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Enviado em: 10/01/2021

Capítulo Único

secou algumas lágrimas que insistiam em escorrer enquanto saía da sala de aula apressadamente. Com a visão embaçada, acabou trombando em alguém.
— O que foi, ? — a senhorita Park, uma das professoras novatas, se agachou para ficar da altura da garotinha. — Aconteceu alguma coisa?
— Todo mundo me odeia, professora. — ela disse pausadamente, embolando-se com os próprios soluços.
— Por que está dizendo uma coisa dessas? — a mulher sentiu o coração se apertar ao ver tampar os olhos com suas duas mãozinhas, tentando esconder o choro, enquanto soluçava.
Senhorita Park pegou a aluna pelo tronco e segurou-a em seus braços até que parasse de chorar, acariciando suas costas levemente, em uma tentativa de acalmá-la. fungou mais algumas vezes depois das lágrimas pararem de escorrer.
— Pode me contar o que aconteceu? — a professora perguntou com a voz aveludada, tentando não assustar a criança em seu colo. suspirou, com o olhar em seus dedos, que se entrelaçavam. Respirou fundo antes de contar:
— O Sung roubou meus doces hoje. Ele sempre faz isso. — sua voz saiu meio abafada por conta do choro recente, mas a garotinha se concentrou para não permitir que as lágrimas escorressem. — O Sung é malvado comigo, professora. E ninguém fica do meu lado.
— Ele é mau com você? O que o Sung geralmente faz? — a mulher manteve a voz serena, mesmo que seus nervos pulsassem de nervoso ao ver sua aluna chorando por conta de um garoto com aquela idade.
Quer dizer, tinha apenas quatro anos. Não precisava conhecer o lado trágico dos homens ainda. Era cedo demais, não?
— Ele rouba o meu lanche, meus brinquedos e meus doces. E me chama de gorda também. — a garotinha levantou o rosto em direção da professora. — Uma vez, eu caí durante o recreio, e ele começou a rir de mim. Os outros também riram.
— Todos os seus amigos riram de você? — a mulher arregalou os olhos, assustada com os próprios alunos.
— Eles não são meus amigos. Eu não tenho nenhum amigo, senhorita Park. — a menininha mordeu o interior da bochecha, chateada.
A professora parou de mexer as pernas, que ela nem mesmo havia percebido que se moviam de frente para trás, como se dançasse, e fixou o olhar no rosto de . Seus olhos eram tristes demais para uma criança de quatro anos, pareciam acinzentados e perdidos.
Com o coração dando um solavanco e uma lembrança passando diante de seus olhos, a senhorita Park sorriu levemente antes de deixar no chão. Continuou agachada, refletindo sobre o que faria em seguida.
— Eu quero te dar um presente. — falou calma, encarando os olhinhos inchados de , com uma das mãos segurando as pequenas dela. — Eu já volto, me espere aqui.
Com os passos ligeiros, correu até a sala dos professores, de onde havia acabado de sair, e pegou um objeto de dentro de sua bolsa.
— Minha professora me deu quando eu era pequena, que nem você. — tornou a falar assim que se agachou em frente à garotinha.
— Uma boneca? — apertou os olhos, estranhando.
— Um boneco de pano. — a senhorita Park sorriu. — Ele sempre foi o meu melhor amigo, acho que você vai gostar dele também. É um presente.
torceu a boca, sem saber o que dizer sobre o que havia ganhado. Não que ela tivesse desgostado, era apenas... aleatório?
— Guarde-o na sua mochila e brinque com ele quando chegar na sua casa. Ele é um bom amigo, pode acreditar. — a professora pediu, esperançosa de que se importasse com o boneco. Oras, dar aquele presente a alguém significava um passo muito grande na vida dela, por mais estranho que isso soasse.
A garotinha levantou os ombros, agradecendo a lembrancinha, e prometeu cuidar do boneco de pano.
— Qual o nome dele?
— Hm... — a senhorita Park sorriu novamente, com a lembrança de ter feito aquela mesma pergunta para sua professora, anos antes. — Você vai descobrir.

Mesmo que coisas novas me deem calafrios
E que eu não tenha um nome
No meu coração, eu continuarei correndo

My Page – NCT Dream


encostou a porta do quarto assim que terminou o jantar. Sua mãe havia a mandado dormir logo, e por isso já estava de pijama. Como em um passe de mágica, ela se lembrou do que sua professora tinha dito na escola.
Guarde-o na mochila e brinque com ele quando chegar em casa. Ele é um bom amigo, pode acreditar.
A garotinha andou até sua mochila, que estava encostada na parede ao lado do guarda-roupas, e pegou o boneco de pano. Observou o quão fofo ele era: pouco maior que suas mãozinhas, tinha um rosto costurado com linha preta sobre um tecido branco. Ele usava uma roupinha azul e parecia ser preenchido de espuma, já que era macio como suas pelúcias.
— Oi, boneco. — sorriu para o brinquedo em suas mãos. — A senhorita Park é muito legal e disse que eu podia ficar com você. É verdade que você vai ser meu melhor amigo?
— Se você for legal, posso ser seu amigo. — uma voz infantil soou do canto do quarto.
Assustada, se virou para o garoto. Ele vestia uma blusa azul, assim como o boneco, e tinha uma expressão cansada no rosto.
— Quem é você?
— Esse boneco aí. — ele acenou com a cabeça em direção ao brinquedo.
permanecia ajoelhada, parada no canto do cômodo, com o boneco em mãos, e espantada. Tinha um estranho dentro de seu quarto.
O garotinho suspirou, percebendo que a menina não diria mais nada. Descruzou os braços e ergueu os ombros, tentando passar uma imagem amigável:
— Meu nome é , tenho cinco anos.
Ele é um bom amigo, pode acreditar.
As palavras da senhorita Park soavam dentro da sua cabeça. Bem, se a professora tinha dito que o boneco era um bom amigo, então ela podia confiar, certo?
— Por que você está aqui?
— Para ser o seu melhor amigo. — ele sorriu, fechando os olhos. — Quero ser seu amigo, não posso?
— Po-pode... — ela disse baixinho, olhando para o brinquedo em mãos, novamente. — Ninguém nunca quis ser meu amigo.
— Sério? — os olhos dele se arregalaram, alarmado. — Por quê? Você é chata?
— Eu não sou chata. — inflou as bochechas.
— Então por que ninguém nunca quis ser seu amigo? — andou devagar até se aproximar da menina, que não recuou, nem mostrou nenhum tipo de receio ao vê-lo se aproximando.
— As pessoas só não gostam de mim mesmo. — mordeu uma das bochechas, ainda olhando para as próprias mãos. — E você tem vários amigos?
negou com a cabeça, com seus lábios formando um biquinho.
— Não, você é minha única amiga. — ele se sentou ao lado de , que apenas assentiu. — Somos amigos, certo?
— Sim. — ela sorriu sem mostrar os dentes. — Aliás, meu nome é , mas pode me chamar de .
O garotinho apenas concordou, voltando a perguntar sobre como era na escola de e o que ela fazia por lá.
— Você nunca estudou? — ela perguntou depois de contar como sua professora cuidava dela e dos outros treze alunos de sua sala.
— Não, nunca fui para a escola.
— Que sorte. — resmungou, torcendo a boca. — Não tem nada legal por lá, só a senhorita Park.
Ambos ficaram em silêncio por algum tempo, apenas encarando as próprias mãos, sem saber o que fazer.
? Já foi dormir? — puderam escutar a mãe da garota gritar do corredor.
— Já estou indo, mãe! — respondeu, se levantando e limpando a poeira de seu pijama. Dirigiu o olhar para , que permanecia sentado. — Onde você vai dormir?
— Não se preocupe, a gente se vê amanhã, ! — ele sorriu. — Boa noite.
— Hm, boa noite, . — ela tentou corresponder ao sorriso, mas ainda não se sentia totalmente à vontade com o garoto.
Assim como apareceu, sumiu no ar de repente. sentiu os pelinhos do corpo se arrepiarem, mas deu de ombros, já que o menino havia sido gentil com ela.
— Acho que o é um bom amigo. — disse, olhando-se no espelho. Correu para o canto onde havia largado o boneco. — Obrigada por ter conversado comigo hoje.
Sem esperar nenhuma resposta, ela levou o boneco de pano até sua cômoda ao lado da cama e deixou-o encostado no abajur, deitando-se logo em seguida.
— Até amanhã, . — despediu-se com um sorrisinho, enquanto fechava os olhos vagarosamente, logo caindo no sono.
Do canto do quarto, o garotinho observou a menina dormir por poucos minutos, até que sentiu os próprios olhos pesarem.
— Você é uma boa amiga, .

Quando eu te vejo, como criança
Essas pequenas perguntas continuam aparecendo
Continuo querendo te conhecer um pouco mais

Knock On – NCT 127


Sete anos depois…
Tentando controlar a respiração, soltava o ar pela boca, tentando acalmar as batidas aceleradas de seu coração. Soltou as abas da mochila e passou as mãos sobre o rosto, enxugando todo e qualquer resquício de lágrimas.
Abriu a porta do quarto, e, como sempre, estava sentado em sua cama, com as mãos entrelaçadas sobre os joelhos, apenas esperando pela volta da melhor amiga.
— Como foi a aula hoje? — perguntou com um sorriso gentil.
sentiu o coração fraquejar e as lágrimas voltaram a escorrer, sem que ela tivesse a chance de impedi-las. Fechou a porta atrás de si e, largando a mochila no canto do quarto, correu para os braços do melhor amigo.
— Ninguém gosta de mim, . — sua voz falhava por conta do choro. — Eu só queria ter um amigo.
— Ei, você tem a mim! Eu sou o melhor amigo que alguém poderia ter, não entendi seu ponto. — ele dramatizou, arrancando um sorriso leve da menina.
— Mas você não pode ir para a escola comigo. — secou as próprias lágrimas com as mãos. — Eu fico sozinha lá.
O menino nada disse, apenas assentiu com a cabeça enquanto acariciava o braço da amiga, que havia desfeito o abraço há alguns segundos.
— Sinto falta da senhorita Park.
— Ela deveria ser muito importante para você.
— Você foi um presente que ela me deu, literalmente. — soltou uma risadinha pelo nariz, arrancando um sorriso do outro.
Ficaram em silêncio por um tempo. refletia em como sua vida andava; a sua única amiga, a professora Park, havia se mudado de cidade e os seus colegas de classe voltaram a insultá-la por não estar no padrão. Seu próprio pai falava que ela precisava emagrecer.
... — o chamou, fazendo com que o garoto virasse o rosto em sua direção.
— O que foi?
— Você me acha gorda?
piscou os olhos uma, duas, três vezes, como se processasse o que acabara de ouvir.
— Você se acha gorda? — perguntou enquanto jogava os braços para trás e apoiava-se na cama.
— Eu... Não sei.
— Se você está confortável com o seu corpo, ninguém pode te julgar por isso. Eu te acho muito bonita, .
A garota sentiu as bochechas se enrubescerem, junto de um sorriso de canto, tímida.
— Obrigada. — agradeceu em um fio de voz, fazendo com que abrisse ainda mais o sorriso.
— É a verdade.
se sentiu acolhida naquele momento. Poderia passar a eternidade conversando com , seu melhor amigo, e não podia imaginar sua vida sem ele.

Dois anos depois…
e conversavam sobre o que fariam naquelas férias, já que a semana de provas da garota havia, finalmente, acabado.
— Quer maratonar quais séries dessa vez?
— Eu não sei, qual a gente ainda não assistiu? — ela respondeu, deitando-se na cama, ao lado do amigo.
— Acho que já vimos todas. — fez um leve biquinho.
soltou uma risada ao notar o bico de , mas parou ao notar o quanto ele parecia... bonito?
Algo estranho acendeu no coração da garota, fazendo-a mexer a cabeça de um lado para o outro, como se pudesse espantar aquele pensamento.
— ... de novo?
— Hã? — a menina demorou a perceber que o amigo a chamava. — O que foi?
— Um filme de Natal, pode ser?
— Pode, pode... — pôs o filme na televisão enquanto ia desligar as luzes.
Uma hora de filme e a garota nem mesmo se lembrava sobre o que era. A única coisa que se passava em sua mente era:
, meu melhor amigo e apenas isso. Eu não posso me apaixonar por ele, certo? Ele é apenas meu amigo…
? — o garoto virou o rosto em direção à garota, que ainda o encarava. — Como foi na escola?
— Hm... — ela tentou raciocinar qualquer coisa. — Acho que estou criando amigos novos.
— Que bom. — sorriu sincero, logo voltando sua atenção para o filme.
sentiu a respiração voltar, mesmo que ela nem mesmo tivesse percebido que a estava prendendo. Seu coração, desesperado, parecia questionar se não estava se apaixonando pelo seu melhor amigo.
Não, ela não estava apaixonada.
Né?
— Tive um devaneio. — revelou assim que o filme acabou.
— Chora.
— Fiquei pensando se eu estava apaixonada por você. — ela disse com a voz baixa, sentindo as bochechas corarem.
piscou algumas vezes antes de sentar-se de frente à amiga:
— Você quis me beijar?
— QUÊ? — os olhos da garota se arregalaram com a tranquilidade com que o amigo falava sobre aquilo.
— Você disse que pensou se estava apaixonada por mim. — tombou a cabeça para o lado, confuso. — Então você quis me beijar?
— Eu fiquei confusa...
Ambos ficaram quietos, sem ao menos conseguirem se olhar nos olhos.
— Sabe, , eu gosto muito de você. — o garoto começou a confessar, fazendo com que a garota olhasse para o próprio colo. — Digo, você é minha melhor amiga. Eu não me imagino sem sua amizade.
A menina sorriu, sentindo o rosto esquentar totalmente.
— É, eu não me imagino sem você também. — ambos sorriram. — Eu te amo, amigo.
— Também te amo, .
Talvez era isso. Amizade também é amor, certo?

Se a juventude é o motivo
Então o melhor combustível é a paixão

Dream Launch – WayV


Dois anos depois…
— Tchau, . Até amanhã! — Xiao declarou assim que deixou a amiga em casa, e seguiu caminho para a sua própria.
Com um simples aceno, se despediu do amigo. Do seu novo melhor amigo. A garota sorriu ao pensar no quanto se orgulharia dela por ter criado uma amizade.
— Amigoooooo! — ela exclamou, alegremente, assim que chegou no quarto.
Mas ele estava vazio.
? — largou a mochila no lugar de sempre. — Sem brincadeiras, amigo, cadê você?
A menina olhou embaixo da cama, dentro do armário, no banheiro, no jardim, na sala de jantar e estar, na cozinha, mas não o encontrava em lugar algum
— Mãe! Pai! — chamou-os enquanto sentia os olhos marejarem. Os mais velhos se aproximaram da filha, que tinha a voz embargada. — Ca-cadê o ?
Os dois se entreolharam.
— Quem é , meu bem? — seu pai pronunciou-se, fazendo com que um desespero batesse no coração da garota.
Em um surto, desvencilhou-se dos pais e correu de volta ao seu quarto, fechando a porta com força e arrancando o boneco de pano da gaveta.
! — ela gritava com o brinquedo. — Eu não gostei da brincadeira, cadê você?
Choro.
Lágrimas.
Tristeza.
— Eu queria te contar que finalmente fiz um amigo. — ela desabafou enquanto sentava-se na cama com o boneco entre os dedos. — Por que você não quer falar comigo? Está com ciúmes? Eu prometo que o Xiao é legal!
Silêncio.
... Por favor... — não aguentou mais segurar as lágrimas e permitiu-as que escorressem em seu rosto, caminhando todo o caminho das bochechas até o queixo, quando caíam no colchão.

Do canto do quarto, um garotinho observava tudo.
— Me desculpe, . — deu uma fungada. — Eu queria que você ainda pudesse me ver.
limpou o rosto molhado de lágrimas e respirou fundo. Ele sabia que seria assim, ele sempre soube.
Assim que sua mundana criar uma verdadeira amizade, ela não poderá mais te ver.
Suspirando, o menino se aproximou da garota, que ainda fungava levemente enquanto pegava no sono, e acariciou seus cabelos.
— Você sempre foi o meu amor, . — confessou baixo, mesmo sabendo que era impossível dela ouvir. — Me perdoe por isso. Eu te amo, amiga.
Agachou-se e deixou um selar na bochecha da garota já adormecida.
— Um dia, você irá me esquecer, e eu não passarei de uma boa lembrança da sua infância. — ele sorriu, imaginando quando virasse uma adulta. — Mas eu vou te amar, para sempre. Isso nunca vai mudar.
Mais uma lágrima escorreu.
— Eu espero que você fique bem, minha princesa. Eu te amo hoje e sempre.

Ela não precisa mais de mim
Eu anseio ainda mais por você
Mesmo que essa realidade seja dura
Eu amo você

No Longer – NCT 127


Fim



Nota da autora: Olá meus anjos! Como vocês estão?
Uncommon Love será uma série de fanfics com amores diferenciados, talvez com alguns choros? Sim, mas também com várias situações diferentes para a gente sonhar bem alto mesmo hahahah espero que vocês gostem <3
No Longer surgiu de um surtinho meu após ver a tradução dessa música (que é linda, por sinal), mas espero que dê para pegar a essência. Tem uma fala de um dorama que eu gosto muito, que é “Percebi que amizade é apenas outro nome para o amor” e eu queria retratar isso de alguma forma nessa fic hahah
Enfim, já enrolei demais, mas realmente espero que vocês tenham gostado de No Longer e continuem acompanhando a série! Um cheiro pra vocês, anjos <3
Ps: o dorama é High School – Love On.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
Caso não esteja vendo a caixinha de comentários, você pode acessá-la por aqui.


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