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Última atualização: 02/05/2022

Prólogo

Elizabeth Voux era medibruxa no Hospital St. Mungus para Doenças e Acidentes Mágicos e amava seu trabalho. Considerada uma das melhores profissionais, atendia sempre os casos mais graves e extremos e estava acostumada a passar noites em claro no hospital.
Dessa forma, não foi surpresa alguma quando, durante uma noite comum, foi chamada com extrema urgência. No entanto, o choque veio mesmo assim. Apesar de tentar ao máximo manter o profissionalismo, não conseguiu esconder tamanha tristeza ao ver os pais da melhor amiga de sua filha - e seus vizinhos - dando seus últimos suspiros na ala hospitalar.
Margaret e Joseph Sinclair eram Aurores e estavam em uma missão secreta quando foram encontrados em situação catastrófica por um colega de trabalho. Elizabeth usou seus dons e aprendizados de anos de cura na tentativa de salvá-los, porém, era visível que Margaret já sabia seu futuro, principalmente quando viu o marido falecer ao seu lado.
Ignorando a dor que sentia ao fazer qualquer esforço mínimo para se mexer, a mulher ruiva olhou para Elizabeth e lhe fez um pedido.
O seu último.
“Cuide de , eu imploro...”
Sinclair era sua única filha e tinha sete anos. Ela e Voux, filha de Elizabeth, eram melhores amigas desde que se mudaram para o mesmo bairro e elas não se desgrudaram desde então.
Memória dos anos passados apareciam como filme na cabeça de Elizabeth e a principal era de horas atrás, quando Joseph Sinclair apareceu em sua porta com a linda menininha ruiva, dizendo que teriam um compromisso e que precisavam deixá-la aos cuidados da família Voux, o que já era comum de acontecer devido à rotina corrida.
Tudo que a medibruxa conseguia pensar era em como contaria isso para a criança que provavelmente estava dormindo ao lado de sua filha. Como cuidaria e lidaria com esse acontecimento tão marcante para ? Dúvidas tomavam espaço em sua mente. Ela ficaria bem sob seus cuidados, se tornaria quem seus pais gostariam que se tornasse?
E ainda que todas essas perguntas atordoassem a mente de Elizabeth, ela não sentiu um pingo de dúvida ao prometer para Margaret que sim, cuidaria e amaria como se fosse sua própria filha. Já a amava, não seria grande esforço.
Finalmente, como se estivesse apenas esperando a resposta, Margaret fechou os olhos, seguindo seu caminho ao lado do grande amor de sua vida para onde quer que fossem depois da morte.
E Elizabeth de fato seguiu sua palavra, cuidando da menina como se fosse sua própria filha.


Capítulo 1

Seis anos depois…

e caminhavam de mãos dadas pelo Expresso Hogwarts, carregando cada uma a gaiola de sua coruja, enquanto Elizabeth e Sebastian, seu marido, esperavam os rostos de suas filhas aparecerem na janela de alguma cabine.
— Mamãe! Papai! — gritou, enquanto balançava a mão em um aceno.
— Boa sorte, meninas. Não esqueçam de escrever para nós! — Sebastian falou, emocionado.
— Prometemos que não vamos esquecer! — respondeu.
— Amamos vocês! — as meninas falaram juntas, fazendo Sebastian e Elizabeth abrirem um sorriso enorme antes de gritarem que as amavam ainda mais. O trem começou a andar e as meninas continuaram na janela, observando os pais abraçados, que também as olhavam.
Quando a paisagem apareceu, e se sentaram uma de frente para a outra e repararam que um garoto de cabelos escuros parecia perdido ao lado de fora da cabine.
— Ei! — o chamou, recebendo sua atenção. — Quer ficar com a gente?
— Hm… pode ser — ele disse, dando um sorriso tímido e entrando. — Obrigado.
— Meu nome é Sinclair Voux e ela é minha irmã, Voux — a garota começou a falar, estudando o garoto que agora se sentava ao seu lado.
Harry reparou que, mesmo sendo irmãs, a aparência das meninas era bem distinta. tinha cabelos longos em um tom claro de castanho. Seus olhos azuis chamavam a atenção e contrastavam com sua pele clara e bochechas naturalmente avermelhadas.
, por outro lado, tinha naturalmente os cabelos em um tom avermelhado que realçava ainda mais seus olhos verdes, claríssimos, e sua pele extremamente clara.
Se não tivessem contado que são irmãs, ele nunca afirmaria que havia qualquer grau de parentesco entre elas. Harry ficou curioso para conhecê-las melhor e, lembrando que elas tinham se apresentado, achou que deveria seguir por esse caminho.
— E eu sou Harry. Harry Potter.
As meninas sabiam quem ele era e já haviam escutado a história dele, a cicatriz que tinha na testa era uma das marcas mais famosas que estudaram, afinal, era a prova de que aquele menino havia sido um espelho para a maldição da morte, atingindo o próprio Lorde das Trevas e o aniquilando completamente. Ainda assim, as duas apenas sorriram, dizendo que era um prazer conhecê-lo. E realmente era, ele parecia tão simpático.
Estavam entretidos na conversa quando a porta da cabine se abriu e um garoto ruivo entrou.
— Tem alguém sentado aqui? — perguntou, apontando para o assento em frente ao de Harry. — O resto do trem está cheio.
Harry respondeu que não, assim como e , que o fizeram com um aceno de cabeça, e o garoto se sentou. Olhou para Harry e em seguida olhou depressa para fora, fingindo que não tinha olhado.
— Oi, Rony.
Dois garotos gêmeos parecidos com Rony também entraram no vagão.
— Escuta aqui, vamos para o meio do trem. Lino Jordan trouxe uma tarântula gigante.
— Certo… — resmungou Rony.
— Harry — disse o outro gêmeo, que aparentemente já conhecia o garoto com a cicatriz —, nós já nos apresentamos? Somos Fred e George Weasley. E este é o Rony, nosso irmão. — Então, Fred olhou para as meninas ao lado do garoto com a cicatriz e percebeu que nunca tinha as visto. — E vocês são...?
e respondeu, apontando para a irmã. — É um prazer — completou, dando um sorriso para os irmãos, que responderam com o mesmo gesto.
— O prazer é nosso. — George sorriu ao dizer.
— Bom, vemos vocês mais tarde, então — Fred continuou.
— Tchau! — disseram Harry, , e Rony, e os gêmeos saíram, fechando a porta da cabine ao passar. Ficaram apenas cinco segundos em silêncio antes de Rony voltar a falar.
— Você é Harry Potter mesmo? — o ruivo deixou escapar e Harry confirmou com a cabeça.
— Ah, bom, pensei que fosse uma brincadeira do Fred e do George. E você tem mesmo... sabe…? — Ele apontou para a testa de Harry.
Harry afastou a franja para mostrar a cicatriz em forma de raio. Rony olhou e as duas irmãs, que antes apenas observavam, também se aproximaram um pouco para ver.
— Então foi aí que Você-Sabe-Quem...?
— Foi, mas não me lembro.
— De nada? — perguntou , curiosa. Ela tentou não tocar no assunto, mas já que ele estava falando…
— Bom… Me lembro de muita luz verde, mas nada mais.
— Uau. — Rony ficou parado uns minutos olhando para Harry. Depois, como se de repente tivesse se dado conta do que estava fazendo, olhou depressa para fora da janela outra vez, tímido.
Conversaram sobre diversos assuntos durante a viagem e, quando se deram conta, já estavam vestidos com seus uniformes, entrando no salão principal do enorme castelo da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.
Estavam completamente ansiosos para ver em qual casa cairiam.
— Acho que vou para Grifinória, todos os meus irmãos foram para lá — Rony sussurrou, enquanto atravessavam o Salão Principal. — Só não quero ir para a Sonserina, mas isso é quase impossível de acontecer.
— As pessoas da Sonserina não são ruins como você fala, Rony… — respondeu no mesmo tom. A menina não podia escutar alguém falando mal, principalmente sabendo que seu pai pertenceu àquela Casa. Ela se sentia na obrigação de defender.
Draco Malfoy, um garoto com cabelos loiros tão claros que eram quase brancos, a olhou com certa admiração. Nunca ouviu alguém defender a Casa que ele tinha certeza de que cairia. Torceu naquele instante, mesmo que inconscientemente, para que a menina ruiva que andava em sua frente o acompanhasse para lá.
não reparou no olhar e continuou ouvindo a conversa.
— Minha mãe sempre disse que todas as Casas são incríveis e eu concordo com ela — falou, dando de ombros. — Bom, meu pai foi da Corvinal e minha mãe da Lufa-Lufa, não faço a menor ideia para onde vou ser selecionada.
Os alunos novos pararam, observando enquanto a professora Minerva silenciosamente colocava um banquinho de quatro pernas diante deles. Em cima do banquinho ela pôs um chapéu pontudo de bruxo remendado, esfiapado e sujíssimo.
Por alguns segundos fez-se um silêncio total. Então, o chapéu se mexeu. Um rasgo junto à aba se abriu como uma boca, e o chapéu começou a cantar:

Ah, vocês podem me achar pouco atraente,
Mas não me julguem só pela aparência
Engulo a mim mesmo se puderem encontrar
Um chapéu mais inteligente do que o papai aqui.
Podem guardar seus chapéus-coco bem pretos,
Suas cartolas altas de cetim brilhoso
Porque sou o Chapéu Seletor de Hogwarts
E dou de dez a zero em qualquer outro chapéu.
Não há nada escondido em sua cabeça
Que o Chapéu Seletor não consiga ver,
Por isso é só me porem na cabeça que vou dizer
Em que casa de Hogwarts deverão ficar.
Quem sabe sua morada é a Grifinória,
Casa onde habitam os corações indômitos.
Ousadia e sangue-frio e nobreza
Destacam os alunos da Grifinória dos demais;
Quem sabe é na Lufa-Lufa que você vai morar,
Onde seus moradores são justos e leais
Pacientes, sinceros, sem medo da dor;
Ou será a velha e sábia Corvinal,
A casa dos que têm a mente sempre alerta,
Onde os homens de grande espírito e saber
Sempre encontrarão companheiros seus iguais;
Ou quem sabe a Sonserina será a sua casa
E ali fará seus verdadeiros amigos,
Homens de astúcia que usam quaisquer meios
Para atingir os fins que antes colimaram.
Nem se atrapalhar! Estarão em boas mãos!
(Mesmo que os chapéus não tenham pés nem mãos)
Porque sou único, sou um Chapéu Pensador!


O salão inteiro prorrompeu em aplausos quando o chapéu finalizou a cantoria. Ele fez uma reverência para cada uma das quatro mesas e, em seguida, ficou silencioso outra vez.
— Então só precisamos experimentar o chapéu! – cochichou Rony a Harry, e . – Vou matar o Fred, ele não parou de falar numa luta contra um trasgo!
deu uma risadinha, achando graça. Olhou para trás e, na ponta da mesa, próximo de onde ela estava parada, um dos gêmeos a olhou, lhe dando um sorriso encorajador. Seu irmão também reparou e levantou o polegar, fazendo um joinha com a mão.
Ela sorriu e voltou a prestar atenção no que acontecia ao seu redor.
— Quando eu chamar seus nomes, vocês porão o chapéu e se sentarão no banquinho para a seleção. Ana Abbott!
Uma garota de rosto rosado e marias-chiquinhas louras saiu aos tropeços da fila, pôs o chapéu, que lhe afundou direto até os olhos, e se sentou. Uma pausa momentânea…
— LUFA-LUFA! — anunciou o chapéu. A mesa à direita deu vivas e bateu palmas quando Ana foi se sentar à mesa da Lufa-Lufa, enquanto a seleção continuava.
Rony, como havia suposto, foi para Grifinória, e então, em poucos minutos, sobraram apenas , e Harry a serem selecionados.
Sinclair Voux! — a professora chamou e, após um olhar trocado rápido com sua irmã, se dirigiu até o banquinho e se sentou.
Hm… Sei… — o chapéu resmungou em sua cabeça. — Sonserina combina com você, essa determinação e inteligência não me enganam, srta. Sinclair, mas vejo que ficaria melhor na… GRIFINÓRIA!
Enquanto a mesa da Grifinória aplaudia e gritava em comemoração, o nome de foi chamado e o nervosismo, que antes ela não estava sentindo, a atingiu em cheio.
Parece nervosa, srta Voux… — ela escutou a voz do chapéu. — Assim como sua irmã, você se daria bem em mais de uma Casa. Lufa-Lufa faria sua lealdade e garra brilharem ainda mais, mas meu palpite não falha em colocá-la na… GRIFINÓRIA!
Ela suspirou aliviada e foi ao encontro de , que a abraçou apertado assim que se aproximou da mesa de cores vermelho e dourado. As meninas sorriam, contentes de saberem que não ficaram em Casas separadas. Rony e seus irmãos também pareciam felizes em tê-las por lá e ela não poderia estar mais satisfeita.
Na vez de Harry, todos no salão o encararam surpresos ao descobrirem que o menino que sobreviveu estava ali, em Hogwarts. Foram diversos os sussurros dos veteranos e demais alunos, torcendo para que ele fosse para suas respectivas Casas. Mas, assim como seus companheiros de cabine, Harry foi selecionado para Grifinória.
Após o jantar delicioso, foram para o Salão Comunal e conheceram seu dormitório. e dividiriam o quarto com uma garota chamada Hermione Granger, com a qual se deram bem logo de cara. Cada uma escolheu sua cama e então se deitaram, exaustas só de imaginar o dia cheio que teriam ao acordarem.
Apesar do cansaço, se revirou na cama dez vezes antes de decidir sair do quarto para tomar um ar. Ela se sentou no sofá bordô que tinha em frente a lareira e encarou o fogo que crepitava e a aquecia.
— Oi — Harry Potter disse, se aproximando da garota, que desviou sua atenção para ele. — Posso? — perguntou, apontando para o lugar vazio ao lado dela. concordou com um aceno de cabeça e ele se sentou.
— Por que está acordado? — a menina com os cabelos ruivos perguntou.
— Estou pensando em muita coisa. Não consigo dormir com a cabeça cheia desse jeito. E você?
— Mesmo motivo — ela respondeu, dando um sorriso suave para Harry, que correspondeu. — normalmente não consegue dormir bem fora de casa, achei que ela estaria acordada esse horário para me fazer companhia, mas ela estava tão cansada que apagou quase na mesma hora em que deitou.
Conversaram um pouco sobre o que tinham achado de Hogwarts. O dia havia realmente sido cansativo. Harry parecia encantado com o mundo bruxo. Era inacreditável para que ele tivesse crescido tão famoso dentro da sua comunidade sem ao menos saber disso e conhecer a magia em si.
— Descobri que meus pais eram da Grifinória também, sabe, quando estudaram aqui — o menino expôs.
— É bom ter algo em comum com eles, né? Minha mãe também era.
O menino concordou e então a encarou, confuso.
— Sua mãe não era da Lufa-Lufa? — ele perguntou, se lembrando de quando , irmã da garota ao seu lado, falou sobre isso.
— Minha mãe adotiva é — a ruiva respondeu, percebendo o rosto de Harry clarear conforme sua dúvida foi respondida. — Meus pais biológicos morreram há seis anos.
Seus olhos se arregalaram levemente ao ouvir a garota.
— E como foi isso tudo? — ele perguntou, curioso. — Se não quiser contar tudo bem… eu entendo completamente. — balançou a cabeça e então decidiu que ele seria a primeira pessoa naquela escola para quem contaria sua dor.
— Tudo bem, Harry. Já faz um tempo mesmo… — ela falou. Não era como se o aperto em seu coração algum dia fosse sumir, mas não queria que eles fossem esquecidos. E, sendo sincera, Harry a entenderia e isso bastava para que contasse um pouco da história. — Os pais de conheceram os meus ainda na escola, eles eram bem próximos e, quando se formaram, acabaram indo morar em casas vizinhas. Por isso, eu e nos víamos desde o berço, foi inevitável que virássemos melhores amigas. Até nossas festas de aniversário eram juntas porque nascemos, inacreditavelmente, em dias super próximos. Meus pais, assim como o pai dela, eram Aurores, então a mãe de , que é medibruxa, cuidava de nós duas quando eles precisavam sair com urgência ou passar alguns dias fora. A questão é que essa profissão não é uma das mais seguras, ainda mais na época em que os comensais da morte estavam tão enfurecidos com a morte de Você-Sabe-Quem… E, durante essas missões, meus pais acabaram morrendo e minha mãe pediu para que a mãe de cuidasse de mim. Esse foi o seu último pedido. Desde então, moro e vivo com eles.
Ela explicou tudo, enquanto Harry absorvia e prestava atenção em cada palavra da história. Ele não somente sabia da dor dela, como compreendia. Harry não conhecia muitos que lidaram com a morte tão de perto. Chegava a ser um tanto quanto reconfortante saber que ela o compreendia, também.
— Eu considero que tenho duas mães e dois pais, sabe? Eles realmente me tratam tão bem quanto tratam e me acolheram como se fosse uma filha de sangue. Sem contar que consegui a melhor irmã que eu poderia escolher, a minha melhor amiga. Sou eternamente grata por isso.
— Nossa, isso é… muito legal — ele falou, parecendo verdadeiramente feliz pela menina. — Queria ter encontrado pessoas assim para cuidar de mim. Meus pais morreram quando eu tinha um ano, então não lembro deles. Passei a morar com os meus tios, mas não acho que tenha sido uma escolha deles, e sim uma obrigação.
— Sinto muito por isso, não consigo nem imaginar como é... Bom, mas agora você já nos conhece e pode ir lá pra casa sempre que quiser! — ela disse, segurando a mão dele.
E Harry percebeu que aquele era o início de uma amizade mais que especial. Naquela noite, os dois foram dormir satisfeitos e felizes por saber que era só o começo.

***

No dia seguinte, após uma aula de Feitiços, como qualquer outra caloura, decidiu que seria uma ideia maravilhosa se aventurar um pouco e praticar um feitiço que estava em sua mente nos últimos dias.
adorava criar feitiços novos, parecia que tinha nascido para aquilo. Os movimentos e palavras surgiam tão facilmente em sua mente, mas esse, em específico, não tinha tido tempo suficiente nos últimos dias para testar e descobrir sua finalidade.
A sala vazia era tão propícia para a prática que não pensou duas vezes antes de empunhar a varinha e repetir os movimentos, pronunciando a palavra que tanto pensara. Fez aquilo uma, duas e três vezes, apenas para pegar o jeito. Na quarta tentativa, um miado alto foi ouvido. arregalou os olhos, abaixando a varinha enquanto sua mão tremia.
— Droga…
No meio da execução do feitiço, Madame Norra, a gata do Filch, zelador da escola, apareceu do nada, entrando na frente da garota e, por estar no lugar errado no momento errado, foi atingida. ofegou enquanto chegava mais perto, os olhos se arregalando enquanto via os pelos, antes alaranjados, agora completamente tingidos de rosa.
Você! — Ela ouviu a voz gritar e olhou desesperada para o lado, encontrando Filch. — Você vem comigo, agora! — ele disse, se abaixando para pegar a gata no colo com todo o cuidado do mundo.
— Foi um acidente! Não sabia que ela estava por perto — ela tentou se defender, sentindo que o coração sairia pela boca.
— Não quero saber! Venha comigo.
E assim, engoliu em seco e o seguiu até sua sala em silêncio, nervosa e preocupada com o que aconteceria posteriormente, enquanto o zelador a xingava para a gata de todos os nomes possíveis. Chegando lá, sentiu-se um pouco aliviada ao avistar outros dois alunos sentados, conversando despreocupadamente. Ao menos não tinha sido a única a cometer um deslize enorme. Independente da situação, Fred e George sempre pareciam tranquilos, se pegou lembrando dos poucos momentos em que estiveram juntos.
A garota sentou-se ao lado deles, que sorriram e perguntaram-na o que tinha aprontado para estar ali. Ela nem precisou explicar. Ao verem a gata cor de rosa, os dois desataram em gargalhadas, até Filch se virar e os mandar ficarem em silêncio. Os gêmeos reviraram os olhos ao mesmo tempo, reclamando de como ele era sem graça.
Filch disse que levaria Madame Norra para a enfermaria e que era para os três ficarem ali até ele voltar e decidir o castigo que daria para cada um. É claro que não fariam o que foi mandado.
Infelizmente para eles, o zelador não foi burro o suficiente para deixar a porta destrancada e levou consigo a chave. Provavelmente acostumado demais com os alunos que tentavam fugir.
— Será que tem alguma chave aqui nessas gavetas? — George perguntou, apontando para três gavetas na mesa cheia de papéis ao lado direito dele.
— Vamos descobrir… — Fred disse, já abrindo a primeira, enquanto seu irmão abria a segunda. Não encontraram nada além de mais papéis. A última, porém, estava trancada.
— Acho que consigo abrir isso… — falou, tirando um pequeno grampo que prendia uma parte de seus cabelos, os soltando completamente. Ela se aproximou da fechadura da gaveta e o encaixou ali, fazendo alguns movimentos rápidos.
Fred e George a encararam impressionados ao ver que ela havia conseguido abrir sem a ajuda de um feitiço.
— Dêem uma olhada nisso. Vocês vão gostar.
Dentro daquela gaveta, estavam praticamente todos os objetos que Filch confiscou dos alunos de Hogwarts. Ali tinham Bombas de Bosta, Snap Explosivos, Sabão de Ovas de Sapo, Soluços Doces, Xícaras que Mordem o Nariz e um pedaço de papel antigo, meio manchado.
— O que é isso? — Fred se aproximou de para ver melhor o que ela segurava nas mãos e George fez o mesmo, segundos depois. Enquanto encaravam o pedaço de papel, letras começaram a aparecer, como se alguém estivesse escrevendo-as naquele momento.

“Os senhores Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas apresentam o Mapa do Maroto.”

— Mas que merda…
A voz de Filch resmungando nos corredores fez com que os três guardassem rapidamente o pedaço de papel e voltassem a suas posições iniciais. O zelador entrou com sua gata no colo — que agora possuía novamente seus pelos naturais, e disse que o castigo deles seria polir todos os troféus da Sala dos Troféus.
Fred, George e nem reclamaram, afinal, estavam curiosos demais para pensar em outra coisa.
Nas semanas seguintes, eles passaram horas juntos, se dedicando a descobrir como utilizar o Mapa dos Marotos. Por fim, após diversas tentativas, souberam o que deveriam falar exatamente para ativá-lo e, juntos, se aventuraram por todas as passagens secretas de Hogwarts que o pergaminho mostrava. O Mapa era absurdamente incrível e eles não pouparam elogios para quem quer que fossem os criadores. Como era possível ver cada pessoa dentro da escola e o local exato em que se encontrava, ficaram ainda mais habilidosos em fugir de Filch.
Os gêmeos perceberam rapidamente que era uma ótima companhia e tinha um senso de humor tão próximo do deles que não demorou até firmarem uma amizade. Formavam um ótimo trio, sempre rindo e se divertindo.
E não poderia estar mais feliz, se sentindo cada vez mais em casa.

*Aviso: para o melhor andamento da história, mudamos algumas informações dos livros originais. A mais importante é que Voldemort não está vivo, ele foi morto pelo feitiço que tentou jogar em Harry quando tinha um ano e não há risco de retornar. Ah, e os alunos entram em Hogwarts com 14 anos e terminam com 20.*




Capítulo 2

Quatro anos depois...

POV’s
Observava pacientemente o Sr. Weasley, Gina, Hermione, Rony, os gêmeos e Harry subirem o morro Stoatshead. Era cômico quando eles tropeçavam ocasionalmente em tocas de coelho escondidas ou escorregavam em grossos tufos de grama escura, mas, em poucos minutos, já andavam em nossa direção.
— Ufa! — ofegou o Sr. Weasley, tirando os óculos e secando-os no suéter. — Bom, fizemos um bom tempo, ainda temos dez minutos… Família Voux! — disse, reparando em nós quatro, já se aproximando para nos abraçar.
— Oi, Sr. Weasley! — eu e minha irmã dissemos ao mesmo tempo.
— Quanto tempo, Arthur! — nosso pai falou, abraçando-o. Eles se conheceram na escola e fizeram parte da Ordem da Fênix quando Você-Sabe-Quem era uma ameaça, então eram bem próximos. Quando conhecemos Ron, Gina, George e Fred, se aproximaram ainda mais porque sempre nos visitávamos em férias e festas de fim de ano, mas dessa última vez acabamos viajando, então não nos vimos muito.
— Nem me fale! Como estão as coisas no St. Mungus, Elizabeth? — Ouvi Sr. Weasley perguntando para nossa mãe, enquanto e eu nos aproximávamos de Gina, Harry, Ron, Fred, George e Hermione - que havia acabado de aparecer na crista do morro, ofegante e mancando, como se estivesse com cãibra.
— Eu jurava que era mais perto — ela resmungou, respirando fundo. olhou o caminho novamente e concordou com a cabeça. Aquela distância enganava mesmo.
Logo cumprimentamos todos ali, enquanto nossos pais terminavam a conversa com Sr. Weasley.
— Agora só precisamos da Chave de Portal — disse o Sr. Weasley, repondo os óculos e apurando a vista para esquadrinhar o terreno. — Não deve ser grande... Vamos...
Todos se espalharam para procurá-la. Alguns minutos passaram enquanto conversávamos e observamos por todos os cantos.
Ok, na verdade, como Fred e George me acompanharam, admito que não prestamos muita atenção se a Chave do Portal estava por ali.
— Sentimos sua falta — George falou, bagunçando os fios escuros do meu cabelo. — Os jogos de quadribol lá em casa não foram a mesma coisa sem você.
— Pensei que viria nos visitar durante essas férias — Fred completou e seu irmão concordou com a cabeça.
— Também senti falta de vocês — respondi, sorrindo, abraçando-os de lado. — Sabem que não conseguimos ir porque meu pai decidiu viajar…
Eles apenas murmuraram que sim, afinal, eu havia avisado por carta, mas que não mudava o fato de que queriam ter me visto pelo menos uma vez antes de irmos viajar. Lua, tadinha, voou muito nesses últimos dois meses e só o fez de bom grado porque sempre recebia petiscos quando chegava na Toca.
— Aqui, Arthur, achamos!
Dois vultos altos surgiram recortados contra o céu estrelado, do outro lado do cume do morro. Apertei os olhos, tentando enxergar melhor os rostos, e apenas troquei olhares com os gêmeos ao perceber quem era.
— Amos! — exclamou o Sr. Weasley, encaminhando-se sorridente para a direção deles. Nossos pais sorriram, seguindo seu caminho. Resolvemos ir atrás.
O Sr. Weasley apertou as mãos de um bruxo de rosto corado, com uma barba castanha e curta, que segurava em uma das mãos uma bota velha de aparência mofada. Ele sorriu para meus pais, comentando que fazia tempo que não os via também.
— Este é Amos Diggory, pessoal — apresentou o Sr. Weasley. — Trabalha no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas. E acho que vocês conhecem o filho dele, Cedrico?
Hogwarts inteira o conhecia. Ele era um dos meninos mais populares e bonitos, além de bastante simpático. conversava bem mais com Cedrico Diggory que eu, então eles eram mais próximos. Sempre achei que ele tivesse um interesse por ela, apesar de ter ouvido alguns boatos envolvendo o lufano e Cho Chang no último ano.
Como ele era capitão e apanhador do time de quadribol da Lufa-Lufa, e eu era artilheira do time da Grifinória, tivemos que competir algumas vezes. Mesmo com a rivalidade, ele sempre foi muito respeitoso comigo e com todo mundo que eu conhecia.
— Oi... — disse Cedrico, olhando para os garotos.
Todos retribuíram o “Oi”, menos Fred e George, que apenas acenaram com a cabeça. Eles nunca haviam perdoado Cedrico por derrotar o time da Grifinória no primeiro jogo de quadribol do ano anterior e eu duvidava que um dia fossem. Fiquei brava nesse dia, mas nada se comparava com o tanto que ouvi George xingando nossos adversários. Meu melhor amigo odiava perder.
— Uma longa caminhada, Arthur? — perguntou o pai de Cedrico.
— Não foi tão ruim assim — respondeu o Sr. Weasley —, moramos logo ali do outro lado do povoado. E você?
— Tivemos que nos levantar às duas, não foi, Ced? Confesso que vou ficar satisfeito quando ele passar no exame de aparatação. Mas... Não estou me queixando… A Copa Mundial de Quadribol, eu não a perderia nem por um saco de galeões, e é mais ou menos quanto custam as entradas. Mas, pelo visto, parece que me saiu barato... — Amos Diggory mirou bem-humorado os três garotos Weasley, Harry, Hermione e Gina. — São todos seus, Arthur?
Por ser amigo de meus pais, provavelmente Amos já sabia que eu e éramos filhas deles e não se deu ao trabalho de estender aquela pergunta a nós.
— Ah, não, só os ruivos — esclareceu o Sr. Weasley, apontando para os filhos. — Esta é Hermione, amiga de Rony, e Harry, outro amigo…
— Pelas barbas de Merlim! — exclamou Amos Diggory, arregalando os olhos. E lá vamos nós… — Harry? Harry Potter?
— Hum... é — Harry respondeu, sem graça.
Mesmo que Harry estivesse habituado às pessoas o olharem curiosas quando o reconheciam e ao modo como encaravam a cicatriz em forma de raio em sua testa, sabíamos que isto sempre o constrangia.
— Ced nos falou de você, naturalmente — disse Amos. — Nos contou tudo sobre a partida que jogaram com vocês no ano passado... Eu disse a ele: “Ced, isto vai ser uma história para contar aos seus netos, ah, vai... você derrotou Harry Potter”!
Harry ficou calado, provavelmente sem pensar rápido o suficiente para poder responder. Fred e George amarraram a cara outra vez, novamente trocando olhares comigo. Cedrico parecia verdadeiramente encabulado.
— Harry caiu da vassoura, papai — murmurou ele, tentando corrigir a situação. — Contei a você... foi um acidente…
— É, mas você não caiu, não é mesmo? — rugiu Amos jovialmente, dando uma palmada nas costas do filho. — Sempre modesto, o nosso Ced, sempre cavalheiro... mas venceu o melhor, tenho certeza de que Harry diria o mesmo, não é? Um cai da vassoura, um continua montado, não é preciso ser gênio para saber quem voa melhor!
Respirei fundo, pelo bem dele, tentando apenas ignorar aquela alfinetada - mesmo que não tenha sido a intenção. Sério mesmo? Sem acreditar na falta de noção dele, cruzei os braços.
— Deve estar quase na hora — disse o Sr. Weasley depressa, mudando de assunto, puxando o relógio do bolso mais uma vez. — Você sabe se temos que esperar mais alguém, Amos?
— Não, os Lovegood já estão lá há uma semana e os Fawcett não conseguiram entradas — disse o Sr. Diggory. — Não tem mais gente nossa na área, tem?
— Não que eu saiba. É, falta um minuto... é melhor nos prepararmos…
— Bom, essa é nossa deixa! Depois ligo para Molly e marcamos um jantar, Arthur! — nossa mãe finalizou a conversa e então se aproximou de nós novamente. — Se divirtam, meninas. Qualquer coisa é só nos chamar! — ela falou, nos abraçando.
Nosso pai fez o mesmo e, após se despedirem de todos, os dois se afastaram para a floresta novamente.
Sr. Weasley olhou para nós, Harry e Hermione.
— Vocês só precisam tocar na Chave de Portal, só isso, basta um dedo...
Com dificuldade, por causa das volumosas mochilas, nos agrupamos em círculo em torno da velha bota que Amos Diggory segurava.
— Três... — murmurou o Sr. Weasley, com o olho ainda no relógio — Dois... Um...
Nunca havia viajado com uma Chave de Portal, então não sabia o que esperar, mas aconteceu instantaneamente. Tive a sensação de que um gancho dentro do meu umbigo foi irresistivelmente puxado para a frente. Era…esquisito. Para dizer o mínimo. Meus pés deixaram o chão e senti Gina e George, um de cada lado, os ombros se tocando, e todos avançaram vertiginosamente em meio ao uivo do vento e ao rodopio de cores. Fechei os olhos, evitando ficar zonza.
Meu dedo indicador estava grudado na bota como se ela fosse um imã, me puxando para a frente, e então… Meus pés bateram no chão.
Rony deu um encontrão em Harry e os dois caíram. A Chave de Portal logo despencou no chão do lado da cabeça deles com um baque forte. Apesar dos dois, todos estavam bem e em pé.
riu enquanto estendia a mão para Harry, e Hermione ajudou Rony a se levantar.
— O sete e cinco chegando do morro Stoatshead — anunciou uma voz.
Diante de nós, estavam dois bruxos cansados, com cara de rabugentos, um dos quais segurava um grande relógio de ouro, e o outro, um grosso rolo de pergaminho e uma pena. Ambos estavam vestidos como trouxas, embora eu soubesse que um trouxa não se vestiria dessa forma em um dia normal. O homem do relógio usava um terno de tweed com botas de borracha até as coxas; o colega, um saiote escocês e um poncho.
E, acredite, eu tinha visitado o mundo trouxa vezes o suficiente para saber que definitivamente esse tipo de vestimenta não seria bem-visto lá.
Como Harry e Hermione passam uma parte da vida lá, comentam sobre algumas coisas que eu e ficamos curiosas para saber como é. E, ignorando o medo de Rony, escapamos algumas vezes. Havia sido sensacional, no final das contas. Tem tanta coisa incrível que não temos aqui!
— Bom dia, Basílio — cumprimentou o Sr. Weasley, apanhando a bota que nos transportou e entregando-a ao bruxo de saiote, que a atirou em uma grande caixa de chaves de portal usadas.
— Olá, Arthur — disse Basílio em tom entediado. — Não está de serviço, não é? Tem gente que se dá bem... Estivemos aqui a noite toda... É melhor você desimpedir o caminho, temos um grupo grande chegando da Floresta Negra às 05:15 da tarde. Espere um pouco, me deixe ver onde é que você vai ficar... Weasley... Weasley... — falou, consultando a lista no pergaminho. — A uns quatrocentos metros para aquele lado — apontou para a esquerda —, no primeiro acampamento que você encontrar. O gerente é o Sr. Roberts. Agora, Diggory… segundo acampamento... pergunte pelo Sr. Payne.
— Obrigado, Basílio — disse o Sr. Weasley e fez sinal para todos o acompanharem.
Saímos pela charneca deserta, incapazes de distinguir muita coisa através da névoa. Nessas horas eu pensava que deveríamos normalizar alguns artefatos trouxas. Por exemplo, sempre que o dia estava extremamente claro e quente, com o sol a ponto de queimar nossas retinas, seria maravilhoso usar óculos de sol aqui também. Seria perfeito para assistirmos aos jogos de quadribol.
Passados uns vinte minutos, avistamos uma casinha de pedra ao lado de um portão. Mais além, percebi formas fantasmagóricas de centenas de barracas, montadas na ondulação suave de um grande campo, no rumo de uma floresta escura no horizonte.
Nos despedimos dos Diggory e nos aproximamos da casa. Rony e quase pularam de alegria, exaustos de andar.
Havia um homem parado à porta, contemplando as barracas. O Sr. Weasley o cumprimentou e então o acompanhou para fazer o pagamento junto com Harry - que o ajudaria com o dinheiro trouxa. Nossos pais haviam dado algum dinheiro para pagar nossa parte, então apenas esperamos os dois voltarem.
Poucos minutos depois, eles voltaram, e o bruxo nos acompanhou em direção ao portão do acampamento. Nós avançamos lentamente pelo campo entre longas fileiras de barracas.
— Ah, lá está, olhem, aquela é a nossa — comentou o Sr. Weasley, sorrindo abertamente.
Tínhamos alcançado a orla da floresta no alto do campo e ali havia uma área livre com um pequeno letreiro enfiado no chão em que se lia “Weezly”. Ri baixinho, achando engraçado. Volta e meia, os gêmeos reclamavam que viviam confundindo os nomes deles. Lembrei também da primeira vez que fomos em uma cafeteria no mundo trouxa e Rony ficou chateado que escreveram seu nome errado.
— Não podíamos ter ganhado um lugar melhor! — exclamou o Sr. Weasley, feliz. — O campo preparado para as partidas é logo do outro lado da floresta, estamos o mais perto que poderíamos estar. — Ele descarregou a mochila dos ombros. — Certo — disse, animado —, rigorosamente falando, nada de mágicas, não quando estamos no mundo dos trouxas em tão grande número. Vamos armar as barracas à mão! Não deve ser muito difícil... Os trouxas fazem isso o tempo todo... Tome, Harry, por onde você acha que devo começar?
— Na verdade, eu nunca acampei… — Harry disse. Aparentemente os Dursley nunca o haviam levado de férias - o que, sinceramente, me fez ter ainda mais raiva de seus tios pelo descaso que faziam dele.
No entanto, eu, e Hermione descobrimos como distribuir os paus e as estacas – e, embora o Sr. Weasley atrapalhasse mais do que ajudasse, porque ficou animadíssimo com a ferramenta chamada martelo, nós finalmente conseguimos erguer as barracas modestas para duas pessoas cada.
No fim, nos afastamos para admirar a nossa incrível habilidade manual.
— Vamos ficar meio apertados… — comentou o Sr. Weasley, se abaixando e entrando na maior delas —, mas acho que vai dar para nos espremermos. Venham dar uma olhada!
Apesar do que Arthur havia falado, a barraca era espaçosa. Ela possuía dois quartos, um banheiro e uma cozinha. Como eu, , Gina e Mione ficaríamos na outra barraca - que devia ser um pouco menor que essa - estava dando graças que não precisaríamos dividir o banheiro com os meninos, e, ao olhar para a expressão satisfeita de Hermione, imaginei que ela pensava o mesmo que eu.
— Bom, não é para muito tempo… — disse o Sr. Weasley, secando a careca com um lenço e espiando as quatro camas-beliches que havia no quarto. — Pedi a barraca emprestada ao Perkins, lá do escritório. Ele não acampa muito atualmente, coitado, está com lumbago.
O Sr. Weasley apanhou uma chaleira empoeirada e espiou dentro.
— Vamos precisar de água...
— Tem uma torneira assinalada no mapa que o trouxa nos deu — disse Rony. — Fica do outro lado do campo.
— Bom, então por que você e Harry não vão apanhar um pouco de água... — O bruxo entregou aos garotos a chaleira e duas caçarolas. — E eu, Fred e George vamos apanhar lenha para fazer uma fogueira?
— Mas temos um forno — lembrou Rony —, por que não podemos...?
— Rony, segurança antitrouxa! — disse o Sr. Weasley, o rosto brilhando de expectativa. — Quando os trouxas de verdade acampam, eles cozinham em fogueiras ao ar livre, já os vi fazendo isso!
Enquanto Harry e Rony atravessavam o acampamento levando as vasilhas, caminhei ao lado das minhas amigas para dentro da barraca que ficaríamos, conversando sobre como foram nossas férias.
— Mais alguma novidade desde que trocamos cartas? — perguntei, me acomodando no pequeno sofá que tinha ali dentro.
Enviar e receber cartas tinha sido o meio de comunicação mais efetivo possível nesse período, então estávamos praticamente inteiradas sobre o que aconteceu com as outras.
— Além de Rony ser um tapado e não perceber que Mione é afim dele? — Gina questionou e Hermione revirou os olhos, resmungando um xingamento.
— O engraçado é que ele, claramente, é afim de você também — comentei. Gina e concordaram, enquanto ela apenas deu de ombros, como se não acreditasse muito naquilo.
— Sabiam que Gina conversou as férias inteiras por cartas com Dino Thomas, do nosso ano, e escondeu de nós? — Mione disse, mudando completamente o assunto, levando um empurrão da ruiva.
Oh, talvez não estivéssemos tão inteiradas assim.
— Não falei porque queria vê-lo antes e entender o que significa, sabe? — ela respondeu, dando de ombros. — Achei estranho quando recebi uma carta dele no começo das férias, mas, quando percebi, já estávamos trocando mais de três por dia. Só tenho que entender como vai ser pessoalmente…
— O Dino é gente boa, sempre foi um fofo… — falou. — Vocês ficariam bem juntos.
— Não vou aguentar Gina Weasley comprometida — falei de forma dramática, fazendo as meninas rirem.
— Vocês sabem que eu sou todinha de vocês — Gina disse, mandando um beijo para todas nós.
Apesar de termos estendido o assunto sobre nossas vidas amorosas, tivemos que parar na metade porque quatro meninos entraram em nossa barraca minutos depois. Fred se sentou ao meu lado direito e passou o braço ao redor do meu pescoço. George fez o mesmo do meu lado esquerdo, enquanto Rony se sentou no tapete em frente à Mione, e Harry, no braço da poltrona que estava sentada.
— Papai disse que daria uma volta, aparentemente tem muitas coisas trouxas interessantes que ele não pode perder — Rony explicou o porquê deles estavam ali. — Mas o que vocês estavam falando?
— É, não parem o assunto por nossa causa, eu insisto! — George falou com um sorrisinho de lado, percebendo o silêncio repentino que havia se instalado ali.
— Claro! Vamos continuar, então — Gina disse, cruzando os braços. Já sabia o que viria a seguir. — Então, em uma das cartas ele me contou como vai me beijar quando estivermos sozinhos e…
NÃO! Chega! Muda, muda, muda! — Rony disse, desesperado. Eu e as meninas rimos alto. Era sempre engraçado ver como ele ficava envergonhado com esse tipo de assunto, principalmente vindo de sua irmã.
— Imaginei — Gina respondeu, com um sorriso satisfeito.
Após o retorno do Sr. Weasley, Gina, Mione, Harry e saíram da barraca para ajudar com a fogueira. Eu também teria ido, mas George e Fred me impediram, me abraçando mais forte, falando que era uma ótima hora para conversarmos porque estavam com saudades.

POV’s
Quando o sol se pôs, ouvimos um gongo, grave e ensurdecedor, bater em algum lugar além da floresta e, na mesma hora, lanternas verdes e vermelhas se acenderam entre as árvores, iluminando o caminho até o campo. Era realmente bonito de observar.
— Está na hora! — exclamou o Sr. Weasley, parecendo tão animado quanto os garotos. — Andem logo, vamos!
Então, todos corremos para a floresta, seguindo o caminho iluminado o mais rapidamente possível. O barulho das milhares de pessoas que se movimentavam à nossa volta me deixava ansiosa. As pessoas gritavam, gargalhavam ou cantavam trechos de canções. A atmosfera de excitação febril era extremamente contagiosa.
Caminhamos pela floresta durante vinte minutos, conversando e brincando em voz alta, até que finalmente emergimos do outro lado e nos viramos à sombra de um gigantesco estádio.
— Lugares de primeira! — exclamou a bruxa do Ministério ao portão, quando verificou as nossas entradas. — Camarote de honra! Suba direto, Arthur, o mais alto possível.
As escadas de acesso ao estádio estavam forradas com carpetes púrpura berrante. Nossa, eles realmente se empenharam na decoração. Subimos acompanhando o resto da multidão, que aos poucos foi se dispersando pelas portas à direita e à esquerda que levavam às arquibancadas. O Sr. Weasley continuou subindo e finalmente chegou no topo da escada, onde havia um pequeno camarote, armado no ponto mais alto do estádio e situado exatamente entre as duas balizas de ouro.
Foi inevitável pensar que meus pais amariam estar aqui comigo. Ainda mais meu pai, por ter sido capitão da equipe de quadribol da Sonserina na época que estudava em Hogwarts. Me lembro vagamente da sala de troféus que tínhamos em casa.
Comecei a imaginar momentos nossos juntos, para qual time estaríamos torcendo. Minha mãe sempre nos dizia o quanto minha mãe biológica era animada e amava tudo que envolvesse multidões, não deixando de ir a um jogo sequer. As fotos que eu guardava comprovavam isso. Se eu fechasse os olhos, seria capaz de visualizá-la gritando durante o jogo que viria.
Distraída, ignorei o fato de que estava em um fluxo enorme de pessoas e diminui o passo, sem perceber que acabei ficando bem atrás dos meus amigos. Apressei o passo para alcançá-los, quando um homem enorme - praticamente um brutamontes - esbarrou no meu ombro direito. Eu me desequilibrei, sentindo minhas pernas dobrando enquanto eu caía no chão.
Fechei os olhos, me preparando emocionalmente para a queda. Droga, eu era muito desastrada e vivia com roxos, e dessa vez sabia que, apesar do carpete, iria me machucar feio.
No entanto, a pancada nunca veio.
Mãos seguraram fortemente minha cintura, me impedindo de aterrissar drasticamente no chão. Suspirei alto, mentalmente aliviada por não ter me machucado. Senti o perfume amadeirado em minhas narinas e o reconheci quase que imediatamente. Olhei rapidamente para cima, tentando controlar o choque ao ver o rosto de ninguém menos que Draco Malfoy enquanto ele evitava minha queda.
Pelo que conhecia da nossa relação, era mais fácil que ele desse o empurrão final para que eu caísse com mais força ainda.
— Por Merlin, Voux, você não sabe andar? — ele falou, um sorriso debochado saindo de seus lábios.
— Obrigada — respondi, exatamente no mesmo tempo que ele proferiu a frase.
Suas mãos me pressionaram mais forte e senti seu corpo enrijecer enquanto ele me observava como se eu fosse uma lunática e tivesse dito que iria entrar em sua casa no meio da madrugada e sequestrar sua família para obrigá-los a viver em condições análogas à escravidão.
Ah, certo, ele me odiava de tabela desde o começo das aulas porque eu e Harry vivíamos grudados. Eu, que já não tinha paciência com gente desse tipo, discutia com Malfoy sempre que nos encontrávamos, às vezes até durante as aulas.
Então, sim, sua surpresa por eu ter agradecido era compreensível. Para dizer o mínimo.
Draco continuou com a sobrancelha erguida. Eu estava pensativa, no entanto. Apesar dos anos que tinham se passado, pensar em minha família no dia de hoje me deixou avoada. Ao contrário da minha mãe, extremamente ruiva, os cabelos de meu pai eram loiros.
Não na mesma tonalidade que os do Malfoy — eram um pouco mais escuros. Porém, olhar os fios refletidos pelas luzes me fez suspirar. Como eu queria que eles estivessem aqui…
Sem vontade de discutir como o usual, e cansada demais para dizer qualquer outra coisa, apenas me desvencilhei de seus braços e segui o caminho pelo qual meus amigos tinham ido.
Foi fácil encontrá-los. Umas vinte cadeiras das cores dourado e púrpura tinham sido distribuídas em duas filas e nós ficaríamos bem na primeira. Gina, Fred, George e conversavam ansiosos sobre o jogo que começaria em poucos minutos, Rony explicava alguma manobra para Mione, que só parecia ouvir por ser ele, e Harry observava os dois, com um sorriso engraçado no rosto. Entrelacei o meu braço ao seu quando me sentei, observando a cena mais linda que eu poderia ver.
Não era novidade nenhuma que eu amava lugares com uma aglomeração enorme e, apesar de não participar do time de quadribol - acredite, eu não era fã de nenhum esporte específico -, amava torcer e gritar junto com os demais alunos. Se eu tivesse tido mais tempo com meus pais, talvez eu gostasse ainda mais de assistir aos jogos.
Havia cerca de mil bruxos e bruxas que iam, aos poucos, ocupando os lugares que se erguiam em vários níveis em torno do longo campo oval. Tudo estava banhado por uma misteriosa claridade dourada que parecia se irradiar do próprio estádio. Ali do alto, o campo parecia feito de veludo. De cada lado, havia três aros de gol com quinze metros de altura. Do lado oposto ao que estávamos, quase ao nível dos nossos olhos, havia um gigantesco quadro-negro. Palavras douradas corriam pelo quadro sem parar como se uma gigantesca mão invisível as escrevesse e em seguida as apagasse. Era um quadro de anúncios.
— Onde você estava? — Harry perguntou, parecendo curioso.
— Um grupo acabou passando na minha frente e eu tive que esperar um pouco para subir — falei, vendo meu amigo concordar com a cabeça. Não era mentira, mas preferi ocultar o fato de que encontrei Malfoy aqui. Harry provavelmente descobriria depois, de qualquer forma, então não havia necessidade alguma de trazer esse assunto à tona.
— Eu ainda não acredito que estou aqui — Harry disse, maravilhado, sem desgrudar o olhar de todos os cantos. Sorri para ele, feliz que ele estivesse tendo essa experiência. Se era incrível para mim, mal podia pensar em como ele se sentia. Crescer sem saber o que era magia…
Conversamos por mais um tempo enquanto o camarote foi enchendo. Dito e feito. Menos de dez minutos depois, vi Draco Malfoy entrando e Harry bufou ao ver que estavam no mesmo ambiente. Ele me encarou por alguns segundos, ainda parecendo confuso, dado seu olhar parcialmente cerrado, e passou os dedos pelos fios tão loiros que pareciam brancos. Acho que era uma mania, porque é comum vê-lo fazer isso, principalmente durante as provas, quando estava pensativo.
Ignorei sua presença e voltei a olhar para meus amigos. Poucos segundos depois, a voz robótica de Ludos Bagman ecoou em cada canto das arquibancadas.
— Senhoras e senhores… Bem-vindos! Bem-vindos à final da quadricentésima vigésima segunda Copa Mundial de Quadribol!
Gritei e bati palma junto aos demais espectadores, ansiosa pelo restante da noite. O jogo foi impressionante de assistir, os atletas ágeis disputando pela vitória.
Não foi nenhuma surpresa quando a Irlanda ganhou e não demorou muito até sermos praticamente engolidos pela multidão que saía do estádio e voltava aos acampamentos. Ouvíamos as cantorias desafinadas conforme retornamos pelo caminho iluminado por lanternas, os leprechauns continuavam a sobrevoar a área em alta velocidade, rindo, tagarelando, sacudindo as lanternas, enquanto Rony andava com a cara fechada, triste pela derrota da Bulgária.
Quando chegamos finalmente às barracas, ninguém estava com vontade de dormir e, considerando o nível da barulheira, o Sr. Weasley concordou, antes de se deitar, que podíamos tomar uma última xícara de chocolate.
Os meninos, Gina e discutiam sobre a partida com o Sr. Weasley, e eu e Hermione conversamos sobre os jogadores, sem nos importarmos nem um pouco com a competição em si. Gina estava tão cansada que caiu no sono em cima da mesinha e derramou chocolate quente pelo chão.
O Sr. Weasley, ao perceber que estava ficando tarde, insistiu que todos deveriam se deitar, então demos boa noite e seguimos diretamente aos nossos beliches.
Assim como Gina, Hermione dormiu quase que no mesmo instante que se deitou na cama. Enquanto isso, eu e nos sentamos no sofá. Aparentemente nenhuma das duas estava cansada o suficiente.
A verdade era que eu queria aproveitar que estava tarde e que os torcedores deveriam estar dormindo para andar um pouco. Gostava de ambientes assim e realmente precisava ficar um pouco sozinha e tomar um ar fresco, então avisei .
— Bom, não é todo dia que você pode aproveitar isso tudo. Vai lá! — ela respondeu, sorrindo e eu agradeci mentalmente por ter uma irmã tão compreensível. — Vou ficar um pouco lá fora também, não estou com sono ainda.
Balancei a cabeça, concordando, e saí da barraca. Normalmente, eu não gostava de sair perambulando sozinha por lugares como esses. Porém, como uma boa bruxa e mulher, estava protegida não somente com minha varinha, mas com utensílios trouxas — como um soco inglês pontudo — por mera precaução.
Andei por poucos minutos até chegar em uma parte do acampamento praticamente vazia, sem barracas. Era linda, iluminada o suficiente para que não estivesse um breu por completo. Eu realmente gostava de ficar em ambientes escuros, principalmente quando me sentia sufocada. Me ajudava a pensar.
Me deitei no chão, sentindo a grama tocar minhas costas. Normalmente, eu detestava a sensação das folhas curtas raspando contra minha pele, porém, naquele momento, não poderia me importar menos.
O céu, pintado de um azul escuro tão intenso, com pequenos pontos brancos brilhantes, me deixava mais melancólica. Eu amava observar as estrelas e sempre buscava tirar um tempo para isso. Fechava os olhos e fazia um pedido, torcendo para que elas me ouvissem.
Era um momento de calma e reflexão.
? — reconheci a voz que me chamava no mesmo segundo e quase gemi em descontentamento. Não conseguia acreditar que, mais uma vez, havíamos nos encontrado. — O que você está faz…
— Malfoy, eu não estou no clima hoje — interrompi imediatamente, abrindo os olhos para encará-lo.
Quase bufei ao vê-lo se sentar ao meu lado, mas decidi o ignorar e voltei minha atenção para o céu. Era meu momento e ele não iria atrapalhar.
— O que aconteceu? — ele perguntou. Sentia seu olhar queimando meu rosto, como se estivesse me estudando. Havia algo diferente em seu tom de voz, mas não consegui identificar o que…
— Você realmente quer saber? Não acha estranho me xingar toda vez que nos vemos e hoje, do nada, me perguntar isso?
Por Merlin, estou tentando ter uma conversa normal pela primeira vez — ele resmungou, desviando sua atenção de mim. — E se quer saber, eu fiquei preocupado.
Mesmo que quisesse ignorá-lo, não conseguiria depois de ouvir aquilo. O olhei com as sobrancelhas franzidas, provavelmente fazendo a careta mais estranha, tentando entender o que se passava com Draco Malfoy.
Preocupado? — a descrença explícita em meu tom de voz, meus lábios se repuxando enquanto eu esperava que ele finalmente desse uma resposta espertinha e fosse o idiota de sempre.
— É claro! Mais cedo você me agradeceu, . Pode imaginar que a minha reação foi a mesma que a sua agora, não é? — Nossos olhares se encontraram e eu pude ver claramente que não havia nenhum daqueles sentimentos egoístas e orgulhosos que eu tanto odiava nele.
Oh. Que estranho.
— Você fala como se eu fosse um monstro mal-educado… — Foi a minha vez de resmungar, cruzando os braços em frente ao peito.
— E comigo, você não é? — ele perguntou, levantando uma sobrancelha e abrindo um singelo sorriso. Estiquei meu braço apenas para dar um tapa leve em seu braço. Sim, muito madura, eu sei. — Ai!
Não consegui segurar a risada ao ver a expressão indignada de Draco.
— Bem-feito… — dei de ombros.
Ficamos mais alguns segundos em silêncio e então ele se deitou, ficando na mesma posição que eu, encarando o céu escuro.
Estava… confortável? Draco permanecia em silêncio a maior parte do tempo, parecendo respeitar o meu tempo. Ouvi-lo dizer que se preocupava comigo era meio desesperador, porque demonstrava que eu realmente estava mal. Tão mal a ponto da pessoa que menos gostava de mim ficar preocupada em me deixar sozinha.
Respirei fundo, tentando enumerar os prós e contras em me abrir para ele. Seria bom desabafar para alguém que não fosse meu amigo, mas tinha receio que ele realmente só estivesse tirando uma com minha cara… Hm, ele também poderia dizer tudo aos seus amigos e eles me estressariam quando voltássemos a Hogwarts.
Mas, sendo sincera, não estava sendo ruim ter sua companhia. De verdade. E, no fundo, eu o conhecia bem o suficiente para saber que esse era um assunto delicado e Malfoy, por mais insuportável que fosse às vezes, não era tão baixo a esse nível.
Tanto é que, mesmo odiando Harry mais que a mim, jamais havia feito qualquer piada ou brincadeira de mal gosto durante esses anos com o fato dele ser órfão - o que seria realmente desprezível.
— No dia dez de setembro, vão completar onze anos que meus pais faleceram — falei, soltando um longo suspiro. — Estar aqui, em um ambiente que eu tenho certeza que eles amariam vir comigo, me fez lembrar dos dois.
Novamente, senti a atenção de Draco sobre mim.
— Meu pai era completamente apaixonado por quadribol, então… — continuei.
— É eu sei — ele respondeu, e eu estranhei. Olhei-o com curiosidade, esperando que explicasse. — Certa vez precisei limpar a Sala dos Troféus e, enquanto passava por uma das prateleiras, vi um nome. Joseph Sinclair. Me pareceu tão familiar que não foi difícil descobrir que um dos melhores capitães do time de quadribol da Sonserina era o seu pai. É por causa dele que você usa o colar de pomo de ouro?
— Quando você…? — não completei a pergunta. Nem mesmo precisei. Draco já havia entendido.
Ok, era chocante ele saber quem meu pai era. Não que ninguém soubesse, vários alunos da Sonserina já vieram falar comigo por causa do sobrenome, mas era algo que eu não esperava que Draco Malfoy fosse se interessar em saber. Ainda mais por ter visto fotos e prestado atenção no quanto nos parecíamos.
E, certo, Draco era sonserino e da equipe de quadribol também, mas não era uma informação que esperei ouvir algum dia.
Mas ele ter reparado que eu usava o colar com esse pingente? Eu estava surpresa. Normalmente, usava dentro da camisa, então quase ninguém via. Isso só poderia significar que ele esteve de olho em mim.
— Quando eu te vi pela primeira vez, no nosso primeiro dia em Hogwarts, ouvi você defendendo a minha casa. Naquele dia, eu torci para que fosse escolhida para Sonserina. — Arregalei os olhos, em completo choque ao ouvir o que ele dizia. O quê diabos? — Quando vi que havia ido para Grifinória, fiquei me perguntando por muito tempo o porquê de ter defendido daquela forma… Só consegui entender depois de descobrir que foi por causa de seu pai. E, bem, você não participa da equipe, então só poderia ser isso.
— Pensei que você tivesse agradecido por não me ter em sua casa… — brinquei.
— Eu não te odeio, . Eu só respondi da mesma forma que você começou a me tratar quando fez amizade com o Potter.
Não respondi. O que eu poderia falar? Que eu estava enganada durante todos esses anos? A verdade é que eu realmente tomei as dores de Harry e tratei Draco da pior forma que eu poderia tratar alguém.
— Eu também não te odeio… tanto — falei e, após nos encararmos, ele riu suavemente, dando de ombros.
— Bom, já é um começo — ele suspirou. — Agora, se quiser me contar, eu gostaria de saber como seus pais eram com você.
Então contei, porque realmente queria. Eu era pequena quando tudo aconteceu, o que explicava minha memória ser falha, mas havia dito ao garoto os mínimos detalhes de cada história que ainda lembrava. Contei o que aquele colar significava para mim. E ele ouviu com toda a sua atenção.
Para ser sincera, nunca pensei que estaria numa situação dessas com a pessoa que eu considerava a mais odiosa de toda a escola, mas agora até que me sentia bem por tê-la deitada do meu lado. Tinha sido um ótimo dia, sim, mas a noite tinha sido pesada e, ao contrário do que eu tinha imaginado, realmente não gostaria de passar sozinha.
Aproveitando essa trégua que demos, sem saber se seria um momento único na vida, dei ao máximo de mim para aproveitar cada segundo.
Malfoy me contou histórias também. De quanto era pequeno, de como se sentiu chegando em Hogwarts e a pressão que era para que fosse o melhor em todas as aulas — tarefa árdua, já que estudávamos com a Hermione.
Conversamos tanto que mal notei quando o sol começou a dar seus primeiros sinais. Somente quando bocejei pela décima vez que Draco disse que iria me acompanhar até minha barraca. Não discordei porque estava tão sonolenta que tive receio de cair no meio do caminho e dormir no chão mesmo.
Nos despedimos, desejando boa noite, e entrei. Vi que Fred estava deitado com , mas já estava tão acostumada em ver essa cena que apenas continuei meu caminho e não pensei duas vezes antes de me jogar na cama e me entregar ao sono mais profundo.

POV’s
Saí da barraca poucos minutos depois de e me sentei ali na frente, na grama. Respirei fundo, encarando o céu estrelado.
— Imaginei que estaria acordada. Nunca consegue dormir direito fora de casa, não é?
Ao ouvir sua voz rouca, olhei para trás apenas para vê-lo se sentando ao meu lado na grama. Fred usava uma calça de moletom. E só.
Respondi com um aceno de cabeça. Ele sabia bem como era difícil para mim ter uma noite de sono completa e sem interrupções quando não estava em casa. Tive sorte por me acostumar rapidamente à Hogwarts, mas as várias vezes que dormia na Toca não me deixava mentir sobre isso. Era ele quem me fazia companhia quando, apesar do cansaço, meu corpo não conseguia desligar.
— E por que você está acordado? — O encarei.
Não consegui focar apenas em seu rosto. Durante esses anos em que ficou como batedor no time de quadribol, seu abdômen e músculos ficaram bem mais definidos. Deus, eu nunca poderia dizer que Fred Weasley não era gostoso.
— Dormir com Rony é um inferno — respondeu. — Sinceramente, não sei como Harry aguenta ouvi-lo roncar todas as noites.
— Se eu tivesse me lembrado de trazer a poção para dormir, até te emprestaria um pouco… — falei.
Sempre que eu durmo fora de casa - justamente por ter problemas com insônia -, levo comigo a poção do morto-vivo. Normalmente uso uma gota, apenas para que eu durma sem dificuldade, afinal, é uma mistura poderosa que, dependendo da quantidade dosada, pode fazer com que quem a tome nunca mais acorde.
Dessa vez, com a correria na hora de sair de casa, não a trouxe. E agora só conseguia pensar nisso.
— Precisaria de um litro para conseguir dormir em paz lá dentro — ele resmungou e eu gargalhei. Já havia dormido no mesmo quarto de Rony e não poderia negar o que Fred estava dizendo nem se quisesse. O pior de tudo, por mais que tivéssemos tentado, era que não tinha mais o que ser feito. Não sabíamos feitiços, poções ou qualquer outra coisa que o ajudasse a parar de roncar.
Senti o vento gelado roçando em minha pele descoberta e passei minhas mãos pelos braços, tentando me esquentar. O menino ao meu lado era mais resistente ao frio, mas ainda sim o vi se arrepiar.
— Quer entrar? Podemos deitar lá dentro… — ofereci, torcendo mentalmente para que ele aceitasse.
Fred concordou com a cabeça, dando um sorriso. Sorri junto.
Me levantei e passei as mãos na parte de trás do meu short de pijama para tirar as pequenas folhas que ficaram grudadas. Assim que entramos na minha barraca, o guiei pela mão até a parte de baixo da beliche que eu dividia com .
Após nos deitarmos, Fred passou o braço por trás do meu corpo e eu me aconcheguei em seu peito, enquanto ele fazia um carinho lento em minhas costas. Respirei fundo, sentindo seu perfume amadeirado doce com toque bem sutil de menta.
— Sei que você estava doida para dormir comigo… — ele sussurrou, rindo baixinho contra meu ouvido.
Ele não estava mentindo. Dormir ao seu lado é uma das poucas coisas que resolvem minha insônia além da poção. Não sei explicar exatamente o porquê. Muito do meu problema é o desconforto de não estar em casa e estar com Fred é o completo contrário disso. Me trazia uma paz inimaginável.
— E eu sei que você estava doido para que eu pedisse para você deitar comigo… — brinquei de volta, dando um beijo em sua bochecha.
— Que bom que concordamos nisso — Fred disse, o mais baixo possível, para não acordar as meninas. Eu ri nasalado, dando-lhe uma leve cotovelada. — Me conta como foi a viagem. Vocês foram para a Austrália, né?
— Aham, foi demais. Você e George iam amar, tinham várias praias e estava super quente. Não choveu nenhum dia, acredita?
— Eu bem que percebi que você estava mais bronzeada… — ele falou e eu sorri, feliz por ele ter percebido.
— Eu ia mandar várias fotos de lá, mas era muito longe para Lua ficar indo e voltando. Sem contar que nos passamos por trouxas as férias inteiras, seria estranho receber corujas o tempo todo…
— Depois do tempo que ela passou em casa, tenho certeza que ela prefere a mim.
— É claro, com o tanto de petisco que comeu… Se eu fosse ela, até eu preferiria — resmunguei, o fazendo rir.
Então contei algumas coisas que fizemos por lá, como por exemplo o mergulho na Grande Barreira de Corais, a visita ao Pink Lake - que era, literalmente, um lago cor de rosa -, o passeio de barco a vela em alto mar, o musical que assistimos no Opera House…
— Nós também vimos… cangurus… — minhas pálpebras já estavam pesando, mas continuei falando, enquanto Fred passava as mão por meus cabelos. Aquele era o meu ponto fraco, não conseguia mais prestar atenção no que estava contando —, carregavam bebês… barriga…
Não percebi o momento exato que finalmente caí no sono, ou em que parte da história parei, nem mesmo fiquei acordada a tempo de ver voltando, apenas sei que não acordei nenhuma vez naquela noite.



Capítulo 3

POV’s
Duas semanas após a Copa Mundial de Quadribol, voltamos para Hogwarts.
Quando passamos pelos portões ladeados por estátuas de javalis alados, a carruagem oscilou perigosamente sob uma chuva que parecia estar virando tromba d'água. Eu odiava chuva, me deixava com mau-humor. Enquanto estava curvada na janela, pude ver Hogwarts se aproximando, suas numerosas janelas borradas e iluminadas por trás da cortina de chuva.
Os relâmpagos riscaram o céu no momento em que a carruagem parou diante das enormes portas de entrada de carvalho, a que se chegava por um lance de degraus de pedra. As pessoas que tinham tomado as carruagens anteriores já subiam correndo os degraus para entrar no castelo. Saltei dela com , Harry, Rony, Hermione e Neville, correndo juntos escada acima, só erguendo a cabeça quando já estávamos seguros, no cavernoso saguão de entrada iluminado por archotes, com sua magnífica escadaria de mármore.
— Carácoles — exclamou Rony, sacudindo a cabeça e espalhando água para todos os lados. Ri de sua expressão. — Se isso continuar assim, o lago vai transbordar. Estou todo molhado, AH!
Virei a cabeça ao ouvir seu grito.
Não pude ver quando o grande balão vermelho e cheio de água caiu do teto na cabeça de Rony e estourou, deixando-o encharcado.
Resmungando, Rony cambaleou para o lado e esbarrou em Harry na hora em que uma segunda bomba de água caiu - errando Hermione por um triz e estourando aos pés de Harry, espirrando água gelada por cima de seus tênis. O que diabos era aquilo?
As pessoas em volta soltaram gritinhos e começaram a se empurrar, procurando sair da linha de tiro - olhei para o alto e vi, flutuando seis metros acima, Pirraça, o poltergeist, o rosto largo e malicioso contorcendo-se de concentração para tornar a fazer mira.
PIRRAÇA! — berrou uma voz zangada. — Pirraça, desça já aqui, AGORA!
A Professora Minerva McGonagall saiu correndo do Salão Principal. Arregalei os olhos quando ela escorregou no chão molhado e agarrou Hermione pelo pescoço para evitar cair.
— Ai... Desculpe, Srta. Granger...
— Tudo bem, professora! — ofegou Hermione, massageando a garganta.
— Pirraça, desça aqui AGORA! — bradou ela novamente, ajeitando o chapéu cônico e olhando feio pelos óculos de aros quadrados.
— Não tô fazendo nada! — gargalhou Pirraça, disparando uma bomba de água contra várias garotas do quinto ano, que gritaram e mergulharam no Salão Principal. — Já molharam as calças, foi? Que inconvenientes! Ihhhhhhhhhh! — E mirou mais uma bomba em um grupo de alunos do segundo ano que tinha acabado de chegar.
— Vou chamar o diretor! — ameaçou a professora Minerva. — Estou lhe avisando, Pirraça...
Pirraça estirou a língua, jogou a última de suas bombas de água para o alto e disparou pela escada de mármore acima, gargalhando feito um louco.
Balancei a cabeça, revirando os olhos. Ok, eu me estressava fácil, mas Pirraça era, para dizer o mínimo, detestável.
— Bom, vamos andando, então! — disse a professora em tom eficiente para os alunos molhados. — Para o Salão Principal, vamos!
Seguimos escorregando pelo saguão de entrada e pelas portas de folhas duplas à direita. Senti dó de Rony que, furioso, resmungava entre dentes ao afastar os cabelos, que escorriam água, para longe do rosto.
O Salão Principal tinha o aspecto esplêndido de sempre, decorado para a festa de abertura do ano letivo. Pratos e taças de ouro refulgiam à luz de centenas e centenas de velas que flutuavam no ar sobre as mesas. As quatro mesas longas das Casas estavam cheias de alunos que falavam sem parar. No fundo do salão, os professores e outros funcionários sentavam-se a uma quinta mesa, de frente para os estudantes.
Graças a Merlin, estava muito mais quente ali. Passamos pela mesa dos alunos da Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa, e nos sentamos com os nossos colegas da Grifinória no extremo do salão, ao lado de Nick Quase Sem Cabeça. Nick estava vestido esta noite com o gibão de sempre e uma gola de rufos particularmente grande, que servia o duplo propósito de parecer bem festiva e garantir que sua cabeça não balançasse demais no pescoço parcialmente decepado.
— Boa noite — disse ele.
— Para quem? — perguntou Harry, descalçando os tênis e despejando a água que se acumulara dentro. — Espero que andem depressa com a seleção. Estou faminto.
— Boa noite, Nick — respondeu, sorrindo com educação.
A seleção dos novos alunos por Casas era realizada no início de cada ano letivo. Lembrei que, desde a nossa, no primeiro ano, Harry não pôde estar presente em nenhuma.
— Está ansioso para assistir? — perguntei.
— Absurdamente. — Ele sorriu, os olhos se iluminando quando as portas do Salão Principal se abriram e fez-se silêncio.
Observei enquanto a professora Minerva encabeçou uma longa fila de alunos do primeiro ano até o centro do salão.
Se estávamos molhados, nosso estado nem se comparava ao desses garotos. Eles pareciam ter feito a travessia do lago a nado ao invés de fazê-la de barco. Todos estavam tomados por tremores, o que eu acreditava que era uma mistura de frio e nervosismo, ao passarem pela mesa dos professores e pararem em fila diante do resto da escola.
A professora Minerva colocou um banquinho de três pernas diante dos novos alunos e, em cima, um chapéu de bruxo, extremamente velho, sujo e remendado. Os garotos arregalaram os olhos. E todo o resto da escola também. Por um instante, fez-se silêncio. Em seguida um rasgo junto à aba se escancarou como uma boca, e o chapéu começou a cantar:
Há mil anos ou pouco mais, Eu era recém-feito, Viviam quatro bruxos de fama, Cujos nomes todos ainda conhecem: O valente Gryffindor das charnecas, O bonito Ravenclaw das ravinas, O meigo Hufflepuff das planícies, O astuto Slytherin dos brejais. Compartiam um desejo, um sonho, Uma esperança, um plano ousado De, juntos, educar jovens bruxos, Assim começou a Escola de Hogwarts. Cada um desses quatro fundadores Formou sua própria casa, pois cada Valorizava virtude vária Nos jovens que pretendiam formar. Para Gryffindor os valentes eram Prezados acima de todo o resto; Para Ravenclaw os mais inteligentes Seriam sempre os superiores; Para Hufflepuff, os aplicados eram Os merecedores de admissão; E Slytherin, mais sedento de poder, Amava aqueles de grande ambição. Enquanto vivos eles separaram Do conjunto os seus favoritos Mas como selecionar os melhores, Quando um dia tivessem partido? Foi Gryffindor que encontrou a solução Tirando-me da própria cabeça Depois me dotaram de cérebro Para que por eles eu pudesse escolher! Coloque-me entre suas orelhas, Até hoje ainda não me enganei. Darei uma olhada em sua cabeça E direi qual a casa do seu coração!
Os aplausos ecoaram pelo Salão Principal quando o Chapéu Seletor terminou.
Um tempo depois, finalmente encerrou-se a seleção. A professora Minerva apanhou o chapéu e o banquinho e levou-os embora.
— Já não era sem tempo — exclamou Rony, apanhando os talheres e olhando esperançoso para seu prato de ouro. Céus, existia um buraco negro em seu estômago, certamente.
O prof. Dumbledore se levantou, sorrindo para os estudantes, os braços abertos num gesto de boas-vindas.
— Só tenho duas palavras para lhes dizer — começou ele, sua voz grave ecoando pelo salão. — Bom apetite!
— Apoiado! Apoiado! — disseram Harry e Rony em voz alta, enquanto as travessas vazias se enchiam magicamente diante dos seus olhos.
Enquanto comíamos, Nick Quase Sem cabeça conversava com Harry e Rony, mas aparentemente Hermione escutava o suficiente. Quando o fantasma citou os elfos domésticos de Hogwarts, Hermione derrubou sua taça, nervosa. Mordi o lábio, me preparando para o que viria.
O suco de abóbora escorreu pela mesa, manchando de laranja mais de um metro de linho branco, mas ela nem se importou.
— Tem elfos domésticos aqui? — perguntou, encarando Nick Quase Sem Cabeça com uma expressão de horror. — Aqui em Hogwarts?
— Claro que sim — disse o fantasma, parecendo surpreso com a reação da garota. — O maior número que existe em uma habitação na Grã-Bretanha, acho. Mais de cem.
— Eu nunca vi nenhum! — ela exclamou, surpresa.
— Bom, eles raramente deixam a cozinha durante o dia, não é? Saem à noite para fazer limpeza… abastecer as lareiras e coisas assim... quero dizer, não é esperado que fiquem à vista. Essa é a marca de um bom elfo doméstico, não é, que não se saiba que ele existe.
Hermione ficou olhando o fantasma, em choque.
— Mas eles recebem salário? — perguntou ela. — Têm férias, não têm? Licença médica, aposentadoria e todo o resto?
Nick Quase Sem Cabeça deu gargalhadas tão altas que sua gola de rufos escorregou, e a cabeça despencou para o lado e ficou balançando nos poucos centímetros de pele e músculo fantasmais que ainda a ligavam ao pescoço.
— Licença para tratamento médico e aposentadoria? — repetiu ele, puxando a cabeça de volta aos ombros e prendendo-a mais uma vez com a gola. — Elfos domésticos não querem licenças nem aposentadorias.
Hermione olhou para o prato de comida em que mal tocara, juntou os talheres e afastou-o. suspirou em chateação.
— Ora, vamos, Mione — disse Rony, cuspindo, sem querer, fragmentos de pudim de carne em Harry, que fez cara de nojo. — Opa... desculpe, Harry... — e engoliu. — Você não vai arranjar licenças para eles deixando de comer!
— Trabalho escravo… — Hermione disse, respirando com força pelo nariz. — Foi isso que preparou este jantar. Trabalho escravo.
Ela parou de comer na hora, enjoada com a situação.
A chuva ainda batucava com força nas janelas altas e escuras. Mais uma trovoada sacudiu as vidraças e o céu tempestuoso relampejou, iluminando os pratos de ouro quando os restos do primeiro prato desapareceram e foram substituídos instantaneamente por sobremesas.
— Torta de caramelo, meninas! — exclamou Rony, abanando intencionalmente o cheiro da sobremesa para o lado de Mione. — Pudim de groselhas, olha! Bolo de chocolate recheado!
— Rony, para com isso! — eu interferi, lançando um olhar tão parecido com o que a professora Minerva costumava dar que o garoto desistiu. Insistir com Hermione agora não era a hora certa.
Quando as sobremesas também tinham sido destruídas, e as últimas migalhas desapareceram dos pratos, deixando-os limpos e brilhantes, o diretor Dumbledore tornou a se levantar. O burburinho das conversas que enchiam o salão cessou quase imediatamente, de modo que somente se ouvia o uivo do vento e o batuque da chuva.
— Então! — exclamou Dumbledore, sorrindo para todos. — Agora que já comemos e molhamos também a garganta, preciso mais uma vez pedir sua atenção, para alguns avisos. O Sr. Filch, o zelador, me pediu para avisá-los de que a lista dos objetos proibidos no interior do castelo este ano cresceu, passando a incluir Ioiôs Berrantes, Frisbees-dentados e Bumerangues-de-repetição. A lista inteira tem uns quatrocentos e trinta e sete itens, creio eu, e pode ser examinada na sala do Sr. Filch, se alguém quiser lê-la.
Os cantos da boca de Dumbledore tremeram ligeiramente. Até ele achava o zelador patético. Eu sabia que metade da lista era contribuição das pegadinhas dos gêmeos, que riram discretamente enquanto apoiavam a cabeça nas mãos.
O diretor continuou falando sobre como a floresta é proibida, assim como o passeio para Hogsmeade até os alunos do terceiro ano.
— Tenho o grande prazer de anunciar que este ano em Hogwarts...
Entretanto, neste momento, ouviu-se uma trovoada ensurdecedora e as portas do Salão Principal se escancararam.
Apareceu um homem parado à porta, apoiado em um longo cajado e coberto por uma capa de viagem preta. Todas as cabeças no Salão Principal viraram para o estranho, repentinamente iluminado por um relâmpago que cortou o teto. Ele baixou o capuz, sacudiu uma longa juba de cabelos grisalhos ainda escuros e começou a caminhar em direção à mesa dos professores.
O relâmpago revelou nitidamente as feições do homem e seu rosto era diferente de qualquer outro que já vi antes. Parecia ter sido talhado em madeira exposta ao tempo, por alguém que tinha uma vaga ideia do aspecto que um rosto humano deveria ter, e não fora muito habilidoso com o formão.
O estranho chegou-se a Dumbledore. Estendeu a mão direita, tão cheia de cicatrizes quanto rosto, e o diretor a apertou, murmurando palavras que não conseguimos ouvir. Parecia estar fazendo perguntas ao estranho, que balançava negativamente a cabeça, sem sorrir, e respondia em voz baixa.
Dumbledore assentiu com a cabeça e indicou ao homem o lugar vazio à sua direita. Ah...
— Gostaria de apresentar o nosso novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas... — disse Dumbledore, animado, em meio ao silêncio. — Prof. Moody.
Era normal os novos membros do corpo docente serem recebidos com aplausos, mas nem os colegas nem os estudantes bateram palmas, exceto Dumbledore e Hagrid. Os dois juntaram as mãos e bateram palmas, mas o som ecoou tristemente no silêncio e eles bem depressa pararam. Todos pareciam demasiado hipnotizados pela sua aparência grotesca para ter qualquer reação exceto encarar o homem.
Dumbledore pigarreou outra vez.
— Como eu ia dizendo… — recomeçou ele, sorrindo para o mar de alunos à sua frente, todos ainda mirando Moody, paralisados — Teremos a honra de sediar um evento muito excitante nos próximos meses, um evento que não é realizado há um século. Tenho o enorme prazer de informar que, este ano, realizaremos um Torneio Tribruxo em Hogwarts.
— O senhor está BRINCANDO! — exclamou em voz alta Fred Weasley, completamente animado.
A tensão que invadira o salão desde a chegada de Moody repentinamente se desfez. Quase todos riram e Dumbledore deu risadinhas de prazer.
— Não estou brincando, Sr. Weasley. — disse ele — Embora, agora que o senhor menciona, ouvi uma excelente piada durante o verão sobre um trasgo, uma bruxa má e um leprechaun que entram num bar...
A professora Minerva pigarreou alto.
— Hum... Onde é mesmo que eu estava? Ah, sim, no Torneio Tribruxo... Bom, alguns de vocês talvez não saibam o que é esse torneio, de modo que espero que aqueles que já sabem me perdoem por dar uma breve explicação, e deixem sua atenção vagar livremente. O Torneio Tribruxo foi criado há uns setecentos anos, como uma competição amistosa entre as três maiores escolas europeias de bruxaria: Hogwarts, Beauxbatons e Durmstrang. Um campeão foi eleito para representar cada escola e os três campeões competiram em três tarefas mágicas. As escolas se revezaram para sediar o torneio a cada cinco anos, e todos concordaram que era uma excelente maneira de estabelecer laços entre os jovens bruxos e bruxas de diferentes nacionalidades, até que a taxa de mortalidade se tornou tão alta que o torneio foi interrompido.
— Taxa de mortalidade? — sussurrou Hermione para , parecendo assustada. Mas, aparentemente, sua ansiedade não foi compartilhada pela maioria dos alunos no salão; muitos murmuravam entre si, excitados, mais interessados em saber mais sobre o torneio do que em se preocupar com o que acontecera centenas de anos atrás.
— Durante séculos houve várias tentativas de reiniciar o torneio — continuou Dumbledore —, nenhuma das quais foi bem-sucedida. No entanto, os nossos Departamentos de Cooperação Internacional em Magia e de Jogos e Esportes Mágicos decidiram que já era hora de fazer uma nova tentativa. Trabalhamos muito durante o verão para garantir que, desta vez, nenhum campeão seja exposto a um perigo mortal. Os diretores de Beauxbatons e Durmstrang chegarão com a lista final dos competidores de suas escolas em outubro e a seleção dos três campeões será realizada no Dia das Bruxas. Um julgamento imparcial decidirá que alunos terão mérito para disputar a Taça Tribruxo, a glória de sua escola e o prêmio individual de mil galeões.
— Estou nessa! — sibilou Fred para George e , com o rosto iluminado de entusiasmo ante a perspectiva de tal glória e riqueza. Aparentemente ele não era o único que estava se vendo como campeão de Hogwarts. Em cada mesa, pude ver gente olhando arrebatada para Dumbledore ou então cochichando ardentemente com os vizinhos. Mas, então, Dumbledore recomeçou a falar, e o salão se aquietou.
— Ansiosos como eu sei que estarão para ganhar a Taça para Hogwarts, — disse ele. — os diretores das escolas participantes, bem como o Ministério da Magia, concordaram em impor este ano uma restrição à idade dos contendores. Somente os alunos que forem maiores, isto é, tiverem mais de dezenove anos, terão permissão de apresentar seus nomes à seleção. Isto, — Dumbledore elevou ligeiramente a voz, pois várias pessoas haviam protestado indignadas ao ouvir suas palavras, e os gêmeos Weasley, de repente, pareciam furiosos. — é uma medida que julgamos necessária, pois as tarefas do torneio continuarão a ser difíceis e perigosas, por mais precauções que tomemos, e é muito pouco provável que os alunos abaixo da sexta e sétima séries sejam capazes de dar conta delas. Cuidarei pessoalmente para que nenhum aluno menor de idade engane o nosso juiz imparcial e seja escolhido campeão de Hogwarts. Portanto peço que não percam tempo apresentando suas candidaturas se ainda não tiverem completado dezenove anos.
“As delegações de Beauxbatons e de Durmstrang chegarão em outubro e permanecerão conosco a maior parte deste ano letivo. Sei que estenderão as suas boas maneiras aos nossos visitantes estrangeiros enquanto estiverem conosco, e que darão o seu generoso apoio ao campeão de Hogwarts quando ele for escolhido. E agora já está ficando tarde e sei como é importante estarem acordados e descansados para começar as aulas amanhã de manhã. Hora de dormir! Vamos andando!”
Ouviu-se um estardalhaço de cadeiras batendo e se arrastando quando os alunos se levantaram para sair como um enxame em direção às portas de entrada do Salão Principal.
— Não podem fazer isso com a gente! — reclamou George, que continuou parado olhando de cara emburrada para Dumbledore. — Vamos fazer dezenove anos em abril, por que não podemos tentar?
— Não vão me impedir de me inscrever. — disse Fred, teimoso, também amarrando a cara para a mesa principal. — Os campeões vão fazer todo o tipo de coisa que normalmente nunca podemos fazer. E mil galeões de prêmio! — vi pelo canto do olho botando a mão na testa, balançando a cabeça em negação e puxando o garoto pela manga. Um toque sutil para que se acalmasse.
— É — disse Rony, um olhar distante no rosto. — É, mil galeões...
— Vamos, — disse Mione — vamos ser os únicos a ficar aqui se você não se mexer.
Eu, , Harry, Gina, Rony, Hermione, Fred e George saímos para o saguão de entrada, enquanto os gêmeos discutiam as maneiras pelas quais Dumbledore poderia impedir os menores de dezoito anos de se inscreverem no torneio.
Nos dirigimos à entrada da Torre da Grifinória, que ficava escondida atrás de uma grande pintura a óleo de uma mulher gorda com um vestido de seda rosa.
— Senha? — perguntou ela quando nos aproximamos.
Asince. — disse George. — Um monitor me informou lá embaixo.
Suspirei, lembrando o quanto estava ansiosa para o ano seguinte. Sempre quis ser monitora, desde que entrei em Hogwarts. Apesar dos gêmeos não fazerem questão, era o sonho de Rony e vivíamos comentando com Hermione o quanto seria incrível. Harry, por outro lado, dizia estar focado demais no quadribol para pensar nisso, e também não se importava tanto.
O retrato girou para a frente, expondo um buraco na parede, pelo qual todos passamos. Um fogo crepitante aquecia a sala comunal circular, mobiliada com poltronas fofas, confortáveis, e mesas de madeira.
A música alta foi a primeira coisa que ouvi e sorri, lembrando que era tradição na Grifinória sempre fazermos uma festa interna no primeiro dia de aula para celebrarmos.

POV’s
Corri com Hermione e para o nosso dormitório. Lá, usamos um feitiço para nos secarmos e aproveitamos o tempo para passar uma leve maquiagem no rosto.
— Aposto que Fred e George estão até agora xingando porque não poderão participar do Torneio Tribruxo — disse, pensando que teria que aguentar a revolta dos dois meninos. — Mas admito que fico aliviada por não participarem. Parece ser muito perigoso.
— Ah, com certeza. — riu. — Boa sorte com eles, você vai precisar. Você também, Mione. Tenho certeza que o Rony ficará choramingando para você.
— O Rony choraminga por tudo, tem certeza que é disso que gosta mesmo? — Gina perguntou, enquanto penteava seus cabelos. Apesar de não ter ficado encharcada pela pegadinha de Pirraça porque saiu da carruagem mais tarde com Luna, ainda havia se molhado na chuva e estava se arrumando conosco.
As bochechas de Mione ficaram avermelhadas, coisa que acontecia toda vez que falávamos sobre isso. Demorou demais até que ela admitisse a paixão que tinha pelo nosso amigo, apesar de todas sabermos. Rony, porém, parecia ter mingau no lugar do cérebro e ele nunca comentou nada. Sempre incentivávamos ela a dar o primeiro passo, tomar o controle, mas o medo de estragar a amizade deles era maior.
— Estou pronta.
— Então vamos? — perguntei, recebendo acenos positivos de minhas amigas como resposta.
— Está ansiosa para ver o que vai rolar com Dino? — Mione questionou Gina, enquanto saíamos do quarto.
— Nunca pensei que diria isso, mas estou. É uma pena que vocês vão dormir no quarto hoje. — A ruiva deu um sorrisinho engraçado e eu gargalhei.
— Você é uma safada, Gina! — falei e ela deu de ombros, como se admitisse que eu apenas falei a verdade.
Antes que eu pudesse acompanhar minhas amigas e descer as escadas para a área principal do Salão Comunal, George e Fred apareceram. Cada um segurou uma de minhas mãos e me levaram novamente para o meu dormitório.
— O que vocês estão fazendo? — perguntei, receosa, enquanto Fred fechava a porta.
Eu conhecia-os bem o suficiente para saber que não seria a melhor coisa do mundo. Assim, me preparei para ouvir que teria que ajudá-los a esconder um cadáver. Ou pior.
— Temos um produto novo para te mostrar — George disse, parecendo ansioso. Estreitei os olhos. — E para testar também. — Ele tirou um pequeno embrulho do bolso e entregou para o seu irmão. A embalagem era vermelho escuro, um tom bonito e chamativo. Estreitei os olhos, receosa.
— Não vou ficar com uma aparência horrível por provar isso, né? — perguntei, me sentando na cama e observando enquanto Fred o abria e tirava duas balas cor-de-rosa. Eles não eram considerados os reis das pegadinhas em Hogwarts sem motivo. Apesar de nunca terem feito uma comigo, era importante tomar cuidado com o que recebia deles.
— Não, fica tranquila — Fred prometeu antes que eu pudesse começar a pensar em como meu cabelo ou dentes poderiam cair. Ainda assim, ele parecia receoso, de certa forma. O que só servia para me deixar mais nervosa. — Na verdade, nunca vendemos um produto como esse…
— Ok, e ele faz o quê?
— É um… estimulante. Afrodisíaco. Deve aumentar sua libido e desejo sexual. Sabia que temos muita procura de produtos assim? Sei que sim, porque sempre nos ajuda com o relatório dos produtos. Enfim, estávamos pensando, por que não? Estudamos pra caramba sobre alguns componentes e criamos essas balas durante as férias. É recomendado que os dois mastiguem juntos, para um efeito melhor — George explicou, piscando para mim enquanto Fred me oferecia a bala.
Oh, eu realmente não esperava por isso.
Mas, honestamente, eu estava acostumada a testar produtos com ou para eles. Seria somente mais uma experiência, certo?
— Ok. — Estendi a mão e peguei a bala, colocando-a na boca, ainda sem morder. — Vamos eu e você, Fred?
Ele balançou a cabeça, confirmando. Engoli a minha após mastigá-la, sentindo o doce gosto de açúcar com xarope sabor cereja na boca. Era simplesmente uma delícia.
Um calor subiu subitamente por meu corpo. Me senti instantaneamente aquecida. Não, era mais que isso. Eu estava queimando. Em chamas. As sensações mais intensas me atingiram quando Fred me encarou, os olhos escuros enquanto sua boca se entreabriu, olhando sem pudor a minha.
Acho que não tinha percebido o quão atraente ele era, com os cabelos ruivos emoldurando seu rosto. Óbvio, eu sabia que ele era lindo, mas não havia notado o quão sexy ele poderia ser também. Mordi os lábios, ciente de seu efeito sobre mim. A atmosfera que nos envolvia era tão densa que, se qualquer pessoa gritasse que o mundo estava acabando, minha última atitude seria implorar para que Fred Weasley me beijasse tão fortemente que não poderia ligar menos.
Apesar de que, pelo modo como seus olhos pareciam me devorar, pensei que esse pedido não seria necessário.
Fred se aproximou de mim, abaixando a cabeça até estar ao nível da minha. Seu dedão contornou meu lábio inferior e eu suspirei. Céus, eu o queria tanto que precisei cruzar as pernas, pressionando-as fortemente para não cair em tentação tão rapidamente.
— Tá, acho que foi o suficiente — George disse, nos afastando. Fred fechou a cara, olhando para o irmão com uma fúria jamais vista. Eu não poderia estar diferente. Abri a boca, prestes a reclamar e mandá-lo dar o fora. Oportunamente, nesse momento, George enfiou algo pequeno e redondo em minha boca. Uma bala de morango, percebi, enquanto mordia.
Confusão pareceu tomar conta de meu ser e eu franzi a testa, tentando recapitular os últimos momentos. O sentimento de raiva foi se acalmando e, aos poucos, voltei ao normal. Fred estava com as bochechas coradas e cruzou os braços.
— É. Vimos que funcionou. Talvez a gente deva diminuir um pouco o efeito, achei que fossem se agarrar aqui mesmo — George comentou, brincando. E iríamos mesmo, se ele não tivesse interrompido. — O que acharam?
— O gosto é bom. E funcionou muito bem, por sinal. Bem até demais — comentei, sentindo vergonha pelos pensamentos que tive. — Quase te bati por ter atrapalhado.
— E eu realmente pensei em te expulsar desse quarto. Aos chutes até que você não pudesse andar novamente — Fred completou, o semblante pensativo.
— É, com certeza ainda precisamos fazer algumas alterações... Não deveria ser tão forte — George falou. — Bom, mas valeu a pena, não é? Vai ser um sucesso de vendas!
Concordei com a cabeça, tentando esquecer inutilmente o que senti por Fred durante o efeito da bala.
Decidimos, finalmente, ir para a festa. Quando descemos as escadas, nos aproximamos de Mione, Harry, , Gina e Ron, que estavam sentados em um dos sofás.
Passamos um tempo conversando antes que Fred sumisse com Lino Jordan, e Gina fosse puxada para um canto mais reservado por Dino Thomas - e eu sabia que não a veria tão cedo novamente. Enquanto isso, apesar de escutar e responder o que meus amigos falavam, minha cabeça ainda estava no meu dormitório e em como aquela bala me afetou. Não conseguia parar de pensar na forma em que Fred me encarou e nas loucuras que eu me imaginei fazendo com ele. Meu coração até acelerou por, simplesmente, pensar nisso, tamanha era minha vontade de jamais ter sido interrompida por seu irmão.
Será que ele também estava pensando nisso?
Olhei ao redor, o procurando. Fred estava sentado em uma mesa perto das escadas dos dormitórios, conversando com Katie Bell e Lino. Acho que o olhei por tempo demais, porque nossos olhares se encontraram e um sorriso ladino surgiu em seus lábios.
Merda.
Voltei a prestar atenção no que acontecia ao meu redor e pude ver George passando o braço ao redor dos ombros de minha irmã, sussurrando algo em seu ouvido.
Hermione, Rony e Harry falaram que dariam uma volta e me deixaram ali com os dois - o que me fez xingar mentalmente meus amigos, amaldiçoando-os pela terceira geração. Era pedir demais para me levarem junto? Que saco.
Estava prestes a levantar quando senti uma presença perto de mim, afundando-se ao meu lado no sofá e me fazendo encará-lo pela milésima vez naquela noite.
— Também está pensando no que poderia ter acontecido caso George não tivesse nos atrapalhado? — ele perguntou, pousando a mão em minha coxa ao se sentar do meu lado, sorrindo maliciosamente.
Eu estava acostumada com ele flertando comigo, principalmente quando minha irmã e seu irmão estavam juntos. Fred e eu nos provocamos vezes o suficiente durante todo o tempo em que nos conhecemos para que eu já tivesse me perguntado como seria sentir seus lábios nos meus, mas, por sermos tão próximos, nunca cedi a essa curiosidade.
Bom, isso até hoje. Eu com certeza teria cedido.
— Ah, nos seus sonhos, quem sabe… — eu disse, rindo.
Um pouco - muito - hipócrita. Ele provavelmente estaria nos meus essa noite também.
Fred aproximou a boca do meu ouvido e eu, involuntariamente, estremeci. Estar tão próxima dele me trouxe lembranças exatas do momento em que experimentei seu novo produto. Pude sentir uma pressão maior em minha coxa, como se sua mão estivesse apertando levemente minha pele. Mordi o lábio inferior.
— Se você soubesse a quantidade de vezes que eu sonho com você, … Não pensaria duas vezes em ficar comigo e saber tudo que eu posso te proporcionar.
Ri baixinho. Confesso que adorava quando nos provocávamos assim.
Não sabia dizer exatamente quando isso tudo começou. Antes, quando nos conhecemos, não levava a sério quando Fred sussurrava coisas no meu ouvido, mas isso criou um certo interesse em mim e eu passei a corresponder no mesmo tom. A questão é que nunca soube dizer se isso era somente uma brincadeira entre nós ou se era uma forma de mascarar o que nunca tivemos coragem de fazer.
— Espero que saiba que, apesar da sua criatividade atingir níveis absurdos, os seus sonhos não chegam nem aos pés de tudo que eu poderia fazer de verdade com você… — sussurrei de volta. Ao me afastar, seus olhos encararam minha boca exatamente como havia feito quando me mostrou aquela bala afrodisíaca e eu tremi mais uma vez.
Afastei meu rosto para observá-lo e fiquei surpresa em perceber o quanto suas expressões endureceram. Ergui a sobrancelha, quase que perguntando. No entanto, não tive tempo suficiente.
Senti meu braço aquecer e encarei meu pulso, vendo a pulseira com uma miniatura de lembrol sendo preenchida por uma fumaça vermelha. Havia sido um presente que eu e ganhamos de nossos avós tempos atrás para jamais nos esquecermos do que era importante. Era mil vezes mais prático que realmente carregar um lembrol por todo canto na mão.
Olhei no relógio na parede atrás de Fred e me dei conta do que estava esquecendo, e de que iria me atrasar se continuasse aqui.
, preciso ir, me dá cobert… — aproveitei a falta de resposta do ruivo, mas parei de falar assim que virei para o outro lado e encarei o vazio.
Será que eles tinham saído para se beijar? Não, acho que não faria isso…
Eles foram amigos coloridos no ano passado e não era incomum vê-los ficando. Como melhor amiga de George, eu sabia o quanto ele gostava de . Sério mesmo. E, como sua irmã, não pude deixar de repassar para ela a informação. Ela, que sempre gostava de manter tudo às claras, teve que conversar com ele - sem me expor - e dizer que tinha enorme consideração por ele, mas que não passava de uma amizade colorida.
Eu gostava dessa transparência na relação deles. nunca ficava tanto tempo com uma única pessoa, justamente porque ela sabia que era egoísmo prender alguém sem corresponder os sentimentos. Por isso, não foi nenhuma surpresa ao vê-los cada vez menos se beijando nos últimos meses. Tanto é que, hoje em dia, eles não ficavam mais e realmente mantiveram a amizade.
Admito que achei bom. George acabaria sofrendo se continuassem com essa relação e isso poderia abalar, ou destruir, a amizade dos dois.
No entanto, não era hora de me preocupar com isso.
— Preciso sair um pouco — eu disse para Fred, que franziu as sobrancelhas. — Avisa a que não sei que horas volto, por favor.
— Tá legal, mas…
— Te vejo mais tarde, Weasley — completei e me levantei, saindo da Sala Comunal antes de precisar responder à pergunta que tenho certeza que Fred gostaria de fazer.
Atravessei o quadro da Mulher Gorda e andei cuidadosamente pelos corredores e escadas escuras até o quinto andar. Ao passar em frente ao banheiro dos monitores, senti alguém segurando meu braço e, em seguida, estava dentro do ambiente.
— Droga, você me assustou… — sussurrei, encarando o sorriso de Adrian em minha frente.
Suas mãos pousaram em meus quadris, me puxando para perto dele.
No mesmo dia que George e começaram a ficar - na festa de início das aulas do ano passado, eu acabei ficando escondido com Adrian Pucey durante um passeio noturno por Hogwarts. Desde então, nos encontrar em lugares do grande castelo para ficarmos virou algo comum.
Desde a festa do Dia das Bruxas as coisas têm estado um pouco mais sérias entre nós, mas gosto da relação que temos. Afinal, antes, isso acontecia de vez em quando, mas hoje em dia até mesmo durante o dia arrumamos algum tempo juntos.
A questão é que apenas as meninas sabem que isso acontece. George, Fred, Harry e Rony me matariam se descobrissem que eu fico com alguém da Sonserina que, além de tudo, é nosso adversário por ser artilheiro de seu time. Apesar disso, o considero um dos únicos sonserinos legais e interessantes nessa escola.
Admito que tem sido difícil esconder de meus melhores amigos, mas normalmente me ajuda a escapar, tornando tudo mais fácil para mim. Infelizmente, Fred percebeu hoje por um descuido meu e tenho certeza de que não vai deixar isso pra lá, porém, prefiro me preocupar depois com o que vou dizer para ele.
— Dois meses é muito tempo, não acha? — Pucey perguntou, enquanto eu passava os braços ao redor de seu pescoço.
— Muito — respondi, sorrindo. — Mas precisamos recuperar o tempo perdido.
— Com certeza — murmurou, colando nossos lábios com ferocidade.
As coisas entre nós eram sempre… quentes. Ardentes. Eu me sentia facilmente inebriada quando sua língua buscava a minha. Gemi contra sua boca quando ele puxou meu lábio inferior, mordiscando.
Suas mãos fortes desceram da minha cintura, encontrando seu caminho até minha bunda. Minha pele ardia onde a pele áspera tinha passado. Pucey me impulsionou para cima, fazendo-me contornar sua cintura com minhas pernas. Poucos segundos depois, eu estava apoiada na pia, puxando-o pela nuca para voltar a me beijar.
O problema em questão era que eu estava faminta, simplesmente fora de mim e dominada pela emoção, e não conseguia parar de pensar na bala, o que, consequentemente, me fazia lembrar de Fred. E eu sabia que era ridículo, para dizer o mínimo, pensar nele enquanto estava com Adrian, mas estava sendo inevitável.
Balancei a cabeça discretamente, me forçando a parar de pensar nisso. Eu estava com Adrian agora e era ele quem importava.
Sem perder tempo, porque estava tarde e, mesmo sabendo que as chances de sermos pegos eram mínimas, comecei a desabotoar sua camisa, jogando-a no chão sem me importar. Minhas unhas correram por suas costas lisas, arranhando-o enquanto sentia seus dedos embaixo do tecido da minha saia, arrastando minha calcinha para o lado e adentrando meu interior.
— Droga, . Você está tão molhada… — ele suspirou contra meu pescoço, mordiscando a pele logo em seguida.
Empurrei meu corpo para frente, querendo mais. Sabia que estava vergonhosamente ensopada. Por ele. Por Fred. Meus dedos não faziam metade do que eu gostaria que fizessem durante esse tempo longe e, depois do ocorrido agora pouco, eu não me importaria que os dois me ajudassem ao mesmo tempo.
— Adrian… Eu preciso de mais…
Ele entendeu logo que eu quis dizer, abaixando sua calça juntamente com a cueca. Eu ao menos havia visto quando ele tirou a camisinha do bolso, mas não importava. No segundo seguinte, ele estava dentro de mim. Pucey sabia exatamente como eu gostava, rápido e forte.
Sua mão agarrou meus cabelos, me beijando desajeitadamente. Apertei seus ombros conforme seus movimentos continuavam, um movimento de vai e vem sincronizado. Pucey desceu o dedo indicador e eu ofeguei quando senti a estimulação em meu clitóris.
Ficamos assim por mais alguns minutos, nessa dança sincronizada, até que ele chegasse em seu limite, apertando minhas coxas enquanto gozava, sem deixar sua boca se afastar da minha. Ele saiu de mim, mas não deixou de me preencher. Usando dois dedos, não parou até que eu gozasse.
E quando eu finalmente explodi, apertei sua pele, sabendo que minhas unhas deixariam marcas no dia seguinte - mas, sinceramente, não dava a mínima.
Adrian colocou a camiseta e eu arrumei minhas roupas, depois, tentei ao máximo ajeitar meu cabelo.
— Senti falta disso — ele disse, colando nossos lábios em um beijo calmo e eu suspirei, me deixando aproveitar mais alguns segundos daquele momento. — O que você acha de dormir comigo algum dia desses? Aproveitar que ainda não estamos cheios de trabalhos para fazer…
O pessoal da Sonserina tem dormitórios individuais, então é sempre uma ótima opção. Meu único problema - que é tão chato que vale por uns dez - é entrar e sair sem ser vista. Sempre tem alguém no Salão Comunal deles, é um saco.
— Também senti falta. — Dei um selinho demorado em Adrian. — E eu gostei muito dessa ideia, sabia? Mas pode ser depois de amanhã? Prometi que ajudaria Fred e George com os produtos amanhã à noite.
— Está marcado então — ele concordou. — Mas sabe que eles sempre ficam com os melhores dias, né? Só fico de boa porque gosto dos produtos deles — completou e eu ri.
Conversamos mais um pouco, mas como já estava bem tarde, eu precisava voltar.
— Sei que vamos estar cheios de atividades, mas me avisa se tiver algum tempo livre — ele falou e eu prometi que avisaria. Então saímos do banheiro com cuidado. Murmurei para que ele prestasse atenção ao voltar, afinal, sua Sala Comunal era longe o suficiente para que a gata de Filch o entregasse a qualquer momento. Nos despedimos com um beijo e ele sumiu na escuridão.
Eram três da manhã quando atravessei o buraco do quadro e entrei no Salão Comunal. A festa já havia terminado e a única luz do ambiente vinha das fracas chamas que ainda crepitavam na lareira. Todos já estavam em seus devidos dormitórios, dormindo.
Bom, todos menos um.
— O que ainda está fazendo aqui? — perguntei, enquanto observava Fred. Ele parecia analisar cada detalhe em mim. Com certeza havia percebido os fios do meu cabelo bagunçados, minhas roupas levemente amassadas, ou até mesmo meus lábios mais avermelhados que o normal, pois apenas perguntou:
— Caiu os sete lances de escada, por acaso? — Ri com sua fala e me aproximei, me sentando ao seu lado no sofá e deitando o pescoço no encosto.
— E você, caiu da cama?
— Estava te esperando.
— Por quê?
— Estamos jogando algum jogo de perguntas? Te esperei porque fiquei preocupado! — ele respondeu, virando seu rosto para me olhar. Eu fiz o mesmo. — Você saiu de repente e não quis me explicar o motivo. Pensei que poderia ter acontecido algo, mas… — e então Fred aproximou seu rosto, passando o polegar em meu pescoço. — Espera aí, isso é um chupão? Por Merlin, !
Apenas revirei os olhos, me afastando de seu toque.
— Isso não é um chupão — menti, jogando meu cabelo para esconder o hematoma. — E você realmente ficou esse tempo todo me esperando?
Não sei dizer exatamente o que eu estava sentindo ao saber disso. Fred foi bem fofo, na verdade. Eu não sabia por que estava tão surpresa, ele sempre foi assim comigo.
— Fiquei. Enquanto isso você foi se pegar com quem? — ele perguntou, parecendo curioso.
— Não sabia que agora começamos a compartilhar essas informações um com o outro também — respondi. Eu nunca perguntei sobre nenhuma garota para Fred e ele nunca me perguntou sobre nenhum cara. Apesar disso, os boatos voavam por Hogwarts como se fosse o próprio ar, por isso, eu sabia sim da fama que ele tinha pela escola e quem eram as “sortudas”.
— Bom, até então eu não havia te visto pedir cobertura para ir se encontrar com alguém às escondidas e voltar com um chupão às três horas da manhã.
— Já disse que não é um chupão — afirmei, sentindo seu olhar queimar meu pescoço, como se ele pudesse ver através dos fios do meu cabelo, que escondiam a marca. — Está tarde, acho que você está vendo coisas… Deveria ir dormir.
Fred apertou os olhos, me desafiando silenciosamente. Coloquei um sorriso falso na cara, como se nada tivesse acontecido, apesar de meu coração bater desenfreadamente em meu peito. Se ele descobrisse com quem estava, teríamos um sério problema. Os meninos simplesmente me chutariam até as masmorras.
Então, antes que Fred pudesse falar qualquer coisa, me aproximei e dei um beijo em sua bochecha, desejando boa noite e dizendo que precisava descansar para o início das aulas. Saí praticamente correndo, sem ouvir sua resposta.


Capítulo 4

POV’s
Preparar poções era relaxante. Eu me dedicava ao máximo e era realmente boa nisso. Não à toa, sempre me destacava nas aulas – o que fazia Snape me odiar um pouquinho menos. Seu tratamento infame com os alunos da Grifinória demonstrava que era um sentimento pelo coletivo. Em geral, eu não ligava se não gostassem de mim, desde que não viessem me irritar ou tentar me prejudicar.
Mas quando seu professor menos favorito deixa explícito o quão supostamente detestável é você ter essa personalidade que te encaminhou para sua Casa, você deve se preocupar. Minhas notas, felizmente, eram bem altas. Snape poderia ser insuportável, mas era inegável que eu, e Mione formávamos três quartos dos melhores da turma.
Foi justamente pensando que minha média precisava se manter superior que me encaminhei até o armário na sala. Pegando os itens que precisava, voltei para minha mesa e vi Draco Malfoy piscando para mim. Estava prestes a dar um sorrisinho em retorno quando abaixei o olhar e vi a cor da minha poção.
Sentindo a raiva me invadir, torci a boca em descontentamento. O que antes era um lindo tom esverdeado agora estava amarronzado, o que somente pode significar uma coisa: alguém tinha sabotado minha poção.
Alguém não. Malfoy.
Era óbvio que ele não mudaria do dia para a noite, mas eu não poderia ter me sentido menos estúpida por ter pensado em ser no mínimo gentil hoje.
Como era possível caber tanta babaquice dentro de uma pessoa? Quer dizer, ele tinha me ouvido confessar meus sentimentos e conversado comigo a noite inteira há pouco tempo e agora me sabotava? Ele achava que eu era burra?
Eu não aguentava falsidade. Se ele disse aquela noite que não me odiava, então por qual motivo mexeu nas minhas coisas?
Sem conseguir me controlar, tirei a varinha da minha bota e lancei um feitiço imediatamente contra o garoto, que ria e cochichava com seus colegas da Sonserina. Normalmente, eu não era tão impulsiva, mas Draco sempre conseguia extrair o pior de mim.
Crinus Muto! — murmurei, observando seu cabelo se transformar em um tom de rosa choque, contrastando completamente com sua pele pálida. Ele quase pulou com o susto quando Pansy apontou para suas mechas.
Suas bochechas coraram tanto quando o restante da turma começou a rir, que o tom se igualou a de seus cabelos. Arregalando os olhos em minha direção, ele balançou a cabeça negativamente, como se estivesse me desafiando. Dei de ombros, estampando meu olhar mais debochado. Ninguém estragava minha poção praticamente perfeita e saia imune.
O que aconteceu a seguir foi algo que, infelizmente, não previ.
Draco empunhou sua varinha e retrucou com um “Tarantallegra” e eu, imediatamente, xinguei-o baixinho, sentindo que havia perdido o controle das minhas pernas. Extremamente contra minha vontade, me levantei e comecei a dançar. Sem parar.
Amaldiçoei-o mentalmente, e depois me critiquei por não ter cogitado lançar esse feitiço contra ele. Ter o cabelo pintado de uma cor diferente não era lá grande coisa, mas ficar dançando descontrolada em uma sala lotada de alunos? Eu sentia o suor se acumular em meu pescoço.
Snape virou-se no momento em que a sala começou a quase gritar de tanto rir, o que me fez engolir em seco. Eu estava cansada já, o que talvez fosse porque eu era sedentária. Mesmo não gostando muito de atividades físicas, eu deveria me esforçar para praticar qualquer coisa.
Sinclair Voux! Draco Malfoy! O que pensam que estão fazendo? — Ah, claro, porque não havia hora melhor para Snape brigar conosco, com aquela voz extremamente grossa. Será que era pedir muito que ele me ajudasse na situação que eu estava?
Com o canto do olho, eu conseguia ver os alunos segurando as risadas. É, uma aluna dançando ininterruptamente enquanto o professor mais severo – e não foi um trocadilho – chamava sua atenção? Hilário, no mínimo.
Pelas graças de Merlin, Snape finalmente percebeu a minha situação e lançou um contrafeitiço que me fez parar imediatamente. Só que eu não estava esperando por isso e tropecei assim que minhas pernas pararam. Isso, junto ao cansaço, foi suficiente para que eu caísse.
Ou quase. Senti meu corpo despencar, mas não encontrei o chão. Harry me segurou fortemente e eu tive um déjà vu, mas, da última vez, foi o culpado por eu me encontrar assim que me impediu de cair.
Os braços de Harry estavam rígidos e ele respirava fundo, o que significava que estava irritado. Ele já odiava Draco, então eu poderia imaginar o que ter visto o menino fazer isso comigo significava para ele.
— Por essa discussão ridícula, menos dez pontos da Grifinória — Snape falou e eu bufei. Os alunos da minha Casa estavam bem insatisfeitos, murmurando reclamações. A alegria dos sonserinos, que zombaram por breves segundos, foi logo apagada. — E menos dez pontos da Sonserina. Esperava mais que isso de você, Malfoy.
Eu não poderia me dar ao luxo de perder os nossos pontos assim. Era uma das coisas que eu mais levava a sério e me empenhava em Hogwarts. Com muito esforço, no ano anterior, ganhamos a Taça das Casas.
— Acha pouco, Malfoy? — Snape perguntou, quando o loiro pareceu não ter ligado muito por ter perdido esses pontos. Na verdade, ele ria de algo que Blaise sussurrou. — Os dois irão cumprir a detenção nessa sala, organizando os armários de ingredientes.
Merda. Cruzei os braços, sem acreditar que passaria o restante do meu dia assim. Severo Snape era tão exigente em suas detenções que chegava a ser quase sádico. E lembrar que tudo estava tão bagunçado que me fez fechar a cara mais ainda.
E eu nem poderia argumentar que ele tinha me incitado a fazer aquele feitiço. Ao menos conseguiria provar que ele quem havia mexido nas minhas coisas enquanto eu estava ocupada demais pensando e pegando meus ingredientes.
Juro que minha maior vontade era esganar aquele menino. Seria uma droga de detenção, eu sentia.
tentou conversar comigo para que eu me acalmasse no restante das aulas, em vão, e ela sabia disso. Contei-na da noite mais estranha da minha vida, sem explicar exatamente quais os meus sentimentos sobre aquilo. Não que eu soubesse exatamente como definir.
Sentando-me novamente, suspirei e encarei o vidrinho. Desistindo de continuar a fazer algo naquela aula, apenas apoiei o queixo no braço e descansei um pouco a mente, me preparando para a tortura psicológica que viria.

POV’s
Era oficial. Tinha certeza de que aquela bala afrodisíaca me deixou sequelada. Só poderia ser isso. Eu não conseguia tirar meus olhos de Fred Weasley.
Ok, admito que sempre me senti atraída por ele e pensava em beijá-lo desde que viramos amigos, o que significa que esses sentimentos não começaram agora, do nada. Era simplesmente impossível não imaginar algo com ele. As provocações, os toques, as conversas, o carinho… Mas, como levo muito a sério nossa amizade – e tenho medo de perdê-la –, nunca avancei com suas investidas e enterrei todo e qualquer sentimento e interesse no fundo do meu ser.
E estava tudo indo muito bem.
Porém, depois de provar seu novo produto, isso havia voltado como um soco. Forte e doloroso. Daqueles que deixam marcas terrivelmente roxas que demoram semanas para sair.
E, para piorar, durante o treino de quadribol, ele ficava cinquenta vezes mais atraente do que já era. Ou talvez isso fosse apenas minha queda por atletas gritando mais alto.
Como era o primeiro treino do ano, precisávamos fazer o teste para saber se continuaríamos no time – principalmente agora que o antigo capitão saiu e Angelina entrou em seu lugar. Normalmente, as posições e jogadores continuavam os mesmos, sendo exceção apenas os que se formaram.
George e Fred estavam posicionados em suas vassouras, arremessando balaços um para o outro com maestria, o que não era por acaso, eles realmente amavam o esporte e treinavam sempre, até mesmo durante as férias. Por isso, não foi surpresa nenhuma quando Angie declarou que eles continuavam sendo os batedores do time.
— Vocês foram incríveis! — elogiei, animada, assim que meus melhores amigos se aproximaram de onde eu estava sentada. Os dois sorriram em agradecimento.
George abriu a boca para comentar algo, mas logo foi chamado por Harry, deixando Fred na minha frente, sozinho.
Estava um clima bem agradável, nem frio e nem calor. Um meio termo perfeito para quem assistia os testes, como eu. Já para ele, que estava pingando de suor, o sol queimando seus ombros e o tamanho esforço que fazia com o bastão não ajudavam muito. Provavelmente por conta disso, Fred tirou sua camisa. E eu engoli em seco.
— Seu teste é que horas? — ele perguntou, após tomar um longo gole de água de sua garrafa.
Algumas gotas que escorriam pelo objeto atingiram sua pele. Elas desciam cada vez mais e mais por seu abdômen, trilhando um caminho molhado até a barra de sua bermuda.
Eu não consegui desviar minha atenção, meus olhos observavam cada pedacinho de sua pele com vontade, e Fred percebeu, abrindo um sorriso ladino.
Céus.
Por um momento, eu pensei em falar o que estava passando pela minha cabeça e questionar se ele também estava sentindo tudo isso. Tirar tudo a limpo. Porém, no segundo seguinte, já havia desistido.
— Depois desse que começou agora — respondi finalmente, subindo meu olhar até seus olhos castanhos. Ele concordou com a cabeça, passando a mão direita nos fios de cabelo alaranjados, os bagunçando ainda mais. Ele era charmoso até com os fios todos desarrumados.
— Então vou ficar. Gosto de te assistir.
Mantive nossos olhares presos um no outro, imaginando cada sentido que aquela frase poderia ter e em como eu queria que ele me assistisse em todos eles. Bom, isso até George, Harry e Gina se juntarem a nós para ver o teste de Rony como goleiro.
Assim que os artilheiros foram chamados, me levantei e tirei a blusa larga que vestia, ficando apenas de top e short. Como a maioria das garotas do time, gostava de usar roupas mais justas e leves durante os treinos porque os movimentos e manobras ficavam mais limpas. Todos estavam acostumados com isso. Inclusive Fred que, apesar disso, desenhava cada curva do meu corpo com seus olhos.
E eu estava gostando. Muito.
Merda. Eu estava excitada somente por estar sendo observada pelo meu melhor amigo e isso, com certeza, não devia estar acontecendo.
Eu realmente não sabia o que estava acontecendo comigo.
Durante todo o teste, tentei não focar nisso. Felizmente, voar requeria toda a minha concentração, e meu desempenho estava cada vez melhor. A cada mergulho que fazia, ouvia as pessoas do time aplaudindo.
Quando finalizei e pousei meus pés no gramado verde novamente, Angelina veio falar comigo. Eu havia garantido minha posição e não poderia estar mais satisfeita. Não que fosse alguma surpresa. Modéstia à parte, eu levava tão a sério que era uma das melhores da equipe.
— Você estava demais lá em cima — Fred sussurrou no meu ouvido. Não percebi a hora em que ele se aproximou de mim e parou com o seu corpo atrás do meu, mas respirei fundo ao sentir seu hálito em minha nuca.
— Obrigada — respondi, agradecendo mentalmente por ver meus amigos parando ao meu lado e me tirando daquela bolha em que estava. Como os testes haviam terminado, voltamos para dentro do castelo.
Eu e Gina tomamos um banho demorado e, enquanto ela andava em direção ao dormitório do seu namorado, eu descia para as masmorras.
Adrian havia mandado um pergaminho instantâneo pedindo para que eu o encontrasse, e admito que estava animada para vê-lo. Apesar do esforço do teste, não estava nem um pouco cansada. Queria me certificar de que toda a excitação que senti por Fred era um caso isolado de – muita – carência e que isso se resolveria após eu me encontrar a sós com Pucey.
Pelo menos era nisso que eu iria me agarrar.

POV’s
Eu era uma faladora exímia e ficar tempo demais sem dizer uma palavra me deixava agoniada. Mais que isso, era como se meu corpo fosse explodir e minha garganta começava a arranhar, me implorando para que eu dissesse algo.
Mas eu não diria porque não era exatamente minha culpa estarmos aqui.
Ao contrário de todos que tiveram o restante do dia livre para descansarem, provavelmente eu e Draco éramos as únicas pessoas de Hogwarts cumprindo detenção. Bom, possivelmente Fred e George também deviam estar porque isso parecia fazer parte da rotina deles.
Guardando os potes separados com as sanguinárias, lembrei que precisava fazer um trabalho sobre isso e me corrigi mentalmente. Não havia dias livres em Hogwarts porque, se não estávamos nas aulas, então estávamos fazendo dever de casa.
O problema era que eu estava pensativa demais. Na hora da raiva, me questionei um pouco, mas agora queria realmente saber por que Malfoy resolveu mexer comigo. Ok, mesmo que ele tivesse dito as coisas somente porque eu estava triste e, em algum momento, ele pensasse em me caçoar, não tinha motivo para ele se ferrar junto.
Talvez pensasse que Snape fosse livrá-lo da detenção – o que ainda não me fazia sentido porque, independente dele ter livrado sua barra várias vezes, era uma situação que ele não seria capaz de escapar.
— Por que sabotou minha poção? — perguntei, posicionando as mãos em minha cintura enquanto o encarava com os olhos cerrados.
Draco parou de limpar a prateleira inferior e levantou o rosto para me encarar, parecendo confuso.
— Sabotei o quê?
— Ah, para! Você ainda teve a audácia de piscar para mim logo depois de estragar minha poção — exclamei, me sentindo um tanto quanto enfurecida. Detestava que as pessoas não assumissem o que tinham feito. Me deixava frustrada e irritada, além de ser uma perda de tempo. Não tinha necessidade alguma de mentir, ainda mais para mim.
Além disso, o que eu iria fazer? Pintar seu cabelo de roxo?
— Não sabotei sua poção — ele disse, calmamente. — Por que eu faria isso, ?
— Ah. — Cruzei os braços. — Você piscou para mim… E, logo em seguida, quando eu voltei para meu lugar, o líquido estava completamente arruinado.
— Sim, eu pisquei porque não tinha te visto antes. Estava te cumprimentando. Sabe o que é isso?
Ignorando seu sarcasmo, franzi os braços e expirei.
— Então quem mais faria isso?
— Eu posso te dar uma lista de quem não gosta de você naquela sala ou quer te prejudicar por estar indo tão bem nessa aula — ele disse, levantando-se. Oh, era verdade. Ser uma das melhores da turma já tinha me colocado em evidência outras vezes. Um dia, no ano anterior, tentaram estragar um dos melhores projetos que Hermione tinha criado. Ergui o rosto para encará-lo melhor, já que ele era alguns centímetros mais alto que eu. Draco parecia realmente irritado agora. — Sério, qual é o seu problema? Por que está agindo como se o dia da Copa de Quadribol não tivesse acontecido?
Considerar isso fez com que eu me sentisse um pouquinho estúpida. Enormemente estúpida, para dizer a verdade. Me virei para o armário, envergonhada, organizando alguns dos diversos ingredientes restantes. Passaríamos umas boas horas aqui, desnecessariamente. Se minha cabeça não estivesse tão quente…
— Deixei claro que não te odiava e passamos um tempo enorme conversando juntos. Eu gostei daquela que conheci e, agora, quando voltamos à Hogwarts, você me ignora e finge que nossa conversa não existiu?! E, agora, desconfia de mim? — Malfoy explodiu e a veia em sua testa saltou, o que demonstrava que ele estava realmente bravo.
— Eu… Merda, Draco. Desculpa, tá legal? Não é fácil simplesmente ignorar os quatro anos de todas nossas discussões e brigas depois de uma conversa e agir como se nada disso tivesse acontecido! — respondi no mesmo tom, bufando.
— Eu que tenho que me desculpar por achar que aquilo teve mais importância do que uma simples conversa banal. — Ele se virou para o armário, voltando a organizar os frascos.
Contorci o rosto em uma careta. Ele tinha que ser a pessoa mais dramática do mundo?!
— Nunca falei que foi uma conversa banal! — resmunguei, sentindo raiva de como aquilo havia dado errado tão rápido.
— Mas está agindo como se fosse, então, se não foi importante de alguma forma para você, não tem por que ter sido para mim. — Sua voz cortou o ar como gelo. Franzi as sobrancelhas, incomodada com a afirmação
— Sério, você cheirou alguma dessas plantas? O Snape vai ficar uma fera com a gente e eu não vou nem dizer que ele não tem razão.
— Claro, , porque é difícil demais para que você tenha noção de algumas coisas e compreenda o que acontece. Acho que nossa conversa nem foi tudo isso mesmo. Talvez nós sejamos assim e nada vá mudar. Também não quero estar com quem desconfia de mim sem motivo algum.
— Draco, por favor… — falei, revirando os olhos. Ele devia mesmo estar delirando se achava que eu ficaria ouvindo esse tipo de coisa. Suspirei, cansada de tentar dar um jeito naquilo que, claramente, não tinha como resolver. — Quer saber? Eu cansei. Já disse que aquele momento significou muito para mim e te pedi desculpas, sei que errei. Se você não consegue entender que confiança é algo que se conquista com tempo, não serei eu a te explicar. Vamos organizar isso aqui e, quem sabe, eu ganhe um pouco de noção até o final do dia.
— A questão, , é que você não quer que eu conquiste a sua confiança, por isso me coloca como culpado na primeira oportunidade que aparece. Mas tudo bem, porque agora eu também já nem quero mais que isso dê certo — Draco respondeu e eu fechei ainda mais a cara, me apressando em pegar o item mais próximo para guardar. Quanto antes terminássemos aqui, melhor seria.
Organizamos tudo no mais pleno silêncio. Minha garganta ainda arranhava, tamanha era minha vontade de dizer algo para nos resolvermos e ficarmos de boa. Eu sabia que estava errada, mas achei seu tratamento desproporcional. Ele tinha todo o direito de estar irritado, mas admito que fiquei chateada por ouvi-lo dizer que não queria que nossa relação minimamente amigável funcionasse.
Snape voltou quase uma hora depois, sem dizer grande coisa, e nos liberou. Draco atravessou a sala na maior velocidade que já havia o visto e nem ao menos se despediu de ninguém, o que fez com que o professor me encarasse desconfiadamente. Dei de ombros, como se não soubesse o motivo dele agir assim, e peguei minha mochila.
Com um “boa tarde, professor”, me despedi e segui rapidamente para meu quarto. Precisava de um banho para relaxar urgentemente.

POV’s
Adrian me esperava em um corredor deserto. Assim que me aproximei o suficiente, senti suas mãos rodearem meus quadris e me puxarem para perto de seu corpo. Colei nossos lábios em um selinho demorado, sorrindo sem mostrar os dentes.
— Você não saiu da minha cabeça hoje — ele sussurrou, fazendo movimentos circulares com o polegar na minha bochecha, em um carinho suave.
— Também pensei em você… — Arrastei minhas mãos por seu abdômen e trilhei um caminho com as unhas, subindo e descendo. Ao perceber sua respiração mais acelerada, deixei um beijo em seu maxilar e aproximei minha boca de seu ouvido. — Principalmente dentro de mim.
Adrian suspirou, apertando minha cintura. Quando seus olhos azuis encararam minha boca, soube que teria o que eu queria. Queria e precisava, porque meu corpo parecia implorar por isso agora.
— O que acha de irmos ao meu dormitório? — perguntou. Concordei com a cabeça, completamente satisfeita com o seu pedido.
No mesmo instante em que fechamos a porta de seu quarto, Adrian me puxou pela cintura, grudando nossos lábios. Não tive outra escolha, senão rodear seu pescoço com meus braços, embrenhando os dedos pelos seus fios curtos de cabelo.
A língua de Adrian buscava a minha com destreza e agilidade, seus lábios acariciando os meus com força. Suspirei contra sua boca, levantando uma de minhas pernas para envolvê-lo e, sem perder tempo, Pucey segurou-a e pressionou mais ainda as partes de nossos corpos que gostariam de estar interligadas.
Aproveitando para elevar minha outra perna e me colocar em seu colo, Adrian posicionou as mãos em minha cintura e não demorou para me levar para a cama. Grudando a boca em meu pescoço, percorreu meu corpo até chegar nos botões da blusa, abrindo-os.
— Céus, você é linda. — Ele encarou meu colo coberto apenas pela lingerie de renda, seu hálito atingindo meu pescoço, causando uma sensação boa.
Sorri com o elogio e voltei a beijá-lo, mergulhando profundamente naquele momento com Adrian e aproveitando cada segundo do desejo que nos consumia.

***

— Hoje foram os testes do time da Grifinória — contei, me aninhando em seu peito após vestir minha calcinha novamente.
— Ah, é? E como você foi? — ele perguntou, curioso, passando os dedos calmamente em meus fios de cabelo espalhados pelo travesseiro. Apesar de meu cabelo estar todo embaraçado devido ao suor e movimentos bruscos, Adrian parecia não ligar para isso.
— Parece que você vai continuar tendo uma ótima adversária — respondi, contornando os músculos de seu abdômen com a unha. Olhei para ele, que sorriu, selando nossos lábios em um beijo. Eu gostava muito desses momentos que tínhamos, era uma troca de intimidade.
— Parabéns, linda. Sabe que eu torço para a Grifinória nos jogos contra as outras Casas por você, né? — Concordei com a cabeça, feliz em ouvir aquilo, e aprofundei o beijo. Ele era sempre tão fofo. E sei que, se tivesse topado algum tipo de relacionamento mais público e definido, ele torceria até pintando as cores vermelho e amarelo em sua bochecha.
Nossas línguas se enrolavam pacientemente, como se tivéssemos todo o tempo do mundo para nos aproveitarmos.
Mas não tínhamos, e as batidas na porta do quarto de Adrian nos lembrou disso. Olhamos para a porta imediatamente e eu podia ouvir meus batimentos cardíacos saindo pelos meus ouvidos.
— Adrian? Está aí? — Apesar de nunca ter conversado diretamente com ele, sabia bem quem era: Blaise Zabini. Arregalei os olhos, afastando meu rosto do de Pucey. Nos encaramos, tentando pensar silenciosamente no que fazer.
Merda — resmunguei, me levantando da cama imediata e silenciosamente.
Blaise era o melhor amigo de Adrian e de Draco Malfoy. Eles sempre estavam juntos e eram realmente próximos – o que, de verdade, me surpreendeu. Ao contrário do que todos pensavam, Crabbe e Goyle não eram os melhores amigos do loiro. Draco e os dois viraram amigos pelo convívio excessivo nas aulas e se conheceram antes de entrar em Hogwarts porque seus pais eram amigos e, depois de serem presos, suas mães quiseram que eles tivessem esse contato – palavras de Pucey.
Porém, ao longo dos últimos dois anos, Draco se aproximou muito mais de Blaise e Adrian, e agora eles eram extremamente próximos. Eu não sabia exatamente como Adrian conseguia ser amigo de alguém assim – não que eu achasse que ele fosse horrível, porém eu sempre ouvia suas discussões com e Harry e ficava com preguiça –, mas porque Adrian era simplesmente a pessoa mais doce daquela escola.
Desde que cheguei em Hogwarts, tinha a impressão de que as relações do pessoal da Sonserina eram superficiais. No começo, era até um pouco injusto que eu pensasse isso baseado em estereótipos, eu sabia. Mas, quando pude conhecer mais, percebi que a maioria comprovava o meu pensamento.
A deles não, no entanto. É, alguém sempre tinha que se diferenciar, né?
— Estou. Eu já abro! — Pucey gritou, enquanto eu pegava minhas roupas jogadas pelo quarto e me vestia rapidamente. Ele havia feito o mesmo e agora esticava o edredom em sua cama para que seu amigo não conseguisse ver a bagunça que estava nos lençóis. Antes de se aproximar da porta, me deu um selinho, com um sorriso engraçado no rosto e sussurrou. — Você vai precisar se esconder.
— Eu passo por cada uma… — reclamei no mesmo tom baixo, bufando e arrancando uma risadinha dele. Mas apesar da situação engraçada, eu corri igual uma desesperada. Tive tempo apenas de colocar a blusa e a saia antes de me enfiar no primeiro lugar que achei, a droga do baú, que, por incrível que pareça, era mais espaçoso do que eu imaginava.
Assim que fechei a tampa, ele abriu a porta.
Para a minha felicidade, conseguia ter uma boa visão do cômodo pela fresta que deixei para conseguir respirar. Pude ver o exato momento em que Blaise entrou no quarto e se aproximou da cama e de Adrian. Eu esperava que ele fosse breve.
— E aí, cara. Tudo bem? — Pucey perguntou, o cumprimentando com um toque de mãos, fingindo naturalidade. Como se não tivesse feito nada demais.
— Mais ou menos. Preciso te contar uma coisa — ele falou, suspirando. Percebi que Adrian ficou preocupado e se sentou ao lado do amigo, esperando que ele continuasse. — Você sabe que estou afim da Pansy, né?
Oh, isso era novidade. Muito interessante, por sinal.
— Sei… Ela finalmente desistiu do Draco?
Hogwarts inteiro sabia que ela tinha uma queda por ele. Mais para penhasco, sendo sincera. Em todas as festas, desde o final do nosso primeiro ano, Pansy sempre dava em cima dele descaradamente. Era notável o interesse enorme que ela tinha.
Ele, por outro lado, sempre a dispensava. Adrian tinha me garantido que eles jamais ficaram porque Malfoy não pensava nela assim, e sim como uma irmã.
Eu e Adrian funcionávamos muito bem. Ele era fofoqueiro e eu, uma ótima ouvinte. Adorava saber de todas as fofocas e, com a quantidade das que ele me contava, parecia que era eu quem morava naquela Casa.
— Ainda não — Blaise respondeu. — Mas esse nem é o problema. Ela me contou hoje mais cedo que, aparentemente, seus pais estão procurando alguma família digna para terem uma aliança. O que significa… que vão fazer um casamento arranjado para ela.
— Casamento arranjado?! Mas isso é…
Por Merlin! Isso era um choque. Minha mão direita cobriu minha boca e eu segurei a expressão de surpresa que eu queria soltar. As pessoas ainda planejavam um casamento arranjado, sério?
— Um absurdo. Pois é. — Blaise suspirou. — E o pior é que ela não quer e já deixou isso bem claro, mas pelo jeito eles não estão ligando muito para o que a Pansy pensa.
— Não acredito, cara! Isso é uma merda, será que temos como ajudar ela de alguma forma? — Adrian parecia genuinamente preocupado com a garota.
Sabia que ele não era tão próximo dela. Não tanto quanto Blaise ou até mesmo Draco, mas como estava no mesmo círculo social, eu podia entender sua preocupação. Se até eu estava sem palavras, então o nível de desespero de seus amigos deveria ser absurdo…
— Também fiz essa pergunta para ela, mas Pan respondeu que não, que é algo bem mais complicado do que imaginamos. Mas é isso, acabei de descobrir e precisava contar para alguém, você foi a primeira pessoa que pensei. Por um momento achei que você estava… O que é isso?
Prendi a respiração, completamente imóvel, pensando que ele havia me visto. Segundos depois, reparei que ele não estava falando de mim, mas de um objeto que encontrou na cama de Adrian.
Ele pegou o que quer que tenha visto e o levantou. Não conseguia ver direito o que era por conta do ângulo, mas tinha uma voz na minha cabeça que me dizia exatamente o que podia ser. Gelei, sentindo meus batimentos cardíacos acelerarem.
E a voz havia acertado.
Ao ver Adrian dando uma risadinha nervosa e tomando meu sutiã preto das mãos de Blaise, me xinguei mentalmente por ter esquecido completamente dele.
— Não sabia que estava com alguém — Blaise brincou. — Se bem que, agora pensando, faz tempo que não te vejo ficando com ninguém nas festas, nem nada…
Eu estava curiosa para saber o que Adrian falaria, era fato. É uma droga de um sutiã! Não dava para ignorar isso e fingir que não sabia de quem era quando seu melhor amigo te perguntava sobre isso.
— Ah, é. Faz um tempo que estou ficando com uma pessoa, sim... — ele declarou, passando a mão nos fios escuros emaranhados. — As coisas estão ficando sérias e eu gosto bastante dela, por isso acabo não me interessando por outras pessoas — explicou, dando de ombros. Adrian tinha um sorriso singelo nos lábios ao falar de mim e, ao ver aquilo, quis sair daquele baú e beijá-lo até não aguentarmos mais.
Ouvir sua resposta causou dois sentimentos em mim. O primeiro me fazia querer ignorar qualquer coisa que pudessem dizer sobre nós e admitir para todos que estávamos juntos, e o segundo me fazia pensar que sou uma péssima pessoa por me sentir interessada por Fred enquanto ele não conseguia ter olhos para mais ninguém. Adrian realmente não merecia e eu me senti um lixo por isso.
Minha barriga revirou ao me lembrar de Fred.
— Que demais, cara! E quem é a garota misteriosa? — Achei uma graça ver como Zabini parecia feliz por ele e, por um momento, percebi como era injusto eu poder contar para minhas amigas e ele não.
Aproveitei que Blaise estava sentado virado de costas para onde eu estava escondida e levantei discretamente a tampa, sem fazer barulho. Adrian me encarou sutilmente, os olhos se arregalaram por dois segundos, provavelmente tentando entender o que eu estava fazendo.
Murmurei sem som que ele podia contar para o seu amigo e percebi seu receio, confuso sobre eu ter certeza daquela decisão. Apenas concordei com a cabeça e levantei o polegar esquerdo em formato de “joinha”, confirmando, e ele pareceu aliviado.
— Promete que não vai contar para ninguém? — ele perguntou, estreitando os olhos.
— É claro!
— Estou ficando com Voux.
Voux?! Da Grifinória? — Blaise parecia bem surpreso com a revelação, seu tom de voz tinha até mesmo elevado um pouco. — Há quanto tempo?
— Ah, completou um ano há uns dias. Ficamos pela primeira vez na festa do começo das aulas do ano passado.
— Hmm, então era com ela que você se encontrava nos passeios de madrugada?
Adrian tinha me contado que havia sido pego por ele voltando dos nossos encontros noturnos diversas vezes. Em horas bem complicadas e momentos constrangedores, mas ele sempre conseguia escapar do interrogatório. Nos últimos tempos, ele tinha aprendido melhor como evitar encontrá-lo.
— A própria. — Adrian sorriu.
— Ela parece ser legal, fico feliz por vocês, cara. Quando Pansy finalmente perceber que eu gosto dela, até podemos sair juntos — Blaise completou, fazendo um toque com as mãos com Adrian, que riu e concordou. — Bom, mas vim aqui só para contar, vou dar uma passada no quarto da Pan e ver como ela está — Zabini falou, se levantando.
— Eu já vou também, só preciso terminar de me trocar. — Adrian respondeu e o amigo concordou.
Assim que Blaise saiu do quarto, me levantei do baú e fui ao encontro de Pucey, que me encarava com um sorriso. Me joguei em seus braços, o abraçando e distribuindo vários selinhos em sua boca.
— Achei fofo o que você falou pra ele — assumi, o fazendo rir. — Gostei muito de te ouvir.
— E eu gostei muito de ter contado sobre nós. — ele falou, colando nossos lábios em um beijo mais demorado. — Obrigado.
Me senti completamente satisfeita com a decisão que tomei. Vê-lo feliz era o que importava.
Terminamos de arrumar nossas roupas e nos separamos. Enquanto eu caminhava para o Salão Comunal da Grifinória, Adrian andava até o quarto de Pansy. Apesar de não a conhecer muito bem, esperava que os dois conseguissem animá-la um pouco, afinal, não devia estar sendo nada fácil passar por isso sem conseguir fazer algo efetivo.


Capítulo 5

POV’s
— “Não venha com o Fred.” É sério?! — George resmungou assim que entrou em meu dormitório. Andei até a porta e olhei para o lado de fora, me certificando de que seu gêmeo não estava por ali, e então a tranquei. Todas as medidas preventivas eram necessárias.
— Muitíssimo sério! Preciso conversar e ele não pode saber de nada — respondi.
É, realmente ter visto Adrian não ajudou tanto quanto eu esperava.
A verdade é que eu consegui esquecer Fred enquanto estava com Adrian, mas realmente me senti péssima por estar pensando em mais alguém além dele enquanto ouvia de sua boca que ele não pensava em mais ninguém além de mim. E foi só eu sair do Salão Comunal da Sonserina que o nome do ruivo voltou a cruzar minha mente.
Parecia que o universo era contra a minha tentativa de esquecer Fred Weasley e, por isso, fez com que nos encontrássemos. Conversar com ele, mesmo que rapidamente, antes que eu inventasse uma desculpa e corresse na direção contrária, me fez pensar em como seria tocá-lo com aquela mesma intimidade que fiz com Adrian, e foi aí que eu percebi como estava fodida.
Ignorando a ansiedade em meu ventre, me virei e encarei George sentado na beira da minha cama.
— Por acaso aquela maldita bala afrodisíaca tinha algum efeito colateral que vocês esqueceram de avisar? — questionei diretamente, arrancando o band-aid. George franziu as sobrancelhas, me olhando como se eu tivesse falado a coisa mais absurda que ele já ouviu na vida.
— Não. Tenho praticamente cem por cento de certeza que não tem efeitos colaterais, mas por quê…
— Porque tem algo muito errado acontecendo comigo. E tudo começou depois da bala! — O cortei, andando de um lado para o outro no quarto. Não era possível.
— Por Merlin, você sabe que eu te amo, mas assim vai me deixar louco! Senta e me explica o que aconteceu. — Respirei fundo e concordei, me sentando ao seu lado. Cruzei minhas pernas em cima da cama e pensei em como começaria a contar.
— Tá legal. Então, desde o dia em que provei a bala com Fred, eu estou sentindo umas coisas…hm, diferentes por ele.
— Diferentes como? — ele perguntou, redobrando a atenção.
— Tesão, George. — Bufei, falando de uma vez. — Eu não consigo parar de pensar e imaginar e… Enfim, isso não pode acontecer. Ele é meu melhor amigo!
O ruivo ficou em silêncio por poucos segundos, antes de começar a rir. Rir não, gargalhar, como se eu tivesse feito a melhor piada do ano.
— Ah, então é por isso que você está evitando ele nos últimos dias? — Ele pareceu pensar um pouco, como se estivesse encaixando um quebra-cabeças. — Por Merlin, , você é muito dramática! Eu pensei que tivesse acontecido algo mais sério — ele completou, relaxando o corpo.
Eu tinha passado dois dias evitando Fred Weasley.
Eu conhecia seus horários de cor, o que me ajudava muito com encontros que não fossem estritamente evitáveis. Se ele chegava no grupo, eu ficava mais próxima das meninas. Até mesmo nos horários do café da manhã, almoço e jantar, troquei de lugar. Ao contrário de antes, que sempre me sentava entre Fred e George, passei a me sentar unicamente do lado de George, com quem eu falava normalmente, mas dificultando a conversa de seu irmão comigo.
O problema era que eu não conseguia parar de repensar mil vezes minha relação com Fred. Pior ainda, de repensar os meus sentimentos por ele. Toda vez que estávamos no mesmo ambiente, minhas mãos começavam a suar e eu era exposta à taquicardia. Tentei repassar todos os motivos que me faziam sentir assim, mas era difícil.
Ia além do fato dele ser absurdamente atrativo — George era seu gêmeo idêntico e, apesar de achá-lo igualmente gato, não sentia nada além do carinho fraternal quando conversava com ele. Com Fred ia além… Eu tinha vontade de fazer mais coisas e não conseguia parar de pensar no desejo gigantesco de finalmente terminar o que quase começamos quando testamos aquela bala juntos.
Deixando o medo me consumir, não pude evitar surtar ao perceber que o fato de eu estar tão miseravelmente atraída por Fred Weasley acarretaria diretamente na possível destruição de nossa amizade.
Tentando botar minha cabeça no lugar, precisei me afastar por algum tempo. Fiz todas as minhas atividades, conversei com bastante gente e até passei um ótimo tempo com Adrian. Nada foi suficiente.
E talvez esse não fosse o melhor dos métodos, eu sabia, mas estava desesperada.
— Isso é sério! E outra, você devia estar me ajudando a resolver isso, e não rindo da minha cara — enfatizei, revirando os olhos, sentindo uma pontada de irritação. — Mas respondendo sua pergunta, sim, é por isso — respondi, suspirando.
, eu até consigo entender seu ponto… Mas você sabe que essa não é a melhor alternativa, né? Ele está percebendo esse afastamento e ficando cada vez mais chateado com isso.
Merda. O que eu faço? Não quero deixá-lo triste e muito menos estragar nossa amizade.
— Se a intenção é não estragar a amizade, se afastar é a pior coisa que você pode fazer. Vamos pensar juntos, mas antes de qualquer coisa quero te fazer uma pergunta. — Concordei com a cabeça, o escutando com atenção. — Você, por acaso, já sentia isso por ele?
Ele parecia já saber a resposta, o que me deu menos coragem ainda de mentir. Gostava da naturalidade como as coisas fluíam entre nós. Mas isso não tirava a tensão que sentia.
— Eu não… Quer dizer… — Tentei formular uma resposta e suspirei ao ver que estava me enrolando. Enruguei o nariz, pensativa. Eu já estava na merda, né? — Sentia. Mas não na proporção que agora, é como se tivesse multiplicado por mil!
— Bom, então vou te dizer o que eu acho disso tudo — ele começou a falar, me encarando. — Eu acho que você aprendeu a camuflar muito bem seu interesse por ele ser seu melhor amigo e, depois da bala, perdeu completamente o controle disso. Por isso parece que multiplicou, mas, na verdade, você só sabia esconder isso melhor de si mesma.
Parei por alguns segundos para refletir, mesmo sabendo que ele estava certo. Eu não queria aceitar — afinal, não havia aceitado da primeira vez que pensei nisso, por que o faria agora? Isso poderia destruir nossa amizade, eu nem conseguia disfarçar!
Merda.
— Você está pensando muito… — ele falou, cutucando minhas pernas com os dedos.
— É claro! O que eu faço para isso passar? Será que tem alguma poção ou feitiço? — perguntei, pensativa.
— Suas ideias são péssimas, sério. — Ele voltou a rir, ignorando que eu estava falando sério.
— E você tem uma melhor, por acaso?! — Cruzei os braços. Eu realmente estava torcendo para que ele tivesse, porque sabia que a minha era péssima.
— Na verdade, tenho. A mais lógica de todas. — Graças a Merlin! Senti o corpo relaxar, ansiosa para ouvir sua ideia. — Você devia contar para ele.
O quê?
— O quê? — verbalizei meus pensamentos, indignada.
— É — ele confirmou. — Já pensou que ele pode estar sentindo o mesmo? E se ele, de fato, estiver, o que impede de vocês experimentarem algo? Pode funcionar tanto para matar a curiosidade de vocês, quanto para dar um fim nisso. Sem contar que a amizade de vocês não acabaria por isso, você conhece o Fred, ele jamais te faria se sentir estranha com isso.
Precisei de mais um tempo para aceitar que não era uma ideia tão ruim assim. É óbvio que teria que pensar em como contar uma coisa dessas para ele. Não podia simplesmente bater em sua porta e dizer “oi, eu quero te beijar tanto que não consigo parar de pensar nisso”.
Ainda assim, era a única carta que eu tinha e precisava usá-la, ou ficaria doida pensando como poderia ter sido. Melhor fazer e se arrepender do que se arrepender de nunca ter feito, né?
Dei um longo suspiro, me deitando na cama e encarando o teto.
Foi quando me recordei de algo. George era grudado no irmão. Ele sabia de tudo sobre ele, assim como também sabia tudo sobre mim.
— George, o que você sabe exatamente sobre os sentimentos dele? Vocês sabem absolutamente tudo um do outro! Ele já te disse algo sobre isso?
, eu não vou me meter nisso. É entre vocês. Estarei aqui sempre que precisar de um ombro para chorar, mas estou fora dessa. — Ele balançou a cabeça negativamente, sorrindo contido, e eu grunhi de insatisfação.
— E eu pensando que era sua melhor amiga… — Tentei, apelando para o lado emocional.
Ele riu alto e me abraçou de lado, enquanto eu tentava me soltar de seus braços.
— É a melhor, a única e a mais dramática também — George respondeu assim que eu desisti de resistir e recebi seu gesto de carinho. — Mas você sabe que eu não posso contar nada, né?
— Infelizmente. — Bufei. — Que droga! Maldito dia em que fui testar seu produto novo.
Em resposta, George riu pela milésima vez.

POV’s
O dia seguinte estava nublado e o frio fazia com que meus dentes batessem um contra os outros. Detestava dias assim porque não ficava no meu melhor humor. Não que eu estivesse exatamente no meu melhor quando voltei para o dormitório na noite passada.
Estava tão cansada, irritada e com as costas tão doloridas que, assim que me deitei na cama, apaguei em menos de cinco minutos. Por sorte, acordei mais cedo e tive tempo suficiente para tomar um banho antes das aulas.
Enquanto a água morna — porque eu não gostava quando estava quente demais — molhava meus cabelos, pude pensar na briga que tive na noite anterior com o Draco. Apesar de entender sua frustração inicial, não podia deixar de ficar magoada com as palavras que ele disse, desnecessariamente. Não éramos ao menos amigos. Como ele queria que eu confiasse em quem passou metade do ano escolar discutindo comigo pelos motivos mais bestas?
Colocando o suéter mais quentinho que eu tinha, encontrei as meninas antes de irmos para as aulas. Na primeira do dia, Malfoy sentou-se no banco ao lado do meu e não proferiu uma palavra. Nas últimas, mal nos vimos.
Como em momento algum ele me olhou, também resolvi ignorá-lo. Eu me sentia estranha, não gostava disso. Era um sentimento amargo, mas também não era como se eu pudesse fazer mais que isso.
Me forcei a parar de pensar nisso e foquei totalmente nos estudos. Eu precisava começar o ano sem atrasar nenhuma matéria. Depois disso, também não nos vimos mais. Segui meu caminho e Draco o dele.
Passei uma boa parte da tarde com Mione na biblioteca, adiantando as matérias. Teríamos algumas aulas extremamente fascinantes esse semestre, o que fez eu me animar. Somente saí de lá quando Rony chegou e pediu ajuda de nossa amiga mais inteligente para entender uma tarefa de História da Magia. Como eu já tinha finalizado e os dois pareciam estar se dando bem, decidi deixá-los sozinhos. Vai que algo acontecia…
Estava pensando no que fazer durante a noite quando encontrei Harry sentado no sofá do Salão Comunal. Alguns alunos mais novos, que não falávamos tanto, estavam conversando ao redor do ambiente.
— O que está fazendo aqui? O que é isso? — perguntei, sentando-me ao seu lado. Ele tinha um embrulho enorme no colo, parecia ser um presente. Assim que me viu, estendeu o pedaço de papel que terminou de ler em minha direção como resposta.
Uma carta de Sirius.
Desde que o padrinho de Harry conseguiu sua guarda oficialmente — o que aconteceu no fim do primeiro ano —, eles andavam cada dia mais próximos e enviando cartas diariamente um para o outro para contar as novidades.
Quando peguei a carta e comecei a ler, percebi que eu havia acertado.
“Querido Harry,
Lembra que, no dia do seu aniversário, eu falei que estava esperando a oportunidade perfeita para comprar seu presente? Bom, ela chegou.
É o lançamento mais recente, espero que goste.
Ah, e sobre a outra surpresa, a encontrei esses dias enquanto limpava um dos quartos aqui de casa. Tinha guardada aqui apenas uma parte dela, mas acho que você vai se interessar do mesmo jeito…
Com amor, Sirius.”
— No meu aniversário, ele não me deu um presente. Disse que estava esperando a “oportunidade perfeita” para comprá-lo e que ele nem estava nos mercados ainda — Harry explicou. — Mas eu não faço ideia do que seja.
— Então abre! — falei, olhando ansiosa para as mãos de Harry. Ele começou a desembrulhar o presente rapidamente e, assim que vimos o que era, nos encaramos totalmente extasiados. — Nossa, isso é…
Uma Firebolt! — Harry olhava para a vassoura em suas mãos, completamente em choque. — Ela é a vassoura mais rápida em todo o mundo!
Apesar de não ter muito conhecimento sobre vassouras, sabia que ela era exclusiva e que mais ninguém em Hogwarts possuía uma igual.
Assim que ele virou a Firebolt para olhá-la melhor, vi que havia um pequeno papel enroscado em seu cabo e chamei a atenção de Harry. Ele o abriu e paralisou, encarando aquele recado por longos segundos, lendo e relendo.
— É outra carta — ele falou, levantando o olhar para o meu rosto com um sorriso nos lábios e os olhos marejados. — Da minha mãe, . É uma carta da minha mãe para Sirius. De quando eu tinha um ano.
Quando peguei o papel rasgado nas mãos e li, quase não acreditei.
“Caro Almofadinhas,
Muito, muito obrigada pelo presente de aniversário que mandou para Harry! Foi o que ele mais gostou até agora. Um aninho de idade e já dispara pela casa montado em uma vassoura de brinquedo, tão vaidoso que estou enviando uma foto para você ver. Sabe, a vassoura só levanta uns sessenta centímetros do chão, mas ele quase matou o gato e quebrou um vaso horrível que Petúnia me mandou no Natal (nada contra). É claro que Tiago achou muito engraçado, diz que ele vai ser um grande jogador de quadribol, mas tivemos que guardar todos os enfeites da casa e dar um jeito de ficar sempre de olho nele quando brinca.
Tivemos um chá de aniversário muito tranquilo, só nós e a velha Batilda que sempre nos tratou com carinho e vive mimando o Harry. Ficamos com pena que você não tenha podido vir, mas a Ordem vem em primeiro lugar e Harry não tem idade para saber que está fazendo anos! Tiago está se sentindo um pouco frustrado trancado em casa, ele procura não demonstrar, mas eu percebo – além disso, Dumbledore ficou com a Capa da Invisibilidade dele, então não há possibilidade de pequenos passeios. Se você pudesse lhe fazer uma visita, isso o animaria muito. Rabicho esteve aqui no fim de semana passado, achei-o meio deprimido, mas provavelmente foram as notícias sobre os McKinnon; chorei a noite inteira quando soube.
Batilda passa por aqui quase todo dia, é uma velhota fascinante que conta as histórias mais surpreendentes sobre Dumbledore, não tenho muita certeza se ele gostaria disso caso soubesse! Fico em dúvida se devo realmente acreditar, porque me parece inacreditável que Dumbledore…”
E então havia uma foto, também pela metade. Harry — um bebê de cabelos escuros — voando para dentro e para fora do papel, montado em uma minúscula vassoura, às gargalhadas, e um par de pernas que deviam pertencer a Tiago, seu pai, correndo atrás dele.
Senti meus olhos úmidos e meu nariz ardia um pouco. Fiquei emocionada lendo isso. Harry tinha sido tão amado que era horrível lembrar como as coisas tinham terminado para sua família. Porque era ótimo que ele tivesse essa oportunidade de um contato um pouquinho maior com sua mãe. Tinha sido um gesto lindo de Sirius enviá-lo. Ele me contava, com um pouco menos de frequência agora, que costumava imaginar como seria sua vida se as coisas tivessem acontecido de outra forma. Com os pais vivos ou morando com seu padrinho desde a morte.
Ter essa carta em mãos era uma forma dele se aproximar um pouquinho de sua infância esquecida.
Mas fiquei pensando no porquê de seu apelido ser Almofadinhas. Provavelmente a história era engraçada, já que envolvia Sirius.
— Sirius foi quem me deu minha primeira vassoura — ele constatou, feliz. — E nós tínhamos um gato! Hermione vai amar saber disso…
— Eu vou amar saber o que? — Mione perguntou, se aproximando de nós ao lado de Rony. Estava tão presa em meus pensamentos que não tinha prestado atenção neles entrando.
— Isso é o que eu estou pensando? — o ruivo arregalou os olhos, encarando a Firebolt com pura admiração.
— Sirius que me deu — ele respondeu, entregando a vassoura para o melhor amigo, que a pegou com o maior cuidado do mundo, como se fosse uma relíquia.
— Por Merlin, é uma Firebolt? — E então Gina apareceu, junto com , Fred e George, correndo até Ron e tirando a vassoura de sua mão.
Aproveitando que todos estavam ali, Harry explicou toda a situação. Cada um leu a carta de Lily e analisou a foto de quando ele era bebê. Minhas amigas também seguraram o choro.
A conversa sentimental perdurou por alguns minutos, onde Harry me abraçou de lado, sorrindo enquanto contava para o grupo como se sentiu recebendo esse tipo de presente. Ele sempre reforçava como estava feliz pela presença de seu padrinho em sua vida.
— Mas agora, aproveitando que estamos falando de aniversário, o que vamos fazer no de vocês? — Harry perguntou, intercalando os olhares entre eu e . Todos os outros pareciam ansiosos pela resposta.
Foi impossível impedir que o sorriso rasgasse em meu rosto. Meu aniversário para mim era como se fosse feriado. Levava tão a sério que tinha conversado com a , desde logo, para pensarmos no que fazer.
Era incrível porque, mesmo sem laços biológicos, o universo parecia conspirar para que nos conhecêssemos. Eu era mais velha que a , por três dias. Sim, eu sei. Nossas mães acabaram engravidando no mesmo período, sem ao menos planejarem isso. Consequentemente, nascemos na mesma semana. Eu no dia 24 de janeiro e ela no dia 27, então sempre comemoramos juntas.
— Hm, nossos pais queriam viajar, mas falamos que vamos fazer algo com vocês — respondeu, dando um sorrisinho. Passamos um bom tempo conversando com eles até que conseguíssemos reajustar os planos. — Alguma ideia?
— Sirius deixaria a gente fazer algo lá em casa — Harry respondeu, dando de ombros. Era uma ideia interessante.
— Mamãe também — Ron completou. Eu adorava ficar na toca também, tinha um espaço muito bacana no quintal. Poderíamos fazer uma boa festa…
— Bom, eu acho que podíamos viajar! Só nós, sabe? — Gina falou, entusiasmada. Encarei e vi que essa era a ideia que mais nos agradou. Precisávamos mesmo de uma viagem e um tempo só nosso seria perfeito.
O pessoal pareceu gostar muito, já que todos concordaram com a cabeça e começaram a falar sobre.
— Eu topo! — Fred apoiou, animado, e George concordou com a cabeça.
— Meus pais têm uma casa em Brighton, posso falar com eles para ficarmos lá durante as férias de fim de ano e comemorarmos o aniversário de vocês — Mione sugeriu.
— Amiga, vai ser ótimo se der certo! — respondeu e eu cruzei os dedos para que desse certo. — Podemos ir depois do Natal e voltarmos na última semana das férias.
— Perfeito! Eu apoio cem por cento essa ideia — Gina comentou, fazendo com que todos concordassem.
Como todos éramos muito ansiosos, aproveitamos um bom tempo tentando resolver e combinar tudo o que podíamos, por enquanto. Mione costumava reforçar que a casa deles era perfeita e que amaríamos. Seria prático porque poderíamos ir de carro, já que a cidade era mais afastada, mas não a ponto de precisarmos ir de avião.
Só sabia que estava ansiosa demais, contando nos dedos os dias para que a viagem chegasse.

POV’s
Pensei dez mil vezes na conversa que tive com George, mas não consegui pensar em como traduzir o que eu sentia para Fred. Não quando eu nem ao menos sabia exatamente do tamanho do meu interesse em ficar com ele.
O importante era que eu iria arrumar um jeito de falar com ele. Alguma hora, mas não nesse momento. Adrian me mandou um bilhete mais cedo, perguntando se eu gostaria de dormir com ele hoje. Sabia que estava meio avoada, então seria uma boa oportunidade para ficar tranquila e aproveitar a noite sem quase entrar em um colapso nervoso.
Quando percebi que Gina, Mione e estavam finalmente dormindo, decidi que era a hora de sair. Como voltaria para o meu dormitório antes do horário dos alunos acordarem, não estava levando meu uniforme. Apenas calcei minha pantufa, desamassei o pijama que vestia e saí do quarto, torcendo para que não encontrasse ninguém durante o caminho até as masmorras.
Assim que desci as escadas para a área principal do Salão Comunal, o arrependimento me invadiu no mesmo instante ao ver Fred sentado no sofá, em frente a lareira. Como eu não pretendia revelar meus sentimentos para ele agora, entrei em pânico. Não poderia simplesmente passar reto ou dar um “oi” do jeito que estávamos. Então, tentando fazer o mínimo de silêncio, dei meia volta para subir novamente.
— É sério?! Você prefere voltar para o seu dormitório a conversar comigo?
Parei de respirar por um segundo e engoli em seco, tentando acalmar meu batimento cardíaco.
Pelo jeito não era eu quem decidia o que seria a hora certa, afinal.
O conhecia bem o suficiente para saber que havia mágoa em seu tom de voz. Ao me virar para encará-lo, vi a chateação tomar conta de seu rosto e isso me machucou, mesmo tendo plena noção de que eu era a culpada por isso.
— O que eu fiz? — ele perguntou, baixo, quase em um sussurro. Senti o ar queimar meus pulmões ao respirar fundo, me odiando por ter feito isso com ele. Ele parecia verdadeiramente abalado, e o cansaço em sua voz era notável.
Caminhei em sua direção, sentando-me ao seu lado. Puxei a pele do lábio entre os dentes, suspirando pesarosa. George tinha razão. Eu não havia feito nada além de abalar nossa amizade.
— Você não fez nada, Fred — respondi seriamente, olhando em seus olhos. Era isso, eu precisava falar. Tinha suposto que meu afastamento poderia ter sido pior para ele do que para mim, mas não achei que ele acreditaria que o erro tivesse sido dele.
Que droga, eu era a maioria odiadora do discurso “Não é você, sou eu” e cá estava tentando reproduzir. O pior de tudo era que ao menos tínhamos algo que realmente ultrapassasse a amizade.
— Então por que tem me evitado?
— Porque eu sou uma idiota covarde — falei, sem dar voltas, bufando enquanto recriminava minhas atitudes mentalmente.
— Você não é uma…
— Claro que sou! — O cortei antes que pudesse terminar sua frase. — Eu sabia que essa ideia de me afastar não ia funcionar e, mesmo assim, achei melhor do que chegar e conversar com você sobre a verdade.
Olhei para as minhas mãos, pensando em como continuar aquela conversa. Meu coração estava batendo cinco vezes mais rápido e eu precisei inspirar algumas vezes. Eu realmente estava prestes a confessar meus pensamentos depois daquele maldito doce? Quer dizer, o que poderia acontecer, né? Já haviam passado dias desde aquilo… Engoli em seco, respirando fundo.
— Me desculpa, Fred. Juro que não queria, jamais, que você tivesse pensado que eu estava brava, chateada ou qualquer coisa com você. Não tem nada a ver com isso. Eu só… — resmunguei, frustrada, sem saber exatamente como continuar. Era agora, precisava ser. — A verdade é que, depois de experimentar aquela bala no primeiro dia de aula, eu pensei em tantas coisas… Minha cabeça ficou uma bagunça! Não soube lidar com os meus sentimentos confusos e com a curiosidade… Achei que, me afastando de você, as coisas iriam clarear para mim, mas não adiantou nada e eu só me senti pior a cada momento que passava.
, do que você está falando? Curiosidade de…? — ele insistiu, as sobrancelhas arqueadas refletiam a confusão em seu rosto, e notei que ele prestava atenção em cada palavra que saia de minha boca. Voltei a encará-lo, torcendo os dedos até que estralassem.
Tive a impressão de que ele sabia bem o que eu estava prestes a falar e torcia para que eu o fizesse.
Ah, dane-se.
— De te beijar — completei, sem hesitar.
Seus olhos castanhos brilharam de uma forma que eu nunca tinha visto. Me vi presa nesse olhar, observando os pontinhos em suas íris. Meu peito parecia estar sendo esmagado por uma pressão sobrenatural enquanto ele me olhava com essa intensidade.
— Você ficou dois dias fugindo de mim porque quer me beijar?
— Bom, hm… é, mas você falando assim faz parecer patético… — resmunguei, mordendo meu lábio inferior, nervosa com sua resposta. Seu tom de voz não era debochado, somente sério, como se fosse uma dúvida genuína.
Mesmo assim, estava pronta para ouvi-lo me xingar e falar como era uma péssima amiga, a mais ridícula de todos, mas ao ver um sorriso surgir em seus lábios, foi minha hora de franzir as sobrancelhas, confusa.
— Eu não acho que seja patético.
Fred aproximou nossos rostos e eu prendi a respiração, sentindo meu coração palpitar conforme seu rosto ficava a cada segundo mais perto do meu.
Sua mão subiu em direção ao meu pescoço, segurando firme, enquanto embolava em alguns dos fios soltos do meu cabelo. Oh.
— O que está fazendo? — perguntei, a voz tão baixa que poderia ser facilmente confundida com um sussurro, sem quebrar o contato visual. Eu não ficava facilmente corada, mas senti minhas bochechas esquentando em antecipação. Meu estômago deu três voltas, a ansiedade me consumindo durante esse curto período de tempo.
Será que ele ia fazer o que eu estava imaginando?
— Te beijando. — Nesse momento, com suas mãos em mim, esqueci onde estávamos e todas as dúvidas que apareceram na minha cabeça ao perceber o que estava acontecendo entre mim e meu melhor amigo. Meu olhar se fixou em sua boca, que se entreabriu enquanto ele se aproximava, e então sua mão direita me puxou para si, enquanto nossos lábios se provavam pela primeira vez.
Eu tinha lido em tantos clichês sobre beijos que encaixavam e pareciam tão certo, mas, como nunca tinha acontecido comigo nada nesse nível, assumi que eram só mais uma ilusão responsável por deixar as meninas de 13 anos tristes porque não encontrarão nada assim.
Só que não havia outra forma de descrever o que eu estava sentindo quando percorri sua boca com minha língua. O ar estava pesado e meu sangue parecia ter se transformado em combustível, me fazendo queimar instantaneamente.
Nos separamos e eu estava praticamente ofegante quando ele puxou meu lábio inferior e sorriu, sem desviar o olhar do meu.
Fred era impulsivo, eu sabia disso, mas não estava esperando que eu realmente o beijasse pela primeira vez hoje. E, pior, que eu fosse gostar tanto assim.
Me surpreendendo mais uma vez — porque fielmente acreditei que seria um único beijo, somente para que nossas vontades fossem satisfeitas —, Fred envolveu minha cintura, me pressionando mais contra seu corpo. Eu não perdi tempo, envolvendo seu rosto com minhas mãos, aprofundando nosso contato físico.
Empurrando meu corpo para trás, Fred se posicionou sobre mim. Ele sorriu e depois voltou a atacar minha boca, suspirando quando enrosquei nossas línguas. Minhas pernas abertas se apertaram ao redor de suas costas e sua mão macia deslizou em minha coxa, apertando-a com fervor.
Suguei seu lábio inferior com meus dentes e finquei as unhas em suas costas, apertando com vontade. Estava sendo melhor do que eu tinha imaginado. Sua boca somente deixou a minha para se encontrar com o meu pescoço, mordiscando a pele alva com a força exata. Devo ter murmurado alguma coisa, talvez seu nome ou somente demonstrando o quão bom aquilo estava, porque o ouvi gemendo.
Mas então tudo aconteceu muito rápido.
Em um segundo, escutei um barulho alto, como se fosse uma porta batendo e, no outro, passos descendo as escadas.
Merda… — uma voz masculina xingou e eu percebi que a pessoa que descia estava mais perto do que eu havia imaginado. Eu e Fred arregalamos os olhos e eu senti a ansiedade me dominar. Antes de pensar em qualquer outra alternativa, o empurrei para o lado, precisando que ele saísse de cima de mim urgentemente.
E ele caiu no chão.
Ai! Eu não acredito que você… — ele começou a resmungar, mas se calou assim que seu amigo apareceu em nossa visão. Eu tinha conseguido ajeitar os cabelos e a roupa rapidamente, mas, se a pessoa prestasse muita atenção, poderia notar claramente o que estava acontecendo.
— Fred? ?
— Ah, oi, Lino! — falei, dando um sorrisinho nervoso, enquanto encarava Lino Jordan.
— Não conseguiu dormir, cara? — Fred perguntou, também tentando não parecer suspeito e, obviamente, falhando. Seus lábios estavam inchados e, com o susto, ele não conseguiu se arrumar tanto quanto eu. O único tempo que teve foi usado para pegar uma almofada e colocar sobre seu colo.
— Não, ahn, na verdade eu estou indo ver Susana. — Ele coçou a cabeça, parecendo envergonhado de nos contar isso, como se fôssemos julgá-lo. Eu não podia me importar menos em vê-lo sair de madrugada para se encontrar com a namorada.
Sem contar que não estava na melhor posição para falar nada.
— Entendi… — falei, sorrindo amigavelmente, tentando pensar em como terminar essa conversa. Por sorte, Lino parecia com bastante pressa e deu mais uns passos em direção ao buraco do quadro. — Aproveitem bem.
— Pode deixar, vocês também. — Ele riu e eu senti minhas bochechas ardendo. Era óbvio que ele tinha percebido, mesmo sem perguntar por que Fred estava no chão. — Hm, eu vou indo… Boa noite! — E então Lino Jordan deixou o Salão Comunal.
Eu e Fred nos encaramos e, segundos depois, começamos a rir.
— “Aproveitem bem”? Sério?! — ele falou, gargalhando enquanto balançava a cabeça.
Dei de ombros.
— Eu não consegui pensar em mais nada! — Minha barriga doía de tanto rir e eu suspirei, sentindo meu corpo relaxar após a adrenalina de termos sido pegos passar.
Foi um momento engraçado e tenho certeza de que Lino só não fez piadas com a nossa situação porque também não estava em uma melhor que nós. Não que eu ou Fred realmente fôssemos falar algo. Ainda mais porque eles eram colegas de quarto e sempre se acobertavam, então acho que o problema maior acabou sendo eu. Bom, fazer o quê. Agora já tinha acontecido mesmo.
— Bom, vamos subir? — perguntei, me levantando do sofá e esticando a mão para ajudar Fred a fazer o mesmo.
O que eu não esperava era que ele me puxaria para baixo, fazendo com que eu caísse por cima de seu corpo. Arregalei os olhos, sentada em seu colo.
— Eu acho que podíamos aproveitar mais um pouco… — Fred sussurrou, passando seu braço ao redor da minha cintura. Senti-lo tão perto fez com que eu me deixasse levar, colando nossos lábios em um beijo calmo e lento.
Ajustei minhas pernas ao seu redor, me entregando aquele momento. Passei as mãos por seus ombros, para apertar os músculos e pressioná-lo mais ainda contra mim, e subi para sua nuca, segurando seu cabelo.
— Se isso continuar, não sei se vamos conseguir parar… — falei, afastando nossos rostos.
Eu sei, uma idiota, de fato. Após tanto tempo querendo saber como seria quando provasse o gosto dos lábios de Fred Weasley e, finalmente descobrindo, interrompia nosso momento. E não é como se eu quisesse parar, porque eu não queria. Mas também não queria fazer no chão da Sala Comunal sem conseguir aproveitar direito porque estaria preocupada demais pensando que a qualquer momento alguém poderia aparecer.
— Mas não vai aparecer mais ninguém… — Ele tentou, com um biquinho estampado, e passando os dedos pelas minhas coxas. — E eu não quero parar.
Por Merlin, precisava de muito autocontrole para não voltar a agarrá-lo.
— Vamos, Fred.
Ele segurou minha mão assim que levantei e ficou em pé.
— Ok, mas, da próxima vez, vamos começar em outro lugar. Não quero nem ter que pensar em parar.
O sorriso que rasgou meu rosto foi o maior da semana e eu revirei os olhos, concordando mentalmente, mas sem realmente respondê-lo com palavra alguma. Caminhamos até a escada com as mãos unidas, Fred fazendo um carinho com o polegar na minha.
Parei no primeiro degrau e me virei, olhando-o para me despedir.
— Boa noite — falei, sorrindo.
— Boa noite, .
Após um último beijo, subi para o meu quarto, me sentindo leve.
Isto é, até relembrar o motivo que me tirou da cama. Apoiando a mão na testa, sussurrei um “merda”. Me xinguei mentalmente ao lembrar de que Adrian devia estar em seu quarto, provavelmente esperando alguém que não ia aparecer. E eu nem mesmo sabia o que falaria para explicar isso para ele amanhã.
Era tão tarde e eu jamais conseguiria ir até lá agora, seria, no mínimo, deplorável do meu lado. Sem perder mais tempo, escrevi para Adrian, avisando-o que tive um contratempo e que não conseguiria ir, desejando-o uma boa noite.
O pior era que eu ao menos estava com a consciência pesada. Tudo que conseguia pensar era em Fred. Na boca dele contra a minha, suas mãos se aventurando por meu corpo… Enfim. Foi relembrando esse momento que pude, pela primeira vez naquela semana, ter uma noite de sono decente.

POV’s
As duas pilhas de livros me encaravam na mesa e eu retorcia o resto, pensando no malabarismo que teria que fazer para levá-los de volta à biblioteca sem ser vista. Mione pegou o último exemplar que tinha na cama da Gina e colocou-o sobre os outros.
Na noite anterior, ajudamos a garota com algumas matérias que ela tinha dúvidas. Como eu, e Hermione dominamos matérias diferentes, foi fácil explicar o que tínhamos aprendido no ano anterior. O problema foi a quantidade exorbitante de livros que pegamos para explicar o que cada bruxo famoso falava sobre. Gina disse que devolveria à biblioteca hoje cedo, mas acabou tendo uma reunião emergencial com a equipe de quadribol, o que fez com que ela e saíssem correndo.
De qualquer forma, eu precisava ir até a biblioteca estudar, então disse que levaria os livros.
— Cuidado para não ser pega — Mione disse, enquanto mordia um pedaço de chocolate.
Pisquei para ela, tranquilizando-a. Eu nunca era pega, mas ela sempre ficava nervosa.
Wingardium Leviosa!
Para o bem dos meus braços, fiz com que os livros se levantassem. Era praticamente uma rotina porque sempre levávamos diversos livros para o quarto e não era sempre que conseguíamos devolvê-los juntas. Plenamente ciente de que era contra as regras da escola fazer magia nos corredores, atravessei o corredor com o passo apressado. Eu não era a única que fazia isso, muito pelo contrário. Dessa forma, vários outros alunos me ajudaram a passar despercebida.
Entrei na biblioteca sem dificuldades e reparei que ela estava mais cheia que o normal, seria horrível encontrar um lugar para estudar.
Assim que adentrei o corredor, vi que ele não estava vazio. No final, sentado em uma escrivaninha em frente a uma estante, Draco escrevia algo em seu pergaminho concentradamente.
Franzi a boca e pensei seriamente em voltar depois, mas não podia ficar levitando esses livros para sempre, até porque eu poderia ser pega e não queria cumprir a detenção tão cedo. Então respirei fundo e continuei meu caminho, parando ao seu lado para colocá-los em seus devidos lugares nas prateleiras.
O que eu mais gostava era saber que os livros se organizam automaticamente e, talvez eu fosse preguiçosa, mas era inegável que isso facilitava horas de trabalho.
Percebi que ele havia virado o rosto em minha direção, mas não falou nada — o que, sinceramente, me deixou estressada. Sério isso? Não conseguia acreditar que uma simples discussão causou isso.
— É assim que vai ser? Vamos nos ignorar toda vez que nos encontramos? — perguntei, desistindo de continuar aquilo tudo. Era exaustivo demais me segurar nesses sentimentos negativos.
Ok, eu tinha tido tempo suficiente para pensar no que aconteceu e concluir que eu tinha agido como uma idiota em relação a ele. Foi difícil ponderar no dia, mas era compreensível que ele estivesse tão irritado com minha acusação.
Por outro lado… Foi o primeiro pensamento que eu tive na hora. Eu ainda não confiava completamente em Malfoy, essa era a maior prova, mas também, como poderia? Foram anos de inimizade que me fizeram ter essa insegurança.
Mas, novamente, se eu tinha dado um voto de confiança, não deveria ter agido assim. Não em uma sala com tantos alunos que tinham uma rivalidade assumida comigo que confiei quando ele disse não ter feito.
— Pode acreditar, não achei que seguiríamos por esse caminho quando assumi que não te odeio — ele murmurou, sem tirar os olhos do pergaminho na mesa e eu suspirei.
Assim que o último livro se acomodou em seu lugar, me sentei na cadeira ao lado de Draco, a arrastando ainda mais para perto dele, o que significava que estávamos quase colados.
— O que você…
— Nós vamos resolver isso — falei, com a voz mais séria que pude, interrompendo-o. — Sabe, eu realmente posso ser muitas coisas, mas sei reconhecer meus próprios erros.
Ele me encarou, arqueando a sobrancelha loira e inclinando para frente. Nossos rostos estavam tão próximos que pude perceber o contraste das pequenas manchinhas escuras quase imperceptíveis em suas íris claras.
— Me desculpa por ter desconfiado de você, Draco — pedi, botando sinceridade em cada palavra. — Aquele dia na Copa Mundial de Quadribol foi muito importante para mim e eu não quis que parecesse o contrário. É só que, confiar em você depois disso tudo, é um pouco…
— Estranho. Eu sei — ele completou, soltando o ar pela boca, e eu concordei com a cabeça. — Também te devo desculpas pelas coisas que disse, mas espero que agora as coisas voltem a dar certo.
Sorri, feliz por ter me resolvido com ele.
— Então estamos, finalmente, de boa? — perguntei, o fazendo rir. Talvez fosse a milésima vez que nos perguntávamos isso desde que começamos a conversar, mas era bom sempre saber o pé que estávamos.
— Estamos. Tô torcendo para que essa seja a última vez que eu tenha que responder isso. — Foi minha vez de rir. Tampei a boca para não incomodar os demais alunos na biblioteca. Eu também torcia, mas tinha um bom pressentimento de que seria por bastante tempo.
— Bom, que ótimo que nós nos resolvemos, porque eu teria que ficar por aqui mesmo e naquele clima seria péssimo. Não daria certo.
— Ficar aqui? — ele perguntou, franzindo as sobrancelhas em sinal óbvio de discussão.
Eu não tinha vindo para esse lugar à toa. Aparentemente, os professores capricharam no dever de casa essa semana.
— É. Todas as mesas da biblioteca estão ocupadas e, por sorte do destino, tem um lugar aqui. — Sorri travessa ao vê-lo me observar, ainda com a sobrancelha arqueada.
Só não fazia ideia de que o encontraria lá.
— Então você estava aqui por puro interesse. — Ele balançou a cabeça, cerrando os olhos e cruzando os braços, como se estivesse tentando assimilar. — E eu pensando que era porque você não conseguia ficar longe de mim…
Eu iria gargalhar com aquela resposta. O que, obviamente não teria sido a melhor reação, porque teria ocasionado diversos pedidos de silêncio que se alastrariam por toda a sala. Mas não o fiz porque Malfoy previu bem minha reação e se adiantou, posicionando sua mão contra minha boca.
Meus lábios estavam entreabertos e arregalei os olhos, surpresa, sem esperar por aquilo. Ele me encarava também, seu maxilar endurecendo. Estávamos tão grudados que notei todas as partes do seu rosto, até meu olhar descer e fixar em seus lábios, avermelhados pelo calor da biblioteca.
Curiosidade me invadiu e pensei qual o sabor que eles teriam. Se seria do chocolate quente que ele trouxe escondido ou dos pequenos chocolates de licor que os gêmeos vendiam. Draco retirou a mão de minha boca com calma e delicadeza, e eu subi o olhar, somente para encontrar seus olhos fixos em minha boca.
Engoli em seco. Era loucura, não era? Tinha certeza de que a resposta era, sem dúvidas, afirmativa. Minha mente começou a trabalhar a mil, pensando em tudo o que passamos e quais seriam as consequências daquilo. Mas era difícil raciocinar quando uma parte de mim gritava a todos pulmões que eu me inclinasse pouco mais de dez centímetros para frente e acabasse com aquela distância pesarosa.
Meus olhos verdes, pela primeira vez, encararam os seus acinzentados, completamente enigmáticos. Draco se inclinou, diminuindo ainda mais a distância entre nós. Minha cabeça pendeu levemente para a direita e, nesse momento, uma mecha do meu cabelo caiu nos meus olhos.
Pisquei, levantando a mão para afastá-la, mas não foi minimamente necessário. Ele foi mais rápido, afastando os fios ruivos do meu rosto.
Eu era apaixonada por livros com romance, mesmo que recebesse somente migalhas. Lembrava de quando era mais nova e devorei uma coleção de 6 livros: fiquei tão apaixonada pelo casal principal, ainda que eles tivessem apenas umas cinco cenas juntos em cada livro que soube, naquele instante, que gostava daquela espera.
Mas, não somente, eu conhecia na palma da mão todos os clichês do mundo. E eu poderia enumerar tranquilamente todos que aconteciam aqui. Até o começo das aulas, nos detestávamos. Agora estávamos em um momento pacífico, após um conflito, na única área vazia da biblioteca, com Draco afastando uma mecha do meu cabelo para colocar atrás de minha orelha e, ao invés de abaixar a mão para seu colo, deixou-a posicionada em minha bochecha.
Ou seja, simplesmente o clichê dos clichês. Só faltava começar a chover aqui e era digno de um Oscar — uma famosa premiação no mundo trouxa.
O ponto de ouro era que Draco claramente queria me beijar. Não se olhava para os lábios de alguém com esse tipo de vontade a menos que você realmente quisesse. O problema era que eu estava o olhando daquele mesmo jeito.
Sentia que tinha se passado uma hora desde que estávamos ali, no entanto, estava ciente de que deveria ter durado pouco mais de alguns minutos. Se eu me inclinasse mais um pouco, saberia o quanto ele queria me beijar. Se aquela mão no rosto se firmaria em meu rosto ou deslizaria para meu pescoço, me puxando com força, como os livros tanto destacavam.
Mas era uma situação delicada. Mil pensamentos percorriam minha mente. Como poderíamos ficar de boa? Não éramos exatamente amigos ainda e beijá-lo seria como pular passos demais.
Por fim, deixando a parte racional vencer, segui na direção contrária e fiz justamente o que menos queria: me afastei.
Quebrando a bolha em que estávamos envolvidos, Draco se afastou o restante que faltava e virou o rosto para o lado. Não rápido o suficiente para que eu não percebesse a vermelhidão em suas bochechas.
— Eu… Hm… Preciso estudar — disse, sabendo muito bem que estava me comunicando como uma nômade, e Draco assentiu.
— Se você estiver aqui para estudar Runas Antigas Sem Mistérios, pode ler comigo. Acredito que não tenha mais exemplares desse livro — ele falou, indicando o objeto aberto em cima da mesa. Acho que fiquei por tempo suficiente sem responder a ponto de Draco se arrepender, porque ele logo continuou: — Ou eu te empresto ele quando terminar e…
— Não. Tudo bem, eu leio com você — falei, sorrindo sem mostrar os dentes. — Obrigada.
Ele me respondeu com o mesmo gesto e, enquanto eu tentava focar nas frases do livro que agora dividíamos, Draco retomou sua própria leitura. Suspirei silenciosamente, esperando que as coisas não ficassem estranhas e tentando ignorar aquele pensamento do que teria acontecido se eu não me afastasse.


Capítulo 6

POV’s
Por mais que eu gostasse de me maquiar, era cansativo fazer isso no dia a dia somente para assistir às aulas e, sinceramente, um tanto quanto desnecessário. No entanto, minhas olheiras estavam extremamente escuras, resultados de uma noite em claro estudando, então fui obrigada a passar pelo menos um corretivo.
Uma semana se passou desde que me resolvi com Malfoy. Estávamos em território neutro, ainda nos permitindo conhecer o outro. O que estava sendo ótimo porque eu percebia cada dia mais que ele era uma pessoa totalmente diferente da que eu tinha determinado na minha cabeça. E eu gostava muito dessa pessoa.
Tivemos uma… conexão na biblioteca, se é que poderíamos chamar assim. A questão é que eu não conseguia deixar de pensar no que aconteceu. No geral, minha memória era péssima e eu esquecia todos os detalhes quando lidava com situações tensas, daquelas que faziam meu estômago embrulhar, minha palma da mão suar e meu coração acelerar. Porém, eu conseguia me lembrar de tudo, até da pequena rachadura no canto esquerdo do seu lábio, devido ao frio.
Sabia que tinha feito o certo no momento, então tentava somente ignorar as sensações, até porque não tinha acontecido mais nada novamente como aquilo, então…
Eu havia virado a noite, reflexiva, por isso achei melhor focar nos estudos e ao menos tentar ser produtiva. O que, felizmente, foi um sucesso. Adiantei duas atividades que tínhamos que entregar semana que vem, que me deixava com o tempo menos apertado no restante da semana.
Por mais que eu deveria estar mentalmente exausta, meu cérebro não conseguiu desligar. E, sinceramente, era bom que meu foco estivesse totalmente nos estudos do que em qualquer outra coisa.
Suspirei, saindo do quarto. As meninas ainda estavam dormindo, afinal, ainda faltava mais de uma hora para que as aulas começassem. Porém, o espaço no quarto começou a me sufocar, e não perdi tempo em me vestir correndo.
Pensativa, fiquei andando pelos corredores, prestando atenção nos mínimos detalhes. Até conversar com os quadros eu fiz. Estava tão avoada que mal notei o sinal tocando e me xinguei baixo: por ter estado tão distraída, estava longe de onde seria a aula.
Apressei o passo, andando o mais rápido possível e torcendo para que Hagrid não se incomodasse. Não que ele realmente fosse reclamar, até porque realmente gostava de mim, mas não queria aborrecê-lo chegando atrasada. Além do mais, eu curtia bastante sua aula.
Para minha sorte, os alunos estavam conversando enquanto observavam o animal que, por estar cercado, não conseguia identificar qual era.
— Oi, perdi muita coisa? — sussurrei para .
— Não — ela sussurrou de volta. — Você está bem?
— Tô sim — respondi.
, sabe que sempre pode falar comigo, não é? — perguntou, franzindo as sobrancelhas e me fitando intensamente.
— Eu sei. Tá tudo bem, sério. Eu só estou um pouco pensativa. — Dei de ombros. Querendo evitar mais conversa, me afastei um pouco e comecei a prestar atenção na aula.

***

Amassei o bilhete com a mão direita e suspirei, jogando-o no lixo. Estava deitada na cama há um bom tempo, de olhos fechados, apenas existindo, quando recebi um bilhetinho fechado. Franzindo o nariz, o joguei fora sem nem abrir.
Certamente era Harry querendo saber como eu estava porque mal nos falamos hoje. Na verdade, eu mal falei com alguém o dia todo. Assim que as aulas terminaram, voltei ao dormitório para tentar tirar uma soneca. Impossível, porque minha mente não parava.
Dois minutos depois, outro bilhete apareceu e, sem perder tempo, joguei fora novamente. Por Merlin, ele não conseguia entender que eu não queria conversar? Ok, eu o compreendia. Mas ele sabia que esse não era o meu dia.
Quando o terceiro bilhete chegou e eu abri a boca para praguejar, consegui ler o “Para de ser chata e me responde”. Estranhei, pois Harry não falava assim comigo. Apertando os olhos, abri o bilhete e li o conteúdo.
Minha boca abriu automaticamente, em choque. Mas o quê? Por que diabos Draco Malfoy estava me chamando? A curiosidade estava me consumindo, então me levantei para ir em direção ao local indicado.
É verdade que Draco, na maior parte do tempo, ainda continuava detestável e insuportável, mas naquela noite eu vi um lado dele que eu nunca imaginaria conhecer. Talvez saísse algo bom de hoje, assim como no dia da biblioteca em que nos resolvemos.
Subi as escadas da Torre de Astronomia em silêncio, enquanto me perguntava o motivo de Malfoy ter me chamado aqui nessa hora. Ao me aproximar do topo, senti um cheiro delicioso de bolo. Não estava com fome o suficiente para ir jantar, mas agora seria impossível enganar meu estômago — ainda mais porque eu era basicamente uma formiga, sobrevivendo somente de doce e água.
Parei no último degrau, congelada pela imagem que via. Draco estava sentado em uma almofada em frente a uma toalha branca traçada com vermelha, cheia de comidas. Sem exagero, era muita comida.
— O que você…? — Não completei a pergunta. Minha boca estava seca e eu ainda estava meio que paralisada. Ele apenas virou o rosto em minha direção e indicou o lugar ao seu lado, onde eu deveria claramente me sentar.
Ainda sem dizer nada, caminhei até o local, me sentando, e o encarei sem esconder a surpresa.
— Não te vi no café da manhã, nem no almoço e muito menos no jantar — Draco falou. — Você comeu alguma coisa, pelo menos?
— Hm, não — respondi, mordendo o lábio inferior. Era estranho pensar que ele tinha percebido isso. — Fiquei muito enrolada com alguns trabalhos e…
— Eu sei que é pelo dia de hoje, — ele me interrompeu e eu o encarei. Não acreditava que conseguiria ficar mais surpresa do que já estava, mas, aparentemente, era sim. — Foi por isso que fui à cozinha e peguei algumas coisas para você.
Ele havia se lembrado.
Ok, tínhamos conversado há pouco tempo sobre essa data, mas era um tanto quanto atordoante pensar que, não somente Draco Malfoy lembrou que hoje completavam onze anos desde que meus pais biológicos morreram, como tinha feito todo esse esforço justamente por isso.
Sinceramente, eu estava em completo choque.
— Nunca imaginei que Draco Malfoy se preocuparia comigo — disse, abrindo um sorriso de canto.
— Se, anos atrás, alguém do futuro me dissesse que isso aconteceria, eu com certeza acharia que é piada — ele comentou, dando de ombros e me fazendo rir.
— Obrigada por isso. — Fui completamente sincera. Draco me deu um sorriso como resposta. Depois, pediu para que eu comesse algo. O cheiro estava tão maravilhoso e a sua atitude tinha sido tão gentil que não me opus.
Voltei minha atenção para as opções que tinham ali, percebendo que ele não havia levado nada com carne. Lembrei que havia comentado que era vegetariana quando conversamos e admito que fiquei feliz por saber que ele também se lembrou disso. Teria sido complicado recusar metade das coisas.
Não pensei duas vezes antes de pegar um caldo de abóbora que parecia estar delicioso e quase suspirei de prazer ao experimentá-lo. Draco também pegou um pedaço de bolo de chocolate e então comemos em silêncio, enquanto observamos a vista de lá de cima.
Não era aquele silêncio constrangedor em que você se vê obrigado a puxar algum assunto. Eu me sentia confortável em ficar do seu lado, tanto quanto me senti no dia da Copa Mundial de Quadribol.
O silêncio não durou tanto no final das contas, ficamos conversando por bastante tempo. Draco me contou sobre tudo que ocorreu após a prisão de seu pai. Depois da morte de Voldemort, todos os Comensais da Morte, tirando os que trabalhavam como espiões, como Snape, foram levados para Azkaban.
Foi bem difícil para ele, porque sua família tinha crenças de que o pai estava correto, mas entrar para Hogwarts e conhecer melhor os outros o fez questionar muito sobre o que acreditava. Por conviver praticamente somente com sua mãe e com seu elfo doméstico, Narcisa conseguiu, de algum modo, com que aceitassem Dobby, o elfo, no castelo.
Antes, eu achava que ele era metido e precisava de empregados ao seu bel dispor, mas pude entender melhor que havia sido uma das preocupações de sua mãe. E, realmente, o fato dele ser filho de um Comensal fazia com que muitos se afastassem — não que ele fizesse algum esforço para que o contrário acontecesse.
Após ficarmos satisfeitos, Draco pegou sua varinha e proferiu um feitiço. Imediatamente, as comidas sumiram e tudo estava limpo. Andamos lado a lado até chegarmos perto do quadro da mulher gorda.
Ele se aproximou e apoiou com o braço na parede próxima ao quadro, me encarando.
— Então estamos de boa mesmo, hein… — ele brincou, a cabeça pendendo um pouco para o lado direito. Seus olhos estavam mais claros que o normal essa noite e eu jurava por Merlin que passaria tranquilamente a noite inteira admirando aquele tom de cinza esverdeado.
— Não tem como ter dúvidas depois de hoje. — Ri pelo nariz, vendo-o fazer o mesmo. — Obrigada por essa noite, Malfoy, eu gostei muito.
— Disponha, Voux. — Ele piscou.
Antes que eu pudesse me virar e entrar na passagem para o Salão Comunal, Draco aproximou seu rosto do meu, segurando meu queixo e depositou um beijo perto da minha bochecha, no canto dos lábios.
— Durma bem.
E saiu andando, me deixando boquiaberta e com o coração acelerado.

***

Os dias seguintes transcorreram sem grandes incidentes — a não ser que levasse em conta o sexto caldeirão derretido por Neville na aula de Poções. Coitado, ele realmente se atrapalhava completamente nessa matéria. O Professor Snape, que aparentemente estava mais irritado que o normal — acredito que por ter perdido o cargo que sempre quis pelo quarto ano seguido — deu uma detenção, da qual Neville voltou com um colapso nervoso, pois teve que destripar uma barrica de iguanas. Suspirei, sentindo compaixão pelo garoto.
Todos estavam tão ansiosos para ter a primeira aula com Moody que, na quinta-feira, a quarta série inteira chegou logo depois do almoço e fizeram fila à porta da sala, antes mesmo da sineta tocar. Começamos a nos aprofundar nas chamadas “Maldições Imperdoáveis'', sendo elas a Imperius, a Cruciatus e, por fim, a maldição da morte, Avada Kedavra — a qual o professor fez questão de frisar que Harry foi a única pessoa que sobreviveu.
Os alunos comentavam sobre a aula como se ela tivesse sido um espetáculo fantástico, ok. Ainda assim, tentamos dar o máximo de suporte para os nossos amigos nas horas seguintes, até que tirassem aquilo da cabeça.
O problema era que eu estava pensando bastante em um certo garoto de cabelos loiros…
Mione, pelo menos, conseguiu focar em outra atividade.
Em um fim de tarde, minha amiga nos contou que criou um movimento para ajudar a melhorar as situações dos elfos domésticos — o que explicava muito sobre o tempo, além do normal, que ela passava na biblioteca. O F.A.L.E, como Hermione escreveu em todos os distintivos distribuídos, era uma sigla para “Fundo de Apoio à Liberação dos Elfos''. A curto prazo, os objetivos eram obter para os elfos um salário mínimo justo e condições de trabalho decentes. A longo prazo, incluíam mudar a lei que proíbe o uso da varinha e tentar admitir um elfo no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, porque eles são “vergonhosamente sub-representados'' — palavras dela.
Eu, e Gina a apoiamos sem questioná-la. Já Harry e Rony quase levaram tapas com a forma que trataram o movimento.
De qualquer forma, a semana seguiu tranquila até que, quando chegamos ao saguão de entrada essa manhã, uma aglomeração de alunos que havia ali nos impediu de continuar, em torno de um grande aviso afixado ao pé da escadaria de mármore. Como Rony era o mais alto de nós cinco — eu, , Harry, Hermione e Rony —, ele teve que ficar nas pontas dos pés para ver por cima das cabeças à sua frente e ler o aviso em voz alta para nós.
TORNEIO TRIBRUXO
As delegações de Beauxbatons e Durmstrang chegarão às seis horas, sexta-feira, 30 de outubro. As aulas terminarão uma hora antes...
— Genial! — exclamou Harry. — Poções é a última aula de sexta-feira! Snape não terá tempo de envenenar todos nós!
Ri alto, balançando a cabeça. Eu amava a aula de poções, mas aguentar o Snape era insuportável.
Rony continuou lendo:
Todos os alunos devem guardar as mochilas e livros em seus dormitórios e se reunir na entrada do castelo para receber os nossos hóspedes antes da Festa de Boas-Vindas.
— É daqui a uma semana! — exclamou Ernesto MacMillan da Lufa-Lufa, saindo da aglomeração, os olhos brilhando. — Será que o Cedrico sabe? Acho que vou avisar a ele...
— Cedrico? — repetiu Rony sem entender, enquanto Ernesto saía apressado.
— Ele deve estar inscrito no torneio — disse Harry.
— Aquele idiota, campeão de Hogwarts? — disse Rony, quando abriam caminho pelo ajuntamento de alunos para chegar à escadaria.
— Ele não é idiota, você simplesmente não gosta dele porque ele derrotou a Grifinória no quadribol — eu disse, me sentindo um pouco obrigada a defendê-lo. Tive grande dificuldade com algumas matérias ano passado e, juntado o fato de sermos ambos grandes frequentadores da biblioteca e Hermione ter estado mais ocupada que tudo, ele me ajudou diversas vezes a entender o conteúdo.
— Ouvi falar que é realmente um bom aluno, e é monitor! — Hermione falou como se encerrasse a questão.
— Vocês só gostam dele porque ele é bonito — respondeu Rony com desdém.
— Perdão, eu não gosto de pessoas só porque são bonitas! — retrucou Hermione indignada.
Rony fingiu que pigarreava alto, um som que estranhamente lembrava “Lockhart!”.
— Aposto que só está com inveja… — provocou, fazendo-o ficar emburrado.

***

O aviso no saguão de entrada teve um efeito sensível nos moradores do castelo. Durante a semana seguinte, parecia haver um assunto nas conversas, onde quer que estivéssemos: o Torneio Tribruxo. Os boatos voavam de um aluno para outro como um germe excepcionalmente contagioso: quem ia tentar ser o campeão de Hogwarts, o que é que o torneio exigia, em que os alunos de Beauxbatons e Durmstrang se diferenciavam de nós e, o principal, se os convidados seriam interessantes, afinal, não era sempre que recebíamos alunos de outras escolas e eu admito que estava curiosa para conhecê-los.
Pude notar, também, que o castelo estava sofrendo uma faxina mais do que rigorosa. Vários retratos encardidos tinham sido escovados — para descontentamento deles, que se sentavam encolhidos nas molduras, resmungando sombriamente e fazendo caretas ao apalpar os rostos vermelhos. As armaduras de repente brilhavam e mexiam sem ranger e Argo Filch, o zelador, estava agindo com tanta agressividade com os alunos que se esquecessem de limpar os sapatos, que aterrorizou duas garotas do primeiro ano levando-as à histeria. Insuportável.
Outros funcionários também pareciam estranhamente tensos.
— Longbottom, tenha a bondade de não revelar que você não consegue sequer lançar um simples Feitiço de Troca diante de alguém de Durmstrang! — vociferou a professora Minerva ao fim de uma aula particularmente difícil, em que Neville acidentalmente transplantou as próprias orelhas para um cacto.
A semana passou rapidamente, a ansiedade com a chegada dos estudantes das outras Escolas de Bruxaria foi aumentando conforme o tempo passava. Queríamos conhecer gente nova.

POV’s
Naquele dia, George não apareceu para o jantar.
Ele estava estressado a semana toda por conta dos trabalhos da escola, mas, pelo jeito, hoje tinha chegado em seu limite. Fred me contou que eles haviam se metido em uma confusão na aula do Snape, nada fora do comum, em que perderam 20 pontos cada e ainda ficaram de detenção. Além disso, Filch conseguiu confiscar alguns — muitos — produtos que eles vendiam. Tenho certeza de que seu estresse se acumulou e ele não apareceu por querer ficar um tempo sozinho, mas já havia passado um dia inteiro e por esse motivo que decidi falar com Fred sobre o que poderíamos fazer para animá-lo.
Eu e o ruivo estávamos em uma relação boa. Não conversamos sobre o que tinha acontecido na semana anterior, mas estávamos mais próximos. Volta e meia, ele encontrava formas de me tocar fisicamente, mas apesar disso, não ficamos nenhuma vez após aquela noite, o que, sinceramente, só me fazia querer mais e lembrar de como era ter seus lábios nos meus.
— Hoje você podia ficar com a gente lá no quarto. Lino vai passar a noite com a namorada de novo, e o Ken Towler teve algum acidente e precisa ficar na enfermaria por dois dias. O quarto vai ser todinho nosso hoje. — Ele sorriu.
Se alguém nos escutasse, com certeza teria a impressão errada do que rolaria lá.
Não que eu duvidasse que fosse acontecer algo, mas provavelmente não hoje, porque o foco era George.
De qualquer forma, era difícil os dois colegas de quarto deles ficarem fora assim e, coincidentemente, estávamos em uma missão de animar George, então não foi difícil saber o que responder.
— Tá bom, eu fico — aceitei. — O que acha de passarmos na cozinha e levarmos alguns doces? Também posso pegar aquele presente que meu pai me deu no ano passado para assistirmos alguma coisa…
— É perfeito! — Fred exclamou e em seguida me encarou por alguns segundos em silêncio antes de continuar. — Sabe… temos sorte de te ter.
O encarei por alguns segundos assim que ele pronunciou a frase, não esperando ouvir isso agora.
George sempre afirmava como sabia, desde o momento em que nos conhecemos na cabine do trem de Hogwarts no meu primeiro ano, que nossa amizade não somente daria certo, como seria uma das mais fortes de nossas vidas. Nunca foi difícil para ele expor o que está sentindo, então estava mais que acostumada com suas declarações de amor/amizade repentinas.
Fred, por outro lado, era o oposto — realmente se diferenciando, e muito, do irmão nesse aspecto. Se George gostava de falar, Fred preferia demonstrar, através de gestos, o quanto se preocupa conosco. O ruivo em questão gostava mais de contato físico, então vivia me abraçando. Foram poucas às vezes que ouvi dizê-lo o quanto se importava.
Vê-lo admitir era importante para mim, apesar de saber disso todos os dias.
Porém, eu era quem tinha sorte de tê-los.
Não parei de pensar nisso até chegarmos na cozinha, as bochechas doendo por estar sorrindo há tanto tempo. Não era comum que ele falasse isso, ainda mais de modo inesperado, sem haver situação específica para tal. O que tornou tudo um pouco mais fofo, para ser sincera.
Os elfos ficaram super felizes em saber que estavam ajudando a animar alguém — ainda mais George, que vinha aqui sempre. Eles fizeram muitas coisas gostosas para comermos. De lá, voltamos para o Salão Comunal e Fred me acompanhou até o meu dormitório, onde peguei o reprodutor mágico que ganhei de aniversário.
Explicamos a situação para as meninas, que estavam por lá, enquanto eu rapidamente colocava algumas roupas em uma mochila.
— Bem que vocês podiam ser como os colegas de quarto do Fred e passarem uma noite fora de vez em quando. Melhor ainda, podíamos fazer um revezamento de quem vai ser a beneficiada e assim todas saem felizes! — Gina disse, recebendo um olhar incrédulo do seu irmão.
Ele e George não ficavam tão perturbados como Rony quando ela falava esses tipos de coisa perto deles, mas não significava que eles não se incomodavam com aquilo.
— Argh, não vou ouvir essas coisas. , tô te esperando lá fora — Fred resmungou, saindo em seguida e fechando a porta.
— Ponto importante: um deles nem quis passar a noite fora, Ken está na enfermaria! — respondeu, rindo em seguida.
— Detalhes, detalhes…
— E você acha que eu vou dormir onde, por acaso? — Mione perguntou, tão indignada quanto o meu melhor amigo.
— No quarto do Harry e do Ron! Se o Dino passar a noite comigo, vai ter uma cama livre lá. — a ruiva respondeu como se fosse óbvio.
— Eu não vou dormir na cama dele… — Hermione resmungou.
— Então dorme junto com o Rony. Tenho certeza de que ele não vai reclamar. — Assisti o rosto da minha amiga ficar vermelho após a fala de Gina, e decidi que era a hora de deixá-las por lá.
Aproveitei que Fred agora esperava do lado de fora e coloquei meu pijama rapidamente, então me despedi das meninas e saí. Subimos as escadas para o dormitório dos meninos e entramos.
Apesar de Fred e George não serem tão organizados, o quarto deles era incrivelmente arrumado. Principalmente em relação às caixas de produtos que eles deixavam em um canto, todas categorizadas e identificadas.
Confesso que essa última parte pode ter sido por minha influência, que vivia etiquetando tudo que fosse possível.
— Soube que tem alguém entrando em depressão após uma semana conturbada — brinquei, me sentando ao lado de George em sua cama.
— Idiota. — Ele riu, tirando o cobertor do rosto e me olhando. — Eu só queria passar um tempo sozinho.
— Ouviu, Fred? Não somos bem-vindos. Acho que vamos precisar levar todos esses doces lá para baixo e assistir um filme só nós dois.
— Você sabe que eu não reclamaria de um filme a sós… — Fred me acompanhou, piscando travesso.
É. Eu sabia muito bem e eu também compartilhava daquela resposta, mas tentei não pensar nisso agora.
George olhou, finalmente, para a bandeja de doces que seu irmão carregava e abriu um sorriso enorme, os olhos brilhando ansiosos.
— Podiam ter falado antes. Venham logo aqui.
— Você é um interesseiro! — o acusei, jogando um travesseiro em sua direção.
Depois do filme — incrível, por sinal —, a primeira coisa que fiz foi sair da cama de George, que tinha dormido na metade. Mesmo o amando e adorando estar abraçada, odiava demais dormir com ele. Nunca vi uma pessoa que se mexe mais. E olha que a tem sonambulismo leve!
Certa vez ele me chutou para o chão. Literalmente.
Como sabia que não conseguiria dormir assim, fui em direção da porta com passos leves para buscar uma garrafa d'água e voltar ao meu dormitório.
Não tinha percebido que Fred estava acordado até vê-lo me encarar, enquanto eu estava em pé do lado da cama de George.
— Não sabia que ainda estava acordada — ele falou, baixinho. — Vem cá. — Fred girou para o lado e bateu com a mão no espaço vazio do colchão, me dando um sorrisinho.
Sua voz rouca fez com que eu caminhasse em sua direção, me aconchegando debaixo do cobertor quase que no mesmo segundo. Merda, esse tom de voz era meu ponto fraco.
— Obrigada — sussurrei, sentindo sua respiração em minha testa, de tão próximos. As camas de todos os dormitórios não eram tão estreitas quanto as de solteiro, porém, ainda assim, não eram tão grandes quanto as de casal. Dessa forma, apesar de caberem duas pessoas tranquilamente, sempre acabávamos ficando muito perto um do outro.
Muito perto mesmo. As pernas de Fred roçaram levemente nas minhas e eu tinha plena consciência de que seu peito desnudo estava quase grudando em mim.
— Hm, não estava indo se encontrar com algum garoto nessa hora da noite como no primeiro dia de aula, né? — Não havia crítica em sua voz, o que me fez saber que ele estava brincando comigo e, consequentemente, rir pela pergunta.
— E eu pensando que você já tinha se esquecido disso… — respondi, revirando os olhos e escondendo o sorriso.
— Posso até deixar isso passar, mas tem um dia específico que jamais vou conseguir esquecer, sabia? — ele respondeu, posicionando a mão em minha cintura enquanto fazia um carinho ao pressionar o dedão contra minha pele.
— É? Qual?
— O dia em que nos beijamos. — Soprou contra minha boca, roçando os lábios nos meus como se fizesse uma carícia.
Arqueei a sobrancelha e abri um meio sorriso ladino. Uma de minhas mãos encontrou seu peitoral, uma mera passagem para o que eu realmente queria fazer. Toquei sua pele macia, percorrendo um caminho com os dedos conforme subia por seu pescoço até a parte de trás, encontrando sua nuca. Toquei as pontas de seu cabelo, sentindo a maciez entre meus dedos. A claridade do filme, que tinha retornado à página inicial, iluminava levemente seu rosto enigmático. Sem falar nada, o puxei para mim, de modo que sua boca moldasse a minha.
Sua língua não demorou para abraçar a minha, reconhecendo-a e puxando com fervor.
Fred se aproveitou da mão que me segurava para apertar minha cintura uma última vez e deslizá-la para minhas costas, me arrepiando durante o caminho. Eu gemi baixo contra sua boca quando ele me puxou, com precisão, até que meu peito tocasse o seu.
Como detestava usar sutiã, o tirei quando me troquei mais cedo. A questão era que eu estava extremamente excitada pela forma como ele me beijava, reclamando minha língua para si e chupando-a levemente, então, obviamente, meus mamilos enrijecidos sob o tecido leve da minha camisa raspavam no seu peito.
E Fred percebeu isso.
Mordi os lábios ao sentir seu polegar e dedo indicador circularem minha auréola, suprimindo um novo gemido. Abri os olhos quando a boca dele deixou a minha, suspirando pesarosamente, enquanto inclinava minha cabeça em sua direção, me recusando a deixar o momento acabar.
— Você não sabe o quanto eu tô me segurando nesse exato momento — Fred sussurrou, a voz arrastada carregando tanta luxúria que tudo que pude fazer foi descansar no travesseiro, fechando os olhos e respondendo silenciosamente que entendia extremamente bem o que ele dizia.
Fiquei um tanto quanto confusa quando ele não voltou a me beijar, somente para meio segundo depois notar que sua boca encontrou meu pescoço, mordiscando-a na mesma intensidade que ele brincava com meu seio, fazendo minha pele formigar deliciosamente.
Arrastei minhas unhas pela extensão de suas costas, aproveitando todos os sentimentos que esse contato me providenciava. Sem aguentar, voltei a segurá-lo pelos cabelos e, pela segunda vez, puxei-o para voltar a me beijar, apesar da minha vontade de tirar a camisa e substituir seus dedos por sua boca.
Estava prestes a passar minhas pernas ao redor de seus quadris para friccionar nossos pontos de prazer de modo a me aliviar minimamente quando George se mexeu na cama e resmungou algo.
Nos afastamos rápido, ofegantes, para olharmos em sua direção. George ainda estava dormindo, mas o rosto estava virado para nossa cama. Fred e eu nos encaramos rapidamente e o garoto afundou o rosto em meu pescoço, abafando a risada. Eu apertei a mão contra minha boca, tentando não gargalhar alto.
Infelizmente, isso havia quebrado o clima que estávamos antes. Não seria capaz de voltar a beijar Fred com seu irmão, e meu melhor amigo, tão próximo assim. Até porque o sono do George não era o mais pesado do mundo e provavelmente faríamos barulho suficiente. Não queria nem ao menos imaginar o que ele pensaria se acordasse nesse momento e nos encontrasse assim.
Fred, aparentemente pensando o mesmo que eu, me deu um último beijo demorado nos lábios e se ajeitou na cama.
— Agora tem duas datas para lembrar — falei, passando os dedos calmamente em seu abdômen.
— E vou ter muitas outras — Fred sussurrou, sem tirar os braços ao redor da minha cintura. Dormíamos assim há anos, era praticamente um costume, mas dessa vez tinha algo a mais ali no meio. Apenas sorri ao escutar sua voz perto do meu ouvido.
— Como tem tanta certeza de que vão ter outras? — brinquei, olhando em seus olhos castanhos.
— Intuição. — Ele deu de ombros, dando um sorrisinho ladino.
— Boa noite, Fred. — Aceitando sua resposta de bom grado, foi o que respondi, me encostando em seu peito.
— Boa noite, .

***

No dia seguinte, não vi Fred nem George.
Ok, por sermos de anos diferentes, era difícil que nossa rotina sempre encaixasse e nos víssemos todos os dias, porém, sempre nos esforçávamos para ficarmos pelo menos um tempo juntos.
Naquela sexta-feira, estava ainda mais difícil. Quando descemos para o café na manhã do dia 30 de outubro, vimos que o Salão Principal havia sido ornamentado durante a noite. Grandes bandeiras de seda pendiam das paredes, cada uma representando uma casa de Hogwarts — a vermelha com um leão dourado da Grifinória, a azul com uma águia de bronze da Corvinal, a amarela com um texugo negro da Lufa-Lufa e a verde com uma serpente de prata da Sonserina.
Por trás da mesa dos professores, a maior bandeira de todas tinha o brasão de Hogwarts: leão, águia, texugo e serpente unidos em torno de uma grande letra “H”. Tudo muito bem decorado.
Todos os alunos e professores pareciam estar tensos, com altas expectativas, e por isso, ninguém prestou muita atenção às aulas, já que estavam bem mais interessados na chegada das comitivas de Beauxbatons e Durmstrang à noite. Até mesmo a aula de Snape foi mais tolerável do que de costume porque durou meia hora a menos.
Quando a sineta tocou mais cedo, eu, , Harry, Rony e Hermione subimos depressa para a Torre da Grifinória para deixar nossos materiais, conforme as instruções que recebemos. Encontramos com Gina, George e Fred rapidamente e, após vestirmos as capas, e descemos correndo para o saguão de entrada, onde os diretores das Casas estavam organizando os alunos em filas.
— Sigam-me, por favor — mandou a professora McGonagall. — Alunos da primeira série à frente... Sem empurrar...
Fazia um fim de tarde frio e límpido, o crepúsculo vinha chegando devagarinho e uma lua pálida e transparente já brilhava sobre a Floresta Proibida.
— Quase seis horas… — comentou Rony ao meu lado, verificando o relógio e depois espiando o caminho que levava aos portões da escola. — Como é que vocês acham que eles vêm? De trem?
— Duvido — respondeu.
— Como então? Vassouras? — arriscou Harry, erguendo os olhos para o céu estrelado.
— Acho que não... Não vindo de tão longe… — respondi.
— De Chave de Portal? — questionou Rony. — Ou quem sabe aparatando, talvez tenham permissão de fazer isso antes dos dezessete anos no lugar de onde vêm?
— Não se pode aparatar nos terrenos de Hogwarts. Quantas vezes tenho que repetir isso a vocês?! — falou Hermione com impaciência.
Todos encaravam atentamente os jardins cada vez mais escuros, mas nada se movia. Tudo estava quieto, silencioso, como sempre. E então, Dumbledore falou em voz alta da última fileira, onde aguardava com os outros professores:
Aha! A não ser que eu muito me engane, a delegação de Beauxbatons está chegando!
— Onde? — perguntaram muitos alunos ansiosos, olhando em diferentes direções.
— Ali! — gritou um aluno da sexta série, apontando para o céu sobre a Floresta.
Alguma coisa grande, muito maior do que uma vassoura — ou, na verdade, cem vassouras —, voava em alta velocidade pelo céu azul-escuro em direção ao castelo, e se tornava cada vez maior.
— É um dragão! — gritou esganiçada uma aluna da primeira série, perdendo completamente a cabeça.
— Deixa de ser burra... É uma casa voadora! — disse Dênis Creevey.
Eu duvidei, mas o palpite de Dênis estava mais próximo... Quando a sombra gigantesca e escura sobrevoou as copas das árvores da Floresta Proibida, e as luzes que brilhavam nas janelas do castelo a iluminaram, vimos uma enorme carruagem azul-clara do tamanho de um casarão, que voava, puxada por doze cavalos alados, todos baios, cada um parecendo um elefante de tão grande.
As três primeiras fileiras de alunos recuaram quando a carruagem foi baixando para pousar a uma velocidade fantástica. Então, com um baque estrondoso, os cascos dos cavalos, maiores que pratos, bateram no chão. Um segundo mais tarde, a carruagem também pousou, balançando sobre as imensas rodas.
A porta da carruagem tinha um brasão (duas varinhas cruzadas, e de cada uma saíam três estrelas). Logo ela foi aberta e um garoto de vestes azul-claras saltou da carruagem, curvado para a frente, mexeu por um momento em alguma coisa que havia no chão da carruagem e abriu uma escadinha de ouro. Em seguida, recuou respeitosamente. Então um sapato preto e lustroso saiu de dentro da carruagem — um sapato do tamanho de um trenó de criança — acompanhado, quase imediatamente, pela maior mulher que eu já havia visto na vida. O tamanho da carruagem e dos cavalos ficou imediatamente explicado.
Apenas uma pessoa era tão grande quanto essa mulher: Hagrid. Duvido que houvesse dois centímetros de diferença na altura dos dois. Mas, por alguma razão — talvez simplesmente porque estava acostumada com Hagrid —, esta mulher parecia ainda mais anormalmente grande. Ela tem um rosto bonito de pele morena, grandes olhos negros e um nariz um tanto bicudo. Seus cabelos estavam puxados para trás e presos em um coque na nuca. Vestia-se da cabeça aos pés de cetim negro, e brilhavam numerosas opalas em seu pescoço e nos dedos grossos.
Dumbledore começou a aplaudir e nós, acompanhando a deixa, batemos palmas. Muitos alunos estavam nas pontas dos pés para poderem ver melhor a mulher.
O rosto dela se descontraiu em um gracioso sorriso e ela se dirigiu a Dumbledore, estendendo a mão faiscante de anéis. O diretor, embora alto, mal precisou se curvar para beijar-lhe a mão. Ele e a mulher, a quem o diretor chamou como Madame Maxime, conversaram por uns segundos e então a grande mulher chamou os doze alunos — todos, pelo físico, entre dezoito e vinte anos — que já saiam de dentro da carruagem para entrarem no castelo e se aquecerem.
Ao vê-los, só conseguia pensar que devia ser um requisito ser bonito para entrar em Beauxbatons. Todos eram estranhamente lindos e isso era, no mínimo, esquisito!
Continuamos parados à espera da delegação de Durmstrang, mas nem mesmo percebi em qual momento exatamente, de forma lenta e imponentemente, o navio saiu das águas.
Tinha uma estranha aparência esquelética, como se tivesse ressuscitado de um naufrágio, e as luzes fracas e enevoadas que brilhavam nas escotilhas lembravam olhos fantasmagóricos. Finalmente, espalhando água para todo lado, o navio emergiu inteiramente, e alguns momentos depois, ouvimos a âncora ser atirada na água rasa e o baque surdo de um pranchão ao ser baixado sobre a margem.
Havia gente desembarcando, os recém-chegados usavam capas de peles de fios longos e despenteados e tinham expressões duras no rosto. Mas o homem que os conduzia ao castelo usava peles de um outro tipo; sedosas e prateadas como os seus cabelos.
Novamente, Dumbledore conversou com o outro diretor. Karkaroff, então, fez sinal para um de seus estudantes avançar. Quando o rapaz passou, Rony praticamente surtou.
— Gente, é o Krum! Eu não acredito! — exclamou Rony, em tom de espanto, enquanto nos encaminhávamos para o Salão Principal. — Krum! Viktor Krum!
— Pelo amor de Deus, Rony, ele é apenas um jogador de quadribol — disse Hermione, revirando os olhos.
Apenas um jogador de quadribol? — exclamou Rony, a voz falhando, olhando para ela como se não pudesse acreditar no que ouvia. — Mione, ele é um dos melhores apanhadores do mundo! Eu não fazia ideia de que ele ainda estava na escola!
Depois que todos tinham entrado no salão e sentado às mesas das Casas, vieram os professores, que se dirigiram à mesa principal e se sentaram. Os últimos da fila foram Dumbledore, Karkaroff e Madame Maxime. Nosso diretor, porém, continuou em pé, enquanto os outros dois se sentavam, e o Salão Principal ficou silencioso.
— Boa noite, senhoras e senhores, fantasmas e, muito especialmente, hóspedes — disse Dumbledore sorrindo para os alunos estrangeiros. — Tenho o prazer de dar as boas-vindas a todos. Espero e confio que sua estada aqui seja confortável e prazerosa. O torneio será oficialmente aberto amanhã de manhã — continuou. — Agora convido todos a comer, beber e se fazer em casa!
Olhei para os meus lados e todos ao meu redor pareciam ansiosos. Eles cochichavam, animados, provavelmente sobre o que aconteceria mais tarde.
Após o primeiro dia em que Dumbledore comentou que haveria o Torneio Tribruxo e que alunos de outras escolas ficariam em Hogwarts, Fred e George decidiram fazer uma festa.
Não uma festa simples, como fizemos no Salão Comunal da Grifinória no começo do ano letivo, essa seria A festa. A maior e melhor de todas — até agora, claro.
Eles eram os melhores nisso e todos sabiam, então, rapidamente, os alunos se dispuseram a ajudar com algo. As quatro casas estavam unidas pelo mesmo propósito — o que, sinceramente, acontecia raramente.
O pessoal da Sonserina ficou responsável por convidar nossos hóspedes de forma discreta e explicar o que aconteceria se contassem sobre a festa para alguém. Os estudantes de Durmstrang e Beauxbatons teriam que escrever seus nomes em uma simples folha, concordando com o sigilo — e para termos o controle de quem iria.
Hermione, claro, foi genial ao colocar um feitiço em que, caso alguém tentasse revelar a festa, acabaria mordendo a própria língua, de modo que não conseguisse falar, e seu rosto se encheria de espinhas, para que soubéssemos quem foi o delator.
Nós, da Grifinória, montamos rotas estratégicas para que ninguém fosse pego enquanto ia ou voltava. Fred e George, por ter um relacionamento… pacífico... por assim dizer, com Pirraça, fizeram um acordo em que ele não nos atrapalharia — muito menos nos entregaria para alguém — e ficaria de olhos nos outros fantasmas, ganhando em troca alguns objetos para pegadinhas futuras.
Como nossos hóspedes ficariam em uma das torres, que foram desocupadas e transformadas em dormitórios, algumas pessoas da Corvinal iriam gui-a-los desde lá até a Sala Precisa, que onde a festa iria acontecer, pelas rotas que montamos.
Por fim, os alunos da Lufa-Lufa cuidariam da situação se algo desse errado, principalmente em relação aos professores, Filch e Madame Norra.
Estava tudo tão bem planejado que não tinha como dar errado.

POV’s
Quando o jantar terminou, todos praticamente correram para seus dormitórios, ansiosos. Nos separamos de Rony, Harry, Fred e George assim que passamos pelo quadro da Mulher Gorda e subimos pelas escadas da direita.
Não demoramos para nos arrumar, nossas roupas já estavam separadas — o que facilitou muito, então apenas nos maquiamos.
Quando o relógio apitou, indicando que eram onze e meia, descemos para o Salão Comunal para nos encontrar com os meninos. Iríamos primeiro para a Sala Precisa, e Gina e Harry ficariam de olho usando, escondidos dos outros, o Mapa dos Marotos até todos chegarem.
A mais nova dos Weasley desceu primeiro. Olhei para a reação dos meninos que nos esperavam e o queixo de todos caiu. Ela estava linda usando um body de renda preta, acompanhada de uma saia justa da mesma cor, com uma pequena abertura lateral e um cinto com pedraria branca.
Gina! Vá se trocar — Rony disse, emburrado, cruzando os braços.
A ruiva revirou os olhos, murmurando um xingamento enquanto o ignorava e seguia em frente, parando ao lado de Harry.
Teve uma época, Gina nos contou, que ela tinha uma paixonite pelo Harry. Não fazíamos ideia do que ela sentia por ele hoje em dia e não ousamos perguntar, já que ela ficava com outras pessoas e não voltou a citar o assunto.
O que me deixou com o pé atrás, na verdade, foi o jeito que Harry olhou para ela. Apertei os olhos, tentando enxergar melhor, mas podia jurar pela minha vida que as bochechas dele tinham corado. Fiz uma anotação mental para questioná-lo mais tarde.
— Pare de agir como um idiota, Rony. Sua irmã está grandinha e uma gata — disse, repreendendo o garoto.
Ganhei um assobio do George quando ele me viu em meu vestido azul, que favorecia bem minhas curvas, e fiz uma reverência brincando. Mas eu estava, inegavelmente, incrível com aquela roupa.
Percebi que a noite seria repleta de surpresas quando Fred olhou para e fez um elogio em forma de piada, dizendo que não acreditava que o sol tinha voltado a aparecer tão tarde. A questão, porém, foi o modo como ele disse. Como se acreditasse fielmente nisso e não existisse mais ninguém na sala que brilhasse tanto quanto .
De fato, não era exagero dizer que ela estava magnífica em seu vestido preto. Mas eu sabia que havia bem mais, porque tinha me contado sobre os últimos acontecimentos entre eles e eu estava a par da situação.
Mione entrelaçou o braço no da Gina, e Rony, finalmente, disse que ela estava muito bonita. Ela corou da cabeça aos pés, estampando um sorriso bobo na cara. Ok, a diferença entre os irmãos era realmente gritante.
Enquanto atravessávamos o sétimo andar até o corredor onde a porta da sala apareceria, Filch andava pelas masmorras — o que seria um pequeno problema para o pessoal da Sonserina e Lufa-Lufa, mas era melhor que o zelador estivesse lá do que próximo aos caminhos que marcamos para o pessoal chegar.
Não demorou muito para que a grande porta dupla aparecesse na parede e, quando entramos, não poderia ser melhor. Era sempre arriscado fazer festas dentro do castelo, mas, como não temos outra opção, a Sala Precisa nunca nos serviu tanto para algo.
A decoração estava impecável. Alguns sofás estavam espalhados pelo lugar nos pontos mais escuros da sala, onde a iluminação colorida não alcançava direito, os banheiros ficavam no canto e havia um pequeno bar no meio da parede esquerda com um cardápio das bebidas disponíveis — era só pedir e ela aparecia em sua mão.
— Conseguiu alterar o feitiço? — perguntei para , que concordou com a cabeça e sacou sua varinha.
Eu havia passado horas na biblioteca nessa última semana procurando algum feitiço que transformasse um líquido no outro, e o adaptou para que os alunos com menos de dezesseis anos não conseguissem consumir bebidas alcoólicas. Caso alguém pedisse, a bebida se transformaria em uma sem álcool — isso também acontecia caso alguém mais velho entregasse sua bebida para alguém mais novo.
— Feito. Gina, pode testar, por favor? — minha irmã perguntou para Gina, que escolheu whisky de fogo e recebeu uma caneca de cerveja amanteigada em suas mãos.
— Funcionou! — a ruiva disse, surpresa, dando um golinho na bebida. Sabia que ela estava um pouco triste por não poder beber, mas não podíamos abrir exceções.
— Muito bom, ! — Mione elogiou.
Minha irmã agradeceu, parecendo totalmente satisfeita com o resultado.
Poucos segundos depois, como o planejado, várias pessoas entraram na sala e automaticamente a música começou a tocar, dando início, oficialmente, à festa.


Capítulo 7

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POV’s
Aquela estava sendo a melhor festa da minha vida.
Estava tão feliz que estava tudo dando certo, com todas as Casas interagindo e nenhuma briga acontecendo. E, como não ouvimos alerta de nenhum dos professores, estávamos bem tranquilos.
O que era ótimo porque metade dos alunos mais velhos já estavam bêbados — apesar de estarmos tentando não exagerar pela quantidade de gente mais nova. A maioria sabia se controlar, mas era óbvio que tinha um ou outro que já tinha enchido a cara.
Além de Mione, Gina e , que acabei perdendo horas atrás — e tinha certeza que elas estavam fazendo coisas realmente interessantes pelo simples fato de não termos nos encontrado novamente —, não tinha mais visto George desde que chegamos, apesar de que estaria mentindo se dissesse que tinha procurado por ele. Nossa relação tinha esfriado um pouco, mais por culpa minha, que preferi me afastar e deixá-lo lidar com seus sentimentos. Justamente por ele ser um garoto maravilhoso e eu amar nossa amizade, sabia que era injusto que continuássemos assim após ter descoberto que ele gostava tanto de mim.
Na realidade, a pessoa que estava ansiosa para ver hoje era basicamente o oposto de George e não somente fisicamente falando. Porém, me recusava a procurá-lo e provavelmente encontrar algo que não gostaria de ver, de forma que estava me divertindo como poderia.
— Harry, repete. Não entendi nada do que você disse — falei, apoiando as mãos na cintura enquanto encarava-o.
E, no momento, eu aproveitava conversando com Harry.
Ou tentando conversar.
Meu melhor amigo não era de beber muito. Pelo contrário, era eu quem ficava tão doida, supostamente ainda dentro do meu limite, que era praticamente levada no colo porque me recusava a ir embora das festas enquanto ele me obrigava a beber 2 litros de água para evitar minha ressaca na manhã seguinte.
Mas, nessa noite, nossos papéis estavam invertidos e eu o fiz sentar no sofá, somente por precaução.
— Eu fiz merda! — ele disse, bufando enquanto me encarava bravo. — Tô ferrado.
— O que você fez? — perguntei, mordendo a pele ao redor da unha. Era um dos meus piores hábitos quando preocupada. — Qual foi a merda?
AchoqueeutôafimdaGina — ele disse, rapidamente, os olhos transparecendo desespero enquanto ele olhava em volta. Respirei fundo, sabendo que, se continuasse assim, seria uma longa conversa. E, sinceramente, eu não gostava de conversar com bêbados quando não estava no mesmo estado, mas, novamente, esse era o Harry e essa era minha função como sua melhor amiga.
— Não entendi nada.
— Eu tô afim da Gina — ele suspirou.
Ah… — suspirei, meus ombros relaxando à medida que eu ia absorvendo a informação. Minhas suspeitas de hoje mais cedo foram confirmadas. Eu era mesmo boa nisso, reconhecer os tipos de olhares. — E por que seria uma merda? Não tem nada demais. Ela é inteligente, divertida, bonita para caramba… Difícil mesmo é não ser afim dela.
— Eu sei! Ela é incrível, mas o Rony vai me matar. É a irmãzinha dele, você viu o quão louco ele ficou com ela hoje? Tive que ouvir por meia hora que o Dino estava “corrompendo” ela!
— Harry, há quantos anos vocês se conhecem? Rony sabe que você não faria mal para ela. Seria ideal que vocês conversassem, óbvio, então amanhã você se prepara e conversa com ele, afinal, nem rolou nada entre vocês — falei, suspirando, mesmo sabendo que ele ignoraria totalmente esse conselho e provavelmente me diria no dia seguinte que eu inventei a conversa toda. Isso se ele se lembrasse. — Não é?!
— Claro! — ele respondeu rápido.
— Bom, então é simples. — Sorri ao vê-lo acenar com a cabeça, apoiando a mão no braço. Apertei sua perna, tentando transmitir confiança. — Vai ficar tudo bem. Rony é meio cabeça dura, mas duvido que ele fará algo. Se fizer, eu estarei pronta para te defender. Vou pedir cinco minutos de troca de feitiços sem perder a amizade. Sem falar que isso é entre você e a Gina, mais ninguém. Deixe Rony curtir a noite e depois, quando você estiver sóbrio e com a cabeça no lugar, converse com ele.
— Você é perfeita, sabe disso, né? — ele disse, me fazendo sorrir mais uma vez. Esperava que ele se lembrasse do meu conselho enquanto implorava à Merlin para que Rony não visse o amigo nesse estado, porque sabia que a conversa seria adiantada e as chances de serem boas eram mínimas — Agora vá aproveitar mais a festa. A noite é uma criança e precisamos nos divertir.
Harry beijou minha bochecha e se levantou rapidamente, saindo antes que eu pudesse sequer piscar. Torcia para que ele não fizesse alguma merda de verdade, mas como estava lotado demais para que eu saísse procurando o menino pelo mar de gente, desisti e decidi seguir suas palavras.
Estava pronta para me divertir.
E teria me levantado, caso não tivesse virado a cabeça em direção ao bar e visto Malfoy me encarando. Todos os meninos da festa, sem exceção, vieram de roupa social. Draco sempre utilizava as melhores marcas e seu corpo magro parecia satisfatoriamente definitivo sob as roupas, o que me fez tomar mais um gole da garrafinha em meu colo.
Céus, ele estava realmente atraente.
Seus olhos pareciam magnéticos, sempre me atraindo. Eu não conseguia desviar, por mais que eu dissesse a mim mesma que queria fazê-lo. Depois de todos esses anos, eu tinha basicamente decorado o modo como Malfoy me encarava. O jeito como sua íris escurecia toda vez que brigávamos, me fazendo saber que ele estava prestes a me empurrar escada abaixo. Ou quando ele queria me provocar e o cinza clareava.
E então Draco me encarou.
Mas, diferente de qualquer outra situação que eu já tenha vivido ao seu lado, eu não saberia identificar o que seus olhos me diziam dessa vez — e toda a conversa que tive com , onde me gabei por ser boa em interpretar os outros, foi por água abaixo. A única coisa que eu conseguia afirmar, sem sombras de dúvidas, era que aquele olhar parecia me queimar. E não como se ele quisesse que eu estivesse literalmente pegando fogo.
— Que bom que te encontrei! — A voz de Cedrico me despertou, me fazendo perceber tudo o que estava pensando e suspirar.
Fixei meu olhar nele enquanto ele se sentava ao meu lado, tentando ignorar o que quer que tivesse acontecido nos últimos segundos. Ou minutos. Eu estava tão envolvida que não saberia dizer.
— Oi, Ced! — o cumprimentei. — Está curtindo a festa?
— Aham, tá sensacional.
Cedrico sorriu, ou tentou, porque me pareceu mais uma careta do que um sorriso em si.
— Então por que está com essa cara? — perguntei, achando graça.
— Eu esqueço que você sempre percebe essas coisas — ele resmungou e eu ri. Era verdade. — A Cho está puta comigo porque, de acordo com ela, eu não percebo quando as pessoas dão em cima de mim — Cedrico bufou e eu o olhei, prendendo a risada. Era engraçado vê-lo emburrado assim.
— E o que aconteceu para ela dizer isso?
— Uma garota da Sonserina veio conversar comigo para dizer que ficaria feliz se eu fosse o escolhido para representar Hogwarts no Torneio Tribruxo — explicou, dando de ombros e fazendo aspas com os dedos ao completar a frase. — Mas aparentemente ela “estava se jogando em cima de mim e somente um idiota não perceberia isso”.
A última frase saiu tão baixa que aproximei meu rosto do dele para escutá-lo melhor e eu ri alto ao escutar a imitação de Cedrico de sua namorada. Mas, sendo sincera, tinha certeza que ela estava certa sobre a situação. Homens nunca percebem esse tipo de coisa, o que era ridículo.
— Assim fica difícil de te defender, Diggory. Provavelmente ela estava mesmo dando em cima de você, Cho nunca fez o tipo ciumenta.
Eu continuaria falando, mas algo atrás de Cedrico me chamou atenção e vi que, os olhos de Draco, ao contrário do que imaginei, não deixaram de me encarar por momento algum, mesmo após ter começado a conversar com Cedrico.
Não sabia se era impressão ou simplesmente a cor das luzes refletindo seu rosto, mas afirmaria sem sombra de dúvida que seu olhar estava escurecido. Nossos olhos se encontraram e ele pareceu arquear a sobrancelha, tentando adivinhar o que estávamos fazendo.
Hm…
Também sabia que deveria ignorar que meu corpo parecia arder em chamas, sendo provocada somente pela forma como estava sendo observada. Era, para dizer o mínimo, patético como meu estômago se revirava dentro de mim, me proporcionando coisas que jamais imaginei sentir.
Mas não poderia mentir. Gostei de ter essa atenção do Malfoy sobre mim, pesando a atmosfera ao meu redor. Praticamente uma provocação silenciosa.
Eu estava eufórica somente por pensar.
Draco tomou o conteúdo do copo que segurava em um só gole, sem quebrar nosso contato visual. De certa forma, parecia pronto para me devorar, por mais louco que isso soasse.
Foi então, naquele momento, que eu entendi o que aquele olhar significava.
Mas será? Ciúmes não fazia bem o estilo do Malfoy…
— E o que eu faço? — Ouvi Diggory perguntar e voltei minha atenção para a nossa conversa. Por um segundo, tinha esquecido de sua existência. Na verdade, para ser justa, me deixei levar tanto nesse curto período que esqueci que existia qualquer pessoa que não fosse nós dois, fato que fez meu estômago se revirar porque isso não era comum de acontecer.
— Conversa com ela! — respondi francamente, como se fosse óbvio e me aproximei um pouco mais dele, colocando minha mão em seu ombro como sinal de apoio.
Claro que, além disso, minha intenção era provocar Draco um pouco mais. Apenas para conferir se minha teoria estava certa, é óbvio. Mas não posso negar o fato de que fiquei muito satisfeita ao vê-lo contrair o maxilar ao me observar fazendo isso.
— E seria bom se fizesse um esforço para perceber esses detalhes. Não é muito difícil e você sabe muito bem disso. É aprender a analisar os tipos de sorrisos, o jeito como a pessoa se posiciona perto de você — continuei. — Não é na frase em si que você precisa prestar atenção, mas no modo no qual ela foi dita. Também não precisa ser grosseiro, mas tenta cortar o assunto logo de cara.
Cedrico assentiu, colocando a mão no queixo enquanto eu seguia dando mais algumas dicas básicas. Ele parecia prestar atenção e achei fofo como ele disse estar dedicado a entender melhor porque não queria que sua garota ficasse magoada novamente com ele por algo que poderia ter sido evitado.
Assim que terminamos, ele me agradeceu diversas vezes e disse que iria buscar por Cho, mas não sem antes se despedir com um beijo em minha bochecha.
No momento que ele saiu, voltei a encarar aquele ponto que tinha decorado tão bem somente para perceber que Draco estava com a cara fechada e os braços cruzados, os olhos tão presos em mim como se fosse um gavião observando sua presa.
E me permiti arder em chamas somente por estar sendo observada nessa intensidade.

POV’s
Uma hora havia se passado desde que chegamos e eu mal poderia resumir tudo que aconteceu.
Primeiro, os meninos da Durmstrang eram, no geral, terrivelmente gatos. Um pouco secos e sem expressar tanta emoção, mas era questão de tempo até que eles bebessem mais e ficassem à vontade — o que, sinceramente, não demorou muito. Alguns até vieram conversar comigo, perguntando se eu estava solteira. Como já estava enrolada demais com Adrian e Fred, me proibi mentalmente de arranjar mais problemas.
E, por falar em bebidas e problemas, lá estava eu no bar, pronta para encher o meu copo pela terceira vez. Até sentir uma mão em minha cintura que me fez arquear um pouco as costas e derrubar a cabeça para trás, tentando ver.
Visualizei Adrian com o canto do olho e sorri contido, voltando a concentrar minha atenção para a região do bar. Ninguém que eu conversava frequentemente estava lá e os que estavam, não prestavam atenção em nós.
Sua mão deslizou um pouco pelo meu vestido e me virei completamente, encarando-o fixamente enquanto sorria e prendendo o lábio inferior entre meus dentes no momento que meus olhos percorreram seu corpo. Adrian já era lindo, mas estava simplesmente gostoso demais com a camisa social verde escuro, levemente aberta.
Ele piscou para mim, seus olhos me devorando silenciosamente e a pressão na minha lateral esquerda aumentando. Seu rosto se aproximou do meu e eu precisei respirar fundo para não agarrá-lo naquele momento.
Por que eu não podia mesmo? Meu cérebro emitia alertas que eu tentava ignorar, talvez devido ao álcool no meu sangue. Só que ele era gato demais e beijava bem demais para que eu não devesse fazê-lo.
E eu teria feito isso. Teria grudado nossos lábios e saído de lá correndo para um lugar mais escondido para darmos início à noite. Se não fosse uma pequena mancha ruiva que consegui enxergar atrás dele.
Cerrando os olhos, tentei ver melhor. Hermione apareceu no meu campo de visão. A garota olhava para o lado, conversando com alguém que não pude identificar, e subitamente me senti recobrando a consciência.
Empurrando delicadamente Adrian para o lado, retribuí sua piscada anterior e saí andando em direção a minha amiga, deixando-o com nada além do próprio copo nas mãos.
— Você não vai acreditar! — Mione disse assim que me viu, sentando-se em um dos sofás e me puxando pela mão para fazer o mesmo. Suas bochechas estavam rosadas e seus cabelos um pouco mais bagunçados que antes.
— Não vai me dizer que… — comecei a falar, vendo seu sorriso abrir, confirmando antes mesmo de eu terminar.
Depois de um bom tempo que perdi todas as minhas amigas de vista, encontrei Hermione e Viktor Krum conversando. Eles pareceram ter se dado bem desde o início e aparentemente conversaram bastante, mas depois acabaram indo para um canto e não os vi mais, então soube exatamente o que rolou.
— Nós ficamos — ela confessou, suspirando. — O Krum é bem legal e, apesar de eu não entender cem por cento por conta do sotaque, gostei muito de conversar com ele.
— E ele é bem bonito também — completei e ela concordou plenamente. — Finalmente você deu chance para alguém! Estou feliz por você — falei, sendo sincera. Mione era linda e, apesar de vários caras darem em cima dela, ela nunca se abriu o suficiente para isso, de fato, acontecer. — E como foi?
Incrível! — Outro suspiro. Eu ri. — As coisas foram… intensas, sabe?
— Com certeza, amiga — respondi, dando uma piscadinha, a fazendo rir alto. Ela sabia dos meus passeios noturnos. — Agora é sua vez de aproveitar a madrugada de Hogwarts enquanto ele está aqui no castelo.
— Vou precisar da sua ajuda para sair e não ser pega. Não quero que os meninos saibam ainda — falou, olhando Krum de longe, que pegava mais um copo de whisky de fogo. — Céus, nunca pensei que falaria isso! Eu me sinto tão errada!
Eu gargalhei, concordando que também nunca pensei que escutaria essas palavras saindo de sua boca. Sem dúvidas, ela era a mais tranquila de nós e morria de medo de ser pega — o que era completamente compreensível, porque às vezes perdíamos total a noção do que era sensato ou não.
Viktor se aproximou de nós e me cumprimentou, em seguida sussurrou algo no ouvido de Mione e ela me olhou, completamente vermelha, dizendo que me encontrava depois. Apenas respondi para se divertirem.
Dei graças a Merlin que Rony não os havia visto. Apesar de nunca tomar nenhuma atitude em relação a ela, o conheço bem o suficiente e sei exatamente como ele ficaria simplesmente insuportável ao descobrir que ela ficou com alguém — principalmente se ele for o seu maior ídolo, como Viktor Krum.
Olhei ao meu redor, procurando alguém conhecido e, como falhei completamente, me levantei e comecei a andar totalmente sem rumo, para que eu, pelo menos, me afastasse de Pucey, que eu sabia que ainda estava perto o suficiente. E, por Merlin, não tinha como ficar ali e ignorá-lo.
Ele sabia dos meus receios e compreendia, não parecendo se importar que nossa relação fosse totalmente escondida — apesar de já ter deixado claro que, por ele, contaríamos para todos. Mas isso não evitava os olhares que ele me lançava, nem as pequenas provocações que fazia, responsáveis por me fazer quase perder o controle do meu corpo incontáveis vezes.
Para ser sincera, pensei que estaria pronta para assumir algo com Pucey esse ano, mas então aquela bala apareceu e trouxe todos os meus sentimentos por Fred que estavam guardados à tona e, céus, eu não poderia simplesmente entrar em um relacionamento com Adrian sem saber o que poderia acontecer com o meu melhor amigo.
Eu ficaria louca me envolvendo com Adrian e Fred ao mesmo tempo e não estava fazendo nada para resolver isso. Patética, eu sei.
Avistei Harry conversando com Gina, mas parecia estar rolando algo ali e achei melhor não interferir. Tomei mais um longo gole do líquido gelado, sentindo um calor familiar em meu corpo, sinal claro de que a bebida estava fazendo efeito.
Segui meu caminho normalmente. Ou pelo menos tentei. Quando estava passando pelo canto direito do salão, um cantinho mais escuro e escondido que eu sabia ter um sofá, percebi que ele já estava ocupado.
Estava prestes a dar a volta quando a pessoa sentada se levantou. Estava escuro demais e por isso mal enxerguei quem era, então fui surpreendida quando Fred caminhou em minha direção, sorrindo.
Prendi a respiração ao vê-lo com os fios ruivos bagunçados e o caminho de pele que os cinco botões abertos de sua camisa preta mostravam. Eu não saberia explicar como Fred Weasley de social me afetava.
— Pensei que não te encontraria mais — falei, vendo-o com o corpo próximo do meu.
— Acho difícil não encontrarmos o caminho um para o outro — ele respondeu, me fazendo sorrir e concordar. Quase fechei os olhos quando o senti traçar um lento caminho pelo meu braço com sua mão, começando pelo pulso e terminando no ombro. Seu corpo curvou até seus lábios encostarem em minha pele com um beijo leve. — Sabe, , eu tenho pensado mais que o recomendado em ontem à noite — Fred confidenciou em meu ouvido, sua voz sobressaindo a música alta.
— Eu também — admiti, encarando seus lábios.
E, droga, como eu havia pensado.
Ele sorriu ao perceber e me puxou pela mão, sentando-se novamente no sofá. Sua mão soltou a minha para me puxar levemente pela cintura, de modo que eu ficasse sentada de lado em seu colo. Após afastar os fios de cabelo que caíram no meu rosto, Fred segurou meu queixo e me observou profundamente com aquele mesmo olhar da noite passada.
Só eu sabia como aquele maldito olhar me fazia estremecer, mas não sabia que seus lábios teriam um poder ainda maior sobre o meu corpo até eles se aproximaram do meu ouvido e sussurrarem.
— Você é linda pra cacete todos os dias, mas hoje está espetacular. Eu só consigo pensar em como passaria horas te admirando.
— Por mais que eu aprecie isso, eu tenho certeza que teríamos coisas mais interessantes para fazer com essas horas — falei, passando meu dedo indicador levemente por seu abdômen, coberto pela camisa social preta. — Isso incluiria meu prazer em tirar essa sua blusa que, apesar de te deixar ainda mais atraente, sei que ficaria bem melhor no chão do quarto.
— Por Merlin, você não sabe o efeito que causa em mim…
Sorri. Nenhum dos copos de vodka que bebi hoje me fez sentir tão aquecida por dentro quanto ouvir essa frase. Não sei se a coragem que criei foi da bebida ou simplesmente da tamanha vontade que eu estava em prová-lo novamente, mas aproximei nossos lábios e não perdi tempo em beijá-lo. Ele gemeu contra minha boca, puxando o lábio inferior entre os dentes e me apertando com mais força.
Passei os dedos entre seus fios de cabelo, nossas bocas sem desgrudar por um minuto sequer. Eu poderia permanecer ali por horas, com Fred me beijando de forma tão intensa que em menos de um minuto me encontrava em pura luxúria. Descendo a mão que estava em meu rosto, o ruivo apertou minha coxa e eu suspirei, mordiscando seu pescoço.
— Merda, — ele resmungou. — Se a gente continuar…
— Eu sei — falei, mordendo os lábios. Tenho certeza que Fred estava tentando ir um pouco devagar comigo e eu o entendia completamente por isso, mas, se eu estava prestes a arrancar suas roupas aqui mesmo sem pudor algum, por que deixar de fazer o que queremos? — Quer ir pro meu quarto? — sussurrei em seu ouvido.
Fred paralisou por alguns segundos e me encarou com tanto desejo, que eu torci para que aquela sala mágica ouvisse meus pedidos e nos deixasse sozinhos. Ele concordou com um sorriso, puxando meu lábio inferior e me levantou imediatamente. Seus dedos se entrelaçaram nos meus e então começamos a andar em direção à saída.
Passamos por uma multidão de gente e estávamos quase fora quando Gina, que estava conversando com algumas meninas da Lufa-Lufa, nos viu. Suspirei, quase desesperada e prestes a fingir que não a tinha visto.
O que teria dado certo, se Gina não tivesse corrido e agarrado meu braço.
— Finalmente te encontrei! Posso roubar ela por um tempinho? — ela encarou Fred, que levantou uma das sobrancelhas.
— E se minha resposta for não? — ele respondeu, sem muita paciência.
— Não ligo, perguntei por educação. Vou ignorar e fingir que foi sim. — Ri com sua fala. Gina era impossível.
Olhei para Fred e dei um sorriso triste, que mais parecia uma careta, mostrando que não teria jeito. Ele conhecia bem a irmã que tinha e sabia disso melhor que eu. Infelizmente não mudava o fato de que a minha amiga tinha acabado de estragar completamente os planos que tínhamos.
— Depois conversamos — falei para ele, que concordou com a cabeça, definitivamente decepcionado. Eu estava também. — Vamos?
Gina cruzou seu braço ao meu e, com um sorriso, me guiou para o centro da sala.
— Te vi com Harry agora pouco e achei melhor não atrapalhar — expliquei, basicamente gritando perto de seu ouvido, já que a música ali estava mais alta. — E o Dino?
— Ah, eu estou fugindo um pouco dele hoje — ela respondeu, fazendo o mesmo que eu para que eu conseguisse escutar. — Ele quer ficar colado em mim, e eu quero aproveitar. Mas acho que o deixei nervoso por conversar tanto tempo com Harry.
— É, bom… Vendo de fora, parecia mesmo estar rolando algo quando vi vocês dois — falei, a vendo ficar com as bochechas vermelhas. Não culpo Dino por ter essa impressão.
— Não aconteceu nada… Mas também acho que, se ele tentasse, eu não iria impedir — Gina disse, sincera.
Oh, essa noite realmente estava dando o que falar.
— Depois você se preocupa com isso, aproveita a festa e deixa rolar o que tiver que rolar. — Ela apenas concordou com a cabeça, parecendo mais leve. — Agora vem, vamos dançar! — Mudei de assunto, a puxando para o meio das pessoas.
Escutando a música, me deixei levar, balançando meu corpo conforme as batidas ao lado de Gina. Apesar disso, minha cabeça estava focada completamente no que poderia estar acontecendo nesse exato momento em meu dormitório entre Fred e eu e, por isso, suspirei. Céus, eu realmente gostaria de estar com ele agora.
Abri a boca para perguntar se ela não queria me acompanhar para pegar mais uma bebida quando franzi os olhos ao perceber uma movimentação diferente na sala.
As pessoas pareciam estar se juntando ao redor de algo, formando um círculo. Estranhei e, por um momento, pensei que havia alguma confusão acontecendo. Será que alguém havia brigado? Isso, com certeza, estragaria a festa.
— Vamos jogar? — Gina perguntou, animada, olhando para o mesmo lugar que eu.
— Jogar o quê?
— Verdade ou desafio! — ela respondeu, como se fosse óbvio.
Sorri imediatamente, concordando. Não havia nada que eu gostasse mais em festas do que jogos assim.
Em uma das minhas visitas aos trouxas, acabei descobrindo que eles tinham um jogo bem parecido. Todos os participantes precisavam sentar em uma roda e girar a garrafa. Quando ela parasse de girar, o bico apontaria quem perguntaria, e o fundo, quem responderia.
Mas, no nosso caso, levamos um pouquinho mais a sério e as regras eram mais rígidas. Se o bruxo escolhesse Verdade, então teria que tomar um shot de vodka com uma gota de veritaserum — nada menos que a famosa poção da verdade que foi cuidadosamente furtada do armário do Snape — antes de responder. Em contrapartida, se a pessoa escolhesse Desafio, então as coisas não mudariam tanto. Ele deveria cumprir, a menos que prefira tomar o número de shots correspondente a quantidade de jogadores.
A partir do momento em que me sentei na roda e observei ao redor, soube que a pessoa que optasse por não realizar o Desafio teria que ser, para dizer o mínimo, insana. Sairia daqui e entraria direto em um coma alcóolico.
— Você vai jogar?! — Ron perguntou para Gina, que respirou fundo. — Você não estava ficando com Dino?
— Estou e vou jogar do mesmo jeito. Algum problema? — ela perguntou sem paciência, o encarando séria. Rony apenas balançou a cabeça negativamente, provavelmente prevendo que sairia uma briga dali caso falasse mais alguma coisa.
Ignorando o clima que ficou entre os irmãos, passei os olhos rapidamente pela roda para ver quem participaria.
, Harry, Ron, Fred, George, Adrian, Dino, Lino, Ana, Katie, Simas, Draco, Blaise, Pansy, Cedrico, Neville, Alicia, Angie, Susan, Luna e Cho eram apenas algumas das pessoas que eu conhecia por ali. Praticamente todas as pessoas de Durmstrang e Beauxbatons também estavam sentadas, enquanto o resto dos alunos apenas assistiam.
A garrafa começou a girar no meio da roda e a ansiedade — tanto dos participantes quanto dos observadores — era palpável.
Estava alheia ao primeiro desafio e nem mesmo entendi quem o havia feito, mas ainda sim abri a boca em completo choque ao ver o que iria acontecer, e praticamente todos que encaravam Luna e Neville pareciam sentir o mesmo.
Luna olhou para Neville com um sorriso tranquilo, enquanto ele demonstrava estar, ao mesmo tempo, feliz e completamente envergonhado por ser o centro das atenções. Então ela atravessou a roda e se abaixou na frente dele, colocando as mãos em cada lado de seu rosto vermelho e o beijando rapidamente. Nada além de um selinho.
Após Luna se sentar em seu lugar novamente, a garrafa voltou a girar automaticamente e parou em Adrian e Pansy.
Prestei atenção assim que ela fez sua escolha, curiosa para saber qual desafio ele pensaria para a menina.
— Como estamos só começando… — ele brincou com a garota, sorrindo sapeca logo em seguida. — Te desafio a beijar a pessoa que você mais tem interesse daqui. Independentemente se ela está ou não nessa roda.
No mesmo segundo, olhei para com os olhos levemente arregalados, pensando que, obviamente, Pansy beijaria Draco Malfoy. Minha irmã cerrou brevemente os olhos, depois deu de ombros, mas eu sabia que ela não estava tão tranquila com a situação quanto deixava transparecer. Primeiro porque começou a mexer nas unhas, o que era um grande tique quando estava nervosa. E também porque eu não era burra.
Tinha percebido os olhares furtivos que ele lançava para ela, principalmente quando ela se sentou na roda ao lado de Harry e eles começaram a conversar. Sabia o que aquele brilho nos olhos dele significava. E não era como se não tivesse o encarado algumas vezes desde que começamos a jogar também.
Até mesmo Draco parecia saber que ele seria o escolhido — e não estava muito confortável com isso, pela expressão que fez discretamente.
Mas, ao contrário de qualquer coisa que eu pudesse, algum dia, imaginar, Pansy virou-se para o lado, onde sua melhor amiga, Daphne Greengrass, estava sentada e a beijou. E a garota loira correspondeu quase que no mesmo instante, subindo suas mãos para o seu rosto e o aprofundando mais.
Encarei Adrian, que aparentemente não fazia ideia de que aquilo poderia acontecer e, em seguida, Blaise, que estava igual — assim como qualquer outra pessoa naquele ambiente. Todos estavam em choque e o breve silêncio apenas confirmou isso.
Bom, isso por pelo menos três segundos, logo depois as pessoas aplaudiam e gritavam como se as duas tivessem acabado de se pedir em namoro — e admito que eu estava no meio, assobiando alto. Nunca imaginei que as duas sentiam algo mais do que amizade, mas tenho certeza que formariam um belo casal se, de fato, quisessem isso.
Então me lembrei de que Blaise gostava de Pansy e imaginei que Adrian havia feito esse desafio para que eles tivessem uma chance, tadinho. Senti empatia por Zabini no mesmo momento. Torcia para que ele encontrasse alguém interessante também, não deve ser fácil não ser notado assim por alguém que goste.
Quando o momento passou, a garrafa girou novamente.
— Alicia, verdade ou desafio? — Foi Ana Abbott quem perguntou. Elas sempre andam juntas pela escola, então tinha certeza de que seria algo mais tranquilo.
— Verdade!
Tinha.
Assim que Alicia tomou o shot de vodka, Ana perguntou.
— É verdade que você deu para o meu, agora, ex-namorado? — Arregalei os olhos diante da raiva presente em sua voz.
— Ex?! — Ernesto Macmillan, seu agora ex-namorado, gritou, indignado.
Mas que porra estava acontecendo?!
Encarei, novamente, todos da roda e um silêncio constrangedor reinava, enquanto Alicia Spinnet se contorcia ao tentar não responder a pergunta. Seu rosto estava vermelho, demonstrando que ela queimava de vergonha
— V-verdade — Alicia falou, finalmente, arregalando os olhos logo em seguida e tampando a boca com as duas mãos.
— Eu confiei em vocês e, ainda sim, tiveram coragem de fazer isso?! É óbvio que é ex! — Ana exclamou, furiosa. Sua voz subiu em alguns oitavos e ela bufou furiosa. As lágrimas se acumulando no canto de seus olhos eram perceptíveis. — Não quero nunca mais falar com nenhum dos dois!
E, dito isso, ela se levantou como um furacão e saiu da sala, com Susan Bones atrás, tentando acompanhar seu ritmo. Alicia começou a chorar e, junto com Angelina e Katie Bell, foram para o banheiro e, por fim, Ernie também saiu, provavelmente indo atrás de Ana e Susan — o que, sendo sincera, era uma ideia extremamente burra, dado o momento.
— Bom… — George disse, chamando a atenção de todos. — Vamos continuar?
Gritos de aprovação surgiram por todos os lados e então a garrafa voltou a girar.
— Gina do meu coração. Verdade ou Desafio? — Lilá, que eu não havia percebido que também jogava até agora, perguntou.
— Desafio — minha amiga respondeu.
— Hm… Te desafio a girar a garrafa e beijar em quem ela apontar.
Gina logo concordou e então girou o objeto no centro da roda. Apesar de parecer confiante e tranquila, eu sabia que ela estava nervosa por dentro, afinal, aquele desafio não era simplesmente sorte. A garrafa foi enfeitiçada para apontar para quem a pessoa que a girou mais quer ficar, caso seja recíproco.
E a garrafa estava tão indecisa quanto ela.
Primeiro parou em Dino. Depois girou mais um pouco e caiu em Harry. Então, fez isso mais duas vezes e, por fim, quando parou no menino de óculos, a ouvi Gina xingar, baixinho.
Oh, oh.
Meu olhar cruzou com o de , que não parecia nem um pouco surpresa, e ambas sabíamos o que a outra pensava. Rony estava pálido, mas ele era o de menos naquela roda. Ao redor, Dino observava completamente indignado.
Harry levantou, cambaleando levemente, e foi até metade da roda, onde Gina estava aguardando. Segurando-a pela cintura, ele aproximou seus rostos. A ruiva não perdeu tempo e encostou seus lábios.
A plateia gritou, batendo palmas e assobiando pela atitude. Eu estava sorrindo discretamente, contente que meus amigos tinham, finalmente, admitido essa vontade para si mesmos.
Enquanto Rony arregalava os olhos ao ver a irmã e o melhor amigo se beijando, Dino se levantou, totalmente transtornado, e saiu da sala, deixando todos que antes aplaudiam em, mais uma vez, um silêncio constrangedor. Não pude deixar de me sentir um tanto quanto mal por ele.
Gina, ao perceber a mudança no clima, se afastou de Harry e pareceu notar o que aconteceu, então refez o caminho de Dino e saiu atrás dele. Harry, por outro lado, parecia ainda em choque. Ele levou a mão aos lábios e se levantou, puxando-o pela mão até que se sentasse novamente, trocando de lugar com o garoto e ficando entre ele e Luna. Olhei rapidamente para Rony, que parecia surpreso, mas não falou nada sobre — o que eu agradeci mentalmente porque qualquer coisinha poderia causar uma briga ainda maior.
Acho que ele estava processando o ocorrido ainda, afinal, estávamos falando de sua irmã beijando seu melhor amigo.
Estava prestando atenção em Harry e quase não percebi que a garrafa girava novamente, escolhendo o próximo participante.
— Fred Weasley! — Marcos Flint falou, parecendo animado. Deus, isso não poderia ser bom. — Verdade ou desafio?
É óbvio que, conhecendo Fred, ele não poderia ter escolhido nada além de…
Desafio! — ele falou, com um sorriso confiante nos lábios.
— Eu te desafio a… — Flint parou por alguns segundos, encarando todos da roda. Não pensei que ele seria “legal” o suficiente para fazê-lo beijar alguém, mas ainda assim não deixei de torcer para que não fosse isso. — … competir com o Sven quem consegue tomar mais shots em menos tempo!
É, isso também não era muito melhor.
Encarei Sven e percebi na hora quem ganharia. Conhecia Fred bem o suficiente para saber que ele aguentaria os shots, já que seu limite é alto para isso, mas ainda assim tinha certeza de que o norueguês não facilitaria as coisas.
Quer dizer, eles estavam mil vezes mais acostumados com bebidas mais fortes, né?
— Você topa, Sven? — Fred perguntou para o aluno de Durmstrang. Para a infelicidade de Fred, o garoto musculoso aceitou facilmente, sorrindo tranquilo.
Antes que meu melhor amigo pudesse ir para o centro da roda, onde dois copos de shot que se encheriam magicamente assim que o conteúdo fosse ingerido o esperavam, me aproximei.
— Fred, você…
— Vou perder, é claro! — ele falou, me olhando com uma expressão divertida. — Mas eu não poderia deixar de aceitar um desafio feito pelo imbecil do Marcos Flint, poderia?
Balancei a cabeça negativamente.
— Odeio o fato de você ser tão competitivo — suspirei com pesar. — E odeio ainda mais Marcos Flint ser um imbecil por me fazer torcer para que você consiga ir bem nesse desafio!
— Sei que provavelmente vou ficar completamente louco depois disso e, consequentemente, estragar nossa noite e… — Fred lamuriou, suspirando enquanto parecia um tanto quanto chateado.
— Ainda vamos ter muitas delas, lembra? — interrompi e ele sorriu, me encarando tão intensamente que tive a impressão de não ter mais ninguém na sala além de nós. Seus olhos sempre eram um perigo.
— Céus, eu poderia te levar agora mesmo para o quarto e ignorar completamente esse desafio idiota — ele suspirou, parecendo considerar a ideia. De fato, eu não acharia exatamente ruim, porém, sei que teríamos tempo suficiente para isso.
E, além do mais, gostava de quando as coisas surgiam naturalmente. Com o fogo entre nós já aceso, seria difícil que apagássemos logo.
— Mas agora você vai até lá ganhar do Sven! Sei que consegue — incentivei, com os braços para cima, tentando passar o máximo de apoio que eu poderia na hora.
— É isso, eu vou ganhar do Sven! — E se virou com uma confiança absurda, apesar de sabermos da verdade, seguindo seu caminho para o centro daquela competição.

***

Ele não ganhou.
Ou, pelo menos, todos pensaram que não.
Eu conhecia os gêmeos Weasley tempo demais para saber quando estavam aprontando alguma. Foi só assim que consegui ver o exato momento em que George murmurou um feitiço contra Sven — que estava a dois shots de vantagem de Fred. No mesmo segundo, o norueguês abaixou o copo, com os olhos arregalados, e correu para o banheiro mais próximo.
Tinha certeza que mais ninguém havia percebido a pequena artimanha e obviamente não comentaria nada sobre isso. Fiquei feliz por ver G tomando a iniciativa disso, ou eu teria que fazê-lo e não era exatamente o que queria.
Corri em direção a Fred e o abracei, enquanto gritos e aplausos surgiam de cada canto daquela sala, como se aquilo fosse uma final de quadribol. Afinal, uma vitória de qualquer aluno de Hogwarts contra algum de outra escola era uma vitória coletiva e merecia ser comemorada como tal.
As pessoas começaram a se acalmar aos poucos, voltando a prestar atenção na garrafa. Eu, por outro lado, não poderia nem se quisesse. Fred estava bêbado e eu sabia que, nos próximos minutos, isso só pioraria mais e mais, portanto avisei ao George que o levaria para o quarto.
— Só estou concordando em deixar a festa porque é com você — Fred sussurrou em meu ouvido, me fazendo rir com a tentativa de sedução. As palavras começavam a se embolar e eu não conseguia levá-lo a sério.
— Vamos, eu te ajudo a chegar até lá — George falou, guiando o irmão para fora da Sala Precisa. O agradeci enquanto andávamos pelos corredores escuros do castelo. Por mais que eu tivesse bastante força no braço, não seria capaz de levar o garoto sozinha.
Fred, por sorte, estava quieto. Apenas seguia os comandos de George, enquanto segurava minha mão direita — que foi um gesto mais para não perdê-lo por ali, mas que pareceu deixá-lo tranquilo.
Chegamos em seu dormitório com facilidade e eu tive a certeza que não deveria ser tão fácil assim. Sempre compartilhei uma teoria com os meus melhores amigos de que os professores sabiam, sim, das nossas festas e que preferiam ignorá-las para não terem mais dor de cabeça.
Sério, como conseguem ignorar milhares de alunos passando pelos corredores de madrugada? Principalmente com alguns tão bêbados que gritavam no caminho. Fazia muito sentido e era completamente viável na minha cabeça.
George me ajudou a trocar seu irmão. O que foi bem rápido, na verdade, porque o deixamos apenas com uma bermuda de moletom — que era seu pijama de sempre.
— Acho que é isso, quer que eu fique aqui para você voltar para a festa? — G me perguntou, após deitar o irmão na cama.
— Não precisa, eu fico por aqui. A festa nem vai ter tanta graça sem ele lá e eu não ficaria em paz em deixá-lo aqui. Pode ir, se eu precisar de alguma coisa encontro alguma forma de te chamar — respondi, dando um sorriso tranquilizador. Era verdade. Eu sabia que George estava preocupado com o irmão, mas não queria que ele perdesse a festa que tanto ansiou.
— Tudo bem então. Tem certeza que…
— Tenho certeza absoluta — confirmei imediatamente, o fazendo sorrir. George me deu um beijo na bochecha e saiu do quarto, fechando a porta e me deixando sozinha com Fred.
— Quer dizer que hoje você vai cuidar de mim… — ouvi sua voz rouca resmungar.
— Sempre tem que ter uma primeira vez para tudo, não é? Normalmente é você quem faz isso por mim — respondi, indo até o seu baú e tirando de lá uma de suas camisetas.
Antes de tirar meu vestido para me trocar, encarei Fred e vi que ele havia ficado em silêncio. Imaginei que ele havia dormido, então continuei o que pretendia fazer desde o começo e me troquei ali mesmo, colocando sua blusa que, em mim, ficava enorme — mas super confortável.
— Eu queria muito não estar bêbado agora para lembrar desse momento com clareza amanhã. — Ri alto ao ouvi-lo falar, olhando para trás, sentindo a ansiedade de imaginar ele me observando com aquela carinha de bobo.
— Eu pensei que você estava dormindo! — disse, me deitando ao seu lado. Ele me encarou com um sorriso infantil.
— E eu queria apreciar a cena com calma, então não quis falar para não perder o foco — ele sussurrou a resposta, como se estivesse me confidenciando um segredo. Mordi os lábios para evitar um sorriso.
Ao contrário do que eu imaginava, Fred não estava dando trabalho absurdo e querendo fazer tudo no meio da madrugada, como descobrir novos talentos — o que, acredite, ele já tentou fazer e nos levou a escutá-lo tentar tocar guitarra às 4h da manhã.
— Se eu te contar uma coisa, promete que não vai espalhar? — ele perguntou pensativo, e pude ver o contorno dos seus lábios fazendo biquinho.
— Eu prometo — respondi, levando uma de minhas mãos até seus cabelos e mexendo suavemente, em um carinho que eu sei que ele gostava. Ele suspirou, se inclinando mais ainda em direção à minha mão.
— Eu gosto de você, tchau.
E sua respiração pesada denunciou que ele tinha apagado, me deixando com o coração batendo rapidamente contra o peito ao ouvir essa confidência.

POV’s
A garrafa, totalmente alheia à situação de Fred — que saiu da sala completamente bêbado, e com razão, começou a girar pela sétima vez, caindo em um aluno da Durmstrang e outra da Beauxbatons. Estavam todos se divertindo e eu sabia que alguns tinham se dado muito bem.
Harry vivia dizendo que os trouxas assistiam muito novelas mexicanas e usavam isso como uma expressão para tudo que fosse dramático demais. Então posso dizer com razão que aquela noite era digna de uma novela mexicana, mas ao contrário do que pensei, ela ainda não havia terminado.
. Verdade ou Desafio? — Colby Tristan, da Corvinal, perguntou e, só então, eu percebi que o fundo da garrafa realmente estava virado em minha direção.
Para ser sincera, não queria provar nada com a poção da verdade hoje e, além disso, Colby nem me conhecia direito. Ele não conseguiria fazer algum desafio super comprometedor, né?
— Desafio — sorri, esperando pela instrução. Esperava realmente não precisar desistir e tomar vinte shots para compensar. Meu estômago era fraco demais e não queria passar a noite em claro vomitando.
— Desafio você a… — percebi o exato momento em que seus olhos encontraram Draco e um sorriso surgiu automaticamente em seus lábios. — Passar sete minutos no paraíso com o Draco Malfoy.
Os alunos que estavam na roda — e os que pararam para assistir — se silenciaram, intercalando olhares entre mim e o outro escolhido, surpresos. Todos tinham o conhecimento de que éramos rivais. De que nos odiávamos e voaríamos na garganta um do outro assim que possível.
Inclusive, certamente esse era o motivo para que Colby tenha nos escolhido para isso.
E, sabendo que todas as nossas interações… amigáveis, por assim dizer, tinham ocorrido longe das vistas de qualquer outra pessoa, eu realmente entendia o choque.
Céus, a partir de agora, eu odiava Colby Tristan.
Ou gostaria de acreditar que sim. Merda, eu nem mesmo conseguia sentir raiva por esse desafio! Quem eu queria enganar?
Encarei Draco e, assim que nossos olhares se encontraram, soube imediatamente que eu, ao contrário do que queria sentir, estava animada para o que quer que fosse acontecer dentro daquela sala.
Porque essa era a verdade que eu tanto lutei para aceitar.
Ignorando completamente a pressão, me levantei na hora, ouvindo as pessoas ofegarem.
— Ok, estamos esperando o quê? — perguntei, fingindo estar plena. Virei nos calcanhares, sem ouvir mais que os sussurros dos participantes.
E se eu fosse sincera, a maioria estava alterada o suficiente para não raciocinar o fato de que nós dois tínhamos essa atração — e sem contar que ninguém saberia o que, de fato, aconteceu, então…
Enfim, ao observar a parede, uma porta magicamente surgiu ali. A Sala Precisa era o melhor lugar desse castelo, com certeza. Andei até lá confiantemente, sentindo Draco atrás de mim.
Fechamos a porta da sala. Era mais um cubículo, na verdade, como se fosse uma despensa vazia, fracamente iluminada por um castiçal na parede.
Minha visão focou na figura loira a minha frente, usando aquela maldita camisa social que não deveria cair tão bem em ninguém assim. Sério, deveria ser contra as normas se destacar dessa forma.
Seus olhos eram como campos magnéticos, atraindo os meus em sua direção. Escurecidos como eu tinha visto poucas vezes, não pareciam querer me largar. Se eu esticasse a mão, conseguiria sentir a tensão no ar.
Senti um arrepio percorrer cada parte de minha espinha observando a forma como ele me encarava, como se eu estivesse completamente nua. Malfoy tinha me olhado atenciosamente durante o piquenique que fizemos, mas tinha algo a mais.
Talvez a ideia de passar sete minutos em um armário minúsculo com ele fosse demais para mim. Todo mundo sabia que esse era o maior pretexto para que você ficasse com a pessoa que queria.
E eu não conseguia tirar da cabeça a cena dele me observando mais cedo, o olhar duro, demonstrando incômodo, sobre mim e Cedrico conversando. Meu erro, naquele segundo, foi descer um pouco mais meus olhos, focando em seus lábios avermelhados que pareciam extremamente macios.
Draco arfou, soltando todo o ar preso em seu pulmão.
— Céus… Me fala que você quer isso tanto quanto eu — disse com a voz abafada, praticamente suplicando para que respondesse afirmativamente.
Mordi o lábio inferior, sentindo uma pressão em meu ventre ao constatar que aquilo realmente aconteceria. Concordei levemente com a cabeça, expondo meus desejos mais profundos.
No momento seguinte, os lábios de Draco estavam sobre os meus, pressionando-os com destreza. Sua língua conheceu a minha, deslizando pela minha boca e roubando o pouco de sanidade que me restava. Malfoy levou a mão direita até minha cintura e pressionou com força suficiente para me fazer arfar. O cetim era um tecido gelado, mas eu não poderia me sentir mais quente.
Eu havia imaginado esse momento tantas vezes, mas não fazia jus, nem um por cento, ao que estava acontecendo. Calma era uma palavra desconhecida. Quando senti o gosto de Draco em minha boca, despertamos tão exorbitantemente que não conseguia pensar em nada mais. O contato de nossas línguas era tão melhor que qualquer um que provei antes.
Nossos corpos estavam grudados, tão próximos que eu mal saberia dizer onde o meu terminava e o dele começava. Puxei seus fios lisos com meus dedos, pressionando sua boca cada vez mais contra a minha.
Mordisquei seu pescoço, sentindo suas mãos correrem pelo meu corpo, sem afrouxar o toque. Eu poderia estar em carne viva que nem ao menos conseguiria perceber. Não quando o beijo parecia tão perfeito. Draco chupou minha língua quando voltou a me beijar e eu gemi, tremendo.
Seu membro duro pressionado contra minha barriga me atiçava mais ainda e sabia que bastava que Malfoy deslizasse um pouco mais sua mão por minha bunda para que, chegando mais embaixo, percebesse o quão ensopada minha calcinha estava.
Gostava do fato de que ele não aquietava, jamais descansando suas mãos. Elas conheceram quase todas as partes do meu corpo à mostra e demoraram um pouco mais em meus seios — e pude ouvir Draco praticamente rosnar enquanto encaixava, mais ainda, seu corpo ao meu.
Sinceramente, eu poderia fundir tranquilamente com a parede nesse momento que não poderia me importar menos.
Não quando eu não conseguia parar de pensar em como éramos excelentes nisso.
Tempo! — Colby gritou do outro lado da porta, e gemi de insatisfação, não querendo que esse momento acabasse.
Me afastei, ofegante, enquanto encarava Draco, que ainda estava de olhos fechados. Quando abriu, mordeu seu lábio e se afastou um pouco. Penteei meu cabelo com os dedos, tentando desemaranhar os nós que ele fez, enquanto o observava arrumar o seu. Por fim, ele ajeitou sua roupa, apesar da camisa estar completamente amassada.
— Pronto? — perguntei, indicando a porta com a cabeça.
— Na verdade, tá faltando uma última coisa — ele disse, franzindo a testa, enquanto pensava.
— O quê?
Sem me responder, suas mãos me puxaram pela nuca e Draco me beijou novamente, mordiscando meu lábio inferior quando seus lábios se descolaram dos meus.
Agora sim. — Ele piscou, abrindo a porta e voltando para a festa.


Continua...



Nota das autoras: Oie lindinhxs, como vão?
Finalmente, a tão aguardada festa chegou e esperamos muuuuito que tenhamos superado as expectativas de vocês! Foi muito bom ver a curiosidade de vocês nos comentários, é incrível saber que vocês tão bem inteiradas com a fic. <3
Bom, mas vamos aos acontecimentos desse capítulo enorme: primeiramente, pois é gente, rolou o primeiro beijo da Triz com o Draco!!! E, falando a verdade, que beijo heinnn... Olha, a tensão entre esses dois é tudo pra gente.
Assim como o Fred bêbado (e sóbrio rs) sendo a coisa mais fofa do mundo, não tem como aguentar um homem desses! Sem condição, sério. Deu até enjoo de imaginar ele bebendo essa quantidade de shots, mas o importante é que ganhou do imbecil do Marcos Flint - e os fins justificam os meios¿? kkkkkkkk a Arya como babá deve ter agradecido né, um amor desses nem tem como reclamar.
Para finalizar a nota, gostaríamos de reforçar que estamos muito contentes com todo o carinho que estamos recebendo de vocês. Obrigada por sempre incentivarem muito, tanto aqui quanto no nosso instagram.
Elena, você é perfeita e já sabe disso, mas nunca vão faltar palavras pra te agradecer, maravilhosa!!!
Se quiserem acompanhar as atualizações dessa, e de outras fanfics, siga nossa conta no insta e nossa planilha!
Até o próximo capítulo,
Gi e Ju.
Xx.

Nota da beta: Se não fosse humilhação pública, eu soltaria aqui as caras e bocas que eu fiz com esse capítulo, porque não tem como expressar minha reação a tudo isso!!
Juro que meu coração parou quando achei que o Fred ia vê-la com o Adrian, ainda bem que vocês ainda vão fazer a gente sofrer com esse conflito KKKKKK
Sério, essa roda de verdade e desafio... SEI NEM EXPRESSAR! Gina e Harry, talaricagem, Fred bêbado... MAS ESSE FINAL!!!
Eu tive que parar de ler pra respirar fundo de tanto que eu surtei HAHAHAHAHAH MEU DEUS, EU ESTOU VIVENDO POR ESSE CASAL!
Enfim, gargalhei, morri do coração, morri de tesão, tudo e mais um pouco! Sou muito cadelinha de vocês e dessa fic!!! <3

Outras Fanfics:
5SOS:
Against Them All
One Direction:
Fallen Angel


Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.

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