Última atualização: 22/02/2022

Por que só ter um, se eu posso ter sete?


:: Prólogo ::

Poliamor. O tipo de conceito que a família brasileira de jamais entenderia ou aceitaria. E menos ainda a sociedade coreana. Mas, eu não vim contar a história de como se apaixonou sete vezes, ou como ela adquiriu sete admiradores secretos. Não. Antes de explicar como começou a se meter em sete homens diferentes ao mesmo tempo, eu preciso contar que: nada foi premeditado, tudo foi obra do destino, é extremamente obediente ao cosmos e crente em destinos, e que inicialmente, não fazia ideia de que seus sete homens estavam unidos por muito mais coisas do que o desejo pelo corpo dela.
, era só uma garota normal, que se aventurou na Coréia, e que buscou todos os tipos de emprego possíveis e diferentes para sobreviver. Primeiramente porque ela odeia monotonia, e depois, porque ninguém te conta o quanto pode ser caro viver na Coréia, ainda que no seu país a moeda valha mais.
Então, temos aqui uma que é bibliotecária, entregadora de comida, garçonete, cabeleireira, assistente de produção e radialista, os dois últimos por sua formação em comunicação, e temos ainda a , que na verdade é . A striper de uma boate toda sexta-feira. Você pode achar que não dá tempo de ser tudo isso e ainda transar com sete caras diferentes como alguém que leva sete vidas. Mas, como todos eles concordam, é uma administradora por natureza, e não tem tempo ruim com ela. Eis ali, a mulher livre, leve, solta e que faz acontecer. Ah… E essa história vai ser contada por eles: os sete homens de . E talvez... Por ela também.

:: 1 ::

Jimin



Não é que ler não fosse o meu hobbie, eu gosto mesmo é de dançar e relaxar de alguma forma. Mas a expressão de dúvida do nosso motorista com o meu pedido, me fazia crer que todos achavam que aquele era o último lugar que eu iria.

— O que tem lá que você quer voltar ?
— Livros, oras! Eu preciso devolver um que peguei e pegar outro, quem sabe…
— Tudo bem, eu te levo.

A expressão era desconfiada, e eu me sentia ultrajado. Eu gosto de ler, ou contar e inventar histórias, embora passe mais tempo livre dançando do que lendo. Porém a bem da verdade é que eu não queria voltar pelos livros, mas pela gostosa da bibliotecária.
No início do mês, procurava por um livro que NamJoon havia dito que adorou ler quando criança, e por ser algo antigo, não era fácil achar. Então, fui para a biblioteca mais próxima e logo que cheguei tive uma visão dos deuses! A garota no balcão de óculos e cabelo preso, tinha dois botões de sua camisa aberta, abanava-se com a própria blusa e estava debruçada sobre o balcão com uma expressão terrível. De fato, não era só o meu corpo, o lugar estava muito quente. Andei poucos passos em sua direção até que um homem mais velho se aproximou dela, e eu me coloquei quieto, disfarçado com aquela máscara no rosto e o boné a apenas observar.

— Finalmente Ahjussi! Estou fritando neste calor!
— Me perdoe mocinha, mas há um trânsito absurdo no caminho.
— Bem, bem, vamos! Eu vou lhe mostrar onde fica o ar condicionado. As salas de leitura estavam cheias, mas de repente o sistema de refrigeração parou e todos devolveram ou levaram seus livros e foram para outro lugar. Precisamos arrumar isso o quanto antes, se não eu vou ter que largar isso aqui também!

Ela não estava nada satisfeita pela situação. Olhei ao redor e de fato, não tinha ninguém. Era perfeito para mim, uma biblioteca inteira vazia. Em plena Coréia. Era muita sorte! Mais sorte ainda que tivesse encontrado uma gostosa na biblioteca vazia. Não que eu fosse fazer algo, mas ficar observando-a sem medo de ser flagrado de ótimo!
Ela retornava ao balcão e fechou a porta atrás de si, onde deveria ser um tipo de acesso aos funcionários e então me aproximei.

— Oh… – ela murmurou surpresa e se recompôs: — Boa tarde! Seja bem vindo! Como eu posso te ajudar?

Tirando a roupa”... Eu pensei.

— Eu preciso deste livro…

Direcionei a ela o papel, a mulher conferiu em seu computador e sorriu dizendo:

— Está na seção de livros infantis internacionais, corredor 3A. Senhor, estamos com problemas de refrigeração, o senhor não prefere um empréstimo?
— Demora muito para arrumar?
— Não temos previsão, senhor, mas podemos fazer um cadastro rápido.
— Não, não. Eu vou ler aqui… Numa sala reservada de preferência.
— Ah… – ela murmurou confusa — Tudo bem.

Sorriu e eu a segui ao local onde o livro estava. A garota subiu numa escadinha para pegar, e eu queria a espiar sob a saia longa. Era uma saia que lhe batia ao meio da canela, e essa era a explicação do motivo por ela ter desabotoado parte da blusa. O calor daquele dia estava extremo, e a culpa das roupas quentes não era daquela mulher, mas sim da previsão do tempo que alertou a chegada de uma frente fria que até então não tinha chegado.
A bibliotecária me parecia jovem, e quando ela desceu alguns degraus da escadinha móvel com o livro em mãos, eu me peguei pensando em que tipo de assunto iria puxar com ela. A mulher novamente me encarou, confusa e tentando averiguar meu rosto debaixo daquele boné e máscara. Provavelmente eu estava lhe parecendo muito suspeito. Ela sorriu e olhou brevemente para a salinha onde o senhor que consertava o ar condicionado estava e me perguntou enquanto se afastava do corredor em que estávamos:

— Você tem certeza de que não quer levar o livro em empréstimo?
— Bem… Eu prefiro ler aqui. Se não tiver algum problema a você, já que parece que estão fechando. – informei quase ingênuo olhando em volta.
— É que todos que estavam aqui, foram embora por conta do calor, e eu realmente não sei quanto tempo vai levar o reparo. Mas, façamos seu cadastro e eu deixo o livro sob seu empréstimo. Se você quiser ir embora enquanto lê por aqui, não terá problemas.
— Como queira. – respondi a seguindo ao balcão novamente.

Acompanhei-a e enquanto ela se direcionava ao computador para registrar meu cadastro, observei os traços de seu rosto, com curiosidade. Não era coreana, e de longe nem mesmo asiática. Foi inevitável não me sentir curioso por ela. Algumas perguntas foram feitas, alguns pormenores e logo ela estava imprimindo meu cartão de associado da biblioteca, e me entregando.

— Aqui, Jimin. – deve ter percebido que era mais velha do que eu, já que não usou nenhum honorífico.

Sorriu tranquila, e saiu de trás do balcão me guiando a uma sala de leitura. Sem dúvida, eu adorei ser tratado com naturalidade apesar de não ser comum que, as pessoas reagissem ao meu nome com a mesma tranquilidade que ela. O que me fez pensar como uma estrangeira, não estranhava o fato de seu cliente ter o mesmo nome de um ídolo kpop. Principalmente um, de um grupo como o BTS.

— Você… – perguntei enquanto a seguia: — Não me reconhece?
— Olha.. um pouco difícil com o boné e a máscara…

Ela riu graciosamente e eu precisei checar novamente se aquilo era algum tipo de piada, ou real. Eu poderia ter a chance de passar a tarde toda conversando com ela já que a biblioteca estava vazia e assim tirar aquela máscara também.

— Bem, já que estamos sós…

Pronunciei e ela virou-se para mim, e encarou meu rosto com uma expressão confusa e curiosa. Mantive meu olhar baixo e retirei a máscara, com uma atmosfera de mistério, me preparando para a reação dela. Depois que ergui meu rosto lentamente, com cautela mantive meu olhar fixo ao dela. Mas que grande idiota eu fui de achar que sentiria algum impacto ou me agarraria no mesmo instante, de emoção. Ela apenas continuou ali, observando meu rosto com curiosidade e certo riso debochado. De braços cruzados, ela soltou uma mão do braço e apontou com o indicador para o próprio rosto mencionando uma máscara e perguntou naturalmente:

— Ahn…Você não estava usando a máscara por causa de um resfriado, sei lá…?
— Espera… Você não sabe quem sou eu?
— Desculpa, mas a gente se conhece?
— Err… Não. Certamente não.

Eu me sentia um otário, que fez charme à toa. E de certa forma aquilo feriu um pouco o meu ego. Bom, pelo menos ela não iria surtar.

— Então Jimin, pode ficar aqui na sala com a porta aberta, já que só tem você. Embora eu ache melhor você ficar no salão comum, porque olha… Você vai sentir calor.
— É, eu estou mesmo achando o lugar bem quente… – olhei sugestivo para ela que me ignorou um pouco receosa, e já ia saindo.
— Bem… Qualquer coisa estarei no balcão… Boa leitura.
— Espera! – me coloquei na frente dela.

Certamente a assustei já que ela imediatamente olhou para o lugar onde o funcionário estava consertando o aparelho.

— Calma! Desculpe! Eu não quis te assustar é só que… Você não quer conversar?
— Veio a uma biblioteca para conversar?
— Não. Claro que não, eu vim buscar o livro. Mas me senti tentado a ficar quando te vi, e bem… Não é sempre que tem uma biblioteca vazia em plena Coréia..

Sorri e pude notar que ela achou meu comentário divertido, pelo pouco sorriso de canto que ela deu.

!? – o ajusshi a gritou e ela olhou para trás, e apenas com um aceno e um sorriso saiu.

… O nome eu já tinha, o local de trabalho também...Encarei o título do livro, “Contos dos irmãos Grimm”, e soltei o livro em cima da mesa e puxei a cadeira me sentando de qualquer jeito.

1. Eu não podia sair dali sem pelo menos um indício positivo de para nos vermos novamente.
2. Não podia demorar ou o motorista viria ao meu encontro.
3. Não podia dizer quem eu era para ela.
4. Devia uma ao NamJoon por me convencer a finalmente ler aquele livro.
5. E certamente não iria perder tempo lendo droga de livro nenhum.

Levantei inquieto, e comecei a caminhar no lugar entre as prateleiras, observando conversando com o ajusshi e em seguida se despedindo dele.
Quando o homem saiu pela porta, notei a preocupação no rosto dela ao olhar duvidosa para a direção da sala que havia me deixado, e não me encontrando. Ela franziu as sobrancelhas de um jeito que me divertiu, fazia-me parecer um caçador e ela a presa. Assim que ela não me encontrou na salinha eu caminhei saindo do corredor que estava a observando.

— Ah você está aí! – respondeu ela assustada.
— Procurava outro livro, mas vi que o ajusshi saiu. Algum problema? Consertou a climatização?
— Ah… Não, na verdade eu vim avisar que nós vamos fechar. E gostaria de saber se você vai levar o livro ou voltar depois.
— Eu vou levar, mas você tem algum compromisso agora? – perguntei me aproximando lento com as mãos atrás do corpo — Quero dizer… Só estamos nós aqui, podíamos conversar…
— Como é? – ela me encarou ainda mais desconfiada e tentando se afastar: — Você não acha que isso tudo está muito estranho?
— Na verdade, eu com certeza teria chamado a polícia se fosse você, porque eu devo estar parecendo um psicopata, não é?

Ela arregalou os olhos e eu ri. Retirei o boné brevemente passando a mão nos cabelos e o recolocando ainda sorrindo.

— Cara, na boa, o que você veio fazer aqui?
— Eu, calma, desculpa! Eu realmente só quero te conhecer melhor. Eu estou tentando te cantar aqui, sabe?
— Você vem paquerar bibliotecárias com frequência?
— Eu nem ando por bibliotecas, posso garantir que foi o destino que me trouxe aqui hoje.
— Bem senhor “carente da biblioteca”, eu realmente preciso fechar. Eu ainda tenho outro trabalho, por isso, todo tempo livre é precioso para mim.
— Para mim também! Acredite! Eu trabalho tanto que não sei quando poderei vir te ver de novo. Seria legal se você me desse ao menos seu telefone.
— Esquece! Você tem que devolver o livro!
— Não significa que eu que o entregarei.
— Sendo assim… Seria melhor você garantir vir pessoalmente às segundas-feiras se realmente quiser me ver de novo… – havia uma atmosfera de flerte por parte dela também.
— Só às segundas?
— E quartas à tarde.
— Eu voltarei.

Me aproximei ainda mais dela indicando o dedo mindinho e ela riu divertida e surpresa entrelaçando seu mindinho ao meu e respondendo:

— Estarei esperando, Jimin.

Voltei à sala para pegar o livro e quando retornei ao lugar onde me aguardava, ela saiu à minha frente e eu pude observar novamente, que o corpo de era extremamente atrativo. Saí depois da mulher abrir a porta da biblioteca para mim, e vesti a máscara piscando à ela, e me encolhi a caminhar de volta para o carro.

— Jimin! Demorou! – o motorista falou logo que entrei sorrindo com os olhos.
— Sabia que bibliotecas são ótimos lugares para se distrair?
— Que isso agora?
— Hey, a gente terá que voltar mais vezes…
— O que você estava lendo?
— Contos de fadas… – disfarcei a risada sarcástica que eu quis soltar, ou seria facilmente especulado que havia mais fada do que conto naquela história.

:: 2 ::

YoonGi



Quarta-feira à noite e eu estava mais cansado do que nunca. Embora os rapazes dissessem que meu sono era crônico. Já estava também entediado de dormir, queria algo novo. Saí da cama com muita fome jogando minhas cobertas para o lado, e logo que abri a porta do quarto, quase fui atropelado por um JHope que gargalhava alto montado às costas de Jimin, ambos comemorando e gritando: “Taehyung lava a nossa roupa por um mês!”.

Aish... Que bagunça! – gritei para eles.

Caminhei até a cozinha do dormitório e notei que teríamos que começar o jantar, mas estava com tanta preguiça que apenas decidi pedir algo para comer. Sentei ao sofá da sala, e notei JungKook ainda concentrado em aprender a tocar o seu violão, NamJoon lendo qualquer coisa e Jimin deitado no chão concentrado em qualquer coisa em seus fones com um sorriso besta no rosto.

— O que há com Jimin!? – perguntei ao Nam assim que sentei ao seu lado.

Ele olhou para o chão onde Jimin estava com aquela expressão de outro mundo colorido em sua mente, e deu de ombros dizendo:

— Não sei. Voltou assim da biblioteca.
Hmmm. – resmunguei sem dar muita importância — Vocês querem comer algo? Vou pedir comida.
— Pizza! – respondeu Nam.
— Pizza é bom, mas sempre temos dificuldade de um sabor que todos gostem.
— Eu quero de atum, e uma lasanha de queijo. – falou Kook ainda atento ao violão.

NamJoon e eu nos olhamos e rimos com a bagunça que era o paladar de JungKook.

— Ãn… Devemos pedir uma refeição ao invés de lanches? – propus.
— É, talvez seja melhor. Que tal comida japonesa? – Nam decidiu.
— Japonês então!
— Ah, eu quero sashimis, pede, por favor, hyung muitos sashimis... – Kook falou sorrindo e eu assenti, e então JungKook voltou a dedilhar o violão sussurrando para si: — Tsc… Temos queijo em casa?

Enquanto Jin, Tae e Hope faziam sei lá o quê, e os outros três estavam à sala um pouco concentrados demais em suas tarefas, eu fui tomar banho. Quando terminei, o aplicativo denunciou a chegada do pedido, mas como eu havia me esquecido de informar na guarita, precisei ir até lá e recebê-lo. Calcei os chinelos e saí ouvindo Hobi perguntar se eu queria ajuda, mas não era preciso. A noite estava fresca e o céu estrelado, eu encarei a Lua cheia e sorri.

Aigoo... Que noite romântica.

Murmurei e me aproximei mais da guarita, onde um segurança informava sobre o pedido confirmando se era verídico. Geralmente, nessas situações, nós pegamos o pedido com os seguranças, e eu pretendia fazer aquilo, se não fosse a visão do rosto dela deixando de encarar o telefone para encarar o segurança falando com alguém.
Peguei meu aparelho que apitou a mensagem da entregadora no aplicativo, e então subi meu capuz para disfarçar meu rosto, e me aproximei mais da janela da guarita falando com ela ali pela cabine.

Hey! Você veio entregar o pedido de comida japonesa!?
— Sim senhor! – ela respondeu apertando os olhos para me ver.
! – sussurrei ao segurança: — Libere a entrada dela, por favor.
— Não é o procedimento YoonGi. – ele sussurrou de volta.

Eu já sabia que haveria resistência e a mulher fingia mexer no telefone enquanto aguardava o que era para ela fazer. Sorri para o segurança que já me ajudou outras vezes, e ele entendeu.

— Você não pode subir com ela.
— Ficarei aqui em baixo, só quero que ela traga os pedidos até a portaria. Pode nos seguir se quiser.
— Eu te dou cinco minutos e depois vou atrás de vocês.
— Obrigado Sunbae.

A garota foi chamada pelo sundae Minsuk para entrar a pé e levar os pedidos até mim. Eu já estava caminhando para dentro do condomínio do dormitório, a fim de que ela me seguisse. Olhei para trás, e a mulher estava desconfiada olhando ao redor do caminho de pedras e plantas, deserto, e provavelmente estranhando o motivo pelo qual eu não peguei os pacotes e fui embora.

Hey! Ajusshi! Pode pegar os pedidos e pagar? Eu ainda tenho outras entregas! – ela disse num tom educado, mas firme.

Eu sorri, divertido, e então me virei de uma vez a fazendo parar a alguns metros. Então caminhei alguns passos lentamente até ela. Seu corpo não demonstrava medo, mas sim alerta.

Ajusshi é um pouco demais. Eu e você devemos ter a mesma idade ou quase isso. – mencionei.
— Eu tenho que ir, pode, por favor, pegar o seu pedido?
— Eu te assustei, não é?
— Não é como se eu não esbarrasse em pessoas estranhas por aí… – ela estendeu o pacote com o pedido em minha direção perguntando: — Você vai pagar no cartão ou no aplicativo?
— Qual o seu nome? – perguntei coçando o queixo e analisando a impaciência dela.
Aish… – a mulher murmurou irritada e tentou observar meu rosto por baixo do capuz: — Eu vou voltar e deixar seu pedido na portaria! Espero que pague pelo aplicativo!

Ela ia dando as costas a mim quando me aproximei pegando o punho dela e pedindo que esperasse. Ela ainda me encarou irritada e pronta para me atacar se fosse preciso. Abaixei meu capuz e ajeitei meu cabelo esperando a reação dela. Mas, ela continuou com a mesma expressão de alerta.

— Não sabe quem sou eu?
— Um maluco que tentou me atrair pra sabe-se lá onde e que está a um segundo de ser agredido se não soltar meu punho!
— Inacreditável! – murmurei soltando seu punho — Me desculpe, mas eu geralmente não posso…
— Não me importo se você é um chaebol ou sei lá quem! – ela interrompeu-me — Eu tenho muito trabalho a fazer então, por favor, pegue logo o seu pedido!
Aish... Você é brava. Desculpe-me! Eu vou pagar no aplicativo… – peguei as sacolas de sua mão e ainda insisti: — E vou dar cinco estrelas pra você!
— Tanto faz! Bom apetite! – ela falou zangada já se preparando para me dar as costas.
! Qual o seu nome!? – gritei, mas ela não respondeu.

Apenas murmurou algo impaciente e deu as costas para mim, indo em direção ao sundae que já se preparava para subir até nós, observei a mulher sumir pela saída da guarita, e sorri eufórico com minha atitude. Eu havia feito aquilo mesmo!? Subi de volta ao alojamento, pensando no rosto da entregadora misteriosa e Hope estava vindo ao meu encontro.

Hyung! Demorou! O que houve?
— Pega aqui, pega aqui! – ordenei para Hobi que tirando as sacolas da minha mão se apressou a entrar.

Puxei eu telefone do bolso e abri no aplicativo, a entregadora havia mandado mensagem de novo pelo aplicativo pedindo para eu “finalizar logo a entrega para liberar o sistema dela”. Finalizei o pedido com o pagamento, avaliei a entrega e stalkeei o perfil dela como entregadora descobrindo o que eu queria: o nome dela era .

:: 3 ::

JungKook



Tínhamos saído de uma tarde de ensaio exaustiva naquele dia. Estávamos famintos, e Sejin nos levou até um restaurante que pudéssemos comer em uma sala privativa. Quando chegamos ao local, pelo horário da noite, achei que estaria cheio, mas me surpreendi. E sentia tanta fome que a última coisa que iria de fato reparar, era no movimento da casa.

— Vocês querem beber? – Sejin perguntou nos olhando risonho.
Hey, podemos hoje Sunbae-nim? – Jin perguntou surpreso.
— Amanhã estarão de folga. – ele falou ainda mais risonho.

Todos entenderam então o motivo para Sejin nos levar para comer fora naquele dia. E ainda mais felizes ficamos ao saber que só o sundae Minsuk e outros seguranças ficariam conosco a noite toda, encarregado de nos levar de volta.

Yá, yá! Atenção aqui! – Suga chamou nossa atenção depois de algumas horas em que já estávamos ali comendo e bebendo — Amanhã, vocês se comportem! Obedeçam ao líder por que eu irei para meu apartamento!
— Senta aí e fique quieto Suga! Não podemos ir pra casa este mês! – Jin falou fazendo YoonGi nos olhar confuso.

Certamente por efeito do álcool, Suga estava confuso, na verdade, já estávamos todos um pouco bêbados. Todos muito risonhos e barulhentos, e eu apertado também para ir ao banheiro.

— Com licença pessoal, eu preciso ir ao banheiro.
Uooow, que jovem educado o pequeno Kook! – Jin pronunciou e Hobi explodiu uma gargalhada que ninguém entendeu o motivo.

Saí de cabeça baixa sorrindo, e meio cambaleante. O corredor onde nós estávamos estava vazio, e com todas as salas fechadas. Andei meio confuso de um lado ao outro, até que uma moça passou por mim, e no mesmo instante eu fiquei nervoso me virando para a parede. Ouvi os passos dela se aproximarem em minha direção e comecei a suar frio.

Ajusshi, precisa de ajuda?
Hm… Não.
— Tudo bem… – ela falou e caminhou de volta para onde seguia.

Observei disfarçadamente ela entrar em uma sala privativa e então apressei o passo correndo na direção em que ela havia seguido, entretanto eu queria ir para o elevador no final do corredor. Assim que o alcancei e apertei o botão fiquei afoito vigiando se mais ninguém apareceria. De preferência ninguém que fosse mulher. Eu nunca me senti confortável em estar muito próximo, ou a sós com elas, por que... Sinceramente, eu nunca tive um bom autocontrole do meu corpo. “Muitos hormônios!”, era o que minha mãe dizia.

Quando a porta do elevador abriu, eu entrei rápido e me virei de frente para porta, e ainda mais confuso. Para onde eu deveria ir? Encarei o painel e apertei o botão do térreo, mas sem ter noção ao certo sobre a direção dos banheiros. O que me deixou ainda mais confuso foi o fato de notar, só depois que o botão estava acionado antes de eu apertar.

— Algum problema ajusshi!? – uma voz doce pronunciou.

Dei um grito de susto e quando olhei para trás vi que era uma mulher, muito bonita por sinal. Tão assustada por meu grito quanto eu por sua presença. Abaixei a cabeça, nervoso e sufocado, de novo.

— Está tudo bem?
Aham! – falei e dei as costas para ela. Como se não tivesse como piorar o elevador abriu novamente e outras duas funcionárias entraram sorridentes entre si. Virei-me de costas para todas elas com a cabeça na parede do elevador. E senti os olhares de todas queimarem sobre mim.

, está em que andar?
— Quinto. O chaebol da Hyundai está na maior sala. Todas as outras com outros VIPs.
— Uow! sempre fica na cobertura…
— Não é verdade. Semana passada eu estava no térreo.
— Mas você é a favorita dos Chaebols.


As mulheres conversavam e eu pude notar o tom de sarcasmo e repreensão à outra mulher que já estava no elevador comigo. Assim como notei que ela não era de deixar por menos.

— O que quer dizer com isso Eun He?
— Nada… Só que… De alguma forma você sempre é a mais adequada para os melhores atendimentos.
— Ao contrário de vocês não fico intimidada por nenhum cliente, não derrubo o chá na bandeja e falo cinco línguas.
— Só derrubei o chá uma vez!
– a mulher que devia se chamar Eun He bradou e saiu logo que o elevador abriu.

A outra a acompanhou, mas a tal continuou ali para o meu pânico.

Aish… invejosas! – ela murmurou para si e então o silêncio se fez.

Respirei fundo, com a bexiga apertada pensando se deveria sair logo dali no segundo andar mesmo, ou se deveria parecer um pouco normal diante a mulher que ainda estava ali dentro comigo, mas ela foi mais rápida e se aproximou ao meu lado. Colou sua testa na parede do elevador me encarando de uma altura mais baixa como se quisesse ver meu rosto. Eu, na mesma hora arregalei meus olhos e pigarreei levantando a face.

— Vejo que é mais novo do que eu, então dispensarei o pronome, mas… Tem certeza que não quer ajuda? Você parece nervoso com algo.

Ela perguntou tranquilamente e então me dei conta de que ela não fazia ideia de quem eu era.

— Eu estou bem… Obrigado. – falei surpreso.
— Para onde está indo?
— Ao banheiro.

A porta do elevador abriu, ao primeiro andar e ela sorriu assentindo. Indicou o final do corredor pra mim, e disse:

— Há banheiros femininos e masculinos ao fim de cada corredor em cada andar. Não era preciso descer.

Eu agradeci sem graça e saí dali. A porta do elevador fechou deixando aos poucos que eu pudesse ver o sorrisinho divertido no rosto dela. Além de eu não ser reconhecido, ela certamente me achava agora, um maluco.
Corri ao fim do corredor e quase passei a imensa vergonha de me molhar inteiro de xixi. Depois de um tempo, observei o corredor da porta do banheiro, e vi uma mulher e um homem saírem de duas salas privadas em direção ao elevador. Achei melhor esperar o elevador fechar e então saí rumo à outra porta. Apertei o botão, para subir, e esperei cinco minutos, quando a porta novamente abriu, ela ainda estava lá, agora com um carrinho de bandeja.

— Você foi rápida. – falei menos ansioso e agora mais relaxado pela presença dela.
— É por isso que estou quase sempre na cobertura.
— As outras certamente não seriam tão rápidas. – falei evitando o contato visual e ela riu.
— Vou te contar o meu segredo! Eu envio os pedidos para um ajudante do térreo antes de entrar no elevador, então ele ajeita tudo antes e eu só confiro e subo. É bem óbvio, mas ninguém pensava nisso até eu chegar.
Uow… É inteligente. Parabéns!
— Obrigada! Qual o seu nome? – ela sorria abertamente puxando assunto e eu me perguntei se ela já desconfiava de quem eu era.
— Jeon.
— Prazer em conhecê-lo Jeon! Eu sou a . Posso perguntar por que agiu daquela forma antes?

Fui pego se surpresa e gaguejei um pouco antes de decidir se falava a verdade ou não.

— Ah… Eu… Eu fico… Um pouco envergonhado na presença de mulheres.
— Ah… Entendo. – ela assentiu e sorriu falando baixinho: — Fofo.
— Você trabalha aqui há muito tempo?
— Há três anos.
— Todos os dias? – estranhamente eu estava interessado em manter o assunto.
— Bem, só de segunda a quinta-feira. Porque são os dias em que os clientes mais importantes fecham negócios, eu não atendo mais na ala comum. E aos finais de semana eu tenho outro trabalho.
— Ah… Entendo… Você deve ser o pé de coelho para os bons negócios fechados aqui.

Não me dei conta de como minha metáfora poderia soar, até que ela riu divertida.

— Pode ser que seja isso.

Senti-me envergonhado por parecer infantil de novo, diante de uma mulher tão bonita e… Atraente. A porta do elevador abriu no quarto andar, onde eu pude sair e retornar.

— Foi um prazer , obrigado pela ajuda. – pronunciei antes de sair.
— Não há de quê Jeon. O prazer foi meu, até mais.

A porta se fechou novamente deixando o sorriso largo dela como minha última visão. Voltei para a nossa sala, ainda um pouco eufórico por ter conversado com a mulher mais velha, e me sentido atraído por ela.

— Kook! Onde se meteu!? O sundae mandou um segurança atrás de você!

Nam falou bravo, aparentemente preocupado.

— Me perdi para achar os banheiros.
— Mas ficam no fim do corredor. – Tae pronunciou.
— É… Agora eu sei...



Script dos capítulos acima feito pela pupila Ells.


:: 4 ::

Taehyung



Seijin terminou de digitar algo em seu celular, antes de falar que estávamos chegando, e eu estava sentado no banco traseiro da van junto com os outros. Cada um, ocupado em algo específico, Jimin parecia bastante interessado em acabar o quanto antes a leitura daquele livro que havia pego. Devorava as páginas e eu acreditava que ele nem mesmo estava lendo de verdade. Eu jogava no meu celular à espera de chegarmos ao destino: o salão da Big Hit. Iríamos alterar o visual de novo.
A BH havia contratado uma nova equipe de cabeleireiros, já que vazaram algumas fotos do nosso grupo da última vez, com a equipe antiga. Geralmente eu não me importava, se não fosse para ser conhecido, eu não teria investido em ser um ídolo da música. Assim que o carro estacionou, nos direcionamos comportadamente para dentro da empresa. Fomos direcionados ao salão, onde os artistas da empresa eram cuidadosamente tratados em confidencialidade, quero dizer… Sem contar a última falha da BH. Suga parou ao meu lado observando algo em seu telefone, antes de nós sermos direcionados às nossas cadeiras.

— O que tanto olha aí, hyung? – perguntei.

— Nada. – ele abaixou o telefone e me olhou desconfiado, então eu sorri, só poderia ser uma coisa.

— É uma garota?

— Onde eu teria encontrado uma garota para flertar, Taehyung?

Embora a expressão de obviedade dele fosse convincente, eu estava observando o hyung há algum tempo, e era claro que ele estava buscando algo ou alguém. Vez ou outra eu via seu computador aberto em páginas de perfis sociais. Eu só não sabia quem ele buscava, mas Suga estava sim caçando alguém.

— Estou morrendo de fome. – JK se aproximou de nós com a mão à barriga, e já nervoso, pelas profissionais da beleza que estavam presentes ali.

Suga de repente retomou o celular às mãos e disse que iria pedir um lanche para nós todos. O que estranhamos, já que: desde quando, Yoongi era prestativo em gastar dinheiro conosco? Não que ele não gastasse, ou se importasse de gastar, porque… Modéstia à parte, somos milionários. A questão estava mais em se propor a ter aquele cuidado conosco, numa semana onde ele andava tão mal humorado que repelia até aos maus espíritos.
Logo, fomos chamados para nossas cadeiras.

— JK, pode ir com o Shun, já que você fica todo nervoso perto das…

Seijin informava, mas foi interrompido fazendo-nos todos encararmos ao Jungkook, pasmes.

— Não, sunbae. Eu quero uma mulher, por favor! – ele pronunciou tão direto e atrapalhado ao mesmo tempo, que foi inevitável que não caíssemos todos em gargalhadas. Inclusive Yoongi, nosso ranzinza.

— Uuh… O Kook está mesmo crescendo! – Jin pronunciou e tentávamos não zombar mais do JK — Você ouviu o que ele quer, Namjoon?

— Ouvi sim, Jin… – Nam respondeu e se aproximou de JK sussurrando cuidadoso: — Tudo bem Jung, todos queremos o mesmo.

Jungkook ficou cada vez mais enrubescido e se atrapalhava nas palavras que dizia tentando explicar qualquer outra coisa que não fosse o que insinuavam. Levei as mãos aos bolsos, e saí em direção a uma das cadeiras onde uma cabeleireira já aguardava. Entre os três homens e as quatro mulheres presentes, Jungkook acabou indo até uma cabeleireira, que eu não pude saber se era ao menos bonita, já que depois que adentrei ao biombo separado por divisórias eu não poderia ver nada além do espelho em minha frente.

— Você é o Taehyung? – a mulher ao meu biombo me perguntou sorrindo e reverenciando em cumprimento assim que me aproximei.

— Sim.

— Por favor, sente-se. Seu manager informou que o seu cabelo será escurecido. Aguarde-me aqui por um momento, sim?

Assenti e a mulher saiu em busca dos equipamentos de trabalho dela. Ao retornar vestiu uma máscara em seu rosto e aplicou a coloração em meu cabelo, silenciosa. Eu não puxei assunto também, respeitando a escolha dela de trabalhar em concentração. E em seguida ela se retirou deixando-me ali com meu telefone de distração. E uma notificação chegou, era a mensagem do Yoongi.

Hyung Yoon: Os lanches chegaram!

Taehyung: E?


Hyung Yoon: Não vou até aí te entregar! O pedido está subindo, pegue o seu.

Taehyung: Eu hein… O entregador nem está aqui…
Você parece nervoso, hyung.

Suga não mais respondeu. Girei na cadeira e olhei ao redor, estava sem a visão de todo mundo, então me levantei e apareci fora do biombo e caminhei até os outros para ver como estavam. Enquanto isso, sem que eu soubesse, cruzava as portas do setor de beleza da empresa procurando o número da sala que constava em seu app. Antes de entrar na sala, onde estávamos todos, ela esbarrou com a cabeleireira que cuidava do meu cabelo.

— Linda? – a mulher pronunciou pelo apelido que gostava de tratar a amiga estrangeira.

— Oh! Mo Yeon? Então é aqui que sua equipe veio atender hoje? E ai! - disse animada e curiosa: — Eles são assim tão importantes como você disse?

Que mundo pequeno! A amiga havia lhe dito que conseguiu um trabalho ótimo com sua equipe para uma grande empresa. Não disse muito, afinal, havia até um contrato de confidencialidade e como não era o tipo de garota curiosa, deixou para lá. Mas agora estavam as duas no mesmo lugar.

— Quem pediu frango frito a essa hora? – Mo Yeon perguntou sentindo o cheiro que vinha da amiga.

— Pois é! Preciso entregar na sala 77.

— Oh! Mas esta…

— Senhorita Mo Yeon! Me acompanhe, por favor? – a amiga foi interrompida pelo manager contratante.

Mo Yeon encarou o homem com um sorriso assentindo, e assim que ele se virou saindo da sala, ela encarou a amiga e arregalou os olhos, espantada:

— Ei, sua sala é essa! – apontou — Mas, você trabalhou como cabeleireira não é?

Yá! zombou : — Sou especialista em colorimetria!

— Ótimo! Retire a coloração do rapaz sentado no primeiro biombo!

Pelo desespero da amiga em se apressar a seguir o manager, certamente a conversa demoraria, e alguém ficaria com o cabelo manchado se não entrasse. E eu não sabia que o “alguém” era eu.
entrou na sala, e eu já estava novamente em meu biombo, mas não a vi, estava entretido ao celular. Ela caminhou até um dos rapazes cabeleireiros que encontrou e o entregou as sacolas, apressada. Correu até o lugar onde a equipe guardava os equipamentos e quando surgiu ao meu lado, estava de avental, máscara e luvas. E o cabelo dela parecia maior e preso de qualquer jeito, mas não tinha certeza se deveria perguntar porque haviam trocado a minha cabeleireira.

— Olá senhor…

Ele ponderou e eu ouvi os rapazes fazendo um burburinho pela comida.

— Taehyung. – respondi.

— Prazer, Taehyung. – ela cumprimentou e pareceu sorrir, notei pelos seus olhos — Eu sou especialista em colorimetria na equipe também, e preciso checar se está no tempo da lavagem do seu cabelo. Mo Yeon foi chamada por seu sunbae, por um momento. Tudo bem?

— Ah, claro…

Ela se aproximou observando o meu cabelo e lendo a ficha que estava ao lado, na minha bancada.

— Preto, fundo azulado. – murmurou ela e seu celular apitou.

Com cuidado de não manchar com tinta, ela manipulou o telefone e pronunciou ainda olhando o aparelho:

— Finalizada.

Olhei pelo espelho e vi Yoongi correndo com a cabeça cheia de descolorante pelo salão porta à fora. O que afinal estava acontecendo com ele? Não sabíamos, mas ele estava mais estranho que o Jungkook.
A mulher se aproximou de mim, pegou uma espécie de lupa com lazer e jogou a luz avermelhada nos meus fios e constatou.

— Vamos retirar.

— O que é isso que você…? – perguntei apontando a lupa enquanto me levantava.

— É uma luz de reação, ela reflete a cor de fundo da tinta quando jogada, então eu jogo o vermelho sobre o preto para tentar enxergar se a tinta já alcançou o tom de fundo azul perfeito.

Hm… Você parece mesmo especialista nisso.

Falei enquanto andava até o lavatório com ela, ao meu lado. A mulher soltou uma risadinha descontraída e que em minha opinião tinha o tom perfeito. Sentei no lavatório e logo que ela passou a toalha pelo meu pescoço e deitou cuidadosamente minha cabeça, eu já me senti mais relaxado. A mulher enxaguou meu cabelo e realizou também uma massagem perfeita no meu couro cabeludo que até me adormeceu. Quando finalizou ela soltou um risinho divertido, por ter que me acordar, e eu imediatamente elogiei:

— Você tem mãos perfeitas. – sorri a encarando curioso.

Não nego, às vezes a minha sensibilidade aflorada me permite sentimentos inexplicáveis, como querer beijar aquela desconhecida só pelos toques das mãos dela que experimentei.

— E você tem uma linda voz. – ela respondeu sorrindo de volta e me estendendo uma toalha. — Poderia ser uma boa combinação…

Fiquei surpreso ao ver ela se virar me dando as costas para retornar ao biombo, e então sussurrei sem que ela pudesse ouvir:

— Com certeza… Minha voz no seu ouvido e suas mãos no meu corpo.

Quando me sentei de volta àquela cadeira, ela já segurava o secador e escova à mão, e não havia um mísero movimento dela que eu não estivesse agora absolutamente atento. Mesmo os olhares que ela me lançava pelo espelho, carregados de alguma intenção que parecia igual à minha, e que mostravam que ela sorria abaixo daquela máscara, eram todos captados imediatamente pelos meus olhos também.
Depois que terminou de secar meu cabelo, ela deixou o secador no suporte da bancada assim como a escova, passou um último produto no meu cabelo e finalizou.

— Prontinho.

Me levantei e fui olhar no espelho um pouco mais de perto, então o celular dela tocou e ela pediu licença. Saiu do biombo e não demorou para eu ouvir JHope me gritar. Era sobre o lanche que eu ainda não havia comido, quando me virei para retornar ao biombo atrás daquela mulher, a chefe da equipe retornava de encontro a mim.

Uwa! Ficou ótimo! Ela é mesmo muito boa não é?

— Senhorita Mo Yeon, onde ela foi? – perguntei buscando ao redor.

— Oh… Ela… Foi atender aos clientes dela. Ela tinha horário marcado no salão, precisou ir mais cedo.

Logicamente eu não saberia ali naquele momento, que ela mentia para mim por receio de ser punida por ter colocado alguém fora da equipe para cuidar do meu cabelo. Então acreditei e apenas perguntei:

— Qual o nome dela?

— Ah… é a Linda. Ela lhe atendeu bem? – a mulher perguntou preocupada.

— Claro, eu só queria agradecer.

— Ah, não se preocupe com isso senhor Taehyung, é o nosso trabalho!

Eu iria perguntar mais coisas se não fosse o Namjoon me perguntando se eu sabia porque o Yoongi saiu correndo atrás do entregador de comida.

— Ele fez isso? Aquela hora…? – pensei.

— O Yoongi está estranho.

— É... Correr atrás de comida não é algo que imaginei o hyung fazendo… O JK, sim, com certeza.

Falei e Namjoon riu, e elogiou o meu cabelo. Então olhei para trás e a senhorita Mo Yeon estava com sua equipe reunida se preparando para ir. Droga! Eu perdi a oportunidade de saber mais do que aquele nome… Linda. Mas estava decidido: eu iria reencontrar ela.

:: 5 ::

SeokJin

Eu estava saindo de mais uma sessão de doze horas de treino na BH, exausto e com a cabeça fervilhando. Há três semanas me peguei sentindo algo novo por uma das coreógrafas da empresa. Não era como se eu estivesse namorando escondido ou algo do tipo, mas havia acontecido de, em uma das nossas conversas eu manifestar o meu interesse e curiosidade por ela. O que ela entendeu como uma abertura de minha parte e não pensou duas vezes antes de me fazer sentir absoluto medo de ser flagrado. Na ocasião em que comecei aquela aventura, eu fui o último a sair da sala…Ou melhor, seria, já que ela surgiu na porta me impedindo.

— Ei Jin! Gostou de hoje?

— Ahn.. Sim Mynah…. Foi bem produtivo.

— Podíamos ir para a cobertura da empresa por um momento? Eu gostaria de conversar.

E eu aceitei. Enquanto os meninos me esperavam para irmos de volta ao dormitório, eu dei uma escapada para o alto do prédio, onde Mynah disse que gostaria de me beijar. Assim, direta. Eu só soube rir de nervosismo e como ela me conhecia, esperou eu me acalmar para avançar sobre mim. Daquele dia até então, eu estava saindo com a Mynah, escondido. O problema é que eu não deveria, por muitas questões. Primeiro, ela era funcionária da mesma empresa que eu, minha professora de dança, eu sabia exatamente os riscos de tudo aquilo. E estava me apegando.

Pensando neste monte de motivos para não fazer algo incerto, mas já tendo feito, eu saía exausto e distraído de mais aquele treino. E nem notei quando ela surgiu no estacionamento, onde eu pegaria carona com Suga e me puxou pela mão.

— O que está fazendo Mynah!?

— Quando vamos passar a noite juntos, SeokJin!? – ela perguntou frustrada e direta.

Suga que me aguardava com a cara de nada como sempre, arregalou seus olhos e abriu a boca murmurando para ela um “o que esta mulher está dizendo!?” e eu comecei a tossir.

— Já está na hora de transarmos Jin!

— Pelo amor dos céus, Mynah!

Enquanto eu a arrastava para dentro do carro de Suga, ele reclamava por ficar do lado de fora e falava algo sobre Mynah ser atirada demais para o que ele imaginava dela.

— Mynah, isso… isso..

— Um mês e meio juntos, SeokJin!

— Não estamos exatamente juntos…

— Como é? – ela me encarou perdida e respirou fundo antes de dizer: — Você está me dispensando?

— Eu não disse isso, é só que não temos um compromisso firmado e nem nada… O que você… – suspirei ao notar que ela estava em uma linha diferente da minha naquela "relação" — Olha. Podemos falar disso depois? O Suga está esperando e ele ouviu o que você disse e agora eu…

— Ok SeokJin! – ela afirmou me interrompendo e saindo do carro sem olhar para trás.

Suga entrou no banco do motorista onde antes eu estava e tive que ouvir seu interrogatório de “Seokjin o que você pensa que está fazendo!?”. Expliquei tudo a ele, e agora tinha mais alguém sabendo de nossas pegações, além de Mynah e eu. Decidimos ir comer fora e levar lanche aos meninos antes de voltarmos para casa.

Suga dirigia com a cabeça distante. E eu ainda mais. Me sentia atraído por Mynah como não deveria, e ouvir o pedido dela mexeu com tudo no meu corpo. Tudo mesmo. E olha… se Yoongi não estivesse ali certamente eu teria feito merda, já que sou bom nisso! Mas a cada dia mais perto de Mynah eu estava mais convencido de que deveria me afastar, só… não queria!

Observei Yoongi estacionar num restaurante de frango frito, lotado! E depois quem fazia merda era eu…

— Ok, e agora o que você está fazendo!? – indaguei confuso me abaixando no banco do carona encarando Yoongi.

Ele estava nervoso, do tipo ansioso, e pegou seu telefone observando algo nele como não parava de fazer ultimamente. Em seguida, encarou a fachada do restaurante conferindo se era ali mesmo que ele tinha que ir. Yoongi ignorou minha pergunta, o que me fez novamente insistir.

— Suga! O que estamos fazendo aqui nesse lugar lotado?! Você perdeu o juízo?

Ele começou a vestir o boné e a máscara a fim de disfarçar e apenas respondeu:

— Eu só quero o frango desse lugar.

Yoongi saiu e me deixou no carro assustado pela ousadia dele em enfrentar um lugar tão cheio! Recostei minha cabeça no vidro do carro, e fiquei observando abaixado, o que viria a seguir. Ao mesmo tempo em que me preocupava com Yoongi, eu me preocupava também com as atitudes futuras de Mynah. Foi um erro assumir o risco de me envolver, mas eu gostei dela. Gostei da química entre nós e nossa…! Como eu queria ter atendido ao pedido dela naquela noite! Observei o restaurante novamente e uma moto estacionava ao lado do carro, uma mulher com o uniforme do restaurante de costas para mim, tirou o capacete revelando seus cabelos tão bonitos. Ela adentrou rapidamente no lugar, e eu peguei meu telefone observando o número de Mynah nos contatos. Ponderei entre ligar ou não, e decidi ligar.

— O que foi SeokJin?

— Mynah… A gente precisa conversar.

— Precisamos, mas não vai ser agora! E por favor, não me ligue. Eu preciso de um espaço.

— Mynah, eu acho que você pode ter criado expectativas que…

— SeokJin, por favor!
– ela interrompeu-me, mas não pode terminar.

Suga abriu a porta do meu lado me empurrando e ordenando:

— Dirige, dirige! Anda SeokJin! Sai!

Eu me desesperei para tirar o cinto e desliguei a chamada de qualquer jeito. Pulei para o banco do motorista, e encarei Yoongi que tinha o rosto e roupas molhadas.

— O que você aprontou Yoongi!? – ralhei e observei pelo retrovisor um grupo de garotas o procurando.

— Algumas armys.

— Eu vi que são armys, e que agora eu vou ter que bancar o herói fugitivo aqui! – reclamei — Por Deus! Por que você está molhado!? O que é isso?

— Chá gelado! Esbarraram em mim e… Só dirige, Jin!

Yoongi cruzou os braços, emburrou sua expressão e se calou encolhido à porta do carro. Consegui despistar as armys que haviam entrado em um carro e nos seguido um pouco, e chegamos em segurança ao dormitório.

— Eu não sei o que está acontecendo com você ultimamente, Yoongi, mas aquela não foi um ideia boa, quase colocou a gente em risco, e eu acho que seja…

— Transar com nossa coreógrafa foi uma ideia pior. – ele disse me interrompendo.

— Eu e ela não…

— Mas se envolveu! Independente de até onde você foi, você se envolveu com uma funcionária da BH.

— Um erro não justifica outro, eu estou buscando resolver a minha situação, mas e você? Acha que não notamos que você está extremamente surtado com alguma coisa ao ponto de sair correndo pela rua com descolorante na cabeça!?

— Eu já disse que estava atrás do entregador de…

— Ou seria a entregadora? Eu vi minutos atrás, a mulher que chegou no restaurante, não vi seu rosto exatamente, mas a vi. Taehyung contou que pegou você investigando algo no app de comida.

— Vamos fazer o seguinte: resolva o seu problema com a Mynah, que eu resolvo ao meu direito de ir e vir com a cabeça descolorida, ou até pelado por aí!

Suspiramos e em seguida eu ri fazendo piada com Yoongi dizendo que ia correr pelado. Subimos e fomos recebidos com carinho por nossos colegas. Não por nós, mas pelo frango frito que Suga levava.
No dia seguinte não vi Mynah, e durante o restante da semana ela me evitou de todas as formas, e foi ali que eu percebi que por mais que estivesse gostando dela, não era suficiente para sentir a necessidade de a procurar, e talvez a melhor coisa que nos aconteceu foi aquele desentendimento. Quanto antes o basta fosse dado, seria melhor. Então na sexta-feira, último dia da semana em que eu poderia vê-la, eu decidi falar com ela depois do ensaio, mas Mynah se apressou. Ela deu o primeiro passo.

— Jin, podemos conversar antes de vocês irem!?

— Claro, eu também quero falar com você. Te vejo na cobertura ao final do treino, ok?

E assim seguiu-se o treino e logo que acabamos, disfarcei e saí antes dos meninos. Yoongi notou quando eu saí em direção a cobertura, e ele me gritou do corredor onde estávamos os dois:

— Boa sorte!

Sorri e subi. Aguardei por oito minutos pontualmente e Mynah surgiu ali. Sentamos em um banco de concreto, que havia no meio do jardim sustentável e observamos grande parte da região de prédios.

— É melhor pararmos com isso, Jin. Eu estava, estou, não sei, me apegando a você e isso não é certo. Eu sei que você não vai se envolver realmente... Eu queria muito ter… Você sabe! – ela me encarou sorrindo — Mas talvez não ter acontecido foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, entende?

— Mynah, eu jamais quis te magoar. Eu só não posso usar você, ferir seus sentimentos ou ser esse tipo de pessoa. Eu também queria muito, de verdade! Eu fui pego de surpresa com seu pedido naquele dia, porque eu também senti que estava me apegando, mas isso não pode mesmo rolar, sabe? Isso de se apaixonar, que eu digo…

— Eu sei. Naquele dia eu fiquei brava, achei que você estava numa vibe igual a minha, depois me senti rejeitada, e então notei que eu estava indo para um caminho perigoso. Esse caminho do coração. Eu queria muito seguir, queria que você seguisse no meu e eu no seu, mas… sejamos sinceros não é? O caminho para o seu coração é uma passagem fechada por sua escolha de vida.

— Mynah… – as palavras dela bateram fundo, senti a garganta dar um nó e meus olhos vacilaram em surpresa por ouvir aquilo de uma forma tão dura, mas com a expressão tão plácida de Mynah — Eu… Realmente espero que o caminho que você pegar para o coração de alguém um dia, seja de ouro e flores.

Ela sorriu e agradeceu me desejando o mesmo, nos abraçamos e ela se despediu. Mynah saiu na frente, enquanto eu continuei um pouco ali, observando o Sol se pôr do alto da cidade. E não demorou para que depois da saída de Mynah, Yoongi surgisse.

— Ei. Você está bem? – ouvi a voz dele até de mim, naquele tom entediado e preocupado que só quem conhecia bem ao Suga saberia que significava uma maneira dele mostrar afeto.

— Tudo bem. – murmurei e olhei para trás sorrindo. Levantei com as mãos nos bolsos, minha mochila atravessada no peito, e caminhei até ele devagar: — Me deixa em casa? Não tô a fim de ir para o dormitório hoje.

— Certeza?

— Eu quero ficar um pouco sozinho hoje.

— Beleza.

E assim seguimos para fora dali em direção ao carro de Yoon. Já no meu apartamento tomei um banho e pedi uma refeição, pensei em fazer um V Live, mas as armys iam notar que eu estava reflexivo. Não há nada que elas não notem! Então dar uma volta pelos arredores do bairro seria interessante.

Estava eu caminhando no Parque Namsan à noite, observando o farfalhar das flores e folhas, nas belas árvores e tranquilo por saber que as pessoas por ali, pouco importavam em quem era o adulto de touca e máscara, e com um sobretudo grosso. Na verdade, era a melhor hora para aquilo. A noite estava mais fria que o normal, e o vento indicava a mudança climática. Certamente iria chover no outro dia.

Eu não deveria me sentir triste, mas foi impossível ficar alheio às palavras de término que escutei da Mynah. Bem, ao menos eu não estava apaixonado! O que doía não era o final, eram as verdades. Parei minha caminhada e ergui olhos ao céu, encolhido em meu próprio abraço. A Lua naquela noite estava quase cheia, metade era encoberta por nuvens, e de repente enquanto eu a contemplava senti um tapa em minha face.
Há alguns metros de onde eu estava, uma mulher caminhava em direção oposta à minha, e lia um folheto que pela rajada de vento fugiu de suas mãos, e acertou em cheio ao meu rosto. Retirei o papel sem dar muita importância ao que estava escrito, já que em minha frente alguém desculpava-se envergonhada.

— Senhor, me desculpe! Por favor! Foi inteiramente culpa minha por não ter segurado direito ao papel! – ela mantinha-se encurvada enquanto falava, e aquilo me incomodava.

— Ah, não, tudo bem! Por favor, se levante! Foi só um acidente e está tudo bem!

— Nossa, acertou de cheio seu rosto… Me perdoe novamente.

Entreguei o papel a ela e a mulher pegou-o sorrindo ainda constrangida. Não era asiática, tinha uma pele mais morena e um olhar que penetrava a alma… Eram como os olhos de Taehyung. Daquele profundo clímax sedutor e sensível. Certo, ela era linda. Talvez a mulher mais linda e natural que eu já tenha visto.

— Ah, me deixe oferecer um chá?

Ela falou ao notar que eu a encarava, apontando sua garrafa térmica. Eu neguei, embora realmente quisesse. Como iria tirar a máscara perto dela!? Ela deu um sorriso sem graça e então me cumprimentou em despedida, caminhou até um banco do caminho que estávamos, sentou-se, guardou o papel no bolso do casaco, e serviu-se do próprio chá. E ali bebia-o e apreciava a lua. Eu queria estar ali, então como eu já disse que sou bom em fazer merdas, eu caminhei até ela pedindo para sentar com ela ali.

— Claro! O chá ainda está de pé caso queira.

Sorri negando com as mãos.

— Qual o seu nome, senhor!?

— Não sou um ahjussi, sabe… – brinquei pensando em como me chamaria — Pode, me chamar de… Seok.

— Seok? – ela sorriu concordando e se apresentou: — Então pode me chamar de .

— Ok… ….

E ali ficamos conversando até às três da manhã. Ela me contou como seu dia havia sido cheio, e como ela gostava de ir à Namsan para contemplar as noites. Perguntei se ela não tinha medo de fazer aquilo sozinha ali, e ela não só afirmou que Seoul era extremamente segura comparada ao seu país, que eu não perguntei qual era, quanto ela sabia autodefesa bem demais para alguém se atrever a mexer com ela.
, tinha uma fala madura e tranquila que me transmitiu paz e conforto. Quando dei por mim estava conversando com ela sobre Mynah, e sem esclarecer exatamente os fatos, eu disse que nosso romance era proibido, e não me doía não ser ela, mas doía que eu não tivesse o controle da minha vida. Ela perguntou o motivo daquilo, claro, e eu apenas respondi com um “é complicado…”.

— Entendo! Não sei o quão complicado é, Seok, mas lido com diferentes pessoas desde que vim para cá, então eu realmente acredito que seja delicado para você! Sabe… às vezes ser complicado é mesmo o melhor. A gente não entende na hora, mas no futuro, vamos entender!

— Obrigado por isso, ! – sorrimos um para o outro e então eu notei as horas — Uwa! Olha as horas! Está muito tarde!

— Nós realmente precisávamos desse tempo com a lua, então não se culpe caso tenha compromisso amanhã.

— Não, não é isso! Realmente foi ótimo, mas é tarde para você voltar sozinha. Eu posso te acompanhar até o ponto de táxi ao menos?

— É muita gentileza, Seok. Mas eu estou aqui por perto. Não é necessário, obrigada.

— Eu não vou deixar uma mulher andar sozinha a essa hora, por mais que você diga o quanto Seoul é seguro e quanto seus punhos são fortes!

Ela riu e aceitou que eu a acompanhasse por algum ponto. E então descobri que ela realmente morava por ali, num apartamento até perto do condomínio que o meu ficava. Trocamos número de telefone, e prometemos repetir aquele encontro casual mais vezes. era uma garota legal, e não vou negar que gostaria de vê-la mais vezes. Eu gostei da conversa com ela, da leveza dela e claro, o fato de ela não desconfiar quem eu era. Antes de nos despedir totalmente, aquilo me deixou curioso.

! – chamei antes de ela se virar para entrar em seu prédio: — Você não quer ver meu rosto?

— Bem, foi desconfortável mesmo conversar apenas com a visão clara dos seus olhos, mas eu estou acostumada com a privacidade dos coreanos e seu uso por máscaras… e depois, tenho a impressão que você é muito bonito, então é um risco para eu me apaixonar.

Eu ri e ela também, e com aquele sorriso grandioso à mostra, como eu poderia resistir ao fato de querer mostrar minha face a ela? Levei a mão na máscara prevendo que faria merda de novo, e abaixei. Ela continuou sorrindo, atenta com a luz dos postes desvelando a penumbra da minha feição e disse:

— Uau.. Eu estava certa, você é mesmo lindo, Seok.

— Você não diria já ter visto um rosto como o meu? – perguntei estranhando.

se aproximou, e olhou ainda mais atenta investigando minha expressão amedrontada.

— Não. Eu realmente me lembraria se tivesse o visto antes, Seok. Mas, sabe, que bom que eu vi seu rosto antes de dormir.

sorriu, e acenou dando as costas para mim e entrando sem olhar para trás. Eu sorria largo como não achei que fosse fazer aquela noite em nenhum momento. Vesti a máscara de novo, e caminhei rumo ao meu condomínio há alguns metros dali, e atento aos arredores, apesar da segurança de Seoul, eu era SeokJin… Ainda era um astro, embora minha nova amiga não faça a menor ideia disso.

:: 6 ::

NamJoon

— Como líder, você é quem deveria estar tirando essa ideia da cabeça de alguém do grupo, e não sendo o fugitivo.

— Minie, preste atenção! Não era nem para você estar acordado! Se você me dedurar eu vou castigar você.

— Namjoon, você sabe que eu não sei mentir bem!

— Apenas durma, você não me viu sair daqui!

Jimin não poderia aguentar aquele segredo, mas se realmente pensasse que foi tudo um sonho, talvez pudesse fingir que eu não fui flagrado por ele, vestindo aquelas roupas todas pretas como quem iria assaltar um banco. Enquanto ele ia dormir, eu cruzava a guarita do dormitório no exato momento em que meu grande amigo, Jackson distraía os seguranças. Me abaixei e passei pela entrada da guarita, ainda dentro do condomínio, atravessando a rua para assim chegar no muro onde haviam os gramados, uma zona cega das várias câmeras, e na ocasião, nenhum segurança. Há algum tempo, sabíamos os exatos dias em que a segurança do condomínio diminuía. E eu, estabanado, mas firme em meu propósito de fugir sem alarde, escalei a árvore e pulei o muro. Jackson já estava escorado ali me aguardando, com um sorriso largo no rosto.

— Vocês não estão muito seguros aqui, sabe? Sasaengs podem facilmente fazer a mesma coisa. – Jackson disse enquanto eu me levantava do chão.

— É claro, você pensa como uma, não é? Quantos dias mesmo você colocou alguém pra ficar de tocaia na rotina dos vigias, Jackson?

— Ei! Isso é um investimento! Eu precisava dessas informações para garantir que iríamos nos divertir muito estes anos!

Entramos no carro de Wang, e Jackson sorriu enquanto se preparava para dirigir, e falou animado:

— Me agradeça depois, por tudo o que eu faço, Namjoon!

— Aonde iremos para você estar tão empolgado?

— Ao paraíso.

Eu não compreendi a malícia de Wang, apesar de reconhecer que ela estava presente ali. Contudo, assim que chegamos ao local, eu comecei a entender que ele havia preparado um bom lugar, para o tipo de diversão que eu imaginava. Jackson entrou com seu carro por um estacionamento VIP subterrâneo, estiquei o corpo pra frente a fim de observar o prédio acima de nós. Um prédio todo espelhado, que parecia apenas mais um prédio comum em Seoul. Até que Jackson saiu do carro e caminhou rumo para subir pelo elevador do estacionamento e assim que chegamos na cobertura, uma mulher sensual e elegante nos recebeu naquele local privativo.

— Jackson, onde estamos? – perguntei e a mulher se afastou adentrando por um corredor depois que Jackson a respondeu não precisar de nada.

— Bem vindo à Paradiso, meu amigo! Esta é a boate mais seleta de toda Seoul.

Jackson afirmou enquanto entrava pelas grandes portas douradas, dando a visão de um grande loft. Observei o lugar que parecia um apartamento luxuoso e não entendi como aquilo poderia ser uma boate.

— Boate? Isso é um grande apartamento, Jackson! Você por acaso está bêbado e eu não percebi?

Wang riu da minha expressão confusa. E tocou os meus ombros me guiando por dentro do lugar até o que seria um quarto privativo.

— Jackson, por que está me levando para um quarto?

— Relaxe, Nam! O tipo de paraíso que prometi levar você, não é o que está pensando! – meu amigo ria da minha plausível desconfiança — Isto é um closet privativo para nós trocarmos de roupa ou nos arrumarmos. É o meu closet. Ou vai querer descer para a boate vestido de ninja?

— Seu closet? Descer pra boate? Jackson, como você chegou neste lugar? Que loucura é essa afinal?

— Namjoon... – ele entregou-me um conjunto de terno azul marinho que me cairia bem e pegou o seu indo à suíte dali e dizendo: — Eu até posso te contar tudo em outra hora, apenas saiba que eu tenho um passado.

Jackson me deu as costas e não evitei de me assustar, e arregalar meus olhos enquanto pensava sobre aquilo. Encarei o terno em minha mão e mesmo sendo tudo um pouco estranho, eu decidi que confiaria em Jackson, mas estava curioso.

— Um passado? O que quer dizer com isso? – perguntei alto o suficiente para Wang ouvir de dentro da suíte.

— Eu… Bem, eu não quero falar muito, mas saiba que não faço nada mais ilícito!

— Nada mais? Por que? Você fez isso antes? Jackson, eu não estou gostando de nada disso!

Jackson abriu a porta da suíte no exato momento, com sua camisa ainda aberta e revirei os olhos para o exibicionismo do meu amigo. Wang então, sorrindo, me empurrou para me trocar ao notar que eu não havia ainda feito aquilo. Jackson caminhou até o espelho que ia do teto ao chão de uma das paredes do closet e contou brevemente:

— Sem apavoramento, ok? Mas minha família tinha negócios pouco convencionais na China, que se expandiu para a Coreia com a ajuda de outra família aliada. Eu era herdeiro de tudo, assim como a minha primeira ex-namorada. Ela não quis continuar nos negócios familiares, eu continuei por um tempo, mas afastado por conta da carreira de idol. Monique¹ me fez seguir meu sonho, apesar de eu não largar outras responsabilidades. Muita coisa aconteceu, nossos caminhos cruzaram-se de novo, eu me apaixonei de novo, e desisti de tudo pra seguir apenas como o idol.

— Que tipo de negócios? E o que esse lugar tem a ver com isso? E quem é Monique e por que ela é importante pra você me explicar o motivo de eu estar aqui?

— Eu não vou falar muito sobre isso Namjoon, mas esse lugar é a boate nova de Monique, a Paradiso é a versão seletíssima da sua outra boate Insanity. Só eu tenho acesso ao elevador da cobertura, porque essa cobertura é dela, mas eu tenho certo… prestígio com a minha amiga, sabe?

Jackson sorriu orgulhoso por aquilo.

— Espera… Lumiya e Monique são a mesma pessoa?

— Não. – Jackson virou-se já arrumado para mim, que terminava de ajeitar o meu colarinho — Monique é minha ex, Lumiya era dançarina da Insanity quando a conheci e nos envolvemos casualmente desde então, como eu já te disse antes… Inclusive ela está lá embaixo nos esperando!


Terminei de assentar a roupa no meu corpo, embora eu não entendesse se aquela troca de figurino era realmente necessária. Nos apressamos a retornar ao elevador, dessa vez um outro elevador que Jack explicou que nos levaria diretamente ao primeiro andar. O prédio todo era a prova de intrusos, acusticamente pensado para não extrapolar os decibéis que denunciassem os shows internos. Composto por um térreo onde só entrava quem fosse cliente GOLDEN VIP. O estacionamento subsolo tinha dois elevadores, um para os clientes, que os levava ao térreo, e o que Jackson usou. Da cobertura que estávamos, nós poderíamos descer direto para a ala do bar e apresentações, a boate em si. Os andares do segundo até sétimo, eram compostos por espaços de usufruto dos clientes entre restaurante, spa, quartos privados e karaokês. O oitavo andar já era a cobertura de acesso restrito à dona, e ao Wang.
Tive que me segurar para não parecer um idiota ingênuo que nunca havia visto uma boate naquele lugar, mas realmente, eu fiquei boquiaberto ao saber a descrição do local por Wang, e ainda estava curioso pelo passado do meu amigo, mas principalmente, eu estava surpreso. Assim que adentramos pela grande porta negra, revelando o local imenso, novamente me perguntei como era possível um prédio tão enorme quanto aquele! Wang me guiou para dentro do salão, e eu pude jurar ter visto o primeiro ministro do governo sentado em uma mesa com outros figurões.
Uma mulher elegante que vestia vermelho, aguardava bebendo um drinque colorido em uma mesa, onde Wang se dirigiu para sentar.

— Finalmente! Achei que não viria mais!

— Eu nunca te deixaria esperando. – Jack falou beijando de forma comportada a boca da mulher e sentou-se ao lado dela, me apresentando, e então eu logo abaixei minha cabeça para cumprimentar ela num aceno — Queria que você conhecesse meu grande amigo, Namjoon.

— Ah, o Namjoon! Eu já ouvi histórias suas Namjoon! Finalmente nos conhecemos! Eu sou Lumiya, é um prazer.

— O prazer é todo meu! – me sentei na frente dos dois e disse a ela: — Eu também ouço falar muito em você, Lumiya. Cheguei a pensar que Jackson não quisesse nos apresentar por ciúme!

Jackson riu e Lumiya o encarou com uma expressão curiosa, mas apenas por divertimento, a relação dos dois era extremamente esclarecida para ambos. O garçom surgiu de repente, e nos serviu doses de uísque que Lumiya havia pedido em adiantamento por mensagem recebida de Jackson.

— Eu ainda me caso com ela. – Jack falou e Lumiya revirou os olhos descrentes — Monique está?

— Não, hoje eu sou a responsável aqui e Pietro está na Insanity, ela viajou.

— De repente? Hm… Ela largou o Park?

— O Jay? Você realmente acredita nisso? – Lumiya dizia risonha e eu observava o lugar atencioso e alheio à conversa dos dois, até que a mulher anunciou um show me fazendo encarar o palco: — Depois te conto sobre a Monique e o Jay, vamos prestar atenção que vai começar seu show!

A animação e admiração na voz de Lumiya chamaram a minha atenção e no mesmo momento, eu só queria não ter olhado para o palco! Acabava de notar a mulher mais interessante e bonita que eu me lembrava de ter visto. Ela era extraordinariamente sensual, com um sorriso atraente e os olhos predadores. Que bom que nós estávamos tão perto do palco ao ponto de vê-la daquela forma. Percorri os olhos em torno do lugar e não havia nenhuma mesa ou pessoas que não estivessem atentas à mulher no palco.
Ela vestia um longo robe de seda branco, e posicionou o microfone no pedestal e cumprimentou a todos. Em seguida abriu o laço de seu robe com delicadeza, e eu mantive-me fixo em olhar os mínimos gestos dela. , como Lumiya havia mencionado, abriu o robe o retirando e revelando o vestido igualmente branco de seda, de alcinhas, que descia por seu corpo o desenhando, e ela não usava sutiã, notei. Em seu lindo colo, uma gargantilha brilhante de pedras turquesas, assim como brincos e cabelos presos em um coque quase folgado. Afinal, o que era aquela visão?
A mulher começou a cantar numa voz doce e inebriante, tanto que mal notei o mundo ao meu redor. Bebia todas as doses que eram oferecidas, não ouvi nada que Jack dizia, ou qualquer outra pessoa viesse a dizer! Em determinados momentos do show, a mulher ia desmontando seu figurino devagar. Primeiro soltou os cabelos. E então eu entendi porque o penteado não estava tão alinhado como o restante do vestuário. Cantou mais um pouco interagindo como uma artista carismática com o público, que ora prestava atenção, ora retornava aos seus interesses à mesa. Menos eu, para mim, neste momento existia só a . Depois de um tempo, desceu as alças do vestido, extremamente sensual e foi quando eu finalmente consegui dizer algo.

— Por Deus, o que ela está fazendo?

Jack e Lumiya riram baixo, parando seus carinhos sutis. Haviam notado que perderam minha atenção aquela noite no momento em que eu vi a . Mas na verdade, aquilo sempre acontecia com quem a conhecia, mesmo os clientes mais antigos ainda se surpreendiam com os shows dela.

— Nu artístico! – Jackson respondeu e eu o olhei boquiaberto, imediatamente.

— Ela vai ficar nua?

— Talvez. – respondeu Lumiya para mim — Às vezes ela encerra o show na lingerie, depende do tom que ela decide dar a apresentação, hoje não acho que ela fique nem mesmo com os seios à mostra.

— Jackson! Por que não me trouxe aqui antes? – reclamei com o meu amigo lhe lançando um olhar mortal, e Jack apenas deu de ombros — Lumi, acha que consegue me apresentar a ela?

Hm… – ela pensou e sorriu — Com Certeza, Namjoon.

As minhas covinhas deram o ar da graça e eu pude com isso, concentrar-me de novo na cantora e stripper, e como Lumiya dissera, ela terminou o show apenas de saltos altos brancos, e um conjunto branco semitransparente de lingerie.
Quando já estava em seu camarim, Lumiya foi até ela. Jack e eu ficamos bebendo, e eu nem notava o quão alto eu já estava. Lumiya retornou até nossa mesa com ao seu lado. A mulher havia insistido com a gerente que não faria nenhum programa, já que aquilo não fazia parte de seu trabalho e ela nem queria. Depois de Lumi explicar que iria apenas apresentá-la a um amigo do Jackson, aceitou encerrar a noite de trabalho bebendo alguns poucos drinques.
Poucos drinques. Poucos. Não foi assim como ocorreu. ficou quase a noite toda bebendo, havia encontrado em mim um rapaz divertido e interessado em realmente a conhecer. Não que eu quisesse apenas aquilo, a longo prazo, mas no momento bastava. Nós dois estávamos nos dando tão bem que Jackson e Lumiya nos deixaram sós. Subiram para a cobertura, assim que Lumiya colocou outra pessoa no comando, e eu só me dei conta quando mencionou ir embora.

— Mas já!?

— Namjoon, eu realmente tenho que acordar cedo amanhã…Quer dizer… daqui a pouco! – rimos à medida que percebeu estar ferrada, afinal, quem iria dormir duas horas e ainda acordar bem disposta?

— Me deixa te levar em casa então?

— Eu não deixo homens entrarem em minha casa!

— Eu só falei em te levar em casa, e não entrar… – zombei e sorriu.

Nós dois trocamos olhares por um tempo, sorrindo. Aos poucos o sorriso deu lugar à curiosidade. Os olhos que se encaravam íris por íris cederam a investigar o rosto um do outro, até que pousou o olhar nos meus lábios e eu nos dela.
Aquilo era um bom sinal, eu me aproximei ainda mais, com meu olhar sério, pequeno e sem nenhum sorriso em meu rosto, apenas encarando a boca dela, e manteve-se igualmente à espera de algo. Quando a minha mão grande tomou sua nuca, ela fechou os olhos sentindo nossas bocas colarem e a minha outra mão correr para sua cintura.
Foi um grande beijo. Dos poucos que eu duvido que se lembrava de ter dado em um coreano, mas antes que eu mostrasse mais a ela, decidiu parar. Nos afastamos contra a minha vontade, e ela sorriu agradecendo pela noite, mas deixando claro que precisava mesmo ir. Eu me levantei rápido e quase fui ao chão se não fosse a me segurar. Até que nos preparamos para sair, com um pouco mais de controle da nossa postura.
Eu saí do recinto logo atrás de . Ela caminhou até o térreo de entrada, mas me lembrei de que a chave do carro de Jackson não estava comigo, então eu pedi que ela me aguardasse.

— Namjoon, não se preocupe eu…

— Eu disse que te levo! Por favor! Espere aqui!

Insisti a interrompendo, em seguida saí de volta pro salão, mas extremamente perdido. Só quando eu entrei no salão de novo, me dei conta de que havia bebido demais para dirigir e talvez fosse melhor a acompanhar com um táxi, até porque eu não me lembrava como chegar na cobertura e também teria de pegar um táxi. Mas quando voltei para o térreo, não estava mais lá. E então num súbito momento de lucidez, lembrei que não poderia pegar um táxi aquela hora sem disfarce, ou seria reconhecido.
Eu consegui retornar até a cobertura com a ajuda de um funcionário que me indicou o elevador privativo e assim que eu subi, eu ouvi os gemidos de Lumiya pelo lugar. Não daria mesmo para ficar ali!
Bêbado, confuso e frustrado, abri a porta do quarto dando de cara com a cena sexual do meu amigo, e fingi que não tinha visto aquilo, caminhei para o closet onde peguei minhas roupas e vesti de qualquer jeito o disfarce, focando em cobrir o rosto, e saí novamente. Entrei no táxi, com o rosto todo coberto, e uma mistura de terno azul marinho, com camiseta preta, tênis e calça jeans rasgada nos joelhos. Se estivesse sóbrio, não conseguiria montar um look que me caísse bem como aquele caiu, mesmo desajeitado. Entrar no dormitório foi um milagre, a guarita estava tranquila e eu precisei pular o muro de novo, mas falhei miseravelmente. Telefonei então ao único que já sabia o que eu faria essa noite: ao Jimin, que pouco tempo depois apareceu.

— Alô? – disse Jimin sonolento.

— Jimin! – eu estava bêbado demais a ponto de gritar brigando com Jimin: — Estou preso do lado de fora! Venha buscar seu líder!

A minha voz era arrastada, autoritária e confusa. Jimin logo notou que eu estava bêbado.

— Mas que droga, sunbae! – ele reclamou do outro lado da chamada.

— Xiiiiu! Fale baixo! Você vai acordar os vigias, Park Jimin! – eu disse aos berros — Escada!

E desliguei. Jimin quis praguejar, mas se conteve. Saiu da cama com sono, mas apressado e silencioso. Depois procurou uma escada e desceu pelo dormitório até o condomínio, extremamente impaciente, arrastando uma escada pelas ruas. Ao atravessar a guarita, pouco se importou se seria visto, queria mesmo que eu fosse pego! Mas Jimin nunca teria tanta falta de lealdade a ponto de realmente torcer para eu me ferrar.
Eu estava de braços cruzados e escorado no muro, quase caindo de sono quando Jimin apareceu sentado no muro e me chamando. Olhei para cima e ele brigava comigo dizendo coisas que eu não entendia, e fez um esforço absurdo para atravessar a escada sobre o muro para assim eu ter apoio. O muro não era tão alto, afinal dava pra usar uma escada de ajuda, mas como eu estava bêbado, pular o muro sem ela seria impossível. Subimos os dois depois daquela peripécia com correria, um dos vigias andava com uma lanterna atrás de nós, por sorte não nos alcançou e nem reconheceu.

— Da próxima vez que fizer isso, eu conto tudo e virarei o líder!

Jimin disse a única coisa que entendi ele falar naquele fim de noite, e eu fui ao meu quarto. Adormeci sem nem notar, e sonhei com . Na época eu achava que era só sonho, porque estava bêbado, mas depois eu descobri que ao menos o beijo daquele sonho foi real. Ao menos o beijo...

:: 7 ::

Hoseok



O espírito de porco preguiçoso do Yoongi havia se apossado do meu corpo. Não me lembro de algum dia ter me sentido desanimado com qualquer coisa que envolvesse o trabalho que eu tanto amo, mas naquela manhã de terça feira, tudo o que eu não queria, era ir para uma entrevista em uma rádio! Preferia ter ficado dormindo.

A Ryse Rádio, era uma das rádios mais populares do distrito Jun-Gu e ficava bem ao centro de Myeong-dong. Eu adorava ir para Myeong-dong quando era criança, é um lugar populoso e com isso, eu e os garotos não andávamos muito por ali devido à fama. Mas, eu sabia que iria entrar na rádio e sair da rádio sem nem mesmo comer algo nas barraquinhas de rua. E assim, entrei ao prédio já um tanto quanto desanimado.

O manager nos encaminhou para uma sala de espera do lugar, e Jungkook não parava de rir de alguma coisa que Jimin o mostrava no celular, Namjoon ainda estava emburrado por Minie contar a nós o que ele havia feito há algumas noites passadas. Taehyung estava telefonando para todos os salões de cabelereiro possíveis, atrás de uma, tal “Linda”. Ou algo do tipo, eu não sei bem como é a pronúncia. Jin, ainda estava um pouco calado, nos últimos dias ele estava mais pensativo do que o normal. E Yoongi... Bem, eu nunca vejo a muita mudança de humor nele. No momento em que entramos no camarim ele estava com fones de ouvido e analisava a mesa de guloseimas que haviam deixado preparada para nós, com aqueles seus olhos naturalmente diabólicos.

— Você não vai pedir comida, de novo, não é? – perguntei a ele.

— E se eu quiser? – respondeu rudemente.

— Por que não compra logo o restaurante de frango frito?! – Jin murmurou quase engraçado, se não fosse sua personalidade mais introvertida naqueles dias: — Compre o restaurante e todos os funcionários e não irá mais precisar perseguir a garota!

— Que garota?! – Jimin perguntou com os olhos esbugalhados, e eu apenas me calei e observei o desenrolar da história enquanto me sentava em uma poltrona.

— Nenhuma garota, eu não sei do que o Seokjin está falando. – Suga deu-nos as costas e pegou um alcaçuz de chá verde enchendo a boca para mastigar e não ter que falar nada, como se não o conhecêssemos... — Ele está delirando.

— É uma entregadora, não é? – Taehyung afastou o celular, e embora estivesse telefonando, ele estava atento à conversa.

— Cale a boca, Taehyung! E você, que está procurando uma cabelereira em toda a Coreia? – Suga esbravejou.

— Então assume que está procurando uma entregadora também?

V o pegou pelas próprias palavras, e Yoongi de repente ficou sério e raivoso, logo iria se fazer de entediado para encerrar o assunto. Eu tinha certeza! Mas foi depois que Jin o dedurou que eu o vi ficar nervoso e jogar Jin em uma berlinda também. Naquele momento decidi que preferia sair dali.

— Ele não está procurando, porque já a encontrou. Ele está a perseguindo agora... – Jin falou sorrindo sacana.

— Pelo menos não sou eu quem esteve transando com a nossa coreógrafa, não é Seokjin?

Uwa! – Jin de repente reclamou ficando sério e empostando seu corpo — Como você é pouco confiável Yoongi! Eu não estive transando com ninguém!

— Seokjin você sabe que isso é absurdamente sério não é? – Namjoon finalmente falou tentando passar sermão.

Hyung, mas você fugiu e isso é tão sério quanto... – Jimin começou a esclarecer até Jungkook tampar a boca dele e o arrastar para a mesa de comida murmurando algo em seu ouvido.

Antes que Namjoon pudesse reclamar, e todos continuarem discutindo a vida de Yoongi e Seokjin, nós ouvimos Taehyung gritar:

OH! Isso! Linda! Ela trabalha aí? Eu poderia marcar um horário, por favor?

Taehyung sorria de orelha a orelha buscando por papéis e caneta, mas sem nada encontrar levou as mãos aos primeiros bolsos que encontrou, para pegar o telefone de alguém e foi ali que Seokjin caiu em gargalhadas, enquanto Namjoon o repreendia por “rir num momento sério”, sem se dar conta que ele estava sofrendo de cócegas na bunda. Aquilo tudo estava confuso demais para minha cabeça que estava aérea naquela manhã, então eu decidi sair daquela sala. Fechei a porta e me escorei nela dando de cara com o corredor vazio, silencioso e finalmente suspirei em paz. Ajeitei meu chapéu pescador e meu blazer e comecei a caminhar pelo prédio.

Nos corredores da Ryse havia fotos penduradas em quadros com pessoas ilustres ao longo daqueles seus 40 anos de emissora. O atual presidente do lugar, Josh Spencer também havia transformado a rádio Ryse em uma pequena gravadora e alguns dos cantores expostos ali, eu até conhecia, mas não imaginava que haviam começado naquele lugar. Caminhei por entre os corredores, e cheguei num ponto sem saída, onde havia apenas elevadores. Decidi dar uma volta pelo prédio, olhei no relógio e ainda eram dez e meia, a entrevista estava marcada para onze horas então, eu poderia explorar. Minha curiosidade aumentou depois que encontrei aqueles rostos em fotografias, queria saber mais sobre a história da Rádio Ryse. Subi dois andares de elevador e quando a porta se abriu, o silêncio era tão absoluto quanto nos outros lugares. Parecia que ali, era um andar mais laboratorial ainda. Eu caminhei no único corredor e então me dei conta: eram os estúdios antigos da Ryse. Cada janela de vidro grande pelo corredor denunciava alguns estúdios vazios, talvez até desativados se eu considerasse a decoração antiga. Fui até o fim do corredor e ali havia uma pequena sala de café, e banheiros, e do outro lado do corredor uma porta de vidro que dizia “Somente pessoal autorizado”. Espiei se haviam pessoas por ali, e de repente uma mulher saiu pela porta de vidro me surpreendendo.

— Posso ajudar senhor?

— Oh, me desculpe... – sorri sem jeito — Eu estava andando pelo prédio...

— Ah sim, mas... Procura algo específico?

Havia algo na voz dela que me fazia querer ouvi-la falar por mais e mais tempo. Suspirei quando notei que ela não fazia ideia de quem eu era. Então apenas sorri e apontei para a sala atrás dela.

— São os antigos estúdios da Ryse não é?

— Ah...
Ela sorriu e colocou as mãos nos bolsos de trás de sua calça, de um modo muito descontraído. Não que precisasse esforço para notar que ela não era coreana, mas certamente, aquele trejeito displicente era coisa das Américas. Ela não tinha uma postura sisuda e contida como é o nosso costume, não era deselegante e nem expansiva, mas... Havia um suingue ao redor da imagem dela, que eu poderia quase apostar... Brasileira!

— Na verdade os antigos estúdios são os três primeiros do corredor.

Ela apontou para as exatas janelas de onde eu já havia passado.

— O restante, são os novos estúdios. Você é músico?

Eu queria gargalhar de emoção. Era tão difícil andar por lugares onde as pessoas não me conhecessem, que eu só conseguia imaginar que seria ótimo que ela nunca soubesse. Certamente me faria bem me sentir um cara “normal” de novo, e ela provavelmente não se afastaria.

— Sou! Eu estou aqui para... Tentar falar com o Spencer!

— Ah, claro... – ela sorriu como se aquilo fosse realmente comum e cruzou os braços em frente ao seu corpo e perguntou animada: — E você já tem horário marcado?

— Ah, não, na verdade... Eu vim com meu empresário, ele está olhando isso lá embaixo.

— Entendi. – ela sorriu ainda mais abertamente e se encaminhou para a pequena salinha de café e me perguntou: — Aceita um café?

— Claro! – falei e fiquei parado ali a observando.

Percorri os olhos pelo andar, e era um tanto quanto isolado. Não havia câmeras de segurança e eu fiquei pensando o quão arriscado era para uma mulher sozinha ficar ali. Mas, quem invadiria o andar de trabalho dela e a ofereceria risco? Só um maluco iria ficar andando por prédios assim... Mas... Eu era o maluco no momento. Não que eu fosse fazer algo contra ela, o máximo que eu poderia e até queria fazer era sentar no chão daquele corredor e passar horas conversando com ela. A mulher voltou e sorrindo, me estendeu um copinho descartável de café. E me observou meticulosa ainda com o peso do corpo em uma perna, em uma postura muito relaxada.

— Qual o seu nome?

— Jung. – falei o primeiro que veio à mente para não denunciar quem eu era — E o seu?

— Meu nome é...

— Hey !

Ela foi interrompida por um homem que a chamava no final do corredor, saindo do elevador com um carrinho de fitas. Ela virou seu café em um gole e jogou o copinho na lixeira próxima e foi até o rapaz numa corridinha, enquanto eu fiquei ali observando-a abobalhado. Havia algo na presença dela... Algo nela... Algo que acendeu um pouco do meu humor naquele dia. Ela era carismática da cabeça aos pés dentro de seu tênis baixo, suas calças jeans boca de sino e aquela bata quase hippie, branca.

— Obrigada Kai! São as fitas dos 2’Ne-Do?

— Exatamente. Josh me pediu para buscar mais tarde aquele arranjo que você ficou de fazer.

Aigoo... – ela murmurou desanimada: — Eu já avisei ao Josh que não consigo terminar de preparar este arranjo hoje!

— Fazer o quê, ? Ele disse que você é uma grande, aprendiz de produtora, e que vai sim dar conta! – o rapaz respondeu dando de combros e saindo em seguida.

Ele me olhou brevemente me analisando e então eu abaixei a cabeça como se não estivesse espiando e sendo espiado. A mulher empurrou o carrinho até minha direção, e quando passou por mim sorriu e parou à porta de sua sala.

— Olha, me desculpe Jung, mas... Eu preciso remasterizar todas estas fitas e ainda produzir um arranjo e... – ela parou de falar soltando uma lufada de ar, divertida: — Muito trabalho! Enfim, você me desculpa, mas não é permitido ficar aqui então, você precisa ir. A sala do Josh é o andar acima deste, talvez seu empresário esteja lhe esperando lá. Eu te desejo boa sorte!

— Cla-claro... – gaguejei ao notar que ela sorria me dispensando. Eu nunca havia sido dispensado de uma forma tão gostosa em toda minha vida.

Joguei o copo de café na lixeira e ela ia me dando as costas quando eu a chamei de volta.

— É , não é? – perguntei e ela me encarou confusa: — Ele te chamou de ...

E então ela sorriu entendendo que não havia se apresentado.

— Mais ou menos, mas pode me chamar de também Jung, se algum dia nós nos reencontrarmos por aí.

— Nós iremos!

— Tudo bem... – ela ergueu as sobrancelhas surpresa pela minha resposta tão certeira — Então até mais, Jung.

Saí de costas, acenando para ela, até que ela riu baixinho e balançou a cabeça empurrando o carrinho de volta para sua sala. Desci pelo elevador com um sorriso tranquilo, e nem mesmo se encontrasse a zona das discussões dos meninos no camarim de novo, eu me incomodaria. De um modo muito estranho, eu havia conhecido uma mulher que abalou minhas estruturas sem nem mesmo trocar mais do que algumas palavras comigo.

— Hobi! Vamos! Onde se meteu? – Namjoon falou apressado quando eu surgi no corredor do camarim e vi todo mundo indo até o estúdio de transmissão da rádio.

Entramos, nós fomos entrevistados ao vivo, e antes de sair eu pude ver pelo vidro da cabine de transmissão que alguém bateu à porta e um rapaz disse “entra”. A mulher que entrou era a , apressada entregando uma pilha de fitas para o rapaz. Yoongi ao meu lado, de repente olhou para a mesma direção que eu, e a viu de costas saindo pela porta e se alarmou. Eu sorria discreto e me surpreendi pela reação do meu amigo.

Uwa! – Yoongi falou apontando o lugar e todos o encaramos.

— Yoongi? O que foi isso? – perguntei sussurrando ao notar que o locutor e todos os outros, ao olharem para a porta fora da cabine, não notando nada demais deram continuidade a conversa ao vivo de encerramento.

— A mulher... Eu achei que já tinha a avistado em algum lugar. – ele murmurou baixinho no meu ouvido.

— A entregadora? Não... Aquela era uma funcionária daqui. Eu acabei de conhecê-la.

Yoongi franziu o cenho e me perguntou em dúvida:

— Qual o nome dela?

.

— Certo... – ele suspirou descontente e eu sorri discreto zombando em seu ouvido:

— Você está mesmo tão obcecado por uma mulher assim?

— Não enche Hobi.

:: 8 ::



As coisas estavam muito loucas naquelas últimas semanas. E tudo começou quando o ar condicionado da biblioteca quebrou. Ou talvez, um pouco antes, quando eu decidi que viria embora para a Coreia do Sul por causa de um mestrado em Tecnologias. Eu passava pelo corredor da UFMG quando vi no mural: “Programa de Intercâmbio Para Alunos de Ciências da Computação”. Fiquei parada em frente ao mural observando aquela mensagem, enquanto chupava a um pirulito e pensava na possibilidade. Maria, minha amiga de laboratório de pesquisa também estava ao corredor, mas eu não percebi até ela falar comigo.

— Japão, China, ou Coréia do Sul. São os países destinados ao Programa. Requisitos: inglês fluente, laboratório de pesquisa com indicação de pelo menos um professor doutorado. Os outros três indicadores podem ter só o mestrado, mas eu soube que quem indica é primordial para a escolha do aluno. Vai tentar ?

— Eles pagam?

— Não. Sem bolsa. Esta é a merda... – Maria falou murmurando e suspirando pesarosa.

— Você queria ir, não é?

— Seria fantástico! Mas, eu não tenho um inglês tão bom assim para sobreviver em algum lugar que não dê nem para embromar... – ela riu.

— Besteira! – eu disse — Na hora do aperto a gente dá um jeito.

— E aí, vai tentar? – Maria perguntou observando-me concentrada em chupar meu pirulito de tutti-frutti e encarar o mural.

— Esse lance da grana... Sei lá.

— Besteira! Na hora de ir a gente dá um jeito. – Maria devolveu a frase sorrindo travessa.

Eu olhei a expressão dela de quem quase me dizia: “Você já sabe se comunicar minimamente pelo menos”.

— É, tem razão.

E assim eu arranquei o aviso do mural, com Maria me dizendo que eu deveria tirar uma foto e não arrancá-lo daquela forma, em seguida nós fomos para o laboratório e no fim do meu horário, eu fui à sala da direção saber mais sobre o programa. Depois de entrar em contato com os professores doutores para a emissão da minha carta de indicação, e de fazer toda a burocracia necessária, eu fui aprovada para o programa. Faltava um período para eu formar na graduação e depois de concluído eu iria para o intercâmbio. Tivemos uma festa de despedida depois de algum tempo, onde estavam minhas amigas do curso de pole dance, minhas antigas companheiras do grupo de dança da escola, vizinhos, parentes, meus pais, lógico, e a galera da faculdade em peso. Foi uma daquelas churrascadas bem brasileiras das quais eu sabia que sentiria uma falta absurda!

Cheguei à Coreia como aluna da University of Seoul, entre as melhores da Ásia. Realizei o fim da minha graduação no Brasil, abandonei as minhas poucas, mas potentes, experiências de estágio e trabalho na área de tecnologias e ingressei no mestrado. Passei dois anos e meio no mestrado. Concluí com muita luta, aliás! Não foi nada fácil! Como eu não tinha bolsa para sobreviver, nos primeiros meses o meu dinheiro suado e guardado desde o Brasil foi toda a minha subsistência. Aí eu conheci o senhor Hiraishi, um japonês que se casou com uma coreana e veio morar no país após abrirem sua loja de frango frito: a Kyoja Chicken.

Quando concorri à vaga de garçonete na pequena loja ela estava aberta há um pouco mais de um ano, e o salário era bem baixo, com isso expliquei a minha situação ao senhor Hiraishi e ele compreendeu que eu precisaria de outros trabalhos de meio período. E sentiu pena de mim, esta é a verdade! Porque me dar o emprego sendo ele um comerciante ainda no início era o mesmo que ter e não ter um funcionário. A senhora Kan-Wo, esposa dele, foi quem me apresentou um tempo depois, à Mo-Yeon, sua sobrinha, que estava fazendo um curso de cabelereira. Nós ficamos amigas, eu fiz o curso também, e um tempo depois Mo-Yeon abriu um pequeno salão onde eu trabalhei para ela. Foram meus dois empregos de meio período iniciais enquanto fazia o mestrado.

No fim do mestrado, eu conheci o Josh. Faltavam seis meses para o programa acabar, eu ainda era uma miserável neste país, porque por mais que trabalhasse em dois turnos, eu não tinha mais do que o dinheiro para pagar as contas. Comia no Kyoja, geralmente, e até lavava o cabelo no salão da Mo-Yeon para economizar nos gastos do meu pequeno quartinho. Se há uma coisa na Coreia que é sub-humano, são as moradias. Um quarto de 30m² e eu que me desse por satisfeita!

No Brasil, meus pais achavam que eu estava vivendo bem, por que este é o tipo de coisa que a gente não conta, não é? Mas, não posso reclamar, apesar de tudo, eu tive um bom momento aqui se comparada às outras colegas estrangeiras, algumas até abandonaram o mestrado no meio por que não conseguiam se manter no país. Então, faltando seis meses para o final do mestrado eu já buscava alguma produtora de audiovisual para apresentar meu programa protótipo, elaborado no mestrado. Um programa capaz de criar vozes cada vem mais próximas das vozes humanas, para a indústria de áudio e radiofônica da Coreia. Aquilo seria um grande produto para as imensas fábricas de idols. E bem, o Josh era um dos produtores interessados, e quando eu conheci ele e a história dele eu confesso: favoritei a Radio Ryse como colaboradora principal. Mas, ledo engano! Descobri que o projeto que passei dois anos e meio desenvolvendo, era totalmente direito do laboratório da universidade, sendo a minha parcela de desenvolvedora dispensável para opinar nas negociações. A Ryse não tinha “cacife” o suficiente para concorrência e perdeu o direito do programa. O meu mestrado acabou e o meu projeto foi vendido para uma grande corporação. E depois disso? Bem vindo ao mundo dos desempregados com diploma!

Desisti de atuar no ramo das tecnologias por um tempo, e arrumei mais trabalhos: Mike, um amigo estrangeiro que trabalhava num renomado restaurante de Itaewon, a Cleo Prive, conseguiu me colocar para trabalhar lá. E bem, sempre fui sagaz e já sabia lidar com o atendimento ao público e alimentação, por conta do Kyoja. Nesta altura o Kyoja estava um pouco maior e frango frito não era mais a nossa carta principal, agora o senhor Hiraishi também servia comida japonesa. E bem, o fato do restaurante de frango frito servir menu japonês foi um bom marketing involuntário. Até aqui, eu tinha então, o Kyoja, o Mo-Yeon’s Beauty, e o restaurante Cleo Prive como locais de trabalho. E ainda precisava de uma renda a mais, se eu quisesse sair do meu quartinho de 30m². Foi então que a senhora Kan-Wo dissera que um tal “Josh” me procurou no restaurante e aí eu tive um estalo: a rádio! Eu já gostava de trabalhar com sonoplastia e tecnologias de audiovisual, então, por que não tentar?

Josh não negou em momento nenhum me empregar. Eu receberia um salário padrão para a função de assistente de programação, em troca, se eu pudesse desenvolver um programa próprio para a Ryse, os direitos seriam cinquenta a cinquenta. Topei. Ainda não terminei o programa, mas faltam alguns ajustes, ele está em uso na nossa rádio já, entretanto para se tornar um produto comercial da Ryse, precisaremos destes ajustes. Certamente, é a minha chance de ouro para algo grande!

Bem, então eu tinha estes quatro empregos até o final dos meus dois anos após finalizar o mestrado. Só aí, eu já estava aqui na Coreia há uns cinco anos. Até que a Mo-Yeon conseguiu expandir o salão, mas apesar do trabalho dobrado, eu precisava dividir meu tempo no salão. Ela achou que era loucura eu largar o trabalho que eu fazia tão bem no salão, para arrumar um emprego noturno. Mas, eu estava trabalhando exaustivamente ao longo do dia, então descobri que “picar” meus horários e melhor dividi-los me traria um retorno a mais.

Eu era chamada de “meio período” por alguns colegas, justamente porque estava sempre em empregos pequenos, e para os coreanos aquilo era uma situação que deveria ser temporária. Mas não para mim, eu queria sair para um apartamento melhor, e mesmo com Josh me propondo dividir o apartamento dele, já que aos finais de semana, ele não ficava em Seoul porque visitava a família, eu não quis aceitar totalmente. O apartamento de Josh era contramão para todos os meus trabalhos, até eu conhecer Lumiya. Mike havia me convidado para uma boate nova, a Paradiso. E lá eu vi as apresentações de pole dance, e eu não fazia aquilo há tanto tempo, que bebi demais e pedi para subir no palco. Vergonha alheia total, mas não para mim e Mike que inconsequentes e bêbados só queríamos nos divertir. Lumiya me contratou um tempo depois, assim que viu o quanto eu era boa naquilo. Então o apartamento de Josh veio a calhar para me ajudar com o trabalho de final de semana na Paradiso. Assim, só faltava um emprego para eu conseguir dividir meus horários como desejava!

A Seoul Metropolitan Library foi a última assinatura da minha carteira de trabalho coreana! Seis lugares diferentes, uma vida com uma rotina extremamente maluca, mas a promessa era de que, assim que o trabalho com o programa para a Ryse estivesse pronto, eu iria me dedicar somente à rádio. E bem, estávamos quase lá! Tanto que Josh insistiu para que eu iniciasse num curso de produção fonográfica, e agora eu exercia outra função na rádio. Era um salário melhor, e a probabilidade de ter mais encaixe para a rádio e a produtora futuramente era muito maior! Bem, no meio dessa loucura toda, meses depois de trabalhar para a Paradiso e a Biblioteca de Seoul, quando eu tinha fechado totalmente minha agenda, eu consegui finalmente me mudar de apartamento, e agora dividia um apartamento um pouco maior, mas modesto, com a Nini, uma das minhas amigas. É talvez a loucura das últimas semanas não tenham sido nada perto do que foi a minha vida na Coreia nos últimos cinco anos.

Voltando há algumas semanas, eu estava tralhando normalmente na biblioteca quando de repente o sistema de refrigeração deu uma pane, e o lugar começou a ficar muito quente. Na ocasião, os leitores todos foram saindo aos poucos conforme a ambientação se tornava incômoda, e na hora que o técnico de reparação chegou, eu dei graças! Eu poderia largar mais cedo, se ele acabasse o serviço cedo. Mas, então, surgiu o maníaco da biblioteca! Um rapaz extremamente estranho e certamente mais jovem, e até... Imaturo. O cara realmente achou que eu não notei que ele estava ali por minha causa!

Depois de conseguir dispensá-lo, e certa de que ele iria voltar para devolver o livro e eu teria que estar preparada para as suas estranhezas, eu consegui ir embora, mas não tive o meu tempo a mais de folga antes de partir para a Cleo Prive. Cheguei a casa às 22 horas, depois de uma longa noite de trabalho servindo os clientes VIPS do restaurante. Nini estava acordada quando eu cheguei.

— Você chegou.

— Ai Nini! Estou exausta! Acredita que o ar condicionado da biblioteca quebrou na hora do almoço e eu tive que ficar duas horas esperando o técnico resolver? E de quebra apareceu um maluco lá querendo ler naquele calor absurdo! Um tanto estranho ele, também!

Nini sorriu e se levantou fechando seus cadernos todos e livros. Havia começado um mestrado há pouco.

— Eu também estou exausta. Meu dia foi cheio e o Song me irritou tanto hoje! – ela exclamou reclamando do namorado.

— Como anda a pesquisa? – perguntei apontando para os cadernos e ela deu de ombros: — É eu sei como é... Sabe que não precisa levar tudo tão a ferro agora, você adiantou boa parte do seu trabalho, tire uns dias. Eu sei bem por que o Song está irritadiço, é falta de...

! – Nini interviu com a mão na minha boca antes que eu terminasse.

Rimos e em seguida nos despedimos, ela foi dormir e me disse que havia preparado um lanche para eu comer, e eu fui tomar um banho. Depois comi e capotei na cama.

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Nini, Mo-Yeon, Shun, Mike e eu estávamos em uma mesa do Kyoja comendo e bebendo após o expediente.

Hey, ! E aquele maluco da biblioteca, não apareceu de novo? – Nini perguntou depois de enviar a terceira mensagem para Song.

— Maluco da biblioteca? – perguntou Mo-Yeon um tanto quanto curiosa.

— Não, ele não... Mas nossa, tem um maluco me perseguindo sabia?! Perguntem ao senhor Hiraishi! Outro dia eu joguei bebida na cara dele! – eles me encaravam assustados e curiosos — Certo, eu vou contar uma coisa engraçada para vocês!

Todos estavam atentos mastigando e com seus olhares esbugalhados em minha direção e até a senhora Kan-Wo parou de varrer o chão para ouvir minha história:

— Eu conheci uns homens interessantes nestes últimos três meses! E outros bem esquisitos!

Uwa! – Mo-Yeon reclamou fazendo careta e mastigando de boca aberta, como o hábito coreano, mas agora com violência por estar irritada: — Você veem isso!? Os homens da Coreia não querem mais nada com nós! Eles preferem as estrangeiras!

— Mo-Yeon ela nem contou a história! – Shun falou e Mike sorriu batendo o ombro no meu.

Mike assim como eu, sabia bem que não, nós estrangeiros não éramos a primeira opção para nada sério.

— Mo-Yeon, eu não falei que estou dando e vendendo pretendentes!

— Mas eu tenho certeza que entre eles, algum você beijou! – ela disse e todos soltaram risinhos curiosos e eu não pude evitar me lembrar do rapaz da Paradiso.

— Bem, me deixem contar! – falei sacudindo a cabeça, para afastar as memórias e logo todos estavam rindo e fazendo piadas de novo, inclusive Mo-Yeon que de irritada ficou extremamente curiosa: — O importante são os caras de Namsan e o da Paradiso. Eu confesso, há muito tempo um coreano não me deixa mexida como estes dois!

— UOOOOW! – eles disseram em coro, e então o sino da porta fez barulho revelando o Song.

— Finalmente! – Nini reclamou — Eu achei que não viria mais!

— Desculpe Nini! – Song disse se aproximando da namorada com voz infantil como eles sempre faziam, e se abaixando em reverência para todos nós.

! – a senhora Kan-Wo disse impaciente: — Eu ainda tenho muito chão para varrer! Por favor, deixem-na contar!

— Oh senhora Kan, deixe que eu limpo o chão, tudo bem? – eu falei sorrindo e ela sorriu de volta agradecida.

— Tudo bem, mas vocês todos vão ajudar a menina ! Ela trabalha muito também e depois, vocês estão bebendo de graça!

Todos assentiram e a ajhumma deixou a vassoura num canto, sentando-se preguiçosamente em uma das mesas e massageando suas pernas.

— Bem, então tiveram esses dois, mas nesta semana eu conheci um rapaz bastante simpático na rádio também! Mas, eu não acho que vou vê-lo de novo! E os esquisitos foram: o da biblioteca, que não vou negar, é bonitinho. O de Itaewon, que tem medo de mulher! – lembrei-me do tal Jeon e ri — Mas é um tanto quanto fofo! Eu adoraria ajudar ele a perder o medo!

Eu disse e meus amigos, que já estavam acostumados aos meus modos um pouco libertinos riram, Song como sempre se escandalizou um pouco e a ajhumma ria ouvindo a tudo.

— Mas o pior, sem dúvidas... É o cara do aplicativo! – falei revirando os olhos.

Aigoo! Estamos quase dando o número dele à polícia! – a senhora Kan-Wo disse para todos com sua expressão descontente e preocupada explicando: — Ele andava pedindo comida incessantemente e exigindo que entregasse!

— Eu disse! Estou sendo perseguida!

Falei virando o soju e todos começaram a horrorizar e dizer que eu deveria mesmo ir à polícia, e então eu respondi:

— Não... Ele não perturba desde o dia em que joguei chá gelado nele! O Kyoja estava lotado, eu tinha acabado de chegar de uma entrega e o rapaz estava perto d obalcão, como sempre mascarado, e comprando balde de frango frito. Quando me viu, ele me seguiu e quase entra na cozinha comigo! Então eu decidi ver o que ele queria, mas ele falava, falava e eu não entendia nada! As pessoas estavam tumultuando o atendimento, e eu disse a ele que outra pessoa o atenderia e fiz menção de sair, então ele tocou na minha mão e começou a me puxar para fora! Eu achei aquele comportamento tão estranho que iria dar um golpe de caratê nele! Mas, a loja estava cheia demais, então eu peguei o primeiro copo que vi à frente, e quando vi que era gelado e não quente, eu joguei no rosto dele. Ele se assustou e quando um grupo de meninas parou ao nosso lado e começou a encará-lo de perto, ele saiu correndo. Não voltou mais, nem enviou nenhum pedido.

Aish... – Song mencionou preocupado: — Você precisa ter cuidado, Lin! Alguns caras podem achar que por ser estrangeira você é fácil!

— Homens não precisam de justificativas para ser idiotas, Song. O que aconteceu comigo pode acontecer com Mo-Yeon e Nini também, não tem a ver com nacionalidade.

— Em todo caso, eu e Hiraishi estamos atentos. Se ele voltar, iremos chamar a polícia!

— Tá bom! – Mike falou e voltou a discussão à pauta mais interessante: — Fale dos dois que mexeram com você!

E de repente o assunto estava novamente descontraído e cheio de olhares travessos para o meu lado.

— Um eu conheci em Namsan, quando saí para uma caminhada noturna. Ele não estava bem, sabe? Mas, sentamos no parque e conversamos por horas! Foi tão gostoso! Foi como... Uma ligação do destino... Sei lá...

Hm... E ele era bonito?

— Estonteante! Um rosto maravilhoso! – exclamei me lembrando de Seok me mostrando seu rosto no fim da noite: — Eu poderia passar horas só admirando o rosto dele.

Uwa! – Mo-Yeon riu animada: — Eu quero um desses! É em Namsan então que este tipo está?

Todos nós rimos e Mike voltou a perguntar:

— E o outro?

— Ah! Ele eu conheci na Paradiso. Lumiya disse que era amigo do namorado dela e que, ele ficou alucinado com minha apresentação. Então aceitei conversar com ele.

A senhora Kan-Wo sabia o que eu fazia na Paradiso, mas o senhor Hiraishi não, e então ela se aproximou falando baixinho para mim:

... Você ficou pelada de novo?

Song cuspiu a bebida longe, e foi daquela forma que ele descobriu o que eu fazia. Todos nós estávamos tão entretidos na história que, o encaramos com estranheza. Até Nini arregalar os olhos se dando conta e então pigarreou ao dizer para o namorado:

— A Lin faz nu artístico.

— Song, talvez demore, para você processar isso, mas no dia em que assistir a apresentação dela, verá que não é nada do que parece! – Mike exclamou.

— E você já assistiu? – Shun que estava bastante calado indagou, se chocando ao ouvir a reposta afirmativa de Mike.

— Bem, respondendo a senhora... – me virei para a ajhumma Kan-Wo dizendo: — Não fiquei não, foi uma apresentação de canto mais discreta. Poética.

— Ah... Entendo... Bom, eu não estou exatamente certa sobre isso ainda. – a senhora respondeu sorrindo preocupada e batendo em meus ombros, coloquei a mão sobre a sua e a beijei dizendo para ela se sentir segura porque eu não fazia nada errado e ela disse o que sempre diz sobre este assunto antes de sair: — Se você diz, minha filha, eu confio. Arrumem tudo e apaguem a luz ao sair!

Hey! Mas e aí! Entre estes todos! Quem você beijou!? – Mo-Yeon gritou impaciente e alterada pelo álcool, visivelmente.

— O cara da Paradiso.

Então antes que alguém me perguntasse o nome deles, ou mais coisas, Shun que estava extremamente quieto para alguém agitado como ele, gritou:

AYA! LEMBREI!

Aigoo! – Mo-Yeon batia nele pelo susto e então ele falou diretamente para ela:

— Mo-Yeon! O cliente da Linda!

Minha amiga ficou um pouco confusa, e então encarou Shun alternando olhares entre ele e eu, até que ele mesmo confessou, de modo impaciente:

— Um cliente misterioso! Ligou para nós uma vez perguntando se havia alguma “Linda” trabalhando conosco, mas como eu não me lembrava, nem um pouco do seu apelido usado pela Mo-Yeon, eu disse que não. Nesta semana ele ligou novamente! E dessa vez a Mo-Yeon atendeu confirmando!

— Ahhh! Sim! Sim! – a cabelereira alarmou-se ao recordar e começou a explicar: — Ele foi exigente ao pedir para marcar um horário com você! E bem, não queria que fosse ao salão! Ou então, que o salão estivesse vazio, porque ele tem... Como é o nome? – ela perguntou ao Shun.

— Síndrome do pânico! – ele revirou os olhos — Segundo ele, foi atendido por você e gostou muito do seu trabalho, mas não pode ficar entre muitas pessoas. Como nós achamos aquilo estranho, e dissemos que você não trabalhava com a gente há meses, ele também estranhou a informação. Pensou até que havia ligado para o lugar errado, mas em todo caso pediu um horário.

Eu ponderei a informação por um tempo, extremamente confusa com aquilo.

— E o que vocês disseram?

— É claro que eu marquei! – Mo-Yeon falou obviamente: — Um cliente importante? Pagará bem, e eu não posso perder clientes importantes! E se ele por acaso é alguém que foi atendido por você quando você ainda trabalhava com a gente, e só nos reencontrou agora? Cliente antigo é cliente fiel!

— Mo-Yeon! Essa história está estranha! – eu disse e Mike concordou, então Shun me tranquilizou:

— Eu vou com você se quiser, ! Eu também achei meio esquisito. Não me lembro de nenhum cliente que tivesse este tipo de problema.

— E se for o cara do aplicativo? – Song falou e de repente eu senti que faria sentido: — Se ele é um perseguidor, ele pode muito bem ter observado a todos ao seu redor e estar tentando te alcançar em outros lugares, já que aqui no Kyoja é perigoso para ele agora!

A atmosfera ficou tensa de novo e Nini deu um tapa no namorado falando para ele parar de nos assustar, mas de certo modo, Song não estava errado. Troquei olhares com Shun que pensou o mesmo que eu, e concordei:

— Ótimo, Shun, você vai comigo atender a este cliente sim! Vocês marcaram no salão?

— Sim, quinta-feira após o seu expediente.

— Amanhã de manhã então, descobrirei se o cara do aplicativo realmente tem algo a ver com isso, e se tiver... Eu vou mandá-lo para a delegacia!

Todos assentiram e decidiram arrumar o Kyoja como prometemos a ajhumma. Song e Nini iriam embora juntos para casa dele, e eu fui para casa acompanhada por Mike e Shun, já que Mo-Yeon decidiu dormir na casa dos tios.

:: 9 ::

Taehyung

**Atenção, este capítulo pode conter gatilhos em relação a abuso sexual, uma vez que a personagem relata uma situação de desconfiança, medo e suspeita. Porém, não há ato de violência em si.



Eu passei um bom tempo procurando por Linda em cada salão de beleza de Seoul. E eram muitos! Estava prestes a desistir até que Hobi me trouxe uma luz no final do túnel. Ele disse que eu deveria tentar descobrir qual era o salão através da própria BigHit, ou seja, perguntar ao manager. Confesso que eu tinha sim pensado naquilo, mas acreditei que eles não iriam nos informar, mas deu certo! Assim que descobri, eu comecei a busca em meu celular.
Sunbae. Pode me dizer o nome da empresa que cuidou do visual recente dos nossos cabelos?
— Algum problema com seu cabelo? – ele arqueou a sobrancelha e encarou minha cabeça, de modo especulativo — Está com queda? Algum machucado?
— Não, não! – sorri o aliviando — Eu só gostei realmente e gostaria de enviar um cartão de agradecimento. Algum problema nisso?
— Hm... Não. Não acho que seja, nós o prepararemos para você.
— Claro, mas... Como é mesmo o nome?
Mo-Yeon Beauty. É um salão mediano, se comparado aos outros que já terceirizamos. Mas, pelo menos sendo assim, eles terão a ambição de respeitar o contrato e crescer conosco.
Encontrei um salão com o mesmo o nome, e telefonei, mas não tive sorte. Até que uma semana depois, tentei novamente enquanto estávamos na rádio Hyse diante de uma pequena confusão que se iniciava entre Jin, Namjoon e Suga. Felizmente, além de conseguir falar e marcar um horário, havia uma mulher chamada Linda, que trabalhou ali de fato. Então, na quinta-feira de manhã eu teria um encontro com a cabeleireira, e esperava que não desse nada errado.
Quinta-feira
Jungkook estava sentado à bancada do dormitório, comendo e sonolento, quando eu surgi me assustando com sua presença. Percebi que ele comia de olhos fechados, provavelmente sonâmbulo, então passei à sua frente, fazendo o mínimo de barulho para não ser descoberto.
— São seis horas da manhã, onde você vai?
Olhei para ele, e sua expressão era de quem começaria a gritar soando como um alarme se eu mencionasse correr.
— Não seja dedo duro! Eu deixei um bilhete para o Nam!
— Você não disse onde vai. Não podemos sair sem a permissão hoje.
— Por que você está acordado? – era estranho que JK estivesse acordado àquela hora, mas como ele era o mais aleatório entre nós, também era bem possível.
— Eu tive um sonho de calças molhadas e acordei.
Não consegui evitar o riso, então abafei a boca com as mãos para não acordar mais ninguém antes da minha fuga. Jungkook era totalmente aleatório! Concentrado em seu cereal como uma criança tipicamente americana, JK falava algo do tipo, como alguém que dizia ter batido o dedo num prego.
— Um sonho de calças molhadas? Com a IU de novo?
— Não. Com a atendente do Cleo Prive.
Eu não tinha ideia do que Jungkook estava dizendo, então me limitei a escapar dali sem muitas explicações tanto dele, quanto minhas. E me virei para sair, mas meu amigo insistia em saber onde eu estava indo.
— Eu encontrei a minha garota. Não abra esta boca enorme pelo menos até eu voltar!
Saí sem que desse tempo para que JK fizesse mais perguntas. A ficha dele ainda não havia caído e por isso ao percebê-lo com cara de quem fazia um cálculo complexo, escapei sem demora. Como eu estava saindo escondido, não poderia pegar nenhum dos carros do grupo, então cobri mais o meu rosto, baixando o boné, além da máscara que já usava, e passei pela entrada do condomínio sem ser notado. Depois de algumas quadras, tomei um carro por aplicativo e me direcionei ao salão.

:: ::


Shun estava atrasado. Havíamos combinado de ir juntos ao salão, já que eu atenderia sozinha a um suposto cliente com síndrome do pânico, mas Shun não apareceu na minha casa no horário. Então me despedi de Nini e segui para o Mo-Yeon Beauty. Logo que cheguei, comecei a organizar o salão, e não desisti de ligar para Shun. E ele continuava sem me atender. Pensando numa alternativa, peguei meu celular e o posicionei na bancada de modo que pudesse gravar o que acontecesse ali. Eu ainda tinha em mente a possibilidade daquele homem ser o maníaco do frango frito. Minutos depois de ter preparado aquela situação, eu vi um homem se aproximando da fachada de vidro do salão e tocando o interfone. O vidro fumê o impedia de ver tudo por dentro, mas eu conseguia vê-lo inquieto, observando a rua como se pudesse ser exposto a algum perigo. Enquanto quem estava exposta era eu! Não havia sequer uma viva alma naquela rua. Respirei fundo me concentrando nas armadilhas preparadas: a vassoura posicionada de forma providencial, o celular também. Mentalizei que nada passaria de um atendimento apenas, e dei o play na gravação.
— Ah, achei que havia chegado cedo demais. – o homem falou do outro lado da porta que eu acabara de abrir, suspirando aliviado, e mal me dando tempo de dizer quaisquer coisas. Talvez, ele estivesse mesmo em pânico, até mais do que eu.
— Não, não senhor. Eu que estava ajeitando o salão. Por favor, entre.
Enquanto ele entrava observei atentamente o seu corpo em busca das semelhanças com o cara que eu havia jogado chá gelado, dias antes. E embora a altura fosse parecida, a largura de suas costas e a estrutura de seu corpo era diferente. Não consegui ver seu rosto, pois o mesmo estava coberto por máscara, óculos e uma touca. Claramente, ele estava se escondendo. Permaneci em pé próxima a porta do salão, enquanto notava ele olhando ao redor e pigarreando antes de se virar para mim.
— Me desculpe, qual o seu nome?
— Kim. A senhoria pode me chamar de Kim.
— Certo... Ajhussi, eu não me recordo de atendê-lo, mas também... Não posso ver seu rosto. Sabe... Não precisa se preocupar, Shun está chegando, o outro funcionário, mas não vai ter mais pessoas aqui no horário marcado para o senhor.
Ele pareceu retesar. Talvez não esperasse uma presença masculina comigo, ali? Era possível, e eu estava ainda mais preocupada. A fim de arrancar a cabeça de Shun por aquilo!
— Primeiramente... – ele falou um pouco baixo, como se estivesse sentindo-se constrangido por algo — Eu não sou um ajhussi. Pode me chamar de Kim. ¬
Assenti vendo-o colocar as mãos no bolso de modo suspeito. Eu realmente estava encarando-o como um assediador depois de perceber o modo como ele mantinha as mãos inquietas ao bolso, e aquilo estava me incomodando. Antes que eu engolisse toda a saliva espessa, pelo medo que comecei a sentir, ele continuou:
— E, também não precisa se sentir acuada. Eu sei que foi estranho pedir que fosse atendido por você assim... A sós.
Suspirei pesadamente, deixando ainda mais claro o quanto eu estava a ponto de sair correndo.
— Kim, eu preciso que me diga que procedimento realmente quer fazer, ou melhor... O que você pretende comigo? Convenhamos, eu estou bastante desconfiada.
Nunca imaginei que numa situação como esta fosse melhor "dar linha na pipa". Se fosse no Brasil, certamente este cara já teria me atacado, sem muita enrolação. Porque a violência é escancarada, enquanto na Coreia, homens abusadores tentam agir de forma mais sutil. Enrolando a vítima, tentando ludibriá-la a e deixá-la confortável, para então partirem para a verdadeira face da violência. Então, eu sabia que ele agiria como um cliente, me faria tocá-lo, cuidar de seu cabelo ou do que fosse a necessidade estética ali, enquanto ele estaria me estudando e buscando o melhor momento para me tocar. Faria de forma sutil, e com isso, eu não agiria num rompante, até que ele conseguisse me encurralar e me fazer refém de si. Eu já havia presenciado a forma como eles agem, eu sabia do que estava falando. Então, pensar em "dar corda" ao agressor não era minha estratégia nunca. No primeiro sinal de desconfiança, eu já era direta. Afinal, era mais fácil se desculpar por um mal entendido mesmo abaixo dos xingamentos coreanos e de toda a efusividade como reagiam a uma ofensa, do que se lamentar por não ter fugido.
— Eu sei. – ele me respondeu num tom um pouco mais humorado — Aquele celular escondido está nos gravando, o que é prudente da sua parte. Mas, eu lamento que estou acostumado a esse tipo de coisa e...
A medida que ele falava eu ficava ainda mais assustada. Então o interrompi dando as costas em direção à porta.
— Que droga! Você é mesmo um maníaco!
— Não! – ele gritou entrando na minha frente, a passos apressados e eu caminhei para trás, assustada vendo-o retirar toda aquela parafernália do rosto que lhe cobria a identidade: — Pelo amor de Deus, eu fiz tudo errado! Não, não é nada disso! Eu só trabalho com filmagens! Foi isso o que eu quis dizer... Olha!
Quando o rosto dele estava exatamente exposto. Eu apertei os olhos um pouco confusa. Não era um rosto desconhecido, e ele desesperado foi logo falando:
— Eu faço parte do grupo que o salão atendeu há algumas semanas! Você pintou o meu cabelo, e depois sumiu! Eu não consegui te agradecer e nem conversar direito com você, mas... Eu queria muito te ver de novo!
E como num estalo me lembrei. O dia em que quebrei o galho para Mo-Yeon e atendi o cliente dela, num salão reservado por uma empresa do ramo idol, que segundo ela "era coisa grande". Era ele mesmo. O rapaz da linda voz.
— Queria me ver e fingiu ser outra pessoa para isso?
— Eu não poderia simplesmente dizer que, justamente eu, – enfatizou — queria ver você, não acha? Isso pode ser segredo entre nós?
Kim me perguntava como se eu soubesse quem ele era.
— Olha, me desculpa, mas eu não faço ideia de quem você seja! – A expressão dele se alarmou. E eu fiquei pensando que raios estava acontecendo para ultimamente um tanto de macho vir com aquela expressão atônita com o fato de eu não saber quem eles são! — E a situação continua ainda mais estranha para mim!
— Eu sou um idol. – ele falou óbvio, e então suspirou entendendo que eu realmente caguei para a informação — Eu faço parte de um dos maiores grupos de KPOP da Coreia e não dá para sair por aí, de salão em salão atrás de uma tal de "Linda", com a cara exposta. Eu inventei esta situação de ser um cliente com síndrome do pânico para te reencontrar, e estou realmente arriscando muito aqui.
— É? – falei ofendida com a desconfiança dele: — Então imagine eu! Atendendo um maluco perseguidor, sozinha!?
— Não sou maluco. – sua expressão mesclava em constrangimento e culpa — E nem perseguidor.
— Como me encontrou?
Ok, é esquisito, mas... Pedi o nome da empresa que nos atendeu e depois de ligar para quase todos os salões da Coreia, encontrei o seu e... Bem... Eu sei que é estranho, mas eu não sou um perseguidor! Você não tem ideia de como tem gente que adoraria ser perseguida por mim!
Uwa! – exclamei ainda mais ultrajada: — Você me desculpe realeza, mas é um comportamento realmente estranho e stalker, para alguém que se diz o idol de sei lá o quê de grupo da Coreia!
— Como você pode não me reconhecer?! – o tom de voz dele ofendido era ainda mais irônico! O cara me culpava por não saber quem ele era? — Não, eu não estou sendo narcisista, antes que você diga isso com esta sua expressão de quem não confia em mim!
— E não confio!
— Eu só quero entender como ainda pode existir alguém em Seul que não faça ideia de quem eu seja.
— Olha só celebridade, eu trabalho com música, então eu mantenho distância de KPOP, K-Idol e principalmente, mantenho distância de fãs! Eu não quero me envolver com elas, as coreanas são mais surtadas do que as brasileiras, então, não é nenhuma surpresa eu não saber quem você é. Posso ter escutado sua música, trabalhado com a sua música e etc., mas não, eu não sei quem você é! E sinceramente, agora não quero saber!
— Música? Você não é cabeleireira?
— Olha querido, eu sou muita coisa nessa vida! Mas com certeza, eu não sou maluca e não fico perseguindo ninguém!
— Por favor... – ele falou cansado já deixando as coisas dele na bancada e se sentando na cadeira de cliente — Eu já falei que não é isso! A gente teve uma troca legal naquele dia não é? Eu gostei de você cuidando do meu cabelo e só pensei que seria muito prazeroso ver você de novo, fazer uma hidratação e tentar de quebra conseguir um encontro! Já que eu não posso sair por aí me encontrando com as pessoas como gente normal faz!
Me aproximei dele um pouco menos assustada, embora ainda desconfiasse. A discussão com ele, apesar de inusitada foi um pouco excitante para o meu ego, que apesar de achar loucura, estava feliz em ouvir que ele se interessou em me conhecer ao ponto de cometer uma sandice daquelas.
— Sabe que o que você fez foi loucura, não é?
— Sei! E por isso, você pode deixar o celular gravando. E eu vou deixar o meu aqui do lado do seu, assim como a minha carteira com documentos. Dessa forma se eu tentar qualquer coisa, você pode provar que eu não sou quem eu digo que sou. Se o mundo vai acreditar em você é outros quinhentos!
Ele falou convencido, cumprindo o que disse fazer e encerrou o assunto me olhando através do espelho de braços cruzados e expressão de quem marcou um match point.
— Você é muito metido, sabia? O que te garante que eu vá ficar aqui contigo, e pior, que eu vá aceitar sair com você?
— Bem, você pode não aceitar o meu convite para nos conhecermos direito, como pessoas normais fariam. – Ele deu de ombros e sorriu ao dizer: — Mas, se não me atender, e dizer o que rolou aqui, sua empresa tem um contrato de confiabilidade com a minha. O que significa que: se eu marquei um horário e não fui atendido, você terá que explicar porque não me atendeu para a sua chefe, e se for provar essa história, estará descumprindo uma cláusula, e... Enfim, só quero por hora a hidratação.
— Estou chocada. Você é bem pior do que eu pensava. – falei sem dar muita importância à ameaça: — Mas lamento que sua ameaça não tenha efeito algum. Eu tenho carta branca o suficiente pra cancelar com um cliente doido e expulsar ele a vassouradas daqui.
Kim suspirou e então, contrariado de cabeça baixa direcionou-se a pegar suas coisas e levantar da cadeira. Mas, ok, ele conseguiu chamar a minha atenção. E tinha algo nos olhos dele que me hipnotizavam o suficiente para todo o meu discurso de "É cilada, Bino, foge", cair por terra. Eu poderia me arrepender? Sim, mas guardei uma tesoura no bolso do jaleco e a usaria se por acaso, aquele único voto de confiança me traísse. Então, não o permiti se levantar, segurei os ombros dele na cadeira e falei o encarando pelo espelho:
— Mas antes de te expulsar varrendo você, eu vou hidratar esse cabelo.
O homem sorriu largo, de uma forma infantil e genuína que me fizera pensar: "ele realmente parece apenas alguém que está feliz de estar onde está e saber que fez o que pôde".
— E aviso logo: eu não tenho nenhum medo de te machucar se for preciso.
— Aí que está, você não precisará me machucar! – ele sorria animado e então se levantou depois que eu o indiquei se direcionar ao lavabo.
Meu celular tocou enquanto ele se ajeitava no lavatório rindo feito criança, e eu soltei um sorriso irônico para a situação, enquanto atendia a chamada.
— ME DIZ QUE ESTÁ VIVA E INTEIRA, POR FAVOR! – Shun gritava preocupado e talvez... Chorando?
— Não graças a você! – falei baixo, mas incisiva — Onde está?
— Eu acabei de acordar! Mas, eu estou indo! Está tudo bem?
— Sim está. O cara é inofensivo, ao que parece.
— Ele ainda está aí? E é um cliente nosso mesmo?
— É. É sim. – respondi sem tirar os olhos de Kim, que lia ao rótulo de um produto enquanto me aguardava: — Eu vou hidratar o cabelo dele, então, não deve demorar. Vem logo, não é como se você morasse do lado do salão!
OK. Qualquer coisa me liga!
Rá-rá! – ironizei — Se você atendesse, não é?
Shun se desculpou de novo e eu fui ao serviço que me aguardava. Foi realmente tranquilo atender o Kim. Ele quase dormiu de novo enquanto eu mexia em seu cabelo, e para se manter acordado, puxou um diálogo.
— Eu não posso desperdiçar a oportunidade e dormir nas suas mãos, então, podemos conversar?
— O que quer saber, celebridade? ¬– falei e ele sorriu. A porra de um sorriso muito sedutor, inclusive.
— Você disse que trabalha com música, mas exatamente o quê, você faz?
— Eu trabalho com produção musical, ainda sou nova no ramo. Mas, não é como se eu fosse uma total ignorante. Eu entendo um pouco sobre masterização de áudios, tratamento de vozes... Enfim, preparação fonográfica.
— Deve ter um bom ouvido! O que explica o fato da minha voz chamar a sua atenção, em poucas palavras trocadas.
— Quando isso aconteceu? – fingi.
— Você sabe! Assim como eu fiquei interessado em você por suas deliciosas mãos e lindo rosto, você também se interessou na minha linda voz: "Poderia ser uma boa combinação".
Eu me arrependi de ter mandado aquela cantada segundos depois, no dia que eu o atendi. E ora, ora, olha ele ali jogando meu veneno contra mim.
— Você não entende ironias.
— Não foi ironia. – ele sorriu ainda mais abertamente abrindo os olhos e me encarando.
Por algum motivo estranho observar aquela expressão zombeteira dele, com a cabeça cheia de creme e virada ao contrário abaixo de mim, me aqueceu o coração. Ele me aqueceu, na primeira vez, e agora. E era um calor motivado por um sentimento de mistério. O tal Kim era o tipo de homem com letreiro luminoso que dizia para mim "mantenha distância", e eu era idiota o suficiente para todas as vezes puxar a tomada dos letreiros.
— Não é porque eu estava em um dia despojado, que você deveria me perseguir pela cidade!
— Eu já disse que não foi isso. Mas, eu realmente quero te chamar pra sair. Pode ser do seu jeito! Onde, como e quando você quiser! Juro, eu sou confiável! Mesmo que a primeira impressão tenha sido... Terrível.
— De que grupo você é?
— Seria bacana se mantivéssemos algumas informações em segredo, não acha? – ele falou receoso — Você não se expõe e eu não me exponho.
— Me pede para confiar em você e não pode confiar em mim? ¬– ironizei.
— Acredite. Eu estou confiando demais em você aqui.
Ok. Então vamos manter segredos.
Ele sorriu se levantando a medida que eu enrolei a toalha em seu ombro, levando-o com a cabeça cheia de creme para aquecer na touca, e disse:
— Mas podemos não manter segredo dos números dos nossos telefones, que tal?
— Vou pensar no seu caso, celebridade.
— Seu nome é mesmo Linda?
— Escolhe: meu nome ou meu telefone?
— Seu telefone.
— Então me chame de Linda.

Continua...



Nota da autora: Queria declarar que a culpa é do cada uma das lindinhas do grupo Kpop Extreme que atiçaram o que de pior tinha em mim. Espero que vocês se divirtam, muito. Sigam-me no instagram de escritora: @escritoraraydias (Link abaixo).





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