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Última atualização: 28/02/2022

Apresentação

Oi! Bom, eu não entendo muito bem porque você está aqui, lendo a minha história, mas, hey, se te interessa, bem-vinda!
Eu vou me apresentar rapidinho antes da gente começar, porque tem algumas coisinhas sobre mim que vão facilitar bastante o seu entendimento do que aconteceu, se você já souber desde o começo.
Bom, primeiro de tudo: eu não sou japonesa e não cresci no Japão. Isso é bem óbvio quando você me conhece, na verdade, mas eu achei melhor já chamar atenção pra isso agora. Eu sou brasileira e me mudei pro Japão quando eu tinha 11 anos, e mesmo que eu viva aqui desde então e tenha aprendido como japoneses se comportam, eu ainda ajo de maneira bem brasileira a maior parte do tempo. Isso me destaca bastante e me garantiu vários olhares esquisitos. Especialmente logo que eu voltei das minhas férias anuais no Brasil pra visitar o resto da família.
Falando nisso, até o meu colegial, eu não estudei em nenhuma escola japonesa normal (e nem tenho certeza se dá pra chamar o meu colegial de “normal”, mas depois a gente fala disso). Quando a minha família se mudou pra cá, meus pais me colocaram numa escola internacional, onde a maior parte dos meus amigos e colegas também eram estrangeiros. Os poucos que eram japoneses tinham parentes em outros países e pais que queriam que eles tivessem uma educação “culturalmente diversa”, o que acabava fazendo eles agirem mais como a gente do que como outros japoneses. Meu grupo de amigos dessa época ainda é bem unido, mesmo que a gente acabe passando bastante tempo sem se ver. É assim desde que cada um de nós foi pra um colegial diferente, então eles vão ser mencionados e até fazer participações especiais nessa história, só não com frequência. O ponto importante é que eu estava acostumada com amigos que não se incomodavam com o meu jeito e nem com as nossas diferenças culturais.
Quanto aos eventos que aconteceram logo antes da nossa história começar... eu me inscrevi na U.A., mas não no curso de heróis. É que eu nunca quis ser uma heroína profissional. Heróis eram muito conhecidos e todo mundo falava das Individualidades deles e isso… era complicado pra mim. A minha Individualidade era um assunto delicado que eu tentava manter o mais escondido possível. Desde que, quando eu era bem pequena, aprendi que as pessoas geralmente não reagiam muito bem a ela. Eu vou voltar pra explicar isso em detalhes mais pra frente, mas por enquanto tudo o que você precisa saber é que eu evito contar exatamente qual é a minha Individualidade, a não ser que eu realmente precise dizer. Eu planejava, sim, tirar uma licença de herói, porque eu queria trabalhar com Heróis e com a polícia e usar a minha Individualidade (ou pelo menos um pedaço dela), mas eu realmente não me via arriscando a minha vida e lutando contra vilões diariamente. Eu queria trabalhar mais por trás das câmeras, onde provavelmente só meus colegas de trabalho saberiam o que eu posso fazer e eu ainda não ganharia atenção do público.
Mesmo assim, morar a 20 minutos da escola de heróis mais famosa do país me fez concluir que o melhor caminho pra chegar onde eu queria era estudar lá. Eu era uma boa aluna, no sentido que sempre consegui tirar boas notas sem muito esforço. Eu não era exatamente a melhor da minha sala, para ser honesta, eu era uma aluna vagabunda nos melhores dias, e preguiçosa pra caralho. Não me leve a mal, eu gosto de aprender, eu só não gosto de ser forçada a estudar algo que eu tenho zero interesse só pra tirar uma nota boa. Então eu surpreendi bastante algumas pessoas quando disse que ia fazer a prova da U.A.. Não pro curso de herói, mas pra turma de estudos gerais. E eu passei com uma boa colocação, até.
Mesmo assim, eu era praticamente a única da minha sala que não queria ser uma heroína. Junta isso com meu jeitinho muito brasileiro e eu me destacava igual uma luz de neon.
Nossa história, na verdade, começa alguns meses depois que eu comecei a estudar na U.A., na época do Festival Esportivo do meu primeiro ano. Bom, isso se você considerar o meu primeiro contato com a 1-A, mas se passaram mais alguns meses antes das coisas realmente começarem a andar.
Acho que isso é tudo que você precisa mesmo saber por enquanto, o resto eu posso ir explicando no caminho. Ainda tem bastante coisa, então espere algumas pausas informativas.
Se você ainda não desistiu de mim, vamos começar: meu nome é , e essa é a história de como eu me apaixonei por Todoroki Shoto.


1. Shinsou Hitoshi

— Eu não sei, ele é… esquisito — murmurou a menina ao meu lado, mantendo a voz baixa para não ser ouvida fora da nossa roda.
— Bom, esquisito pode ser uma caralhada de coisas diferentes, então se você puder ser um pouco mais específica, eu agradeço. — Respondi, levemente irritada e alto o bastante pra fazê-la se encolher. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha sido classificada como “esquisita”, tanto no Brasil quanto no Japão, então ouvir que eu devia ficar longe de alguém só porque a pessoa era esquisita não ia ser suficiente pra mim.
Um ótimo exemplo era a minha sala atual. Eu tinha começado meu primeiro ano na U.A. há pouco tempo. Era da sala 1-C, a primeira de estudos gerais, A e B eram o curso de heróis. Todos na minha turma tinham se conhecido quando as aulas começaram, e vários tinham feito amizades, mas eu não era um deles. Muito brasileira pra eles. Algumas das meninas até falavam comigo, mas mantinham sua distância, exatamente porque eu era esquisita. Agora era um dos momentos em que elas estavam falando comigo, e o assunto era um dos nossos colegas: Shinsou Hitoshi. O garoto alto e de cabelo roxo era solitário, sempre parecia que tinha uns 10 anos de sono pra colocar em dia e tinha uma Individualidade - coisa que a gente tinha acabado de descobrir e motivo pelo qual estávamos falando dele - que era curiosa pra dizer o mínimo: ele podia controlar as pessoas. Tipo transformar elas em fantoches.
-san, por favor fala baixo — outra menina implorou. — E você sabe o que ela quis dizer. — Eu revirei meus olhos. — Sempre pareceu que tem alguma coisa errada com ele, e agora faz sentido. Você ouviu qual é a Individualidade dele. E se ele decidir controlar a gente? O cara podia ser um vilão poderoso.
Eu respirei fundo, tentando engolir a minha dor. Elas não sabem, isso não é sobre você. Elas estão sendo babacas, realmente, mas explodir não vai ajudar. Eu olhei ao redor do Lunch Rush, encontrando Shinsou em uma mesa não muito longe da nossa, comendo sozinho.
— Por acaso passou pela cabeça de vocês que, se ele quisesse ser um vilão, ele não se daria ao trabalho de fazer uma escola tão difícil e com tantos heróis e futuros heróis? Ou que ele em momento nenhum tentou controlar ninguém desde o começo do ano? — Apontei, continuando antes que elas pudessem protestar — Claro, ele poderia ser um vilão poderoso. Qualquer um com uma Individualidade poderosa poderia. All Might, Endeavor, Hawks, Aizawa-sensei… é meramente uma questão de escolha. Caso vocês tenham esquecido, ele se inscreveu pro curso de herói. Ele poderia ser um vilão, mas ele não quer. — Eu me levantei, pegando a bandeja com a minha comida — Na verdade, por excluir e julgar ele baseadas só no que vocês acham que ele pode fazer com a Individualidade dele, vocês estão agindo mais como vilãs do que ele. Bem preconceituosas. E possivelmente dando motivo pra ele repensar querer salvar pessoas. — Elas me encararam em choque, sem conseguir responder à minha acusação. Eu tinha conseguido manter meu tom relativamente civilizado, mas ainda escapou um tanto de rispidez. Eu esperei alguns segundos enquanto uma delas abria e fechava a boca repetidas vezes, tentando pensar no que dizer. — Talvez vocês devessem repensar suas palavras e atitudes.
E com isso, eu me afastei, indo direto na direção do cabelo roxo bagunçado. Me sentei à frente dele, colocando minha bandeja na mesa e sorrindo para sua expressão confusa.
— Oi! Posso sentar aqui com você?
— Hum… você… quê? — Ele inclinou a cabeça para o lado, estreitando os olhos para mim. — Você quer almoçar comigo?
— É, se estiver tudo bem pra você. A gente é da mesma sala. Eu sou a .
— Você é… a garota que fala alto e senta no fundo da sala.
— Culpada. — Assenti rindo.
— Então você sabe qual é a minha Individualidade. Tem certeza que quer sentar comigo? Parece que mais ninguém na classe quer estar perto de mim.
— Bom, aí é burrice deles. — Dei de ombros.
— Eles têm medo que eu os controle com a minha Individualidade. Você não?
— Não. Deveria? — foi minha vez de inclinar a cabeça pra ele. Eu não precisava ter medo da Individualidade dele, e não só porque eu duvidava muito que ele fosse usá-la sem motivo. Eu tinha certeza que conseguiria derrotá-lo se precisasse. — Você tem alguma intenção de usar sua Individualidade em mim aleatoriamente?
— Não. Só se nos enfrentarmos no Festival Esportivo em alguns meses.
— Bom, mas aí não seria aleatório, né? O Festival é uma competição em que é esperado que a gente use as Individualidades uns nos outros. — Eu comecei a comer, dando de ombros outra vez. A confusão de Shinsou tinha se tornado curiosidade, mas ele ainda me olhava como se eu fosse algum quebra-cabeça impossível. O gatilho da Individualidade dele, como ele tinha explicado mais cedo, era responder ele. Até agora, eu já tinha dado várias oportunidades de ele fazer exatamente o que os outros diziam que ele faria.
— Então não, não tenho a menor intenção de usar minha Individualidade em você. — E ele estava dizendo a verdade.
— Perfeito. Sempre é ótimo saber que eu estou certa. — Sorri e ele arqueou uma sobrancelha. Gesticulei com meu garfo para as pessoas ao redor. — Tinha umas pessoas sendo umas babacas preconceituosas por causa da sua Individualidade, eu disse que eles tavam falando merda. Eu adoraria saber de onde eles tiraram que algumas Individualidades automaticamente aumentam a probabilidade de alguém ser um vilão. — Revirei meus olhos e foi a vez dele de dar de ombros, se voltando para sua comida.
— Eles não são os primeiros e nem serão os últimos. Eu tive que lidar com isso a vida toda. — Seu tom era indiferente, mas eu podia ver que aquele era um machucado antigo que ainda doía. Então a gente tem mais em comum do que eu imaginava, amigo.
— De novo, é uma puta burrice. Sua Individualidade vai ser brilhante pra um herói profissional. Você pode literalmente só dizer pros vilões se renderem ou pararem o que estão fazendo. Eu consigo pensar em um monte de situações recentes em que isso teria garantido um resultado melhor que o que os profissionais conseguiram. Tipo, literalmente qualquer situação com reféns.
— Obrigado. Esse é o plano. — Eu vi o canto dos lábios dele subir minimamente, um sorriso que quase nem estava lá, e respondi com um sorriso largo.
— Ser um herói é mais sobre caráter do que Individualidade, é o que eu sempre digo. Apesar de que a gente tem uns heróis com caráter bem questionável. — Franzi a testa para meu prato. — Eu apostaria dinheiro que o único motivo pelo qual o Endeavor é um herói em vez de um vilão é que ele é narcisista demais pra fazer qualquer coisa que faça ele ser menos louvado. Ele é um cuzão com todo mundo, e fogo pode causar bastante dano.
— Alguém já te disse que você é esquisita? — Perguntou divertido.
— Quase diariamente. Eu levo como um elogio.
— Eu duvido que seja isso que as pessoas queiram dizer.
— Ah, eu sei que não é, mas eu prefiro falar o que penso, ser eu mesma e ser taxada de “esquisita” a colocar uma máscara de “normalidade” e fingir ser igual a todo mundo. Ninguém é normal, não de verdade, é só fingimento. — Ergui ambas as sobrancelhas. — Acredite, eu saberia. Minha Individualidade identifica qualquer tipo de mentira ou enganação.
— É mesmo? Eu tava quase achando que você não tinha Individualidade. Você não disse nada na aula hoje. — Eu dei de ombros.
Ok, uma pequena pausa, queridos leitores: lembram quando eu disse na minha apresentação que a minha Individualidade era um assunto delicado? Vocês provavelmente estão se perguntando por que caralhos eu disse isso e depois contei da minha Individualidade pro Shinsou tão fácil.
Bom, a verdade é que eu não contei. Não a parte complicada, pelo menos, porque, sabe, eu tenho uma Individualidade múltipla. Basicamente eu tenho duas Individualidades que meio que se completam. Uma é a que eu contei: eu sou um detector de mentiras ambulante, e eu posso forçar as pessoas a dizerem a verdade. O nome oficial é Veritaserum, que é basicamente “soro da verdade” em latim. Essa é a metade dos meus poderes que eu não me importo de contar, não me importo de as pessoas saberem e normalmente é o que eu digo quando me perguntam sobre a minha Individualidade. Algumas pessoas realmente me olham torto quando elas descobrem que eu sempre vou saber se elas estiverem falando qualquer coisa menos que a mais pura verdade, mas não é um problema. É também a parte do meu poder que eu planejo usar pra trabalhar com a polícia.
O problema é a minha outra Individualidade, e eu não vou falar sobre ela ainda. Desculpa, mas vou manter vocês curiosos por mais um tempinho. Enfim, voltando à nossa história…
— Eu não falo muito sobre a minha Individualidade e ela não é exatamente visível, mas fica ligada o tempo todo. Nunca descobri como desativar o detector de mentiras.
— Soa interessante. — Ah, se você soubesse.
— É, acho que é. Só não é muito útil em combate.
— Achei que você não quisesse ser uma heroína.
— Não quero. Mas isso não muda o fato de que esse poder seria inútil se eu quisesse.
Continuamos conversando pelo resto do almoço, e foi assim que eu fiz meu primeiro amigo na U.A. Tudo bem que o Shinsou ainda ficava muito quieto a maior parte do tempo, mas eu falava o suficiente por nós dois. E era bom estar com alguém que entendia como era ver as pessoas terem medo de você por causa da sua Individualidade, mesmo que ele não soubesse a verdade. E também, já que eu não tinha interesse no curso de herói, Shinsou era mais aberto a me ter por perto do que com outras pessoas, que ele via como seus concorrentes.
Ah, e as meninas vieram me pedir desculpas mais tarde naquele dia, dizendo que eu tinha razão. Elas ainda não se sentiam muito confortáveis com ele, mas pelo menos eram educadas e não o excluíam.

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Mais alguns meses se passaram e eu e o Shinsou ficamos bem próximos. A gente almoçava junto todos os dias e ficava na escola depois da aula pelo menos duas vezes por semana pra treinar juntos. E por treinar, eu quero dizer que a gente ia pra uma das partes mais isoladas do campus e eu o deixava usar a Individualidade dele em mim enquanto lutava contra o controle dele, e aí ele tentava mentir pra mim ou não dizer a verdade quando eu tentava forçá-lo a isso.
Eu sabia que Shinsou ia requisitar uma transferência pro curso de herói e tentar usar o Festival Esportivo como impulso, então ele definitivamente precisava treinar. Ele iria competir com os alunos do curso de herói, que treinavam suas Individualidades e outras habilidades diariamente, sem mencionar que uma das turmas já tinha tido uma experiência contra vilões de verdade, então eles já estavam entrando com uma grande vantagem.
— Tem certeza que tudo bem? — Eu virei os olhos.
— Você me pergunta isso todo dia, e todo dia eu te respondo a mesma coisa: se eu não estiver de boa com você usar sua Individualidade em mim, eu vou te dizer. Ou, sei lá, não dizer nada, não te dar o gatilho. — Ergui as sobrancelhas para ele, pondo as mãos no quadril. — Shin-chan, fui eu que me ofereci pra treinar com você. Eu confio em você.
As palavras, como sempre, deixaram um gosto amargo na minha boca. Não porque fosse mentira, embora mentiras tivessem literalmente esse efeito em mim. Eu confiava nele. Mas ainda não tinha juntado a coragem de contar a verdade sobre a minha Individualidade, mesmo que, de todas as pessoas pra quem eu já tinha contado ou considerado contar, ele fosse quem tinha a maior chance de me entender.
Olha, eu sei que to sempre dizendo que eu não falo da minha Individualidade pras pessoas. E não falo, normalmente. Minha família sabe, mas é mais porque eles ficaram sabendo antes de eu aprender que era melhor abafar o assunto - e quando eu digo família, eu quero dizer primos, tias, tios e avós, não só meus pais e meu irmãozinho. E meus amigos mais próximos sabiam também. Agora, eles foram uma escolha, diferente dos meus parentes, mas uma cuidadosamente calculada. Eu guardei segredo até que eles me conhecessem há anos e eu tivesse certeza absoluta de eles não iam fugir correndo ou me odiar.
E ainda assim, aqui estava eu, considerando contar pra um garoto com quem eu tinha feito amizade há menos de seis meses. O tempo era definitivamente o motivo da minha hesitação. Eu não achava que ele teria uma reação negativa, não considerando a Individualidade dele e a reação que as pessoas costumavam ter a ela. Ele provavelmente entenderia melhor que todo mundo. Mas contar pra qualquer pessoa era sempre uma ideia aterrorizante, independente de quão bem eu conhecia a pessoa, ou de qualquer outra circunstância, na verdade.
— Ok, ok. É só que ainda é estranho pra mim que você não se importe com isso. — Shinsou balançou a cabeça. — Você tem que ir embora cedo hoje de novo?
— Não, só na quinta. A minha professora só pode segunda e quinta, e já foi difícil arranjar tempo com ela, então eu to pegando o que eu conseguir. — Eu dei de ombros. — Além disso, eu não sei por quanto tempo ainda vou conseguir continuar com as aulas de dança antes que essa escola ocupe toda a minha agenda, então eu prefiro começar o quanto antes.
Ah sim, já que eu não falei antes: eu faço dança do ventre. Comecei há um ano e eu simplesmente amo. Eu costumava fazer as aulas num estúdio, mas o horário mudou e acabou coincidindo com as minhas aulas na U.A., então eu tive que parar. Agora eu tinha conseguido convencer a minha antiga professora a me dar aulas particulares duas vezes por semana.
— Sentem nos seus lugares, queridos! Tenho um anúncio excitante pra vocês. — Kayama-sensei avisou com a voz afetada ao entrar na sala. Eu desci da mesa do Shinsou e fui pro meu lugar no fundo. — Finalmente estamos anunciando a data do Festival Esportivo!
A Midnight era a professora responsável pela nossa sala, só pra vocês saberem. Eu não tenho ideia de como isso aconteceu, considerando que nós éramos do primeiro ano e não estávamos no curso de heróis, mas eu com certeza não estava reclamando. Ela era um pouco imprópria, claro, mas era incrível, e o jeito dela me fazia sentir menos fora de lugar.
Ela continuou, explicando que o Festival seria em duas semanas, como ia funcionar, como todos nós iríamos participar e, considerando que a sala inteira queria saber isso, que sim, o Festival era uma chance de impressionar o corpo docente e poderia ajudar na requisição de um aluno para ser transferido pro curso de herói. Eu era a única que não estava particularmente interessada nesse fato, mas ficava feliz que meus colegas teriam outra chance. A prova de admissão prática, pelo que Shin-chan tinha me dito, tinha envolvido robôs, o que quase automaticamente excluía muitas Individualidades, como aquelas que não eram úteis em batalha ou só funcionavam em humanos, e essa não me parecia uma prova muito justa.
Obviamente eles todos ficaram bem animados, mas também começaram a sussurrar entre si que a turma a ser derrotada era a 1A. Tinham sido eles no incidente da USJ, os únicos alunos com experiência real contra vilões reais. O que nos leva ao agito incomum ao fim da aula. Ninguém foi em direção à saída, o que me confundiu um tanto. Curiosa (e levemente preocupada, porque o Shin-chan tinha sido um dos primeiros a sair da sala em disparada na direção errada), eu os segui a uma distância segura, parando surpresa ao ver a multidão reunida em um dos corredores e que parecia ser o objetivo deles. Franzi o cenho e olhei pra cima, logo entendendo porque estávamos aqui, o motivo na porta com “1A” pintado. Revirei meus olhos. Sério mesmo? Verificando a competição. Todos esses alunos tinham vindo até aqui pra importunar a turma deles só porque achavam que esses eram os “inimigos”? Me apoiei na parede oposta, fora da multidão - deuses, eu odeio multidões - e cruzei meus braços, esperando pra ver que tipo de desastre ia sair disso.
— Q-que está acontecendo?! — Perguntou uma garota acima do burburinho.
— Que negócio vocês têm com a turma A? — Uma voz masculina soou de dentro da sala. Coitados. Eles realmente não sabiam?
— Não podemos sair! Pra que vocês vieram?
Eu não consegui ouvir o que foi dito a seguir, mas os alunos do curso de herói pararam com as perguntas, então eu assumi que algum deles tinha entendido. Mas aí a multidão também ficou em silêncio, o suficiente pra eu ouvir o que eu imaginava que fosse outro membro da 1A - eu não conseguia ver o que tava acontecendo, muitos dos alunos no caminho eram mais altos que eu.
— Não adianta fazer essas coisas. Saiam da minha frente, extras. — Uau, como nós somos convencidos.
Pelo menos os gritos de ultraje que se seguiram de dentro da sala me faziam pensar que talvez fosse só esse garoto que era um babaca arrogante.
— Vim para ver como a turma A se parece, — ouvi a voz familiar do Shin-chan se sobressaindo, rapidamente encontrando o cabelo dele no meio dos outros alunos (ainda bem que ele era alto desse jeito). Ele tava atravessando a multidão pra chegar na porta e eu cobri o rosto com a mão. Mas é óbvio que ele vai lá arranjar uma briga com eles. Não dá pra tirar os olhos deles por um segundo — mas você parece bem arrogante. Todos os alunos do curso de heróis são assim? Ver algo assim me deixa desiludido. — Shinsou, cala a porra da boca, pelo amor dos deuses, antes que você leve uma surra. — Tem pessoas matriculadas em estudos gerais ou outros cursos porque não passaram no curso de heróis. Sabia disso? A escola deixou uma chance para nós. Dependendo dos resultados desse festival, considerarão nossa transferência para o curso de heróis. E parece que podem transferir um pessoal para fora.
Mentiroso da porra. Ele não sabia isso. A Midnight-sensei não tinha dito nada sobre estudantes sendo expulsos do curso de herói se eles não fossem bem no festival, só que era a nossa chance de impressionar e ser aceito. Mas obviamente a maioria dos outros não sabia que ele tava inventando, julgando pelos murmúrios que começaram imediatamente.
— Vendo o inimigo? Eu, pelo menos, vim dizer que mesmo que estejam no curso de heróis, se ficarem confiantes demais, vou puxar o tapete debaixo dos seus pés. Vim com uma declaração de guerra. — Ai meus deuses, que bicho dramático.
Houve alguns momentos de silêncio tenso, e eu podia praticamente ver a tensão de como os dois provavelmente estavam se encarando na porta. Garotos. Aí houve uma comoção e outra voz surgiu.
— Ei, ei! Sou da turma B ao lado! Soube que enfrentaram vilões, então vim ouvir sobre! Não fiquem tão confiantes! Se latirem tanto, vai ser vergonhoso quando lutarem de verdade! Está me ignorando, maldito?!
Honestamente, por que esses caras eram tão barulhentos? Tipo, vocês querem atenção, eu sei, mas precisa gritar? O Shinsou tava fazendo uma cena, mas pelo menos ele não levantou a voz. A multidão agora tava quieta pra ver a reação da 1A, não tinha nenhuma necessidade de aumentar o volume pra se fazer ouvir.
— Espera aí, Bakugo! O que vai fazer sobre isso? É sua culpa todos nos odiarem! — Veio uma nova voz de dentro da sala. Então Bakugo é o nome do babaca arrogante. Bom saber.
— Não importa. — Bakugo respondeu. — Não importa contanto que chegue ao topo. — Então eu vi a multidão se partir e um loiro com cara de irritação e uma postura de “eu não ligo pra porra nenhuma” e cabelo espetado saiu. Ele até tinha cara de babaca arrogante.
Revirei meus olhos de novo, ignorando as reações à frase dele. Sério? Tudo que importava pra ele era chegar ao topo? Com essa atitude? Um projeto de Endeavor, se eu tivesse que apostar.
Não demorou muito mais pra multidão dispersar depois disso, e Shinsou congelou no lugar quando me viu esperando. Eu só arqueei uma sobrancelha pra ele e esperei que ele me alcançasse antes de começarmos a andar para o nosso cantinho do campus pra treinar.
— Cara, que porra foi aquilo? — Perguntei. — Vim com uma declaração de guerra. Você é o que, um conquistador medieval?
— Se você me ouviu, também ouviu aquele outro cara. Alguém tinha que baixar a bola deles.
— Você lembra que aquela é a sala na qual você ta tentando entrar, né?
— Eu não to aqui pra fazer amigos. — Eu soquei seu braço.
— E eu sou o que, a porra de uma planta? — Franzindo o cenho e massageando o local que eu havia atingido (não foi nem tão forte, ele só tava sendo dramático), ele respondeu:
— Eu nunca escolhi ser seu amigo. Você decidiu que eu precisava de uma amiga e agora eu não tenho como me livrar de você.
Eu o encarei chocada. A audácia da bicha! Eu dei meia volta e comecei a me dirigir para a saída.
— Beleza, treina sozinho então!
, pera aí! — Eu parei, estreitando os olhos pra ele por cima do meu ombro. — Eu não disse que não gosto da sua amizade, eu gosto. Só que não era algo que tava nos meus planos.
— Você tem sorte pra porra que eu consigo saber que você realmente pensa assim. — Revirei meus olhos, voltando a caminhar ao seu lado. — Mas você precisa desesperadamente trabalhar nas suas habilidades interpessoais. Se você for ter chance de ser contratado por uma agência de heróis no futuro, vai ter que aprender a ser simpático.
— Eu sei ser simpático.
— Não com pessoas que acham que são melhores que você. E vai precisar saber quando não é hora de arranjar briga com essa gente.
— Ei, isso… — ele começou a protestar, mas suspirou. — Nisso você provavelmente tem razão.
— Escuta, você tem razão sobre a arrogância deles. Eles não são melhores que ninguém, e pensar que são não é só idiota, mas também provavelmente perigoso. E você tá certíssimo de lutar pelo que quer. Eu quero te ver dar seu melhor no Festival, chegar arrasando e quebrar tudo, porque eu sei que você consegue.
— Eu sinto um “mas” vindo. — Shinsou arqueou uma sobrancelha pra mim e eu dei um sorriso sarcástico.
— Mas depois que você entrar no curso de heróis, a gente vai ter que trabalhar em polir seu discurso.
— Isso vindo da pessoa mais boca suja que eu conheço? — Eu ri, o empurrando de brincadeira com o ombro.
— Hey, eu sei soar como uma “verdadeira dama”! Em três línguas, ainda por cima! Eu só escolho não fazer isso a maior parte do tempo.
— Eu acho que nunca te ouvi soando como uma dama ou sendo mais educada. — Ele sorriu de canto.
— É, pra que eu iria desperdiçar minhas boas maneiras com você?
— Hey! — Ele me empurrou de volta, a voz com um tom falso de ultraje. Nós rimos, continuando com nosso dia como o planejado. Com, é claro, o adicional da zoação por causa do discurso dramático dele.

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As duas semanas depois disso passaram num piscar de olhos e de repente era o dia do Festival Esportivo. A escola inteira estava diferente e havia vários espectadores que tinham vindo assistir os eventos, o que significa que eu estava bem desconfortável. Eu já mencionei o quanto eu odeio multidões? Porque eu realmente odeio. Em qualquer ano normal, essa multidão estaria se aglomerando na arena do terceiro ano, pra assistir os alunos prestes a se formar, mas não esse ano. Não, claro que no meu primeiro ano nessa escola ia ter um ataque de vilões a uma turma da minha série e todos iam querer assisti-los - e por consequência, nós. Ugh.
Cada turma tinha sua própria sala de espera onde devíamos ficar até o evento começar, e a atmosfera da turma C tava tensa. Todo mundo menos eu estava sob bastante pressão pra impressionar, ir bem e conseguir uma chance de ser transferido, ou pelo menos de chamar a atenção de alguma agência e ficar no radar deles apesar de não estar no curso de heróis.
— Ei, . — Abri meus olhos, encontrando Shinsou me encarando. Eu tinha sentado num cantinho da sala e ficado estranhamente quieta desde que tinha chegado, algo que fez meus colegas me olharem, embora eu só estivesse notando agora que ele tinha vindo falar comigo. — Você tá bem? Ta com cara de que vai passar mal.
— Só me sentindo um pouco fora do ar. Mas não se preocupa comigo, não é nada demais. Se concentra em arrasar hoje, tá? — Ele me analisou com cuidado por mais alguns instantes antes de assentir. Foquei em manter minha respiração estável, apertando o pingente do meu colar. Não muito depois disso, fomos chamados pra entrar na arena junto com as outras turmas. — Boa sorte, gente! — Sorri para meus colegas.
A primeira sala a entrar foi a 1A, depois a 1B. Ai, ao mesmo tempo, as três turmas de estudos gerais foram chamadas. Eu apertei os olhos por conta da luz forte do sol após esperar no corredor relativamente escuro e respirei fundo várias vezes. O lugar era enorme, e tinha milhares de pessoas assistindo. E eu não tinha onde me esconder. Só chega no primeiro evento e deixa quem quer passar pra frente e avançar na competição. Aí você pode ir embora. As três turmas de auxílio foram chamadas depois de nós, e por último as de negócios, colocando todos os 11 primeiros anos no meio do estádio.
— Só estamos aqui pra fazer aqueles caras parecerem mais legais, não é? — Eu ouvi um dos meninos dizer em um tom derrotado.
— É por aí…
Franzi o cenho, mas não disse nada. Eles com certeza não iam muito longe pensando que já estavam fora da competição antes mesmo de ela começar. Todos nos reunimos numa área no meio em frente a um pequeno palco onde estava Kayama-sensei.
— Hora do juramento do jogador! — Ao vê-la, houve um burburinho imediato, tanto entre os alunos quanto no público. — Quietos, pessoal! O representante dos estudantes, da turma 1A, será Bakugo Katsuki!
— Quê?
— Huh?
— Quê? O Kacchan?
— Aquele cara foi o que terminou em primeiro o exame de admissão.
— No curso de herói.
— C-certo.
— Claramente eles nos odeiam. — Eu ouvi um dos meninos da 1A sussurrar.
— E por culpa do Bakugo.
— Aquele não é o cara arrogante? — Eu sussurrei pro Shin-chan, que assentiu enquanto os outros alunos ficavam em silêncio.
Observei enquanto o garoto de cabelo espetado andava até o microfone. Houve um silêncio tenso enquanto todos esperavam pra ver o que ele ia dizer. Eu devia ter previsto o desastre que se seguiu:
— Eu juro… que serei o número 1.
Os alunos ao meu redor explodiram em reclamações e gritos de ultraje, e eu me encolhi, fechando os olhos. Respira fundo, respira fundo. Eu só os abri novamente quando as vozes sumiram pra dar lugar à Midnight-sensei.
— Bem, agora vamos começar. — Eu não posso dizer que prestei muita atenção ao que ela disse, pra ser honesta, até ouvir a palavra “corrida”. Uma corrida de obstáculos? Perfeito, eu podia só deixar todo mundo correr na frente e calmamente esperar no fundo até acabar. — Agora, em suas posições!
— Vai mostrar pra eles quem você é, Shin-chan! — Falei sorrindo e ele me ofereceu um sorriso minúsculo como reposta.
— Te vejo no final.
Deixei o máximo possível de pessoas passarem na minha frente em direção à porta que nos separava da pista ao redor do estádio. Ficamos todos em um silêncio tenso enquanto as luzes verdes acima da porta se apagavam uma a uma.
— Começar!
O Festival Esportivo tinha começado.


2. O Festival Esportivo

No segundo que a porta abriu, todo mundo correu pro corredor, o que foi uma ideia realmente idiota. Era um espaço estreito e quase 200 pessoas tentando passar ao mesmo tempo, o que obviamente só serviu pra deixar todos eles presos, se empurrando e sem conseguir chegar do outro lado. Eu assisti do fundo, suspirando e balançando a cabeça.
Fazia sentido a escola fazer isso, o percurso inteiro tinha sido projetado com obstáculos, desde o comecinho. Seria necessário ter estratégia pra sair rápido dali e passar na frente de boa parte dos alunos.
— Huh? — Eu senti um arrepio quando um vento congelante veio do corredor, quase imediatamente seguido por uma camada de gelo cobrindo tanto o chão quanto boa parte da parede, e efetivamente prendendo todos que tinham entrado com gelo até os joelhos também. Me abracei pra me aquecer. — Essa é a Individualidade de alguém? Caralho.
Ficando na ponta dos pés, eu pude ver que ainda havia movimento na outra ponta, então algumas pessoas tinham conseguido escapar. Avistei o cabelo do Shin-chan acima da altura normal e assumi que ele tinha conseguido fazer outras pessoas o carregarem pra fora da confusão. Bom pra ele. Após alguns minutos, notei o corredor vazio o bastante pra que eu passasse, e me preparei mentalmente pra isso. Tenho quase certeza que vão achar um jeito de chutar a gente pro percurso se a gente não entrar voluntariamente.
— Okay, aqui vamos nós. — Respirei fundo, agarrando meu colar outra vez e andando em direção ao corredor.
Me movi com cuidado, agradecendo aos deuses que meus coturnos me impediam de escorregar no gelo. Meu progresso era lento e cada passo cuidadosamente calculado pra evitar tocar em algum dos meus colegas extremamente irritados e frustrados.
— Ow, -san! Achei que você não queria participar! — Chamou um dos meninos da minha sala (Eu sou horrível pra lembrar nomes, caso você não tenha notado), conforme eu passei por ele. Eu escapei por um triz da mão dele tentando agarrar meu braço, me encolhendo.
— Não quero, mas também não vou ficar esperando na arena com milhares de pessoas me encarando. Vou ficar no fim desse túnel até gente o suficiente terminar a corrida pra eu voltar por aqui.
Vi várias pessoas ao redor se virarem pra me encarar com desconfiança, e ele não pareceu acreditar, mas eu só continuei avançando, meu coração apertado de tensão e meus olhos coçando. Não importava, porque eu pretendia fazer exatamente o que tinha dito.
Meus ombros relaxaram e eu soltei meu pingente assim que senti o sol no meu rosto outra vez, feliz de estar em um espaço aberto. Continuei, apenas pra colocar um pouco de distância entre mim e a multidão, mas parei de novo ao ver o resto dos estudantes reunidos um pouco mais pra frente. Ugh, qual é, continuem andando pra eu poder esperar em paz até vocês terminarem essa droga!
— Cara, aquilo são robôs?! — Ouvi alguém perguntando em um tom levemente apavorado.
Robôs? Ah, que perfeito. Mesmo longe como eu estava, ao olhar pra cima, podia ver as figuras com “olhos” vermelhos se agigantando e bloqueando a passagem. Engoli em seco. Foram esses que colocaram no exame de admissão? Se sim, eu definitivamente entendia porque tanta gente nem tentava. Bom, essa era a melhor escola de heróis do país, acho que fazia sentido eles elevarem tanto o nível.
E aí eu assisti embasbacada o maior robô ser engolido por gelo de repente. E os que estavam mais perto dele também. Me perguntei de quem seria aquela Individualidade. Alguém no curso de heróis, óbvio, mas era ridiculamente poderoso pra alguém no primeiro ano. Provavelmente era um aluno de recomendação. Os robôs ficaram parados por alguns segundos antes de começarem a cair todos ao mesmo tempo na direção de onde os outros alunos tinham se reunido. Me encolhi, torcendo pra que ninguém se machucasse — sim, eu sabia que a Recovery Girl estava de plantão caso isso acontecesse, mas eu preferiria que os serviços dela fossem desnecessários. Pro meu alívio, parecia que não haviam vítimas, mas mais robôs apareceram pra manter o caminho bloqueado.
— Boa sorte pra passar por aquilo — murmurei quando o mesmo garoto de antes finalmente passou por mim, me apoiando na cerca que havia ao redor do percurso e cruzando meus braços.
— Pensei que você tinha dito que ia ficar na saída do túnel.
— Quis me afastar do gelo. — Bom, não era exatamente mentira, mas também não era exatamente a verdade. — Provavelmente vou voltar depois de dar algum tempo pra ele derreter. — Ele não pareceu se importar, continuando um pouco e parando com os outros ao notar os “obstáculos”.
— Cara...
Vários outros robôs foram lentamente derrotados conforme eu assisti alunos (que eu apostaria serem todos do curso de heróis) explodindo, passando por cima ou desativando eles de algum jeito, deixando os outros pra trás.
A cada robô destruído, a confiança dos alunos crescia, e eu os assisti trabalharem juntos pra liberar o caminho, até alguém, de algum jeito, aparecer com uma porra de um canhão e atirar em várias das máquinas.
— Da onde caralhos tiraram aquilo?
Pelo menos isso deu aos meus colegas uma janela grande o bastante para seguirem em frente antes que mais robôs aparecessem. Feliz que todos tinham finalmente ido embora, me virei para esperar de volta no túnel, apenas para encontrar a porta fechada.
— Ah, que maravilha. — Eu não tinha intenção de ficar pra trás esperando por mais robôs, então segui os outros derrotada, mantendo o máximo de distância que consegui.
O percurso se afunilava de novo depois das máquinas destruídas, então imaginei que espaço aberto equivalia a obstáculos conforme andava devagar. Não demorou muito pra que eu avistasse os outros alunos de novo, mas não parecia ter nenhuma batalha rolando dessa vez - graças aos deuses. Mas tinha um… cânion? Não sei como chamar aquilo, mas tinha um buraco grande pra porra no chão entre onde estávamos e o resto do caminho. Pude ver algumas pessoas atravessando no que pareciam ser cordas bambas que conectavam várias plataformas de pedra espalhadas pelo buraco, ou usando suas Individualidades e equipamentos de suporte pra pular ou passar voando. Gemi.
— Por queeê?! Ugh, isso não tava nos planos!
Pelo menos a maioria das pessoas já estava do outro lado ou na metade do caminho quando eu cheguei lá, então o obstáculo não diminuiu tanto a distância entre nós. Olhei pra trás, me perguntando se poderia só ficar aqui até acabar. Será que a escola mandaria alguém pra buscar os alunos que ficassem pra trás? Porque, sinceramente, eu não estava com a menor vontade de voltar pros robôs e tentar minha sorte com a entrada. Observei com cuidado, procurando por um jeito alternativo de atravessar, e me resignei à ideia de que não havia nenhum. Eu não tinha equilíbrio o bastante pra tentar andar nas cordas bambas ou força pra me pendurar nelas, e as plataformas eram propositalmente afastadas demais pra pular.
Ouvi explosões ao longe e soltei um riso sarcástico, dando meia volta.
— É isso, eu vou voltar. Não devia nem ter entrado aqui, pra começo de conversa.
Por sorte, não encontrei mais nenhum robô na volta, e mesmo que a porta estivesse fechada, havia outra igual não muito longe que tinha sido aberta, por onde as pessoas que terminavam o percurso estavam voltando pra arena. Tinha uma cerca entre eu e eles, e esperei pacientemente até que todos tivessem passado pra pular elegantemente sobre ela.
E com “elegantemente” eu quis dizer que foi um desastre e eu quase caí de cara no chão. Mas ainda foi melhor que se eu tivesse tentado as cordas bambas, porque assim pelo menos a única coisa que se feriu foi o meu orgulho. E na real não tinha ninguém vendo, então as únicas pessoas que sabem quão ridículo foi somos eu e você.
Todos os outros alunos estavam reunidos mais uma vez no centro da arena, do mesmo jeito que estávamos antes da corrida. Me apressei para encontrar Shin-chan e fui até ele, fazendo careta por estar de volta no meio da multidão.
— Hey! Como você foi?
— Melhor que algumas pessoas do curso de heróis, mas ainda não sei quantos vão passar pra próxima rodada. — Ele deu uma pausa e estreitou os olhos pra mim. — Como você passou pelo The Fall?
— Não passei. Dei meia volta e vim pela entrada depois que todo mundo passou. — Soltou uma risada e eu dei de ombros.
— O primeiro jogo do palco do primeiro ano finalmente acabou. — Anunciou Kayama-sensei quando todos nos reunimos mais uma vez em frente a seu palco. — Agora, vejam os resultados! — O mesmo telão de antes reapareceu atrás dela, dessa vez com todos os nossos nomes e colocações. Shinsou tinha ficado em 27º. — Os 42 melhores passaram para a próxima rodada.
—Você conseguiu! — Exclamei, recebendo olhares irritados das pessoas ao nosso redor. — Desculpa — murmurei, mas pude ver o pequeno sorriso de orgulho do meu amigo.
— É infeliz, mas não se preocupe mesmo se não passou! Preparamos outras chances para que brilhem. — Midnight-sensei lambeu os lábios, nos direcionando olhos semicerrados. — A verdadeira competição começa agora! A cavalaria da imprensa estará em cima! Deem seu melhor! — Ela ergueu o chicote e a tela do sorteio de provas reapareceu. — Agora, hora do segundo jogo. Eu já sei o que é, mas o que seria? O que poderia ser? — Baixou a máscara e apontou. — Eu acabei de dizer, e aqui está!
As palavras “Cavalry Battle” nos encaravam. Franzi o cenho, ouvindo alguns outros alunos comentando ao nosso redor, uma garota na frente dando voz à pergunta que estava na minha mente:
— Não é um evento individual, como vai funcionar?
— Me permitam explicar. — A imagem mudou pra uma foto da Thirteen e do Present Mic carregando o All Might nos ombros. — Os participantes podem formar times de duas a quatro pessoas, como quiserem. Basicamente as mesmas regras de uma batalha comum, mas a coisa diferente é… baseado nos resultados do último jogo, cada pessoa tem um valor em pontos.
— Um sistema baseado em pontos como no exame de admissão, é? Fácil de entender.
— Em outras palavras, cada time tem um valor diferente de pontos, dependendo dos integrantes! — Disse outra menina perto do palco. Kayama-sensei estalou seu chicote no palco em direção a ela, parecendo brava.
— Vocês não se seguram nem pra falar, né?! Isso mesmo! E os pontos designados sobem em cinco, começando do final. — A tela mudou de volta para a lista das colocações, agora com os pontos ao lado de cada nome. — Então o número 42 vale 5 pontos, e o 41, 10! E o valor em pontos para o primeiro lugar é… dez milhões!
Um silêncio de choque se seguiu ao anúncio. Dez milhões era mais que todos os outros pontos juntos, o que significava que, independente da sua colocação na corrida, agora você teria a chance de chegar ao primeiro lugar. Eu vi o sorrisinho do Shinsou quando ele se virou pra um menino de cabelo verde que eu chutava ser da 1A. Bom, ele e todo mundo, na verdade, então eu diria que esse devia ser Midoriya Izuku, o cara dos dez milhões de pontos. O coitado parecia apavorado, percebendo, assim como o resto de nós, que ele seria o principal alvo de todo mundo.
— Isso. É uma batalha de sobrevivência, com a chance dos piores tomarem o topo! Aqueles no topo irão sofrer mais. Vocês ouvirão isso muitas vezes enquanto estiverem na U.A. É isso que “Plus Ultra” significa! — Ela continuou falando, mas eu não estava mais ouvindo de verdade. Quanto mais ficava ali, pior eu me sentia. Respirei fundo várias vezes, me confortando com a ideia de que iria embora logo. — Agora vocês tem quinze minutos para formar os seus times. Comecem!
— Boa sorte, Shin-chan! — Forcei um sorriso pra ele e o que ele me devolveu estava a um passo de uma expressão maligna.
— Agora aqueles de vocês que não vão participar da Batalha da Cavalaria me sigam. — Disse Power Loader, apontando pra uma porta muito parecida com a da corrida.
Só que ele não nos levou pra fora da arena, mas pras arquibancadas, numa área reservada pros alunos. Eu tinha que sair dali, mas ele fechou a porta assim que todos passamos por ela.
— Não, espera! — Pedi, mas não obtive resposta, e soltei um suspiro derrotado, me sentando nos degraus mais perto da porta. Tentei me isolar do que acontecia ao meu redor, incapaz de dizer quanto tempo havia se passado. Imaginei que a batalha estava começando, porque os gritos da multidão aumentaram, mas não verifiquei.
Eu conseguia sentir os alunos que não me conheciam me encarando, mas não conseguia me importar. Eles iam me achar estranha mesmo se me conhecessem de qualquer jeito. Pisquei para segurar lágrimas de pânico. Não era que eu não quisesse assistir o Shin-chan ou o jogo, mas ficar na arena com todas aquelas pessoas era demais pra mim. Fechei meus olhos, agarrando meu pingente e respirando fundo, as vozes ao meu redor todas se misturando. Pensei ter ouvido alguém chamar meu nome, mas não tinha certeza.
Apoiei a testa nos joelhos, tentando desesperadamente manter a respiração estável e manter o controle, com lágrimas teimosas descendo pelas minhas bochechas conforme eu me sentia começar a hiperventilar.
— Muito… muito. — Solucei entredentes, tremendo.
— …-san? -san?
— Ela é da sua sala? O que que ela tem?
— Eu sei tanto quanto você. -san? O que fo...
Me encolhi para longe, balançando a cabeça furiosamente e mal conseguindo desviar da mão vindo em direção ao meu braço.
— P-por f-favor não enc-costa em m-mim! — Exclamei num tom esganiçado, com soluços quebrando minhas palavras, e quem quer que fosse se afastou. — Eu t-te… Eu tenho q-que sair daqui.
— A gente devia chamar a Recovery Girl.
— Ela tava mesmo parecendo mal antes da corrida. — As vozes começaram a soar distantes e eu senti minha cabeça rodar de um jeito muito desagradável e familiar. E aí tudo ficou escuro.

###

Quando acordei de volta, eu estava deitada em algum lugar e a pressão no meu peito que fazia ser difícil respirar tinha abrandado.
— Ugh! Eu tinha esquecido quão bosta era isso — murmurei baixinho antes de levar uma mão à testa. Pisquei algumas vezes, as luzes fortes demais.
— Bom, você acordou — disse Recovery Girl. Piscando mais algumas vezes, conseguir focar nela. Eu estava na sua sala, e ela estava sentada em uma escrivaninha com três telas, onde eu podia ver as três arenas. — Eu medi sua pressão e sua glicemia, mas estavam normais, então imaginei que você só precisasse de um tempo. — Virou os olhos pra mim por um instante. — Eu também dei uma olhada na sua ficha quando você chegou. Pode ficar aqui se quiser, mas vou precisar que libere a cama caso algum deles venha parar aqui. — Ela apontou pra tela. — Vão estar piores que você.
— O-obrigada. Você, hum… você olhou minha ficha?
— Entendo porque está perguntando. Você não devia se preocupar com isso, não aqui, mas como eu sou médica, não vou falar pra ninguém, a não ser que seja necessário.
Soltei o ar, trêmula, e deixei minha cabeça cair de volta no travesseiro.
— Obrigada.
— Tá, tá. — A senhora balançou a mão por cima do ombro, sua atenção voltando às telas. — Acredite, o curso de heróis está lá fora, sua Individualidade é o menor dos meus problemas.
Senti uma risada borbulhar na garganta. Ela soava tão cansada deles, e era uma sensação boa saber que eu estava segura.
— Como tá indo o primeiro ano? O segundo jogo já acabou?
— Acabou de acabar. Você não ficou desacordada tanto tempo. — Suspirei. Shin-chan teria que me perdoar por não assistir e torcer por ele. Deixei meus olhos se fecharem, respirando fundo e devagar pra me centrar de novo.
Quando senti que estava estável, me sentei e olhei por cima do ombro da Recovery Girl pra ver se tinha alguma informação sobre o primeiro ano. Estavam reprisando os melhores momentos do evento, as pontuações finais em uma tabela no canto da tela. Não consegui evitar o sorriso que repuxou meus lábios ao ver “Time Shinsou” em terceiro lugar, mesmo que ele não estivesse em nenhuma das cenas que apareciam. Ele tinha passado pra próxima fase e, julgando pela sua ausência, a Individualidade dele ainda era um mistério pros outros, qualquer que fosse o próximo jogo.
— Eles não vão anunciar o próximo jogo?
— Seu ano tá no intervalo pro almoço. Os outros estão só terminando pra fazer o mesmo. O último jogo vai ser depois.
— Hum. Acho que faz sentido. — Parei, mordendo o lábio. — Hey, hum… posso… posso ficar aqui por enquanto? Meu amigo passou pra próxima fase e eu quero ir assistir ele, mas se eu ficar lá fora até começar…
Ela me deu um olhar repreendedor.
— Você quer voltar pra arena? Logo depois de desmaiar?
— O Shinsou precisa do meu apoio. E eu não vou ficar lá por tempo o suficiente pra desmaiar de novo, desde que ninguém me prenda lá. — Ela não parecia muito convencida. — Eu juro que sei o que to fazendo. Eu conheço os meus limites. Eu tava justamente tentando sair antes da situação sair do controle.
— Tanto faz. Você não teve nada que eu pudesse curar, então a escolha é sua.
— Obrigada. — A idosa balançou sua mão novamente e se voltou para as telas.
Usei o tempo livre para descansar. Mandei mensagem para os meus pais e troquei o uniforme por roupas normais. Quando acabou o intervalo pro almoço, foi feito o anúncio de que haveriam batalhas individuais dos dezesseis alunos que passaram, em formato de torneio que levaria a uma última batalha para definir o vencedor. Shin-chan ia lutar a primeira batalha contra o garoto dos dez milhões de pontos, Midoriya Izuku, mas haveriam alguns jogos para recreação primeiro.
Eu podia ver que era essencialmente a única primeiranista que não estava na arena naquela hora, mas não achei que teria problemas. Decidindo que a cantina devia estar mais vazia e que ainda tinha algum tempo antes do próximo evento, fui comer alguma coisa antes de assistir o Shinsou.
Cheguei de volta na arena bem a tempo de ouvir o Present Mic anunciando os jogadores.
— Vai Shin-chan! — Gritei e ele se virou de leve pra ver que eu estava lá. Acenei e ele focou em seu oponente outra vez. Eles teriam que fazer o outro sair da área delimitada, imobilizar ou fazer o oponente dizer “eu desisto” para ganhar, o que soava bem simples.
Eles estavam muito longe pra eu ouvir qualquer coisa, mas pude ver Shin-chan começar a falar antes mesmo do Present Mic sequer anunciar o início da partida. Ele estava com aquele olhar cruel. Eu não gostava da técnica dele pra fazer as pessoas responderem, mas quando o outro garoto deu dois passos em sua direção, puto, e congelou, eu tive que admitir que era eficiente.
— E o que você tá pensando em fazer no Festival? Eu sei que a gente tem treinado a sua lavagem cerebral, mas você ainda precisa do gatilho. — Falei conforme saíamos da escola uma tarde.
— Você não vai gostar. — Estreitei meus olhos.
— O que é?
— As pessoas normalmente não ficam quietas quando você começa a ser ofensivo. Eu só tenho que descobrir o que vai fazer cada um me responder mais rápido.
— Você tem razão, eu odiei. Achei que a ideia era calar a boca de quem acha que você é um projeto de vilão.
— Bom, eu preciso fazer as pessoas me responderem de algum jeito, né? Eu não to dizendo que gosto, só to dizendo que funciona. — Suspirei, arrumando o cabelo.
— É bom que funcione.
O resto dos expectadores estavam chocados. Cabelo Verde lutou até o último suspiro nas duas primeiras provas, e agora ele tinha congelado nos primeiros segundos das finais? Pra qualquer um que não soubesse da Individualidade do Shin-chan, realmente não fazia sentido. Eu só torcia pra que as outras batalhas fossem fáceis como essa parecia estar sendo. O oponente se virou e começou a caminhar pra fora do ringue.
Assisti na ponta da cadeira de nervoso. Eu nunca tinha conseguido me libertar da lavagem cerebral dele, mas ainda assim. E se esse cara conseguisse? Eu não fazia ideia de qual era a Individualidade dele. Aizawa-sensei tinha acabado de explicar a Individualidade do Shinsou, e comentado sobre os históricos dele e do Midoriya nos testes físicos da escola, então o elemento surpresa já era.
Aí, bem na hora que eu estava relaxando, houve uma pequena explosão de vento e poeira ao redor do Midoriya e ele parou.
— Não! — Exclamei, minha voz sendo engolida pela multidão conforme eles comemoravam. Como caralhos ele fez aquilo?!
Shinsou também parecia chocado. Enquanto Cabelo Verde começou a correr na sua direção, eu o vi começar a falar de novo, tentando recuperar o controle, mas não recebeu resposta. Ele devia ter descoberto como o Shin-chan ativava a Individualidade.
Eu ainda não conseguia identificar as palavras exatas, mas escutei algo similar a “nasceu com a Individualidade ideal” e “atingir objetivo”, a expressão de dor do meu amigo visível mesmo de onde eu estava. Ele sabia que tinha perdido.
— Não, não, não, não. — Meus olhos se encheram de lágrimas, meu coração se apertando. Ele tinha se esforçado tanto!
Midoriya o empurrou quase até a borda antes que Shinsou reagisse. Eles trocaram alguns socos, mas então Cabelo Verde jogou Shin-chan pra fora do ringue.
Ele ficou só deitado ali enquanto Midnight-sensei anunciava o vencedor e a multidão comemorava ao meu redor. Corri, querendo alcançar Shinsou ainda na porta, enquanto eles se levantavam e voltavam para o meio da arena pra se cumprimentar, porque eu sabia quão mal Shinsou estava por ter perdido. Cheguei quase ao mesmo tempo que ele, a apenas alguns passos de distância. Nossos olhos se encontraram e ele parecia que toda a esperança tinha sido removida dele. E aí um dos nossos colegas de sala se fez ouvir acima de nós:
— Você foi super legal, Shinsou!
Meu amigo olhou pra cima surpreso, e outras vozes se ergueram.
— Bom trabalho!
— Fiquei surpreso!
— Você é a estrela dos estudos gerais!
— Você enfrentou o cara que ficou em primeiro na corrida de obstáculos!
— Além disso…
— Aquela Individualidade seria boa contra vilões. Queria ter ela. — Soou uma voz profunda. Aquele era um herói profissional?
— A U.A. não é muito esperta se ele tá na turma de estudos gerais.
Sorri. Finalmente outras pessoas estavam percebendo o que eu sempre soube.
— Ouviu isso, Shinsou? Você é incrível!
Ele deu um pequeno sorriso também, seus olhos voltando para os meus.
— Dependendo dos resultados, eles vão considerar nossa transferência pro curso de heróis. Lembre-se disso. Mesmo que não funcione agora, eu com certeza não vou desistir. — Shin-chan estava falando com Midoriya, não comigo, mas eu lhe dirigi um sorriso orgulhoso mesmo assim. — Eu vou entrar no curso de heróis, conseguir minha licença e virar um herói muito melhor que você!
— Esse é o espírito — murmurei. Então vi os olhos do Midoriya ficaram vazios de novo e virei os meus.
— Mas as pessoas normalmente tomam mais cuidado quando falam comigo. — Ergui uma sobrancelha, cruzando os braços, e Shin-chan piscou, se virando pra olhar pro Midoriya. — Nesse ritmo, alguém vai te atropelar logo. Pelo menos — ele o liberou — não perca feio.
Midoriya murmurou em resposta de novo e Shinsou o capturou mais uma vez, só pela zoeira. Virei meus olhos, entrando na arena pra puxar meu amigo pra fora.
— Ah para com isso, ele já aprendeu a lição. — Ele riu de leve e liberou o coitado. — E você, — eu disse, recebendo um olhar que era ao mesmo tempo confuso e meio em pânico — Boa sorte no resto do Festival. — Ele assentiu conforme nos afastávamos.
Paramos no corredor e Shinsou suspirou.
— Só espero que tenha sido o suficiente.
— Hey. Eu to orgulhosa de você. Muito. A gente nem sabia que era possível se libertar da sua lavagem cerebral, e você teria ganhado se ele não tivesse. Você avançou mais que vários alunos do curso de heróis. Eles seriam burros de não considerar seriamente a sua transferência. — O empurrei de leve com meu ombro. — Mesmo que eu vá sentir sua falta na aula.
— Você realmente acha que eles vão considerar, mesmo com a minha Individualidade? — Eu podia praticamente ver toda a dúvida e falta de confiança engolindo-o, mas assenti. Eu realmente acreditava no que tinha dito. — Obrigado. — Ele parou por um momento e franziu o cenho pra mim. — Onde você tava antes, aliás? Você desapareceu depois da Corrida de Obstáculos.
— É, sobre isso… — Cocei a nuca e Shin-chan ergueu uma sobrancelha. — Eu desmaiei logo antes da Batalha de Cavalaria e fiquei com a Recovery Girl até começar a sua luta. — Balbuciei.
— Então quê que você ainda tá fazendo aqui? E por que você disse que tava bem quando eu perguntei se tava doente de manhã?
— Porque eu não to doente e tá tudo sob controle, porra. Mas eu realmente preciso ir embora. —Suspirei, me apoiando na parede. — Eu vou pra Baachan*. Vem comigo?
— Você não devia ir pra casa? Não me parece que, o que quer que isso seja, esteja sob controle, se você desmaiou.
— Acredite, eu sei exatamente o que é e tá tudo certo. Se você… se você quiser ficar e assistir o resto do Festival, tudo bem, mas por favor vem me encontrar depois. Tem uma coisa que eu realmente preciso te contar. — Ele estreitou os olhos.

— Não é tão urgente que precise ser agora. Não esquenta, tá? É só uma coisa que eu preciso dizer pra você. Só me liga quando você tiver saindo.
— Tá. — Ele respondeu após um segundo.
Fomos cada um pra um lado então, e um cara passou por mim na direção da arena. Não consegui não olhar. O cabelo dele era dividido bem no meio, metade vermelho e metade branco, e tinha uma cicatriz antiga feia cobrindo o lado esquerdo do rosto dele, mas ele era muito bonito. Ele mal me notou, com a expressão dele em algum ponto entre completamente neutra e puta - não, eu não sei como explicar melhor que isso. Imaginei que ele fosse participar da próxima luta.
Dando de ombros, saí da escola o mais rápido que eu pude e segui para a casa de chá que tinha se tornado quase minha segunda casa. Não era exatamente perto, mas dava pra andar até lá da U.A. numa boa, assim como da minha casa, e a senhora que era dona do lugar tinha praticamente me adotado como neta com a frequência que eu ia lá desde que tinha descoberto o lugar, alguns anos antes. Eu estava torcendo pra conseguir assistir o resto do Festival a uma distância segura na TV dela e depois falar com o Shinsou.
Tinha só uma mesa ocupada quando eu cheguei, e logo eu estava confortavelmente sentada e assistindo às partidas. Eu tinha perdido algumas - meu, essa galera era rápida! - mas ainda tinha conseguido pegar a última da primeira rodada. Era o Loiro Arrogante contra uma garota de aparência adorável. Assisti da ponta da cadeira a partida toda, torcendo por ela, mas ele ganhou no final, decepcionando todo mundo. Foi uma luta brutal que só acabou porque ela passou tanto dos próprios limites que ficou fora de combate. Apesar de tudo, ele ganhou uma quantidade mísera do meu respeito, porque ele não pegou leve com ela só por ela ser uma garota, mesmo que muitas das pessoas na arquibancada tenham vaiado ele por quão pesado ele estava pegando - e foram imediatamente cortados pelo Aizawa-sensei, porque ele era um professor incrível que jamais deixaria alguém dizer que as alunas dele eram mais fracas.
Houve uma pequena pausa antes da próxima rodada, e a primeira partida seria do menino que ganhou do Shin-chan. Eu estava ansiosa, porque ele ainda não tinha mostrado a Individualidade dele. Aquela pequena explosão que ele causou que o libertou da lavagem cerebral tinha algo a ver com ela, mas ainda era muito difícil saber qual era o poder dele.
Mas seu oponente entrou primeiro, e eu o reconheci do corredor. Era o garoto que tinha passado por mim. Os nomes deles apareceram na tela: Todoroki Shoto and Midoriya Izuku.
No segundo que a partida começou, uma imensa parede de gelo cresceu da perna do Meio a Meio na direção do Midoriya.
— Então você é o Cara de Gelo! — Murmurei pra mim mesma, bebericando meu chá. — Quem é você? — Procurei o nome dele no google e franzi o cenho para a informação mostrada ali. Filho do Endeavor, entrou na U.A. como aluno de recomendação. — Vamos só torcer que você não tenha puxado o seu pai.
Meu queixo caiu quando o gelo se estilhaçou quase imediatamente, as mãos do Midoriya apontando pro Todoroki.
— O que caralhos tá rolando com essa galera do curso de heróis?!
Eles repetiram essa dança algumas vezes antes de correr na direção um do outro. Era meio difícil de ver através de todo o vento e gelo, e eles eram rápidos. Mas quando eles pararam por alguns segundos, eu pude ver um dos braços do Cabelo Verde pendurado mole ao seu lado, claramente machucado, e não podia ter certeza por causa da distância da câmera, mas parecia que uma geada tinha coberto várias partes da pele do lado direito do Todoroki. Estreitei os olhos.
Eles não eram só mais fortes ou mais rápidos. Eles estavam dispostos a ir além de qualquer semelhança de um limite, até mesmo se machucando seriamente. Ah, mas com certeza tinha algo além de uma competição escolar rolando nessa partida.
Depois de conversarem por alguns instantes, eles fizeram o negócio da parede de gelo de novo, e Todoroki quase foi empurrado pra fora do ringue com a força do golpe. A determinação do Midoriya parecia ter duplicado, julgando pela expressão dele, e eles conversaram mais um pouco - ou melhor, discutiram. Todoroki correu na direção dele, mas tomou um soco no estômago e congelou o braço do Midoriya.
— Mas que porra tem de errado com esses dois? — Me perguntei. E os professores também não estavam parando-os. Não tinha como o Midoriya não estar sentindo uma dor excruciante àquela altura, mas ele continuava como se não fosse nada.
Eu não precisava ouvir o que eles estavam dizendo ou mesmo ver os rostos deles. Ambos tinham questões sérias que estavam descontando um no outro por algum motivo, questões que pareciam muito profundas pra realmente ter algo a ver com a partida deles. Eu estava com certeza curiosa, mas mais que isso, estava preocupada. Isso parecia o tipo de merda com a qual eles deviam estar lidando na terapia, não numa competição escolar.
— Puta merda! — Exclamei, quase engasgando com o meu chá quando, em vez de gelo, Meio a Meio foi envolvido por uma parede de fogo. — Ele tem duas Individualidades?!
As chamas pareciam estar vindo do seu lado esquerdo, enquanto o gelo brotava do direito. Por que ele não tinha usado o fogo até agora? Então a câmera se virou para as arquibancadas por um minuto, onde um Endeavor muito feliz estava descendo pra se aproximar da arena. Hum, talvez seja por isso.
— Olha só pra todos esses daddy issues… — murmurei pra mim mesma, certa da minha conclusão mesmo que eu não conhecesse Todoroki Shoto.
Quando eles lançaram ataques um contra o outro, paredes de cimento apareceram entre eles e foram imediatamente explodidas. Eu só fiquei piscando em choque com a força da explosão até a poeira assentar o suficiente pra alguém ver alguma coisa e a Midnight-sensei anunciar que o Midoriya tava fora do ringue. Todoroki tinha vencido.
Cai de volta contra o encosto da minha cadeira.
— Mas eu to tão feliz que fui embora antes dessa.
Então peguei meu telefone e mandei uma mensagem para o Shinsou.
WHATSAPP
Shin-chan
online

Cara, vc podia ter morrido se o Midoriya tivesse usado a Individualidade dele em vc!

É, eu meio q notei.

Vc ta assistindo pela TV?

Yep

Sério, q porra ta rolando com essa turma?!

Sei lá, mas eu to quase feliz de não ter descoberto em primeira mão.

Vai me dizer sobre o q é essa coisa importante q vc tem pra me falar?

Nope

Esse é um tipo de conversa pra se ter pessoalmente.

Ok, te encontro na casa de chá quando acabar o Festival.

As próximas batalhas foram muito rápidas e nem de longe tão brutais quanto as últimas, mesmo as semi-finais. A final foi entre o Loiro Arrogante e o Cara de Gelo - que se recusou a usar suas chamas de novo e perdeu. Eu não prestei muita atenção na cerimônia de premiação, ficando nervosa pela minha conversa com o Shin-chan. Não muito depois, ele passou pela porta e acenei pra ele.
— Hey.
— Oi. — Respirei fundo conforme ele se sentou à minha frente, me preparando.
— Então, o que foi? Você tá fazendo tanto mistério.
— Shin-chan, eu preciso te contar a verdade sobre a minha Individualidade.

*Baachan significa avó em japonês e é um jeito carinhoso de se referir a mulheres idosas.


Continua...



Nota da autora: Um milhão de anos depois, mas estamos de volta! Desculpa pela demora gente, eu acabei me atrapalhando entre a vida adulta e outros projetos (inclusive, já foram ler minha nova fic com o Shoto? Ela já tá no ar e temos mais uns ficstapes pra entrar pq a autora surtou)
Não me matem por causa de onde acabou o capítulo 👀 Eu prometo que não vou fazer mistério por mais muito tempo... só um pouco hahahaha.
E como prometido, finalmente vimos o Shoto! Sem interações e pela TV na maior parte, mas isso muda no próximo capítulo! Muito Shoto na próxima, eu juro.
Enquanto esperamos, eu deixei várias dicas sobre qual é a Individualidade dela nesse capítulo, vocês têm alguma teoria? Eu adoraria ouvir o que vocês acham!
XOXO


Outras Fanfics:
- MV: Everything Has Changed
- MV: Thinking Out Loud
- Fire and Ice by Moonlight



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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
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