a impede de ser uma cirurgiã, meu porto seguro ruiu, destruído pelas ondas da minha própria inconsequência. É duro perder uma melhor amiga.
Quando ela saiu do café, eu não consegui sentar de volta e pedir um café, como uma pessoa normal faria. Voltei caminhando para casa, com o coração em frangalhos. Chorava enquanto andava pela vizinhança. Naquelas mesmas ruas Verity e eu havíamos jogado futebol contra os garotos do bairro, lido alguns livros debaixo das árvores do parque e compartilhado inúmeros segredos. Veve e ainda estava escrito em alguma das árvores do Kensington Park.
Doía voltar para casa. Quando divisei as formas do prédio pequeno de dois andares onde morava, uma construção tradicional do east side, uma daquelas construídas em 1946 após o fim dos bombardeios alemães sobre a área, feita tijolo por tijolo com o benefício do governo para restauração da moral dos londrinos, destroçados psicológica e materialmente após a guerra.
A sede de liberdade inglesa por dias mais felizes após os bombardeios resultou em grandes janelas de cornija branca, tijolinhos batidos pintados de tinta creme ou mantidos em seu tom cinza tradicional e as portas duplas pintadas de azul ou branco em toda rua.
Fiquei um tempo no passeio, sem muita coragem de abrir a porta. Depois de secar as lágrimas, entrei. Mal tirei a parca e os tênis no vestíbulo e me deixei cair no sofá. Adormeci enquanto chorava.

Capítulo 2

Que ninguém seja enganado, não é mera
conquista territorial que nossos inimigos estão
buscando. É a derrubada, completa e final, deste
Império e de tudo o que ele representa e depois disso a
conquista do mundo. Se a vontade deles prevalecer, vão
realizar todo o ódio e crueldade que eles já exibem.
Rei George VI - Discurso transmitido
pela BBC Radio em 3 de Setembro de 1939 para
toda Grã Bretanha e commonwealth¹.


3 de Setembro de 1939
Meus dedos passavam pelo chiffon do vestido bordado que àquela altura eu achava ridículo, como toda manifestação de fortuna ou bem estar
. A cada segundo de espera, mais eu alargava os buracos do bordado, tensa.
As vozes do corredor, das pessoas sentadas ao meu lado e em frente a mim, eram femininas, infantis, masculinas, apressadas e todas falavam apenas de um assunto. O mesmo assunto que me levou até ali.
— Por favor, Lady Delaney.
Eu não respondi, mas encarei o homenzinho que me chamava.
— Lady Delaney? — Ele me encarou — Se puder entrar.
Me levantei.
— Perdão, Lady Delaney é minha mãe, não tenho o título.
Me ergui e vi que as vozes pararam. Todos os olhos do corredor estavam em mim.
— Certamente. — O homem fechou a porta quando entrei.
Seu escritório minúsculo mal cabiam dois arquivos e sua mesa. A janela estava pintada de preto por fora e com um saco de areia apoiando o vidro, uma defesa comum para aqueles tempos.
— Bom, Lady Delaney, você sabe que o que está fazendo não é certo.
— Sim. — Sentei na cadeira que me apontou — Mas poucas pessoas corretas vem te procurar, não é doutor Kavinsky?
Ele me encarou sobre os óculos redondos e suspirou olhando de volta os documentos.
— São tempos muito escuros que se aproximam de nós, senhorita. Os alemães estão poderosos. Acredito que, de todos os documentos que falsifico aqui no meu escritório, este é o mais certo de todos, é um dos únicos que não é de fuga.
— Você parece ser um dos únicos que acredita no rumor da guerra.
O homem, que passeava os olhos pelo documento, parou e fixou em um ponto único no papel.
— Eu vim para esta terra fugindo de uma ameaça há muitos anos. Infelizmente, eu sei diferenciar o que é um rumor e o que é um fato. Estamos em guerra e nunca esteve tão claro quem é o inimigo.
— Foi assim em 18? Na Grande Guerra?
O homenzinho não moveu os olhos.
— Vem sendo assim desde sempre. O único problema é que demoramos para aceitar quem é o verdadeiro inimigo e quem é o amigo. Nos perdemos nas narrativas, nas propagandas, na ficção.
— E você, doutor, de que lado está? Espero que do lado inglês.
— Estou do lado de onde durmo. Se é aqui, na Gordon Street, então estou do lado de Chamberlain.
Assenti em silêncio. Me agradei com aquele diálogo, afinal não era sempre em que eu poderia ser tão incisiva em um assunto.
Ele me entregou um envelope e eu o abri. Lá dentro tinha minha foto, com a braçadeira da cruz vermelha e o descritivo como " Delaney, enfermeira assistente, 21 anos".
— Você vai enfrentar um campo de batalha, senhorita. — Dr. Kavinsky continuou. — Homens pela metade, máscaras de gás, pragas para todo lado. Tem certeza que é isso que espera?
— Eu quero poder ajudar quem precisa, Dr. Kavinsky. Meus pais lutam sem parar desde a Guerra do Rife. Não posso ficar aqui parada enquanto o mundo toma decisões.
— Quantos anos faltavam ainda para você completar os estudos? Ou a maioridade?
— Isso é realmente relevante?
— Não. Os soldados serão gratos por ter uma mocinha bonita costurando suas barrigas ou sendo pelo menos uma boa visão para seus olhos.
— Meu juramento de enfermeira é proteger os feridos, civis ou soldados e defender a liberdade. Farei isso onde quer que esteja e em qualquer idade. — Me levantei e estendi a mão para o homem, que a apertou ainda me fitando. — Obrigada, Dr. Kavinsky. Passe bem.
— Até a vista, lady Delaney. Tome cuidado.
Fechei a porta e sai pelo corredor cheio de mães ansiosas segurando as mãos de rapazes mais novos usando uniforme militar, duas mulheres com a braçadeira da cruz vermelha e uma criança segurando um bebê.
O rádio anunciava que os alemães tinham acabado de invadir a Polônia e Chamberlain fez seu discurso incluindo a Grã Bretanha na guerra. Eu segurei meus documentos e o diploma falso do curso de enfermagem dentro da pasta de papel pardo e rumei de volta para casa.
Londres parecia tremer como uma chaleira carregando água em ebulição. Havia tantas expectativas nas ruas, nos seus extremos mais tocáveis: homens riam e bebiam nos pubs, apanhando moças pelas cinturas e prometendo protegê-las dos boches¹. Outros, pareciam amuados nos cantos, com os olhos semicerrados e levando as mãos aos peitos, como se tivessem levado um tiro. Os mais velhos, homens entre seus quarenta e sessenta anos, pareciam que tinha esquecido como fazer o músculo do rosto curvar em um sorriso.
Cruzei o Regent's Park, orgulhosamente segurando meu envelope e pude ouvir alguém tocando um violino em algum lugar, compondo a sinfonia junto com as farfalhar das árvores e dos milhafres migratórios do fim do verão que cercavam o lago.
Me perdi naqueles sons, naquele calmo momento de paz que de tranquilidade não tinha nada, era apenas ausência de atrito, o silêncio que antecede o trovão. Afinal, se vice pacem, parabellum!² Desde pequena, cresci com o conflito como se ele fosse meu parente, era sempre mencionado nos cafés e jantares na nossa casa, nas cartas e nossos livros na biblioteca eram sobre táticas militares. Eu nasci no olho da tempestade e sei quando um raio vai cortar o céu.
Passei alguns minutos sentada em um banco ao lado do violinista, pensando na minha criação e em como eu conseguia dominar o medo e transformá-lo em uma expectativa. Depois, fiz questão de deixar alguns pences em sua case aberta do músico. Foi só quando levantei os olhos e que vi que ele era cego e tinha preso no casaco algumas medalhas de guerra. Era muito magro e a parca militar desbotada mal lhe cabia. Eu suspirei ao ver seus olhos leitosos e tirei uma libra da bolsa.
— Obrigado, senhorita, mas as moedas bastam.
— Eu sinto... muito. Faço questão.
— Se é de coração, eu aceito.
— Senhor, não quero ser intrometida, mas... o que te trouxe aqui?
O homem sorriu e baixou o violino.
— Você tem ansiedade na voz. E parece ser extremamente jovem. Está com medo do que foi anunciado e por isso não quer voltar para casa?
Senti um gosto amargo na boca, era o sabor do medo, do arrependimento.
— Você deve ser um músico treinado para por ter um ouvido tão potente.
— Posso ouvir seu coração acelerado, moça. Daqui. Você está tremendo.
— Eu... tudo bem, obrigada, senhor, mas irei agora. Por favor, aceite essa quantia. — Depositei a libra na case vazia em cima dos pences que eram meus. — Tenha um bom dia.
— Volte amanhã, lhe contarei o que aconteceu. Eu sobrevivi a uma guerra. Posso te ensinar a fazer o mesmo.
Me afastei e quando percebi já estava correndo entre as árvores rumando para o lado sul o mais rápido possível, só quando cheguei às portas do jardim de Kensington, que meu coração foi capaz de se acalmar.
Se eu não conseguia mentir para um cego, como poderia bater às portas do Saint Bart no dia seguinte afirmando que era uma enfermeira treinada?

Cheguei em casa e depositei o casaco e meu chapéu no vestíbulo, tentando arrumar meus cabelos e aliviar as manchas vermelhas de calor que surgiram nas minhas bochechas.
Chamei pelos empregados, para pedir um chá e biscoitos para aliviar a tensão do meu estômago fraco, mas nenhum me respondeu. Caminhei até a cozinha, passando pelo primeiro andar.
— Senhorita Delaney. — o mordomo me cumprimentou. — Não a vimos chegar.
Os empregados estavam em volta do rádio sobre o aparador da cozinha, duas crianças sentadas bem embaixo, brincando distraídas com seus blocos de montar. Apenas uma chaleira borbulhava e havia cheiro de nozes no forno. Quando cheguei, se ergueram rapidamente e ficaram a postos.
— Não se preocupem, cheguei em silêncio. Outro pronunciamento?
— Chamberlain anunciou a convocação, senhorita. — O cozinheiro anunciou. — Todos os homens entre 18 e 40 anos que não forem médicos, comerciantes ou estudantes deverão comparecer no posto militar.
— Estamos em guerra. — Eu o encarei.
— E seja o que deus quiser.

¹ Nome dado aos alemães.
² Provérbio romano: Se vê paz, prepara-se para a guerra.

Capítulo 3

2019
— Essa história dos Eltz me deixou pensando, será que é importante mesmo conhecer de onde a gente vem?

— Eu sei no que você está pensando.
— Não começa.
— Você já contou pra ela... sobre ela?
— O que? Claro que não. Você sabe como reage a essas coisas... abstratas. E não quero que isso seja uma pressão.
— Lizzie, aos 17 anos sua avó falsificou um diploma de enfermeira pra poder salvar soldados ingleses. Ela foi condecorada o quê? Umas dez vezes?
— Vovó não era muito de falar... Não quero que isso seja uma pressão para . 'Ei, , aos 17 anos sua bisavó já matava nazistas com o mesmo bisturi que remendava a resistência francesa no coração da França ocupada enquanto você dorme o dia todo e acorda apenas para chorar.'
Levei a mão a boca quando a ouvi. Eu estava escorada na parede das escadas e ouvia as vozes dos meus pais entre o barulho de taças de vinho sendo colocadas na mesa. Tinha acabado de acordar e ainda estava com as marcas da almofada do sofá no meu rosto.
— Querida, isso não é pressão nenhuma.
— Eu cresci com essa pressão. Minha mãe me falava isso o tempo todo. Quando tirei minhas férias e visitei a Itália... foi insuportável. Antecipei a volta e me inscrevi no mestrado absolutamente arrasada, mas tinha que fazer alguma coisa, afinal a grande vovó já era alguém enquanto eu só queria dar uns beijos em um italiano e levar um porre em Riccione!
— Querida, acho que sou 1% italiano, pois gosto muito de macarrão. Ainda podemos ir para Itália no próximo verão.
A voz da minha mãe era triste, mesmo com a brincadeirinha do meu pai. Fizeram uma pausa e eu soube que era meu pai a abraçando.
— Não quero que se sinta assim... O passado não deve ser uma cobrança, mas uma lição, uma inspiração.
— Não foi porque você se sentiu pressionada que também irá se sentir assim. Nós fizemos um bom trabalho em criá-la. É a menina mais gentil, amável e inteligente do mundo.
— Ah querido. — Ouvi um barulho molhado. Estavam beijando ou era um barulho da pia do lavabo?
— Será que é uma boa ideia?
— Sua árvore genealógica é um tesouro, um presente. Do meu lado, somos bons homens trabalhadores de Cardiff, mas não é nada demais. Acho que meu tio avô ganhou uma medalha em 1918... Ou seria nosso vizinho? Não me lembro. Pelo que sei sempre fomos trabalhadores nas minas de carvão do norte.
— São apenas histórias.
— Eu acho que iria adorar conhecer mais sobre a avó. Vamos contar mais detalhes para ela, mostrar a medalha que ela te deu...
— Que medalha? — Não resisti. Apareci na cozinha ainda limpando a baba seca da bochecha e tentando ajeitar os cabelos.
Meus pais se entreolharam em pânico. Estavam sentados na nossa sala de jantar, um cômodo com cristaleiras nas paredes, a pintura a óleo da minha bisavó e um pequeno lustre de cristal. Uma janela grande com vista para nosso quintal enfeitava o canto esquerdo, ladeada por dois armários de mogno pesado.
Eu sempre gostei muito daquele cômodo, mas ali me senti uma intrusa. Intrometi a conversa dos meus pais. Intrometi a vida deles voltando para a casa. Intrometi aquela família inteira com meus nervos.
— Cortem qualquer baboseira, eu ouvi vocês conversando. Sabe, eu não sou uma garotinha, vocês podem conversar comigo como adultos. — Falei isso, mas minha vontade era de correr para minha mãe e chorar mesmo como uma garotinha, falar sobre meu encontro com Verity e chorar mais um pouco sobre qualquer outra coisa. Fiquei onde estava e os encarei.
— Querida, sua mãe e eu...
— Papai, por favor busque a medalha que mamãe falou. Eu quero ver.
Ele lançou um olhar profundo para minha mãe, que assentiu e depois disfarçou a minha presença ali bebendo o vinho que estava na nossa mesa de jantar. Odiava quando ela não sustentava o meu olhar.
— Que história é essa de pressão, mamãe?
— Querida, você está em momento na sua vida de reconstrução, de recomeços. Eu não quero ser um fator negativo no seu crescimento...
— Eu não estou crescendo, você está falando como se estivesse evitando de colocar frango na minha papinha de neném com medo do efeito dos hormônios na minha fase de deglutição.
Ela desviou o olhar novamente.
— Já cresci, ok? Vamos, porque não quer me falar sobre a sua avó? — Relanceou os olhos para a pintura na parede e depois de volta para minha mãe.
— Vovó ... Foi uma heroína de guerra.
— Eu pensei que ela estava no Canadá durante a guerra. Foi o que você me disse... quando tive que fazer um trabalho da escola.
Minha mãe girou a base da taça sobre a mesa. Olhava para todos os lados, menos para mim.
— Ela foi uma enfermeira, mesmo sem nunca ter ido a escola de enfermagem, era autodidata. Aprendeu a lutar e atirar, sozinha. Ela era brilhante. Pronto, é isso.
— Mamãe? O que está acontecendo?
— Ela foi o modelo que minha mãe seguiu ao me criar, a todo momento me alfinetando por ser apenas uma moça normal, em vez de uma heroína.
— Mamãe...
Notei o tom melancólico dela e isso me apertou o coração. Suspirei ruidosamente e caminhei a distância entre nós, ficando do outro lado da mesa. Servi vinho na outra taça.
— Nunca quis que isso fosse uma regra para você, . Eu quis que você fosse o que quisesse ser. Temi que falar sobre a vocação da sua bisavó pudesse te influenciar.
— Eu estou no ponto mais baixo da minha vida. Joguei minha carreira no lixo com o escândalo acadêmico de estocar um cadáver. Perdi minha residência no melhor hospital da cidade e a universidade quer impedir a minha graduação. Minha melhor amiga me odeia. Não tem nada... nada neste mundo.... que me faça ficar pior do que eu já estou, mamãe. Nem mesmo ouvir a história de uma parente melhor do que eu.
Só assim minha mãe me encarou. Segurou minha mão sobre a mesa.
— Você vai sair dessa, .
— Vou? Eu passei a vida toda estudando para um único deslize da minha cabeça, um defeito imbecil, jogar meu esforço fora. Então nada do que falar, mamãe, vai me fazer afundar mais no fundo desse poço que faço um nado de 400m medley.
Tomei o vinho. Minhas bochechas ficavam vermelhas sempre que eu me esforçava para falar frases longas.
— Sua bisavó foi enfermeira da resistência francesa. Morreu antes de você nascer.
— Vovó Margareth nunca falou dela assim...
— Elas brigavam muito. Imagine ser criada por uma heroína de guerra, querida. Ou pior, uma heroína de guerra que acabou se tornando uma frustrada dona de casa. Minha mãe teve uma infância difícil e...
— Você também.
— Eu fiz de tudo para não repetir o erro delas ao te criar. Falhei muito, mas algumas coisas acertei, como por exemplo quando te inscrevi na sociedade das escoteiras de Londres.
Eu ri pelo nariz e bebi mais do vinho.
— Mamãe, por que escondeu isso de mim?
— Eu não queria que você tivesse os sonhos frustrados por uma expectativa boba da família. Eu queria que você fosse o que quisesse.
— Foi por isso que a vovó não foi a sua formatura? Ela queria que você fosse uma médica e não uma professora?
Minha mãe baixou os olhos, aquela parecia uma ferida ardida.
— Sim.
— Mamãe, você não errou. Mas tem razão, eu não sou nada comparada a essas mulheres que vieram antes de mim na linhagem. Eu sou apenas um aglomerado de células sem potência, presa em tecidos de estresse. Não sou destinada a grandes coisas.
— Você é uma estudante exemplar e será a melhor médica que este mundo já viu. Uma coisa você herdou das mulheres da família: determinação... Minha mãe me olhou e eu tenho certeza que ela viu o contrário daquilo que dizia: uma pessoa com o cabelo oleoso, rosto com algumas espinhas de estresse e hormônios fora da linha, pálida e com meus olhos, antes de um azul muito claro, agora azuis como um lago ralo e sem vida. A última coisa que eu parecia ser era determinada.
— O meu lado da família te deu a beleza, é claro. E cabelo.
Meu pai surgiu, quebrando nosso clima tenso com suas piadas, careca e não tão bonito. Ele segurava nas mãos uma lata enferrujada de chá. Twinings Floral 1938.
O cheiro da latinha era de ferrugem e camomila. Tinha uma braçadeira vermelha, branca e azul com o símbolo de uma cruz com duas hastes horizontais. Alguns papéis, um anel e duas medalhas.
ORDEM DO IMPÉRIO BRITÂNICO DAMA COMENDADORA? Puta que pariu! — Gritei ao ler a segunda medalha que apareceu — Minha bisavó era uma Dame?
OBE?
— Sim, ela foi uma Dame. Ela era tipo um sir. Tem foto com a rainha.
— Meu Deus. — Ergui a medalha de estrela precisando ser polida. Tinha uma frase em francês que qualquer um conheceria: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Outra medalha tinha um papel de identificação "Royal Red Cross" - Faith, Charity and Love.
Meu pai assobiou.
— Essa velhinha foi osso duro de roer.
Ele me mostrou dois mandados de prisão em francês e em alemão com o rosto dela datando de 1941. Havia também um bilhete de barco de 1940 para as ilhas Jersey do canal. O anel dourado e fino poderia ser uma aliança e quando levantei contra a luz, vi que tinha uma letra gravada: P.
Alguns documentos em alemão, charges e panfletos em francês eram comuns, vários papeis dobrados tantas vezes que já partiram a folha em quatro partes. Um cartão postal nazista "Libre France avec amis" Com um homem de bigode apertando as mãos de outro homem com a braçadeira nazista.
O último papel que peguei fez meu coração apertar.
— Cemitério Pere Lachaise... 20º arrondissement de Paris? — Meu francês era enferrujado, só tinha aprendido porque minha mãe era fluente e quando era criança íamos sempre na Provence visitar minha avó.
Meu pai me entregou um lenço. E foi assim que notei que eu estava chorando. Desde que momento eu estava chorando? Sequei as lágrimas e as pontas dos dedos, com medo que qualquer gota comprometesse aquele conteúdo da lata que valeria um tesouro.
— Não acredito que nem você e nem a vovó não me contaram nada sobre .
— Foi difícil para ela.
foi cremada, mas pediu para ser velada em Paris, junto com os outros corpos sepultados que fizeram parte da Resistência. Que mulher — Meu pai olhava os arquivos e tirou um diploma dentro de um envelope. Bisa tinha se formado no Marrocos, pelo visto.
— Você precisa ir lá. — Meu pai rompeu o silêncio. — Precisa conhecer Paris.
Eu coloquei a taça na boca, mas o vinho já tinha acabado, senti que ainda chorava.
— Eu, em Paris?
— Sim. Podemos arrumar passagens o quanto antes para você.
Eu...
— Estamos há poucos quilômetros do aeroporto. Posso tirar o dia e levá-la. Na verdade, se quiser, podemos ir de carro no fim de semana. Lizzie, querida, não é você que tem uma prima em Paris? pode se hospedar lá no verão.
— Calma lá, senhor chofer. — Minha mãe interrompeu e começou a juntar os pertences na caixa. — precisa saber se...
— Eu topo. — Eu peguei a caixa da mão dela, arrastei ela para o meu lado. — Eu quero ir.
Meus pais me olharam assustados, mas sorriam.
— Querida, isso é ótimo.
— Tem certeza? Tem certeza que está fazendo isso porque quer...
— Sim mamãe, quero ir a Paris. Tenho um dinheiro guardado do trabalho com o Dr. King, posso ir de ônibus... Estou parada há tanto tempo, papai tem razão. Eu preciso ir a Paris.
— Precisamos... comprar roupas. Echarpes. Lenços, luvas... você precisa parecer uma Parisiene ou vão saber de cara que você é de Londres.
— Quando chegar em um lugar, nunca peça um chá. Peça un café. — meu pai sorria, fazia um biquinho. — un cafê sivuplê monsieur garçom. Em nenhuma hipótese chame um garçom de "mate".
Minha mãe bateu palmas. De repente, nossa tensão se dissipou.
Fiz uma careta, mas sorri para o meu pai. Meu coração estava acelerado.
— Vou tirar o dia de folga amanhã, podemos almoçar no La Fere para ela se acostumar. Lembra quando fomos a Paris a primeira vez, mon amour?... la chanson française, les miserables... soutien...
Saí antes de ver meu pai fazendo um biquinho para beijar a minha mãe, com a preciosa caixinha da Bisa nas mãos.
— Querida, onde vai? Precisamos reservar o voo.
Parei aos pés da escada.
— Vou fazer as malas.
Naquele ponto eu não sabia o que me motivava a aceitar essa ideia maluca, mas era a primeira vez em dias onde eu lembrei que meu coração ainda batia. Eu queria ir para o quarto e traduzir todos os documentos, pesquisar todas as medalhas, guardar todos os elementos daquele pequeno universo que se abria para mim dentro de uma caixa da Twinings.
Algo me dizia que Bisa tinha muito a me ensinar.

Capítulo 4

4 de Setembro de 1939
Quem diria que meu primeiro atendimento como enfermeira 'formada' seria ao meu próprio mordomo
. Hughes tentou se matar com um tiro no peito, mas seja pela umidade da pólvora velha ou pela mira errada por conta da garrafa de conhaque pela metade ao lado dele, não obteve sucesso efetivo.
Desci as escadas correndo, amarrada no meu robe de dormir e o encontrei com dificuldades para respirar e com um imenso buraco no rumo do estômago. O sangue vertia pelos dedos que ele debilmente apertava o ferimento, inundando sua camisa sempre branca e bem passada.
Improvisei uma pressão com o lençol, mas sabia que Hughes não resistiria, o tiro acertou em cheio o topo do seu estômago e a bala estava alojada em algum lugar entre seu fígado e seu pulmão direito, fazendo o sangue subir pelos pulmões até o nariz.
— Me perdoe... senhorita... a guerra... eu não posso ir de novo.
— Descanse meu velho amigo. Obrigada por tudo. — Eu segurei a mão boa dele enquanto ainda pressionava o lençol. Hughes engasgou e depois de alguns segundos ele parou de respirar e morreu.
Eu soltei o aperto do lençol e fechei os olhos dele. Dei um beijo na sua testa larga e o contemplei.
Sua carta de despedida era simples: Ele não poderia ir para Verdun novamente. A guerra de 1918 matou parte dele e ao ouvir a voz de Chamberlain o convocando para a próxima, a outra parte dele terminou de morrer.
Aquela não era a primeira vez que eu vi um homem morrer. Quando tinha quatro anos, estávamos no lado espanhol da Guerra do Rife em Marrocos. O quartel da cruz vermelha foi bombardeado e eu me perdi da minha mãe no frisson de paredes desabando em cima de pacientes nas macas, remédios e utensílios quebrados e enfermeiras mortas pelo estouro. Escondi-me embaixo de uma arcada e foi quando vi um homem ser arremessado na parede como um boneco, pelo impacto da bomba, na direção de uma madeira rompida do teto. Ele encaixou imediatamente e a estaca perfurou seu tórax, expulsando os órgãos para fora.
Lembro perfeitamente a textura dos pedaços de carne que caíram sobre mim e do meu desespero, do meu choro sem voz. Em seguida, um soldado me apanhou e cuidou de mim até minha mãe me encontrar, mas por muito tempo, ainda chorei.
Que tipo de bárbaro era capaz de bombardear as tendas da Cruz Vermelha, sinalizada com bandeira icônica da proteção e subserviência aos feridos? Eu nunca soube.
Olhei para o lençol encharcado do líquido vital que jorrou do pobre Hughes e contemplei meus dedos, vermelhos. Suspirei. Senti uma dor profunda de perder a figura do mordomo.
Ao perceber que aquela seria uma rotina, chorei. Algo em mim sabia que eu estava entrando em uma espiral de repetição.

Não havia muito que ser feito com os empregados após a morte de seu líder no prenúncio da guerra. Àqueles que queriam ir para o campo ou até mesmo para Irlanda e para os Estados Unidos, partiram com uma grande quantia que lhes dei pela rescisão. Outros, como o valete do meu pai, o cozinheiro e duas criadas que não tinham para onde ir, combinei que receberiam o salário normalmente se continuassem a cuidar da casa mesmo quando eu estivesse fora.
A gratidão é um sentimento poderoso. É difícil descrever o quanto fiquei grata por ter os empregados ali para quando eu voltasse, pois não aguentaria visitar a casa sozinha nos meus dias de folga. A emoção deles ao perceber que não iria mandá-los assim como outros senhores da rua andaram fazendo após o anúncio de Chamberlain chegou a me emocionar. O cozinheiro comemorou minha decisão fazendo meu bolo de limão predileto e também para aliviar a tristeza que todos estávamos após o velório de Hughes.
Eu estava pronta para me candidatar ao emprego de enfermeira totalmente dedicada ao Saint Bart, deveria renunciar minha casa e me hospedar no alojamento de enfermeiras, ao lado do hospital. Quando a sirene antibomba tocasse, mesmo se eu estivesse de folga, deveria estar à postos para tratar dos feridos.
Escrevi para a minha mãe e meu pai avisando que me juntaria a Cruz Vermelha e que estava me alistando no hospital de Saint Bart. Quando fui ao correio, recebi o telegrama deles, enviado da Argélia.
BELLA, VISITE TIA AGUSTINE NO NORTE. NÃO FIQUE EM LONDRES. GUERRA DECLARADA. TE AMAMOS MUITO. VAMOS PARA A SUÍÇA EM 2 SEMANAS, REUNIÃO DA CRUZ VERMELHA. TOME CUIDADO. PAPAI.
Ah, como eu queria que aquele papel tivesse o cheiro da colônia de meu pai, o perfume de camomila da minha mãe, tão calmo quanto ela. Quando recebi a mensagem, troquei o destino para nossa casa em Genebra, assumindo que eles passariam por lá.
No dia anterior a minha partida, fui para o quarto deles, que ficava no último andar da nossa casa. No meu quarto, as duas criadas ajudavam a fazer minha mala enquanto conversavam sobre o casamento antecipado de uma delas, cujo noivo partiria para guerra na terceira divisão da força expedicionária rumo a Luxemburgo.
Entrei e fechei a porta, o cheiro do cachimbo do meu pai ressentiu quando foi ao seu closet, toquei as caixinhas de rapé que colecionava e abri o guarda roupa. Abracei sua camisa branca e chorei em silêncio. Me lembrei da última vez que o vi, na estação de trem. Ele segurou meu rosto e falou que iria trazer para mim um rapaz argelino bonito e forte para casar comigo. Mamãe bateu no braço dele com as luvas e me abraçou.
— Talvez um mouro turco. Com seus narizes grandes e olhos verdes, querida… não há nada como os homens do oriente.
Ela e meu pai riram, me beijaram e se despediram. Ambos usavam a braçadeira branca e vermelha. Minha mãe a ostentava sobre a manga de seu taileur marrom e meu pai sobre a manga de tweed do paletó engomado.
Os dois eram o casal mais influente da administração da Cruz Vermelha Inglesa. Mamãe era a enfermeira capitã da sétima divisão da Queen Alexandra's Royal Army Nursing Corps¹ e meu pai era o médico coronel da unidade internacional da Royal Army Medical Corps², mediando o contato com a Suíça por suprimentos e proteção de refugiados de guerra.
Juntos já combinavam mais de quatro guerras internacionais combatidas lado a lado e agora rumavam para a quinta.
Cheguei até a gaveta em comum onde os dois guardavam as braçadeiras, roupas brancas e jalecos e toquei a cruz vermelha bordada, me lembrando daquela cena na King's Cross quando me despedi a última vez. Temi, por um segundo, nunca mais vê-los dentro daquelas vestes brancas, mas limpei as lágrimas de uma vez e apanhei o avental da minha mãe, o estetoscópio do meu pai e duas braçadeiras encardidas, que eles usaram na Guerra do Rife, cuja a terra vermelha do Marrocos ainda permanecia como a memória da guerra.
Naquele curto trajeto até meu quarto, olhei mais uma vez para a porta do quarto deles e jurei baixinho.
— Eu vou fazer o que me ensinaram: cuidar mais do que ser cuidada. Vou continuar o legado dos Delaney na medicina.

¹ Corporação Real de Enfermagem da Rainha Alexandra: seção militar feita para comandar as enfermeiras que servem ao exército britânico.
² Corporação de Exército Real de Médicos: Seção militar feita para comandar os médicos que servem ao exército britânico.


Continua...



Nota da autora: Olá, espero que esteja sendo uma boa leitura pra você! Essa fic é um spin off de Des Roten Faden (Das Fitas Vermelhas), postada aqui no FFOBs desde 2018 e também da minha autoria.
Em Resista! você sempre lerá um capítulo no presente e outro no passado para assim decifrar os mistérios que vão surgindo em ambas as épocas. Espero que goste da dinâmica!
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Se quer conhecer mais sobre mim e a minha escrita, me encontre nas redes sociais abaixo e leia minha fic Io Sono Vivo aqui no FFOBs.
Quer saber uma curiosidade? Os três epígrafes no começo do livro são verdadeiros. Florence Nightingale foi a primeira enfermeira britânica no final do século XIX, Albert Camus foi um filósofo que atuou na resistência francesa e escreveu vários livros sobre a perspectiva de vida durante a ocupação nazista e o Rei George V foi o pai da Rainha Elizabeth, um dos responsáveis por manter a moral do povo inglês durante o período da guerra com suas transmissões no rádio.
Ah, como eu amo história! Se você está apreciando a leitura, deixe um comentário!
Um abraço com cheirinho de camomila e boa leitura!



Outras Fanfics:
» Des Roten Faden
» Io Sono Vivo

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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