Última atualização: 25/03/2022

Capítulo 1

— Beleza, pessoal, estão liberados — disse a professora. — Próxima aula quero que todos tenham lido o texto, porque vamos debater. — A essa altura, ninguém mais estava prestando atenção nela, metade da turma já tinha saído.
Levantei a cabeça da carteira, acordando de um sono digno de nota, e alisei o rosto para tirar as marcas. Enquanto os grupinhos saíam rápido da sala, eu guardava as coisas que foram tiradas da mochila por motivo nenhum, já que a aula foi usada apenas para botar o sono em dia. Olhei pela janela e o sol estava alto e forte, franzi o cenho. Me levantei, coloquei um óculos de sol, puxei um maço de paiol da mochila, escolhi um e acendi assim que saí da sala. Desci a rampa fumando e sentindo o sol queimar minha pele. Minas não tem mar, mas tem sol de litoral, pensei.
Estava na porta do departamento, quando ouvi alguém me chamar:
— Oh, maluca. — Olhei e era . — Você já tem grupo pro trabalho de 431?
— Você tá ficando abusado, hein, moço — falei. — Mas eu vou fazer sozinha esse trampo aí.
— Por quê? — Perguntou o intercambista.
— Porque geral juntou grupo e me largaram de fora. E como eu não tô a fim de me humilhar pra entrar em grupo nenhum, vou fazer sozinha.
— Eu tô sem grupo também — ele disse, dando um sorrisinho. — Bora fazer juntos?
— Por mim, beleza, cara — respondi, dando de ombros. — Você já tem ideia de tema?
— Ainda não, mas posso pensar sobre.
— Tranquilo então — falei.
— Vai pra onde agora? — Ele perguntou, tirando um óculos de sol da mochila e colocando no rosto.
— Vou à lanchonete da piscina, tô com muita fome — respondi, apontando na direção do lugar.
— Opa! Então vou com você, tô indo pra lá também — ele disse e eu concordei.
Saímos do departamento e fomos andando em direção à piscina. Eu havia estranhado muito o fato de ter ficado sem grupo. Ele era um dos poucos intercambistas do nosso curso e o único que não era latino, então chamava mais atenção que os demais. Tirando isso, adicionava-se o fato de ele ser um cara muito bonito: alto, corpo atlético, olhos e cabelos levemente ondulados. Com todos esses fatores, ele rapidamente se tornou alvo de cobiça de todos do curso, até aquelas pessoas que não se interessam por homens queriam se aproximar dele, nem que fosse só pra saber como é ser um intercambista no Brasil.
Eu era o extremo contrário. Primeiro que não era intercambista, então zero fator extra pra mim. Além disso, eu, quando entrei na faculdade, era muito na minha, bem antissocial mesmo, tinha muita dificuldade de fazer amizades e puxar papo com pessoas desconhecidas. Então, por um tempo, conversava apenas com uma menina que havia feito ensino médio comigo. Porém, por ironia do destino, ela trocou de curso e de faculdade e eu acabei ficando meio isolada. Havia, sim, pessoas com quem eu conversava na nossa sala, mas não eram meu amigos de verdade, apenas “amigos de convivência", digamos assim. Nesse contexto, eu já conhecia , já havíamos conversado algumas vezes, mas nada de muito memorável, porém ele era bem legal comigo.
e eu trocamos algumas dúzias de palavras no trajeto até a piscina, mas nada de relevante. Chegamos lá e, obviamente, a piscina estava lotada, nada mais justo devido ao calor que estava fazendo, porém minha preocupação naquele momento não era o calor e sim a minha fome.
Quando entramos à lanchonete, apaguei o cigarro e joguei a bituca fora, parei diante do expositor de salgados e fiquei analisando as opções. Queria algo gostoso e pesado! Fiquei em dúvida entre um quibe e uma coxinha, mas por fim a segunda opção foi a vencedora. Pedi ao atendente o salgado, fui pagar e aproveitei para reabastecer meu estoque de pirulitos.
— Você é um cara bem saudável, hein? — Comentei, jogando os pirulitos na mochila. havia feito uma escolha bem oposta à minha: um sanduíche natural e um suco de laranja.
— Ah, eu tento. Quero ficar em boa forma pra continuar jogando basquete — respondeu, enquanto nos sentávamos em uma das mesas externas do pátio da piscina.
— Basqueteiro — comentei mais pra mim que pra ele. — Os meninos da física que gostam de jogar basquete, nunca vi.
— Verdade — ele respondeu, rindo. — Eu jogo com eles direto. Muito fominhas. — Eu murmurei algo em concordância, estava com a boca cheia.
— Queria jogar, mas tenho muita pouca prática — falei, limpando a oleosidade da boca. — Capaz de me machucar toda rapidão.
— Uai, se você quiser, eu posso te ajudar.
— Nhe — resmunguei. — Sei lá, a gente vê isso aí — falei, dando outra mordida no meu salgado.
— Às vezes eu esqueço desse seu ânimo todo — ele disse, rolando os olhos e bebendo o suco.
— Ah, cara, esportes não são o meu rolê, sabe? — Falei. — Talvez um dia eu anime jogar com você.
! — Um cara, Paulo, se aproximou de nós. — Cara, não te achei no final da aula. Tem uma vaga no nosso grupo, bora? — O recém chegado apenas me ignorou.
Eu havia sido ignorada propositalmente e eu sabia disso. Paulo e eu tínhamos um péssimo histórico. Ele, quando éramos calouros, era um dos caras mais desejados do nosso ano, assim como . Paulo era um cara alto, forte, um belo sorriso e uma voz sedutora, mas não fazia nem um pouco o meu tipo — não que eu tivesse um, mas se tivesse, ele não seria parte do grupo —, eu o achava um pouco arrogante.
Então, em um belo dia, estávamos em uma festa da turma, ele pediu para ficar comigo e eu disse não. Porém, como um belo machista que era, ele achou isso um insulto, pois como a menina mais isolada da sala não ia querer beijar aquele deus grego que ele julgava ser? Impossível! Com isso, ele me xingou de algumas coisas e depois passou a me difamar sempre que a situação era propícia para tal. E era esse babaca que era um dos melhores amigos de .
— Ah, cara, eu fui ao banheiro um pouquinho antes da aula acabar, voltei já tinha todo mundo saído — explicou. — Mas eu tô de dupla com a . — Paulo fez uma caretinha suave, quase imperceptível. — Cabe dois no seu grupo?
— Ih, cara, a gente já tá em 3. Faltava só tu pra fechar 4…
— Então nem rola, já tô com ela. — deu de ombros. — No próximo a gente faz, suave?
— Suave! — Paulo sentou junto da gente e os dois começaram a trocar ideia sobre algum assunto que não era relevante.
Fiquei quietinha na minha, comendo minha coxinha. Quando acabei, pesquei um pirulito de dentro da mochila e coloquei na boca. Virei de costas pra mesa, apoiei os cotovelos no tampo da mesa e joguei a cabeça pra trás, sentindo o sol na pele. A presença de Paulo me incomodava. Peguei meu celular e comecei a mexer no instagram pra passar o tempo. Poucos minutos depois, recebi uma mensagem de uma das meninas que morava comigo:

, tamo pensando em fazer um rock aqui hoje, que cê acha?”
“Sextou, . Bora que bora” respondi, animada.
“Passa na distribuidora e compra umas bebidas então, depois a gente divide. Laurinha falou que vai arranjar uns paiero com aquela mina da sociais. Aí tá no esquema já”.
“Suave, , vou agora. Daqui a pouco chego em casa”

— Oh, , vou ter que ir embora. Depois a gente troca ideia do trabalho, tá? — Falei, me levantando agradecida por ter um pretexto para sair dali.
— Uai, mas já? Nem falamos nada ainda!
— É, mas tem tempo ainda pra isso. Preciso resolver umas paradas com as meninas lá de casa, entende? — Falei, jogando um pirulito pra ele. — Depois eu te mando mensagem pra combinar tudo, pode ser?
— E eu tenho escolha?
— Nossa, que coisa, hein? Drama…
— Tá de boa, . Vai tranquila — ele disse, sorrindo. — Depois a gente se fala.
Peguei minha mochila e fui embora da lanchonete. Coloquei meus fones de ouvido e fui andando rumo à distribuidora, sem pressa nenhuma. Chegando lá, troquei uma ideia com os meninos que trabalhavam lá e que já eram conhecidos nossos, porque sempre salvavam a gente quando resolvíamos fazer uma festa assim de última hora. Comprei algumas bebidas, uns galões de água, pedi para entregarem e fui pra casa.
Quando cheguei em casa, as meninas estavam sentadas na sala, animadíssimas com a festa.
! — me puxou pra sentar com elas. — A deu ideia de chamar o Pedro pra ser DJ, o que você acha?
— Uai, por mim beleza! — Respondi, tirando os sapatos e o óculos de sol. — Pedrão manda bem na música — comentei. — Eu comprei lá as bebidas, aproveitei e comprei água porque a nossa já tá no fim. Daí mês que vem vocês compram, pode ser?
— Pode! — disse. — Era minha vez, aí a gente troca. — Concordei com a cabeça.
— Quem vocês vão chamar? — Perguntei, deitando no colo da . — Por que eu não tenho nem ideia. Ainda mais em cima da hora assim.
— Vou chamar as meninas do futsal e umas amigas do meu curso — disse.
— Vai chamar seu namorado não? — Perguntei, levantando a sobrancelha. Os dois tinham uma relação... complicada.
— Ah, tô pensando sobre — disse ela debochada.
— Ó, isso vai dar ruim, amiga, presta atenção… — alertou. — Eu vou chamar meus amigos também.
— Em resumo, vamos todas chamar os amigues — disse, levantando pra pegar um pacote de biscoito. — Cobrar 5 reais só pra cobrir os custos e bora.
— Eu vou chamar ninguém não — falei. — Tô bolada com a galera. Me largaram sem grupo outra vez. — Emburrei a cara.
— Esse povo só vacila com você, hein? — disse, passando a mão no meu cabelo. — Coisa mais chata!
— Eu nem ligo mais, eles que se lasquem — falei, dando de ombros. — Bem que vocês podiam trocar de curso… — Pensei alto.
Nós morávamos juntas desde o nosso ano de calouras. e faziam bioquímica e a fazia educação física, eu fazia arquitetura. era aquele tipo de pessoa que é impossível não amar, super alto astral, sempre tinha algum conselho bom pra dar e sempre tava on pra beber depois da aula! , para os íntimos, era uma pessoa controversa, com ela era 8 ou 80, ame-a ou deixe-a, mas eu amava. era a mais distraída de todas nós, sempre esquecia de algo, perdia aula porque dormia demais, esquecia dia de prova e tudo mais, mas ela era uma amiga de ouro, sempre ali pra dar um carinho. Nós quatro fizemos amizade muito rápido e, sempre que dava, estávamos juntas. Elas eram meu refúgio.
, me empresta aquele seu vestido de renda hoje? — perguntou. — Tô querendo dar uma causada.
— Empresto, amiga — disse, rindo. — Pode pegar lá no meu armário, mas devolve ele inteiro, viu? Sem selvageria!
— Até parece! — Ela fez uma cara afetada. — Sou uma anja! — Completou, se levantou e foi pro meu quarto.
— Mas, hein, cê precisa se afastar dessa galera aí, . Povo mais tóxico — disse. — Eles sempre te largam de fora das coisas.
— Se eu me afastar, vou ficar isolada! — Falei. — Não que eu vá me humilhar por eles, mas são os únicos que conversam comigo todo dia. Acho que seria pior se ficasse sozinha sempre.
— Mas de que adianta eles ficarem com você só quando é conveniente pra eles e quando você precisa eles somem? — Ela completou.
— Ah, , eu já sei como eles são. Tô acostumada.
— Não devia! A gente não pode se acostumar a ser mal tratada! Toma rumo! — E deu um tapinha na minha testa, me fazendo rir.
— Pode deixar — respondi. — Agora eu vou tomar um banho e me arrumar, tem muita coisa pra fazer hoje ainda! — Levantei do colo dela e fui me banhar.
Entrei debaixo do chuveiro e deixei a água quente me relaxar um pouco. Fiquei pensando sobre o que a tinha dito e sobre como ela estava certa, mas eu também tinha minha parcela de razão. Fiquei mórbida pensando na rejeição e afastei os pensamentos da minha mente, foquei na festa que iríamos dar e comecei a me animar. Depois de lavar meu corpo e meu cabelo, saí revigorada do chuveiro. Me sequei, coloquei uma roupa velhinha, penteei o cabelo e saí do banheiro.
As meninas já tinham começado a faxina. Ajudei a a tirar o “sofá” — leia-se colchão e pallets — da sala e colocar no meu quarto. Depois começamos a fazer o gummy com aqueles ingredientes de qualidade duvidosa, mas ficou do jeito que a gente gostava, docinho e mortal. Lá pelas tantas, a moça do cigarro passou em casa e deixou a encomenda. Pedrão chegou logo depois e começou a preparar os seus apetrechos sonoros na mesa de jantar. e eu fizemos uma espécie de caipirinha de larga escala e posicionamos junto aos outros galões de gummy. Tudo pronto pra festa, fomos nos arrumar.
Fiquei conversando com Pedrão um tempo pra fazer sala e não largar ele sozinho lá até as meninas terminarem de arrumar, então fui pro quarto dar um jeito na aparência. Coloquei um short jeans, um top faixa branco, um kimono colorido e um chinelo. Sentei na escrivaninha pra fazer uma maquiagem básica, quando vi que tinha uma ligação perdida no meu celular. Era do . Liguei de volta:
— Alô?
— Oi, é a — falei. — Por que me ligou? Aconteceu alguma coisa? — Perguntei.
— Não, eu só queria discutir sobre o trabalho. — falou, do outro lado da linha.
— Você precisa perder essa mania de ligar pras pessoas — falei, colocando a ligação no viva-voz pra poder me maquiar. — Não é muito comum fazer isso aqui no Brasil.
— Eu sei. Uma hora eu acostumo — Deu uma risadinha. — Mas e aí, aproveitando que já estamos conversando, o que você tá pensando?
— Sei lá, pensei em fazer aquele capítulo de Habitações sociais nos anos pós monarquia — respondi, enquanto passava a base no rosto. — Mas não sei se dá pano pra manga.
— Manga? O que tem a ver manga? — Perguntou confuso e eu ri.
— É uma expressão, cara.
— Ah, entendi! Mas eu gostei do tema — animou-se. — Quer vir aqui amanhã de manhã começar?
— Sem condições — cortei. — Inclusive, vamos dar uma festinha aqui em casa hoje. Se quiser, pode vir. 5 dinheirinhos só — convidei.
— Gostei da ideia, hein! Que horas começa? — Perguntou.
— Ah, umas 21h, por aí — falei, terminando meu contorno. — Você sabe onde eu moro?
— Sei não.
— Te mando a localização por Whatsapp então. Qualquer coisa, me manda mensagem.
— Prometo que não vou ligar — brincou e eu ri. — Mais tarde eu apareço aí então! Até!
— Até. — Desliguei a ligação.
Terminei minha maquiagem, passei um perfuminho e fui pra sala encontrar o pessoal. me xingou por estar de chinelo, mas eu argumentei que eu estava dentro da minha própria casa e não ia calçar tênis (vocês não concordam comigo?). Por fim, ela se deu por vencida e parou de encher a paciência. Pedrão colocou um pancadão para tocar e dar uma animada nas anfitriãs. Ficamos ali dançando e conversando por um tempo até a galera começar a chegar.
A sala foi enchendo aos poucos. Estava dançando do lado do Pedrão, quando meu celular vibrou.

“Tô na porta” Era .
“Fala pra que eu que te chamei” respondi.
“Okay”

Continuei dançando e bebendo até ele aparecer. Podia ter sido de boa, até que eu vi o Paulo chegando junto a ele. Revirei os olhos. Revistei o local com os olhos até achar a .
Estava indo na direção dela, quando segurou meu braço:
— Oi! Casa legal, hein? — Falou, sorrindo.
— Obrigada — falei meio seca. — As bebidas estão ao lado da porta. Sinta-se à vontade. — Apontei e saí pra falar com a .
— Chamou o intercambista, foi? — Ela já lançou a pergunta antes de eu falar qualquer coisa.
— Chamei, mas aquela bosta do Paulo veio junto. Não quero ele aqui — reclamei.
— Pede ao Pedrão pra tirar ele, uai — ela falou como se não fosse nada. — Fala que vai reembolsar todos os 5 reais dele, mas que ele não foi convidado, portanto não vai poder ficar. — E continuou dançando tranquilamente. Não era só comigo que Paulo tinha problemas, era com a casa toda.
E como ela sugeriu, eu fiz. Fui e cochichei no ouvido do DJ o que estava rolando e pedi pra que ele tirasse o cara do rolê. Ele concordou sem nem pestanejar, porque também não gostava do Paulo, e foi pra perto do cara. Fiquei lá na mesa, olhando a situação com medo de dar escândalo, mas ele tinha colocado a música bem alta pra evitar isso. Era um DJ preparado, digamos. Consegui ver tentando argumentar, mas Pedrão foi incisivo e não voltou atrás. Por fim, ele escoltou o Paulo até a porta, explicou pra a situação, ela devolveu o dinheiro dele e fechou ele pra fora.
estava meio em choque, parado no meio da sala com uma cara de tacho. Pedrão voltou pra onde eu estava e falou “Tudo certo, babaca expulso com sucesso”, eu ri e agradeci. Fiquei ali dançando com ele por um tempinho, depois fui pegar uma bebida, pois meu copo havia esvaziado. Estava enchendo a caneca, quando veio falar comigo.
— Por que expulsaram o cara assim? — Questionou meio bravo.
— Ninguém aqui de casa gosta dele, não era pra você ter chamado ele — falei, colocando gelo na bebida. — Convidado não tem convidado.
— Eu não sabia, qual é o problema com ele? Digo, o que rolou pra vocês não gostarem dele? — Perguntou, enchendo o próprio copo.
— Tirando o fato de ele ser um completo babaca com todas as meninas que ele conhece, ele adora falar mal de mim pelas minhas costas. — Dei um gole no álcool. — Já brigou com o Pedro por conta de nada e coisas do gênero.
— Não sabia disso — ele disse espantado. — Ele nunca falou mal de você pra mim…
— Pra você né, anjo — falei, rolando os olhos. — Mas é basicamente isso a história.
— Desculpa pelo problema, eu não sabia — falou.
— Tá tranquilo, não foi 100% sua culpa. Só 90% — brinquei e ele riu. — Vou te apresentar para as meninas, vem comigo. — Peguei ele pelo braço e fui apresentá-lo para as minhas amigas.
Pouco tempo depois, ele se enturmou com todo mundo e se soltou. Conversamos bastante na festa, dançamos e bebemos bastante. No final das contas, ele não deu conta de acompanhar o nosso pique e passou mal, colocamos ele no “sofá” no meu quarto, e continuamos na festa.
Quando todo mundo tinha ido embora, juntamos o lixo bem mais ou menos, trancamos tudo e fomos para nossos respectivos quartos. Quando entrei no meu, estava completamente desacordado, perda total. Coloquei um lençol por cima dele pra proteger dos pernilongos, catei meu pijama, fui ao banheiro me trocar e lavar o reboco da cara, voltei pro quarto, deitei na minha cama e apaguei.


Capítulo 2

Acordei no outro dia já era quase uma da tarde. Olhei pro lado e me assustei com deitado no colchão no chão, havia esquecido completamente dele. Senti minha cabeça latejar fortemente, me levantei, prendi o cabelo do melhor jeito que deu e fui pra sala.
As meninas estavam sentadas na mesa, já que o sofá estava ocupado, com cara de morte assim como eu.
— Bom dia, anjas — falei com a voz toda estranha. — Ou boa tarde, sei lá.
— Quer um café, amiga? — perguntou e eu assenti. — Ressaca braba, bicho.
— Nem fala — respondi, pegando a xícara que ela estendia pra mim. — Lembro de pouca coisa, gente. — começou a rir loucamente. — Ih, qual foi? Me conta.
— Você não lembra que a beijou o Pedrão? — Ela revelou e eu engasguei com o café.
— Sério? — Olhei embasbacada pra , que estava toda vermelha. — Como que eu esqueci disso?
— E não só beijou né, princess? — completou a zoação. — Ele tá dormindo lá no quarto dela!
— Choque de monstro! — Exclamei. — Nunca imaginaria. — E comecei a rir.
— Acontece, gente! — falou, tentando limpar a barra dela. — Deu vontade, peguei mesmo!
— Tá certa, amiga, é só gastação! — Falei, me sentando. — Pedrão é tudo para todas.
Peguei um pão de queijo e fiquei ouvindo elas contarem as fofocas da noite anterior. Depois de tomarmos café, levantamos e fomos limpar a sala. Como todo lugar depois de uma boa festa, a sala estava um nojo, o chão grudento de bebida derramada, alguns lixos perdidos que não foram recolhidos antes, a mesa das bebidas toda emporcalhada... um caos. Então pegamos nosso arsenal de limpeza e começamos a batalha. Ajudei a limpar o chão, enquanto as outras lavavam os galões e limpavam os móveis sujos. Por fim, depois de muito esforço, tudo estava limpo. Faltava só voltar com o sofá para o lugar, mas ele estava ocupado.
Fui ao meu quarto ver se tinha acordado e encontrei ele no exato momento que abriu os olhos. Com os cabelos totalmente desgrenhados e a cara amassada, ele olhou pros lados, confuso, passou a mão na cabeça, aparentemente sentindo os efeitos do álcool da noite anterior, demorou pra ligar o cérebro, mas, quando o fez, me achou parada na porta.
— Nossa, mas o que rolou? — Ele perguntou.
— O senhor bebeu demais e deu teto preto — falei, rindo da cara dele. — Aí colocamos você aí pra dormir.
— Jesus, eu não lembro de quase nada — ele falou, balançando a cabeça. — Eu fiz alguma merda?
— Merda não, mas aprendeu a fazer o quadradinho — falei, rindo e ele riu de volta.
— Que cena, posso até imaginar…
— Levanta aí, preciso do sofá — falei.
— Isso é seu sofá? — ele disse, rindo. — Criativo.
— Econômico, eu diria — respondi. — Vem, tem café e pão de queijo lá na cozinha.
Ele se levantou, ajeitou a roupa como pôde, calçou o tênis e foi até a cozinha comigo. O deixei lá comendo e fui pegar o sofá. Colocamos tudo no lugar e fui arrumar o meu quarto, que tava uma bagunça também. Dobrei as cobertas, que de nada serviam num calor daqueles, ajeitei a cama, guardei as maquiagens que estavam espalhadas pela escrivaninha, completamente misturadas com meus materiais de aula. Por fim, resolvi trocar de roupa. Fechei a porta, peguei um short de moletom e uma regatinha simples e comecei a me vestir. Quando já estava terminando de vestir a blusa, ouvi:
— NOSSA, DESCULPA! — E a porta fechando rapidamente.
Não tinha entendido nada, terminei de colocar a blusa e saí. Achei parado na frente da porta, parecendo uma acerola de tão vermelho.
— Eu devia ter batido! Desculpa! — Ele disse apavorado.
— Fica tranquilo, cara, eu tava de costas e quase toda vestida já. Você viu o quê? A parte de trás do meu sutiã? — Falei, acalmando-o. — Né possível que viu mais?
— Não, nada mais! — Ele disse. — Nossa segunda bola fora em menos de 24 horas.
— Mais uma e pode pedir música no fantástico — brinquei e ele riu sem jeito. — Comeu? — Perguntei e ele assentiu
— Acho que vou pra casa, preciso de um banho — disse torcendo o nariz. — Depois a gente se fala, beleza?
— Beleza — falei. — Te levo lá fora.
Levei ele até a porta, trocamos mais meia dúzia de palavras, ele me abraçou e foi embora.
Passei o resto do dia morta na ressaca e gastando o mais novo casal da casa: e Pedrão.
Preciso explicar pra vocês o que era o Pedro. Era um cara sensacional! Ele já estava na faculdade quando nós entramos e provavelmente sairia depois de todas nós, mas desde que nos conhecemos, ele virou quase um agregado da nossa república. Ele era um cara alto, bem alto, magro, cabelos cacheados na altura dos ombros, pele sempre queimada de sol e uma barbichinha sem muita imponência adornava seu rosto fino. Era aquele tipo de pessoa que matava aula pra ir fumar na beirada da piscina, enquanto tocava um violãozinho, que sempre tinha um questionamento aleatório na cabeça e sempre rendia um bom papo. Ele e eram um casal um tanto... impensável.
Naquele dia, nenhum de nós prestou para absolutamente nada. O jantar foi delivery e cigarro. Não tínhamos condições de fazer qualquer coisa além disso.

No dia seguinte, acordei melhor das pernas. Levantei, fui ao banheiro, lavei meu rosto e fui lanchar. As meninas, e o Pedro, ainda estavam dormindo, então comi sozinha. Fiz aquele cafézinho coado bem forte pra dar um ânimo, um pãozinho com manteiga e uma bananinha pra arrematar. Depois de me alimentar, senti um pouco de saudades de casa, da minha mãe e da comida dela, resolvi então fazer uma das suas receitas mais icônicas para o almoço: lasanha de carne moída! Dei uma olhada nos armários, mas não tínhamos nada para fazer o prato, então resolvi ir ao supermercado comprar.
Voltei ao meu quarto, arrumei a cama, vesti um short jeans, uma camisa larga, calcei um chinelo, prendi o cabelo num rabo de cavalo alto, peguei minhas coisas e saí de casa. Cheguei ao mercado, peguei um carrinho e fui andando sem rumo. Adorava fazer mercado. Já tinha pegado algumas coisas quando encontrei o Paulo. Ele me olhou de cima a baixo e torceu o nariz. — Por que me expulsou? — Por que não expulsaria? — Retruquei sem paciência. — Sei nem pra que você foi, não gosta de ninguém que mora lá e sabe que a gente não gosta de você. — E tenho razão de não gostar, não é? — Falou desgostoso e foi embora. Em pleno domingo de manhã e eu tinha que encontrar com aquele mau agouro. Balancei a cabeça e continuei minhas compras. Resolvi fazer uma musse de maracujá de sobremesa, aproveitei e comprei algumas coisas que eu precisava também.
Terminei minha tarefa, paguei e rumei para a minha casa. O sol ainda estava quente, muito quente, apesar de ser de manhã, e, a cada passo, aumentava a minha preguiça. Por fim, venci o meu caminho. Cheguei em casa, coloquei as compras em seus devidos lugares e voltei pro meu quarto.
Abri a janela, arrumei a cama, acendi um cigarro, me sentei na cama e resolvi mandar mensagem para .
“Bom dia, princesa da disney”. Mandei e esperei a resposta
“Bom dia, senhorita”. Respondeu.
“Bom saber que está vivo hahaha.”
“Depende do ponto de vista, sabe? hahaha”.
“Quer vir aqui mexer no trabalho hoje?”. Nós precisávamos começar esse troço.
“Pode ser depois do almoço? Acordei quase agora”.
“Uai, pode. Quando você estiver afim de vir, me avisa”.
“Tranquilo então.”
“Encontrei seu amigo hoje”.
“Que amigo?”
“Paulo”.
“Ih, e aí? O que rolou?”
“Nada demais. Ele só foi o babaca que ele sempre foi. Tudo dentro do normal”.
“Depois eu vou querer saber dessa história de vocês melhor”.
““História de vocês” parece até que a gente namorava. Credo”.
“Realmente hahahaha. Imagino que seja a última coisa na sua to do list”.
“Não é como se eu tivesse uma”.
“Vamos fazer uma hoje então. O que fazer antes de se formar”.
“Ih, maluco, sai fora.”
“Hahaha, consigo te ouvir falando isso. Vou tomar banho, depois a gente se fala”.
“OK”.
Ainda era relativamente cedo, então sentei na escrivaninha e comecei a estudar sobre o trabalho. Fiz algumas marcações e anotações que achei que seriam relevantes pra discussão, depois fui fazer o almoço. A essa altura, as meninas já tinham acordado, então fizemos tudo juntas. Quando ficou pronto, sentamo-nos à mesa, como uma boa família tradicional brasileira que somos, e atacamos a comida.
— Nossa, , isso aqui tá muito bom! — falou.
— Tá mesmo! — concordou.
— Receita da minha mãe — falei. — Deu uma saudade da comida dela hoje, aí resolvi fazer.
— Nossa, que você se sinta tão inspirada assim mais vezes! — comentou. — Brilhou, princesa!
— A chef aqui agradece! — Falei brincando.
Terminamos de comer, limpamos tudo e deitamos na sala pra conversar. Conversa vai, conversa vem, eis que a solta:
— Você não sabe o que o Paulo falou de você, ! — Já revirei os olhos só de imaginar.
— O quê? — Perguntei.
— Eu tô só repassando a fofoca, porque obviamente ele não veio falar comigo — ela explicou —, mas me disseram que ele andou espalhando por aí que você é uma escrota, que não sabe aceitar brincadeira e que expulsou ele da festa a troco de nada. Mandou o segurança agredir ele e tudo mais.
— Ele adora me chamar de escrota — falei. — Acho que um escroto reconhece o outro…
— E parece pescador aumentando a história, credo — comentou.
— Imagina nossa festa com segurança e tudo, achei chique — debochei.
— Vou colocar essa atribuição no meu currículo — Pedrão brincou.
— Que cara mais chato, meu deus — falou. — Ele deve te amar muito pra gastar tanto tempo da vida dele tentando te difamar.
— Não é como se isso fosse afetar a minha vida de alguma forma — falei. — Afinal de contas, ninguém naquele departamento gosta de mim.
— Só o intercambista.
— Ah, tem ele, mas eu nem me iludo — falei, dando de ombros. — Ele é gente boa e tals, mas logo logo ele volta pra bolha dele, onde o Paulo tá bem instalado.
— Que péssimas amizades esse cara tem, nossa — disse e eu assenti. — Mas, mudando de assunto, porque não quero gastar meu tempo com esse babaca do Paulo, e você e o Pedro, ? — E aí o assunto rendeu pra outros lados.
ia sair com o namorado e as outras ficaram com sono, portanto nos separamos e fomos para os nossos quartos. Liguei para a minha mãe, ficamos fofocando por algum tempo pra matar a saudade e depois desliguei. Acabei cochilando depois disso e acordei com a campainha tocando.
Levantei no susto e fui atender toda amassada e desgrenhada. Abri a porta e dei de cara com .
— Isso é hora de dormir, madame? — Debochou
— Não enche, cara — resmunguei. — Entra — falei e dei espaço para que ele passasse. — Bora lá pro meu quarto. — E fomos.
Ele se sentou na cama, abriu o notebook, pegou o xerox e suas anotações e ficou olhando pra minha cara. Eu estava parada no batente da porta, esperando ele terminar tudo.
— Que foi? — Perguntou
— Tô sem saco pra trabalho hoje — reclamei. — Vou pegar um café e já volto. — Peguei meu xerox com as anotações e dei pra ele. — Dá uma olhada aí por enquanto. — Saí e fui pra cozinha.
Peguei a garrafa de café, duas xícaras, um pacote de biscoito e voltei pro quarto.
— Eita, banquete — brincou.
— A gente vai demorar pra acabar, vim prevenida — falei, colocando as coisas na mesa. — Esse assunto vai render, eu acho. — Servi café para nós dois, entreguei uma xícara pra ele e me sentei na cadeira. — E aí, o que achou das minhas ideias?


Capítulo 3

Depois de ficarmos boas horas discutindo o tema do trabalho, destacando os pontos que queríamos abordar, montando slides e tudo mais, eu disse:
— Ai, cansei, . — Me desmontei na cadeira.
— Pode me chamar de — ele disse e eu assenti. — E eu cansei também. Acho que já desenvolvemos bastante coisa por hoje.
— Verdade, até bebemos o resto do café! — Falei, balançando a garrafa vazia. — Se a gente não for bem nesse trabalho, vou ficar bem braba — comentei, me levantando e alongando a coluna.
Minha lombar ardia de ter ficado tanto tempo sentada naquela cadeira, minha má postura cobrava seus preços nesses momentos. Alonguei os braços e meus ossos estalaram. também se levantou, alongou o pescoço e esticou as pernas. Ele desligou seu computador e começou a guardar suas coisas. Enquanto isso, eu peguei um cigarro e fui pra janela fumar. Eu sabia que faz mal pra saúde, mas não ligava muito. — Sabe, o Paulo falou umas paradas bem chatas de você ontem — disse, terminando de guardar tudo.
— Nenhuma novidade até aqui — falei, olhando pra fora.
— Você tinha razão, ele é um babaca — ele disse, balançando a cabeça. — Eu gosto dele, mas depois que você comentou da briga, eu me atentei mais.
— Muita mentirada — pontuei. — Tem gente que tem duas caras e você só conhecia uma das dele.
Ele concordou com a cabeça, andou até a janela, se apoiou no peitoril e deu uma respirada funda. Depois olhou pra mim e, com um gesto, pediu um trago do cigarro. Me assustei, pois não sabia que ele fumava, mas entreguei o paiero para ele. tragou e pouco depois expeliu a fumaça branca.
— Não sabia que você fumava — comentei, levantando a sobrancelha.
— Só de vez em quando — respondeu, me devolvendo o cigarro. — Deu vontade.
— Normal — falei. — É assim que começa… — debochei e ele riu.
Um dos pontos destacáveis de se morar em Minas Gerais são os morros. Apesar de cansar muito pra subir os ditos cujos, do topo se tem uma boa vista algumas vezes. Nossa casa ficava em uma colina relativamente alta da cidade, bem no final, então, da minha janela, dava pra ver o horizonte longe e todo o Skyline da cidade praticamente. Nesse dia em específico, o pôr do sol tomou um tom alaranjado maravilhoso. Por isso, ficamos durante um tempo observando o sol descer o seu caminho e fumando, apenas, em silêncio.
, eu tô com fome — disse subitamente e eu ri. — Tá rindo de quê?
— De como esse comentário foi aleatório! — Apaguei o cigarro no cinzeiro. — Olha, tem um resto de almoço na geladeira se você quiser.
— Ah nem. — Torceu o nariz. — Queria outra coisa.
— Tipo…
— Pizza!
— Tem uma pizzaria no final da rua, não é das melhores pizzas do mundo, mas é boa — falei.
— Vamos lá? — Perguntou animado.
— Vamos, uai — respondi. — Só preciso arrumar essa bagunça antes — completei e ele assentiu.
Peguei as xícaras, a garrafa de café e o pote onde estavam os biscoitos, levei tudo pra cozinha. Estava meio bagunçada, mas eu não estava com pique, nem tempo, pra arrumar, então só lavei o que a gente tinha sujado e voltei pro quarto. estava empoleirado na janela, mexendo no celular.
Tirei os chinelos, catei uma sapatilha de dentro do guarda-roupa, peguei minha carteira e uma bolsa. Dei uma arrumada bem porca na minha mesa, apenas empilhei os papéis, tirei alguns lixinhos e fechei o notebook.
— Tô pronta — avisei.
— Então vamos! — Falou, se desencostando da parede e pegando sua mochila.
Saímos da minha casa e fomos descendo a ladeira. Apesar de não estar de dia, o calor ainda maltratava, mas, por sorte, uma brisa fresca passava por nós. Acabamos por voltar a falar do trabalho enquanto caminhávamos, pontuando algumas coisas que haviam passado despercebidas e reclamando do prazo que a professora havia nos dado — esse segundo tópico tomou o maior tempo. Por fim, chegamos à pizzaria.
Era um restaurante pequeno, mas charmosinho. As paredes eram revestidas até a metade de pedras e o restante pintadas de um bege reconfortante. As mesinhas eram de madeira roliça e todas tinham um forrinho xadrez no topo. O cheiro de pizza era apenas perfeito. Principalmente pra quem estava com fome, como nós estávamos.
Por causa do calor, escolhemos uma mesa que ficava na parte de fora do lugar, aproveitando a brisa que ainda corria. Sentamo-nos e logo o garçom veio colher nossos pedidos. Pedimos dois chopps e uma pizza pequena.
— Tudo o que eu precisava depois de horas sentado era um chopp bem geladinho — ele disse.
— Falou e disse! — Concordei, sorrindo para o garçom, que vinha com as duas canecas. — Saúde! — Brindei.
— Saúde! — Completou e demos uma boa golada em nossos copos.
— Trincando! Assim que é bom — falei, lambendo a espuma dos lábios. — Mas, hein, me fala, todos os seus amigos são babacas igual ao Paulo ou não? — Brinquei e ele riu.
— Poxa, cara, eu nem tinha percebido o quanto ele era babaca. Vou falar com ele sobre isso.
— Ih, nem estressa! Falei brincando, aquele lá não tem solução.
— Não, cara! Ele não pode continuar falando essas merdas de você e de outras pessoas por aí.
— Cão que ladra não morde, . Não precisa se preocupar — falei e dei um gole na minha bebida. — Além do mais, não é como se eu tivesse uma reputação pra zelar.
— Todos têm uma reputação.
— A minha é de esquisita. — Dei uma risada amarela. — Paciência.
— Eu não te acho esquisita. Você é meio quieta, mas não é esquisita. — Dessa vez foi ele quem bebeu. — Mas, de qualquer forma, ele não pode falar essas coisas assim. — Deu uma coçadinha no queixo. — Mudando completamente de assunto, tenho uma pergunta que quero te fazer tem um bom tempo.
— Ah, tem? — Levantei a sobrancelha, indagando-o.
— Tenho. — Deu um risinho debochado. — Eu te conheço desde sempre como . Qual é o seu nome real? Natália? — Ele perguntou e eu comecei a rir. — Por que tá rindo?
— Você nunca parou pra ler a folha de chamada, ? — Ele negou com a cabeça. — Ai ai, mas meu nome não é Natália! É .
é tipo a capa do seu nome! — Eu olhei pra ele sem entender a referência. — Capa, ! Que cobre.
— Tipo a do drácula? — Perguntei, rindo.
— Isso! — Exclamou e riu. — de Bram Stocker. — E fez sinal de presas com os dedos na frente da boca, me fazendo gargalhar.
— Ai, cara, você não existe! — Falei, ainda rindo.
Ficamos bastante tempo ali, comendo, bebendo e jogando conversa fora. ficou em choque quando descobriu que meu sobrenome era . Segundo ele, era algo inimaginável. Ele me contou sobre como foi o choque cultural dele quando chegou ao Brasil e sobre como, até hoje, se embolava com as expressões e gírias. Depois que comemos e bebemos bastante, me acompanhou até a porta de casa, apesar de eu insistir que não precisava, afinal eu já estava na minha rua, mas ele argumentou que não era seguro deixar s andando sozinhas durante a noite, pois elas poderiam atacar um humano com seus poderes de vampiro. Não consegui contra-argumentar. Depois de chegar em casa, tomei um banho gostoso, escovei meus dentinhos e fui me deitar.


Capítulo 4

Acordei com o alarme disparando às 7h da manhã, tinha aula às 8h. Levantei, tomei um banho rapidinho, coloquei minha roupa de sempre — short jeans, regata e chinelo — tomei café e fui pra faculdade. Como eu não morava longe, podia ir bem devagar, sem estresse.
Coloquei um pagodinho pra tocar nos meus fones e segui meu rumo até o prédio onde teria aulas no dia. Cheguei e cumprimentei com a cabeça o pessoal que já tinha chegado lá, me sentei no fundo e comecei a mexer no celular até o professor chegar.
Após longas horas de aula, deu o horário do almoço. Não queria comer a comida do restaurante universitário, então resolvi comer na lanchonete da piscina. Comprei um salgado e um refrigerante e me sentei nas mesinhas de concreto.
O dia estava especialmente quente, mas o pátio da piscina possuía algumas árvores grandes que proviam uma quantidade satisfatória de sombra. Depois de terminar de comer, acendi um cigarro e fiquei lá olhando o movimento. Hora ou outra passava algum conhecido e me cumprimentava de longe. Até que apareceu a figura radiante de na minha frente.
— E aí, maria fumaça? — Perguntou, se sentando ao meu lado. — Nem te vi ontem mais.
— Tava fazendo trabalho lá no meu quarto, depois saí pra comer — respondi.
— Seria um date? — perguntou, insinuando.
— Não, amiga, foi só uma fome mesmo — respondi, rindo. — Depois de horas de trabalho, a fome bateu.
— Aff, queria que você vivesse um romance — comentou desiludida.
, só porque a dona madame se enganchou com o Pedrão tá querendo desencalhar todas as amigas, é? — Falei, rindo quando ela ficou vermelha. — Amiga, pode ficar tranquila, a gente te apoia.
— Acho que tô curtindo ele real — admitiu ela.
— Nada mais justo. Ele é um cara muito gente fina e já é nosso amigo tem tempo.
— Mas isso que me preocupa, ! — Ela disse. — E se der errado? E se as coisas ficarem esquisitas?
— Uai, , é um risco a se correr — falei. — Mas não se preocupa com isso, se não vai ficar com rugas muito nova — brinquei e ela riu.
— Tem razão — concordou. — Mas assim, eu tava pensando com meus botões, e acho que talvez seja uma boa namorar um amigo...
— Não emociona, ! — Alertei. — Se não vai quebrar a cara outra vez. Vai com calma!
— Ai, mas eu não consigo! — Colocou as mãos no rosto.
— Consegue sim, amiga. — Abracei ela de lado. — Até porque o único amor da sua vida sou eu e não aceito dividir o posto com mais ninguém! — Brinquei e ela riu.
Passamos o horário de almoço todo juntas, conversando sobre as emoções de e sobre alguns outros assuntos. Ela estava completamente na do Pedro. Eu teria que verificar se ele estava na mesma vibe, não ia deixá-la ficar de coração partido outra vez.
Quando faltavam 5 minutos para a volta das minhas aulas, eu e nos separamos, ela foi pra casa porque não tinha mais aulas no dia e eu fui para o meu departamento. Quando cheguei, encontrei com uma das minhas “amigas”, a Giovana. Ela, assim que me viu, veio andando em minha direção.
— Oi, ! — Ela disse.
— Oi, Gi — respondi, estranhando todo aquele interesse dela em mim. — Tudo bem com você? — Perguntei e ela apenas assentiu com a cabeça.
— Você tá fazendo dupla de trabalho com o , né? — Ela perguntou e eu afirmei. — Então, você não quer trocar comigo? Você faz com a Patrícia e eu faço com ele!
— Nossa, Giovana … — soltei, entendendo o que ela queria. Gi era meio doida no , fazia de tudo pra ficar perto dele, mesmo depois do lance deles ter azedado há uns bons anos. — Nosso trabalho já tá quase pronto. Não vou trocar, não. Foi mal.
— Nossa, mas você é minha melhor amiga… — ela disse, apelando, e eu apenas senti a falsidade. — Não pode fazer um simples favor pra mim? Que tipo de amiga você é? — Falou com a voz afetada.
— Foi mal, Giovana, não vai dar não — respondi e saí, a deixando sozinha bufando de raiva.
Não estava acreditando que ela disse que eu era a melhor amiga dela. Entrei na sala, cumprimentei todo mundo e me sentei no fundo outra vez. Tirei meus materiais da mochila e comecei a ler um texto que haviam passado pra ler. Peguei um marca-texto da bolsinha, destampei com a boca e comecei a grifar algumas linhas que julgava importantes. Estava na metade do texto, quando a professora chegou, uns 15 minutos atrasada. Ela se desculpou pelo atraso, deu uma justificativa rasa e começou a aula. Era uma das minhas disciplinas favoritas do período, então me esforcei para não dormir.
Duas horas depois, terminada a aula, eu continuei sentada na sala, lendo o resto do texto. Como estava lá no fundo, não iria atrapalhar a próxima turma e meu horário estava vago, então tudo se encaixava. Coloquei os fones e voltei à minha leitura. Vez ou outra, eu anotava algum pensamento nas bordas das folhas. A sala encheu com os alunos da aula que teria, e, por coincidência, estava entre eles. Eu não havia o visto, já que estava concentrada no meu texto, mas ele me viu, entretanto, a aula dele já estava para começar.
Senti o celular vibrar no bolso, peguei e tinha uma mensagem dele:

“Nem me viu”.

Levantei o pescoço e dei uma olhada pela sala até achar ele, olhou para mim e deu um sorrisinho, depois se virou novamente, afinal, estava em aula.

“Agora vi”. Respondi a mensagem.
“Tá fazendo o que aí?”
“Estudando um texto.” Tirei uma foto do texto e mandei junto à mensagem.
“Que menina aplicada!” Mandou e eu ri de leve. “Ainda bem que não faço essa matéria”
“Ah, eu gosto dela. É interessante”.
“Cada doido com suas loucuras…”. Comentou. “Viu como eu sei usar as expressões?”
“Meus parabéns hahahaha”. Brinquei. “Vai prestar atenção na aula, moço”.
“Tô tentando, mas vc tá me distraindo!”
“Oxe, não seja por isso! Vou parar de te incomodar!” Mandei e desliguei a tela do celular. Estava pronta para voltar pro texto, quando ela acendeu. Mensagem de .
” Não para, não! Tava só brincando com vc!” Ele respondeu e eu dei uma risadinha. “Tô de boas conversando com vc”.
“Eu sei que minha presença engrandece o seu dia, mesmo sendo à distância”. Debochei.
“Ó, grande Drácula! Obrigado por abrilhantar meus dias! 🧛”. Ele mandou e eu ri um pouco alto, pois algumas pessoas viraram para trás, me olhando feio por atrapalhar a aula. “Olha só você atrapalhando a aula, que coisa feia!”
“Vai se lascar, !” Respondi e ele riu.

, preste atenção aqui, por favor — o professor chamou a atenção dele e ele enrubesceu.

“Me lasquei mesmo rsrs”. Ela mandou e eu ri baixinho.

Depois disso, ele voltou a prestar atenção na aula e eu no meu texto. Algum tempo depois, eu terminei de ler, então guardei o xerox na pasta e guardei todos os materiais na mochila. Me levantei e saí da sala pela porta do fundo, tentando ao máximo não atrapalhar a aula que estava rolando.

“ Me espera, tô vazando dessa aula”. pediu por mensagem.

Com isso, me sentei em um dos banquinhos ali de perto da sala, acendi um paiol e fiquei esperando. Nem dois minutos haviam se passado e ele apareceu, com cara de cansado.
— Nossa, não estava aguentando mais essa aula! — Falou.
— Assinou a chamada, pelo menos? — Perguntei, me levantando. — Não vai reprovar por falta!
— Assinei sim, eu não sou trouxa — ele falou, enquanto pegava um óculos de sol na mochila. — Reprovo por nota, mas por falta nunca. — Colocou os óculos. — Ainda bem que você estava lá.
— Salvadora da pátria! — Debochei e fiz uma pose de super-heroína. Ele deu uma risada. — Super-.
— Ah, pronto! — Ele debochou. — Vampira e super-heroína.
— Oh, Deus, como a gente é bobo — falei, rindo e ele riu também. Coloquei meus óculos de sol e fomos saindo do departamento.
Como sempre, o sol estava rachando, mas o dia estava apenas esplêndido! O céu estava lindo, sem nenhuma nuvem pintando a imaculada tela azul. As árvores do campus pareciam muito felizes, bem verdinhas, até algumas poucas flores pontuavam algumas delas. Em resumo, estava maravilhoso.
— Quer mexer no trabalho hoje? — perguntou, enquanto andávamos.
— Podemos — respondi
— Na minha ou na sua casa?
— Pra mim, tanto faz, — falei. — Só que se a gente for pra sua casa, eu vou precisar passar na minha casa antes, porque meu computador e minhas anotações ficaram lá.
— Então vamos fazer na sua mesmo, já que a gente vai ter que ir lá de qualquer forma — falou, dando de ombros.
— Vai virar um agregado da minha república daqui a pouco — comentei, rindo.
— Será uma honra, dona — fle falou, fazendo uma reverência e eu ri.
Seguimos nosso caminho até a minha casa. Como já disse, eu morava no topo de uma ladeira, mas nós escolhemos aquele imóvel porque a casa era muito boa. Era uma casa, casa mesmo, não um apartamento. Era toda térrea, com 4 quartos, uma cozinha e uma sala de jantar/estar. Mas o ponto alto era o quintal. Era uma área gramada grande e, por incrível que pareça, plana. Havia um espaço para churrasco e uma varandinha de telhado colonial. Era um ótimo lugar para fazer festas durante o dia.
Eu e entramos e fomos para o meu quarto. Eu havia deixado a janela fechada, então estava SUPER abafado. Perguntei se ele não preferiria fazer esse trabalho no quintal e ele concordou. Peguei, então, minhas coisas e fomos pra área externa da casa, onde um ventinho gostoso circulava. Sentamo-nos na mesa que havia no local e começamos a render.

— Somos uma ótima dupla de trabalho, disse, fechando o computador. — Fizemos um trabalho muito bom. — Ele alongou os braços. O sol já tinha ido embora tinha tempo.
— Fizemos mesmo — falei, fechando o meu computador também. — Dupla dinâmica, o belo e a fera — debochei e ele riu.
— Vou tomar isso como um elogio a esse rostinho angelical que Deus me deu — falou, fazendo carinho no próprio rosto.
— Pode tomar, o senhor é muito bem apessoado mesmo — falei, acendendo um cigarro. enrubesceu.
— Er... obrigado — falou sem graça.
— Não precisa ficar sem graça, bicho — falei. — É apenas uma constatação dos fatos. Contra fatos, não há argumentos — completei e ele sorriu sem jeito.
— Se você tá dizendo…
— Nossa, eu nem te contei — mudei de assunto e ele olhou pra mim curioso. — A Giovana veio falar comigo hoje. — Ofereci o cigarro para ele, que aceitou.
— O que ela queria? — Perguntou e deu um trago.
Me levantei e fui até a janela do quarto da , que ficava virada para o quintal, me empoleirei nela para conseguir pegar um cinzeiro, peguei e depois voltei para a mesa. Coloquei o cinzeiro no meio dela e me sentei onde estava antes.
— Ela queria trocar de grupo — respondi, pegando o cigarro que me entregava. — Falou para eu fazer com a Patrícia…
— E ela, comigo — completou a minha frase. — Essa mulher não me deixa em paz. — Rolou os olhos.
— Ela disse que eu sou a melhor amiga dela — contei, debochando da fala dela, e riu.
— Tem gente que tem coragem né? — Ele falou. — Cada dia ela faz uma coisa diferente. Da última vez, ela mandou mensagem no instagram da minha irmã.
— Você tem irmã? — Perguntei. — Nem sabia dessa informação — comentei. — Quer um paiol inteiro? Eu tenho aqui.
— Quero — ele disse, então eu peguei um do maço e estendi para ele, junto ao isqueiro. — Minha irmã é atriz. Mora em Los Angeles — contou e depois acendeu seu próprio cigarro e me devolveu o isqueiro.
— Como ela chama?
— Alexandra.
— Que nome chique — comentei e ele riu.
— Você tem irmãos? — Perguntou e eu neguei com a cabeça. — A fábrica de s só fez uma e depois fechou — brincou, me fazendo rir.
— Viram que o produto não deu muito certo, aí faliram — brinquei.
— Eu chamo isso de exclusividade. — Me deu uma piscadela.
— Então você pode se gabar de estar na presença dessa preciosidade aqui, senhor . — Fiz uma pose afetada. — Um privilégio que só os mais ferrados podem ter.
— Um grupo muito seleto… — Ele foi interrompido pela porta abrindo.
— Oi, gente! — Era . — Miga, olha isso. — Me entregou o celular dela e eu peguei.
Olhei a tela e havia um print de uma postagem daquelas páginas de Spotted. Era uma página privada, só algumas pessoas podiam seguir, mas os prints sempre vazavam. Lá era liberado agredir o amiguinho. Na postagem em questão, estava escrito da arq tem que parar de achar que é gostosa e sair de perto de gente que ela não chega nem aos pés, mal comida”. Passei o dedo na tela e mudei de imagem, era outro print da mesma página e dizia: “Por que o está andando com aquele estranha da ? Ela deve estar dando bem pra ele”. Terminei de ler e levantei as sobrancelhas, chocada com o que estava ali. Olhei para e ela estava com uma cara de preocupada. Estendi o celular para , ele pegou e leu as duas postagens.
— Nossa… — ele soltou, enquanto devolvia o celular para . — Não sei o que dizer, .
— Nem eu. Meu nome nunca tinha aparecido nessa página, muito menos desse jeito — falei meio desorientada.
— Já chegou lá na EFI, amiga… — contou com cautela.
— Meu Deus — suspirei e coloquei as mãos no rosto. — Mais essa agora. — Apaguei o cigarro no cinzeiro e o deixei lá.
— Não tem como saber quem foi? — perguntou, tentando achar uma solução.
— Provavelmente foi o Paulo — falou.
— E a Giovana — completei. olhou pra mim sem entender, já que a Giovana era minha “amiga”. — Ela deu uma surtada hoje — esclareci.
— Nossa, não acredito que eles fizeram isso! — exclamou, estava ligeiramente vermelho de raiva. — Vou resolver isso com o Paulo hoje. Agora. — Se levantou de supetão e começou a guardar suas coisas.
, não vai arrumar confusão por conta de mim, não, cara! — Tentei argumentar. — Não vale a pena!
— Não, , ele tem que parar! — Colocou a mochila nas costas. — A gente se fala depois. — E saiu, deixando eu e sozinhas no quintal.
Segundos depois, ouvimos a porta da entrada bater. , e Pedrão se assustaram com o barulho e foram todos para o quintal.
— O que rolou? — perguntou assustada.
apenas entregou o celular para ela para que eles pudessem ler os prints. Aos poucos, seus rostos tomaram expressões de assombro e raiva. devolveu o celular para e falou:
— Aposto que foi o Paulo.
— Nós também — falei, me referindo a e eu. — estava aqui e ficou bem puto. Saiu batendo a porta, falando que ia resolver isso com o Paulo.
— Não quero saber dele, quero saber de você! — falou, vindo na minha direção. — Como você está?
— Não sei, amiga — falei ainda fora do eixo.


Capítulo 5

— Amiga, você sabe que isso é mentira, . — se sentou no meu colo e abraçou minha cabeça. — Não fica preocupada.
, eu não tô preocupada… Tá, tô um pouco, mas não é isso — falei, me aninhando nela. — Eu tô triste. Eu sei que é tudo mentira, mas me entristece saber que tem pessoas que me odeiam tanto a ponto de publicar essas coisas em uma página no instagram.
— Ele é um babaca, . Não gasta seus sentimentos com isso! — falou, tentando me acalmar.
— EleS, né, porque a Giovana tá no meio — salientou.
— Quê? — falou em choque — Mas essa não é a Gi que andava com você? — Perguntou e eu assenti. — Te falei que esse pessoal é tóxico…
— Como vocês descobriram quem postou? — Pedro perguntou.
— É só um palpite, não temos certeza sobre isso — falei.
— Que o Paulo tá no meio, é bem claro. É bem o tipo de coisa que ele costuma falar de você por aí, tentar ferir sua moral com coisas sexuais — Pedro pontuou. — Mas essa menina aí, qual é a fita?
— Ela teve um lance com o — contei. — Hoje ela veio me pedir pra trocar de grupo com ela, eu neguei e aparentemente a senhorita manipulação ficou pistola da vida.
— Nossa, que coisa mais boba — Pedro comentou, se sentando no chão. — Fazer uma coisa dessas por conta de grupo de trabalho.
— Ela é louca, Pedrão — falei. Detestava julgar outras mulheres daquela forma, mas Giovana fazia por onde. — Completamente possessiva.
— Então tudo isso é por conta daquele maluco — ele disse. — Assim, não é culpa dele, obviamente, mas ele tá no meio.
— Vou fazer alguma coisa pra comer e tirar essa zica daqui! — disse e entrou em casa.
Fiquei ali, aninhada com a e pensando, calada. Aquilo realmente tinha me ferido. Não pelas palavras, mas pelo motivo. Como havia dito a , doía pensar que havia alguém com tanta raiva de mim para fazer uma maldade dessas e havia duas pessoas nessa situação. Me senti uma pessoa horrível por inspirar esses sentimentos péssimos nas pessoas, mesmo sabendo que esse sentimento era errado. Eu não havia errado com eles ao resistir aos seus caprichos, eu sabia disso, mas ainda assim aquilo me entristecia. Comecei a pensar sobre como seria voltar para a faculdade no dia seguinte, ver as pessoas cochichando pelos corredores sobre mim, sobre o que havia acontecido. Me arrepiei com a ideia.
Algum tempo depois, voltou com uma travessa de macarrão. Pediu para o Pedro pegar o refrigerante e os copos. Eu recolhi minhas coisas da mesa e coloquei no cantinho no chão. , Pedro e pegaram cadeiras dentro de casa e trouxeram para a mesa do quintal. Minha família tradicional brasileira estava toda junta e me dando suporte. Aquilo aqueceu um tanto o meu coração e eu comecei a me sentir melhor.
Ficamos ali comendo e conversando por um tempo, todos eles tentavam ao máximo não tocar no assunto para não ter uma torta de climão de sobremesa. Ficar ali com eles, comendo, rindo e conversando bobeiras me fez sentir muito melhor.
Quando resolvemos nos recolher, lavamos a louça e fomos para nossos quartos. Peguei minha toalha para poder tomar um banho, escolhi um pijama que me deixasse o mais confortável possível naquela noite e rumei para o banheiro. Tomei um banho longo e quente, tentando relaxar bem os músculos e a mente. Quando acabei, escovei os dentes e voltei para o quarto.
Arrumei a cama, apaguei as luzes e me deitei. Segundos se passaram desde que eu havia me deitado para quando meu celular começou a tocar. Era .
— Ei, .
— Oi, .
— Como você tá?
— Tô meio triste, sabe? Sei lá.
— Eu imagino, quer conversar?
— Não sei organizar minhas ideias ainda, .
— Podemos conversar sobre… — ele fez uma pausa para pensar — como aquele trabalho foi chato!
— Estou começando a achar que você tá usando esse trabalho como um pretexto pra falar comigo, hein? — Falei brincando e pude ouvir ele dar uma risadinha do outro lado da linha.
— É que eu sou secretamente um espião americano investigando os vampiros do Brasil, você é meu alvo. Mas é segredo, shhhh — ele brincou e eu dei uma gargalhada.
— Prometo que não conto pra ninguém sobre o seu disfarce — entrei na brincadeira. — Mas pode colocar aí nas suas anotações que eu não ataco humanos, só pequenos carneirinhos branquinhos e cheios de lã.
— Oh, mas esse é o pior tipo de vampiro! — Falou com uma voz de falsa surpresa. — Nós até gostamos dos que atacam humanos, mas CARNEIRINHOS? É a pura essência do mal.
— Muahahahaha. de Bram Stocker ataca novamente! — Falei e ele caiu na risada.
— Ai, ai, como a gente é bobo, cara — ele comentou. — Mas, e aí, vamos jogar basquete ou não? — Mudou de assunto.
— Ai, , não sei, não…
Ficamos conversando por umas duas horas no telefone, até que o sono venceu sua batalha e precisei dormir. Conversar com ele até minha exaustão foi bom, pois não deixou com que minha ansiedade me deixasse sem sono e remoendo tudo durante a noite. Fui dormir bem mais tranquila.

Acordei com o despertador no dia seguinte, queria ficar em casa dormindo, mas queria muito mais ser uma derrotada formada. Então me levantei, fui ao banheiro, lavei meu rosto e tomei um café mirrado, não estava com muita fome. Estava sentada à mesa, quando Pedro apareceu.
— Bom dia, — me cumprimentou. — Dormiu bem? — Se sentou na cadeira de frente pra minha.
— Bom dia, Pedrão — falei, sorrindo fraco. — Dormi, sim, na medida do possível.
— Justo — falou, enquanto servia uma xícara de café. — Ouvi você no telefone ontem à noite.
— Ah, era o — contei. — Ele ligou pra conversar um pouco, distrair da situação.
— Uma boa ideia — ele falou, concordando com a cabeça. — Gente boa ele, bem, parece, né?
— Ele é.
— Mas é amigo do coisa ruim. — Torceu o nariz — Que péssimas escolhas, a mãe dele ficaria bem triste. A minha iria brigar muito comigo se eu andasse com um babaca daqueles — devaneou e eu ri.
— Ah, Pedrão, escolhas, não é? — Falei e ele concordou.
Depois dessa breve conversa, fui para o meu quarto me trocar. Coloquei uma calça jeans e dobrei as barras, um cropped verde militar, calcei um tênis preto e prendi o cabelo num rabo de cavalo alto. Arrumei a cama e a mesa, peguei minha mochila e saí de casa.
Enquanto descia o morro, acendi um cigarro e coloquei os fones de ouvido. Estava meio melancólica, então coloquei um funk pra rebater o humor. E até que funcionou. Como previsto, quando cheguei ao departamento, pude flagrar alguns olhares julgadores sobre mim, mas não ia me deixar abater. Fui pra sala de aula e me sentei no fundo, como de costume. Coloquei a mochila na mesa, pesquei um pirulito lá de dentro e fiquei prestando atenção na música enquanto a aula não começava.
Estava tão distraída rolando o pirulito de um lado pra outro na boca que nem vi se aproximar. Me assustei quando ele colocou a mão no meu ombro.
— Oua! Calma, sou eu! — Ele disse, se sentando na cadeira ao meu lado.
— Você me assustou, peste! — Falei, tirando os fones. — Quase me mata.
Quando olhei pro rosto dele, vi uma mancha roxa em volta do seu olho esquerdo, que estava ligeiramente inchado. Arregalei os olhos quando percebi o hematoma e disparei:
— Meu deus, o que rolou? — Coloquei os dedos de leve sobre a mancha, ele torceu o nariz com um pouco de incômodo e eu recolhi minha mão. — Desculpa.
— Tá tudo bem, só dói um pouco quando encosta — ele disse, dando um sorriso.
— Mas onde você arranjou isso?
— Eerr... ontem — disse receoso.
...O que rolou depois que você foi embora? — Perguntei.
— Bem, eu fui atrás do Paulo para resolver o problema. — Ele se arrumou na cadeira. — Quando cheguei à casa dele, perguntei se era ele que havia mandado aquela postagem e ele confirmou. — Pude vê-lo apertar os punhos neste momento. — Ele ainda disse que estava me dando uma “moral” de pegador. — ficou vermelho de raiva. — Eu disse a ele que aquilo era errado e cruel de se fazer com alguém, mas ele simplesmente não ligava. — Os nós de seus dedos estavam brancos.
, calma. — Coloquei a mão em seu braço. Estava tenso. — Ele não vale a pena.
— Não mesmo — falou entre os dentes. — Eu tentei colocar um pouco de razão naquela cabeça de merda dele, um pouco de empatia, mas, como você disse, aquele lá não tem jeito. — Ele respirou fundo. — Aí ele começou a ficar estressado porque eu estava te defendendo e não defendendo ele. Eu já estava estressado pelo que havia rolado, aí ele disse uma coisa que me fez explodir e fui pra cima dele. — Apontou para o olho roxo. — Foi assim que eu consegui isso.
— Ai, , eu falei pra você não ir lá! — Falei exasperada. — Agora tá aí com esse troço no meio da fuça!
— Alguém precisava dar uma coça nele, ! — Argumentou. — Tinha que colocar ele no lugar dele!
— Meu Deus… — Coloquei o rosto entre as mãos.
— Que foi? — Perguntou preocupado, colocando a mão nas minhas costas.
— Todo esse auê por minha culpa — falei, levantando os olhos. — Você apanhou por minha causa!
— Primeiro que eu não apanhei, tomei um único soco — disse, sorrindo debochado. — E segundo que a culpa não é sua, a culpa é dele! E da Giovana.
— Argh! Tinha esquecido dela!
— É, pois é — ele disse. — Ela veio me mandar mensagem ontem, como quem não quer nada, se fingindo de anjo.
— A cara dela fazer isso — comentei e ele assentiu.
— Depois de alguma persuasão, ela confessou que também mandou uma publicação.
— “Mas você é minha melhor amiga!” — Falei, imitando o que Giovana tinha me dito no dia anterior. — Falsa do caralho.
— Olha a boca! — me repreendeu, brincando.
— Desculpa, mãe!
Nesse momento, o professor entrou na sala e começou a aula. Eu estava incomodada de estar ali, queria ir embora. Comecei a balançar os pés e tamborilar os dedos na mesa de ansiedade. O palito de pirulito que estava na minha boca, a essa altura, já estava todo mastigado.
A lista de chamada chegou até a minha mesa e eu a assinei rapidamente. Passei a folha para e peguei minha mochila para sair. Ele assinou a folha na mesma velocidade que eu, e, quando eu estava prestes a levantar, segurou o meu braço.
— Aonde você vai? — Perguntou.
— No mínimo, lá fora fumar um cigarro, ou dois, ou dez. Não sei — falei entre os dentes. — Quero sair daqui.
— Eu vou com você — ele disse, soltando o meu braço. — Se não, vai fumar três maços inteiros e vai morrer intoxicada — exagerou.
Me levantei o mais silenciosamente que pude, afinal de contas, eu não queria atrapalhar a aula, e fez o mesmo. Saímos cuidadosamente, pela porta dos fundos. Fora da sala, o sol brilhava, bem diferente da penumbra que estava dentro do ambiente. Nós descemos a rampa e saímos do departamento. Instintivamente, acabei por nos guiar até a lanchonete da piscina.
Sentamo-nos em uma das mesas externas, puxei um cigarro do maço e o acendi com as mãos trêmulas. me olhava preocupado.
— Cigarro não é ansiolítico, .
— Ai, , bronca agora? — Reclamei.
— Não, desculpa, não tá mais aqui quem falou — ele disse, levantando as mãos em rendição. — Essa parada tá te incomodando real, né?
— Tá — falei, dando um trago longo e balançando o pé vigorosamente. — Bastante.
— O seu rolê com o Paulo não é só aquilo que você me contou na festa, é? — Questionou e eu neguei. — Pode me contar? — Pediu e eu assenti.
Expliquei, então, para ele tudo o que havia rolado na festa de calouros anos atrás e sobre como essa perseguição tinha começado. Contei também o porquê eu era tão quieta na minha e como eu sentia que não tinha amigos. Desabafei.
— Nossa, mas ele é um grandessíssimo babaca! — falou. — Então isso tudo porque você não quis beijar ele? Meu Deus do céu!
— Pois é, querido, tem homem que tem a masculinidade tão frágil que acha que receber um “não” é o fim do mundo — comentei. — Eu achei que ele fosse me bater naquele dia, sabe? Ele ficou muito nervoso e começou a se crescer pra cima de mim, me xingando.
— Que bom que ele não te agrediu, pelo menos essa consciência ele tem.
— Acho que nem foi a consciência, foi o medo de ter a reputação manchada — falei. — Ele se ama muito pra descer do seu pedestal imaginário — completei e concordou com a cabeça.
se levantou e mudou de lugar, se sentando no banquinho de concreto ao lado do meu. Passou o braço pelos meus ombros e me abraçou. Achei estranho no início, mas depois me senti confortável. Apoiei a cabeça no ombro dele.
— Bando de fodidos — comentei, ele riu e pegou o cigarro da minha mão.
— Eles ou nós? — Perguntou e deu um trago.
— Acho que ambos — falei e ri. — A que ponto chegamos? Matando aula pra fumar na piscina.
— Fundo do poço tá há uns 3 andares pra cima — brincou e eu ri. Peguei o cigarro da mão dele e dei um trago. — Vamos sair daqui! — Ele falou, se levantando.
Me levantei, peguei minha mochila e ele pegou a dele.
— Aonde a gente vai? — Perguntei.
— Vamos lá pra casa! — Ele respondeu. — Um ambiente diferente pra você conhecer.


Capítulo 6

Andamos pela cidade até chegarmos a um prédio alto, bem no centro. abriu a porta de vidro e me conduziu pelo hall até os elevadores. Ele apertou o botão e ficamos esperando. As paredes do hall eram pintadas de um cinza azulado bem claro, tinha os rodapés de granito preto e o piso era de porcelanato polido. Havia uma zamioculca em um grande vaso branco no canto e no centro do hall havia dois elegantes sofás pretos e uma mesa de vidro.
Por fim, o elevador chegou e nós entramos. apertou o botão da cobertura e eu arregalei os olhos.
— Você mora na cobertura?
— Moro!
— Com quantas pessoas você divide o apartamento?
— Nenhuma — respondeu e olhou confuso para mim. — Por quê?
— Não, nada — tentei disfarçar meu choque. Ele tinha grana, não é mesmo? — Só queria saber.
Terminamos de subir e ele segurou a porta para mim. Eu saí como se fosse uma dondoca, brincando. Ele riu, passou por mim e abriu a porta do apartamento. Entramos numa sala de estar com uma cozinha integrada, todos os móveis eram muito bonitos e modernos. Havia duas portas, uma dava para um quarto e a outra para um banheiro. Havia também uma varanda externa e bem iluminada, com uma escada no canto. passou para dentro do quarto para deixar sua mochila e eu fiquei parada no meio da sala, sem saber muito o que fazer.
, pode colocar sua mochila aí na sala, ou aqui no quarto, se preferir.
— Ah, sim! — Fui até o quarto dele e deixei a mochila de cama de casal que lá havia. — Nossa, sua casa é muito legal!
— Obrigado! — Falou, se sentando na cadeira e tirando os tênis. — Gosto bem daqui também. — Ele pegou um chinelo no guarda-roupas, colocou o tênis num canto da parede e falou: — Vem, vamos lá em cima.
Ele saiu do quarto e eu o segui até a varanda. Subimos a escada e chegamos ao segundo andar. Era bem maior do que eu imaginava! Tinha uma área de churrasco, uma piscina e até uma mesa de ping-pong.
— UAU! — Exclamei. — Que demais!
— Maneiro, né? — se animou. — A melhor parte do apê.
— Não acredito que logo hoje que saí de calça e tênis você me chama para a sua casa que tem piscina! — Reclamei e ele riu.
— Eu nem sabia que a gente ia vir aqui! Muito menos que sairia de calça e tênis hoje! — Se defendeu, rindo.
Ele enrolou o toldo que fazia sombra na parte da piscina, deixando o sol da manhã nos iluminar.
— Se quiser entrar na piscina, eu posso te emprestar um short meu — disse e deu de ombros, e eu abri um sorriso. — Vem, vamos lá pegar — falou, rindo.
Voltamos para dentro do quarto, ele abriu umas gavetas e ficou procurando o short. Enquanto isso, eu me sentei na cama e tirei os tênis, coloquei as meias dentro e os coloquei no cantinho. Estava animada pra entrar na piscina. , por fim, encontrou o short e o jogou para mim:
— Olha, é o menor que eu tenho — explicou, dando de ombros.
— Tá ótimo!
— Pode se trocar no banheiro ali. — Ele apontou para a porta, que eu não havia percebido antes, e pra lá eu fui.
Entrei no banheiro e tranquei a porta. Tirei minha calça e coloquei o samba-canção que havia me emprestado, ele batia na metade do meu joelho e não combinava nada com o meu cropped. Pode acreditar, verde militar e azul marinho com laranja não combinam. Mas eu pouco ligava para a aparência, queria muito entrar na água. Dobrei a calça e saí do banheiro.
também havia se trocado. Estava com um samba-canção preto e sem camisa. Levantei as sobrancelhas quando vi, mas disfarcei rapidamente e guardei a calça na mochila. tinha um corpo muito bonito, os músculos eram perfeitamente definidos, haviam pelos escuros espalhados por todo o peitoral. Fiquei vermelha por ter ficado reparando.
— É, ficou meio grande mesmo — comentou.
— Tá ótimo! Só de não precisar ficar só olhando aquela piscina eu já fico feliz! — Comentei. — Uma modelo da Gucci bem aqui na sua frente — brinquei, mostrando meu look descombinado.
— Vamos lá que daqui a pouco o sol fica quente demais — disse e me puxou pelo braço para a cobertura.
entrou na piscina e deu um mergulho. Eu entrei e, com a água batendo nos joelhos, me arrepiei inteira com a temperatura. viu e começou a dar risada. Fui andando vagarosamente pela água até ela ficar na altura do meu umbigo, não consegui avançar mais. Estava muito gelada!
— Como pode o dia estar tão quente e essa água tão gelada? — Exclamei.
se aproximou devagar, passou os braços nos meus ombros e me puxou pra debaixo d’água. Me debati pra me soltar e voltei à superfície. voltou, dando gargalhadas altas.
! FICOU DOIDO? — Exclamei, secando o rosto.
— Poxa, seu primeiro mergulho foi majestoso! — Disse, ainda rindo.
— Eu vou ser obrigada a te matar! — Falei e pulei em cima dele.
Afundei na água até ele se rebelar e inverter as posições. Me debati e consegui me soltar. Quando saí da água, estava gargalhando, eu comecei a jogar água nele, ele então começou a revidar e logo estávamos os dois rindo e jogando água um no outro. Ficamos brincando até cansarmos.
— Nossa, que saudade eu estava de uma piscina! — Falei, me encostando na beirada.
— Muito bom, né? — comentou e começou a sair da piscina. — Vou pegar algo pra gente beber — explicou e eu assenti.
Ele foi rapidamente até a geladeirinha que havia perto da churrasqueira e voltou com duas long necks de cerveja, as colocando na beira da piscina. Levantei a sobrancelha inquisidora pra ele e ele deu uma risada. Depois ele foi ao andar debaixo e voltou com um pacote de Doritos.
— São 10h da manhã e nosso lanche matinal vai ser cerveja e Doritos! — Comentei, enquanto abria as cervejas e o salgadinho. — Não poderia pedir mais!
voltou pra água e se posicionou do meu lado na beira da piscina. Brindamos as cervejas e rimos. Bebi um gole, desamarrei o cabelo e me deitei de costas na água, boiando. Estava relaxada, podia esquecer o mundo. O sol batia quente no meu rosto, a água, que agora não estava tão gelada, se estendia como um grande colchão d’água sob o meu corpo, balançando suavemente, movendo meus cabelos e me segurando. Fechei os olhos e deixei as sensações tomarem conta de mim. Senti duas mãos me segurarem pelas costas, abri os olhos e olhei para o lado, vi sorrindo, sorri de volta e tornei a fechar meus olhos, deixando que ele me segurasse e me movesse pela piscina. Abri os braços e as pernas, me sentindo livre. Pude ouvir dar uma risadinha. Eu amava estar na água, e estar, literalmente, em braços amigos fazia tudo melhor.
— Nossa, eu precisava muito disso — falei, abrindo os olhos. — Muito obrigada! — Agradeci, ficando de pé.
— Que bom que melhorou seu dia — disse, com um sorriso genuíno lhe rasgando o rosto. — Acho que você precisava de um tempo longe de tudo — comentou e eu concordei.
— Você é 10, — falei, pegando minha cerveja. — Bom saber que minha lista de pessoas que gostam de mim, além da minha mãe, agora subiu pra 5 — brinquei e ele riu.
— Se as pessoas te conhecessem melhor, certeza que todos estariam aos seus pés — ele comentou, comendo um salgadinho. — Posso te confessar uma coisa?
— Pode.
— Eu sempre quis me aproximar de você, mas tinha receio porque te achava muito “Bad girl”.
— Eu? Bad girl? — Caí na gargalhada.
— Pô, fala sério. Sempre andando toda descolada com um cigarro na boca e fones de ouvido, nunca com ninguém do nosso curso, sempre com o pessoal de fora... Era essa a imagem que eu tinha.
— Nossa, nunca pensei que alguém me veria dessa forma — falei, pensando sobre. — Não poderia ser uma definição mais errada.
— Agora eu sei que sim, mas achava que não seria digno de sua ilustríssima atenção — debochou, fazendo uma reverência exagerada.
— Ah, até parece! — Ri e joguei água nele. — Quem sou eu perto do galã do curso?
— O belo e a fera — ele disse, lembrando do que havíamos falado antes.
— Versão tropical, no seu litoral particular — falei, dando um gole na cerveja e ele sorriu.


Capítulo 7

e eu ficamos ali conversando bobeiras e brincando na água por um tempo, até que a fome bateu e resolvemos pedir algo para almoçar. Saímos da piscina, ele me entregou uma toalha e pegou uma para si. Nos secamos e entramos. Depois de muito discutir sobre o que iríamos almoçar, fui ao quarto pegar meu celular e meus cigarros. Já eram quase 15h.
Olhei o celular e tinha várias mensagens da , a maioria delas perguntando por que eu não respondia. Resolvi não responder no momento, depois faria isso. Voltei enrolada na toalha para a cobertura e me sentei em uma cadeira no sol. Me sentia de férias. Acendi o paiol e percebi que não tinha cinzeiro, então fui atrás de para pedir um.
O encontrei na área de serviço, que era anexa à varanda, colocando algumas roupas pra lavar. Encostei no balcão e fiquei observando, o olho roxo se destacava em seu rosto.
— Ei, — chamei e ele olhou pra mim. — Você tem algo que eu possa usar de cinzeiro? Pode ser qualquer coisa.
— Deixa eu ver. — Começou a abrir os armários e procurar algo. — Pode ser isto?
Ele me estendeu um porta velas circular, de vidro grosso, as bordas eram recortadas como se fosse uma joia. Era lindo. Dava dó de usar aquilo pra colocar cinzas de um cigarro de palha vagabundo.
— Serve, mas tem certeza? É tão bonitinho — falei.
— Eu não uso, ganhei de alguém quando mudei pra cá — ele disse, dando de ombros.
Peguei o porta-velas e voltei para a minha cadeira no sol. Estava muito quente, com toda a certeza eu ficaria queimada depois, mas não me preocupei muito com isso. Estiquei bem as pernas e relaxei os músculos. Pouco tempo depois, apareceu e se sentou do meu lado. Pediu o cigarro e eu entreguei. Ficamos encaixados em um silêncio confortável que nenhum de nós queria quebrar, apenas aproveitar.
— Ei, — chamei, quebrando o silêncio depois de um tempo.
— Diga, senhorita — falou, virando o rosto pra mim.
— Obrigada por não desistir de se aproximar de mim — falei e ele se surpreendeu.
— Que isso, , não precisa agradecer.
— Sei lá, você fez muito por mim esses últimos dias, queria agradecer.
— É impressionante como a gente se aproximou rápido, né? — Ele disse. — Há uma semana a gente nem se falava direito.
— Verdade, acho que somos parecidos, no final das contas — falei. — Só não tivemos a audácia de falar um com o outro.
— Aquele trabalho veio bem a calhar, digamos assim — ele disse, rindo.
O interfone tocou lá embaixo, era o nosso almoço. se levantou e foi buscar. Pouco tempo depois, ele voltou com os pacotes, pratos e talheres. Nós nos sentamos no balcão da área de churrasco e ali comemos. Depois de almoçar, jogamos algumas partidas de tênis de mesa e eu ACABEI com ! Ganhei absolutamente todas!
— Eu deixei você ganhar! — Ele disse.
— Todas as 6 vezes? — Perguntei, rindo. — Admite, eu massacrei você!
— Tá, tá! Eu admito! — Ele disse, jogando os braços pra cima em rendição. — Mas agora tem que ter sua premiação. — Ele me olhou com um olhar maroto e eu fiquei sem entender.
, então, veio em minha direção, me pegou no colo, saiu correndo comigo nos braços em direção à piscina e, antes que eu pudesse protestar, ele me jogou na água. Senti a água gelada me envolver, soltei todo o ar dos pulmões com o susto e voltei à superfície rapidamente. Assim que emergi, pulou na piscina, espirrando água para todos os lados. Ele saiu da água, dando risada da minha cara.
— Nossa, você tinha que ver a sua cara!
— Sua sorte é que a água não tá tão fria, senão eu ia te matar!
— Ah, ia nada! — Ele disse e jogou água na minha cara.
— Para com isso, maluco! — Falei e me joguei em cima dele, afundando-o na água.
Nós dois ficamos na piscina bebendo e brincando até o sol começar a se pôr. Decidi ir para casa, devia estar surtando. Então nós descemos para o quarto dele para que eu pudesse me trocar. Como eu havia molhado a minha blusa, me emprestou uma das dele. Depois de me trocar, me despedi de e fui pra casa.

Cheguei em casa e fui direto pro quarto pegar uma toalha para tomar um banho. Fui ao banheiro, lavei meu corpo e meu cabelo, coloquei um pijaminha e voltei para o meu quarto.
Me sentei na cama e comecei a desembaraçar os cabelos, o dia todo na piscina havia feito ele ficar igual a um ninho de ratos.
— Da próxima vez que você sumir assim eu te expulso da república — disse entrando no quarto fula da vida. — Por que não me respondeu, sua peste?
— Ai, , desculpa, fiquei de responder depois e acabei me esquecendo. Desculpa mesmo, amiga!
— Desculpa o cacete! — Ralhou. — Eu toda preocupada com você e você não se deu o trabalho de responder minhas mensagens?
, desculpa! — Pedi. — Não foi por maldade, eu realmente esqueci!
— Onde você estava? — Ela disse, abrandando o humor e se sentando na cama. — Fiquei preocupada de verdade!
— Me desculpa, amiga — pedi novamente. — Eu estava na casa do — contei e ela arregalou os olhos.
— Como assim?
— Eu tava a ponto de ter uma crise de ansiedade, aí ele me levou lá — expliquei. — Não estava aguentando ficar na aula, amiga.
— E vocês fizeram o quê? — perguntou meio com o pé atrás.
— Nada demais, amiga! — Falei, afastando a ideia da mente dela. — Ficamos na piscina o dia todo.
— Ele tem uma piscina? — Ela perguntou em choque.
— Ele tem, amiga — contei, rindo.
Ela desembaraçou o meu cabelo pra mim enquanto eu contava os acontecimentos do dia. me atualizou também sobre o dia dela e nós duas acabamos dormindo juntas no meu quarto, amontoadas em uma cama de solteiro.
Na manhã seguinte, o celular de despertou cedo, acordando nós duas. Eu estava toda dolorida de ter dormido embolada com ela, mas estava feliz porque ela era minha melhor amiga e sempre melhorava minha energia.
Levantamo-nos e fomos para a cozinha arrumar um café. Enquanto passava um cafézinho, eu assava uns pães de queijo. Logo as outras meninas acordaram e foram se encontrar conosco. Pedro não havia dormido lá.
Com tudo pronto, montamos uma mesa linda e nos sentamos para comer. e ficaram curiosas sobre o dia anterior, então eu contei a elas sobre minha estadia na casa de . Elas me atualizaram sobre como os prints estavam rolando nos seus respectivos cursos, nada de impressionante, nada que eu não havia previsto. Por incrível que pareça, eu não estava mais tão abalada com isso, estava com raiva, mas não estava como antes. Acho que sentir o carinho das meninas e de me fizeram abstrair daquele sentimento horrível.
Terminamos de lanchar e fomos nos arrumar para as nossas aulas. Fui para o meu quarto, prendi o cabelo em um coque alto, coloquei um short e uma blusinha soltinha, calcei um chinelo. Fui ao banheiro escovar meus dentes e fazer meu skin care, depois retornei ao meu quarto. Quando estava pronta pra sair, vi a blusa de jogada em um canto. Peguei-a, dobrei e coloquei na mochila.
Saí de casa e o sol já estava quente, coloquei, então, um óculos de sol, acendi um cigarro e fui para a faculdade. Quando cheguei ao prédio que teria aulas naquela manhã, os buchichos do pessoal do meu curso continuavam, mas senti que não eram sobre mim, e mesmo que fossem, eu não estava ligando naquele momento. Cheguei à sala, me sentei no fundo.
Estava viajando na maionese quando as conversas da sala cessaram. Olhei curiosa para frente e vi Paulo entrando no recinto. Arregalei os olhos. Ele estava com os dois olhos roxos, um corte no supercílio direito, um no lábio superior e com alguns hematomas pelo corpo. Ele estava péssimo. Naquele momento, eu entendi de quem estavam falando.
Paulo se sentou perto de alguns caras que ele costumava andar, e, aos poucos, as conversas voltaram a rolar. Minutos depois, chegou e veio se sentar perto de mim. O olho roxo começava a clarear.
— Bom dia, — ele disse, se sentando ao meu lado.
— Bom dia — respondi. — Foi você quem fez aquilo? — Perguntei e apontei discretamente para o Paulo. Ele assentiu, não muito feliz. — Meu Deus…
— Não era isso que eu pretendia fazer, mas no estresse do momento…
— Sua mãe sabe que virou nocauteador? — Brinquei e ele riu.
— Sua mãe sabe que virou piadista? — Retrucou e eu ri.
Pouco depois, a professora chegou e começou a dar sua aula. Aos poucos, o sono foi tomando conta de mim e eu não consegui resistir. Dormi tão bem que até sonhei. Acordei no final da aula, com me chamando.
— Bela adormecida, acabou a aula — ele disse, enquanto eu acordava.
— Mmmm tava tão bom meu soninho — falei, me espreguiçando.
— Temos que apresentar o trabalho na próxima, alisa essa sua cara — lembrou-me.
Alisei minha cara do melhor jeito que pude, peguei minhas coisas e saí da sala junto a . Descemos a rampa conversando sobre os detalhes do trabalho e corrigindo nossos erros.
Chegamos à sala da aula e já começamos a montar o datashow. Enquanto eu conectava meu computador ao cabo HDMI do projetor, revisava suas anotações e os outros alunos iam chegando. Pouco tempo depois, a professora chegou, introduziu a aula e perguntou:
— Estão prontos, pessoal? Podemos começar?
— Sim, professora! Tudo certinho! — Falei e apenas concordou com a cabeça.
Era um trabalho extenso e complexo, portanto tomou as duas horas de aula. ficou muito nervoso na hora da apresentação, não sei dizer o porquê, mas no final deu tudo certo. A professora nos elogiou até, inflou meu ego.
Acabada a tortura, eu e saímos da sala muito mais relaxados. O sol estava alto e os estômagos roncando. Fomos então para o bandejão almoçar e o cheiro da comida estava ótimo... ou era minha fome que estava enorme, não sei dizer.
Depois de nos servirmos, nós nos sentamos em uma das mesas para comer:
— Almoço dos campeões! — Falei brincando.
— Nossa, não sei o que me deu que fiquei muito nervoso na apresentação — disse. — Ainda bem que você sabia aquela parte.
— A gente se ajuda, , pra isso que serve a dupla — falei e dei uma garfada no meu almoço. Não estava tão bom assim. — O importante é que conseguimos falar tudo.
— Verdade — disse, começando a comer. — Vamos tomar uma breja hoje? Acho que merecemos, essa semana foi OSSO!
— Osso, cartilagem e ligamentos — brinquei e ele riu. — Eu topo essa brejinha aí.
Ficamos ali conversando até acabarmos de comer. Então saímos e fomos pra lanchonete da piscina ficar de bobeira por um tempo antes da aula seguinte. Sentamo-nos debaixo de uma paineira nas mesinhas de concreto, eu coloquei uns óculos de sol e acendi um paiero.
— Ein, tava pensando, será que a gente não podia formar uma dupla meio que fixa pro resto do período, pelo menos? — perguntou.
— Uai, por mim tudo bem — falei, passando o cigarro pra ele. — Acho que fazemos uma boa dupla.
— Fazemos mesmo — respondeu, dando um trago. — Talvez até mais… — murmurou e eu não consegui entender.
— O quê? Fala pra fora, menino — exclamei.
— Falei que fazemos mesmo uma boa dupla, boa demais — ele disse e, eu acho, ficou ligeiramente vermelho.
— Tonto — comentei, rindo. — Tem que tirar o ovo da boca pra falar, senão eu não entendo.
— Isso aí é culpa do cigarro, certeza! — Falou e me entregou o cigarro como se fosse uma barata morta.
— Ai ai, agora a culpa é do cigarro que você fala embolado. — Peguei o paiol da mão dele. — Se fosse isso, minha língua já tinha dado nó.
— É, vou ter que te enviar pros fumantes anônimos, seu vício tá me fazendo mal. Quanto mais você fuma, mais embolado eu falo.
— Uai, contaminação cruzada, é? — Perguntei, rindo da brincadeira. — Sou lixo, mas nem tanto.
— Palhaça — ele disse, rindo da brincadeira.
Nesse momento, a chegou ao recinto. Assim que nos avistou, ela foi em nossa direção. Ela estava toda saltitante, com um vestidinho vermelho floridinho e uma sapatilha, parecia que tinha saído de uma página do Pinterest.
— Oi, gente! — Ela cumprimentou e me deu um beijo na testa. — Amiga, tenho novidades!
— Boas? — Perguntei.
— SIM! — Ela disse e se sentou em um dos banquinhos restantes. — Vai rolar uma festa do pessoal da Atlética da engenharia! Aí me chamaram pra trabalhar no bar e tem uma vaga sobrando! Quer?
— Quero! — Falei animada. — Amo festa de graça.
— Ai, que ótimo! Pegamos o primeiro turno! — Ela disse, batendo palminhas. — , quer ir? Tenho entradas promocionais ainda aqui comigo!
— Uai, quero! — Ele disse, sorrindo.


Capítulo 8

e eu havíamos combinado de nos encontrar num barzinho do centro de noite. Então, depois da última aula, eu fui pra minha casa e ele foi pra dele. Cheguei em casa e encontrei e sentadas na sala e comendo.
— Oi, gatíssima. Chegou cedo! — disse assim que eu entrei.
— Cheguei no horário normal, menina, tá doida?
— Você nunca chega esse horário na sexta, disse. — Mais fácil te achar na tabacaria a esse horário.
— Verdade — falei e joguei minha mochila no chão. — Hoje eu marquei de dar um pulo no Intervalo.
— E vai com quem? — perguntou quando me sentei ao seu lado.
— Com o — falei e ela levantou uma sobrancelha. — Vamos comemorar o fim do trabalho. APENAS.
— Apenas… — ela disse debochando.
— Ai, menina, me erra! — Dei um tapinha na testa dela. — Meu amigo, cara!
— An, ninguém tá falando que não é. — Ela me mostrou a língua.
— Boba — disse, rindo. — Mas eu MEREÇO uma breja gelada depois de tudo que rolou, fala sério.
— Merece — disse. — Inclusive, a senhora vai à festa que a tá divulgando?
— Vou, menina! — Disse animada. — Vou de graça porque peguei bar.
— Arrasou! Só você mesmo pra animar trabalhar em festa — disse.
— Eu gosto, sô! Acho muito massa ficar no bar.
— Haja paciência.
— Ai, gente, de graça até injeção na testa! — Brinquei e elas riram. — Agora vou tomar um banho — disse e me levantei.
— Vai lá, cheirosinha — ela disse e me deu um tapa na bunda, me fazendo rir.
Fui pro meu quarto, peguei minhas coisinhas e fui pro banheiro. Entrei debaixo do chuveiro e deixei a água quente me relaxar. Lavei meus cabelos, meu corpo e meu rosto. Saí e me enrolei na toalha felpudinha. As meninas tinham colocado música alta pra tocar na sala e de dentro do banheiro eu pude ouvir. Então fui dançando e fazendo um skin care bem porco, mas melhor que nada, não é? Eu penso que sim.
Saí do banheiro e fui pro quarto trocar de roupa. Coloquei um shortinho bem soltinho, uma regatinha branca e um quimono colorido por cima. Penteei os cabelos, passei uma maquiagem bem leve, bem nadinha, como dizem as blogueiras, calcei uma rasteirinha e fui pra sala.
— Ah, não! Além de linda é cheirosa — disse, brincando assim que me viu.
— Combinação perfeita pra ser o amor da sua vida. — Pisquei um olho pra ela e fiz uma pose.
— Apaixonei — disse e se jogou no “sofá”, nos fazendo rir.
Fui pra cozinha, enchi um copão de água e voltei pro quarto. Resolvi dar uma geral antes de sair, porque o caos estava instaurado. Arrumei a cama, dei uma organizada na minha mesa e guardei algumas coisas no armário. Meu celular vibrou logo que terminei de guardar tudo:
— Estou saindo de casa. — Era .
— Estou indo também — respondi.
Catei minha bolsa, coloquei nela minha carteira, minhas chaves, meus cigarros, o isqueiro, o celular, e saí. Dei um tchauzinho rápido para as meninas e fui pra rua. Guardei meu celular na bolsa e comecei a descer o morro. Andei cerca de 15 minutos até chegar ao Intervalo.
Acho que devo explicar o que é o Intervalo. Nada mais nada menos que um boteco de esquina, voltado pros estudantes quebrados, como eu. As mesinhas ficavam, em sua grande maioria, do lado de fora. A cerveja era de qualidade mediana pra baixa, variedades incríveis de diversas bebidas quentes de baixa qualidade, porém grande custo-benefício.
Quando cheguei, já estava sentado em uma das mesas na calçada. Ele estava usando uma bermuda preta jeans, uma camisa de linho branca e de botões, e um tênis branco, belíssimo eu devo dizer, me senti meio esculhambada.
— Chegou há muito tempo, senhorito? — Perguntei, colocando minha bolsa numa das cadeiras vazias. se levantou e me deu um beijo na bochecha, me cumprimentando.
— Não, senhorita, cheguei quase agora — ele disse, voltando pro seu lugar. — Pedi uma breja já e uma porção de batata, suave?
— 300% — falei e, coincidentemente, o garçom chegou na hora com um litrão e dois copinhos americanos. Ele serviu a cerveja nos copos e saiu. — Um brinde a esse sextou! — Falei, levantando o meu copo.
— Cheers! — ergueu o copo e brindou comigo.
— Nossa, apenas tudo o que eu precisava! — Falei depois de dar um belo gole na minha bebida. — Se tem uma coisa que eu sou, é merecedora dessa cerveja!
— Oh, se é! — Ele disse, rindo. — Dias complexos esses que passaram, né?
— Que bonitinho, “complexos”. Mais pra fodidos, isso sim! — Falei brincando e ele riu.
— Aí depois fala que não é bad girl — provocou.
— Ih, ó, começa com essas viagem, não, menino! — Falei, rindo. — Mas, olha só, sobrevivi e continuo linda. — Fiz uma cara afetada e riu.
— Continua mesmo, meus parabéns — comentou e eu senti meu rosto esquentar suavemente. — Mais alguns meses e vencemos esse período! — Amém! — Respondi. — Olha, esse foi um período de grandes revelações…
— Tipo?
— Tipo que a minha “bestie” é uma sacana, que o Paulo é ruim de briga, que eu sou legal demais e deixo você andar comigo — finalizei brincando e ele riu.
— Muito obrigado, ó grandessíssima majestade! — Ele falou, fazendo uma reverência exagerada. Nesse momento, o pessoal do bar colocou uma música pra tocar. — Ó, se tocar Barões, você vai ter que dançar comigo!
— Dois perna de pau, vai ser lindo — debochei. Pesquei o maço de cigarro e o isqueiro rosa da bolsa. Acendi um. — Mas eu danço só se estiver sob efeito de muito álcool.
— Ih, então temos que começar com a cachaça logo! — Ele disse e chamou o garçom. Eu apenas rachei de rir.
Pouco tempo depois, o moço voltou com duas doses de cachaça branca. Doses de meio copo descartável, daquela cachaça que mata.
— Duvido você virar isso aí! — desafiou.
— Oh, dó, eu também duvido — falei, rindo. — Se eu bebo isso tudo de uma vez, a gente vai dançar lá no IML — brinquei e ele deu uma gargalhada alta.
— Vamos, pelo menos uma boa golada! — Ele disse. — Nós dois juntos!
— Tá bom, ! — Me dei por vencida. Brindamos e bebemos metade do conteúdo dos copos de uma só vez. Fiz um careta. — Jesus Cristo sacramentado, essa foi de foder!
— Nossa senhora, foi mesmo. Credo! — Ele respondeu, ainda fazendo careta.
— An, e a madame querendo que eu virasse tudo. Doido — falei, rindo. — Mas esse trem já até me esquentou o corpo — falei, sentindo o álcool subindo e esquentando minha cara.
— Tá com as bochechas todas vermelhas — ele disse, rindo.
— Você não tá muito diferente não, zé ruela! — Retruquei e ele mostrou a língua.
— Ai, você é demais, menina — ele comentou.
— Menina não, mulherão. — Dei uma piscadinha pra ele. Acho que o álcool subiu mais do que eu havia pensado.
— Justo! — Ele disse, levantando uma sobrancelha sugestiva. Acho que o álcool subiu pra ele também. — Vamos tirar uma foto?
— Vamos!
— Vem pra cá então — ele disse, e eu me levantei e mudei pra cadeira mais próxima dele.
Fizemos caras e bocas e tiramos várias fotos. Língua pra fora, chifrinho, duck face, carão, foto bonitinha, foto zoada, foto borrada, teve de tudo.
— Book fotográfico by — comentei e já ia me levantando pra voltar pra minha cadeira.
— Fica aí, sô! — Ele disse e segurou meu braço. — Tomei banho hoje, pode ficar perto de mim — brincou e eu ri. — Pode cheirar, ó! — Ele esticou o pescoço pra que eu pudesse sentir seu cheiro.
Me aproximei e dei uma fungada no cangote dele. Ele usava algum tipo de perfume masculino importado que eu não saberia nomear, mas era muito gostoso. Bem inebriante. Sexy.
— Tá cheiroso mesmo, meus parabéns — comentei, depois que me afastei. Catei o cigarro e dei um trago pra dar aquela disfarçada.
— Viu? Sou um rapaz muito asseado, pode ficar perto — ele disse e me deu uma piscadinha.
— An, e esse assanhamento aí? Sua mãe sabe que você fica piscando pros outros, ? — Falei com uma carinha debochada, não sabia muito como reagir, então corri pro deboche.
— Ó, que isso. Eu sou da igreja, isso é tique — ele disse, piscando o olho várias vezes exageradamente. — Viu, ó? — Continuou e eu rachei de rir.
Terminei meu copo de cerveja, peguei a garrafa e reabasteci. O garçom chegou com nossas batatinhas fumegando na tábua de pedra. O queijinho por cima me fez ter água na boca. Logo palitei uma e comi. Obviamente queimei a boca. começou a rir da minha cara.
— Isso que dá comer comida quente.
— Pecados que valem a pena, meu rapaz, vê só esse queijo! — Falei, fincando o palito em outra batata e a levantando para mostrar o queijo derretido. — Fino do fino, .
— Ê, mineira raiz, hein? — Comentou e eu ri.
A noite foi andando rápido, assim como nossa sobriedade. A certa altura, nós já estávamos mandando áudio bêbados pra , mandamos fotos pra irmã dele, cantamos a música do bar e rimos muito. Meia caixa de cerveja e algumas doses de cachaça depois, nós resolvemos ir embora, porque o bar tava pra fechar.
Fomos andando até chegar à frente do prédio em que morava. Ficamos uns minutos ali conversando e rindo.
— Ai, , eu vou indo — falei pra me despedir.
— Dorme aí, sô! — Ele convidou. — Tá tarde pra você voltar sozinha pra casa. Ainda mais bêbada igual um gambá.
— Olha como que cê fala de mim, hein, peste! — Falei brincando. — Mas meu morro me espera.
— Não, , dorme aqui! É perigoso voltar a essa hora — disse. — Amanhã é sábado, não precisa preocupar.
— Então tá bom, — falei por fim.
Nós dois entramos no prédio e fomos pro apartamento dele. Nenhum de nós tava com vontade de parar o rolê, então pegamos umas bebidas que ele tinha, uma caixinha de som, e fomos pro segundo andar. tirou os tênis e os trocou por um par de chinelos, eu apenas larguei minha rasteirinha em algum canto e fiquei descalça. Ligamos a caixinha e colocamos a famosa “Top Brasil” do Spotify pra tocar.
Me sentei no balcão da churrasqueira enquanto pegava os copos e algum tira-gosto. Tirei meu quimono e coloquei de lado, acendi um paiero e fiquei ali esperando e curtindo a música. logo voltou com dois copos, um pacote de cheetos e uma garrafa de algo que eu ainda não sabia o que era.
— Que é isso aí, papai? — Perguntei, assim que ele colocou tudo no balcão.
— Tequila — ele respondeu e eu arrepiei só de ouvir. — Ah, qual é? Vai dizer que não gosta?
— Gostar eu gosto, mas sobe rápido — expliquei.
— Mas essa é a maravilha da tequila, .
— “ ”, tá brigando comigo, é? — Falei e ele riu.
— Tô, por desdenhar da nossa convidada especial, La Tequilita.
— Perdoe-me, senhora. — Fiz uma reverência exagerada e riu.
— Como que pode ser tão boba?
— Não podia ser só bonita, , tinha que ter algo pra equilibrar — Falei brincando.
— Engraçado, né? Quando você tá sóbria, só fala que é um lixo. Quando tá bêbada, o cenário muda — ele disse e se sentou do meu lado. — Se você sabe que é bonita, por que fica se atacando?
— Ai, , perguntas complexas demais pra um ser humano afogado na cachaça — respondi e ele riu.
Nesse momento, começou a tocar Barões da Pisadinha, ele apenas me olhou e eu entendi o recado. Eu tinha dito que ia dançar, agora tinha que dançar. Eu desci do balcão e começamos a dançar ao ritmo da música. tinha dois pés esquerdos e eu dois direitos. Parecíamos um casal de crianças que estavam tentando imitar os pais dançando. Péssimo. Mas nós rimos muito, muito mesmo. A cada passo errado, nós soltávamos uma risada, então façam as contas.
— Nossa, , péssimos! — Falei, rindo.
— Muito! — Ele respondeu, rindo. — Mas valeu a pena.
— Valeu? Valeu o quê? Os pisões no dedão? — Brinquei.
— Deixa de ser pentelha, mulher! — Ele disse e começou a me fazer cócegas. Eu ri até chorar e não aguentar mais. ria com gosto também. Depois desse momento, nós, com as barrigas doloridas de tanto rir, resolvemos assar uns pães de alho que tinha guardado na geladeira.
Depois de muito lutar contra a churrasqueira, nós conseguimos vencer a batalha e colocar os pãezinhos no fogo. e eu viramos alguns shots de tequila, alguns 3 para cada. No fim, nenhum dos dois estava andando em linha reta mais. Sentamo-nos no balcão e ficamos rindo e conversando.
— Olha, se você acender esse cigarro, pode ser que entre em combustão! — disse, quando me viu colocar o cigarro na boca. — Seu teor alcóolico é mais alto que o do absinto! — Brincou e caímos na risada.
— Vou correr o risco — falei, tomando uma postura corajosa. — Se eu morrer, fala pra que eu a amo muito — brinquei e acendi o cigarro.
— UM MILAGRE! — gritou brincando.
— Cala a boca, bicho, olha a hora! — Briguei e dei um tapinha de leve em seu braço.
— Poxa, não me bate, senão eu me apaixono mais — ele disse manhoso.
— Mais? — Perguntei, levantando a sobrancelha.
— É — ele respondeu, se aproximou e me beijou.
Fui pega totalmente de surpresa. Achei que era só brincadeira, mas claramente não era. E eu estava ok com isso. Depois do susto, me entreguei. Deixei que avançasse com o beijo e coloquei a mão livre em sua nuca. Os lábios dele eram extremamente macios e tinham gosto de tequila. Eu gostei. Encurtei a distância entre nós e apaguei o cigarro na pedra do balcão. passou as mãos pela minha cintura e a apertou, lançando uma onda de eletricidade pelo meu corpo. Nossas línguas dançavam juntas, muito bem coordenadas, ao contrário de seus donos.
Pude sentir a respiração de acelerar e a minha não estava muito diferente. A intensidade do beijo só aumentava. Coloquei um das mãos em seu peitoral e ele deu um sorrisinho entre o beijo. Ele enfiou a mão por baixo da minha blusa e acariciou minhas costas. A essa altura, eu já estava quase no colo dele.
Então um cheiro fortíssimo de queimado inundou o lugar. Paramos assustados e vimos que nossos pães agora só serviam para acender a churrasqueira. Estavam muito queimados. Eu desandei a rir quando vi. correu para tirá-los do fogo e acabou por apagar as chamas da churrasqueira também, afinal de contas, éramos tão bons churrasqueiros quanto éramos dançarinos.
Ele jogou os pães de carvão no lixo e voltou em minha direção.
— Danem-se os pães. — E me pegou no colo. — Temos coisas mais importantes pra fazer. — E voltou a me beijar.


Capítulo 9

Acordei no outro dia com um telefone tocando. Era o de .
— Alô? — Ele atendeu com a voz carregada de sono. — Eu acabei de acordar, Alex. — ele falou em inglês. Provavelmente era a irmã. Depois disso, parei de prestar atenção, senti as pálpebras pesarem e dormi novamente.
Quando acordei novamente, a cama estava vazia. Me sentei e senti a cabeça latejar. Se tequila fosse uma pessoa, seria, com toda a certeza, alguém muito insuportável. Me levantei, me vesti e fui ao banheiro dar uma lavada na cara. Saí de lá e fui procurar o dono da casa.
— Bom dia, bela adormecida — ele disse, assim que o achei na cozinha.
— Bom dia, — falei, me sentando na bancada da pia. — Minha cabeça tá latejando, cara, preciso de uma coca-cola.
— Eu acho que tenho aqui — ele disse e abriu a geladeira. — Toma, cachaceira — falou, me entregando uma latinha.
— Muito obrigada — falei e lacei as pernas em sua cintura, puxando-o pra perto de mim.
— Owa.
— Sou uma mulher de atitudes, rapaz — brinquei e lhe dei um selinho. — Que horas são, hein?
— Mais de duas, mulher de atitude — respondeu e me beijou. — Tô passando um café pra nós — disse.
— Deus te abençoe por isso! — falei, soltando-o. — Depois de tanta cachaça, só o café pra salvar.
— E a coca — ele disse, rindo.
— E a coca! — concordei e abri a latinha. — Saúde! — Brindei com o vento e dei uma boa golada no refrigerante.
se afastou e foi tirar a água fervendo do fogão. Eu fiquei observando e pensando no que havia rolado naquele dia. Será que aquilo confirmaria o que Paulo escreveu? Ou não? Eu definitivamente não estava apaixonada por ele, e ele também não estava por mim, porque, afinal de contas, não é assim que funcionam as coisas, mas com certeza nós tínhamos interesse mútuo.
— Ou, acorda, fia, tá pensando na morte da bezerra? — disse, estalando os dedos na minha frente, me tirando das minhas viagens.
— Não, coitada da bezerra — respondi, brincando. — Tava pensando numas paradas aí, umas nóias.
— Quer falar sobre? — ele perguntou, me entregando uma xícara de café quente.
— Quero, na verdade — eu disse, colocando a xícara de lado, afinal de contas, vovó sempre disse que não pode tomar quente e gelado. — , qual foi a de ontem? — perguntei, e ele pareceu surpreso com a pergunta.
— Uai, foi o que foi — respondeu ainda confuso.
— Oh, besta — falei, e dei um tapinha na testa dele, o fazendo rir. — Tô querendo saber se foi só o álcool ou outra coisa.
— Tenho que admitir que o álcool teve sua parcela de culpa, mas foi só pra dar coragem — ele disse. — Mas eu já queria ficar com você faz tempo.
— Mas e agora? Como a gente faz?
— Uai, vive a vida, deixa as coisas acontecerem — ele disse e me deu um selinho. — Vamos ver como isso evolui.
— Justo — falei. — Mas, por favor, não fala disso com ninguém.
— Por quê?
— Porque não quero que espalhem mais fofocas da minha vida pela internet — justifiquei. — Agora que a poeira tá baixando do último episódio.
— Entendo, mas a gente vai ficar escondendo que ficamos? — ele perguntou. — Tipo, eu imagino, e espero, que essa não tenha sido a única vez, quero que a gente continue, mas isso de escondido não me agrada.
— Não me agrada também — falei, dando outra golada no refrigerante gelado. — O que eu tô pedindo não é pra gente ficar às escondidas, tô pedindo pra você não comentar com alguém que pode fazer disso um inferno na minha vida.
— Com o Paulo você quer dizer.
— Ou qualquer um que seja próximo dele, e eu sei que os seus amigos são. Fofoca corre tão rápido…
— Entendo, , pode ficar tranquila quanto a isso — ele disse e me abraçou. — Não vou deixar isso cair na rodinha do gabinete de satanás — brincou e eu ri.
— Ótimo então — falei e dei uma fungada no cangote dele. — Tá cheirosinho, hein? Meu grande parabéns.
— Te disse que sou um rapaz asseado — ele disse, se afastando. — 100% limpo. — Será? — perguntei debochando e ele me mostrou o dedo, de brincadeira. — Eu quero tomar um banho, senhor asseado.
— Mas cê nem tomou seu café ainda — protestou.
, hoje eu vou te passar uma informação que você tem que levar pra sua vida toda, sabedoria vinda das maiores sábias de Minas Gerais — falei pomposa.
— Eita, o que é?
— Nunca beba quente e gelado, faz a cara ficar torta e dá gripe.

Era quase noite, eu já havia tomado um banho, nós já tínhamos almoçado e estávamos deitados na sala assistindo um filme, quando a me ligou:
, onde cê tá? — ela disse, do outro lado da linha.
— Tô na casa do , amiga — respondi.
Ah, então tá bom. Fiquei preocupada por um momento. falou aliviada. — A senhora pegou ele, né? EU SABIA! — ela disse e caiu na risada.
! Sossega esse facho, pelo amor de deus! — ralhei. — Quando eu chegar a gente conversa, tá?
SAFADA! — ela gritou e continuou rindo. — Vem logo, danada.
— Tá bom, sua enjoada! — brinquei. — Chego aí daqui a pouco — respondi e desliguei.
— Tão te chamando? — perguntou e eu assenti. — E você vai?
— Tenho que ir — falei. — Se não, daqui a pouco a brota aqui me caçando.
— Uai, mas não foi a que ligou?
— Foi, mas a doida é a — contei e ele riu. — Quer vir?
— Não, obrigado — falou. — Já sei que elas vão querer saber de você sobre os motivos de você ter dormido aqui, não vou atrapalhar o momento.
— Pois muito que bem, senhor — falei. — Vou terminar de assistir e vou-me embora.
— Então vou aproveitar — falou e me puxou mais pra perto de si.

Quando cheguei em casa, estava sentada na sala, assistindo TV. Assim que ela me viu, ela me lançou um sorrisinho safado e não me deixou sequer guardar a bolsa pra começar o interrogatório.
Contei tudo a ela, que a todo momento falava “Ai, eu sabia”. Depois de contar, fui tomar um banho e trocar de roupa, porque estava com a mesma roupa devia ter mais de 24h. Depois de colocar meu pijaminha delicioso, fui pra sala ficar com a e a , que chegou enquanto eu estava no banho.
Elas tinham me contado que a tava na casa do Pedro. Por isso a doida não tinha me ligado ainda. Nós fizemos pipoca, abrimos umas cervejas e ficamos assistindo “Eu, a patroa e as crianças”.
No dia seguinte, levantei tarde e fui tomar um banho pra lavar a lombeira de domingo do corpo. Enfiei debaixo da água quente, lavei meu corpinho e meu cabelinho, saí, cortei as unhas dos pés, passei um hidratante corporal, vesti um shortinho podrinho, uma camiseta larga, escovei meus dentes e fui viver minha vida.
Fui à cozinha, passei um cafezinho fresquinho, e, por sorte, tinha um bolinho pra acompanhar. Me servi com uma xícara de café e um pedaço de bolo e fui pro quintal. Me sentei à mesinha de lá, acendi um cigarro e tomei meu café da manhã.
Estava lá, com os pés pro alto, cigarro numa mão e café na outra, olhando o céu e a paz de domingo, quando ouvi alguém entrar em casa. Olhei para a sala e vi a passando, não estava com uma cara muito feliz e nem se deu o trabalho de me cumprimentar. Imaginei que ela havia brigado com o Pedro ou algo do tipo, dei de ombros e voltei a viajar na maionese.
Terminei meu café, deixei a ponta de cigarro no cinzeiro, juntei as louças e voltei pra dentro. Por mais que eu quisesse ignorar, eu ainda tinha uma faculdade para terminar. Lavei tudo o que sujei e fui pro meu quarto.
Arrumei minha cama, peguei minha mochila e sentei a bunda na cadeira, decidida a terminar PELO MENOS um texto. Liguei o computador, peguei um texto e comecei o fichamento.
Lá pelas tantas, minha visão já estava embaralhando e eu não estava entendendo absolutamente mais nada, resolvi dar uma paradinha. Deitei na cama e peguei o meu celular para dar uma olhada nas coisas. Tinha algumas mensagens do .
“Bom dia, madame, a senhora esqueceu isso aqui em casa” e uma foto do meu kimono.
“Bom dia, senhor, não tava nem lembrando disso aí” —Mandei.
“Vou vender no Mercado Livre”.
“Boa ideia” — respondi. — “Troca por cigarro”.
“Só assim pra sustentar seu vício, sua drogada”.
“Drogada? Sim! Gostosa? Também!” — brinquei.
“Ih, aí sim, assino embaixo”. — Ele mandou. — “Vem pra cá hoje”.
“Só se for mais tarde”.
“Por conta de quê?”
“Tomei vergonha na cara e tô estudando”.
“Realmente, milagres acontecem”. — Ele mandou junto a um emoji de mãozinha rezando. — “Mas vem quando acabar então”.
“Ok ok” — falei e larguei o celular de lado.
Fui à cozinha, peguei uma caneca com café e voltei pra minha labuta para ser uma fracassada formada. Estava lá, analisando as formas das cidades pós-modernas, quando lembrei que eu morava com outras pessoas, e isso se deu pelo fato de aparecer uma toda esbaforida na minha porta, com os olhos arregalados e pálida.
— Que que foi, mulher? — perguntei preocupada.
— Vem aqui — ela disse e saiu, e eu fui atrás. — Fecha a porta — ela pediu, assim que eu entrei no quarto dela, e eu obedeci.
, o que foi? — falei extremamente preocupada.
, eu acho que engravidei — ela disse baixinho. Arregalei os olhos tanto que eles quase fugiram da minha cara. — O que eu faço? — ela perguntou apavorada. Eu tentei me recompor, afinal de contas, precisava estar ali pra ela naquele momento.
— Primeiro de tudo, amiga, por que você acha que tá grávida?
— Porque minha menstruação tá atrasada tem quase 3 semanas.
— Jesus Cristo… — deixei escapar sem querer. — Desculpa! Mas você tá tomando seu anticoncepcional, ?
— Não — ela disse baixinho e eu quase caí de costas. — Eu achei melhor parar com ele. Fiquei com medo de ter algum problema pela quantidade de hormônios.
— Entendi. Mas você e o Pedro têm usado preservativo, certo?
— Certo — ela disse e eu dei uma relaxada. — Mas…
— “Mas”, ?
— Fizemos sem uma vez, mas foi só uma vez! Eu juro!
, pelo amor de Jesus, vê se isso é justificativa? — falei. — Vamos à farmácia comprar um teste, amiga, agora!
— Mas e se der positivo, ?
— Se você tiver grávida, amiga, vai ser a menor das suas preocupações. Mas precisamos confirmar ou desconfirmar tudo isso.
— Ok. Vamos.
Do jeito que estávamos, nós fomos à farmácia mais próxima. estava desesperada, e com razão, então nem na farmácia entrou, como se isso fosse deixá-la mais ou menos grávida. Eu entrei e comprei uns 5 testes de diferentes marcas pra ter bastante certeza do resultado, fosse ele positivo ou negativo. A moça do caixa me olhou com um olhar julgador, me reparando dos pés à cabeça, e em resposta ganhou minha melhor cara de poucos amigos.
Saí da farmácia, encontrei e voltamos pra casa. Eu nem sei dizer se as outras meninas estavam ou não em casa, porque estava simplesmente absorta com toda a situação. Nós passamos pra dentro do banheiro e trancamos a porta. Entreguei a sacola com os testes pra e esperei ela fazer xixi no copinho. Ela colocou o copo em cima da pia e começamos a abrir as caixas dos testes e colocar os ditos cujos pra trabalhar.
Achei que fosse desmaiar, pois ela ia ficando cada vez mais pálida e apavorada. Segurei a mão dela, que estava geladíssima, pra dar pelo menos uma forcinha. O tempo custa a passar quando a gente precisa, e os testes custavam a positivar ou negativar. Pra piorar a situação, o celular da começou a tocar e era ninguém mais, ninguém menos, que A MÃE DELA.
— Que que eu faço, ? — perguntou apavorada, com o celular em mãos. — Se eu desligar, ela vai surtar, mas eu não posso atender nesse estado! — Ela faltava só abrir o berreiro.
— Me dá que eu atendo, falo que você tá no banho ou algo assim, sei lá — falei e peguei o celular da mão dela. — Alô? — atendi.
— Quem tá falando? — A voz da mãe dela ficou confusa do outro lado da linha.
— É a , tia. — Tentei usar a voz mais calma que eu tinha.
— Ah, oi, ! Tá boa, fia?
— Tô sim, tia, graças a Deus, e você?
— Tô jóia também! Aqui, cadê a , hein? Por que ela não atendeu o telefone?
— Ela acabou de entrar no banho, aí deixou o celular aqui na sala — inventei. — Por isso ela não atendeu, mas eu falo pra ela te ligar assim que ela sair.
— Então tá bom, . Fica com Deus! Tchau. — terminou e desligou.
Soltei todo o ar que estava prendendo inconscientemente. fez o mesmo. Voltamos nossa atenção para os testes, que, pela hora, já deviam estar prontos. me lançou um olhar nervoso e com medo.
— Amiga, eu tô aqui independente do resultado, você sabe disso.
— Sei, , muito obrigada — disse e pulou no meu pescoço. Dei nela um abraço apertado e demorado.
— O que tá feito tá feito, agora é lidar com as consequências — falei e ela concordou. — Agora vamos ver qual é desses desgraçados aí — disse e pegamos os testes para saber o resultado.


Capítulo 10

— Esse deu negativo, — ela disse, me mostrando o que ela estava na mão.
— Pois esse deu positivo — falei, olhando o que estava comigo e o sorriso dela murchou. — Amiga, vamos ver os outros. — Pois de nada adiantou. Do total de cinco, três deram negativo e dois deram positivo.
— E agora, amiga? — ela disse mais perdida que tudo.
— Você estuda bioquímica, amiga, sabe que tem que fazer o teste de sangue.
— Ai, , tô com medo!
— Eu sei, amiga, mas agora não tem o que fazer além disso — falei, me sentando com ela no chão do banheiro. — Pelo tempo que sua menstruação tá atrasada, não adianta nem tomar pílula.
— Eu não tô pronta pra isso, .
, eu vou te ajudar em tudo que eu puder — falei. — Eu sei que não sou das mais jeitosas e nem das mais inteligentes, mas eu prometo que tento ajudar da forma que eu puder. Eu vou aprender. Juro. — olhei nos olhos dela, tentando passar o máximo de confiança e conforto que eu podia. Eu tinha zero jeito com criança e com qualquer coisa que precisasse de cuidado, mas por ela eu faria o esforço de aprender.
— Te amo muito — ela disse, me abraçou forte e eu retribuí.
Ficamos abraçadas no chão do banheiro por um tempo. chorou bastante e eu apenas estive ali por ela, afinal não havia nada que pudéssemos fazer caso ela realmente estivesse grávida. Depois que ela se recompôs, eu a aconselhei a falar com o talvez futuro pai da talvez futura criança, afinal de contas, filho não se faz com o dedo, e ela concordou. Ela disse que queria tomar um banho para poder ir pra casa dele, então eu a deixei só no banheiro e voltei pro meu quarto.
Era muita informação. Deitei-me na cama e fiquei pensando em como eu poderia ajudar se ela estivesse grávida. tinha uma família bem conservadora, a mãe dela era um amor de pessoa, mas era muito cri-cri também, vivia na igreja e levava muito a sério a opinião das pessoas. O pai dela era aquele típico tiozão que só sabe fazer piada sem graça e que destila machismo e agressividade. E ela era filha única. Então o circo tava armado. Se ela estivesse realmente grávida, ia ser uma confusão que só. E eu precisava estar ali pra ajudá-la.
Ouvi ela saindo do banheiro e indo pro quarto. Aprumei o corpo e fui atrás dela. Falei com ela pra ligar pra mãe dela quando desse e que, caso as coisas ficassem ruins com o Pedro, que era pra ela me ligar que eu ia lá buscar ela. Por fim, ela catou as coisiquinhas dela e foi.
Eu peguei meu celular e lembrei que tinha combinado de ir à casa do , mas com tudo o que tava rolando eu simplesmente não podia ir. Então eu mandei uma mensagem falando que não ia dar pra ir lá, mas que se ele quisesse vir em casa, eu não ia reclamar. Ele concordou e disse que tava vindo.

Já eram quase cinco da tarde e nem almoçado eu tinha, sobrevivi à base do desespero. Então, quando a poeira abaixou, a fome não bateu, ela esmurrou. Fui então fazer meu almoço/lanche da tarde/janta. Fiz aquele macarrãozão bem laricado. Fui ver se as meninas estavam com fome e descobri que as duas tinham saído. Então comi sozinha.
Tinha terminado de arrumar a cozinha, quando a campainha tocou. Atendi e era .
— Veio rápido — falei, dando passagem para ele entrar.
— Tava com preguiça de vir andando, aí pedi um carro.
— Quem vê acha que eu moro a 50km de você — disse e fechei a porta.
— Não são 50km, mas esse morro é equivalente — ele justificou e eu ri.
— Vou ter que concordar — falei. — Vamos lá pro quarto?
— Vamos.
Então nós fomos. Eu não tava com cabeça pra estudar, então eu e resolvemos assistir um filme no PC. Nós nos deitamos na cama e colocamos a Netflix pra rolar.
— Você tá estranha — disse lá pelas tantas.
— Tô?
— Tá — ele confirmou. — Tá quieta demais, com uma cara de preocupada. O que tá rolando?
— Ai, é que aconteceram algumas coisas hoje.
— Pode me contar? — ele perguntou.
— Não posso te contar detalhes, mas posso dizer que a tá com problemas, e eu tô preocupada com ela — contei.
— Ela tá bem?
— Na medida do possível — falei. — Ela tá lá no Pedro agora, talvez a gente tenha que ir lá buscar ela, mas espero muito que isso não seja necessário.
— É sério assim? — ele perguntou e eu confirmei com a cabeça. — Tem algo que eu possa fazer pra ajudar?
— Não, infelizmente não tem o que fazer agora.
— Poxa, que péssimo — ele disse e eu concordei.
— Fica aqui quietinho comigo, vai — eu disse, me aninhei no peito dele e voltamos a assistir ao filme.

— Detestei esse filme, — falei, assim que o filme acabou.
— Nossa, esse era ruim com força — ele concordou.
— Muito bom, nota 2! — falei, colocando o computador no chão ao pé da cama. — Que dedo podre.
— Mas ele tinha potencial, só foi mal executado — ele disse.
— Só? Ele foi pessimamente executado e pessimamente escrito.
— Não tenho nem como defender — ele falou, rindo.
— A gente devia ter visto o outro — eu falei.
— Devia mesmo — ele concordou. — Como você tá? Melhor um pouco?
— Sim, não por causa do filme, mas sim — disse. — Eu tô partindo do pressuposto de que se a ainda não ligou e nem mandou mensagem, é porque as coisas tão bem lá.
— Espero que sim — ele disse, fazendo cafuné na minha cabeça. — Vai dar tudo certo nessa situação.
— Tô cruzando os dedos pra que dê mesmo.
— Se vocês precisarem de algo, me fala.
— Obrigada, — falei e dei um selinho nele. — Mas agora eu preciso só de um cigarrinho.
— Aqui podemos ver um exemplar de fumante… — ele começou a falar e eu dei risada.
Levantei-me e fui até minha bolsa, pesquei o maço de cigarros e o isqueiro, me sentei na janela e acendi o paiero. veio e se sentou do meu lado.
— Por que você não dorme aqui hoje? — perguntei.
— Eu não trouxe minhas coisas pra aula amanhã, — ele disse, pegando o cigarro da minha mão e deu um trago.
— Poxa, a gente passa na sua casa amanhã antes da aula.
— Você vai querer fazer essa volta toda? — perguntou, me devolvendo o paiol.
— Querer eu não quero, mas eu quero que você durma aqui hoje.
— Uma coisa leva a outra, srta. — ele disse, levantando a sobrancelha.
— Então é isso. Você dorme aqui hoje e amanhã a gente vai à sua casa. Fechado — falei e coloquei as pernas no colo dele. — A gente pode assistir um filme que preste então.
— Por favor — ele disse, fazendo carinho nas minhas pernas.


Capítulo 11

havia me mandado mensagem, avisando que tudo correu bem com o Pedro, que ela ia ficar por lá e no dia seguinte os dois iam juntos num laboratório fazer a testagem. Pedi a ela que fosse no hospital fazer a testagem rápida para IST’s também, afinal de contas, a gravidez não era a única coisa que poderia sair de uma transa desprotegida.
Fiquei mais tranquila que tudo havia saído bem com ela, então consegui relaxar e assistir ao filme com sem pensar no assunto. Nós dois ficamos de pegação até a e a voltarem, lá pelas 20h — elas haviam ido à casa de uma amiga delas que eu não conheço para fazer uso de substâncias não liberadas pela ANVISA.
Depois que elas chegaram, nós quatro pedimos uma pizza e jantamos todos juntos. Me segurei muito pra não falar nada sobre o episódio com a , afinal de contas, era ela quem precisava decidir se contaria ou não pra quem quer que fosse, eu não tinha o direito de fazer isso por ela. Mas, tirando isso, foi muito divertido, levando em conta que as meninas estavam muito aéreas, nós rimos muito a noite toda. e eu nos esprememos na minha cama e por lá dormimos.
No dia seguinte, nós acordamos meia hora antes do meu horário habitual, já que precisaríamos ir à casa dele antes de ir pra aula. Na preguiça que eu estava, resolvi tomar café na rua, porque estava sem nenhuma animação pra passar café e comer bolo velho. Com isso, nós saímos logo depois que eu me arrumei.
Primeiro passamos no apê de , ele trocou de roupa e pegou suas coisas, depois fomos comer numa padaria relativamente perto da faculdade, carinhosamente apelidada de Furtos & Roubos pelos seus preços magnificamente fora do padrão.
Eu pedi um senhor café e um pãozinho de queijo, foi mais saudável e pediu um suco de laranja e um pão na chapa. Nós comemos nosso lanchinho conversando sobre as aulas que teríamos no dia e sobre os textos que tínhamos para debater. Quando fomos ao caixa pagar, aproveitei para repor meu estoque de pirulitos e cigarros, digamos que foi uma cena infantil e caótica ao mesmo tempo.
Quando chegamos ao departamento, as aulas estavam pra começar e nós não iríamos ter as mesmas durante a manhã, então nos separamos e fomos para as nossas respectivas salas.
Fui pro meu lugarzinho de sempre no fundão, catei minhas coisas na mochila e coloquei na mesa, a aula seria de slides e se eu quisesse ficar acordada, teria que copiar cada suspiro que o professor desse. Felizmente, minha tática deu certo e eu consegui acompanhar a aula toda, inclusive a parte em que ele passou um trabalho novo.
Saí da sala quando a aula acabou e fui me direcionando para a sala da próxima matéria. Quando entrei, dei de cara com a Giovana. Que desagradável. Ela me olhou de cima a baixo e torceu o nariz. Eu apenas relevei o fato, mas, quando eu passei, uma das amigas dela, a Gabi, veio atrás de mim.
— Ei! — ela chamou e eu me virei, com cara de poucos amigos, para ver o que ela queria. — Olha, eu queria que você soubesse que eu não gosto do jeito que ela te trata. — Isso realmente me surpreendeu.
Olhei de canto de olho para Giovana e ela estava putíssima da vida, provavelmente xingando a Gabi de todo e qualquer nome não agradável que vinha na mente dela.
— Obrigada, eu acho — respondi.
— Queria me desculpar também por ter te deixado de lado nos últimos tempos. É que eu tive uns problemas pessoais e não sabia como lidar, sabe? Aí embolei as coisas.
— Tá tudo bem, Gabi, relaxa — falei e não menti, porque eu realmente nunca fora próxima dela. — Mas espero que esteja tudo bem agora, sabe, com os seus problemas.
— É, estão melhorando. Obrigada! — ela respondeu e nesse momento a professora chegou.
Eu fui pro meu lugar e tentei utilizar a mesma tática da aula anterior, mas a professora resolveu fazer um círculo para debate de texto que eu não tinha lido, mas, como eu sou uma bela de uma enroladora, consegui me sair bem.
Quando ela liberou a gente, eu saí e fui encontrar , já que tínhamos combinado de almoçar juntos. Achei ele na porta do departamento, com os óculos de sol na fuça.
— Vamos? Tô com fome — ele disse, assim que eu cheguei perto, e eu confirmei com a cabeça. — Será que tem o que hoje, hein?
— Sei lá, , mas não tenho muita expectativa, levando em conta que estamos falando do RU — falei e ele concordou. — Adivinha quem veio falar comigo hoje?
— Quem?
— A Gabi — contei, enquanto íamos andando para o restaurante.
— Por essa eu não esperava — disse, com um sorrisinho desacreditado no rosto. — O que ela queria?
— Disse que não gostava do que a Giovana tava fazendo e pediu desculpas por ter me largado nos últimos tempos.
— Olha, eu diria que o mundo não dá voltas, ele capota — brincou — Nunca achei que aquela lá ia ter voz contra a Giovana.
— Ela disse que teve alguns problemas pessoais, talvez isso tenha algo.
— Pode ser, mas que é surpreendente, isso é — ele disse e eu concordei com a cabeça. — E a , ? Deu notícias?
— Ainda não, . Estou de olho no celular a manhã toda, mas ela ainda não falou nada.
— Espero que esteja tudo bem.
— Eu também.
Com isso, entramos na fila do almoço e ficamos lá conversando sobre coisas aleatórias da vida. me contou que a irmã dele estava gravando algum filme, cujo nome não me lembro, e que ela conseguiu alguns contatos realmente importantes pra carreira dela.
Depois que almoçamos, fomos pra lanchonete da piscina fazer hora até a próxima aula. Como sempre, sentamos em uma das mesinhas de concreto e eu puxei um cigarro da mochila e comecei a fumar.
— Aquela festa que a vendeu é esse final de semana? — perguntou, me devolvendo o cigarro que havia pegado da minha mão e dado um trago.
— Nossa, eu não estava lembrando disso, mas eu acho que é sim, viu?
— Você ainda vai?
— Vou. Eu vou trabalhar, lembra? — perguntei e ele confirmou com a cabeça. — Mas não sei se a vai.
Assim que terminei de falar, meu celular começou a tocar e era a dita cuja.
— Oi, amiga, como você tá? — perguntei, atendendo o telefone.
— Acabei de fazer o exame, . O resultado sai amanhã — falou, do outro lado da linha.
— Fez os testes? — perguntei, me referindo aos de IST.
— Fiz. Não deu nada, mas me orientaram a dar uma passada em uma ginecologista pra fazer um check-up — contou.
— Concordo plenamente. Sempre bom ter cautela — comentei. — Você tá com o Pedro?
— Sim, amiga. A gente conversou muito ontem e ele me disse que, independente do resultado, ele vai ficar do meu lado, sabe? Se der positivo, ele vai tomar seu lugar de pai — disse.
— É o mínimo, né, ? — falei. — Afinal de contas…
— Eu sei, amiga, mas isso me confortou, sabe? Saber que não vou ter que carregar a responsabilidade sozinha, caso as coisas deem errado.
— Entendi, amiga — falei. — E você vai pras suas aulas hoje?
— Não, amiga. Eu tinha aula só agora de manhã e matei, por motivos óbvios, daí agora a tarde vou à divisão de saúde ver se tem algum ginecologista lá contou.
— Quer que eu vá com você?
— Não, amiga, obrigada. O Pedro tá comigo aqui, mas eu te falo quando sair de lá, pra te deixar atualizada de tudo.
— Certo então, . Pode me ligar se precisar. — Eu sei, . Muito obrigada pelo apoio.
— Sempre, amiga. Sempre. Amo você.
— Também te amo, , muito! — ela disse com a voz embargadinha. — Vou desligar agora, depois a gente se fala!
— Tá certo, amiga! Tchau!
— Tchau! — ela disse e desligou.
Só dos testes de IST’s terem dado negativo já me senti mais aliviada, agora só restava saber do de gravidez. me olhava curioso.
— Era a , ela tá bem — contei
— Que bom! — ele disse genuinamente feliz. — Fiquei preocupado.
— Eu também, mas ela tá bem. Vai resolver algumas coisas agora com o Pedro e vai me atualizando aos poucos — falei. — Mas, sobre a festa — disse, mudando de assunto para que ele não me perguntasse detalhes —, acho que vou ter que ir mais cedo pra ajudar os meninos a organizarem o bar.
— Entendi, então a gente vai ter que se achar lá, né? — ele disse e eu confirmei — Ainda bem que você vai estar no bar, senão eu ia demorar uma vida pra te achar naquele lugar.
— Que isso, meu brilho irá te guiar, bebê — brinquei e ele riu.
— Farol, é?
— Tipo isso — respondi, rindo.
Ficamos ali mais um tempo e depois voltamos pro departamento.
As próximas duas aulas nós íamos assistir juntos, então entramos e já fomos nos sentar no fundo da sala. A primeira delas era de história, minha parte favorita do curso, e a professora tinha um certo carinho comigo. Eu costumava anotar tudo o que essa professora explicava, tudo parecia magnificamente interessante e passível de cair em avaliações também.
Quando a aula acabou, eu e estávamos juntando as coisas para sair da sala, quando a professora nos chamou. Tanto ele, quanto eu, ficamos sem entender absolutamente nada do que estava rolando, mas se ela chamou, a gente tinha que ir.
— Quero conversar com vocês dois — ela disse, quando nos aproximamos.
— Sobre o quê? — perguntei com um pouco de medo da resposta.
— Sobre o trabalho que vocês entregaram — ela falou e começou a procurar o trabalho no meio da papelada dela. — Esse aqui — falou e estendeu nossa resenha pra nós. Eu peguei o trabalho já pensando num belo ZERO na capa, mas não tinha nada.
— Ficou muito ruim? — perguntei, folheando as páginas impressas.
— A gente pode refazer? — perguntou. — Pra melhorar.
— Não, gente — ela disse e deu uma risadinha. — O trabalho de vocês ficou muito bom, muito bom mesmo! — ela revelou e nós ficamos em choque. — Vocês precisam confiar mais em vocês mesmos, hein?
— Nossa, a gente não estava esperando por isso, professora! — falei, com um sorriso de orelha a orelha.
— Eu gostei muito do trabalho de vocês dois, gostei tanto que queria que vocês participassem de uma pesquisa que estou desenvolvendo no tema. Seria uma pesquisa voluntária, mas contaria no currículo de vocês! — ela convidou.
— Nossa! Sério? — perguntou tão embasbacado quanto eu.
— Sério, — ela disse, rindo de como a gente estava em choque — Então vocês querem?
— Claro! — eu disse animada e concordou.
— Ah, ótimo então! Vou mandar e-mails pra vocês essa semana pra podermos acertar tudo!
— Certo! Muito obrigada, professora! — agradeci.
— Sim, muito obrigado! — falou.
Depois disso, nós fomos pra outra aula que teríamos. Obviamente, ficamos fofocando sobre essa novidade que tínhamos, falamos sobre como achávamos que seria a pesquisa, como nós iríamos aproveitar isso e como iríamos proceder quando formássemos.
Nem vimos o tempo passar e a aula acabou bem rápido. Saímos do departamento, o sol estava baixo, mas o calor era de lei. Descemos caminhando pela reta juntos.
— A gente precisa comemorar essa pesquisa! — disse animado, enquanto andávamos.
— Precisamos mesmo! Tenho que contar isso pra minha mãe, meu Deus.
— Também vou contar pra minha! — falou. — Mas, hein, bora no Intervalo hoje?
— Puts, hoje não dá — eu disse e ele ficou me olhando confuso. — Preciso ver a , tipo muito.
— Nossa, verdade. Desculpa, eu esqueci.
— Tá tranquilo! — falei. — Mas a gente pode ir amanhã ou depois se tudo der certo. O que você acha?
— Por mim, suave.
— Então é isto — falei e demos um “high-five”.


Capítulo 12

Cheguei em casa naquele dia e, aparentemente, as outras meninas não tinham chegado ainda. Então aproveitei e liguei pra minha mãe, contei pra ela da pesquisa e ela ficou toda feliz. Sentia saudades dela.
Depois de conversar com minha mãe, tomei um banho rápido e me troquei, colocando uma roupinha bem levinha e confortável. Sentei na varanda e comecei a fumar um cigarro, enquanto lia um livro “Arquitetura Popular Brasileira” — inclusive indico ele a todes.
Estava distraída lendo com os pés em cima da mesa, quando ouvi a porta abrir. Olhei e vi entrando em casa. Levantei num galope e fui até ela. — E aí, amiga? O que que deu?
— Vem comigo — ela disse, pegou meu braço e me arrastou pro quarto dela. — Fui bem chata e insisti tanto que o pessoal do laboratório já liberou o meu exame — falou, jogando a bolsa na cama.
— E qual foi o resultado? — perguntei ansiosa.
— Ainda não abri, amiga. Não tive coragem de fazer isso sozinha.
— Mas e na médica? Como foi? — perguntei e me sentei na cama.
— Ela colheu o Papanicolau e eu já deixei no laboratório. De resto, ela disse que tá tudo aparentemente normal.
— Então foi um check-up de rotina, praticamente.
— Isso — ela disse e se sentou comigo. — Ela disse que se o exame der positivo, é pra eu voltar lá.
— Então vamos ver — falei. — Quer que eu abra pra você?
— Quero! — ela disse e me entregou o envelope. Meu coração palpitava forte.
Peguei o envelope, me controlando pra parecer calma. Meu Deus, parecia que aquele exame era meu, de tão nervosa que eu estava. Mas eu respirei fundo e rompi o lacre do envelope. Olhei pra e ela estava pálida, mexendo as mãos ansiosamente. Tirei os papéis de dentro do envelope.
— HCG Subunidade Beta — comecei a ler o que estava no papel. — Material: Soro. — Engoli seco e continuei. — 0,69 mUI/ml — falei e deu um grito. — Que que foi, ? — perguntei preocupada.
— Deu negativo, amiga! — ela disse, rindo. — Ah, deu negativo! — gritou e começou a pular na cama.
Eu continuei a ler o papel e realmente estava escrito “Negativo” mais pra baixo. Às vezes eu me esquecia que a era uma bioquímica em formação e devia saber todos esses valores de cor e salteado. Mas o que importava era que estava tudo bem. Eu me levantei e comecei a pular com ela. me abraçou e começou a chorar de alegria e alívio.
Depois de toda a comoção do negativo, ela ligou pro Pedro e foi contar pra ele a novidade. Cinco minutos depois, ela voltou, já terminada a ligação, e pulou na cama pra ficar do meu lado.
— Eu vou pedir uma caixa de cerveja lá no Intervalo, amiga, não tô nem aí pra aula amanhã! — ela disse animadíssima. — Pedro vem pra cá daqui a pouco, chama o também, chama todo mundo porque EU NÃO TÔ GRÁVIDA! — ela disse e eu caí na risada.
— Ai, , você é tudo pra mim! Pode pedir que eu chamo o sim.
— Vocês são um casal TÃO LINDO. Meu Deus, amiga!
— Nós não somos um casal, — falei, rindo da animação que ela estava. — Não é porque a gente se pegou que nós somos um casal.
— Então você tá solteira? Afirmativo e confirma?
— Sim, , que confusão é essa que você tá fazendo na sua cabeça?
— Na festa da engenharia você vai pegar uns boys maravilhosos então! — ela disse, com um sorrisinho malicioso no rosto. — Você precisa soltar a franga e desestressar desse período! Tá muito tensa, amiga!
— Mulher, segura a onda! — falei, rindo. — Você sabe que eu beijo, sim, quando eu sinto vontade!
— Pois espero que sua vontade esteja no 350% nessa festa! — ela disse e se levantou. — Agora vou tomar um banho. Se a cerveja chegar, você recebe aí, já tá pago.
— Tá bom, amiga! — respondi e ela saiu pro banheiro.
Peguei meu celular e mandei mensagem pro .

“Arou!” — Mandei.
“Epa!” — Ele respondeu.
“Vem pra cá”.
“Agora? Ou depois?”
“Nesse exato momento. A quer beber e te chamou”.
“Deu tudo certo com os problemas dela?”
“Deu. Vem logo”

Logo depois, a campainha tocou, era a cerveja que a tinha pedido. O moço, que já era até chegado nosso, deu um maço de paiero de brinde pela compra e fez minha felicidade.
saiu do banho a pura essência da animação. Colocou Dilsinho no último volume e mandou mensagem pras outras meninas virem logo pra casa. Ela disse que era bobeira a gente esperar o pessoal chegar e que devíamos começar a beber AGORA. E assim fizemos.
Abri a primeira garrafa e nós gritamos em comemoração. Aquilo era a emancipação da de todos os problemas, aparentemente. Ficamos ali bebendo, fumando e dançando até as meninas chegarem.
Elas não sabiam do que tinha rolado com , então teve a sessão história antes de tudo. Elas ficaram em choque, passadas com tudo. Mas quando disse que o resultado deu negativo, tanto pra gravidez, quanto pra IST, o grito foi uníssono.
Pouco tempo depois, chegou. Abri a porta e ele me olhou com a sobrancelha erguida, eu apenas dei de ombros e mandei ele entrar.
— Ó, agora acho que posso te contar qual era o problema.
— E aí? O que era? — ele disse faminto pela fofoca e eu ri.
achou que estava grávida — contei e ele arregalou os olhos em choque. — Mas deu tudo certo, o exame negativou pra tudo, feto, HIV, Sífilis… — Ufa! Que puta susto ela deve ter tomado!
— Eu te garanto que tomou mesmo — falei. — Agora vem beber com a gente — completei e puxei ele até o quintal, onde as meninas estavam.
Servi para ele um copo do líquido dos deuses, a.k.a cerveja barata, e nós todos brindamos em comemoração. Pouquíssimos minutos depois, Pedrão também chegou, completando o clã.
Assim que ele passou pela porta, nós começamos a gritar e bater palmas, como se ele tivesse ganhado o prêmio Nobel. pulou no colo dele e lascou um beijão na boca dele, fazendo os gritos aumentarem do nosso lado.
A playlist tocava o mais alto que podia, eu dançava com , com Pedrão, e as outras meninas dançavam juntas. Em pouquíssimo tempo, a meia caixa de cerveja foi embora, aquela ingrata, então pedimos uma caixa inteira dessa vez. Enquanto não chegava, nós bebemos uma cachaça de procedência duvidosa — daquelas que vem num pet de 2 litros de guaraná, com a tampinha trocada.
As horas foram passando e o álcool subindo. chamou a menina que ela estava ficando pra colar no rolê e a chamou duas amigas. Eu e saíamos de vista de vez em quando pra poder trocar uns beijinhos sem que ninguém visse, ou pelo menos a gente achava que ninguém via, porque alguns gritos eram ouvidos nesses momentos.


Capítulo 13

Acordei no dia seguinte com uma puta ressaca e com o corpo dolorido. Abri os olhos e vi ainda dormindo do meu lado. De jeito nenhum eu queria ir pra aula, mas as minhas faltas já estavam no limite e eu não tava afim de reprovar por falta. Balancei devagar para que ele acordasse, ele abriu aqueles olhos devagarzinho e franziu a testa, provavelmente a ressaca tava batendo por ali também.
— Acorda, Bela Adormecida — falei e ele riu.
— Que horas são? — perguntou sonolento.
— Hora de acordar e correr atrás do diploma, bebê — falei, ele revirou os olhos e colocou a cabeça na curva do meu pescoço.
— Ah, não, . Vamos faltar hoje, pelo amor de Deus!
— Eu até queria, mas não tenho mais falta, .
— Ah, porra. Então vamos — ele disse, mas se manteve exatamente na mesma posição.
— falei, rindo. — Se você não me soltar, não tem como.
— Pronto então, não vai ter como ir.
— Menino, eu vou reprovar se eu não for!
— Eu odeio a do passado por não ter deixado nem uma faltinha sobrando pra do presente — ele disse e eu ri. Me desvencilhei dele e me levantei. Me vesti e catei minha toalha, que estava na minha cadeira.
— Se eu voltar do banho e você ainda estiver pelado, a gente vai brigar — brinquei e saí.
Fui pro banheiro, enfiei debaixo da água quente, lavei meu corpinho e meu cabelinho. Saí, fiz meu skin care, penteei aquele ninho de rato que eu chamo de cabelo e fui pro quarto. Quando entrei, estava terminando de colocar os tênis, ele me olhou como se dissesse “Olha, eu fiz o que você mandou”, fui até o guarda-roupa, peguei minha necessaire e passei um reboco na cara.
— Vamos comer na padaria? — perguntei.
— Podemos, você que sabe — ele respondeu, arrumando o cabelo na frente do espelho.
— Essa casa tá uma zona, quero nem ver o estado da cozinha — falei, pegando minha mochila. — A gente ainda vai ter que ir à sua casa buscar suas coisas também.
— Infelizmente, porque eu bem queria estar dormindo — ele disse e fez uma cara de desgosto. — Mas ALGUÉM tem que ser uma matadora de aulas profissional.
— Ai, cala a boca — brinquei e saímos.
O resto do dia nós ficamos nos arrastando pelos cantos, dormindo em todas as aulas e depois do almoço. Como a festa que a estava organizando estava se aproximando, os meninos da atlética resolveram juntar geral que ia trabalhar no bar pra passar umas coisas (receita de gummy, escala, regras e etc), e ocasionou dessa reunião ser depois do horário da janta naquele mesmo dia, então fui chegar em casa quase 20h, porque, além de reunião, também teve a roda de fofoca.
A semana passou bem rápido até. Como eu não tive aulas na quinta-feira, senti que o final de semana tava começando mais cedo. passava em casa de vez em quando, mas as matérias que ele pegou estavam começando a apertar o santo. A estava radiante, mais feliz impossível, cheia de energia e agitação, então ficava sempre super imersa na organização da festa.
Tanto se falou da bendita festa, que o sábado chegou num estalar de dedos. — ACORDA! — entrou gritando no meu quarto. — Vamos comigo ao centro olhar umas roupinhas!
— Quê? Que horas são, ? — Ainda estava tentando ligar meu cérebro.
— São quase 9:30h, .
— Não acredito que você me acordou à essa hora, sua vaca! — resmunguei e deitei outra vez.
— Ah, não, ! Levanta! Vamos lá comigo — ela disse com uma voz manhosa que só.
, pelo amor de Deus, mais tarde!
— Se a gente for mais tarde, não vai dar tempo — ela falou e deu um puxão na minha coberta. — Anda, , você também precisa ir comprar!
Já tinha percebido que não ia adiantar bater o pé com ela, então levantei da cama e fui pra cozinha e, aparentemente, as outras meninas também tinham sido convocadas pra missão de compras da , porque estavam com a mesma cara de zumbi que eu.
Depois de comermos e nos arrumarmos — na medida do possível —, fomos as quatro pro centro. Por se tratar de um sábado, tudo estava abarrotado de gente, tudo quanto é loja tinha uma galera. Mas como estávamos obstinadas a terminar a missão , nós não desistimos. Entramos em várias lojas antes de acharmos uma que tivesse algo que nos parecesse interessante, e, por coincidência do destino, encontramos algumas meninas da engenharia lá que também estavam numa missão semelhante à da .
Cada uma de nós quatro foi pra um canto da loja procurar algo que caísse melhor nos nossos estilos. Eu estava procurando algo especialmente pra aquela festa — já que não queria abarrotar mais ainda o meu guarda-roupas —, e como iria usar o short doll da atlética, pra entrar no clima, queria só algo pra usar como parte de cima. Além do fato de eu não ser das mais recatadas, o rolê ia estar lotado e eu ia me acabar de dançar, portanto tinha que ser algo “fresquinho”, um cropped, um body… Algo assim.
Fui passando roupa por roupa na arara e fui pescando as que eram de meu interesse, depois fui até a área de provadores, que estava lotada e fazendo fila, então fiquei esperando e as meninas foram chegando depois também. Uma a uma, nós fomos entrando nas cabines que iam vagando. Então eu experimentei minhas peças, tentei imaginar como cada uma ficaria com o short que eu iria usar e no final escolhi um body de decote reto e frente única — modéstia à parte, fiquei uma grande gostosa nele.
Quando saí, as meninas ainda estavam experimentando coisas, então passei minha compra no caixa e fui fumar do lado de fora da loja. Fiquei lá esperando uns bons 15 minutos até elas saírem CHEIAS de coisas.
— Renovei o meu guarda-roupas — disse, quando viu meu olhar curioso. — Vou dar algumas coisas minhas pra doação e depois vou substituir por essas aqui.
— Vai sim — falei com total e completa descrença daquela acumuladora.
Já era pra mais de 11h, então resolvemos almoçar em algum restaurante ali do centro mesmo, porque, além de estarmos com uma preguiça monstra de fazer almoço, a gente já estava com fome.
Depois de almoçar, nós voltamos pra casa e fizemos a sessão desfile da república. Arredamos o “sofá” pro canto e colocamos até uma musiquinha de fundo pras modeletes de quinta desfilarem na sala. realmente tinha feito a festa na loja. Ela tinha comprado um total de 2 calças, 3 shorts, 3 blusas e 4 vestidos. Enfim os delírios consumistas de . , obviamente, também tinha comprado muita coisa porque, segundo ela, ficou indecisa com qual roupa iria pra festa, então pegou “mais opções”, como se aquelas opções não fossem abater no cartão no final do mês. Já a , foi mais modesta, comprou duas blusinhas e uma calça, porque as dela estavam penosas.
Desfile vai, desfile vem, a hora foi embora. Quando assustamos, já estava na hora de começarmos a nos arrumar pra sair. No caso e eu precisávamos ir mais cedo por conta do bar. Então cada uma tomou seu banhozinho e depois nos juntamos no quarto da , que era maior que o meu, pra podermos nos arrumar juntas.
— Amiga, tô animada demais! — disse, enquanto escolhia seu look.
— Também tô, amiga! Sabe, tava sentindo falta de socializar com gente diferente.
— Só fica com a gente e com o , né — ela afirmou. — Vai ser bom se soltar num sururu.
— Com toda certeza. Sem contar que vamos beber de graça, né?
— A melhor parte! — ela disse e deu uma reboladinha, me fazendo rachar de rir. — Aqui, faz aquela make babado em mim? Tô querendo me sentir linda hoje.
— Faço, mas você nem precisa de maquiagem pra ser linda, amiga. Você é bonita pra caramba, toda natural! — brinquei com o meme e ela riu.
Depois de maquiar a senhorita , eu fiz o mesmo comigo, mas uma coisa mais simples. Calçamos nossos tênis de festa, a.k.a o mais surrado do armário, e fomos pro local da festa.
A festa ia rolar num espaço de festas bem famoso da cidade, onde a grande maioria das festas universitárias de grande porte rolavam. Era um espaço bem grande, cabia umas 2000 pessoas, mas estava dividida porque o público esperado não era tão gigantesco. Nós pegamos um fretado pro lugar, porque era um tanto quanto distante do centro, por causa de barulho e etc. Éramos umas 6 pessoas por turno, mais algumas pessoas da organização, cerca de 20 pessoas no total. Uns 15 minutinhos depois, chegamos ao local.
Fomos entrando e indo pro lugar onde o bar estava montado, pegamos os galões e fomos fazer o gummy. Nos falaram que tinham conseguido comprar tequila e que a gente ia ter que rodar a festa de vez em quando pra virar na boca das pessoas. Pouco depois de terminarmos as bebidas, os DJ’s começaram a chegar, então ajudamos como pudemos com os equipamentos e tudo mais. Logo logo algumas pessoas começaram a chegar, então eu e fomos pro nosso bar, abrimos umas cervejas e começamos a servir.


Capítulo 14

O bar estava frenético — como já era de se esperar que fosse ser numa festa de meio de período universitário. Um litrão não conseguia durar 10 segundos, as portas dos freezers eram levantadas toda hora pra repor estoque. Vez ou outra, tínhamos um tempinho de abrir uma caixa toda de uma vez e otimizar o tempo. Como tudo tava bem apertado, ficou acordado que o pessoal do segundo turno ia distribuir a tequila durante o primeiro turno e vice-versa, e seria só uma rodada porque ninguém merece. Por mais que estivéssemos trabalhando como condenadas, e eu estávamos nos divertindo muito! A música tava ótima, os nossos copos sempre cheios e estávamos juntas — iti malia —, o que tornava tudo mais engraçado.
De vez em quando, eu dava uma olhada na multidão pra tentar encontrar , mas era muito difícil com aquela penumbra, música alta, luz piscante e álcool. Ele teria que me encontrar, e vamos combinar que seria um trabalho MUITO mais fácil pra ele do que pra mim.
— Amiga — chamou, quando estávamos abrindo as garrafas. — Te contar uma parada.
— Conta, linda.
— Sabe o Murilo? — perguntou e eu assenti com a cabeça. — Então, ele me disse que tá interessado em você!
— Ai, , sério? — perguntei, enquanto voltávamos pro nosso “balcão”. — Agora eu não quero mais, não.
Há alguns meses, eu estava bem interessada nesse carinha. Ele era super bonito e tinha uma conversa boa, mas ficou me enrolando por um tempão, até que eu desisti. Mereço mais, não concordam? Pois eu acho que sim. Vez ou outra, eu e ele ainda conversávamos, mas nada demais.
— Poxa, amiga, ele é muito lindo!
— Oxe, eu sei, mas me deixou tanto tempo na geladeira que apagou meu fogo no rabo — falei e comecei a servir as pessoas que chegavam.
— Ele tá aí hoje! Comprou comigo o ingresso até — disse, quando terminamos o frenesi da cerveja. — Pensa direitinho, ele é legal.
— Tá bom, , mas não acho que minha opinião vá mudar tão rápido assim.
Realmente não tava nem um pouco afim de ficar com o Murilo. Na verdade, o que eu queria naquela festa era encher a cara e dançar muito com as minhas amigas, como se não tivesse nenhuma responsabilidade na vida. Não que eu fosse a pessoa mais responsável no mundo, no Brasil ou até mesmo em Minas Gerais, mas eu também não era das mais vagabundas.
Pouco antes da metade do turno, comecei a ficar me perguntando onde tinham se enfiado , , e Pedro, porque NENHUM deles tinha passado ali no nosso bar. Talvez estivessem na quilométrica fila de ônibus pro rolê. Murilo realmente apareceu lá, tentou puxar papo e tudo mais, mas eu lancei aquela de “Puts, tô muito agarrada aqui agora, não dá pra ficar conversando” e isso, somado às pessoas se acotovelando pra chegar à fonte do líquido dos deuses, fez ele sumir rapidinho, mas tinha a sensação de que iria achar ele outra vez por lá.
Alguns minutos depois, o comboio da república chegou todo junto. Eles vinham em fila indianam, se espremendo pelos espaços vazios entre as pessoas. Assim que chegaram ao bar, já começamos a encher suas canecas.
— Ôh doido, onde vocês tavam? — perguntei, quando peguei a caneca da mão de . — Já ia ligar pro IBAMA dar queixa de animais selvagens à solta por aí.
— Você não tem noção da porradaria que foi pra pegar o ônibus — ele disse, rindo. — Além da fila, tava uma emboleira danada lá. Tomei uma cotovelada na costela, bicho, doeu pra caramba — completou, fazendo uma careta e tomando um golinho do copo.
— Quer um gelo? — perguntei, servindo o copo do Pedro. — Não é potável, mas é gelo.
— Precisa não, tô suave — falou, se desviando de uma menina que vinha frenética pra encher o copo. — Vai demorar muito ainda pra vocês saírem?
— Uma hora mais ou menos, gato.
— Ein, a gente vai ficar lá perto daquela pilastra do palco, tá? — falou, apontando pro lugar referido. — Quando vocês saírem, encontrem a gente lá! — A essas horas, o povo tava ficando bolado que eles tavam “segurando” o bar.
— Tá jóia, amiga! — E assim foi embora o comboio.
E a uma hora seguinte foi ainda mais frenética, afinal de contas, quanto mais as pessoas bebem, mais elas querem beber. Pra melhorar, chegou o lote de paiero que ia ser distribuído, daí o trabalho dobrou. O lote total tinha sido dividido pros dois turnos, então a esperança era que aquilo acabasse antes de nós sairmos de lá, e assim ocorreu. Os meninos que estavam com a gente já estavam muito doidões por substâncias não autorizadas pela ANVISA, daí acabou sobrando pra nós duas.
Mas, por fim, o DJ anunciou lá de cima a troca de turnos no bar. Esperamos até o pessoal chegar e saímos para finalmente aproveitar 300% da festa. Obviamente, eu tinha surrupiado alguns cigarros e enfiado na pochete, enchi minha caneca e brindei com a .
— Cabou, amiga, agora é pra valer!
Fomos aos esbarrões até o ponto onde tinha indicado. Assim que ela bateu o olho em nós, começou a gritar como se nós tivéssemos sido libertadas de um presídio contra gostosas. Estávamos num lugar muito estratégico, de frente pro palco, mas numa distância confortável das caixas de som, e não espremidos por 7654 pessoas.
Como eu não nasci ontem, catei pelo pescoço e dei uns bons beijos naquela boca dele. Ele também não achou ruim, então tudo bem. e Pedro tavam em êxtase e pareciam que tinham acabado de se casar. A sumiu no capinado depois de um tempo, foi dar o pião e beijar todo mundo que podia. E a tava agarradinha com a ficante dela — aposto com vocês que não ia demorar um mês pra elas estarem namorando.
Só quem bebe sabe como é importante segurar o máximo possível pra fazer o primeiro xixi depois da cerveja, é um ponto muito crucial da sua noite, porque, depois disso, tem que ir ao banheiro de 5 em 5 minutos. Segurei o máximo que eu consegui, mas minha bexiga tava pedindo arrego já àquela altura do campeonato.
— Gente, preciso ir ao banheiro, tipo, AGORA.
— Eu também! — disse como se estivesse só esperando que alguém fosse para que ele pudesse ir também. — Vamos logo.
Seguimos então pra área dos banheiros. Por sorte, o feminino era uma área construída e não um monte de banheiros químicos. Mas a fila estava gigantesca e eu tive que ficar esperando, enquanto isso foi ao masculino, que era do outro lado do espaço. Já estava torcendo as pernas, quando finalmente consegui entrar numa cabine. O alívio foi impagável. Quando saí do banheiro, não encontrei — havíamos combinado que ele ia me esperar ali e, caso ainda não tivesse chegado, eu esperaria —, encostei na parede e fiquei olhando ao redor, tentando mirar ele.
— Olha quem tá aqui! — disse uma voz que eu bem conhecia. Paulo. — Tá bonita, !
— Sai de perto de mim, por favor.
— Que isso, gata! — ele disse com a voz arrastada e claramente afogada no álcool. — Só tô te elogiando.
— Ah, vá pra puta que pariu, moleque! Vaza daqui!
— Deixa de ser grossa! — ele falou e segurou o meu braço. Eu gelei. — Tô sendo legal aqui e você uma babaca.
— Me solta, Paulo — falei, tentando puxar o meu braço, mas o filho da puta era forte. — Me. Solta.
— Ou vai fazer o quê?
— ME SOLTA! — gritei a plenos pulmões. Como se fosse um príncipe encantado vindo salvar a princesa do demônio, apareceu.
Com o grito que eu dei, algumas meninas que estavam na fila também vieram ao meu socorro, então tinha uma pequena plateia quando desceu um soco no rosto daquele que não deve ser nomeado. Os dois começaram a se engalfinhar ali no meio de todo mundo e eu estava tentando tirar de cima daquele gambá bêbado. Com muito custo, consegui afastá-lo da rinha. Ele estava muito puto. MUITO.
— JÁ TE FALEI PRA NÃO CHEGAR PERTO DELA, SEU ARROMBADO! — gritou, tentando se soltar de mim e arrebentar ainda mais o cara.
, calma, não vale a pena! — falei na tentativa de apaziguar a raiva dele, mas no fundo eu queria que ele continuasse batendo. Mas aí ele seria preso. — Vamos embora daqui!
— Que que tá acontecendo aqui? — falou uma voz grossa atrás de mim. Quando me virei, dei de cara com um segurança ENORME. Sério, o cara era gigante.
— Esse cara aqui tava assediando ela! — uma moça gritou lá do meio, apontando agressor e vítima.
— É verdade, moça? — o segurança me perguntou e eu apenas assenti com a cabeça. — E esse maluco aí? — perguntou, apontando pra com a cabeça.
— Ele tava me ajudando, moço! Aquele arrombado ali não queria me soltar! — falei, tentando deixar as coisas mais claras o possível.
— Então pode vazar daqui, moleque — ele disse e agarrou Paulo pelo colarinho. — Se eu te ver aqui de novo, aí você vai sair com um acessório novo, chama algema — falou alto o suficiente pra todo mundo ouvir e saiu arrastando o moleque pra longe. E assim que ele saiu, a galera começou a gritar e a bater palmas.
— Você tá bem? — perguntou, com os olhos arregalados, como se tivesse saído do modo UFC e voltado pra realidade. Ele esquadrinhou todo meu corpo. — Tá machucada?
— Não, , eu tô bem! Tá tudo bem — falei, mas tava tremendo um pouco. — Você tá com um corte na boca. Vamos lá pegar um gelo pra isso — disse e só então ele se ligou que tava sangrando.
Nós dois fomos até o bar mais próximo, eu pedi um pouco de gelo e coloquei dentro da caneca. Os meninos do bar foram legais e deixaram a gente sentar lá no fundo pra sair da muvuca. se sentou na mureta e colocou uma pedra de gelo em cima do ferimento.
— Vem aqui — ele disse e me puxou pra sentar no colo dele. — Tem certeza que tá bem? — perguntou com a voz carinhosa.
— Tô um pouco assustada, mas eu tô bem.
— Nossa, cara, por que esse maluco não pode te deixar em paz?
— Tá aí a pergunta de um milhão de reais — falei. — Mas você não pode ficar batendo nele sempre, ! — briguei. — Vai acabar arrumando confusão pro seu lado!.
— Mas nunca na vida que ele ia encostar em você daquele jeito e sair inteiro — ele respondeu com raiva. — Mas é NUNCA.
— Tá, , mas cê tem que segurar a onda! Se arrumar confusão demais, você perde sua bolsa na universidade! Presta atenção!
, mas não tinha condições!
— Pensa, ! Adianta nada você bater nele umas 3 vezes se quem vai sair prejudicado é você! Não quero que você seja deportado, seu cabeça dura! — falei irritada. — Eu agradeço MUITO por ter me tirado daquele crápula, mas você precisa pensar nas coisas.
— Eu sei, , mas é que de longe eu já tinha visto ele te enchendo o saco, e na hora que você gritou, meu sangue ferveu — ele contou e tacou longe o gelo que tinha na mão.
— Oh, anjo, que que eu faria sem você, hein? — falei e dei um beijo na testa dele.


Capítulo 15

Depois de acalmar os ânimos, eu e voltamos pra perto do pessoal. Quando chegamos lá, obviamente, a notícia da briga já tinha se espalhado, então começaram a fazer várias perguntas pra saber se estávamos bem. Essa perseguição do Paulo comigo tava começando a assustar. Pedro me aconselhou a fazer um B.O. na polícia, ou denunciar ele no campus pelo menos, só por segurança.
Perguntas respondidas, tentamos voltar ao nosso nível de bebedeira e despreocupação. O objetivo não foi 100% cumprido, mas chegamos nos 80%. O resto da noite — madrugada — dançamos muito, bebemos mais ainda, zeramos meu estoque afanado de cigarros e aproveitamos bem. Saímos pra pegar o ônibus já eram quase 5 da manhã, os 6 chapados e doidões, rindo de absolutamente qualquer coisa.
e Pedrão foram pra república com a gente. Estávamos tão cansados que ninguém tomou banho, tirou a maquiagem ou escovou os dentes — nojento? Sim. Mas acontece. Eu e o Espancador de Paulos nos deitamos na minha caminha de solteiro e em menos de 5 minutos estávamos dormindo pesadíssimo.
Abri os olhos com uma claridade monstra batendo na minha cara, a janela tinha ficado aberta e o sol das 15h tinha seguido seu caminho até meu fuço sujo de maquiagem. tava apagado, nem sinal de que ia acordar tão cedo, então eu deslizei pra fora da cama pra poder tomar um banho. Assim que fiquei de pé, minha cabeça doeu como se eu tivesse batido ela na parede, subiu aquela náusea básica da ressaca e percebi que ia ser difícil o resto do dia.
Fui pro banheiro e dei uma olhada no espelho.
— Senhor Jesus, que coisa horrível — falei, quando vi a situação que tava a minha cara. Batom borrado, delineador até na testa, um vermelhão na bochecha deixando claro que eu tinha dormido muito com a cara na parede, o cabelo totalmente desgrenhado, cheio de nó…
Tirei a roupa e me enfiei debaixo do chuveiro quente. Levei mó cota pra desembolar meu cabelo, achei que fosse sair um rato daquela emboleira, mas graças a Deus não tinha nenhum roedor. Me limpei com muito afinco, afinal de contas, eu tava imunda, fedendo a cachaça e cigarro.
Quando saí do chuveiro, me senti uma nova mulher — Mamacita once said —, mas a ressaca ainda tava braba. Voltei pro quarto, me vesti e fui passar um café bem forte. Passei pela sala e dei de cara com os sapatos que usamos na festa, dei uma risada ao ver o tanto que eles estavam sujos, puro barro. Ri pra não chorar, porque limpar o meu ia ser bem complicado. Estava cogitando jogar ele fora até.
Café passado, peguei minha xicarazinha e fui pro quintal. Sentei no chão e acendi um cigarro — enfim a hipocrisia, tomei banho pra tirar a catinga de cigarro, e logo depois acendi um cigarro —, estiquei as pernas e liguei pra minha mãe.
Eu e minha mãe tínhamos uma relação muito boa, super verdadeira e de muita amizade. Todo dia eu ligava pra ela pra contar as fofocas quentíssimas de gente que ela não fazia a mínima ideia de quem era. Dessa vez, contei pra ela dos acontecimentos da festa, ela ficou muito preocupada, mas se tranquilizou quando contei de . Ela queria muito conhecer ele. Ela disse também que não tava feliz com o tanto que eu tava fumando, que fazia mal pra saúde e tudo mais, mas ela também entendia que é um vício e não é fácil parar — e, sinceramente, eu não queria parar. Minha mãe me contou as fofocas da família, da igreja e das amigas, e nós ficamos ali um tempão conversando.
Depois que ela desligou, me levantei pra colocar a xícara na cozinha e topei com a . Ela não estava muito melhor que eu antes de tomar banho. Só de olhar uma pra outra, nós começamos a rir. Ela disse que estava com ressaca física e moral porque tinha beijado um calouro, e Deus a livre de beijar homem mais novo. Ela foi cambaleando pro banheiro tomar um banho.
Dei uma passada no meu quarto pra ver se tinha acordado, mas ele estava até babando no meu travesseiro, uma cena que me fez rir. Sem saber o que fazer, me deitei no “sofá” e comecei a assistir a uma série na Netflix.
Era quase noite já quando o resto do pessoal começou a levantar. Todo mundo tomou um banhozinho, ficaram cheirosos e depois se juntaram a mim na sala. O corte na boca de era pequeno, mas estava começando a ficar roxo, um lembrete momentâneo da treta toda.
— Tá doendo um pouquinho, mas nada demais — ele falou, quando eu apontei o hematoma. — Acho que ter colocado gelo na hora ajudou.
— Imagino que sim — eu falei e arredei para que ele pudesse se sentar ao meu lado. — Falei com minha mãe hoje.
— E aí? Alguma novidade?
— Segundo ela, a filha de uma amiga dela tá envolvida com um traficante da cidade e tá um bafafá que só — contei. — Mas eu não sei quem é.
— Contou pra ela de ontem?
— Contei. Ela ficou preocupadíssima, quase me mandou voltar pra casa, mas aí eu contei que você me ajudou e tudo mais.
— Ela ficou de boa?
— Mais que isso, ela quer que eu te leve lá em casa pra conhecer ela e o resto da família. Ainda disse que vai fazer uma canjiquinha pra você — contei e abriu um sorrisão. — Tá te tratando melhor do que me trata.
— Pois diga a ela que eu vou. Se você me chamar, eu vou.
— Vou pensar no seu caso — brinquei.
Não havia um único ser humano naquela casa que não estivesse afogado na ressaca. Então pedimos uma pizza e ficamos ali na sala assistindo televisão e conversando sobre a festa. Lá pelas tantas, os meninos foram embora, porque o dia seguinte era uma bela de uma segunda-feira e todos precisávamos voltar para nossas vidas cotidianas.
No dia seguinte, acordei cedo pra ir pra aula, mesmo que eu não quisesse realmente ir, tomei um banho pra dar aquele up, me arrumei, comi e rumei pra universidade. Dessa vez fui ouvindo um feminejo estalando nos fones e, como sempre, meu cigarrinho na boca. Mesmo que fosse antes das 8h, o sol já estava brilhando forte e batendo bem na minha cara, o que era bom pra dar uma energia, mas ninguém aguenta aquela luz no olho por muito tempo.
Cheguei ao departamento e me sentei no meu lugar de praxe. Recebi alguns olhares curiosos, uns cochichos de canto de corredor, mas ninguém veio falar comigo. Imaginei que fosse por causa da situação da festa e confirmei minha hipótese quando o Paulo entrou na sala. Todo mundo olhou pra ele ao mesmo tempo. Eu estava com medo real daquele homem, então juntei minhas coisas e saí da sala pela porta de trás.
Decidi que ia seguir o conselho do Pedrão e ir a uma delegacia. Por coincidência, encontrei subindo a rampa e ele levantou uma sobrancelha debochada como se dissesse “Já vai matar aula?”
— Vamos comigo à delegacia? — pedi e ele ficou confuso. — Vou prestar queixa do Paulo.
— Claro que vou — ele disse firme e nós seguimos caminho.
A delegacia da mulher era no centro da cidade, então não demoramos muito para chegar lá. Entramos e nos sentamos nas cadeiras para esperar porque tinha uma pequena fila pra se enfrentar. Eu estava com medo e ansiosa, balançava o pé o tempo todo. pegou minha mão para me acalmar.
Quando chegou nossa vez, uma policial — graças a Deus — nos atendeu. Fizemos todo o protocolo do registro do boletim de ocorrência. Tanto eu quanto prestamos depoimento para explicar toda a situação. No fim de tudo, me senti muito mais segura.
Resolvi passar na vigilância da universidade e na pró-reitoria pra “prestar queixa” também. Queria tomar todas as precauções possíveis contra aquele maluco, afinal de contas, não podia contar com o bom senso dele.
Depois de resolver toda a papelada, já estava na hora do almoço, então fomos comer no R.U.
— Vai assistir às aulas da tarde? — me perguntou, quando nos sentamos.
— Só tenho uma, mas vou, sim.
— E o que vai arrumar com as faltas que levou de manhã?
— Ah, eu vou tentar conversar com os professores e explicar a situação. Espero que eles entendam.
— É o mínimo, né, ?
— Mas nunca se pode contar com o ovo no rabo da galinha — falei e dei de ombros. começou a rir. — Que foi, hein?
— Nunca tinha escutado essa expressão.
Passamos o resto do almoço conversando sobre expressões engraçadas. Como é mágico ver o choque cultural de uma pessoa que muda de país, parece um bebê que está conhecendo o mundo agora. Tudo é incrível, tudo é mágico, tudo é engraçado. E o melhor é que mesmo depois de anos no Brasil, ele ainda se surpreendia com muita coisa.
Depois de enchermos os nossos buchinhos, fomos pra lanchonete da piscina dar um tempinho. Dessa vez, não tinha mesinhas disponíveis, então nos sentamos no gramado perto da piscina. Acendi um cigarro e deixei o sol bater na minha cara. Alguns meninos que conheciam do basquete se juntaram a nós depois.
— Essa daqui tá me enrolando pra jogar com a gente — contou. — Tem mó cota que ela disse que ia e até hoje nada.
— Eu disse que ia, mas não disse quando, querido.
— Pois então o quando será sábado — disse o cara da física que eu conhecia por P.K. — A gente reservou a quadra lá perto do alojamento, vocês podiam vir pra completar.
— Eu topo — disse de prontidão. — Vamo, gata?
— Ai… — Estava tentando arrumar uma desculpa pra ficar em casa dormindo.
— Qual é, ? Bora, fia!
— Ai, PK, é que sábado é dia de faxina lá em casa.
— É nada, mentirosa. — desfez meu disfarce. — Vamo, sô! Não precisa jogar, só vai.
— Ai, tá bom! — falei, sabendo que eles não iam desistir.
— Aí sim — PK falou. — Você bem que podia chamar aquela amiga sua da bioquímica, hein?
— A ?
— É!
— A tá praticamente casada, menino — falei, rindo. — Tá muito desatualizado.
— Nossa, sério? Poxa, dei mole então — ele disse decepcionado. — Só por curiosidade, com quem?
— Com o Pedrão, do jornalismo.
— Pô, aquele cara é maneiro. Meio avoado, mas gente boa.
— Ele é mesmo.
Ficamos ali jogando conversa fora até a hora da aula, quando eu e voltamos pro nosso departamento. Entramos na sala e, outra vez, as pessoas olharam, mas passamos direto e nos sentamos lá no fundo. Ficamos conversando até a professora chegar e começar a passar a matéria.
Quando a aula acabou, foi pra aula que ele tinha logo depois e eu fui procurar os professores das aulas da manhã pra justificar minha falta. Achei um deles no corredor, era um senhorzinho simpático, porém depende. Disse a ele que precisava conversar com ele com urgência sobre um assunto particular e importante, então nós fomos até o gabinete dele e eu expliquei a situação e mostrei toda a papelada. Ele ficou em choque, indignado com tudo, disse que eu não precisava me preocupar com a falta nem com o Paulo, e que ia dar um jeito. Fiquei aliviada e curiosa, mas resolvi não perguntar.
Depois fui atrás da outra professora. Com ela, eu tinha certeza de que não teria problema, afinal de contas, ela era a orientadora da iniciação científica que eu e estávamos pra fazer. Como esperado, ela entendeu tudo, me disse que estava à disposição se eu quisesse conversar ou precisasse de ajuda com alguma coisa e também me disse que não precisava me preocupar com o Paulo.
Com essa questão das faltas resolvidas, eu decidi voltar pra casa. Até pensei em esperar o sair da aula, mas ainda faltava mais de 1h. Quando cheguei em casa, as meninas não estavam, então passei direto pro meu quarto e comecei uma faxina. Como eu conseguia juntar tanto lixo em tão pouco tempo e em tão pouco espaço? Minha escrivaninha tava parecendo o lixão da Mãe Lucinda. Tinha papel de doce, post-it usado, anotações velhas, o cinzeiro cheio… Ai que vergonha. Eu catei cada lixinho e joguei fora, depois limpei bem direitinho a mesa. Troquei minhas roupas de cama, varri o chão e dei uma limpada boa na janela. No fim, o quarto tava parecendo outro.
Aproveitei e fui tentar limpar o tênis da festa. Tentei não pensar muito na composição química daquela lama que tinha nele, mas o cheirinho não deixava muita dúvida. Esfreguei, lavei, esfreguei e lavei outra vez, mas a cor dele nunca seria mais a mesma, mas isso não significava que eu ia me livrar dele.
Com as faxinas feitas, fui tomar um banhozinho porque eu também merecia uma faxina. Depois do banho, voltei pro quarto pra fazer uns trabalhos que estavam com a data de entrega mais próxima do que eu gostaria. Nem vi as meninas chegando, só fui me ligar quando a passou lá no quarto.
— E aí, fia, tá boa? — ela disse, se jogando na cama.
— Ah, , na medida do possível — contei. — Tô atolada de trabalho pra entregar.
— O fim de período veio aí.
— Veio com força.
, acho que tô apaixonada — ela soltou, olhando pro teto e com um sorrisinho bobo no rosto. Eu nunca tinha visto ela assim, mesmo quando namorava aquele cara estranho.
— Aaaaah, que fofa! — falei e me deitei com ela. — Vocês duas fazem um casal muito fofo, .
— Fazemos, né? — ela concordou, abrindo mais o sorriso. — Acho que vou pedir ela em namoro.
— Pede! Ai que lindo, ! — falei realmente animada. — Você fica tão feliz quando tá com ela!
— Nossa, , fico mesmo, viu? Sei lá. Com ela as coisas ficam mais leves.
— Eu entendo, amiga! Então pede mesmo!
— Vou pedir, mas não sei como. — falou. — Você tem alguma ideia?
— Puts, amiga, eu não conheço ela muito bem, então vou falar de como eu gostaria de ser pedida, pode ser? — perguntei e ela concordou com a cabeça. — Eu não gosto muito de exposição, então teria que ser uma coisa mais privada. Também não sou das mais românticas, então não ia querer nada daquilo de milhões de pétalas de rosas, e velas, e roupa chique.
— Você é toda coisada, falou, rindo. — Acho que ela é mais romântica que você.
— Então é só fazer o contrário, uai! Compra umas flores, um vinho legal, faz um jantarzinho e tals.
— Mas onde? Aqui?
— Pode ser, uai! Eu e as meninas podemos dar um jeito de deixar a casa pra vocês, ou ficar dentro dos nossos quartos quietinhas.
— Vocês fariam isso? — ela disse, com uma carinha tão fofa que nem parecia ela.
— Claro, amiga!
— Será que pode ser no sábado?
— Por mim, tudo bem — falei. — Só conversar com a e a .
— Vocês são as melhores! — lascou um beijão estalado na minha bochecha. — Vou perguntar pra elas agora mesmo! — Se levantou e foi toda animada conversar com as outras moradoras da casa. Eu avisei que não ia dar um mês! Quem duvidou pode me mandar um pix!
Voltei pra minha labuta acadêmica e assim fiquei pelo resto da noite até umas 3 da matina, quando fui dormir. No outro dia, acordei podre, afinal de contas, tinha ido dormir muito tarde. Fiz meu café da manhã, me arrumei e fui pra aula. Passei na lanchonete da piscina e comprei um energético — apesar de eu saber que não funcionava muito bem pra mim — e rumei pro departamento. Quando entrei na sala, já estava lá.
— Bom dia, flor do dia — ele disse, ao ver minha cara horrível.
— Bom dia, — falei, me sentando na cadeira. — Dormi muito pouco, cara. Esqueci totalmente daquele trabalho de representação.
— Sério? Puts, o foda é que ele tá grande.
— Tá mesmo, mas já tô quase no final agora. Acho que consigo terminar ele hoje e amanhã vai estar 10/10.
— Te mandei mensagem ontem, cê não me respondeu — ele contou, sem cobrança nenhuma, só uma afirmação.
— Eu esqueci de responder na verdade, foi mal — falei. — A passou lá pra falar que vai pedir aquela mina em namoro. Tá toda apaixonada.
— Já não era sem tempo! Elas não se desgrudam.
— Sim! Eu, inclusive, vou precisar me exilar na sua casa sábado. Posso?
— Pode não, só pagando pedágio — brincou e eu dei um tapa no braço dele.
Depois disso, o professor chegou e a aula começou. O dia seguiu na monotonia de sempre, afinal de contas, tive todos os horários com aulas. Depois das aulas, fui pra casa e terminei o bendito trabalho, às 3h da manhã outra vez.
No dia seguinte, acordei podre de novo, mas a vida tem dessas coisas. Segui minha rotina matinal e fui pra aula. Era a aula daquele professor que tinha dito que eu não precisava me preocupar com o Paulo, eu estava me coçando de curiosidade pra saber o que ele faria. Entrei na sala e fui lá pro fundo, como de praxe.
— Ei, — uma voz feminina falou. Giovanna.
— Oi — respondi sem nenhuma animação de ver a cara dela.
— Eu... eu queria pedir desculpas — ela disse e eu levantei uma sobrancelha duvidosa. — Me desculpa de verdade! Eu acabei descontando o meu ciúmes e a minha raiva em você, sendo que você não tinha feito nada! Fiquei sabendo do que o Paulo fez com você na festa e isso ficou martelando na minha cabeça — ela disse com uma honestidade que eu nunca tinha visto antes nela. — Eu não aceitei bem que as coisas entre mim e... e o terminaram. Mas agora que estou com outra pessoa, eu percebi que tudo não passava de um puro sentimento de posse. E eu descontei em você, disse aquelas coisas horríveis e acabei compactuando com aquela pessoa podre que é o Paulo — ela disse com vergonha e arrependimento estampados no rosto. — Sério, me arrependo muito. Me desculpe.
— Olha, Giovanna, eu te desculpo, mas, sinceramente, eu prefiro não ter mais contato com você — falei. — Eu te desculpo, mas não vou esquecer tão fácil do que você fez. Me fez muito mal. Eu prefiro que a gente não seja mais amigas.
— Eu te entendo, mas eu precisava te pedir desculpas. Isso estava tirando o meu sono.
— Eu aceito suas desculpas. Mas é isso, não quero mais contato com você.
— Certo. Eu te respeito — ela disse e saiu.
Por que as pessoas não param de fazer merda? É mais fácil do que ficar pedindo desculpas depois! Não vou negar que fiquei bem chocada com a iniciativa dela, afinal de contas, conhecendo a Giovanna como eu conhecia, sabia que não era nem um pouquinho do feitio dela pedir desculpas, ela é — ou era, não sei — o tipo de pessoa que espera e age como se fosse correta até você acreditar que ela realmente estava. Mas eu realmente a queria bem longe de mim, nossa amizade era mais de fachada que qualquer outra coisa.
Passado o momento de perdão, fiquei sentadinha na minha prancheta, aguardando as cenas dos próximos capítulos. não fazia essa disciplina comigo, então a fofoca pro almoço ia ser boa. O professor chegou, colocou seus materiais na mesa, ligou o projetor e seguiu com a aula normalmente. Fiquei desapontada porque queria muito saber o destino do Paulo, que não tinha aparecido na aula, mas depois desisti e resolvi prestar atenção no que ele estava explicando, pois, afinal de contas, eu ainda precisava passar no período.
O professor terminou de passar a matéria, todos já estavam começando a juntar as coisas, quando ele pigarreou e chamou a atenção de todos:
— Imagino eu que vocês aqui já saibam dos acontecimentos recentes — disse e se sentou numa das pranchetas próximas a ele. — Como sou do colegiado, sinto-me na obrigação de esclarecer algumas coisas. — A sala olhava alternadamente para mim e para ele. — O aluno agressor, não vou citar nomes porque acredito que não é necessário, vai sofrer as sanções administrativas referentes às suas ações — completou calmamente. — Quero alertar os senhores e as senhoras que ações têm consequências, então estejam conscientes das coisas que fazem. Estão dispensados.
A sala estava toda em choque, eu estava cerca de 150% mais que o resto. Assim que todos saíram, eu me aproximei do professor e agradeci o que ele havia feito por mim, ele apenas disse que não era de hoje que ele observava algumas atitudes estranhas vindas do Paulo, mas que o que aconteceu comigo foi a gota d’água.
Fui para minha próxima aula matutando sobre o assunto. Eu não fazia ideia de qual era a punição administrativa prevista pro tipo de coisa que ele havia feito, mas imaginei que seria PELO MENOS uma suspensãozinha. Tava tão longe do mundo real que nem vi a aula passando, quando me liguei já faltavam só 10 minutos pro final.
Assim que terminou, fui encontrar no hall do departamento para podermos ir almoçar. Esperei alguns minutinhos até ele chegar — a aula tinha atrasado para acabar.
— Preciso te contar! — falei, assim que ele se aproximou de mim.
— Ih, lá vem — ele disse, me dando um beijo na testa. Achei um pouco estranha a demonstração de afeto em público, mas não falei nada. — Conta a bomba. — Acho que ele nem percebeu.
— AS bombaS — enfatizei o plural da frase. — A primeira aula foi agitada — brinquei e rumamos para o R.U. — Giovanna veio falar comigo hoje.
— Tá de sacanagem? — ele perguntou já na defensiva, achando que ela tinha... bem, agido como ela normalmente agia.
— Não tô, e ela veio me pedir desculpas. — O queixo de quase descolou do rosto. — Te juro, , ela pediu com todas as palavras.
— Quando na vida eu ia imaginar a Giovanna pedindo desculpas pra alguém? — ele disse ainda sem crer
— Pois é, querido, ela me pediu — falei, parando na fila de entrada. — Ela veio falar comigo do nada, eu até assustei. Deu tempo nem de me sentar na cadeira e ela veio. Disse que queria se desculpar, que depois do que aconteceu na festa ela ficou pensando sobre o que ela fez e tudo mais. Falou até que tá com outra pessoa e que largou mão de ser possessiva.
— Nossa, mas que mudança! — ele disse surpreso. — Será que era de verdade? Sempre desconfio dela — ele disse, enquanto passava a carteirinha na catraca.
— Olha, não sei, mas se não foi, ela é uma ótima atriz — contei.
— Mas e você, fez o quê? — ele perguntou, depois que já tínhamos nos servido e sentado em uma das mesas.
— Falei que desculpo… — fez uma cara incrédula. — MAS eu disse que não quero que ela fique perto de mim. — Ele relaxou quando completei a frase. — Eu sou burra, mas não sou trouxa, né, ?
— Credo, tá me chamando de “” por quê? — ele disse e me fez rir. — Mas tá, e a outra bomba?
— O Paulo “vai sofrer as sanções administrativas referentes às suas ações” — falei, fazendo aspas com as mãos.
— E quais são?
— Não faço ideia, tem que ler o regimento da universidade depois. — Dei de ombros. — Mas alguma coisa vai acontecer, porque o professor falou pra sala toda ouvir.
— Que bom, né? Aquele cara precisa de um freio — falou e eu assenti. — Que bom que ele se fodeu um pouquinho, mas e você?
— Eu? Eu já sou muito fodida da vida, obrigada.
— Não, palhaça. — Ele riu da minha confusão. — Desculpa, não formulei uma frase decente. O que eu queria perguntar é como você tá.
— Eu tô suave, dormindo pouco, mas tô bem. Inclusive, isso deu uma aliviada que eu nem sabia que precisava. Tava tensa.
— Com razão, né, anjo? Bora no Intervalo hoje? Em comemoração.
— Vamos! Eu tenho aula até às 16h hoje e você?
— Eu também, né? Tô na sua turma, tonta.
. — Ai é, desculpa. Então depois da aula a gente já vai direto, pode ser?
— Demais da conta!


Capítulo 16

Depois que a aula terminou, e eu colocamos nossos óculos de sol e rumamos pro Intervalo. Eu AMAVA ir beber a tarde, me deixava numa vibe muito boa — mesmo que eu tivesse quilos e mais quilos de matéria acumulada. Chegamos lá, nos sentamos na famosa mesinha vermelha de plástico da Brahma que tem em absolutamente todo lugar, pedimos uma cerveja e acendemos um cigarro.
— Um brinde! — disse, quando o garçom nos serviu.
— Um brinde! — Brindamos e demos aquela golada na bebida. — Nossa, a paz de estar bebendo a tarde em plena quarta-feira em período letivo é indescritível! — comentei e riu. — Aqui, agora sério, preciso de um lugar pra ficar no sábado.
— A gente vai jogar basquete, não? Depois vai lá pra casa, a gente arruma alguma coisa — ele disse e levantou uma sobrancelha sugestiva.
— Achei que o basquete era brincadeira... mas pra sua casa eu vou.
— É brincadeira, não, a gente vai mesmo — contou, rindo. — Agora que falou que vai, tem que ir.
— E vamos de basquete então… — falei, me encostando na cadeira. — Depois vou me refugiar no seu apê. — Coloquei minhas pernas no colo dele.
— Sempre às ordens — ele falou e colocou a mão gelada no meu joelho. — Tempos que você não vai dormir lá, hein?
— É que eu tô tentando te fazer mudar lá pra casa pra dividir as contas — brinquei e ele riu. — Mas são as circunstâncias, né?
— Justo, porém depende — ele disse e pegou o cigarro da minha mão, dando um trago. — A sua cama nem te cabe direito, quem dirá nós dois.
— Ó, vai desdenhar? — falei e catei o paiero de volta. — É pequena, mas funciona muito bem. — Dei um trago profundo. Ele pegou a mensagem.
— Não tá mais aqui quem falou, mas a gente fica bem mais confortável na minha.
— Verdade, mas eu posso fazer o que se meu cantinho é mais atraente?
— Você é mais atraente, né? — ele disse e eu fiquei vermelha. — Que bonitinha, ficou sem jeito — ele disse e caiu na risada.
Ficamos ali conversando e falando bobagens, até que PK chegou com um amigo, eles se sentaram com a gente e ficamos ali bebendo até tarde. Uma caixa e meia de cerveja depois, resolvi voltar pra casa e foi comigo — eu disse que o meu canto é mais atraente.
No outro dia, eu não tinha aula às 8h, mas às 10h, então podia dormir um pouquinho mais. Acabei acordando no horário habitual, mas tava tão emboladinha com que me aconcheguei mais um pouco e dormi novamente.
. , acorda — me chamou, suavemente, um tempo depois. Abri os olhos e vi aqueles dois diamantes que ele chama de íris — A gente tem que ir pra aula, bem — completou, sorrindo. Ai, jesus, que homem!
— Bom dia — falei com a voz carregada de sono. — Não queria ir, não.
— Lembra que você não tem mais falta.
— Verdade.
— Só mais um mês e acaba o período, — ele disse e fez carinho na minha cabeça. — Cê dá conta.
— Será que dou? — Me sentei na cama. — Você tem mais fé em mim do que eu.
— Tenho mesmo. Bora, levanta essa bunda da cama — brincou e se levantou.
Me levantei logo em seguida, fui ao banheiro me higienizar e me arrumar. Voltei pro quarto, estava terminando de se vestir, penteei meu cabelo, coloquei um vestido levinho, calcei uma rasteirinha e juntei minhas coisas de aula. Nós dois fomos pra cozinha, comemos uns pães de queijo que as meninas tinham assado na noite anterior, tomamos um suquinho de laranja bem saudável, cor de marca texto, e rumamos pra universidade.
— Acho que nunca te vi indo pra aula de vestido — disse, assim que saímos de casa. — Na verdade, nunca te vi de vestido.
— Eu não gosto muito, sabe? Acho que me limita fisicamente, mas hoje tava com preguiça de me vestir direito.
— Eu gosto. Assim, gosto de qualquer jeito, mas fica diferente.
— Obrigada, chuchu — falei e dei um selinho nele. Dessa vez eu me surpreendi com a minha própria demonstração pública de afeto, mas não pude evitar. — Talvez eu use mais vezes, mas muito talvez.
— Vou ficar esperando esse talvez aí — ele brincou.
Seguimos nosso caminho. Foi um dia usual pra nós. Assistimos a primeira aula, depois almoçamos e voltamos pras aulas da tarde. Imagino que a suspensão realmente tenha vindo pro Paulo, porque eu não o vi em nenhum momento no departamento ou na universidade em si. Resolvi que ia perguntar aos professores depois o que realmente tinha rolado.
Quando acabaram as aulas, me acompanhou até em casa, mas não ficou, porque tinha um trabalho pra terminar — a matéria acumulada vem pra todes —, então me deu um beijinho de despedida e vazou. Eu fui pro meu quarto e comecei a desacumular as minhas coisas, as meninas também estavam enfiadas nos próprios quartos estudando, menos a , que provavelmente estava na casa da futura namorada.
Tarde da noite, meu cérebro tava pedindo arrego e se batendo contra o meu crânio, dor de cabeça estalando. Levantei, fui comer e depois tomei um banho. Estava quase dormindo quando peguei o celular pra ver a atualizações — um erro, não façam isso se quiserem realmente dormir — e vi que ainda estava acordado. Começamos a conversar e assim ficamos até umas 3h da madrugada.
Levando em consideração que eu, e ele também, tinha aula às 8h da manhã, sabemos que foi uma escolha péssima. Tinha umas 3 ou 4 noites que eu estava indo dormir tarde assim, então quando acordei e me olhei no espelho, estava parecendo um panda MUITO cansado. Tive que passar um reboquinho na cara pra amenizar a situação. Vesti uma calça de malha bem folgadinha, uma regata branca, calcei uma rasteirinha e fui pra aula. Como acordei atrasada, não deu tempo de comer.
Me joguei no meu lugar habitual na sala de aula. chegou pouco tempo depois.
— Carinha de cansada, hein?
— Culpa sua, fica me entretendo de madrugada — falei e ele riu.
— Deita aí e dorme, sô, te passo o que tiver depois.
— Jura? — falei com aquela carinha de gatinho do Shrek. Eu realmente precisava dormir. assentiu com a cabeça. — Você é perfeito, meu Deus! — exclamei e deitei a cabeça na mesa. começou a fazer um cafuné e em pouquíssimo tempo eu apaguei.
Acordei ligeiramente revigorada, a aula ainda estava rolando, mas já estava no final. ainda estava com a mão na minha cabeça. Levantei e ele me recebeu com um sorriso. Arrumei o cabelo e tentei prestar atenção no resto da aula. Falhei miseravelmente, a fome veio. Assim que a professora encerrou, eu supliquei:
, tô morta de fome.
— Vamos lá pra lanchonete comer então. — Ele olhou no relógio. — Temos 20 minutos até a próxima aula.
Ele juntou as coisas dele — as minhas nem da mochila tinham saído — e nós fomos até a lanchonete da piscina. Pedi um misto e um cafézinho bem gostoso, ou talvez fosse a fome que tava muita. Estávamos sentados lá nas mesinhas, quando o Pedrão apareceu.
— Bom dia, meu povo! — ele disse com sua energia matinal. — Tão joia?
— Tudo joia, amigo — falei, o cumprimentando com 2 beijinhos na bochecha. — Aceita? — ofereci e ele negou com a cabeça. Graças a Deus.
— E aí, mano? — Ele e se cumprimentaram com um toquinho. — Fiquei sabendo de umas paradas hoje, vou só ali comprar um negócio e já venho contar. — E entrou pra lanchonete.
— Aposto que é do Paulo — falei. — Aposta quanto? — Bebi um golinho do meu café.
— 5 reais — disse, tirou a nota da carteira e colocou na mesa, me fazendo rir.
Dois minutos depois, Pedrão voltou e se sentou com a gente.
— Paulo foi suspenso por 2 semanas.
— 2 semanas? E o que isso afeta ele? — perguntou.
— Obviamente, ele não pode vir às aulas, mas eu acho que fica marcado no histórico dele e não sei como fica a questão de avaliações — Pedro contou, dando uma bicadinha no café dele.
— Nossa, mas se ele não puder entregar, ele tá muito lascado — contei. — Temos umas 357 entregas em duas semanas. — concordou com a cabeça. — Bem feito. Quero mais é que se exploda.
— Somos dois — disse, e Pedrão fez um 3 com a mão, indicando que éramos 3 e não 2. — Como cê ficou sabendo disso, mano?
— Ah, a fofoca corre rápido no colegiado — Pedro disse, dando de ombros. Os amigos dele eram muito engajados com os centros acadêmicos e tudo mais.
— Jornalista de primeira linha esse meu amigo! — brinquei e ele riu. — Depois cê me conta isso direito, Pedrão, agora a gente tem que voltar pra aula. Você vai lá pra casa hoje?
— Provavelmente.
— Bom, então a gente se vê depois! — me despedi, peguei a nota da mesa e saí com de volta pro departamento.
— Como você sabia? — falou, assim que nos afastamos da lanchonete.
— Meu bem, eu conheço bem os meus amigos! — falei e balancei a nota, triunfante.
Voltamos para o departamento, assistimos à segunda aula, depois fomos almoçar. Como era de praxe, ficamos na lanchonete da piscina depois, conversando e fumando. Acho que depois que começou a sair comigo, o consumo de cigarro de tinha aumentado em 175%. Má influência, eu diria. Ficamos lá com o pessoal do basquete até dar a hora de voltar pras aulas.
e eu não tínhamos a mesma aula, então cada um foi pra sua sala. Pra minha tristeza, a professora passou mais um trabalho para a próxima semana, mas a vida é isso, né? Dias de luta e dias de mais luta ainda. 16h já estávamos livres, então nos encontramos no hall e descemos juntos até o centro.
— Bora lá em casa — ele convidou.
— Não dá, , sério — falei e ele fez uma careta. — Acabei de receber mais um trabalho pra fazer.
— Faz lá, uai, já tá com suas coisas aí mesmo.
— Você vai me deixar estudar?
— Eu? — falou com uma voz falsamente afetada e eu caí na risada. — Vou ser sua inspiração. — Me mandou uma piscadinha.
— Ai,
— Vamo, , a gente dá um jeito. Sempre damos.
— Vai adiantar eu dizer não?
— Adiantar vai, mas eu não vou arredar o pé fácil.
— Ai, então tá! Mas eu preciso fazer esse trabalho, senhor inspiração! — falei, ele pegou na minha mão e fomos pra casa dele.
Entramos e eu precisei ir ao banheiro, então deixei minhas coisas na cama dele e fui. O alívio de fazer um xixizinho quando se tá apertada é uma das melhores sensações do mundo. Saí do banheiro e não achei o dono da casa, então imaginei que ele estivesse no andar de cima. Fui até lá e achei ele mexendo na geladeirinha.
— O que tá fazendo?
— Colocando umas brejas pra gelar.
— Pra quê?
— Pra nós, uai — falou como se fosse a pergunta mais óbvia do mundo.
— Cadê a inspiração? — perguntei, cruzando os braços
— Quer inspiração melhor que uma cerveja geladinha nesse calor infernal? — ele disse e me abraçou pela cintura. — Não adianta fazer bico porque sabe que eu tô certo.
— Se eu reprovar,
— Vai reprovar, não, — ele disse e me deu um selinho. — Eu vou fazer com você o trabalho, já fiz essa matéria.
Com isso, nós descemos, pegamos meu computador e nos sentamos no chão da sala para começarmos a trabalhar. Devo dizer que fez quase tudo, porque eu não sabia nem por onde se passava a matéria, muito menos como resolver as coisas. Será que isso contava como fraude? Espero que não. Demoramos umas 4 horas pra fazer tudo, e no fim eu estava toda travada de ter ficado sentada no chão com as pernas cruzadas, doeu tudo quanto é articulação quando eu me levantei. Eu disse a que ia plotar o trabalho enquanto ele ia tomar um banho.
Assim fizemos, ele pegou sua toalha e se enfiou banheiro adentro, enquanto eu fiquei terminando de fazer as coisas do meu trabalho, que ele tinha feito. Quando terminei, desliguei o computador e guardei ele na minha mochila. Como o príncipe encantado ainda tava tomando banho, fui pro andar de cima, acendi um cigarro e mandei mensagem pra .

“Amiga”.
“Fala, gatona”. — ela respondeu imediatamente
“Conversou com as outras meninas? Sobre sábado”.
“Siiim, elas toparam!” — Ela mandou com um coraçãozinho. — disse que vai ficar no Pedro, e a falou que vai arrumar um lugar pra ficar”.
“Pô, 10 demais então!”
“Vai pra onde?”
“Vou jogar basquete rsrsrs. Depois vou vir pra casa do ”.
“Obviamente. Sei nem pq eu perguntei. Tá na casa dele agora?”
“Tô, amiga, avisa a mãe aí pra mim”.
“Aviso, sim, senhorita. Depois a gente troca ideia, beijo”.
“Beijo”.

! — Ouvi me chamando lá embaixo.
— Tô aqui em cima, lindo! — gritei de volta e segundos depois ele apareceu.
— Achei que tinha ido embora.
— Que isso, eu não ia ir sem te falar nada, né?
— Verdade. — Ele se sentou do meu lado. — Agora podemos beber ao menos uma?
— Claro! Tô te devendo uma depois de fazer esse trabalho todo pra mim — falei e ele riu.
— Dorme aqui então, como pagamento.
— Oh, mas eu dormia até de graça — falei, e ele me puxou pro colo dele e começou a me beijar.
Depois ficamos bebendo e fumando um bom tempo. Pedimos um sushi pra jantar e ficamos assistindo filme depois. Lá pelas tantas, resolvi que ia tomar um banho, pedi a uma toalha e ele me entregou, entrei no banheiro e fiz o que tinha que fazer.
— Me empresta uma roupa? — perguntei, saindo do banheiro enrolada na toalha. — Trouxe nada.
— Empresto, uai — ele disse e levantou uma sobrancelha sugestiva. — Mas não precisa, né? — Me pegou no colo e me jogou na cama.


Capítulo 17

O sábado chegou rápido. Acordei com o celular despertando e já estava a ponto de desligar e dormir outra vez, quando me lembrei que tinha combinado de ir jogar basquete com os meninos. Levantei da cama me arrastando, peguei minha toalha e fui pro banheiro. Eu sei que tomar banho antes de ir suar até o último fio de cabelo é meio sem sentido, mas eu precisava de um pra acordar.
Enfiei debaixo da água gelada pra dar aquele susto e acordar na marra, tomei meu banho rapidinho e saí. Ainda no banheiro, arrumei o cabelo e passei uns creminhos na cara. Depois voltei pro quarto, enrolada na toalha, para me vestir, coloquei um shortinho de lycra bem esportista que sou, um topinho e uma camiseta por cima. Fui até a cozinha tomar café e as meninas estavam todas lá:
— Bom dia, princesas — falei, enquanto pegava uma xícara no armário. — Que milagre é esse que todas acordamos cedo em pleno sábado?
— Eu cheguei quase agora — falou, rindo.
— Eu nem vou perguntar onde a senhora tava — brinquei, servindo o meu bom cafezinho. — Vocês acreditam que eu vou lá na quadra do alojamento jogar basquete?
que chamou? — perguntou, levantando uma sobrancelha.
— Foi. Ele e o PK — respondi. — Por que, Dona ?
— Sei lá, às vezes eu acho que você passa mais tempo com ele do que com a gente. — Ela deu de ombros e bebeu um gole de café.
— É sério, amiga? — perguntei genuinamente preocupada. Nunca na vida eu iria trocar minhas amigas/irmãs de república por conta de macho, mesmo que esse macho fosse meu melhor amigo.
— Ah, , eu sinto isso às vezes, mas pode ser coisa da minha cabeça — falou.
— Poxa, me desculpa, de verdade! Vou me atentar a isso, prometo!
— Que tal a gente almoçar juntas hoje, meninas? — perguntou. — Só nós quatro.
— Por mim, ok! — Já me adiantei.
— Por mim também! — falou animada.
— Eu topo também, mas me acordem, por favor — falou, abrindo boca. — Vou deitar que eu tô moída. — Mandou beijos e saiu da cozinha.
— Eu volto logo que acabar o “jogo” — falei, pegando um pedaço de bolo. — Entre muuuuitas aspas.
— Eu preparo nosso rango — falou. — Vou descer com você, , que já vou ao mercado.
— Beleza — falei, depois de comer um pedaço do meu bolo. — Vou acabar de comer, calçar meus tênis e já saímos.
— Então vou me trocar de uma vez — ela disse e saiu da cozinha no seu pijaminha rosa da gata Marie.
tá meio carente esses dias — falou, assim que a outra saiu.
— Por que, hein?
— Não sei, mas acho que tem a ver com a mãe dela. A tia liga direto pra ela.
— Será que aconteceu alguma coisa? — perguntei e deu de ombros. — Mas, hein, tá animada pra hoje à noite?
— Tô muito ansiosa, ! Cê não tem noção.
— Não mesmo, amiga — falei, rindo e pegando mais bolo. Tava delícia demais. — Ela vem pra cá que horas?
— Umas 19h.
— Show. Precisa de ajuda pra alguma coisa?
— Não, já planejei tudo. Vou pedir comida naquele restaurante japonês do centro, comprei um vinho, chocolate e flores.
— Ai que fofa! — exclamei. — Ela vai amar!
— Espero que sim, viu?
— Vai dar bom, . Fica sussa! — falei e coloquei minha xícara na pia. — Vou lá terminar de me arrumar, amiga, a gente se vê no almoço. — Mandei beijo e fui pro quarto.
Calcei meus tênis, dei um grau no protetor solar no rosto e peguei o celular pra ver se tava tudo ok. PK tinha mandado mensagem dizendo que pegou a bola emprestado com a atlética e que tava só esperando a gente. Catei minha bolsa, joguei o “kit ” — a.k.a cigarro, pirulito, isqueiro e celular — e a carteira lá dentro. Corri ao banheiro e escovei os dentes, chamei a , e nós saímos.
Como se fosse novidade, o sol já tava quente, o que me fez arrepender de não ter passado protetor no corpo todo. Nem uma nuvenzinha no céu. Sabadão perfeito.
, minha mãe não tá me dando paz esses dias — disse, enquanto descíamos o morro.
— Uai, que que tá pegando?
— Ah, parece que ela brigou com a minha avó esses dias, a mãe do meu pai. As duas não se bicam. Mas aí ela quer que o papai entre no meio, ele não quer arrumar confusão pro lado dele e os dois acabam brigando também.
— Aí sobra pra você, né?
— Sempre. Ontem ela me ligou três vezes! Reclamando de Deus e o mundo.
— Que porre, amiga — falei. — Ela confia em você, mas isso suga sua energia. Não é a primeira vez que acontece.
— Eu queria falar pra ela, mas aí ela vai falar que eu sou ingrata, que ela faz de tudo pra mim e eu não faço nada pra ela…
— Sua mãe é meio narcisista.
— Meio não, inteiramente — ela disse e chegamos à esquina onde íamos nos separar. — Isso tá me enchendo o saco. Mas fazer o quê? Paciência.
— É, amiga, eu não sei como te aconselhar nessa situação. Desculpa.
— Só de me ouvir já ajuda, — ela falou e me deu um beijo na bochecha. — Vou lá. Até mais tarde!
— Até! — E seguimos nossos caminhos.
Essa situação da , se for parar pra olhar isoladamente, nem era nada demais, mas sempre acontecia e acabava com a animação dela. Deixava-a estressada, reclamona e chateada por dias, e, conhecendo a mãe dela, realmente uma conversa não ia adiantar.
Pesquei um cigarro da bolsa, acendi e segui caminhando até a quadra. Já cheguei lá suada e ligeiramente sem fôlego, imagina como eu ia sair do jogo? O arrependimento começou a bater. Os meninos já estavam lá fazendo cestas quando eu passei portão adentro.
— Chegou! — PK falou, jogando as mãos pra cima. — Finalmente.
— Ih, nem vem, cheguei na hora que a gente marcou!
— Mas foi a última — ele brincou e eu ri. — Bora?
— Bora.
Fomos até os meninos, me deu um abraço, cumprimentei todos e eles começaram a explicar as regras. Devo dizer que me senti uma asna, porque não entendi NADA, a única coisa que eu sabia é que não podia andar com a bola. Eles disseram que eu ia “aprender jogando”, mas eu duvidava muito.
Um aviso: Não fumem. Principalmente se quiserem praticar qualquer esporte. Sedentarismo, tabagismo e prática esportiva são uma combinação bombástica. Estava ridículo de ver o jogo, porque os cinco jogavam MUITO bem e eu tinha a habilidade de uma batata-doce plantada na terra. Fiz tantas faltas que eles pararam de contar, se não a gente ia ter que parar toda hora pra cobrar.
No fim do primeiro quarto, eu já estava bufando, podre de cansada. Bebi uma aguinha pra ajudar, mas não foi muito efetivo. No segundo quarto, eu parava de vez em sempre pra respirar e secar o rosto. No terceiro quarto, tentei fazer uma cesta, arremessei e consegui acertar a cabeça de . Realmente um talento nato do basquetebol. No último quarto, consegui fazer uma cesta de 2 e nós comemoramos como se eu fosse o Kobe.
Acabado o jogo, eu estava um caco. Vermelha igual um tomate, molhada de suor, sem conseguir respirar direito e com as pernas até doces de tanto correr. Deitei no chão pra dar uma respirada, cheguei a ver uns pontinhos pretos passeando nas minhas vistas. Maldito momento que eu aceitei aquela palhaçada. Mas, apesar dos pesares, tinha sido muito divertido.
— Tá bem, ? — apareceu no meu campo de visão.
— Aham — falei MORTA de cansada.
— Certeza?
— Aham — respondi. — Só observando as estrelas.
— Estrelas? — perguntou confuso e olhou pro céu claro. — Que estrelas?
— As que tão brilhando na minha visão — falei e ele riu. — Deixa só eu tomar um fôlego.
— No seu tempo, gata — ele falou e se sentou do meu lado. Logo os outros meninos vieram sentar perto da gente também.
— Bom jogo, hein, ? — P.K debochou e eu ri
— Admite que você nunca viu alguém com tanto talento assim — brinquei e me sentei devagar. Deu uma tonteada, mas eu segurei a onda e logo passou. — Quase que vocês têm que me levar pro hospital.
— Pro IML é mais fácil — um dos outros meninos brincou e eu respondi com o dedo do meio.
— Bora na piscina jogar um truco? — PK sugeriu.
— Bora, mas não vou poder almoçar com vocês. Marquei de almoçar com as meninas.
— Cê não ia lá pra casa? — perguntou.
— Eu vou, mas mais tarde. A precisa da casa só de noite.
— Ah entendi — ele falou com uma pontinha de decepção na voz.
Nós levantamos, devolvemos a chave da quadra pro vigia e fomos pra piscina. Pelo sol que estava, eu bem que queria entrar na água, mas aquilo ali já tinha visto todo tipo de situação e eu não queria pegar uma doença. Por ser sábado, estava mais vazio que o habitual, mas ainda assim algumas pessoas estavam lá.
Achamos uma mesinha na sombra de uma das árvores e sentamos lá. Eu fui até o barzinho comprar uma garrafa de água — porque a idiota aqui esqueceu de levar — e comprei um chup-chup também. Quando voltei pra mesa, eles já tinham separado tudo e começamos logo a jogar.
O tanto que eu sou ruim de basquete eu sou boa de truco. era minha dupla e ele entendia todos os meus sinais e blefes. PK e Jr eram bons também, mas nem de longe tão sincronizados. Os outros dois eram ruins de dar dó e logo resolveram ficar só olhando.
— TRUCO! — PK gritou.
— SEIS! — respondeu, dando um tapão na mesa.
— Ah, não, gente! — Jr desistiu, dando a vitória para nós.
— Infelizmente, senhores, essa já era nossa — falei e virei as cartas da mão, um Zap e um três vagabundo.
— Impossível ganhar dela, cara! — Jr falou com PK. — Te carregou nas costas, maluco! — falou com dessa vez.
— Carregou mesmo, e eu não tô nem aí, porque, no final das contas, nós ganhamos e vocês perderam — ele disse, rindo. — Bora mais uma? — Chamou. Eu olhei as horas no celular e já eram quase 11:30h.
— Pra mim não dá. Tenho que ir agora.
— Mais uma só, — ele insistiu
— Realmente, não dá, chuchu. Preciso encontrar as meninas agora. — Catei minhas coisas, coloquei na bolsa e me levantei. — Te ligo mais tarde. — Beijei o topo da cabeça dele. — Tchau, gente! Até depois! — me despedi e saí.
Enquanto descia a reta, com o sol batendo na minha fuça, me lembrei que tinha esquecido os óculos de sol em casa. Oh, mundo cruel! Tasquei um paiero na boca e fui catando cada sombra que eu achava pelo caminho. Quando cheguei ao pé do morro da minha casa, o desânimo tomou conta. Ele parecia 3 vezes mais à pique e uns 50 metros mais comprido. E eu morava lá no final. Dei uma bufada e segui minha escalada.
Entrei em casa e o cheirinho de comida tomou conta. Fui até a cozinha e encontrei uma animadíssima.
— Cheguei, princesa.
— Finalmente! — ela falou e veio me abraçar, mas parou no caminho quando viu que eu estava bem suada.
— É, amiga, tá tensa a situação aqui — falei, rindo. — Vou tomar um banho e já venho, beleza?
— Beleza! Não demora muito que já tá quase pronto.
— Ok, . E as outras?
— Tão lá pra dentro. acordou quase agora, e a tá preparando umas coisinhas pra hoje à noite.
— Justo. Vou lá então — falei e fui pro quarto.
Coloquei minha bolsa em cima da cadeira, tirei os tênis e coloquei do lado da escrivaninha, peguei minha toalha, que estava pendurada na janela, e fui pro banheiro. Tomei um banho quentinho e fui sentindo os ombros arderem, resultado da falta de protetor solar. Lavei os cabelos e o corpo e logo saí.
Enrolada na toalha, topei com a , ela resmungou alguma coisa que eu não entendi e seguiu pra sala, e eu pro meu quarto. Coloquei um shortinho de malha, bem soltinho, e uma regata, aproveitei e passei um hidratante no corpo pra tentar amenizar a ardência que viria aí. Penteei os cabelos e fui pra cozinha.
— Agora tô limpinha — falei, assim que adentrei o recinto.
— Arrasou, amiga! — falou, enquanto tirava uma travessa do forno. — Fiz gnocchi, .
— Nossa senhora, . Aí mandou bem demais! — exclamei.
— Ela se empenhou — falou, rindo. — Nenhuma véia italiana faz um gnocchi melhor que o seu, .
— Obrigada, minhas fãs! — Fez uma reverência e nós rimos. — Comprei até um vinho pra acompanhar.
— Essas horas e a gente bebendo vinho? Eu amei — brinquei. — E fez sobremesa?
fez mousse de maracujá.
— Banquete, hein, minha gente? — falou animada. — E a gente trouxe a barriga, né, ? — brincou e eu concordei, rindo.
— Cês podiam arrumar a mesa, que já tá pronto — pediu.
— Vou lá chamar a falou e saiu.
Eu fui até nossa “sala de jantar”, tirei as coisas de cima da mesa e coloquei no cantinho do sofá. Estiquei a toalha de mesa e coloquei os descansos pra panela. e chegaram e foram pegando e colocando os pratos e talheres, e eu finalizei colocando os copos.
logo veio com a travessa de vidro com nosso almocinho e colocou na mesa, depois buscou o vinho e nós nos sentamos pra comer.
— Merece uma foto, gente! — ela falou e sacou o celular pra tirar algumas selfies. — Pronto. Podemos comer. — Deu o aval e todas nos servimos.
, nem preciso dizer, mas tá muito bom! — falei, depois de comer minha primeira garfada.
— Divino, Dona falou. só resmungou porque estava com a boca cheia.
— Que bom que cês gostaram, gente! — ela falou animada. — Adoro quando a gente almoça juntas assim.
— Nossa, eu também! Nossa família tradicional brasileira — concordei.
— Falando em família, como estão os preparativos pra oficializar a nova agregada, ? — perguntou.
— Tudo nos esquemas, mas eu tô mega nervosa — ela respondeu, dando um gole no vinho. — Nunca fiz isso antes.
— Nossa, verdade, né? Da outra vez que você namorou, foi o seu ex que te pediu — comentou.
— Pois é, menina, nunca fiz isso. Tô com medo de estar exagerando demais, ou fazendo de menos.
— Eu acho que tá perfeito, amiga — opinei. — Também nunca pedi ninguém em namoro, mas acho que você tá fazendo certo.
— Aqui não tem como deixar aquele climinha à meia luz, mas dá pra colocar uma musiquinha romântica na TV — falou. — Acho que ajuda no clima.
— Uma boa ideia, vou fazer isso — comentou como se estivesse fazendo uma anotação mental. — Bem, tudo que eu planejei já tá no jeito. Vocês vão pra onde?
— Eu vou ficar na casa do — falei.
— Nada mais óbvio — disse. — Eu vou ficar no Pedro.
— Tá aí algo mais óbvio! — exclamei e todas rimos.
— Eu vou pra um rock na casa de uma amiga minha — contou.
— Como que cê arruma tanta festa pra ir, mulher? — perguntei. Era impressionante o tanto de festa que chamavam a pra ir. Às vezes chamavam ela tarde da noite, e o pior, ela ia.
— Eu sou uma pessoa com muitos contatos, meu amor — ela falou, fazendo cara de nojenta.
— Cê é uma pessoa com muitos contatinhos, né, gata? — falou e nós caímos na risada.
Ficamos ali, falando bobeira e comendo até umas três da tarde. Depois de uma garrafa de vinho, uma travessa de comida e uma de mousse, resolvemos arrumar as coisas. Lavamos as louças, varremos a casa e passamos um paninho no chão — afinal de contas, a precisava da casa limpinha e cheirosinha pra pedir a menina em namoro.
Depois de tudo, fui pro meu quarto e deitei na cama. Peguei o celular e tinha mensagem do senhor :

“Eae, vem pra cá quando?”
“Posso ir daqui a pouco, só juntar minhas coisas” — respondi.
“Quer que eu te encontre aí?”
“Uai, se quiser vir, pode vir. Não vou achar nem um pouco ruim rsrs”.
“Então tô indo”.
“Okay, belíssimo”.
“Lembra de trazer seu bikini, meu samba tá lavando”.
“Boa lembrança, vou pegar ele agora”.
“Saindo agora, chego aí em 10”.
“Tá bom, chuchu”.

Deixei o celular de lado e fui arrumar uma mochilinha pra passar a noite lá. Peguei o bikini, como ele bem tinha lembrado, uma toalha limpa, uma calcinha limpa, meu pijama e uma outra blusa. Enfiei tudo na mochila, peguei meus cigarros e isqueiro na outra bolsa e coloquei lá também.
Fui até o banheiro, peguei minha escova de dentes — Não esqueçam de escovar os dentinhos, crianças —, shampoo e condicionador. Voltei e coloquei tudo na mochila. Peguei o celular e fui pro quarto da , que também estava arrumando a malinha.
— Será que o Pedro vai me pedir em namoro um dia? — ela disparou, assim que eu entrei, me surpreendendo.
— Uai, , por que você não pede?
— Porque é o homem que tem que pedir…
— Ih tá parecendo a sua mãe falando com as amigas da igreja! Para de bobeira, mulher. Se você quer, vai lá e pede.
— Mas e se ele recusar?
— Aí vai ser um livramento, porque isso significa que ele tá te alugando esse tempo todo.
— É… — murmurou pensativa. — Mas eu nem quero namorar! Tô feliz solteira! — falou, como se não agissem como casal desde a segunda semana de rolo.
— Se você diz…
— Digo! — ela disse, meio que pra dar um ponto final no assunto. — Cê vai ficar lá no amanhã também?
— Não sei, . Acho que não.
— Tô pensando se não levo mais uma muda de roupa.
— Lá no Pedro deve ter um guarda-roupa só seu, nem precisa se preocupar — falei e ela riu.
— Mas aqui, me conta, como foi lá hoje?
— Um DESASTRE — comecei e contei pra ela toda a ladainha do basquete mais cedo. Ela dava altas gargalhadas vez ou outra. — Foi derrota, mas no truco eu arrasei!
— Ninguém te bate no truco, né, , pelo amor.
— Fazer o que se eu sou uma dissimulada nata? — Fiz como se tirasse poeira dos ombros e riu.
— Atriz de Hollywood! — ela falou. — Amiga, vou indo.
— Okay, gata. Tô só esperando o chegar pra ir também — falei, e como se fosse combinado, a campainha tocou na mesma hora. — Acho que chegou. — Saí e fui até a porta.
— Boa tarde, senhora, gostaria de ouvir a palavra de Deus? — brincou, assim que abri a porta.
— Deixa de ser bocó! — falei, dando um tapinha no ombro dele. — Vou só pegar minha mochila, pode entrar.
Entramos, e eu fui pro meu quarto pegar a mochila.
— Você vai agora, ? — falou, botando a cara pra dentro do quarto.
— Vou.
— Vou descer com vocês então.
— Então bora — falei, fechando a janela. — Tchau, ! Boa sorte! — gritei.
— Tchau, ! Te conto depois! — ela respondeu, de algum lugar da casa.
e eu encontramos na sala e descemos os três juntos. foi muda até a esquina, provavelmente remoendo a coisa do pedido de namoro, ou talvez estivesse incomodada com a presença de , não soube diferenciar. Nos despedimos e seguimos nossos caminhos.
— Como foi o almoço? — perguntou.
— Foi ótimo! que fez — contei. — Bebemos uma garrafa de vinho.
— Oh, doido! Já cedo assim? — falou, rindo.
— A gente não brinca em serviço, né, meu bem!
— Eu comprei cerveja à toa então.
— Nunca! — exclamei. — Beberei todas porque não sou de fazer desfeita, sabe? — brinquei e ele riu.
— Você pegou roupa de banho? Porque limpei a piscina ontem, ela tá no grau.
— Peguei! Ainda bem que você me lembrou, porque eu ia chegar lá sem outra vez.
— Ia ter que nadar sem roupa… Não que eu fosse achar ruim. Longe disso — ele disse malicioso.
— Olha só, falando bobeira no meio da rua, em plena luz do dia… — brinquei e ele riu. — Mas não deveria ter me lembrado então, né?
— Vacilei — ele falou e fez cara de decepcionado. — Mas, hein, achei que você ia lá pra casa depois do jogo direto.
— Essa era a minha intenção, mas as meninas chamaram pra almoçar com elas, e como tinha tempo que a gente não fazia isso, eu achei que devia ir — falei. Não ia contar a coisa da , porque era meio pessoal e não achei que ela ia ficar confortável. — Cê ficou chateado?
— Não, de forma alguma! Eu entendo, perguntei porque achei que eu tinha entendido errado o que a gente combinou.
— Tudo certo, com alguns percalços — falei. — Ó, queria dizer que aquele jogo de destruiu. — Mudei de assunto.
— Aquela bolada que você me deu quase me desligou — ele contou e eu ri.
— Ai, me desculpa! Sério — pedi. — Não foi minha intenção.
— Eu sei que não, linda — ele falou, rindo, e me deu um beijo no rosto. — Mas foi divertido, não foi? — perguntou, abrindo o portão do prédio.
— Foi, sim! Mas eu não tenho pique pra esportes, , não tem jeito.
— Claro que tem! Só ir jogando que o condicionamento melhora. — Entramos no elevador. — Se fumar menos, ajuda também.
— Eu sei, mas não consigo parar. — Dei de ombros. — Minha mãe vai te amar ainda mais se você conseguir me fazer parar.
— Só você consegue se fazer parar de fumar, . Tem que vir de você.
— É… vai demorar então — falei. — Sinceramente, não tô com essa intenção ainda.
— Então pronto — ele falou, sorrindo enquanto íamos até a porta do apartamento. — O importante é você estar tranquila com você mesma.
— Nossa, , hoje cê tá muito filosófico. Bebeu o quê?
— Para de ser besta, ! — falou, rindo. — Vamo lá pra cima?
— Vou colocar meu biquíni e subo! — falei e entrei no banheiro.
Prendi meu cabelo, tirei minhas roupas e coloquei um biquíni preto simples. Olhei meu reflexo no espelho e a marca da minha blusa estava perfeitamente desenhada e minha pele bem avermelhada. Ainda bem que tinha levado protetor. Apliquei uma boa camada no rosto e nos ombros queimados, e também passei no resto do corpo. Como não ia conseguir passar nas minhas costas, pediria pra passar pra mim. Saí do banheiro com a mochila a tiracolo e fui pro quarto, peguei meus cigarros, o isqueiro e uns pirulitos e subi.
estava sem camisa e com uma bermuda preta — daquelas de jogar bola —, pegando alguma coisa na geladeirinha. Eu sempre ficava meio sem rumo quando ele estava sem camisa, o corpinho definido dele era um ponto fraquíssimo meu.
— Ei, passa protetor nas minhas costas? — pedi.
— Passo, uai — ele respondeu. — Isso aí é de hoje? — perguntou, apontando pro meu ombro.
— Foi — respondi, rindo de mim mesma. — Tá vendo como eu só me lasco?
— Acontece nas melhores famílias — ele disse, pegando o protetor da minha mão. — Gostei do biquíni.
— Gostasse? Comprei lá na minha cidade — falei, ajustando a parte da frente enquanto ele passava. — Minha mãe comprou pra mim na verdade.
— Boa escolha — ele sussurrou. Ele terminou o serviço e foi pegar uma cerveja pra nós. — Bora entrar na piscina?
— Agora! — falei animada e nós fomos.
A água tava gostosa demais! Como o dia estava quente e já era quase seis da tarde, o sol já tinha esquentado a piscina um pouquinho.
— Nossa, que tudo! — falei, depois de me molhar. — Perfeito pra fechar a semana.
— Verdade, viu? — ele falou, me entregando um copo de cerveja. — Acredita que eu quase nunca nado aqui, só quando vem gente em casa?
— Então vou vir mais vezes, só pra te fazer usar essa regalia que é ter uma piscina.
— Pode vir — ele falou e me abraçou pela cintura. — Sempre que quiser. — Me deu um selinho demorado. — Como você tá, ? De verdade.
— Tô bem, tô tranquila.
— Achei um clima meio tenso com a hoje.
— Ah, foi meio por isso que eu não vim pra cá hoje — contei e enlacei minhas pernas nele. — Hoje de manhã, ela tava com a cara meio amarrada e me falou que achava que eu tava passando mais tempo com você do que com elas.
— Sério?
— Aham, e você vai me desculpar, mas não posso trocar elas por ninguém.
— Claro! Nem quero ocupar esse lugar, elas são suas irmãs quase.
— São mesmo. Só que a também tá com uns problemas de família, aí pode ser que esteja somando com o estresse de fim de período, com a situação da gravidez e tal — falei. — Pode ser, mas isso é só uma hipótese minha, tirada totalmente das vozes na minha cabeça, que ela esteja ressentida com você por “ocupar meu tempo”. Mas a é de lua.
— Eu percebi que ela ficou quieta hoje quando tava com a gente. — Ele maneou. — Você acha que eu devo falar com ela?
— Não sei, . Se você achar que deve, eu te apoio, mas se achar que não, também tô contigo, porque eu não sei mesmo se ela realmente tá chateada com você.
— Vou pensar sobre então — ele disse.
— E você tá bem?
— Tô. Estou sentindo falta de casa esses dias, mas é normal — ele disse, com uma carinha de choro.
— Ô, meu bem… — Abracei ele forte e ele deu uma soluçadinha baixinha. Era muito difícil lidar com a saudade de casa, mas minha casa ficava a algumas horas dali só, a dele era muito mais inacessível. Outro país, outra língua, outra cultura… Ele devia sentir falta de tudo aquilo. A única coisa que eu podia fazer era ficar ali com ele.
— Obrigado — ele, falou depois de um bom tempo que ficamos abraçados. — Por estar na minha vida.
— Ô, lindo — falei e limpei umas lagriminhas que desceram do rosto dele. — Eu que te agradeço. Você sabe o tanto que me ajudou nesse pouco tempo que a gente se aproximou e eu serei eternamente grata. — Dei um selinho nele. — Vou estar com você sempre.
— Então namora comigo — ele disse e eu fiquei sem ar. Ele foi tão direto e em um momento tão inesperado que me pegou totalmente desprevenida.


Continua...



Nota da autora: Pessoal, criei um IG! Sigam lá pra ficarem por dentro das att's e das novidades!
Página de controle das fics.



Nota da beta: AAAAAA QUE COISA MAIS FOFA ESSE PP!
Eu não aguento, não, viu? Nossa, que vontade de apertar ele hahahaha.
Todo mundo se pedindo em namoro. Quero saber as respostas!! ♥

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