Última atualização: 10/09/2020

Capítulo 1

Adentrei o hospital correndo, deixando minha bicicleta encostada desajeitadamente num dos muros do estacionamento. Na recepção procurei por algum rosto conhecido, em meio a meu desespero pude achá-lo num dos corredores, sentado numa das cadeiras de espera.
— Como ela está? — Indaguei ainda ofegante.
Suas mãos grandes me permitiram ver o seu rosto, a primeira coisa que reparei foram seus olhos, verdes e tempestuosos. Ele se levantou impondo sua altura, recuei quando o vi andar furioso em minha direção.
— Eu não sei, esse bando de incompetentes não me dão informações. — Assustei-me com seu tom de voz.
Assustada, porém nem um pouco surpresa. Aquele era o jeito de resolver as coisas. Desde criança, quando era um garoto franzino e ignorante, ele havia crescido e se tornado um homem. Mas claramente a parte comportamental ainda era a mesma.
E a ignorância também, era algo que não mudaria jamais.
Limitei-me a assentir com a cabeça e, ao me sentar na cadeira, tive a impressão de estar sendo observada. O encarei de volta, já prevendo o que viria a seguir.
— Eu nunca vou entender como minha mãe deixou Grace ir embora justo com você. — Revirei os olhos. Eram quase quatro da manhã, eu havia acordado no susto, pedalado quilômetros e minha amiga estava dando a luz sabe-se lá em que estado e ele ainda queria discutir.
Eu sinceramente pensei em ir embora, sim, simplesmente sair dali e jogar todo o esforço que fiz pelos ares. Mas logo descartei a ideia, Grace precisava de mim, como precisou todos os nove meses que passamos juntas. E infelizmente ela só tinha a nós dois.
— Sua mãe não só deixou, como a expulsou de casa quando apareceu grávida. Não me venha com essa ladainha, , você sabe bem como as coisas aconteceram. — Ficar grávida aos dezenove nunca esteve nos planos de Grace, eu não poderia deixá-la desamparada.
Quando tudo desmoronou decidi pôr um fim no inferno que era a minha própria casa e me juntei a minha melhor amiga naquela drástica mudança de vida. Eu já não tinha nada a perder mesmo.
— Se você não tivesse a levado para o mal caminho ela não estaria aqui, dando a luz e sendo uma futura mãe solteira. Aliás, na próxima vez que for dar uma de cupido e apresentar alguém a uma amiga, arranje um imbecil que queira assumir um filho.
E o que diabos tinha de errado em ser mãe solteira?
O encarei indignada.
— Grace sempre tomou suas próprias decisões, ao contrário de você, que até hoje faz tudo o que seu pai decide. — levantei-me furiosa, já cansada de toda aquela acusação. Eu ouvi aquilo durante muito tempo, a família sempre me culpou pelo erro dela.
principalmente. Eu não sabia se era ciúmes de minha proximidade de sua irmã mais nova ou se tinha algo a ver com sua fobia.
Não, não era nenhum problema de saúde, antes fosse, talvez a medicina teria encontrado um remédio ou a psicologia desenvolvido um tratamento.
O caso em questão é que sofria de uma fobia terrível, um mau que nem o melhor tratamento que o dinheiro podia pagar curava, aliás, dinheiro era o principal causador de toda aquela estupidez dele. Chamava-se pobrefobia, que segundo ao meu dicionário mental significava fobia de pessoas pobres, menos favorecidas ou de classe social inferior.
No caso, eu mesma. Ele sempre instituiu a irmã a não me visitar em meu kitnet, que ficava numa parte mais "urbana" da cidade.
Ok, o bairro era perigoso, as taxas de criminalidade ali ultrapassaram várias outras localidades consideradas perigosas. Mas não era para tanto! Aliás, ele a aconselhava a não me visitar em lugar ou hipótese alguma! Foi na infância que ele iniciou seu plano de fazer Grace se juntar a pessoas de sua classe social, sem sucesso, chegava a fazer os pais colocá-la de castigo só para que ela não saísse comigo.
Segundo ele, eu a levava para o mal caminho.
Mal sabia ele que a irmã era o mal caminho em pessoa. Ou sabia, mas preferia milhões de vezes me culpar do que admitir que Grace não era tão ajuizada quanto ele e os pais enchiam a boca dizendo por aí. Ela sempre foi daquele jeitinho, acho que a proibição de seus pais a fazia se sentir totalmente livre na ausência deles.
Sem julgamentos, regras de etiqueta, minha melhor amiga praticamente me implorava para levá-la até os pubs que existiam nos arredores de meu bairro. Ela adorava toda aquela agitação que só havia ali, no lado obscuro da cidade, onde sua mãe ou seus familiares jamais pisariam os pés. Foi numa daquelas noitadas que aconteceu. Grace ficou sem chão quando o teste de farmácia revelou os dois palitinhos.
Sua mãe a expulsou e o desprezo de sua família a deixou frágil, apenas ficou ao seu lado. Apesar de tudo eu fiquei feliz com o ato dele, ficar contra os próprios pais para defendê-la me fez acreditar, por um mísero segundo, que tinha um coração e o usava de vez em quando. Toda aquela agitação quase colocou a vida do pequenino bebê gerado por Grace em perigo. Desde então sua gravidez foi considerada de risco pelos médicos.
— Você não sabe nada sobre mim, sua...
— Familiares de Grace . — Assim que ouvi a voz daquela estranha me dei conta da cena patética que estávamos fazendo, brigando, falando alto dentro de um hospital. Por Deus!
— Sou eu. — dissemos em uníssono, ignorei o olhar de desprezo que me direcionou.
— Me acompanhem por gentileza. — A doutora dos olhos puxados e cabelos negros seguiu pelo corredor de paredes brancas. Fui atrás juntamente a .
Adentramos uma sala, haviam aparatos médicos organizados e duas portas fechadas, sentei-me ao lado de numa das cadeiras que a doutora havia nos indicado. Mas eu não queria sentar, meu coração estava apertado, desde o momento em que aquele telefone tocou alguma coisa me dizia que algo ruim estava prestes a acontecer.
Eu não entendia, era o nascimento do bebê que eu seria madrinha, finalmente veríamos seu rostinho!
— Antes de lhes dar a notícia preciso me adiantar e dizer que eu e minha equipe fizemos tudo o que estava a nosso alcance. — troquei olhares com sem ao menos saber porque.
Talvez eu estivesse curiosa, checar se eu era a única que estava receosa com aquela ida à aquela sala apenas para falar sobre um simples parto.
— Acompanho Grace desde o começo da gravidez, vocês sabem, sabem também que a gestação dela foi conturbada. — Assentimos juntos. Não suportava toda aquela enrolação. — E assim que a trouxeram já em trabalho de parto para cá eu tive a certeza de que o final dela seria difícil...
— Doutora, — A interrompi impaciente. A mulher me encarou por cima do óculos escuro quadriculado e levantou uma das sobrancelhas. — será que dá para ir direto ao ponto? — Ouvi bufar ao meu lado e revirei os olhos, pronta para um novo ataque.
— Não a interrompa! — Me repreendeu. — Continue, por favor.
— Não fale comigo desse jeito seu imbecil.
— Imbecil é você, que além de tudo é ignorante, não vê que ela est...
— Pelo visto a custódia do bebê não irá para vocês. — Minha voz morreu assim que, no meio de minha oportunidade de contra ataque, interpretei o que ela disse. Parei encarando meu rival, que parecia tão pasmo quanto eu.
— O-O que? — falou por nós dois naquele momento, sentiu por nós dois. Não somente pelo medo estampado em seus olhos verdes, mas também pelo tom de voz, trêmulo.
— Infelizmente Grace não resistiu ao parto. — Seu olhar se focou na mesa branca que nos separava.
O silêncio se instalou na sala, que pareceu ficar gigante e extremamente fria, eu poderia jurar que conseguia sentir o chão abaixo de meus pés desmoronando aos poucos.
— Me desculpem por notificá-los desta maneira, vou dar um tempo para vocês digerirem a notícia. — Eu continuei ali parada, estática. A mulher de branco passou por nós dois e abriu a porta. — Volto daqui a pouco, para conversarmos sobre o destino da criança.
Solucei assim que ouvi o baque da porta, cobri minha boca com minhas duas mãos trêmulas como se elas fossem capazes de abafar minha dor. Eu queria gritar, protestar contra aquilo.
Mas não tinha o que protestar, Grace havia morrido, a culpa não era da médica, talvez não fosse nem da mãe de , ninguém poderia impedir a morte.
Não era possível que aquilo estava realmente acontecendo.
Como num choque de realidade, ouvi um choro baixo ao meu lado. Visualizar um tão frágil me fez, pela primeira vez em anos, sentir pelo menos um pouco de afeto por ele.
Se em mim já doía daquela maneira, imaginava o que ele sentia, ao saber que a própria irmã, sangue do sangue dele, estava morta. Minha mão receosa pousou em seu ombro, massageando o local.
Eu não era a pessoa mais indicada quando o assunto era consolar alguém, ainda mais porque eu não tinha ideia de quem iria me consolar depois. Mas, como não havia mais ninguém ali, teria que ser eu.
E não havia sido tão difícil como eu imaginei que seria. Eu precisava daquilo tanto quanto , que me apertou em seus braços fazendo-me ter uma pequena amostra da dor que o consumia. Estava tão anestesiada que nem me incomodava em ser praticamente esmagada pelo meu arqui-inimigo. Seu rosto já se encontrava em meu ombro e minhas mãos foram de modo inconsciente até seus cabelos castanhos. Às lágrimas molhavam nossos ombros, mas nada daquilo importava.
Eu não saberia ao certo por quanto tempo havíamos ficado ali, abraçados. Não conseguia raciocinar direito, se perguntassem o meu nome eu não saberia responder. A porta foi aberta, a doutora adentrou a sala, daquela vez acompanhada. Os olhos claros da mulher desviaram-se de nós assim que nos separamos sem jeito em nossas cadeiras.
— Esta é Amélia Briggs, advogada de Grace, ela acompanhará o caso da criança daqui para frente. Grace a conhecia e confiava nela de olhos fechados. — Já havia ouvido minha amiga mencionar aquele nome, devido a perseguição do pai da criança, ela havia contratado uma advogada para ajudá-la em futuros processos.
Me recompus secando minhas lágrimas e arrumando minha postura. não fez o mesmo, continuou a chorar compulsivamente com as mãos sobre o rosto.
— Preciso saber se há algum familiar que tenha interesse em ficar com a guarda da menina.
Era uma menina!
Meu coração se apertou em meio aos destroços. Grace havia começado com aquela babaquice de só querer saber o sexo do bebê no parto. Tínhamos montado um quarto colorido, o enxoval também. Eu quase surtei quando, na ultrassom, ela impediu a doutora de nós contar o sexo.
Por conta de meus problemas com curiosidade, na época, assumo que eu havia tentado chantagear a doutora, já , baixo como ele era, seduzi-la. E, bom, não tinha funcionado para nenhum dos dois.
Olhei para , que não esboçava nenhuma reação.
A mãe de não queria nem ouvir falar daquele bebê, nas duas tentativas que fizemos de aproximá-la da filha ela não demonstrou interesse, o Sr. , muito menos.
O pai da criança era um pé rapado que Grace com certeza havia escolhido pra transar bêbada, ele não quis nem saber de gravidez, a mandou criar o bebê sozinha. Pelo menos não quis que ela o tirasse, ele sabia da posição social de minha amiga, logo, imaginou que ela não precisaria do dinheiro dele.
Não que ele tivesse.
Quando Grace completou seis meses, ele a encontrou pelo meu bairro, começou a demonstrar interesse nela novamente e desde então a perseguiu durante o fim da gravidez. não a deixava nem ao menos pensar na hipótese de ir me visitar, e só daquela vez dei razão a ele. Desde então eu ia até ela, e infelizmente via sempre, o que não facilitou em nada a convivência.
— Ela não tem mais ninguém. — murmurei com a voz trêmula tentando parar o choro que vinha sem aviso. — Além de nós. — O olhei em expectativa, porém não recebi nada em troca.
— Senhor ... — A doutora pronunciou seu sobrenome incerta.
— Eu não quero esta criança.
O encarei boquiaberta. Ele não poderia estar falando sério. Que ele era um completo idiota eu já sabia, mas aquilo era passar dos limites!
— Está dizendo que quer encaminhar sua sobrinha para a adoção? — Amélia indagou, se certificado se era aquela a decisão final.
— O que? Não! — Me levantei agitada. — Ela não pode ir para a adoção, ela precisa de nós! — protestei passando por e parando no canto da sala.
Aquilo parecia um pesadelo sem fim.
— Não tem mais nós, ! Grace está morta! Aquele bebê a matou!
— A criança nada teve a ver com o desfecho do parto. E tenho certeza que Grace daria a vida pela a da filha. — A médica interveio antes que eu perdesse a cabeça e desferisse um tapa bem dado no rosto de .
— Se você não a quer, eu quero. — decretei já com lágrimas grossas rolando por meu rosto. — Grace nunca iria querer que a filha fosse uma órfã.
— A senhorita tem uma boa condição financeira e um cônjuge para entrar no processo de adoção? — Todo o meu desespero havia triplicado.
Eu morava num kitnet minúsculo naquele fim de mundo e tinha contas acumuladas em cima da mesa da cozinha, fora a parte do cônjuge, que já me tiraria de vez do tal processo, já que nem um namorado eu tinha.
Neguei com a cabeça abafando meu choro com a mão.
— Pois bem, Amélia e eu cuidaremos do encaminhamento da menor. — As duas mulheres abaixaram suas cabeças e foram em direção a porta.
— E-Esperem, eu poderia vê-la? — A doutora encarou-me com pesar.
Fui guiada por uma enfermeira até a ala da maternidade onde os recém-nascidos eram abrigados após o parto.
Após lavar minhas mãos pude adentrar o local, era quentinho, silencioso e aconchegante. Repleto de bebês, algumas enfermeiras transitavam por ali e eu pude ter a visão dos pequenos quando alguém ia visitá-los. O grande vidro que os apresentava para os familiares estava à minha frente.
Fui dispersa pela voz doce e baixa da enfermeira grisalha, virei-me dando de cara com um ser pequenino. E desde aquele instante eu não consegui mais tirar os meus olhos daquele pequeno ser.
Eu jamais estive daquele jeito em meus vinte anos de vida, devastada daquela maneira. Me pus a chorar novamente. Nem sabia mais o motivo de minhas lágrimas, talvez fosse a emoção de conhecer aquele bebê tão esperado por mim, finalmente ver seu rostinho e, ao mesmo tempo, saber que Grace não a conheceria. Mas com toda certeza também era por saber o que a esperava dali para frente, ela era tão frágil e estava tão só. Imaginei Grace ali, como seria a reação dela ao ver a própria filha.
Me alarmei quando a senhora me estendeu aquele pequeno anjo enrolado naquela manta cor de rosa, eu não fazia ideia de como se segurava um bebê. Após receber as instruções pude senti-la se remexer em meus braços, eu sequer pude controlar meus soluços ao ouvir aquele choro estridente. Balancei meu corpo devagar tentando acalmá-la, não obtive sucesso e desviei meus olhos de seu rostinho por um segundo.
Aquele par de olhos verdes tristes me encarava do outro lado do vidro, mordi o lábio inferior e tentei esboçar um sorriso, mostrando que estava tudo bem, mesmo que não estivesse. Dei passos até lá e lhe mostrei o bebê agitado em meu colo. encarou a criança sem reação aparente, apenas me deu as costas e saiu corredor a fora. Devolvi o bebê à enfermeira prometendo retornar depois e saí às pressas da sala.
Corri até o estacionamento, onde já saia com o carro. Parei diante do veículo com as mãos no capô do carro. Ele não podia fazer aquilo, deixar a própria sobrinha ali e simplesmente fingir que ela nunca nasceu!
— Por favor, você sabe o que Grace iria querer, ela iria querer a filha com nós, porque ela sempre disse que seríamos a família dela. — Argumentei assim que o vi sair do carro. , que se apoiava na porta do carro, me encarava choroso.
— E o que você quer, hã? Quer criá-la? Quer ser a mãe dela? Não sabemos cuidar nem nós mesmos, . Como você mesma diz, eu vivo na sombra de meu pai e você, nem isso tem.
— Eu quero ser a tia dela, fazer o que eu faria mesmo se Grace estivesse aqui. Você prometeu que iria cuidar dela, sua irmã nunca disse que estaria aqui para sempre. — me deu as costas, havia entrado novamente no carro. Bufei estressada. Nada do que eu fazia parecia funcionar! Aquela girafa ambulante era um cabeça dura! — Por Deus, , ela é tão pequena! Não coloque a culpa nela, ela é a que mais vai sofrer nessa história.
Saí da frente do veículo. Já estava considerando a ideia de desistir e talvez tentar pelo menos conseguir ficar por perto da menina enquanto ela crescesse com outra família. Mas o barulho a porta batendo me despertou fazendo-me virar e encontrar andando em minha direção.
Ele passou por mim retrocedendo os passos até o acesso ao prédio. Fui atrás repensando na idiotice que havia acabado de fazer e que estava repetindo, correr atrás de era a última coisa que eu faria no mundo. Mas lá estava eu.
Pelo menos era por uma boa causa.
Fui impedida de continuar andando por sua mão grande e gélida, que me pressionou pela cintura contra a parede por um instante. Antes mesmo que eu pudesse ser expulsa da maternidade por gritar em pleno corredor, sua voz se fez presente.
— Vamos ver o que a tal advogada diz. — Assenti freneticamente, já me animando. — Eu não prometo nada, Stevens. — Movi minha cabeça novamente. Já era um bom começo.

***


— Claro que só uma boa condição financeira não basta para a assistente social juntamente do juiz decidir se a guarda da criança é de vocês. — passava as mãos pelos cabelos nervoso enquanto Amélia continuava a falar e falar.
Confesso que não havia entendido nem metade do que tinha escutado. Era informação demais, leis, regras, coisa demais para digerir tudo de uma vez só.
— A criança irá precisar de um lar, um pai e uma mãe presentes. Que de preferência tenham a união já oficializada. — A loira apoiou os cotovelos sobre a mesa nos encarando por cima dos óculos. Franzi a testa esperando que ela prosseguisse. — Vocês, por acaso, são casados?
Arregalei meus olhos e, assim como , tive a pior reação possível a aquela pergunta.
— O que?! Não, não mesmo. — Negava freneticamente com a cabeça rindo de nervosismo.
— Nunca vai acontecer, está fora de questão. — Assegurou fazendo-me encará-lo com as sobrancelhas arqueadas.
— Então como a adoção irá funcionar? Porquê se tiverem esses requisitos a burocracia será bem menor. O juíz irá entender que a menina terá um lar estável, sem separações abruptas ou brigas. Se quiserem realmente fazer isso, aconselho que se entendam logo. A fila é extensa, se vocês não entrarem logo em ação, outro casal o fará.
— Desculpe, acho que não ouviu direito o que ele disse, o que é um verdadeiro desperdício, porque essa foi a primeira vez que ele disse algo que preste na vida. — falei rápido, ainda boquiaberta com o que havia acabado de ouvir.
Um casamento era algo sério. Não podia acontecer daquela maneira, forçado.
— Isso nunca vai acontecer.
— Preciso ir, tenho uma reunião marcada com um cliente. Pensem nisso. — se levantou levando consigo sua pasta preta. — Vocês tem até amanhã para me darem uma resposta concreta. A assistente social virá logo.
Suspirei exasperada e não tive resposta alguma de . Ele sempre foi assim, às vezes sentia demais, outras de menos.
A doutora mais uma vez nos deixou ali, saiu junto da advogada.
— Agora já chega, ouvimos o que ela tinha para nos propor. E acho que é óbvio que a resposta é não. — se levantou da cadeira saindo porta afora.
— Você deveria ao menos tentar conhecê-la. — Assim que o alcancei, disparei a falar. O homem apressado à minha frente simplesmente parou, fazendo-me bater em suas costas distraída.
Assim que se virou pude ver em seus olhos algo a mais, eles pareciam receosos, podia-se enxergar um pequeno brilho neles. Mas ele apenas negou com a cabeça.
— Eu vou com você. — sorri fraco. — Não precisa fazer isso sozinho.
Era engraçado como a morte de alguém próximo em comum podia juntar pessoas. Se nada tivesse dado errado, se ela estivesse ali, naquela maternidade, estaríamos brigando sobre quem iria pegar a pequena no colo primeiro. Grace com toda certeza estaria na cama, cansada por conta do parto, e rindo de nós dois.
E eu poderia até ouvir sua risada enquanto andávamos pelos corredores.
Quem diria que um dia andávamos lado a lado sem brigar, aquele era um recorde digno de um espaço no Guinness.
A enfermeira me sorriu e andou em direção a bebê que continuava a ressonar tranquila.
— Não posso pega-la sempre, ela precisa descansar. — Pedi desculpas num sussurro e sai da frente de , que prendeu a respiração assim que a enfermeira lhe estendeu o bebê. — Vão ter tempo de sobra para paparicá-la. — Suspirei próxima de , eu tinha tanto medo que ele a derrubasse. Estabanado do jeito que era. — A adoção é algo lindo.
parecia ter ignorado a frase da mais velha, ou estava ficando bobo encarando a sobrinha, pois não teve reação alguma. A verdade é que ele não queria dar o braço a torcer, o que me deixava com a horrível sensação de que estava tudo errado, e por mais que eu tentasse consertar, não conseguia.
E, convenhamos, na situação em que nos encontrávamos, se admitisse estar errado aquilo acabaria num casamento.
Eu o entendia, e aquilo era estranho para mim também. Tê-la nos braços era uma sensação tão incrível que poderia dar para ficar daquele jeito pra sempre, mas para prolongar aquilo teríamos que abrir mão de muita coisa. Nossas vidas, por exemplo.
E talvez eu tenha feito a burrada de colocar a decisão de minha vida nas mãos daquele idiota.
sorria abertamente enquanto a pequena movia os bracinhos agitada, a pulseira de identificação estava em branco fazendo meu coração doer. Nem chance de dar um nome a filha Grace teve.
.
— Quem? — Indaguei confusa olhando envolta.
— Grace e eu estivemos conversando há duas noites atrás, ela disse que se fosse uma menina, ela se chamaria . — Me perguntei por um momento se ele não poderia ler meu pensamento.
— Não pode dar um nome à um bebê órfão, Sr. .
Nos viramos encontrando a doutora próxima da porta, de braços cruzados ela nos encarava impassível.
— Não estou nem um pouco surpresa em encontrá-los aqui. — riu com ironia. — Só me pergunto o porquê. Abriu mão da menina, , por que quer conhecê-la? Pega-la nos braços, por acaso quer que ela se apegue a você? — seus olhos verdes se focaram na bebê no momento em que ela abria seus olhinhos pela primeira vez.
tinha olhos de esmeralda, idênticos aos da mãe e os do tio. De repente, a doutora Anderson nem parecia estar mais ali.
— Ela não é um brinquedo, uma boneca que você brinca e quando cansa entrega para doação. — Descruzou os braços andando em nossa direção. Tirou a criança dos braços de , que esboçou uma reação contrária à que havia tido naquela sala minutos antes.
Ele ficou bravo. Seus punhos se fechando e seu rosto ganhando um rubor comprovaram aquilo.
— Se não irá querê-la pode ir. Aliás, os dois estão liberados. — empurrei dali exatamente no momento em que o vi fazer menção de respondê-la. — Vocês não fazem ideia de quantas mulheres me pedem para lhes conceder o milagre da vida, jamais presenciaram a dor de uma mãe que sofreu um aborto ou que não pôde ver o filho com vida por uma semana sequer. Grace deve estar chorando, onde quer que esteja.
Era como levar uma facada enorme no coração. Um choque de realidade. Imaginei por um momento tudo o que ela havia descrito, partilhei da dor delas, afinal, eu havia acabado de perder alguém importante. Grace, eu sentia que ela estava ali, junto de nós, e em nenhum momento duvidei de que ela estava decepcionada.
— Não imaginam o quanto essa bebê fará feliz algum casal que esteja disposto a assumir essa responsabilidade.
A porta foi fechada em nossa cara, ela estava furiosa, e certa também.

Capítulo 2

Eu não conseguiria imaginar aquela criança crescendo em outro lar. Todos os planos, todos os sonhos que tínhamos feito com Grace estavam indo por água abaixo. Não conseguia aceitar que eu não seria mais a madrinha dela, que não a veria crescer e que podia fazer nada para impedir que a levassem para a adoção.
Me separei de antes que começássemos mais uma de nossas brigas frequentes, e daquela vez eu teria razão em xingá-lo de todos os nomes e palavrões possíveis. estava quase que implorando por um soco bem dado no rosto por sua imensa teimosia, eu vi em seus olhos o desejo de ficar com a menina! Ele deveria ser o maior interessado, ela era sobrinha dele!
não poderia mentir e dizer que não ficou encantado com aquele bebê!
Fui até onde tinha largado meu meio de transporte quando cheguei. Meu coração doía em ter que deixá-la para trás.
Enquanto ia para casa, chorava desesperada pedalando Amy.
Não sei se cheguei a citar no meio de toda a confusão, mas Amy é minha adorável bicicleta lilás. Ela foi a primeira coisa que consegui comprar quando desembarquei em Londres meses atrás. Foi amor à primeira vista.
Digo, não foi bem assim...
Na verdade, Amy estava à venda em frente à uma concessionária de motos, mais precisamente tampando minha visão de uma maravilhosa Harley-Davidson, que custava os olhos da minha cara.
Como iria ter que começar do zero ali, decidi ter primeiro algo mais simples. Mas todas às vezes em que passo por aquela loja, a olho imaginando que nome darei a ela quando comprá-la.
Desci da bicicleta e encarei a fachada imponente da concessionária. A motocicleta ainda estava longe de caber em meu bolso, acho que o nome dela seria "impossível" mesmo. Ri em meio a lágrimas, ali, plantada no meio fio.
Grace sempre dizia que eu só dava nomes a objetos inanimados por ser solitária. E eu não poderia negar aquilo, ela estava certa.
Desde pequena fazia aquilo, acho que sempre fui frustrada daquele jeito, querendo ser rodeada de amigos, ter um namorado e uma família numerosa mas, nunca soube direito como fazer tudo aquilo acontecer.
O lance é que lidar com pessoas sempre foi complicado, digo, não se pode obrigar alguém a ficar do seu lado. A menos que tenha uma arma, mas isso caracteriza um sequestro e cárcere privado.
E eu nunca fui dessas que implora atenção dos outros. Eu já havia perdido as contas de quantas amigas já tinha deixado para trás ou quantos garotos deixei de beijar por ser daquele jeito. Mas aquilo nunca funcionou com pessoas que eu amava.
Grace foi a única que nunca saiu de meu lado, desde a infância, éramos como irmãs, ela era a única que me fazia sempre voltar atrás depois das brigas, mesmo que ela estivesse errada. Foi a única amiga que me fazia ver que ainda existia amizades verdadeiras, e agora, se foi.
Fui para casa tomar um banho pensando em como lidar com o fato de que eu estava me arrumando para o velório de minha melhor amiga. Refletindo sobre como a vida era incerta, eu estava falando com ela por mensagens na noite anterior, como tudo havia acontecido tão rápido!
Desci as escadas com minhas botas escuras e já vestida em meu vestido preto. Eu sabia o que ela pensaria se me visse daquele jeito, ficaria, no mínimo, chateada pela escolha da cor das roupas. Grace simplesmente odiava preto, sempre gostou de cores vibrantes e cheias de vida como ela. Subi de volta correndo até a gaveta, deslizei o batom vermelho que ela havia esquecido em casa pelos meus lábios.
Ela gostaria daquilo, se estivesse ali.
Peguei um ônibus e me sentei na janela, passei a observar as pessoas nas ruas.
Outra particularidade minha, eu adorava olhar pessoas. Não como minhas vizinhas, que faziam fofocas e cuidavam da vida alheia. Eu simplesmente gostava de ver como elas agiam quando não sabiam que estavam sendo observadas.
Mas naquele trajeto não consegui me concentrar em meu passatempo. Repensei muito no que havia pensado ainda enquanto me arrumava.
Pensei em como Grace reagiria a tudo aquilo, cogitei até a possibilidade de ela estar comigo ali. Não que aquilo fosse possível em minha cabeça, mas, assim que me dei conta de que estava num ônibus, e que Grace adorava andar em transporte público, comecei a repensar meus conceitos sobre vida após a morte.
E se ela realmente estivesse ali comigo? Brava por eu não ter escolhido o banco mais alto para que nos sentássemos. Furiosa por eu não estar vestida como uma piranha e ir chocar a família tradicional que ela tanto odiava.
O coletivo parou num dos pontos e subiu uma mulher com um bebê nos braços. Ofeguei imaginado como Grace reagiria ao saber que eu iria deixar que sua filha fosse para a adoção.
Cheguei no local do velório já aos prantos, completamente arrepiada pelo que tinha sentido no coletivo. Transitava entre as pessoas que ali estavam recebendo olhares não muito agradáveis. Eu era uma velha conhecida de todos eles, que sempre implicavam com o fato do Sr. e Sra. deixarem Grace ser tão próxima da filha dos empregados.
Todos ali eram como . Mas, naquele momento, percebi que ele era até suportável se comparasse com o restante. Se é que era possível existir alguém pior que .
Fui até ele, que conversava com um grupo de amigos, limpei a garganta chamando sua atenção. se virou, seus olhos estavam vermelhos, sem vida, mas ele parecia mais tranquilo com a situação. Como se já estivesse começando a aceitar sua perda. Encarou-me por algum tempo, seu olhar desceu até meus lábios vermelhos e soltou um sorriso fraco.
Grace sempre dizia que queria cores em seu próprio velório. Claro que era uma brincadeira dela, mas parece que ninguém ali a conhecia como eu a conhecia.
Eu nunca iria me acostumar com aquele ...Simpático, na medida do possível.
— Precisamos conversar.
— Creio que esse não seja o melhor lugar do mundo para falarmos da menina. — percebi seu olhar por trás de meus ombros e virei-me vendo a mulher de cabelos pretos próxima do caixão.
E por falar nele.
Não consegui assimilar tudo aquilo. Minhas pernas bambearam assim que reparei no quão pálida Grace estava, principalmente vestida naquele vestido branco e sem graça. A coroa de flores em sua cabeça havia lhe dado um ar angelical, e era a única coisa ali que ela aprovaria.
Fui conduzida para fora do local onde o velório estava acontecendo. Enchi meus pulmões de ar assim que a primeira rajada de vento atingiu meu rosto, bagunçando meus cabelos. Eu realmente precisava tomar um ar após vê-la daquele jeito. Aquela não era a última imagem que eu queria ter dela.
— A-Acha que ela está em paz sabendo que iremos dar a filha dela nas mãos de desconhecidos? — disparei assim que consegui tomar algum fôlego. — , não podemos simplesmente abrir mão da criança! Nós somos o mais próximo de família que ela tem, não pod...
— Ok, ok, entendi. Vamos ir atrás disso. — Suas mãos me seguraram pelos ombros fazendo-me parar de andar enquanto falava pelos cotovelos. — Mas minha mãe não pode saber disso. Ouviu? Já foi um milagre ela ter vindo ao velório.
O encarei incrédula me afastando, como ele conseguia falar um absurdo daqueles com uma naturalidade imensa?
— Realmente deve ter sido muito difícil para ela. — Ri. — Nunca se importou com Grace, parece que só veio para se certificar de que a praga que rogou funcionou. — Disparei irônica.
respirou fundo massageando as próprias têmporas.
— Você sempre gostou de acusar os outros, não é, Stevens? — riu. — Sua família é um verdadeiro circo e você ainda se acha no direito de falar da minha?
Senti meus batimentos cardíacos se acelerarem ao máximo, minha respiração se intensificava a cada detalhe de sua expressão prepotente enquanto sentia o ódio tomar meu corpo.
Minha família.
Bom, esse não é o meu assunto favorito no mundo todo. Inclusive, eu preferiria até falar sobre a previsão do tempo, do que sobre família.
estava certo, era um circo. Minha mãe tinha múltiplas funções naquele espetáculo todo, ora ela fazia o papel de palhaça aguentado as traições de meu pai, ora, era o tigre preso na jaula, aquele que sofria maus tratos, só que claro, longe dos olhos do público. Eu não passava de uma mera assistente de mágico, que sorria e disfarçava todos os erros até deixá-los imperceptíveis a quem olhasse de fora.
Até que um dia eu me cansei. E foi no mesmo instante que Grace engravidou e decidimos ir embora daquela cidadezinha ridícula.
— Um circo? Ah, por favor, . Acabaram os seus apelidos para a pobretona aqui? — Apontei para eu mesma já sentindo um nó se formar em minha garganta. — Quer saber? Eu não vou ficar aqui, no meio dessa gente hipócrita que Grace chamava de família. Não me importo se vou faltar ao enterro de minha melhor amiga, todos já sabem que ela preferiria não ter nenhum deles por perto, nem que estivesse morta.
Recuei tentando não desabar em choro na frente daquele ser desprezível. Estava bom demais para ser verdade, na verdade, calmo demais. nunca foi capaz de me suportar por sequer um segundo, e eu que estava pensando em como ele estava sendo maduro e evitando, assim como eu, se desentender.
Ah, ledo engano.

***


Acordei no dia seguinte com meu celular tocando insistentemente debaixo de meu travesseiro. Não me lembrava se o tinha colocado para despertar justo no meu dia sagrado, uma das poucas terças-feiras do mês em que eu tinha folga. Eu costumava planejar aquele dia incrível semanas antes, eu acordava a hora que queria, chegava a ficar com dor de cabeça de tanto que dormia! Me empanturrava de comida e colocava minhas séries em dia.
— Mas que merda! — Reclamei quando vi que era uma ligação, um número desconhecido chamava sem parar. — Alô. — Tentei ao máximo manter minha dignidade ao ajeitar minha voz, para não parecer que eu tinha acabado de ser acordada.
— Que porra de alô, Stevens! Já são nove da manhã onde você está!
Era mesmo a voz do do outro lado da linha? Eu podia jurar que senti meu coração se acelerar com aquilo. Era completamente insano ficar feliz ao ouvir , mas eu de fato estava estranhamente feliz por aquela ligação. Mesmo com o palavrão e o jeito rude. Mesmo me lembrando da noite passada.
Eu pensei que com nossa discussão ele tinha desistido de ficar com .
— E-Eu estou indo, juro, já estou chegando aí! — A ligação foi encerrada. Com aquela alegria toda eu poderia até fingir que a ligação havia caído.
Escovava os dentes ao mesmo tempo em que tomava banho, coloquei uma roupa qualquer e um tênis. Meus cabelos foram presos num rabo de cavalo. Apanhei minha bolsa enquanto ia até a porta e a trancava para garantir que quando eu retornasse estaria tudo ali dentro.
No meio de minha corrida até o ponto de ônibus, avistei um coletivo saindo. Aquela era a pior hora dos meus dias, correr atrás de ônibus era a pior humilhação da face desta Terra. Se eu não estivesse tão atrasada faria o que sempre fazia, fingia que aquele não era o meu ônibus e esperaria outro.
— Cheguei! — Anuncie ofegante por conta de minha pressa.
Eu nem ao menos tive tempo de pensar no motivo de eu estar ali. Meu sorriso se abriu assim que eu os avistei ali, sentados à minha espera. Grace deveria estar tão feliz quanto eu! A pequena era nossa!
— Precisamos conversar sobre a menina. — Briggs disse séria. Minha afobação se esvaiu no mesmo minuto, olhei para e o vi abaixar a cabeça sentado na mesma cadeira do dia anterior. Fui até lá, ocupando o outro assento.
— O que houve? — Olhei para confusa.
— Aquele filho da puta esteve aqui ontem.
Aquele filho da puta, era como chamava o pai de . Meu coração se apertou assim que eu pensei na possibilidade de ele ter feito algo a .
— Ele quer a guarda da bebê. — Olhei para Amélia assustada. Não era possível!
— Ele pode conseguir? Digo, ele não queria a criança, nunca a quis! Não consegue criar um bebê, não sozinho.
— Ele é o pai, tem direito sob a menina.
— E eu sou o tio dela! Eu tenho diretos também!
— Se querem mesmo brigar por ela, sugiro que façam o que eu aconselhei ontem. Com sua estabilidade financeira, , juntamente com a união estável com , terão uma vantagem imensa diante do juiz.
— Estão dispostos a abrir mão de suas vidas, se casar e lutar pela guarda definitiva da menina? — A médica indagou nos encarando.
Troquei um olhar rápido com e nem precisamos de palavras para nos entendermos.
Era aquilo, estávamos completamente ferrados.

Capítulo 3

***


— Certo, Angelina Davis é uma mulher muito rígida e extremamente inteligente então não pensem que vão conseguir enganá-la fazendo qualquer teatrinho meia boca, sejam convincentes! Qualquer sinal de que algo está errado, esqueçam a menina. — Amélia falava pelos cotovelos enquanto adentrávamos no carro luxuoso de . Pelo menos iríamos chegar em grande estilo.
Eu olhava para ele vez ou outra tentando repreender suas risadas baixas por conta do nervosismo da advogada, que estava uma pilha de nervos e não parava de falar um segundo sequer. Sua voz trêmula demonstrava seu estado emocional, ela estava prestes a explodir.
— Eu nunca fiz isso na vida! Minha carreira vai para o brejo se ela descobrir que estou acobertando uma mentira! Eu estou tão nervosa! — Exclamava do banco de trás com as mãos na cabeça. Suspirei a encarando pelo retrovisor.
— Você não é a única, se isso te consola. — Meu estômago dava voltas e eu ameaçava desmaiar a qualquer momento.
Eu não havia comido nada além de uma rosquinha na cantina da maternidade. Amélia havia dito que a tal assistente social iria nos encontrar para conversar e ficar por dentro do caso que cuidaria. Não pude ao menos ir para casa trocar de roupas, estava toda simples enquanto estava de terno, ele planejava ir trabalhar naquele dia.
Descemos do veículo e o manobrista nos recepcionou levando o carro até o estacionamento. Soltei meus cabelos tentando arrumá-los enquanto andávamos até a porta do restaurante granfino, eu jamais imaginei que algum dia iria ter uma refeição no La saveur. Minha barriga roncava tão alto que eu até me sentia constrangida.
— Ok, ali está ela, se comportem como um casal! — Avistamos ao fundo uma mulher de pele morena com os cabelos lisos que aparentava ter seus quarenta anos. Ela lia o menu distraída ao mesmo tempo em que ouvíamos Amélia repetir pela milésima vez as instruções que nos deu no caminho todo. — Anda, pegue a mão dela! — Ordenou para , que fechou a cara com o seu tom de voz.
— Você sabe que eu posso te demitir, não sabe?
— Você vai me agradecer no final, aquela mulher sentada ali é o próprio demônio. — Tentei identificar algum sarcasmo em sua voz e, para o meu desespero, não encontrei.
Respirei fundo antes de entrelaçar minha mão com a de . Eu me perguntava como ele poderia estar tão tranquilo daquele jeito. Andamos em direção a mesa de Angelina e eu realmente não estava colocando muita fé de que aquilo funcionaria. e eu não parecíamos um casal nem de longe!
Ainda achava que teria sido melhor se eu tivesse trocado de roupas, uma roupa mais formal talvez nos classificasse como um casal. parecia um executivo - o que ele de fato era - e eu uma adolescente.
— Boa tarde, Sra. Davis. — A voz de Amélia soou suave, ela parecia com medo de assustá-la ao chegar de repente. — Sou Amélia Briggs, a advogada com quem conversou por telefone hoje cedo. Esse é o casal que te falei, desculpe a urgência do meu contato. Este é , que é o tio da menina e , melhor amiga de Grace. — Sorri tentando não deixar meu desespero transparecer e me deixei ser analisada junto a por aquele par de olhos cor de mel.
— Sentem-se. — Me atrapalhei esbarrando em , quase caindo em cima de um senhor que almoçava na mesa ao lado. segurou-me pela cintura me guiando até uma das cadeiras. Quase fiquei surpresa quando percebi suas mãos puxando a cadeira para que eu me sentasse.
Tive que fingir costume e sorrir. Era bizarro viver aquela situação toda e não poder demonstrar nenhuma expressão além de uma falsa felicidade.
— Já pedi nosso almoço, espero que gostem de caviar. — Sorri amarelo.
Fodeu. Eu odeio caviar.
soltou uma risada contida ao meu lado, ele se lembrava bem daquele fatídico jantar importante em sua própria casa. Estavam todos à mesa, o Caviar foi servido e eu particularmente nunca nem tinha visto na minha frente, até aquela noite. Relembrei minha reação exagerada ao gosto horrível que aquilo tinha quando me serviram o prato. Eu cuspi tudo o que tinha na boca no guardanapo, tudo bem, eu tinha dez anos de idade, é até justificável quando se descobre que aquilo são ovas de peixe!
Dei uma cotovelada discreta em , que tirou o sorriso idiota do rosto.
— Então, Sra.
— Pode me chamar de . — Lhe sorri ainda sem graça.
— Sra. , — Ignorou-me completamente. — conte-me mais sobre como decidiu ser mãe da noite para o dia. — Engoli a seco aquele gosto ruim que tinha colocado na boca apenas para fingir que estava comendo.
Amélia estava certa.
— Eu não decidi, Sra. Davis. — Respondi, ainda desconcertada. — M-Mas acho que isso é a maternidade na maioria dos casos, não é? Eu não fui planejada pelos meus pais. — Encolhi meus ombros incerta se deveria parar de falar ali. Seu rosto sem expressão era indecifrável. — E ela foi tão esperada por nós, por nós três, eu com toda certeza estaria ao lado de Grace na hora de cuidar dela, de tomar decisões. E, infelizmente, minha amiga se foi e nos deixou ela. — Meus olhos se encheram de lágrimas. entendeu o olhar repreensivo de Amélia e pegou minha mão consolando-me.
— E você, Sr. . Ser pai assim tão inesperadamente! Até ontem você só seria tio. Tudo isso não te assusta?
— Não, eu seria um pai para ela de qualquer maneira já que o biológico não compareceria com sua função. Sempre cuidei de Grace, apesar da pequena diferença de idade, e eu prometi que cuidaria das duas, independente do que acontecesse.
Eu conversava com Angelina mais nervosa que aquela Amélia trêmula do carro minutos atrás, enquanto estava no toilette. Eu nunca vou me acostumar a falar banheiro daquele jeito. Não sabia se ele estava fugindo ou se estava expulsando todo o caviar que comeu de seu corpo, só sabia que estava tempo demais fora.
Eu iria mata-lo quando todo aquele sufoco passasse. Já não sabia mais o que fazer para convencer Angelina de que era o homem da minha vida, elogiar ele era com certeza a coisa mais difícil naquela história toda. Nunca fiquei tão aliviada por vê-lo quando ele retornou à mesa. Para a nossa surpresa, ele não se sentou, ficou ali parado ao lado de minha cadeira.
Franzi a testa sem entender enquanto ele, pasmem, se ajoelhou diante de mim.
Eu com certeza iria matá-lo. Sempre tive aquela vontade, porém estava me dando motivos.
— Bom, eu sei que isso é precipitado demais, mas a vida está sendo mais ainda conosco. Te conheço desde criança, sempre tivemos essa conexão tão grande, as pessoas de fora diziam que um dia ainda nos casaríamos. — Eles realmente sempre diziam aquela bobagem, mas era pelo fato de que vivíamos brigando e nos estranhando por onde íamos. — E essa hora finalmente chegou, sei que te peguei de surpresa, mas você e eu já estávamos planejando dar esse passo importante mesmo. Agora que nossa pequena chegou em nossas vidas eu não tenho mais vontade de esperar para fazer o que eu estou fazendo agora, te pedir em casamento nesse restaurante, que foi onde jantamos e decidimos não sermos mais somente amigos. — Mentira. Nunca nem passei na calçada daquele lugar. — , quer se casar comigo?
Ainda boquiaberta olhei em volta, todos me encaravam em expectativa, até a própria Angelina esperava minha resposta, porém ela não me parecia completamente convencida. Meu sangue fervia de ódio de , o que custava ele ter me avisado que iria fazer aquilo! Eu tinha que ter me preparado também!
Respirei fundo controlando-me do meu estado, que estava sendo interpretado como emoção pela maioria das pessoas presentes. Levei uma de minhas mãos a boca, cobrindo-a, forjando uma reação condizente com o momento.
— Sim, , eu aceito me casar com você. — Disse entre dentes forçando um enorme sorriso. Uma aliança foi colocada em meu dedo e ele se levantou puxando-me pela mão, me levantei e de costas para nossas acompanhantes, e o encarei confusa.
Espera! Eu teria mesmo que beijar ele? Oh, céus! Aquilo só podia ser brincadeira. Eu sabia que mais cedo ou mais tarde teríamos que fazer aquilo, mas mesmo sabendo eu não queria que aquele momento chegasse!
Juntei meus lábios nos dele e não me movi. fez o mesmo, apenas posicionando as mãos em minha cintura. Aquele tinha sido o beijo mais estranho da minha vida. Sorria tanto que minhas bochechas doíam, para não perder o romantismo do momento, beijou de leve minha testa. Os aplausos cessaram e voltamos a nos sentar.
— Vejo que realmente querem formar uma família para . — Sorri assentindo.
— Na verdade o casamento será uma mera formalidade, — Olhei para confusa, ele estava cheio de surpresas naquele dia, e eu não tinha sido informada de nenhuma delas. — e eu já até moramos juntos. — Arqueei minhas sobrancelhas tão surpresa quanto Amélia e Angelina. — Não é, amor?
— S-Sim, nós... moramos juntos. — Toquei seu ombro envolto do terno escuro que ele usava. — Não faz muito tempo, me mudei para ajudar Grace no fim da gestação. — assentiu. — Mas nós vamos nos mudar, não é, querido?
se engasgou com a água que bebia. Eu nunca gostei muito daquele apartamento. Tinha pavor a elevadores, quando ia visitar Grace era uma luta constante para aguentar míseros minutos presa naquela lata de metal subir quase até a cobertura daquele prédio altíssimo.
— Não decidimos isso ainda, . — Seu sorriso era tão forçado que ele chegava a ranger os dentes.
Eu também tinha as minhas surpresas.
— Ah, mas uma casa seria muito melhor para , imagina ela crescer sem ter um quintal grande para brincar? — Apoiei meu rosto em meu queixo vendo seus olhos verdes faiscarem em minha direção.
— Acho importante vocês entrarem em um consenso sobre isso, mas é muito bom ver que estão pensando no bem dela. — Concordamos de imediato. Apesar de nossas divergências, era tudo o que nós dois queríamos. — Preciso ir agora, tenho outro cliente me esperando, vou marcar uma audiência no fim do mês. Estejam lá. — Pelo menos aquela encenação toda havia prestado para alguma coisa.
— Graças a Deus. — Amélia respirou pela primeira vez naquela mesa. — Achei que não daria certo. Parabéns aos dois! — Sorri junto dela, dando lhe um high five animada.
— Vamos embora, tenho que ir trabalhar ainda. — ignorou sua outra mão levantada, ajeitando seu terno ao deixar a mesa.
— Eu estou com fome! — Reclamei enquanto íamos até a saída do restaurante. pegou minha mão e arrancou a aliança praticamente levando meu dedo junto. — Ai!
— Tenho que devolver para a garçonete!

***


Era completamente estranho acordar e não receber nenhuma mensagem de Grace, eu geralmente dormia e a deixava falando só, não me orgulhava de às vezes ser uma má amiga. Mas eu sempre a respondia no dia seguinte, e quando eu pensava não ter como retomar nossas conversas da noite anterior me surpreendia com o modo rápido em que retomávamos o assunto.
Éramos como duas irmãs.
Visualizei novamente sua mensagem. A última que chegou em meu celular. Grace me repreendia por eu ter caído no sono e ria, dizendo que queria conversar pois o bebê estava agitado, não queria deixá-la dormir com seus chutes. Dizia que me amava mesmo eu sendo dorminhoca.
Após ter passado a tarde inteira olhando para nossa conversa aberta e de ter derramado lágrimas em meu travesseiro durante a noite, eu finalmente digitei algo a ela. Como se nada tivesse acontecido. Como se Grace nunca tivesse ido embora. Como se eu tivesse dormido noite passada e tudo não tivesse passado de um pesadelo horrível. Desejei ter esquecido pela milésima vez de responder sua mensagem.
Eu também te amo, amiga|
Fui direto para o banheiro e me despi, tomando um banho rápido. Me vesti, arrumei meus cabelos e sai de casa, peguei minha Amy e fui pedalando até a Sud's, lanchonete onde eu trabalhava.
Ia preocupada, mesmo sabendo que Tiffany havia avisado o Sr. Williams de que eu não pude ir na segunda por conta do que aconteceu. Eu odiava ter que levar bronca, ninguém gosta, claro, mas o velho de sessenta e seis anos que era meu chefe era conhecido por seus sermões intermináveis. Nunca fui parar em sua sala, sempre me mantive na linha, mas eu chegava a contar quanto tempo as demais funcionárias demoravam por lá quando faziam algo errado.
Adentrei o estabelecimento e fui para trás do balcão, já no banheiro dos funcionários, coloquei meu uniforme, que era apenas uma camiseta vermelha com o nome da lanchonete. Servir os clientes e preparar lanches não era o que eu sonhava para mim, mas não poderia dizer que odiava trabalhar ali. As pessoas que me rodeavam eram incríveis, os clientes agradáveis e era aquele trabalho que me sustentava e pegava minha faculdade. Que estava trancada no momento.
— Meus pêsames, . — Recebi um abraço quando saí detrás do balcão. Coloquei meus braços ao redor de minha amiga e aproveitei o carinho, era tudo o que eu precisava naquele momento. — Sei como deve estar sendo um momento difícil para você.
— O Sr. Williams pediu para você ficar até mais tarde hoje, tenho médico e você terá que me cobrir. — Fui largada por uma, e logo já tinha outra ocupando seu lugar. Suspirei desanimada.
— Já chega dando notícia ruim, Tiffany? — Annelise repreendeu a morena, que riu com a implicância.
— Desculpa, é que eu tinha que avisar logo antes que eu me esqueça. — Rimos de sua fala. Fany era tão esquecida que aquilo lhe rendeu o apelido de Dory.
— Pois espero que estejam preparadas, porque tenho duas notícias para vocês, e infelizmente, uma delas é péssima. — Anunciei enquanto já começava a limpar uma das mesas vermelhas. A decoração retrô dali me encantava.
— Tenho até medo do que seja. — Fany comentou fazendo-me sorrir fraco.
— A boa primeiro, por favor. — Anne limpava o chão enquanto a outra, o balcão.
Estávamos de portas abertas, mas o movimento vinha decaindo faziam semanas. E, bom, o Sr. Williams ainda não havia chegado, aquela era a nossa única chance de colocar as fofocas em dia.
— Conseguimos a guarda da criança! Quer dizer, temos grandes chances de conseguir. — Sorrimos juntas e me encostei numa das mesas para contar a parte ruim daquilo tudo. — A parte ruim é que eu vou me casar. — Minha animação se esvaiu no mesmo instante em que os olhos de ambas se arregalaram.
— Como assim casar? — Minha amiga largou o rodo e quase derrubou Tiffany e eu, puxando nós duas para nos sentarmos.
Eu sei, era um susto e tanto, até porque o meu encalho era tão grande que se me contassem que eu estava de casamento marcado, com certeza eu reagiria daquela maneira também.
— Para conseguir adotar temos que ter um relacionamento estável, e claro, uma boa situação financeira, eu não tenho nada disso. Mas com , passarei a ter.
— Espera, , ? O ser humano que você mais odeia no mundo? — Fany indagou boquiaberta. Assenti sem a mínima animação.
— E você ainda diz que isso é má notícia? — Anne exclamou me batendo no braço, reclamei já sabendo o que viria a seguir. — Você vai se casar com um gostoso daqueles e está reclamando?
Annelise e sua cegueira de caráter.
Minha amiga sempre foi caidinha por , foi realmente amor à primeira vista, aliás, a única vista, Anne havia conhecido no chá de bebê que organizei para Grace. Minhas amigas nunca foram próximas, se odiavam por conta de um ciúmes bobo, naquela tarde eu as juntei e aquele dia rendeu tantas fotos e risadas que eu realmente estava pensando em marcar de sairmos todas nós algum dia. Mas agora, sem Grace, aquilo não faria mais sentido.
Resumindo, apenas passou pela sala de estar e subiu para seu quarto. Vale a pena ressaltar as roupas que o ser usava, ou melhor, não usava. Ele havia acabado de dar uma de suas corridas pelo parque, que nada mais era que uma desculpa para atrair as quarentonas fitness que ele gostava de transar. Suas tatuagens a mostra por conta dele só trajar uma bermuda branca e um boné para trás, fizeram Annelise praticamente ter um orgasmo no meio do sofá.
Ele, claro, fingiu não nos notar, grosso como sempre. Eu já havia explicado a Anne sobre a pobrefobia de , falei também da mania que ele tinha de achar que todas as minhas amigas eram da "minha laia", seja lá o que ele queria insinuar com aquilo, eu sabia bem que não era um elogio. Mas ela sempre ignorou meus avisos.
— Não exagera, Anne, eu já vi melhores. — Desenhei de me levantando. Achei que o princípio das amizades era odiar a mesma pessoa. Me enganei. — Vamos voltar ao trabalho antes que o Sr. Williams chegue e nos pegue aqui, sentadas.
— Ah, mas eu queria mais detalhes! — Anne reclamou se levantando de má vontade. Mesmo tendo a mesma idade que eu, ela ainda podia ser um tanto infantil de vez em quando. Era uma adolescente no corpo de uma mulher, tão sonhadora quanto.
— Já beijou ele? — Tiffany indagou curiosa, tinha um sorriso malicioso nos lábios. Revirei os olhos e vi, pelo canto do olho, Anne suspirar e voltar ao trabalho.
Apesar de eu subestimar aquele crush todo que ela tinha por , eu ainda não sabia bem como ela lidaria com a nossa nova situação. E aquilo estava começando a me preocupar.
Assim que o chefe cruzou a porta de entrada o assunto foi esquecido, cada uma retornou para sua tarefa e assim a parte da manhã passou praticamente voando. Não tive muitos clientes, o que ultimamente andava acontecendo com muita frequência, mas claro que meu trabalho não se resumia a apenas atender, eu também organizava aquela lanchonete.
Enquanto fazia a reposição dos guardanapos na mesa dos fundos da lanchonete, ouvi a voz estridente de Tiffany me chamar repetidas vezes, virei-me a esperando chegar até mim. Um sorriso brincalhão ocupava seus lábios pintados de batom, estreitei meus olhos cruzando os braços.
, seu futuro marido está aí.
— Eu não tenho um marido! — A corrigi largando minhas coisas sobre a mesa.
— Me deixe te arrumar ou ele te abandona no altar! — Riu travessa passando as mãos por meus cabelos a fim de colocar os fios no lugar. Revirei os olhos.
— Para, se Anne escutar isso me mata. — Me desvencilhei da morena e fui até a entrada do estabelecimento, encontrei sentado numa das banquetas que tinha em frente ao balcão. — O que quer aqui?
— Boa tarde para você também, . — Sorriu falso fazendo-me bufar. — Seguinte, contratei um fotógrafo pro álbum do casamento e você precisa comprar um vestido e marcar hora no salão para tentar ficar menos baranga.
Ia socar seu braço com tanta força que o faria gritar, mas ao olhar de relance vi o Sr. Williams vindo em nossa direção.
— Então você é o sortudo! — Exclamou o grisalho sorridente, fez uma expressão cômica, pensei até que ele discordaria, mas apenas assentiu pegando-me pela cintura e me puxando mais para perto.
Meu estômago deu voltas com aquele contato. Eu nunca iria me acostumar com aquilo.
— Vim buscar minha noiva para almoçar comigo. — Fiz careta. Ainda era uma da tarde, meu chefe não iria me deixar sair enquanto Anne estivesse almoçando. Fanny ficaria sozinha! — Nós quase não nos vemos mais, e temos um casamento para organizar, não é amor?
— Er... Amor, acho que não posso ir agora, Annelise ainda não voltou e...
— Eu volto mais cedo, amiga! — O ser de cabelos claros praticamente brotou do chão. Seus olhos azuis brilharam ao contemplar , que nem para a cara dela olhou. — A propósito, sou Annelise, mas pode me chamar de Anne. — Estendeu uma das mãos para , que a encarou estranho, sem se mover de onde estava. Observei as bochechas de minha amiga ganharem um rubor e dei uma cotovelada em .
— Vou voltar para o balcão. — comentou o velho Williams — Está liberada, .
— Prazer em te conhecer, Anne. Sou . — As covinhas em suas bochechas fizeram uma rápida aparição, mas ele logo virou as costas para Annelise. — Vamos logo. — Sussurrou, embora seu tom não tivesse denunciado
Sua mão pegou a minha e foi praticamente arrastando-me lanchonete a fora. Por Deus, parecíamos até aqueles casais neardentais, a diferença era que não me arrastava pelos cabelos.
Com aquela pressa toda nem ao menos tive tempo de trocar de blusa, lá íamos nós pela rua aparentando ser tudo, menos um casal de noivos. A diferença era gritante, , de camisa e calça social como sempre e eu, com a camiseta vermelha do Sud’s. O "posso te ajudar?" amarelo estampado nas costas era tão gritante quanto a luz do dia e o logotipo da lanchonete era da mesma cor e estava ao lado esquerdo do meu peito.
Lá no coração mesmo, fofo, não?
Desembarcamos algum tempo depois, na rua famosa por conter as melhores lojas de noivas e afins de Londres.
— Não acho que deveríamos ter vindo para cá. Nenhuma delas me parece alugar vestidos e é um desperdício gastar tanto num vestido de noiva que será usado num casamento de mentira.
— E qual casamento não é uma mentira? — replicou com tédio na voz. Dei a volta no carro encontrando-me com ele. — Pode ficar com o que escolher, vai precisar se conseguir casar de novo.
Observem que ele disse SE conseguir.
Respirei fundo encarando-o impaciente, porém ao bater os olhos na fachada da grandiosa loja atrás dele, não tive tempo de responder sua ofensa à altura.
Algo que me distraísse de uma discussão com . Aquilo sim era um milagre. Havia acontecido pouquíssimas vezes.
— Entre. Escolha o que quiser. — Virei meu pescoço rapidamente ao ouvir aquela frase. tinha virado uma espécie de príncipe encantado após pronunciá-la para mim. — Tenho que resolver algumas coisas.
Me deu as costas e simplesmente sumiu pela extensa rua. Ainda boquiaberta, adentrei a loja luxuosa atraindo o olhar de uma das vendedoras. Aquele lugar era tão chique que acho que até as funcionárias eram ricas.
E pelo jeito que uma delas me mediu com os olhos, talvez eu estivesse certa.
Não me importei com a mulher de baixa estatura me encarando, estava distraída demais com os vestidos maravilhosos expostos nas grandes vitrines de vidro, espalhadas pelas paredes incrivelmente brancas. Até mesmo o piso da loja parecia refletir riqueza e sofisticação.
De repente uma mulher digna de um catálogo da victoria's Secrets surge de um dos corredores vestida e sendo a noiva mais linda que eu já havia visto em toda minha vida. E olha que seus cabelos cacheados não estavam nem ajeitados num penteado e sua pele negra não continha um pingo sequer de maquiagem. As mulheres presentes ali a fitavam embasbacadas.
Já havia ouvido falar em vendedoras falsas, mas claramente não era o caso ali. A beleza daquela mulher era inquestionável.
Logo, do mesmo corredor, saíram mais duas mulheres. Familiares da noiva em questão, igualmente classudas. Nas mãos, cada uma segurava uma taça do que parecia ser Champanhe, as jóias em seus dedos eram capazes de me manter na minha casa de aluguel por anos. Quase regressei meus passos e fui embora. Era demais para mim.
E olhe que eu havia crescido no meio dos .
Minha mãe sempre trabalhou muito durante as festas que a família dava, Grace sempre me arrastou para todas elas. Conheci muita gente influente durante minha infância, porém sempre dava um jeito de tentar me envergonhar e me apresentava como a filha da empregada.
— Boa tarde. — minha voz saiu esganiçada e me xinguei mentalmente por aquilo. Todas elas se viraram para ver quem era a dona daquela voz esquisita. Limpei a garganta antes de prosseguir. — E-Eu gostaria de provar alguns vestidos.
A noiva me sorriu antes de voltar corredor a dentro sendo ovacionada pelas funcionárias da loja. Além de tudo era simpática. Deus realmente tinha seus preferidos.
— Claro. — a mulher que antes me encarava, trocou um olhar rápido com a companheira de trabalho.
Eu entendia aquela comunicação silenciosa. Eu e as meninas fazíamos sempre que atendíamos algum tarado na lanchonete. Ah, é claro, avisávamos umas às outras caso algum ex namorado grudento aparecesse. Eu só não entendia o que elas poderiam ter visto em mim para trocarem olhares daquela forma.
— Qual modelo te interessa ver? — Pude sentir minhas costas queimarem sob seu olhar em meu uniforme.
Daquela vez eu deixaria passar. Era realmente ridículo, eu tinha que concordar.
Após escolher alguns modelos da vitrine, fui conduzida até os provadores. Cada um parecia caber minha casa dentro de tão espaçosos que eram. Todas aquelas luzes. Fiquei morta de vergonha ao ter que me despir ali, com todas as minhas imperfeições tão a mostra.
Vesti o primeiro e não consegui gostar do que vi. Era nítido que ele era lindo, Lógico! Vera Wang nunca fez um vestido feio na vida. Mas simplesmente não conseguiria me casar com os ombros a mostra daquela maneira.
Assim que a mulher me ajudou a subir o zíper da minha segunda escolha, levantei minha cabeça e contemplei-me diante do espelho, fiquei praticamente sem ar.
— Acho que é este. — Ela esboçou o típico sorriso falso.
A ignorei ainda encarando-me vestindo aquele paraíso em forma de vestido. Eu não queria mais tirá-lo do corpo. Queria dormir, ir a padaria com ele, ir trabalhar com ele, até mesmo sentar-me na sala e ver Friends com ele, exatamente como Mônica e as garotas fizeram naquele episódio. Aquele vestido era simplesmente perfeito!
— Quer que eu tire a foto?
Franzi minha testa confusa. Foto?
Ouvi a voz de ao fundo, aproximando-se das grossas cortinas vermelhas. Ou será que estava ouvindo vozes? E pior, a de !
— Oi?
— A foto para você mandar fazer um igual. — Disse como se fosse óbvio. — Algumas mulheres vem aqui para tirar fotos dos nossos vestidos, depois compram o tecido e arranjam uma costureira. — Riu fraco, quase com uma expressão de nojo no rosto. — Só não compre uma renda muito vagabunda. Não irá ficar parecido se economizar na renda.
Um nó enorme começou a se formar em minha garganta. Respirei fundo ainda sentindo aquela renda macia envolvendo meus ombros tensos. Realmente, era muito mais confortável chorar em roupas de grife.
— Moça, e-eu… — Meus olhos transbordaram de vez.
— Viu? Sua noiva não está por aqui. — A outra funcionária abriu a cortina revelando parado do lado de fora. Eu não devia estar com uma cara nada boa. Porque, por um segundo, pude enxergar uma grande interrogação em seu rosto.
A lágrima que eu tanto segurava escapou de repente. Levei a mão quase que imediatamente até os olhos e a sequei, voltando a me virar. Não queria chorar ali, na frente deles.
A cortina já tinha sido fechada novamente. Eu ainda estava sem fala. Percebi seu olhar pairar sobre a pilha de roupas que deixei ao lado quando as tirei. Minha camiseta da lanchonete, vermelha e amarela, cores tão gritantes que às vezes doía os olhos de olhar.
— Sei que não pode pagar um vestido desses, o que te resta é mandar fazer uma réplica.
Mas naquele momento doía ouvir aquela mulher falar como se eu fosse um nada. Tateei minhas costas tentando puxar o zíper do vestido. Era lindo! Mas eu não queria mais usá-lo, tamanha era a humilhação que estava passando.
— Você quer ficar com esse mesmo? — a cortina foi aberta bruscamente. daquela vez adentrou o provador. Encarando-me sério pelo espelho.
— V-Você é o noivo dela? — A mulher indagou boquiaberta. Após engolir a seco, tornou a mostrar os dentes no sorriso costumeiro. — Mas o senhor não pode vê-la vestida antes do grande dia! Dá azar!
Quase ri diante da cara dela. Havíamos acabado de perder Grace, tínhamos que correr contra o tempo para poder ter a guarda de , teríamos que abdicar nossas vidas nos casando e correndo o risco de ser presos por forjar um casamento e ela me vinha falar de azar causado por um vestido? O que poderia acontecer de ruim? Eu ser humilhada pela minha situação financeira?
Bingo!
— Nós não acreditamos em superstições. — Ele continuava impassível, ainda esperando uma resposta — , se quiser podemos ir a outras lojas. Eu já vi vestidos melhores lá fora.
Passei as mãos devagar sobre o tecido, sentido-o. Era o vestido dos meus sonhos. Falei com Grace tantas vezes sobre Vera Wang que com toda a certeza eu seria uma das mulheres que a vendedora citou e iria na loja apenas para tirar fotos. Nunca me imaginei casando com um daqueles. As mangas compridas rendadas. Do jeito que minha mãe e eu sempre sonhamos.
Lembrar de Grace me faz ver o quão ridículo aquilo estava sendo. Primeiro que minha amiga xingaria até a última geração da família daquela vendedora, só para depois sacar seu cartão de crédito e levar o vestido para provar que "eu" poderia pagar sim um daqueles. E também eu não entendia o motivo de estar lembrando de minha mãe tão emotiva. Aquele casamento era uma grande mentira.
— Acho que ela não vai querer outro, ela já disse sim para esse vestido. — Quase revirei os olhos diante do tom meloso presente em sua voz. — Fora que ele vestiu tão bem! Parece até que foi feito para ela!
A mulher estava falando de mim como se eu não estivesse ali!
Decidi então fazer o que Grace faria. Tirando a parte em que eu xingaria ela.
— É porque ele é meu. — Virei-me para . — Vamos levar esse.
No caminho de volta ao carro fomos andando silenciosamente. Não sabia se o agradecia pelo que fez por mim lá, dentro da loja, nem ao menos sabia se tinha feito o que fez de propósito. Mas o que importava realmente era que eu enfim consegui ver um lado bom nele.
Sempre achei que esse dia nunca chegaria. Nem ao menos estava preparada para aquele acontecimento. Talvez, um dia, pudesse mudar.
Por hora, apenas uma menção de ser defendida da vendedora esnobe já era um começo.
Meu horário de almoço já estava quase se excedendo, minha barriga já roncava lembrando-me de que eu só havia comido duas míseras torradas quando sai de casa atrasada.
Fucei em minha bolsa encontrando meu pacote de salgadinhos, era um salva vidas que eu levava comigo e sempre abastecia minha bolsa caso precisasse.
— Não vai comer essa porcaria no meu carro. — esticou o braço livre para apanhar o saquinho em minhas mãos. O afastei encarando-o boquiaberta.
— Você acabou com meu horário de almoço e quer que eu fique com fome? Eu vou comer sim!
Ele ponderou, visto que eu estava, como sempre, coberta de razão, não me impediu de levar mais um pouco do salgadinho a boca. Não era nada fácil ter se rendendo às minhas provocações mas eu sabia bem o motivo daquilo estar acontecendo.
estava exausto. Não sabia dizer se fisicamente, mas emocionalmente eu tinha certeza que estava. Havia acabado de enterrar a irmã. Não conseguia nem imaginar como aquele apartamento enorme dele tinha ficado vazio sem Grace por lá.
— Isso fede. — Ligou o ar condicionado fazendo-me dar de ombros.
Sabor camarão. Eu sabia que não era nada saudável comer aquelas porcarias industrializadas, para falar a verdade nunca fui de comer coisas saudáveis, Grace quem puxava minha orelha sobre minha alimentação.
Assim que o veículo dobrou a esquina, me livrei do cinto de segurança com os dedos sujos de farelo, ouvir suspirar nervoso foi música para os meus ouvidos. Aquilo nunca daria certo.
e eu éramos as pessoas mais incompatíveis da face da terra. Éramos como água e óleo e nunca iríamos nos misturar. Mesmo que tivéssemos crescido juntos, ele ainda assim, fazia de tudo para não me incluir em sua vida. Quando fazia festas de aniversário, eu nunca tinha sido convidada, ao contrário de sua irmã, que sempre me queria com ela até mesmo na hora das fotos.
Grace era o ser humano mais humilde e doce que eu já havia conhecido. Mesmo quando ela tinha a oportunidade de fazer um desejo sozinha e soprar a pequena chama da vela de aniversário, me chamava todos os anos para compartilhar aquilo com ela. Sempre me perguntei como a mesma mãe poderia ter gerado dois filhos tão diferentes e fisicamente tão iguais. Era apenas na aparência que dava para ter a certeza de que eram irmãos, Grace assim como tinha os cabelos castanhos, olhos verdes e também tinha os adoráveis furos nas bochechas quando sorria. Eu amava seu sorriso. Sentia vontade de chorar todas as vezes que me lembrava de que nunca mais a veria sorrir.
— Ué, onde estamos indo? — Estiquei-me a fim de alcançar a lanchonete com os olhos, meu local de trabalho ficava cada vez mais distante conforme o veículo se afastava.
— Vou te levar em casa, deixamos o vestido lá e te levo de volta. — Franzi a testa. Aquilo por acaso era uma gentileza? Vindo de , duas vezes no mesmo dia ainda por cima, parecia que eu tinha ouvido errado de tão estranho que soava. — Não queremos seu vestido fedendo a fritura, não é mesmo, noivinha?
O encarei boquiaberta, completamente ultrajada. Quem aquele imbecil achava que era?
— Bom, esse é o meu trabalho, não tenho culpa de não ter nascido filha de um empresário. — Ri sarcástica, ainda sentindo meus olhos marejarem aos poucos, respirei fundo, eu só poderia estar de TPM mesmo para toda aquela fragilidade. Eu já devia ter me acostumado com me ofendendo.
— Você acha mesmo que é fácil ter um pai como o meu? — Revirei os olhos, claro, devia ser muito difícil ter tudo o que quer nas mãos. — Acha que eu sou apenas o filho do chefe, não é? Que nunca mereci ou trabalhei para estar onde estou. — Apertou o volante entre os dedos, visivelmente nervoso.
Um privilegiado reclamando de seus privilégios. Patético.
— E você, acha que eu sou uma simples garçonete que fede a fritura! — exclamei, com a voz esganiçada.
— Mas é exatamente o que você é! — Parou o carro em frente a minha casa. Respirei fundo ainda tentando conter meu choro de raiva. Eu realmente estava sendo humilhada pela segunda vez naquele maldito dia?
— Escuta aqui, se for para você me rebaixar dessa maneira cada vez que estivermos tendo uma simples conversa, acho melhor procurar outra para te ajudar com , porque eu não serei seu saco de pancadas. — Desembarquei do carro, batendo a porta com todas as minhas forças. Eu não era lá a pessoa mais forte do mundo, mas com a raiva que eu estava, fez barulho o suficiente para que as pessoas que passavam por perto nos olhassem curiosas.
— Mas que porra! Não tem geladeira em casa? — Esbravejou assim que abri a porta traseira, pegando o vestido que ia deitado no banco.
— E não precisa me levar para lugar nenhum, vá embora, eu não preciso de você. — Daquela vez me contive e fechei a porta normalmente. Já havia extravasado da primeira vez e não iria abusar da "paciência" de . Ele mataria por aquele carro.
— Ótimo.
— Ótimo! — Lhe dei as costas, subindo a escadaria que dava para o meu andar. Algumas vizinhas fecharam suas janelas, disfarçando que estavam nos olhando. Com as mãos trêmulas, destranquei minha porta e adentrei a casa vazia.
Quando retornei para a rua o carro já não estava mais ali. Suspirei compreensiva. Eu faria o mesmo, iria embora sem dar a mínima para ou seu almoço, não que ele tivesse hora para retornar para a empresa do pai. Por falar em horário, estava vinte minutos atrasada, provavelmente teria que passar pela terceira humilhação ouvido o Sr. Williams me dando uma bronca daquelas.

Capítulo 4

Destranquei minha porta quase caindo de sono. Meu querido chefe não havia perdoado de coração meu atraso de mais cedo como o próprio tinha me dito. Eu fiquei uma hora a mais, tive que fechar a lanchonete com ele por conta de trinta minutos de atraso para a volta do almoço. As outras já tiveram atrasos piores e sempre foram perdoadas, tive vontade de jogar aquilo em sua cara, porém não poderia prejudicar minhas amigas pela falta de profissionalismo do Sr. Williams.
Desbloqueei o celular enquanto deixava a minha bolsa sobre o sofá, havia chegado uma mensagem de Amélia, ansiosa, cliquei rapidamente na barra de notificações para saber o que era, tinha a ver com , e ultimamente nada acelerava tanto o meu coração do que saber algo sobre ela.
Ouvi um barulho vindo do quarto e me alarmei no mesmo instante, do jeito que aquele bairro era perigoso poderia ser literalmente qualquer coisa. Corri até a cozinha e escolhi uma das minhas facas grandes para ir verificar o que era. Estranhei a ausência de Salem, ele não era lá o gato mais carinhoso do mundo, mas sempre foi muito interesseiro, provavelmente já estaria aos meus pés pedindo comida.
— Tem alguém aí? — Arrependi-me após fazer a pergunta mais clichê dos cinemas. Eu deveria já ter saído correndo para o lado de fora! — Salem? — Arrisquei mais uma vez, sem resposta. Fiz o que era mais lógico e dei as costas indo em direção a saída quando senti um par de mãos grandes agarrar-me por trás.
Soltei um grito alto e infelizmente não tive coragem de acertar quem quer que fosse com aquela faca. Apenas me debati tentando sair de seu controle. Quando finalmente me soltei, recebi uma cotovelada na cabeça. Após bater a testa na quina da mesa, cambaleei tonta pelo impacto e consegui, de olhos cerrados, vislumbrar seu rosto, meu coração quase saiu pela boca quando o reconheci.
— O que quer aqui! — O desgraçado apenas correu em direção a porta. Nem fiz menção em me levantar, nem se quisesse conseguiria.
Arrastei-me ainda desorientada e consegui alcançar meu celular. Liguei para o primeiro número que me apareceu, não pude falar muita coisa, logo perdi a consciência.
, — Senti mãos pegarem meu rosto com delicadeza, minha cabeça doía como nunca havia doído antes.
Pisquei algumas vezes acostumando-me com a claridade. Visualizei a feição preocupada de Amélia e franzi a testa. Eu nem ao menos sabia pra quem tinha ligado direito. Tentei levantar devagar, vendo tudo girar a minha volta.
— Ela acordou? — A voz de soou ao fundo, fazendo minha cabeça latejar de imediato.
— Você está bem? — Gemi ao tocar minha própria testa, senti um galo começando a crescer. — Quer ir ao médico? — Neguei com a cabeça. — Você me ligou pedindo ajuda, o que houve?
— Ele...ele esteve aqui. — Sentei-me devagar, sentindo o sofá abaixo de mim, ainda estava muito confusa, não sabia ao menos como havia parado ali.
Salem apareceu na soleira da porta do quarto. Aquele pestinha, só apareceu quando a barra estava limpa, que belo companheiro eu tinha comigo.
— Filho da puta. — Praguejou . — Ele te disse algo? Como ele entrou aqui? — Ele se aproximou, abaixando-se próximo ao sofá.
— Não, quando o reconheci ele fugiu. — Aceitei o copo de água das mãos da mulher, junto do comprimido analgésico. — Não sei como entrou, quando eu cheguei do trabalho, ouvi um barulho vindo do quarto e ele saiu de lá.
Amélia se levantou indo em direção ao quarto enquanto eu fiquei calada ao lado de . Era uma das poucas vezes que nós dois ficamos sem silêncio, sem ao menos ter vontade de brigar.
— Sua janela está quebrada.
— Eu não acredito! — Levei as mãos a cabeça, já choramingando. Como eu iria pagar o vidro da janela? O dono da casa me mataria quando soubesse.
— Tudo bem, amanhã mandamos colocar outro vidro. — me tranquilizou, deixando-me sem graça ao vê-lo pensar em gastar dinheiro comigo outra vez. O vestido já havia custado os olhos da cara, agora a janela também?
O telefone de Amélia começou a tocar e a observamos se afastar. Pelo pouco que ouvimos da conversa, era perceptível que ela falava com o marido, provavelmente estava preocupado com o paradeiro da mulher, já que era tão tarde.
— Tenho que ir, meu marido está preocupado. — Pegou sua bolsa, passando as mãos nos cabelos lisos, visivelmente cansada. — Você vai ficar bem? Tem certeza que não quer ir ao médico?
— Vou sim, não se preocupe mais comigo, já tomei demais o seu tempo. — Ri envergonhada. Amélia lançou um rápido olhar repreensivo para , que apenas suspirou concordando com a cabeça.
— Ela irá ao médico e até a delegacia, vamos prestar queixa contra esse filho da puta. — Se levantou, acompanhando-a até a porta. — Pode ficar tranquila, Irá para a minha casa esta noite.
— Não vou não. — Discordei levantando-me rapidamente. Eu odiava dormir fora de casa, e não gostava nem um pouco do apartamento de , era frio demais e muito grande, confesso que tinha medo até de ficar por lá de noite.
— Não seja teimosa, não pode dormir aqui sozinha com essa janela quebrada.
— É e, além do mais, é perigoso, e se ele voltar? — Concordou com ele. — Vá com , por favor, vou ficar mais tranquila sabendo que não estará sozinha.
Infelizmente eu não teria escolha, teria que ir dormir naquela casa congelante e ainda por cima cheia de lembranças de Grace.
— Amanhã ligo para saber notícias e para marcar a ida ao fórum. Quanto antes levarmos os documentos necessários, logo estará com vocês. — Sorri ao pensar na possibilidade de tê-la de novo em meus braços.
— Ótimo, vou tentar negociar uma data para este fim de semana. — mexeu nos cabelos desconfortável, me senti do mesmo jeito. Era completamente estranho imaginar que nos casaríamos em menos de uma semana.
Estranho não, era surreal!
Eu jamais tinha pensado que me casaria tão cedo, ainda mais numa situação como aquela. Nunca tinha me idealizado casada, talvez por não ter experimentado a sensação de ter um relacionamento sério com alguém ou por conta dos traumas que adquiri convivendo tantos anos com meus pais. Violência doméstica era algo que eu tinha verdadeiro pavor, não gostava nem ao menos de pensar naquilo, que logo já vinham as imagens das confusões intermináveis entre meu pai e minha mãe. Sabia que não poderia deixar uma experiência passada influenciar minha vida daquela maneira, mas eu não conseguia evitar.
O medo de dividir a cama com um monstro como meu pai me tomava sem que eu ao menos percebesse.
Ao menos aquilo me parecia ser benéfico naquele casamento de aparências com , me consolava saber que não iríamos viver como um casal de verdade, eu ainda não me sentia pronta para encarar tudo aquilo de novo. Sei que não poderia falar como se tivesse sido agredida junto de minha mãe, mas não diria que era alheia a aquela situação. Vê-la marcada pelas mãos de meu pai doía tanto quanto levar um de seus tapas.
Tranquei minha casa ajeitando minha mochila no ombro, suspirei acompanhando até seu carro. Estava indo contra minha vontade, devo acrescentar. Teria que ir trabalhar de lá no outro dia, provavelmente pediria um táxi, Amy ficaria estacionada em casa daquela vez.
Fazíamos o caminho em silêncio, eu estava morta de cansada, só queria me deitar e dormir após aquele dia tão longo e cansativo. Estranhei a rota que o carro fazia, aquele não era o caminho da casa de . Aquela mania dele de decidir as coisas de última hora já estava começando a me irritar. E eu que pensava que não poderia arranjar um jeito novo de me irritar depois de todos aqueles anos de ódio mútuo.
— Por favor, me diga que está pegando um atalho pra casa… — Cobri meu rosto com as mãos tentando não surtar.
— Não vamos para casa. — O encarei com as sobrancelhas arqueadas diante da calmaria dele ao volante. — Vamos até a delegacia prestar a queixa.
— Pelo amor de Deus, , são onze da noite. — Rangi os dentes já não fazendo questão de segurar minha ira. — Não precisa prestar queixa, ele não roubou nada de mim! — Não que tivesse algo para roubar, aliás.
— Pare de reclamar, olhe o que ele te fez, você precisa fazer o corpo de delito hoje ainda. — Avistei a delegacia a frente e me afundei no banco querendo sinceramente desaparecer da face da Terra. — E depois vamos ao hospital. — Disse antes de desembarcar do carro e fechar a porta na minha cara, não me dando nem direito a responder sua grosseria.
Comprimi um grito de raiva enquanto o ouvia dar batidas insistentes no vidro da janela do carro. Minha vontade naquele momento era de gastar o meu réu primário e cometer um crime ali mesmo, no estacionamento da delegacia.
Saí do carro de cara fechada, tentando ao máximo ignorar minha cabeça que latejava em dor. Não sabia se era pelo cansaço ou pela pancada, massageava minhas têmporas a medida em que nos aproximávamos da porta, onde tinha uma policial parada nos olhando como se fôssemos suspeitos de algo.
Nunca tinha gostado de delegacias, já havia ido algumas vezes quando nem idade para ir num lugar daqueles com tanta frequência eu tinha. Mamãe já prestou queixa contra meu pai algumas vezes, porém, um buquê de flores, um pedido de desculpas e uma promessa de que não aconteceria novamente sempre a fazia voltar atrás.
Abracei meu próprio corpo quando o homem veio ao nosso encontro. Não estava nem um pouco frio, trajava apenas a camisa que vestia por baixo do paletó que havia ficado em seu carro, com as mangas dobradas e sem a gravata. Fazia calor, aquele arrepio não era por conta do tempo.
— Em que posso ajudar? — Respirei fundo antes de começar a falar.
— Vim reportar uma invasão domiciliar. — O olhar do homem pairou pelo meu machucado na testa, logo depois desceu até a camiseta que eu usava para, em seguida, ir de encontro com a figura masculina que me acompanhava. Percebi sua testa se franzir levemente em confusão.
De novo não...
— Foi sua casa que foi invadida? — Virou-se para , fazendo-me soltar um riso completamente desacreditado.
— Não, ela que veio prestar a queixa, eu apenas vim acompanhá-la. — Os olhos castanhos do homem voltaram-se para mim novamente. Eu, que já não queria estar ali, me perguntei que mal teria se virasse as costas para aquele policial babaca e simplesmente fosse embora. — Conte a história a ele, .
Já duvidando muito que me dariam importância por ser um simples caso de invasão domiciliar, forcei-me a falar logo o que sabia. Quanto antes começássemos, mais cedo iríamos embora. Minha única garantia de que eu seria ao menos ouvida era o fato de eu estar acompanhada de um homem.
— Eu tinha acabado de voltar para casa, do trabalho, destranquei a porta, entrei, não notei nada de diferente. De repente, ouvi um barulho vindo do meu quarto. Peguei uma faca na cozinha, mas não tive tempo de reagir, quando vi ele já estava me atacando, quando consegui ver o seu rosto fui empurrada. Bati a cabeça e ele saiu correndo.
Não estranhei nem um pouco o fato do policial simplesmente não ter movido um só dedo do lugar desde que comecei a contar o que aconteceu comigo. Ele apenas ficou ali, me olhando como se estivéssemos conversando sobre coisas banais.
— Não vai anotar nada? — indagou, inocentemente.
— Ah, claro. — Abaixou-se no balcão, apanhando um bloco de notas e caneta. — Vou te fazer algumas perguntas, para colocar no boletim de ocorrência. — Assenti calada. — O sujeito, por acaso, era seu namorado, ficante ou algo do tipo?
— Não. — Meu rosto se torceu em indignação. — Desde quando namorados invadem a casa um do outro?
— Moça, tudo bem, eu já ouvi essa historinha sua várias vezes, casais brigam, é normal. — Eu ainda me encontrava boquiaberta com aquela ladainha toda. O que estava acontecendo com os funcionários daquela cidade afinal? — Tem certeza que vai querer prestar queixa?
— Eu sou o noivo dela, e aquele filho da puta não é nada dela. — interveio, pela segunda vez naquele dia.
— Peço desculpas então Sr…
.
— Sr. , é que, pelo que a senhorita contou, não houve sinais de arrombamento, eu achei que…
— Ele entrou pela janela, quebrou minha janela e escalou até o meu quarto. — Murmurei impaciente.
— Tudo bem… — Anotou algo em seu bloco e depois voltou sua atenção até meu rosto. — A senhorita conhecia esse homem?
— Sim, o nome dele é Miguel Rodriguez. Ele já andou enchendo o saco de uma amiga minha. — Encarei pelo canto do olho, sua expressão se contorceu em pura raiva.
— Minha irmã tinha uma medida protetiva contra ele. — Se pronunciou, apoiando os cotovelos no balcão. — Agora que Grace faleceu, ele está atrás de nós, quer a guarda de . Quero ele longe de nós, se ele tentar algo, eu juro que mato aquele desgraçado.
Arregalei os olhos. Não era o tipo de coisa que se falava para um policial, não?
— Uma coisa de cada vez, primeiro vamos registrar o boletim de ocorrência, certo? — O homem à nossa frente pela primeira vez naquela noite concordou comigo.
— Vamos fazer um corpo de delito. Me acompanhem, por favor.
Seguimos entre os corredores da delegacia até que chegamos em uma das portas brancas que ali havia, o policial deu leves batidas antes de abrir e comunicar o que estávamos fazendo ali. Fui recebida por uma mulher muito simpática, que me pegou pela mão e me posicionou no banquinho que tinha por ali, centralizado de frente a um fundo branco. Algumas fotos foram tiradas do meu rosto, onde o machucado estava, enquanto isso, aguardava na porta de braços cruzados.
— Você é o noivo, sim? — O homem retornou, chamando minha atenção para ambos. — Pode vir comigo? Tem algumas informações sobre ela que devem ser preenchidas. — assentiu saindo junto dele, deixando-me levemente preocupada.
não devia saber nem o meu ano de nascimento, e olha que eu e Grace tínhamos a mesma idade. Ele me detestava tanto que nem ao menos deveria saber algo sobre mim além do meu nome e sobrenome dado pela minha mãe.
A mulher de cabelos curtos se reposicionou e tirou mais algumas fotos, bocejei devido ao meu cansaço, algo que não passou despercebido pelos olhos escuros dela.
— Só irei tirar mais algumas e já acabamos, ok? — Assenti sorrindo fraco. Eu só queria uma cama para dormir, a aquela altura nem me importava mais com o fato de que não dormiria na minha própria casa. Lembrei-me de que e Amélia falaram sobre eu ter que ir ao hospital e bocejei mais uma vez só de pensar em quanto seria demorado todo aquele processo.
— Será que eu preciso ir ao médico? — A moça me encarou confusa e eu percebi que o sono tinha me deixado com altas dificuldades de me comunicar normalmente. — Desculpa, fui muito vaga na minha pergunta, — ri sem graça. — , ele quer me levar ao médico, fazer uma tomografia para checar se está tudo em ordem por aqui. — Apontei para minha cabeça, vendo-a assentir enquanto olhava as fotos já tiradas pelo visor da câmera.
— Sei que deve estar tendo um dia longo, mas acho que ele tem razão. Foi uma pancada bem feia, olhe. — Assim que visualizei o mesmo visor que ela olhava anteriormente me assustei. Minha pele estava muito vermelha naquela região, ou seja, um nível maior do que o roxo que pensei que estava. Câmeras profissionais realmente captavam cada mísero detalhe. — E então, está nervosa? — Franzi a testa sem entender. — Você sabe, para o casamento.
Me dei conta de que estávamos começando a entrar em cena com nosso teatrinho de casal, comecei a me perguntar como deveria reagir a aquela pergunta, melhor, como deveria me portar estando, tecnicamente, noiva. Eu tinha que sorrir como se fosse a coisa mais empolgante da minha vida? Comentar que estava prestes a me casar para toda e qualquer criatura que cruzasse meu caminho? Até mesmo durante um exame de corpo de delito após uma agressão?
Comecei a realmente me preocupar em não conseguir convencer as pessoas que eu e éramos um casal.
— Ah, sim, — sorri amarelo. — O grande dia será neste fim de semana. — Arquei minhas sobrancelhas ainda sem graça.
— O que foi? Está preocupada com seu rosto? — Se estivesse ali, com toda certeza usaria aquela fala contra mim algum dia. — Não se preocupe, até lá já suavizou, e além do mais, maquiagem cobre. — Desdenhou rindo. — Bom, vou te liberar agora.
Desci do banco e me dirigi até a porta quando a ouvi me chamar pela última vez.
— Boa sorte com o casório, felicidades, vocês formam um casal lindo.
Pisquei algumas vezes estática onde estava. Aquele dia não poderia estar mais estranho.
— Obrigada.
Quando eu me deparava com um casal que eu achava bonito, meu olhar sempre foi além da beleza de ambos, era sempre focado na cumplicidade dos dois. E eu sinceramente não entendi de onde aquela mulher tinha tirado daquela história de nós achar um lindo casal. e eu nos odiávamos, não havia um pingo sequer de cumplicidade, há minutos atrás estávamos discutindo no carro, há horas atrás eu tinha praticamente arrebentado a porta do carro dele após outra de nossas brigas.
Seria quase que impossível fingir ter alguma cumplicidade do jeito que nós dois éramos. Acho que toda aquela história de casamento seria muito mais difícil do que pensei, não era só pelo fato de ter uma criança para criar, ainda tínhamos que enganar as pessoas a nossa volta.
Assim que retornei a recepção estranhei a ausência de , que logo surgiu pela porta da delegacia, ele falava ao telefone, ficou um tempo afastado. Recebi um documento para assinar, antes de tudo li algumas vezes o protocolo, que tinha minhas informações básicas. Como endereço, nome, data de nascimento. Preenchi algumas coisas que faltavam, como o número da minha identidade, e esperei até que estivesse com uma cópia em mãos. Entramos no carro e voltamos a rodar pela cidade atrás do hospital que atendia ao meu plano de saúde.
— Ah, já ia me esquecendo. — Esticou-se até o banco de trás e me estendeu um pacote pequeno de salgadinhos, igualzinho ao que comi ali mais cedo. Franzi a testa completamente surpresa, apesar de ter uma leve suspeita de envenenamento, aceitei de bom grado. — Sei que não jantou, deve estar com fome.
— Obrigada. — Assenti sorrindo fraco, estranhado sua gentileza repentina.
Talvez eu realmente precisava fazer alguns exames, não estava reconhecendo aquele ser ao meu lado. Talvez fosse por conta da batida.
. — Ouvi um murmúrio vindo dele, porém o mesmo não se esforçou para me encarar. — Como sabe a data do meu aniversário?
— Grace não nos deixava esquecer. — Ri fraco junto dele. — Todo ano ela infernizava minha mãe para te comprar um presente. — Encarei a janela tentando disfarçar meus olhos marejados. — Nunca vou me esquecer do dia em que ela aprendeu a andar de patins e não descansou até minha mãe te comprar um também.
Ri cobrindo o rosto com as mãos. Lembrar-me das nossas tardes pra cima e para baixo com aqueles pares de patins aquecia meu coração num grau absurdo. Amava até mesmo me recordar dos tombos que levamos naqueles dias. Eu estava descobrindo o quanto amava falar sobre Grace, de alguma forma aquilo me confortava. E aquele parecia ser o único assunto em comum que tínhamos para conversar sem que brigássemos. O amor por Grace, e agora por , era nosso único elo.
— Ela era incrível, a pessoa mais generosa que conheci. — Um sorriso triste ocupou seus lábios. limpou a garganta e se ajeitou no banco. Era difícil falar dela no passado. Grace era tão vívida que pensar que ela não estava mais entre nós ainda era meio surreal.
— Depois que quebrou o braço nunca mais te vi brincando com ela, o que fez com seus patins? — Foi a minha vez de ficar desconfortável.
Os patins nunca foram os culpados pelo meu braço quebrado, mas aquela tinha sido a desculpa que havia sido inventada.
— Não faço ideia de onde foram parar. — Desdenhei quanto dei de ombros.
Eu sabia sim, recordava-me do dia em que minha mãe me tirou eles e os jogou no porão de coisas velhas dos , apenas para sustentar a história de que foi um tombo que me fez cair e quebrar o braço.
Chegamos no hospital e aguardei para ser atendida, já se passava da uma da manhã e o próprio já dava sinais de exaustão. Sentados nos bancos da fila de espera assistimos ao telejornal da madrugada num completo silêncio enquanto observamos as pessoas chegarem e irem embora.
— Nós realmente precisamos dar um tempo de hospitais. — Comentei, já mudando de posição. Minha bunda já doía.
Quando finalmente fui atendida, passei poucos minutos na sala passando pela máquina de ressonância, logo deixamos o prédio, os resultados sairiam num outro dia. Uma enfermeira fez um curativo melhor e me tranquilizou sobre a gravidade da pancada, agradeci aos céus, afinal teria que trabalhar no outro dia e não queria que me vissem machucada.
No elevador do prédio, ainda me segurava na barra lateral, atraindo a atenção dele, que estava com sono demais para sequer falar alguma coisa ou zombar de mim. Eu até que estava gostando do sonolento, ele ficava quieto, e calado era um poeta.

Capítulo 5

— Se quiser tomar um banho fique a vontade. O quarto de Grace está vago... bom, você já sabe onde fica. — Assenti ainda agarrando-me a minha mochila.
Era tão estranho voltar a aquele apartamento sem ter Grace para visitar, parecia minha primeira vez ali, tudo estava diferente, mesmo não estando nada fora do lugar. Entrei no quarto da minha melhor amiga e deixei algumas lágrimas escaparem ao sentir o cheiro doce do perfume enjoativo que ela amava. Sua gargalhada costumava preencher todo aquele cômodo que nunca esteve tão vazio como agora. Não saberia como dormiria ali, tão imersa em tantas lembranças. De repente todo o sono que eu tinha havia sumido.
Tomei um banho quente, porém rápido, mesmo que achasse que não pregaria os olhos naquela noite, eu tinha que tentar. Aquela lanchonete já me consumia aos poucos com eu totalmente acordada e descansada, imagine sem uma boa noite de sono e exausta?
Saí do banheiro já vestindo meu pijama de calças compridas, o único que eu tinha, fiz uma pequena nota mental de comprar mais alguns assim que pudesse, já que não iria mais morar sozinha e não poderia mais usar meus blusões para dormir. Notei no fim do corredor a luz acesa, sabia a quem aquele quarto pertenceria, e Grace decidiram transformar o quarto de hóspedes do apartamento em um quarto para o bebê. Como não sabiam o sexo, o cômodo foi decorado totalmente colorido, com cores pasteis.
— Ela realmente gostava de ursos de pelúcia. — Encostei-me no batente da porta de braços cruzados, ele, que estava sentado na poltrona de amamentação, apenas riu fraco, segurando um dos vários que havia espalhados por ali.
— Grace amou decorar esse espaço, e até que ela levava jeito pra coisa. — Comentou olhando em volta. — Ela iria ser uma ótima mãe.
Tive que concordar com , tudo ali era harmônico e delicado, os móveis em sua maioria brancos, contrastavam muito bem com o papel de parede listrado, cheio de cores mescladas entre si. O berço era simples, com um daqueles troços que giravam e hipnotizavam a criança para fazê-la dormir. Ou não. Eu realmente não sabia a utilidade daquilo, para falar a verdade eu não fazia ideia de como cuidar de crianças, meu plano era esperar uns anos até que eu tivesse meu próprio bebê para enfim poder aprender. Quando Grace disse que estava grávida, vi uma oportunidade de aprender junto dela, porém a correria do meu trabalho não me permitiu ler seus livros sobre maternidade.
— Você leu algum dos livros que ela tinha? — Indaguei já sabendo a resposta. Estava claro que nenhum de nós tinha o mínimo conhecimento para poder ser apto a cuidar de um bebê. apenas negou com a cabeça, ainda absorto em pensamentos. — Estamos ferrados.
Sua expressão mudou na mesma hora. Um sorriso irônico se instalou em seus lábios.
— Eu avisei. — Não era uma resposta muito boa para aquela afirmação.
deveria mentir, dizer que daríamos conta daquilo juntos. Dizer eu avisei numa situação como aquela era tão injusto! Visto que se eu tivesse lhe dado ouvidos naquele dia, a filha de Grace iria para adoção e nunca mais a veríamos. Não havia outra escolha a não ser a que decidimos.
— É meio tarde demais para começar a ler, não é? — Fiz uma careta. Para falar a verdade eu não acreditava muito naquelas ladainhas de livros, para mim, eram como os de auto ajuda, te davam a solução dos seus problemas mas não te explicavam como solucioná-los. Era como dizer para alguém triste ficar feliz, mas como?
Não confiava em práticas descritas em palavras, era como fazer um curso médico em EAD, como nós iríamos saber como trocar a fralda, dar banho e até mesmo segurar uma criança do jeito certo sem assistirmos alguém exemplificando na nossa frente? A própria Grace que, tinha aproveitado os nove meses de cama lendo todos aqueles livros, se mostrava um pouco apavorada com a ideia de que logo teria um ser totalmente dependente dela sem a mãe ou alguém que entendia do assunto para ajudá-la.
— Acho que tem cursos para isso, não?
Soltei um bocejo ao ouvir aquilo, eu havia trancado minha faculdade há algum tempo, não tinha conseguido conciliar meus estudos com meu trabalho. Só de imaginar voltar a estudar o que quer que fosse me dava cansaço. Porém era por uma boa causa. E eu ainda voltaria para a faculdade algum dia, aquele era um sonho que parecia distante, mas não impossível.
— Acho que sim. — Outro bocejo. — Bom, vou tentar dormir um pouco, boa noite, .
— Também já vou indo. — Se levantou me acompanhando pelo corredor após apagar a luz e fechar a porta do quarto. — Boa noite, . — Cada um de nós foi para seu lado e eu me deitei encarando o teto do quarto, um pequeno facho de luz vinha da janela de cortinas abertas, havia sido o jeito que encontrei de não ficar num completo escuro.
Por alguma razão aquela conversa me levou a refletir sobre minha própria vida, e em como eu era uma covarde. Comecei a martelar em minha cabeça o motivo pelo qual desisti dos meus estudos. Parte de mim sabia que era sim por conta do cansaço que trabalhar e estudar me causavam, mas a outra parte tinha plena certeza que não era apenas por aquele motivo. A verdade era que, quando escolhi cursar moda fui taxada como louca. Aquele era um mercado de aparências e poder, eu jamais tive contatos para me ajudar em minha carreira assim que concluísse minha faculdade, Grace os tinha e me dizia que ajudaria em que fosse preciso. Mas de todas as coisas que minha melhor amiga tinha feito por mim na vida, aquela era uma das que eu recusava piamente. Não queria que fosse daquele jeito. E a frustração foi se somando ao falatório dos meus pais que eram totalmente contra por já saberem o óbvio.
Nunca vou me esquecer do dia em que tranquei meu curso, de tudo o que ouvi de minha mãe ao telefone. Desde então fazia o mínimo de contato possível com ela. A única coisa que a deixava saber era que eu estava viva e trabalhando, já que lhe mandava uma pequena quantia algumas vezes. Outro fator que me fez desistir de estudar, era que eu não conseguiria me manter daquela forma. Amava minha mãe, me preocupava com ela, mas ainda guardava aquela mágoa em meu coração. Nunca entendi o motivo de ela ter me deixado ir embora após aquela discussão com meu pai, muito menos o fato de ela ainda mantê-lo por perto mesmo depois de tudo o que já passou nas mãos dele.
Mas, ainda assim, não poderia dizer que me arrependia das minhas escolhas, sair daquela casa havia sido a melhor decisão da minha vida. Não tinha uma vida perfeita em Londres, muito pelo contrário, o preço para viver ali era alto, mas pelo menos poderia dizer que era feliz. E saber que teria que sair da minha zona de conforto e recomeçar tudo ao lado do insuportável do me fazia temer o que estava por vir. Tudo estava prestes a mudar tão drasticamente. E eu esperava do fundo do meu coração que fosse para melhor.
Adormeci sem ao menos perceber ou entender a explicação envolta do sono. Como eu poderia dormir sabendo que tudo em minha volta estava se revirando? Aquilo com certeza era cansaço, e eu poderia dizer tranquilamente que estava tão exausta emocionalmente e fisicamente, que dormir era tudo o que eu mais precisava.
Não me lembrava da última vez que tinha dormido tão bem nos últimos dias, acordei de supetão, tateando a cômoda ao lado da cama em busca do meu celular. Eu sabia que estava ferrada, mas não imaginava que estaria tanto. Tinha dormido três horas a mais, ou seja, estava três horas atrasada para o trabalho. Me levantei correndo, apenas arrancando meus jeans e minha camiseta de uniforme de dentro da mochila, não daria tempo para um banho.
Aliás, não tinha tempo nem ao menos de trocar de roupas. Se fosse considerar o tempo perdido teria que ir de pijamas. Do jeito que o Sr. Williams era, ele já estava me esperando na porta do Sud’s com minha demissão prontíssima para ser assinada. Escovei os dentes e enfiei uma escova de cabelos dentro da mochila, passaria a vergonha de me pentear dentro do uber, afinal, cada mínimo segundo contava. Lembrar-me que estava na casa de e que a lanchonete ficava completamente na contramão do apartamento dele só serviu para aumentar meu desespero.
— Onde vai descabelada desse jeito? — Interrompi minha pequena corrida até a porta de saída e me virei, encarando o ser que tomava o café da manhã tranquilamente, enquanto lia o jornal à mesa. Quem lia jornal em pleno 2020?
— Trabalhar? Eu estou super atrasada e-eu vou ser demitida! — Lhe dei as costas recomeçando minha correria.
— Ah, relaxa, eu já liguei e disse que você não iria hoje. — Completamente incrédula, quase virei meu pescoço como a menina do exorcista. Eu devia estar tendo um daqueles pesadelos bizarros, só podia ser!
— Você o que? — Controlei a ira em minha voz. Queria ouvir de novo, porque eu só poderia estar ouvindo errado. — Como conseguiu o número de lá? — Desisti de esperá-lo repetir, afinal, vindo de , não poderia esperar algo de bom.
— Tem uma ferramenta chamada Google, conhece? — Bebericou seu café rindo irônico. Ao reparar em suas roupas percebi que ele não usava seus trajes formais que normalmente usava para trabalhar.
— Quem te deu o direito de fazer isso? — Explodi em raiva. Não iria conseguir manter relacionamento algum com daquela forma, nem que tudo fosse uma mentira, ele me dava nos nervos. — Quer saber, dane-se, eu vou tentar pegar o turno da noite para pagar minhas horas.
— Eu já conversei com seu chefe. — O tédio em sua voz me irritou mais ainda. — Ele disse que está tudo bem, até te desejou melhoras. — Naquele instante me lembrei do que tinha acontecido noite passada, e na tarde daquele dia, em que cheguei vinte minutos atrasada do almoço e fui obrigada a fechar a lanchonete. Ele não tinha sido justo comigo, porque eu tinha que ser com ele?
— Ele disse isso? — Baixei minha guarda, deixando minha mochila cair do meu ombro.
— Sim, agora se apresse, vamos sair em vinte minutos. — Checou o relógio de pulso, fazendo-me franzir o cenho. Ir para onde? — Anda, ! Não podemos chegar atrasados. Vá tomar um banho, pelo amor de Deus.
— Não aumente a voz para mim. — Hasteei o dedo em sua direção, regressando meus passos pelo corredor.
Tomei um banho rápido, sentindo um misto de sentimentos, entre medo e felicidade. Eu estava faltando no trabalho. Meu Deus, nunca faltei no trabalho antes! Sempre fui muito certinha para fingir uma doença ou simplesmente não ir, desde a escola, onde estudei com Grace e graças a mãe deles, me lembrava de quantas vezes Grace tentou me arrastar junto dela para matar aula, e eu nunca fui.
Assim que terminei de me arrumar, notei que não havia levado nenhuma blusa além do meu uniforme. Mesmo receosa, fui até o closet de Grace, pegando uma emprestada. Não era muito meu estilo, nós duas éramos muito diferentes em relação a várias coisas, e na hora de se vestir não era diferente. Grace sempre gostou de mostrar o corpo, tanto que aquele costume não mudou nem após a gravidez, minha amiga vivia usando tops que deixavam o barrigão de fora e sempre adorou que reparassem o quão grande a barriga estava. Ela dizia que queria dizer que o bebê estava crescendo saudável, Grace se considerou a melhor mãe do mundo a partir do momento em que soube que estava grávida. Não bebeu mais, passou a comer muito mais saudável do que antes e até a praticar exercícios físicos.
A blusa de alcinhas preta serviu perfeitamente em mim, havia sido a coisa mais básica que eu havia encontrado ali, seu único detalhe ficava para a faixa rendada que enfeitava o busto e deixava a parte do colo encoberta, mas ao mesmo tempo mostrando o decote através da renda escura.
Retornei para a cozinha encontrando , que me apressou mais uma vez irritadiço. Que bom que eu o tirava do sério na mesma intensidade que ele fazia comigo. Ainda não sabia como morar junto dele iria funcionar, talvez nos matássemos, talvez poderíamos nos acostumar um com o outro, só o tempo iria dizer.
— Essa blusa...
— É da Grace. — Respondi sem graça, me sentando à mesa para tomar um café rápido, visto que os vinte minutos que me foi dado pelo general já havia terminado há um tempinho. — Eu não trouxe nenhuma camiseta, e não iria sair por aí de uniforme.
Ele ainda me encarava, reparando na peça de roupa em meu corpo, senti um pequeno desconforto e me remexi na cadeira.
— Ah, acho que você pode ficar com as roupas dela...te servem. — Cocou a cabeça, me dando as costas e colocando sua caneca na pia.
As roupas de Grace eram lindas, a maioria de grife, contava com peças da Gucci, bolsas Louis Vuitton entre outras peças caríssimas que acumulou enquanto morava com os pais. Ela era a pessoa mais humilde do mundo, mas quando se tratava de ser classuda e chegar onde quer que fosse chamando a atenção para si, Grace sequer exitava.
— Acho que ela iria querer que doássemos. — Encolhi meus ombros. Além de nada ali ter a ver comigo, aquele realmente seria um desejo dela, um dia Grace comentou comigo de fazer uma limpa em seu guarda-roupas, que já não cabia mais nada. Porém minha falta de tempo não nos permitiu fazer aquilo.
Pensar no tanto de coisas que combinávamos de fazer quando eu finalmente tivesse um tempo do trabalho, quando tirasse férias, era tão deprimente. Queria poder voltar no tempo e ajudá-la com suas roupas, organizar logo uma saída com ela e as meninas lá do Sud’s, deixaria um pouco de brigar com para poder recuperar as vezes em que interrompia nossas conversas para revidar alguma ofensa. Saber que não poderia fazer nada daquilo me dava uma sensação horrível de impotência. Quanto tempo foi desperdiçado que eu faria de tudo para ter de volta.
— Tudo bem, vamos fazer isso. — Desviei meus olhos do meu prato para encará-lo encostado na pia. Ele respirou fundo e cruzou os braços, parecia que tinha algo o incomodando. — Você está certa.
Engasguei-me com o pão, precisando me levantar para beber água e ajudar a descer o que ficou entalado em minha garganta. Meu Deus, comecei a realmente duvidar da realidade em que estava vivendo. Primeiro o Sr. Williams diz que está tudo bem em eu faltar à um dia de trabalho, e depois me dizendo que estou certa em algo? Não sabia se queria acordar, logo chegaria a hora de outra realização minha acontecer: Ter Bill Skarsgård me mandando mensagem chamando-me para jantar. Eu não tinha nem roupa para um evento daqueles.
— O-O que? — Indaguei sem ar, provavelmente ainda vermelha.
— Está certa sobre a casa. — Voltei a me sentar, prestando atenção no que ele dizia. — Acho que tenho que seguir em frente, e sinceramente ter uma casa que lembre Grace a cada passo que dou não tem me ajudado em nada. — Assenti reparando nas olheiras que se formavam embaixo de seus olhos verdes, parecia cansado, e não era a primeira vez que eu o via daquele jeito. Desde o dia em que Grace se foi, parecia que ela tinha levado um pedaço dele junto de si. — Nós podemos procurar alguma casa hoje. Pedi uma dispensa do trabalho, temos um almoço marcado com Amélia e compromissos com alguns fornecedores do casamento.
Pisquei rapidamente perdida em tanta informação.
— Amélia disse que ligaria, aconteceu alguma coisa?
— Não, eu que pedi para nos encontrarmos hoje. — Estranhei, parecia ser tão cedo para ter combinado algo com Amélia, mas me esqueci por um instante que já se passava das dez da manhã. — Sobre o que conversamos ontem, afinal precisamos de ajuda, não?
— Com toda a certeza. — Ri de escárnio enquanto terminava meu café. — Que fornecedores são esses?
— Você sabe, buffet, decoração. Por mim a cerimonialista resolvia tudo sozinha, mas ela insiste em querer do nosso jeito. — Um casal querendo escolher as coisas da própria festa de casamento, que absurdo, não?
Pelo menas daquela vez teria comida.
— E você contratou uma cerimonialista sem nem conseguir a data do casamento. — Conclui, confusa.
— Eu tenho meus contatos. — Sorriu convencido, apanhando as chaves do carro da mesa de centro, na sala. — O casamento será no fim de semana, só falta marcar a data. — saiu na frente despreocupado.
Me perguntei se ele também tinha contatos no cartório. E, ao julgar pelos zeros na conta dele e seu sobrenome de peso, não duvidaria se tivesse contatos até mesmo na família real.
Já no elevador, ainda praticamente grudada na barra lateral, me sentia aliviada por saber que não moraria ali. Aquela notícia sobre a casa havia chegado em boa hora, seria um recomeço para ambos, estava certo ao dizer que precisávamos nos desapegar das coisas de Grace. Claro que não iríamos esquece-la, mas nos torturar com a ideia de que ela já não estava mais entre nós e manter as coisas dela nos devidos lugares como se Grace tivesse apenas feito uma viagem e logo voltaria não iria nos ajudar. Ela não iria voltar mais.
As portas do elevador se abriram no sexto andar e uma mulher vestida em roupas de academia acompanhada por um cachorro enorme adentraram o elevador.
— Bom dia, . — Sorriu maliciosa, deixando suas covinhas nas bochechas a mostra.
— Bom dia, Bev. — Devolveu o sorriso, olhando descaradamente para a bunda dela, extremamente bem desenhada pela legging preta que usava. Pelo espelho, seus olhos castanhos perceberam a secada que ele deu em seu corpo. O cachorro, por sua vez, pulou com as patas dianteiras em , que se assustou com o movimento repentino do animal.
— Max! Cuidado! — Balançou o rabo de cavalo longo com seus cabelos ruivos, aparentemente naturais, puxando o rottweiler de focinheira, para longe de . — Desculpa, você sabe como ele é.
Arqueei minhas sobrancelhas, soltando um pequeno riso desacreditado. Infelizmente chamei a atenção de Max, o único -além de mim- que não estava envolto daquela tensão sexual bizarra. Alheios a nós, os dois praticamente se comiam com os olhos, a situação estava beirando ao desconforto para a minha pessoa. O cachorro de pelagem escura daquela vez veio para o meu lado. Praticamente me fundi com o metal de uma das paredes do elevador.
— Opa, Max, me de um espacinho, sim? — Atrai a atenção da ruiva, que novamente puxou a guia do cachorro, enquanto ria ao lado. — Não é engraçado, . — esbravejei.
— Ah, vocês estão juntos? — O tom sedutor em sua voz sumiu na hora, dando lugar a um agudo praticamente incrédulo.
— Sim, está é , minha… noiva — Sorri amarelo assim que seus olhos curiosos se viraram em minha direção. — , esta é Beverly, minha vizinha. — coçou a cabeça sem graça.
— Noivo, hun? — Me ignorou completamente, virando-se em sua direção. Provavelmente fazendo as contas na cabeça, provavelmente me taxando de chifruda, já que sua surpresa era nítida, provavelmente ficaram recentemente.
— Longa história. — Encolheu os ombros, fazendo-a alternar o olhar entre mim e ele.
— Que pena, hein. — Mordeu o lábio inferior pensativa. — Bom, felicidades aos noivos. — Sorriu exageradamente em minha direção. As portas finalmente se abriram, nos liberando daquele cubículo.
Pela primeira vez na vida andei de elevador e não senti medo, e Beverly roubaram totalmente o protagonismo do meu medo.
— Transou com ela? — Indaguei enquanto íamos andando pela garagem apressadamente. apenas gargalhou, abrindo a porta do carro e entrando sem me responder. Nem precisava de resposta.
Realmente seria ótimo uma casa nova, de preferência com uma vizinhança desconhecida.

Capítulo 6

— Onde estamos indo agora? — Indaguei, colocando meu cinto de segurança.
— Ver uma casa, a Diana me disse que tinha uma disponível para venda com uma localização boa.
— Tão rápido assim?
— Já são onze da manhã, , se não tivesse dormido tanto não me faria perder a manhã toda apenas trocando mensagens. — O encarei de canto de olho, respirando fundo. Talvez eu pudesse aprender aquelas técnicas de respiração para não surtar, seria indispensável no convívio com aquele ser.
— Nem vou me dar ao trabalho de te responder, . — Cruzei meus braços e encostei minha cabeça no banco, olhando pela janela enquanto as ruas passavam rapidamente.
Eu estava descansada, precisava daquela boa noite de sono, ultimamente não estava conseguindo ter algum descanso. Sabia que só teria quando tudo aquilo passasse, apesar da pressa com que aquele casamento estava sendo planejado, depois que estivéssemos em casa, junto de , tudo se acalmaria e voltaria ao normal.
Um novo normal, alias, porque imaginar a vida sem Grace ainda era uma tarefa muito dolorosa. E, de repente, receber a missão de criar um bebê também seria algo novo para mim. E para também! Eu não conseguia imaginar como ele seria como pai, e entrar naquela aventura com ele era uma missão suicida.
Já não tinha bons exemplos de casamentos, o que eu mais temia era ter a vida da minha mãe, que parecia que tinha me tido apenas para cumprir sua obrigação como mulher, algo que meu pai exigiu dela. Porém cuidou de mim sozinha, perdeu noites em claro e se desdobrou para trabalhar e estar presente na minha vida escolar.
Tinha medo de não ter a ajuda de com , eu estava entrando naquele plano para proporcionar uma vida normal para minha afilhada, mas eu também sabia que ela precisava de um pai, e esperava que também pensasse do mesmo jeito. Esperava que ele a acompanhasse na escola e estivesse presente em todos os outros compromissos que um pai tinha direito de participar.
Entramos em um condomínio luxuoso, que parecia éramos cobrados só de pisar os pés para dentro da cancela que havia na portaria, fiquei com medo de respirar dentro da propriedade e estourar meu cartão com o ato. Tudo era tão lindo ali que parecia que tínhamos atravessado um portal para outro mundo, onde não havia muros pichados, as casas tinham jardins enormes e cheios de flores e nenhum carro nas garagens soltavam fumaça ou faziam barulhos como se já estivessem velhos demais para andar. Era silencioso e tranquilo, o paraíso devia se parecer com aquilo.
Assim que estacionou, uma senhora se aproximou do carro, sorridente e confiante de que sua venda estava garantida. Ao olhar para a casa enorme atrás dela, eu também já tinha noção de que não exitaria em adquirir o imóvel. Era linda! O grande portão encobria seu térreo e só deixava a mostra as janelas do segundo andar, que contava com uma varanda magnífica. As paredes claras contrastavam perfeitamente com as cortinas brancas que havia no quarto principal, eu estava sem fôlego, e ainda nem tinha entrado portão adentro.
— Estava te esperando. Como está sua mãe? — Ele a cumprimentou com um beijo na bochecha, já imaginava que a conhecia de longa data, seus olhos castanhos se focaram em mim e de repente fiquei sem graça de me aproximar mais. — Quem é essa moça bonita?
— Diana, esta é , minha noiva. — O rosto da mais velha se retorceu em pura surpresa. — , esta é Diana, a corretora da minha família. — Gente rica compartilhava tudo, tinha médico da família, corretora da família, contador, a lista era imensa. O máximo que nós pobres compartilhávamos era uma costureira que não cobrava caro para fazer remendos nas roupas.
— Não sabia que estava de casamento marcado. — Sorriu vindo até mim, beijando minha bochecha levemente. — Não vejo sua mãe há muito tempo, estou lhe devendo uma visita, ouvi o que houve com Grace, minhas condolências.
Não perguntou sobre a criança, do jeito que a mãe de era, eu já imaginava que a própria tinha mentido sobre a própria neta sobrevivido ao parto.
Troquei um olhar tenso com ele, e se Diana contasse a mãe de que estávamos noivos? Cassandra provavelmente nos mataria se soubesse. Pior, estragaria nossos planos de ficar com caso descobrisse que íamos adotá-la.
— Vamos entrar? — desconversou, dispersando-a do assunto desconfortável.
A casa era realmente espetacular, a parte de dentro dela conseguia ser ainda mais linda que sua fachada. Um quintal feito de uma grama verdinha tomava um grande espaço, ao lado havia uma piscina. Sem ter tempo de apreciar tudo aquilo, fomos guiados até a porta principal, que logo nos levava para uma sala de estar ampla e muito bem decorada. O imóvel já estava mobiliado, pronto para morar, Diana contava sobre o dono do local, que morou ali apenas alguns meses porque precisou voltar para o país de origem. Era um engenheiro, muito talentoso por sinal.
A escadaria era linda! No andar de cima havia quatro quartos e eu fiquei me perguntando quantas pessoas iriam morar com a gente, melhor, quem iria limpar uma casa daquele tamanho! Após dar um tour completo por cada cantinho, acabamos de volta ao jardim, onde havia também um balanço de ferro de dois lugares. Suspirei imaginado nele, ela com certeza iria adorar brincar ali.
Era tão engraçado pensar e amar tanto alguém que não conhecia, tinha certeza que se a pegasse no colo ela me estranharia, iria levar um tempo até que se acostumasse com minha presença e a de , mas eu sentia como se já a conhecesse há anos. Já amava como se fosse minha, e também me passava a mesma sensação, mesmo depois daquele surto momentâneo de cogitar a ideia de abrir mão dela. Nosso amor por já não podia ser medido ou disfarçado, a maior prova daquilo era o fato de estarmos vendo uma casa para morar com ela, nos casando e nos juntando naquela loucura mesmo não suportando ficar um segundo juntos sem discutir.
Pensando bem, coitada dela, esperava que e eu pudéssemos arranjar um jeito de fazer uma trégua para não estressar a pobrezinha. Pelo menos durante o tempo em que a farsa do casamento durasse, depois poderíamos voltar a nos odiar pelo resto da vida.
— O que acharam? Vão ficar com a casa? — Ele me encarou num questionamento mudo, dei de ombros sem ter o que dizer.
Quando Diana falou o preço da casa, quase cai dura no gramado, era fofo o bastante para amortecer minha queda.
— Eu achei perfeita, era exatamente o que estávamos procurando. — Seu olhar pairou no balanço e quando voltou para mim, assenti em concordância.
Se ele era doido o bastante para comprar uma casa daquele valor, não era eu quem iria impedi-lo.
— Negócio fechado então? — Estendeu a mão para ele, que apertou de volta sorrindo. — Não acredito que já vai se casar, parece que foi ontem que te peguei no colo. — Comprimi um riso enquanto caminhava para fora do portão, os dois vinham abraçados atrás de mim. — Vamos tirar uma foto para registrar o momento?
Uma mulher que corria pela rua foi interceptada pela velhinha, ela aceitou tirar a foto de bom grado. Mesmo suada ela era deslumbrante, olhos azuis, boca preenchida com botox, era mais velha, porém não aparentava, tinha um corpo bem torneado e marcado pelas roupas de academia que usava, cabelos escuros presos num rabo de cavalo, ela era bem o tipo de , aliás, que mulher padrão não era? Já previa que teria problemas com a vizinhança e meu marido de mentira, ao julgar pelo olhar dele, tive certeza.
— Agora eu e a proprietária. — Diana sorriu, abraçando-de de lado, fazendo-me franzir o cenho, enquanto ia em direção ao motivo dos meus futuros chifres e pegava o celular.
— O que?
— Você é a proprietária. colocará a casa em seu nome. — O encarei pálida, sem acreditar no que Diana me dizia. Ele tirou a foto no exato momento, rindo do resultado da imagem.
— E-Está falando sério? — A senhora assentiu, rindo do meu estado. Encarei a casa mais uma vez, sentindo meu corpo todo tremer.
Havia acabado de esquecer como assinar meu nome. Estava tão eufórica que nem ao menos me lembrava dele!
Parecia mentira, parecia um sonho. Uma casa linda daquelas, enorme, minha! No meu nome! Sem que eu precisasse me matar de trabalhar para quitá-la? Quando dei por mim já corria em direção a ele, o abracei forte em puro entusiasmo, sem ao menos perceber que não tínhamos intimidade para tanto.
— E-Eu não sei nem o que dizer! — Cobri meu rosto com as mãos, assim que nos separamos e encarei seu rosto confuso, não conseguia distinguir se ele tinha ficado sem graça ou bravo pelo abraço inesperado. — Obrigada!
— Parabéns, é uma linda casa. — A mulher já se afastava recolocando os fones de ouvido. — A propósito, sou Megan, moro na terceira casa a esquerda, sejam bem vindos. — Nos deu as costas exibindo sua bunda durinha e sumiu pela rua deixando minha autoestima a ver navios.
— Vamos assinar a papelada?


***


— Porque sempre tem que me apresentar como sua noiva? Diana pode contar a sua mãe sobre nós.
— Queria que eu te apresentasse como? Minha secretária? — Respondeu, enquanto pressionava o botão da cancela. — Se temos que viver essa farsa, que façamos direito.
Secretária. Se me apresentasse como secretária dele iriam pensar que dormíamos juntos! Se bem que o título de noiva também deixava aquilo no ar.
— Não para ela! Nem todo mundo precisa ser incluído nessa mentira, principalmente se for alguém ligada a sua família. — revirou os olhos impaciente. — Agora que colocou a casa no meu nome então, ela vai correndo contar para ela. — Passei a mão no rosto exasperada.
— Ela não vai contar a ninguém, . Relaxe! — O encarei indignada. — Se está reclamando, pode me devolver os documentos que assinou, rasgamos e você continua morando naquela espelunca.
Ergui o indicador pronta para protestar, mas vi que não tinha defesa alguma, realmente morava numa espelunca. De repente, tive um estalo, que me despertou para um questionamento que estranhamente não tinha me passado pela cabeça antes. O que iria querer em troca daquela casa? Porque em todos aqueles anos que nos conhecíamos, só havia me dado estresse, ódio e um pacote de salgadinhos na noite passada.
Era muito estranho vê-lo sendo caridoso comigo, ainda mais quando a caridade era uma casa avaliada em tantos zeros que chegou a me assustar. Eu mal sabia ler aquele valor.
— Por que colocou a casa em meu nome? — Perguntei desconfiada. não via meus olhos estreitados por estar concentrado no trânsito.
— Porque sei que quando nos divorciarmos vamos dividir a guarda de . Vou te deixar com a casa para que ela possa viver com conforto quando estiver com você. — Arqueei minhas sobrancelhas, surpresa pelo grau de maturidade que eu achava que nunca teria na vida.
Claro que por trás daquela boa ação, existia um preconceito com o lugar onde eu morava. Tinha certeza que jamais iria querer que passasse um dia sequer em Enfield. Por ele, a menina nem ao menos saberia o que era aquele bairro. Sabia que seria um desafio e tanto criar uma criança com alguém que pensava tão diferente de mim, mas eu faria de tudo para mostrar a que aquela baboseira de classe social era apenas um detalhe. Não queria que ela crescesse igual a , e sim igual a Grace, como deveria ser.
— Olhe só, se não é o meu casal favorito. — Amélia sorriu sarcástica, enquanto nos observava caminhar até a mesa onde ela já nos esperava.
— Muito engraçada. — murmurou, sentando-se e cagando para a minha existência. Puxei a cadeira e me sentei ao seu lado, perguntando-me onde estaria aquele cavalheiro que puxou a cadeira para mim no dia em que almoçamos com Angelina.
Quando estivéssemos juntos eu faria de tudo para ficar em público com ele, quem sabe assim não me trata melhor para sustentar a mentira?
— Fiquei sabendo que o Natal chegou mais cedo para alguém! Parabéns pela casa nova! — Sorri junto dela, que chamou o garçom já com o cardápio em mãos. — O que vão pedir?
— Guarde espaço no estômago para os bolos, ouviu? — Seu cotovelo me cutucou sem a mínima descrição, atraindo o olhar do garçom, que disfarçou o riso. Respirei fundo, lembrando-me da minha estratégia para não surtar.
— Nem nos casamos e já quer mandar em mim, noivinho? — Lhe sorri com cinismo. — Vou comer o que o príncipe da Inglaterra pedir, já que ele acha que sou uma morta de fome. — Larguei o cardápio na mesa. O constrangimento do homem era visível.
— Uma salada para a moça, ela não pode engordar, se não, o vestido não irá servir, não é amor? — O encarei tão feio, que se tivesse visão de raio-x, já teria desintegrado, tamanho o meu ódio.
Descobri como iria me cobrar a casa que comprou para mim. Na base do ódio.
— Vocês dois não tem jeito mesmo. — Amélia riu, observando o garçom se afastar confuso, pobrezinho, provavelmente era novo no trabalho. Os granfinos que frequentavam aquele restaurante deviam ter discussões mais calorosas que a que o mesmo havia presenciado. Geralmente envolvia amantes e mulheres mais novas aplicando o famoso golpe do baú. — Para que precisavam da minha ajuda?
e eu estávamos conversando… — A advogada soltou um pequeno riso sarcástico. — e chegamos a conclusão de que não sabemos ao menos trocar uma fralda, quem dirá cuidar de um recém nascido.
— E sabemos que existem alguns cursos para isso, queríamos saber se você conhece algum para indicar. — Ela assentiu nos olhando como se fôssemos dois extraterrestres.
— Era só isso? — Nos entreolhamos assentindo. — Não irão desistir ou algo do tipo?
— Isso está fora de cogitação.
— Devíamos ter mandado mensagem, não é? — Indaguei insegura. — Desculpa, Amélia. e eu estamos meio perdidos, sei que estamos abusando da sua boa vontade…
— Não, que isso! Está tudo bem querida! — Riu, enquanto a garçonete lhe serviu com seu prato. O menino realmente não quis retornar a nossa mesa. — Na verdade, eu queria mesmo falar com vocês dois, sabe, acertar uns detalhes... impor algumas regras. — Assenti já ficando tensa. — Se quiserem, é claro.
— Claro que sim, toda ajuda é bem vinda. — Sorri amarelo, torcendo para que não fosse algo ruim.
— Primeiro de tudo: sim, eu conheço um curso rápido para pais de primeira viagem. É disputadíssimo, porém acho que consigo uma vaga para vocês.
— Muito obrigada, vai ajudar muito.
— E quanto as regras? — perguntou, interessado naquele assunto. Não entendi aquela atitude vinda dele. sempre ignorou regras, vivia se metendo em problemas na escola justamente por quebrar as que lhe eram impostas.
— Primeiro de tudo, vocês dois tem que entrar em um acordo, o que querem impor um ao outro? — Eram tantas coisas, se pudesse, impediria até de respirar perto de mim, até mesmo aquela ação vinda dele me irritava. — Enquanto pensam, vou dar uma sugestão, acho que para começar bem, o melhor é manter sigilo absoluto sobre a farsa. Fingir que estão apaixonados, mentir até mesmo para a família, amigos e colegas de trabalho.
Cocei minha nuca. Ops
Annelise e Tiffany logo vieram na minha cabeça. Droga.
— E você dizendo que não podíamos contar para as pessoas de fora. — encarou-me com superioridade. Ele jamais perderia a oportunidade de falar que eu estava errada.
— Na verdade, é muito importante para dar veracidade a história, como vocês irão se casar e morar juntos, seria muito arriscado se alguém de fora soubesse e deixasse escapar em alguma oportunidade. E até mesmo para que não haja confusões caso algum de vocês se envolvam amorosamente com outra pessoa. Aliás, isso nos leva a outra regra importante: Se ficarem com alguém tem que ser no sigilo.
Olhei diretamente para , que sorriu contido. Não disse que ele não era de seguir regras? Então, justo aquela ele não iria seguir. Só de presenciar a secada que ele deu na nova vizinha eu já previa o desastre eminente.
— Tudo bem até aqui? — Alternou os olhos sobre nós.
— É… eu queria só… confessar algo antes de continuarmos. — Passei as mãos nos cabelos constrangida. Estava julgando , porém na verdade eu mesma já havia começado a quebrar as regras. — Eu meio que contei para minhas duas amigas do trabalho.
— Está vendo? A senhorita 'eu sigo as regras' já começou a ferrar tudo. — Cruzou os braços rindo sarcástico. — Não é justo eu ter que fingir que estou preso num casamento enquanto ela poderá sair com as amigas e falar o que está acontecendo a elas.
— Eu não sabia que não poderia falar para ninguém!
— Claro que não podia! Ou achou que iríamos anunciar num outdoor que iríamos cometer o crime de ter um casamento falso para ganhar a guarda de uma criança? — O mesmo garçom anterior passava ao lado da nossa mesa, seus olhos quase saltaram para fora ao ouvir a fala de .
E ele acabou de ser nosso cúmplice naquela armação...
— Isso, fale mais alto, o pessoal da cozinha ainda não ouviu o nosso segredo!
— Ao contrário de você, eu não sou um fofoqueiro, sei manter minha língua dentro da boca. — Arfei ultrajada.
— E sei bem em que boca você vai enfiar a língua, dentro da boca da nossa vizin...
— Já chega vocês dois. — Amélia massageou as têmporas. — Não sei como vão criar uma criança quando na verdade parece que ainda não cresceram. — Cruzei os braços emburrada. Pior que ela tinha razão, éramos exatamente daquele jeito quando tínhamos apenas dez anos de idade. A única diferença era que às vezes a briga virava algo físico, sentia falta de quando arrancava tufos de cabelos de , porém estava crescida demais para chegar a aquele ponto.
Ou talvez não, quem sabe se ele me irritasse mais um pouco ou não partiria para cima dele.
— Agora já foi, o importante é garantir que elas não contem a ninguém. — Assenti me acalmando. continuava de braços cruzados, fuzilando Amélia com o olhar, reclamando mentalmente por ela estar passando a mão em minha cabeça. Quase soltei um risinho em sua direção, mas estava tentando parecer madura. — E não, , você não pode contar a ninguém, já não basta as duas amigas de saberem.
— Eu tenho uma sugestão de regra. — disse, arrumando-se na cadeira inquieto, ele estava soltando fumaça pelas ventas. — Não quero suas amigas lá em casa. — Abri a boca num 'O' perfeito.
Aquele... aquele...
— Babaca. — cuspi as letras em sua direção. — Eu sei bem porque não gosta delas, acha que elas não são dignas de pisar em casa só por serem pobres. — Ele permaneceu impassível, fazendo meu rosto esquentar em raiva. — Isso não é justo, Amélia! — Apelei, vendo-a balançar a cabeça sem saber o que fazer.
— A vida não é justa, , lide com isso.
— Eu vou pensar algo para me vingar, . Me aguarde. — Ameacei, atraindo um olhar de censura da advogada. Logo a vizinha me veio a mente, fazendo-me perceber que poderia existir algo que o atingisse da mesma maneira: Abstinência sexual. — Já sei! Estamos proibidos de pegar qualquer pessoa do nosso condomínio, mesmo que seja fora dele, às escondidas.
negou com a cabeça indignado.
— Só porque ninguém ali vai querer te comer não quer dizer que ninguém vai querer me dar, . — Lhe mostrei o dedo do meio, atraindo olhares das mesas ao lado.
— A imposição dela tem fundamento, . Se algum vizinho ficasse sabendo o nosso plano já era, fora que pode até mesmo te processar por adultério. — Sorri diante a informação. Eu adorava gente inteligente. — Vocês terão que ser o casal perfeito, sem traições, muito menos brigas em público.
— Impossível. — riu de escárnio. Tive que concordar com aquele idiota.
— Tá bom, tá bom, sei que isso seria exigir demais de vocês dois. Mas, se por algum acaso alguma briga de vocês ficar pública ou for muito comentada pelos vizinhos, façam o favor de contornar a situação... encenem uma reconciliação decente, para que todos possam ver que está tudo bem. — Nos entreolhamos com a cara de nojo.
— Sem beijos! — Disparei. Amélia discordou prontamente. — Quando não tiver ninguém olhando. — Completei revirando os olhos.
— Quem disse que eu vou querer te beijar, ? — debochou. — Aliás, sem abraços também. — Sorriu sugestivo, fazendo-me virar o rosto para outra direção.
— Vou ter que concordar com você, . Sem demonstrações de afeto quando estivermos sozinhos.
Repensei minha ideia de querer ficar ao lado dele em público o máximo que conseguisse para ser bem tratada, se aquilo iria significar agir como um casal, eu preferia ser maltratada.
— Ok, mais alguma coisa? — Amélia nos encarou receosa. Neguei com a cabeça e fez o mesmo, arrancando um sorriso satisfeito de seus lábios pintados de vermelho. Com certeza iriam surgir mais coisas depois. — Ótimo, foi pior do que eu pensava, mas sobrevivemos sem nenhum arranhão. Agora deem as mãos para selar o trato.
Contra a minha vontade, troquei um rápido aperto de mãos com , que apertou minha mão com mais força que o normal apenas para me sacanear.
Seu celular bipou e não fez uma cara boa quando leu o conteúdo da mensagem que recebeu.
— É do cartório. — Engoli a seco, será que não conseguiríamos a data? — O casamento está marcado para sábado. — Soltei o ar que nem sabia que estava segurando.
— Que ótima notícia! — Amélia comemorou sozinha. — Ah, vamos lá, não estão felizes? Olhe, tenho uma colega que trabalha no abrigo onde está, vou pedir para que ela me ajude a dar mais incentivo a vocês. — Enquanto ela digitava no celular, me peguei com um frio na barriga instantâneo.
estava nervoso igual, estávamos mortos de saudades daquele bebê, não sabia explicar o que eu sentia por aquele pequeno ser, só sabia que queria poder tê-la nos braços o mais rápido possível.
— Esperem um minutinho… — Murmurou ainda encarando a tela do celular.
checou as horas rapidamente, atraindo minha atenção.
— Está na hora de nos encontrarmos com a cerimonialista. — Comentou ansioso.
— Aqui está, digam oi para a .
Assim que o aparelho foi virado em nossa direção, meus olhos se encheram de lágrimas. Encarei seu rostinho miúdo e seus olhos grandes nos encarando, ela era o ser mais lindo da face da Terra. Acenei para a pequena em pura empolgação, fez o mesmo, ainda sorrindo abertamente. Quando a chamada foi encerrada pela funcionária, cobri meu rosto com as mãos, abafando meu choro de emoção, deu tapas fracos em minhas costas na tentativa de me consolar.
Nada de abraços, hun?
— Podem ir, eu pago a conta. — Amélia sorriu amavelmente, vendo-me secar o rosto enquanto não conseguia parar de sorrir.
— Vamos nessa, . — se levantou, fiz o mesmo ainda processando minhas emoções. — Obrigada Amélia. — Lhe sorri em agradecimento. Nem precisei falar para que ela soubesse o quão grata eu era por ter nos proporcionado aquele momento.
me deu força para continuar aquela farsa. Sentia que poderia enfrentar tudo só de ver aquele rostinho.
— Lembrem-se, vocês são um casal apaixonado. Comportem-se!

Capítulo 7

O grande dia tinha chegado.
Bom, pelo menos era para ser, de acordo com a dona do salão de cabelos que me recebeu cedo demais para que eu estivesse acordada em pleno sábado. Eu costumava entrar mais tarde no trabalho nos fins de semana, ficava até fechar e às vezes meu corpo só via minha cama lá pelas quatro da madrugada quando eu, Fanny e Anne saímos por aí madrugada a fora. E lá se vai mais uma coisa que teria que abrir mão pelo menos por um tempo, sair com as meninas. Eu seria uma mulher casada, e infelizmente ninguém iria ver com bons olhos se eu saísse sozinha com minhas amigas. Aparentemente quando você se casa, vira irmã siamesa do seu marido, tornando quase impossível para as outras pessoas te verem sozinha sem perguntar por onde anda seu companheiro.
A simples ideia de nascer grudada a um ser tão insuportável como me causava arrepios só de pensar.
A aliança que mais tarde seria colocada em meu dedo anelar iria ser a algema que me prenderia a ele. De repente, eu comecei a pensar sobre nunca mais reclamar de ter que ir trabalhar aos fins de semana, seria minha única chance de ter paz ao ficar longe de .
Tinha passado boas horas naquele lugar, fazendo minhas unhas dos pés e das mãos, arrumando meus cabelos e fazendo minha maquiagem, nunca tive tantas mãos em cima de mim na vida. A única parte em que aproveitei aquela atenção toda foi durante minha massagem relaxante enquanto eu curtia meia hora no ofurô de águas bem morninhas. O restante do tempo foi cansativo, o salão havia sido fechado apenas para me atender, suspeitava que o valor que deve ter pago naquele lugar era capaz de tirar qualquer um do aluguel.
— Oh, meu Deus, você está maravilhosa! — A mulher boquiaberta ofegou, sendo acompanhada por sua equipe que trabalhou em mim durante todas aquelas horas.
Eu já tinha me vestido, porém ainda não conseguia me ver, os olhos brilhosos de todos me encarando me causaram nervosismo, me vi realmente curiosa para saber como estava. O espelho grandioso foi posicionado a minha frente e ao ver meu reflexo fiquei completamente sem fôlego. Nunca havia me visto tão linda, jamais pensei que algum dia eu pudesse me comparar a alguma celebridade que via pela televisão, mas naquele momento me sentia mais bonita que todas elas.
Meus cabelos presos estavam lindos, brilhavam tanto que as luzes do salão chegavam a refletir nos fios loiros que continham uma coroa magnífica no topo dele, onde o véu foi encaixado e caía sobre minhas costas desnudas pelo vestido. Ah, o vestido, era um sonho. Passei meus dedos por toda extensão do tecido branco, que ia justo em meu corpo, porém ao chegar nos joelhos se abria como uma cauda de sereia. Parecia mentira que tudo aquilo estava acontecendo comigo.
Quando finalmente pude sair e ver a luz do dia fui surpreendida por uma enorme Limusine preta, estacionada em frente ao salão me esperando com um motorista vestido a caráter. Confesso que achava aquilo brega, mas aceitei de bom grado. Realmente jamais imaginei que algum dia me casaria envolta de tanto luxo como naquele momento. Na verdade, sempre achei que jamais chegaria ao altar algum dia, nunca havia pensado o bastante sobre aquilo, meus dois namorados que tive nunca tinham me passado a impressão de algum dia querer algo tão sério comigo. Aliás, meu ex mais recente chegou a me jurar que eu jamais iria achar outro homem que me quisesse.
Tecnicamente ele estava certo, eu estava me casando, porém se não fosse pelas circunstâncias, continuaria sendo encalhada. Grace sempre me alertava dizendo que eu iria acabar sozinha no fim das contas, que meus traumas do passado me assombravam o bastante ao ponto de me paralisarem e que eu deveria fazer terapia. Sempre ri daquela implicância toda acerca da minha vida amorosa, no fundo eu sabia que ela apenas queria me ver feliz, e ela nunca soube direito o que realmente havia acontecido com minha família. Minha mãe me fazia prometer que eu jamais contaria a ninguém sobre as agressões.
Pensar que Grace se foi sem que eu pudesse me abrir verdadeiramente para ela, contar meus segredos mais obscuros e tudo o que vivi com meus pais me dilacerava por dentro. Queria ter tido a oportunidade de conversar com ela, estava guardando essa conversa para quando me sentisse segura para contá-la. Ainda não havia chegado a hora, me arriscaria a dizer que aquela história toda de me casar com só piorava minha situação, eu me sentia menos preparada do que nunca para enfrentar meu passado.
— Senhorita? — A porta foi aberta, revelando o grandioso campo a céu aberto que nem eu, nem tínhamos tido oportunidade de ver ao vivo por conta da urgência da data marcada. Respirei fundo olhando em volta. Era ainda mais lindo pessoalmente, uma foto jamais faria jus a aquele céu azul estonteante.
— Aí está você, oh céus, está perfeita! vai cair para trás quando te ver! — Sorri amarelo querendo discordar de sua fala.
Os olhos castanhos claros de Verônica encaravam-me como se eu fosse uma obra de arte, eles brilhavam ao me focar, somente aumentando minha ansiedade. Eu queria sair correndo dali, a cerimonialista não era a primeira a me encarar daquela forma naquele dia, não sabia se conseguiria lidar com toda aquela atenção. Eu não via a quantidade de pessoas ali presentes, havia apenas enviado quatro convites: O de Annelise, Tiffany e o do Sr. Williams e sua esposa. Todo e qualquer outro convidado presente ali, seria um completo desconhecido por mim.
Encarei as portas de madeira clara revestida por flores vermelhas envolta de sua moldura, ela era enorme, me impedia de ver a cerimônia que me esperava ansiosa, segundo a cerimonialista. Soltei um risinho ao ouvir aquilo, eu tinha me atrasado um pouquinho no salão, a fotógrafa que me acompanhava insistiu em registrar cada mínimo momento daquele "dia especial", como todos chamavam.
Me perguntei o que eu faria com todas aquelas fotos futuramente, não fazia o menor sentido guardar recordações de um dia que não faria nenhuma importância em minha vida. O que havia de bom ali para ser recordado? Eu estava envolvida numa mentira, não tinha minha família comigo, pior, não tinha minha mãe e minha melhor amiga comigo.
Respirei fundo comprimindo meus lábios recém pintados, segurando minhas lágrimas.
— Ok, nada de choro, mocinha. Não pode estragar essa maquiagem. — Verônica me rodeava, ajeitando o véu que caía em minhas costas. — Toma, boa sorte, aproveite o melhor momento da sua vida. — Me entregou o buquê pequeno de rosas vermelhas e saiu de cena quando a marcha nupcial começou a soar em meus ouvidos.
Engoli a seco, vendo as portas se abrirem, revelando aos poucos o altar ao fundo. Um grande círculo de rosas brancas enfeitavam o local onde o juiz de paz estava estacionado, esperando-me com um sorriso sublime nos lábios. Todos se levantaram de seus lugares, era muita gente, todos bem vestidos demais para serem do meu círculo social, porém sorriam para mim admirados. Aqueles olhares mais uma vez, sentia minhas bochechas queimarem em vergonha, nunca tinha sido admirada daquela forma.
Meu coração parecia que iria sair pela boca. Dei passos incertos enquanto era atingida por flashes, estava trêmula, morta de medo de cair, era completamente estranho ser uma noiva que entrava sozinha na cerimônia. Quando não havia um pai ou padrasto, qualquer outro homem especial para a noiva bastava para acompanhá-la e entregar sua mão ao futuro marido. Mas eu não tinha proximidade com o sexo masculino, o máximo que acontecia eram os beijos que trocava com algum cara que conhecia em algum pub. Fazia algum tempo que não passava a noite acompanhada, digamos que Grace havia me traumatizado um pouco com sua gravidez inesperada e conturbada.
Encarei Fanny e Anne sentadas na primeira fileira e acenei para ambas, Anne ainda tentava manter a pose de emburrada por não ter sido cotada para ser minha madrinha de casamento. Ou era porque eu estava me casando com o homem dos sonhos dela? Bom, acho que era pelos dois motivos. Já Fanny apenas mantinha um sorriso intacto no rosto, com certeza se divertindo horrores com a minha desgraça. A reação de Annelise era até compreensível já que ambas eram minhas melhores amigas, porém foi tudo tão em cima da hora que quando fui me atentar a aquele detalhe já havia arranjado duas garotas sabe-se lá de onde para serem madrinhas. Fora que elas não tinham nem um par para entrar.
Pensar no que seria o certo naquela situação toda me levou a Grace novamente, ofeguei ainda durante minha caminhada até o altar, imaginei o quão bom seria tê-la ali, ela com toda a certeza do mundo seria minha primeira opção como madrinha. Vivia imaginando como seria se alguma de nós chegasse a se casar, eu sempre ri de seus devaneios, achei que ela seria a única a chegar tão longe. Mas o que ela jamais poderia imaginar era ver se casando antes dela, já havia cansado de ouvi-la murmurar pelos cantos o quanto queria que sossegasse um pouco com alguém, que não gostava do jeito como ele tratava as mulheres com quem se relacionava. Outro motivo de riso meu, parecia que jamais iria mudar.
Sempre foi aquele ser irritante, egoísta e metido a besta. Mas, a esperança é a última que morre, né? Quem sabe algum dia ele não mudaria o jeito de ver seus relacionamentos, tinha esperanças de que com ele tomasse juízo. saberia como era ser pai, e iria começar a pensar que não iria querer que sua filha se envolvesse com um cafajeste como ele. Apesar do pesares, eu sentia verdade na vontade que demonstrou desde o inicio de ser como um pai para a sobrinha, era por isso que eu havia entrado naquela confusão ao lado dele.
E por falar em confusão. Encarei há poucos passos de chegar até ele. estava... apresentável. Sabia que seria imaturo de minha parte me negar de enxergar beleza nele, não era cega. era sim um homem muito bonito, atraente até demais, chegaria a me enganar caso eu não o conhecesse e ele ficasse calado, porém seu interior me incomodava tanto que ofuscava sua beleza física. O terno que ele usava tinha um corte italiano, era justo na medida certa e delineava sua cintura, valorizando seu peitoral e ombros largos, as calças perfeitamente ajustadas evidenciaram suas coxas e pernas, que se mexiam inquietas a medida em que eu me aproximava. Seus olhos ainda me analisavam dos pés a cabeça já me fazendo prever que viria alguma piada de mau gosto após a cerimônia. Suas sobrancelhas se mexeram minimamente e ele me lançou um sorriso quando me estendeu a mão para me juntar a ele e o senhor simpático que nos observava sorridente.
Quando nossas mãos se tocaram, uma corrente elétrica tomou meu corpo, a surpresa estampada no rosto de me fez saber que não tinha sido a única a sentir.
— Está gelada como um defunto, . — Murmurou enquanto chegava mais perto, seus lábios encostaram-se em minha testa, deixando um beijo rápido ali. Certeza que Amélia o tinha obrigado a fazer aquilo.
— Não me irrite agora, estou no ponto alto do meu estresse. — Disse entre dentes enquanto caminhamos até o centro do altar.
— Olá, . — O juiz me recepcionou com um sorriso terno, relaxei meus ombros tentando não deixar transparecer meu estado emocional. Ali, de frente para , que ria da minha cara de espanto, observei a pequena orquestra se dispersar, franzi o cenho intrigada. Eu estava tão nervosa que nem ao menos ouvi os instrumentos soarem. — Estamos aqui, nesta tarde, reunidos para unir este casal em um só... — O senhorzinho simpático começou a filosofar sobre o amor e a união enquanto eu apenas esperava ansiosamente que tudo aquilo acabasse. Agradeci aos céus por não optarmos por uma cerimônia religiosa, mentir diante de Deus seria demais até para nós. — Edward , você aceita como sua legítima esposa. Promete ser fiel, amá-la e respeitá-la. — Segurei todos os meus músculos faciais para não esboçar nenhuma expressão que denunciasse meus pensamentos debochados ao ouvir aquelas palavras sendo direcionadas justo para . — Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Por todos os dias das suas vida, até que a morte os separe?
Abaixei a cabeça, enquanto o juiz pegava as alianças sobre a pequena mesa atrás dele. A morte era a grande culpada de estarmos ali e todas aquelas promessas já não eram verdadeiras há séculos, se é que algum dia já foram. Me perguntei se já não era hora de mudar aquela baboseira toda, todos sabiam que aquelas palavras só estavam ali de enfeite, que a vida real o mundo era cruel, bem diferente daquele conto de fadas descrito naqueles votos.
Meu pai havia feito tantas juras de amor para minha mãe, e olhe só, que surpresa, nenhuma foi cumprida.
— Aceito. — Sua mão pegou a minha, despertando-me de meu transe. A aliança deslizou pelo meu dedo anelar fazendo-me encará-lo nos olhos. O verde começava a contrastar com a vermelhidão das lágrimas se acumulando. também estava com medo, apavorado.
A mesma pergunta me foi feita, daquela vez eu já tinha as duas alianças em minha mão, uma já em seu devido lugar e outra pronta para ir para o dedo de . Fiquei seriamente preocupada se o dedo dele não iria cair devido sua alergia a compromissos. Soltei um pequeno riso com aquele pensamento, porém por mais tentada que estivesse em implicar com , eu respeitaria o momento de tensão e guardaria aquela provocação para mim.
— Eu vos declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
e eu trocamos olhares apreensivos. Sim, aquele seria nosso segundo beijo em público, porém diferente do primeiro, havia muito mais gente naquele casamento, pior, conhecidos nossos. Me aproximei devagar, sem saber muito o que fazer, onde repousar as mãos. Apesar de já ter tido relacionamentos antes, ali parecia que eu não havia dado sequer meu primeiro beijo na vida. Fui pega de surpresa quando o par de mãos grandes me puxaram numa rapidez impressionante, deixando meu tronco suspenso no ar. Comprimi um grito de susto enquanto ouvi gargalhadas e assobios ao fundo.
, eu juro que vou te matar! — Rangi os dentes antes de ser beijada. Fechei os olhos ainda bufando de raiva, enquanto me segurava em seus braços com medo de ser derrubada, porém conseguiria me segurar ali pelo tempo que quisesse com uma facilidade absurda.
— Sempre quis fazer isso. — Colocou-me de pé novamente, ainda sobre a mira dos fotógrafos.
Fanny ria incessantemente de seu lugar, enquanto Anne negava com a cabeça com um sorrisinho nos lábios, o resto das pessoas comemoravam com , que sorria e acenava para os amigos. Não tinha como negar, ele era um puta ator. Amélia não pode ir ao casamento, não queria levantar suspeitas sobre nossa farsa, senti sua falta ali, seria bom ver mais um rosto conhecido.
— Abrace ela, vamos tirar algumas fotos. — O homem eufórico apontou a câmera em nossa direção, não nos dando tempo sequer de respirar. Eu realmente queria saber o que tinha na bebida daqueles fotógrafos, eu nunca havia visto um calmo.
envolveu minha cintura puxando-me para perto, a partir daquele momento eu já comecei a ficar mais atenta aos movimentos daquele pestinha.
Logo nos separamos, recebendo as parabenizações dos convidados. Abracei minhas amigas e senti a falta de ter minha mãe comigo. Ela com certeza estaria explodindo de felicidade ao me ver de noiva, ainda mais me casando com , de quem ela nunca escondeu a admiração e o carinho maternal que sentia por ele desde sempre. Para a minha infelicidade, ninguém a minha volta via como eu via, acabava me passando de louca por não ver o "menino de ouro" que ele era, palavras de minha mãe, que via coisas demais naquele rostinho bonito de .
— Venham, venham, depois vocês aproveitam os convidados. — Verônica surgiu do nada ao nosso lado, puxando-nos em direção a parte traseira do local.
— Temos que aproveitar esse pôr do sol para tirar fotos. — Alex, a assistente do fotógrafo nos posicionou no meio do gramado aproximando-nos um do outro e me deixando desconfortável.
Sabia que não poderia culpá-la, primeiro porque era o trabalho dela e segundo porque, tecnicamente, não era para estarmos desconfortáveis perto um do outro. Éramos marido e mulher, desde as sete da manhã daquele dia quando fui arrancada da minha cama cedo para ir ao cartório assinar os papéis. Tínhamos que manter as aparências e nos acostumar a fingir que nos suportávamos diante das outras pessoas. Aquele casamento era só a ponta do iceberg igualzinho ou até maior do que o que naufragou o Titanic.
— Isso, lindos! — Outro flash. Eu tentava não me mexer muito enquanto estava nos braços de , que soltava comentários idiotas de cinco em cinco segundos, divertindo-se a beça da situação. Ele ria de meu estresse e eu tinha que acompanhá-lo para não parecer infeliz nas fotos. — Agora, um beijo. — Respirei fundo antes de me virar em sua direção.
— Se fizer aquilo de novo eu… — Fui interrompida pelos seus lábios colando-se aos meus, ainda contrariada, lhe toquei os ombros e ali permaneci com as mãos durante os segundos intermináveis que aquelas fotos foram tiradas. Quando nos separamos já sem graça, observamos o homem analisar o resultado pelo visor da câmera. Sua cara não foi a das melhores, o que me fez bufar de tédio já prevendo ter que repetir aquele beijo.
— Eu quero outro beijo, — Assenti já conformada. — mas um beijo de verdade! Já estão casados, sem essa de selinhos. — Desdenhou sorrindo malicioso, pude ouvir um riso de e o encarei feio antes de me aproximar novamente.
— Você ouviu o fotógrafo, noivinha. Um beijo de verdade — Suas mãos pegaram as laterais do meu rosto e antes que eu pudesse reagir, já tinha beijando meus lábios novamente.
Daquela vez abri minha boca lhe dando passagem com a língua, não tinha mais o que fazer, aquele teatrinho iria se seguir por muito tempo, o que me restava era aceitar e fazer com que desse tudo certo. Suas mãos pegaram-me pela cintura com firmeza, colando nossos corpos, minhas pálpebras logo começaram a pesar e quando vi já estávamos envolvidos naquele beijo tempo o bastante para um álbum inteiro de fotos.
— Esperem pela lua de mel, pombinhos. — A voz do fotógrafo foi acompanhada pela risada da moça que o auxiliava, nos separamos rapidamente, como se nada tivesse acontecido. Encarei somente os dois a minha frente, sentindo-me incapaz de olhar no rosto de naquele momento. — Agora abrace ele pelo pescoço. — Infelizmente o show tinha que continuar.
Levantei o rosto dando de cara com aquele par de olhos verdes, suas mãos estavam de volta a minha cintura, mas daquela vez apenas nossas testas se encostaram e somente aquilo nos deixou tensos o bastante para ficarmos sem fala. Sem provocações ou sorrisinhos cheios de impaciência. , que antes parecia estar se divertindo com a minha desgraça acabou de se dar conta do que se meteu e, assim como eu, não parecia mais achar graça.
A voz de Verônica soou no microfone, nos convocando para a pista de dança para que pudéssemos estreá-la, dei graças a Deus quando a última foto foi tirada, de longe, observei o local onde a festa aconteceria e notei o bar enorme montado ao fundo. Uma ideia tentadora me veio a mente e encarei em seguida, chamando sua atenção.
— Ei, , e se a gente enchesse a cara hoje?

Capítulo 8

— Falou minha língua, . — Enquanto Alex e o fotógrafo desmontavam seus equipamentos, fomos sorrateiramente até o bar.
Era quase uma missão impossível passar despercebida num casamento em que eu era a noiva e a única vestida de branco, porém Verônica estava fazendo um bom trabalho distraindo os convidados, que se aglomeraram em um circulo envolta dela enquanto a baixinha nos procurava com os olhos entre as pessoas.
se esticou sobre o balcão vazio com a ausência do barman, alcançou uma garrafa de bebida e dois copos com a outra mão, encheu ambos empurrando-me o meu. Não pensei duas vezes e virei o conteúdo do copo de uma vez só, sentindo minha garganta queimar com o ato. Fiz uma enorme careta, lembrando-me de que confiar em era um erro em todos os aspectos.
— Meu Deus, o que diabos é isso que me deu pra tomar? — Exclamei ainda extremamente incomodada com o amargo da bebida, tão forte que eu podia jurar que somente aquele pouco já me deixou balançada.
— Não disse que queria ficar bêbada? Não é minha culpa se você é fraca para bebida, . — Ele já encheu outro copo do líquido escuro, entornando novamente sem ao menos se importar com a bebida descendo rasgando sua garganta. bebia aquilo como se fosse água, e presenciar aquilo me deixou levemente assustada.
— Onde estão os pombinhos, hein? — A voz de Verônica mais uma vez reverberou pelo microfone, fazendo-me revirar os olhos. — e , venham!
Ao ouvir aquele sobrenome acompanhar meu nome, senti o estômago se revirando em mil voltas. Não sabia descrever aquela reação, mas vi como um incentivo para beber mais antes de ter que bancar a noiva radiante e apaixonada pelas próximas horas.
— Me dê mais. — sorriu, enchendo meu copo e o seu até o topo. Respirei fundo encarando-o nos olhos, seu olhar já havia mudado e ele parecia bem mais solto, cheguei a conclusão de que se ficasse mais solta talvez as horas ali pudessem passar mais rápido e o processo ser menos incômodo. — Pela .
— Pela . — O característico barulho vidro se chocando contra o outro num brinde rápido foi ouvido, logo virávamos a bebida novamente. E eu mais uma vez não consegui manter a pose ao ter meu interior queimando pelo teor de álcool que devia conter ali. riu de minha situação, puxando-me pela mão em seguida.
— Apareceram! — Os convidados comemoraram com uma salva de palmas completamente aleatória, via Fanny e Anna posicionadas próximas de nós e me senti menos perdida. Parecia que eu estava num daqueles sonhos sem pé nem cabeça, onde apareciam vários rostos desconhecidos. Na verdade, eu estava era tonta por conta dos shots do bar. — Com vocês, a dança dos noivos.
A banda começou a tocar uma música conhecidíssima por nós, Say you won't let go, lembrei-me imediatamente do dia em que fui arrastada para o show do James Arthur e quando cheguei lá descobri que sabia cantar quase todo o repertório do cara. Aquela música era da Grace, não importava quem tinha escrito, nem para quê mulher ela foi dedicada, minha melhor amiga sempre falou que era dela. A imagem dela bêbada no show, chorando sabe-se lá por quem enquanto balançava a garrafinha de cerveja pra cima, com todo mundo a nossa volta com os celulares com a lanternas acesas me veio à memória. Sorri contra o ombro de , que já nos guiava pela pista sem que eu me desse conta de que estava ali.
— Grace amava essa música. — Murmurei, ainda nostálgica, parecia que eu tinha sido teletransportada de volta àquele show, aquela sensação me aqueceu o coração de um jeito maravilhoso. — Just say you won't let go... (Apenas diga que você não vai embora...)
— Ah não, você não vai começar a cantar, vai? — Ri em implicância, fungando ao sentir as lágrimas descendo pelo meu rosto.
— Não seja chato, , eu sei que você sabe cantar. — Afastei-me minimamente para poder olhar em seu rosto, ele sorriu contido negando com a cabeça. — Não é possível que ela não tenha te obrigado a ouvir essa música umas trocentas vezes. — Um passo pra lá, outro pra cá, por incrível que poderia parecer eu não estava preocupada em errar o passo, sabia que se pisasse no pé de sairia no lucro. —When you looked over your shoulder... (Quando você olhou sobre seu ombro...)
— Você é péssima. — Gargalhei alto, recebendo um aceno negativo. — E está bêbada. — É, eu não tinha como negar, o álcool tinha me subido a cabeça, normalmente eu não cantaria na frente de ninguém, ainda mais na frente dele, que com certeza zombaria da minha desafinação por anos.
For a minute, I forget that I'm older... (Por um minuto, esqueci que sou mais velho...) — Dei de ombros, ignorando-o. — Vamos, , eu sei que você sabe a letra.
I wanna dance with you right now, oh (Eu quero dançar com você agora, oh). — Revirou os olhos deixando-me surpresa por sua voz ser tão bonita, não era novidade para mim que cantava, lembrava-me de sua banda de garagem) nos tempos da escola. O que eu não esperava era que sua voz tinha amadurecido tão bem após a puberdade.
As próximas estrofes foram cantadas por nós a plenos pulmões, nem ao menos me dei conta das pessoas à nossa volta provavelmente assistindo a aquela cena deplorável, apesar de tudo ainda dançávamos direitinho pela pista. Era uma trégua bem vinda, imaginei se por acaso eu não poderia me embebedar um pouquinho todos os dias, ficava até suportável quando eu não estava sóbria o bastante para lembrar da nossa trajetória de ódio mútuo.
I wanna live with you, even when we're ghosts. 'Cause you were always there for me when I needed you most. (Eu quero viver com você, até quando nós virarmos fantasmas. Porque você sempre esteve lá por mim quando eu mais precisei de você) — Encostei minha testa na lateral do rosto de , lembrando mais uma vez dela. Senti quando sua mão apertou levemente minha cintura.
Grace se foi e, se eu acreditasse em fantasmas, poderia facilmente imaginá-la num canto daquela festa rindo de nós dois. Ela seria o espírito mais bagunceiro que já vagou nesta Terra, com certeza iria sair bisbilhotando conversas e derrubando os vasos da casa dos pais para assustá-los e se vingar um pouco da ignorância deles. Em forma de fantasma ou não, eu tinha certeza que Grace estava olhando por nós e por , faria de tudo para fazer aquela bebê feliz e tentar suprir a falta de Grace, sentia que ela de alguma forma sabia daquilo quando partiu.
Oh, just say you won't let go. (Oh, apenas diga que você não vai embora.) — Me desencostei de secando minhas lágrimas, ele me encarou triste, ainda aéreo, provavelmente eu não fui a única que viajou nas lembranças com Grace, e ela tinham uma relação tão linda, eram quase que inseparáveis. — Esses foram os noivos, e , palmas para eles!
Fui puxada por Verônica para o segundo andar do salão para tirar a barra do vestido e ficar mais confortável. A tiara e o véu foram retirados também e meu cabelo foi solto, caindo cheio de ondas pelas costas, minha maquiagem foi retocada e ganhei uma flor como adereço na cabeça. Ainda que os saltos que usava não fossem lá muito confortáveis, achava que conseguiria aguentar até o final da festa com eles, eu não tinha muita escolha, não levei nada para trocar.
— Amiga, você é a noiva mais linda que já vi. — Fanny me abraçou assim que a encontrei próxima do bar.
, você que me desculpe, mas ninguém dessa festa está mais maravilhoso que o . — Suspirou Anne, eu e Tiffany reviramos os olhos sincronizadas.
Tiffany nunca demonstrou nada em relação a , a única coisa que a morena fazia era rir das minhas reclamações quando eu a enchia durante o trabalho. Às vezes sentia que ela queria comentar a opinião sincera sobre minha relação com , mas Fanny sempre deixou pra lá e se absteve. O mesmo nunca ocorreu com Anne e sua paixão platônica.
— Agora terá que tomar cuidado com o que fala, mocinha. é um homem casado. — Encarei Tiffany com as sobrancelhas arqueadas observando sua expressão debochada, a loira ao nosso lado apenas revirou os olhos e andou na frente em direção ao bar. Lancei um olhar censurador para Fanny, ela sabia o que eu achava das "doses de realidade" que ela sempre dava para Anne. — O que foi? Estou mentindo por acaso?
— Não está mentindo, porém você sabe que eu não me importo nem um pouco com os comentários de Anne, aliás, se pudesse trocar de lugar com ela faria sem pestanejar. — Fui puxada pelo pulso, forçada a parar no meio do caminho por uma Tiffany séria.
— Não seja mentirosa que sei que odeia quando ela começa a tagarelar sobre . — Acusou, fazendo-me respirar fundo. — Agora você é casada com ele, não pode deixa-la falar essas coisas.
— Sim, mas isso é porque eu não quero incentivar esse sentimento que ela nutre, amiga, infelizmente conheço há muitos anos, sei que ele jamais olharia para ela. — Espiei por cima de meu ombro, observando-a lendo o cardápio de bebidas. — O fato do ser insuportável ser meu marido é o de menos, eu jamais sentiria ciúmes justo do , eu hein! — Exclamei ofendida.
— Que seja, nós duas temos que fazê-la parar com essa paixonite, Anne é muito ingênua e eu tenho medo de ela quebrar a cara e se magoar nessa história toda.
— Paixonite? Quantos anos você tem? Sessenta? — Ri junto dela, que desferiu um tapa em meu braço. — Concordo com você, não tem coração, não quero ter que quebrar a cara dele por magoar a Anne.
Tiffany tirou sarro do meu muque enquanto íamos até a loira que já recebia sua bebida do barman muito bonito por sinal.
Anne, apesar de ser um ano mais velha que eu, era nossa boneca de porcelana, uma irmã mais nova que tentávamos aconselhar a fim de não secarmos suas lágrimas depois. Ela era inocente demais quando o assunto era homens, sempre achava que estava apaixonada e que estava olhando para o amor da vida dela, até desencanar e partir para outro, mas com esse "outro" passou a não existir mais. Era daí que vinha nossa preocupação.
No início, não nos preocupávamos com aquela questão, apenas a deixávamos falar e falar, porém comecei a perceber que talvez Anne realmente pensasse que tinha chances com e pior, que estava tomando coragem para tentar algo com ele.
Eu ainda tentava ser menos bruta com minhas palavras, porém Tiffany, a mais velha de nós três, era o extremo contrário e às vezes eu tinha que intervir entre as duas e apartar suas briguinhas e discussões mais sérias. Éramos como um trio de irmãs, com as mesmas questões que as de sangue tinham, porém só nos encontramos na fase adulta.
O DJ assumiu o comando da festa assim que a banda contratada foi embora, os casais que dançavam embalados pela voz rouca do cantor anterior já estavam separados, dançavam ao som de I gotta feeling do Black Eyed Peas, essas músicas que sempre tocam em casamentos. Não estava reclamando da playlist, na verdade, tinha mandado o DJ tocar o que ele quisesse quando na verdade, o certo seria o casal escolher o que queria que tocasse.
não fez nem questão de disfarçar que aquele casamento era uma farsa. Tanto que após a nossa dança, ele simplesmente sumiu. Não fiz questão de procurá-lo, se ele não estava se esforçando para manter as aparências não era eu quem iria fazer aquilo sozinha. Estava ocupada demais cumprindo minha meta naquela noite: Encher a minha cara. Daquela vez fui mais esperta e escolhi meus drinks a dedo, não era uma tarefa difícil ficar embriagada, todos aqueles drinks que passavam pelas mãos maravilhosas do barman eram deliciosas. Tiffany me puxou para dançar assim que comecei a querer investir naquele deus grego, era uma droga eu ser a noiva daquela festa.
Cheguei a um ponto que comecei a rir para o vento, estava viajando nas luzes de balada que giravam pelo local, Tiffany estava bêbada também, porém ela era dura na queda então ainda conseguia agir como um ser humano normal, já Anne logo parou de beber e foi para o suco, sendo assim a única sóbria de nós três. Logo o som de trompetes soaram pelo local fazendo-me ir a loucura juntamente de Fanny. O DJ realmente gostava do The Black Eyed Peas.
— Essa é a minha música! — Exclamei levantando os braços para o alto.
Não era a minha música, eu nem ao menos a ouvia no meu dia a dia.
— Essa é a melhor festa de todas! — Saltitei ainda sobre o salto que usava e começava a machucar meus pés.
Aquela não era a melhor festa de todas, era o meu casamento de mentira com o homem que eu mais odiava no mundo.
Abaixei-me quase me desequilibrando e arranquei os sapatos de meus pés, que a aquela altura já estavam anestesiados pelo álcool que circulava pelo meu sangue.
My Humps tocava tão alto que mesmo que eu não estivesse tão alterada, já estaria incomodada com o barulho. Logo comecei a rebolar, sentindo-me a própria Fergie no clipe da música. Não sabia porque, mas os olhares das pessoas que dançavam próximas a mim foram todos direcionados a minha pessoa. Tiffany dançava ao meu lado incentivando-me, os convidados me incentivaram também, estava me sentindo a melhor dançarina de todas. Quando desci até o chão comemoraram como se fosse a coisa mais incrível que já viram alguém fazer. Ainda mexendo os quadris, procurei Anne entre as pessoas, e quando a encontrei, vi sua mão envolta do antebraço de , que olhava a cena de longe com os olhos arregalados.
Logo eles vinham em minha direção, meu querido marido pegou-me pelo braço e me puxou até uma das mesas em que alguns convidados comiam e conversavam num ponto mais tranquilo do salão.
— Porque não me deixa dançar? Eu estava me divertindo. — Cruzei os braços emburrada quando fui sentada em uma das cadeiras, passei as mãos em minhas bochechas, levando meu rímel junto da base que derreteu após minhas danças na pista. — Quem são aquelas pessoas? Eu adorei eles! — me ignorava, sinalizando para algum garçom e pedindo água.
— São meus sócios e funcionários e você está me envergonhando na frente deles. — Fiz um bico enorme enquanto Fanny encolheu os ombros ao meu lado. Anne negava com a cabeça em desaprovação.
— Mas eu queria dançar! Não fiz nada de errado. — Tiffany concordou com a cabeça, levando um belisco da loira que, de pé ao lado de , fazia cara de brava. Parecia um universo paralelo onde ela era a mais madura de nós.
De repente Fanny começou a fazer a característica cara de quem iria colocar tudo para fora. Anne a pegou pelo braço correndo com a mesma até o banheiro. Para minha surpresa, quem trouxe a garrafa de água não era um simples garçom, mas sim uma mulher loira, alta e muito bonita.
— Aqui está, acho que pode ajudar a deixá-la sóbria. — Encarei com o cenho franzido, fazendo-o passar a mão pelos cabelos nervoso.
esta é Jordyn, minha secretária. Jordyn esta é...
, sua noiva, eu sei , estive presente na cerimônia. — Riu mostrando a fileira de dentes brancos e lindos. — Eu adorei o seu vestido, você tem muito bom gosto. — Assenti de má vontade, ainda fuzilando com o olhar.
Levantei a sobrancelha ainda em silêncio. "Dormiu com ela também?"
Seu sorrisinho de canto se fez presente e ele assentiu discretamente.
"Estranho, pensei ter ouvido Amélia dizer que não poderíamos ficar com pessoas do nosso círculo social." Mexi a cabeça enquanto tinha a testa franzida, olhando para a cara de sínica da mulher a nossa frente, que não estava entendendo nada da nossa comunicação silenciosa.
— Jordyn é nova lá na empresa, começou semana passada, não é? — Sorri forçadamente vendo-a assentir em concordância. Como se aquilo amenizasse as coisas, Jordyn e seus lindos olhos verdes já devia estar enxergando um par de chifres na minha cabeça e com certeza rindo internamente.
— Queria agradecer pelo convite, eu não esperava ser convidada para um evento tão importante da vida de vocês. — Só foi convidada para fazer volume nas fotos, já que nem eu nem tínhamos como convidar nossas famílias e correr o risco de sermos descobertos.
— Que isso, a company é minha segunda família, e vocês estão mais ligados do que pensam. — sorriu enquanto abria a garrafa de água e me estendia. Peguei com um pouco de força, despejando um pouco em meu colo. — Como é desastrada essa minha esposa. — Riu sem humor alcançando o guardanapo e me secando enquanto eu bebia a maldita água.
— Posso ajudar? — A loira pegou alguns guardanapos e se aproximou receosa, passando-o com cuidado na parte interior de meus olhos. — Sua maquiagem borrou um pouco. — Deixei que ela me ajeitasse, eu devia estar péssima mesmo. Prendi meus cabelos num coque e tentei ficar calma e sóbria por uns minutos.
, você está aí. — Logo um deus grego se aproximou da mesa, assim que me viu, fixou seu olhar em mim, fazendo-me sorrir tímida. — Ah, e você é a adorável , porque nunca apresentou sua noiva aos seus amigos, ? Era medo de ela perceber que pegou a mais feio do grupo? — Gargalhei junto dele, atraindo um olhar feio de . — Prazer, sou Chace, o melhor amigo do idiota aqui — Abraçou de lado, o movimento de seu tórax revelou uma fenda em sua camisa branca, deixando a mostra seu peitoral.
não era feio nem de longe, porém Chace era um pedaço de mal caminho, me abanei ao reparar em seu corpo malhado. devia aprender com o amigo e passar um tempo na academia, aqueles braços... Suspirei ainda o analisando.
— Eu e decidimos nos casar em cima da hora, não é querida? — Seu corpo se posicionou atrás de minha cadeira e o senti me abraçar pelos ombros. Assenti sorrindo amarelo, vendo Fanny e Anne passarem ao fundo indo em direção a pista de dança.
Hey ya do OutKast começou a tocar fazendo-me ficar inquieta na cadeira, eu pareci uma criança quando olhei para cima pedindo em silêncio para que me deixasse ir dançar com minhas amigas.
— Pode ir. Mas não vai mais beber, hein! — Assenti levantando-me tímida, era estranho falar aquilo, mas eu jamais tinha estado na presença de pessoas tão bonitas como Jordyn e Chace, até mesmo estava naquele nível de beleza e sofisticação. Me perguntei se eu algum dia me encaixaria naquele mundo.
— Qual é ? Vá dançar com sua esposa, Jordyn já está integrada na empresa, tenho certeza que ela não precisa de babá, não é mesmo? — A mulher sorriu amarelo assentindo enquanto , contrariado, pegava a minha mão enquanto íamos de encontro com as pessoas dançando.
O cara da filmagem nos rodeava com a luz da câmera, provavelmente esperando captar imagens do casal apaixonado se divertindo juntos na própria festa de casamento. Mas o que ele encontrou foi duas pessoas separadas, eu dançava com as meninas enquanto brincava de girar uma mulher idosa que parecia ser importante e séria demais na empresa, já que todos olhavam impressionados a coragem de de puxá-la para dançar. Apesar de tudo, ela parecia gostar e estar se divertindo. Mais uma cega que caia no papo de .
Hot N' Cold começou a tocar e sem querer esbarrei nas costas de , o cutuquei assim que vi que ele nem ao menos se desculpou comigo. Ele se virou em minha direção com a testa franzida e de repente achei engraçado começar a dublar a música para ele. Eu amava aquela música, era a melhor Era da Katy Perry, sabia de cor e amava o clipe dela. riu da minha cara quando o chamei de bitch (vadia) na primeira estrofe da música. Quando o refrão chegou tudo havia virado uma bagunça, nós dois e todos cantávamos alto apenas provando meu ponto de que aquela música era a melhor da Katy e todo mundo adorava.
Someone call the doctor, got a case of a love bipolar. Stuck on a roller coaster can't get off this ridee! (Alguém chame um médico, temos um caso de amor bipolar. Estou presa em uma montanha russa e não consigo desceer!) — Cantava aos berros enquanto ainda imitava a guitarra com as mãos. — You change your mind like a girl changes clothes... (Você muda de ideia como uma garota troca de roupa...) — Dublei Katy, chegando mais perto do rosto de tentando intimidá-lo.
Os convidados foram a loucura e começaram a nos incentivar a nos beijar. O encarei em pânico me arrependendo de ter feito toda aquela interação. Havíamos passado todas aquelas horas sem precisarmos ser um casal e acabamos nos colocando naquela situação desnecessária.
deu de ombros e me puxou pela cintura, beijando minha boca com avidez. A música ia para seu último refrão e não pude terminar de cantá-la já que tinha os lábios grudados nos dele. Ainda bem que estava sob o efeito de álcool, talvez nem me lembrasse daquilo no dia seguinte, também parecia meio alterado, então com sorte nenhum climão ficaria pendente quando amanhecesse.
Bohemian Rhapsody foi a próxima a tocar e parecia que o DJ estava acertando nos gostos dos noivos, digo, meu e de . Dançamos e cantamos muito nas próximas horas que se passaram, apesar dos pesares, e eram muitos pesares, eu me diverti muito, tanto que cheguei a ficar sonolenta no final da festa. Fui até o bar e matei minha sede com mais bebida, após exigir meu direito de noiva de beber o quanto eu quisesse. tinha proibido o barman bonitão de me dar mais álcool. Não funcionou.
Joguei o buquê e para minha total falta de surpresa, Anne pegou e ficou completamente sem graça quando Verônica anunciou que ela estava solteira e que seria a próxima a casar. Seus olhos claros brilharam ao encarar , que nem ao menos se prestou ao papel de estar presente naquele momento. Estava no bar, bebendo rodeado dos amigos gatos que tinha. Tiffany ficou de olho em todos e até jogou seu charme para alguns deles.
Aquela era a minha garota! Jogou a rede e o peixe que viesse ela estaria no lucro.
Não me lembrava muito do que aconteceu no momento de cortar o bolo, porém lembrava de ser suja de glacê e ficar muito brava por um instante, até esquecer e voltar a rir a toa. Minha última lembrança do meu casamento era de entrar na Limousine junto de , enquanto os convidados faziam festa para nós. O carro adornado pelas famosas latinhas e a frase "Enfim casados" seguiu caminho para a minha casa. Eu adorava falar minha casa. havia ganhado um espacinho no céu somente por ter colocado aquela casa em meu nome e ter me feito tão feliz uma vez na vida, pelo menos.
Despertei na manhã seguinte apreciando o quão macio era o colchão da minha cama, meu quarto ainda estava vazio, apenas com os móveis, eu não tive tempo de deixar a casa com a minha cara e nem sei se deixaria que eu fizesse algo. Encarei o teto com uma careta enorme de dor, minha cabeça parecia que iria explodir e estava apenas aguardando a contagem regressiva, meu corpo inteiro doía como se eu tivesse sido atropelada por três caminhões. Corri até o banheiro quando senti que iria vomitar, após colocar quase meus órgãos para fora, escovei os dentes e lavei meu rosto.
Estranhei o fato de estar sem nenhum resquício de maquiagem e também a camisola que vestia. não teria tirado minha maquiagem, o que descartava completamente minha teoria de que teria ousado me despir. Desci as escadas ainda confusa demais, segui o barulho de panelas na cozinha e me deparei com a cabeleira loira de Anne vindo do balcão.
— Olhe só quem acordou, bom dia bela adormecida. — Continuou abaixada fazendo que estava fazendo antes de eu aparecer. Fechei os olhos com força ao ouvir mais uma panela.
— Bom dia. — Até mesmo para falar doía, minha garganta implorava por um pouco de água. — Aí, minha cabeça. — Choraminguei. — Não sabia que tinha dormido comigo, eu não te chutei, não é?
— Bom dia. — A voz rouca de denunciava que ele estava na mesma situação que eu. Porém, estava vestido como se fosse ir para o trabalho. Estranhei, achei que teríamos direito a no mínimo dois dias em casa.
Anne então se levantou de onde estava num pulo, revelando a camisa de botões que usava. A segui com o olhar sem entender o que diabos ela estava fazendo na minha cozinha só vestindo uma calcinha e a camisa de... . Apoiei-me no balcão ao vê-la ir sorridente até ele e lhe beijar a boca.
Ok, eu ainda devia estar muito bêbada.

Capítulo 9

— Bom dia, . — O sorriso bobo nos lábios dela me fez morder o lábio em agonia. Se ela soubesse a roubada em que estava se metendo não estaria feliz daquele jeito. — Eu ia fazer um café, mas agora que está de pé, vou deixar para ela fazer. Tenho que me vestir, vou trabalhar.
— Está atrasada, inclusive. — Anne bateu a mão na própria testa, indo rapidamente em direção a escada. O Sr. Williams iria matá-la, e ela sabia bem daquilo.
foi despreocupadamente até a pia, encheu um copo com água e destacou um comprimido da cartela que tinha trazido consigo. Quase lhe pedi um, porém após o incidente com a bebida me lembrei que talvez não devesse confiar em para mais nada, quem dirá para um remédio.
— Achei que minhas amigas não podiam frequentar a nossa casa. — Cruzei os braços, encarando-o. revirou os olhos em tédio. — Mas pelo visto a sua cama está liberada. — Debochei, agradecendo aos céus por saber que Fanny jamais iria parar lá.
, eu estava implicando com você, é o que eu faço, te encho a paciência. — Ponderei concordando silenciosamente, ainda bem que ele sabia. — Não me diga que está com ciúmes. — Seu sorrisinho me deu nojo.
— Nossa, você é tão engraçado. — Murmurei brava. Ridículo, em que mundo eu teria ciúme daquele imbecil? — Eu só estou preocupada com minha amiga.
— Relaxa, , eu não mordo, Anne está inteira, não arranquei nenhum pedaço dela. — Sua cara maliciosa me deu ânsia de novo. Não conseguia e nem queria imaginar a cena daqueles dois juntos, alias, eu não conseguia imaginar ninguém beijando e gostando da experiência. Qualquer pessoa que o fizesse era digna de ser internada por insanidade. — Pare de querer bancar a mãe da menina, ela já está bem grandinha. E ontem ela me provou que sabe muito bem o que faz, porque nunca me disse que ela era a fim de mim?
Revirei os olhos tão forte que quase pensei que eles não retornariam pro lugar. Aquela prepotência de me dava nos nervos. O jeito que ele se gabava me fazia querer socá-lo. Nunca tinha entendido o motivo da sua boa fama com mulheres, tudo bem, ele era bonito, mas não era possível que era tão bom no que fazia ao ponto de deixar todas bobas como a Anne estava.
Me preocupei quando me dei conta de que estava admitindo para mim mesma pela terceira vez que era bonito. Não era como se eu já não tivesse reparado, mas aquela repetição fazia-me estranhar meus próprios pensamentos. Céus, será que aquilo era consequência de nossa convivência contínua? Será que poderia piorar ao ponto de eu começar a achar qualidades naquele ser nefasto?
, eu estou falando sério, — Me aproximei, já com o dedo hasteado em sua direção, enquanto ele me encarava como se eu fosse louca. Passos nos degraus foram ouvidos e eu tratei de baixar meu tom de voz. — termine o que quer que tenha com ela. — Sussurrei, já vendo Anne se aproximar sorridente.
Ela estava nas nuvens e era tão perceptível que chegava a me assustar.
— O que foi? — Minha amiga encarou-me com a testa franzida. Tentei suavizar minha expressão porém tinha certeza que estava vermelha. — Estão brigando por que dessa vez?
riu baixo, atraindo meu olhar ameaçador. Se eu tivesse algo próximo de mim jogaria nele, nem que fosse um prato sequer.
— Nada, você sabe como a é, sempre querendo se intrometer na vida dos outros. — a abraçou de lado, sorrindo em minha direção. Anne, por sua vez, riu de sua provocação, aconchegando-se a ele.
— Não se preocupe, . Fanny mandou mensagem, o Sr. Williams entrará mais tarde, foi se encontrar com um fornecedor. — Assenti, ainda tendo o desprazer de presenciar aquela cena. — , você pode me dar uma carona? Não quero abusar da Tiffany, ela abriu a lanchonete sozinha.
— Claro, assim a gente aproveita e conversa mais. — Seus olhos verdes se pousaram em mim. O rosto de Anne ficou com uns cinquenta tons de vermelho diferentes enquanto ela pegava sua bolsa e colocava no ombro. — Vamos? — Pegou sua mão, beijando o dorso dela.
Ele estava me provocando. Não era segredo para ninguém o quão protetora eu era com as pessoas que eu amava, defendia com unhas e dentes e até quebrava a cara de vez em quando por ser daquele jeito. Se achava que iria usar Annelise para me atingir, ele estava redondamente errado. Ele achava que Anne apenas sentia atração por ele, porém estava mais do que claro que ela nutria sentimentos. E aquela brincadeira iria fazê-la sofrer. Anne não tinha culpa da situação em que estávamos, se quisesse me atingir que o fizesse comigo, ele estava brincando com o fogo.
— Aproveite sua folga e descanse. — Veio até mim, beijando-me a bochecha e abraçando-me. — Depois te conto tudinho... — Sussurrou em meu ouvido, cutucando mais uma vez meu estômago, que estava fraco perto daqueles dois.
— Ah... Anne, você se importa de ir deitada no banco detrás? — A loira franziu o cenho, alternando o olhar entre nós dois. — Você sabe, não vai pegar bem se algum vizinho ver saindo com outra mulher... — Meu tom sugestivo infelizmente não surtiu efeito com ela.
Tentei jogar a indireta, porém somente pareceu ler as entrelinhas, já que Anne pareceu ofendida com a insinuação de que talvez pensassem que ela era uma amante de . O que, adivinhe só, ela era! Não que eu esperasse fidelidade de , longe de mim sequer me iludir em dormir tranquila sabendo que não teria fama de corna sendo casada com , na verdade eu me adiantei e casei com o discurso de mulher traída já decorado para usá-lo quando fosse pego com outra. Só que Anne não era apenas outra mulher, ela era uma das minhas melhores amigas, devia ter tido o mínimo de consideração de não se envolver com ela.
Se é que ele sabia o significado daquela palavra.
— Eu poderia ser uma amiga? — Riu, desacreditada. — Seus vizinhos vão se acostumar comigo por aqui, eu e Tiffany vamos te visitar, não tem porque eu me esconder como se tivesse fazendo algo de errado. — Mordi meu lábio para não abrir minha boca. Ela estava fazendo algo de errado, tinha dormido com , e o fato de ela não enxergar aquilo me dava nos nervos.
— Amiga, não me leve a mal, mas as pessoas vão falar. E além do mais, e eu temos um acordo, não é? — Encarei tentando ter alguma ajuda. Ele limpou a garganta atraindo a atenção de Anne.
— Eu acho melhor fazer o que sugeriu. — Assenti sendo analisada por aquele par de olhos azuis. Anne concordou com meio contrariada. Me senti ofendida por ter minha amiga dando razão a e não a mim.
— Tudo bem... Mas depois você vai me contar que acordo é esse. — Estreitou os olhos fazendo franzir a testa atrás dela. Arquei as sobrancelhas sinalizando que era daquilo que eu estava falando quando disse que era para ele terminar o que tinha com ela.
Anne disse que os vizinhos iriam acostumar a vê-la em casa e já estava querendo se meter em nosso acordo para saber do que se tratava, eu a conhecia bem o bastante para adivinhar seu próximo passo: Anne logo iria querer se incluir naquela história, e não a levaria a sério como a mesma estava fantasiando. Ele quebraria o coração dela e eu não podia simplesmente ficar olhando sem fazer nada para impedir.
Os dois saíram porta a fora, deixando-me só naquela casa enorme e cheia de coisas para desempacotar. Minhas roupas ainda estavam nas caixas de mudança e aquela era literalmente minha primeira manhã na casa nova. Apesar de estar atolada de coisas para fazer, não podia negar que estava muito animada com minha nova moradia. Era tudo tão lindo que parecia até um set de filme. Tomei um café da manhã reforçado e tratei de colocar a comida de Salem, que estava sumido desde ontem.
Não tinha certeza se o gato gorducho ficaria dentro de casa, no kitnet ele mal mudava de cômodo de tão sedentário que era, mas também não era como se ele tivesse muito espaço para explorar. Agora que a situação era diferente, tinha medo de ele sair e não voltar mais. Iria esperar que ele desse as caras quando sentisse fome e torcer para que logo se acostumasse com a nova casa e ficasse lá dentro, longe de qualquer perigo.
Era superprotetora até com meu gato, me perguntei se iria ser com e ri da minha própria estupidez, era claro que seria! Não conseguia prever que tipo de pai seria, porém ao julgar pela sua irresponsabilidade de sempre, já sabia que a bebê iria preferir passar a tarde com ele, que a deixaria fazer o que bem quisesse do que comigo, que iria tentar protegê-la até do vento.
Fiquei por horas enfurnada no quarto de , que tinha paredes rosa claro e a decoração era bem menos exagerada que a do apartamento de , esperava que Grace não nos odiasse por poupar a filha dela de dormir sob os olhares de tantos bichos de pelúcia. Minha rinite chegava a atacar só de me lembrar. Organizei o guarda roupas dela encantada com as peças, assustada ao constatar que havia macacões da Gucci e simplesmente inebriada pelo cheirinho de bebê que elas tinham. Salem apareceu do além e se deitou num canto deixando-me mais tranquila ao vê-lo novamente são e salvo.
Depois passei para meu quarto, que aos poucos já ganhou meu toque com meus pertences. Salem me acompanhou com muito custo, ele tinha gostado do quarto de , me vi preocupada com aquilo, será que ele iria gostar dela? Não que ele fosse ciumento, muito pelo contrário, estava para nascer um gato mais desapegado que ele, nem parecia que eu tinha um comigo em casa, mas fiquei com medo de ele ficar em cima da bebê. Iria observar seu comportamento quando finalmente chegasse em casa.
Recebi uma mensagem do curso que Amélia conseguiu nos encaixar, começaria naquela mesma semana, e eu teríamos que arranjar um tempo para irmos, pelo que entendi a duração era curta então não nos traria muita dor de cabeça, eu esperava que o Sr. Williams entendesse e não pegasse no meu pé. Durante minha arrumação o interfone tocou, corri escada a baixo para atender o homem que levaria os presentes que ficaram no local onde foi realizada a festa.
O deixei entrar tentando acalmar meu coração que se apertou um pouquinho dentro do peito, ainda estava traumatizada pelo ocorrido com Miguel. O entregador, apesar de parecer um armário, foi muito gentil e respeitoso. Quando foi embora o acompanhei até o portão onde avistei a vizinha da casa da frente encarando-me sorrindo...de forma exagerada demais. Ainda estranhando acenei de volta, preparando-me para voltar para dentro, porém parei quando a vi atravessando a rua vindo em minha direção.
— Finalmente conheci minha vizinha nova! — Ri sem graça junto dela. — Vi seu marido hoje cedo mas estava curiosa mesmo para conhecer você. — Meu Deus, há quanto tempo será ela estava lá fora? Eu hein. — Sou Cyntia, e você?
. — Apertei sua mão estendida. — Prazer em conhecê-la. — Sorri amarelo. A mulher de cabelos enrolados ainda me analisava, deixando-me desconfortável. Me perguntei se não estava sendo mal educada em não convidá-la para entrar, porque eu já havia me apresentado, o que mais ela queria ali? — Hum... você quer entrar?
O tipo de pergunta que se espera um não como resposta.
— Eu adoraria! — Arquei as sobrancelhas antes de guiá-la quintal adentro. — Essa casa é lindíssima, fizeram bem em escolhê-la. — Agradeci enquanto ela tagarelava durante nosso percurso até a sala de estar.
— Você quer alguma coisa para beber? — Outra pergunta retórica, afinal quase não tinha nada na geladeira ainda.
— Ah, não, muito obrigada querida. — Murmurou olhando em volta, Salem se aproximou, fazendo-a se afastar dele no sofá. — Vocês são tão novos para serem casados, estão juntos há muito tempo? — O gato foi até ela mais uma vez.
— O casamento foi ontem, e eu nos conhecemos desde crianças, mas decidimos nos casar as pressas. — Sentei-me ao lado dela, pegando o gato preto e branco e colocando-o no chão.
— Que lindo, um amor de infância. — Levou as mãos ao peito, arrancando-me um pequeno riso, ódio de infância, isso sim. — Vocês fazem um casal lindo. Aproveite essa fase, viu? Me lembro dos meus primeiros anos de casada, esperem um pouco para encomendar um pacotinho para a cegonha, se curtam primeiro.
Abaixei a cabeça reprimindo outro riso. A última coisa que nós queríamos era nos curtir, eu mesma faria de tudo para não encontrar com no nosso dia a dia em casa, fiquei feliz pela quantidade de cômodos que tínhamos justamente para evitar que eu olhasse em sua cara.
— Na verdade, nossa encomenda já está a caminho. — Não consegui conter meu sorriso genuíno.
— Está grávida! O meu Deus, que felicidade! Meus parabéns! — Ainda confusa, sorri em agradecimento. Não era para esperar antes de ter filhos? — Eu bem que suspeitei que era gravidez, você parece tão novinha para ter se casado, ainda mais às pressas! Querendo esconder a barriguinha, não é? — Arregalei os olhos.
— Não... será adotada. — Expliquei vendo sua expressão mudar para uma indecifrável, eu só consegui interpretar que não era mais a de felicidade de antes. — Na verdade, ela é sobrinha de , a irmã dele faleceu no parto, eu seria a madrinha dela, mas agora serei mãe. — Me peguei contando tudo para uma recém conhecida, que inicialmente eu não queria nem convidar para entrar.
Céus, eu estava parecendo minha mãe contando minha vida para desconhecidos!
— Ah, que pena... Digo, por sua cunhada. — Demorei um pouco para associar Grace como minha cunhada, era tão estranho. — Mas espero que vocês possam ter um outro filho, sabe, de vocês.
será nossa. — Lhe respondi séria, vendo-a se remexer no sofá desconfortável. Quem devia estar era eu, jamais iria para cama com , só de pensar me dava calafrios, nunca teríamos um filho juntos, aquilo estava fora de cogitação, por Deus!
Fora que era ridículo pensar que apenas o sangue poderia fazer alguém ser filha de alguém, o amor que sentíamos por aquela criança era inexplicável. Cyntia duvidar daquilo só confirmava que pouquíssimas pessoas entendiam o que era amor verdadeiro e que ele nascia de diversas formas, não somente da convencional.
— Me desculpe, não quis ofender. — Respirei fundo assentindo ainda calada. — Na verdade, já que sua filha está a caminho, que tal organizarmos um chá de bebê para ela? Seria ótimo, assim você se enturma com a vizinhança. Nós aqui somos bem unidos, principalmente nós mulheres, você e podem contar conosco sempre que precisarem.
— Eu agradeço muito a gentileza. — Não achava que seria uma boa ideia nos envolvermos com nossos vizinhos, quanto menos pessoas nos visse em público, menos nós teríamos que trocar carícias e fingir que éramos um casal. — Mas já tem todo o enxoval completo, já havíamos feito um chá quando Grace estava grávida.
— Mas eu insisto em fazer algo para te apresentar ao pessoal. Que tal um chá de lingerie? Pelo menos só entre as mulheres. — Lingerie de graça? Até que não seria má ideia, eu estava precisando mesmo...
— Não precisa, sério, e eu também não vou ter tempo para recebê-las aqui com comida e bebidas, me desculpe, mas agradeço muito a boa intenção.
— Que isso! Eu posso trazer a comida, além do mais poderia ser hoje mesmo, Megan tem um sex shop online, ela vai adorar fornecer os presentes para as convidadas. — Megan? A gostosona da terceira casa a esquerda? Pensando bem seria bom tê-la por perto, provocar lhe deixando ver o que ele não poderia ter por conta das regras iria ser divertido. — Além do mais, sei como é esse inicio de casamento, imagino que não precisem, mas uma apimentada na relação é sempre bem vinda. — Minhas bochechas queimaram e eu tive certeza que estava vermelha. — Vou ligar para as meninas, você vai adorar conhecê-las.
Não tive tempo de negar, e também ela não parecia disposta a aceitar minha negação, Cyntia já ia em direção a porta.
— Não precisa me acompanhar, só esteja pronta às seis.
As horas que se passaram após aquela visita inesperada foram agoniantes, almocei e apesar de ainda ser cedo, já estava com um frio na barriga de nervoso. Eu nunca pensei que algum dia teria um chá de lingerie para mim, aliás, nem passou pela minha cabeça me colocar numa situação daquelas durante aquele casamento mentiroso. Eu não teria preocupações como aquelas ao lado de . Dormiria sozinha e sabe-se lá quando teria a oportunidade de transar com alguém com toda a burocracia que o nosso acordo tinha. Sabia que não era difícil arranjar um homem para sexo, mas eu também não iria dormir com qualquer um.
Arrumei a sala torcendo para que elas não saíssem daquele cômodo, a cozinha estava de ponta cabeças por conta dos presentes que chegaram e eu não tive tempo de abrir. Tomei um banho e tentei parecer casual, mas ao mesmo tempo não casual. Num condomínio tão caro como aqueles, o meu conceito de casual poderia me fazer parecer uma moradora de rua aos olhos daquelas mulheres.
Quando a campainha tocou, respirei fundo já indo atendê-las. Para a minha felicidade, apenas cinco mulheres compareceram, imaginei que seria por conta de ser uma segunda feira e nem todas pudessem ir, agradeci silenciosamente enquanto as observei se sentarem nos sofás já com os presentes em mãos.
Cyntia realmente tinha levado comida, impedi que ela fosse até a cozinha, a primeira impressão que tive dela me fez tomar aquela atitude, não queria que ela espalhasse para o condomínio inteiro que eu não arrumava minha casa.
Jogamos um pouco de conversa fora, elas até que eram agradáveis apesar de reclamarem até demais de suas babás e empregadas, me dando dicas sobre como deveria ser as que eu contrataria e até mesmo sobre como eu deveria criar . Todas elas foram descartadas, diga-se de passagem.
Victoria era a mais velha e a mais simpática, tinha dois filhos, gêmeos idênticos, ela me olhou como se eu fosse louca quando a questionei sobre como ela fazia para diferenciar os próprios filhos. Tinha cabelos curtos ondulados e a pele bronzeada, era casada e parecia ser bem ciumenta em relação ao marido, que era até bonito pela foto que me mostrou no celular. Alyssa também já era mãe, apesar de não falar muito sobre seu filho, que tinha seis anos de idade, ela também não falou muito sobre o marido mas deu a entender que ele tinha muitos bens. Sophia era a mais calma da gangue, às vezes as outras se animavam em alguns assuntos e ela simplesmente ficava calada observando, assim como eu fiquei. Não era mãe, deixou bem claro que não queria ser, também era casada há pouco tempo, porém não era tão jovem como eu. Megan incorporou a vendedora e me fez segui-la no Instagram, onde tinha milhares de fotos dela mesma de lingerie para venda.
Victoria me recomendou deixar o perfil bem longe do meu marido e levou uma almofada no rosto, eu ri fingindo que me importava com o bastante para seguir aquele conselho. Cyntia logo tomou as rédeas da "festa" e começou me dando o primeiro presente. Não falou sobre si, mas o engraçado era que ela parecia saber da vida de todas ali presentes.
Abri o embrulho curiosa com a caixa pequena. Tinha uma imagem de um patinho de borracha, ainda confusa, li o nome do produto sem entender o que diacho era aquilo.
— Não deixe brincar com isso. — Cyntia riu maliciosa arrancando risos das demais.
— É um sugador, você vai adorar se seu marido for que nem o meu e não curtir fazer um oral. Tem várias funções e velocidades, esse vai ser seu melhor amigo. — Alyssa explicou, provavelmente percebendo minha cara de interrogação.
— Eu já te disse que seu marido é o único que tem essas frescuras, Ally. — Megan alfinetou, fazendo-a revirar os olhos. — Seu marido não tem cara de quem nega fogo, . — A encarei sem acreditar no que estava ouvindo.
Nunca tive amigas casadas, não achava normal aquela mania que elas tinham de ficar falando sobre seus maridos e suas vidas sexuais entre si. Quando temos namorados evitamos ao máximo ficar comentando aquele tipo de coisa com tanta gente, ainda mais quando é sobre o namorado da colega.
— Não, ele não é. — Sorri forçadamente em sua direção, fazendo Sophia puxar o próprio embrulho e estendê-lo em minha direção, desviando o assunto do desempenho sexual de .
— Minha vez! Espero que goste. — Dois conjuntos de calcinha e sutiã lindíssimos, um preto e um vermelho, as calcinhas eram tão minúsculas que só de olhar eu já me sentia incomodada. Fanny iria adorá-las, já eram dela. Até porque eu não tinha nem com quem usar aquilo. — Tem mais aí dentro. — Enfiei a mão dentro do embrulho pegando um par de algemas que me fizeram engolir a seco.
Céus, onde eu havia amarrado meu jegue.
— Esse aqui eu escolhi a dedo, — Estremeci de medo ao ver a expressão maliciosa de Alyssa. — Divirtam-se. — Era outra caixa. Respirei fundo antes de abri-la. Tirei de dentro uma calcinha acompanhada de um pequeno controle remoto. — Meu marido adora quando uso em público e ele controla.
— Obrigada. — Agradeci, sentia-me uma criança no meio delas. Já nem ligava se estava ficando vermelha ou não, estava quase me enfiando no vão do sofá. Já conhecia o mundo da masturbação, porém nunca tinha tido contato com todas aquelas bugigangas.
— Claro que não poderia faltar o bom e velho vibrador. — Victoria sorriu maldosa já revelando o presente que tinha em mãos. Não era muito difícil identificar o formato fálico embrulhado. Me perguntei se alguém tinha visto ela entrando na minha casa com aquilo em mãos.
Estranhei as orelhinhas de coelho que enfeitavam o... brinquedo rosa pink, o que as pessoas veem de interessante em colocar orelhinhas e até formatos de animais em brinquedos sexuais?
— Agora o meu! Sei que sua noite de núpcias já aconteceu, — Realmente, para tinha acontecido sim. — mas vocês terão várias ocasiões para usar. — Peguei o tecido leve nas mãos boquiaberta com a beleza daquela peça.
Uma camisola preta sem bojo com um decote lindíssimo envolvido em uma renda delicada que descia até a parte debaixo do busto, seu restante era totalmente transparente e curto, dentro do saco de presentes tinha uma calcinha fio dental preta que acompanhava.
— Ah, tem uns óleos corporais aí também, acho que vai gostar bastante. Se quiser mais tem na minha loja. — As outras riram do marketing que Megan não nos poupou de ouvir. Ainda encarava aquela peça sem saber o que fazer com ela, era maravilhosa, mas eu não usaria ela. Era para ser usada em uma ocasião especial, e eu não tinha ninguém para usá-la.
— Você bem que podia experimentar pra gente ver, né? — Victoria sugeriu, fazendo-me negar com a cabeça no mesmo instante.
— Sim! Vai, , só para ter certeza que vai servir, qualquer coisa eu já troco. — Megan empurrou-me em direção as escadas.
Subi já me xingando de uns trezentos nomes diferentes por ser tão manipulável, quando terminei de vestir a camisola olhei-me no espelho já sentindo minhas bochechas esquentarem. Eu havia acabado de conhecer aquelas mulheres, acho que não tinha intimidade o bastante para aparecer daquele jeito na frente delas. O pior era que elas agiam com uma naturalidade que me fazia sentir estúpida por estar com vergonha. Virei-me encarando meu bumbum bem meia boca ao lado do de Megan que quase batia na nuca dela. Suspirei derrotada, indo até as escadas já sem coragem.
— Olha, ela está descendo. — Ouvi Megan e fechei os olhos com força antes de aparecer no campo de visão delas. — Está maravilhosa! — As outras concordaram com ela, fazendo-me tirar as mãos do rosto e ver suas expressões satisfeitas ao me verem vestida daquela forma, se é que dava para dizer que eu estava vestida.
— Nossa, acho que vou comprar um desse pra mim também. — Alyssa murmurou analisando-me. — Dê uma voltinha, . — Neguei com a cabeça morta de vergonha. — Ora, não seja tímida, estamos só nós aqui, boba!
Respirei fundo, cedendo. Dei uma, duas, três voltas pela sala, rindo das palmas e dos assobios que elas davam e riam. De repente ouvi um barulho de chaves caindo no chão, quando parei já tonta me deparei com parado na porta, paralisado, encarando-me com a testa franzida.
— Boa... tarde. — limpou a garganta enquanto tinha todos aqueles olhares femininos sobre si. Tinha o terno em um dos braços enquanto já afrouxava a gravata e tinha as mangas da camisa rosa claro arregaçadas até os cotovelos, revelando suas tatuagens.
— Olhe só quem chegou! — Cyntia sorriu para as amigas, que entenderam o recado e começaram a pegar seus pertences para ir embora.
— Ah, vocês j-já vão? — Minha voz quase falhou, queria me esconder detrás do sofá só que eu não podia, afinal meu marido já havia me visto nua milhares de vezes, não é mesmo?
Talvez eu devesse ter contado a mentira de que tinha me casado virgem, quem sabe aquilo não explicaria minha vergonha por estar praticamente nua na frente de , que irritantemente focou seu olhar em mim no momento em que abri a boca.
— Já, sim! Vamos te deixar a sós, deu uma pane no sistema do seu marido... — Alyssa riu divertida.
— Parece até que nunca viu. — Sophia gargalhou, fazendo-me descobrir o motivo de ela ser tão quieta, não é que ela era observadora mesmo? Um segundo perto de nós dois e já tinha descoberto toda a nossa farsa!

Capítulo 10

's point of view.


Após passar o dia todo trancado naquele escritório finalmente pude colocar os pés na rua e ir para casa. Ainda era totalmente estranho não pegar meu carro e fazer o mesmo caminho de antes, não ver Grace no meu apartamento, andando pra lá e pra cá com aquela barriga enorme e desafiando todas as recomendações médicas de repouso. Ela estava tão animada com aquela gravidez, que nem mesmo eu, que explodi de raiva quando soube que minha irmã mais nova estava grávida de um desconhecido, resisti a sua felicidade e me juntei a ela na espera daquela criança.
Nada seria mais doloroso do que vê-la desabar quando meu pai disse tantas palavras pesadas a ela, que sempre foi sua menininha. Suspeitava que jamais iria perdoar ele e minha mãe por tudo o que fizeram minha irmã passar após seu único erro na vida. Grace sempre foi o centro das atenções da minha casa, recebia todos os elogios e tinha tudo o que queria nas mãos. Nunca liguei para aquilo, afinal com todos os olhares de admiração voltados a ela, não sobrava muito tempo na agenda concorrida de nossos pais para me vigiar e cobrar de mim o mesmo que ela.
Sabia que por ser homem, aquela maneira diferente de nos tratar era normal para a sociedade, eu nunca tive ninguém no meu pé por conta das namoradas que arranjei no colegial, por exemplo, já minha irmã não foi autorizada a ter um namorado até que completasse dezessete anos. Aquela regra foi descumprida algumas vezes por ela, claro, eu a acobertei algumas vezes, apesar de ser ciumento, não achava justo que a privassem de se divertir de vez em quando, e tendo sua confiança eu poderia estar por perto e monitorar tudo.
Claro que com o passar do tempo ela foi me substituindo por , respirei fundo no volante só de ter tal pensamento, eu não a suportava e aquilo não era novidade para ninguém. Era recíproco, o que me dava ainda mais prazer de odiá-la, saber que eu a tirava do sério tanto quanto ela me deixava louco de raiva as vezes era reconfortante e eu usava aquela carta na manga sempre que necessário. O modo como ela tinha caído de paraquedas em minha casa e destruído minha relação com minha irmã aos poucos me deixa possesso até hoje. Antes de chegar com sua mãe, Grace confiava em mim de olhos fechados, fato que foi mudando conforme íamos crescendo. Grace e ficavam cada vez mais grudadas e minha irmã foi se distanciando de mim com a justificativa de que eu não a entendia tanto como por ser homem.
foi a grande culpada por Grace ter engravidado, ela que a levou para festas com pessoas estranhas e mal intencionadas, longe dos meus olhos minha irmã acabou se deixando levar e deu no que deu. Lembrava-me de todas as discussões que tive com minha irmã ao passar dos anos e nunca me arrependi de ter deixado sempre claro que não gostava e jamais iria gostar de .
Era engraçado como a vida pregava peças em nós, o jeito como tudo aconteceu, perder Grace no momento mais feliz da vida dela, ganhar de presente e ter que mudar minha vida, meus planos e anseios apenas para fazer o que é melhor para uma criança que eu mal cheguei a ter nos braços direito. Se me contassem que eu estaria ali, estacionando meu carro num quintal da casa que eu dividiria com , e que eu estaria casado com ela e disposto a ter uma filha que nem minha era, eu provavelmente riria como se tivesse escutado a piada mais hilária da face da Terra.
Mas olhar para e, de certa forma, ver Grace ali, fazia-me querer abrir mão de tudo, fazer qualquer sacrifício só para tê-la comigo. Apesar de meu pequeno surto no dia em que perdi Grace, de chegar a cogitar a ideia de abrir mão da menina, eu sentia que a amava mais que tudo nesse mundo. Era louco pensar em sentir algo assim por alguém, nunca fui do tipo romântico e sentimental, mas arrisco dizer que , mesmo sendo tão pequenina, tinha aquele poder sobre mim, era capaz de me deixar completamente bobo. Feito que só a própria Grace tinha conseguido até então.
Estranhei o barulho que vinha do lado de dentro da casa e girei a maçaneta, encontrando uma cena...
Eu não sabia nem como classificar aquela cena.
Havia cinco mulheres na minha sala de estar, todas completamente loucas, assobiando e batendo palmas como se estivessem no clube das mulheres. Já próxima do sofá estava ... Quando reparei nela me vi sem ar, porque tinha me esquecido de puxá-lo para dentro do meu corpo de volta. Não tive noção de quanto tempo meus olhos se demoraram nela, nem ao menos o que aconteceu com meu corpo na hora, minhas chaves que segurava normalmente de repente escaparam de minha mão e nem tinha me dado conta de ter deixado cair. Após olhar para aquele corpo tempo demais, subi meus olhos para seu rosto vermelho, dando-me conta do que estava fazendo e finalmente voltando ao meu estado normal.
Ou não, limpei a garganta na tentativa de voltar a respirar normalmente e fingir que nada tinha acontecido. Mas, para o meu completo desespero eu não tinha conseguido enganar ninguém, nem mesmo a mim. Encarei qualquer ponto daquela sala que não fosse com aquela camisola transparente que chegou a me dar palpitação. Eu estava em completo choque por estar reagindo daquela forma a ela, a mulher que eu mais odiava no mundo.
Sempre ouvi comentários sobre nos corredores do colégio em que estudamos no ensino médio, até mesmo ali, onde não tinha ninguém de sua classe social, ela tinha se metido. No vestiário do time sempre tinha algum idiota elogiando sua beleza, enquanto eu me perguntava o que tanto viam na loira. Não nego que tentei por muitos anos durante a adolescência ignorar o fato de que ela era sim muito linda, porém até mesmo aquilo me irritava nela. sempre foi metida a sabichona, era inteligente, tinha conseguido uma bolsa de 50%, que foi completada por meus pais até que ela se formasse. Sempre foi intocável, nenhum dos meus amigos do time tiveram uma chance sequer com ela e a insistência deles com alguém tão insuportável já havia sido motivo de discussões entre nós. Chegou ao ponto de inventarem que eu tinha ciúmes por não incentivar que nenhum amigo meu tentasse algo com ela.
Eu queria era poupá-los. não valia a pena. Era irritante, mesquinha, levava minha irmã para o mal caminho e ainda tinha a cara de pau de bater de frente comigo todas as vezes em que eu, certo do que dizia, implicava com o fato de que ela era pobre. Eu nunca menti, sempre estava no meio de nós, em festas de família, nas festas do colégio, era quase que parte de nós, porém nunca conseguia se encaixar quando o assunto era estilo de vida. E o fato de ela querer tanto entrar no meu mundo me irritava profundamente. Aquele não era o lugar dela.
Outra lição dada pela vida. Estávamos no mesmo patamar daquela vez.
Olhar para vestida daquela forma "pra mim" me fez me arrepender um pouquinho de não ter tentado nada com ela quando éramos adolescentes. Já que tínhamos mesmo aquela fama irritante de que éramos apaixonados um pelo outro pelo fato de nos odiarmos tanto, porque nunca chutamos o balde e tentamos nos pegar? Lembro-me de quando me formei na escola, a festa após a formatura. Foi a primeira vez que me recordo de tê-la visto de biquíni na piscina e ter dado o braço a torcer, admitindo pra mim mesmo de que ela era até que gostosinha.
Anos depois, vendo aquele par de pernas e coxas, aquela calcinha minúscula que me fazia ter vontade de ir até ela e virá-la de costas só para ter a visão de sua bunda descoberta... os seios debaixo daquele tecido fino que os desenhava com perfeição e marcando seus mamilos... Eu me vi com a vontade crescente de pegá-la e rasgar aquela camisola inteira só para ter o prazer de vê-la inteiramente nua.
O baque da porta se fechando atrás de mim me fez balançar levemente a cabeça e finalmente voltar para o planeta Terra, onde eu não podia pensar em ver nua pelo simples fato de ela me odiar e daquele sentimento ser completamente mútuo. Onde eu estava com a cabeça de pensar em algo aquele tipo? Qual é, era ! Não importava o quão gostosa fosse, ela continuava sendo insuportável.
E intocável.
— Eu não acredito que isso acabou de acontecer. — Ouvi sua voz vindo de trás de mim e virei o pescoço, vendo-a com as mãos no rosto visivelmente envergonhada. — Para de olhar! — Esbravejou fazendo-me olhar para frente de imediato.
Aquela situação não podia ficar mais bizarra. Olhei a bagunça que tinha na mesa de centro e encarei um objeto cor de rosa com orelhinhas de coelho... Aquilo era um pinto de borracha? Fui até lá pegando-o na mão e esbarrando um dos dedos num botão, de repente aquele troço começou a vibrar, fazendo-me jogá-lo longe.
, que porra é essa? — A encarei incrédulo, enquanto a mesma vinha em minha direção, empurrando-me para o lado. A loira passou a recolher a bagunça e eu não consegui desviar meus olhos de seu decote quando a mesma se abaixou para pegar o vibrador do chão.
— São presentes. — Franzi o cenho, apanhando a caixa que tinha uma foto do que parecia ser um patinho de borracha amarelo.
— Pra ? — A caixa foi praticamente arrancada da minha mão.
— Não, , são produtos eróticos, não está vendo? — Avistei uma algema em suas mãos e prendi o riso. — As vizinhas queriam fazer um chá de bebê para , mas ela já tem todas as coisas, então elas sugeriram fazer um chá de lingerie.
Apanhei uma calcinha vermelha, minúscula, não pude deixar de encará-la, tendo pensamentos assustadores demais por serem relacionados com , que ainda estava diante de mim com aquela maldita camisola agindo como se nada estivesse acontecendo.
— Estou vendo. — Mais uma vez esbravejou, puxando a calcinha de mim. — É por isso que está vestindo... isso? — Cocei minha nuca, impressionantemente sem jeito ao ter que admitir que reparei no que ela usava.
Nem sabia dizer se era certo falar que usava alguma coisa, aquela camisola era tão reveladora...
levou a mão ao rosto e o esfregou com força, voltando a ficar vermelha feito um pimentão, quando pegou a última caixa que havia ficado em cima da mesa, preparou-se para subir escada a cima.
— Porque, aparentemente, eu tenho que aprender a dizer não.
— Devia ter aprendido antes do casamento. — Murmurei assim que ela me deu as costas, dando-me minha tão aguardada visão de seu traseiro. Era pequeno, mas era tão...
Tocável, palpável... Suspirei em silêncio.
— O que disse ? — Virou-se, fazendo-me abaixar a cabeça rapidamente.
— Nada. — Continuei encarando o chão até que não pude ouvir seus passos no chão da sala. Levantei meu olhar acompanhando seu corpo subir as escadas, senti meu sangue ferver ao ver aquela bunda pela última vez, a súbita vontade de ter minhas mãos ali, apertando-a me fez ofegar e me dar conta de que estava pensando merda novamente. — Preciso de um banho frio. — Disse para mim mesmo, como se fosse a solução para os meus problemas.
Bom, não era. Eu continuava casado com , continuava achando-a gostosa e a odiava na mesma intensidade de sempre. Suspirei vendo um pequeno frasco caído no chão, assim que me abaixei para pegá-lo li seu rótulo vendo que se tratava de um óleo corporal, que além de massageador era "beijável"? Franzi o cenho e aproximei o frasco de minhas narinas inalando o cheiro gostoso de morango. Curioso, li o rótulo que assegurava que o produto era capaz de aquecer a pele durante a massagem e era aplicável nas zonas erógenas, além de ser comestível.
Larguei o frasco onde tinha achado e fui direto para meu quarto, me despindo enquanto tentava a todo custo acalmar meu membro que pareceu gostar da ideia de ter o corpo de sendo saboreado dos pés a cabeça por meus lábios.
Fiquei escondido no escritório enviando relatórios tempo o suficiente para colocar minha cabeça no lugar e parar de desejar minha arqui-inimiga. O que me consolava era saber que a situação anterior não iria voltar a se repetir novamente, já que e eu iríamos ficar bem longe um do outro, vestidos e sem menção alguma de nos pegarmos quando estivéssemos a sós. Aquilo ajudaria minha sanidade a ficar em seu devido lugar e não criar caso onde não tinha. Éramos apenas duas pessoas vivendo sob o mesmo teto. Ponto final.
Ouvi vozes vindas da cozinha e fui até lá dando de cara com e... Como era mesmo o nome dela? A amiga de trabalho dela, e de Anne também. Por falar na loira, consegui imaginar o que ela estaria fazendo ali.
— Por falar no idiota... — A morena encarou-me assim que entrei na cozinha. Também não ia com a cara dela, era igualzinha a , farinha do mesmo saco.
— Boa noite para você também... — Forcei-me para lembrar.
— Tiffany. — Ofendida, Tiffany revirou os olhos.
— Por Deus, , será possível que você não tem noção do que faz?
— O que eu fiz? Você me pediu para dar um fora nela, eu dei! — Rebati, já estressado. Aquele assunto já estava começando a me dar nos nervos, eu estava escutando tagarelar sobre Anne desde cedo!
— Não precisava terminar com ela por mensagem! — esbravejou, acertando-me com o guardanapo. Esquivei-me já ficando alterado.
— Eu não tinha nada com Anne! Não seja dramática, nós só transamos, não é como se eu tivesse pedido-a em namoro.
— Nessa parte eu vou ter que concordar com ele. — encarou a amiga ultrajada. — Você sabe como Anne é, vive num conto de fadas, ela se iludiu sozinha. — Remexeu no prato, fazendo-me dar conta de que ela tinha ido a minha casa para fofocar sobre mim e comer da minha comida ao mesmo tempo.
— Por isso mesmo que ele deveria ter tomado cuidado na hora de dispensá-la. — Argumentou a loira, fazendo-me revirar os olhos.
— Já te disse para parar de achar que Anne é uma criança indefesa, ela praticamente se jogou em cima de mim! Eu sequer pedi para que ela viesse para casa conosco, ela se ofereceu!
me encarou boquiaberta com a informação.
— Eu não acredito que ela se aproveitou da minha embriaguez para vir dar em cima de você!
— Está vendo só! Suas amigas são todas iguais a você, não é a toa que Grace engravidou de um desconhecido quando estava com você. — Só tive tempo de me abaixar detrás da bancada quando a vi pegar o prato de cima de pia e ameaçar jogar em mim.
— Se você insinuar isso mais uma vez, eu juro que te mato!
— Ok, vocês dois não deviam ficar sozinhos nessa casa, vão acabar se matando. — Só voltei a ficar de pé quando vi Tiffany com o prato em mãos.
— Sua irmã ficou com Miguel porque quis, não obriguei ninguém! Pare de colocá-la num pedestal como se ela fosse santa, Grace era uma mulher normal que fazia o que queria fazer quando queria fazer, assim como eu, como Anne e Tiffany. Pare de jogar a responsabilidade no colo dos outros, assim como ele a engravidou, você mesmo poderia muito bem engravidar alguém.
Neguei com a cabeça vendo-a vermelha de raiva. Eu sempre tomei muito cuidado quando dormia com alguém, não queria ser pai tão cedo, na verdade nunca sequer tinha pensado naquela possibilidade até Grace aparecer grávida e prestes a virar mãe solteira. Pelo visto meu cuidado todo não adiantou nada.
— Vocês estão se ouvido? — Encarei a morena, assim como estava ofegante por conta daquela discussão calorosa. — Acusando um ao outro como se Grace tivesse cometido um crime! Como essa menina vai crescer se ouvir vocês falando como se ela fosse um erro terrível? — Ofeguei lhes dando as costas, passando as mãos em meus cabelos tentando me acalmar.
— Está certa. — A voz trêmula de soou em meio ao silêncio. — Meu Deus, não pode crescer achando que não foi desejada, já não bastam os avós e o pai!
— Ele não é o pai dela. — Murmurei encarando-as. Respirei fundo assentindo com a cabeça.— Está bem, vamos fazer o seguinte, mais uma de nossas regras: Não iremos mais tocar nesse assunto. Já foi, não há nada que possamos fazer mais.
Engoli meu orgulho e estava me comprometendo a não jogar mais aquele fato na cara de . Apesar de eu ainda ter certeza que estava certo. Tiffany também estava, jamais iria me perdoar se fizesse sofrer de algum jeito.
— Certo. Não tocarei mais no assunto dos seus pais também. — A loira assentiu, encarando-me com seus olhos cheios de lágrimas.
— Ótimo, agora vamos selar esse trato com um abraço, vamos lá! — Ri em negação, vendo estapear a amiga.
— Está na hora de ir embora, não? — Arqueei minha sobrancelha em direção a morena.
! — esbravejou enquanto eu e Tiffany nos encarávamos rindo. — Não a mande embora desse jeito.
— Relaxa , eu já sabia que era insuportável assim, você mesma me contou. — Ela riu, levando o próprio prato para a pia. — Mas já vou indo mesmo, esta tarde.
As duas se despediram e eu vi pelo canto do olho entregar as lingeries que tinha ganhado mais cedo para a amiga. Ótimo, minha sanidade agradecia.
— Tchau, ! Tenha uma péssima noite! — Acenei para ela, rindo de sua provocação. Tinha ganhado mais uma oponente.
Observei retornar para a cozinha e mantive meu olhar em suas costas enquanto a loira ajeitava as louças na pia. Seus cabelos estavam presos deixando a mostra sua nuca, mordi meu lábio inferior descendo meus olhos por toda a extensão de suas costas e parando em seu bumbum. Quando percebi que a estava secando descaradamente, logo tratei de voltar minhas atenções a minha comida.
— Então quer dizer que você anda falando de mim para suas amigas. — Ri baixinho, já vendo-a virar o pescoço em minha direção. Suas sobrancelhas se juntaram por um segundo, logo já sorria irônica em minha direção.
— Mal. Eu falo mal de você para as minhas amigas. Não haja como se você também não fizesse isso, .
— Na verdade não. — Seus olhos azuis se estreitaram em desconfiança. — Meus amigos nem ao menos sabem da sua existência.
Lembrei-me de ter virado assunto na empresa quando apareci por lá, primeiro porque devia estar em casa "curtindo minha esposa" e também por nunca ter sequer citado seu nome por lá e, de repente, aparecer com convites de casamento até para o porteiro. Imaginei o que iriam dizer quando soubessem de . Até mesmo Jordyn tinha me tratado diferente naquela tarde, manteve distância, algo que me incomodou um pouco, não estava acostumado a receber reações como aquelas das mulheres com quem cruzava. Todas as que vi hoje quando repararam na minha aliança olharam-me diferente.
— Chace sabe da minha existência. — Sorriu maliciosa, fazendo-me encarar seu rosto com uma expressão de deboche. — Sabe, eu estava pensando, já que você dormiu com Anne, eu poderia dormir com seu amigo também, só para ficarmos quites. — Apoiou-se no balcão, como quem não queria nada.
— Eu sabia que você tinha ficado com ciúmes, mas não ao ponto de querer quebrar nosso acordo só pra se vingar. — Aproximei meu rosto do seu, fazendo-a bufar de raiva, afastando-se.
— Vá se foder, .
— Boa noite para você também, . — A loira sumiu corredor adentro.


(...)


Acordei no meio da noite morto de sede, encarei o relógio ao lado da minha cama e suspirei vendo que marcava duas horas. Não iria para a empresa amanhã, porém iria ter um dia cheio de compromissos com Amélia e , me dei conta de que nem tinha avisado sobre nossa ida ao fórum. Iríamos dar entrada no pedido de guarda de .
Levantei-me e deixei meu quarto, iria até a cozinha beber água, passei pelo quarto de e reparei a porta entreaberta, ignorei aquilo e continuei meu caminho em direção às escadas.
Quando retornei, já próximo da porta do meu quarto, ouvi um barulho baixo, uma vibração rápida, parei no meio do corredor ao ouvir um gemido baixinho. Pressionei um lábio no outro forçando me a continuar meu caminho e voltar pra meu quarto. Mas não adiantou o esforço, quando vi já estava diante da fresta da porta observando-a deitada a meia luz.
— Merda, — praguejou num sussurro. brigava até com objetos. — como esse troço funciona? — tirou de debaixo da coberta o tal patinho amarelo fazendo-me prender o riso com muito custo. Aquilo iria ser engraçado.
Quando retornou com as mãos para debaixo da coberta, vi suas pernas se abrirem e olhei atento para seu rosto, observando a mudança de sua expressão, que foi de confusa para relaxada em questão de segundos. O barulho vibratório voltou a preencher o silêncio e reparei em seus lábios entreabertos, logo a loira começou a respirar mais pesado, mover seu corpo devagar pelo colchão.
Mordi meu lábio inferior, encostando-me no batente da porta, sentindo-me estúpido por estar ali, parado olhando-a se masturbar. Parecia-me com um adolescente virgem, vendo-a suspirar de prazer e sentindo a excitação tomar conta de meu corpo.
Suspirei ao ouvi-la balbuciar o quão gostoso era o que estava sentindo, a madeira em que eu estava encostado fez um pequeno estalo por conta do meu peso depositado ali.
se assustou, encarando o local onde eu estava. Já me encontrava agachado, apoiando-me no chão frio, observei-a suavizar sua expressão e voltar a deitar seu tronco na cama. Suas pernas estavam cada vez mais abertas, a coberta escapou de cima de uma delas, deixando sua pele a mostra e revelando sua virilha desnuda.
O cheiro daquele maldito óleo me veio à memória, fechei meus olhos imaginando-me diante de seu corpo, massageando, beijando-a inteira e pronto para abocanhar sua intimidade.
Logo não conseguiu mais segurar e passou a gemer, apenas abria a boca sem emitir som, mas eu tratava de preencher o silêncio usando minha imaginação ao vê-la tão sôfrega, querendo expressar seu prazer e não podendo. Ah, como eu queria poder entrar naquele quarto e fazer-lá gritar a noite toda.
Respirei fundo sentindo meu membro doer em puro desejo. se debatia na cama, mordia o lábio com força, apertava o lençol amassando-o inteiro enquanto tinha a outra mão entre as pernas, segurando o brinquedinho. Queria estar ali, jogar aquela porcaria longe e mostrar o que poderíamos fazer juntos.
O modo como ela rebolava o quadril deixava-me hipnotizado, quase joguei tudo para o ar e me juntei a ela quando a vi descer a alça da blusa, revelando seu seio pequeno. se tocou ali, apertando o próprio seio enquanto tremia seu corpo todo num orgasmo delicioso. Pelo menos era o que sua expressão denunciava.
A loira revirou os olhos enquanto arqueava as costas, gozando de forma intensa, sorrindo safada ao parar de ter os espasmos que movimentaram sua cama. Não pude deixar de sorrir ao reparar no modo como ela soluçava, eu jamais tinha visto aquilo acontecer. Será que soluçava sempre que gozava? Bom, eu nunca iria saber.
Arrastei-me para fora do campo de visão dela e encostei-me na parede fria, ali, duro, respirei fundo antes de me levantar e tratar de sair dali, torcendo para que tudo não passasse de um sonho.
Sonho ou não, estava mexendo com minha cabeça, e aquilo parecia-se mais com um pesadelo.


Continua...



Nota da autora: O que acharam do POV do pp? É interessante a gente ver o ponto de vista dele e o porque ele a odeia tanto (não tem porque na verdade, é só ranço mesmo kkk)
Aliás! Ela já estreou um dos presentes...qual vocês acham que vai ser o próximo? hahaha Se cuidem!



Outras Fanfics:
* It's a Match!
* The Enemy

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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