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Última atualização: 14/10/2021

Prólogo

Nunca foi fácil partir. Aquele era um país que eu já conhecia, mas tudo seria novo. Acreditava que nada seria igual. Quando se tem uma certa idade e se conhece pessoas novas, logo elas viram amigas. Então vêm as decepções, e vemos que não tínhamos metade da importância que dávamos para todas elas. Por muitas vezes, trancamos várias lembranças que não deveriam estar nesse amontoado de decepções e as deixamos lá no fundo da memória. E um dia, quando a cicatriz fecha, você dá chance novamente ao lugar e ao seu sonho antigo; mas às pessoas, jamais.

When she was just a girl
(Quando ela era apenas uma garota)
She expected the world
(Ela esperava conquistar o mundo)
But it flew away from her reach
(Mas isso voou para longe de seu alcance)
So she ran away in her sleep
(Então ela fugiu em seu sono)

And dreamed of para-para-paradise
(E sonhava com o para-para-paraíso)
Para-para-paradise
(Para-para-paraíso)
Para-para-paradise
(Para-para-paraíso)
Every time she closed her eyes
(Toda vez que ela fechava os olhos)

Trabalhar com mídias e fotografia era o que eu mais amava. Assim que consegui arrumar todas as minhas coisas no apartamento que me abrigaria nesse recomeço – na tão famosa terra da rainha –, selecionei meus portfólios e fui às agências que pesquisei ainda no Brasil, para entregá-los e ver o que eu conseguia. No meu mais profundo sentimento, eu sentia que daria certo e não tardaria a chegar. Com esse sentimento mantendo meu coração acelerado durante todo o percurso, mantive meu pensamento sempre positivo. Quando entreguei o último, a sensação de dever cumprido tomou cada partícula do meu corpo.


•••


Senhorita ? — ainda tentava acordar enquanto ouvia a voz grossa e masculina do outro lado da linha com o inglês perfeitamente polido.
— Olá, sim, pois não? — tentei ao máximo fazer com que o tom sonolento da minha voz não transparecesse. Eu lutava fortemente para acordar direito, depois de me despertar do susto com meu telefone tocando.
Me chamo Albert e sou da All Limit. Analisamos seu portfólio e gostamos muito do que vimos. Inclusive, um de nossos melhores clientes quer marcar uma reunião com a senhorita.
— Uau…! Quer dizer, ótimo! — contive minha animação. — Quando podemos marcar a reunião?
— Esteja aqui às 14h de hoje. Será um prazer recebê-la!


Capítulo 1

Agosto de 2019

A reunião que me apresentou a todos os chefes das equipes já tinha acabado e todos tinham sido muito receptivos comigo. Eu só precisaria produzir conteúdo de todos os pilotos para as mídias da Fórmula 1. Realmente um desafio, já que eram dez equipes e vinte pilotos. Mas eu ainda tinha ao menos um mês para me familiarizar com o nome de todos e a qual equipe cada um pertencia, além de tudo que seria necessário saber para produzir os conteúdos. O mês seria de intenso estudo, mas, nessa metade da temporada restante, eu ainda teria Emily, a moça que eu substituiria no próximo ano. Ela me mostraria como tudo era feito. Por um lado eu estava com medo; por outro, eu estava feliz e muito ansiosa pelo que viria pela frente.


29 de agosto de 2019, quinta-feira – Bélgica

— Emily, que coisa difícil de decorar quem é quem… É muita gente, são pelo menos trinta pessoas. Sem contar as assessoras pessoais de cada um, fora as da equipe no geral. Eu juro que estudei, mas acho que preciso de você aqui! — eu estava literalmente mais perdida que cego em um tiroteio, ou melhor, em um paddock¹ cheio de gente correndo pra todos os lados.

Não sabia se sentia mais medo ou fascinação ao ver tudo aquilo na minha frente. Era para minha colega de trabalho estar junto comigo, mas imprevistos pessoais ocorreram e aqui estava eu, em Spa-Francorchamps, uma das corridas mais esperadas do ano pelos pilotos, na Bélgica, sozinha no meu primeiro dia de trabalho oficial.

Tenho certeza que você vai arrasar, . Eles escolheram você por um motivo, e eu também acredito no seu potencial! Estarei aqui pra te ajudar de longe. Só faça as mídias, que por hoje eu te ajudo a postar. Não esqueça que temos trabalho até domingo, hoje é mais light. Pensa positivo, porque os pilotos nem estão todos aí. Eles com certeza estão chegando aos poucos, mas assim você pode fazer seu trabalho como deve ser, com mais calma — eu ouvia tudo atentamente, tentando criar coragem para fazer o que eu sabia que era capaz.
— Vou começar antes que a coragem suma! Obrigada por me acalmar, Emily. Qualquer coisa que eu fizer errado, por favor, me fala, tá?

As estruturas terminavam de ser montadas, o som de ferramentas parecia formar uma sinfonia e os últimos ajustes nos boxes das equipes eram feitos. A corrida deste final de semana era a volta das férias de verão, e todos exalavam uma felicidade e uma adrenalina que eu jamais havia visto ou sequer sentido em qualquer outro lugar.
Comecei a gravar a entrada, onde funcionários das mais diversas equipes passavam pelas catracas, em sua maioria totalmente aéreos. Pareceram não me notar, o que de certa forma me aliviou. Assim não tinha que explicar a muita gente o que eu fazia ali. Tomei coragem e postei no Instagram oficial com a legenda: “Prontos pra um final de semana de corrida? Estavam com saudades?”
Em seguida, recebi uma mensagem de Angela, dizendo que era daquele jeito mesmo que deveria ser, o que me deixou muito mais confiante a seguir fazendo meu trabalho.
Meu dia hoje por aqui nem seria tanto para postagens, mas para me familiarizar com tudo e me apresentar às equipes e, consequentemente, aos pilotos. É claro que todo conteúdo que eu produzisse que pudesse ser usado no final de semana também era bem-vindo.

— Com licença, você sabe me dizer onde encontro a Emily? — um menino, que estava longe de parecer um homem, apesar de sua altura e voz mais madura, me fitou com um par de olhos azuis
— Olá! Então, ela não pôde vir hoje, mas eu sou a colega dela. Posso te ajudar, talvez?
— Ah! Perdão! Me chamo George, sou o piloto da Williams. Na realidade, eu precisava entregar algo a ela, mas quando eu vê-la entrego sem problema! — disse, e um rubor tomou seu rosto.
— Prazer, George! Sou a e vou trabalhar junto com a Emily a partir de agora.
— O prazer é todo meu, ! Sinta-se em casa! Sei que é difícil estar a cada semana em um lugar diferente — justificou seu ponto —, mas o paddock é sempre o mesmo, inclusive a gente.
— Obrigada, George! Depois vou passar no QG² e no box³ pra me apresentar.
— Te espero lá!

As coisas estavam sendo mais leves do que eu achei que seriam. Na realidade, eu estava bem tensa, porque, apesar de fazer amizade com muita facilidade, me apresentar a “desconhecidos” era algo que deixava um frio na barriga. Afinal, eu estava em um lugar composto por 98% de homens. Não que esse fato me incomodasse – já que a maioria das minhas amizades durante toda minha vida foram compostas por homens –, mas devo confessar que a maioria deles eram bonitos além do que deveria ser permitido por metro quadrado.
Caminhei mais alguns metros, sentindo o vento bater no rosto. Quando fui checar uma nova notificação do meu celular, senti um impacto contra meu corpo e logo eu estava no chão.

— Hey!
— Você tá bem? Eu te machuquei? — estendeu-me a mão um homem com a voz levemente grossa, mas aveludada.
Outch! — assim que minha mão foi de encontro com a sua para me levantar, senti uma ardência na palma da mão que confesso que não sentia desde minha infância. A de um belo ralado.

Quando me levantei, me recompus do tombo e fui limpar minha bunda de qualquer sujeira que pudesse ter ficado em mim, senti meu pulso ser agarrado pelo mesmo homem, que, agora, pude notar que estava de preto e amarelo, ou seja, era alguém da Renault.

— Meu Deus, eu te machuquei de verdade! Olha só sua mão!
— Nah! Foi só um ralado. Só preciso lavar e tá tudo certo — falei com um tom mais leve, olhando para minha mão.
— Foi uma bela esfolada, moça, tá saindo sangue… Vem comigo, vou te levar pra enfermaria — ele disse, ainda sem soltar meu pulso com a palma virada para cima.
— É sério, não precisa! Tá tudo bem — insisti, colocando a mão livre na cabeça e logo após na gola da camisa, não achando mais meus óculos de sol.
— Aqui — ele foi rapidamente em direção aos óculos que antes usava, agora com toda a lente espelhada riscada devido à queda. Antes de devolvê-los para mim, analisou seu estado. — Eu tenho que cuidar por onde ando. Ainda acabei com seu Ray-Ban.
— Tá tudo bem, mesmo! Juro, eu também estava distraída, a culpa não é só sua — eu ainda tentava parecer leve, afinal, a culpa não era toda dele. Eu só estava chateada pelo meu óculos favorito ter estragado.
— Me deixa pelo menos te levar até o box da equipe pra lavar sua mão, então. Eu devo ter algum antisséptico por lá e resolvemos isso!

Fiz um aceno positivo com a cabeça e o segui no meio da multidão, que já não era mais tão pequena dentro do paddock. Quando chegamos ao box, várias pessoas trabalhavam concentradas em diversas tarefas diferentes

— É por aqui — ele fez sinal para que eu o seguisse. O que eu não contava é que aquele machucado poderia doer tanto quanto já estava no momento. — O banheiro é ali — apontou para o final do corredor —, vou te esperar e passamos o antisséptico. Acredito que estará pronta pra outra — sorriu de forma terna, e, então, eu adentrei o banheiro.
— Caramba! Não lembrava que um ralado desse doía tanto — sacudi a mão, numa tentativa falha de fazer a ardência passar.
— Vem cá, deixa eu passar o antisséptico — estendi a mão em sua direção, que já esperava com a mão para segurar a minha. — Você é nova por aqui, nunca te vi antes…
— Primeiro… Filho da pu...! — reclamei em português, quando não consegui aguentar a ardência. O homem fez uma cara de dúvida sobre o que eu falava. — Dia de trabalho — finalizei a frase.
— Já passa — ele assoprou para que a ardência aliviasse. — Eu vivia ralado quando criança. Sou expert em cuidar desse tipo de machucado.
— Confesso que fazia muito tempo que eu não levava um tombo, apesar de eu ser o desastre em pessoa — ri nasalado, e causei o mesmo no moreno à minha frente. E preciso dizer, que sorriso…
— Pronto, logo você está nova em folha!
— Muito obrigada! — agradeci verdadeiramente. Afinal, ele tinha cuidado de mim sem ao menos me conhecer. — Já vou indo! O trabalho me chama — mostrei uma chamada de Angela no celular.
— Ah, e a propósito, sou o .
— Sou ! — pisquei um olho e segui em alguma direção qualquer, atendendo a ligação de Emily.


•••


Respirei fundo e, então, segui para o primeiro box do paddock para começar a me apresentar à equipe da Mercedes – a “poderosa”, se podemos descrevê-la assim. Ali era onde tinha o pentacampeão e famoso Lewis Hamilton e o seu companheiro de equipe, Valteri Bottas, e o chefe de equipe mais charmoso (segundo a internet), o poderoso Toto Wolf. Acho que, afinal, meus estudos não foram em vão. Toto eu já conhecia da reunião.
Adentrei tímida no box e fui me apresentando para alguns mecânicos e engenheiros. Quando o avistei, Wolf fez um sinal para que eu me aproximasse, e ele tinha Lewis ao seu lado.

— Olá, ! Primeiro dia?
— Sim, senhor! — respondi, sorrindo ainda tímida.
— Lewis, essa é a nova fotógrafa responsável pelas mídias da Fórmula 1. Você vai vê-la muito por aí a partir de agora.
— É um prazer conhecer você, ! — ele levantou uma mão, e eu sorri de volta em concordância.

Valteri chegou ao lado de Toto e colocou as mãos na cintura. Então, fui também apresentada ao finlandês, que me estendeu a mão em forma de cumprimento. Automaticamente, estendi a mão direita e, quando sua mão tocou a minha, me retorci de dor.

— Está tudo bem? — ele demonstrou preocupação ao soltar minha mão imediatamente.
— Tá sim, acidente de trabalho — mostrei o ralado. — Acabei de cair.
— Ótimo começo, não? — Hamilton riu nasalado.


30 de agosto de 2019, sexta-feira – Bélgica

Os quartos de hotéis que a Fórmula 1 disponibilizava para os funcionários eram extremamente confortáveis. Ontem, ao chegar, tomei um banho rápido e nem jantei. Deitei-me na cama que pareceu me abraçar e só acordei hoje pela manhã, mais cedo que o meu despertador, totalmente disposta e pronta para mais um dia.
O primeiro treino era por volta das onze horas, e, por incrível que pareça, eu tinha acordado antes das sete, o que me daria tempo suficiente para me exercitar, voltar e tomar um bom banho antes de ir para o circuito que era relativamente próximo dali.
Minha fiel camiseta polo da F1 e uma calça jeans preta eram a escolha perfeita para hoje. Um tênis esportivo também era necessário, já que, com toda certeza, eu andaria muito pelo paddock. Durante minha corrida, acabei perdendo a noção de horário. Não conseguiria nem ao menos tomar um café da manhã. Chamei um táxi e fui em direção ao circuito.
Ainda eram oito e quarenta, mas faltavam algumas equipes para me apresentar e, então, continuar meu trabalho. Ao passar pelas tão conhecidas catracas, algumas pessoas me cumprimentavam e davam bom dia. Talvez por educação, ou simplesmente por saberem quem eu era, já que me apresentei a todos funcionários, mecânicos e engenheiros de cada equipe. Claro, seria humanamente impossível saber o nome de todos, mas a maioria lembrava do meu.
Faltavam ainda Ferrari e McLaren para eu me apresentar, então segui em direção à escuderia vermelha.

Buongiorno (Bom dia) — falei no meu melhor italiano, já que não o praticava há algum tempo. E como era bom me sentir em certo ponto em casa, visto que minha terra natal era o norte da Itália. Assim foram todas as conversas dentro do box da equipe, completamente em italiano.
Buongiorno, ! — Mattia Binotto, com sua voz calma e paternal, saudou-me. Ele apareceu de uma porta atrás de mim, me causando certo espanto.
— Vim me apresentar à sua equipe! Peço desculpas de antemão, mas ontem não consegui passar pelas dez equipes.
— Devo dizer que estou surpreso pelo seu italiano perfeito — falou, vendo que eu não era uma entusiasta na língua.
— Seria de certa forma vergonhoso não saber falar a língua-mãe. Mas dificilmente dizem que eu realmente sou italiana, meus pais são ambos brasileiros.
— Sinta-se em casa então, ragazza (moça).
Grazie mille! (Muito obrigada!)

Mattia era um doce de pessoa. Na verdade, todos eram muito cordiais e educados por ali, ao menos comigo. Mas talvez a nacionalidade em comum pudesse ser considerada no tratamento. Ali todos eram uma família, e eu começava a me sentir acolhida em cada box. Fui me apresentando a cada membro da equipe enquanto os pilotos estavam em entrevistas e compromissos antes do primeiro treino. Também fui avisada que um dos pilotos, o tetracampeão alemão Sebastian Vettel, não falava tão bem italiano quanto a aposta da Ferrari, . Logo tinha que fazer essa parte do usual inglês. Os dois chegaram rindo de alguma coisa ao box e prestaram atenção a minha presença, já que estava em uma conversa animada com Mattia sobre queijos.

— Bom dia, senhores! Me chamo e serei a nova companheira de Emily na questão de fotos e mídias oficiais da Fórmula 1.
— Você me fez sentir velho com o “senhores” — ele fez aspas com as mãos. — Me chame de você, por favor! — disse Sebastian, cordialmente. — Sou Sebastian Vettel.

Estendi a mão e o cumprimentei de volta, lhe oferecendo um sorriso envergonhado pela formalidade.

— o mais novo estendeu sua mão em minha direção em um tom mais seco, que, de certa forma, me causou um arrepio.

Cumprimentei-o e terminei de explicar o que faria ali, então me despedi e segui em direção à última apresentação para que eu finalmente pudesse tomar meu tão amado café da manhã. Mas uma coisa ficou na minha mente: o porquê da frieza do piloto mais novo da escuderia italiana, se até momentos antes de me apresentar, ele parecia ser um doce de pessoa. É, talvez nem todo mundo fosse tão acessível assim...

Por Diós (Por Deus) — Carlos me causava mais uma crise de risos, enquanto engatamos uma conversa totalmente animada.

O entrosamento no box da McLaren foi de outro mundo. Os meninos eram divertidos e logo fizemos amizade. O jovem Lando Norris era fofo e divertido, e ria tanto quanto eu com as histórias de Carlos.
Deixem-me explicar: Carlos Sainz era espanhol, e Lando Norris, britânico. Mas a energia da dupla de pilotos era diferente, e eu com toda certeza me identifiquei com ela.

— Tá certo. Vou indo antes que Zack Brown me expulse desse box por distrair seus pilotos. Adorei conversar com vocês, meninos. Nos vemos pelo paddock — me despedi deles, mas, assim que me virei para sair do box, Lando me chamou.
— Hey, ! Você quer almoçar com a gente? Depois do treino?
— Claro! Encontro vocês na praça de alimentação depois?

Recebi um sorriso e uma afirmação. Acenei como despedida e segui meu caminho para enfim comer alguma coisa e logo produzir mais conteúdo para as mídias da F1.
Um sanduíche nunca foi tão delicioso como aquele que eu comia em uma das mesas externas de uma das lanchonetes destinadas às pessoas que tinham acesso ao paddock. Eu estava há um certo tempo sem me alimentar, então aquilo me parecia a melhor coisa do mundo; inclusive, a comida mais deliciosa que já tinha provado um dia.
Aproveitei para cativar o público e postei um vídeo curtinho do movimento dali enquanto ainda comia. Fiz umas enquetes com fotos aleatórias que tinha feito no dia anterior para que o público pudesse opinar no que mais queria ver. Comecei com várias enquetes legais, assim conseguiria um engajamento perfeito para o perfil do Instagram da F1. Fui até o QG da Fórmula 1 – mais especificamente, ao meu armário – para que eu pudesse pegar minha câmera e começar as fotos oficiais junto ao primeiro treino que se aproximava.
Não sabia explicar, mas a energia que me tomava toda vez que eu pegava uma câmera fotográfica em mãos me dava sempre mais certeza que eu fazia o que amava. Ali, eu conseguia mostrar ao mundo minha visão da vida e das mais diversas situações que eu encontrasse. Pelos meus olhos, eu conseguia mostrar alegria, alívio, aflição, desespero e qualquer outro sentimento que você possa imaginar. Apenas com um olhar atento, o ângulo perfeito e, é claro, o momento certo, tudo isso envolvia muita empatia e compreensão.
A adrenalina era cada vez maior quando o horário do primeiro treino começava a se aproximar. Os pilotos cada um já em seu box terminavam de se arrumar, fechavam o zíper do macacão e colocavam os fones para uma comunicação com os engenheiros, para que pudessem acertar quaisquer imprevistos que viessem a ocorrer na pista com a parte mecânica do carro e, é claro, ajustar melhor as estratégias para serem sempre os melhores. Eles vestiam a balaclava e ajustavam seus capacetes, afivelando bem a trava de segurança. Enquanto entravam no cockpit, nada além do foco existia.
Dentro da pista, não existiam amigos, somente adversários. A atmosfera de competição era totalmente diferente de horas antes. E devo admitir que as melhores fotos eram feitas nessas horas: eles estavam tão concentrados que mal notavam minha presença, então a carga emocional deles ficava bem visível.
Eu estava amando estar no meio disso tudo. Jamais tinha pensando em algum dia trabalhar com fotografia esportiva, mas eu estava começando a tomar gosto.


•••


Sentei-me em uma mesa da praça de alimentação e, enquanto esperava os meninos, comecei a passar cada foto que estava no rolo da câmera. Caramba, precisava mandar isso pra Emily. Bati uma foto com meu celular mesmo e fui enviando as fotos direto da câmera a ela. Esperava profundamente que esse fosse o trabalho que eles esperavam de mim.

Hola, ! — chegou Carlos, animado, com o macacão amarrado na cintura e a camiseta branca de mangas longas levemente suada.
Hola, Carlos, qué pasa? (Oi, o que me conta?)
— Tô começando a gostar de você, fala espanhol também!
— E italiano e português. Mas então, me conta. Por que esse sorrisão no rosto aí…? — falei com naturalidade, com o intuito de tirar o foco de mim.
— Tive um treino excelente, e acredito que a corrida também será — ele abriu ainda mais o sorriso.

Nesse meio-tempo, Lando se aproximou e nos saudou. Estava mais calado, mas tinha um sorriso no rosto também. Depois de algum tempo fazendo fotos de pessoas, você aprende a analisar as feições e identificar muita coisa.

— E você, Lando, como foi o treino?
— Foi ótimo. Espero conseguir uma boa colocação amanhã.

A conversa seguiu mais um tempo com assuntos extremamente banais. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo, e a vibe dos meninos era sensacional. Eles brincavam e riam muito. Na maioria das coisas eu não entendia, claro, mas pudera… Eles eram melhores amigos.
Depois de achar alguma comida que não me parecesse muito fora do que eu costumava comer, voltei para a mesa onde os meninos já tinham retornado com suas respectivas comidas. Quando olhei em volta, a praça estava nitidamente mais cheia: pilotos, engenheiros e mecânicos circulavam por ali à procura de seus próprios almoços.

— O pessoal responsável pela música está desenterrando músicas lá de 2010, me faz lembrar da minha adolescência — fui tomada por uma nostalgia dos meus tempos em que as preocupações eram mínimas se comparadas a agora.
— Quantos anos você tem, ? — Lando arregalou levemente os olhos.
— Tenho vinte e um, faço vinte e dois em alguns meses.
— Achei que você fosse mais nova — Carlos casualmente pontuou.
— Eu sei que tenho cara de mais nova… e às vezes isso me incomoda muito.

E não era uma mentira. Ter aparência de mais nova às vezes botava à prova minha competência como profissional. Eu tinha sorte de estar em um lugar que minha idade não era um impedimento frente ao meu currículo.
A música melhorava a cada uma nova que começava, e, quando pude notar, já cantava Chantaje da Shakira. Ela me contagiava de uma maneira que nem eu sabia explicar… Até porque, sim, eu gostava da música, mas não era uma de minhas favoritas

Pregúntale a quien tú quieras
(Pergunte a quem você quiser)
Vida, te juro que eso no es así
(Vida, eu te juro que não é assim)
Yo nunca tuve una mala intención
(Eu nunca tive uma má intenção)
Yo nunca quise burlarme de ti
(Eu nunca quis zombar de você)
Conmigo ves, nunca se sabe
(Comigo é assim, nunca se sabe)
Un día digo que no y otro que sí
(Um dia digo não e no outro digo que sim)
Yo soy masoquista (Eu sou um masoquista)

No meio de todo o movimento, vi um rosto conhecido que vinha em nossa direção e me fitava divertido, porque notou que eu cantava animadamente a música dos alto-falantes. era um piloto impossível de passar despercebido, e ele nem fazia questão de tal. Vinha acompanhado de seu preparador físico, e o sorriso estampado continuava a se aproximar de nossa mesa. Então, ele continuou a música, mantendo contato visual comigo e me divertindo com sua dança.

Tú eres puro, puro chantaje
(Você é pura, pura chantagem)
Puro, puro chantaje
(Pura, pura chantagem)
Siempre es a tu manera
(É sempre do seu jeito)
Yo te quiero aunque no quiera
(Eu te quero mesmo sem querer)

Eu já não continha mais o riso. Os meninos, que estavam sentados de costas para onde vinha e de frente para mim, me olhavam sem entender. Certamente deviam achar que eu tinha alguns parafusos a menos. Fiz um meneio de cabeça, indicando que o motivo da minha risada estava atrás deles.

Tú eres puro, puro chantaje
(Você é pura, pura chantagem)
Puro, puro chantaje
(Pura, pura chantagem)
Vas libre como el aire
(Vai livre como o ar)
No soy de ti ni de nadie
(Eu não sou sua nem de ninguém)

— Ele é piloto e dançarino nas horas vagas ainda! — falei, divertida, quando ele parou na nossa mesa ainda rindo da própria performance e da minha constatação.
— Eu tenho várias qualidades além dessa, muchacha — tenho certeza que senti um tom de cantada na fala de , mas podia ser coisa da minha cabeça. E provavelmente era.
— Pronto, outro que me chama de novinha — soltei rindo, com uma falsa indignação na voz.

me olhou com uma sobrancelha arqueada igual ao dia anterior, quando soltei o palavrão em português. Também ouvi uma risada de Carlos, que tinha entendido minha resposta.

, “muchacha” se fala pra menina, garota. A já é uma mulher... — ele explicou, fazendo todos rirem. Carlos ficou com uma cara de convencimento por ter ensinado algo.
— Tá certo, podemos sentar com vocês? — e sem esperar uma resposta, que acredito que seria positiva por todos, se sentou ao meu lado.

A conversa nunca terminava com eles. O assunto não esgotava, e eu não me sentia tratada como a única do sexo feminino na mesa, o que, de certa forma, me deixava muito confortável. Sempre tive homens como amigos que me tratavam igual, sem me desdenharem apenas por ser mulher.
Senti meu celular vibrar e vi na tela o nome de Angela. Pedi licença e fui atender a ligação mais longe da mesa.

’s POV OFF


Enquanto a jovem fotógrafa ia atender o telefone, os três pilotos e o preparador físico continuavam a conversa animada sobre esportes radicais, os quais alguns faziam nas férias e no tempo livre. Até que o jovem piloto da McLaren inconscientemente se vira para trás e solta:
— Acho que estou apaixonado.

, atento a tudo, ouve e estoura em risos do colega de profissão.

— Tão rápido assim, Norris? — sua frase fez com que os presentes na mesa parassem de papear e prestassem a atenção no que os dois conversavam.
— Ah, caramba, como sou besta — lamentou-se Norris por ter soltado a bomba justo no colo do piloto mais zoeiro do paddock. — Tô ferrado!
— Que é isso, jovem Lando! Prometo que minha boca será um túmulo.

Mas é claro que, se tratando de , isso não seria uma verdade absoluta.
Quando voltou à mesa, os meninos ainda riam de algo, mas o sorriso da garota fez com que eles quisessem saber o que tinha acontecido na tal ligação

— Falou com o passarinho verde, ? — perguntou, curioso.
— Você adoraria saber, não é mesmo? — soltou no mesmo tom de brincadeira. — Mas não, estou solteira. Pensando em entrar pra fila, ? — terminou a frase, e os outros três riam mudos.
— Talvez — respondeu, pensativo. — Mas tenho certeza de quem seria o primeiro dela — insinuou, deixando o jovem Lando mais vermelho que um pimentão. Na tentativa de disfarçar, ele riu com os outros presentes na mesa.
— A Emily mandou um oi para todos. E mandou boa sorte também. Estávamos conversando sobre as fotos que fiz mais cedo — ela sorriu, como quando havia chegado na mesa, e se deu por vencida por ter conseguido trocar de assunto.

Naquele momento, a mulher tinha se sentido constrangida como não tinha antes na companhia dos meninos, mas nada que fosse intimidá-la. Se tinha uma coisa que a fotógrafa sabia fazer, era se defender quando preciso.

— Estou ansioso pra ver as suas fotos, Zack elogiou muito seu trabalho — Carlos pareceu ver o estado de e ajudou a garota a continuar o novo assunto e fazê-la se sentir novamente confortável.
— Zack Brown elogiou meu trabalho? — a surpresa em sua voz era nítida. Um chefe de equipe elogiar seu recente trabalho ali era algo muito recompensador para qualquer um.
— Sim e muito! — complementou Lando, que começava a cantar a música dos alto-falantes. — Preciso concordar com a , a música hoje está muito boa mesmo.
— Eu tô tão contagiada que poderia ir pra uma festa agora mesmo. Vou aproveitar que estou pela Europa e viajando com mais frequência e vou achar uma festa legal… O que vocês sugerem?
— Ibiza ou Mônaco — sugeriu Michael, o treinador de , fazendo com que os outros também concordassem.
— Ok, Ibiza. Se vocês souberem de alguma festa em especifico e elas acontecerem em alguma semana de folga, eu agradeço!
— Te levo um dia, — disse de forma inocente, deixando Norris mais uma vez incomodado.


1 de setembro de 2019, domingo – Bélgica

Dirigir em alta velocidade em uma pista era mais que um esporte ou uma profissão. Era paixão por sentir cada centímetro do corpo tomado por adrenalina. A sensação que eriçava o pelo e deixava o coração quase no mesmo ritmo que o ronco do carro. Era quando máquina e homem se tornavam uma coisa só.


’s POV ON

O tão aguardado domingo de corrida tinha chegado. Eu estava muito animada para ver de fato minha primeira corrida – não que antes não tenha visto uma volta ou outra por pura insistência da minha mãe, que era apaixonada pelo esporte. E devo confessar: ser acordada todo domingo com os benditos roncos dos motores v10 passando a cada volta era extremamente estressante para uma pré-adolescente naquela época, o que com toda certeza me afastou muito do esporte.
Eu terminava algumas postagens que Angela havia me mandado a arte e assim cativava o público pela corrida, que estava prestes a começar. Hoje tinha passado tão rápido que mal conversei com qualquer um dos pilotos. Eles costumavam se isolar para se concentrarem melhor e focarem em cada estratégia, e a mim só cabiam os registros que ficavam cada vez melhores.
O pole position4 de ontem tinha sido por conta do carro 16 da Ferrari, que pertencia a . Aquilo não me fazia sentir mais animada, já que o cara foi um poço de frieza comigo. Eu não tinha um favorito nem de longe; afinal, eu trabalhava com todos. Mas eu não tinha a mínima chance de me animar nesse caso.
Ontem, com mais um treino livre e por fim o classificatório, me virei em duas, já que corria de um lado para outro a fim de conseguir vários registros dos diferentes acontecimentos do paddock. Mas tudo estava indo melhor que eu mesma achei que seria. As métricas das redes sociais estavam melhores do que nunca, e isso me deixava com a sensação de estar indo pelo caminho certo.
Pronto, última postagem antes de me dirigir pro grid5. Minha visão periférica era ótima, então eu conseguia mexer no celular e me desviar dos outros com maestria.

— Ei, garota! Olha por onde anda! — ouvi um inglês com o sotaque totalmente carregado de italiano.
— Perdão — levantei o rosto para me dirigir ao ser que acabava de trombar em mim e me olhava parado com desdém e os braços cruzados sobre o peito. — Posso te ajudar?
— Na realidade, eu esperava um pedido de desculpas melhor que esse, brasiliana…
Scusa! (Desculpe!) Eu esqueci que o golden boy da Ferrari estava passando e não podia desviar de mim! — usei todo meu desdém na frase, apontando para o grande espaço ao nosso redor, porque a prepotência desse garoto era demais para manter minha boa educação.
— A sua sorte é que você é muito boa no que faz, porque educação lhe falta — ele retrucou, grosseiro.
— Se você dormiu com a bunda descoberta, a culpa não é minha, piloto. Boa prova pra você — me desviei dele e segui para o grid, a fim de terminar meu trabalho antes da prova. Deixei-o ali, parado, com a maior cara de indignação. Afinal, não acredito que alguém já o tenha respondido dessa maneira.

Estar ali perto de tudo, ouvir os roncos dos carros só esperando as luzes vermelhas se apagarem e toda a mágica começar era de outro mundo. Eu, que não estava dentro de um daqueles carros, exalava adrenalina. Era um sentimento único, fazia até o pelo eriçar. A sensação era deliciosamente viciante, não queria mais parar de senti-la. O cheiro da borracha dos pneus e gasolina próximo aos boxes das equipes eram cheiros comuns, mas, ali, eles tornavam únicos e característicos de um domingo de corrida. Todo o pessoal envolvido mantinha os olhos vidrados nas televisões, atentos a cada volta. Esperando qualquer resultado positivo de uma ultrapassagem e torcendo para que nenhuma batida acontecesse.
Então, a trombada com me deixou de certa forma intrigada. Como ele me chamava de “brasiliana” se ninguém sabia qual tinha sido o país onde vivi praticamente toda minha vida? Em algum momento, eu descobriria…
A narração inglesa dava todo o ar de rivalidade e competição que uma boa corrida precisava. Eu olhava atentamente cada volta esperando pelo fim e, em alguns momentos, postava as fotos que Angela me encaminhava dos fotógrafos que ficavam ao redor da pista.
Assim que a corrida chegou ao fim, bem acirrada entre Lewis e , tendo como vitorioso o piloto da escuderia vermelha, me dirigi a área da pista para fazer o restante do meu trabalho esse final de semana. exalava soberba, pelo menos em relação a mim. Com outras pessoas, ele parecia tão amável. Não saberia dizer por que cativei tanto ódio dele, afinal de contas.
passou por mim e pareceu não notar minha presença. Me aproximei e aproveitei o momento para fazer uma foto do cumprimento dos dois e acabei ouvindo a conversa.

— Parabéns pela corrida, cara! — saudou , em um cumprimento de meio abraço.
— Valeu, , você também correu bem! — ele retribuiu o gesto do amigo, que já ia saindo, mas pareceu se lembrar de algo.
— Ah, eu não sei o que ela pode ter feito pra você, mas aprenda a tratar a melhor. E isso serve pra qualquer mulher...

Eu não precisava que ninguém me defendesse. Meu sangue parecia ferver, tamanho o incômodo que senti da situação. Prontamente me fiz visível para os dois pilotos, que não tinham me percebido ali até então, e, com um sorriso no rosto, para que ninguém ao redor percebesse meu descontentamento, falei entredentes:

— Obrigada, , mas eu sei me defender desse aí…



1Paddock: Local onde ficam os QG’s das equipes e abrigam o pessoal das equipes, veículos, oficiais de prova e convidados.
2QG: Centro administrativo móvel de cada equipe. Ali se concentram salas de reuniões, cafés, dentre outros.
3Box: Onde o carro fica antes de sair para as corridas. Ali também são controladas por dezenas de pessoas informações técnicas e mecânicas de cada carro. A equipe tem direito a dois boxes de 200 m².
4Pole Position: Um piloto é considerado o pole position, em automobilismo, quando inicia a corrida na primeira posição do grid.
5Grid: nas corridas de Fórmula 1, é a colocação de largada dos carros.


Capítulo 2

8 de setembro de 2019, sexta-feira – Itália

O trabalho nunca começava no final de semana, com toda certeza era quando ele ficava muito mais intenso. e Emily tinham muito trabalho durante a semana no escritório. Desde editar fotos até criar conteúdos, as estratégias para atrair cada vez mais o público para as redes eram fundamentais. Com as meninas havia sempre uma equipe maravilhosa de marketing para apoiar e guiá-las no que fosse preciso. As reuniões sempre as ajudavam com ideias e um norte do que precisaria ser feito durante os dias, e nos finais de semana de corrida também. Por esse motivo, a chegada delas em Monza foi somente hoje, sexta-feira, e não ontem como o habitual.
Durante todo o caminho até o trabalho, elas tinham uma conversa extremamente animada. Era nítido o quanto se tornaram amigas nas últimas semanas, desde quando começaram a trabalhar juntas. Ao adentrar o paddock, Emily cumprimentou inúmeras pessoas, então avistou as duas social medias e foi de encontro a elas.

— Bom dia, senhoritas — se curvou, rindo dele mesmo e de seu exagerado cumprimento.
— Bom dia! Como está, ? — Emily respondeu, animada.
— Bom dia — respondeu quase sem entusiasmo, prestando atenção no celular e em algo que aproveitava para fazer devido à parada das duas para falar com .

Emily logo estranhou a reação de , já que ela havia contado de todo o incidente e como tinha se dado bem com o piloto australiano no final de semana anterior. A garota logo saiu para atender o telefone, assim se despedindo e começando os trabalhos daquele Grande Prêmio.6
A cidade de Monza era simplesmente encantadora. Era a casa da equipe, onde acontecia a corrida mais esperada por qualquer piloto que corresse pela escuderia italiana Ferrari. A cor que predominava nas arquibancadas e por onde se olhasse era vermelho. A pista era uma das mais velozes da Europa, além de, claro, ser outra corrida favorita da maioria dos pilotos do grid. O movimento já era intenso logo de manhã cedo, visto que os treinos em breve começariam. As meninas não perderam tempo e partiram para produzir conteúdos e fotos.


’s POV ON

Esse final de semana com toda certeza seria intenso. Como estávamos na casa da Ferrari, nossa atenção também se voltaria mais a eles, com mais postagens e – a parte que não me agradava nem um pouco – mais interação com o piloto egocêntrico. Tirando isso, meu trabalho não poderia ser melhor. Eu e Emily éramos uma dupla perfeita, tínhamos uma dinâmica ótima. Enquanto uma cumpria uma parte da nossa lista, a outra adiantava outras tarefas.
A chuva ia e vinha, uma garoa fininha e chata. Ouvíamos burburinhos das bandeiras vermelhas durante o primeiro treino da manhã. Cada vez que eu ouvia sobre uma bandeira vermelha, rezava para que nada de grave tivesse acontecido. A bandeira dessa cor só era dada aos pilotos em caso de acidentes nos quais seria impossível retirar o carro da pista em segurança, sem atrapalhar a corrida e torná-la perigosa a quem fazia seu trabalho na pista. Para minha tranquilidade, ocorreram acidentes leves e os três pilotos estavam ótimos; somente danos nos carros.
Com o fim do primeiro treino, meu trabalho e de Emily era mais corrido, por ser um prato cheio de acontecimentos para produzir fotos e mídias. Em uma das incontáveis vezes que eu percorria todos os boxes das equipes, vi a dupla que eu mais tinha afeição ali com sorrisos no rostos. E claro que eu não podia deixar de registrar momentos como aqueles.

— Já comentei com vocês que eu odeio trabalhar na chuva? — cheguei rindo do meu estado em uma capa transparente.
— Você fica ótima com essa capa. Tente dirigir a mais de 320km/h na chuva, é ótimo de enxergar a pista — também rindo, Carlos comparou nossos trabalhos.
— É, você tem razão. Prefiro ficar com a minha capa bem fashion mesmo.
— Então vocês já me trocaram pela novata, é? — chegou Emily, que estava fazendo uns vídeos mais atrás de onde estávamos.
— Claro que sim. A até fala espanhol. É perfeita, ela me entende — a seriedade na voz de Carlos me fez gargalhar.
— E olha só isso, Emily. A risada dela é a coisa mais linda desse mundo — parou ao lado de Carlos o jovem Lando, que, até então, resolvia algumas coisas com sua assessora pessoal.
— Acho que o Lando é o primeiro que eu vejo deixar a envergonhada.

De repente, todos os três olharam para mim, me deixando ainda mais roxa de vergonha.

— Em minha defesa — comecei, tentando recobrar a minha cor normal —, eu não sei lidar com elogios.
— Apenas aceite-os — Carlos sempre sabia como me deixar mais tranquila e me tirar de saias justas. Eu precisava agradecê-lo algum dia.
— Mas voltando ao assunto de trabalho — Emily interveio —, por favor não nos matem de susto nessa chuva, ok? Eu e ficamos muito apreensivas com todas essas bandeiras vermelhas nesse treino.
— Fiquem tranquilas, meninas. Estamos bem. Gasly, Perez e Raikkonen estão bem também, nada grave com eles.
— Menos mal. Eu fiquei bem preocupada, mas preciso parabenizar vocês pelo ótimo treino! — comentei, e os meninos abriram um sorriso ainda maior e me agradeceram.

Logo em seguida, Zack Brown os chamou para alguma reunião nos boxes, e eu e Emily seguimos para a praça de alimentação para tomar café da manhã. Era difícil o silêncio prevalecer em nossos momentos juntas. Pelo pouco que conhecia da minha colega, sabia que ela pensava em algo.
— Fala aí o que está te afligindo.
— Nada não. Tava só pensando em como o Lando tá caidinho por você… — ela deu uma pausa e me olhou. — Não só ele. Na verdade, queria saber o que você fez… — deu uma gargalhada alta.
— EU? — fiquei surpresa com a constatação dela. — Você tá louca. Os meninos são uns amores e fizemos amizade mais fácil, mas é só…
— Tá bom, . Vou fingir que eu acredito e que você não percebeu — seu tom de deboche me deixou ainda mais intrigada. De fato eu não tinha percebido nada.

Tá certo que eu era muito tapada e bem inocente nesse ponto, porque sim, me julguem, mas eu ainda escolhia acreditar na humanidade. Jamais pensei que algo pudesse acontecer em duas semanas assim. Até porque sempre tive amigos homens, e eles sempre foram só isso: amigos. Trabalhar em um ambiente povoado por muitos deles certamente era algo que poderia acontecer em algum momento, mas eu não tinha parado para pensar em uma possibilidade dessas, já que o êxtase em ter um emprego num lugar assim era algo de outro mundo.
Já tinha acontecido muita coisa nos últimos quinze dias, mas eu sentia que estava exatamente onde deveria. Estava vivendo minha vida igual à dos pilotos em seus carros velozes: intensamente.
Aí você se pergunta, por que intensamente? Nada de mais tinha acontecido até agora. Umas amizades novas, um trabalho novo, um país novo a cada semana… Mas para quem era acostumada com a mesmíssima coisa há anos, sim, eu estava vivendo intensamente à minha maneira.

, certo? — de forma muito simpática, Lewis Hamilton se aproximou de mim com um sorriso sem mostrar os dentes.
— Eu mesma! Bom dia, Lewis. No que posso ajudar?
— Bom dia! Nada não, só queria saber como estava sua mão. Sabe, do tombo de semana passada… — a tranquilidade emanava dele, e eu não fazia ideia de onde vinha tanto autocontrole. O cara que tinha acabado de sair do carro que chegara a pelo menos 320km/h continha uma feição de como se estivesse voltando do shopping.
— Ah, sim! — olhei para a palma da minha mão e me virei em sua direção. — Tá nova em folha! Obrigada por perguntar.

No instante seguinte, arqueei uma sobrancelha quando vi um buldogue inglês. Cães definitivamente não eram comuns naquele ambiente. Hamilton girou seus calcanhares e ficou de costas para mim, para ver o que eu olhava atrás dele.

— Olha, um cachorro! — me abaixei e o simpático cão veio até mim, saltitando.
— Lewis! — vi uma mulher loira e de meia-idade chegar correndo logo atrás do cachorro, que parecia ter dado um baile na moça. — Roscoe fugiu de novo da coleira. Acho que ele te viu lá do box... — ela parou para puxar o ar que lhe faltou — … e veio correndo.
— Fica tranquila, Angela. Acho que Roscoe acabou de fazer uma nova amiga — ele apontou para mim, enquanto o cão recebia meu carinho e me lambia a mão em troca.
— Eu amo cães. Roscoe é uma fofura! Não sabia que era seu, Lewis.
— Ele é meu amuleto e meu melhor amigo. Sempre que consigo, ele vem às corridas comigo. Todos já o conhecem, então só prendemos ele quando os carros estão na pista. Se não, ele vem atrás de mim.
— Sinto falta de um amigo de quatro patas… — soltei pensativa, sentindo saudades de todos pets que já tive a honra de ter. Inclusive de Órion, mas sabia que estavam cuidando bem dele.
— Você não tem nenhum? — ele mostrou interesse na conversa.
— Os meus estão com minha mãe no Brasil. Aqui é impossível, estou sempre viajando...
— Verdade! Mas sempre que quiser, pode vir afofar o Roscoe. Ele gostou de você!
— Pode deixar! — levei o rosto do cão próximo ao meu, segurando-o com as duas mão e ganhando uma lambida no nariz em retorno.
— Nos falamos, ! Até! — então chamou o cachorro, que saiu saltitando feliz em seguir o dono.
— Até, Lewis! — me despedi.

O dia seguiu tranquilo, trabalhoso como era de se esperar, mas sem mais imprevistos – além de, claro, mais pista molhada e a insistente garoa. Com o último treino no meio da tarde, conseguimos voltar relativamente cedo para o hotel e descansar, inclusive aproveitá-lo. Os dias quentes na Europa estavam terminando, e a piscina coberta era um local ótimo para relaxar em plena sexta-feira.
Um biquíni preto e uma saída de praia branca rendada me acompanharam na piscina do hotel. Alguns mergulhos depois e parecia que todo o cansaço tinha ficado para trás. Sequei meu corpo com a toalha, coloquei a saída de praia e subi, a fim de me arrumar para o jantar que havia combinado com Emily.
A água morna escorrendo pelo meu corpo no chuveiro parecia me abraçar e me relaxar ainda mais. Me apressei quando ouvi meu celular tocando no quarto e percebi que estava possivelmente atrasada para o jantar. Me enrolei na toalha e voltei até lá para ver do que se tratava. Foi quando vi uma ligação perdida de Emily e uma mensagem:

, tive que voltar até o circuito. Devo me atrasar um pouco, te encontro no restaurante às oito! Beijo, Ems.”

Como eu ainda tinha um certo tempo para me arrumar, decidi secar meu cabelo e o deixei bem liso. Passei o mínimo de maquiagem, já que logo eu a tiraria. Na minha mala, procurei por uma roupa simples e confortável: uma blusa azul royal e uma calça jeans de lavagem clara destroyed foram as escolhas para o jantar. Passei um perfume leve e, quando olhei o relógio do celular, faltavam apenas cinco minutos.
Tranquei a porta e saí em direção ao elevador do andar, a fim de chegar no segundo piso e encontrar Ems no restaurante. Minha colega de trabalho e amiga já me esperava em uma mesa para duas pessoas em um dos cantos do restaurante.

— Pontual você, hein? — ela provocou.
— Sempre. Não sou britânica. Não gosto de deixar as pessoas esperando.
— Gosto disso. Mas então, me conta, como foi a piscina?
— Como você sabe, Ems?
— Minha cara amiga, você tem que entender que você tá num hotel com vinte pilotos, e que homem é tão fofoqueiro ou mais que as mulheres.
— Caramba! Rápidos, não? Isso que não devo ter passado mais que trinta minutos lá, e não me lembro de ter visto nenhum nos arredores da piscina…
— E no bar? — ela levantou uma sobrancelha e deu um risinho sacana para mim.
— Que bar? — eu definitivamente era tapada. Não tinha visto um bar. Ems gargalhava na minha frente.
— Vamos abafar o assunto, , senão eu viro a fofoqueira aqui…
— Agora você termina de me contar direito!

’s POV OFF


As meninas continuaram a rir uma com a outra. insistia em querer saber qual o motivo de algum dos pilotos contar a Emily que ela tinha ido na piscina mais cedo. Alguns deles já povoavam o restaurante e se dividiam em grupos de afinidade em diferentes mesas. A intenção era não sair do hotel hoje, já que a classificação seria no dia seguinte, e, com toda certeza, era importantíssima para a corrida de domingo.
Ao entrar no restaurante, zapeou com os olhos à procura da moça. Ele estava definitivamente preocupado se havia feito algo errado. Decidiu ir até lá e, em certo ponto, estranhou ter lhe seguido sem contestar. Ao se aproximar da mesa, o piloto da escuderia vermelha viu de quem se tratava, mas não havia mais muito a ser feito. sabia que não gostava de , mas tinha certeza que não seria grosseiro. Ou, pelo menos, esperava que não.

— Boa noite, belas moças!
— Boa noite, ! Muito cansado? — sempre prestativa, Emily respondeu ao piloto australiano.
— Boa noite — sem ser grosseira, mas sem muita intimidade, respondeu aos dois rapazes.
— Nah! — ele balançou a mão no ar. — Eu tô ótimo e pronto pra deixar alguém aqui comer poeira — cutucou , para enfatizar de quem falava. Este parecia tão aéreo quanto a fotógrafa.
— Ah, claro. Vai vendo, respondeu, brincando também.
— Sem briga, rapazes — Emily entrou no tom de brincadeira.
— Depois a gente vai pra sala de jogos. Vocês estão convidadas, ladies.
— Obrigada!

Mais uma vez, Emily estranhou a amiga tão calada. Ela decidiu não tocar mais naquele assunto durante o jantar, e pareceu voltar ao normal. Conversaram sobre assuntos super aleatórios e se conheceram ainda mais.
Quando resolveram subir, Emily tentou convidar a garota para a sala de jogos também, mas ela preferiu seguir para o quarto e ficar lá pelo resto da noite. Algo definitivamente estava errado, mas Emily descobriria isso no dia seguinte.


9 de setembro de 2019, sábado – Itália

Emily’s POV ON


tinha chegado há pouco tempo, mas já tinha me conquistado com seu jeito doce e durão ao mesmo tempo. A realidade é que ela só parecia uma leoa quando se sentia ameaçada, e principalmente por homens. E isso me deixava muito mais aliviada, porque ela sabia se proteger de qualquer um naquele lugar. Na verdade, a garota não passava de uma gatinha que ronronava com facilidade – era só saber lidar com ela. O que vinha me deixando intrigada, se podemos dizer assim, era a repentina ignorada e indiferença que vinha dando em , sendo que ela mesma me contou que eles tinham se dado muito bem uma semana antes. Eu conhecia muito bem e conhecia relativamente . Algo tinha acontecido.
Com o intuito de descobrir o que havia acontecido, saí mais cedo do que tínhamos combinado no dia anterior. Mandei uma mensagem avisando que tive um imprevisto, então saí mais cedo para o autódromo e fui descobrir o que tinha acontecido.
Eu tinha que bancar a CSI sem dar pistas, e precisava pensar por onde começar para não deixar muito escancaradas as minhas intenções. Quem diria, né? Que eu, mera social media da F1, bancaria uma investigadora pelo bem de uma amiga e ótima profissional.
O mundo das corridas podia ser muito cruel. Apesar de todos serem muito amáveis, cada um almejava vencer. Tinham rivais obstinados a ser os melhores do grid, e eles fariam o possível dentro das rígidas regras da FIA8 para vencer cada corrida. Para isso, as farpas entre algumas equipes eram constantes, e eu não queria que isso afetasse . Sabia que não éramos normais, mas queria ela por perto por muito tempo!
Outra pessoa que parecia ter pensado o mesmo que eu era . Ao me ver passar, veio empolgado em minha direção. Quando não achou o que procurava – que tenho certeza que não era minha pessoa –, ele deu uma desviada no caminho que fazia com afinco e só acenou de longe. Confesso que eu amava essa persistência dele. Não era algo abusivo ou exagerado, mas acho que ele queria saber tanto quanto eu o que acontecia. Ele, direto com ; e eu, o que havia acontecido entre eles.
Passei disfarçadamente na frente de cada box das equipes e notei que Riccardo não estava lá. Uma ideia me veio à mente, e talvez seu colega de equipe, o alemão Nico Hulkenberg, pudesse me ajudar.

— Bom dia, loiro bonitão — brincando, cumprimentei meu amigo.
— Fala, Ems! Fazia tempo que eu não via você… — ele veio ao meu encontro para me dar um abraço. — Já está abandonando o trabalho?
— Não, não… Só tenho passado mais serviço pra , assim ela consegue aprender na prática — comentei, animada.
— Gostei dela. Não conversamos muito, mas Riccardo me comentou que ela é uma pessoa bacana.
— Bom saber! Mas falando nela, você sabe o que tá acontecendo entre o e ela?
— Entre os dois, nada. Mas não para de falar sobre como ela é divertida, querida, engraçada, bonita… — ele enumerava com os dedos os vários elogios que ouviu do colega de equipe sobre .
— Tá certo. Obrigada, Nico! Nos falamos! — ri nasalado enquanto ia me retirando.

Eu adorava conversar com Nico. Ele sempre me entregava o ouro de bandeja sem nem perceber, além de ser um ótimo amigo. estava com vergonha das cantadas de , e eu não estava acreditando que era só isso. Porém, assim minha mente ficou mais tranquila. Meu dever estava cumprido.

Emily’s POV OFF


A jovem fotógrafa se levantou no horário exato para ficar pronta e sair com Emily para o autódromo. Assim que pegou o celular para checar as mensagens, viu que a colega tinha mandado uma para lhe avisar sobre um imprevisto. Então, iria sozinha ao local da corrida.
Enquanto se arrumava vagarosamente, a sonolência arrastava a moça para a higiene matinal. Hoje era definitivamente um dia que nada servia, inclusive sua aparência no espelho não a agradava. As olheiras começavam a ficar fundas, e o cansaço, a aparecer. A correria não era ruim, mas ela ainda não havia se acostumado.
Vestida e maquiada para tentar esconder uma noite mal dormida por pura insônia, a garota estava pronta para passar mais um dia, ou quase isso. Ao sair, colocou os fones de ouvido e chamou um carro de aplicativo para levá-la ao destino final e começar o trabalho.
Ela conhecia um bom jeito de animar o seu dia, que ainda tinha resquícios de sonolência: seus bons fones de ouvido e uma música animada. Talvez um bom som a acordasse melhor e a deixasse com o humor minimamente aceitável.

Coloque essa música para tocar

Embora nada tivesse dado errado desde que chegara ao continente europeu, o caminho até lá lhe deixou uma sensação de vazio. achou um novo trabalho relativamente rápido, novas amizades e nenhum conflito de muita importância. Talvez esse fosse o vazio: sua vida estava calma demais.
Num piscar de olhos, lá estava ela no autódromo de Monza, que, graças aos céus, ainda estava relativamente vazio. Hoje seria o primeiro dia de trabalho que não lhe agradava, e tinha a impressão que não seria o último. Mas a música vinha cumprindo seu papel de deixar a moça mais animada. Porém, ao ver todas aquelas bandeiras vermelhas com o símbolo da Ferrari, teve uma leve dor de cabeça. Os óculos de sol escuros ajudavam na tarefa de esconder o sono; os fones, o mau-humor. Mas ficar perto de não seria uma tarefa de todo fácil para . Ainda bem que tinha a colega de trabalho e a amiga ao seu lado.
precisava a todo custo falar com ela. A impaciência era nítida. Ele queria se desculpar, independente de quem fosse. Não queria causar uma impressão ruim. Longe do rapaz querer se meter na vida de alguém, ele somente havia feito o que achou certo.
Ao passar pela décima vez pela entrada do paddock, viu a moça de trança lateral, óculos de sol e, como já a havia visto bastante, mexendo no celular. não pareceu notar a presença do piloto, que, mesmo parando quase em sua frente, foi desviado pela moça que olhava atentamente o aparelho em suas mãos, já que sua habilidade de mexer no celular e caminhar sem esbarrar em ninguém era ótima.


’s POV ON

Caramba, como essa música me contagiava. Ela podia ser mais antiga, mas não saía das minhas playlists há muito tempo. Ela me tinha de um jeito único e conseguia deixar meu dia melhor.

I wanna thrill you like Michael
(Eu quero te emocionar como Michael)
I want to kiss you like Prince
(Eu quero te beijar como o Prince)
Let's get it on like Marvin Gaye, like Hathaway
(Vamos entrar nessa como o Marvin Gaye, como Hathaway)
Write a song for you like this
(Escrever uma música pra você assim)

— Hey! Meu fone! — fiz manha.
— Vai falar comigo? — parecia querer fazer uma troca.
— E por que eu não falaria com você, ?
— Porque você nem me olhou direito na cara ontem… — respondeu, como se fosse óbvio.
— Ah, pronto! Agora eu tenho que falar com você a cada segundo que te ver?
— Sim? — soltou, brincalhão.
— Não quero discutir com você, . Preciso tomar um café e acordar, pra não ser ainda mais rude com você. Depois conversamos, certo? — eu estava irritada, com sono e de mau-humor, mas ainda precisava do meu emprego.
— Eu pago seu café, dona estressada.

Devo confessar, era uma peça rara.


•••


Aquele cappuccino que comprou era um dos melhores que eu já tinha tomado na minha vida. Era cremoso, doce na medida certa, e o gostinho de chocolate suíço ao fundo deixava a mistura simplesmente perfeita. Não sabia se era o mau-humor por conta do sono ou pela fome, mas com certeza soube como acalmar minha fera ou fome – chame como você quiser – com um simples cappuccino.

— Já podemos conversar? — ele estava sério, o que me levou a prestar atenção no que falava. Nesses dois finais de semana eu só tinha o visto assim prestes a correr.
— Sim. Inclusive, desculpa. Eu não dormi à noite e fui muito grosseira.
— Tenho uma irmã, . Sei como as mulheres ficam de mau-humor, não precisa pedir desculpas.
— Você tem irmã?
— Tenho, ela é mais velha. Inclusive, tenho uma sobrinha que a mídia pinta e borda que é minha filha…
— Não sei se amo ou odeio a mídia, é uma linha tênue. Mas lá eu pude estudar sobre todo esse mundo.
— Espero que você tenha procurado nos lugares certos. Nem tudo que falam é verdade — ele pareceu receoso.
— Fica tranquilo, . Não fui em site de fofocas esportivas, só em sites oficiais, prometo — levantei a mão, como se fizesse um juramento.
— Vou confiar em você — ele apontou o dedo, como quem estava me dando uma chance. — Mas, primeiro, preciso te entregar uma coisa — estendeu uma caixa quadrada e preta, escrito Ray-Ban em dourado no topo.
— Não acredito! Você…
— Abre logo! — ele me interrompeu, enquanto eu olhava boba para a caixa na minha frente.

Coloquei o dedo no recorte para abri-la e lá estava um óculos exatamente igual ao meu. Me surpreendi, já que aquele modelo não era produzido há alguns anos. Lembro como se fosse hoje do dia em que o comprei. Foi o meu primeiro óculos de sol, aquele que eu tinha comprado com o meu suado dinheiro na época. Que sabor maravilhoso poder conquistar as próprias coisas.

, nem sei como agradecer. Não faço ideia como você conseguiu esse óculos, mas obrigada por ter esse cuidado e comprado outro também! Ele tem um significado gigante pra mim.
— Não revelo meus meios — deu uma risada nasalada e brincalhona, com seu sorriso típico no rosto —, mas fico feliz em ter conseguido devolvê-lo a você.

Levantei-me da mesa e fiz sinal para que fizesse o mesmo. Então, o abracei, me sentindo realmente grata. Se tinha uma coisa que eu era apegada eram às memórias. E aquele óculos era parte da minha.


•••


Depois de uma bandeira vermelha causada por Kimi Raikkonen, sem nada grave, acabou que o golden boy da Ferrari novamente tinha conseguido o pole position. Nenhum piloto saiu com menos de dois minutos para o final do treino classificatório, e não conseguiram abrir a volta mais rápida.9 O pior de tudo é que eu precisaria aturar a petulância do garoto logo mais.

— Emily, será que ir embora agora e inventar uma dor de barriga pegaria mal?
— Não estou entendendo você. Não gosta mais do trabalho, ?
— Não gosto é dele — fiz sinal com a cabeça para o piloto mais à frente.
— Para com isso, . O é um amor de pessoa, um dos pilotos mais doces que já conheci.
— Só se for com você, lindinha — disse com desdém.

A pior parte do dia tinha oficialmente chegado, e não demorou para o meu humor mudar por completo. Hoje em especial meu dia já não tinha começado com um belo humor, e vamos ser sinceros? Eu não era obrigada a ser mil sorrisos sempre, principalmente com alguém que era um poço de grosseria comigo.
O pessoal da Ferrari nos passava algumas preferências, já que também usariam as fotos; portanto, elas precisariam ficar dentro dos padrões da escuderia. Após tudo esclarecido, ficamos a sós com os pilotos e os carros, e ali eu sabia que o inferno começaria. Mantive meu profissionalismo ao extremo, mas devo dizer que se mexer de propósito cada vez que eu o enquadrava em um ângulo bom me tirava do sério. O filho de uma boa mãe se mexia de propósito. Mas aí você deve estar pensando: que tipo de profissional eu sou? Porque, afinal, minha câmera deveria captar imagens com uma rapidez absurda. E a resposta é sim e não, porque muitas vezes eu precisava aumentar a exposição, o que, consequentemente, fazia com que o diafragma fechasse mais lentamente e que o clique fosse mais lento. E era exatamente nessas fotos que aquele ser resolvia se mexer, mesmo com aviso prévio do que eu faria.

— Emily, você vai mesmo deixar a parte das mídias da F1? — perguntou num tom exagerado, como se quisesse chamar a atenção.
— Sim e não. A partir da próxima temporada, assume essa parte sozinha. Eu ficarei lá em Londres internamente.
— Ah, entendi — ele terminou o diálogo.

Eu estava cada vez mais estressada. Esse protótipo de piloto dificultava ainda mais meu trabalho. Minha paciência estava chegando no limite, mas, no fim, se eu o matasse, perdia meu emprego e o réu primário. O réu eu juro que perdia, mas o emprego eu realmente gostava e precisava; então, tentei parar de fotografá-lo e fiquei a alguns metros de distância, conferindo se algo tinha prestado.
Resolvi chamar Emily por um segundo para mostrar o resultado. Sabia que o que tinha feito era sutil o suficiente para que ninguém percebesse. Porém, somado ao que ele já tinha feito comigo, estava com certeza na conta de como eu me sentia.

— Olha essas fotos, Emily. Eu desisto… — falei quase chorando. Em sua maioria, as melhores estavam tremidas.
— Calma, . Vou falar com ele. Vi que você pediu em certos momentos que ele ficasse mais parado. Pelo jeito é birra de vocês, um com o outro.
— EI! Eu tô só tentando fazer meu trabalho, mas com um cara desses é um pouco complicado.

Ouvi Emily conversar com e pedir – fofa demais pro meu gosto – para que o piloto cooperasse com as fotos, que eu apenas tentava fazer meu trabalho e para ele deixar de ser criança. Devo confessar, me deliciei com o “xingão”. A vontade de explodir em risadas na cara dele era gigantesca, e a dificuldade aumentou ao ficar perto do homem. Eu podia ver a raiva saindo de suas lindas orbes verdes. Se tinha uma coisa que ele sabia ser, além de um verdadeiro pé no saco, era ser bonito.
Voltei a fazer meu trabalho – que, dessa vez, ficou bem mais fácil – até a hora que Emily precisou sair de onde estávamos fazendo as fotos, na pista, para ir buscar mais uma bateria para a câmera. As provocações ficaram cada vez piores. A cara de paisagem e as constantes mexidas em horas inoportunas fizeram meu sangue ferver. E sabe quando você toma uma atitude que não esperava ter, mas a impulsividade toma conta?
Me aproximei devagarinho para que o colega de equipe Sebastian Vettel, que mexia no celular enquanto esperava Emily, não percebesse o que eu faria a seguir

— Eu não sei por que você é tão babaca comigo — falei num tom de voz baixo, que soou mais ameaçador do que imaginei. — Mas sei que, se eu sair daqui com essas bostas de fotos, você vai sair falando sobre o meu trabalho. E se tem uma coisa que eu sei fazer perfeitamente bem é fotografar. Então, pelo menos nos próximos vinte minutos, você pode simplesmente deixar a sua personalidade desqualificadora e infantil de lado e me deixar tirar essas fotos? — rosnei, entredentes.
— Como quiser, brasiliana — ele pareceu intimidado enquanto me ouvia falar, mas, no momento que respondeu, assumiu a mesma pose de antes: desdém.

Os últimos vinte minutos de fotos foram relativamente tranquilos, mas eu estava acabada. Parecia que tinha sido atropelada por uma Fórmula 1. Meu esgotamento mental era tanto que, assim que acabamos, eu não fiz questão de esperar todos para irmos juntos até o paddock. Me despedi, avisei Emily que iria direto para o hotel e dei por encerrado meu interminável dia.
Hoje tinha sido péssimo. Algumas coisas foram boas, mas as ruins se sobressaíram. Para mim, hoje seria um banho, comida no quarto e cama.


10 de setembro de 2019, domingo – Itália

O dia amanheceu bem melhor. Eu não sentia sono ou mau-humor. Nada que um belo sono não fizesse o bom humor imperar de novo.
Ainda deitada, comecei a pensar em como era sortuda por ter pessoas que se importavam comigo. Me levantei devagar e fui até a cômoda onde tinha deixado o óculos que carinhosamente comprara para substituir o que havia quebrado no meu primeiro dia de trabalho. E nem tinha sido de todo sua culpa, afinal, eu também andava distraída. Amigos desse modo eram bons para se ter em um recomeço como aquele.
Eu queria deixar meu passado totalmente para trás, mas sabia que seria humanamente impossível. Tinha começado amizades que faziam meu trabalho não pesar em nada. E uma vez na vida eu podia dizer que as coisas estavam todas no seu devido lugar, certo? Assim eu esperava.
Resolvi fazer uma chamada de vídeo para matar as saudades da minha mãe e contar as novidades; até porque, depois que comecei a trabalhar para a F1, quase não nos falamos.

— Como você tá, mãe? Estou com saudades.
Também tenho saudades, filha — ela suspirou. — Aqui tudo continua do mesmo jeito.
— Aqui tá tudo tão corrido — também suspirei e joguei meus ombros para frente. — Mas é tudo tão excitante! Daqui a pouco eu saio para ir ao autódromo.
Monza, né?
— Sim — respondi, animada. — Eu que era meio neutra e evitava de assitir, não vejo a hora de a corrida começar.
Não te disse? Fórmula 1 é muito bom, mas eu nunca vi graça de ver ao vivo. E depois que o Senna morreu, assim tão perto, tudo perdeu a graça.
— Ué, não é a senhora que era toda torcedora do Hamilton?
Eu sou — disse, estufando o peito. — Ele me cativa do mesmo jeito que o Senna, mas nunca vai ser ele.
— Falando em Hamilton, o cachorro dele é um fofo.
Roscoe? — falou, como se fosse óbvio.
— Esse mesmo. Um querido. Veio correndo pedir carinho, já fizemos até amizade.
Dá uma afofada nele por mim. Ah! — pareceu se lembrar. — E diz pro Lewis que eu admiro muito ele, e que um dia quero conhecê-lo.
— Tá certo, mãe! Quando eu tiver essa oportunidade, falo com ele pra você.
Eu vou cobrar, viu? Ah, e os outros são bonitões ao vivo também?
— São sim. Fiz amizade com alguns, mas passo a maior parte trabalhando, então não tenho muito tempo pra conversar com a maioria.
Me diz que você fez amizade com o , ele é tão bonitinho — soltou, animada.
— Não, mãe — respondi sem animação nenhuma. — Ele é um poço de grosseria, não gosto dele.
Ah — ela desanimou. — Eu gosto dele.
— Mãe, eu adoraria conversar mais, mas tá na minha hora. A gente se fala outro dia, tá bom?
Claro. Vai lá, filha! Amo você!
— Amo você! Tchau — me despedi e encerrei a chamada. Minha mãe era uma figura.

Domingo de corrida. O evento do final de semana tinha chegado, e com ele mais bandeiras vermelhas e mais tifosi, que era como a Ferrari carinhosamente apelidou seus fãs, pela forma calorosa que eles torciam por eles. “Tifosi”, em tradução literal do italiano, significava torcedores.
Um mar vermelho tomava as arquibancadas, e claro, era lindo ver a devoção daquela gente por uma equipe italiana de Fórmula 1. Fora que o visual de tudo aquilo era de tirar o fôlego. Eu não podia dizer que não entendia, porque cada dia eu me apaixonava mais pelo esporte. O ronco dos carros estava se tornando uma das minhas coisas favoritas. E se tinha algo que eu sempre ouvia dizer e nunca quis acreditar era que adrenalina viciava.
Mesmo sendo neutra, comecei a gostar disso quando cheguei aqui. Queria cada dia mais sentir a adrenalina eriçar os pelos em um dia de corrida, a excitação correr pelas veias e encher os olhos com a velocidade que os pilotos chegavam com aquelas máquinas. E hoje, para minha alegria e de todos os fãs, era dia de corrida, bebê!
Já era quase meio-dia, e com isso meu turno também começava. A corrida seria somente às três da tarde, mas, como sempre, meu trabalho era o primeiro que começava.

— me virei para procurar de que direção vinha a voz ao longe. Vi quase fazendo sinal de fumaça para que eu o visse.
— Bom dia! — sorri e notei a presença de uma moça muito bonita ao seu lado, extremamente bem vestida e arrumada.
, essa é a Amber — fez uma pausa —, uma amiga — então, piscou um olho para mim.
— Prazer, Amber. Me chamo , sou a social media da Fórmula 1 — estendi a mão, mas ela hesitou em retribuir o cumprimento.
— Oi, , o prazer é meu — um sorriso amarelo acompanhou a frase, o que fez com que eu de cara não gostasse dela.
— Bom, se vocês me dão licença, preciso começar meu trabalho. Aproveite a corrida, Amber. Nos vemos por aí, .

Algo me dizia que essa tal de Amber não era flor que se cheirasse. Talvez mais tarde eu falasse com , se ele perguntasse.
A famosa loucura de domingo tinha começado. Era possível ver as dezenas de pessoas de cada equipe correndo feito loucas de um lado pro outro. Era preciso atenção em dias como hoje, porque o risco de ser atropelada por algum funcionário era gigante. Eu e Emily nos dividimos para fazer as fotos pré-corrida, e claro, eu tinha ficado com Ferrari, McLaren, Renault, Red Bull, Haas e Mercedes. E só uma das equipes me incomodava: começava com “Fer” e terminava com “rari”. Mas nem tudo ia me agradar, certo? Certo.
Quando terminava de fazer as fotos, recebi uma mensagem do meu chefe dizendo que ficaria por nossa conta cobrir o podium7 de hoje. Quando finalizamos as fotos pré-corrida, era só esperar ela terminar e fazer as fotos de seus ganhadores.
Essa corrida tinha sido disputadíssima, e, no meu mais profundo interior, eu não queria outra vitória do menininho de ouro da Ferrari. Porque isso também significaria ter que olhar para a cara dele por mais um tempo na cobertura do pódio. Porém, parecia que a maré não estava a meu favor, e o vencedor novamente foi ele, trazendo uma vitória em casa depois de um jejum de nove anos.
Ao parar com o carro no lugar destinado ao vencedor, parou e fez uma pose digna de um pôster, bem na minha frente, olhando direto para minha câmera. Ao descer do carro, foi comemorar com sua equipe. Quando voltou, passou por mim enquanto eu olhava as fotos na câmera. Então, sussurrou na minha orelha:

— Então, brasiliana, conseguiu fazer seu trabalho? Fiquei parado tempo o suficiente?
— Parabéns pela corrida, golden boy — respondi, seca.

A dupla da Mercedes estava também no pódio, e bem, um integrante da equipe vencedora e mais três pilotos jogando champanhe para todos os lados não poderia resultar em menos do que todos molhados. Nós estávamos de capa, então permanecemos secas e com ótimas fotos. Bom, era o que eu esperava.
Quando desci para a direção do paddock, fui surpreendida com um banho de champanhe. Assim que me virei para ver quem era o filho de uma boa mãe, vi que era . Não fazia ideia do porquê eu ainda me surpreendia com tal atitude. Apenas o fuzilei com os olhos e logo ouvi a risada inconfundível de .

— Ah, , ao menos agora você sabe qual a sensação de ficar melada de champanhe sem nem ter subido em um pódio ou corrido num carro desses.
— Eu nunca nem entrei em um Kart, quem dirá um carro de corrida.
— Tá falando sério, ? — perguntou Nico Hulkenberg, companheiro de equipe de .
— Nunquinha — ri divertida com a surpresa dos meninos.
— Então você vai ter que ir no nosso encontro anual. Sempre alugamos uma pista perto da casa de algum de nós e voltamos às nossas raízes.
— Até parece que eu não vou perder pra vocês — eu já conseguia imaginar a cena de mim comendo poeira.
— Ah, para! As namoradas dos pilotos também vão. É bem divertido, e muitas vezes a gente perde, viu?
— Vou fingir que eu acredito em você, Nico — ri nasalado, desacreditada.
— Eu serei seu treinador — Riccardo, que tinha o braço por cima do meu ombro, estufou o peito.
Então, nos viramos ao ouvir uma quarta voz na conversa:
— Vou querer ver se você é tão boa nas pistas quanto é com fotos. Vai ter que me vencer… — sim, a arrogância em pessoa passava ao nosso lado, me provocando mais uma vez. E, bem, a dupla de pilotos da Renault explodiu em risadas.



6Grande prêmio/grand prix – Cada corrida é chamada de Grande Prêmio (ou, em francês, Grand Prix) que vem também acompanhada do nome do lugar ou do autódromo. Ex: Grande Prêmio de Interlagos (que acontece aqui no Brasil, em São Paulo).
7Podium – É formado pelos três primeiros colocados de cada corrida, onde estes recebem os troféus e comemoram com um banho de champanhe.
8FIA – Federação Internacional de Automobilismo, responsável por cuidar das regras e segurança de cada categoria automobilística.
9Volta mais rápida – Um piloto abre a volta mais rápida para tentar conseguir a melhor colocação para a corrida. A ordem de largada é definida do menor para o maior tempo, cronometrado em uma volta no circuito. Quando todos os pilotos saem ao mesmo tempo, geram um “trânsito”, e como citado na história, às vezes nem todos conseguem abrir a volta mais rápida, se essa saída for no final do treino qualificatório.


Capítulo 3

Os intervalos de uma semana entre as corridas aconteciam com certa frequência, por isso eram os finais de semana de folga. Começavam na quinta e terminavam no domingo à noite, e era exatamente quando a jovem fotógrafa e social media partia para os mais diferentes países para as corridas. Londres costumava ser chuvosa no outono e inverno, mas incrivelmente hoje o tempo estava agradável, apesar de o sol não brilhar no céu – no seu lugar, um dia cinza. Ainda assim um belo dia para começar seu final de semana de folga.
já tinha uma programação para ele: iria dormir até tarde, colocar as séries em dia e, no sábado, iria ao famoso Museu de Cera. Desde bem nova, era seu sonho conhecer o renomado museu da Madame Tussauds. Já que o trabalho a deixava mais tempo em hotéis e pistas ao redor do mundo do que em casa, era lá que ela começaria a conhecer a encantadora cidade da rainha.
Na quinta-feira, levantou-se próximo ao meio-dia, e a pé mesmo saiu à procura de um mercado para abastecer sua geladeira quase sem mantimentos para um belo strogonoff. Um mercado de médio porte ficava a apenas duas quadras de sua casa, mas uma curiosidade sobre a moça era que ela amava os mercados pequenos de bairro, e nada melhor que caminhar pelo seu próprio para achar algum.
Depois de ser muito bem atendida por uma típica senhorinha londrina e achar tudo que precisava, fez o caminho de volta ao seu apartamento e deu início ao que mais amava fazer quando estava em casa: cozinhar e comer sua própria comida. Um fato era que se sentia muito sozinha; não dividia a casa com ninguém e a solidão era algo que não lhe agradava, mas certamente era algo que ela precisava em alguns momentos.
No domingo, arrumou-se com uma roupa confortável e ao mesmo tempo bonita, passou um pouco mais de maquiagem e saiu cedo para seu passeio.
Ao fim do dia, o cansaço lhe tomava conta, mas não a incomodava. estava realizada em finalmente conhecer um pouquinho da terra da rainha e também sua nova casa.


22 de setembro de 2019, sexta-feira – Singapura

O Circuito Urbano de Marina Bay, bem parecido com o Grande Prêmio de Mônaco, era também o primeiro circuito de rua a correr no sentido anti-horário. O mais excitante dessa corrida era o fato de ser noturna, e as luzes que iluminavam a pista serem um espetáculo à parte. O circuito representava um desafio técnico devido a uma boa combinação de curvas rápidas e lentas que proporcionavam várias oportunidades de ultrapassagem.
Os treinos de sexta-feira começavam ao entardecer e adentravam a noite, o que dava tempo suficiente para, antes disso, passear e descansar antes do trabalho. Como uma boa fotógrafa, resolveu passear pela Marina Bay e fazer fotos do lugar. Mesmo durante o dia, as atrações eram de tirar o fôlego; o sol refletia nos prédios espelhados e davam uma imensidão ainda maior pro lugar, resultando em fotos estonteantes. Com o dia se encaminhando ao final, a hora de ir ao circuito tinha chegado.
Mais um dia de trabalho começava, e, com ele, tudo o que vinha acontecendo nas últimas corridas: fotos, posts nas redes sociais e muita correria. estava mais acostumada ao ambiente de trabalho e não se sentia mais um peixinho na beira do mar, cercada por todos aqueles “tubarões” do automobilismo. O paddock era o lugar que cada vez mais lhe parecia acolhedor, daquele exato jeito: cheio de todos aqueles pilotos, mecânicos, engenheiros e toda a loucura que vinha naquele pacote.


•••


?
— Sim, é ela.
Aqui é a Carla, amiga da sua madrinha. Tudo bem?
— Oi, Carla, o que houve? — a voz da moça já tinha certo tom de preocupação.
Seu padrinho pediu pra lhe avisar, mas... sua madrinha sofreu um acidente de carro e está em cirurgia agora. E seu estado infelizmente não é nada bom...
— C... Co… Como?
Sim, um ônibus passou o sinal vermelho e acertou o carro dela em cheio — uma pausa e, então, ouviu um suspiro do outro lado da linha. — É uma cirurgia bem delicada, mas, mesmo longe, você merecia saber — um silêncio ensurdecedor tomou lugar da voz. — , você está aí? — Carla insistiu do outro lado.
— É… Sim… — respondeu, em meio a uma voz embargada. — Só não sei o que pensar…
Estamos bem apreensivos também, e sei que você daí não consegue fazer muito…

Emily surgiu e chamou a colega para fazerem as fotos necessárias; porém, fez um sinal para que a amiga esperasse um pouco. Então, baixou os olhos para que ela não os percebesse cheios de lágrimas.

— Eu tô praticamente do outro lado do mundo, na Ásia. Tô sem chão — continuou, quase não contendo o choro.
Querida, tente ficar bem. Ela está sendo cuidada pelos melhores médicos. Te mantenho informada de qualquer novidade, está bem?
— Claro, por favor, Carla. Obrigada por me avisar.
Até mais, tchau!
— Tchau!


’s POV ON

Eu não conseguia raciocinar, nada parecia fazer mais sentido. E ainda assim eu tinha mais três dias inteiros de trabalho antes que pudesse pedir uma licença e voar para o Brasil. Se cheguei até aqui, foi graças a uma grande ajuda da minha madrinha, que sempre me apoiou em cada loucura que inventei para realizar meus sonhos.
Eu não sabia quase nada do ocorrido, nem o básico, o que me deixava ainda mais preocupada. Tentei a todo custo secar as lágrimas que insistiam em cair, mesmo sem autorização – eu já não tinha mais controle sobre elas.
Tentei clarear os pensamentos. Eu precisava voltar ao trabalho e ser forte, pelo menos até o final da noite. Decidi ir até o banheiro e avisei Emily quando passei atrás dela, novamente para que minha amiga não me visse naquele estado e eu não precisasse explicar nada. Abaixei minha cabeça e entrei no ambiente em tempo recorde.

— Está tudo bem? — uma menina perguntou ao ver meu estado. Ela era magra, levemente mais baixa do que eu e estava vestida igual a uma adolescente.
— Acho que sim — ofereci um sorriso de canto. — Vai passar…

Recebi um aceno e um sorriso terno de volta. Eu tinha quase certeza que já tinha visto aquela garota pelo paddock, com certeza a namorada de algum piloto.
Saí do banheiro com a aparência melhor e, por mais difícil que fosse, tive que me concentrar e tentar trabalhar.
Era até engraçado ver a animação de todos os pilotos por ali, e sim mais que em muitas pistas. Era óbvio que eles ficavam animados em qualquer situação, porque amavam aquilo; amavam entrar dentro daqueles carros velozes e desafiar os limites da física. Mas ali era possível vê-los realizando o sonho de criança: ser um piloto. Os olhos de cada um brilhavam talvez mais que as luzes de todo o circuito que começavam a ser acesas, e contrastavam com a minha nada feliz situação. E como eu desejava sentir o mesmo que eles naquele momento!
Queria que a ligação de minutos atrás fosse uma total mentira, mas ela estava lá no meu celular, com o prefixo do Brasil – algo pouco comum nesse momento da minha vida. Mas sim, ela estava lá para me lembrar que não era mentira. Agora uma das pessoas que eu mais amava estava em uma mesa de cirurgia entre a vida e a morte, e eu não podia fazer nada.

, tá tudo bem? — Emily apareceu como mágica na minha frente.
— Tá sim — menti —, por quê?
— Você tá encarando o nada faz uns cinco minutos, e sua expressão não está nada boa.
— Vai ficar tudo bem, Ems. Tem que ficar — encerrei sua tentativa de conseguir me fazer dizer algo ali. Eu não podia chorar, eu não ia chorar.
— Qualquer coisa eu tô aqui, viu?

Apenas acenei com a cabeça, porque, caso eu tentasse responder qualquer palavra, iria fazer o que não queria: chorar.
Tinha que confessar que graças a Emily não ficamos sem fotos, porque eu entrei no modo automático – só fazia literalmente o que me pediam, e ainda sem prestar a mínima atenção. Tudo me lembrava minha madrinha e como talvez eu não tenha dito tudo o que queria quando estávamos perto, ou o quanto eu a amava e era grata por tudo. Aquilo me agoniava e me apavorava cada vez um pouco mais.

’s POV OFF


O restante do trabalho continuou difícil para a moça, que tentou ao máximo não transparecer no que seus pensamentos estavam focados. O treino havia sido bem variado, e ainda continuava entre os primeiros. A segunda parte da temporada vinha sendo espetacular para o jovem piloto monegasco.
, apesar de distraída, tentava prestar atenção no que escrevia em uma das últimas postagens da noite enquanto seguia em direção à saída do paddock. Quando era para terminar sua noite, a sua tormenta vinha em sua direção.

— Até que pra uma fotógrafa você é bem ok, sabia? Pena que sua educação precisa ser revista — a arrogância exalava de cada célula de , em mais uma tentativa de irritar a moça.

O que surpreendeu até os pilotos que vinham logo atrás, que sempre escolhiam não se meter por realmente não conhecer , foi seu silêncio. Todos já sabiam que não levava um desaforo machista desses com um longo silêncio. E ali todos souberam que algo não estava certo, ou pelo menos não no seu estado normal.
O momento, além de exigir a concentração que mal tinha, era de apreensão por uma nova ligação, e ansiava para que fossem com boas notícias.


23 de setembro de 2019, sábado – Singapura

A vida era feita quase inteiramente de desafios, e hoje seria um que nunca tinha enfrentado tão de frente. Ela precisava continuar a usar uma máscara e permanecer inabalável. O que tornaria a tarefa mais fácil, com toda certeza, seria o trabalho começar mais tarde que o usual. E talvez assim poderia gastar seu estoque de lágrimas e colocar toda a tristeza e frustração para fora, deixando mais fácil não fazer isso na frente de ninguém.
Por volta do início da tarde, recebeu mais uma ligação. Não eram as melhores notícias ou as que a moça queria, mas acalentaram seu coração. Tornaram a ideia de trabalhar e ter que desviar de todas as perguntas a respeito de estar bem ou não mais leves, mais fáceis de encarar.
Sua madrinha ainda não havia acordado da cirurgia, e mais algumas ainda precisavam ser feitas. Ela estava viva, mas ainda desacordada, o que ainda angustiava a jovem. Mas como a própria mãe lhe disse ao telefone, “sua madrinha iria querer ver você forte, por ela”. E seria exatamente assim, seria forte por ela. Mostraria uma pessoa forte por fora, mesmo que lá dentro ela estivesse em pedaços. Faria o que aprendeu com sua madrinha e sua mãe. E a frase que as amigas de infância, vulgo as mulheres acima, ensinaram a povoaram seu cérebro como um mantra: “seja forte, e se não der, ao menos pareça. A maioria das pessoas só querem saber suas fraquezas, porque quando elas quiserem te ferir, já sabem por onde começar.”


’s POV ON

Toda a extensão da baía em Singapura era espetacular. Uma coisa era certa: eles não economizaram um centavo para deixar aquilo de tirar o fôlego. Tanto durante o dia quanto à noite, em ambos os horários o local se transformava e ficava de um jeito diferente, igualmente lindo.
Acabei me distraindo com os treinos e esquecendo de tudo que estava me deixando apreensiva e triste. Por esse breve tempo, me senti leve de novo. As luzes que iluminavam a pista transformaram aqueles velozes carros em riscos coloridos pelo trajeto. Ouso dizer que eles pareciam flutuar. A ilusão de ótica causada por esse conjunto deixava aquilo parecendo magia, e encantou não só os meus olhos, mas de quem estava ali observando também.

— Hey, — passou Carlos por mim, me cumprimentando animado.
— Hey — respondi em modo automático e sem animação, aliás, o único modo que eu estava tendo desde a notícia.
— Tá acontecendo alguma coisa, ? — abaixou-se levemente para me olhar nos olhos, como se quisesse procurar por ali a resposta de sua pergunta. — Você parece tão aérea esse final de semana…
— Tudo certo, Sainz. Só um final de semana mais cansativo… — menti mais uma vez.
— Definitivamente tem algo errado, . Você nunca me chamou pelo sobrenome, mas vou respeitar seu tempo. Qualquer coisa, eu sou o bonitão de macacão azul. Mas não confunda, sou o mais bonito e mais alto, ok?

Carlos era realmente um bom amigo. Ele conseguia me fazer rir e me sentir protegid, mesmo eu não precisando, em qualquer situação.

— Tá certo, prometo não esquecer. O alto de macacão azul…
— Não esquece do bonitão — riu nasalado, brincando comigo mais uma vez
— Ok, prometo não me esquecer desse pequeno detalhe — fiz sinal de pouquinho com os dedos polegar e indicador. Também esbocei um sorriso pequeno, mas, visto tudo que acontecia comigo, ainda era um sorriso.

Ao final da noite, uma exaustão tomou conta de mim. Eu só queria ficar sozinha e extravasar tudo o que estava preso dentro de mim: a angústia, a tristeza, o cansaço, as saudades. Tudo tinha se acumulado.

’s POV OFF


Os treinos e as classificações tinham finalmente terminado, e, de certa forma, tinham sido bons para o piloto mais animado do paddock – o sorriso não deixava o rosto do moreno. Depois da última reunião com a equipe, naquela noite particularmente agradável, ele ficara esperançoso para o dia de amanhã. Muitas pessoas já tinham ido descansar, e o lugar estava quase deserto e silencioso, mas estava com adrenalina ainda em festa pelas suas células.
A caminho de seu carro, já sem toda a usual roupa de corrida, ia desejando boa noite a quem passasse. Ele conhecia aquelas pessoas de cor; talvez não lembrasse o nome de todos, mas certamente eram os mesmos de sempre. Usava seus habituais fones personalizados pela parceira Beats, mas naquele dia eles não tocavam qualquer música, motivo pelo qual ouviu uma fungada baixinha de choro. Na percepção do piloto, ninguém merecia estar triste.
No segundo seguinte, ele procurou de onde vinham os sons de choro. Na escadaria do QG da F1, uma moça chorava baixinho com o rosto quase enterrado no joelho e coberto pelos braços, tentando segurar os soluços. A sombra da estrutura a deixava parcialmente no escuro, dificultando identificar quem era. podia apostar que a conhecia – não era alguém desconhecido, disso ele tinha certeza.
Muito cuidadoso, se aproximou e, então, pediu:
— Oi... — fez uma pausa. Talvez ele não soubesse exatamente como prosseguir, mas não era uma alternativa deixar alguém chorando sozinho, no escuro e naquele horário. Aliás, não faria isso em hipótese alguma. — Tá tudo bem com você? — perguntou, incerto.
— Oi, — disse a moça tentando secar desesperadamente o rosto molhado, como se fosse apagar o que tinha visto. — Não queria que ninguém me visse assim — soltou, ainda com a voz chorosa e o nariz levemente entupido.
— Meu Deus, , é você! — quando notou quem era, ficou surpreso ao ver a amiga tão frágil ali, sentada naquela escada.
— É… Acho que sim... — olhou-se, como se certificasse que era ela mesma, então esboçou um pequeno sorriso. Ela não queria que ninguém a visse assim, mas já era tarde, e tentar disfarçar-se de forte não era uma opção.
— O que aconteceu? Quer conversar? — ele sentou-se ao lado da moça, que aceitou de bom grado o ombro do rapaz para se encostar.
— Na realidade, não. São tantos motivos que você ficaria aqui por horas, e sei que amanhã você tem uma corrida pra vencer…
, pra você eu tenho todo tempo do mundo… Eu me preocupo com você, e de verdade, quando a gente se importa com alguém, muito tempo nunca é tempo demais.
— Não por você, , mas eu não sei. Pra mim ainda não é algo fácil de falar…

estava destinado ajudá-la, se não, ouvindo os problemas da garota e talvez fazê-la se sentir mais leve com o desabafo. Era o que ele fazia muito bem, além de, claro, ser um ótimo piloto. Ele amava fazer as pessoas sorrirem.

— Só não conta pro Eros Ramazzoti sobre essa performance, tá? Vai que ele se sinta intimidado com o meu italiano perfeito.
— O que você vai aprontar, ? — perguntou com uma sobrancelha erguida, enquanto via o piloto descer os poucos degraus da escada, onde estava sentado com ela há poucos segundos. Ele fechou os olhos e abriu seu sorriso típico, capaz de iluminar uma noite tão escura quanto aquela.

(Essa é a música que se passa na cabeça de enquanto ele canta)

Non si uccide un dolore anestetizzando il cuore
(Não se mata uma dor anestesiando o coração)
C'è una cosa che invece puoi fare
(Ao invés disso, há uma coisa que pode fazer)
Se vuoi se vuoi se vuoi...
(Se quiser, se quiser, se quiser…)

Nem nem conseguiram segurar o riso. O que começava a deixar o clima ainda mais leve era a destreza que o rapaz voltava a se concentrar na música, que só estava em sua cabeça. Mas a conhecia muito bem.

Parla con me, parlami di te
(Fala comigo, me fala de você)
Io ti ascolterò
(Eu te escutarei)
Vorrei capire di più quel malessere dentro che hai tu
(Gostaria de entender mais aquele mal estar que tem dentro de você)

Com uma mão no peito e outra estendida, como se usasse toda capacidade vocal que tinha, ele continuava balançando o corpo em um ritmo de uma música inexistente. Era algo fenomenal. Além de um bom amigo, também era um bom interpretador de músicas. A moça conseguiu até comparar o rapaz com um cantor de alguma boyband dos anos dois mil.

Parla con me, tu provaci almeno un po'
(Fala comigo, tenta ao menos um pouco)
Non ti giudicherò
(não te julgarei)
Perchè una colpa se c'è non si può dare solo a te
(Porque se há uma culpa, não se pode dar só a você)
Parla con me
(Fala comigo)

Terminou se ajoelhando em frente à de uma maneira fofa, pegando sua mão e encerrando sua “apresentação”, o que fez a garota querer abraçá-lo. Ele havia conseguido fazer a escuridão da sua vida clarear naquele momento.
voltou a se sentar ao lado da moça, que agora sentia ainda mais que poderia confiar nele. Então, começou do começo: contou suas frustrações, o acidente com sua madrinha, o cansaço e todo o pacote de estar longe o suficiente para não conseguir voltar caso algo acontecesse.
Os dois ficaram ali sentados na escada por mais um tempo, até um dos seguranças avisar que precisava fechar o lugar. Foram no carro de e, quando chegaram ao hotel, se sentiu mais leve e, de certa forma, mais tranquila também. Abraçou quando o elevador chegou em seu andar e o agradeceu por tudo que tinha feito. O piloto, por sua vez, estava feliz em poder ajudar.
Ao chegar em seu quarto, a garota tomou um lento banho, sentindo o corpo relaxar e pedir por um descanso urgente. Pediu a janta no quarto e, logo após a comida, ia checar as redes sociais, mas seus olhos começaram a pesar, e ela caiu num sono tranquilo.


24 de setembro de 2019, domingo – Singapura

Apesar de a corrida ser só à noite, o dia começaria mais cedo para todos. Entrevistas pra cá, fotos pra lá, pilotos em ações promocionais com alguns patrocinadores. Não eram nem três da tarde e a social media da Fórmula 1 estava morta pelo cansaço, e mais horas ainda estavam por vir até o final da corrida. Um energético era o que cairia bem agora, faria talvez o restante mais suportável.

— Uma Coca-Cola pelos seus pensamentos — Carlos chegou perto da garota, vendo que ela olhava fixo em uma direção como no dia anterior.
— Você não tinha que ser saudável, Carlos Sainz Jr? — falou como se fosse a própria mãe do piloto, ao vê-lo com uma latinha na mão.
— Patrocínios — deu de ombros, com sua desculpa para tomar o refrigerante.
— Eu juro que queria muito um energético agora. Estou morta, e talvez uma taurina no meu organismo me ajudasse a ficar mais disposta o resto do dia — fez uma pausa, olhando ao redor. — Você sabe se algum desses restaurantes do paddock vende energético?
— Você tá mesmo me perguntando isso, ? — a incredulidade do piloto deixou a garota confusa.
— Sim? O que eu falei de errado?
, você sabe que tem uma equipe aqui no paddock que se chama Red Bull Racing, certo? — ele deu um espaço de tempo para a morena tomar consciência do que ele falava.
— Certo, eu sou muito besta. É claro que eles vendem Red Bull aqui! O que eu seria sem você? — estalou um beijo na bochecha do piloto espanhol e seguiu para sua procura por um bendito energético.


•••


O celular de tocava incessantemente, mas a jovem social media estava como nos últimos dois dias: fora do ar. Não completamente, mas, no momento que isso acontecia, ela estava aérea a qualquer acontecimento. Até que, por costume, colocou uma de suas mãos no bolso da calça para conferir se o aparelho estava ali. Sentiu-o vibrar, então viu uma ligação internacional no visor. Seu coração pareceu querer sair pela boca.

Olá, , aqui é a Carla. Como você tá?
— Oi, Carla… Então, tá difícil de levar tudo isso, ainda mais estando tão longe.
Eu finalmente não te ligo pra dar notícias ruins, e sim uma ótima.
— Jura? — a expressão de alívio tomou conta da moça; o peso de seus ombros parecia ter sumido. — E como ela está?
Fez todas as cirurgias que ainda precisavam, e há umas duas horas acordou do coma! — a mulher do outro lado da linha tinha tanta felicidade em sua voz que podia jurar vê-la pulando. — A recuperação é longa, mas ela está bem, querida! Ela finalmente voltou pra nós!
— Você não poderia ter me dado notícias melhores! Queria muito falar com ela, mas quando isso for possível. Me avise, por favor? Quando eu estiver em um fuso horário mais favorável, ligo também.
Isso! Quando ela estiver mais forte e melhor, eu mesma faço a chamada pra vocês se verem.
— Estou tão feliz! Muito obrigada por me manter informada, Carla. Agora preciso voltar ao trabalho!
No que precisar, querida. Nos falamos mais outro dia, até mais!
— Até mais!

O jovem piloto da McLaren viu toda a cena meio de longe. Quando viu a garota atender o telefone, apreensiva, preferiu dar um espaço para que ela pudesse ter sua privacidade, por mais que não tenha entendido bulhufas do que a amiga falava.

— Já disse que você fica a coisa mais fofa falando em português? — chegou Lando com um sorriso fofo, e encantado como sempre pela moça. — Tá tudo bem?
— Posso te abraçar? — a felicidade que ela tinha dentro de si parecia explodir. Lando não respondeu; simplesmente abraçou a amiga que exalava felicidade, sentimento que parecia lhe pertencer minutos antes da ligação.
— O que houve, ? — pediu, cauteloso, quando viu que algumas lágrimas escorriam do rosto de .

Aos poucos o choro de felicidade e alívio foi se acalmando, e a cara de Lando Norris não parecia menos confusa. tomou as duas mãos de seu amigo em suas próprias, respirou fundo e pôde contar tudo o que tinha acontecido nos últimos três dias; tirar toda a agonia de seu corpo, se libertando de todo o sentimento ruim que a acompanhou nas últimas setenta e duas horas. Era como se ali, conversando com o amigo, a cada palavra o peso diminuísse de seu coração. Agora tudo estava em seu devido lugar. Ou quase isso, mas sua madrinha estava viva e se recuperando.
A prova foi um show à parte. O safety car entrou algumas vezes na pista para deixar as coisas mais interessantes e fez com que a distância entre cada carro praticamente fosse extinta. foi penalizado e fez o possível para subir posições do último lugar, mas ainda assim o total de seis posições já era um grande avanço. Uma coisa era certa: tinha entrado nesse emprego sabendo que não poderia declarar favoritismo a nenhum, mas sabia que ela tinha seus preferidos. E, lá no fundo, sabia que não era apenas um, e sim todos seus amigos que passou a admirar ainda mais.
Com mais uma vitória da Ferrari, agradeceu aos céus por não ser novamente , e sim seu companheiro de equipe, Sebastian Vettel. A parte ruim, na visão da social media, era ele ter chegado em segundo. Mesmo assim, nada tiraria sua alegria hoje. Nem mesmo .
No final da corrida, fogos para o vencedor traziam um ar de comemoração ainda mais contagiante. Depois de tudo terminado, a garota recebeu uma mensagem quase de intimação:

Carlos
Festa no bar do hotel em uma hora, não aceito não como resposta. Qualquer coisa, tem Red Bull.


Sim, senhor, serei a fotógrafa de folga da festa.



’s POV ON

A festa começaria em breve, e eu não teria muito tempo para me arrumar. Tomei um banho o mais rápido que pude e comecei a maquiagem. Resolvi carregar um pouco mais na pele, já que minhas olheiras estavam mais fundas que o normal. Calça skinny preta, um cinto e uma camisa social branca com alguns botões abertos e terminei de me arrumar. Fui em direção ao after satisfeita com o resultado.
Confesso que o nervosismo me pegou um pouco, ou talvez só mais uma sensação do meu corpo reagindo a algo novo, como sempre. Uma coisa era certa: eu nunca sabia o que fazer com as mãos, elas sempre pareciam sobrar no meu corpo. E a estratégia de uma bolsa de mão sempre funcionava – eu definitivamente dava uma utilidade para elas nesses momentos.
Um guarda sinalizou a porta no final do corredor para mim, e, ao chegar lá, já era possível ouvir um mar de gente conversando e uma música ao fundo. Eu definitivamente me sentia acanhada, mas estava ali e não poderia desistir agora. Algumas modelos também estavam ali, o ambiente bem típico para encontrá-las. Os pilotos, em sua maioria, só saíam com modelos magérrimas, altas e famosinhas…
Avistei Carlos sentado em uma mesa próxima ao bar, com sua namorada apoiada entre suas pernas. Ambos bebiam algo. Não consegui reconhecer quem eram os outros, mas me aproximei para cumprimentá-los.

Hola! — cheguei animada, e Carlos se desencostou delicadamente de sua namorada e se levantou para me cumprimentar.
Hola! Você veio mesmo! — ele me deu um meio-abraço e um beijo na bochecha. — Isa, essa é . Além de ser uma ótima profissional, virou uma grande amiga — me apresentou à garota, que era muito bonita por sinal.
— Prazer, . Me chamo Isabela, mas me chame de Isa. Carlos fala muito de você, fiquei curiosa pra te conhecer.
— O prazer é todo meu, Isa! Confesso que fiquei envergonhada agora — minhas bochechas devem ter ficado muito vermelhas, mas fui salva pela maquiagem dessa vez.
— Não fique, sei que ao menos Carlos é rodeado de boas pessoas!

Fiquei conversando um pouco mais sobre qualquer assunto aleatório com Carlos e a namorada, até que decidi ir ao bar e tomar alguma coisa – a noite de hoje ainda merecia ser comemorada. Talvez meus motivos não fossem os mesmos que os da maioria ali, mas ainda assim merecia.
Quando meu drink ficou pronto, resolvi dar uma volta no ambiente. Lembrei também que eu ainda não havia contado a novidade a , e ele mais do que ninguém merecia saber sobre ela.

— É um sonho? Uma miragem? — ouvi uma voz brincalhona vindo atrás de mim. Imediatamente me virei para ver de quem se tratava.
! — apressei em abraçá-lo. — Achei que você não estivesse por aqui…
— Logo eu, , vou recusar um after? Nunca! — ele estava mais elétrico que o normal, talvez a bebida, talvez a festa… Queria eu ter toda essa energia.
— Tá certo, engano meu — dei uma risada nasalada. — Preciso te contar uma notícia maravilhosa! — bati palmas igual a uma criança, já que meu copo de drink já tinha sido raptado por .
— Você vai aceitar meu convite pro after depois daqui? — pediu com uma cara de quem brinca, mas com fundo de verdade.
— Quê? Meu Deus , não! — ri sem graça, — Segura seu amigo aí! — apontei em direção a suas calças, e nós dois acabamos rindo ainda mais. — Minha madrinha acordou, finalmente. Está se recuperando e todas as cirurgias foram um sucesso.

No mesmo momento, me deu um abraço que me levantou do chão, visto que ele era consideravelmente mais alto que eu. Um abraço de quem estava feliz por mim. E por Deus, que homem cheiroso.

— Precisamos comemorar, vamos até o bar — ele me puxou pela mão, sem esperar por nenhuma resposta.

Todos ali pareciam estranhar o meu “contato” com , mas eu decidi que isso não ia me importar. Éramos amigos, e que os outros pensassem o que quisessem.
Não tenho certeza de quantas doses de tequila eu e tomamos, quando Lando se juntou a nós e também comemorou conosco. Quando percebi, Ems e George estavam lá também. Eu estava feliz e rindo à toa, e, nesse momento, era tudo que importava.


25 de setembro de 2019, segunda-feira – Singapura

Minha cabeça parecia girar, e eu ainda estava deitada. Precisava me lembrar de não tomar mais tanta tequila. Meu celular apitava incansavelmente com mensagens, e eu amaldiçoava “o” ou “os” seres que não paravam de enviá-las. Me sentei vagarosamente na cama e estiquei todo meu corpo, me espreguiçando e, por fim, me levantando ainda em marcha lenta. Depois de um coquetel de remédios para ressaca e um banho, finalmente fui ver do que se tratavam todas aquelas notificações.

Mari
Amiga, como é que você começa a pegar o gostoso do e não me conta?

Mari com certeza tinha uma imaginação fértil. Eu só adoraria saber onde ela viu fotos de ontem…


Lando
, por favor me lembra de nunca mais ir na sua onda e do , minha cabeça parece que vai explodir agora (P.S.: tequila nunca mais) 🥴

Pobre Lando, uma criança em suas primeiras ressacas. Tenho certeza que na próxima ele faria igual, eu mesma ainda não aprendi…


Ems
É essa que eu quero sempre! Bom ver você bem de novo, amiga. Quando quiser conversar, só me avisa que está vindo. George ainda tem vergonha que você saiba…
Ops, acho que agora contei…

EU SABIA! Não poderia ser um delírio da minha mente eles dois. Contou, está contado, amiga, mas eu jamais falaria algo. Sabia bem como era ficar sem jeito com alguém falando sobre seu affair/namorado quando tudo está no início.


Martín
Desculpa por seguir em frente, Corazón, mas eu precisei e sei que você também precisa.

Wow, eu não esperava por essa mensagem. Aquilo me pegou de surpresa, e não de uma maneira boa. Transformou tudo em um misto de sentimentos diferentes. Martín e eu nunca nos vimos tanto quanto gostaríamos, e nosso relacionamento foi se desgastando exatamente por isso. Ele era jogador de vôlei, jogava em um time brasileiro e também pela seleção Argentina; eu, uma universitária e mera funcionária de uma agência de marketing. Não estávamos mais juntos, mas quando eu fui embora, prometemos conversar antes de qualquer um dos dois iniciarem um novo relacionamento. Claramente eu acreditei.
Jamais deveria ter reclamado da minha vida calma demais, porque agora era uma bomba atrás da outra. Decidi sair para pensar em tudo isso e, de quebra, clarear a mente. O final da tarde se aproximava e Marina Bay me parecia um lugar perfeito para isso.
Gardens by the Bay me chamou a atenção por um motivo específico que eu não tinha notado até então, mesmo com suas “árvores" cenográficas gigantescas no meio. Decidi dar um Google no que seria exatamente esse parque:

“Inaugurado em 2012, o parque tem 101 hectares e está localizado entre o mar e o hotel Marina Bay Sands. O empreendimento bilionário é mais do que um singelo jardim: é um parque futurista, que abriga atrações inovadoras, construções ousadas e que preza pelo uso consciente de energia.”

Com toda certeza eu jamais conheceria aquilo tudo em poucas horas antes de escurecer, mas resolvi começar o passeio. Avistei alguns colegas de trabalho e o pessoal das equipes aproveitando o clima ameno do final do dia, passeando por ali. Junto com meus inseparáveis fones de ouvido, deixei minha mente vazia. Aquele lugar estava me trazendo a paz que meu coração não teve em meses. Minha ideia sempre foi focar no trabalho e esquecer assuntos do coração, mas Martín resolveu abrir uma cicatriz quase fechada: o meu amor por ele.
Uma aglomeração de mulheres atrapalhava o caminho que eu tentava continuar, e, por esse motivo, tive que desviar ele, mas não sem antes ver qual era o motivo de tudo isso. Confesso que não me impressionei ao ver que era , mas deixei ele e suas fãs antes que o piloto notasse minha presença e segui por um outro caminho.

“Senhoras e senhores, em dez minutos nosso Garden Rhapsody irá começar. Aos visitantes que queiram se localizar, fica no ponto número dez de nosso mapa. Tenham um bom passeio.”

À medida que ia escurecendo, aquele lugar ia me deixando mais encantada. Era como toda a cidade: encantadora de dia e espetacular de noite. Eu olhava para cima com a intenção de achar o caminho para a Supertree Grove para assistir o show de luzes.

— Hey! — me choquei com alguém, que prontamente me segurou antes que eu atingisse o chão.
— Acho que a gente precisa parar de se encontrar assim — ele disse. Sua voz soou brincalhona, apesar de ser forte, aveludada e marcada pelo sotaque inconfundível. Me deixou ainda em choque pelo impacto com seu corpo, mas suas mãos foram firmes, como se eu fosse algo quebrável.
— Definitivamente precisamos mesmo — comecei a rir, já que não era a primeira vez.

Um calor começou a tomar conta do meu corpo, e acredito que tenha sido a proximidade perigosa de e suas mãos em contato com a pele descoberta que o cropped que eu usava não cobria.

— Achei que você já tinha voltado pra Londres. Pensei em te chamar pra vir aqui… — ele disse, enquanto voltávamos a ficar “de pé” de novo.
— Na realidade, eu só embarco amanhã à tarde. E com o porre que tomei ontem, só consegui sair agora mais à noite do hotel.
— AH! Mas foi bem comemorado, não foi? — fez menção ao motivo da minha felicidade.
— Com certeza, mas me lembre de beber menos da próxima vez!
— Não prometo nada — riu divertido enquanto rolava os olhos pra cima, como quem realmente não cumpriria a promessa.

Um outro aviso nos alto-falantes dizia que, em poucos minutos, a atração das árvores de arame começaria seu esplendoroso show.

— Você vai ver o show também? — a obviedade da minha pergunta era besta, mas eu sinceramente não sabia como continuar a conversa sem ficar com um silêncio estranho entre a gente.
— Vou sim, posso ver com você? — a educação de nunca deixava de me surpreender.
— Claro que sim. Sua companhia é sempre bem-vinda, — ofereci um sorriso terno, e, então, as luzes se apagaram.

’s POV OFF


O som começou a aumentar devagarinho, fazendo com que os dois ficassem arrepiados – parecia abraçá-los por inteiros, tanto quanto . A canção que deu início à dança das luzes, ainda tímidas pelas enormes árvores, era muito conhecida pela moça: a música tema de Harry Potter.
O sorriso no rosto de desviou a atenção de do show para o rosto dela, e foi aí que ele notou que a moça seguia arrepiada. O piloto fez menção de tirar o agasalho, desprendendo a atenção da fotógrafa das luzes, que começavam a dançar com mais rapidez pelas teias de arames.

— Ei — ela chamou a atenção de , para que parasse a ação —, se você ficar sem casaco, quem vai ficar com frio é você.
— Mas você tá toda arrepiada aí, tem um tempo já — apontou para o braço da moça.
— Não! — ela riu nasalado depois que olhou para o próprio braço. — É só meu lado geek me lembrando dos filmes. Mas espera aí, você tava me cuidando, ?
— Você, geek? — ele parecia incrédulo enquanto abria seu largo sorriso, junto de um riso divertido. — Você é literalmente uma caixinha de surpresas, — e deixou a segunda pergunta sem resposta, subentendida, porque sim, ele estava.

O rosto de se iluminou. Ela realmente sabia que não mostrava muito de si, e que só as pessoas dignas de sua confiança extrema veriam que ela era uma pessoa mais doce do que qualquer um poderia esperar. Por hora, ela seria só mais uma garota misteriosa.
Os dois voltaram a prestar a atenção no espetáculo e, então, o tema de Jurassic Park começou a tocar. As milhares de luzes começaram a dançar em seu ritmo, de cima a baixo, piscando alternadamente de todas as direções. Esperança e um mundo novo eram os sentimentos que a melodia trazia por si só, e as cores que as acompanhavam ajudavam ainda mais a ter essas sensações. O show das luzes conseguia mexer com mais de um sentido ao mesmo tempo.
A música de faroeste mudaram o lugar e escureceram a cor de cada luz; de verdes e brancas para vermelhas e amarelas. Era incrível como, em um piscar de olhos, quem estivesse ali era teletransportado para uma atmosfera diferente de segundos antes.
Músicas que povoaram a infância da garota lhe trouxeram o sentimento de nostalgia, mas ela não conseguia lembrar ao certo de qual filme vinha cada uma. Porém, a melodia lhe trazia memórias de todas as vezes que sonhara em achar seu príncipe no cavalo branco, ou de como deveria ser educada e gentil como uma princesa. E sim, ela sentia falta de ser ingênua, e talvez ainda acreditar no amor.


Capítulo 4

O voo com destino para Sochi estava atrasado em pelo menos duas horas, mas a mala despachada causava uma preocupação a menos. estava certa que chegaria atrasada se esse voo demorasse ainda mais. A viagem era longa, por isso a moça estava já no aeroporto no início da noite, arrependida por ter chegado tanto tempo antes. A espera do embarque para enfrentar pelo menos sete horas dentro de uma lata metálica com asas estava sendo mais longa do que deveria ser.

“Senhores passageiros do voo 9856 com destino a Sochi, Rússia. Por favor, compareçam ao portão de embarque 10A.”

Um único aviso incomum, mas lá estava ela, arrastando sua mala de mão cor-de-rosa e sua mochila preta nas costas em direção ao portão indicado. Ao chegar, viu um aglomerado de pessoas tão confusas quanto ela, além de notar policiais civis parados enquanto esperavam a chegada de todos.

— Senhores, peço por gentileza que ouçam com atenção — um deles elevou a voz para que todos o ouvissem. — Por motivos de segurança, teremos que revistar as malas de todos vocês. Peço que formem uma fila e não saiam mais dela.

Frustração era a palavra para descrever o que a social media sentia. Se atrasaria para o trabalho porque algum filho de uma boa mãe resolveu levar algo ilícito na bagagem, pensava ela. Tratou de avisar Emily que isso provavelmente aconteceria e que chegaria o mais rápido possível no autódromo, e que, se preciso, abdicaria sua noite de sono.

— Senhorita , pode me acompanhar? — sua vez finalmente tinha chegado, e ela torcia para que o resto não demorasse a findar, já que só liberariam o voo com todos os passageiros.


27 de Setembro de 2019, sexta-feira – Rússia

’s POV ON


Seis horas de atraso, mais sete horas de voo. Eu estava morrendo de sono. Não preciso nem comentar que meu humor não era dos melhores, certo? Certo.
Um carro de aplicativo – que confesso, me surpreendeu pois chegou rápido ao aeroporto – me levou direto até o autódromo. Ao pisar lá, resolvi enfim ligar e checar meu telefone do trabalho, e estava cheio de notificações e mensagens. O primeiro treino da manhã se encaminhava pro final, então de certa forma o meu caminho até o escritório estava tranquilo.
Ao chegar, recebi um olhar de dó de meu chefe e de Emily. Com certeza meu estado era péssimo. Eu tinha muita sorte de ter um chefe compreensivo e uma colega ainda mais. Eu não tinha conseguido dormir muito; a preocupação com o trabalho me tirou praticamente todo o sono.

— Certo, — depois de explicar tudo que tinha acontecido para meu chefe ele então começou. — Infelizmente, temos muito o que fazer. Se você quiser buscar um capuccino lá embaixo, te esperamos pra começar. Temos muita coisa para acertar pros próximos dois meses — ele fez uma pequena pausa e tomou novamente o ar. — Logo, Emily vai fazer as mídias deste final de treino. E eu e você planejamos tudo, assim você cansa menos — me olhou com carinho —, pode ser?
— Sim, senhor — respondi risonha e fui em direção à saída em busca da cafeína para me deixar acordada. — Volto em cinco minutos.

Muita coisa tinha acontecido comigo nas últimas semanas, mas eu não poderia deixar de ser grata por tudo de bom que acontecia também. Eu estava cercada de pessoas que se preocupavam comigo. Eu tinha um emprego que muita gente morreria para ter e o prazer de conhecer pessoas maravilhosas. É claro, nem tudo era um mar de rosas e nem todo mundo era gentil. Mas se eu não tirasse só o melhor de tudo isso, certamente enlouqueceria em tempo recorde.
Fui guiada pelo cheiro de capuccino vindo de uma das lanchonetes que tinha no paddock, e, quando o líquido quente chegou em minhas mãos, estava bem convidativo. Agradeci o moço gentil que me atendeu e fiz meu caminho de volta ao trabalho.
O que aconteceria em cada corrida nos próximos dois meses eram as mais variadas coisas. Precisávamos montar uma agenda do que aconteceria em cada uma para sabermos exatamente pra que lado ir e o que teríamos que fotografar e publicar. Desde que cheguei, isso estava organizado para esse mês que passou; só nos restava ver onde era necessário estarmos e qual era o intuito de cada coisa, aí era só mostrar o nosso talento.
Juntamos todos os e-mails das equipes e organizamos toda a agenda para mais cinco corridas, e então estaríamos no fim da temporada 2019. E sinceramente? Não sei se eu estava pronta para um fim de temporada tão próximo.
Todas as fotos que eu tinha “colecionado” nesse pouco mais de um mês do novo trabalho me davam uma dimensão de tempo muito maior do que realmente era. A verdade era que, como tudo nesse meio era intenso demais, cada corrida parecia ter no mínimo o triplo de dias do que realmente tinha. Deveriam ter mais de duas mil fotos desse mês de trabalho. Passei cada uma cuidadosamente e consegui tirar fotos maravilhosas de cada corrida. Editei exposição, contraste e dei uma “cara” padrão para todas elas. Uma assinatura oculta, na realidade. Meu pequeno TOC me fez organizá-las por GP’s e por equipes, e agora sim eu estava em paz com minha organização.
Fiquei tão concentrada nesses assuntos de trabalho que acabei não reparando na hora – já eram quatro da tarde e eu sequer tinha almoçado. Apenas quando meu estômago protestou por comida resolvi contemplá-lo com alimento. Levantei, me alonguei, tirei meus óculos e fui em direção às lanchonetes para comprar meu almoço.
Cheguei na metade do caminho e notei o movimento que para mim parecia incomum. Foi aí que lembrei de ter ouvido o barulho dos carros na pista há não muito tempo. Chequei o relógio e vi o motivo de toda aquela movimentação: fim de treino.

— Achei que você tivesse nos abandonado — ouvi uma voz conhecida chegar de mansinho e me assustar.
— Nossa, que susto, Lando! — ele realmente tinha me pegado distraída. — Problemas com o voo. Cheguei aqui na metade do primeiro treino — expliquei meio no automático.
— Não vi você fazendo as fotos, só a Emily — ele pareceu puxar em sua memória minha presença em algum dos dois treinos. — Onde você esteve?
— No escritório — dei risada da sua cara de confusão. — Eu não trabalho só como fotógrafa, sou social media. Ou seja, preciso fazer a parte do escritório também.
— Você não faz isso durante a semana?
— Sim, faço. Mas como cheguei atrasada e tem coisas que precisam ser resolvidas na hora, foi meu dia de ficar no escritório o dia todo. Inclusive, tô indo almoçar…
— Ah, entendi. Sentimos sua falta. Carlos também comentou que você tava sumida — deu um sorrisinho de canto e ficou levemente vermelho.
— Eu já disse que você é o piloto mais fofo desse paddock? — apertei sua bochecha direita.
— Você tá parecendo minha mãe — ele passou a mão no lugar, agora levemente vermelho —, apertando minhas bochechas como se eu fosse uma criança…
— Tô mais pra sua irmã mais velha, não acha? Pode me chamar de louca, mas apesar desse pouco tempo, eu já considero você como um irmão mais novo… — falei, sincera.
— Logo eu? — o piloto teatralizou sua frase. — Feriu meus sentimentos — fingiu chorar. — Logo eu que já tava planejando o casamento e nossos filhos… — começou a rir, não aguentando mais a encenação.
— Sério? E como ia ser? Na praia? — fingi surpresa, entrando em sua brincadeira. — Filhos eu só aceitaria se fossem quatro… — fiz o número com as mãos, rindo também.

Quando cheguei na porta da lancheria, me despedi de Lando, que seguiu seu caminho para o box da McLaren e me deixou voltar a atenção para minha missão principal: olhar atentamente cada salgado naquele expositor aquecido. O cheiro de todos eles parecia invadir minhas narinas e causar um rebuliço no meu estômago. A fome já tomava conta de mim, e tudo ali parecia uma boa opção. Decidi por um sanduíche natural com frango, pão integral e um suco de laranja. No fim, resolvi comer no escritório mesmo, assim eu conseguia otimizar meu tempo de trabalho e quem sabe ir para o hotel mais cedo para descansar. Definitivamente parecia minha melhor ideia nesse dia sonolento. Acabar o trabalho logo e ir dormir.
Por mais que pareça besta, caminhar exigiu o pouco de energia que ainda me restava. Eu andava bem devagar, e era apenas sonolência, não preguiça. Quase chegando ao escritório da F1, vi dois homens altos de roupa preta e amarela – e confesso, levei mais tempo do que o normal para ver de quem se tratava. Os dois já vinham sorrindo em minha direção e, com toda certeza, deviam estar comentando da minha cara de lesada.

— Você some e acha que ninguém vai perceber, não é mesmo? — se aproximou, me abraçando. Quase deixei cair todo meu almoço que estava equilibrado na minha outra mão, a que não o abraçava de volta.
— Ei! Calma! Tudo isso é saudades? — falei, estabilizando meu lanche naquela bandeja de papel para transporte. — Eu ainda preciso do meu almoço — ri mais um pouco. — Oi, Nico, como você está? — cumprimentei gentilmente o colega de equipe de , que retribuiu com um meio abraço e um beijo na minha bochecha.
— Com a gente tudo certo — o loiro respondeu pelos dois. — Mas como assim almoço agora, ?
— Parei de trabalhar só agora — pausei a frase e pensei melhor. — Na realidade, cheguei atrasada e só senti fome agora.
— Me conte melhor sobre isso — colocou a mão no queixo, como se fosse analisar minha justificativa para almoçar àquela hora.
— Meu voo atrasou seis horas, então cheguei aqui só na metade do primeiro treino da manhã — meu pensamento também era lento. Dei uma pequena pausa para organizar melhor o que exatamente falaria sobre o ocorrido, então continuei: — Dormi muito mal no voo. Eu estava preocupada com todo o trabalho e, em resumo, cá estou quase dormindo em pé.
— Nossa, sinto muito por você — Nico deu um meio sorriso, com pesar da minha situação.
— Logo eu acabo minha parte das coisas internas e vou dormir, fiquem tranquilos — tentei ao máximo minimizar o que acontecia. Mas sabia que, para eles, era importante estarem descansados e comer bem. Bem ou mal, trabalhavam com o próprio corpo. Ou seja, minha situação era péssima para eles.

Depois de mais algum papo furado, me despedi dos dois e prometi que não sumiria no dia seguinte. Segui de volta para o escritório e segui meu plano: comi enquanto trabalhava. Meu chefe me liberou por volta das dezoito horas, então fui o mais rápido que meu corpo e meu raciocínio permitiram para meu quarto de hotel. A cama e eu tínhamos um ímã irresistível. Me deitei para descansar e finalmente apaguei.

’s POV OFF


28 de Setembro de 2019, sábado – Rússia


Os treinos e resultados das últimas corridas foram surpreendentes. A segunda metade de temporada vinha trazendo bons frutos para a escuderia italiana Ferrari, e o último treino livre deste final de semana não foi diferente. liderou mais uma vez, seguido por seu companheiro de equipe. As Ferraris estavam voando.
Como todos ali, e Emily já estavam a um milhão por hora. Emily fazia a cobertura das entrevistas com a imprensa; fazia fotos para as redes sociais.
Quando a social media fazia stories e gravava conteúdo próximo aos boxes da equipe Mercedes, o movimento ao seu redor era gigante. As três horas que separavam o último treino livre do classificatório eram bem intensas. Era desviar de cabos, carrinhos de ferramentas, gruas e os mais infinitos equipamentos.
O que a não contava era que o cachorro de Hamilton cruzaria seu caminho, fazendo com que seu pé virasse por completo e seu corpo fosse ao chão no instante seguinte. A adrenalina do impacto fez com que a dor não a atingisse no segundo seguinte, mas sim quando tentou levantar-se do chão.

— AAAAAH! — a dor enfim lacerou o tornozelo e se irradiou pelo restante da perna esquerda da moça. Lágrimas completamente involuntárias começaram a escorrer por seu rosto; a dor tomou conta de suas ações. Ela só desejava que aquilo parasse.
— Meu Deus, ! — Hamilton apareceu em velocidade recorde para acudir a moça, que chorava agora como uma criança enquanto segurava o próprio tornozelo. — Vem, Roscoe, mau menino! — ele repreendeu o cão, que certamente não havia feito por mal.

Logo um aglomerado de funcionários se fez ao redor. Carlos ouviu a voz chorosa da amiga e furou o aglomerado para ver do que se tratava.

Por Diós, , o que aconteceu?
— Dói demais, eu tropecei no Roscoe, AAAAAAAH — berrou quando Carlos colocou levemente o dedo em cima do local machucado, na perna agora esticada da moça, que ainda estava sentada no chão.
— Alguém já chamou o pessoal das ambulâncias? — pediu, de certa forma, impaciente. Não havia alguém específico a quem tinha dirigido sua pergunta. — Quer saber? Eu levo ela até lá — ele içou a moça do chão em seus braços e foi o mais rápido que pôde em direção ao centro médico do autódromo.

Já no caminho, Carlos tentava a todo custo não balançar muito para não machucá-la mais do que estava. A moça seguia agarrada em seus ombros e chorava copiosamente, devido à dor que parecia aumentar cada vez mais.

, fica tranquila, tudo vai dar certo. Eles vão cuidar de você — reforçou ao apoiar a moça em uma maca, logo depois de explicar o acontecido para o paramédico que os atendeu.

Ela mal raciocinava sobre o que acontecia ao seu redor; apenas concordou com a cabeça para o amigo, que a olhava extremamente preocupado. Ele tinha as mãos na cintura como se pensasse em alguma solução para o problema, mesmo que mais nada ao seu alcance pudesse ser feito.

— Carlos, o celular e a câmera dela ficaram lá no chão — o empresário do piloto apareceu na porta, entregando os pertences da moça e alternando o olhar para ele. — Vim trazê-los pra você e dizer que precisamos ir. O treino começa em vinte minutos.


•••


— Como ela tá, cara? — , que viu a cena de longe, perguntou assim que viu o piloto espanhol voltar para seu box.
— Não sei ao certo. Tive que voltar, mas não parece bom, nada que eu pudesse fazer mais. Depois do treino verei como ela está.
— Ela quem? — chegou ao ver a cara de preocupação dos outros dois pilotos.
— Tua garota, cara. A tropeçou em Roscoe, que se enfiou atrás dela e machucou seu pé. Acho que pode ser uma fratura.
— Meu Deus! Preciso ver como ela tá — disse, exasperado, já indo em direção ao lugar onde Carlos tinha recém-voltado. Então, parou de repente e se virou para trás, apontando para ele. — E ela não é minha garota!
— Hey, , agora não dá, cara. Falta menos de quinze minutos para a classificação — chamou Michael, seu preparador físico e melhor amigo. — Prometo que eu vou lá pessoalmente ver como ela está. Agora, pro box! — apontou para onde o carro ficava e, de certa forma, brincou com o amigo, que atendeu seu pedido de imediato.

A cabeça de alguns pilotos daquele paddock passaou o treino classificatório meio longe, mais concentrados, de certa maneira. já era importante para eles e, para alguns, especial até demais.


•••


Os remédios fortíssimos para dor fizeram a moça dormir, mas o cansaço permanecia em seu rosto. Jamais tinha sentido tamanha dor, e os raio-x que foram feitos desgastaram a social media ainda mais. Mexer o pé já fragilizado em diferentes posições para garantir boas imagens de seus ossos a fizeram achar que a dor na hora da queda foi quase nula. E o pior realmente tinha passado – foi acordando aos poucos e, então, se situou. Estava numa sala branca, com um soro no braço prestes a terminar e um pé levantado e enfaixado.
Toc… Toc…
Lewis adentrou o quarto, e ainda meio sonolenta, deu um meio sorriso quando viu o piloto ali. Sentou-se como pôde e sentiu uma leve dor no tornozelo.
— Hey — ele falou com a voz mansa. — Como você tá se sentindo? — sentou-se na poltrona azul hortência ao lado da cama. Apoiou a sacola que carregava no chão e estendeu para a moça um buquê de flores que havia comprado.
— Nossa! São lindas, Lewis! — ela encarou mais uma vez os lindos girassóis com folhas verdes, que chegavam a parecer de mentira de tão perfeitas, e deixavam o buquê ainda mais harmonioso. — Tô meio sonolenta, mas acho que são os remédios… — olhou novamente para Hamilton.
— É normal, o importante é que você tá bem — divertido, ele olhou para os lados como se certificasse que estavam só os dois ali. — Vou te contar um segredo — fez uma pausa. — Nada quebrado, senhorita , só um ligamento rompido.
— Eu juro que queria ficar feliz, Lewis — riu da alegria do piloto —, mas ainda é um ligamento a menos em alguém que é o desastre em pessoa…
— Verdade. No seu primeiro dia você já conheceu o chão do paddock — ele começou a rir como uma criança, e a cara de falsa indignação de não poderia ser melhor.
— Em minha defesa, me ajudou nessa! — então, a moça começou a rir com Lewis.
— Falando em , ele tava preocupado com você também. Logo deve vir pra cá — parou para observar a sacola em seus pés. — Vim antes porque eu devia um pedido de desculpas pelo que Roscoe fez com você.
— Ei! Ele não fez por mal. Eu ainda gosto muito dele, viu?
— Mesmo assim, . Vim trazer um celular e uma câmera nova pra você. Seu celular ficou todo quebrado, e a câmera parece que também quebrou — abaixou a cabeça. — Mais uma vez, desculpa.
— Meu Deus, Lewis Hamilton, você tá louco? — ela ficou em choque e extremamente surpresa com o ato. — Meu telefone é o de menos. Eu poderia consertar, e minha câmera também…
— Era o mínimo que eu poderia fazer, — quando ele a chamou pelo apelido, causou certa surpresa. Afinal, Lewis era extremamente formal e educado.
— Foi um acidente. De verdade, tá tudo certo. O que seria da nossa vida sem histórias pra contar?
— Você tem razão — ele sorriu sem mostrar os dentes. — Preciso ir. Espero poder te ver no paddock logo! — deu um beijo na testa dela e seguiu para fora do quarto. Porém, antes de sair, se virou e disse: — Se precisar de mim, é só ligar.


•••


As horas dentro de um quarto completamente branco pareciam se arrastar. Aliás, era difícil ter noção de horário sem ao menos o próprio relógio de pulso. A verdade era que a moça se sentia nua sem seu colar, pulseiras e anéis usuais. A impressão que os havia perdido era constante. Quando se deu por fim, suas pálpebras pesaram e ela caiu em um sono leve.

— Com licença, senhorita — uma enfermeira lhe acordou delicadamente; o sotaque era russo no inglês da mulher, que trocava mais um soro que havia terminado.
— Olá, mais um? — fez bico, já que deveria ser o terceiro desde que acordara pela primeira vez depois do tombo.
— Esse é o último — checou a velocidade que os pingos desciam. — Vou dizer pra você, que sorte a sua todos esses pilotos bonitões por aqui, viu?
— Eles são todos meus amigos — riu sem graça. — Trabalho com eles, inclusive.

mal tinha terminado de trocar aquelas poucas palavras com a enfermeira e a porta se abriu sem a maior cerimônia, revelando três homens que a social media conhecia bem: , Carlos Sainz e Lando Norris.

— Oi — sorriu sem mostrar os dentes, mas estava feliz por ver que os amigos se preocupavam com ela.
— Como você tá, ? — Lando se aproximou, pegando a mão da amiga.
— Um ligamento no pé a menos. Nada grave, só meio sonolenta de tanto remédio.
— Carlos me contou quando o treino acabou. Eu estava na minha sala, não vi nada — lamentou Lando, por não ter prestado socorro de imediato.
— Eu realmente achei que fosse uma fratura, porque seu pé logo ficou escuro e inchou também — disse Carlos, também se aproximando da cama junto com , que se mantinha calado até então.
— Ainda bem que foi um ligamento só. E ficou assim por causa da torção, o que aumentou ainda mais a dor — sorriu terna para o piloto espanhol. — Mas tá tudo certo. Obrigada, mi amigo.

O silêncio ficou bem estranho, porque ainda não havia falado nada – olhava fixamente para o buquê que estava em cima da mesa do outro lado da cama.

— Achei que você tinha vindo me ver, — a moça não perdeu a piada, apesar de achar a situação um tanto estranha. calado e sério não era uma coisa normal.
— E eu vim — ele sorriu sem mostrar os dentes. — Tava admirando o buquê de flores ali — apontou pro vaso com os girassóis.
— Sim, Lewis esteve aqui mais cedo — ela sorriu ao olhar também para as flores, o que de certa forma deixou o piloto australiano incomodado. Hamilton não era amigo dela para ter vindo vê-la, ainda mais antes de todos eles.
— Hamilton aqui? — Lando perguntou, confuso, e fez um favor para a curiosidade de .
— Roscoe quem me derrubou. Ele achou que precisava se desculpar e me trouxe de presente uma câmera e um telefone novos — apontou para a sacola ao lado do buquê —, já que, aparentemente, os meus antigos ficaram em pedaços.
— Ah, entendi — Lando riu. — Acho que quero me machucar e ganhar todos esses presentes também...
— Como se você não fosse um piloto de F1 que não pode comprar inúmeros desses — riu, divertida. — Fora todas as cartinhas e declarações de amor que as fãs dão pra vocês — apontou para os três. — Me deixe ser mimada uma vez na vida.
— Bom, , nós vamos indo. Qualquer coisa, não se esqueça que eu sou… — ele foi interrompido pela amiga.
— Já sei, já sei, o piloto mais alto da McLaren, entendi — ela fez sinal de continência, se divertindo com a situação.
— Você tá esquecendo do bonitão de novo, — riu com a garota.
— Qualquer coisa é só ligar, — Lando se prontificou. — Você vem, ? — perguntou ao ver o piloto ainda parado no mesmo lugar.
— Podem ir na frente, logo vou…

Assim que os outros dois fecharam a porta, foi até a janela, descruzou os braços e colocou as mãos no bolso da calça de moletom que usava. E, por alguns instantes, se perdeu em seus próprios pensamentos. Quando o silêncio ficou incômodo, pigarreou, ganhando novamente sua atenção.

— Pode me falar já o que está acontecendo, — exigiu em um tom mandão.
— Eu só fiquei com ciúmes de Hamilton aqui — ele jogou a informação na lata e deixou a moça surpresa, mesmo que ela tenha percebido que esse era o problema. — Gosto muito da nossa amizade, . E não quero que me esqueça, já que aparentemente todos gostam de você.
— Hey, ! — estendeu a mão para que o piloto a pegasse e ficasse mais próximo. — Eu nunca vou trocar você, em nenhuma hipótese. Você é uma das poucas pessoas que me ganhou tão fácil assim, e sendo só você.
— E se você começar a namorar, ? Porque, sinceramente, não sei como você está ainda solteira. É bonita, querida, prestativa e uma ótima companhia — enumerou nos dedos.
— Meu coração tá fechado pra negócios, — sorriu triste —, mas você também não é de se jogar fora, viu? Se não estivesse com aquela modelo, como é o nome dela mesmo? — pareceu puxar na memória e fez uma careta de nojo. — Amber, não? Eu acho que perdia cinco minutinhos com você — cantou o amigo e começou a rir.
— Ah — ele começou a gargalhar. — A Amber não deu certo, foi coisa de uma semana só… Sabe… Necessidades…
— Você não presta, — então, a moça se contagiou com a risada do piloto e logo os dois riam um da risada um do outro.

Depois que o horário de visitas havia terminado, seguiu seu caminho para o hotel. Ficar perto de tinha virado, com certeza, uma de suas coisas favoritas – mas ele definitivamente falava mais do que devia na presença da moça. Depois de já ter falado, ele não sabia exatamente se estava arrependido ou não do que falava.


29 de Setembro de 2019, domingo – Rússia

’s POV ON


Aquela cama era muito desconfortável. Ficar em um hospital era péssimo, mas minha alta veio de manhã cedinho. Uma bota ortopédica e um par de muletas para me auxiliar a caminhar pelos próximos vinte e cinco dias me acompanharam na saída do hospital. Fiz as contas: eu me livraria desse pé gigante antes do meu aniversário. Decidi ir até o hotel trocar de roupa e voltar para o autódromo, afinal, ficar sozinha não era uma opção. Uma calça de moletom mais soltinha foi o que passou pelo meu pé enfaixado e ainda um pouco inchado; afivelei todos os velcros da bota e segui em direção ao local da corrida.
O paddock e todos os arredores estavam lotados. A corrida só aconteceria na parte da tarde, mas todos que tinham comprado tanto o acesso VIP para o paddock quanto para as arquibancadas se aglomeravam na entrada para ter a chance de um autógrafo ou de uma foto com os pilotos. Quando um dos seguranças me reconheceu, me ajudou a ir para um lado mais tranquilo e liberou minha entrada pela lateral.
Colocar meu pé no chão não era uma opção ainda – eu andava mais lenta que uma tartaruga centenária. Antes que eu pudesse chegar perto do escritório, Lewis apareceu na minha frente.

— Onde você pensa que tá indo? — sua expressão era séria, mas tinha um fundo de brincadeira.
— Eu vim trabalhar, mesmo que seja só no escritório — falei com obviedade.
— Você não vai trabalhar coisa nenhuma. Hoje vai assistir a corrida lá do box da Mercedes como minha convidada já que está aqui, e não no hotel descansando.
— Posso contestar? — tentei um argumento, mesmo sabendo que ninguém ia me deixar trabalhar.
— Não — respondeu, sério, e por fim já rindo da minha tentativa.

Lewis foi ao meu lado conversando sobre os assuntos mais aleatórios possíveis. Ele era um cara legal, meio fechado, mas ainda assim um amor. Conforme íamos chegando perto da parte de trás dos boxes, o pessoal ia parando e me perguntando o que havia acontecido e como eu estava. passou meio corrido, me deu um beijo na bochecha e saiu apressado para algum lugar desconhecido.
Quando chegamos dentro do QG da Mercedes, parecia que eu havia corrido uma maratona. Estava exausta; aquela bota realmente pesava e atrapalhava demais.

— Bom dia, criança! — Toto me cumprimentou. — O que você está fazendo aqui? Não devia estar em repouso no hotel?
— Bom dia, Sr. Wolf — sorri. — Pois então… Eu não queria ficar sozinha, mas Lewis também não me deixou trabalhar.
— Certo ele, e por favor me chame de Toto — ele sorriu, terno. — Hoje você é nossa convidada VIP.
— Não vou discutir, e também não vou falar que não gostei — ri nasalado. — Sempre vi só pessoas de importância aqui como convidadas.
— E você é uma delas, , acredite. Vou providenciar um lugar cômodo para você — então saiu, me deixando sozinha e meio aérea ali.

Sabe aquela sensação de estar perdida? Eu estava numa posição estranha. Aquele lugar era completamente familiar, eu já havia entrado diversas vezes para fazer fotos. Mas hoje era diferente, eu estava como convidada.
Permaneci ali parada até que uma moça simpática me chamou e me direcionou para uma sala com um sofá super confortável, um puff especial pro meu pé e uma TV gigante para assistir a corrida. Logo depois de me acomodar lá, Lewis adentrou o ambiente com Roscoe em seu encalço. Eu me surpreendia a educação daquele cão – ele sentou no chão próximo ao sofá e levantou uma das patas para pedir carinho. Afaguei seu pelo, aproximei meu rosto de seu focinho e ganhei uma lambida em retribuição.

— Você é a coisa mais fofa da titia , né? Sei que não foi culpa sua, e nem tem como ficar minimamente brava com você, Roscoe — recebi uma latida rouca e contente, típica da raça.
— Dá pra ver seu amor pelos animais, . Roscoe gosta muito de você.
— Eles nos dão esse amor todo, puro, sem pedir nada em troca. Nada mais justo do que tentar retribuir da mesma forma, não? — Hamilton concordou e, em seguida, se despediu, me deixando ali com a companhia de seu adorável cão.

Por mais engraçado que fosse, durante o almoço alguns dos pilotos vieram me ver e fazer a típica brincadeira que eu estava os traindo e escolhendo um lado. Me diverti com a brincadeira, afinal, eu estava bem longe de ser uma torcedora da Mercedes.

’s POV OFF


Logo após meio-dia, o movimento era estranhamente calmo para uma corrida que começaria em menos de duas horas. Mas a mente de um piloto em específico estava de certa forma inquieta – e não se davam e disso todos sabiam, mas ele não era um monstro, e ver toda aquela cena de longe o deixou perturbado. Seus instintos o mandaram ajudar a moça de imediato, mas seu coração o mandou ficar ali, imóvel. O acontecido se repetia várias e várias vezes na cabeça do monegasco, e ele se sentia culpado por ter sido idiota o suficiente em não ter reagido. Logo ele, que era treinado diariamente para ter os reflexos mais ágeis possíveis.

— Hey, Sainz! — chamou pelo espanhol. — Como está a ?
— Fala, — saudou o piloto com um soquinho. — Um ligamento rompido, mas está por aqui já. Ela é teimosa, não quis ficar no hotel.
— Fico feliz por não ser nada grave — sorriu, aliviado. — Nos vemos na pista? — falou, desafiador.
— Só se for pra te ver no meu retrovisor, — retribuiu a brincadeira também com um tom de rivalidade na voz.
— É o que veremos, Sainz.

Carlos saiu de lá e seus pensamentos foram para a conversa que teve com momentos antes. Quando parou para pensar, viu que era algo realmente estranho. Afinal, por que o piloto monegasco se preocuparia com a ponto de perguntar por ela, se ele não a suportava?
estava de certa forma contente. Ninguém merecia passar por aquilo, a dor devia ser insuportável, e o importante era que ela estava bem na medida do possível.

— Oi, baby — Charlotte chegou dando um selinho no namorado. — O que você estava conversando com Carlos? — perguntou, curiosa, mas também a fim de puxar assunto com o piloto.
— Perguntei como estava — respondeu, indiferente, olhando para o horizonte e para o nada ao mesmo tempo.
— Aquela fotógrafa novata? — apenas assentiu. — Não gosto dela. Acho que todos babam nela sem motivo algum, além de ela se achar boa demais no que faz. É bem grossa, até — destilou seu ódio gratuíto.
— Acho que ela é realmente boa fotógrafa, Charlotte. Todos a elogiam, e com razão. Ela manda muito bem no que faz, e não quer dizer que porque você não a conhece que ela não é uma pessoa legal…
— É… Pode ser... — falou Charlotte, de certa forma descontente.

Nem sabia por que tinha defendido alguém por quem não tinha a menor afeição, ele simplesmente o fez. tinha, afinal, esse efeito sobre alguns pilotos…


Continua...



Nota da autora: E quando nem a autora sabe o que comentar sobre essa capítulo? Primeiro que nossa pp tá tendo uma sorte... acho que ela não deveria ter reclamado de uma vida calma, não acham? Eu só sei que quero amigos como esses pra já. Por favor! Essa história tá sendo gostosa de mais de escrever e espero do fundo o meu coração que vocês estejam gostando tanto quando eu! Não esqueçam de acessar o link pra caixinha de comentários caso ela não apareça, me contem por lá quais as teorias de vocês! Elogios e sugestões também são bem-vindos! Ah por último e não menos importante, sigam a PP no insta, lá eu interajo e posto spoilers antes do capítulo sair! No mais é isso, se cuidem e até a próxima att!



Outras Fanfics:
Maybe Dreams Are Real [Zayn Malik - Em Andamento]
Beautiful Mistakes [One Direction - Em Andamento]


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