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Última atualização: 15/05/2021

Prólogo

17 anos atrás....

Hoje foi mais um dia complicado no trabalho. Modelos pedindo alterações absurdas nas fotos, editores não sabendo lidar com o tanto de detalhe que as modelos exigiam, tendo que explicar cada mísero detalhe de o porquê não poderíamos remover determinada mancha na pele... Eu só queria saber de chegar em casa, ver meu filho, abraçar a mulher que eu amo e esquecer de todos os problemas do mundo, afinal, era meu aniversário e o bom de ser meu próprio chefe é ter o luxo de fazer seus próprios horários, inclusive sair de uma reunião importante simplesmente porque não conseguia se concentrar com um clima tão pesado na empresa.
Eu moro em uma cobertura no maior prédio à beira mar de Miami Beach. O prédio era sofisticado, mas eu não abusava do luxo, adorava as coisas em ordem e simples. Ao sair do elevador, quando cheguei em casa, estranhei o silêncio. Sempre via Eliza nesse horário ajudando Mia a cuidar de , músicas infantis sendo tocadas na televisão, e, principalmente, Mia alegre e fazendo bagunças na cozinha. Estranhando a quietude do apartamento, procuro-a em todos os cômodos, até que no auge do meu desespero por não ver minha mulher e meu filho, escuto um soluço vindo do closet do nosso quarto, abro a porta feito um leão de guarda pronto para atacar o inimigo. Desejaria não ter feito isso.
— Me perdoa. — sua voz saiu tão baixo que foi quase impossível de escutar.
Mia estava se balançando, sentada no chão entre as duas estantes brancas no fim do cômodo. Analiso o ambiente à procura do que eu estava esperando achar, e bingo, solto um suspiro pesado passando a mão na cabeça pressionando até passar a raiva. Me aproximo dela até me ajoelhar à sua altura, posiciono os dedos em seu queixo para levantar sua cabeça, somente para encontrar aqueles olhos azuis tão lindos agora sem brilhos e vermelhos na lateral.
Mia tinha ingerido maconha novamente.
— Cadê o ? — questiono sobre a única pessoa que eu não achei. — Cadê o nosso filho?
Seus olhos se encheram mais de lágrimas, me dando uma angústia no peito. Podemos perdoar até o que não devíamos dar chance e ajudar de várias formas alguém que amamos, exceto quando isso passa do limite, quando isso mexe com alguém inocente, como um bebê.
Minhas mãos nesse momento resumiam-se em pleno tremor. Apesar de tentar controlar, era basicamente impossível, o nervosismo em que me encontrava agora parecia algo surreal que não me deixava pensar no que fazer.
... Amor! — ressentimento, era o que eu sentia ao ouvir aquela voz que um dia já adorei ouvir, aquelas palavras vindo de sua boca carnuda. — Eles o levaram, eu não consegui imp...
— COMO NÃO CONSEGUIU? — levantei puto do chão, mas ainda a olhando. — Por que deixou levarem ele? — sim, eu estava chorando. Levantei os braços na altura da cabeça, pressionando as mãos para não fazer nenhuma merda.
Seu soluço subiu uma ânsia em meu estômago, me fazendo jogar na parede a primeira coisa que vi na frente, e vi ela se encolhendo ainda mais, sua cabeça estava baixa e sua mão direita passeava pelos seus braços, como se estivesse com frio.
— Eu saí de uma reunião, Mia, louco para chegar em casa e passar o restante do meu aniversário com vocês... Como isso foi acontecer? Você tinha prometido que não iria mais se meter nessas coisas. — fecho meus olhos, abrindo e fechando as mãos, para acalmar.
— Eu... Eu... Você sabe dos meus problemas, sabe que aquilo me faz ficar bem, eu não consigo ficar longe.
— Nem tente me convencer de um absurdo desses. Você estava feliz, plena, era novamente a garota que eu conheci no colégio...
— Eu ainda sou, só que eu obtive uma grande quantidade para vender, não consegui e eles vieram buscar. Tentei a todo custo proteger o , mas eles queriam uma garantia... — seu soluço me deu nojo — de que eu iria pagar essa quantia até amanhã. Ele corria perigo, assim como você e eu! — seu timbre saiu quase sem voz de tão rouco ao gritar. — Eles não são doidos de fazer algo com ele.
Seus cabelos ruivos estavam extremamente bagunçados, arrepiados e sem vida, assim como a quem pertenciam. As drogas fizeram com que minha garota e mãe de meu filho se perdesse na vida, afetando não somente ela e sim a todos ao seu redor.
Ao me aproximar, tentei enxergar ainda uma luz, algum brilho existente em seu azul piscina claramente opaco coberto por orelhas profundas, mas ao encostar na pele que agora mostrava mais ossos que músculos, um arrepiou subiu para meu corpo.
— Me perdoa, , acredite... Eu...
Ela não conseguiu terminar de falar, pois a porta do closet foi arrombada, nos dando um susto. Eu estava tão focado em seu olhar o tempo inteiro que só acordei com um barulho alto de viatura e comigo sendo colocado dentro de uma.
Ser apaixonado é uma merda, você esquece de tudo de sua vida para dar todo o seu melhor à pessoa que você quer ver bem, inclusive a sua liberdade. Mia e eu nos conhecemos quando a salvei de um bando de caras a cercando no muro da nossa escola. Na época, ela tinha quinze anos. Sempre quis saber por que ela se encontrava em tal situação, mas ela só foi me demonstrando ao longo dos anos. Meus amigos me alertaram para me afastar, só que fui cabeça dura e insisti. Lembro-me de quando ela foi mandada embora de casa pelos pais, quando souberam da idiotice que ela estava fazendo, a acolhi de braços abertos em meu apartamento, afinal, eu era seu melhor amigo, mas ainda sentia meu estômago revirar quando chegava em casa tarde depois um dia de estudo e trabalho e Mia estava na dispensa para se esconder com uma seringa e vários rolos de drogas. Isso aconteceu por muitos anos, ainda acontecia quando começamos a namorar, ela prometeu que iria parar e eu caí feito um patinho na lagoa.
Ela sempre me disse que as drogas a faziam bem e que deixavam ser quem ela é: uma garota totalmente sem problemas e zen com a vida. Fiz um acordo com ela e, durante um tempo, pareceu funcionar, agora estávamos com vinte anos e com um bebê.
Foi uma luta para ele nascer, cheguei a pensar que ele não iria sobreviver. Durante a gestação de Mia, parecia que estava tudo bem com ela, pois tinha conseguido um emprego na lanchonete, estava mais sorridente. Meu sonho sempre foi ser pai e ela sabia muito bem disso, até que um dia, pego ela alterada, rindo que nem uma boba, e pior, com um cara dentro da nossa casa. Eu ameacei a sair de casa e ela me impediu. Naquele dia, eu tinha ganhado uma promoção na agência em que trabalhava e tudo o que queria era seu amor, mas fui pego de surpresa quando a vi no balcão, a antiga amiga dela estava ali.
Como ela tinha conseguido acesso? Eu não fazia ideia. Talvez por aquele cara que achava que tinha peito para me enfrentar. Ao chegar próximo a ele para exigir explicações, o reconheci.
Ele era um dos caras que estava pressionando Mia no muro da escola.
Depois desse dia, resolvi permanecer em casa, pelo . Meus amigos começaram a estranhar o fato de eu ter pedido ao meu chefe para trabalhar de casa, sendo que eu nunca faltava o trabalho, mas era isso ou eu teria perdido meu filho, e eu não ia perdoar isso nunca.
Agora minha vida não poderia estar mais que vazia, eu tinha me afastado de todos, inclusive dos meus pais, para fazê-la feliz e olhe onde parei? Sem mulher, sem filho, sem vida profissional e dentro de uma sala de delegado na porra de uma delegacia.
Parabéns, !


Capítulo 1 – Nós dois contra o mundo

POV

Eu não queria voltar, não podia.

— Vai ficar tudo bem, garoto. — Vicent, pai de Ellie, me consolou no corredor do hospital. — Eu vou te ajudar, sabe disso, não?
Apenas aceno a cabeça, incapaz de falar alguma coisa, só olhando o quarto por onde minha namorada, entrou e não vai sair mais. Eu iria atrás do desgraçado que foi capaz de atirar em uma mulher grávida.
— Onde estão seus pais, ? Você precisa deles.
— Melhor não falar sobre esse assunto. — o encaro e meu olhar devia estar péssimo, continha pena em seu olhar.
Sabia que estavam me procurando, mas era minha filha que estava em jogo e, no momento, era minha prioridade, eu não podia ir para o orfanato, eu tinha que fazer alguma coisa.
Dizem que quando temos nossos filhos nossa vida muda, nosso sentimento muda e passamos a não enxergar mais o que queríamos para nós, agora tudo é deles. Posso confirmar isso.
— Senhor ? — encaro a enfermeira que veio do final do corredor, segurando um embrulho no seu colo. — Sua menina é forte, está no peso certo e rendendo saúde, já está liberada para voltar para casa.
Seguro aquele pedacinho de gente enquanto Vicent foi acertar as contas do hospital, tanto da morte de Ellie, como a certidão de nascimento da nossa Yasmin.
— Hey, Yasmin. — seguro sua pequena mãozinha. — Aqui é o seu pai, eu vou cuidar de você, meu amor.
Ela é tão pequena. Tão linda. Seus olhos cor de mel são encantadores como eram os de sua mãe. Sinto uma leve pressão em meu dedo que fazia carinho nela e sorrio, o primeiro sorriso que dou desde quando cheguei aqui no hospital.
Como Yasmin estava de alta, entrei no quarto de Ellie só para ver que o corpo dela não estava mais naquela maca. Me veio uma ânsia no estômago e precisei sair correndo.
, espera.
Ouvi Vicent enquanto passava pela recepção que nem um piloto de corrida. Consegui correr não sei como com minha filha nos braços, esbarrando em tudo e todos na rua. Eu não conseguia ver nada, eu sentia que o meu sogro vinha atrás de mim, por isso, quando vi um beco, me escondi no lugar mais difícil de ele me ver, atrás do lixo.
. — ouvi seu chamado e apenas apertei o olhar, chorando em silêncio.
Seus passos se afastaram para continuar a me procurar, tentei relaxar, tentei respirar... Mas estava difícil. Coloco tudo para fora, me virando para não atingir minha bebê.
— Por que você teve que... — o cheiro do beco me fez vomitar de novo. Encosto minha mão na parede tentando me acalmar, respiro fundo e deixo minhas lágrimas caírem. — Por que você teve que partir, Ellie?
Erámos só eu e ela, nós dois contra o mundo. O problema era que o mundo é ruim e no meio de um tiroteio, a bala que o bandido disparou acertou em minha namorada na saída do colégio. O desgraçado iria me pagar.
— Eu nunca vou te deixar, eu não vou ser como eles, isso é uma promessa, pacotinho. — esfrego meu nariz em sua cabecinha suavemente, lhe dando um beijo em sua testa.
Resolvi sair dali quando achei que era seguro. Nessa altura, você deve se perguntar por que eu não poderia voltar para casa. Simplesmente porque eu não tinha um telefone, então o problema já começa aí. Segundo, eu quebrei uma regra do orfanato e a essa altura Hanna e Conrad já devem ter colocado até a polícia atrás de mim. Na verdade, pensando bem, eu não quebrei só uma, quebrei várias e tudo ao mesmo tempo, então se eu voltasse para lá, eles provavelmente iriam querer separar eu e minha pacotinho, e isso eu não iria deixar, pois eu sei muito bem como é ser deixado para trás e eu não quero que minha filha passe pelo o mesmo que eu passei, apesar das dificuldades que possam surgir à minha frente.
Minha garotinha começou a se acalmar quando eu comecei a andar na beira da praia mais próxima que tinha por ali, sentindo meus pés sendo cobertos pelas leves ondas que chegavam à beirada da areia. Sabia que não era certo uma criança ficar fora de casa por muito tempo, ainda mais em um Sol de lascar que nem está hoje, nessa cidade que é coberta por prédios e pessoas do mundo todo.
Coloquei Yasmin dentro do meu casaco, para a proteger do Sol, pensando em como iria resolver essa merda toda, em como eu iria encontrar o bandido filho da puta, em como... Conseguir grana para sustentar Yasmin. Eu posso vender algumas coisas que tenho, não me importo em ficar sem nada, mas não podia deixar a pequena passar fome.
Meu estômago começou a roncar só de pensar em comida e um cheiro que eu conhecia bem estava próximo. Não... Eu não podia estar próximo de casa. Quando percebi, dei meia volta, mas, para a minha surpresa, Conrad com uma cara nada boa estava bem atrás de mim.
— Quando pretendia dar notícias? — seu tom foi acusatório. — Estou decepcionado, , ficamos te procurando o tempo todo, desde ontem.
Comecei a dar uns passos para trás, à medida que ele ia se aproximando de mim, apertei Yasmin em meu colo e foi aí que ele notou que tinha mais alguém comigo, pois Yasmin começou a chorar e eu senti sua fralda encher. Meu Deus, que dia de merda.
— De quem é esse bebê? — engulo a seco e fiz a única coisa que eu sabia fazer. Corri. — !
Corri e nem olhei para trás. Sabia que ele tentou vir atrás de mim, mas Conrad não tinha tanto pico para corrida. Quando achei conveniente, olhei para trás para saber se ele me seguia, vi que não e sorri, mas acabei trombando em alguém.
— Desculpa! — ouvi uma voz feminina quando trombei com alguém ao passar pela casa de salva-vidas ali perto e esse alguém acabou derrubando uma câmera na areia. — Minha câmera...
Sabe quando tem aquele slow motion na televisão? Onde tudo passa bem devagar na sua frente? Então, eu acabei de presenciar uma coisa do tipo com o tombo dessa menina destrambelhada. O desespero dela para obter a câmera que segurava em suas mãos sem danificação foi incrível, eu só não caí junto no chão, porque tenho reflexos rápidos e tinha um bebê em meu colo.
Não consegui não rir ao ver seu tombo direto com seu rosto espatifado no chão, ela parecia uma gatinha. Sabe aquele ditado que diz que gatos caem de pé e, na verdade, caem de cara no chão? Foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça, porém eu não consegui guardar isso para mim.
— Que tipo de gata cai de cara no chão? — perguntei ainda rindo, sem conseguir prestar atenção nas minhas palavras. — Ai, outch. — levei um tapa no ombro e tentei me esquivar, protegendo minha filha.
— Você vai ver quem é a gata agora. — seu olhar era de desespero por conta do tombo e da piada besta que falei. Levei mais um tapa. — Cretino... — outro tapa.
Continuei me afastando, até que minha filha chorou novamente, me fazendo a olhar derrotado. Acabei tropeçando em meus pés ao desviar da menina, a impedindo de me bater novamente, e caí no chão, sorte que eu segurava minha pequena firmemente. Quando me dei conta, ao checar que ela estava segura, a doida caiu sobre mim por puro desequilíbrio e desatenção.
Mas que porra. De dia.
Quando ela caiu, me cercou com seus braços na lateral de meu corpo, como se tivesse me prendendo. Eu fiz um casulo para tentar proteger a pacotinho desse peso em cima dela, porém foi meu pior erro. Quando levantei a cabeça e encontrei aquelas cores de olhar, eu sabia o que iria acontecer pela frente, tanto que engoli a seco, fechando os olhos e desejando que eles desaparecessem da minha vista, mas não foi o que aconteceu. Quando os abri novamente, eles ainda estão fixos nos meus.
Não sei quanto tempo ficamos em silêncio, mas minha filha nos lembrou de sua presença chorando em um tom mais alto, fazendo a louquinha sair de cima de mim.
— Desculpa por tudo, de verdade, eu sou muito desastrada. — ela me ajudou a levantar, logo após pegando sua câmera do chão. — Sua filha é linda.
Sorri verdadeiramente, esquecendo os tapas que recebi. Ouvir de outra pessoa que, sim, eu tinha uma filha, era surreal. Senti a fralda da pequenininha se enchendo em meus braços novamente e logo um odor desagradável surgiu.
— Essa foi uma bomba, hein, filha? — a moça riu. — Se puxar ao seu pai, aquela casa não tem cheiro bom nunca!
A menina gargalhou, dessa vez, me fazendo rir também. Era bom rir um pouco quando a gente estava na merda, fazia o mundo um pouco mais leve.
— Como é seu nome? — perguntei por educação.
— Pode me chamar de . Vem, eu acho que posso te ajudar com essa pequena, pelo visto, esqueceu a sacola dela em casa. Homens. — balançou a cabeça negativamente e saiu rebolando na minha frente em direção a um fusca. — Você vem ou não?
Sempre fui ensinado que não era para confiar em estranhos, mas ela não tinha jeito de ser perigosa, sequestradora de crianças inocentes ou algo do tipo, e eu, bem, estava mais que cheios de problemas. Eu tinha pedido por um milagre e ele apareceu bem em minha frente, como recusar sua ajuda? Olho para Yasmin, que tinha voltado a dormir. É, filha, nossa vida não vai ser fácil.
— Estou atrás de você.

Capítulo 2 – Família

— Prontinho, fralda trocada.
A garota finalizou a troca da minha menina com tanta facilidade, que eu fiquei chocado.
Nem Hanna fazia isso rápido com os bebês que chegavam ao orfanato, e olha que já chegamos a disputar o tempo que cada um levava para fazer a atividade. Quando eu era pequeno, uma das minhas diversões preferidas ajudar Hanna com as crianças, me lembro até hoje da sua reação quando eu obtive o menor tempo.
Eu só não pude fazer agora porque minha cabeça está a mil e pensando em mil maneiras de arrumar um lugar para passar a noite. Por um lado, era bom não ter celular, você não deve explicações a ninguém sobre o que está fazendo.
— Você é babá?
estava entretida com minha baixinha, que estava deitada em cima da sua mesa de jantar, e levantou um olhar questionador e uma sobrancelha arqueada.
— Desculpe minha pergunta, mas é que... — cocei a nuca, me posicionando melhor na sua cadeira branca na mesa de jantar. — Ela está tão calma com você e olha, pelo pouco tempo de convívio com ela, você levou a melhor.
Ela riu, de um jeito que eu julguei... Fofo, talvez?
, né? — acenei com a cabeça concordando. — Você me contou que ela nasceu hoje. Dê tempo ao tempo, ela precisa arranjar confiança e você precisa conhecer os sinais que ela te dá. Você sabia que todo bebê tem um choro diferente seja quando quer mamar, brincar ou até mesmo para as necessidades?
— Por que desistiu? Quer dizer... Dos bebês? — a interrompo, impressionado.
— Já te falaram que você é um baita de um curioso? — ela riu novamente, se levantando com minha filha nos braços. Ergo as mãos inocente, rindo em seguida. Sim, eu era curioso. — Isso não é assunto para hoje.
Ela caminhou até janela pequena de vidro de seu loft e como todo loft, ele era pequeno, mas muito aconchegante. Queria eu poder ter dinheiro para ter algo assim, mas como isso nunca vai acontecer, o que custa sonhar?
Me levanto e caminho até ficar bem atrás dela. A vista daqui era maravilhosa, podíamos ver quase toda a cidade e, entre os prédios, o mar. O mar que eu tenho tanto apego.
Olhando a morena baixinha em minha frente, com minha pacotinho em seus braços, fiquei com vontade de a abraçar, quase encostei nos seus ombros, mas recuei. Eu não sabia dizer o que eu estava sentindo, então achei melhor manter aquilo para mim. Afinal, eu acabei de conhecê-la.
— Você pode me emprestar seu telefone? — ela deu um pulo com minha voz tão perto de seu ouvido e, ao se virar, vi sua cara de espanto. — Eu preciso fazer uma ligação e não estou com meu celular aqui, acabei deixando em casa.
— Es... Está ali na mesa de centro. — sorri galanteador e pisquei para a doidinha que revirou os olhos, voltando à posição inicial, de frente para a janela. — A senha é a letra I, na coluna do meio.
Desbloqueio seu celular com facilidade após saber sua senha, vou até o teclado onde posso digitar os números e digito para um com quem eu sabia que poderia contar, que iria me ajudar.
Alô?
Caminho até o outro canto do loft, onde eu sei que ela não poderia me escutar. Demoro um pouco para responder Luke, porque estava ocupado demais reparando no mulherão que estava comigo.
Olha, se isso for um trote...
— Calma aí, não desliga, idiota. — balanço a cabeça para afastar os pensamentos. — Eu preciso muito da sua ajuda.
Dessa vez, a linha dele tinha ficado muda. Não era raro eu ligar e ele sabe disso. No orfanato, não tínhamos permissão de ter telefone ou atender o que tinha na recepção, por isso, quando Luke saiu, a primeira coisa que ele fez foi comprar um, para o caso de eu ligar.
Onde você se meteu? — a pergunta era direta. Hanna e Conrad já tinham passado por ali.
— Eu preciso de você.
começou a andar de um lado para outro com minha baixinha no colo e eu comecei a estranhar aquela cena. A garota não devia ser mais velha que eu, sinto que já passou por muita coisa. Sua feição às vezes mudava para um semblante triste, de recordações, e aquilo não parecia se encaixar. Precisava ser mudado.
Onde você está? — sua voz era severa. — , eu não estou para brincadeiras. Conrad passou por aqui mais cedo atrás de você, desesperado.
— Se eu falar, não conte para eles.... Por favor. — imploro de olhos fechados. — Você sabe de toda a minha história com Ellie, sabe o que aconteceu, ontem ela foi morta. — me engasguei com meu soluço, chamando a atenção da menina de olhos verdes.
... — o interrompo.
— Minha filha nasceu, Luke. Conseguiram salvar ela e quando ela estava liberada, apesar do meu sogro ser gente boa, eu corri com ela nos braços. Conrad me viu na praia, mas eu fugi, não posso voltar.
Você pode e vai voltar encarando a situação de cabeça erguida. Tenho certeza que eles entenderiam, ainda mais vindo de você. — ri com sarcasmo, deixando algumas lágrimas caírem. — Não entendi até hoje porque escondeu todo esse lance da Ellie.
Aperto o telefone na minha mão, tomando cuidado para não quebrar, pois não era meu. Ninguém entenderia meu passado com Ellie. Era muito perturbador. A única coisa boa que realmente saiu daquela relação foi Yasmin.
— Me deixa ficar aí, por favor... Só por hoje.
Ouvi um suspiro. Luke, após sua saída, tinha se tornado meu refúgio para quando eu não tinha para onde ir. Era como um irmão mais velho que eu sempre quis ter. No dia que saiu, ele me pediu para assumir seu papel, que era cuidar de todos ali e ser o mais responsável possível e cuidadoso com todos. No final do ano passado, ele começou a trabalhar em uma lanchonete perto do orfanato e estava começando um curso de medicina veterinária, não era faculdade ainda, pois não tinha grana o suficiente, mas era um curso on-line acredito.
Me passa o endereço, que vou buscar vocês.
Enxuguei as lágrimas e quando olhei para , pedi seu endereço, disse que um amigo viria nos buscar. Ela ficou receosa, acho que por não entender nada do que estava acontecendo. Nem eu estava, mas me passo.
Luke conhecia a região, então não demoraria muito para vir. Desligo o celular e sento na cadeira de sua cozinha pequena. Pelo visto, ela entendia muito bem de decoração e cores, sua casa tinha apenas uma cor e acredito que era a sua preferida, pois todos os móveis eram vermelhos, que se destacavam na cor cinza geral da casa.
Agora me diz, como puxar assunto com alguém que você acabou de conhecer, está com sua filha no braço e você está lutando para afastar aquele sentimento de solidão e tristeza? Minha vida sempre se resumiu a todos se afastarem de mim, parece que eu tenho um carma, onde talvez, no futuro, eu acabe do mesmo jeito que iniciei minha vida, sozinho.
Acho que é por isso que eu e o mar somos tão próximos, cheio de expectativas em relação ao mundo, mas uma hora todo mundo te dá uma rasteira e te deixa para trás.
— Você ficou quieto de repente. — comentou após colocar minha filha deitada em uma caminha improvisada em seu sofá. — Quer conversar? Eu sei que sou uma mera estranha, mas dizem que é bom compartilhar as coisas com quem você não conhece.
Ela era contraditória. Franzi a sobrancelha, eu perguntei uma coisa sobre ela, ela não quis me contar.
— Vamos fazer um quiz então. — ela se encostou na divisória da sua cozinha com a sala, dobrando os braços e me olhando confusa. — Você já foi babá?
Ela riu e balançou a cabeça em negação.
— Você não desiste, hein? Você me viu com uma câmera hoje na praia, acha mesmo que sou babá? E outra, por que faz tanta questão de saber sobre?
— Porque se fosse, eu já iria te pedir uma ajuda. — engoli a seco. — Eu não sou bom em lidar com bebês, tenho apenas dezessete anos... Minha vida é muito complicada e não sei se conseguiria lidar com tudo. Sei que me ouviu falando sobre a mãe dela e não deve entender o que eu estou sentindo no momento.
Parece que não, mas estou pensando em deixar a minha filha com alguém, apenas para eu poder voltar ao orfanato e explicar a situação para Conrad e Hanna. Eles não iriam entender se eu chegasse com Yasmin logo de cara.
— Sim, eu sinto muito. E pode apostar que eu entendo, não é fácil ser jovem e ter que lidar com uma responsabilidade tão grande quanto a vida de um serzinho que depende de você. Eu tenho a sua idade e sei que muitos dos adultos iriam nos julgar. Tenho amigas que passaram pela mesma situação, mas ser pai solteiro não é de todo ruim. Você deve ter apoio de seus familiares, eles com certeza irão te ajudar.
Família? Eu não sei o que é ter uma. Esse é o grande problema em questão. Eu posso até ter algum apoio de Luke, que é o mais próximo de família para mim, só que não sei o que é realmente ter aquele pai para te auxiliar, ser seu amigo em todas as horas, dar sermão quando necessário, ou aquela mãe que te ama e protege de tudo e todos, que sabe quais são seus valores e defeitos e mesmo assim, quando a situação aperta, nunca sai do seu lado.
Parece que não, mas conheço gente que só despreza a família, vive pedindo para ter outra e não dá valor ao que tem. Só que na hora que a situação aperta, sempre está ali com você, apoiando e ensinando que a vida nem sempre é perfeita.
Como vou ser um bom pai para minha filha se eu não sei a base? Se eu não sei o que é o amor de família realmente?
— Não gosto quando fica assim. — olho para seus olhos, tentando compreender o que dizia. — Você parece que está em outro mundo quando fica pensativo.
Ri, pois era a mesma coisa que Ellie dizia. Sim, eu tinha essa mania de olhar para um ponto específico quando penso e, acredite, nem eu gostava disso, mas era melhor para concentrar. Escuto a buzina conhecida por mim e vai checar em sua janela para conferir o carro preto de Luke.
— Acho que sua carona chegou.

Capítulo 3 – Maresia

POV

— Ele ainda não retornou? — questiono Hanna.
Fazia mais de um dia que ela estava em meu apartamento, nervosa e preocupada com um dos garotos do orfanato. Era .
Hanna era minha amiga e a única a ficar do meu lado quando tudo apertou para mim há 17 anos. Quando fui preso inocentemente por acharem que eu estava traficando drogas, ela foi minha advogada e agora é dona de um dos maiores e melhores abrigos para crianças e adolescentes de Miami.
— Não, ele anda estranho ultimamente, , eu não sei o que fazer. Já dei chances e brechas para ele me contar, eu sou como a mãe dele, poxa, fui eu que o achei, eu o levei para o abrigo quando ele era apenas um bebê, eu o conheço.
— Eu te avisei que lidar com adolescentes não é fácil, você que escolheu esse caminho, mas não sou Deus para julgar e sei o quanto você é apaixonada por essas crianças, ele só deve estar passando por uma crise de adolescente, assim como nós dois tivemos. É normal.
A minha crise de adolescência nunca mais apareceu em minha vida e eu tive a chance de começar tudo de novo. Dessa vez, fiz exatamente o que eu queria. Após sair da prisão, reergui meu trabalho, abri um estúdio que, apesar de pequeno, fluía bem.
Mas eu andava muito sozinho, esse era o mal do fotógrafo, vivia sem companhia, isso quando não resolvia trabalhar em duplas, e apesar de gostar de trabalhar sozinho, eu sentia que estava precisando de uma ajuda de alguém, então entrei em sites de freelancers que queriam começar na carreira e coloquei uma campanha para contratar alguém que me ajudasse em pós-produção depois do ensaio realizado.
Ideia vinda da minha amiga aqui, ela disse que eu precisava de companhia, mesmo que fosse de um adolescente. Eu iria poder ajudar e ocupar o meu tempo e esquecer do que eu tinha prometido a ela quando saí da prisão, mas aquilo não dá para esquecer.
— Pode ser, espero que ele volte logo e não se meta em confusão. — sento ao lado dela no sofá, a oferecendo uma xícara de chocolate quente. — Obrigada. — bebericou um pouco, lambendo os lábios me lançando aquele sorriso lindo e aconchegante, que me fez sorrir. —Não sabia que estava com tanta saudade do seu chocolate quente, deveríamos nos ver mais vezes.
— Sabe que é sempre bem-vinda.
— E ser capaz de pegar você com algum rabo de saia? — eu ri. — Dispenso, meu amigo. Vem cá, já encontrou algum assistente para você? Porque se não, eu ia sugerir para dar essa chance para o ou Hunter, principalmente Hunter, ele tem problemas com drogas, aquela história toda que você já sabe, acho que seria bom para ele.
— Talvez sim. Uma menina de dezessete anos me chamou a atenção, ela parecia interessada na vaga e em aprender sobre fotografia para montar seu estúdio um dia e queria começar como assistente para conhecer os equipamentos.
— Você está preparado para isso? — ela arqueia a sobrancelha.
Desvio a atenção para os prédios e tiro minha camisa. Fazia muito calor e não, não tinha intenções de seduzir a dona dos olhos azuis como o céu que estava ao meu lado, ela tem um marido, o qual não tenho um bom convívio. Me esparramei no sofá.
— Vale a pena a tentativa. — sinto o pomo de Adão se mexendo em minha garganta. — Se tivesse alguém da idade dele aqui hoje em dia... — mordo os lábios de nervoso para disfarçar um riso com sarcasmo. — Seria como um filho para mim.
Viro meu rosto em sua direção e ela sorri meiga com minha resposta, seu olhar tinha um brilho diferente, alegria talvez, nunca tinha visto esse tipo de brilho no olhar antes, que me lembrava que eu não estaria sozinho. Nunca.
Ela pousou sua mão em cima da minha, dando um aperto de leve, e eu assenti com a cabeça bem no momento em que seu celular tocou e eu pude ver o nome de Conrad. Seu noivo.
Bufei, ficando em silêncio quando ela atendeu a chamada em vídeo soltando um grito logo em seguida, o que me deixou confuso.
! — arregalei os olhos. — EU TENHO VONTADE DE TE BATER, GAROTO.
Ela chorava enquanto falava, dando uns pulinhos no sofá. Ansiedade, ela tinha esse problema.
Desculpa, Ana. — vi o garoto passar a mão na nuca sem jeito. — Eu já cheguei em casa, Luke disse que ia me levar para o apartamento dele, mas desviou o caminho, disse que vocês precisavam saber da verdade.
— Que verdade?
Sobre uma história que tenho que tenho para contar para você e Conrad e é muito importante.
Dava para ver o olhar triste e cansado do garoto. Seja o que for que ele tenha passado fora do orfanato, provavelmente foi exaustivo. Passou as mãos nos olhos, com sono provavelmente, e respirou fundo antes de dizer mais uma coisa.
Também preciso te apresentar a alguém, então, por favor, vem rápido para casa. Eu tô desesperado.
Sua voz tremeu e eu engoli a seco, arqueando a sobrancelha enquanto minha amiga se despedia do garoto perdido. Ela começou a agir em modo automático, pegando suas coisas rapidamente, como sua bolsa e seu casaco. Vou até ela e seguro em seus ombros, fazendo com que ela permanecesse no lugar e me olhasse.
— Se acalme. Seja o que for que ele passou, o escute primeiro antes de discutir e chegar gritando. Eu conheço aquele olhar, ele está acabado e precisa de apoio agora. Sei que você sabe disso, mas vale reforçar.
Ela só concordou com a cabeça, me dando um abraço apertado. Fechei os olhos, retribuindo seu pequeno afeto. Não eram necessárias palavras para demonstrar a minha gratidão por conhecer e ter essa mulher foda como minha melhor amiga.
— Obrigada, . Se cuide, está bem? — pisquei rapidamente para ela, concordando, e ela sorriu, limpando as lágrimas.
Nos despedimos e eu me vi sozinho de novo em meu apartamento. Dando uma olhada em volta, tomei coragem para fazer alguma coisa que não fosse me deixar louco dentro de casa, então resolvi limpá-la.
Começando pelo sofá, que estava uma bagunça, travesseiros e cobertores finos espalhados... Acho que estava na hora de ter alguém para me ajudar aqui, pois era muito trabalhoso viver sozinho. Antigamente, essa função ficava para Mia, mas... Eu nunca mais a vi depois que saí da prisão e nem pretendo.
Até hoje não entendo como ela foi capaz de fazer a atrocidade que ela fez. Era seu filho, poxa. Meu filho. Começo a ficar com raiva toda vez que penso nisso, porque eu fui besta em acreditar que uma criança iria ajudá-la a sair desse mundo, mas não, só a fez piorar.
Eliza, irmã de Mia, tinha dito que minha esposa a ligou e pediu para ela não ir até o apartamento naquele dia, pois ela iria passear com a criança, sair um pouco de casa, e a garota desconfiou, mas resolveu dar uma chance à irmã pensando que ela teria melhorado e aceitado ser do jeito que é sem as drogas.
Eu briguei um monte com a tia de , mas eu também pensaria o mesmo em seu lugar. Acho uma foto de Eliza e dentro de umas gavetas e sorrio. Ela amava o garoto com unhas e dentes, seu sonho sempre foi ser tia e ela tinha se tornado uma tia coruja, mas não gostava quando eu a chamava assim.
Meu telefone começou a tocar em algum lugar da casa e eu não estava conseguindo achar.
— Odeio bagunça. — resmungo comigo mesmo ao achar o celular dentro da pia do banheiro.
Nem quero saber como ele foi parar ali. Vejo o nome da própria Eliza na tela.
— Agora lê pensamentos? — comentei rindo.
É muito bom saber que sou a dona dos seus pensamentos, mi amore. — gargalhei, ouvindo ela fazer o mesmo enquanto eu me jogava na cama. — Liguei para avisar que eu e Cody vamos em uma cafeteria agora à noite. Quer ir junto?
— Eliza... — suspirei cansado, passando a mão pelo rosto. — Obrigado, mas não vai dar, eu ainda tenho que fazer uma coisa hoje e é importante.
Eu sei que coisa é, mas prometo que não vamos demorar, vai ser só um encontro de amigos. Estamos te achando muito sozinho ultimamente e você não merece ficar sozinho, por mais que adore isso.
— Hanna disse a mesma coisa. — bufei. — Mas sério, eu estou tranquilo, não precisam se preocupar, eu sei me cuidar e não vou fazer nenhuma besteira.
Durante o período que eu passei na cadeia, eu aprendi a gostar de ficar só, era bom colocar os pensamentos em ordem, aprender a gostar de sua companhia, porque, afinal, ela é a única que não te abandona.
Meus amigos desde então, começaram a estranhar esse meu comportamento, achando que era indício de que eu estava tramando alguma coisa que ia me prejudicar e resolveram ser minhas babás, digamos assim. Aquilo já estava me enchendo.
A gente sabe que está chegando seu aniversário, , sabemos como fica quando chega próximo a esse dia e não podemos deixar você ficar daquele jeito de novo. Só queremos te ajudar, amigos são para essas coisas.
Eu devo ser o cara mais sortudo por ter esses amigos se preocupando comigo, mesmo depois de tudo, mesmo eu querendo ficar sozinho, sei que nunca estarei só e pensando melhor, era melhor sair, eu precisava clarear minha mente, me sentir jovem de novo, nem que seja apenas por um dia.
Eu tinha trinta e sete anos de idade e meu filho iria entender se eu parasse um dia para eu me sentir novamente aquele de antes, não é?
Afinal, eu tenho estado a sós há muito tempo nesse apartamento e durante o período da cadeia... Precisava de uma companhia, se é que me entende.
— Tudo bem, vocês venceram. — ouvi o gritinho histérico de Eliza e ri da sua personalidade meio infantil para sua idade.
Ótimo, pois estamos a cinco minutos do seu apê. Até daqui a pouco.
E boom, simplesmente desligou. Encarei o telefone, balançando a cabeça e o jogando em qualquer lugar do quarto. Meu corpo estava pedindo para ficar na cama, praticamente implorando, mas o forcei a sair e ir tomar uma ducha rapidamente, sorte que no quarto tinha uma porta que me levava ao banheiro particular. Como eu havia trancado o apartamento e só existia eu naquele recinto, apenas deixei a porta aberta e já fui tirando a roupa de baixo e me jogando no banheiro.
Exatos três minutos depois, banho tomado, cheirosíssimo com meu perfume amadeirado, dando retoques no cabelo em alguns fios soltos, estava renovado e pronto para o que tivesse que vir.
É hoje! Bora levantar esse astral.

— Cara, com esse ânimo, você espanta as minas! — ri do jeito adolescente de Cody.
— Mina? — arqueei a sobrancelha, saindo do carro quando meu melhor amigo estacionou em frente à cafeteria Sugar Coffee, nome que eu particularmente julguei cheio de malícias para uma confeitaria que tinha como a maioria do público adolescentes. A razão por termos vindo nesse tipo de confeitaria? Eu não tenho a mínima ideia. — Que idade você tem?
— Pelo menos eu tenho senso de humor, né? — revirei os olhos e abri a porta de vidro.
O cheiro do mar foi substituído pelo leve aroma de café assim que adentramos a loja. Fechei os olhos para sentir ele melhor, não tinha nada mais gostoso que café. Pelo amor de Deus, a pessoa foi esperta logo atraindo a vontade dos consumidores pelo cheiro.
Segui meus amigos até o balcão, onde permanecemos sentados nos banquinhos que tinham ali, que eram poucos, mas facilitava a busca por mesas, sendo que a maioria estava ocupada e não eram muitas no primeiro andar, apenas umas três. A curiosidade bateu para saber o que tinha de tão interessante no segundo.
— Apenas um chocolate quente, por favor.
Respondi ao rapaz que trabalhava ali no meio da ilha. Após fazerem seus pedidos, meu casal de amigos resolveu trocar beijos, então para não ser obrigado a segurar vela, peguei um bloquinho que levo comigo e comecei a anotar as coisas que eu tinha para falar em um vídeo que eu iria filmar assim que eu chegasse em casa.
— Não mudou nada, só pensa em trabalho, né, ? — Cody deu um empurrão em meu braço, no mesmo instante que o rapaz coloca meu chocolate em minha frente. Revirei os olhos para meu amigo e o agradeci.
— Não é exatamente trabalho. Todo ano, quando chega próximo ao meu aniversário, desde aquela data... Eu comecei a fazer um vídeo todo ano, para que saiba que nunca deixei de procurá-lo.
— Eu queria saber como meu sobrinho está. — Eliza murmurou triste, bebericando um pouco de seu cappuccino. — Se não fosse por mim, ele ainda estaria aqui.
— Você não tinha como saber, ela enganou todo mundo.
— Eu sei, Cody, mas...
— Eu não vou deixar você se martirizando. Desculpe os dois por falar desse jeito da Mia, mas ela conseguiu o que queria, deixar os dois desse jeito.
— Podemos mudar de assunto? — interrompi meu amigo que já estava começando a me deixar irritado.
Eu não falava em Mia há mais de dez anos e não seria agora que eu começaria a falar. Ela era passado, uma memória, ruim, mas apenas uma memória. E trazer esses sentimentos à tona de novo, ia me deixar pior do que eu já estava.
— Certo, desculpe! Eu chamei os dois aqui por outro motivo.
Eu e Eliza nos entreolhamos, franzindo a sobrancelha, confusos, sem entender o nervosismo de meu amigo. Ele não iria pedi-la em casamento, pois já faz cinco anos que eles são casados, não iria dizer que estava grávido, porque bem.... Não vou nem responder essa.
— Fala logo, homem! — Eliza bateu no peito do marido e eu e meu amigo rimos.
Eles trocaram aquele olhar. O olhar que dizia tudo sem precisar de palavras. Engoli a seco, lembrando que nos momentos bons, eu e Mia tínhamos a mesma sintonia.
Balanço a cabeça em negação para afastar os pensamentos e fico esperando pela novidade. Ele tira um papel do bolso e o coloca no mármore do balcão, intercalando o olhar entre minha cunhada e eu.
— Minha empresa finalmente pode ser aberta. Finalmente tenho meu próprio escritório de advocacia.
Eliza se jogou praticamente no colo de Cody, o enchendo de beijos enquanto eu fingia que nem conhecia aqueles dois românticos. Pego o papel, o lendo, sei o quanto Cody sonhou com isso durante esse tempo todo. Desde que casaram, meu amigo correu atrás de todas as papeladas necessárias para abrir sua empresa após se formar na faculdade depois de um ano de casado.
— Cara, estou feliz por você! — o abraço rapidamente, sentando no meu lugar logo em seguida. — Vai ser muito sucesso.
— Espero que sim!
— Eu tenho certeza que sim! — Eliza segurou o queixo de Cody, o beijando mais uma vez, o fazendo rir. — Você merece, amor.
— Sem vocês dois eu não teria conseguido, então por isso, , sei que estava procurando por algum advogado para ajudar a encontrar o garoto. — meu amigo me olha com receio. —Me deixe fazer isso.
Engoli a seco. Isso era uma coisa minha, eu não queria familiares envolvidos, pois sei que vai ter caminhos obscuros e sem volta, caminhos que eu nunca iria percorrer, mas que serão necessários caso eu queria chegar ao meu garoto.
Eu já tinha em mente por onde começar e eu queria ir atrás sozinho, mas como disse mais cedo, meus amigos já sabem que eu não consigo me segurar e posso fazer alguma merda, como... Achar a mãe do meu filho e fazê-la me dizer quem foi que o levou. Eu já tinha contratado um detetive particular, que até agora não me deu notícias do que já conseguiu encontrar, mas eu sinto, sinto que estou no caminho certo.
— Não me leva a mal, Cody, obrigado por se preocupar comigo por causa da Eliza, mas isso é um assunto meu! — aponto para o meu peito, vendo os dois abaixarem a cabeça. — Eu não quero que minha família se machuque por isso e você sabe que sua profissão é arriscada caso tenhamos que percorrer um caminho no meio do crime.
— Mas foi para isso que me formei em...
— Não importa, eu já perdi gente demais, eu não iria suportar perder vocês. Obrigado pela companhia.
Deixo minhas notas de dinheiro ali no balcão e levanto, saindo o mais depressa dali. Eu precisava de um ar puro. A loja era à beira mar, então mesmo sendo noite, caminho até o fim do caminho de pedras e, ao me sentar, deixo todo o peso do mundo sair de meus ombros ao chorar o que eu não tinha chorado todo esse tempo.
As ondas faziam um barulho imenso ao bater na ponta das pedras, parecendo que queriam me dizer alguma coisa com a ferocidade que chegavam até mim.
Sei que meus amigos têm boas intenções, mas é meu filho e minha vida.
— Dizem que bebida faz bem uma hora dessas! — dou um pulo ao ouvir uma voz feminina e quase escorrego do lugar em que eu estava.
— De onde você surgiu?
Limpo meus olhos, os esfregando para dar uma clareada na vista, já que o local era meio escuro, só continha as luzes dos prédios à nossa volta e de um poste próximo a nós. Seu cabelo era loiro, mas eu não conseguia ver seu olhar.
— Eu estava aqui o tempo todo desde que você chegou. — ela deu de ombros — Esse lugar é relaxante, não? Eu sempre venho aqui com minha cachorra.
Ela podia sair da luz para eu poder ver seu rosto! Era estranho demais conversar com uma sombra! O que mais esse dia tinha para me mostrar? Me levanto do chão, ficando um pouco mais alto que a garota e finalmente consigo ver seus olhos verdes.
— Aí, quer ir dar um mergulho? Eu estou morrendo de vontade de entrar nessa água! Será que ela quente ou fria?
— Você não para de falar? — cocei minha nuca após tanto falatório. — Quer dizer...
— Acho que deve estar fria, acho que é bom para pessoas que nem você.
Sinto um empurrão e quando me dou conta, sou jogado no mar pela louca! Ao imergir, cuspo o que eu tinha ingerido de água e... Que risada gostosa de se ouvir, a garota estava se apoiando nos joelhos de tanto que não se aguentava! Eu iria retribuir isso!
— Hey! — ela dá um grito assim que a puxo para água comigo pelos seus pés, a fazendo cair sobre mim, emergimos os dois e eu jogo um pouco de água em seu rosto, a fazendo rir ainda mais.
— Não sabia que era vingativo.
— Tem muitas coisas sobre mim que você não sabe, garota. — sorri de lado, lançando um olhar que nunca falhava.
Cheguei próximo a ela e a segurei pela cintura, posicionei minha boca em seu ouvido, dando uma mordida de leve na área, em seguida, um beijo rápido.
— Pois eu adoraria conhecer.
Encontrei seu olhar novamente. Apesar da escuridão, demonstrava um brilho diferente, sorri, mordendo seu lábio inferior ao sentir ela se apoiar em mim sobre meu pescoço para não cair quando a onda chegasse a nós dois, o que não demoraria.
Quando eu iria imaginar que hoje o dia terminaria assim? Eu fazendo algo que eu amava fazer com uma desconhecida total no meio do mar, e eu não conseguindo ver seu rosto.
— Prometo que não irá se arrepender.
Sinto uma brisa da maresia e, por um momento, me sinto jovem de novo, com uma esperança acessa dentro de mim, ainda que pequena, mas uma mudança.
— Você acredita em destino? — aceno com a cabeça para a baixinha à minha frente.
— Que tipo de pergunta é essa? — mordo seu lábio e o beijo novamente, tirando alguns fios de cabelos de seu rosto.
— Não sei. — ela deu de ombros e riu, me fazendo fazer o mesmo.
— Você é doidinha.
— Qual a graça da vida sem um pouco de loucura?
Ri verdadeiramente, me perguntando aonde eu me meti. Ergo o corpo da garota no meu, colocando suas pernas envolta de minha cintura, apertando levemente sua bunda, a fazendo colocar sua cabeça em meu ombro esquerdo.
A onda veio e conseguimos pular sobre, sem nos derrubar, a abracei com firmeza. Eu não a deixaria escapar agora. Ela tinha razão, o que faltava na minha vida era um pouco de loucura e eu estava prestes a cometer uma.

Capítulo 4 – Pai de família

POV

A tensão no pequeno ambiente era horrível. Conrad só andava de um lado para o outro atrás de sua mesa, de cabeça baixa, passando a mão pelos fios de cabelos e às vezes resmungando algo que eu não entendia, mas não se dirigiu a mim desde que cheguei em casa, e eu não abri a boca, com medo de sua reação. Ele não me deixou sequer levantar da cadeira preta de seu escritório, só esperando o momento que Hanna chegasse.
Conrad, apesar dos seus quarenta anos, tinha a feição mais jovem do que a idade lhe dizia, mais músculos do que o necessário pelo excesso de exercício que fazia em seu tempo livre na academia e apesar desse porte todo, o cara fica mansinho perto de Hanna.
Conhecendo ele, deve estar pensando mil coisas ruins passageiras sobre mim, pois sabe que eu não faria nada para o prejudicar, para prejudicar o orfanato, eu só quis viver um pouco, conhecer um pouco da vida normal, mas acabou que eu conheci um pouco demais. Olhei em direção à bebê recém-nascida que dormia tranquilamente após horas de choro em meu colo enquanto eu balançava minha perna para mantê-la em movimento e também para afastar o nervosismo.
Engulo a seco, fechando os olhos. Ellie não saiu da minha cabeça nenhum minuto sequer. Lembro do último “eu te amo” que ela me disse assim que saíamos da escola e iríamos almoçar fora. Eu não tive tempo de dizer o mesmo, tudo aconteceu de forma tão rápida, tão brusca, que se não fosse por nossos, amigos eu não sei se iria conseguir.
Escuto alguns passos no piso de porcelanato cinza e logo a porta se abre rapidamente. Sinto uma bolsada em meu ombro com força e me encolho um pouco, grunhindo com o impacto. Olho para Hanna, que se senta na cadeira atrás da mesa, tentando ficar calma antes de falar qualquer coisa, sua respiração era ofegante e eu me senti péssimo por isso.
— Desculpa. — falei rápido demais intercalando o olhar entre Conrad em pé atrás de Hanna e a loira à minha frente, mais abaixo por estar sentada. — Eu devo muitas explicações, mas por favor, não façam o jogo do silêncio agora e...
— Comece do começo, , vamos te ouvir como sempre, mas não vamos te apoiar desta vez. Você infringiu várias regras daqui e nos deixou preocupados até o último fio de cabelo.
Conrad foi duro em suas palavras, se ele queria me deixar ainda pior, conseguiu. O mais velho estava apoiado na mesa com os braços na lateral de sua esposa, como se fosse um abraço, mas ainda assim permanecia de pé, porém eu via sua mão pressionando a mesa com uma força fora do comum e seu olhar continha vários sentimentos, mas o pior era a decepção.
Fingi uma tosse para começar a contar a história do casal inconsequente e Ellie para o casal que era o mais próximo de família que eu tinha.
Agradei a minha pacotinho, que se remexeu um pouco em meu colo, balançando as mãozinhas, e isso foi o suficiente para atrair a atenção deles para minha filha.
— Acho que devo começar a contar a história da minha pequena Yasmin, não? — ri nervoso.
O silêncio que se seguiu, com casal se entreolhando e me olhando ao mesmo tempo, era ainda pior. Suspiro. Eu não sei nem por onde começar, o que dizer.
— Está me dizendo que esse pedacinho de gente... — os olhos de Hanna aumentaram ao me ver concordar com a cabeça. — ....
— Eu sei! — respondi com a voz trêmula e cansada, fechando os olhos. — Ela é minha filha e foi por isso que eu...
Ouvi um estrondo e um grito assustado da mais velha. Ao abrir os olhos, vi que Conrad tinha socado a janela de vidro ao lado, fazendo um belo de um buraco e possibilitando a nós escutássemos os barulhos dos carros passando pela rua movimentada, já que a sala era à prova de som para a privacidade dos casais com seus possíveis filhos em visitas.
— Você não tem noção do tamanho da merda em que se meteu, definitivamente! — ele aumentou o tom da voz, demonstrando sua ira, me fazendo engolir a seco. — , VOCÊ AINDA É UMA CRIANÇA!
— SE ACALME E DEIXE O GAROTO CONTINUAR! — Hanna se levantou segurando o rosto do marido o fazendo a olhar, para controlar a respiração. — Não podemos julgar sem saber o que aconteceu.
— O que aconteceu foi que você não educou direito esse pivete. — ele rangia os dentes de nervoso e me olhou de rabo de olho. — Você foi muito irresponsável, , sabe o que vai acontecer agora? Você vai se virar sozinho com essa criança, porque daqui desse orfanato não vai sair nada.
— Conrad! — Hanna interrompe o marido, que pressionava a mesa entre nós, e em nenhum momento eu desviei o olhar.
Eu sabia que ele estava certo, em partes... Hanna me criou muito bem, tanto que esse é um pequeno problema, o único que eu fiz na minha vida.
Hanna puxava o marido pelos ombros para se afastar, com medo da atitude que ele possa tomar, e eu abracei mais firme minha filha ao me levantar, mas sem sair do lugar.
— Hanna me criou muito bem, eu nunca dei problemas a vocês na minha vida toda e talvez seja esse o motivo pelo qual eu resolvi esconder de vocês que estava conhecendo alguém e realmente aprendendo aos poucos o que podia ser um pingo de amor. — eu batia os dentes de nervoso. — Mas sabe o que aconteceu? No dia que tudo estava maravilhoso, eu perdi a minha namorada e ganhei a minha filha. — lágrimas teimavam em cair no meu rosto, mesmo eu não querendo demonstrar fraqueza. — Eu sabia que vocês iam reagir assim ao saber da Yasmin, por isso não queria voltar para casa. Sabia que vocês iam dizer exatamente isso que você falou, Conrad, mas se esse é o problema e você não quer saber nem metade do que aconteceu, é só me deixar sair, eu pego as minhas coisas e mesmo que eu vá morar debaixo da ponte, eu não vou abandonar a minha filha. — gritei a última parte de raiva.
— DÁ PARA CALAREM A BOCA OS DOIS? — Hanna se alterou.
Conrad e eu ficamos quietos, nos encarando como se pudéssemos nos matar a qualquer momento, vendo quem atiraria primeiro. Eu pensei que por ser o único a ficar tanto tempo junto deles, os dois pelo menos iriam compreender, tentar me deixar explicar.
, vai até a nossa casa nos fundos, não quero vocês dois agora com os ânimos à flor da pele no meio dessas crianças, só vai gerar mais polêmica. E se alguém perguntar, mesmo se for a Sophia ou Hunter... Ela é minha sobrinha, entendeu?
Assim que ela terminou de ditar a ordem, eu apenas obedeci, passando pelos corredores do orfanato, até a porta que dava nos fundos e chegava ao quintal. Era mais de sete horas da noite, então a maioria das crianças já estava provavelmente em seus quartos ou jantando. Ao passar pela porta de vidro e adentrar o jardim enorme cheio de brinquedos espalhados ao redor, como pula-pula, piscina de bolinha e casa na árvore, passo praticamente correndo pelo mesmo, sorte que o casal deixa a porta destrancada. Entrei na casa e consegui respirar pelo menos um pouco naquele dia insano.

No dia seguinte, sou acordado por Conrad abrindo a janela do meu quarto, eu estava deitado de bruços, sem camisa, apenas de boxer embaixo de um lençol branco em seu quarto de visitas na casa.
— Pai de família levanta cedo, . — ele riu ao sentar na beira da cama, enquanto eu esfregava meus olhos. — Desculpa por ontem, não deveria ter gritado com você daquele jeito.
— Tudo bem. — sorri fraco ao me sentar na beira da cama ao seu lado, tirando o lençol de cima. — Cadê Yasmin? — Um olho meu estava aberto e o outro fechado, eu estava com muito sono.
— Está com Hanna e os outros bebês, ela está dando banho na pequena, que por sinal é muito linda, a mãe dela também devia ser. — supliquei com o olhar para ele não falar sobre isso. — Por que não nos contou sobre ela?
— Hanna deixou a missão de me interrogar para você então?
Levanto da cama procurando minhas coisas, enquanto Conrad ficava apenas viajando meus movimentos. O ruim de morar em um orfanato era isso, mesmo quando você queria ficar um pouco sozinho, ter um pouco de paz, você não tinha.
— Ela só está preocupada. Perder alguém não é tão fácil de lidar e você está entrando em uma das fases de luto, . Você precisa de ajuda e nós dois estamos aqui para isso. Você quer evitar falar no assunto, mas isso só piora a coisa e vai chegar um momento que você vai ficar que nem o Hunter, você quer isso?
Termino vestir minhas roupas que estavam dobradas na cabeceira, Hanna provavelmente deve ter pego em meu quarto ontem, uma bermuda preta e uma regata branca lisa.
Encaro o mais velho, que ainda estava sentado na cama, e mordo o lábio de nervoso, pensando se deveria realmente contar e no que aquilo poderia me trazer de prós e contras.
— É uma longa história. — digo com rapidez.
— Tenho todo o tempo do mundo. — bateu na cama em seu lado para eu me sentar, que nem ele fazia quando eu era pequeno.
Franzo a sobrancelha, eu não queria realmente falar sobre aquele dia, só fazem dois dias que ela não estava aqui, ainda estava... Eu ainda sentia ela aqui comigo!
Era horrível a sensação, parecia que eu ainda conseguia sentir o seu cheiro ou escutar sua risada quando eu fazia alguma piada idiota nos intervalos da escola. Eu lembro que, naquele dia, eu tinha dito a ela que eu a levaria a um lugar especial, que ela poderia gostar ou não, mas que seria importante para mim, e esse lugar era o orfanato.
Geralmente era um ônibus que o abrigo alugava que passava nos buscar, mas eu já tinha avisado Hanna que queria voltar para casa sozinho. Ela, logicamente, estranhou, mas como confia em mim, me liberou, afinal, a escola não era tão longe e era meu último dia escolar.
Estávamos na metade dezembro, uma época que eu não era muito chegado, ver toda aquela falsidade de final de ano, me deixava agoniado.
? — quando escuto o chamado de Conrad, balanço a cabeça para espantar os pensamentos e sento ao seu lado na cama macia, bem diferente da minha. Mordo o lábio, olhando seus olhos intensos. — Eu realmente sinto muito por ontem, mas... Você é como um filho, estou só preocupado com seu futuro.
— Fique tranquilo quanto a isso, eu estava precisando mesmo de um toque da realidade. Só peço que não me pressione para contar minha história com a mãe da minha filha, é muito recente e eu não estou nada bem, mas tenho que ser forte. — suspiro no momento que ele pousa sua mão em meu ombro. — Eu estava apaixonado por ela e justo no dia que iria apresentar ela para vocês...
Um soluço escapou da minha garganta e eu fecho minha mão em punho, posicionando em frente à minha boca. Eu não sabia que eu precisava tanto chorar, solto um grito abafado com os olhos fechados quando sinto o mais velho me abraçar, um braço em torno das minhas costas e outro em meus cabelos loiros, acariciando.
Uma batida na porta nos faz olhar para a mesma. Hanna se aproxima e faz o mesmo que Conrad, nós três abraçados. Era nessas horas que eu me sentia parte de uma família, pelo menos na minha cabeça.
Eu sei que é estranho ser sonhador nos dias de hoje, mas eu sempre fui assim. Sempre imaginei várias perguntas me rondando e imaginando histórias sobre quem seriam meus pais, porque eles me abandonaram... E como no orfanato eu não tinha muito o que fazer, na minha adolescência, em torno de doze anos, passei a maioria do tempo dentro de uma biblioteca, não tinha como ter sido o cara cafajeste que tinha muitas mulheres e nem apoiava essa atitude.
— Vai ficar tudo bem, garoto, estamos com você. Ter um bebê não é o fim do mundo. Sim, é muita responsabilidade, fraldas para tocar, acordar no meio da noite, mas ... Estamos aqui! Você não está sozinho nessa.
Sinto a mão delicada de Hanna em meu rosto, me fazendo abrir os olhos e encará-la com um leve sorriso que mais parecia uma careta.
— Hanna, me...
— Tia Hanna, tia Hanna... — Lottie, uma garotinha de cinco anos, adentrou o quarto como um furacão. — O Brian derramou tinta guache em toda a recepção.
Meus olhos se arregalaram, iria sobrar para nós limparmos depois. Lottie vem até meu colo e eu a seguro, dando um beijo em seu cabelo enquanto ela se encolhia, e foi aí que eu percebi.
— Brian! — Hanna grita correndo atrás do menino, fazendo nós rirmos.
E quando ela estava longe, a pequena soltou uma mini risada sapeca de toda criança quando vai ser pega, fazendo Conrad e eu nos entreolharmos, ele percebeu também. Ela que tinha jogado tinta na recepção e colocado culpa no moleque.
Os dois sempre viviam se metendo em confusão por coisas bobas, mas para mim aquilo tinha outro nome.
— Mocinha, se você não quiser um ataque duplo de cócegas agora, acho melhor nos contar a verdade. — Conrad, com sua falsa voz de autoridade, ameaçou a pequenina, que arregalou os olhos e me encarou, vendo que minha mão e a de Conrad estavam prestes a lhe fazer cócegas.
, me ajuda. — ela se encolheu mais em meu colo no instante em que começamos a fazer cócegas nela.
— Confessa, Lolo. — respondi a seu chamado, a fazendo rir mais, nos contagiando com sua alegria.
— Está bem, fui eu!
Ela saiu do meu colo emburrada, cruzando os bracinhos e olhando para Conrad com seu beiço e olhos lacrimejantes. Conrad fingiu uma tosse, me olhando, e depois voltou para a pequena de cabelos castanhos.
— Por que colocou a culpa no Brian? — falou sério dessa vez. — É errado mentir, lindinha.
— Ele ficou rindo de mim, disse que minha dança é horrível, tio Conrad. — cruzou os bracinhos ainda mais e bateu o pé no chão. — Só porque ganhei dele no Just Dance.
Controlei minha risada, realmente eu concordava com o moleque. A Lolo sempre errava os passos e mesmo assim ganhava todas as partidas, ninguém entendia como. Crianças!
— OK, pequena, vem aqui. — a puxou para seu colo e tirou os cabelinhos da frente do rosto da menina de vestido florido. — No mundo tem pessoas que às vezes são ruins e a gente tem que saber lidar com isso.
— Eu não acho o Brian ruim, tio Conrad, ele só me provoca.
— E você acha certo, retribuir o que ele te fez?
A menina balançou a cabeça em negativo e eu sorri. Ela era muito esperta para sua idade e eu entendia que o que ele estava querendo me demonstrar era que eu iria enfrentar momentos assim com Yasmin, e estava me ensinando a lidar com esse tipo de situação.
— Retribuir a ruindade que alguém nos fez, lindinha, é nos igualarmos a essa pessoa, mesmo que por um motivo besta. Você tem que saber reconhecer seus erros e tratar de concertar.
— Mas...
— Olha, eu prometo que você não ficará de castigo, mas só se você falar a verdade para a Hanna e pedir desculpas ao Brian, que apesar de ter rido de você, não fez algo de propósito para você levar a culpa depois. Vamos fazer isso?
Ele se levantou e piscou para mim quando a menina disse que iria pedir desculpas. Os dois saíram do quarto, mas Conrad voltou.
— Ah, , hoje tem evento mais tarde, nada de sair.
Concordei com a cabeça, mesmo que odiando a ideia.
Levantei do quarto e rumei para o quintal, vendo a bagunça sendo feita logo de manhã. Qual foi o inspetor que deixou essas crianças fazerem guerra de bexiga de água logo de manhã? Tentei passar por elas sem ser atingido e comemorei quando consegui, adentrando o salão principal para poder ir ao meu quarto. Mas quando estava subindo a escada, ouvi uma voz vindo da recepção.
E, meu Deus, aquele cômodo estava pior que lá fora, a pequena conseguiu jogar tinta por todos os móveis.
— Moça, são só umas fotos. É questão de vida ou morte. Eu preciso desse trabalho, por favor.
? — questiono ainda descendo os poucos degraus e me aproximando da entrada. — O que está fazendo aqui?
! — Ela sorriu verdadeiramente.
Seu olhar parecia implorando pela ajuda, engoli a seco. Hanna, confusa, perguntou se já nos conhecíamos e de onde, típico jeitinho dela de mãe. Não consegui responder, eu só queria agradecer por ela ter me ajudado ontem, porém parecia que eu tinha perdido minha fala.
Ela estava usando um vestido que ia até seu joelho e parecia ser de um tecido fresco e leve, já que estava um calor de rachar, como sempre, seu cabelo com cachos presos em coque. Estava gata demais!
— O que você está fazendo aqui?
Ela também me questiona, parecendo um pouco confusa e eu entendo completamente seu lado, ela deve ter pensado que eu vim trazer minha filha para adoção também? Coisa que não faz sentido nenhum.
Olho Hanna de volta e suspiro. Eu tinha duas opções: dizer a verdade ou mentir na cara dura, já que, depois de hoje, eu com certeza não a veria novamente.
— Eu... — mordo o lábio, com vergonha. — Moro... Aqui.

Capítulo 5 – Raio de Sol!

POV

Era por causa da reação que demonstrou que eu mentia as pessoas que eu morava em um orfanato. Sempre me olharam como se eu fosse louco, estivesse falando coisa de outro mundo e não fosse possível um adolescente vir de um lugar como esse.
As pessoas sempre comparam nosso abrigo com uma prisão, mas não é de todo ruim. Dependendo de quem o comanda, para mim, era como se fosse uma escola cheia de regras, mas ainda assim, um lugar para onde voltar.
— Como você quer que eu acredite nisso? Eu pensei que...
— Pensou que eu fosse o tipo de cara sem coração que abandona uma criança sem motivo ou por não conseguir dar conta e querer seguir com a carreira? — ela abaixou a cabeça e eu ri sarcástico. — Eu não sou esses caras dos livros que você lê.
, quem é ela? — Hanna deixou claro que estava preocupada.
— Eu não sei. — dei de ombros olhando a garota dos olhos que me fascinava. — Eu conheci ela ontem, ela que me ajudou a cuidar da Yasmin.
Um brilho surgiu no olho da mais velha, que eu não sei explicar, mas conhecia aquela expressão! Não.
— Hanna, nem...
— Pode vir tirar as fotos do evento, vai ser depois do almoço, lá pelas três horas.
Revirei os olhos e dei as costas para elas. Sim, eu estava chateado, a garota mal me conhece e me julga como todas as outras pessoas. Era por isso também que eu não dizia aos meus amigos onde eu morava, sempre inventava uma desculpa, como na última semana de aula.

Flashback on
— Amor, como vamos ficar agora?
Ellie, minha namorada, estava quase terminando o período de sua gestação e eu não podia estar mais bobo. Agrado seu rosto e fico mirando seus olhos, não resistindo e a beijando mais uma vez. Estávamos na despensa da escola, escondidos durante o intervalo, para ter um pouco de privacidade.
— Como sempre, eu sempre deixo um recado para você, aonde eu vou estar.
, eu já estou ficando cansada de ter que te ver só quando você acha conveniente, meu... Já estamos juntos há dois anos. No começo, eu achei normal você não querer apresentar sua família, mas até nossos amigos estão estranhando. Que pais são esses que não deixam os filhos receberem amigos em casa?
—Você não entenderia, El...
— Eu estou esperando uma filha sua! É lógico que eu entenderia, você é algum tipo de traficante?
— Claro que não! — aumentei o tom, andando de um lado para o outro do pequeno cômodo. — É só que... Meus pais são meio complicados em relação a visitas, mas eu prometo que antes da nossa filha nascer, você irá conhecer eles.
— Hey... — ela segurou meus ombros e me fez deitar a cabeça em seu ombro, agradou meu cabelo enquanto eu abraçava suas costas. — Desculpa, eu sei que esse assunto mexe com você, mas entenda, amor... Eles merecem saber que vão ganhar uma netinha! — balanço a cabeça negativamente, me escondendo em seu pescoço e a abraçando com uma leve força, como se ela pudesse fugir de mim.
Eu sempre tentei ser o mais verdadeiro possível nessa relação, mas tem coisas que merecem ser esquecidas, como a mentira. Eu sabia que na hora que ela soubesse a verdade, ela iria embora e eu não iria suportar essa perda.
Eu sempre fui uma pessoa difícil, fechado no meu canto... Hanna sempre disse que eu devia me socializar mais com as pessoas, mas eu não entendia porque eu devia, já que eu sempre fui sozinho.
Eu me sentia bem com minha companhia e eu tirava meu tempo sozinho para analisar as pessoas. Era uma forma de passar o tempo naquele lugar cheio de pessoas com vidas incríveis, longe de problemas. Eu ficava analisando como eu reagiria se tivesse uma família, alguém que sempre estaria ali se importando comigo.
Beijo o ombro de Ellie diversas vezes, fazendo ela rir, seu sorriso sendo refletido em meu rosto e em meus lábios. Minhas mãos entram debaixo de sua blusa jeans tentando chegar ao fecho de seu sutiã, sinto suas mãos pressionarem meus cabelos, abro o fecho de seu sutiã e ouço um grunhido dela quando mordo a ponta de sua orelha esquerda.
... — sai um gemido de sua boca.
O sinal bateu bem na hora e eu grunhi, fazendo ela rir. Continuo abraçado com a mulher que eu amo, mas ela se afasta... Resolvo fazer a carinha de cachorro que caiu da mudança, tentando fazer ela entender que o melhor era a gente ficar ali, as aulas podiam esperar.
— Vamos, mocinho carente, depois a gente continua. — ela fechou o fecho de seu sutiã, arrumou o cabelo e piscou ao abrir a porta da despensa.
Relaxo meus ombros e saio da despensa alguns minutos depois, fechando a porta da mesma, e caminho até a sala de aula, onde, ao sentar em minha mesa, vejo um bilhete, e ao abri-lo, pensando ser de Ellie, era na verdade de William, meu melhor amigo.
“Vai na festa de despedida da turma que vai rolar na minha casa hoje à noite?”
Olho para o fundo da sala e aceno a cabeça positivamente.
— Bom dia, classe, quem fez nosso último trabalho?
Minha atenção cai sobre o professor, pensando que essa seria a oportunidade perfeita para me despedir dos meus amigos, dizer que eu ia me mudar de cidade, viajar ou sei lá... Eu só não poderia deixá-los esperando ou com esperança de nos vermos durante essas férias. Quando mais cedo eu me afastar melhor.

Flashback off

Seguro as pequenas mãozinhas de minha filha que estava dormindo tranquilamente em seu bercinho. Seu rostinho era perfeito, olhinhos puxados e cílios grandinhos até, puxou a mãe. Ai, filha, como eu queria poder te dar o mundo.
Ela deu um sorriso enquanto dormia e uma baba começou a escorrer pela boca, demonstrando que pelo menos o sonho que estava tendo era bom.
— Você é meu raio de Sol, lindinha. — agrado seu rostinho com minha mão livre, dando um beijo em seu cabelinho loiro. — Sabia que foi o papai que escolheu seu nome?
Ri, me sentindo um bobo falando com alguém que não poderia me responder, mas era minha filha, eu precisava deixar ela saber de tudo. Escuto alguns passos no berçário, mas não consigo desviar o olhar da minha menininha, parecia que ela ia sumir a qualquer instante, como qualquer coisa por aqui. Li na revista do hospital que os bebês, mesmo pequeninhos, precisam aprendem a reconhecer as vozes dos pais, que precisamos conversar bastante com eles que eles iriam saber que éramos nós, então comecei a cantar I was made for love you, do Ed Sheeran, baixinho para ela após pegá-la no colo e começar a andar levemente pelo cômodo.

A dangerous plan, just this time
A stranger's hand clutched in mine
I'll take this chance, so call me blind
I've been waiting all my life

Please don't scar this young heart
Just take my hand

I was made for loving you
Even though we may be hopeless hearts
Just passing through
Every bone screaming I don't know what we should do
All I know is, darling, I was made for loving you


Levanto meu olhar para a porta ao ouvir os passos se aproximando, e a figura em minha frente era uma mulher de pele morena e cabelos cacheados pretos. Seu olhar era sereno e calmo, como se estivesse curtindo meu pequeno show para a minha bebê.
— Bela voz, garoto. — sorri com a boca fechada, ainda balançando minha garotinha. — Sua irmã?
— Minha filha.
Ao contrário de todo mundo, ela sorriu, passando a mão na cabecinha de Yasmin, sempre me olhando nos olhos. Era como se... Se ela quisesse me falar algo, mas não podia.
— Moça, desculpa a pergunta e pode parecer besta... Mas como entrou aqui? Precisa de ajuda?
— Certo, deixa eu me apresentar. Meu nome é Katie, eu sou uma das pessoas convidadas para o evento de pais que terá hoje aqui, só estava rondando o ambiente porque parece que cheguei um pouco cedo. — concordei com a cabeça. — Você é o...
e essa é a Yasmin! — sorri orgulhoso de apresentar minha baixinha. — Vem, eu posso te mostrar toda a estrutura.
Caminhei com a moça e avisei a Hanna, que estava limpando a recepção, que ia mostrar para a mulher mais velha a estrutura da casa e ela permitiu, sorrindo e agradecendo a visita da mulher.
— E aqui fica a maior bagunça do orfanato. — Ela riu quando eu abri a porta do amplo quintal. — As crianças ficam praticamente o dia todo aqui.
Segurei Yasmin de forma vertical em meu peito, com uma leve firmeza, já que qualquer criança poderia esbarrar na gente e acabar causando um acidente. A moça se encostou no batente da porta e ficou vendo as pequenas criaturas se divertindo.
A pequeninha segurou o meu colar apertado eu sorri. Aquele colar era muito importante para mim, foi a mãe dela que me deu no nosso primeiro aniversário de namoro. Era uma prancha, ela sabia o quanto eu adorava surfar.
— Esse lugar parece maravilhoso para vocês, não é? Eu já visitei alguns orfanatos desde o começo do ano e esse foi o único que me cativou.
Seu olhar era sem brilho, apesar de ser um verde lindo. Engoli em seco, eu nunca fui bom com palavras ou dar conselhos, por isso, não sei o que dizer. A situação para mim era constrangedora, afinal, eu nem conhecia aquela mulher, não sei qual era situação em que ela se encontrava para ficar indo de orfanato em orfanato.
— Bem, se me der licença, eu tenho que fazer umas coisas...
Ela pareceu despertar e, com a mão livre, cocei a nuca, sorrindo, sendo retribuído através de um aceno de cabeça. Me afasto de Katie, indo até a escada do hall, subindo rapidamente a mesma, tentando me equilibrar com a bebê em meu colo.
Chego ao meu quarto no primeiro andar e, ao abrir a porta, Hunter estava por lá, mexendo em um celular que eu sei que não era seu. Fecho a porta e seu olhar se desvia do pequeno objeto.
— Até que enfim apareceu! — ele se senta em sua cama. — Essa é a sua filha?
— Sim.
— Vai ter um problemão com os namorados dela. — rimos enquanto eu sentava na mesa da nossa escrivaninha. — Cara, aconteceu tanta coisa enquanto você estava fora. Sabe a Ashley? Ela foi pega beijando o Ryan nos corredores! Eu comprei um celular e...
— Hunter é muita coisa! — aperto meus olhos para coçá-los. — Eu só quero curtir um pouco minha menina.
— Eu tenho uma coisa para você e acho que é do seu interesse. Quando você sumiu, eu escutei umas coisas vindo de Hanna e Conrad e não sei se você vai gostar.
Ele dá um salto do beliche que continha no quarto, pega seu boné preto e um moletom regata, colocando a toca por cima do boné e volta a me encarar quando pega seu cigarro.
— Não acende aqui. — aponto para minha Yasmin e ele concorda, mas se encosta na porta. — O que quer dizer com isso?
— Eles estavam vendo uma família para você, eu vi o casal e eles pareciam bem interessados em te conhecer. Queria ter sua sorte! Uma filha... Uma família... Não entendo porque você sempre tentou fugir, preferiu ficar aqui nesse lugar, se eu tivesse no seu lugar...
— Mas não está! Olha, me diz, para que ter pais agora? De que adiantaria sendo que sei que não vou ser amado, vou ser só uma dor de cabeça e mais gastos para eles? Eu quero criar minha própria família.
, o mundo lá fora, para pessoas como nós, não é fácil! Eu tive amigos que morreram de vários jeitos na rua. Luke teve sorte de já sair empregado daqui e o chefe dar um apartamento para ele com aluguel muito baixo, mas quando isso vai se repetir novamente? Eu não quero te desanimar, mas olha para essa pequena. Apesar de ser você, eles não vão ter piedade de ou te transferir de orfanato ou te mandar embora na primeira oportunidade.
— Eles não são assim.
— O seu problema é que você confia muito rapidamente nas pessoas e não enxerga maldade em ninguém.
— Hunter, vai fumar e me deixa em paz! — aumento o tom, fazendo o meu colega de quarto bufar.
— Depois não diz que eu não avisei.
O rapaz um pouco mais alto que eu sai do quarto batendo a porta. O problema de Hunter era que ele estava certo. Eu dou muita confiança para as pessoas e eu já me ferrei muito por isso, inclusive com as várias famílias pelas quais eu passei. Hanna e Conrad não sabem metade das histórias que eu tive quando fui embora com aquelas pessoas estranhas em período de convivência.
— Ninguém vai nos separar, filha, eu te prometo. O papai pode estar aprendendo o que é o amor ainda, mas eu faria de tudo para nos manter juntos. — seguro suas mãozinhas, a agradando. — O papai só está com medo de não ser o suficiente.

Flashback on
9 meses e meio atrás

Como era estranho essa paz e tranquilidade que a casa de Ellie me trazia quando eu vinha passar o dia aqui com ela, diferente dos corredores do orfanato. Lá era tudo virado de cabeça para baixo: um pouco de violência que os instrutores não sabiam sobre alguns internos e as crianças correndo e quebrando tudo por onde passavam.
Aqui era um clima mais da cidade. Miami beach, apesar de ser uma cidade grande, era diferente de todas. Era única, um clima especial. Uma cidade mágica, como era conhecida.
Ela tinha inúmeros prédios, parecia cenário de filme, daqueles de ações e perseguição policial que eu sempre pegava Luke assistindo no meio da madrugada na televisão do abrigo.
Apesar de morar em um lar adotivo, sempre fui grato por tudo o que eu recebi das pessoas que me cercam, elas me deram casa, comida e roupas, além de respeito.
— Está pensativo de novo.
Minha namorada observou como sempre fazia. Ela estava vestida apenas com um biquíni embaixo de uma saída de banho, me fazendo morder o lábio. Que garota sexy do caramba. Ellie desliga a TV, que eu estava aparentemente apenas mirando a imagem e não prestando realmente atenção no que ela estava reproduzindo, e ficou na frente de braços cruzados.
Seus cabelos ruivos balançavam com o vento que que vinha da porta branca de sua varanda levemente aberta para o lado de fora e nos deixava admirar a beleza do mar azul.
— Eu estou pensando em mil maneiras de tirar essa saída de banho.
Ela sorriu de um jeito nada inocente, mordendo o lábio e passando as mãos pelos fios de seu cabelo cacheados. Ô, menina, colabora, seu pai está em casa.
A garota mais espetacular da escola caminha em minha direção, lentamente subindo no final da cama, e se encaixa perfeitamente em cima do meu corpo, se segurando com os braços em volta de mim.
— Sei que você quer isso tanto quanto eu.
— Seu pai está em casa... — passo a mão direita levemente pelo seu braço arrepiado. — Não acho que seria esperto da minha parte, lindinha. Ele pode aparecer com uma arma aqui.
Ela riu me fazendo sentir um calor bom no peito. Enquanto analisava seus traços fortes, seguro levemente seu queixo, direcionando seu olhar para mim. Seus lábios carnudos e molhados do refrigerante que ela tomou mais cedo eram convidativos demais!
— Topa uma rapidinha no chuveiro? — ela morde minha orelha me fazendo fechar os olhos. — Aposto que.....
— Crianças! — bufo e ela desanima quando seu pai bate na porta. — Estou com tudo pronto no carro, vamos.
Vicent era um baita estraga foda, parecia que ele sempre adivinhava quando nós dois íamos ter relações! Eu e a ruiva perdemos totalmente o interesse depois disso, nos lembrando da viagem que Vicent tinha planejado. Ele queria saber se meus pais não veriam problema, mas eu disse que não.
Seguro a mão da mulher ao meu lado e caminhamos lado a lado, descendo as escadas em espiral da sua casa para encontrar seu pai com aquele sorriso de meta cumprida em estragar a melhor parte do dia.
— Que roupas são essas, pai? — Ellie ri, abraçando o mais velho, enquanto eu fico perto das escadas.
— É para entrar no clima. Não quer usar uma blusa assim também, ? Tenho...
— Dispenso... — segurei o riso, o fazendo semicerrar os olhos, me analisando.
Vicente usava aqueles chapéus de palha de pescador e também uma blusa floral vermelha, ficando bem estilo praiano. Inclusive tiro minha camisa branca, deixando à mostra minhas tatuagens.
— Está tirando uma com a minha cara, garoto?
Eu ri verdadeiramente nessa parte, enquanto ele vinha em minha direção, colocando um braço em volta de minha nuca e passando a outra mão fechada em punho rapidamente pelo meu cabelo, fazendo-o esquentar.
Tento me soltar, ainda rindo, e peço ajuda à ruiva, mas ela somente me encarava rindo. Devia estar nos achando dois bobos.
— Está bem. Está bem. Você venceu, está razoável.
O mais velho me solta e eu arrumo meu cabelo. Todos saímos da casa de Vicente até o carro Audi v8 preto de meu sogro. Ao entrarmos, sento no banco detrás, enquanto minha garota senta junto com o pai na frente, ligando em uma música qualquer.
— Ah, não, Take me to the ocean de novo, Ellie? — minha voz saiu levemente rouca.
— Deixa de ser careta e curte a viagem! O piloto escolhe a música!
— Nesse caso, é seu pai. — ela me mostra a língua, me fazendo rir.
— Eu apoio o gosto da minha filha, ! — os dois fazem high five e eu reviro os olhos, mirando a janela. — Take me to the ocean, take me to the sea, wash away my worries, let my soul be free...
Tampo meus ouvidos ao ouvir Vicent e Ellie cantando, enquanto eles riem da minha cara. Eu mereço!

Uma hora e vinte minutos de cantoria depois, finalmente estamos na paz e tranquilidade do oceano aberto... Na lancha, eu estava na parte de cima, esperando os dois resolverem sair da cozinha. A barra de ferro que fazia um círculo em redor da lancha era meu apoio. Estávamos parados nessa imensidão azul e eu fecho os olhos para sentir a brisa do vento.
Minha respiração era calma. Engraçado que eu sempre sentia essa tranquilidade aqui, enquanto surfava ou apenas nadava.
— No que está pensando? — a voz de Ellie penetra em meu ouvido, em um tom baixo e sedutor.
Não me viro para olhá-la, mas pude sentir suas suaves mãos fazendo uma massagem em meus ombros largos. Gemo devagar, sentindo meu amigo querendo dar sinal de vida. Calma, garoto.
Hoje não vai rolar, o pai dela está aqui, lembre-se disso.
— Estava pensando na gente. — ela se posiciona em meu lado, segurando a minha mão. — Será que eu sou o suficiente para você?

Flashback off

Uma das poucas lembranças que me marcaram no sentido positivo de minha vida veio à memória, me fazendo sorrir ao ver a pequenina em meu colo. Resolvo caminhar com ela pelo quarto, cantando uma música qualquer bem baixinho.
Eu deveria começar a me mexer, saber por onde começar a procurar o idiota que a matou em meio à multidão, eu precisaria de um advogado para me ajudar, mas sei que Hanna e Conrad me fariam desistir disso. Eu poderia também perguntar a Hunter, ele, que conhece mais pessoas do que eu, deve saber por onde ir. Ele tem um ótimo faro para investigação e não entendo porque não usa essa habilidade para o bem.
— Posso entrar, querido?
Estava de costas para a porta e de frente para a janela embutida em minha parede. Sabia que era Hanna.
— Claro.
Seus passos ecoaram pelo pequeno ambiente e eu pude a vê-la atrás de mim pelo espelho ao lado da janela cinza. Ela estava com os braços cruzados, porém relaxados, mas sua expressão era um pouco mais séria. Lá vinha bomba. Suspiro.
— Precisamos conversar sobre você antes de esse evento começar, garoto. Julgue essa conversa como a conversa de mãe para filho que eu sempre te considerei.
— Hanna, eu já sou quase adulto, não precisa falar comigo igual vocês falam com as crianças. — me viro em sua direção, sentando novamente na cadeira atrás de mim, posicionando Yasmin corretamente. — Eu estou cansado de ser tratado dessa forma.
— Tudo bem então. — Ela pega a cadeira branca sem braços na escrivaninha de Hunter e se coloca em minha frente, se sentando na mesma. — , eu sei o quanto você ama essa baixinha que está aí no seu colo. Eu não estou aqui para pedir para você deixar ela comigo, e não precisar ter essa responsabilidade de pai agora, sei que você nunca concordaria com isso, mas... Eu já estava preocupada com sua vida social antes de tudo acontecer e virar de cabeça para baixo. O Natal está chegando e seu aniversário também, no mesmo dia. Consequentemente, você deveria sair daqui em duas semanas... — abaixo a cabeça. — Se não aceitar a proposta que tenho a te fazer.

Capítulo 6 – Lovely Life

Íris POV

Graças a Deus eu consegui chegar a tempo no apartamento do meu novo chefe. Eu sei que deveria já estar com as fotos, mas a assistente social não tinha me permitido tirar as fotos ainda. Eu poderia explicar isso a ele na hora que for apresentar a minha ideia: que para tirar as fotos das crianças era necessária uma autorização.
Arrumo minha franja que hoje decidiu não parar quieta, coloco a minha câmera em meu pescoço porque, bem, depois do que aconteceu aquele dia na praia, nunca mais na minha vida irei derrubar de novo, foi uma nota para comprar essa belezura e eu teria que vender meu rim para comprar outra... Tudo bem, estou exagerando, mas com um pouquinho de verdade.
Respiro fundo, tentando controlar minha ansiedade e pensar que tudo vai dar certo. Eu era péssima em conseguir controlar minhas emoções e sempre em situações de nervosismo eu tendia a ficar mais insegura de mim.
— Boa tarde, eu vim para a entrevista com o senhor .
O porteiro me encarou com uma cara de poucos amigos, tentando me intimidar, e deu certo. Engoli a seco e segurei com mais força meus itens, repetindo um mantra de que ia dar tudo certo.
O senhor de meia idade pegou o telefone ao lado de seu computador e começou a conversar com a outra pessoa na linha, então franziu a sobrancelha quando me olhou.
— Como é seu nome? — sua voz era rouca, intimadora.
. . — minha voz era trêmula de nervoso, mordi minha boca pressionando um pouco os dentes no lábio inferior.
O senhor de poucas falas desliga o telefone e o coloca no mesmo lugar, para então me olhar de cima a baixo. Que foi? Está achando que vou assaltar esse prédio?
— Está liberada. Apartamento 52, fica na cobertura, assim que sair do elevador, já irá sair na casa do , ele pediu para esperar por ele na sala. Agora vai logo que eu tenho mais coisa para fazer.
Minha boca foi ao chão com a má-educação desse cara. Viro a cara e atravesso o portão de vidro, mostrando a língua assim que ele não pôde mais me ver. Cretino! A porta do elevador se fecha e eu quase caio quando ele começa a se movimentar ao apertar o número da cobertura.
Fecho os olhos, tentando não pensar que esse elevador poderia dar algum problema e eu ficar sozinha na escuridão desse lugar, já que as paredes eram totalmente pretas, só o espelho e o retângulo com os botões eram prateados. Se desligasse, eu não saberia nem o que fazer ou que botão apertar, pois eu tinha medo de altura e de lugares pequenos.
Assim que a ampla claridade e o barulhinho da porta se abrindo se fizeram presentes, eu abri os olhos e percebi que estava numa posição ridícula, os dois braços esticados, tentando me manter em pé, e as duas pernas abertas. Me recomponho e saio praticamente correndo do pequeno, mas assustador, elevador.
Na corrida, eu acabei batendo sem querer em um vaso branco com flores que tinha em uma mesa redonda na sala perto do sofá gigante e ele foi ao chão.
— Merda, . — tampo minha boca.
— O que...
Um homem, parecendo o poste que vi próximo ao apartamento, sai do corredor estreito ao meu lado direito, com um olhar que demonstrava seu notório anseio em descobrir a causa do tintilar dos vidros se chocando contra o chão de porcelanato. Sua respiração era ofegante e seu cabelo derramava alguns resquícios de água, provavelmente estava tomando banho, e meu Deus, engoli o resto de saliva em minha boca com a visão do paraíso dando um leve sorriso com seus lábios fechados, um pouco entreabertos eu diria, como se soubesse o que estava passando pela minha mente. Foi aí que eu voltei à minha razão.
— Você deve ser a , não é? Não se preocupe com o vaso. — com o dedo indicador mirando os cacos no chão, ele dá uma leve risada.
Ótimo, , bela apresentação ao seu chefe. O que ele deve estar pensando de você agora? Além de doida varrida, provavelmente pensa que eu sou uma tarada. Completamente sem reação, dou alguns passos para trás quando ele adentra parcialmente o cômodo, com os braços dobrados na cintura, local proposital, pois como estava de toalha de seda azul bebê com estampa quadriculada, não quis deixar que ela caísse. Apesar disso, senti minha bochecha ficar vermelha e transmitir exatamente o que eu estava pensando.
— O gato comeu a sua língua, ?!
Oh, se comeu!
balança os dedos em minha frente para me despertar da vista maravilhosa. Foco em seus olhos esverdeados e cristalinos como uma esmeralda enquanto ele me fitava impaciente esperando alguma fala minha.
Molho meus lábios e até chego a abri-los para dizer algo sobre esse momento constrangedor, no entanto, deixei que meus olhos respondessem por mim. Que vergonha, ! Ele é a droga do seu possível novo chefe!
— Desculpe... — olho para o vaso feito de fibra de vidro na cor branca, pensando que foi uma nota para conseguir o objeto, e, por instinto, me abaixo para limpar a sujeira que causei. — Eu juro que vou pagar tudo, eu...
— Você vai se machucar! — sinto sua mão na minha quando ele se abaixou para me impedir, porém foi tarde demais.
— Aí! — mordo o meu dedo para estancar o sangue ao pegar um pedaço afiado. — Desculpe, senhor . — incluo em minha resposta enquanto me levanto rapidamente. — Isso não vai se repetir, quer dizer... Principalmente agora que já sabe do meu defeito. Aí meu Deus, que vergonha.
Se tivesse um buraco negro aqui no meio dessa sala minimalista linda e maravilhosa para os amantes de decoração, eu já estaria no fundo dele. Por que o mundo é tão injusto com certas pessoas? Eu não podia ter vindo normal não?
me ajuda a levantar, segurando minhas finas mãos com firmeza, me fazendo ter calafrios ao encontrar o brilho beirando a curiosidade de seu intenso e profundo olhar verde.
Como um choque, me desvio de suas mãos firmes e me desloco de um lado para o outro, inquieta. Eu estava com vontade de desabar ali mesmo, meu dia tinha começado uma merda, sabia que não deveria ter saído de casa e ouvido meu horóscopo. Tudo começou quando eu caí da cama quando meu despertador tocou, a cafeteira queimou, cachorros começaram a correr atrás de mim durante o caminho até o orfanato, manchei minha roupa preferida de tinta guache e ainda não consigo realizar uma simples tarefa de tirar fotos. Além do mais, encontro o menino misterioso de alguns dias atrás!
Prazer, sou , dezessete anos, à procura de uma vida mais segura e sem trapaças, porém a vida acha engraçado eu me ferrando.
— Venha. Vamos fazer um curativo.
Já no banheiro, fecho os olhos quando ele passa algum remédio para estancar o sangue, fazendo a ferida arder um pouco. Ele ri baixinho da minha reação. Deve estar achando que eu sou uma idiota como todo mundo.
— Dia ruim?
— Um pouco. — mordo meus lábios com a pressão que é feita em meus dedos quando ele pressiona o algodão. — Desculpe, senhor , quer dizer, por tudo...
Suspiro um pouco mais aliviada. Eu já estava acostumada a ser taxada como a palhaça da família desde pequena, pessoas rindo de meus tombos, e eu sinceramente não me importo mais, porém isso tem atrapalhado principalmente meu lado profissional e eu não queria que todo mundo pensasse que eu sou uma criança crescida por isso.
, por favor. Me sinto velho assim. — ri de seu comentário. — Bom, agora que o sangue já está ameno, não mexa nos cacos de vidro, por favor. Eu vou terminar de me trocar para começarmos sua entrevista, OK? Espero aqui!
— Eu ainda vou ter? — minha cabeça pende para o lado. — Quer dizer, muitas pessoas nem dariam a chance para alguém como eu.
Tenho certeza que ele não sabe o perigo em que está se metendo. Eu ainda vou fazer um prejuízo naquele estúdio, eu tenho certeza disso, e isso é o que não poderia acontecer, afinal, ele mexe com bebês, é quase como se fosse um filho seu e era importante ter muitos cuidados em relação ao ambiente e à estrutura, e se eu derrubasse qualquer coisa, iria colocar milhões de vidas em risco.
— Quer dizer, eu vou entender se o senhor quiser deixar a vaga para outra pessoa menos...
Admiro sua calma ao colocar os produtos de volta na caixa em seu devido lugar, depositando novamente dentro do espelho rotativo para a lateral, porém o seu olhar atravessado ao me ver o chamando por senhor me fez rir.
— Eu não sou como todo mundo, . — ele piscou saindo do espaçoso banheiro, me deixando atônita.
Observando rapidamente o lugar, noto uma bela banheira na área central atrás de uma janela coberta por uma cortina de tecido branco que ia do teto até o chão e cada parede tinha um conjunto de dois vasos exatamente iguais ao que quebrei, porém da cor preta, a mesma da banheira.
Eu estava sentada em um tipo de poltrona de espera, de frente ao imenso conjunto de espelhos verticais posicionados em cima de um balcão branco com várias gavetas embaixo, provavelmente para guardar seus utensílios de banheiro. Ao lado dos espelhos tinha alguns quadros decorativos, mas nem prestei muita atenção, pois a curiosidade bateu para dar uma olhada ao redor do lugar que eu estava, pois só o banheiro daria o tamanho do meu loft inteiro.
Saio do ambiente que estava com uma temperatura amena em direção à entrada do apartamento. Apesar do corredor ser estreito comparado ao restante dos outros cômodos, não deixava de fazer parte da composição da casa, simples e chique, apenas com uma mesa de vidro com alguns vasos de plantas, já era notório que ele gostava de cuidar da terra e alguns quadros feitos a mão. Chegando à sala quase tão grande quanto o cômodo anterior, o que mais me chamou a atenção foi a claridade e a paz que o ambiente emitia, pois refletia a vista maravilhosa do mar, tinha uma parede composta só por janela que ia do teto ao chão por toda a extensão. Bela vista. Como seria acordar toda manhã podendo ver o mar? No meu apartamento, eu só conseguia ver um tiquinho dele entre os prédios.
— Bela vista, não?
Tomo um susto com seu tom de voz firme atrás de mim. O que esses homens têm que adoram me pregar susto? Me viro em sua direção e o mais velho está agora devidamente vestido, com um moletom regata que tinha na parte de trás um lindo capuz preto, sua bermuda era de malha moletom cinza, o deixando com uma aparência ainda mais jovial.
Minha sobrancelha franze com os poucos relances de cor que tem na casa e em seu modo de vestir. Não tinha nenhuma cor a não ser o dourado do whisky do bar da casa, próximo ao elevador. Deus, esse homem queria me matar com os seus bíceps à mostra desse jeito e eu ainda tinha muito para viver, já imaginou na manchete do jornal “jovem morre por conta de beleza do seu chefe”? Seria eu.
—Venha, senta-se. — apontou para o sofá em forma de L no meio do cômodo.
O sofá era confortável, porém me senti uma nanica quando ele sentou em sua mesa de centro quadrada feita de vidro, ficando cara a cara comigo. cruzou os braços musculosos em seu peito e pigarreou. Minhas pernas estavam dobradas, afinal, eu usava um vestido que não era tão curto, ia até o joelho, e posiciono minhas mãos sobre meu joelho.
Que situação desconfortável.
— Você trouxe as fotos que eu pedi?
— Não, senhor. — ele franze a sobrancelha, com um olhar bem intimidador. — Quer dizer, eu até tentei, mas acabei perdendo meu pen drive no aeroporto quando cheguei, e quando fui em busca de novas fotos, a assistente social disse que o evento do orfanato só...
— Mas o que o orfanato tem a ver? — seu tom era de dúvida, me fazendo ficar ainda mais nervosa. — Eu só pedi para você me trazer exemplos de fotografia que você está acostumada a fazer para ver seu tratamento de imagem, não precisa ser algo recente, poderia me mostrar através do seu Instagram, ou portfólio digital.
— Eu sei, mas... Eu queria explorar um novo nicho e achei que se eu conseguisse trazer algo inovador ia ser mais interessante, já que sou nova aqui na cidade e queria trazer uma coisa totalmente fora do meu ambiente. Desculpe por isso.
Abaixo a cabeça, arrependida. Eu tinha várias fotos prontas, só que eu não sabia como iria funcionar o processo de trabalho, se eu teria que chegar próximo ao estilo de foto que ele está acostumado a fazer. Sei que Bennet é um ótimo fotógrafo de newborn e crianças em geral, as fotos deles são sensacionais e eu só queria o impressionar um pouco. Tive a oportunidade com , quando o conheci ontem, e fiquei ainda mais tentada a fazer as fotos da pequena Yasmin, pois sabia que seria um momento importante para ele, ter gravado os detalhes da filha, só que nunca ia imaginar que eu o iria encontrar no abrigo onde meu pai trabalhou antes de ir para o Brasil.
Ele coça a nuca, claramente nervoso e ergue o olhar para o teto, como se tivesse algo maravilhoso lá além daquele lustre encantador, provavelmente me mandando para aquele lugar. Entendo seu desespero, provavelmente ele está cansado de fazer entrevistas, afinal, seu anúncio demonstrava urgência por assistente.
...
— Ela me liberou para fazer as fotos hoje à tarde. — encaro o relógio em meu pulso. — Na verdade, daqui uma hora...
— Esquece. — ele bufa, levantando da mesa e indo até um minibar ao lado do elevador, se servindo de whisky. — Só não ofereço isso para você, pois é muito nova. — beberica um pouco do líquido amarelo com um gosto horrível do cacete, e apesar disso ele não faz nenhuma careta.
se encosta na mesa retangular, cruzando os braços novamente, agora com o copo na mão e um pé no apoio que mantinha a mesa de pé, a mão direita dentro do bolso da bermuda da mesma perna que estava apoiada.
— Se fosse outra pessoa, já nem iria continuar essa entrevista, por mais que sua intenção tenha sido boa, . — concordo levemente com a cabeça. — Você tem algum lugar para ficar aqui na cidade?
— Meu loft, há duas quadras daqui.
— Ótimo, eu iria oferecer a minha casa como estadia, mas como já tem seu apartamento e é perto, acredito que vamos manter um fluxo de horário razoável, o estúdio é do outro lado da rua, ao lado da Starbucks. Eu vou te dar uma chance dessa vez e espero que eu não me arrependa, eu realmente achei interessante todas as respostas que você colocou nas informações que eu pedi, eu vi vontade de crescer em você, , e isso é raro hoje em dia, mas...
Sempre tem a merda de um mas! Era agora que vinha a hora de eu dizer que meus pais tinham razão em dizer que eu estava me prejudicando muito me mudando do Brasil para os Estados Unidos, que lá eu também poderia crescer.
Aperto o sofá, para espantar o nervosismo, pois ele fica me analisando com aquele olhar intimidador, não tem como saber o que está pensando e aquilo me deixa apavorada. Ele apenas riu, já eu estava praticamente com o coração na mão.
— Você não vai a esse orfanato, pelo menos não por hoje. — beberica um pouco do whisky. — Nós vamos até meu estúdio, o dia vai ser corrido, tenho muitos bebês para fotografar. Enquanto isso, você vai fazer o seu teste com essas fotos que eu obter hoje.
Eu me belisquei discretamente para ver se era mesmo real o que eu acabei de escutar, e a julgar pela dor que senti, era sim, Miami que me aguarde. Abri um enorme sorriso depois de alguns segundos em choque. tinha me dado a porra de uma chance!
— Isso é sério?
— Eu pareço estar brincando? — e ri quando eu praticamente voo em cima dele, o abraçando. Para se equilibrar e não quebrar na mesa, ele me segura com seu braço direito em minhas costas e se apoia na mesa pequena de vidro com o esquerdo. — Calma, , é só um teste.
Apesar do tom de brincadeira, me afasto, lhe dando um pouco de espaço pessoal. Eu tinha que saber lidar com minhas emoções! Pare de passar vergonha, Íris.
— Obrigada de verdade, senhor ! — ele franze a sobrancelha. — , desculpe. — ri de novo. — Eu... eu tenho que...
Pego minha câmera desajeitadamente e tento caminhar para a saída, mas simplesmente me impede, segurando meu braço com uma leve firmeza e me dando aquele olhar que me dizia para esperar, pegando sua chave, sua própria câmera, óculos de Sol, boné e os outros equipamentos que estavam em sua casa.
— Toma aqui. — ele oferece a mochila dele e eu fico encarando aquela mochila, porque seria um sonho poder ter uma dessa. — Ainda cabe mais alguma coisa, deixa que eu levo seus acessórios, já vi que você é um pouco...
— Azarada? — arrisquei dando risada e colocando meus pertences em sua mochila, fechando o zíper em seguida.
— Eu iria dizer, atrapalhada, mas... Vamos nessa, temos muito o que fazer hoje.
Saímos de seu apartamento pelo meu inimigo, o elevador. Quando ele fecha, começo a contar até cem para tentar acalmar o nervosismo. Era hoje que minha vida poderia ter um rumo diferente e eu poderia voltar a ser quem eu era.
Você deve estar se perguntando nesse momento como eu vim parar aqui em Miami para começo de conversa. Bom, eu tinha uma carreira lá no Brasil, graças ao meu adorável pai Donato , que me introduziu nesse mundo maravilhoso da fotografia. Ele diz que fotografia é uma arte e que poucos tem o dom de conseguir transmitir amor, vida, sentimento e emoção em uma única só foto, e desde que, bom, “me encontrou”, me incentiva a registrar os detalhes da vida que ninguém vê e somente nós temos o poder de registrar.
Tendo essa frase como um mantra ao passar dos anos, comecei a me dedicar mais e criar meu próprio estilo de fotografia. Para vocês terem uma noção, eu não sabia e nem dava a mínima para moda até a começar a estudar fotografia de moda e direção de modelos.
Eu me tornei uma pessoa que eu nem sabia que existia em mim e fiquei feliz por ter me encontrado nesse lado, já que o sonho da minha mãe era que eu me vestisse como uma princesa, mas eu nunca tinha me acostumado a isso, pois eu cresci em vários orfanatos. O último que eu parei foi o orfanato Lovely Life, e foi por isso que tinha insistido para a moça me deixar entrar. Foi ali que encontrei a minha família e queria demonstrar para as crianças que sim, tem alguém se importando com elas e que elas nunca devem deixar de sonhar. E quando estivessem mais velhas e olhassem para aquelas fotos, iriam lembrar do quanto foram fortes e guerreiras.
Que o mundo ainda tem esperança.

Capítulo 7 – O lado bom da vida

POV

— Você precisa manter a calma. — a suavidade com que Conrad lidou com meu momento de desespero era até surpreendente para meus ouvidos. — Ser escolhido, , não irá te prejudicar em nada, garoto. Ser escolhido é uma sensação tão boa que eu não tenho nenhuma definição agora para te fazer compreender o que realmente significa o ato de adoção em si. A única coisa que eu te peço é que dê uma chance a esses cônjuges que vieram de South Beach para te ver. Eu entendo que as experiências que você passou com os demais fora daqui não tenham sido muito boas, porém, escolher o caminho que está querendo só por que as pessoas te devolveram? — a minha garganta arranha e sinto meus músculos endurecendo ao ver um pouco de cinismo em seu tom, como se meu sentimento fosse uma piada, e minha fúria era justamente por ele tocar naquele ponto tão incômodo e perturbador para mim, contudo, permaneço em silêncio. — Você tem tudo para ser um grande um homem, tem o poder de escrever sua própria história, mas eu não imagino você e sua filha sozinhos neste mundo egoísta de hoje. Pense comigo, a Yasmin é recém-nascida, precisa de muita atenção, e você não pode tirar o olho de cima dela. Se seus amigos te chamam para sair, para ir a uma festa na praia, ou seja lá o que vocês fazem, você não vai poder ir. Você não é mais esse jovem, agora você tem responsabilidades, vai precisar arranjar um trabalho digno para, além de se sustentar, ter o que dar de alimento para Yasmin, porque os itens de que ela precisa não estão baratos hoje em dia. — ele faz uma pausa, pensando no que eu iria dizer, mas abaixo a cabeça sabendo, que ele estava com a razão. — Nicholas e Katie vão te auxiliar, além de cuidar de você, pois, caso contrário, com que você iria deixá-la quando saísse daqui?
O casal que Conrad citou permanecia na sala de visitas, só esperando o momento em que eu fosse ceder, mas o que eles não sabem é que não deixo transparecer, sou difícil de lidar quando eu não aceito alguma coisa e essa situação toda era uma coisa que já estava mais que entalada na minha garganta.
Eu já fui uma criança como minha filha, e eu sei dos riscos que podem nos acontecer, principalmente pelo fato de eu ser menor de idade e a mãe não estar presente. Minha filha tem grandes chances de parar na mão de meu sogro, já que meus pais são desconhecidos, e meu medo era saber como ele iria lidar com uma criança que ele nem sabia da existência.
Tenho a forte sensação de que a desculpa que ele iria usar em algum processo de guarda era de que, por estar sentindo falta da filha, a criança o fazia lembrar de sua garotinha e tentaria me manter longe de Yasmin por falsidade ideológica, afinal, nem Ellie sabia quem eu era de verdade.
— Você sempre me disse que eu teria pontos lá em cima se eu sempre fosse sincero. — dei de ombros dando risada da comparação infantil. — E acho que está na hora de você saber de tudo. — um longo, grande e forte suspiro sai por meus lábios, demonstrando meu nervosismo.
Eu estava encostado no balcão da janela fabricada para fora do cômodo do escritório e Conrad estava sentado em seu sofá, mantendo os olhos sempre focados em mim. Miro a minha vista para a rua, que apesar do horário – era por volta de cinco da tarde –, estava vazia por ser inverno. Contudo, mesmo Miami sendo uma cidade mais litorânea, ainda sim tinha suas tardes geladas, como hoje. Para a minha surpresa, acabei de presenciar literalmente apenas um panfleto sendo arrastado pelo vento através do asfalto cinza, assim como eu me sentia em relação à história que eu iria contar agora.
— Eu estava voltando das aulas, quando meu amigo William chegou na cafeteria. Ele era completamente o oposto de mim, brincalhão, esperto e de bem com a vida, apesar de ter muitos problemas para lidar em casa...
Continuei focando no panfleto após iniciar a lembrança daquele dia de outono. Por um momento, ao me lembrar de Will, eu me senti aquele como o objeto amassado, passeando pelos carros enfileirados e elegantes na beira da rua, uma comparação patética, mas era o sentimento que eu me recordava quando me lembrava da escola que eu saí e dei graças a Deus por isso.

Flashback on

— Olha o garoto aí. — meu amigo William se joga na mesa retangular de madeira na cantina do colégio mais tenebroso de Miami, pegando uma maçã da pequena cesta de palha que tinha por ali. — Como foram as férias?
Eu, como sempre, apenas escutava o incrível som da minha banda favorita, Metallica, com o telefone barato que Luke me emprestou escondido do orfanato. A nossa condição era de que eu poderia utilizar, mas que, ao final da aula, eu o deixasse no armário da escola, afinal, nosso abrigo não permitia eletrônicos.
— Mesma coisa, meus pais enchendo o saco e eu me mantendo fora de casa a maior parte do tempo. — uma ânsia subiu pela minha garganta. Eu odiava mentiras.
— Já pensou em se mudar de casa? Eu fiz isso e a maior parte dos meus problemas resolveu, já que meu pai resolveu me deserdar apenas por não querer seguir a profissão de seus sonhos, mas agora vejo que era exatamente isso que eu precisava, pois eu posso levar quem quiser para casa. Inclusive um monte de gatas.
Ri com seu comentário. William era um dos mais populares do colégio e não sei até hoje como ele me suporta, nos conhecemos desde pequenos, mas quando eu comecei a entender que o meu mundo era diferente do deles, eu acabei criando uma imagem que era a que eu queria, mas não tinha. Era doloroso ver meus amigos, ainda criança, saindo da escola com seus pais, rindo e recebendo abraços, entrando em seus carros, sendo que eu esperava um ônibus vir me buscar para chegar numa espécie de outra escola cheia de crianças barulhentas e birrentas.
No momento, apenas tinha dois adolescentes no lar, eu e Hunter, e nós acabamos nos aproximando nesse meio tempo, até porque, apesar de nossas diferenças e birras sem sentidos, tínhamos que manter uma imagem de que não estávamos ligando de ficar por ali e eu tinha que o ensinar algumas coisas, afinal, ele tinha apenas treze e mal tinha acabado de chegar no orfanato.
— Sua irmã não liga?
— Ellie? — ele debochou rindo. — Aquela lá não para em casa. Sabe, dizem que um irmão tem que proteger o outro, mas... eu estou cansado de fazer meu papel de irmão mais velho e tendo que cuidar de uma garota que só arranja problema e o pior, se prepara, o furacão vem estudar por aqui.


Flashback off


— Daquele dia em diante, eu fiquei com uma pulga atrás da orelha para conhecer a garota problema. — Conrad até riu comigo, pois sabia que eu não desisto de um desafio. — Só que eu não esperava que ela realmente fosse me causar um problema desse nível.
— Qual problema?
— Você sabe que eu sempre fui contra dar carinho para alguém, nunca gostei de demonstrar o que realmente sinto, pois minha opinião não vale de nada, afinal. — respiro fundo, fitando o mais velho, com memórias rondando minha cabeça. — Will não estava brincando quando disse que ela era como um mar em dias de tempestade. Eu tive a prova disso naquela exata segunda-feira, dia quinze do mês de julho de dois mil e nove.


— Hey, psiu! — um assobio fino me chama a atenção na saída do colégio. — Você conhece o meu irmão?
Continuo na mesma posição, encostado no muro de tijolos, esperando o meu ônibus vir me buscar. O meu dia tinha sido cheio e eu estava me preparando psicologicamente para voltar para o abrigo.
Odeio dias de provas surpresas e principalmente em duplas, como a que foi hoje, e minha companhia da vez, essa menina rebelde, está me perseguindo desde então, apenas porque eu fiz basicamente toda a prova sozinho e com certeza ela iria passar de ano.
Durante a prova, o máximo que ela fez foi ficar desenhando alguns rabiscos aleatórios com o dizer “Fuck the world”, me fazendo rir por dentro enquanto colocava no papel fórmulas e fórmulas de matemática que a gente nunca iria usar na vida.
— Você é surdo ou o quê? Eu estou falando com você!
Sou atingido por uma pedra em meu tórax, me fazendo pular de susto. Quem aquela garota pensava que era? Afinal, o que queria de mim?
— Se você não percebeu... Eu não estou a fim de papo.
— E minha paciência está se esgotando. Eu sei que você o conhece, afinal, ele é o todo poderoso Willian Wolf, o rei da malandragem, mas que morre de medo de um rato. Qual é, ele me fez esperar aqui para irmos à Target comprar umas coisas, mas não deu sinal de vida e como não conheço a escola, bom... Achei que poderia me ajudar.
Além de ter cabelos cor de fogo, para caracterizar ainda mais sua personalidade, ela tinha uma argola no meio do nariz, uma tatuagem de lobo em cima de uma pedra uivando para a Lua em seu braço, sem cores, e para completar o visual de roqueira que ela queria passar, suas roupas eram justas demais e de tonalidade preta, o que causa um contraste muito lindo com sua cor de pele branca, fazendo destacar seus cabelos.
— Depende. O que eu ganho em troca? — adiciono minha sugestão.
— Um chute naquele lugar.
Balanço a cabeça em negação com o atrevimento dela, totalmente o oposto do irmão. Will tinha matado a aula de matemática, que foi quando ela resolveu aparecer, por isso não tinha feito a comparação.
— Sentindo minha falta, maninha?
— Eu vou te matar por me fazer esperar aqui, eu tenho compromisso hoje, esqueceu? — ela responde atravessado, virando de costas para mim para encarar o seu irmão, me deixando observar aquela vista maravilhosa um pouco mais abaixo.
— Você mereceu. Isso é para você aprender a seguir horários. Não estamos mais na casa da nossa mãe e se você não quer ficar na casa do seu papai, Vicent, sendo a menininha mimada de sempre, pelo menos isso você tem que aprender a seguir. Eu não saí de casa para virar babá de adolescente.
— Idiota, eu vou a pé mesmo. Tchau, birrento.
Se dirigiu a mim caminhando com sua bunda rebolante em provocação. Meu amigo me encara em tédio e eu sorrio do seu desespero, ergo a mão como se “dissesse é seu problema”.
— OK, Ellie. Entra no carro. — grita Will. — E antes que você peça, não, você não vai dirigir.
Enquanto a irmã voltava até nós, arrumo meu boné meio sem jeito e com medo de eles verem o ônibus que, pelos meus cálculos, está um pouco atrasado. Uma hora, para ser exato.
— E você, ? — ergo a cabeça em direção ao meu amigo, que joga a chave para a irmã que a pega no pulo. — Como vai para casa?



— Foi aí que tudo começou a mudar, e por isso naquele dia eu voltei à noite e ganhei meu primeiro castigo.
— Eu lembro. — ele ri. — Você não foi nem um pouco esperto em esconder essa tatuagem de ondas em seu braço, que Hanna não me escute, mas se você tivesse me pedido, eu deixaria numa boa. Lembro que você me contou que a menina te colocou numa enrascada, ela parecia ser osso duro de roer. Mas uma coisa que você não deveria ter feito era mentir, você sabe o que eu penso sobre isso.
— Concordo. Mas como já disse antes, eu adoro desafios, e no começo, por mais que tenha sido uma situação estúpida da minha parte, ela se tornou um desafio para mim, principalmente quando seu irmão duvidou que eu ganharia seu coração.
— Mesmo assim, desculpe falar dessa forma, mas a menina morreu pensando que você era uma pessoa que na verdade você não é. Se você a amasse mesmo, não teria mentido.
— EU CRESCI NO MEIO DA MENTIRA. — gritei, perdendo a paciência. — ERA SÓ O QUE EU PODERIA OFERECER A ELA.
Lembro de me acalmar, respirando fundo, mas me levanto, indo até o balanço em que minha filha estava dormindo, seguro sua mãozinha gordinha e dou risada com a tranquilidade com que ela dormia.
Queria ser ela. Uma vida sem problemas.
, eu não quero brigar com você, afinal, eu tenho outros internos para me preocupar aqui também. — sinto a textura um pouco áspera de sua mão em minhas costas e sua voz em um tom mais perto de mim. — Eu quero continuar ouvindo sua história, mas estou vendo que você tinha razão, é uma história longa e as pessoas que estão loucas para te conhecer estão ali fora.
Agrado os poucos fios de cabelo da bebê, observando ela sugar a chupeta rosinha com o Taz Mania na frente. Era um movimento lento, mas preciso, como se não pudesse deixar aquela chupeta cair se não o seu mundo de paz iria desmoronar.
— Não sei se Hanna comentou com você na conversa, mas Katie e Nicholas são um ótimo casal, estão sim à procura de um adolescente e quando eles vieram visitar o orfanato por indicação de um colega, em um trabalho voluntário ano passado, enquanto você estava em uma das famílias anteriores… Os olhos deles brilharam quando você retornou. Você provavelmente não se lembra disso, pois o encontro de vocês foi breve, coisa de minutos, mas eles nunca te esqueceram e sempre estiveram por perto da maneira que podiam. Você não pode continuar com esse sentimento de descarte, . Não é porque você não se adaptou em nenhuma outra família antes, que você não vai se adaptar nessa. Você precisa aprender o lado bom da vida, aqui é só o começo da sua história e não o final dela.
— Aprender sobre o lado bom da vida? — minha voz sai rouca e irônica pelo estresse. — A vida só tem um lado, onde você decide qual caminho trilhar. Sendo bom ou ruim, o que importa? Foi sua escolha afinal, e eu escolhi o meu.
Pego Yasmin no colo e ela se encosta em meu peito, sem reclamar e sem acordar. Ela fechou a mãozinha no meu colar, como mais cedo, para saber que estava segura. A balanço lentamente e fito o mais velho, que entendeu perfeitamente o que eu quis dizer.
Esperança, era esse o motivo pelo qual esse assunto de adoção me incomodava, era a razão de ter noites turbulentas e de acordar como se eu tivesse acabado de levar um soco de algum adolescente revoltado bem na cara, com certas olheiras pela manhã. Eu detestava me enxergar no espelho pelo simples fato de não saber quem eu sou e a vida me impor a obrigação de eu ter que ir atrás desse fato.
Eu estou me descobrindo como o pai que faz de tudo para proteger a sua neném, mas que gosta do mundo da solidão. Não sei se isso é certo, se estou fazendo bem para mim mesmo, mas é o que eu tenho e eu não posso mudar. Claro que o sonho da minha vida é dar o que eu não tive para a minha pequena, mas eu sinto que ainda não chegou o momento, que tenho muito que evoluir e sei que para atingir o que eu busco, eu preciso manter a cabeça erguida e não deixar novos pais me moldarem para criar um novo eu, que pode não parecer agora, mas mudaria completamente a minha personalidade, a minha essência.
— Sim, pequeno gafanhoto. A vida é muito curta até o momento em que você percebe que sim, você precisa de muito mais do que tem e que só basta desvendar o que ela tem a oferecer. — ele riu ao passar a mão pelo meu cabelo, enquanto eu demonstrava uma carranca pelo apelido de infância. — A vida é muito mais que a solidão, e se você pensa que esse é seu destino final, está muito enganado, a ela te surpreende de maneiras que você nem imagina, você precisa aprender a driblar os obstáculos para enxergar um mundo que não enxergava antes para poder um dia acordar realizado, pois seu caminho foi muito melhor do que planejou. Essa é a graça de viver, e eu e Hanna estamos tentando lhe guiar para um dia você ser esse alguém muito melhor do que fomos. Queremos uma vida de sucesso para você, sabemos que é capaz de fazer qualquer coisa, pois tem um batalhador aí dentro. — ele cutuca meu peito com o dedo indicador e me lança um olhar firme e sério. — Tudo o que você tem que fazer é enxergar e se permitir ser amado. Acredito que a sala esfriou demais, pois sinto um arrepio nos braços com o conselho de Conrad. Ele sempre sabia o que dizer na hora certa. De onde ele sabe tudo isso? Eu não sei, mas que ele era um exemplo de coragem e força para mim, isso ele era. Apesar de ter 38 anos, Conrad era o típico cara que sabia demais da vida, como um idoso que já viveu demais e tem a alma jovial, isso era o que eu mais admirava nele.
O equilíbrio perfeito em relação à sabedoria.
— Posso deixar eles entrarem agora? — ele me pergunta depois de não receber nenhuma resposta. — Eu vou deixar vocês a sós e nada será escutado do lado de fora para a sua privacidade, e lembre-se: seja paciente, OK?
Aceno com a cabeça enquanto ele já caminhava em direção à porta acústica preta, me fazendo encostar no sofá numa tentativa falha de relaxar meu corpo. Eu odiava todos esses protocolos que eu já sabia de cor e salteado, e muitas vezes tinha todo um trabalho para chegar em merda nenhuma, como nas outras vezes em que eu tive que passar por experiências horríveis, no período de convivência com os adotantes.
Dou um beijo na cabecinha da minha bebê assim que escuto o que parece ser um resmungo e limpo a baba com o babador que parecia gigante para um corpinho tão pequeno, enquanto escuto a porta sendo fechada. É oficial então.

Capítulo 8 – Mandelli

POV

Eu fiquei surpreso quando eu vi com quem eu passaria pelo menos os meus noventa dias seguintes. Eu já conhecia um dos dois: Katie.
Eu não esperava por essa.
Se passaram apenas cinco minutos desde que chegamos em um dos milhares de restaurantes na Ocean drive, que durante o dia era ainda mais movimentado, porém mais relaxante do que as luzes neon da vida noturna de Miami Beach. Estávamos um pouco longe do abrigo, para ser mais sincero, há uns vinte minutos de carro, mas para mim parecia uma hora desde que chegamos.
Já era final de semana desde quando eles foram me ver pela primeira vez, e hoje era o primeiro dia com eles em que eu não voltaria para o orfanato.
Estava nervoso feito um cão, ainda mais por minha bebê não estar comigo, mas eles me garantiram que iríamos buscá-la antes de irmos para a casa deles, que ficava próxima ao restaurante, pelo o que Katie me informou.
O silêncio era monótono, angustiante, o barulho era apenas do ambiente e das pessoas, exceto as que estavam em minha mesa. Às vezes, conseguia ouvir as conversas ao fundo, como se nem notassem a cena caótica que eu estava enfrentando. A vista do mar, que surpreendente estava calmo para um dia de inverno, estava conseguindo manter minha respiração tranquila, apesar de estar entranhando meus dedos em baixo da mesa por puro nervosismo. Eu podia sentir a mesma sensação vindo do casal que me acompanhava.
Nicholas, meu suposto “tutor”, digamos assim, pai ainda é ainda uma palavra forte, finge uma tosse, atraindo minha atenção, enquanto Katie apenas se aconchega no colo do marido, sorrindo, tentando me tranquilizar, sem sucesso nenhum.
— O que achou do lugar, garoto? — sua voz era mansa, como se tivesse que pisar em ovos.
Dei de ombros, fixando meu olhar na vitrine de vidro com o letreiro do restaurante do lado de fora. Eu só esperava que os dias passassem mais rápidos para eu voltar à minha vida, e talvez fazer o jogo do silêncio desse certo.
, eu estou falando com você! — ele aumenta um pouco a voz, tentando me intimidar e mostrar autoridade. — É sério que...
— Bom dia, senhor e senhora Mandelli. Vão pedir o mesmo de sempre?
Somos interrompidos, graças a Deus, por uma voz que conheço muito bem. Viro em direção ao rapaz de cabelos negros que nos atendeu. Luke.
Então era aqui que ele trabalhava? Por que ele me disse que trabalhava em uma lanchonete e não em um dos melhores restaurantes de Miami, segundo a televisão? Ele teria muito o que me explicar.
?
— Luke? — perguntamos ao mesmo tempo.
Meu amigo mudou desde segunda-feira. Seu cabelo, que era longo, agora estava raspado nas laterais com um volume generoso no topo e um topete que, apesar de bagunçado, lhe dava um ar mais forte e sério. Coisa que era totalmente o oposto do meu amigo, mas eu entendia sua jogada, ele queria atrair mulheres.
— Vocês se conhecem? — Nicholas pergunta enquanto eu arfo de surpresa e alívio ao mesmo tempo e concordo com a cabeça. — Que coincidência, Luke trabalha conosco desde o ano passado, é um ótimo rapaz e bom vizinho também.
— Espera... Vizinho? — ergui a sobrancelha demonstrando minha dúvida.
— Pois é... — Luke passa a mão pelos cabelos volumosos. — Se me permitem a pergunta, o que faz com vocês?
Ele tenta desviar do assunto, pois sabe que fiquei puto ao saber da reação, mesmo não tendo tido ideia de que eles se conheciam, e apesar disso, ele não parecia surpreso em me ver por aqui, parecia até que me esperava e agora estava dando uma de esquecido, coisa que não passou despercebida por mim. Mas assim que eles me derem uma brecha, eu vou atrás de Luke e saber o motivo.
— Lembra de quando nos indicou o abrigo Lovely Life para ensinar as crianças a terem um dia de chefe na cozinha e se divertir ano passado?
Minha garganta coça enquanto volto a olhar para a janela. Eu me lembro daquele dia, eu conseguia os ouvir ensinando da janela da biblioteca, mas não cheguei a ir ver o evento, simplesmente por estar ocupado demais estudando para uma prova importante.
— Lembro sim, soube por Hanna que as crianças amaram e por isso durou mais que apenas um dia. Foi quase um workshop de culinária infantil. — eles riram, mas eu não. — Mas ainda não consegui ver onde entra nessa questão, afinal, pelo que comentaram comigo, estava em uma das casas da família que o queria adotar.
— Enquanto meu marido ensinava, eu fui dar uma volta para conhecer melhor o local. Encontrei Conrad no meio do caminho e expliquei nossa situação, até que ele me chamou para seu escritório e me mostrou várias fotos, mas a de me cativou. Ele mencionou que o menino estava em convivência com outros adotantes, mas que não tinha se adaptado e tinha voltado ao orfanato, só não esperava encontrar ele no dia seguinte, na biblioteca, tão concentrado estudando que não resolvi atrapalhar. Ele nos encantou, desde então, entramos com o processo de adoção e insistimos para que fosse parte da nossa família, pois mesmo sem ter tido essa oportunidade que estamos tendo hoje, de conversarmos, sinto que ele irá ficar conosco e ser parte de nós.
Sinto a suavidade da mão de Katie sobre a minha embaixo da mesa e a retiro de imediato. Ela não tinha esse direito. Tudo está muito confuso. Como assim Luke conhece o casal que pensa em me adotar? Encaro Luke, revoltado, mas tento esconder isso para não irritar o casal.
Ele sabia dessa merda o tempo todo.
— Mas quando você estiver livre do serviço, podemos conversar melhor sobre isso. Traz os melhores pratos, Luke, hoje vamos ter um dia diferente. Depois do café eu vou checar como anda a sede por aqui. Tudo bem?
— Sim, senhor. Com licença. — Luke me olhou atravessado e após anotar algo em seu bloco, caminhou para a cozinha prateada atrás do balcão.
Respiro fundo. Eu não queria ficar sozinho com eles. A razão eu não sei, pois aparentemente eles não me apresentam nenhuma ameaça, mas tenho consciência de que eles podem não ser como os outros, que agiam diferente na frente de várias pessoas. Mas e quando tivessem apenas comigo e, pior ainda, com Yasmin?
Meu coração começou a bater mais rápido apenas com essa hipótese, mas eu precisava ter certeza, e para isso eu tinha que bolar alguns desafios para eles, afinal, eles ainda têm muito que provar para a justiça para terem a minha guarda.
Tento pensar em Yasmin e em como ela estaria sem mim. Será que estava sendo bem cuidada? Que ideia, é lógico que estava, mas não posso nem sonhar em algo acontecendo com minha bebezinha. Ela é tudo para mim.
— Ela está bem. — Nicholas lê meus pensamentos. — Assim como você também está seguro com a gente.
— Não queremos lhe fazer mal, meu filho...
Filho. Eu não tenho nenhum vínculo com eles. Apesar de ter sentido um carinho por Katie, isso não quer dizer nada. Eu não sei as coisas que eles gostam, se tiveram mais filhos, ou porque querem me adotar sendo praticamente de maior e ainda levar uma futura neta com eles. Para mim, não existe palavra mais falsa que essa. Eles me conhecem há apenas três dias. Como podem me intitular desse jeito sendo que eu não consigo sentir isso e tenho medo de descobrir o verdadeiro significado dessa palavra?
— Eu não sou filho de vocês e se vocês querem meu respeito, precisam entender meu sentimento. — rebato sem dar chance para eles dizerem alguma coisa que me faça mudar meu comportamento.
— Como nós poderemos entender se você não demonstra e nem olha para nós?
Era fácil para ele falar assim, ele nem sabe o que eu tive que passar, principalmente pela última família, onde Hanna teve que me tirar da casa do adotante para praticamente me levar direto ao hospital.
Com o sentimento de revolta crescendo em mim, cravo meu olhar em Nicholas, não abaixando a cabeça, para mostrar a ele que meu sentimento é o que conta aqui e se eu não me sentir seguro, não adianta eles quererem forçar a barra.
Tinha uma razão para essa insegurança que eu venho obtendo com o tempo, pois antigamente eu ia com qualquer um fácil. Mas os obstáculos são os mais complicados, pois mexem com várias barreiras que eu lutei para construir, e se eu quebrar um tijolo que seja dessa barreira e permitir eles entrem, eu volto a ser aquele mesmo garotinho assustado da minha infância, precisando de alguém para lhe mostrar como é viver.
Percebo a espera de uma resposta vinda de minha parte, todavia vinha decidindo se seria atravessada ou não, se eu pegaria leve ou seria difícil e no momento que veio a coragem para dizer alguma coisa, Luke volta com os pratos, e ao colocar na mesa uma receita que parece risoto de camarão, ele me lança um olhar que dizia para eu me comportar.
— Obrigada, Luke, querido. — Katie chama a atenção do meu melhor amigo. — Só mais uma coisa, poderia nos trazer um vinho tinto?
— Claro. Com licença.
Com toda a cordialidade de sempre, meu amigo se retira da nossa visão, enquanto fixo meu olhar na receita de massa que estava com um aroma agradável, me deixando louco para degustar, pois era meu prato preferido.
Como eles sabiam disso? Eu não sei, mas pelo o que percebo, eles estão fazendo de tudo para ganhar uma mínima atenção minha, já que devem ter perguntado ao Luke, e como ele me conhecia bem, sabia exatamente o que pedir.
O cheiro estava maravilhoso, deixando meu paladar atiçado para experimentar, mas eu não vou cair no joguinho deles. Deus, por que teve que me fazer ser fraco em relação à comida? A aparência não estava me ajudando também, não tinha a mesma aparência que a do abrigo, que, convenhamos, era pastosa demais e nojenta, e só de olhar embrulhava o estômago. A última cozinheira que Hanna contratou era horrível.
Já esse risoto me fez molhar a língua de tão apetitoso, me deixando tentado a sentir a textura e o sabor desse prato de chefe, diga-se de passagem. Ao ouvir um barulho de talheres, só então noto que eles já começaram a comer, meio sem jeito por esperar que eu faça o mesmo.

POV

Dou play na música Sweet Child O’ Mine assim que começo a praticar minha corrida matinal, para começar o final de semana sem o estresse que essa cidade pedia para a gente não ter. Miami é conhecida por muitos como uma cidade de férias e talvez por isso eu sinto que devo desfrutar um pouco do título dado à cidade perfeita em cultura em que eu vivo. Desde que saí da prisão, muita coisa mudou e eu ainda não tive tempo de explorar tudo e registrar tudo por puro hobby.
Durante meu trajeto de sempre, vejo muitas crianças na areia com seus pais, se divertindo ao jogar vôlei, ou simplesmente jogando frisbee com seu cachorro. Dei risada ao mesmo tempo em que arfava de cansaço e sentindo o suor em minha pele. Apesar de ser de manhã, o Sol aqui estava infernal, então resolvo tirar minha camisa, a jogando na mochila quando encosto em uma árvore para tomar água de minha garrafa preta personalizada com a logo do meu estúdio.
Cara, que água refrescante da porra. Podia até sentir o tesão dentro apenas com a merda de um gole da água. Acho que Hanna tinha razão quando disse que eu estava ficando muito tempo sozinho.
Solto a respiração enquanto fecho o objeto, o guardando no local de origem, e arrumo meu fone de ouvido. Mas ao me levantar do chão após fechar minha mochila onde carregava meus pertences de fotografia e outras coisas a mais, vejo a foto de um dos pratos que fiz para um dos meus clientes, Mandelli, e resolvo ir até o restaurante ver como tudo está por ali. Para a minha surpresa, ele mesmo abre a porta para deixar a esposa e um garoto passarem por primeiro. Checo se posso atravessar a rua em segurança e, ao chegar próximo, os chamo. Eles olham em minha direção sorrindo e acenando.
— E aí, , como vai a vida? — nos cumprimentamos com um toque de mão sem nada de enfeites e nos abraçamos de lado. Cumprimento sua esposa com um aceno de cabeça.
Caminhamos para longe da porta até um dos bancos que tinha no lado anterior na rua, onde o garoto que permaneceu de cabeça baixa o tempo inteiro se sentou ao lado de Katie enquanto eu e Mandelli ficamos em pé.
Pude ouvir ela falando algo com ele, mas a música em meu ouvido e a conversa com Mandelli ficou em primeiro plano, me impossibilitando escutar algo. Mas pelo o que pude observar do breve movimento de cabeça que ele deu, ele era conhecido.
— Corrida. Agora estou com uma assistente e está me ajudando muito, consegui aumentar meu fluxo de trabalho pelo pouco tempo em que ela está comigo, parece estar feliz com o emprego. Fora isso, tudo na mesma.
— Mas isso é muito bom, ainda bem que te encontrei, estou pensando em fazer novas receitas e pensei em te chamar para fotografar e também mudar algumas coisas no ambiente e divulgar em redes sociais, o que acha?
Uau. Mandelli realmente me surpreende quando os assuntos são negócios, ele nunca para. Fiquei surpreso por me chamar novamente. Mesmo que fotografar gastronomia fosse um segundo nicho que fotografo, eu não costumo fazer com frequência e é raro eu ter clientes fixos nessa aérea.
— Antes que diga não, saiba que meus clientes aumentaram depois que lançamos suas fotos, então tenha em mente que você é considerado um fotógrafo oficial do nosso restaurante e que sim, pretendemos te contratar. Apesar de não ser sua área, seria como uma renda extra para você, não queremos outro fotógrafo.
É por essas pessoas que vale a pena batalhar duro e ver quanto seu trabalho afeta a vida delas. Sorri verdadeiramente, demonstrando meu respeito por sua decisão. Sim, seria um baita trabalho, mas eu realmente esperava uma renda extra, porque, afinal, eu estava precisando de um retorno com o dinheiro que eu gastei com o detetive que me retornou, porém não moveu um passo para a procura do meu filho e isso fez com que eu despencasse e voltasse à estaca zero novamente.
— Cara, você não tem noção de como me deixa feliz ter uma notícia boa dessas em dias turbulentos, é sensacional. É lógico que eu aceito.
—Sabemos muito bem, não é, amor? — a esposa concordou, ainda que estivesse tentando atrair a atenção do garoto. Franzi a sobrancelha pela quietude. — Também passamos por isso esses dias, até que finalmente nosso filho está conosco.
O garoto, que estava de cabeça baixa, a levanta, fixando o olhar em Nicholas, e pela expressão, julgo que ele queria sair correndo dali, sei exatamente como era a sensação.
Esqueci que Mandelli tinha comentado que estava esperando um processo de adoção dar certo, pois vinha enfrentando alguns problemas com Katie. Ela tinha entrado em depressão depois que perdeu o filho em um acidente de carro, onde o mesmo estava dirigindo, e só retomou o mínimo brilho no olhar quando ele sugeriu a ideia de adotar mais uma criança. Só não esperava que fosse um adolescente.
Mandelli chamou o garoto para ficar de pé e se apresentar, literalmente como se fosse uma escola, mas eu entendo a animação, só não achava necessário forçar o garoto a passar por isso. Quando o jovem de cabelos loiros me olha, meu coração de certa forma falha e eu não entendo o porquê, talvez por saber exatamente quem ele era.
— Oi, garoto, como se chama? Eu sou o .
— Oi... Sou . — o garoto da videochamada de Hanna aquele dia em meu apartamento me responde, com a voz baixa e engolindo a seco, com as mãos no bolso de seus shorts.
. Ri com a frequência com que esse nome tem aparecido na minha vida frequentemente, quando tudo o que eu mais queria era dar um tempo a ele. A vida estava de sacanagem comigo.
— Muito prazer, . Fiquei feliz que encontrou os Mandelli, vai aprender muito com eles. São um excelente casal, pode escrever o que estou te dizendo.
Faço o mesmo aperto de mão que fiz com Mandelli mais cedo, mas dessa vez foi diferente, eu senti um breve arrepio pelo corpo quando nossas mãos se tocaram, algo que eu descreveria como um choque momentâneo, mas logo passou, e dessa forma eu soube que esse garoto merecia uma vida especial.

Capítulo 9 – Tudo o que tenho

POV

rapidamente se livra da minha mão para voltar à sua posição retraída de antes. Pelo o que eu me lembro do vídeo, ele não era assim, era o oposto, mesmo que estando em uma situação desagradável.
— Pelo visto você não é de falar tanto, não é?
— Ele só está tímido, mas vai perder logo esse costume convivendo com nossa família italiana. — Mandelli me interrompe apressadamente, aparentando estar envergonhado pela atitude introvertida do rapaz mais novo. Afinal, era comum ele reagir assim perante a uma situação como essa, onde ele está com pessoas estranhas e é apresentado para mais gente estranha ainda.
— Vocês são da Itália? — o garoto questiona saindo de sua bolha.
— Não, mas temos sangue, por isso decidimos abrir um estabelecimento que apesar de vender frutos do mar, também oferece comida italiana.
— Comida italiana é uma das minhas favoritas, a mãe da minha filha sabia fazer uma lasanha muito boa.
Sorri abertamente, acho que já entendi a jogada do moleque e eu devo uma para Nicholas e Katie, então resolvo de última hora que irei fazer com que o menino se solte mais, afinal, Hanna tinha me dito que ele tinha alguns problemas em relação a se soltar mais com as pessoas, e vendo pelo ponto de vista dele, estar sozinho com dois estranhos era muito mais difícil do que estar rodeado de pessoas.
— Mãe da sua filha?
— É... — seu lábio forma uma linha fina com o sorriso fechado. — Ela faleceu no começo desse mês, quando minha filha nasceu.
Então era esse o alguém que ele tinha para apresentar a Hanna aquele dia e por isso seu olhar cansado. Eu lembro de ter sentido o mesmo quando o meu filho nasceu, apesar de estar feliz... Mia tinha se drogado aquele dia novamente com heroína, segundo os exames médicos, e estava tendo um surto psicótico, foi por pouco que ela sobreviveu após o parto.
— Sinto muito pela sua perda, acredite, eu sei muito bem como é essa dor, mas cadê sua filha? Eu sou fotógrafo de newborn e como eu devo uma para os Mandelli, posso te oferecer esse ensaio para sua menininha. O que me diz?
Seus olhos brilharam com minha pequena oferta. Observo a reação alegre do casal por estar entendendo o que quero fazer com o garoto, e li um obrigado descrito nos lábios de Katie e seus olhos emocionados me dizendo que era exatamente isso que eles precisavam, mas que eles não sabiam como chegar ao rapaz.
— Ela ficou no abrigo... — ele retorna o olhar pelo casal. — Podemos ir buscá-la? Eu não quero ficar longe e ela achar que eu a abandonei.
— Filho... — Katie recebeu um olhar atravessado. — , combinamos de ir pegá-la apenas no final da tarde, lembra que iríamos comprar as coisinhas dela hoje?
— Mas...
Me posiciono ao lado do rapaz, determinado a fazer Mandelli, que é o homem mais calmo do mundo, perder a paciência. O abraço de lado, que apesar de ter estranhado, não relutou.
— Katie, Nicholas, eu sei que vocês combinaram de sair somente os três, mas e se alguém permanecesse de olho na bebê? Olha, sei que pareço estar dando uma de intrometido e isso pode acabar me prejudicando, mas como eu ofereci o ensaio para o garoto, seria legal eu conhecer a bebê que irei fotografar antes, o que me dizem?
Como um bom fotógrafo, eu sempre tinha que estar com as respostas para as questões que fossem surgir na ponta da língua e outra, se eles concordarem, iria oferecer para levar o garoto até o orfanato e ver como as coisas andam por lá.
— Essa ideia não vai atrapalhar o seu momento de lazer? — ele aponta para mim, que estava sem camisa e praticamente pingando.
— De forma alguma. — dou alguns toques nas costas do rapaz que me olha sorrindo de lado. — Eu só preciso tomar um banho em casa antes.
Nicholas mantinha um olhar ainda pensativo, talvez com medo de que eu fizesse algo que o afastaria ainda mais de , mas a intenção é o contrário, e vendo de fora... O casal está praticamente em cima de , não o deixando respirar. Eu sei que eles estão empolgados e tudo mais, mas isso só afastaria o garoto, pois o que ele está precisando agora é de alguém que o apoie e não de alguém querendo fazer tudo com ele em um único dia.
E vendo pelo ponto de vista do rapaz, ele acabou de ganhar uma filha e se eles querem fazer com que o garoto tenha segurança neles, precisam ir por esse caminho. Ele quer alguém que o ajude com a pequena e não com ele, bom, pelo menos não por agora.
— Por favor, Nicholas. — pede, apesar de sério, ameno. — Sei que ando me comportando um pouco apreensivo, mas adorei a ideia de ter um ensaio da minha filha e isso será uma coisa inesquecível para ela, pois eu nunca tive a oportunidade de me ver quando era bebê.
Ele era esperto na jogada. Soube cativar exatamente o casal empreendedor.
Katie olhou para o marido em busca de permissão e ele retornou o olhar para ela, parecendo conversarem somente pelo olhar e pensamento, então coçou a sua longa barba grossa ao franzir a sobrancelha.
— Tudo bem. — ergue a mão em rendição, quando eu e o garoto fazemos um high five. — Mas com uma condição.
— Sim? — questiona ajeitando a aba do seu boné branco para trás e se encostando no tronco de uma palmeira perto de nós.
— Que você se sinta mais em casa.
encara a calçada cinza meio angustiado com a proposta de Mandelli, que, na minha concepção, está forçando o garoto a passar uma borracha por todo seu passado depressa demais, como se o que ele passou não tivesse valor até ele chegar aqui.
É claro que ele iria se sentir em casa, mas com o tempo. Não do dia para a noite. Seria a mesma coisa que se eu chamar para morar lá em casa e a forçar esquecer sua história. É natural que ela escolhesse pegar as malas e voltar para seu país no dia seguinte.
— Amor, não o vamos o forçar a nada. — Katie agrada a barba de Mandelli, com sua voz mansa, atraindo a atenção do marido. — O que combinamos?
— Eu só quero ver você feliz. Quero minha garota de volta.
Com essa frase, noto mais retraído e se afastando um pouco do casal, que parecia estar em um mundo onde só existiam os dois, esquecendo-se de que agora eles iriam ter que controlar o que falam. Sigo em seu encalço e ele para perto da casa de salva-vidas toda pintada de azul que tinha por ali.
— Tudo bem, garoto? — meu tom era baixo para não o assustar. — Precisa conversar?
— Eu só queria entender... — ele dá uma pausa e eu não ouso interromper seu pensamento, sei que precisa desabafar. — Porque eles me querem tanto. Olha, eu sou um monte de problemas, sou desorganizado, tenho uma filha, não sou perfeito... Sou antissocial. É isso que eles procuram? Eu não sei se sou capaz de fazê-los feliz quando nem mesmo estava conseguindo fazer a minha garota feliz.
Bem, o que eu poderia dizer para o confortar? Eu sei como é se sentir inferior depois de ter passado por tanto na vida. Mas uma diferença entre mim e ele é que eu fiz minhas coisas para conseguir minha felicidade, já , só por essa simples frase, quer deixar os outros felizes com as atitudes dele e acaba esquecendo de si mesmo.
— Garoto, você não tem obrigação nenhuma de fazer ninguém feliz. — encosto minha mão em seus ombros. — Você tem que acreditar mais em quem você é e no que você procura, pois se você ficar dependendo de fazer os outros felizes, você acha que um dia será capaz de encontrar a felicidade?
— Mas eu já sou feliz. Eu já tenho tudo o que preciso, , não preciso de mais do que isso.
— O que é o isso para você?
Ele permanece em silêncio após uns minutos pensativo. Acredito que ninguém tinha feito essa pergunta a ele, por isso seus olhos aumentaram assim que terminei de fazê-la.
— Não precisa me responder nem nada, mas pense sobre e você vai ver que você pode até estar satisfeito com o que tem, mas que tem um mundo bem melhor à sua espera. — pisco para ele com apenas um olho ao sorrir de lado, lhe transmitindo confiança.
— Como sabe dessas coisas?
— A vida me ensinou. — respondi a única resposta que eu não precisava pensar para responder antes.
Ele ia dizer algo, mas escutamos uns passos vindo até nós. Sigo a direção do seu olhar vendo o casal caminhar até nós de mãos dadas com um olhar apreensivo.
— Podemos ir agora, ? Temos muito o que fazer hoje, mas você irá escolher a próxima parada. — Katie pisca discretamente para mim me fazendo compreender que entendeu o que eu quis mostrar.
me olha confiante ao meu aceno de cabeça positivo, o incentivando a não ser tão duro com o casal, pois, afinal, eles também precisam se adaptar e o conhecer.
— Posso ir buscar minha filha? Por favor.
— Claro, vamos. Te encontramos no shopping, ? — aceno que sim enquanto vejo eles se afastarem com .
Ao entrarem no Audi v8 do casal, acena no banco de trás ao abaixar a janela enquanto se movimentavam para longe e eu retribuo apenas quando não conseguem me ver.
— É, Hanna, Conrad não vai gostar nada de saber que eu conheci o garotinho dele.
Resmungo impaciente ao colocar minha playlist para tocar e rumo até meu carro. Ao chegar perto do meu segundo filho, quase tenho um ataque com a cena que eu vejo. Meu peito começou a acelerar e uma prova disso é o relógio em meu pulso, que funcionava como um medidor de batimentos cardíacos, mostrando que eu estava pronto para ter um AVC ao notar um cachorro enorme mijando na porra do pneu da minha Lamborghini Huracán EVO.
Pensei em mil formas de matar a dona do cachorro, pois o bichinho não tem culpa que a sua tutora não tenha bom gosto para carros e fica fazendo o animal mijar nos dos outros por puro prazer de estragar a vida de quem ralou uma nota para ter aquela belezinha.
— Hey, quem pensa que é para deixar o peludo estragar o meu pneu? — grito ríspido enquanto eu corro até a pessoa que está segurando aquele belo Golden Retriever.
A dona do cabelo curto, mas brilhoso, se vira em minha direção, erguendo seu ombro, para não se mostrar ofendida pela minha acusação e me deu aquele sorriso filho da puta que deixou meu pau extremamente duro ao lembrar da nossa noite de luxúria.
Eu sabia quem ela era.
— Você?

Capítulo 10 – A garota

POV

Uma semana se passou desde que me mudei para uma cidade totalmente desconhecida por mim, e confesso, pelo pouco que eu vi, que estou amando. Aqui é uma cidade que vai da paz à algazarra de uma hora para outra e confesso que tem tudo a ver comigo.
Estava tentando arrumar minha casa, mas falhando totalmente porque já se passa do meio-dia e tudo o que eu consegui arrumar até agora foi apenas a sala que estava toda revirada e com os móveis fora do lugar. A bagunça até que era fácil de fazer, e divertida, o chato era arrumar depois.
Eu estava treinando algumas fotos minhas para mudar e ter algumas mais profissionais, mas no final não curti nenhuma e desisti de fazer. Eu sempre me achava péssima nas fotos e que não tinha jeito para ser modelo, mesmo que uma agência já tenha me chamado para modelar. Eu pensei que eles estavam ficando doentes ou precisando muito de dinheiro para chamar alguém como eu. Cabelos arrepiados, braços finos sem musculatura, baixinha, o rosto lotado de espinhas. Sério que eles querem alguém assim?
Dou risada ao ver aquela foto minha num porta-retratos, toda cheia de pose e lembrando de alguém que eu não era, e guardo no lugar correto, que era ao lado da televisão, em cima do balcão de madeira, quando meu telefone toca.
— Oi, pai. — sorri até as orelhas. — Sim, eu estou bem e o senhor?
Estou bem, bambina. — ri com o costume dele de me chamar assim. — Como foi sua primeira semana aí em Miami? Andou se alimentando? Se divertindo? Precisa de alguma ajuda com algo?
Meu pai sempre foi meio protetor. Tinha medo de que algo de ruim fosse acontecer comigo a qualquer momento e ele não pudesse estar por perto para me salvar, que nem ele fez quando era pequena. Eu sempre disse que ele foi meu herói aquele dia e que a vida foi marcada para nos unir. Desde então, ele sempre foi muito cuidadoso e carinhoso. Um excelente pai que a vida me deu.
— Está tudo ótimo, apesar de que estou estranhando essa vida de dona de casa e negócios. Aqui está tudo na mais perfeita ordem, porém estou com saudades de casa. — minha voz saiu manhosa, eu era muito apegada ao meu pai e à minha mãe, Lexie.
Você logo se acostuma, mas sempre que se sentir com saudade de casa, nossas portas estarão abertas para você. —sorri, mas franzi a sobrancelha, com o silêncio que se estendeu. — Meu amor, além de ligar para saber como você está, ligamos para te dar uma notícia não muito boa, mas que tentamos fazer de tudo para impedir.
Arregalo meus olhos ao sentar no sofá e beberico um pouco do chocolate quente para ver se o sabor adocicado ameniza minha ansiedade. Quando meu pai fala mais baixo e devagar, o assunto nunca era bom.
— Pode dizer, eu aguento.
Não tinha tanta certeza.
Diego está indo até Miami. Veio transtornado atrás de você e nos ameaçou para que contássemos aonde você estava.
Minha xícara branca caí no chão, tamanho choque que eu fiquei. Ele não poderia vir para cá, não depois do que ele fez comigo, com a gente. E ainda por cima colocar meus pais no meio da fogueira.
? Querida, me desculpe, Lexie disse para não te contar e que você poderia ficar agitada, mas respira. Por favor.
Eu precisava dizer algo. Apesar de meu coração estar acelerado mais do que o costume, acho que a cafeína realmente fez o efeito que é para fazer, já que comigo ela faz eu ter mais sono ainda.
Diego está vindo para Miami... Como ele descobriu que eu estava aqui? Quem teria a audácia de me sabotar e dizer... Já sei quem foi a desgraçada.
— Foi Summer quem o avisou? — meu pai ficou mudo com meu tom acusatório. Eu preciso bater em algo. — Pai, por favor...
Eu realmente não sei, mas ele deve estar chegando hoje e com sangue nos olhos. Melhor tomar cuidado, saia de casa, pois ele está indo direto para a sua moradia. Tenho que desligar agora, alguém está tocando a campainha. Te ligo depois, beijos.
E simplesmente desligou. Eu estava sem saber como reagir, para onde correr, o que fazer... Eu estaria em problemas muito sérios se Diego aparecesse aqui. Aquele cretino filho da puta. Desisto de limpar a casa e, ao levantar para pegar minha bolsa e resolver dar uma volta, eu piso no chocolate quente derramado, me fazendo pular de susto com a quentura do líquido.
Seguro meu pé que estava ardendo feito o cão e dou uns pulinhos tentando me equilibrar, mas, sem sucesso, acabo caindo no chão duro que era o porcelanato e desabo ali mesmo.
Como eu pude pensar que meus problemas ficariam longe de mim se eu mudasse de país? Merda. O que eu faço agora? Eu preciso sair daqui.

***

Depois de dirigir meu lindo fusca azul pelo que pareciam horas (e não apenas trinta minutos desde que saí minha casa), eu decidi fazer minha parada para refrescar a cabeça na Starbucks da famosa avenida Lindon Road.
Estava mexendo no celular enquanto esperava meu pedido na única mesa que achei vaga ao ar livre, quando sinto alguém tocar o meu ombro, meio sem jeito, me fazendo tremer toda. Fecho os olhos, temendo não ser ele.
— Hey, moça, seu pedido. — A menina que me atendeu, e que parecia ter minha idade, chamou minha atenção. — Você deixou cair isso lá no balcão da loja, perguntei se era de alguém lá, mas deduzi ser da senhorita, já que estava com uma parecida no braço.
Automaticamente relaxo meus ombros e quando vejo o objeto ao qual ela se refere, agradeço do fundo do coração por ela ter guardado para mim. Era uma pulseira de conchas que meu pai me deu no nosso primeiro dia juntos depois da adoção. Ele disse que essa pulseira iria me mostrar o destino que eu deveria seguir e por isso eu nunca deveria perdê-la.
— Obrigada... — leio o seu nome na plaquinha da roupa. — Sophia. Essa pulseira é meu amuleto, foi muita gentileza da sua parte achar a dona do objeto.
— Que isso, eu só fiz o que esperaria que fizessem por mim. Ah, não! — Ela esconde o rosto atrás da bandeja e olha para mim culpada. — Desculpa, mas eu tenho que ir.
Pisquei meus olhos várias vezes, sem entender completamente nada, e ao olhar na direção em que ela olhou enquanto saía de cena, me arrepio. Deus, como pode ser possível que meu trabalho me encontre no meio de uma cidade grande no final de semana e venha caminhando em minha direção, conversando com o que eu suponho ser um bebê em seu colo e fazendo coceguinhas em sua pequena barriga? Ele parece sentir que eu o estou observando e eu tento disfarçar bebendo um pouco de meu cappuccino. Mas ele sorri, mostrando aqueles dentes perfeitamente alinhados e apressa os passos, não demorando a chegar até minha mesa.
! — seu tom era mais calmo, diferente do que ele usava diariamente. — O que está fazendo aqui?
— Eu... — olho ao redor para arranjar uma desculpa, até que vejo meu próprio café. — Bebendo café?
Ele riu, e como se fossemos amigos, senta do lado oposto na mesa redonda marrom em tom de madeira e relaxa o corpo, sempre checando a bebezinha. Minha boca coça para eu perguntar se era sua filha, até porque no dia da entrevista eu não vi indícios nenhum de mulher, a não ser uma foto em um porta-retratos na mesinha pequena ao lado da televisão, onde apenas tinha a tal mulher com um vestido vermelho e os olhos fechados, sorrindo serena.
— Isso eu sei, mas curtindo essa cidade sozinha... Ainda não fez amigos por aqui? — ele tira seus óculos de Sol preto dos olhos e o posiciona na cabeça, já que não era necessário pois havia um guarda-sol grudado na mesa que nos protegia de virar um camarão. Balanço a cabeça em negativo. — Eu acho que tenho alguém para te apresentar hoje. Pode ser que venha trabalhar comigo e é pai dessa bebezinha aqui. Hoje tirei meu dia para ser babá e ajudar um amigo. Ele ainda não sabe que tenho essa proposta, mas vai facilitar nosso trabalho.
— Como sabe que ele vai aceitar? — a bebê começa a balançar os bracinhos, como se estivesse cansada de ficar enrolada no cobertor superquente em que a estava mantendo. — Deixa ela respirar um pouquinho, deve estar com calor e estamos na sombra. — ele me olha com a sobrancelha torta, como se perguntasse de onde eu tirei essa ideia. — Desculpe, mas é que ela vai começar a chorar em alguns segundos e não queremos ser uma atração.
— Já tem filhos, ? — sua voz era séria enquanto ele guardava o cobertorzinho na bolsa rosa gigante da bebê, e que tinha um rostinho de um filhote de leão muito fofo.
senta a bebê em suas pernas, a colocando parcialmente deitada em seu braço e segurando com firmeza suas perninhas gordinhas, e foi aí que eu reconheci quem era a coisinha mais linda desse mundo. Ao notar meu olhar de surpresa enquanto eu engolia a seco, ficou em alerta.
— O que foi dessa vez? Algo de errado?
Sim! Você sequestrou uma bebê de um pai adolescente e que ama a filha mais do que eu amo croquete de camarão. Como Yasmin está na minha frente agora? Minha respiração está acelerando e eu só não peguei o celular porque eu não sei o número de para avisá-lo que achei a sua garota.
Mas espera, eu me lembro de ter ouvido as seguintes palavras: amigo, babá e trabalho. Foi aí que eu sorri sem jeito, bebericando um pouco do meu café, tentando disfarçar um pouco do mico que eu ia pagar na frente do meu chefe e que poderia me fazer perder o emprego nesse exato momento. E isso eu não podia deixar acontecer. Diego não poderia me encontrar desempregada por aqui.
Respirei fundo e decidi ser direta. Meu pai sempre me disse para pensar nas coisas antes de fazer algum julgamento, acho que estou pegando o jeito.
— Você conhece o pai dessa criança? — balanço a cabeça, perdida em pensamento. — Quer dizer, é lógico que conhece, se não ela não estaria com você, né? — ri de nervoso enquanto via ele tentar disfarçar a gargalhada. — Eu nunca iria pensar que você a sequestrou, não é isso, mas... — mordo o meu lábio para disfarçar o nervosismo no instante em que ele me interrompe.
, se acalma. — e começa a rir, simples assim, de colocar a mão na barriga. — Ai, garota, só você para me fazer rir depois da catástrofe que aconteceu mais cedo.
Pelo menos alguém estava se divertindo comigo hoje. Dei uma leve risada para dentro, tentando esconder meu desconforto por ser tão direta no que eu falo. O próximo passo na minha vida era apreender a controlar isso.
Yasmin parecia estar se divertindo junto com meu chefe, pois deu um gritinho animado, enquanto balançava ainda mais seus bracinhos.
— Respondendo: não, eu não tenho filhos, mas é que essa bebê é filha de um conhecido meu, então só achei estranho você estar com ela sem ele por perto, senhor .
Levanto a sobrancelha ao ver o homem que fica fofo com um bebê no colo, mas se tirar o bebê... Só Deus na causa para não deixar a calcinha molhada. Engulo a seco com esses pensamentos pervertidos que nem eu mesma estava reconhecendo em mim, o observando parar de rir no exato momento que eu disse a palavra que faria voltar ao normal.
— O que eu já disse sobre me chamar de senhor? — ele se arruma desconfortável na cadeira e vejo seu pomo de Adão se mexer, demonstrando seu nervosismo momentâneo. — Conhece então?
— Sim, eu o conheci no mesmo dia que cheguei, há uma semana... Ele estava correndo pela praia com a pequena no colo, parecia querer fugir do mundo. Fiquei surpresa com a cena, nunca tinha visto algo parecido, então resolvi ajudá-lo. Ele parecia totalmente perdido e sem chão. Lá no Brasil, meu pai sempre me ensinou a fazer o bem ao próximo, e vendo que ele não me oferecia perigo, ofereci minha casa para ele se acalmar. Só depois fui descobrir que era o nascimento da menina e que a mãe dela havia morrido no parto, por isso estava agindo sem pé nem cabeça. Olha, eu me coloquei no lugar dele, ser pai ou mãe na nossa idade e ainda solteiro sem a pessoa que amamos é uma das piores coisas! Somos incompreendidos e acusados de ser irresponsável, mesmo quando nossos pais tiveram a gente quase na mesma idade.
— Eu entendo. Você foi muito gentil e com certeza ele deve estar feliz em ter te encontrado. O menino morava em um orfanato, agora está em período de convivência com uns clientes meus e por sorte encontrei eles na rua. Mas se você não o tivesse o visto, acredito que até hoje ele não teria voltado para casa, com medo do que a assistente social iria dizer. Afinal, ele é um adolescente assim como você, porém há diferenças.
— Ele vai ser adotado? — o interrompo, surpresa demais. — Quer dizer, eu o vi nesse abrigo que mencionou um dia depois, mas eu pensei que ele fazia algum trabalho voluntário lá.
A bebê começou a chorar, me deixando nervosa.
— O que ela está querendo? , todo mundo está olhando em nossa direção! — ele riu com meu nervosismo enquanto tirava uma mamadeira da bolsinha pendurada na cadeira. — Eu sei que bebês têm vários choros, mas é fácil saber disso, o difícil é na prática. Por que está tão calmo?
— Esse choro é de fome, . Ela está fazendo um som de "neh" e isso significa "estou faminto", olha a mágica.
Ele tirou a chupeta rosinha, o que elevou o choro, mas ao pressionar levemente a mamadeira na boquinha da pequena, o choro foi se acalmando aos poucos até não existir mais quando ela começou a sugar o plástico do pequeno objeto.
Em poucos minutos, ele já colocava a bebê para arrotar e me olhava em expectativa.
O que eu poderia dizer? era um cara fechado, na dele, sério e queria passar uma imagem de que só se importava com o trabalho. Mas quem o via trabalhando com bebês... Aquele gigante homem virava um super-herói de tão protetor que ele ficava com aquelas crianças, parecia até que ele era o pai delas por um instante.
E consequentemente ficar perto de todos aqueles seres humaninhos o tornou esse homem maravilhoso e talentoso com criança.
— De onde veio tanta agilidade assim? Quer dizer, eu sei que você tem mais de dez anos de profissão, mas aprendeu tudo isso só com a fotografia? Desculpa a pergunta.
— Sem problemas. — ele sorriu com os lábios pressionados, mas não os abriu. — A maioria das coisas sim, mas se não se importa, eu não gosto de tocar nesse assunto.
Concordei com a cabeça, terminando de tomar o café para esfriar o clima que ficou com minha pergunta. Isso que dá ser curiosa demais.
não disse mais nada e nem eu me atrevi, ele parecia perdido demais em pensamentos enquanto fazia a bebê dormir, ambos pareciam estar apenas no mundinho deles e isso me fez lembrar de coisas que eu não queria.
Meu corpo decidiu não esconder a reação para esses pensamentos, me fazendo esmagar o copo de plástico e acertar a lixeira mais próxima com ele. O mais velho assistiu tudo, mas em silêncio.
— Aí está você, . — um homem com uma barba comprida se aproximou de nós sorrindo, fazendo com que a atenção do mais velho, se voltasse para ele, logo sorrindo. — e Katie estão fechando as contas no caixa, vamos?
— Claro. — me levanto junto do meu chefe, mas ao ver que ele estava conversando com seu amigo, fui fazendo meu caminho na direção contrária. , porém, segura levemente meu braço. — Nicholas, essa é a , a garota do Brasil que eu falei mais cedo e que, por coincidência, é conhecida do seu menino e minha editora no estúdio.
— Oi, , muito prazer. — ele oferece a mão como comprimento e eu sorrio, o que deve ter saído um pouco falso, mas eu estava começando a me sentir um pouco mal com as lembranças que tive. — Vai aprender muito com esse cara, ele é bom no que faz. Fico honrado por saber que é amiga do meu garoto, ele vai precisar muito de apoio nesses dias, e ter alguém da idade dele por perto vai facilitar muito nosso convívio.
— Obrigada, eu tenho certeza que ainda vou aprender muito com ele. Para te dizer a verdade, foi uma das primeiras pessoas que eu conheci e me sinto honrada de conhecer essa menininha que o vai fotografar nos seus primeiros dias de vida. — agrado os cabelinhos loiros da pequena dorminhoca no colo de Nicholas, já que meu chefe a tinha passado para seu futuro avô. — é um jovem de sorte.
Nicholas e sorriem, concordando comigo, mas meus olhos aumentam com o nervosismo ao ouvir aquela voz.

Capítulo 11 – Destino

POV

? — o som perplexo da voz atrás de mim me fez enrijecer os ombros e engolir ficou mais difícil do que imaginei.
Por que ele sempre conseguia me encontrar? Sempre sabia onde eu estava e quanto mais eu tentava ficar longe, mais perto ele conseguia se aproximar de mim, pois não era possível que ele conseguiu me encontrar no meio dessa cidade enorme.
Tudo o que eu queria era me afastar, ser feliz, e o passado parece justamente brincar comigo. Nicholas e olhavam sérios para mim e para Diego logo atrás, provavelmente estranhando minha expressão, que certamente era de medo.
Seu toque no meu ombro foi o que me arrepiou e minha respiração falha me deixou com dificuldade de respirar. Praticamente imploro por ajuda com os olhos, mesmo sabendo dos riscos disso.
, por favor, olha para mim. Vamos conversar.


***

— Hey, florzinha, por que está aqui sozinha em vez de estar brincando com sua irmã e os amiguinhos?
Meu herói sem capa, como ele diz, se senta no degrau abaixo ao meu, recostando o cotovelo de um dos seus braços no degrau em que eu estava. A praça tomava uma quadra inteira, era gigante, tinha vários cachorrinhos por aqui com seus donos e minha irmã estava brincando com um deles.
— Porque ela mandou eu ficar aqui. — sem querer demonstrar, acabei deixando uma lágrima cair. — É por que eu sou diferente? Ela tem vergonha de mim, papai?
Papai disse que iria nos levar a esse lugar que era lindo para fotografias e tirar várias fotos nossas, e depois iríamos jogar dinheiro na fonte gigante que tinha no centro da praça histórica e fazer um pedido que não deveríamos contar a ninguém, só assim viraria realidade. A cidade em que vim morar depois de ser adotada era linda e encantadora, mas muito fria nessa época do ano. Enquanto estávamos vindo no avião gigante, papai me disse que eu teria uma irmã mais velha e ela iria adorar brincar comigo, mas não foi isso que aconteceu. Desde que cheguei Summer puxa meu cabelo quando meus papais não estão vendo, grita comigo e diz que nunca vou ser como ela, pois eu nunca iria ser da família. Acho que ela não queria ter mais uma criança em casa.
— Claro que não, florzinha, sua irmã está um pouco chateada, demoramos a chegar e ela estava ansiosa para te conhecer. — ele agrada meu cabelo grandinho que estava preso em rabo de cavalo.
— Mas então por que ela sempre parece se divertir com os amigos dela e nunca me deixa chegar perto?
Meu pai ergueu a sobrancelha, desconfiado com minha resposta, como se não acreditasse no que eu dizia, mas eu nunca dei motivos para ele desconfiar de mim. Eu só tenho sete anos. Não sei o que é mentir.
— Ei, garota. — uma voz de menino chega mais perto e eu me encolho próximo ao meu pai. — Você quer brincar comigo?
Ele mostra uma bola de futebol e eu sorrio. Pedi ao meu pai com aquele olhar irresistível que eu sabia que ele cederia, e foi o que aconteceu. Saí correndo com o menino, rindo horrores enquanto meu pai dizia:
— Cuida dela, moleque.
***



Ele conversava em português e por seu tom calmo, acredito que não queria chamar a atenção do meu chefe e nem de Nicholas. Meu pai disse ao telefone que ele era praticamente um furacão e se a intenção era disfarçar o sentimento, ele anda conseguindo, mas eu não.
Esse era o meu problema, eu deixava meus sentimentos transparecerem muito facilmente e as pessoas conseguiam me ler muito fácil, mas eu não queria entregar esse sentimento tão fácil a Diego, para isso afastei meu ombro dele indelicadamente, mas não me virei, continuei engolindo a seco e tentando não desmoronar ali mesmo.
— Você está ficando pálida, o que esse cara disse? — meu chefe pergunta sério e num tom baixo, tentando não atrair atenção de Diego para ele, já que todos sabemos que a calmaria era falsa.
— Eu só quero conversar, a gente...
— Por que veio atrás de mim? — soluço enquanto eu falava em português também. — Agora que eu estava conseguindo ser...
— Eu quero te ajudar e você sabe disso, quando eu descobri...
— QUANDO DESCOBRIU O QUÊ? — me revolto, dando a volta para encontrar aqueles olhos misteriosos sem brilho algum, fazendo meu coração falhar uma batida.
Diego estava mais lindo que nunca, apesar da sua barba por fazer, o cabelo desajeitado e o olhar parecendo cansado, de certo por horas no desconforto do avião. Ele vestia um sobretudo preto combinando perfeitamente bem com o tom de seu cabelo liso e eu quis rir disso, já que ele sempre reclamou do frio. Miami, agora próximo à época do Natal, era fria, não como outras cidades onde tinha neve, mas eu não estava sentindo tanta diferença da minha cidade no Brasil, Curitiba. E para tentar enganar meus olhos com seu charme, pois sabia que eu o achava elegante com aquele tipo de roupa, decidiu usá-las, mas eu posso ter sido burra uma vez, contudo, não vou cometer o mesmo erro duas vezes e nem com a mesma pessoa.
— Vamos para a sua casa? Eu não quero chamar a atenção de ninguém e isso é um assunto só nosso.
Deixo uma lágrima escorrer e ele tenta limpá-la, mas afasto seu braço de mim, engolindo a seco e vendo ele tendo a mesma reação, abaixando a cabeça, tentando dar uma de arrependido parente os outros.
Ao me recompor, vendo que ele não iria desistir, retorno o olhar para os mais velhos, o coração falhando novamente. estava ali e não parecia nada contente, segurando Yasmin no seu colo verticalmente e a bebê encostada com o rostinho em seu ombro.
Há quanto tempo ele estava ali?
Seus olhos azuis eram intensos, assim como os do meu chefe, ambos parecendo cães de guarda. Respiro fundo e solto o ar várias vezes antes de inventar uma desculpa e arrumar essa bagunça que eu criei.
***

POV

Depois de andarmos alguns minutos para encontrar Nicholas e , os achamos e Katie ia dizer alguma coisa, porém seu marido nota sua presença rapidamente, não sei como, e sinaliza para ficarmos quietos, o obedeço e pego minha bebê no colo no mesmo instante que a menina que estava mais à frente, discutindo com um rapaz, vira para nós. .
Seus olhos verdes tinham algum brilho, atraindo mais a atenção para a sua cor, porém não era um brilho de alegria e sim de tristeza. Eu só vi esse olhar uma única vez e foi em seu apartamento no dia que nos conhecemos. Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa com ela. Quando se tem um passado como o meu é fácil reconhecer quando outra pessoa está passando pelo mesmo problema.
Só que ela não merecia passar por nenhum tipo de maldade só pelo fato de ter me ajudado no dia em que eu estava na merda. Queria poder fazer alguma coisa por ela agora, mas também entendi o que ela quis me passar com a intensidade com que me olhou. Concordei com a cabeça sutilmente e a resposta foi um sorriso bem pequeno.
Sei muito bem que está mentindo.
— Eu vou para casa, . Foi um prazer encontrar vocês todos aqui, e , espero que seja feliz com os Mandelli. Até a próxima.
, o que esse...
— É uma coisa nossa, não te interessa. — o rapaz interrompeu grosseiramente em nosso idioma e puxou pelo braço com intenção de atravessar a rua, e pelo visto ele estava nervoso. Tentei dar um passo ao ver ela tentar se esquivar e não conseguir, mas Nicholas colocou seu braço na minha frente, me impedindo me olhando duro.
— Ela pode estar em perigo. — os alerto. e Nicholas olham para mim, sem saber o que dizer. — Eu a conheço, foi essa menina que me ajudou no dia em que perdi meu rumo, eu não quero que nada...
você não pode fazer nada, ela veio de carro e você não iria alcançá-la. Eu sei onde ela mora e quando souber de alguma coisa, eu aviso vocês. — me respondeu, me dando um certo tipo de alívio e eu nem sabia porque estava me sentindo assim. — Se te conforta, eu posso ir atrás agora mesmo.
— Por favor. — se despede do casal, voltando a correr até virar a esquina, nos deixando sozinhos novamente.
— O que acha de tomarmos um café para acalmar os ânimos enquanto essa pequeninha dorme?
— Acho uma boa. O que acha, ? — respiro fundo quando Katie atrai minha atenção.
Concordo com a cabeça ao ver que não tinha mais o que fazer, então não tinha porque eu ficar pensando naquilo. Logo em seguida, sento no lugar em que estava na mesa.
— Eu vou lá pedir, então, o que prefere, meu garoto?
— Só um café. — respondo Nicholas sem o olhar. Aceito o bebê conforto gigante que Katie tinha comprado, o colocando na mesa, já que na cadeira não iria caber, e sorrio ao ver a mágica acontecer. — Você tinha razão, Katie, ela apagou.
Acabo de fechar o cinto de segurança em sua barriguinha e ao abaixar meu braço, escuto um barulho sutil tocando o chão, e foi então que a notei.
Era pequena, delicada, decorada por conchas Shell, sendo a maior parte circular e o começo das conchas bem pequeno, todas com uma tonalidade perolada e no meio da pulseira, uma pedra roxa, se não me engano o nome era ametista, dando um charme.
— Olha o que deixei cair, Katie. Alguém deve ter esquecido.
Mostro à mulher mais velha, que pega o objeto, sorrindo ao ver meu breve contato com ela. Me surpreende eles gostarem de poucos gestos que demonstro. Nicholas chega com os pedidos e ao colocar na frente de cada um o pedido exato de cada pessoa, agrada um pouco minha filha, me fazendo sorrir com esse ato, sorriso que disfarço ao tomar café.
Eu estava grato por tudo o que compraram para a minha pequena, nunca seria capaz de retribuir esse ato.
— Ela é linda. O que acha de ficarmos para Yasmin?
— Eu acho que deveríamos deixar aqui, amor, alguém deve estar procurando. — Nicholas responde ao analisar a peça.
— Mas uma coisa linda dessa é perigosa deixar na rua. Tem bandidos procurando coisas como essa para vender e comprar drogas. Com a gente pelo menos estaria segura e podíamos colocar na internet, certamente iríamos achar a dona dessa pulseira.
— Eu concordo com a Katie, mas Yasmin ainda é muito pequena para...
— Olha o pai babão dando as caras, amor.
Comecei a rir junto com eles.
Eu era sim um pai babão e sorri ao ver como minha pequena ficou linda com a pulseira como se fosse um colarzinho em seu pescoço. Katie terminou de arrumar, sorrindo com seu trabalho feito em meu pacotinho. Eu jurei comigo mesmo que ela iria ficar sem namorar até os quarenta anos.
— Obrigado. — respiro fundo meio sem jeito. — Por hoje.
O casal me olhou surpreso e com um sorriso que ia até as orelhas. Acho que nunca esperavam um agradecimento vindo de minha parte, quer dizer não tão cedo, mas... Era o que eu podia dizer.
— Que isso, , nós que ficamos feliz de termos vocês conosco.
Os dois me oferecem as mãos para eu segurar e engolir ficou mais difícil. Mesmo relutante e com muitas dúvidas em minha cabeça, penso se é válido eu continuar com toda essa implicância, ou deixar apenas as coisas rolarem... Acredito que vale mais a pena o destino desenhar a minha vida do que eu atrapalhar toda a rota que me espera no final dos meus dias.
Ainda mais que Hanna não ia querer que eu voltasse para aquele abrigo de novo, ainda me lembro da proposta que ela me fez, e pensando nisso, eu segurei as mãos do casal sorrindo.


***

— Qual proposta? — a questiono, ainda tenso. Ela nunca tinha falado tão sério assim.
Eu não quero ter que deixar o orfanato e muito menos deixar minha filha no relento.
— Que você apenas observe o casal que veio hoje para te ver, converse e seja gentil. Katie é minha melhor amiga desde a infância e que me ajudou a construir isso aqui junto com Conrad, apesar de ter se afastado por um tempo para se dedicar ao filho que infelizmente sofreu um acidente mês passado e hoje já não está mais aqui. No dia que ele ficou sabendo que iria ganhar um irmão, os olhos dele brilharam e ele ficou todo empolgado, afinal, era o sonho dele: poder ter alguém para dividir todos os momentos e ensinar as coisas que sabia. Eles querem manter esse sonho do menino vivo, e o deles também, que era ter você na família. Eu não deveria te contar isso, não agora, mas quem te achou fui eu, numa noite fria de inverno. Nesse dia eu tinha brigado com Conrad e meu desejo era não voltar para casa, acho que às vezes Deus tem tudo planejado, pois se não tivéssemos brigado naquela noite, você teria morrido de frio.
— Aonde me encontrou? — engulo a seco, não escondendo as lágrimas passeando pelo meu rosto indo de encontro ao chão.
...
— Por favor.
— Você estava escondido apenas em um casaco masculino, com um macacãozinho azul e uma logo de fotografia na frente escrito “, o modelo do papai”. Foi aí que soube seu nome, mas não tinha mais nada. Você estava assustado, no meio de tantos arbustos perto de um restaurante em South Beach. Liguei para Conrad, esquecendo de nossa briga, que inclusive foi nesse restaurante, bem no dia do nosso noivado. O convenci a levar você para a casa em Miami Beach e o criar junto das nossas poucas crianças na época, mas eu sentia algo de especial em você, então não poderia deixá-lo com qualquer família. Decidi ser sua tutora mesmo com Conrad colocando todas as razões do porque era impossível isso acontecer. Como eu ia te dar o amor de mãe mesmo tendo minha vida corrida como é? Eu fui teimosa e sim, consegui o direito de ser sua tutora. Expliquei ao juiz que você ficaria no orfanato comigo. Aquela casa lá atrás e aquele quarto, na verdade, sempre serão seus, , eu nunca disse isso para você, e quando você estava crescendo, doeu meu coração colocar você junto com as outras crianças, mas elas ficariam sem entender o porquê só você não dormia nos mesmos quartos. Te peço perdão por isso, mas era necessário até o momento que chegasse alguém que pudesse dar o que eu não podia: uma casa. Acho que esse momento chegou e eu, mais que ninguém, não estou sabendo lidar com meu menino, meu modelinho, me deixando e eu não quero vê-lo na rua, então aceite ficar com eles, . Por mim.
***



E eu não podia descumprir essa promessa. Não para a minha segunda mãe.




Continua...



Nota da autora: Oi oi meninass, tudo bem?
Aqui vai um aviso super importante pra você que ama The Son: a autora teve um insight no meio do segundo tempo em relação ao roteiro de The Son e decidiu mudar algumas coisas na história, como o nome do bebê de Dylan que não vai mais se chamar Yasmin e sim Coral e o nome da ex-namorada dele, que aparece no prólogo, não será mais Ellie e sim Ariel, e pode ser que alguns personagens mudem de características para ficar mais dentro da ideia principal.
O prólogo também será mudado, mas será algo que vocês vão se surpreender e amar, prometo que essa mudança vai fazer sim você continuar ter a mesma emoção, mas é preciso essa mudança para trazer o melhor para vocês <3

Qualquer dúvida só entrar no grupo do whats, para saber de spoilers, news sobre as atts e muito mais!!!!!
Abaixo segue o acesso para a playlist da fanfic no spotify, feita exclusivamente para vocês, com músicas que ajudaram na criação da história ❤️
Beijinhoooooos ❣️



Outras Fanfics:
You, Me and a Baby
Duas irmãs e os Winchesters

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