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Última atualização: 30/04/2021

INCIPIT PROLOGUS

No início, eram todos coletores e andadores, vindos de algum lugar que não sabiam pronunciar o nome, nem apontar sua direção. Saíram de casa para explorar novas terras, à procura de novos alimentos para os tempos de seca e de carestia sem olhar para trás. Naquela época, o conceito civilização ainda não nascera, e uma tribo era definida por pouco mais do que alguns seres bípedes juntos com a capacidade de segurar pedaços de madeira e pedras. Eles acampavam nas margens de lagos e de leitos arenosos de rios e, quando esses estavam longe demais no horizonte, deitavam-se em uma campina sob as estrelas.
A roda, contudo, nunca para de girar, e o senhor tempo faz tudo mudar.
O degelo chegou e, com isso, os oceanos subiram. Faixas de terras que antes eram conectadas, agora eram enormes placas de terras isoladas, como ilhas, que se tornaram inacessíveis e misteriosas umas às outras. Hominídeos foram separados e obrigados a se desenvolverem de acordo com a sua região. Alguns nunca se assentaram, outros criaram cidades e impérios.
Entretanto, a roda nunca para de girar, e a humanidade precisou se adaptar.
O fogo foi considerado sua mais importante invenção e, graças a ele, aqueles primeiros seres foram capazes de melhorar os alimentos, protegerem-se do frio e dos animais. O fogo uniu na mesma intensidade que destruiu. As chamas vermelhas da morte, tornaram-se amarelas, azuis e, quando desvendaram alguns dos segredos da magia, elas ganharam tons de verde e de roxo. E mesmo a chama branca, que arde pelo recomeço e que é vista somente no céu escuro de tempos em tempos, foi incapaz de lembrá-los a olhar para os cosmos.
Mas eles não deixaram de ser observados, e a roda seguiu seu curso com o dragão sempre atento: esperando, analisando, ponderando quando deveria agir. Se deveria agir. E, quando um ciclo chegava ao seu fim, a figura mítica jazia morta em forma de serpente após morder a própria cauda, para, então, renascer soberano outra vez – porque a roda do senhor do tempo nunca para. Ou, pelo menos, não deveria parar.


PRIMIS

Visões

55 d.C., norte do Mar da Galileia, Palestina

Ele estava decidido a chegar a Damasco antes do entardecer daquele dia. Embora tivesse levantado com os primeiros raios solares sobre as colinas desérticas e caminhasse com o Rio Jordão à sua esquerda como companhia, seus servos haviam se demorado a desmontar o acampamento e a prosseguir viagem, atrasando todo o seu cronograma de pregação.
Irritado e impaciente, Paulo chamou por Khalil, seu mais antigo e leal servo, para que seguissem caminho enquanto o resto da caravana eventualmente os alcançaria. Em silêncio, os homens caminhavam apreciando a imensidão que o deserto oferecia, e, quando o sol chegou ao seu ápice, um vento forte tomou conta dos grãos de areia, levantando-os a ponto de interromper a jornada e esconder a rota que deveriam continuar seguindo.
- Por que me persegues?
Paulo, com o rosto coberto pela burca e tentando se proteger da areia, buscou pela voz, olhando primeiramente para o companheiro. Entretanto, Khalil não estava em lugar algum, e, quando os ventos suavizaram e os grãos de areia tornaram a cair ao chão, o sol escureceu de repente e dois pontos de luz aproximavam-se lentamente no horizonte.
- Paulo, por que me persegues?
Temendo por sua vida, Paulo desembainhou a cimitarra, em uma tentativa falha de proteger-se de quem lhe chamava. Atônito e apavorado, ele viu os dois pontos de luzes transformarem-se em dois homens, cobertos apenas com túnicas simples de algodão. O primeiro, de pele marcada pelo sol, cabelos e barba negra, possuía olhos que, embora castanhos, pareciam irradiar paz e sabedoria. Já o segundo homem, mais austero e de uma pele cor de leite – algo completamente incomum para Paulo, tinha cabelos dourados tão compridos quanto uma espada longa vinda dos povos do sol poente e olhos como duas raras safiras. Caminhavam juntos, como velhos conhecidos e transmitiam tranquilidade. Naquele momento, observando os dois homens aproximarem-se de si, a cimitarra escorregou de sua mão e Paulo deixou-se cair de joelhos na areia, sentindo-se tomado por respeito e admiração.
A poucos passos de onde o viajante estava, os dois homens pararam para observá-lo.
- Quem sóis vós? – perguntou Paulo, com a voz tremeluzente, numa indecisão entre medo e reverencia.
- Sou Jesus de Nazaré, que tu persegues. – respondeu o homem de cabelo castanho. – E este é meu amigo, Bahamut.
Perturbado, Paulo esquadrinhou outra vez as aparições, desconfiando do que estava vendo. Por um momento, tentou lembrar-se do desjejum, se tinha se alimentado ou se hidratado de acordo, ou do momento em que tinha acordado. Afinal, ele poderia estar sofrendo uma alucinação ou ainda estar dormindo em sua tenda. Jesus de Nazaré fora executado anos atrás e, mesmo que houvesse boatos sobre sua ressurreição, ele tinha se elevado aos céus, não? E, quanto ao segundo homem, cuja aparência e nome nunca foram visto e/ou ouvido. Sim, Paulo poderia ainda estar desacordado.
- Você está acordado, Paulo, e nós não somos frutos de sua mente. – disse o homem estrangeiro, recolhendo a espada curva caída e estendendo seu cabo para seu dono.
Hesitante, Paulo segurou o cabo da cimitarra, sentindo-se um pouco mais seguro por tê-la em mãos.
- O que querem de mim?
- Viemos lhe passar uma mensagem. – respondeu Jesus.
O tempo pareceu ter congelado naquele momento, e, embora Paulo tivesse plena convicção de que haviam passado longas horas conversando, o sol, a pico, manteve-se escuro, e só tornou a brilhar outra vez quando os dois homens desapareceram sem deixar pegadas na areia. Durante três dias e três noites, Paulo evitou seguir viagem pois sua visão escurecera, e viu-se perdido em negritude e confusão. Temporariamente cego, ele não comeu e nem dormiu, concentrado nas palavras que tinha recebido e buscando alternativas para realizar o dever que tinham lhe passado. Conseguiu enxergar novamente quando, enfim, compreendeu seu caminho.
Não mais perseguiria Cristo e seus ensinamentos. A partir daquele encontro, ele pregaria suas palavras para que a profecia de Bahamut não viesse a se concretizar.

65 d.C., Roma

Pedro, gostaria de ter conseguido lhe entregar esta carta em mãos, mas minhas pregações ao amor de Cristo perturbaram esferas da nossa sociedade que estão presas aos falsos deuses e pagarei com minha vida por ter trilhado este caminho. Contentei-me ao saber que conseguiste fugir de Jerusalém e não tivestes o mesmo destino de Tiago. Regozijo-me em paz porque ainda vives e podes seguir o caminho de nosso Salvador.
Não tenho mais para onde fugir, o Sinédrio encurralou-me e são poucos em quem confio para lhe enviar esta mensagem. Bem sabeis que fui agraciado com a presença de Jesus há alguns anos e, junto a ele, o que ninguém sabe, havia outra entidade de tamanha importância. Não me foi explicado se era o próprio Deus, mas era alguém por quem nosso Messias detinha respeito e confiança. Este homem apresentou-se como Bahamut, Senhor do Tempo, e trouxe consigo uma profecia.
Tomarei a liberdade de transcrever-te suas exatas palavras, já que elas ressoam em minha mente nos dias e nas noites: “Paulo, já ouvistes falar da Roda do Tempo? Ela não é algo que vocês, mortais, possam ver ou alcançar. Ela é tudo o que já foi e tudo o que irá ser. É o passado, o presente e o futuro. É o fim e o começo. E o destino dos homens está eternamente vinculado a ela. A Roda obedece apenas a mim e, todas as vezes que uma era da humanidade termina, preciso renascer junto com a espécie de vocês. Há milhares de anos, os seres humanos vêm nascendo, prosperando e se autodestruindo, e um novo ciclo recomeça. Contudo, Paulo, estou cansado, pois a cada reviver, enfraqueço-me e minha irmã, a Rainha das Sombras, fortalece-se. Todas as vezes que a Roda precisa ser reiniciada, evidencia-se um fracasso da humanidade e novos mortos são enviados ao exército de Tiamat. Vocês, Paulo, não irão sobreviver a um novo ciclo, e, por isso, Jesus foi enviado. Por meio dele, ensinamentos, que jamais foram pregados antes, foram passados, e é através deles que a humanidade poderá ter esperança de não perecer para sempre. Não posso mais lutar sozinho contra as forças da minha irmã, quando preciso consertar os erros da sua espécie. Procurem pelo caminho da Luz e talvez vocês tenham uma chance”.
Vês agora, Pedro, por que me preocupo?
Em minhas viagens procurei por registros sobre a Roda do Tempo, Bahamut e Tiamat, mas apenas inscrições de um povo da Babilônia já inexistente ilustraram desenhos que fizessem referência ao que me foi dito. Contudo, soube de pistas promissoras no Egito. Procuras por Bahamut e Tiamat lá. Quanto ao caminho da Luz, não me resta dúvidas de que se trata do nosso percurso cristão. Tentei trazer o maior contingente de pessoas para a cristandade, mas meu tempo chegou ao fim. Então passo-te a responsabilidade, pois se Deus é por nós, quem será contra nós?
Viva, Pedro, e espalhe nossas sagradas palavras, pois eu lutei o bom combate, terminei a carreira e mantive a fé.

Seu fiel e eterno amigo,
Paulo

111 d.C., Roma

O lento envelhecimento do Homem Santo era algo que chamava atenção de Benedictus desde sua primeira infância. Lembrava-se de comparecer anualmente ao Domingo de Todos os Santos acompanhado dos pais. Juntos iam para a praça em frente à Basílica de Constantino e lá ele reparava que a pessoa mais importante do local mantinha a mesma aparência ano após ano. Quando questionava os pais sobre esse curioso fato, era repreendido firmemente, pois os fiéis jamais deveriam questionar o poder Divino e a quem ele era ofertado.
Hoje, quase aos cinquenta anos, encarava o próprio reflexo em um vitral da mesma basílica que sonhava conhecer por dentro, vendo um jovem de menos de trinta anos olhá-lo de volta. Não era mais apenas Benedictus, o garoto curioso com as perguntas proibidas e desejo por respostas, mas, sim, Bento I, o atual Papa da Santa Igreja Católica. E, como Homem Santo que recebe a Graça Divina, ele compreendia um pouco mais dos poderes que lhe foram atribuídos ao assumir o manto.
- Vossa Santidade. – um seminarista, de vestes escuras e com o terço em madeira pendurado no pescoço, aproximou-se encurvado, em sinal de respeito.
- Sem cerimônias, jovem Marcos. Encontraste o que lhe pedi?
Ajeitando a postura, Marcos, um rapaz de dezessete anos, olhou com respeito e admiração ao homem que não envelhecia.
- Sim, Vossa Santidade. – respondeu ele. – A carta de São Paulo a São Pedro não foi tão difícil de encontrar nos antigos registros. Contudo, as entidades que Vossa Santíssimo solicitou-me foram encontradas apenas em aramaico. Demorei um tempo, mas consegui traduzi-las.
- E onde estão?
- Achei prudente deixá-los trancados em seu escritório, Vossa Excelência.
O Papa assentiu, aprovando a atitude do rapaz antes de seguir caminho para seus aposentos.
- Marcos, você compartilhou com algum de seus irmãos a tarefa que lhe incubei e o que descobriu? – Bento I parou de caminhar para olhar uma última vez ao seminarista.
- Não, Santíssimo.
- Ótimo, você é um bom rapaz. Tenho uma última tarefa para você antes de deixá-lo prosseguir seus estudos.
- Sim, Vossa Senhoria?
- Procure por Vigilius imediatamente, ele irá lhe explicar tudo.

⏳⏳⏳

As palavras saíam automaticamente de sua boca enquanto ministrava a missa daquele entardecer e realizava um sermão em homenagem à morte súbita do seminarista Marcos. Sua mente, contudo, estava presa no que o jovem falecido tinha descoberto. Seria um desastre para o mundo se as palavras dos Santos fossem descobertas e, ainda pior, se os fiéis descobrissem a existência de outras duas entidades tão poderosas e manipuladoras quanto o próprio Único Deus.
De fato, esse segredo deveria ser guardado e conhecido apenas por pessoas que poderiam ser capazes de impedir tal desastre. Bahamut e Tiamat deveriam ser apagados da história e jamais mencionados outra vez. A partir desse momento, Bento I depositaria a missão de esconder a verdade sobre a vinda de Cristo e as Eras da Humanidade nas mãos de irmãos que, assim como ele, fariam de tudo para impedir o declínio dos homens e a ascensão das trevas.

1.234 d.C., Roma

A luz proveniente das escadarias de mármore era a única fonte natural de iluminação do ambiente. Nos arcos de pedra que separavam o saguão em câmaras menores, tochas estavam penduradas e, a partir delas, sombras criavam-se e moviam-se em sincronia, criando uma atmosfera fantasmagórica e ameaçadora. Apesar de vários, os passos eram silenciosos e o único som que preenchia as catacumbas da Basílica de Constantino era o cântico rítmico, baixo e incompreensível para aqueles que não possuíam educação privilegiada.
Na câmara central, uma espécie de depressão central era alimentada por uma chama verde e, ao redor dela, homens, de mantos pretos com cruzes prateadas bordadas cuidadosamente na região do dorso e com capuzes negros cobrindo-lhes as frontes, dispunham-se em roda, segurando crucifixos de prata com rubis encrustados e entoando o cântico secreto da Ordem. Eram doze ao total, mas apenas a quatro seria concebida a Visão quando o canto chegasse ao fim e o feitiço fosse, enfim, concluído.

O mundo era o mesmo, mas a realidade era outra. 765 anos à frente, os quatro cardiais recebiam imagens de uma sociedade que não mais recebia suas ordens, que se autogovernava e se autodestruía. A palavra de Deus não era mais governada pelas duas Igrejas Cristãs – a Apostólica Romana e a Ortodoxa. Existiria uma terceira, a Protestante, e depois, sua adaptação, a Anglicana. Nessa realidade, viram grandes navios cruzarem os mares e pessoas de peles escuras e pardas, diferente daquelas do continente amaldiçoado, serem governantes de civilizações escondidas entre florestas e montanhas. Vislumbraram a ascensão e a queda de grandes impérios, luzes artificiais capazes de transformar a noite em dia, dispositivos de fogo que matavam à distância e em grande quantidade. Suas veias gelaram ao reconhecerem uma bruxaria que, em forma de gás ou de nuvem de cogumelo, ceifavam centenas de milhares de vida uma única vez. E então, eles reconheceram as grandes construções e os prédios que se erguiam ao redor delas; compreenderam que com o desenvolvimento das cidades, a doença se espalharia, assim como as ideias pagãs e os pecados. E, como castigo, Deus enviaria seus Quatro Cavaleiros para punir a humanidade.
Após imagens de pássaros de metal voando no céu, um homem especial pisando na Lua e homens de burca virando bomba e matando crianças no Cairo, os quatro senhores foram agraciados com uma última imagem: duas jovens idênticas, de cabelos escuros como a noite e de pele tão branca quanto à luz do luar. Mas o que as tornavam distintas era a marca de nascença – uma mancha semelhante a uma cobra mordendo a própria cauda.

- Está claro agora. – declarou um dos quatro cardiais ao ter a visão interrompida e retornar à própria realidade. – Elas não podem existir.
- A partir de hoje nenhuma criança gêmea poderá viver. – outro, mais alto que o primeiro, falou, em tom mais severo e definitivo. – Espalhem a notícia.

⏳⏳⏳

- Coloquem-na na cama, agora! – uma voz masculina ordenou, abrindo a porta de um quarto rústico dentro daquele casebre em que estavam escondidos há meses.
Sem muito jeito, dois homens com roupas comuns de agricultores feitas de algodão passaram pela porta do cômodo carregando uma mulher de longos cabelos castanhos, presos em uma, já bagunçada, trança que lhe caía sobre os ombros.
Hakkon percebeu a batalha silenciosa de seus servos sobre quem a pegaria no colo e, impaciente, aproximou-se da amada, pegando-a nos braços e a colocando gentilmente sobre a cama.
- Hakkon, tem algo errado. – ela disse, segurando sua mão com força.
- Nicolau e a parteira já devem estar chegando, Pia. – ele respondeu, abaixando o tronco em sua direção e afastando as mechas teimosas que caíam sobre seu rosto.
- Não.. – ela negou, balançando a cabeça. – Escute-me... – Pia arfou sentindo a contração, e involuntariamente apertou a mão do amado. – Tem mais gente vindo.
- O que está querendo dizer, Pia? – ele ignorou o aperto na mão, olhando-a com preocupação e um pouco de confusão.
- Eles já estariam aqui se viajassem sozinhos. – explicou, antes de soltar um berro de dor e curvar-se para a frente.
Lembrando dos partos que vira sua mãe e irmãs fazerem nas mulheres do vilarejo, Hakkon ajeitou os travesseiros de palha atrás dela, de forma que ficasse semissentada e mandou que os servos buscassem panos e água quente, e qualquer bebida alcoólica que pudessem ter naquele fim de mundo.
- A neve pode tê-los atrasados. – tentou justificar a ausência do primo e da parteira da amada, mas seu interior sabia, assim como Pia, que tinham sido traídos.
Quando a porta foi novamente aberta com o retorno dos servos, um terceiro homem apareceu, sobressaltando os dois ocupantes. Em uma reação automática, Hakkon pegou pela espada – antes recostada na parede ao lado da cama – e a desembainhou, postando-se entre Pia e o recém chegado, apontando-a contra ele.
- Domenico! – Pia gritou, e seu berro, entre surpresa e dor, chamou atenção dos homens.
O padre, sem cerimônia, abaixou a lâmina da espada com a mão, sem encontrar resistência do nórdico, e caminhou até a cama, onde sua criança amada como filha estava em seus últimos momentos. Os lençóis da cama, já cobertos de sangue e outro líquido, indicavam que Pia, assim como suas bebês estavam sofrendo.
- O que você está fazendo aqui, Domenico? – Hakkon perguntou, guardando a espada dentro da bainha.
- Vocês foram traídos. – ele explicou, sentando-se em frente a Pia e afastando suas pernas sem pudor, já vendo uma das bebês coroando e quase nascendo. Ele virou-se para a travessa de madeira com água, onde limpou as mãos e depois jogou o vinho sobre as mesmas, secando-as em um pano limpo e retornou para Pia. – Pia, uma das meninas já está quase saindo. Empurre quando sentir as dores, somente nesses momentos. – a jovem assentiu e fez o que ele mandou quando a próxima contração apareceu.
- Nicolau nos traiu? – Hakkon perguntou, sentindo a raiva tomar conta de si.
- Sim, Nicolau sempre teve suas próprias intenções. – Domenico explicou, atento aos movimentos do parto. – Vocês não deveriam ter contado para ele sobre a vidente! Vocês não deveriam ter contato nada para ele!
- Domenico... – Pia sussurrou, segurando a mão do homem que estava sobre seu joelho fletido. Ela respirou fundo e o olhou com carinho. – Ajude, Hakkon.
- Estou aqui para ajudar você, minha querida, e não esse bárbaro.
- Ele é... – outra contração, outro movimento de força para expulsar o bebê. – O pai de minhas filhas e o amor de minha vida. – completou, quando o momento terminou.
Sem saber o que dizer, Domenico concordou com a cabeça, evitando olhar para o homem que acreditava ter desvirtuado sua pupila e roubado seu futuro brilhante dentro de uma casa de renome. Mas quem ele queria enganar? Pia Orsini jamais se casaria com um homem apenas para honrar sua família e seguir as tradições. Sua alma era selvagem, curiosa e impetuosa demais para continuar naqueles preceitos sociais que existem há milhares de anos.
Se havia alguém para culpar, esse alguém era ele mesmo, que lhe virara as costas no momento em que ela mais precisou de sua ajuda. Sentindo-se traído por ela ter escolhido viver entre os bárbaros e renunciar a antiga fé, Domenico a deixou sozinha para enfrentar os Cordeiros de Deus sem auxílio e sem sua proteção. Sua consciência e racionalidade voltaram apenas quando descobriu as palavras da vidente nórdica, desde então, abandonou seu posto para procurar pela jovem, numa última tentativa de se redimir.
- Vou tentar ganhar tempo. – Hakkon falou, dando-se conta de que se foram traídos, seriam atacados por soldados da Igreja.
- Hakkon, eles vão levar ao menos um dia para chegar aqui. – Domenico anunciou, impedindo que o guerreiro nórdico saísse do quarto. – Eu adulterei os mapas do paradeiro de vocês. Isso vai atrasá-los.
O nórdico, com seus cabelos loiros reluzentes mesmo com a pouca luz solar que entrava pela janela, assentiu em gratidão e retornou para o lado da mulher.
- Preciso que me auxilie. – Domenico falou, e, juntos, os dois ajudaram Pia a trazer ao mundo duas meninas marcadas por Bahamut.
A neve caía forte do lado de fora, cobrindo as árvores e o chão da floresta Negra com o manto branco. Enquanto a tempestade de gelo marcava o interior da Europa, o litoral era presenteado com chuvas fortes, tempestades de raios e ondas imensas jamais vistas antes. Além do mar, os desertos envolviam-se em temporais de areia que impediam as caravanas de seguirem seu rumo e cobriam a tudo e a todos com os grãos secos. E, muito além dos oceanos, no continente proibido, a terra tremeu como em prenúncio de um grande desastre, ou uma grande mudança. A natureza estava anunciando algo no dia em que o calendário cristão marcava onze de dezembro de mil novecentos e noventa e nove. Os algoritmos somados davam igual a trinta e três. E este número nada significaria se não fosse a exata quantidade de Papas que o Império Cristão teve desde a Visão, a idade em que Cristo perdera a vida, ou o número que previa o fim de uma era.


SECUNDUS

Pactos

666 d.C., península Escandinava
Kaskasatjakka¹ finalmente tinha ficado para trás depois de uma longa jornada. O pico coberto de neve devido à altitude tinha sido seu maior problema para cruzar a montanha, e ele acabou se atrasando mais do que deveria naquela trilha. Sabia que tinha escolhido o caminho mais tortuoso e pagava o preço do tempo por isso, mas que escolha, de fato, tivera? Enfrentar as escuras e desconhecidas cavernas do submundo, ou encarar a longa e desafiante subida? Entretanto, agora que fazia a descida da face norte do terreno, Kyllian percebeu que sua jornada árdua fora compensadora. À sua frente, seus olhos enxergaram o enorme olho d’agua escondido entre aquelas cordilheiras hostis e seu peito inflou de admiração. O Världens Öga² refletia o entardecer com esplendor, e a água cristalina parecia brilhar em chamas pela cor alaranjada do céu. Parado ali, tão próximo àquele lugar sagrado para o seu povo, o homem soube que estava próximo de encontrar as respostas para seus sonhos.

Ele corria entre os pinheiros, carvalhos e faias, passando por algumas árvores de freixo que demarcavam a divisa do vilarejo com as terras do desconhecido, sem diminuir a velocidade, em um ritmo que beirava quase ao desespero. Deixava para trás o vilarejo em chamas e vultos de criaturas que não conseguia distinguir, monstros que só conhecia através de lendas passadas por gerações, mas que anunciavam a calamidade. Embora a respiração já estivesse ofegante e o ar gelado lhe ferisse os pulmões, Kyllian prosseguiu, seguindo a estrela branca por algum motivo desconhecido, guiado por uma força maior para aquela direção. E, quando, enfim parou para recuperar o fôlego, a estrela sumiu do céu e os monstros o consumiram em chamas, fazendo-o acordar em sobressalto daquele pesadelo que se repetia há semanas. Arfando e recuperando-se de mais uma noite de sonhos conturbados, o nórdico olhou para os corpos que dormiam serenamente ao seu lado: sua mulher e suas duas crianças não faziam ideia do que se passava em sua mente. Estaria ficando louco ou os deuses queriam lhe dizer alguma coisa?

Sem querer se demorar ainda mais, o nórdico recomeçou a caminhada e apressou os passos, ainda que tomasse cuidado para não cair naquele terreno rochoso e traiçoeiro. Embora fosse Primavera, o vento norte fazia seus ossos tremerem de frio e, nem mesmo a pele de urso era suficiente para aquecê-lo, por isso, precisava estar sempre em movimento. Dormira pouco depois que alcançou a fronteira norte, pois tinha medo de morrer congelado enquanto sonhava e precisou racionar os alimentos, já que desde que alcançara o pé da montanha a caça e as frutas tornaram-se escassas.
Kyllian viu o dia se despedir aos poucos e a escuridão aparecer à medida em que se aproximada do lago e quando, enfim, alcançou sua margem, Världens Öga já refletia as estrelas, fazendo da terra uma continuação do veludo do céu. Naquele instante, ele podia jurar que estava caminhando ao lado da morada dos deuses, planando no céu e observando o mundo aos seus pés, tamanha a magia que sentia com aquela visão. Seria por isso que aquele lugar era considerado sagrado para todos os nórdicos? Arrepiado dos pés à cabeça, Kyllian deixou a bagagem em qualquer canto próximo e se agachou em frente à borda do lago, levando às mãos em concha para provar a água dos deuses. De acordo com a lenda, Odin fornecia sabedoria aos viajantes que bebiam daquele líquido, pois eles tinham provado seu valor ao vencer a jornada até os confins do norte. Com receio e admiração pulsando em suas veias, seus lábios encontraram as palmas e ele sorveu com deleite a água cristalina, sentindo o líquido refrescar sua garganta seca e trazer-lhe uma sensação de paz.
Anos mais tarde, ele ainda não saberia explicar se fora o cansaço, a visão deslumbrante ou a água que o fizera perder a consciência e cair, outra vez, em sonhos profundos e conflituosos, os mesmos que estivera tendo antes de iniciar sua jornada até o lugar sagrado em busca de respostas. Contudo, as chamas da aldeia pareciam mais vivas e intensas, a floresta mais densa e escura, e as sombras transformavam-se em figuras distintas: goblins gigantes cobertos de pelos segurando clavas, demônios de diversas formas e cores carregando todos os tipos de armas e um estranho ser com corpo humano e vermelho devido a cor de suas pelugens, mas com cabeça e cauda de touro. Ele parecia ser o líder do exército que o perseguia, e, enquanto corria, Kyllian buscava a estrela branca, que crescia a cada passo dado em sua direção. Os pulmões doíam e os berros e grunhidos dos monstros ficavam mais próximos, e, quando achou que seria pego, a estrela cresceu e dissipou as trevas, trazendo seu despertar.
Entretanto, a figura sentada ao seu lado irradiava uma aura misteriosa e mágica, ofuscando a escuridão da noite e trazendo-lhe dúvidas se estaria desperto, ou se ainda estaria preso nos sonhos.
- Sente-se recuperado, Kyllian, descendente de Soren, o servo?
Curiosamente, o homem não lhe despertava medo, mas, o fato dele saber quem ele era, de quem era filho, deixou o nórdico em alerta.
- Quem és tu?
- Não respondeste minha pergunta, Kyllian Sorensen.
Atormentado pela companhia, o viajante elevou o tronco, sentando-se ao lado do desconhecido homem de cabelos loiros como o sol de inverno.
- Sim. – respondeu, por fim. Algo em seu âmago lhe dizia que não adiantaria mentir para o estranho, pois percebia uma sagacidade em seu olhar que era capaz de desvendar toda a sua alma.
- Sua família tem sido leal há muitos séculos, muitas Eras e em muitos mundos. – recomeçou o desconhecido. – Personagens diferentes de uma brincadeira do universo que mantêm o mesmo coração, a mesma lealdade.
Confuso, Kyllian franziu o cenho, não compreendendo aquelas palavras. Quem era aquele homem? Como ele o conhecia? Como sabia de suas raízes? Quando chegara ali? E qual era o sentido daquela fala? Sua família sempre fora devota, era verdade, e por isso chamavam-se Sorensen, filhos de Soren, o servo, aquele que serviu unicamente às divindades. Um legado que seus antepassados deixaram, que ele seguia com orgulho e que passava aos seus descendentes. Mas o que ele queria dizer com Eras e mundos? Com personagens diferentes de uma brincadeira do universo? Estaria se referindo aos Nove Mundos de Yggdrasil³? Se sim, como sua família poderia ter pertencido aos Nove Mundos se somente os deuses podem vagar entre eles?
- Vocês me são estimados, Kyllian, filho de Soren.
- Quem és tu? – perguntou outra vez.
Os orbes azuis como safiras encararam o nórdico como se ponderasse responder àquela indagação, e Kyllian imediatamente arrependeu-se de ter sido curioso e até impertinente. E se fosse Odin? Por que o pai de todos lhe daria alguma satisfação?
- Tenho muitos nomes, Kyllian Sorensen. – respondeu, sua voz soando ainda mais imponente. – O Portador da Justiça, Lorde dos Ventos do Norte, Rei dos Dragões...
- Bahamut, o Senhor do Tempo. – interrompeu Kyllian, compreendendo, enfim, quem era a divindade sentada ao seu lado disfarçada de homem.
O dragão, em sua forma humanoide, assentiu em concordância, não se ofendendo pela interrupção feita, e disse:
- De fato um filho de Soren. Conhece suas raízes.
Foi a vez do nórdico assentir, assustado demais para conseguir expressar em palavras o que se revirava em seu interior. Surpresa, medo, respeito, reverência, curiosidade. Sobretudo, curiosidade e respeito. Por que o Senhor do Tempo vinha lhe falar? Por que o Senhor da Roda estava sentado ao seu lado como um simples ermitão? Teria ele alguma tarefa a lhe passar? E, se esse fosse o caso, por que tinha sido escolhido?
- Você tem tido sonhos, Kyllian. – recomeçou Bahamut. – Sonhos que lhe trazem dúvidas e que foram dados por mim.
Outra vez, o viajante humano não soube o que dizer. A divindade era o causador de suas tormentas noturnas, de seus medos diários e o responsável por lhe fazer buscar respostas. Mas por quê?
- Como disse antes, sua família me é leal em todas as Eras, em todos os mundos. Seu sangue é uma constância em minha Roda, e vim até você hoje para, mais uma vez, selarmos nosso pacto.

2012 d.C., Castelo Banfi, Ducado de Montalcino, Estado Pontífice
Estavam todos fervorosos pela visita que receberiam. Os anfitriões deram ordens explícitas para que todos os preparativos fossem realizados a tempo e sem falhas, e os servos, embora exaustos pelas tarefas, estavam tão ansiosos para a chegada ilustre quanto seus mestres. Foram quase seis semanas de preparação para a recepção, e, por isso, era a primeira vez em anos que o Castelo Banfi encontrava-se brilhando em totalidade, refletindo seu esplendor e fazendo jus à fama de um dos castelos mais belos do Império Cristão.
As janelas dos cômodos foram abertas, os pisos de mármore lavados e toda a poeira fora afastada. Sobre os móveis, óleos foram aplicados, dando-lhes um aspecto de conservado, e lençóis e cortinas foram lavados e secados ao sol antes de serem recolocados no lugar. Os arbustos e árvores dos jardins foram podados, e as folhas e os galhos secas viraram lenha para as lareiras. E os vitrais, tão limpos como se recém tivessem sido postos, davam cores diversas para os grandes salões, que esperavam, silenciosamente, a chegada do convidado de honra.
- , seu pai está chamando pela senhorita. – Bianca falou, adentrando na torre oeste, onde se localizava a extensa biblioteca do castelo. – Onde você está?
Sem obter resposta, a mulher de meia idade continuou buscando pela princesa entre as prateleiras abarrotadas de pergaminhos e livros. Aquele local, diferente do resto do castelo, era o único que não tinha sido colocado em ordem, já que era uma missão impossível devido à grande quantidade de exemplares nele guardado. O Castelo Banfi não era famosos somente por sua beleza, mas também porque, depois da biblioteca papal, ele possuía o segundo maior acervo de conhecimento do império.
Bianca deu mais uns passos, mudando de um corredor para outro, sem encontrá-la. Sabia que estava escondida em algum lugar por ali. A jovem tinha a mente curiosa e aguçada demais para se comportar como as outras damas da mesma idade, e isso lhe custara a vida social. Nenhuma das outras jovens gostava de estar perto dela, e a princesa acabara crescendo sozinha e rodeada de amigos imaginários, todos frutos daquelas palavras estranhas que ela aprendera a ler naqueles volumes.
Mesmo aos treze anos, a herdeira Orsini era muito mais astuta que alguns viscondes que compunham o conselho do Duque de Montalcino. E, não bastasse sua inteligência fora do normal, comportava-se mais como um rapazote do que como a dama que deveria ser. Além de passar as horas vagas sobre as escrituras, ela possuía o hábito de escapulir de dentro das muralhas do castelo para passear pelo vilarejo e, diversas vezes, acabou arranjando briga com alguns pivetes. Embora fosse repreendida todas as vezes que alguma situação parecida acontecia, o Duque, orientado por Padre Domenico, achou melhor contratar um professor que lhe desse aulas de esgrima e luta de defesa pessoal antes que a menina acabasse morta em algum beco do vilarejo por não saber se proteger.
Mimada era a palavra que Bianca usava para descrever Orsini, filha, princesa e herdeira do Duque Montalcino, Vincenzo Orsini. Mimada e petulante, soaria melhor, pois a menina não sabia comportar-se de acordo com as regras da nobreza italiana e conseguia absolutamente tudo o que queria do pai. Secretamente, a dama de companhia perguntava-se por que um dos homens mais poderosos da Itália, parente do Excelentíssimo Santo Papa Nicolau III, não conseguia controlar a própria filha e, ainda, cumpria-lhe todos os desejos. Ela se autorrespondia nessas especulações, mas acabava levantando novas dúvidas. Será que era a culpa de ter perdido sua primogênita anos atrás que lhe assolava? Ou era a idade avançada que amolecera seu coração?
- ? – Bianca chamou, cansada de vagar entre os corredores do local e parando no corredor principal.
- Estou aqui! – a voz infantil, vinda de uma janela próxima, guiou a serva até onde a princesa estava.
A dama de companhia encontrou sentada no parapeito de uma das janelas da torre, observando a movimentação que tomava o pátio principal do castelo.
- O que pensa que está fazendo sentada aí? – a mulher imediatamente pôs-se às suas costas, puxando-a por debaixo dos braços e a colocando para dentro. – Quantas vezes preciso lhe dizer para não se sentar no beiral das janelas? A senhorita pode cair!
- Não ia cair. – respondeu a menina, desequilibrando-se pela puxada que Bianca lhe dera. – Eu só estava vendo a delegação chegar.
- Deveria estar assistindo ao lado de seus pais. – retrucou a mais velha, reparando, por fim, na aparência da jovem. – Está imunda, cheia de pó! Por que a senhorita não pode se comportar como uma dama pelo menos por um pouco?
- Não gosto desses vestidos. – resmungou, revirando os olhos, enquanto a ama batia no tecido da saia para tirar um pouco da sujeira. – Bianca, pare, eu trocarei de vestido.
- Não há tempo. – Bianca tentou, de forma inútil, limpar e desamassar a peça, mas, dando-se por vencida, ergueu-se novamente e recomeçou a caminhar, puxando a princesa pelo pulso. – Seu pai espera por você no saguão para que receba a comitiva ao lado de sua mãe. Espero que consiga se comportar como uma Orsini por alguns minutos, e não como uma pagã do norte que vemos de tempos em tempos pelo vilarejo.

•••


Ele ainda conseguia se lembrar de sua chegada ao Castelo Banfi doze anos atrás. Na época, tinha apenas oito anos e odiou todos os momentos da viagem que o fizera chegar até aquele lugar. Detestou deixar sua terra natal, cheia de pinheiros, montanhas e lagos gelados para ir até as terras ensolaradas e quentes do Império Cristão. Sentiu aversão pela religião que cultuavam e pelas regras consideradas corretas de sua sociedade. Também odiou o Duque de Montalcino assim que o viu, sentindo-se da mesma forma pelas pessoas que tinham sido responsáveis por sua estadia infinita na Itália.
Ao analisar seu passado, percebia que, na verdade, fora um menino que odiara muitas coisas e pessoas ao mesmo tempo durante aquele período de sua vida. Enviado por seu pai para proteger a herdeira dos Orsini, Eric Brandt queria ser um guerreiro nórdico, assim como seu pai fora, e não um guarda-costas de uma princesa. Queria viajar por mares turbulentos e conquistar terras desconhecidas, como nas lendas de seu povo, e, por isso, não aceitara facilmente o que tinham decidido para si e comportara-se da pior maneira até colocar os olhos no ser que era motivo de sua infelicidade: Orsini. Por algum motivo que não soube compreender, ela, a quem estava ligado em dever pelo resto de sua vida, fora a única pessoa daquele Império que não conseguiu odiar, apesar de tentar.
Era incrível como depois de tantos anos em sua convivência, Eric ainda se sentia estranhamente pertencente à princesa, e fora assim desde a primeira vez que seus olhos infantis encontraram com o bebê de poucos meses. Mesmo já sendo um homem feito de vinte e um anos, conhecedor das letras, das mulheres e um guerreiro experiente e prestigiado pela corte que aprendera a gostar, ele ainda se sentia impotente perto da herdeira, mesmo que ela fosse oito anos mais nova. Bastava um olhar severo ou doce dos orbes azuis dela que ele se rendia sem contestar.
- Você está carrancudo. – a voz de soou ao seu lado e Eric controlou-se para não sorrir com a audácia da garota. Não bastava estar atrasada, ela ainda ousava iniciar uma conversa enquanto todos prendiam a respiração ao ver o convidado entrando pelas portas principais.
- E você atrasada. – respondeu baixo, não desviando o olhar do Duque e da comitiva Papal.
- Qual a graça de cumprir todas as regras?
- , por Deus, cale-se. – Bianca sussurrou brava atrás deles.
Sem conseguir conter-se, Eric a espiou de esguelho, a tempo de ver a careta que a jovem fazia ao imitar a dama de companhia. Outra vez, ele precisou se controlar para não sorrir e perder a postura, e concentrou-se em retomar o olhar para onde os senhores mais importantes encontravam-se no salão.

•••


o amava e sabia descrever o exato momento em que descobrira esse amor.
Fora há quatro anos e ela não passava de uma criança sem qualquer atrativo e sem noção alguma do que amar significava quando descobriu o que era ter um coração partido. Sua família tinha sido convidada a passar uma temporada em Roma, já que seu pai e o Papa Nicolau III tinham assuntos importantes a tratar e, durante sua estadia na capital do Império Cristão, ela conheceu a nobreza local e suas artimanhas.
Logo na primeira quinzena de estadia, percebeu os olhares nada sutis que uma das filhas do Duque Pierleoni lançava a Eric a todo momento. De início, pouco se importou e até achou graça da situação, uma vez que já tinha visto esse mesmo tipo de olhar destinado a ele sem jamais ter sido retribuído de alguma maneira. Eric, apesar das várias investidas femininas que recebera ao longo dos anos estando como protetor da princesa, nunca correspondeu suas admiradoras. Então, a princípio, ela não tinha com o que se preocupar: o guerreiro e amigo permanecia leal ao seu lado independentemente do quão bela fosse a jovem que lhe demonstrava interesse. Contudo, durante aquela viagem, os dias tornaram-se semanas, e ele, enfim, cedeu aos encantos da jovem e ousada Helena Pierleoni.
Os Orsini e os Pierleoni tinham se reunido para um jantar informal e, algumas horas antes do mesmo, os duques fecharam-se no escritório da mansão dos Pierleoni até que fossem interrompidos e chamados para a refeição. Enquanto eles tratavam de negócios, as mulheres entretinham-se com bordados, conversas superficiais e chás em uma das salas de estar da casa, e, , entediada pela situação, sentou-se em uma poltrona mais afastada e começou a prestar atenção no comportamento de todos, prendendo-se, por fim, em Helena e Eric.
Naquele momento, ela viu a piscadela seguida de um sorriso provocador que a moça destinara a Eric, assim como o viu umedecer os lábios e depois retribuir com outra piscadela, deixando Helena um pouco ruborizada. Aquela troca de olhares, piscadelas e sorrisos discretos permaneceu por algum tempo, até que a jovem deixou o bordado de lado e levantou-se do sofá onde estava sentada ao lado de uma de suas irmãs mais novas.
- Helena, querida, onde vai? – sua mãe, a duquesa Pierleoni, perguntou assim que notou o movimento da filha.
- Preciso me refrescar um pouco. Esta sala está muito abafada. – respondeu ela, sorrindo maliciosamente ao passar por Eric e sair do cômodo.
Minutos depois, quando as mulheres voltaram a se entreter com a conversa, o rapaz, indo contra às suas ordens de ficar cuidando da princesa, saiu sorrateiramente do cômodo. Fora a primeira vez que ele a deixava sem sua proteção, e, entre sentimentos de curiosidade para saber o que ele estava fazendo e raiva, levantou-se.
- Com licença, Duquesa. – iniciou docemente, interrompendo a conversa das mulheres, que a fitaram com sorrisos singelos. – Onde fica o lavatório? Está, de fato, muito abafado aqui. – perguntou , fingindo real necessidade de usar o cômodo.
Após ouvir as instruções da dona da casa com uma falsa atenção, saiu da sala e vagou pelos corredores da mansão a procura dos dois jovens. Estava quase desistindo quando passou a ouvir sons vindo da antecâmara do saguão de entrada. Silenciosamente, a menina caminhou até lá, demorando-se para que os saltos quadrados não ecoassem muito alto no piso frio e chamassem a atenção de alguém. Ao abrir a porta, espiou com cuidado a cena que se desenrolava e desejou ter ficado na sala com as outras. Eric estava de costas para a porta, com as calças abaixadas e as nádegas aparecendo, enquanto Helena parecia ser erguida por ele, com uma de suas pernas passando por sua cintura, sem as anáguas e com o vestido levantado. Moviam-se de forma sincrônica e soltavam gemidos que pareciam ser de prazer, sons que sabia que eram de prazer, porque era os mesmos sons que ouvira certa vez no castelo ao ver dois enamorados.
Aos oito anos, não sabia direito o que tinha visto, mas lembrava-se de sentir seu coração se comprimir e das noites que chorou quando recordava a cena. Aos treze, ela já compreendia o que os dois tinham feito às escondidas, ao mesmo tempo que os sonhos com ele começaram a perturbar suas noites.
Parado ao seu lado e olhando fixamente para onde seu pai e o Papa trocavam palavras calorosas, observou Eric com tristeza, sabendo que ele jamais a tocaria da mesma forma que tinha feito com Helena. Não somente pela diferença de idades entre eles, mas também porque Eric a vira crescer, a enxergava como uma irmã mais nova e, principalmente, porque ela era seu dever. E a princesa sabia que ele jamais misturava prazer com dever.
- E onde está a jovem ? – a voz grave ressoou pelo saguão, sendo ouvida por todos os convidados que observavam a entrada do Homem Santo.
, desperta de seus pensamentos, sorriu sem graça e caminhou até onde seu pai e o Papa Nicolau III estavam, sentindo, em seguida, a mão quente do homem mais importante do Império cobrir as suas, enquanto suas costas queimavam com os olhares atentos sobre si.

•••


Naquele dia tão importante para os moradores de Montalcino, todos esperavam que ela lhes causasse vergonha e trouxesse a desonra para a região, uma vez que sempre esperavam o pior dela. Poderia acontecer a qualquer instante, durante aquele jantar de boas-vindas ao Papa: ela poderia cair e rasgar o vestido de seda do Oriente, poderia desferir algumas respostas malcriadas aos convidados ou ainda poderia iniciar uma briga com algum dos jovens nobres que iniciavam conversas presunçosas com ela. Independente do momento exato, era praticamente unânime a certeza de que Orsini não se comportaria.
E ela sabia disso. Mesmo jovem, ela sabia que os nobres e servos naquele salão ansiavam pelo momento em que ela, a princesa problemática – como gostavam de chamá-la pelas costas, faria uma cena e deixaria todos desconfortáveis. Conseguia sentir o olhar atento de Bianca a cada movimento que fazia, assim como reparou no sorriso nervoso de sua mãe quando respondeu a uma pergunta de um conselheiro da comitiva papal. Até mesmo percebeu que Eric estava mais tenso ao seu lado, como se estivesse em alerta para uma possível confusão, e seu peito apertou-se ao perceber que até ele lhe tinha em pouco crédito.
Entretanto, a algumas cabeças de distância, reconheceu o sorriso bondoso que Padre Domenico lhe dava. sorriu de volta, grata por saber que naquela imensa mesa cheia de pessoas, existia uma que nunca lhe julgara e que sempre compreendera seus anseios de sair de dentro daquelas muralhas.
- Prontos para a dança? – desviou o olhar do padre e mirou o pai, que se erguia de seu assento logo após o Papa sugerir o início do baile.
Imediatamente, todos levantaram-se da mesa, independente se tinham terminado ou não. A etiqueta dizia que se a pessoa mais importante da refeição tivesse terminado, todos deveriam parar de comer e segui-la. E, como todos eram muito educados, eles seguiram Nicolau III como cordeiros até o salão adjacente, onde os melhores bardos da região estavam a postos esperando para fazerem sua parte.
- ? – Nicolau III parou sob a abertura dos salões e esticou a mão esquerda, virando o tronco para trás à espera da herdeira Orsini.
A menina de treze anos sorriu, mais uma vez, sem graça pela atenção que lhe era destinada e abriu caminho entre os convidados, até pousar sua mão sobre a do homem de imensos cabelos loiros, olhos frios e mantas brancas e douradas como o sol. Imediatamente, ele a guiou para dentro do salão e uma melodia suave começou a tocar enquanto eles alcançavam o centro do cômodo.
Todos esperavam que ela deixasse seus instintos rebeldes saírem e errasse aqueles passos, mas dançou com leveza, surpreendendo os espectadores e deixando que o homem mais importante do mundo a guiasse com maestria.
- É surpreendente a semelhança que você tem com alguém que conheci. – ele disse baixo, entre um passo e outro.
- Espero que sejam semelhanças boas, Vossa Excelência. – ela disse com suavidade, evitando olhá-lo nos olhos.
- Sim. Semelhanças boas.
- Como era essa pessoa?
- Bela, a mulher mais bela que já habitou essa terra. Inteligente e rebelde. – ele a girou, pegando-a em seguida. – Características que vejo que você também possui.
Sem jeito pela atenção recebida, sorriu ainda de cabeça baixa, e, pela primeira vez em sua vida, não sentiu vergonha por ser como era, porque alguém importante como ele havia prestigiado uma pessoa como ela. Dentro daquelas paredes, sentia-se sufocada por todas as normas e deveres que lhe impunham, queria poder conhecer mais do mundo além do que lhe permitiam. Sabia que o Império Cristão não era a única parte da terra que existia, tinha lido em manuscritos e ouvido histórias dos viajantes que eventualmente apareciam no vilarejo. Ouvira menções de tribos selvagens no extremo norte, além das florestas e dos monastérios montanhosos, assim como lendas de um povo que morava no deserto que eram capazes de ler as estrelas com precisão. Sem mencionar o continente proibido, aquele além dos oceanos, a terra que fora esquecida por Deus Nosso Senhor. Mas, sobretudo, queria ir para o Norte, conhecer a região em que Eric nascera.
Ao pensar no guerreiro, sentiu o rosto esquentar, e secretamente desejou que seu parceiro de dança fosse outro, embora estivesse honrada com a dança papal.
- , olhe-me nos olhos.
Ao erguer o rosto, os olhos azuis da princesa encontraram os olhos dourados do Papa. Tudo nele transbordava luz, e, embora ele fosse visto como o Homem Santo, Homem de Luz e Herdeiro das Palavras de Deus, Nicolau III não esquentava como o Sol de seu brasão. Pelo contrário, embora seus orbes fossem dourados, eram tão frios e calculistas quanto uma cobra, e, naquele momento, sentiu medo.
- Assim está melhor. – ele disse, sorrindo-lhe gentilmente. – Seu pai contou o principal motivo de minha visita? Sei que são muito próximos e, portanto, não ficarei ofendido de saber que ele lhe contou a novidade antes de mim.
Ainda amedrontada, ela respondeu com um aceno negativo. A música suave trocou por uma mais intensa, até um pouco dramática, como se ele tivesse previsto aquele acontecimento para tocar no assunto.
- Primeiro, e menos importante, sei que tem ligações estreitas com o rapaz Eric. – ao ouvir o nome do guerreiro, procurou por ele com os olhos, encontrando-o próximo às portas, observando-a com os olhos estreitos e atentos. – Mas irei precisar afastá-lo de você por um tempo. – ela tornou a olhar para seu par, confusa com aquelas palavras. – Notícias perturbadoras chegaram até mim sobre o continente proibido, e estou preparando uma delegação de homens confiáveis para que viagem até lá e descubram se os rumores são verdadeiros.
- E Vossa Excelência quer que Eric esteja nessa delegação.
- Sim. – ele a girou outra vez, refazendo os passos anteriores. – Sua reputação e lealdade são inquestionáveis, e preciso de alguém como ele liderando meus homens.
- Há perigos que lhe custem a vida?
Dessa vez não foi o olhar frio, mas o sorriso um pouco cruel que moldou seus lábios que fizeram a coluna de se empertigar em desconforto. Seu interior gritava por cuidado, para que ela se afastasse daquele homem e não deixasse ele concretizar seus planos.
- Minha querida, há perigos mortais até mesmo dentro deste salão. – sem saber como responder, ela assentiu, deixando que ele continuasse. – Se meus planos se concretizem como os elaborei, ele deve retornar para nós em alguns anos.
Ela quase tropeçou, mas as mãos fortes e firmes de Nicolau III a ampararam e não permitiram que constrangesse a família Orsini. Anos? Eric seria tirado de perto de si por anos? Os dois nunca tinham passado mais do que dois dias longe um do outro, e agora ficariam anos sem se ver? Mais uma vez ela buscou pelo guerreiro, com o olhar preocupado e amedrontado, fato que não passou despercebido pelo jovem.
- E a notícia mais importante? – ela perguntou, arranjando coragem de algum lugar dentro de si para saber o verdadeiro motivo da visita do Papa.
Nicolau III a olhou com intensidade, abrindo os lábios em um sorriso genuíno antes de lhe responder:
- Quando você completar dezessete anos, vamos nos casar. Hoje é nossa festa de noivado.
Por aqueles lábios, ela viu o veneno invisível escorrer e percebeu seus sonhos e sua liberdade esvaírem, escapando por entre seus dedos. Foi então que ela errou o passo, parando a dança e afastando-se subitamente dele e o empurrando para longe, chamando a atenção dos convidados que a olharam horrorizados. Ninguém recusava ou afastava o Papa, era uma ofensa contra o próprio Deus, e ela tinha acabado de fazer isso sob o olhar atento de todos.
, enfim, tinha cometido um erro e, possivelmente, o pior de todos.

2012 d.C., em algum lugar do continente proibido
- A bruxa me falou que não é errado.
Os cabelos negros estavam trançados e caíam-lhe sobre o ombro esquerdo, enquanto a face juvenil o encarava com seriedade. Kocoum permaneceu deitado sobre a grama, deixando que a garota permanecesse sentada sobre sua cintura e observando as marcas em seu rosto. Os olhos estavam pintados de vermelho e a tinta seguia em linha até a lateral do rosto. No nariz, uma linha da mesma cor subia até a testa, dividindo-se em três ramos. E, abaixo do lábio inferior, uma outra linha começava até alcançar a altura do vale dos pequenos seios dela.
- E só porque a bruxa velha falou, você acha que pode fazer o que bem entender? – ele questionou, encarando-a com seriedade.
- Sim. – Airya respondeu, com a mesma intensidade.
Kocoum riu com escárnio, decidido a acabar com aquela situação antes que ela se complicasse. Entretanto, sua mente resetou quando sentiu e viu a garota pegar sua mão e a levar até o meio de suas pernas, colocando-a debaixo do pano de couro que a cobria. Sem saber o que fazer, o rapaz deixou que ela seguisse com o que queria. Seus dedos experientes encontraram a intimidade dela e foi um prazer genuíno para ele descobri-la úmida, desejando-o da mesma forma que ele a desejava.
Airya fechou os olhos quando sentiu os dedos dele brincarem com sua intimidade e gemeu de prazer quando ele os introduziu vagorosamente.
- Kocoum, mais. – ela ordenou, abrindo os olhos e o encarando.
Naquele momento, os olhos azulados, quase roxos, iluminaram-se e tornaram-se vermelhos, e ele viu chamas em seus orbes. E, como um servo devoto, ele obedeceu a sua divindade, iniciando o ritual que selaria seus futuros.


Continua...



Nota da autora: Oi gente, tudo bem? Sei que o primeiro capítulo foi MUITO introdutório, mas acho que esse compensa um pouco as coisas. Obrigada a todo mundo que deu uma chance para a história e que comentou, vocês são incríveis! Quem quiser comentar e não conseguiu por causa da instabilidade do Disqus, a Mary colocou um link na nota dela. Vejo vocês no próximo capítulo, beijo grande. 🍀
¹ Montanha da província da Lapônia na Suécia. Seu ponto mais alto tem 2076 metros.
² Världens Öga significa Olho do Mundo em sueco de acordo com o google tradutor.
³ Yggdrasil é a Árvore do Mundo, oriunda da mitologia nórdica e responsável por ligar os noves mundos.

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