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Última atualização: 17/05/2022

Prólogo

Nunca foi fácil partir. Aquele era um país que eu já conhecia, mas tudo seria novo. Acreditava que nada seria igual. Quando se tem uma certa idade e se conhece pessoas novas, logo elas viram amigas. Então vêm as decepções, e vemos que não tínhamos metade da importância que dávamos para todas elas. Por muitas vezes, trancamos várias lembranças que não deveriam estar nesse amontoado de decepções e as deixamos lá no fundo da memória. E um dia, quando a cicatriz fecha, você dá chance novamente ao lugar e ao seu sonho antigo; mas às pessoas, jamais.

When she was just a girl
(Quando ela era apenas uma garota)
She expected the world
(Ela esperava conquistar o mundo)
But it flew away from her reach
(Mas isso voou para longe de seu alcance)
So she ran away in her sleep
(Então ela fugiu em seu sono)

And dreamed of para-para-paradise
(E sonhava com o para-para-paraíso)
Para-para-paradise
(Para-para-paraíso)
Para-para-paradise
(Para-para-paraíso)
Every time she closed her eyes
(Toda vez que ela fechava os olhos)

Trabalhar com mídias e fotografia era o que eu mais amava. Assim que consegui arrumar todas as minhas coisas no apartamento que me abrigaria nesse recomeço – na tão famosa terra da rainha –, selecionei meus portfólios e fui às agências que pesquisei ainda no Brasil, para entregá-los e ver o que eu conseguia. No meu mais profundo sentimento, eu sentia que daria certo e não tardaria a chegar. Com esse sentimento mantendo meu coração acelerado durante todo o percurso, mantive meu pensamento sempre positivo. Quando entreguei o último, a sensação de dever cumprido tomou cada partícula do meu corpo.


•••


Senhorita ? — ainda tentava acordar enquanto ouvia a voz grossa e masculina do outro lado da linha com o inglês perfeitamente polido.
— Olá, sim, pois não? — tentei ao máximo fazer com que o tom sonolento da minha voz não transparecesse. Eu lutava fortemente para acordar direito, depois de me despertar do susto com meu telefone tocando.
Me chamo Albert e sou da All Limit. Analisamos seu portfólio e gostamos muito do que vimos. Inclusive, um de nossos melhores clientes quer marcar uma reunião com a senhorita.
— Uau…! Quer dizer, ótimo! — contive minha animação. — Quando podemos marcar a reunião?
— Esteja aqui às 14h de hoje. Será um prazer recebê-la!


Capítulo 1


Agosto de 2019

A reunião que me apresentou a todos os chefes das equipes já tinha acabado e todos tinham sido muito receptivos comigo. Eu só precisaria produzir conteúdo de todos os pilotos para as mídias da Fórmula 1. Realmente um desafio, já que eram dez equipes e vinte pilotos. Mas eu ainda tinha ao menos um mês para me familiarizar com o nome de todos e a qual equipe cada um pertencia, além de tudo que seria necessário saber para produzir os conteúdos. O mês seria de intenso estudo, mas, nessa metade da temporada restante, eu ainda teria Emily, a moça que eu substituiria no próximo ano. Ela me mostraria como tudo era feito. Por um lado eu estava com medo; por outro, eu estava feliz e muito ansiosa pelo que viria pela frente.


🇧🇪 Bélgica – 29 de agosto de 2019, quinta-feira

— Emily, que coisa difícil de decorar quem é quem… É muita gente, são pelo menos trinta pessoas. Sem contar as assessoras pessoais de cada um, fora as da equipe no geral. Eu juro que estudei, mas acho que preciso de você aqui! — eu estava literalmente mais perdida que cego em um tiroteio, ou melhor, em um paddock¹ cheio de gente correndo pra todos os lados.

Não sabia se sentia mais medo ou fascinação ao ver tudo aquilo na minha frente. Era para minha colega de trabalho estar junto comigo, mas imprevistos pessoais ocorreram e aqui estava eu, em Spa-Francorchamps, uma das corridas mais esperadas do ano pelos pilotos, na Bélgica, sozinha no meu primeiro dia de trabalho oficial.

Tenho certeza que você vai arrasar, . Eles escolheram você por um motivo, e eu também acredito no seu potencial! Estarei aqui pra te ajudar de longe. Só faça as mídias, que por hoje eu te ajudo a postar. Não esqueça que temos trabalho até domingo, hoje é mais light. Pensa positivo, porque os pilotos nem estão todos aí. Eles com certeza estão chegando aos poucos, mas assim você pode fazer seu trabalho como deve ser, com mais calma — eu ouvia tudo atentamente, tentando criar coragem para fazer o que eu sabia que era capaz.
— Vou começar antes que a coragem suma! Obrigada por me acalmar, Emily. Qualquer coisa que eu fizer errado, por favor, me fala, tá?

As estruturas terminavam de ser montadas, o som de ferramentas parecia formar uma sinfonia e os últimos ajustes nos boxes das equipes eram feitos. A corrida deste final de semana era a volta das férias de verão, e todos exalavam uma felicidade e uma adrenalina que eu jamais havia visto ou sequer sentido em qualquer outro lugar.
Comecei a gravar a entrada, onde funcionários das mais diversas equipes passavam pelas catracas, em sua maioria totalmente aéreos. Pareceram não me notar, o que de certa forma me aliviou. Assim não tinha que explicar a muita gente o que eu fazia ali. Tomei coragem e postei no Instagram oficial com a legenda: “Prontos pra um final de semana de corrida? Estavam com saudades?”
Em seguida, recebi uma mensagem de Emily, dizendo que era daquele jeito mesmo que deveria ser, o que me deixou muito mais confiante a seguir fazendo meu trabalho.
Meu dia hoje por aqui nem seria tanto para postagens, mas para me familiarizar com tudo e me apresentar às equipes e, consequentemente, aos pilotos. É claro que todo conteúdo que eu produzisse que pudesse ser usado no final de semana também era bem-vindo.

— Com licença, você sabe me dizer onde encontro a Emily? — um menino, que estava longe de parecer um homem, apesar de sua altura e voz mais madura, me fitou com um par de olhos azuis
— Olá! Então, ela não pôde vir hoje, mas eu sou a colega dela. Posso te ajudar, talvez?
— Ah! Perdão! Me chamo George, sou o piloto da Williams. Na realidade, eu precisava entregar algo a ela, mas quando eu vê-la entrego sem problema! — disse, e um rubor tomou seu rosto.
— Prazer, George! Sou a e vou trabalhar junto com a Emily a partir de agora.
— O prazer é todo meu, ! Sinta-se em casa! Sei que é difícil estar a cada semana em um lugar diferente — justificou seu ponto —, mas o paddock é sempre o mesmo, inclusive a gente.
— Obrigada, George! Depois vou passar no QG² e no box³ pra me apresentar.
— Te espero lá!

As coisas estavam sendo mais leves do que eu achei que seriam. Na realidade, eu estava bem tensa, porque, apesar de fazer amizade com muita facilidade, me apresentar a “desconhecidos” era algo que deixava um frio na barriga. Afinal, eu estava em um lugar composto por 98% de homens. Não que esse fato me incomodasse – já que a maioria das minhas amizades durante toda minha vida foram compostas por homens –, mas devo confessar que a maioria deles eram bonitos além do que deveria ser permitido por metro quadrado.
Caminhei mais alguns metros, sentindo o vento bater no rosto. Quando fui checar uma nova notificação do meu celular, senti um impacto contra meu corpo e logo eu estava no chão.

— Hey!
— Você tá bem? Eu te machuquei? — estendeu-me a mão um homem com a voz levemente grossa, mas aveludada.
Outch! — assim que minha mão foi de encontro com a sua para me levantar, senti uma ardência na palma da mão que confesso que não sentia desde minha infância. A de um belo ralado.

Quando me levantei, me recompus do tombo e fui limpar minha bunda de qualquer sujeira que pudesse ter ficado em mim, senti meu pulso ser agarrado pelo mesmo homem, que, agora, pude notar que estava de preto e amarelo, ou seja, era alguém da Renault.

— Meu Deus, eu te machuquei de verdade! Olha só sua mão!
— Nah! Foi só um ralado. Só preciso lavar e tá tudo certo — falei com um tom mais leve, olhando para minha mão.
— Foi uma bela esfolada, moça, tá saindo sangue… Vem comigo, vou te levar pra enfermaria — ele disse, ainda sem soltar meu pulso com a palma virada para cima.
— É sério, não precisa! Tá tudo bem — insisti, colocando a mão livre na cabeça e logo após na gola da camisa, não achando mais meus óculos de sol.
— Aqui — ele foi rapidamente em direção aos óculos que antes usava, agora com toda a lente espelhada riscada devido à queda. Antes de devolvê-los para mim, analisou seu estado. — Eu tenho que cuidar por onde ando. Ainda acabei com seu Ray-Ban.
— Tá tudo bem, mesmo! Juro, eu também estava distraída, a culpa não é só sua — eu ainda tentava parecer leve, afinal, a culpa não era toda dele. Eu só estava chateada pelo meu óculos favorito ter estragado.
— Me deixa pelo menos te levar até o box da equipe pra lavar sua mão, então. Eu devo ter algum antisséptico por lá e resolvemos isso!

Fiz um aceno positivo com a cabeça e o segui no meio da multidão, que já não era mais tão pequena dentro do paddock. Quando chegamos ao box, várias pessoas trabalhavam concentradas em diversas tarefas diferentes

— É por aqui — ele fez sinal para que eu o seguisse. O que eu não contava é que aquele machucado poderia doer tanto quanto já estava no momento. — O banheiro é ali — apontou para o final do corredor —, vou te esperar e passamos o antisséptico. Acredito que estará pronta pra outra — sorriu de forma terna, e, então, eu adentrei o banheiro.
— Caramba! Não lembrava que um ralado desse doía tanto — sacudi a mão, numa tentativa falha de fazer a ardência passar.
— Vem cá, deixa eu passar o antisséptico — estendi a mão em sua direção, que já esperava com a mão para segurar a minha. — Você é nova por aqui, nunca te vi antes…
— Primeiro… Filho da pu...! — reclamei em português, quando não consegui aguentar a ardência. O homem fez uma cara de dúvida sobre o que eu falava. — Dia de trabalho — finalizei a frase.
— Já passa — ele assoprou para que a ardência aliviasse. — Eu vivia ralado quando criança. Sou expert em cuidar desse tipo de machucado.
— Confesso que fazia muito tempo que eu não levava um tombo, apesar de eu ser o desastre em pessoa — ri nasalado, e causei o mesmo no moreno à minha frente. E preciso dizer, que sorriso…
— Pronto, logo você está nova em folha!
— Muito obrigada! — agradeci verdadeiramente. Afinal, ele tinha cuidado de mim sem ao menos me conhecer. — Já vou indo! O trabalho me chama — mostrei uma chamada de Emily no celular.
— Ah, e a propósito, sou o .
— Sou ! — pisquei um olho e segui em alguma direção qualquer, atendendo a ligação de Emily.


•••


Respirei fundo e, então, segui para o primeiro box do paddock para começar a me apresentar à equipe da Mercedes – a “poderosa”, se podemos descrevê-la assim. Ali era onde tinha o pentacampeão e famoso Lewis Hamilton e o seu companheiro de equipe, Valteri Bottas, e o chefe de equipe mais charmoso (segundo a internet), o poderoso Toto Wolf. Acho que, afinal, meus estudos não foram em vão. Toto eu já conhecia da reunião.
Adentrei tímida no box e fui me apresentando para alguns mecânicos e engenheiros. Quando o avistei, Wolf fez um sinal para que eu me aproximasse, e ele tinha Lewis ao seu lado.

— Olá, ! Primeiro dia?
— Sim, senhor! — respondi, sorrindo ainda tímida.
— Lewis, essa é a nova fotógrafa responsável pelas mídias da Fórmula 1. Você vai vê-la muito por aí a partir de agora.
— É um prazer conhecer você, ! — ele levantou uma mão, e eu sorri de volta em concordância.

Valteri chegou ao lado de Toto e colocou as mãos na cintura. Então, fui também apresentada ao finlandês, que me estendeu a mão em forma de cumprimento. Automaticamente, estendi a mão direita e, quando sua mão tocou a minha, me retorci de dor.

— Está tudo bem? — ele demonstrou preocupação ao soltar minha mão imediatamente.
— Tá sim, acidente de trabalho — mostrei o ralado. — Acabei de cair.
— Ótimo começo, não? — Hamilton riu nasalado.


🇧🇪 Bélgica – 30 de agosto de 2019, sexta-feira

Os quartos de hotéis que a Fórmula 1 disponibilizava para os funcionários eram extremamente confortáveis. Ontem, ao chegar, tomei um banho rápido e nem jantei. Deitei-me na cama que pareceu me abraçar e só acordei hoje pela manhã, mais cedo que o meu despertador, totalmente disposta e pronta para mais um dia.
O primeiro treino era por volta das onze horas, e, por incrível que pareça, eu tinha acordado antes das sete, o que me daria tempo suficiente para me exercitar, voltar e tomar um bom banho antes de ir para o circuito que era relativamente próximo dali.
Minha fiel camiseta polo da F1 e uma calça jeans preta eram a escolha perfeita para hoje. Um tênis esportivo também era necessário, já que, com toda certeza, eu andaria muito pelo paddock. Durante minha corrida, acabei perdendo a noção de horário. Não conseguiria nem ao menos tomar um café da manhã. Chamei um táxi e fui em direção ao circuito.
Ainda eram oito e quarenta, mas faltavam algumas equipes para me apresentar e, então, continuar meu trabalho. Ao passar pelas tão conhecidas catracas, algumas pessoas me cumprimentavam e davam bom dia. Talvez por educação, ou simplesmente por saberem quem eu era, já que me apresentei a todos funcionários, mecânicos e engenheiros de cada equipe. Claro, seria humanamente impossível saber o nome de todos, mas a maioria lembrava do meu.
Faltavam ainda Ferrari e McLaren para eu me apresentar, então segui em direção à escuderia vermelha.

Buongiorno (Bom dia) — falei no meu melhor italiano, já que não o praticava há algum tempo. E como era bom me sentir em certo ponto em casa, visto que minha terra natal era o norte da Itália. Assim foram todas as conversas dentro do box da equipe, completamente em italiano.
Buongiorno, ! — Mattia Binotto, com sua voz calma e paternal, saudou-me. Ele apareceu de uma porta atrás de mim, me causando certo espanto.
— Vim me apresentar à sua equipe! Peço desculpas de antemão, mas ontem não consegui passar pelas dez equipes.
— Devo dizer que estou surpreso pelo seu italiano perfeito — falou, vendo que eu não era uma entusiasta na língua.
— Seria de certa forma vergonhoso não saber falar a língua-mãe. Mas dificilmente dizem que eu realmente sou italiana, meus pais são ambos brasileiros.
— Sinta-se em casa então, ragazza (moça).
Grazie mille! (Muito obrigada!)

Mattia era um doce de pessoa. Na verdade, todos eram muito cordiais e educados por ali, ao menos comigo. Mas talvez a nacionalidade em comum pudesse ser considerada no tratamento. Ali todos eram uma família, e eu começava a me sentir acolhida em cada box. Fui me apresentando a cada membro da equipe enquanto os pilotos estavam em entrevistas e compromissos antes do primeiro treino. Também fui avisada que um dos pilotos, o tetracampeão alemão Sebastian Vettel, não falava tão bem italiano quanto a aposta da Ferrari, . Logo tinha que fazer essa parte do usual inglês. Os dois chegaram rindo de alguma coisa ao box e prestaram atenção a minha presença, já que estava em uma conversa animada com Mattia sobre queijos.

— Bom dia, senhores! Me chamo e serei a nova companheira de Emily na questão de fotos e mídias oficiais da Fórmula 1.
— Você me fez sentir velho com o “senhores” — ele fez aspas com as mãos. — Me chame de você, por favor! — disse Sebastian, cordialmente. — Sou Sebastian Vettel.

Estendi a mão e o cumprimentei de volta, lhe oferecendo um sorriso envergonhado pela formalidade.

— o mais novo estendeu sua mão em minha direção em um tom mais seco, que, de certa forma, me causou um arrepio.

Cumprimentei-o e terminei de explicar o que faria ali, então me despedi e segui em direção à última apresentação para que eu finalmente pudesse tomar meu tão amado café da manhã. Mas uma coisa ficou na minha mente: o porquê da frieza do piloto mais novo da escuderia italiana, se até momentos antes de me apresentar, ele parecia ser um doce de pessoa. É, talvez nem todo mundo fosse tão acessível assim...

Por Diós (Por Deus) — Carlos me causava mais uma crise de risos, enquanto engatamos uma conversa totalmente animada.

O entrosamento no box da McLaren foi de outro mundo. Os meninos eram divertidos e logo fizemos amizade. O jovem Lando Norris era fofo e divertido, e ria tanto quanto eu com as histórias de Carlos.
Deixem-me explicar: Carlos Sainz era espanhol, e Lando Norris, britânico. Mas a energia da dupla de pilotos era diferente, e eu com toda certeza me identifiquei com ela.

— Tá certo. Vou indo antes que Zack Brown me expulse desse box por distrair seus pilotos. Adorei conversar com vocês, meninos. Nos vemos pelo paddock — me despedi deles, mas, assim que me virei para sair do box, Lando me chamou.
— Hey, ! Você quer almoçar com a gente? Depois do treino?
— Claro! Encontro vocês na praça de alimentação depois?

Recebi um sorriso e uma afirmação. Acenei como despedida e segui meu caminho para enfim comer alguma coisa e logo produzir mais conteúdo para as mídias da F1.
Um sanduíche nunca foi tão delicioso como aquele que eu comia em uma das mesas externas de uma das lanchonetes destinadas às pessoas que tinham acesso ao paddock. Eu estava há um certo tempo sem me alimentar, então aquilo me parecia a melhor coisa do mundo; inclusive, a comida mais deliciosa que já tinha provado um dia.
Aproveitei para cativar o público e postei um vídeo curtinho do movimento dali enquanto ainda comia. Fiz umas enquetes com fotos aleatórias que tinha feito no dia anterior para que o público pudesse opinar no que mais queria ver. Comecei com várias enquetes legais, assim conseguiria um engajamento perfeito para o perfil do Instagram da F1. Fui até o QG da Fórmula 1 – mais especificamente, ao meu armário – para que eu pudesse pegar minha câmera e começar as fotos oficiais junto ao primeiro treino que se aproximava.
Não sabia explicar, mas a energia que me tomava toda vez que eu pegava uma câmera fotográfica em mãos me dava sempre mais certeza que eu fazia o que amava. Ali, eu conseguia mostrar ao mundo minha visão da vida e das mais diversas situações que eu encontrasse. Pelos meus olhos, eu conseguia mostrar alegria, alívio, aflição, desespero e qualquer outro sentimento que você possa imaginar. Apenas com um olhar atento, o ângulo perfeito e, é claro, o momento certo, tudo isso envolvia muita empatia e compreensão.
A adrenalina era cada vez maior quando o horário do primeiro treino começava a se aproximar. Os pilotos cada um já em seu box terminavam de se arrumar, fechavam o zíper do macacão e colocavam os fones para uma comunicação com os engenheiros, para que pudessem acertar quaisquer imprevistos que viessem a ocorrer na pista com a parte mecânica do carro e, é claro, ajustar melhor as estratégias para serem sempre os melhores. Eles vestiam a balaclava e ajustavam seus capacetes, afivelando bem a trava de segurança. Enquanto entravam no cockpit, nada além do foco existia.
Dentro da pista, não existiam amigos, somente adversários. A atmosfera de competição era totalmente diferente de horas antes. E devo admitir que as melhores fotos eram feitas nessas horas: eles estavam tão concentrados que mal notavam minha presença, então a carga emocional deles ficava bem visível.
Eu estava amando estar no meio disso tudo. Jamais tinha pensando em algum dia trabalhar com fotografia esportiva, mas eu estava começando a tomar gosto.


•••


Sentei-me em uma mesa da praça de alimentação e, enquanto esperava os meninos, comecei a passar cada foto que estava no rolo da câmera. Caramba, precisava mandar isso pra Emily. Bati uma foto com meu celular mesmo e fui enviando as fotos direto da câmera a ela. Esperava profundamente que esse fosse o trabalho que eles esperavam de mim.

Hola, ! — chegou Carlos, animado, com o macacão amarrado na cintura e a camiseta branca de mangas longas levemente suada.
Hola, Carlos, qué pasa? (Oi, o que me conta?)
— Tô começando a gostar de você, fala espanhol também!
— E italiano e português. Mas então, me conta. Por que esse sorrisão no rosto aí…? — falei com naturalidade, com o intuito de tirar o foco de mim.
— Tive um treino excelente, e acredito que a corrida também será — ele abriu ainda mais o sorriso.

Nesse meio-tempo, Lando se aproximou e nos saudou. Estava mais calado, mas tinha um sorriso no rosto também. Depois de algum tempo fazendo fotos de pessoas, você aprende a analisar as feições e identificar muita coisa.

— E você, Lando, como foi o treino?
— Foi ótimo. Espero conseguir uma boa colocação amanhã.

A conversa seguiu mais um tempo com assuntos extremamente banais. Parecia que nos conhecíamos há muito tempo, e a vibe dos meninos era sensacional. Eles brincavam e riam muito. Na maioria das coisas eu não entendia, claro, mas pudera… Eles eram melhores amigos.
Depois de achar alguma comida que não me parecesse muito fora do que eu costumava comer, voltei para a mesa onde os meninos já tinham retornado com suas respectivas comidas. Quando olhei em volta, a praça estava nitidamente mais cheia: pilotos, engenheiros e mecânicos circulavam por ali à procura de seus próprios almoços.

— O pessoal responsável pela música está desenterrando músicas lá de 2010, me faz lembrar da minha adolescência — fui tomada por uma nostalgia dos meus tempos em que as preocupações eram mínimas se comparadas a agora.
— Quantos anos você tem, ? — Lando arregalou levemente os olhos.
— Tenho vinte e um, faço vinte e dois em alguns meses.
— Achei que você fosse mais nova — Carlos casualmente pontuou.
— Eu sei que tenho cara de mais nova… e às vezes isso me incomoda muito.

E não era uma mentira. Ter aparência de mais nova às vezes botava à prova minha competência como profissional. Eu tinha sorte de estar em um lugar que minha idade não era um impedimento frente ao meu currículo.
A música melhorava a cada uma nova que começava, e, quando pude notar, já cantava Chantaje da Shakira. Ela me contagiava de uma maneira que nem eu sabia explicar… Até porque, sim, eu gostava da música, mas não era uma de minhas favoritas

Pregúntale a quien tú quieras
(Pergunte a quem você quiser)
Vida, te juro que eso no es así
(Vida, eu te juro que não é assim)
Yo nunca tuve una mala intención
(Eu nunca tive uma má intenção)
Yo nunca quise burlarme de ti
(Eu nunca quis zombar de você)
Conmigo ves, nunca se sabe
(Comigo é assim, nunca se sabe)
Un día digo que no y otro que sí
(Um dia digo não e no outro digo que sim)
Yo soy masoquista
(Eu sou um masoquista)

No meio de todo o movimento, vi um rosto conhecido que vinha em nossa direção e me fitava divertido, porque notou que eu cantava animadamente a música dos alto-falantes. era um piloto impossível de passar despercebido, e ele nem fazia questão de tal. Vinha acompanhado de seu preparador físico, e o sorriso estampado continuava a se aproximar de nossa mesa. Então, ele continuou a música, mantendo contato visual comigo e me divertindo com sua dança.

Tú eres puro, puro chantaje
(Você é pura, pura chantagem)
Puro, puro chantaje
(Pura, pura chantagem)
Siempre es a tu manera
(É sempre do seu jeito)
Yo te quiero aunque no quiera
(Eu te quero mesmo sem querer)

Eu já não continha mais o riso. Os meninos, que estavam sentados de costas para onde vinha e de frente para mim, me olhavam sem entender. Certamente deviam achar que eu tinha alguns parafusos a menos. Fiz um meneio de cabeça, indicando que o motivo da minha risada estava atrás deles.

Tú eres puro, puro chantaje
(Você é pura, pura chantagem)
Puro, puro chantaje
(Pura, pura chantagem)
Vas libre como el aire
(Vai livre como o ar)
No soy de ti ni de nadie
(Eu não sou sua nem de ninguém)

— Ele é piloto e dançarino nas horas vagas ainda! — falei, divertida, quando ele parou na nossa mesa ainda rindo da própria performance e da minha constatação.
— Eu tenho várias qualidades além dessa, muchacha — tenho certeza que senti um tom de cantada na fala de , mas podia ser coisa da minha cabeça. E provavelmente era.
— Pronto, outro que me chama de novinha — soltei rindo, com uma falsa indignação na voz.

me olhou com uma sobrancelha arqueada igual ao dia anterior, quando soltei o palavrão em português. Também ouvi uma risada de Carlos, que tinha entendido minha resposta.

, “muchacha” se fala pra menina, garota. A já é uma mulher... — ele explicou, fazendo todos rirem. Carlos ficou com uma cara de convencimento por ter ensinado algo.
— Tá certo, podemos sentar com vocês? — e sem esperar uma resposta, que acredito que seria positiva por todos, se sentou ao meu lado.

A conversa nunca terminava com eles. O assunto não esgotava, e eu não me sentia tratada como a única do sexo feminino na mesa, o que, de certa forma, me deixava muito confortável. Sempre tive homens como amigos que me tratavam igual, sem me desdenharem apenas por ser mulher.
Senti meu celular vibrar e vi na tela o nome de Emily. Pedi licença e fui atender a ligação mais longe da mesa.


Enquanto a jovem fotógrafa ia atender o telefone, os três pilotos e o preparador físico continuavam a conversa animada sobre esportes radicais, que alguns faziam nas férias e no tempo livre. Até que o jovem piloto da McLaren inconscientemente se virou para trás e soltou:

— Acho que estou apaixonado.

, atento a tudo, ouviu e estourou em risos do colega de profissão.

— Tão rápido assim, Norris? — sua frase fez com que os presentes na mesa parassem de papear e prestassem a atenção no que os dois conversavam.
— Ah, caramba, como sou besta — lamentou-se Norris por ter soltado a bomba justo no colo do piloto mais zoeiro do paddock. — Tô ferrado!
— Que é isso, jovem Lando! Prometo que minha boca será um túmulo.

Mas é claro que, se tratando de , isso não seria uma verdade absoluta.
Quando voltou à mesa, os meninos ainda riam de algo, mas o sorriso da garota fez com que eles quisessem saber o que tinha acontecido na tal ligação

— Falou com o passarinho verde, ? — perguntou, curioso.
— Você adoraria saber, não é mesmo? — soltou no mesmo tom de brincadeira. — Mas não, estou solteira. Pensando em entrar pra fila, ? — terminou a frase, e os outros três riam mudos.
— Talvez — respondeu, pensativo. — Mas tenho certeza de quem seria o primeiro dela — insinuou, deixando o jovem Lando mais vermelho que um pimentão. Na tentativa de disfarçar, ele riu com os outros presentes na mesa.
— A Emily mandou um oi para todos. E mandou boa sorte também. Estávamos conversando sobre as fotos que fiz mais cedo — ela sorriu, como quando havia chegado na mesa, e se deu por vencida por ter conseguido trocar de assunto.

Naquele momento, a mulher tinha se sentido constrangida como não tinha antes na companhia dos meninos, mas nada que fosse intimidá-la. Se tinha uma coisa que a fotógrafa sabia fazer, era se defender quando preciso.

— Estou ansioso pra ver as suas fotos, Zack elogiou muito seu trabalho — Carlos pareceu ver o estado de e ajudou a garota a continuar o novo assunto e fazê-la se sentir novamente confortável.
— Zack Brown elogiou meu trabalho? — a surpresa em sua voz era nítida. Um chefe de equipe elogiar seu recente trabalho ali era algo muito recompensador para qualquer um.
— Sim e muito! — complementou Lando, que começava a cantar a música dos alto-falantes. — Preciso concordar com a , a música hoje está muito boa mesmo.
— Eu tô tão contagiada que poderia ir pra uma festa agora mesmo. Vou aproveitar que estou pela Europa e viajando com mais frequência e vou achar uma festa legal… O que vocês sugerem?
— Ibiza ou Mônaco — sugeriu Michael, o treinador de , fazendo com que os outros também concordassem.
— Ok, Ibiza. Se vocês souberem de alguma festa em especifico e elas acontecerem em alguma semana de folga, eu agradeço!
— Te levo um dia, — disse de forma inocente, deixando Norris mais uma vez incomodado.


🇧🇪 Bélgica – 1 de setembro de 2019, domingo

Dirigir em alta velocidade em uma pista era mais que um esporte ou uma profissão. Era paixão por sentir cada centímetro do corpo tomado por adrenalina. A sensação que eriçava o pelo e deixava o coração quase no mesmo ritmo que o ronco do carro. Era quando máquina e homem se tornavam uma coisa só.



O tão aguardado domingo de corrida tinha chegado. Eu estava muito animada para ver de fato minha primeira corrida – não que antes não tenha visto uma volta ou outra por pura insistência da minha mãe, que era apaixonada pelo esporte. E devo confessar: ser acordada todo domingo com os benditos roncos dos motores v10 passando a cada volta era extremamente estressante para uma pré-adolescente naquela época, o que com toda certeza me afastou muito do esporte.
Eu terminava algumas postagens que Emily havia me mandado a arte e assim cativava o público pela corrida, que estava prestes a começar. Hoje tinha passado tão rápido que mal conversei com qualquer um dos pilotos. Eles costumavam se isolar para se concentrarem melhor e focarem em cada estratégia, e a mim só cabiam os registros que ficavam cada vez melhores.
O pole position4 de ontem tinha sido por conta do carro 16 da Ferrari, que pertencia a . Aquilo não me fazia sentir mais animada, já que o cara foi um poço de frieza comigo. Eu não tinha um favorito nem de longe; afinal, eu trabalhava com todos. Mas eu não tinha a mínima chance de me animar nesse caso.
Ontem, com mais um treino livre e por fim o classificatório, me virei em duas, já que corria de um lado para outro a fim de conseguir vários registros dos diferentes acontecimentos do paddock. Mas tudo estava indo melhor que eu mesma achei que seria. As métricas das redes sociais estavam melhores do que nunca, e isso me deixava com a sensação de estar indo pelo caminho certo.
Pronto, última postagem antes de me dirigir pro grid5. Minha visão periférica era ótima, então eu conseguia mexer no celular e me desviar dos outros com maestria.

— Ei, garota! Olha por onde anda! — ouvi um inglês com o sotaque totalmente carregado de italiano.
— Perdão — levantei o rosto para me dirigir ao ser que acabava de trombar em mim e me olhava parado com desdém e os braços cruzados sobre o peito. — Posso te ajudar?
— Na realidade, eu esperava um pedido de desculpas melhor que esse, brasiliana…
Scusa! (Desculpe!) Eu esqueci que o golden boy da Ferrari estava passando e não podia desviar de mim! — usei todo meu desdém na frase, apontando para o grande espaço ao nosso redor, porque a prepotência desse garoto era demais para manter minha boa educação.
— A sua sorte é que você é muito boa no que faz, porque educação lhe falta — ele retrucou, grosseiro.
— Se você dormiu com a bunda descoberta, a culpa não é minha, piloto. Boa prova pra você — me desviei dele e segui para o grid, a fim de terminar meu trabalho antes da prova. Deixei-o ali, parado, com a maior cara de indignação. Afinal, não acredito que alguém já o tenha respondido dessa maneira.

Estar ali perto de tudo, ouvir os roncos dos carros só esperando as luzes vermelhas se apagarem e toda a mágica começar era de outro mundo. Eu, que não estava dentro de um daqueles carros, exalava adrenalina. Era um sentimento único, fazia até o pelo eriçar. A sensação era deliciosamente viciante, não queria mais parar de senti-la. O cheiro da borracha dos pneus e gasolina próximo aos boxes das equipes eram cheiros comuns, mas, ali, eles tornavam únicos e característicos de um domingo de corrida. Todo o pessoal envolvido mantinha os olhos vidrados nas televisões, atentos a cada volta. Esperando qualquer resultado positivo de uma ultrapassagem e torcendo para que nenhuma batida acontecesse.
Então, a trombada com me deixou de certa forma intrigada. Como ele me chamava de “brasiliana” se ninguém sabia qual tinha sido o país onde vivi praticamente toda minha vida? Em algum momento, eu descobriria…
A narração inglesa dava todo o ar de rivalidade e competição que uma boa corrida precisava. Eu olhava atentamente cada volta esperando pelo fim e, em alguns momentos, postava as fotos que Emily me encaminhava dos fotógrafos que ficavam ao redor da pista.
Assim que a corrida chegou ao fim, bem acirrada entre Lewis e , tendo como vitorioso o piloto da escuderia vermelha, me dirigi a área da pista para fazer o restante do meu trabalho esse final de semana. exalava soberba, pelo menos em relação a mim. Com outras pessoas, ele parecia tão amável. Não saberia dizer por que cativei tanto ódio dele, afinal de contas.
passou por mim e pareceu não notar minha presença. Me aproximei e aproveitei o momento para fazer uma foto do cumprimento dos dois e acabei ouvindo a conversa.

— Parabéns pela corrida, cara! — saudou , em um cumprimento de meio abraço.
— Valeu, , você também correu bem! — ele retribuiu o gesto do amigo, que já ia saindo, mas pareceu se lembrar de algo.
— Ah, eu não sei o que ela pode ter feito pra você, mas aprenda a tratar a melhor. E isso serve pra qualquer mulher...

Eu não precisava que ninguém me defendesse. Meu sangue parecia ferver, tamanho o incômodo que senti da situação. Prontamente me fiz visível para os dois pilotos, que não tinham me percebido ali até então, e, com um sorriso no rosto, para que ninguém ao redor percebesse meu descontentamento, falei entredentes:

— Obrigada, , mas eu sei me defender desse aí…



1Paddock: Local onde ficam os QG’s das equipes e abrigam o pessoal das equipes, veículos, oficiais de prova e convidados.
2QG: Centro administrativo móvel de cada equipe. Ali se concentram salas de reuniões, cafés, dentre outros.
3Box: Onde o carro fica antes de sair para as corridas. Ali também são controladas por dezenas de pessoas informações técnicas e mecânicas de cada carro. A equipe tem direito a dois boxes de 200 m².
4Pole Position: Um piloto é considerado o pole position, em automobilismo, quando inicia a corrida na primeira posição do grid.
5Grid: nas corridas de Fórmula 1, é a colocação de largada dos carros.


Capítulo 2

🇮🇹 Itália – 8 de setembro de 2019, sexta-feira

O trabalho nunca começava no final de semana, com toda certeza era quando ele ficava muito mais intenso. e Emily tinham muito trabalho durante a semana no escritório. Desde editar fotos até criar conteúdos, as estratégias para atrair cada vez mais o público para as redes eram fundamentais. Com as meninas havia sempre uma equipe maravilhosa de marketing para apoiar e guiá-las no que fosse preciso. As reuniões sempre as ajudavam com ideias e um norte do que precisaria ser feito durante os dias, e nos finais de semana de corrida também. Por esse motivo, a chegada delas em Monza foi somente hoje, sexta-feira, e não ontem como o habitual.
Durante todo o caminho até o trabalho, elas tinham uma conversa extremamente animada. Era nítido o quanto se tornaram amigas nas últimas semanas, desde quando começaram a trabalhar juntas. Ao adentrar o paddock, Emily cumprimentou inúmeras pessoas, então avistou as duas social medias e foi de encontro a elas.

— Bom dia, senhoritas — se curvou, rindo dele mesmo e de seu exagerado cumprimento.
— Bom dia! Como está, ? — Emily respondeu, animada.
— Bom dia — respondeu quase sem entusiasmo, prestando atenção no celular e em algo que aproveitava para fazer devido à parada das duas para falar com .

Emily logo estranhou a reação de , já que ela havia contado de todo o incidente e como tinha se dado bem com o piloto australiano no final de semana anterior. A garota logo saiu para atender o telefone, assim se despedindo e começando os trabalhos daquele Grande Prêmio.6
A cidade de Monza era simplesmente encantadora. Era a casa da equipe, onde acontecia a corrida mais esperada por qualquer piloto que corresse pela escuderia italiana Ferrari. A cor que predominava nas arquibancadas e por onde se olhasse era vermelho. A pista era uma das mais velozes da Europa, além de, claro, ser outra corrida favorita da maioria dos pilotos do grid. O movimento já era intenso logo de manhã cedo, visto que os treinos em breve começariam. As meninas não perderam tempo e partiram para produzir conteúdos e fotos.



Esse final de semana com toda certeza seria intenso. Como estávamos na casa da Ferrari, nossa atenção também se voltaria mais a eles, com mais postagens e – a parte que não me agradava nem um pouco – mais interação com o piloto egocêntrico. Tirando isso, meu trabalho não poderia ser melhor. Eu e Emily éramos uma dupla perfeita, tínhamos uma dinâmica ótima. Enquanto uma cumpria uma parte da nossa lista, a outra adiantava outras tarefas.
A chuva ia e vinha, uma garoa fininha e chata. Ouvíamos burburinhos das bandeiras vermelhas durante o primeiro treino da manhã. Cada vez que eu ouvia sobre uma bandeira vermelha, rezava para que nada de grave tivesse acontecido. A bandeira dessa cor só era dada aos pilotos em caso de acidentes nos quais seria impossível retirar o carro da pista em segurança, sem atrapalhar a corrida e torná-la perigosa a quem fazia seu trabalho na pista. Para minha tranquilidade, ocorreram acidentes leves e os três pilotos estavam ótimos; somente danos nos carros.
Com o fim do primeiro treino, meu trabalho e de Emily era mais corrido, por ser um prato cheio de acontecimentos para produzir fotos e mídias. Em uma das incontáveis vezes que eu percorria todos os boxes das equipes, vi a dupla que eu mais tinha afeição ali com sorrisos no rostos. E claro que eu não podia deixar de registrar momentos como aqueles.

— Já comentei com vocês que eu odeio trabalhar na chuva? — cheguei rindo do meu estado em uma capa transparente.
— Você fica ótima com essa capa. Tente dirigir a mais de 320km/h na chuva, é ótimo de enxergar a pista — também rindo, Carlos comparou nossos trabalhos.
— É, você tem razão. Prefiro ficar com a minha capa bem fashion mesmo.
— Então vocês já me trocaram pela novata, é? — chegou Emily, que estava fazendo uns vídeos mais atrás de onde estávamos.
— Claro que sim. A até fala espanhol. É perfeita, ela me entende — a seriedade na voz de Carlos me fez gargalhar.
— E olha só isso, Emily. A risada dela é a coisa mais linda desse mundo — parou ao lado de Carlos o jovem Lando, que, até então, resolvia algumas coisas com sua assessora pessoal.
— Acho que o Lando é o primeiro que eu vejo deixar a envergonhada.

De repente, todos os três olharam para mim, me deixando ainda mais roxa de vergonha.

— Em minha defesa — comecei, tentando recobrar a minha cor normal —, eu não sei lidar com elogios.
— Apenas aceite-os — Carlos sempre sabia como me deixar mais tranquila e me tirar de saias justas. Eu precisava agradecê-lo algum dia.
— Mas voltando ao assunto de trabalho — Emily interveio —, por favor não nos matem de susto nessa chuva, ok? Eu e ficamos muito apreensivas com todas essas bandeiras vermelhas nesse treino.
— Fiquem tranquilas, meninas. Estamos bem. Gasly, Perez e Raikkonen estão bem também, nada grave com eles.
— Menos mal. Eu fiquei bem preocupada, mas preciso parabenizar vocês pelo ótimo treino! — comentei, e os meninos abriram um sorriso ainda maior e me agradeceram.

Logo em seguida, Zack Brown os chamou para alguma reunião nos boxes, e eu e Emily seguimos para a praça de alimentação para tomar café da manhã. Era difícil o silêncio prevalecer em nossos momentos juntas. Pelo pouco que conhecia da minha colega, sabia que ela pensava em algo.

— Fala aí o que está te afligindo.
— Nada não. Tava só pensando em como o Lando tá caidinho por você… — ela deu uma pausa e me olhou. — Não só ele. Na verdade, queria saber o que você fez… — deu uma gargalhada alta.
— EU? — fiquei surpresa com a constatação dela. — Você tá louca. Os meninos são uns amores e fizemos amizade mais fácil, mas é só…
— Tá bom, . Vou fingir que eu acredito e que você não percebeu — seu tom de deboche me deixou ainda mais intrigada. De fato eu não tinha percebido nada.

Tá certo que eu era muito tapada e bem inocente nesse ponto, porque sim, me julguem, mas eu ainda escolhia acreditar na humanidade. Jamais pensei que algo pudesse acontecer em duas semanas assim. Até porque sempre tive amigos homens, e eles sempre foram só isso: amigos. Trabalhar em um ambiente povoado por muitos deles certamente era algo que poderia acontecer em algum momento, mas eu não tinha parado para pensar em uma possibilidade dessas, já que o êxtase em ter um emprego num lugar assim era algo de outro mundo.
Já tinha acontecido muita coisa nos últimos quinze dias, mas eu sentia que estava exatamente onde deveria. Estava vivendo minha vida igual à dos pilotos em seus carros velozes: intensamente.
Aí você se pergunta, por que intensamente? Nada de mais tinha acontecido até agora. Umas amizades novas, um trabalho novo, um país novo a cada semana… Mas para quem era acostumada com a mesmíssima coisa há anos, sim, eu estava vivendo intensamente à minha maneira.

, certo? — de forma muito simpática, Lewis Hamilton se aproximou de mim com um sorriso sem mostrar os dentes.
— Eu mesma! Bom dia, Lewis. No que posso ajudar?
— Bom dia! Nada não, só queria saber como estava sua mão. Sabe, do tombo de semana passada… — a tranquilidade emanava dele, e eu não fazia ideia de onde vinha tanto autocontrole. O cara que tinha acabado de sair do carro que chegara a pelo menos 320km/h continha uma feição de como se estivesse voltando do shopping.
— Ah, sim! — olhei para a palma da minha mão e me virei em sua direção. — Tá nova em folha! Obrigada por perguntar.

No instante seguinte, arqueei uma sobrancelha quando vi um buldogue inglês. Cães definitivamente não eram comuns naquele ambiente. Hamilton girou seus calcanhares e ficou de costas para mim, para ver o que eu olhava atrás dele.

— Olha, um cachorro! — me abaixei e o simpático cão veio até mim, saltitando.
— Lewis! — vi uma mulher loira e de meia-idade chegar correndo logo atrás do cachorro, que parecia ter dado um baile na moça. — Roscoe fugiu de novo da coleira. Acho que ele te viu lá do box... — ela parou para puxar o ar que lhe faltou — … e veio correndo.
— Fica tranquila, Emily. Acho que Roscoe acabou de fazer uma nova amiga — ele apontou para mim, enquanto o cão recebia meu carinho e me lambia a mão em troca.
— Eu amo cães. Roscoe é uma fofura! Não sabia que era seu, Lewis.
— Ele é meu amuleto e meu melhor amigo. Sempre que consigo, ele vem às corridas comigo. Todos já o conhecem, então só prendemos ele quando os carros estão na pista. Se não, ele vem atrás de mim.
— Sinto falta de um amigo de quatro patas… — soltei pensativa, sentindo saudades de todos pets que já tive a honra de ter. Inclusive de Órion, mas sabia que estavam cuidando bem dele.
— Você não tem nenhum? — ele mostrou interesse na conversa.
— Os meus estão com minha mãe no Brasil. Aqui é impossível, estou sempre viajando...
— Verdade! Mas sempre que quiser, pode vir afofar o Roscoe. Ele gostou de você!
— Pode deixar! — levei o rosto do cão próximo ao meu, segurando-o com as duas mão e ganhando uma lambida no nariz em retorno.
— Nos falamos, ! Até! — então chamou o cachorro, que saiu saltitando feliz em seguir o dono.
— Até, Lewis! — me despedi.

O dia seguiu tranquilo, trabalhoso como era de se esperar, mas sem mais imprevistos – além de, claro, mais pista molhada e a insistente garoa. Com o último treino no meio da tarde, conseguimos voltar relativamente cedo para o hotel e descansar, inclusive aproveitá-lo. Os dias quentes na Europa estavam terminando, e a piscina coberta era um local ótimo para relaxar em plena sexta-feira.
Um biquíni preto e uma saída de praia branca rendada me acompanharam na piscina do hotel. Alguns mergulhos depois e parecia que todo o cansaço tinha ficado para trás. Sequei meu corpo com a toalha, coloquei a saída de praia e subi, a fim de me arrumar para o jantar que havia combinado com Emily.
A água morna escorrendo pelo meu corpo no chuveiro parecia me abraçar e me relaxar ainda mais. Me apressei quando ouvi meu celular tocando no quarto e percebi que estava possivelmente atrasada para o jantar. Me enrolei na toalha e voltei até lá para ver do que se tratava. Foi quando vi uma ligação perdida de Emily e uma mensagem:

, tive que voltar até o circuito. Devo me atrasar um pouco, te encontro no restaurante às oito! Beijo, Ems.”

Como eu ainda tinha um certo tempo para me arrumar, decidi secar meu cabelo e o deixei bem liso. Passei o mínimo de maquiagem, já que logo eu a tiraria. Na minha mala, procurei por uma roupa simples e confortável: uma blusa azul royal e uma calça jeans de lavagem clara destroyed foram as escolhas para o jantar. Passei um perfume leve e, quando olhei o relógio do celular, faltavam apenas cinco minutos.
Tranquei a porta e saí em direção ao elevador do andar, a fim de chegar no segundo piso e encontrar Ems no restaurante. Minha colega de trabalho e amiga já me esperava em uma mesa para duas pessoas em um dos cantos do restaurante.

— Pontual você, hein? — ela provocou.
— Sempre. Não sou britânica. Não gosto de deixar as pessoas esperando.
— Gosto disso. Mas então, me conta, como foi a piscina?
— Como você sabe, Ems?
— Minha cara amiga, você tem que entender que você tá num hotel com vinte pilotos, e que homem é tão fofoqueiro ou mais que as mulheres.
— Caramba! Rápidos, não? Isso que não devo ter passado mais que trinta minutos lá, e não me lembro de ter visto nenhum nos arredores da piscina…
— E no bar? — ela levantou uma sobrancelha e deu um risinho sacana para mim.
— Que bar? — eu definitivamente era tapada. Não tinha visto um bar. Ems gargalhava na minha frente.
— Vamos abafar o assunto, , senão eu viro a fofoqueira aqui…
— Agora você termina de me contar direito!


As meninas continuaram a rir uma com a outra. insistia em querer saber qual o motivo de algum dos pilotos contar a Emily que ela tinha ido na piscina mais cedo. Alguns deles já povoavam o restaurante e se dividiam em grupos de afinidade em diferentes mesas. A intenção era não sair do hotel hoje, já que a classificação seria no dia seguinte, e, com toda certeza, era importantíssima para a corrida de domingo.
Ao entrar no restaurante, zapeou com os olhos à procura da moça. Ele estava definitivamente preocupado se havia feito algo errado. Decidiu ir até lá e, em certo ponto, estranhou ter lhe seguido sem contestar. Ao se aproximar da mesa, o piloto da escuderia vermelha viu de quem se tratava, mas não havia mais muito a ser feito. sabia que não gostava de , mas tinha certeza que não seria grosseiro. Ou, pelo menos, esperava que não.

— Boa noite, belas moças!
— Boa noite, ! Muito cansado? — sempre prestativa, Emily respondeu ao piloto australiano.
— Boa noite — sem ser grosseira, mas sem muita intimidade, respondeu aos dois rapazes.
— Nah! — ele balançou a mão no ar. — Eu tô ótimo e pronto pra deixar alguém aqui comer poeira — cutucou , para enfatizar de quem falava. Este parecia tão aéreo quanto a fotógrafa.
— Ah, claro. Vai vendo, respondeu, brincando também.
— Sem briga, rapazes — Emily entrou no tom de brincadeira.
— Depois a gente vai pra sala de jogos. Vocês estão convidadas, ladies.
— Obrigada!

Mais uma vez, Emily estranhou a amiga tão calada. Ela decidiu não tocar mais naquele assunto durante o jantar, e pareceu voltar ao normal. Conversaram sobre assuntos super aleatórios e se conheceram ainda mais.
Quando resolveram subir, Emily tentou convidar a garota para a sala de jogos também, mas ela preferiu seguir para o quarto e ficar lá pelo resto da noite. Algo definitivamente estava errado, mas Emily descobriria isso no dia seguinte.


🇮🇹 Itália – 9 de setembro de 2019, sábado

EMILY

tinha chegado há pouco tempo, mas já tinha me conquistado com seu jeito doce e durão ao mesmo tempo. A realidade é que ela só parecia uma leoa quando se sentia ameaçada, e principalmente por homens. E isso me deixava muito mais aliviada, porque ela sabia se proteger de qualquer um naquele lugar. Na verdade, a garota não passava de uma gatinha que ronronava com facilidade – era só saber lidar com ela. O que vinha me deixando intrigada, se podemos dizer assim, era a repentina ignorada e indiferença que vinha dando em , sendo que ela mesma me contou que eles tinham se dado muito bem uma semana antes. Eu conhecia muito bem e conhecia relativamente . Algo tinha acontecido.
Com o intuito de descobrir o que havia acontecido, saí mais cedo do que tínhamos combinado no dia anterior. Mandei uma mensagem avisando que tive um imprevisto, então saí mais cedo para o autódromo e fui descobrir o que tinha acontecido.
Eu tinha que bancar a CSI sem dar pistas, e precisava pensar por onde começar para não deixar muito escancaradas as minhas intenções. Quem diria, né? Que eu, mera social media da F1, bancaria uma investigadora pelo bem de uma amiga e ótima profissional.
O mundo das corridas podia ser muito cruel. Apesar de todos serem muito amáveis, cada um almejava vencer. Tinham rivais obstinados a ser os melhores do grid, e eles fariam o possível dentro das rígidas regras da FIA8 para vencer cada corrida. Para isso, as farpas entre algumas equipes eram constantes, e eu não queria que isso afetasse . Sabia que não éramos normais, mas queria ela por perto por muito tempo!
Outra pessoa que parecia ter pensado o mesmo que eu era . Ao me ver passar, veio empolgado em minha direção. Quando não achou o que procurava – que tenho certeza que não era minha pessoa –, ele deu uma desviada no caminho que fazia com afinco e só acenou de longe. Confesso que eu amava essa persistência dele. Não era algo abusivo ou exagerado, mas acho que ele queria saber tanto quanto eu o que acontecia. Ele, direto com ; e eu, o que havia acontecido entre eles.
Passei disfarçadamente na frente de cada box das equipes e notei que Riccardo não estava lá. Uma ideia me veio à mente, e talvez seu colega de equipe, o alemão Nico Hulkenberg, pudesse me ajudar.

— Bom dia, loiro bonitão — brincando, cumprimentei meu amigo.
— Fala, Ems! Fazia tempo que eu não via você… — ele veio ao meu encontro para me dar um abraço. — Já está abandonando o trabalho?
— Não, não… Só tenho passado mais serviço pra , assim ela consegue aprender na prática — comentei, animada.
— Gostei dela. Não conversamos muito, mas Riccardo me comentou que ela é uma pessoa bacana.
— Bom saber! Mas falando nela, você sabe o que tá acontecendo entre o e ela?
— Entre os dois, nada. Mas não para de falar sobre como ela é divertida, querida, engraçada, bonita… — ele enumerava com os dedos os vários elogios que ouviu do colega de equipe sobre .
— Tá certo. Obrigada, Nico! Nos falamos! — ri nasalado enquanto ia me retirando.

Eu adorava conversar com Nico. Ele sempre me entregava o ouro de bandeja sem nem perceber, além de ser um ótimo amigo. estava com vergonha das cantadas de , e eu não estava acreditando que era só isso. Porém, assim minha mente ficou mais tranquila. Meu dever estava cumprido.


A jovem fotógrafa se levantou no horário exato para ficar pronta e sair com Emily para o autódromo. Assim que pegou o celular para checar as mensagens, viu que a colega tinha mandado uma para lhe avisar sobre um imprevisto. Então, iria sozinha ao local da corrida.
Enquanto se arrumava vagarosamente, a sonolência arrastava a moça para a higiene matinal. Hoje era definitivamente um dia que nada servia, inclusive sua aparência no espelho não a agradava. As olheiras começavam a ficar fundas, e o cansaço, a aparecer. A correria não era ruim, mas ela ainda não havia se acostumado.
Vestida e maquiada para tentar esconder uma noite mal dormida por pura insônia, a garota estava pronta para passar mais um dia, ou quase isso. Ao sair, colocou os fones de ouvido e chamou um carro de aplicativo para levá-la ao destino final e começar o trabalho.
Ela conhecia um bom jeito de animar o seu dia, que ainda tinha resquícios de sonolência: seus bons fones de ouvido e uma música animada. Talvez um bom som a acordasse melhor e a deixasse com o humor minimamente aceitável.

Coloque Classic, do MKTO para tocar

Embora nada tivesse dado errado desde que chegara ao continente europeu, o caminho até lá lhe deixou uma sensação de vazio. achou um novo trabalho relativamente rápido, novas amizades e nenhum conflito de muita importância. Talvez esse fosse o vazio: sua vida estava calma demais.
Num piscar de olhos, lá estava ela no autódromo de Monza, que, graças aos céus, ainda estava relativamente vazio. Hoje seria o primeiro dia de trabalho que não lhe agradava, e tinha a impressão que não seria o último. Mas a música vinha cumprindo seu papel de deixar a moça mais animada. Porém, ao ver todas aquelas bandeiras vermelhas com o símbolo da Ferrari, teve uma leve dor de cabeça. Os óculos de sol escuros ajudavam na tarefa de esconder o sono; os fones, o mau-humor. Mas ficar perto de não seria uma tarefa de todo fácil para . Ainda bem que tinha a colega de trabalho e a amiga ao seu lado.
precisava a todo custo falar com ela. A impaciência era nítida. Ele queria se desculpar, independente de quem fosse. Não queria causar uma impressão ruim. Longe do rapaz querer se meter na vida de alguém, ele somente havia feito o que achou certo.
Ao passar pela décima vez pela entrada do paddock, viu a moça de trança lateral, óculos de sol e, como já a havia visto bastante, mexendo no celular. não pareceu notar a presença do piloto, que, mesmo parando quase em sua frente, foi desviado pela moça que olhava atentamente o aparelho em suas mãos, já que sua habilidade de mexer no celular e caminhar sem esbarrar em ninguém era ótima.



Caramba, como essa música me contagiava. Ela podia ser mais antiga, mas não saía das minhas playlists há muito tempo. Ela me tinha de um jeito único e conseguia deixar meu dia melhor.

I wanna thrill you like Michael
(Eu quero te emocionar como Michael)
I want to kiss you like Prince
(Eu quero te beijar como o Prince)
Let's get it on like Marvin Gaye, like Hathaway
(Vamos entrar nessa como o Marvin Gaye, como Hathaway)
Write a song for you like this
(Escrever uma música pra você assim)

— Hey! Meu fone! — fiz manha.
— Vai falar comigo? — parecia querer fazer uma troca.
— E por que eu não falaria com você, ?
— Porque você nem me olhou direito na cara ontem… — respondeu, como se fosse óbvio.
— Ah, pronto! Agora eu tenho que falar com você a cada segundo que te ver?
— Sim? — soltou, brincalhão.
— Não quero discutir com você, . Preciso tomar um café e acordar, pra não ser ainda mais rude com você. Depois conversamos, certo? — eu estava irritada, com sono e de mau-humor, mas ainda precisava do meu emprego.
— Eu pago seu café, dona estressada.

Devo confessar, era uma peça rara.


•••


Aquele cappuccino que comprou era um dos melhores que eu já tinha tomado na minha vida. Era cremoso, doce na medida certa, e o gostinho de chocolate suíço ao fundo deixava a mistura simplesmente perfeita. Não sabia se era o mau-humor por conta do sono ou pela fome, mas com certeza soube como acalmar minha fera ou fome – chame como você quiser – com um simples cappuccino.

— Já podemos conversar? — ele estava sério, o que me levou a prestar atenção no que falava. Nesses dois finais de semana eu só tinha o visto assim prestes a correr.
— Sim. Inclusive, desculpa. Eu não dormi à noite e fui muito grosseira.
— Tenho uma irmã, . Sei como as mulheres ficam de mau-humor, não precisa pedir desculpas.
— Você tem irmã?
— Tenho, ela é mais velha. Inclusive, tenho uma sobrinha que a mídia pinta e borda que é minha filha…
— Não sei se amo ou odeio a mídia, é uma linha tênue. Mas lá eu pude estudar sobre todo esse mundo.
— Espero que você tenha procurado nos lugares certos. Nem tudo que falam é verdade — ele pareceu receoso.
— Fica tranquilo, . Não fui em site de fofocas esportivas, só em sites oficiais, prometo — levantei a mão, como se fizesse um juramento.
— Vou confiar em você — ele apontou o dedo, como quem estava me dando uma chance. — Mas, primeiro, preciso te entregar uma coisa — estendeu uma caixa quadrada e preta, escrito Ray-Ban em dourado no topo.
— Não acredito! Você…
— Abre logo! — ele me interrompeu, enquanto eu olhava boba para a caixa na minha frente.

Coloquei o dedo no recorte para abri-la e lá estava um óculos exatamente igual ao meu. Me surpreendi, já que aquele modelo não era produzido há alguns anos. Lembro como se fosse hoje do dia em que o comprei. Foi o meu primeiro óculos de sol, aquele que eu tinha comprado com o meu suado dinheiro na época. Que sabor maravilhoso poder conquistar as próprias coisas.

, nem sei como agradecer. Não faço ideia como você conseguiu esse óculos, mas obrigada por ter esse cuidado e comprado outro também! Ele tem um significado gigante pra mim.
— Não revelo meus meios — deu uma risada nasalada e brincalhona, com seu sorriso típico no rosto —, mas fico feliz em ter conseguido devolvê-lo a você.

Levantei-me da mesa e fiz sinal para que fizesse o mesmo. Então, o abracei, me sentindo realmente grata. Se tinha uma coisa que eu era apegada eram às memórias. E aquele óculos era parte da minha.


•••


Depois de uma bandeira vermelha causada por Kimi Raikkonen, sem nada grave, acabou que o golden boy da Ferrari novamente tinha conseguido o pole position. Nenhum piloto saiu com menos de dois minutos para o final do treino classificatório, e não conseguiram abrir a volta mais rápida.9 O pior de tudo é que eu precisaria aturar a petulância do garoto logo mais.

— Emily, será que ir embora agora e inventar uma dor de barriga pegaria mal?
— Não estou entendendo você. Não gosta mais do trabalho, ?
— Não gosto é dele — fiz sinal com a cabeça para o piloto mais à frente.
— Para com isso, . O é um amor de pessoa, um dos pilotos mais doces que já conheci.
— Só se for com você, lindinha — disse com desdém.

A pior parte do dia tinha oficialmente chegado, e não demorou para o meu humor mudar por completo. Hoje em especial meu dia já não tinha começado com um belo humor, e vamos ser sinceros? Eu não era obrigada a ser mil sorrisos sempre, principalmente com alguém que era um poço de grosseria comigo.
O pessoal da Ferrari nos passava algumas preferências, já que também usariam as fotos; portanto, elas precisariam ficar dentro dos padrões da escuderia. Após tudo esclarecido, ficamos a sós com os pilotos e os carros, e ali eu sabia que o inferno começaria. Mantive meu profissionalismo ao extremo, mas devo dizer que se mexer de propósito cada vez que eu o enquadrava em um ângulo bom me tirava do sério. O filho de uma boa mãe se mexia de propósito. Mas aí você deve estar pensando: que tipo de profissional eu sou? Porque, afinal, minha câmera deveria captar imagens com uma rapidez absurda. E a resposta é sim e não, porque muitas vezes eu precisava aumentar a exposição, o que, consequentemente, fazia com que o diafragma fechasse mais lentamente e que o clique fosse mais lento. E era exatamente nessas fotos que aquele ser resolvia se mexer, mesmo com aviso prévio do que eu faria.

— Emily, você vai mesmo deixar a parte das mídias da F1? — perguntou num tom exagerado, como se quisesse chamar a atenção.
— Sim e não. A partir da próxima temporada, assume essa parte sozinha. Eu ficarei lá em Londres internamente.
— Ah, entendi — ele terminou o diálogo.

Eu estava cada vez mais estressada. Esse protótipo de piloto dificultava ainda mais meu trabalho. Minha paciência estava chegando no limite, mas, no fim, se eu o matasse, perdia meu emprego e o réu primário. O réu eu juro que perdia, mas o emprego eu realmente gostava e precisava; então, tentei parar de fotografá-lo e fiquei a alguns metros de distância, conferindo se algo tinha prestado.
Resolvi chamar Emily por um segundo para mostrar o resultado. Sabia que o que tinha feito era sutil o suficiente para que ninguém percebesse. Porém, somado ao que ele já tinha feito comigo, estava com certeza na conta de como eu me sentia.

— Olha essas fotos, Emily. Eu desisto… — falei quase chorando. Em sua maioria, as melhores estavam tremidas.
— Calma, . Vou falar com ele. Vi que você pediu em certos momentos que ele ficasse mais parado. Pelo jeito é birra de vocês, um com o outro.
— EI! Eu tô só tentando fazer meu trabalho, mas com um cara desses é um pouco complicado.

Ouvi Emily conversar com e pedir – fofa demais pro meu gosto – para que o piloto cooperasse com as fotos, que eu apenas tentava fazer meu trabalho e para ele deixar de ser criança. Devo confessar, me deliciei com o “xingão”. A vontade de explodir em risadas na cara dele era gigantesca, e a dificuldade aumentou ao ficar perto do homem. Eu podia ver a raiva saindo de suas lindas orbes verdes. Se tinha uma coisa que ele sabia ser, além de um verdadeiro pé no saco, era ser bonito.
Voltei a fazer meu trabalho – que, dessa vez, ficou bem mais fácil – até a hora que Emily precisou sair de onde estávamos fazendo as fotos, na pista, para ir buscar mais uma bateria para a câmera. As provocações ficaram cada vez piores. A cara de paisagem e as constantes mexidas em horas inoportunas fizeram meu sangue ferver. E sabe quando você toma uma atitude que não esperava ter, mas a impulsividade toma conta?
Me aproximei devagarinho para que o colega de equipe Sebastian Vettel, que mexia no celular enquanto esperava Emily, não percebesse o que eu faria a seguir

— Eu não sei por que você é tão babaca comigo — falei num tom de voz baixo, que soou mais ameaçador do que imaginei. — Mas sei que, se eu sair daqui com essas bostas de fotos, você vai sair falando sobre o meu trabalho. E se tem uma coisa que eu sei fazer perfeitamente bem é fotografar. Então, pelo menos nos próximos vinte minutos, você pode simplesmente deixar a sua personalidade desqualificadora e infantil de lado e me deixar tirar essas fotos? — rosnei, entredentes.
— Como quiser, brasiliana — ele pareceu intimidado enquanto me ouvia falar, mas, no momento que respondeu, assumiu a mesma pose de antes: desdém.

Os últimos vinte minutos de fotos foram relativamente tranquilos, mas eu estava acabada. Parecia que tinha sido atropelada por uma Fórmula 1. Meu esgotamento mental era tanto que, assim que acabamos, eu não fiz questão de esperar todos para irmos juntos até o paddock. Me despedi, avisei Emily que iria direto para o hotel e dei por encerrado meu interminável dia.
Hoje tinha sido péssimo. Algumas coisas foram boas, mas as ruins se sobressaíram. Para mim, hoje seria um banho, comida no quarto e cama.


🇮🇹 Itália – 10 de setembro de 2019, domingo

O dia amanheceu bem melhor. Eu não sentia sono ou mau-humor. Nada que um belo sono não fizesse o bom humor imperar de novo.
Ainda deitada, comecei a pensar em como era sortuda por ter pessoas que se importavam comigo. Me levantei devagar e fui até a cômoda onde tinha deixado o óculos que carinhosamente comprara para substituir o que havia quebrado no meu primeiro dia de trabalho. E nem tinha sido de todo sua culpa, afinal, eu também andava distraída. Amigos desse modo eram bons para se ter em um recomeço como aquele.
Eu queria deixar meu passado totalmente para trás, mas sabia que seria humanamente impossível. Tinha começado amizades que faziam meu trabalho não pesar em nada. E uma vez na vida eu podia dizer que as coisas estavam todas no seu devido lugar, certo? Assim eu esperava.
Resolvi fazer uma chamada de vídeo para matar as saudades da minha mãe e contar as novidades; até porque, depois que comecei a trabalhar para a F1, quase não nos falamos.

— Como você tá, mãe? Estou com saudades.
Também tenho saudades, filha — ela suspirou. — Aqui tudo continua do mesmo jeito.
— Aqui tá tudo tão corrido — também suspirei e joguei meus ombros para frente. — Mas é tudo tão excitante! Daqui a pouco eu saio para ir ao autódromo.
Monza, né?
— Sim — respondi, animada. — Eu que era meio neutra e evitava de assitir, não vejo a hora de a corrida começar.
Não te disse? Fórmula 1 é muito bom, mas eu nunca vi graça de ver ao vivo. E depois que o Senna morreu, assim tão perto, tudo perdeu a graça.
— Ué, não é a senhora que era toda torcedora do Hamilton?
Eu sou — disse, estufando o peito. — Ele me cativa do mesmo jeito que o Senna, mas nunca vai ser ele.
— Falando em Hamilton, o cachorro dele é um fofo.
Roscoe? — falou, como se fosse óbvio.
— Esse mesmo. Um querido. Veio correndo pedir carinho, já fizemos até amizade.
Dá uma afofada nele por mim. Ah! — pareceu se lembrar. — E diz pro Lewis que eu admiro muito ele, e que um dia quero conhecê-lo.
— Tá certo, mãe! Quando eu tiver essa oportunidade, falo com ele pra você.
Eu vou cobrar, viu? Ah, e os outros são bonitões ao vivo também?
— São sim. Fiz amizade com alguns, mas passo a maior parte trabalhando, então não tenho muito tempo pra conversar com a maioria.
Me diz que você fez amizade com o , ele é tão bonitinho — soltou, animada.
— Não, mãe — respondi sem animação nenhuma. — Ele é um poço de grosseria, não gosto dele.
Ah — ela desanimou. — Eu gosto dele.
— Mãe, eu adoraria conversar mais, mas tá na minha hora. A gente se fala outro dia, tá bom?
Claro. Vai lá, filha! Amo você!
— Amo você! Tchau — me despedi e encerrei a chamada. Minha mãe era uma figura.

Domingo de corrida. O evento do final de semana tinha chegado, e com ele mais bandeiras vermelhas e mais tifosi, que era como a Ferrari carinhosamente apelidou seus fãs, pela forma calorosa que eles torciam por eles. “Tifosi”, em tradução literal do italiano, significava torcedores.
Um mar vermelho tomava as arquibancadas, e claro, era lindo ver a devoção daquela gente por uma equipe italiana de Fórmula 1. Fora que o visual de tudo aquilo era de tirar o fôlego. Eu não podia dizer que não entendia, porque cada dia eu me apaixonava mais pelo esporte. O ronco dos carros estava se tornando uma das minhas coisas favoritas. E se tinha algo que eu sempre ouvia dizer e nunca quis acreditar era que adrenalina viciava.
Mesmo sendo neutra, comecei a gostar disso quando cheguei aqui. Queria cada dia mais sentir a adrenalina eriçar os pelos em um dia de corrida, a excitação correr pelas veias e encher os olhos com a velocidade que os pilotos chegavam com aquelas máquinas. E hoje, para minha alegria e de todos os fãs, era dia de corrida, bebê!
Já era quase meio-dia, e com isso meu turno também começava. A corrida seria somente às três da tarde, mas, como sempre, meu trabalho era o primeiro que começava.

— me virei para procurar de que direção vinha a voz ao longe. Vi quase fazendo sinal de fumaça para que eu o visse.
— Bom dia! — sorri e notei a presença de uma moça muito bonita ao seu lado, extremamente bem vestida e arrumada.
, essa é a Amber — fez uma pausa —, uma amiga — então, piscou um olho para mim.
— Prazer, Amber. Me chamo , sou a social media da Fórmula 1 — estendi a mão, mas ela hesitou em retribuir o cumprimento.
— Oi, , o prazer é meu — um sorriso amarelo acompanhou a frase, o que fez com que eu de cara não gostasse dela.
— Bom, se vocês me dão licença, preciso começar meu trabalho. Aproveite a corrida, Amber. Nos vemos por aí, .

Algo me dizia que essa tal de Amber não era flor que se cheirasse. Talvez mais tarde eu falasse com , se ele perguntasse.
A famosa loucura de domingo tinha começado. Era possível ver as dezenas de pessoas de cada equipe correndo feito loucas de um lado pro outro. Era preciso atenção em dias como hoje, porque o risco de ser atropelada por algum funcionário era gigante. Eu e Emily nos dividimos para fazer as fotos pré-corrida, e claro, eu tinha ficado com Ferrari, McLaren, Renault, Red Bull, Haas e Mercedes. E só uma das equipes me incomodava: começava com “Fer” e terminava com “rari”. Mas nem tudo ia me agradar, certo? Certo.
Quando terminava de fazer as fotos, recebi uma mensagem do meu chefe dizendo que ficaria por nossa conta cobrir o podium7 de hoje. Quando finalizamos as fotos pré-corrida, era só esperar ela terminar e fazer as fotos de seus ganhadores.
Essa corrida tinha sido disputadíssima, e, no meu mais profundo interior, eu não queria outra vitória do menininho de ouro da Ferrari. Porque isso também significaria ter que olhar para a cara dele por mais um tempo na cobertura do pódio. Porém, parecia que a maré não estava a meu favor, e o vencedor novamente foi ele, trazendo uma vitória em casa depois de um jejum de nove anos.
Ao parar com o carro no lugar destinado ao vencedor, parou e fez uma pose digna de um pôster, bem na minha frente, olhando direto para minha câmera. Ao descer do carro, foi comemorar com sua equipe. Quando voltou, passou por mim enquanto eu olhava as fotos na câmera. Então, sussurrou na minha orelha:

— Então, brasiliana, conseguiu fazer seu trabalho? Fiquei parado tempo o suficiente?
— Parabéns pela corrida, golden boy — respondi, seca.

A dupla da Mercedes estava também no pódio, e bem, um integrante da equipe vencedora e mais três pilotos jogando champanhe para todos os lados não poderia resultar em menos do que todos molhados. Nós estávamos de capa, então permanecemos secas e com ótimas fotos. Bom, era o que eu esperava.
Quando desci para a direção do paddock, fui surpreendida com um banho de champanhe. Assim que me virei para ver quem era o filho de uma boa mãe, vi que era . Não fazia ideia do porquê eu ainda me surpreendia com tal atitude. Apenas o fuzilei com os olhos e logo ouvi a risada inconfundível de .

— Ah, , ao menos agora você sabe qual a sensação de ficar melada de champanhe sem nem ter subido em um pódio ou corrido num carro desses.
— Eu nunca nem entrei em um Kart, quem dirá um carro de corrida.
— Tá falando sério, ? — perguntou Nico Hulkenberg, companheiro de equipe de .
— Nunquinha — ri divertida com a surpresa dos meninos.
— Então você vai ter que ir no nosso encontro anual. Sempre alugamos uma pista perto da casa de algum de nós e voltamos às nossas raízes.
— Até parece que eu não vou perder pra vocês — eu já conseguia imaginar a cena de mim comendo poeira.
— Ah, para! As namoradas dos pilotos também vão. É bem divertido, e muitas vezes a gente perde, viu?
— Vou fingir que eu acredito em você, Nico — ri nasalado, desacreditada.
— Eu serei seu treinador — Riccardo, que tinha o braço por cima do meu ombro, estufou o peito.
Então, nos viramos ao ouvir uma quarta voz na conversa:
— Vou querer ver se você é tão boa nas pistas quanto é com fotos. Vai ter que me vencer… — sim, a arrogância em pessoa passava ao nosso lado, me provocando mais uma vez. E, bem, a dupla de pilotos da Renault explodiu em risadas.



6Grande prêmio/grand prix – Cada corrida é chamada de Grande Prêmio (ou, em francês, Grand Prix) que vem também acompanhada do nome do lugar ou do autódromo. Ex: Grande Prêmio de Interlagos (que acontece aqui no Brasil, em São Paulo).
7Podium – É formado pelos três primeiros colocados de cada corrida, onde estes recebem os troféus e comemoram com um banho de champanhe.
8FIA – Federação Internacional de Automobilismo, responsável por cuidar das regras e segurança de cada categoria automobilística.
9Volta mais rápida – Um piloto abre a volta mais rápida para tentar conseguir a melhor colocação para a corrida. A ordem de largada é definida do menor para o maior tempo, cronometrado em uma volta no circuito. Quando todos os pilotos saem ao mesmo tempo, geram um “trânsito”, e como citado na história, às vezes nem todos conseguem abrir a volta mais rápida, se essa saída for no final do treino qualificatório.


Capítulo 3

Os intervalos de uma semana entre as corridas aconteciam com certa frequência, por isso eram os finais de semana de folga. Começavam na quinta e terminavam no domingo à noite, e era exatamente quando a jovem fotógrafa e social media partia para os mais diferentes países para as corridas. Londres costumava ser chuvosa no outono e inverno, mas incrivelmente hoje o tempo estava agradável, apesar de o sol não brilhar no céu – no seu lugar, um dia cinza. Ainda assim um belo dia para começar seu final de semana de folga.
já tinha uma programação para ele: iria dormir até tarde, colocar as séries em dia e, no sábado, iria ao famoso Museu de Cera. Desde bem nova, era seu sonho conhecer o renomado museu da Madame Tussauds. Já que o trabalho a deixava mais tempo em hotéis e pistas ao redor do mundo do que em casa, era lá que ela começaria a conhecer a encantadora cidade da rainha.
Na quinta-feira, levantou-se próximo ao meio-dia, e a pé mesmo saiu à procura de um mercado para abastecer sua geladeira quase sem mantimentos para um belo strogonoff. Um mercado de médio porte ficava a apenas duas quadras de sua casa, mas uma curiosidade sobre a moça era que ela amava os mercados pequenos de bairro, e nada melhor que caminhar pelo seu próprio para achar algum.
Depois de ser muito bem atendida por uma típica senhorinha londrina e achar tudo que precisava, fez o caminho de volta ao seu apartamento e deu início ao que mais amava fazer quando estava em casa: cozinhar e comer sua própria comida. Um fato era que se sentia muito sozinha; não dividia a casa com ninguém e a solidão era algo que não lhe agradava, mas certamente era algo que ela precisava em alguns momentos.
No domingo, arrumou-se com uma roupa confortável e ao mesmo tempo bonita, passou um pouco mais de maquiagem e saiu cedo para seu passeio.
Ao fim do dia, o cansaço lhe tomava conta, mas não a incomodava. estava realizada em finalmente conhecer um pouquinho da terra da rainha e também sua nova casa.


🇸🇬 Singapura – 22 de setembro de 2019, sexta-feira

O Circuito Urbano de Marina Bay, bem parecido com o Grande Prêmio de Mônaco, era também o primeiro circuito de rua a correr no sentido anti-horário. O mais excitante dessa corrida era o fato de ser noturna, e as luzes que iluminavam a pista serem um espetáculo à parte. O circuito representava um desafio técnico devido a uma boa combinação de curvas rápidas e lentas que proporcionavam várias oportunidades de ultrapassagem.
Os treinos de sexta-feira começavam ao entardecer e adentravam a noite, o que dava tempo suficiente para, antes disso, passear e descansar antes do trabalho. Como uma boa fotógrafa, resolveu passear pela Marina Bay e fazer fotos do lugar. Mesmo durante o dia, as atrações eram de tirar o fôlego; o sol refletia nos prédios espelhados e davam uma imensidão ainda maior pro lugar, resultando em fotos estonteantes. Com o dia se encaminhando ao final, a hora de ir ao circuito tinha chegado.
Mais um dia de trabalho começava, e, com ele, tudo o que vinha acontecendo nas últimas corridas: fotos, posts nas redes sociais e muita correria. estava mais acostumada ao ambiente de trabalho e não se sentia mais um peixinho na beira do mar, cercada por todos aqueles “tubarões” do automobilismo. O paddock era o lugar que cada vez mais lhe parecia acolhedor, daquele exato jeito: cheio de todos aqueles pilotos, mecânicos, engenheiros e toda a loucura que vinha naquele pacote.


•••


?
— Sim, é ela.
Aqui é a Carla, amiga da sua madrinha. Tudo bem?
— Oi, Carla, o que houve? — a voz da moça já tinha certo tom de preocupação.
Seu padrinho pediu pra lhe avisar, mas... sua madrinha sofreu um acidente de carro e está em cirurgia agora. E seu estado infelizmente não é nada bom...
— C... Co… Como?
Sim, um ônibus passou o sinal vermelho e acertou o carro dela em cheio — uma pausa e, então, ouviu um suspiro do outro lado da linha. — É uma cirurgia bem delicada, mas, mesmo longe, você merecia saber — um silêncio ensurdecedor tomou lugar da voz. — , você está aí? — Carla insistiu do outro lado.
— É… Sim… — respondeu, em meio a uma voz embargada. — Só não sei o que pensar…
Estamos bem apreensivos também, e sei que você daí não consegue fazer muito…

Emily surgiu e chamou a colega para fazerem as fotos necessárias; porém, fez um sinal para que a amiga esperasse um pouco. Então, baixou os olhos para que ela não os percebesse cheios de lágrimas.

— Eu tô praticamente do outro lado do mundo, na Ásia. Tô sem chão — continuou, quase não contendo o choro.
Querida, tente ficar bem. Ela está sendo cuidada pelos melhores médicos. Te mantenho informada de qualquer novidade, está bem?
— Claro, por favor, Carla. Obrigada por me avisar.
Até mais, tchau!
— Tchau!



Eu não conseguia raciocinar, nada parecia fazer mais sentido. E ainda assim eu tinha mais três dias inteiros de trabalho antes que pudesse pedir uma licença e voar para o Brasil. Se cheguei até aqui, foi graças a uma grande ajuda da minha madrinha, que sempre me apoiou em cada loucura que inventei para realizar meus sonhos.
Eu não sabia quase nada do ocorrido, nem o básico, o que me deixava ainda mais preocupada. Tentei a todo custo secar as lágrimas que insistiam em cair, mesmo sem autorização – eu já não tinha mais controle sobre elas.
Tentei clarear os pensamentos. Eu precisava voltar ao trabalho e ser forte, pelo menos até o final da noite. Decidi ir até o banheiro e avisei Emily quando passei atrás dela, novamente para que minha amiga não me visse naquele estado e eu não precisasse explicar nada. Abaixei minha cabeça e entrei no ambiente em tempo recorde.

— Está tudo bem? — uma menina perguntou ao ver meu estado. Ela era magra, levemente mais baixa do que eu e estava vestida igual a uma adolescente.
— Acho que sim — ofereci um sorriso de canto. — Vai passar…

Recebi um aceno e um sorriso terno de volta. Eu tinha quase certeza que já tinha visto aquela garota pelo paddock, com certeza a namorada de algum piloto.
Saí do banheiro com a aparência melhor e, por mais difícil que fosse, tive que me concentrar e tentar trabalhar.
Era até engraçado ver a animação de todos os pilotos por ali, e sim mais que em muitas pistas. Era óbvio que eles ficavam animados em qualquer situação, porque amavam aquilo; amavam entrar dentro daqueles carros velozes e desafiar os limites da física. Mas ali era possível vê-los realizando o sonho de criança: ser um piloto. Os olhos de cada um brilhavam talvez mais que as luzes de todo o circuito que começavam a ser acesas, e contrastavam com a minha nada feliz situação. E como eu desejava sentir o mesmo que eles naquele momento!
Queria que a ligação de minutos atrás fosse uma total mentira, mas ela estava lá no meu celular, com o prefixo do Brasil – algo pouco comum nesse momento da minha vida. Mas sim, ela estava lá para me lembrar que não era mentira. Agora uma das pessoas que eu mais amava estava em uma mesa de cirurgia entre a vida e a morte, e eu não podia fazer nada.

, tá tudo bem? — Emily apareceu como mágica na minha frente.
— Tá sim — menti —, por quê?
— Você tá encarando o nada faz uns cinco minutos, e sua expressão não está nada boa.
— Vai ficar tudo bem, Ems. Tem que ficar — encerrei sua tentativa de conseguir me fazer dizer algo ali. Eu não podia chorar, eu não ia chorar.
— Qualquer coisa eu tô aqui, viu?

Apenas acenei com a cabeça, porque, caso eu tentasse responder qualquer palavra, iria fazer o que não queria: chorar.
Tinha que confessar que graças a Emily não ficamos sem fotos, porque eu entrei no modo automático – só fazia literalmente o que me pediam, e ainda sem prestar a mínima atenção. Tudo me lembrava minha madrinha e como talvez eu não tenha dito tudo o que queria quando estávamos perto, ou o quanto eu a amava e era grata por tudo. Aquilo me agoniava e me apavorava cada vez um pouco mais.


O restante do trabalho continuou difícil para a moça, que tentou ao máximo não transparecer no que seus pensamentos estavam focados. O treino havia sido bem variado, e ainda continuava entre os primeiros. A segunda parte da temporada vinha sendo espetacular para o jovem piloto monegasco.
, apesar de distraída, tentava prestar atenção no que escrevia em uma das últimas postagens da noite enquanto seguia em direção à saída do paddock. Quando era para terminar sua noite, a sua tormenta vinha em sua direção.

— Até que pra uma fotógrafa você é bem ok, sabia? Pena que sua educação precisa ser revista — a arrogância exalava de cada célula de , em mais uma tentativa de irritar a moça.

O que surpreendeu até os pilotos que vinham logo atrás, que sempre escolhiam não se meter por realmente não conhecer , foi seu silêncio. Todos já sabiam que não levava um desaforo machista desses com um longo silêncio. E ali todos souberam que algo não estava certo, ou pelo menos não no seu estado normal.
O momento, além de exigir a concentração que mal tinha, era de apreensão por uma nova ligação, e ansiava para que fossem com boas notícias.


🇸🇬 Singapura – 23 de setembro de 2019, sábado

A vida era feita quase inteiramente de desafios, e hoje seria um que nunca tinha enfrentado tão de frente. Ela precisava continuar a usar uma máscara e permanecer inabalável. O que tornaria a tarefa mais fácil, com toda certeza, seria o trabalho começar mais tarde que o usual. E talvez assim poderia gastar seu estoque de lágrimas e colocar toda a tristeza e frustração para fora, deixando mais fácil não fazer isso na frente de ninguém.
Por volta do início da tarde, recebeu mais uma ligação. Não eram as melhores notícias ou as que a moça queria, mas acalentaram seu coração. Tornaram a ideia de trabalhar e ter que desviar de todas as perguntas a respeito de estar bem ou não mais leves, mais fáceis de encarar.
Sua madrinha ainda não havia acordado da cirurgia, e mais algumas ainda precisavam ser feitas. Ela estava viva, mas ainda desacordada, o que ainda angustiava a jovem. Mas como a própria mãe lhe disse ao telefone, “sua madrinha iria querer ver você forte, por ela”. E seria exatamente assim, seria forte por ela. Mostraria uma pessoa forte por fora, mesmo que lá dentro ela estivesse em pedaços. Faria o que aprendeu com sua madrinha e sua mãe. E a frase que as amigas de infância, vulgo as mulheres acima, ensinaram a povoaram seu cérebro como um mantra: “seja forte, e se não der, ao menos pareça. A maioria das pessoas só querem saber suas fraquezas, porque quando elas quiserem te ferir, já sabem por onde começar.”



Toda a extensão da baía em Singapura era espetacular. Uma coisa era certa: eles não economizaram um centavo para deixar aquilo de tirar o fôlego. Tanto durante o dia quanto à noite, em ambos os horários o local se transformava e ficava de um jeito diferente, igualmente lindo.
Acabei me distraindo com os treinos e esquecendo de tudo que estava me deixando apreensiva e triste. Por esse breve tempo, me senti leve de novo. As luzes que iluminavam a pista transformaram aqueles velozes carros em riscos coloridos pelo trajeto. Ouso dizer que eles pareciam flutuar. A ilusão de ótica causada por esse conjunto deixava aquilo parecendo magia, e encantou não só os meus olhos, mas de quem estava ali observando também.

— Hey, — passou Carlos por mim, me cumprimentando animado.
— Hey — respondi em modo automático e sem animação, aliás, o único modo que eu estava tendo desde a notícia.
— Tá acontecendo alguma coisa, ? — abaixou-se levemente para me olhar nos olhos, como se quisesse procurar por ali a resposta de sua pergunta. — Você parece tão aérea esse final de semana…
— Tudo certo, Sainz. Só um final de semana mais cansativo… — menti mais uma vez.
— Definitivamente tem algo errado, . Você nunca me chamou pelo sobrenome, mas vou respeitar seu tempo. Qualquer coisa, eu sou o bonitão de macacão azul. Mas não confunda, sou o mais bonito e mais alto, ok?

Carlos era realmente um bom amigo. Ele conseguia me fazer rir e me sentir protegid, mesmo eu não precisando, em qualquer situação.

— Tá certo, prometo não esquecer. O alto de macacão azul…
— Não esquece do bonitão — riu nasalado, brincando comigo mais uma vez
— Ok, prometo não me esquecer desse pequeno detalhe — fiz sinal de pouquinho com os dedos polegar e indicador. Também esbocei um sorriso pequeno, mas, visto tudo que acontecia comigo, ainda era um sorriso.

Ao final da noite, uma exaustão tomou conta de mim. Eu só queria ficar sozinha e extravasar tudo o que estava preso dentro de mim: a angústia, a tristeza, o cansaço, as saudades. Tudo tinha se acumulado.


Os treinos e as classificações tinham finalmente terminado, e, de certa forma, tinham sido bons para o piloto mais animado do paddock – o sorriso não deixava o rosto do moreno. Depois da última reunião com a equipe, naquela noite particularmente agradável, ele ficara esperançoso para o dia de amanhã. Muitas pessoas já tinham ido descansar, e o lugar estava quase deserto e silencioso, mas estava com adrenalina ainda em festa pelas suas células.
A caminho de seu carro, já sem toda a usual roupa de corrida, ia desejando boa noite a quem passasse. Ele conhecia aquelas pessoas de cor; talvez não lembrasse o nome de todos, mas certamente eram os mesmos de sempre. Usava seus habituais fones personalizados pela parceira Beats, mas naquele dia eles não tocavam qualquer música, motivo pelo qual ouviu uma fungada baixinha de choro. Na percepção do piloto, ninguém merecia estar triste.
No segundo seguinte, ele procurou de onde vinham os sons de choro. Na escadaria do QG da F1, uma moça chorava baixinho com o rosto quase enterrado no joelho e coberto pelos braços, tentando segurar os soluços. A sombra da estrutura a deixava parcialmente no escuro, dificultando identificar quem era. podia apostar que a conhecia – não era alguém desconhecido, disso ele tinha certeza.
Muito cuidadoso, se aproximou e, então, pediu:
— Oi... — fez uma pausa. Talvez ele não soubesse exatamente como prosseguir, mas não era uma alternativa deixar alguém chorando sozinho, no escuro e naquele horário. Aliás, não faria isso em hipótese alguma. — Tá tudo bem com você? — perguntou, incerto.
— Oi, — disse a moça tentando secar desesperadamente o rosto molhado, como se fosse apagar o que tinha visto. — Não queria que ninguém me visse assim — soltou, ainda com a voz chorosa e o nariz levemente entupido.
— Meu Deus, , é você! — quando notou quem era, ficou surpreso ao ver a amiga tão frágil ali, sentada naquela escada.
— É… Acho que sim... — olhou-se, como se certificasse que era ela mesma, então esboçou um pequeno sorriso. Ela não queria que ninguém a visse assim, mas já era tarde, e tentar disfarçar-se de forte não era uma opção.
— O que aconteceu? Quer conversar? — ele sentou-se ao lado da moça, que aceitou de bom grado o ombro do rapaz para se encostar.
— Na realidade, não. São tantos motivos que você ficaria aqui por horas, e sei que amanhã você tem uma corrida pra vencer…
, pra você eu tenho todo tempo do mundo… Eu me preocupo com você, e de verdade, quando a gente se importa com alguém, muito tempo nunca é tempo demais.
— Não por você, , mas eu não sei. Pra mim ainda não é algo fácil de falar…

estava destinado ajudá-la, se não, ouvindo os problemas da garota e talvez fazê-la se sentir mais leve com o desabafo. Era o que ele fazia muito bem, além de, claro, ser um ótimo piloto. Ele amava fazer as pessoas sorrirem.

— Só não conta pro Eros Ramazzoti sobre essa performance, tá? Vai que ele se sinta intimidado com o meu italiano perfeito.
— O que você vai aprontar, ? — perguntou com uma sobrancelha erguida, enquanto via o piloto descer os poucos degraus da escada, onde estava sentado com ela há poucos segundos. Ele fechou os olhos e abriu seu sorriso típico, capaz de iluminar uma noite tão escura quanto aquela.

Essa é a música que se passa na cabeça de enquanto ele canta

Non si uccide un dolore anestetizzando il cuore
(Não se mata uma dor anestesiando o coração)
C'è una cosa che invece puoi fare
(Ao invés disso, há uma coisa que pode fazer)
Se vuoi se vuoi se vuoi...
(Se quiser, se quiser, se quiser…)

Nem nem conseguiram segurar o riso. O que começava a deixar o clima ainda mais leve era a destreza que o rapaz voltava a se concentrar na música, que só estava em sua cabeça. Mas a conhecia muito bem.

Parla con me, parlami di te
(Fala comigo, me fala de você)
Io ti ascolterò
(Eu te escutarei)
Vorrei capire di più quel malessere dentro che hai tu
(Gostaria de entender mais aquele mal estar que tem dentro de você)

Com uma mão no peito e outra estendida, como se usasse toda capacidade vocal que tinha, ele continuava balançando o corpo em um ritmo de uma música inexistente. Era algo fenomenal. Além de um bom amigo, também era um bom interpretador de músicas. A moça conseguiu até comparar o rapaz com um cantor de alguma boyband dos anos dois mil.

Parla con me, tu provaci almeno un po'
(Fala comigo, tenta ao menos um pouco)
Non ti giudicherò
(não te julgarei)
Perchè una colpa se c'è non si può dare solo a te
(Porque se há uma culpa, não se pode dar só a você)
Parla con me
(Fala comigo)

Terminou se ajoelhando em frente à de uma maneira fofa, pegando sua mão e encerrando sua “apresentação”, o que fez a garota querer abraçá-lo. Ele havia conseguido fazer a escuridão da sua vida clarear naquele momento.
voltou a se sentar ao lado da moça, que agora sentia ainda mais que poderia confiar nele. Então, começou do começo: contou suas frustrações, o acidente com sua madrinha, o cansaço e todo o pacote de estar longe o suficiente para não conseguir voltar caso algo acontecesse.
Os dois ficaram ali sentados na escada por mais um tempo, até um dos seguranças avisar que precisava fechar o lugar. Foram no carro de e, quando chegaram ao hotel, se sentiu mais leve e, de certa forma, mais tranquila também. Abraçou quando o elevador chegou em seu andar e o agradeceu por tudo que tinha feito. O piloto, por sua vez, estava feliz em poder ajudar.
Ao chegar em seu quarto, a garota tomou um lento banho, sentindo o corpo relaxar e pedir por um descanso urgente. Pediu a janta no quarto e, logo após a comida, ia checar as redes sociais, mas seus olhos começaram a pesar, e ela caiu num sono tranquilo.


🇸🇬 Singapura – 24 de setembro de 2019, domingo

Apesar de a corrida ser só à noite, o dia começaria mais cedo para todos. Entrevistas pra cá, fotos pra lá, pilotos em ações promocionais com alguns patrocinadores. Não eram nem três da tarde e a social media da Fórmula 1 estava morta pelo cansaço, e mais horas ainda estavam por vir até o final da corrida. Um energético era o que cairia bem agora, faria talvez o restante mais suportável.

— Uma Coca-Cola pelos seus pensamentos — Carlos chegou perto da garota, vendo que ela olhava fixo em uma direção como no dia anterior.
— Você não tinha que ser saudável, Carlos Sainz Jr? — falou como se fosse a própria mãe do piloto, ao vê-lo com uma latinha na mão.
— Patrocínios — deu de ombros, com sua desculpa para tomar o refrigerante.
— Eu juro que queria muito um energético agora. Estou morta, e talvez uma taurina no meu organismo me ajudasse a ficar mais disposta o resto do dia — fez uma pausa, olhando ao redor. — Você sabe se algum desses restaurantes do paddock vende energético?
— Você tá mesmo me perguntando isso, ? — a incredulidade do piloto deixou a garota confusa.
— Sim? O que eu falei de errado?
, você sabe que tem uma equipe aqui no paddock que se chama Red Bull Racing, certo? — ele deu um espaço de tempo para a morena tomar consciência do que ele falava.
— Certo, eu sou muito besta. É claro que eles vendem Red Bull aqui! O que eu seria sem você? — estalou um beijo na bochecha do piloto espanhol e seguiu para sua procura por um bendito energético.


•••


O celular de tocava incessantemente, mas a jovem social media estava como nos últimos dois dias: fora do ar. Não completamente, mas, no momento que isso acontecia, ela estava aérea a qualquer acontecimento. Até que, por costume, colocou uma de suas mãos no bolso da calça para conferir se o aparelho estava ali. Sentiu-o vibrar, então viu uma ligação internacional no visor. Seu coração pareceu querer sair pela boca.

Olá, , aqui é a Carla. Como você tá?
— Oi, Carla… Então, tá difícil de levar tudo isso, ainda mais estando tão longe.
Eu finalmente não te ligo pra dar notícias ruins, e sim uma ótima.
— Jura? — a expressão de alívio tomou conta da moça; o peso de seus ombros parecia ter sumido. — E como ela está?
Fez todas as cirurgias que ainda precisavam, e há umas duas horas acordou do coma! — a mulher do outro lado da linha tinha tanta felicidade em sua voz que podia jurar vê-la pulando. — A recuperação é longa, mas ela está bem, querida! Ela finalmente voltou pra nós!
— Você não poderia ter me dado notícias melhores! Queria muito falar com ela, mas quando isso for possível. Me avise, por favor? Quando eu estiver em um fuso horário mais favorável, ligo também.
Isso! Quando ela estiver mais forte e melhor, eu mesma faço a chamada pra vocês se verem.
— Estou tão feliz! Muito obrigada por me manter informada, Carla. Agora preciso voltar ao trabalho!
No que precisar, querida. Nos falamos mais outro dia, até mais!
— Até mais!

O jovem piloto da McLaren viu toda a cena meio de longe. Quando viu a garota atender o telefone, apreensiva, preferiu dar um espaço para que ela pudesse ter sua privacidade, por mais que não tenha entendido bulhufas do que a amiga falava.

— Já disse que você fica a coisa mais fofa falando em português? — chegou Lando com um sorriso fofo, e encantado como sempre pela moça. — Tá tudo bem?
— Posso te abraçar? — a felicidade que ela tinha dentro de si parecia explodir. Lando não respondeu; simplesmente abraçou a amiga que exalava felicidade, sentimento que parecia lhe pertencer minutos antes da ligação.
— O que houve, ? — pediu, cauteloso, quando viu que algumas lágrimas escorriam do rosto de .

Aos poucos o choro de felicidade e alívio foi se acalmando, e a cara de Lando Norris não parecia menos confusa. tomou as duas mãos de seu amigo em suas próprias, respirou fundo e pôde contar tudo o que tinha acontecido nos últimos três dias; tirar toda a agonia de seu corpo, se libertando de todo o sentimento ruim que a acompanhou nas últimas setenta e duas horas. Era como se ali, conversando com o amigo, a cada palavra o peso diminuísse de seu coração. Agora tudo estava em seu devido lugar. Ou quase isso, mas sua madrinha estava viva e se recuperando.
A prova foi um show à parte. O safety car entrou algumas vezes na pista para deixar as coisas mais interessantes e fez com que a distância entre cada carro praticamente fosse extinta. foi penalizado e fez o possível para subir posições do último lugar, mas ainda assim o total de seis posições já era um grande avanço. Uma coisa era certa: tinha entrado nesse emprego sabendo que não poderia declarar favoritismo a nenhum, mas sabia que ela tinha seus preferidos. E, lá no fundo, sabia que não era apenas um, e sim todos seus amigos que passou a admirar ainda mais.
Com mais uma vitória da Ferrari, agradeceu aos céus por não ser novamente , e sim seu companheiro de equipe, Sebastian Vettel. A parte ruim, na visão da social media, era ele ter chegado em segundo. Mesmo assim, nada tiraria sua alegria hoje. Nem mesmo .
No final da corrida, fogos para o vencedor traziam um ar de comemoração ainda mais contagiante. Depois de tudo terminado, a garota recebeu uma mensagem quase de intimação:

Carlos
Festa no bar do hotel em uma hora, não aceito não como resposta. Qualquer coisa, tem Red Bull.


Sim, senhor, serei a fotógrafa de folga da festa.



A festa começaria em breve, e eu não teria muito tempo para me arrumar. Tomei um banho o mais rápido que pude e comecei a maquiagem. Resolvi carregar um pouco mais na pele, já que minhas olheiras estavam mais fundas que o normal. Calça skinny preta, um cinto e uma camisa social branca com alguns botões abertos e terminei de me arrumar. Fui em direção ao after satisfeita com o resultado.
Confesso que o nervosismo me pegou um pouco, ou talvez só mais uma sensação do meu corpo reagindo a algo novo, como sempre. Uma coisa era certa: eu nunca sabia o que fazer com as mãos, elas sempre pareciam sobrar no meu corpo. E a estratégia de uma bolsa de mão sempre funcionava – eu definitivamente dava uma utilidade para elas nesses momentos.
Um guarda sinalizou a porta no final do corredor para mim, e, ao chegar lá, já era possível ouvir um mar de gente conversando e uma música ao fundo. Eu definitivamente me sentia acanhada, mas estava ali e não poderia desistir agora. Algumas modelos também estavam ali, o ambiente bem típico para encontrá-las. Os pilotos, em sua maioria, só saíam com modelos magérrimas, altas e famosinhas…
Avistei Carlos sentado em uma mesa próxima ao bar, com sua namorada apoiada entre suas pernas. Ambos bebiam algo. Não consegui reconhecer quem eram os outros, mas me aproximei para cumprimentá-los.

Hola! — cheguei animada, e Carlos se desencostou delicadamente de sua namorada e se levantou para me cumprimentar.
Hola! Você veio mesmo! — ele me deu um meio-abraço e um beijo na bochecha. — Isa, essa é . Além de ser uma ótima profissional, virou uma grande amiga — me apresentou à garota, que era muito bonita por sinal.
— Prazer, . Me chamo Isabela, mas me chame de Isa. Carlos fala muito de você, fiquei curiosa pra te conhecer.
— O prazer é todo meu, Isa! Confesso que fiquei envergonhada agora — minhas bochechas devem ter ficado muito vermelhas, mas fui salva pela maquiagem dessa vez.
— Não fique, sei que ao menos Carlos é rodeado de boas pessoas!

Fiquei conversando um pouco mais sobre qualquer assunto aleatório com Carlos e a namorada, até que decidi ir ao bar e tomar alguma coisa – a noite de hoje ainda merecia ser comemorada. Talvez meus motivos não fossem os mesmos que os da maioria ali, mas ainda assim merecia.
Quando meu drink ficou pronto, resolvi dar uma volta no ambiente. Lembrei também que eu ainda não havia contado a novidade a , e ele mais do que ninguém merecia saber sobre ela.

— É um sonho? Uma miragem? — ouvi uma voz brincalhona vindo atrás de mim. Imediatamente me virei para ver de quem se tratava.
! — apressei em abraçá-lo. — Achei que você não estivesse por aqui…
— Logo eu, , vou recusar um after? Nunca! — ele estava mais elétrico que o normal, talvez a bebida, talvez a festa… Queria eu ter toda essa energia.
— Tá certo, engano meu — dei uma risada nasalada. — Preciso te contar uma notícia maravilhosa! — bati palmas igual a uma criança, já que meu copo de drink já tinha sido raptado por .
— Você vai aceitar meu convite pro after depois daqui? — pediu com uma cara de quem brinca, mas com fundo de verdade.
— Quê? Meu Deus, , não! — ri sem graça. — Segura seu amigo aí! — apontei em direção a suas calças, e nós dois acabamos rindo ainda mais. — Minha madrinha acordou, finalmente. Está se recuperando e todas as cirurgias foram um sucesso.

No mesmo momento, me deu um abraço que me levantou do chão, visto que ele era consideravelmente mais alto que eu. Um abraço de quem estava feliz por mim. E por Deus, que homem cheiroso.

— Precisamos comemorar, vamos até o bar — ele me puxou pela mão, sem esperar por nenhuma resposta.

Todos ali pareciam estranhar o meu “contato” com , mas eu decidi que isso não ia me importar. Éramos amigos, e que os outros pensassem o que quisessem.
Não tenho certeza de quantas doses de tequila eu e tomamos, quando Lando se juntou a nós e também comemorou conosco. Quando percebi, Ems e George estavam lá também. Eu estava feliz e rindo à toa, e, nesse momento, era tudo que importava.


🇸🇬 Singapura – 25 de setembro de 2019, segunda-feira

Minha cabeça parecia girar, e eu ainda estava deitada. Precisava me lembrar de não tomar mais tanta tequila. Meu celular apitava incansavelmente com mensagens, e eu amaldiçoava “o” ou “os” seres que não paravam de enviá-las. Me sentei vagarosamente na cama e estiquei todo meu corpo, me espreguiçando e, por fim, me levantando ainda em marcha lenta. Depois de um coquetel de remédios para ressaca e um banho, finalmente fui ver do que se tratavam todas aquelas notificações.

Mari
Amiga, como é que você começa a pegar o gostoso do e não me conta?

Mari com certeza tinha uma imaginação fértil. Eu só adoraria saber onde ela viu fotos de ontem…


Lando
, por favor me lembra de nunca mais ir na sua onda e do , minha cabeça parece que vai explodir agora (P.S.: tequila nunca mais) 🥴

Pobre Lando, uma criança em suas primeiras ressacas. Tenho certeza que na próxima ele faria igual, eu mesma ainda não aprendi…


Ems
É essa que eu quero sempre! Bom ver você bem de novo, amiga. Quando quiser conversar, só me avisa que está vindo. George ainda tem vergonha que você saiba…
Ops, acho que agora contei…

EU SABIA! Não poderia ser um delírio da minha mente eles dois. Contou, está contado, amiga, mas eu jamais falaria algo. Sabia bem como era ficar sem jeito com alguém falando sobre seu affair/namorado quando tudo está no início.


Martín
Desculpa por seguir em frente, Corazón, mas eu precisei e sei que você também precisa.

Wow, eu não esperava por essa mensagem. Aquilo me pegou de surpresa, e não de uma maneira boa. Transformou tudo em um misto de sentimentos diferentes. Martín e eu nunca nos vimos tanto quanto gostaríamos, e nosso relacionamento foi se desgastando exatamente por isso. Ele era jogador de vôlei, jogava em um time brasileiro e também pela seleção Argentina; eu, uma universitária e mera funcionária de uma agência de marketing. Não estávamos mais juntos, mas quando eu fui embora, prometemos conversar antes de qualquer um dos dois iniciarem um novo relacionamento. Claramente eu acreditei.
Jamais deveria ter reclamado da minha vida calma demais, porque agora era uma bomba atrás da outra. Decidi sair para pensar em tudo isso e, de quebra, clarear a mente. O final da tarde se aproximava e Marina Bay me parecia um lugar perfeito para isso.
Gardens by the Bay me chamou a atenção por um motivo específico que eu não tinha notado até então, mesmo com suas “árvores" cenográficas gigantescas no meio. Decidi dar um Google no que seria exatamente esse parque:

“Inaugurado em 2012, o parque tem 101 hectares e está localizado entre o mar e o hotel Marina Bay Sands. O empreendimento bilionário é mais do que um singelo jardim: é um parque futurista, que abriga atrações inovadoras, construções ousadas e que preza pelo uso consciente de energia.”

Com toda certeza eu jamais conheceria aquilo tudo em poucas horas antes de escurecer, mas resolvi começar o passeio. Avistei alguns colegas de trabalho e o pessoal das equipes aproveitando o clima ameno do final do dia, passeando por ali. Junto com meus inseparáveis fones de ouvido, deixei minha mente vazia. Aquele lugar estava me trazendo a paz que meu coração não teve em meses. Minha ideia sempre foi focar no trabalho e esquecer assuntos do coração, mas Martín resolveu abrir uma cicatriz quase fechada: o meu amor por ele.
Uma aglomeração de mulheres atrapalhava o caminho que eu tentava continuar, e, por esse motivo, tive que desviar ele, mas não sem antes ver qual era o motivo de tudo isso. Confesso que não me impressionei ao ver que era , mas deixei ele e suas fãs antes que o piloto notasse minha presença e segui por um outro caminho.

“Senhoras e senhores, em dez minutos nosso Garden Rhapsody irá começar. Aos visitantes que queiram se localizar, fica no ponto número dez de nosso mapa. Tenham um bom passeio.”

À medida que ia escurecendo, aquele lugar ia me deixando mais encantada. Era como toda a cidade: encantadora de dia e espetacular de noite. Eu olhava para cima com a intenção de achar o caminho para a Supertree Grove para assistir o show de luzes.

— Hey! — me choquei com alguém, que prontamente me segurou antes que eu atingisse o chão.
— Acho que a gente precisa parar de se encontrar assim — ele disse. Sua voz soou brincalhona, apesar de ser forte, aveludada e marcada pelo sotaque inconfundível. Me deixou ainda em choque pelo impacto com seu corpo, mas suas mãos foram firmes, como se eu fosse algo quebrável.
— Definitivamente precisamos mesmo — comecei a rir, já que não era a primeira vez.

Um calor começou a tomar conta do meu corpo, e acredito que tenha sido a proximidade perigosa de e suas mãos em contato com a pele descoberta que o cropped que eu usava não cobria.

— Achei que você já tinha voltado pra Londres. Pensei em te chamar pra vir aqui… — ele disse, enquanto voltávamos a ficar “de pé” de novo.
— Na realidade, eu só embarco amanhã à tarde. E com o porre que tomei ontem, só consegui sair agora mais à noite do hotel.
— AH! Mas foi bem comemorado, não foi? — fez menção ao motivo da minha felicidade.
— Com certeza, mas me lembre de beber menos da próxima vez!
— Não prometo nada — riu divertido enquanto rolava os olhos pra cima, como quem realmente não cumpriria a promessa.

Um outro aviso nos alto-falantes dizia que, em poucos minutos, a atração das árvores de arame começaria seu esplendoroso show.

— Você vai ver o show também? — a obviedade da minha pergunta era besta, mas eu sinceramente não sabia como continuar a conversa sem ficar com um silêncio estranho entre a gente.
— Vou sim, posso ver com você? — a educação de nunca deixava de me surpreender.
— Claro que sim. Sua companhia é sempre bem-vinda, — ofereci um sorriso terno, e, então, as luzes se apagaram.


O som começou a aumentar devagarinho, fazendo com que os dois ficassem arrepiados – parecia abraçá-los por inteiros, tanto quanto . A canção que deu início à dança das luzes, ainda tímidas pelas enormes árvores, era muito conhecida pela moça: a música tema de Harry Potter.
O sorriso no rosto de desviou a atenção de do show para o rosto dela, e foi aí que ele notou que a moça seguia arrepiada. O piloto fez menção de tirar o agasalho, desprendendo a atenção da fotógrafa das luzes, que começavam a dançar com mais rapidez pelas teias de arames.

— Ei — ela chamou a atenção de , para que parasse a ação —, se você ficar sem casaco, quem vai ficar com frio é você.
— Mas você tá toda arrepiada aí, tem um tempo já — apontou para o braço da moça.
— Não! — ela riu nasalado depois que olhou para o próprio braço. — É só meu lado geek me lembrando dos filmes. Mas espera aí, você tava me cuidando, ?
— Você, geek? — ele parecia incrédulo enquanto abria seu largo sorriso, junto de um riso divertido. — Você é literalmente uma caixinha de surpresas, — e deixou a segunda pergunta sem resposta, subentendida, porque sim, ele estava.

O rosto de se iluminou. Ela realmente sabia que não mostrava muito de si, e que só as pessoas dignas de sua confiança extrema veriam que ela era uma pessoa mais doce do que qualquer um poderia esperar. Por hora, ela seria só mais uma garota misteriosa.
Os dois voltaram a prestar a atenção no espetáculo e, então, o tema de Jurassic Park começou a tocar. As milhares de luzes começaram a dançar em seu ritmo, de cima a baixo, piscando alternadamente de todas as direções. Esperança e um mundo novo eram os sentimentos que a melodia trazia por si só, e as cores que as acompanhavam ajudavam ainda mais a ter essas sensações. O show das luzes conseguia mexer com mais de um sentido ao mesmo tempo.
A música de faroeste mudaram o lugar e escureceram a cor de cada luz; de verdes e brancas para vermelhas e amarelas. Era incrível como, em um piscar de olhos, quem estivesse ali era teletransportado para uma atmosfera diferente de segundos antes.
Músicas que povoaram a infância da garota lhe trouxeram o sentimento de nostalgia, mas ela não conseguia lembrar ao certo de qual filme vinha cada uma. Porém, a melodia lhe trazia memórias de todas as vezes que sonhara em achar seu príncipe no cavalo branco, ou de como deveria ser educada e gentil como uma princesa. E sim, ela sentia falta de ser ingênua, e talvez ainda acreditar no amor.


Capítulo 4

O voo com destino para Sochi estava atrasado em pelo menos duas horas, mas a mala despachada causava uma preocupação a menos. estava certa que chegaria atrasada se esse voo demorasse ainda mais. A viagem era longa, por isso a moça estava já no aeroporto no início da noite, arrependida por ter chegado tanto tempo antes. A espera do embarque para enfrentar pelo menos sete horas dentro de uma lata metálica com asas estava sendo mais longa do que deveria ser.

“Senhores passageiros do voo 9856 com destino a Sochi, Rússia. Por favor, compareçam ao portão de embarque 10A.”

Um único aviso incomum, mas lá estava ela, arrastando sua mala de mão cor-de-rosa e sua mochila preta nas costas em direção ao portão indicado. Ao chegar, viu um aglomerado de pessoas tão confusas quanto ela, além de notar policiais civis parados enquanto esperavam a chegada de todos.

— Senhores, peço por gentileza que ouçam com atenção — um deles elevou a voz para que todos o ouvissem. — Por motivos de segurança, teremos que revistar as malas de todos vocês. Peço que formem uma fila e não saiam mais dela.

Frustração era a palavra para descrever o que a social media sentia. Se atrasaria para o trabalho porque algum filho de uma boa mãe resolveu levar algo ilícito na bagagem, pensava ela. Tratou de avisar Emily que isso provavelmente aconteceria e que chegaria o mais rápido possível no autódromo, e que, se preciso, abdicaria sua noite de sono.

— Senhorita , pode me acompanhar? — sua vez finalmente tinha chegado, e ela torcia para que o resto não demorasse a findar, já que só liberariam o voo com todos os passageiros.


🇷🇺 Rússia – 27 de setembro de 2019, sexta-feira


Seis horas de atraso, mais sete horas de voo. Eu estava morrendo de sono. Não preciso nem comentar que meu humor não era dos melhores, certo? Certo.
Um carro de aplicativo – que confesso, me surpreendeu pois chegou rápido ao aeroporto – me levou direto até o autódromo. Ao pisar lá, resolvi enfim ligar e checar meu telefone do trabalho, e estava cheio de notificações e mensagens. O primeiro treino da manhã se encaminhava pro final, então de certa forma o meu caminho até o escritório estava tranquilo.
Ao chegar, recebi um olhar de dó de meu chefe e de Emily. Com certeza meu estado era péssimo. Eu tinha muita sorte de ter um chefe compreensivo e uma colega ainda mais. Eu não tinha conseguido dormir muito; a preocupação com o trabalho me tirou praticamente todo o sono.

— Certo, — depois de explicar tudo que tinha acontecido para meu chefe ele então começou. — Infelizmente, temos muito o que fazer. Se você quiser buscar um capuccino lá embaixo, te esperamos pra começar. Temos muita coisa para acertar pros próximos dois meses — ele fez uma pequena pausa e tomou novamente o ar. — Logo, Emily vai fazer as mídias deste final de treino. E eu e você planejamos tudo, assim você cansa menos — me olhou com carinho —, pode ser?
— Sim, senhor — respondi risonha e fui em direção à saída em busca da cafeína para me deixar acordada. — Volto em cinco minutos.

Muita coisa tinha acontecido comigo nas últimas semanas, mas eu não poderia deixar de ser grata por tudo de bom que acontecia também. Eu estava cercada de pessoas que se preocupavam comigo. Eu tinha um emprego que muita gente morreria para ter e o prazer de conhecer pessoas maravilhosas. É claro, nem tudo era um mar de rosas e nem todo mundo era gentil. Mas se eu não tirasse só o melhor de tudo isso, certamente enlouqueceria em tempo recorde.
Fui guiada pelo cheiro de capuccino vindo de uma das lanchonetes que tinha no paddock, e, quando o líquido quente chegou em minhas mãos, estava bem convidativo. Agradeci o moço gentil que me atendeu e fiz meu caminho de volta ao trabalho.
O que aconteceria em cada corrida nos próximos dois meses eram as mais variadas coisas. Precisávamos montar uma agenda do que aconteceria em cada uma para sabermos exatamente pra que lado ir e o que teríamos que fotografar e publicar. Desde que cheguei, isso estava organizado para esse mês que passou; só nos restava ver onde era necessário estarmos e qual era o intuito de cada coisa, aí era só mostrar o nosso talento.
Juntamos todos os e-mails das equipes e organizamos toda a agenda para mais cinco corridas, e então estaríamos no fim da temporada 2019. E sinceramente? Não sei se eu estava pronta para um fim de temporada tão próximo.
Todas as fotos que eu tinha “colecionado” nesse pouco mais de um mês do novo trabalho me davam uma dimensão de tempo muito maior do que realmente era. A verdade era que, como tudo nesse meio era intenso demais, cada corrida parecia ter no mínimo o triplo de dias do que realmente tinha. Deveriam ter mais de duas mil fotos desse mês de trabalho. Passei cada uma cuidadosamente e consegui tirar fotos maravilhosas de cada corrida. Editei exposição, contraste e dei uma “cara” padrão para todas elas. Uma assinatura oculta, na realidade. Meu pequeno TOC me fez organizá-las por GP’s e por equipes, e agora sim eu estava em paz com minha organização.
Fiquei tão concentrada nesses assuntos de trabalho que acabei não reparando na hora – já eram quatro da tarde e eu sequer tinha almoçado. Apenas quando meu estômago protestou por comida resolvi contemplá-lo com alimento. Levantei, me alonguei, tirei meus óculos e fui em direção às lanchonetes para comprar meu almoço.
Cheguei na metade do caminho e notei o movimento que para mim parecia incomum. Foi aí que lembrei de ter ouvido o barulho dos carros na pista há não muito tempo. Chequei o relógio e vi o motivo de toda aquela movimentação: fim de treino.

— Achei que você tivesse nos abandonado — ouvi uma voz conhecida chegar de mansinho e me assustar.
— Nossa, que susto, Lando! — ele realmente tinha me pegado distraída. — Problemas com o voo. Cheguei aqui na metade do primeiro treino — expliquei meio no automático.
— Não vi você fazendo as fotos, só a Emily — ele pareceu puxar em sua memória minha presença em algum dos dois treinos. — Onde você esteve?
— No escritório — dei risada da sua cara de confusão. — Eu não trabalho só como fotógrafa, sou social media. Ou seja, preciso fazer a parte do escritório também.
— Você não faz isso durante a semana?
— Sim, faço. Mas como cheguei atrasada e tem coisas que precisam ser resolvidas na hora, foi meu dia de ficar no escritório o dia todo. Inclusive, tô indo almoçar…
— Ah, entendi. Sentimos sua falta. Carlos também comentou que você tava sumida — deu um sorrisinho de canto e ficou levemente vermelho.
— Eu já disse que você é o piloto mais fofo desse paddock? — apertei sua bochecha direita.
— Você tá parecendo minha mãe — ele passou a mão no lugar, agora levemente vermelho —, apertando minhas bochechas como se eu fosse uma criança…
— Tô mais pra sua irmã mais velha, não acha? Pode me chamar de louca, mas apesar desse pouco tempo, eu já considero você como um irmão mais novo… — falei, sincera.
— Logo eu? — o piloto teatralizou sua frase. — Feriu meus sentimentos — fingiu chorar. — Logo eu que já tava planejando o casamento e nossos filhos… — começou a rir, não aguentando mais a encenação.
— Sério? E como ia ser? Na praia? — fingi surpresa, entrando em sua brincadeira. — Filhos eu só aceitaria se fossem quatro… — fiz o número com as mãos, rindo também.

Quando cheguei na porta da lancheria, me despedi de Lando, que seguiu seu caminho para o box da McLaren e me deixou voltar a atenção para minha missão principal: olhar atentamente cada salgado naquele expositor aquecido. O cheiro de todos eles parecia invadir minhas narinas e causar um rebuliço no meu estômago. A fome já tomava conta de mim, e tudo ali parecia uma boa opção. Decidi por um sanduíche natural com frango, pão integral e um suco de laranja. No fim, resolvi comer no escritório mesmo, assim eu conseguia otimizar meu tempo de trabalho e quem sabe ir para o hotel mais cedo para descansar. Definitivamente parecia minha melhor ideia nesse dia sonolento. Acabar o trabalho logo e ir dormir.
Por mais que pareça besta, caminhar exigiu o pouco de energia que ainda me restava. Eu andava bem devagar, e era apenas sonolência, não preguiça. Quase chegando ao escritório da F1, vi dois homens altos de roupa preta e amarela – e confesso, levei mais tempo do que o normal para ver de quem se tratava. Os dois já vinham sorrindo em minha direção e, com toda certeza, deviam estar comentando da minha cara de lesada.

— Você some e acha que ninguém vai perceber, não é mesmo? — se aproximou, me abraçando. Quase deixei cair todo meu almoço que estava equilibrado na minha outra mão, a que não o abraçava de volta.
— Ei! Calma! Tudo isso é saudades? — falei, estabilizando meu lanche naquela bandeja de papel para transporte. — Eu ainda preciso do meu almoço — ri mais um pouco. — Oi, Nico, como você está? — cumprimentei gentilmente o colega de equipe de , que retribuiu com um meio abraço e um beijo na minha bochecha.
— Com a gente tudo certo — o loiro respondeu pelos dois. — Mas como assim almoço agora, ?
— Parei de trabalhar só agora — pausei a frase e pensei melhor. — Na realidade, cheguei atrasada e só senti fome agora.
— Me conte melhor sobre isso — colocou a mão no queixo, como se fosse analisar minha justificativa para almoçar àquela hora.
— Meu voo atrasou seis horas, então cheguei aqui só na metade do primeiro treino da manhã — meu pensamento também era lento. Dei uma pequena pausa para organizar melhor o que exatamente falaria sobre o ocorrido, então continuei: — Dormi muito mal no voo. Eu estava preocupada com todo o trabalho e, em resumo, cá estou quase dormindo em pé.
— Nossa, sinto muito por você — Nico deu um meio sorriso, com pesar da minha situação.
— Logo eu acabo minha parte das coisas internas e vou dormir, fiquem tranquilos — tentei ao máximo minimizar o que acontecia. Mas sabia que, para eles, era importante estarem descansados e comer bem. Bem ou mal, trabalhavam com o próprio corpo. Ou seja, minha situação era péssima para eles.

Depois de mais algum papo furado, me despedi dos dois e prometi que não sumiria no dia seguinte. Segui de volta para o escritório e segui meu plano: comi enquanto trabalhava. Meu chefe me liberou por volta das dezoito horas, então fui o mais rápido que meu corpo e meu raciocínio permitiram para meu quarto de hotel. A cama e eu tínhamos um ímã irresistível. Me deitei para descansar e finalmente apaguei.


🇷🇺 Rússia – 28 de setembro de 2019, sábado

Os treinos e resultados das últimas corridas foram surpreendentes. A segunda metade de temporada vinha trazendo bons frutos para a escuderia italiana Ferrari, e o último treino livre deste final de semana não foi diferente. liderou mais uma vez, seguido por seu companheiro de equipe. As Ferraris estavam voando.
Como todos ali, e Emily já estavam a um milhão por hora. Emily fazia a cobertura das entrevistas com a imprensa; fazia fotos para as redes sociais.
Quando a social media fazia stories e gravava conteúdo próximo aos boxes da equipe Mercedes, o movimento ao seu redor era gigante. As três horas que separavam o último treino livre do classificatório eram bem intensas. Era desviar de cabos, carrinhos de ferramentas, gruas e os mais infinitos equipamentos.
O que a não contava era que o cachorro de Hamilton cruzaria seu caminho, fazendo com que seu pé virasse por completo e seu corpo fosse ao chão no instante seguinte. A adrenalina do impacto fez com que a dor não a atingisse no segundo seguinte, mas sim quando tentou levantar-se do chão.

— AAAAAH! — a dor enfim lacerou o tornozelo e se irradiou pelo restante da perna esquerda da moça. Lágrimas completamente involuntárias começaram a escorrer por seu rosto; a dor tomou conta de suas ações. Ela só desejava que aquilo parasse.
— Meu Deus, ! — Hamilton apareceu em velocidade recorde para acudir a moça, que chorava agora como uma criança enquanto segurava o próprio tornozelo. — Vem, Roscoe, mau menino! — ele repreendeu o cão, que certamente não havia feito por mal.

Logo um aglomerado de funcionários se fez ao redor. Carlos ouviu a voz chorosa da amiga e furou o aglomerado para ver do que se tratava.

Por Diós, , o que aconteceu?
— Dói demais, eu tropecei no Roscoe, AAAAAAAH — berrou quando Carlos colocou levemente o dedo em cima do local machucado, na perna agora esticada da moça, que ainda estava sentada no chão.
— Alguém já chamou o pessoal das ambulâncias? — pediu, de certa forma, impaciente. Não havia alguém específico a quem tinha dirigido sua pergunta. — Quer saber? Eu levo ela até lá — ele içou a moça do chão em seus braços e foi o mais rápido que pôde em direção ao centro médico do autódromo.

Já no caminho, Carlos tentava a todo custo não balançar muito para não machucá-la mais do que estava. A moça seguia agarrada em seus ombros e chorava copiosamente, devido à dor que parecia aumentar cada vez mais.

, fica tranquila, tudo vai dar certo. Eles vão cuidar de você — reforçou ao apoiar a moça em uma maca, logo depois de explicar o acontecido para o paramédico que os atendeu.

Ela mal raciocinava sobre o que acontecia ao seu redor; apenas concordou com a cabeça para o amigo, que a olhava extremamente preocupado. Ele tinha as mãos na cintura como se pensasse em alguma solução para o problema, mesmo que mais nada ao seu alcance pudesse ser feito.

— Carlos, o celular e a câmera dela ficaram lá no chão — o empresário do piloto apareceu na porta, entregando os pertences da moça e alternando o olhar para ele. — Vim trazê-los pra você e dizer que precisamos ir. O treino começa em vinte minutos.


•••


— Como ela tá, cara? — , que viu a cena de longe, perguntou assim que viu o piloto espanhol voltar para seu box.
— Não sei ao certo. Tive que voltar, mas não parece bom, nada que eu pudesse fazer mais. Depois do treino verei como ela está.
— Ela quem? — chegou ao ver a cara de preocupação dos outros dois pilotos.
— Tua garota, cara. A tropeçou em Roscoe, que se enfiou atrás dela e machucou seu pé. Acho que pode ser uma fratura.
— Meu Deus! Preciso ver como ela tá — disse, exasperado, já indo em direção ao lugar onde Carlos tinha recém-voltado. Então, parou de repente e se virou para trás, apontando para ele. — E ela não é minha garota!
— Hey, , agora não dá, cara. Falta menos de quinze minutos para a classificação — chamou Michael, seu preparador físico e melhor amigo. — Prometo que eu vou lá pessoalmente ver como ela está. Agora, pro box! — apontou para onde o carro ficava e, de certa forma, brincou com o amigo, que atendeu seu pedido de imediato.

A cabeça de alguns pilotos daquele paddock passaou o treino classificatório meio longe, mais concentrados, de certa maneira. já era importante para eles e, para alguns, especial até demais.


•••


Os remédios fortíssimos para dor fizeram a moça dormir, mas o cansaço permanecia em seu rosto. Jamais tinha sentido tamanha dor, e os raio-x que foram feitos desgastaram a social media ainda mais. Mexer o pé já fragilizado em diferentes posições para garantir boas imagens de seus ossos a fizeram achar que a dor na hora da queda foi quase nula. E o pior realmente tinha passado – foi acordando aos poucos e, então, se situou. Estava numa sala branca, com um soro no braço prestes a terminar e um pé levantado e enfaixado.
Toc… Toc…
Lewis adentrou o quarto, e ainda meio sonolenta, deu um meio sorriso quando viu o piloto ali. Sentou-se como pôde e sentiu uma leve dor no tornozelo.
— Hey — ele falou com a voz mansa. — Como você tá se sentindo? — sentou-se na poltrona azul hortência ao lado da cama. Apoiou a sacola que carregava no chão e estendeu para a moça um buquê de flores que havia comprado.
— Nossa! São lindas, Lewis! — ela encarou mais uma vez os lindos girassóis com folhas verdes, que chegavam a parecer de mentira de tão perfeitas, e deixavam o buquê ainda mais harmonioso. — Tô meio sonolenta, mas acho que são os remédios… — olhou novamente para Hamilton.
— É normal, o importante é que você tá bem — divertido, ele olhou para os lados como se certificasse que estavam só os dois ali. — Vou te contar um segredo — fez uma pausa. — Nada quebrado, senhorita , só um ligamento rompido.
— Eu juro que queria ficar feliz, Lewis — riu da alegria do piloto —, mas ainda é um ligamento a menos em alguém que é o desastre em pessoa…
— Verdade. No seu primeiro dia você já conheceu o chão do paddock — ele começou a rir como uma criança, e a cara de falsa indignação de não poderia ser melhor.
— Em minha defesa, me ajudou nessa! — então, a moça começou a rir com Lewis.
— Falando em , ele tava preocupado com você também. Logo deve vir pra cá — parou para observar a sacola em seus pés. — Vim antes porque eu devia um pedido de desculpas pelo que Roscoe fez com você.
— Ei! Ele não fez por mal. Eu ainda gosto muito dele, viu?
— Mesmo assim, . Vim trazer um celular e uma câmera nova pra você. Seu celular ficou todo quebrado, e a câmera parece que também quebrou — abaixou a cabeça. — Mais uma vez, desculpa.
— Meu Deus, Lewis Hamilton, você tá louco? — ela ficou em choque e extremamente surpresa com o ato. — Meu telefone é o de menos. Eu poderia consertar, e minha câmera também…
— Era o mínimo que eu poderia fazer, — quando ele a chamou pelo apelido, causou certa surpresa. Afinal, Lewis era extremamente formal e educado.
— Foi um acidente. De verdade, tá tudo certo. O que seria da nossa vida sem histórias pra contar?
— Você tem razão — ele sorriu sem mostrar os dentes. — Preciso ir. Espero poder te ver no paddock logo! — deu um beijo na testa dela e seguiu para fora do quarto. Porém, antes de sair, se virou e disse: — Se precisar de mim, é só ligar.


•••


As horas dentro de um quarto completamente branco pareciam se arrastar. Aliás, era difícil ter noção de horário sem ao menos o próprio relógio de pulso. A verdade era que a moça se sentia nua sem seu colar, pulseiras e anéis usuais. A impressão que os havia perdido era constante. Quando se deu por fim, suas pálpebras pesaram e ela caiu em um sono leve.

— Com licença, senhorita — uma enfermeira lhe acordou delicadamente; o sotaque era russo no inglês da mulher, que trocava mais um soro que havia terminado.
— Olá, mais um? — fez bico, já que deveria ser o terceiro desde que acordara pela primeira vez depois do tombo.
— Esse é o último — checou a velocidade que os pingos desciam. — Vou dizer pra você, que sorte a sua todos esses pilotos bonitões por aqui, viu?
— Eles são todos meus amigos — riu sem graça. — Trabalho com eles, inclusive.

mal tinha terminado de trocar aquelas poucas palavras com a enfermeira e a porta se abriu sem a maior cerimônia, revelando três homens que a social media conhecia bem: , Carlos Sainz e Lando Norris.

— Oi — sorriu sem mostrar os dentes, mas estava feliz por ver que os amigos se preocupavam com ela.
— Como você tá, ? — Lando se aproximou, pegando a mão da amiga.
— Um ligamento no pé a menos. Nada grave, só meio sonolenta de tanto remédio.
— Carlos me contou quando o treino acabou. Eu estava na minha sala, não vi nada — lamentou Lando, por não ter prestado socorro de imediato.
— Eu realmente achei que fosse uma fratura, porque seu pé logo ficou escuro e inchou também — disse Carlos, também se aproximando da cama junto com , que se mantinha calado até então.
— Ainda bem que foi um ligamento só. E ficou assim por causa da torção, o que aumentou ainda mais a dor — sorriu terna para o piloto espanhol. — Mas tá tudo certo. Obrigada, mi amigo.

O silêncio ficou bem estranho, porque ainda não havia falado nada – olhava fixamente para o buquê que estava em cima da mesa do outro lado da cama.

— Achei que você tinha vindo me ver, — a moça não perdeu a piada, apesar de achar a situação um tanto estranha. calado e sério não era uma coisa normal.
— E eu vim — ele sorriu sem mostrar os dentes. — Tava admirando o buquê de flores ali — apontou pro vaso com os girassóis.
— Sim, Lewis esteve aqui mais cedo — ela sorriu ao olhar também para as flores, o que de certa forma deixou o piloto australiano incomodado. Hamilton não era amigo dela para ter vindo vê-la, ainda mais antes de todos eles.
— Hamilton aqui? — Lando perguntou, confuso, e fez um favor para a curiosidade de .
— Roscoe quem me derrubou. Ele achou que precisava se desculpar e me trouxe de presente uma câmera e um telefone novos — apontou para a sacola ao lado do buquê —, já que, aparentemente, os meus antigos ficaram em pedaços.
— Ah, entendi — Lando riu. — Acho que quero me machucar e ganhar todos esses presentes também...
— Como se você não fosse um piloto de F1 que não pode comprar inúmeros desses — riu, divertida. — Fora todas as cartinhas e declarações de amor que as fãs dão pra vocês — apontou para os três. — Me deixe ser mimada uma vez na vida.
— Bom, , nós vamos indo. Qualquer coisa, não se esqueça que eu sou… — ele foi interrompido pela amiga.
— Já sei, já sei, o piloto mais alto da McLaren, entendi — ela fez sinal de continência, se divertindo com a situação.
— Você tá esquecendo do bonitão de novo, — riu com a garota.
— Qualquer coisa é só ligar, — Lando se prontificou. — Você vem, ? — perguntou ao ver o piloto ainda parado no mesmo lugar.
— Podem ir na frente, logo vou…

Assim que os outros dois fecharam a porta, foi até a janela, descruzou os braços e colocou as mãos no bolso da calça de moletom que usava. E, por alguns instantes, se perdeu em seus próprios pensamentos. Quando o silêncio ficou incômodo, pigarreou, ganhando novamente sua atenção.

— Pode me falar já o que está acontecendo, — exigiu em um tom mandão.
— Eu só fiquei com ciúmes de Hamilton aqui — ele jogou a informação na lata e deixou a moça surpresa, mesmo que ela tenha percebido que esse era o problema. — Gosto muito da nossa amizade, . E não quero que me esqueça, já que aparentemente todos gostam de você.
— Hey, ! — estendeu a mão para que o piloto a pegasse e ficasse mais próximo. — Eu nunca vou trocar você, em nenhuma hipótese. Você é uma das poucas pessoas que me ganhou tão fácil assim, e sendo só você.
— E se você começar a namorar, ? Porque, sinceramente, não sei como você está ainda solteira. É bonita, querida, prestativa e uma ótima companhia — enumerou nos dedos.
— Meu coração tá fechado pra negócios, — sorriu triste —, mas você também não é de se jogar fora, viu? Se não estivesse com aquela modelo, como é o nome dela mesmo? — pareceu puxar na memória e fez uma careta de nojo. — Amber, não? Eu acho que perdia cinco minutinhos com você — cantou o amigo e começou a rir.
— Ah — ele começou a gargalhar. — A Amber não deu certo, foi coisa de uma semana só… Sabe… Necessidades…
— Você não presta, — então, a moça se contagiou com a risada do piloto e logo os dois riam um da risada um do outro.

Depois que o horário de visitas havia terminado, seguiu seu caminho para o hotel. Ficar perto de tinha virado, com certeza, uma de suas coisas favoritas – mas ele definitivamente falava mais do que devia na presença da moça. Depois de já ter falado, ele não sabia exatamente se estava arrependido ou não do que falava.


🇷🇺 Rússia – 29 de setembro de 2019, domingo


Aquela cama era muito desconfortável. Ficar em um hospital era péssimo, mas minha alta veio de manhã cedinho. Uma bota ortopédica e um par de muletas para me auxiliar a caminhar pelos próximos vinte e cinco dias me acompanharam na saída do hospital. Fiz as contas: eu me livraria desse pé gigante antes do meu aniversário. Decidi ir até o hotel trocar de roupa e voltar para o autódromo, afinal, ficar sozinha não era uma opção. Uma calça de moletom mais soltinha foi o que passou pelo meu pé enfaixado e ainda um pouco inchado; afivelei todos os velcros da bota e segui em direção ao local da corrida.
O paddock e todos os arredores estavam lotados. A corrida só aconteceria na parte da tarde, mas todos que tinham comprado tanto o acesso VIP para o paddock quanto para as arquibancadas se aglomeravam na entrada para ter a chance de um autógrafo ou de uma foto com os pilotos. Quando um dos seguranças me reconheceu, me ajudou a ir para um lado mais tranquilo e liberou minha entrada pela lateral.
Colocar meu pé no chão não era uma opção ainda – eu andava mais lenta que uma tartaruga centenária. Antes que eu pudesse chegar perto do escritório, Lewis apareceu na minha frente.

— Onde você pensa que tá indo? — sua expressão era séria, mas tinha um fundo de brincadeira.
— Eu vim trabalhar, mesmo que seja só no escritório — falei com obviedade.
— Você não vai trabalhar coisa nenhuma. Hoje vai assistir a corrida lá do box da Mercedes como minha convidada já que está aqui, e não no hotel descansando.
— Posso contestar? — tentei um argumento, mesmo sabendo que ninguém ia me deixar trabalhar.
— Não — respondeu, sério, e por fim já rindo da minha tentativa.

Lewis foi ao meu lado conversando sobre os assuntos mais aleatórios possíveis. Ele era um cara legal, meio fechado, mas ainda assim um amor. Conforme íamos chegando perto da parte de trás dos boxes, o pessoal ia parando e me perguntando o que havia acontecido e como eu estava. passou meio corrido, me deu um beijo na bochecha e saiu apressado para algum lugar desconhecido.
Quando chegamos dentro do QG da Mercedes, parecia que eu havia corrido uma maratona. Estava exausta; aquela bota realmente pesava e atrapalhava demais.

— Bom dia, criança! — Toto me cumprimentou. — O que você está fazendo aqui? Não devia estar em repouso no hotel?
— Bom dia, Sr. Wolf — sorri. — Pois então… Eu não queria ficar sozinha, mas Lewis também não me deixou trabalhar.
— Certo ele, e por favor me chame de Toto — ele sorriu, terno. — Hoje você é nossa convidada VIP.
— Não vou discutir, e também não vou falar que não gostei — ri nasalado. — Sempre vi só pessoas de importância aqui como convidadas.
— E você é uma delas, , acredite. Vou providenciar um lugar cômodo para você — então saiu, me deixando sozinha e meio aérea ali.

Sabe aquela sensação de estar perdida? Eu estava numa posição estranha. Aquele lugar era completamente familiar, eu já havia entrado diversas vezes para fazer fotos. Mas hoje era diferente, eu estava como convidada.
Permaneci ali parada até que uma moça simpática me chamou e me direcionou para uma sala com um sofá super confortável, um puff especial pro meu pé e uma TV gigante para assistir a corrida. Logo depois de me acomodar lá, Lewis adentrou o ambiente com Roscoe em seu encalço. Eu me surpreendia a educação daquele cão – ele sentou no chão próximo ao sofá e levantou uma das patas para pedir carinho. Afaguei seu pelo, aproximei meu rosto de seu focinho e ganhei uma lambida em retribuição.

— Você é a coisa mais fofa da titia , né? Sei que não foi culpa sua, e nem tem como ficar minimamente brava com você, Roscoe — recebi uma latida rouca e contente, típica da raça.
— Dá pra ver seu amor pelos animais, . Roscoe gosta muito de você.
— Eles nos dão esse amor todo, puro, sem pedir nada em troca. Nada mais justo do que tentar retribuir da mesma forma, não? — Hamilton concordou e, em seguida, se despediu, me deixando ali com a companhia de seu adorável cão.

Por mais engraçado que fosse, durante o almoço alguns dos pilotos vieram me ver e fazer a típica brincadeira que eu estava os traindo e escolhendo um lado. Me diverti com a brincadeira, afinal, eu estava bem longe de ser uma torcedora da Mercedes.


Logo após meio-dia, o movimento era estranhamente calmo para uma corrida que começaria em menos de duas horas. Mas a mente de um piloto em específico estava de certa forma inquieta – e não se davam e disso todos sabiam, mas ele não era um monstro, e ver toda aquela cena de longe o deixou perturbado. Seus instintos o mandaram ajudar a moça de imediato, mas seu coração o mandou ficar ali, imóvel. O acontecido se repetia várias e várias vezes na cabeça do monegasco, e ele se sentia culpado por ter sido idiota o suficiente em não ter reagido. Logo ele, que era treinado diariamente para ter os reflexos mais ágeis possíveis.

— Hey, Sainz! — chamou pelo espanhol. — Como está a ?
— Fala, — saudou o piloto com um soquinho. — Um ligamento rompido, mas está por aqui já. Ela é teimosa, não quis ficar no hotel.
— Fico feliz por não ser nada grave — sorriu, aliviado. — Nos vemos na pista? — falou, desafiador.
— Só se for pra te ver no meu retrovisor, — retribuiu a brincadeira também com um tom de rivalidade na voz.
— É o que veremos, Sainz.

Carlos saiu de lá e seus pensamentos foram para a conversa que teve com momentos antes. Quando parou para pensar, viu que era algo realmente estranho. Afinal, por que o piloto monegasco se preocuparia com a ponto de perguntar por ela, se ele não a suportava?
estava de certa forma contente. Ninguém merecia passar por aquilo, a dor devia ser insuportável, e o importante era que ela estava bem na medida do possível.

— Oi, baby — Charlotte chegou dando um selinho no namorado. — O que você estava conversando com Carlos? — perguntou, curiosa, mas também a fim de puxar assunto com o piloto.
— Perguntei como estava — respondeu, indiferente, olhando para o horizonte e para o nada ao mesmo tempo.
— Aquela fotógrafa novata? — apenas assentiu. — Não gosto dela. Acho que todos babam nela sem motivo algum, além de ela se achar boa demais no que faz. É bem grossa, até — destilou seu ódio gratuíto.
— Acho que ela é realmente boa fotógrafa, Charlotte. Todos a elogiam, e com razão. Ela manda muito bem no que faz, e não quer dizer que porque você não a conhece que ela não é uma pessoa legal…
— É… Pode ser... — falou Charlotte, de certa forma descontente.

Nem sabia por que tinha defendido alguém por quem não tinha a menor afeição, ele simplesmente o fez. tinha, afinal, esse efeito sobre alguns pilotos…


Capítulo 5

A recuperação do pé da jovem moça não estava nem um pouco rápida na sua percepção – ela queria se livrar logo daquela bota e voltar a andar normalmente. Se forçasse um pouco mais do que se acostumara, as dores se tornariam insuportáveis, então somente analgésicos que o médico havia prescrito aliviavam a dor, que brincava de se aproximar com a daquela do dia em que caiu na Rússia.
O trabalho nessa primeira semana havia se tornado home office, então não mais tinha que ir até o escritório, o que de certa forma se tornou monótono. Ela só tinha a companhia de uma samambaia que ficava na sala e de seus amigos, quando vinham trazer comida. Não que ela não pudesse ir até o mercado sozinha, mas Emily fazia questão de ajudar, e, antes de sentir mais dor, Si aceitava de bom grado. A moça sentia falta do vento gélido das ruas de Londres batendo em seu rosto e das pessoas passando apressadas, presas em seus próprios pensamentos a caminho de seus trabalhos.
Emily e George, que também moravam em Londres, resolveram organizar um piquenique no Hyde Park naquele final de semana e convidaram também Lando, Carlos e Isa para se juntarem a eles. Era também um jeito de desentocar a amiga de casa.
Carlos e Lando foram até o apartamento de enquanto Emily, George e Isa arrumavam a toalha e as comidas. usava um vestido rosa magenta para o dia estranhamente bonito e quente em Londres. Quando os meninos chegaram, ela se dirigiu até o elevador e foi de encontro aos amigos.
A dupla da McLaren esperava em um carro discreto e preto do outro lado da rua do apartamento da moça. O caminho até o parque não foi nada silencioso, já que entre os três a conversa nunca faltava. Quando chegaram onde Emily, Isa e George esperavam, viram uma linda toalha xadrez vermelha com inúmeros salgados e doces. Fizeram também com que se sentisse ainda mais disposta em estar fora de casa, ali, rodeada de amigos em um dia atípico e ensolarado na cidade londrina.


🇯🇵 Japão – 11 de outubro de 2019, sexta-feira


Eu já tinha me acostumado a andar com aquela bota gigantesca, mas era sempre uma grande porcaria percorrer uma distância muito grande. Eu já estava andando sem o auxílio de muletas como o médico havia recomendado.

— Bom dia, , como vai? — Sebastian Vettel surgiu ao meu lado.
— Bom dia, Vettel. Só não está melhor graças a essa porcaria — apontei para a bota gigantesca no meu pé.
— Deve ser complicado mesmo — ele me ofereceu seu braço como apoio. — Quer uma carona? — sorriu cortês, e aceitei de bom grado.
— Quem diria eu ganhando uma carona do tetracampeão Sebastian Vettel — brinquei com o piloto alemão. — Como estão suas expectativas pra hoje?
— Acho que boas. As últimas corridas têm sido boas pra mim e pro .
— Hey, Seb! — ouvi a voz do tal golden boy chamar mais ao fundo.
Falando no diabo… — soltei em português, para que ninguém entendesse.
— Como? — perguntou Vettel, atencioso.
— Nada não — dei um meio sorriso, então esperamos o alecrim dourado chegar até nós.
— Seb, Mattia estava te procurando, algo sobre o treino…
— Só vou acompanhar até o destino final dela e logo vou… — ele deu a chance para que fosse embora sem me estressar, mas, como eu não tinha sorte, isso não aconteceu.
— Oi, — foi simpático, o que de fato estranhei. — Como você está? Fiquei preocupado com você...
— Ooooh! Veja, pela primeira vez você está se preocupando com alguém e admitindo que não é o centro do universo? Dispenso sua preocupação, — a raiva me consumiu. Não era porque eu tinha me machucado que esse cara tinha que fingir se importar.
Ouch — foi o único som que Vettel fez antes de acenar para que entendesse que devia ir embora.
— Perdão, Sebastian, mas ele me tira do sério. Me trata mal desde que cheguei aqui e agora quer ser decente? Comigo não cola…
não é um garoto ruim, mas ele não sabe lidar com garotas que o rejeitam... Um dia ele aprende, assim eu espero — deu de ombros enquanto caminhávamos até o escritório da F1.

Depois de agradecê-lo pela “carona”, entrei no escritório, sentei em minha mesa e comecei a organizar mais algumas coisas por ali, como alguns protocolos e fotos impressas para a aprovação de cada equipe, para finalmente usarmos em anúncios publicitários nas próximas cidades a sediar os grandes prêmios.
Fui calmamente em direção à primeira equipe para falar com o chefe e social media para definir a foto de cada piloto, quando notei que todos estavam sendo corteses demais, e isso me irritava muito. Eu odiava ser bajulada porque estava com um trambolho no pé.

AVISO DE GATILHO

Flashback on

O evento era extremamente chique e luxuoso, e, de certa forma, eu estava acuada – era meu primeiro evento como segunda câmera. Na verdade, era meu primeiro grande evento. Todos ali estavam muito bem arrumados; nós, como fotógrafos, sempre muito discretos e totalmente de preto. Fiz toda a cobertura do ambiente antes dos convidados chegarem, como Rafael tinha me pedido, e eu esperava pacientemente perto da copa os convidados chegarem para continuar meu trabalho.
Vestidos brilhosos e smokings perfeitamente alinhados era tudo que se via naquelas pessoas elegantes que por ali transitavam, quando um homem muito bonito parou ao meu lado e me ofereceu um sorriso simpático.

— Trabalhando no evento? — puxou assunto da maneira mais besta possível, mas ele era convidado e eu estava lá trabalhando, ou seja, precisava ser simpática também.
— Sim! Fazendo toda a cobertura fotográfica.
— Prazer, sou Cássio, gerente da Improve — estendeu a mão em minha direção.

Fiquei um pouco envergonhada, afinal, ele era um dos contratantes do evento, mas retribuí o gesto. Assim que apertou minha mão, ele me puxou para próximo de seu corpo e sussurrou em meu ouvido:

— Você é muito bonita… Se estiver a fim de um extra no final, espero você naquela porta — então, apontou discretamente com o dedo para o mezanino do lugar onde a porta ficava.
— Obrigada, Sr. Cássio, agora preciso voltar ao trabalho.

O medo me consumiu. Eu não podia ser rude, mas também precisava sair dali urgentemente.
Depois de não ver mais o tal do diretor da Improve por quase toda a noite, fomos até a cozinha tomar água e comer alguma coisa, como em todo evento. Na volta, lá estava ele, vindo em minha direção para me importunar, e o que eu podia fazer? Sorrir e ser educada.

— Então, , pensou na minha proposta? — levantou uma sobrancelha, enquanto parecia me comer com os olhos.
— Perdão, Sr. Cássio, mas estou aqui apenas para a cobertura fotográfica. Não faço nenhum outro trabalho.
— Você acha que pode me recusar, garota? Eu fui simpático com você. O mínimo que você teria que fazer é um boquete bem gostoso a troco de nada.
— Com licença — saí de perto do homem o mais rápido que pude.

Chegar até o banheiro sem derramar uma lágrima parecia queimar meus olhos. Assim que achei uma das cabines vazias, tranquei a porta, sentei no vaso sanitário com a tampa fechada e minha mente custava a acreditar em cada sílaba que aquele homem nojento tinha proferido. Então, como uma enxurrada, as lágrimas começaram a escorrer pelas minhas bochechas; a angústia e a dor tomaram qualquer outro sentimento que povoava meu ser.
Eu não tinha que passar por tudo aquilo. Não fiz nada errado, muito menos estava vestida de maneira vulgar. Depois de um tempo, mais calma e já sem chorar, saí da cabine e procurei por Rafael. Pedi se poderia ir embora antes do término definitivo do evento – que já se encaminhava para o final –, e, ao ver meu estado, ele me liberou. Eu conversaria com ele outra hora.

Flashback off



Toda essa melação de todos os lados me incomodava mais do que deveria. Mas toda vez que alguém era gentil sem precisar, ou eu notava que era algo forçado, eu automaticamente me protegia. Aquela frase parecia sempre ecoar na minha cabeça, como se qualquer um pudesse proferi-la de novo: “Você acha que pode me recusar, garota? Eu fui simpático com você. O mínimo que você teria que fazer é um boquete bem gostoso a troco de nada”.
Tentei voltar para meu foco, mas realmente aquela lembrança estava me incomodando muito. Eu olhava para os lados e todos pareciam estranhos, nunca vistos por mim. Meu coração acelerou, minhas mãos começaram a tremer e a suar, e minhas pernas pareciam tão pesadas quanto as de um elefante. Eu precisava sair dali o mais rápido possível.
Procurei o lugar mais vazio e calmo do refeitório, sentei em uma mesa mais isolada e tentei controlar insistentemente minha respiração e, consequentemente, todas as outras reações que me assolavam. Respirei fundo algumas vezes e tentei aquietar minha mente de todos aqueles pensamentos horríveis, então fui fazer o que eu tinha que fazer antes de tudo isso acontecer.



Depois de ter passado praticamente todas as equipes e ter praticamente todas as fotos selecionadas, checou seu relógio e viu que meio-dia havia chegado e, com ele, sua hora do almoço. E apesar de ter se acostumado a comer sempre o mesmo, devido à maioria das vezes as comidas serem extremamente diferentes e variando de sua cultura, e ficar com receio de provar algo ruim, essa semana ela estava no Japão. E não havia lugar melhor para comer um bom sushi.
Um temaki de lula e algumas peças de niguiri foram as escolhidas para aquela sexta-feira agradável de outono em Suzuka. sentou-se em uma mesa dentro do restaurante e, quando checou seu e-mail pessoal, nada mais nada menos que uma cópia revisada do livro de sua amiga estava lá. sabia o quanto Natasha tinha se empenhado em cada palavra e se orgulhava muito da amiga. Logo os exemplares estariam em livrarias de todo o Brasil, e a fotógrafa torcia para que chegassem em todas do mundo o mais breve possível.
Abriu o arquivo o mais rápido que pôde e começou a ler a história da amiga. Nem olhava para a comida, apenas molhava seus niguiris no molho shoyu e os colocava na boca sem tirar os olhos da tela.

— Oi pra você também, — ouviu a voz de Lando Norris após um pigarreio do piloto.
— Oi, Lando — o avistou rápido e voltou o olhar para a tela. A cena que estava lendo a prendia de um jeito que só Natasha conseguia em uma história.
— O que de tão interessante tem nesse celular hoje, hein, ? — ele quis saber, mas ela fez um sinal para o moço esperar e, assim que terminou levantar o olhar, notou um outro ser de olhos azuis e cabelos claros a encarando ao lado de Norris.
— Oh, perdão. Me chamo — estendeu a mão para o menino que parecia envergonhado, mas, em sua memória, a social media tinha certeza que o conhecia.
— Prazer, . Me chamo Mick — cumprimentou a garota de volta.
— Tá, mas me conta sobre esse livro, . Nunca vi você tão concentrada em algo.
— Não precisa me queimar assim na frente dos outros, né, Lando. O que ele vai pensar de mim? — apontou pro loiro que já ria divertido com a cena. — Que sou uma profissional completamente avoada?
— Schumacher não acha nada — cutucou o amigo ao seu lado. — Não é, Mick?
— EU SABIA! — ela falou um pouco mais alto. — Eu sabia que conhecia você de algum lugar, você é o filho do Michael Schumacher, quando eu era mais nova — puxou um pouco de ar, já que estava animada e disparou a falar —, eu ouvia muito falar dele, apesar de naquela época odiar Fórmula 1.
— Mick, eu juro que ela é meio louquinha, mas é uma pessoa maravilhosa — Lando tirou sarro com a cara de .
— E eu juro, Mick, só não bato no seu amigo pra não ficar feio, e porque seria um desperdício estragar essa cara tão fofa — sorriu cínica, mas já brincando com os dois.
— Tá, . Me conta dessa sua amiga, ela é gatinha? — a curiosidade de Norris definitivamente era uma de suas características.
— Eu acho ela linda! Loira dos olhos verdes, um carisma sem igual. Ah, e além disso, uma exímia escritora. Posso apresentar pra vocês uma hora dessas…


•••


Ao final do expediente, a moça estava à espera de seu carro de aplicativo quando deu um pulo – uma buzina estridente foi acionada muito próxima a ela, lhe causando não só um susto como um pequeno grito, que tentou abafar com sua própria mão. Um Renault Mégane R.S. amarelo estava parado ao seu lado, e lá dentro uma pessoa ria descontrolada do sobressalto da moça. Depois de se situar do que estava acontecendo pós-susto, ela olhou com mais atenção e constatou que só poderia ser ele.
O único nessa Terra para fazer isso com ela.
.

— Eu vou matar você, ! — esbravejou assim que o moreno abriu o vidro.
— Aceito essa morte se for na minha cama — soltou outra de suas costumeiras jogadinhas, que na visão de eram brincadeiras, mesmo que soubesse que tinham um bom fundo de verdade.
— Hahaha, que engraçado você, . Agora é sério, precisava? — trocou de assunto, voltando a atenção para a gracinha do piloto.
— Você tava toda distraída como sempre, e eu não podia perder essa oportunidade — ele riu nasalado. — Quer uma carona?
— Acabei de chamar um carro de aplicativo. Obrigada, — sorriu sem mostrar os dentes.
— Cancela, ué. Vamos, entra aí — insistiu.
— Tá bem, mas sem mais cantadas baratas, ok? Hoje sua cota de cantadas ruins já acabou — riu, entrando no esportivo da marca francesa.
— Prometo — fez uma cruz com os dedos e os beijou.


🇯🇵 Japão – 12 de outubro de 2019, sábado

— Será que o treino vai ser mesmo cancelado? — ouvia-se de alguns mecânicos e engenheiros pelos boxes das equipes.
— Ainda não está decidido. Parece que vamos saber ao certo até às onze da manhã — disse um dos treinadores físicos da Racing Point.

Os burburinhos eram os mais variados, e, enquanto isso, as meninas faziam o trabalho que conseguiam e mantinham todos os espectadores das redes sociais da Fórmula 1 atualizados. O último treino aconteceria ao meio-dia, mas só seria confirmado se a tal tempestade mudasse de direção e não oferecesse risco a nenhum dos pilotos e espectadores ali presentes.

Por gentileza, pedimos a todos espectadores para que evacuem a área o mais rápido possível. Nossos radares meteorológicos detectaram ventos e chuvas fortíssimas. Por favor, procurem um local coberto e seguro para se protegerem o mais rápido possível. Prezamos a segurança de todos. Fiquem ligados em nosso site e redes sociais oficiais para mais informações sobre ingressos e programação, caso houver — uma voz grave tomou os alto-falantes do autódromo, então todos, mesmo que aflitos, saíram do autódromo e voltaram para o hotel em segurança.

No caminho, dentro do carro que levava , Emily e Oliver, o chefe das meninas, o assunto era sempre o mesmo: quais seriam as consequências e estragos daquele tufão?
Já no hotel, foram até o café para aguardar o movimento de pilotos agitados e todo o staff de cada equipe dispersar a entrada do local e, consequentemente, se dirigirem aos seus quartos. A equipe de mídias sociais da Fórmula 1 precisava montar um comunicado oficial dentro dos padrões, esclarecer pelas redes oficiais e manter todos calmos e informados do que estava acontecendo naquela manhã.
Depois de postar uma série de stories tranquilizando todos e informando que estavam em segurança e bem, postaram o comunicado mais formal no feed de todas as redes sociais: “Como resultado do impacto previsto do Tufão Hagibis no Grande Prêmio do Japão de Fórmula 1 de 2019, a Mobilityland e a Federação Japonesa de Automobilismo (JAF) decidiram cancelar todas as atividades programadas para ocorrer no sábado, 12 de outubro. A FIA e a Fórmula 1 apóiam essa decisão no interesse da segurança dos espectadores, competidores e todos no circuito de Suzuka.”

— Tive uma ideia! — exclamou Emily enquanto olhava para o nada e terminava de montar a imagem de fundo branco com o comunicado e os logos da FIA e F1.
— Aiii, lá vem bomba! — a amiga soltou em tom de brincadeira, e Oliver, que estava concentrado em seu computador, também riu.
— Tá, ouça mesmo assim — deu uma pausa e olhou para os dois, vendo se ambos prestavam atenção nela. — O que vocês acham de juntarmos todos os pilotos em uma sala de reunião… — continuou a ideia, e os dois a ouviam atentos.

Depois de decididos os detalhes da ação para distrair o público, convidar todos os pilotos e marcar o horário em uma espécie de auditório do hotel, e Emily resolveram subir para descansar um pouco. Quando as meninas apertaram o botão do elevador, em alguns segundos todas as luzes se apagaram – uma falta de energia certamente causada pelo tufão. Então, as duas se olharam, olharam para o pé de e decidiram por fim subir de escadas até o andar onde estavam seus quartos.
As meninas não sabiam precisar o tempo que levaram para chegar ao décimo quinto andar, muito menos quantos degraus subiram, mas cada lance das escadas era uma gargalhada diferente.

— Acho que vou inventar uma competição de subida de escada com bota ortopédica — retomou o fôlego que lhe faltou. — Eu certamente seria a campeã. Em que andar estamos? — perguntou para Emily, se apoiando no corrimão do último degrau do lance de escadas antes do descanso do andar.
— Décimo segundo, . Mais três fucking andares — olhou para a amiga, que estava toda suada assim como ela.
— Então, bora lá, o resto do nosso treino forçado de hoje — disse a ítalo-brasileira, e as duas continuaram, sôfregas, a subida.

Quando finalmente chegaram no seu andar, abriram a porta corta-fogo e, lado a lado, sentaram-se na parede ao lado de onde haviam saído, no corredor mesmo, exaustas.

— Olha, me mandou mensagem — mostrou o aparelho para Emily, que levantou uma sobrancelha curiosa sobre o assunto.
— Abre logo, mulher, eu tô mais curiosa que você — exasperou-se, para que abrisse logo o conteúdo da mensagem.

Nela, um simples “oi” e um vídeo, que a moça logo tratou de clicar para que fosse baixado:

Oi pra todos que estão nesse vídeo! Estamos presos no elevador do hotel aqui em Suzuka — passou a mão no queixo —, e pensando bem, esse elevador deve ser o mais caro do mundo. Bem, aqui estão todos os caras que entraram comigo nessa caixa de metal. Espero ver vocês em breve! Digam oi! — apontou o celular para os outros pilotos que estavam no elevador, então apareceram George Russel, Valteri Bottas, Pierre Gasly, Daniil Kvyat, Romain Grosjean, Niko Hulkenberg, Lando Norris, Carlos Sainz e . Todos os pilotos deram um oi para o vídeo, então ele foi encerrado.
— Seu amor tá preso no elevador, Emily — tirou onda.
— Amiga, lá dentro tem DOIS amores seus — fez o número com o dedo —, um assumido e outro recolhido.

riu da constatação da amiga, mas quem era o recolhido? Pensou ela…

— Aham… Você e suas teorias, Ems… — olhou para a tela do celular. — Vou gravar um vídeo também, vem cá — fez sinal para a amiga aparecer também, então a gravação começou. — Olá pra você também! Graças ao elevador mais caro desse planeta, eu e Ems — filmou a inglesa — tivemos que subir quinze lindos andares de escada — fez uma pausa dramática. — Sim, não foram só dois ou três ou quatro, mas quinze, e de bota ortopédica pra ajudar — riu da própria desgraça. — E agora estamos lindas, maravilhosas e suadas, sentadas no corredor.

Então, a colega de virou a câmera para si:

— Agora vocês todos me devem um dia no spa, obrigada e de nada — com um sorriso sapeca nos lábios, abanou e encerrou o vídeo.
— Vou tomar um banho, só espero que a luz tenha voltado também — avisou Emily, já de pé. — Nos vemos depois lá no salão?
— Sim, vejo você às dezoito, ! Qualquer coisa me chama, tá? — se despediu da amiga.


•••


— Olá, fãs de Fórmula 1! Estamos aqui hoje aproveitando a folga forçada dos nossos pilotos pra fazer um game com vocês. E vai ser o seguinte: no próximo story, vamos deixar uma caixinha onde vocês podem pedir o que gostariam de saber e de quem. Vamos escolher três para cada piloto que estiver aqui. Sejam criativos!

Depois de Emily postar um vídeo pedindo aos fãs para mandarem perguntas, sentaram as duas na beirada do palco da sala, onde encontrariam os pilotos em poucos minutos. Lá, elas engataram um assunto qualquer sobre sonhos.
Foram chegando aos poucos quase todos eles. Não era algo obrigatório, mas tanto Emily quanto se surpreenderam com a quantidade dos pilotos ali presentes.

— Certo, pessoal, posso ter a atenção de vocês? — Emily falou por cima das vozes dos pilotos, que conversavam entre si. — Vai acontecer da seguinte forma: eu e vamos escolher três perguntas pra cada um de vocês, certo? Caso não queiram responder, a gente procura uma outra. Tentem agradar os fãs se ficarem desconfortáveis, ok? — todos já em silêncio concordaram, então as meninas começaram chamando pilotos de forma aleatória.
— Alguém quer ser o primeiro?! — praticamente gritou, já que a conversa e risadas tomavam o ambiente.
— Eu! — levantou a mão no meio da multidão Max Vesrtappen.
— Então, Max, selecionamos uma pergunta bem técnica e duas mais descontraídas pra você, ok? — elas receberam um sorriso mais tímido e um aceno positivo. — “Max, qual a sensação de ter tantas pessoas acreditando que você pode ser o campeão mais jovem da Fórmula 1? E como você enxerga esse título?” Pronto? — Emily sinalizou que começaria a gravar a resposta.
— A sensação é muito boa, porque as pessoas confiam no meu potencial. Mas ao mesmo tempo tem bastante pressão, não há espaço para erros. Eu quero muito esse título e vejo como a realização de mais um sonho meu, espero conseguir em breve.
— “Você sente muita falta do como colega de equipe?”
— Não tanto quanto ele sente a minha, tenho certeza! — riu sem parar o holandês, deixando o vídeo exatamente como as meninas queriam. Depois de finalizar a última pergunta com o piloto da Red Bull Racing, continuaram seguindo a fila.
— Certo, George, agora a última, ok? — olhou sapeca para os dois. — “George, quando vamos conhecer a it girl?”
— Acho que por enquanto vou deixar vocês curiosos, mas quero que minhas fãs saibam que ela me faz muito bem e estou muito feliz — terminou olhando para Emily, que estava quase vermelha como um pimentão.

Alguns pilotos depois e as meninas tinham dado boas risadas, e ainda tinham as melhores perguntas guardadas para o final. Os pilotos mais aclamados pelo público as meninas tinham deixado por útlimo, mesmo que um em especial não agradasse .

— “Carlos, você prefere festa, ou sofá e filme?”
Entonces (então), pode escolher os dois? Porque eu definitivamente gosto dos dois — Carlos riu, e finalizaram mais um piloto.

Os papos que aconteciam entre uma gravação e outra eram hilários, e chegava a chorar com as palhaçadas dos amigos e do restante dos pilotos. A Fórmula 1 ia além de carros velozes e disputas por pontos para saber quem seria o melhor; era sobre a energia de tudo aquilo e como era divertido estar ali.

— “Lewis, como você se sente tendo um rival que pode tirar sua sequência de títulos?”
— Não vou dizer que gosto, mas é um grande desafio, porque realmente Max é um bom piloto. Mas como eu cheguei na Fórmula 1 e virei rival dos melhores, era esperado que chegaria a minha vez. Seja como, for estou pronto.
— “Hamilton, queremos mais pets no paddock.”
— Roscoe é um bom garoto quando não está derrubando o pessoal por aí, mas mesmo assim continua amando ele. Mas por enquanto ele não irá ganhar um irmãozinho — tinha um sorriso no rosto, porque Lewis não tinha falado uma só mentira. Aquele cachorro era um doce.
— Por hoje é isso, Lewis, obrigada pelo seu tempo! — a social media ítalo-brasileira respondeu ao piloto.
— Sua vez, Norris — brincou Emily, como se estivesse entediada, colocando a mão na boca e fingindo um bocejo.
— Eu sei que vocês duas me amam. Já falei pra , vamos casar e ter quatro filhos, e o casamento vai ser na praia como a senhorita Norris quer.
— IIIH, acho que você tá atrasado, Lando. Vai ter que entrar na fila — brincou mais uma vez Emily com o jovem piloto inglês.
— Como assim você já me trocou, ? — questionou em tom de falsa ofensa, enquanto voltava de algum lugar desconhecido por Lando.
— Quê? Como assim? — perguntou, confusa.
— Estava falando dos nossos planos de casamento para Emily… — disse enquanto fingia se preocupar com suas unhas.
— Poxa, Lando! Era um segredo, eu não consegui terminar meu lance com o ainda — entrou na brincadeira.
— Ouvi meu nome? — se aproximou com seu sorriso enorme nos lábios.
— Sim, amor — enfatizou a palavra para entrar na brincadeira. — Estava contando sobre como nosso relacionamento é maravilhoso para nossos amigos…
— Ah, sim. Eu e estamos muito felizes — balançou a mão no ar, como quem faz pouco caso. — Estamos pensando até em adotar um cachorro…

E assim o quarteto passou mais uns bons minutos nessa brincadeira boba, até que resolveram voltar ao trabalho.

— Chega de matar trabalho. Vou ler suas perguntas, certo? “Lando, já disseram que você é o piloto mais fofo do grid?”
— Eu acho que escuto isso o tempo todo, mas obrigado! Vocês são as melhores!
— “Lando, casa comigo?”
— Errr, sou muito novo ainda. Quem sabe no próximo pedido!

E os dois últimos haviam chegado. As meninas estavam num misto de cansaço e sentimento de dever cumprido, então resolveram fazer logo as perguntas de .
— “, como você se vê ocupando o lugar de Sainz com essa troca de escuderia? Como ficou a rivalidade de vocês? É saudável?”
— Oi! Então… Nossa rivalidade é extremamente profissional, é só dentro da pista. E sobre essa troca de escuderia, bem... eu acho que ahnn… acho que nós dois acabamos fazendo o melhor pra nós mesmos, mas fora da pista nos damos super bem.
— “, qual foi o melhor lugar que você já visitou até hoje? Em que país?”
— Uuh! Pergunta difícil. Na Fórmula 1, com certeza Austin tem meu coração. Mas eu sou apaixonado por Los Angeles, lá é meu lugar.
— Por hoje você tá liberado, mio amore (meu amor) — Emily mandou um beijo no ar, dispensando o australiano. — , sua vez!

A feição de mudou na hora. Ela não queria mais estar ali, mas infelizmente nem tudo no seu trabalho era agradável, incluindo um monegasco bonitinho que estava para sentar na cadeira à sua frente.

, como você viu dos outros pilotos, funciona assim... Leremos três perguntas que selecionamos: uma mais técnica e duas mais descontraídas, ok? Caso não queira responder, é só nos avisar que pegamos a próxima pergunta — explicou calmamente ao piloto ferrarista, que hoje parecia facilitar o trabalho da moça.
— Certo, estou pronto — respondeu e deu um sorriso tranquilo sem mostrar os dentes às duas social medias.
— “, como você se sente sendo a nova aposta da Ferrari? Isso tem muito peso pra você?”
— Fazer parte da scuderia Ferrari é um sonho, não só meu como era do meu padrinho — olhou para cima e apontou o dedo para o céu —, que infelizmente não está mais aqui. Batalhei pra chegar onde cheguei, por mim e por ele. Acho que a maioria dos pilotos sonha em chegar na Ferrari, e isso é incrível. Trabalhamos como um time pra chegar sempre ao topo.
— “, qual sua música do momento?”
— Eu sou péssimo com nome de músicas, mas uma das minhas favoritas é Something Just Like This, do Coldplay e The Chainsmokers...
— MENTIRAAAA — ouvimos a voz de Pierre Gasly ao fundo.
— É Señorita — completou Sebastian Vettel, e apenas levantou os ombros e, de certa forma, concordou.
— Señorita, então — finalizou o story.
— “, as fotos do podium ficaram perfeitas! Você fica um tesão em primeiro lugar!”
— Errr… Obrigado! As meninas que cuidam das fotos oficiais da Fórmula 1 são ótimas. Eu também gostei das últimas que fez, ela é uma ótima profissional — então, piscou para social media, mas ela queria acreditar que havia sido para a câmera, e não para ela mesma.

Depois de dispensar todos os pilotos, gravaram mais um story para finalizar a brincadeira e terminaram seu dia com uma janta no restaurante do hotel, jogando conversa fora no quarto de Emily.


🇯🇵 Japão – 13 de outubro de 2019, domingo

Era um domingo bem atípico no paddock. Depois do tufão Hagibis ter atrapalhado a ordem usual do final de semana, a qualificação que normalmente aconteceria no sábado, foi adiada para hoje, domingo. Tudo começou bem mais cedo que o normal e, como era de se esperar, tudo estava caótico. A correria era mil vezes mais intensa pelos boxes, e a apreensão de todos para que tudo desse certo era enorme. Não havia espaço para problemas em motor ou até mesmo batidas, e, caso isso acontecesse, era fim de corrida para o “sortudo”.
Os selos das tampas do combustível foram retirados uma hora antes do começo da qualificação. Às dez horas em ponto, todos os carros já estavam posicionados no pit lane¹ para, assim que a luz verde acendesse, eles pudessem dar o melhor de si em voltas rápidas para garantir a permanência até o Q3² e ficar entre os dez primeiros colocados. Volta a volta, os pilotos se esforçavam ainda mais para baixar cada menor tempo feito pelo carro mais rápido. Ali não era uma luta de piloto para piloto, mas do motor contra o relógio.
Depois do grid definido e dos ânimos mais calmos, o famoso caminhão os esperava para a Drive’s Parade. Ali, todos os fãs do esporte presentes poderiam desfrutar da vista dos seus pilotos favoritos passeando pela pista enquanto acenavam para todos.
A apresentação do grid ocorreu logo na primeira hora da tarde, e os primeiros lugares não estavam sendo mais uma surpresa – Vettel seguido de , Bottas, Hamilton e Verstappen ocuparam as cinco primeiras posições e prometiam uma bela briga pelo primeiro lugar.
Meia hora mais tarde, o grid começou a ser montado com os carros. Eles eram carregados por vários engenheiros e mecânicos, suspensos em uma estrutura parecida com um carrinho de rodinhas, até a posição definida pela manhã por seus pilotos, quando os ajustes finais eram feitos ali na pista mesmo. A largada da corrida virava um mar de concentrados de diversas cores. Na primeira fila, os dois carros vermelhos da escuderia italiana – e ali era possível ver inúmeras pessoas também de vermelho trabalhando ao redor dos carros –, e assim por diante. As imagens feitas pelo helicóptero agradavam também aos olhos mais organizados, já que cada monoposto tinha seu staff trajado com a cor da equipe/carro.


•••


Depois de mais um final de semana cansativo pós-corrida, quase sete horas da noite, se dirigia à saída do autódromo para finalmente descansar. Já não prestava a mínima atenção onde estava indo, e a bota ortopédica já não era um incômodo. Quase quinze dias era tempo suficiente para a ítalo-brasileira andar como se estivesse sem ela.
E nessa de andar desatenta, com toda sua falta de coordenação, antes de mais uma vez ir ao chão foi salva por duas mãos firmes. O toque fez seu corpo inteiro arrepiar, mas, ao mesmo tempo, o contato parecia algo conhecido. Quando estava pronta para olhar para trás, crente que seria muita coincidência ser novamente…

— fechou ainda mais o semblante.
— Pelo visto você é bem desastrada… — ele ignorou o mau humor de .
— É… — estranhou a proximidade do rapaz, que não se afastou depois de salvá-la. E ela também não recuou em afronta ao monegasco, que parecia desafiar sua paciência.
— Tá tudo bem? — ainda sem se afastar muito, perguntou, mantendo fixo o contato visual com ela.
— Tá sim, obrigada.


Capítulo 6

🇬🇧 Londres, Inglaterra – 18 de outubro de 2019


Seis e vinte da manhã e eu queria saber quem foi o ser maravilhoso que resolveu me acordar a essa hora. Tentei ignorar a chamada sem desligar – não queria parecer grossa, mas também não queria atender, e sim voltar ao meu digníssimo sono. Meu celular, mesmo dando um toque para que a música parasse, seguia vibrando. Eu necessitava de pelo menos mais duas horas de sono antes de levantar naquela sexta-feira típica londrina e ir trabalhar. Rendida na terceira tentativa de chamada, resolvi atender.

Você achou mesmo que eu ia esquecer do seu aniversário, ? — a voz inconfundível de soou do outro lado da linha.
— Na verdade, não achei que você fosse se lembrar tão cedo assim — não consegui conter um bocejo sonolento. — Qual é! São seis e vinte!
Ok, talvez eu tenha me empolgado cedo demais, mas… lembra do lance do seu presente de aniversário? — perguntou, misterioso.
— Pera, , deixa eu acordar direito. Me dá cinco minutos? Já te retorno a ligação.
Não vai dormir de novo, tá? É importante — ele parecia impaciente.
— Tá bem! Prometo!

Depois de desligar o telefone com , me espreguicei e fui até o banheiro lavar o rosto e tentar acordar melhor. Prendi meu cabelo em um coque de qualquer jeito, que no momento era a maneira que meu cérebro me permitia raciocinar para fazê-lo. Então, fui até a cozinha em busca da famosa cafeína que eu precisava para acordar. Não que eu fosse uma fã de café, mas capuccino de chocolate estava me ajudando nos últimos tempos. No segundo toque, atendeu a chamada.

— Pronto, agora estou devidamente acordada — apoiei a mão no rosto do lado contrário que segurava o celular.
Então, o que é vai ser surpresa, mas preciso de você no aeroporto de Heathrow amanhã a uma hora da tarde — disparou. — Leve roupas leves, e biquíni também. O resto é surpresa.
— Eu não acredito que você vai me fazer ficar curiosa até amanhã, , isso não é justo. Hoje é meu aniversário — fiz manha.
Você deve ficar muito bonitinha fazendo bico, mas não vai colar. É surpresa!
— Você só está a salvo porque tenho que esperar só até amanhã. Se não, eu juro que pegava um voo até Mônaco só pra obrigar você a contar.
Eu não estou em Mônaco, babe, estou em Londres — falou com uma voz mais grossa, e se não era coisa da minha cabeça, sexy.
— E como você não me acordou com um café na cama e flores? Não adianta ficar com ciúmes de Lewis depois… — brinquei.
Se seu coração não estivesse fechado pra negócios, quem sabe eu te acordasse assim…

Literalmente levei um tapa de luva, como diria minha mãe.
Depois de mais papo furado e algumas cantadas usuais de , finalizamos a chamada, então fui me arrumar para sair e tomar um café da manhã diferente. Londres tinha cafeterias tão fofas e aconchegantes que eu, como uma boa libriana, nunca sabia qual escolher.
Por fim, entrei na segunda que passei pela vitrine – gostei das tortas porque me lembravam da minha infância. Flores de açúcar de tons pastéis e leves pinceladas de glacê colorido nos mesmos tons deixavam a torta de tamanho médio graciosa. Ao entrar, olhei todo o expositor com calma, como se estivesse analisando lindas obras de arte. Aquela torta tinha, com toda certeza, me encantado. Pedi à atendente um pedaço – que acabei descobrindo ser de seu sabor favorito – e uma xícara de chá de pêssego, então fui sentar-me próxima à janela para observar o movimento da rua.
Na primeira garfada de torta que levei à boca, um carrossel de memórias veio à minha mente, como um filme: de todos os aniversários em que minha mãe encomendava a tão famosa torta de nozes e de toda minha família reunida em cada um dos meus aniversários. Aquele sabor, além de doce, me trouxe uma carga de nostalgia para todas as minhas memórias. E além de ser meu sabor favorito, me trouxe de presente de aniversário lindas lembranças de quem hoje estava um pouquinho longe, mas estaria sempre no meu coração, bem pertinho.
Quando voltei dos meus devaneios, já tinha terminado a torta. Tomei o líquido quente devagar, sentindo o gosto doce da fruta e, quando finalizei, me levantei, paguei a conta e voltei para casa, a fim de arrumar a mala para o dia seguinte e, logo em seguida, ir ao trabalho.


Uma coisa era certa: odiava e adorava surpresas no mesmo nível. Ficava ansiosa para descobrir o que era, mas também feliz; afinal, alguém tinha dedicado seu tempo para lhe surpreender.
No dia anterior, arrumou sua mala enquanto imaginava cada coisa que faria em seu destino misterioso, mesmo sem saber exatamente o quê. Separou suas roupas favoritas e também roupas nas quais se sentia linda. Passou o dia todo no trabalho tentando adivinhar qual seria o destino e, quando pensava na viagem de novo, seu coração acelerava. A mala para dois dias poderia ser menor se tivesse lhe dado mais informações, mas como ela não sabia nada, acabou levando mais opções do que precisaria.
No dia da viagem, ficou pronta muito tempo antes – os minutos pareciam se estender mais que o normal. Nada em seu celular parecia lhe prender a atenção fora o relógio, que a torturava cada segundo um pouco mais. Quando chegou a hora de sair, o coração disparou em um misto de ansiedade e felicidade.
O aeroporto trazia a sensação de trabalho, uma vez que ele já tinha virado rotina a cada final de semana de corrida. Estranhamente, hoje parecia menos monótono. checou mais uma vez o local onde deveria aguardar e foi até lá, curtindo a música que seus fones lhe traziam no modo aleatório. Sentou-se em uma das cadeiras e balançou levemente a cabeça no ritmo da canção que tinha acabado de começar. Sentiu a presença de alguém ao seu lado, mas como era de costume, a garota viajava em seus próprios pensamentos em alguma dimensão diferente desta, e não se preocupou em tomar conhecimento de quem era.

— Literalmente… viaja… precisa… parar… os fones... — ouviu algumas palavras abafadas pelo som do fone de ouvido, então ela pausou a música. No mesmo momento, olhou para o lado e viu que uma pessoa falava com ela sem perceber de quem se tratava.
— Como? — ao levantar o olhar para o homem ao seu lado, notou . — Ah! É você, !
— Sim, mas pelo visto você estava viajando antes mesmo de entrar no avião — brincou.
— Culpada! — ela levantou as mãos em rendição. — Quando estou de fones de ouvido, me perco dentro dos meus pensamentos.
— Eu também fujo do mundo assim — sorriu sem mostrar os dentes. — Vamos? — estendeu a mão para a moça, que aceitou para se levantar da cadeira. Então, seguiram em direção a um portão de embarque exclusivo para voos particulares.

O caminho até a aeronave foi bem silencioso – nenhum dos dois sabia exatamente o que falar, ou que assunto começar. , em seu íntimo, torcia para que gostasse de tudo o que ele e os amigos tinham planejado. Já tinha um frio na barriga que, com certeza, atribuía a todo o clima de surpresa e suspense do que aconteceria a partir dali.
O jatinho que os aguardava era maior do que ela esperava. Ao chegar nos pés da escada, um comissário lhe estendeu a mão para facilitar a subida. tinha viajado pouco tempo antes pela primeira vez em uma aeronave daquele tipo, mas o interior de couro e tecido claros encantou seus olhos. Procurou um lugar para se sentar e sorriu para , que observava cada movimento da moça enquanto ouvia um áudio que havia recebido.

“Sim, tudo certo. Já estamos aqui, . Vocês chegam aqui no horário previsto? Ela já está com você? Diga que mandamos um beijo, eu e Isa!”

A voz de Carlos Sainz pôde ser ouvida do celular de , deixando a fotógrafa ainda mais curiosa e ansiosa. Todos eles sabiam e ninguém tinha falado nada para ela.

— Você gosta de me torturar, não é, ? — sua voz continha indignação, já que a curiosidade estava em níveis altíssimos.
— Eu gosto de ver você pensando em todas as possibilidades existentes — riu nasalado e se sentou na poltrona em sua frente.
— Desde quando você me conhece tão bem assim, ? — era assustador saber que alguém a conhecia tanto.
— Eu sou bom observador — fez uma pausa enquanto checava a nova mensagem —, fora que você nunca fica tão quieta...

Depois de pouco mais de duas horas de risadas e cantadas de duplo sentido, típicas como sempre, o comissário pediu que os dois afivelassem o cinto de segurança, já que em poucos minutos aterrissariam no destino final. Ao olhar pela janela, viu bastante mar e uma ilha. Não sabia dizer qual era, porque lá de cima era um pouco difícil reconhecer em que país pousariam.

— Agora que estamos chegando, você pode saber onde estamos indo — desatou o cinto e foi em direção à porta do jatinho, assim que ele estacionou no aeroporto. — Bem-vinda a Ibiza, ! — desceu as escadas rápido e esperou a moça ao pé dela.

nunca imaginou que fosse justamente Ibiza o destino, e estava num misto de emoções boas.

— O que foi? Você não gostou? — ele perguntou, preocupado, porque a garota ainda não havia dito uma só palavra.
— Nossa! Claro que sim! Eu amei! — abriu seu melhor sorriso. — Só não sei como reagir... — então, pausou levemente a fala. — Eu nunca na minha vida ganhei um presente assim, . E de verdade, tô feliz pra caramba.

O sorriso do australiano ficou tão grande com o que ouvira que esqueceu completamente que precisava falar algo também, e não só admirar a felicidade e a beleza da social media à sua frente.

— Você merece! Mas preciso te dizer que não acaba por aqui, tá? Quando chegarmos ao hotel, você descobre o resto.
— Mais? Meu Deus, , eu não mereço tudo isso não…
Shut up, . Aproveita tudo isso, porque é pra você!

Um carro escuro de películas pretas os esperava na pista, e o caminho foi de certa forma silencioso: tentando manter todos os planos e só falar o mínimo para não estragar a surpresa; absorta em tudo o que acontecia.
Chegando ao hotel de extremo luxo, que ficava a poucas quadras do mar, foi até o balcão da recepção para fazer o check-in, enquanto a moça ficou sentada em um dos sofás do saguão, esperando o amigo voltar.

— Aqui, o seu quarto está pronto — ele entregou o cartão-chave na mão dela. — Preciso que esteja pronta às vinte e duas horas e siga cada instrução que você vai achar em cima da sua cama. O que você irá usar está lá também — se virou e foi em direção ao elevador, deixando a ítalo-brasileira absorta em questionamentos. — Ah! — se virou novamente em sua direção. — E sem mais perguntas, só faça o que está lá, certo?

Então a moça, que já havia aberto a boca para começar uma série de perguntas, voltou a fechá-la e seguiu em direção ao outro elevador. A mente da jovem borbulhava em ansiedade para saber o que seria todo aquele mistério para hoje. Por fim, quando a porta do elevador abriu no sétimo andar, localizou o quarto indicado no cartão e o abriu devagar, se torturando uns segundos mais…
O aroma floral invadiu suas narinas, fazendo-a fechar os olhos por alguns segundos para apreciar aquele cheiro delicioso um pouco mais. Ao abri-los outra vez, se deparou com um quarto amplo em tons beges e uma cama de casal enorme em cima de um tablado de madeira nos mesmos tons. Logo depois da cama, havia um sofá virado para a janela com a vista que era de tirar o fôlego, de onde era possível ver o mar. olhava tudo atentamente, queria guardar cada cantinho em sua memória. O tampo da mesa, que ficava mais ao canto do quarto, era feito de um tronco de madeira e combinava com o ambiente rústico e sofisticado do restante da decoração.
Ao olhar no relógio, já se passavam das quatro horas e meia da tarde. A garota deixou sua bolsa em cima do aparador, que ficava ao lado da porta, e se dirigiu até a cama. Nela havia duas caixas com laços vermelhos e uma carta com seu nome em letras enfeitadas. Sua curiosidade gritava para abri-las antes de ler a carta, mas preferiu não atropelar as coisas só pela sua ansiedade. Sentou-se na cama e abriu o lindo envelope, de cor champanhe acetinado, onde leu as famosas instruções:

,
Sei que te deixei super curiosa até aqui, mas… preciso que você siga cada instrução, sem exceção!
1. Preciso que esteja pronta para às 22:00 no saguão do hotel;
2. Não se preocupe, o que você irá vestir está nas caixas (e sim, você deve estar se perguntando como eu provavelmente acertei os tamanhos, e a resposta é: Emily me ajudou);
3. Preciso que você, sem falta, acesse o tablet que está em cima da mesa às 20:30. Tem uma mensagem importante pra você lá!
P.S.: nem adianta acessar o tablet antes, porque ele não vai desbloquear.
Com carinho,


A moça puxou as caixas para mais perto e desatou o primeiro laço de fita vermelha. Ao abrir, pôde ver um papel seda branco e timbrado com o nome da marca Jimmy Choo. Se seu queixo pudesse cair igual ao do Máskara, com certeza ele estaria lá: no chão. Além do salto estupidamente lindo, ela nem sequer sonharia em colocar um daqueles no pé um dia.
Seu coração estava disparado. Ela deixou a caixa com o sapato prata brilhoso de lado e pegou a outra – esta continha um vestido Tiffany, verde e todo brilhante, mas sem uma lantejoula sequer, parecia glitter. Nas alças, Swarovskis delicados deixavam o vestido extremamente elegante, e o leve drapeado no quadril, perfeito. estava encantada, porque tudo era sua cara.
Quando olhou o relógio uma última vez, viu que eram quase dezoito horas. Por fim, abriu a mala, tirou suas peças íntimas de lá e seguiu para o banho.
Para sua surpresa, a banheira estava preparada para ser usada: todos os sais estavam a postos, ela só precisava ser enchida. Quando emergiu seu corpo, cada músculo tenso devido à ansiedade pareceu relaxar instantaneamente em contato com os sais e a água quente.


•••


Oito e trinta. Quando a tela do tablet se acendeu, uma já de banho tomado e de roupão se assustou com tal ação do aparelho. Pegou-o em mãos, o desbloqueou com um deslizar de dedo pela tela, e um vídeo com seus amigos estava ali. O primeiro a aparecer foi Lando Norris.

Oi, ! — acenou tímido com um sorriso fofo. — Estou aqui pra te desejar um feliz aniversário, mesmo que tenha sido ontem. E em minha defesa, fui proibido pelo Sainz e de te ligar — levantou a sobrancelha, como se pesasse sua atitude. — Mas é tudo em nome da surpresa de mais tarde. Quero que saiba que você é muito importante pra mim e que tô louco pra te dar um abraço de parabéns. Até depois, gatinha — piscou um olho, e sua imagem sumiu.

Então, algumas fotos que a moça fez dele apareceram – inclusive uma dos dois caminhando pelo paddock, que não fazia a menor ideia que existia.

Hola, mi amiga — Carlos sorriu sem mostrar os dentes e abanou. — Estou aqui pra te desejar um aniversário maravilhoso, por mais que tenha sido ontem, porque hoje vai ser o seu dia. Quero te desejar todas as coisas boas nesse mundo e dizer que você sempre poderá contar comigo pra tudo! Feliz cumpleaños (Feliz aniversário).

Fotos dele que a fotógrafa tinha feito, dentro desses meses de trabalho, apareceram assim como após o vídeo de Lando.

, minha linda — Emily apareceu sorridente. — Você chegou toda apavorada há alguns meses naquele paddock e já passou alguns perrengues, mas ganhou meu coração. Adoro seu jeito leoa e gatinha ao mesmo tempo. Trabalhar com você tá sendo uma das melhores coisas esse ano! Somos uma dupla infalível. Mas quero também te desejar um maravilhoso aniversário, porque sim, estou gravando isso hoje dia dezoito, dia do seu aniversário. E mais tarde te falo o resto pessoalmente, ok? — mandou um beijo soprado no vídeo, e fotos que as duas tiraram apareceram.

Isa e George apareceram juntos e mandaram um feliz aniversário e um beijo, algo mais rápido, então o vídeo apagou por alguns segundos.

Você achou que eu não ia aparecer, né? — a voz de apareceu alguns segundos antes, então sua imagem sorrindo largo surgiu no vídeo. — Quero te desejar um monte de coisas boas. Seu feliz aniversário eu dei ontem, às… — botou a mão do queixo e pareceu pensar — seis e vinte, não foi? Mas enfim, feliz aniversário, ! Que todos os seus sonhos se realizem, porque você merece! AH! Só pra deixar claro, todos são meus comparsas e até agora nosso plano deu certo! Espere para mais tarde — ele esfregou as mãos com uma cara de quem iria aprontar mais. Sua imagem deu lugar a somente uma foto dos dois rindo, outra que não tinha visto sendo tirada. Provavelmente Emily as tinha feito.

largou o tablet em cima da mesa novamente com lágrimas nos olhos, ninguém jamais tinha sido capaz de se importar tanto com ela. Ficou olhando o nada por um tempo, mas sua mente estava frenética, pensava em tudo. Até que seu telefone tocando a tirou de seus devaneios. A foto de Emily estava na tela, e sorriu ao atender a amiga.

— Oi, Ems — disse, colocando o telefone na orelha.
Oiê! — a animação em sua voz estava nas alturas. — Você gostou da surpresa?
— Eu nem mereço vocês, sério! — deu um suspiro. — Simplesmente amei, Ems, obrigada de verdade!
Bom, liguei porque eu estava curiosa pra saber. Vá se arrumar, sim? Nos vemos mais tarde!
— Não sei de nada mais nessa vida — fez drama e riu —, mas se você diz… Nos vemos mais tarde! Beijo.

Com o fim da ligação, foi em busca de sua nécessaire a fim de começar a maquiagem. Preparou o rosto para receber os produtos cosméticos e, depois, deixou a pele pronta. Se virou em direção ao vestido e sapatos que continuavam em cima da cama, olhou novamente para sua paleta de sombras e decidiu fazer um olho levemente prateado, com brilho próximo à raiz dos cílios, e usar no restante o verde igual ao vestido. No cantinho externo do olho, esfumou com preto e, por fim, finalizou com um delineado gatinho que acompanhava o desenho que a sombra fez, levantando o olhar da moça.
Então, colocou o vestido que a trajou como se tivesse sido feito sob medida. As alças finas e delicadas de pequenas pedrinhas brilhantes realçaram seu busto, e os cabelos lisos e soltos, junto ao batom nude, deram o toque final para a produção. Ao olhar no espelho o seu todo, se sentiu linda. Hoje nenhuma de suas imperfeições importavam, nem os dedos dos pés que odiava, nem a pequena cicatriz no braço direito que ela tanto implicava, onde se queimou quando pequena. Nada hoje importava. Ela estava bem consigo mesma e nada mudaria isso. E o motivo era ter se arrumado para ela em primeiro lugar, querer se sentir linda para ela mesma. O resto seria consequência.
Enquanto dava o último retoque na maquiagem, a campainha do quarto tocou e um funcionário do hotel trouxe sua janta. Nem a própria sabia que tinha tanta fome – ao dar a primeira garfada que teve noção do quanto precisava de alimento. Retocou o batom logo depois de escovar os dentes, passou seu perfume e conferiu o horário uma última vez. Então, apanhou a pequena bolsa preta e se dirigiu ao elevador que a levaria para o térreo.


•••


O piloto australiano esperava no sofá da recepção do hotel e, despreocupado, mexia no celular. Vestia uma camisa branca e jaqueta jeans de lavagem média e suas usuais calças skinny pretas. Quando viu a porta do elevador se abrir, levantou levemente o olhar do telefone para checar e arregalou os olhos ao ver ali. Quando comprou o vestido para a moça junto com Emily, não imaginou o quanto ela ficaria ainda mais linda nele. Estonteante seria a palavra certa.

— Fecha a boca, , se não vai cair baba — chegou rindo perto dele, que ainda parecia em estado de hipnose ao olhar para ela.
— Oi, — disse ainda com os olhos meio vidrados no corpo da moça. — Desculpe, mas você tá muito bonita, força do hábito — deu de ombros, fazendo a fotógrafa revirar os olhos e soltar um riso nasalado.
— E então, pra onde vamos? — tentou disfarçar o pequeno desconforto de antes, então ofereceu o braço para acompanhá-la para fora do hotel.
— O nome do lugar é Cova Santa. É uma balada bem boa aqui de Ibiza.
— Você não se cansa de me surpreender, né, ? — falou, extremamente surpresa e feliz. Afinal, ele e os amigos se importavam tanto com ela que tornariam seu desejo uma realidade de uma maneira super especial.

Os dois foram a caminho da rua, e ficou encantada com a McLaren 675LT Spider azul. Sempre gostou de carros, então sabia qual era o modelo em questão, mas jamais havia andado em um desses.

— Andando no carro do concorrente, ? — arqueou a sobrancelha em direção ao australiano.
— Sempre amei esse modelo. Tenho uma igual em Mônaco, mas não pega bem andar de McLaren por aí toda hora…
— Tem razão — concordou, rindo.

se apressou e deu a volta para o lado do carona, a fim de abrir a porta no estilo tesoura para a moça, que agradeceu em seus pensamentos por ele ter feito tal coisa. Jamais saberia manusear uma porta que abria para cima.
Os nervos de estavam à flor da pele, sua ansiedade ainda a mataria. Sabia que esse era um defeito, mas ela não conseguia evitar – talvez estivesse também confundindo com empolgação.
Em poucos segundos, já estava dentro do carro, então olhou para a moça e deu um sorriso. Ele parecia tão empolgado ou mais do que ela. Ligou o som e conectou com o próprio celular; em seguida, entregou à garota o aparelho para que ela escolhesse alguma música de sua playlist.

— Caramba, , você precisa de músicas melhores! — exclamou depois de uns dois minutos procurando alguma música, sem sucesso. Todas pareciam extremamente ruins.
— Ah, nem vem você também dizer que meu gosto musical é ruim — ele começou a rir, já que dificilmente alguém também gostava de suas preferências.
— Tô falando sério! Vou colocar uma playlist minha aqui — a garota zapeou no celular de até encontrar seu próprio perfil no Spotify. — Essa é perfeita para um clima pré-festa. Aprende comigo.

Coloque Ocean Drive, do Duke Dumont para tocar

Quando a batida começou, a moça mexeu a cabeça no ritmo e de olhos fechados, cantando somente com os lábios a letra da música.

We're riding down the boulevard
(Estamos andando pela avenida)
We're riding through the dark night, night
(Estamos andando pela noite escura, noite)
With half the tank and empty heart
(Com metade do tanque e o coração vazio)
Pretending we're in love, but it's never enough, nah
(Fingindo que estamos apaixonados, mas isso nunca é o suficiente)
As the sirens fill the lonely air
(Enquanto as sirenes enchem o solitário ar)
Oh, how did we get here now, now, now, baby?
(Oh, como chegamos aqui agora, agora, agora, baby?)
We see a storm is closing in
(Nós vemos uma tempestade se aproximar)
Pretending we ain't scared
(Fingindo que não estamos assustados)

— Tenho que admitir, , seu gosto musical é muito bom. Curti a escolha. Nas próximas vezes a música será por sua conta!
— Vão ter próximas?
— Você quer se livrar de mim tão fácil? — ele devolveu a pergunta.
— Não disse que quero me livrar, só fiquei surpresa.
— Hmm — murmurou, por fim, quando ligou a seta para entrar no estacionamento da boate.

Uma fila de umas trinta pessoas se formava na frente da entrada do lugar, todas muito bem vestidas e bonitas. estava receosa se abria a porta do carro ou não. Aquilo parecia tão diferente do que estava habituada que, enquanto pensava, viu abrir a porta e estender sua mão para a moça sair do carro.
Foram em direção à fila, caminhando lado a lado. notou alguns olhares nele e em , mas resolveu ignorar. Sabia os motivos: ele, um piloto de F1 reconhecido mundialmente, e a garota ao seu lado chamava a atenção por sua beleza.

— Aqui é bem movimentado, né? — a ítalo-brasileira puxou conversa quando pararam na fila.
— É, mas aqui é uma das melhores baladas de Ibiza.
— Com licença, ! Posso fazer uma foto com você? — uma moça muito bonita, loira de olhos azuis, se aproximou deles. olhou como se pedisse permissão a , que sorriu e se ofereceu para fazer a foto. — Obrigada! Inclusive, sua namorada é linda, ! — disse ela, que depois da foto feita, se apressou para sair dali.
— Obrigada, mas ele não é meu namor… — então desistiu de terminar a frase, já que a moça não ouviria mais.
— Hey, tirou a fotógrafa do seu leve devaneio, tocando a pele gelada de seu ombro. — Vem, não precisamos mais ficar na fila.

O choque causado pela mão quente de fez com que o corpo de se arrepiasse por inteiro, mas a social media o seguiu enquanto tentava entender sua reação ao toque dele.

Coloque On & On, do Alok & Dynoro para tocar

A música já começava a tocar quando eles adentraram a porta do recinto, onde o segurança lhes deu passagem antes dos outros. Automaticamente, o corpo de começou a se mexer levemente no ritmo da batida enquanto caminhava guiada por à sua frente.
Em uma das laterais da boate, pôde ver Lando, Carlos, Isa, Ems e George conversando ao redor de uma pequena mesa, bem animados. Quando chegaram, todos os amigos, um a um, vieram abraçar e desejar várias coisas boas à amiga.
Logo um funcionário do lugar trouxe um pequeno bolo rosa, com inúmeros macarons e flores. No topo estava escrito “Twenty Two”, além de, claro, duas velinhas douradas com os números dois. Os olhos de brilhavam. Ela estava completamente feliz e com pessoas que tinham se tornado importantes para ela. Os amigos cantaram parabéns e tomaram a famosa dose de tequila para inaugurar uma boa festa. Logo todos já dançavam animados as músicas do DJ no lugar.
avisou Emily e foi até o bar à procura de um drink, e lá decidiu por um Sunset Martini que levava doses de Absolut, purê de maracujá, xarope de baunilha e morango. Enquanto esperava sua bebida ficar pronta, olhou para o lado e, a uma distância de quatro cadeiras, notou a presença de alguém conhecido. Ele bebericava um copo de uísque com os cotovelos apoiados no balcão, de costas para o bar.
Por um breve instante, a garota teve um déjà vu. Ela tinha certeza que aquela cena não era estranha aos seus olhos. Por mais que não lhe agradasse ver ali, ela tinha que confessar que, naquela cena, ele ficava extremamente bonito.
pegou o drink e tomou o primeiro gole. A bebida, além de saborosa, eletrizou todo seu corpo. Higher Love, do Kygo e Whitney Houston tocava quando se aproximou das amigas, e as três meninas começaram uma mini coreografia juntas, ao ritmo da música, enquanto riam à toa e se divertiam. A batida era contagiante, e o corpo de já se movia sozinho. Quando terminou o drink, apoiou a taça em cima da mesa onde estavam antes e continuaram a dança até o final da canção.
Depois de uma série de músicas dançadas, a aniversariante da noite sentou-se em um dos sofás próximo a ela, a fim de descansar um pouco. Encarou o morango ainda cravado no copo do drink que tomara pouco antes e sentiu vontade de comê-lo.



As músicas de hoje estavam boas demais. Desde que chegamos, não parei de dançar um minuto – uma coisa difícil, devo admitir, já que geralmente prefiro tomar um drink e observar o movimento.
era um dos motivos de eu não ter ficado parado também. Ela dançava o tempo todo, sem parar, e isso não contagiou só a mim, mas todos nossos amigos. realmente estava muito bonita, e os olhares em cima dela não eram poucos, mas tenho certeza que ela nem percebeu. Estava ocupada demais se divertindo.
Quando a vi indo se sentar, com uma taça vazia de seu último drink na mão, presenciei em seguida a cena mais sexy de toda a noite. Ela não comeu o morango de um jeito normal, e por aqueles breves segundos em que mordia a fruta, desejei ser a própria.

— Tá caindo uma baba aqui, — Ems brincou comigo, pois também assistiu toda a cena. — Mas te entendo. Se eu não fosse hétero, não me escapava — tomou mais um gole do liquido de seu copo. Peguei-o e tomei um também, eu precisava refrescar meus pensamentos. — Mas dou o maior apoio, viu? — ela terminou quando devolvi seu copo, quase sem a bebida.

Resolvi ir até o lado aberto da boate para clarear os pensamentos, eu só podia estar ficando bêbado. Com toda certeza o ar fresco me traria algum juízo. Mas será que eu queria esse juízo?
Me apoiei na grade e ouvi o som da água batendo nas rochas, abaixo de onde estávamos, e por uns breves momentos não pensei em nada.


A festa continuava super animada. Porém, havia sumido da vista de , e acabou se aproximando para cumprimentar os colegas de trabalho, que, consequentemente, estavam juntos da moça.

— Boa noite — chegou com sua namorada ao encalço, quem reconheceu do paddock. — Como estão? — ele fez um cumprimento geral.
— Bem, cara! — George saudou o amigo com um meio-abraço e um aperto de mão. — Que bom que você também veio.

Agora fazia todo sentido ele estar ali. George devia ter comentado algo.

— Sim! Acabei resolvendo comemorar meu aniversário só hoje, já que foi durante a semana — deu de ombros e fitou a fotógrafa. — Seu aniversário também foi por esses dias, não? — apontou para , que se segurou para não revirar os olhos, tamanho era seu ranço pelo piloto monegasco.
— Foi ontem… — ela deu um sorriso sem muita empolgação
— Parabéns, então! — ele veio em sua direção, deu-lhe um meio-abraço e um beijo no rosto, próximo demais da boca pro gosto dela.
— Digo o mesmo, piloto — respondeu mais séria. Ela não gostava da forçada de barra que vinha fazendo nos últimos dias.

Quando o monegasco se afastou, ela pôde sentir um aroma conhecido, então outro déjà vu: aquele perfume era conhecido por seu olfato. Culpou a bebida; afinal, de onde estavam vindo todas aquelas impressões se mal podia olhar para sem ter vontade de socá-lo?
Depois de mais algum tempo, estava de volta. Ele tinha um semblante tranquilo e acompanhou a moça e os amigos em mais algumas músicas. Quando Carlos e Isa resolveram ir embora, foi se sentar junto a um Sex on the Beach. Logo após, Emily veio se despedir da amiga, e ela e George seguiram o caminho para o hotel também. A essa altura, Lando Norris tinha sumido há algum tempo, e dançava sozinha na pista.

“Agora como não pode faltar um bom e velho set de Enrique Iglesias para nossos sobreviventes dessa noite.”

Música latina, ainda mais de Enrique Iglesias, era certamente o que a aniversariante precisava para finalizar sua noite com chave de ouro. Quando os primeiros acordes de Tonight (I’m Lovin’ You) começaram a tocar, estendeu os braços para cima e começou a mexer o corpo, rebolando no ritmo da música. Ali, ela estava ainda mais livre, porque sabia exatamente como dançar aquelas músicas. Se sentia em casa.
Cada palavra cantada por seus lábios tornavam a moça mais convidativa, e assistia a performance vidrado. O australiano jamais havia visto algo parecido.
E podia jurar que na frase “please, excuse me, I don't mean to be rude, but tonight i’m lovin’ you” parecia sibilar olhando em seus olhos e em sua direção. Mas resolveu tentar esquecer, já que o efeito do álcool estava acentuando seus desejos mais profundos. Com o copo apoiado em uma de suas pernas, fechou os olhos e deixou sua mente levá-lo aonde ele queria terminar essa noite, e mais uma vez sua missão de tentar esquecer tinha falhado.
Algum tempo depois – não saberia precisar quanto –, a mesma música voltou a tocar, porém em sua versão mais picante. Então, parou de dançar e veio em sua direção, sorrindo.

— Impressão minha ou o nível sexual das músicas tá aumentando? — falou, inocente.

A moça estendeu o braço para pegar a bebida de , que, ao contrário do copo, pegou a mão dela e a guiou para se sentar em sua perna. Então, em segundos, ele estava fazendo o que mais desejou desde que a viu no hotel naquela noite: beijando-a com todo o desejo que percorria em suas veias.
Quando passou a mão perto de sua nuca, fez com que não só os pelos do local eriçassem, como outras coisas mais. E assim fez também com que o beijo fosse ainda mais aprofundado.
As mãos de , que repousavam nas coxas da moça, foram de encontro à sua cintura, com o intuito de virá-la mais para si e deixar tudo ainda mais intenso para os dois. As línguas faziam uma dança perfeita, como se já se conhecessem. E por mais que não fosse o desejo de nenhum acabar com o beijo, o ar se fez necessário, fazendo com que as duas bocas se descolassem e restassem dois corpos muito próximos e ofegantes.

— Vamos? — pediu já de pé, estendendo a mão para que a seguisse.

O que nem passava pela cabeça dela naquele momento era que outras pessoas haviam presenciado o acontecido, e talvez não estivessem tão felizes com o que tinham visto.
O caminho até o hotel foi silencioso. Ambos estavam no banco de trás da McLaren, que era dirigido por um motorista contratado previamente para deixar os dois de volta ao hotel em segurança. encostou a cabeça no ombro de e praticamente dormiu durante o caminho; já o piloto tinha um sorriso presunçoso nos lábios.
Quando o carro parou em frente ao hotel, a fotógrafa acordou instantaneamente. Os dois agradeceram ao motorista e seguiram para o elevador. A noite tinha sido fantástica, e quando o elevador parou no sétimo andar, saiu junto a sem nem mesmo questionar se estavam hospedados no mesmo piso.

Coloque I Want To, do Rosenfeld para tocar

— Você vem dormir aqui no meu quarto? — questionou o moreno.
— Você achou mesmo que ia me dar só aquele beijo na festa?

não esperou para atacar novamente os lábios de . O cartão de acesso ao quarto – que já estava em sua mão – foi acionado, então o corpo da moça foi colado na parede ao lado da porta, sendo prensado totalmente por ele. O piloto fechou-a com o pé e partiu para o pescoço da garota, que lhe pareceu tão convidativo a noite toda.
A excitação dos dois era completamente nítida. colocou suas pequenas mãos por dentro da jaqueta que vestia, em direção aos seus ombros, para que pudesse tirá-la de seu corpo. A camisa branca tomou o mesmo rumo, e logo ela pôde olhar com luxúria para o tronco descoberto do piloto. Algumas tatuagens distribuídas pelos braços o deixavam ainda mais convidativo.
Ele voltou a beijar a garota com ainda mais veracidade, impulsionou-a para subir em seu colo e foi levando-a cuidadosamente para a cama. A realidade era que nem mesmo tinha parado para pensar em tudo o que acontecia – ele estava alucinado em , e naquele momento nada realmente parecia existir, só a morena em sua cama. O tesão e a excitação corriam por cada uma de suas células, e ele não poderia estar menos duro. Sentia sua calça ficar cada vez mais apertada em seu corpo.
Lentamente quebrou o beijo e fitou o busto da moça, ainda vestido pelo tecido verde-claro. Deslizou as finas alças pelo braço dela, enquanto não perdia tempo em atacar seu pescoço, o deixando ainda mais excitado. Em um momento de lucidez, em meio a tantas sensações, partiu o beijo mais um vez e olhou nos olhos da garota.

— Tem certeza? — pediu, receoso, não que estivesse a fim de parar.
— Meu coração tá fechado pra assuntos de amor, mas meu prazer não, .


Capítulo 7

🇪🇸 Ibiza – 20 de outubro de 2019, domingo

Continue ouvindo I Want To, do Rosenfeld


O pequeno zíper do vestido foi abaixado lentamente pelos meus dedos, e parecia uma tortura da mesma maneira que era extremamente viciante fazer isso comigo mesmo. Ela estava ali, tão entregue ao momento quanto eu. Suas unhas arranhavam levemente minhas costas, enquanto seus lábios macios brincavam entre minha clavícula e o pé do meu ouvido, me causando ainda mais arrepios.

— Você tá me torturando — ela soltou, em meio a gemidos que tentava conter.
— É? — minha voz saiu rouca, tamanho era o tesão que me tomava.

Deslizei o vestido pelo seu tronco, vendo seu peito subir e descer mais rápido. tentava controlar suas reações, mas mal sabia ela que aquilo me deixava ainda mais alucinado. Eu estava conseguindo deixá-la do jeito que eu queria; suas reações ao meu toque eram todas correspondidas.
Tirei por fim o pano verde, tendo uma visão que, com toda certeza, era uma das mais belas que eu já havia visto. Uma lingerie de tecido preto e fino rendado cobriam seus seios, e pequenas tatuagens distribuídas pelo corpo a deixavam ainda mais sexy. Sua pele estava tão arrepiada quanto a minha, eu estava indo à loucura. Meu tesão parecia aumentar a cada segundo.

— Minha vez — num conjunto de movimentos, ela inverteu nossas posições. E o que eu achava que não podia melhorar, melhorou. A visão que eu tinha de todo seu corpo em cima do meu fez com que eu quisesse estar sem mais nenhuma roupa.

Um gemido sôfrego e praticamente sussurrado no meu ouvido denunciava o seu estado. Uma trilha de beijos quentes e molhados foram distribuídos, um a um. Pareciam uma tortura, mas eu não queria deixar de senti-la tocar meu peito e abdômen com seus lábios – até que foram parar próximos ao cós da minha calça. Eu estava pronto para pigarrear por mais, mas o botão foi aberto e o zíper também, mostrando meu completo tesão por ela, que logo me encarou com luxúria. Ajudei a colocar minha calça no mesmo caminho do resto das roupas; então, à procura de mais contato, levantei meu tronco e fiz com que ela se sentasse praticamente em meu colo, roçando sua intimidade na minha ereção. Lentamente procurei o fecho do sutiã e fiz com que mais uma peça se dispersasse pelo chão do quarto.
Seu corpo parecia incendiar. Afastei-a levemente para que pudesse tomar um de seus seios em minha boca e ocupar minha mão com o outro.



O prazer irradiava de cada terminação nervosa do meu corpo, e, para ser sincera, nunca pensei que terminaria minha noite assim. não tinha se mostrado um mero amador no assunto, desde como agarrava minha cintura, a pressão que fazia para colar ainda mais seu corpo no meu… até como me tocar e me fazer delirar ainda mais. Eu estava mais molhada do que imaginava.
ficava ainda mais atrativo nu. A bebida me deixou mais solta e desinibida do que normalmente seria, e devo admitir que eu estava me sentindo ainda mais realizada fazendo o que tinha vontade e me dava mais prazer. Sem tabus, sem pensar em consequências. Hoje seria eu e , sem adendos de qualquer outra coisa da vida profissional.

— Desse jeito eu não vou aguentar muito tempo — falei com um fio de voz, enquanto quase chegava ao meu ápice com os estímulos de sua língua em minha intimidade.

Luxúria e desejo exalavam dos nossos corpos, que pouco a pouco ficavam levemente suados. Fui agarrada pela cintura e senti minha intimidade sendo adentrada sem cerimônia, fazendo meu corpo responder a ação com outro gemido que escapou dos meus lábios.
O sobe e desce controlado pelos meus movimentos em cima de sua ereção eram lentos e menos intensos de início. Um conjunto de gemidos roucos saíram da boca de , me trazendo mais satisfação ainda. Busquei suas mãos e as pousei em minha cintura, a fim de me equilibrar e intensificar a velocidade. A cada descida eu sentia suas mãos ficarem ainda mais firmes em mim. O ambiente começava a ficar mais quente a cada momento, e cada estocada me deixava mais próxima do ápice.

— Eu... eu vou… gozar — falei em meio aos gemidos que saíam involuntariamente da minha boca, junto à minha respiração que ficava mais pesada.

Pouco tempo depois de mim, nós dois tínhamos chegado ao limite do prazer, e seu corpo caiu ao meu lado tão ofegante quanto. Enquanto tentava recuperar a velocidade da minha respiração, eu fitava o teto com um sorriso discreto em satisfação.
Não sei em que momento eu dormi, mas não me lembro de ter visto voltar do banheiro. Acordei assustada justamente por ter pegado no sono.


Após tomar uma ducha quente, voltou para a cama apenas de cueca e tomou o mesmo rumo da morena adormecida ao seu lado.
Quando os primeiros raios de sol atravessaram a janela descoberta pelas cortinas, despertou junto com eles. Procurou sua calcinha pelo chão do quarto e colocou a camiseta branca de , que estava próxima de sua roupa íntima. Em seguida, abriu a janela da sacada – devagar, para não acordá-lo – e ficou admirando o nascer do sol tímido no horizonte iluminar a imensidão do mar azul de Ibiza. Todos os detalhes da noite passada invadiram sua mente, e ela estava feliz. Tudo tinha sido perfeito e parecia estar no lugar de novo.

— Hmm — ele pigarreou, sonolento. — Bom dia, — a voz de adentrou o silêncio da manhã.
— Acordei você? — ela perguntou, preocupada em ter feito barulho demais ao abrir a janela. A garota sabia que podia ser tão silenciosa como um elefante sem querer.
— Dei falta de você quando me virei na cama pra te agarrar de novo…
— Ah — fingiu normalidade e riu um pouco. — Peguei sua camiseta emprestada, nada mais clichê, mas você sabe — deu de ombros —, meu vestido não seria tão confortável agora…
— Tudo bem… desde que eu possa tirar ela também — deu um beijo no pescoço da moça a abraçou por trás.

Os dois ficaram olhando o nascer do sol por mais um tempo, em silêncio, apoiados no corrimão da sacada. Então, decidiram entrar e dormir mais um pouco, ou quase isso...
Próximo ao meio-dia, o piloto dormia um sono tranquilo com um leve sorriso no rosto, que fez dar um leve riso ao ver a cena. Ela colocou vagarosamente seu vestido, pegou sua bolsa e seus sapatos e foi caminhando em passos leves até a porta. Então, girou a maçaneta com cuidado.

— Você sabe que quem deveria sair de fininho depois de uma transa seria eu, né? — ouviu a voz rouca de vir da direção da cama.
— Ah! Cala a boca, — se virou pra trás e riu. — E olha o machismo... — estreitou os olhos, ainda com um sorriso nos lábios. — Tchau pra você — saiu, fechando a porta e indo em direção ao elevador que a levaria para seu quarto.


🇲🇽 México – 25 de outubro de 2019, sexta-feira

Mais um país diferente pra conta e um final de semana novo cheio de trabalhos e emoções para viver. Cores vibrantes por todas as partes, aquilo era o México: alegre e cheio de vida. Junto de tudo isso, estava feliz, leve. Com seus usuais fones de ouvido, adentrou o paddock pelas tradicionais catracas e foi de encontro a Emily para começar tudo de novo. Dessa vez, fariam algo totalmente diferente do comum: sairiam pela grande capital mexicana a fim de produzir fotos dos costumes locais.

— Ems, temos que pensar em algo legal para os mexicanos. A energia deles é surreal! Eles amam mesmo Fórmula 1.
— Sabe que eu pensei a mesma coisa? Mas como poderíamos fazer? — perguntou enquanto desciam do carro de aplicativo que as tinha deixado em uma rua movimentada.

O centro da Cidade do México era tão caótico quanto era de se esperar de uma cidade daquele tamanho. As amigas caminharam um pouco e viram diversas coisas diferentes, dentre elas a cidade toda se preparando para a grande festa que aconteceria em uma semana: o “Día de los Muertos”, uma espécie de Dia de Finados. Cada família levava oferendas até o cemitério, como comidas e flores, a seus entes queridos que tinham partido. Pintavam seus rostos com caveiras e alegremente celebravam a memória de cada um. Não era um dia triste, mas sim um dia de comemorar a memória daqueles que já não estavam mais ali, com festa e comida. Além de, claro, as típicas bandeirolas em cores vivas. Músicos vestidos com uma espécie de terno típico e grandes sombreros tocavam cantigas locais, animando o clima da praça que as garotas se encontravam.

— Eu tenho vontade de levar uma mala cheia dessas lembrancinhas de cada país que a gente passa — comentou.
— Eu também tinha no primeiro ano, inclusive, minha casa é cheia — Emily sorriu para a amiga. — Depois que você vem todo ano, acaba se acostumando.
— Que louco pensar que agora essa é minha vida… — puxou na mente sua rotina nada comum. — Nunca parei pra refletir que agora é assim. Tô vivendo essa aventura um dia de cada vez, e parece que vai acabar logo.
— É assim mesmo, . A rotina é louca e parece coisa de fanfic, mas é o que é… e essa é a magia da Fórmula 1.


•••


Não tinha como negar que a energia de cada GP era única e completamente excitante ao mesmo tempo. Mas a vibe que o México trazia junto com o visual era, com toda certeza, mais única que nunca. A felicidade exalava dali, a energia era de outro mundo, e todos pareciam muito animados; mas não em si só por entrar em seus carros velozes, ou mostrar por quê estavam lutando para dizer que eram os melhores. E sim felizes pela recepção e por tudo o que acontecia ali. Os desenhos de coisas típicas nos escapes da pista eram outro ponto tradicional de toda corrida.
Hoje começaria o restante das gravações do Grill The Grid, um projeto que aproximava muito os pilotos do público e acontecia há alguns anos. pensou o quanto era azarada, já que nas cinco equipes restantes estava a escuderia italiana Ferrari. E o problema era apenas um dos pilotos, mas não era com se ela pudesse jogar fora pela janela do prédio onde estavam.

— Certo, , Alfa Romeo finalizada, Toro Rosso também. Só faltam Ferrari, McLaren e Mercedes.
— Eu te ajudo com a Ferrari, mas você tem que me deixar jogar o golden boy pela janela. O Vettel é tão querido, não sei como aguenta aquele arrogante…
— Eu não consigo entender toda essa implicância, .
Daaamn! Eu sabia — terminou Carlos, rindo.
— Ouça esse áudio e me digam qual circuito é… — prosseguiu Emily.

Lando bateu no sino antes e Sainz protestou; em seguida, o jovem piloto inglês riu e disse já não ter mais certeza. Com mais alguns roncos e trocas de marcha, Sainz aperta a buzina e responde “Baku”, acertando a pergunta.

Yes, baby — provocou zombeteiro o colega de equipe e amigo. — Eu sou muito bom nisso!
— Como você soube exatamente onde era, com só meia volta na pista?
— Aaah, não vou dizer pra você.
— Eu quase tinha certeza, quando ele troca da terceira pra segunda… Eu estava quase lá — lamentou Lando.
— Diga o nome do piloto dessa foto — então, mostrou uma foto de um piloto.
— Não sei — Lando respondeu rapidamente enquanto Sainz ainda a analisava.
— É um piloto da Benneton — titubeou. — Andrea…
— Não. É Alessandro Nannini — acionou o som de resposta errada e deu uma leve risada.
— Essa era difícil, não? — provocou Carlos, olhando pra Lando.
— É chique, mas ele sabe mais, já que é mais velho — retrucou o jovem piloto.
— Nós pedimos a uma criança de sete anos pra desenhar um circuito. Onde é?
— Sete anos de idade… — ele analisou o card que tinha em mãos. — Austin — falou o mais rápido que pôde. Lando, sem acreditar, comparou os dois cards e riu.
— Mostra para a câmera — rindo, Sainz comentou com Lando.
— Pensei que fosse outro, mas enfim — deu de ombros.
— Muito bom trabalho! Continue assim, Lando, e você não vai ter nenhum acerto, mas continue tentando — ele ria cada vez mais do piloto inglês.
— Que piloto de 2019 ganhou as 24h de Le Mans? — os dois soaram a buzina e o sino aparentemente ao mesmo tempo, com uma pequena vantagem de Norris.
— Hulkenberg — afirmou na velocidade da luz o piloto espanhol, deixando Lando com uma cara de indignado.
— Eu… eu apertei primeiro, fui mais rápido — falou, por fim.
— Mas eu disse antes — Carlos esboçou um sorriso sem mostrar os dentes para a câmera.
— Você não pode simplesmente dizer… — Norris continuava indignado. — Isso é uma injustiça — fez bico.

Rindo, os interrompeu e falou que realmente, na sua visão, Lando tinha apertado a campainha um pouco antes.

— Hulkenberg — ele dispara, convencido.
— Ele não apertou primeiro, eu apertei! — Sainz protestou, incrédulo com a constatação de .
— Eu apertei antes, coloquem o vídeo em câmera lenta — Lando riu e fez sinal para rebobinar a gravação.
— Você tá criando uma conspiração…

As meninas, a fim de não cometerem nem uma injustiça com os amigos, pegaram replay e viram que Lando realmente aperta antes.

— Você viu? — falou em tom de cobrança para Sainz. — Nosso relacionamento desmoronou agora. Grill The Grid — finalizou a frase em mais um de seus falsos dramas.

Depois de finalizar a gravação, os dois pilotos da equipe inglesa seguiram se cutucando pela brincadeira e rindo com Emily e . Era fato que a amizade deles sempre rendia vídeos incríveis e fotos sensacionais, e era nítido o quanto os meninos se sentiam à vontade com a dupla de social medias da F1.
Para o fim da alegria de , o momento de fazer o vídeo com a Scuderia Ferrari tinha chegado, e com ele o humor da jovem moça se foi para um além bem distante.

— Bom dia, . Bom dia, Ems — entrou cordialmente Vettel pela sala, com seu usual sorriso.
— Magoei agora. A Ems você chama pelo apelido, eu sempre pelo nome — fazendo um bico, falou com um falso tom choroso.
— Não assim, criança. Eu demorei uma vida pra chamar Emily assim, ela teve até que me xingar — justificou ele, abraçando a garota de lado. — E esse pé? Novo de novo?
— Tá ótimo. Curti meu aniversário no último final de semana em cima de um salto já.
— E pelo jeito mais gente aproveitou a própria aniversariante além da festa… — adentrou a sala com uma cara de descontentamento.
— Como assim? — perguntou Vettel.
— O que acontece, Sebastian… — tentou responder, mas foi interrompida pelo piloto ferrarista alemão.
— Se você quer que eu te chame de , então é Seb pra você.
— Ok. O que acontece, Seb, é que o lírio do campo aqui, além de ser um poço de estupidez, resolveu brotar onde eu vou e também estava na festa. Ficou tristinho porque não foi chamado para a brincadeira... — ela piscou para o monegasco.
— Não entendi, mas eu vou fingir que sim — Vettel tentou amenizar o clima pós-patada.
— O negócio, Seb, é que o trabalho tá no meio de tudo isso…
— Eu vou te dizer só uma coisa, — a garota já estava ficando extremamente irritada. — Minha vida particular não te diz respeito — falou entredentes, deixando Vettel de olhos arregalados em como tinha ficado brava — Se você tem algo pra falar de mim, faça o favor de não envolver meu trabalho, que eu faço com extrema competência. Se você é infeliz com quem está do seu lado, não venha acabar com minha paciência logo na sexta-feira, porque eu infelizmente sou obrigada a te aturar por mais dois dias até o fim do meu trabalho.

Quando ia abrir a boca para retrucar de novo, Emily se meteu na frente dele e pediu para que ele parasse com aquilo.

, posso falar com você? — Vettel puxou a fotógrafa para um canto, enquanto Emily arrumava com o microfone e fazia os testes pra ver se estava tudo ok.
— Claro — então, chegando ao lugar mais afastado dos dois, continuou. — Pode falar.
— Não cai na pilha do . Ele tá gostando de te ver assim, e faz de propósito…
— Eu juro que eu tô tentando, mas quando colocam meu trabalho no meio, o sangue ferve.
, relaxa. Eu não vou julgar você, mesmo que aparentemente você tenha ficado com alguém do nosso convívio. Fora do paddock, sua vida não diz respeito a ninguém.
— Obrigada, Seb, de verdade. Vou tentar me focar no vídeo, e o resto vai ser só o resto.

Os dois voltaram rindo para perto dos outros, e incrivelmente Vettel conseguiu transmitir a paz que precisava para continuar o vídeo e não cometer um homicídio com a aposta da equipe italiana.

— Essa é, com toda certeza, uma pergunta que vocês saberão a resposta — começou. — Em que ano Michael Schumacher venceu seu primeiro títu...
— Em 2000 — Vettel se apressou em responder.
— Pela Ferrari, e sim, está correto — riu da pressa do alemão.
— Você… Ah… Você não tinha…
— É, você não me deixou terminar — ela riu mais um pouco.
— Como estamos na Ferrari, achei que as perguntas seriam só sobre a Scuderia, e falei o ano 2000 — ficou sem graça e riu também.
— Sem problemas. Próxima pergunta… — sorriu de volta ao alemão, que estava mantendo uma expressão serena e brincalhona e deixando mais centrada para fazer seu trabalho, sem se importar tanto com . — Vocês podem dizer quem está jogando bebida em Mika Hakkinen?

Os dois pilotos já estavam esperando o final da pergunta para virar o card e ver de qual foto se tratava. Então, Vettel reagiu tão rápido quanto a primeira e respondeu de imediato:

— Eddie Ervine.

procurava na foto o motivo para o colega ter respondido a pergunta tão rapidamente.

— Aqui, dá pra ler no cinto do macacão dele o nome — ele apontou na foto igual à sua, que estava em frente a .
— Ah, mas eles colocaram Photoshop ali — se entreolharam. — Então três a um pra você, certo? — contabilizou .
— Ainda há tempo de virar o jogo — falou Emily para os pilotos.


•••


Ao final da Ferrari, foi a vez de Mercedes, que, como era de se esperar, as meninas não tiveram maiores problemas – Lewis e Valteri eram divertidos e cordiais, e deixaram o trabalho, simples, rápido e fácil. E como último vídeo teriam a equipe francesa Renault, que Emily havia esquecido que ainda faltava, então conversaria pessoalmente com pela primeira vez depois do final de semana.
Depois do estresse com na gravação do vídeo, ela ficou, de certa forma, receosa. Porque não tinha parado pra pensar em como teria interpretado o que aconteceu entre eles ou como agiria com ela. E nem o que falou teria algo a ver. Mas pensou que talvez poderia ser interpretada diferente de alguma forma. Mal teve tempo para pensar mais sobre o assunto e pôde ver os dois corredores de preto e amarelo entrando na sala.
Para sua surpresa, agiu completamente normal com ela. Nada tinha mudado, e esperava que continuasse assim. deu um abraço nas duas social medias, seguido por Nico, que fez o mesmo. Então, a dupla de meninas começou seu trabalho com a equipe de pilotos que faltava para finalizar o projeto Grill The Grid do ano de 2019.
Nico permanecia conversando com Emily, que terminava de arrumar o material que precisava ser entregue ao pessoal que faria a edição dos vídeos. Já seguiu na direção de , que, como sempre, conferia as redes sociais totalmente concentrada.

— Eu achei que minha roupa preferida em você era o uniforme, mas com toda certeza prefiro você de lingerie na minha cama — sussurrou em seu ouvido.
, por favor! Não fale disso por aqui, pode pegar mal se alguém ouvir.
— Desculpe — levantou a mão em rendição. — Não resisti!
— Não resistiu ao quê. ? — Nico chegou de surpresa com Emily em seu encalço.
— Em assustar a , que como sempre estava distraída — contornou o assunto. Emily riu, imaginando que não era exatamente sobre isso o que falavam...


🇲🇽 México – 26 de outubro de 2019, sábado


Com o último treino livre se aproximando – e claro, seu usual caos de pessoas correndo para todos os lados, com os mais diversos objetos em mãos –, comecei a sentir falta da minha fiel companheira: a câmera. Esse final de semana fiquei tão atarefada com todo o resto que minha parte como fotógrafa ficou adormecida. Por sorte, Emily era muito boa nisso também, e confesso que parecia que eu estava sem uma parte do meu corpo. A adrenalina que os pilotos sentiam com a velocidade era a mesma que eu sentia em estar com minha câmera em mãos e fotografar tudo isso.
Hoje selecionaríamos alguns fãs para criarem maquiagens de caveiras mexicanas em alguns pilotos, mas os fãs não sabiam dessa parte: seriam seus pilotos favoritos, e não outras pessoas. Falaríamos que os fãs teriam que fazer essas maquiagens em algumas pessoas e quem ganhasse a competição, só então conheceria seu piloto favorito.
Como era de se esperar, Sérgio Perez da Racing Point era uma das estrelas dali, por ser o único piloto mexicano do grid. Então conversamos com as equipes que teriam seus pilotos livres após o último treino livre e a qualificação para que pudessem participar da brincadeira.

— Sabe o que é mais engraçado, Ems? — continuou sem esperar a resposta da amiga. — Foi ir até as arquibancadas e achar pessoas que torciam para outro piloto sem ser o Perez. E tinha também que achar fãs do alecrim dourado, Seb, Lance, e do seu amor.
— Você não cansa de implicar com , né? — ela pareceu se ater só ao nome de na frase.
— E você comigo — mostrei a língua. — Mas consegui todos, porque sou incrível — coloquei o dorso das minhas mãos embaixo do queixo e fiz cara de convencida para Ems.
— Você é uma peste, sabia? Mas eu não consigo deixar de gostar de você.
— Ok, chega de melação — ri, divertida. — Onde você colocou as tintas faciais para as maquiagens?
— Ali — apontou para um armário no canto da sala. — Acho que tem tudo que precisamos.

Depois de colocar pequenas mesas do lado de cada cadeira onde os pilotos se sentariam, distribui os kits de pincéis e tintas faciais em cada uma das cinco “estações de maquiagem”. Então, fui até a sala de espera a fim de explicar a cada fã como iria funcionar, sem revelar, é claro, a grande surpresa.

— Ah, Ems — voltei para a porta.
— Ahn? — ela olhou em minha direção.
— Vou deixar a parte de explicar pros pilotos com você, assim eu poupo minha sanidade — ri, então vi Emily revirar os olhos em resposta e logo rir também.

Fui bem saltitante até a recepção do nosso QG para buscar o primeiro fã e, no caminho até a sala, fui explicando o que aconteceria. Pouco antes de chegar à porta, vendei a menina e a levei até a frente de Lance Stroll.

— Juana, preciso te pedir um favorzinho antes de tirar a venda, está bem? — apoiei minhas mãos em seus ombros, e Lance segurava o riso. — Você tem que me prometer que não vai gritar, ok?
Ay, Dios mío (ai, meu Deus) — falou, ansiosa.

Quando tirei sua venda, ela ficou mais surpresa ainda – seu ídolo estava ali bem na sua frente. A garota tapou a boca com as mãos e sorriu igual uma criança ganhando o brinquedo novo que tanto queria.

— Oi, Juana! Posso te dar um abraço? — Lance se levantou da cadeira, cuidadoso.

De tanta felicidade, a menina parecia que ia ter um infarto a qualquer momento, e apenas conseguiu assentir para que o abraço acontecesse.
Olhei para o lado e vi os sorrisos estampados dos outros pilotos na nossa direção. Senti meu coração se encher de felicidade. Aquilo era muito importante na vida de cada fã, e, no meu mais profundo desejo, eu gostaria de que todos eles pudessem ter essa oportunidade com seus ídolos.
Depois de Sérgio Perez, Sebastian Vettel e , chegou a vez de George Russell, que parecia impaciente para receber sua fã.

— Certo, Guadalupe. Como pedi às outras meninas, preciso que você não grite quando eu tirar a venda, ok? — vi a menina de seus dezessete anos morrendo de ansiedade.

Ao tirar a venda de Guadalupe, ela se ajoelhou quando viu George em sua frente. Vendo sua reação, fiquei em choque, e uma lágrima solitária escorreu do meu olho. No mesmo instante, George a pegou no chão e a abraçou, não deixando a menina ali. Ao ver os dois abraçados, percebi que Russell estava tão emocionado quanto eu – lágrimas também escorriam de seus olhos.
Ver aquela cena me deixou arrepiada e emocionada. Ali a gente via o carinho e admiração de fã pelo seu ídolo. Precisei me afastar ainda mais dos dois, porque não queria chorar e estragar tudo. Aquele momento era dos dois, e até Emily me olhava com emoção nos olhos.

— Ems, eu já venho. Vou até o banheiro, se não vou começar a chorar como uma criança aqui — sussurrei no ouvido de Emily, abaixei a cabeça e saí logo da sala.

Depois de devidamente maquiados de caveiras mexicanas muito bem feitas, fizemos fotos com todos, então deixamos os cinco fãs com os cinco pilotos interagirem todos juntos. Quando o tempo acabou, todas as meninas se despediram. Começamos a ajudar os pilotos a tirar as maquiagem depois de mais alguns vídeos e fotos individuais.

— AAH, meu olho, você pode me ajudar aqui? — ouvi uma voz pedindo por socorro. Provavelmente, a maquiagem havia entrado em seu olho.
— Vem cá, eu ajudo você — peguei um lenço removedor de maquiagem e passei com cuidado para que o olho dele parasse de arder. Só sendo mulher para entender o desespero quando isso acontecia.

Incrivelmente era a primeira vez que eu e ficávamos perto e não estávamos trocando farpas. Por breves segundos, senti o hálito mentolado de sua boca entreaberta da respiração calma bater em meu rosto. Talvez não tivesse me insultado pelo fato de ele estar de olhos fechados, e não ter raciocinado de quem se tratava.

— Nossa, obrigado. Agora parou de arder — disse, sem se afastar. Pelo contrário, ele ainda estava perto demais, já que tive que me aproximar para poder tirar a maquiagem de seu olho.
— Já pode abrir os olhos, , não vai mais arder — me virei de costas para o monegasco, voltando a arrumar os pincéis.
— Que bicho mordeu você, ? — pediu, ainda com a voz suave de antes.
— Como assim? — continuei a arrumar os pincéis sem olhá-lo. Por algum motivo desconhecido, eu estava ficando nervosa em sua presença.
— Você não está me atacando como sempre… — o tom de sua voz não era de desdém como o habitual. Era realmente uma dúvida.
— Porque eu não fui atacada. Se bem me lembro quem começou com tudo isso, foi você. Eu só não levo desaforo pra casa.

Quando me virei novamente para levar o estojo de maquiagem de volta ao armário onde os peguei, novamente me deparei com ainda parado do mesmo lugar, fazendo com que meus reflexos não me ajudassem e meu corpo se encontrasse com o dele. Suas mãos seguraram minha cintura para voltar ao meu equilíbrio e não fazer o que eu fazia de melhor desde que cheguei nesse trabalho: cair.
Nos segundos seguintes, que pareceram muitos minutos, pude observar seus olhos intensamente verdes e ter a sensação de já tê-los encarado daquela forma. Logo tomei consciência e pedi licença, saindo daquela situação embaraçosa.


🇲🇽 México – 27 de outubro de 2019, domingo

Com a punição do piloto estrela da Red Bull, Max Verstappen foi jogado para o quarto lugar. Sofreu penalização de três posições por não ter desacelerado quando a bandeira amarela foi balançada pela batida do finlandês Valteri Bottas, e deixou para o pole position da corrida. Nada anormal desde a metade da temporada de 2019 ter as duas Ferraris nas primeiras filas do grid. A corrida teve emoção e, com toda certeza, manteve todos que a assistiam apreensivos para saber seu resultado.
Lewis e Max foram parar na grama em uma das primeiras curvas e perderam algumas posições. A equipe alemã voltou para o topo com as estratégias perfeitamente executadas, e a Mercedes garantiu o pódio para a equipe em primeiro e terceiro lugar. Vettel conseguiu se manter na segunda colocação; já , que usou de uma estratégia ruim de duas paradas, terminou em quarto lugar.

— Ficou em uma posição boa, — sorrindo, apareceu próxima ao QG da Renault e abraçou o piloto.
— Eu fui super bem, mas problemas de motor, né — Norris apareceu fazendo bico.
— E eu estou muito orgulhosa de você mesmo assim — ela também abraçou Lando. O piloto sempre se demorava mais do que o necessário nos abraços, mas sabia que o amigo já tinha entendido que nada aconteceria ali, ou esperava que sim.
— Tequila? — Emily apareceu e viu três sorrisos vindo dos amigos. O destino certamente seria um bar e algumas boas doses de tequila, para relaxar e rir um pouco.

Depois de reunir o grupo de amigos ainda pelo paddock e combinar de irem a um bar tipicamente mexicano, foram cada um para seus hotéis se arrumar.
Emily tinha insistido para irem maquiadas a caráter, e ela mesmo tinha comprado tiaras com as flores vermelhas para o cabelo. Faltava só a maquiagem. As amigas se arrumaram no quarto dela.
resolveu não abusar e fez um olho em tons de roxo e lilás, apostando em um olho gatinho de delineado. Aproveitando a caneta delineadora, fez alguns arabescos na bochecha e um que partia do cabelo até perto da sobrancelha esquerda. Pintou a ponta do nariz de preto como se não existisse, igual a de uma caveira, e fez riscos na boca para simular os dentes. Estava pronta. Emily estava exatamente igual à , que estava sem criatividade para outra maquiagem e acabou fazendo a mesma, porém com a sombra rosa e azul.


•••


— E aí, , vai ficar mais dias aqui no México? — cumprimentou o piloto australiano com um aperto de mão e um meio abraço.
— Meu voo sai amanhã final do dia. Hoje vou aproveitar com o pessoal num bar aqui perto, e você? — respondeu, sorrindo como de costume. Ele e tinham uma boa amizade, já tinham saído vez ou outra.
— Vou em um bar com Gasly, mas não faço ideia o nome. Talvez até seja o mesmo.
— Não duvido — riu nasalado. — Mas trocando de assunto, parabéns pela quarta colocação — parabenizou o bom desempenho do monegasco.
— Ah! Valeu, cara — ele pareceu desapontado. — Má estratégia de equipe, mas faz parte do jogo. Você também conseguiu uns pontos bons, . Parabéns! — novamente deram um aperto de mão.

Logo e Emily apareceram com pinturas de caveiras e com roupas pretas justas, que chamaram a atenção dos dois pilotos na recepção do hotel.

— Fiu, fiu — rodou Emily em forma de elogio, enquanto seguia vidrado em , que, como sempre, mexia distraída no aparelho celular.
— Oi de novo — ela riu para e fez um aceno com a cabeça para . — Vamos? George, Carlos e Lando já estão lá — olhou o celular de novo. — Ah, e pelo jeito Albon vai estar também.
— Sim, é o mesmo lugar — olhou para e os dois riram, deixando as meninas sem entender.
— Quê? — Emily pediu, tão confusa quanto .
— Nada não — deu mais uma risada, mostrando seus dentes perfeitamente alinhados e brancos, no seu típico sorriso largo. Em seguida, balançou a cabeça, incrédulo com o fato de que e Emily seguiam confusas.


•••


O bar era, em sua maioria, em tons quentes de laranja devido aos tijolos por todos os lados e às luzes mais amareladas, para trazer a sensação de aconchego ao lugar. De certa forma, até ofuscavam as bandeirolas coloridas da decoração temática do Día de los Muertos, que aconteceria em alguns dias.
, e Emily chegaram no local e encontraram o restante dos amigos todos sentados numa mesa enorme, o que fez as fichas de Emily e caírem sobre a frase dita por no hotel. Por acaso eles estariam no mesmo bar e acabariam por fim ficando na mesma mesa – o que, claro, não agradou nem um pouco.
Ao contrário do que pensou, a atmosfera na mesa estava leve e divertida. Alex Albon e Pierre Gasly eram dois palhaços e faziam piada de tudo.

— Como é aquele lance pra tomar a tequila? — perguntou sem lembrar como era a fala.
Arriba, abajo, al centro y adentro — falou Carlos, já rindo à toa. Provavelmente já devia ter tomado algumas doses de tequila; ele não era risonho nesse nível o tempo todo.
— Nossa, verdade, não lembrava — parecia levemente alto e também à vontade, diferente de todas as vezes que estava perto de , já que viviam implicando um com o outro.
— Vamos todos? Se não, não é beber tequila de verdade sem esse rito — Emily se pronunciou depois de pelo menos dois martelinhos de tequila.
ARRIBA, ABAJO, AL CENTRO Y ADENTRO — todos falaram mais alto enquanto imitavam os movimentos de acima, abaixo, no centro e adentro, tomando por fim o martelinho de tequila e chupando o limão para diminuir a queimação do líquido alcoólico.



Bebida, você maquiada e mais linda ainda tá me despertando lembranças…
Só a música que não tá igual, mas puta merda, você poderia ser menos gostosa, né?


viu as mensagens e resolveu ignorar. Ela não sabia ao certo qual eram as intenções de , mas ela certamente não queria nada de envolvimento amoroso. Uma transa casual? Sim. Um amigo colorido? Sim também, mas não queria pensar em nada mais que isso.
Resolveu, por fim, fazer uma foto de seus tacos que tinham recém-chegado e do outro martelinho de tequila. Enquanto terminava de enquadrar a foto, recebeu uma notificação de mensagem pelo Instagram.



Você não larga esse celular nunca, né?


Terminou de fazer a foto, postou nos stories e, então, sentou-se. Encarou o monegasco com cara de incredulidade e tédio antes de responder:


Você não consegue ser legal nem bêbado?


Eu não estou bêbado, mas ao menos todos gostam de mim aqui...


Ops, não sou todo mundo, e não gosto de você.


Achei que tínhamos evoluído alguns graus.
Você nem foi estúpida comigo mais cedo no paddock…


O quê? Lá eu sou obrigada a te aturar, querido. Melhore uns bons por centro e quem sabe eu considero ser mais educada com você.


No meio de uma troca de farpas usual com , recebeu uma mensagem ácida vindo de :


Pelo visto, o tá mais interessante de responder…


! Não vou trocar você nunca, eu não suporto . Mas ele consegue testar minha paciência com certa frequência.


E, para a infelicidade da garota, estava atento ao celular que tinha acabado largado na mesa com o visor virado para cima.


Não me suporta, é? Mas tá me respondendo antes que o teu namoradinho…


E assim o coração de bateu pelo menos vinte vezes mais rápido. Sair com os amigos nunca era algo normal ou simples...


Capítulo 8

🇺🇸 Estados Unidos – 1º de novembro de 2019, sexta-feira


Eu continuava achando o máximo estar em pelo menos três países diferentes em um mês. Era sempre a mesma coisa, mas em um país diferente, e eu não deixava de amar. Tirando os fãs, as pessoas eram as mesmas; os carros, os mesmos, e as estruturas praticamente sempre as mesmas. Mas o ar de cada lugar era diferente. Não sei explicar, mas era divertido.
Eu tinha chegado cedo no paddock e resolvi me exercitar pela pista, que aparentemente estava vazia. O sol estava tímido por ali, e eu sabia que, quanto mais a manhã avançasse, mais infernal ficaria. Austin ficava no Texas, e só de pensar, já ficava com calor. Eu amava o inverno, mas infelizmente a gente perseguia o verão o ano inteiro pelos continentes, e eu só teria meu amado inverno nas férias de final de ano.
Saí do vestiário que tínhamos no QG de top, legging e meu inseparável tênis de corrida. Fiz os tradicionais alongamentos e um pequeno aquecimento para começar uma das três voltas que eu pretendia fazer pelo circuito. Ele era gigante, mas tenho certeza que conseguiria. Se não correndo, faria andando – como era cedo, eu tinha esse tempo.
Coloquei meus fones e selecionei uma playlist de músicas de rock. Comecei minha corrida em um ritmo mais lento de trote. Fui curtindo um bom e velho rock n’ roll e, como sempre, várias memórias da minha adolescência voltaram como um furacão. Todos os momentos felizes, mas os tristes também. Em específico, algumas músicas me lembravam pessoas que me magoaram e pessoas que me fizeram muito bem. Sabia que não era legal associar uma música para elas, mas eu fazia mesmo assim. Talvez fosse um jeito de aprisionar essas lembranças ali.

Coloque Gotta Be Somebody, do Nickelback para tocar

Flashback on

O dia estava lindo, mas eu estava arrasada mais uma vez, então tudo parecia triste e sem cor. Eu era apaixonada pelo meu melhor amigo – que sabia disso –, e eu era feita de trouxa mais uma vez, achando que teríamos uma chance algum dia. Eu tentava analisar cada entrelinha das nossas conversas para tentar achar qualquer resquício de que ele também sentiria a mesma coisa que eu sentia por ele.
Até que hoje, minhas colegas – que também sabiam que eu gostava dele, afinal, isso infelizmente já não era nenhum segredo pra ninguém – chegaram e disseram que ele estava ficando com uma amiga e colega de sala. Fiquei ainda mais arrasada e decidi que não me machucaria ainda mais; que se não conseguisse, ao menos tentaria. Mas achei que seria fácil.
Depois da aula, corri para casa e me tranquei no quarto, só tinha vontade de chorar. Minha mãe entrou no meu quarto e perguntou por que eu estava naquele estado.
— Oi, filha, por que você tá chorando?
— Ah, eu descobri que a Aline tá ficando com o Guilherme, e parece de propósito. Tá doendo, porque eu não queria mais gostar de quem não gosta de mim.
, a gente não consegue mandar tão fácil assim no coração, nem escolher por quem se apaixonar.
— Eu só escolho gostar de quem não gosta de mim... — funguei e demonstrei toda minha frustração em uma respiração pesada.
— Se o Guilherme não te faz bem, nem como amigo, vá se afastando dele aos poucos. Quando você menos perceber, ele vai ser só uma lembrança triste e distante. Quando a sua pessoa chegar, você vai saber. O coração vai acelerar, a mão vai suar, você vai sentir vontade de estar perto dessa pessoa sempre. E quando vocês estiverem juntos, o tempo vai voar e parecer parar simultaneamente. E então, quando você perceber, vai estar apaixonada pela sua pessoa. Mas não confunda isso com as paixões que podem aparecer antes dela. Quando a sua pessoa aparecer, o mundo vai ficar mais colorido. Quando você olhar no fundo dos olhos dela, vai conseguir imaginar sua vida inteira ao lado dela.

Flashback off



Eu tinha mais uma vez fechado meu coração depois do que Martín havia feito, mas ele não ficaria assim pra sempre, e talvez ele mesmo fosse me dizer quando essa hora tivesse chegado.
O comprido tapete preto de asfalto tinha conjuntos de curvas que exigiam minha atenção em certos pontos para balancear meu peso enquanto as fazia. Com seus passos leves e quase imperceptíveis, notei que Valteri Bottas me acompanhava na corrida. Tirei um dos earpods e sorri para o finlandês.

— Você também prefere o ar fresco da manhã? — o piloto sorriu de volta.
— Sim, achei que era a única por aqui… Não queria atrapalhar ninguém — falei com vergonha por estar talvez atrapalhando sua sequência de exercícios.
— Não atrapalha, . Eu gosto de companhia, mas todos me chamam de louco por acordar cedo e correr — riu nasalado enquanto mantínhamos um ritmo médio. Conversamos mais algumas coisas, então Valteri recebeu uma ligação, se despediu de mim e acelerou o ritmo para finalmente terminar o circuito e ir em direção ao seu compromisso.

Outra mania besta que eu tinha: quando gostava da música e ela mexia comigo naquele momento, eu ligava o repeat e ouvia até enjoar. O sol começava a ficar mais intenso e subir mais no céu. Logo eu pararia e daria minha sessão de exercícios por encerrada. Nickelback tocava em um volume alto nos meus fones, e eu estava bem
nostálgica. Ouvi-los sempre me deixava assim.
Depois de mais uma das curvas do autódromo, vi um homem apoiado em seus joelhos de cabeça baixa, sentado em um dos recuos da pista na grama. Ele parecia não estar nada bem. Resolvi ir até lá para ver como tudo estava e, quando me aproximei, o reconheci. Era um piloto.
Conforme fui me aproximando, ouvi um soluço que me deixou com o coração apertado. Algo tinha acontecido e, apesar de todas nossas diferenças, eu não era insensível a ponto de ignorar isso. A música continuava a tocar nos meus fones, e If Today Was Your Last Day começou a tocar. Abaixei o volume e ela pareceu fazer parte da cena, igual a uma de novela. Me aproximei devagarinho e o chamei.

— Ei, ? — pedi cuidadosa, com a voz baixa.
— Vai embora, não preciso de ninguém aqui. Me deixa em paz — respondeu ríspido, apesar da voz ainda embargada do choro.
— Sei que algo ruim deve ter acontecido, mas não vou deixar você aqui sozinho. Vou me sentar aqui e, caso você queira desabafar, estou aqui — sentei-me a alguns passos de distância do monegasco.
— Eu sei cuidar de mim, . Pode ir e gastar seu precioso tempo com seu namoradinho — mais uma vez me atacou de forma ácida.
— Eu não disse o contrário, , mas eu não sou um monstro e consigo perceber quando algo não está bem… E só pra completar, eu não tenho namorado — disse, por fim, dando um sorriso convencido. Vi levantar mais um pouco seu rosto e me olhar com as bochechas vermelhas e os olhos inchados de tanto chorar.
— Não é o que falam por aí… — agora mais calmo, mas ainda sério, me respondeu enquanto eu seguia sentada a alguns passos dele, segurando meus joelhos e aproveitando a mesma música de antes que tocava baixinha em um dos fones que eu ainda usava.
— Não sei se me importo com a opinião deles, eu não tenho namorado e ponto. E mesmo que tivesse, isso não seria da conta de ninguém — respondi a ele em um tom sereno. Aquele assunto não me incomodava.
— Você me lembra muito meu padrinho. Ele tinha esse mesmo pensamento. Tudo que ele fazia, era porque gostava ou queria mesmo, a opinião dos outros nunca importou. Ele me ensinou muita coisa, mas sinto que ele se foi tão cedo e podia ter me ensinado tanta coisa a mais.
— Seu olho brilha quando fala dele… Dá pra ver o quanto ele foi importante pra você.
— Jules era um segundo pai. Se hoje estou aqui, foi com base em tudo que ele me ensinou e incentivou. Batalhei pra chegar na Ferrari por ele — deu um suspiro que demonstrava a dor da saudade. — Por nós — sua voz começou a embargar de novo, e o choro voltou.
— Ei, não chora — me apoiei nos meus joelhos, dando a entender que queria me aproximar, mas estava receosa. A qualquer momento, poderia me atacar como sempre. — Aposto que Bianchi, onde quer que esteja, está muito orgulhoso de você. Afinal, você tá onde queria chegar, não? — não dei espaço para ele continuar. — Você tem se dado muito bem nas corridas dessa segunda metade da temporada. E tenho certeza que, em cada uma, ele está lá de cima cuidando de você e comemorando cada ultrapassagem e pódio que você conquista…
— Você sabe quem o Jules é? — tentou engolir o choro mais uma vez.
— Sei. É meu trabalho saber sobre tudo que aconteceu nos últimos anos, não é só apertar o botão — ri com a referência que todo mundo usava ao falar da minha profissão.
— C.O.T.A. tem um peso maior para mim. Em várias conversas ele me falava daqui, sobre como a pista era sensacional e como eu ia amar correr aqui. E como ele queria me ver no pódio aqui. Hoje me bateu uma saudade que tá difícil de bancar que tá tudo bem, porque não tá.
— Você não precisa fingir que está tudo bem. Jules sempre foi importante pra você, e estar aqui te faz sentir ainda mais falta dele. Eu já perdi uma pessoa importante e faço ideia do que você está sentindo.
— A pressão em cima de nós é gigante. Se alguém me ver, a mídia vai criar cinquenta mil teorias sobre eu estar assim, e aí vão colocar a culpa na Charlotte ou em qualquer outra conspiração que eles tenham no momento em cima de mim.
— Eu fico aqui com você, até você não estar mais com essa cara de choro. Mas você tem que me prometer que vai viver o hoje e se orgulhar muito de quem Jules foi e enchê-lo ainda mais de orgulho do que já tem. E quando a saudades doer assim, procure motivos no que ele te ensinou pra sorrir, tá bem?

me olhava com atenção, e suas orbes verdes pareciam ainda mais intensas pelo choro de antes.

— Sabe, , você não é uma pessoa ruim. Meio esquecida e desastrada, talvez, mas acho que fui um idiota com você.
— Você tá me pedindo desculpas, ? — perguntei, rindo da situação que era no mínimo engraçada. — Mas como assim “esquecida”?
— Nada não… Mas se você aceitar como uma trégua, acho que posso ser menos babaca com você.
— Obrigada, eu acho?
— Tá, mas antes deixa eu ouvir que tipo de música você ouve, antes que eu me arrependa… — disse brincalhão, pedindo o outro fone que eu segurava.
— Deixa eu tirar do repeat, assim você poderá apreciar meu ótimo gosto musical.



🇺🇸 Estados Unidos – 2 de novembro de 2019, sábado

Apesar de os Estados Unidos não ser exatamente um lugar de amantes unânimes do esporte, uma grande recepção sempre era feita. Famosos apareciam em grande quantidade – mais que nos outros GPs –, ou seja, o trabalho para todos era dobrado. Tudo tinha que ter cobertura, e não eram pequenos eventos. Tudo era grande por aqui.
No dia seguinte, várias coisas aconteceriam, e podia sentir que iria enlouquecer. No dia de hoje, somente alguns nomes da música e de outros esportes passeando pelo paddock e grid. Gritos dos fãs dessa gente toda eram ouvidos e muitas fotos eram feitas no momento. Além de, claro, o último treino livre e a qualificação. tinha tomado gosto por fazer postagens pelas redes sociais da F1 e tinha ficado responsável por isso hoje e, então, amanhã pelas fotos.
Uma coisa era certa: atores sempre apareciam em peso. Matthew McConaughey, como um bom texano, estava presente distribuindo sorrisos e acenos para todos. Sandra Bullock era outra atriz que passeava elegantemente por ali. De cara os reconheceu, mas certamente mais estavam por vir, e ela tinha que estar atenta e postar sobre tudo. Os fãs iam à loucura quando viam seus atores e ídolos da música e do esporte ali.
O campeonato estava quase por ser decidido para Lewis Hamilton, que precisava de apenas quatro pontos para se consagrar hexacampeão. E, como sempre, estava fazendo um show nas últimas corridas. Valteri Botta cravou o melhor tempo na qualificação, seguido de Sebastian Vettel, que, assim como , eram os nomes da segunda metade da temporada e disputavam o terceiro lugar no campeonato mundial. Em terceiro na classificação, Max Verstappen; em quarto e, em quinto – mas sem nem um risco de não ganhar seu campeonato –, Lewis Hamilton.
avistou os amigos que tinham ficado no Top 10 da classificação com rostos desapontados e riu deles. Afinal, aquilo não provava que não eram bons, já que a diferença se dava sempre por milésimos ou centésimos de segundos. O melhor piloto do grid e o pior eram distanciados por menos de dois segundos. Nesse esporte, qualquer ajuste certo ou errado poderia consagrar um pódio, ou acabar com o piloto fora da linha de pontuação.

— Hey, melhora essa cara — abraçou Lando, que tinha conquistado a oitava posição e vinha com um bico enorme.
— Eu só queria ter ido melhor, . Foi por tão pouco! — lamentou-se depois de soltar a social media do abraço.
— Isso não te torna ruim, Lando. Você tem noção que são centésimos? Tanto você quanto Carlos foram muito bem.
— Você estava torcendo pra mim? — seus olhos brilharam com a possibilidade da torcida da amiga.
— Você sabe que eu não tenho um preferido, certo? Eu torço pra todos vocês!
— Ah, , a gente sabe que sua torcida é pelo — Carlos chegou rindo.
— Quê? — respondeu, incrédula. — Eu torço pra todos vocês. Não tenho favoritismo por ninguém, e vocês sabem muito bem disso.
— Eu sei, , mas eu gosto de te ver brava quando o assunto é o e você.
— É porque vocês ficam insistindo em algo que não existe…
— O que não existe? — chegou onde os amigos estavam reunidos acompanhado de , tomando seu isotônico na sua usual garrafinha preta.
— Carlos estava dizendo que meu favoritismo é pra você — falou na lata, e arregalou os olhos com a informação.
— E não é, meu amor? — começou a brincar quando viu que o clima possivelmente poderia pesar, já que ele sabia que nunca tomou partido sobre nenhum dos amigos como favorito. Sabia que ela torcia igualmente para todos.
— Claro que não, vida — teatralizou. — O nosso lance é fora das pistas, aqui minha torcida é pro Gasly — olhou para os lados e agarrou o piloto que chegava ao lado de , que olhava tudo com uma sobrancelha levantada.
— Você já tá me trocando assim, é, ? — fez falsa voz de ofendido.
— Gasly é meu ídolo, meu amor. Eu não resisto a esses lindos olhos azuis.

Pierre Gasly só sabia rir enquanto abraçava , já que entendeu que se tratava de uma das cenas dela e de .

— Para de assustar o menino, a puxou para abraçá-la de lado, por fim. — e Gasly vão acreditar daqui a pouco.
— Eu tô achando tudo isso bem engraçado — o primeiro comentou. — Nunca tinha visto a assim. Toda vez que a gente conversava, eram só farpas.
— VERDADE! — Lando praticamente gritou. — Como é que vocês não estão se matando?

Todos revezaram os olhares entre e , que se olharam cúmplices e começaram a rir da cara de todo.

— Vocês são todos umas garotinhas fuxiqueiras, né? — provocou quando parou de rir. — Mas sim, eu e decidimos tentar conviver sem brigar. Afinal, fui atacada desde meu primeiro dia aqui — se defendeu.
— Hey! Eu não comecei nada — cruzou os braços e franziu o cenho.
— Começou sim — cutucou o monegasco, que não queria dar o braço a torcer.
— Não.
— Sim!
— Não…
— Foi sim…
Nops já ria, porque sabia que ele quem tinha começado e só queria ver aonde aquilo ia chegar.
— Ok, já chega, crianças! — interviu Gasly, rindo também. — Prefiro vocês sem se alfinetar. Eu vou pro hotel, alguém vem?



🇺🇸 Estados Unidos – 3 de novembro de 2019, domingo


Mais um domingo de corrida, e só dez dias me separavam de matar a saudades do meu tão querido Brasil. O país que foi minha casa por vários anos, onde meu porto seguro estava. Apesar de ver minha mãe com frequência por chamada, não era a mesma coisa, e a saudade estava enorme. Muito do que sou hoje aprendi com ela. Uma mulher forte e decidida que criou uma filha sozinha. Eu estava me segurando para não tagarelar sobre o Brasil sem parar; afinal, todos eles já tinham ido para lá, mas nunca tinham ouvido falar muito sobre.

Bonjour — Gasly passou por mim e deu seu usual bom dia.
Bonjour, cher (bom dia, querido) — usei o meu melhor francês, do qual mal sabia, a fim de brincar com Gasly com a situação.
— Que língua você não fala, ? — voltou uns passos quando ouviu a resposta.
— Francês é uma delas, sei poucas palavras.
— Já ouvi você falando em algumas línguas. Acho muito legal esse cuidado que você tem — disse, carismático, e eu fiquei com vergonha. Nunca sabia lidar com elogios.
— Obrigada, Pierre. Eu me esforço pra que vocês se sintam em casa sempre, nem que seja num diálogo. E por falar nisso, desculpa não poder te ajudar nesse ponto.
Ouvi uma risada do piloto francês.
— Vamos fazer um trato, então. Eu te ensino francês e você me ensina português, oui? (sim?)
— Como você sabe que eu falo português? — perguntei, confusa, já que quase ninguém sabia desse detalhe.
— Vi você atendendo o telefone umas corridas atrás e identifiquei o idioma.
— AH! Entendi — disse, surpresa por não saber que mais alguém tinha me ouvido naquela ligação com o Brasil. — Fechado, então — estendi minha mão e fizemos um aperto, firmando nosso acordo enquanto ríamos.




Hoje, além do dobro de famosos, teria um Drivers’ Parade diferente. Cada piloto entraria em um carro retrô ao invés do famoso caminhão. Um tapete vermelho estava estendido ao longo do caminho que os levava até os carros, e todos esperavam concentrados em um corredor a liberação para que o show começasse. aproveitou para fazer um vídeo dos pilotos que davam autógrafos para algumas crianças enfileiradas no corredor, esperando a sua vez para ganhar a assinatura de cada um que passasse.
Max Verstappen, Sérgio Perez, Lance Stroll, e Lando Norris conversavam em uma rodinha sobre a vestimenta de , que estava diferente. O piloto australiano amava o Grande Prêmio dos Estados Unidos, então sempre fazia uma homenagem generosa ao estado do Texas. Estava com uma camiseta de futebol americano com seu número de corrida escrito “Texas” bem grande.
Alguém do staff da Ferrari trombou com , e ela, por consequência, bateu nas costas de Verstappen, que só então notou a presença da social media e resolveu, como sempre, tirar sarro com ela.

— Oh, Kim, você está aí! — trocou seu nome para sacaneá-la.
— Olá, John, como você está? — a moça brincou também.
, a corrida nem começou e você já está assim? — entrou Lando na onda de Verstappen, na tiração do vídeo.
— Isso é uma live, sabia? — informou ela, já rindo.
— Pessoal, brincadeira, viu? é uma ótima profissional e amamos muito ela — completou Norris, por fim.

Depois de continuar a gravação, onde apareceram outros pilotos, seguiu pelo tapete vermelho onde todos os fotógrafos e imprensa esperavam ansiosamente os pilotos passarem para a tão famosa volta de apresentação pela pista antes da corrida. Cheerleaders em suas tradicionais roupas brancas e azuis balançavam seus pompons enquanto os pilotos passavam e procuravam seus respectivos carros sinalizados com um adesivo com o nome de cada um e a bandeira de seu país. continuou a live mostrando toda a organização dos rapazes, e logo seguiu para o primeiro carro que era reservado para que ela pudesse fazer a filmagem de lá também.
A corrida foi ruim para as Ferraris, que conseguiram boas posições de largada, mas com Vettel fora por problemas de suspensão. se manteve mais atrás. A corrida foi toda da Mercedes seguida por Max Verstappen. Mais um campeonato para Hamilton e ainda duas corridas para o fim.
Depois de toda a cobertura da comemoração de Lewis, , como usualmente fazia, guardou sua câmera na mochila e pegou todas as suas coisas para levar ao hotel. Seu coração batia em um ritmo diferente – um misto de ansiedade e algo desconhecido a deixava curiosa para saber o motivo de toda aquela sensação. Os fones tocavam uma playlist de músicas brasileiras, matando suas saudades da língua que a acompanhou por grande parte de sua vida. Cantava baixinho Carla, do Ls Jack.

Eu cheguei a deixar vestígios pra você me achar
Foi assim que entreguei meu coração, devagar
Eu tentei te roubar aos poucos pra você notar
Que fui eu, te guardei onde ninguém vai tirar
No fundo dos meus olhos
Pra dentro da memória te levei
Amor, você me tentou
Ô, Carla

A música era uma velha conhecida de , que se segurava a todo momento para não sair cantando e dançando igual em um filme pelo caminho, para fora do autódromo de C.O.T.A. Mas a sensação ao ouvi-la era diferente de todas as outras vezes, não sabia dizer ao certo por quê. Talvez a nostalgia que vinha junto agora seria a resposta, ou algo que não descobriria tão cedo, já que, como uma eterna amante do destino, ela sempre era surpreendida por ele. Aquela ansiedade para o Brasil só crescia, e talvez fosse só mais um daqueles friozinhos na barriga ao ouvir uma música.

Eu te amei como jamais
Um outro alguém vai te amar
Antes que o sol pudesse acordar
Eu te amei, ô, Carla
Ô, Carla
Eu cheguei a deixar vestígios pra você me achar
Foi assim que entreguei meu coração, devagar
Eu tentei te roubar aos poucos pra você notar
Que fui eu, te guardei onde ninguém vai tirar
No fundo dos meus olhos
Pra dentro da memória te levei
Amor, você me tentou
Ô, Carla

Hey, brasiliana! Espera.

ouviu uma voz abafada ao longe chamar por seu nome. Se virou lentamente já sabendo de quem se tratava, e se armou contra qualquer possível ataque do piloto monegasco.

— Sim? — disse normalmente a social media.
— Sei que você é brasileira, e a próxima corrida é no Brasil… — pausou, analisando a expressão facial da moça. — Você talvez poderia me ensinar algumas palavras? Minhas fãs de lá são as mais “dedicadas” — fez aspas com as mãos —, e eu queria mostrar que sou igual.
— Não sou brasileira, — franziu o cenho por repetir isso pela talvez décima vez desde que começou a trabalhar com a F1. — Sou italiana, mas sim, falo português porque morei muitos anos lá.
— Não é brasileira? — pareceu questionar todos seus conhecimentos sobre ela. — Tá, mas enfim. Você pode me ajudar?
Nops, io sono italiana, ragazzo (eu sou italiana, garoto) — riu nasalado. — Mas sim, posso ajudar você. Estou no Holiday Inn Austin Airport. Não sei quando você volta pra casa, mas até amanhã estarei disponível lá, ou então por chamada de vídeo…
— Ótimo! O café da manhã deles é bom? — perguntou, com uma cara de quem estava prestes a aprontar.
— Hã? — ela parecia incrédula com o que tinha possivelmente entendido da indireta de .
— Pra você me ensinar português, … — continuou com seu sorriso presunçoso nos lábios.
— Ah, sim. Só me avisa com umas horas de antecedência pra caso eu esteja com meu namoradinho e eu precisar dispensá-lo pra virar sua professora — riu da cara de confusão do monegasco
— Mas você…
— Calma, , só tô me divertindo com a sua cara — continuou a rir. — Mas falando sério agora, você sabe como me contatar. Nos falamos — e seguiu seu caminho, deixando o piloto parado ainda com cara de besta.
— Mas eu não tenho seu número! — gritou do lugar, ainda imóvel.
— Outro dia você me mandou mensagem sem ter ele, não mandou? — gritou de volta, sem parar sua caminhada.


Capítulo 8.1

🇺🇸 Estados Unidos – 1º de novembro de 2019, sexta-feira


— Hmm — resmunguei, ainda com sono depois de relutar em atender meu telefone.
, preciso de você em trinta minutos no autódromo — ouvi um suspiro de decepção do outro lado. — Você esqueceu do despertador de novo?
— Acho que sim, Andrea... — bufei em descontentamento comigo mesmo. — Logo chego aí, só preciso me vestir.
Sem mais atrasos, por favor, mate.
— Ok, sem mais atrasos.

Eu estava exausto, como talvez nunca antes. Final da minha segunda temporada na F1 e a primeira pela Ferrari. Esse ano tem sido bem mais intenso que os outros. E me refiro a toda minha carreira automobilística – mas claro, eu continuava tentando me superar, como sempre faria. Neste ano em especial ainda mais.
Sebastian Vettel era meu colega de equipe, e a responsabilidade de mostrar que um dia eu poderia ser tanto, ou mais que ele, era extremamente exaustivo e puxado. O preparo físico, emocional e toda a questão de imagem eram intensas o tempo todo. Mas eu estava feliz ali, e tinha conquistado o que eu e Jules sempre sonhamos. Jules, ah! Jules, como você faz falta! Era pra gente estar correndo juntos, no ano passado e nesse. Seriam nossas memórias agora. A gente contaria juntos para os meus futuros afilhados. Assim como ele fez comigo. Como ele me contou cada uma de suas corridas memoráveis.
Me olhei no espelho e vi um rosto cansado. Pensar em Jules me fazia ficar triste, mas eu precisava, em nome de tudo, permanecer firme.
Vesti lentamente a camiseta vermelha Rosso Corsa polo da equipe e abotoei dois dos três botões. Busquei a calça que deixei do lado avesso na noite passada em cima da poltrona e a desvirei; então, me sentei na cama para começar a vesti-la. Passei meus dedos pelo cabelo na tentativa de deixá-los melhores e, sem sucesso, desisti, já que os fios não ficariam como eu queria de qualquer forma. Coloquei mais uma roupa reserva na mochila para depois do treino e segui para o carro.


•••


— Já acabamos, Andrea? — soltei um resmungo cansado. Não estava no clima para treino físico.
— O que você tem hoje, ? — meu preparador físico me analisou um pouco mais. — Está meio pra baixo, foi algo com a Charlotte?
— Não, nem falei com ela ontem ou hoje. Acho que é cansaço mesmo — respondi, por fim.
— Vou dispensar você por agora, mas durante a próxima semana vamos intensificar os exercícios, ok?
— Sim, senhor! — bati continência e tentei rir. Não queria ninguém no meu pé nesse momento, só queria ficar sozinho.

Sequei meu rosto repleto de suor e resolvi fazer uma caminhada pela pista, para espairecer toda a angústia que apertava meu peito. Chegava a sufocar.


Flashback on

— Um dia você vai correr em um carro tão veloz quanto o meu, e vai poder escolher qual sua pista favorita de todas.
— É sério isso, Jules?
— Sim! E terão muitas, de vários tipos. As mais rápidas e sem tantas curvas, as mais lentas e com muitas curvas, e também os circuitos de rua.
— Tipo aqui em Mônaco?
— Exato! Em Mônaco temos uma pista de rua lenta e, ao mesmo tempo, cheia de curvas. Porém, bastante difícil e estreita.
— E qual sua pista favorita?
— Ah, garoto, não sei escolher uma só — olhou para o além; seus olhos brilhavam quando falava sobre correr. — Mas um dos grandes prêmios que eu mais gosto é o dos Estados Unidos. A energia de lá é única. Entrar num cockpit de Fórmula 1 e dirigir por aquele conjunto de retas e curvas é surreal.
Interrompi Jules, minha animação era estratosférica:
— Mas vai ser um vermelho, né? Igual o da Ferrari. Nós dois iremos correr juntos, né?
Aquele era um sonho nosso, e um dia chegaríamos lá.
— Nunca deixe de sonhar, . Se esse é seu objetivo, sei que você chega lá! Eu acredito no seu potencial! Mas me prometa uma coisa…
— Pode falar — falei, receoso, já que dificilmente Jules ficava sério daquele jeito.
— Nunca, eu repito, nunca se esqueça de quem você é e de onde veio.
— Eu prometo nunca esquecer, Jules.

Flashback off



A promessa que eu havia feito para Jules jamais seria descumprida. Por mais que estar nesse meio me trouxesse inúmeras oportunidades, mulheres e facilidades, sua frase nunca deixou de ecoar na minha mente:

“Nunca, eu repito, nunca se esqueça de quem você é e de onde veio.”

Eu jamais me esqueceria de onde vim e tudo que fiz para estar onde estou hoje. Ou de quem esteve ao meu lado e me apoiou. Sempre foi muito fácil julgar as pessoas pela aparência, ou poder aquisitivo, ou simplesmente te ver vestindo algo de marca e dizer saber coisas de quem você é e como se comporta por sua aparência e dinheiro. E, infelizmente, eu sempre estava nesse meio. O meu amor por velocidade era incontestável, mas, em sua maioria, apenas quem podia pagar conseguia chegar na principal categoria.
Enquanto caminhava, minha mente se enchia cada vez mais de angústias e indignações sobre minha carreira e sobre como todos se metiam na minha vida privada. Ser um piloto de uma escuderia renomada ia além das pistas. Tudo que eu fazia tinha que ter total discrição. Deveria postar o menos possível sobre minha vida em redes sociais, usar meu perfil profissional apenas para o trabalho e mostrar muito pouco de quem era. Ali eu era apenas o piloto de Fórmula 1 da Scuderia Ferrari e um cara bem família, que também amava e respeitava a namorada. E, ainda por cima, ser julgado pelo pouco que mostrava. Mas era um peso que eu tinha que pagar, nem tudo ia ser tão fácil sempre.
Claro que nada disso era mentira, mas às vezes eu me sentia controlado demais. Agora, nesse final de temporada, tudo estava me incomodando e tendo um peso maior do que deveria. Estar aqui nessa pista me fazia lembrar de Jules.
Meus olhos começaram a arder quando um nó se formou na minha garganta, anunciando que um choro iminente estava por começar. Meus olhos se encheram de lágrimas, então o vento frio da manhã pareceu ainda mais melancólico. Pareceu me abraçar e, por fim, fez com que as lágrimas escorressem pelo meu rosto. Decidi me sentar em um recuo da pista na grama e colocar tudo para fora; depois daqui, eu precisava voltar a ser o sempre sorridente e inabalável piloto .

— Ei, ? — meu coração disparou a ouvir a voz suave dela se aproximando.
— Vai embora, não preciso de ninguém aqui. Me deixa em paz — eu não queria que ninguém me visse assim, mas, ao mesmo tempo, não queria que ela fosse embora.
— Sei que algo ruim deve ter acontecido, mas não vou deixar você aqui sozinho. Vou me sentar aqui e, caso você queira desabafar, estou aqui — a vi sentar a alguns passos longe de mim e ficar ali, pronta para me acudir se precisasse. Um calor tomou conta de mim, e as reações do meu corpo em sua presença não paravam de me surpreender.


•••


Sua voz era doce e parecia me acalmar a cada momento. Durante toda nossa conversa, fui me sentindo mais calmo e me impressionando com toda sua sutileza. Eu estava sendo um completo idiota com ela e, depois dessa convers, acho que eu deveria ao menos tentar pedir desculpas.

— Sabe, , você não é uma pessoa ruim. Meio esquecida e desastrad, talvez, mas acho que fui um idiota com você...
— Você tá me pedindo desculpas, ? — riu da minha tentativa besta, mas ela era esperta e pegou minha intenção no ar. — Mas como assim “esquecida”?
— Nada não… Mas se você aceitar como uma trégua, acho que posso ser menos babaca com você — agora eu parecia ter mais controle do que saia da minha boca. Continuava com o coração acelerado e podia jurar que minhas mãos suavam.
— Obrigada, eu acho?
— Tá, mas antes deixa eu ouvir que tipo de música você ouve, antes que eu me arrependa… — brinquei e estendi a mão para pegar seu outro fone, a fim de também me distrair com a música que tocava em seus ouvidos.

Por uma fração de segundo, nossos dedos se tocaram e meu corpo pareceu se incendiar de novo. Eu devia estar ficando doente, ou definitivamente era algum ser de outro mundo. Porque sua proximidade e contato causavam reações diferentes em mim desde o primeiro dia.

— Deixa eu tirar do repeat, assim você poderá apreciar meu ótimo gosto musical — disse ela com um sorrisinho convencido.

Coloque If Today Was Your Last Day, do Nickelback para tocar

Então, outro choque. Assim que arrumei o fone de ouvido, aquela música começou a tocar. Aquela que Jules ouvia até todos não aguentarem mais, mas que descrevia muito quem ele era: o cara que vive intensamente como se todos dias fossem o último.

— Você e Jules se dariam muito bem, são extremamente parecidos — falei mais para mim mesmo do que a .
— Se ele te aguentava, acho que posso tentar fazer isso — sorriu de lado e empurrou seu ombro no meu.
— AH, , sério? Nickelback de novo? Você parou em que ano, 2010?
— Não fale mal de Nickelback — estreitou os olhos e apontou o indicador para mim. — Nem continue.
— Não estou falando mal, é só que poderia ser algo mais atual…
— Tipo Senõrita? — disse e desatou a rir da minha cara. É, pelo visto ela se informava e via todos os vídeos.
— Não acredito que até você vai me zoar…

Pronto, agora eu teria mais alguém para me incomodar com a bendita música.
Assim que Something Just Like This do Coldplay começou a tocar, meu corpo foi tomado por outro arrepio, e um sorriso povoou automaticamente meus lábios. Definitivamente tinha um bom gosto musical.

— Só não vou zoar porque você gosta de Coldplay — sorriu também, olhou para frente e fechou os olhos, apreciando a música.

Ficamos ali curtindo as músicas da playlist, com mais alguns comentários vez ou outra. E quando percebemos, meu rosto não tinha mais nenhum resquício de choro. Voltamos para os boxes e cada um foi fazer seu trabalho.
Uma sensação diferente tomava conta de mim. Confesso que tinha medo de ser menos idiota com – e também medo de sua reação –, mas, depois de hoje, sentia que poderiamos consturir uma boa amizade. Ela era do tipo de mulher alegre e carismática, e tinha se mostrado uma pessoa maravilhosa. Apesar de tudo que lhe fiz, ela se manteve ali, mesmo eu tendo sido um babaca.
Definitivamente tinha algum poder do além. Desde que seguimos caminhos diferentes mais cedo, não consegui mais parar de pensar nela, ou em tudo o que aconteceu. Talvez eu só esteja ficando louco.


🇺🇸 Estados Unidos – 3 de novembro de 2019, domingo

Hoje não tinha conseguido o resultado que eu desejava, e não podia dizer que estava feliz. Porém, com alguns pequenos problemas no carro e alguns erros meus, a melhor colocação que consegui foi um quarto lugar. Mesmo assim, Lewis se consagrou mais uma vez campeão com seu sexto título. Eu ficava me perguntando se algum dia chegaria talvez próximo disso. Eu sempre batalharia para chegar na posição mais alta do pódio em cada corrida. Ver toda aquela comemoração ao longe, após tê-lo parabenizado, me fazia querer começar o próximo ano com ainda mais gás.
Depois de mais uma daquelas reuniões pós-corrida, eu estava exausto. Peguei todas minhas coisas e segui para o estacionamento a fim de ir para o hotel.
Apenas duas corridas para o fim desta temporada, o que também começava a me deixar nostálgico, Brasil e Abu Dhabi estavam ainda por vir, e eu tinha a sensação que um turbilhão de coisas ainda aconteceriam.
Meus fãs no Brasil sempre me recebiam tão bem. Eu queria saber falar ao menos algo como uma forma de mostrar que me importo; talvez pudesse me ajudar. Como se fosse mágica, quando olhei para frente, vi a mulher mais brasileira que eu conhecia. tinha um corpo lindo, típico de uma brasileira. Tinha um rosto delicado que terminava o conjunto de uma maneira perfeita. Sacudi a cabeça a fim de espantar esses meus pensamentos e a chamei:

Hey, brasiliana! Espera — chamei-a pela terceira vez, provavelmente estava com fone e não me ouviria tão facilmente. Acelerei o passo para alcançá-la.
— Sim? — disse normalmente a social media.
— Sei que você é brasileira, e a próxima corrida é no Brasil… — retomei o fôlego e analisei sua expressão facial. — Você talvez poderia me ensinar algumas palavras? Minhas fãs de lá são as mais “dedicadas” — fiz aspas com as mãos —, e eu queria mostrar que sou igual.
— Não sou brasileira, — franziu o cenho. — Sou italiana, mas sim, falo português porque morei muitos anos lá.
— Não é brasileira? — fiquei em choque com a informação, afinal, não era o que eu sabia. — Tá, mas enfim. Você pode me ajudar?
Nops, io sono italiana, ragazzo (eu sou italiana, garoto) — riu nasalado. — Mas, sim, posso ajudar você. Estou no Holiday Inn próximo ao aeroporto. Não sei quando você volta pra casa, mas até amanhã estarei disponível lá, ou então por chamada de vídeo…


•••



Às dez horas você tá livre?
Se estiver ocupada, podemos marcar por chamada de vídeo…


Você quer saber se está aqui?
Sim, está. Estamos no mesmo hotel, mas podemos marcar às dez horas sim.
Prometo que ele não é do tipo ciumento.


Hm.
Ok, às dez horas estou aí.


•••


— Ok, vamos começar — me disse ela pacientemente. — , se fala “saudadE”, não “saudadi”.
— SaudadEE — a vi sorrir, talvez agora eu tenha acertado a pronúncia.
— Coração — disse ela a próxima palavra, e aquilo parecia um bicho de sete cabeças. Português era extremamente difícil.
Corassao — tentei repetir.
, você tem que pronunciar “ão”, não “áo”.
, isso é muito difícil. Não faço ideia como você fala essa língua tão perfeitamente e ainda domina outras.
— O português tem umas terminações diferentes de outras línguas, mas muita coisa é parecida com o italiano. Vamos lá, você consegue.

Ficamos assim mais uns quarenta minutos, e eu tinha me saído bem. Estava bastante confuso com as palavras, mas, se precisasse, sabia que agora podia contar com a para me ajudar. E, de certa forma, eu estava gostando da nossa proximidade.


Capítulo 9

🇧🇷 Brasil – 13 de novembro de 2019, quarta-feira

Depois de algum evento onde foram reunidos alguns pilotos em Londres, o voo com destino ao Brasil foi um dos mais caros das últimas semanas, isso porque cinco pilotos estavam no mesmo avião. Max Verstappen estava ao lado de ; logo atrás, Lando Norris e , e, na fileira ao lado da social media, os inseparáveis amigos e Pierre Gasly.
O voo seria longo, então se preparou com um bom livro para as próximas horas. E o que restasse delas até chegar no Brasil, com toda certeza dormiria.

, eu tô louco pra conhecer o Brasil. Me conta mais de lá?
— Você não conhece? — respondeu com uma sobrancelha arqueada. Foi então que, ao ver o sinal de negativo, se lembrou. — Ah! Verdade, você é rookie! [1] Esqueci que você é um neném! — apertou as bochechas do amigo.
— Não — ele esfregou o local vermelho. — Ô, , vem cá dar um jeito na tua namorada — já ria enquanto chamava o amigo no banco da frente. — Ela tá impossível!
— Lando Norris — bufou ao processar o que tinha ouvido. — Vocês não sossegam, né?
— Ué, amorzinho — apareceu no vão dos bancos. — Você ainda tá com vergonha de assumir nosso romance pros nossos amigos? — soltou em uma voz super melosa.
— Já disse pra você, . Na frente do Gasly não, né — pareceu repreender e começou a rir; já o francês só tirou os fones quando ouviu seu sobrenome.
— Hã? — ele olhou confuso para os outros.
e discutindo a relação — Max abanou a mão no ar, causando risos em Pierre.
— Desse jeito vou me convencer, — riu Gasly, então a social media viu que se mantinha calado e com cara de poucos amigos, porém encarava a cena.
— Ah, mas aí eu acho que teremos problema com . Ele parece ser um amigo ciumento.
— Pronto, até eu entrei no assunto — disse, dando um leve sorriso.
— Lando queria saber sobre o Brasil, mas ele resolveu mover todos os pilotos do avião — fez cara de tédio e Lando mostrou a língua para a amiga.

Depois de mais alguma conversa fiada e o restante dos pilotos atiçando a curiosidade do jovem Lando Norris, todos se acomodaram novamente em seus assentos e, então, Lando deitou a cabeça no colo de . Suas mãos começaram a fazer cafuné nele automaticamente e logo o piloto inglês adormeceu.


•••


Ao chegarem no aeroporto, a organização de Guarulhos informou que inúmeros fãs estavam à espera dos pilotos no desembarque, e que, caso quisessem, poderiam desviar por um outro caminho. Mas , e Lando quiseram atender quem os esperava do lado de fora.

, você pode traduzir o que eles falarem? Queria muito entender — Lando tinha suas orbes que se misturavam em um tom de azul e verde mais brilhantes do que nunca. E, no fim, nem deu tempo para que a social media desse a resposta positiva, ou então realmente pudesse ajudar. O jovem piloto saiu rapidamente em direção ao grupo que chamava por seu nome.

logo alcançou , e os dois seguiram lado a lado para perto dos fãs.

, eu te amo! — uma fã desesperada quase gritava. — Meu Deus, me nota!
, o que ela disse? — pediu, quase sussurrando no meu ouvido.
— Ela tá dizendo que te ama e pra você, por Deus, notar ela… — traduziu a frase rindo, porque a cara de confusão de era hilária.
— E como eu falo que amo o carinho delas por mim?
— Fala que ama eles também, ué.
— Me ensina?
— Deixa eu chamar a menina — logo foi em busca da menina que quase chorava tentando chamar a atenção de . — Oi! Como é seu nome?
— AAAAAAH! Você fala português! Você… Você pode falar pro que eu o amo muito? Ah, eu me chamo Alice!
— Tudo bem, se acalme… Eu falei pra ele quando te ouvi gritar, e ele quer tentar falar português pra te responder. Mas você tem que me prometer que não vai gritar, ok? Pode gravar, se quiser.

se aproximou, então lhe disse como deveria falar a frase “eu amo vocês, meus fãs do Brasil”, que saiu enrolada, mas levou todo o restante dos fãs à loucura.
Logo outro alvoroço começou quando apareceu onde eles estavam, e sentiu que os gritos eram ainda mais agudos e altos.

vai ter que me pagar um aparelho auditivo — ela tapou o ouvido esquerdo, já a uma certa distância do aglomerado de fãs.
— Quando ele aparece é sempre assim, as mulheres vão à loucura. Temos que admitir, o cara tem a beleza que encanta — analisava o colega, que tentava dar autógrafos e sorrir para as fotos, e claro, causou uma crise de risos em .



Três meses longe de casa e a sensação era de que tudo tinha mudado, mas, ao mesmo tempo, continuavam com o cheirinho de casa. Comecei a avistar os campos do Haras e meu coração se encheu de um sentimento bom. Eu tinha deixado não só minha família, mas também Órion, e o que eu mais sentia falta era de montar. Sentir meus longos cabelos voarem ao vento enquanto meu corpo se mexia no ritmo do galope do meu cavalo.
Quando estacionei o carro que tinha alugado, percebi que ali era um daqueles lugares que você se sentia em casa, se sentia você. Sem rótulos de profissão ou posições sociais.
Respirei fundo, saí do carro e parti em direção aonde ficavam os cavalos. Cumprimentei Alberto – que seguia administrando o lugar perfeitamente –, então segui para a famosa baia dezesseis. Lá estava o ser que mais parecia me entender, distraído enquanto comia sua ração, em toda sua majestosidade bege-clara e de crinas pretas. Limpei a garganta, a fim de que Órion notasse minha presença, e, quando me viu, imediatamente veio até a porta que nos separava com leves relinchos. Abracei-o da forma mais amorosa possível.
Para mim, selar um cavalo era terapêutico; desde escovar o pelo até ajustar as fivelas da cela. Era como um ritual para o início de uma corrida de Fórmula 1. Ri um pouco, afinal, minhas associações estavam cada vez mais voltadas para o meu trabalho, e eu não podia dizer que não era um trabalho maravilhoso. Mas eu estava mais ligada a ele do que um dia achei que estaria.
Liberdade. Essa era a palavra que poderia descrever o sentimento de cavalgar por aqueles campos de grama verdinha. Talvez eu pudesse comparar a adrenalina de estar tão veloz quanto os pilotos dentro de um cockpit. Quem sabe minha paixão nem fosse tão diferente da deles assim – afinal, tínhamos um fator em comum, e possivelmente por isso eu conseguia entendê-los tão bem.
O pôr do sol começava a se despedir no horizonte, e com ele a hora de eu voltar para o hotel. Aqui no Brasil eu começaria a trabalhar mais cedo e tinha mais coisas fora do trabalho para matar a saudade. Antes de me despedir por mais algumas vezes daquele lugar, coloquei Órion em sua baia. Lhe fiz um pouco mais de carinho e, então, saí dali com o coração apertado, mas com a promessa que voltaria o mais breve que pudesse.



🇧🇷 Brasil – 15 de novembro de 2019, sexta-feira

Ah, como eu sentia falta de tanta coisa. No início achei que fosse besteira dos apaixonados pelo Brasil, que não era o meu caso. Não que eu odiasse aqui, nem de longe. Mas depois de mais alguns meses fora, eu via ainda mais claramente que eu não pertencia a esse lugar. Mas haviam coisas que era impossível não sentir falta. A culinária daqui era algo surreal, e bem particular. Eu tinha uma saudade enorme de comer feijão, por exemplo. Até do tão famoso pão de queijo mineiro que minha amiga Bia me viciou. Era diferente, por mais que, se desse um jeito de fazer parecido, só aqui teria aquele gostinho de… Brasil. O clima e até a receptividade daqui – que muitas vezes me incomodou horrores – eu estava sentindo falta. Aqui você tem sua família e amigos; lá também você cria uma família, mas nunca será a mesma coisa, e os amigos com certeza você também faz novos. Mas os seus amigos de vida sempre farão falta. E cá estou eu, divagando sobre tudo o que sinto falta e contando os minutos para ver minha mãe e meus amigos.

— Hey, , tá meio áerea hoje. Tô te chamando e parece que você tá em Marte — Emily me alcançou e me tirou dos meus pensamentos.
— Só pensando longe, e nostálgica por estar finalmente em casa — respondi. Era de fato estranho me sentir em casa sem nunca ter pisado em Interlagos antes. Mas eu estava no Brasil, e minha mãe e amigas chegariam nas próximas horas, o que já seria estar em casa o suficiente para mim.
— Nossa, verdade! Você está em casa! Sua mãe vem? E suas amigas? — falou, exasperada. — Quero conhecer todo mundo! Ai, que máximo! Tô empolgada! — ela batia palmas igual a uma foca, me causando risos.
— Meu Deus, Ems, você tá mais animada que eu — ri, achando graça. — Mas sim, minhas amigas vêm. Algumas hoje e outras amanhã, além da minha mãe — chequei o relógio —, que deve chegar em dez minutos — sorri ao constatar que logo poderia abraçá-la.

Dona Helena tinha um dos sorrisos mais abertos que eu já tinha visto na vida. Isso talvez porque ela não pisava em um autódromo há pelo menos vinte e cinco anos, desde, bem, aquela corrida. Mas falemos de coisas alegres, certo?
Minha mãe amava qualquer esporte radical. Eu era a única da família a não ser louca por algo desse tipo. Ela era paraquedista, meu tio amava fazer trilha de motocross e por assim seguíamos nos esportes pela família. Então, depois de tanto tempo, eu imagino como a cabeça dela devia estar fervilhando em expectativas.
Quando me avistou, provavelmente sorrindo tanto quanto ela, minha mãe abriu os braços e eu acelerei o passo para encontrá-la e matar um tiquinho da saudades daquele abraço.

— Ai que saudades, mãe! — a apertei um pouco mais.
— Eu também estava, minha filha! E que orgulho te ver aqui! — ela soltou-se do abraço e se afastou minimamente, ainda segurando suas mãos nos meus braços próximo aos cotovelos para me olhar. Em seguida, sorriu mais orgulhosa do que nunca. E se ela estava assim, que batalhou tanto por mim, eu deveria ficar feliz. E eu estava.

Seguimos caminhando e minha mãe parecia uma criança me perguntando sobre os bastidores do esporte, que pra mim já eram tão normais. Em determinado ponto, encontrei Emily, Carlos e Lando e os apresentei à minha mãe. E claro, como era de se esperar, tive que ser a intérprete dela, que além do português, falava apenas o italiano – que não era o caso de nenhum dos meus amigos que conversavam com dona Helena.

, minha filha, como eles são umas gracinhas. Eu tinha totalmente outra visão deles pela televisão, principalmente de Carlos — pausou para respirar. Ela estava tão animada que falava quase sem pausa, sem perceber. — Ele parecia ser até um pouco antipático.
— O Carlos é totalmente o contrário disso, mas o caso é que, na televisão, eles geralmente mostram quando estão mega concentrados pros treinos ou pra corrida mesmo. E óbvio, o clima de rivalidade dá toda a graça — ri um pouco dos achismos da minha mãe sobre os pilotos.
— Estou bem animada pra esse final de semana. Meu piloto favorito já ganhou o campeonato, não preciso me preocupar em ter um ataque cardíaco hoje durante a corrida e posso aproveitar.
— Verdade, Lewis não precisa se preocupar mais, mas ainda é bem competitivo. Acho que será uma boa corrida. Falando em corrida, esqueci de te dizer… mas a senhora vai assistir tudo do Paddock Club [2] hoje.
— Jura? Você vai me fazer parecer uma adolescente com tanta coisa assim — disse com brilho nos olhos.
— Tudo pra quem me deu tudo!

Nos abraçamos e seguimos assim até o prédio do Paddock Club, onde nos despedimos e eu fui fazer meu trabalho antes do primeiro treino do final de semana.
Como era de se esperar, a chuva em Interlagos estava pronta para chegar, fazendo também com que os pilotos andassem com mais cautela. Mas com toda certeza tivemos algumas aceleradas para testar a famosa pista do autódromo José Carlos Pace, além de alguns testes de pneus. Ao final, Alex Albon conseguiu cravar o primeiro melhor tempo e trocar seus pneus para intermediários. A três voltas para o fim do treino, arriscou os pneus para a pista seca em uma das curvas e acabou batendo, mantendo sua posição de primeiro e fechando o Top 3, seguido por Bottas e Vettel.
Desde que comecei a trabalhar nesse mundo, esse final de semana foi o único em que eu ansiava demais para que tudo acabasse e eu pudesse curtir o depois. Todos que eu me importava estavam ali: minha mãe tinha chegado, Emily e alguns pilotos que fiz amizade aqui na Fórmula 1. E claro, minhas melhores amigas chegariam amanhã, então tudo estaria perfeito nesse final de semana. Nada poderia estragá-lo. Era o cenário perfeito para não querer saber de trabalho, mas nasci esperta e charmosa, não rica.
Mandei uma mensagem para minha mãe e me encontrei com ela no meio do caminho para a saída, quando por fim os treinos acabaram. Era muito divertido vê-la comentando sobre tudo comigo com tanto entusiasmo, e saber que pude finalmente proporcionar isso a ela de uma maneira que qualquer fã do esporte sonhava. Eu me realizava junto com ela a cada momento.

, espera! — ouvi uma voz masculina ao fundo, e isso estava ficando tão comum que até me dava déjà vu.
— Oi, ! Não tinha visto você hoje ainda — comentei.
— Verdade. Me falaram que você estava com a sua mãe aqui, não quis atrapalhar… — olhou para o lado e viu minha mãe. — Hello, nice to meet you, Mrs. ! I’m ’s fiancée (Olá, prazer em conhecer você, senhora ! Sou o noivo da ).

E então dona Helena, sem entender bulhufas do que falava – graças a Deus –, estendeu a mão em cumprimento ao piloto, que fazia o mesmo.

— Você sabe que eu não vou traduzir isso, né? — olhei incrédula para ele, já rindo.
— Diga a ele que estou dizendo oi — disse minha mãe.
— Caramba, , você tem muita sorte que ela não fala inglês e não entendeu. Eu vou traduzir o básico.

Então, só ouvi o besta do rir igual a uma hiena.
Depois de mais umas traduções entre e minha mãe, eles se despediram e, por incrível que pareça, ela já gostava muito de nas pistas e tinha amado conversar com ele. Logo prometemos conversar mais no dia seguinte.
Então, finalmente fui para o hotel tomar um bom banho, descansar e sair para o meu restaurante favorito.



🇧🇷 Brasil – 16 de novembro de 2019, sábado

O dia começava cedo em um sábado de treino e qualificação, e e sua mãe já estavam a caminho do autódromo para mais um dia intenso. Adentraram as famosas catracas e logo avistaram o campeão da temporada caminhando tranquilamente pelo paddock com seu usual estilo de roupas descoladas. sabia o quanto sua mãe era fã do piloto, então pediu que ela esperasse e foi de encontro a Hamilton conversar com ele. Depois de explicar que sua mãe não o entenderia e que traduziria tudo simultaneamente, foi em direção a ela e a trouxe para perto do ídolo.

— Lewis, essa é minha mãe, Helena. Ela é muito sua fã — introduziu a conversa.
— Olá, dona Helena! comentou que a senhora é muito minha fã, e eu fico extremamente grato por apoiar meu trabalho — disse o piloto inglês, cordial como sempre.
— Olá, Lewis! Sim, verdade, pra mim você é um dos melhores corredores. E a única coisa que me fez voltar a assistir Fórmula 1 foi ver a mesma garra e energia que eu via no Senna, e ela está em você. Acredito que ele está orgulhoso lá de cima!
— Fico emocionado em saber! A senhora então era fã da incrível lenda Ayrton Senna?
— Sim. Inclusive, faz exatos vinte e cinco anos que eu não entrava em um autódromo depois de assisti-lo morrer ao vivo — a voz de Helena parecia sumir a cada palavra quando tocava nesse assunto.
— A senhora estava em Ímola em 1994? — Hamilton ficou em choque com a informação e também triste. Para ele, que já tinha Senna como ídolo e inspiração, sempre se sentiu triste com o assunto, então imaginava como a senhora de meia-idade se sentia em relação ao acontecido.
— Infelizmente sim — suspirou. — Mas quero te agradecer mais uma vez por trazer alegria para os meus domingos — deu um leve sorriso. — E como o destino é engraçado, agora minha filha trabalha com você.
— E tenho que rasgar elogios a .

Naquele momento, a social media que traduzia tudo travou e olhou para Lewis, que riu e lhe fez sinal para que continuasse a tradução.

— Ela é uma ótima profissional e todos gostamos muito dela! A senhora fez um ótimo trabalho.
— Lewis, eu ainda estou aqui — se pronunciou, envergonhada. — Mas obrigada, eu acho?
— Somente verdades, !

A mãe de e Lewis continuaram o papo por mais algum tempo. Fizeram algumas fotos juntos e ganhou autógrafo no próprio boné que Hamilton usava – que, por fim, presenteou a ela. Então, as duas seguiram o caminho para que voltasse ao trabalho e a mãe acompanhasse toda a programação do dia.

Mariana
, estamos chegando, eu, Bia e Natasha. Onde encontramos você?


Encontro vocês na frente das catracas. Me dê cinco minutos, estou fazendo umas fotos dos pilotos.

Depois de avisar as amigas, seguiu fazendo alguns registros na escuderia italiana Ferrari e procurava atenta aos cliques perfeitos. Sebastian Vettel estava bastante concentrado em um dos monitores na lateral de seu box enquanto um engenheiro lhe passava algumas informações, e a social media julgou o momento ótimo para um registro.
Com os ouvidos atentos, ouviu várias gargalhadas no box ao lado, e o som de uma risada lhe foi convidativo. Lentamente, a fim de não atrair atenção para si mesma, viu a cena em que vários membros da equipe riam de um assunto desconhecido para a moça – dentre eles, , que bebia algo de um copo e estava sentado de forma relaxada. O som da risada que lhe agradou vinha do monegasco, e nesse ponto, , que prestava a atenção em tudo, começou a registrar alguns momentos e também a reparar mais em .
Um fato era que a menina jamais tinha parado para analisá-lo, já que era tomada de raiva por todas as farpas que costumavam trocar quando se viam. Mas era só mais um cara de seus vinte e tantos anos que estava em um mundo louco e que carregava o peso de ser a aposta da equipe. Talvez todos tivessem um peso a carregar e, por esse mesmo motivo, tivessem atitudes que não agradassem às vezes.
Quando tinha feito registros suficientes, seguiu até as catracas para encontrar as amigas.

— Tava na hora! Já estava cansada de esperar pra você me apresentar a todos esses pilotos gatos — Mariana, com toda sua energia contagiante, já chegou abraçando a amiga que tanto tinha saudades.
— Oi pra você também, Mari! Também estava morrendo de saudades de você — riu em meio ao seu abraço esmagador.
— Oiiiiiii — Beatriz abriu os braços e foi abraçar a amiga. — Eu tava morrendo de saudades sua, você faz muita falta!
— Não vai esquecer da sua loira favorita, né? — veio também em direção à fotógrafa a amiga Natasha.

Depois de acharem um lugar para almoçar dentro do paddock, Natasha, que era das amigas que mais entendia de Fórmula 1, pediu a câmera de para olhar o trabalho da amiga. Enquanto passeava pelas fotos, se deparou com uma em que segurava o copo próximo à boca, escondendo um sorriso e piscando, olhando diretamente para a câmera.

— Nossa, , como é gato, viu? E olha o jeito que olha pra você — cutucou a amiga. — Depois você diz que se odeiam…
— Onde? — pareceu surpresa, já que em nenhum dos registros tinha visto o piloto notar sua presença.
— Aqui, ó — Nat mostrou a sequência de fotos e deixou surpresa.
— Eu juro que não tinha visto! Mas digamos que eu e ele levantamos uma bandeira branca recentemente, então não nos odiamos mais tanto. Mas não somos muito próximos.

A conversa entre as meninas continuou animada, até que dona Helena apareceu no campo de visão delas com uma caixa parda em mãos. abriu um sorriso largo, sabendo que a mãe tinha comprado seus tão amados brigadeiros. Entregou a caixa cheia dos doces para a filha e ficou conversando com as meninas.

— Eu ouvi “brigadeiro”? — apareceu do além e se aproximou sorrateiramente de , que, por incrível que pareça, não se assustou com a presença do piloto australiano.
— Boa tarde pra você também, ! — ela riu do amigo falando meio enrolado o nome do doce tipicamente brasileiro.
— Oi pra você também! — ele beijou o topo da cabeça da moça.
— Aliás, essas são minhas amigas, Natasha, Mariana e Beatriz — apresentou as garotas, que sorriam ao ver os dois. O piloto australiano as cumprimentou e todos engataram uma conversa animada sobre o Brasil.
— Meninas, foi ótimo conhecer vocês, mas eu preciso ir! — ele se despediu.
— Quer alguns? — ofereceu o doce que estava no centro da mesa, então distribuiu dois para cada um ali e, sem cerimônia, levou a caixa de brigadeiros consigo, deixando a amiga incrédula. Definitivamente e uma caixa de brigadeiros eram o par perfeito.

O dia foi seguindo com os acontecimentos normais, e voltou ao trabalho enquanto as amigas tinham um dia diferente por ali. O mundo da Fórmula 1, agitado como sempre, não parou um minuto sequer.
caminhava bem tranquilo com sua nova caixa de brigadeiros em mãos quando encontrou e Pierre Gasly vindo na direção contrária, então pararam como sempre para uma breve conversa.

— E aí, mate, como vai? — cumprimentou com um aperto de mão, fazendo com que este trocasse de mão a caixa de doces e a equilibrasse na outra para cumprimentar o monegasco.
— Por aqui tudo certo, bem confiante pra hoje — disse usualmente e riu.
— Cheio de mimos pelas brasileiras, não? — comentou Gasly.
— Que nada, ganhei da minha sogra… — sorriu de forma presunçosa para os dois.
— Sogra? E desde quando você namora? — questionou , achando tudo estranho demais.
— É, a mãe da que trouxe.
— Nossa, , você tá bem íntimo dela, hein? — riu Gasly, entendendo a piada.
— Ninguém resiste ao meu charme e ao meu sorriso, você precisa admitir isso — respondeu em seu usual tom de brincadeira.


•••


O Grande Prêmio do Brasil nunca decepcionava no quesito entretenimento do público. Max Verstappen dominou todo o treino classificatório e cravou a Pole Position para a penúltima corrida da temporada. Ouvia-se rumores que o holandês ainda daria muita dor de cabeça aos melhores pilotos do grid nos próximos anos, o que certamente gerava uma grande expectativa de todos. Vettel ficou com a segunda posição, seguido por Hamilton e em P4, que tomou uma punição pela troca de motor e perdeu dez posições, largando em 14º lugar. Mesmo assim, o monegasco já podia comemorar: ganhou como o Rei das Poles em 2019. O piloto ferrarista teve sete poles em todo o ano, então Valteri Bottas com cinco não seria mais capaz de alcançá-lo na última corrida restante.
Ao final do dia, apesar de cansada, estava feliz e realizada; enfim sairia para algum barzinho com as amigas.

— Vamos no Trabuca? — sugeriu Mari, que era a mais antenada delas nesse quesito.
— Eu topo qualquer coisa — se manifestou . — Só quero beber e curtir minhas amigas.
— Trabuca, então — finalizou Natasha.

Todas foram para o hotel e tomaram um bom banho. Quando prontas, foram em direção ao barzinho sugerido por Mariana, que apesar de recifense, era mais paulista que muita gente que morava ali.
O bar tinha todas as paredes em tijolo à vista. A cor laranja dos tijolos e a meia-iluminação deixavam o ambiente mais escuro e, consequentemente, mais aconchegante. Os desenhos em neon em algumas paredes verdes deixavam o lugar ainda mais dentro de sua proposta.
O movimento ali era bem grande, mas, no fim, as meninas entraram da mesma forma. Já dentro do estabelecimento, viram que o movimento era puramente em sua entrada. Enquanto procuravam uma mesa para que as quatro sentassem, viram o real motivo de todo a agitação: seis pilotos também estavam lá, o que fez com que pensasse o quão engraçada aquela coincidência era, já que São Paulo era gigante e eles tinham ido parar no mesmo lugar.
Depois de se sentarem, foi até o bar para pegar a tão famosa caipirinha e, na volta, passou na mesa onde os pilotos se encontravam. Notou dois deles faltando, porém parou para cumprimentá-los.

, você aqui? — Alex Albon, que dificilmente conversava com a moça, se pronunciou enquanto ela tinha o canudinho na boca sugando o líquido.
— Oi pra vocês! — abanou para todos. — Coincidência vocês aqui, não?
— Quando estávamos saindo do hotel, pedimos indicação e o recepcionista nos disse que um pessoal de lá também tinha vindo pra cá, mas não sabíamos que eram vocês — constatou Carlos.
— Mas me conta que bebida é essa, chegou na mesa, passando a mão pela cintura da morena. Deixou um beijo em sua bochecha e foi se sentar na cadeira bem ao seu lado.
— Chama caipirinha. Vocês já devem ter provado, mas se não, fica a dica. Vou voltar pra mesa das minhas amigas, ou elas vão achar que fui sequestrada. Nos vemos — piscou e saiu da mesa em direção de onde ela tinha saído antes de ir para o bar.

As amigas estavam todas olhando para a fim de saber o que ela estava fazendo naquela mesa cheia de homens lindos.

— Não vai apresentar todos aqueles gatos pra gente, não, ? — Beatriz alargou o sorriso e logo fez uma cara de desentendida.
— Tem um monte de amigo gato e não apresenta pra gente! Por que ser egoísta, hein? — Natasha entrou na onda e começou a rir.
— Amiga, senta aqui — pediu Mari. — Sabe aquele teu amigo dos brigadeiros hoje de tarde?
— Quem, o ? — já olhava para a amiga querendo rir, porque já sabia o que viria a seguir.
— Sim, muito gato, visse? É solteiro?
— É. Se quiser, posso te dar umas dicas…
— AMIGA! TU JÁ PEGOU ELE, FOI? — falou um pouco mais alto, chamando a atenção de algumas pessoas ao redor.


•••


O papo entre as amigas fluía como sempre. Elas nunca ficavam sem assunto, e se tratando de , que quase nunca estava no mesmo fuso horário que as meninas, a conversa era infinita. Elas aproveitaram o momento para colocar todas as fofocas em dia. Até que Lando Norris passou em frente à mesa delas e piscou para Beatriz, que instantaneamente ficou derretida pelo piloto inglês.

, ficha completa do bonitinho do seu amiga — Bia exigiu prontamente.
— Ok, Lando Norris, vinte aninhos, nascido em Bristol. Piloto da McLaren. É um amor de pessoa, um amigo engraçado e fofo. Precisa de mais alguma informação?
— Satisfeita — respondeu com um sorriso nos lábios.

Enquanto as meninas confabulavam sobre a beleza dos pilotos e dos homens do bar, rindo juntas dos mais aleatórios assuntos, os pilotos a algumas mesas longe dali não tinham um assunto muito diferente. E claro, alguns deles falavam mais coisas que deviam, devido ao álcool que já corria por seus corpos e mentes. E como a mente ia longe. estava com o pensamento preso em uma mulher daquela mesa, e mais do que deveria e seria permitido perante seu status de relacionamento atual.

Coloque Agora Só Falta Você, da Pitty para tocar

Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer
Me libertei daquela vida vulgar que eu levava estando junto a você

A jovem ítalo-brasileira começou a cantar a música tão clássica de sua adolescência – mas não pela letra, e sim pela nostalgia que ela lhe trazia, notando que para todas as meninas ali da mesa também. Com os olhos fechados e a cabeça balançando no ritmo, enquanto fazia seu microfone imaginário com as mãos, ria extremamente feliz pelo momento com as amigas.

E em tudo que eu faço existe um porquê
Eu sei que eu nasci, sei que eu nasci pra saber

A algumas mesas dali, o monegasco observava a cena embasbacado com o carisma e parceria da social media com as amigas. Era possível ver que aquela era a sua verdadeira essência, e que por diversas vezes tudo o fez vê-la de forma diferente. Ali, com um pouco de álcool a mais no corpo, ele foi capaz de tirar a venda da infantilidade e do egocentrismo que há muito tempo tinha vestido em relação a ela.

E fui andando sem pensar em voltar, sem ligar pro que me aconteceu
Um belo dia vou lhe telefonar pra lhe dizer que aquele sonho cresceu

Mal também sabia ele que, mesmo sem entender uma palavra sequer de toda aquela música, que tinha uma balada agradável, dizia muito sobre os dois. E que tudo estava acontecendo como deveria acontecer. O destino nunca pecava em fazer as coisas quando e onde deveriam, exatamente como também acreditava.

No ar que eu respiro eu sinto prazer
De ser quem eu sou, de estar onde estou
Agora só falta você, iê, iê
Agora só falta você



🇧🇷 Brasil – 17 de novembro de 2019, domingo

O Grande Prêmio do Brasil estava prestes a começar, e, como de costume, toda a adrenalina tomou conta de . Ela tinha um sentimento desconhecido a mais em seu coração que fazia tudo ainda mais intenso. O mar de equipes já povoava o grid, ajustando e conferindo as últimas coisas possíveis em seus carros. Pouco a pouco, os pilotos passavam por onde as duas social medias faziam toda a cobertura fotográfica.
Tempo depois, o ronco começou a ecoar pelo lugar e, como de costume, a corrida começou em seu horário pontual. Foi extasiante. Começou de uma maneira e, no fim, parecia que iria terminar de outra totalmente oposta.
Max se manteve na ponta. Em menos de uma volta, já tinha subido mais de quatro posições. A corrida teve direito a Lewis Hamilton perdendo posições e fazendo Alex Albon bater e as duas Ferraris se encostarem. Valteri Bottas teve o motor quebrado, e Hamilton e Pierre batalharam na reta final pelo segundo lugar. Merecidamente, o francês tomou a frente e garantiu seu primeiro pódio da carreira.

— Não tô vendo você tietar seu ídolo — rindo, passou por e a caçoou pelo segundo lugar de Gasly.
— Eu sou tímida — ela riu de volta e continuou a fazer as fotos.
— Ontem não parecia — ele passou na mesma direção de .
— Será que só eu? — a moça devolveu a pergunta, arqueando a sobrancelha e sendo deixada para trás, sem resposta.

Após todo o protocolo de sempre, encontrou as amigas e se despediu de cada uma, já que ainda hoje iriam para suas casas em estados diferentes. Consequentemente, despediu-se de dona Helena também. Elas comentavam sobre a corrida e o incrível final de semana que tinham passado juntas. Além disso, prometeram que esse seria o ritual delas. Todo GP do Brasil se encontrariam e fariam daquele um final de semana perfeito.

, consigo falar com você? — se aproximou do grupo das meninas.
— Algo do trabalho? — perguntou, atenciosa.
— Sim e não — ele respondeu com um sorriso de lado sem mostrar os dentes.
— Podemos conversar no hotel, então? Estou me despedindo das minhas amigas — olhou para de forma terna, e o piloto monegasco não conseguiu negar.
— Quando chegar, por favor me avise. É importante, ok?
— Pode deixar!

Então, o monegasco se despediu com um meneio de cabeça e recebeu um sorriso de , que logo voltou para se despedir das amigas. Uma coisa era certa: a moça odiava despedidas. O coração apertava e o choro era certo, e com as amigas e a mãe não foi diferente. Seu desejo era poder colocar cada uma em sua mala e levar todas consigo.
Depois de muito choro e abraços apertados cheios de promessas, a social media entrou em seu carro e foi direto para o hotel. Após tomar banho, chorar mais um pouco pelo coração ainda doído em função das despedidas, avisou que estaria na área da piscina. se permitiu sentar na beirada de uma das espreguiçadeiras brancas, abraçou seus joelho e olhou para o nada por algum tempo.

Coloque Me Encontra, do Charlie Brown Jr. para tocar

Hoje eu vou sair pra encontrar o amor
Espero há tanto tempo e ainda não rolou
O vento diz que é hoje em meio à multidão
Que eu vou encontrar a dona do meu coração
Aí sempre
Sorrir e chorar e ter alguém pra compartilhar, sempre
Viver para alguém que me ama e dividir, sempre
Felicidade e amor, então

E como não podia se esperar menos de , quando se deu por conta, já cantava a música de Charlie Brown Jr. Mas seu olhar seguia perdido no nada, e ela pensava em tudo.

Me encontra ou deixa eu te encontrar
Me encontra ou deixa eu te encontrar
Me encontra ou deixa eu te encontrar
Me encontra ou deixa eu te encontrar

riu nasalado. Não era a primeira vez que via a moça cantarolando a música que tocava no ambiente, e teve ainda mais certeza que gostava de rock. Ficou breves segundos admirando a moça, e notou seu coração acelerar involuntariamente. De repente, se viu nervoso como não acontecia há muito tempo.

Eu não conheço todas as flores
Mas vou mandar todas que eu puder
Vivemos tempos de loucos amores
Só é feliz quem sabe o que quer

— Oi — ela sorriu ao notar a presença do monegasco. — É tão estranho ver você vestindo algo que não roupas vermelhas — notou ao ver o piloto de preto.
— Oi — ele se sentou na espreguiçadeira do lado. — Às vezes até eu estranho — riu de si mesmo.
— Então, o que você queria falar comigo?
— Queria agradecer por me ajudar com o português. Teve uma repercussão sensacional com as fãs, consegui mostrar que me importo com elas.
— Por nada, . Viu? Eu não sou tão insuportável assim…
— Eu nunca disse que era — ele balançou a cabeça em negativa e riu. — Eu que fui um babaca. Mas mudando de assunto… O que dizia a música que você tava cantando agora?
— É sobre achar o amor, ou o amor te achar. E que a sensação que toma o cantor é que onde ele está indo vai achar o amor, ou então o amor vai encontrá-lo.
— Gostei. Inclusive, não é a primeira vez que vejo você cantando alguma música… Acho que gosto dessas cenas.
— Você anda me cuidando, ?
— Como foi com as meninas hoje? — fugiu da pergunta enquanto olhava para a pequena caixa em suas mãos.
— Foi difícil, eu odeio despedidas. Queria passar mais tempo com elas, mas é o preço que eu pago pra viver meu sonho.
— É seu sonho trabalhar com F1? — questionou, confuso, e por breves instantes nem se lembrou do motivo de estar ali com ela. A conversa só fluía.
— Não — riu um pouco. — Viajar o mundo, sim. Mas isso tem um preço, e ele é ficar longe da família e amigos.
— Ah, entendi — pareceu finalizar o assunto, olhando para a caixinha em sua mão.

De repente, aquele quadrado embrulhado com fita pareceu pesar quilos. definitivamente não sabia qual era o efeito de nele. Tomou coragem e olhou para a moça, e como da outra vez o calor subiu por todo seu corpo. Já borbulhava em curiosidade para saber o que era e por que parecia, de certa forma, inquieto.

, preciso te entregar uma coisa.



1Rookie: Novato, em seu primeiro ano na Fórmula 1.
2Paddock Club: Espaço pago e reservado, espécie de camarote, com vista de cima dos boxes e, consequentemente, do grid.


Capítulo 10

— Vai me pedir em namoro? — caçoou .
— Para de ser besta, abre logo — ele ficou um pouco vermelho, então riu e entregou a pequena caixa à garota.
— Nossa, , é lindo! — disse ela ao abrir o embrulho dourado e se deparar com um delicado colar com um avião de papel prata. Na placa branca que o segurava, podia-se ler a frase: “Don’t forget to fly”.
— Você gostou? — perguntou com incerteza e ansiedade na voz.
— Eu amei, é muito lindo! — ela sorriu sem mostrar os dentes para o monegasco.
— É um pequeno presente pra te agradecer pelas aulas — retribuiu o sorriso, que acabou reparando o quão era bonito.
— Acho que posso me acostumar a te dar aulas — riu nasalado e se levantou da espreguiçadeira, sendo acompanhada por .
— Bom, vou indo — disse o piloto apontando o polegar por cima do próprio ombro, e, antes que pudesse ir, recebeu um abraço de , ao qual seus braços corresponderam sem pestanejar.

Sua mão hesitou em encostar em sua cintura, mas depois tentou aproveitar cada centímetro que percorreu até completar o abraço. Não se conteve e inspirou seu perfume, que era marcante; desejou que aquela sensação não acabasse nunca.

— Obrigada de verdade, , eu amei! — ela agradeceu, realmente feliz pelo gesto. — Nos vemos em Abu Dahbi — sorriu mais uma vez, então seguiu feliz para seu quarto, tanto pelo presente quanto por tudo que estava acontecendo.


🇸🇦 Abu Dhabi – 29 de novembro de 2019, sexta-feira

Se todas as corridas eram caóticas, podia dizer que esta estava pelo menos três vezes mais. O clima de despedida pairava no ar, e a social media se sentia nostálgica. O ano de 2019 tinha sido intenso, cheio de coisas novas, mas acima de tudo, espetacular – o que não tornava menos dolorosa a última corrida do ano.
Abu Dhabi significava se despedir de alguns pilotos que não estariam mais ali no ano seguinte, e também se despedir de uma temporada que significou muito por ser sua primeira. O frio na barriga pela próxima que estava por vir já era um fato, apesar de faltar alguns meses para acontecer. Só quem tinha o prazer de estar no meio dos tubarões do automobilismo poderia descrever com propriedade a sensação.
Cada piloto daria ainda mais o seu melhor para provar que, na nova temporada, não iriam facilitar para ninguém. Era besta, mas era assim. Em um ambiente competitivo, todos queriam mostrar que conseguiam bater o próprio tempo e ir além. Dentro de um cockpit, eles eram invencíveis e queriam provar que poderiam ir contra seus próprios limites.
As duas social medias não paravam de correr de um lado para o outro. O treino ocorreu dentro do normal. Depois, os amigos resolveram ir à praia para curtir o resto do dia.

— Preciso contar uma coisa pra vocês — se aproximou Lando, sorrindo e passando os braços em e Emily.
— Lá vem fofoca — riu Emily.
— Tá me chamando de fofoqueiro, Ems? — fez uma voz de indignação.
— E você não é? — entrou na brincadeira .
— Pensando bem, sou mesmo… — ele riu da própria constatação. — Agora sério, a fofoca é sobre mim mesmo — fez uma pausa, e as meninas o olharam confusas e divertidas ao mesmo tempo. — Acho que tô apaixonado.
— Quantas paixões você consegue ter ao mesmo tempo? — Ems questionou o inglês. — Já superou a ?


•••


Depois de um treino proveitoso e a sensação de mais uma temporada chegando ao fim, e mais algumas pessoas resolveram aproveitar a orla da praia que ficava bem em frente ao hotel. O clima de Abu Dhabi era quente e muito diferente do que agora em Mônaco. agradeceu aos céus pela vista que estava tendo: todas aquelas mulheres de biquíni com corpos de todos os formatos.
Quando atravessaram a rua, tirou sua camiseta e a colocou por cima do ombro, aproveitando para olhar ainda mais as mulheres que se bronzeavam, as que faziam seus exercícios despreocupadas e uma que pareceu atrair seus olhos feito um ímã. O corpo dela tinha algumas tatuagens espalhadas junto a um biquíni preto, e, de certa forma, ele não queria mais parar de vê-la. Estava também com seu preparador físico, Pierre e Alex, e eles notaram que permanecia calado. Ele se via hipnotizado e parecia ter desaprendido a falar.
Enfim avistaram mais alguns pilotos sentados em umas cadeiras logo à frente, então foram em direção a eles para se juntarem e jogar conversa fora. Carlos e Lando ainda estavam sentados embaixo do guarda-sol, enquanto e Michael, seu treinador, faziam algum exercício mais próximo da água.

— É sério que vocês vieram aqui pra ficarem escondidos debaixo da sombra? — aquele tom de voz tão familiar soou nos ouvidos do monegasco.
— Sem chance, não posso — Emily deu uma olhada cúmplice, e a amiga entendeu o que lhe impedia.
— Eu que não vou colocar meu corpinho na água gelada — Lando respondeu rindo.
— Ah, para, a água tá uma delícia — Carlos colocou seus óculos de sol pretos e quadrados no topo de seus cabelos molhados e se esticou na mesa para pegar um copo com um líquido laranja. — Ah, oi, gente! — pareceu notar os outros homens que haviam chegado. — Vai atrás do , ele tá mais perto da água… — disse em tom de deboche.
— Beleza — deu de ombros —, vou sozinha.

Ela desamarrou a tanga que cobria seu quadril, atirou-a na direção de Lando e saiu caminhando, ou melhor, rebolando e deixando babando mais uma vez.

, limpa aqui — Pierre riu de sua cara, enquanto pensava a todo momento se tinha ficado tão na cara assim…

Coloque Summer Days, do Martin Garrix para tocar

resolveu aprontar com os dois que ainda treinavam com uma bolinha de tênis, e quando conseguiu a oportunidade, roubou a bola amarela. Até que os dois tivessem consciência do que tinha acontecido, ficou parada olhando para eles com a bolinha em mãos, entre os dedos indicador e polegar, com uma cara de quem tinha aprontado alguma. Logo Michael entrou na brincadeira, saiu atrás da moça e veio atrás. Depois de alguns metros, era impossível escapar dos dois, que fizeram uma armadilha para pegá-la. Quando se deu por conta, já parecia um saco de batatas no ombro de .

— HEY! Me solta, !!! — protestava enquanto era carregada pelo australiano.
— Mick, você conta ou eu? — ele soltou divertido, e o treinador de ria junto.
— Conta você…
— Me contar o quê? — a essa altura, já tinha desistido de tentar se livrar dos braços dele.
— A punição por roubar nossa bolinha — falou com um tom malicioso.
— Ah, não… — ela protestou, já prevendo ser jogada na água, quando ouviu os pés de fazerem barulho contra a água do mar. — Eu me rendo — tentou argumentar, mas já era tarde. De repente, já estava mergulhada na água do golfo pérsico.

Não muito longe dali, mantinha os olhos grudados em , e aquela cena da morena saindo da água lhe trouxe uma sensação de déjà vu que lhe causou um desconforto bem no alto do peito, na altura do coração. Mas devia confessar que era um combo do que lhe agradava, apesar de dificilmente ter se relacionado com alguém assim. Sua cabeça fervilhava em pensamentos soltos, então seu celular tocou e o nome de Charlotte estava no visor…
Se existia coincidência, provavelmente aquela era uma delas.

Oi, baby! — a ouviu do outro lado da linha. — Pode falar?


•••


A frase de que o trabalho nunca terminava se tornava cada vez mais vívida na última corrida do ano. andava de um lado para o outro dentro do hotel a fim de confirmar quem seriam os amigos secretos de cada um para organizar o vídeo que faria no dia seguinte, e caminhava concentrada em seu tablet enquanto tentava esquematizar a lista.

! — ouviu alguém chamá-la.
— Oi, Seb! Ainda bem que me chamou, assim são dois a menos pra eu achar — riu apontando para George, que estava junto ao piloto alemão.
— Tô de olho que vocês já se chamam pelos apelidos e eu continuo sendo George — estreitou os olhos.
— Um dia eu acho um pra você, carro 63 — falou, e ele deu uma risada leve ao ouvir a menção do número de seu carro. — Tá certo, me diz aqui quem é seu amigo secreto, Seb — pediu, indo mais afastada de George com Vettel para que este apontasse um dos nomes dos pilotos do grid que tinha em seu tablet.

Com todos os pilotos já encontrados pelos hotéis e com sua lista completa, a social media pôde enfim voltar para seu quarto – que coincidentemente era naquele mesmo hotel – e relaxar o resto da noite, curtindo do melhor jeito: um belo skincare e uma bela série para acompanhar a cama com inúmeros travesseiros e lençóis convidativos e branquinhos.


🇸🇦 Abu Dhabi – 30 de novembro de 2019, sábado

O sentimento de nostalgia já começava a bater. O fim da temporada estava a um dia de acontecer, e tinha o mesmo sentimento do último dia de aula do colégio de toda sua vida estudantil. Podia afirmar que, com ele, sempre sentia aquela ansiedade boba do que viria junto com o novo ano.
Alguns pilotos não tinham conseguido novos contratos; ou seriam reservas de alguma equipe, ou talvez seguiriam para outra categoria. Apesar do pouco convívio, gostava muito de trabalhar com cada um, e com toda certeza sentiria falta dos que não estivessem mais ali em 2020.
Além do mais, parou para pensar em como o tempo voou, mas também passou tão devagar, já que inúmeras coisas aconteceram nesse período. Nove corridas, nove países diferentes e, em cada um, inúmeras memórias para guardar para a eternidade. Eram essas coisas que mais amava, coisas impalpáveis que só estariam guardadas em sua mente e poderia sorrir ao se lembrar.

— O que eu vou fazer sem você, Nico? — dizia Emily abraçada em Hulkenberg, que infelizmente não teria seu contrato renovado com a equipe francesa para o próximo ano.
— Nem vem que você já me trocou por essa daí — ele apontou para e riu. — E você nem vai mais estar aqui também…
— Você não ouse mencionar isso que eu choro — a ítalo-brasileira apontou o dedo para Nico e teatralizou um choro. — Troquei nada. E posso não estar mais aqui, mas não vou ser mais alimentada com as fotos do meu loiro bonitão, estou órfã — fingiu tristeza e exagerou no drama propositalmente, mas, no fundo, Emily estava como . Nostálgica e triste, porque gostava de todo o agito e amava estar com sua dupla imbatível nesses paddocks pelo mundo afora. O trabalho nunca se tornava chato ou monótono, e quando era mais cansativo, elas tinham uma a outra.

As gravações do Secret Santa deixaram bem animada. Conhecendo o pouco que conhecia de cada piloto, sabia que seria super divertido, afinal, eles sabiam como caçoar um do outro e curtir ao mesmo tempo.
Cada piloto tinha uma touca de Papai Noel da cor correspondente à sua equipe. , por sua vez, quis ser o primeiro, então lá estava ele de touca amarela e abrindo o presente que tinha pegado com seu amigo secreto.

— Aqui está seu presente, . Já podemos começar a gravar? — perguntou Emily.
— Claro, mas vocês podem me dizer de quem é? — ele riu descarado.
— Óbvio que não, ! — falou incrédula.
— Está bem! Vamos lá! Alguém pode me dar algo pra abrir o pacote? — ele pediu, então alguém da produção lhe alcançou um estilete. Quando abriu, já desconfiou de quem era seu Secret Santa. — Um microfone de karaokê — revelou, depois pensou por dois segundos. — Então a primeira pessoa que me vem à mente, a primeiríssima, é . Porque em uma entrevista em Suzuka, eu estava cantando e ele estava numa entrevista bem do meu lado e, bem, acabei atrapalhando ele — riu divertido, recordando-se.

Depois abriu o outro pacote, que também era parte de seu presente, revelando uma caixa de som para conectar o microfone.

— Talvez Max, porque ele me conhece… — pensou melhor. Então, e Emily confirmaram, fazendo com que ele comemorasse. — Sério? Eu acertei! Agora eu sei porque ele gastou um pouco mais. Ele ganhou no Brasil, ganhou um bônus em dinheiro, baby! Valeu Max!

Depois de Kimi Raikkonen ter pegado Sérgio Pérez como amigo secreto, era sua vez de abrir o presente. O finlandês, conhecido como iceman por dificilmente sorrir ou conversar muito na frente das câmeras, era um amor. Apenas não gostava de estar sob os holofotes. Toda vez que tinha que fazer algo com ele, as social medias levavam um tempinho para convencê-lo a participar.

— Alguma ideia? — perguntou Ems enquanto ele apalpava o embrulho de presente vermelho e dourado para tentar adivinhar o que tinha dentro.
— Sim, é um dos pesados — falou, finalmente abrindo o pacote.

Seu presente era uma bacia vermelha com desenhos natalinos e alguns chocolates. E depois de um tempo sem adivinhar quem era, por fim revelou que era de Romain Grosjean. Kimi fez mais algumas brincadeiras sobre não saber o que fazer com a bacia e os chocolates juntos, mas que descobriria, então agradeceu e deu fim à sua parte.
George Russell era o amigo secreto de Alex Albon e foi o próximo a tentar descobrir seu Secret Santa. Ele leu um cartão que recebeu e pensou se tratar de Lando Norris, já que falava sobre golfe, esporte que o outro piloto britânico amava. Quando abriu o presente, viu uma bela camiseta preta escrita “Driving Home For Christmas”. Depois de tentar adivinhar vários pilotos, chegou finalmente a Lance Stroll, que era seu amigo secreto.
A vez de Daniil Kvyat havia chegado, e seu amigo secreto era nada mais nada menos que Kevin Magnussen, que usava uma touca natalina preta, cor do uniforme da Haas. Seu presente era uma caixa bem grande. Um cartão dizia: “Visto que você é recém-casado, aqui vai uns suprimentos para sua casa”. Ao abrir e ver uma panela de fondue, tentou logo supor que era Vettel, depois Bottas, mas no fim quem havia lhe presenteado era Antonio Giovinazzi da Alfa Romeo. Agradeceu ao colega de profissão e saiu feliz com sua nova panela.
Depois de finalizar já à noite com , que ganhou inúmeras meias de , as meninas seguiram para descansar pós-treino. O próximo dia seria o mais intenso de todos.


🇸🇦 Abu Dhabi – 1º de dezembro de 2019, domingo

O gosto de despedida parecia cada vez mais amargo, e, apesar de triste, também era um dia feliz. Contradições da vida à parte, hoje se comemoraria a vitória da equipe que levaria o campeonato de construtores para casa, além do fim de um ano incrível.
O cabelo sempre preso de dava lugar a um lindo e sutil penteado, deixando o comprimento do seu cabelo escorrer pelas costas. Os óculos que ganhara de estava em seu rosto, e o olhar concentrado, no telefone e nas postagens do Instagram. O dia estava cheio de famosos passeando pelo paddock de Abu Dhabi, e tinha que tentar ser discreta – sua vontade era de tietar pelo menos a metade deles.

? — ouviu uma voz masculina aveludada e grossa chamar seu nome.
— Pois não? — respondeu antes mesmo de se virar para o dono da voz.
— Lembra de mim? — Liam Hemsworth sorria sem mostrar os dentes, observando a social media que parecia não crer no que via.
— Oi, Liam! — a incredulidade transpareceu até mesmo no tom de voz dela. — Claro que sim!
— Quanto tempo, hein? — ele continuou a puxar assunto com , que agradeceu aos céus por estar de óculos escuros para continuar a encarar aquelas lindas orbes azuis.
— É… — titubeou, pois seguia concentrada na beleza do ator. — Fazem o quê, três anos?
— Acho que sim! — Hemsworth parecia animado. — Não sabia que você trabalhava nesse meio.
— Comecei depois do recesso de verão — sorriu. — Nem eu sabia que amava toda essa loucura aqui, mas finalmente voltei pra terra da rainha.
— Nossa! Muito bacana! Vejo que parece feliz aqui! — ele analisou a moça de cima a baixo sem cerimônias, porém sempre mantendo a usual discrição. — Tá linda!
— Er… Obrigada — e novamente ficou sem graça ao receber um elogio, mas o coração estava a milhão. Ele ainda lembrava de seu nome… e daquela festa. — Bom, Liam, tenho que ir — mostrou o celular tocando e sorriu de lado. — O trabalho me chama.
— Digo o mesmo! Espero poder ver você em breve. Quem sabe depois?
— Claro! Depois te acho — riu nasalado de seu pensamento. — Se eu pedir pelo irmão do Thor, vai ser fácil achar você — riu mais um pouco, sendo acompanhada por Liam.
— Você ainda curte aquele drink? Como é o nome mesmo? — pediu a ela num último fio de conversa.
Sex on the Beach? — os dois disseram em uníssono.

A última Drivers’ Parade, a última volta de apresentação, o último apagar das luzes vermelhas dando o início da corrida, a última bandeirada definindo o último pódio – todos esses pensamentos povoavam as mentes de algumas pessoas ali. Não era o fim de tudo, mas era o fim daquela temporada incrível e daquele ano que se despedia. E hoje, mais que qualquer outro, a nostalgia dava um oi nada sutil.
Ao mesmo tempo que a tão conhecida e adorada adrenalina tomava conta do corpo de , ao ouvir o famoso ronco dos poderosos motores, seu coração seguia apertado. Ali ela se despedia de um ano memorável de sua vida e só torcia para que o próximo fosse tanto quanto esse.
A corrida terminou favorável ao piloto inglês Hamilton, e logo atrás Verstappen e finalizaram o pódio deste ano. Com isso a dupla da Mercedes garantiu as duas primeiras posições no campeonato, consequentemente o campeonato de construtores da temporada. Max finalizou com a terceira posição, e com um incrível ano em quarto lugar, , que tinha um meio-sorriso. Aquele que qualquer pessoa que conhecia minimamente o monegasco sabia que ele gostaria de ter dado mais de si e não foi possível.
ficou para saudar Lewis pelo pódio, já que seu amado campeonato havia vencido algumas corridas antes.

— Parabéns, Lewis! Pelo campeonato impecável e também pelos construtores! — saudou o piloto com um abraço, que foi retribuído instantaneamente.
— Obrigado, ! E espero você mais tarde, viu? Sem desculpas, você também faz parte desse ano incrível! — sua animação transparecia de todas as maneiras possíveis.
— Prometo que estarei lá! — ela fez continência e continuou a rir. Em seguida, viu um vulto vestido de vermelho passar cabisbaixo com uma garrafa de champanhe na mão. Ponderou em não chamá-lo, mas achou que deveria. — Hey, — aumentou o tom, já que o moreno se encontrava um pouco mais longe. — Parabéns pelo quarto lugar! — tentou animá-lo, mas deu um meio-sorriso e silabou um “obrigado” ainda mais decepcionado que antes.


•••


A música tocava alta e, ao chegar na festa, foi diretamente ao bar e por ali ficou aproveitando os drinks com a cabeça em Marte. Balançava seu corpo no ritmo da batida e já tinha cumprimentado algumas pessoas que estavam ali. Mas a moça estava aérea, talvez pelo cansaço do dia.


Cadê você? Só falta você aqui…


No meu habitat natural ;)


Não acredito que você não veio... Qual seu hotel mesmo? Você tem meia hora pra estar pronta


Mas eu estou pronta
[foto em anexo]
Onde vocês estão?

Ela riu da mensagem de , que não negava uma festa e estava indignada que a moça não havia chegado, quando na verdade estava ali há pelo menos meia hora. Assim que respondeu onde estavam, pediu um de seus drinks favoritos e também lembrou de hoje mais cedo, quando o barman lhe entregou o líquido alcoólico rosa e amarelo tão conhecido como Sex on the Beach. Havia perdido a oportunidade de sair com Liam Hemsworth mais uma vez.
Andava em direção ao local onde seus amigos estavam, curtia a batida da música e mexia o corpo levemente no mesmo ritmo. Por poucos segundos, tirou o olho do caminho para pegar o canudo da bebida entre seus lábios e, quando voltou a olhar, lá estava ele: camisa branca social com uns dois botões abertos e aquele sorriso lindo acompanhado de um par de olhos azuis intensos.

— Achei que tinha levado mais um bolo seu — chegou para lhe cumprimentar e aproveitou para falar próximo de seu ouvido, devido à música alta.
— Eu juro que me esqueci de você. Sendo social media, então… Fim de temporada quer dizer muito trabalho quando a corrida acaba — riu e não deixou de aproveitar a sensação gostosa do arrepio que a voz de Liam lhe causou.
! Você tá aí — apareceu Lando, que já parecia um pouco alterado devido ao álcool. — Olá, Liam — ofereceu a mão para cumprimentar o ator.
— Oh! Olá, Lando! — ele também estendeu a mão.
— Obrigado por achar a — riu nasalado. — É difícil achá-la em festas. Te espero na mesa, , é aquela ali — apontou para o local e seguiu na mesma direção.
— Er… Desculpe pelo Lando. Ele é uma figura, mas não é por mal.
— Fica tranquila, ! Nos vemos depois, então? Pelo visto, você tá sendo requisitada pelos amigos… — ele sorriu.
— É, acho que sim! Nos vemos depois!
— Sim! Se eu pedir da social media mais linda da F1 pra alguém, certeza que te encontro — Liam piscou para , que quase derreteu ali mesmo.
— Até depois! — saiu envergonhada com a cantada, mas ao mesmo tempo animada. Aquela noite prometia.

No caminho, a moça pensava em maneiras de esganar Lando Norris sem ser percebida, afinal, o piloto tinha acabado com seu lance. Por falar nisso, o destino não estava querendo que rolasse mesmo, já era a terceira vez.

— Lando Norris! — falou entredentes, olhando feio para o inglês.
— Oi, ! — disse todo sorridente, já sabendo que ia sobrar para ele.
— Alguém pode por favor segurar Lando numa coleira? — falou enquanto terminava de cumprimentar os amigos ali na mesa.
— Por quê, ? — riu George, que estava sentado em uma banqueta e tinha Emily entre suas pernas.
— Porque esse ser iluminado acabou com meu lance agora mesmo! — ela fez bico.
— Achei que seu crush na tivesse passado, criança — riu Emily.
— E não foi qualquer lance, viu? — chegou cumprimentando o restante do pessoal que tinha chegado e logo depois . — Foi com o irmão do Thor — riu e piscou para ela.
— Liam Hemsworth ? — chegou Gasly na roda rindo à toa, mas parecia ter ouvido só a frase “irmão do Thor”.
— Esse mesmo — confirmou e riu. “Aliás, tudo bem perder um crush de vez em quando, não é mesmo?”, pensou ela.
— Sim, ele tá pela festa. Estava no paddock hoje também — completou Gasly, e então acabaram trocando de assunto para não ter que explicar tudo a Pierre.

Logo depois, Emily chamou para irem ao banheiro, mas não que fossem usá-lo literalmente, e sim para fofocar, já que a curiosidade da amiga estava à flor da pele.

— Desembucha, vai! — disse sem rodeios e já rindo.
— Tá, eu fiquei um pouco de cara, porque não é a primeira vez que isso acontece…
— Que o Lando estraga o clima?
— Não — riu, balançando a mão de forma exagerada no ar em negação. — Que algo acaba com a minha ficada com Liam.
— Pode começar a contar, tô louca pra ouvir!
— Em 2017 eu fiz um intercâmbio pra Inglaterra e fui numa festa que ele também estava. Aconteceram inúmeras coisas e eu acabei dando um bolo nele. Hoje mais cedo, no paddock, ele me chamou pra sair, mas na correria de fazer tudo acabei esquecendo — confessou e riu do esquecimento. — E agora o Lando — bufou frustrada, por fim.
— Mas isso não é uma coisa ruim, — Emily animou-se. — Ele realmente te curtiu. Depois você vai dançar, despista qualquer um e investe no gostoso do Liam — falava com tamanha empolgação que seu plano parecia merecedor de um Grammy, ou qualquer prêmio assim.
— A essa altura acho que ele não vai mais querer nada… E vou acabar sozinha hoje, mas quer saber? Ter vocês por perto já basta! Vamos dançar — puxou a amiga pela mão, e as duas foram curtir a música que tocava, movimentando seus corpos como nunca na pista de dança.

O corpo de já pedia por mais álcool, então ela foi em direção ao bar para pedir outro drink.

— Que drink posso fazer pra você, senhorita? — disse o bonito barman ao ver a garota se apoiar no balcão.
— Que tal algo diferente? Me surpreenda…
— Ok, um Owen Loves His Mamma, então.

Depois de sair do bar com o drink vermelho em mãos, foi diretamente à mesma mesa de antes, encontrando alguns dos amigos ainda ali.

— Que drink bonito esse, o que é? — perguntou Charlotte depois de acenar para .
— Ah, se chama Owen-qualquer-coisa-His-Mamma, quer provar?
— Posso?

Então, estendeu o copo para Charlotte, que provou e ofereceu a em seguida.

— Muito bom mesmo! Garota, você é quente! — ela tomou um pouco mais de intimidade para falar com . — Baby, pega lá mais dois copos pra gente? Já que acabamos com o drink dela… — pediu quase miando para , deixando – que via toda a cena – com certa repulsa.
— Hmm, quente ela é mesmo… e não me incomodaria de provar de novo — ouviu a voz provocante de sussurrar em seu ouvido, a deixando certamente toda arrepiada. Nada respondeu, apenas deu um sorriso cúmplice e sumiu pela pista de dança do lugar.

Depois de algum tempo, o monegasco voltou com outra bebida igual para , que agradeceu e logo saiu de lá. Toda a manha da namorada de estava lhe enjoando um pouco. Seguiu até a pista de dança e foi curtir a música que tocava.

— Agora a social media mais linda da F1 está desocupada pra mim? — sentiu uma mão grande e quente tocar sua cintura, e a familiar voz grossa e aveludada adentrar seus ouvidos.
— Só se você não fugir, caso meus amigos aparecerem de novo — ela se virou para Liam.
— Agora você não tá mais em modo fuga de mim?
— Por que você diz isso? — riu nasalado enquanto colocava o canudo da bebida na boca e o olhava com um sorriso diferente, também dando a entender que não fugiria dali.
— Porque, pelas minhas contas, desde 2017 que você foge de mim em festas. E agora no seu trabalho… — riu divertido.
— Em minha defesa, naquela época eu era besta.
— E agora? — quase extinguiu a distância entre os dois.
— Agora eu não quero fugir — sussurrou, avançando em direção ao seu ouvido, tendo a mão de Liam juntando ainda mais os dois corpos. — Mas vamos ali fora? — olhou ao redor e viu alguns olhares conhecidos os observando, talvez bêbados demais para se lembrar do que ela faria, mas ainda assim curiosos demais.
— Vem… — o ator devolveu a fala do mesmo jeito que ela, ao pé de seu ouvido, lhe deixando ainda mais tentada.

O terraço do lugar era muito bonito e não tinha quase ninguém. Liam não perdeu quase nada de tempo e se apressou para colar as duas boca; ele tinha urgência em beijá-la. Sua barba farta roçou na lateral do rosto dela quando pausou o beijo para tomar um ar, então aproveitou para continuar o jogo de provocações e sussurrar em seu ouvido.

— Você não sabe o quanto eu esperei por esse beijo — seu tom de voz era baixo, quase rouco e muito sexy.
— Eu dei um pouco de trabalho, não? — manteve um tom parecido com o de Liam e sussurrou de volta, terminando com um sorriso presunçoso ao ver que o ator se encontrava todo arrepiado.

O beijo, apesar de ser urgente, tomava um ritmo gostoso. Mesmo de salto, era mais baixa que Hemsworth e estava praticamente na ponta dos pés, mas o tamanho do homem que a segurava tornava tudo fácil – ali, ela se sentia bem segurada.
A noção de tempo tinha sido apenas uma velha conhecida dos dois. tinha vontade de sair dali direto para o seu quarto de hotel com Liam.

— Hey, precisamos parar, porque não tá fácil resistir a você — ele cortou o beijo com alguns selinhos. — E eu preciso ir daqui a pouco — checou o telefone no bolso.
— Também acho — ela sorriu tímida, olhando para o chão. — Que pena que você tem que ir.
— Sim, tenho que estar amanhã cedo no set de filmagem, meu voo é em duas horas — fez uma cara desapontada.


•••


O beijo entre os dois continuava em repeat na sua memória, mas infelizmente Liam teve que partir para pegar o avião e retornar aos Estados Unidos, pois tinha alguns compromissos. não podia dizer que não estava surpresa de uma maneira boa, já que Hemsworth beijava extremamente bem. Porém, uma cena em particular tinha lhe deixado curiosa: tinha visto um rosto conhecido a olhando quando se virou para sair do terraço com Liam em seu encalço. Mas queria pensar que fosse só um achismo, até porque estaria vigiando o que ela fazia?
O DJ do lugar sabia como animar as pessoas, e os vencedores do campeonato não podiam estar tristes, afinal todos seus esforços tinham sido recompensados com um belo troféu. também estava feliz, rodeada de seus amigos. Tinha ficado com seu ídolo da adolescência e já estava exausta de tanto dançar, quando voltou mais uma vez à mesa e encontrou alguns amigos ali.

— Alguém poderia me dar uma carona pro hotel? Tô morta!
— Eu ia ficar mais um pouco, — disse Pierre. — Posso te levar, se quiser… Depois eu volto.
— Nah! Fica tranquilo, Gasly! Eu levo a sem problemas — pulou da cadeira .
— Obrigada de verdade, Gasly! — foi em direção ao francês e lhe deu um abraço e um beijo de despedida.
— Por nada! — ele olhou para o chão, ficando de certa forma sem jeito.
— Vamos? — abraçou os ombros da amiga, que acenou a todos de forma geral e saiu de lá com a mão de em sua cintura.

Já dentro do carro de , a social media deixou o corpo relaxar, encaixou-se no banco concha e se sentiu mais à vontade.

— Meus pés estão destruídos, mas tô feliz — ela quebrou o silêncio.
— Posso fazer uma massagem neles se você quiser — o tom de voz de era sexy e era notório o quanto ele lutava contra suas próprias vontades.
— Hmmmm — ela suspirou de alívio, apreciando a ideia. — Seria ótimo!
— Você se divertiu hoje?
— Muito! Mas sabe de uma coisa?
— Hm?
— Nas últimas festas acabamos os dois juntos voltando pra casa, e tenho a impressão que acabaremos como na última — riu sapeca.

Assim que estacionaram na garagem do hotel onde estava hospedado, os dois subiram com um silêncio ensurdecedor, mas porque suas mentes pensavam em tudo e nada ao mesmo tempo.

— Vou tomar um banho.
— Hmm, posso ir junto se quiser — provocou .
— Encontro você depois do banho, tenho planos pra você — negou de uma forma que deixou o australiano ainda mais excitado.

Ao sair do banho, estava enrolada em uma das toalhas perfeitamente brancas do hotel e os cabelos presos em um coque. estava deitado na beirada da cama, mexendo no telefone. Quando ouviu a porta se abrir, prontamente se sentou e olhou com luxúria todo o corpo ainda coberto pela toalha dá ítalo-brasileira. Não perdeu tempo, se levantou lentamente da cama e o caminho todo até foi alternando em encarar seus olhos e sua boca.
Mas ao contrário do que ela mesmo imaginava, começou um beijo calmo.
E gentilmente foi levando-a até a cama e fazendo seu corpo se deitar no colchão macio. Então, se ateve aos pés delicados dela e começou a fazer uma massagem como havia prometido, e teve um prazer imenso ao mesmo tempo que se apoiou nos cotovelos para ver o que fazia. Ela era um pouco impaciente; o queria e ponto, embora estivesse totalmente entregue a cada toque que recebia das mãos ágeis de , que começaram a subir pelas suas pernas nuas com beijos extremamente excitantes e ardentes. Elas começaram a esquentar não só por onde passavam, mas também toda a intimidade de , que começava a pedir por mais…

Uuh — ela caiu num suspiro de volta na cama após um round de sexo. — Eu tenho que confessar, amo transar quando estou alcoolizada.
— Eu transaria com você de qualquer jeito que você me quisesse, caramba, — constatou de uma forma a elogiar a moça.

Logo após ela pegou no sono deitada sobre o peito de , que fazia um carinho em seu ombro enquanto a abraçava.
Pontadas na cabeça acordaram os dois devido à mistura de drinks na noite anterior, uma bela ressaca estava formada. O travesseiro não parecia mais tão confortável como ontem, e as cobertas pareciam sufocar a ponto de dizer que deveriam acordar e enfrentar a consequência do álcool.

— Hey — disse baixinho —, vou pedir remédio pra dor de cabeça, você quer?
— Hmm — murmurou, fazendo careta. — Por favor — a voz de era tão rouca que quase não saiu de seus lábios.

Após alguns minutos, ouviram o barulho da campainha do quarto que pareceu romper seus tímpanos, fazendo com que colocasse o travesseiro na cabeça devido à pontada que parecia rasgar seu cérebro. , por sua vez, pegou uma camiseta rosa-clara com o número 3 que usava em tudo – não era só seu número de corrida, mas seu número para tudo – que estava em cima da cadeira. Então, foi em direção à porta do quarto para buscar o remédio que havia chegado. Agradeceu a simpática camareira e prontamente foi levar a bandeja até a cômoda para poder fechar a porta, que ainda estava entreaberta. Ao retornar para fechá-la, acabou se deparando com outro piloto que passava e não poderia ficar menos vermelha.

— Oi, ... Pensei que tivesse ido pro seu hotel — ele deu um meio-sorriso.
— Oi,


Continua...



Nota da autora: Olá minhas lindezas! Eu não esqueci de vocês nem um dia viu? Sei que essa att demorou um pouco, mas quem já se mudou de país sabe né? Agora tudo está mais no lugar e mais fácil pra essa autora que vos fala escrever mais! O próximo capítulo não deve demorar como esse, mas não vou prometer em 15 dias porque confesso eu enferrujei um pouco… Não deixem de me dar um feedback seja aqui nos comentários ou então lá no insta ou até no nosso grupo do Whats! ( se você quiser o link é só pedir lá no insta da Pp) Me contem tudinho! Até a próxima! Se cuidem e super beijo!




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