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Última atualização: 09/08/2022

Prólogo

A mão que me segurava era forte e minha vida toda dependia de que ela não soltasse a minha. Mas, a cada segundo, ia ficando mais sem forças e a sentia escorregar. Fechei meus olhos, segurando firme não apenas na mão que me segurava, mas também na esperança de que conseguiria sair dali com vida.
Só que isso não aconteceu. Escorregou, era muita água.
Não gritei, não fiz barulho algum. Sentia as gotas de água me molhando enquanto meu corpo ia para baixo. Talvez fossem lágrimas, eu estava triste, não queria que acabasse assim. Eu era tão jovem.
Uma queda livre. Um ato de segundos que demorou uma eternidade.
Abri meus olhos, assistindo o céu que antes estava fechado e chuvoso se tornar estrelado diante dos meus olhos. Milagrosamente, como se estivesse se abrindo para me receber.
Meu último suspiro. Estava feliz vendo o céu.
Um último suspiro antes do meu corpo se chocar nas pedras e eu sentir a morte vir me abraçar.
Era o meu fim.


Capítulo 1

“Às vezes, ir embora é a única coisa que irá te fazer encontrar a coisa certa” – Taylor Swift, It's Time to Go.

— Espere… — Ouvi a voz da minha melhor amiga, Trina, ecoando no quarto. — Pode abrir os olhos agora.
Afastei minhas mãos dos meus olhos e os abri. A primeira coisa que vi em minha frente foi o bolo cor-de-rosa, com certeza de frutas vermelhas (o meu favorito). Em cima dele, velas com o número 18, cor-de-rosa e cheias de glitter.
Sorri para minha melhor amiga.
— É bolo de sorvete, o nosso favorito. — Ela sorriu. — Você gostou?
Assenti com a cabeça, ainda tentando formular alguma frase para agradecê-la por essa surpresa maravilhosa.
— Eu amei! — Sorri. — Trina, você é a melhor amiga de todas!
Ela sorriu, dando os ombros.
— Eu sei.
Fazer dezoito anos é uma grande coisa, eu acho. Todo mundo sempre diz que é quando a vida realmente começa. Trina fez questão de estar comigo nessa fase, desde o primeiro minuto, como eu estive quando ela fez dezoito.
Por isso, decidi que passaria as primeiras horas do meu aniversário com minha melhor amiga e, de noite, eu passaria com meu pai. Porque seria estranho não passar meu aniversário de dezoito anos com ele.
Mas, para ser sincera, eu preferia passar com Trina, a minha melhor amiga da vida inteira, só nós duas e um bolo, do que uma festança enorme em algum bar que papai provavelmente me arrastaria para mostrar para toda cidade que sua garotinha estava crescendo.
— Vamos, , faça um pedido! — Trina sorriu, se colocando ao meu lado. — Posso ficar com uma vela? — perguntou, mesmo já sabendo da resposta.
Nós tínhamos esse pequeno ritual: em nossos aniversários, nós dividíamos as velas e cada uma podia fazer um desejo, porque assim eles se realizariam juntos ou não realizaria nenhum.
— Claro, boba — falei, sorrindo.
Fechei meus olhos e juntei minhas mãos. Soprei a vela com o número 1, fazendo o pedido que eu guardaria para mim, assim ninguém descobriria e ele se realizaria.
— Eu desejo um marido alto, forte, lindo e gentil — Trina suspirou. — Droga, eu falei em voz alta… ele não vai se realizar. — Ela murchou.
Eu ri.
— Não diga isso, Trina, com certeza ele vai se realizar. É só não contar pra mais ninguém.
Minha amiga sorriu.
— Você é tão incrível… vou sentir sua falta quando se mudar pra outra cidade e entrar naquele internato de freiras — bufou. — Por que você tinha que ser a inteligente entre nós duas?
— Nós nem sabemos se eu consegui a vaga — rebati. — E, mesmo que eu consiga, nós vamos continuar amigas. Eu posso vir te visitar nos finais de semana e nada vai mudar.
— Promete? — Levantou o mindinho.
— Prometo. — Entrelacei meu mindinho no dela.
Trina sorriu e se levantou, murmurando um “já volto” e saindo do quarto. Franzi o cenho, intrigada em saber o que minha amiga estava planejando. Encarei meu bolo e sorri para mim mesma, era legal ficar mais velha.
Suspirei com a demora de Trina. Encarei o bolo com medo que ele derretesse antes que comêssemos.
Minha amiga voltou, escondendo algo atrás de suas costas e eu apertei os olhos, tentando enxergar o que era, mas ela estava o escondendo bem.
— Eu tenho um presente pra você! — Sorriu.
— Mais um, Trina? Você sabe que não precisava. Já fez tudo isso aqui, é o suficiente!
Ela negou com a cabeça e se sentou. Tirou de trás das costas uma garrafa de vidro, delicada e cheia de líquido cor-de-rosa. Era vinho.
— Agora que você finalmente completou dezoito, nós podemos finalmente beber juntas como prometemos, lembra?
Sorri.
Quando eu e Trina éramos pequenas, nós víamos as pessoas bebendo vinhos chiques em filmes e então combinamos que, quando ambas tivéssemos dezoito, íamos comprar o mais chique que víssemos e beberíamos pela primeira vez juntas.
Eu tentei fazer Trina beber quando ela chegou na idade primeiro, mas ela se negou, disse que só beberia quando eu também pudesse. Então, finalmente o dia chegou.
— Trina, isso aqui deve ter custado uma fortuna. — Segurei a garrafa na mão, com o maior cuidado, com medo que quebrasse com meu toque de tão delicada que era. — Você podia ter me dito, eu teria ajudado a pagar!
Ela balançou a cabeça, balançando seus cachos loiros.
— Não se preocupe, foi um presente do meu pai. — Ela deu os ombros. — Você sabe como ele é viciado por vinhos… então, acho que ele deve ficar feliz pela minha curiosidade também, talvez queira fazer o vício em vinhos algo de família.
Eu ri. Era verdade, o pai de Trina era louco por vinhos, sabia diferenciar todos os tipos. Estava até num clube de vinho e eu nem sabia que isso existia.
Trina pegou a garrafa da minha mão e abriu, como se até já soubesse como fazer isso. Então, ela serviu em duas taças, uma para mim e uma para ela. Enquanto fazia isso, eu cortei dois pedaços de bolo e servi para nós duas.
Levantamos nossas taças.
— Um brinde pelos dezoito que vieram e pelos próximos que ainda estão por vir! — ela começou. — Mesmo que estejamos longe, quando você estiver em Silent Grace estudando num internato cheio de gente rica e menos inteligente que você, nós nunca iremos nos separar e seremos amigas para sempre!
— Para sempre! — repeti e brindamos nossas taças.
Tomei o primeiro gole de bebida alcoólica na minha vida e senti queimar minha garganta. Mas logo meu paladar se acostumou com o gosto, era até bom. Eu com certeza podia me acostumar a beber vinhos caros.
E, pela expressão de minha amiga, ela também.
— Acho que posso ser uma dessas pessoas que os traços de personalidade são vícios por vinhos e café — ela suspirou. E eu ri.
Voltamos nossas atenções para o vinho e para o bolo, que acabou se tornando uma mistura gostosa, enquanto conversávamos sobre as coisas que eu teria que fazer em Silent Grace e como ela teria que me visitar todos os finais de semana para matarmos a saudade.
Como se eu realmente fosse embora…
Meu celular vibrou no bolso da minha calça e eu o peguei para ver o que era. Achei que seria uma mensagem de papai querendo saber que horas eu voltaria para casa. Mas não era, era um e-mail.
— Um e-mail? — pensei em voz alta. Trina me encarou, confusa.
— De quem é? — perguntou.
Quando li o remetente, meu coração parou por um instante e todo o ar no quarto sumiu. Meu coração batia forte e eu não tinha pulmões para respirar.
— É do Saint Fiore…
Os olhos de Trina se arregalaram, logo depois sendo tomados por um brilho e um sorriso contente no rosto.
— É a resposta da bolsa! Abre, abre agora! — Ela começou a me balançar de um lado pro outro. Ela parou por um instante. — E-mail? Eles são tão modernos, !
Saint Fiore é um internato importantíssimo, o maior de toda a Itália e provavelmente o melhor de toda Europa. Fica em Silent Grace, uma cidade no Sul do país. Praticamente uma cidade só de magnatas ricos e suas famílias influentes, por isso não se estranhava que o maior colégio do país estava na cidade mais podre de rica.
Só que o Saint Fiore era impossível de se pagar, custaria mais que duas vidas minhas só para pagar uma mensalidade, sem contar o uniforme, materiais e todo o resto para sobreviver em outro país. Por isso, eu me candidatei para a bolsa, que servia apenas para quem não tinha condições alguma de pagar.
Quando me inscrevi para a prova, os pais de Trina me levaram até Marselha para fazer a avaliação. Eu não sei o que se passou pela minha cabeça quando me inscrevi, sabia que, mesmo que conseguisse a bolsa, eu não teria como me virar em outro país sem ninguém.
Mas eu fiz mesmo assim. Dei o meu melhor, tudo que estudei durante anos, porque era a única coisa que eu podia fazer. Estudar para ter um melhor futuro, estudar para ter tudo que eu não conseguia ter.
Muitas pessoas não entendiam o porquê decidir entrar em um internato no meu último ano do colegial, mas eu sabia que era a coisa certa. Me formando no Saint Fiore, eu teria uma absurda quantidade de oportunidades de universidades e, só pelo fato de conseguir uma bolsa em um processo seletivo muito difícil, isso com certeza faria meu nome.
Então, eu estava animada com isso, mesmo ficando apenas um ano no internato.
Sabia que tinha chances de conseguir. Nunca duvidei da minha inteligência ou da minha capacidade. Sabia que seria uma ótima aluna e faria por merecer a bolsa.
Mas até finalmente receber a resposta, eu não tinha notado o quão nervosa eu estava. Eu queria muito essa vaga, queria muito realizar esse sonho de estudar no melhor da Europa, era uma chance única na vida de ter oportunidades melhores e eu não queria deixá-la passar.
Então eu abri o e-mail.
Myoui… prestou para bolsa… aprovada…. bolsa integral.
Eu consegui? Eu realmente consegui?
— Eu vou estudar na Saint Fiore — disse, ainda sem reação. Trina deu um gritinho e correu até mim, me abraçando forte, quase me derrubando no chão.
— Sabia, eu sabia! — Ela sorria. — Silent Grace será pequena demais para você, !
Eu não conseguia parar de sorrir. Esse era o melhor presente de aniversário de todos.

***

Tentei entrar em casa fazendo o mínimo barulho possível. Já passava das três da manhã e papai com certeza já estava dormindo.
Não queria ter perdido tanto a noção da hora assim, mas a alegria de ter consigo a bolsa no Saint Fiore me deixou tão animada que eu e Trina acabamos bebendo toda a garrafa de vinho e depois assaltamos a adega do pai dela para pegar mais. Quando percebemos, já tínhamos bebidos três garrafas e eram quase quatro da manhã.
Não seria legal papai me ver bêbada logo no meu primeiro dia com dezoito anos. Seria irresponsável demais. Dezoito anos fazendo tudo certinho para explodir tudo de uma vez só não seria legal.
Fechei a porta de casa e tirei meus sapatos, para não fazer barulho enquanto subisse para meu quarto. Mas, antes mesmo de dar meu primeiro passo, a luz do abajur da sala se acendeu, revelando meu pai sentado em sua poltrona, acordado e provavelmente me esperando.
— Deus! — Me assustei. — Pai, você quase me matou do coração! — Coloquei a mão no peito, sentindo meu coração bater forte.
— Entrando de fininho em casa, Myoui? — Sua voz rouca e pesada poderia assustar, mas meu pai era tudo menos amedrontador. — Minha garotinha está crescendo mesmo, Deus…
Eu ri, mas, pela sua expressão, ele estava bem sério, então engoli a risada e tentei manter minha seriedade.
— Desculpa, papai, eu estava com Trina. Acabamos perdendo a noção da hora e enfim… eu sinto muito.
Papai suspirou e se levantou, vindo até mim. Assim que estava perto, me abraçou. Um daqueles abraços de urso paternos. O abracei de volta.
— Feliz aniversário, minha princesa. Eu te amo muito. — Beijou o topo da minha cabeça e pude notar o tom de emoção em sua voz.
— Eu também te amo papai. Muito, muito.
Ele então me soltou e sorriu.
— Tenho um presente para você.
Fiz careta.
— Papai, você sabe que não precisa me dar presente algum, né? Eu não ligo para isso — resmunguei. Por que todo mundo quer ficar gastando dinheiro comigo?
— Não resmungue, — ralhou. — Eu sou seu pai e você minha princesinha, o mínimo que tenho que fazer é te mimar pelo resto da sua vida. Aceite.
Bufei e me sentei no sofá. Papai me acompanhou e se sentou ao meu lado. Ele colocou a mão no bolso da sua jaqueta e tirou de lá uma caixinha. Então me entregou.
-- Não é grande coisa... não é nem metade do que você merece e que eu não pude dar. — Ele passou a mão pelo rosto. — Eu queria ter te dado muito, muito mais, minha princesa. Mas eu sei que você vai conseguir tudo por conta própria, afinal, você é especial. Minha pequena gênia.
— Pai… — tentei cortá-lo.
Nunca me importei com dinheiro. Nunca fomos ricos, mas também nunca passamos por nenhuma dificuldade. Papai trabalhava de padeiro e era bom nisso. Mesmo não tendo seu próprio negócio, ele sempre trabalhou, nunca deixou de trazer comida para a mesa e nunca deixou faltar nada.
E para mim era só isso que me importava. Papai era incrível, porque, além de tudo que ele já fez por mim, ele me criou sozinho desde que minha mãe faleceu.
Papai me contava sempre a história de amor deles e o quão incrível foi. Começou como um romance de verão, eles se conheceram e se apaixonaram à primeira vista e viveram aquele verão como se fosse eterno.
Ambos tinham dezoito anos, tinham acabado de sair do colegial e, o que era pra ser um amor de verão, se tornou sério quando mamãe engravidou.
Mas eles estavam tão apaixonados que a ideia de ter um filho era como um sinal do universo de que eles ficariam juntos para sempre. Então, se casaram meses depois e se prepararam para ter sua vida juntos.
Só que então aconteceu, na noite do meu nascimento, o que era para ser um momento mágico, se tornou numa tragédia quando mamãe faleceu dando à luz.
Papai fez tudo que pôde para que eu não carregasse esse peso em minhas costas, que eu visse meu aniversário não como uma tragédia, mas como um presente ao saber que mamãe estava viva dentro de mim e viveria comigo para sempre.
E era isso que me fazia gostar do dia do meu aniversário, saber que mamãe, mesmo não estando comigo fisicamente, estava comigo sempre. E com papai também. O amor deles, puro, jovem e inocente, me trouxe até aqui.
Papai fez tudo que pôde para me criar sozinho e fazer com que eu me sentisse amada por ele e principalmente por mamãe, que eu sentisse sua presença mesmo nunca tendo a conhecido.
E esse amor era maior que qualquer dinheiro. Esse amor foi o que me fez ser quem sou, do jeitinho que sou. Tendo todo o amor que meus pais viveram em mim.
— Esse presente é para que você me leve contigo onde quer que você vá. Porque não importa se seja aqui, ou em Silent Grace, ou em Marte, onde quer que seja, eu estarei com você. Sempre. Sempre será nós dois contra o mundo.
Abri a caixinha e dentro dela havia um par de brincos dourados em forma de estrela. Eram pequenos e, mesmo que eu não tenha conhecimento nenhum sobre, eram de ouro de verdade. Então isso deve ter custado muito mais do que eu imaginava.
— Você roubou isso? — ri de nervoso. Não sabia como agradecer presentes, principalmente presentes bons que aqueciam meu coração. — Deus, eu não quero ser presa.
Papai gargalhou e balançou com a cabeça, negando.
— Querida, não se preocupe, o seu velho anda do lado da lei agora — piscou pra mim. — Eu comprei. Tinha um dinheiro guardado e é o mínimo... isso aí não é nada. Você merece muito mais.
Sorri. Peguei em sua mão e apertei. Eu amava meu pai, de verdade. Ele era o meu melhor amigo, meu companheiro e meu alicerce. Seu amor por mim fez com que ele superasse o luto ou qualquer dor causada pela falta de minha mãe para que me criasse, para que eu tivesse todo o amor do mundo e nunca me sentisse triste.
Agora, estávamos aqui, dezoito anos depois e eu indo embora para realizar o meu sonho. O sonho que ele me ajudou a cultivar e nunca me deixou desistir.
Papai sempre me incentivou a estudar, a ser melhor, a ir atrás dos meus sonhos e nunca abaixar minha cabeça ou esquecer de quem eu era. E se não fosse por todo o seu amor e por ter acreditado em mim, por ter feito tanto por mim mesmo quando não podia, eu nunca teria entrado no Saint Fiore. Eu nunca realizaria todos meus sonhos.
— Eu nunca vou abandonar você, papai — disse. Ele apertou minha mão em resposta, me encarando com seu olhar de pai. — Prometo.
— Eu sei disso, querida, porque você é boa demais pra isso. Você tem um coração bom demais, enorme, porque você é…
— Pura como uma flor de lírio — brinquei com o apelido que ele me deu desde o dia que eu nasci. Ele riu, mas negou com a cabeça.
— Você é minha filha — terminou. — A melhor coisa que eu e sua mãe fizemos em toda a nossa vida.
Eu já estava chorando, mas não de tristeza. Sempre fui muito emotiva e acredito que puxei isso de papai, éramos chorões natos. Podíamos nos fazer de fortes lá fora, mas, dentro de casa, nunca evitávamos nossas emoções e choramos até assistindo O Rei Leão.
— Acho que está na hora de dormir — ele quebrou o clima, antes que ficasse emocional demais e se levantou. — Boa noite, minha princesa, amanhã é um novo dia! — sorriu. Caminhou até a escada, então parou, se virando pra mim. — Feliz aniversário.
Eu sorri.
— Te amo papai.
— Também te amo, meu pequeno lírio. — Ele subiu as escadas.
Limpei as lágrimas que caíram assim que me vi sozinha.
Tirei do bolso o meu celular e abri novamente o e-mail do Saint Fiore, senti um aperto em meu coração ao lê-lo novamente. Eu finalmente consegui o que eu queria, era um sonho se tornando realidade e uma oportunidade que poucas pessoas tinham.
Mas eu não conseguiria… não conseguiria abandonar meu pai. O que seria dele sem mim? O que seria de mim sem ele?
Respirei fundo. Eu precisava tomar uma decisão, mas estava com medo de tomar a errada e me arrepender para sempre.

***

Era a manhã do meu aniversário, mas eu não me sentia tão animada quando devia.
Não sei se foi o tanto de vinho que tomei de madrugada que me deixou numa ressaca horrível ou a conversa emocional que tive com papai, mas me sentia um pouco abatida para quem devia estar comemorando o aniversário.
Me olhei no espelho naquela manhã e vi a foto da mamãe grudada no meu espelho. Nós éramos iguais, muito. Era até assustador como eu puxei tudo que podia dela. Mas era reconfortante também, era como se eu a levasse em mim.
— Te amo, mamãe. — Beijei sua foto.
Sentia muita falta dela, mesmo nunca a tendo conhecido, e, no meu aniversário, mesmo tentando torná-lo um dia feliz, por dentro era um dia triste para mim. Papai não sabia, nunca diria para não preocupá-lo, mas às vezes me sentia culpada.
Se eu não estivesse aqui, mamãe estaria.
Tentava não pensar muito nisso, porque sabia que isso magoaria papai e mamãe. Eu tinha que ser feliz, viver a minha vida como mamãe iria querer que eu vivesse, sem culpas. Mas não posso evitar sentir esse vazio.
Desci as escadas e senti o cheiro gostoso vindo da cozinha. Papai estava cozinhando o café da manhã, cantarolando alguma coisa. Parecia feliz demais, isso aqueceu meu coração e me fez sorrir.
— Bom dia? — perguntei, um pouco desconfiada com toda essa animação. — Qual o motivo de tanta alegria, papai?
Ele se virou para mim e sorriu, vindo até mim.
— Apenas que minha filhotinha conseguiu uma bolsa integral no melhor internato da Europa? — Ele sorriu. — No dia do aniversário dela ainda? Isso não é motivo o suficiente para eu cozinhar o café da manhã favorito dela?
Fiquei sem reação por um instante. Sei que devia estar feliz, mas não havia conversado sobre isso com papai de madrugada e nem sabia como contar para ele isso.
Mas aparentemente ele ficou sabendo antes de que eu pudesse contar e pela sua alegria, ou ele estava disfarçando a tristeza de saber que eu ia embora ou algo estava errado.
— Papai, sobre isso… — comecei, mas ele me cortou.
— Sente-se, eu vou servir o café da manhã — ele disse e eu me sentei na mesa. Ele serviu em meu prato preferido: panquecas com gotas de chocolate e chantilly. — Já resolvi tudo isso, conversei com algumas pessoas e…
— Do que você está falando, papai? — o interrompi.
— O quê? Você acha que não vai embora? — Ele me encarou. — Você acha que eu vou deixar você perder a melhor oportunidade da sua vida?
Suspirei.
— Papai, mesmo que eu aceite a bolsa, eu não tenho dinheiro para viver em outro país e você não tem como me ajudar à distância, você vai ter suas despesas também e a sua vida, eu não posso simplesmente tomar seu dinheiro! E além do mais, é melhor eu ficar por aqui e te ajudar com as coisas, você sabe.
Papai revirou os olhos, nem um pouco feliz com o que eu disse.
, eu tenho trinta e seis anos, eu posso muito bem me virar sozinho enquanto você estuda em outro país. Não esqueça que eu tive você com a idade que tem hoje, não é como se eu fosse tão mais velho assim — resmungou. — E, sobre o dinheiro, não se preocupe, está tudo resolvido.
Franzi o cenho. Ok, isso sim era preocupante.
— Como assim está resolvido? Papai, o que você fez?
— Eu conversei com sua avó e ela te ajudará com as despesas.
Me engasguei com minha panqueca, até precisei tirar uns segundos para recuperar o ar e conseguir engolir o que entalou em minha garganta.
Havia assuntos que eu e papai não tocávamos porque era como se fossem amaldiçoados ou coisa do tipo. Um deles tem nome e sobrenome: Nik Grenier.
Nik é a mãe do papai. Mãe que mora em Silent Grace desde que o largou com seu pai e foi se casar com um magnata da alta sociedade italiana.
Papai nunca ligou e nem se sentiu mal por ter sido criado por seu pai e seus avós paternos, muito pelo contrário, ele sempre disse que a mãe dele o deixar com eles foi a melhor decisão que ela já tomou.
Quando eu nasci e mamãe faleceu, a senhora Grenier quis nos levar para Silent Grace para recomeçarmos nossa vida lá, mas papai rejeitou. Ele sempre disse que o maior sonho de sua mãe era que ele se casasse com alguma herdeira e fosse um Grenier como ela. Mas ele nunca quis, ele sempre quis ser um Myoui.
Myoui era o sobrenome de mamãe que ele usava desde o dia que se casaram e usaria para sempre. Igual a mim.
Eu e a Grenier nunca fomos próximas o suficiente para termos uma relação de neta e avó como meu pai tinha com os seus avós e eu tive com meu avô e meus bisavôs paternos. Mas ela sabia que eu existia, às vezes ligava ou mandava presentes, mas nunca nos visitava.
Nem sei se ela sabe como eu sou.
Então, saber que ela estava disposta a me bancar enquanto eu morava no Saint Fiore, na mesma cidade que ela, era algo inacreditável.
— Papai… você tem certeza? Eu ainda acho que é uma péssima ideia envolver a senhora Grenier nisso, sério.
Papai fez careta.
Nunca chamei Nik Grenier de avó, não por um ato de rebeldia ou desrespeito, mas só porque nunca a vi como tal já que não tínhamos laço algum.
— Você vai, . Pode tentar inventar milhares de desculpas para evitar e tentar fugir, mas eu não deixarei você perder essa oportunidade porque está com medo.
— Eu não estou com medo… — Revirei os olhos e emburrei. — Por que eu teria medo de um internato cheio de mauricinhos? Consegui bolsa com cem por cento de acertos, eles que deviam ter medo de mim! — Papai sorriu. — Eu só estou preocupada com você, como uma filha se preocupa com seu amado pai.
Ele riu de minha cara.
Papai se sentou na cadeira na minha frente e segurou minha mão.
— Eu sou o homem mais sortudo do mundo por ter você como filha, você sabe, né? — Ele apertou minha mão. — Não se preocupe comigo, eu vou ficar bem, contanto que você seja feliz, realize todos os seus sonhos e aproveite o máximo da vida cheia de luxos e excentricidades que sua avó vai te apresentar. Porque você merece tudo isso, tudo isso e muito mais.
— Mas eu não quero isso — resmunguei. — Gente rica é esquisita, por que eu preciso ser que nem eles?
Trina é a pessoa mais rica que eu conheço e o que ela tem nem se compara com a riqueza da senhora Grenier, mas Trina não é excêntrica ou exagerada como a maioria dos ricos que vemos juntas nas redes sociais ou nos realities shows.
E algo me diz que a mãe de papai pode ser uma dessas pessoas de reality shows.
Ele sorriu de novo.
— Você nunca vai ser que nem eles e você sabe disso. — Ele sorriu. — Pense nisso como reparação histórica, você vai aproveitar tudo que não pôde ter, mas merecia.
O pensamento de papai era meio doido, mas eu levaria em consideração. Seria legal ser rica por um tempo e não ter que me preocupar com contas, dinheiro e essas coisas, só focar em estudar e ser uma ótima aluna.
— Promete que vai me visitar? — pedi, com a voz embargada pelo choro que subia em minha garganta. Papai sorriu.
— Você acha que não? Eu irei infernizar tanto a minha adorável mãezinha e aproveitar um pouco do luxo que ela me privou também. — Ele piscou para mim. — Quem sabe eu não conheço uma ricaça lá? Ainda estou no jogo!
Eu gargalhei de verdade e de repente toda a tristeza que sentia deu lugar à alegria e à felicidade de ter o melhor pai do mundo.

***

Dias depois.

As últimas semanas que passei em Aix-en-Provence foram especiais. Trina e papai me levaram para fazer tudo que eu gostava, aproveitei cada dia como se fosse o último enquanto me aproximava mais do final.
Enquanto isso, a senhora Grenier resolvia as coisas para a minha chega em Silent Grace no final de semana. Ainda tinha umas semanas antes do começo das aulas para me acostumar, conhecer a cidade e me preparar para o Saint Fiore.
O último dia em casa foi o pior, porque todos fingiam que eu não estava indo embora de verdade. Mesmo que não fosse para sempre, todos sentiam a tristeza da despedida, mas fingiam que estava tudo bem, que não estavam tristes.
Sei que faziam isso por mim, porque estavam com medo de que eu desistisse, mas, para ser sincera, os últimos dias me fizeram perceber que eu precisava ir. Precisava viver essa nova aventura, essa nova vida. Lutei demais para que isso desse certo, me esforcei e dei o meu melhor. Fiz por merecer, agora estava na hora de agarrar essa oportunidade e vivê-la para valer.
— Está tudo aqui? — papai perguntou, descendo a minha última mala e colocando no porta-malas do carro do pai de Trina.
Eles decidiram que o pai dela me levaria de carro junto com minha melhor amiga, para me deixarem em segurança na casa da mãe de papai e para que eu não desistisse no meio do caminho. Eles sabiam que Trina não deixaria.
— Sim, tudo aqui — respondi, sentindo o aperto em meu peito. A hora havia chegado e eu não me sentia pronta para dizer adeus.
— Esperamos você no carro então. — O pai de Trina tocou meu ombro e eles me deixaram para que eu me despedisse do meu pai.
Ele não quis ir junto, tinha que trabalhar e preferiu assim. Sei que ele estava tentando ser forte por nós dois, por isso não queria ir, porque não ia conseguir se segurar. E nem eu.
Ficamos em silêncio por um tempo, sem saber o que dizer um para o outro. Tanto tempo juntos e, pela primeira vez, não tínhamos o que falar.
Papai me olhava de forma diferente, uma boa olhada em mim, como se fosse uma fotografia que ele queria guardar em sua mente até o seu último dia. Os olhos deles olhavam profundamente os meus e eu tive medo que ele visse algo que o machucasse.
— Sabe, nessa luz, você está igualzinha à sua mãe quando eu a conheci — ele disse, baixo, e eu tremi. Eu sempre soube que era igual à mamãe, mas ouvir papai falando tinha um peso diferente. — Principalmente os olhos… o brilho que eles têm. Escuros como a noite e mais brilhantes como uma galáxia inteira. — Sorriu. — A face serena, doce. É algo perfeito demais que eu tenho medo de quebrar, estragar ou qualquer coisa que tire esse brilho que você tem. Que ela também tinha... — Ele respirou fundo.
— Você não vai me machucar papai, nunca. — Sorri. — Como poderia? Você é o melhor pai do mundo.
Ele sorriu de volta.
Ele dizia que era o sortudo por me ter como filha, mas a sortuda era eu. Mesmo com o começo conturbado e sem mamãe aqui, eu sempre o tive ao meu lado e ele nunca me culpou, me machucou ou fez com que eu me sentisse mal. Ele me amou nos melhores e piores dias, quando era apenas ele e eu.
Éramos eu e meu pai juntos, para sempre. E só isso que me importava.
— Posso te pedir uma coisa?
Assenti.
— Pode pai, claro.
— Nunca perca isso, por favor. Nunca mude. — Ele sorriu. Um sorriso triste. — E vá para Saint Fiore. Seja a melhor aluna lá, dê o seu melhor e mostre para todos aqueles mauricinhos que aquilo tudo é seu. Que não importa seus sobrenomes ou quantos milhões têm em suas heranças, você foi a que conseguiu a bolsa integral com cem por cento de acertos, e faça eles te engolirem, gostando ou não.
Eu assenti, sentindo o nó em minha garganta se apertando e meus olhos arderem com as lágrimas querendo cair, mas me mantive forte. Não choraria em sua frente, queria que ele me visse feliz. Só memórias felizes.
Ele me deu mais uma última olhada, tão profunda como a anterior. Eu sabia o que estava por vir, eu via em seus olhos e por isso nem me movia. Papai veio até mim e deu um beijo na minha cabeça.
— Eu te amo, meu pequeno lírio — sussurrou. Então tocou de leve em minha orelha, onde estava o brinco que ele havia me dado. — E nunca se esqueça, aonde quer que você vá, eu estarei com você.
— Eu também te amo papai. Muito. Para sempre — eu disse e o abracei. Com toda a minha força. Agradecendo pelos dezoito anos de amor, por tudo que fez por mim minha vida inteira e como nunca seria capaz de retribuir.
Ele me soltou e beijou minha testa novamente.
— Agora vá, você tem uma cidade inteira para conquistar. — Ele sorriu.
Assenti, sem forças para falar, e fui. Entrei no carro do pai de Trina e, assim que bati a porta, segurei toda a vontade de chorar que estava em meu peito e me virei para trás, abri o meu maior sorriso e acenei, me despedindo enquanto o carro andava.
Ele estava parado na frente da nossa casa, acenando para mim.
Meu coração doía porque eu sentia que era a pior despedida, porque algo em mim dizia que não o veria de novo e não conseguia entender o porquê. Tentei apagar isso da minha cabeça, porque não fazia sentido algum, e tentei sorrir, pensar no que estava por vir. Nas coisas boas.
Era um gosto agridoce, a alegria de estar realizando um sonho e a tristeza de ir embora, deixando para trás todos a quem eu amava e conhecia.


Capítulo 2

"A guerra é mais fácil que as filhas." – Ned Stark, A Guerra dos Tronos.

Silent Grace, Hotel Mercy, 12h34.

Acompanhei uma borboleta azul pousando na janela do vidro cristalino. Suspirei, desejando ser ela. Não que eu estivesse querendo proferir um discursinho chato sobre liberdade e a falta dela, só não queria estar aqui neste momento.
Estava dentro da principal rede de hotéis Mercy, meu lar desde que nasci, agora na sala de estar ocupada por mais de trinta homens vestidos de terno e gravata que falavam em códigos para eu não entender porcaria nenhuma sobre seus negócios.
Como se eu tivesse a mínima vontade de participar da baixaria que era o comércio de Aldo Mercy, a quem diariamente chamo de pai, ou ao menos deveria chamar.
Inclusive, eu até teria intenções mínimas de me tornar a herdeira Mercy, se ele não deixasse explicitamente claro todos os dias o quanto mulheres não devem falar sobre trabalho, negócios, ações e qualquer coisa retrógrada do tipo. Claro que a mesma regra não valia para o meu irmão. Então, fiz questão de terminar aquela refeição maravilhosa logo para poder me levantar e sair daquela santa ceia onde só via Judas pra todos os lados.
— Precisamos mandar todo o seu uniforme e suas roupas logo para o colégio, começa na semana que vem, certo, ? — Aldo disse em tom baixo e profundo, fazendo seus sócios se calarem. Ele era respeitado e temido por todos eles.
— Sim — disse, imitando seu tom monótono e vazio. — Minhas malas estão prontas, hoje à tarde vou pedir para Mafalda carregar tudo até o carro.
— Para o carro do motorista, não o seu — declarou. — Não precisamos criar alarde sobre isso. Sabe que também sou totalmente contra essa volta dos jovens para o Internato Saint Fiore.
Derrubei o garfo no prato, desacreditada por ele querer tocar nesse assunto pela milésima vez.
— Sério? Você falou sobre isso todos os dias enquanto estávamos escalando na Suíça. Pensei que, quando mudássemos os ares de volta pra cá, você seguiria em frente e aos poucos esqueceria disso, até porque não tem nada a ver comigo e não vai me punir por uma consequência dos atos de outra pessoa — me queixei, já farta.
Minha voz soava muito mais alta do que o som grave que todos os caras naquela sala escura faziam. Isso porque, na alta sociedade, éramos ensinados a nos comportar assim em público, sempre com voz de mosca morta, sem demonstrar muitas expressões faciais e muito menos gesticulações abertas demais. Sempre se portar. E eu me via como alguém que destoava, ou tentava me destoar de algo que era natural do meu sangue e comportamento desde criança, desse povo todo.
Aldo largou seu prato na mesa também e me fitou firme, aquele olhar que os pais dão para seus filhos de cinco anos, só que com um jeitinho mais de quem quer te matar. De verdade. Senti seus sócios pararem de respirar por terem visto eu o desafiar. Aquilo era demais para esse bando de frangotes.
— E vou falar quantas mil vezes mais eu desejar. Sou seu pai e me preocupo sim com o seu estado. A menina que desapareceu tinha contato com nossa família e, se bem me lembro, vocês até mesmo já foram amigas um dia.
— É, antes de Cristo — murmurei.
Ele massageou as têmporas e passou a mão pela cabeça careca. Era difícil ver Aldo estressado. Bom, era difícil para outras pessoas verem Aldo estressado. Geralmente ele ia de oito a oitenta em segundos para quem o considerava um inimigo. Comigo, ele tinha obrigação de tentar se segurar para não pegar o prato a sua frente e jogar na minha cabeça.
Diz a lenda que Aldo ainda tinha cabelo antes do dia do meu nascimento.
— Não importa. , presta atenção, vou falar pela última vez. — Seus capangas comiam, demonstrando muito interesse na refeição assim que Aldo virou sua cadeira negra em minha direção. Meu irmão idiota se segurava para não rir. — Vanda Perlmann desapareceu sem deixar rastros. Não temos ideia do que manifestou isso e toda a família diz que ela tinha uma conduta excepcional, seja acadêmica ou particular. Sou sim totalmente contra com a ideia de você voltar para essa porcaria de internato, assim como seu irmão, porque não sabemos com o que estamos lidando. É a primeira vez em anos que temos um desaparecimento de uma jovem de família importante aqui em Silent Grace e foi alguém próximo a você. Ela é nossa vizinha, . Você vai voltar para a porcaria da Fiore? Vai. Porque me encheu o saco o verão todo para isso. De noite, ainda tem o concurso e sabe-se lá onde você vai se enfiar durante a tarde toda. Nunca fui um pai rigoroso que proíbe os filhos de fazerem as coisas que querem, mas, se você continuar com esse comportamento de alto risco, vamos começar a mudar as coisas por aqui.
O silêncio era mortal e minhas veias queimavam o suficiente para deixar minha língua fervendo dentro da minha boca, querendo revidar. Meus olhos estavam apertados e, se tirassem uma foto nossa agora, provavelmente estaríamos mais do que nunca parecendo de verdade pai e filha. Sempre me diziam que meus olhos felinos lembravam os de Aldo.
Se eu levantasse a voz mais uma vez, o que ele faria? Deveria testá-lo? Iria valer a pena?
Ah, acho que vai…
— Com licença, senhor Aldo?
Mafalda adentrou o cômodo, minúscula como sempre e contendo uma voz doce, nos fazendo quebrar a disputa de troca de olhares assassinos. Aposto que ouviu as vozes alteradas e resolveu interromper. Pois conseguiu.
Respirei profundamente, tentando recuperar a calma, e olhei para meu irmão, que parecia querer me socar. Problema dele. Sendo a caçula, as minhas atitudes ruins afetavam a liberdade dele e a forma como meu pai o via. Como se eu ligasse. Afinal, ele pode participar de todas as reuniões sobre a empresa da família, e adivinhem? Aldo estava treinando-o para ser o próximo dono dos seus hotéis espalhados pelo mundo. Se o meu mau comportamento o afetava, ele não tinha ideia do quanto me afetava não ter o mesmo órgão genital que o seu.
— Sim, Mafalda? — Aldo finalmente respondeu a nossa governanta.
— Victor Brazzi ligou e disse que necessita da senhorita um pouco mais cedo hoje. — Virou-se para mim. — Aconteceram alguns imprevistos na casa do seu treinador e ele precisa antecipar os tratos com você.
— Certo. — Larguei meu guardanapo na mesa e me levantei, sem preocupar-me se arrastaria a cadeira ou não. — Já perdi a fome, de qualquer forma.
Me retirei e o único som, além da cabeça careca e fumegante de Aldo, era de meu salto batendo no chão. Olhei para a vidraça, procurando pela borboleta azul, e não foi surpresa alguma que ela também fugiu daquele ambiente melancólico.

***
Já estou aqui.

Visualizei a mensagem e corri para os fundos do Teatro dos Querubins, antigo e abandonado pelo bairro quando a última investidora dele faleceu. Assim como o teatro, a própria rua parecia fantasmagórica. Mesmo ainda estando no verão, as pessoas daquela cidade estavam mais reservadas depois de tudo que aconteceu com Vanda, a menina que desapareceu nas férias.
Estávamos comemorando na casa de praia o fim das aulas, quando foi noticiado pelo jornal local seu desaparecimento. Lógico que a maioria do Saint Fiore notou, mas ninguém realmente tinha ligado porque Vanda tinha um péssimo histórico de se meter em encrencas. E não era o meu tipo de encrenca, onde eu sumia sozinha porque talvez quisesse comprar um sapato no brechó de outra cidade. A encrenca dela consistia em drogas e amigos barra pesada.
Mesmo que Aldo tenha falado sobre o comportamento dela excepcional, eu sabia que era mentira. Todos os estudantes do Fiore sabiam.
Eu posso fazer o mesmo, porém tenho uma vantagem de nunca ser pega por isso. Ela foi. E não duvido que tenha fugido com algum namorado e que logo voltaria pra casa com roxos espalhados pelo corpo todo, como notei na última aula de história que tivemos.
Desde então, a bruxa está solta no bairro San Pellegrino. Sei que temos uma estrutura medieval e tudo mais, só que não faz sentido começarem a usar forquilhas e produzirem uma ideia de toque de recolher no século 21. Retrô, na minha opinião.
Me agachei entre as madeiras corretas que se deslocavam para encontrar uma abertura maior até os bastidores. Senti um cheiro familiar no ar e encontrei Patrick me esperando ao lado da grande pintura de uma bailarina de olhos azuis.
Aquela imagem gigante me causava arrepios, então o puxei pela mão antes dele falar qualquer coisa e o empurrei até descermos as escadas, parando no grande palco.
— Temos menos de cinco minutos, faça um trabalho bem-feito. — Pisquei e joguei Patrick no acolchoado azul do chão de madeira, um que tínhamos colocado ali tempos atrás.
Ele me beijou com firmeza, apesar de eu ter notado que seus olhos estavam perdidos e avermelhados, culpa do cigarro que ele estava fumando quando o encontrei.
— Só cinco minutos? — perguntou em tom triste, mudando seu alvo para meu pescoço.
— Aparentemente, rolou alguma bagunça na casa do meu instrutor do concurso. — Arqueei as sobrancelhas.
Patrick bufou, deitando-se novamente.
— Não quero falar sobre isso. — Voltou a me beijar.
Claro que não, a gente não conversava, não tinha um porquê. Nossa relação era de duas vias. Posso não gostar muito de sua personalidade, mas gostava de seu corpo, e era o suficiente, porque tinha certeza de que ele possuía a mesma ideia sobre mim.
Entretanto, algo começou a me incomodar. Por isso eu não curtia me encontrar no teatro abandonado. Era aquela pintura da bailarina de novo, eu não conseguia vê-la direito, mas sentia como se houvesse um sorriso fantasmagórico naquela tinta velha olhando diretamente pra mim, me julgando pelo que estava fazendo naquele palco.
Patrick notou que meu corpo endureceu e procurou meu rosto.
— Que foi? — perguntou, duvidoso, até seguir meu olhar para o quadro e entender tudo. — É uma pintura, nem foto é, . Segue em frente. Ela não vai sair dali.
Assenti com a cabeça e tentei me concentrar outra vez, mas parecia que aquela assombração me seguia.
Eu não tinha medo de fantasmas, só que aquela era real demais.
O clima mal começou e já se foi. Sabia que não deveria ter marcado no teatro.
— Não vai dar, Patrick, foi mal. — Me levantei, apressada, e corri até os bancos vermelhos do teatro, me sentando de costas para ela.
Ouvi e o vi bufar por um instante, desistiu e veio a meu encontro.
— Se tem tanto medo da pintura, por que sempre visita o teatro? — Ignorei sua pergunta e ele coçou os cachos dourados em dúvida. — Fala, o que aconteceu?
— Precisa acontecer alguma coisa?
— Só tô tentando… ah, esquece.
— Tentando o quê? Pode dizer. — Queria mesmo uma distração daquela figura macabra atrás de mim.
— Tô apostando muito aqui, . Sei o seu tipo de personalidade, e que pode rir da minha cara, mas estou tentando te conhecer, só isso.
— Hum, por quê? — Fiz careta.
Ele riu.
— Porque faz três meses que a gente tem essa coisa mal resolvida e, no menor sinal de criarmos algum tipo de laço, você se fecha. E você pode não ter amigos e ser completamente isolada, mas eu não sou esse tipo de pessoa e queria talvez, de alguma forma, te ajudar a sair disso.
Que fofo, jogou na minha cara que não tenho amigos. Logo não terei coisa mal resolvida também.
— Pat, a ideia interessante de termos algo físico era a implicação de um acordo não verbal e não assinado de que nenhum dos dois lados precisava se envolver, do tipo conversar, entende? Principalmente opiniões suas que podem ser sobre a minha pessoa, porque a minha pessoa realmente não se importa com elas.
— Ouch. — Sorriu, triste. — Então não tenho chances mesmo, não é?
— Chances de quê? — Não diga isso, não diga, por favor não diga.
— De ser seu amigo. — Encolheu os ombros. Ufa, não disse. — Ser seu namorado.
Ele disse. Oh, Deus. Preciso descongelar a careta de terror que ficou no meu rosto.
Eu meio que senti isso vindo. Patrick estava agindo estranho demais nas últimas semanas. Tentando entrar na minha vida de todas as formas possíveis, comprou uma passagem e foi para a Suíça, onde eu encarecidamente recusei sua visita todas as vezes, afirmando estar ocupada demais esquiando. Apareceu em um jantar no Hotel Mercy junto com seu pai, que é sócio de Aldo, e me chamou para dançar (recusei) e conversar em público (tive que conversar para recusar o convite da dança), coisa que acontecia absolutamente nunca, principalmente no colégio, que se houvessem panelinhas, a minha definitivamente não se misturaria com a dele.
Não tenho panela ou um grupo, sou só eu, muito obrigada, contra Patrick e seu grupo de garotos grandes e educados que vivem suados por jogarem futebol. Dá para ter uma noção da minha recusa.
Fiquei muda, fitando o além com olhos arregalados. Era isso que chamam de estado de choque?
— Eca, por que você iria querer isso?
— Isso o quê?
— Namorar.
— As pessoas namoram, . É um fenômeno mundialmente conhecido.
— Só não consigo ver um motivo realmente bom pra isso, além do sexo. E veja só, nós já temos o sexo.
Ele revirou os olhos.
— Sexo não é tudo, .
— Bom, é a única coisa que você pode ter de mim e, se não sou boa o suficiente pra você, sinto muito, Patrick, é melhor pararmos por aqui.
É óbvio que sou boa o suficiente para ele, mais do que boa, sou fenomenal na cama, e ele sabe disso. E eu sei que ele sabe, ou não estaria aqui tentando propor um relacionamento, colocando uma coleira no meu pescoço. Onde já se viu? Os garotos de hoje em dia são malucos.
Eu tenho um problema gigantesco em procurar caras: eu só quero passar uma tarde com eles e os coitados acabam se apaixonando e querendo algo sério. Essa vida não é para mim.
Já fiz esse cara revirar os olhos sem sequer encostar nele, seu pau levantava como se eu fosse uma mágica telecinética. Mas sei que agora ele quer mais do que isso, e essa coisa é que eu não posso dar.
Recapitulando, não quero dar.
, para de drama — pediu, nervoso. — Eu sei que você tem problemas para se conectar com pessoas por causa da sua mãe, mas eu gosto de você de verdade.
Péssima escolha de palavras, cowboy.
— Primeiro de tudo, não fale da minha mãe, seu energúmeno. Segundo, não quero ficar com alguém que acha que preciso de uma reabilitação ou ser salva da minha própria personalidade porque sou antissocial. E terceiro, por quê?
— Por que o quê? — questionou, confuso.
— Por que gosta de mim? Já não deixamos claro que não nos conhecemos o suficiente? Então gosta por quê? Por que sou bonita? Quer espalhar na Saint Fiore que fodeu com a filha do Barão dos Hotéis? — Sorri, amarga.
— Claro que não! Tá maluca? Que mania de perseguição é essa, ?
— Ah, então não, tem razão, você é só maluco por pensar que existiria a possibilidade de eu dizer sim — desafiei.
— Não vou dar o que você quer, — falou, calmo, se levantando. — Não vou discutir com você, pois isso só prova que você empurra as pessoas pra longe.
— Quer saber? Foda-se. Antes, você dizia que eu era possessiva e ciumenta, agora acha que sou solitária e me afasto de pessoas que querem criar laços comigo. Não estou te pagando por uma consulta, você não é meu psicólogo e certamente não tô precisando de um diagnóstico. Passar bem, Patrick.

***
— Idiota — murmurei, jogando meu celular no balcão da penteadeira.
Quem ele achava que era? Praticamente me pediu em namoro, que coisa ridícula. Ele sabia que eu diria não e me colocou contra a parede dessa forma, era simplesmente um ultraje. E ainda queria me chamar de antissocial com problemas maternos.
Nisso ele estava certo. Mas precisava jogar na minha cara dessa forma? Certamente não.
Sempre que começo a tentar me envolver com uma pessoa, ela pensa que precisa me salvar de alguma coisa, senão futuramente vou me arrepender ou algo do tipo. Acham que eu sou maluca. Os malucos são eles. Eu fiz terapia a minha vida toda, não preciso disso.
O ser humano tem tesão em tentar ajudar alguma pessoa, não pela sensação que isso dá à pessoa salva, e sim com a intenção de alimentar o próprio ego. Felizmente, sou blindada para esse tipo de coisa e sei bem o terreno masculino em que me encontro. Patrick pode parecer inofensivo, mas, no fim do dia, é um homem como qualquer outro.
Não foi como imaginava nosso encontro hoje no teatro e agora eu estava ainda mais aborrecida e frustrada do que antes. Briguei com o meu único pau recorrente e acabei não transando antes de fazer isso. Às vezes, a única coisa em que uma garota pode confiar na sua vida é o próprio vibrador. Estes são ótimos e não tentam te encher com uma ladainha de Aristóteles pra cima da gente.
Precisaria focar em colocar um sorriso no rosto e apresentar meu maior modelo de simpática que essa cidade já viu para poder voltar à nova temporada dos concursos de Miss Silent Grace.
— Onde é que você estava? Não recebeu minha mensagem? Eu falei com Mafalda, precisavam te avisar que queria você aqui o mais cedo possível.
— Ah, Victor, não enche, tá? Não estou com saco pra hoje — reclamei enquanto as garotas da maquiagem e costura ajeitavam os produtos para iniciarmos todo o tratamento de beleza até a apresentação.
— Eu quem não estou com saco para as suas gracinhas hoje. O show é no hotel, sabe o que isso significa? O barão Aldo estará lá junto com todos os nossos sócios, então é melhor fazer uma ótima impressão na frente daqueles jurados, entendeu?
Victor, meu treinador de concursos de beleza, falava como se o tal do barão Aldo não fosse o dono dos espermatozoides que me geraram. Sério, eu dava várias impressões para o meu próprio pai desde meu dia 0 na terra. Nem sempre boas, devo confessar.
Assenti com um sorriso forçado para não mandar ele ir se foder também. Alonguei meu pescoço enquanto uma das meninas enrolava meu cabelo em bobes gigantes, no qual o comprimento até a cintura facilitava.
— De todas as modelos, o seu cabelo sem dúvidas é o mais fácil de trabalhar. Tem maciez e volume natural. Sem contar o brilho — elogiou Chiara, puxando meu saco. Dei um sorriso forçado, sabendo que ela só estava interessada na minha amizade porque queria vaga nos hotéis de Aldo e voltei minha atenção para meu celular.
, como vai você? — uma voz diferente surgiu no ambiente e me virei, apertando a corda do meu roupão rosa.
O terno Saint Laurent de Marta evidenciava seu gosto fino por alta costura. Respeitava isso nela, pois nada além de Balmain, Celine e o uniforme da Saint Fiore entravam no meu guarda roupa. Sua pele branca e cabelos vermelhos também combinavam com seu porte de mulher poderosa e decidida.
— Oi, Marta! Quanto tempo não vejo você. Veio acompanhar o show da noite? — Caraca, que voz falsa, . Impressionante.
— Victor insistiu, mesmo não sendo muito minha praia. — Deu risadas e percebi que outra mulher havia entrado com ela. — E tenho alguns assuntos para tratar com Grenier.
— Claro que tem, a cidade toda tem assuntos com Madame Grenier — disse, ácida e com um sorriso, a própria Madame Grenier, entrando no quarto e falando de si em terceira pessoa. — Você e eu, inclusive, precisamos conversar — disse a senhora com sua voz de quem já fumou por pelo menos cinquenta anos de sua vida sem pausas. Nik Grenier era minha inspiração para parar de fumar.
— Patrick também veio, Marta? — perguntei inocentemente.
— Ah, não. Conhece meu filho, é completamente diferente do pai, puxou a mãe. Preferia ir com os garotos praticar o esporte da vez. Tenho saudades de quando eles tentavam somente o surfe e jogavam o futebol na Fiore. Agora estão pensando em velejar por aí — suspirou e riu com Grenier. Forcei uma risada. — Bom, Victor não está aqui, então vou dar uma olhada nos bastidores. Estarei torcendo por você, , boa sorte!
A ruiva sorriu antes de rir e Grenier riu, divertida.
— Como se precisasse!
Todas muito simpáticas e educadas, Marta se foi e Grenier se virou para mim, fechando a cara.
— Atrasou por quê?
Fiz um som de reclamação longo e lento, olhando para os céus.
— Cheguei e meu cabelo tá quase pronto. O concurso é de beleza, Grenier. Essa é a vantagem de ser naturalmente bonita.
— E naturalmente um porre também. O ego inabalável de uma Mercy — esbravejou. — Sabe que esses concursos não te levam pra frente na vida, não sabe?
— Obviamente, os odeio tanto quanto você — bufei.
— Então por que continua aqui, caramba? Entra na agência, garota, você tem porte, tem o visual… já te falei mil vezes isso.
— Porque na sua agência, roubam mais o dinheiro das garotas do que vemos o lucro, nós duas sabemos disso.
— Você não precisa de dinheiro. Não puxou só o ego de um Mercy, não é mesmo? Babuja pelo ouro igual todos da sua família.
— Igual você, Grenier, olha que legal, você sempre disse que tínhamos personalidades semelhantes. Mas não é só sobre isso, tenho objetivos sobre o que fazer com meu dinheiro. Claro que posso considerar entrar na agência, até mesmo pagar aquele valor absurdo por um book, se você me deixar fazer o serviço completo. — Sorri.
Seus lábios completos de preenchimento quase natural também se ergueram, e senti mais ainda o cheiro de seu perfume forte quando ela se aproximou de mim e colocou a mão cheia de anéis em meu queixo, levantando um pouco meu rosto.
— Não faço ideia do que você está falando.
— Então, sem contrato. — Estalei os lábios. — Continuo com meus concursos chatinhos. É só chegar no palco, tocar um piano e forçar uma personalidade doce e agradável. Tão fácil.
— Sim, já ouvi dizer que você era uma ótima atriz na Fiore — falou com acidez no tom, tentando me atingir de alguma forma, mas não dei esse gostinho pra ela.
— Exatamente, Grenierzinha! E por isso mesmo o prêmio aqui é garantido. — Pisquei.
— E pra que precisa tanto do prêmio? — Apertou seus olhos, desconfiada.
— Não é da sua conta — disse a ela, simplesmente.

***

O diretor do evento fez seu discurso, falando sobre os fundos que estavam levantando para causas nobres na cidade de Silent Grace, o que fez todas as senhorinhas na plateia sorrirem de orelha a orelha e os senhores de terno fingirem que tem caráter o suficiente para aplaudir.
Ele explicou sobre a abertura de temporada desses concursos e como as mocinhas iriam receber pontos vitais essa noite que valeriam de muito ao longo das noites de show. Por fim, citou o desaparecimento de Vanda e uma foto dela foi mostrada no grande refletor do salão dourado do hotel, pedindo, em nome da família dela, que se a encontrassem, que entrassem em contato imediato com a polícia.
Com um grande laço preto no cabelo que custou mais que alguns salários de pessoas que estavam naquela sala, e um vestido azul petróleo com flores, fiz meu desfile de forma simplória, com uma expressão doce e agradável, sabendo para onde e para qual juiz olhar. Meu andar era automático, assim como meus gestos. Me surpreendi com Marzia na plateia, sorrindo e acenando exageradamente, tentando chamar minha atenção, mas prossegui focada no prêmio.
Era só isso que valia, o dinheiro. Quando era pequena, minha mãe me apresentou a estes concursos chatos. Na época, eu amava, é claro. Eu amava qualquer coisa que minha mãe me apresentasse. Fui uma garota de 5 anos de idade que já teve um milhão de hobbies artísticos por ser filha de uma artista impecável que tinha pelo menos dez talentos não secretos, incluindo o balé clássico profissional. Me envolvi naquele mundo artístico, vendo o amor que ela tinha por ele.
E não era difícil ganhar um concurso, pra falar a verdade, você não precisa ser a mais alta, a mais magra ou sequer a mais bonita. Mesmo que eu seja tudo isso, você só precisa saber se portar como uma pessoa que tem confiança o bastante, mas não tanta pra não soar arrogante, e precisa ter um olhar doce pra conquistar o público se for uma adolescente. Se você for criança, é bom um olhar arrogante mesmo, os juízes adoram crianças fora do padrão comportamental.
Tive toda essa epifania enquanto tocava uma sinfonia de Tchaikovsky no piano, apresentando-a como meu talento na etapa de apresentações do gênero. Respondi que queria a paz mundial quando me perguntaram sobre meu sonho. A mundial e a de Silent Grace, afinal os ricos amam um patriotismo diligente e esquisito. E os dessa cidade carregam essa neblina em volta de si, todos eles, que os mostra como pessoas logradas, de forma que até mesmo eu me sinto como se fosse uma coisa deslocada e verdadeira naquela imensidão de deslumbres.
Eat the rich, é o que eles dizem. E eu concordo.
O resto da noite passou rápido, muito aplausos e muitas fotos. Acabei ficando em primeiro lugar do ranking de pontuação, sem ampla concorrência e um bom espaço social até a segunda colocada.
Caminhei até o camarim, esperando que Chiara retirasse logo toda aquela quinquilharia do meu cabelo. Me surpreendi com um imenso buquê de flores amarelas no meu lado do camarim improvisado daquele quarto do hotel.

“Você foi ótima essa noite. Não vamos mais nos desentender. B.”

B de Brazzi, eu assumi. Patrick Brazzi.
Comecei eu mesma a desmanchar o penteado, intrigada e pensativa.
Interessante, ele me surpreendeu. Já ganhei muitas flores antes, mas nunca pé-de-leão. Eram minhas flores favoritas e tinham grande significado para mim.
Talvez Pat tenha visto alguma foto escondida no meu dormitório na Saint Fiore, ou pior, é uma dica do mundo me avisando que eu deveria me retratar pela forma que o tratei naquela tarde.
Infelizmente, ou felizmente, um ponto rosa de felicidade apareceu pela porta do quarto, sorrindo e pulando contente, interrompendo meu cérebro de fazer uma coisa assustadora: pensar.
— Você tá em primeiro! — Marzia gritou e, completamente desconhecida do perigo que corria, se aproximou e me abraçou com força. Fiquei em choque, só esperando ela se afastar. — É lógico que tá em primeiro! Você é linda igual uma boneca e absurdamente talentosa! Tá sempre em primeiro, e se não estivesse, eu reclamaria com os juízes.
— Nunca duvidaria disso — disse e dei uma risada fraca, encontrando minha mochila com roupas mais simples para poder fazer a troca logo. — Me ajuda aqui.
Virei-me de costas para Marzia abrir todos os botões bordados do meu vestido atrás.
— Amiga, as vezes acho que você é um pouco doida porque é uma gênia! Sério mesmo. Como alguém pode ter tantos talentos como você? Além de atuar, também dança e toca instrumentos. Você é tipo o Lin-Manuel Miranda, sabe? Aquele momento do piano foi maravilhoso e eu nem curto música clássica.
— Eu duvido muito que meu corpo ainda tenha memória muscular dos passos de balé que fiz na infância. E só sei tocar uma música no piano, treinei bastante pra pensarem que não. Acho que deu certo. E você já é doida sem nenhum adjetivo de gênia, Marzia. Agora se concentra nos botões aí.
Ela gargalhou.
— Pois eu amei! Queira você ou não mudar de assunto. A propósito, qual foi a música que você tocou lá?
— Tchaikovsky, op. 20 — falei simples e, quando notei seu silêncio, observei sua careta através do espelho a nossa frente. — Lago dos Cisnes — simplifiquei. Ela se iluminou em completo entendimento.
— Ah! É claro, sabia que reconhecia. Adoro esse filme e toda a dualidade da Natalie Portman. A cena dela se pegando com a Mila Kunis é uma beleza. — Tenho certeza que, quando meus pais me matricularam em aulas de piano, não esperavam exatamente essa reação de meus amigos. Porém, foi um avanço, jurei que Marzia ia citar o filme da Barbie. — Interessante escolher essa música. Ouvi Nina dizer alguma coisa sobre estarem escolhendo peças teatrais pra este ano na Fiore e acho que Lago dos Cisnes estava no meio, não tenho certeza.
Depois de desabotoar rapidamente o vestido, Marzia se surpreendeu com um corpete e me ajudou a tirá-lo também. Voltei a respirar sem todo aquele tecido no corpo e finalmente estava vestida como o meu normal, com camisa social branca, óculos de aro fino e mom jeans.
— Achei macabros os comentários sobre a Vanda — falou, me ajudando a guardar o vestido no plástico dele.
Estávamos no hotel deserto agora. Felizmente, enrolei bastante aquela noite, me entupindo de champanhe no jantar após o concurso e sendo obrigada a acompanhar Aldo nas infinitas conversas entediantes com seus comensais da morte.
— Algum motivo especial?
— Nada além do conhecido, tenho medo por ser alguém que um dia já esteve próximo de nós duas, sabe? E sei lá, só me deu alguns arrepios, uma sensação estranha.
— Marzia sensitiva ataca novamente.
Ela riu.
— Tô falando sério. Ah, falando em sensitividade, não vejo a hora de voltar pro colégio. E não finja que sou a única, você não deve aguentar passar mais um mês aqui no Hotel, a princesinha está presa na torre há tempo demais.
— Entre uma torre cheia de dementadores e uma igreja que casualmente chamamos de colégio, não acho que tenhamos muitas opções inovadoras e tentadoras. Ambos os locais serviriam para um documentário fantasma, facilmente.
— Pelo menos lá temos algumas novidades interessantes. Por exemplo, boatos de que um antigo conhecido meu voltou para Silent Grace e tá querendo se matricular na Fiore.
— Pobrezinho, mande-o fugir enquanto há tempo.
— Pobre da gente, dizem que ele está ainda mais casca grossa do que quando o conheci. É tiro na queda, e bom, se ele fugir, é um saldo negativo para nós duas.
— Bonito assim? — Arqueei a sobrancelha, interessada.
— Me fez ficar apaixonada por bons cinco anos sem nunca nos falarmos mais do que um oi, então, é, bonito assim.
— Você não é um exemplo, Marzia — bufei. — Se apaixona por qualquer coisa que se move.
— E você não se apaixonaria nem pelo seu próprio marido. Estamos quites na elevação de sentimentos.
— Touché.
— Mas não se preocupe. Eu tenho um case de sucesso elaborado para este ano. Seremos pessoas diferentes agora, . Seremos populares e legais — disse a garota que travava completamente ao emitir uma palavra para o meu irmão.
— Eu sou popular — pontuei.
— Estou falando popular de um jeito legal, não popularmente assustadora para outras pessoas. Vamos a festas e conhecer pessoas novas.
— Não gosto de festas e nem de pessoas.
— Novas?
— Não curto as pessoas velhas também.
— E vamos trabalhar nisso este ano, teremos a melhor graduação possível, a maior e a mais inesquecível de todos os tempos.
— Espero que, desta vez, sua sensitividade esteja errada.

***

3:00h

Me despedi de Marzia com meu estômago roncando e corri pelo hotel fantasmagórico em busca da minha parte favorita: a cozinha.
Crescer em um hotel tem seus lados bons e ruins, por exemplo, não tínhamos um quintal para adotar um cachorro, mas também tínhamos uma cozinha gigantesca com estoque reservado de sobremesas e sorvete para meu bel prazer.
Liguei meu celular e encontrei as milhares de mensagens de Patrick. Não pensei muito e apertei em discar. Ele atendeu no segundo toque com voz de sono.
— Oi, como é que foi o concurso? Como você tá?
— Não estou tirando uma soneca gostosa como você, mas estou viva e em primeiro lugar no ranking. Não foi um dia só de perdas, afinal. — Ele riu, bocejando alto.
— Bom saber que você está no seu lugar de direito.
— Uau, quanta bajulação, e acabou de acordar. Como se as flores não fossem o suficiente. — Tirei onda da sua cara.
— Flores? — disse, desentendido. — Como assim?
Alguém me agarrou por trás e me prensou de peito colado na parede do corredor de acesso à cozinha. Tentei não soltar um grito de susto.
— Vai a algum lugar? — sussurrou no meu ouvido. — Desliga.
E, segurando meus cabelos e posicionando os fios aos lados, beijou meu ombro e pescoço. Patrick chamava meu nome na linha do outro lado e suspirei, matando minha voz para que ele não desconfiasse de nada, e me despedi, dizendo que um imprevisto tinha acontecido.
Então não foi Patrick quem me deu as flores. Era um B de Brazzi sim.
Victor Brazzi.
Pai de Patrick e meu treinador de concurso.
— Já mudamos horários hoje por conta de suas brigas familiares, Victor. Não acha arriscado fazer isso embaixo do teto de Aldo?
— Não — falou, simples e direito, suas mãos correndo pelo meu corpo enquanto cheirava meus cabelos com afeto extra, deixando claro que ele realmente não ligava. — Preciso entrar dentro de você desde que te vi naquela porra de vestido em cima do palco.
Mordi o lábio, forçando meu corpo no espaço mínimo para me virar de frente para ele.
— Dei oi pra sua esposa hoje. Será que ela apareceu pra encontrar quem é a vagabunda que anda dando em cima do marido dela? Não foi isso que ela me chamou na última discussão de vocês dois? — Sorri, colocando meus braços ao redor do seu pescoço.
— Ah, ela desconfia sim que é uma das garotas do concurso, mas jamais a tão fechada e isolada princesinha do barão Mercy.
Meu celular voltou a tocar com a letra P na tela e me senti encurralada em uma situação desconfortável que já não me gerava felicidade alguma. Bufei entediada, afastando Victor dos meus lábios, pois a esta altura do campeonato, parecia um necessitado sugador de ralo.
— Estou me sentindo tão fechada e isolada hoje, Victor, que vou me trancar no meu quarto.
— Como assim? — Ele se espantou com a negativa. — Estamos preparando este encontro há semanas, você não vai me largar agora.
— Não só posso, como vou.
— Para com isso. — Segurou meu pescoço para sustentar meu olhar. — Marta não desconfia de porra nenhuma. Eu tô necessitado de você aqui, princesinha.
No segundo que sua mão puxou a minha para colocar em cima de seu volume, meu sangue virou fogo e minha garganta trancou. Empurrei longe com força dessa vez. Sua cara virou uma feição de raiva e ele ousou se aproximar outra vez, mas dei um passo para trás.
— Encosta em mim de novo e eu grito. Aí não vai ser comigo que terá que lidar.
A simples menção de Aldo descobrir sobre nossas brincadeirinhas escondidas o deixou pálido e provavelmente com raiva pela situação de impotência.
— Vai jogar essa carta então, pirralha?
— Posso jogar a carta do “pirralha” também, se preferir, já que você está correndo atrás dela possuindo uns bons sessenta anos a mais — disse, ácida, com um sorriso.
Ele riu junto, leve e um pouco maníaco, sem achar graça.
— Me usou e vai me largar no momento propício em que você não sente mais prazer, entendi. Você é uma ninfeta bem cara, .
— Tão cara que você não consegue bancar. — O deixei falando sozinho, abrindo a porta de entrada a cozinha. Queria entrar naquele freezer logo, jantar um delicioso sorvete e cair na minha deliciosa cama.
— Isso não faz de você uma pessoa melhor, sabe disso, não é? Marta sempre gostou de você. — Gargalhou e fechei meu punho. — Eu não fui o primeiro e com certeza não vou ser o último otário que você enganou.
— Acabou, Brazzi. Segue sua vida e eu sigo a minha.
— Vagabunda — sussurrou, alto o suficiente para eu ouvir, mas o ignorei, ou acabaria quebrando meu punho no seu rosto.
Na cozinha, encontrei paz: o cheiro delicioso das panelas fervendo em fogo baixo para algum café da manhã especial que teríamos no dia seguinte e somente um cozinheiro tirando um cochilo em uma espécie de sofá que tinha no canto dali.
Passei silenciosamente por ele até encontrar a porta dos frios e a abri, sorrindo, andando nas pontas dos pés naquele frigorífico de hotel e agradecendo por estar usando uma roupa apropriada no meio daquele frio.
Encontrei a porta da geladeira cinza gigante completa de sorvetes e a abri.
Mas não foi um sorvete que encontrei ali, antes fosse.
Uma massa de carne e ossos de mais de um metro completamente congelada caiu sobre o meu corpo e despenquei de costas no chão, sentindo o impacto do peso em cima de mim.
Ela não tinha respiração ou calor corpóreo, pois estava morta e fora colocada para congelar naquele freezer sabe-se lá por quanto tempo.
Eram os olhos sem vida e gélidos de Vanda Perlmann, a menina desaparecida, que olhavam para mim, completamente imóvel.
Eu não sabia o que fazer, então apenas gritei aterrorizada com o peso do corpo dela colado no meu.


Capítulo 3

“Ela tem a beleza estúpida da juventude, mas é astuta.” — Closer.


Merda de vida, por que quando as coisas tendem a dar errado, elas dão todas de uma vez?
Sério. Parece que o universo quer tudo, menos que as coisas sejam fáceis para mim. Posso listar até, mas o mais importante é que meu pai estava no meu ouvido, como sempre, falando sobre as minhas responsabilidades e me vigiando para saber se eu me meteria em alguma encrenca que pudesse prejudicar os negócios da família. E o que menos precisávamos no momento era de mais um escândalo.
Então, antes de me mandar para o Saint Fiore, ele fez um enorme discurso sobre como esse ano é importante e que eu preciso andar na linha.
, eu estarei de olho em você. Não faça com que eu me arrependa de confiar em você, garoto. — Foi o que ele disse. É a mesma coisa que ele sempre diz.
Responsabilidades de ser um herdeiro.
Havia acabado de sair do Ellio’s, o meu lugar favorito em toda Silent Grace e que vendia os melhores sanduíches da Itália: talvez fosse de um desses que precisava para melhorar meu dia. Como estava sem minha moto, decidi pegar o ônibus até o Saint Fiore. Pelo menos lá ficaria enfiado dentro do meu quarto o dia inteiro dormindo, para garantir que esse dia horrível acabasse logo.
Me sentei no banco do ponto, ao lado de uma garota com o uniforme do Saint Fiore.
Droga, será que ela puxaria papo comigo? Não queria ser mal-educado com a garota, não estava no meu melhor dia para socializar com colegas.
Mas a garota nem ao menos olhou para mim. Agiu como se eu nem existisse. Ai, meu ego.
Será que ela realmente era do Saint Fiore? Bom, o uniforme não podia ser coincidência. Ela vestia a saia plissada xadrez com as cores do Saint Fiore, azul e cinza. E por debaixo do grande casaco cor-de-rosa conseguia ver que usava o suéter cinza com o broche de Saint Fiore.
Não nos conhecíamos então?
A garota levantou a cabeça por um instante e eu vi seu rosto delicado, as bochechas coradas pela brisa da manhã. Os cabelos pretos lisos na altura de seus ombros balançando junto com vento.
Ela se virou para mim por um instante e depois virou de volta, olhando para a rua. Não foi um movimento tímido ou um movimento para que eu soubesse que ela sabia que eu estava aqui. Para ela parecia que eu nem estava aqui.
Não que eu me importasse se uma novata qualquer do Saint Fiore soubesse da minha maldita existência ou não.
Mas todos sabem da sua maldita existência, , me respondi mentalmente.
Menos ela.
Meus pensamentos foram, felizmente, calados com a chegada do ônibus. Nos levantamos ao mesmo tempo, mas ela foi na frente, subindo no transporte. Fui atrás.
Assim que chegou na minha vez, o universo fez questão de me relembrar que eu não estava em um bom dia. Enfiei minhas mãos no bolso e não tinha dinheiro algum para pagar a viagem. Havia esquecido minha carteira no Ellio’s… Que dia de merda.
— Se não for pagar, cai fora — o motorista disse, com sua expressão de pouquíssimos amigos.
— Droga — bufei e girei meus calcanhares para descer do ônibus.
— Espera. — Ouvi a voz doce e calorosa da garota que nem sabia que eu existia. — Eu pago pra ele — ela disse, indiferente.
Tentei não sorrir. Girei nos meus calcanhares e a agradeci com um gesto, passei então pela catraca. Esse foi o mínimo de contato que tivemos e, com isso, pude sentir o seu perfume. Era doce. Frutal.
— Obrigado — agradeci novamente. Ela deu os ombros. — Depois eu te pago de volta.
— Não tem problema. — Deu um sorrisinho, sem mostrar os dentes, e se sentou em um dos assentos vazios perto da janela. Eu me sentei do outro lado do ônibus.
Assim que me sentei, recebi um tapão na nuca de mim mesmo.
Depois eu te pago de volta? Qual é o seu problema? Por que não perguntou o nome dela? Idiota, você é idiota, .
Eu sei… eu sei.
Durante toda a viagem, não consegui me conter de ficar a observando de canto de olho. Ela estava com a cabeça encostada no vidro e acredito que tenha cochilado, porque às vezes batia a cabeça no vidro e despertava.
Estava contente, nem tudo estava perdido nesse dia horrível de qualquer forma porque o Saint Fiore não era grande o suficiente para que eu não esbarrasse nela novamente.
E aí, nada me impediria de conhecer essa garota.

***

Saint Fiore parecia um castelo, ou melhor, uma igreja medieval. Sério, era tão enorme que estava até com medo de entrar.
Não era apenas a arquitetura do colégio que me deixava assustada, nem a nova experiência. Era pensar que uma das alunas foi encontrada morta há pouco tempo e isso era o suficiente para que eu me arrepiasse inteira.
O que deixava todo aquele clima gótico, medieval e até um pouco mórbido mais tranquilo era a quantidade de jovens pelo pátio e dentro do colégio. Eles deixavam o ar mais moderno, principalmente as garotas que subiam suas saias assim que as freiras iam embora e os rapazes afrouxavam suas gravatas.
Era como se nada tivesse acontecido e a garota nem existisse.
E por dentro, não era algo velho e assustador. Era até bem mais moderno e conservado. Bem iluminado e espaçoso. Sério, parecia maior por dentro que por fora. Mas fazia sentido, precisava comportar a quantidade de alunos. E eram muitos alunos.
Me enfiei no meio deles e fui seguindo, procurando pelos dormitórios. Estava usando as pessoas com malas como referências para não me perder. Era muito grande e os corredores eram longos, para me perder aqui, era um pulo.
Tinha anotado em um papelzinho o número do meu quarto e fui seguindo até ele. Os dormitórios masculinos e femininos ficavam em locais diferentes, o que era ótimo, porque o que eu menos queria era trombar com algum adolescente do sexo masculino de noite.
Achei meu dormitório e entrei. Ele era bem decorado e ajeitadinho, poderia me acostumar a morar aqui. E como não trouxe nada comigo, além das malas que Nik enviou, eu não atrapalharia minhas duas outras colegas de quarto.
— Oh. Meu. Deus — Ouvi a voz feminina atrás de mim e me assustei, me virando para vê-la. — Você deve ser a , certo? — Sorriu de orelha a orelha.
— Sim.. sou eu — disse, timidamente. A garota correu e me abraçou. Um gesto fofo, mas não estava acostumada.
— Sou Marzia, sua colega de quarto! — Sorriu e apontou para a sua cama. — Meu Deus, você é tão lindinha. — Apertou minhas bochechas sem força. — Os meninos vão ficar loucos!
— Obrigada? — respondi um pouco sem confiança.
— O que aconteceu com sua testa? — Deu uma risadinha. — Está vermelha.
— Nada… — corei. Nota mental: não cochile em ônibus encostada na janela.
Confesso que gostei dela. Agitada demais, mas algo nela me deixou tranquila. Nem todos aqui são frios e mimados. Posso fazer uma amizade, isso é bom.
Olhei para os lados e só havia uma cama ocupada que era a de Marzia, a outra seria a minha e ainda sobrava uma. Franzi o cenho.
— Somos só nós duas aqui no quarto? — perguntei. — Não teremos mais uma colega de quarto?
— Ah, é de . — Deu os ombros. — Mas ela teve uns probleminhas e não pôde vir hoje. Mas nada demais, logo vocês vão se conhecer e tenho certeza que vão se amar! — Ela sorriu.
Eu esperava que sim. De verdade.
Mesmo sendo um pouco mais na minha, gosto de fazer amizades e conhecer novas pessoas. Trina diz que todos querem ser meus amigos porque eu sou querida e calorosa, mas nunca me vi como popular, sou apenas amigável.
Fui até a minha cama e me sentei, vi a mala que já estava lá quando cheguei e a abri para verificar se Nik não trocou minhas malas enquanto eu dormia.
Havia separado as roupas certas para viver bem aqui e deixei as mais luxuosas e caras na casa dela. Não fazia sentido trazer um desfile de moda para um internato que passamos a maior parte do tempo de uniforme.
Mas de qualquer forma ela conseguiu enfiar umas peças exclusivas e delicadas — e bem caras — na minha mala.
— Ei, você é a garota que conseguiu a bolsa integral por nota máxima na prova, né? — Marzia perguntou e eu assenti. — Uau, você é uma lenda.
Franzi o cenho.
— Espera, como você sabe disso? — estranhei. Não sabia que iam falar sobre isso com os outros alunos, só que meu nome estaria na lista de aprovados.
— Está no quadro de avisos. Sua foto e seu nome. — Sorriu. — Myoui! A neta da Madame Grenier, certo?
Isso só pode ser um pesadelo.

***

Marzia não estava mentindo. Minha foto estava lá, com o meu nome e uma parabenização por ter conseguido a bolsa integral com cem por cento de acertos. Um recorde, algo nunca visto antes, e que a direção parabenizava.
Mas eu sabia que isso não era apenas uma coincidência e sim que tinha o dedo da Madame Grenier nisso.
Como eu sabia? A minha foto que aparecia era recente. Eu havia tirado ela usando o uniforme do Saint Fiore e segurando as flores que ela me deu, tudo para colocar num porta-retrato na sala para “mostrar o orgulho que minha neta estava me dando”, para mostrar para meu pai e para a família da minha mãe.
Como a direção teria acesso à essa foto?
Tudo isso foi armado pela querida Madame Grenier para mostrar para todos do internato que eu tinha o sangue dela em minhas veias. Que eu não era uma simples bolsista que mandou muito bem na prova. Eu era a neta dela que mandou muito bem na prova.
Essa era a parte que ainda não havia me acostumado desde que me mudei.
Desde o dia que cheguei em Silent Grace, Nik fazia de tudo para que eu me adaptasse à essa nova cidade em seus termos. Com roupas caras, com jantares em restaurantes chiques e me dando aulas de etiqueta e como me portar. Ela quer que eu seja perfeitamente impecável e um exemplo para a sociedade que agora vivo.
Claro que ela nunca havia sido maldosa ou me ofendido, ela estava apenas tentando fazer com que eu parecesse mais com as pessoas de San Pellegrino, o bairro de alta classe em que vive e é respeitada como Madame Grenier.
E conhecê-la de verdade depois de anos foi até algo surpreendente, porque ela era totalmente o oposto de tudo que eu imaginava.
Madame Grenier era jovial e moderna, desde as roupas que vestia até sua personalidade. Tinha uma conta no Instagram famosa que falava sobre produtos orgânicos e dava dicas de moda, além de estar cercada por pessoas mais novas, estilosas e influentes já que era envolvida com os Concursos de Miss e tinha sua própria agência de moda.
Até a arquitetura de sua mansão era algo moderno, colorido e com muitas plantas. Totalmente diferente do que eu imaginava que ela era. Tinha um estilo de vida totalmente curioso e interessante.
E por ser tão jovial e moderna assim, tinha uma regra, a MAIS importante de nossa convivência: eu não podia chamá-la de “vó”.
Estava tentando me acostumar, mas para todos ela era a Madame Grenier, apenas isso. Para os íntimos, Grenier e para mim, Nik. Mas nunca , vovó ou coisas do tipo.
Não que ela quisesse esconder isso, longe disso, o cartaz em minha frente era a prova de que ela estava mais focada em apagar o meu lado Myoui e que todos me vejam apenas como uma Grenier.
Papai havia me avisado que isso aconteceria, mas de qualquer forma isso não daria certo porque não há como apagar minha mãe de mim. Ela está em mim, em meu rosto, em minha alma e em quem sou.
— Então ela é parente da Madame Grenier? — uma das garotas disse, sem notar que eu estava ali.
— Que prova há que ela realmente conseguiu fazer todos os pontos? — Revirou os olhos. — Com certeza a Madame Grenier comprou isso pra ela.
As duas me notaram e não esconderam o desprezo em seus olhares. Deram uma risadinha da minha cara e saíram. Me senti um pouco envergonhada. Primeiras impressões sempre importam e a minha não estava sendo como eu queria.
— Ei, , não ligue pra elas — Marzia disse e segurou minha mão. — Vamos, não há nada que se envergonhar. Você agora é uma lenda!
— Não queria ser uma lenda. — Encolhi os ombros.
— Mas é! E por mérito próprio! — Sorriu. — E quem falar o contrário está com inveja porque você realmente usou o cérebro para entrar aqui e não o dinheiro da sua família.
— Você tem razão! — Suspirei, tentando ver o lado positivo de tudo isso. — Isso é sobre mim e não sobre a Madame Grenier.
Já que meu plano de tentar passar despercebida e me enturmar aos poucos já deu errado, o plano B seria me orgulhar do meu mérito e mudar a narrativa, fazer ser sobre minha inteligência e não sobre a Madame Grenier.
— Ninguém gosta de uma sabichona. — Ouvi um garoto dizendo enquanto passava por nós. Suspirei.
É, talvez fosse mais difícil do que eu imaginava.

***

Sentia que tinha um alvo em minhas costas quando andava pelos corredores depois do meu cartaz estampado pelos corredores do colégio. E, além disso, em todas as aulas que tínhamos, os professores decidiram que, antes de começar as aulas, parariam para me elogiar e enaltecer minha bolsa.
Não sabia se isso também tinha dedo de Madame Grenier e sinceramente não queria nem saber.
Eu caminhava pelos corredores do Saint Fiore à procura da biblioteca, com meus fones de ouvido tocando alguma música para me distrair um pouco. Queria ignorar um pouco as coisas que estavam acontecendo e agir normalmente, ignorando a atenção que estava recebendo.
Mas meus colegas de internato não tinham o mesmo pensamento, já que algum aleatório passou por mim e esbarrou em mim de propósito para que eu derrubasse todos os livros que estava carregando.
Meus livros todos foram para o chão e o engraçadinho saiu, rindo da minha cara. Bufei irritada e agachei para recolher meus livros.
— Deixa que eu te ajudo. — Ouvi a voz masculina e me virei para ver quem estava falando comigo.
Prendi o ar por um instante.
Era um garoto alto de cabelos pretos, vestindo o uniforme do Saint Fiore da forma mais certinha possível e com um sorriso simpático no rosto. Era muito bonito, muito. Sentia minhas bochechas queimarem só por estar olhando para ele.
— Não precisa — resmunguei, mas ele se agachou e me ajudou a recolher os livros do chão com toda educação do mundo. — Obrigada.
Ele sorriu.
— Não se preocupe, logo eles te deixam em paz — ele disse.
— Você acha? — perguntei, sincera. Tudo que queria era que isso passasse logo e esquecessem da minha existência ou pelo menos me tratassem melhor.
— Claro. — Sorriu e estendeu a mão para que eu levantasse. — Sou Mirko, prazer.
. — Sorri sem mostrar os dentes. — Obrigada mais uma vez pela ajuda.
Mirko deu os ombros e mantinha o sorriso simpático e muito bonito estampando seu rosto.
— Você é nova aqui, certo? — Assenti. — Que tal se eu te apresentar o colégio? Posso te falar mais sobre o pessoal daqui para você não se sentir tão assustada.
Era uma boa ideia? Talvez. Mirko não parecia alguém intimidador, muito pelo contrário. Parecia ser um cara legal e certinho, não igual aos outros de quem tive o desprazer de ouvir comentários maldosos.
Mas, antes que pudesse responder, Marzia apareceu ao meu lado e me agarrou pelo braço.
— Vamos , tenho que te mostrar algo muito legal! — Ela sorria de orelha a orelha. Então, ela notou a presença de Mirko e sorriu. — Oi, oi, Mirko.
Eles se conheciam? Interessante. Podia conversar com Marzia e, quem sabe, ela me contaria mais sobre esse garoto. Não que eu estivesse interessada nele, longe disso!
Mirko acenou com a cabeça e voltou sua atenção para mim. Aproveitei a deixa da minha amiga para sair antes que eu fizesse algo estúpido.
— Eu tenho que ir… — disse, cortando o contato visual. — Obrigada mais uma vez pela sua ajuda, nos vemos.
Saí puxando Marzia enquanto ele dizia alguma coisa que eu não consegui ouvir. Não olhei para trás, mas sentia seu olhar queimando minhas costas, e por isso corei.
— Tem algo a me contar? — minha amiga perguntou com um sorriso incriminador nos lábios. — O Mirko é um cara legal, se quiser saber. — Fiz careta.
— Não quero saber. — Mas meu rosto dizia o contrário, já que minhas bochechas estavam queimando.
Ela riu.
Não era nada demais também, era só um garoto simpático que foi legal comigo quando todo o Saint Fiore estava de cara feia para mim.
E foi apenas um único encontro pelos corredores que não precisaria acontecer de novo.
Tudo que eu precisava era ficar longe de encrencas, e garotos eram da cabeça aos pés.

***

Eu prometi a mim mesmo que ficaria trancado no meu dormitório o dia inteiro, mas infelizmente Mirko não me deixou em paz até me arrastar pelo Saint Fiore e ser sociável logo no primeiro dia.
Mirko é meu melhor amigo, o que é fofo. Somos amigos desde nossa infância e crescemos juntos, então somos quase uma dupla inseparável. E Mirko é um cara legal, diferente dos mauricinhos do Fiore, ele é realmente um cara decente e esforçado.
Por isso que éramos amigos, porque eu precisava de um anjinho no meu ombro, e ele precisava de um diabinho.
Eu achava muito engraçado como nosso querido colégio funcionava. Isso aqui era um colégio de freiras, padres e todas as santidades possíveis. Mas os adolescentes que aqui habitavam nunca entrariam no Reino dos Céus. Sério.
Mas era engraçado ficar assistindo as cenas pelos corredores. As meninas subindo as saias para mostrarem mais que os joelhos, os meninos babando e indo atrás delas que nem cachorrinhos, as freiras aparecendo e o desespero na cara desses jovens.
Não que eu fosse um puritano, eu já me diverti muito pelo Saint Fiore, em lugares que até Deus duvidaria, e outros que só eu conhecia. Mas pelo menos eu não andava por aí transpirando hormônios e desespero por sexo.
É aquele ditado, quem come quieto, come mais e ainda repete.
Passei por uma freira que fez cara feia para mim por causa do meu uniforme e a falta da minha gravata. Ignorei e consegui seguindo meu caminho pelos corredores.
Encontrei meu amigo pelos corredores e ele estava vermelho. Franzi o cenho, estranhando.
— Tá tudo bem, cara?
Ele balançou a cabeça, parecendo desnorteado.
— Acabei de conhecer a garota mais linda que vi em toda a minha vida. — Suspirou.
Revirei os olhos.
— Você não diz isso sempre? — Tirei sarro do meu amigo. — Todas as mulheres, homens e o que for são anjos que caíram do céu em sua vida?
Mirko tinha um coração grande, amava muita gente de uma vez só. Respeitava isso. Pelo menos não era um pervertido igual aos nossos outros colegas.
— Não, eu estou falando sério, — disse e realmente tinha seriedade no seu tom. Ele me puxou até o quadro de avisos e apontou para um cartaz. — Olha, essa é ela.
Virei para o cartaz para ver quem era essa garota linda que Mirko cruzou pelos corredores e se apaixonou como se fosse a primeira vez. Quase me engasguei com minha própria língua.
Era ela.
A garota do ônibus.
Os mesmos escuros cabelos lisos na altura do ombro, os olhos escuros e brilhosos como uma noite estrelada e os lábios vermelhos como uma rosa. O sorriso… era o sorriso mais lindo que já havia visto na minha vida. Droga, Mirko estava certo.
Sorte que não estava de gravata ou sufocaria até a morte ali mesmo. Mas o que me fez sufocar de verdade foi ler o seu nome.
Myoui. Neta da Madame Grenier.
Puta merda.
Ela é parente da Madame Grenier? Mas que merda! De todas as garotas do mundo que poderiam vir parar no Saint Fiore, a mais bonita de todas tinha que ser parente da maldita Madame Grenier.
E eu podia dizer que tinha um histórico não muito agradável com a Madame de San Pellegrino. Nada demais, só alguns encontros desajeitados e que garantem que ela não irá querer que eu me envolva com uma parente sua.
Isso com certeza era um sinal do universo para ficar longe dela. Só me traria dor de cabeça.
Não me envolveria com essa garota e nem deixaria que Mirko também se envolvesse na loucura que é uma Grenier. Ele me agradeceria depois, porque tal avó, tal neta.
É isso, eu não me aproximaria de Grenier de forma alguma. Nunca. Nosso encontro no ônibus foi o primeiro e o último. Juro pela minha vida!

***

Você tem que ter coragem, . Você vai ter que encarar eles todos os dias, os dias inteiros, durante o ano todo. Não posso ficar amedrontada porque eles acham que eu não mereço a bolsa que recebi.
Respirei fundo, tomando toda a coragem do mundo, e fechei o meu armário, pronta pra dar minha caminhada da vergonha pelos corredores.
Mas levei um susto assim que vi a figura da masculina parado do lado do meu armário. Levei minhas mãos ao peito para tranquilizar meus batimentos e depois levei-as ao meu rosto, pra esconder a vermelhidão.
— Desculpa, eu não quis te assustar. — Ele sorriu tímido. Tirou uma das mãos do bolso e estendeu pra mim. — Sou Patrick. Patrick Brazzi.
Patrick não tinha nada a ver com Mirko, o garoto que conheci mais cedo. Ele parecia mais um mauricinho, igual o resto dos garotos do Saint Fiore. Engomadinho e com o ar de popular.
Mas isso também não era algo ruim. Não podia julgá-lo só por sua aparência e riqueza.
Apertei sua mão.
Myoui, mas acho que você já sabe disso. — Ri um pouco envergonhada. Ele acompanhou, dando uma breve risada e depois um daqueles sorrisos arrebatadores de calcinhas.
— Quem? Desculpa… eu não faço ideia de quem você é — disse e eu corei, mais para pimentão em chamas de tanta vergonha. Ele percebeu e arregalou os olhos. — É brincadeira, ok? Claro que sei quem é você. — Riu e sorriu, tentando me tranquilizar. Deu certo, mas ainda estava corada.
— Não sei qual das opções seria a melhor agora. — Ri envergonhada.
— Todos sabem disso agora. Você está bem popular por Saint Fiore — disse e pude sentir minhas bochechas corarem novamente. — Não é todo dia que temos uma bolsista que conseguiu ir tão bem na prova e essa bolsista ainda sendo parente da Madame Grenier.
Tentei forçar um sorriso.
— É, acho que isso dá uma visibilidade mesmo.
— Ei, mas você não tá sozinha aqui, ok? — Ele sorriu. — Se quiser, podemos andar juntos. Ninguém vai mexer com você se estiver comigo.
O sorriso apareceu em meu rosto com sua proposta, era legal ele querer me proteger do futuro bullying que eu sofreria… Espera.
— Espera, alguém vai mexer comigo? — Meus olhos se arregalaram e o sorriso foi embora. A última coisa que eu queria era sofrer bullying de um bando de adolescentes ricos e mimados.
Eu assisti os filmes, eu sabia como eles eram. Eu ia viver um inferno sem fim.
— Ninguém vai mexer com você, pequeno lírio. — Senti o braço ao redor dos meus ombros e eu gelei. A voz era familiar. — Sou eu que não vou deixar.
Levantei meu rosto para ver quem era e logo a primeira coisa que vi foi o sorriso. O sorriso do cara que eu paguei a passagem mais cedo no ônibus. Ele também está aqui? Uau, que mundo pequeno.
Não havia prestado muita atenção nele quando o vi mais cedo no ponto de ônibus, para falar a verdade, estava tão cansada que nem lembrava que tínhamos nos encontrado e nem reparei que ele também era um aluno do Fiore.
Ele era o oposto dos outros e o que me chamou atenção foi a forma que usava seu uniforme, com a camisa branca com todos seus botões abertos mostrando a camiseta preta que ele usava por baixo com o paletó do Saint Fiore por cima de tudo.
Se isso era permitido, eu não sabia, mas ele não parecia se importar com as regras de vestimenta.
. — Patrick não parecia muito feliz com a presença do outro. — Vocês se conhecem?
— Não. — Tentei dizer, mas me apertou mais em seu abraço.
Muito, Patrick. Você não faz ideia. — Ele sorriu. Eu já não estava mais vermelha de vergonha, eu estava roxa. E para piorar, o que isso quer dizer?
Meu Deus, ele tá fazendo parecer que nós… não, não pode ser.
— Uau, você é rápido. — Ele olhou pra com desprezo.
— Sou. — Ele sorriu.
— Espera, o quê? — falei mais alto e me soltei do rapaz que me apertava. — Ele não é rápido, não sei do que ele está falando, eu nem o conheço.
Mas os dois praticamente ignoraram que eu estava ali e continuaram com sua batalha de testosterona.
— Sabe, Pat, você deveria ser rápido e dar o pé daqui também, ou você gostaria que soubesse que anda jogando charmes e jurando proteção para as novatas indefesas? — Ele arqueou a sobrancelha.
Patrick engoliu seco e olhou para mim.
— Você merece coisa melhor, só falando. — Suspirou derrotado. — Te vejo por aí, . — E saiu.
Eles iam sair no braço? Por minha causa? Qual é o problema dos garotos desse colégio? Eles não podem agir como pessoas equilibradas?
Mas confesso que fiquei curiosa para saber qual dos dois venceriam uma briga.
é mais alto e tem um porte de atleta, mas Patrick também, mesmo sendo uns centímetros mais baixo parecia forte como um jogador de futebol. Mas com certeza malhava, deu para sentir…
Eu fiquei vermelha só de imaginar e me xinguei mentalmente por estar pensando nisso.
— Ouch? O que ele quis dizer com isso? — se virou para mim. — Você acha que eu não sou bom o bastante?
Engoli seco. O que ele estava falando?
Assim que Patrick saiu da minha vista, empurrei para longe de mim e parei apenas nisso, porque minha vontade era de socá-lo, mas não podia ser expulsa no meu primeiro dia.
— O que foi isso? — perguntei, sem paciência e irritada.
— Eu estava te protegendo, oras. — Deu os ombros. — Patrick é um predador, você não vai querer se aproximar dele, acredite.
— E você acha que eu não sou capaz de me defender sozinha? — Cruzei os braços.
— Não, longe disso. — Arregalou os olhos. — Só achei que precisava de ajuda, já que é nova aqui e não sabe muito bem como funcionam as coisas. — Coçou a nuca.
— Não, obrigada. Guarde suas ajudas pra você. — Não sorri, mas ele sim. — E que coisa é essa de chegar agarrando? Eu podia te denunciar por isso! — Me alterei um pouco no tom de voz. Ele sorria mais. — Por que você tá sorrindo, qual é o seu problema?
— Prazer, . — Ele estendeu a mão. Eu revirei os olhos.
— Você é louco, fique longe de mim.
Saí de lá batendo os pés. Tentei não olhar para trás, mas acabei dando uma espiadinha. acenou para mim, com um sorriso no rosto, quando percebeu que eu estava olhando. Virei rapidamente para o outro lado.
Deus, o que há de errado com as pessoas desse lugar? Tomara que eu nunca mais tenha que vê-lo novamente.

***

— Você viu? Ela estava conversando com Patrick… — A voz da garota saiu baixinha, mas eu conseguia ouvir.
— Meu Deus, a vai devorar ela viva! — A outra garota riu.
— Já não basta estar toda engraçada com a melhor amiga da , agora ela foi atrás do Patrick. — Riu. — Ela tá pedindo isso.
Elas estavam falando de mim? Quem diabos era e por que ela ia me devorar? O que eu estava fazendo de mal?
— Ela vai aprender da pior forma que não se deve mexer com os gêmeos… tadinha da novata. Passou no maior teste da Saint Fiore, mas vai tirar zero no teste de sobrevivência. — Riram de novo.
Saí da cabine como um furacão.
Não sou uma pessoa de brigar, longe disso. Eu odeio brigas, odeio gritaria e violência. Mas eu odeio muito mais injustiças e o que estavam fazendo comigo era injustiça pura! Não fiz nada para elas e muito menos para essa tal de para me detestarem tanto.
— Quem é e por que estão falando assim sobre mim? — disse, tentei parecer firme.
Uma delas sorriu.
é o diabo em pessoa, novata. Os gêmeos mandam e desmandam aqui, andam como se isso aqui fosse a terra deles e ninguém mexe com eles. Bom, quase ninguém… — Deu uma risadinha.
— Mas a é a pior — a outra continuou. — Ela é má, mesquinha, vingativa, possessiva e não mede esforços pra destruir quem se mete no caminho dela. Ela é tão cruel que fez a antiga colega de quarto ir embora do país, porque os pais dela estavam com medo de que ela se matasse… tudo porque a garota fez amizade com a melhor amiga da , a Marzia.
— A única amiga da — a primeira adicionou. — Consegue imaginar o que ela vai fazer com você que já chegou aqui se achando a grandona porque conseguiu a bolsa, é parente da Madame Grenier e está de graça com a melhor amiga dela e o Patrick? — Ela riu. — Coitadinha de você…
— Mas eu… — Tentei rebater, mas elas nem me ouviram. Elas saíram do banheiro rindo da minha cara, novamente.
Eu não estava tentando me meter com essa menina, eu nem a conhecia! Como eu poderia tentar algo contra uma pessoa assim? Meu Deus, em que encrenca eu me meti!
Ela realmente ia acabar comigo?
Não, não posso pagar pra ver. Eu ficarei longe do caminho dessa garota e começarei trocando de quarto.

***

— Você não pode sair daqui, por favor, . — Marzia tentou lutar contra, segurando minhas malas pra não me deixar trocar de quarto.
— É o melhor, Marzia. Eu não quero atrapalhar você e sua amiga. — Tentei puxar minha mala, mas ela segurou com mais força.
— O que te falaram, hein? Que a é o demônio em pessoa e vai te matar e servir num churrasco porque você é minha amiga? — Revirou os olhos. Eu assenti aterrorizada com tantos detalhes. — Por Deus, esse povo não sabe mais o que inventar!
— Então é mentira?
Ela ficou vermelha. Deus, não era mentira
, entenda, os gêmeos têm uma péssima reputação aqui? Têm. Eles fazem por merecer essa reputação? Sim. Mas não é tão má assim. Ela só é um pouco ciumenta… — Encolheu os ombros. — Mas quando ela te conhecer melhor, ela vai te amar! É impossível não te amar. — Ela sorriu.
— Isso não estava me confortando muito, Marzia…
A garota riu da minha cara assim que eu fui sincera. Eu posso me fazer de valente para os outros lá fora, mas do meu dormitório para dentro eu serei sincera: eu não quero sofrer torturas psicológicas de uma garota possessiva, má e cruel que eu nem conheço.
— Relaxa, tá comigo, tá com Deus. — Ela sorriu. — Nós três vamos ser melhores amigas, juro!
— Tudo bem. — Suspirei.
Talvez eu estivesse exagerando um pouco, talvez ela nem seja tão ruim assim. Só um pouco ciumenta e as garotas exageram por inveja.
Marzia sorriu e correu para os meus braços, me abraçando com força.
— Pelo menos você não conheceu o irmão gêmeo dela!

***

Durante minha primeira noite, não consegui dormir muito bem. Era tudo muito novo para mim e um pouco assustador, principalmente quando descubro que minha colega de quarto é uma possível psicopata que vai me fritar viva porque eu sou amiga da melhor amiga dela.
Cansada de rolar pela cama esperando o sono, eu me levantei.
Marzia havia me contado que, durante a noite, os alunos fugiam de seus dormitórios e ficavam pelo refeitório juntos, como uma festinha do pijama.
Não queria ir para lá, porque com certeza eu não seria bem-vinda pela forma que fui recebida durante o dia. Mas talvez um lanchinho noturno me ajudasse a descansar.
Vesti um suéter por cima do meu pijama e calcei meus chinelos. Marzia não estava em sua cama, com certeza estava com o pessoal no refeitório. Suspirei e tomei coragem para ir encontrar minha amiga.
Saí do meu dormitório e caminhei na ponta dos pés pelos corredores, evitando chamar atenção. Por ser novata, não queria me meter em encrenca logo no meu primeiro dia.
Mas algo diferente chamou minha atenção nos corredores. Mais perto de onde fica os dormitórios masculinos, percebi alguém ali e estranhei. Parecia estar passando mal, com dificuldade para abrir a porta do quarto.
Podia ignorar e continuar meu caminho, mas algo em mim sentia que precisava de ajuda, então fui rapidamente ajudá-lo.
Me assustei ao ver que era e ele não parecia estar bem.
? Tá tudo bem? — Fui até ele e percebi que ele estava machucado. — , você tá sangrando. Preciso te levar para a enfermaria!
— Não — resmungou. Sua voz saiu meio falha, pela dor que estava sentindo. — Tá tudo bem, pode ir, .
— Não! — segurei-o e tentei erguer seu corpo, colocando seus em meu ombro. — Vamos para a enfermaria!
Tentei me mover, mas segurou meu braço e eu parei. Ele suspirou e olhou para mim com uma cara de cachorrinho que caiu da mudança.
— Por favor, , a enfermaria não. — A voz saiu falha de novo. — Só preciso deitar, tá tudo bem.
Não queria fazer o que ele queria, porque ele estava sangrando e pode ter se machucado feito, mas o garoto não queria me ouvir. Era teimoso.
Respirei fundo e cedi, abri a porta de seu quarto e o ajudei a entrar. Pela forma que ele estava, talvez se fosse para a enfermaria, se encrencaria, e não queria prejudicá-lo.
Ele me apontou a sua cama e o levei até ela, ajudando-o a sentar. Ele resmungou de dor algumas vezes, mas se sentou de forma que ficasse confortável.
Fui até a porta, a fechei para não chamar atenção e acendi as luzes. Estava vazio, só com nós dois nele. Provavelmente seu colega de quarto também estava no refeitório com os outros alunos.
Agora com uma boa iluminação, conseguia ver que estava realmente bem machucado, com alguns arranhões no braço e no rosto. Tinha bastante sangue manchando sua camisa preta.
— O que aconteceu? — Fiquei parada, um pouco sem reação. Não sabia o que fazer vendo essa cena. — , parece sério.
Ele negou com a cabeça.
— Caí de moto, só isso — resmungou e se ajeitou. — Tenho um kit de primeiros socorros no banheiro. Tem tudo que precisa pra fazer os curativos.
— Tem certeza que não quer que eu te leve pra enfermaria? — Meu tom era um pouco triste. Não o conhecia direito, mas não gostei de vê-lo dessa forma.
sorriu, mesmo com dor.
— Relaxa, não é a primeira vez. Eu vivo perigosamente.
Revirei os olhos com sua brincadeira. Era algo sério e ele ficava brincando como se não fosse nada demais. Mas ajudaria ele mesmo assim.
Fui até o banheiro de seu quarto e peguei lá um kit de primeiros socorros. Voltei para o quarto e ainda estava deitado quieto.
Me sentei ao seu lado em sua cama e ele se ajeitou para que eu pudesse ver seus ferimentos. Nos braços eram apenas arranhões não muito graves, só pareciam doloridos. Passei o remédio enquanto ele resmungava de dor.
— Resmungar não vai fazer doer menos — dei bronca. — Tomar cuidando quando dirigir, sim.
Ele riu.
— Tudo bem, mamãe. Na próxima eu vou tomar mais cuidado.
Revirei os olhos.
Fiz os curativos em seus braços, mas mesmo assim não parecia que estava tudo certo. Ele ainda resmungava de dor e sabia que ele estava me escondendo algo.
— Tira — disse. Ele arqueou as sobrancelhas.
— O quê?
— A camisa, . O que mais? — resmunguei. — Como vou fazer o curativo com você a vestindo?
Ele engoliu seco e pigarrou. Já estava ficando impaciente, se cuidasse dos ferimentos podia ser pior.
— Tudo bem… — Pareceu um pouco envergonhado.
Ele tentou tirar a camiseta com uma das mãos, mas parecia ainda dolorido por causa dos machucados. Bufei impaciente e fui até ele, o ajudando a tirá-la de uma vez.
Talvez fosse a preocupação e os machucados em seu abdômen que me fizeram tirar o foco de seu corpo. Nem corei quando o vi sem camisa, apenas foquei nos ferimentos feios que tinha.
— Você vai precisar ir à enfermaria, … tá bem feio — disse, preocupada, mas ele pareceu não se importar.
— Amanhã eu dou um jeito nisso, , não se preocupe. — Sorriu. — Não esqueça que eu sou um herdeiro, posso ir ao melhor hospital resolver isso.
— Então por que não foi? — Fiz cara feia. — Quem tá aqui fazendo curativo sou eu.
Ele sorriu para mim.
— Na verdade, quem veio me socorrer foi você, lembra? Você podia ter passado reto, mas veio toda preocupada por mim.
Fiquei quieta, dessa vez não tinha resposta para dar. Fui eu mesma que me meti nessa encrenca quando quis ajudar.
Foquei em fazer um curativo apenas para essa noite e amanhã o lembraria de ir a um hospital ver isso, para o seu bem, já que o corte foi fundo e estava bem feio.
Limpei primeiro o corte e estanquei o sangramento. Passei o mesmo remédio que passei nos outros ferimentos.
— Queria te pedir desculpas — começou enquanto eu fazia o curativo.
— Pelo quê?
— Por isso. — Riu. — E pela forma que me meti na sua conversa com o Patrick mais cedo. Não que eu não tenha feito pelos motivos certos.
— Que motivos? — Franzi o cenho.
— Ele não presta e você é boa demais pra ele. Ou pra qualquer um daqui.
— Você nem me conhece, . — Abaixei a cabeça, para que ele não me visse corar. sorriu.
— Posso não conhecer, mas só por ter pagado uma passagem pra um desconhecido que estava tendo um dia péssimo, já te considero melhor que todos daqui.
Sorri, mas não disse nada. Não sabia o que dizer e estava com medo de falar alguma coisa estúpida ou que fizesse ele pensar algo que não devia. Não precisava me meter em mais encrencas.
Terminei o curativo de . Então me levantei.
— Não esqueça de ir ao hospital ver esse corte — disse enquanto ia em direção à porta.
Ele sorriu.
— Obrigado, .
Apaguei a luz de seu quarto e abri a porta. Me virei para ele, que ainda estava deitado, agora sob apenas a luz de seu abajur. Não conseguia ver seu rosto nitidamente, mas sabia que ele estava sorrindo. sempre está sorrindo.
— Boa noite, .
É, talvez o Saint Fiore não fosse tão ruim assim.


Capítulo 4

“— Lamento pelo seu pai.”
“— Um dia eu o acabaria matando.” — O Profissional.



Saint Fiore

— Sai da frente! — gritei pela janela, buzinando para um garoto imprestável que estava sentado com os amigos na minha vaga.

Hoje o dia não começou bem.

Buzino mais algumas vezes para ele se apressar logo e estaciono meu carro de qualquer forma. Pouco me importava. Já estava atrasada há alguns dias desde a volta às aulas e tive a proeza de conseguir me atrasar para a minha primeira aula também. É uma delícia chegar depois do horário marcado e ter um bando de babacas aplaudindo sua entrada.

Corro com minha bolsa no ombro, fechando os botões de meu paletó cinza escuro com o emblema da Fiore bordado. Estou quase suando quando passo pelos portões do prédio em direção a minha sala de aula, que graças a Marzia ter pegado meus horários, eu sabia para onde ir exatamente.

Claro que a dona Carlota não me deixaria passar sem me chamar até sua sala, então fiquei encurralada no corredor, já não me importando com o meu atraso.

— Venha, mocinha — ela disse simplesmente com a voz rígida e comecei a segui-la enquanto me familiarizava outra vez com o ambiente.

Não andava pelo internato desde o último ano. O colégio combinava com a cidade em um geral. Éramos uma vila medieval, cidade antiga e pacata que cresceu estrondosamente pelo número de milionários que se mudavam para o bairro San Pellegrino, onde ficava um dos colégios mais caros e prestigiados do país.

Então todos os costumes da Saint Fiore, colégio liderado por freiras, eram católicos. Não tão rígidos como antigamente, ainda assim, católicos. Não sou totalmente a favor disso, mas não posso reclamar do ensino aqui, é realmente bom. E não levamos reguada na mão.

O conceito da arquitetura, como boa parte desse lado da Europa, exigia um estilo gótico, mostrando a dimensão de todas as paredes altas e maiores do que construções comuns. Pareciam castelos, só que mais escuros. E na última renovação que o colégio conseguiu com o último prefeito, o senhor Bucci, o ambiente se tornou moderno, ainda contendo as características do movimento renascentista, com todos os elementos de decoração apontados para cima, demonstrando todo aquele tipo de superioridade e supremacia do catolicismo na época em que o movimento artístico foi criado.

Olhei para meus sapatos pretos ilustrados enquanto Carlota fechava a porta de seu escritório. Ele era amarelo com uma cruz enorme pendurada atrás de sua mesa e muitos livros ilustravam sua grande estante de madeira.

— Sente-se — pediu.

Respirei fundo, com preguiça daquilo tudo, mas me sentei, esperando seu sermão, ou pior, compreensão de momentos difíceis que passei.

— Como você está, ?

— Por que se importa?

— Vou bem também, obrigada — ironizou e ajeitou a sua capa de freira, ou hábito, como chamavam aquele treco preto e branco que a maioria das funcionárias da Fiore usavam. — Quer me contar sobre os últimos dias?

Terminei com meu ficante, terminei com o pai dele também, fiquei em primeiro lugar em um concurso de beleza, comi frango frito com capuccino essa manhã antes de vir para o colégio e encontrei um corpo morto no freezer do hotel semana passada o que fez meu pai ficar maluco e me impedir de voltar pra escola depois que os policiais me encheram o saco dia e noite por culpa de um depoimento com zero informações.

Do que exatamente ela estava querendo saber?

Encolhi os ombros.

— Entediante. Ontem o ponto mais alto do meu dia foi conseguir acordar no momento exato em que minha série favorita estava passando na televisão. Crazy RIch Asians, conhece?

… — Começou a mostrar indícios de impaciência.

— Até o senhor Aldo Mercy começar mais uma discussão sobre ser cedo demais para eu voltar para o colégio. — Sorri, inocente. — Você não me deixou terminar.

— Sabemos a opinião de seu pai sobre isso, mas gostaria de informar que a Fiore é a instituição mais segura do país. — Era sim. Igual Hogwarts. Não duvido que tivessem um trasgo guardado nas masmorras ou uma cobra gigante no porão. — E estou aqui mais interessada em saber sobre como seu psicológico está pronto para se adaptar a um novo ano. Querendo ou não, , você presenciou uma cena forte, e tratando-se de sua amiga, pode alavancar sentimentos diferentes.

Resmunguei.

— Vanda Perlmann não é minha amiga. Não era minha amiga. Eu estou bem, já falei com o xerife sobre tudo que sei e estou pronta pra voltar a estudar. O seu sonho foi sempre me ouvir com interesse nos estudos, Carlota, devia aproveitar a oportunidade única. Na verdade, acho que ficaria louca se passasse mais um dia em casa com Aldo buzinando em meu ouvido. Quando tudo se acalmar, ele volta a ser o mesmo pai que viaja sete dias por semana e ficarei ainda melhor.

Aqueles eram os fatos. Bom, quase todos eram fatos. Eu não contei exatamente tudo que aconteceu naquela madrugada do hotel, porque tenho certeza que estaria encrencada se dissesse a eles sobre meu encontro naquele corredor minutos antes.

Carlota me encarou esquisitamente para ver se eu derraparia na mentira, e me mantive firme encarando-a de volta. Ela finalmente relaxou.

— Não quero importunar você nesse primeiro dia de aula, que inclusive já até começou. Vou falar com seu professor e dizer que está tudo bem este atraso. Tenho certeza que Marzia irá lhe ajudar a recuperar a matéria que perdeu nestes últimos dias.

— Ela tem me mandado mensagens com fotos diariamente. — Suspirei. — Ela grava até as piadas novas dos professores.

— Perfeito. , só quero que saiba que, caso se sinta de qualquer forma desconfortável, pode vir falar pessoalmente comigo. E a pedido de seu pai, faremos deste um encontro semanal, assim teremos uma mediação e até mesmo podemos intervir em quaisquer que sejam suas dúvidas, angústias e dores sobre essa situação.

Ah, legal, Aldo conseguiu uma babá para me espionar. Revirei os olhos, não concordando com o que ela disse, e me despedi, indo direto para a sala.

Eu gostava de estudar na Fiore por não ter que viver no hotel, mas Deus sabe o quanto não suportava os alunos dali. Assim que parei na porta, coloquei óculos escuros para evitar fuzilar alguém.

— Ah, , como é bom ter você conosco novamente. — O professor de história sorriu dócil e até me assustei, esperando seu comportamento normal que era me mandar sentar em quatro tons elevados de voz.

Agora viriam as palmas, certo?

Não vieram. Invés disso, os alunos olhavam entre assustados, com pena e curiosos em minha direção. Que coisa mais idiota. Vanda se foi e eles achavam que eu estaria ultra abalada por aquele acontecimento, ou o de ver o corpo?

Superem, parecem jornalistas às espreitas esperando algum furo de reportagem. Se antes eu já não dirigia a palavra a ninguém, quem dirá agora. Me sentei no fundo, atrás de , ignorando sua risada idiota e alguma piada provavelmente também idiota que ele soltou e seu bobo da corte Mirko riu. Esbarrei minha mochila com força na cabeça de antes de me sentar.

— Ops, desculpa — falei, fingindo inocência, e ele fez careta.

Depois disso, apenas abaixei a cabeça na carteira e me concentrei em tirar um cochilo.

Acordei uma hora depois com o sinal tocando para o almoço e me espreguicei, pegando minha mochila que sequer abri, indo em direção até o dormitório. Era o meu lugar favorito na Fiore. Aldo vem mexendo uns pauzinhos a meu pedido e, com a ajuda de seu investimento no colégio, o dormitório de três pessoas vem sendo utilizado somente por duas meninas desde o primeiro ano, eu e Marzia.

Então temos desde sempre a mesma decoração e as mesmas camas, usando a terceira para colocar roupas que tínhamos preguiça de dobrar e livros que tínhamos preguiça de guardar. Por vezes sentia que o internato era mais meu lar do que o Mercy Hotel.

A festa e a animação acabam quando vejo a terceira cama do dormitório perfeitamente arrumada com cobertores e almofadas rosa pastel. Largo a bolsa na minha cama e tiro os óculos escuros, espiando as fotos da invasora.

, caramba, menina, que tal um dia usar a porcaria do seu celular pra responder uma mensagem minha? — Marzia entrou pela porta, já brigando comigo e me puxando para um abraço.

Acho que eu aguentava Marzia por ter uma personalidade do tipo morde e assopra. E muitas oportunas vezes ela era completamente avoada para o que estava acontecendo no ambiente.

— Temos um problema. — Ignorei sua pergunta e indiquei a cama e as fotos da invasora com a cabeça. — Como vamos dar um jeito nisso? Tenho algumas ideias para pôr em prática, sei que já usamos pó de mico uma vez, mas acho que estamos velhas demais pra isso. Posso começar a usar tortura psicológica pra fazer essa garota sumir logo do nosso quarto, que tal?

Marzia ficou calada e deu um sorriso amarelo, trocando o peso das pernas e começou a balbuciar.

— Então, heh, sobre isso… — Ela foi interrompida por um pigmeu que passou pela porta.

— Hey, Marz! Vamos almoçar logo? Meu estômago não para de roncar e parece que hoje vamos ter batata. — Seu sorriso morreu quando me viu. — Ah, oi… você deve ser a…

! – Marzia recuperou a confiança, forçadamente, e saiu do nosso meio, tentando nos apresentar. — , essa é Myoui, parente da Madame Grenier. E , essa é Mercy! Vamos ser grandes amigas.

Fiquei alguns segundos olhando para a mão estendida do pigmeu e depois encarei seu rosto. Tive que me controlar para não fazer Marzia ver onde eu ia enfiar aquele “grandes amigas” que ela falou.

Olhei pra garota mais uma vez que parecia estar tremendo e baixou a mão, então finalmente sorri e me aproximei, deixando-a ainda mais temerosa. A olhei de cima a baixo.

— Essa ruguinha que você tem aqui. — Apontei para o seu queixo. — É igualzinha a da Madame Grenier. Estranho porque ela tem idade pra isso, não é mesmo? Bom, quando eu voltar, posso te passar um esteticista bom e baratinho, talvez não para o seu orçamento, é claro.

Não consegui me controlar. E as pessoas perguntam por que tenho dificuldade em fazer amigos. Bom, tenho facilidade em deixá-los desconfortáveis, e eu, particularmente, gosto deste dom.

— EPA! — Marzia se meteu na minha frente. — Calma, , o bairro todo já sabe que você passou por uma situação traumática na última semana e pode estar com o humor à flor da pele agora. — Ela se virou para o pigmeu. — Não é nada com você, !

Ah, era com ela sim. Que porcaria era essa? Nunca tivemos colegas de quarto e agora Marzia resolveu virar melhor amiga dessa coisinha que nunca vi na vida antes? De onde surgiu isso afinal?

Emotiva eu estaria se tivesse comprado uma arma, aí seria tudo premeditado, no momento eu estaria apta a usar minhas próprias mãos para fazer as duas perderem um maço de cabelo e deixarem meu dormitório em paz. Agressiva era o termo correto.

— Madame Grenier é a minha avó, mas não isso nem é importante… — A garota tentou. — Eu só sou nova na cidade e no Saint Fiore. — Sua abordagem de “diferentona” não me convenceu.

Uma Grenier é uma Grenier de qualquer forma.

— Avó? Coitada de você. — Cuspi como veneno.

, seja legal — exigiu como se eu fosse sua cadela.

— Oh, Bucci, vai almoçar com sua amiguinha. Se afogue no almoço.

— Desde quando você virou essa coisa negativa?

— Desde que encontrei uma garota morta na minha geladeira — falei com humor. As duas arregalaram os olhos. — Sabia disso, novata? Os boatos devem ter rolado solto enquanto eu não estava aqui.

— Ouvi falar um pouco sim…

— Não responda ela — Marzia pediu pra sua amiga. — Não a chame de novata, . Temos que fazê-la se sentir acolhida. — já estava sendo alvo por ser bolsista e neta da Grenier. É o suficiente.

Gargalhei

— Bolsista e neta da Grenier, essas frases não se relacionam nem um pouco. Aliás, faz sentido ela querer roubar a bolsa de algum estudante que realmente precisa, na verdade, isso é bem a cara da Madame velha.

A garota pareceu ter se abatido com o que disse, sorri orgulhosa.

— Realmente, muito maduro — Marzia resmungou. — Agora me fala logo onde diabos você se meteu todos esses dias. Seu pai deu duro em você?

— Não que eu esteja querendo falar sobre minha vida particular na frente de uma estranha, mas sim, é óbvio. — A novata parecia um carrapato, se recusava a sair dali.

— Espera. — Ela pausou, finalmente se tocando de algo. — A história da menina morta encontrada em um hotel… É real? Você quem a encontrou?

Parecia verdadeiramente surpresa.

— Não, foi um sonho. Por isso a polícia me encheu a paciência durante toda a semana. A ruga no seu queixo, entretanto, ainda é real.

A novata fez careta e se sentou na cama. Marzia ignorou minha gracinha pela primeira vez e tentou me abraçar de novo, mas me afastei.

— Limites, Bucci. Ainda não gosto de abraços que não sejam extremamente necessários.

— Tá tudo bem com você? — Me ignorou, falando sentimentalmente. Era a centésima vez que me perguntavam isso.

— Claro que sim, não fui eu quem morreu. Além do mais, Aldo colocou uma babá pra cuidar de mim. Farei visitas semanais com Carlota pra falar sobre um caso que eu não estou diretamente envolvida e aposto que, na segunda sessão, ela já começa a culpar minha mãe pelas minhas falhas de caráter. Cinco dólares?

Marzia suspirou se sentando e me puxando para me sentar também.

— Bom, vamos só torcer para que o culpado seja pego logo e todo esse caso seja esclarecido de verdade. Estamos seguras na Fiore, tenho certeza. Agora — ela segurou minha mão e a mão da garota nova — preciso falar com as duas. Não vai ter chance de sair desse quarto, , quer você queira ou não, porque ela é neta da Grenier e tem tanta influência no colégio quanto o seu pai, então acabaria virando uma briga de cachorro grande. A Grenier sempre gostou de você e tenho certeza que ela também vai gostar de saber que a neta dela tá no mesmo quarto da filha do Barão que sempre foi um grande amigo dela. Agora, precisamos ser maduras e enfrentar nossas diferenças, porque tenho uma lista de planejamentos para este ano e nenhuma brigar que você, , arranjar vai destruir meus planos, entendeu?

— Claro, Marzia. Como desejar. — Sorri inocentemente e troquei olhares com a garota nova. Ela estava dividida entre dúvida e aceitação, assim como Marzia. Tanto faz. — Tanto faz. Agora, de qual plano você tá falando? — Perguntei, evitando massagear as têmporas com evidente preguiça, sem saco para essa seita de Jovens Bruxas que Marzia tentava criar todo ano.

— Eu fiz uma lista de coisas que precisamos fazer este ano, por ser o último, precisa ser incrível. Primeiro, precisamos perder a virgindade — disse quase envergonhada, mas corajosa.

— Fala isso perto da Carlota. Estudamos em um colégio de freiras, não sabia?

— O que isso quer dizer? — a tampinha perguntou, inocente.

— Significa que não tem uma alma viva virgem nesse colégio, novata. Quanto mais as freiras tentam tirar o sexo da cabeça dos alunos, mais curiosos eles ficam. Bom, tirando a Marzia, aparentemente.

— Segundo — me ignorou —, precisamos falar com os garotos mais populares e seremos amigas deles. A lista da população masculina favorável à beleza aumentou, mesmo que eu ainda tenha meus laços interligados a .

Quase regurgitei com essa informação extra.

— Ah, eu não to muito a fim de ser popular, não… Eu meio que quero distância dessa gente. — a meio metro falou. Foi ignorada com sucesso por Marzia também.

— E estaremos na lista VIP das melhores festas do Saint Fiore.

Suspirei, caindo de costas no colchão.

— Liga uma música, bebe dois litros de álcool e acende um cigarro. Vai ser exatamente a mesma sensação de estar em uma dessas festas. Tirando a parte de ser assediada.

Marzia ficou brava e bateu palmas.

— Não estou gostando nada dessa negatividade. Precisamos pensar no melhor pra atrair o melhor.

Uma batida na porta chamou nossa atenção e uma das irmãs colocou a cabeça para dentro do quarto.

— Bucci? Você tem visita na recepção.

— Mamãe e papai? — Os olhos de Marzia brilharam e ela correu pelo caminho, quase derrubando a irmã que riu e seguiu a garota.

Eu gostava dos pais de Marzia, eram pessoas excepcionalmente comuns. Infelizmente, demorou um pouco para ela aceitar a realidade de que seus pais eram padeiros e não prefeitos ou donos de hotel como o restante dos alunos da Fiore. Toda vez que eles a visitavam no primeiro ano, ela fingia que eram tios distantes e morria de vergonha de contar a verdade. Lógico que eu já sabia, mas esperei ela falar mesmo assim.

Acho que Marzia se deu conta que pais atenciosos que verdadeiramente se importam com seus filhos são mais importantes do que o status e a profissão dos muitos alunos que vivem aqui.

Estava perdida em pensamentos até que uma voz quebrou essa atenção.

— Ela é uma ótima amiga — comentou com um sorriso tímido.

Sorri o triplo quando percebi que estávamos sozinhas no quarto.

— Ela é sim. — Me levantei calma e andei alguns passos até a garota que ainda estava sentada na própria cama. Meu sangue começou a borbulhar pela sua falta de noção. — , não é? É diminutivo de algum nome?

— Não, não, é o meu nome mesmo. — Vi sua bile mexer e os olhos crescerem um pouco, ela ficou nervosa com a minha aproximação.

Peguei com delicadeza no seu queixo e a fiz olhar diretamente para meus olhos, me agachando um pouco para ficar na altura dela.

— Que fofinha. , vou te explicar como as coisas acontecem aqui, tudo bem?

— Tu.. tudo.

— Eu fiquei um tempinho fora, mas agora eu voltei. E agora que voltei, tem uma intrusa no meu quarto. Eu não gosto de intrusos e não gosto de gente mexendo com o que é meu. Tá me entendendo?

Apertei um pouco mais o seu queixo.

, me solta… — Tentou afastar meu braço e fiquei parada como uma pedra. Me esforçando para não apertar com ainda mais força.

— Espero mesmo que esteja me entendendo, porra. — Forcei seu tronco pra trás até que seu corpo inteiro estava deitado na cama e me movi para cima dela, com minha boca sussurrando perto da cara dela. — Eu vou te dar uma semana pra sumir desse quarto, Myoui.

— Ou… ou… o que? — Ela não conseguia falar direito. Não estava sem ar porque eu não apertava sua garganta, mas minhas mãos forçaram a sua boca a ficar selada.

E mesmo assim, ela teve a coragem de quase soar duvidosa.

— Ou não vai ter Marzia neste mundo, ou olhos inocentes e voz doce, que me impeçam de dar uma surra em você, pequena Grenier.

Dei um beijo forçado na sua bochecha antes de me levantar e ajeitar minha saia, me olhando no espelho para admirar que nenhum fio do meu cabelo estava fora de lugar.

A menina continuava na cama me olhando com olhos arregalados como se eu fosse louca.

— Bem-vinda a Saint Fiore, aproveite a estadia.

***

Apertei o desodorante para amenizar o cheiro da maconha no ar. Estava trancada em uma das cabines do banheiro e não achava que era um bom dia para ser pega em flagrante, já tive conversas demais com Carlota para o primeiro dia de aula.

Eu não menti quando disse a todos que já tinha superado a noite em que encontrei o corpo desfalecido de Vanda no freezer. Mas algumas coisas ainda estavam perdidas na minha mente e não tinha certeza se tinha escolhido o caminho certo ao não dizer para a polícia que Victor Brazzi estava no corredor da cozinha do hotel naquela madrugada.

Jamais achei que ele poderia ter porte para um maluco assassino, mesmo ele possuindo o signo de Peixes, o que é muito suspeito, porém eu também confiava em absolutamente ninguém, sequer em pessoas que eu deveria confiar, segundo as leis da natureza, como a minha família por exemplo. Então por que não desconfiar de um homem que me mandava mensagens quando eu ainda era menor de idade poderia estar envolvido de alguma forma neste caso?

O problema era toda a bomba explodir. Se descobrissem o que fazíamos lá, eu estaria lascada nas mãos de Aldo Mercy.

Joguei meu cigarro no vaso quando algumas garotas entraram no banheiro e reclamaram do cheiro esquisito dali.

Estava um pouco grogue, sentindo todos os dentes na minha boca, e quando me preparei para puxar a descarga e sair logo dali, ouvi meu nome na boca das fofoqueiras. Reconhecia as vozes, mas não seus nomes, então deveriam ser alunas antigas da Fiore.

— Estão dizendo que pegou pesado com a quando descobriu que iam dividir os dormitórios.

— Eu teria feito o mesmo. A menina chega agora no colégio e acha que pode roubar tudo que é dela? — soava indignada.

— Tudo que é dela? Como assim?

A outra riu.

- Menina, você não soube? No primeiro dia, já estava de maior aconchego com Patrick, e o pior, apareceu bufando de raiva, parecia estar com ciúmes dos dois.

— Mentira? — disse, chocada. — Caraca, se eu fosse , teria quebrado a cara dessa garota. Logo agora que eles ficaram juntos.

— Exatamente. Patrick disse que as férias foram especiais entre os dois.

O quê?

Porra, eu tô chapada o suficiente para inventar diálogos imaginários ou elas falaram o que realmente eu acho que falaram?

— Com certeza. Mas quem sabe ela não surra a novata até o final do dia? — Riu, esperançosa.

— Vamos torcer para que sim, depois que encontraram a Vanda as coisas estão ficando muito paradas por aqui.

— Verdade, e coitadinha da , não é mesmo? Teve que lidar com a amiga sendo assassinada, encontrou o seu corpo naquela cena macabra e, quando volta, o namorado tá erguendo as asas pra primeira pessoa que vê.

Eu teria uma síncope logo.

Não vi se elas teriam a destreza de parecem envergonhadas por tanta fofoca no meio de um banheiro público quando passei voando por elas em busca do meu alvo.

Eu estava com muita raiva, só para constar.

Acho que até fiquei sóbria no meio dessa caminhada.

Por sorte o colégio ainda estava cheio de alunos, era horário de almoço. Encontrei Patrick rapidamente no refeitório ao redor de seus amigos idiotas com roupa de treino. Marchei ventilando como um trem raivoso até ele e bati as duas mãos na mesa, chamando sua atenção antes de gritar:

— QUE HISTÓRIA É ESSA DE VERÃO ESPECIAL?

Patrick arregalou os olhos assustados para mim e seus amigos riram. Ele se levantou, levantando as mãos para pedir que eu baixasse a voz, ou me controlasse, tanto faz.

, aqui não, vamos conversar em outro lugar…

— Tô pouco me fodendo pra confidência agora, Patrick, afinal, o edifício inteiro já tá sabendo que a gente transou nas férias. Parabéns, era isso que queria?

Ele parecia estar engasgado, com medo da minha reação e tentando amenizar tudo. Merda, não tinha mais o que amenizar.

— Eu não sei como isso escapou, acho que a gente deu mole na casa da praia naquela festa, foi só isso.

Ele acha que nasci ontem. Imagina, eu, confiando na palavra de um homem.

— Quer mesmo me fazer acreditar que não contou pra essas mulas? — Apontei para os garotos rindo, que ficaram sério na mesma hora. — Eu tenho uma reputação aqui, Patrick, e ficar conhecida por ter ido pra cama com um lixo como você não é algo bom, entende?

Tentei soar ácida, mas ele só parecia cansado.

— Eu devo ter contado pra um só. — Coçou a nuca. Finalmente um pouco de verdade. Claro que contou. Pra todos eles.

Ele sempre conta, homens são absurdamente fofoqueiros e boca abertas. Se Patrick bate um bolo, seus amigos precisam ficar sabendo na hora.

— Você esperava mesmo que ia me assumir como sua namorada depois do verão? Estava maluco ou doente, caralho?

— Eu não esperava. — Cortou. — Eu tinha esperanças, é diferente.

Bufei, controlando meu punho, e me virei, tentando ir embora, até Patrick me puxar de frente para ele outra vez. Eu estava tentando não partir para um soco e ele ficava me puxando de volta. A agressiva tinha morrido no último verão, eu fiz uma promessa que não ia socar a cara de ninguém esse ano.

— Vamos lá, , agora que todos sabem, por que não continuamos com isso de verdade, pra valer? — disse, esperançoso, com um sorriso.

Dessa vez eu gargalhei. É mole?

— Eu faltei uma semana e você já estava dando em cima de uma garota na frente de todo mundo. Acorda pra vida, idiota.

— Isso é ciúmes? — Agora tinha um tom esperançoso. Jesus, faltava neurônios naquela cabecinha. Milhares deles.

— Isso sou eu pedindo pra você ir se foder, seja com ela ou seja sozinho. Que se fodam juntos bem longe de mim, Patrick.

Empurrei seus braços e caminhei para longe daquele circo onde até mesmo alguns seguravam seus celulares pra filmarem a discussão. Isso é o que acontece com pessoas de vida chata e sem graça, elas se apoiavam na vida dos outros para ter o mínimo de entretenimento.

Minha mente regurgitou pensando que Patrick e Victor tinham os mesmos olhos e também apertaram meu braço de forma semelhante. Às vezes, eu penso que me relacionei com tanta gente agressiva que me tratou como lixo no passado que acabei me tornando algo semelhante. Ou era a droga falando na minha mente. É um pouco cansativo estar na minha pele o tempo todo.

— Tava dormindo com o zagueiro? É sério isso? — comentou, gargalhando, quando passei por ele no salão público da Fiore. Era impressionante o quanto ele sempre sabia das fofocas na velocidade da luz. Eu tinha acabado de sair do refeitório.

Empurrei o garoto, que deu um pulo assustado e fez um pouso de super-herói pra não cair rolando pela escada.

— Maluca!

— Vá se foder você também, . Com a puta daquela novata, se é como prefere.

Ele fechou a cara, parecendo incomodado com a acusação.

— Não é nada disso… — Se levantou e o ignorei completamente, andando com rapidez pensando em me trancar no meu dormitório logo. Sorte da invasora se não estivesse lá, ou a ameaça que fiz pela manhã viria mais cedo do que ela esperava.


***

Felizmente, ela não estava.

Consegui acalmar meus nervos fechando as cortinas, apagando as luzes, ouvindo música no fone de ouvido até cair no sono e tomando três tipos de remédio pra dormir diferente. Eu tenho inveja de pessoas que simplesmente se deitam e dormem. Qual o segredo desses seres humanos evoluídos?

Acordei com a cara amassada, vestindo um pijama de cetim azul e abraçando meu cobertor de pelo fofinho até criar coragem para levantar porque meu estômago estava me xingando por não ter consumido nada além de uma barra de chocolate, pílulas e um cigarro. Tenho certeza que alguma revista vendia essa dieta.

Encontrei minhas pantufas em uma das malas e as vesti, indo até o banheiro lavar meu rosto para tentar acordar melhor. Se alguém me encontrasse nesse estado, eu seria um amor de pessoa, sem sarcasmo envolvido, então precisaria estar acordada para dar o melhor de mim em ser o pior ser humano possível.

Caminho pelos corredores daquela igreja esquisita assombrosa que chamo de escola até encontrar o refeitório cheio de alunos vestidos de pijamas em um ponto norte, longe o suficiente para não me notarem roubando alguma coisa da máquina de lanches. Bom, porque queria comer e ir dormir outra vez. Claro que um colégio rico tem cozinha funcionando vinte e quatro horas para os alunos, mas não estava afim de uma refeição saudável.

Tinha me esquecido que nos primeiros dias os alunos da Fiore faziam noites de jogos para se entrosar melhor e blá blá blá com uma galera insuportável e alternativa da turma de teatro.

Pego dois salgadinhos, um chocolate e um refrigerante, e passo tudo no cartão da máquina. O último item fica preso e todo meu espírito de paz acaba quando faço força para dar uns chutes naquela porcaria até o refrigerante cair.

Acabo chamando atenção de alguns alunos participando dos joguinhos e ouço a gargalhada de atrás de mim, falando qualquer coisa para me irritar. Juro, esse garoto parecia uma hiena insuportável siamesa. Todo lugar que estou ele parece um personagem de fundo, rindo do momento em que vou escorregar em uma casca de banana em uma rua onde só tem melancias.

Não lhe dirigi mais que um dedo do meio ainda virada de costas.

Até que um garoto que não reconheci como aluno antigo da Fiore apareceu e salvou minha vida.

— Aqui, deixa eu te ajudar. — Eu queria dizer que ele foi super educado, deu um sorriso enorme porque tenho certeza que ele tem um sorriso lindo escondido naquela carinha linda, mas não foi isso o que aconteceu. Eu queria que ele tivesse agido dessa forma porque justificaria a forma como meu coração palpitou diferente com sua presença.

Aliás, quem ousaria não o deixar ajudar?

O garoto balançou a máquina com seus braços longos e percebi os músculos ali, me controlando para não salivar em cima dele. A lata de refrigerante caiu e ele se abaixou para pegá-la para mim.

— Cuidado, ele vai estourar.

Sua voz era baixa e grossa, como um gemido, mas não de uma forma forçada como os áudios que o Patrick costumava me mandar quando na realidade tinha uma voz mais fina que a minha.

Ele tinha uma expressão séria enquanto continuava a segurar o refrigerante. Passei tempo demais encarando seu rosto como uma tarada que quase tive certeza de que ele iria ficar vermelho. Talvez eu devesse ficar vermelha, mas acho que vergonha é uma palavra que já foi descartada no meu vocabulário e estilo de vida faz alguns bons anos.

Na verdade, eu acho que ele nunca ficaria vermelho. O homem era como uma rocha, ele tinha músculos nos lugares certos e não era literalmente uma rocha, só que era terno, uma espécie perfeita de um indivíduo que parece ser introvertido e de poucas palavras, só que possui um rosto de milhões de dólares que foi esculpido por algum artista famoso.

O cenário parecia ter parado para mim. Quem era ele? Qual o seu nome? Onde morava? Por que eu nunca o tinha visto antes? Por que ele não estava me beijando agora mesmo?

Será que é assim que Marzia se sente toda vez que se apaixona à primeira vista? Porque é o que está parecendo aqui.

Nah, os garotos que Marzia se apaixona nunca foram tão bonitos quanto esse na minha frente.

Senti um frio diferente na virilha ao olhar para os seus olhos castanhos. O cabelo era da mesma cor, levemente ondulados e de tamanho médio, que deixavam um aspecto um pouco bagunçado e perfeito. Tinha o rosto oval com a mandíbula, ao mesmo tempo bem definida e também delicada.

Era mais alto que eu, talvez um e oitenta e dois, magro, mas esbelto. O porte de alguém que o rosto até lembrava de um garoto, mas os trejeitos não, porque continha confiança ali. Ele parou para ajudar facilmente uma garota que não conhecia. E tinha uma expressão séria como se soubesse exatamente como sua aparência poderia me afetar, e não ligava para isso porque já estava há muito tempo acostumado.

Gostoso e humilde, do jeito que o diabo gosta.

— Aluno novo? — finalmente perguntei, pegando a garrafa.

— Huh, sim…

Caraca, era difícil arrancar palavras dele.

Mercy. — Dei o meu melhor sorriso à la Miss Solarecruz. — Já te mostraram o colégio todo? Posso me candidatar pra esse serviço, se quiser. Estudo aqui minha vida toda.

Hart. — Apertou minha mão, fazendo uma leve careta porque adolescentes não apertam as mãos para se conhecer. Uau, ele deve pensar que eu sou esquisita. Mas eu sou bonita, então tenho um passe livre de vez em quando.

Segurei por segundos mais longos que o necessário a mão dele, só de pirraça. Queria ver se ele ficaria vermelho mesmo.

E droga, o homem era uma pedra mesmo, eu não quebraria o contato visual, tampouco ele.

Queria prolongar o convite de visitação. Podia mostrar minha cama, mais especificamente. Será que estou sendo óbvia o suficiente? Espero que sim, e que ele não seja lerdo. Na verdade, tudo bem ele ser lerdo, posso ajudá-lo com isso também. Com o que ele quiser.

— Jura? — Suas sobrancelhas se ergueram em surpresa e quase morri por dentro. Meu útero ia se contorcer a cada expressão facial dele? Que vergonha. Ele deve ter estranhado eu dizer que estava há tanto tempo ali já que hoje tecnicamente é meu primeiro dia de aula no ano. — Quantos anos você tem?

Ri de sua pergunta aleatória e o respondi. Legal ele também ser socialmente esquisito. Eu sou uma adolescente que aperta a mão e ele pergunta minha idade na mesma cena, estamos escondendo que na verdade temos oitenta anos.

— Dezoito. Estou no último ano, e você? Passei por alguns imprevistos e cheguei atrasada, mas estarei aqui todos os dias, não se preocupe. — Pisquei.

— Ah, claro. — Compreensivo, olhou para o chão e engoliu seco depois de finalmente compreender minha cantada. — Estou no último ano também e conhecendo esse lugar aos poucos.

Colocou as mãos nos bolsos, e por mais que essa fosse a maior frase que ele disse até então, também foi como um corte rápido.

Suspirei. Ok, difícil então.

— É tão chato fazer as coisas sozinho, . — Me controlei para não cruzar os braços na altura dos seios para eles parecerem maiores. Tinha acabado de acordar e minha mente às vezes se esquece que moro e estudo em um colégio católico, coisa e tal.

Ele ergueu as sobrancelhas um pouco chocado que eu estava dando tudo de mim ali.

Antes de receber sua resposta, Nina, a menina do segundo ano encarregada da turma de teatro apareceu, nos interrompendo, e colocou um panfleto em minhas mãos.

— Oi, ! Oi, ! — Ele responde um “oi” baixo, eu ignoro. Ela se vira para mim e parece um pouco receosa, não só comigo, mas com o também. Tipo, o cara parecia inofensivo, não sei por que ela parecia estar tremendo naquele ambiente entre nós três. Que era melhor dois minutos atrás com somente duas pessoas. — Então, ouvimos dizer que você tocou Tchaikovsky com talento no seu último concurso, e como vamos fazer uma peça inspirada no Lago dos Cisnes, eu e o resto da turma estivemos pensando se você não gostaria de fazer um teste pra ser nossa Odete!

Sorriu esperançosa.

— Você dança? — perguntou, quase impressionado.

Porra, finalmente algo que interesse ele. Será que devo mostrar meu currículo? Obrigada, querida mamãe que já faleceu, você ter me enfiado em milhares de cursos insuportáveis de artes cênicas na minha infância me fez ter a atenção de um cara gato dez anos depois. Tudo valeu a pena.

— Depende, você gosta de dançarinas? — perguntei e ele arqueou a sobrancelha para minha cara de pau. Infelizmente, Nina tinha acabado com o meu clima. — Por que eu faria isso mesmo?

Perguntei a ela, que murchou um pouco, procurando palavras para me responder.

— Bom, você foi ótima no tempo em que participava da turma de dança do Saint Fiore. E também parece ter conhecimento sobre o tema! Além de que todos nós achamos que seria interessante para você ocupar sua cabeça depois de tudo que aconteceu e tudo mais.

Ah, ela não disse isso.

Observei o panfleto, fingindo ler algumas informações, e sorri pra Nina, rasgando aquele papel com a ajuda dos dentes, porque minha outra mão segurava meu lanchinho noturno. Nina parecia estar prestes a chorar vendo a cena.

Quando todo o papel terminou de picar e cair aos pés dela, finalmente falei meu veredicto.

— Não perca seu tempo fazendo o que Carlota pede pra você fazer, Nina, principalmente me convidando pra peças infantis do colégio. — Dei uma piscada que em outra situação até pareceria sedutora. Nesse caso, Nina só quebrou a voz e algumas lágrimas caíram de seus olhos antes dela se virar e sair correndo.

Achei sentimental demais, até para ela.

Olhei inocente para que tinha os olhos levemente arregalados agora. Ou sei lá, semicerrados, tentando entender a situação.

— Dá pra acreditar nisso? — falei rindo, apontando pra garota correndo, e ele suspirou, balançando a cabeça, e olhou na direção de Nina, demorando dois segundos para caminhar atrás dela.

Provavelmente vai ser prestativo como foi para mim e ela vai se apaixonar perdidamente por ele. Sorte dela. E claro, azar do novato por não ter ficado por mais tempo, estava apta a lhe apresentar o armário de vassouras mais próximo. Encolhi os ombros e caminhei de volta para o meu dormitório, ignorando alguns alunos de teatro me xingando alto.

Ah, Saint Fiore. Como é bom ser amada. Como é bom estar de volta.


Capítulo 5

“O meu maior desejo sempre foi o de aumentar a noite para a conseguir encher de sonhos.” – Virginia Woolf.

, você está linda.
Eu não estava acostumada a ser o centro das atenções, mas quando você era neta da Madame Grenier e conseguia por mérito uma bolsa no melhor internato da Europa, era difícil passar despercebida.
E Nik fazia questão disso.
A minha história de Cinderela estava sendo muito interessante para Nik vender. A garota cuja mãe morreu no dia do seu nascimento, que foi criada pelo pai e cresceu em uma cidade pequena, de repente se muda para Silent Grace para morar com sua avó que é um pilar da alta sociedade.
Isso era algo que me aterrorizava, mesmo fingindo que não. Era esquisito pensar que minha vida inteira mudou totalmente do dia para noite e, mesmo sendo por mérito próprio, eu não imaginava que as coisas tomariam essa proporção.
Mas toda essa proporção era boa para Nik, para sua imagem em Silent Grace e tudo que ela representa. Além que, com o escândalo da garota que foi encontrada morta, ela queria tentar mudar um pouco o clima em que Silent Grace se encontrava, mesmo com todos fingindo que nada realmente aconteceu.
Por isso Marzia havia me arrastado para um salão de beleza antes de irmos para o Saint Fiore, porque Nik havia marcado uma pequena entrevista e uma matéria sobre minha bolsa no jornal local, então seria dia de fotos.
Eu apareceria com ela, com o diretor e com meu título por ter conseguido bolsa com 100% de acertos, um acontecimento raro na história do Saint Fiore.
Tudo isso para mudar o foco das coisas e mostrar que Silent Grace também se tratava de jovens excelentes que não foram encontrados mortos em freezers.
Apesar de também acreditar que era uma forma de vender que o Saint Fiore não era só um colégio de jovens herdeiros que estão lá apenas porque seus pais podem pagar, mostrando o lado em que há alunos excelentes com grandes mentes e que serão grandes profissionais por mérito próprio, não por seus nomes pesados.
Mas isso me trazia uma sensação de culpa. Mesmo conseguindo a bolsa por meu mérito e sem qualquer dedo da Madame Grenier, no fim eu continuava sendo mais uma no Fiore com um sobrenome pesado, mesmo não o usando.
Madame Grenier continuava sendo minha avó e sabia que era a forma que me viam.
Mas não recusei a entrevista e nem mesmo deixei de me preparar para ela. Se eu pudesse contar a minha história do meu jeito, talvez valesse a pena um pouco dessa atenção.
Não quis fazer nada radical como minha amiga sugeriu. Nada de cortes exóticos, mechas coloridas e nem ficar ruiva como Marzia pediu. Apenas cortei minha franja na altura dos meus olhos, deixando alguns fios cobrindo minha testa.
Além do corte, fizeram uma maquiagem leve apenas para que eu aparecesse saudável e delicada nas fotos que tiraria.
— Ficou bom mesmo? — perguntei sinceramente, e minha amiga sorriu.
— Combinou com você. Aposto que os garotos vão adorar.
Revirei os olhos.
— Não é como se eu ligasse para isso, Marz.
Ela deu os ombros.
— Devia. — Sorriu. — E se algum garoto notar que você mudou o cabelo, é porque com certeza olha para você e gosta de você.
— Que besteira. — Ri.
Marzia era uma romântica incorrigível e não ligava em demonstrar isso para todos. Vivia no mundo das nuvens, com suspiros e sempre pensando se algum garoto a notava. Um em específico. Nisso ela me lembrava Trina, que também sempre foi muito assim. Achava fofo.
As duas viviam imaginando como o amor era, mas nunca haviam realmente vivido de verdade. Por isso não levava muito a sério. Éramos muito diferentes nisso, e eu respeitava.
A última coisa que me importava era se algum garoto estava me notando ou não.
Me importava apenas em passar por essa entrevista e fazer o que Nik tanto queria, mesmo me sentindo desconfortável com toda essa atenção. Se tivesse sorte, logo alguma coisa nova aconteceria em Silent Grace e eu me tornaria notícia velha sem importância.
De preferência, que não seja mais uma garota morta.

***

Depois que saímos do salão, Marzia foi resolver umas coisas antes de ir para o colégio, e eu fui para o ponto de ônibus.
Essa manhã estava mais tranquila e tinha uma brisa gostosa, assim como todas as outras manhãs. Eu gostava de andar até o ponto, era tranquilo e eu passava mais tempo aproveitando o ar puro antes de voltar para o Fiore e ficar sufocada por tudo aquilo.
Assim que cheguei, a primeira coisa que vi foi o rapaz sentado no mesmo lugar de sempre, com o uniforme do Saint Fiore e dois copos de café na mão.
Poderia ser qualquer um, mas eu sabia que não era. Reconheceria os ombros e os cabelos castanhos lisos com cor viva que pareciam ser cheirosos como ele todo era. Por que eu pensei isso? Era . Ele estava novamente me esperando no ponto.
Havia se tornado frequente. Todas as segundas-feiras, estava no ponto de ônibus que eu pegava para o Fiore. Ele dizia que era apenas coincidência, mas, por favor, não sou burra. Ele estava claramente me perseguindo, o que o tornava ainda mais maluco e esquisito.
Me sentei no meu lugar de sempre e abri meu caderno de desenhos. Preferia ficar em silêncio e desenhando, fingindo que ele não existia, da mesma forma que eu fazia no Fiore.
— Eu trouxe café — ele disse, tentando quebrar o silêncio.
— Legal. — Não tirei meus olhos do meu livro.
— Um é pra você. — Isso me fez levantar a cabeça e me virar para ele. Lá estava, estendendo um dos copos de café para mim.
— Eu já tomei café, obrigada. — Forcei um sorriso e voltei pro meu livro.
O ouço suspirar, mas sabia que ele não ia desistir no primeiro não.
— Qual é o problema? Dois copos de café por dia fazem bem pra saúde e pro cérebro! — Ele tentou. — Vamos, você vai gostar.
Ele balançava o copo para mim e mantinha uma de suas sobrancelhas arqueada.
Bufei e peguei o copo de café, apenas por educação, mas a curiosidade falou mais alto, e talvez eu tivesse vício por café, porque tomei um longo gole. E realmente, era delicioso, meu corpo inteiro comemorou de alegria por essa delícia quente e cafeinada.
— É com leite, porque eu sei que é seu favorito — ele disse, com um sorriso genuíno e piscou para mim.
Congelei.
Como ele sabia disso? Nós nunca tivemos nenhuma conversa a ponto de ele saber o meu tipo de café favorito. Meu Deus, ele estava me stalkeando?
Se eu pudesse, jogaria o café quente em suas calças e sairia correndo para longe dele e seu jeito esquisito, mas infelizmente o café estava muito bom e eu terminei com o copo antes que pudesse colocar meu plano em ação.
Talvez eu realmente tivesse algum tipo de vício por café, não era possível.
— Estava bom, né? — Sorriu, convencido. — Eu mando bem, pode falar.
Revirei os olhos.
Antes que eu o respondesse à altura, o ônibus chegou. Me levantei quase num pulo, tentando me enfiar lá dentro o mais rápido possível para ficar longe desse garoto esquisito.
Mas antes mesmo que eu pudesse suspirar aliviada, ele já estava atrás de mim, na catraca. Ele segurou minha mão e balançou a cabeça.
— Deixa que eu pago. — Sorriu. — Duas passagens, por favor. — E entregou o dinheiro ao motorista, que liberou a passagem.
Passei pela catraca, resmungando baixo. Por que ele não me deixava em paz? O que ele queria comigo, por Deus?
Eu não era tão ingênua assim. Eu conhecia garotos, sabia como alguns reagiam perto de mim e como meu desinteresse desperta interesse. E reagia da mesma forma, quanto mais eu o empurrava, mais ele queria estar perto.
Nós não éramos realmente amigos e nem conversávamos muito no Fiore. Claro, ele tentava ao máximo puxar assunto comigo e estar perto, mesmo eu tentando fugir dele mais que um vampiro foge do sol. não aceitava de forma alguma e não me deixava em paz. Nunca.
Também não conversamos sobre a noite em que o encontrei ensanguentado e todo machucado, muito menos sobre o que ele estava fazendo e como ficou do jeito que ficou.
Havia sim me despertado uma preocupação, não só pelo seu próprio bem, mas também pelo que ele podia estar fazendo para que tenha o deixado daquela forma que o encontrei. Mesmo assim, deixei quieto. Não queria me envolver em um assunto que não era devidamente da minha conta. Mas, que era estranho, era: e muito.
Mas eu não ia me envolver, de verdade. Tudo que eu fazia se tornava algum cochicho, uma fofoca e assunto que rendia mais do que deveiar pelo Saint Fiore, e sabia que, me envolvendo nisso, só daria ainda mais motivos para que não me deixem em paz, como eu queria.
Percebi que tinha uma reputação, não que eu tenha feito uma longa pesquisa sobre ele, já que nem ao menos sei seu sobrenome, mas foi o suficiente para perceber que o garoto era cobiçado pelo internato e tinha uma popularidade suspeita também. Então tudo que eu menos precisava era que achassem que eu estava me envolvendo com o cara, igual Patrick presumiu no dia em que nos conhecemos.
Ainda mais depois de perceber que ele e pareciam próximos, já que, em todas as fofocas e boatos, o nome dela estava no meio. Não sabia o que eram, mas não estava nem um pouco curiosa para descobrir, obrigada.
Principalmente depois que fiquei sabendo da cena que fez com Patrick no refeitório e a forma que tratou uma garota do clube de teatro. Já não bastava as ameaças que fazia e todas as formas que tentava me deixar incomodada quando me via no dormitório e percebia que seu “sustinho” não me amedrontou. Então, eu preferia ficar afastada de mais dor de cabeça.
O ônibus estava cheio, por isso não havia um lugar para me sentar. Fiquei parada no corredor, me segurando para não cair. Estava cheio de colegas do Saint Fiore, então tudo que eu menos precisava nesse momento era de uma das gracinhas de em público.
Mas ele ligava? Claro que não.
Logo ele estava ao meu lado, assobiando e cantarolando baixinho, como se não fosse nada demais, como se a vida fosse ótima, o dia estivesse maravilhoso e o mundo fosse perfeito. A presença dele me irritava e pouquíssimas coisas me irritavam nessa vida.
A viagem estava sendo longa demais e ficar em pé era um saco, já que o ônibus ficava balançando. Eu estava com medo de cair no ônibus que nem uma idiota, ou pior, cair em cima do e dar um prato cheio pros rumores e fofocas.
Agradeci mentalmente quando um assento ficou livre, mas antes que eu pudesse me enfiar nele, se sentou. Ele deu um sorrisinho.
— Você é realmente um cavalheiro — ralhei.
— Faço o meu melhor. — Piscou para mim.
— E depois você me pergunta por que eu não gosto de você. — O fuzilei com o olhar, e ele fez careta.
— Você diz isso da boca pra fora… você gosta de mim, só não quer assumir. — Deu um sorrisinho e cruzou os braços, eu revirei os olhos.
Poderia responder, mas resolvi apenas ignorar a sua existência. Talvez, se eu o ignorasse com muita força, ele sumiria, tipo a Sininho que, sem atenção, morreu.
Mas parecia que eu não estava conseguindo ignorá-lo o suficiente.
— Você cortou o cabelo — ele disse do nada. Me virei para ele e ele sorriu. — Ficou bem em você, tá linda.
Senti minhas bochechas esquentarem com seu elogio, mas tentei não deixar vê-las vermelhas. Passei a mão pela minha franja, tentando arrumá-la e disfarçar.
— Obrigada. — Não seria mal-educada só porque ele me irrita. — E obrigada pelo café também.
sorriu.
— Eu sabia que você ia gostar. — Se animou. — Agora pode assumir que eu sou um cara ótimo.
Fechei a cara novamente e voltei a ignorá-lo. O agradecia por isso, porque eram nesses momentos que ele dizia a coisa errada na hora certa que eu voltava para mim e relembrava o porquê achá-lo irritante.
A viagem estava sendo mais longa ou eu que estava muito ansiosa para chegar logo e sair desse ônibus. De qualquer forma, parecia que não chegávamos nunca.
Em um ponto, subiu um homem mais velho e esquisito que resolveu ficar em pé ao meu lado. De início estava tudo bem, até que começou a ficar desconfortável quando, a cada balançada que o ônibus dava, ele se aproximava mais.
E eu me afastava mais e mais, porque estava percebendo que o homem ou tinha um péssimo equilíbrio ou estava tentando encostar em mim.
O ônibus deu mais uma balançada e o homem fingiu se desequilibrar, caindo para cima de mim e se agarrando em mim para se segurar. Dei um pulo, empurrando-o para longe.
— Se encostar em mim novamente, eu te mato! — gritei com toda raiva dentro de mim. me encarou com as sobrancelhas arqueadas.
Ele demorou uns segundos para se tocar o que havia acontecido e então sua expressão ficou séria. Ele se levantou em um pulo e foi na direção do homem, o segurou pelo colarinho e o arrastou até a porta do ônibus.
Percebi que ele sussurrou algo para o cara, mas não consegui ouvir. Só que, no momento que disse, o homem ficou pálido, como se sua vida tivesse passado diante seus olhos. Então a porta do ônibus abriu e enxotou o homem.
O que será que disse para o homem que o deixou tão assustado?
Não me importava, mas foi algo ameaçador, já que o homem havia ficado muito assustado e sem reação. Mas, se isso o fizesse nunca mais chegar perto de qualquer garota em sua vida, estaria ótimo.
Todos no ônibus estavam cochichando. Uns chocados, outros impressionados com a cena que proporcionamos a eles, e outros rindo, de mim, claro. E uns comentando como queriam um namorado como o meu. Mal podia esperar para saber o que Saint Fiore iria comentar sobre isso.
Estava tão cansada que nem faria o esforço de tentar impedir que essa fofoca se espalhasse.
Me sentei no lugar onde antes estava sentado e relaxei. Estava mais calma e segura, um pouco irritada por causa da situação.
voltou, ficando em pé em minha frente e olhando para mim em silêncio. Ele estava esperando um agradecimento ou algo do tipo?
— Por que você o enxotou? — perguntei, irritada. — Eu ia chamar a polícia para prendê-lo. Agora ele está solto por aí.
encolheu os ombros.
— Tenho certeza que ele nunca mais vai encostar em ninguém na vida dele.
Tentei me acalmar. Não queria ser grosseira com depois dele me ajudar. Eu tinha tudo sob controle, mas sua ajuda foi um bom gesto.
— Obrigada. — Fui sincera.
Talvez eu estivesse pegando muito no pé de injustamente, ele não era uma pessoa tão ruim assim para que eu o tratasse dessa forma. Talvez nós pudéssemos nos dar bem.
— Acho que agora você pode começar a me tratar melhor, que tal? — Sorriu. — Agora eu sou seu herói!
Fechei a cara.
Estava retirando tudo que eu disse.

***

Em alguns momentos, eu simplesmente me desligava e deixava as coisas acontecerem ao meu redor, como se eu não estivesse ali, e esse era um desses momentos.
A entrevista com o jornal foi esquisita, não me sentia como eu mesma enquanto Madame Grenier me anunciava como sua neta e contava histórias da minha infância que nunca aconteceram.
Sentia como se ela quisesse se passar como a minha grande salvadora, como a que me trouxe até aqui e me ajudou a sair do fundo de um poço que não existia.
Não foi muito difícil para que eu percebesse que isso tudo não era sobre mim e sobre meu mérito, sobre meu esforço e minha dedicação. Era sobre ela. Tudo era sobre Madame Grenier.
Então eu estava lá de intrusa, apenas assistindo Nik ser a estrela.
Eu mal abri a boca porque ela só falava por mim, e quando eu falava, ela escolhia as coisas que o jornalista podia ou não anotar. Era uma sensação sufocante de estar em um lugar que não era meu.
Achei que chegaria ali e contaria a minha história, a minha versão de como cheguei onde cheguei e faria valer de algo toda essa atenção. Mas estava enganada. Parecia errado deixar que Nik moldasse tudo da sua forma.
Mas então percebi que não havia nada que eu pudesse fazer. Esse era o mundo dela, o lugar dela, e a voz dela era muito mais alta que a minha.
Assim que a entrevista acabou, nós tiramos umas fotos. Algumas fotos, posei sozinha com as flores que o diretor me deu com as honras da bolsa. Posei com o diretor e com Madame Grenier também.
Depois das fotos, Madame Grenier me puxou para o canto enquanto o jornalista e o fotógrafo arrumavam suas coisas.
— Acho que já encerramos por aqui — disse, sorridente. — Você já pode ir para seu dormitório se preparar para as aulas enquanto eu resolvo mais algumas coisas por aqui.
Não me sentia confortável com o que disse. O que ela teria que resolver sem minha presença? Da última vez que ela resolveu algo me envolvendo sem eu saber, apareceu um cartaz no colégio e depois uma entrevista para o jornal.
— Tem certeza? Eu posso ficar aqui e ajudar também. — Dei os ombros. — Assim podemos ver o que eles vão publicar.
Nik sorriu.
Uma coisa que não gostava em Nik era a forma que me olhava, como se eu fosse uma criancinha que vivia no mundo da imaginação e por isso não levava a sério as coisas que eu dizia.
Não sabia se ela era assim com todos ou apenas comigo.
— Não se preocupe, não há nada que vá te interessar. — Ajeitou minha franja com os dedos e depois segurou levemente em meus ombros. — Vá para a aula, querida. Você precisa manter o título de honras que está recebendo, e perder aulas não vai ficar bem para a sua imagem.
Suspirei.
Não tinha sentido em discutir, ela não me deixaria participar de qualquer forma. O melhor que podia fazer era focar nas aulas e deixar acontecer o que ela estava planejando para mim. Era minha avó, no fim das contas, não faria nada para me prejudicar.
Nik foi até a mesa do diretor e pegou o buquê de flores que ele me deu para as fotos. Ela voltou e então me entregou.
— Leve esse lindo buquê e coloque no seu dormitório para, sempre que vê-lo, lembrar o quão especial você é, minha querida. — Sorriu. Peguei o buquê e sorri de volta.
— Obrigada, Nik.
— Agora vá — disse. — Ou irá se atrasar para as aulas, e uma Grenier nunca se atrasa.
Senti um embrulho em meu estômago ao ouvi-la se referir a mim como uma Grenier. Nunca fui uma Grenier, só que, a cada dia que passava, tinha medo que me tornasse uma, mesmo sem querer.
Me despedi das pessoas na sala do diretor e saí. Precisava ficar em meu dormitório um pouco para me preparar para o resto do dia que teria, já estava exausta e ainda estávamos na manhã.
Caminhava pelo corredor sem prestar atenção em ninguém e nem em nada, só queria chegar logo no meu dormitório.
? — Ouvi alguém me chamar e parei. Respirei fundo e me virei, era Mirko quem me chamava. — Tá tudo bem?
Assenti.
— Tudo sim. Eu estava indo para o meu dormitório pegar minhas coisas e ir para aula.
— Soube que ia fazer uma entrevista pro jornal hoje. — Mirko veio até mim. — E, pelas flores, acredito que tenha dado tudo certo — Sorriu. Minhas bochechas esquentaram, ele tinha um sorriso muito bonito.
— É, foi muito legal — menti. — Mas acho que prefiro a vida do anonimato.
Mirko riu.
— Pois é, a vida de nós que não fomos agraciados com a fama é muito melhor. —Dessa vez, eu que sorri.
Mirko era um cara legal e gentil. Nos aproximamos bastante desde que nos conhecemos, estávamos construindo uma amizade e eu me sentia bem em ter alguém parecido comigo por perto.
Eu sabia que ele e eram melhores amigos, mas não conseguia ver similaridades entre eles. Mirko era gentil, engraçado e doce, além de inteligente, e eu gostava de passar o tempo com ele. era exibido, esquisito e irritante.
Realmente não conseguia entender como eram tão amigos.
— Eu queria essa vida sem fama — brinquei. — Tudo que eu mais quero é passar despercebida.
Mirko sorriu e balançou a cabeça.
— É impossível você passar despercebida, . É impossível não te notar. — Sorriu e minhas bochechas esquentaram, já as sentia vermelhas. Deus, eu estava quase cozinhando. — Inclusive, gostei da franja nova. Ficou linda.
Já estava vermelha igual um pimentão e até tentei esconder meu rosto atrás do buquê que carregava, não precisava que me visse toda envergonhada.
Algumas pessoas achavam fofo alguém que cora tão facilmente, eu só ficava ainda mais envergonhada com a facilidade que eu passava de uma pessoa normal para um pimentão. Não conseguia controlar.
— Obrigada — respondi baixo. — Acho que já vou indo… tenho umas coisas para fazer antes de ir para a aula.
Girei meus calcanhares para começar a andar, mas Mirko já estava ao meu lado antes que eu pudesse sair do lugar.
— Posso te acompanhar até seu dormitório? — Encolheu os ombros. — Assim podemos conversar sobre um livro novo que estou lendo.
Confesso que às vezes tentava muito me manter longe de qualquer garoto porque, no fim, só trazia mais fofocas com meu nome pelos corredores do Saint Fiore, mas gostava de Mirko e não queria perder a amizade dele por causa disso.
Estava sendo difícil me enturmar com Madame Grenier colocando um grande holofote em minha cabeça, não podia arriscar perder as únicas amizades que tinha.
— Tudo bem. — Mirko sorriu de orelha a orelha. — Mas sem spoilers!

***

Quando Marzia me disse que o nosso dormitório seria o meu lugar favorito no Saint Fiore, eu não acreditei. Mas agora, eu tinha certeza disso.
Era tão calmo e tranquilo, a cama era confortável e, quando minhas colegas de quarto não estavam aqui, era uma paz. Mas a paz logo sumia assim que aparecia e deixava clara a sua insatisfação sobre eu ainda estar no dormitório. Então ela faz piadas sobre minha baixa estatura e Marzia tenta me defender.
Parei de me importar logo depois que acabou a semana e ela não fez nada contra mim. Não acreditava que ela realmente seria capaz do que falava. Para mim, era apenas uma daqueles cachorros de grande porte que só sabiam latir.
Não deixaria que ela me assustasse e fizesse com que as coisas ficassem ainda mais difíceis para mim. Não queria ser minha amiga? Beleza. Eu também não queria ser amiga dela.
Mas teríamos que nos suportar pelo bem de Marzia.
Quando Marzia disse que Nik gostava da , eu corri atrás dela para saber se isso era verdade. Talvez ela pudesse me dizer algo que fizesse a garota abaixar um pouco a crista pra cima de mim. Só que o que a mais velha disse foi completamente o oposto.
Ela praticamente me mandou ficar longe da Mercy. Disse que ela era uma péssima influência, uma garota mimada e desprezível, desonrada e vulgar. Sério, eu nunca vi tanto desprezo no olhar e na voz da mais velha, parecia que falar da a enojava.
O que era esquisito já que as duas posavam sempre juntas e sorridentes quando envolviam coisas dos concursos que participava.
Mas foi o que Nik disse, ela me mandou ficar longe dela e de seu gêmeo, que eu nem sabia quem era. E, pelos cochichos nos corredores, o gêmeo era uma versão masculina da , que fazia qualquer coisa para levar uma garota pra cama, desonrá-la e depois jogar fora.
E pior, ele já fez isso com as professoras e até freiras! Sério. Eu ouvi durante a aula de ginástica que o tal gêmeo de se engraçou com uma das freiras jovens e não desistiu até ficar com ela, e depois que conseguiu, ele a deixou tão mal que ela precisou se mudar da cidade e ir para um novo convento.
Ou seja, a reputação desses gêmeos era péssima e a Nik só confirmou que eu não podia me meter com nenhum deles, porque eles iriam me arruinar.
Não me importava com isso, eles não seriam capazes disso. era apenas uma garota mimada que tem tudo que quer e usa da sua forte personalidade para ser temida, mas não sou como todo mundo no Fiore.
Já passei por coisas piores que uma menina mimada e ciumenta.
Mas confesso que desse tal gêmeo de , que eu ainda não conhecia, eu tinha um pouco mais de medo. Não sabia o que esperar dele.
Pelos rumores, ele é simpático, atraente e consegue conquistar qualquer garota. Eu me considero uma exceção na maioria das vezes, mas se ele for como todos dizem que é, seria uma encrenca que eu não estava disposta.
A última coisa que precisava era ser desonrada por um mauricinho desprezível que não tem nada de bom além de um sorriso caro e um abdômen desejável.
Estava tudo bem, eu sobreviveria aos gêmeos Mercy.
— Ah, você está aqui. — Ouvi a voz de e meu sangue ferveu por um instante. Não podia ter um dia de paz.
— Estou indo para a aula — respondi normalmente. — Estava participando de uma entrevista estúpida para o jornal e… — Parei, porque ela não se importava.
Sua expressão de poucos amigos dizia que ela realmente não se importava.
Essa era a minha deixa. Peguei minha mochila cor-de-rosa em cima da minha cama e me virei para sair do quarto.
— Espera – chamou minha atenção. Eu parei e me virei para ela. — Toma. — Ela estendeu para mim um copo de café. — Eu comprei pra Marzia, mas ela não tá aqui, então… pode ficar.
Eu peguei o copo com o cenho franzido.
— Obrigada?
Ela saiu do dormitório sem nem falar nada, voltando ao seu estado habitual de ignorar completamente a minha existência. Não me chateou. Pouco me importava, podia fazer o mesmo com ela.
Ou talvez fosse o que ela queria que eu pensasse.
Olhei para o copo de café em minha mão e tirei a tampa para cheirar. Parecia café normal, mas não me surpreenderia se isso estivesse envenenado.
Resmunguei e fui até a planta do corredor, despejando todo o líquido na coitadinha. Se ela morresse, então eu poderia acusar a por tentativa de homicídio, pelo menos.

***

Caminhei pelos corredores em direção à minha aula. Não tive uma pausa a manhã toda e nem tirei muito tempo para descansar, porque não podia me atrasar e nem perder nenhuma aula, principalmente depois de posar como a aluna exemplar e honrada que eu era.
Passando pelos corredores, passei pela minha foto que ainda estava no mural de avisos. Só que agora estava toda rabiscada. Meus olhos estavam pintados de vermelho, mas tinha uma auréola em cima da minha cabeça e algumas escritas não tão simpáticas sobre a minha pessoa.
Me surpreende como nenhuma das freiras arrancou esse cartaz pecaminoso. Mas não me importava, podiam vandalizar à vontade. Queria mais era que isso desaparecesse.
Entrei na sala de aula e, mesmo sendo pontual, a atenção dos alunos se virou para mim. E o professor nem havia chegado ainda. Ignorei todos e andei de cabeça baixa para escolher uma mesa.
As mesas da sala eram em duplas, então, eu teria que me sentar com mais alguém. Por sorte, Marzia estava livre. Na mesa de trás, estava sentado com Mirko. Os dois me olharam ao mesmo tempo e eu apenas acenei para Mirko.
Me sentei com Marzia, ignorando a careta feia que fez.
A aula seguia normalmente, o professor era bem inteligente e didático, então eu conseguia entender sua matéria facilmente. Mas minha concentração ficava abalada sempre que Marzia puxava assunto comigo.
— Ele está olhando de novo. — Marzia deu uma risadinha.
não tirava os olhos da nossa mesa. Literalmente fuzilando a nossa mesa com o seu olhar. Marzia estava mais vermelha que um pimentão e eu estava começando a ficar também, porque toda vez que eu olhava para trás na tentativa de fazer uma cara feia e fazê-lo parar com isso, dava um sorrisinho.
Eu devia ser considerada uma santa por manter a minha paciência.
Mirko também não ficava para trás, imitando o seu amigo. Também prestando muita atenção em nossa mesa. Toda vez que eu virava para também repreendê-lo com meu olhar, ele disfarçava e fingia prestar atenção na aula, diferente do seu amigo.
Garotos são tão… garotos.
— Eu acho que ele está olhando pra mim. — Marzia corou. — Mal posso esperar pra contar pra sobre isso!
Eu já havia entendido que Marzia tinha uma paixão enorme pelo , porque ela falava dele. Por isso eu não contava para ela sobre os nossos encontros no ponto de ônibus e as tentativas frustradas do garoto de tentar puxar papo comigo. Não queria que ela achasse que estávamos tendo alguma aproximação e eu estava tentando furar seu olho.
Deus me livre. Marzia era minha única amiga verdadeira aqui, a única que ou não me tratava mal ou não puxava meu saco por ser neta da Madame Grenier. Então não, eu não queria perder a amizade dela por causa de um garoto que eu nem gosto.
— E então é por isso que as mulheres eram queimadas na época — o professor disse. — Para aprenderem a não mexerem com a arte do Satã.
— O senhor é a favor disso? — perguntou uma das alunas.
— Não posso dar minha opinião em aula, mas cá entre nós, quem mexe com as Artes Obscuras não merece ter misericórdia. — Ele riu.
Ahn, desculpe professor. — Levantei a mão. O homem me encarou um pouco confuso. — Eu acho que o senhor está cometendo um equívoco.
— Desculpe? — Arqueou as sobrancelhas.
— As mulheres dessa época foram julgadas injustamente e condenadas a enforcamento, afogamento e até queimadas vivas em fogueiras, além de sofrerem diversas torturas por acusações que nem provas reais tinham, a não ser testemunhas que poderiam facilmente estar mentindo porque as vítimas não se adequaram ao “padrão” social na época, e por isso geravam uma desconfiança. — A atenção de todos os alunos estava em mim. — E mesmo que fossem “bruxas”, nenhuma pessoa merece ser queimada viva. É cruel. Elas mereceriam sim misericórdia, já que elas morriam por simples e puramente por ignorância e preconceito.
O homem me encarava com os dois olhos arregalados. A sala inteira em um completo silêncio. Droga, será que eu me meti em encrenca?
— Então a senhorita defende as práticas satanistas? — ele disse, em choque.
— Não? — Franzi o cenho. — Eu só acho que o senhor está sendo injusto dizendo que essas mulheres mereceram a morte, quando em muitos dos casos elas nem estavam idolatrando Satã ou algo do tipo...
— Então a senhorita está dizendo que eu não sou um bom educador? — Agora ele estava irritado.
— Não, senhor… Eu apenas…
— É muita petulância e arrogância da sua parte atrapalhar a minha aula com essas baboseiras e ainda mais sugerir que eu, um educador renomado há mais de trinta anos, estou equivocado sobre o que ensino. A senhorita pode achar que tem mais privilégios que os outros por causa da sua família e do seu sobrenome, mas, na minha aula, não. Na minha aula, você é uma aluna como qualquer outra e terá que me respeitar!
— Como eu teria mais privilégios que os outros, se todos aqui são ricos? — Franzi meu cenho, com o pensamento em voz alta. Todos me encararam, dando risadinhas. — Desculpe, eu não quis… — Engoli o nó em minha garganta e me segurei para não passar mais vergonha na frente de todos.
— Saia da minha sala — ele disse.
— O quê?
— É o que ouviu. Saia da minha sala. Espero que tenha muito tempo para repensar os seus modos na detenção no fim do dia. — Ele sorriu. — Saia logo.
Eu estava chocada. Não havia feito nada para ser tratada daquela maneira. Quem ele pensava que era também? Eu só estava tentando ser justa e ele me destratou como se eu tivesse sido rude ou mal-educada!
Não pensei duas vezes: peguei minhas coisas e saí da sala batendo os pés. Não me importava também, eu que não queria ficar na aula de um professor machista e antiquado. Onde já se viu? Dizer que as mulheres mereciam morrer queimadas e ninguém podia discordar dele!
Assim que ele fechou a porta na minha cara depois que saí da sala, o pânico me bateu. Eu estava encrencada? E se eles retirassem minha bolsa por causa disso? Droga. O que foi que eu fiz?
Eu ia aparecer na droga do jornal como uma aluna exemplar e, no mesmo dia, eu me meto na detenção?
Minhas pernas ficaram fracas e eu precisei me apoiar na parede para não cair. Droga, eu podia ter ficado quieta, né? Por que fui dar uma de justiceira?
Me assustei com a porta se abrindo novamente e de lá saiu Marzia, sua expressão era de fúria e, assim que o professor bateu a porta, ela abriu um sorriso enorme.
— Eu também peguei detenção! — Sorriu de orelha a orelha.
— O quê? Por quê?
— Eu mandei ele se ferrar! — Meu queixo caiu. Ela não pode ser expulsa por uma coisa dessas? — Relaxa, não vou ser expulsa. — Sorriu.
— Por que está tão feliz com isso? — Sério, Marzia era louca.
— Porque isso vai ajudar na nossa reputação! — Ela sorria. — Nós enfrentamos o professor machista, fomos mandadas pra detenção por causa disso. Seremos lendas do movimento aqui no Saint Fiore!
Eu ri. Acho que mais de desespero do que por ter achado graça.
— Você levando isso super de boa e eu imaginando que a Madame Grenier vai comer meu fígado quando descobrir e pior, capaz de eu perder minha bolsa — choraminguei, levando minhas mãos ao rosto.
Mazia sorriu.
— Qual é, a Madame Grenier é a mulher mais feminista que eu conheço… ela com certeza vai entender.
Franzi meu cenho. Nik uma feminista? Eu não achei muito feminista da parte dela as coisas que ela disse da ...
— Relaxa, , nada vai acontecer. — Marzia segurou minha mão. — Agora, vamos tomar sorvete e aproveitar o nosso tempo livre!
Antes que eu pudesse falar algo, Marzia saiu me puxando pelos corredores do Saint Fiore.
Talvez eu pudesse tomar um sorvetinho antes de morrer. Eu merecia.

***

— Espera, você nunca teve um namorado? Mentira.
A ideia de tomar sorvete com Marzia foi muito boa. Porque eu amo sorvete, e ficar um pouco no ar livre fazia bem para minha cabeça. Então, não estava mais tendo uma crise de pânico.
Só que a ideia de diversão para Marzia era tomar sorvete nas arquibancadas, assistindo o time de futebol treinando enquanto conversamos sobre garotos e como eles são lindos, maravilhosos e como nós precisávamos arrumar um namorado popular.
— Nunca. — Sorri.
— O que há de errado com você? — Ela me olhava como se eu fosse de outro planeta.
A questão era que eu nunca me importei tanto com garotos, nunca foi uma prioridade em minha vida. Claro, eles eram atraentes e às vezes eu gostava de ficar admirando, mas era só isso. Nenhum me interessou mais que isso.
Meu desinteresse despertava mais interesse neles. O que se tornava um joguinho idiota, porque eles se esforçavam para me conquistar não porque gostavam de mim ou se interessavam no que eu pensava, mas sim porque todo esse jogo tornava interessante a ponto de me tornar um prêmio.
E eu tive que lidar com isso várias vezes, porque todos os garotos que Trina gostava, gostavam de mim. Ela nunca se importou, porque ela sabia que eu não era uma concorrente e no fim ela os teria de qualquer jeito. Mas isso era algo que sempre me perseguia.
Garotos eram distrações. Claro, eram bonitos e atraentes com seus tanquinhos e sorrisos sedutores, mas no fim, os garotos sempre serão garotos.
E existiam coisas muito mais interessantes.
— E não tem nenhum aqui no Fiore que tenha te feito repensar isso? — Tinha um sorrisinho sugestivo nos lábios. – Por favor, , não minta.
Neguei com a cabeça.
— Nenhum.
— Nem o Mirko? Ele parece gostar de você.
— Nem o Mirko. — Tomei um pouco do meu sorvete. — Ele é só um amigo, só isso, e ele nem gosta de mim desse jeito.
Óbvio que Mirko era lindo, um dos mais bonitos que já havia visto, e além da beleza, ele tinha uma personalidade ótima que fazia ser impossível não gostar dele, mas mesmo assim, não sentia nada por ele além de um sentimento de amizade.
E nem queria. Seria horrível se isso estragasse a nossa amizade e não conseguíssemos mais ficar próximos.
— Você é esquisita… — Marzia me fuzilou com o olhar. — E duvido que isso seja verdade. Ele notou que mudou seu cabelo?
— Notou sim.
— Então ele claramente te observa e gosta de você o suficiente para perceber qualquer mudança que fizer. — Sorriu.
Revirei os olhos.
— Já disse que isso é besteira e não existe. — Fiz careta. — Ele não foi o único que notou que eu mudei de penteado.
Os olhos de Marzia brilharam e ela quase voou para cima de mim para saber mais sobre.
— Quem é ele? — Quase gritou.
A outra pessoa que notou meu corte de cabelo foi , antes de Mirko inclusive, mas isso não significava nada. Não é como se gostasse de mim ou me notasse, ele apenas comentou porque é recente.
Mas eu também não podia falar para Marzia que era , porque, se em sua cabeça ela acreditava nessa baboseira, com certeza ficaria chateada.
— Você não conhece — desconversei. Marzia me encarou desconfiada, mas deu de ombros, sabendo que não conseguiria arrancar o nome de mim.
— Quando gostamos de uma pessoa, nós notamos sim quando ela está diferente — continuou. — Por exemplo, se mudasse qualquer coisa nele, eu seria a primeira a notar, porque é o quanto eu gosto dele.
Revirei os olhos.
— Por que você gosta dele? — me queixei. — Ele parece ser insuportável, mimado e arrogante. Por que você gostaria de um cara assim?
— Ei, o não é assim! — ela o defendeu. — Muito pelo contrário, o é um cara incrível!
— Você realmente acredita nisso?
Ela revirou os olhos.
— Olha, ele pode até ter uma reputaçãozinha por aí, mas é sério, o é um cara incrível! Só não gosta de mostrar o seu verdadeiro eu.
Que papo de maluco é esse?
— Que verdadeiro ? — disse, cética.
— Ele é um cara incrível, — disse, séria. — Sabia que quando eu sofri bullying de uma menina nas aulas de ginástica e ela ameaçou de me bater, ele me levava e me buscava das aulas todos os dias? — Ela apontou. — Ele sabe a comida preferida de todos os amigos dele e sempre faz questão de comprar pra eles. — Sorriu. — Ele é prestativo, comunicativo e presta atenção em tudo que você fala. Ele é um pouco chato às vezes e faz umas brincadeiras idiotas? Claro, ele é um garoto rico e mimado, mas ele é um ótimo rapaz. — Os olhos dela brilharam. — Ele ficaria na frente de uma bala só pra proteger alguém que ele se importa.
Por um segundo, eu voltei para nosso momento no ônibus mais cedo…
Ele realmente trouxe café com leite para mim porque sabia que era o meu preferido, não sei como soube, mas descobriu e trouxe o melhor que já bebi. Ele notou que eu cortei o cabelo e elogiou. E também enxotou o homem do ônibus que me agarrou.
— E sim, ele tem uma reputação, é normal. Garotos da nossa idade gostam de aprontar e sair por aí fazendo o que querem, partindo corações e colecionando calcinhas. Não é certo, mas isso não faz com que ele seja o pior cara do mundo.
— Eu só não consigo ver o que você viu nele. — Encolhi os ombros.
Marzia sorriu.
— É impossível pensar em seu sorriso e não se apaixonar. — Sorriu. — Por sua personalidade tão sedutora e divertida. O jeito que ele age como se o mundo fosse dele e faz com que seja… — Suspirou. — Ele é gostoso e sabe que é gostoso, esse é o melhor tipo.
Involuntariamente, ele veio em minha cabeça e eu comecei a pensar nele. No sorrisinho que ele dá sem mostrar os dentes, o sorriso com dentes dele também era lindo… Os olhos tão cativantes e sedutores que ele tinha.
era lindo de uma forma absurda, até mais do que qualquer outro garoto do San Fiore. Ele não era um dos garotos mais lindos que já vi, ele era O mais bonito. Ele tinha o jeito de garoto, mas era um homem e se esforçava pra ser o mais bonito, mais atraente e chamar atenção, até quando estava basicamente só com o uniforme do internato.
Até os detalhes dele eram bonitos. A forma que parecia que não, mas era vaidoso e sempre deixava seus cabelos arrumados, parecendo que acabou de sair de um barbeiro caro, mas sem deixar o aspecto de quem acabou de sair da cama e continuava com os cabelos bem penteados e macios. O seu perfil que era tão lindo com seu nariz delicado e até a pintinha que tinha nele. Até os brincos que usava em suas orelhas que o deixavam com um ar mais estiloso e despojado.
Sempre se destacava entre os demais, não só em sua altura, mas no seu jeito de andar e a forma que falava, sorria, agia e até como respirava. Era impossível não o notar e pensar nele.
Droga, quando eu tive tempo para prestar tanta atenção assim em ? O que havia de errado comigo? Por que estava pensando essas coisas? Estava doente?
Balancei minha cabeça para afastar os pensamentos. Não podia, não queria e não iria ficar pensando no .
Essa não era eu. Eu não me importava com garotos e muito menos um que minha amiga gostava.
— Tá tudo bem? — Marzia me olhou, preocupada.
— Acho que preciso de mais sorvete.

***

A detenção era um saco. Eu jurava que nunca mais andaria do lado errado, porque Deus me livrasse de ficar uma hora olhando pra uma das freiras sem poder fazer nada.
E a mulher parecia nem estar mais no nosso plano terrestre. Mas ao mesmo tempo parecia sagaz como um gato, porque quando achávamos que ela estava dormindo, se fizéssemos um barulho, ela abria os olhos e focava na gente.
Se eu estava morrendo de medo dela? Com certeza.
Mas Marzia não, inclusive ela estava adorando estar na detenção. Só faltava subir nas mesas e fazer um número musical para expressar sua felicidade.
Marzia esperou a freira fechar os olhos para me passar o bilhetinho por baixo da mesa. Peguei-o e abri.

“Isso é tããããão legal!! Mal posso esperar pra contar pra !”

Eu sorri. Que bom que pelo menos ela estava se divertindo.

“Espero que saiba que essa é a primeira e última vez que estamos aqui.”

Tentei passar o bilhete para Marzia na maior furtividade do mundo, evitando fazer o mínimo barulho para a freira não acordar. Mas alguém tossiu no fundo da sala e a mulher abriu os olhos como uma fera.
— O que está acontecendo aqui? — Ela olhou para minha mão. — Isso é um bilhetinho?
Me virei para trás para ver quem havia tossido propositalmente e vi o garoto nas carteiras do fundo sorrindo para mim. Fiz uma careta e me virei para frente, porque Marzia disse que aquele garoto era criminoso.
Quando a freira se levantou para vir nos repreender, a porta da sala se abriu com Carlotta entrando, trazendo consigo a , que não estava com uma boa cara.
Eu aproveitei a deixa para esconder o bilhetinho no paletó e fingir que nada estava acontecendo.
— O ano não começa bem se não temos a senhorita Mercy na detenção — a outra feira debochou e deixou a garota se sentar.
Os olhos de Marzia brilharam e ela se virou para a amiga.
— Eu não acredito que estamos nós três na detenção juntas! — Ela sorria de orelha a orelha. — Meu Deus, nós somos tão legais!
me olhou dos pés à cabeça e deu um sorrisinho.
— Belas franjas, um gnomo de jardim com franjas é algo que eu nunca vi. — Riu.
— O que você fez para vir para cá? Tentou afogar alguma minoria na privada? — revidei e partiu para cima de mim, mas rapidamente as freiras e o garoto criminoso entraram no caminho dela.
— Meninas… — Marzia tentou intervir.
Foi tudo bem rápido, mal tive tempo de me assustar ou me mover da cadeira porque já tinham a colocado longe de mim, e a irmã Carlota estava brigando com novamente.
As outras freiras se viraram para nós, prontas para dar mais uma bronca, só que novamente, a porta se abriu com uma freira trazendo mais um detento. E dessa vez, era .
Marzia quase pulou na cadeira, riu debochada e eu enfiei minha cara dentro do livro. Meu Deus, isso era uma punição? Eu fiz alguma coisa para merecer isso? Eu achava que sim.
— Juro diante de Deus que, se um milagre acontecer, eu nunca mais vou fazer nada errado — sussurrei para mim mesma, porque só um milagre para me livrar dessa detenção.
e trocaram olhares e ele fez uma careta quando ela sorriu para ele. Algo em mim tinha certeza de que ele sabia o motivo dela estar na detenção.
— Vai ter volta — ele resmungou passando a mão num lugar específico da cabeça, ignorou.
— O que você tá fazendo aqui? — Ela cruzou os braços. — Te pegaram vendendo cola no banheiro masculino? — debochou.
Ele deu os ombros.
— Não importa o que eu fiz, o que importa é que o professor Riccardo vai precisar de um carro novo — Ele sorriu e piscou para mim. Eu engoli seco.
Espera, o professor Riccardo foi o professor que me colocou na detenção? Meu Deus, o que fez?
— Ei, meu ícone feminista. — sorriu para mim e se sentou na mesa atrás da minha. Olhei para Marzia com medo de que ela tenha percebido algo estranho, mas ela só babava em , que nem notou. — E aí, Marzia, tudo bem? — Piscou para ela.
— C-claro . — Deu uma risadinha.
olhou firmemente para mim, depois para , para mim de novo, depois para e depois novamente para mim, só que dessa vez me fuzilando.
— Você realmente dá em cima de qualquer coisa que tenha duas pernas e respire, hein, ? — ralhou com o garoto, que deu os ombros, e então ela se virou para mim.
— Relaxa, maninha, não precisa ficar com ciúmes de mim. — sorriu. — Você sabe que eu tenho um coração gigante.
Eu engoli seco. Tive quase certeza que minha pressão baixou e eu desmaiaria naquele momento. Estava esperando as paredes caírem e eu descobrir que estava em um programa de pegadinhas ou em coma, presa em um pesadelo eterno.
— Maninha? Vocês são irmãos? — Minha voz saiu mais fraca do que eu esperava.
— Sim? — me encarou como se eu fosse burra. — Fazem 18 anos.
Me virei para Marzia em um ato de desespero, ela não estava entendendo nada, mas estava preparada para caso voasse em meu pescoço.
— Nas milhares de conversas que tivemos sobre certo assunto, você simplesmente esqueceu de me contar o detalhe que ele é irmão gêmeo da ? — disse para minha amiga, que franziu o cenho para mim.
— Eu com certeza devo ter contado — ela se defendeu. E não, ela não contou ou eu com certeza me lembraria. — E bem… eles são gêmeos, meio que dá para perceber.
Me calei. Eu realmente devo ser muito burra por não ter percebido isso.
— Espera, eu sou um assunto de milhares das suas conversas, ? — perguntou e eu nem precisava ver seu rosto para saber que ele estava se divertindo. — Sou ou não sou, Marzia?
O rosto de minha amiga ficou mais vermelho que pimentão e ela não conseguia esconder o sorrisinho bobo com o charme que estava jogando nela.
— Isso só pode ser piada… — resmunguei baixinho e enfiei minha cara nos livros. Pretendia ficar de cabeça baixa e em silêncio até acabar a detenção.
Felizmente, com e na mesma sala, por qual motivo que seja, Carlotta não piscava o olho nenhuma vez. Ela mantinha o olhar focado nos dois e em cada movimento que davam.
Se eu agradecia? Com certeza, porque, com a mulher acordada, eu estava com uma garantia de que não tentaria contra a minha vida.
Até porque provavelmente todos os rumores que ouvi repetidas vezes sobre os terríveis gêmeos do Saint Fiore não eram mentira.
não se importava com o olhar atencioso de Carlotta, que estava focada em nós, ele a ignorava enquanto ficava cutucando minhas costas e tentando falar comigo.
Mantinha minha cara enfiada nos livros enquanto bolava um plano para fugir da cidade antes que me matasse.

***

Não queria ir para o meu dormitório de jeito nenhum. Nesse ponto, eu tenho certeza que minhas coisas estão destruídas, minhas roupas rasgadas e meu colchão queimado. Não tem motivos para eu ir para lá.
Eu queria rir do meu próprio fracasso. Não bastava eu me aproximar da melhor amiga da , do ex-namorado, eu consegui me aproximar do irmão gêmeo dela, que era praticamente o pior de todos. Eu cavei minha própria cova.
Não que eu estivesse com medo dela, mas, se ela fazia questão de tornar minha vivência no Saint Fiore insuportável, agora faria que fosse pior ainda. Agora havia zero chances de que o plano de Marzia desse certo.
— Ei, o que você tá fazendo aqui? — Ouvi a voz de e revirei os olhos, andando para longe dele.
-- Deus, garoto, me deixe em paz. Que parte de eu não quero você por perto você não consegue entender? — Estava estressada e ele era o motivo do meu estresse diário.
Ele franziu o cenho.
— O que foi que eu fiz? Me desculpa, não foi por mal, o que quer que seja que eu tenha feito. — Ele parecia sincero. Como ele pode se desculpar por algo que ele nem sabe que fez?
Mas enfie suas desculpas no meio do seu...
— O que você fez? — Eu estava uma fera. — Você é só o irmão gêmeo da , só isso! E não te ocorreu me contar isso quando estava me perseguindo durante todos esses dias?
me encarou um pouco confuso.
— Eu achei que você já sabia…
— Por que pensou isso? — ralhei.
— Porque nós somos gêmeos? — Franziu o cenho. — É meio notável a semelhança entre mim e , . — Ele escondeu um sorriso. — Pra quem conseguiu uma bolsa com cem por cento de acertos, achei que você era mais perceptiva.
Claro que me senti uma grande idiota, porque foi quase a mesma coisa que Marzia disse na detenção, era algo que eu poderia ter percebido se eu não fosse tão burra. Eu realmente nem me toquei que as pessoas mais parecidas do Saint Fiore eram gêmeas, mas, em minha defesa, todos riquinhos parecem iguais para mim.
Estava na minha cara durante esse tempo todo, afinal, eu sabia que a reputação do era ruim, tão ruim quanto a do tal gêmeo de que todos falavam… Eu era realmente uma idiota.
Ele tentou controlar o riso enquanto via minha cara de idiota quando a ficha caiu.
— Você devia ter me contado mesmo assim! — Cruzei os braços, tentando manter a pose de marrenta.
— Mas o que é que tem de mais nisso, ?
Eu o fuzilei com o olhar.
— O que tem de mais? — respondi, irada. — Que tal que todos dizem a mesma coisa: Mercy é uma psicopata possessiva e já é uma vadia comigo simplesmente por eu existir? A última coisa que eu quero é ser amiga da linhagem familiar dela! — gargalhou da minha cara, sem vergonha nenhuma. Ele até colocou a mão na barriga. — Quer parar?
— Desculpa — ele pediu, limpando as lágrimas que escorreram de tanto rir. –—É engraçado uma garota tão durona como você estar com medo da minha irmã. Cara, ela não faria mal a uma mosca, só é um pouco antissocial, sabe? As pessoas aumentam demais as histórias sobre ela. — Riu. — Não acredito que seja a mesma pessoa que ameaçou de morte um tarado no ônibus.
Fechei a cara.
— Não estou com medo. — Revirei os olhos. — gostar de mim ou não já se tornou irrelevante quando é tudo sem motivo. E eu sou totalmente contra alimentar rivalidade feminina.
Ele escondeu o sorriso.
— Espera, você disse que somos amigos? — Franziu o cenho e minhas bochechas avermelharam.
Eu realmente disse isso, droga.
— Não, você ouviu errado. — Empinei o nariz. sorriu.
Ele percebeu que eu estava séria e suspirou, colocando as mãos no bolso e se aproximando de mim aos poucos.
— Qual é, , relaxa. Não vai acontecer nada com você. A é inofensiva.
Como eu disse, o problema não era mais a . Mas sim Nik dizendo que os gêmeos Mercy eram as piores pessoas que existiam no país, e agora eu tinha um me perseguindo e a outra dormindo na cama ao lado.
— Os rumores então sobre os gêmeos, que são piores que o diabo e tudo mais, e que você transou com freiras e professoras até fazê-las se demitirem porque não suportavam mais ficar perto de você, é tudo mentira? — Cruzei os braços.
Eu queria que ele dissesse que sim, que na verdade os dois são injustiçados e são dois anjinhos adoráveis. Mas, qual era a chance?
— Alguns são mentira, mas alguns são verdade. — Deu os ombros, indiferente. — Nós não somos anjinhos, , somos adolescentes com muito dinheiro e com personalidades duvidosas, então alguns rumores por aí são verdade sim. Mas o das freiras e das professoras? Mentira pura. — Revirou os olhos. — Você já viu as professoras e as freiras daqui?
Eu tentei não mostrar meu sorriso, mas ele estava ali escondido.
Eu ia tentar dar um desconto para , porque, se Marzia gostava dele, talvez ele não fosse a pior pessoa do mundo.
percebeu que já estava mais calma e sua postura relaxou. Lá estava ele com o sorriso convencido e o jeito charmoso de sempre.
— É verdade que você cobriu o carro do professor Riccardo de ovos podres? — perguntei, séria.
— Sim, e ele mereceu! — se defendeu.
— Você pode ser expulso por isso! — Me irritei. Ele sorriu.
, querida, a chance de eu ser expulso desse colégio é a chance de você ver uma vaca voando com uma capa de super-herói. — Ele piscou para mim. — Não se preocupe comigo.
Fiz careta.
— Eu não me preocupo com você. — Revirei os olhos.
Ele sorriu.
Estava irritada comigo mesma porque a voz de Marzia estava na minha cabeça falando o quão gostoso ele era e blábláblá, então meu cérebro traiçoeiro estava prestando muita atenção nele.
Nos cabelos balançando com a brisa, os olhos sedutores e o sorriso lindo. E como ele ficava bonito com a camisa toda aberta revelando a camiseta preta que usava por baixo que caía muito bem em seu corpo, dando até uma visão do tamanho de seu peitoral por baixo dela, e isso estava começando a me deixar curiosa demais.
— Ei, que tal darmos uma volta? — Pisquei quando ouvi e parei de secá-lo. — Você teve um dia cansativo. Fez uma entrevista, conheceu a detenção e minha irmãzinha provavelmente ainda deve estar jogando facas afiadas numa foto sua — ele disse normalmente e eu gelei. Ela poderia realmente ter facas? — Tô brincando. — Ele tentou aliviar, mas já era tarde demais.
— Eu não acho uma boa ideia. — Não havia por que piorar o que já estava ruim. — A Madame Grenier me deu ordens diretas para ficar longe de você.
deu um sorrisinho.
— Você pode até tentar, , mas sejamos realistas, você não vai conseguir. Porque, primeiro, eu não vou deixar, e segundo, você por conta própria vai perceber que minha presença em sua vida deixa ela muito melhor. — Ele sorriu. Fiz careta.
estava errado, não havia nenhuma chance de eu cogitar que eu não seria capaz de ficar longe dele. Ele não era o primeiro playboy com personalidade duvidosa que flertava comigo com sorrisinhos e gracinhas.
Não cedi a eles, com certeza não iria ceder ao Áron.
— Eu vou pagar pra ver. — Abri um sorriso ameaçador e o rapaz arqueou as sobrancelhas, impressionado com minha dificuldade.
— Logo você estará apaixonada por mim de tão adorável e gentil que sou. Além de, claro, gostoso e muito bom de cama. E ótimo em refeições pós-sexo. — Piscou para mim. — O que não vai ser muito difícil já que não para de me secar.
Minhas bochechas coraram por saber que ele havia notado, mas fechei a cara e tentei não dar muita pista. Precisava lembrar que era terreno extremamente proibido.
— Tchau, . — Dei as costas e caminhei de volta para o Saint Fiore, deixando-o falando sozinho.
— Você sabe que moramos no mesmo internato, né, ? Eu sei onde fica seu dormitório e assisti muitos filmes românticos clichês pra saber como te infernizar com uma caixinha de som. — Corei ao ouvi-lo e não pude deixar de sorrir com o que disse. Mas ele nunca veria esse sorriso. Ele estava sorrindo também e eu nem precisava vê-lo para saber. — O jogo começou, bebê.
O jogo começou. Garotos serão sempre garotos e Mercy não iria conseguir mexer comigo.
Estava na hora de ser Myoui em todo o seu desinteresse.


Capítulo 6

“Se não existissem más pessoas, não haveria bons advogados.” – Charles Dickens.


Aldo não estava no país, o que era ótimo, mas me ligava todos os dias para saber como eu estava lidando com o colégio e me coagindo a desistir de ter aulas presenciais, pois ele estava disposto a contratar os melhores professores do país para me ensinarem em casa.

Ah, a casa agora seria um apartamento no centro, porque ele também não queria que eu voltasse para o hotel onde tudo aconteceu. Obviamente, eu neguei sua proposta (não era proposta, ele estava mandando, como pais fazem, coisa e tal), porque era empenho demais para uma coisa que eu não queria, além de ter que viver completamente sozinha em um apartamento que provavelmente Aldo trancaria pelo lado de fora para que eu não fugisse, e deixaria alguns do seus comensais de plantão para vigiar cada passo meu.

Eu já sentia de olho em tudo que eu estava fazendo no Fiore e, às vezes, quando saía nos meus turnos livres, tinha a sensação de alguém estar me vigiando. Por muitas vezes, Aldo colocava um capanga seu nas minhas costas quando sentia que algum dos seus negócios havia ido mal e acabava colocando a família Mercy no olho de seus inimigos. Fazia alguns anos que não tinha a sensação de uma babá a cada esquina me observando, como tinha agora. Então, até mesmo para andar pelo lado de fora do colégio, eu tinha meus horários exatos e comedidos para burlar o sistema “papai está de olho em você”.

Podem imaginar meu susto quando encontrei meu padrinho sentado no sofá do salão de lazeres, com seu terno escuro e pernas cruzadas, lendo um dos livros que estava largado por ali.

— Bosco? — perguntei com uma careta confusa.

Ele olhou para mim com um sorriso pequeno e se levantou, posicionando o livro no sofá e se aproximando para um abraço.

Que eu prontamente deixei. Ok, não tão prontamente: não abracei ele de volta, mas também não o empurrei.

Sentia que, de toda a família podre e fofoqueira do meu pai, tio Bosco era o único de quem eu parcialmente gostava.

Sua aparência era completamente oposta à de seu irmão Aldo. Enquanto meu pai era alto e corpulento, com músculos e nenhum cabelo na cabeça, Bosco era quase da minha altura, magro, com cabelos até o queixo sempre penteados para trás com elegância e a barba aparada perfeitamente.

Tio Bosco era meu padrinho e de , um grande confidente nosso e que às vezes eu podia até chamar de amigo. Também era secretário das empresas hoteleiras de meu pai e era praticamente um faz tudo dele. Por isso o perguntei:

— Aldo mandou você aqui?

Bambina, sempre acusadora. Não posso saber eu mesmo o bem-estar da minha sobrinha favorita? — Sorriu ao fim do abraço e notei seus anéis nos dedos. Seus trejeitos me lembravam os de Jack Sparrow ou alguém semelhante. Por vezes, pensei que meu tio era homossexual também, mas nunca tive certeza.

— Sou sua única sobrinha. — Essa era a parte em que ele falava sobre um cemitério de elefantes?

— Exatamente, muito mais importante. Passei também para conversar com e, claro, acertar algumas papeladas com o diretor Francesco envolvendo seu pai.

-- Ah, ele quer pagar a Carlotta pelas sessões de terapia, aposto?

Aquela mulher não tinha nem diploma de psicóloga, minha gente. Bem-feito, deveria estar arrancando uma fortuna de Aldo com essa lorota.

— Sabe que ele somente se preocupa com você, não é?

— Excessivamente.

— Bom, então você puxou o seu pai, se bem me lembro, você compartilha de alguns traços semelhantes. Não vou te encher sobre perguntas daquele assunto, aposto que esse prédio inteirinho anda te perseguindo pelos corredores pra conseguir qualquer furo sobre o caso vindo de você.

— Acertou — gemi, incomodada.

A novata apareceu no salão, com os ombros relaxados e caminhando até o bebedouro, que estava ao meu lado e de tio Bosco. Assim que ela viu minha careta, se arrependeu de aparecer ali e deu a volta. Felizmente, um copo de café não era o bastante para se criar laços aqui.

Bom, aquele café sim estava batizado com muitas gotas de Laxol, mas ele estava destinado para o Patrick no qual não o encontrei, e como não quis desperdiçar aquela belezura, acabei entregando para a primeira pessoa que vi. Azar o dela ser a primeira pessoa.

Bosco fitou a garota indo embora por uns instantes e voltou sua atenção para meu rosto.

— Vejo que continua fazendo amigos como uma flor delicada. — Tirou sarro.

— Faço o que posso. — Sorri sem me afetar.

Ele riu, beijando minha testa.

— Essa é minha sobrinha. Tudo bem, preciso ir, estou atrasado. Só queria ver sua carinha e perguntar se estava tudo bem mesmo, qualquer coisa é só me ligar.

Se virou, indo embora.

— Tio Bosco, espera. — Seu andar parou e ele virou-se, com uma dúvida amigável no cenho franzido. — Sobre aquele negócio… você conseguiu encontrá-la?

Sussurrei para que nenhum dos alunos relaxando no salão ouvissem.

A expressão de meu tio mudou para algo sério.

— Honestamente? Estou começando a perder as esperanças, — suspirou, cansado. — Mas não se preocupe com isso, está bem? Quando tivermos alguma pista sobre o paradeiro da sua mãe, eu mesmo te falo.

Assenti e nos despedimos.

Corri para a capela, onde, todos os dias antes do início da primeira aula, os alunos participavam de uma missa obrigatória, rezando junto com o diretor e padre, o senhor Francesco.

Carlotta apareceu com sua régua de madeira e uma careta no rosto, contando quantos centímetros minha saia estava acima do joelho e me fazendo abaixar ali mesmo na frente de todos. Bufei e entrei de braços cruzados, esperando a oração começar logo.

Quando a capela se encheu com todos os alunos, uma das freiras começou a tocar o órgão no canto do altar, acordando alguns no susto, que já estavam roncando nos últimos bancos por tanta demora. Era sempre assim, as freiras marcavam às 7h30 para começar tudo às 8h. Criaturas não confiáveis, eram elas.

Retirei a bíblia da minha mochila para acompanhar Francesco, mas fiquei com preguiça de encontrar a página e, como a lentidão irritou Marzia, ela mesma encontrou o versículo correto para mim.

— Bom dia, alunos! — Francesco falou em seu tom animado de todo dia. Ele não me enganava com essa positividade toda, todo homem careca com pouca idade teve motivos para não ter mais cabelo no teto.

Me espreguicei quando o coral começou a cantar qualquer coisa e me segurei para não me deitar no banco. Algo chamou minha atenção do outro lado, onde os garotos se sentavam. As freiras sempre faziam questão de separar as duas fileiras entre meninas e meninos.

E aquela coisa chamando atenção eram os cabelos amarelo ovo de Patrick, que tentava resgatar meu olhar. Por um segundo, me arrependi de ter o encarado de volta, ele parecia estar tentando me seduzir. Engoli seco e me virei para a frente, percebendo que até mesmo o padre Francesco parecia mais sexy que Patrick agora. Talvez a Fleabag não estivesse tão errada assim.

Tentei focar em outra coisa.

Uma coisa muito melhor.

— Marzia — sussurrei, empurrando seu ombro de leve. — Quem é aquele ali?

Apontei para uma nuca duas fileiras à frente, no lado direito.

Ponto positivo de se ter Marzia como amiga é que ela servia como um jornal da escola, sempre com notícias fresquinhas. Neste ponto, ela até me lembrava um pouco . Assunto para os dois maiores fofoqueiros do Fiore era algo que nunca iria faltar.

Ela sorriu animada, até perceber para onde eu estava apontando, e fechou a cara.

— Eu te falei sobre ele, já foi meu vizinho, lembra? — Na verdade, não lembrava.

Ah, agora entendia a paixonite de Marzia ter durado tanto tempo por alguém que ela sequer trocou mais de cinco palavras. Eu mesma estava prestes a desenvolver um deslumbre parecido.

— Sei que contei sobre ele super feliz antes, mas amiga… parece que as coisas mudaram.

— Como assim?

— O cara mudou pra caramba, tipo, muito mesmo. Parece que a vida dele na Riviera deu uma volta de trezentos e sessenta graus, e não é mais o menino inocente que vivia atrás do irmão mais velho que eu um dia conheci.

— Você tecnicamente não o conheceu, só observava ele da sua janela.

— Isso já é alguma coisa, . O que estão falando em todos os corredores é que ele mudou, está andando com um povo da pesada mesmo, eles vendem todo tipo de coisa nas festas das faculdades. Parece que ele já passou um tempo na cadeia depois de surrar um menino gay no ensino fundamental. Além de ter passado horas torturando o próprio gatinho de estimação. Ele se parece muito com aquelas crianças que fazem documentários dos anos oitenta porque tem traços psicopatas.

Bom, conhecendo meu gosto para homens, fazia sentido. Porém, parecia um grande exagero, até mesmo para o nível Marzia de fofoca.

— Ele me ajudou com a máquina de lanches ontem. Disse que se chama Hart, e fim. Sem nenhuma história do passado, presente ou o nosso futuro juntos.

Marzia chutou minha perna.

— Nada de futuro juntos! Esse cara é doido, fica longe dele.

— Se ele é tão doido assim, como conseguiu uma vaga no colégio? Bolsa?

— A não ser que ele tenha o nível de conhecimento do Walter White, que consegue ensinar alunos de dia e fazer metanfetamina pela madrugada, acho que ele deve estar sendo bancado por algum chefe criminoso. Você sabe, ainda existem muitos mafiosos aqui na Itália.

— Alguém já disse que você deveria investir em uma carreira de roteirista? — Revirei os olhos.

Ela cerrou os olhos.

— Quem avisa, amigo é. E, amiga, o Patrick não para de te olhar.

— Que perca os olhos no próprio rabo — resmunguei. — Até você tá sabendo dessa porcaria. Foi um caso simples de verão, estávamos os dois entediados. Não era sério, e agora que ele resolveu contar pro time inteiro de futebol dele, é que não terá mesmo outra chance comigo.

— Ele contou pro colégio todo e você nem se lembrou de contar pra sua melhor amiga — reclamou. — Só não fico chateada com você porque não esperava algo melhor.

— Shhh! — Carlotta chiou brava pra nós.

Ficamos caladas por alguns segundos, para disfarçar.

— Se não contei, é porque não achava que era importante. Agora me diz, o que mais você sabe sobre o ? O de antes.

— Não muito, pra falar a verdade — bufou, não querendo contar. — Moramos na mesma rua quando crianças, bem longe de Silent Grace, um bairro de classe baixa. Eu me mudei, ele ficou. Lembro que morava com a avó e o irmão mais velho, somente. Tinha alguns amigos e eles sempre se reuniam no seu quintal para jogar baseball. Era um amor de menino com a avó, sempre a ajudava, e acho que isso que me conquistou. Na época. Porque agora eu quero distância desse tipo de gente.

Às vezes, a Marzia ainda me lembrava aquela menina do primeiro ano que tinha vergonha de ser pobre e de toda essa classe de gente.

— Credo, sua stalker. Soube disso tudo só observando o garoto pela janela?

— Ei, você que tá pedindo informações sobre um homem que não conhece.

— Conheci ele ontem.

— Mas ele não quis te dizer nada sobre ele.

— É questão de tempo. Ele é sério e misterioso. E claro que a Nina do clube de teatro sentiu necessidade de interromper nossa conversa na hora.

— Ah, que legal, eu falei com Nina sobre sua apresentação. E aí, vocês duas conversaram?

Eu poderia matar Marzia agora.

— Você que falou com Nina? Eu pensei que Carlotta tinha pedido que ela me convidasse para o clube de teatro outra vez. Eu mandei a garota pastar, é óbvio.

— Claro que fui eu, sua maluca. Eu sei o quanto você é amarga com essa história de teatro e atuação desde que sua mãe foi embora.

Odiava quando ela citava minha mãe. Era um saco Marzia saber demais sobre tudo na minha vida. Por isso gostava de manter poucas coisas só pra mim, como Patrick. Ou Victor.

— Deixa que, das minhas coisas, cuido eu.

— Então não venha mais atrás de mim procurando por informação de um garoto bonitinho, novo e psicopata.

— Achei que iria servir para alguma coisa pela primeira vez na vida.

— Você não disse isso. — Me fulminou.

Nos encaramos e sorri desafiadora.

Ela me deu um soquinho no braço e lhe devolvi, logo estávamos nos estapeando silenciosamente para Francesco não notar. Nossas cabeças foram colocadas para frente com a mão de Carlotta repentinamente na nossa nuca, forçando o movimento. Eu ainda estava vermelha de fúria.

Ouvi alguns meninos fofocando no banco de trás do lado direito e me surpreendi ao ver com Mirko e Patrick, trocando palavras sussurradas e sorrisos contentes. Quando me notou olhando, sorriu com zombaria apontando para a frente, me mandando prestar atenção no altar.

O que diabos meu irmão estava fazendo tão próximo de Patrick? Do que eles estavam falando? De mim? Era uma conspiração de coisas ruins?

Carlotta estava a ponto de explodir com toda aquela movimentação.

Me virei outra vez para espionar e rosnei, pois a primeira coisa que vi foi uma bolinha de papel voar e bater na minha testa.

Fechei minha bíblia com força, fazendo um som mais alto do que o órgão e o discurso de Francesco.

Mirei-a e acertei bem na cabeça de .

— DETENÇÃO NO FINAL DO DIA, SENHORITA MERCY!

Tanto faz, valeu a pena.

***

— Que cheiro podre de ovo é esse, hein? — reclamei, pegando minha bolsa para me sentar no fundo da sala. Era só uma desculpa para sair daquele trio calafrio que Marzia estava tentando empurrar goela abaixo.

— Sente-se, senhorita Mercy! — Carlotta ralhou comigo, como se não fosse minha cúmplice de fugas em detenções passadas. Me engana que eu gosto, essa nova personalidade dela esse ano não tava com nada.

— Meu irmãozinho querido tá fedendo a ovo podre, vou ficar aqui agora. — Pisquei pra ela, que bufou.

— Ei, eu não tô fedendo a ovo coisa nenhuma! — Sentiu o cheiro no próprio blazer e olhou assustado pra novata. — Estou?

Ela balançou a cabeça negativamente, acho que estava com medo de falar durante a detenção. Novata em tudo mesmo.

— Não me enche, — o idiota, alguns minutos mais velho do que eu, reclamou.

— Cuida do seu galo na cabeça, já tá aparecendo.

-- Claro que tá aparecendo, você, cria de Satã, quem o deixou ali! — Passou a mão nos cabelos procurando algum montinho por ali.

— Não fale o nome de Satã, ! – Carlotta brigou com ele e tampou a boca com os olhos assustados ao perceber que falou o nome de Satã. Agora eu pensei no nome dele, fazendo disso a terceira vez que ele é lembrado no internato cristão em um período menor que cinco minutos. — E, , por favor, fique em silêncio por apenas cinco minutos.

Carlotta tinha aquela cara de decepcionada comigo. Ela veio me dando lição de moral o caminho todo, da sala até a detenção, falando que estava desapontada com o meu comportamento e que jogar um livro sagrado é um dos piores pecados que podemos cometer.

Ficou triste, principalmente porque estava sentindo uma evolução vinda de mim desde que iniciamos nossas reuniões semanais, ela estava de olho na minha grade de estudos e notas, e minha pontuação estava acima da média, algo que não acontecia faz meses.

Lógico que não falei para ela que isso era tudo graças à querida Myoui. Sim, eu prometi surrar a sonsa em uma semana caso ela não desaparecesse do meu quarto, mas ela era ótima em deixar suas provas e trabalhos soltos pelo quarto, e eu acabei me aproveitando dessa oportunidade.

E, simples assim, não queria mais que ela saísse do meu quarto. Enquanto minha média crescesse, mais chances eu teria de encontrar uma faculdade longe daquele país horroroso sem precisar ser bancada pelo meu pai.

Eu tinha uma poupança com um dinheiro que minha mãe me deixou antes de morrer e que foi criada para guardar todo o lucro que tive desde que comecei a fazer comerciais quando era criança, participar de recitais de balé e vencer concursos de beleza. E mesmo não gostando de focar em modelagem, mensalmente eu fazia um projeto com a Madame Grenier na agência dela para conseguir mais dinheiro e continuar guardando tudo na minha querida poupança.

era alguns minutos mais velho do que eu, nunca sabia o tempo certo, e mesmo eu sendo a irmã mais velha, a empresa do meu pai não seria herdada por mim, porque nasci com o grande defeito entre as minhas pernas chamada vagina.

Eu fazia o que podia sempre para conquistar a independência financeira necessária sem sair da linha que o meu pai ainda deseja que eu seguisse enquanto morasse sob o teto dele.

Me virei para o aluno de detenção atrás de mim.

— Então, o que conta?

Valentino Dante, ou VD como o chamávamos, era um dos meus maiores contatos aqui nesse colégio. Nos conhecemos há pouco mais de três anos, quando a mãe dele se casou com o patrão da mansão em que ela trabalhava e conseguiu matricular VD no Fiore.

Desde então, ele vinha expandindo seus clientes, antes apenas jovens de classe baixa da Zona Norte compravam seus saquinhos de drogas, agora, seu mercado havia evoluído, como ele mesmo dizia, quando os jovens do Saint Fiore começaram a investir.

— Princesa. — Sorriu, tirando o capuz da cabeça. — Não vou dizer que é uma surpresa te ver aqui nessa sala.

— Igualmente.

— Nos vimos da última vez quando? Na festa da lagoa?

— É, acho que sim. Quando fumei alguma porcaria que você me vendeu e tomei a decisão mais idiota da minha vida.

VD gargalhou. Ele tinha cabelo ruivo e todas as suas palavras eram faladas com lentidão.

— Peguei vocês dois no flagra aquele dia, imagens que ficarão gravadas na minha mente pra sempre — suspirou, sonhador. Ah sim, ele me viu sem camiseta enquanto Patrick me beijava contra uma árvore.

Soquei seu ombro, enojada. Éramos bastante próximos. Não como um irmão, porque ele passava 60% do tempo dando em cima de mim, ainda assim, éramos próximos.

E claro, nunca dei um fora definitivo em VD. Era sempre bom manter contatos para quando estivesse na seca, principalmente agora que perdi o meu recorrente.

— Já acabou tudo. Patrick não conseguiu ficar mais de três meses com a boca fechada. E também, já estava dando em cima da menina nova.

Revirei os olhos, fitando a garota que trocava bilhetes com uma muito animada Marzia. parecia um otário encarando-a sem vergonha alguma.

? Sei não, ela não parece esse tipo de garota. Parece mais escondida e fechada, tem uma história difícil com os pais, pelo que ouvi falar… assim como você.

Quase ri. Quase. Não achei graça.

— Vou ignorar isso. Suas férias, como foram?

— Não fui pra Suíça esquiar como minha querida amiga que também não me convidou, mas foram boas.

— Boas do tipo saiu pra namorar, beber e se divertir, ou boas no sentido negócios? — Os negócios de VD era basicamente pra tudo que ele vivia.

— A segunda opção. — Encolheu os ombros, culpado. — Finalmente consegui um cara novo pra trabalhar comigo. Só assim o chefinho lá de cima começou a movimentar mais dinheiro pra gente produzir mais coisas.

— Uau, vamos comprar um bolo. Se ele passou no teste de confiança de VD, é realmente algo a ser comemorado. E estou quase comprando alguma coisa pra essa semana, o ano começou insuportavelmente entediante.

- -Entediante? Pelo que ouvi nos corredores sua vida está tudo, menos entediante — ele riu. — O bom é, que com o novo cara, tenho menos trabalho nas costas pra carregar, e ele é bom, sabe os pontos exatos em que precisa aparecer e tem maturidade pra lidar com gente dessa laia.

— Maturidade? — Fiz careta. — Ah, então você recrutou mais um aluno de colegial? Que bom, VD, sua passagem no céu foi adiada por mais cinco anos.

— Não é pra isso que rezamos todos os dias com Francesco? Faço maldades de noite enquanto oro pela manhã, é o equilibro perfeito.

— Tenho minhas dúvidas se adianta alguma coisa quando você acaba na detenção pela tarde. Por que está aqui afinal?

— Dormi na aula do Riccardo de novo. Quando acordei, a franjinha ali estava enfrentando o professor.

— Hum, deixe-me adivinhar, ele estava fazendo um discurso sobre mulheres antigas e seu culto ao satanismo.

Olha Satã sendo citado outra vez.

— Acertou em cheio.

- Marzia precisa avisar a ela logo que existem milhares de professores lunáticos nesse internato, e os alunos só aprenderam a ignorar isso, pra não virem pra detenção.

— Por que você mesma não a avisa e inicia uma amizade linda?

Lhe mostrei o dedo do meio.

— Arisca como sempre, pensei que as férias no quarto do nosso zagueiro de futebol ou na Suíça teriam melhorado esse seu humor péssimo.

— Felizmente, para isso, não tenho cura.

— Pude ver hoje quando avistei uma bíblia voando no meio do sacramento pela manhã.

me irritou. — Sorri.

— Ele estava sentado à dez metros de distância de você.

— A presença dele irrita, mesmo à dez metros de distância.

— Pensei que os gêmeos possuíssem um laço mais forte.

— Depende. — Fiz bico, balançando a cabeça. — Se ele precisar de ajuda pra matar alguém, posso esconder o corpo. Se ele me irritar fazendo brincadeirinhas com o zagueiro que dei um fora no meio do sacramento, leva uma bíblia na cara.

— Entendi, todos nós temos dualidade com familiares.

— Pois é, morei com ele por oito meses no mesmo metro quadrado, agora mal consigo aguentar ele à distância. Falando nisso, senhor supremo das atualizações de crimes em Silent Grace, tem alguma notícia sobre o caso da Vanda?

O padrasto de VD era o Xerife da cidade. Sim, era irônico que seu único enteado fosse um dos maiores contribuidores de crime que essa cidade já viu. Eu tinha certeza que algumas unidades devem estar atrás da sua droga há anos.

— Infelizmente, não. Pareceu tudo premeditado demais.

— Como assim?

— Uma menina morta e enfiada na geladeira do hotel? Nenhuma câmera funcionando na hora? Um concurso aconteceu enquanto escondiam o corpo lá dentro, e pior, já confirmaram que sua morte foi há pelo menos cinco meses atrás, pelo que andei ouvindo.

— Então ela já estava morta quando a família declarou seu desaparecimento. — Compreendi.

— É o que estão dizendo no departamento. Também gera um grande pânico por ser filha de alguém tão poderoso quanto o senhor Perlmann. Ele é sócio do seu pai, não é?

— Do meu tio Bosco. Eles possuem algumas trocas de investimentos ou uma lorota do tipo.

— Pois é. Os caras estão com medo na alta sociedade. Aposto que Aldo não quis te deixar voltar pra Fiore esse ano, não foi?

— É, ele não quis. Só não entendo o porquê, duvido que o assassino seja uma dessas freiras e padres que cuidam da gente.

— Mas te deixa como um alvo fácil. Sabemos o quanto é tranquilo fugir dessa escola, , fizemos isso um milhão de vezes. E temos tempo de sobra pra sair. Se é fácil sair, é fácil de entrar. Aqui fica fácil para o suposto assassino cronometrar nossos rastros. Aposto que é questão de tempo até ele encontrar outra vítima. Se eu fosse você, ficaria esperta.

— Eu? — gargalhei.

-- Não é óbvio? Você é a filha do barão da cidade, o cara mais rico de Silent Grace, e um dos hoteleiros mais respeitados do mundo. Se atingiram com tanta facilidade os Perlmann, que vivia um andar de baixo do seu, poderiam facilmente te pegar também. Toma cuidado, princesa, de verdade. É o que eu te peço.

Mesmo tentando manter meu humor de quão surreal era essa possibilidade pra mim, suas palavras me pegaram desprevenida e meu celular começou a tremer na espécie de cinto coldre que amarro na minha coxa em baixo da saia de uniforme pra poder carregar meu celular sem que nenhuma freira o confisque.

A mensagem ali me deixou surpresa. E, cinco minutos depois de VD me pedir para tomar cuidado, já estou tomando uma decisão idiota que vai totalmente ao contrário do que ele me indicou.

Preciso da sua ajuda.

Envio a mensagem.

Sério? Agora? Onde você vai?

Recebo a resposta rapidamente.

Já sei que Aldo colocou você no meu pé pra me vigiar, mas relaxa. Não vou fazer nada de ruim.

Você, eu sei que não, é com quem atravessar o seu caminho é que estou preocupado.

Irmãozinho.

Qual é?

Confie em mim.

coçou a nuca e guardou o celular no bolso, se levantando para falar com Carlotta. Não fazia ideia do que ele falou, mas ela ficou irritada em segundos, perdendo atenção dos outros detentos para gritar com meu irmão que fez um sinal com a mão.

Foi o suficiente para eu me levantar com a minha mochila e cair o fora dali. ficava na linha de visão da Carlotta, enquanto eu me movia até a janela. Ele tentava fazê-la virar o seu corpo completamente para a parede da porta, o que me deu espaço e liberdade para abrir a janela grande e passar uma perna ali. Acenei para Marzia e VD, que estavam rindo da situação, e caí de bunda no telhado da Fiore.

Corri entre algumas janelas, com alunos rindo da minha figura fugitiva pelos telhados, e facilmente encontrei a calha que sempre me ajudou, todos aqueles anos, a escapar da prisão.

Posicionei bem as duas alças da minha mochila nos ombros e tomei cuidado ao descer a calha, principalmente para não levantar minha saia.

Finalmente, cheguei ao térreo e dei passos rápidos pela porta da direção, tentando não ser vista. Caminhei pelas folhas rosas caídas das árvores no estacionamento e encontrei o carro preto. Me aproximei dele e bati na janela, a porta se destrancou e o encontrei lá dentro, buscando uma respiração mais calma após aquela maratona louca ao me sentar.

— O que você quer?

— Você abriu a porra da sua boca pra polícia?

Imaginei que seria sobre isso. Victor era um covarde de primeira e estava tentando me ligar a semana toda.

— Acha que eu falei?

- Eu conheço os caras lá dentro, , não brinque comigo. Sou muito maior que você e posso te derrubar.

— Se é tão maior assim, por que veio até o meu colégio ter certeza de que não falei nada? Tá com medo do que pode acontecer quando eu contar a verdade? — desafiei, toscamente.

- Você contou?

— Não acho que você teria o mínimo de neurônio pra conseguir cometer um assassinato sem ser pego, então duvido que você seja um suspeito. É burro demais. Estaria na cara aparecer logo naquele local, naquele horário. Estava esperando por mim, porque sua cabeça só pensa em sexo, e fim.

— Está tão confiante? Você também estava lá na hora errada. — Mudou sua expressão, agora mais calmo e sorrindo com malícia. Nojento.

— Eu moro no hotel. Eu estava no concurso. Tenho um álibi que me acompanhou até eu guardar todas as minhas roupas de marca no guarda-roupa que as suas meninas precisavam levar no dia seguinte para a empresa. Você não tinha motivos pra estar lá.

— Nós dois sabemos o que eu estava fazendo. E era só isso. Se você abrir a boca pra contar isso aos policiais, podem acabar com a minha vida porque este caso não tem um suspeito sequer.

— E isso é problema meu? — eu ri.

— Se não ficar calada por mim, tudo bem. Pense na minha esposa Marta ou em Patrick, sei que vocês dois são amigos, ele fala de você lá em casa.

— Sua família merece alguém melhor que você. — Revirei os olhos para a apelação.

— Com esse tom de superioridade, como se fosse inocente. Nunca transei sozinho, . Você estava lá também, gemendo a porra do meu nome a cada encontro que tínhamos.

— Quero ver você provar isso quando eu acidentalmente escorregar minha língua caso passe na polícia pra mudar meu depoimento — provoquei.

— Isso não é brincadeira, caralho! — gritou e dei um pequeno pulo em susto, mas consegui manter minha face firme. — É minha vida que está em jogo.

— Na verdade, é a vida da Vanda que estava em jogo, e ela já perdeu. Eu reconsiderei o seu caso porque não queria meu nome envolvido nessa merda toda. Mas agora você está se tornando culpado demais para alguém inocente.

— São as estatísticas.

— Do que você tá falando? – perguntei, com preguiça. Ele estaria caducando em minutos.

— Todos eles têm um álibi, todos os caras no concurso. E minha família já sabe que demorei pra voltar pra casa aquela noite. Eu falei que tinha um jogo no Casa Noturna do Pellegrino. Mas acabaram descobrindo que eu não estava lá depois de ouvirem uma conversa minha com alguns sócios.

— Ah, então você tem medo até da sua família te denunciar? Uau, e eu achava que eu tinha problemas com meu próprio DNA.

— Você é meu álibi, . — Ficou em silêncio depois de falar aquilo como uma súplica.

— Acho que não entendi o que você está querendo dizer. — Ele não poderia estar falando sério.

— Se você contar que tivemos um encontro naquela noite… talvez…

- Eu acabei de dizer que quero meu nome longe dessa merda toda e você quer que eu entre na polícia a seu favor? Dizer que estava dormindo com meu treinador de concurso? E depois? Meu pai manda dois assassinos, um atrás de você e um atrás de mim.

— Você é o bem mais precioso dele. Se tentarmos fazê-lo entender, pode dar certo.

Fiquei estática, antes de rir. Pra valer.

— Acha mesmo que ele vai entender? — gargalhei.

— Acho que já não era como antes. Você tem mais de dezoito anos. Antes, tudo bem, eu precisei te chamar pra jantares, te dar presentes, te apresentar esse mundo de sedução e paixão porque você não sabia de nada disso…

Eu queria esmurrá-lo.

— Sim, obrigada por tirar minha virgindade, Victor.

— Até que nos apaixonamos, . Se seu pai concordar, podemos até…

Lhe dei um soco com toda a força que continha em mãos. Meus pulmões queimavam de raiva. Não era possível que ele queria fazer um acordo desse tipo.

— Se voltar a me contatar, eu vou sim na polícia falar que estávamos juntos. Vou falar que você me forçou na primeira vez, na segunda vez, na terceira vez, até eu não ter mais opção a não ser aceitar que um maluco velho como você não me deixaria mais em paz.

Me virei para abrir a porta e sair do carro, mas Victor a trancou mais uma vez.

— Abre logo essa merda. — Bati no vidro três vezes com força.

— Eu não queria te mostrar isso, , mas é necessário.

Quando sua mão foi em direção a sua calça, travei com medo de que ele fizesse algo, mas a ideia passou rápido quando ele tirou o celular do bolso e destravou. Alguns cliques comigo ainda em silêncio. Algo dentro de mim já esperava por isso, ele não tinha caráter, nunca teve.

E Victor me mostrou seu celular com uma gravação.

Como o grande filho da puta que ele era.

Ele tinha colocado seu celular na penteadeira, ano passado, em um dos concursos no início do ano, quando eu ganhei e ele trancou a porta para “comemorar” a “nossa vitória” me chupando.

Eu estava uma verdadeira vadia naquele vídeo, puxando o seu cabelo e berrando palavrões junto com seu nome, só para irritá-lo caso Marta passasse do lado de fora e ouvisse.

— Sou mais velho que você, , muitos anos mais velho. Sempre soube que um dia toda nossa situação poderia se virar contra mim, então precisei me proteger disso. Suas roupas são as do concurso, onde você já era maior de idade. E claramente parece uma atividade sexual consentida. Tudo que peço é que, se te procurarem, você fale a verdade. Sobre termos um caso sério e que você não me viu no corredor, porque passei a noite toda no seu quarto do hotel.

Quando ele foi embora, tive uma pequena sensação no meu peito, me dizendo que, dessa vez, eu tinha perdido.


Capítulo 7

“Seja qual for a matéria de que as nossas almas são feitas, a minha e a dele são iguais.” – Emily Brontë.

Quando eu disse que a última coisa que eu queria no Saint Fiore era ser popular, eu estava sendo completamente sincera. Mas as coisas nunca saíam do jeito que eu queria e, quanto mais tentava passar despercebida, mais atraía atenção para mim.
E de uma forma muito estranha, as coisas no Saint Fiore estavam muito melhores.
Aparentemente a popularidade de era muito pior do que eu imaginava, já que todos diziam que ela e mandavam no internato. Então quando ela decidiu cismar comigo simplesmente por existir, isso acabou fazendo com que outras pessoas gostassem de mim. Eu achava que era uma daquelas situações de Team ou Team , e as pessoas estavam preferindo a que não as fazia chorar por causa de um olhar acidental.
Então as pessoas me cumprimentavam pelos corredores, sorriam para mim e não faziam mais fofocas maldosas nos banheiros. Além de que, depois da minha detenção por enfrentar o professor machista e babaca, as pessoas comentaram sobre isso de uma forma positiva, como se estivessem esperando finalmente alguém tomar atitude.
No começo, eu achei que isso tivesse dedo de Nik, imaginaria que ela fosse capaz de pagar para que me tratassem como um ser humano, mas ela estava tão ocupada ultimamente com seus concursos, eventos importantes e sua agência que mal se importava com como eu estava no Saint Fiore.
Quem estava amando era Marzia, já que, se minha popularidade estava em alta, ela, por ser minha única amiga, estava colhendo os frutos também. Já tinha planos para as próximas festas, e eu imaginava formas de fugir delas.
Bufei impacientemente enquanto esperava a máquina de lanches colaborar e destravar o meu lanche. Era chocante o quanto os pais dos alunos tinham que pagar de mensalidade nesse internato para ter uma máquina sempre travada.
— Tá tudo bem por aí? — Ouvi a voz familiar e me virei, era Patrick. Ele estava com as mãos no bolso da calça.
— A máquina travou — apontei —, mas eu nem estava com tanta fome assim mesmo. — Encolhi os ombros.
— Quer que eu te ajude?
Aceitar a ajuda de Patrick não parecia uma boa ideia, já que Marzia havia repetido várias vezes o quanto ele era um sinal de perigo e que eu não podia nem respirar o mesmo ar que ele.
Mas por outro lado, eu estava com fome…
Minha falta de resposta fez com que Patrick entendesse como um sim, porque foi até a máquina e ficou mexendo nela, tentando destravá-la.
— Eu queria te pedir desculpas pela forma que nos conhecemos — começou. — Não queria que achasse que eu estava flertando com você ou coisa do tipo, longe disso.
Isso acabou rendendo mais do que devia, na verdade. Começaram os boatos que eu e Patrick tivéssemos algo e terminou com explodindo no meio do refeitório na frente de todo mundo.
Eu senti pena de Patrick nessa situação, mas era um assunto que eu não tinha vontade alguma de me intrometer já que, o que ele e tinham ou não, não é problema meu.
— Ainda mais sabendo que você é a garota do Mercy… não quero me envolver nessa também, já não basta — ele riu, mas parecia triste com a situação.
Meus olhos se arregalaram quando o ouvi.
— Eu não sou garota do — disse, quase num grito, não me importando se chamasse atenção. Mas logo me contive. — Nunca aconteceu nada com ele e nós nos conhecemos no ônibus naquela manhã. Eu nem sei por que ele inventou isso!
Patrick se virou para mim e me encarou um pouco confuso, então deu um sorriso.
— Eu imaginei, você é boa demais para Mercy. — Coçou a nuca.
Eu não precisava que Patrick dissesse para quem eu era boa ou não, mas não odiava o fato dele confirmar que eu era boa demais para , porque eu era. era o último homem na face da Terra com quem eu iria querer ter algo.
E se quiserem saber se ficou na porta do meu dormitório com uma caixinha de som na cabeça tocando uma música de trilha sonora de um filme de comédia romântica dos anos 2000, a resposta era não. Pelo menos não ainda.
— Aqui está. — Ele entregou o lanche que havia comprado na máquina e sorriu. E eu, como uma idiota sem controle algum sob meu corpo, corei.
— Muito obrigada — agradeci, mas evitando manter contato visual.
— Te verei hoje à noite, certo?
Franzi o cenho.
— Hoje à noite?
— Sim, o evento da Madame Grenier. Meus pais são amigos dela, por isso nós sempre vamos em seus eventos.
Havia esquecido que Nik decidiu fazer um jantar e juntar o bairro de San Pellegrino inteiro em sua mansão essa noite para me apresentar formalmente aos seus amigos.
Vivendo durante esse tempo sob a tutela da Madame Grenier, eu descobri que gente rica aproveita qualquer oportunidade para fazer eventos e gastar rios de dinheiros apenas para juntar seus outros amigos ricos e esfregar o quão bons anfitriões eles são.
Não imaginei que Patrick estaria lá, mas pelo menos teria alguém familiar no meio de pessoas que nunca vi na vida.
— Te vejo mais tarde, então — sorri e Patrick também.
Ele se despediu porque tinha aula e eu também, então ele saiu do refeitório e eu fui logo em seguida, enquanto comia meu lanche.
Não precisei dar dois passos para que aparecesse em minha frente de braços cruzados e com uma cara de pouquíssimos amigos.
estava diferente desde a última vez que nos encontramos, ele agora usava o uniforme de forma correta. A camiseta branca fechada, a gravata com as cores do Fiore e o paletó com o broche. Era diferente vê-lo engomadinho e parecendo como qualquer outro aluno do internato.
Marzia falava disso, depois que ele começou a aparecer vestido de forma apropriada. De começo, ela teve um mini surto em que ela acreditava que tinha uma garota que ele estava tentando impressionar e tive que ouvir isso durante dias.
Mas não consiguia deixar de me perguntar se realmente havia uma garota que estivesse tentando impressionar e por isso estava alterando seu estilo de se vestir.
Por que diabos eu me importava com isso? Meu Deus!
— O que o Brazzi queria com você? — Pela forma que cruzava os braços, eu conseguia notar os músculos se apertando no tecido do paletó. Balancei a cabeça para parar de olhar isso.
— Do que te importa? — Revirei os olhos. Achei que ele ia desistir, mas continuou na mesma posição. Suspirei alto. — Ele só quis me ajudar a tirar o lanche preso da máquina.
— Eu podia ter feito isso, tenho braços fortes.
— Óbvio que tem — disse, sem filtrar pelo meu cérebro, e corei, arqueou as sobrancelhas impressionado. — Me deixa em paz, !
Comecei a caminhar, ele apenas girou os tornozelos para me assistir ir embora e pude ouvi-lo antes que saísse do refeitório:
— Fico muito feliz em saber como você imagina meus fortes braços, !
***
Tentei passar todo o dia lutando contra a ansiedade sobre esse jantar idiota que aconteceria na casa de Nik. Para mim, era idiota, porque eu não queria ser apresentada para todos os amigos milionários e influentes da mais velha.
Isso me deixava ansiosa e nervosa, além de bastante preocupada. Não me sentia confortável com a ideia de ter um evento social todo sobre a minha pessoa. Não gostava de ser o centro das atenções, principalmente porque não havia motivo nenhum para esse jantar.
A ideia de Nik era fazer um jantar para comemorar a minha bolsa. Sim, ela estava sugando até a última gota dessa minha conquista. Então, ela juntou todos seus amigos para que me conhecessem e vissem a neta inteligente e com um futuro brilhante.
Isso me deixava ansiosa porque não sabia o que esperar e não queria fazer algo errado que envergonhasse Nik na frente de todos seus amigos, fazendo com que ela se decepcionasse comigo.
Além de saber que estaria sozinha em um ambiente totalmente diferente do que eu estava acostumada.
Claro que Marzia, Patrick e até os gêmeos estariam lá, mas visto tudo que acontecia comigo dentro do Fiore, não acreditava que era uma boa ideia passar uma noite com todos eles lá. Principalmente com os gêmeos, era a receita para um desastre.
Enquanto saía do prédio do Fiore, percebi uma figura masculina nos portões do colégio. A figura era familiar, mas não conseguia acreditar que era quem eu imaginava.
Fui caminhando mais perto e mais perto, até que a figura foi se tornando mais familiar e meu coração batia mais forte, até finalmente ver quem realmente era.
Era papai.
Corri até ele, ignorando tudo e todos ao meu redor. Me joguei em seus braços e ele me abraçou forte, tirando meus pés do chão e me girando.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei. Nem ligava para a resposta, o que importava era que ele estava ali e comigo. — Estou tão feliz!
— Eu estava com saudades da minha princesinha — sorriu. — E sua avó resolveu fazer um evento para você, então óbvio que eu não te deixaria sozinha nisso.
Papai me soltou e me colocou no chão, mas eu o abracei novamente porque não conseguia controlar minha felicidade de tê-lo ali depois de tempos sem nos vermos.
— Isso é incrível, papai! Estou tão feliz que você está aqui.
Ele sorriu.
— Tenho uma notícia que vai te deixar tão feliz quanto essa. Tá pronta?
Assenti, com meu coração batendo forte em meu peito.
— Trina está te esperando lá na mansão — abriu um sorriso enorme quando meus olhos se arregalaram. — Você acha que eu não a traria? Ou melhor, você acha que ela me deixaria vir sem ela?
Dei pulinhos de alegria e abracei meu pai novamente. Esse era o melhor presente que eu poderia receber
Talvez essa noite pudesse ser boa, no final das contas. Se tinha meu pai comigo e minha melhor amiga, nada poderá estragá-la!

***
Mansão Grenier.
— Eu não sei o que vestir — resmungou Marzia do outro lado da tela. — Será que vou de azul escuro ou vermelho?
Sorri.
— Acho que azul combina com você — disse e ela fez careta.
— Eu preciso estar perfeita essa noite, ! — Ela parecia ansiosa. — Você nunca participou de nenhum dos jantares da Madame Grenier, mas eles são praticamente importantíssimos pra nossa reputação. Geralmente são graças a esses jantares que somos escolhidas para o Leilão.
Nik havia dito a mesma coisa, como essa noite era importante para mim e para minha reputação aos olhos do nosso bairro. Que uma boa impressão podia me ajudar para que as coisas ficassem mais fáceis no Saint Fiore para mim, além que me ajudaria no futuro.
Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer com esse futuro, parecia que estava pensando em tudo já sem me consultar.
Por isso, estava tratando de todos os detalhes para que essa noite fosse perfeita para ela. Mandou fazer um vestido sob medida e exclusivo para mim, além de escolher a dedo os sapatos, jóias, penteado, maquiagem e até a cor de esmalte que eu usaria essa noite.
Às vezes, sentia que Nik queria apenas brincar de boneca comigo. Me montar, moldar e me exibir por aí. Ou talvez só se sentisse sozinha por nunca ter tido uma filha e então projetava tudo que não pôde fazer pelo meu pai em mim.
Em minha cabeça, a senhora era uma mulher solitária, mesmo cercada de tantos amigos e suas famílias, já que não tinha ninguém da sua própria família por perto. E comigo aqui, era sua única chance de criar um laço verdadeiro. Era por isso que eu acatava todas suas decisões.
— Vai de vermelho! — Trina disse, enquanto fazia as unhas sentada em minha penteadeira. — Marzia, confia em mim, não sabe nada! Todas as mulheres poderosas usam vermelho, é bem femme fatale.
Mesmo com minha amiga me atacando gratuitamente, eu não conseguia parar de sorrir por ela estar aqui comigo.
Quando cheguei do Fiore e reencontrei Trina na mansão, quase tive um ataque do coração de tanta felicidade em ter minhas pessoas favoritas nessa noite importante para mim. E mal podia esperar para apresentá-la à Marzia porque sabia que elas iam virar amigas.
Até gostaria de Trina se tentasse conhecê-la. Era impossível não gostar, ela era adorável.
Mas mesmo com minhas pessoas favoritas por perto, ainda sentia um pouco de ansiedade. Nik havia colocado em minhas costas uma pressão dizendo que eu não podia vacilar de forma alguma e que não poderia decepcioná-la na frente dos amigos próximos dela.
E a pressão aumentava com papai por perto, porque não queria decepcioná-lo também. Queria que ele visse que eu estava bem, me adaptando e me enturmando, não queria preocupá-lo ou dar a entender que eu não estava feliz. Queria que papai ficasse orgulhoso de mim e de tudo que estava conquistando.
Por isso, estava dando o meu melhor para que esse jantar desse certo e que saísse da forma que Nik havia planejado. Assim, todos terminariam a noite felizes e orgulhosos de mim.
Terminei de me arrumar e coloquei no pescoço o colar de brilhantes que Nik separou para mim. Respirei fundo e me virei para Trina, esperando o julgamento dela e de Marzia do outro lado da tela.
, você está… uau.
Eu corei.
— Não está muito chamativo?
Elas negaram.
— Você tá incrível — Trina sorriu, limpando uma lágrima imaginária. — Estou tão orgulhosa de você, amiga.
— Os garotos vão ficar loucos quando nos virem! — Marzia comemorou do outro lado da tela. — Nós quatro vamos ser as mais elogiadas e comentadas da noite inteira!
Eu ri.
Gostava do otimismo e bom humor de Marzia, sua língua solta e o jeito que ela só se importava em se divertir. Estava muito feliz de tê-la como amiga nessa nova vida, porque ela me lembrava de Trina e eu me sentia confortável ao seu lado.
— Mal posso esperar para fisgar um ricaço. — Trina soprou suas unhas. — Essa noite vai ser incrível!
— Eu já te amo, Trina — Marzia disse do outro lado da tela. — Vamos nos divertir tanto!
— Mal posso esperar!
Sorria para essa cena e meu coração ficava cheio de felicidade. Eu realmente tinha as melhores amigas do mundo. Eu era muito sortuda.
Respirei fundo e foquei em terminar de me arrumar. Não me importava com os ricaços da festa, mas sim me preocupava com o que pensariam de mim. Tinha que me esforçar para estar no nível de tudo que estava sendo preparado para mim.
Por dentro, estava aterrorizada, mas por fora eu daria o meu melhor para que tudo desse certo essa noite.
Me olhei no espelho e elas estavam certas, eu estava… uau.
***
Eu achava que atrasar era algo que aumentava a expectativa, mas meu pai não achava isso. Então eu tive que chegar cedo e passar um tempo dando atenção para todos seus bajuladores.
— Você parece um mauricinho vestido pela própria mãe para ir à Igreja em uma manhã de Domingo. — me cutucou, querendo tirar sarro da forma que me arrumei para essa jantar. — Achei que você tivesse puxado meu senso de estilo, sei lá.
Revirei os olhos.
— Não me culpe por estar apresentável essa noite, maninha. — Pisquei para ela. — E todos aqui parecem que estão vestidos para uma missa.
— O estilo dessas garotas é muito entediante. — Minha irmã bebericou uma bebida ao meu lado.
— Eu gosto de vestidos longos, deixa as curvas bem a mostra — sorri, virando o pescoço para um belo tecido roxo que cruzou o salão bem na hora.
— Me lembra o baile de debutante da mamãe… Apenas retiraram as caldas e as mangas bufantes, mas parecem estar presas nos anos oitenta — riu por um segundo antes de fechar a cara ao perceber que tinha um garoto que não parava de tentar chamar sua atenção do outro lado do salão.
Reviramos os olhos em sincronia, quem via de fora achava esses momentos de gêmeos um pouco assustadores.
E não, não era um irmão ciumento que se incomodava quando minha irmãzinha tinha pretendentes, isso acontecia o tempo todo, ela tinha o meu DNA, então já era esperado. O problema era quando o cara que fazia isso era Filipo Rivelli.
Eu não queria sequer perder um segundo de pensamento hoje por conta do Rivelli, mas precisava deixar claro que o cara era maluco, tinha a minha idade, era obcecado pela fazia alguns anos e também era obcecado em tentar roubar meu lugar na empresa do meu pai, já que ele fazia estágio lá há alguns anos porque a família Rivelli tinha alguns negócios em conjunto com os Mercy.
Enfim, cinco minutos sozinho em uma sala com ele, era tudo que eu precisava.
— Cara esquisito — murmurou, se virando completamente para mim.
Fiz careta para a roupa que ela vestia… era bonita e tal, só que não tinha nada a ver com o tema do evento. Acho que por isso Aldo estava com a careca vermelha quando a viu arrumada pela primeira vez.
“Onde você está indo?”.
“Para essa droga de evento da Madame Bruaca Velha, ué”.
“Com essas roupas?”
“O que tem minhas roupas? É um conjunto da Miss Sohee, deve ser mais atual do que tudo que veremos as garotas e os garotos estarão vestindo hoje. E não vou passar calor.”
“Parece um conjunto de praia, ! Troque agora”.
Resumindo a história, ela não trocou e meu pai já estava com uma ruga a mais no rosto antes de passarmos pela porta da mansão Grenier.
— Ora, , não se faça de difícil, ele até que está charmoso hoje — tentei segurar a risada, mas não deixei de gargalhar com a careta que ela fez, me dando um empurrão que quase me fez cair da cadeira.
Aldo, que estava no meio de um discurso importante para todo o salão, fitou a nós dois querendo nos matar com o olhar, e nos sentamos eretos, nos comportando com sorrisos angelicais. Nem havia percebido que o homem tinha chamado a atenção da mansão toda para nossa mesa. Bosco, que também estava sentado ao nosso lado, riu de leve, e papai retomou seu discurso.
— Acho que ele está olhando pra você, maninho. Por que não o convida para sair? Mostre a ele um dos quartos do Hotel Mercy. — Piscou um olho pra mim e fechei a cara. — O que foi? Muito novo pra você? Ou seu interesse é inerente a senhoras católicas?
— Você é tão engraçada.
— Eu adoraria ter Carlotta como cunhada — disse, sorrindo.
— Bom, não devo mentir, de todas, o gemido dela foi o que mais me marcou.
se engasgou no meio do drinque que estava tomando, e tentei continuar com o teatro de que realmente tinha dormido com Carlotta, o que não durou muitos segundos, pois eu e não tínhamos maturidade o suficiente para nos encarar sem rir. Principalmente em um evento tão importante enquanto Aldo estava discursando como um político e riamos atrás como hienas sobre dormir com freiras e evitar mauricinhos insuportáveis.
— Parabéns, quase me pegou — ela esticou o seu braço e trocamos um aperto de mãos.
— Muito obrigado.
Sua atenção foi tomada por uma cabeça ruiva no meio do salão e segui seu olhar, encontrando VD.
Eu era um cara de coração grande para amigos e considerava VD um deles. Já fizemos alguns serviços juntos e, apesar de tudo, o considerava de confiança, um doce de rapaz. Parecia faltar alguns neurônios na cabeça dele, e o padrasto dele como Xerife deveria ser o primeiro a desconfiar o porquê disso. Eu não culpava VD, o coitado além de ter um pai da polícia, tinha Filippo como primo. São dois grandes castigos da vida.
Sabe quando você adota um cachorrinho e ele fica entediado até você mostrar uma bolinha vermelha na frente dele e ele abraça uma postura de que vai caçar essa bolinha para brincar até se cansar?
Bom, essa foi a melhor maneira de expressar quando percebeu que VD também estava ali. Minha alma saiu do meu corpo aos poucos percebendo que ela ia mesmo me deixar sozinho para morrer com os abutres para ir atrás do maconheiro da turma.
— Minha estadia aqui acabou. — Largou a taça de vinho em cima da toalha e ficou observando os passos de nosso pai, para ver o momento exato em que ele estaria longe o suficiente para ela fugir da nossa mesa.
— Você vai me largar aqui? É sério?
Ela encolheu os ombros.
— Se fosse ao contrário, hein? Se você visse Carlotta no meio do salão e sentisse que o seu amor não conseguisse aguentar ficar longe dela, iria me abandonar em um segundo.
— Exceto que você não ama o VD. — Revirei os olhos. Pera, eu concordei com o que ela disse? Por que ainda estávamos falando da Carlotta?
Deus nos perdoasse, Carlotta deveria estar orando alguns Pai Nossos agora pra se libertar de tanta citação.
— Por isso mesmo eu disse que era para apenas imaginar o contrário.
Bufei, vendo-a se esquivar atrás do meu banco, encontrando uma pilastra onde os garçons estavam passando com drinques e petiscos.
— Vai ter volta.
E foi assim que minha companheira de aguentar jantares sumiu. Aldo ficou nervoso quando percebeu que a bonequinha dele já não estava mais ali e pediu para alguns seguranças a procurarem. Era sempre assim.
pode ser o que fosse, mas a garota tinha a presença de um furacão. Dez segundos sem ela ali e já estava ficando entediado.
Pelo menos, tinha meu tio Bosco para me fazer companhia.
— O quanto será que ela gastou pra fazer esse jantar? — perguntei, curioso.
Todos sabiam que a Madame Grenier não tinha problema algum em gastar fortunas em jantares luxuosos para mostrar aos seus convidados que tinha dinheiro de sobra, mas sempre me chocava que ela se superasse a cada jantar.
Mesmo posando de hippie moderna, com suas comidas orgânicas e casa cheia de plantas, todos sabíamos que a Madame de San Pellegrino não era nem um pouco humilde e não poupava dinheiro em seus eventos, mesmo mantendo a estética “diferencial”.
Por exemplo, nesse evento. Ele poderia parecer minimalista, tirando, claro, os lustres de ouro e a decoração seguindo uma paleta de cores terrosas, com muitos detalhes em ouro puro. As plantas dando um ar vivo para a mansão, mas também tudo meticulosamente planejado e organizado.
Todos sabiam que a Madame era extremamente controladora, mesmo parecendo despojada, tudo que fazia nunca saía menos que perfeito.
— Tudo isso para apresentar a neta — tio Bosco comentou. — Ouvi muito sobre essa garota e como ela conseguiu a bolsa no Sant Fiore. Ela realmente deve valer todo esse esforço.
Ele tinha razão, ela com certeza valia a pena todo esse evento para ser apresentada a todos. E com certeza conquistaria todos só mostrando o seu sorrisinho.
Claro que eu nunca diria isso em voz alta, eu já parecia patético demais tentando me aproximar da garota e fazê-la me detestar menos enquanto ela dava sorrisinhos pro babaca do Brazzi. Mas não, eu não estava incomodado com isso.
Sim, eu estava tentando impressionar a garota e por isso havia dado uma diferenciada em meu visual tentando me vestir mais como meu adorável amigo Mirko, porque ouvi fofocas de que o achava bonito com todo o seu estilo engomadinho e certinho. Foi o suficiente para me forçar a usar gravatas e abotoar minhas camisas.
Claro que não havia segundas intenções para isso, não explícitas, claro. Queria que cedesse e que pegasse mais leve comigo, me considerasse um amigo ou sei lá. Se sem querer isso fizesse com que ela quisesse algo a mais… bom, eu não rejeitaria.
Não é como se eu devesse fidelidade à Carlotta ou coisa do tipo.
As coisas entre nós estavam melhorando, ela não me desprezava tanto e eu estava na minha tentativa de pelo menos ser amigo da garota. Mesmo que eu agisse que nem um idiota que seria capaz de bater de cara em postes ou cair de cabeça no chão apenas para fazê-la rir, eu estava focando em tê-la apenas como minha boa amiga.
E de repente todo o ar do salão e de meus pulmões sumiram quando a vi descendo as escadas.
Puta que pariu. Mil putas que mil pariram.
Ela estava perfeita.
Usava um vestido branco de decote em V que chegava na altura de suas coxas e era delicado, parecia minimalista e simples, mas havia um detalhe maior nele: as coisas nuas seguidas por um laço grande. A garota parecia estar valendo milhões de euros com esse vestido. Palmas para Grenier, ela realmente conseguiu vender essa imagem.
Seus cabelos pretos estavam soltos e lisos, com a sua nova franjinha tampando a testa. E por chegarem apenas até seus delicados ombros, todo o vestido ficava em evidência, nada de cabelo o cobrindo.
A gargantilha de brilhantes estava perfeita em seu delicado pescoço. nasceu para usar joias, como ela nunca soube disso?
Ela estava perfeita. Graciosa. Descia as escadas com graciosidade, como se estivesse desfilando. Parecia outra pessoa, tinha uma confiança ali que nunca havia reparado, como se estivesse vivendo aquele momento. Com certeza não podia ser a mesma garota que corava toda vez que recebia o mínimo elogio.
Eu havia engasgado com o vinho que bebia, quase cuspi para fora e passei a maior vergonha. Sorte que ninguém ligava para mim, eu era um nada nesse salão.
Todos os olhares estavam nela.
Balancei a cabeça e tentei olhar para qualquer outro lado do salão. Meu cérebro tinha que se controlar, eu precisava me controlar. Meus pensamentos por essa garota não podiam ser nada além de um bom colega.
Mas como evitar qualquer outro pensamento quando ela era a garota mais linda que já apareceu na porra da minha vida. E eu era um mauricinho rico, já fui em muitos lugares e conheci muitas garotas.
Só que era boa demais. Melhor do que qualquer uma que já conheci.
Seu olhar se cruzou com o meu e, mesmo a metros de distância, consegui ver o brilho da galáxia dos seus olhos. Ela abriu um sorriso sem mostrar os dentes para mim. Sim, foi para mim, e eu tinha certeza disso.
Mas eu estava tão pasmo com ela que não sabia como responder. Ia falar com ela? Acenava para ela? Me jogava no chão e a deixava pisar em minhas costas? O que eu poderia fazer?
Já era tarde demais. já havia sumido do meu campo de visão.
— É ela? A neta da Grenier? — Meu tio parecia tão chocado quanto eu. Assenti com a cabeça, sem capacidade alguma de formular alguma frase.
Eu precisava beber até recuperar meu senso urgentemente.
***
Eu odiava esses olhares em mim. Odiava, de verdade. Mas não podia fazer mais nada, eu estava à mercê deles.
Todos estavam agindo estranhos em minha volta, inclusive que parecia uma estátua quando me viu. Eu era tão feia nos dias normais que, quando me produzia, eu ficava irreconhecível?
Tive que engolir todo o meu medo e descer aquelas escadas como se pertencesse a tudo isso, como Nik me fez ensaiar até decorar. Talvez eu tivesse uma chance na atuação, porque estava atuando como se minha vida dependesse disso para não estragar a noite.
Precisava encontrar a Marzia, Trina ou meu pai logo.
— Aí está você! — Nik apareceu, me impedindo de ir atrás de alguém que eu conhecia. — Uau, você está deslumbrante — ela sorriu. — Estou orgulhosa.
Sorri, grata pelos elogios.
— Vem, vou te apresentar para uns amigos! — ela sorriu e me puxou pelo braço, me levando até um pequeno círculo de homens.
— Olha quem chegou — o careca foi o primeiro a falar. — Estávamos falando de você agora, Nik.
— Espero que bem! — ela disse e eles riram, a acompanhando.
— Estávamos falando sobre que esse é mais dos seus deslumbrantes jantares — o homem com cabelo penteado para trás e que vi falando com no colégio disse, dando uma risadinha. — E sobre sua neta, que atraiu a atenção de todos.
Abaixei a cabeça, envergonhada. Não queria que me vissem corar.
é uma garota e tanto — ela sorriu. –—Tenho muito orgulho da minha neta, porque ela não é apenas uma beleza deslumbrante, igual a mim — riu.
— Não mesmo, ela é inteligente também! — o terceiro, de cabelos grisalhos e muito elegante, disse. — Soube que ela conseguiu bolsa integral no Saint Fiore com cem por cento de acertos no teste.
— Uau, ela é realmente muito especial — o de cabelo penteado para trás sorriu para mim.
, deixe-me lhe apresentar meus mais velhos amigos — sorriu. — Aldo Mercy — apontou para o careca — Bosco Mercy — apontou para o que vi com — E Victor Brazzi. — Apontou para o grisalho elegante.
Todos me cumprimentaram educadamente.
Aldo e Bosco eram parentes dos gêmeos pelo visto, e Victor era o pai de Patrick. Então os melhores amigos de Nik eram os pais e parentes dos meus colegas de internato, que engraçado.
— O senhor é pai do e da ? — perguntei para Aldo. Assim que prestei atenção nele, percebi uma semelhança com os gêmeos, principalmente os olhos. tinha os mesmos olhos felinos.
— Sou sim — sorriu. — Acredito que conheça meus filhos, certo? Já que são colegas no Saint Fiore. — Assenti. — Que bom. Ouvi muitas coisas boas de você, meus filhos precisam de boas amizades assim.
— Eles são ótimos amigos! — Nik disse. — Inclusive, e são colegas de quarto. Que coincidência, não?
— Coincidência? Com a Madame Grenier? Duvido – Bosco riu.
Para quem havia dito que eu não devia me aproximar nenhum pouco dos Mercy, Nik havia mudado rapidamente de opinião na frente do pai dos gêmeos. Nem um pouco suspeito.
— Patrick também precisa — Victor disse, sorrindo para mim. — Se me permite dizer, Nik, mas sua neta é muito bonita. Ela poderia se dar muito bem nos concursos ou em uma carreira de modelo.
Corei.
Nik nunca havia me convidado ou nem mesmo mencionado me levar para conhecer sua agência e muito menos para participar dos concursos. Me sentia ultrapassada para isso e duvidava que levaria algum jeito para fazer parte disso, tipo .
Mas confesso que o elogio de Victor fez com que minha autoestima desse uma levantadinha. Não que eu duvidasse da minha aparência ou coisa do tipo, muito pelo contrário, eu era linda igual minha mãe era quando tinha minha idade. Mas ouvir isso dos outros fazia bem para o ego, principalmente quando me sentia insegura com tudo que estava vivendo.
— Isso não é para ela — a mais velha sorriu, mas era um sorriso diferente. — Minha neta não precisa disso, ela já tem o mais importante: a inteligência. — Me apertou em um abraço.
— Uma pena… eu adoraria treinar ela — ele sorriu para mim.
Nik me virou para ela.
— Que tal dar uma volta, querida? — ela sorriu. — Vá encontrar .
Ela estava me expulsando da sua rodinha de amigos? Tudo bem então, faria como foi dito.
Me virei para os três homens e me despedi.
— Foi um prazer conhecê-los — sorri. Eles se despediram também e eu saí da rodinha deles.
Nik havia ficado tensa de repente e isso era esquisito, mas não era assunto meu para que eu me metesse. Tinham coisas que, durante minha convivência com ela, eu sabia que não eram do meu interesse, então não me envolveria no que não me dissesse ao respeito.
Meu celular vibrou com uma mensagem de Marzia, sorri. Finalmente.
***
— Madame Grenier é muito chique mesmo — Marzia estava deslumbrada com a decoração. — Sério, vocês não se parecem nem um pouco.
— Você tá me ofendendo ou me elogiando? — perguntei, confusa, e minha amiga riu.
— Acho que foi um elogio — Trina sorriu.
Óbvio que eu achava tudo isso lindo e ficava deslumbrada, afinal, era muito dinheiro. Minha amiga Trina era de família rica, mas não tão rica como Madame Grenier gostava de mostrar para todos.
Entretanto, eu tinha meus pés no chão. Sabia que tudo isso aqui podia ser meu por direito por ser de seu sangue, mas não queria assim. Ainda queria construir meu futuro por conta própria, com meu próprio dinheiro e esforço.
— Trombou com algum jovem herdeiro gostosão? — perguntou. Neguei com a cabeça. — Nem eu e olha que vim com meu melhor vestido… — suspirou, desapontada.
Marzia veio com o vestido vermelho que queria e ele tinha um ótimo decote, então a deixava elegante, mas ao mesmo tempo mostrava que tinha um ótimo corpo.
O que invejava em Marzia também era ser alguns centímetros mais alta que eu, pois não precisava usar sapatos com um salto absurdamente gigantescos para ficar numa altura considerável e não parecer uma criança no meio de tanta gente que nem eu. Sério, meus pés estavam me matando.
Trina também estava linda com um vestido verde água, parecia uma estrela na estreia de seu filme. Com seus cabelos em cachos que caíam perfeitamente sob seu busto.
Minhas amigas eram muito lindas, não sei por que elas simplesmente não podiam chamar muito mais a atenção das pessoas que eu.
— Eu vi de relance — Marzia começou, enquanto ajeitava a maquiagem. — Ele está gostoso demais, nossa, se eu tomar muitos champanhes essa noite, é capaz que eu faça uma loucura!
Eu ri.
Não mentiria, vi pouco essa noite, mas quando vi, ele realmente estava muito bonito e todo engomadinho, com uma camiseta branca e com um paletó azul escuro que combinava com a calça da mesma cor. Soava simples, mas com certeza apenas isso já devia valer metade dessa festa. Era engraçado vê-lo engomadinho como se tivesse sido vestido pela própria mãe, e o deixava mais atraente, confesso.
O que me chamava atenção nele não eram as roupas que usava, mas como não tentava parecer um cara mais velho pela forma de se vestir. Ele era um garoto de 18 anos que parecia um garoto de 18 anos.
Isso o fazia se tornar atraente de uma forma diferente. Mesmo tendo todo o porte atlético e todos os atributos, ele não parecia um cara de vinte e poucos anos que estava preso no colegial.
E eu simplesmente não conseguia acreditar que usei a palavra “atraente” para me referir a Mercy, duas vezes ainda. Eu estava enlouquecendo! Estava pegando a doença de Marzia.
— Então é melhor eu esconder os champanhes para garantir.
Quem ia precisar ficar longe de bebidas alcoólicas essa noite seria eu.
Trina fez careta.
— Você é realmente uma estraga-prazeres. — Dei a língua e ela sorriu. — Não tem problema, a noite é uma criança. E talvez você possa se divertir um pouco também.
— O que quer dizer com isso?
— Você não viu como aquele loirinho babou em você quando passou por ele? — Deu uma risadinha. — Já disseram que você vive com a cabeça na lua? Tem que ser mais observadora!
— Quem? — Marzia perguntou, curiosa.
— Aquele que estava usando uma gravata rosa, perto das flores — Trina respondeu, animada, Marz fez careta.
— Opa, pera aí! Bandeira vermelha. Ele é ex-namorado da .
Trina arregalou os olhos.
— A menina que vive com vocês no dormitório?
— Isso mesmo. E ela está aqui essa noite. Eu sei que vive dizendo que não quer mais saber de Patrick, mas esse término foi recente e é estranho demais você se interessar pelo ex da amiga desse jeito.
— Eu sequer olhei pra ele! — tentei me defender. — Quando vocês já me viram reparando em qualquer garoto?
Ok, eu reparava no , mas totalmente em segredo e por influência da Marzia que ficava falando dele vinte e quatro horas por dia. Agora o Patrick? Nunca. E nem era só porque ele era ex-namorado da .
— Vou ter que ficar do lado da minha melhor amiga nessa, Marzia, ele que estava comendo ela com os olhos.
— Eu sei disso, ok? — Marzia suspirou, triste. — E eu sei que ela sabe que ele não vale nada, mas existem regras pra esse tipo de coisa, regras feministas. E Jesus, eu não quero que ele volte com a também, o cara é uma bandeira vermelha por si só. Espalhou pra todos os amigos dele o verão todo que estava transando com a gêmea Mercy como se ela fosse algum tipo de troféu.
— Uau, que babaca. — Trina assoviou.
— Pois é. Por isso estou dizendo que Patrick Brazzi não vale a pena, estamos entendidas? — Eu e Trina assentimos como se estivéssemos em um quartel. — Até mesmo aquele pai dele é um pouco esquisito, pra dizer a verdade.
Marzia tinha um ponto. Mas, para falar a verdade, todos para mim nessa festa eram esquisitos.
— Vamos deixar o assunto Brazzi pra lá então — Trina disse e logo sorriu sugestiva. — Até porque ele não era o único garoto da festa que estava focando muito em você.
— E por que eu ficaria reparando pra onde esses garotos mimados olham ou deixam de olhar? — Cruzei os braços.
Minhas amigas riram.
— Você não precisa ficar com ninguém, mas a atenção é boa, sabe? Os caras mais bonitos do colégio olham pra você, sorriem pra você, babam quando você passa e, se colocar todos num ringue, tenho certeza que lutariam por você — riu. — Quando se é bonita assim, tem que se divertir um pouco.
Trina havia dito isso para mim uma vez, que eu era boba por não aproveitar a atenção que recebia dos caras. Passava tanto tempo agindo desinteressada por todos e mesmo assim eles continuam atrás de mim, esperando o momento do meu lenço cair e eles me devolverem como cavalheiros.
Tipo o que Patrick fez mais cedo, esperando uma brecha para agir como um e aproveitar para conversar comigo.
Mesmo assim, homens eram distrações e muito drama para mim. E o Saint Fiore era cheio de drama, cada um diferente pelos corredores. Não sei se queria isso para mim.
Marzia olhou para o seu celular e depois para mim.
— Ei, estou indo encontrar a . Quer vir junto?
Fiz careta.
— Não, obrigada. Não quero ter meu vestido arruinado e passar uma vergonha na frente do pai dela que acredita que somos melhores amigas. Mas se divirta.
Marzia revirou os olhos.
— Eu preciso trabalhar mais com vocês… — Veio até mim e me abraçou. — Aproveite a festa e daqui a pouco nos encontramos.
Me virei para Trina.
— O que faremos? — Minha amiga sorriu.
— Vamos procurar vinhos. — Entrelaçou seu braço no meu. — E vamos fingir que somos ricaças gostosas, bebendo vinho e admirando os garotões!
Revirei os olhos. Por que tudo tinha que envolver homens?
Mas aceitei porque soava divertido.

Quando saímos atrás de vinho, pelos corredores da mansão de Grenier, vi alguém familiar e parei. Era Mirko, não sabia que ele estaria aqui essa noite.
— Espera um pouquinho? — pedi para Trina, ela me encarou um pouco confusa.
— Engraçado, só você pode ir atrás dos gatinhos? — resmungou e eu fiz uma careta. Murmurei que já voltava e fui até meu amigo.
Ele estava sozinho mexendo no celular e estranhei porque, além de não saber que ele viria, também achei que se viesse estaria colado com . E não havia nem sinal do outro garoto.
— Mirko? — o chamei. Ele tirou a atenção do celular e parou para me olhar, ele fez a mesma expressão que todos fizeram quando me viram, reforçando que devo ser horrorosa nos dias normais. — O que está fazendo aqui? Não sabia que viria. Por que não me falou?
— Ah, eu vim com meus pais. — Encolheu os ombros. — Eles são donos do bufê.
Arqueei as sobrancelhas um pouco surpresa.
Eu sabia que Mirko não era de família naturalmente rica, mas que conseguiu um dinheiro e conseguiu se mudar para San Pellegrino, mas não sabia que eles que faziam o bufê das festas de Nik.
— E por que está sozinho aqui? Aconteceu alguma coisa?
— Não me sinto muito confortável com essas festas. — Deu os ombros. — Mesmo que agora nossa família tenha condição para participar desses eventos fora da cozinha, eu ainda me sinto um pouco esquisito quando venho.
— Eu entendo. — Encolhi os ombros. — Pode parecer idiota, mas eu preferia que Nik não tivesse feito nada disso por mim. Até porque parece ser mais sobre ela do que sobre mim.
Mirko sorriu.
— Pelo que ando ouvindo por aí, a noite está sendo um sucesso e todos estão adorando a adorável neta da Grenier.
Fiz careta.
— Estão mesmo?
Me sentia boba por me importar com a aprovação de pessoas que não afetavam nada em minha vida diretamente, mas também sabia que, se me aprovarem, a minha vida aqui seria mais fácil e eu conseguiria me adaptar melhor.
— Não tem como falar mal de você, — Mirko sorriu. — Pode ter certeza que todos que te conheceram essa noite te adoraram.
Minhas bochechas esquentaram e eu abaixei a cabeça, olhando para o chão.
Gostava de Mirko, ele era um bom amigo. Mas nos últimos dias não estávamos conseguindo passar muito tempo juntos, já que, toda vez que nos encontrávamos em algum lugar, aparecia do nada e atrapalhava. Sentia que Mirko se incomodava um pouco, mas não entendia o porquê, já que também eram amigos.
Antes que eu pudesse respondê-lo, ele veio até mim.
— Tenho que ir, meus pais estão chamando. Te vejo depois? — Assenti e ele tocou em meu ombro. — Aproveite a festa, a noite é toda sua.
Então Mirko foi embora.
Eu tinha dito algo errado? Ou feito algo errado? Talvez tenha ficado aérea e ele se sentiu ignorado? Não entendia algumas coisas que Mirko fazia, mas gostaria que ele soubesse que gostava da amizade dele.
Suspirei.
— Tá tudo bem? — Trina perguntou. — Quem é esse? É um pretendente novo?
Talvez fosse por isso que Mirko agia tão estranho perto de mim? Ele sentia algo por mim? Não, não podia ser possível. Éramos apenas amigos, só isso.
— Acho que preciso de vinho — resmunguei.
***
Estava tentando fugir de Nik e todos os seus conhecidos que ela queria me apresentar. Minhas bochechas já doíam de tanto sorrir.
Procurando um lugar em paz pela mansão, na pressa para fugir de Nik sem que ela soubesse onde estava, esbarrei sem querer em alguém. O impacto foi forte, pelo tamanho e força da parede humana que fui de cara.
Senti as mãos firmes em minha cintura, me segurando e me puxando para cima, garantindo que eu não caísse no chão, me poupando de uma vergonha colossal.
— Nossa, , se você quisesse se jogar nos meus braços, era só pedir. — Pior de cair de cara no chão, só cair nos braços de Mercy. — Tá bem?
Me soltei e me ajeitei, tentando fingir que não havia me afetado nem um pouquinho com a forma com que ele me segurou. E eu nem precisava dizer que já estava vermelha.
— Estou sim — desci um pouco meu vestido —, obrigada. E desculpa por ter esbarrado em você. — Estava vermelha de vergonha.
sorriu.
— Não tem problema. Acho que só esbarrando em você para ter um pouquinho da sua atenção tão requisitada essa noite.
Encolhi os ombros.
— Você percebeu? — ri, envergonhada. — Não estou tão acostumada e à vontade com toda essa atenção.
— Mas devia. — Piscou para mim e sorriu. — Quer dizer, olha pra você, é quase impossível não chamar atenção de todos.
Corei.
Não conseguia controlar meu corpo quando ele falava assim comigo, não queria corar para , mas era impossível não. Talvez fosse isso que Marzia queria dizer com a sensação de ter um cara bonito realmente reparando em mim.
— Eu conheci seu pai — tentei mudar de assunto.
— Sinto muito — disse com veneno, mas então sorriu. — Não quero ter que dividir sua atenção com outro Mercy.
Revirei os olhos.
— Por que você fica falando essas coisas? Você sabe que me deixa envergonhada — ralhei, mas não com raiva. — Não tem nenhuma outra garota aqui pra você ficar em cima?
Ele negou com a cabeça.
— Não, tô de boa. Gosto de encher seu saco — sorriu. — A não ser que você prefira o idiota do Brazzi.
Arqueei a sobrancelha.
— Tá com ciúmes?
pareceu que ia dizer algo, mas se controlou e levantou o dedo. Eu franzi o cenho, sem entender o que ele estava tentando fazer.
— Não te darei esse gostinho, Myoui — disse. — Se quiser ir atrás do otário do Brazzi, vai lá, nem ligo.
— Bom, não está parecendo que não liga mesmo. — Cruzou os braços.
— Quer ver? Vou te deixar falando sozinha, igual fez comigo mais cedo. — Deu as costas para mim e saiu andando.
— O que você tá fazendo, ?
— Te deixando em paz, minha querida, não é o que queria? — Piscou para mim e sumiu do meu campo de visão.
Fiquei sem reação por um instante, piscando meus olhos e tentando entender o que havia acabado de acontecer. havia realmente me dado as costas?
Ele me dava dores de cabeça, porque era diferente de qualquer outro garoto que eu já havia lidado. Sabia como reagir, sabia como ser desinteressada e sabia como fazê-los perderem o interesse em mim, mas era diferente. Não fazia ideia de como lidar com ele.
E muito menos entendia o que estava acontecendo entre nós. Éramos amigos? Bom, eu imaginava que sim, apesar de tudo. Ele gostava da minha companhia? Eu gostava da dele? Ele sentia ciúmes de mim? Eu sentia dele?
Não, não sentia.
Bom, eu meio que fiquei me perguntando durante a tarde toda sobre que garota estava tentando impressionar ultimamente. Isso era ciúmes?
Bufei alto. Por que me importava tanto com tudo isso?
podia ter a garota que ele quisesse, ele era um Mercy, então por que perderia tempo tentando me conquistar quando sabia que eu mal tinha interesse?
Existiam limites que precisava respeitar, principalmente porque Marzia gostava dele e eu não podia desrespeitar isso. Ou corria risco de perder minha melhor amiga.
Marzia se mostrou bastante protetora da quando o assunto foi a relação dela com o Patrick, deixou claro que não achou legal Trina insinuar que ele tivesse algum interesse em mim porque era tecnicamente o ex-namorado da melhor amiga dela, imagina se descobrisse sobre esses encontros que tenho com ?
Isso partiria seu coração, e pior, faria com que ela me odiasse. Acharia que tudo que fiz foi planejado quando na verdade não foi. Eu fujo do garoto mais que a Irmã Carlotta foge de atos pecaminosos, mas ele continuava vindo de qualquer jeito.
Só temia até onde isso nos levaria.
Andava pelo corredor para ir ao toalete, mas não entrei, porque acidentalmente ouvi meu nome saindo de lá em uma conversa que eu não deveria estar ouvindo. Mas não consegui me controlar, eu parei para ouvi-la.
— Quem ela pensa que é, né? Andando por aí como uma vadia barata, se achando melhor que todas nós só porque colocou uns diamantes no pescoço — a loira disse. — Mas ela não passa de lixo.
— Pior que lixo, porque o fim dela é outro… — a morena riu. — Óbvio que a Madame fez esse jantar para escolher o pretendente dela. Um velho rico, pra que possa fazê-la de esposinha e encher ela de joias, assim ela não precisa pensar muito e nem abrir a boca.
Elas riram.
— Minha filha que estuda no Saint Fiore disse que os garotos lá estão loucos por causa dela… santinha, né? Os garotos ficam loucos — riu. — Estão até apostando qual a leva pra cama primeiro.
— Eu aposto no Patrick, não deve ser difícil ele conseguir conquista-la, principalmente se o pai dele der um empurrãozinho.
— Eu aposto no filho do Aldo… não soube que ele conseguiu levar até uma freira para cama? — sorriu. — O quão difícil será levar uma santinha, então?
Chega, eu não queria mais ouvir isso.
Meu estômago estava embrulhado e eu já chorava. Precisava sair de lá o mais rápido possível.
Eu queria entender o que fiz para elas me odiarem dessa forma. Eu nunca nem dirigi a palavra para elas, para suas filhas, para ninguém. O que eu fiz para que me destratassem tanto?
Estava no banheiro vazio, escondida. Não queria ver ninguém e não era o momento propício para ninguém me ver, já que eu estava toda borrada e inchada de tanto chorar.
Eu só queria ir embora, voltar para a minha casa de verdade, para a minha vida de verdade. Não queria mais ficar aqui. Não precisava passar por tudo isso, isso era injusto! Nunca fiz nada para essas pessoas.
Comecei a ouvir um barulho de movimentos desregulados, parecia que alguém estava se batendo contra a porta ao meu lado. Fiquei um pouco assustada e ia até perguntar se essa pessoa precisava de ajuda, até que comecei a ouvir sons de gemidos profundos e roucos.
Deixei escapar um gritinho assustada. Não acreditei que isso estava mesmo acontecendo.
Tentei encontrar um lugar pra sofrer e recebi um casal se pegando como se fosse o último dia na Terra? Sério, o que eu fiz para merecer? Essa gente não tinha noção de convívio em público?
Gemi pensando em como sair dali sem fazer um som, já que aquela porta era pesada e barulhenta. Pois dito e feito, quando a abri, toda aquela pegação no banheiro se transformou em um nada.
Minha cara estava cheia de lágrimas e desisti de ir embora, os incomodados que se retirassem, eu precisava passar uma água fria para desinchar meu rosto ou não enxergaria nada para voltar até a mesa da festa.
Mas o que foi realmente chocante foi quando a porta abriu e avistei, através do espelho a minha frente, Mercy e VD saírem de dentro daquela cabine completamente descabelados.
Arregalei os olhos para os dois.
— Ei, pequena — ouvi VD com sua habitual voz manhosa como se estivesse com sono e eu não respondi. Ele me olhou e percebeu que eu não estava no meu melhor estado, sua postura mudou um pouco. — Estava chorando? Aconteceu algo?
Respirei fundo e tentei prender a respiração, para parecer que eu não estava chorando, mas meus olhos vermelhos não conseguiam me deixar mentir.
— Não…
— Esse é o banheiro feminino. Vaza — disse para o garoto e ele olhou para mim de novo, depois olhou para a garota e assentiu, indo embora como se tivesse recebido um milhão de euros minutos atrás.
Uau. Quem poderia imaginar?
E acho que o fato dele estar no banheiro feminino não irritou a gêmea Mercy nestes mesmos minutos atrás, vide a grande mancha roxa que nós duas avistamos ao mesmo tempo em seu pescoço pelo espelho.
— Droga, Aldo vai me enterrar viva — murmurou sozinha enquanto encontrava maneiras de tentar esconder o seu pescoço com os longos cabelos escuros.
Ela estava usando um conjuntinho fofo e bem curto, o que eu imaginava para , ela não combinava tanto com vestidos longos e delicados que era o tema proposto dessa noite.
Senti seu olhar me queimar pelo espelho e voltei a lavar meu rosto.
— Por favor, me diz que você errou a maquiagem e não tá com a cara toda borrada porque tá chorando. — Senti o tédio em sua voz.
— Me esquece, . Não estou com paciência essa noite.
— Ah, ela estava chorando mesmo. Juro, se toda vez que pego você chorando de noite em nosso dormitório ou corando pelos cantos como uma bonequinha inocente eu ganhasse uma moeda, eu estaria mais rica que a bruaca da sua avó.
— CHEGA! — ergui a voz rapidamente e nós duas nos assustamos com a coragem repentina que me surgiu ao dizer aquilo. — Não estou no clima.
Ela semicerrou os olhos.
— Ah, tadinha dela. O que foi? Descobriu que ser o centro das atenções não é só regalia?
— Me deixa em paz.
— É bom acordar cedo pra essa vida, fofinha. É sempre assim, enquanto alguns colocam o seu ego lá no céu, a maioria está te apunhalando pelas costas no outro canto.
Suspirei.
— Eu ouvi umas mulheres falando de mim… coisas horríveis. Mas deve ser verdade, porque se todos dizem por aí que eu sou uma vadia que se finge de santa pra dar botes em homens ricos e em seus filhos… — Parei. — Desculpa, eu esqueci que você não se importa.
— Não que eu não me importe, mas realmente tenho muita preguiça de tanta reclamação.
— Como?
— Uau, coitadinha da menina mimada e rica que está recebendo atenção de todos os garotos, e algumas garotas ficaram com inveja por causa disso. Que peninha. — Ela retirou um batom escondido em seu salto e começou a passar nos lábios, ajeitando a maquiagem que VD borrou quase por inteira.
tinha dessas, parecia uma espiã, um dia tirava o celular de baixo da saia, o batom do sapato, dinheiro do decote. Estranho. Mas não como se eu realmente reparasse nisso.
— A diferença, , é que você é uma menina mimada e rica, eu não. Pra você pode ser fácil lidar com isso, já que são todos iguais a você, pra mim não é. Então por favor, não venha com sua falsa pena ou seus conselhos falsos, é tudo que eu menos preciso agora.
— Deixe de ser tão… adolescente. Nem tudo é o fim do mundo.
Bufei.
— Quer saber? Dane-se, não estou aqui pra receber os conselhos de uma maluca.
— Maluca é a bruaca da sua avó. Aposto que foi plano dela enfiar você no nosso dormitório, sabia? Tudo parte do plano maluco dela pra tentar casar com o meu pai.
— Chega, ! Você realmente acha que é o centro do universo né? Agora também inventa realidades alternativas?
— Eu paro de falar quando eu quiser parar de falar, tá me entendendo? — Secou as mãos e jogou o pano com força no chão. Ela estava toda arqueada agora e a cabeça inclinada, na sua melhor posição de que estava pronta para me dar uma surra.
Meu Jesus Cristinho, onde foi que me enfiei?
— Então é melhor parar agora porque só estou ouvindo besteiras saírem da sua boca — tentei revidar, mas ao mesmo tempo andava de fininho em direção a porta de saída, pensando já na minha rota de fuga.
— Escuta aqui, sua caipira, eu não quebrei sua cara antes porque você estava sendo bem útil dividindo os seus trabalhos para aumentar minhas notas no Fiore, só que agora você já passou do ponto de tolerabilidade. Eu vou acabar com a sua raça!
Gritei quando ela correu atrás de mim e abri a porta rápido o suficiente para sumir entre os convidados.
Bom, talvez eu tenha tido tempo o suficiente para me certificar de que estaria trancada no banheiro até o fim da festa, por isso joguei a chave da fechadura na primeira planta que avistei ouvindo as porradas contra a porta atrás de mim. Ela parecia um touro bufante e com muito ódio.
No momento em que ela estivesse livre, eu estaria bem longe daqui.
***
Não estava melhor quando voltei para o salão, mas havia arrumado minha maquiagem e estava tentando disfarçar meu rosto inchado de chorar.
A pior parte era que não encontrei mais Trina e nem Marzia, precisava delas mais do que tudo nesse momento. Mas Marzia provavelmente estava com garantindo que a outra não tentasse me matar por ter a trancado no banheiro. Mas Trina, não fazia ideia onde ela estava.
Nem mesmo o papai estava por perto. Ele e Nik sumiram e eu estava achando isso muito suspeito, já que o jantar todo era da mais velha e não fazia sentido algum ela sumir do nada.
Tudo isso só estava me deixando pior ainda, não tinha nenhuma das minhas amigas mais próximas por perto e nem menos meu pai ou até Mirko, que também sumiu. Estava sentindo o que temia sentir durante toda essa noite: sozinha no meio de tanta gente desconhecida e que me odiava.
Saí um pouco para fora, precisava tomar um ar, e me assustei ao perceber que não estava sozinha. estava lá, em silêncio, ele se assustou com minha presença.
— Ei — sorriu para mim sem mostrar os dentes. — Tá tudo bem?
Olhei para e logo veio em minha cabeça o que a mulher disse, sobre os garotos do Saint Fiore estarem apostando qual me levaria para cama primeiro. Meu sangue ferveu por um instante. Acabei de lidar com um Mercy, poderia lidar com o outro também.
— É verdade que você e os outros garotos do Fiore estão apostando sobre qual me levará para a cama primeiro? — Fui até e empurrei o seu peitoral, ele nem saiu do lugar. Parecia que minha raiva não me deixava com força. Ele franziu o cenho. — Acredito que as apostas em você estão mais altas.
— Espera, você acha que eu tenho alguma coisa a ver com isso? — Ele parecia ofendido.
— Não é como se as pessoas não comentassem que você tem a habilidade de levar quem você quiser para cama.
— Realmente, eu tenho. — Não se ofendeu. — Mas acredite, se eu quisesse te levar para a cama, eu já teria conseguido.
Fiquei vermelha de raiva.
Mas não sabia qual era o motivo pela minha raiva. Porque se achava tanto que acreditava que poderia me levar para cama com um pouco de esforço ou porque ele disse que não queria?
Droga, , não pense nessas coisas.
— Então vamos — disse do nada e arqueou as sobrancelhas.
— Como?
— Me leve pra cama. Aqui tem milhões de quartos muito confortáveis, escolha o da sua preferência e vamos acabar logo com isso! — explodi. — Se isso fizer com que todos me deixem em paz, eu faço. Vamo,s , vença essa aposta!
Os olhos de estavam arregalados e ele com certeza não estava entendendo todo esse meu surto, mas havia preocupação em seu olhar. Ele apenas respirou fundo e veio para perto de mim, sem nenhum movimento muito brusco.
, eu não tenho nada a ver com essa besteira de aposta — disse calmamente. — Eu sei que pode parecer que, pela minha reputação, eu sou um cara desprezível, mas eu te juro que não sou. E isso com certeza deve ser coisa dos garotos do time de futebol, do Brazzi e seus cachorrinhos.
Isso tudo só aumentou minha chateação. Me chateei por ter explodido com e ter jogado tudo em sua conta, ainda mais sendo culpa de Patrick. Achava que o garoto era decente, mas estava enganada, ele era igual a todos os outros daqui.
Por isso que eu não dava bola para garotos, porque, no fim, todos só queriam uma coisa e eram capazes de fingir uma outra personalidade apenas para conseguirem o que queriam.
— Eu nunca faria algo assim com você — continuou. — E até me magoa um pouco você imaginar que eu seria capaz disso, de me aproveitar de você ou apenas te levar pra cama pra vencer uma aposta idiota.
Via nos olhos do garoto que ele realmente estava chateado com minha acusação e isso só machucou mais meu coração.
— Desculpa — suspirei. — Só estou cansada disso tudo. Achei que as coisas estavam melhorando e estava finalmente me adaptando, mas na verdade era tudo com segundas intenções. Estou cansada dessas pessoas, da sua irmã maluca, de ser tratada que nem um pedaço de carne. Eu só queria ter um ano normal, fazer amizades e aproveitar a oportunidade que consegui.
Não estava chorando, mas mesmo assim estava desconfortável em mostrar tanta vulnerabilidade na frente de , o garoto não parecia se importar, no entanto. Pela forma que me olhava, parecia que realmente se importava comigo e em como estava me sentindo.
colocou as mãos no bolso e ficou em silêncio por um tempo, como se estivesse tentando tomar coragem para dizer algo. Então, finalmente disse:
— Quer ir a um lugar comigo? — perguntou. Arqueei as sobrancelhas.
— Como?
— É um lugar que eu gosto muito. Para te provar que eu não sou esse cara que você imagina e que eu estou sendo legal com você sem segundas intenções. — Ele me mostrou o mindinho. — Sem gracinhas, juro.
Ainda estava de cenho franzido, desconfiada das intenções do garoto e já cogitando tudo de ruim que isso poderia causar. Afinal, se alguém me visse fugindo do evento da Madame Grenier com Mercy, teria fofocas com meu nome por um bom tempo.
— Tudo bem.
pareceu surpreso demais com a minha resposta, com certeza esperava um não. Pelo menos de primeira.
O garoto liderou o caminho e fui com ele até a garagem. Ele parou em frente a uma moto e eu gelei assim que ele me entregou o capacete.
— Eu não vou subir nisso — disse, séria. Sério, a última coisa que eu precisava nessa noite era sofrer um acidente de moto.
— Tá com medo?
— Não — fiz cara feia —, só nunca andei em uma.
sorriu.
— Não tem problema. É só subir e ficar abraçadinha em mim que iremos chegar rapidinho.
Revirei os olhos.
— Deus, você é nojento.
— Vamos, , você vai gostar. — subiu na moto primeiro e colocou seu capacete. Ele estendeu a mão para mim, para subir. — Confia em mim?
Não. Por favor, confiar no Mercy seria a última coisa que eu faria em minha vida, não por causa do que Nik dizia, mas simplesmente porque sua reputação não dava uma imagem confiável para ele.
Mas não tinha outra opção a não ser confiar nele e dar uma chance para talvez tentar ser menos cética.
Por isso, aceitei sua mão e subi em sua moto.

Ele estava certo, eu gostei disso. A brisa da noite batendo em mim, a noite estrelada no céu acima de nós. As ruas vazias. Eu estava adorando.
— Viu? Eu sabia que você ia gostar. — Não conseguia ver seu rosto, mas tinha certeza que estava sorrindo. — Você precisa confiar mais em mim, pequeno lírio.
Algo em mim queria entender o porquê me chamava pelo apelido que meu pai me chamava, um dia eu perguntaria a ele. Mas não essa noite. Essa noite eu só queria aproveitar a brisa e o céu estrelado.
— Tudo bem — eu respondi. — Vou confiar mais em você, .
Me apertei mais em seu corpo e deixei que ele me levasse até o lugar especial dele. Deixando todos meus receios, preocupações e negações para trás.
Essa noite, eu confiaria em .
***
Estávamos em um parque, era como um gigante jardim, cheio de flores, árvores de todas as cores e muito verde. Não conseguia nem acreditar que isso existia em Silent Grace.
segurou minha mão firmemente e senti minha palma esquentar. Meu rosto já estava vermelho e eu olhava para o chão, para evitar que ele me visse vermelha. Mas ele só olhava para o caminho verde que trilhávamos.
Era tão natural que não parecia errado ou forçado. Parecia certo, parecia bom. Me sentia bem.
Paramos debaixo de uma árvore de cerejeira. Era linda, com suas flores cor-de-rosa, e senti uma sensação muito familiar por estar ali. Gostava dali.
— Minha mãe me trazia aqui — ele disse baixo e chamou minha atenção. — Quando eu era mais novo, ela me trazia muito aqui para fazermos piqueniques. Sempre gostei de parques, jardins e essas coisas, porque me trazem uma sensação de paz. Faz tempo que não venho aqui.
— Por quê?
— Me faz lembrar dela — encolheu os ombros —, e também porque meu pai acha que é besteira, então não tenho tempo pra vir. Sou um jovem muito ocupado!
Eu sorri. Gostava do humor de , ele era engraçado e tinha uma energia leve, mesmo quando contando algo que eu provavelmente contaria aos prantos.
— Por que me trouxe aqui, ?
Ele se virou para mim, ficando em minha frente e segurou em minha mão. Prendi o ar, sentindo meu coração bater mais forte.
— Porque você estava triste e minha mãe me ensinou a nunca deixar alguém que eu gosto ficar triste. E bom, se aqui pode me acalmar, acredito que pode te acalmar também.
Fiquei em silêncio, pela primeira vez, estava realmente sem resposta para .
Ele não estava fazendo alguma gracinha e muito menos me irritando, ele estava sendo mais fofo do que eu jamais esperaria. Ele parecia sincero, verdadeiro e aberto para me consolar e tirar a tristeza de mim.
Abri a mão que segurava e tinha uma flor de cerejeira nela.
— Prometo que não vou deixar mais que te deixem triste — ele disse, baixo. — E vou acabar com essa aposta idiota. Você é muito mais isso.
— Não precisa, eu sei me virar sozinha, .
— Eu sei — encolheu os ombros —, mas que tipo de amigo eu seria se deixasse isso continuar? Que amigo eu seria se visse você triste sem fazer nada?
— Quem disse que somos amigos? — disse, com humor em meu tom. riu e sorriu em resposta.
— Acho que já passamos dessa fase, , você pode me detestar nos dias normais, mas hoje seremos amigos.
— Eu não te detesto. — Revirei os olhos.
— Não?
— Não — fiquei vermelha —, só te acho irritante.
sorriu como uma criancinha e colocou as mãos no bolso, balançando seu corpo para frente e para trás, animado.
— Irritante eu aceito, posso lidar com isso!
Eu ri. era realmente uma peça.
Em um momento súbito de coragem, ou sei lá, talvez pelo vinho que tomei horas atrás, fui até o garoto e o abracei. Ele ficou parado por um instante, sem saber o que fazer. Então me abraçou de volta, com delicadeza, sem me apertar muito.
O abracei porque era o certo. Ele estava sendo incrível para mim num momento que eu realmente precisava. Nunca imaginei que seria a pessoa que contaria quando precisasse, e confessava que não desgostei disso.
mostrou ser mais do que eu esperava que fosse. Um tapa em minha cara, que estava cheia de muros para o garoto que só estava tentando ser um bom amigo para mim.
Marzia tinha razão, realmente era diferente do que diziam e tinha um ótimo coração.
— Obrigada, de verdade — disse, em um suspiro, e o abracei mais forte.
Mesmo que amanhã eu me arrependesse de tudo isso e quisesse arrancar a cabeça de Mercy quando ouvi-lo tacar na minha cara como eu o abracei, estava tudo bem.
E estava tudo bem porque fez com que ficasse bem. E eu seria grata a ele por isso.
***
Não sabia também quanto tempo ficamos naquele parque, deitados debaixo da árvore de cerejeira e conversando sobre coisas idiotas, tipo como vivia na detenção porque o pegavam vendendo colas, ou porque ele e a sua irmã faziam bagunças durante as aulas e momentos de orações. Até me contou sobre quando roubou o animal de estimação do time adversário do Saint Fiore.
Ele quase foi expulso por isso, mas ele contava isso de uma forma leve e engraçada, fazendo parecer que não foi nada demais, só uma segunda-feira na vida de Mercy.
Tudo isso me fez ficar próxima dele de alguma forma. Conhecê-lo melhor me fez ver que estava errada sobre muitas coisas que pensei sobre ele e que deveria dar mais chances para o garoto.
estava sendo um bom amigo e queria retribuir isso, permitindo que ele se aproximasse de mim e me conhecesse também, que pudesse ser meu amigo.
Quando percebi as milhares de mensagens e ligações de papai, Marzia, Trina e da Madame Grenier, foi o sinal para que eu tivesse que voltar para casa. queria me levar, mesmo contra a minha vontade. Mas o garoto era mais teimoso que eu, então me venceu pelo cansaço.
Pedi, ao menos, que ele estacionasse um pouco mais longe da mansão, não só para que Nik não me visse chegando com ele no meio da madrugada, mas também porque queria passar um pouquinho mais de tempo com ele, antes de voltar para a realidade.
Então caminhávamos com toda a lentidão do mundo até a mansão, lado a lado na calçada, enquanto conversávamos sobre qualquer coisa que se passasse por nossas cabeças.
— A minha noite não estava sendo muito boa — disse baixo e me encarou com uma expressão de preocupação. — Não que eu não seja grata pelas coisas que Nik faz por mim e por tudo que planejou para mim essa noite… mas eu não sou muito acostumada com isso. — Encolhi os ombros. — O maior luxo que já tive foi quando meu pai foi atrás de um agiota para ter dinheiro para fazer uma festa de quinze anos para mim.
Os olhos de se arregalaram.
— Ele fez isso? — Engoliu seco. — E deu tudo certo?
— Bom, a festa sim. Mas eu só soube que ele havia pedido dinheiro quase um ano depois, quando ele não pagou de volta e o agiota mandou uns caras para cobrar em casa. Mas no fim, eu usei umas economias que tinha para pagar o que meu pai devia — ri. — Foi um aniversário para ficar na memória.
estava pálido com minha história, talvez porque estava contando com humor. Mas era a forma que eu preferia me lembrar das coisas que aconteciam, porque meu pai tinha mania de se meter em algumas furadas e, no fim, só nos sobrava rir disso.
A falta de resposta de me preocupou que ele pudesse ter ficado assustado de verdade. Claro que o assustaria, o que um mauricinho como ele saberia de agiotagem? O máximo que ele devia saber era o que viu nos filmes, por isso o medo.
— Ninguém foi espancado para pagar de volta, relaxa — ri. — Foi até menos pior do que eu imaginei que seria, e hoje eu e meu pai rimos disso.
coçou a nuca.
— Só me assustei porque nunca imaginei que você teria passado por uma coisa dessa. — Deu um sorrisinho envergonhado.
— Sério? — eu ri. — Você não faz ideia das furadas que meu pai já se meteu porque queria me mimar de alguma forma, e depois eu tinha que arrumar um jeito de consertar.
— Ele deve amar muito você então para não ter medo de nada para fazer tudo por você.
— Sim — sorri. — Mas eu também o amo muito para fazer tudo por ele em dobro. Inclusive engolir morar com uma avó rica só para estudar e dar uma vida melhor para ele.
riu.
— É — pigarreou. — Deve ser legal ter uma relação boa com o pai.
Senti o incômodo no tom de . Não entendia muito sobre a relação que tinha com seu pai, mas não parecia ser a das melhores e nem sabia se devia perguntar sobre isso, talvez fosse um daqueles assuntos que ele preferia guardar para si mesmo. Mas, se um dia ele quisesse me contar, eu adoraria saber.
Então, mudei de assunto para deixá-lo mais confortável de novo.
— Enfim, obrigada por me levar até o parque e me tirar daquela festa — fui sincera. — Você melhorou minha noite. Queria poder fazer mais coisas assim, sem a Madame Grenier ou todo o luxo que vocês vivem.
— Eu que agradeço por ter me dado a permissão de te roubar por uma noite — sorriu. — Viu? Você deve começar a confiar mais em mim. Eu sou um ótimo rapaz!
Eu ri.
— Não é o que os corredores do Saint Fiore dizem.
Ele fez careta.
— Isso tudo é intriga da oposição! — ele disse, sério, e eu ri novamente.
Não percebi em que momento do caminho nós entrelaçamos nossos dedos mindinhos. Mas foi algo tão normal, tão simples e natural que nem percebemos ou nos importamos com o gesto. Apenas ficamos assim enquanto caminhávamos por San Pellegrino.
Eu sabia que não era naturalmente assim, ele era um cara quente e sedutor, não precisava ser fofo ou tão carinhoso para conquistar alguém. Mas comigo ele era.
Não parecia que era porque queria ficar comigo ou coisa do tipo, era apenas o jeito dele de mostrar que gostava da minha companhia. Marzia havia me contado isso uma vez, que quando gostava de estar por perto da pessoa, ele tendia a ser mais carinhoso, porque era assim que sua mãe havia o ensinado a se comportar.
Ele não tinha medo de demonstrar seus sentimentos e fazer com que as pessoas que ele se importava se sentissem queridas.
E eu gostava dele desse jeito. Esse era o que eu gostava, não o que pintavam pelos corredores do Saint Fiore. Mesmo assim, tinha uma sensação de culpa quando me sentia muito próxima dele.
Quando chegamos perto da mansão de Grenier e percebemos que era a hora de nos despedirmos, senti algo estranho em meu peito, como se não quisesse ir. Mas era o certo, tinha outras responsabilidades, e era a hora de voltar para a vida real.
Mas não esqueceria dessa noite e do quanto foi especial para mim conhecer esse outro lado de .
— Te vejo no ponto de ônibus na segunda-feira? — ele perguntou, como forma de despedida, e eu sorri, já caminhando até o portão.
— Está marcado.
A noite foi tão boa que passou tão rápido, mas eu não me arrependi nem por um minuto de ter aceitado subir em sua moto. Foi uma noite especial, graças a .
Passei pelos portões da mansão Grenier e me assustei quando ouvi a voz vindo atrás de mim:
— Quem era esse? — papai perguntou. Ele tentava forçar a voz para parecer autoritário e bravo, mas ele sabia que não me enganava.
— Ninguém — sorri. — Está me espionando agora, pai?
— Claro. Principalmente quando minha garotinha abandona o jantar feito para ela para sair com um desconhecido em uma moto e volta horas depois com um sorriso de orelha a orelha. — Fez cara de bravo. — Se você está namorando, eu preciso saber, preciso me preparar para isso.
Fiz careta.
— Não estou namorando, Deus — resmunguei. — É apenas um amigo.
— Então acho que você precisa avisar isso a ele, querida.


Capítulo 8

“Não sou eu quem estou confuso, você nem sabe quem você é.” – Rafiki, O Rei Leão.


“Vamos brincar!” falei, divertida e curiosa para a menina que não parava de chorar.

“Não quero brincar, vou me machucar. Meu pai sempre me diz que vou me machucar e eu sempre me machuco.” ela fungou e vi as lágrimas caindo de seus grandes olhos indo diretamente para o sangue no joelho dela.

“Quem é o seu pai?”

“É aquele moço ali… Ele está falando com o seu pai.”

Observei perto da lareira do lobby do hotel meu pai falando com um cara esquisito, parecia um agente do FBI.

“Vamos brincar em um lugar bem legal! Vou te mostrar, vamos sem correr, assim você não se machuca”.

Ela fungou mais algumas vezes antes de pegar a minha mão estendida. No momento em que entrelaçamos nossos dedos, saímos correndo pelo lobby, gargalhando felizes.

“Shhhh. Esse é o lugar mais legal do hotel” falei enquanto abria a porta da sauna com dificuldade porque não alcançava direito.

“Uau! Isso é uma piscina? E ela faz bolinhas?”

“Sim. Minha mãe não me deixa brincar aqui, ela diz que é perigoso e que sou muito pequena. Eu entro sempre escondido. Quer entrar?” sorri para ela.

“Não sei não…” parecia com medo. “Não sei nadar, ”.

“Ei, como sabe o meu nome?”

“Meu pai falou que íamos morar aqui agora, e que a filha do amigo dele tem a minha idade e se chama . É você, né?”

“Meu nome é Mercy e tenho um irmão gêmeo. Qual o seu nome?”

“Você tem um irmão gêmeo? Que legal, qual o nome dele? Como é ter um irmão gêmeo?”

. Ele é bem chato, gosta de arrancar os cabelos das minhas bonecas. Então ele fez xixi na cama e contei pra todo mundo da escola, ele não fala comigo faz dois dias.”

“Irado. Meu nome é Vanda.”

Minha respiração falhou um segundo, comecei a ter consciência do sonho e meu corpo suava.

“Vanda, vamos! Eu ajudo você a sair da água. Eu sei nadar!” disse com toda confiança do mundo.

“Não sei, não…”

Meu corpo estava quente.

! O que está acontecendo? Por que está toda molhada?”

“A menina!” chorei copiosamente. “Não consigo tirar ela da piscina, ela não se mexe.”

“Que menina?” o senhor esquisito esbravejou.

“A Vanda!” gritei com medo e corri de volta até a piscina.



“A menina quase morreu afogada!”

“Ela ficará bem.”

“Quero essa criança bem longe da minha filha. É uma ameaça à sociedade".



“Feliz aniversário, ! Caramba, faz tempo que a gente não se fala né?”

Desde que você fugiu com um drogado maluco.

“Pois é.”



“Vanda? Que porra é essa? Que marca é essa no seu rosto? Você voltou a sair com aquele cara?”

“O quê? Não, não tem nada a ver. , por favor, não finja que somos amigas, não se meta na minha vida, está bem?”.



“Por que você não me ajudou, ? Você poderia ter me ajudado. Éramos amigas. Você me abandonou”.

“Por que você não me ajudou, ? Por que você não me ajudou, ? Por que você não me ajudou, ? Por que você não me ajudou, ? Por que você não me ajudou, ? Por que você não me ajudou, ? Por que você não me ajudou, ?...”

— BOM DIA! — gritou, retirando meu cobertor fofinho da minha cabeça, me forçando a enfrentar a claridade, e como um vampiro, me contorci, sabendo que logo morreria naquele sol.

— Não — eu rosnei, puxando o travesseiro para me tampar.

Legal, agora eu teria pesadelos com Vanda Perlmann. Tudo que eu precisava.

— Agora. É final de semana e não precisamos ir para o hotel, em outros tempos, isso seria um dia de comemoração pra você, maninha, hoje sinto que está mais antissocial que o normal.

— Odeio acordar cedo.

— São quatro da tarde! — disse, espantado.

Ele estava certo, eu gostava de sair quando era fim de semana e eu não passar em casa com Aldo e os comensais. Mas também tivemos provas a semana toda e minha cabeça estava estourando. Além daquele jantar tosco na casa da bruaca onde quebrei a porta do banheiro em um chute só.

Claro que, quando tentei ter minha vingança afogando a cabeça de na privada do nosso dormitório, a Marzia apareceu com um papo chato de amizade e, por alguma razão, recebi outra detenção. Depois disso, eu e a novata nunca mais dirigimos a palavra uma para a outra.

E a novata já não era tão novata assim, eu sentia que já havia visto mais a cara dessa menina do que a cara da minha mãe ou do meu pai em toda minha vida. Então o apelido novata já era velho, ia começar a chamá-la de velha também, igual sua avó.

Carlotta disse que eu estava mais agressiva que o normal e que alguma coisa teria que ser feita para modificarmos isso. Ela dizia isso de forma profissional e tudo mais, mas eu sabia que mentalmente ela estava querendo me dar um remédio pra raiva e acabar logo com tudo isso.

Ninguém chegou à raiz do problema, que era só me mudar para um novo dormitório onde eu não teria que dividir o quarto com ninguém. Ou chegaram, mas Carlotta insistia que eu precisava treinar mais minhas relações com pessoas de verdade, então seria mais fácil ela me enfiar em um quarto com dez meninas novas (que eu tentaria afogar cada uma delas no vaso) do que me deixar dormir no armário de vassouras em paz e solitária como sempre sonhei.

Aquela noite foi um tanto interessante porque acabei finalmente ficando com o VD depois de tanto flerte. Ele só disse “oi, princesa” aquela noite e foi o suficiente pra eu agarrá-lo e levá-lo até o banheiro feminino. Ficamos apenas nos beijos e ignorei algumas mensagens dele depois disso, eu achava que que tinha sido o suficiente pra ele perceber que não teria evolução naquela relação estranha nossa.

Me arrependia? Pode ter certeza que não. Ele beijava muito bem. Poderia até me animar a ir nessa porcaria de festa hoje por causa disso. Eu estava começando a achar que eu estava no meu período fértil ou algo do tipo.

Na atual situação, eu também odiava aquelas porcarias de festas e estava pensando em algo favorável o suficiente pra me fazer levantar, além de poder colocar uma roupa bonita que não fosse meu uniforme para variar um pouco.

E pensei.

— Vamos no meu carro. — Levantei-me.

— Ah, não — reclamou.

— Sim, senhor, você sempre fica até mais tarde nas festas e quero ter o controle de quando volto. Além de que, quero levar a Bucci junto com a gente.

— Marzia? — Se deitou na minha cama, concentrado em um jogo do seu celular enquanto eu separava algumas roupas e toalhas para tomar banho e me arrumar logo. — Sua amiga Marzia?

— Conhece outra Marzia Bucci?

— Não, só achei estranho. Pensei que ela não curtia esse tipo de lugar.

— Aí que você se engana, meu amigo. Ela está me enchendo o saco o ano todo sobre como quer mudar a imagem que passa aqui no Fiore, querendo virar amiga de caras mais populares e legais, e acompanhar festas importantes.

Separei um corset vintage Vivienne Westwood e uma saia qualquer.

— Ela sabe que é minha amiga, não sabe? — disse, convencido.

— Exatamente, esse plano é tudo um pretexto para conhecer caras verdadeiramente bonitos e populares, o que não é o seu caso — sorri, dando pulinhos até o banheiro.

— Eu devia ter te devorado no útero! — gritou.

***

— Nunca vim em uma festa dessas — a pintora de rodapé resmungou no banco de trás do meu carro. Mais uma palavra e eu abriria a porta em movimento.

— Bom, eu também nunca compareci em festas desse tipo. O que é bom, estamos criando primeiras memórias juntas.

Aparentemente, agora Marzia fazia parte das mercadorias de pagar dois pelo preço de um, pois ela se recusou a vir conosco sem que chamassem sua melhor amiga também. Que, segundo Marzia, recebeu um convite do próprio anfitrião. A pigmeu estava começando a se enturmar, era bom, assim sumia logo. E claro que o paspalho do meu irmão se achou incrível ao apaziguar a pequena discussão que tivemos para decidir que seria mais do que um prazer trazer a novata junto.

— Ei, os caras são meus amigos, são gente boa, ninguém vai mexer com vocês duas. — virou-se pra mim. — Já você, por favor, não mexa com ninguém.

— Desde quando eu me meto em confusão?

— Tô falando sério. — Fez careta, preocupado, e ri internamente. Terror psicológico era o meu preferido. — Sabe, eu sempre te convidei pra esses encontros, , por que nunca apareceu e trouxe a Marzia junto se ela queria tanto assim?

Marzia chutou a traseira do meu banco com raiva e impulsionei para a frente.

— Chuta de novo o meu carro e você volta embora a pé.

— Você dizia que não queria a gente por perto quando ele estava saindo com os amigos dele! — acusou.

— Talvez eu tenha confundido, eu é quem não queria a gente perto dos amigos dele. E tanto faz, essas festas são uma porcaria. Vamos logo antes que eu me arrependa.

O pessoal resmungou no carro pela minha clara falta de bom humor.

E só de brincadeirinha, eu freei algumas vezes e quase furei o sinal outras vezes para ver se estava todo mundo acordado mesmo.

— De quem é essa casa? — Estacionei na rua lotada de carros.

— Mirko, é aniversário dele — falou como se eu estivesse maluca e devesse saber disso há tempos.

— Estamos em uma festa de aniversário? — Marzia perguntou com uma careta.

— Poxa, por que não avisou que iríamos visitar o seu namorado, ? Eu me vestiria melhor pra ocasião — falei, cantando, e levei um empurrão.

Eu achava que ele não queria me empurrar com tanta força, só que meu querido irmãozinho era um gigante e qualquer toque me fazia cambalear. Não tínhamos mais idade para brigar como fazíamos quando éramos crianças, por isso o empurrei de volta e corri para a festa, puxando Marzia pelo braço.

Quando passamos pela porta da nada humilde mansão de seus pais, analisei o tamanho do hall, com um lustre enorme, e como tocava uma música nas caixinhas de som instaladas por todas as paredes com uma batida sinistra.

— Caramba, vou falar para os meus pais mudarem de profissão — Marzia comentou, chocada com a arquitetura do lugar.

É claro que nós chamamos atenção no momento em colocamos o pé ali dentro. Cinquenta por cento das pessoas eram alunos do nosso colégio e o resto moradores da região e da Universidade San Pellegrino. Todos eram rostos conhecidos para mim. E claro que também me conheciam.

Silent Grace era uma cidade bem desenvolvida tecnologicamente, mas ainda tinha uma população pequena, nível cidade no interior. Então todo mundo conhecia todo mundo.

Mas achava que a maior surpresa de todos eles era me ver com ao meu lado. Encontrar um filho do barão por festa já era considerado uma sorte, agora os dois, um ao lado do outro, chegando no mesmo carro? Era um fenômeno pouco visto.

Tentei desviar de todos os olhares, como se estivesse desfilando em uma passarela com música alta, evitando a sociedade baixa. A verdade era que poderia ter um treco em um minuto por não suportar altas aglomerações. era o gêmeo social e divertido, eu não estou acostumada com nada nisso. Só queria encontrar VD, talvez uma bebida, e encontrar um canto onde pudesse fumar com sossego.

sumiu em segundos e eu decidi que as duas melhores amigas da face da Terra estariam a salvo sozinhas e fui direto para onde deveria ser a cozinha. Gigante como o resto da casa, passei por um casal se atracando e sequer me dei conta de primeira quem eram aqueles dois. Prestei mais atenção na garrafa de destilado e coloquei alguns goles em um corpo que encontrei no balcão. Virei-me em poucos segundos.

Para minha infelicidade, os planos de não socializar não funcionaram.

— Oi — comentou uma voz vinda do além das trevas. Notei que o casal se agarrando tinha se separado e a garota aparentemente fora chutada para fora da cozinha, com cara de brava, pois era Patrick quem estava a beijando segundos atrás.

Me virei, já suspirando de cansaço.

— Tenho certeza que disse pra você nunca mais dirigir a palavra a mim, ou nunca mais olhar na minha cara, ou algo do tipo, na última discussão.

Patrick riu e se aproximou, enchendo seu copo com algum líquido azul.

Ele sempre ria. Patrick tentava parecer bom e legal, compreensivo e tudo mais, mas ele sempre ria quando eu dizia algo ruim. Isso porque ele desconsiderava todas as minhas palavras. Eu disse para ele que não o queria ver pintado de ouro no teatro, e mesmo assim, a insistência continuou.

Ele era como uma versão barata do meu irmão.

— Sou o senhor da paz essa noite! Não se preocupe comigo.

Ignorei-o e comecei a caminhar pra fora da cozinha. O senhor da paz se colocou na minha frente, impedindo a passagem.

— Não precisa fugir.

— É uma festa, não devemos socializar com os outros?

— Pode socializar comigo. Éramos amigos antes de você me dar um fora. — Ele pegou o meu copo e fez uma careta cheirando. — Vodka pura? Aqui, bebe isso.

Me deu o próprio copo com o líquido azul para que eu tomasse e jogou a minha bebida na pia.

Caraca, que metido.

— Nunca fomos amigos Patrick, esse meio que foi o motivo do fora.

— Contei pra todos que eu te dispensei — sorriu com os olhos quase fechados e se espreguiçou, me encarando desafiador.

Sorri, apertando os olhos.

— Não ligo. — Avancei para o outro lado e ele me puxou pelo braço, me pressionando contra o balcão.

, por favor. — Senti os dedos acariciando meu braço, não ultrapassando um território proibido. Sorte dele. — Eu só estou… querendo conversar, não sei.

— Não quero conversar.

— Então me faça esquecer. — Segurou meu rosto e forçou minha boca contra a sua em um selinho rápido. Foi tão repentino que me assustei e nem soube como reagir. — Os dias lá em casa estão um completo caos. Brigas todos os dias, eu não aguento mais, você me ajudava a esquecer essa situação, entende? Como eu sei que te ajudava também. Aqui, bebe um pouquinho princesa, você vai relaxar. Vamos lembrar de nós dois hoje.

Ele deve ter confundindo meu olhar de interesse pelas brigas na sua casa com outra coisa, pois fechou os olhos e se aproximou do meu pescoço, dando alguns beijos.

Não importava o quanto Patrick fosse realmente gostoso, eu certamente não ficaria com ele nesse estado e também estava mais interessada nas discussões de seus pais. Era por conta de Victor?

— O que mais? — Continuei imóvel, enquanto ele me beijava. Ele se afastou confuso e fez um som em dúvida. — As coisas na sua casa, eles estão brigando pra valer? Tem algum motivo em especial? Como isso está te afetando?

Ok, a última pergunta foi só pra ver ele desembuchar logo.

— Oh — ele gemeu, passando o nariz pelos meus cabelos. — Muita, muita briga. Sinto que vou explodir a qualquer momento. Mamãe e papai não se falam mais e, quando discutem, falam por códigos, é um saco, me sinto um intruso naquela casa, prefiro passar os dias no Fiore…

A boca tentou encontrar a minha e seus braços saíram de meu rosto rapidamente para minha cintura e bunda. Coitado.

— Sinto muitíssimo por essas brigas estarem acontecendo, Patrick. É uma pena.

Peguei meu corpo e tentei empurrá-lo pra sair dali logo, mas ele endureceu, se fechando na frente da minha abertura.

— Como assim?

— Eu sinto muito, é isso.

— Puta que pariu… o que mais você quer de mim?

Olhei para os lados um pouco confusa. Espera, ele estava tentando me dar algo? Sério? Essa era sua versão de realmente tentar ter algo com uma garota? As meninas gostavam de caras assim, que doavam tão pouco? Uau, incrível como nossa sociedade andava baixando seu nível.

— Não quero nada, Pat, esse é o problema que tá difícil de entrar nessa sua cabecinha linda. — Baguncei seus cabelos e ele tirou minha mão dali com força.

— Para de falar comigo como se eu fosse criança.

— Crianças não são tão imaturas assim. Agora, larga meu braço, ou você vai se arrepender.

— Não largo — continuou me prendendo contra a parede, tão próximo que eu poderia sentir seu hálito de álcool azul, seja lá o que fosse aquela porcaria que ele tomou. — Não largo até você me falar alguma verdade sobre você. Tudo que vejo são atitudes falsas, de alguém que não mostra o verdadeiro eu. Você é mais do que isso, ! Você é mais do que alguém que briga quando quer, trai quando quer e depois ri na cara da pessoa que você magoou. Você só usa as pessoas.

Tava aí de novo um caso sobre ser introvertida. Não curtia pessoas gritando na minha cara e me forçando em situações de extremo descontrole da minha parte. Não gostava quando me obrigavam a fazer coisas que não queria, como segurar todo o meu corpo contra um balcão que já estava machucando minha cintura quando tudo que eu queria era ficar sozinha antes de entrar na cozinha e ter que lidar com um cara podre de bêbado forçando beijos não consentidos na minha pele.

E principalmente, não gostei nada das bolhas efervescentes que aquela bebida azul que Patrick estava tentando fazer com que eu tomasse estava criando através do vidro transparente.

O FILHO DA PUTA ESTAVA TENTANDO ME DROGAR.

Soltando um braço daquela barreira que ele criou entre mim e o mundo, consegui alcançar uma faca grande e bem afiada que estava atrás de mim.

Patrick arregalou os olhos quando a apontei para ele.

— FICA LONGE DE MIM! TÁ ENTENDENDO? — gritei.

Ele levantou os dois braços, quase caindo para trás e deixando seu copo se espatifar no chão em mil pedaços.

— Tá ma-maluca? — gaguejou.

— Eu sou maluca! — o corrigi. Virei a faca, antes apontada para ele, para o meu braço, passando levemente a lâmina por dois centímetros. — Acha que não tenho coragem de usá-la?

Ameacei mais um pouco, vendo-o engolir seco aterrorizado.

Alguém surgiu por trás de mim, retirando a faca da minha mão com rapidez, e, um segundo depois, eu estava sendo carregada pelo estômago, as pernas balançando pra frente, me contorcendo para me livrar daqueles braços.

Finalmente fui solta do lado de fora da mansão, na beira da piscina que estava vazia por conta do tempo que trazia o inverno.

Empurrei o cara que me carregava longe, me soltando daquela prisão.

— Calma! Calminha, tá tudo bem! — Suas mãos mostravam os dez dedos, como se quisesse dizer que não estava armado e nem estava ali para lutar.

Era Hart. Respirei fundo, fechando meus punhos, querendo bater nele também.

Dei a volta na piscina, marchando para ir embora logo daquela porcaria. Odiava festas, odiava aquelas pessoas.

, certo? — Continuei andando. — Quer me contar o que aconteceu lá dentro? Precisamos estancar essa ferida também. Não foi grande o corte, mas pode gerar uma infecção.

Mimimi infecção. Que se danasse. Não tava com paciência pra gente pacifista agora.

— Eu sei que a raiva consome, , mas nesses momentos precisamos manter a calma e o foco pra não fazer nenhuma besteira.

Ele conseguiu.

— Você não sabe de porcaria nenhuma!

Era tudo o que ele queria, que eu o respondesse. Não era assim que médicos recuperavam a consciência de gente maluca? Conversando até formar frases que fizessem sentido?

— Então me explica.

— Não sou sua professora. Nem te conheço.

— O que faz da explicação ainda melhor. Amanhã vamos continuar não nos conhecendo, mas pelo menos você botou pra fora sua frustração.

— Eu ia esmurrar a cara dele, assim que eu ia acabar minha frustração.

— Pelo o que testemunhei, não era um esmurro, e sim uma faca. Você tem muita energia pra queimar, é verdade. — Se estivéssemos em outra situação, eu o responderia de uma forma diferente. Pra acabarmos com todo esse estresse na cama logo. — Mas se não colocar a mão na consciência para controlar seus atos, vai ter que sofrer as consequências depois.

Eu definitivamente estava mais calma, porém irritada e entediada com seu discurso chato.

Então esse era o defeito dele? Deus não abençoou tanto assim uma pessoa gostosa, é lógico que ele teria que ser chato pra caramba. Pensei que sua personalidade fosse não conversar com ninguém.

— Quem é você, hein? Nunca teve um surto pra achar que pode julgar os outros? — Olhei em seus olhos pela primeira vez na noite e gargalhei. — Você tá com um olho roxo.

Ele fez careta e tampou o olho em um gesto inconsciente.

— Exatamente! Um olho roxo, que não me atraiu nenhuma coisa boa. E agora, estou aqui, como uma pessoa mais experiente que você, te ensinando que a violência é o caminho errado — sorriu.

— Olho roxo.

Ele suspirou.

— Eu não briguei, eu apanhei. Evito conflitos assim, não vale a pena desgastar minha mente com coisas idiotas.

— Pois é, Patrick é um idiota.

— Uma dúvida. — Ajeitou o boné na cabeça. — Ele estava fazendo alguma coisa errada? Passou dos limites? Porque, se sim, eu devo ter entrado no momento errado. Então vamos agora mesmo atrás dele. Eu realmente preciso ouvir de você o que aconteceu lá dentro.

Ah, então ele não estava só querendo bancar a Carlotta psicóloga comigo. Queria saber se a cena que presenciou tinha sido algo tipo… abuso?

Franzi o cenho.

— Não gostei do que ele falou.

— Ok, tudo bem, entendo. Me assustei com a faca, mas ele parecia mais assustado. — Assentiu, olhando para meus pés. — Podemos, por favor, lavar esse corte? Estou agoniado.

Olhei para o meu braço, observando o pequeno corte que tinha virado longas gotas de sangue passeando pela minha pele e roupas.

Desisti. Assenti tão devagar que torcia para que ele não tivesse visto que consenti. Ele viu e sumiu da minha visão avisando que iria pegar algo para higienizar.

Parei na ponta da piscina e encontrei uma garrafa de vinho. Não fazia ideia de onde Bucci estava e muito menos , então me afoguei naquela bebida esperando Hart voltar, meio que esperando que isso também não acontecesse. Ficar sozinha depois dessas crises era mais fácil. Deixar alguém ver o meu ponto baixo era difícil, por isso tentei erguer meus muros de proteção com muitos e muitos goles de vinho.

surgiu, abrindo e fechando a porta de vidro de correr, e ouvi o som alto por apenas um segundo, logo tudo parecia uma calmaria de novo lá fora. Somente o barulho do filtro da piscina correndo com alguns grilos escondidos no jardim de flores amarelas naquela noite.

— Prontinho. — Tirou o sapato e as meias, colocando os pés descalços na água, imitando minha posição. Sorriu, trocando minha bebida de mão e pegando o meu braço com o corte mediano.

encheu de soro uma bandagem branca e fez um pouco mais de força para tirar todo o sangue seco dali antes de passar mais uma bandagem zerada no corte.

— Está doendo?

Bebi mais um gole de vinho.

— Não.

Ele olhou para mim e deu uma pequena risada, focando de volta na minha pele.

Uma minúscula risada, devo dizer. Até porque nunca vi esse cara sorrir na vida.

Claro que o idiota estava rindo. Enquanto ele tentava brincar de médico, eu só conseguia olhar para a boca perfeita dele. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, não era possível alguém ser tão aleatório assim sobre ser um gostoso desse nível.

— Por que se cortou? — perguntou mais sério, tentando não tirar a leveza do ar.

— Não faço automutilações com frequência, se essa é sua dúvida, Hart.

— Ora, você lembra do meu nome? Que bom, achei que era o único aqui. — Encolhi os ombros, não sabia como responder. — Ninguém concorre na popularidade de uma Mercy, é claro, então é impossível esquecer seu nome, . E sim, era a minha dúvida. Sobre automutilação e tudo mais.

Bufei.

— Já disse, Patrick me irritou. Queria assustá-lo.

— Isso é um pouco ruim. Porque acaba te afetando também. Você parece cansada. — Abriu um pacote de curativos e fechou dois na minha ferida, para terem noção de quão pequena ela era.

— É cansativo ser eu — ri, sem humor.

— A autodestruição cansa. Tenho certeza que, quando se arrumou e saiu tão bonita de casa, tinha esperanças de que seria uma boa festa. Estou errado? — Neguei. — Bom, então, tente não deixar ele te atingir. Nem ele, nem ninguém. Se proteja das pessoas que querem te fazer mal, Mercy.

Eu tinha duas opções, seguir com aquela conversa séria que me dava arrepios, ou tomar um novo rumo.

— Acha mesmo que estou bonita? — Me estiquei ao seu lado, vendo-o dividido entre perder a paciência para minhas piadas ou rir delas.

— Você sabe que é bonita.

Uau. Foi direto.

— Tecnicamente. — Entortei o lábio. — Já fui modelo, coisa e tal. Só que soa mais verdadeiro quando você diz isso, Hart.

— Jura? Desde quando minha opinião importa? — Parecia impressionado.

Desde que virei uma garrafa de vinho inteira, talvez.

— Ora, por favor, , estou tentando ser sua amiga a semana toda — fiz a voz mais fofa que eu conseguia imitar.

— Você nem fala comigo no Fiore! — Agora ele estava espantado. — E todos dizem que você não tem amigos.

— Bom, é você que está insinuando que quer ser algo a mais — sorri, apertando os olhos como sempre faço quando fico bêbada, inconscientemente, ou não teria feito. diz que me pareço um gato filhote raivoso com essa cara.

Aproveitei para me aproximar um pouco mais de , que estava a um passo de fugir, logo.

— Você está muito bêbada. — Segurou meu queixo com a mão e senti aquele frio no estômago outra vez, o mesmo que senti quando o conheci na frente da máquina de lanches.

— E você é muito lindo!

Ele ergueu as sobrancelhas, tentava manter meu rosto erguido, me ajudando no equilíbrio. Achava que, se ele me soltasse, eu poderia cair na piscina, ou sei lá.

— Obrigado.

— Por que você é tão lindo? — perguntei com dúvida sincera.

— Huh, por causa de alguns padrões estéticos da sociedade, eu acho?

— Concordo. E você deve malhar também — suspirei, correndo os olhos para o seu corpo. — Deve sim.

— Eu treino bastante. Boxe. — Encolheu os ombros.

— Jura? Quer me ensinar? Agora mesmo? Acho que tem uma cama lá em cima perfeita pra esse tipo de esporte.

— Melhor não. Você não está em um estado normal agora. Virou a garrafa toda? — Apontou surpreso para o vidro ao meu lado.

Assenti.

— Acho que odeio o Patrick.

— Ok, compreensível.

— Não é compreensível, você nem compreende por que o odeio, não te contei ainda.

— Quer me contar?

— Não.

— Tudo bem.

— Eu vou te contar. — Me sentei mais firme. — Ele é chato.

franziu a testa, colocando o boné para trás.

— Hum, pensei que teria um motivo mais profundo, mas ok, compro esse também. Pessoas chatas podem ser odiáveis.

Puta que pariu, ele ficou ainda mais gato com o boné para trás. Precisei olhar para a piscina e pensar um pouco no que falaria, antes de virar de novo para o seu rosto e conseguir pronunciar palavras como uma pessoa normal.

Oh, uau. Virei meu rosto de novo e ele continuava muito, muito bonito. Deus tinha seus preferidos.

— Huh… Patrick tenta me dar conselhos, da mesma forma que você tentou agora, só que pior. Ele culpa a minha mãe e um monte de porcaria extra. Depois tenta me forçar a ser uma pessoa que não sou e quer coisas de mim que não posso dar a ele.

— E o que ele espera de você?

— Patrick me pediu em namoro nas férias de verão.

— Então ele quer uma namorada? É algo simples.

— Oh, nada disso. Ele quer um projeto.

— Projeto?

- Basicamente. Ele glamouriza bastante minhas características não muito convencionais de outras garotas com quem ele ficou, como ser fechada, facilmente irritada e coisas piores como manipulativa e até um pouco má.

— Você se considera má, então? — Arqueou a sobrancelha. Torci os lábios.

— Não sou exatamente a vilã da história porque eu entendo meu ponto de vista, mas todos temos um pouco de maldade dentro da gente. Só não sou hipócrita.

— E você acredita que Patrick está com você porque quer se sentir um salvador nessa história? Acha que você está quebrada e vai te ajudar a se encontrar no meio de um relacionamento com ele.

— Exatamente! — exclamei. Nossa ele explicou muito bem. Queria saber formar palavras assim quando fico bêbada. — Eu sei que é isso. Não é a primeira vez que um cara se interessa por mim com o mesmo objetivo. Parece até um fetiche maluco pra engrandecer o próprio ego.

— Temos um veredito então, não namore com ele.

— Não irei! — disse, ofendida. Era terrível ele até mesmo cogitar isso. Logo agora que estava jogando meu charme todo para cima dele. — Só que ele é chato, brota do chão pra falar alguma coisa na voz mansa dele, parecendo o macaco do rei leão. Mas até mesmo Rafiki tem frases que servem de alguma coisa. Patrick só se acha inteligente.

— Continue o afastando até ele se cansar, então. Apesar que acredito que, depois dessa noite, ele deve ter adquirido alguns bons traumas, o suficiente para virar o corredor quanto te ver na Fiore.

— Você acha mesmo? — perguntei, encantada. Seria o meu maior sonho realizado.

— Com certeza! E também já falamos sobre proteção, . Tenta deixar ele longe de você sem causar uma autodestruição mental. Você parecia bem mais feliz entrando por aquela porta do que cinco minutos depois na cozinha.

— Acho que sim. — Balancei os pés na água.

— Quer um conselho? — perguntou.

— Na verdade, não.

— Vou dizer mesmo assim. — Encolheu os ombros, e sorri de leve. Ele estava aprendendo. — É bem simples na verdade, conte até três antes de fazer algo que se arrependa.

— Talvez eu precise contar até cem, seria mais efetivo.

— Os números não importam, o que importa é a mensagem por trás disso. Se você pensou em contar, significa que você sabe que aquilo será ruim pra você mais tarde. Então entra na sua consciência de que teve chances de mudar isso, e mesmo que não consiga mudar da primeira vez, pode ir trabalhando até estar treinada o suficiente para conseguir emergir sobre qualquer atitude que ache ruim pra sua saúde mental mais tarde.

— Já pensou em ser psicólogo?

— Não. — Balançou o pé na água.

— Deveria, você é bom com palavras, apesar da escola toda ter medo de você.

— As pessoas têm medo de mim? — Ergueu as sobrancelhas.

— Pois é, acho que você tem uma cara linda, mas a falta de sorrisos deixa você pouco amigável. Esse é meu conselho pra você, deveria sorrir mais.

— Tudo bem, vou tentar. — Ele assentiu, olhando para o além e pensando nas minhas palavras.

Continuamos ali por alguns minutos, assistindo a festa através do vidro da sala.

Bufei alto e me levantei de repente, demonstrando minha grande insatisfação com a situação atual.

tomou como indireta para ele, pois em um segundo ele estava ameaçando ficar de pé.

— Desculpe. Quer que eu vá? Me perdi no tempo um segundo. Acho que precisamos encontrar o seu irmão e conseguir uma carona pra você, certo?

Fiz careta. Se queria que ele fosse? Queria que ele fosse para a minha cama.

— Você não pode ser tão lerdo assim, Hart — resmunguei.

— Como? — perguntou, surpreso com humor.

— Qual é? — Dobrei as pernas, deixando-as mais aparente. — Tô tentando meu máximo aqui faz um tempo e você nem tentou me beijar.

Agora sim o peguei desprevenido. Pois sua reação foi abrir a boca, sem encontrar as palavras certas.

— Mercy… você tá bêbada. Não fico com garotas que não estão completamente sóbrias e que não saibam o que estão fazendo.

— Por favor, eu tô tipo cinquenta por cento sóbria agora. E se eu estivesse?

— O quê?

— Totalmente sóbria. Você tentaria me beijar?

Desprevenido de novo. Vi sua bile se movimentar e as mãos não sabiam se ficavam no canto da piscina, na tua testa ou ajeitava a posição do boné. Que inclusive, ele ficava lindo usando. Já falei isso antes?

— Aí é que está o problema — suspirou, fazendo uma careta sem graça. — É que eu tenho namorada.

Aquele frio na minha barriga voltou, mas era mais estranho. Como um vulcão em erupção, nada a ver com o sentimento gostoso de mais cedo. Levantei um dedo pedindo pra ele esperar, e em seguida, tudo que eu tinha comido no dia voltou para a terra, direto para a piscina do anfitrião da festa.

***

Acordei me sentindo um pedaço de Donald Trump. Horrível assim. Minha cabeça doía como se os sinos de Notre Dame estivessem batendo diretamente nela, me chamando de vadia irresponsável.

Os curativos no meu braço sumiram, mostrando o corte que eu tinha feito em algum momento da noite passada, me dizendo que toda aquela noite infernal fora sim real.

O pior? Nem sabia onde que eu estava.

Parecia um porão, estilo antigo, só que novo. Como se tivesse sido reformado para parecer algo dos anos 60, com uma mesa de sinuca e uma TV gigante com alguns jogos ao seu lado.

Em uma mesa próxima ao sofá laranja que eu dormia, encontrei VD calmamente contando milhares de notas de euros.

— VD? Onde diabos eu estou? — Cocei os olhos para ter certeza se era ele ali.

— Bom dia, princesa. Estamos no porão da casa do Mirko.

— Mirko?

— Sim, a festa que você bebeu até morrer ontem, lembra? Era de Mirko.

— Ah sim… — Me sentei, olhando para o chão. Posso ter ficado uns bons trinta minutos ali, repensando toda a minha vida até me render e perguntar de novo ao meu amigo. — O que rolou ontem, hein?

VD parou a contagem de dinheiro e se posicionou em algum lugar da mesa. Notei que tinha saquinhos de todos os tipos de sua mercadoria ali. Ele riu, percebendo que eu não tinha ideia mesmo do que estava rolando.

— Nada demais, princesa. Pode relaxar. — Automaticamente, relaxei os ombros. — Você só vomitou nos pés do meu sócio, fez um escarcéu por alguma coisa que ele disse, voltou a beber e dançar com Marzia e , beijou alguns caras e algumas meninas até se cansar, e colocou você aqui e trancou o porão pra ninguém te encontrar até ele terminar os negócios dele lá em cima.

— Oh, Deus. — Prendi meu cabelo em um nó no alto, sentindo a necessidade de um banho logo. Uma coisa chamou minha atenção na sua história. — Seu sócio?

Tentei não soar surpresa, mas VD já sabia exatamente o que acontecia ali.

— Sim, é o cara novo que te contei.

— Uau, e as pessoas dizem que eu sou boa atriz. — Levei tanto sermão ontem sobre me controlar quando fazia merda de um cara que vendia droga em festa pra adolescente. Esse era meu tipo de homem? Não era à toa que minha mãe havia sumido.

— Ele é um cara ótimo, de verdade. Se falou com você como amigo? Perfeito. Só acho bom mesmo ele ter dado um fora em você. Não acharia bom você se envolvendo com um de nós, entende?

Ha! Ele queria meter essa mesmo? Havia me mandado um link de uma música da Taylor Swift por mensagem esses dias. “Um de nós” significava alguém que não fosse somente o VD.

— Quem disse que ele me deu um fora? — indaguei, brava.

— Você mesma enquanto virava uma garrafa de bebida nesse sofá de madrugada, passou trinta minutos xingando o meu parceiro.

Poderia ficar com vergonha, mas não fiquei.

— Ele mereceu cada xingamento, tenho certeza disso. Pena que não me lembro de nada.

Mentira, eu lembrava sim. Até a parte do vômito, eu lembrava. O resto, graças a Deus meu cérebro trabalhou para varrer as memórias. Se eu não lembrava que tinha beijado alguém ontem, queria dizer que não aconteceu.

Pior do que o vômito era lembrar o motivo dele: tinha namorada.

Sério, Victor tinha esposa, namorada… mais uma vez, esse era o meu tipo de homem? Não querendo comparar o pobre do com um lixo de pessoa que estava me chantageando no momento, claro.

pediu pra avisá-lo quando você acordasse, vou mandar uma mensagem pra ele.

— Tudo bem, obrigada.

Ele foi para um canto e atendeu o celular que começou a tocar no mesmo instante.

— Ela acordou… Entrei, precisava contar a grana… Mirko me emprestou uma chave... Cara, ela estava dormindo, é óbvio que eu não iria fazer nada com ela… Foda-se... Tchau.

É. não iria me deixar desacordada em um quarto com VD, disso eu tinha certeza.

Me levantei, esticando as pernas, e notei quando os olhos de VD pararam automáticos nas minhas coxas. Ele virou-se de costas, talvez resistindo à tentação maluca que ele tinha na cabeça.

Era normal ele não querer que eu tivesse alguma coisa com , mesmo com interesse em mim. também reclamaria se soubesse que passei a noite toda dando em cima de um traficante de drogas.

E eu considerava VD como quase um irmão, ele não tinha essa recíproca comigo, então o que o impedia de investir em mim antes, segundo ele, era essa vida perigosa que ele levava.

Andei até sua mesa, observando aqueles pacotinhos. VD estava falando a verdade quando disse que seu chefe grandão tinha liberado mais material para fazer o negócio crescer.

Material era dinheiro, e o chefe grandão, só Deus sabia quem era. Aposto que nem , como novo funcionário, soubesse também. Isso era um segredo de estado, somente o primeiro subordinado do chefe, VD, encontrou-o pessoalmente para passar as mochilas que os outros garotos do colégio vendiam em festas.

Eu acreditava que fosse apenas o segundo da Saint Fiore, a maioria vendia as mochilas em festas da faculdade e fazia parte das irmandades. VD só queria ir para faculdade logo para poder participar mais ativamente desses grupos.

Como amiga próxima dele, já tinha o visto lidando com esse dinheiro e essas drogas milhares de vezes, então me surpreendi com um pacote com conteúdo novo. Peguei ele da mesa para ver mais de perto.

— Essa é nova — falou, orgulhoso.

Pareciam pedrinhas de diamantes, algumas eram puxadas para o azul, outras roxas e outras rosas. Todas muito pequenas. Parecia com o pó que brilhava no meu drinque de ontem.

Aliás, no meu não, no que Patrick tentou me fazer tomar.

— É boa?

— Usei só uma vez. É forte. O produto rende bastante por conta disso e dizem que, cada vez que você mistura as cores, tem uma experiência nova e celestial, como se estivesse atravessando os portões do Paraíso — gargalhou pela ironia e revirei os olhos.

— Qual é o nome? — perguntei, guardando aquele pacotinho no decote do meu corset, que foi seguido pelos olhos agora sérios e sedentos de VD.

— Pó de anjo.


Capítulo 9

“Era a única coisa que ela ainda não tinha pego: amor. Ninguém está imune.” – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Noite da festa.
O que eu aprendi na minha primeira festa em San Pellegrino era que as festas de mauricinhos eram iguais a todas as outras no final das contas. Jovens bêbados, muito álcool, música e pessoas se agarrando pelos cantos. Nada de muito “uau”.
Não que não tenha sido divertida a noite, até certo momento eu e dançamos juntas e poderia ser considerado algum avanço, mas para isso teríamos que estar sóbrias, o que não era o caso.
Estava perdida pela grande mansão de Mirko procurando um lugar para descansar um pouco. Não estava tão bêbada, mas estava um pouco aérea.
Me sentei no sofá e solucei. Estava emburrada, todos meus amigos haviam sumido. Marzia sumiu, brigou com Patrick e sumiu também, Mirko sumiu com e a desculpa dele foi apenas “temos coisas para resolver”. Que bacana, eu estava sozinha.
Não por muito tempo, porque um rapaz desconhecido se sentou no sofá ao meu lado. Tentei ignorar sua presença, mas ele me encarava com um sorriso estranho nos lábios.
— Você é a , não é? — Sorria para mim como se já me conhecesse.
— Sou sim. — Franzi o cenho, um pouco desconfiada. — E você, quem é?
— Sou Filipo, um amigo de longa data do ! Eu estava no jantar que a Madame Grenier fez para você, inclusive.
— Ah, claro — sorri, mais aliviada por não ser um completo desconhecido. — Desculpe se não me lembro muito bem de você, é porque tinha muita gente naquela mansão.
— Tudo bem, não tem problema. O importante é não esquecer mais, ok?
— Ok — sorri.
Filipo relaxou ao meu lado, se sentando um pouco mais perto e focando toda sua atenção em nossa conversa.
— E o que você tá fazendo sozinha por aqui?
— Todos meus amigos sumiram — encolhi os ombros —, então resolvi ficar um pouquinho por aqui para descansar.
— Bom, agora você não está mais sozinha — sorriu novamente. — Eu estou aqui com você para te fazer companhia.
Filipo colocou a mão levemente sob a minha que estava estendida sobre a minha coxa. Pisquei os olhos, tentando entender o motivo daquele toque. Ao mesmo tempo que fez isso, ele olhava para a multidão da festa, como se estivesse esperando que alguém o visse comigo.
Antes que eu pudesse reagir e afastar minha mão, apenas uma figura masculina se pôs em nossa frente.
Era Dante, ou VD como todos o chamam. Não o conhecia muito bem, não éramos amigos, mas tínhamos algumas aulas juntos e trocamos algumas palavras quando ele me pedia a resposta de alguma questão que ele não sabia.
Também já havia o visto outras vezes, como na detenção ou quando o peguei aos amassos com no jantar na mansão. Além das vezes que ele sempre me cumprimenta nos corredores do Fiore como se fôssemos bons amigos.
A única coisa que sabia dele foi o que ouvi nos corredores do Fiore, que ele era um traficante muito perigoso e, pelo que eu sabia sobre isso, graças aos filmes que vi, era que traficantes perigosos sempre andam armados.
— Fora — disse com seu tom arrastado de sempre. Eu arregalei os olhos, assustada. — Não você. Ele. — Apontou para Filipo.
— Qual foi, cara? — o outro resmungou. — Eu só estou aqui conversando com a , não me enche.
— Fora — ele repetiu. — Não vou repetir de novo, cara.
Filipo bufou e se levantou. Saiu, chocando seus ombros nos de Dante e nem ao menos se despediu. Talvez fosse Dante quem ele estava procurando pela multidão para ver que estava comigo?
O ruivo se sentou no sofá e eu prendi a respiração. Não minto que ele havia me assustado com a forma que fez com que Filipo saísse de perto sem motivo nenhum aparente.
— Pode respirar, eu não vou te matar ou coisa do tipo — riu. — Eu estava te protegendo.
Respirei fundo e senti minhas bochechas avermelharem por ele ter reparado que eu estava prendendo o ar por sua causa.
— Me protegendo de quê? — Franzi o cenho.
— Do Filipo.
— Por quê?
— Porque ele é um otário.
— Por quê?
— Não quero falar sobre isso.
— Por quê?
Dante virou o rosto para mim com a sobrancelha arqueada e eu escondi minha boca com a mão para rir de sua expressão de irritação. Ele sorriu.
— Desculpa, meu herói, só fiquei curiosa para saber o porquê eu deveria ser protegida.
— Um dia você saberá gatinha, um dia…
Franzi o cenho.
Nós ficamos em silêncio por um tempo e eu fiquei incomodada. Talvez fosse o resto de álcool no meu corpo ainda fazendo efeito, mas queria conversar mais com Dante.
— Dante, posso te fazer uma pergunta? — Me virei para ele com carinha de cachorrinho para ver se ele dizia sim.
— Fala.
— O que o tá fazendo? — perguntei. — Ele disse que tinha negócios a resolver e então sumiu, mas que negócios um garoto de dezoito anos pode ter?
Ele franziu o cenho.
— O que você acha que ele faz?
-- Não sei, por isso que tô te perguntando, bobo. — Fiz careta — Eu só fico pensando assim, olha, eu ouvi as pessoas falando no Fiore sobre um cara que foi espancado porque estava devendo dinheiro para outro cara, tipo agiotagem — falei baixinho, como se estivesse contando um segredo. — Eu só não quero que o leve uma surra.
— Não deve ser nada — disse, sério. — Talvez alguma garota que ele quer passar o tempo.
Fechei a cara.
— Garota? Que garota? Que história é essa? — Me sentei ereta. — Fala aí, VD.
— Tá incomodada? — Arqueou a sobrancelha.
— Não, nem ligo.
Suspirei e comecei a balançar os pés, estava me sentindo ansiosa e não sabia por que estava tão agitada assim.
— Dante…
— Sim?
— É verdade que você vende drogas? Que você é, tipo, barra pesada mesmo.
— Muito… você não tem noção do quão barra pesada eu sou, gatinha. — Ele olhou para mim fazendo uma expressão séria e eu enchi as bochechas de ar para tentar segurar a risada.
— Mas você é tão fofo — solucei. — Você não parece ser barra pesada coisa nenhuma, você só tá falando isso para me assustar. Você parece um ursinho.
— Um ursinho? — Arqueou as sobrancelhas, chocado. — É a primeira vez que alguém me chama disso.
— É que as outras pessoas não te vêem como eu te vejo, Dante — sorri orgulhosa. O ruivo revirou os olhos.
— Chega de álcool pra você, meio metro.
— Por que você me ofende, VD? — Fiz bico. — Não é porque você namora a que você precisa me tratar que nem ela. Eu achei que você fosse meu melhor amigo!
— Tá, não te chamo mais de meio metro. Feliz?
— Muito — sorri.
Nossa conversa foi interrompida com o choque de se jogando no sofá para se sentar entre mim e Dante. Ele não crescia nunca.
— Estou atrapalhando alguma coisa? — perguntou, com um sorriso presunçoso nos lábios.
— Sim — eu e Dante respondemos em uníssono e o moreno arqueou as sobrancelhas, chocado.
— Odeio vocês.
***
Dias depois.
Quando cheguei ao ponto de ônibus, já estava me esperando, assim como todas as vezes. Vestindo seu uniforme do Saint Fiore todo engomadinho e carregando dois copos de café em suas mãos.
Cada vez que pegávamos os ônibus juntos, ele trazia algum café diferente para eu experimentar. Me perguntava quanto café ele tomava por dia, já que parecia ligado nos 220V.
— Bom dia — ele sorriu e me entregou o copo. — Uau, você está um caco.
Revirei os olhos.
— Você é realmente sutil. — Peguei o café e me sentei. — Obrigada.
Meu estado caótico sempre foi normal, sempre fui uma aluna obcecada que sempre enlouquecia um pouco demais de estudar e então ficava um pouco fora de mim. Mas depois que me tornei a bolsista que quebrou um recorde de acertos na prova de bolsa, eu tinha que me superar em qualquer coisa que fazia porque haviam colocado um holofote na minha cabeça, e eu não estava conseguindo me esconder dele.
Então nos últimos dias eu era apenas uma máquina de estudar, fazer trabalhos e maquetes, decorar temas para provas e debates. Minha vida se tornou estar enfiada os livros e raros momentos em que passava com Marzia, com Mirko ou esses minutos com no ponto de ônibus.
Se encontrassem uma garota de casaco cor-de-rosa e cabelos pretos desmaiada em uma pilha de livros, era Myoui.
— Já falei que eu posso te ajudar a estudar, , eu sou um ótimo professor — sorriu para mim e eu fiz careta, tentando segurar a risada. Ele fechou a cara. — Às vezes eu te odeio, sabia?
Sorri, maldosa.
— Não é porque você usa gravata agora e o uniforme completo que você tenha virado um gênio, .
— Eu sou um gênio — deu os ombros —, você que tem inveja de mim.
Eu ri, talvez pela primeira vez em uma semana depois de só estresse estudantil, e logo minhas bochechas coraram com o sorrisinho fofo que deu ao me ouvir rir.
Finalmente estávamos em um momento em que eu podia dizer que gostava de estar com , até porque eu passava bastante tempo com ele. Nos corredores do Saint Fiore, nas aulas que tínhamos junto, nas arquibancadas em que às vezes matávamos aula do professor Riccardo junto com Marzia.
Era bom ignorar um pouco todas as regras que Nik impôs para mim e até a ideia de tentar me afogar na privada.
Talvez se não fosse pela ponta de culpa que sempre sentia pensando em Marzia e em como ela se sentiria se soubesse como estou próxima de , as coisas seriam mais fáceis.
Mas não havia problema algum nisso, e eu éramos apenas amigos e ficaríamos assim. Eu não tinha nenhum interesse romântico nele e tampouco ele por mim. Estávamos imunes disso, pelo menos.
Quando o ônibus chegou, me sentei no assento do fundo. Não me envergonhava em dizer que precisava tirar um cochilo enquanto íamos para o Saint Fiore.
De preferência sozinha, mas não entendeu o recado, já que estava sentado do meu lado no assento. Sem forças para reclamar, eu apenas deito minha cabeça na janela e relaxo.
Não sei em que momento da nossa viagem até o Saint Fiore, se foram as balançadas do ônibus ou o quão cansada eu estava, mas quando eu percebi, eu estava com a cabeça deitada no ombro de Mercy.
***
Eu estava de bom humor. O que era uma coisa ótima para os pobres indefesos do Saint Fiore.
. — Mirko veio para o meu lado, assim que entrei no Fiore. — Armário 566B — ele avisou e eu entendi o recado.
Caminhei até a área dos armários e parei na frente do 566B.
11-22-56
A combinação para abri-lo era nova, eu havia mudado recentemente. 22 era o dia de aniversário de , 11 a idade quando ela teve seu primeiro bichinho de estimação e 56 era o final do seu número de telefone.
Havia me esforçado com isso, já que ninguém conseguiria juntar isso e descobrir a senha. Devia me considerar um gênio por causa disso? Sim, talvez. É, eu era um gênio.
Assim que o abri, sorri com as folhas que estavam guardadas lá. As peguei e tranquei o armário.
O lado bom de ser Mercy era que, pelos corredores do Saint Fiore, eu era um deus. As vantagens de ser filho do barão. Só que, modéstia à parte, eu fiz meu nome por conta própria. Inclusive quando iniciei meu pequeno “negócio” desde o primeiro ano do colegial.
A questão era: a maioria dos alunos do Saint Fiore eram herdeiros ricos, filhos de gente com os sobrenomes mais importantes em Silent Grace, portanto, a maioria fedia a dinheiro e fazia de tudo para não precisar ter responsabilidade. O que era ótimo pra mim.
Comecei vendendo colas, junto com os nerds daqui. Eles criavam, distribuíam e eu dividia a parte deles. Depois, comecei a fazer identidades falsas, o que não era fácil, mas eu tinha meus contatos... Foi o meu ponto alto, os negócios estouraram porque adolescentes faziam de tudo por identidades falsas, principalmente as minhas que eram as melhores de Silent Grace.
Então, eu fui mais além e, depois de uma noite de tédio e bebedeira, me juntei com Mirko e invadimos a sala da secretaria, descobrimos os testes e trabalhos, então começamos a vender pelo colégio as provas ou trabalhos feitos. E vocês não fazem ideia o quanto herdeiros pagam pra não precisar estudar, mas manter as notas altas. Foi mais um sucesso.
E a vantagem de ser secretamente um nerd dos computadores, como eu, era que eu era um bom hacker e podia usar isso ao meu favor para meus negócios e sempre limpar meus passos.
Foi assim que me consolidei e meu negócio dominou o Saint Fiore.
Claro que todos sabiam o que eu fazia, não era um segredo pra ninguém, só que nenhum deles teve coragem de me desbancar. Era o peso do meu sobrenome, eu podia fazer o que eu quiser que nada me aconteceria.
Até VD acabou se tornando um parceiro com o tempo, já que ele também tinha negócios no internato e jovens podres de ricos eram ótimos clientes. Então, em vez de nos rivalizarmos, nos juntamos e aumentamos nossos lucros, clientela e influência pelo Saint Fiore.
A única pessoa que já tentou fazer isso contra mim e tentou ser meu concorrente direto, infelizmente, não estava mais aqui pra contar história...
Aqui no Saint Fiore, claro.
Com os papéis em minhas mãos, fui até o corredor de nerds posicionados em seus armários e passei para cada um deles, sem fazer alarde, tudo com tamanha discrição. Eles pegavam seus papéis e se espalhavam pelos corredores.
O bom de usar nerds como ajudantes era que ninguém desconfia deles. E ninguém dos alunos ousava mexer com eles, porque, se mexesse, estaria mexendo comigo, e quem queria mexer com um Mercy? Só um louco.
Estava feliz. Eu era um cara sortudo, meus negócios dentro e fora do Fiore estavam a todo favor e, para melhorar, tinha , que estava começando a me suportar.
Minha atenção foi direto para , que corria pelos corredores mesmo com as freiras mandando-a não correr. Franzi o cenho, um pouco confuso e intrigado com o que estava acontecendo.
Então ela parou em minha frente.
, tá tudo bem? — perguntei, um pouco preocupado.
, você não vai acreditar! — Ela abriu um enorme sorriso. — Eu tirei nossa máxima na prova, eu sou uma gênia!
E então, do nada, se jogou em meus braços em um abraço. Quase caí para trás com o impacto, mas segurei firme em sua cintura e claro, a abracei de volta, tirando seus pés do chão. Ela dava gritinhos de alegria.
Eu sorri. Era possível que vê-la feliz conseguia me deixasse mais feliz ainda?
Ela colocou os pés no chão e se afastou de mim, vermelha como um pimentão e com um sorriso tímido nos lábios.
— Estou orgulhoso, mas se estivesse estudando comigo, com certeza iria muito melhor.
— Você só está falando isso pra que eu te ajude a estudar pra que você melhore suas notas, né? — Cruzou os braços.
— Não falo nada sem a presença do meu advogado.
revirou os olhos, mas logo abriu um sorriso de novo.
Ela mordeu o lábio inferior e olhou ao redor como se estivesse observando alguma coisa.
Provavelmente procurando por . Ela ainda tinha medo de ficar muito perto de mim porque temia a reação da minha gêmea, mesmo que eu garantisse que ela não faria nada.
— Quer estudar comigo mais tarde? — perguntou, do nada e eu quase engasguei com minha própria língua.
— C-claro.
— Beleza! Eu te mando uma mensagem com o endereço para nos encontrarmos — sorriu. — Mas não ache que vai ser moleza, eu sou uma professora muito rígida.
— E eu sou um aluno muito bagunceiro — sorri.
se despediu de mim para ir para sua próxima aula e eu já mal podia esperar para estudar com ela mais tarde.
Realmente, o universo com certeza estava ao meu favor.
***
Estava me sentindo bastante exausta ultimamente, não só por passar a noite toda estudando para as provas ou fazendo trabalhos, mas também porque o único momento do dia que podia falar com papai era de madrugada, às vezes fugia do meu dormitório para conversar com ele e então passávamos horas no telefone.
Consequentemente, não estava conseguindo dormir, talvez a saudades dele estivesse apertando forte esses últimos dias e estivesse me tirando o sono, além de, claro, estar me sentindo muito sobrecarregada.
Mas não era de reclamar, as coisas estavam bem.
Como por exemplo, as coisas no Saint Fiore estavam melhores depois do jantar de Nik. Graças às festas que estava indo e minha personalidade pacífica, as pessoas pararam de me ver como uma ameaça e me tratavam bem, me enturmei mais e agora havia paz.
? — Ouvi alguém me chamar e levantei a cabeça rapidamente, quase caindo para trás com o susto.
Quando disse que seria provável que alguém me encontraria desmaiada numa pilha de livros, estava falando sério. Foi exatamente o que aconteceu.
Eu havia me escondido na biblioteca para estudar para o teste do dia seguinte e para terminar um trabalho que também era para o dia seguinte, além de preparar o roteiro de estudo para mais tarde. Então estava numa pilha de livros, com café e me entupindo de açúcar para me manter acordada como uma criança hiperativa.
Não deu certo, eu desmaiei depois do segundo parágrafo do livro com um pirulito na boca.
Me virei para ver quem era que me acordou e me aliviei por ser apenas Hart, mas isso não me impediu de ficar uns três tons de vermelho no rosto por ele ter me encontrado nessa situação.
Eu tinha aulas em comum com . Não sabia muito sobre ele, só o que Marzia dizia sobre ele ter torturado um gato e matado sei lá quem, além de que passou um tempo na cadeia porque bateu em um garoto só porque ele era gay, então eu meio que evitava ter muito contato visual com ele porque não sabia o quão perigoso estamos falando aqui.
O Dante eu não considerava mais perigoso, eu o considerava fofo porque agora éramos amigos e eu adorava ele. Já , para mim era perigoso de verdade, um nível de, se Marzia tinha medo, eu deveria ter também.
A Marzia tinha tudo, menos medo de um homem bonito.
— Ah, , oi — tentei manter a seriedade e evitar o contato visual —, precisa de alguma coisa?
— Não, tá de boa — respondeu. — Eu te vi desmaiada nos livros e achei que estivesse passando mal ou alguma coisa. Tá tudo bem?
Balancei a cabeça, concordando.
— Tudo sim, tá tudo bem. — Tentei sorrir. — Eu estava estudando e bom… você sabe. Estava estudando sobre o movimento LGBTQIA+. Eu tenho muitos amigos gays, você sabia?
Tentei manter minha postura, ele tinha que ver que eu não era homofóbica igual a ele! Mas estava com um pouco de medo dele reagir. E se ele me matasse igual matou o próprio gato quando era criança?
Ele fez careta confuso e se sentou na cadeira ao meu lado. Ainda tentei evitar contato visual, ele não pareceu ligar muito.
— Não quero me intrometer, mas você não acha que está pegando pesado com os estudos? — Sua pergunta era sincera. — Você tá todo dia na biblioteca.
— Você também! — Apontei como uma acusação. Nem sei por que estava tanto na defensiva, mas acho que ainda estava pensando no gato torturado.
— Eu trabalho aqui, você sabe. — Arqueou a sobrancelha.
Tudo bem, eu sabia que ele organizava um pouco da biblioteca, uma espécie de emprego sem contrato que ele tinha com o diretor Francesco, e realmente ele me via todo dia ali, mas o que eu poderia fazer?
Ele já havia comentado isso uma vez durante uma aula que tivemos juntos e eu não sabia o que responder porque ele não me conhecia muito bem para se importar comigo.
Suspirei.
— Talvez… mas são as consequências de atingir um padrão alto, eles não deixam você esquecer disso. — Encolhi os ombros. — Nik não me deixa esquecer isso.
Não queria falar nada, pois não gosto de soar ingrata, mas Nik estava me pressionando demais desde o começo. Tinha que ir bem nos estudos, me enturmar no Saint Fiore, comparecer aos eventos, ser sociável e estar sempre bonita, o orgulho para a família. Até papai sempre reforçava isso, o quanto que, a cada dia que passava, eu estava o orgulhando mais.
Então, sempre que eu sentia que não estava dando o meu melhor, sentia que estava decepcionando o papai e, de uma certa forma, Nik também.
— Acho que exagerar de estudar o dia todo e todos os dias não é a resposta, você precisa se distrair de vez em quando, mas quem sou eu pra falar alguma coisa.
— Eu me distraio — me defendi. — Eu tenho a Marzia e o Mirko!
— Tudo bem, não está mais aqui quem falou — disse. — Se precisar de alguma coisa, é só chamar. Estarei organizando algumas caixas que chegaram lá atrás. — Eu corei. — Não quero que adoeça por estudar demais.
Me senti um pouco mal por fazer parecer que não estava levando a sério o conselho de , ainda mais por perceber que ele estava se esforçando e parecia realmente se importar.
— Isso é possível? — Franzi o cenho. — Acho que está inventando para me fazer estudar menos, .
— Com certeza existe, eu li por aí — disse seriamente
— Ok, eu prometo não adoecer por estudar demais se você prometer não torturar mais nenhum gatinho por aí.
Ele assentiu com a cabeça.
— Beleza, mas não posso prometer quando você não estiver por perto.
A forma séria que disse me fez rir alto. Alguém me mandou calar a boca e eu fiquei vermelha de vergonha.
não parecia ser tão ruim assim, não sei por que tinha medo dele. Tinha que parar de ouvir a Marzia, ela era doida.
— Preciso ir pra aula — suspirei. — Acho que já cochilei demais, Marzia logo vai achar que eu morri, ou pior, que estou com um garoto. — assentiu e eu me levantei.
— Quer que eu te acompanhe até a classe?
— Quero. — Peguei minha mochila e a quantidade absurda de livros que tinha que carregar.
assentiu, arrancando dos meus braços os meus livros e os carregando para mim. Boa parte do trabalho dele na biblioteca era braçal porque o padre Francesco precisava de um aluno mais fortinho para fazer tudo aquilo, e eu achava que era o único que vinha de uma família simples que não teria vergonha de aceitar um trabalho como aquele.
Eu devia ter mais em comum com do que imaginava e talvez fosse por isso que me sentia confortável em sua presença.
— Você quer me contar como é a vida na prisão? — falei do nada e o garoto arqueou a sobrancelha,- confuso.
Ele semicerrou os olhos para mim.
- Você realmente quer saber, ? É bem pesado…
Me arrepiei inteira só de ouvi-lo. Então ele riu da minha cara e eu revirei os olhos.
Eu realmente tinha que parar de dar ouvidos a rumores idiotas do Fiore.
***
Meu bom humor do dia já havia ido embora e não eram nem três da tarde ainda.
Já sabia que meu bom humor estava com os minutos contados quando recebi a mensagem do meu pai dizendo para nos encontrarmos para um almoço.
Aldo reservou um restaurante inteiro só para nós, para almoçarmos em paz e sem nenhuma outra família, casal ou ser humano que respirasse nos atrapalhasse.
E claro que não eram apenas eu e meu pai nesse almoço. Tio Bosco também nos acompanhou. Mas não para por aí, Filipo também estava conosco.
Sim, o mesmo Filipo que teci muitos elogios na noite do evento. Maldito Rivelli, por que ele não pode ser um cachorrinho fofo igual o primo dele?
O babaca conseguiu se tornar importante para meu pai e para meu tio porque passava a maior parte do tempo puxando o saco dos dois e fazendo tudo que eles queriam como um cachorrinho obediente. E não me chocaria se, caso meu pai ou meu tio o pedissem para esvaziar suas bolas, ele fizesse com um sorriso no rosto.
Mas se o maldito acreditava que ia conseguir ser melhor que eu, ele estava muito enganado. O sangue Mercy corria em minhas veias e, se alguém ia tomar posse de tudo isso quando meu velho batesse as botas ou não quisesse mais, seria eu.
Enquanto isso, eu faria a melhor pose de jovem herdeiro para Filipo ver como era ser um Mercy, só ver, porque ele nunca seria um.
— Como estão os estudos, ? — papai perguntou.
— Ótimos, sou um dos melhores da classe. — Mentira. Mas não era um dos piores, eu achava, a que devia ser.
Iria melhorar assim que começar a estudar com . Óbvio que não estava fazendo isso pelas minhas notas, mas a deixava acreditar que sim.
— E como estão os negócios? — Rivelli fez piadinha. Ele achava realmente que papai se importava se eu fazia trambiques por aí?
— Ótimos, obrigado por me perguntar, Filipo — sorri. — Inclusive, esqueci de trazer a coleira de diamantes que comprei pra você, meu amor.
Tio Bosco escondeu a boca atrás do guardanapo para rir, papai fez uma careta, mas vi uma sombra de um sorriso em sua boca também. Eu era um grande humorista, eu sabia.
— Os modos, — ele ralhou comigo com leveza.
Filipo engoliu seco com seu tiro saindo pela culatra.
Ele não estava acostumado com papai e eu estando na mesma tecla. Muito pelo contrário, nós só nos dávamos bem quando os interesses da empresa estavam envolvidos. Pelo menos nisso tinham coisas que concordávamos.
— Qual é o interesse desse almoço, hein? — perguntei, um pouco impaciente. — Não posso demorar, tenho uma sessão de estudos marcada hoje.
— Direto ao ponto, huh — tio Bosco sorriu. — Isso pra mim tem cara de alguma garota, sobrinho.
— Um cavalheiro nunca fala. — Pisquei para ele.
Aldo se ajeitou em sua cadeira, assumindo sua posição de chefe de família e não tão pai carinhoso, coisa que ele não era. Só pela sua postura, já conseguia sentir minha cabeça doendo porque já imaginava o que vinha por aí.
, você já tem dezoito anos e logo estará se formando no Fiore, então não há mais motivos para evitar o inevitável. Você tem que se comprometer com alguém e se casar.
— Deus — cobri meu rosto com minhas mãos —, isso é tortura.
— Acho que você deveria casar, — ele disse, sério.
E novamente a ideia estúpida do meu pai veio à tona. Não conseguia fugir disso de forma alguma.
— Não seja teimoso, ! — papai disse e eu arqueei as sobrancelhas. — Podemos encontrar alguém. Uma garota de família boa, rica e de classe, para levar uma boa imagem da nossa família. Ainda estou esperando o momento certo para falar com sobre isso, obviamente ela vai surtar com a ideia do casamento, mas isso é um costume da nossa família, é claro. E você, como homem e filho mais velho, já deve ter em mente junto de seus deveres como Mercy a ideia do casamento e também para dar um exemplo para sua irmã mais nova.
— Já disse que não, obrigado — dei minha resposta final. — Não preciso que me arrumem alguém. Eu posso arrumar para mim mesmo se um dia eu quiser casar.
Meu pai mudou a expressão.
— Não precisa ficar atrelado a uma garota, meu filho, o casamento é somente sobre os documentos e a imagem que você passa para o povo. Você não acha que vai assumir os negócios antes de ter um bom casamento, acha, ? Nós trabalhamos com nossa imagem, nós vendemos a nossa família. Você realmente acredita que eu vou te deixar os negócios se eu achar por um segundo que você não vai continuar com a linhagem Mercy?
— Não acho que o senhor tenha outra opção -—- rebati e o mais velho ficou vermelho de raiva. Ele odiava quando eu o respondia. – Duvido que consiga fazer esse frangote aqui casar com , então, se quer que os negócios permaneçam com um Mercy, só sobra eu de qualquer forma — sorri.
Essa era uma ideia de papai, e nunca nem sequer pensei em falar isso pra , pois sabia que seria o início de uma nova guerra familiar na Itália.
Aldo estava querendo unir as famílias, a de Filipo com a nossa, tudo por dinheiro e pelo babaca do pai do Filipo ser amigo de Aldo faz anos. E eu achava que tinha me safado dessa por ter nascido homem, mas aparentemente ele queria me forçar a ter uma árvore genealógica também.
Papai sempre dizia que essa idiotice era uma questão de “costumes da nossa família”, e realmente, podemos ser afastados das nossas linhas de sangue como primos e primas que vivem no interior, mas sempre fazíamos visitas para os pobres coitados no dia do casamento, e posso assegurar a todos que nenhuma das moças Mercy parecia estar chorando de alegria na data tão aguardada, muito pelo contrário.
Eu confiava na minha irmãzinha, ela era esperta o suficiente para enrolar o lerdo do meu pai, fazia isso há anos, então não estava preocupado com essa questão. E provavelmente ela mataria Filipo na lua de mel se algo acontecesse.
Mas agora, Aldo ameaçando a minha posição na empresa se eu não me enfiasse na porcaria de um casamento arranjado… isso era completamente diferente.
— Não duvide do que eu sou capaz de fazer, moleque. — Seu tom era baixo, ameaçador, mas nem tremi.
— Vai fazer o quê? Casar novamente? Ter outro filho? — O encarei ameaçador. — Então corra, porque seu tempo está acabando. Dizem que muito estresse causa a calvície e impotência, um desses você já tem.
Aldo me encarava no mais puro choque. Se eu o conhecesse bem, ele poderia derrubar a mesa e vir me dar uma surra para me mostrar quem que mandava, mas ele não faria isso. Não na frente de Filipo, claro.
— Bastardo atrevido, quem você pensa que é?
— Sou o que fará o que for capaz de garantir que o que é meu continue sendo meu. Não duvide de mim, papaizinho querido. Não esqueça que eu sou uma versão cuspida e idêntica de você.
Famiglia, se acalmem — tio Bosco pediu. — Aldo, não fale assim com o menino, você não vê que essa ideia não o agrada?
— Por que defende tanto a petulância desse moleque? Para você, ele e nunca fazem nada de errado! Eu sou o pai deles, eu sei o que é melhor para cada um dos meus filhos.
Tio Bosco abaixou a cabeça, não querendo retrucar com o mais velho.
Me chateava ver a forma que Aldo tratava seu irmão. Ele só queria nos apoiar e nos ajudar, tio Bosco era um bom homem e um ótimo tio. Às vezes, era mais nosso pai que Aldo, que só se importava com a linhagem.
Não perderia mais meu tempo com essa palhaçada. Aldo não me convenceria do contrário e não tinha nenhum medo dele, porque, no final, ele recorreria a mim de qualquer forma.
— Ótimo almoço, valeu muito a pena, devemos fazer isso mais vezes. — Me levantei. — Até a próxima.
— Para onde você pensa que vai? — papai levantou o tom.
— Estudar, papai. Preciso ser muito inteligente, para assim conseguir comandar os seus negócios quando eles forem meus — sorri, peguei meu paletó que estava em minha cadeira e o vesti.
Saí do restaurante, ignorando meu pai me xingando de todos os tipos de palavrões italianos possíveis, e coloquei o capacete.
***
— Está tudo aqui — VD disse. — Tome conta disso e entregue no lugar certo, ok? Pode ficar com o resto e vender se quiser.
— Claro, meu amor — pisquei para ele. Ele fez uma careta.
VD e eu não éramos melhores amigos, mas eu gostava de acreditar que nosso relacionamento era mútuo. Ele me ajudava, eu o ajudava. Ele ganhava dinheiro, eu ganhava dinheiro. Assim, todos nós ficamos felizes.
A natureza de nossos negócios juntos e o que fazemos era algo que fazíamos há bastante tempo. Eu sabia com o que VD era metido, e ele já precisou dos meus dons e lábia, além do sobrenome, para livrá-lo de algumas coisas. E, em compensação, ele me ajudava com a clientela, mandando os grandões que precisavam de ajuda atrás de mim.
Trabalhar vendendo coisas para adolescentes era legal, dava uma boa grana. Mas eu sabia fazer muito mais que falsificar identidades e hackear computadores de provas. E essas habilidades interessava para gente que paga muito melhor que adolescentes.
Então VD fazia minha propaganda e os mandava até mim.
Estava sentado em seu sofá, mandando uma mensagem para Mirko, pedindo a ele pra trazer meu carro para levar as coisas.
Então meu celular vibrou com as mensagens que vieram de uma vez só. Sorri.
Vamos nos encontrar num mercadinho perto do Fiore.
Eu gosto do sorvete de lá.
Não demore.
Não gostava de deixar meus negócios inacabados, mas um compromisso com seria impossível de furar. Então, deixaria com que Mirko e VD se resolvessem depois, pois eu estaria com minha .
Logo chego, meu mais belo lírio.
Não demorou mais de cinco minutos e ela respondeu. Eu sabia que ela estava demorando propositalmente, provavelmente olhando a tela e contando os minutos.
Tá.
Ri, como que ela sabia ser tão previsível e ao mesmo tempo tão imprevisível? Que garota complicada, mas fascinante.
— Cara, eu tenho que ir — disse para VD. — Tenho um compromisso inadiável, então, você dá conta de tudo por aqui, né?
— Vai sair com a ? Você tá caidinho por ela, não está? — Dei os ombros. — Nem pense nisso, cara.
Franzi o cenho.
— O quê?
— Você pode ter todas as garotas que quiser, cara, menos essa. Parte pra outra.
— Você quer controlar quem eu namoro agora? Não está no nosso contrato — ri. — Não fique com ciúmes, eu sempre serei seu.
— Não, cara — me repreendeu. — Olha, eu entendo, a é linda, diferente das belezas das garotas que estamos acostumados. Doce como uma loja de chocolates na Páscoa...
— E? Eu amo chocolate.
— E que ela é realmente doce, cara. E você vai tomar isso dela, como um chiclete que foi mascado até perder o açúcar.
— Que papo é esse, cara? — Fiz careta.
— Você entendeu o que eu quis dizer — ralhou. — A é boazinha demais. Boazinha demais pra ficar de boa quando descobrir o que você faz. Ou você acha que ela vai conseguir deitar a cabeça no travesseiro à noite e dormir sabendo que gosta de um cara que pode ir pra cadeia por vários tipos de crimes diferentes?
Fechei a cara.
— Ela me disse que tinha medo que você levasse uma surra de algum agiota por aí. Imagina como ela se sentiria se descobrisse que não é você que corre esse risco?
Engoli seco.
Não havia chegado a pensar por esse lado. O que realmente pensaria de mim quando descobrisse o que faço de verdade? Que eu vendia colas e fazia muitos de trouxa no Fiore ela sabia, nunca disse nada, devia achar que é besteira. Mas os meus negócios mais sérios… seria muito para ela.
era certinha demais, tinha um senso de justiça muito aflorado e achava que eu era apenas um mauricinho de dezoito anos, mas eu era envolvido com coisas que, se respingassem nela, poderiam machucá-la de verdade.
Coisas que nem sabia que eu fazia. Coisas que só pude confiar a VD e Mirko.
— Eu sei que você gosta dela, cara, é impossível não gostar, mas vocês ainda não tiveram nada, ela ainda não fez nada que possa se arrepender, então cai fora antes que possa a envolver nisso. Porque, se você a envolver, sua ruína vai ser a dela.
As palavras de VD doeram mais que um soco em meu estômago. Doíam porque eu já havia envolvido ela nisso sem querer, quando ela me encontrou machucado pelos dormitórios do Fiore e cuidou de mim.
— Olha, cara, todos nós fazemos sacrifícios pelas pessoas que gostamos de verdade — ele continuou e parecia pessoal demais pra ele. — E eu gosto da garota. Não quero vê-la machucada por sua causa. Se você fizer mal a ela por egoísmo seu, eu faço da sua vida um inferno. Ela não merece ser arruinada por você.
VD tinha razão, ela não merece nada disso. era boa demais, boa demais até para mim, que me considerava bom demais para tudo. Não podia condená-la a isso.
De qualquer forma, ela não me via além de um amigo. Estava imune disso então, porque nunca teria o seu coração e assim nunca o quebraria.
Nunca a envolveria na minha sujeira.
***
Já estava quase anoitecendo e havia demorado pra chegar, chegou mais tarde que o combinado, mas perdoei. Ele estava esquisito, mas assim que começamos a estudar, ele se tranquilizou um pouco.
Mas era um péssimo aluno.
Ele questionava tudo, não prestava atenção e arrumava brechas para fazer piadinha com alguma coisa que eu falava. Estava precisando ter paciência pra não bater nele com uma régua.
Tentei ensinar Biologia para com toda a calma do mundo, até que finalmente ele me deu nos nervos e desisti. Dei razão a todas as freiras que diziam que os gêmeos eram impossíveis, e talvez ele devesse continuar só nas colas mesmo, para o bem da minha saúde mental.
Então ele me pagou um sorvete de limão e eu fiquei mais feliz. Culpa do meu paladar infantil que me deixava de bom humor sempre que colocava açúcar em meu corpo.
Ficamos em silêncio por um tempo e uma música começou a tocar nos alto-falantes do mercadinho. A batida era muito familiar e gostosa de ouvir, eu a conhecia como a palma da minha mão. Quando a voz masculina começou a cantar em japonês, sorri enquanto cantarolava baixinho junto.
— Você entende? — perguntou, apontando para os alto-falantes.
— Só porque eu sou descendente japonesa você acha que eu sei falar em japonês? — Fechei a cara e engoliu seco. Ri de sua expressão. — Tô zoando, eu entendo sim.
revirou os olhos para mim.
— Te odeio.
— A minha mãe era japonesa — comecei. — Os pais dela nasceram e cresceram no Japão, se casaram lá e tudo mais. Ela nasceu lá, mas se mudaram para França quando ela tinha uns dez anos por aí. Mas voltaram para o Japão depois que ela… — Parei.
— E você já foi para lá?
Tentei não demonstrar o sorriso quando percebi que mudou o assunto depois que notou que poderia me chatear falar sobre minha mãe. Foi muito respeitoso de sua parte.
— Nas férias, eu sempre ia, porque meus avós queriam criar laços comigo. Até tentaram me fazer ficar por lá, mas eu preferi ficar com meu pai, na França.
O garoto prestava total atenção no que eu falava e isso me deixava confortável. era um ótimo ouvinte, talvez o melhor com quem já conversei. Ele ouvia tudo, não interrompia e absorvia tudo que era dito antes de falar. Gostava de conversar com ele.
O que ele tinha de um ótimo ouvinte, ele tinha de péssimo aluno. Não entendia o porquê disso.
— Eu sou só italiano. — Deu os ombros. — Não é tão interessante assim como você e todo seu japonês.
Sorri
— Realmente, eu sou muito mais interessante que você.
riu.
— E o que essa música está dizendo? Sobre o que ele está cantando?
— Hm. — Pensei um pouco. — Ele tá muito triste, machucado e sofrendo, enquanto relembra das memórias. Alguma coisa a ver com um passado sombrio que ele escondeu, por isso que ele tá sofrendo e não consegue superar, porque ele perdeu alguém que amava muito e nem consegue acreditar que teve uma chance com essa pessoa e como, graças à essa pessoa, ele saiu da escuridão que vivia.
ficou pálido em minha frente e observei seu pomo-de-adão subindo e descendo, ele coçou a nuca. Franzi o cenho.
— É uma letra muito forte — disse baixo.
— É só uma música. — Dei os ombros. — Até parece que você se identificou com a letra — ri da cara do rapaz e ele fez careta.
— Você devia ser mais legal comigo, eu sou tão legal com você — resmungou.
Fiz careta.
— Ei, sou muito legal com você, ok? Você que interpreta mal o meu jeitinho. — Encolhi os ombros. — Ou talvez você só esteja acostumado com todas se jogando aos seus pés.
— Eu adoro todas se jogando aos meus pés mesmo — sorriu. — Por que você não faz isso também? Seríamos muito mais felizes assim.
Dei a língua.
achava que não era legal com ele? Provaria o contrário então, para ele ver o quão ótima eu era com ele, mesmo sempre me irritando.
Peguei o potinho do sorvete que tomava e estendi para o garoto. Ele olhou para mim e para o pote, piscando sem entender o que estava querendo fazer.
— Para provar que sou legal com você. — Balancei o potinho. — Estou dividindo o meu sorvete com você.
sorriu, um sorriso muito bonito, para ser honesta. Poucas vezes o vi sorrir assim, era como um sorriso tímido quando ele ficava sem jeito e sem resposta. Ficava até levemente corado, o que era engraçado porque ele era tão cara de pau que nunca o vi ficar vermelho.
olhou de volta para mim e eu corei. Estava observando muito o garoto nos últimos segundos e tinha muitos pensamentos em minha cabeça, mas um em evidência.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro, .
— Naquele dia da festa na casa do Mirko, na hora que você sumiu, o que você estava fazendo?
parou e não me olhou, ficou olhando para o potinho de sorvete e mexendo nele, enrolando para me responder. Sua hesitação pela resposta me fez pensar o que ele estava tentando esconder.
Será que Dante tinha razão e era uma garota? E por que só a ideia disso me incomodava tanto?
— Nada demais. — Deu os ombros. — Só uns negócios.
— Era uma garota? — disse e arqueou as sobrancelhas. — Você estava com outra garota?
abriu um sorriso maior ainda quando ouviu minha pergunta e eu me arrependi na hora que disse. Ele devia estar imaginando que estava com ciúmes dele, ótimo, devia ter ganhado o ano.
— Tá com ciúmes?
— Não — revirei os olhos —, só queria avisar a coitada para fugir a tempo.
— Sabia que você se apaixonaria por mim, mas não tão fácil — riu. — Mas você precisa entender que eu sou um espírito livre, , todo seu amor por mim não vai me prender.
Revirei os olhos novamente, correndo o risco deles não voltarem mais para o lugar, e fiz cara feia para ele.
— Eu te odeio. Vou pegar outro sorvete pra mim, esse deve estar azedo. — Dei a língua.
Me levantei rapidamente, mas não desistiu e veio atrás de mim enquanto ria da minha cara, ainda por cima tomando o meu sorvete. Odiava ele de verdade.
— Volta aqui, , esse tá muito bom — riu e segurou de leve no meu braço. — Não sabe o que tá perdendo.
Fiquei de frente para ele e abaixei a cabeça, não queria olhar para ele. não parava de sorrir, mesmo tentando fingir que estava sério para não me irritar, só faltava explodir de rir da minha cena.
Estava perdendo o jeito, eu não era normalmente assim. Não me afetava tanto assim por pouca coisa, meu Deus.
, eu te juro pela minha alma que eu não estava com nenhuma outra garota. — Pegou em minha mão. — Você é a única.
O toque em minha mão fez minha pele esquentar e meu coração bater mais forte. Levantei a cabeça aos poucos, olhando para como se estivesse tentando lê-lo e entender por que meu coração batia forte.
havia se arrumado apenas para vir se encontrar comigo, ele não precisava ter feito isso, eu percebi. Usava uma camiseta verde oliva, calça jeans e um Vans qualquer. Seus cabelos estavam penteados como sempre e ele estava cheiroso, muito.
Não sabia como me sentia com essa informação que ficava em minha cabeça. Como aquilo tudo parecia muito mais que uma sessão de estudos, parecia algo diferente, parecia um encontro de verdade.
Ou pelo menos era que estava fazendo com que eu me sentisse em um.
Mas o difícil era ver dessa forma. Um lado diferente dele, sem toda a pose de mauricinho rico e filho do grande barão dos hotéis. Ali ele era um cara normal, que precisava de ajuda em Biologia e estava tomando meu sorvete.
Sentia a mesma coisa que senti na noite do jantar que Nik fez para mim, quando ele me resgatou de lá e me levou até o parque. Uma sensação que aquecia meu coração, o fazia bater mais forte e enchia meu estômago de borboletas.
Em um súbito momento de sabe-se o que se passou pela minha cabeça, mas com certeza não era álcool porque eu tinha total consciência do que estava fazendo, fiquei na ponta dos meus pés e segurei no rosto de uma mão, então encostei nossos lábios em um beijo que fez meu coração quase explodir em meu peito.
demorou alguns segundos para retribuir o beijo, com uma delicadeza e lentidão como se quisesse saborear cada segundo e que jamais terminasse. Suas mãos estavam ao redor de minha cintura e ele me abraçava em seu corpo.
Ele tinha gosto de café, sorvete de limão e um aroma muito familiar, que me trazia uma sensação de paz e calmaria, igual à noite no parque. Era como se ele carregasse toda aquela áurea com ele para onde quer que fosse.
Nossos lábios se afastaram lentamente e meus pés tocaram o chão. Nos olhávamos em silêncio. Tudo poderia ficar silencioso se não fosse pelo som da música nos alto-falantes e nossas respirações.
— Você tem gosto de limão — finalmente disse, em um tom baixo e seguido de um longo suspiro.
— Você também — sorri.
Sabia que tinha muitas perguntas em sua cabeça, principalmente o porquê de eu ter feito o que fiz. Até eu estava me questionando a mesma coisa. Não fazia ideia do que se passou em minha cabeça para me dar a coragem de beijá-lo dessa forma.
Mas meu coração parecia em paz porque fiz. Desde a noite do parque eu estava com isso em meu peito, mesmo fazendo de tudo para empurrar e afastar os pensamentos.
Só finalmente tive a coragem para beijá-lo e então deixar meu coração decidir o que tudo isso significava.
Ter naquele momento parecia certo. Nosso primeiro beijo ser daquela forma depois de dividirmos um sorvete de limão sob um pôr-do-sol lindo era certo, nem eu mesma teria fantdo dessa forma.
Não que eu tenha fantdo isso antes, ok?
— Eu sabia que você estava louca pra me beijar, — sorriu.
— Eu devo ter enlouquecido mesmo — suspirei. — Estou doente, com certeza.
Coloquei a mão em minha testa pra verificar a minha temperatura para ter certeza que não estava com febre. Mas minha temperatura estava normal e ria da minha cara como se eu fosse uma palhaça.
— Sim, sua doença sou eu. Você está doente de amores por mim.
Revirei os olhos e o empurrei.
— Eu te odeio, .
Mas eu não odiava ele, nem um pouco. O sentimento que sentia por estava longe de ser ódio.
***
Meu celular tocou do nada e abri meus olhos em um susto. Me tocando que estava na biblioteca do Fiore, desmaiada sob livros e não no mercadinho com
Foi um sonho, não foi? Ou estava apenas revivendo esse momento em meus sonhos de tão bom que foi?
E por que eu estava desmaiada em livros de novo? O que havia de errado comigo, meu Deus?
Vi o nome de no identificador de chamadas e atendi, apenas para que não tocasse mais para que não me metesse em nenhuma encrenca estando na biblioteca depois do horário de recolher.
O que ele queria comigo tão tarde? Não devia estar dormindo também?
— Alô? ? O que houve? — falava com minha voz de sono, ainda um pouco confusa.
Sou eu, .
— Eu sei, eu acabei de dizer seu nome — ri baixinho.
Por que está acordada?
— Você que me acordou! — falei quase alto demais. — O que você quer?
Eu preciso da sua ajudinha sua, meu lírio. É importante.
— Espera. Que horas são? — Franzi o cenho, perguntando mais para mim que para ele. Tirei o celular da orelha para ver o horário e meu queixo caiu. — Cara, são duas da manhã!
— Por favor, , é importante. Vida ou morte!
Respirei fundo, tentando me acalmar.
— Do que você precisa?
Preciso que você vá até o dormitório de VD e pegue a chave do carro dele, então venha me buscar. Vou te passar o endereço, você vem e eu te explico no caminho.
Congelei e por um momento retomei minha consciência.
— V-você está louco. Eu não posso fugir do Saint Fiore e te buscar. E eu nem sei dirigir pelas ruas de Silent Grace! — Estava em pânico, quase gritando quando devia estar em silêncio. Como poderia ajudá-lo sem me envolver numa encrenca maior? Ele estava louco.
Por favor, , se eu pudesse pedir para qualquer outra pessoa, eu pediria.
— Então peça!
Não tem mais ninguém que eu confie que possa vir até aqui, .
— Você tem uma irmã gêmea! — tentei controlar meu tom, mas eu estava quase explodindo.
Ela não viria, odeia ser acordada antes que o necessário — suspirou. — É sério, , vai dar tudo certo. Um dos meus amigos vai te ajudar a sair do Saint Fiore sem chamar atenção, você pega o carro do VD e vem.
— Desculpa, , eu não posso...
Por favor, . Confia em mim. Eu preciso de você.
Meu estômago doía pelo nervoso e meu coração batia forte, eu estava atordoada. Mesmo que eu quisesse negar, não conseguiria dizer não. Não apenas por ser que pedia, mas porque eu sou a e não consigo negar ajuda para quem precisa.
Nem que essa ajuda acabe causando minha expulsão do Fiore e faça com que a Nik me asse num espetinho.
— Você me deve uma.
Te devo todas do mundo.
***
Primeiro caminhei pelo Saint Fiore na ponta dos pés e driblando os vigias para ir até o dormitório de Dante para pegar sua chave. Como o dormitório estava vazio, essa parte foi até fácil.
Não perdi muito tempo tentando descobrir o que Dante tinha em seu dormitório. Apesar de curiosa, não era invasiva para tentar descobrir um diário ou alguma coisa em que o ruivo escrevesse seus sentimentos.
Depois fui direto para o estacionamento com a ajuda dos amigos de para sair do Fiore sem chamar atenção de ninguém.
Eu sabia que tinha influência no Saint Fiore, mas ele conseguiu me fazer fugir do internato no meio da madrugada como se não fosse nada, e nem ao menos estava ali. Era impressionante, mas um pouco assustador também.
Assim que atravessei os portões para fora do Fiore, tive uma pequena crise de riso, de nervoso, claro. Por mais que fosse divertido parar pra pensar que eu, Myoui, driblei vigias e consegui fugir do internato mais seguro de toda Itália, ainda não estava muito em meus sentidos enquanto fazia isso.
Com certeza, quando a ficha caísse, eu iria ter a maior crise de nervos que já tive em toda a minha vida. Não estava acostumada a quebrar regras, pelo menos não sozinha, e muito menos por um garoto.
Liguei o GPS para me levar à localização de . Não sabia exatamente para onde estava indo e nem como chegaria até lá, porque não conhecia as ruas de Silent Grace e não estava sob controle das minhas faculdades mentais no momento.
Segui o caminho que o aparelho indicava, a voz da mulher era reconfortante, não me sentia sozinha enquanto ela me mandava virar direitas, e estava mais calma porque o carro não era meu, então as multas não viriam no meu nome.
Desculpa, Dante, da próxima vez, peça um Uber.
Parei o carro na frente dos quatro rapazes perdidos em alguma rua esquisita que não conhecia em Silent Grace, mas que com certeza não era em San Pellegrino. Os quatro rapazes eram , Dante, Mirko e .
Poderia dizer que estava decepcionada ao ver Mirko ali, já que não sabia por qual motivo eles estavam no meio de uma área esquisita de Silent Grace e com certeza não era por coisa boa, mas ele com certeza deve ter sido influenciado. Dos outros três não tinha muito como esperar o contrário.
A minha teoria era o que os três queriam uma diversão “diferenciada” e se enfiaram nessa área de Silent Grace, mas algo deu errado e eles ficaram sem jeito para voltar. O pobre do Mirko só foi arrastado junto, com certeza. Ele era uma vítima da influência de assim como eu fui.
Pelo menos não pareciam bêbados ou sob efeito de qualquer droga que resultaria em vômito, sangue ou pior no carro de Dante. Ou em mim.
— Entrem logo — resmunguei baixo. — Não sabemos o que podemos encontrar por aqui!
Quanto mais demorassem, mais chances de alguma gangue perceber que somos do Saint Fiore e fazer sabe-se lá Deus o que conosco. Além de que eu queria voltar logo para o internato antes que alguém notasse minha falta.
Quando os quatro notaram que era eu a salvadora da pátria, Dante encarou com uma expressão esquisita, como se o repreendesse com o olhar. Não sou boba, percebi que a minha presença aqui não era a que eles estavam esperando ver.
Mirko e entraram no carro e se sentaram nos bancos de trás, quando abriu a porta para se sentar no banco ao meu lado, Dante entrou na frente.
- Eu sento com a gatinha. Você vai lá pra trás — ordenou Dante, não parecia de bom humor com . Fiquei em silêncio.
— Você é quem manda? — arqueou uma de suas sobrancelhas.
— É meu carro, não é?
O moreno revirou os olhos e se enfiou entre Mirko e , já Dante sorriu vitorioso. Eu prendia o ar, ainda uma pouco confusa com todo aquele clima que não parecia estar muito bom.
Dante se virou para mim.
— Oi, doçura, tá linda. — Me olhou dos pés à cabeça e então abriu um sorriso. — Você não estava dormindo, né?
— Como? — Gelei. Droga, ele era tão observador assim pra alguém que fala tão lento?
— Você está de uniforme, são mais de duas da manhã e tem um pouco de tinta no seu rosto. Você estava na biblioteca, não estava?
Ele passou a língua pelo polegar e em seguida esfregou o polegar na minha bochecha, me mostrando a sujeira que antes estava em meu rosto em seguida. Eu fiquei mais vermelha que um pimentão e me sentia como uma criança pega depois de mentir pros pais.
— Como que é? — chamou a nossa atenção. — Você estava se entupindo de açúcar pra ficar estudando a madrugada inteira igual uma maníaca? Você disse que não faria mais isso.
— Droga, , você disse que ia diminuir nos estudos — Mirko se meteu. — Assim você me deixa preocupado.
— Exatamente, , você prometeu — até me deu bronca.
— Tá prometendo as coisas pro agora também? Que merda é essa? — parecia mais bravo com isso do que com o fato de eu estar quebrando as promessas.
— Calem a boca! — gritei. — Primeiro, teoricamente eu estava dormindo, eu só não especifiquei onde… — Os quatro arquearam as sobrancelhas. Eles me achavam louca, eu sabia.
— Mas-
— E segundo — interrompi Mirko —, vocês quatro não estão no direito de me julgar. Ou querem me contar o porquê estamos aqui no meio do nada numa madrugada com aula no dia seguinte? Eu pelo menos sou louca, mas estava estudando, e vocês? Qual tarefa fez vocês virem parar aqui? — Cruzei os braços.
Todos calaram a boca. Mirko abaixou a cabeça, envergonhado, ficou quieto no banco de trás, Dante me encarava, rindo da situação, e Aron se jogou no banco, emburrado.
— Gostei disso, você tem um fogo aí dentro de você, menina. — Dante piscou para mim e eu corei, olhando para o banco da frente em silêncio.
— Para de provocar a menina, VD — deu bronca no amigo.
— Ela não tem medo de mim, ela me acha fofo. — Piscou para mim novamente e eu escondi meu rosto em minhas mãos, rindo baixo de desespero. — Eu sou seu ursinho, , não sou?
Deus, se eu pudesse, enfiaria minha cabeça em um buraco naquele momento.
— Não sabia que havia arrumado um guarda-costas, . — arqueou as sobrancelhas pra mim. — O cão de guarda late e morde também?
— Quer ver meus dentes, Mercy? — provocou.
Revirei os olhos, cansada dessa briga idiota dessas crianças no carro. Normalmente, e não se davam muito, reclamava que era a única pessoa do mundo que não ria das suas piadas.
Sem querer defender o e causar intriga, mas não ria, ele era uma alma atordoada, segundo Marzia. A não ser para mim, claro. Era impossível alguém não rir comigo.
— O que aconteceu com o seu carro, afinal? — perguntei para que ainda parecia emburrado. Me virei para os três de trás. — Vocês lembraram de trancar o carro, não?
abaixou a cabeça. E eu não consegui segurar a minha risada, fiquei rindo de sua cara. Eu achava que era mais inteligente que isso, mas estava enganada mesmo.
— Desculpe — disse, com as bochechas vermelhas.
— Não me julgue — resmungou. — Papai vai me dar um novo de qualquer jeito. Um Mercy jamais anda a pé. — Senti o sarcasmo e o veneno em seu tom. Voltei minha atenção para o volante.
— E por que não pediram, sei lá, um Uber? — Arqueei as sobrancelhas.
— Nós não estamos na área dourada de Silent Grace, respondeu. — Ninguém é louco de vir pra cá de madrugada.
— E por que não chamou, sei lá, seu motorista particular? Você é rico, , desculpa não falta!
— Acha que eu seria louco de acordar ele nessa hora? Eu não sou um monstro!
— E me acordar é ok, ? — Cruzei os braços.
— Você não estava dormindo. — Ele fez careta. — Estava que nem uma doida enfiada numa biblioteca se entupindo de besteira pra ficar acordada.
— Eu estava dormindo! — levantei o tom, me defendendo. — Até onde eu sei, desmaiar sob livros e anotações pode ser considerado dormir.
— Você é louca! — gritou para mim. — Você precisa de ajuda!
Os outros três no carro assistiam a nossa cena em silêncio, como se fosse uma novela mexicana muito interessante. não parecia se importar nem um pouco com isso.
— Vamos logo, gatinha, aqui eles não são tão amigáveis com carros desconhecidos e pessoas escandalosas — Dante disse e eu gelei, voltando pra minha posição e segurando firme no volante.
— Você tá falando sério?
A última coisa que eu precisava essa noite era ser almejada de balas num bairro estranho de Silent Grace depois de fugir do Saint Fiore porque foi fazer sabe-se lá o que com seus amigos, e levaram o carro dele.
— Claro que não — sorriu. — Eles sabem que é meu carro, eles não seriam loucos de fazer alguma coisa contra mim.
— Isso não me soa muito reconfortante…
— Então dirija, meu bem.
***
Estacionei o carro na garagem do Saint Fiore e já estava amanhecendo, o que era ruim. Por mim já era para termos chegado há tempo, mas Dante quis comer e me fez parar num drive-thru, com direito ao pagando lanches para todo mundo.
Contra a vontade dele, claro, que estava mais emburrado que uma criança depois que sai de uma loja de brinquedos de mãos vazias.
No meu caso, a ficha finalmente havia caído e eu percebi o que fiz. Havia fugido de Saint Fiore no meio da madrugada, ido para um bairro perigoso para buscar esses quatro que estavam lá fazendo sabe-se Deus o que.
Então estávamos chegando no internato já amanhecendo, em questão de tempo as freiras começariam a acordar e eu ainda precisava arrumar um jeito de entrar com todos sem ninguém perceber que estávamos fora. E ainda precisava arrumar toda a bagunça que deixei na biblioteca.
O pânico finalmente bateu. E se me pegassem no meio do caminho? E se já soubessem do que eu fiz? Eu seria expulsa!
— Obrigado pela carona, foi divertido, devemos fazer isso mais vezes — Dante disse, enquanto saía do carro.
Que droga, por que eu me envolvi nisso? Isso ia acabar comigo. Elas iam descobrir que eu fugi e iam contar pra Nik, que ficaria louca comigo.
Eu precisava de novos amigos, urgentemente.
Sabia que precisava sair do carro, mas não conseguia. Havia gelado, travado só com o pensamento de ser pega fazendo algo errado, além da bagunça na biblioteca, eu não sabia como ajeitar tudo. Estava com medo, em pânico.
Percebi que se sentou ao meu lado e segurou minha mão. Dessa vez não corei, porque estava em muito pânico para pensar em qualquer outra coisa, e finalmente percebi que estava hiperventilando.
, eu sei que eu fui um babaca. Não devia ter te envolvido nisso e eu peço desculpas, de verdade. Mas você precisa sair do carro, a gente precisa entrar e fingir que nada aconteceu.
— Eu tô ferrada, — sussurrei.
— Não tá. — Ele apertou minha mão. — Pode deixar, ninguém vai descobrir nada que aconteceu. Nós vamos entrar juntos, vou até a biblioteca com você arrumar tudo e fingir que você nunca esteve lá.
Finalmente fui capaz de me mexer e eu me virei para ele. Encarando fundo seus olhos castanhos.
— Você jura que eu não vou ser expulsa? Eu não posso ser expulsa…
— Claro — sorriu, deixando suas covinhas aparecerem. — Mas você precisa me prometer que vai descansar de verdade e parar de se sobrecarregar. Isso vai te fazer mal, , e eu não quero te ver mal.
Meu coração batia rápido e me sentia mais confortável, calma e tranquila, igual na noite do parque e mais cedo no mercadinho.
— Tudo bem, eu prometo.
— Pra valer?
Concordei com a cabeça e sorriu.
— Não vamos a lugar nenhum sem você, — Mirko disse. — Se você for pega, todos nós seremos também. Não vão expulsar todos nós — sorriu.
— Eu acho que eles podem fazer isso — Dante falou, baixo, e recebeu uma bronca de .
— Ele não sabe do que tá falando , pode vir — disse, tentando consertar.
Respirei fundo. Mirko tinha razão, eles não iam expulsar nós todos. Um alívio me percorreu e eu sorri, as palavras deles me acalmaram e eu os agradeci. Não conseguiria pensar tendo um surto.
Não precisava de novos amigos, eu gostava dos que eu já tenho.
Se o Tio Patinhas conseguia aguentar o Huguinho, Zezinho e Luizinho, eu ia conseguir aguentar esses garotos também.


Capítulo 10

"Eu assisti "O Exorcista" mais ou menos 167 vezes... E fica mais engraçado a cada vez que eu assisto." – Beetlejuice, Os Fantasmas Se Divertem.

— O que você tá espiando aí? — Marzia Bucci levou um susto com minhas palavras e deu um pulo, saindo da janela do nosso dormitório o mais rápido possível. Até tentou fechar as cortinas, me fazendo revirar os olhos e tomar a dianteira para entender logo o que estava acontecendo.
Nossa vista era para um campo de grama gigantesco, uma lagoa e uma parte do estacionamento da Fiore. Não foi difícil encontrar meu irmão saindo do carro de VD, junto de , Mirko, o próprio VD e, senhoras e senhores, Myoui.
Pensei em toda a encenação que ela fez no banheiro daquela festa de sua avó bruaca e ri comigo mesma. Ela não queria ser devorada por eles? Bom, estava caindo dentro do covil das cobras.
— Volto logo — avisei e corri para fora do quarto.
, o que você vai fazer? ? — ouvi as preces preocupadas de Marzia atrás de mim.
— Relaxa.
Fechei a porta, aproveitando ter pelo menos duas horas antes de tocar o sinal, corri para o lado leste, terminantemente proibido para meninas, e esperei o dito cujo aparecer na entrada de seu dormitório.
Os quatro pararam de andar e travaram quando me viram ali, como se fossem pegos no flagra.
Ficamos nos fitando por alguns minutos e ninguém disse nada, até que Mirko resolveu falar.
- Bom, isso foi um silêncio constrangedor, devo dizer. Vou me arrumar para ir estudar.
— Verdade. — VD passou por mim também, não sem antes pegar minha cintura e depositar um beijo na minha testa. — Bom dia, princesa.
Eu hein. Que demonstração de afeto em público era essa? Semicerrei os olhos para os dois que seguiam escada abaixo.
— Tá tudo bem? — Ouvir aquela voz baixa e grave me fez estremecer um pouco, não podia mentir, fazia um tempo que não falava com . Desde aquela festa fracassada onde beijei aparentemente trinta bocas diferentes e nenhuma era a dele.
— Quero ter uma palavrinha com o meu irmão.
acenou e seguiu o caminho quando ouvimos um grande suspiro preguiçoso vindo atrás dele.
Coloquei as mãos na cintura, fitando .
— Que é? — suspirou, já parecendo cansado com o que eu diria a seguir.
— O que você está fazendo?
— Você sabe o que eu estava fazendo.
— Clareie a minha mente.
— Vendendo identidades, e o resto… VD tava junto, é óbvio maninha. — Revirou os olhos.
— Não é disso que tô falando, cabeção. Tô falando de Myoui no carro com vocês.
— Cara… essa sua cisma com a já tá ficando tedioso. Você só tem os olhos de Aldo mesmo, porque age igualzinha a mamãe.
Respirei fundo.
Se tinha alguém que compreendia o quanto me afetava falar da minha mãe, e o pior de tudo, me comparar com ela, era meu irmão gêmeo. E ver que ele gratuitamente fez isso pra me atingir me fez ver vermelho.
Somente nós dois sabíamos o peso de suas palavras. E mesmo assim, ele disse como se não fosse nada.
Conti aquele sentimento velho e antigo que senti pela última vez na festa de Mirko, quando peguei a faca na cozinha. Apertei os punhos, tentando me segurar para não fazer alguma besteira, e lembrei do conselho de .
Contar até três antes de ser impulsiva, reproduzindo algo de que vai se arrepender depois e se torne destrutivo para você.
Ok.
1.
2.
3.
Não queria jogar com as minhas piores cartas ali, mas foi ele quem pediu.
— Ela claramente não é daqui, — disse em um tom sério.
— E o que isso tem a ver? — Franziu o cenho.
— Ela não nasceu rica, não está acostumada com esse mundo. Você viu os olhos de cachorrinho assustado dela naquele jantar, não viu? Os caras apareceram como urubus em cima da e ela correu pra se esconder no banheiro, onde acabou levando mais tapa na cara de outras pessoas.
Até a chamei de , sem apelidos, pra soar mais convincente.
— Sinceramente, , acho que você está subestimando a força da . Ela pode não ser você, mas está conseguindo se adequar bem a esse mundo todo.
— Não existe se adequar, , não existe um meio termo. Ou você nasce em San Pellegrino, ou você é engolido por ele. Obrigada pela parte que me toca ao dizer que ela não é forte como eu.
A mágoa veio forte na minha última frase.
— Isso era pra ser um elogio, sabe?
— Não, isso só quer dizer que você sabe e compreende toda a merda que passei durante todos os jantares e não se importou o suficiente para intervir.
Bufou.
— E de que adiantaria? Tenho tanta influência lá dentro quanto você.
— Olha, que bom que você admitiu isso — levantei a voz, irônica. — Use essa influência pra proteger então. — Ele fez careta. — Ah, agora as coisas mudaram, não é? Porque com ela você se importa de verdade, pelo menos momentaneamente já que ela é sua obsessão atual. E não obrigatoriamente, porque ela é sua irmã.
, para com isso… não coloque palavras na minha boca, você sabe que é a pessoa mais importante do mundo pra mim.
— Tanto faz. Não estou esperando a compaixão de ninguém, não cheguei neste mundo sozinha, mas sei que vou morrer só.
Ele olhou para o céu, com os olhos arregalados e soltou uma risada esquisita.
— Agora você tá fazendo drama.
— Disse o dono do teatro — resmunguei. — Só acorda, tá bom? não é igual às suas ex peguetes que possuem naturalmente uma falha de caráter. Não é só sobre ela não aguentar o peso sobre as paradas que você faz, que sinceramente, é patético fingir que não faz muito pior do que diz fazer.
— Ah, não é? Então sobre o que mais seria? — Ele estava emburrado.
— É sobre as pessoas com quem você se mete. Elas são barra pesada. Me diga, por que você nunca me deixou ir em alguma festa no Norte da cidade com você? — Dei alguns segundos pra ele pensar. — Exatamente. E agora você está mais dentro. Você tem aliados e você tem inimigos, . Me diga, o que aconteceria se algum destes inimigos tivesse aparecido bem no momento em que sua amiguinha foi te buscar na parte azul da cidade?
Ele apertou o punho.
— Eu tomei cuidado para que isso não acontecesse.
— Se tomou tanto cuidado, por que não me chamou para buscar vocês? Balela. É mais do que você ter medo de eu descobrir o que você anda fazendo por debaixo dos panos, porque sabemos que você está fazendo algo pior. Alguém poderia me reconhecer lá e seria perigoso para mim, mas ninguém reconheceria ela, é claro. Uma garota nova na cidade. Mas agora eles podem saber que tem uma pombinha andando com ele, e que se importa até demais. Isso sim pode ser perigoso.
Ele estava estático, parecia bravo agora.
— Você é impossível.
— Mesmo?
— Sim. E sabe o pior? Eu sei que você não liga se estou desvirtuando uma pessoa ou não, porque você a odeia e só quer que ela se afaste das pessoas que você ama. Mas o pior de tudo é que você conseguiu. Seus níveis de manipulação excederam os recordes da empresa, parabéns, maninha, merece uma promoção.
Guardei meu sorriso vitorioso até ele se levantar e caminhar até o seu dormitório, sozinho. A sensação de vitória aos poucos foi esvaziando como uma pequena ilusão momentânea para um sentimento soturno.
E no fim, como sempre, eu estava me sentindo mal por algo que eu mesma fiz.
***
— Eu juro que tento, , toda semana tento conversar com você, tento entender você, mas simplesmente não consigo e estou começando a ficar cansada.
Foi a primeira coisa que Carlotta disse quando me sentei na cadeira vermelha de seu escritório para o nosso encontro semanal.
Fiz um mapa mental sobre todos os podres que já presenciei na minha vida e quantas vezes frequentei o psicólogo quando era criança. A maior parte veio depois do pai da Vanda me chamar de assassina quando eu tinha seis anos e tentei brincar com a filha dele na sauna do hotel um dia.
Então, quando Carlotta reclamou sobre eu discutir com meu irmão no meio da sala de aula, não consegui fazer outra coisa a não ser rir.
Ela suspirou, cansada. Eu também estava cansada. Estava cansada de sentir tanta raiva e vazio a todo o momento, cansada de todas as pessoas que me acercavam e de também não saber como mudar isso, e melhor ainda, não ter certeza se queria mesmo mudar isso.
Quando não estava estudando, eu tentava ficar trancada no quarto, no escuro, enquanto minhas roupas se acumulavam sem estarem dobradas. Até entrar no banheiro para tomar um banho estava difícil nos últimos dias.
— Desde que os concursos pararam, sinto que você está com mais tempo livre — pontuou Carlotta.
— Obviamente.
— Já tentou se inscrever em algum clube da Fiore?
— Com essa gente chata? — ronquei, fechando os olhos mostrando minha preguiça literal.
— Essa gente chata, digo, alunos, são seus colegas, senhorita Mercy — rosnou.
— Eu não tenho colegas, tenho conhecidos.
Carlotta também insistia em dizer que eu não era uma pessoa ruim, somente introvertida. Um negócio tipo Senhor Darcy. Por isso estava acostumada com minha aversão a participar de festivais e qualquer outra coisa que o colégio prometia.
Perdão se minha personalidade não era exatamente adequada para um Glee Club, mas prefiria fazer minhas performances longe de um professor e ex-alunos de coral.
Ela se levantou e parou ao lado da estante de livros gigantesca, abriu-a e retirou um retrato ali de dentro. Ah, não.
— Lembra-se disso? — Me mostra a foto e olho por um segundo somente, virando meu rosto em seguida. –—Você fez a nossa Fada Açucarada no seu terceiro ano aqui na Fiore. Foi ótima, encantadora desde criança. As apresentações de balé natalinas fazem tanta falta.
Ela sorriu com a memória longe e nostálgica guardando o retrato.
— Eu era uma criança muito irritante, isso sim.
— Sempre tão calma e sorridente. — Olhava sonhadora pra foto e revirei os olhos. Lá vinha mais uma tentando encontrar a raiz dos meus problemas. — Desde que sua mãe faleceu, você parou de dançar.
Bingo, outra psicóloga conseguiu encontrar a raiz. Parabéns, certeza de que Aldo ia te dar um aumento. Ou te demitir, porque ele odiava tanto minha mãe quanto os atos dela trouxeram minhas falhas de personalidade.
Não era tão difícil, sabe? Quando sua mãe era a professora e dona de uma grande escola de balé italiana, carreira essa que ela seguiu e amou sua vida toda, até mais que seus próprios filhos, e ela acabava sendo morta por essa carreira, meio que criava alguns gatilhos que impediam que eu pudesse voltar a dançar tranquilamente.
— Pois é. Donna era uma senhora de muitos talentos, inclusive os de me forçar a participar das suas aulas de dança.
— Forçar? Me permita o dom da opinião aqui, , preciso ser sempre imparcial, mas eu não diria que ela te forçava. Ensino você desde os cinco anos de idade e via o quanto seus olhinhos brilhavam ao participar não somente dos espetáculos em cima do palco, como também adorava principalmente toda a criação por trás de tudo. Queria sempre ajudar, seja nas roupas, na maquiagem, na montagem de cenário…
— As coisas mudam — calei seu discurso. Era o que eu sabia fazer quando enfim tocavam no meu calo.
— Vamos fazer uma peça este fim de ano, sabia? O Lago do Cisnes. Que tal tentar fazer um teste? Claro que temos outras pequenas peças antes dessa, você deveria tentar e se acostumar com o chão do palco outra vez, se sentirá em casa, tenho certeza. Até estar preparada para voltar como nossa eterna protagonista.
Dou risada.
— Claro, se a senhora convencer o meu pai disso — fui irônica.
— Jura? — Ela parecia surpresa. Acho que não entendeu meu sarcasmo, mas resolvi aproveitar.
— Com certeza. O que custa tentar, não é mesmo? Só preciso da permissão dele.
— Ora, senhorita Mercy, não seja por isso, vou conseguir essa permissão hoje mesmo — disse, esperançosa e feliz.
Ela não ia conseguir nunca. Foi ele quem me proibiu de dançar primeiro, porque qualquer coisa que o lembrasse de todos os espetáculos que minha mãe fez estavam proibidas naquela casa. Inclusive um brinco de diamantes que eu usava todo dia. Se Aldo soubesse que era uma joia que ela tinha usado no dia em que eles se conheceram, ele jogaria dentro de uma privada ou quebraria, como fez com todos os objetos da mamãe depois que ela faleceu. Ou me daria uma surra de novo se descobrisse que estava dançando escondida dele.
Levantei, arrumando minha saia, e estava disposta a sair com minha mochila nas costas, até que pensei por um segundo.
Apesar de, em tese e na teoria, Marzia ser minha melhor amiga, ela era meio maluca, então não tinha os melhores conselhos, eu também eu não confiava no meu irmão no momento, e claro, VD não era uma opção.
Acho que a dona Carlotta era a única pessoa disponível na minha bela vida solitária disposta a me dar um conselho útil.
Parei na porta e virei pra ela.
— Posso te perguntar uma coisa, irmã Carlotta?
Ela se surpreendeu porque geralmente ela quem implorava para eu dizer alguma coisa nas sessões.
— Não tem nada a ver com as coisas que falamos aqui. Na verdade, é sobre um drama pessoal da minha vida, preciso de um conselho de… amiga.
— Ora, nós somos amigas, !
Tentei não ficar deprimida com isso. Quem seria meu terceiro amigo no colégio? O padre Francesco? O porteiro?
— Eu passei por uma situação e desconfio de que uma pessoa esteja mentindo pra mim. Mas também pode ser que eu só esteja com um ódio profundo dessa pessoa. Como posso descobrir a verdade por trás disso?
Carlotta ficou muda e pensativa, sentando-se na sua cadeira outra vez.
— É difícil julgar toda uma situação sem saber dos fatos corretos, .
— Só preciso de uma luz, irmã Carlotta. Realmente não sei o que fazer.
— Eu diria para confiar nos seus instintos, mas não podemos interceder o mensageiro, e sim, quem enviou a mensagem.
— E se essa pessoa enviou a mensagem?
— Você tem provas de que ela enviou?
— Não exatamente… Há chances.
— Tente falar com essa pessoa então, . É este o meu conselho, sempre devemos seguir o caminho da verdade.
— O caminho da verdade?
— Sim, porque se você acabar mentindo para si mesma sobre o que fazer, essa atitude pode acabar te consumindo.
— Eu acho que ela já está me consumindo, irmã Carlotta.
— Então está na hora de se levantar e fazer algo sobre isso.
Não foi totalmente uma ajuda, mas, com o que Carlotta tinha para trabalhar das informações que lhe dei, de alguma forma ainda me auxiliava. Era difícil encontrar o que fazer sem ter uma dica de qualquer pessoa porque você não pode externar para o mundo o inferno em que se meteu.
Me despedi, e antes de sair, Carlotta me disse uma última frase.
… apenas tome cuidado, está bem?
Assenti e fui embora.
***
Propositalmente, tentei chegar um pouco mais cedo na aula do senhor Daniel, pois era uma das únicas que eu compartilhava com Patrick.
Patrick me evitava nos corredores do Saint Fiore desde o dia da festa. Às vezes o pegava me fitando de longe e, quando o olhava também, ele parecia assustado e focava em outra coisa ou caminhava para a outra direção.
Fiquei em pé, esperando alguns alunos entrarem, observando os mapas na sala de geografia. Quando finalmente Patrick surgiu, escolhendo sua carteira, corri para tomar o lugar ao seu lado, quase atropelando sua dupla de sempre, Marco. Marco se assustou com minha presença, assim como Patrick. Fiz careta para o primeiro, que decidiu se sentar em outro lugar, e puxei Patrick pelo braço para ficar sentadinho ao meu lado, e antes que ele gritasse alguma coisa, como pedir socorro para o professor, falei com uma voz mansa.
— Relaxa, Pat, não estou aqui pra brigar.
— Não? Nem pra me esfaquear? — disse, bravo, ainda que nervoso.
— Por que você está bravo? Você quem me beijou à força aquela noite. Esperava um abraço carinhoso em troca? Um pedido de desculpas meu?
Evitei falar sobre a parte em que eu sabia que ele tinha tentado me drogar, também.
— Você apontou uma faca na minha cara! — exclamou, indignado.
— E quem acabou se cortando foi somente eu.
— Porque o apareceu.
— Nunca saberemos o fim dessa história, então.
Ele bufou.
— O que você quer?
— Evitar essa situação terrível, Patrick — suspirei, mostrando a mais pura verdade em meus olhos. Os alunos ainda estavam entrando e tivemos algum tempo para conversar antes do professor Daniel pedir silêncio. — Não aguento mais te ver com medo de mim. Eu sinto muito por aquela noite.
— Sente? — Ele ficou surpreso.
— É lógico que sim — peguei sua mão —, você estava certo naquele dia, no teatro, se lembra? Eu tento sim afastar as pessoas, e na festa, eu me senti sufocada, você estava bêbado, eu também estava bêbada, pareceu errado e eu surtei. Me desculpe por isso. De verdade.
— Hum, sei… e por que tá me pedindo desculpas só agora? Teve um bom tempo para falar comigo depois daquele caos todo.
— Porque só agora eu visualizei todos os erros que venho cometendo na minha vida e percebendo que a culpada de todos eles são só eu. Não tenho mais tempo para culpar os outros quando alguma coisa dá errado para mim, entende? Além de que… eu estou tendo algumas sessões de terapia com a Carlotta e ela me passou algumas tarefas.
— Eu sou sua tarefa?
— Quase isso. Ela quer que eu abra meu coração para coisas que estão me incomodando.
-- Eu estou te incomodando?
Ignorei sua pergunta. Era difícil conversar com pessoas que possuíam o QI negativo.
— E eu só conseguia pensar no quanto me senti péssima pela forma que agi com você. Então me desculpe. Você nem precisa me perdoar, de verdade, eu só queria dizer essas palavras pra você porque iria ficar engasgada te vendo todo dia sem tentar poder mudar isso.
Ele assentiu, muito sério, e abriu o caderno, focando na aula de Daniel.
Não ousei mudar de lugar. Continuei ali, estudamos juntos, ouvimos tudo o que o professor tinha a dizer, ajudei ele com algumas dúvidas na matéria e ele tentou me ajudar com outras dúvidas que eu fingi ter.
Tudo ocorreu bem e no final da aula estávamos tendo conversas formais e informais sobre o tema da classe, e quando foi passado o trabalho para o fim de semana sobre o mundo pós-guerra, educadamente perguntei a Patrick se ele preferia fazer com Marco, para não o deixar desconfortável comigo interagindo com ele em horários fora da sala de aula. Ele sorriu francamente e respirou fundo, tomando uma decisão.
Patrick e eu marcamos um horário para nos encontrarmos na casa dele no fim de semana para produzirmos o trabalho.
***
! Como vai você? Nossa, faz um tempo que a gente não se vê, desde o… — Marta, mãe de Patrick, parou repentinamente de falar, um pouco envergonhada.
— Desde o concurso — finalizei para ela.
— Isso, desde o concurso. — Foi feito um acordo silencioso sobre não falar como terminou a noite para mim.
Não que eu achasse que para ela tivesse terminado de uma forma muito melhor. Pelo que ouvi dizer de Victor, a esposa ficou um pouco estressada com a decisão dele de passar a madrugada jogando ao invés de ir para casa depois de um dia de trabalho. Se ela soubesse então o real motivo dele não ter dormido na própria cama, ficaria possessa.
Nunca visitei Patrick e a família dele, então reparei nos móveis diferentes em tons marrons escuros e pretos, não esperado por uma família da classe alta da cidade onde geralmente pendiam para a moda de tons brancos. Sinceramente, achei aquilo bem europeu, no bom sentido. Apostava que tinha a ver com Marta toda aquela decoração, afinal, ela era a pessoa com mais bom gosto e personalidade dentre os Brazzi. Apesar dos dois terem ótimo gosto para mulher.
Encontrei Patrick no andar térreo, onde as paredes eram feitas de vidro e tinha todos os tipos de adereço que um adolescente poderia amar, além de uma mesa com vários livros que eu tinha certeza de que Pat encontrado depois de muita luta na biblioteca da sua gigante casa para fazer uma boa impressão para os estudos de hoje.
— Ah, oi! Eu já estava subindo pra te esperar — disse, sem graça.
— Tá tudo bem, sua mãe me recebeu na porta — sorri.
— A empregada tá de folga hoje. — Colocou as mãos nos bolsos da calça e se inclinou para a mesa. — Vamos começar?
— Sim, senhor.
Ele riu e puxou a cadeira para eu me sentar.
E focamos, seriamente, nos estudos. Mesmo quando era Patrick quem tentava puxar assunto para algo externo, eu cortava e voltava educadamente para a vida das cidades destruídas após a Segunda Guerra Mundial. Não queria avançar tão rápido agora que ele estava voltando a ter confiança em mim, e também não queria deixá-lo se sentindo como se estivesse andando sobre ovos comigo. Equilibrei tudo na medida certa, eu achava. Se tinha algo que confiava nessa vida, era em mim mesma.
— Começamos introduzindo tudo, uma prévia sobre a guerra e aquele suspense no ar? — ele perguntou.
Ficamos horas produzindo conteúdo e pesquisando na internet e livros. Eu preferia a morte a gravar um vídeo caseiro, então decidimos criar um vídeo com a minha voz de fundo com imagens reais dos acontecimentos da época.
— Isso, depois incluímos as cidades, aliados e não aliados, os bombardeiros, relatos de todos os incidentes e finalizamos como as cidades fizeram as reconstruções pragmáticas e as comuns — conclui.
— Então as imagens e vídeos que vamos usar já estão separados. — Ele fechou o Macbook.
— O texto tá pronto! — Me levantei, resgatando as cinco cópias que fiz da impressora só para garantir, caso perdêssemos alguma. — Fazemos os áudios na aula mesmo, temos bastante tempo.
— Certinho. A edição pode ser na biblioteca, então já ligo para a Carlotta segurar um computador pra gente.
Os cantos de meu lábio se levantaram automaticamente enquanto guardava minhas coisas na mochila.
— Não é que a gente faz uma dupla boa?
— Eu sempre soube disso. — Ele piscou e parei de falar. Que ficasse por si só esse flerte dele. Patrick também fingiu que nada aconteceu.
— Sete horas. — Olhei em meu pulso. –—Hora de ir!
— Quer uma carona? — Me seguiu até as escadas.
— Vim com o meu carro.
— Ah… — Abriu a porta para eu passar. — Então… já terminamos tudo mesmo?
— Já sim, ainda bem, não ia aguentar mais um segundo lendo tanta coisa. Chegou um momento ali embaixo que eu precisava repassar a mesma linha seis vezes pra fazer algum sentido.
— Você está sendo modesta, fez a maior parte teórica com maestria. Eu demoraria um mês pra arranjar aquele texto.
Encolhi os ombros, como se eu fosse tímida.
Ele me acompanhou subindo as escadas e apagou as luzes. Caminhamos silenciosamente pela sua grande casa até a porta de saída, porém, a voz feminina nos parou.
— Acha mesmo que vai fugir sem jantar conosco, dona Mercy? — Marta disse, brincalhona.
— Não quero incomodar.
— Por favor, não faça charme. Vamos logo que dessa vez fui eu quem cozinhei.
— Então é esse o cheiro maravilhoso que tô sentindo?
— Isso mesmo. Vai ser falta de educação recusar.
— Bom, então… — Vi Patrick fazer olhos de filhote que se perdeu na mudança e suspirei, sendo vencida. — Estou com uma baita fome, pra ser sincera.
— Vem… pode deixar suas coisas na sala e vamos nos sentar, logo o Victor chega do trabalho.
Ótimo. Perfeito.
Fiz o que ela pediu e segui os dois para a sala de jantar.
Seguia a mesma decoração, parecendo um pouco com a do Hotel.
A mesa estava repleta de comida. Milho grelhado, vegetais cozidos, carne assada, farofa e parecia ser suco de laranja para bebermos. Marta bebia vinho.
Todos nos sentados e o lugar da ponta ficou vazio. Tentei controlar minhas pernas de ficarem batendo com ansiedade, ou de ficar olhando para o relógio no meu pulso, para não deixar tão na cara minha ansiedade.
— Não vai querer um achocolatado ou algo do tipo? — Patrick começou a rir e arqueei a sobrancelha. O que ele estava querendo dizer?
Sua mãe também ficou em dúvidas, pois quis saber a diversão do filho.
— Achocolatado com carne assada? — perguntou, arregalando os olhos.
Patrick riu e continuei séria.
— É, dona Brazzi. pode ser filha de um barão, mas tem um gosto estranho para comida. Da última vez, a vi comendo frango frito com leite quente.
— Qual o problema? — tentei me defender.
Marta fez um som com a boca em desgosto.
Mio Dio, ! Nem parece italiana, quem come frango frito com leite? Daqui a pouco Patrick vai me contar que você come pizza com café quente.
Encolhi os ombros e Patrick caiu na gargalhada, ficando vermelho, afinal…. sim. Talvez eu seja um péssimo espécime de italiana, porque adorava pizza com café.
— Não sabia que cozinhava tão bem Marta — gemi depois de experimentar a carne, tentando mudar o assunto eu.
— Depois que nossa empregada teve bebê e tirou licença, decidi que tiraria proveito de poder trabalhar em casa e comecei a aprender algumas coisinhas como isso e aquilo. Claro que para a roupa ainda dependo da Andreia, não toco naquela tralha suada de treino de Patrick nem que me paguem — riu com o filho que fez careta.
— Tralha suada? Vai fazer propaganda péssima minha, mãe. — Revirou os olhos.
— Tenho certeza de que já viu o seu estado depois de um jogo — comentou, certeira.
— Na verdade, não. — Ele se virou para mim. — O que acha, hein, ?
— Acho de quê? — perguntei, inocente.
— De aparecer em um jogo meu? — sorriu, esperançoso.
Eu preferia levar um tiro ou terminar o trabalho que fiz com aquela faca na festa da casa do Mirko.
— Isso é um convite? – disse, mais simpática que charmosa, já que sua mãe estava ali. — Apareço lá qualquer dia, então. E vou levar Marzia Bucci, ela é louca pra ir em um jogo do time da Fiore e nunca consegui acompanhar ela.
— Leve quem quiser e vou vencer o jogo no dia — Piscou.
— Só não leve um namorado — Marta riu.
— Mãe! — reclamou Patrick.
— O que é? — disse e eu ergui as sobrancelhas, inocentemente. — Estou ajudando no seu jogo… de sedução.
Ele fez um som com a boca, começando a ficar vermelho.
— Se existe algo como jogo de sedução, tenho certeza de que mães são proibidas de participarem.
— Ah, aposto que os seus amigos agradeceriam de ter uma mãe como eu.
Eu ri, quase sincera dessa vez. A dinâmica dos dois era interessante.
Além de que devia ser legal ter uma mãe.
— E aposto que a comida está uma delícia! — uma nova voz apareceu na cozinha alegre. Quase saltitante. A felicidade dele quase me incomodava. Quase.
Victor Brazzi estava ali e de repente o ambiente ficou trinta vezes mais carregado. Eu não acreditava em áurea, destino, carma ou coisa do tipo, até porque o mundo era injusto e sempre foi, mas, se alguém que possuía algo ruim dentro de si e trazia infelicidade para os lugares em que aparecia, eu poderia indicar uma dessas pessoas como Victor.
Era difícil sustentar um personagem por mais de um dia, eu dizia isso pois, desde que a Carlotta me deu ideias de como confrontar a verdade enfrentando o seu problema, vinha pensando em como chegar até este problema. Não fazia ideia de onde Victor morava, então foi necessário um pouquinho mais de atenção à Patrick, coitado, que virou apenas um passo até meu encontro com seu pai.
— Com certeza! — respondi antes que qualquer um na sala fizesse.
Victor parecia ter visto um fantasma. Eu continuava a manter minha expressão serena e feliz com o jantar realmente gostoso de Marta. Ele? Gaguejava.
— Temos uma convidada para o jantar de hoje — Marta anunciou, feliz.
estava comigo fazendo um trabalho a tarde toda — Patrick completou, ainda um pouco vermelho da última conversa e ambos, mãe e filho, estavam alheios à reação estranha do pai.
— Foi um trabalho bem… duro. — A última palavra o deixou mais travado.
— Senta logo, amor, a comida vai esfriar.
Patrick observava os pais. Eu achava que, pela felicidade que Victor entrou na sala e como a Marta estava o tratando também, me fez pensar que o maridinho tentava modificar sua personalidade familiar antes que a esposa o chutasse para fora de casa.
Que belo conto de fadas. Nem parecia que o filho se afogava na bebida dias atrás querendo forçar uma garota a beijá-lo porque estava vivendo um inferno de convivência no lar, doce lar.
— Já nos encontramos tantas vezes em jantares chiques naquele hotel e nunca você apareceu aqui, — Marta continuava educadamente puxando o assunto.
Porque estava fugindo do grude do seu filho e tentando não ser encurralada por seu marido em um lugar que não conheço.
-- Pois é, é difícil eu sair do ninho. Nada pessoal. — Todos na mesa riram, menos, é claro, Victor, que iniciou sua refeição pela bebida, olhando sério para a mesa sem fingir conforto algum com minha presença ali. Eu o entendia, também sentia nojo só de olhar para sua cara.
— Seu pai sempre disse isso, da sua falta de tato com as pessoas. — Ouch, deselegante citar isso, dona Marta, mas achava que era coisa de mãe. — Eu não acredito nele! Sempre foi tão gentil comigo quando nos víamos.
— Ah, é porque você é esposa do Victor. Ele sempre foi tão bom pra mim nos treinos que preciso devolver isso com a família dele. — Olhei para o homem nada relaxado. — O respeito que tenho por vocês é só um modo de encontrar uma forma de agradecer tudo o que ele já fez por mim.
— Poxa, que situação, . Agora que os concursos entraram em hiato, como você está usando seu tempo livre? — Marta parecia honestamente preocupada com isso.
— Bom, não existe tempo livre na Fiore, pra falar a verdade. Acho que mais cedo ou mais tarde eu acabaria deixando os concursos, estou ficando velha, de qualquer forma. Mas ainda estou fazendo fotos mensalmente com a Madame Grenier, não acho que vou seguir alguma carreira, mas é um hobby. Ainda não decidi nada sobre isso.
— Largar os concursos agora? De jeito nenhum! Sabe como eles evoluem. Quantos olheiros para concursos maiores já não te ligaram, menina? Quem sabe um futuro como Miss Itália? Sabe, Victor trabalha com você desde que era uma criança, eu bem me lembro de você correndo pelo saguão do hotel com Patrick e em seu encalço — gargalhou, nostálgica.
Achava que ela pontualmente resolveu esquecer que Vanda também corria conosco no saguão naquela época.
— Verdade, sinto falta desse tempo, da inocência da criança que só queria participar de concursos por um bem maior.
— E qual foi esse bem maior que te fez entrar nessa vida, ?
— Dinheiro. — Encolhi os ombros.
Patrick fez careta.
— Mas você é de boa família.
— Sim, mas gosto de ganhar o meu próprio.
— E agora você vai sair? Não pode abandonar o seu treinador, — Marta apertou a mão do marido sorridente.
Tomei um gole de suco antes de respondê-la com calma.
— Estou começando a achar que logo meu treinador não terá tempo pra mim — ri levemente. — Estará ocupado fazendo outras coisas no futuro.
— O que quer dizer? — Era a primeira vez que ouvia a voz de Victor desde que se sentou conosco. E saiu mais grossa do que socialmente aceitável, o olhar de Marta o reprimiu por um segundo tão rápido que quase o perdi.
— Logicamente você terá outras meninas para treinar, oras! Mais novas e mais interessadas nessa carreira do que eu, do jeito que você gosta, sabe, para treinar…
— Huh — grunhiu, encarando a comida. — Não sei sobre isso.
— Não ligue para este resmungão, — soltou a mão do marido —, ele está assim a semana toda. Desde que os concursos estão parados, Victor passa mais tempo trabalhando na empresa de seu pai, e sabe como são as coisas em um escritório.
Marta amenizou a situação e me prontifiquei em concordar.
— Ah, Marta, não se preocupe, lido com Victor há muitos anos também. Foram anos com ele buzinando no meu ouvido sobre como eu deveria tomar apenas dois goles de água no dia do concurso, não uma garrafa inteira, ou poderia engordar e perder notas. Estou acostumada com esses gemidos do treinador. Inclusive, entendo, ninguém gosta de ficar tanto tempo dentro de um prédio sem nenhuma aluna para divertir ele.
Gemidos e alunas prontas para divertir ele? Ah, eu adorava o terror psicológico, era meu gênero favorito de filme. Sorri satisfeita com minha última frase, que, de novo, somente Victor pescou.
O jantar seguiu com Patrick perdido e Marta fazendo todas as perguntas possíveis sobre minha vida. Apesar de gostar muito da personalidade dela, comparando com a do filho e marido, descobri que Marta era uma rica emocionada demais com essa classe, e em algum ponto daquela comida, a carne não descia mais pela minha garganta de tanto que meu saco foi puxado durante toda situação possível. Seja por querer que eu mude de ideia sobre concursos de beleza e contrate seu marido outra vez ou pelo meu sobrenome, não era uma situação agradável.
Depois de deixar Victor em um tom roxo de síncope prestes a explodir com minhas piadinhas de quintas intenções, me despedi, com Patrick me acompanhando de novo até a porta de entrada.
— E então, nos vemos mais tarde? No leilão? — perguntou, olhando para o chão.
— Naquele evento esquisito onde adolescentes menores de idade vendem horas do seu tempo com velhos caquéticos que só Deus sabe o que eles realmente querem com elas? Passo.
Ele riu.
— Se esse é o seu medo, sabe que já tem um comprador pra te salvar disso, e tecnicamente sou um ano mais jovem que você, sem velhos caquéticos.
— Hum… vamos ver. Quem sabe não apareço por lá?
— Vou ficar te esperando — sorriu.
Eu deveria parar com esses joguinhos.
Mas nem se eu quisesse iria neste leilão. Claro que seria divertido quebrar uma das maiores regras do Aldo Mercy “estar permanentemente proibida de comparecer nestes leilões caricatos”, só que as razões dele acabavam por serem verdadeiramente boas.
Nós dois não queríamos seus inimigos me comprando no jantar. Era perigoso.
Não prolonguei a despedida, demos tchau como bons velhos amigos e agradeci mentalmente por ele não tentar alguma coisa estranha e ferrar toda a evolução que consegui nesse fim de semana. Não que eu contasse com alguma amizade vinda dele ou algo do tipo, mas mantenha seus amigos próximos, inimigos mais próximos ainda, e achava que Patrick se compadecia com uma opção entre esses dois.
De qualquer forma, achava que logo Patrick voltaria a me odiar, e se nunca odiou, teria motivos para odiar em pouco tempo. Isso, claro, se meus esforços desse jantar funcionassem.
Me perguntava enquanto caminhava com o pôr do sol me banhando até o meu carro, será que fui irritante o suficiente para fazê-lo explodir? Victor veria as minhas intenções nesse jantar? Eu era boa atriz como mamãe? Ele morderia a isca?
E todas as minhas perguntas foram respondidas com um precioso sim quando abri a porta do meu carro e me deparei com ele sentado no banco de carona.
— Victor? Que surpresa, eu esqueci de te falar, mas o jantar estava agradável, sua esposa cozinha muito bem — sorri.
Ele cuspiu fogo, passando o braço pelo meu pescoço para fechar minha porta rapidamente, e rugiu.
— O que você pensa que tá fazendo, sua pirralha maldita?
— Ué, não gostou do jantar? — comentei, desentendida.
— Fica longe da minha família — gritou, com o dedo apontado na minha cara. Olhei para sua mão e abaixei ela.
— Eu fui convidada para vir aqui, Victor. Sabe, nem tudo é sobre você. Eu estava inocentemente fazendo meu trabalho de geografia com Patrick, quando a doce Marta nos chamou para jantar, e aconteceu que eu estava com fome. Fim da história.
— E quer que eu acredite nessa merda?
— Acredite no que quiser.
— Não se esqueça do vídeo, . Eu te chupando enquanto você geme como a puta que é, ano passado, você se lembra?
— Ah, o vídeo que você está tentando me chantagear para eu não te dedurar para a polícia? Quase esqueci, que engraçado.
— Não banque a espertinha, meu bem. É bom você ficar bem longe da minha família, aquela conversa no carro foi a última que tivemos. Não quero saber de você mais, e não ouse achar que vou repensar naquelas ideias malucas de Marta que quer me convencer a te pegar de volta.
— É lógico que você não quer ser meu instrutor… sabe, Victor, eu senti um afastamento de você desde que completei dezoito anos, será que isso significa alguma coisa? — perguntei, sarcástica. Ele deu uma risada.
— Ah, meu amor, você continua tão gostosa quanto a de dezesseis anos. Mas agora sua personalidade não me deixa de pau duro, entende? Tenho novas alunas que estão muito mais do que felizes em me satisfazer.
Novas alunas? Essa informação era nova. Tão nova que me deixou um pouco perdida. Situação diferente. Novos caminhos.
— Não sei o que te dizer, Victor. Patrick gosta bastante de mim, e Marta, bom, como você mesmo diz, ela tem ideias de fazer nossas famílias continuarem a trabalhar juntas.
— Fica longe de mim e fica longe dela. — Senti sua mão apertando minhas bochechas, me forçando a encará-lo, quando este tempo todo eu olhava para a janela. — Estou falando sério. Meu casamento está voltando aos eixos e não vai ser uma ninfeta desonesta que vai acabar com tudo que tô construindo.
— Construindo? — ri com força contra seu rosto, pensando em soltar um cuspe ali e desejando que tivesse veneno ácido nele. — O que tanto constrói, meu querido Victor? A rede de mentiras ou a sua pessoal rede de pedofilia onde você é o maior investidor?
E o tapa veio. Ardeu, doeu como se fosse um soco. Mordi os lábios, sentindo o sangue vazando da minha boca pelo dente que acertou a bochecha.
E permaneci calada.
Não daria a ele esse gostinho. Não mais.
— O vídeo pode não ser o suficiente para te calar, , mas lembre-se, o bom homem ainda tem duas mãos e as duas podem ser metidas nessa sua carinha até você ficar completamente incomunicável, igual sua mãe. — Abriu a porta do carro e segurou-a, colocando a cabeça para dentro de novo. Me recusei a olhar para sua cara desde o tapa. E sinceramente? Não foi o que mais doeu ali. Definitivamente não. — Não esqueça, metros de distância de qualquer pessoa com o sobrenome Brazzi, fedelha.
Bateu a porta e se foi. Soltei todo o ar que prendi em meus pulmões e um peso parecia ter saído das minhas costas, e de uma vez por todas, tomei minha decisão. Tirei meu celular do bolso e apertei o botão, parando o gravador e abrindo o GPS para um endereço que eu não estava habituada.
— Não mencione minha mãe, seu idiota.
***
Passo pela porta giratória, o cheiro do lugar era memorável, foi o último contato com mundo real que tive antes de ficar uma semana presa no Hotel Mercy.
A recepcionista chamada Irene tinha roupas verdes limão e o cabelo loiro desbotado. Com um sorriso meigo ela me perguntou o que eu estava fazendo ali, e com sinceridade, eu lhe respondi:
— É sobre o caso de Vanda Perlmann… estou aqui para mudar o meu depoimento.


Capítulo 11

“Perfeição não é só sobre controle, é também saber abandonar-se.” — Cisne Negro.

— Um leilão? Isso é tão retrógrado — Trina suspirou do outro lado da tela. — Você tem mesmo que participar disso?
Dei os ombros.
— Nik diz que sim — suspirei. — Mas não é você quem diz que sempre quis um ricaço para você? Esse leilão parece ser uma ótima opção.
Minha amiga riu.
, eu quero procurar um ricaço pelos meus termos e não quero que ele me compre num leilão — riu. — Parece The Handmaid's Tale. E também, não sou eu quem está indo para esse leilão, e você não parece ser do tipo que quer ser comprada por um ricaço.
— Não mesmo. Acho que nunca estive tão nervosa por algo que Nik me enfiou desde que cheguei aqui em Silent Grace.
Nessa noite, as famílias de San Pellegrino se reuniriam em um leilão beneficente, para ajudar as obras de caridade de Silent Grace. A cara desse evento? As garotas das famílias mais importantes da cidade. O que estava sendo leiloado era um jantar conosco e todos os lucros desta noite seriam revertidos em doações para essas caridades.
E depois, os “casais” formados nesse leilão participariam de um evento de caridade em uma das obras para as quais foram feitas as doações. Era tudo por uma boa causa, já que os ricos percebiam que existiam outras pessoas vivendo em Silent Grace, e não apenas a nata rica do bairro de San Pellegrino.
Isso para mim soava muito estranho. Um monte de garotas de dezoito anos sendo leiloadas para sabe-se quem? Não tinha como isso dar certo, tinha?
Mas Nik fez questão de me dizer que isso era só uma forma dos garotos do Saint Fiore convenceram seus pais de gastar dinheiro com caridade e, de quebra, os herdeiros conseguirem levar as garotas que desejam para jantar, pagando, claro.
Mesmo assim, não me sentia nem um pouco confortável com a situação. Ainda mais porque eu seria uma leiloada.
Nik não pensou duas vezes antes de me enfiar nisso, mesmo sem saber se eu queria participar ou não. Mesmo assim, fez e não me deu nenhuma opção além de aceitar. Eu não queria de jeito nenhum participar disso, porque era algo que eu não teria o controle de saber quem faria o lance mais alto por mim.
Mas a naus velha estava irredutível, ela não abriria mão de me colocar nesse leilão como a peça mais importante da sua coleção.
Estava tentando focar na parte da caridade e na possibilidade de terminar em um jantar com algum garoto do Fiore. Apesar de assustada e desconfiada, não seria como se algum velho esquisito fosse fazer um lance por alguma garota de dezoito anos na frente de todos.
Seria tudo pela caridade. Eu estava me sacrificando por um bem maior, alguém que realmente precisava.
Só não conseguia esconder a ansiedade e o medo de quem me levaria para jantar.
— Quem sabe aquele gostosão do te compre essa noite, né? — Trina sorriu sugestiva do outro lado da tela. Fiz careta.
— Por que eu iria querer que o me comprasse essa noite? — Revirei os olhos. — Nem tudo gira em torno dele, Trina.
— Ih, parece que está tendo problemas no paraíso — debochou. — Qual foi, vocês terminaram ou coisa do tipo?
— Não temos nada para terminar. — Estava muito na defensiva, tentei me acalmar. — Ele só não está falando muito comigo depois de me enfiar num canto esquisito da cidade.
Depois da noite em que fui buscá-lo numa área mais esquisita da cidade, tinha ficado esquisito comigo. Ele não falava direito comigo, nem estava mais me encontrando no ponto de ônibus ou marcou para estudarmos juntos. Não sabia o que havia acontecido, mas era melhor assim.
Apesar de sentir sua falta e relembrar mais do que devia da nossa tarde de estudo, estava tentando acreditar que era melhor ficarmos afastados pelo bem de Marzia. Me sentia egoísta toda vez que tinha o só para mim enquanto minha amiga suspirava por ele pelos cantos, esperando pelo momento que ele finalmente a notaria.
— Vocês dois são esquisitos — Trina disse de boca cheia enquanto mastigava. — Mas duvido que ele aceite que qualquer outro cara te escolha essa noite. Ele parece ser um pouco possessivo.
— Igual a irmã — pensei alto.
Trina riu.
— Ei, talvez eu devesse aparecer aí e dar uma surra na por você, que tal? — Dessa vez, eu ri.
— Por favor, Trina, você não mata nem uma barata porque tem medo.
— Mas por você eu enfrentaria essa valentona! Não gosto de ver minha amiga sofrendo bullying de uma patricinha com pontas duplas.
Eu ri.
— Sinto sua falta, Trina — suspirei. — Você é realmente a minha maior heroína.
— Sente nada — disse, cética. — Você tem a Marzia agora. Logo vocês duas serão melhores amigas para sempre, e esquecerá de mim!
Ri alto com a demonstração de ciúme da minha melhor amiga.
— Mas você adora a Marzia, Trina — apontei.
— Adoro mesmo. Mas ela já tem a melhor amiga dela, a versão feminina do Ted Bundy.
Eu realmente sentia falta de Trina, queria que ela pudesse se mudar pro Fiore, e nós três, eu, ela e Marzia, pudéssemos ficar juntas sempre. Era uma utopia que eu amaria viver.
Quem sabe nessa utopia eu e nos daríamos bem e eu não estaria correndo risco de vida cada vez que me sinto mais próxima de .
Mas também soube que nesse mundo os carros voam e não existem mais guerras.
Ouvi passos vindo do corredor e comecei a me despedir de Trina, porque logo Marzia chegaria e eu tinha prometido a ela que a ajudaria em algumas coisas sobre o leilão.
— Vai desligar com a amante por que a fiel tá chegando, né? — Fez cara feia. Eu ri.
— Te amo, Trina.
— Também te amo, . — Soprou um beijinho. — Agora arrasa nesse leilão, fisga o gostosão do e, se a for pra cima de você, foca nas pontas duplas dela.
Mazia entrou no quarto um pouco ansiosa, franzi o cenho. Não estava tão acostumada a ver minha amiga desse jeito. Marzia é sempre tão energética e animada, nunca a via para baixo ou coisas do tipo.
Isso me fazia perder a coragem de contar para ela sobre o meu beijo com o . Desde aquela tarde, isso me assombrava como um fantasma, e tentava ser corajosa para contar algo que saberia que machucaria seu coração. Mas eu era covarde, e pior, uma péssima amiga, porque toda vez que a via, engolia a fala e deixava passar.
Com o leilão se aproximando, eu acreditava que seria um bom momento para contar, assim daria a esperança para que ela saísse com alguém diferente essa noite e, quem sabe, conseguisse superar o .
Mas vê-la meio abatida não estava colaborando para que a verdade saísse da minha boca.
— O que houve, Marz?
A garota encolheu os ombros e se sentou na minha cama, ficando de frente para mim. Suspirou alto e eu já sabia qual seria o assunto.
.
— Acho que não há possibilidade alguma do me escolher essa noite. Ele com certeza já tem outros planos.
— Como assim? — Franzi o cenho.
está apaixonado por outra garota, . Eu tenho certeza disso!
Meu rosto esquentou ao ouvi-la, mas tentei esconder a expressão de culpa que cobria meu rosto. não estava apaixonado por mim, eu sabia disso, mas Marzia não entenderia.
O nosso beijo foi bom, foi real e fez com que eu sentisse as malditas borboletas em meu estômago pela primeira vez, mas não se sentia da mesma forma. Claro que não, se sentisse, não teria sumido e se afastado.
Ele claramente estava me evitando porque confundi as coisas. Ele sempre tentava manter as coisas divertidas e leves, apenas brincadeiras e eu o beijei apenas para mostrar que sentia algo por ele. Agora ele precisava se afastar.
— Não acho que isso seja real, Marz. Nunca vi ele com nenhuma garota.
— Mas é! — suspirou. — Ele está diferente. Ele mudou até a forma que usa o uniforme, o jeito que penteia os cabelos e parece estar sempre tentando impressionar essa garota, e ela com certeza deve ser muito especial para isso. Mas essa garota não sou eu… porque eu gostava do do jeito que ele era, ele nunca precisaria mudar por mim.
Meu rosto estava vermelho e meu coração batia forte. Ele não fez isso por mim, não teria motivos para isso. Marzia jamais pensaria isso, certo? Não teria como juntar essas peças.
— Quem você acha que é essa garota? — perguntei quase num sussurro, tentando esconder a vergonha em minha voz.
— Não faço ideia, mas com certeza descobriremos essa noite. vai ter que escolher alguma garota nesse leilão, é o primeiro que ele vai e todos sempre esperam pelo momento em que o herdeiro Mercy escolherá sua pretendente.
Comecei a me sentir ansiosa. Não sabia o que esperar desse leilão, principalmente porque temia quem pudesse me ganhar essa noite. Agora, me sentia ansiosa porque não sabia em quem faria os lances essa noite.
O que seria pior, ele me escolher ou ele não me escolher?
De qualquer forma, precisava manter o controle da situação. Marzia precisava saber dos meus sentimentos por mim, e não caso me escolhesse no meio de todos e Marzia finalmente juntasse os pontos. Eu perderia minha única amiga verdadeira em Silent Grace e seria apenas minha culpa por ter adiado a verdade por tanto tempo.
— Marz, eu preciso te contar uma coisa…
— O que, ?
Marzia me encarava com seus grandes olhos, ver meu reflexo por eles era aterrorizante. Me sentia mal, me sentia culpada, uma traíra, e isso fazia meu estômago doer, um mal estar subir pela minha garganta, e então a coragem ia embora. Como eu conseguiria contar para minha amiga que eu beijei o garoto que ela era apaixonada desde sempre?
Fui eu quem o beijou. Fui eu quem causei tudo isso.
Não conseguia… eu não conseguia fazer isso com Marzia.
— Trina te mandou um beijo. — Forcei um sorriso. A garota piscou os olhos um pouco confusa, então abriu um sorriso.
— Trina é realmente uma fofa.
Não senti um alívio por ela ter aceito mudar de assunto assim do nada, sem desconfiar ou insistir. Talvez esse não fosse o momento certo para contar a verdade, mas uma hora eu conseguiria. Eu seria corajosa e uma amiga melhor.
— Estou me sentindo melhor. — Marz sorriu. — Vamos, nós temos que escolher meu vestido para essa noite. Eu quero causar muita inveja!
Forcei um sorriso e segurei na mão da minha amiga. Faria tudo que fosse possível para que a noite dela fosse incrível, já que estava mais animada com tudo isso que eu. Enquanto isso, eu faria algo para evitar que o pior acontecesse essa noite.

***

Todas as garotas do Saint Fiore estavam em êxtase por causa desse leilão, esse assunto estava repercutindo muito pelo colégio. Tanto que as leiloadas foram liberadas das aulas hoje, para se prepararem para a noite mais importante da sociedade de San Pellegrino.
Já os garotos estavam ficando loucos, correndo de um lado para o outro, quebrando seus cofrinhos e discutindo com seus pais para tentar conseguir levar uma delas essa noite.
E eu? Bom, eu estava tentando me salvar de uma furada.
— Ei, . — Ouvi a voz de Dante. Ele estava sentado nas arquibancadas fumando alguma coisa e ignorando a existência do mundo. Até que eu apareci.
— Como você sabe que sou eu? — Franzi o cenho e ele sorriu.
— Você anda como a — disse do jeito preguiçoso dele. — Dá pra saber que é você pelo jeito que você anda.
— Isso é realmente possível?
Me sentei ao lado de Dante. Ele continuava fumando, ignorando a minha careta com a fumaça na minha cara. Demorou uns segundos pra ele finalmente se livrar do cigarro porque eu estava incomodada.
— No que posso ser útil?
— Eu queria saber se tem alguma chance de você ir ao leilão hoje — disse. — Sabe, por ser filho do xerife e tal.
— É, não sei — respondeu. — Não curto muito frequentar lugares cheios de mauricinhos, ainda mais um evento que é feito para esses mauricinhos gastarem dinheiro fingindo que se importam com caridade.
Meu queixo quase foi ao chão.
— Por que o súbito interesse na minha presença?
Ok, estava na hora. Emily Dickinson, por favor, feche os olhos aí de cima.
— Não sei se você sabe, Dante, mas eu vou ser uma das leiloadas essa noite, a Nik me forçou e eu não tinha como negar… você sabe. — Encolhi os ombros. — Então, se por algum acaso, se acontecer de você estar lá, você poderia…
— Você quer que eu te compre essa noite? — disse, me interrompendo. Arregalei os olhos e minhas bochechas queimaram. — Tudo pra ter um encontro comigo, é?
Fiz careta.
— Do jeito que você fala, faz parecer que eu tenho uma quedinha por você, Dante.
— Todas as vezes que nos encontramos, só falta você subir no meu colo e me apertar inteiro, como pensaria de outra forma?
Revirei os olhos.
— Não é bem assim…
— Olha, pequena, eu não sei se estarei nesse jantar essa noite, beleza? Mas se existir uma possibilidade de que eu aceite perder o meu precioso tempo com essa merda, eu vejo o que posso fazer.
Tentei esconder o sorriso com as minhas mãos, o ruivo revirou os olhos com toda a minha animação, tentando manter a pose, mas ele queria sorrir. Eu sabia que ele queria sorrir.
— Dante, você realmente faria isso por mim? Você gastaria seu dinheiro apenas por isso?
— Você que está me pedindo, . — Ele fechou a cara. — De qualquer forma, melhor do que você sair com algum mauricinho esquisito com mãos bobas.
Meu sorriso aumentou e não o escondi nem um pouco. Dante era realmente um ótimo amigo, mesmo tentando manter a pose de malvado.
— Prometo que não vai se arrepender. — Abracei Dante, ele pareceu um pouco surpreso com minha demonstração de afeto, e me levantei. — Te vejo mais tarde!
— Eu não disse que vou, .
Mas não o respondi, já estava correndo para longe, animada por ter encontrado alguém que pudesse me salvar essa noite.

***

— Não tem chance de você aparecer no leilão essa noite, né, ?
Estava na biblioteca com , não propositalmente. Foi coincidência. Eu vim para a biblioteca me esconder da vergonha colossal que era fingir interesse por cada garoto que olhou pra mim durante o dia, e ele apareceu.
Eu estava escondida entre as estantes de livros, lendo um livro da Emily Dickinson para lembrar como era ser feminista.
— Não — respondeu, sério.
— É, tentei. — Dei os ombros.
— Eu sei que você está indo de um em um tentando arrumar um pretendente essa noite. — Corei ao ouvi-lo, tentei esconder o rosto nas minhas mãos. — Acho que você venceu o VD pelo cansaço, ele vai quebrar o cofrinho por você.
Suspirei.
— Eu estou agindo como uma vadia? — Fiz bico.
— Não. Desesperada? Talvez. Vadia é muito machista para alguém como você.
Concordei.
— Eu só estou meio assustada com isso. — Encolhi os ombros. — Eu nunca falei isso para ninguém, mas, durante todos esses meses que estou aqui com Nik, ela pode fingir que não, mas ela me trata como se eu fosse uma bonequinha. As roupas que uso, maquiagem, eventos que vou e até de quem posso ser amiga. — Sorri, triste. — Essa noite eu queria fazer as coisas do meu jeito, porque assim pelo menos eu sei que vou estar perto de alguém que eu me sinto confortável e não um cara que ela escolheu a dedo pra mim, porque acredite, , ela escolheu.
Não estava só assustada, estava aterrorizada.
Era fácil participar de festas, eventos e posar como a neta perfeita da Madame de San Pellegrino, mas participar de um leilão em que iria ser exposta para todo bairro e ser tratada como uma peça era algo que me deixava em pânico.
Era difícil de assumir, mas eu sabia que Nik estava tentando ter controle de todos os aspectos da minha vida desde que cheguei em Silent Grace. E também sabia que ela com certeza havia escolhido alguém a dedo para me ganhar essa noite.
Não podia falar isso para Marzia, Trina ou para mais ninguém, porque parecia ingratidão da minha parte estar tão relutante com todo esse esforço que a mais velha está tendo. Quer dizer, quem não gostaria de ter uma avó de alta sociedade que quer ver sua neta com alguém rico, que a dará uma vida incrível, cheia de luxos e que nunca viverá nenhuma necessidade?
Esse era o sonho de todas as garotas do Saint Fiore. Era por isso que todas estavam animadas com esse leilão, porque era tudo que elas cresceram vivenciando e fantasiando, algum garoto ricaço gastando rios de dinheiro apenas por elas. Apenas por um jantar, uma oportunidade de tê-las.
Mas esse não era o meu sonho. Me aterrorizava não saber quem ganharia essa noite e o que eu teria que fazer porque estava sendo praticamente paga para isso. E ainda mais sabendo que havia dinheiro envolvido, caridade envolvida e pessoas que precisavam desse dinheiro que era apenas uma brincadeira para os ricos de Silent Grace.
Me sentia encurralada, sem opção e não queria deixar ninguém na mão. Não queria decepcionar Nik, porque mesmo às vezes um pouco sufocada com tudo isso que ela fazia por mim e me enfiava, ela era minha avó no final das contas.
Podia não chamá-la assim em respeito ao seu pedido, mas Nik Grenier era minha avó, meu sangue, minha família e não queria decepcioná-la.
Então correr atrás dos meus amigos e implorar para que não deixem nenhum estranho me ganhar era a forma de fazer com que pelo menos tivesse um alívio depois disso tudo.
— Por que está me confiando isso? — ele perguntou um pouco confuso. — Se nunca contou pra mais ninguém.
— Porque você entende como é não pertencer a isso aqui. — Encolhi os ombros. — E a verdade é que eu nunca vou pertencer. Só finjo para que parem de pegar no meu pé e eu possa ter um ano calmo.
respirou fundo. Ele era caladão e mais sério, mas eu entendia que ele estava do meu lado, e eu o tinha como um amigo. Esperava que ele me entendesse um pouco.
Senti o meu celular vibrar em meu bolso e verifiquei para saber de quem era a mensagem.
Conversei com a direção, eles te liberaram.
Venha logo se arrumar. Essa noite é muito importante.
Respirei fundo.
— Tenho que ir, o dever me chama. — Balancei o celular e me levantei. continuou sentado.
, não se preocupe, ok? Vai dar tudo certo.
Sorri e acenei com a minha cabeça.
Saí da biblioteca de cabeça baixa e pensativa. Estava tentando levar as palavras de como algo que me desse esperança para essa noite.
Quando saí, cruzei com Mirko no corredor, que pareceu feliz em me ver.
— Ei, , já tá indo? — Sorriu.
— Tenho que me arrumar pra o você sabe o quê. — ele riu. — Você vai essa noite?
— Vou. Meus pais vão estar no buffet.
— Então te vejo mais tarde? — Sorri e ele concordou com a cabeça.
— Até mais tarde, .
Acenei e continuei a andar.
Havia um motivo pelo qual Mirko foi o único dos meus amigos que eu não tinha sugerido tentar me ganhar essa noite e era pela sua amizade com .
O Mercy sempre se colocava entre mim e Mirko, e nunca entendi muito bem o porquê. Talvez ele imaginasse que, por sermos tão parecidos, eu criasse sentimentos por Mirko e de alguma forma o incomodasse um pouco a ideia de eu e Mirko ficarmos juntos.
Mas eu sabia que isso jamais aconteceria.
Demorei um pouco para perceber que o carinho que Mirko tinha por mim era diferente do qual ele tinha por , e eu respeitava isso. Então, não queria enfiá-lo nessas loucuras que inventava fazer, porque se havia alguma chance de sentir alguma coisa por mim, não queria que isso prejudicasse sua amizade com Mirko.
Não entendia ainda muito bem qual era realmente esse sentimento que Mirko sentia pelo amigo, mas sabia que ele nunca faria nada que o pudesse fazer mal. E então, tudo que eu menos queria era causar algum tipo de desentendimento entre os dois.
Principalmente porque não fazia ideia o quão era especial e importante para Mirko.
Às vezes me perguntava como ele não conseguia enxergar como as pessoas se sentiam por causa dele, assim como Marzia ou até mesmo Mirko. Talvez ele só não quisesse enxergar, ou ele tinha medo de notar e fazer algo errado que machuque essas pessoas. Ou simplesmente ele não soubesse o que fazer. Algo em mim achava que não sabia muito bem por que as pessoas gostam dele, não se sentia merecedor do amor dos outros.
Por isso era eu quem estava fazendo de tudo para que ele não machucasse ninguém, sem intenção, porque sabia que tinha um bom coração.
Então eu fui, sem saber muito bem ainda se estava preparada para fazer parte disso. Mas não havia outra opção.
Não havia outra opção além de ser quem a Madame Grenier queria que eu fosse por uma noite.

***

Noite do leilão.
Entrar no hotel dos Mercy foi esquisito, era a primeira vez que pisava lá, e isso era estranho, já que Nik era tão próxima do Aldo Mercy. Ela nunca me trouxe ao hotel, provavelmente uma forma de evitar que eu ficasse no mesmo ambiente dos gêmeos e desmascarar a mentira que Nik contou quando disse que nós éramos grandes amigos.
Todo o hotel estava decorado para o leilão, as pessoas todas bem vestidas como sempre e parecia que os ricos de San Pellegrino gastaram até o último centavo necessário para que todas as atenções estivessem nesse leilão. Tinha até jornalistas com câmeras andando de um lado para o outro.
Triste pensar que eles não dariam metade disso para a caridade se não fosse por esse motivo.
Claro que Myoui estava se sentindo deslocada com tudo isso. Me sentia pequena ao redor de gente grande. E não tinha ninguém que conhecia por perto, o que me deixava até mais desconfortável.
Marzia mandou uma mensagem avisando que demoraria um pouco para chegar e até então não havia recebido notícias de Dante, se viria ou não. Mirko estava ocupado com seus pais e também não havia visto nenhum dos gêmeos até agora.
Nik estava conversando com seus amigos e havia me mandado passear um pouco pelo hotel, como se eu o conhecesse tão bem para sair andando por aí. Mas fiz, porque não sabia mais o que fazer e não queria ficar parada cozinhando a minha ansiedade.
Caminhei pelo enorme salão repleto de mesas e grandes lustres de cristais. Tudo estava tão bem decorado, exalava riqueza em sua mais pura forma.
Algo diferente chamou minha atenção, um som fraco de piano vindo numa área mais atrás do salão. Segui o som sem pensar duas vezes, não sabia muito bem o porquê, apenas segui até que o som se tornasse mais alto e claro.
Cheguei até uma sala que ficava afastada do salão, mas ainda na área dentro dele. A porta preta estava fechada e o som soava mais claro. A música parecia linda e meu coração bateu mais forte. Me sentia atraída a esse som, queria abrir a porta e ver quem estava tocando essa música tão linda.
Segurei a maçaneta e pensei melhor, será que deveria fazer isso? Atrapalhar quem quer que seja que estava tocando apenas por minha curiosidade?
Bom, a resposta não importava porque abri a porta de qualquer forma.
Adentrei na sala, que parecia ser uma sala de instrumentos velhos e a única coisa que parecia estar em ótimo estado era o grande piano de cauda preto. Além dele, tinha sentado em silêncio e tocando no piano com toda calma do mundo.
Seus dedos passavam pelas teclas mostrando que conhecia a melodia que tocava de cabeça. Ele não tinha nenhuma reação no rosto, apenas estava olhando para o piano enquanto tocava de forma majestosa.
— Ei, . — Ouvi sua voz grave e rouca saindo do nada e me arrepiei completamente. Não estava com seu tom animado de sempre.
O que me surpreendeu foi que sabia que eu estava ali sem ao menos eu ter dito qualquer palavra. Como sabia?
— Como você sabia que era eu? — a minha voz saiu fraca e baixa.
Se ele dissesse que me reconheceu porque eu andava igual a , eu ficaria louca.
— Seu perfume. — Deu um sorriso fraco. — Acho que reconheço ele mais do que deveria.
Não precisava dizer que estava corada, já é óbvio que estaria. Não há muita novidade nessa parte. Além disso, conseguia ouvir meu coração batendo forte e não sabia muito bem o que dizer.
Às vezes, me pegava desprevenida, ou eu apenas era péssima em qualquer interação social e nunca soube disso.
— Eu não sabia que você tocava tão bem assim. Desculpa por ter interromper, de verdade. — Encolhi os ombros.
sorriu, agora de verdade. Seus olhos se encontraram com os meus pela primeira vez e senti meu corpo todo se esquentar, meu coração bater mais forte e jurava que seria capaz de rir que nem uma garotinha apaixonada por causa disso.
A forma com que ele me olhava era tão…
— Você está linda.
Minhas bochechas já estavam em seu tom de pimentão como sempre, e abaixei a cabeça, cortando o contato visual.
— Obrigada… você também está muito bonito.
— Eu sei, eu sou realmente muito gato, não sou? — Sorriu para mim. Adorava a autoconfiança de , queria poder ser assim e receber elogios sem ficar roxa de vergonha.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu queria dizer algo, mas não sabia muito bem o porquê, e encarava o piano de forma esquisita, parecia triste, talvez.
— Minha mãe — disse, chamando a minha atenção. — Minha mãe me ensinou essa música quando eu era pequeno… a que eu estava tocando. Era sua música favorita.
Meus olhos brilharam com sua informação. Eu gostava quando contava alguma coisa sobre ele, alguma coisa de verdade. Queria conhecê-lo melhor sempre, saber de coisas que ele guarda para si mesmo sem coragem de contar para ninguém. Eu faria o mesmo por ele.
E sabendo sobre o que aconteceu com sua mãe por Marzia que me contou assim que perguntei, isso deixava as coisas ainda mais especiais. não se abria muito sobre sua mãe para ninguém e, se estava me confiando isso, era porque ele queria que eu soubesse.
E eu ficava feliz por isso. Ficava feliz em saber que era especial para .
Caminhei até ele e me sentei ao seu lado no banco grande que ele estava sentado. Ele arqueou as sobrancelhas um pouco surpreso, isso me fez sorrir.
— Como você me achou aqui? Ninguém conhece essa sala.
Poderia dizer que a música me atraiu até ele, mas isso soaria esquisito e não queria que me achasse uma maluca perseguidora depois de passar dias sem falar direito comigo.
— Estava sozinha lá no salão, então Nik me mandou passear e foi o que fiz. — Encolhi os ombros um pouco envergonhada. — Então eu ouvi a música e fiquei curiosa.
— Que bom que minha música te atraiu até mim.
Ele colocou sua mão sob a minha que estava esticada no banco. Senti o calor de seu toque e meu coração se sentiu confortável. Achava que não tinha noção de quanta falta fazia até ficar sem vê-lo.
— Obrigada por dividir comigo… sobre sua mãe.
— Só me perguntar qualquer coisa e eu sempre vou te dizer, . — Sorriu. — Sou um livro aberto para você.
— Eu achei que não falaria mais comigo. — Abaixei a cabeça para que ele não visse o quanto isso havia me chateado. — Eu fiz algo de errado?
notou e segurou em meu queixo levemente, levantando o meu rosto para que nos encarássemos. Via seus olhos e ele via os meus. Parecia que podia lê-lo completamente nesse momento.
Ele não era o gêmeo mau do Saint Fiore, o herdeiro do barão dos hotéis e nada mais. Era apenas o . O que eu gostava.
— Eu sou um idiota — disse, em um suspiro. — E você não fez nada de errado, , pelo contrário. Sou eu quem estraga tudo, lembra?
— Não é verdade,
— É sim. — Sorriu, sem mostrar qualquer chateação. — Dessa vez, eu estava tentando fazer a coisa certa… mas fazer a coisa certa é um saco e eu não aguento ficar longe de você.
Que coisa certa? Ele finalmente descobriu como Marzia se sentia por ele e então se afastou de mim para não magoá-la?
— Como assim?
— Me senti culpado por te arrastar até aquele lugar perigoso, então achei que, me afastando de você, não te enfiaria mais nas minhas besteiras. — Deu os ombros.
Então ele não sabia sobre Marzia… droga. Voltamos para a estaca zero, onde eu ainda estava magoando minha melhor amiga pelo meu egoísmo.
— Mas o que você estava fazendo lá naquela noite? Não foi a mesma coisa que te deixou ferido naquela noite em que nos encontramos no dormitório, ou foi?
Perdi por um momento, ele parecia estar pensando em sua resposta e então coçou a nuca, um pouco desconfortável.
— Você se lembra disso? Faz tanto tempo… — riu fraco. — De qualquer forma, não foi nada. Só estava ajudando o VD com umas coisas, sabe como é.
Ele estava sendo vago, eu sabia disso. Estava me escondendo algo e eu deveria ser curiosa e perguntar. Mas eu também estava o escondendo algo, sobre a Marzia e seus sentimentos por ele.
Ou até os meus sentimentos por ele.
— Não faça isso de novo — pedi. — Não desapareça.
— Não vou, . — Sorriu. — Você nunca vai se livrar de mim, pode apostar. E pode ter certeza, eu sou muito grudento.
Lá estava novamente, com todo seu charme e jeito bobo, sorriso lindo e o coração que eu tanto gostava. Como deixei isso acontecer? Como caí tão fundo nisso? De qualquer forma, me sentia bem com ele ali.
aproximou seu rosto do meu e eu sabia o que aquilo significava. O toque leve em minha bochecha, o leve carinho que fazia meu coração bater forte. Nossas respirações se misturando e seus lábios tocando os meus.
Era tão bom beijar , mas era melhor ainda ser beijada por ele.
A lentidão e delicadeza, um beijo carinhoso. Se eu pudesse ler os pensamentos de ou adivinhar seus sentimentos, poderia dizer que seu coração batia da mesma forma que o meu naquele momento, e que ele sentiu tanta minha falta quanto eu a dele.
Só queria esquecer de tudo lá fora, de todas as coisas que eu precisava fazer e a garota que tinha que ser para agradar minha avó e meu pai que precisa de mim. E viver apenas nesse momento, que demorei anos para finalmente sentir.
Temia o amor, porque o vi assombrar o meu pai durante meus dezoito anos. Mas por que o temi tanto se era tão bom quanto estava sendo agora?
Mas assim que nosso beijo acabou, a minha realidade voltou e eu já não estava com meu coração tranquilo como estive segundos antes. Sentia só a culpa do que estava fazendo, como se estivesse vivendo como uma pecadora.
A testa de estava encostada na minha e ele ainda acariciava meu rosto delicadamente, fechei meus olhos e deixei-me levar por aquele sentimento. E então as palavras saíram de minha boca.
O segredo que não era meu para contar.
— Marzia está apaixonada por você — disse de uma vez, me culpando no momento que saiu de minha boca.
arregalou minhas sobrancelhas e ele se afastou por um instante. Me arrependi no momento de tudo isso e queria apagar isso de sua memória, mesmo sendo tarde demais.
— Como? Isso é sério?
— Claro que é, — suspirei, triste. — Ela praticamente corre atrás de você como um cachorrinho, suspirando e esperando o momento que você finalmente vai se declarar para ela porque acredita que você gosta dela.
piscou os olhos, confuso. Eu não devia ter feito isso, não devia ter contado isso. Não era o meu segredo para contar, não eram os meus sentimentos.
— Mas ... a Marzia é minha amiga. A nossa vida inteira. E eu a amo, de verdade, mas como uma irmã, e todo mundo sabe disso.
— Ela não sabe. — Encolhi os ombros. — Ela não sabe... e eu sei. Eu sei e mesmo assim não consigo ficar longe de você mesmo sabendo que estou vivendo algo que ela deveria viver, e não eu.
Não estava chorando, mesmo sentindo o aperto em meu coração em me abrir para dessa forma. Não queria chorar, porque não queria mais me sentir tão triste com toda essa situação.
me encarava com suas duas sobrancelhas arqueadas, sem entender o que havia acabado de jogar em sua cara.
Então segurou em minha mão, apertando-a levemente. Sentia o seu calor e sabia que estava tentando assimilar tudo isso de uma boa forma.
— O que eu posso fazer, ? — perguntou. — Posso conversar com Marzia e explicar para ela que a amo, mas como uma irmã, e resolver isso. Posso consertar tudo, se me deixar. E ela vai aceitar porque ela é incrível e vai encontrar alguém tão incrível quanto ela e que a mereça.
Seria tão mais fácil, mas por que não parecia o certo? Porque me sentia ainda pior só pensando na possibilidade de ele estourar a bolha em que Marzia vivia feliz imaginando o momento em que teria .
— Eu não sei. — Dei os ombros, estava chateada.
Não havia nenhuma solução em que Marzia não terminaria de coração partido. De qualquer forma, ela não me perdoaria, não só por ter aberto seus sentimentos por sem ela saber, como também por estar próxima dele e nunca ter falado nada para ela.
De qualquer forma, ela me odiaria e não sei se conseguiria viver com essa culpa. Não aguentaria perder minha única verdadeira amiga em Silent Grace.
— Eu tenho que ir — disse baixo e me levantei. — Nik deve estar me procurando.
Rapidamente, já estava me afastando de antes de dá-lo uma chance de falar qualquer coisa ou fazer qualquer coisa que me impedisse de ir. Minha cabeça estava uma bagunça e eu já me sentia a pior pessoa do mundo, não queria me sentir pior ainda em ver a decepção em seu rosto por me assistir fugindo dele.
Tudo que queria era passar por esse leilão em segurança, voltar para casa e dormir até que a dor de cabeça passasse, e então eu consertaria toda a bagunça que fiz.
Mas parecia que essa noite demoraria muito para acabar.

***

Às vezes, queria minha mãe aqui. Da forma mais infantil do mundo. Queria poder chamá-la e então ela viria dizendo: , estou aqui.
E então ela me ajudaria a lidar com qualquer merda que eu estivesse tendo que lidar naquele momento.
Quando eu tocava esse maldito piano, se eu fechasse os olhos, eu conseguia me imaginar criança novamente, sentado ao lado da mulher que mais amei no mundo, enquanto ela me ensinava tocar sua canção favorita entre risadas e carinhos.
Nesses momentos, eu queria tê-la aqui, para que ela cuidasse de mim e dissesse que estava tudo bem. Era cansativo não ter ninguém com quem contar ou conversar, era difícil não ter o amor dela.
As coisas com eram diferentes, eu precisava ser o irmão mais velho dela, o que a irritava, mas estava sempre com ela. Ela não podia carregar o fardo de cuidar de mim.
acreditava que eu não a amava, que eu não a tinha como a pessoa por quem eu morreria se precisasse. Eu realmente não era o melhor irmão do mundo, já nasci estragado quando desde o berço tive que viver sob as expectativas de Aldo.
E no fim, tudo que eu precisava para me curar dessa desgraça era uma pessoa que não estava aqui comigo, que havia me abandonado e, mesmo que eu a amasse, eu a odiava por isso.
Talvez fosse por isso que eu tinha essa personalidade carente que corria atrás da garota mais doce do Saint Fiore. Porque ela me lembrava quem eu perdi, e talvez, se eu a tivesse, eu conseguisse preencher esse maldito vazio em mim.
E aí, eu poderia ser um cara melhor. Ser um irmão melhor para . Viver sem essa nuvem cinzenta em cima da minha cabeça que Aldo colocou ali.
Mas essa garota era praticamente impossível e tê-la parecia um sonho distante, algo que só vivia em minha imaginação porque nunca daria certo.
sempre escorregava entre meus dedos. Num momento, a tinha ali, toda doce e se abrindo para mim, me deixando beijá-la e aquecendo esse meu coração todo estragado. No outro, ela estava jogando uma bomba em meu colo, depois fugindo de mim.
Como eu poderia consertar algo que eu nem sabia que estava quebrado, e toda vez que tentava fazer alguma coisa, parecia que estava as piorando ainda mais?
Eu simplesmente não sabia mais o que fazer.
Não sabia por que me sentia assim sempre que estava com ela. Eu só queria entender por que tudo estava tão confuso dentro de mim.
Como eu queria ter alguém para conversar sobre isso.
Minha mãe me ensinou a tocar a mais bela canção, mas nunca me ensinou a lidar com a mais bela garota. Como eu a queria aqui agora.
Eu continuei trancado na sala por mais um tempo. Não sei se foram minutos ou horas depois que saiu, porque perdi a noção do tempo.
Voltei a tocar a canção para me distrair um pouco, se eu conseguisse clarear minha mente, eu poderia pensar numa solução para todos os problemas. Se eu arrumasse uma forma de lidar com Marzia sem machucá-la, as coisas entre mim e poderiam funcionar, e então, pela primeira vez, eu teria feito tudo certo.
Claro, tirando pelo fato que eu mentia e escondia coisas para a garota. Então, de qualquer forma, eu nunca iria fazer a coisa certa.
Percebi a porta se abrindo novamente e, pelo perfume, sabia que não era . Seria bom demais ela ter voltado me chamando para fugir dali, de San Pellegrino ou melhor, de Silent Grace. Eu fugiria com ela, se me pedisse.
Mas nunca fugiria comigo. Ela teria uma crise de pânico no momento que pisasse fora da cidade e se tocasse que iria perder aula na segunda-feira.
— Sua mãe realmente amava essa canção. — Ouvi a voz do meu tio Bosco. — Ela te ensinou direitinho. Quase consigo enxergá-la ao seu lado tocando junto.
— Se Aldo ouvir isso, ele vai queimar esse piano na hora. — Sorri, triste. — O que está fazendo aqui, tio?
— Vim procurar você, claro. O hotel é grande demais, mas só existe um lugar que meu afilhado se esconde, e é aqui.
Sorri. Adorava meu tio Bosco por isso, ele me conhecia bem e isso me deixava confortável. Não conseguia me abrir de verdade para ele, porque não conseguia fazer isso com ninguém de qualquer forma, mas com ele algumas coisas eram mais fáceis.
Talvez fosse assim o sentimento de ter um pai.
— Sou muito previsível, não sou?
— Só um pouco — riu. — Bambino, posso te perguntar uma coisa?
— Já perguntou. — Sorri, brincalhão. — Claro, tio, pode mandar.
— Você estava com a novata que a sua irmã odeia, não estava? — Cruzou os braços e vi o sorriso divertido. — Pode confiar em mim.
Falar sobre com Bosco foi algo que eu nunca fiz, porque já devia ter enchido os ouvidos dele dizendo como ela era a neta de Grenier e era igual a avó, por isso era péssima e todos os Mercy deveriam ficar longe dela.
Mas não era como se realmente conhecesse e não fosse apenas implicante. Se a conhecesse, a adoraria, assim como eu.
— Ela me ouviu tocando e veio me dar um oi, só isso. — Dei os ombros como uma criança pega fazendo coisa errada. — Sou inocente, pode falar para .
Bosco riu.
— Ei, sem julgamentos. Eu já fui jovem um dia. — Sorriu. — E, bom, não tem problema algum você estar caidinho por ela, bambino.
— Quem disse isso? — Franzi o cenho.
— Ora, , não aja como se eu não percebesse as coisas — riu. — O jeito que você parece um cachorro babão quando a vê passar ou até como andou contando dinheiro para saber o quanto poderá gastar essa noite para levar essa garota.
— E isso é um crime? Isso não quer dizer nada!
Bosco riu novamente. Claro que ele sabia que eu estava caidinho por , provavelmente todo mundo já percebeu essa merda. Menos a , claro. E a Marzia.
Não conseguia disfarçar muito bem as coisas. Não menti quando disse que era carente e grudento, eram fatos.
— É a primeira garota que você gosta de verdade, não é? Eu e sua irmã duvidávamos que isso poderia acontecer. — Sorriu.
— Eu tô fodido, não tô?
— Não, é normal. Ela é uma garota especial, até eu consigo perceber. — Tocou meu ombro. — Mas posso te dar um conselho?
— Claro, tio.
— Você é como um filho para mim, você sabe. Você e são minha família, eu faria qualquer coisa por vocês…
— Eu sei disso.
Bosco sempre teve um carinho muito grande por nós, desde criança e principalmente depois que Donna… por isso o respeitava tanto e nunca duvidei de nada dele, porque sabia que fazia o melhor para nós.
— Briguei com Aldo, um pouco antes de vir procurá-lo. Foi uma briga um pouco feia, não sei como as coisas ficarão por causa disso.
— Eu ouvi Aldo e Grenier conversando — começou. — Alguma coisa sobre esse desejo louco de Aldo em noivar você antes da formatura para que você case o mais rápido possível para já começar a se envolver mais fielmente nos negócios da família. E você sabe o quanto sou contra isso, ele não pode te obrigar a casar, por Deus!
— Isso eu sei. Ele está o ano inteiro enchendo meu saco com isso de casamento, só não entendi onde entra nisso.
— Você sabe como Grenier é louca para ser uma Mercy, certo? — me relembrava disso diariamente, como a velha Grenier tinha um tesão absurdo em fisgar meu pai e ser uma Mercy de qualquer forma. — Ela sabe que com seu pai não acontecerá nada, então só sobrou o último recurso dela: a neta.
Senti meu estômago embrulhar ao ouvi-lo. Seria real isso? A velha estava enfiando a num plano sujo de tentar ser uma de nós sem a garota ao menos querer isso?
— É o casamento perfeito, . Você e . A união das duas famílias mais fortes de Silent Grace. Imagina se Aldo perderia a oportunidade de fazer o negócio do século — riu, amargo, claramente desaprovando essa ideia. — Se unir os negócios Grenier com os negócios Mercy, a Madame e o Barão serão imparáveis.
— Não acho que isso seja real, tio. Você está fantasiando um pouco.
— Por favor, , você é muito mais inteligente que isso — me deu bronca. — Você acha que foi uma simples coincidência? A garota chegou do nada em Silent Grace e logo já entrou no dormitório da sua irmã? Os eventos, os vestidos caros e tudo que a Madame está fazendo por ela que nem seu sobrenome quer usar? É como num concurso de beleza, a Madame está montando a Miss perfeita. Mas a coroa que ela quer para a bambina é a de diamantes junto com o véu e a grinalda, junto com a aliança com o nome Mercy cravado nela.
— Mas não tem nada a ver com isso! — quase gritei, tentando defendê-la. — A garota não tem culpa do caráter pobre da avó dela. não é como as garotas daqui, todo mundo sabe.
— Eu sei, bambino. — Sorriu, triste. — Apesar do que sua irmã dá a entender, eu sei que essa garota é diferente das outras de San Pellegrino. E é por isso que briguei com seu pai, porque não quero que ele a envolva nisso. A garota é inocente, ela realmente gosta de você, e você dela. Aldo e a Grenier farão questão de estragar tudo, estragá-la. Principalmente se você a escolher essa noite.
— Como assim?
— Todos os jornalistas estão aqui esperando por isso, , esperando por você. No momento que escolher , as capas dos jornais e sites de fofoca só vão comentar sobre quem o herdeiro do Barão dos hotéis escolheu para ser sua pretendente. Você acha que Grenier e Aldo já não tem as manchetes preparadas? Você acha que eles não sabem que você vai a escolher essa noite? , eles planejaram tudo isso desde o momento que ela entrou na sua vida.
Tudo ao meu redor começou a girar, como se estivesse prestes a cair duro no chão. Droga, o que Bosco estava dizendo? Não fazia sentido… não podia ser.
— A forma como Aldo começou a tocar mais ainda no assunto de casamento depois que você conheceu a garota mesmo sabendo o quão contra você é. A forma como Grenier fazia a cabeça da garota para ficar longe de você de todas as formas, sabendo que isso só ia a aproximar ainda mais vocês dois. Até com esse ciúme dela e implicância com a garota ajudou para que Grenier e Aldo tivessem sucesso. O problema de vocês é achar que são mais espertos que as duas pessoas mais influentes de Silent Grace.
Não queria acreditar em nada que Bosco estava falando. Não podia imaginar que estaria envolvida nisso tudo, mas sinceramente, não conseguia duvidar que meu pai e Grenier fariam o que fosse capaz pra conseguir o que querem.
Mesmo se usar para isso.
— Disse para Aldo essa noite em nossa briga que eu não poderia deixar com que ele fizesse isso. Ele vai destruir o que vocês sentem um pelo outro, porque estará fazendo dinheiro em cima dos seus sentimentos. Ele vai sugar até que renda o último centavo, então… você sabe o fim disso. O mesmo que o da sua mãe.
Isso seria real? Aldo seria capaz de acabar com ao ponto de ela ter o mesmo fim que Donna? Era por isso que eu gostava tanto da garota? Por que sabia que a perderia da mesma forma que perdi minha mãe?
— O que eu faço, tio? — Tentei não demonstrar meu desespero com tudo que ouvi. Minha cabeça estava uma bagunça, não sabia o que fazer.
— Deixa que eu resolvo tudo isso, — disse e segurou em meu rosto com as duas mãos. — Confia em mim, eu vou cuidar de tudo isso e garantir que os dois não consigam o que estão planejando.
— Você não fará nada com a , certo? Você promete?
Ele assentiu.
— Eu prometo, . Eu pude evitar isso anos atrás com Donna, mas não fiz nada. Não vou deixar com que isso aconteça com , eu te prometo.
Assenti.
Meu maior medo era envolver no meio de toda a merda da minha família, mas esqueci que a merda estava na família dela também. A melhor opção era que nós nos afastássemos mesmo, ou alguma desgraça aconteceria.
Não deixaria Aldo vencer. Eu prometi a mim mesmo que tudo isso acabaria comigo e , e ia acabar.

***

Nunca estive tão ansiosa assim em toda a minha vida. Era uma sensação esquisita saber que estaria sendo leiloada. Mesmo sendo por uma boa causa, não me sentia confortável em ser vista dessa forma, como um item caro.
— Mal posso esperar pela minha vez. — Marzia estava agitada. — Quem será que vai me escolher? Meu Deus... tem tantos caras bonitos aqui, e o ... — Seus olhos brilhavam.
Meu estômago se agitou de forma estranha quando ouvi seu nome e involuntariamente me virei para vê-lo em sua mesa. Era esquisito, mas essa noite estava parecendo , com uma expressão de “não me importo”, nitidamente entediado, como se não quisesse estar aqui, e irritado. Era estranho porque, quando estive com ele mais cedo, ele ainda não estava tão distante assim.
Não sabia o que poderia ter acontecido, mas encontrei com seu tio depois de sair da sala de instrumentos, procurando por também. Talvez fossem problemas de família e isso me deixava ainda mais preocupada com .
guardava tanta coisa dentro dele e não se abria para ninguém. Ele carregava uma tristeza muito grande, um peso muito forte com tudo isso de ser um Mercy, isso o impossibilitava de ser verdadeiramente feliz. Eu queria poder ajudá-lo com isso, queria mostrá-lo que podia ser feliz e era digno de amor, de felicidades e de tudo que imaginava que não era.
Mesmo fugindo dele mais cedo ou me sentindo péssima pela forma que joguei tudo sobre Marzia em seu colo do nada, nada havia mudado. Duvidava que mudaria. Era tarde demais para viver uma vida em que não dominasse o meu coração.
Quando mais perto ficava dele, percebia que não conseguia ficar longe dele, e me magoava ter que magoá-lo para proteger Marzia. Estava muito confusa com meus sentimentos, porque não sabia ao certo até onde estava fazendo isso para proteger Marzia ou proteger a mim mesma.
Por um momento, meu olhar e de se cruzaram, mas dessa vez foi ele quem desviou, e senti um arrepio em minha pele.
O som da apresentadora do leilão falando no microfone me tirou do transe. Ela chamou o nome de Marzia, que se levantou num pulo e foi para o palco. Sussurrei um “boa sorte” e ela sorriu.
Minha amiga estava mais animada com tudo isso que eu, tinha certeza de que essa noite ela conseguiria sair com alguém interessante. Quem sabe, um herdeiro ricaço para ser seu novo pretendente?
Mas a situação não estava tão boa assim.
Os lances para Marzia eram muito baixos, chegavam até ser humilhantes vindo de gente que tem muito dinheiro. A maioria eram alguns garotos esquisitos, outros pareciam só estar fazendo piada e eu conseguia ver o olhar assustado de Marzia, decepcionada e humilhada.
Então de repente.
— Cinquenta mil euros. — A voz familiar me fez gelar. estava de pé e o salão todo ficou em silêncio ao ouvi-lo.
Os olhos de Marzia brilhavam.
Todos ficaram em silêncio esperando um próximo lance. Confesso que eu mesma estava esperando para que alguém diferente desse um lance mais alto. Mas o silêncio só foi quebrado com o anúncio da apresentadora.
— Parabéns, Marzia, você terá um jantar com Mercy — a mulher anunciou e todos aplaudiram.
A escolha de pareceu chocar seu pai em sua mesa, que murmurou algo para ele. Mas para o resto do salão, sua escolha foi incrível. Os fotógrafos tiravam fotos dele e de Marzia, como se anunciassem o novo casal da realeza.
Minha cabeça estava confusa e meu coração também. Mas uma parte de mim estava tão feliz por Marzia, ela finalmente estava realizando algo que quis por tanto tempo. E era o que eu quis para ela desde o início, que ela tivesse uma noite perfeita.
Para ela não teria como ser mais perfeito que isso. Mesmo que, para isso, eu tivesse que perder .
— Eu consegui, eu vou jantar com o ! — Marzia me abraçou forte. — Foi tão mágico, como num filme... ninguém me queria, até que o único que eu realmente queria me quis.
As palavras de Marzia doíam em mim. Ela estava tão feliz...
— Você merece tanto, Marz. — Sorri como pude, tocando em seu ombro. — Aposto que vocês terão um jantar maravilhoso.
— Finalmente, , depois de anos... — Ela sorria de orelha a orelha. — Eu mal posso acreditar! Imagina só quando a souber!
Agradeci mentalmente quando a apresentadora chamou meu nome, a ansiedade estava me consumindo, e depois de ter a certeza que não teria como me ganhar essa noite, nada mais fazia tanto sentido.
Me levantei e respirei fundo, caminhei até o palco tentando me acalmar e focar no que importa.
A caridade era tudo que importava. Estava fazendo o bem para que mais precisa, não importa quem me escolha. Era só um jantar, era só isso.
No palco, confirmei o fato de que odiava ser o centro das atenções. Todos os olhares estavam em mim e parecia que eu era o prato principal de um restaurante só de famintos. Todos os olhos, menos um, que fingia que eu não existia.
Os lances já começaram altos com dez mil euros. Muita gente falando ao mesmo tempo, muitos alunos do Saint Fiore e outros que nunca vi na vida, provavelmente alunos da universidade de San Pellegrino. Isso não estava sendo reconfortante para mim, não estava aumentando meu ego ou nada do tipo.
Estava me aterrorizando.
Eu não conhecia nenhum desses rostos, qualquer um deles poderia me levar para jantar e eu nem sabia quem eram.
— Quarenta e oito mil euros. — Um rosto familiar apareceu no meio de todos. Era Filipo, o primo de Dante. Ele era familiar, pelo menos, e não parecia um rapaz ruim.
Meus olhos involuntários procuraram pelos de quando o lance foi dado e pude ver a forma com que encarava Filipo. Seu tio ao seu lado pareceu até tentar segurá-lo. Esquisito…
— Cinquenta mil euros.
Mirko apareceu e meu coração bateu mais forte com o alívio de ver o rosto de um amigo. Mesmo não querendo envolvê-lo nisso tudo, porque também notei que não pareceu gostar.
— Cinquenta e um mil euros — Dante disse do nada, com seu tom preguiçoso de sempre e sabia que ele estava fazendo isso para me divertir. Ele fez um joinha com a mão e eu abaixei a cabeça para rir sem ninguém perceber.
Idiotas — Filipo murmurou e depois revirou os olhos. — Cinquenta e cinco mil euros. — Ele me encarou e piscou para mim. Ok, ele era meio estranho, para ser sincera.
Mirko olhou para Dante, que olhou para ele de novo e os dois semicerraram os olhos como se fosse uma cena de faroeste onde um dos cowboys quer dar o primeiro tiro.
— Setenta e cinco mil euros — disseram juntos e a anfitriã parecia confusa e sem ao certo saber para quem dar o lance.
— Setenta e seis mil euros, porra — Dante falou novamente, agora mais rápido que Mirko, que revirou os olhos irritado. Ele sorriu para mim, colocando as mãos dentro de sua calça social.
Para ser sincera, depois disso eu queria sair com os dois juntos e abraçá-los dizendo que eram os melhores do mundo e eu os amava. Os apertaria até esmagá-los.
Depois, Dante poderia espalhar para o Saint Fiore que eu tinha uma queda por ele, não me importava. Eu realmente o amava, ele era o melhor amigo que eu poderia ter.
Quando todos ficaram em silêncio, eu agradeci.
— Dou-lhe uma... dou-lhe duas...
— Cem mil euros — a voz alta silenciou todos do salão e eu prendi o ar. Esse homem eu também conhecia, ele tinha cabelos longos penteados para trás e estava sentado na mesa de . Era o tio dele, Bosco.
Havia o visto no corredor depois que conversei com na sala de música. E jamais seria capaz de imaginar que ele tentaria me ganhar essa noite.
Todos ficaram em silêncio, os garotos me encararam sem saber o que dizer porque o lance de Bosco era muito alto para ser coberto.
Então o veredito foi dado e ninguém conseguiu fazer nada para me ajudar.
— Parabéns, , você terá um jantar com Bosco Mercy — a mulher anunciou e o salão todo aplaudiu. As vozes pareciam distantes, porque estava em choque e tudo que ouvia era um zumbido em minha cabeça e meu coração batendo forte, sufocando meus pulmões.
— Espera… — tentei chamar a atenção da mulher para que pudesse tentar impedir isso, mas ela nem ligou para mim.
Os flashes começaram junto com os aplausos. Eles me cegavam enquanto eu descia as escadas do palco cambaleando e era fotografada ao lado de Bosco, até que Madame Grenier apareceu e ficou ao meu lado, participando das fotos juntos como se tivesse me “entregando” a Bosco.
Meu estômago estava revirado e eu tremia. Não tinha reação, não sabia o que fazer.
Fiz de tudo para que isso não acontecesse e eu pudesse sair com meus amigos, com alguém que eu confiasse e tivesse controle do que pudesse acontecer. Mas, em um segundo, deu tudo errado e eu fui vendida por um homem desconhecido.
Pelo Mercy que eu não queria.
Nik me puxou para um canto e me entregou minha bolsa, junto com meu casaco. Franzi o cenho, sem entender.
— Eu já conversei com o motorista, ele irá te levar para o local do encontro e Bosco te esperará lá. — Grenier sorria, animada demais com tudo que aconteceu. Franzi o cenho.
— O jantar vai ser agora? — me desesperei.
— Bosco quis agora. — Meu estômago se embrulhou mais ainda.
— Não posso ir, Nik — tentei impedir de qualquer forma que isso acontecesse. — Eu tenho que estudar com Marzia essa noite… nós já havíamos combinado e eu não posso…
— Você não entendeu, querida — me interrompeu. — Bosco quer o jantar agora, então você está indo. — Sorriu. — Não tem problema, querida, vai dar tudo certo. É só um jantar. — Ela acariciou meus ombros. — Você está linda e tirou a sorte grande, Bosco é um ótimo homem e não fará nada de errado, não se preocupe, está em boas mãos.
Não tive chance de responder, porque Nik já estava me empurrando para fora do salão. Me despedi de Marzia com um aceno e ela ainda não parecia muito feliz com o que aconteceu.
Passei por Miko e VD, que pareciam muito mais confusos que eu com tudo que aconteceu, e não sabia o que fazer. Até que passei pela mesa dos Mercy que agora estava vazia, e senti um frio em meu estômago.
Será que sabia disso? O que ele achava sobre o seu tio ganhar um jantar comigo? Meu coração batia forte, eu estava assustada e sem saber o que fazer. Queria sair correndo de lá, mas não conseguia.
Minhas pernas foram contra a minha própria vontade até o carro e, quando me vi sentada lá sozinha, eu finalmente percebi o quanto eu estava com medo.

***

A viagem de carro foi muito mais longa do que eu esperava. Achei que ele me levaria para algum restaurante clássico de San Pellegrino, mas percebi que estávamos indo para uma área desconhecida da cidade.
— O senhor poderia me dizer para onde está me levando? — perguntei. Minha voz saiu trêmula e eu ainda tinha minhas mãos tremendo de tanto nervoso.
— Para o farol.
— Farol?
O motorista parou o carro e pela área eu percebi que estávamos perto da praia de Silent Grace. Nunca havia vindo aqui antes, principalmente não nessa área que ficava mais perto das pedras e do mar que da praia em si.
Tinha um grande farol de pedra lá dentro. Alto e antigo. Meu corpo tremeu ao vê-lo e eu gelei.
— E-eu não consigo — disse, tremendo. — É muito alto. Tenho medo de altura.
— O senhor Mercy está te esperando lá em cima — o motorista disse, sem ao menos se importar comigo. — Vá logo ou fique aqui no meio da estrada, você quem sabe.
Não podia sair correndo de lá, o homem era um armário e provavelmente não me deixaria ir embora de jeito nenhum. Não tinha outra opção a não ser engolir o meu medo e subir nesse farol para encontrar Bosco e acabar com isso.
Nik disse que ele era um homem legal, correto e de bem. Não precisava ter medo dele, certo? Os gêmeos adoram o seu padrinho até mais que seu próprio pai, então ele não poderia ser um homem ruim.
Respirei fundo e fui caminhando até o farol, pela ponte que ficava entre as pedras e ele. Tinham muitas pedras ao redor do farol, o que o deixava mais perigoso e até assustador.
Por dentro, ele parecia menos degradado que por fora. Parecia limpo e bem cuidado. Subi as escadas, um degrau de cada vez, controlando minha respiração e evitando de qualquer forma olhar para baixo e ou me dar conta da sensação de altura.
Subi até o topo, lutando contra as minhas pernas que em certo momento travaram e não queriam subir mais.
Quando cheguei, meu corpo todo tremeu e eu tive uma sensação de mal estar muito forte pela altura. O topo do farol era aberto e eu só conseguia ver água e pedras ao meu redor lá embaixo. Cair dali seria fatal.
Fui capaz de reparar a mesa que Bosco havia feito para mim e toda a decoração. Com pétalas de várias cores no chão, uma mesa de centro com velas e flores. Além de dois homens tocando violino. Era literalmente cena de filme. Tudo tão delicado e detalhado. Era realmente muito bonito.
Mas também não parecia ter sido feito em cima da hora. Isso já estava preparado com antecedência. Bosco já planejava me comprar de qualquer forma? Foi ele quem Nik escolheu para me ganhar essa noite?
— Você chegou.
Bosco apareceu todo bem vestido, exalando elegância com seu terno caro e segurando um buquê de flores. As flores eram lindas, as mais lindas que já vi.
Mesmo assim não me sentia confortável. Não por causa dele. Talvez fosse pela altura ou pela forma que as coisas foram muito rápidas. Eu precisava de um tempo para conseguir lidar com tudo isso.
Bosco reparou que eu estava tremendo e veio até mim, um pouco preocupado.
— Está tudo bem, ?
Tentei assentir.
— E-eu tenho um pouco de medo de altura — disse, baixo, com a voz trêmula. — M-mas não se p-preocupe. Tudo está muito lindo. — Forcei um sorriso convincente.
— Desculpe, eu não sabia que tinha medo de altura — disse, sincero, tentando me acalmar. — Mas é bom, pelo menos assim você conseguirá enfrentar seu medo!
Ele sorriu e me deu as flores. Segurei com um pouco de dificuldade e ele não pareceu se importar, apenas me direcionou até a mesa e puxou a cadeira para que eu me sentasse.
— Espero que goste do que fiz — disse, sorrindo. — Eu queria fazer uma noite especial para você. Imagino que deve ser esquisito para você jantar com alguém que mal conhece... então, quis criar um ambiente confortável.
Estava tentando focar em outra coisa além do barulho das ondas batendo violentamente contra as pedras lá embaixo. Meu corpo tremia sempre que eu ouvia. Bosco não parecia se importar, ele encheu uma taça de vinho para mim e propôs um brinde.
— Para uma noite inesquecível!
Neguei com a cabeça o álcool. A última coisa que queria era ficar bêbada, provavelmente só aumentaria o meu medo e ficaria difícil de descer as escadas. Mas Bosco fez uma careta.
— É mal educação recusar, principessa. — Sorriu novamente e colocou a taça na minha mão. — Beba, vai te ajudar a relaxar.
Bebi, um pouco contrariada. Esse vinho tinha um gosto estranho e parecia… borbulhar, talvez? Tinham algumas bolhas efervescentes naquele vinho, conheci perceber. Mas também não conhecia nada sobre vinhos para falar a verdade, talvez existisse um vinho que borbulhe e que tivesse uma coloração um pouco arroxeada. Podia perguntar para o pai de Trina depois, ele sabia tudo sobre vinhos!
O de Bosco não estava assim, estranhamente. Ainda era vermelho. Mas talvez estivesse bebendo um vinho diferente.
Por que estava reparando muito nesses detalhes, afinal? Provavelmente era o medo, estava ficando ansiosa demais com as ondas e a altura.
De qualquer forma, o vinho me ajudou a relaxar um pouco, o que não era legal, porque isso me dava um alerta vermelho para não beber bastante. Mas precisava relaxar um pouco. Me sentia culpada por Bosco ter feito tudo isso para mim, e eu ficar tremendo e assustada.
— Eu sei que não sou o que você queria — riu sem graça. — Mas espero que possa fazê-la ter uma noite especial.
— D-desculpa, não quero que você pense que eu estou desconfortável, é só muito diferente pra mim. Principalmente sair com alguém que mal conheço.
— Eu sei. — Ele sorriu. — E acredite, se meu sobrinho tivesse me ouvido... — disse como quem não quer nada e tomou um gole do vinho.
— Desculpe? — perguntei. Eu não queria saber, meu Deus, eu não precisava saber disso, mas eu não conseguia me controlar.
Seria ótimo se o não virasse tópico de conversa no jantar, porque eu não precisava ficar pensando nele agora.
— Eu fiz tudo isso aqui para ele — disse. — Sugeri que ele a trouxesse aqui quando ganhasse o jantar com você, porque vocês dois andam muito próximos e acredito que tanto a Madame quanto o meu irmão Aldo adorariam. — Tomou um gole do vinho. — Mas é teimoso, então escolheu outra garota... espero que não tenha ficado chateada.
Levei um soco em meu estômago com suas palavras e fiquei até sem ar por um instante.
Por isso que ele estava tão estranho comigo? Porque ele não me queria desde o início e só estava arrumando uma forma para se afastar de mim? Seria esse leilão a última cartada para não nos aproximarmos mais? Era isso que queria?
Na minha cabeça, isso não fazia sentido. Vi mais cedo, nós nos beijamos… ele não seria capaz disso, seria? E sabia que eu tinha medo de altura. Ele jamais me traria aqui.
Ou traria? Deus, minha cabeça estava confusa e agora não conseguia lembrar se sabia do meu medo de altura ou não.
Não queria demonstrar na frente de Bosco o quão chateada eu estava. Não podia fazer isso com alguém que gastou tanto dinheiro comigo. Mesmo sendo esquisito para mim, ele sendo um homem mais velho e desconhecido. Então, bebia mais vinho para me acalmar.
— Você gastou muito dinheiro comigo — disse, um pouco envergonhada. — Não precisava ter feito um lance tão alto.
Bosco riu.
— Valeu a pena. — Sorriu. — E eu fiz isso para te ajudar também.
Franzi o cenho.
— Como assim?
— Eu fiz para ajudar seu pai, claro. Soube que ele está doente e então pensei que um lance alto poderia convencer a Madame Grenier a pagar pelas despesas.
De repente, tudo parou de fazer sentido.
Meu pai? Doente? Como? As palavras pareciam desconexas na minha cabeça, nada juntava, nada fazia sentido.
Eu havia conversado com ele noite passada, nós rimos e brincamos com o fato dos ricos gastarem tanto dinheiro para fingir que se importam com caridade. Ele nunca me disse que estava doente, isso não pode ser verdade.
— Desculpa… acho que você está enganado — eu ri, um pouco descrente do que havia acabado de ouvir. Mas havia desespero em meu tom. — Meu pai não está doente.
Bosco me encarou, confuso.
— Você realmente não sabia? Eu achei que a Madame havia te contado, pois foi ela mesma quem me contou — dizia, calmamente. — Eu mesmo ofereci ajudar a custear todo o tratamento dele, cirurgia, o que for necessário.
— Tratamento? Cirurgia? — Deus, eu iria vomitar na frente dele. — O que está acontecendo?
Bosco pareceu preocupado comigo, então segurou a minha mão.
— Fique tranquila, , seu pai está bem. Descobriram cedo, ele passou mal e foi levado ao hospital. Então vão começar o tratamento cedo e, como eu disse, irei custear tudo que for necessário. Pode ficar tranquila, seu pai ficará bem.
Tranquila? Como podia ficar tranquila sabendo que meu pai estava mal em outro país precisando de mim? Precisava ir para casa, precisava ficar com ele.
— Eu preciso…
Tentei me levantar o mais rápido possível para sair correndo de lá e ir ver meu pai, mas minhas pernas fraquejaram e minha cabeça girou. Bosco se levantou rapidamente e me segurou em seus braços, me sentando novamente em seguida.
— Calma, , calma. Está tudo bem. — Acariciou meus braços. — Não se preocupe, está tudo certo. Seu pai está bem e sei que é um choque, mas dará tudo certo.
— M-mas eu preciso ir…
— Não faça essa desfeita comigo, — disse em um tom suave e encheu mais a minha taça. — Vamos jantar, eu vou te contar tudo que precisa saber e você ficará mais tranquila. Que tal? Não podemos desperdiçar tudo isso aqui, é pecado.
Minha cabeça estava a um milhão e, quando percebi, estava colocando toda a taça de vinho para dentro. Queria me levantar e ir embora, voltar para casa e ir atrás do meu pai. Mas meu corpo não respondia, meu corpo ficou parado e aceitou tudo que Bosco sugeriu.
Por que eu me sentia pior em deixá-lo ali e fazer essa desfeita do que em saber que meu pai estava doente?
— Tudo bem…
Deixei que Bosco guiasse o jantar. E mesmo sem estômago algum, eu comi, mesmo sem vontade nenhuma, eu bebia o vinho que ele oferecia e dava sorrisos quando ele me elogiava.
Lembra do dia da entrevista para o jornal em que certo momento eu havia ido embora e deixado só meu corpo ali? Esse era um desses momentos.
Meu corpo estava parado ali, automaticamente respondendo Bosco e fazendo tudo que Madame Grenier me ensinou a fazer em jantares. Como me portar, como comer, como conversar e até como respirar.
Mas minha alma? Ela já estava presa nas pedras e sendo afogada pelas ondas violentas do mar.
— Não se preocupe, eu irei cuidar de você, principessa.
Depois desse momento, tudo se tornou um borrão do qual eu não me lembrava.


Capítulo 12

“Você dedica tempo à sua família? Porque um homem que não se dedica à família nunca será um homem de verdade.” — O Poderoso Chefão.

Motivação é a arte de fazer as pessoas fazerem o que você quer que elas façam porque elas o querem fazer.”
Não.
“Toda ação humana, quer se torne positiva ou negativa, precisa depender de motivação.”
Também não.
“A persistência é o caminho do êxito.”
Espera um segundo, essa frase não era do Charlie Chaplin? O cara não namorava meninas de catorze anos? Legal, nenhuma dessas frases clichês são motivacionais o suficiente pra mim.
Joguei o livro de bolso idiota de Marzia no porta luvas e me espreguicei com a cabeça pra trás, sentindo os sintomas de uma enxaqueca que logo teria. Me sentia uma idosa de oitenta no corpo de uma garota de dezoito.
Meu sonho de descolorir a franja e parecer a vampira do X-Men se tornaria realidade rápida e naturalmente, porque o tanto de problemas que estavam me corroendo e corroendo minha vida trariam fios de cabelo branco cedo. Não era à toa que meu pai havia ficado careca aos trinta, os genes da família traziam estresse.
Pensei em ligar para o meu tio Bosco, ele já tinha me livrado de alguns problemas antes como ser pega na fronteira com cervejas no meu carro sendo menor de idade. Fora isso, ele era a única rocha segura da minha família como apoio emocional e também racional, quando ele brigava comigo ou com , ele dizia as palavras certas para aprendemos com o nosso erro e também não ficarmos traumatizados, que era o que geralmente Aldo fazia.
Depois de olhar algum tempo para o meu celular, desisti dessa ideia. Não queria incomodar ninguém com as porcarias em que eu me metia, e neste buraco eu desejava me afogar sozinha.
Entrar no Saint Fiore depois de um final de semana longe, e levando em conta tudo o que havia acontecido, era um grande sacrifício. Principalmente por não saber como seria a reação das pessoas. Era como um deja vu de quando me atrasei no início do ano. E, outra vez, por motivos semelhantes.
Agora tampouco sabia o que esperar. Depois que fui até a delegacia na noite de sábado com uma marca vermelha arroxeada na minha bochecha e pronta para alterar minhas falas sobre o caso da Vanda, minha mente entrou em uma exaustão tão grande que não consegui fazer nada além de dormir o dia de domingo inteiro depois de ter passado no dentista pra ter certeza que, com todo o sangue que cuspi, não havia perdido nenhum dente. Foi como um borrão.
E esperei pela segunda-feira.
Era como um daqueles filmes esquisitos do Tim Burton. Onde as pessoas eram pálidas e te encaravam esquisito com os olhos gigantes delas. Ouvi dois “bom dia” e vi alguns acenos de cabeça. Um garoto saiu correndo quando me viu no corredor. O outro parecia pensar em dizer algo, mas se manteve calado. Acho que a expressão certa para essa reação dos jovens da Fiore para comigo seria… pisar em ovos.
Tudo bem, poderia ser pior. Poderiam ter me recebido com abraços, aí sim eu não suportaria.
Me escondi atrás de uma planta de plástico e tirei meu celular de baixo da saia, procurando o número de Marzia Bucci rapidamente.
“Me encontra no dormitório.”
? É você? Mulher, onde você estava? Eu liguei pra você! Eu nunca ligo pra ninguém, só mando mensagens, e te liguei! Pra você ver a gravidade do tanto que eu precisava falar contigo!”
“Eu sei. Vamos falar agora. Tô na Fiore, direto pro quarto. Arrivederci!”.
Desliguei antes dela responder e corri até o destino, preferindo olhar para baixo, evitando reconhecer qualquer pessoa que me parasse para falar alguma coisa. Se eu tinha esperanças de que a bomba não havia explodido ainda, a reação da Marzia me provou o contrário.
— Seu cabelo está azul. — Arregalei os olhos pra cabeça dela.
— Quem liga para isso agora? — gritou, fechando a porta atrás de mim. — Me fala o que aconteceu nesse fim de semana?
Larguei a mochila com roupas íntimas lavadas na minha escrivaninha e me sentei na cadeira do computador.
— Primeiro — entrelacei meus dedos —, o que você acha que aconteceu? O pessoal daqui tá sabendo de alguma coisa ou só você?
Quis saber, afinal, minha amiga era assumidamente a maior fofoqueira de Silent Grace com orgulho. Não seria uma surpresa só ela ter descoberto sobre o que fiz esse fim de semana.
— Impossível todo mundo não saber de alguma coisa, ! O pai do Patrick tá na prisão e seu nome foi envolvido — articulou. — Saiu nas notícias, os policiais indo até a casa dele depois do leilão e tudo mais, acho que alguém soltou tudo antes pra imprensa, já que é um caso tão comentado e a cidade está com medo de voltar a acontecer com outra pessoa o que aconteceu com a Vanda, entende?
— Pera. — Levantei minha mão, me sentindo tonta, pedindo para que ela parasse de falar um segundo. — Como assim o Victor está preso?
— Eu pensei que você soubesse bem mais do que eu. Seu nome foi envolvido.
É, eu ouvi essa parte. Seria inocência minha achar que não iriam atrás do cara no segundo que eu colocasse meus pés pra fora daquela sala cinza? Provavelmente. Eu sabia o que ia acontecer, por isso demorei tanto pra tomar uma decisão. Só que agora que aconteceu, não parece… real.
Me levantei, procurando pelo controle e coloquei em um noticiário local. E, como esperado, era o único tema dessa nem tão pacata cidade. Não demorou para que o nome Mercy fosse citado.
— Seu pai não sabe disso? — perguntou, nervosa.
— Até onde eu saiba, não. Eu não estava na cidade, agora já não sei, julgando pelas chamadas perdidas no meu celular. Eu diria que ele descobriu minutos antes de todo mundo, provavelmente. E deve estar lidando com advogados e jornalistas no momento.
— Bom, você já é maior de idade. Eles podem vir diretamente até você para saber mais sobre o caso.
— Casos semelhantes ocorreram no passado, você sabe, minha família é um pouco famosa.
— Um pouco — ela riu, sem graça verdadeira.
Era um eufemismo, claro. Aldo fazia parte de um dos caras mais ricos da Itália além de já ter se candidatado para a política uma vez. Minha mãe uma bailarina famosa… que sumiu como um passe de mágica, o que também foi uma grande alegria para os repórteres da época.
— Só estou dizendo que… sem chances de um jornalista aparecer aqui. O colégio toma providências sobre isso ou Aldo nem teria me deixado voltar esse ano, tenho certeza. Ele tem um controle absurdo sobre tudo ao redor dele, mesmo implicando comigo sempre que quero voltar pra cá.
— Você está dando voltas — reclamou, cruzando os braços.
— Não estou.
— Então me conta logo o que aconteceu.
Me sentei, respirando fundo. A ansiedade estava batendo desde que acordei. Não tinha chances de não contar para Marzia, ela era a única pessoa que poderia me ouvir agora e também a única que eu queria abrir o jogo.
— Eu me encontrei com Victor minutos antes de achar o corpo da Vanda no refrigerador do hotel.
Ela franziu o cenho.
— Impossível, eu estava lá com você.
— Depois disso. Depois de você me ajudar e tudo mais, o Victor estava me esperando e esperando você ir embora.
— Por quê? Ele queria falar com você?
— Tipo isso.
— E foi apenas isso, ? Eu sei que realmente é super suspeito o cara estar próximo ao local do crime, só que ele estava trabalhando com você naquela noite, não? Não acredito que isso seja o suficiente pra prender uma pessoa. Deveriam ouvir as palavras dele antes.
— Eu também penso assim. — Parei para pensar um pouco antes que meu cérebro pifasse. Nunca tive dificuldade com palavras antes e ali, só de olhar para a cara confusa de Marzi,a eu estava balbuciando e, como ela disse antes, dando voltas.
Minha mente clicou e me toquei sobre algo. Ou melhor, sobre a falta disso.
— Você sabe do vídeo? — perguntei, receosa.
— Vídeo?
— Sim. Meu vídeo… Onde estou, você sabe…
Achava que era o suficiente pra ela entender.
Marzia bufou.
— Não faço a mínima ideia do que você está falando, . Só quero que você seja clara comigo, tá bom?
Se ela não sabia, significava que Victor foi pego de surpresa e não tinha soltado a gravação. Ele com certeza tiraria vantagens disso, seja subornando meu pai ou de uma forma parecida. Eu sabia que, se tivesse uma peça dessa em mãos, não deixaria escapar tão fácil, seria burrice. Sabia que ele não iria soltar aquele arquivo tão facilmente.
— Ok. No fim de semana eu fui até a casa de Patrick pra fazer um trabalho, menti pra ele que essa era minha única intenção lá: na verdade, só quis arrancar a verdade do Victor e gravar pra ter uma motivação de ir atrás de mudar o meu depoimento. Isso só aconteceu porque eu vi o Victor aquela noite e mastiguei isso por muito tempo, até pedi ajuda para a irmã Carlotta sem saber o que fazer, e cheguei a uma decisão depois do jantar. — Parei de olhar nos olhos de Marzia, que estava assustada. Comecei a ficar com vergonha e não queria saber sua reação quando revelasse a podridão em que me meti. — Eu vi Victor aquela noite porque ele estava me esperando pra transar depois do concurso, porque é isso que fazemos há muito tempo.
… eu nem sei o que pensar. O cara era seu instrutor, casado… eu nunca imaginei que isso estivesse acontecendo entre vocês. Talvez você e o Patrick sim, mas o Victor? E se vocês são próximos assim, por que mudou o depoimento? Por que não tentou proteger ele?
— É mais complicado que isso, Marzia. Dormir juntos não significa que éramos próximos. Eu sequer gostava do que fazíamos.
— Então por que fazia? — Fez careta.
Cocei a nuca. Não tinha resposta.
Aquela palavra com F me assustava.
Porque ele me… forçava?
Poderia ter algo a ver com toda a situação de talvez, sobre ser engolida por esse mundo e ainda ser pior quando nasce nele. Eu não ia cair dentro de um buraco de culpa por ter passado tanto tempo da minha vida dormindo com um cara casado, continuava sendo Mercy. Mas não negava que parte desse envolvimento aconteceu porque eu era nova e tudo parecia normal. Victor me seduziu, e eu era boba demais para dizer não na época. E isso foi se arrastando até se tornar a tragédia de hoje.
— Não importa. Nós tínhamos um caso, eu o vi naquela noite e Victor tinha um comportamento estranho. Eu repensei um milhão de vezes sobre o que fazer, se ele era só um velho esquisito ou uma ameaça pra sociedade, até ele confirmar no domingo que, a partir do momento que eu lhe desse as costas, ele teria mais alunas menores de idade para ir atrás. Foi então que decidi.
Marzia se levantou com o rosto vermelho.
, esse cara é um pedófilo nojento! Que merda é essa? Quer saber, se ele te falou isso, poderia muito bem estar envolvido no assassinato da Vanda.
Ela falar isso em voz alta me deu um grande soco no estômago. Ele poderia estar envolvido na morte de uma garota da minha idade? As evidências estavam ali, não estavam? Eu fui pra cama com um assassino? Um cara que poderia fazer o mesmo comigo?
Eu mal fiz 18 anos e estava aguentando tudo isso sozinha, porque basicamente toda minha vida vivi assim, fazendo as coisas sozinhas, fossem boas ou ruins. Era tão fodido e estranho ter uma realização do que estava acontecendo de verdade depois de conversar sobre isso com alguém.
Me fez pensar também que confiava em Marzia mais do que pensava. Eu sabia que ela me considerava sua melhor amiga, afinal nos conhecemos desde, literalmente, o berço. Só era um pouco difícil pra alguém naturalmente fechada como eu me abrir até mesmo com uma amiga.
Deus, mal conseguia falar com meu próprio irmão gêmeo sobre coisas sérias, e diziam que a amizade com um gêmeo ultrapassava as barreiras de uma amizade com uma pessoa que não tinha a mesma linhagem de sangue que a sua. Era algo inominável.
Me deitei na cama, enjoada, olhando para o teto.
— Ei, você tá bem? — Marzia se ajoelhou ao meu lado, tirando o cabelo da minha testa, e pegou um livro na cabeceira para abanar meu rosto. — Podemos ir na enfermaria. Você sequer deveria estar aqui, .
— Tô bem, relaxa. — Voltei a me sentar. — Se ficasse em casa, meu pai logo voltaria de viagem e me encheria com perguntas e alta proteção indesejada. E nem quero ver a reação de .
— O que pode fazer? — perguntou, curiosa.
— Só Deus sabe, Marzia. Nós podemos bancar gato e rato vinte e quatro horas, mas ainda nos preocupamos um com o outro. Coisa de irmão. Ou sei lá, coisa de gêmeos.
Estávamos sozinhas ainda depois de algum tempo conversando, e a ausência de no quarto me fez pensar que estávamos faltando alguma aula. Não fazia ideia de que horas eram e não queria saber.
, quando você diz que esse envolvimento com Victor começou cedo… quão cedo foi isso?
Encolhi os ombros e pensei muito bem nas palavras antes de começar a falar.
— Nossas famílias se conhecem desde sempre, mas ele virou meu instrutor quando eu tinha oito anos. Ele conversou com minha mãe alguns anos antes, eu era muito nova e minha mãe negou o pedido dele de me colocar em sua agência, dizendo que o balé para mim já estava de bom tamanho. Além de que eu já vendia fotos pra agência da Grenier pra catálogos infantis. Quatro anos depois ele voltou a contatar meus pais até se tornar meu mentor. Foi bem aí. No primeiro concurso que ganhamos ele me levou para jantar e começaram os toques e os olhares. Ganhei tanto presente dele na época, mas nunca percebi. Não até ele começar a fazer perguntas sobre namoros e outras coisas que eu ainda não tinha experimentado.
— Por que eu estou sabendo disso só agora? — Estava indignada e triste. Observei que uma lágrima caiu de seu olho e me assustei.
— Sequer contei pra minha mãe, Marzia, ninguém sabia disso.
E, obviamente, eu tinha vergonha.
— Esse homem se aproveitou de você, . Se não ficar na cadeia pelo o que aconteceu com a Vanda, ele vai ficar pelo o que fez com você. Só espera seu pai ouvir essa história, vai acabar com ele, tenho certeza. Claro, se eu não matá-lo antes.
Me levantei tentando rir, sem humor.
— Se depender de mim, Aldo não saberá de nada. Você acha mesmo que ele vai dar um jeito só em Victor? Com certeza vai sobrar pra mim. E também, não é só culpa dele. Eu quis, lembra? Não neguei. Ele me seduziu e eu me deixei levar. Eu queria, senti curiosidade.
Era bom deixar isso claro para não a confundir quando provavelmente logo surgir um vídeo rolando solto pelo colégio de sua melhor amiga gritando como uma grande vadia. Bancar a inocente não daria resultado agora.
— Você tinha doze anos, porra! Crianças não consentem ações sexuais porque não entendem disso! Você mesmo falou agora que desconhecia esse mundo até ele te apresentar, .
Mais lágrimas saíram do olhar dela e revirei os olhos. A ansiedade já estava me contaminando e ter Marzia naquele ataque de humor não me ajudava em nada.
— Bucci, não pira. E não me olha desse jeito.
— Que jeito? Inconformada que isso vinha acontecendo na sua vida e eu não sabia de nada, e agora que quero alguma justiça acontecendo, você continua se culpando? Eu me sinto um lixo, ! Meu Deus. Eu falhei tanto com você. Caralho, por que nunca me contou nada?
— Não — bufei. — Você está me olhando com pena. Como se eu não soubesse o que estou dizendo. É idiotice. Já disse, ele vai mostrar gravações onde provam que eu sabia o que estava fazendo. Sempre tive o controle em nossa relação.
— Você só pode estar brincando…
— Não estou. E quer saber? Chega desse assunto. Logo essa bomba vai explodir e as teorias vão se tornar realidade quando eu estiver pronta pra levar os estilhaços na cara, então, se quiser ir pra sala, já estou indo, logo atrás de você.
— Sala? Sério? Você quer ignorar tudo isso que tá acontecendo e ir estudar? — Marzia parecia um misto entre raiva e choque.
— Quero dar um basta nisso antes que minha enxaqueca volte, só isso.
Depois de mais ressalvas, consegui me livrar de Marzia. Logo ela aprontaria alguma, provavelmente ia contar pra ou sei lá pra se certificar de que eu estava bem mesmo, porque não iria me largar com tanta facilidade.
Me deitei na cama, aproveitando um pouco do silêncio antes de mais uma aula do Senhor Daniel, e tomei um remédio pra me acalmar. Fazia anos que a ansiedade não me batia dessa forma. E sobre a aula, bom, a única geografia que eu estava interessada no momento era a de como encontrar um local no mapa onde eu poderia evitar meu pai completamente por pelo menos dois meses. O que também seria um problema porque agora, depois dessa conversa com Marzia, o silêncio e a paz significavam pensamentos. Mente vazia era a oficina do diabo, pelo o que falavam, e eu estava sentindo um gostinho do inferno.
Eu queria falar com alguém, mas essa pessoa ideal não estava mais aqui. E tomada por uma atitude involuntária e gigantesca que cresceu dentro de mim, corri até o meu guarda roupa, procurando um caderno velho, que mais se parecia com o diário, onde utilizei apenas a primeira folha para um trabalho de artes que precisava de papel parecido com pergaminhos antiquados.
Tive muitos diários na minha infância, todos comprados pela minha mãe, que me incentivava a usá-los, isso na falta de ter amigos com quem conversar. Era idiota, atitude de alguém completamente perdedor, mas talvez isso amenizasse um pouco do nervosismo que estava me corroendo no momento.
— Você é apenas um caderno velho e inútil. Um cigarro ajudaria mais, pena que não tenho tempo pra isso. Mas tudo bem. Acho que pode servir de diário, ou me sinto mais próxima de você. Acho que sim. Eu sei que poderia contar com você se estivesse aqui. Se eu sou louca, a culpa é completamente sua.
Suspirei.
Marzia disse algumas coisas que me tocaram. E é difícil algo se aprofundar na minha pele, sou casca grossa demais. Só que… não posso me permitir sentir isso. A sensação de que fui usada ou até mesmo abusada por alguém. Não posso. Se essa casca quebrar, tenho medo de não voltar a ser eu mesma. Perder o que construí até agora.
Às vezes eu penso em como minha vida poderia ter sido diferente se eu nunca tivesse aceitado participar daquelas drogas de concurso e ter continuado no balé como você disse que eu deveria ter feito. Você não me forçou a entrar nas suas aulas de dança, mesmo sendo uma professora rigorosa, eu naturalmente quis entrar porque era algo onde eu era boa e até gostava.
Eu era ótima nos concursos. Sou ótima em concursos. Sei o que fazer pra encantar os jurados, só que… olha só onde chegamos. Não queria delatar ele. E honestamente estou pouco me fodendo para Patrick também. Mas e se ele fodesse com a vida das outras alunas dele? E se ele realmente teve algo a ver com este caso da Vanda? Minha consciência só vai até algum ponto de resistência.
Bufei. Que coisa idiota. Estava falando comigo mesma. Poço do fracasso.
— Tô esperando Tom Riddle responder pelo outro lado do diário?
Fechei o caderno e o guardei embaixo do meu travesseiro. Cabeça erguida, , hora de enfrentar os leões.

***

Eu tentei, juro que tentei. Estava aqui fora, não estava? No pátio. Evitei. Fugi. O elástico no meu pulso deixava minha pele vermelha, enquanto o puxava para longe e deixava a dor me consumir. Estava vermelho ali, poderia sair sangue a qualquer segundo. Mas era o suficiente para conter minha raiva. Eu esperava que sim.
Não era o suficiente. Se eu tivesse uma arma, jogaria ela fora e acabaria com ele com minhas próprias mãos, no soco, pra liberar essa energia negativa que pairava sobre mim.
Precisava beber. E eu odiava beber porque me lembrava dela. Odiava. Ficava idiota quando bebia, principalmente perto de conhecidos. Não queria que ninguém me visse dessa forma. A última festa foi o suficiente pra desencadear péssimos comportamentos meus.
Maldito Patrick. Maldito. Quem ele achava que era pra berrar daquele jeito comigo? E por que não berrei de volta com ele?
Porque você sabe que a culpa é sua, .
Ok, talvez fosse. Mesmo assim, tinha direito de me defender. Não merecia esse tipo de tratamento.
Merece sim, porque você foi uma vagabunda, como ele mesmo disse, por ter dado para o pai dele. Consequências da vida que você desejou seguir.
Fodam-se as consequências. Patrick também tinha suas consequências desde que decidiu ficar comigo.
Olhei para aquela pedra como se fosse a cabeça dele e chutei com a maior força que tinha. E aparentemente era grande, porque a dor que senti no pé em seguida foi insuportável.
— AAAAAAAAAAHHHHHHHHHH!
Não sabia se gritava, chorava, gemia ou desmaiava de dor.
O que eu fiz?
FANCULLO! — Segurei meu pé, me sentando no banco próximo. Meu precioso pézinho.
Senti uma presença se aproximar de mim e quase revirei os olhos no meio da dor. Minha antipatia não sumia por causa de um dedo quebrado, acreditem.
— Machucou? — parecia preocupado e se agachou, tentando abrir o laço do meu cadarço. Me afastei dele.
— O que pensa que está fazendo?
— Huh, tentando te ajudar? — disse, como se fosse óbvio.
— Não preciso da sua ajuda.
— Então levanta. — Ele endireitou suas costas, esperando que eu fizesse o que pediu.
— Não estou a fim.
— Você precisa ir pra enfermaria — decretou, e quase ri.
Você precisa ir pra enfermaria — imitei sua voz em deboche. Ele revirou os olhos com minha infantilidade.
— Seu pé pode estar quebrado, Mercy. Chutou com força.
— Tá aqui desde quando, hein?
— Esperando o seu surto passar pra ver que se quer conversar, infelizmente não previ que você bancaria a maluca chutando uma pedra colada no chão.
A pedra estava colada no chão?
Suspirei, esticando minha perna e fingindo não estar sentindo mais nada. Minha careta era contida. Sorri.
— Olha, , você é um gatinho, mas naquela festa eu estava completamente bêbada, sabe? Não precisamos fingir que nos conhecemos além de nossos nomes. Ok?
Ele escaneou minha feição como a porra de uma impressora esperando qualquer mínimo movimento meu de dor por ter esticado a minha perna. Foram alguns segundos até finalmente eu soltar um suspiro (vírgula gemido) e ele se aproximou sem hesitar, me puxando pela cintura até eu ficar em pé, meu braço indo parar em seus ombros.
Levou um segundo para eu assimilar o que estava acontecendo e tentar ignorar o cheiro do perfume dele.
— Para com isso, me deixa sentar. Ai, ai, ai — gemia de dor a cada passo forçado.
— Quanto mais rápidos formos, mais rápido a enfermeira vai poder te examinar e a dor vai sumir.
Ele estava decidido e eu continuei reclamando com voz de criança por todo o caminho até a enfermaria do St. Fiore. Gemendo e reclamando, como os bons oitenta anos de alma e coração que possuo.
— Chega, já pode ir embora — falei quando chegamos na porta.
— Por Deus, garota, aceite logo minha ajuda sem retrucar, estamos quase lá — retrucou, impaciente.
Ah, o filho de Buda tem um temperamento então.
Os fortes braços dele continuaram praticamente me carregando até a sala muito branca de Sandra. Paredes brancas, chão branco, teto branco e macas brancas. Fui colocada sentada em uma delas. Levei um susto quando ele me pegou no colo por um segundo e me soltou com facilidade ali.
Mantenha a pose, . Lembre-se de que ainda está com dor. Sem tempo pra checar o perfume dele ou a força dos braços.
, o que houve? — ela perguntou tranquilamente ao me ver ali.
Sandra tinha 1,40cm de altura, o cabelo muito vermelho de tinta e uma voz fina, quase infantil. Isso porque passou a vida toda atendendo crianças na pediatria do hospital local até decidir vir para o St. Fiore pois, segundo ela, pagava mais e trabalhava menos. O que basicamente era o sonho de qualquer cidadão existente no mundo, não importava o quanto você amasse a sua profissão.
— Câimbra — menti.
— Ela chutou uma pedra — me desmentiu. Cretino. Sandra não precisava saber sobre meu mini surto de raiva.
— Uma pedra? — Abriu a boca em um O. — O que a pedra te fez?
— A pedra nada, mas estava imaginando a cabeça de Patrick no lugar — resmunguei.
— Patrick é um menino tão bom — comentou Sandra enquanto esticava minha perna e começava a desamarrar o meu cadarço.
— Disso eu discordo. — Ouvi sussurrar.
Aí me lembrei que não somente ele estava na aula de Daniel hoje como também viu o idiota do Patrick me encurralando na festa do Mirko. Ao menos quase isso, quando ele chegou, eu já tinha uma faca apontada contra Patrick. Então sabia que eu tinha meus motivos.
Sem falar sobre quando ele tentou me drogar na festa, que eu já estava pensando em maneiras de me vingar de Patrick quanto a isso.
Mas o que aconteceu para o filho de Victor desencadear o meu ódio dessa vez foi bem diferente.

25 minutos atrás.
— Tudo bem, pessoal, vamos deixar as apresentações para semana que vem — senhor Daniel finalizou.
Alguns uivos de comemoração tomaram conta da sala e continuei tomando conta da minha vida, observando todo mundo desligar seus laptops após o sinal tocar anunciando a troca de aula.
Assim que ajeitei minhas coisas para me levantar, uma agitação tomou minha atenção quando o corpo alto de passos pesados se aproximou de mim como um furacão, atropelando alguns alunos pelo caminho, deixando todo esse pessoal em um misto de surpresa e irritação pela má educação dele. Até pareceram se surpreender ao ver que o cara em questão era Patrick. Ele não era disso, de fazer uma cena. Mas, pela careta que encontrei em sua cara, percebi que ele estava prestes a fazer uma cena, ou melhor, uma peça inteira, e sem arrependimentos.
— Você é uma desgraçada de merda, ! — gritou. Normalmente, eu teria seguido minha vida, sabe? Não é a primeira vez que um cara corre atrás de mim me chamando de desgraçada. Só que dessa vez, travei um pouco pelo fato dele estar vermelho como um tomate, cuspindo saliva pelo jeito que disse com tanta raiva e com uma veia saltando da sua testa. — UMA VAGABUNDA, É ISSO QUE VOCÊ É!
Tentei fazer a desentendida.
— Ok… posso saber o porquê?
— EU VI A PORRA DO VÍDEO! — Avançou pra cima de mim e alguns garotos, junto com o professor Daniel, tentaram afastar Patrick. Ele não se importava, estava cego de ódio.
Merda. Victor enviou o vídeo pra ele. O que ele ia fazer agora? Me expor pra escola toda como uma piranha que deu para o pai dele? Achei que Victor faria um uso melhor desse material.
— Patrick, se acalma, cara. — A voz de outro garoto que eu não conhecia estava no meio daquela briga também.
— E vai fazer o quê? — perguntei, não deixando meus olhos saírem de Patrick.
- -O que eu deveria fazer? Espalhar pra essa porra de colégio inteiro? Pra quê? Todo mundo já sabe que você é uma vagabunda mentirosa mais baixa do que o lixo que constrói naquele hotel, ! — Então ele parou, abaixou a voz e se tornou mais asqueroso. Rude, tentando não ser grande. Apenas sussurrando em um ódio vital. — Ninguém precisa saber o quanto você me fez de trouxa. Porra…
Não sabia se ele ia chorar, mas pareceu que sim quando colocou as mãos no rosto, tentando respirar profundamente.
— Você construiu uma relação inexistente na sua cabeça, Patrick. A culpa não é minha. — Encolhi os ombros e fiz um bico, não me importando.
Tentei, juro que tentei não soar tão cínica como soei. Afinal ele já estava se controlando daquele ataque de raiva infantil.
Obviamente ele não gostou do que falei. E riu, sem achar graça.
— Meu pai foi levado pelos policiais por sua culpa, sabia disso? Claro que sabia, só te falta uma consciência pra se importar com isso. É por isso que você não tem amigos, . Não sei como aguentei tanto tempo seus dramas de como não tem ninguém que te ame de verdade.
Dessa vez eu gargalhei.
— Quando foi que me abri para você sobre isso? Sequer é verdade.
— Bom, então estou só constatando um fato. É por isso que ninguém te ama, , por isso todo mundo teme você e prefere se afastar. Você só sabe usar as pessoas e depois joga elas fora, transforma as pessoas em parte de um jogo no meio da sua vida. Sua mãe preferiu se matar do que viver com você.
Se meu coração fosse de vidro, eu teria ouvido quando ele se espatifou no meu peito em mil pedaços.
Com o ódio eu sabia lidar. Aprendi com Victor. Ouvir coisas como onde você era ruim, por anos, cara a cara, constrói uma força dentro de você pra sempre, ainda que seja tecnicamente um trauma.
O que me abalou foi saber que Patrick entrou o suficiente na minha vida para saber exatamente o que dizer para fazer com que eu quisesse mais do que esfaquear ele dessa vez. era uma das únicas pessoas que sabia sobre isso. Não mencione minha mãe, nunca, nunquinha. Isso iria me enfiar em um poço instantaneamente.
O que me assustou foi eu ter a força de contar mentalmente até três e ir até o pátio da escola, respirar profundamente e perceber que gastar dinheiro para mandar um assassino atrás de Patrick não valeria a pena. Quebrar um dedo já estava de bom tamanho.

Agora.
Sandra ficou conversando comigo o tempo todo em que “consertava” o meu pé. Eu não sabia se servia de distração ou pra me irritar, mas funcionou, porque suas perguntas insignificantes tiraram a atenção da dor que eu estava sentindo em todos os ossos que eu não sabia que existiam ali.
Hart sumiu depois de alguns minutos porque Sandra o chutou dali, afinal, visitas não são permitidas para pacientes, principalmente visitas que deveriam estar em sala de aula, então esperei que ele já estivesse na classe ou em seu dormitório quando saí do consultório da enfermeira.
Fui surpreendida ao notá-lo em um dos sofás de cor café na pequena sala de espera do lado de fora.
— Não foi ainda? — Fiz careta, ele revirou os olhos.
— Sim, estou no meu quarto, isso aqui é uma nova tecnologia que permite me comunicar com os outros em minha forma mais física possível. Veja só. — Ele se aproximou, colocando meu braço em seu ombro, me deixando tonta outra vez por conta de seu cheiro. — Dá até pra sentir o meu toque, os computadores hoje em dia estão assustadores.
Bufei.
— Era só dizer um não, engraçadinho.
— E perder a chance de te irritar?
— Como se fosse difícil.
— Autocrítica, ótimo.
— Apenas constatando um fato, sabe? Sou italiana.
— Culpando nosso país agora? Qual vai ser o próximo? Seu signo é de áries?
Hm. Fiquei calada.
Ele gargalhou vendo minha reação.
— Tudo bem, deixa pra lá. Ah, estava te procurando.
Franzi o cenho. Meu irmão me procurando? Bomba, certeza. Marzia deve ter me delatado. Moramos juntos, mas apenas nos falamos quando temos alguma fofoca sobre nossa família para contar ou se esbarrando pelos corredores.
— O que será que ele queria? — Me fiz de sonsa.
— Ouviu falar da briga com Patrick, assim como todo mundo, devia estar preocupado.
Ah. Talvez algum remédio de Sandra tenha me deixado um pouco mais lerda para raciocinar tudo.
— Ele parecia preocupado?
— Bom, não, mas não conheço seu irmão o suficiente pra dizer que emoções ele está exalando só por fora.
— Ah, sempre deixa claro o que está sentindo, ele é muito transparente, então me permita chutar que tenho quase cem por cento de certeza que não era uma preocupação boba sobre uma briga boba, nos conhecemos faz dezoito anos, entende? acompanhou muitas das minhas brigas. Se ele estivesse lá, comeria pipoca assistindo tudo.
— Bom, se me permite dizer, a briga da vez não é tão boa assim, certo? — Seu semblante ficou sério.
— E por que não seria? Você mesmo acompanhou o primeiro round na festa de Mirko.
Ele estava me ajudando a subir as escadas e fomos direto para a cafeteria. De longe, senti o cheiro de café quentinho e meu estômago roncou alto, estava com muita fome, muita mesmo.
— Acho que essa é primeira vez que o pai da pessoa que você briga estava indo para a cadeia na madrugada anterior por conta de seu depoimento sendo alterado na delegacia, estou correto? A não ser que seja muito recorrente esse tipo de coisa na sua vida, eu consigo entender o porquê de seu irmão mais velho estar preocupado atrás de você.
Caí de bunda na cadeira e meu rosto entrou em um choque momentâneo, antes de cair com a testa na mesa, querer me enfiar contra a madeira e esquecer que sou uma pessoa com sangue e ossos. Estava doida para que um extraterrestre aparecesse ali e agora, me abduzindo para outro planeta, porque havia momentaneamente esquecido de toda a porcaria que me enfiei. Culpava os remédios de Sandra, eles era, fortes, então bem úteis, afinal, a preocupação tinha passado por um tempo.
— Meu dia a dia é agitado, mas nem tanto assim — falei, amarga.
Ele sorriu fraco, afetuoso com minha situação. Nem sabia que ele já sabia sobre tudo, mas estávamos em Saint Fiore e os boatos corriam rápido demais.
— O que vai querer? — ele perguntou, pronto para ir até a caixa da cafeteria pegar meu pedido.
— Um capuccino, por favor, com mais leite do que café e muito açúcar. Ah, me traz uma bomba de chocolate também. Grazzie.
Estava focada em algum ponto da mesa enquanto falava e vi de relance quando fez uma careta com o meu pedido, sacudiu a cabeça e foi alcançar para mim de qualquer forma.
Ouvi risadas da atendente da cafeteria ao conversar com , é uma mulher já de idade, resmunguei com sua facilidade em fazer amizade e ser amigável com todo mundo. Esse cara era todo bonzinho, cruzes. Por isso já tinha namorada.
Era engraçado porque na escola, no geral, todos o viam como alguém completamente inacessível. Na cabeça de Marzia, ele já até assassinou uma pessoa. Isso porque tinha uma aura um pouco estranha de poucos amigos e era difícil conseguir fazê-lo se abrir pra você, eu achava. E quando você tinha uma conversa com ele… era isso aí que estamos vendo.
Ataquei a bomba de chocolate quando ele voltou com o meu pedido e se sentou em minha frente.
Sem classe nenhuma, deixei o chocolate cair no meu queixo e mal notei quando o limpou com um guardanapo, contendo um sorriso no rosto com minha afobação.
— Faz quantos anos que não come?
— Estou em fase de crescimento. — Dei de ombros. — E então, o que você disse para meu irmão? Se ele estava querendo me ver, por que não ficou me esperando na salinha também?
— Eu o vi quando estava comprando uma garrafa de água mais cedo, ele não sabia onde você estava e não falei pois pensei que você iria gostar de um tempo sozinha antes de ser bombardeada de perguntas logo depois de passar pela maca de uma enfermaria.
Afirmei com a cabeça, quase lhe dando os parabéns.
— Ótimo pensamento, Hart.
— Não há de quê, Mercy.
Comecei a beber meu café com calma quando notei ele batendo os dedos na mesa, parecia ansioso e indeciso se deveria falar ou não.
— Pergunta logo — falei.
— Perguntar o quê? — Se fez de desentendido.
— Você não engana ninguém.
— Tudo bem. — Relaxou os ombros. — De que vídeo Patrick estava falando sobre?
Huh, não achei que seria isso. Terreno proibido, caipira.
Não sei o que era pior, ele ter visto a briga ou ter ouvido essa parte e eu saber que ele ouviu e viu tudo. Uma bagunça.
— Você também estava lá na hora?
— Peguei o final, apenas. Foi um pouco assustador na verdade, todos os alunos das outras salas saíram pra entender o que estava acontecendo. Lembro de ver você parada ouvindo-o gritar com você, sem fazer nada, sequer parecia com a de sempre.
— E isso te deixou orgulhoso, aposto.
— Na verdade, não. Tentei me aproximar, mas já tinha muitos caras empurrando Patrick de cima de você. Não parecia que você estava tentando ser uma pessoa superior e não brigar de volta, só parecia que você estava aceitando todas as merdas que ele estava dizendo, o que, na minha sincera opinião, é idiotice. O cara é um babaca de primeira.
Dei um tapa na mesa, como se fosse gritar “bingo”! Olha, finalmente alguém que me entendia.
— Eu sei! Ele é um babaca! Não estou tentando fazer você ver isso faz tempo? Ninguém acredita quando digo que Patrick é um idiota.
— Depois de hoje, tenho certeza de que a opinião de algumas pessoas daqui mudaram.
— Sei lá. E sabe, sobre o vídeo, não é nada demais, mas é melhor deixar isso só entre mim e o Patrick, até porque, se ele resolver soltar pra todo mundo, o que não duvido que aconteça logo, sua dúvida será respondida, e prefiro que não seja diretamente por mim.
— Você que sabe. — Ele pareceu se dar por vencido com essa minha resposta, mais descontraído. — Então é assim que uma baronesa come?
— Não sou baronesa, nem venha com essa.
Um dos lados de seu lábio se levantou. Desde quando ele tirava uma com a minha cara? O que aconteceu com o cara introvertido da máquina de lanches?
— Ué, não é assim a hierarquia? Seu pai é um barão, você é baronesa?
— Meu pai não é barão, ele só finge que é.
— As pessoas podem fingir títulos?
— Ah, algum antepassado direto dele era barão, e de alguma forma ele conseguiu manter esse título, porém é mais para a mídia dos hotéis dele, sabe? Se Aldo fosse mesmo barão, estaríamos morando em um castelo de verdade e ele deveria estar, sei lá, beijando os pés de algum príncipe italiano, mas como também não temos príncipes úteis na Itália...
gargalhou. Quase engasguei com a bomba de chocolate. Nunca havia ouvido o som da sua risada antes. Tentei não externar minha reação porque era um pouco bobo demais. Não era um momento propício da minha vida pra me deixar ficar atraída por alguém. Sem chances.
— Sabe, eu morei minha vida toda na parte mais precária da Riviera, interior do país. Quando consegui a bolsa para este colégio, eu achava que seria diferente, mas não tanto quanto está sendo.
Eu tinha parentes na Riviera, era um lugar mais simples do que a cidade de Silent Grace, com certeza, e ainda assim a beleza do local era imensa. Muitos barcos pesqueiros, um pessoal mais simples, crianças jogando bola nas ruas e, claro, as casas cobertas pelos rios e centenas de barcos flutuando por ali. No geral, eu não reclamaria de nascer no interior em um local como Riviera. Claro que minha opinião não contava muito... meu pai era bilionário, coisa e tal. Era um pouco idiota dizer que tinha partes humildes dentro de mim.
— Diferente de que forma?
Ele parou para analisar.
-- Acho que as pessoas e seus comportamentos. Lógico que eu não estava esperando um padeiro todo dia ofertar seus pães, pela metade da metade do preço, batendo de porta em porta. Ainda assim, o estilo de vida é soberbo, pra caramba. E as coisas que ouço são engraçadas.
— Que tipo de coisas, oh, simples menino aldeão? — debochei e ele apertou os olhos pra mim com um sorriso pelo apelido.
— Sobre os gêmeos serem as pessoas mais aterrorizantes do colégio, sobre as festas da Madame Grenier serem as mais baladas da cidade, sobre estarmos no meio dos solteiros mais cobiçados do país e estudarmos no colégio mais caro de toda a Itália.
Ele ficava mais teatral e irônico a cada mais que soltava. Se estivesse vendo por fora, certeza que alguém comentaria sobre eu estar com um sorriso idiota no rosto só por notar o quanto ele estava engajado naquela conversa.
Não era necessariamente sobre me dar atenção, mas eu gostava de finalmente ter uma conversa sóbria com Hart e por ele estar ali, me acompanhando para a enfermaria e me alimentando com muito açúcar.
— Nós estamos no colégio mais caro do país — pontuei.
— Eu sei, mas... deixa pra lá. — Ele estava um pouco frustrado e amenizei para ele. Segurei um riso.
— Tudo bem, eu entendo o seu ponto.
— Entende?
— Sim. Obviamente já estou acostumada, é claro, mas entendo. Parece que, para os ricos, toda a grandeza que a gente já possui não é o suficiente, então tentam aumentar tudo com as palavras. Por exemplo, você acha mesmo que os hotéis do meu pai são os melhores da cidade? Bom, provavelmente são porque ele investe pra caramba nesse negócio e pertence a umas dez gerações atrás de mim. A questão é, mesmo que tivesse outro hotel melhor, sequer saberíamos, porque os hotéis do grande barão Aldo são os melhores da cidade.
— Hmm, estou entendendo melhor, continue.
— Bom, não é um monstro de sete cabeças. Mas além dos ricos, as pessoas estão atrás de publicidade aqui. O pai de VD é um xerife e manda e desmanda na cidade junto com o prefeito. O pai de Mirko é dono do maior buffet da Itália. Meu pai é o maior empresário de hotéis da Itália, e a lista continua, todos eles precisam te lembrar diariamente quem são e o que fazem, para continuarem a ter um status nessa cidade, porque é basicamente disso que se vive aqui. Até o meu irmão gosta de ser reconhecido como o cara que melhor faz identidades falsas por aqui. — Revirei os olhos.
— É, acho que, por esse lado, eu compreendo. Ainda assim, você não pode negar o quanto é esquisito. Às vezes sinto que estou participando de uma série da Netflix.
— Tem sempre a opção de voltar pra casa.
— Ouch, está me expulsando da sua cidade?
— Não é a mais malvada entre os dois gêmeos?
— Pra falar a verdade, nesse caso eu acho que os boatos exageraram muito. Você só é introvertida, sarcástica demais, e um pouco emo. Sem falar do paladar de uma criança birrenta que você tem.
— Não diria isso com tanta confiança, posso ser assustadora quando quero.
— Pior do que tentar esfaquear alguém em uma festa?
— Tente me acordar antes das seis da manhã — ameacei.
— Prometo que nunca farei isso. — Fingiu estar assustado. — Mas posso dizer que as aparências enganam.
— Só por que sou super bonita você achou que eu seria uma idiota?
Ele soltou uma risada do excesso de confiança na minha frase. Ué, eu era modelo nas horas vagas. Meu pai podia até parecer o Rei do Crime da Marvel, mas minha mãe era a maior gata. A única coisa que podia me gabar nessa vida era da minha aparência.
— Foi depois que te conheci que entendi que todos tem seus motivos, e que mesmo aqueles não tão bonitos assim podem ser idiotas.
— O que quer dizer com isso?
— Bom, eu poderia dar uma surra no Patrick se você quisesse, é só pedir. Porque ele é um babaca, além de motivos pessoais, já estou tentando me segurar faz alguns dias de ir atrás desse panaca. E também porque... lembra o dia em que nos conhecemos e essa garota, Nina, te chamou para participar de uma peça, e você a fez correr chorando?
— Não que isso seja importante o suficiente pra guardar um espaço na minha memória, mas sim, eu me lembro.
— Então, eu pensei que você foi rude, e na verdade, você foi desnecessariamente rude com a garota, mas quando fui atrás dela e dei um segundo de corda, não demorou para que ela começasse a falar de terceiros de forma bastante idiota.
— E você é um fofoqueiro.
Ele entortou a cabeça como um filhote de cachorro.
— Talvez, não deveria estar te contando o que ouvi a garota falar, mas o meu ponto aqui é... praticamente todo mundo dessa escola é farinha do mesmo saco. Mesmo quem nasceu de família humilde tá carregando um ego tão gigante na cabeça que fica difícil permanecer por mais de cinco minutos no mesmo ambiente com essa pessoa sem enlouquecer.
Peguei seu pulso e vi a hora no seu relógio.
— Faz meia hora que estamos aqui, você já está doido?
— É disso que estou falando, você não tem um ego gigantesco, já te disse que é só uma criança birrenta que surpreendentemente gosto de conversar.
— Você está surpreso que gosta de conversar comigo? Uau, e eu estou surpresa que ainda não enfiei sua cabeça em um vaso no banheiro.
— Muitas novidades hoje, para nós dois — ele riu. E então percebi que toda aquela lorota era pra tentar me distrair dos meus problemas. — Juro que conheci bolsistas nesse colégio que, se o seu pai é barão, eles pareciam ser os reis dessa cidade.
— Síndrome de novos ricos, acontece bastante. Depois quebram a cara.
— Verdade. e Marzia são umas das poucas garotas aqui que consigo conversar sem me estressar em fingir que minha família ganha mais de dois milhões por ano.
Revirei os olhos, sentindo o meu bolinho de açúcar querendo voltar para a mesa. Seria a segunda vez na mesma semana vomitando em Hart.
— O que foi? — ele gargalhou com a minha cara de morta. Não achei graça.
— Nada. — Sorri falsamente.
Ele parou uns segundos para pensar e uma lâmpada acendeu em sua mente.
— Ah, Myoui. Achei que já estavam se entendendo. Ainda não gosta dela? — perguntou, curioso.
— Que isso, uma entrevista de emprego?
-- Eu só... — Interrompi sua frase.
— Por que eu gostaria?
— Tem algum motivo pra isso igual no caso de Patrick? Algo que ela fez que eu ainda não saiba, mas eu posso odiá-la então pra te acompanhar?
— Sim, ela me jogou do quarto andar do colégio. — Sorri com todos os meus dentes.
Ele coçou a nuca.
— Por que isso não parece plausível e... real?
— Poxa, agora acha que sou mentirosa?
— Cair de locais tão altos resulta em morte, sabe?
— Eu não estou aqui — copiei a voz idiota dele. — Já morri, isso aqui é uma tecnologia super atualizada, olha — dei um beliscão em seu braço —, você até consegue me sentir, tão real...
Touché. Mas então do que mais não gosta se não curte a Myoui? Filhotes de lontra? Praia? Cheiro de grama cortada? Cachorrinhos? Tudo que citei aqui é inofensivo.
— Pra falar a verdade, lontras são fedidas, prefiro esquiar do que ir para uma praia, odeio a sensação da areia entrando nas minhas partes íntimas, e não tem grama na minha casa, moro em um hotel. E é você que tem fama de chutar homossexuais e matar gatos.
Ele afundou a cabeça na mesa.
— Por isso és uma pessoa tão doce, Mercy? — Ele sorriu, fingidamente encantado ignorando minha alfinetada. Idiota.
Vaffanculo, Hart — o xinguei da forma que meu tio Bosco mais adorava falar.
— Suas garras estão afiadas hoje, gatinha.
Nem tanto, estava dando mais papo para ele do que deveria.
me lembra a avó dela, e a madame Niko Grenier é alguém que nessa vida eu não confio. Sei com o que ela trabalha e a forma que ela agencia as modelos dela. Além de que já vi aquela coroa safada tentando beijar o meu pai embaixo de um visco em uma festa de Natal que estava rolando lá no hotel. Odeio Natais desde aquele dia.
gargalhou.
— O beijo da terceira idade realmente pode ser algo traumatizante. — Segurei meu riso para não acompanhar suas risadas. Foi traumatizante, era meu pai, um coroa todo rígido, beijando uma senhora que mal sabia usar a língua. — Olha só! Descobrimos mais uma coisa que você odeia, além de filhotes fofinhos e unicórnios: Natal! Devo te chamar de Grinch daqui pra frente?
Entortei o lábio, pensando nessa proposta.
— O Grinch realmente é um dos meus personagens favoritos. A motivação dele é muito boa. O final do filme poderia ser modificado, no entanto.
— Ah, então você gostava dele sendo vilão e não gosta quando no fim ele se junta com a família do mundo dos Ken e vira um herói feliz?
— Grinch estava mais feliz na torre vivendo com o Max. Cindy Lou destruiu tudo. Algumas pessoas preferem ficar sozinhas no lixão.
— No seu caso, eu até acredito na primeira parte, mas a parte em ficar em um lixão? Difícil de acreditar, querida herdeira de hotéis.
— Uau, se eu sou o Grinch, você é a própria Cindy Lou Who, . Um pé no saco, igual.
— Gosto de pensar que, se eu deixar biscoitos e leite do lado da chaminé, o papai Noel vai aparecer.
— Eu não gosto da ideia de um homem estranho entrando pela chaminé da minha casa, mas... cada um com os seus fetiches.
— Estamos falando sobre fetiches agora? — fingiu interesse excessivo.
— Não sei, será que sua namorada não iria se incomodar com você tendo conversas desse tipo com outra garota?
Se ele estivesse bebendo alguma coisa, teria cuspido, com certeza.
Não era a melhor analisadora de pessoas do mundo, mas existiam certas coisas que você reparava no ser humano, era mundial. O nervosismo, a vontade de mexer no cabelo ou na roupa porque estava sentindo muita atenção em cima de você quando se está prestes e contar uma mentirinha.
Ah, ...
— Hum, acho que ela não iria se incomodar, somos apenas amigos brincando. Minha namorada é bem... tranquila.
— Verdade? — Acabei acionando meu lado mentirosa falsa, só pra torturar ele mais um pouquinho. — E como ela é, sua namorada? Estuda com a gente?
— Oh, não, não estuda. Ela mora na Riviera, meu antigo bairro.
— Entendi, tem a nossa idade?
— Um pouco mais velha.
— Como ela é?
- Hm, tranquila...
— Digo em aparência. Morena? — perguntei, inocente. Ele engoliu em seco.
— Loira.
— Alta?
— Baixinha.
— Entendi. Tem algum hobby? Balé ou algo do tipo — falei, descontraidamente.
— Não — falou prontamente —, longe disso. Ela é de exatas, completamente ligada aos números.
— Uau, ela é o completo oposto de mim. Que coincidência. Quase como se não existisse — exagerei nas minhas entonações e talvez estivesse com uma feição levemente psicopática. — Ou fosse inventada.
estava prestes a desistir de toda aquela enrolação e suspirou antes de dizer:
-- Escuta, , sobre essa história de namorada...
Eu já sabia o que ele diria, e mesmo assim, fiquei irritada quando a irmã Carlotta apareceu me chamando, interrompendo a melhor parte daquela conversa maluca.
! — ela disse, exasperada, estava sem fôlego. — Te procurei por esse colégio inteiro, garota, onde você estava?
se prontificou em me proteger, achando que ela me colocaria de castigo.
— É minha culpa irmã, Carlotta, sinto muito. machucou o pé e eu a levei para a enfermaria. Depois que saímos de lá, viemos direto pra cá e praticamente forcei a comer alguma coisa porque estava muito fraca. Sentimos muito por ter perdido as aulas.
Carlotta fez careta para aquele socorro de herói de e fez careta para mim logo em seguida. Encolhi os ombros, sei lá o que ela estava querendo, tenho certeza de que Carlotta estava pouco se importando se perdíamos aula ou não, mas não sabia disso, então tentou fazer um teatro pra ela, achando que estava me salvando de alguma detenção.
— Tudo bem, eu assumo daqui pra frente senhor Hart. Volte para sua aula, vamos. — Deu alguns tapinhas no ombro dele e recebi um último olhar antes dele ir embora e a irmã Carlotta tomar o seu lugar na cadeira.
Eu esperava que meu olhar assassino tivesse lembrado os de Aldo quando ele estava irritado agora, pois eu definitivamente queria ter uma conversinha com Hart depois disso tudo.
— Tenho que voltar pra aula também? — digo, entediada.
— Queria que fosse somente isso. Seu pai ligou para a coordenação, ele estava viajando para a Rússia quando lhe informaram da prisão de um de seus empregados, o Victor Brazzi. Voltou para Silent Grace imediatamente de jatinho e está tentando ligar para você faz horas, onde deixou seu celular?
Bom, tecnicamente estava preso na minha coxa agora mesmo, no silencioso, era claro. Realmente, eu não abria o meu celular desde de manhã. Estava tentando ignorar o mundo externo.
— Não faço ideia, acho que o perdi — menti para Carlotta.
— Tudo bem. Logo ele chegará aqui. Disse que está falando com advogados e jornalistas sobre este caso, que tem a ver com a menina Perlmann e agora também o Senhor Brazzi. Eu apenas não entendi o que você tem com isso tudo, .
— Confie em mim, irmã Carlotta, você não vai querer saber.
— Muito pelo contrário! Preciso ter absoluta certeza de que todos os meus alunos estão em absoluta segurança nessa escola, . E principalmente você, que é quase uma filha para mim! — ela disse, firme, quase brava, mas sua mão segurava a minha com força em cima da mesa.
Senti meu coração errar uma batida com aquela demonstração de sentimento tão aberta e tive que tossir um pouco para me conter e tirar sua mão da minha.
— Está tudo bem. Eu estou segura e tenho certeza que meu pai contará para a direção inteira de professores, coordenadores e para o padre Francesco tudo o que aconteceu para que estejam a par dos episódios chatos da minha vida pessoal.
— Você os classifica como chatos?
— Legais não são, né? — Fiz careta.
Ela suspirou, estava com algumas rugas na testa e um olhar sofrido. Eu não gostava de ter pessoas se importando comigo, principalmente a irmã Carlotta, mas também não era sentimental o suficiente para tentar deixá-la segura com tudo, dar-lhe um abraço e dizer que no fim ia acabar tudo bem.
Ew.
— Vamos para o seu quarto, tenho certeza de que logo seu pai chegará aqui e deve estar preocupado com você.
Devia sim. Devia estar preocupado pensando em quais maneiras de me assassinar.
Respirei fundo e mexi nos meus cabelos, ansiosa para o embate que teria com ele mais tarde. Que provavelmente seria espalhado em todos os corredores, afinal, O Aldo Mercy em Saint Fiore? Notícia do século. Nem o papa era tão requisitado quanto o maior investidor do colégio aqui.
— Tudo certo. Só preciso dar uma passada no banheiro primeiro, você pode me aguardar, irmã Carlotta?
— Vá rapidinho.
— Pode deixar — disse com vontade, infelizmente, quando me levantei quase caí, havia me esquecido totalmente do meu pé machucado. — Estou bem, estou bem.
Me afastei de Carlotta, que queria me dar apoio, e fui em pulinhos até o banheiro mais próximo da cafeteria.
“Preciso da sua ajuda, VD.”
“Do quanto você precisa da minha ajuda? Você parece estar em uma furada. Virou o único assunto nas salas de aula hoje. Uma menina viu você na enfermaria e a outra te viu aos sorrisos com o meu colega de trabalho.”
Ah, ótimo.
“Dos meus problemas cuido eu, e, no que preciso de ajuda, não precisa se preocupar, eu vou pagar. Idiota.”
“Sou todo ouvidos, princesa.”
“Preciso de informações sobre Victor Brazzi. Vai ser fácil pra você, afinal, ele deve ser tópico número um agora na casa do xerife.”
“Acertou, vou ver o que posso fazer.”
Guardei o meu celular outra vez na fita em volta da minha coxa e abaixo minha saia com perfeição.
Tentei criar um exercício para me acalmar, além de puxar o elástico do meu pulso enquanto Carlotta me acompanhava até meu dormitório. Com quais ferramentas papai me torturaria? Será que arrancaria meus dentes? Sempre fui orgulhosa por minha arcada dentária perfeita, sem aparelhos e sobrevivendo ao soco de Brazzi. Acho que hoje seria um adeus.

***

Andei mancando até meu dormitório, minhas mãos estavam suando, meu pulso ardendo, contei até cinquenta cinquenta vezes, e podia sentir meu coração saindo pela boca enquanto meu braço esquerdo começava a doer. Eu teria um ataque cardíaco?
Nunca tive tanto medo na minha vida.
Seria minha transição de adolescente para uma pessoa que realmente se importa com as consequências das besteiras que faz?
Nah.
Era que, geralmente, as besteiras que eu fazia não eram de tão alto nível de gravidade, essa coisa de quebrar a lei era mais com o meu irmão. Dessa vez era diferente.
Podia ter mil falhas de caráter, mas nunca fiz nada ilegal além de fumar e beber algumas coisinhas quando raramente aparecia em alguma festa. , por exemplo, estaria agindo melhor do que eu na situação em que me encontrava. Eu acho.
Talvez fosse muito até pra ele. Vender identidades e provas parecia um pouco simples depois de dedurar um possível assassino de uma adolescente que era minha vizinha para a polícia. Principalmente porque eu tinha uma espécie de caso com este suposto assassino.
Ouvi vozes e uma movimentação estranha vindo do meu quarto e prendi a respiração. Carlotta ainda me acompanhava e quase pedi a mão dela, como ela havia me dado antes. Mas não. Não era um filhote medroso, ia enfrentar isso de queixo erguido, afinal, eu era uma Mercy.
Mio Dio, lá estava Aldo. Junto com Bosco e meu irmão. Os mais velhos colados no celular enquanto meu irmão estava em um canto do quarto com o cabelo desarrumado, parecendo aborrecido e nervoso, sendo acalmado por Marzia Bucci.
Quando me viram, os três se levantaram e correram em minha direção.
Eu seria imobilizada?
— Pai, calma, eu posso explicar — falei, apavorada, vendo aquele gigante se aproximar de mim. Até mesmo o chamei de pai. Faz quantos anos que não o chamo de pai? O apelo emocional poderia amenizar a bronca.
“Bronca” eu disse, pois castigo não seria, eu não fazia ideia do que meu pai faria. Conhecia a família Mercy, e mesmo Aldo tentando me manter longe dos negócios, eu tinha uma ideia de que ele não viajava todo final de semana para o interior para falar com meus tios e primos porque ele estava com saudades.
Resumindo: papai não era flor que se cheire, e não tinha noção de um terço dos negócios em que ele estava metido.
E talvez fosse isso mesmo que me assustava tanto. Era o que me deixa nervosa para embates desse tipo.
O mais assustador aconteceu, por fim.
O terror psicológico foi encerrado quando Aldo Mercy praticamente começou a se derreter na minha frente, me puxando para um abraço que me engoliu dentro dos seus braços gigantes.
Figlia, graças a Deus você parece bem! — Beijou meus cabelos algumas vezes. — Me conte tudo o que aconteceu, vamos! Precisamos te tirar dessa escola, desse país, chega disso tudo. Eu falei que você não deveria ter voltado, eu falei! E aquele desgraçado do Brazzi.
Rosnou a última frase, nunca o vi tão bravo e desesperado ao mesmo tempo. Era uma faceta irreconhecível de Aldo... parecia humano. E bastante emotivo.
Fratello, se acalme, está assustando sua menina... — Meu tio Bosco tentou tirar Aldo de cima de mim e levou um empurrão pelo braço.
— Não me diga como cuidar de minha figlia, Bosco! — Aldo rugiu.
— Pai... — pediu com a voz fraca. Aparentemente, o homem estava deixando todos loucos ali. — Bosco não insinuou nada disso, mas olhe para , ela parece assustada com o senhor agora, deixe-a se sentar por um momento, vamos conversar com calma sobre tudo.
Comecei a caminhar até a cama e, por sorte, somente notou meu andar estranho antes de eu me sentar. Percebi sua careta para o meu pé e sussurrei “depois” para ele. Aldo continuava a soltar fogo pelas ventas e entrou em uma discussão com meu tio.
— Ela é famiglia, Bosco! FAMIGLIA! Meu sangue, minha herdeira! Como ele ousa tocar nela? — papai gritou.
Puta que pariu.
Puta. Que. Pariu.
Fotarsi. Farabutto. Diavolo.
Aldo viu o vídeo.
Ele viu aquela porcaria. Como ele viu aquilo? Patrick não liberaria, eu tinha certeza, o ego dele já era minúsculo e isso destruiria o resto de si. Victor estava na cadeia, até onde sabia, e tudo bem, ele poderia ter deixado pronto para ser lançado por outra pessoa, mas essa pessoa era Patrick, certo?
Entrei em combustão e não sabia o que dizer ou fazer. Papai continuava a gritar com meu tio e entrou no meio da discussão sem fundamento algum.
PAPÀ! — falei alto, tentando tomar sua atenção. — Quer me escutar?
Eu não sei o que deu naquele homem, mas foi caso sério, pois seu rosto se tornou um completo vermelho e em um segundo vi lágrimas caindo de seus olhos enquanto ele me fitava.
Fiquei apavorada. me encarou em choque, da mesma forma, e meu tio Bosco tentou abraçar meu pai, que se afastava, falando coisas sobre eu ser sua família e ele querer me proteger.
Nunca havia visto meu pai chorar, nem quando minha mãe morreu. O que diabos estava acontecendo?
— Vai lá pra fora — pedi para meu irmão gêmeo, que ainda estava em transe. Ele me escutou imediatamente. — Leve o Bosco com você.
E meu tio, que ainda tentava acalentar seu irmão mais novo, saiu de meu quarto, sendo carregado por meu irmão.
A porta se fechou e me senti minúscula na frente daquele homem, mas me mantive firme. Precisávamos conversar logo, ou tudo aquilo iria piorar ainda mais.
— Senta. — Puxei meu pai pela mão e o fiz se sentar em uma cadeira de frente para a minha cama. Me senti estranha, não lembrava de pegar em sua mão desde que era pequena, mas sacrifícios eram necessários.
— Me perdoa, filha, me perdoa. — Lágrimas caíam por seu rosto e levei um susto quando caiu de joelhos na minha frente segurando minhas mãos.
— Do que diabo você está falando, homem? — me exasperei, tentando puxar meus braços que ele segurava como uma cola. Desesperado pela minha atenção.
— Eu não te protegi. — Sua voz se acalmou agora, ninguém lá de fora poderia nos ouvir falando. Era um tom diferente do que ele usou com Bosco.
— Nada disso foi sua culpa, você... Aldo, você tem certeza de que sabe de tudo o que aconteceu? — A dúvida estampada em minha face.
— Você mudou o seu depoimento pois encontrou Victor naquela noite no hotel. E Victor estava ameaçando soltar uma gravação de vocês para te assustar e... — Ele engoliu, parecendo querer vomitar.
— Então você sabe. — Me calei.
— Descobri através de um jornalista que contratei e estava conversando com Victor ,que tentava jogar toda essa merda contra o ventilador e encontrava uma maneira de poder me subornar, mal sabia ele que estava negociando com um dos meus homens.
— Eu pensei...
— No que pensou, figlia? — Colocou as palmas das mãos em minhas bochechas, me fazendo fitar diretamente seus olhos. Me desvencilhei daquele toque rapidamente.
— Não sei, que você me jogaria no rio Sena depois que descobrisse? Me deserdasse, tirasse o Mercy do meu nome, muitas possibilidades — bufei, avoada.
— Por que eu faria isso? Você é o meu bem mais precioso, . Tudo que quero é sua proteção.
Talvez por que você nunca se importou com a minha existência antes?
— Eu não sei, acho que Victor me fez acreditar nisso. — Foi o que consegui responder na hora.
— Como ele pôde entrar na sua cabeça dessa forma, minha filha? — Ele engoliu pesadamente e encarou o tapete do meu chão por um instante, até se sentar do meu lado na cama. Agora estava mais sereno, mais como o chefe, orador e hoteleiro. Falava olhando em meus olhos, parecendo querer marcar minha cabeça sobre o que diria. — Um homem que não dedica tempo a sua família nunca será um homem de verdade, . Você é minha filha, minha caçula, minha princesinha. Tudo que faço, eu faço por você.
— Achei que seu sentimento familiar Mercy era dessa forma apenas por , ele é o herdeiro — soltei, desconexamente. Aldo bufou.
é meu herdeiro, cuidará dos negócios da família. Eu o ensino a cuidar dos Mercy. Ensino que homens grandes nascem pequenos e se tornam gigantes depois de conhecimento. O ensino a cuidar de si mesmo pois ele irá repassar meus conhecimentos para seus filhos e continuará nossa linhagem. Mas você... você é minha filha. É frágil, é inocente e importante, . Meus inimigos a citam como a minha arma mais letal. Meu calcanhar de Aquiles.
Papai sempre falava sobre o quanto a família importava. Principalmente para os seus subordinados. Mas acho que nunca tinha visto ele em um estado puro honrando o nome dos Mercy de tal forma antes.
Era poderoso e assustador.
— Daqui pra frente, , nunca, jamais, sequer pense na possibilidade de eu não estar do seu lado em uma batalha. Somos Mercy. Quando você precisar de alguma coisa, algo parecido acontecer, e que Deus queira que não aconteça, você me liga e não vou hesitar em te ajudar, minha filha. Não sou um homem de ameaças, sou um homem de negócios, de argumentações. Mas quando lhe digo que vou acabar com a vida de Victor pelo o que ele fez com o sangue do meu sangue, não estou argumentando, estou lhe dizendo que logo teremos uma sepultura a mais da família Brazzi no cemitério de Silent Grace.


Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Lembrando que são duas autoras que escrevem essa história (assim como fizemos com Império dos Mortos, cada uma escreve uma parte ♥) agora estamos começando com esse novo esquema de atualizar 1 capítulo por mês, então vou colocar alguns comentários pessoais aqui, me aguentem!!!!
Como acredito que viram no episódio doze de Silent Grace, as coisas tão começando a ficar bem sérias ahahaha pobre , e bom, esse é um dos meus capítulos preferidos. Mostra um pouco sobre como a vida dela não é fácil desde o início e o contraste de como os problemas dela são sérios demais pra uma adolescente conseguir aguentar, o que mostra que a minha bichinha é bastante forte. começa a aparecer um pouquinho mais e finalmente descobre (um dos) segredinho(s) dele hahahah tenho certeza que vocês vão curtir bastante esse casal ♥ Também vemos um pouco mais da amizade da Marzia com a , que é muito importante pra sanidade dessas duas meninas que se amam demais e se viam como o escudo uma da outra na infância, principalmente a Marzia que sempre foi um pouco mais tímida e tinha problemas de se enturmar, via na um abrigo, desde “literalmente o berço” hahahhaha E por fim temos o Aldo. Aldo é uma incógnita na vida da filha. Ela nunca sabe o que esperar dele.
PERDÃO PELA NOTA GIGANTE :( Pra finalizar, eu leio CADA comentário e sempre que sobra um tempinho respondo um por um, desculpem por não estar fazendo isso ultimamente, é que tá tudo muito corrido, MAS SAIBAM QUE EU LEIO E APRECIO TUDO, de verdade, cada comentário é como um combustível pra gente tentar melhorar nossa escrita e história. Muito obrigada por tudo gente e até o próximo mês! ♥
Playlist das Personagens:

Asia
Lily

Outras Fanfics:
Império dos Mortos: Outros, Restritas, Finalizada.


Nota da Beta: Acho que ainda tô respirando fundo pra conseguir processar tudo isso. Nunca achei que chegaria o dia em que eu diria que a é uma das minhas personagens preferidas e só quero protegê-la de todo mal! Agora vivo pra ver o batendo no Patrick e o Aldo indo atrás do Victor, os Brazzi tão ferrados!

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.

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