Capa-Wildest-Dreams
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Última atualização: 25/04/2021

Aviso

A história a seguir contém elementos da cultura Sioux, um povo indígena originário dos EUA e Canadá. Esses elementos existem há séculos, fazem parte de sua herança cultural e não foram criados por mim. A única exceção de minha autoria é a lenda dos lobos e como ela se desenrola pela narrativa. Declaro aqui meu compromisso em não modificar a cultura Sioux de maneira arbitrária para que se adeque à minha história. A representação cultural contida nessa obra é fruto de diversas pesquisas históricas, visando representar a herança indígena da maneira mais fiel possível.


Prólogo

Reserva Seven Arrows, 1987


Querido diário,

suas páginas são o único lugar em que posso me abrir verdadeiramente sobre os momentos de dúvidas tempestuosas que enfrentei.
Eu amo H. como nunca amei ninguém, meu amor por ele me consome, me faz flutuar, mas é dele de quem eu preciso? Meu coração diz que sim, mas minha mente se opõe.
A vida com H. é divertida, fácil, selvagem, intensa e profunda, porém ainda me sinto presa a ele e a este lugar. E se nós nos casarmos, eu ficarei presa aqui para sempre, a cada dia sendo lentamente engolida um centímetro a mais por essa areia movediça que eu chamo de “lar”. Minha família aprova nossa relação, mas poderia eu ser guiada pelos desejos e valores dela? Sou tão diferente deles, uma verdadeira estranha no ninho. Eles não me conhecem e não são capazes de entender o que eu almejo para a minha vida.
Por outro lado, John me oferece a oportunidade de ir embora dessa reserva que amputou um pedaço da minha alma há muito tempo. Essa pode ser minha única chance de sair, conhecer o mundo externo, ter uma vida “normal” como sempre sonhei. Eu sei que John poderia me prover uma vida estável, nossa própria família, uma casa longe daqui para tentar manter meus demônios o mais distante possível de nós; e isso significa o mundo pra mim.
Eu seria a mulher perfeita que sua família sempre projetou. Uma esposa carinhosa, dona de casa cuidadosa e claro, mãe dedicada, quando chegasse o momento em que o Céu me agraciasse com um filho.
Me dói profundamente o fato de que a única coisa que não ouso lhe prometer é o meu amor. Quando meu coração fala, eu calo, pois é por H. que ele clama.
Acho que finalmente chegou o momento de demonstrar que eu sou a mulher forte que minha mãe desejava que eu me tornasse. Uma mulher que escolhe o que é melhor para si e assume as consequências de seus atos, sejam elas quais forem.
Quando precisamos tomar uma decisão, na verdade nosso coração já escolheu. Nós só temos que ser corajosos o bastante para encará-la. E a minha decisão já está tomada.

Enola.



Capítulo 1 — Young and sweet


Risadas. Conversas. Gritos. Em todos os lugares para onde olhava tinham diferentes fontes de sons e sua mente estava preenchida por todos eles. Era difícil pensar em qualquer coisa além de aqui e agora.
As caixas de som faziam tudo tremer; os objetos, os móveis e até os corpos. Corpos esses que estavam suados, perfumados, se movimentavam no ritmo das músicas e se entrelaçavam uns aos outros de forma que quase não se podia identificar quem eram; mãos, bocas, ombros, pescoços se emaranhavam em luxúria.
Mas o som que preenchia o piso superior da fraternidade vinha das vozes que cantavam no karaokê. A Noite do Karaokê era uma festa anual dos SK Black Bears, o time de hóquei da Universidade de Saskatchewan, instituição onde vem cursando Medicina nos últimos dois anos.
Contudo, ele não estava na festa como estudante, mas como capitão do time de hóquei e organizador do evento. O time era conhecido por dar as melhores festas do campus e era sua responsabilidade garantir que esse legado continuaria intacto nessa noite.
chegou na fraternidade onde a festa ocorria sendo cumprimentado por colegas de classe, parceiros de time, líderes de torcida e diversas outras pessoas. Dentro da casa, luzes coloridas piscavam e fumaça se espalhava pelo ar, dificultando a visão.

— E aí, pessoal! Como tá a festa? Espero que o time tenha feito um bom trabalho. — Ele cumprimentou um grupo de colegas que conversava num canto da cozinha.
— Está incrível como sempre, !— Duas garotas se aproximaram dele e lhe beijaram o rosto como cumprimento.
— Quem está incrível como sempre: eu ou a festa? — ele se insinuou e elas riram — Eu não quero ver NINGUÉM de copo vazio, entenderam? — Ele colocou um braço ao redor dos ombros de cada uma das meninas e começou a conversar com elas.
— Chegou o grande , o cara que eu vou derrotar na partida de beer pong hoje! — Jason, o melhor amigo de que estava por perto o provocou.
— Cala a boca, Jason! O que as meninas vão pensar de mim se acharem que eu perco PRA VOCÊ? — falou sério, mas logo em seguida riu junto do amigo e fizeram um toque de mãos como cumprimento.
— Ah, deixa pra meter essa marra dentro do ringue de hóquei!

se despediu com um tapa no ombro do amigo e um sorriso para as garotas e foi em direção ao barril de cerveja em cima do balcão. Com seu copo cheio em mãos, subiu a escada principal para o segundo andar.
O piso superior não se diferenciava em quase nada do térreo, exceto por ser um espaço menor e mais fechado. Ele já vinha subindo os degraus cantarolando o clássico que tocava naquele momento no karaokê: ‘Dancing Queen’, do ABBA.
Ao chegar no recinto, olhou por toda a extensão do lugar, tentando achar rostos conhecidos de amigos ou mulheres. Mas num estalar de dedos, um único rosto passou a importar para ele naquele momento.
De longe ele a viu, em cima do palco improvisado do outro lado da sala, a garota mais graciosa que ele já vira. Todo o mundo pareceu parar e silenciar-se para que ele pudesse focar naquela cena, assistindo-a performar com duas amigas e se divertindo como se aquele fosse o melhor momento de sua vida.
Ele não sabia explicar o que passava por sua cabeça ou pelo seu coração. Tudo nela irradiava aos olhos dele. Seu sorriso, a maneira como movimentava seu corpo nos passos de dança, como entoava cada palavra da canção com brilho nos olhos. Nunca antes ele havia visto uma mulher com tanta graciosidade e carisma. Um magnetismo forte o puxava para ela, seja lá quem ela fosse.
atravessou a sala para se aproximar de um de seus colegas de classe. Inexplicavelmente, a multidão que lotava a sala não foi o bastante para que ela não prestasse atenção em . Como se ela pudesse ler seus pensamentos, olhou para o fundo do cômodo e os olhares deles se encontraram. Por um segundo ele segurou a respiração, tenso, enquanto ela cantava especialmente para ele, se distraindo da cantoria e quase tropeçando nas colegas.

— Quem é aquela? — ao se referir à seu colega de classe, apontou para a garota de cabelo castanho na altura dos ombros
— Acho que o nome dela é , aluna de Literatura ou Filosofia, sei lá. — o colega respondeu, olhando para e rindo da expressão de encantamento que cobria seu rosto.

Sua mãe o obrigou a assistir Mamma Mia! com ela um número de vezes suficiente para que reconhecesse que elas imitavam um trio de cantoras do filme. Se aquela garota fosse a Donna, ele sentiu que faria qualquer coisa no mundo para ser seu Sam.
Desafortunadamente, chegou atrasado e teve de despertar de seus sonhos. A música acabou e enquanto todos aplaudiam, um rapaz se aproximou do palco e pegou a garota pela cintura, ajudando-a a descer. Ele engoliu em seco ao vê-la olhar para ele por cima do ombro mais uma vez, antes de sumir na multidão abraçado ao outro homem.

________________________________________


estava sentado num banco em frente à biblioteca do campus, folheando as anotações de um caderno qualquer mas sem conseguir realmente prestar atenção. Sendo o tipo de estudante inteligente que não precisa se esforçar muito para tirar ótimas notas, ele sempre passou longe da biblioteca. Porém, na última semana ele vem passando muito tempo entre os livros, procurando por , afinal, se ela é estudante de Literatura ou Filosofia, mais cedo ou mais tarde irá aparecer na biblioteca, pois lugar era tomado por alunos dos cursos de Ciências Humanas.
De repente, seus olhos captaram pela visão periférica a imagem que estava prestes a mudar seu dia. vinha caminhando despretensiosamente pela calçada. Com sua mochila pendurada no ombro direito, seus fones de ouvido e um sorriso lindo, ela andava simpática, cumprimentando vários conhecidos pelo caminho. Qualquer um que a olhasse naquele momento veria apenas uma garota de beleza comum; mas para , era como ver uma modelo da Victoria's Secrets na passarela.
Ele já não se importava com suas anotações idiotas da aula de Farmacologia Aplicada, pois decidiu que não tinha mais nada pra fazer ali. Quando ela passou por ele, esperou alguns segundos e a seguiu para dentro da biblioteca.
Mesmo vendo com outro homem na festa da semana anterior, não desistiu. Talvez ele não fosse namorado dela, mas apenas um ficante ou amigo. Ele não pensou em outra coisa na última semana, logo decidiu que valia a pena ter certeza sobre o estado civil de sua ‘Donna’.
Ele entrou no saguão repleto de estudantes e o falatório de dezenas de vozes se tornou apenas um ruído branco em sua mente. De relance, viu apenas um rabo de cavalo de cabelo castanho passando entre alguns grupos de estudantes, era difícil ver com tantas pessoas no caminho tapando sua visão. O garoto concluiu que ela ia para o fundo da biblioteca, onde ficam as mesas de estudo e é proibido falar em qualquer tom que não seja sussurrando.
Andando por entre as estantes, pegava alguns livros, abria em páginas aleatórias e colocava de volta nas estantes. Não podia correr até ela sem passar a imagem de um stalker seguindo uma vítima. Até que um dos livros que pegou revelou a imagem dela por detrás daquela estante.
Sentada sozinha, lendo um livro e fazendo anotações. A mão no pescoço apertava os músculos como quem procura relaxar a tensão. esticou a mão para pegar um livro qualquer da prateleira mais próxima, mas não conseguia tirar os olhos dela e de sua boca que balbuciava as palavras sem emitir nenhum som; suas sobrancelhas arqueadas, revelando sua concentração. Ele puxou um exemplar, mas a pressa fora tanta que derrubou aquele e mais alguns. A confusão a fez parar as anotações e levantar a cabeça para constatar de onde veio aquele barulho, mas o rapaz conseguiu se agachar rapidamente e pegar os livros sem que ela tivesse tempo de reconhecê-lo.
Depois de organizar a bagunça que causou, tomou coragem e saiu de trás da estante. Chegando próximo a mesa de estudo, fez que iria seguir reto, mas parou para fingir que a reconheceu de maneira despretensiosa.

— Hey, você não estava na noite do karaokê do time de hóquei? — apontou para ela com uma falsa expressão de dúvida. Tirando sua atenção do livro, ela olhou nos olhos deles e naquele momento sentiu seu coração bater tão rápido e forte que suspeitou de que todas as pessoas na biblioteca poderiam ouvi-lo.
— Sim, eu mesma — respondeu e sorriu um sorriso fraco, abaixando o olhar para seu livro novamente.
— Você canta bem! — Ele falou sem nem pensar, ela riu espontaneamente e fechou o livro, o colocando em cima da mesa ao lado de uma pilha de outros exemplares.
— Olha só! — ela se debruçou na mesa. — Era noite do karaokê, ninguém lá cantava bem. Não precisa mentir pra mim só para puxar conversa. Ela riu e chutou de leve uma das cadeiras que estava ao seu lado, num gesto que o convidava a sentar com ela.

Antes de sentar ao seu lado, riu de volta e sentiu que se encantou um pouquinho mais com sua demonstração de esperteza. Assim que se acomodou na cadeira, ele congelou sem reação, pois se inclinou na direção dele e levou a mão até seu ombro esquerdo.
De repente, ela lhe mostrou uma flor cor de rosa, como aqueles mágicos que tiram moedas de trás das orelhas de uma pessoa.

— Tinha uma flor no seu ombro, presa na gola da sua camisa. — ela sorriu e pousou a flor sob a mesa. Ele riu sem graça, já que ficou completamente sem reação à aproximação repentina dela e mil cenários diferentes passaram por sua cabeça ao vê-la chegando tão perto. Desde a adolescência não se sentia tão nervoso perto de uma mulher, e isso era algo que o intrigava sobre .
— Obrigado por avisar, eu nem percebi. Deve ter caído sobre meus ombros quando eu estava sentado no banco embaixo da árvore. — Ele pegou um dos cadernos da garota que estava na mesa em meio aos livros e colocou a flor dentro dele, no meio de páginas aleatórias, para que ela guardasse como recordação.

Um fato interessante sobre é que por alguma razão ainda incompreensível, ela fazia com que se sentisse normal. Todos seus monstros e seus demônios, pareciam dar uma trégua na presença da garota. Ele sentia que não havia nada de errado com ele, nenhum segredo, nenhum trauma. Finalmente um homem e não mais uma aberração em que ele havia se tornado há alguns anos. Mas até quando essa sensação de normalidade iria durar? não sabia, mas estava disposto a ver onde aquela linda morena o levaria.


Capítulo 2 — Every rose has it thorns


3 anos depois


cheguei 19:00



já to descendo, quase pronta!!!!! 19:02

não me faça esperar, senão vou encontrar
outra garota para levar no seu lugar 19:03



EU TE DOU UM PÉ NA BUNDA TÃO FORTE
SE VOCÊ FIZER ISSO SMITH 19:10


levantou os olhos que fitavam as horas na tela do celular no exato momento em que descia a escadaria do dormitório feminino. Não pôde evitar sorrir para ela. Ela não era o tipo de mulher que demorava duas horas para se arrumar e não costumava usar looks glamorosos, mas ainda assim sua beleza era de tirar o fôlego.

— Que bom que você decidiu esperar e não me deixar para trás. — colocou as mãos na cintura e falou com uma expressão séria, tentando segurar o riso
— Eu jamais faria isso. — ele segurou o rosto dela em suas mãos e a puxou para um beijo apaixonado que durou tempo suficiente para que ambos quase desistissem de sair para jantar e fossem direto para o apartamento dele passar a noite juntos.
— Você está linda, como sempre. — abriu a porta do passageiro para a noiva e logo após ela se acomodar no banco, ele deu a volta e entrou no veículo também, se colocando ao lado dela no banco do motorista.
— Quase me esqueci — riu timidamente — Feliz 3 anos de relacionamento!

Ele pegou a mão esquerda de e a beijou suavemente antes de saírem


[...]


Seguindo nas estradas sinuosas a caminho do restaurante, ambos estavam em silêncio apenas ouvindo música e aproveitando a companhia. Depois de três anos juntos, o relacionamento deles já havia superado aquele estágio em que o silêncio entre o casal é algo desconfortável. Eles poderiam curtir horas ao lado um do outro sem nenhuma necessidade de preencher o silêncio com palavras. Para eles, às vezes apenas a presença já bastava.
respirou fundo, sentindo o cheiro de que ela tanto gostava. Seu corpo exalava um aroma que parecia um perfume natural, um cheiro de madeira, orvalho e pinheiro. Ela nunca sentiu nada parecido e isso era parte do que fazia ela se sentir tão atraída por ele.
Observando a floresta pela janela, percebeu a movimentação de um grande borrão branco que parecia até mesmo brilhar quando os faróis o iluminavam. Ele era ágil e ainda mais rápido do que o carro.

— Olha, um lobo! — falou animada.
voltou de seus pensamentos ao ouvir a palavra lobo. Ele olhou rapidamente para a lateral da floresta, para onde a garota apontava. Contudo, ele não precisava olhar; ele sentia o odor do animal.
— Como você tem uma visão tão boa? É difícil perceber um animal correndo rápido assim — Inquieto, pisou no acelerador desejando sair logo da autoestrada.
— Eu pude vê-lo melhor quando você diminuiu um pouco a velocidade. — respondeu — Estranho... lobos não são animais diurnos?
— Durante a Lua crescente a noite fica mais iluminada, então a vida noturna deles aumenta. — ele respondeu vagamente, olhando concentrado para frente
Aquele não era como ele. Aquele era um lobo de verdade, um animal comum. Aquele lobo branco que viu era como gostaria de ser: completo. Ele invejava as pessoas, com sua humanidade incontestável; e invejava os lobos, que eram livres de todas as amarras sociais sob as quais ele vivia. Enquanto ele se encontrava num limbo onde não se sentia totalmente homem nem animal. Ele era um ser indefinido, solitário, que passava metade do tempo desejando correr na floresta e a outra metade desejando que aquela transformação que vivia fosse a última, e que nunca mais sentisse aquela necessidade voraz de ser um lobo.

[...]


observou o líquido rosado preencher a taça em sua frente e agradeceu ao garçom com um aceno de cabeça. tomou um gole de seu vinho antes de retomar a conversa.
— Nem acredito que você conseguiu um tempo de folga dos estudos. Como está sua preparação para as provas?

Nos últimos dias, mal vira ou falara com , por estar focado em suas provas finais.

— Sinceramente, eu estou relaxado. Você me conhece, não é?! Eu passo os olhos pelos livros uma vez e é o bastante para entender a matéria, minha memória fotográfica não falha nunca. — eles riram — Eu tenho passado todo o tempo ajudando os caras, tipo o Jason, Matthew e Harry. Eles me pediram para explicar algumas matérias com as quais eles ainda têm dificuldade.
— Eu cheguei a pensar que você esqueceria nosso aniversário. — riu discretamente, enquanto a encarou surpreso
— Como eu poderia esquecer? Eu sou a pessoa romântica dessa relação! — ambos gargalharam
— Três anos é um tempo considerável. — esticou sua mão esquerda sobre a mesa, para que a pegasse — Estou muito feliz por chegar até aqui com você e te amo mais do que nunca.

O casal se olhava de maneira tão terna e profunda que pareciam exalar amor, fazendo com que algumas pessoas nas mesas ao redor olhassem para eles com admiração.

— Eu não consigo colocar em palavras o quanto você ilumina minha vida. Eu te amo — disse beijando a mão dela
— Você está animado para os nossos próximos passos? — passando o dedo indicador na borda de sua taça, baixou os olhos.

Ao falar sobre próximos passos, queria dizer a formatura de ambos; a entrada no mercado de trabalho, e enfim a concretização do noivado que já durava dois anos. Eles decidiram curtir o último ano de graduação sem pensar no casamento, pois haviam detalhes demais a serem decididos e precisavam de calma para isso.
se remexeu levemente na cadeira.

— Estou ansioso por tudo o que está por vir. Um pouco nervoso, é claro, mas totalmente seguro de que quero estar do seu lado. — a certeza fez sorrir
— Eu estive pensando em dar um novo passo e quero que você me diga sua opinião.
— Claro. — ele assentiu
— Bom, como já estamos no último semestre da graduação, eu estou tentando me encontrar na minha carreira, sabe? — ela tinha uma expressão de confusão — E cheguei a conclusão de que eu gostei da vida acadêmica e gostaria de continuar nela.
— Você quer fazer uma pós graduação? — a olhava atentamente
— Sim, uma especialização em Inglês. Acho que seria um ótimo complemento ao meu diploma de Literatura.
— Incrível, amor. Apoio totalmente! — ele sorriu para ela
— Mas o melhor programa de especialização em Língua Inglesa é o da Universidade de Toronto… — suspirou
— Toronto? — olhou para ela confuso — Você quer dizer, se mudar para Toronto?

Ele deveria saber que esse assunto retornaria mais cedo ou mais tarde. já havia demonstrado interesse em voltar para a cidade onde cresceu, mas ele nunca dera muita atenção.

— Sim, . Eu sei que temos que decidir isso juntos, mas se você pensasse com carinho tenho certeza que iria adorar.
— Mas Saskatoon é uma cidade tão boa, você não acha? Não é tão grande, cheia e barulhenta como Toronto. Além disso, tem o Hospital Universitário onde eu vou trabalhar. O professor Claymore me disse que vai ficar muito feliz em me ter como seu assistente, ele apenas espera pela minha formatura.
— Mas justamente por ser uma cidade grande, Toronto tem muito mais oportunidades de emprego do que aqui. Meus amigos vão adorar conhecer você, minha família te receberá muito bem. E eu quero muito te apresentar o lugar onde eu cresci.
— Eu entendo que você queira voltar para lá, . Só não imaginava que seria agora. — suspirou
— Eu até mesmo cheguei a cogitar a possibilidade de continuarmos à distância… — interrompeu a fala da noiva exasperado
— Noivado à distância??? Não acho que isso funcione, . Eu não quero me afastar de você.
— Eu também não quero me afastar de você, . Mas nesses quatro anos eu vi meus pais por cerca de duas vezes. Sua família mora a duas horas e meia daqui, enquanto eu tenho que enfrentar uma viagem de quase trinta horas até minha casa.
... — dessa vez foi quem interrompeu , ela tinha lágrimas encharcando seus olhos e sentia que se parasse de falar, elas escorreriam por sua face.
— Sua família é pequena também, então você me entende, não é?! Meus pais e minha irmã são tudo o que eu tenho. Todos os meus outros familiares estão no Brasil e a última vez que os vi, eu ainda usava aparelho nos dentes e media 1,40 de altura. Aposto que eles nem me reconheceriam hoje.

Percebendo que as lágrimas secavam, se acalmou aos poucos e respirou fundo. Ela sentiu o toque de em sua mão, que tremia nervosamente; ele passava os dedos delicadamente pelo anel de noivado dela.

— Eu prometo que vou pensar com carinho, ok?! Confie em mim. Nós vamos resolver essa questão juntos… — foi salvo pelo gongo quando um garçom se aproximou da mesa com um buquê de rosas
— Senhora Smith? — o rapaz perguntou se dirigindo à , que o olhou surpresa por ser chamada assim
— Sou eu. Quer dizer, não ainda — ela riu — Ainda sou apenas senhorita Costa.
— Um presente para a senhorita. — o funcionário entregou o arranjo nas mãos de e ela sorriu encantada
, que lindas! — ela cheirou as flores, apreciando o aroma — Você é perfeito.
— São trinta e seis flores; uma para cada mês que passamos juntos. Já que concordamos em não nos dar presentes caros, escolhi um buquê de rosas. É um clássico, nunca tem erro. — ele riu
— É claro que tive que pedir para não trocarmos presentes caros. Em todas as datas comemorativas você me presenteia com algo que custa o valor da minha hipoteca, enquanto eu te dou um cartão pintado com lápis de cor escrito “eu te amo <3”. Tive que dar um basta nisso; não posso competir com você. — eles gargalharam juntos
pousou o buquê num canto da mesa e olhou para .
— Eu não queria abalar nossa comemoração. Apenas venho me sentindo muito emotiva nos últimos tempos, acho que tenho muita falta de casa. É só saudade… disse a última palavra em português, com o sotaque brasileiro que ela usava apenas com sua família e disfarçava na maior parte do tempo perto dos canadenses.
— O que isso significa? — estava curioso
— Saudade é… — ela respirou fundo e pensou na melhor maneira de lhe explicar — é um sentimento de que você sente falta de algo que faz parte de quem você é e você quer recuperar, e essa falta é como um buraco no seu peito, sabe?! É como uma dor crônica; você vive com ela, se acostuma e às vezes até esquece dela ou a ignora, mas enquanto não a curar, ela vai continuar lá, te dando pontadas quando você menos esperar. Saudade é uma nostalgia que dói.

ficou um tempo em silêncio, olhando nos olhos da noiva e processando a explicação que ela deu.

— Eu não esperava que fosse algo tão profundo. — riu nervoso — Eu não poderia imaginar que você se sente dessa forma, . Quando você se sentir sobrecarregada emocionalmente, eu quero que você ME FALE, por favor! Eu estaria ao seu lado te apoiando se soubesse que você está tão emotiva ultimamente.
— Obrigada, querido. Não se preocupe, eu vou ficar bem.

O assunto se encerrou assim que seus pedidos chegaram.

[...]


observava a tatuagem delicada de um ramo de flores que circundava o seio direito de , enquanto ela levantou e andou até o armário para pegar uma das camisetas dele e usar como pijama.
Se enrolando no lençol, levantou e foi até seu casaco jogado no chão.

— Acabei de me lembrar que tenho mais um presente para você.
— Mais um? — perguntou curiosa, mas sem tirar sua atenção das gavetas de , ainda procurando por uma peça que a agradasse — Espero que não seja um diamante ou uma Ferrari. — ela debochou
— HA HA HA, muito engraçado! — respondeu sarcasticamente — Pega!

Ele jogou um pacote na direção de , que não foi rápida o suficiente para segurar. O pequeno pacote lhe acertou em cheio no rosto antes de cair ao chão. revirou os olhos para , antes de se abaixar e pegar seu presente.

— REESES!!!! AI EU TE AMO, ! —
deu um beijo no noivo como agradecimento. Ela era uma mulher muito simples de se agradar; um mero pacote dos seus chocolates favoritos recheados com pasta de amendoim era o bastante para deixa-la feliz, mais do que um diamante ou uma Ferrari deixariam.
Ele riu com a alegria que a fez parecer uma criança empolgada. Ela finalmente vestiu uma camiseta cinza qualquer e se sentou na cama ao lado dele para comer seu chocolate.

— Por que não vestiu uma das minhas camisetas do Senators? — ele provocou
— Eu jamais faria isso! Chega a ser blasfêmia, sou Maple Leafs até morrer.

Ele gargalhou.

— Você pode ter bom gosto para homens, mas é terrível escolhendo times de hóquei.
— Cala a boca!

abria o pacote de doce com os dentes, ansiosa para comê-los. Ao pegar dois dos chocolates, deu um para , que aceitou logo mordendo um pedaço.

— Ficaram um pouco derretidos porque eu esqueci no bolso do meu casaco… — falou de maneira quase incompreensível por estar com a boca cheia, mas o ignorou e levantou correndo em direção ao banheiro tapando a boca com as mãos. a olhou sem compreender o que havia acontecido e a seguiu.

, o que aconteceu? — ele perguntou do lado de fora do banheiro, preocupado ao ouvir sons de vômito. O silêncio durou alguns segundos mais, antes de chamá-la de novo.
, abra e deixe eu te ajudar. — ele disse firme — Eu não quero ter que arrombar a porta.

Um momento depois, ele escutou o clique da porta sendo destrancada. Ele entrou e ela voltou a se abaixar no chão em frente ao vaso sanitário.
andou até a noiva que mirava o interior da privada com uma expressão de ânsia e se abaixou junto dela, segurando seus cabelos para que ela pudesse ficar ligeiramente mais confortável.
O enjoo durou alguns minutos, e quando ela terminou, se levantou para escovar os dentes e lavar o rosto.

— Obrigada, amor. Já estou melhor. — afirmou enquanto procurava uma escova de dentes nova no armário do banheiro
Vendo que estava encostado na porta a fitando com uma expressão de séria preocupação, ela completou:
— Com certeza eu não deveria ter tomado tantas taças de rosé. Apenas o cheiro doce do chocolate foi suficiente para me enjoar, nem ao menos consegui comer um pedaço. — ela falou enquanto sua boca enchia-se com a espuma branca sabor hortelã
— Você está sentindo algum outro sintoma além de enjoo? — se aproximou para colocar a mão sob sua testa, conferindo se ela tinha febre. Quando ele puxou levemente as pálpebras dela para verificar suas pupilas, deu um leve tapa na mão dele.
— Tá bom, Dr. . Relaxa, eu disse que já estou bem. Foi um enjoo momentâneo. — ela riu sem graça
— Se algo piorar, me diga — disse ainda desconfiado — Vou te esperar na cama. — ele saiu dando um sorriso maroto


[...]


corria na floresta fria e escura, desviando das árvores, troncos e moitas. Na verdade, ele não corria apenas; ele fugia de algo. Ou alguém.
Ele tinha medo de olhar para trás e confirmar quem o perseguia, mas ele sabia que era , pois sentia seu cheiro. A cada passo que dava na terra, sentia o pânico aumentar em seu interior. O que estava fazendo lá e como corria tão rápido? Ela não deveria segui-lo, ainda mais de tão perto.
De repente, sua atenção se voltou para si mesmo e pela primeira vez ele olhou para baixo, se assustando com o que viu. Como ele havia se transformado em um lobo branco?
Quando chegava na encosta da floresta, avistou uma matilha de lobos do outro lado de um penhasco. Eles o observavam, bem na beira das rochas e o chamavam com uivos agoniados.
correu o mais rápido que suas pernas aguentavam, tentando forçá-las a ultrapassar seu limite de velocidade. Finalmente chegou na ponte em que atravessaria para chegar aos lobos no penhasco.
Ele disparou pela velha ponte de madeira podre e cordas finas, que parecia ficar cada vez mais comprida a cada metro que ele avançava. Os lobos uivavam desesperadamente para apoiá-lo. Parecia não haver fim naquele caminho elevado, que se agitava com seu peso e movimento.
Quanto mais ele corria e desejava cruzar a ponte, mais ela oscilava sob suas patas. Afinal, ela começou a se romper. Peça por peça de madeira se soltavam das cordas velhas e caíam atrás de . Naquela angústia interminável, finalmente faltavam poucos metros para que ele alcançasse o penhasco e ficasse a salvo. saltou o mais alto que pôde em direção à alcatéia, mas seu esforço foi em vão.
A ponte terminou de se estraçalhar, e conforme ele despencava, seu corpo voltou a ser humano novamente.

abriu os olhos aflito e exasperado. Sua respiração estava rápida e forte, como se tivesse corrido duas maratonas enquanto dormia.
Passou a mão nos cabelos molhados de suor para tentar se acalmar. O relógio apontava que eram três horas da manhã em ponto.
Mais um daqueles pesadelos inquietantes que vinham tirando seu sono nos últimos meses. Ele já havia sonhado com antes, em diversos momentos que ela descobria a verdade sobre sua condição de transmorfo. Entretanto, pela primeira vez ele sonhara com outros lobos.
Ele sempre fora um lobo solitário, jamais conheceu outra pessoa que passasse pelas mesmas transformações que ele, mas naquele sonho os lobos eram iguais a ele. Eram transmorfos também; ele podia sentir.
Olhou dormindo serena ao seu lado e suspirou, antes de levantar para tomar um banho gelado.


CAPÍTULO 3 — I'm wondering when will it all collapse

acordou mais uma vez ao ouvir as vozes. Às vezes elas vinham como sussurros, outras vezes como gritos, mas nada as calava. Eram homens e mulheres que chamavam por ele com agonia, desespero, e até mesmo raiva. Suas últimas noites de sono tem sido assim; ele cochila por alguns minutos, mas logo é acordado pelas alucinações.
Elas são piores durante o sono pois é quando ele está inconsciente. Antes elas não surgiam durante o dia, quando ele estava acordado, porém isso mudou recentemente. Agora ele passa o dia revezando entre tentar dormir e tomar antipsicóticos que roubou da farmácia do Hospital Universitário. Afinal, ele só poderia estar se tornando insano. Mas para sua surpresa, os remédios não faziam tanto efeito quanto num ser humano normal, e logo os efeitos passavam.
Sentou cambaleante na cama e limpou o suor da testa antes de pegar seu celular.

você está melhor?? 00:00

um pouco melhor. Só preciso de uma ou duas
boas noites de sono 00:25



odiava mentir para , mas era melhor do que deixá-la preocupada.

tem certeza de que não quer que
eu vá cuidar de você? :( 00:28

posso pelo menos te ajudar a estudar
um pouquinho para as provas finais 00:29

relaxa, amanhã já devo estar curado. E estou
estudando pela internet, vai dar tudo certo 00:34



Vai dar tudo certo. Vai dar tudo certo?
não aparecia na universidade há dias, teve que inventar para e para seus colegas do time de hóquei que pegou uma gripe muito forte e não conseguia nem ao menos sair da cama. Além de precisar roubar remédios fortíssimos que não lhe seriam prescritos facilmente; perder aulas importantes que precediam as provas finais; não poder treinar seu time para os últimos jogos da temporada e deixá-los sob responsabilidade do co-capitão e ter a certeza de que estava ficando louco.
Tudo isso foi consequência de como sua mente e seu corpo vinham se comportando nas últimas semanas. Se sentia demasiadamente temperamental, com crises de mau humor que surgiam do nada e o faziam se sentir com ódio e ansioso. Essas mudanças comportamentais lhe causavam tremores e um aumento em sua temperatura corporal de maneira que um ser humano normal com certeza sofreria de hipertermia. Tinha picos de adrenalina que o faziam suar e aumentavam seus batimentos cardíacos como se fugisse de algum perigo. Mas o único perigo existente ali era ele próprio.
concluiu que seria melhor se afastar das pessoas por alguns dias até que pudesse se curar dessa “gripe lupina”. Ele se desesperava de medo ao pensar que poderia se transformar na presença de alguma pessoa e ainda machucá-la, principalmente se fosse . Ele jamais perdoaria sua falta de controle. Entretanto, seu estado físico e mental ficava cada vez mais instável e incontrolável e ele não sabia o que fazer além de esperar passar, pois nunca havia passado por isso antes.
E ainda havia as vozes que ele escutava. Diversas vozes que pediam socorro em sua cabeça, mas só ele as ouvia. tentava ignorá-las ouvindo música, cantando, dormindo, mas nada as fazia parar de clamar por ele.

eu fui na farmácia comprar o remédio
que vc disse que tá tomando mas o
farmacêutico vendeu sem receita :/ 00:33

sem problemas bae, eu me viro 00:43



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não sabia o que fazer em relação à . Ele não ia à faculdade há vários dias, estava doente e sozinho em casa e não havia nada que ela pudesse fazer para ajudar, nem conversar com ele para passar o tempo. Sempre foi muito desatento com o celular, mas agora estava ainda mais. Demorava mais para responder as mensagens da namorada e não desenrolava a conversa, apenas respondendo aquilo que ela perguntava.
Mas ela era muito empática quando via alguém passando por algum problema. Tão empática que não conseguia apenas ficar parada observando o sofrimento alheio; ela tinha que intervir, mesmo quando já haviam lhe dito que ela não precisava se preocupar. “Relaxe, não se preocupe! EU ODEIO ESSAS PALAVRAS! Como eu posso não me preocupar com a situação do meu noivo??? Ele não aceitaria minha ajuda nem se estivesse no leito de morte. Como pode ser tão orgulhoso?” discutia consigo mesma em seu dormitório da faculdade enquanto preparava uma xícara de chá. “Ele quer desalinhar meu chakras, só pode ser isso.”

— O ainda não está curado? — Savannah, a colega de quarto de perguntou — Ainda não — ela suspirou — É a gripe mais forte que eu já vi.
— Me surpreende você ainda estar aqui em vez de ter ido cuidar dele.
— E você acha que eu não me ofereci? Ele diz que pode se virar sozinho. Mas eu duvido!

Desde quando um homem consegue tratar uma gripe sozinho? A ideia dele de “se cuidar” deve ser escrever um testamento porque acha que já deve estar com o pé na cova. Se eu estivesse lá, ele já estaria curado.

— Por que você simplesm… — Savannah iniciou a frase, mas não a deixou continuar — Não apareço na casa dele de surpresa??? Claro! Ele não poderá bater com a porta na minha cara — andou de um lado ao outro pelo dormitório recolhendo seu celular, chaves, e outros pertences. Saiu gritando e batendo a porta enquanto vestia um cachecol.
— Tchau, Van! Você é genial.

Savannah apenas riu e balançou a cabeça, voltando aos estudos.

Na rua, a noite fria fazia esfregar as mãos na tentativa de esquentá-las, saiu com tanta pressa que esquecera suas luvas. O inverno de Saskatoon era um dos mais rigorosos do Canadá, e nesses momentos em que ele não dá trégua, fecha os olhos e se imagina numa praia brasileira, onde o clima era ensolarado nesta época do ano.
Parada em frente à loja de conveniência onde foi comprar mais alguns remédios e uma sopa pronta para fazer para o noivo, teve de acordar de seus sonhos tropicais ao ouvir a buzina do Uber que solicitou.
O apartamento de no centro da cidade não era muito longe, mas distante o suficiente para não se arriscar no frio. Sua roupa era quente mas não o suficiente para aguentar uma nevasca.
Com a cabeça encostada no vidro, ela ouviu o motorista falar.

— Você parece preocupada.
— Sim, eu estou — ela respondeu desanimada, sem nem ao menos tirar os olhos da rua lá fora.
— O que pode preocupar uma moça tão bonita assim? — o rapaz perguntou risonho.
— Meu noivo — respondeu firme para o motorista entender que ela não estava a fim de papear e ser chamada de ‘moça bonita’ dentro do carro de um desconhecido, sozinha e durante a noite.

Ao ouvir a palavra ‘noivo’, o homem se calou e voltou a se concentrar no tráfego.
O carro parou em frente ao prédio de e pagou e agradeceu pela corrida, recebendo como resposta apenas o silêncio do motorista. 3 estrelas.
Ao chegar no prédio, pediu para que o porteiro não anunciasse sua chegada, para poder fazer surpresa para . O pedido foi atendido de imediato, pois o porteiro já a conhecia e simpatizava muito com ela.
Subiu saltitando pelas escadas, para tentar espantar o frio e por estar ansiosa para ver .
Parou em frente ao número 64 e apertou a campainha. Se colocou no canto do corredor, ao lado da porta, assim não poderia vê-la pelo olho mágico e teria uma surpresa ao abrir.

O som da campainha fez o corpo de estremecer. Mesmo de longe, ele sentiu o cheiro de e pensou que se não a atendesse, ela pensaria que ele estava dormindo e iria embora. Mas enfim a campainha tocou novamente.
Que besteira! Ele conhecia muito bem sua garota, ela não desiste fácil. Foi até a porta e falou com .

, o que está fazendo aqui?

A garota do lado de fora ficou surpresa. Como ele sabia que era ela?

, se você me viu pelo olho mágico por que não abriu logo? - ela questionou confusa.
— Eu não te vi, apenas… — não poderia revelar que seu olfato a detectou antes mesmo dele se aproximar da porta — Quem mais me visitaria a essa hora, né? Só poderia ser você.

Ele tentou falar de maneira carinhosa e descontraída, para suavizar a conversa.

— É verdade. Ok, agora abra aqui!
— Eu não posso, bae. Estou doente demais e você não pode correr o risco de se infectar.
— Para de bobeira, . É só uma gripe e você está há dias sozinho, estou com saudades — mesmo do outro lado da porta, podia imaginar a expressão de carência que fazia e ele sentiu um aperto no peito.
, é sério. Me perdoa, mas eu não vou abrir - ele sentia os tremores voltarem.
, eu não estou brincando, eu vim até aqui e você vai me deixar pra fora por orgulho de aceitar minha ajuda? — chacoalhou a maçaneta para abri-la, mas não teve sucesso.
— Não estou com uma gripe comum, . Estou com suspeita de gripe H1N1, é muito mais forte e contagiosa.

levou alguns segundos para lembrar de qual doença se tratava.

— Gripe suína? Como isso é possível, ? Não pode ser, há muito tempo não há um caso no país.
— Há dias eu tive contato com um paciente no Hospital Universitário e ele estava doente. Provavelmente fui infectado. Mas tá tudo bem, desde que você não chegue perto.

Agora tremia de forma incontrolável e sentiu seu humor mudando.

— Eu posso colocar alguma máscara, luvas sei lá… — a interrompeu.
, VAI EMBORA! — ele gritou e socou a porta.

Do outro lado, tomou um susto e se afastou da porta. a via pelo olho mágico e se sentiu extremamente culpado pela expressão no rosto dela.
Magoada, assustada e desapontada, deixou no chão em frente à porta a sacola que continha as coisas que ela havia comprado na loja de conveniência.
Ela se aproximou da porta e colocou a mão na madeira, como se pudesse tocar do outro lado.

, eu… — a voz dela falhou um pouco, antes de firmar novamente - Me desculpe vir sem avisar e te deixar bravo, mas eu só queria ajudar e cuidar de você. Eu já estava preocupada antes e agora estou mais ainda. Você com certeza não está bem e precisa de ajuda. Se não a minha, de um médico.

deu passos para trás e se afastou do apartamento.

— Me avise quando estiver bem.

Pelo olho mágico, viu a garota virar as costas e ir embora. Ele encostou a testa na porta, tentando se controlar para não quebrá-la em pedacinhos. E com o descontrole que tomou conta de seu corpo nos últimos dias, ele com certeza conseguiria quebrar muito mais do que só a porta.
Ele sentia falta de a todos os momentos; sem ela seus dias pareciam incompletos. Seu sorriso, sua alegria, seu bom humor, sua tagarelice; tudo isso causava uma maldita saudade que diminuía o coração dele. É óbvio que ele se sentia culpado por não contar à o que estava acontecendo e o que ele realmente era.
Naquele momento, sentindo seu corpo tremer da cabeça aos pés e sua temperatura atingir mais de 40º, decidiu que precisava passar por esse momento logo, pois chegara a hora de revelar a verdade.
Ele sentia um medo sufocante de perdê-la depois de contar, por isso demorou todo esse tempo. Ele não via saída para seu relacionamento e sentia que a cada dia escapava um pouco mais pelas suas mãos, como fumaça que se esvai pelos dedos.
O primeiro ano de namoro, os dois anos de noivado, o planejamento de um futuro juntos. não conseguiu segurar as lágrimas de tristeza, medo e raiva, ao pensar que provavelmente perderia tudo isso. Sua vida estava prestes a sofrer um colapso inevitável e ele morria por dentro toda vez que lembrava que estava no meio desse confronto entre o lobo e o homem.

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Cada som emitido na sala martelava profundamente na mente de . Esse era um daqueles momentos em que as desvantagens de ter audição de lobo ficavam mais perceptíveis.
Tic.
O barulho áspero dos lápis correndo rapidamente pelas folhas e do papel sendo amassado e dobrado parecia um ruído branco na mente de .
Tac.
As vozes dos alunos que liam as questões da prova sussurrando se confundiam com as vozes que ouvia em sua cabeça. Elas lhe chamavam em agonia. Elas chamavam seu nome no meio das frases confusas sobre sistema linfático.
Tic.
“Onde você está? Onde você está?”
jurou para si mesmo que se seu melhor amigo Jason batucasse a caneta sobre a mesa de madeira mais uma vez, ele lhe quebraria a mão direita.
“[...] possui outras funções como a proteção de células imunes…”
Como se manter de olhos abertos e concentrado no teste com o tremor que começava a tomar conta de seu corpo? Há poucos segundos amaldiçoando mentalmente Jason por fazer barulhos constantes com a caneta, agora era quem não conseguia evitar bater os dedos em sua mesa, procurando se acalmar.
Uivos ressoavam na sua mente, ficando cada vez mais altos e difíceis de ignorar. Seu instinto exigia responder aqueles chamados.
Tac.
…”
Agora as vozes apareciam como sussurros agoniados, clamando pela presença do rapaz. olhava em volta desesperadamente procurando por quem lhe chamava.

— Fala logo! — ele finalmente exclamou em voz alta.

Jason e meia dúzia de pessoas que sentava em volta olhou para sem entender. O professor se levantou da mesa ao perceber a movimentação no fundo da sala e olhou diretamente para os rapazes.

— Algum problema aí atrás? — ele questionou olhando-os por cima dos óculos.

Tic.
“Nós precisamos de você.”

— Professor, desculpe por interromper - falava entre dentes, lutando para fazer seu cérebro formular uma frase completa e com sentido — Mas que horas são?

O homem em frente à lousa suspirou impaciente.

— 20:45 — ele respondeu sério e voltou à mesa.
— Hey cara, veio chapado pra aula? — Jason cutucou e riu.

Ao sentir o toque do amigo em seu ombro, se assustou. Uma gota de suor escorreu da testa dele diretamente para seu caderno. Sentia-se quente, como se suas veias espalhassem um calor insuportável por todo seu corpo.
TAC.
não conseguiria mais permanecer naquela sala com tantos estímulos. Ele precisava respirar livremente.
Puxou sua mochila e a jogou no ombro, andando apressadamente até a mesa do professor e largou sua prova sobre o móvel, sem nem olhar na cara do homem sentado ali. esperava que conseguisse tirar pelo menos a nota mínima, já que conseguiu responder umas ou outras questões. Mas agora essa era a menor de suas preocupações.
Sua pressa foi tanta que bateu a porta ao sair e chamou a atenção de toda a sala. Atravessou o corredor e desceu as escadas do prédio dois degraus de cada vez. Foi em direção ao estacionamento onde estava seu carro, mas depois de dois passos sentiu que não conseguiria chegar até lá. Pelo menos não em sua forma humana. Andou mais poucos passos rápidos até uma parte do campus onde haviam muitas árvores e quase nenhuma câmera de segurança.
Agora tremia como nunca antes. Tocou seu rosto e sentiu uma temperatura quase insuportável, chegando a pensar que poderia queimar alguém que o tocasse. As vozes na sua cabeça se misturavam com seus próprios pensamentos, fazendo da sua mente um caos total.
“O que está acontecendo comigo? Eu vou morrer?”
caiu de joelhos no gramado, zonzo e com a visão turva.
“Onde está você? PRECISAMOS DE VOCÊ AGORA!”
Esse pedido de uma das vozes ecoou no fundo de sua mente e o descontrolou por completo, o fazendo urrar. Suas roupas se rasgaram em pequenos pedaços quando seu corpo iniciou a transformação.
Sua transformação não era dolorida nem demorada como alguns clássicos da cultura pop faziam parecer. Era como piscar ou respirar; sem dor e acontecia tão rápido que mal dava para contar o tempo.
Em segundos o lobo totalmente preto surgiu. Enorme, maior e mais feroz do que um lobo selvagem comum. Ele se sentia muito confuso em relação a essa transformação repentina, pois sua natureza não era assim. Ele sempre controlou suas transformações, indo e vindo de sua forma lupina quando bem entendia.
Essa transformação causou uma explosão de adrenalina tão grande em seu organismo que seus sentidos e instintos foram afetados, pois tudo o que ele sentia era raiva e selvageria; uma vontade de correr e caçar. Assim, não percebeu quando alguém se aproximou dele.
Uma luz brilhou em seus olhos e o fez rosnar. Quando finalmente conseguiu enxergar, viu um dos guardas da universidade com uma lanterna e uma arma vindo em sua direção. Mesmo com desejo de caçar, seu instinto de sobrevivência falou mais alto e ele correu quando ouviu o homem falando num walkie talkie.

— John, você precisa vir no jardim do prédio G, AGORA! AGORA! — o guarda tremia e sua voz quase falhou.

O grito dele foi a deixa para finalmente começar a se embrenhar pelas árvores, com o homem correndo em seu encalço. A sua velocidade era superior a de qualquer outro ser vivo, então naturalmente não seria alcançado pelo homem. Mas havia outros seguranças espalhados pela faculdade e se um grupo grande deles o encontrasse, talvez poderiam cercá-lo e nunca soube qual é o efeito de um tiro num transmorfo como ele. Talvez ele morresse, apenas se curasse rapidamente ou na pior das hipóteses, se transformasse novamente em humano por estar machucado. De qualquer maneira, ele não queria pagar para ver.
Ele não podia fugir pelas ruas da universidade e correr o risco de ser visto por algum aluno ou professor, então focou no caminho de árvores no fundo da instituição. O local era deserto durante a noite e a mata é o habitat natural dos lobos. Lá ele se sente mais confortável, tornando a fuga mais fácil.
O guarda que o seguia estava a muitos metros de distância, mas ao longe ouviu mais 3 vozes masculinas que vinham em sua direção.

— É impossível, nenhum lobo aparece numa área urbana de repente.
— Mas foi exatamente o que o Mark disse: um lobo gigante estava na área do prédio G!

A cada frase eles paravam de falar para respirar um pouco, cansados pela corrida.

— Deve ser um cachorro perdido, no máximo. Lobos gigantes, era só o que faltava. Por acaso Mark nunca vira um husky siberiano antes?

De repente Mark, o primeiro guarda que vira , percebeu que não conseguiria alcançar o lobo, então deu um tiro para o alto na esperança de assustar o animal.
Sua ação surtiu efeito em , que se assustou com o barulho e parou de correr por alguns segundos. Isso foi suficiente para que Mark pudesse se aproximar mais alguns metros, sendo acompanhado pelos outros seguranças que finalmente chegaram para ajudá-lo.
Há cerca de 15 metros de distância de , eles o cercaram. Atônito, um dos homens fez um sinal da cruz quando rosnou.
Eles tiveram sorte de conseguir cercar o lobo numa área em que não havia para onde ir. estava entre eles e o muro da faculdade.
Seu lado lobo queria atacar um por um, matá-los se fosse preciso, para poder escapar. Mas por um segundo, seu lado homem conseguiu pensar em outra saída.
Olhou para trás de si, vendo o muro. Foi em direção dos guardas e rosnou, apenas para assustá-los e mantê-los longe. No fundo, não queria machucá-los.
Ouviu o som de mais um tiro, que atingiu um poste de luz perto dele. Por sorte, o guarda que atirou era ruim de pontaria ou tremia demais de medo. Mas ele não poderia ficar ali mais nenhum segundo, pois parecia que os seguranças estavam perdendo o medo e se aproximavam devagar.

— Liga para a polícia ambiental — um deles sussurrou para o outro.

começou a correr e sentiu suas patas ficando mais geladas ao se afundarem na neve do gramado a cada passo que ele dava. Flexionou as patas e conseguiu ultrapassar o muro da universidade. Os guardas ficaram abismados, mas ele também. Ele não sabia que conseguia pular tão alto.
Do outro lado do muro ele ouviu um deles.

— Que porra foi essa?

caiu num beco escuro e vazio. Analisou qual caminho seguiria, pois não podia ir pela rua e ser visto por todos os pedestres.
Por sorte, naquela noite estava nevando um pouco, e isso mantinha a maioria das pessoas em casa.
Ele saiu andando do beco e se guiou pelo olfato para trilhar a rota com menos humanos até sua casa. Seguiria por terrenos baldios, becos e prédios em construção. Mesmo que tivesse que pular mais alguns muros e subir em alguma laje ou varanda.
Quando passava por uma viela, viu que a casa da esquina tinha algumas roupas esquecidas num varal do quintal dos fundos. Ele pulou a baixa cerca de madeira e puxou as roupas com seus dentes, tentando não rasgá-las. Chacoalhou as peças um pouco para tirar a neve delas e as levou na boca. Agora, pelo menos quando se transformasse de volta, ele não chegaria despido em seu prédio.

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Ainda na universidade, o celular de tocava, jogado dentro da mochila esquecida no gramado.
Era , respondendo a algumas mensagens que havia enviado mais cedo.
O rapaz não era muito adepto de conversas via mensagem, mas a noiva não estava atendendo suas ligações.

, me desculpe por ontem, eu
realmente não queria ser agressivo
e te assustar. Eu te amo e estava
preocupado com seu bem estar. 20:00

é claro que eu queria poder te receber
em casa, eu senti tanta saudade nos
últimos dias que quase fiquei louco,
mas eu não podia te deixar me ver. 20:00

sua visita me pegou de surpresa e eu
me exaltei, me perdoe mesmo. Eu te
amo mais do que tudo e não queria te
ver doente, só isso 20:01.

Te amo muito, bae 20:03



eu fiquei muito assustada com
a sua reação, e magoada por
vc me impedir de cuidar de vc 21:15

mas já passou e eu entendo
sua preocupação, como namorado
e como médico também né 21:15

eu tbm te amo e quero te ver bem!
sdds bae <3 <3 21:15

mas saiba que se você gritar
comigo ou socar um porta de
novo, por qualquer motivo que
seja, vão ser as últimas palavras que vc vai me dizer. não to
brincando! 21:16


Capítulo 4 — Everything has changed

Os treinos dos SK Black Bears vinham se intensificando, já que se aproximava a final do campeonato da Liga Universitária de Hockey.
Depois de quase duas semanas afastado, finalmente retornou à faculdade, após seu lado selvagem dar uma trégua. Ele ainda sentia aqueles sintomas anormais, mas de maneira mais branda do que antes.
estava levando a si e aos seus colegas de time à exaustão todas as noites depois das aulas. Ele precisava correr atrás do prejuízo dos dias que ficara de “licença saúde” em casa e os treinos ficaram sob controle de seu melhor amigo e co-capitão, Jason.

— Ryan, cobre os cantos! — Os gritos de tomavam o ringue de Hockey da faculdade, junto dos sons rápidos dos patins arranhando todo o gelo.
— Quantas vezes mais eu vou ter que repetir o que ele tem que fazer? — bufou para Jason patinando ao seu lado.
— Foi mal, cara! Nos dias que você ficou afastado, eu deixei ele fazer alguns treinos como lateral e acho que ele ficou mal acostumado. — Jason deu de ombros, se desculpando.
— Mandou bem, Craig! Mas use o corpo todo para defender, não só o bastão. — gritou para o goleiro que fez uma boa defesa.

Deslizando rapidamente sob a pista congelada, percebeu de canto de olho um borrão vindo em sua direção. Conseguiu desviar no último segundo, mas não escapou totalmente ileso.

— Presta atenção, Ryan! — O capitão ralhou novamente com Ryan, que se atrapalhou numa jogada e bateu em seu ombro — Sua tática tem que ser DEFENSIVA e não ofensiva. Para de deixar a área de defesa vazia!
— Eu já entendi, ! — O rapaz concordou e saiu patinando de volta para sua posição.
— VOCÊS ESTÃO MUITO DEVAGAR HOJE! — Dessa vez berrou, sua voz ecoou pelo ginásio como um trovão, na tentativa de tirar o máximo possível de dedicação dos jogadores.

Os jogadores aceleravam as passadas sobre seus patins, passando em alta velocidade uns pelos outros. Nem o gelo e nem o clima canadense eram suficientes para deixá-los com frio. A velocidade e a agilidade do jogo elevavam a adrenalina deles; a testosterona se intensificava; o suor escorria pelo rosto e pingava nas camisas. O urso negro era um ótimo mascote para o time, pois representava a ferocidade com que todos eles jogavam.

— Wilson, atento à sua esquerda também, caso o Ryan falte na defesa! — gesticulou para o rapaz que faz dupla com Ryan na defesa.
— Ryan, o tá livre! — Jason exclamou para Ryan, ao derrapar ao lado dele.
— Vai, vai, vai! — vozes masculinas se misturavam por toda a área do ringue, conforme o treino se encaminhava para o fim. As batidas ocas dos tacos faziam os discos de borracha percorrerem toda a extensão do ringue, com os gritos dos rapazes como plano de fundo.

Jason lançou o disco para Ryan, na intenção de que ele o arremessasse para Lucas marcar um gol, mas não foi o que ocorreu. patinou na direção de Ryan, sinalizando para que ele lhe lançasse o disco.

— Ryan!! — Jason chamou a atenção do defesa do time.

Já próximo de Ryan, usou seu bastão para tomar o disco que estava sob a posse do jogador indisciplinado e marcou um ponto. Todos do time levantaram os braços e comemoraram, diminuindo a velocidade em que patinavam. Exceto Ryan, que acelerou. Derrapou as lâminas de aço no gelo e ficou cara a cara com .

— Eu teria marcado aquele ponto, ! — Ryan reclamou.

O capitão tirou seu capacete e olhou sério para o rapaz em sua frente.

— Mas não é sua função marcar pontos. Você é da defesa, Ryan! Se você estiver com a posse do disco e puder fazer um gol, ótimo, faça! Mas não foi o que aconteceu agora. Você deveria ter dado prioridade para mim, que sou o lateral.
— Na semana passada eu joguei como lateral e pude marcar vários gols, por que você não acredita que eu posso fazer a defesa e ainda assim conseguir marcar pontos? Você tem medo de que eu seja um lateral melhor do que você?

Os outros colegas de time que apenas assistiam a discussão e riam, agora se aglomeravam devagar ao redor dos dois rapazes. Conflitos são muito comuns nos esportes, principalmente em épocas estressantes como finais de campeonato e em times masculinos, mas eles preferiam evitar sempre que possível.
riu debochado e falou num tom baixo e devagar. Ele, entre todos aqueles homens, era quem mais desejava evitar conflitos. Ele não podia correr o risco de se descontrolar na frente de todos.

— Eu já disse mil vezes que você não deve abandonar a sua posição e o seu parceiro só para fazer ponto quando eu ou outro lateral estivermos livres. Entendeu? Mais atenção no próximo treino — Ele finalizou a conversa e virou as costas para Ryan, que não se deu por vencido.
— Qual é a sua, ? Ficou duas semanas de folga e agora volta como se fosse o dono do time!

Numa fração de segundos girou em seus calcanhares e deslizou na direção de Ryan, indo para cima dele e o acertando em cheio com o capacete que ainda estava em sua mão direita. Lucas pensara que um único golpe bastaria para extravasar sua ira, mas o descontrole que ele estava tentando manter distante ressurgiu e ele sentiu a necessidade de continuar a investir contra Ryan. Todos os jogadores tiveram de avançar e segurá-lo, e só conseguiram com muito esforço. Cinco homens com porte de jogadores de Hockey quase não foram capazes de segurar um com ódio.
Enquanto Ryan tirava a camisa e a usava para conter o sangue que pingava de sua sobrancelha, os outros jogadores pegavam suas mochilas e se despediam, tensos. Eles foram até Ryan para conferir a situação de sua lesão.
saiu do ringue como um raio e se sentou na arquibancada para tirar os patins. Ouviu Jason se aproximar mas não se deu ao trabalho de levantar o olhar para ele.

— E aí, mano. — Jason disse ao sentar ao lado de , logo antes de se instalar um silêncio desconfortável entre eles. Só Deus sabe a dificuldade que os homens têm em falar sobre sentimentos e suas relações, mesmo quando são melhores amigos. Eles bebem algumas cervejas, jogam video game e pronto, essa é a forma que eles têm de desabafar. Essas conversas são sempre complicadas.
— Então — o rapaz continuou quando percebeu que não ia dar continuidade ao diálogo por conta própria —, você anda estranho, . Todo mundo já percebeu desde que você voltou, mas eu acho que eu percebi antes.
— Eu estou bem. — falou enquanto guardava seu capacete na mochila para evitar fazer contato visual com o amigo.
— Eu acho que não está, não. O que tá acontecendo? Fala sério, você sabe que pode me contar qualquer coisa!

“Qualquer coisa”? se sentiu triste com o pensamento de que se Jason soubesse a verdade, ele não diria isso.

— É só estresse. Tenho estudado demais para as provas, minha família está me pressionando sobre meu futuro depois da formatura e ainda fiquei doente. São muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, só isso. Não se preocupe, desculpe por hoje, vou ficar mais calmo. — falou tudo rapidamente, pois sabia que se pensasse demais em suas palavras, ele não conseguiria mentir.
— Ah , qual é! Você acha que eu caio nessa? Você é o menino de ouro dos seus pais, com certeza eles não se preocupam com seu futuro. Além disso, você é um dos melhores, senão o melhor estudante da nossa turma; você nunca passou mais do que 10 minutos estudando para uma prova porque nenhum teste te assusta. Eu sei o que realmente está te desequilibrando!

, que até então ouviu todo o discurso de Jason de costas torcendo para que acabasse logo, virou de frente para o amigo. Tenso, ele apertou o maxilar e fechou os punhos ao lado do corpo.

— E o que você sabe? — Questionou tentando soar despreocupado.

Jason deu um sorriso esperto e deu um soco leve no ombro de .

— É a e o casamento não é?! Você pediu a mão dela dois anos atrás com a promessa de se casarem depois da formatura, e agora está chegando o momento. Ela tá te cobrando?

Lucas deu um riso nervoso, fingindo ser desmascarado.

— Pois é, cara. O fatídico casamento. Cacete, eu pensei que nunca chegaria, e agora aqui estamos. Prestes a nos formar e casar.
, se você não está pronto ainda, fale para ela. A é uma garota legal, vai entender sua decisão. Vocês não precisam terminar definitivamente; podem só dar um tempo e curtir, conhecer outras pessoas, só para terem certeza de que é isso mesmo que querem.
— Jason, vai se foder! — riu e Jason o acompanhou — Eu não vou terminar meu relacionamento com a , isso nem passou pela minha cabeça. Deus me ajude se ela te ouvir falar uma coisa dessas. Eu a amo e quero me casar, mas ultimamente venho pensando se eu sou mesmo a pessoa certa pra ela. Às vezes eu tenho medo de machucá-la.
— Ok, agora esse papo tomou um rumo muito meloso para mim. , não se preocupe. Você é o cara mais romântico dessa faculdade, qualquer garota teria sorte de ficar contigo. Se você fosse loiro e tivesse olhos verdes até eu me apaixonaria por você, mas você não faz meu tipo. — Ambos gargalharam — Mas eu falo sério, nesses três anos eu nunca te vi fazer qualquer coisa que pudesse machucar ; ao menos, não de propósito. Só seja você mesmo e ela não vai chutar sua bunda no altar.

sorriu e bateu no ombro de Jason.

— Valeu, Jay!

O rapaz se despediu do capitão do time. Quando estava quase passando pela porta do ginásio, disse em voz alta:

— Hey — o olhou — A sua despedida de solteiro em Vegas vai ser por minha conta! Sua última noite livre para pensar se o casamento é realmente o que você quer.

apenas mostrou-lhe o dedo do meio e Jason saiu rindo.
Sentando na arquibancada, abriu sua mochila e verificou o celular. Ainda faltava cerca de meia hora para o zelador fechar o ginásio, então teria tempo para se acalmar. Pegou um cigarro num dos bolsos da mochila e o acendeu, dando tragadas rápidas, ansiando pela nicotina.
Ele não se orgulhava de fumar, principalmente por ser um estudante da área da Saúde, mas desenvolveu esse hábito na universidade. Entre um copo de cerveja e outro nas festas ou entre uma briga e outra com , acabou encontrando nos cigarros um alívio para a tensão e a ansiedade. Porém, tentava manter o controle para não se tornar um vício, fumando apenas quando a vontade surgia muito forte.
Entretanto, para o seu azar ele deveria fumar 5, 6 ou mais cigarros para que sua vontade se aplacasse. Seu organismo de transmorfo era diferente, tudo nele acontecia mais rápido, já que a transformação é um acontecimento que exige uma velocidade sobre humana de mudança nas células. As dores, doenças e ferimentos se curavam mais rápido; mas o efeito de drogas e remédio, também.
“Só seja você mesmo”. pensava nas palavras de Jason e em como elas não poderiam fazer menos sentido em sua vida. Como ele poderia ser ele mesmo, quando quem ele era na verdade era um homem meio monstro, uma aberração? Um ser que significava perigo às pessoas à sua volta e que em pouco tempo perderia quem mais amava ao revelar a verdade. Desde que nasceu, seu destino era jamais ser quem ele realmente é. Se quisesse ser feliz, deveria se sacrificar a passar a vida toda escondendo sua realidade, fugindo, se esgueirando pelas florestas durante a noite, evitando demonstrar sua força, agilidade e outros aspectos físicos que seu lado lobo proporcionava. Assim como a Lua, ele também tem um lado que sempre deveria estar oculto. Aquilo que vive no escuro, lá deve ficar.
Nos últimos dias, estivera pensando em como contaria para sobre suas transformações. Sua única conclusão foi que não existe maneira razoável de revelar um segredo como esse. “Sabe aquelas histórias infantis de lobos? Elas são reais e eu posso provar!”. Ou talvez “Eu te prometo que não vou morder, ok?”. Ou quem sabe ainda “Querida, algum dia você já quis ter um lobo de estimação?”.
A única pessoa capaz de tirá-lo daquele espiral de ansiedade era a mesma que o havia colocado lá. Ele sentiu o perfume de ao longe enquanto ela se aproximava do ginásio. Seu peito se encheu de alegria ao ver a presença dela iluminar o lugar todo.

— Eu achei que era proibido fumar aqui dentro. — Ela zombou.
— E é mesmo. Se o zelador me ver fazendo isso, ele apaga o cigarro na minha cara.

A resposta de fez a namorada rir. Ele apagou a ponta restante do cigarro e a enfiou no maço.

— Me desculpa, bae. Eu queria ter chegado mais cedo para ver o treino, mas os ensaios para meu seminário demoraram mais do que o esperado. — o beijou gentilmente enquanto sentava ao lado dele.
— Tudo bem, foi melhor você não ter vindo mesmo. Final de campeonato, sabe como é, os caras ficam muito estourados. — Suas bochechas coraram — O Ryan me provocou e eu acabei… socando meu capacete na cara dele — sussurrou as últimas palavras, se sentindo envergonhado por seu comportamento agora que a raiva já havia se dissipado.
, me surpreende isso não ter acontecido antes, sinceramente! — afirmou e ele a olhou surpreso — Esse ano não tem sido fácil para você, e por algum motivo você não quer dizer o porquê. Mas tudo bem, mais cedo ou mais tarde eu vou descobrir. — deu um sorriso triste.

Ele respirou fundo e se virou para ficar de frente para ela. Segurando o rosto de Anna com as duas mãos, olhou suplicante para os olhos dela.

, você me amaria independente de qualquer coisa?

A garota cerrou as sobrancelhas.

, você cometeu algum crime? Vamos ter que fugir juntos? — Ela riu para disfarçar a confusão.
— É sério, . Olha pra mim: eu te amo mais do que tudo nessa vida. Você é meu mundo, a razão da minha existência. Por favor, não duvide nunca disso. Independente de qualquer coisa, eu nunca, NUNCA vou deixar de te amar.
, nós somos feitos um para o outro. Eu te amo tanto que chega a doer, literalmente, quando estamos distantes. Como eu poderia não te amar para sempre?

A resposta cheia de emoção preencheu o coração de por alguns instantes, até ele se lembrar de que existe um limite para toda e qualquer jura de amor. Doenças, problemas financeiros, talvez até mesmo traições, eram problemas aceitáveis em relacionamentos. Mas em nenhuma cerimônia de casamento havia os dizeres “promete amá-lo e respeitá-lo, na humanidade e na sobrenaturalidade?”.

— Você é perfeita. — puxou o rosto de sua amada para perto e depositou beijos rápidos e carinhosos por ele todo.
— Como eu poderia ser perfeita para namorar um jogador de Hockey se nem mesmo sei patinar no gelo? — riu, aproveitando os carinhos.
— Você mora no Canadá, o país do Hockey, e não sabe patinar no gelo? — fez um tom exageradamente surpreso, colocando as mãos na cintura de maneira afetada.
— Eu andava de patins durante minha infância no Brasil, e quando cheguei aqui tentei patinar no gelo, pois achei que seria a mesma coisa. Mas descobri, da pior forma, que é bem diferente! — tapou o rosto com as mãos, envergonhada — Levei tantos tombos feios que me traumatizei e prometi nunca mais me aproximar da patinação no gelo.
— Às vezes, a função do amor é te tirar da sua zona de conforto. — pegou seu par de patins e puxou pela mão para acompanhá-lo.

Seguiu para a sala de equipamentos esportivos que havia num dos cantos do ginásio e lá dentro procurou por um par de patins que servisse em .

, você está me levando para a pista de gelo? Eu não quero! É sério, eu nunca senti falta de patinar no gelo, vivi minha vida inteira sem patinar. — Ela choramingou atrás de .
— Vem aqui, Cinderela. — sentou na arquibancada novamente e agachou à sua frente, colocando os patins velhos nos pés dela, puxando e apertando os cadarços.
— Primeira lição: sempre garanta que seus cadarços estão muito bem amarrados. Você não vai querer dar uma de Tonya Harding nas Olimpíadas de Inverno de 94, né?!
— Eu não faço ideia do que você tá falando. — balançou a cabeça negativamente, se sentindo um pouco insegura.

deu de ombros e sentou ao lado dela, colocando seus próprios patins. Levantou e pegou pelas mãos, a levantando também. A garota cambaleou um pouco e segurou os ombros de para evitar cair.

— Relaxa, eu estou te segurando. Afinal, do que você tem tanto medo? É só gelo, não vai te matar — ele sorriu tentando deixa-la mais confortável.

Eles deram alguns passos até chegarem no ringue de patinação e segurava as mãos de tão forte que os nós de seus dedos doíam. Ele ficou de frente para ela, mas não soltou suas mãos.

— Desliza um pé depois do outro, devagar.
— Tá. Um depois do outro. Devagar. — repetiu para si mesma.

Ela tentou seguir as instruções, mas começou a dar passos curtos, como se fosse um pinguim andando no gelo.
Lucas não conseguiu conter o riso.

— Eu disse para deslizar pela pista, não andar!

o encarou com raiva nos olhos, logo depois abaixou a cabeça.

— Não olhe para baixo, pois vai te fazer perder o equilíbrio.

Ela levantou a cabeça e aos poucos conseguiu deslizar devagar. Quando estavam quase no fim da pista, percebeu que ela já tinha conquistado mais equilíbrio e a soltou. Ela deslizou sozinha até o fim da pista, mas ao se dar conta de que estava patinando por conta própria, se assustou e desequilibrou, caindo de bunda no chão.

— Bom — colocou as mãos na cintura —, pelo menos você já sabe cair do jeito certo.

esticou as mãos para o alto pedindo ajuda de Lucas para levantar-se. Ele negou.

— Não, não. Você tem que aprender a levantar sozinha agora!
, você disse que não ia me soltar, mas soltou. E agora quer que eu me levante sozinha usando esses “troços” no pé??? Vou parecer aquela aranha gigante que usa patins e assusta o Rony em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban! — Contrariada, soprou uma mecha de cabelo que caiu em seu rosto enquanto ela falava.
— Agora sou eu que não faço ideia do que você tá falando — Para o desgosto de , não era um fã de Harry Potter — Se eu fizer tudo por você, então você nunca vai aprender e perder o medo.

Ele até tentou continuar impassível, mas sua pose de durão não foi sustentada por muito tempo. fez um beiço igual ao de uma criança triste e cruzou os braços, sussurrando um “eu não consigo” derrotado. suspirou e riu, antes de se abaixar e pegá-la no colo com os braços fortes, a colocando em pé na pista novamente.
Ela deu um enorme sorriso em agradecimento e agarrou a blusa de Hockey dele, o puxando para um beijo.
De repente, segurou a cintura dela e a girou, deixando de costas para ele e colando seus corpos. Ainda segurando a cintura dela delicadamente, ele a impulsionou para que começasse a patinar, e saíram deslizando juntos pela pista.

, eu também preciso saber — Ela disse.
— Saber o que? — Ele questionou, posicionando seu rosto próximo do rosto dela.
— Se você também me amaria independente de qualquer coisa.

A pergunta o intrigou.

— Mas é claro que sim! Não consigo imaginar uma realidade em que eu não te ame.
— Mesmo se os nossos planos para o futuro mudassem, você ainda me amaria?

parou de patinar e pegou pela mão, a fazendo girar graciosamente pela pista. Depois a puxou para perto dele.

— O que mudou nos seus planos? Os meus ainda são os mesmos. — Ele segurou o queixo dela com a mão direita — Nos formar, casar e passar o resto da vida amando você. Claro que tem outros sonhos no meio disso tudo, como trabalhar, ter nossa casa, nossa família. Mas você é o centro de tudo.

Em seu interior, bem lá no fundo, uma pequena parte do coração de desejou que os planos de em relação à eles tivessem mudado mesmo. Ele queria que ela tivesse repensado a ideia do casamento, se apaixonado por outro homem e decidido terminar tudo com ele para seguir com sua vida. Assim, seria mais fácil para ele. Ele não teria que contar a verdade sobre ser um lobisomem, nem machucar os sentimentos dela. Assim ele não teria que ser o vilão da história, quem iria destruir tudo o que construíram juntos nos últimos três anos.

— Isso é sobre a mudança para Toronto? — Ele perguntou, enquanto ela ainda permanecia em silêncio — Se esse é o problema, tudo bem , nós podemos ir para Toronto. Ou Vancouver, Montreal, Quebec, até para outro país se você quiser. Você quer se mudar para o Brasil? Nós vamos! Eu vou para qualquer lugar para te ver feliz e satisfeita, você não precisa se preocupar com isso.

Os olhos de se encheram de lágrimas emotivas e ela foi incapaz de dizer qualquer palavra. Beijou Lucas apaixonadamente até perder o fôlego. Ela não acreditava que tinha um noivo tão amoroso quanto ele.
Quando segurou a nuca de com uma mão, e com outra puxou seu cabelo, ele a levantou para que ela pudesse colocar suas pernas ao redor da cintura dele.
Sem ar, separou os lábios deles.

— Você está suado. — Ela disse enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Eu sei. Me desculpe, não deu tempo de tomar uma ducha. — Eles sussurravam um para o outro, como quem troca segredos.
— Tudo bem, eu não me importo. — passou a mão pelos cabelos do moreno — Na real, eu até gosto.

puxou o corpo dela para mais perto, como se isso fosse possível, e passou a beijar o pescoço de de maneira fervorosa. Ele apertava a cintura dela, irritado com a quantidade de tecido que separavam os dois.
Essa era outra característica que havia se intensificado durante as últimas semanas no corpo de : a libido. Durante os dias que ficou em casa sem poder ver , ele sentia falta dos carinhos e da companhia dela, mas também a desejava como nunca antes. Os momentos em que lembrava no corpo dela colado ao dele, dos toques da pele macia dela que o faziam arrepiar, dos seus encontros escondidos nos banheiros da faculdade, tentando ser silenciosos para ninguém os ouvir; esses eram alguns dos momentos em que sua temperatura corporal mais aumentava e se quase se descontrolava e ia ao encontro da noiva.

— Você nunca havia patinado no gelo — falou no ouvido de , com uma voz rouca —, mas tem outra coisa que eu também nunca fiz na pista de patinação antes… — jogou a cabeça para trás, aproveitando as carícias de .

Sons de passos vagarosos chamaram a atenção de , que fez descer rapidamente de sua cintura, onde ainda estava enganchada. A garota ficou sem entender, pois para ela não havia nada de errado. Contudo, ele era totalmente capaz de ouvir que o zelador da universidade se aproximava, mesmo ainda estando num corredor a mais de 200 metros de distância.

— Já está na hora do zelador chegar, vamos embora.
— Para a sua casa? — Ela perguntou enquanto segurava a mão de e deslizava livre ao redor dele, mais segura sob os patins.
— Sim! — Ele piscou para ela.
— Obrigada por me ajudar com meu trauma — Ela deu um beijo na bochecha do noivo.

estava mais confiante e acelerou levemente seus passos, se sentindo livre na pista. Tão livre que abriu os braços e fechou os olhos, como Rose em Titanic. Mas ela não contava com o iceberg. Quando abriu os olhos, estava a centímetros da barreira de vidro que separa o ringue e a arquibancada, e deu de encontro com ele.
colocou as mãos na boca numa tentativa desesperada de segurar o riso. Por sorte seu lado racional tomou controle e ele acelerou para chegar até a noiva, que estava de joelhos no chão, passando a mão no inchaço que se formava em sua testa.

— Bom, acho que a próxima lição deve ser como frear — Ele zombou.

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No banheiro do dormitório, Savannah sentou sob o balcão da pia e balançava os pés nervosamente.

— Você quer que eu cante para te distrair? — Ela perguntou.
— Não precisa, acho que o silêncio me deixa mais calma.
— Desde quando? Você é a pessoa mais barulhenta e musical que eu conheço! — A gargalhada de Savannah ecoou no pequeno cômodo.

pegou algumas folhas de papel higiênico e as amassou formando uma bola, que atirou e acertou em cheio na cara da amiga.

, agora precisamos falar sério.
— Não podemos ter uma conversa séria daqui 5 minutos? — suplicou, sentada sob a tampa do vaso sanitário.
— Por que você não falou nada para o ? — Savannah ignorou a indagação da roomate.
— Van, a cabeça dele está tão cheia ultimamente, eu não poderia jogar mais uma bomba no colo dele e preocupá-lo sem motivo.
— Como “sem motivo”, ? Esse me parece ser um motivo muito plausível para se preocupar!
— Ele não saberia lidar com a ansiedade como nós sabemos.
— Você não lida com a ansiedade; você a disfarça e entra em negação, repetindo para si mesma que está bem.
— Quanto tempo falta aí? — indagou, ignorando o comentário da amiga.

Savannah olhou para o cronômetro em funcionamento da tela de seu celular em cima do balcão.

— 30 segundos.

levantou calmamente e andou até o espelho. Encarou sua face cansada, com olheiras fundas, consequências das noites insones que a ansiedade lhe causou. Segurou a mão de Van e a apertou, fechando os olhos. Empurrou o teste para a amiga pegar.

— Eu não consigo fazer isso.

Savannah tomou o teste de farmácia das mãos de e o olhou bem, ficando em silêncio por alguns segundos. Com sua mão livre, afagou os cabelos de , que tinha a cabeça encostada em seu ombro, ainda de olhos fechados.

— Deu positivo, meu bem. — Ela sussurrou.

não se moveu nem falou uma palavra, apenas deixou as lágrimas rolarem livremente por seu rosto. Seu choro era de medo, negação e ansiedade. Parte de si sentia entusiasmo e alegria, mas essa parte se perdia em meio a preocupação sobre a reação de e como seria o futuro deles dali pra frente.

— Vai ficar tudo bem. Se eu bem conheço o , ele vai pirar de felicidade quando souber! — Savannah tentou acalmá-la.

enfim teve coragem de olhar o teste e ler nele a palavra “grávida”.


Capítulo 5 — You said forever now I drive alone past your street

enrolava uma toalha na cintura no momento em que a campainha tocou. Quando lhe mandou mensagens dizendo que estava a caminho do apartamento, ele logo entrou no banho, pois quando ela chegasse ele queria matar as saudades daqueles dias em que não puderam se encontrar.
Porém, cada vez que vê a noiva, sente seu coração apertar e se dobrar em mil pedaços. A cada dia que passa, o momento de revelar a verdade para ela se aproxima, e consequentemente, o dia em que irá perde-la.
Ele abriu a porta e ela adentrou o local em silêncio, apenas o cumprimentando com um rápido selinho.

— Oi, meu amor! — Ele a abraçou apertado.

chacoalhou os cabelos encharcados para molhar e riu da situação.

— Parece um cachorro que acabou de tomar banho. — Ela falou em voz baixa tentando sorrir, mas seus olhos expressavam sentimentos diferentes de alegria ou diversão.
, aconteceu algo de errado? Você está com uma aparência aflita.

Ela não teve coragem de olhar nos olhos do noivo e se virou de costas.

— Aconteceu sim, .
— O que? — Ele se aproximou e colocou as mãos nos ombros dela.

permaneceu em silêncio e respirou fundo antes de começar a falar.

, há cerca de duas semanas eu venho me sentindo mal, sofrendo de náusea, cansaço e outros problemas.
— Por isso você está nervosa? Está sentindo dor? — A cada segundo ficava mais angustiado com as expressões de .
— Não, não estou sentindo nada agora. — Ela gaguejava — Eu não te contei antes pois você estava tão estressado e doente, eu não queria te deixar preocupado. Mas agora eu não posso mais continuar a esconder a real situação, mesmo que me assuste muito pensar em como nossa vida está virando de cabeça para baixo.

pegou as mãos da noiva e a puxou para sentar no sofá ao seu lado. Passou a mão pelo rosto dela cuidadosamente, enxugando algumas lágrimas tímidas que escorreram.

Bae, respire e se acalme. Se você estiver doente ou machucada, nós vamos cuidar disso. Não há por que se preocupar com a minha reação. — tentava transmitir segurança para a noiva, mas seu interior estava tão angustiado quanto o dela, e desejava ardentemente destruir o que quer que estivesse afligindo sua amada.
balançou a cabeça negativamente.

— Não estou doente, nem machucada. Mas tem algo acontecendo... — Para completo espanto e confusão de , subitamente começou a sorrir, um sorriso nervoso e ansioso, mas ainda assim feliz.
— Estou tão nervosa... — Ela continuou — e confusa e perdida, porque de repente tudo vai mudar e...

A cada palavra de , sentia algo dentro dele se movimentando de forma selvagem. Era seu instinto de proteção ficando cada vez mais aguçado, querendo proteger sua companheira. Ele podia sentir o instinto lupino tomar conta de todo seu ser, alvoroçado, quase feroz.

, por favor, me diga logo o que está acontecendo. Eu estou ficando apreensivo!
— Eu estou... — respirou fundo e mais algumas lágrimas de emoção escaparam enquanto ela remexia em sua bolsa, procurando por algo — grávida!

Enfim, ela encontrou o teste que procurava e o colocou nas mãos de .
No momento em que ouviu a palavra ‘grávida’, seus lados humano e lupino entraram em colapso. Sua atenção já não estava mais nas coisas ao seu redor, todos os sons eram meros ruídos brancos e seus olhos não conseguiam focar naquele objeto de plástico branco que segurava.
tinha um sorriso ansioso no rosto, enquanto esperava alguns instantes pela reação de .

— Eu sei, eu também fiquei sem palavras quando descobri, mal pude acreditar. — Ela disse.
— Não. — levantou repentinamente e jogou o teste no sofá — Não, não, não, isso não pode ser verdade!

Aquelas palavras cortaram o coração de , ela quase podia senti-lo sangrar e pingar por todo seu peito. Ela não sabia exatamente o que esperar da reação de , mas com certeza não esperava aquilo.

, é verdade, nós vamos ser pais! — Ela tentou trazê-lo de volta à realidade, enquanto ele andava de um lado para o outro na sala, com as mãos cruzadas atrás da cabeça.
— Mas isso não poderia acontecer! Pelo menos não agora. — Ele falou com a voz trêmula, sentindo que sua preocupação anterior estava se transformando em agitação, aquela mesma agitação que vinha o perturbando há meses.
— Mas aconteceu, . Por acaso eu tenho que explicar para um estudante de Medicina que nenhum método contraceptivo é 100% eficaz??? — Finalmente a raiva despontou na voz de .
— A questão não é essa!
— Então qual é a questão? A sua carreira? Sua bela liberdade juvenil da qual você não quer abrir mão? — se aproximava de lhe apontando o dedo — Para mim, a única questão que importa é que agora teremos UM FILHO, um ser humano pelo qual NÓS DOIS somos totalmente responsáveis.

As palavras de martelavam fundo na mente de , enquanto seus tremores começavam. Como isso poderia acontecer justamente agora?

, você não entende! Eu não estou bem, não poderíamos ter um filho agora. Não só por mim, mas por você e por essa criança. Eu não sou uma boa pessoa para se estar por perto agora! — nem tentava mais controlar seu tom de voz e seus gritos ecoavam pelo apartamento.
— Do que você tá falando? Eu não também não planejava ter um filho no início dos meus 20 anos, mas agora essa é a nossa realidade. Você está sendo imaturo de uma forma que eu nunca imaginei! — O rosto de estava completamente tomado por decepção e desgosto.
— Tem algo errado comigo e eu pretendia te contar, mas eu não sei como. Entenda: você e esse bebê não podem ficar perto de mim, não é seguro! — pegou pelos ombros e disse cada palavra olhando nos olhos dela.
, me solta agora! Você está me assustando. — Ela falou em voz baixa, incrédula com a reação do noivo.
— Você não entende, eu me odeio por isso e você vai me odiar por isso. — Ele a soltou e voltou a andar pela sala.

colocou a mão em sua testa e conferiu aquilo que ele já esperava: sua temperatura aumentou consideravelmente de uma hora para outra. Já passava dos 40 graus, com toda certeza.

— Não entendo o que? Que você não está feliz em ter esse filho comigo? — Ela falava assustada, dando passos para trás e para longe do rapaz.
— Pelo amor de Deus, tudo o que eu mais queria nessa vida era que você fosse mãe dos meus filhos, acredite em mim! Mas não nessas circunstâncias em que eu venho vivendo, o que vai ser dessa criança??? — ele perguntou mais para si mesmo do que para ela — , eu não sou normal!
, me diga de uma vez por todas: O QUE ESTÁ ACONTECENDO, PORRA? — A essa altura, já gritava tanto quanto . — Você anda mal humorado, doente, distraído… pra mim isso só parece com uma coisa: vício!

Ela parou por uns instantes para respirar. Tudo aquilo estava sendo estressante demais, ela não fora ao apartamento dele preparada para brigar, mas para chorar de emoção, abraça-lo, beijá-lo e comemorar o filho que teriam juntos.

— Por favor, não me diga que você se meteu com drogas. — Ela soluçou ao terminar a frase e foi quando percebeu que havia começado a chorar — Eu entendo que usamos de vez em quando, nas festas e nos bares, mas você foi além? É isto que está acontecendo?
— Há algo muito errado comigo, sim, mas não está sob meu controle.
, o que está acontecendo? — Agora era impossível disfarçar os tremores, e os percebeu nitidamente.
— Eu juro que não quero te assustar…

não conseguiu terminar o que dizia, pois caiu no chão, quase cego de tanta adrenalina. Ele sentia suas veias queimando conforme sua temperatura aumentava. correu até ele e ajoelhou no chão ao lado dele.
A mente de era um caos de sentimentos e pensamentos, divididos entre lobo e homem. Seu lado humano temia pela segurança de e de seu filho, ao mesmo tempo em que temia perde-la ao contar a verdade. Enquanto o lobo dentro dele queria se libertar naquele exato momento a qualquer custo. E foi o que aconteceu.
Ele só teve tempo de rolar para o lado, para se afastar de , e em menos de 2 segundos tudo havia mudado.
Um grito estridente de foi o plano de fundo da transformação que fez explodir na forma do enorme lobo preto que estraçalhou a toalha que estava em sua cintura e colidiu violentamente com o rack da sala, derrubando objetos de decoração e sua tv. Sua respiração estava pesada e ele levantou devagar, mantendo a cabeça baixa, na tentativa de não assustar mais ainda, mesmo sabendo que já era tarde demais.
Ela mal podia enxergar aquele ser em sua frente, pois as lágrimas de terror lhe tapavam a visão quase completamente. Com uma mão na boca, em sinal de incredulidade, ela se arrastou até o outro lado da sala, se escorando nas paredes. a seguiu com os olhos.

— O que é isso, ? Que brincadeira é essa?

Agora era quem tremia descontroladamente. Sua boca se abria e fechava, sem saber o que dizer. Ela não podia crer que aquilo diante de seus olhos fosse real. Ela não queria acreditar. sempre acreditou que a natureza era perfeita e não cometia erros, mas uma prova cabal estava diante de seus olhos, lhe fazendo questionar suas crenças que agora caíam por terra.

— Meu Deus do céu, . O que você é? — Sua voz saiu mais baixa do que um sussurro normal.

O lobo começou a andar na direção dela, sem fazer movimentos bruscos. Sua respiração já havia voltado ao normal e ele estava mais calmo. Quando seu lobo demandava uma transformação, apenas isso era capaz de sossegá-lo.

— Por favor, não faça nada. Por favor. — Ela fechou os olhos e suplicou.

não era o tipo de pessoa que suplicaria por misericórdia. Ela gritaria, se defenderia, no mínimo sairia correndo. Mas não ficaria parada em pânico se deixando amedrontar por qualquer coisa ou pessoa.
nunca a vira tão vulnerável, e saber que foi ele quem a colocou naquela posição, mesmo sem querer, o fazia se odiar. Ódio e repulsa por si mesmo era o que ele sentia agora. Seu sofrimento era tamanho que fez o lobo dar um ganido agudo, como se sentisse uma dor física.
Quando ficou cara a cara com , abaixou a cabeça e se aproximou do rosto dela. Ainda de olhos fechados, ela pôde sentir a respiração quente dele tocar sua face.
Num gesto que pretendia demonstrar calma e afeição, o lobo encostou seu focinho no nariz de . Ela sentiu aquele toque frio e molhado em sua pele e paralisou. Prendeu a respiração e esperou por mais alguma movimentação do animal, que logo veio. Ele lambeu as lágrimas dela, como se falasse “vou enxugar suas lágrimas, pois ainda sou seu ”.
virou as costas e se afastou dela, parando em frente ao sofá para enfim retornar à forma humana.
o observou se transformar novamente e sentiu que tudo aquilo era demais para ela. Ela não sabia quem, ou o que era aquilo na frente dela, mas não poderia ser .
Com a respiração descompassada, ela levantou confusa, pegou sua bolsa no sofá e saiu correndo sem olhar para trás, enquanto permaneceu parado. Ela só queria acordar daquele pesadelo.

… — sussurrou mais para si mesmo do que para a garota.

Ele se sentou no chão, encostado no sofá e lá viu o teste de gravidez de , jogado em meio às almofadas. Não lhe restou mais nada além de chorar por tudo aquilo que escapava de suas mãos sem que ele pudesse fazer nada, pois não há maneira de mudar quem ele é.
Cerca de 2 minutos depois de deixar o apartamento batendo a porta violentamente e quando estava no ápice de seu choro, um vizinho tocou a campainha.
levantou e caminhou até lá, se escorando na porta Não precisou olhar pelo olho mágico, pois reconhecia o cheiro do vizinho da frente.

— Olá, boa noite. Eu escutei muitos barulhos, barulhos bem altos aí, está tudo bem?

ficou em silêncio; as palavras não tinham vontade alguma de sair de sua boca.

— Parecia algo sério, eu preciso chamar uma ambulância? Ou talvez a polícia? — Dessa vez o homem usou um tom de voz mais sério para conseguir obter uma resposta.

abriu uma fresta da porta, apenas o suficiente para que o vizinho pudesse ver seu rosto, mas não visse que ele estava sem roupas.

— Já está tudo bem, foi apenas uma briga de casal. Minha noiva, ou ex-noiva, se revoltou e quebrou minha sala toda. Mas ela já foi embora, obrigada pela preocupação.
O vizinho assentiu e se despediu, virando as costas para voltar ao seu próprio apartamento.

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Na rua, envolveu seu corpo com os braços, para se proteger do frio e tentar se sentir mais acolhida. Decidiu que seria melhor ir para casa a pé, para ter a oportunidade de refletir sobre tudo o que aconteceu na última hora. Como se fosse possível compreender que a realidade era mais parecida com um livro de fantasia do que ela poderia imaginar.
Filmes, livros, lendas sobre lobisomens, tudo isso é aceitável, pois se tratam de obras de ficção.
Mas ver com seus próprios olhos um homem, um ser humano, mudar seu corpo para a forma de um monstro, era uma experiência que não queria ter. Ela faria qualquer coisa para esquecer aquela visão.
Como isso era possível? , seu , seu noivo amado. A pessoa que ela mais amava, que era seu melhor amigo, seu porto seguro. Ela vivera com um desconhecido por todo esse tempo. O que mais era real? Vampiros? Bruxas? Fantasmas? Demônios?
começou a chorar durante a caminhada, mas passou a mão raivosamente pelo rosto, para secar as lágrimas e limpar qualquer resquício dos toques daquele animal.
Ela sentia como se estivesse usado alguma droga e vivesse uma bad trip. Só isso explicaria sua visão de seu noivo se transformando num lobisomem e todos aqueles sentimentos caóticos e profundos que ela sentia ao mesmo tempo.
Ela sentia ódio de si mesma pois lá no fundo, latejava a mágoa por ter escondido a verdade dela durante 3 anos. Apesar de parecer que agora ela vivia numa realidade paralela, a dor de ter sido enganado pelo homem que ama ainda existia.
E principalmente, sentia-se sozinha. Afinal, para quem ela poderia contar o que está acontecendo? Absolutamente ninguém. Nessa situação, ela só tinha a si mesma. A si mesma e ao seu bebê. Com toda essa confusão, ela quase se esqueceu da pessoa que mais precisaria de cuidados e calma.
pousou a mão direita na barriga, percebendo pela primeira vez naquela noite infernal, que seu filho poderia ser como o pai.
Finalmente ela chegou em seu dormitório e agradeceu por Savannah estar viajando. Abriu o armário e apanhou o que viu pela frente, enchendo uma mala com pertences pessoais e pegando seus documentos. Olhou ao redor do seu dormitório e respirou fundo antes de sair pronta para pegar o próximo ônibus com destino à Toronto.

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O telefone de Savannah toca pela vigésima vez naquela semana, e ela já nem precisa mais olhar na tela para saber de quem se trata.

— Alô… — A voz masculina diz do outro lado da linha.
— Não, , eu ainda não tive notícias dela. — Savannah admira a preocupação do rapaz, mas depois de tantas ligações, sua paciência começa a diminuir aos poucos.

Ela o ouve suspirar pesadamente na chamada.

— Eu sei que você está sofrendo, mas era melhor ter pensado nisso antes de agir como um otário mal caráter quando ela te contou sobre a gravidez? — Savannah só sabia parte da verdade sobre a briga entre o casal.
— Eu sei, Savannah, e eu me odeio e me culpo por isso todos os dias desde que ela foi embora sem avisar ninguém. Mas o que posso fazer se fui pego de surpresa? Eu só queria poder fazer alguma coisa para que ela voltasse, ou pelo menos entrasse em contato comigo.
— Se por “fazer algo” você quer dizer viajar até Toronto para encontrá-la, pode esquecer, entendeu? A irmã dela já deixou bem claro que não quer te ver.
— Mas eu estou preocupado com ela, e com o bebê, por mais que você não acredite. — bufou — Ela saiu da cidade extremamente abalada.
— Com o que você se preocupa? Ela está com a família dela, ela está bem. No momento ela só precisa colocar a cabeça no lugar e ficar com pessoas que vão ajudá—la e não abandoná-la no momento que ela mais precisar.

só se humilhava ligando para Savannah porque tinha esperanças de ter notícias de , pois toda vez que eles se falavam a garota fazia questão de jogar em sua cara como ele fora idiota. Porém, não respondia ligações, mensagens de texto e nem mensagens nas redes sociais, não importa quem tentasse contato.

— Ok, tudo bem. — Ela respondeu secamente — E mais uma coisa: pare de fazer plantão em frente aos prédios dos dormitórios esperando que ela apareça. As outras meninas que vivem aqui estão começando a ficar assustadas com seu comportamento. Tchau. — Savannah desligou sem esperar que ele respondesse.


Desde a semana anterior, passava todas as noites dentro de seu carro estacionado em frente ao prédio de . O remorso e a saudade não o deixavam pensar direito, e ele achava que ela poderia retornar para lá a qualquer momento. Ele até passou a frequentar a biblioteca e a esperar na porta da sala de aula onde ela estudava, mas em nenhum lugar ela apareceu.
Em mais uma madrugada de ronda, parou seu carro na rua de trás do dormitório de , para não correr o risco de ser reconhecido por nenhuma moradora. Seguiu a pé até o dormitório e se sentou num banco da praça que havia ali em frente, acendendo um cigarro.
Por volta de onze e meia, viu que várias garotas saíam do prédio. Naquela noite haveria uma grande festa da faculdade, provavelmente estavam indo para lá. Logo avistou Savannah saindo junto de outras 3 garotas e se dirigindo para um táxi.
Depois de algumas horas parado no mesmo lugar e remoendo os mesmos pensamentos, começou a sentir pena de si mesmo, e esse era o sentimento que ele mais odiava. A cada mensagem não recebida e ligação que caía na caixa postal, ele sentia seu coração ficando menor, definhando. Não comia, não dormia, e tanto a faculdade quanto o time de Hockey estavam abandonados. Ele precisava entender o que estava acontecendo com ele, de onde vem seu lado lobo e porque ele saiu do controle. Ele precisava entender quem ele era, como lobo e como homem, não só por ele mesmo, mas para seu filho que chegaria em breve.
levantou-se e começou a andar de volta para seu carro com as mãos nos bolsos. Ao se aproximar, ainda do outro lado da rua ele pôde ver algo que o fez respirar profundamente e contar até 10. Massageou o ossinho do nariz, próximo aos olhos, para tentar se acalmar e foi até o veículo em passos apressados.
O lado esquerdo do carro estava totalmente riscado com um enorme ‘babaca’ escrito. Deu a volta e verificou que o lado direito estava igual, mas com as palavras ‘filho da puta’.
Um papel estava preso no para-brisa e o o pegou para ler.
“Enquanto você não assumir sua responsabilidade com , eu não vou parar apenas na lataria.” Não precisava ser um gênio para saber que a mensagem e a obra de arte no Range Rover eram de autoria de Carolina, irmã gêmea de . Ela sempre foi legal com , mas ele já conhecia a fama do temperamento dela.
amassou o bilhete e o jogou longe. Entrou no carro, bateu a porta e saiu cantando pneu em direção à Regina, sua cidade natal e onde seus pais ainda moravam.


Capítulo 6 — Quem dera poder partir

Em pé sobre o capacho de entrada, ouvia os sussurros do vento que balançava as árvores ao redor da casa de seus pais.
Aproximou a mão da campainha para tocá-la pela segunda vez, mas hesitou, sabendo dos xingamentos que ouviria do Sr. Smith por acordar o casal no meio da madrugada. Por não querer passar a noite deitado no tapete da porta, ele não teve outra escolha senão apertar a campainha novamente, se preparando para os gritos. Crescer com um pai militar era a definição de tarefa árdua.
Então, finalmente ouviu passos descendo as escadas do hall de entrada. Alguns segundos de silêncio, provavelmente enquanto seu pai checava o olho mágico e logo em seguida a fechadura foi destrancada rapidamente.

— Garoto, você não tem sua própria chave, não? — Foi o cumprimento que o pai lhe deu antes de jogar a cabeça para trás e gritar para a esposa — Enola, é o ! Ele achou que seria uma boa ideia chegar na casa dos outros a essa hora da noite, é brincadeira?!
— Pai, quem você achou que era? Um ladrão? Canadenses realmente são muito educados, mas acho que nenhum criminoso toca a campainha antes de invadir uma casa! — debochou enquanto entrava no imóvel e via seu pai guardar uma arma na parte de trás da calça e a tapando com a camisa do pijama. — E aliás, como assim eu cheguei ‘na casa dos outros’? Eu achei que aqui era minha casa também.

John riu.

— Fale isso para depois que ela se tornar sua esposa. Aposto que ela não vai fazer questão nenhuma de morar aqui.

sentiu seu corpo tremer levemente ao ouvir a menção ao nome de . Contudo, sua atenção foi roubada pela mulher elegante e graciosa que vinha descendo as escadas com passos rápidos, vestida num robe de cetim.

? Meu bem, o que faz aqui a essa hora? — A mãe do rapaz o abraçou fortemente e pegou seu rosto com as duas mãos, o observando com preocupação — Algo aconteceu com você? Com ?
— Não mãe, nós estamos bem. Na medida do possível.

Antes que pudesse responder, John foi até a porta para trancá-la de novo e viu lá fora o carro estacionado.

, QUE MERDA ACONTECEU NO SEU CARRO? — O homem falou em voz alta.

Enola foi até a porta conferir sobre o que o marido falava, enquanto apenas sentou-se no sofá da sala de estar.

— É uma longa história.
— O que aconteceu, meu filho? — Enola ajeitou a postura e assumiu um tom mais sério.
— Acho melhor você começar a falar o que está acontecendo, rapaz. Você aparece aqui em casa de madrugada, sem avisar, seu carro está vandalizado e com essa cara bund… — Enola olhou severamente para o marido — Com essa cara de cachorro que caiu da mudança.

tapou o rosto com as mãos.

— É a , pai. Ela já sabe a verdade sobre mim. — Sua voz saiu abafada.
— Como ela descobriu? — Enola se aproximou do filho no sofá.
— Nós tivemos uma briga e… Eu… — balbuciava mas não conseguia finalizar a fala, pois a lembrança daquele dia o assombrava.

Vendo o filho com o olhar distante e os ombros caídos, John quebrou o silêncio amargo.

— Você a atacou? — Ele perguntou friamente.
— Não, claro que não! — logo negou — Mas eu me transformei, sim, na frente dela.
— Como isso aconteceu, ? Eu achei que você controlasse suas transformações! — a fala de John estava exaltada. Como o general que era, ele estava acostumado a falar alto com os soldados que ele sabia que tinham grande potencial.
— Há algo que vem acontecendo há cerca de 2 meses e eu não sei explicar como ou porque está ocorrendo — Enola passava a mão nos cabelos pretos do filho tentando acalmá-lo, conforme o tom de voz dele diminuía a cada palavra — há algo de errado comigo, mais errado do que o habitual. Frequentemente, eu sinto que meu lobo está tomando conta de mim. Meu humor muda repentinamente, minha temperatura aumenta assustadoramente e sinto tremores violentos.
— Você está dizendo que não consegue mais ir e voltar da forma de lobo quando deseja? — John questionou.
— Sim, é como se houvesse no meu interior dois diferentes: o humano e o lobo. E agora o lobo decidiu que tem consciência e vontade próprias, se libertando sempre que bem entende.
— Tá, mas e como a chegou à verdade?
— Eu me descontrolei perto dela e transmutei por acidente. Eu planejava contar a verdade para ela, mas não dessa forma. — sentiu as lágrimas quentes se concentrando em seus olhos.

Enola olhava para o filho com seu típico olhar de serenidade, mas no fundo sabia que a história dele com estaria fadada ao fracasso enquanto esse segredo fizesse parte da vida de .
John andou de um lado para o outro na sala, com as mãos na cintura, mania que o filho herdou.

— Eu não entendo como isso pôde acontecer. Você sempre teve sua habilidade sob controle — o homem murmurava — e como a reagiu?
— Ela surtou, é claro. Entrou em pânico, achou que eu iria machucá-la e fugiu na primeira oportunidade.
— Por qual razão vocês brigaram? Deve ter sido algo realmente importante para você se descontrolar dessa maneira — Enola perguntou.

ponderou se deveria responder e decidiu que aquele não era o momento certo para contar sobre a gravidez da noiva. Esse era Smith, sempre procurando o momento certo para dizer as palavras certas, tentando ter as circunstâncias da vida sob seu controle, mesmo sabendo que é impossível. Perder o timing de se expressar e se arrepender depois era um de seus dons.

— Nada demais, coisa de casal, discussão rotineira.
— Droga, . Isso não poderia ter acontecido! — John coçou o ossinho do nariz, entre os olhos.

ergueu a voz, perdendo a pouca paciência que ainda restava em sua mente.

— É claro que não poderia, mas eu já disse que estou perdendo o controle de quem eu sou! Eu jamais teria me transformado em frente à , a assustando de propósito. A mulher que eu amo saiu do meu apartamento assustada comigo e com o que ela acha que eu sou capaz de fazer com ela. Ela foi para Toronto e há dias não fala com mais ninguém, ainda deve estar processando o trauma que EU CAUSEI NELA! Eu nem sei se sou capaz de me perdoar por isso, muito menos se ela é capaz.
— Nós avisamos que esse relacionamento não poderia ir longe se você contasse a verdade. — Enola falou ternamente.
— E o que eu deveria fazer, mãe? Mentir para ela pelo resto da vida? Isso seria inaceitável.
— Mas agora ela sabe da verdade. E me diga: isso foi benéfico?
— Eu viajei por duas horas sem nem olhar para trás, apenas com a roupa do corpo e com a cabeça cheia de pensamentos e sentimentos que eu não sei explicar nem administrar. E sabe por quê? Porque eu pensei que vocês seriam compreensivos e me dariam uma luz sobre o que fazer. Mas eu já percebi que estou sozinho. A estava com medo de mim, mas eu também estou. Eu preciso saber o que está acontecendo comigo e porque eu nasci assim! — nesse ponto já gritava as palavras.

Ele se levantou rapidamente do sofá e subiu as escadas correndo, em direção ao seu antigo quarto.
John abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas Enola levantou a mão, o impedindo.

— Deixe-o, John. Ele precisa de tempo para colocar a cabeça no lugar.

John se aproximou da esposa e colocou a mão no ombro dela, a acariciando.

— Não há nada que possamos fazer por ele?
— Eu sempre temi a chegada desse dia… — Enola respondeu vagamente.

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procurou por uma muda de roupas mais confortáveis no armário, já que sua mãe fazia questão de manter algumas peças mais velhas ainda guardadas caso ele precisasse quando viesse para casa.
Nada mais naquele cômodo parecia familiar, tudo o fazia se sentir como um estranho no ninho. As roupas antigas de quando era mais jovem; a pequena cama de solteiro que quase não comportava mais seu corpo grande; a forma como se sentiu sozinho sem o apoio de seus pais.
sempre foi um rapaz maduro e responsável, mas agora tudo será diferente. Ele precisará finalmente assumir sua hombridade, para buscar entender o que acontecia com ele e para ser o companheiro e o pai que e o bebê precisam e merecem.
Se conseguisse enfim conhecer outro transmorfo, uma pessoa que seja como ele e passe pelas mesmas transformações, ele veria uma luz no fim do túnel para se encontrar. Contudo, ele nunca soube de outra pessoa, próxima a ele ou desconhecida, que também fosse um lobisomem. E como achar essas pessoas? Não se pode simplesmente ir ao Google e pesquisar “onde encontrar lobisomens?”. Tudo o que ele precisava era uma pista para encontrar outro lobo como ele. Mas por onde começar?
Ele caiu no sono sem nem perceber. Um sono profundo, de quem se sente seguro pois sabe que está em casa. No fundo ele sentia essa segurança ao estar sob o teto de sua família; só precisava trazê-la até a superfície.
Enola abriu a porta do quarto devagar, evitando fazer qualquer barulho, e lá ficou velando o sono de seu filho, pensando em como o amava do jeito que ele era. Aos seus olhos, era perfeito, e seu coração se partia em mil pedaços ao pensar que havia uma parte dele que se odiava.

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O som da porta se fechando quando John saiu para o trabalho foi o sinal de que Enola precisava. Arrastou a cadeira de sua penteadeira até o closet e subiu nela. Esticou o braço para alcançar uma caixa de madeira guardada no fundo da última prateleira.
Foi até sua cama e se sentou, com a caixinha no colo. Suas mãos tremiam levemente antes de abrir o pequeno cadeado com uma senha.
Ao abrir, os objetos trouxeram memórias de cheiros, lugares, pessoas e uma vida toda que Enola deixou para trás.
A polaroid de três meninas na floresta era colorida, mas se desbotou com o tempo, e agora estava amarelada e manchada. A garota mais velha estava encostada numa árvore segurando a caçula no colo, que cuidava como se fosse sua própria filha. Em pé ao lado delas estava a filha do meio, parada com as mãos para trás, tímida como era.
Ao virar a foto, ela leu a identificação ‘Mina, Patricia E. e Enola — Seven Arrows, 1973’, escrita com uma letra descuidada. Mesmo sendo tão jovem naquela época, os acontecimentos daquele ano assombraram Enola por muito tempo, e só não a perseguem mais pois ela os guardou junto daqueles objetos, escondidos no fundo da caixinha de madeira, mofando e apodrecendo.
Ao recolocar a fotografia na caixa, Enola pegou o colar que também estava lá. Uma pedra opala amarrada a um fio preto, trançado à mão de maneira delicada. Ela pegou o acessório e sentiu a frieza do pingente, depois o levantou e olhou-o contra a luz. A pedra estava tão colorida e brilhante quanto no dia em que foi dada de presente à ela, como se nunca tivesse sido tocada.
Enola apertou o colar fortemente e o colocou próximo de seu peito, ao mesmo tempo em que podia ouvir em sua cabeça uma antiga canção de ninar tradicional do povo Sioux, que sua mãe sempre cantava para ela. Aos poucos, ela abriu os olhos e pousou o colar cuidadosamente ao seu lado na cama.
A caixa ainda guardava a última e mais dolorida lembrança. Um papel amarelado estava dobrado no fundo da caixinha, e Enola o pegou com cuidado, com medo de que ele se desfizesse em pedaços em sua mão, por conta do tempo que passou guardado.
Ao desdobrar o papel, lá estava desenhado em carvão um lobo, que quase preenchia toda a folha. No canto inferior direito, a assinatura com o nome Zolah escrito pequenininho fez seu coração se apertar. O pai era seu melhor amigo, quem mais lhe compreendia e com quem tinha o laço emocional mais profundo.
Zolah sempre foi bom em fazer desenhos, e desenhou aquele grande lobo a pedido de Enola, num momento em que estavam brincando. Agora, os traços de carvão estavam mais apagados e borrados, o que entristeceu Enola.
O choro começou a rolar por seu rosto sem nem mesmo perceber. Tomou cuidado para não deixar as lágrimas caírem sob o papel. Soluçando, deixou o desenho de seu pai dentro da caixa e se levantou para ir até o banheiro da suíte.
Se apoiou na bancada e deixou que os sentimentos a inundassem como a muito tempo não fazia. Seus ombros tremiam, a cabeça latejava e seu rosto estava vermelho. Mesmo estando em frente ao espelho do banheiro, Enola não teve coragem de encarar seu reflexo. Sendo uma mulher sempre séria e comedida, tinha vergonha de si mesma por demonstrar sentimentos de forma tão intensa, principalmente se tratando de seu passado. Ela se odiava por sentir saudades daquilo que ela abandonou deliberadamente. Exceto seus pais, pois foram tirados dela.

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acordou e demorou um tempo para entender onde estava. Passou a mão no rosto e nos cabelos, lembrando de tudo o que aconteceu na noite anterior.
Ele não estava a fim de sair do quarto e dar de cara com os pais depois da discussão. Então, permaneceu deitado na cama e esperou alguns minutos. Notando que a casa estava silenciosa, concluiu que o pai fora trabalhar e só Enola estava lá.
Levantou-se e ao sair no corredor, ouviu o som de água da torneira vindo do quarto dos pais. Foi até lá para dar bom dia à mãe.
A porta estava entreaberta e ele entrou sem avisar. Pelos sons que ouvia no banheiro, Enola devia estar lá. Andou até a cama e lá se sentou para esperá-la. Ainda meio sonolento, demorou um pouco para perceber os objetos que pousavam ao seu lado no colchão.
Uma foto de três crianças, sendo uma delas sua mãe. Depois de buscar um pouco em sua memória, reconheceu aquelas mulheres como as suas tias, as quais ela citou uma ou duas vezes durante a vida. Aquela foi a primeira foto que viu da infância de sua mãe.
Um colar com uma grande pedra colorida como pingente e um desenho de lobo feito com algum material que manchava seus dedos, parecendo carvão. Entre tudo o que viu, este desenho foi o que mais lhe chamou a atenção. Ele sentiu uma atração imediata pela obra e quase não conseguia tirar os olhos dela, perdendo a noção de quanto tempo ficou a observando.
Quando finalmente acordou de seu transe, sentiu como se dezenas de memórias preenchessem sua mente. Mas memórias borradas, confusas, barulhentas.
Vozes de pessoas falando, gritando, chorando e cantando numa língua incompreensível; sons estridentes e outros graves; um grande foco de luz laranja. Todos esses elementos desapareciam tão rápido quanto surgiam na mente dele. não conseguia identificar os sons e imagens, mas tinha certeza que era algo que já viu. Não eram meras invenções; eram lembranças reais.
Com a respiração pesada, ele pegou a fotografia das meninas e leu o verso novamente. ‘Seven Arrows’ era um lugar que ele conhecia. Não fazia ideia de onde, mas conhecia.
Mais calma, Enola limpou o nariz, lavou o rosto e saiu do banheiro, retornando ao quarto. Ao bater os olhos em sentado na cama, deu um grito agudo de susto.

, desde quando está aqui? Achei que ainda estivesse dormindo. — A mulher colocou uma mão no peito.
— Eu vim te dar bom dia, mas você estava ocupada. — O olhar de Enola mirou a imagem na mão de .
— Bom dia. Teve uma boa noite de sono?

Enola foi em direção ao rapaz e lhe deu um abraço, que ele não correspondeu. Então, ela começou a pegar os objetos em cima da cama e guardá-los na caixa de madeira. Esticou a mão para lhe entregar a foto, mas ele não se moveu.

— Mãe, por que você nunca me mostrou essa foto das suas irmãs com você?
— Ora, . Já falei milhares de vezes que viver no passado não me agrada.
— Acho estranho que eu nem ao menos soubesse da existência dessa foto. Achei que você não tinha nenhum objeto de recordação da sua infância.

Enola riu sem graça, tentando disfarçar sua tensão.

— Por que você deveria saber? São coisas pessoais.
— Quem é Zolah?

Enola puxou a foto da mão de e jogou dentro da caixa junto do desenho e do colar, fechando a tampa com força.

, chega de interrogatório tão cedo! — ela apontou para a porta do quarto — Desça que eu vou terminar de me arrumar antes de preparar o café da manhã.
— Mãe, eu preciso saber. Talvez não te incomode o fato de você ter abandonado seu passado, mas a mim sim. Durante minha vida inteira eu quis conhecer o lugar de onde você veio, quem era sua família, qual o nome da sua tribo. Não sei se minhas tias estão vivas ou mortas; se tenho primos, tios ou outros parentes. Eu amo a família do papai, mas há essa enorme lacuna na minha vida por não conhecer a sua família.

sentia-se inundado por emoções ao falar da família.

— Não há nada sobre lá que valha a pena te contar. E acredite em mim, eu fiz o melhor por nós dois em te manter afastado.
— Essa não era uma decisão sua! — aumentou o tom de voz sem perceber — Ao me privar de conhecer suas raízes, consequentemente você também me privou de conhecer as minhas.

Enola se colocou em pé frente a frente com , com a postura rígida, as mãos na cintura e a cabeça erguida.

, por que esse interesse repentino na minha vida? Você pode achar o que quiser, mas é a mãe que decide o que é melhor para seu filho. Você já parou para pensar que se eu não te criei próximo a minha família e ao lugar onde nasci, é porque tenho feridas profundas que não quero reabrir? Que me machuca pensar naquela tribo e nas pessoas que vivem lá? Nas pessoas que eu perdi lá? — Agora era a mulher quem tinha o tom de voz elevado.
— Mas e eu mãe? Eu respeito e compreendo sua dor, mas…
— Você não compreende minha dor! — Ela apontou o dedo na cara de .
— Não, eu não compreendo, mas porque você nunca me deu essa chance! Quantas experiências eu poderia ter tido com a sua família se você tivesse deixado? Eles podem ter machucado você, mas o que garante que me machucariam também? VOCÊ TIROU DE MIM A CHANCE DE SABER QUEM EU SOU!
— EU NÃO PODERIA ARRISCAR VOLTAR ÀQUELE LUGAR NUNCA MAIS, ! MINHA HERANÇA INDÍGENA JÁ ME TIROU MEUS PAIS E TE FEZ SER UM LOBO, O QUE MAIS VOCÊ QUERIA QUE ME ACONTECESSE?

Depois dos berros trocados, o quarto se silenciou.
tinha a respiração descompassada, pensando rápido e sentindo que finalmente, diversas peças desconexas começavam a se encaixar. Ele deu um passo para se aproximar de Enola, que havia dado à volta na cama de casal.

— É por isso que quando eu contei para você e para o papai que eu sou um lobo, vocês reagiram tão bem. Não se assustaram, não acharam que eu fosse louco e nem me demonizaram. Você já sabia… Quem eu sou.
, eu… — Enola começou a falar mas suas lágrimas a impediram de continuar.
— Se você já sabia, por que nunca me contou? Você me deixou viver no escuro, sem compreender de onde vem meus poderes e porque eu nasci assim. Por que, mãe? — A essa altura, também já chorava, se sentindo perdido.
— Perdão, filho, eu tive medo!
— Medo de mim? — perguntou incrédulo.
— Claro que não! Eu tive medo de que se você soubesse de onde vem seu lado lobo, você odiaria sua herança indígena, seus genes, e principalmente, me odiaria.

levou um tempo para responder, tentando processar tudo o que sentia naquele momento. Chorou de soluçar.
Enola se sentou ao lado dele na cama e sentiu uma imensa vontade de abraçá-lo, mas decidiu que seria melhor dar-lhe espaço. Ela sorriu por dentro ao notar a semelhança na forma em que ambos choravam. Ela tinha muito orgulho de saber que ela foi a responsável por colocar no mundo aquele rapaz.

— Quem são eles? — levantou a cabeça, mas ainda sem conseguir encarar a mãe. Enola respirou fundo.
— Tribo Dakota, do povo Sioux. Reserva Seven Arrows, a menor de todas as reservas Sioux no Canadá, e ao sul da fronteira com Dakota do Norte — Ela sussurrou.

memorizou as informações que ela disse e se levantou, saindo do quarto.

, onde você vai? — Enola o seguiu.

Quando ela chegou na porta do quarto do rapaz, ele já estava trocando o pijama pela roupa que usava quando chegou durante a madrugada. Sem obter resposta, Enola chamou a atenção dele.

! Me perdoe, por favor.
— Eu vou embora, mãe! Eu preciso seguir meu caminho. Tem tantas coisas sobre mim que eu quero, e preciso, descobrir. Por que eu nasci lobisomem e você não? Por que meu lado lobo está descontrolado e como eu faço para reaver o controle sobre ele? Existem outras pessoas como eu? Todas as respostas podem estar lá!

Enola se aproximou do filho e encostou sua testa na testa dele.

— Vai, meu filho. Eu estarei te esperando voltar.

Ela queria dar mais informações à ele, mas falar sobre sua vida na reserva indígena estava doendo muito em seu peito.
vestiu sua jaqueta e desceu as escadas. Na porta, se despediu de Enola com um abraço.

— Mãe, eu nunca te odiaria. Mas saiba que eu e você somos muito diferentes. — ele olhou fundo nos olhos da mulher — Eu jamais te afastaria do meu filho que vai nascer.

Enola arregalou os olhos com surpresa, enquanto via entrar no carro e partir.

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Quando entrou em seu apartamento, o lugar parecia mais frio e vazio do que nunca. A ausência de presença e calor humanos deixava a residência com um ar triste difícil de suportar, levando a passar rapidamente pela sala, sem olhar muito para os outros cômodos.
Foi diretamente para seu quarto, onde pegou uma mala preta guardada em cima de seu guarda roupa e começou a preenche-la com diversas peças de roupa e outros pertences. Organizado como era, teve paciência de armazenar as roupas com cuidado, ajeitando-as para aproveitar bem o espaço da bolsa. Porém, quando enfiou a mão no fundo de uma gaveta, encontrou uma de suas camisetas de Hockey preferidas. Era aquela que vestira quando dormiu no apartamento, na noite em que comemoraram 3 anos de relacionamento. Ele ainda podia sentir o cheiro do perfume e do corpo dela no tecido.
Rapidamente, tirou sua jaqueta e sua camiseta e colocou a camisa de Hockey, como uma forma de ter um pouco de perto dele. Aquele era o mais próximo que seus corpos tinham chegado um do outro nos últimos 10 dias.
Melancólico, conferiu a mala para se certificar de que tudo o que era importante estava lá. Pegou a carteira no bolso de trás da calça e a abriu, tirando de lá o desenho do lobo cuidadosamente dobrado, que pegou da caixa de sua mãe sem que ela percebesse, antes de ir embora.
No momento em que puxava o zíper da bolsa para fechá-la, a campainha tocou, e algo dentro de seu peito pareceu tocar junto.
Desceu as escadas correndo até a porta e nem ao menos verificou o olho mágico para confirmar quem era, pois no fundo ele já sabia.
abriu a porta e deu de cara com uma que aparentava estar ansiosa e um pouco abatida. Não deu tempo para a garota falar nada, e a puxou para um abraço tão apertado que a levantou do chão e a rodou em seus braços.
Aquele momento pareceu acontecer em câmera lenta aos olhos de , tão grande era seu alívio e sua alegria por ver novamente, em carne e osso, e poder tocá-la. Mas foi quando sentiu a noiva retribuir o abraço, colocando os braços ao redor do pescoço dele, que ele sentiu que poderia explodir de tanta felicidade.

— Eu não acredito que você está aqui! — Ele sussurrou no ouvido dela, antes de a soltar.

De cabeça baixa, soltou no chão uma mala que até então segurava com sua mão esquerda.

— Eu acabei de chegar de Toronto e vim direto para cá. Só eu não sei o porquê. — Ela disse.
— Como assim? O que você quer dizer? — a olhou sem entender nada.
— Ontem algo me disse que eu deveria voltar. Uma sensação, uma intuição, sabe? — balançava a cabeça, parecendo confusa com seus próprios pensamentos — Eu não sei explicar o porquê, mas eu apenas senti que deveria estar com você, como se fosse um chamado do meu coração. Eu não podia mais ficar longe.
— Seja lá qual for a fonte dessa intuição, eu devo agradecê-la — Ele sorriu, segurando o queixo de e levantando seu rosto — Eu te amo tanto, bae! A única pessoa que vai competir pelo meu amor é esse bebê. — Eles riram e colocou a mão na barriga de .

encostou sua testa na testa de e eles permaneceram assim por alguns momentos. Podem ter sido segundos ou minutos, até mesmo horas, eles não sabiam. Só sabiam que desejavam que aquele momento durasse uma eternidade.
Quando finalmente se afastou, olhou nos olhos de e fez um pedido.

— Agora que vocês estão aqui eu me sinto completo de novo. Eu só preciso de mais uma coisa.
— O que? — perguntou baixinho.
, eu sei que você tem milhares de coisas que você ainda está processando e tentando aceitar. Não vai ser fácil, e está tudo bem. Eu não vou te forçar a entrar no meu mundo, eu quero que você venha por livre e espontânea vontade. Você vem comigo? — estendeu a mão para , num pedido para acompanhá-lo.


Capítulo 7 — Safe and Sound

Ao ver se encolher no banco do passageiro, ligou o aquecedor do carro alugado. O inverno canadense chegava rígido.
Quando chegaram numa estrada remota, o rádio do carro passou a emitir apenas ruídos confusos, resultado da ausência de sinal entre as montanhas e os enormes pinheiros da região. desligou o aparelho e começou a tamborilar os dedos no volante, já que não tinha mais músicas para distraí-lo.
Ele olhou para o lado espantado quando ouviu algumas notas afinadas sendo cantadas por . Distraída, ela cantava algo em outro idioma que com certeza era português. Eram raros os momentos em que ela falava em português perto de , pois sabia que ele não entenderia uma palavra.

Na bruma leve das paixões que vem de dentro, tu vem chegando pra brincar no meu quintal… — Ela cantarolava sem tirar a mão do ventre.

Mesmo sendo incompreensível, o ritmo da canção agradou , principalmente porque ele gostava de ouvir a noiva cantar.

No teu cavalo, peito nu, cabelo ao vento…
— Essa música parece bonita. É brasileira, não é?! — Ele perguntou sem tirar os olhos da estrada, mas logo se arrependeu de ter atrapalhado o momento gracioso dela. — Desculpa, eu te interrompi.
— Tudo bem. É uma música brasileira, sim, e uma das minhas preferidas. Sempre gostei dela, mas agora ela tomou um sentido diferente para mim, pois é uma “música de grávidas” — sorriu timidamente ao fazer o sinal de aspas com as mãos.
— Como uma canção de ninar? — questionou confuso.
— Não, não é de ninar. É que a letra da música soa como se o eu lírico falasse sobre um filho que vai nascer, então muitas mulheres brasileiras ouvem essa canção durante a gravidez.
— O que os versos significam? Mesmo que eu goste muito de te ouvir falar português, você ainda está me devendo algumas aulas — sorriu.

começou a traduzir a canção, na medida do possível.

— Alguns dos meus versos favoritos dizem algo como “an angel’s voice whispered in my ears; I have no doubt, I’m already listening to your signals”. — Ela fazia uma careta de quem estava pensativa, tentando traduzir a música de maneira que as palavras ainda fizessem sentido em inglês.

queria poder fechar os olhos para que sua audição absorvesse ao máximo a voz suave da noiva, pois cada palavra que ela proferia era doce.

“You would come in a sunday morning; I announce you with the cathedral’s bells” — Ela continuou a traduzir — Bom, é mais ou menos isto.

ficou em silêncio por alguns segundos, sem palavras.

— Todas as músicas brasileiras são bonitas assim? Sempre que você diz algo em português, parece que está declamando uma poesia.
— É um idioma realmente lindo. Eu sinto falta de falar mais — ela virou seu rosto para olhar para — Eu adoraria te ensinar um pouco e ter alguém com quem conversar em português, além da minha família.
— Achei que eu fosse parte da sua família — fez um cara de falsa ofensa.
— Você entendeu o que eu quis dizer — ela riu.
— É uma das línguas mais bonitas e mais difíceis do mundo, não é?! Eu sei que é uma das mais difíceis, eu pesquisei o Brasil no Google quando te conheci.

o olhou de boca aberta.

— Tá brincando, ? — ela não pôde evitar rir — E o que você aprendeu sobre o Brasil?
— Que é o país com as mulheres mais lindas do mundo! — Ele usou a mão livre para apertar a bochecha de , que revirou os olhos.

A expressão dela logo se transformou em agonia. fechou os olhos bem apertados e curvou seu corpo para baixo, passando os braços ao redor da barriga.

— O que foi?
— Estou enjoada. Muito enjoada. — Ela disse entre dentes.

direcionou o carro para o acostamento e parou. Se virou e pegou uma garrafa de água que havia na bolsa de , no banco de trás.

— Hidratação pode ajudar a melhorar. — pegou a garrafinha da mão dele e tomou um pouco, mas não chegou a engolir, pois logo sentiu o líquido voltar por sua garganta. Abriu a porta rapidamente e cuspiu a água, vomitando logo em seguida.
— De onde veio tanto vômito? Eu nem ao menos comi tanto assim… — Só de pensar em comer e na palavra ‘vômito’, voltou a gorfar na neve do acostamento. Teve de levantar-se e sair do carro para tomar um pouco de ar.

Com um olhar preocupado, usou seu lado médico para manter a calma.

— A gestação tem quanto tempo exatamente, bae? Pelos meus cálculos, sua náusea não deveria ser tão intensa ainda.

Para , era difícil raciocinar enquanto tentava não colocar mais nada para fora.

— Acho que a viagem de carro fez a náusea aumentar. — Ela sussurrou, antes de respirar fundo.

pensou bem e concordou com a noiva. Conferiu o GPS em seu celular e viu que ainda faltavam cerca de três horas para chegarem na antiga reserva de sua mãe. Ele não poderia submeter a mais todo esse tempo de mal-estar. Se fossem enjoos comuns ela poderia até tomar algum remédio, mas ele notou que no estado em que ela se encontrava, teriam de parar a cada 10 ou 15 minutos para ela vomitar. não queria perturbar e muito menos o bebê.

— Todo esse mal-estar pode te deixar desidratada, e não queremos isso não, é?! — foi até a noiva e passou o braço ao redor dos ombros dela, a levando de volta ao banco do passageiro — Vamos parar a viagem por essa noite.
— Como parar a viagem, ? — ela se surpreendeu — Se pararmos, chegaremos na reserva só amanhã. E onde iríamos dormir?

Ele entrou no carro novamente e começou a pesquisar por algumas informações no celular. o olhava impaciente, pois esperava por uma resposta e recebeu silêncio. O rapaz não fazia por mal, ele apenas não conseguia prestar atenção em mais de uma coisa ao mesmo tempo.

— Em 2,5 quilômetros há um posto de gasolina. Vamos até lá, e depois decidimos o que fazer.

Dirigiram até o tal posto, com se concentrando em não olhar pela janela e ver a imagem das árvores borradas na lateral da estrada. Ao chegar no local, mal estacionou o carro e a garota saiu correndo e gritando.

— Xixiiiii!!! — E foi em direção ao banheiro, deixando para trás rindo da cena.

Ela havia voltado para ele e aceitado ir numa jornada de descoberta junto dele, mas estavam indo com calma. Durante a maior parte da viagem, esteve emocionalmente distante de , silenciosa e imersa em seus próprios pensamentos. Por mais que lhe entristecesse, ele compreendia totalmente que não deveria ser fácil para ela lidar com tantas informações inacreditáveis. Não era fácil nem para ele mesmo.
Ele trancou o carro, foi até a loja de conveniências e andou pelos corredores, pegando alguns produtos. Quando saiu do banheiro, ele já estava ao lado de uma das bombas de combustível, abastecendo o carro.

— Então, o que vamos fazer? — Ela bocejou.

coçou a cabeça e entregou as sacolas de compras para .

— Remédio para náusea, água, comida... — listava os itens que viu superficialmente na sacola de papel — Para quê tantas coisas?
— Nós poderíamos ir para algum hotel de beira de estrada, com um colchão sarnento e uma banheira que poderia te passar alguma DST, — começou a explicar — mas eu pensei numa alternativa melhor.
— É possível pegar DST numa banheira? — se perguntou, ficando distraída com o exemplo de .
— ENFIM, — ele enfatizou — eu me lembrei de que meus pais possuem uma cabana há alguns quilômetros daqui, onde costumávamos passar as férias lá. Podemos ir para lá e passar a noite.
— Tem certeza, ? Eu já estou melhor, podemos seguir viagem até Seven Arrows.
— Vamos descansar na cabana hoje, amanhã prosseguiremos. Além do mais, daqui a pouco vai escurecer e eu não quero dirigir durante a noite para um lugar que não conheço.

guardou as compras no porta-malas e entrou no carro. Enquanto isso, fitava o horizonte, vendo o Sol se pôr. Obviamente ele não gostava de ver sua noiva passando mal, mas os enjoos vieram bem a calhar. Foram as desculpas perfeitas para desviarem do caminho por algum tempo, já que quanto mais se aproximavam da reserva, mais medo ele sentia de todo o desconhecido que iria encontrar lá.

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A cabana cheirava a mofo, poeira e passado, mas naquela noite, ela seria o lar do casal.
andava pelo lugar olhando tudo, mas sem absorver nenhum detalhe. Sua mente vagava solta pois estava demasiadamente cansada para focar num mesmo pensamento por mais de 1 minuto. Parou em frente à uma foto emoldurada e pendurada na parede. Ela limpou a poeira do vidro e pôde ver o sorriso de um pequeno abraçando uma mulher que deveria ser Enola. Ela involuntariamente pousou a mão esquerda sobre sua barriga, imaginando se seu bebê se pareceria com aquele garotinho alegre que ela observava.

— Hein?! — A voz de tirou de seu transe. Ao olhar em volta, ela notou que ele havia acendido as luzes e retirado os lençóis que cobriam os móveis, o que fez a cabana parecer um pouco mais aconchegante.
— O que? — falou.
— Eu perguntei se você prefere sopa de abóbora ou de macarrão. — pareceu levemente chateado por perceber que a garota não prestava atenção no que ele dizia.
— Eu não sei. Tanto faz. — Ela gesticulou impaciente, voltando a olhar as fotos.

se afastou do balcão da cozinha onde estava encostado e pegou duas canecas num armário próximo.

— Farei sopa de abóbora então. É mais leve, vai evitar os enjoos.

apenas assentiu silenciosamente, mas apreciou o cuidado dele para com ela.

— Espero que toda essa poeira não cause mal a você. — Ele falou de costas para ela, preparando a sopa em pó no fogão.
— Tudo bem, não me incomoda. — disse ao sentar-se no sofá da sala de estar para descansar.

O silêncio pairou entre eles durante vários minutos, deixando uma névoa de tensão no ar. Havia um enorme “lobo branco” na sala que os impedia de se aproximar, parecia que cada palavra que pensavam em dizer pesava uma tonelada. Mesmo depois dela retornar de Toronto e eles começarem uma viagem juntos, o casal ainda não havia conversado sobre a sobrenaturalidade de .
Sentados cada um em uma ponta do sofá da sala, o casal tomava sopa em silêncio. foi a um dos quartos e pegou uma manta que colocou sobre seu colo. Levantando uma das pontas do cobertor, olhou diretamente para , que entendeu o pedido silencioso. Ela se arrastou da ponta do sofá até o lado dele e se cobriu também.

— Essa não é a circunstância em que eu queria trazer você aqui — quebrou o silêncio — eu gostaria de trazê-la aqui no verão, quando podemos nadar no lago, passar o dia deitados na grama e dormir ouvindo o som dos grilos.
— Por que nunca me trouxe aqui antes?
— Bom, eu já não venho aqui há tanto tempo que praticamente me esqueci da existência dessa cab… — parou de falar de repente, quando cedeu à sua necessidade de afeto e deitou no peito dele. Ele passou o braço pelos ombros dela e a aconchegou, a trazendo perto o suficiente para poder sentir o cheiro de seu cabelo que ele tanto gostava.
, me promete que nada de errado vai acontecer com nosso filho.

Filho. Essa palavra ainda soava estranha para ambos. Mal podiam acreditar que em alguns meses seriam pais.

— Eu vou cuidar de vocês, . Eu te prometo.

começou a chorar baixinho. Ela estava assustada, com medo, confusa e perdida. Nunca imaginou cair de paraquedas num mundo sobrenatural desconhecido. Sua gravidez, um período tão alegre e delicado para a maioria das mulheres, se tornava a experiência mais insana de sua vida.
O instinto protetor de desejava pegar a namorada no colo, abraça-la e convence-la de que ele faria qualquer coisa no mundo para cuidar dela e do bebê. Porém, as luzes de toda a casa se apagaram e assim permaneceram por cerca de 30 segundos, até acenderem novamente. Aparentemente, o universo já estava mandando problemas para que ele solucionasse. Se levantando, deixou a noiva deitada no sofá e a cobriu com a manta.

— Às vezes podem acontecer apagões aqui, já que nosso gerador já não é ligado há muito tempo. Acho melhor ir buscar um pouco de lenha, caso a gente precise. Você ficará bem sozinha?

permaneceu na mesma posição e apenas balançou a cabeça positivamente, sem nem ao menos olha-lo.

— Já anoiteceu, pode levar meu celular para usar como lanterna. — Ela disse fungando com o nariz.
— Não preciso. Visão de lobo, lembra? — ele riu sem graça, já se dirigindo à porta — se precisar é só me chamar, eu vou ouvir. Eu venho correndo.

Cada músculo do corpo de lutava para correr de volta ao sofá e colocar em seus braços, ama-la e não a deixar, mas sua razão sabia que a relação deles precisa de tempo para se reequilibrar. Ao se afastar um pouco da cabana, ele ouviu o choro dela se intensificar.

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se levantou e foi até o lavabo mais próximo, embaixo da escada do térreo. A velha porta de madeira rangeu ao ser empurrada. A garota girou o registro da pia e não saiu nenhuma gota de água sequer, o que a deixou irritada.

— Droga de encanamento congelado. — Ela praguejou baixinho.

De repente, um jato forte de água saiu de uma vez, a assustando. Lavou o rosto na pia e amarrou os cabelos num rabo de cavalo, tentando deixar sua face menos abatida.
Ao sair do banheiro, olhou para a escada de madeira escura e foi em direção ao segundo piso da casa. Acendeu as luzes do andar e olhou ao redor. Havia 4 portas no corredor, todas fechadas. Entrou na primeira.
A suíte principal, provavelmente onde o senhor e a senhora Smith dormiam. O mesmo cheiro ocre era sentido naquele cômodo. achou uma lástima que a casa tenha sido deixada de lado pela família. A cabana tinha um aspecto de abandonada, mas não estava destruída. Uma boa limpeza e esse seria um lugar onde ela gostaria de voltar no futuro, quando tudo estivesse mais calmo.
Ela abriu as portas de um armário ao lado da cama e nele constavam apenas cabides vazios e teias de aranhas. Seus pais sempre a ensinaram que não deveria bisbilhotar os pertences de alguém, mas ela nunca foi capaz de abandonar essa mania.
Saiu de lá e seguiu para o segundo quarto do corredor. Esse era o quarto de hóspedes, imaginou, pois tinha uma cama de casal e um beliche. Andou pelo cômodo e não encontrou nada que a interessasse, por isso partiu para a terceira porta.
sorriu levemente ao entrar e se deparar com um quarto com decoração infantil. O quarto de tinha uma beliche e uma bicama, onde ela se sentou. Ao passar as mãos pelo lençol do colchão, uma nuvem de poeira se levantou, a fazendo tossir.
Ali, naquele lugar, dormiu, brincou, riu e cresceu. Ali ele passou muitos momentos de sua vida; momentos importantes que o tornaram o homem que é hoje. Será que bem ali, naquele quarto rústico marrom e azul, ele já havia se transformado? Aquela casa conhecia sua forma de lobo? não pôde evitar questionar.
Andou até uma cômoda que havia perto da porta e abriu a primeira gaveta, se deparando com diversos objetos velhos que confirmavam que era um quarto infantil. Um tabuleiro de dama com meia dúzia de peças; uma pilha de figurinhas desbotadas de jogadores de Hockey e uma camiseta vermelha tamanho M abarrotada e esquecida no fundo da gaveta. Há quanto tempo não vestia M? Ela riu ao imaginar o namorado magro e pequeno, afinal, quando se conheceram ele já era alto e forte como um modelo ou jogador de futebol americano.
A quarta e última porta era apenas mais um banheiro, que não a interessou em nada. entrou, olhou pela janela e viu lá fora, vindo em direção à cabana com alguns galhos nas mãos.
Ao sair do banheiro, ela colocou a mão na porta para fechá-la e sentiu um arrepio estranho. Olhou e seu pânico foi impossível de ser contido.
Puxou rapidamente a mão para se livrar de uma aranha com pernas enormes que andava por seu braço. Balançou os membros freneticamente enquanto dava os gritos mais agudos possíveis. Desceu as escadas correndo desesperada para sair de perto daquele animal. Mal pôde acreditar que uma aranha de verdade havia subido em seu corpo e poderia tê-la picado!
Os gritos alarmaram , que largou a lenha e correu, entrando na casa em poucos segundos. Ao passar pela porta de entrada, deu de encontro com uma apavorada.

, o que aconteceu? Por que gritou? — Ele a segurou pelos ombros e tinha medo em seu olhar.
— Em mim. A aranha. No braço. — A garota tinha dificuldade em formular frases que faziam sentido.
— Aranha? Que aranha? — As palavras dela não esclareceram .
— TINHA UMA ARANHA EM MIM, ! Eu fui ao banheiro e ela subiu no meu braço, eu poderia ter morrido! — Ela se exaltou.
— Tudo bem, calma. Se ela não te picou, não há motivo para se preocupar, ok?! — ele passou um braço pelos ombros de e beijou seu rosto frio, enquanto verificava o braço dela em busca de alguma picada — me mostre onde ela está.
— Lá em cima, no banheiro social. — apenas apontou para cima, mas não deu nem um passo em direção ao banheiro.
— Certo. Fique aqui então, eu vou matá-la.

subia as escadas para o banheiro dois degraus por vez, quando outra queixa de o fez olhar para ela.

— O que foi? — Perguntou do alto da escada.
— Eu acho que senti o bebê se mexendo pela primeira vez. — Em choque, tinha ambas as mãos sobre sua barriga ainda reta, tentando sentir algum movimento do filho.

desceu correndo e foi até a namorada. Ela gentilmente pegou a mão dele e colocou em seu ventre. Ele ansiava muito pelo momento em que poderia sentir seu filho, mas não pôde evitar franzir as sobrancelhas.

— Tem certeza? Isso é impossível. É muito cedo para sentir os movimentos.

Ao ouvir aquelas palavras, fez uma expressão decepcionada que não suportou, tentando anima-la.

— Quer dizer, não é impossível, é só um pouco improvável. Talvez o seu susto fez com que ele se agitasse, e agora que você se acalmou, ele se acalmou também. É a ligação de mãe e filho. — Os dois sorriram juntos.
— Agora vou pegar a aranha. Vou tentar trazê-la viva, assim você pode vê-la. — Ele provocou.
— Não se atreva! — gritou e em um piscar de olhos o namorado já estava no topo da escada novamente.

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encontrou a aranha ainda atrás da porta do banheiro. A pegou com uma vassoura e colocou no parapeito da janela. Quando descia para a cozinha, as luzes apagaram novamente.

— Merda. — Ele sussurrou.
, tem alguma lanterna por aqui? — gritou na sala.
— Acho que sim. Só um minuto. — desceu até o porão da cabana, e se os andares de cima não estavam com um aspecto acabado, não se pode dizer o mesmo sobre o porão. O cômodo estava repleto de tralhas como boias, coletes salva-vidas, um caiaque, e inúmeras caixas guardando coisas que nem imaginava o que eram. Ele foi até um armário de ferramentas e pegou duas lanternas, conferindo se as pilhas funcionavam. Um pouco antes de voltar ao andar de cima, ouviu alguns passos leves na escada atrás de si. Continuou a checar o armário em busca de velas, fósforos e algo mais que poderia ser útil durante um blackout, quando sentiu duas mãos geladas o tocarem por debaixo da camiseta.
— Te assustei?
— Hum… não. — Ele virou de frente para e riu.
— Audição de lobo, não é?! Ainda não me acostumei. — riu sem graça enquanto fazia carinho nas costas dele.
— Logo você se acostuma. Você só precisa ser um pouquinho mais silenciosa, pois minha audição é um pouco melhor do que a da maioria das pessoas, mas não é perfeita. Se se esforçar, pode me surpreender. — se abaixou e beijou ternamente.

Ele passou o dia esperando por esse toque gentil, amoroso e de desejo que só ela lhe dava. aproximou seu corpo do corpo dele e apreciou a temperatura levemente elevada de . Ele a pegou no colo e ela passou as pernas pela cintura dele. Em pouco tempo o casal já estava na suíte. Ele a colocou cuidadosamente em cima da cama e continuou a beija-la, mas dessa vez de forma mais apaixonada.

— Não se afaste mais de mim desse jeito. Nunca mais. — sussurrou no ouvido dela de maneira decidida.

Com a temperatura atual de 4 graus, ele quase sentia pena de ao tirar a roupa dela. Quase.

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ajeitava a cama de casal com quase todos os cobertores que encontrou pela casa, enquanto ia em busca de mais lenha, já que aquele punhado que buscara na floresta mais cedo havia sido jogado no chão quando ouviu gritar por conta da aranha. Ao cair na neve, os troncos ficaram úmidos e inutilizáveis.
entrou na cabana carregando vários pequenos troncos. Ele os pegou e começou a quebrar parte por parte, criando pequenos pedaços de lenha que ele torcia para que durassem a noite toda. Seu corpo se adaptava mais facilmente às temperaturas frias, mas ainda não era quente como um lobo mesmo.
reparava no namorado e em como ele quebrava aqueles pedaços de madeira com facilidade. Não sabia se algum dia seria capaz de se acostumar com quem ele era, mas no momento estava focada em apenas sobreviver um dia de cada vez. Sentia-se anestesiada; eram tantas informações inacreditáveis com as quais ele teve de lidar nos últimos dias, que sua mente não conseguia processar nenhuma. Ela vestiu um agasalho que trouxe e se deitou na cama, enquanto ele acendia a lareira do quarto. Depois de acesa, se deitou junto dela e a abraçou.

Durante a madrugada, acordou assustado ao ouvir um som que ele conhecia bem. Era um uivo agudo e longo que aparecia em seus sonhos.
Olhou para o lado e viu adormecida, enrolada como um gato num cobertor e com os olhos bem apertados.
Pensou que estava dormindo ainda e que o som era apenas mais um sonho, até que o escutou novamente. Levantou-se, olhou pela janela do quarto e abriu bem os olhos, pensando não ter enxergado direito. Lá fora, entre as árvores atrás da cabana, um grande lobo marrom avermelhado, quase laranja, se destacava na neve.
Mesmo a muitos metros de distância e por trás do vidro da janela, tinha certeza de que o animal olhava diretamente para ele. Saiu do quarto e foi em direção à floresta de maneira silenciosa, para evitar fazer barulho e acordar .
só notou estar descalço quando sentiu a neve molhar suas meias. Lá fora ele sentia o odor do lobo de maneira muito intensa, e assim se guiou para chegar até ele.
Por alguns segundos, pensou estar insano. Sair de casa no meio da madrugada e adentrar a floresta procurando por um animal não parecia ser atitude de uma pessoa sã. Torceu para que não tivesse percebido sua ausência.
Se aproximando, podia ouvir a respiração do lobo e um último uivo, antes do animal sair de trás de uma das árvores e se revelar para ele.
O cheiro dele deixava claro para que aquele não era um lobo selvagem comum, mas um lobo igual a ele: um transmorfo. Era possível sentir no ar os feromônios humanos misturados com feromônios lupinos. E além disso, era uma mulher.
parou de andar e deixou-a se aproximar sozinha. A loba era grande, sob as 4 patas ela alcançava o abdômen de . Mas apesar do tamanho, sua atitude não era ameaçadora, mas curiosa e calma.
Ela sentiu que poderia ficar ali na floresta com ele para sempre, aproveitando aquela sensação. Há muito tempo não se sentia calma como agora; ultimamente sua vida se resumia em caos.

— Quem é você? — sussurrou, enquanto ela o rodeava e o cheirava. Ao ouvir a voz dele, ela o olhou nos olhos e piscou várias vezes — Você me chamou? Por quê?

“Tantas perguntas”, ela pensou.
esticou a mão para acaricia-la, mas ela desviou a cabeça e rosnou.

— Desculpa, não quis te assustar. — Ele levantou as mãos.

Ela deu alguns passos à frente e mordeu a camiseta de , puxando o tecido cuidadosamente. Depois, repetiu o mesmo ato com a calça que ele vestia. O rapaz entendeu o recado e assentiu.
A loba virou de costas e se sentou, enquanto tirava as roupas e as deixava no chão. Quando finalmente estava nu, ele se transformou também.
Agora em forma de lobo, a loba virou de frente para ele de novo e se aproximou, encostando seus narizes. Sua respiração estava descompassada.
“Finalmente”, ela pensou.
não sabia o que fazer tão grande foi seu susto ao ver em sua cabeça pensamentos que não eram seus. Ele começou a rodeá-la nervosamente, cheira-la e uivar.
“Como você faz isso? Como você me mostrou essas imagens na minha cabeça?”, ele perguntou em pensamento.
Mas ela não conseguia pensar em palavras; tudo o que conseguia lhe mostrar eram imagens. Céu nublado, céu azul com nuvens fofas, céu estrelado, etc.
“Seu nome deve ser Sky”, pensou. Ele estava radiante.
Depois, ele viu em sua mente uma imagem que ela lhe mostrou de uma grande placa de madeira onde se lia ‘Reserva Seven Arrows’. Além disso, ela pensou num homem nativo idoso. Talvez fosse o chefe da reserva. As peças começavam a lentamente se encaixar na cabeça de .
“Por que você não consegue falar comigo?” ele pensava desesperadamente, tentando se comunicar melhor com a loba.
Parada frente a frente com ele, Sky usou sua grande pata direita para desenhar uma linha reta entre eles na neve; um risco que separava os dois.
pôde ver que ela pensava em outros lobos. Uma alcatéia inteira, com outros 6 ou 7 lobisomens.
“Há uma alcateia em Seven Arrows”, concluiu.
Mas na imagem mental que Sky reproduzia, um lobo branco se destacava no grupo. Ele rosnava para os outros, ameaçando-os e os deixando encurralados. De repente, a loba começou a ganir como se sentisse dor. Fechou os olhos e parou de compartilhar seus pensamentos com .
Ele tentou se aproximar, mas Sky parecia com medo e saiu correndo em disparada pela floresta. a perseguiu, pois conhece-la lhe trouxe mais perguntas do que respostas.
Ela era ágil e corria por lá como quem já conhecia a área. Desviava das árvores rapidamente, fazendo com que quase se chocasse contra elas algumas vezes.
era forte e rápido, mas correr em florestas não fazia parte de sua vida. Ele se transformava apenas duas ou três vezes por mês, só para não “enferrujar”. Já Sky não, a esperteza dela deixava claro que estava em seu habitat natural.
“SKY, espere, por favor! Eu preciso de ajuda!” pensava constantemente, na esperança de que talvez ela pudesse compreender suas palavras.
De repente, uivos diferentes ecoaram pela mata e soube que havia outros lobos por perto.
Eles se aproximaram de um caminho onde era possível sentir o odor de seres humanos. Sky saltou por cima de um riacho, seguindo por um vilarejo, e parou de correr, deixando-a seguir, pois não queria correr o risco de ser avistado por alguma pessoa.
Ela ainda olhou para trás uma última vez antes de sumir. Uma brisa passou e levou até o cheiro de outros lobos, que provavelmente estavam atrás de uma floresta de pinheiros do outro lado do riacho.
O que restou a ele foi sair dali, pegar suas roupas de volta e retornar à cabana.

Ainda em forma lupina, ele pegou suas vestimentas com a boca e entrou na cabana. Deixou as peças no chão do quarto e preparou-se para se transformar em homem novamente.
ainda dormia na mesma posição, o que significava que ela estava muito cansada da viagem. Só Deus sabe como sofria ao dormir com ela, pois a garota se mexia durante a noite toda, chegando a dar chutes e tapas nele por acidente.
Mas antes da transformação, ao se aproximar da noiva, as orelhas de se elevaram em alerta por conta da movimentação que ele notou. Deu uns passos para frente e pôde sentir o bebê mexendo dentro da barriga dela.
O lobo inclinou a cabeça e dobrou uma das orelhas em sinal de curiosidade, encostando seu focinho na barriga da garota. Ao fazer isso, seu filho pareceu se instigar e passou a se movimentar de forma intensa, principalmente para um bebê de 1 ou 2 meses. Ele pousou a cabeça ao lado da barriga de , para sentir o bebê se revirando.
Pela primeira vez, pareceu notar sua presença. Ainda de olhos fechados, ela esticou um dos braços e passou a mão pela pelagem do lobo preto, acariciando seu protetor.

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Ao se encontrar com os outros lobos da alcateia, Sky estava agitada.
“Eu o encontrei, ele está por perto!”, ela disse animada.
“Como ele é?”, outra voz feminina perguntou mentalmente.
“Ele falou com você?”, agora um lobo macho questionou.
Todos os lobos começaram a correr de volta à reserva e conversavam caoticamente por telepatia. As diversas vozes se misturavam em suas mentes, reflexo da agitação que Sky causara na alcateia ao ir atrás de para conhece-lo.
“CALEM A BOCA!”, Sky gritou e todos se calaram para dar voz à ela. “Eu o conheci, mas não consegui me comunicar com palavras, apenas lhe mostrei imagens. Mas acredito que ele é esperto e vai ao nosso encontro. A profecia se faz como o previsto.”
Os outros lobos se olharam surpresos enquanto Sky disparava correndo ainda mais rápido em direção à reserva.


Capítulo 8 — Into The Unknown (parte 1)

A pequena cozinha da cabana estava menos fria do que na noite anterior quando chegaram. A luz amarela, todas as janelas e cortinas fechadas para impedir a entrada do vento e o chá sendo preparado no fogão deixavam o cômodo um pouco mais quente.
A chaleira apitou, avisando que a água fervera e estava pronta para ajudar e a começarem o dia.
riu silenciosamente ao observar a noiva descer as escadas parecendo um ursinho de pelúcia por estar usando várias camadas de roupa para evitar o frio. Um par de meias coloridas compridas davam um toque final ao conjunto de moletom e ao suéter preto de lã. Nas semanas em que ficaram longe, ele sentiu muita falta de ver alguns pares da coleção de meias estampadas de espalhadas por seu apartamento.
Tirou o bule do fogo e encheu duas xícaras com a água fervente para fazer o chá.

— Você não precisa tomar chá só para me acompanhar. — disse, sentando à mesa. era viciado em café e sempre torcia o nariz para os chás que ela preparava. “Não tem sabor de nada”, ele dizia.
— Tudo bem! Nos próximos meses eu terei que me acostumar a tomar chá para acalmar meus nervos. Os hormônios da gravidez vão te deixar mais doida do que o normal e sou eu que terei que lidar com isso.

gargalhou enquanto se aproximava. Abraçou bem apertado, aconchegando a cabeça no peito dele. O rapaz respirou fundo, feliz de ouvir aquele riso doce e sentir o cheiro confortável que exalava; uma mistura de seu perfume com o cheiro dos cobertores da cabana. A segurou pelos ombros e a beijou, mesmo sabendo que detestava praticar este gesto carinhoso pela manhã antes de escovar os dentes.
se atentava a todos os detalhes, para poder aproveitar ao máximo cada momento que passava com a garota. Os cabelos bagunçados dela que se emaranhavam em sua face, intrometendo-se no beijo; a maneira graciosa como ela se erguia e ficava na ponta dos pés para poder alcançá-lo; sua boca um pouco menos macia do que o normal, devido ao clima frio que ressecava a pele.
Enfim, se separaram, compartilhando sorrisos ao terminarem o beijo.

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— Me passe a manteiga de amendoim, por favor? — disse entre um bocejo e outro, se esticando sobre a mesa para tentar alcançar o pote.
— Não está mais evitando comer açúcar? — passou o doce para ela, se lembrando de que o açúcar não fazia parte da dieta da garota há anos.
— Nas últimas semanas a vontade de comer doces ressurgiu. — distraída, raspava o pote com uma colher — Devem ser os desejos de gravidez. Espero que o bebê não tenha vontade de comer carne.
— Não se preocupe, ele não vai fazer isso com você. Ele sabe que a mamãe é uma vegetariana determinada! — ria.

silenciou-se e passou a mastigar pedaços de seu sanduíche. Pensativa, precisou de algumas mordidas no pão até tomar coragem de quebrar o tabu que circundava o casal.

— Você come carne quando está… Você sabe…

não entendeu exatamente o que queria perguntar.

— Como assim? — ele riu confuso — Você sabe que eu como carne.
— Sim, eu sei que você come carne, mas enquanto PESSOA. Eu quero saber se você caça animais, como os lobos fazem nas florestas e tal… — encolheu os ombros e desviou o olhar, dada sua notória dificuldade em falar sobre a condição de . Mas fazer uma pergunta e se interessar em saber como é a vida de um transmorfo já era um grande avanço aos olhos do rapaz.

Ela o olhava preocupada, com receio de ter ultrapassado algum limite. Talvez ele não gostasse de falar sobre ser um lobo; talvez ele não quisesse falar sobre isso naquele momento, ou com ela, especificamente.
pretendia tomar mais um gole de chá, mas ao ouvir a pergunta decidiu pousar a xícara sobre a mesa. Ele arrumou a postura na cadeira e deu um sorriso discreto, quase imperceptível, desejando demonstrar para sua satisfação em vê-la conseguir falar sobre sua forma de lobo.

— Bom, as vezes sim. — ele começou — Mas não acontece em todas as vezes que me transformo. Por algum motivo que eu desconheço, minha forma de lobo tem uma ligação com a Lua e suas fases. Eu posso me transformar sempre que quiser, mas durante as noites de Lua Cheia, eu sinto um instinto animal muito forte para me transformar. Meu lado lupino me diz que eu tenho que me transformar. Então, eu vou até alguma floresta e passo toda a noite lá, voltando à forma humana ao nascer do Sol. Por passar horas transformado, eventualmente eu sinto fome, então tenho que caçar algum animal, geralmente uma lebre ou talvez uma ovelha, se eu estiver perto de uma fazenda.

— E como é? Comer animais, assim, crus? — Ela se arrepiou ao dizer a última palavra.
— É claro que falando sobre isso agora, parece loucura caçar e comer um animal cru, mas naquele momento não sou apenas pensando e agindo; sou lobo, também. Quando me transformo, ainda estou consciente de que sou um homem, tenho pensamentos normais. Mas agora, uma parte da minha mente também está focada nos instintos selvagens, e em tudo aquilo que o meu lobo precisa, percebe e pensa. Se meu lobo demanda comer, eu me alimento e não reflito sobre isso; é apenas puro instinto. Mas o importante de tudo: eu não sinto vontade de me alimentar dessa forma enquanto estou em forma humana — Ele riu para descontrair.

se arrependeu de ter começado aquela conversa, pois ouvir falar de comer animais a deixou nauseada e ela já sentia a chegada do refluxo. Fechou os olhos por um instante, respirou fundo e tomou um pequeno gole de chá.

— São muitas informações. — Ela deu um riso nervoso e acariciou a mão dela.
— São informações demais até para mim. Por isso nós estamos indo para a Reserva; eu preciso tentar entender mais sobre tudo isso.

deixou as cascas de seu pão sobre o prato e se inclinou com os cotovelos na mesa.

— Mas e se não houver outras pessoas como você, ? O que você vai fazer se mais ninguém na Reserva for um lobisomem também?

havia contado para ela o que Enola disse sobre suas raízes indígenas terem ligação com seus poderes e ele estava confiante em conhecer a Reserva. se sentia aflita ao cogitar a possibilidade do noivo se decepcionar com o que encontraria.

— Tem algo que eu preciso te contar. Algo aconteceu ontem e acalmou minha ansiedade. — ele ainda não havia mencionado para seu encontro com a loba Sky — Durante a madrugada, eu despertei com o som de uivos na floresta. Eles estavam muito próximos e meu instinto me disse para ir até o encontro deles. Enquanto você dormia, eu saí e lá encontrei um lobo. Na verdade, era uma loba. Eu me transformei e nós conseguimos nos comunicar por pensamento.

falava rapidamente, quase atropelando as palavras. Gesticulava de maneira animada, contente por relembrar aquele encontro e perceber que não fora um sonho.
Enquanto isso, ainda lidava com a informação de que seu noivo a deixou dormindo sozinha e foi até a floresta durante a noite e, além de tudo, tirou a roupa na frente de outra mulher. Ou fêmea, que seja. Ela estava frente a frente com um lobisomem real, mas não conseguia evitar se preocupar com questões insignificantes.

— Vocês conversaram por telepatia? — questionou.
— Bom, mais ou menos. Ela não conseguia me dizer palavras, mas podia me mostrar seus pensamentos. Ele me mostrou várias imagens do céu, então acho que seu nome é Sky. E também me revelou imagens de uma alcateia em Seven Arrows. Existe uma alcatéia lá, !

A garota ficou em silêncio por um momento, sem reação.

— O que ela queria ao se aproximar de você? Como ela sabe quem é você e onde te encontrar?
— Eu sei a resposta para essas perguntas tanto quanto você. — riu —Nosso encontro foi rápido, logo ela correu para longe. Enfim, espero conhecê-la quando chegarmos lá, ela parecia ser uma boa pessoa.
— É bom saber que você vai encontrar o que procura. Eu também quero te entender e te conhecer melhor. — se levantou e foi até , sentando no colo dele — Nosso bebê será um lobisomem também? Como a transformação acontece no seu corpo? Por que sua mãe te criou longe da reserva? Você tem parentes? Tem tantas questões que precisam de respostas.
— Nós vamos descobrir as respostas delas juntos, ok?! — puxou para um beijo calmo e doce.

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Após colocar as malas no carro, certificou-se de trancar a cabana e juntos eles seguiram para a estrada que os levariam até a Reserva.
Depois de alguns quilômetros rodados, quebrou o silêncio dentro do veículo.

— Foi uma boa teoria, aquela sobre as drogas.
— O que? — olhou para ele, confusa com a afirmação que soara desconexa.
— Naquela noite no meu apartamento, quando você descobriu a verdade sobre mim, sabe? Antes de eu me transformar na sua frente, você cogitou a possibilidade de que o segredo que eu vinha escondendo era vício em drogas. Alterações de humor bruscas e frequentes; diminuição das habilidades sociais; insônia; ouvir vozes; irritabilidade e surtos de violência; tudo faz sentido! Você deu um bom chute. — parecia orgulhoso da inteligência dela.

deu de ombros.

— Mesmo sendo das Ciências Humanas, eu ainda aprendi uma coisa ou outra com o melhor médico que eu conheço…

sorriu vaidoso.

— Não me formei, então ainda não posso ser considerado Médi…
— O Dr House! — completou, fazendo fechar a cara. Ela gargalhou. — Mas falando sério, era a única coisa que fazia sentido para mim. Todos aqueles sintomas e comportamentos estranhos que você demonstrava o faziam parecer um crackudo. Eu estava pronta para fazer uma intervenção e te internar. Agora aqui estou eu, viajando para uma reserva indígena com meu namorado lobisomem. As voltas que a vida dá, não é?! — ela proferiu a última frase num tom mais baixo.

iria respondê-la, mas sua atenção foi capturada por algo que se movia rapidamente na floresta ao lado da estrada. Tão rápida que mal poderia ser identificada, Sky correu entre as árvores, acompanhando o carro em todo seu trajeto. sorriu, sentindo-se protegido.
Em cerca de 3 horas de viagem, perdeu Sky de vista, ao mesmo tempo em que acordou de seu cochilo, pois notou que o veículo havia parado.
Ela esfregou os olhos e viu que estavam em frente a um grande e alto portal de madeira, com uma placa no topo em que se podia ler em letras de fôrma “Reserva Seven Arrows - Terras do povo Dakota Sioux”.
A garota olhou para o lado e observou estático. Ele pegou a mão dela de maneira automática, sem nem perceber.




Continua...



Nota da autora: o fundo do poço bateu em minha porta e eu: A-BRI! Senhoras e senhores, chegou a depressão! As últimas semanas foram difíceis pra mim, em vários aspectos, tive dificuldade em arrumar tempo e motivação para escrever, por isso a att atrasou. Dividi esse capítulo em 2 para poder enviar uma att logo e vocês não se sentirem órfãs da fic hahah. Mas não se preocupem, a pt 2 não demora. Até mais!





Outras Fanfics: Nosso Primeiro Natal


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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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