FFOBS - The Swan Curse, por Rachel Hemmin


The Swan Curse

Última atualização: 01/04/2021

Prólogo

O quarto ato acabara de terminar, o espetáculo tinha chegado ao fim e a plateia aplaudia de pé diante da cortina sendo fechada. Quando a cortina tornou a abrir-se, todos os cisnes se encontravam posicionados em um meio círculo no palco, agradecendo sincronizadamente a todos ali presentes, aos poucos o restante do elenco foi adentrando; Von Rothbart; os dois bobos da corte de mãos dadas, que a plateia aplaudiu fervorosamente; o príncipe Siegfried com Odette. Aguardaram alguns segundos pela entrada de Odile, o cisne negro. A bailarina que fazia o papel de Odette caminhou até próximo a coxia e voltou trazendo o maestro, que lhe agradeceu e se virou para o público, curvando-se em uma breve reverência. Todos que estavam ali presentes no teatro aplaudiram quando a professora e coreógrafa subiu ao palco, fizeram mais uma reverência à plateia e então as cortinas se fecharam, por mais um ano.
As luzes começaram a se apagar enquanto os bailarinos iam deixando o palco. sentindo a falta de sua amiga durante os agradecimentos, tentava ir com mais rapidez em direção aos camarins, a multidão que se formava na coxia só dificultava o seu trabalho. Sua respiração a cada minuto ficava mais pesada e o coração batia mais rápido, sua impaciência era nítida.
sentia as gotas de suor escorrendo por suas costas, odiava passar calor com aquela roupa de bobo da corte, e odiava ainda mais ter de usar aquela fantasia pelo terceiro ano seguido. arrancou seu chapéu com mais força que o necessário, bagunçando os alguns fios soltos de seu cabelo, aqueles malditos fios rebeldes.
Quando finalmente chegou ao camarim principal, avistou uma mulher que trabalhava na equipe técnica do teatro, ela batia insistente na porta, mas não tinha respostas. se aproximou da porta e encostou seu ouvido no intuito de ouvir alguma palavra, mas foi inútil, tentou então gritar pelo nome da amiga, empurrar a porta, bater, girar a maçaneta.
Um grupo de bailarinas começou a se formar para saber o que estava acontecendo ali, algumas só de collant e outras ainda de tutu. entrou rapidamente na área feminina, gerando alguns comentários incômodos por parte das dançarinas, apenas as ignorou e continuou a andar em passos largos. Sem permissão, se pôs à frente de e mexeu na maçaneta para constatar o óbvio. Um estrondo alto ressoou por todo o vestiário, causando o grito de algumas garotas.
automaticamente ficou paralisado impedindo a visão de , a garota o empurrou com uma certa força, segurou no batente da porta e no braço do rapaz quase caindo ao ver uma poça de sangue ao redor do corpo já sem vida da amiga, e ao lado estava Vivien, um dos cisnes, abraçada aos joelhos repetindo ininterruptamente algo inaudível com uma faca ensanguentada em suas mãos.


Primeiro Ato - Parte 1

Suas pernas se moviam conforme a voz do professor, seus pés alternavam entre meia ponta e ponta, a respiração estava o mais controlada possível, o olhar não tinha um ponto fixo e vez ou outra se cruzava com os olhos azuis do rapaz na barra ao lado, os dois faziam movimentos com grande precisão e uma sincronia surpreendente.
A música acabou junto com o exercício, os dançarinos baixaram os braços em frente ao corpo na posição bras bras*, os pés cruzados em quinta posição* e a cabeça levemente inclinada para a diagonal. Os olhos de se fixaram no azul profundo dos olhos de , que não demorou a perceber, obrigando a garota a mudar o foco.
e se conheciam desde sempre, eram velhos rivais de competições de dança. Foram ensinados para serem perfeitos naquilo que faziam, criados para competir um contra o outro, para serem vencedores. Tudo o que sabiam sobre o outro era em relação a dança; a técnica, os pontos fortes e fracos, conheciam os movimentos de sequências livres um do outro, dividiam o mesmo medo de errar diante do público e manchar a imagem de dançarinos perfeitos que suas mães criaram para eles.
- Como todos já sabem, - Começou Octávio, tirando de seus pensamentos. - Estamos chegando ao final de mais uma temporada. O público e, principalmente os patrocinadores, adoraram cada apresentação. Nunca recebemos tantas críticas positivas. - O homem caminhava calmamente pela sala. - E para fechar mais uma temporada de sucesso, vamos apresentar novamente um clássico de sucesso, que todos vocês conhecem bem. O lago dos cisnes.
A maioria dos bailarinos vibraram em alegria, alguns demonstraram apreensão, essa era a peça de ballet mais esperada do ano, não só pelos espectadores, mas por toda a equipe da Foster Company, e em especial , que a três anos empenhava-se para conseguir o papel de cisne branco. achava que se conseguisse o papel, sua carreira decolou e seria chamada para trabalhar em uma companhia mundialmente conhecida, e todo o seu esforço através dos anos teriam algum valor.
- Odette era uma jovem que fora aprisionada na forma de um cisne pelo feiticeiro Von Rothbart. - O professor parou sua caminhada, passando os olhos por todos os seus alunos antes de voltar a andar. - Odette passou a viver ao entorno de um lago, formado pelas lágrimas de sua mãe. Durante o dia, a jovem se mantém na sua forma de cisne, e por um curto período da noite, se revela humana. Para livrá-la do feitiço de Rothbart, ela precisa que um jovem admirador lhe declare amor eterno, e caso seja traída, permanecerá para sempre com um cisne.

“O príncipe Siegfried completava seu vigésimo primeiro aniversário, a rainha então organizou um baile para que ele escolhesse uma noiva entre as seis princesas. Siegfried avista uma revoada cisnes passando pelo castelo, encantado pela beleza das aves, sai então para uma caçada.”

- Amanhã faremos uma seleção para os papéis principais, - O professor abriu a porta da sala antes de continuar. - na segunda feira começaremos com os ensaios. O espetáculo será em seis semanas, tempo suficiente para apresentar uma coreografia limpa. - O homem olhou na direção em que estava , ela ficou na dúvida se era para ela ou para a garota atrás de si, Layla, que era bailarina a menos tempo que todos na sala. - Esqueçam o que aconteceu nos anos anteriores, nada mais importa agora. Concentrem-se para darem o seu melhor, e o mais importante, não se matem. - Octávio soltou uma risada nasal lembrando-se do infortúnio do ano anterior.
Todos da Foster Company conheciam o histórico da companhia com a peça O lago dos cisnes, a mais de dez anos atrás, inexplicavelmente iniciou-se um incêndio durante o espetáculo, destruindo completamente o cenário, parte das áreas técnicas e algumas poltronas na platéia, os bombeiros nunca descobriram a origem desse incêndio. A peça não fora apresentada por sete anos, a reexibição nos três ano seguintes gerou vários comentários entre a comunidade artística, alguns positivos, e outros negativos, criando teorias sobre os acidentes com a equipe técnica e alguns bailarinos, inclusive a morte de Becky, o cisne negro.
Os alunos aplaudiram e agradeceram ao professor pela aula, aos poucos foram pegando suas coisas em um canto da sala, aguardou alguns minutos o amontoado de bailarinos deixarem a sala, para poder pegar sua bolsa, não conseguiu atentar-se a conversa de suas colegas, a única coisa que conseguiu prestar atenção foi na figura esguia de Layla, se atirando para , que apenas revirava os olhos.

andava mais rápido do que suas pernas aguentavam, apesar de já acostumada, a anos não se sentia tão cansada, preferiu não dar-se ao trabalho de mudar de roupa, faria isso em casa, apenas colocou seu casaco e trocou suas sapatilhas de pontas por um tênis. Em poucos minutos havia cruzado o estacionamento e chegado ao seu carro, tateou o pequeno bolso da frente de sua bolsa em busca da chave de seu carro. Imediatamente seu coração disparou ao não encontrá-las ali, abriu de forma violenta o bolso central, revirando tudo o que havia ali, apesar de amar as folhas caindo durante o outono, a baixa temperatura e ter que ficar ali por tempo demais estava deixando-a irritada.
- ! - passou a revirar com mais rapidez sua bolsa ao perceber que a voz se aproximava cada vez mais. parou o que fazia, inspirou e expirou uma, duas, três vezes.
- O que você quer agora, ?- agora estava ao seu lado, escorado no carro da .
- Vim aqui te ajudar e é assim que me recebe?
encarava a garota, que ainda mantinha a cabeça baixa, seu tom de voz era neutro. Depois de longos segundos finalmente ergueu a cabeça e a virou encarando .
- Me ajudar? O que você quer, ? - Voltou a perguntar sem paciência, sabia que ficar sozinha perto de nunca dava certo. - Não tenho tempo para seja lá o que você veio fazer aqui.
- É uma pena que você não tenha um tempinho pra mim, - abriu um sorriso irônico e ergueu a mão direita com a chave que não conseguira encontrar. - mas deve ter bastante tempo para ir a pé para casa.
- O que está fazendo com isso? - Os olhos de arregalaram. - Me dê. - Exigiu estendendo a mão para .
- Como é que se diz? - disse em tom de brincadeira.
- AGORA. - Seu tom era mais autoritário do que antes.
- Vamos lá, , só pedir com educação e poderá ir pra casa.
- Isso é meu, !
Em um impulso, jogou seu corpo para cima do rapaz, numa tentativa de recuperar a chave do carro, mas foi em vão. , que era mais alto que ela, apenas ergueu seu braço a impedindo que alcançasse sua mão, ele parecia se divertir com o desespero e a raiva que a garota sentia. O som de buzina chamou a atenção dos dois, ainda com as mãos agarradas ao braço de , olhou ao redor procurando a origem do barulho, que vinha do único carro preto que ainda restava ali. Layla buzinava impaciente para chamar a atenção de .
- Virou cadelinha, ? - se afastou de com um sorriso irônico nos lábios. - Sua dona tá chamando.
- Cala a boca, ! - Vociferou, seu olhar mudou de diversão para raiva em questão de segundos. - Eu vim aqui pacificamente te devolver isso, - Balançou a chave, tirando do alcance de em sua segunda tentativa de recuperá-la. - pelo jeito vou ter que ficar com ela até que você aprenda boas maneiras, e peça por favor. - colocou a chave em seu bolso da frente, sabia que não teria coragem de tentar pegá-la ali.
- Seu bastardo imbecil! - o chamou por mais alguns nomes enquanto ele se virava e ia ao encontro de Layla. A garota levou alguns segundos para encontrar o celular no bolso de seu casaco, e pôs-se a andar em passos largos para fora do estacionamento, pararia em algum lugar ali perto para chamar um táxi.
não tardou a chegar em seu apartamento, cruzou a porta e a soltou com força, fazendo um estrondo ecoar por todo o hall. Largou sua bolsa em um dos sofás junto de seu casaco e chutou seus tênis em qualquer lugar. Ainda com raiva, a garota andou até a janela de seu quarto e abriu a cortina com violência, procurando algum sinal de no apartamento do prédio ao lado, mas as luzes estavam apagadas. Inspirou e expirou profundamente em derrota, e mesmo que estivesse em casa, não iria até se desculpar.
desfez o coque que já sentia machucar sua cabeça, e caminhou até o banheiro sentindo seu joelho esquerdo voltar a latejar, ligou o chuveiro e começou a tirar suas roupas de ballet enquanto esperava a água esquentar. A garota tomou um longo banho, deixando que a água quente escorresse por todo seu corpo tirando o suor e lavando sua alma, tinha algo que a afligia, mas não sabia o que era.
saiu do banheiro enrolada em uma toalha, seus cabelos mal enxutos deixavam um rastro de água pelo chão, ela sentou-se na beirada de sua cama e jogou-se para trás, suas pálpebras pesaram e adormeceu antes que se desse conta.


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*Bras Bras: Braços baixos: Esta posição é o “atenção” dos bailarinos. | *Quinta posição: Posição de pés no ballet. O pé dianteiro fica cruzado de modo que os dedos do pé de trás toquem o calcanhar do pé da frente.


Primeiro Ato - Parte 2

O dia amanheceu mais chuvoso que o normal, corria o mais rápido que podia para a sala de aula, tentando não escorregar. Antes de entrar na sala, tirou o calçado e sentou-se no chão para colocar sua sapatilha de ponta, já estava atrasada, cinco minutos a mais não faria muita diferença. Levantou-se do chão e abriu a porta com cuidado para não chamar tanta atenção, colocou suas coisas no chão e caminhou até o seu lugar de sempre, tentando copiar alguns movimentos de seus colegas, recebendo um olhar de desaprovação de seu professor. Mais tarde teria que lidar com as consequências de ter perdido quase todo o aquecimento.
sentia-se incomodada com seu collant grudando em seu corpo, marcando ainda mais seus seios, amaldiçoou o motorista do táxi por tê-la deixado mais longe de onde pedira. Não pôde deixar de notar que, sempre que e alguns dos rapazes da barra ao lado viravam a cabeça na diagonal, desviavam os olhares para seu peito ainda molhado da chuva. Péssimo dia para escolher um collant branco.
- MARY! Desligue a música! - Octávio gritou para a velha do outro lado do salão que o obedeceu. - Tirem um intervalo de uma hora, vão ao banheiro, bebam água e se aqueçam mais, se for preciso. - Lançou um olhar sério para . - Nesta segunda parte do dia iremos começar os ensaios para O lago dos cisnes. - E saiu deixando os alunos olhando uns para os outros na sala com Mary.
foi a primeira a sair de seu lugar, servindo de estopim para os outros, pegou sua bolsa e seguiu para o banheiro, sendo seguida por uma garota loira.
- Chloé, chère!*- Ela corria desajeitada. - Attends-moi!*
- Anaís? - parou esperando a garota. - Aconteceu alguma cois…
- E vou com você ao banheiro. - Anaís interrompeu-a puxando pelo braço, como se estivesse fugindo de alguém.
As duas entraram no banheiro feminino, não estava entendendo o que estava acontecendo, Anaís empurrou as portas das cabines verificando estarem vazias e escolheu uma para entrar com .
- Quando você disse que vinha comigo ao banheiro, não pensei que fosse algo literal. - Brincou sorrindo amarelo.
- En français, s’il vous plaît*. - Apesar de ser inglesa, aprendeu a falar francês fluente no período que morou com seu pai em Paris. As duas começaram uma conversa em francês, temendo que alguém entrasse sem que percebessem e escutasse tudo. - Tenho que te contar algo. - Disse abaixando sua calça e puxando o collant e a calcinha para ao lado. encostou-se na porta e desviou o olhar enquanto a amiga tentava urinar. - Lembra do que Octávio disse ontem? Sobre a peça?
- Oui*. - Concordou franzindo o cenho. - Ele fará hoje a seleção para os papéis principais.
- Octávio já escolheu quem vai ser a estrela deste ano. Layla é a escalada para o papel do cisne negro e branco. - Anaís levantou ajeitando sua roupa e puxando a descarga, para então dar espaço a . - Não importa o quanto nos esforcemos, ele tomou a decisão na quarta à noite.
- Como pode ter certeza disso? - Questionou ainda mais confusa.
- Na quarta fiquei na escola após o horário de aula. - Ela começou a explicar, observando . - E na hora de ir embora, passei em frente a sala dele, estava com a porta entreaberta, e pude ouvir Octávio e Layla conversando. Bom, não foi só uma conversa que eles tiveram. - Anaís gesticulava exageradamente, e conseguiu entender perfeitamente do que se tratava. - E prometeu o papel enquanto estava com o pau dentro dela.
- Chienne!* Mas e ? - perguntou sentindo uma pontada no peito, mas julgou ser devido ao frio que ainda sentia. - Não estava saindo com Layla?
- Ela saiu espalhando pela companhia que estão juntos, mas ele não confirmou nada, ainda, são apenas especulações. - Anaís falava despreocupada.
- Eu não consigo com você me olhando! - tinha um certo desespero na voz e Anaís riu baixinho virando-se para a parede. - Layla dá em cima de para ninguém desconfiar que ela fode com o professor. Na verdade, - Anaís fez uma pausa antes de voltar a falar. - Acho que ela fode com os dois. - Sorriu maliciosa virando a cabeça para antes de voltar a encarar a parede.
- Eu sempre soube que ela era uma vadia, mas não ao ponto de se vender por um papel.
- Mas convenhamos, que mulher se negaria a dormir com ? - Anaís pegou uma mecha de seu cabelo e passou a brincar com ela, imaginando a cena.
- Só uma maluca para aceitar sair com .
- Quem desdenha, quer comprar. - Anaís soltou uma gargalhada.
- Vamos sair daqui, antes que alguém nos pegue. - A voz de continha um tom de irritação, não gostara do rumo daquela conversa desde o começo, arrumou sua roupa e saiu da cabine com Anaís em seu encalço, dando de cara com uma das amigas de Layla, que provavelmente contaria que as duas estavam juntas no mesmo boxe. Elas ignoraram a presença de Evelyn, lavaram as mãos e saíram do banheiro rindo de alguma coisa aleatória que Anaís contara.
A porta do salão se abriu e todos os bailarinos olharam assustados na mesma direção. Octávio entrou acompanhado de sua assistente Mary, que logo se sentou em seu lugar ao lado do rádio.
- Hoje começam os ensaios para nossa última apresentação do ano. - Octávio começou enquanto todos tomavam seus respectivos lugares na barra. - Os nomes que eu chamar, venham ao centro. - Octávio chamou alguns nomes, entre eles estavam Anaís, , Layla, e o de . - Vamos começar a seleção pelos rapazes, e depois as garotas fazem a variação de Odile. Os demais podem ir se alongando. Mary, terceiro ato, por favor.
Os bailarinos decidiram silenciosamente a ordem de apresentação, uns faziam alguns passos soltos para se lembrarem da sequência, outros iam se alongando ou só conversavam entre si. Octávio anotava algo em sua prancheta conforme os dançarinos faziam a mesma variação. Finalmente chegou a vez de , que ficara por último, ela respirou fundo, se preparou e assim como as outras garotas, simulou sua entrada no palco, virada para o espelho e começou a sequência de pirouette.
- CHEGA! - Octávio soltou repentinamente, apesar do susto, a garota conseguiu finalizar os giros com destreza. - Já vi o suficiente.
- Mas eu acabei de começar!- Seu coração disparava de nervosismo, quase querendo sair pela boca.
- Emely, Anaís, Scarlet e Heather, pas de quatre.* - Octávio ignorara . - Sebastian, você será o príncipe Siegfried. Layla, cisnes branco e negro. e , - Suspirou longo e alto antes de voltar-se para os dois. - já sabem qual é o papel de vocês na peça.
- Já fizemos esse mesmo papel por três anos. - Apesar de tentar manter a postura, seu tom de voz era exasperado. - Não é justo fazer um teste, se não tivermos chance alguma. Todos os solistas tiveram papel de grande importância nesta temporada.
- Cada um tem o destaque que merece. - Octávio disse de forma intimidadora para , alguns bailarinos seguraram uma risada. - A senhorita concorda com o sr. ?
- Bom, eu… - passou seu olhar de Octávio para , seu coração batia forte em seu peito, não sabia quais palavras deveria escolher para aquele momento. - Eu venho ensaiando a anos para isso, sou a que tem mais tempo de casa. - soltou de uma vez, parando apenas para pegar mais fôlego, suas mãos tremiam e suavam ao mesmo tempo. - Acho que eu deveria ter uma chance, minha técnica é uma das melhores aqui, e…
- Sua técnica é lamentável, seu lado esquerdo é péssimo, e vem piorando a cada dia, - Todos pararam o que faziam e pararam para ouvir a discussão. engoliu em seco. - sua postura é desleixada. Não tem estatura para tal personagem e nem o corpo de uma bailarina clássica. Uma bailarina fora do peso ideal nunca chamaria a atenção do público. - tentava conter algumas lágrimas que teimavam em sair. - Bom, chamaria atenção sim, de forma negativa, e não queremos isso, não é? - O clima dentro da sala ficara mais pesado e tenso. - Agora, a senhorita tem a opção de ficar com o papel, ou pode retirar-se agora da minha sala.
levou alguns segundos para processar tudo o que acontecera, encarou a com ódio, respirou fundo ajeitando sua postura e erguendo levemente o queixo. virou as costas a Octávio e caminhou em passos largos para onde suas coisas se encontravam, as pegou de qualquer jeito, quase as deixando cair.
- ! - a chamou, ela deu uma última olhada para o rapaz e deixou a sala.
- , deixa. - Layla segurou em seu braço, o impedindo de ir atrás da garota. - Deixa que ela vá, vai ser melhor assim. - soltou-se das mãos de Layla bufando alto.
- Mais alguém tem alguma coisa a dizer?- Em silêncio estavam, em silêncio permaneceram. - Ótimo, vamos do princípio, primeiro ato, Mary!
ia o mais rápido que conseguia, seus olhos marejados não a permitiam enxergar muito bem, só reparando que alguém vinha a sua frente quando esbarrou-se com ela.
- , querida, está tudo bem?- Sua entonação era tranquila e ao mesmo tempo firme.
- Madame Leblanc! Está sim, é só que… - olhava dentro dos olhos da mais velha. - A mesma coisa de sempre, sabe, meu joelho dando trabalho.
- É só isso mesmo? E não precisa me chamar assim, você sabe. - afirmou com a cabeça. - Ele não te deu o papel, não é? - negou contendo o choro, ela segurou o rosto da garota entre as mãos, e com o polegar secou uma lágrima teimosa. - Vá para casa e descanse. - Madame Leblanc a abraçou de maneira calma, seu abraço era quente e acolhedor, como abraço de mãe, era como estar em casa. - Segunda temos muito o que conversar sobre o espetáculo e sobre sua partida. - Leblanc deu um beijo no topo da cabeça da garota antes de deixá-la ir.
foi apressadamente até seu carro, parando apenas para pegar a chave extra em sua bolsa e adentrou batendo a porta com força, tirou suas sapatilhas de ponta se atrapalhando com as fitas de cetim e as jogou junto com as ponteiras por cima de seu banco, colocou o cinto de segurança e deu partida no carro.
Ao chegar em seu apartamento, a garota largou suas coisas ao lado da entrada e foi direto para a cozinha, abriu a geladeira e ficou alguns segundos procurando algo que não sabia o que era. Pegou uma fatia de bolo e encostou-se na pia comendo afobada.
lembrou das palavras de Octávio, olhou com ânsia o prato em suas mãos, jogou o resto do bolo no lixo e correu para o banheiro em seu quarto. se ajoelhou erguendo a tampa do vaso sanitário, colocou dois dedos o mais fundo que pode em sua garganta, regurgitando tudo o que havia comido naquele dia. tinha aprendido esse mau hábito com algumas bailarinas francesas, no tempo que morou em Paris, e fora obrigada por seu pai a largá-lo.
A garota então levantou-se dando descarga, foi até a pia, lavou suas mãos e começou a escovar os dentes. Sua aparência estava péssima, nunca tinha se visto com tanta olheira, seu cabelo parecia não ver uma escova a dias, suas extremidades queimavam e ganhavam tons de azuis devido ao frio, não atentou-se a usar agasalho. Tirou sua roupa que ficara molhada, passou alguns minutos observando seu corpo em frente ao espelho, ele nunca fora um real problema para ela, não era esquálido e nem corpulento, apenas seus seios eram mais fartos que os das outras bailarinas, entrou no box, tomando um banho quente.

***

passara a tarde toda pensando na hora em que finalmente estaria em casa, as aula de ballet pareciam mais pesadas que o de costume e os ensaios mais longos deixando seu corpo excessivamente tenso. tinha apenas uma toalha enrolada em sua cintura enquanto ia do banheiro até o quarto, seus passos eram arrastados, o rapaz sentou-se na beirada da cama apoiando os cotovelos nas pernas e o rosto entre as mãos, tentava a todo custo manter-se acordado.
Uma brisa gelada o fez despertar, esquecera de fechar a janela antes de sair pela manhã, ele caminhou até a janela e fechou-a; as cortinas pararam de se mover instantaneamente, deixando apenas uma fresta, antes de a fechar, uma movimentação no apartamento em frente chamou sua atenção.
não conseguia ouvir a música, mas podia vê-la dançar em seu quarto uma coreografia contemporânea, era desconhecida por ele, imaginou ser um improviso, seus movimentos eram suaves, mas ao mesmo tempo energéticos, ele ficou ali observando-a, sentia-se preso, quase enfeitiçado, seus batimentos começaram a acelerar e a vontade de juntar-se a garota foi tomando seu corpo.
dançava com os olhos fechados, ela usava apenas um top e um hot pants preto, realçando suas curvas, sua dança foi aumentando o ritmo e ganhando intensidade. Cada movimento corporal da garota causava um estímulo diferente em , era uma sensação que nunca sentira antes. parou abruptamente e fixou seu olhar no peito ofegante da garota, o movimento de sobe e desce e a boca entreaberta da garota o fez umedecer os lábios, puxou o cabelo caído em seu rosto para trás, deixando seu pescoço totalmente à mostra.
saiu de seu transe ao ouvir seu celular tocar, relutante, fechou a cortina e foi atrás do aparelho, era uma mensagem de Layla o chamando para a casa dela, respondeu confirmando com um leve sorriso malicioso ao dar-se conta de sua ereção.


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*chère: Querido | *Chienne: Vadia | *Oui: Sim | *Attends-moi: Espere por mim
*En français, s’il vous plaît: Em francês, por favor:
*pirouette: pirueta | *pas de quatre: termo usado para uma dança de balé para quatro pessoas.


Segundo Ato - Parte 1

“Enquanto o Príncipe Siegfried adentra a floresta para caçar, ele cuidadosamente mira em um belo cisne que vira voar, um belo cisne a voar. Mas para sua surpresa, ele se transforma em uma moça encantadora, incapaz de conter seu interesse, ele aparece e a assusta, ele a assegura de que nada iria lhe acontecer, impressionada com sua gentileza, Odette lhe conta o que acontecera.
Ela lhe conta que é uma princesa, que foi enfeitiçada por um feiticeiro, apenas por algumas horas da noite ela se transforma em humana. Odette conta que está condenada para eternidade, e somente poderá se libertar se um jovem jurar-lhe amor eterno.
Porém, se ele a trair, permanecerá um cisne para sempre. Neste momento o feiticeiro surge, Siegfried apaixonado, pega seu arco e flecha, mas Odette protege o feiticeiro com o seu corpo, se ele for morto antes do feitiço ser quebrado, ela também morrerá. Rothbart então desaparece e Odette se esconde na floresta. A alvorada começa a aparecer, Odette retorna a sua forma de cisne e Siegfried volta para o castelo desesperado.”


atravessava o saguão em passos largos, ela não tinha planos de voltar, faltavam apenas seis semanas para o vencimento de seu contrato, ela não ligava de ficar esse tempo todo sem ir trabalhar, mas fora convencida por Leblanc após uma longa conversa naquela manhã. se dirigiu para o banheiro para tentar se arrumar, colocou pedaços de esparadrapos em seus dedos dos pés, calçou as sapatilhas de ponta por cima, amarrou as fitas e cetim escondendo o nó.
abriu a porta da sala sem cerimônias, todos voltaram sua atenção para a garota, que soltou suas coisas num canto qualquer, ignorando os olhares, tirou o moletom o soltando por cima de sua bolsa, pegou sua garrafa de água e foi até o seu lugar que estava vago.
— O que pensa que está fazendo ? — Octávio fez um sinal para que Mary desligasse a música.
— Eu vim trabalhar. — colocou sua garrafa próximo ao espelho e virou para a direção de Octávio — O que mais esperava que eu viesse fazer aqui? Eu tenho um contrato a cumprir, você querendo ou não. — pela primeira vez em anos sentira firmeza em suas palavras.
— Você assinou a sua demissão quando escolheu ir embora noutro dia. Aqui não é mais o seu lugar. Não tem espaço para alguém como você no meu espetáculo. — frisou com asco.
— Eu decido quem tem espaço ou não em minha companhia. — Leblanc entrou calmamente, ninguém sabia a quanto tempo ela estava ali, ou se tinha ouvido tudo. — E vamos deixar as demissões ao encargo do RH, seu trabalho aqui é apenas dar aulas.
— Madame Leblanc. — sua entonação mudou de repente. — Não imaginei que a senhora estaria aqui hoje.
— E quando deixei de estar, Octávio? — ela caminhava vagarosamente para mais perto dos bailarinos — A família faz parte da história desta companhia, desde muito antes do senhor pensar em dar aulas. — Leblanc parou em frente a , a olhando com admiração. — Os patrocinadores querem vê-la dançar. Ela vai dançar.
— Sinto muito Leblanc, tomou a decisão de deixar a equipe, não é justo para com os outros.
— Qual a parte do “ela vai dançar”, terei que explicar novamente? — Ela encarou Octávio sem humor. — Esta é a última apresentação de , infelizmente ela não estará mais conosco, uma das bailarinas mais excepcionais que a Foster Company já teve. — Lamentou.
— Desculpe-me madame Leblanc. — Anaís tentou ser o mais educada possível — Para onde você vai, ?
— Ainda não decidi. — tentava manter a postura, apesar dos olhares a estarem incomodando.
— Tenho certeza que grandes companhias já devem estar de olho em você, . — Leblanc caminhava pela sala. — E grandes bailarinos, merecem grandes públicos. A maioria de vocês são excelentes na dança, com uma técnica impecável e talento desvalorizado.
— Onde quer chegar com todo esse discurso, Leblanc? — Octávio interrompeu-a.
— Há alguns anos venho observando nossos melhores dançarinos deixar a companhia por imprudência de professores e coreógrafos. E não irei mais tolerar isso. Algumas coisas irão mudar a partir do próximo ano, cada um ganhará um papel de acordo com sua técnica. Os melhores ganharão papéis principais, enquanto os de técnica medíocre, serão deixados para trás. — Leblanc suspirou pesadamente olhando ao redor da sala, balançando a cabeça negativamente. — Garotos, tirem essas barras daqui.

***

— Muito bem. — Leblanc soltou chamando a atenção de todos para si. — Vamos começar a trabalhar de verdade. As garotas do pas de quatre, fiquem desse lado aqui. — Ela indicou onde as quatro garotas deveriam ficar — , você fará Siegfried; Sebastian será o remplacer de .
— Como é? — Sebastian se manifestou incrédulo. — Eu tenho que ser o remplacer dele? Por que não o contrário?
— Não lhe devo satisfações sobre minhas decisões, sr. Maieski! — Seus olhos cinzentos e autoritários encararam o garoto fazendo-o murchar — Connor ficará com o papel de Rothbart. — quebrou o silêncio que se instalara. Connor se posicionou ao lado no centro. — Laila fará o cisne branco; , o negro. Uma será a remplacer da outra, portanto, saibam interpretar os dois papéis.
A mulher pegou uma das mãos de e a puxou para ficar ao lado de , eles cruzaram seus olhares por alguns segundos, antes de voltarem a atenção para a mais velha. Layla tomou seu rumo a contra gosto observando a cena, com os braços cruzados abaixo dos seios. Leblanc continuou a divisão dos bailarinos, separando-os em pequenos grupos.
— Vocês já devem estar cansados de ouvir isso, — enunciou — essa é a última apresentação da temporada. A mais importante dentre todas. Deixem suas diferenças de lado — Passou seu olhar por cada um dos cinco solistas, alguns engolindo em seco enquanto Leblanc retornava a sua caminhada lenta pelo ambiente. — aqui somos uma família, apoiem uns aos outros, para que assim, possam se corrigir e evoluir. Empenhem-se, ser um bom bailarino vai muito além do talento, além do dom, é necessário muita dedicação, e principalmente, disciplina. — ela fez uma breve pausa antes de voltar ao seu monólogo — Aproveitem ao máximo cada uma das aulas e ensaios, cada dia é uma nova oportunidade para progredir. Dancem, não apenas com seus corpos, mas com a alma, como se suas vidas dependessem disso. Sem mais delongas, vamos ao que interessa.
Leblanc solicitou para Mary que colocasse a música de Tchaikovski, mais precisamente na primeira cena, da campina, onde Siegfried organizara uma caçada. Enquanto alguns tomavam suas posições, outros se dissiparam pela sala ou corredor, treinando alguns passos, piruetas ou apenas para se alongarem.
, — a mulher aproximou-se de , tocando levemente em seu braço, recebendo um "sim" como resposta. — seu papel é um dos mais importantes, seja grandiosa, imponente, — sua mão segurava o queixo da menor, encarando fixamente seus olhos enquanto falava. — seja majestosa, como eu sei que pode ser. Encante-os, — agora sussurrava — use toda a sensualidade perversa que o cisne negro exige. Você tem de se jogar no personagem, mistério e sedução deve envolver sua performance por completo. Seduza Siegfried. — A garota olhou de soslaio para e Sebastian, que recebiam algumas orientações de Octávio. Leblanc soltou seu rosto, oferecendo-lhe um pequeno sorriso antes de voltar a atenção para o grupo de rapazes que lhe aguardavam.
A música clássica, que todos já sabiam de cor, ecoava por todo o ambiente, a caçada havia dado início. Uns rapazes tinham pequenos instrumentos musicais em suas mãos, outros arcos e flechas. Subdivididos em duplas, aos poucos os grandes saltos foram preenchendo o centro, pequenas correções foram jogadas ao ar, sem ser para alguém em específico.
Algumas camponesas chegaram para fazer companhia para os caçadores, amigos do príncipe, e, para o desprazer do bobo da corte, todas já tinham um acompanhante. Tão logo ele anunciou a chegada de Siegfried, alguns suspiros puderam ser ouvidos em algum canto da sala; os instrumentos e armas agora foram trocados por simples cálices de metal, um agradecimento silencioso foi realizado, e então a celebração se sucedeu.
Deu-se a primeira pausa para correções, não haviam reclamações sobre a atuação, apenas poucos movimentos mal executados, movimentos fora de sincronia e alguns pés não esticados. As dicas e correções foram anotadas mentalmente, enquanto os bailarinos repetiam pequenos gestos demonstrados por Leblanc.

***

Era costume de alguns bailarinos ficarem após o horário, seja para repassar as sequências aprendidas em aula, aplicar as correções ou apenas para ensaiar mais um pouco.
Ao lado do salão principal, uma música baixa misturada com o impacto de uma sapatilha no chão podia ser ouvida se alguém chegasse bem perto da porta. Dentro da sala, ensaiava a primeira variação do cisne branco, a dor em seu joelho não a permitia fazer os movimentos com a perfeição desejada, ela se via obrigada a recomeçar, de novo e de novo.
Ela parou bufando alto com a mão na cintura, passou as mãos no rosto retirando todas as gotas de suor que escorriam, e com a mão na cintura, reiniciou a música, apenas avançando para segundos antes da parte que lhe interessava. Correu então para o centro, se posicionando.
Odette estava no lago, em sua forma humana, seus movimentos eram lentos e suaves, o arabesque perfeitamente equilibrado, e então um cambré de dar inveja em qualquer dançarina, os braços desciam macios, repetiu a sequência duas vezes. A rainha dos cisnes deu três passos à frente nas pontas dos pés, pronta para mais um arabesque, quando assustou-se com a imagem de Siegfried. Ela realmente não esperava que ele aparecesse ali, mas quando criança, aprendera que, independente da situação, ela não deveria parar.
A rainha correu na direção contrária a do príncipe, nas pontas dos pés, girando e agitando os braços como se fossem asas, o coração ainda palpitando do susto, a deixando mais cansada. Ela parou deixando o príncipe se aproximar, apenas para correr novamente. Uma perseguição iniciou-se entre giros e arabesques, finalmente estavam de mãos dadas, seus olhares fixos um no do outro, podendo sentir suas respirações aceleradas.
Ele a puxou para o centro, soltando suas mãos, ela gesticulou contando sua história, o príncipe iria jurar-lhe amor eterno, quando foi interrompido pela rainha dos cisnes. A mão dele foi para a cintura dela, girou-a, a mantendo de costas para si. Esta era a hora em que Rothbart apareceria, mas não foi isso o que aconteceu.
— Você é a mais bela rainha que esse lugar já teve. — ele murmurou, causando um arrepio pelo corpo da garota.
— E você não deveria falar esse tipo de coisa, — abriu os olhos, descendo das pontas em um plié — o que sua namorada iria pensar? — ela soltou-se das mãos de e deu dois passos virando-se de frente para o rapaz.
— Ela não é minha namorada. Somos apenas… — parou alguns segundos, procurando as palavras certas.
— Isso não é da minha conta. — fechou os olhos com força, sentindo todo seu corpo latejar.
— Ela não deveria sair espalhando essas coisas. — ele falara mais para si mesmo do que para ela — Já decidiu para onde vai?
— E isso não é da sua conta. — apontou o indicador para , que puxou o ar abrindo a boca, mas desistiu de falar — Não, não decidi para onde vou.
— Deve ter recebido ótimas propostas.
— Talvez. — mentiu.
, você já está aqui há tanto tempo, por que essa mudança logo agora?
— Você é a última pessoa com quem eu deveria ter essa conversa, . — mudou sua expressão para uma mais séria. — Por que faz tanta questão?
— É uma pergunta tão simples de responder. Pode pelo menos uma vez na vida não tornar tudo complicado?
— E será que você pode não se meter na minha vida dessa vez?
— Há anos eu venho tentando entender o que fiz de tão errado para você me odiar dessa forma. — ele passou a mão pelo cabelo bagunçado — E simplesmente não consigo. — confessou derrotado — Tento sempre manter as coisas pacíficas com você. Eu juro que tento!
— Pois não deveria. — sua cabeça estava erguida, não apenas para poder olhar diretamente para , mas também para passar um ar de superioridade.
— Você é impossível.
— Obrigada! — ela riu sem humor.
— Não foi um elogio.
— Certamente que não. — cruzou os braços.
— QUAL É A PORRA DO SEU PROBLEMA? — agora não conseguia esconder a irritação. — Você e essa sua mania de grandeza conseguem tornar tudo desagradável. — ele deu um passo em direção a garota, a fazendo recuar — Sempre querendo ser superior a todo mundo, se achando a melhor. — mais um passo — Mas não passa de uma criança birrenta e acuada, precisando que a protejam o tempo todo. Você sempre teve tudo o que quis, e não faz questão de esconder. — ele estava assustadoramente perto dela — É por isso que ninguém aqui gosta de você!
— Você não tem o direito de falar assim comigo! — sentia seu coração bater forte dentro do peito, parecia querer saltar para fora de sua boca. — Então, , pare! — sua voz era baixinha, quase inaudível.
— Ou vai fazer o quê? Chorar para a Leblanc e pedir para ela me demitir, Sloan?
— NÃO ME CHAME ASSIM! — perdera o controle, ser chamada pelo sobrenome de sua mãe sempre a deixava extremamente irritada. O barulho de sua mão se chocando contra o rosto de ecoou por toda a sala. — Você não sabe nada sobre mim! Não sabe o que passei até chegar aqui. — ela lançou-se sobre o rapaz, estapeando-o no peito.
— JÁ CHEGA! — a segurou pelos pulsos e a empurrou contra o espelho, prendendo-a com as mãos acima de sua cabeça. A barra fixa junto ao espelho machucava suas costas, a inclinação em que se encontrava, não era a mais confortável. O frio do espelho a fez tentar se contorcer ao atingir a pele ainda quente de seus ombros e braços, mas fora impedida pelo corpo de prensando o seu. — Eu estou cansado de você descontar todas as suas frustrações e mim! — O peito de subia e descia rapidamente tentando puxar ar, seus olhos exalavam o medo que sentia, enquanto os de , estavam carregados de raiva — A melhor coisa que você pode fazer é ir embora daqui.
a soltou e se afastou murmurando alguns palavrões, passou a mão pelo rosto e voltou a olhar para a garota, agora parecia demonstrar arrependimento. continuava na mesma posição, ainda o encarando assustada. Como se acordasse para a realidade, ela ignorou os pedidos de desculpas do rapaz, ou apenas não o ouviu, juntou suas coisas e deixou a sala.

***

— O que está acontecendo com vocês hoje? — Leblanc pausou a música irritada — Esse é o pas de deux* mais preguiçoso que já vi. Onde está a energia, ? A atitude de uma rainha? — mantinha uma mão no ombro de e a outra na cintura, a mão dele a segurava logo abaixo a dela — E , ela não vai quebrar se você a segurar com mais firmeza. — Leblanc se aproximou dos dois no centro — Vocês sempre tiveram uma conexão, — sentiu seu coração disparar e seu rosto corar ao perceber a observando pelo espelho — e não é isso que estou sentindo agora.
— Vamos fazer direito agora. — desviou o olhar da garota para a mais velha em sua frente.
? — Ela tinha os braços cruzados, seus olhos cinzentos que sempre foram acolhedores, agora pareciam querer cortar sua alma em pedaços.
— Sim, vamos melhorar dessa vez. — começou soltando-se do rapaz — Eu só estou com dor de cabeça.
— De novo, senhorita? Já é a terceira vez essa semana. Dar esse tipo de desculpa esfarrapada não é do seu feitio. — A mulher descruzou os braços, olhou de para , e de para . — Tire essa blusa, senhorita .
— Estou bem assim, madame Lebl…
— Visivelmente você não está. — ela fez um gesto para que a garota tirasse a blusa. Por mais fina que a blusa fosse, o calor estava deixando letárgica — Agora, retire-a.
— Tudo bem. — murmurou. curvou seu corpo retirando a blusa e bagunçando alguns fios de seu coque, a jogou na direção do espelho e ajeitou a postura.
— Não irei me dar ao trabalho de perguntar o que significa isso. — rosnou fuzilando os arranhões no torso da garota e alguns em seus pulsos junto com algumas marcas roxas. Leblanc a conhecia tão bem que sabia que os arranhões eram propositais, era a forma dela extravasar alguns sentimentos, mas ficou em dúvidas quanto aos roxos — Tem certeza que está pronta para o papel, ?
— Sim! — Tentou manter a convicção.
— Então faça por merecer, ou colocarei qualquer outra em seu lugar! — mordeu forte o interior de sua bochecha, quase tirando-lhe sangue. — Agora venha aqui. — ela obedeceu em silêncio — , a segure e , faça um retiré*, degagé a la seconde,*, retiré.
se posicionou de costas para , ele colocou as mãos na cintura da garota mantendo uma distância segura enquanto ela subia nas pontas dos pés. Leblanc juntou-se aos dois, de frente para , colocando suas mãos em cima das de . ergueu a perna direita na altura do joelho, em um impulso a esticou na lateral e a dobrou novamente girando, a brecou com o apoio de Leblanc e repetiram o processo mais algumas vezes.
— Eu quero ver energia, — articulou se afastando — quero que sejam explosivos, intensos. — a música voltou a tocar — Última vez desde o começo.


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*pas de deux: dueto de dança em que dois dançarinos executam passos de ballet juntos.
*retiré: posição na qual a coxa é levantada para cima de modo que a ponta do pé fique encostada levemente no joelho.
*degagé a la seconde: Afastado. Posição em que o bailarino se encontra sobre uma perna, com a outra afastada ao lado.


Continua...



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