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Última atualização:10/06/2021

UM


Feliz triste ano novo


, eu juro que se você não me der essa chave agora eu risco a lataria inteira dessa merda!
— Já disse para sair da frente – as palavras vertiam-lhe os lábios pausadamente. Seu era calmo, quase entediante, mas o olhar tétrico não me passava a mesma tranquilidade.
Cruzei os braços e me encostei na lataria preta, deixando claro que não faria o que ele estava pedindo. Ergui uma sobrancelha e tive certeza de que ele sabia o que eu estava querendo dizer. Dois podem jogar esse jogo, . E eu adoro vencer você.
Meu corpo estremeceu por um instante, deixando esvair superficialmente a tensão que crescia em mim quando meus olhos acompanharam uma gota de sangue cair do corte recém-aberto no seu lábio inferior até os ombros da jaqueta jeans — e a mancha avermelhada no tecido azul deixava claro que aquela não era a primeira a escorrer. Seu olho direito estava arroxeado e eu não dava dez minutos para o inchaço aparecer.
Um suspiro derrotado escapou dos meus lábios.
Ir do céu às trevas era uma constante entre mim e . Meu coração se encontrava constantemente em tumulto quando se tratava dele. As mais absurdas e fantásticas extravagâncias fluíam do meu corpo; mas eu já estava acostumada a capturá-las no ar.
— Você precisa de gelo...
— Preciso ir embora, .
Rolei os olhos. Porque mesmo eu teimava em querer mudar o inexorável?
. Me dá a chave — estendi a mão em sua direção.
Um sorriso discreto se insinuou no canto dos seus lábios. Quando eu achei que tinha o convencido, deu um tapinha quase irônico na palma de minha mão.
— É melhor tirar essa bunda linda da minha frente, .
Argh. É melhor ir à merda, .
— Certo. Desisto. Se é o que quer, vá em frente. Só não espere que eu apareça no seu funeral depois — levantei os braços em sinal de rendição e dei um passo para o lado, deixando livre seu caminho até a porta do carro.
O garoto sorriu, levantando os olhos antes fixos no chão para fitar os meus. Girou a chave nos dedos e apertou o botão de destrave. Não sabia se era proposital ou se a sua indesejável presença me fazia distorcer os fatos, mas o modo que ele se movia parecia sempre mais lento e provocativo do que o normal.
Ele deu um passo em minha direção.
E então fez questão de esbarrar em meu ombro quando se inclinou para abrir a porta do Lexus, soprando um quase inaudível “Obrigado”.
Realmente um babaca.
Onde minha irmã tinha se metido, afinal? Ela devia estar lidando com essa situação, não eu. O seu namorado não estava só bêbado, mas também alterado pela briga que acabara de se meter. Aliás, se não estava em coma agora, o crédito era total e completamente meu — passei por ele no instante em que apanhava de dois caras com ao menos o dobro de seu tamanho, e eles só pararam porque praticamente me joguei no meio dos três.
Voltando para a minha quase pacífica realidade, percebi que a adrenalina fizera todo o álcool que eu tinha consumido se esvair rapidamente de meu corpo. Sentia-me completamente lúcida e a vontade de dar meia volta e entrar naquela casa com a música alta demais para qualquer padrão era nula.
— Aí está você! Te procurei em toda parte. Sabe onde o está? – a voz tranquila de Avery me despertou dos devaneios.
Ela segurava um copo de cerveja, mas não estava bêbada. Ave nunca ficava bêbada.
Avery era minha irmã mais velha – tinha quatro anos a mais que eu e era seguro dizer que não tínhamos absolutamente nada em comum. Se eu era o caos, ela era a calmaria. Seu sorriso era uma constante, sua cordialidade inegável e eu nunca a imaginaria dizendo “não” a alguém. Imagine uma personagem qualquer interpretada por Katherine Heigl em uma comédia romântica aleatória. Essa era Avery.
— Se seu namorado bater o carro, vamos deixar claro que a culpa não é minha.
— Do que está falando? – ela colocou uma mecha do cabelo negro atrás da orelha e espiou por cima dos meus ombros, onde o carro de ainda estava parado.
— Eu tentei convencer ele a não dirigir agora, mas você o conhece — apontei para trás, deixando de citar a parte de que ela devia estar no meu lugar.
— Ele dirige melhor bêbado – minha irmã deu um sorrisinho – E não é meu namorado.
— Certo. Da próxima vez não tento o impedir de se suicidar.
Bom, talvez tivéssemos apenas uma semelhança: uma grande tendência a se interessar pelos caras errados.
Namorados não era o termo ideal para descrever Ave e . Ela era, indubitavelmente, apaixonada por ele. Mas ele não era o tipo de cara que se faria namorado de alguém.
Tínhamos isso em comum, eu devia admitir, por mais que não gostasse de ter qualquer coisa análoga a ele.
Não que eu o odiasse. Houve um tempo em que eu gritava as canções bonitas do rádio enquanto pensava nele, e em que a chuva me lembrava o doce som do seu nome.
Construí uma imagem irreal de para me proteger; mas, na maioria das vezes, o universo inefável que constituía seus olhos e seu ser o deixava aquém da minha personificação ilusória.
— Acho melhor eu acompanhar ele… — Ave estreitou os lábios, os olhos fixos atrás de mim.
Eu sabia o que ela queria dizer com acompanhar.
E seria inútil eu tentar convencê-la do contrário.
Então apenas observei enquanto ela dava um último gole na garrafa em sua mão antes de bater seus saltos pretos até a porta do passageiro ao lado de . Ave mal havia se ajeitado no banco quando o ronco do motor explodiu na avenida vazia. Meus olhos acompanharam os faróis, em direção à via expressa, se tornando opacos para, instantes mais tarde, se perderem ao longe.
— Ei! O que está fazendo aqui fora? Faltam menos de vinte minutos para acabar o ano! — a voz de Sage tilintou ao meu lado e precisei segurar um sorriso quando me virei pra ela.
Tudo em Sage era agressivo e um reflexo da sua personalidade desafiadora; desde os olhos extremamente marcados pelo lápis preto até suas roupas que eram sempre uma mistura de tecidos, texturas e — adivinhe só – camadas pretas. Se a confiança pudesse idealizar uma pessoa para uma auto exemplificação, essa pessoa certamente seria Sage Morris. Exceto quando ela bebia e virava a criatura mais extrovertida e amorosa desse planeta. Era como se o álcool criasse uma persona ao entrar em contato com seu organismo.
O meu vestido branco de cetim e alças finas que acabava na metade de minhas coxas, custava mais do que eu gostaria de admitir e era arrematado pelos Manolos cor-de-rosa de salto fino diziam muito mais sobre mim do que eu gostaria de admitir.
E, infeliz eu era de confessar, não tinha metade da confiança que minha melhor amiga externava.
Éramos o exato contraste uma da outra; e talvez por isso nos déssemos tão bem.
— Me leve lá pra dentro e não me deixe ir pra casa até eu esquecer o meu nome — segurei em sua mão e, após uma gargalhada, Sage me arrastou para a casa colossal e apinhada de pessoas.
Dez minutos depois, estávamos no meio do caos.
A música era ensurdecedora.
As vozes se misturando competiam em estridência com as caixas de som.
As taças eram mais altas do que flores de lavanda.
Pessoas iam e vinham em um mar desajeitado de almas esperançosas pela promessa do futuro.
A meia noite estava chegando.
E eu não conseguia ver a única pessoa que eu queria estar ao lado o relógio indicasse o ínicio de um novo ano.
Onde estaria ?
Não era muito difícil encontrá-lo em meio à multidão. Seu sorriso brilhava de longe, e seus olhos lançavam promessas toda vez que encontravam os meus. E aquele momento era tudo o que eu precisava para, finalmente, cessar os desejos que meu corpo construía em relação a ele.
Dez segundos! — um garoto de cabelos ruivos gritou ao meu lado ao subir em uma mesa de carvalho.
Brados eufóricos preencheram a casa.
Dez, nove, oito…
Apertei a mão de Sage, que me olhou sorrindo. Tansy e estavam logo à frente, lado a lado. Eles se olhavam como se fossem os únicos ali, como se vivessem apenas os dois em seus próprios mundos exorbitantes. Eram felizes e sabiam.
Sete, seis…
Quando a esperança já havia se esvaído de meu corpo, avistei . Ele tentava abrir espaço entre as pessoas ao caminhar em minha direção.
Céus, ele estava vindo em minha direção.
Meus lábios se anteciparam ao abrir um sorriso gigantesco.
- Cinco, quatro…
Mas havia algo errado. Eu podia ver. Podia sentir. O conhecia o suficiente para notar isso.
Em seu rosto não havia sorriso e ele não exalava a felicidade de sempre; mais do que isso, sua expressão não parecia ao menos tranquila.
- Três, dois, um…
Mais cinco passos e ele estava em minha frente.
! A Avery… — apoiou uma das mãos em meu ombro. As três palavras escorregaram de seus lábios e ele deixou a frase morrer.
Meu sorriso se desfez.
Mirei seus olhos. Eles estavam marejados.
E então reparei em suas mãos. Elas estavam trêmulas. Ele segurava o celular e o nome de brilhava na tela.
E então entendi o que havia acontecido.
Feliz ano novo!



Meus lábios ainda estavam mergulhados nos de quando tateei a porta. Ele trilhou um caminho delicioso com a sua boca pelo meu pescoço e puxou minha camiseta ligeiramente para baixo, distribuindo beijos lânguidos pelo meu colo. Fechei os olhos, deixando-me inebriar por suas carícias.
sempre fazia isso; ele gostava de me provocar enquanto ia embora, pois sabia que me encontraria nada menos do que desejosa por ele no dia seguinte.
Não que desejá-lo fosse algo difícil; ele literalmente brilhava. Um bem estar irradiava de seu corpo torneado e das suas fortes feições masculinas, inundando de sua luz incomparável o que e quem quer que fosse.
— Te vejo amanhã na aula — ele sussurrou, os lábios ainda grudados nos meus. Puxei-os entre os dentes em resposta, e então abri os olhos em meio a um sorriso completamente entregue para vê-lo ir embora.
Mas não foi em que meu olhar focou quando meu corpo voltou do prazer à realidade.
também estava ali.
Do outro lado do corredor, as mãos encostadas na porta de seu apartamento enquanto me observava por cima dos ombros.
Ouvi os passos de ecoando pelo corredor, mas não consegui olhá-lo novamente. Minha atenção estava toda em .
Nos encaramos por alguns longos instantes, como se desafiássemos silenciosamente um ao outro.
tinha um desses olhares, genuínos e intensos, com um quê de insolência eterna que temos sorte de contemplar apenas duas ou três vezes na vida. As duas esferas cristalinas pareciam se dirigir, primeiro, à inesgotável variedade da vida e então se concentravam apenas em você. Era um olhar que parecia lhe compreender exatamente como você gostaria de ser compreendido e acreditar em você da exata maneira que você gostaria de acreditar em si mesmo.
E era exatamente por isso que eu fugia dele. Era fácil demais me perder ali, me entregar ao etéreo e esquecer da complexidade de tudo o que nos envolvia.
Minha visão se tornou nebulosa por um breve instante. Tinha cometido a falha de prestar atenção na pequena cicatriz avermelhada que se pronunciava no alto de suas maçãs. Em sua sobrancelha direita, outro corte tentava se esconder atrás dos fios caindo tentadores em sua testa.
Eram infelizes lembretes da merda daquele acidente.
Por um instante, quis tocá-las. Talvez para tentar, inutilmente, absorver um pouco de sua dor. Talvez porque fantasiava que aquela reminiscência faria-me sentir mais perto de Ave.
Talvez apenas porque gostasse de recordações melancólicas.
— Ele não é velho demais para ser da sua sala?
Rolei os olhos enquanto girava nos calcanhares e ajeitava minha blusa em seu devido lugar. Nem me dei ao trabalho de fechar a porta; sabia que viria atrás de mim.
— Não exatamente — apoiei o quadril no sofá, observando a cautela do garoto ao entrar no apartamento — É meu professor.
travou a mandíbula. Ele sempre fazia isso quando estava prestes a ficar incomodado com alguma coisa. E ah, eu era muito boa em incomodá-lo.
Seus olhos caíram em mim, coléricos.

— Não! Nem pense em começar.
Cruzei os braços, ensaiando o olhar mais ferino que eu era capaz. Eu não podia deixá-lo interferir também nessa parte de minha vida. E não era exatamente como se eu estivesse fazendo algo errado; eu já tinha vinte e cinco anos e estava na faculdade. Não era uma garotinha no colégio. E estava longe de tentar tirar vantagem de mim. Eu queria aquilo.
As pessoas lidavam com o luto de diferentes formas. sabia bem, eu preenchia o vazio com mais vazio. Relacionamentos vazios, lugares vazios, noites vazias. Pessoas vazias.
Era minha forma de anestesiar a dor. De não pensar em Avery. De me cercar de coisas com as quais eu não me importava e de pessoas que eu não sentiria falta se partissem no dia seguinte.
Talvez por isso eu não deixasse se aproximar demais.
Eu certamente sentiria falta dele.



Eu não queria estar ali.
Faziam quase dois meses que Avery tinha ido embora. A culpa ainda me consumia, por mais que tentassem me convencer do contrário. Havia muitas coisas daquela noite que existiam e sempre existiriam apenas entre nós dois. Detalhes incisivos que mudariam a percepção de cada um sobre os fatos.
Talvez minha maneira de diminuir a culpa fosse aquela: tentar cuidar de .
Era o que Ave gostaria que eu fizesse. Acima de tudo, era o que eu queria fazer. Eu sabia como ela podia ser destrutiva, e não conseguia ficar de braços cruzados enquanto a via agir com imprudência onde quer que fosse e com quem quer que fosse.
Quando eu moldei um caminho infeliz para a vida de pela primeira vez, eu não consegui lidar com as consequências.
Ela me afastou.
E eu me afastei.
Quando aconteceu novamente, não consegui me perdoar. Eu nunca a havia visto tão triste como quando perdeu a irmã. Ver os rastros de desalento toda vez que eu mirava o seu rosto era o suficiente para quebrar meu coração todos os dias, e eu me sentia um fracasso por não conseguir livrá-la da dor.
Naquele ponto, se um dia a tive em meus braços, já não lembrava mais. Ela estava tão distante que eu mal podia alcançá-la.
Mas eu a entendia.
Ela simplesmente precisava odiar alguém, então me odiava. E eu estava ali para ser qualquer coisa que ela precisasse que eu fosse.
— Aproveita, cara. Ela sabe se cuidar — me estendeu uma cerveja ao sentar ao meu lado no sofá — E esse lance de olhar pra ela como se ela tivesse inventado as estrelas é um tanto assustador.
Aceitei a cerveja, apenas para me poupar de discussões. nunca entenderia. Ninguém nunca entenderia.
— Ficar de olho nela me faz bem, .
Ele assentiu com a cabeça enquanto eu entornava um gole da garrafa. Não era compreensão externada; apenas uma maneira de encerrar o assunto. Ele sabia que não ia me convencer do contrário.
! Ah, meu Deus, — uma alegre Tansy se jogou no colo do namorado — O que estão fazendo aqui, sentados? Estão jogando beer pong aqui do lado! Me sinto com dezoito anos novamente!
Nós dois soltamos uma gargalhada.
— Você odeia beer pong, amor. A festa de Heath. Lembra?
Tansy fez um barulho engraçado, como se um estalo ocorresse em sua mente e ela, de fato, lembra-se.
a conhecia melhor do que ela mesma. Era realmente a cara dos dois.
Voltei minha atenção para . Ela dançava de mãos dadas com Sage. Seus cabelos voavam por toda parte.
Eu não gostava de “ficar de olho nela”. Céus, eu gostava de olhá-la.
Ela estava se divertindo; ainda assim, seu rosto parecia triste. Triste e encantador, repleto de coisas brilhantes. Olhos brilhantes e lábios brilhantes.
era linda e sabia disso. Ela estava sempre ciente da atenção que chamava e acostumada a receber todos os olhares — ainda assim, evitava todos eles.
Percebi o exato instante em que olhar de voou sobre os ombros de Sage. E então algo se contorceu dentro de mim. Porque eu conhecia aquele olhar.
Ela sussurrou algo no ouvido da amiga e soltou as mãos dela, apenas para, no segundo seguinte, andar até um garoto alto de cabelos escuros e pele bronzeada com pinta de surfista. Ele parecia ter a idade dela, o que era um tanto surpreendente; ela costumava gostar de caras mais velhos.
Eu sabia o que ia acontecer.
Havia presenciado aquilo mais vezes do que gostaria de admitir.
se inclinou sobre o garoto para sussurrar algo em seu ouvido. Quando ele respondeu, ela soltou uma risada, jogando a cabeça para trás; uma risada daquelas que era capaz de fascinar qualquer um à sua volta.
A cena se repetiu por quatro ou cinco vezes.
E então ela entrelaçou os dedos nos dele e o guiou em direção à escada. Observei os dois subindo os degraus, e o menino parecia não conseguir tirar os lábios do pescoço de enquanto a acompanhava.
Esperei dois minutos.
E então segui o mesmo caminho que eles haviam feito, sem avisar nada para ou Tansy; sabia que eles tentariam me convencer a ficar ali.
Não iria impedi-la de fazer qualquer coisa — eu não tinha esse direito. Só estaria ali fora, em frente aos quartos, caso ela precisasse de mim. Estaria ali apenas para o depois. Para os efeitos colaterais. Ela nunca recorria a mim, mas se precisasse de um ombro pra chorar ou alguém para livrá-la de qualquer situação, eu não queria estar em outro lugar.
Não vi em qual das seis portas eles entraram. Apenas encostei no corrimão da escada e fiquei esperando.
Passaram-se dez minutos.
E então vinte.
Meia hora depois, finalmente saiu do quarto exatamente à minha frente. Ela arrumava a saia preta curtíssima e o garoto vinha atrás, cambaleante, ajeitando os fios de cabelo displicentes. Seu sorriso desapareceu no instante em que seus olhos caíram sobre mim.
, o que está fazendo aqui? Eu não preciso que você cuide de mim, que droga! — ela esbravejou, dando dois passos em minha direção. O cheiro doce que emanava dela encheu meus pulmões.
Cara, ela sempre cheirava a cereja.
— Só estou garantindo que esteja segura — disse, da maneira mais calma que conseguia.
— Não, não, não. Pare com isso — ela apontou para si mesma — Não sou problema seu apenas porque Avery se foi.
Senti uma pequena fisgada no peito.
Ela me culpava. Não apenas por Avery, mas por todo o resto. Eu era a representação viva do que ela podia ter sido e não foi e eu mal podia imaginar o quanto isso a machucava.
— Você não é um problema.
Ela soltou uma risada cínica, balançando a cabeça negativamente.
— Fique longe de mim, . Estou indo pra casa — ela fez menção de dar meia volta mas deteve os passos, como se estivesse esquecido de algo — E, por favor, não venha atrás. Já é sufocante demais você morar do outro lado do corredor.
não esperou que eu respondesse. Apenas deu as costas e seguiu pelo mesmo caminho que tinha vindo minutos atrás, deixando eu e Pinta de Surfista apenas observando-a ir embora.
Soltei um suspiro. Ela precisava de espaço e eu entendia. E se ela fosse mesmo para casa, eu podia ficar tranquilo.
Apesar do olhar confuso do garoto que tinha deixado para trás, o cumprimentei com aceno de cabeça. Tinha certeza que ele havia pensado que eu era um ex namorado amargurado ou um irmão ciumento.
E eu devia passar perto disso, já que me vi seguindo o mesmo caminho que . Enquanto descia as escadas, me convenci de que não estava procurando ela; podia encontrar ou até mesmo — eu tinha certeza de que ele estava em algum lugar por ali.
Mas era assim que acontecia.
Eu não estava surpreso.
Mesmo obrigando meu pensamento a dançar em qualquer coisa que não fosse , ela estava ali.
Com o canto dos olhos, a vi.
Não estava a procurando.
Mas acontecia naturalmente e eu sequer sabia explicar — ela simplesmente costumava atrair o meu olhar. Sempre fora assim.
Ela estava sentada em uma das bancadas de mármore preto da cozinha. Sua expressão beirava a letargia e seus olhos quase se fechavam. Em uma das mãos, ela segurava uma garrafa de tequila pela metade. Com a outra, apoiava-se no tronco de um garoto que parecia fissurado demais nela para perceber qualquer coisa à sua volta.
Meus músculos se retesaram e o furor correu furtivo por minhas veias.
Tinha certeza de que ela havia virado a garrafa de uma só vez e o álcool havia caído como um baque em seu corpo. Ela já não estava mais em si, era fácil de perceber.
Eu queria simplesmente matar o idiota. Queria quebrar todos seus dedos de uma só vez por encostar em uma garota beirando a inconsciência.
Mas antes, pensei em e no que ela gostaria que eu fizesse. Eu tomava todas as minhas decisões pensando nela. Então irrompi pela porta, inabalável e sem me importar em quem eu esbarrava pelo caminho. Não hesitei em voar pra cima do cara — lutando contra minha vontade de dar a ele um belo olho roxo, agarrei a gola de sua camiseta e o empurrei para longe.
— meu nome voou dos lábios de em um suspiro, e eu mal havia me livrado da raiva quando seu corpo caiu fraco sobre mim. Ela enterrou o rosto em meu peito, seus braços delicados envolvendo meu corpo e puxando minha camiseta desajeitadamente, tentando me trazer para perto de si.
E então a proximidade de seu corpo anestesiou qualquer ira que ainda remanescia em mim. Com em meus braços, só havia ficado brandura e a vontade de protegê-la de tudo o que eu pudesse; até mesmo de mim.
— Estou aqui, não se preocupe.
Ela não estava chorando. Não, não choraria por um cara, não importava o quão inescrupuloso ele havia sido.
Ela murmurou algo contra o meu peito, mas eu apenas a apertei ligeiramente mais forte.
Não queria que ela saísse dali.
Era a primeira vez em sete longos anos que ela me deixava abraçá-la sem gritar comigo. E eu seria sua fonte resoluta de segurança pelo resto da noite se ela quisesse.
Mas as coisas entre nós dois nunca eram fáceis.
Nunca foram e nunca seriam.
Senti algo se revirar em meu peito quando ela apoiou as mãos nos meus ombros e me empurrou suavemente para trás.
Ela tinha um sorriso frágil no rosto, embora eu só visse tristeza emanando de seus olhos .
— Você deve estar aliviado — ela levantou os ombros, as palavras levemente emboladas ao deixar seus lábios — Quer dizer, eu realmente precisei de você.
Ela estava apenas falando sem pensar. Mas uma iminência disfarçada de despretensão fugia dela, como se ela quisesse, de fato, acreditar no que dizia.
Era a cara de ; disfarçar as frustrações do passado em palavras ofegantes e arrebatadoras e externá-las como se nada fossem. O coração, já anestesiado por conhecer de perto as mágoas que a vida proporcionava, tentava alcançar quem estivesse perto. E ele sempre me alcançava, me obrigando a compartilhar de sua dor; mesmo que eu não soubesse o que havia a causado naquele instante.
— Deveria — cruzei os braços, dando um passo instintivo para trás — Mas não estou, . Porque será?


DOIS


O amor e outras inexistências



Houveram dias em que eu fiquei furiosa com o mundo.
Assim que Ave partiu, a culpa fora apontada para todos os lados.
Havia quem culpasse Avery. Não conseguiam entender a decisão imprudente da garota que entrou no carro do namorado alcoolizado.
Havia quem culpasse . Como ele podia colocar em risco a sua vida e a vida da garota que o amava?
Havia quem simplesmente culpasse o destino.
E até mesmo quem culpasse o orvalho da noite, umedecendo as estradas no convidativo caminho escorregadio para o fim.
Mas ninguém me culpava. E, céus, eu não entendia o porquê.
Eu também estava lá.
Eu não consegui impedir de entrar no carro. Eu praticamente coloquei Ave naquele maldito banco. Eu podia simplesmente ter ido em seu lugar.
A culpa também era minha.
Quando a tristeza chegou, eu mergulhei nela. E então me senti, mais uma vez, culpada por chorar por minha irmã ininterruptamente durante três dias; principalmente porque aquela cena deplorável trouxe a piedade.
Todos se preocupavam comigo. Me olhavam com pena e me tratavam como se eu fosse quebrar a qualquer instante.
Eu queria gritar para que me odiassem. Queria que vissem que eu não era digna de pena.
Então eu me forcei a construir uma pequena caixinha em meu peito, e guardei ali toda a melancolia que me atingia em cheio quando pensava em Ave.
Guardei também qualquer rastro de consideração que em mim ainda existia pelos sentimentos — os alheios e os meus.
Tranquei a caixa, joguei a chave fora e prometi para mim mesma que faria o que tivesse vontade, sem me preocupar com as consequências ou em quem eu machucasse no caminho. Estava cansada de precisar ter cuidado com minhas partes quebradas, afiadas demais, sempre prestes a cortar qualquer um que chegasse muito perto.
Talvez, assim, o ódio caísse em mim como uma luva.
Mas esse tipo de coisa era mais fácil na teoria.
Quando a realidade me pegava em cheio, eu cedia.
E a realidade, na maioria das vezes, se chamava .
“Te vejo hoje à noite?”
E, em outras, .
Sorri diante da mensagem brilhando na tela do meu celular.
Mesmo que ela não quisesse dizer muita coisa.
Era um tanto difícil entender o que realmente queria. Se um dia ele me olhava como se quisesse descobrir meu gosto, no outro ele me tratava como se eu fosse nada além do que sua melhor amiga.
Pra dizer a verdade, nem eu sabia exatamente o que eu queria.
Eu era cética sobre todas as utopias aplicadas ao amor. Era impossível, para mim, entender como as pessoas acreditavam em encontrar a pessoa certa e esperar que o destino fizesse seu trabalho para que as bênçãos de uma eternidade aprazível caíssem sobre elas.
Destino não existia.
Amor também não.
As pessoas eram egoístas. Relacionamentos ficavam complicados e as pessoas, eventualmente, se machucavam. Era sempre assim. Eu não conseguia acreditar que o amor — ou ao menos a ideia dele — não estavam fadados ao fracasso.
Eu acreditava em paixão. Paixão e desejo. O fervor à flor da pele sempre me atraíra mais.
Eu queria sentir novos sabores, descobrir novas texturas, me aventurar em novos corpos. Sem promessas, sem compromissos. Apenas noites, sem manhãs constrangedoras e tardes chorosas.
E talvez fosse exatamente por isso que toda a história com era complicada demais.
Eu não o amava. Céus, não estava nem perto disso!
Mas não conseguia deixar de imaginar como seria beijá-lo quando ele arrastava aqueles olhos cristalinos em minha direção. Fantasiava em me perder em seu corpo toda vez que ele, amigavelmente, encostava em mim.
? — a voz de ecoou pela sala, me chamando de volta para a realidade. Seu olhar tinha um quê de repreensão; mas eu sabia que, na verdade, ele estava querendo sorrir.
Eu realmente não estava prestando atenção em nada do que ele dizia sobre reportagem fotográfica.
Me ajeitei na cadeira, disposta a ao menos fingir prestar atenção na aula e lancei um sorriso discreto em sua direção.
E, claro, ainda havia . Mas eu sabia, ao menos, que estávamos na mesma página. Ele não esperava nada de mim além de saciar suas vontades, e eu achava excitante mergulhar em um universo proibido. Adorava beijá-lo pela universidade, escondida entre as paredes, correndo o instigante risco de sermos pegos.
A Trinity U ficava bem no meio da cidade. E aquele era o principal motivo que me havia feito escolher a universidade; o campus era, simplesmente, Londres. Não me via morando em uma cidade universitária afastada de onde a vida corria contra o tempo. Eu não cabia em cidades pequenas.
Tentei não pensar em nada pelos próximos vinte minutos. O tempo costumava passar mais rápido assim. Ao menos eu podia admirar enquanto esperava a aula terminar.
E não era exclusividade minha — eu realmente duvidava que uma vivalma sequer naquela sala não estava pensando o quanto ele ficava delicioso com aquela camisa social azul que acentuava seus músculos e, de quebra, destacava seus olhos. Eu praticamente podia ouvir os suspiros quando ele se virava para o quadro branco e nos dava uma bela visão de seu corpo, flexionando os músculos para anotar alguma coisa.
Quando o sinal anunciou o final do último período, eu praticamente não me movi. Queria sair correndo e me jogar em seus braços, mas não era essa a dança que fazíamos. Antes eu esperava cada um levantar de suas cadeiras, enquanto levava muito mais tempo do que o necessário para guardar meus livros. E então esperava mais um pouco enquanto os alunos tiravam suas dúvidas e aproveitavam para admirar a beleza do homem mais um pouco. E era só quando levantava da sua mesa para trancar a porta que eu saía de minha carteira, e por fim ava meu lugar cativo naquela sala: sentada na ponta de sua mesa.
Eu me sentia em um filme pornô de baixa renda e.. Bem, eu adorava.
— Você tem ideia do quanto é torturante me concentrar em explicar fotografia quando você está sentada bem ali? — apoiou uma mão em cada perna minha, se inclinando para capturar meus lábios.
O truque do dia anterior tinha dado certo; eu estava louca para prová-lo novamente.
— É mais divertido assim, não acha? — puxei seu lábio com os dentes e delineei a extensão dos músculos de seus braços com os dedos, desejando que aquela camisa não estivesse entre nós.
Ele deu um sorriso de canto em resposta, determinado a me provocar. É, ele também achava que sim.
Seus lábios envolveram os meus novamente, me seduzindo em um beijo faminto. Os dedos deslizaram furtivos pela minha pele, provocando meus sentidos ao entrar por baixo do tecido fino de meu vestido.
— ele sussurrou ao separar nossos lábios, transformando o carinho em beijos ávidos pelo meu colo — O que vai fazer hoje à noite?
Soltei um suspiro com as carícias de sua língua quente e agarrei os cabelos em sua nuca, trazendo-o para mais perto de mim.
— Sair com alguns amigos — arfei quando suas mãos subiram pelo meu corpo, os dedos arranhando levemente minha barriga — Porquê?
— Tenho uma festa chata de uns amigos da minha irmã — ele mordiscou o meu pescoço — Achei que pudesse querer ir comigo.
Abri os olhos.
Não! Não, não, não.
Minhas mãos procuraram as dele embaixo da minha roupa e, sem pensar duas vezes, as tirei dali. E então encolhi meu corpo instintivamente para trás.
Quando ele abriu os olhos, as íris que me miravam eram um mar de confusão.

— O que houve?
Soltei um suspiro pesaroso.
— Esse não era o combinado. Não quero conhecer sua irmã, seus amigos… Não quero me envolver em sua vida. Só vai tornar as coisas mais difíceis.
Seus olhos analisaram meu rosto por alguns segundos. Provavelmente procuravam algum indício de contradição e, quanto não encontraram, ele deu um passo para trás, cruzando os braços ao me observar.
— Quanto tempo acha que isso vai durar?
— Isso o que?
— Desejos frequentemente levam à outras coisas, . Se não for comigo, vai ser com outra pessoa.
Dei um sorriso nervoso.
Não porque estava com raiva. Mas porque tinha medo que ele tivesse razão.
Ajeitei o meu vestido no lugar e desci da mesa em um pulo. Incapaz de dizer qualquer coisa, dei um beijo em seu rosto antes de pegar minha bolsa e, sem olhar para trás, sair daquele lugar.



A mistura de uma pluralidade de aromas adocicados e o destoante bálsamo herbal do baseado que queimava na mão de Sage era o cenário típico de uma sexta-feira à noite no meu apartamento.
Roupas e maquiagens estavam espalhadas por todo lugar.
Taças de vinho pela metade repousavam na bancada da cozinha.
Eu e Sage estávamos deitadas no tapete felpudo da sala, vestindo nada além de lingeries, conversando sobre as mais distintas variedades da vida enquanto ficávamos chapadas.
Minha amiga sempre dizia que escolhia melhor suas roupas se estivesse sob o efeito de entorpecentes.
Eu poderia combinar estampas mesmo depois de dez doses de tequila, então não me incomodava de acompanhá-la.
— Aaron me convidou pra ir no apartamento dele depois da corrida – Sage virou o rosto em minha direção, a tempo de me ver rolar os olhos.
— Você sabe o que eu penso sobre isso.
Aaron Parker era um ordinário. Um ordinário que havia traído minha amiga umas cinquenta vezes em pouco mais de um ano de relacionamento.
— É difícil não sentir nada por ele – ela deu mais uma tragada e prendeu o ar antes de continuar — Quer dizer, quando estamos juntos é algo tão... Familiar, sabe?
Entortei os lábios. É, eu sabia.
Se Sage bêbada era sinônimo de diversão, Sage chapada era a síntese da melancolia e do sentimentalismo.
Peguei o baseado de sua mão e dei uma última tragada antes de me esticar para apagar a ponta no cinzeiro apoiado no sofá. Reando minha posição inicial, virei o corpo de frente pra minha amiga para poder observá-la melhor.
— Sage. A gente sempre experimenta uma roupa velha de vez em quando. E pode até ser uma surpresa quando ainda serve, mas isso não quer dizer que a gente tenha que usar ela novamente.
— Quem disse isso?
— Eu. Você não acabou de ouvir minha voz? — dei um sorrisinho e ela fechou os olhos, cobrindo o rosto com uma das mãos e rindo como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo.
Ah, os efeitos da maconha hidropônica.
...
Revirei os olhos mais uma vez, agora segurando uma risada. Essa era uma coisa que eu e Sage costumávamos fazer; citar algumas mulheres que considerávamos inspiradoras para trocar conselhos. A lista ia desde Grace Kelly e Audrey Hepburn até Carrie Bradshaw e...
— Blair Waldorf. E ela tem razão. Você não pode passar os melhores anos da sua vida esperando que alguém te ame de volta.
Ah, , sua hipócrita.
Sage suspirou e se ajeitou no tapete. Depois pegou uma mecha dos meus cabelos e começou a enrolar as pontas no dedo indicador, como sempre fazia quando estava prestes a me pedir algo que eu claramente estaria pouco disposta a fazer.
— Você poderia ir comigo.
Aí estava.
— Me parece meio pervertido – fiz uma careta e ela soltou uma risada – Não posso te impedir de ir. Apenas implorar para que pense nas consequências se realmente for.
Ela apertou os lábios e me olhou por alguns instantes.
E então seus olhos voaram para um ponto além do sofá. E, antes mesmo que eu erguesse o muro em meu peito, Sage sussurrou:
— É estranho fazermos isso sem Ave, não acha?
Ela estava olhando para a porta do quarto de minha irmã.
Ele ainda estava fechado. Desde o dia em que ela partiu não tive coragem de entrar ali. Não aguentaria ver as roupas que ela havia pensado em usar naquela noite jogadas na cama. Não conseguiria olhar para as nossas fotos no mural em sua parede. Nem para as folhas secas de uma rosa que havia dado a ela meses atrás, guardadas em um potinho de vidro em sua cômoda.
Agradeci aos céus quando o som da campainha ecoou pelo apartamento. Eu não queria falar sobre a Ave. Não estava pronta nem ao menos para pensar nela, quem dirá dividir meus sentimentos com alguém.
— Deve ser Tansy — me limitei a exclamar enquanto levantava para atender a porta e esbocei um sorriso.
Depois de um tempo você simplesmente fica boa nisso; curva seus lábios para cima, olha para o horizonte e transforma seu rosto em um belo castelo de colunas rebuscadas e arquitetura antiga; e então torce para que ninguém se aproxime o suficiente para ver as rachaduras.
Saltitei até a porta, desviando de uma garrafa de vinho tinto e um par de botas pretas jogados ao chão pelo caminho.
Estava pronta para encontrar a alegria contagiante da minha amiga quando abrisse a porta.
Mas ela não estava ali.
No lugar da simpatia de Sage, encontrei os olhos de e todos os sentimentos caóticos que ele me causava.




Vermelho.
A porcaria do sutiã de era vermelho.
Talvez a calcinha fosse da mesma cor. Eu não tive coragem de olhar. Não queria descobrir como meu corpo reagiria a um pedaço minúsculo de renda abraçando sua bunda.
O vislumbre de sua pele, tão macia quanto eu lembrava, fez minha boca salivar; e então ela ficou repentinamente seca e as palavras me fugiram tão rápido quanto o sol foge da escuridão.
E ainda tinha a merda daquele cheiro de cereja.
Ao meu lado, Chloe apertou os dedos em meu braço. Eu sabia que ela estava desconfortável; tinha esse talento de fazer-se cômoda demais até em situações que beiravam o absurdo, e a confiança que exalava, por mais que nem sempre fosse genuína, era incômoda para quem ainda não entendia seu jeito.
Me obriguei a prender o olhar em seu rosto. Não que ele fosse menos sublime que seu corpo, mas com o passar do tempo eu havia aprendido a lidar com as sensações estonteantes que seus olhos impessoais, vazios de qualquer desejo, me causavam. Ou, ao menos, havia aprendido a escondê-las.
Um sorriso lascivo puxou o canto dos seus lábios enquanto seus olhos faiscavam entre mim e a garota ao meu lado.
O silêncio já havia se tornado desconfortável, mas não parecia se importar. Com a calma que lhe era uma dádiva, ela deu meia volta e rebolou até a bancada da cozinha, onde pegou uma taça. E então andou até a ponta do tapete, onde se abaixou para pegar uma garrafa de vinho pela metade.
A visão celestial de seus cabelos roçando em sua cintura enquanto ela se movia me trouxeram lembranças tão etéreas quanto ela. Era a visão do paraíso e ela parecia um anjo sensual.
Ela fez questão de cravar os olhos nos meus enquanto enchia a taça. Eu tinha certeza que ela sabia o que eu estava pensando, e aquele olhar que transbordava um desprezo hostil quando percebia qualquer sinal de intimidade se revelando no horizonte se assomou à sua expressão.
Ela estava me provocando enquanto me avisava para ficar longe. Era a mistura confusa de sentimentos que ela insistia em me fazer provar e, casualmente, me fazia lembrar porquê furacões levavam o nome de pessoas. era arrebatadora como uma tempestade.
- ?
Foi a voz de Sage que me salvou do vendaval. Balancei a cabeça e arrastei minha atenção até ela, que cobria seu corpo com uma manta e olhava para mim e para Chloe com os ombros erguidos, como se pedisse desculpas pela amiga.
— Vim oferecer uma carona — olhei para Chloe, que observava Sage com um sorriso curioso, quase tímido — Essa é a Chloe, ela vai com a gente.
— Oi, Chloe — ela sorriu como se tentasse confortá-la e voltou a olhar para mim — Obrigada, mas Tansy vai passar aqui e vai levar a gente.
Ofereci a ela um sorriso, quase a agradecendo me jogando aos seus pés para agradecer pela resposta negativa. Tudo o que eu não precisava era ficar trancado em um carro com após vê-la daquele jeito.
Me esforcei para não olhá-la mais uma vez antes de fechar a porta — mas como se previsse minha intenção e seu instinto fosse me contrariar, assim que alcancei a maçaneta, sua voz me deteve:
— Você vai correr hoje?
Meu olhar se arrastou em sua direção instintivamente. Ela enrolava uma mecha dos cabelos nos dedos e cravava os dentes no lábio inferior, como sempre fazia quando estava incomodada com algo.
— Por que quer saber?
Ela me encarou por um instante, em silêncio.
— Estou apenas curiosa.
Deixei um sorriso ar o canto da minha boca.
— Ia torcer por mim?
E então o mesmo sorriso mordaz se refletiu em seus lábios.
— disse, simplesmente, após balançar a cabeça negativamente.
Mas é claro…



O cheiro de gasolina fazia eu me sentir em casa.
Empoleirada no alto de uma colina, a Speedtrack era um autódromo situado nos arredores de Londres.
Era onde eu costumava passar a maioria dos meus finais de semana.
E era onde, há muito tempo, eu havia conhecido .
Havia uma pista cheia de curvas bem no meio da extensa área arborizada. Ao leste, uma arquibancada de concreto se erguia atrás de uma alta grade de arame. A oeste, subindo a encosta em direção ao céu, um bar obsoleto, com paredes de madeira corroídas e uma vitrola repleta de músicas antigas se situava ao lado de um mirante com uma vista privilegiada do Tâmisa. A distância o tornava pequeno e o fazia parecer quase irreal, com as luzes da cidade refletindo em suas águas.
Por muitas vezes e por muitos dias, a Speedtrack era a minha fuga da realidade. Em um banco de couro, com os dedos apertando o volante e pisando imoderadamente no acelerador, eu sentia que todos meus problemas eram deixados para trás.
Até a morte de Ave.
Era impossível estar ali e não associar o fato de que um carro em alta velocidade havia tirado sua vida.
E, em um piscar de olhos, meu escape da realidade havia se tornado o palco de uma das minhas maiores dores. E eu nem conseguia mais pensar em correr.
Sorri quando Chloe se inclinou para alcançar meus lábios. Seus beijos eram doces e não pareciam buscar promessas. Era exatamente o que eu precisava.
A verdade é que eu também tinha a minha própria maneira ineficaz de lidar com sentimentos indesejados. Em um dia era Chloe, no outro Hailey, e no próximo alguém que eu nem lembraria o nome.
Mas elas sabiam disso. E eu também me via como algum tipo de distração para elas.
— Qual a sua história com ela?
Por um momento, me perguntei sobre o que Chloe estava falando.
E então segui seu olhar.
E lá estava ela. , atraindo a luz das estrelas para si, enquanto jogava a cabeça para trás ao rir de alguma coisa que dizia.
Era impossível não sorrir também.
— O que quer dizer? — indaguei de volta, os olhos dançando entre a garota à minha frente e a garota do meu passado.
— Não tente me dizer que ela é só sua vizinha, porque eu não vou acreditar.
Soltei uma risada sincera.
Eu e nunca contamos nada do que houve entre nós dois pra ninguém. Avery, Sage, , ou Tansy, ninguém sabia.
Mas eu não planejava ver Chloe no dia seguinte. E ela também não contava com isso. Podia ser bom, apenas uma vez, tirar o peso daquelas palavras do meu peito.
Apoiei uma mão na cintura de Chloe e a afastei um pouco, apenas para alcançar o maço de cigarros em meu bolso.
Eu precisava de algo para anestesiar as frases cortantes que saltariam do meu coração direto para minha boca.
Sem desgrudar os olhos de , acendi o cigarro. Chloe sequer percebeu. Ela também olhava para a garota de longos cabelos e grandes olhos brilhantes.
— Eu a amo desde os meus vinte e cinco anos — as palavras saíram calmas, como se tivessem sido estudadas meticulosamente.
E, de fato, foram. Por longos sete anos eu associava a palavra amor à apenas dentro de mim. Era a primeira vez que colocava aquilo para fora.
Não precisei olhar para Chloe para perceber o seu espanto. Seus olhos foram de para mim e então para ela de novo. Devia estar se perguntando se eu não me incomodava com o sorriso autêntico que ela lançava para , tocando os braços do meu amigo em toda oportunidade que tinha.
— Ela sente o mesmo?
Dei uma longa tragada enquanto observava passar o braço pela cintura de , apoiando-se na lataria vermelha de seu carro. Seus olhos a admiravam com fascínio, eu podia perceber.
A conhecida pontada de tristeza fez cócegas em meu peito, mas eu já sabia como espantá-la.
Eu queria o que havia no mundo de melhor para . Ela merecia o melhor. E o melhor não era eu.
Por mais que os outros a possuíssem em corpo, eu gostava de pensar que havia uma história existente apenas entre nós dois. Aquilo ia muito além de tocá-la e receber seus sorrisos que escondiam suas verdadeiras emoções.
— Não importa. Não é o tipo de amor que precisa de reciprocidade para ser sincero.
Ela seria, para sempre, o meu segredo.


TRÊS

A dor e a delícia de ser o que é


— Será que você pode falar sério por apenas cinco minutos, ? — fingi suplicar. Meu corpo estava débil de tanto rir, e essa era uma ótima desculpa para me apoiar no peitoral dele.
— Eu posso tentar. Mas saiba que meu recorde é quatro — ele tocou na ponta do meu nariz, exibindo seu sorriso extasiante.
Ri um pouco mais. Não apenas por suas palavras bem-humoradas, mas pela leveza que exalava. Leveza externa era algo que eu, inegavelmente, precisava.
— Essas corridas me deixam nervosa — mordi o lábio, olhando dele para os carros que se posicionavam na pista — Você vai ganhar, não vai?
— Achei que já me conhecesse… — ele passou a mão pelo peito, a voz naquela entonação exibida que costumava o deixar mais charmoso do que de costume — É claro que eu vou.
Era realmente fácil sem atrás do volante.
Reprimi a vontade de dar um tapa na minha própria testa com o pensamento.
Não que estivesse equivocado; não sei se muito tinha a ver com habilidade, mas não tinha medo de muita coisa. Ele não reduzia nas curvas e raramente desviava de outros carros em qualquer rota de colisão.
O primeiro aviso sonoro ecoou pelo céu. Era a deixa para que os carros da primeira corrida da noite se posicionassem na largada.
— Cuidado nas intercessões — dei um sorriso e fiquei na ponta dos pés para plantar um beijo em seu rosto — Boa sorte.
Os motores começaram a roncar quando eu corri para a arquibancada. De longe, Sage acenou pra mim, e eu ri ao ver que ela estava roendo as unhas, os olhos pairando inquietos por toda parte. Aaron provavelmente estava ali.
Fiz uma careta quando vi sentado ao lado de Chloe, um dos braços envolvendo a cintura da menina. Não que o afeto me incomodasse, mas não entendia porque ela havia a levado ali.
Eu nunca traria um dos meus casos de uma noite para a Speedtrack. Nunca.
Ainda assim lancei um sorriso simpático para a garota ao tomar o lugar na arquibancada dois degraus abaixo de Tom. Sabia que não havia causado uma boa impressão mais cedo.
e eu temos essa incrível mania de terminar…
— As frases um do outro — completou sorridente, concluindo a frase da namorada. Eles estavam tentando fazer Chloe se sentir enturmada, e os dois realmente eram bons nisso. Embora eu não entendesse o ponto daquilo. Até onde eu sabia, era a última vez que veria a menina.
— Amor, não me interrompe — Tansy rolou os olhos, por mais que um sorrisinho encantador brilhasse em seu rosto ao admirar as adoráveis covinhas que se pronunciavam nas bochechas de Fletcher.
Olhei para Sage ao segurar uma risada. e Tansy eram a prova viva de que eu não era completamente alérgica às demonstrações de ternura; eu conseguia achar os dois adoráveis sem sentir vontade de vomitar.
O segundo alerta inundou a noite, e os motores rugiram mais alto. Me ajeitei na espaçosa plataforma de concreto, puxando minha saia jeans para baixo ao cruzar as pernas. Estava ansiosa para ver ganhar.
Quando o terceiro e último aviso explodiu nas caixas de som acopladas à grade de ferro, uma garota bonita de cabelos cacheados e dourados caminhou para o meio da pista com uma bandeira verde na mão.
Ela estava usando um lindo par de sapatos de salto vermelho. Eu precisava perguntar onde ela tinha comprado. Pareciam Weitzman autênticos, mas nem eu conseguia ter certeza daquela distância.
Sage deu um grito animado ao meu lado, me lembrando que eu devia estar prestando atenção nos carros.
Embora sapatos fossem muito mais interessantes.
Quando a bandeira balançou no alto da cabeça da menina e então voltou para o chão, os carros deslizaram velozes para frente de uma só vez e um clamor generalizado proveniente das cinquenta e poucas pessoas que assistiam a corrida soou alto. Sorri ao ver o carro vermelho de tomando a segunda posição logo na partida.
— Faz apenas dois meses, . Acha mesmo que consigo correr agora? Você me conhece melhor do que isso.
Senti meu corpo tremer em nervosismo quando meus ouvidos capturaram seu sussurro.
Pensei em simplesmente ignorá-lo.
Mas eu não tinha muito controle sob meu corpo quando o assunto era ; então, como se ele fosse a lua e eu as ondas do oceano, apenas segui as modulações suaves de sua voz.
E então desejei não ter feito.
Sempre acontecia quando suas íris estavam perto demais — elas pareciam querer enxergar além do que eu queria mostrar, e a intensidade do seu olhar me fazia pensar que eu estava prestes a cair sem saber aonde, e , certamente, não me diria altura da queda.
Ele estava no degrau acima de mim, com as pernas uma de cada lado do meu corpo, e seu tronco se inclinava em minha direção, com seu calor empolgante fluindo dele.
Eu queria gritar.
Gritar para que ele saísse dali.
Gritar para que ele não falasse de Ave.
Gritar que as lembranças que seu olhar me trazia não eram bem-vindas.
Gritar por ele achar que eu, de fato, havia insinuado sua falta de escrúpulos.
Mas não consegui.
Porque eu queria, principalmente, gritar que ele estava errado.
Eu não o conhecia.
Conheci, uma vez, o que me tirava do universo amargurado no qual eu insistia em me lançar. E o garoto na minha frente era alguém completamente diferente para mim.
Ele ainda tinha as mesmas feições encantadoras e os cabelos ainda emolduravam seu rosto como uma obra celestial. Eu ainda tinha vontade de correr a ponta dos meus dedos pelo maxilar marcado, que trazia ao seu rosto um ar impenetrável, e então beijá-lo bem nesse ponto para ter certeza que sim, eu podia adentrar seu escudo de mistério.
E ainda tinham seus olhos. As duas esferas que me lançavam desafios e insistiam em me lembrar que, uma vez, foram minha fonte de conforto.
Aqueles olhos eram capazes de levar qualquer garota à loucura, eu bem sabia.
E então meu olhar caiu para o seu corpo, e fora atraído imediatamente para seu braço direito. Ele vestia um suéter de cashmere preto e as mangas estavam estendidas até os cotovelos, deixando à mostra as tatuagens que coloriam sua pele.
Meus dentes pressionaram meu lábio inferior antes mesmo que eu percebesse.
E eu fiz a única coisa que podia: me curvei em sua direção e puxei uma das mangas até seu punho.
— Para de exibir essas tatuagens pra mim, . Você sabe que eu não resisto.
Uma risada fluiu de seus lábios; um riso sincero e triste, tão confuso e puro como só ele conseguia ser.
— Se isso fosse verdade você estaria sentada aqui — a palma da sua mão pousou sobre sua própria perna — E não aí.
Ignorei a onda de calor que palpitou em meu peito e estremeceu cada milímetro do meu corpo. Meus olhos ainda estavam presos aos seus e, por mais que eu quisesse, não conseguia tirá-los dali.
— Por favor, não diga essas coisas... — supliquei baixinho, me afastando milimetricamente.
— Isso é injusto — ele se inclinou em minha direção, dessa vez, aproximando o rosto do meu — Foi você quem me deixou com aquela imagem sensual pelo resto da noite, .
Minha respiração falhou. Meu coração bateu em descompasso. E meu corpo inteiro gritou por .
Quando palavras sujas vertiam de seus lábios, rosados e convidativos, eu costumava beijá-los.
E meu apelido, proferido com tanta intimidade, era o golpe que meu coração não precisava.
Naquele instante, no entanto, me vi fazendo o oposto. Eu precisava afastá-lo.
Dispersei o desejo e arrastei meu olhar para longe do seu; minha atenção voou para o exato ponto em cima de seus ombros, alguns degraus acima, onde Chloe nos encarava. Diferente do que eu imaginei que a encontraria, um sorriso leve iluminava seu rosto de traços delicados.
Como se a realidade caísse em mim, observei Sage, Tansy e Tom. Estava tão envolvida no universo de que esqueci que eles estavam ali; e felizmente estavam perdidos demais em seus próprios mundos para notar o que acontecia entre nós dois.
— É melhor ir ficar com ela — murmurei enquanto olhava para Chloe.
— Acredite, estou exatamente onde gostaria de estar.
Levei um instante para admirar o princípio de um sorriso em seus lábios, pois sabia que, no instante seguinte, ele não estaria ali.
— Por que a trouxe logo aqui? — sussurrei, tentando, inutilmente, disfarçar a mágoa em minha voz.
Apertei os lábios, prevenindo as lágrimas que ousassem molhar o meu rosto. Seus olhos lampejaram de um lado para o outro, como se buscassem nos meus algum indício cinismo.
E então ele não disse mais nada.
E eu apenas levantei, fazendo questão de não olhá-lo enquanto ia para o lugar ao lado de Sage, mais longe o possível dele.
Talvez não soubesse que aquele lugar ainda significava algo para mim.
E talvez a culpa fosse minha, por fugir toda vez que ele se aproximava.
sempre quis me proteger. Das pessoas ao nosso redor, de qualquer ameaça de amargura e até dele mesmo. Eu costumava gostar desse seu cuidado em relação a mim quando éramos mais novos — fora um dos grandes motivos por eu ter me encantado tanto por ele.
Mas quando as coisas ficaram complicadas, ele simplesmente parou. Em um acordo silencioso, seguimos caminhos diferentes; por mais que eles ainda se cruzassem, vezes por causa de Avery, vezes por causa de e . Ele se manteve distante e eu fiz questão de permanecer longe. Mais do que isso, eu sentia que certas vezes ele apenas me tolerava, com palavras indolentes e atitudes desdenhosas.
E então, uma semana depois do acidente, ele havia voltado a me rondar. Com palavras carinhosas e, muitas vezes, provocantes. E o tal do senso de proteção estava ali, mais forte do que nunca.
Eu entendia; ele tinha medo que eu fizesse alguma besteira. Eu não era a pessoa mais prudente do mundo. Mas minha segurança e meu bem-estar não cabiam a ele.
Perdida em pensamentos, a ponta de tristeza que havia comprometido meu peito não demorou muito para se transfigurar em raiva. Por que diabos ele precisava ter tanto efeito sobre mim? Eu devia estar apenas radiante e ansiosa para ver cruzar a linha de chegada. Mas não importava se eu estava em um novo barco, tentando lutar contra a corrente; vinha como uma onda arrebatadora e me puxava incessantemente para o passado.
Honestamente? Era melhor quando ele me tratava com resquícios de indiferença. Pois eu bem sabia o quanto era difícil resistir ao lado terno e dedicado de .
Fui puxada para a realidade pelos gritos que explodiram nas arquibancadas; uns frustrados, outros em comemoração. Olhei para a pista a tempo de ver o carro de cruzando a linha em primeiro lugar.
Dei um pulinho radiante. Em pé, não pensei duas vezes antes de descer os degraus da arquibancada e correr para a pista.
Sage veio atrás de mim e, ao passar do meu lado, me lançou um olhar significativo. Juntei os pontos ao encontrar Aaron do outro lado da pista, provavelmente se preparando para a próxima largada. Balancei a cabeça negativamente.
— Use proteção — mexi os lábios sem emitir som algum e ela lançou o dedo do meio no ar em minha direção. Sabia que aquilo não ia dar certo…
Vi sair do carro, a expressão gloriosa adornando seu rosto. As bochechas estavam rosadas e céus, ele estava uma gracinha cheio de sorrisos e presunção.
Eu não ia esperar uma atitude.
Ah, eu ia beijá-lo.
Isso mesmo. Bem ali.

Seu sorriso se fez mais largo quando me viu; e eu não esperei que ele dissesse nada. Parei em sua frente e, em um impulso, passei meus braços por seu pescoço e encostei nossos lábios.
Eu não esperava que ele me receberia com tanta delicadeza. Os lábios mais doces que eu já havia provado se abriram para encaixar nos meus e pequenas explosões extasiantes tomaram cada pedacinho do meu corpo. colocou uma das mãos em meu rosto, os dedos gentis acariciando minha pele. Ele soltou um pequeno gemido quando minha língua deslizou pelo seu lábio inferior, e o som sensual reverberou em meu corpo em puro desejo. Pressionei-me contra ele, querendo sentir seu calor por inteiro; e, como se aquilo não fosse suficiente, suas mãos deslizaram para minha cintura e ele tentou me trazer ainda para mais perto. Nossos lábios dançavam ao mesmo ritmo, como se fizessem aquilo há anos. O beijo de era tão carinhoso quanto ele, mas de seu corpo emanava a volúpia que o meu buscava.
O beijo deu espaço a um sorriso — e sorrimos, os dois, um tanto maravilhados.
se inclinou brevemente para baixo e, com o os lábios grudados em meus ouvidos, sussurrou:
— Você não sabe há quanto tempo quero fazer isso, .
Foi impossível não sorrir.
— Eu não podia esperar você para sempre, — brinquei, ajeitando os fios que meus dedos haviam bagunçado — Vem, vamos sair daqui!
Antes que ele dissesse qualquer coisa, abri a porta do motorista e indiquei o banco do passageiro com a cabeça para ele.
Não consegui resistir e olhei para uma última vez antes de entrar no carro. E, apesar de seus braços estarem envolvendo Chloe, era em mim que seu olhar caía. Ignorei o pequeno incômodo que insistia em formar-se dentro de mim.
Eu estava com . Quis beijar por tanto tempo e, por fim, eu conhecia seu gosto e ele estava ao meu lado. Então. Não. Pense. Em. .
— Tem certeza de quem sabe o que está fazendo? — indagou ao certificar que eu havia colocado o cinto de segurança.
Sempre — liguei o carro — Mas eu não tenho carta, então, se um policial nos parar, a gente troca de lugar.
… — ele segurou uma risada.
— Relaxa, lindinho.
Pisei no acelerador e precisei me concentrar para não rir da cara que fazia. Não sei se estava com medo pela gente ou pelo precioso carro.
Talvez pelos dois.
Mas eu sabia dirigir; apenas não praticava com tanta frequência. Ou cautela.
Acelerei o máximo que a minha coragem permitia para sair da Speedtrack. Era tudo o que eu precisava; sair daquele lugar.
mandou uma mensagem — avisou ao tirar o celular do bolso assim que entramos na via expressa.
Rolei os olhos.
— Nem quero saber…
— Ele disse pra eu tomar cuidado pois você é uma péssima motorista.
Não contive uma gargalhada. Disse o cara que havia me ensinado a dirigir.
— Mande ele à merda, por favor.
… — murmurou, e eu nem precisava mirá-lo para sentir seu olhar crítico.
— Hm?
— Você é uma péssima motorista.
Deixei um gritinho insultado sair ao abrir a boca em um perfeito O, da forma mais teatral possível.
— Não me faça te mandar à merda também, . Eu sou extremamente cuidadosa.
Ele segurou uma risada.
— Não é não.
— Bom, os outros são. Eu odeio gente descuidada — o olhei com o canto dos olhos — Por isso gosto de você.
— Você gosta de mim porque eu te faço rir e porque meu sorriso é adorável — ele colocou uma das mãos em minhas pernas — Admita.
Ah, isso era chantagem. Eu mal conseguia pensar em contrariá-lo com suas mãos em mim.
— Certo, você tem razão — passei rápido pelas palavras, sabendo que soltaria uma risada
E ele soltou.
Uau — sibilou, apenas, me fazendo rolar os olhos; embora um sorriso teimoso brincasse em meus lábios — Você tem razão — ele imitou a minha voz da maneira mais irritante o possível — Essa é uma frase incomum pra você. Acabou de aprendê-la?
Ri ao dar um tapinha em sua mão sob a minha pele. implicando comigo daquele jeito quase adolescente era tão adorável quanto seu sorriso.
Diminui a velocidade quando o acostamento da pista se transformou em uma um pequeno desvio. Virei à direita e, pouco mais de cem metros depois, estacionei o carro.
— Faz tanto tempo que eu não venho aqui — ele soprou ao se desfazer do cinto.
— Vocês ficaram velhos e caretas, — torci o nariz enquanto abria a porta do carro — Eu e Sage ainda vimos aqui o tempo todo.
Talvez o tempo todo fosse exagero.
Não era sempre que estávamos dispostas a dirigir por quarenta minutos da cidade apenas para sentar em um banco de madeira na beirada de um abismo.
E também não era prudente, já que todas as vezes que íamos ali, estávamos acompanhados de algumas garrafas de bebida no porta malas.
Há um tempo atrás, depois das corridas na Speedtrack, sempre completávamos a noite ali. Era agradável — o som do oceano correndo aos nossos pés, o barulho do vento nas copas das árvores e a única iluminação existente era a lua e os faróis dos carros que, vez ou outra, passavam pela pista.
Foi ali a primeira vez que vi Avery beijando .
Mas não era uma memória triste. Eu sempre quis que minha irmã fosse feliz. E, da forma distorcida deles, a fazia bem.
— Seu carro terminou intacto. Quem diria? — pisquei pra , indo em direção à beira do penhasco.
O rio ficava tão distante de meus pés que eu mal podia vê-lo. Era reconfortante, de alguma forma. Altura nunca havia sido um de meus medos e eu gostava da sensação de estar em controle do perigo; apenas eu e meus pés podiam decidir se eu pulava ou continuava em terra firme, nada mais.
— Você não pode vir aqui pra trás?
Olhei por cima dos ombros. me encarava com os braços cruzados e uma expressão consternada.
Não pude evitar uma gargalhada.
— Eu quase esqueci que você tem medo de altura, — dei meia volta, andando em sua direção — Isso tira ao menos dez pontos do seu charme.
Dez pontos? — o garoto levantou uma sobrancelha e, quando cheguei perto dele, seus dedos procuraram os meus. Ele os entrelaçou e me puxou para perto de si — Senso de sobrevivência é um defeito?
— Estou sendo boazinha — dedilhei o caminho dos músculos em seus braços ao encaixar meu corpo na frente do seu — Espírito aventureiro conta uns cinquenta pontos. E ter medo de pular na água não é nada audacioso.
Um sorriso de canto repuxou seus lábios e eu tive a certeza de que nunca havia visto aquele sorriso em antes. Ele estava lindo com uma camiseta branca abraçando os ombros largos e os cabelos caindo em seus olhos, levemente despenteados.
— E quantos pontos eu ganho…. — mal processei suas palavras e seus dedos mergulharam em meu cabelo. Ele puxou minha cabeça delicadamente para trás, deixando meu pescoço à mostra — Por isso? — e então encostou os lábios na pele exposta, de um jeito lento e provocante.
Arfei em resposta, o arrepio percorrendo o caminho inteiro do meu colo até a minha barriga. Não conseguia pensar em palavras, muito menos em números.
Meus lábios procuraram os seus. Tremi de desejo quando sua língua deslizou pela minha. Seus dedos escorregavam pela minha cintura, explorando o limite entre minha blusa e a pele à mostra. Eu apertava seus ombros, pressionando meu corpo contra o dele, querendo senti-lo inteiro em mim. Nossas línguas dançavam em compasso, no mesmo ritmo alucinado, e eu soltava um gemido satisfeito toda vez que passava os dentes pelos meus lábios.
Deslizei uma mão pelo seu troco e esgueirei-a por dentro de sua camiseta, passando a unha por sua pele. Sorri satisfeita quando ele contraiu o abdômen e eu apenas o arranhei um pouco mais, excitada ao senti-lo se contrair de desejo sob mim. Pressionei meu quadril pela frente, roçando-o em da maneira mais estimulante que eu podia e estremeci quando senti sua ereção, estourando na calça jeans, contra minha intimidade. Ele soltou um gemido profundo e o som foi abafado pelos meus lábios, reverberando em meu corpo de um jeito delicioso.
Meus dedos estavam tentados a puxar sua camiseta quando senti suas mãos em meu ombro, empurrando-me levemente para trás. Nossos lábios se separaram e, quando abri os olhos, ele me encarava com um uma expressão suplicante.
… Vai com calma — ele sussurrou ao encostar a testa na minha, fechando os olhos com força.
— Não... — coloquei minhas mãos em seu rosto, afastando-o um pouco para que ele pudesse ver meu rosto — Não seja fofo, . Eu odeio fofo.
Ele soltou uma risada quase dolorida.
— Não quero que faça nada que se arrependa — disse ao deslizar uma das mãos para o meu rosto, acariciando minhas bochechas com a ponta dos dedos.
— Eu quero isso há muito tempo. Sabe disso, não sabe?
— Eu também. Só de te olhar, eu… — ele fechou os olhos mais uma vez, como se quisesse afastar os pensamentos. Havia algo muito excitante em tentando se controlar para não me tirar minha roupa e eu estava quase me contorcendo ao vê-lo daquele jeito — Nem sei dizer o que passa na minha cabeça. Mas não posso fazer as coisas desse jeito, . Não aqui. Não com você.
Soltei um suspiro.
Eu não ligo pra esse tipo de coisa, . É só sexo.
As palavras se prepararam em minha garganta, mas nunca chegaram aos meus lábios.
Era . Eu gostava de . Eu devia ser compreensiva.
— Certo. Podemos apenas observar as estrelas como aqueles casais cafonas em filmes ruins de romance.
Senti seu corpo relaxar, e a nébula de luxúria que havia envolvido seus olhos começou a se esvair.
— Como e Tansy?
Soltei uma risada baixinha.
— Como sabia que eu estava pensando neles?
Era fácil falar, mas eu admirava a relação dos dois. Era raro se encontrar tanto em alguém como havia acontecido com eles. Eu nem conseguia me encontrar em mim mesma…
Ficamos em silêncio, apenas curtindo a presença um do outro. Meu rosto estava enterrado no peito de e meus olhos miravam a imensidão de nuvens e pequenos pontos brilhantes bem acima de nós dois.
Eu queria deixar meus pensamentos vagarem por cenários celestes e desejava que meus lábios lançassem belas palavras para o garoto que havia mostrado nada além de consideração e carinho por mim.
Mas tudo dentro de mim percorria tópicos muito menos etéreos e muito mais complicados.
Eu estava com medo de como aquilo ia acabar. Aquela era a única certeza que eu tinha: aquilo ia acabar. Era questão de tempo até eu ter uma atitude errada, dizer o que eu não devia, ou até mesmo fugir, apavorada demais para enfrentar as consequências.
Mas eu estava com medo, principalmente, porque eu não conseguia pensar em nada.
Eu estava nos braços de , onde por muito tempo eu jurei que queria estar, entregue à sensação que, por dias e noites, eu imaginei como seria. Seu gosto ainda estava em meus lábios e em meu corpo ainda remanesciam as sensações que ele havia me provocado.
E eu não conseguia pensar em nada.
Nada além de .


QUATRO


Holly, Sabrina e a eterna relevância de Audrey Hepburn


“I have learned how to live… how to be in the world and of the world… and not just to stand aside and watch. And I will never, never again run away from life… or from love, either…”

Entornei o último gole de vinho da taça entre meus dedos e encarei a garrafa vazia enquanto enxugava as lágrimas teimosas que escorriam pelo meu rosto.
Droga, Audrey.
Pausei o filme, com a adorável imagem em preto e branco da mulher mais bela que já havia pisado na terra.
Sabrina era o filme preferido de Ave. Incontáveis eram as noites em que sentávamos naquele sofá e assistíamos às obras clássicas do cinema. Sempre concordávamos em ver Gone With The Wind. Vertigo era um dos nossos preferidos. Mas, quando precisávamos escolher entre Sabrina e Breakfast At Tiffany’s, nunca concordávamos.
E aquilo dizia tanto sobre nós duas.
Ave era como Sabrina. Uma romântica incurável, em busca do amor e disposta a fazer de tudo para encontrá-lo. Ela, de fato, via o mundo através de lentes cor-de-rosa; e, mesmo quando não estava buscando a felicidade, a felicidade dava um jeito de encontrá-la. Assim como Linus encontrou Sabrina.
Eu sempre tive um pouco de Holly em mim. Eu me identificava com ela em todos os níveis possíveis da psique. Ela se julgava um animal selvagem, e dizia que tentar colocá-la em uma gaiola teria justamente o efeito contrário; ela fugiria, voaria para uma árvore, e então para uma árvore mais alta, apenas para acabar livre, no céu. A melancolia de Moon River me fascinava de uma forma que a ternura de La Vie En Rose não conseguia.
E, não importava o que dissessem, o filme era sobre Holly. Não sobre Paul. Ou Fred. Era apenas Holly e o seu caminho até encontrar a si mesma.
O cinema antigo era uma das poucas paixões que dividíamos. Acho que tinha a ver com a forma com que eles, frequentemente, imitavam a vida. O ritmo era mais lento. As cores, mais suaves. As cenas, quase sempre, se sobrepunham — nada parecido com o corte seco e sem graça das obras atuais; era um lembrete silencioso de que o ontem sempre influenciava o amanhã. A vida em sua maneira mais crua. E, embora fossemos tão diferentes, nós duas amávamos viver.
Mas as lágrimas em meu rosto não tinham a ver apenas com as cenas bonitas na tela ou com o roteiro comovente.
Era dia dez de março.
Nada menos do que o aniversário de Ave.
Eu havia passado o dia inteiro em casa, me equilibrando entre pensamentos angustiantes e lembranças alegres.
Não tive forças para ir à faculdade. Havia recusado as três ligações de Harry e passado direto pelo punhado de mensagens que ele me mandara.
E, embora não quisesse admitir, eu estava esperando a ligação da minha mãe.
Eu mal lembrava do meu pai; ele havia partido quando eu tinha seis anos, e a recordação mais vívida que tinha dele eram as telas que ele costumava pintar no sótão da antiga casa em Liverpool.
Já minha mãe, mal lembrava de mim e de Ave. Ela enchia nossas contas bancárias e tinha certeza de que aquilo significava amor. No dia do velório de Ave, ela trocou exatamente três palavras comigo.
Você está abatida.
Fiz questão de não respondê-la. O que você esperava, mãe? Marcas rosadas de vitalidade em meu rosto?
Eu e Avery estávamos acostumadas a descobrir o mundo sozinhas.
Tínhamos tudo planejado. Iríamos trabalhar na redação de uma revista de renome; ela teria uma coluna sobre relacionamentos e eu escreveria os editoriais de moda.
No último ano, ela havia conseguido um emprego em uma revista de jardinagem. Não era o ideal, mas poderia ter sido o começo de algo.
Levantei do sofá para colocar a garrafa e a taça na cozinha, e meu corpo imediatamente reclamou por eu ter saído da coberta. Os últimos dias tinham sido amenos em Londres, mas aquele fim de tarde estava especialmente frio.
E eu estava especialmente triste.
Me sentindo especialmente sozinha.
E prestes a fazer uma merda especial.
Há tanto tempo eu não procurava quando precisava de alento…
Meu corpo, vez ou outra, implorava por ele. Mas eu geralmente recebia um aviso prévio; ou a cintilância de seus olhos me atraíam ou a sua proximidade me deslumbrava.
Mas a tristeza me jogava em um caleidoscópio frenético de lembranças, e, em todas elas, estava presente. E com álcool correndo nas veias e lágrimas escorrendo pelo meu rosto, a minha força de vontade se tornava inexistente.
Me vi indo em direção à porta. Minhas pernas se moveram como se tivessem vida própria, atraídas pelo passado. Nem liguei por estar vestindo um moletom gigante e puído, muito menos para os meus cabelos despenteados e os olhos inchados. Ah, ele já tinha me visto bem pior que isso…
Meu apartamento ficava a exatamente sete passos de distância do dele. Com meu andar apressado, eles se transformaram em quatro.
Nem pensei em tocar a campainha; formalidades podiam ser dispensadas em situações como aquela, certo? Eu só queria ver seus olhos. Queria que ele me lembrasse que eu não havia errado com Ave e que esconder a verdade fora o melhor a se fazer.
Procurei as imensidões no instante em que abri a porta.
E imaginei que elas estariam à minha espera, tão tristes e receptivas quanto eu.
E eu as encontrei.
Mas não do jeito que eu esperava.
No rosto de , havia uma expressão que beirava a raiva. Em seu rosto não havia um só traço de brandura. Encontrei um outro olhar, que feliz era de admitir, eu também conhecia. sempre franzia a testa e seus olhos se tornavam opacos quando ele estava excitado.
E fora exatamente dessa forma que o encontrei.
Meu olhar caiu sob o longo par de pernas nuas que repousavam no colo de . Ele estava sem camisa e devorava o pescoço de uma garota de longos cabelos pretos e olhos cor de mel.
Ah, não.
Meu peito se contorceu. Lágrimas grossas se acumularam em meus cílios. Minhas mãos tremeram de nervosismo.
Eu queria sair correndo dali. Queria correr e bater à porta com toda a força que podia, mas minhas pernas, antes enérgicas para encontrá-lo, agora simplesmente não funcionavam.
Ele cerrou os dentes, contraindo o maxilar. Sabia o que ele estava pensando; não era para eu estar ali.
Os tais olhos não me deixaram por um só instante — nem mesmo quando ele segurou as pernas da garota, tirando-as de cima de si.
Cravei os dentes nos lábios com força, como se aquilo fosse aliviar a dor latente em meu peito. E então fiz menção de dar meia volta.
— sua voz atingiu meus ouvidos, resoluta, eu apenas parei de me mover — Nem pensei em sair por essa porta.
A garota olhou para , depois para mim, e então para ele primeiro. Mirei o chão, um tanto envergonhada.
— Desculpe... Mas ela é minha amiga e precisa de mim.
Ele passou rápido pela palavra amiga, como se ela já o tivesse incomodado antes. Não sabia se a garota havia acreditado; mas o atencioso de não foi seguido por qualquer exclamação indignada. Ouvi apenas o estalo de um beijo, que eu não sabia onde e nem por quem havia sido lançado. E então alguns sussurros preencheram a sala, e eu fiz questão de nublar a minha mente para não entender uma só palavra que os dois trocavam.
Fechei os olhos com força, tentando tirar aquela imagem da minha mente. Céus, eu havia enterrado aquele sentimento. E não era surpresa alguma que estivesse com alguma garota; eu sabia que elas desfilavam o tempo todo por seu apartamento. Aquele jeitinho meio quieto e meio misterioso, combinados com um rostinho irretocável atraía mulheres por toda parte.
Ouvi o barulho dos sapatos de salto contra o piso de madeira. Não tive coragem de olhá-la; apenas me encolhi ao dar um passo para o lado ao deixar que ela saísse pela porta.
— O que houve com você?
A voz de , agora suave, atingiu meus ouvidos e eu continuei encarando o chão.
— Não precisava ter feito isso.
— O que houve com você? — ele repetiu, ignorando o que eu havia dito ao levantar do sofá.
Ergui os olhos em sua direção. E sua expressão genuinamente preocupada fora a gota d’água para que as lágrimas voltassem a correr pelo meu rosto.
— Tá doendo, . Tira isso de mim, por favor.
Ele soltou um suspiro e seus traços bonitos se contraíram, como se ele pudesse, de fato, sentir minha dor. E então atravessou a sala e, antes que eu pudesse me dar conta, seus dedos envolveram meus pulsos e ele me puxou para perto, me encaixando em seu peito. me envolveu em um abraço apertado, daqueles que ele costumava me dar quando queria me proteger do mundo. E eu nem queria começar a pensar no quanto eu gostava daquela sensação. Eu não sentia seu abraço há tanto tempo e então, em uma semana, havia me perdido nele duas vezes.
Seu cheiro tomou conta dos meus pulmões como uma lembrança doce e familiar. Era algo único, como amêndoas, hortelã, e aquele aroma natural e delicioso que só ele tinha. Seu peito nu era glorioso e mais do que eu podia aguentar. Sorte que meus olhos estavam fechados e eu não podia ver as tatuagens que subiam pelo braço e terminavam em seu peito. Tive certeza que desisti da minha sanidade mental quando o apertei um pouco mais; e o traria ainda mais perto se não tivesse sentido seu corpo se contrair e ouvido um pequeno gemido escapar dos seus lábios.
Dei um passo para trás, assustada. E então vi uma enorme mancha arroxeada bem no alto de suas costelas, onde pequenos arranhões ainda cicatrizavam. Estava bem melhor do que eu me lembrava quando o vi no hospital na noite do acidente — mas, ainda assim, olhar para ela fazia meu coração bater em descompasso.
— Ainda dói?
— Um pouco. Mas estava valendo a pena.
Dei um sorriso fraco. Ele era mesmo incorrigível.
— Você precisa parar de dizer as coisas certas.
— E você de fazer as coisas erradas.
Nossos olhares se desafiaram por alguns instantes. Ele estava falando de Danny, eu sabia. Ele tinha aquele meio sorriso no canto dos lábios de quando algo o incomodava, mas ele não estava disposto a dar o braço a torcer.
E isso queria dizer que era hora de encerrar aquele assunto.
— Tem vinho? O meu acabou.
Ele soltou uma pequena risada enquanto balançava a cabeça negativamente. Ela conhecia meus truques. Isso era algo que eu precisava lembrar com mais frequência.
— Só cigarro — ele apontou para a mesinha de centro.
Entortei os lábios.
Não era o ideal. Mas serviria.
Peguei o maço junto ao isqueiro prateado e atravessei a sala, indo direto para a varanda. A minha janela dava para a rua de trás do quarteirão, onde havia muitos prédios e pouca diversão. A de exibia a vista de um pequeno parque; e a falta de grandes construções deixava o olhar viajar para além da cidade. Eu sempre gostei mais da vista dali.
Aquele lugar me trazia tantas lembranças…
Incontáveis foram as tardes que passamos ali, todos juntos, sentados no chão da sala ou em volta da mesinha de madeira escura que enfeitava um dos cantos daquela varanda.
e tinham o que eu costumava chamar de emprego dos sonhos. Eles compunham músicas e vendiam para grandes gravadoras. Letra e melodia. Então não era raro que as tardes entre os amigos fossem entoadas pelo talento dos dois.
Eu nunca entendi porque eles não tentavam lançar as próprias músicas. Eles formariam uma banda e tanto; a voz de era adorável e ele certamente podia fazer a linha rockstar fofinho. E segurando um instrumento era a coisa mais sensual que eu já havia visto na vida.
tocando violão? Irresistível.
tocando piano? A sua calcinha cai. Simplesmente cai.
Tirei um parliament do maço e o ascendi com o Zippo. A primeira tragada me encheu de uma tranquilidade superficial no instante em que apareceu ao meu lado, debruçando sobre o parapeito, agora vestido com um moletom cinza escuro.
Lá fora as luzes se tornavam mais fortes enquanto a terra se afastava cambaleante do sol, e o astro em declínio banhava a cidade de um dourado brilhante pela última vez no dia.
Desviei o olhar para apenas para constatar o que eu já sabia — sua beleza não perdia em nada da divindade celestial. O sol das seis da tarde incidia com afeição romântica em seus traços viris; mas, quando eu o olhava, a realidade se dissipava no ar e, inerte na névoa de um imaginário fabuloso que ele vez ou outra me lançava, o crepúsculo se transfigurava em madrugada. De repente era como se fossem três da manhã, eu tivesse entornado quatro taças de vinho e minhas bochechas estivessem rosadas; pelo álcool e pelas palavras brilhantes de desejo explodindo em meu peito, implorando para serem impulsionadas para os meus lábios.
Dei mais uma tragada no cigarro, com a certeza de que aquilo acalmaria meus nervos à flor da pele, e passei o branquinho pra ele.
fez questão de esbarrar os dedos nos meus. Ele sabia que esses pequenos detalhes me atraíam e sempre fazia questão de usá-los.
Tão mergulhada no seu ser estava, observei com atenção enquanto ele abria minimamente os lábios e encaixava o cigarro ali.
Merda.
Eu estava mesmo querendo ser a porcaria de um cigarro?

E o desejo se fez ainda maior quando prestei atenção em seu lábio inferior. Ah, céus. A marca do piercing que costumava usar em seus tempos áureos de juventude estava ali, mais sútil e mais charmosa do que nunca. E aquilo fez com que lembranças e sensações caóticas e incontroláveis passassem por minha mente. Antes que eu pudesse perceber, estava inclinando a cabeça e mordendo o lábio inferior ao observar minuciosamente a marquinha que me parecia a mais sensual do universo.
— Isso foi um pensamento indecente, ? – o familiar da sua voz libidinosa fez minhas bochechas esquentarem enquanto um sorriso provocante puxava o canto da sua boca.
— Porque não coloca de novo? — levei meus dedos à pequena marquinha e, quando a toquei suavemente, o rastro de uma barba por fazer fez cócegas em minha pele — Era sexy.
E gostoso de beijar.
O senti estremecer sob meus dedos.
— Não tenho mais idade pra isso.
Soltei uma risada, pegando o cigarro de volta da sua mão.
— Mas tem idade para transar no sofá como um adolescente desesperado? Leve a menina pro quarto, — brinquei, esperando que a fumaça nublasse a expressão incomodada em meu rosto.
— Transar na cama é chato — ele constatou, os olhos incendiando em minha direção.
— É, eu sei.
Nos encaramos, cúmplices, por alguns instantes. Havia tanta história ali. Tanto que ele sabia sobre mim e tanto que eu havia aprendido sobre ele.
Queria entender porque meu instinto ainda mandava eu me manter longe. Era compreensível antes, quando Ave claramente o amava, mas o que me impedia de aceitar ao menos sua amizade agora? Talvez eu apenas não conseguisse lidar com o que tentava me oferecer. Nunca ninguém havia cuidado de mim antes e talvez eu apenas não soubesse lidar com isso.
… — minha voz saiu em um fiapo.

— Eu deixei Ave partir sem saber da gente. Acha que foi justo?
Eu mal conseguia colocar aquele sentimento culposo em palavras sem que as lágrimas voltassem a marejar meus olhos.
Por tantas vezes eu tentei me convencer de que não precisava contar tudo para ela. Minha história com havia acontecido muito antes e eu fiz questão de me afastar dele quando a vi apaixonada. Eu tinha mesmo feito algo errado? Algo que eu já não podia mais corrigir?
apagou o cigarro no cinzeiro apoiado no parapeito e se virou de frente pra mim.
— Injusto foi ela ter partido — ele me olhou por alguns segundos em silêncio. E, quando voltou a falar, senti meu coração sendo arrancado do meu peito — Acha que não sei que preferia que tivesse sido eu do que ela?
Mal processei as palavras e senti algo se quebrando dentro de mim. Quando me dei conta, estava a milímetros de , minhas mãos tampando a sua boca e os olhos sérios, fixos nos seus.
— Nunca. Mais. Diga. Isso.
O pensamento de perdê-lo se assemelhava a dor de mil facas atravessando meu corpo.
Perdida demais em seus olhos, encostei minha testa na dele e escorreguei lentamente meus dedos de seus lábios.
Sua respiração quente se misturou com a minha e eu pude sentir a sanidade abandonando meu corpo.
— Chegue mais perto — ele sussurrou — Seu cheiro está delicioso.
Soltei uma risada leve, inerte demais para conseguir me mover.
Partículas douradas brilhavam em seus olhos e eu estava sendo cautelosa demais para que nossos narizes não roçassem; sabia que, se acontecesse, não teria mais volta.
— Eu consigo ver o sol refletindo nos seus olhos — sussurrei.
Seu sorriso transbordou para o seu olhar, daquele jeito sincero e irresistível. Seus olhos tremeram por um segundo, prendendo-se em minha boca.
— Eu consigo vê-lo nos seus lábios.
— Não consegue não.
— Consigo. E eu nunca quis tanto beijar o sol.
As belas frases que vertiam-lhe os lábios fizeram meu corpo inteiro estremecer. sempre teve um talento e uma prontidão extraordinária para me fazer sorrir. Ele se dedicava a isso como nenhuma outra pessoa havia feito.
E eu tinha a difícil tarefa de me convencer que aquilo não me agradava.
E então aconteceu. Me movi um milímetro e nossos narizes se encostaram.
Eu fechei os olhos.
Ele moveu minimamente o rosto e nossas peles se acariciaram em um roçar esplêndido, carregado de saudade.
— Vai embora agora, .
Sua voz arrastada me fez arfar.
Abri os olhos. E encontrei os seus, tão próximos e intensos, me desafiando com um quê de furor.
Ele estava certo. Eu precisava ir embora. Aquilo não faria bem — nem pra mim e nem pra ele.
— Por que? — indaguei em um suspiro, por mais que já soubesse a resposta.
Ele deu um passo para frente. E eu, conhecendo aquela dança, dei um para trás. Seu corpo empurrou o meu e só parou quando minhas costas colidiram com a parede.
Senti seu corpo me pressionar e estremeci. Queria pedir que ele me tocasse mais. E queria pedir para que ele não me tocasse nunca mais.
Ele apoiou os braços, um de cada lado do meu corpo, prendendo-me ali por inteira.
Eu gostava disso; ele sabia. Gostava quando seus movimentos eram tão firmes que eu podia sentir o calor implodindo em cada milímetro dos nossos corpos. Gostava que, em momentos como aquele, todo cuidado que ele tinha em relação a mim se transformasse em descuido e em uma busca exclusiva para o prazer.
E então, em um sussurro provocante, sua voz viajou dos meus ouvidos diretamente para o ponto úmido no meio de minhas pernas.
Porque se não eu vou ter que beijar você.


CINCO

Gotas de Júpiter

Fiquei encarando o vazio onde, há instantes atrás, estava .
Minhas mãos ainda estavam apoiadas na parede; dessa vez, cerradas em um punho, na ideia ilusória de que eu ainda podia mantê-la ali.
O cheiro doce dos seus cabelos ainda remanescia no ar, e eu esperava que ele estivesse também em minhas roupas — assim seria mais difícil me livrar dele. E eu sempre queria uma parte dela em mim, por menor que fosse.
Por um mísero instante achei que ela não iria embora.
costumava fazer isso comigo; me dar um vislumbre privilegiado do que havia em seu coração e então se afastar, apenas para se trancar mais fundo nas profundezas de obscuridade que ela havia criado para si mesma. Ela escondia o que tinha de melhor e exibia o seu pior.
Seria um ótimo mecanismo de defesa se eu não a conhecesse tão bem.
Soltei um suspiro, passando as mãos pelos cabelos. Eu não podia nem fumar a porcaria de um cigarro para me acalmar, pois certamente me lembraria da fumaça saindo daquela boca sexy dela.
Merda…
Eu precisava traçar um limite. O que havia acontecido naquela noite fora um erro. Um erro gigantesco. Não importava o quanto eu a quisesse nos meus braços, o ponto de tudo aquilo era outro. Era exatamente o oposto. Eu não queria fazê-la sofrer. Já havia feito uma vez e não aguentaria fazer de novo.
Vê-la atravessar a porta com as lágrimas nos olhos havia partido o meu coração.
Cara, eu não conseguia vê-la chorando. Seu rosto adotava o ar ingênuo de quando a conheci, com dezenove anos e o mundo a descobrir. Ela tinha o olhar mais doce que eu já vira.
E os peitos mais incríveis também.
Merda mais uma vez. Era exatamente esse tipo de coisa que eu não podia pensar.
Seria mais fácil se eu encarasse e tudo que a sucedeu como um erro. Mas eu não conseguia pensar assim.
Ela foi e sempre seria a melhor coisa que me aconteceu.
Senti as lembranças deslizarem pelo fundo de minha mente, prestes a me atingir em cheio. Sabia que, em instantes, tudo passaria em frente aos meus olhos. Imagens turvas de uma madrugada em particular que me fariam lembrar que eu havia perdido a parte melhor e mais fresca de tudo aquilo.
Há tanto tempo eu não me permitia pensar naquela noite…
Ave costumava me manter distante do que eu sentia por . Não que o amor tivesse passado; mas eu gostava de Avery e não queria magoá-la. Sem ela aqui, não havia nada que me protegesse do lugar imenso que ocupava no meu peito.
As duas eram irmãs, mas, nem de longe, uma lembrava a outra. Avery era sempre cheia de sorrisos e eu juro que não havia um só traço ruim em seu coração. Ela atraía felicidade, conquistava a simpatia de todos e literalmente brilhava. Já era dona de uma delicadeza singular — mas ela não mostrava isso para ninguém. O mundo não conhecia como ela realmente era. As pessoas a admiravam de longe e estavam sempre encantadas por sua beleza; mas nem desconfiavam que belo de verdade era tudo o que havia dentro dela.
Eu tive sorte por conseguir conhecê-la. Ela baixou a guarda e me deixou experimentar cada parte cintilante da benevolência que a compunha. E era incrível vê-la direcionando sua luz inteiramente para mim. Ver seu rosto se iluminando ao me olhar era o que havia acontecido de mais maravilhoso comigo. Me fazia pensar que eu havia feito alguma coisa certa para merecê-la.
Caramba, ela costumava me olhar como se eu fosse a única pessoa no mundo.
O problema é que eu ainda pensava nela assim.
Não importava quantas mulheres eu tocasse. Quantas noites passassem. Quantos risos eu procurasse em meio a solidão.
Ninguém era ela. Ninguém chegava nem perto de ser o que era fora para mim.

Londres, 7 anos atrás

Eu só podia estar no céu.
Apoiado no capô do carro, minha boca se deliciava em um cigarro enquanto meus olhos se deliciavam na visão etérea de Violet e Rose se beijando.
É isso aí. Duas meninas com nomes de flores se pegavam na minha frente e meu pau estava duro como o tronco de uma árvore.
Eu nunca amei tanto a natureza.
Passei a língua pelos lábios ao acompanhar os dedos curiosos de Violet deslizando pelos ombros de Rose, trazendo a alça da blusa consigo.
— Não acham que já me torturaram o bastante? — lancei minha voz para além dos rastros da névoa de fumaça no ar.
Rose estreitou os olhos verdes sob os cílios grossos em minha direção, transbordando volúpia.
Ótimo.
Elas nem tinham começado. Não era apenas parte do jogo vamos-deixar— o--sofrendo-de-pau-duro; elas estavam, de fato, cheias de tesão uma na outra.
O que me deixava ainda mais excitado.
— Como eu saio daqui?
Arrastei meus olhos para o lado, sem ter certeza de que havia escutado alguma coisa.
— Hm? — murmurei assim que encontrei um par de olhos grandes e brilhantes sob mim.
Ela não parece envergonhada por atrapalhar a iminência óbvia de um sexo à três, e nem incomodada com a ereção evidente no meio das minhas pernas.
— Tenho certeza que sua festa estava muito interessante, mas eu preciso saber como saio daqui — ela ergueu um par de sapatos reluzentes nas mãos — Estou andando há meia hora e não tenho certeza se estou no caminho certo.
Meu olhar correu para os seus pés e soltei uma pequena risada ao ver que ela estava descalça.
— Você ainda vai precisar andar bastante se não estiver de carro.
— Eu não tenho um carro — ela entortou os lábios — Mas você tem um.
Um sorriso se formou no canto dos meus lábios ao prever onde ela estava querendo chegar. Dei uma tragada longa no branquinho esquecido entre meus dedos sem tirar os olhos dela. Os cabelos caiam em longas cascatas levemente onduladas, emoldurando o rosto deslumbrante onde lábios rosados e olhos resplandecendo inocência atraíam toda a atenção do universo para si. Ela parecia um anjo, embora o vestido preto que fazia seus seios saltarem para fora gritassem pecado.
Com o canto dos olhos, olhei para Rose e Violet. Elas mal haviam percebido que a menina estava ali; estavam entretidas demais uma na outra.
Minhas bolas se contorceram ao preverem o que eu iria fazer.
Mas belos olhos sempre me fizeram fraquejar; principalmente quando vinham acompanhados de um par de seios deliciosos.
Apreciei a última tragada antes de jogar o cigarro fora e cruzar os braços sem desgrudar os olhos dela.
— Estou esperando você implorar.
O sorriso provocante em meu rosto refletiu nos lábios dela; embora ela colocasse a quantidade certa e irresistível de doçura nele.
— Por favor? — a garota deu um passo em minha direção.
E seus seios balançaram.
A ereção que apertou ainda mais meu pau contra a calça jeans.
É, “por favor” estava bom o suficiente.
Mas eu tinha algo melhor em mente do que levá-la para casa.
— Tem certeza que quer ir embora?


Fiquei observando na ponta dos pés enquanto o garoto jogava meus sapatos no banco de trás do seu carro.
Pensei em dizer que ele custava trezentas libras e que eu cuidava daquele par como se fossem… Bom, como se fossem sapatos caríssimos.
Mas o cara havia desistido de uma noite de sexo à três com duas garotas estonteantes para me ajudar. Nem eu faria isso...
Talvez não fosse um gesto e tanto. Algo me dizia que aquilo era apenas um sábado à noite para ele. Não era difícil imaginar as mulheres passando constantemente em duplas ou em trios por sua cama; o garoto era dono do rosto mais bonito que eu já havia visto na vida. Do tipo que te faz tirar a roupa com apenas um olhar.
E eu podia ver os vestígios de alguns rabiscos coloridos em seu punho, se insinuando por baixo das mangas da jaqueta preta.
É, a garota ama sapatos de marca tem uma queda por tatuados de olhos . Clássico.
Ele lançou um pequeno sorriso em minha direção antes de andar até as garotas. As duas não haviam sequer olhado em minha direção.
Tentei desviar a atenção, mas não consegui. Meus olhos ficaram fixos nos três enquanto ele sussurrava algo para as duas. E então unhas compridas passearam pelo peitoral do garoto, e sorrisos indecentes foram lançados para todos os lados.
Não pude conter uma risada quando ele girou nos calcanhares e voltou a caminhar em minha direção, parecendo levemente desconcertado. Mal podia imaginar o que elas haviam dito.
— Achei que elas te convenceram a ficar.
Ele riu, balançando a cabeça negativamente.
— Te dei minha palavra. Não costumo desapontar as pessoas.
Meneei a cabeça, sem saber ao certo o que responder. Era a hora de dizer que eu era ótima em desapontar todo mundo? Me parecia irrelevante quando eu não pretendia ver o cara novamente.
Ele tomou o lugar ao meu lado e começou a andar para a direção contrária da qual eu havia vindo.
Sem dizer nada, acompanhei seus passos. Consciente dos meus pés mais uma vez contra o asfalto, amaldiçoei Jace em pensamento. Estávamos a caminho de uma festa na antiga casa de Logan e Wyatt quando Jace resolveu dar uma “pequena desviada” do caminho. E então ele me trouxe para a Speedtrack, um autódromo nos limiares da cidade, onde os motores roncando davam o tom da noite e o ar cheirava a gasolina queimando.
O lugar era gigante. Pistas e mais pistas se encontravam em um extremo e — como eu havia descoberto — andar para oeste revelava mais e mais daquela encosta. Ruas asfaltadas subiam e desciam me guiando diretamente para o nada. E pequenas áreas cobertas de grama e árvores ladeavam as alamedas, onde, vez ou outra, se encontrava um casal arrancando as roupas ou um grupo de amigos imerso em uma nuvem de fumaça.
— E então? — a voz do garoto me trouxe de volta para realidade e eu deixei de encarar meus pés para olhá-lo.
— E então…?
Ele deu um pequeno e adorável sorriso.
— Vai me contar como acabou descalça aqui? Ou melhor — ele levantou uma das mãos — Porque estava usando saltos aqui?
Soltei um suspiro. Eu não estava acostumada a compartilhar detalhes de coisas que me afligiam nem com meus melhores amigos; certamente não conseguiria fazer isso com alguém que havia acabado de conhecer.
Mas eu podia dar os detalhes superficiais da história.
— É uma longa história. Jace me trouxe aqui e…
— Jace? — ele me interrompeu, um tanto surpreso — Você é a garota do Jace?
— Não sou a garota de ninguém — rolei os olhos — E certamente não dele. Jace é um babaca.
— É… Na maioria das vezes.
Com o canto dos olhos, tentei decifrar sua expressão. E ela não me dizia nada. Quis perguntar como ele o conhecia, mas as palavras nunca chegaram aos meus lábios. Estava fugindo do garoto e entrar em uma conversa sobre ele não era a melhor maneira de fazer isso.
— Onde estamos indo? Achei que precisássemos do carro para sair daqui.
— Não vamos sair daqui — ele apontou para frente e eu segui seus dedos com o olhar — Ali está o melhor bar de toda Londres.
Meu rosto se contorceu em uma careta inevitável.
Ele só podia ter cheirado sais de amônia ou algo do tipo.
Poucos passos à nossa frente, uma pequena construção antiga se insinuava atrás de duas árvores enormes. As paredes eram de madeira pintadas de azul claro e estavam visivelmente desbotadas. Uma placa iluminada com o nome Night Meadow tinha as letras G e M apagadas. Do lado de fora, bem ao lado da porta, uma máquina decrépita daquelas em que se pode comprar um maço de cigarros por cinquenta centavos conferia o ar de um filme de terror dos anos quarenta.
— Me parece o lugar ideal para pegar tétano. Ou para presenciar um assassinato.
Ele soltou uma gargalhada.
— Acredite, é o melhor bar de Londres. Principalmente porque, mesmo quando ele está fechado… — ele deu três passos rápidos e seus dedos alcançaram a fechadura, se livrando de um cadeado enferrujado — Ele não está trancado.
Espera aí… O que?
Olhei para o garoto e o brilho quase infantil em seus olhos . Olhei para a sua mão na fechadura destrancada. E então espiei a fresta da porta semiaberta, onde tudo o que eu podia ver era a escuridão.
Não. Não mesmo. Nem pensar.
— Acho que eu posso andar mais um pouco… — abracei meu corpo ao dar um passo para trás.
— Confie em mim…
— Eu te conheço há dez minutos e nem sei o seu nome. Eu não costumo confiar nem em mim mesma, como vou confiar em você?
. Pode confiar em mim à vontade.
E então ele sorriu.
Céus, como eu diria não para aquele sorriso? Como alguém diria não para aquele sorriso?
Ele transbordava para os seus olhos e o garoto os apertava. As íris brilhavam tanto que pareciam duas safiras líquidas, ofuscando tudo ao seu redor.
Então fiz a única coisa que uma garota naquela situação era capaz de fazer.
Eu entrei no bar.
Primeiro com passos receosos, os olhos faiscando em todas as direções, tentando, inutilmente, enxergar alguma coisa.
Tive um sobressalto quando ouvi um estalo; mas me acalmei no instante seguinte, quando virei para trás e vi — como agora eu sabia ser seu nome — ascendendo o interruptor.
As paredes ao meu redor começaram a tomar forma. Não fiquei surpresa ao ver que tudo parecia ainda mais velho do que do lado de fora. O lugar não era muito grande; algumas mesas e cadeiras de madeira escura estavam empoleiradas em três fileiras bem em frente a um palco onde instrumentos ficavam dispostos em pedestais. À minha direita, uma longa bancada se estendia em frente ao bar, com milhares de canecas de cerveja e máquinas de chopp. Do teto pendiam ventiladores enferrujados e ligeiramente barulhentos, e o ar cheirava a queijo quente.
E, bem… Não eram nem duas horas da manhã e as portas já estavam fechadas. Acho que isso dizia muita coisa.
— Como você sabe que ninguém vai chegar? — indaguei enquanto ainda estudava cada canto decadente do local.
— Acha mesmo que é a minha primeira vez?
— Ah, não! — me virei para ele — Quantas vezes você já transou nessa bancada, ?
Ele soltou uma risada enquanto puxava uma das cadeiras da primeira fileira, bem embaixo do tablado.
— Acredite, não venho aqui para isso — ele apontou para a cadeira e então arrastou outra para se sentar — Agora vai me contar a verdade? Porque você está triste?
Eu estava prestes a andar em sua direção, mas assim que ouvi suas palavras, meus pés pareceram se prender ao chão.
Nossa.
Aquilo realmente havia surgido do nada.
Quer dizer, como ele havia percebido? Eu estava sorrindo o tempo inteiro. Me policiei a cada segundo para que nada transparecesse em minhas expressões; e eu costumava fingir meus sentimentos muito bem.
— Não estou triste — murmurei, dessa vez duvidando do quão convincente eu estava soando.
Droga, !
Ele cruzou os braços. E então, se inclinando brevemente sob a mesa, sibilou em resposta:
— Acredito mais em seus olhos do que nas palavras que saem da sua boca.
Me encolhi. Literalmente me encolhi. Eu havia construído um escudo e ninguém deveria conseguir derrubá-lo. Não queria que ele visse além dos meus olhos. Eu passei a minha inteira tentando esconder o que existia ali, caramba.
— Não gosto de falar sobre essas coisas — coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, incerta do que fazer com as mãos — Em geral, elas não trazem nada de bom.
— Foi o Jace?
Balancei a cabeça em negação. Com um suspiro, percorri o pequeno espaço entre nós dois e tomei o lugar que ele havia me indicado antes. Seus olhos pairavam em mim e eu fazia questão de mirar minhas mãos.
— Relacionamentos não me fazem ficar assim. Ele foi apenas a parte que faltava para o dia ser completamente ruim.
— Garotos idiotas como o Jace não deveriam interferir em nada no dia de garotas lindas como você.
... — soltei uma risada ao repreendê-lo, levando meu olhar até ele.
— O que? — um pequeno sorriso brincou em seus lábios.
Ele sabia exatamente o quê.
— Para de me cantar — soprei, apoiando o rosto nas mãos e ficando ligeiramente mais perto dele — É só um daqueles dias em que você acorda e tudo parece estranho. Não igual aqueles em que o céu está cinza, chove demais e você apenas fica desanimado. É um daqueles dias em que está tudo bem e, de repente, você sente medo e não sabe ao certo o que te assusta. Você já se sentiu assim?
Ele não disse nada. Apenas assentiu com a cabeça, lentamente, como se não quisesse espantar o repentino momento em que poucas palavras sinceras haviam entornado de minha boca.
O silêncio caiu sobre nós; não de uma forma desconfortável ou hostil. Tomamos os instantes pacíficos a nosso favor. Havia pouco mais de um palmo de distância entre nós dois. Meus olhos estavam mergulhados nos seus e nenhum de nós parecia disposto a fazer nada para desviar o olhar. Se ele respirasse levemente mais fundo eu tinha certeza que conseguiria sentir sua respiração.
— Aposto que consigo fazer você sorrir — as palavras voaram graciosas de seus lábios e eu desejei que elas fossem proferidas mais lentamente para que eu pudesse apreciá-las por mais tempo.
Esse cara que eu havia acabado de conhecer estava querendo me fazer sorrir?
— Meus sorrisos quase nunca são sinceros…
Ele não respondeu. E não precisava para eu saber que ele havia aceito o desafio.
Em vez disso, ele levantou. E fez questão de se inclinar um pouco mais em minha direção enquanto levantava, apenas para roçar quase que superficialmente o nariz no meu no caminho.
Eu me arrepiei com o toque inesperado. Tive vontade de segurar em seus braços e pedir para que me tocasse novamente; por mais tempo e em partes mais interessantes do meu corpo.
Mas apenas fiquei ali, ansiando pelos seus próximos movimentos, como se precisasse de alguma validação dele para me mover novamente.
E, quando ela veio, me vi ainda mais inerte.
havia subido no pequeno palco. E sentado em um dos banquinhos. Com o violão no colo.
Ai.
Nada no mundo podia ter me preparado para aquela visão.
Seus dedos deslizaram pelas cordas.
Ele fechou os olhos.
E eu fui transportada para o céu.


Now that she's back in the atmosphere
With drops of Jupiter in her hair
She acts like summer and walks like rain
Reminds me that there's a time to change
Since the return of her stay on the moon
She listens like spring and she talks like June


Me vi encantada.
Maravilhada, extasiada, fascinada.
Primeiro, pela sua voz. O tom suave e melódico chegava aos meus ouvidos como as ondulações inéditas mais deslumbrantes que eu já ouvira.

But tell me, did you sail across the sun?
Did you make it to the Milky Way
To see the lights all faded
And that heaven is overrated?
Tell me, did you fall for a shooting star?
One without a permanent scar?
And did you miss me
While you were looking for yourself out there?


Depois, pelos seus dedos, correndo pelas cordas com uma destreza ímpar. Habilidade sempre fora atraente e era difícil não pensar o que aqueles dedos hábeis poderiam fazer com o meu corpo.

Now that she's back from that soul vacation
Tracing her way through the constellation
She checks out Mozart while she does Tae-Bo
Reminds me that there's room to grow
Now that she's back in the atmosphere
I'm afraid that she might think of me as
Plain old Jane told a story about a man
Who was too afraid to fly so he never did land


Por último, pela beleza que transcendia seu rosto irretocável. Ele era lindo, com seus olhos brilhantes e os cabelos displicentes, e essa fora a primeira coisa que reparei quando botei meus olhos nele. Em cima do palco, com a meia luz em suas feições masculinas, ele parecia ainda mais esplêndido.
Mas o encanto transparecia em sua alma; afinal, ele estava cantando para me fazer sorrir.
E céus, eu estava sorrindo. Não apenas com os olhos; a faísca de felicidade havia incendiado todo meu ser.

But tell me, did the wind sweep you off your feet?
Did you finally get the chance to dance along the light of day
And head back to the Milky Way?
And tell me, did Venus blow your mind?
Was it everything you wanted to find?
And did you miss me
While you were looking for yourself out there?


Quando o silêncio tomou o lugar da sua voz, eu ainda me sentia flutuando em uma nuvem de felicidade. havia lançado meu corpo a um estado profundo de êxtase e eu não estava disposta a deixá-lo. Poderia ouvi-lo cantando pelo resto da noite. Pelo resto de várias noites Eu tinha dezenove anos e aquela era a cena mais bonita que eu já havia visto na vida.
Ele desceu do palco e parou em minha frente. Em seu rosto havia uma timidez passageira; e ele ficava ainda mais lindo ajeitando os cabelos para trás quando parecia envergonhado.
Embora eu não entendesse o que havia para sentir vergonha. Ele devia estar orgulhoso — quem quer que fosse, ele havia colocado em meu rosto um dos sorrisos mais sinceros que minha alma fora capaz de externar.
— Você não pode ter essa aparência e cantar assim. É injusto com o resto da humanidade — soprei, incapaz de tirar os olhos dos seus.
Ele deu um passo em minha direção, o espaço entre nós diminuindo para a tensão crescer.
— A felicidade cai muito bem em você.
Senti meu corpo inteiro vibrar, ansiando pelo seu toque. Ele cheirava a bala de hortelã e o aroma me dava água na boca.
Eu não disse nada.
E nem desviei o olhar de seu rosto.
Seus olhos tornaram-se opacos de ansiedade quando aproximei lentamente a palma de minha mão dos seus ombros. E então a coloquei ali, por baixo da jaqueta, e senti seu corpo tremer e se contrair sob meus dedos. Dedilhei o caminho da sua clavícula, trazendo com meus dedos a jaqueta, e deixei-a escorregar por seus braços.
A peça caiu no chão. E as tatuagens estavam ali. Coloridas e psicodélicas, à mostra, todas ao meu dispor.
Eu entrelacei nossos dedos, apenas para apoiar uma de suas mãos em minha cintura. E então deslizei lentamente a palma da mão por seu braço, sob os desenhos, enquanto sentia cada milímetro do seu corpo tornar-se trêmulo. arfou levemente ao morder o lábio inferior, chamando minha atenção para a jóia de metal que adornava o canto de sua boca.
Ah, eu queria senti-la.
— Você ainda não me disse seu nome… — ele sussurrou, o hálito quente formigando em meus lábios.
— Não vamos estragar essa noite. Você fica sem saber o meu nome e… — apoiei meus braços em seu pescoço — Eu fico sem saber se você prefere dias chuvosos ou ensolarados, como você toma seu café…
— Se você prefere baunilha ou chocolate… — ele continuou, entendendo o que eu queria dizer.
— Ou se gosta de filmes de terror ou romance.
Era aquilo. Um beijo de apenas uma noite. Não poderia ser melhor.
Um leve sorriso assomou sua expressão. Um sorriso lindo e indecente ao mesmo tempo.
A expectativa fez meu coração bater em descompasso. Eu queria saber que gosto ele tinha. Queria descobrir os sons que saíam de sua boca quando sentia prazer.
Nossos narizes se encontraram em um roçar carinhoso. E eu esperava que o beijo começasse da mesma forma.
Mas descobri que trazia em si a mesma urgência para saciar desejos que eu.
Soltei um pequeno gemido quando seus dedos enroscaram em meus cabelos. Puxando os fios em minha nuca ele me trouxe para perto, fazendo nossas bocas colidirem de uma só vez. O próximo gemido veio dele, no exato instante em que nossas línguas se tocaram, e o som erótico fez meu corpo inteiro tremer. Ah, aquilo era bom e ele realmente tinha gosto de bala de hortelã.
Seus lábios macios acariciavam os meus com ardência, e o piercing roçava em minha língua de uma forma completamente excitante, a sensação gelada do metal contrastando com o furor que fluia de nós dois. mantinha uma das mãos em meus cabelos, dando leves puxões que lançavam meu corpo a um estado latente de prazer. A outra mão explorava minha cintura, dando alguns apertões nos pontos certos para me deixar ainda mais entregue a ele. Os dedos que antes eu havia sonhado eram mesmo ágeis. Seu toque era firme e os lábios eram ávidos. Eu arranhava seus ombros, os dedos furtivos por baixo do tecido fino da camiseta, cada vez mais satisfeitos ao sentir a tensão dos músculos que ele usava para me segurar. Eu poderia passar a noite inteira presa em seus braços e indo à loucura com seus beijos e toques promissores.
Arfei quando colocou uma das pernas entre as minhas, e nossos corpos se encaixaram até nos lugares mais impossíveis. Suspirei quando sua ereção gloriosa cutucou minha barriga e pressionei meu corpo ainda mais contra o dele. Queria senti-lo mais. Queria senti-lo por inteiro. Em cada parte do meu corpo. soltou um rugido de prazer abafado contra meus lábios, o som sensual reverberando diretamente no meu ventre, me obrigando a forçar minha intimidade contra sua perna para acalmar a dor vigorosa de prazer.
Quando nossos lábios se separaram, estava ainda mais lindo com os cabelos despenteados, as maçãs rosadas e a boca levemente inchada. Seus olhos pareciam ainda mais sedutores quando nublados de desejo. Eu ainda era incapaz de desgrudar nossos corpos; então ficamos ali, abraçados e nos olhando enquanto tentávamos recuperar o compasso da respiração.
Eu queria mais. É claro que eu queria mais. Mas algo dentro de mim avisava para ir com calma com esse garoto.
O gosto de hortelã remanescia em minha língua e eu queria mantê-lo ali. Seus lábios eram suaves como a noite, e ainda assim, tão ardentes quanto o sol. E, se seu beijo tinha todos os objetos celestiais, seus olhos pareciam tão encantadores e indecifráveis quanto o universo e todos seus componentes esotéricos.
O garoto tinha a galáxia inteira irradiando dele. Que esperança eu tinha?
Eu tinha ouvido, uma vez ou outra, sobre aqueles olhares arrebatadores, que parecem te desafiar o tempo inteiro e te incitam a fazer as mais diversas coisas que sequer haviam passado por sua mente antes. Mas nunca havia conhecido um. Até me perder nos olhos de .
Também conhecia a quimérica sobre como pessoas especiais cruzavam nossos caminhos assim, do nada, sem aviso prévio, e acabavam transformando um dia comum em uma noite inesquecível.
Ele havia se tornado inesquecível. Aquela fora uma bela forma de guardá-lo na memória.
Porque eu não planejava vê-lo novamente depois daquela noite.
Havíamos combinado; nós tínhamos nos conhecido em um beijo de despedida.
Mas porque ele ainda me olhava como se estivesse dedicado não apenas a permanecer em minha pele apenas por aquela noite, e sim prestes a bagunçar a minha vida inteira?


SEIS

Longa é a noite para um coração partido


Ave?
Minha voz era um sopro.
E a resposta era o silêncio.
Honestamente, eu não sei o que esperava.
Deitada no chão da minha sala, com a cabeça apoiada no tapete branco e felpudo, estrategicamente posicionada para enxergar a fresta do céu que me cabia naquele ínfimo pedaço do universo, eu implorava por algum sinal.
Podia ser uma estrela deixando um rastro luminoso entre as nuvens. Um único raio partindo a noite. Ou até uma corrente de ar, daquelas que batem de pressa e você não tem certeza se é uma tempestade chegando pelo mar ou apenas o bater de asas de uma borboleta quando você está sensível demais a qualquer mudança atmosférica.
Se eu acreditava que minha irmã podia estar mesmo em algum campo espiritual, olhando por mim e prestes a entrar em contato?
Eu não sabia.
Minhas crenças eram incertas. Volúveis. Era fácil demais eu me perder em mim mesma, e às vezes esse lapso de senso de direção colocava em dúvida não apenas minhas convicções; mas também quem eu era.
Embora a voz irritante no fundo da minha mente insistisse em me lembrar, carregada de autocrítica: fraca e insuficiente.
E era isso o que acontecia quando eu passava muito tempo comigo mesma: eu me colocava para baixo. Era um paradoxo solitário e sem solução; eu adorava ficar sozinha mas odiava a minha própria companhia.
Meu celular vibrou no chão ao meu lado e eu soltei um longo suspiro. Peguei o aparelho e sentei, abraçando minhas pernas.
Estou mais preocupado com o seu diploma do que qualquer outra coisa. Sabe, como seu professor…
Sorri ao ler a mensagem de . Era tão mais fácil resistir a ele por mensagens — a lembrança de autoridade não surtia tanto efeito quanto quando acompanhada de seu sorriso atravessado.
Eu havia mesmo evitado a faculdade nos últimos quatro ou cinco dias. Cinco? Já tinha passado uma semana? Certo, talvez ele tivesse razão em se preocupar.
Bem acima de , brilhava o nome da minha mãe. Nome. Eleanor . Eu me negava a chamá-la de algo minimamente mais carinhoso — ela nunca fora uma figura materna, então, porque eu deveria externar afeição?
Era a cara dela. Não havia dado notícias no aniversário de Ave e dois dias depois estava me perturbando com mil mensagens e ligações. E não tinha nada a ver com conforto para com a sua filha; ela queria que eu a visitasse. Eu apenas ainda não sabia o porquê. Na verdade, não sabia nem se conseguiria ir. Encará-la sozinha era… Bom, era impossível.
O barulho de três batidas ocas ecoou pela sala. Levantei do chão em um pulo, pegando minha bolsa no sofá e encaixando os pés em um par de sapatos cor-de-rosa no meio do caminho. Andei cambaleante até a porta e, quando eu abri, não tinha ninguém.
Vamos?
Rolei os olhos. Mais adiante, no final do corredor, as costas de falavam comigo.
Claro. Porque ele não podia simplesmente me esperar na porta como uma pessoa normal.
A noite seria interessante.


A noite seria longa.
Percebi isso no instante em que entrou no carro ao meu lado.
Trinta minutos pareceram uma hora com seu cheiro inebriando meus sentidos. E era difícil prestar atenção nos semáforos quando ela estava ao meu lado; eu acabava me distraindo ao vê-la de relance pelo retrovisor, com o olhar perdido entre as ruas e o pensamento distante.
Ela havia soltado apenas duas frases durante o caminho inteiro.
Primeiro, para implicar com a música que tocava. Eu simplesmente não conseguia entender como ela não gostava de Blink.
Depois, para avisar que eu havia errado o caminho.
É claro que eu errei. Seu cheiro de cereja me deixa desnorteado e você sabe disso.
Mas se eu havia pensado que aquela seria a parte mais difícil da noite, eu certamente não sabia o que estava por vir.
Eu estava há vinte minutos ouvindo contar sobre a noite incrível que ele havia tido com . Detalhadamente. Nos. Mínimos. E. Malditos. Detalhes.
Eu apenas balançava a cabeça vez ou outra e fingia estar ocupado demais entornando uma garrafa de cerveja — que havia acabado há algum tempo — para não precisar fazer nenhum comentário.
… Ah, o idiota do . Ele fazia milhares de perguntas que deixavam toda a história ainda mais comprida. E gráfica. Eu até o chamaria de pervertido se não soubesse a realidade; ele simplesmente gostava de romance. Provavelmente já estava imaginando ele, Tansy, e de cabelos brancos, jogando baralho na sacada de sua casa de veraneio longe da cidade.
E porque eu ainda estava parado ali?
Aparentemente eu era masoquista.
Ou talvez porque, se eu atravessasse a sala do apartamento que e Tansy dividiam, eu acabaria perto demais de ; e eu não sabia se isso me faria muito melhor.
Ao lado de Tansy e Sage, ela parecia outra pessoa. Se mais cedo ao meu lado ela parecia quieta e austera demais, ao lado das amigas ela era só sorrisos. Eu gostava de vê-la assim. Antes que eu percebesse, era eu quem estava sorrindo ao ouvir sua risada. As três pareciam se divertir enquanto brincavam com aquele jogo cheio de bolinhas coloridas no chão em que você fica nas posições mais improváveis possíveis.
, pé direito no círculo amarelo! — Tansy gritou e as três explodiram em risadas enquanto tentavam não cair.
— Como ela vai fazer isso? — Minha atenção foi atraída pela voz de , que também as observava com um sorriso lânguido no rosto.
— Ela pode ser bem flexível — disse, simplesmente, e voltei a enfiar a boca na garrafa vazia, ignorando o olhar intrigado dos dois em cima de mim — Vou pegar mais disso aqui — bati os dedos na cerveja e segui para a cozinha, antes que eles pudessem me atingir com qualquer pergunta que eu não saberia como responder.
Abri a geladeira, encontrando uma infinidade de cervejas, espumantes e sucos de laranja. Sorri sozinho ao pegar uma garrafa. sempre falava demais sobre o quanto adorava as mimosas de Tansy. E talvez eu tenha trocado uma mensagem ou outra no dia anterior com sobre como seria uma ótima ideia se a namorada dele fizesse a bebida preferida da amiga, já que não aceitava nossa ajuda por meio de maneiras mais óbvias.
Era impressionante; mesmo depois de tanto tempo, se algo fosse minimamente capaz de fazer ela sorrir, eu nem pensava, simplesmente fazia.
! — Uma Sage sorridente apareceu atrás da porta da geladeira assim que eu a fechei — Você está quieto demais hoje.
Sorri enquanto abria a garrafa com a barra do meu moletom. As bochechas de Sage estavam rosadas e o lápis preto que ela sempre usava estavam ligeiramente borrados no canto dos olhos. Acho que não era só que adorava as mimosas de Tansy.
— Eu sempre estou quieto.
— É verdade — ela soltou uma pequena risada enquanto encostava na bancada da cozinha com os braços cruzados — O que aconteceu com a Chloe?
Estreitei as sobrancelhas. Onde ela estava querendo chegar?
— Hm… Nada? A noite foi ótima. E já tiveram várias noites depois daquela — dei uma piscadinha e ela rolou os olhos.
— Eu devia te repreender por esse comentário, mas tenho algo mais importante para dizer — ela apontou o indicador em minha direção — Preciso te apresentar para alguém.
Quase engasguei com a minha cerveja.
Mas o que…
— Sabe que não preciso de ajuda pra isso, não sabe?
— Claro que eu sei — ela rolou os olhos e deu um passo em minha direção — Mas não estou falando dos seus encontros de uma noite. Pode dizer que não, mas você está estranho desde tudo o que aconteceu com Ave. Bom, como não ficar? — ela parou de falar por um segundo, olhando para os pés — Mas sei que vai gostar dela.
Pisquei os olhos várias vezes, sem entender direito as diversas palavras que me atingiam.
— Eu… preciso ir no banheiro — disse a primeira coisa que me veio à cabeça, me apressando em dar um passo para trás, apenas para não ter que responder nada daquilo.
— Acho que está lá....
— Então vou bater na porta até ela sair.
Apoiei a cerveja na bancada e dei meia volta, me afastando de Sage antes que ela me obrigasse a ir conhecer a tal menina naquele mesmo instante.
O que estava acontecendo que todo mundo tinha decidido me deixar desconfortável hoje?
Cheguei na porta do banheiro e encarei o nada por alguns instantes. Eu não precisava realmente ir e é claro que eu não ia bater até sair.
Quando pensei em seguir pelo corredor e me esconder por um tempo no quarto de , percebi que a porta estava entreaberta.
E, antes que eu pudesse pensar, o nome dela estava escapando pelos meus lábios.
? — chamei baixinho, me aproximando da porta.
— Pode entrar — a voz dela ecoou do outro lado.
Empurrei a porta lentamente e, quando meus olhos focaram nela, levei alguns segundos para entender o que estava acontecendo.
estava apoiada na pia, com vários frascos de remédio espalhados em sua frente e dois nas suas mãos. Em sua testa, bem acima da sobrancelha, uma marca avermelhada me fez entortar os lábios.
— Não é o que parece — ela levantou as sobrancelhas e largou os dois frascos transparentes na bancada — Eu posso explicar.
— Pode? — sussurrei ao dar um passo para dentro do banheiro, sentindo o ar passar com dificuldade pela minha garganta.
— Posso. Se você me der trinta segundos para pensar em uma mentira.


Eu não conseguia parar de rir.
Gargalhar.
Minha barriga estava literalmente doendo.
Se há um segundo ele parecia preocupado, agora me olhava como se eu fosse completamente insana e aquilo só tornava tudo ainda mais engraçado.
— Você precisava ter visto sua cara, ! — limpei as lágrimas que se formaram no canto dos meus olhos enquanto tentava me recompor — Eu só estou com cólica. Vim procurar um remédio nas coisas de Tansy.
A expressão de suavizou e seus ombros, antes rígidos, relaxaram instantaneamente.
Embora o riso ainda se esvaísse aos poucos de meu rosto, a voz irritante no fundo do meu peito fazia questão de me alertar a facilidade com que ele tinha acreditado que eu estava mesmo tentando fazer algo autodestrutivo. A depreciação provocou aquela dorzinha conhecida em meu coração que fazia até meus pés formigarem. Mas, bom… eu não podia culpá-lo.
— Você não podia ser mais sem graça — ele soprou, embora fosse óbvio que ele estava se esforçando para não deixar um sorriso transparecer.
— Você não vai morrer se admitir que eu sou engraçada, sabia?
— Você tem muitas qualidades, mas ser engraçada não é uma delas — ele murmurou enquanto entrava no banheiro e fechava a porta atrás de si — E o que aconteceu com a sua testa?
Minha testa?
Encarei meu reflexo no espelho e percebi um pequeno corte bem acima da minha sobrancelha. Eu lembrava de ter batido a porta de metal do espelho do banheiro no meu rosto quando a abri, minutos atrás. Mas nem havia reparado que tinha me machucado. Eu ainda estava um pouco débil pelas doses de mimosa que entornei durante a noite. Eu juro que Tansy fazia as melhores mimosas do universo.
Levantei os ombros, exibindo um sorriso amarelo. Não era como se eu precisasse confessar que eu era um tanto desastrada; ele sabia melhor do que ninguém.
Um suspiro flutuou de seus lábios. E antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, senti as mãos de em minha cintura. Seus dedos apertaram minha pele e, se em um instante eu estava em pé, no outro ele havia me colocado sentada ao seu lado no chão. Suas mãos permaneceram espalmadas em minha barriga, e ele as deslizava lentamente sob o tecido fino do meu vestido.
— O que está fazendo? — Minha voz saiu trêmula, como um sopro fraco.
— Você disse que estava com cólica. Estou tentando cuidar de você.
Usei todas minhas forças para impedir que um sorriso sincero floreasse meu rosto.
Ah, … Você não pode fazer isso. Era mais um daqueles pequenos detalhes que me faziam lembrar o porquê eu fui, um dia, apaixonada por ele; ele sempre sabia do que eu precisava quando nem eu mesma tinha ideia.
Enquanto me lembrava das sensações que eu havia demorado tanto a ensinar meu corpo a esquecer, colocou todo meu cabelo entre os dedos e o jogou para o lado, sob meu ombro. Virei o rosto minimamente para a direita apenas para constatar o que eu já sabia; ele estava a milímetros de mim e sua respiração quente batendo em meu pescoço não me deixava respirar direito. O que era irônico, pois eu conseguia sentir perfeitamente o seu delicioso cheiro de bala de hortelã e loção pós-barba.
Em algum momento entre relaxar meu corpo contra o dele e sorrir ao pensar no quão agradável era aquele carinho inocente, vi meus sentidos todos invadidos por ele. Meus dedos lembraram do seu toque, meus lábios do seu beijo e meus ouvidos dos sons que ele costumava fazer quando estava dentro de mim.
Inerte pelo momento, sorri quando me virei um pouco mais e lembrei da pequena marca quase invisível em sua testa.
— Ei! Agora temos cicatrizes combinando — encostei a ponta dos dedos levemente no sinal em sua pele.
Agora temos cicatrizes combinando? Eu realmente não podia beber mimosas.
Eu esperei que ele comentasse algo sobre a minha frase catastrófica — mas não disse nada. Nem uma risada, o indício de um sorriso… Nada.
Afastei minimamente o rosto para vê-lo melhor e… Lá estava. O cenho levemente franzido e os olhos fixos em algum lugar inespecífico nos meus ombros. Era o que eu precisava para ter certeza que alguma coisa estava o incomodando.
— O que foi que eu disse para te deixar com a testa franzida? — encostei os dedos mais uma vez em seu rosto, dessa vez bem entre as sobrancelhas.
Em meio a um suspiro, segurou meu pulso e afastou minha mão de si.
— Como vai o professor? — ele murmurou, se segurando para não fazer uma careta.
E eu mordi o lábio, me segurando para não rir. Seu de ciúmes era inconfundível.
— Você não pode me culpar — apoiei distraidamente as mãos em seu braço, que repousava envolta do meu corpo — Existe algo excitante em um cara que tem autoridade sobre você.
— Tenho certeza que sim.
— Não fique com ciúmes, . Achei que isso era sobre
— Não é ciúmes — ele balançou a cabeça, e embora tudo em seu rosto e sua voz tentasse me manter longe, suas mãos apertavam minha cintura, como se implorassem para eu não sair dali — Conheço . Sei que ele não vai machucar você.
Ah. Então era sobre isso…
Agora eu queria sair dali.
— Porque voltamos a isso? — virei meu corpo um pouco mais, ficando quase de frente para ele — Sei me cuidar sozinha. E…
— E…?
Soltei um suspiro.
— As pessoas precisam se machucar, . Faz parte da vida.
— Alguns traumas podem ser evitados — ele apertou os dedos um pouco mais forte em minha carne.
— Não podem e não devem. As coisas acontecem assim. Relacionamentos acabam. Quer dizer, em quantos você esteve pra saber que eles não funcionam?
Pela primeira vez naquela noite inteira, ele olhou nos meus olhos. E eu preferia que ele não tivesse feito; eu era completamente fraca diante do seu olhar.
E eu sabia a resposta para aquela pergunta.
Eu. Apenas eu.

Meneei a cabeça negativamente, fechando os olhos com força.
Eu estava cansada de toda aquela atmosfera pesada quando estávamos juntos. De todas essas conversas que começavam em lugar nenhum e nos levavam há nada.
Estava cansada de olhar para nós dois como o reflexo de uma bela história que não deu certo.
Tudo fluía tão bem quando éramos apenas e , sem um passado confuso e salvos de águas revoltas de amor.
E eu sabia o que eu precisava fazer.
O que eu fazia de melhor.
Fingir que estava tudo bem. Fugir da realidade e contornar a situação com um sorriso e palavras bem-humoradas. Com o tempo você acaba se convencendo de que a mentira é real.
Ou era o que eu queria acreditar…
— Você não tinha essa ruguinha aqui — apontei para a marquinha ao lado dos olhos que se tornava mais aparente quando ele sorria — Você está ficando velho, .
Ele deu um pequeno sorriso que não demorou a refletir em meus lábios.
— Você não parou no tempo, sabia? — Seus dedos beliscaram minha barriga levemente — Está mais velha também.
Soltei uma pequena risada. Ele sabia que eu passaria três horas no espelho fazendo algum tipo de massagem rejuvenescedora se dissesse que eu estava com míseras marcas de expressão.
— Ainda tenho quatro anos na casa dos vinte. E você saiu dela já quanto tempo mesmo?
— Sou sensível quanto a esse assunto — ele fingiu uma expressão triste — Podemos falar sobre outra coisa?
— Claro. Me conta, o que vem primeiro? Perda de memória ou incontinência urinária?
Ficamos nos encarando em silêncio, ambos com um breve sorriso sincero se insinuando nos lábios.
Me peguei me perguntando como havíamos acabado ali, no chão do banheiro de e Tansy; e então me lembrei que o cuidado de havia, realmente, funcionado. Eu nem lembrava mais que estava sentindo cólica minutos atrás.
— Alguma coisa está incomodando você, não está? — Ele quebrou o silêncio, os olhos tão imersos nos meus que me deixavam sem escolha além de dizer a verdade.
Sorri, por mais que tivesse vontade de rolar os olhos. Era tão irritante quanto reconfortante o tanto que ele me conhecia.
— Minha mãe quer que eu vá pra casa no próximo fim de semana.
— E você vai?
Assenti com a cabeça.
— Não tenho escolha. É só eu contrariá-la que não tem faculdade, nem apartamento…
inclinou a cabeça para o lado, sem tirar os olhos de mim. Não era muito difícil ler os pensamentos dele.
— Você não acha que…
— Não — o interrompi, encolhendo meu corpo instintivamente — É uma merda, mas eu preciso dela. Sei que não dou conta sozinha.
Eu odiava pensar naquilo. Era injusto como pessoas ruins cruzavam nosso caminho, mudavam nosso destino e acrescentavam traumas em nossas vidas sem ao menos perceber.
Eu lembrava da primeira e única vez que tinha tentado uma vaga de assistente em uma publicação online. Era o terceiro dia de entrevista e as mãos sujas de um cara de sessenta anos estavam nas minhas pernas.
Nunca mais consegui usar meia-calça preta desde então. Sempre que colocava, lembrava da sensação dos dedos indesejados em mim.
E era ali onde começava um dos meus maiores traumas.
Desde então, eu tinha medo de não ser boa o suficiente para nada. Eu sempre colocava dubiedade o que as pessoas realmente esperavam de mim. E eu queria conquistar as coisas porque eu era boa o suficiente, não porque tinha um rostinho bonito.
Talvez por isso fosse a parte reconfortante em um oceano de incertezas. Eu simplesmente sabia que ele gostava de mim por quem eu era, nada mais.
— Você sabe o que eu penso sobre isso — ele sussurrou baixinho, sua respiração batendo fraca em meu rosto como um abraço atencioso — O que Ave pensava e o mesmo que todo mundo atrás dessa porta pensa — ele apontou com os dedos para a parede branca atrás de si — Você pode fazer o que quiser, . Não devia deixar uma experiência ruim ficar no caminho de um futuro brilhante. Ninguém passa por qualquer experiência livre de julgamentos. Reservar julgamentos é só uma questão de esperança infinita.
Embora já estivesse em seus braços, senti vontade de abraçá-lo. Abraçá-lo de verdade, apertado e por incontáveis minutos.
Eu sabia que ele tinha razão. Mas não era o suficiente. Enfrentar a realidade não era tão simples quanto a lógica mandava; nunca era.
Talvez envolta pelo carinho que insistia em emanar, uma pergunta se formou no fundo de minha mente.
E eu sabia que não devia pronunciá-la; eu me arrependeria no instante seguinte ou depois de uma semana. Mas eu estava triste e os braços de à minha volta me impedia de pensar direito. Então, antes que eu pudesse ponderar um pouco mais, as palavras já estavam saltando de minha boca.
— Alguma chance de você ir comigo?
E antes que pudesse responder, o barulho da porta abrindo me fez saltar inadvertidamente para longe dele.
E tudo o que eu consegui fazer foi esconder o rosto com as mãos quando percebi que um extremamente confuso nos encarava.

Continua...



Nota da autora: oi, amorzinhos! <3
só quero dizer que VEM CLICHÊZINHO POR AÍ e vocês já devem ter sacado qual vai ser hehehe
tô doida pra viajar com vocês pro passado e contar um pouquinho mais de como a história dos dois foi construída, destruída (kkrying) e, claro, da relação da pp com a irmã.
espero que estejam gostando e tão apaixonadas por esse moço quanto eu!!! me contem qual a carinha do pp de vocês, pois adoro saber as aparências diferentes atribuídas aos personagens que escrevo hahaha
nos vemos na próxima att, meninas! beijos enormes e obrigada pelo carinho de sempre! <3




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Nota da Scripter: Sei lá, sabe? Só queria UM dos mcfly a minha disposição, MAS QUATRO ERA O SONHO DE CONSUMO DA HUMANIDADE! Se-den-ta pelos próximos capítulos! Aiai esse Poynter...!
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