The Touch

Última atualização: 19/02/2024

 

 

Capítulo 1

Carter

Ao deparar-me com a majestosa mansão, fiquei boquiaberta. Era simplesmente enorme. Quando a minha mãe mencionou que se casara com o seu primeiro amor do ensino secundário, imaginei que fosse alguém do nosso círculo social, não um proprietário de uma mansão no coração de Londres.

Passei cerca de 30 segundos a admirar toda a fachada daquela que seria a minha nova residência antes de ser envolvida por um abraço cheio de quatro anos de saudades, conforme a minha mãe descreveu, depois de insistir para que me soltasse.

Esta era a minha estreia em Londres, na verdade, era a minha primeira vez fora dos Estados Unidos, e, ao que parecia, eu estava aqui para ficar. Depois do casamento da minha mãe, ela começou a pedir-me para me mudar para Londres, para que pudéssemos viver juntas, junto com o novo marido e o filho dele, a quem ainda não tive a oportunidade de conhecer. No início, recusei-me a fazê-lo, pois parecia sem sentido. Eu havia vivido toda a minha vida em Nova Iorque, incluindo um relacionamento de seis anos que deixei para trás, após a minha mãe garantir-me uma vaga como professora de Literatura Moderna na Universidade de Londres, onde ela também lecionava economia há cinco anos.

Foi uma escolha difícil, mas a verdade é que minha relação com o Ethan tornou-se, no mínimo, monótona. Começamos a namorar quando eu tinha 19 anos, e desde então, nunca mais nos separamos, até o dia em que nos tornamos apenas parte da rotina um do outro. Não vou mentir e dizer que não chorei, pois chorei bastante, mas creio que o principal motivo das minhas lágrimas foi perceber que já não o via da mesma forma. Era estranho, pois eu o amava, mas não amava a pessoa que estava diante de mim. Se é que isso faz algum sentido...

- Anna, filha! As saudades que tive! – a minha mãe abraçou-me mais uma vez enquanto o motorista tirava as minhas malas de dentro do carro e devo ainda acrescentar… que carrão!

- Mãe, por favor! – resmunguei, sendo envolvida pelos seus braços – Estás a apertar-me.

- São abraços de 4 anos de saudade Anna! Sou tua mãe, deixa-me!

Dei um sorriso amarelo e deixei-me ser abanada como um fantoche por mais uns segundos, até o bonitão do meu padrasto aparecer, no cimo das escadas, que davam para a entrada da casa.

- Anna! É um prazer finalmente te poder conhecer pessoalmente. – o Michael sorriu-me abertamente, enquanto descia o lance de escadas que nos separava.

- Olá! – soei tímida.

- Abraça o Michael, filha! – incentivou-me a minha mãe antes do seu marido me puxar para um abraço quase tão apertado como o dela.

Naquela altura, já devia estar completamente despenteada, como uma criança contrariada. Detestava ser abraçada, e sabia que se o manifestasse em voz alta seria alvo de julgamentos, mas a verdade é que detestava mesmo e estava a fazer um esforço considerável para não revelar o meu desconforto. Quando o Michael me libertou, pude finalmente ter um vislumbre de quão alto e belo aquele senhor era. O seu cabelo era escuro, com alguns fios grisalhos que lhe conferiam charme. Possuía um perfil forte e angelical, se é que isso era sequer possível, e os seus olhos eram verdes. Não era difícil perceber por que razão a minha mãe se mostrava tão apaixonada sempre que me falava dele nas nossas videochamadas, e se ele fosse realmente tão amável quanto parecia, a minha mãe tinha ganho na lotaria.

Fui guiada a explorar toda a casa, desde o hall magnífico até o jardim com piscina, e só isso levou quase meia hora. A minha mãe fez questão de não deixar escapar nenhuma divisão, e quando finalmente chegámos à porta do que seria o meu quarto, ela decidiu criar suspense.

- Devo confessar que passei um bom tempo à procura da decoradora indicada para me ajudar a decorar o teu quarto e sei que estás assoberbada, porque até agora tudo o que viste não tem nem um pouco a ver com a vida que levávamos em Nova Iorque, mas asseguro-te que fiz todos os esforços possíveis e imagináveis para fazer deste quarto o teu lugar especial.

Levantei as sobrancelhas, meio que querendo rir um pouco do seu discurso – Mãe, podes estar tranquila, ok? Eu já não tenho mais 15 anos e sim! Isto é uma mudança abrupta, mas tu também me deste a oportunidade de uma nova vida aqui e eu pretendo agarrá-la. Eu sei que me mostrei muito relutante a princípio, mas podes estar tranquila, eu vim com intenção de ficar…

Ela sorriu e inspirou fundo antes de me abraçar pela vigésima vez naquele dia.

- Mãe… por favor… - sacudi-me do aperto do seu abraço.

- Há coisas que não mudam, não é? – riu do meu desconforto, antes de me soltar – Ah! Este em frente é o quarto do teu irmão, Leonardo. – apontou para a porta em frente da minha - Ele não está em casa ainda, só chega mais tarde. Provavelmente só se vão conhecer na festa.

Ah, a festa... quase me esqueci da festa... Hoje o meu padrasto ia celebrar duas décadas de carreira como juiz e tinha convidado uma boa parte da elite londrina para festejar essa data na sua mansão.

- Certo. – concordei, tentando não mostrar a minha falta de entusiasmo. Sem demora, a minha mãe abriu a porta do que seria, a partir de agora, o meu quarto, e não posso negar, estava perfeito.

Ela conhecia-me bem demais, o que era evidente desde a escolha do papel de parede até às almofadas e carpetes claras que conferiam ao meu quarto um aspeto acolhedor e elegante.

- Está perfeito. – assegurei-lhe, com um sorriso nos lábios.

- Gostas mesmo? Se quiseres, posso mudar algumas coisas.

- Não mãe, está perfeito. – repeti, agora olhando para ela – Não há absolutamente nada que eu queira mudar.

Ela mostrou-me o armário, cheio de roupas novas que eu nunca sonhei sequer em ter. Eram marcas caras, algumas eu nem conhecia, mas os preços nas etiquetas revelavam o luxo em todas aquelas peças.

- Eu fiz questão de escolher todas estas roupas, mas como te disse antes, se houver algo que não gostes, sempre podemos comprar roupa nova.

Mesmo que não gostasse de metade das peças que estão aqui, aposto que continuava a ter mais roupa do que alguma vez tive num armário, ou em dois.

Tranquilizei-a sobre tudo e agradeci-lhe mais uma vez. Ela permaneceu no quarto comigo por mais uns vinte minutos, até perceber que eu realmente precisava de descansar um pouco se quisesse estar presente na festa mais tarde. Não saiu sem antes trazer-me um vestido para usar na festa, e depois abraçou-me, como se os abraços dela ainda não tivessem sido suficientes. Finalmente, deixou-me sozinha, e eu deitei-me.

*

Imaginem viver dentro do cenário de Gossip Girl! Era exatamente assim que me sentia ao descer as escadas para o primeiro andar da mansão dos Van der Wood. Só faltava alguém gritar, "LUZES, CÂMARA, AÇÃO!"

Agora sim, eu sentia-me genuinamente uma outsider naquele ambiente exuberante. Para onde quer que olhasse, pensava: "Acabei de ver a mulher mais bonita de sempre." Não havia como não me sentir intimidada no meio de todas aquelas pessoas lindas e importantes. E pior ainda, pessoas que estavam curiosas para conhecer a "nova filha" do juiz Michael Van der Wood.

Inspirei fundo antes de abandonar o último degrau que me separava do primeiro andar e passei as mãos nervosamente pelo vestido acetinado preto que a minha mãe tinha deixado no meu quarto. Devo admitir que me sentia extremamente elegante. O vestido era comprido e sem padrões, com a sua beleza concentrada nas costas completamente abertas. Tão abertas que sequer podia usar roupa interior sem que fosse visível.

O meu cabelo castanho e ondulado estava solto, descaído sobre um dos ombros, chamando ainda mais a atenção para as minhas costas, repletas de pequenas tatuagens ou, como a minha mãe gostava de chamá-las, carimbos. Olhei em volta à procura de uma cara familiar, mas não encontrava a minha mãe em lado nenhum.

- Perdida? – perguntou o meu padrasto.

- É assim tão óbvio? – sorri um pouco envergonhada por admitir.

O Michael estendeu-me a sua mão, para que o acompanhasse. Aceitei-a, um pouco relutante.

– Vou-te levar à tua mãe para que possas ser apresentada por ela aos nossos amigos– senti um alívio de imediato - Acredito que assim seja menos chato para ti!

Agradeci, sentindo-me como uma criança perdida num supermercado. Uma criança de 25 anos.

A minha mãe estava deslumbrante. Usava um vestido comprido, em tom de azul-marinho e o cabelo estava preso num coque em trança. Era a primeira vez que a via assim linda e radiante. O seu sorriso contagiava qualquer um com quem ela falasse e nem eu mesma consegui me deter em sorrir, quando me aproximei.

- Minha Anna! – exclamou um pouco alto demais, atraindo olhares curiosos para mim – Filha, esse vestido fica-te soberbo.

- Obrigada, mãe. – dei um sorriso de evidente desconforto – Tu também estás linda.

- Christy, Jonnas, esta é a minha filha!

Sorri para uma mulher de estatura média, cabelos loiros e curtos e vestido vermelho escarlate. O homem, que assumi ser o seu marido, tinha o cabelo grisalho, óculos e um bigode engraçado, ele também não era muito alto e usava um smoking preto com um lenço vermelho no bolso, a condizer com o vestido da presumida esposa.

- Anna! Ouvi falar maravilhas de ti, minha querida. – a mulher sorria exibindo os dentes mais brancos que alguma vez vira.

- Vindo da minha mãe não me surpreende de todo. Ela nunca foi poupada de elogios.

- É a minha única filha, que mais podem esperar de mim?

- O nosso Liam também é filho único, Elaine! – exclamou a Christy - E nem assim o gabo um terço, daquilo que gabas a Anna.

- Não há muito que elogiar nele, verdade seja dita! – manifestou-se o Jonnas, antes de levar um olhar de reprovação da sua esposa – É verdade Christy, o Liam pode ser meu filho, mas isso não faz dele perfeito, muito menos um exemplo a seguir.

Senti uma nuvem de tensão instalar-se ali, mas felizmente, não durou muito. A minha mãe encontrou uma forma de desviar o assunto, fazendo com que o casal começasse a contar-me toda a sua história de vida. Desde o momento em que se conheceram e apaixonaram, até à construção do seu império imobiliário. Eles eram os proprietários de uma das maiores empresas imobiliárias do país, a Hill’s House, e pelo que entendi, eram amigos da família Van der Wood há vários anos.

Depois do meu terceiro copo de champanhe e de pelo menos mais vinte caras novas, percebi que precisava de me refugiar por uns instantes. Primeiro porque o jantar ainda não tinha sido servido e o álcool já me estava a afetar, e segundo, precisava urgentemente de usar a casa de banho.

Enveredei por um corredor, que achava ser o certo, e percorri-o até ao fundo, apenas para verificar que muito provavelmente estava na ala errada da mansão. - Como é que não consigo encontrar uma casa-de-banho numa casa tão grande? – reclamei baixo. Suspirei em aflição, a minha bexiga estava a contorcer-se dentro de mim, e a cada passo que dava, sentia as suas súplicas.

Até que finalmente a encontrei! Corri a distância que me separava da porta entreaberta da casa-de-banho, mas fui detida pelo que os meus olhos testemunharam. O meu coração acelerou quando vi um homem alto, de cabelos ondulados e pretos, numa situação íntima com uma mulher que parecia ser uma das camareiras. As suas bocas beijavam-se com voracidade. As mãos dele exploravam o corpo da mulher, cravando os seus dedos na pele dela. Eu estava completamente chocada, mas não consegui mover-me dali, até ela notar a minha presença e chamá-lo à atenção, para que parasse.

Fechei a porta imediatamente, estava nervosa e conseguia pensar em fugir dali rápido. Disparei a correr para fora daquele corredor, quase tropeçando nos meus saltos altos, como se precisasse afastar-me daquele cenário o mais rápido possível.

A angústia impelia-me, mas não me permiti olhar para trás para verificar se alguém me seguia. A minha única missão era encontrar a minha mãe, que se preparava para sentar numa das várias mesas que se estendiam pelo salão. O desejo de sair dali, para longe daquela situação perturbadora, era o único pensamento que dominava a minha mente.

- Anna, estás bem?

- Sim, porquê? – sentei-me sem nem sequer confirmar se aquele era mesmo o meu lugar.

- Pareces assustada. – comentou – Acredito que seja um pouco demais para ti. Muitas caras em tão pouco tempo.

Torci o rosto numa careta tonta, mas acho que a minha mãe não estranhou. À minha frente tinha uma placa que dizia Anna Carter, sorri aliviada porque estava sentada no lugar certo.

- Leo! – a minha mãe exclamou – Anda conhecer a Anna!

Olhei para a minha mãe que se colocava de pé para recebê-lo de braços abertos e pus-me de pé também.

Se os meus olhos não me denunciaram, então foi o meu queixo, que quase bateu no chão, quando vi que aquele era o mesmo homem que se estava a enrolar com a empregada na casa-de-banho.

Ele abraçou a minha mãe, cobrindo-a por completo, de tão alto que era.

- Anna, este é o Leonardo, o filho do Michael.

Os seus olhos verde esmeralda, cruzaram-se com os meus e a sensação de reconhecimento deu-me a certeza de que ele me tinha visto quando fugi.

- Muito prazer, Anna. – pegou na minha mão para beijá-la - Estava ansioso por te poder conhecer pessoalmente.

Eu não falei nada. Aliás, acho que naquele momento eu não era capaz de dizer fosse o que fosse. Assenti com uma idiota e tentei produzir algo parecido com um, ‘o prazer é todo meu’, mas soou mais como um grunhido estranho.

- Senta-te Leo, vais ficar na nossa mesa ao lado da Anna. – Congelei de imediato - Vou chamar o teu pai, senão por este andar, só começamos a jantar amanhã.

Vi a minha mãe abandonar a mesa, deixando-me sozinha com o meu novo meio-irmão que ao contrário de mim, parecia estar inabalavelmente calmo.

Ajeitei o meu vestido evitando criar contacto visual, mas então uma mão pousou sobre a minha e vi-me obrigada a encarar aqueles olhos verdes que me desconcertaram.

- Posso te chamar de Anninha ou preferes Anna? – o seu sorriso revelava o quanto ele se estava a divertir com tudo isto.

Limpei a garganta antes de falar – Anna parece-me mais apropriado. – respondi, tirando a minha mão debaixo da dele.

- Pena. – disse, olhando para a minha mão que se escondia debaixo da mesa – Anninha soa mais íntimo.

Senti o meu rosto ferver de embaraço. Eu não sabia se era o álcool ou se era a sua presença, talvez fosse uma mistura de tudo, mas eu sentia-me completamente exposta.



Capítulo 2

Van der Wood

  Saí da casa-de-banho a tempo de ver as costas tatuadas daquela que acabava de me flagrar a comer a camareira. Ela fugiu tão depressa que quase parecia que foi ela quem acabara de ser apanhada.

 Ri baixo antes de voltar para dentro da casa-de-banho.

- Achas que ela vai dizer alguma coisa? – Beatrice abotoava a camisa apressadamente – Eu preciso do dinheiro! Se ela der com língua nos dentes sou despedida!

 Olhei o meu reflexo no espelho, ajeitando o meu cabelo com as mãos – Não sejas parva. – cruzei um olhar presunçoso com ela – Quem te contratou fui eu! Para mais… - ignorei a sua tentativa de me puxar para um último beijo – Provavelmente é só a acompanhante de alguém, nunca a vi antes.

 Disse-lhe que esperasse uns dois minutos, para que ninguém percebesse que saímos da mesma casa-de-banho, e, quando cheguei ao salão principal, já todos se preparavam para jantar. 

As duas primeiras pessoas que vi foram a minha nova madrasta, ao lado da morena com as costas tatuadas. Bingo! Show time…

 Ainda estava a uns 3 metros de distância quando a Elaine me viu. Abriu os seus braços para me receber num abraço caloroso, ao qual retribuí mais por educação do que por vontade e, finalmente, tive a oportunidade de ver o rosto da dona daquelas costas tatuadas. E ela era apetitosa. 

O seu cabelo ondulado estava estrategicamente pousado sobre um dos ombros, o seu rosto era delicado, mas os seus olhos intensos criavam um contraste no mínimo aliciante.

- Anna, este é o Leonardo, o filho do Michael.

 Anna? Era esta a filha da Elaine? Isto tinha acabado de se tornar tão mais interessante.

- Muito prazer, Anna. – peguei na sua mão e beijei-a, sem tirar os meus olhos dos dela - Estava ansioso por te poder conhecer pessoalmente.

 Senti o seu corpo enrijecer e a sua face ruborizar. Murmurou uma resposta quase inaudível e voltou a sentar-se. Segui-a e sentei-me do lado dela, enquanto a Elaine ia chamar o meu pai. 

- Posso te chamar de Anninha ou preferes Anna? – pousei uma mão sobre a dela, conseguindo que me olhasse. Sabia que isso ia deixá-la ainda mais desconcertada, mas era divertido demais para não o fazer.

– Anna parece-me mais apropriado. - deixou a sua mão deslizar e escondeu-a de mim.

- Pena! Anninha soa mais íntimo. 

 A forma como se mostrou afetada, extasiou-me. Parecia uma adolescente. 

 Os nossos pais chegaram e sentaram-se. Durante todo o jantar senti-a tensa. Ela mal se mexia do meu lado e isso instigava-me a querer a sua atenção ainda mais. O meu pai encheu-me de perguntas acerca da minha semana em Itália. Tinha ido visitar a minha mãe. Desde o divórcio dos meus pais que a minha mãe voltou para Roma, onde vivia com o meu padrasto e com os meus avós. Costumava visitá-la a cada dois meses, e ficava sempre uma semana por lá.

 Do meu lado, consegui notar que, apesar de tensa, Anna ouvia a nossa conversa atentamente. Tentei fazer com que ela reagisse de alguma forma à maneira como eu procurava o seu olhar, mas ela continuava a evitar-me a todo o custo, até que se viu obrigada a responder às perguntas do meu pai.

- E tu Anna? Como te sentes? 

 Ela pousou os talheres e limpou a garganta timidamente – Bem, um pouco cansada da viagem apenas.

- Imagino que estejas cansada, é um voo muito longo. E ainda por cima chegaste justamente hoje. Mal tiveste tempo para descansar!

 Ela deu um pequeno sorriso e negou com a cabeça – Foi escolha minha, na verdade! Por isso não me posso queixar.

- E em relação ao teu novo emprego? – agora foi a Elaine quem perguntou – Não estás ansiosa por começar a dar aulas? Quando me disseram que a vaga de professor de Literatura Moderna estava aberta eu soube logo que serias a pessoa ideal para o cargo, filha. 

 Professora? Que sexy…

- Começo daqui a dois dias e ainda não sei onde fica a universidade sequer… - sorriu um pouco mais relaxada.

- Não seja por isso! – exclamou o meu pai - O Leo estudou lá e de certeza que te pode levar amanhã para que fiques a conhecer!

- Que ótima ideia! Na verdade, eu adorava poder levar-te lá, filha, mas amanhã tenho o dia cheio de reuniões. – acrescentou a minha madrasta.

 O desconforto da Anna era tão grande que se tornava visível – Não há necessidade, eu posso muito bem resolver isso sozinha. Para mais, não quero dar trabalho ao Leonardo!

 Adorei ouvi-la dizer o meu nome…

- Eu levo-te. – interferi – Será um prazer poder ajudar.

 Consegui que me olhasse e desta vez senti uma faísca de algo ao qual não sabia dar nome, mas que me despertou a vontade de suster aquele olhar por mais uns segundos.

- Não é necessário. – insistiu, teimosa – Além disso, acredito que ele não saiba onde fica a ala de literatura.

- Sei sim, namorei com uma miúda que estudava Literatura Inglesa. – garanti-lhe, fazendo-a desistir de ripostar.

 A festa estendeu-se por mais umas três ou quatro horas, mas logo após o discurso do meu pai, arranjei forma de sair sem ser notado. Era domingo e já passava da meia-noite, o que significava que dentro de pouco tempo, os meus amigos também estariam fora de casa prontos para mais uma noite de festa na capital inglesa.

 Escapuli-me como um puto de 16 anos e fui direto para casa do Liam. 

- Que tal a festa? – perguntou-me colocando um cigarro na boca.

- Mais do mesmo… tremendamente chata! – ele riu enquanto eu acendia um dos seus cigarros – No entanto… - dei um trago no cigarro – Conheci a minha irmãzinha. 

- É boa? 

 Ri-me com a sua pergunta. A verdade é que ‘boa’, era um eufemismo. Ela não era “boa”, ela era podre de boa, porém, preferi ocultar esse detalhe do meu melhor amigo.

- Safa-se. – respondi, indiferente.

 Eu não ia dizer o que realmente achava dela, ele não precisava de saber.

 Seguimos para o Under por volta das duas. A noite estava especialmente fria, mas isso não parecia ser impedimento para todas aquelas pernas nuas na fila de espera, fila essa que dava a volta ao quarteirão. 

 Os apelidos Van der Wood e Hill eram já bem famosos na noite de Londres, então esperar para entrar nunca era algo pelo qual tínhamos de passar.

 Entrando, ao entrar na discoteca fui inebriado por em cheiro forte a álcool, perfume e tabaco, nada a que já não estivesse habituado. Todos esperavam por nós na zona VIP, mas eu queria ir para o meio da pista divertir-me um pouco, antes de tratar de negócios.

- Eu vou ali beber qualquer coisa. Já te encontro! – informei o Liam, antes de o abandonar.

 Lancei-me para a pista da discoteca, imerso na batida pulsante da música eletrônica que preenchia o ar. As luzes coloridas piscavam freneticamente, lançando sombras e reflexos inconstantes por toda a parte. O calor do local misturava-se com a eletricidade no ar, criando uma atmosfera carregada de energia. 

 Enquanto eu me movia pela pista, avistei uma mulher deslumbrante à minha frente. Os seus olhos eram como um íman, atraindo o meu olhar, e o seu sorriso irresistível. Ela dançava, sedutora, movendo-se ao ritmo da música, e eu não conseguia resistir à tentação de me aproximar.

Colei o meu corpo ao dela e comecei a dançar, deixando a música nos envolver. Os nossos corpos moviam-se juntos, como se estivéssemos a seguir uma coreografia invisível, e a atração mútua crescia. Naquele momento eu pensava em só uma coisa. COMÊ-LA!

 Depois de um tempo a dançar, ela puxou a minha mão e sussurrou-me ao ouvido, sugerindo irmos para um lugar mais tranquilo. Sem pensar duas vezes, levei-a até à casa de banho da discoteca. Lá, o ambiente era mais silencioso e íntimo, com uma luz suave que criava uma atmosfera ainda mais sensual.

À medida que nos beijávamos e nos tocávamos, a minha vontade de a ter ali, naquele momento, se intensificava. A casa-de-banho transformou-se num refúgio de desejo e prazer, mas a verdade é que eu tinha pressa e precisava de vazar.

- Qual é o teu nome? - perguntei, ainda ofegante. Ela deu-me um sorriso enigmático e sussurrou o seu nome suavemente no meu ouvido.

- Prazer, Rachel! – respondi.

- Não me vais dizer o teu nome? 

- Talvez noutro dia. - Dei-lhe um último beijo ardente e saí da casa-de-banho, deixando-a sozinha à espera de saber qual era o meu nome. Tinha negócios a tratar, e miúdas como aquela apareciam todas as noites.  



Capítulo 3

Carter

Acordei naquela manhã com o corpo pesado e a mente turva. Os efeitos do jet-lag ainda estavam bem presentes, deixando-me com uma sensação estranha, como se estivesse a flutuar entre dois mundos. Abri os olhos lentamente e encarei o teto do quarto desconhecido, em que me encontrava. Era uma sensação estranha acordar num lugar tão diferente daquele que estava habituada desde que nasci, mas estava determinada a começar uma nova vida aqui.

Enquanto tentava me situar na realidade, a lembrança da noite anterior começou a emergir, como um filme em câmara lenta. Vi o rosto do meu meio-irmão, envolvendo-se com uma camareira. O meu estômago revirou-se com o pensamento daquele comportamento imprudente.

À medida que a memória se aprofundava, um nó formou-se na minha garganta. Hoje ele ia-me levar a conhecer a University of London, onde eu começaria a trabalhar. A ideia de estar na presença dele, depois do que testemunhei na noite anterior, deixou-me nervosa. Ele parecia exalar um mistério, como se tivesse segredos ocultos que não queria compartilhar com ninguém, e isso só aumentava a minha sensação de desconforto e ansiedade.

Levantei-me da cama e comecei a preparar-me para o dia que se avizinhava. Olhei para o espelho e respirei fundo, tentando reunir coragem para enfrentar o que estava por vir. Afinal, eu tinha uma nova vida para começar e uma universidade para conhecer, independentemente do aparente mistério que envolvia o Leonardo Van der Wood.

*

Desci as escadas até ao primeiro andar seguindo o cheiro a café fresco e torradas quentes que enchiam o corredor. Era a minha primeira manhã em Londres, e eu estava prestes a partilhar o pequeno-almoço com a minha nova família, não pude evitar sentir-me ansiosa.

Ao entrar na cozinha, deparei-me com o Leonardo, que estava de pé junto ao balcão. Os nossos olhares cruzaram-se, e senti uma tensão imediata no ar. Era evidente que a relação entre nós não tinha começado com o pé direito.

- Olá. - murmurei, sem saber bem se o devia ter cumprimentado ou não.

Ele olhou-me de cima a baixo com um olhar indecifrável e respondeu, com uma voz carregada de hostilidade. – Oi, Anninha!

E então sorriu.

Fiquei momentaneamente sem palavras. Antes que eu pudesse responder, a minha mãe entrou na cozinha com um sorriso caloroso.

- Bom dia, meus queridos! - cumprimentou ela, como se não tivesse notado a tensão no ar.

A sua chegada repentina interrompeu o nosso semi-diálogo hostil, e agradeci-lhe mentalmente por isso.

- Que caras são essas? – perguntou a minha mãe – Não dormiram bem?

- Jet-lag… - respondi apenas.

A minha mãe pousou uma caneca de café a escaldar na minha frente – Nada que um café não resolva!

Sorri em respostas e segurei a caneca nas mãos. Soprei algumas vezes, na espectativa de que o café arrefecesse, enquanto alguém me observava de canto d’olho.

- Leo, sempre podes levar a Anna a conhecer a universidade, hoje?

Quis repetir o mesmo discurso de ontem e declarar que podia muito bem ir sozinha, mas a verdade é que eu não fazia ideia de como chegaria lá, sequer tinha carro e nunca conduzi do lado contrário da estrada.

Merda! Como é que não me lembrei disso antes?

- Sim, vou só tomar um duche e trocar de roupa. Depois posso levar-te. – anunciou ele, antes de se levantar e deixar-me a sós com a minha mãe.

A minha mãe começou a preparar o seu pequeno-almoço de forma descontraída. Acho que era algo que ela nunca dispensaria em fazer, independentemente dos vários empregados que trabalhavam naquela casa. O som suave da torradeira a estalar o pão integral relembrou-me das minhas manhãs em Nova Iorque, quando ainda tinha 15 anos e a minha mãe me preparava o pequeno-almoço antes de ir para a escola.

Uma súbita saudade fez-me sentir um aperto no coração. A dúvida apesar de silenciada, ainda vivia dentro de mim. E mais uma vez, vi-me a questionar se estava realmente feliz com a decisão de ter deixado Nova Iorque para iniciar uma nova vida em Londres.

A minha mãe pareceu ter notado o meu momento de introspeção. – Estás preocupada com algo?

- Apenas a pensar… - respondi, lançando-lhe um pequeno sorriso, ela conhece-me demasiado bem.

- Eu sei que estás preocupada e cheia de questões dentro de ti. As questões são inevitáveis. Será que tomei a decisão certa? Será que deveria ter ficado? Mas independentemente da decisão que tomes, tu sempre vais ficar com esse sentimento de incerteza, filha. A verdade é que nós nunca sabemos se estamos a tomar as decisões certas.

Anuí em concordância e sorri, ainda abalada pela nostalgia. Ela deu-me um abraço terno e eu agradeci mentalmente, por ter a minha mãe ali comigo.

*

Estava no fundo das escadas da mansão, à espera que o meu meio-irmão quando finalmente ouvi os passos dele a descer o primeiro lance de degraus. O seu cabelo preto e ondulado caia descontraidamente sobre a testa, dando-lhe um ar rebelde. Notei que ele tinha em ambos os braços várias tatuagens e só então apercebi-me do quão atraente ele realmente era.

Ele usava uma t-shirt preta que realçava o contraste das tatuagens, juntamente com calças da mesma cor. Na mão direita, segurava um casaco de cabedal, o que dava um toque de elegância ao seu estilo descontraído. Na outra mão, segurava um capacete, indicando que estava pronto para sair.

Ao ver o capacete na mão do Leonardo, fiquei apreensiva. A ideia de subir numa mota não estava nos meus planos, e era evidente que ele tinha algo do género em mente.

- Estás muito enganado se pensas que eu vou subir em cima de uma mota! - disse com firmeza, tentando fazer com que a minha preocupação fosse clara.

No entanto, o meu meio-irmão ignorou-me, passando por mim e indo em direção à porta que dava para a saída da casa.

- Estás com medo da mota ou de mim? - perguntou, com um toque de provocação.

Senti-me um pouco desconfortável com a situação. A sua questão apanhou-me de surpresa e fez-me refletir sobre o que estava realmente a causar a minha ansiedade: a ideia de andar de mota ou o facto de ter de andar em uma mota com ele.

Num misto de inquietação e confusão, respondi:

- Não se trata de estar com medo de ti, é apenas... não estava à espera de uma mota, e não tenho experiência nenhuma com isso.

- Calma, Anninha, não é como se estivéssemos a falar de sexo!

Ele deixou-me sem palavras e confusa. Era evidente que aquela conversa estava a tomar um rumo que eu não procurava, e eu não sabia como reagir perante o humor descontraído daquele idiota que agora era meu meio-irmão.



Capítulo 4

Van der Wood

Aquela sensação de estranheza que pairava no ar era um lembrete constante das minhas aventuras na noite anterior. Eu sabia que tinha cometido um erro, quando me descuidei e deixei-me ser flagrado pela Anna. Agora, restava-me ser mais cauteloso, para que ela não desse com a língua nos dentes, ainda que, ao que tudo indicava, ela não parecia se importar com aquilo que eu fazia, ou deixava de fazer.

Após tomar um duche rápido e mudar de roupa, estava pronto para levar a Anna até à University of London. Olhei-me ao espelho e tentei parecer mais relaxado do que realmente estava. A noite não tinha corrido como planeei. Esperava ter conseguido fechar negócio com o James, porém, as coisas acabaram por correr bastante mal. Acabámos por nos desentender ao ponto de andarmos à porrada ainda dentro do Under. A verdade é que todo o meu corpo doía. Debaixo daquela t’shirt preta, estavam umas quantas nodoas negras que me apanhavam as costelas e parte das costas.

Desci as escadas, já com o capacete na mão, e encontrei a Anna no fundo dos degraus. Olhou-me de cima a baixo e resmungou quando percebeu que íamos de mota.

- Estás com medo da mota ou de mim? – perguntei.

- Não se trata de estar com medo de ti, é apenas... não estava à espera de uma mota, e não tenho experiência nenhuma com isso.

Tentei manter um tom leve, mesmo sabendo que a situação era um tanto inusitada:

- Calma, Anninha, não é como se estivéssemos a falar de sexo!

A expressão no rosto dela era digna de ser fotografada, e eu não pude evitar um sorriso divertido. Era claro que a nossa relação estava a começar de forma pouco usual, mas também só nos conhecemos ontem.

- Bem, a não ser que a condução de uma mota seja um fetiche sexual teu, acho que estás a exagerar. – acrescentei.

Ela claramente não sabia o que dizer, e de repente parecia estar à beira de rir, mas conteve-se. Dei por mim a fazer o mesmo e do nada, percebi que estava a gostar desta interação descontraída. Talvez houvesse esperança para uma relação amistosa.

Enquanto a Anna aproximava-se da mota, entreguei-lhe um capacete e expliquei-lhe como o colocar corretamente. Ela aceitou-o com relutância, mas não resmungou.

Subimos na mota e dei partida. A sensação do vento a bater-me na cara e o rugido do motor eram familiares para mim, mas para a Anna, era uma experiência completamente nova, e isso notava-se. Enquanto nos afastávamos da mansão e rumávamos para a University of London, podia sentir a tensão ressurgir. Senti o seu corpo enrijecer-se. Ela evitava a todo o custo segurar-se em mim, mas o trânsito da cidade e as estradas maltratadas, impediam-na de se soltar do meu torço. Por duas vezes, senti uma dor aguda, quando ela me envolveu com um pouco de mais firmeza, mas não o demonstrei. O melhor era evitar qualquer pergunta.

Conforme avançávamos pelas ruas movimentadas de Londres, a tensão entre nós parecia diminuir novamente. A Anna começou a relaxar o corpo e encontrou maior equilíbrio na mota. O vento e o rugido do motor pareciam finalmente tê-la conquistado.

Enquanto dirigia, aproveitei a oportunidade para puxar conversa:

- Impressão minha ou estás a gostar do passeio?

Ela pareceu hesitar por um momento, mas depois respondeu: - Não exatamente…

Ri. Era evidente que ela estava a mentir.

À medida que nos aproximávamos do nosso destino, o meu pensamento voltou para a discussão com o James na noite anterior. Eu precisava de resolver essa situação de alguma forma, urgentemente.

A University of London estava agora à vista. Procurei um estacionamento próximo do novo local de trabalho da Anna e parei. Descemos da mota, e, enquanto tirávamos os nossos capacetes, reparei que a Anna parecia um pouco atordoada, mas, ao mesmo tempo, mais relaxada.

Fiquei surpreso por vê-la mais à vontade. Agora, era hora de lidar com os assuntos pendentes. Guiei-a pelo campus até ao prédio onde ela iria dar aulas. Pelo caminho, observei o seu olhar curioso enquanto admirava a arquitetura da universidade.

Ela era mesmo gata. Nem muito alta, nem muito baixa. O seu cabelo escuro e ondulado, passava do meio das costas. Gostava particularmente dos seus lábios. Eram rosados e carnudos.

Finalmente, chegamos ao edifício e ela parou à porta, à espera que eu me fosse embora.

- Tenho de tratar de algumas coisas. Por isso não vou poder-te buscar mais tarde.

- Tudo bem… Eu também acho que o melhor é eu aprender a usar o metrô, para não ter de depender de ninguém.

Assenti em concordância e fui-me embora.

A caminho da casa do Liam procurei absorver-me dos meus pensamentos menos bons. Estava demasiado focado no problema da noite anterior, e não propriamente em como o ia resolver. Precisa de clareza, para não voltar a perder as estribeiras e acabar por me arrepender.

Cheguei à casa do Liam, onde sabia que poderia encontrar o seu apoio e conselhos. Ele era o meu melhor amigo e parceiro de confiança.

Quando entrei em casa, encontrei-o sentado no sofá, a olhar para o nada.

- O que diabos aconteceu na noite passada, Leo? – perguntou-me, com uma expressão séria.

Inspirei fundo, sentando-me de frente para ele e expliquei-lhe todos os detalhes do desentendimento com o James e como as coisas tinham escalado até chegar ao ponto de partirmos para o lado físico.

O Liam não parecia surpreso, mas estava claramente preocupado com a nossa situação.

- Isso é mau, Leo. O James é um tipo perigoso, e tu sabes disso. Precisamos resolver isso antes que as coisas piorem.

Concordei com ele. Não nos podíamos dar ao luxo de deixar esta situação sair do controle. O território disputado era demasiado lucrativo para ambos, e a nossa parceria era valiosa. Tínhamos que encontrar uma solução antes que as coisas descambassem para algo pior.

Perdemos um par de horas a discutir estratégias para lidar com James e como poderíamos chegar a um acordo que beneficiasse ambas as partes. O Liam era habilidoso em negociações e conhecia aquele mundo tão bem quanto eu, o que tornava a sua ajuda crucial.

Enquanto trabalhávamos na criação de um plano, eu não conseguia afastar o sentimento de que as coisas estavam longe de acalmar. Os nossos negócios eram um terreno instável, e a nossa sobrevivência naquele meio, dependia da habilidade que tínhamos de enfrentar desafios como este. A situação estava cada vez mais complicada, e a resolução dos problemas com o James eram apenas o começo de uma série de conflitos que ainda estavam por vir, se não tomássemos as decisões certas.

- Temos de encontrar uma solução que beneficie ambos e proteja os nossos interesses. - pensei em voz alta e suspirei, sentindo-me entre a espada e a parede.

*

Quando cheguei a casa, já passava um pouco da meia-noite. A minha boca tinha um sabor a álcool e tabaco. Subi as escadas discretamente, para não ser notado. Não queria ninguém a perguntar-me onde andei o dia todo ou o porquê de estar bêbado numa segunda-feira.

A Anna estava parada no corredor, a olhar para a porta do meu quarto. Quando notou a minha presença, a sua expressão mudou completamente, passando de curiosa para apreensiva.

- Impressão minha, ou estavas prestes a bater-me à porta?

Ela usava uma t’shirt de banda qualquer, que lhe chegava até meio das coxas. Tinha o cabelo preso num rabo de cavalo desalinhado, e usava uns óculos de hastes prateadas.

Pena que ela era enteada do meu pai.

- Estava a ir para o meu quarto.

- Como foi o teu dia? - aproximei-me dela, impedindo-a de abrir a porta.

A Anna ergueu uma sobrancelha, de forma desafiadora e eu não pude evitar sorrir. Afinal, ela também ripostava.

- Como se isso te interessasse! – tentou desviar-se, mas eu acompanhei o seu movimento, aproximando-me ainda mais.

Ela engoliu em seco. Os seus olhos encontraram os meus, e por um breve momento, houve um silêncio carregado de tensão entre nós.

Baixei o meu rosto para sussurrar no seu ouvido, fazendo-a recuar o máximo que podia - Acredites ou não, Anninha, interesso-me bem mais do que imaginas.

A sua respiração vacilou e eu afastei-me, para poder olhá-la outra vez. Ela observava-me num misto de inocência e curiosidade. Os seus olhos foram de encontro aos meus lábios.

- Tu interessas-me, Anna. - sussurrei, aproximando-me lentamente dos lábios dela – E gosto particularmente, da forma como me estás a olhar agora…

Passei a mão pelo seu rosto, acariciando-o suavemente. – Pena que somos meio-irmãos, não é?

Vi as suas bochechas ruborizarem antes de bater com as suas costas na porta do quarto e acordar do estado de transe.

- Posso entrar no meu quarto? Por favor? – os seus olhos lançaram-me faíscas.

- Claro… Anninha.- desviei-me para que ela passasse.

– Já agora, tresandas a álcool. – disse, batendo a porta na minha cara.

Auch! Ela tinha ficado mesmo chateada.

Travei uma vontade desenfreada de rir e fui para o meu quarto também. Após fechar a porta, percebi que tinha passado dos limites.

O que diabos estava eu a pensar? Era por isso que não devia beber e ir para casa logo de seguida. Um sentimento de arrependimento apoderou-se de mim.

Aquilo foi no mínimo inapropriado, mas foda-se, estava ansioso por voltar a fazê-lo.



Capítulo 5

Carter

Abri a porta do closet e comecei a vasculhar entre as opções. Optei por um vestido castanho comprido. Era final de verão, mas não estava um dia propriamente ensolarado, por isso tirei uma sweater bege que tinha na minha mala, que por sinal ainda não tinha sido desfeita, e vesti-a. Era extremamente confortável. Senti-me instantaneamente mais entusiasmada, adorava acordar cedo.

Enquanto olhava o meu reflexo no espelho, pensei nas aventuras que me esperavam lá fora. Londres era uma cidade que fez parte de imensas obras literárias que eu admirava, e o entusiasmo era inevitável.

Calcei uns botins confortáveis, perfeitos para caminhar, peguei na minha mala, e verifiquei se não me faltava nada.

Saí do quarto com um semblante leve e fechei a porta. Voltando-me para o corredor, a primeira coisa que vi foi a porta do quarto do Leonardo. As memórias do nosso encontro na noite anterior recordaram-me do quanto eu não queria ter de me cruzar com ele outra vez.

Pergunto-me sobre o que me levou a parar à porta do seu quarto, naquele momento, àquela hora da noite, especialmente porque, do pouquíssimo que conhecia dele, nada me agradava. Talvez fosse simplesmente a minha curiosidade natural em querer desvendar mistérios. Porque se havia algo que ele era, era misterioso.

Quando desci, a minha mãe já me esperava. À medida que me aproximava da porta, o seu sorriso crescia, contagiada pelo meu entusiasmo.

Tínhamos combinado passar o dia juntas, o que era algo inédito em 5 anos.

Partimos para explorar Londres, ‘prontas para criar memórias que perdurariam para sempre’, como ela fez questão de dizer.

Passamos por monumentos icónicos, parques exuberantes e até os próprios becos, eram encantadores. Eu estava deslumbrada.

Senti-me feliz. Estava a partilhar algo especial com a minha mãe, como se estivéssemos a reconstruir uma ligação perdida ao longo dos anos. Era como se o cenário vibrante de Londres estivesse a desempenhar o papel essencial na nossa reaproximação.

Caminhamos ao longo do Tamisa, admirando a imponência da Torre de Londres à distância. As gaivotas sobrevoavam o rio, proporcionando um espetáculo aéreo que contrastava com a agitação da cidade. Cada momento era digno de ser capturado.

Enquanto explorávamos Covent Garden, a minha mãe sugeriu uma pausa para o chá. Sentamo-nos numa esplanada e pedimos um chá preto. A conversa fluía naturalmente, e a sensação de estar ali, naquele momento, era incomparável.

Depois de uns trinta minutos, decidimos continuar o nosso passeio. Estávamos a passar numa rua movimentada quando me deparei com uma loja de materiais de arte. Os pincéis, as tintas e as telas exibiam-se na montra, como se me chamassem. O meu coração saltou de alegria. A minha mãe, percebendo o brilho nos meus olhos, sorriu e encorajou-me a entrar.

Dentro da loja, perdi-me entre os corredores repletos de inspiração. Escolhi cuidadosamente telas, tintas e pincéis, sentindo uma antecipação crescente pela oportunidade de dar vida às minhas visões artísticas mais uma vez.

Ao pagar pelas minhas mais recentes aquisições, senti uma mistura de emoções. A alegria de reencontrar a minha paixão pela pintura estava entrelaçada com a melancolia de lembrar-me das obras que tive de deixar para trás em Nova Iorque. Mas, naquele momento, ao segurar as novas telas nas mãos, senti uma espécie de promessa renovada para expressar a inspiração que a cidade de Londres acabava de despertar em mim.

*

Quando chegámos, já a mesa estava posta e o cheiro tentador do jantar preparado pela governanta pairava no ar. Subi para o meu quarto, para poder pousar todo o meu novo material de pintura e apressei-me a descer de novo, para que ninguém me esperasse.

No entanto, uma conversa telefónica que vinha do quarto do Leonardo, chamou-me a atenção. A porta do quarto estava ligeiramente entreaberta e eu consegui perceber uma certa acidez na sua voz enquanto discutia em chamada. Intrigada, parei por um momento, mesmo estando consciente do que aquilo que eu estava a fazer era errado.

Ele estava ao telefone com alguém chamado James, e discutia sobre a entrega de algo até sexta-feira. A conversa, embora codificada, transmitia uma urgência e assertividade que me deixaram curiosa.

- Sim, toda a mercadoria tem que ser entregue até sexta-feira. O negócio tem que correr sem problemas desta vez. - disse o Leonardo num tom que transpirava autoridade.

O meu coração acelerou à medida que percebi que estava inadvertidamente a testemunhar uma conversa que não era suposto eu ouvir e antes que eu me apercebesse, a conversa tinha terminado, e eu, com um súbito pânico, apressei o meu passo em direção à sala de jantar, antes que ele me encontrasse ali.

Quando entrei na sala, a minha mãe e o seu Michael já estavam sentados à mesa, a partilhar como tinha corrido o seu dia. Ao olhar para a mesa, percebi que havia um lugar vago ao meu lado, um espaço que logo foi preenchido pelo aparecimento súbito do meu meio-irmão.

O ar pareceu tornar-se mais denso quando ele se sentou ao meu lado, e senti um desconforto quando os seus olhos pousaram sobre mim.

Engoli em seco e desviei o olhar, concentrando-me nas iguarias dispostas à minha frente. O som dos talheres a tocar nos pratos e a conversa entre os nossos pais, eram como uma música de fundo para mim.

Tentei ignorar a sua presença, e focar-me na conversa superficial à mesa. No entanto, a tensão entre nós pairava como uma sombra. Ainda que ele não me tivesse dirigido a palavra, era como se os seus movimentos falassem comigo.

Uma pergunta persistia na minha mente: Será que ele sabia que eu tinha ouvido a sua conversa? Os seus olhares insinuantes e o ar pesado na sala pareciam dar-me uma resposta silenciosa e afirmativa, mas ao mesmo tempo, este tinha tido este mesmo comportamento desde sempre, daí eu não saber o que realmente pensar.

De repente, ele decidiu quebrar o silêncio, falando num tom casual e com uma pontada de malícia disfarçada - Anna, ouvi dizer que andaste a explorar Londres. É fascinante, não é?

Os nossos pais continuavam a conversar animadamente, alheios à dinâmica tensa entre nós. Tentei manter a calma e respondi com um sorriso forçado. - Sim, é uma cidade incrível.

Ele inclinou-se ligeiramente na minha direção, como se quisesse partilhar algum segredo.

- Tenho a certeza de que Londres tem muito mais para oferecer do que aquilo que se vê à superfície. Às vezes, as verdadeiras maravilhas estão escondidas nas sombras, não achas?

Estava a jogar um jogo perigoso, insinuando algo que eu não conseguia decifrar completamente. Engoli em seco, mas mantive a compostura: - Bem, há sempre algo novo para descobrir, suponho.

Um sorriso enigmático dançou nos lábios dele, e, num instante, voltou ao silêncio. Uma coisa era certa, ele estava a adorar brincar com a minha mente.

*

Após o jantar, voltei para o meu quarto. Deitei-me na cama, com os olhos fixos no teto, perdida nos meus próprios pensamentos.

Várias questões ecoavam na minha cabeça, mas uma em especial, não me deixava fechar os olhos: Por que me sentia tão vulnerável e exposta na presença de alguém que mal conhecia?

Tentei analisar as interações da noite, à procura de motivos para justificar a minha inquietação. A sua presença, os olhares insinuantes, as palavras cuidadosamente escolhidas – tudo isso contribuía para criar um ambiente carregado entre nós os dois. Mas porquê? Talvez fosse a falta de familiaridade com ele, ou talvez as memórias de uma conversa ouvida ao acaso ainda pairassem na minha mente.

Enquanto tentava organizar os meus pensamentos, percebi que, de alguma forma, o enigma que era o Leonardo Van der Wood tinha ganho uma nova camada de complexidade.





Continua...



Nota da autora: Agradeço a todos aqueles que estão a acompanhar a minha história, estou super ansiosa por me conectar convosco. Vou deixar aqui o meu instagram, para que possamos conversar ^-^ @_a.n.a.carolina_

xoxo Nina





Nota da beta: QUE SACO, EU AMO A ESCRITA DA NINA! Sou viciada nas palavras dela e no jeitinho de narrar esta história. Obcecada nessa relação proibida dos queridos, DOIDA PRA MAIS

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