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Última atualização: 10/10/2021

Apresentação

Oi! Bom, eu não entendo muito bem porque você está aqui, lendo a minha história, mas, hey, se te interessa, bem-vinda!
Eu vou me apresentar rapidinho antes da gente começar, porque tem algumas coisinhas sobre mim que vão facilitar bastante o seu entendimento do que aconteceu, se você já souber desde o começo.
Bom, primeiro de tudo: eu não sou japonesa e não cresci no Japão. Isso é bem óbvio quando você me conhece, na verdade, mas eu achei melhor já chamar atenção pra isso agora. Eu sou brasileira e me mudei pro Japão quando eu tinha 11 anos, e mesmo que eu viva aqui desde então e tenha aprendido como japoneses se comportam, eu ainda ajo de maneira bem brasileira a maior parte do tempo. Isso me destaca bastante e me garantiu vários olhares esquisitos. Especialmente logo que eu voltei das minhas férias anuais no Brasil pra visitar o resto da família.
Falando nisso, até o meu colegial, eu não estudei em nenhuma escola japonesa normal (e nem tenho certeza se dá pra chamar o meu colegial de “normal”, mas depois a gente fala disso). Quando a minha família se mudou pra cá, meus pais me colocaram numa escola internacional, onde a maior parte dos meus amigos e colegas também eram estrangeiros. Os poucos que eram japoneses tinham parentes em outros países e pais que queriam que eles tivessem uma educação “culturalmente diversa”, o que acabava fazendo eles agirem mais como a gente do que como outros japoneses. Meu grupo de amigos dessa época ainda é bem unido, mesmo que a gente acabe passando bastante tempo sem se ver. É assim desde que cada um de nós foi pra um colegial diferente, então eles vão ser mencionados e até fazer participações especiais nessa história, só não com frequência. O ponto importante é que eu estava acostumada com amigos que não se incomodavam com o meu jeito e nem com as nossas diferenças culturais.
Quanto aos eventos que aconteceram logo antes da nossa história começar... eu me inscrevi na U.A., mas não no curso de heróis. É que eu nunca quis ser uma heroína profissional. Heróis eram muito conhecidos e todo mundo falava das Individualidades deles e isso… era complicado pra mim. A minha Individualidade era um assunto delicado que eu tentava manter o mais escondido possível. Desde que, quando eu era bem pequena, aprendi que as pessoas geralmente não reagiam muito bem a ela. Eu vou voltar pra explicar isso em detalhes mais pra frente, mas por enquanto tudo o que você precisa saber é que eu evito contar exatamente qual é a minha Individualidade, a não ser que eu realmente precise dizer. Eu planejava, sim, tirar uma licença de herói, porque eu queria trabalhar com Heróis e com a polícia e usar a minha Individualidade (ou pelo menos um pedaço dela), mas eu realmente não me via arriscando a minha vida e lutando contra vilões diariamente. Eu queria trabalhar mais por trás das câmeras, onde provavelmente só meus colegas de trabalho saberiam o que eu posso fazer e eu ainda não ganharia atenção do público.
Mesmo assim, morar a 20 minutos da escola de heróis mais famosa do país me fez concluir que o melhor caminho pra chegar onde eu queria era estudar lá. Eu era uma boa aluna, no sentido que sempre consegui tirar boas notas sem muito esforço. Eu não era exatamente a melhor da minha sala, para ser honesta, eu era uma aluna vagabunda nos melhores dias, e preguiçosa pra caralho. Não me leve a mal, eu gosto de aprender, eu só não gosto de ser forçada a estudar algo que eu tenho zero interesse só pra tirar uma nota boa. Então eu surpreendi bastante algumas pessoas quando disse que ia fazer a prova da U.A.. Não pro curso de herói, mas pra turma de estudos gerais. E eu passei com uma boa colocação, até.
Mesmo assim, eu era praticamente a única da minha sala que não queria ser uma heroína. Junta isso com meu jeitinho muito brasileiro e eu me destacava igual uma luz de neon.
Nossa história, na verdade, começa alguns meses depois que eu comecei a estudar na U.A., na época do Festival Esportivo do meu primeiro ano. Bom, isso se você considerar o meu primeiro contato com a 1-A, mas se passaram mais alguns meses antes das coisas realmente começarem a andar.
Acho que isso é tudo que você precisa mesmo saber por enquanto, o resto eu posso ir explicando no caminho. Ainda tem bastante coisa, então espere algumas pausas informativas.
Se você ainda não desistiu de mim, vamos começar: meu nome é , e essa é a história de como eu me apaixonei por Todoroki Shoto.


1. Shinsou Hitoshi

— Eu não sei, ele é… esquisito — murmurou a menina ao meu lado, mantendo a voz baixa para não ser ouvida fora da nossa roda.
— Bom, esquisito pode ser uma caralhada de coisas diferentes, então se você puder ser um pouco mais específica, eu agradeço. — Respondi, levemente irritada e alto o bastante pra fazê-la se encolher. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha sido classificada como “esquisita”, tanto no Brasil quanto no Japão, então ouvir que eu devia ficar longe de alguém só porque a pessoa era esquisita não ia ser suficiente pra mim.
Um ótimo exemplo era a minha sala atual. Eu tinha começado meu primeiro ano na U.A. há pouco tempo. Era da sala 1-C, a primeira de estudos gerais, A e B eram o curso de heróis. Todos na minha turma tinham se conhecido quando as aulas começaram, e vários tinham feito amizades, mas eu não era um deles. Muito brasileira pra eles. Algumas das meninas até falavam comigo, mas mantinham sua distância, exatamente porque eu era esquisita. Agora era um dos momentos em que elas estavam falando comigo, e o assunto era um dos nossos colegas: Shinsou Hitoshi. O garoto alto e de cabelo roxo era solitário, sempre parecia que tinha uns 10 anos de sono pra colocar em dia e tinha uma Individualidade - coisa que a gente tinha acabado de descobrir e motivo pelo qual estávamos falando dele - que era curiosa pra dizer o mínimo: ele podia controlar as pessoas. Tipo transformar elas em fantoches.
-san, por favor fala baixo — outra menina implorou. — E você sabe o que ela quis dizer. — Eu revirei meus olhos. — Sempre pareceu que tem alguma coisa errada com ele, e agora faz sentido. Você ouviu qual é a Individualidade dele. E se ele decidir controlar a gente? O cara podia ser um vilão poderoso.
Eu respirei fundo, tentando engolir a minha dor. Elas não sabem, isso não é sobre você. Elas estão sendo babacas, realmente, mas explodir não vai ajudar. Eu olhei ao redor do Lunch Rush, encontrando Shinsou em uma mesa não muito longe da nossa, comendo sozinho.
— Por acaso passou pela cabeça de vocês que, se ele quisesse ser um vilão, ele não se daria ao trabalho de fazer uma escola tão difícil e com tantos heróis e futuros heróis? Ou que ele em momento nenhum tentou controlar ninguém desde o começo do ano? — Apontei, continuando antes que elas pudessem protestar — Claro, ele poderia ser um vilão poderoso. Qualquer um com uma Individualidade poderosa poderia. All Might, Endeavor, Hawks, Aizawa-sensei… é meramente uma questão de escolha. Caso vocês tenham esquecido, ele se inscreveu pro curso de herói. Ele poderia ser um vilão, mas ele não quer. — Eu me levantei, pegando a bandeja com a minha comida — Na verdade, por excluir e julgar ele baseadas só no que vocês acham que ele pode fazer com a Individualidade dele, vocês estão agindo mais como vilãs do que ele. Bem preconceituosas. E possivelmente dando motivo pra ele repensar querer salvar pessoas. — Elas me encararam em choque, sem conseguir responder à minha acusação. Eu tinha conseguido manter meu tom relativamente civilizado, mas ainda escapou um tanto de rispidez. Eu esperei alguns segundos enquanto uma delas abria e fechava a boca repetidas vezes, tentando pensar no que dizer. — Talvez vocês devessem repensar suas palavras e atitudes.
E com isso, eu me afastei, indo direto na direção do cabelo roxo bagunçado. Me sentei à frente dele, colocando minha bandeja na mesa e sorrindo para sua expressão confusa.
— Oi! Posso sentar aqui com você?
— Hum… você… quê? — Ele inclinou a cabeça para o lado, estreitando os olhos para mim. — Você quer almoçar comigo?
— É, se estiver tudo bem pra você. A gente é da mesma sala. Eu sou a .
— Você é… a garota que fala alto e senta no fundo da sala.
— Culpada. — Assenti rindo.
— Então você sabe qual é a minha Individualidade. Tem certeza que quer sentar comigo? Parece que mais ninguém na classe quer estar perto de mim.
— Bom, aí é burrice deles. — Dei de ombros.
— Eles têm medo que eu os controle com a minha Individualidade. Você não?
— Não. Deveria? — foi minha vez de inclinar a cabeça pra ele. Eu não precisava ter medo da Individualidade dele, e não só porque eu duvidava muito que ele fosse usá-la sem motivo. Eu tinha certeza que conseguiria derrotá-lo se precisasse. — Você tem alguma intenção de usar sua Individualidade em mim aleatoriamente?
— Não. Só se nos enfrentarmos no Festival Esportivo em alguns meses.
— Bom, mas aí não seria aleatório, né? O Festival é uma competição em que é esperado que a gente use as Individualidades uns nos outros. — Eu comecei a comer, dando de ombros outra vez. A confusão de Shinsou tinha se tornado curiosidade, mas ele ainda me olhava como se eu fosse algum quebra-cabeça impossível. O gatilho da Individualidade dele, como ele tinha explicado mais cedo, era responder ele. Até agora, eu já tinha dado várias oportunidades de ele fazer exatamente o que os outros diziam que ele faria.
— Então não, não tenho a menor intenção de usar minha Individualidade em você. — E ele estava dizendo a verdade.
— Perfeito. Sempre é ótimo saber que eu estou certa. — Sorri e ele arqueou uma sobrancelha. Gesticulei com meu garfo para as pessoas ao redor. — Tinha umas pessoas sendo umas babacas preconceituosas por causa da sua Individualidade, eu disse que eles tavam falando merda. Eu adoraria saber de onde eles tiraram que algumas Individualidades automaticamente aumentam a probabilidade de alguém ser um vilão. — Revirei meus olhos e foi a vez dele de dar de ombros, se voltando para sua comida.
— Eles não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu tive que lidar com isso a vida toda. — Seu tom era indiferente, mas eu podia ver que aquele era um machucado antigo que ainda doía. Então a gente tem mais em comum do que eu imaginava, amigo.
— De novo, é uma puta burrice. Sua Individualidade vai ser brilhante pra um herói profissional. Você pode literalmente só dizer pros vilões se renderem ou pararem o que estão fazendo. Eu consigo pensar em um monte de situações recentes em que isso teria garantido um resultado melhor que o que os profissionais conseguiram. Tipo, literalmente qualquer situação com reféns.
— Obrigado. Esse é o plano. — Eu vi o canto dos lábios dele subir minimamente, um sorriso que quase nem estava lá, e respondi com um sorriso largo.
— Ser um herói é mais sobre caráter do que Individualidade, é o que eu sempre digo. Apesar de que a gente tem uns heróis com caráter bem questionável. — Franzi a testa para meu prato. — Eu apostaria dinheiro que o único motivo pelo qual o Endeavor é um herói em vez de um vilão é que ele é narcisista demais pra fazer qualquer coisa que faça ele ser menos louvado. Ele é um cuzão com todo mundo, e fogo pode causar bastante dano.
— Alguém já te disse que você é esquisita? — Perguntou divertido.
— Quase diariamente. Eu levo como um elogio.
— Eu duvido que seja isso que as pessoas queiram dizer.
— Ah, eu sei que não é, mas eu prefiro falar o que penso, ser eu mesma e ser taxada de “esquisita” a colocar uma máscara de “normalidade” e fingir ser igual a todo mundo. Ninguém é normal, não de verdade, é só fingimento. — Ergui ambas as sobrancelhas. — Acredite, eu saberia. Minha Individualidade identifica qualquer tipo de mentira ou enganação.
— É mesmo? Eu tava quase achando que você não tinha Individualidade. Você não disse nada na aula hoje. — Eu dei de ombros.
Ok, uma pequena pausa, queridos leitores: lembram quando eu disse na minha apresentação que a minha Individualidade era um assunto delicado? Vocês provavelmente estão se perguntando por que caralhos eu disse isso e depois contei da minha Individualidade pro Shinsou tão fácil.
Bom, a verdade é que eu não contei. Não a parte complicada, pelo menos, porque, sabe, eu tenho uma Individualidade múltipla. Basicamente eu tenho duas Individualidades que meio que se completam. Uma é a que eu contei: eu sou um detector de mentiras ambulante, e eu posso forçar as pessoas a dizerem a verdade. O nome oficial é Veritaserum, que é basicamente “soro da verdade” em latim. Essa é a metade dos meus poderes que eu não me importo de contar, não me importo de as pessoas saberem e normalmente é o que eu digo quando me perguntam sobre a minha Individualidade. Algumas pessoas realmente me olham torto quando elas descobrem que eu sempre vou saber se elas estiverem falando qualquer coisa menos que a mais pura verdade, mas não é um problema. É também a parte do meu poder que eu planejo usar pra trabalhar com a polícia.
O problema é a minha outra Individualidade, e eu não vou falar sobre ela ainda. Desculpa, mas vou manter vocês curiosos por mais um tempinho. Enfim, voltando à nossa história…
— Eu não falo muito sobre a minha Individualidade e ela não é exatamente visível, mas fica ligada o tempo todo. Nunca descobri como desativar o detector de mentiras.
— Soa interessante. — Ah, se você soubesse.
— É, acho que é. Só não é muito útil em combate.
— Achei que você não quisesse ser uma heroína.
— Não quero. Mas isso não muda o fato de que esse poder seria inútil se eu quisesse.
Continuamos conversando pelo resto do almoço, e foi assim que eu fiz meu primeiro amigo na U.A. Tudo bem que o Shinsou ainda ficava muito quieto a maior parte do tempo, mas eu falava o suficiente por nós dois. E era bom estar com alguém que entendia como era ver as pessoas terem medo de você por causa da sua Individualidade, mesmo que ele não soubesse a verdade. E também, já que eu não tinha interesse no curso de herói, Shinsou era mais aberto a me ter por perto do que com outras pessoas, que ele via como seus concorrentes.
Ah, e as meninas vieram me pedir desculpas mais tarde naquele dia, dizendo que eu tinha razão. Elas ainda não se sentiam muito confortáveis com ele, mas pelo menos eram educadas e não o excluíam.

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Mais alguns meses se passaram e eu e o Shinsou ficamos bem próximos. A gente almoçava junto todos os dias e ficava na escola depois da aula pelo menos duas vezes por semana pra treinar juntos. E por treinar, eu quero dizer que a gente ia pra uma das partes mais isoladas do campus e eu o deixava usar a Individualidade dele em mim enquanto lutava contra o controle dele, e aí ele tentava mentir pra mim ou não dizer a verdade quando eu tentava forçá-lo a isso.
Eu sabia que Shinsou ia requisitar uma transferência pro curso de herói e tentar usar o Festival Esportivo como impulso, então ele definitivamente precisava treinar. Ele iria competir com os alunos do curso de herói, que treinavam suas Individualidades e outras habilidades diariamente, sem mencionar que uma das turmas já tinha tido uma experiência contra vilões de verdade, então eles já estavam entrando com uma grande vantagem.
— Tem certeza que tudo bem? — Eu virei os olhos.
— Você me pergunta isso todo dia, e todo dia eu te respondo a mesma coisa: se eu não estiver de boa com você usar sua Individualidade em mim, eu vou te dizer. Ou, sei lá, não dizer nada, não te dar o gatilho. — Ergui as sobrancelhas para ele, pondo as mãos no quadril. — Shin-chan, fui eu que me ofereci pra treinar com você. Eu confio em você.
As palavras, como sempre, deixaram um gosto amargo na minha boca. Não porque fosse mentira, embora mentiras tivessem literalmente esse efeito em mim. Eu confiava nele. Mas ainda não tinha juntado a coragem de contar a verdade sobre a minha Individualidade, mesmo que, de todas as pessoas pra quem eu já tinha contado ou considerado contar, ele fosse quem tinha a maior chance de me entender.
Olha, eu sei que to sempre dizendo que eu não falo da minha Individualidade pras pessoas. E não falo, normalmente. Minha família sabe, mas é mais porque eles ficaram sabendo antes de eu aprender que era melhor abafar o assunto - e quando eu digo família, eu quero dizer primos, tias, tios e avós, não só meus pais e meu irmãozinho. E meus amigos mais próximos sabiam também. Agora, eles foram uma escolha, diferente dos meus parentes, mas uma cuidadosamente calculada. Eu guardei segredo até que eles me conhecessem há anos e eu tivesse certeza absoluta de eles não iam fugir correndo ou me odiar.
E ainda assim, aqui estava eu, considerando contar pra um garoto com quem eu tinha feito amizade há menos de seis meses. O tempo era definitivamente o motivo da minha hesitação. Eu não achava que ele teria uma reação negativa, não considerando a Individualidade dele e a reação que as pessoas costumavam ter a ela. Ele provavelmente entenderia melhor que todo mundo. Mas contar pra qualquer pessoa era sempre uma ideia aterrorizante, independente de quão bem eu conhecia a pessoa, ou de qualquer outra circunstância, na verdade.
— Ok, ok. É só que ainda é estranho pra mim que você não se importe com isso. — Shinsou balançou a cabeça. — Você tem que ir embora cedo hoje de novo?
— Não, só na quinta. A minha professora só pode segunda e quinta, e já foi difícil arranjar tempo com ela, então eu to pegando o que eu conseguir. — Eu dei de ombros. — Além disso, eu não sei por quanto tempo ainda vou conseguir continuar com as aulas de dança antes que essa escola ocupe toda a minha agenda, então eu prefiro começar o quanto antes.
Ah sim, já que eu não falei antes: eu faço dança do ventre. Comecei há um ano e eu simplesmente amo. Eu costumava fazer as aulas num estúdio, mas o horário mudou e acabou coincidindo com as minhas aulas na U.A., então eu tive que parar. Agora eu tinha conseguido convencer a minha antiga professora a me dar aulas particulares duas vezes por semana.
— Sentem nos seus lugares, queridos! Tenho um anúncio excitante pra vocês. — Kayama-sensei avisou com a voz afetada ao entrar na sala. Eu desci da mesa do Shinsou e fui pro meu lugar no fundo. — Finalmente estamos anunciando a data do Festival Esportivo!
A Midnight era a professora responsável pela nossa sala, só pra vocês saberem. Eu não tenho ideia de como isso aconteceu, considerando que nós éramos do primeiro ano e não estávamos no curso de heróis, mas eu com certeza não estava reclamando. Ela era um pouco imprópria, claro, mas era incrível, e o jeito dela me fazia sentir menos fora de lugar.
Ela continuou, explicando que o Festival seria em duas semanas, como ia funcionar, como todos nós iríamos participar e, considerando que a sala inteira queria saber isso, que sim, o Festival era uma chance de impressionar o corpo docente e poderia ajudar na requisição de um aluno para ser transferido pro curso de herói. Eu era a única que não estava particularmente interessada nesse fato, mas ficava feliz que meus colegas teriam outra chance. A prova de admissão prática, pelo que Shin-chan tinha me dito, tinha envolvido robôs, o que quase automaticamente excluía muitas Individualidades, como aquelas que não eram úteis em batalha ou só funcionavam em humanos, e essa não me parecia uma prova muito justa.
Obviamente eles todos ficaram bem animados, mas também começaram a sussurrar entre si que a turma a ser derrotada era a 1A. Tinham sido eles no incidente da USJ, os únicos alunos com experiência real contra vilões reais. O que nos leva ao agito incomum ao fim da aula. Ninguém foi em direção à saída, o que me confundiu um tanto. Curiosa (e levemente preocupada, porque o Shin-chan tinha sido um dos primeiros a sair da sala em disparada na direção errada), eu os segui a uma distância segura, parando surpresa ao ver a multidão reunida em um dos corredores e que parecia ser o objetivo deles. Franzi o cenho e olhei pra cima, logo entendendo porque estávamos aqui, o motivo na porta com “1A” pintado. Revirei meus olhos. Sério mesmo? Verificando a competição. Todos esses alunos tinham vindo até aqui pra importunar a turma deles só porque achavam que esses eram os “inimigos”? Me apoiei na parede oposta, fora da multidão - deuses, eu odeio multidões - e cruzei meus braços, esperando pra ver que tipo de desastre ia sair disso.
— Q-que está acontecendo?! — Perguntou uma garota acima do burburinho.
— Que negócio vocês têm com a turma A? — Uma voz masculina soou de dentro da sala. Coitados. Eles realmente não sabiam?
— Não podemos sair! Pra que vocês vieram?
Eu não consegui ouvir o que foi dito a seguir, mas os alunos do curso de herói pararam com as perguntas, então eu assumi que algum deles tinha entendido. Mas aí a multidão também ficou em silêncio, o suficiente pra eu ouvir o que eu imaginava que fosse outro membro da 1A - eu não conseguia ver o que tava acontecendo, muitos dos alunos no caminho eram mais altos que eu.
— Não adianta fazer essas coisas. Saiam da minha frente, extras. — Uau, como nós somos convencidos.
Pelo menos os gritos de ultraje que se seguiram de dentro da sala me faziam pensar que talvez fosse só esse garoto que era um babaca arrogante.
— Vim para ver como a turma A se parece, — ouvi a voz familiar do Shin-chan se sobressaindo, rapidamente encontrando o cabelo dele no meio dos outros alunos (ainda bem que ele era alto desse jeito). Ele tava atravessando a multidão pra chegar na porta e eu cobri o rosto com a mão. Mas é óbvio que ele vai lá arranjar uma briga com eles. Não dá pra tirar os olhos deles por um segundo — mas você parece bem arrogante. Todos os alunos do curso de heróis são assim? Ver algo assim me deixa desiludido. — Shinsou, cala a porra da boca, pelo amor dos deuses, antes que você leve uma surra. — Tem pessoas matriculadas em estudos gerais ou outros cursos porque não passaram no curso de heróis. Sabia disso? A escola deixou uma chance para nós. Dependendo dos resultados desse festival, considerarão nossa transferência para o curso de heróis. E parece que podem transferir um pessoal para fora.
Mentiroso da porra. Ele não sabia isso. A Midnight-sensei não tinha dito nada sobre estudantes sendo expulsos do curso de herói se eles não fossem bem no festival, só que era a nossa chance de impressionar e ser aceito. Mas obviamente a maioria dos outros não sabia que ele tava inventando, julgando pelos murmúrios que começaram imediatamente.
— Vendo o inimigo? Eu, pelo menos, vim dizer que mesmo que estejam no curso de heróis, se ficarem confiantes demais, vou puxar o tapete debaixo dos seus pés. Vim com uma declaração de guerra. — Ai meus deuses, que bicho dramático.
Houve alguns momentos de silêncio tenso, e eu podia praticamente ver a tensão de como os dois provavelmente estavam se encarando na porta. Garotos. Aí houve uma comoção e outra voz surgiu.
— Ei, ei! Sou da turma B ao lado! Soube que enfrentaram vilões, então vim ouvir sobre! Não fiquem tão confiantes! Se latirem tanto, vai ser vergonhoso quando lutarem de verdade! Está me ignorando, maldito?!
Honestamente, por que esses caras eram tão barulhentos? Tipo, vocês querem atenção, eu sei, mas precisa gritar? O Shinsou tava fazendo uma cena, mas pelo menos ele não levantou a voz. A multidão agora tava quieta pra ver a reação da 1A, não tinha nenhuma necessidade de aumentar o volume pra se fazer ouvir.
— Espera aí, Bakugo! O que vai fazer sobre isso? É sua culpa todos nos odiarem! — Veio uma nova voz de dentro da sala. Então Bakugo é o nome do babaca arrogante. Bom saber.
— Não importa. — Bakugo respondeu. — Não importa contanto que chegue ao topo. — Então eu vi a multidão se partir e um loiro com cara de irritação e uma postura de “eu não ligo pra porra nenhuma” e cabelo espetado saiu. Ele até tinha cara de babaca arrogante.
Revirei meus olhos de novo, ignorando as reações à frase dele. Sério? Tudo que importava pra ele era chegar ao topo? Com essa atitude? Um projeto de Endeavor, se eu tivesse que apostar.
Não demorou muito mais pra multidão dispersar depois disso, e Shinsou congelou no lugar quando me viu esperando. Eu só arqueei uma sobrancelha pra ele e esperei que ele me alcançasse antes de começarmos a andar para o nosso cantinho do campus pra treinar.
— Cara, que porra foi aquilo? — Perguntei. — Vim com uma declaração de guerra. Você é o que, um conquistador medieval?
— Se você me ouviu, também ouviu aquele outro cara. Alguém tinha que baixar a bola deles.
— Você lembra que aquela é a sala na qual você ta tentando entrar, né?
— Eu não to aqui pra fazer amigos. — Eu soquei seu braço.
— E eu sou o que, a porra de uma planta? — Franzindo o cenho e massageando o local que eu havia atingido (não foi nem tão forte, ele só tava sendo dramático), ele respondeu:
— Eu nunca escolhi ser seu amigo. Você decidiu que eu precisava de uma amiga e agora eu não tenho como me livrar de você.
Eu o encarei chocada. A audácia da bicha! Eu dei meia volta e comecei a me dirigir para a saída.
— Beleza, treina sozinho então!
, pera aí! — Eu parei, estreitando os olhos pra ele por cima do meu ombro. — Eu não disse que não gosto da sua amizade, eu gosto. Só que não era algo que tava nos meus planos.
— Você tem sorte pra porra que eu consigo saber que você realmente pensa assim. — Revirei meus olhos, voltando a caminhar ao seu lado. — Mas você precisa desesperadamente trabalhar nas suas habilidades interpessoais. Se você for ter chance de ser contratado por uma agência de heróis no futuro, vai ter que aprender a ser simpático.
— Eu sei ser simpático.
— Não com pessoas que acham que são melhores que você. E vai precisar saber quando não é hora de arranjar briga com essa gente.
— Ei, isso… — ele começou a protestar, mas suspirou. — Nisso você provavelmente tem razão.
— Escuta, você tem razão sobre a arrogância deles. Eles não são melhores que ninguém, e pensar que são não é só idiota, mas também provavelmente perigoso. E você tá certíssimo de lutar pelo que quer. Eu quero te ver dar seu melhor no Festival, chegar arrasando e quebrar tudo, porque eu sei que você consegue.
— Eu sinto um “mas” vindo. — Shinsou arqueou uma sobrancelha pra mim e eu dei um sorriso sarcástico.
— Mas depois que você entrar no curso de heróis, a gente vai ter que trabalhar em polir seu discurso.
— Isso vindo da pessoa mais boca suja que eu conheço? — Eu ri, o empurrando de brincadeira com o ombro.
— Hey, eu sei soar como uma “verdadeira dama”! Em três línguas, ainda por cima! Eu só escolho não fazer isso a maior parte do tempo.
— Eu acho que nunca te ouvi soando como uma dama ou sendo mais educada. — Ele sorriu de canto.
— É, pra que eu iria desperdiçar minhas boas maneiras com você?
— Hey! — Ele me empurrou de volta, a voz com um tom falso de ultraje. Nós rimos, continuando com nosso dia como o planejado. Com, é claro, o adicional da zoação por causa do discurso dramático dele.

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As duas semanas depois disso passaram num piscar de olhos e de repente era o dia do Festival Esportivo. A escola inteira estava diferente e havia vários espectadores que tinham vindo assistir os eventos, o que significa que eu estava bem desconfortável. Eu já mencionei o quanto eu odeio multidões? Porque eu realmente odeio. Em qualquer ano normal, essa multidão estaria se aglomerando na arena do terceiro ano, pra assistir os alunos prestes a se formar, mas não esse ano. Não, claro que no meu primeiro ano nessa escola ia ter um ataque de vilões a uma turma da minha série e todos iam querer assisti-los - e por consequência, nós. Ugh.
Cada turma tinha sua própria sala de espera onde devíamos ficar até o evento começar, e a atmosfera da turma C tava tensa. Todo mundo menos eu estava sob bastante pressão pra impressionar, ir bem e conseguir uma chance de ser transferido, ou pelo menos de chamar a atenção de alguma agência e ficar no radar deles apesar de não estar no curso de heróis.
— Ei, . — Abri meus olhos, encontrando Shinsou me encarando. Eu tinha sentado num cantinho da sala e ficado estranhamente quieta desde que tinha chegado, algo que fez meus colegas me olharem, embora eu só estivesse notando agora que ele tinha vindo falar comigo. — Você tá bem? Ta com cara de que vai passar mal.
— Só me sentindo um pouco fora do ar. Mas não se preocupa comigo, não é nada demais. Se concentra em arrasar hoje, tá? — Ele me analisou com cuidado por mais alguns instantes antes de assentir. Foquei em manter minha respiração estável, apertando o pingente do meu colar. Não muito depois disso, fomos chamados pra entrar na arena junto com as outras turmas. — Boa sorte, gente! — Sorri para meus colegas.
A primeira sala a entrar foi a 1A, depois a 1B. Ai, ao mesmo tempo, as três turmas de estudos gerais foram chamadas. Eu apertei os olhos por conta da luz forte do sol após esperar no corredor relativamente escuro e respirei fundo várias vezes. O lugar era enorme, e tinha milhares de pessoas assistindo. E eu não tinha onde me esconder. Só chega no primeiro evento e deixa quem quer passar pra frente e avançar na competição. Aí você pode ir embora. As três turmas de auxílio foram chamadas depois de nós, e por último as de negócios, colocando todos os 11 primeiros anos no meio do estádio.
— Só estamos aqui pra fazer aqueles caras parecerem mais legais, não é? — Eu ouvi um dos meninos dizer em um tom derrotado.
— É por aí…
Franzi o cenho, mas não disse nada. Eles com certeza não iam muito longe pensando que já estavam fora da competição antes mesmo de ela começar. Todos nos reunimos numa área no meio em frente a um pequeno palco onde estava Kayama-sensei.
— Hora do juramento do jogador! — Ao vê-la, houve um burburinho imediato, tanto entre os alunos quanto no público. — Quietos, pessoal! O representante dos estudantes, da turma 1A, será Bakugo Katsuki!
— Quê?
— Huh?
— Quê? O Kacchan?
— Aquele cara foi o que terminou em primeiro o exame de admissão.
— No curso de herói.
— C-certo.
— Claramente eles nos odeiam. — Eu ouvi um dos meninos da 1A sussurrar.
— E por culpa do Bakugo.
— Aquele não é o cara arrogante? — Eu sussurrei pro Shin-chan, que assentiu enquanto os outros alunos ficavam em silêncio.
Observei enquanto o garoto de cabelo espetado andava até o microfone. Houve um silêncio tenso enquanto todos esperavam pra ver o que ele ia dizer. Eu devia ter previsto o desastre que se seguiu:
— Eu juro… que serei o número 1.
Os alunos ao meu redor explodiram em reclamações e gritos de ultraje, e eu me encolhi, fechando os olhos. Respira fundo, respira fundo. Eu só os abri novamente quando as vozes sumiram pra dar lugar à Midnight-sensei.
— Bem, agora vamos começar. — Eu não posso dizer que prestei muita atenção ao que ela disse, pra ser honesta, até ouvir a palavra “corrida”. Uma corrida de obstáculos? Perfeito, eu podia só deixar todo mundo correr na frente e calmamente esperar no fundo até acabar. — Agora, em suas posições!
— Vai mostrar pra eles quem você é, Shin-chan! — Falei sorrindo e ele me ofereceu um sorriso minúsculo como reposta.
— Te vejo no final.
Deixei o máximo possível de pessoas passarem na minha frente em direção à porta que nos separava da pista ao redor do estádio. Ficamos todos em um silêncio tenso enquanto as luzes verdes acima da porta se apagavam uma a uma.
— Começar!
O Festival Esportivo tinha começado.


Continua...



Nota da autora: OLAAAA! Surpreendendo literalmente qualquer pessoa que me conhece, eu voltei rápido! É um milagre do Shoto. Ou só minha obsessão por ele hehehe.
Falando nele, eu sei que ele não apareceu nesse capítulo, e eu queria poder pedir desculpas, mas não dá. Olha o tamanho que ficou isso! Originalmente esse cap ia até o fim do Festival Esportivo, mas eu achei que ia ficar muito gigantesco, ai resolvi dividir em dois capítulos. O que significa que a gente não vai ter nenhuma interação de verdade com o Shoto até o capítulo 3, mas pelo menos vamos ver ele de longe no próximo cap. Eu mencionei que vai demorar pra eles ficarem juntos? Se preparem pq o negócio vai ser devagar, meu povo.
Vocês estão gostando da pp e da história? O que acharam da amizade dela com o Shinsou? Vcs tem alguma teoria sobre a outra Individualidade dela? Me contem nos comentários, ou no tumblr ou no insta! E não esqueçam de dar uma olhada na playlist q eu montei!
Anyway, espero que vcs tenham curtido o capítulo! Eu prometo que vou tentar não demorar muito com o próximo, mas nem a deusa sabe quando eu vou conseguir terminar.
XOXO


Outras Fanfics:
- MV: Everything Has Changed
- MV: Thinking Out Loud



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