Última atualização: 14/07/2021

Capítulo 1 – Fim

, não sei como te dizer isso.
Eu estava saindo com Blaze Collins há o quê, uns seis meses? Já levei muitos pés na bunda pra alguém com pouco mais que vinte anos de vida, mas esse em especial estava me enlouquecendo. Bastava eu tirar os olhos da televisão do bar para todo aquele discurso de término acontecer. Já estava anoitecendo e logo começaria a campanha política de Bush e Al Gore na CNN.
, olha pra mim.
― Não posso.
Existe um jeito fácil de explicar isso? Quer dizer, um jeito menos egoísta, menos… objetificador? Ok, lá vai: Blaze era o cara mais gostoso que eu já tinha ficado.
Na vida.
Não dava para deixá-lo fugir assim. Seis meses foi o suficiente para eu criar expectativas. Foi o tempo que levou para me apegar àquele corpo musculoso e bronzeado, àqueles olhos amendoados, àquele cabelo macio, cheiroso e encaracolado. Eu tomava ótimos drinks de graça ali no Millard’s (ele tinha um trampo de barman de vez em quando) e o sexo era ótimo (ele fazia a maior raridade do mercado: oral). Era tudo o que eu ia perder se me virasse para olhá-lo... agora.

― Olha só! ― não deixei que ele continuasse. ― Estão dizendo que o mundo vai acabar em 2000.
― O quê?
― Deve ser coisa do Papa ou do Nostradamus.
― O mundo não vai acabar ano que vem ― ele afirmou, como se tivesse certeza absoluta disso. Tem gente que não afirma as coisas, decreta. ― E é tudo culpa do Bill Gates.
― Acho que não.
O repórter entrevistava várias pessoas aglomeradas nas calçadas, berrando exaustivamente sobre o fim estar próximo. Uma delas levantava um cartaz que dizia para toda a população buscar a salvação divina antes que fosse tarde demais. Em seguida, o apresentador explicou sobre um mero problema de datas nos computadores: o Bug Y2K.
― Viu? Sabia ― falei, ainda olhando para a TV. ― O Bill Gates é um dos afetados. Como ele poderia ser o culpado?
Sem querer, finalmente me virei para Blaze, me arrependendo na mesma hora. Ele estava nitidamente frustrado. Então, resolvi abandonar minha batalha interna de vez:
― … Essa é a conversa de término mais difícil que você já teve, não é?
Ele só fez gaguejar.
Eu garanto que Collins estava planejando fazer uma longa e cansativa introdução ao assunto. Mas, se fosse para acabar mesmo, eu preferia ir direto ao ponto e começar minha sofrência logo. Nunca é bom protelar sentimentos, principalmente os ruins.
― Não, tudo bem. Pronto, estou olhando pra você agora ― me endireitei na cadeira. ― Pode mandar. “Não é você, sou eu.” Ou “tem essa outra garota que conheci…” ou “não estou preparado pra um relacionamento sério agora…”
Blaze ficou em silêncio, só me encarando apreensivamente.
― Então? ― perguntei, ainda com esperança de que não fosse nada daquilo. Talvez ele só quisesse dar um tempo. ― Qual das três opções?
― Hmm… Todas?
― O quê? Todas?! ― soltei uma risada incrédula. ― Como assim, “todas”? Não imaginei que você conseguisse ser um babaca ao cubo.
― Escuta, eu não estou fazendo hora com você, se é o que parece.
― Sim, é exatamente o que parece ― minha vontade era de dar um soco na mesa que levantaria todos os talheres, mas fiquei quieta. Eu tinha uma pergunta que o atingiria como uma bala: ― Quem é a garota?
Ele abriu a boca, mas não disse nada. Então, cruzou os braços e levantou uma sobrancelha.
― O que te faz pensar que existe outra garota?
― Eu posso listar uma série de coisas, mas não acho que você esteja a fim agora. Assim como não esteve nessas últimas semanas e preferiu se esquivar.
Blaze se calou, atônito. Depois, abaixou o queixo e olhou para o chão por um longo e demorado minuto, estampando a culpa para quem quisesse ver.
― Você não a conhece, nem conheceria ― ele usava um tom de voz suave, quase como se quisesse amenizar a calamidade daquela confissão. ― Ela estuda no prédio das Engenharias.
Respirei fundo e cerrei os olhos, enquanto sentia meu coração sendo partido em dois.
Aquilo doeu. Eu e Blaze estávamos “apenas nos divertindo”, ou, pelo menos, foi o que tentei me convencer naqueles últimos seis meses. Então, não era para ter doído tanto. Até me assustei com minha própria reação.
― Você dormiu com ela enquanto estávamos saindo?
― Não, não fiz isso. Mesmo que eu e você não fôssemos… Quero dizer, o que nós tínhamos não era… Bem, eu nunca faria uma coisa dessas.
Engraçado como caras tinham esse talento nato para se enrolar quando precisavam explicar um relacionamento sem rótulos.
Ele continuou:
― Enfim. Era aqui que eu queria chegar desde o início. Nunca te traí. Mas você atrapalhou tudo com o papo sobre o fim do milênio.
― Eu não vou pedir desculpas, peça ao calendário.
Collins deu um longo suspiro, e eu também. Então, estendeu os braços e segurou minhas mãos por cima da mesa.
― Olha. Eu gosto de você, . Muito. Nosso tempo juntos foi ótimo. Mas aconteceu que…
― Eu sei. A vida aconteceu.
― Exato. Não tive muito controle. Eu meio que ainda gosto de você, foi uma decisão difícil de tomar. Não queria que acabássemos brigados ou algo assim.
Tradutor, ativar: “eu conheci essa outra menina que é bem mais interessante e mais bonita que você, mas como ainda não sei se vou me dar bem com ela, vou te deixar de escanteio aqui pra caso eu queira transar com você de novo.”
Sensatez e honestidade, desativar:
― Blaze… Eu também gosto muito de você. Mas... eu entendo. Na verdade, estou bem. Mesmo. Está tudo bem. Não vamos fazer uma grande coisa disso, eu sei me virar.
― Sério?
― Aham.
Ele beijou o dorso da minha mão, depois da outra. Basicamente, eu quis chorar.
― Você é demais.
― Sim, eu sou ― concordei meio frouxa, recolhendo minhas mãos.
― Confesso que estava com um pouco de medo da sua reação, porque as coisas estavam começando a ficar mais sérias entre a gente, não é?
― É, sim. Não queríamos isso, né…
Meu Deus, como faço pra gritar que eu estava gostando dele de verdade? Por que eu não conseguia falar o que eu queria que ele soubesse? Não era exatamente um problema as coisas ficarem mais sérias. Era meu objetivo!
― E você sabe, como estamos no nosso último ano, seria muito difícil assumir um compromisso agora. Terei menos tempo também com meu novo emprego no início da primavera.
― É... Verdade… ― balbuciei. Era mais fácil só concordar com tudo e fingir que nada daquilo era real.
― E você, se inscreveu naquele estágio?
― Não, desisti. Ele é muito concorrido, não ia passar de qualquer jeito. Resolvi dar uma pausa.
― Ah. E a dança? Anda treinando?
― Meh. Ando parada.
Caramba, ele devia estar pensando que eu era a pessoa mais desocupada daquela Universidade. Sabe aquele tempo que normalmente se usa para pensar antes de responder uma pergunta? Não conheço. A sinceridade chega atropelando na maioria das vezes.
Novamente o silêncio se instalou. Até que um garçom, amigo de Blaze, passou ao lado da nossa mesa.
― Ei, bro. Traz a conta, por favor?
Ele acenou com a cabeça, sumiu e voltou poucos minutos depois.
― Quanto deu? ― perguntei, trêmula, tirando a carteira e a dignidade da minha bolsa.
― Não se preocupe, . Eu pago.
― Não, tá tudo bem, eu pago minha parte.
― Por favor, deixe que eu cuido disso. Faço questão.
Quase senti que ele me olhava com pena. Talvez eu chore um pouco quando voltar para o meu dormitório.
― Ok, então você paga e me deixa pegar um táxi de volta pra Oyster. Tá?
― Tem certeza?
― Absoluta.
Eu não queria estar com Blaze nem por mais um segundo, muito menos sentir seu perfume impregnado em seu carro.
Ele se despediu de mim com um beijo na bochecha e foi embora para o estacionamento. Nem garantiu que eu fosse pedir mesmo um táxi, nem nada. E se eu pedisse, duvido que ele esperaria o carro chegar. E se esperasse, será que abriria a porta para mim e me daria um último beijo com lágrimas nos olhdaos?
Eu acho que não.
Aquele foi o término mais patético da minha vida. Eu definitivamente não era a protagonista da vida amorosa dele, como também não passava de uma coadjuvante. Eu não era nem uma certeza, era só um mero talvez. Na verdade, eu me sentia como se não tivesse importância alguma para ninguém. Não que fosse um sentimento incomum, mas, dessa vez, ele veio para me arrasar.

Vou sentir saudades daquele pauzudo.


🙂🙃🙂


O Millard’s era um bar meio vintage que ficava bem em frente à praia na enseada de Bricktown, agora deserta por dois motivos: o clima estava congelante e já era quase meia-noite. E eu não estava nem aí.

🎵 Pra você ouvir de fundo:
Show Me the Meaning of Being Lonely – Backstreet Boys

Sentada na beirada do píer, eu estava me acabando emocionalmente ao som distante de uma música do Backstreet Boys. Entre lágrimas e goles da bebida que me custaram o dinheiro do táxi, eu cantava o refrão.
Show me the meaning of being lonely… Is this the feeling I need to walk with…? Tell me why… I can’t be there WHERE YOU AAAARE?!
Ele falava por mim.
Ao mesmo tempo que eu tentava aceitar aquele fim, era difícil imaginar como seria minha vida sem Blaze daqui pra frente. Eu só me lembrava de cada momento bom, de cada risada, de cada orgasmo. Nem duas horas depois e eu já o queria de volta.
Mas acabei chegando à conclusão que tê-lo também era algo desgastante. Afinal, por que eu tinha essa necessidade de ser uma prioridade em sua vida? Sempre tentando fazer coisas só para agradá-lo ou chamar sua atenção, sempre buscando por sua aprovação?
Pelo menos, percebi que agora eu estava livre daquela cobrança interna. Pelo menos, eu nem precisava mais me depilar dentro do prazo e das preferências pessoais daquele afrescalhado.
Mas como eu fui tão descartável assim? Será que estava me oferecendo demais? Sendo fácil demais? Por que não consegui ser o suficiente para ele? E quem era essa outra garota? Ela era tão mais inteligente e atraente assim? Aposto que tinha os peitos maiores. Aposto que tinha o cabelo mais liso. Aposto que era mais magra. Blaze já me disse algumas vezes que eu estava precisando malhar e perder uns quilos. Deve ser por isso que ele me fez aquela pergunta sobre a dança.
Eu deveria saber.
― Ei! Ei, você!
Alguém estava gritando. Por mim…?
A voz se aproximava:
― Garota, o que você tá fazendo aqui sozinha? É perigoso, sabia?
Olhei para trás. Eu já tinha visto aquela menina super alta e meio hippie pelo Campus. Vivia fumando uns baseados e, uma vez, parei atrás dela na fila do café – seus cabelos loiros e queimados de sol estavam com um baita cheiro de incenso. Ela nunca usava sutiã ou maquiagem; certamente a garota menos vaidosa que eu já vi por aí. Mas conseguia ser tão linda que mais parecia uma modelo que tinha acabado de sair do Festival de Woodstock. Eu não sabia seu nome, mas sabia que estudava Design de Moda.
― Eu que te pergunto ― falei, um pouco impaciente, mas tentando demonstrar calma. A garota poderia ser legal e tudo, mas eu estava em meu momento particular de lamúrias inúteis. ― O que você está fazendo aqui?
― Você está bêbada?
― Hmm? Tem certeza disso? ― mostrei a ela meu CapriSun de morango. ― Estou bêbada de glicose e corante.
Ela começou a rir da minha cara e se aproximou ainda mais. Então, logo mudou sua expressão e ficou um tanto quanto preocupada comigo por sei lá qual motivo:
― Oh, não, você está chorando? Tá tudo bem?
― Mais ou menos... Eu acho…
― Vem, vamos sair daqui.
― O quê? Não! Me DEIXE ficar aqui observando a escuridão do oceano e da minha vida.
― Escuta, eu tô falando sério ― a garota parou ao meu lado e colocou seu braço ao redor do meu corpo, me puxando a todo custo do piso frio e úmido de madeira. ― Tem uns caras estranhos ali atrás que estão há um bom tempo olhando pra essa direção.
― Onde? ― olhei para a praia, à direita. ― Só vejo três idiotas cantando Hotel California.
― Não, aqueles são meus amigos ― ela riu. Depois ficou séria de novo, falando mais baixo. ― À sua esquerda.
Foi quando vi uns caras muito mal-encarados que pareciam ter vindo diretamente de um filme do Tarantino. Eles estavam sentados numa grande rocha com um aparelho de som portátil.
Então era dali que a música estava vindo esse tempo todo.
― Nossa ― fiquei um pouco perturbada. ― Por que os cracudos de Bricktown estão ouvindo uma boyband?
― A questão não é essa ― ela arregalou os olhos, azuis translúcidos como os de um Husky Siberiano. ― Quer ficar aqui e pagar pra ver o que eles podem fazer?
― É. Parece uma ideia de merda.
― Vem comigo, vamos embora.
A garota entrelaçou nossos braços, e assim fizemos o caminho de volta do píer até a praia. Ela dava passos rápidos e difíceis demais de seguir, nem se importando com a forte ventania que quase fazia nossos agasalhos voarem. Fiquei internamente grata por ter sido notada e acompanhada para longe dali, embora nada fosse capaz de me tirar do poço de desânimo e frustração em que eu havia me afundado. Eu não estava batendo muito bem da cabeça, e isso me fazia ficar mais dramática a cada minuto.
― A propósito… Meu nome é Jenna. E o seu, loba solitária de Bricktown?
Não pude evitar que minha voz se arrastasse na resposta:
... Pode me chamar de ou qualquer coisa...
Ela riu de novo.
― Vamos lá, Oscar, o Resmungão. Vai ficar tudo bem.
― Ai, meu Deus... Não pensei que “qualquer coisa” pudesse incluir personagens da Vila Sésamo.
― Não esperava que fosse se lembrar dele tão rápido.
― É claro que eu me lembro. O bicho verde e rabugento que morava numa lata de lixo ― parei e suspirei pesadamente. ― Até que você tem razão, eu e o Oscar temos muito em comum...
― Não fique assim. Eu adorava o Oscar. Ele ajudava na coleta e reciclagem.
― Muito reconfortante, Garibaldo.
― Ah, não! ― ela deu risada e me cutucou. ― Ok, talvez eu seja um pouco alta.
― Um pouco? Não consigo nem enxergar seu rosto daqui de baixo.
― Ah, mas você também não é tão baixa assim-- Espera um minuto ― ela parou de repente. ― Cadê os seus sapatos?!
Paramos de andar e olhamos para os meus pés. Apenas um par de meias de ursinho os cobriam. Não pode ser. Eu tinha tirado minhas botas para balançar as pernas na beirada do píer e me esqueci completamente de calçá-las de novo.
― Ah, não... Não, não, não… ― lamentei, enquanto meu choro ridículo dava suas boas-vindas outra vez. — Eu deixei meus sapatos pra trás!
― Ai, meu Deus... Olha, se esqueça deles por hoje. Não vamos voltar lá agora de jeito nenhum, é arriscado ― ela me puxou de novo e continuamos a andar, prestes a alcançar a areia.
Eu estava realmente triste pelas minhas botas. Para se ter uma ideia, tive que enxugar umas dez lágrimas. Com certeza nunca mais as veria de novo, afinal, estávamos falando de Bricktown.
― Só tome muito cuidado agora, ok? ― ela me alertou. ― Está cheio de cacos de vidro pela arei--
― AAAAAAAAAHHH!!!
A sola do meu pé foi perfurada sem nenhuma piedade de Deus.
Jenna cobriu a boca com suas mãos e ficou paralisada, mas eu vi naqueles olhos azuis seu dilema entre me socorrer ou rir.
De repente, chegou correndo um cara mais ou menos do meu tamanho, com longos cabelos finos e castanhos claros e uma barbichinha no queixo. Usava também uma bandana vermelha e um par de óculos escuros no topo da cabeça, no mínimo tentando se parecer com o Axl Rose.
― O que tá acontecendo?! ― perguntou ele, completamente esbaforido. ― Jenna, você está bem?
― Jenna?! ― fiquei nervosa e olhei para o garoto. ― Eu sou a pessoa aqui com o pé sangrando!
― Alex, ela se machucou ― Jenna finalmente saiu do seu pequeno estado de choque. ― Não podemos ficar aqui por mais tempo. Precisamos fazer alguma coisa!
Alex, então, se agachou e encostou o dedo em meu pé furado, cujo pedaço de vidro ainda não tinha saído. Era grande demais para ser removido às pressas, e, pelo menos para mim, isso estava mais do que óbvio.
― Meu Deus, isso vai doer — ele disse, com os olhos esbugalhados. — Mas, talvez, se eu puxar bem rápido assim...
― Espera aí! ― ordenei. ― Você não vai tirar isso agora. Ficou maluco?
― Por que não?
― Porque eu não tô preparada!
Chegaram então os outros dois idiotas fãs de Eagles. O primeiro era moreno, sem dúvidas com alguma descendência árabe. Seu rosto era perfeitamente simétrico, os cabelos eram ondulados e batiam nos ombros. Seus olhos pretos acinzentados, marcados por cílios grossos, carregavam um baita ar misterioso. O outro era loiro, bonitinho, discreto e um pouco familiar – se já fizemos alguma aula juntos, não me lembro.
Caramba, o moreno era muito bonito, inclusive, um barbudo interessante.
― Galera, precisamos vazar agora. Aqueles… Aqueles caras estão mais e mais perto da gente. Jogo rápido mesmo ― o barbudo alertou, um pouco ofegante e desesperado.
― Legal, mas pra isso ela precisa andar ― Jenna apontou para mim e, na mesma hora, fuzilei Alex Rose com o olhar. Ele ainda estava próximo demais do meu pé.
― Se você arrancar isso agora, eu vou urrar de dor ― avisei.
― Os doidões estão encarando muito a gente… Estão vindo pra cá ― novamente o barbudo nos amedrontou. Mas, dessa vez, paramos para ver se realmente estavam nos seguindo.
E não é que estavam mesmo?
― Puta que pariu!
― E agora, o que a gente faz?!
― O máximo que pode acontecer é nos assaltarem. Provavelmente, estão vendo a oportunidade fácil nesse momento vulnerável ― o loirinho se mostrou bem calmo e lógico. Até que um dos caras daquela gangue empunhou um canivete do cós da calça e fez questão de nos mostrar o objeto brilhante e pontiagudo. ― Esquece, estamos fodidos. Vamos embora daqui, agora.
Jenna estava branca. Eu não estava entendendo nada, só fiquei meio tonta e quis vomitar. Levar um fora de Blaze, perder minhas botas, furar meu pé, ser assaltada e esfaqueada numa noite só? Já estava sentindo o estresse pós-traumático.
Agora estávamos todos tensos e sussurrando.
, como saímos daqui?
― PJ, você dirige ― , o loirinho, agilmente jogou um molho de chaves ao barbudo PJ. ― Jenna, você faz o que tem que fazer. E Alex…
― O que é isso, você é tipo o Fred de Scooby-Doo? ― perguntei. ― Distribui as tarefas do grupo?
Ele deu um sorrisinho totalmente inapropriado ao momento, mas rapidamente me ignorou. Então, se posicionou atrás de mim, gesticulou para Alex, e eu fiquei só olhando sem entender coisa alguma.
― Três, dois… um… AGORA.
Não sei se algum dia serei capaz de descrever com precisão o que aconteceu após essa contagem regressiva. Foi tudo ao mesmo tempo: Alex agarrou e levantou meus dois calcanhares, levantou o resto do meu corpo segurando minhas axilas com seus braços, Jenna tapou minha boca, PJ saiu correndo, e, assim que os delinquentes ameaçadores se aproximaram o bastante, todo mundo correu.
Correu pra caralho.
― HHMMMPPHHH!!!


🙂🙃🙂


Eu nunca tinha fugido de assaltantes antes. Quero dizer, nesse caso, de potenciais gângsteres. Talvez ainda posso afirmar que nunca fugi, porque, na realidade, fui carregada e jogada na traseira de uma picape verde-água da década de sessenta. Jenna estava na cabine com PJ, que dirigia sem dó de pisar no acelerador. Eu estava deitada com o pé ferido e esticado na cara de Alex e , que discutiam sobre o que fazer para retirar o caco de vidro sem maiores estragos.
― Escuta, erm… ― Alex me chamou.
― me apresentei com a educação de uma porta, ainda um pouco agoniada.
, a gente… É que…
― Vamos precisar tirar sua meia ― completou a fala do garoto sem jeito.
― Ai, meu Deus. Não, isso vai doer.
― Não tem outro jeito.
Tem que haver outro jeito ― insisti. Ajeitei minha postura e procurei com os olhos no meio daquelas tralhas por algo que pudesse amenizar minha dor. Até que notei um cantil saindo para fora do casaco de . ― Espera. O que é isso no seu bolso?
Meu avô sempre carregava um daqueles com uísque. pegou o dele e me mostrou:
― Isso?
― Algum álcool aí?
― Um resto.
― Serve ― estendi a mão e ele me entregou o pequeno frasco prateado.
Joguei a cabeça para trás e revirei todo o negócio, que desceu rasgando minha garganta. Limpei os lábios e devolvi o cantil, enquanto Alex só nos observava, curioso.
Pronta para agir, dobrei o joelho e trouxe meu pé ao alcance. Estalei o pescoço para os dois lados, respirei fundo, dei uma boa olhada no caco e levei minha mão até ele. Antes de fazer qualquer coisa, espiei mais uma vez as expressões de e Alex, que, no fim das contas, estavam mais tensos do que eu – sequer piscavam.
Sem demora, puxei de uma vez o pedaço de vidro. Instantaneamente, eles voltaram a olhar para o meu rosto, aflitos. Um grito ficou entalado na minha garganta, e eu só pensei em chorar pela vigésima vez naquela noite.
― Bom trabalho, ! ― Alex comemorou. ― Agora é só tirar a meia e fazer um curativo.
Espremi meus olhos e senti toda a minha cara se enrugar.
― Espera, espera, tudo vai ficar bem ― ele disse, se inclinando na minha direção e acariciando o meu braço várias vezes.
Ainda estática, deixei o vidro cair da minha mão e abri um só olho. Tirei a meia e deu um jeito de amarrá-la em torno da ferida que ainda sangrava, improvisando um curativo só para não deixá-la tão exposta.
A partir de então, não senti mais nada. Meu grito apertado se transformou em um longo e pesado suspiro de alívio. também deu um assobio aliviado.
― Tem sorte que o corte não foi tão profundo ― ele comentou.
― Obrigada. Mesmo. Quero dizer, ainda bem que vocês apareceram.
― Agradeça à Jenna ― Alex falou. ― Tinha um bom tempo que ela estava te observando de longe, te achando muito sozinha...
No mesmo instante, lançou um olhar de esguelha para ele, soltando uma risada pelo nariz.
― Aham. Jenna.
Fiz uma cara de interrogação.
Alex olhou para mim e foi rápido em desviar o assunto:
― O que você estava fazendo lá?
― Ah… Levei um pé na bunda de um cara que eu estava saindo há um tempo e fui chorar umas mágoas ― expliquei. ― Tô me sentindo tão estúpida agora. Mas estou melhor.
― Você não está sozinha, ― ele tocou meu braço mais uma vez, tentando me consolar.
― Pelo menos não na estupidez ― acrescentou. ― Estávamos dando um show na praia. Ainda tô um pouco bêbado.
Ri, por incrível que pareça. Eles realmente estavam cantando o coração para fora.
― Pode parecer exagero, mas acho que também estou... um pouco zonza... O que tinha no seu cantil?
― Everclear.
― Puta merda.
― Todo mundo nesse carro tá bêbado graças ao meu cantil ― ele disse, abrindo um sorriso orgulhoso. Eu o encarei um tanto quanto assustada. ― Menos PJ. Todo mundo menos PJ. Por isso dei as chaves a ele.
― Essa picape é sua?
― Sim.
― E onde estamos? ― enfim parei para examinar o caminho que PJ estava fazendo e a paisagem escura ao meu redor. ― Estamos voltando pra Universidade, né?
― Aham, acho que sim. Ei, PJ! Jenna!
Jenna logo abriu uma janelinha da cabine atrás de mim, então cheguei um pouco para o lado.
― Sim? Tá tudo bem aí?
― Sim, caco de vidro removido ― Alex fez um sinal de OK com os dedos.
― Sério? Já? Acabei de dizer ao PJ pra dirigir até a enfermaria da Oyster.
― Não precisa ― respondi. ― Tenho um antisséptico e esparadrapos em casa. Digo, no meu quarto. Fico no Belva Hall.
― Ah! Eu fico no Capper Hall, bem ao lado. Chegaremos daqui a pouco, então ― ela esticou um braço para fora e segurou meu ombro. Jenna era bastante atenciosa. ― Escuta, qual de vocês dois foi o ilustre cirurgião? ― eles apontaram os dedos para mim na mesma hora. ― Sério?
― Digamos que precisei tomar as rédeas ― falei.
― É isso aí, garota! Woohoo!
Realmente, todo mundo ali estava meio bêbado.
Em menos de dez minutos depois, chegamos à Universidade Oyster. Ela ficava na pontinha da Ilha de Staten, em Nova York, num planalto bastante arborizado, próximo ao litoral e isolado de construções. Bricktown era o bairro comercial mais próximo, cheio de bares e lanchonetes que os universitários costumavam frequentar nos finais de semana. Mesmo assim, era necessário pegar um carro para ir até lá.
Depois que PJ nos deixou no alojamento feminino, pulou da traseira e passou para o banco da frente. Alex ficou lá atrás, nos dando um tchauzinho até sumir de vista. Jenna subiu comigo até a porta, me dando apoio para andar. Combinamos de nos encontrar de novo depois dos exames finais de novembro, que aconteceriam mais ou menos em uma semana.
Os quartos dos dormitórios costumavam ter uma salinha compartilhada com um frigobar, bancadas e, se tivéssemos sorte, um sofá velho. De cada lado da parede havia uma porta para outros dois quartinhos privados. O da minha colega estava fechado, o que me fazia tranquilamente concluir que ela estava no décimo sono. Então, acho que eu poderia me considerar sozinha agora.
Fiquei pensando em como eu tinha saído dali mais cedo certa de que voltaria com Blaze, e, naquele exato momento, ele provavelmente estaria sem nenhuma roupa e na minha cama. Eu, idem.
Era melhor seguir com meus planos de tomar um banho e dormir logo, antes que minha cabeça desse infinitas voltas em cenas imaginárias.
Antes de tirar o casaco, enfiei as mãos no bolso para tirar algumas moedas de lá. Junto delas, saiu um pedaço de papel que não reconheci de nenhum lugar, muito menos a caligrafia do número de telefone escrito nele. Não havia qualquer outra identificação.

Meu Deus. Como alguém colocou aquilo dentro do meu bolso e eu tive a brilhante incapacidade de não perceber?


Capítulo 2 – Ligações

Na sexta-feira da semana seguinte, às quatro horas da tarde em ponto, eu finalmente havia terminado todos aqueles exames e apresentações finais de trabalhos. Um momento de esplendor.
Fiquei quase duas horas desenhando uma acrobata de circo para a aula de Modelo Vivo. Perdi as contas de quantas vezes tive que usar a borracha para redesenhar suas mãos flexionadas, seus dedos ossudos e entrelaçados e a curva fora do normal que seu tronco fazia. Tudo parecia me exigir uma atenção redobrada ao tentar reproduzir sua pose contorcida e toda aquela destreza corporal no papel.
Eu era terrível com mãos.
E pés.
… E olhos.
Sinceramente, não aguentava mais aquelas aulas de desenho. Queria mesmo poder usar mais o computador e uns KoalaPads empoeirados do laboratório. Disciplinas digitais eram muito mais a minha praia, e concluí todas até hoje sem nenhum sufoco. Agora, o resto… Deus sabe o quanto abusei do combo cafeína + procrastinação.
Pelo menos, finalmente estava a um pé do meu diploma. Só mais um semestre e eu estaria livre de todas as minhas obrigações acadêmicas. Entre a pressão de conseguir um emprego decente e um teto para morar, vez ou outra eu me pegava pensando na assustadora vida adulta que me aguardava depois da formatura. A cada ano, vou deixando tudo para a do futuro resolver. E o próximo será o último que poderei deixar nas mãos dela.
No pátio do prédio de Arquitetura e Urbanismo, eu esperava por Allison. O jardim estava completamente coberto por uma grossa camada de neve, e, felizmente, o sol resolveu aparecer depois de um dia inteiro de nuvens cinzas. Tive que caminhar um pouco até chegar lá, porque o meu prédio, de Artes e Design, ficava do lado oposto.
Quando calouras, eu e Allison fizemos algumas matérias juntas e, até então, ela não sabia que curso fazer. Acabou optando por Arquitetura no segundo ano. Num futuro próximo, não me surpreenderia se eu encontrasse a cara dela estampada numa daquelas revistas de casa e decoração. Eu sempre me inclinei mais para a visão projetista do Design – talvez minha cara não estampe nenhuma revista, mas o que eu aspirava era estar justamente nos bastidores de algum trabalho editorial.
! — Ally chegou até mim dando uma corridinha, enquanto colocava um gorro na cabeça e vestia suas luvas.
— Oi. Vamos a algum lugar?
— Que tal irmos ao seu quarto?
— Não tem nada pra fazer no meu quarto. Se bem que — ponderei por um segundo —, qualquer lugar que tenha um aquecedor pra mim está ótimo.
— Tem uma semana que você tá intrigada com aquele número de telefone misterioso. Podemos ligar pra ele — ela deu um sorrisinho esperto.
— Ah, não… — em total desânimo, minha cara derreteu feito gelo.
— Agora que os seus exames já passaram, você não tem mais desculpa. Vamos até o alojamento, você liga pra ele e finalmente descobrimos a identidade do seu admirador secreto. Comemos uns biscoitos, assistimos Segundas Intenções, suspiramos pelo Ryan Phillippe e, depois, você podia me ajudar a vetorizar uma planta cartográfica pro meu trabalho de Espaços Públicos que vou entregar hoje à noite — ela tinha ar de sobra nos pulmões.
Ally adorava fazer planos e raramente incluía a opinião de uma terceira pessoa. Ela só supunha de modo automático que nenhuma outra sugestão poderia ser melhor que a sua.
E eu nem achava o Ryan Phillippe lá grandes coisas. O personagem dele era insuportável no filme.
Vendo que só fiquei piscando os olhos, ela se apressou em me puxar pela mão e a tomar a iniciativa. Algo me dizia que Allison estava muito mais curiosa do que eu para saber quem era o dono daquele número. Mas acabei cedendo, e fomos ao meu dormitório.
Caminhando pelo longo corredor do segundo andar do Belva Hall, estávamos revendo as possibilidades.
— Tem certeza que não é do Blaze?
— Sim, eu sei o telefone dele de cor e não é esse — respondi, me sentindo imediatamente idiota.
— Quem mais você encontrou naquela noite, mesmo?
— Hmm… Jenna, Alex… e PJ.
— Tem certeza que esse pedaço de papel só foi parar no seu bolso nesse dia?
— Absoluta. Esse casaco é novo, e não me lembro de ter nada dentro dele na loja. Só o usei porque era um encontro com Blaze. Pensando bem, eu queria que fosse PJ. Digo, o dono do número. Seria legal se ele me chamasse pra sair.
— Mas você já tá pensando nisso? Em sair com outro? Pensei que quisesse conhecê-lo primeiro.
— Dizem que o método mais eficaz pra se esquecer de alguém é beijando outra boca logo. Sabe, eu até que gostaria de tentar.
— Nossa, . Isso não é muito precipitado? Tipo, tecnicamente, é o que faz de você uma assanhada.
Fiquei pensativa. Em condições normais, eu concordaria com ela, mas andava tão exausta de satisfazer as críticas alheias que pouco me importei se eu fosse parecer uma prafrentex.
— Enfim. Ele é gato? — Ally ergueu as sobrancelhas. Me impressionava sua capacidade de cair em contradição tão rápido.
— Aham. Ele tem a barba cheia, umas tatuagens legais, o cabelo grande... Sério, parece um guitarrista estrangeiro de uma banda grunge.
Não acredito que eu estava considerando sair com PJ. Eu nem sabia o nome dele. E se ele se chamasse Peterson Jefferson? É um nome horrível.
Destranquei a porta do quarto e fomos para o telefone ao lado da minha cama. Enquanto Allison tirava o casaco, o gorro e as luvas, aproveitei para pegar o número na gaveta da cômoda e encará-lo por mais alguns segundos antes de fazer qualquer coisa.
— Chega de hesitar, — Ally tomou o papel da minha mão e, na velocidade da luz, discou todos os números.
— Ficou louca?!
— Tá chamando — ela me entregou o telefone.
Assim que encostei-o no ouvido, já ouvi a voz masculina na chamada:
Alô?
Meus olhos se arregalaram. Como assim? Eu não confiava de jeito nenhum em pessoas que atendiam o telefone no primeiro toque.
— Vai, responde! — Ally sussurrou.
De repente, fiquei inesperadamente nervosa ao cogitar que poderia ser PJ do outro lado da linha. Ou .
— Erm… Hmm… Alô. Quem tá falando?
É o Alex.
No mesmo instante, apertei o botão do gancho e me virei para Allison.
— Mas é claro! É só o Alex Rose — reclamei, porém aliviada. Tudo fez o mais absoluto sentido.
— O nome do seu admirador secreto é Alex Rose? — ela fez uma careta.
— Não. É que ele... Esquece — pigarreei para falar de novo com Alex e tirei o dedo do botão do gancho. — Desculpa. Alex? Que Alex?
— O que você tá fazendo, ? — Ally se desesperou.
Hã… Quem tá falando?
Pensei um pouco antes de revelar. Alguma coisa me dizia que ele não estava sendo só amigável demais naquele outro dia, e, como eu não queria dar a ideia errada, preferi fingir que nada disso tinha acontecido. “Desculpa, Alex, foi engano”, era o que eu mentalmente estava planejando falar.
Posso chutar? É a ? — a voz perguntou do outro lado, num tom alegrinho.
Apertei o botão do gancho outra vez e olhei para Ally:
— Putz. Ele sabe que sou eu.
Minha teoria acabava de ser concretizada. Ficou evidente que o garoto meio que já estava esperando minha ligação, e eu não conseguia parar de pensar que tudo aquilo fazia parte de seu plano de paquera. Ele teve todo o tempo do mundo de colocar um papel no meu bolso lá na traseira da picape do . Eu que não ia arriscar ser chamada para um encontro ou algo do tipo.
Então, … É você mesmo?
— É… Sim. Sou eu.
Gostou da minha surpresinha?
Meti a mão na minha testa.
— Você quer sair com ele? — minha amiga sussurrou, levantando uma sobrancelha.
Prendi o dedo no gancho para respondê-la:
— Não. Quero dizer, ele é legal e tudo, mas… Acho que eu só aceitaria se fosse o PJ. Ou .
— Como você é cruel — Ally cruzou os braços, lançando aquelas palavras no maior tom de reprovação.
— Por quê?! — contestei. Então, me voltei para Alex, apertando o botão várias e várias vezes. — Desculpa… é que… o sinal tá muito ruim… Desculpa… Te ligo… outra hora… Tchau.
Desliguei.
— Eu disse. Você é cruel.
— Eu não recusei nada, recusei? Alex é legal. Um dia ainda posso precisar falar com ele — guardei o papel na gaveta. — Não queria que ele tivesse a chance de me passar uma cantada e o clima ficasse super estranho quando a gente se encontrasse outra vez.
Allison gostava de me contrariar, eu já estava acostumada. No entanto, dessa vez, ela tinha um ponto – eu estava sendo um pouco egoísta. Mas, desculpa, eu não conseguia sentir a menor atração por um cosplay do Guns N’ Roses. Talvez se Alex tentasse imitar o Leonardo DiCaprio ou alguém assim, eu poderia reconsiderar.
— Tem como ele saber meu número agora? — perguntei.
— Só se ele tiver um identificador de chamadas.
— Temos essa modernidade na Oyster?
— Acho que não nos alojamentos. É possível que ele tenha, se morar numa república. Capaz de ter até duas linhas telefônicas.
— Nossa... — e eu aqui juntando moedas para comprar cartões de orelhão. — Bom, espero que ele não tenha registrado o meu número.


🙂🙃🙂


Alguns dias se passaram e eu ainda não havia superado a possibilidade de Alex me ligar de volta a qualquer momento. O suspense era ainda maior sem ter uma bina. Até mesmo bater um papo com o cara seria socialmente cansativo para mim.
Eu não estava a fim. Era uma verdadeira merda rejeitar e ser rejeitado. Eu que o diga.
Com o feriado de Ação de Graças chegando, eu estava recebendo um monte de ligações da minha família de Louisiana para os planos do jantar, o que dificultava meu sensor de alerta para uma chamada anônima.
, meu voo sai de Baton Rouge às oito horas, então vou pousar em Nova York ao meio-dia. Nosso voo de volta é às onze da noite. Isso significa que teremos umas seis horas livres na cidade, contando o tempo que precisamos chegar com antecedência pro embarque.
— Já entendi tudo. Pra onde você quer ir?
Hmm… Quero ir ao Empire State, comer cachorro-quente, caminhar pelo Central Park, subir nas Torres Gêmeas, experimentar um cheesecake e tirar uma foto em frente ao prédio de Friends. Dá tempo?
Meu irmão, Jack Elliott, havia acabado de completar dezoito anos. Ele havia sido aprovado na Oyster pelo SAT e conseguido uma bolsa para entrar no time de basquete da Universidade de Nova Orleans no próximo ano. Em vez de voar sozinha até Louisiana, Jackel viria me “buscar” para passear um pouco por Nova York. Ele estava ansioso para conhecer a Big Apple, mas ainda não havia se decidido entre as opções de estudo pelo receio de ter que morar tão longe.
Podemos ir também numas boates no Upper East Side? Qué dizê, cê me fala como chega lá e depois racha fora proutro lugar. Tô a fim de chavecar umas nova-iorquina rica.
O sotaque dele começou a aparecer. Jackel sempre tentava se conter quando falava comigo. O meu também não demoraria muito para ressurgir das cinzas e tentativas de não entregar a menina sulista que existia dentro de mim. Mas não adiantava. Depois de todo Natal lá em casa, eu voltava uma caipira pra Oyster.
— Podemos fazer tudo o que você quiser — falei, acostumada com aquela empolgação. — Contanto que tenhamos dinheiro. Quanto conseguiu juntar do seu emprego de meio-período?
Será que consigo encontrar o Keanu Reeves? — ele me ignorou. — Ontem um colega meu separou um pôster de Matrix pra mim lá na locadora. Imagina que da hora se o Keanu Reeves o autografasse?!
— Não é tão fácil encontrar celebridades assim, Jackel. Mais fácil você tirar uma foto com o Keanu de cera.
, cê num tá ligada — comecei a rir. Ele continuou: — De uns tempos pra cá, tô querendo explorar mais o mundo, sabe? Conhecer uns lugares, experimentar umas coisas. Cansei de ficar adiando e esperando minha vida começar. Por que cê num faz o mesmo? Qué dizê, duvido que cê fez tudo o que queria desde que chegou em Nova York. Sua cara ficar o dia inteiro no quarto vendo filme. Nem dançando tá mais. Porra, faz uma aventura qualquer por aí. Daqui a pouco cê tá de volta aqui em Livingston e vai ficar lamentando um tanto de troço que não fez. Te conheço.
Dei um longo suspiro e, então, admiti:
— Você tá mais do que certo. Sabe, gosto dos seus papos motivadores — coloquei a cabeça para fora da janela do meu quarto e tentei avistar a costa praiana o máximo que pude. — Hmm… Cê me lembrou de uma aventura que eu queria fazer, sim.
Qual?
— Amanhã te conto.
Depois de mais uns vinte minutos planejando um roteiro turístico e barato, finalmente desligamos. Jackel estava alucinado com Nova York, mas algo me dizia que ele ia acabar preferindo ficar em Louisiana. De alguma forma, ele era cinquenta mil vezes mais sociável do que eu, então imagino que não conseguiria deixar para trás sua turma de amigos e namoradinhas assim tão fácil. Entretanto, pensando por esse lado, eu era bem mais impulsiva do que ele.
Jackel havia me dado um bom conselho. Agora, minha cabeça se enchia de planos sobre um lugarzinho que sempre quis visitar, mas nunca encontrei ninguém por aqui que toparia ir comigo – ou, pelo menos, que não acharia o convite bizarro.
Toc to-to-toc. Toc toc.
Alguém fez uma batidinha excêntrica na porta do dormitório. Era pleno fim de tarde de um domingo. Quem poderia ser?
Arrastei meus chinelos até a entrada e a abri. Dei de cara com Jenna.
— Oi, chiquita! Vim te buscar pra vir ao meu quarto.
— Espera, como assim?
Ela já foi logo me puxando pela mão.
— Estamos todos reunidos lembrando daquela noite em Bricktown em que você foi a grande protagonista. Sua presença é imprescindível.
— Espera aí, eu tô de pijama! — contestei em vão, já expulsa do meu próprio quarto e com os pés no carpete do corredor.
Jenna se encarregou de fechar a porta e me acalmou:
— Relax, vai ter comida. Qualquer traje é o certo pra comer.

E era mesmo.


🙂🙃🙂


O quarto de Jenna não era nada como qualquer outro que eu já tinha entrado nesses alojamentos. Inclusive, ele era bem maior. E só dela!
Havia uma parede de tijolos com uma porção de pôsteres de bandas clássicas de rock, fotografias, croquis e desenhos de figurinos. Sua enorme cama estava toda bagunçada com lençóis estampando personagens da Nickelodeon. Em frente a ela, havia uma mesinha de centro e alguns puffs onde todos estavam acomodados.
— Chegaram na hora certa — PJ falou, abrindo as caixas de duas pizzas gigantes. Aquele cheiro de mussarela quentinha me fez flutuar.
— Vamos, , fique à vontade. Mi cafofo és su cafofo — Jenna me levou até um puff vazio e me fez sentar nele.
Em seguida, ela foi mexer numa estante cheia de velas, cristais, livros, CDs e LPs. Alex a acompanhou e os dois iniciaram alguma conversa sobre música.
Olhei pela primeira vez para todo mundo, um pouco constrangida pelo moletom e a calça de flanela que eu vestia. Mas isso logo passou, porque eles estavam tão maltrapilhos quanto eu. Recebi um cumprimento em conjunto e todos me deixaram à vontade. Então, já fui logo abocanhando uma fatia de pizza, porque a vida era curta demais para seguir regras de etiqueta.
Só tinha uma pessoa ali que eu não conhecia (e, com certeza, a única bem vestida): a garota ao meu lado, com uma perna no colo de . Não me surpreendia nem um pouco o fato de aquele bonitinho estar acompanhado, e isso significava que só me restava o Peterson Jefferson mesmo. Mas eu estava perfeitamente bem com isso. Só tinha um pequeno e um grande problema: o pequeno era que PJ estava longe demais na roda pra eu poder flertar discretamente; o grande era que eu nem sabia flertar.
, você também é do Design? — o bendito me perguntou. Ótimo, quem precisava gastar energias com flerte, mesmo? Isso estava mais fácil do que eu tinha imaginado.
Puxei o ar e abri a boca para responder.
— Sim, já vi ela por aí numas aulas — respondeu por mim enquanto mastigava. Mas que audácia? — É a queridinha do Bobby Blockbuster.
— Porra, do Bobby Blockbuster?
Pigarreei, entrando em defesa do coitado:
— O que vocês têm contra ele?
Robert era o professor de Tipografia, e chamávamos ele assim porque o homem vivia passando filmes e documentários nas aulas. Eu aposto que ele passou a década de oitenta inteira descobrindo como gravar fitas VHS. Hoje, qualquer programa educativo que ele vê num canal desconhecido da TV a cabo, grava e passa para seus alunos. Bobby era fascinado por tecnologia e pela origem das coisas, então fez questão de que todos soubéssemos muito bem como a comunicação escrita havia surgido antes de nos introduzir à construção das famílias tipográficas e ao manuseio dos softwares.
— Ele só é muito exigente — falei simplesmente.
— Pfff. Antes ele fosse só exigente — PJ resmungou. — Esse desgraçado me fez repetir por uma miséria de pontos.
— Eu quase repeti — disse —, mas dei meu jeito de sempre no final.
— Eu sei, ele mandava uma penca de trabalhos toda semana — continuei. É claro que eu ia advogar a favor do professor de uma das minhas disciplinas favoritas. — Mas Bobby não tem culpa se já está aproveitando os recursos tecnológicos que temos ao invés de nos mandar ler uma pilha de artigos desatualizados.
— Meu Deus, encontramos uma fã do Bobby Blockbuster — PJ deu uma risada alta. — Vem cá, com quantos pontos você ficou na matéria dele?
— Tem certeza, PJ? — o instigou.
— Manda aí.
— … Oitenta e sete — respondi.
— Porra…
— Falei. Ela é boa — o loirinho outra vez falou, levando um pedaço de pizza à boca como se fosse um cacho de uvas. Ele ainda envolveu um de seus braços ao redor da garota ao seu lado e a puxou mais para perto.
Eu estava certa, pelo visto. Fizemos mesmo uma aula juntos, e, por algum motivo desconhecido, meu cérebro não havia registrado aquele fato como marcante. Chuto que seja porque eu estava ocupada demais venerando um ex-ficante, ou exausta demais da minha antiga rotina de estagiária. Ou porque eu gostava de assistir documentários desinteressantes mesmo.
Por fim, Jenna e Alex colocaram um disco para tocar, e adivinha só: era do Eagles.

🎵 Pra você ouvir de fundo:
Witchy Woman – Eagles

— Eu não faço a menor ideia de quem vocês estão falando — Jenna se aproximou e foi se sentar num puff.
Então, finalmente, a tal garota resolveu se pronunciar:
— Nem eu.
Ela tinha os cabelos longos e tão escuros quanto a aura que a circundava. Não sei se a cara de emburrada era natural de suas feições ou se alguma coisa de fato estava a incomodando. Chegava a ser engraçado a imagem de , totalmente largado e sorridente, abraçado àquela menina de Salem.
— Ainda bem que não sabem. Não estão perdendo nada — PJ abriu sua cerveja e resmungou mais uma vez.
— Você ainda vai ter aula com ele, Rennie. Talvez no seu próximo ano — falou para ela.
Rennie devia ser uma caloura, então?
Ao mesmo tempo que ela esbanjava uma mistura de indiferença com desdém para tudo, Rennie era super descolada: tinha um piercing no nariz, um na sobrancelha e em um dos lábios carnudos que faria Angelina Jolie sentir inveja. Era capaz de haver piercings em mais um monte de partes de seu corpo que eu nem estava enxergando. Ela também usava um gorro cinza e um batom vermelho, além de um par de botas de couro maravilhosas.
Por um breve momento, me veio uma vontade imensa de queimar todas as minhas roupas rosas e ser tão legal como aquela garota. Porém, meu senso do ridículo apitava só de me imaginar vestindo qualquer adereço punk.
Se Rennie visse minhas meias de ursinho, ia querer vomitar.
— Acho que eu também me daria mal nessa matéria. Cara, odeio computador — ela continuou —, mas internet é legal. Principalmente as salas de bate-papo. Outro dia até criei uma conta no AIM.
— Falando em internet… — a voz de Alex, de repente, ecoou pelo quarto. Ele estava atrás de nós, sentado numa escrivaninha, de frente para o meu maior desejo de consumo desde seu lançamento no ano passado: um lindo iMac G3. — Saíram os resultados dos exames finais.
— O quê?! — Jenna correu de volta até ele.
Os outros também foram, menos Rennie, que foi fumar um cigarro na janela.
Eu não estava nem aí para os resultados, porque minha consciência estava tranquila. Se tinha alguma matéria que corria risco, pelo menos a média eu devia ter pegado. Não havia outra opção.
Enquanto todo mundo via suas respectivas notas, aproveitei para pegar uma das últimas fatias de pizza.
— Caralho, passei em Análise de Algoritmos! — PJ comemorou.
, você não quer ver os seus? — Alex me perguntou, sem desgrudar os olhos da tela. — É só você me passar seu número de matrícula.
— Não, tô tranquila.
— Tem certeza?
“Quanto será que eu tirei naquela prova da acrobata de circo?”, pensei na hora. Então, respondi:
— Tá, quero ver.
Me levantei e entrei no meio deles, atrás de Alex. Ele apertou um monte de botões e digitou meus dados, e, assim que meu quadro de notas pulou na tela, nada mais se ouviu além do meu berro desesperado.
— COMO ASSIM?! — não tinha como olhar para outro lugar que não fosse o enorme escrito “REPROVADA” em vermelho. Agarrei minha própria cabeça, e minha voz saía quase como um pedido de socorro das profundezas de uma masmorra. — Não. Não. Não, o que é isso? Eu tô chocada. Não tô acreditando nessa palhaçada de merda.
Naquele exato momento, ouvi uma risadinha que saiu mais como um grunhido.
Meus olhos se dirigiram instantaneamente para . Seu rosto estava lentamente se transformando em um tom mais vermelho, enquanto ele prensava os lábios e tentava segurar o riso. Levou apenas alguns segundos para ele explodir em gargalhadas.
— PARA DE RIR!
Alex fechou aquele monte de pop-ups e todo mundo foi voltando para os puffs, enquanto tentavam me dizer palavras de consolo que eu só consegui ignorar. PJ fez questão de me dar um tapinha no ombro:
— Já tinha reprovado em algo antes?
— Não.
— Tudo tem a primeira vez — ele disse, divertido, levantando os ombros. — Pelo menos não é com o Bobby Blockbuster.
— Puta merda, o que é que eu vou fazer? — perguntei mais para mim mesma do que pra qualquer um ali. Que derrota. Que humilhação desnecessária. Não havia nada mais decadente do que repetir uma matéria logo no último semestre da faculdade.
, relax e toma uma cervejinha — Jenna colocou uma lata na minha mão. — Todo mundo sempre acaba passando por isso pelo menos uma vez.
— Espera. Isso não pode ser real. — chamei, e ele se virou para me olhar —, você sabe dar um jeito nisso?
— Eu? Por quê?
— Você disse antes que por pouco não passou em Tipografia, mas deu um jeito. Que jeito foi esse?
Vai que ele sabia burlar o sistema, alterar uns códigos e mudar minha nota feito o Ferris Bueller? Ele me pareceu bem misterioso quando disse que “sabia dar um jeito” e, sei lá, tinha uma cara de esperto.
Ele só riu.
— Meu jeito foi virar a noite e refazer um trabalho horas antes da entrega.
Bufei. Eu não tinha a menor chance.
— Mas... — ele continuou.
— Mas...? — supliquei.
— Vou ser o novo monitor das aulas de Modelo Vivo no próximo semestre. Posso te ajudar a conseguir mais que 45% dos pontos dessa vez, pelo menos.
— Eu não tô entendendo isso até agora. Como fui capaz de conseguir uma nota tão catastrófica? Eu não fui tão mal assim na última prova... Só se eu tiver zerado--
— Você usou borracha?
Meu coração parou.
— N-Não podia usar borracha…?
voltou a rir.
Aquilo me fez descer o olhar imediatamente para a cerveja que eu segurava. Não era minha intenção beber hoje, porque, no dia seguinte, tinha combinado de ir à Manhattan com meu irmão e queria estar minimamente disposta, mas as atuais circunstâncias estavam me obrigando a fazer o oposto. Pelo menos, aquela lata ia direto para o meu estômago.

Só aquela.


🙂🙃🙂


— E quando ela rasgou o pé todo naquele caco de vidro no meio da areia? Nossa, que barra...
— É mesmo. , como está seu pé? Por pouco não precisou dar ponto.
— Por pouco não fomos assaltados.
— E esfaqueados...
— Cara, vacilamos demais. Demais. Todo mundo sabe que não dá pra ficar dando mole naquela praia depois da meia-noite.
— Pois é, já fui assaltado lá uma vez enquanto esperava um táxi. Roubaram minha carteira e a porra do meu relógio.
— Conheço um cara que também já foi. A mesma história do canivete e tudo mais. A viatura da polícia chegou meia hora depois e anotou o boletim de ocorrência no verso de uma nota fiscal do Millard’s.
— Ah, foda-se… Deu tudo certo no fim das contas.
— E a sozinha lá no píer, cara, igual uma assombração.
— Foi engraçado, . Parecia o Gasparzinho no meio do nada.
Eu estava na minha sexta lata e umas trinta ocupavam a mesa de centro. Nossa rodinha agora estava menor e, consequentemente, estávamos mais perto uns do outros. Todos só se lembravam de mim naquela fatídica noite em que terminei com Blaze-- quer dizer, que Blaze terminou comigo. Toda aquela sensação de merda estava voltando, e minhas emoções ultrapassaram um monte de camadas até chegarem em minha boca.
— Eu só queria dizer que vou relevar o deboche, porque amei conhecer vocês. Todos vocês — me declarei. — Sou muito grata. Vocês são bens preciosos na minha vida agora.
— Tim-tim! — Jenna brindou sua cerveja com a minha.
— Fala sério, até ganhei um admirador secreto!
— Como é? Quem? — ela perguntou, intrigada, e rapidamente encaramos os dois rapazes restantes naquele quarto. tinha saído com a namorada.
— Do que... você tá... falando? — PJ estava quase dormindo e dava um bocejo a cada dois segundos.
— ALEX ROSE! — gritei, apontando meu indicador bem na cara dele. PJ se assustou. — Foi você que colocou seu número de telefone no meu bolso, não foi?
— Ok, ok… — Alex ergueu os braços, assumindo a culpa. — Fui eu mesmo. Achei que ia colar, tá legal? Não sei no que eu tava pensando.
— Putz. Você não perde tempo mesmo, hein? Alex Rose... — PJ deu um cutucão em seu ombro. Em seguida, riu. — precisa saber disso.
— Ah, não, Alex... Sério? — Jenna jogou o lacre da latinha nele. — Não me surpreende você mal conhecer uma garota e já querer passar uma cantada nela. Mas uma garota com o pé machucado? E com o coração partido?!
, me desculpa — ele olhava para o chão. — Sou meio descontrolado quando fico muito bêbado e um pouco carente…
— Espere aí, vamos inverter essa frase. Você estava, na verdade, muito carente e pouco bêbado — Jenna afirmou. Depois, se virou para mim: — , promete que não vai deixar de andar com a gente por causa do idiota do Alex?
Ah, se eles soubessem que eu também estava querendo passar uma cantada em PJ... Joguei a cabeça para trás e dei uma risadinha.
— Tudo bem, Alex. Eu entendo os desesperos da carência.
Então, pela primeira vez naquele dia, ele me olhou nos olhos. Parecia envergonhado, mas nem tanto. Não esperava que Alex fosse do tipo tímido sem álcool no sangue. Porém, bêbado, ele devia ser um daqueles caras que atiravam para todos os lados.
— Bom, agora vocês têm meu número — ressaltei. — A propósito, seu telefone tem bina, Alex?
— Sim — PJ quem respondeu.
— Vocês dividem quarto?
— Dividimos uma casa. Moramos numa república, eu, Alex e .
— Hmm. Que sorte vocês serem amigos e ainda conseguirem morar juntos.
— Na realidade — Alex explicou —, só viramos amigos porque passamos a morar juntos.
— É verdade. Foi totalmente… — PJ bocejou — … aleatório. Eu faço Computação, faz Design e Alex faz Relações Públicas. Eu consegui alugar a casa e recrutei dois colegas de quarto. Esses dois fodidos apareceram e estamos aqui até hoje.
— Mas espera aí. Se você faz Computação, como teve aulas com o Bobby Blockbuster?
— Tive que fazer algumas matérias com ele pra conseguir desenvolver um projeto prático interdisciplinar que faço com o .
— Continua sendo sorte, aliás. Vocês se deram bem — dei de ombros. — Eu, por outro lado, só arrumo umas colegas de quarto meio malucas.
— Exatamente por isso que eu durmo sozinha — Jenna disse, com um sorriso pleno e satisfeito no rosto.
Sorri de volta, transbordando inveja. Eu queria muito saber como ela tinha conseguido um quarto individual. Aquilo era uma dádiva.
— Como é que você tem um quarto só seu?
— Tem um monte de coisas que você ainda não sabe sobre mim, .
Jenna mal havia terminado de pronunciar sua frase de efeito quando a porta se abriu de supetão. apareceu e adentrou o quarto, tão apressado que deixou um rastro de vento por nós.
— Uma das coisas é — ele foi dizendo enquanto atravessava o cômodo —, ela esconde um narguilé de uns mil dólares naquela estante.
— Escondo justamente pra você não roubar — Jen respondeu. — O que tá fazendo aqui?
— Esqueci a porra da minha carteira e os meus documentos aqui.
Para quem estava quase dormindo, PJ soltou uma risada incrivelmente alta.
— Ainda precisa provar que é maior de vinte e um, carinha de anjo? — ele provocou, acariciando a própria barba bem alinhada. — Vai, sonha.
Totalmente indiferente à crítica, rebateu:
— PJ ainda acha que, a cada dois centímetros que sua barba cresce, ele ganha mais dois centímetros de pau.
Agora quem riu alto fui eu.
De repente, todos eles pararam e ficaram me olhando.
— O quê? — perguntei. Então, literalmente todo mundo começou a rir de mim.
— Meu Deus, essa é… — PJ falou, mas não conseguiu terminar. — Essa é minha nova risada preferida.
— A minha também! — Jenna exclamou.
Vontade de enfiar minha cara num buraco não faltou, mas acabei rindo ainda mais com deles. Não era como se minha risada fosse escandalosa, mas ela chamava bastante a atenção. Ok, talvez fosse um pouco desenfreada, mas sempre acabava contagiando os outros. Também não era a primeira vez que as pessoas achavam graça, só que eu nunca me acostumava com isso.
Quando pararam de rir, todos voltaram as atenções para , que terminou de vasculhar a estante e guardou a carteira no bolso.
— Jenna, me empresta o narguilé? — ele perguntou, fazendo a maior cara de pidão.
— Não.
— Por favor. Eu devolvo amanhã, prometo.
— Pensei que você estivesse tentando parar de fumar.
— Vamos usar glicerina. Por favor, por favor, por--
— Tá, tá… Amanhã sem falta, ok? — ela revirou os olhos. — Agora, vai embora logo.
— Obrigado — ele comemorou. Em seguida, com a mesma pressa que entrou no quarto, foi embora.
Nem cinco segundos depois, abriu a porta de novo.
— Esqueci de entregar isso a vocês — ele arremessou uns folhetos na mesa de centro, por cima das cervejas. — Agora temos onde passar a virada do milênio — deu uma piscadinha e finalmente sumiu, fechando a porta.
— O que é isso? — Alex se debruçou e pegou um dos papéis.
— Ah, eu vi um desses ontem — falei. — A Phi Kappa Beta tá organizando uma festa de ano-novo na mansão da fraternidade.
— Sério? — PJ se surpreendeu. — Não fiquei sabendo disso.
Alex começou a ler:
— “Pela primeira vez na história da Universidade Oyster, a Phi Kap ficará no Campus durante o feriado de Natal e Ano-Novo para organisar a maior e última festa do século XX. Cerveja liberada até meia-noite. Ninguém está autorizado a sair do Campus dia 31. Estão preparados para o verdadeiro fim do mundo?”
Revirei os olhos.
— Eles escreveram “organizar” com S, né? — comentei.
— Sim, escreveram — ele riu.
— A única coisa que presta dessa fraternidade é o Roy Finnegan.
— Meu Deus. Esse homem é um deus na Terra — Jenna concordou comigo. — Quer saber? Eu vou só por causa dele. O prédio de Direito fica tão longe...
— E faz meses que ele tá no banco reserva do futebol. Vai ser uma ótima oportunidade para vê-lo.
— Sim!
— Putz, tem como vocês ficarem patéticas que isso? — PJ criticou. — Mas eu também vou, se todo mundo como eles dizem for mesmo. Imagina? Será que o pessoal vai mesmo ficar pra essa festa em pleno recesso?
— Pelo que conheço das festas da Phi Kap, essa com certeza será imperdível. Tava pensando em ir com… — suspirei, pensando em Blaze. — Deixa pra lá. Acho que vou com minha amiga Allison. Podemos nos encontrar lá.
— Só de ter uma desculpa pra não ter que viajar até a casa dos meus pais, já está me quebrando um galho — Alex jogou o folheto de volta na mesa.
Aquilo me fez lembrar de Jackel e, na mesma hora, me levantei do puff.
— Tenho que ir. Chega de beber, preciso dormir. Amanhã vou à Manhattan com meu irmão e pego a balsa das nove horas.
— Ah! Ah! Compra alguns dumplings pra mim em Chinatown? Eu te pago — Jenna pediu, animada. — Se você passar lá, é claro.
— Claro. Sempre vou lá comprar uns trecos. Inclusive, preciso de um novo par de botas — ergui uma sobrancelha.
Ela concordou, dando uma risadinha. Depois, foi buscar o dinheiro para me entregar.
— Toma esse casaco também pra você voltar ao Belva Hall. Mesmo que esteja a vinte passos, já tá bem tarde e o clima esfriou mais — Jen sobrepôs em minhas costas um casacão de lã cheio de linhas coloridas.
— Obrigada. Não sei quando, mas te devolvo.
— Fica tranquila. Quem não costuma me devolver as coisas é o .
Assim que me despedi de todos, voltei para o meu quarto num pulo. Eu ia amanhã à noite para Louisiana e voltaria só em janeiro para Nova York. Mas, agora, acho que eu poderia adiantar o meu retorno em alguns dias para não perder a festa da Phi Kap.

Eu precisava beijar outras bocas e desistir de uma vez por todas de Blaze.


Capítulo 3 – Adeus, Ano Velho

Minha mãe não queria me deixar voltar para o Campus de jeito nenhum depois do Natal. Ela estava convicta de que todos os computadores iriam explodir à meia-noite, inclusive os sistemas eletrônicos dos aviões e, consequentemente, eu iria morrer. Até porque não se falava em outra coisa na TV: o Bug do Milênio. Mas não era um alarde conspiracionista que ia me impedir de participar da maior festa da história da Oyster.
A divulgação e o burburinho só aumentavam, bem como minha ansiedade. Era por isso que eu já estava prestes a pousar no Aeroporto JFK dois dias antes da noite da virada. Fala sério, ninguém aguenta aquele limbo temporal entre os dias 25 e 31 de dezembro. Mais um dia em Louisiana e eu viraria uma fazendeira, dona de uma vendinha de leite de cabra.
Atenção, senhores passageiros. Dentro de instantes, pousaremos no Aeroporto Internacional John F. Kennedy. Mantenham os encostos da poltrona na posição vertical e apertem os cintos.
— Pai nosso que estais no céu…
Olhei para o homem que sentava ao meu lado. Ele espremia os olhos e apoiava a testa sobre as mãos justapostas.
— Santificado seja VOSSO nome. Seja feita a VOSSA vontade, assim na TERRA como no CÉU — ele rezava, como se as ênfases fossem fazer alguma diferença.
Não tinha mais jeito, a histeria coletiva era real.
Como uma espécie de amuleto da sorte, eu levava comigo a cópia da foto que tirei com Jackel em frente ao prédio de Friends, só para não dizer que eu também não estava totalmente de fora do pânico geral.
Mentira. Estava levando aquela foto só para pregá-la no meu mural mesmo. Enquanto isso, me preparava para rir da cara de todo mundo no dia 1° de janeiro.


🙂🙃🙂


Parece que eu havia trazido a temperatura subtropical da minha casa para a Ilha de Staten. Fomos abençoados com dezoito graus naquela última noite do ano, com certeza a mais quente daquele inverno. Isso nos permitia abandonar os casacões bufantes e vestir alguma roupa decente para a festa.
— Será que o Blaze vem?
— Allison — fechei os olhos brevemente e suspirei —, se não se lembra, eu vim pra cá justamente pra me esquecer do Blaze.
— Só estou perguntando… Quero dizer, acho bom que ele não apareça mesmo.
Infelizmente, eu não tinha nada cromático ou holográfico para vestir. Seria a ocasião perfeita, mas torrei minhas economias em guloseimas ao invés de novas roupas. Grande erro. Pelo menos, para não ficar totalmente de fora da temática, eu usava um batom metálico cheio de glitter. Fora a blusa branca que roubei da minha irmã, até que eu estava curtindo meu pretinho básico: jaqueta de couro, saia, meia-calça e minhas novas belíssimas botas.
— Você tá tão Winona Ryder.
— Jura? — me surpreendi com o elogio. Estava tentando mirar na Drew Barrymore, mas fiquei feliz de todo jeito. — Obrigada!
— Só a saia que tá um pouco curta demais, né?
— S-Sério? Você acha? — tentei puxar a barra do tecido o máximo que pude para cobrir um pouco mais as minhas coxas.
— Não, não precisa fazer isso, . Você está de meia-calça.
— Ah. É mesmo — falei, um pouco irritada pelo desespero inútil que ela havia me causado.
Os membros da Phi Kappa Beta tinham o privilégio de morar numa imponente mansão branca de três andares, com largas e altas janelas quadriculadas. Uma imensa porta vermelha de entrada dupla estava aberta no alpendre, onde havia quatro colunas jônicas e as letras gregas representando a fraternidade.
A festa já tinha começado há algum tempo. À medida que adentrávamos os zilhões de cômodos, mais o som da agitação dos estudantes ecoava pelo espaço e mais a música invadia nossos ouvidos.

🎵 Pra você ouvir de fundo:
Jump Around – House Of Pain

Não demorou muito e Allison encontrou algumas de suas colegas de curso. Fiquei esperando no outro canto do corredor, onde encontrei algo muito melhor que pessoas conhecidas: um barril de cerveja.
Não hesitei e fui logo entrando atrás de mais alguns caras que formavam uma fila para encherem seus copos com a torneirinha. Assim que enchi o meu e passei a vez para o sujeito atrás de mim, me surpreendi ao ver que era .
— Ah! Eiii, ! — igualmente surpreso, ele colocou uma mão em meu ombro e me olhou de cima a baixo. — Estamos combinando!
Meu Deus. Ele já estava mais do que bêbado e… tão mais bonitinho do que eu me lembrava. Será que era porque estávamos em outro lugar, sem ser a faculdade? Ou porque ele usava um estilo diferente do normal? Só sei que não parava um minuto de sorrir, e suas bochechas coradas apertavam seus olhos. Assim como eu, ele vestia uma camiseta branca e uma jaqueta de couro preta – quase o Danny Zuko de Grease –, e essa simples coincidência bastou para sua felicidade.
— É mesmo! Ó procê ver! — falei, um pouco desconcertada. Como era possível um homem bêbado ficar tão charmoso? — Cê tá tão... Winona--
Alerta vermelho. Frase absurda à frente. Eu estava prestes a repetir o elogio de Allison para ele.
— HÁ! — ele pôs a mão no peito e inclinou a cabeça para trás, abrindo ainda mais o sorriso. Depois, juntou as sobrancelhas e me olhou de novo, sério e confuso. — Espera, o quê? Winona? — então, teve uma pequena crise de riso. — Ah, , você é tão engraçada. Não entendi nada do que-- Cara, eu sabia que você não era de Nova York.
Nada do que ele falava seguia uma única linha de raciocínio, e suas expressões faciais mudavam em milissegundos. Eu estava doida para rir, mas, se isso acontecesse, entraríamos num loop infinito de risadas. Naquele estado, ele com certeza ia rir da minha.
Pigarreei algumas vezes antes de perguntar:
— Por que diz isso?
— Seu sotaque.
Ah, não. Eu havia me esquecido totalmente de disfarçar desde o minuto em que apareceu na minha frente.
— Alguém veio lá do sul! — brincou, me cutucando várias vezes. — Mas qual estado…? Ainda não sei dizer — ele finalmente encheu seu copo e, em pelo menos quatro goles, acabou com metade da bebida. — Hmm… Deixe-me ver… Tenne-- Tennessee?
— Não…
— Não? Tem certeza?
— Sim, tenho. Eu tenho certeza de onde venho — ri, me esforçando muito para ser discreta. — Tente mais ao sul.
— MAIS? — seus olhos se arregalaram. — Então… Atlanta, Georgia? Definitivamente você é de Atlanta, sei disso.
— Não, agora tente ir mais pro oeste — estava ficando difícil segurar o riso.
— Alabama? Sweet Home Alabama! Ah, cara, sempre quis cantar isso pra alguém do Alabama.
— Só um pouco mais pro oeste — continuei com as dicas, mas ele bufou, desanimado. — Vai, você consegue. E não, não sou de Mississippi.
parou por um momento e encarou o teto, pensativo, como se ali pudesse enxergar todo o mapa dos Estados Unidos. Então, segundos depois, ele gritou na maior algazarra:
— LOUISIANA!!!
— Isso!
Fizemos um high-five, e não consegui me conter mais. Comecei a rir muito. Não deu outra, ele riu mais ainda.
… — de novo, levou uma mão no peito, espremeu os olhos e jogou a cabeça para trás enquanto gargalhava. — Você ri que nem um desenho animado, sabia disso?
Dei uma cotovelada no braço dele. Então, respirei fundo, tentando me controlar.
Meu Natal em Louisiana me fez reparar melhor no quanto minha risada era parecida com a da minha mãe, que sempre foi meio exagerada. Mas também tinha um jeito característico de rir. O som que ele fazia ia diminuindo gradualmente, como se o ar ao seu redor estivesse se esgotando.
Quando terminou, ele também respirou fundo.
— Ah... Você veio de longe, hein? Qual cidade? Nova Orleans?
— Não, Liv--
Antes que eu pudesse dar uma resposta completa, parei, do nada.
Simplesmente parei.
Vi Blaze no meio da sala onde todo mundo dançava. Estava sozinho, só no dois pra lá, dois pra cá – o coitado não levava o menor jeito para a dança. Mas era óbvio que ele estava na caça de uma parceira, e não era sua falta de habilidade que impediria seu sucesso. De alguma forma intrigante, ele era o único homem que se destacava naquela aglomeração entre as luzes coloridas. Talvez sua altura, talvez sua virilidade, talvez sua incrível capacidade de disfarçar a falta de coordenação motora. Talvez uma combinação de tudo. O filho da puta tinha um encanto ilógico, e como era difícil quebrá-lo...
reparou quando também se virou para olhar na mesma direção que eu.
— Aquele é o seu cara?
— Era — respondi, saindo do transe.
— Ah, é. Foi mal — ele tomou mais um longo gole de sua cerveja.
Coincidência ou não, por cima de seu ombro, avistei Rennie conversando com outro rapaz no canto oposto do ambiente.
— Aquela não é a sua garota? — apontei com o queixo.
Ele girou o pescoço para o outro lado e também parou.
— Ah, merda… É, sim. Aquela-- Aquela é minha garota — ele parecia preocupado. — Na verdade, acho que vou lá checar. Com licença.
E saiu andando, tão rápido que não deu tempo de dizer mais nada.
Verifiquei o cômodo em que estava antes e vi que Allison ainda interagia com suas colegas. Poderia até tentar entrosar, mas eu sabia o papo de cor. Principalmente quando o assunto era sobre os ex-namorados e as panelinhas do ensino médio. Quase quatro anos depois e nenhuma ali ainda tinha superado as intrigas da escola.
Corri até .
— Ei, espera!
Ele parou e se virou para me olhar. Se antes parecia preocupado, agora eu tinha certeza.
— Você viu Jenna por aí? — perguntei.
— Jenna? Acho que lá em cima.
Em um segundo, olhei para a escada e, no outro, não estava mais ali.
Já pude pressentir que aquela seria uma bela de uma noite solitária. No entanto, a decisão de largar Ally para trás foi exclusivamente minha.
Subindo as escadas, terminei minha cerveja e joguei o copo plástico em um lixão lotado que encontrei no caminho. O segundo andar tinha uma enorme janela saliente no estilo vitoriano, que acomodava um sofá arredondado. Era uma daquelas janelas projetadas para fora da parede e, com toda certeza, o canto mais charmoso e aconchegante da mansão. Quando caloura, vim em incontáveis festas e terminei a noite incontáveis vezes alcoolizada naquele sofá. Inclusive, eu tinha passado a virada de 1998 dormindo nele.
E cá estava eu de novo.
! — ouvi a voz de Jenna me chamando, mas não consegui enxergá-la. Tinha um monte de pessoas na minha frente. — Aqui, ! — ela acenou.
Fui me esbarrando nos outros até conseguir me aproximar dela. Com um isqueiro numa mão e um cigarro na outra, Jen estava sentada no sofá e apontava para o lugar vago ao seu lado. Para variar, ela estava super elétrica, e seu sorriso perfeito carregava tanto entusiasmo que... só me fazia parecer o Oscar Resmungão da Vila Sésamo outra vez.
Sentei-me ao seu lado.
— Que bicho te mordeu, meu chuchu? — ela perguntou.
— Está tão visível assim? — agarrei uma das almofadas e deixei que meu corpo esmorecido caísse sobre o encosto.
— Porra, quer algo mais visível que isso?
Imediatamente arrependida, voltei à postura de uma pessoa com ânimos normais.
— Desculpa, é só que… Lembra daquele cara que--
— O cara que te deixou sozinha em Bricktown? — Jenna exalou a fumaça com um cheiro agradável de cravo, e, naquele minuto, entendi porquê seu cabelo sempre cheirava a incenso. Ela fumava cigarros aromatizados.
— Acabei de ver ele lá embaixo. Quero dizer, é claro que eu esperava encontrá-lo por aqui, mas… não sei o que me dá quando o vejo. É um troço desconfortável.
— Ótimo, que bom que já sabe que é uma sensação ruim. Significa que você deve ficar longe.
O que ela tinha dito era inegável e não muito difícil de concluir, mas por que eu ainda me sentia tão atraída?
— Eu sei… Mas é difícil — comentei. — É fácil quando vou pra aula e tenho que entregar trabalhos, mas é difícil nos finais de semana e em festas, quando a gente costumava ficar sempre grudado.
— Sei como é difícil se desapegar de um Pau Amigo. Às vezes, é até mais difícil do que de um Pau Namorado.
— Já passou por isso? — perguntei, rindo.
— Que mulher nunca passou? — ela soprou a fumaça para longe, enquanto eu pensava no quanto estava fodida. Apego era o meu sobrenome. — Você vai ficar bem, . É mais difícil, mas é mais rápido. Tem outros Paus Camaradas por aí. Muitos, inclusive. Tenta um ou dois que você vai esquecer desse cara rapidinho. Como é mesmo o nome dele? Blake?
— Blaze — suspirei. Ultimamente, tem se tornado impossível pronunciar o nome dele sem um suspiro pesado. — O problema é esse, não sei se consigo fazer isso de novo. Só de pensar, me dá um nó no estômago.
— Poxa, por quê?
— Você não se sente mal fazendo essas coisas?
— Que coisas? Transar?
— … É. Transar com qualquer um. Suas amigas não te julgam por isso?
— Espera, não é com qualquer um. Você escolhe. Não é algo que você deve se envergonhar.
— Pois é, mas... Sinceramente. Quando tenho esses sexos sem compromisso, a sensação é que tô fazendo a droga de um programa.
— Então se mantenha profissional. Goze, pegue suas coisas e vá embora. Pronto.
Começamos a rir.
Aquela era uma questão muito mal resolvida na minha cabeça. Quando entrei na Universidade, eu não era nenhuma inexperiente. Achei que fosse encontrar um namorado tão gentil quanto o meu primeiro, mas logo enterrei essa ilusão no meu primeiro ano na Oyster. Das pistas de dança aos quartos, todo mundo vivia tendo casos de uma noite só – eu inclusive. Não ia ficar de fora do jogo. Por anos tentei assumir essa “ confiante”, e, assim, minhas inúmeras inseguranças foram temporariamente dissolvidas.
Com o tempo, inevitavelmente, veio o apego. E com o apego vieram a vergonha, a ansiedade e o vazio. Eu não estava aguentando mais me meter nesses pseudo-relacionamentos. Era um saco seguir esse código social invisível que proibia qualquer tipo de envolvimento emocional, compromisso ou vulnerabilidade. Querer exclusividade com alguém era simplesmente loucura. Seriedade era um perigo a ser evitado à todo custo, para não atrapalhar o futuro promissor de ninguém.
Logo passei a acreditar que relacionamentos reais eram impossíveis aqui. Eu continuava no jogo, mas, dessa vez, com minhas inseguranças à flor da pele. Porque, além de tudo, eu tinha que aturar o julgamento alheio. O negócio era resistir.
— Isso não devia ser um peso na sua consciência — Jen continuou. — Suas amigas te dizem o quê?
— Nunca me disseram nada diretamente. Mas eu fico sabendo.
— É claro. Reclamam que você anda muito safada, não se dá valor e só quer chamar a atenção dos caras? — ela deu uma risada irônica, como se já estivesse acostumada a detectar aquelas características.
— É, mais ou menos. Quero dizer, elas não são maldosas… eu acho. Acho que ficam preocupadas comigo, de certa forma.
Ainda estampando ironia no sorriso, Jenna me encarou com seus grandes olhos azuis quando disse:
, isso não é preocupação. Isso é ser cuzona.
Fiquei sem dizer nada, mesmo discordando.
Aliás. Concordando em partes.
— Sabe de uma coisa? — mudei o tom, voltando a abraçar almofadas.
— Manda.
— Tudo o que eu mais queria agora, nesse momento… era dar uns amassos com o Finnegan. Não vou mentir.
— Muito bem lembrado! — ela deu umas batidinhas no meu joelho. — Ai, ai, também queria. Acho que eu o beijaria dentro daquele banheiro ali.
— Não é muito apertado?
— É, mas não dou a mínima. Se o Finnegan pedisse pra me dependurar no ventilador, eu daria pra ele rodando.
Nem deu tempo de imaginar graficamente a cena, só explodimos em gargalhadas. Joguei uma almofada nela, que a agarrou em seu colo.
— E você, , como faria?
— Eu? Hmm… — sonhei acordada por um instante, imaginando todo tipo de coisa. — Sabe quando nos filmes o casal se beija loucamente? Vão subindo as escadas, abrem a porta do quarto, mal respiram, vão se despindo, daí o cara joga a mocinha na cama. Mas ele não simplesmente joga ela, ele joga. Sabe?
— Muito complicado vocês fazerem isso agora — ela riu.
— Quer saber? Quem estou querendo enganar? Eu pegaria ele aqui mesmo, nesse sofá.
Jenna deu um gritinho, quase se jogando em cima de mim. Então, puxou outro cigarro e, enquanto o acendia, tomou um susto:
— Ei, ei, ei! Olha só quem tá ali!
— Quem? Quem?
Avistamos ninguém mais ninguém menos que o próprio deus Roy Finnegan terminando de subir o último degrau da escada. Ele cambaleava sem rumo entre os mortais daquele andar, esbanjando sua gostosura como uma obra de arte milionária.
— Que coincidência — comentei.
Jenna logo me cortou:
— Coincidências não existem, . Cuidado com o que você pede ao Universo, tá vendo? Sua aura astral com certeza está vermelha.
Eu deveria perguntar o que aquilo significava ou só continuar babando por aquele homem maravilhoso?
— Ah, Jen… — dei um longo e clichê suspiro de amor. — Me diz, ele é um Pau Camarada?
— Não. Finnegan é um Pau Proibido. Fique longe dele.
— É impressão minha ou ele tá vindo pra cá?
— Sshhh! Rápido, senta direito! — ela ignorou totalmente suas próprias instruções, apagou o cigarro e fez uma pose super sedutora no sofá.
Quanto mais Roy se aproximava, mais era perceptível seu estado de decadência alcóolica. Porém, ao mesmo tempo, era mais fácil admirar sua beleza tão de perto: o cabelo preto e arrepiado, os olhos escuros que faiscavam tentação, a barba por fazer, a jaqueta do time de futebol contornando seus bíceps definidos e, por último… o perfume amadeirado.
O perfume amadeirado? Como fui capaz de…?
, o que fazemos agora?!
Estava tão alto nas nuvens que mal percebi quando Finnegan veio se sentar no espaço entre Jenna e eu. E aquele espaço não tinha exatamente as proporções que o comportasse. Ele recostou a cabeça na janela e fechou os olhos. Então, como um lento zumbi, passou cada um dos braços por trás de nossos pescoços, nos abraçando e nos puxando ainda mais para perto dele. Sem muita escolha, acabamos nos deitando em seu largo peitoral, cada uma de um lado.
O que estava acontecendo? Ganhamos duas entradas para o harém de Roy Finnegan?
— O que fazemos agora? — repeti a pergunta de Jenna.
— Não sei!
— O que estão esperando? — ele murmurou, arrastando as palavras, e eu pude sentir a vibração de sua voz em meu ouvido. — Tem alguma placa aqui dizendo “proibido tocar”?
Finnegan nos apertou ainda mais contra seu corpo. Quase como num reflexo, minha mão tocou o abdômen dele para tentar me apoiar e me afastar um pouco. Senti sua barriga tanquinho por cima da camiseta, e, de repente, mudei de ideia e fiquei por ali mesmo.
Tentando não rir daquela situação inusitada, eu e Jenna ficamos bons minutos aninhadas àquele corpo másculo e impecável, enquanto as mãos largas e pesadas de Roy acariciavam nossas cinturas. Ergui o pescoço para olhá-lo no rosto, e Finnegan continuava de olhos fechados, sorrindo satisfeito apenas com os lábios. Quando fez um bico e inclinou a cabeça em minha direção, pensei que não custaria nada se eu o correspondesse só com um beijinho. Aquela era uma chance imperdível.
Devolvi o olhar para Jenna e cochichei:
— Ele é mesmo proibido?
— Vai com tudo, Eva — ela piscou ao responder.
Aquilo bastou para minha coragem atingir seu nível máximo. Mesmo quase encostando meu nariz no dele, Finnegan não abria os olhos por nada, mas seu sorrisinho malicioso continuava dançando em seus lábios. Talvez ele estivesse me espiando, mas garanti que não: suas pálpebras estavam devidamente fechadas.
Eu estava me aproximando ainda mais, quando seu perfume deu lugar a um terrível hálito de Cheetos de queijo. Além de tudo, sua boca se abriu e soprou, bem na minha cara, um arroto que mais parecia a trombeta do inferno. O barulho foi tão alto que até Jenna se assustou, e nós duas nos afastamos na mesma hora.
— MEU. DEUS. Não acredito — ela abanou o ar, enquanto Finnegan finalmente abria os olhos para rir da nossa cara de horror.
— Eu vou matar esse filho da puta — mastiguei as palavras, rangendo os dentes e bufando feito um touro.
— Eu me enganei, ele é um Pau Fedido — Jenna se levantou e me puxou pelo braço.
O imbecil ainda ria.
— Não, Jen, nós não vamos sair do sofá. Estávamos aqui primeiro. Ele é quem sai!
— Sério? — Roy se pronunciou, sacana, levando os dedos até meu queixo. Mas eu os afastei a tempo. — Então pede com jeitinho, vai. Pede com jeitinho e educação que eu saio.
— Por favor, você pode sair desse caralho?
— Pô, você é nervosinha, hein? — ele deu uma risada alta. — Se controla, relaxa...
Aquelas palavras formaram a receita perfeita para eu ficar ainda mais puta.
Jenna rapidamente notou o vulcão em erupção que eu estava me tornando e me puxou mais uma vez:
— Vamos, , esse crápula não merece nem um terço da sua atenção.
Acabei cedendo, mas eu ainda estava um pouco relutante – queria brigar. Quando finalmente pensei no insulto perfeito, já estávamos longe demais. Jen havia me puxado até a porta do banheiro e Finnegan tinha ficado para trás, envolto por seu bafo atmosférico.
— Caramba, essa foi a coisa mais quinta série que eu vi até hoje em meus anos universitários. E eles não foram poucos — ela acendeu outro cigarro, me despertando um pouco da raiva.
— Não é? O que foi aquilo? — esbravejei, mas, no segundo seguinte, já comecei a rir. — É isso que você chama de “coincidência”, Jenna? Achou que eu e Finnegan fôssemos predestinados ou algo do tipo?
— Talvez não um para o outro, mas tudo indica que precisavam se encontrar.
— Que ótimo. Meu destino foi receber um arroto de Cheetos na cara.
Jen talvez ainda não tivesse cedido à sua teoria, mas também deu uma risada em resposta.
— Sabe, tenho algo que pode te alegrar. Estava guardando isso pra meia-noite, mas… que se dane — ela prendeu o cigarro entre os lábios e, de dentro de um dos bolsos internos de seu casaco, tirou uma garrafa tão antiga e ornamentada que parecia ter saído de um navio pirata.
— Tá maluca?! — meus olhos se esbugalharam. — Isso é rum ou o quê?
— Tequila!
— Uma tequila do século dezoito?
— Uma tequila que vai fazer a gente chegar no novo milênio antes de todo mundo.
Ela removeu a rolha e, destemida, virou alguns goles do bico mesmo. Em seguida, fez uma careta tão péssima que até minha própria garganta previu a ardência. Jenna me entregou a garrafa e, apesar da falta de sal e limão, se mostrou bem satisfeita.
Eu não estava nem um pouco preparada para aquilo.

🎵 Pra você ouvir de fundo:
(You Drive Me) Crazy – Britney Spears

— Ah, eu adoro essa música! — devolvi a bebida nas mãos dela. — O que acha de dançarmos em vez de beber?
— Esqueceu quem está lá embaixo? Toma — ela me entregou o negócio de novo, e meu rosto murchou. — Bebe só um gole, daí descemos. Eu até estava esperando por Alex que foi buscar maconha, mas ele sumiu. Prefiro dançar.
— Você não parece o tipo que dança Britney Spears.
— Com essa tequila em mãos, eu danço até balé — ela riu. — Vamos, confia em mim.
— Ok… — encarei a garrafa pela última vez. Eu me conhecia o bastante para saber que aquele era o meu último momento sóbrio da noite. Ou era isso e finalmente beijar bocas, ou resmungar até 2000. — Ok, confio em você.

Nada mais poderia arruinar minha noite.


🙂🙃🙂


Mesmo curtindo a música, não consegui me soltar totalmente. Sem saber se Blaze ainda estava ali na pista ou ao redor, minha cabeça entrou numa espécie de paranoia, como se ele pudesse estar me observando de qualquer lugar. Aquilo estava me deixando cada vez mais tensa, além de evidenciar o quanto eu ainda me importava demais com o que ele pensava de mim, da minha aparência e do que eu deixava ou não de fazer.
Mais algumas músicas e eu consegui me relaxar um pouco. Não havia nenhum sinal dele.
Jenna dançava animada, balançando os braços e o quadril sem parar. Quando enfim me senti empolgada o suficiente para deixar meu corpo ser levado pelo ritmo, meu olhar involuntariamente parou em um casal que trocava carícias num canto bastante escuro – ele só era iluminado na mesma frequência que as luzes estroboscópicas piscavam, o que, para piorar, me davam uma sensação de visão em câmera lenta.
Minha noite estava arruinada.
Destroçada em pedaços, acabada. Nem Britney poderia me salvar.
Naquele canto, Blaze beijava uma garota, e ela definitivamente não era da Engenharia. Ela era da Arquitetura.
E ela era Allison.
Percebendo que eu tinha paralisado, Jenna também fixou o olhar no mesmo ponto.
— Oh, não — ela segurou minha mão. — Vamos, . Vamos lá pra fora.
Eu continuava estática e completamente hipnotizada por aquela cena, como se precisasse assisti-la por horas para ter certeza de que estava acontecendo mesmo. Ally tinha os braços entrelaçados ao redor da nuca dele; Blaze agarrava com força a bunda dela e até parou para beijar ferozmente seu pescoço.
Um pesadelo.
Jen se posicionou bem à minha frente para bloquear minha visão e notou meus olhos marejados.
— Não, não precisa chorar... Não chore! — ela me abraçou, mas continuei imóvel. — Você gostava tanto dele assim?
— Ela… Ela não… Ela é… — balbuciei, movendo a mandíbula feito um boneco de ventríloquo.
— Ela…? O que tem ela? — Jen me suplicava com o olhar por respostas, mas eu só permaneci vidrada. — Oh, não… Não me diga que você conhece a garota?
— Ela é minha amiga.
— OH, NÃO!


🙂🙃🙂


Eu encarava meu reflexo no espelho do banheiro social do segundo andar. Encarei tempo o suficiente para fortalecer meu fantástico poder de engolir qualquer lágrima que ousasse a escorrer pelo meu rosto. Eu não ia chorar por homem nenhum hoje.
Meus pensamentos tinham foco em uma coisa: arquitetar um bom plano de assassinato. Mas ainda não sabia quem seria minha primeira vítima. Blaze, Allison, Allison, Blaze. Era um empate! Blaze cavou minha cova e Allison estava pronta para me enterrar.
Eu disse à Jenna que queria ficar sozinha, e ela me deixou tomar meu rumo amargurado pela mansão. Foi quando me tranquei no único lugar que me isolaria do barulho e de outros seres humanos: o banheiro.
Banheiros sempre são ótimos refúgios.
Porém, as batidas no outro lado da porta começaram a me irritar em um nível que fez toda minha mágoa se transformar em fúria. Eu nem estava há tanto tempo ali dentro. Estava?
— Tá com dor de barriga, porra?! — o idiota gritou do outro lado.
Fechei os olhos e resolvi contar até dez. No três, abri a porta feito um furacão.
— Uma mulher não pode ter cinco minutos de paz?!
— Ah, ! Desculpa.
Era o Alex Rose.
— Alex, você sempre aparece do nada nos lugares — falei, ainda sem a menor paciência. — Pronto, tá liberado.
— Hmm. A vontade passou.
Fechei os olhos de novo. Será que eu ia precisar contar até cem?
— Jenna está procurando por você — ele começou. — Ela está no--
— Não — o interrompi. — Não quero ver ninguém agora.
O climão se hospedou entre nós, e eu não tinha mais nada a dizer. Por outro lado, Alex parecia estar ansioso para jogar conversa fora. Ele cheirava a uma terrível combinação de cerveja e groselha, o que me levava a duvidar de sua capacidade verbal para iniciar um papo relevante.
— Erm… Você, erm…
— Sim? Diga — tentei encorajá-lo. Talvez só me perguntaria que horas eram e eu já poderia procurar por Jenna novamente.
— Sabe que horas são?
Eu deveria ter minha própria bola de cristal.
De repente, todo o andar começou a se esvaziar e as pessoas se movimentavam apressadas para o jardim dos fundos, provavelmente para a tão esperada virada do ano.
Talvez eu tenha ficado mesmo muito tempo dentro do banheiro.
— Hmm... Umas onze e tantas? — deduzi.
— Então… Você já tem alguém para a meia-noite?
— Como assim? — meu cérebro demorou um pouco a ligar os pontos daquela indireta, quando me perdi no reflexo da minha própria testa, dessa vez vindo dos óculos escuros no topo da cabeça de Alex. — Ah, claro! Quero dizer, não, não tenho. E você?
— AÍ ESTÁ VOCÊ! — Jenna simplesmente brotou ao nosso lado e foi logo me puxando pelo braço. — Te procurei por todo canto, faz meia hora! Já vão começar a contagem regressiva, vamos rápido!
Fui arrastada até a escada e, assim que pus os pés no primeiro degrau, olhei para trás. Alex continuava plantado no mesmo lugar, sozinho, ou melhor, abandonado, com a maior cara de jururu. Não sei por que ele não nos seguiu, mas como poderíamos deixá-lo assim?
— Jenna, espera. Ainda tem aquela tequila aí? — perguntei, fazendo-a parar no meio do caminho.
— Sim, por quê?
DEZ… NOVE… — podíamos ouvir o pessoal lá fora, o que fez Jen ficar ainda mais afobada.
Só estendi a outra mão e indiquei para que ela me entregasse a garrafa. Quando o fez, virei goles atrás de goles, sem nenhum tipo de limite. Minha garganta nem ardia, nem nada. Acho que eu tinha chegado em um estado físico e mental tão merda que meu próprio corpo resolveu me anestesiar daquela vez.
Devolvi a bebida para ela e voltei alguns passos para trás.
, o que você--
TRÊS… DOIS…
Corri até Alex. Sem qualquer aviso prévio, agarrei seu rosto com minhas duas mãos e não pensei em mais nada. Era pra ter sido só um selinho de meia-noite, mas acabei dando um beijaço nele.
E ele retribuiu sem pestanejar.
Quando o soltei, o som alto dos fogos que eclodiam no céu finalmente entrou em meus ouvidos. Alex, um pouco esbaforido, me olhava com o sorriso de uma criança; Jenna estava embasbacada. De repente, senti que só eu tinha motivos para celebrar. Meus problemas emocionais pareciam estar indo embora junto com aquele ano.
— Feliz ano-novo, meus maravilhosos!


🙂🙃🙂


Não muito tempo depois dos fogos, de toda a festança da madrugada e de muito mais álcool, sem querer me perdi de Jenna outra vez. Em minha defesa, a garota estava mais agitada que o normal, e não era fácil acompanhá-la. Não sei até que ponto eu poderia responsabilizar a tequila bizarra por deixá-la tão louquinha.
Eu estava loucassa.
Cambaleando pela grama de um longo, escuro e estreito corredor externo, entre a cerca e a parede lateral da mansão, eu buscava por um pouco de calma e silêncio.
Mas era impossível.
Todo mundo presente naquela festa estava perdendo o juízo em níveis descontrolados. Entretanto, naquele corredor, não havia nada além de alguns arbustos. Eu só não podia me escorar em qualquer lugar, senão, não acordaria até a tarde do dia seguinte. E por acaso eu tinha alguma amiga que se importaria o suficiente para sentir minha falta e vir me procurar? Não mais.
A cada passo trocado, minha cabeça dava voltas e mais voltas. Até que meus pés pararam diante de um pequeno objeto no meio da grama. Ele era brilhante e prateado, o que fisgou minha atenção de imediato. Não pensei duas vezes antes de me agachar para pegá-lo.
Ideia errada.
Depois de apanhá-lo e guardá-lo no bolso da minha jaqueta, me levantei e senti que todos os meus órgãos iam se desligar. Pisquei os olhos várias vezes, dei batidinhas em meu rosto e respirei fundo. Quando foquei o olhar, vi um casal se agarrando loucamente na parede.
Caralho, eu não aguentava mais ver casais na minha frente.
Sem nem um pingo de noção, fui chegando mais perto só para dar uma bronca gratuita nos dois tarados. Do nada, virei a polícia da juventude. Encarnei total uma velha estraga-prazeres e tive vontade de rasgar cartas de amor, lavar as bocas de beijoqueiros com sabão e bater em homens com uma bolsinha de moedas. Eu só queria que todos no planeta ficassem solteiros como eu, por favor. PAREM DE SE AMAR!
Cheguei bem perto do casal. “Não é que esse amasso tá uma delícia?”, pensou meu cérebro desgovernado. Porém, naquele momento, eu era alérgica a amantes.
Continuei com o plano, mas minha cabeça não me deixou. Do nada, fiquei extremamente tonta e enxerguei tudo dobrado. Meu corpo implorava para que eu simplesmente me atirasse na grama e apagasse ali mesmo. No entanto, com o mínimo de noção que me restava, só joguei meu ombro direito contra a parede e fiquei ali escorada, com os olhos espremidos.
O casal se assustou com o barulho e se separou.
— O que foi isso? — a voz era feminina.
Pude ouvir alguns passos se aproximando de mim.
— Você tá bem? — agora, a voz era masculina. — ?!
— O quê?!?
Espantada, abri os olhos imediatamente, e essa foi outra péssima ideia. Vi quatro pessoas na minha frente. Duas delas eram , e as outras duas eram Rennie.
— Sim! Estou bem! Estou bem melhor! — nem sei como, mas exclamei.
— Tem certeza? — ele perguntou, se aproximando ainda mais.
tinha se posicionado exatamente no local que fez minha visão se focar outra vez, tornando tudo mais nítido como se eu estivesse olhando através da lente de uma câmera em alta definição. Seus olhos azuis esverdeados simplesmente cintilavam contra a sombra da noite. Seu cabelo loiro estava desgrenhado, e uma mecha caía sobre sua testa.
Caramba. Como ele estava lindo.
Lindo de morrer.
— Você tá louca, mulher?! — me virei para Rennie.
— Hã?
— Um homem desse no seu pé e você fazendo corpo mole? Ah, pelo amor de Deus! Eu não mereço esses jovens de hoje.
começou a rir.
— Escuta, acho ótimo que você teve um final feliz com sua garota hoje — olhei para ele —, porque eu não tive com o meu cara. Então — olhei para ela —, aproveite bastante, ok?
— Sério, eu te conheço?
— Sim, Rennie. Olhe bem pra esse rostinho — falei, puxando e apertando as bochechas de com uma mão. — Olhou? Agora, escuta o que eu tô te dizendo. Não existem muitos caras como ele por aí igual a gente pensa. Entendeu?
— Porra, que mão gelada — ele reclamou de dor.
— Desculpa — soltei-o e, na mesma hora, me afastei.
De repente, tive um acesso de consciência e percebi a insanidade que eu estava fazendo. Fui tomada por uma onda de arrependimento e só pensei em sumir dali.
, erm… — engoli em seco, tentando não olhá-lo nos olhos. — Sabe onde está Jenna?
— Acho que ali na piscina.
— Ótimo! Tchau!
Fugi.
Fugi até rápido demais. Eu precisava me movimentar com mais cuidado.
Tomei o caminho até a piscina no jardim dos fundos, onde estava aglomerada a maior parte das pessoas. Por esse motivo, não consegui achar Jenna de jeito nenhum.
A piscina era aquecida e, sobre ela, formava-se uma nuvem de vapor. Um monte de gente já tinha se jogado ali dentro, como se o resto do mundo nem importasse mais. Fui atraída pelo que parecia ser o oásis para a minha confusão mental: a celebração do foda-se. Mas me contive em dar um pulo na água. Sentei-me na beirada, agarrando meus próprios joelhos, e por ali fiquei durante alguns bons minutos. Até coloquei a cabeça para descansar, mas meus olhos continuavam atentos em alguns caras que nadavam.
Uni, duni, tê. Quem será que prestava para me dar mais uns beijos e eu fingir para mim mesma que isso seria a solução permanente dos meus problemas?
Senti a aproximação de alguém, que resolveu se sentar ao meu lado e imitar minha posição. Quando olhei para a pessoa, minha expressão imediatamente se transformou, carregando quilos de desgosto e aborrecimento.
— O que você está fazendo aqui? — indaguei, ríspida.
— Wow. Não posso só te fazer companhia?
Revirei os olhos.
— O que você quer, Blaze?
— Vim te desejar um feliz ano-novo — ele sorriu de lado, sexy, sabendo exatamente o que me fazia ficar caidinha por ele. Mas, dessa vez, não ia funcionar.
— Feliz ano-novo pra você também — respondi, voltando o olhar para longe.
Ele se arrastou um pouco para o lado até chegar mais perto de mim.
— Tenho uma coisa pra te dizer.
Eu também tinha uma coisa para dizer a ele. Uma não, várias. Uma lista inteira de xingamentos e insultos.
Meu silêncio fez com que ele prosseguisse:
— Senti sua falta nesses últimos meses.
Meu sangue ferveu.
— Mesmo? — perguntei, assumindo minhas habilidades teatrais. — Poxa. Que coincidência. Também senti, você nem imagina!
— Então… Tem um jeito da gente resolver isso, você não acha?
Não aguentei e soltei uma risada incrédula. Ele estava bêbado, sim, mas isso não deveria impedi-lo de notar meu tom de sarcasmo.
— Quer saber, Blaze? Eu acho que tem um jeito, e ele começa com você me deixando em paz.
Levantei-me do chão e limpei minha saia com as mãos. Percebi que tinha um rasgo monstruoso na minha meia-calça, o que me irritou ainda mais. Acompanhando meus movimentos, Collins também se pôs de pé e, quando dei os primeiros passos para me afastar dali, ele me segurou pelo braço:
— Ei, espera. O que quer dizer com isso?
— O que quero dizer com isso? A mesma coisa que você quis dizer lá no Millard’s. Nós acabamos.
— Eu sei, mas…
— Está me procurando de novo por quê? Não tem vergonha nessa sua cara de mer--
— Ei, ei, ei. Calma. Não sabia que tinha ficado tão chateada. Você disse que não ia ficar — ele apertou ainda mais o meu braço quando fiz menção de sair. — Mas é como eu te disse, ainda podemos resolver isso.
O quão típico e previsível era aquilo? Eu sabia que, na primeira oportunidade, Collins me procuraria de novo quando fosse conveniente para o próprio tesão dele. E por mais que ele parecesse irresistível da cabeça aos pés, não me restavam dúvidas de que eu o queria longe de mim.
— Não. Não há nada para resolvermos — fiz força, mas Blaze se recusava a me largar. — Me solta, por favor.
Ele fez o oposto, dando mais dois passos em minha direção.
… Pra quê isso? Eu te conheço, sei que você também quer.
— Estou te dizendo com todas as letras. Não.
Ele me ignorou totalmente e passou sua outra mão pela minha cintura, tentando me puxar para um beijo, mas eu me debati.
— Não, Blaze! Me solta! — finalmente consegui empurrá-lo, com uma força um pouco brutal que eu nem sabia que tinha.
Depois do meu empurrão, ele foi para trás em uma distância considerável, bem próximo à beira da piscina.
— Uau — o sorrisinho infernal voltou outra vez. — Você finalmente me ouviu e entrou na academia?
Assim que ouvi aquilo, nem pensei. Só reuni todas as minhas últimas forças e o empurrei com gosto para dentro da piscina. Ele caiu completamente assustado, afundando com toda a roupa que tinha no corpo.
Algumas pessoas por perto vibraram.
Quando Blaze voltou para a superfície, tirou o cabelo molhado do rosto e me encarou com muito, muito, muito ódio.
Agora sim.
Eu poderia beber do ódio dele.
— Acha que não sei o que você fez hoje, seu imbecil?! — esbravejei, antes que ele pudesse me contestar. — Você procurou a pessoa errada pra fazer de trouxa. Filho da puta.
Dei meia-volta e marchei para o outro lado do jardim até ficar distante o suficiente, próximo a uma árvore com os galhos cheios de gelo. Quando pensei que eu poderia facilmente ter me rendido ao joguinho dele se não fosse o beijo que flagrei antes… Meu Deus, quanta humilhação eu teria passado.
Perdi a cabeça.
— AAAAARGH! EU ODEIO HOMENS! — berrei para o céu vazio, apertando os punhos e jogando todo o meu pescoço para trás.
Nem um pouco dramática.
— EU TAMBÉM! — um anjo chamado Jenna também berrou, com seu fabuloso timing e sua incrível capacidade de me achar em lugares lotados.
Ela correu até mim e, assim como fiz com Alex antes, agarrou meu rosto com as duas mãos. Antes que eu pudesse sequer inalar o ar, Jenna chocou seus lábios nos meus.
Foi um selinho meio avacalhado, mas suficiente para provocar sons de comemoração que, de repente, nos rodearam. Quando abri os olhos e vi aquela quantidade de homens que tentavam nos estimular – mas não sabiam que só estavam nos importunando –, lembrei do meu ódio.
Impressionante como qualquer merda para eles era pornográfico.
Jenna voltou minha atenção para ela:
— Pronto. Seu ritual de passagem foi concluído.
— Que ritual? — perguntei, lutando para manter a compostura quando a visão dupla desorientou todos os meus sentidos outra vez.
— De entrada. Bem-vinda ao clube “ARGH, EU ODEIO HOMENS!” — ela me imitou no final, e eu desembestei a rir.
Jurei que também tinha respondido alguma coisa, mas comecei a embaralhar a realidade com devaneios aleatórios que passavam pela minha cabeça.
De repente, tudo ficou preto. Pretasssssso.
— Ai, meu Deus... Alguém pode me ajudar aqui?! — ouvi Jen gritar, enquanto minhas pernas se transformavam em gelatina.
Não faço a menor ideia do que aconteceu em seguida, se caí na grama ou se fui carregada. Só sei que, em algum momento fora da minha compreensão cronológica, abri os olhos e vi PJ desmaiado numa poltrona reclinável ao meu lado. Não sabia nem onde estávamos. Provavelmente, dentro do quarto de um frat boy.

Quando fechei os olhos de novo, entrei em modo descanso de tela do Windows e viajei para outra dimensão.


Capítulo 4 – Aventura

Não vou nem dizer que eu era imune a ressacas, mas até que estava indo muito bem para aquela longa tarde de sábado. Um sábado como qualquer outro, mas com gostinho de imprevisível.
O ano que havia chegado sempre me pareceu tão distante e futurístico... Não só para mim, mas para todo mundo. Quem dirá para os meus pais, ou pior ainda, meus avós. Os filmes, as séries, as teorias de conspiração e os jornais sensacionalistas nos deixaram tão bitolados ao longo das últimas décadas que era como se o ano 2000 fosse distópico demais para ser real ou para a humanidade alcançar. Além de tudo, cá para nós, 2000 era um número muito bizarro para uma data. Daqui pra frente, com certeza eu erraria várias vezes ao escrevê-la no papel até me acostumar. No entanto, não sentia como se hoje fosse um marco de uma nova era nem nada. Mas não deixava de ser legal pensar que eu havia acabado de entrar em um novo século.
Desculpe desapontar, Kubrick, mas ainda não conseguimos viajar da Lua até Júpiter num ônibus espacial. Quem sabe daqui uns vinte anos.
— Quer café, ? — Sadie bateu em minha porta e, antes que eu pudesse dizer “entre”, ou no caso, “não entre”, abriu-a em seguida. Ela tinha acabado de voltar de sua cidade natal. — Sobrou um copo. Na verdade, dois.
— … Não, obrigada — falei, ainda enrolada em meu edredom e no meio dos meus travesseiros.
— O quê? Não deu pra te ouvir.
Enchi meus pulmões, e o esforço para aumentar o tom da minha voz foi notório:
— Não, obrigada.
De nada adiantou.
— Quê?
— NÃO, OBRIGADA.
— Ah, então tá bom. Vou jogar fora. Ele está frio, mesmo.
Sadie era muito lerda. Dividir o dormitório com ela era desafiador para a minha paciência limitada, mas, em vários momentos, sua lerdeza vinha a calhar. Ela nunca percebia quando eu trazia algum cara para o quarto, por exemplo. Porém, se eu desse o raro azar de ser vista na calada da noite, era bombardeada de perguntas no dia seguinte. Não que Sadie fosse do tipo intrometida e fofoqueira, mas do tipo curiosa e sem noção.
Ela saiu e deixou minha porta aberta.
Revirei os olhos. Não tive outra escolha a não ser abandonar o paraíso que era a minha cama. Só uma era páreo para essa: a da minha casa em Livingston. Nenhuma outra cama no mundo, nem a de um hotel cinco estrelas, seria melhor.
Fiquei impressionada comigo mesma quando me levantei e minha cabeça continuou leve como uma pluma. Entretanto, assim que pus os pés no chão, meu estômago embrulhou e eu suei frio, levando por água abaixo toda a resistência a ressacas que eu achei que tivesse.
Corri para o banheiro na velocidade da luz e me debrucei sobre o vaso.
Sadie se materializou ao meu lado:
?! O que tá acontecendo? Meu Deus, você tá vomitando?
Aparentemente, a frase “ações dizem mais do que palavras” não significava nada para ela. Continuei em apuros, e passaram-se mais uns dois minutos até Sadie vir me ajudar, segurando o meu cabelo.
Depois de recuperar a respiração, enxaguar a boca e escovar os dentes, caí mole na minha cama de novo.
— DROGA! — berrei contra um travesseiro. — Eu ia sair pra minha aventura hoje...
— Que aventura?
— Ah… — virei de barriga para cima e encarei o teto, sentindo os olhos abelhudos de Sadie sobre mim. — Sabe a praia de Oakwood?
— Sei sim. Vai fazer o quê lá? — ela questionou, super desconfiada.
Ninguém simplesmente ia à praia de Oakwood. Lá era tão inóspito, frio e deserto que nem gaivotas davam as caras. O máximo que apareciam eram uns bichos hostis, tipo ouriços e caranguejos venenosos. Inclusive, havia certas épocas que o mar trazia para a areia centenas de ostras e águas-vivas mortas.
— Quero visitar o vilarejo abandonado — como se ainda não bastasse, Oakwood abrigava esses velhos casebres de madeira largados para os fantasmas há não sei quantos anos. — Quer ir comigo?
— Eu?! Eu não. Nesse frio? Não, não… Vamos deixar pra outro dia.
Ri, um pouco familiar demais com esse tipo de resposta.
Sadie voltou para a sala e eu observei os feixes de luz que passavam pelas persianas. Ainda dominada pela náusea, tive que postergar minha aventura para o dia seguinte.

Hoje poderia ser um sábado histórico, mas nada como um domingo despretensioso.


🙂🙃🙂


Eu deveria me preparar para o frio de Oakwood, porém, mais da metade das minhas roupas estavam na lavanderia, e eu só as buscaria na segunda-feira. Acabei repetindo a jaqueta do fim de semana por cima de mais três blusas – o sol estava radiante, mas a temperatura tinha voltado a cair. Aqueles raios luminosos formavam a mais pura ilusão, e aprendi isso do pior jeito no meu primeiro inverno em Nova York.
Almocei macarrão instantâneo com Sadie e estava com pressa, porque o céu escurecia cedo demais nessa estação. Eu precisava voltar, no mínimo, antes do pôr do sol.
— Você viu meu headphone? — perguntei, enquanto revirava todas as gavetas da pequena estante da TV. Elas guardavam todo um universo de papéis e troços inúteis, mas nunca o que eu estivesse procurando.
— Tá falando desse aqui? — Sadie cavou entre as almofadas do sofá onde estava deitada e, de lá, tirou o desaparecido.
— Isso! Obrigada!
Corri até ela e logo pluguei o fio no meu discman. Enfiei-o na bolsa e disparei até a porta.
, é melhor vestir uma touca.
A fala dela me fez voltar um passo. Não queria, mas acabei apanhando o único gorro disponível: um cafonérrimo cheio de bordados natalinos.
E assim sumi do quarto, indo direto ao bicicletário do alojamento. Antes de subir no selim, dei play no CD que já estava dentro do aparelho há semanas.

🎵 Pra você ouvir de fundo:
Malibu – Hole

A praia de Oakwood ficava a uns cinco quilômetros dos limites do Campus. Era um bocado longe, mas dava para ir pedalando. Atrás da vasta extensão de areia, havia uma enorme área de preservação de uma floresta de carvalhos e pinheiros, que, até poucos anos atrás, abrigava um parque de caça às aves. Felizmente, a caça foi proibida, e agora a floresta era bastante policiada e protegida. A única área não demarcada era o litoral, e lá não costumava aparecer ninguém além de uns guardinhas perdidos. Era só indicar a rota mais fácil de volta que eles logo se enfiavam pra dentro do mato outra vez.
Por causa do novo policiamento, os universitários migraram para a praia de Bricktown para fazerem seus acampamentos, fogueiras e luais, que, inclusive, ficavam escassos a cada ano. Lá em Bricktown tinha muito lixo, muitos barcos e muita gente, além de ser bem mais perigoso.
Oakwood era um lugar totalmente inexplorado, natural e enigmático. Ao contrário da Oyster, virada para dentro do continente, Oakwood era virado para o Oceano Atlântico, e eu adorava contemplá-lo.
Eu adorava, adorava, adorava o mar.
Porém, minha missão de hoje era explorar o vilarejo abandonado. Quando passei por ele da última vez, em 1996, já estava com um ar decadente. Mas não me importei muito porque eu era uma caloura alienada. Agora eu tinha vontade de descobrir mais sobre sua história e, quem sabe, encontrar uns objetos perdidos interessantes. Eu tinha essa fascinação bizarra por tudo que era antigo e abandonado.
Quando cheguei, tive que pedalar por mais alguns minutos até me aproximar o suficiente da ponta curva da ilha. Aquela era uma região repleta de pedras de todos os tamanhos, dentro e fora da água. A areia era tão branca e fina que, por vezes, mais parecia pó de giz. Também era tão macia que dava vontade de enterrar os pés descalços e não sair mais.
O vento gelado cortava meu rosto, então, aos poucos, fui desacelerando. Enfim desci da bicicleta e respirei fundo, apreciando o cheirinho da brisa salgada. Removi os fones e parei para ouvir atentamente o som das ondas agitadas quebrando na beira-mar.
Eu amava aquele clima melancólico e relaxante.
Estacionei a bicicleta na trilha mesmo, imobilizando as rodas com uma tranca. Seria impossível pedalar no meio de todas aquelas rochas, o jeito era ir andando.
Depois de vários passos desviando de ouriços e poças de maré, dei de cara com uma mochila jogada sobre uma pedra. Ela teria passado despercebida por mim se não fosse o chaveiro amarelo com o smiley face do Nirvana. Olhei para todos os lados à procura de seu dono, mas não vi sequer uma alma viva.
Aquilo estava estranho.
Muito estranho.
E se algum estudante esqueceu ela lá? Eu deveria pegá-la e levá-la para o Achados e Perdidos? E se… alguém foi raptado? Sequestrado? Dado como desaparecido? Eu deveria procurar por um documento de identificação na mochila e reportar à secretaria da Universidade?
E se alguém morreu?
Era melhor fingir que nem vi nada disso e voltar para o Campus. Não! Eu poderia ser presa por omitir socorro, não poderia?
Se eu me desse mais alguns segundos, aquela espiral de pensamentos paranoicos continuaria até minha cabeça montar toda a cena de um crime sanguinário que justificaria a razão de aquela maldita mochila estar ali.
Resolvi continuar a caminhada. Qualquer coisa, era só berrar e correr.
De repente, sem mais nem menos, alguém saltou de uma enorme pedra para a areia, a poucos metros na minha frente. Levei a mão ao peito quando senti que meu coração ia sair pela boca. Assim que vi quem era, engoli o grito de susto.
— Meu Deus, quer me matar?! — xinguei, amaldiçoando mentalmente até a última geração dele.
— Você que quase me matou — riu e levantou as sobrancelhas, surpreso. Ele apertou as pálpebras quando a forte claridade iluminou seu rosto. — O que tá fazendo aqui?
— O que você tá fazendo aqui?
Ele se aproximou mais e deu de ombros quando respondeu:
— Eu venho aqui o tempo todo.
Agora quem estava surpresa era eu.
Ele carregava um sketchbook e se inclinou até a mochila para guardá-lo. Logo depois, passou só uma das alças pelo ombro. Apesar de estar bem menos agasalhado do que eu, ainda usava um gorro cinza e luvas sem dedos.
— Como... — perdi a fala. Embora eu quisesse fazer um milhão de perguntas, precisei refrear o interrogatório. — … Sério? Por quê?
— Nenhum motivo em especial — ele balançou os ombros de novo. — E você?
— Vim ver o vilarejo abando-- Espera. Ninguém vem até este fim de mundo à toa.
sorriu, despreocupado:
— Aqui não é o fim do mundo. A Oyster tá ali — ele apontou com o queixo para trás de mim.
— Tá ali a cinco quilômetros. Meio longe pra vir andando.
— Minha bicicleta tá ali, atrás daquela pedra — ele girou o tronco e apontou para o outro lado, atrás dele. Então, começou a caminhar até ela, descendo um morrinho de areia. Fiquei parada em meu lugar, o observando. — Se eu fosse você, deixaria pra ir ao vilarejo outro dia. A maré já está começando a subir.
— E daí?
Ele fez uma pausa e franziu o cenho, como se fosse minha obrigação saber a razão daquilo.
— Ela costuma invadir aquela área — explicou, num tom meio óbvio.
— Ah, é?
trouxe a bicicleta e voltou para a trilha, ao meu lado. Com o cadeado em mãos, ele agachou-se diante da roda traseira, mas fez outra pausa. Então, ergueu o olhar para mim, antes de falar de novo:
— Quer mesmo ir ao vilarejo hoje?
— Vim aqui pra isso. Não tenho medo de maré.
Ele soltou uma risadinha pelo nariz, como se eu não soubesse de nada. Em seguida, trancou as rodas e se levantou.
— Então, vamos. Conheço um atalho pela floresta, vai ser mais rápido.
— Espera, pela floresta? Não é proibido? Quero dizer, podemos entrar lá?
— Vou te falar, não é bom passar por ela. Mas não se preocupe. Está tudo sob controle.
Apesar de tudo, a calma e a plenitude dele me passavam confiança.
Começamos a caminhar em direção à floresta. Aliás, ele começou e eu fui atrás. Mais alguns passos ligeiros e nos aproximamos da vegetação mais abundante.
— Afinal, é proibido ou não? — perguntei, um pouco hesitante em avançar.
— Não está nos seus planos assassinar animais silvestres hoje, está?
— Não mesmo.
— Então, relaxa. O perigo aqui é outro — ele afirmou, de um jeito bastante suspeito. Mas deixei pra lá.
À medida que adentrávamos a mata, o chão ficava mais terroso, forrado por folhas mortas e um pouco de neve suja. Nossos pés quebravam alguns galhos soltos, e a sombra dos carvalhos caducos cobriam quase toda a luz do sol.
Eu queria puxar algum assunto, porque não aguentava ficar calada por tanto tempo. Mas aquele não parecia ser o momento. andava rápido demais, e, de vez em quando, eu tinha que dar uma corridinha para alcançá-lo. Até que, do nada, ele parou. Quase trombei em suas costas.
Ele fez um sinal com a mão para que eu também parasse.
— O que é? — perguntei.
— Sshhh — ele pediu. Seus olhos sondavam todos os cantos da floresta. — Ouviu isso?
— Isso o quê?! — implorei, começando a ficar nervosa.
A resposta veio aos meus ouvidos: mais galhos e folhas secas sendo pisoteadas por outros pés, e eles chegavam cada vez mais perto de onde estávamos.
— Ai, meu Deus, tem alguém aqui! — dei um sussurro exagerado. A paranoia de antes me atingiu novamente, me deixando trêmula. — Não deveríamos estar aqui! Vamos voltar, por fav--
— Parados aí — uma voz grossa demandou.
Nem vi quem era. Meus instintos falaram mais alto e eu só dei um pulo para trás, me escondendo atrás de , onde permaneci à espreita. Logo à frente, observei uma figura esquelética e alta, vestindo um uniforme bege e um chapeuzinho camuflado. Com uma mão, o guarda segurava o próprio cinto largo que portava uma espingarda; com a outra, a coleira que prendia um Pastor-Alemão. O homem aparentava estar na casa dos setenta anos, tinha o olhar severo e a expressão bem rabugenta. Porém, ele estreitou os olhos para enxergar melhor, e, do nada, todas suas rugas manifestaram uma estranha simpatia.
— Oh! ! Como vai? — ele cumprimentou com um aceno. E ele acenou de volta, sorrindo. Por que eles se conheciam? — O que tem pra mim hoje, garoto?
— Ah, senhor Wage, hoje o senhor me pegou desprevenido — respondeu, meio chateado. — Tô sem nada. Foi mal.
Wage deu mais alguns passos em nossa direção e trouxe junto o cachorro, que não parecia estar de bom humor. O guarda fez um estalo com a boca que o fez latir alto. O barulho me deu um susto tão grande que agarrei a mochila de e me escondi ainda mais atrás dele.
Inabalado, ele continuou parado no mesmo lugar.
— Nada? Não é o que Titus está nos dizendo — Wage proferiu, sarcástico.
Titus não parava de latir. Era impressão minha ou ele estava olhando diretamente para mim? Ou para a... mochila?
— Ah, não, senhor Wage… — reclamou. — Vai confiscar o pouco que guardei pra mim?
Meu Deus, Titus estava farejando maconha?!
Sabia que tinha algo pra mim — Wage fez outro estalo e o cachorro se calou. — Passa pra cá.
estava ferrado. E era tudo culpa minha; a ideia de ir para o outro lado da praia foi toda minha. Eu estava ferrada. Estávamos todos ferrados. Já estava vendo a gente voltando pra Oyster num carro da polícia.
Wage tirou a carteira do bolso e começou a contar notas. Pegou umas cinco de dez e estendeu a , que, na mesma hora, levou a mochila para a frente do corpo e de lá tirou um saquinho plástico cheio de Cannabis.
Mas o quê?
— Isso é tudo o que o senhor tem? — ele questionou, e Wage não gostou nem um pouco. — Porque você tá me fazendo abrir mão de tudo o que eu tenho. Vamos lá, cara, uma troca justa.
O velho carrancudo foi convencido e tirou mais três notas de dez da carteira, uma por uma. Até o cachorro deve ter pensado que ele era um trouxa.
Quando recebeu a grana, entregou a erva. Wage puxou Titus pela coleira e, com um sorrisinho falso, esticou o braço para passarmos, e assim fomos permitidos a prosseguir.
No momento em que adquirimos distância o suficiente, caminhei ao seu lado e tratei de perguntar:
— Que diabos foi aquilo, ?
— Demos azar — ele suspirou.
— O azar de vender maconha por oitenta dólares pra um guarda florestal?
— Ah, MERDA! — ele berrou, do nada. Em seguida, choramingou: — Eu queria fumar aquela erva mais tarde…
— Essa é sua preocupação? — comecei a rir. — Eu tô feliz de não ter sido revistada por aquele velho.
— É, eu também. Bem lembrado. Já fui uma vez e não tô ansioso pra passar por isso de novo.
— Jura? Foi quando ele virou seu... cliente?
— Exatamente. Wage não me deixa em paz desde então. Não pode me ver. Se eu não vender pro velho, ele me enche de chantagens e ameaças.
— Ele é tão hipócrita assim?
— É um aposentado, veterano de guerra. Só quer fumar um baseado, andar com uma arma no bolso, cuidar de plantas e importunar os outros.
— Eu não acredito que você chamou um veterano de guerra de “cara”.
sorriu de lado e virou o rosto para mim.
— É assim que você bota um cliente em seu lugar.
— Hmm. Aprendi. Ensinamento importante — ironizei.
Ele deu uma gargalhada. Depois de alguns breves minutos, avisou:
— Estamos chegando.
Então, como mágica, os resquícios de terra e neve foram sumindo e deram seu lugar à areia de novo, dessa vez manchada por gramíneas de longos caules envergados pelo vento. Os pinheiros não mais sombreavam nosso caminho – o céu límpido e alaranjado havia voltado a reinar. Era como se tivéssemos acabado de transitar de uma manhã de inverno para um entardecer de outono em apenas alguns passos.
— Nossa… — desacelerei um pouco. — Tinha me esquecido disso.
, que continuava no mesmo ritmo, teve que parar e olhar para trás quando perguntou:
— Disso o quê?
— De tudo isso. Não lembrava como era tão bonito aqui.
— Ah. Então você já veio antes?
— Já. Três anos atrás.
Finalmente olhei para ele e me despertei do transe, apenas para entrar em outro – seus olhos esverdeados haviam ganhado o mesmo tom quente do céu.
— Pensei que eu estava guiando uma turista de primeira viagem — ele comentou e, pela quadragésima vez naquele dia, dei uma corrida para alcançá-lo. — Isso me lembra… Como vão as coisas no Alabama?
— Eu não sou do--
— Ah! Louisiana, Louisiana.
— Vão… normais — sorri, ao me lembrar dele bêbado.
— Sente falta de casa?
— Sinto falta dos meus cachorros.
— Ah, eu também. Entendo você.
Olhei com mais atenção para seu perfil: o gorro cobria seus fios loiros, as sobrancelhas grossas eram expressivas e o nariz retinho apontava levemente para baixo.
Fiquei pensando em que tipo de cachorro teria.
— Eu achei que você fosse daqui — falei, um pouco dispersa.
— Boston — ele disse em meio a um suspiro. — Mas tenho família aqui.
— Seu cachorro tá em Boston?
— Chegamos — ele parou e desviou a atenção da minha pergunta para a paisagem logo à frente no horizonte.
Os casebres abandonados finalmente apareceram entre pequenas dunas, pouco abaixo do ponto elevado onde estávamos. Eram umas cinco ou seis casas. A madeira era escura e quase totalmente desgastada pelo tempo e pela maresia. Parecia que as construções desmoronariam num piscar de olhos, mas, inexplicavelmente, resistiam até às minhas dúvidas. Os telhados de algumas já nem existiam mais, bem como as cores das cascas de tinta nas paredes, repletas de lodo e musgo.
tirou a mochila das costas e foi se sentar em uma pedra baixa e lisa, apoiando os cotovelos sobre os joelhos afastados. Sentei-me ao seu lado, um pouco distante.
— Afinal — comecei —, que casas são essas?
— Algumas eram moradias, outras eram barracas de venda. Havia um comércio de ostras famoso na região. Existiam mais, mas o mar as engoliu.
— Sério?! O que houve?
— Você não sabe mesmo do que eu tô falando? — ele me encarou com o mesmo ar de incredulidade de antes.
— Nem ideia.
— Então… — meio pensativo, deu uma pausa. — Ah, droga, preciso te contextualizar antes. Por onde eu começo?
— Comece do começo. “Era uma vez…”
— Era uma vez… — ele riu, balançando a cabeça. — Em 1981, 82, por aí... existiu uma profecia que ficou bem famosa. Ela dizia que todos os planetas se alinhariam perfeitamente diante do Sol, e isso provocaria tsunamis em todo canto do mundo. Inclusive um aqui, que faria do vilarejo uma cidade submersa.
— Meu Deus.
— Não se lembra quando falavam disso na TV?
— Não — falei, chocada. — Eu estava muito ocupada escovando cavalos numa cidade de treze mil habitantes.
Ele deu uma risada divertida, depois continuou:
— Foi um ano meio apocalíptico. Eu me lembro de ficar traumatizado. Minha mãe leu um livro maluco que dizia com toda certeza que um cataclismo estava se formando nas profundezas da Terra. Passaríamos por terremotos e tempestades horríveis, labaredas solares, o fim do rádio e da TV… Ela ficou realmente fixada nesse assunto por um tempo e não parava de falar nisso. Sempre que passávamos em um supermercado, comprávamos água engarrafada pra estocar. Eu não entendia nada, então achava que fosse morrer.
— Tá falando sério?
— Tô falando sério — ele me garantiu, mas se divertia com minha cara de abismada. — Minha mãe era viajada demais, mas passou na CNN e tudo. Pode olhar os jornais da época na biblioteca, se quiser.
— Mas e aí? O que aconteceu?
— Nada.
— Nada?!
— Não houve alinhamento nenhum, os planetas só se reuniram na mesma faixa do céu ou algo assim. Mas o ponto é… Por coincidência, no mesmo ano, veio uma onda bem mais alta e forte que o normal aqui em Oakwood, que fez várias casas mais próximas do mar serem varridas. Então, até hoje tem gente que acha que foi culpa da profecia. É uma grande controvérsia que divide opiniões. Só que essas marés altas tem ficado cada vez mais comuns em noites de lua cheia. Já era tempo. Esses casebres sempre foram muito mal cuidados também.
— Caramba.
— Você não sabia que era uma sobrevivente de dois apocalipses, sabia?
— Não…
— Isso que dá passar a infância num estábulo.
Comecei a rir.
— Será que vamos sobreviver a um terceiro? — perguntei, fazendo graça, mas sem desconsiderar a real possibilidade.
— Você ainda tem dúvidas?
— Engraçado como o ser humano teme e anseia pelo fim dos tempos. Desde... sempre.
— Deve ser porque o mundo sempre foi uma merda.
— Pois é. Não seria mais fácil solucionar todas as merdas ao invés de explodi-las?
— Olha só praquelas casas — ele apontou com a cabeça para frente. — O que é mais fácil? Restaurá-las ou derrubá-las pra construir novas?
— … Você tem razão — admiti. — Mas não gosto de seguir a lógica do comodismo. Prefiro que restaurem as casas.
— Se quer saber, também prefiro — ele concluiu, puxando um isqueiro do bolso do casaco.
— Ei, me diz — ergui as sobrancelhas interrogativamente —, pessoas morreram por causa dessa grande onda? Pessoas que moravam nessa vila?
— Não, não houve mortos. Os moradores foram evacuados de última hora, mas ainda tiveram alguns feridos. Pessoas que relutaram em deixar seus pertences pra trás.
Ele tirou um maço de cigarros do mesmo bolso e levou um à boca. Teve que cobri-lo com a mão para proteger a chama do vento e, só depois de algumas tentativas, o acendeu.
O vento tinha se intensificado, e a tarde começava a ir embora. Meus cabelos sacudiam tão forte que aquela touca natalina grotesca se mostrou completamente inútil. Enfiei as mãos nos bolsos da minha jaqueta na tentativa de aquecê-las, quando me espantei com o toque em uma superfície fria e sólida de um objeto ali dentro.
Que diabos era aquilo?
Assim que discretamente vi a tampa prateada, gelei. Era um cantil.
O cantil de .
COMO?
— É melhor a gente ir — ele anunciou, depois de soprar a fumaça.
De repente, fiquei extremamente nervosa. Não sabia o que fazer com aquele cantil e muito menos com a imagem de fumando bem na minha frente. Ele ficava tão... Como posso explicar? Lindo.
Blaze também fumava. Era um pouco sexy, sim, mas não combinava com ele de jeito nenhum. dava um charme especialmente hollywoodiano para a coisa. Ele poderia tragar umas duzentas vezes e, em todas elas, se pareceria com o River Phoenix ou até, sei lá, com o James Dean.
— Espera! Ainda tenho perguntas — pedi quando o vi colocando a mochila de volta nos ombros. Ele parou com o cigarro preso na boca, o que quase me fez dispersar outra vez, mas continuei: — E a vila? Ela existe há muito tempo?
— Aham. É muito antiga. Acho que do final do século passado... Aliás, retrasado.
— Do século retrasado? Você só pode estar de brincadeira — meu rosto brilhou feito estrelinha. — Será que os pertences deixados já foram todos saqueados?
Ele coçou a nuca, tragando de novo.
— Nunca parei pra pensar nisso.
— Como não? — perguntei, inconformada, me pondo de pé logo em seguida. — Tá me dizendo que nunca foi até lá pra descobrir?
— E você tá me dizendo que quer fazer isso? — ele fez uma cara de cansado, deixando o cigarro queimar entre os dedos por alguns segundos a mais.
— Óbvio.
— Óbvio? — a cara de cansaço havia se transformado em sofrimento.
— Óbvio! Acha que vim aqui apenas pra admirar a paisagem?! — insisti, levando minhas mãos à cintura.
deu mais uma longa tragada e também se levantou, soprando a fumaça para longe.
— O sol tá se pondo, a maré tá subindo... É perigoso. Outro dia você volta.
Olhei para o lado, titubeante. Aquela bela paisagem assombrosa me atraía feito ímã. Agora com a informação de que existiam potenciais tesouros esquecidos ali dentro era difícil não sair correndo para tentar encontrá-los. Porém, as ondas ficavam cada vez mais bravas, o céu cada vez mais lilás, e cada vez mais certo.
— Ok… Vamos voltar — suspirei, me dando por vencida.
— Você poderia ter esperneado. Não ia adiantar — ele deu uma risadinha.
— Por que diz isso?
— Não dá pra te levar a sério com esse pompom vermelho em cima da cabeça.
— Ai, meu Deus — puxei o pompom para trás na mesma hora, tentando deixá-lo menos visível. — Sabe, da próxima vez não vou te dar ouvidos.
Ele deu uma gargalhada e contornou a pedra, voltando a caminhar em direção à floresta. Fui atrás.
— Pois deveria — virou para me olhar por um segundo, enquanto descartava a bituca num cinzeiro de bolso. — Não existem muitos caras como eu por aí, não é? Você bem que deveria me dar ouvidos.
— Do que você--
Lembrei.
Lembrei, lembrei, lembrei. Minha cabeça teve o infortúnio de retomar a cena de e Rennie na festa da Phi Kap. Fiquei da cor da minha touca.
Depois de um pigarro, tomei coragem para me pronunciar:
— Vamos esquecer disso pra sempre, por favor? Ou eu nunca vou conseguir olhar na sua cara.
Ele não fez nada além de rir.
— Bom, então, por favor, me dê uma poção de perda de memória instantânea.
— É pra já — falei, parando de andar ao mesmo tempo em que entramos na floresta de novo.
percebeu e também parou, virando outra vez para me olhar, curioso. Foi o momento perfeito para puxar o cantil do meu bolso e arremessá-lo a ele, que, num rápido reflexo, pegou-o com as duas mãos.
— Pronto. Pode se esquecer agora? — voltei a andar e ele continuou parado, meio perplexo. Até o ultrapassei: — E não vou me desculpar, achado não é roubado.
Ganhei um silêncio longo demais como resposta. Olhei para trás e o vi dando uma golada no pequeno frasco. Depois, sorriu ao dizer:
— Pronto. Esquecido.
— … Você é maluco — falei, segurando um sorriso.
— Eu? — ele deu uma curta risada debochada e me ultrapassou de novo. — Quer que eu me lembre de mais ocorridos da festa de ano-novo?
— Não. Não, não quero — fui breve em contestar. — Pode beber esse negócio inteiro pra você se esquecer de absolutamente tudo.
Putz, do que mais ele sabia?
preferiu não dizer nada, só rir. Ele era a pessoa mais bem-humorada e sorridente que eu já tinha visto na vida. E eu estava caindo nessa. Caras com esse tipo de sorriso solto no rosto só existiam nos meus sonhos.

E eu não poderia me acostumar com isso na vida real.


Continua...



Nota da autora: Alguma alma viva aí?
Nem acredito que eu postei esse surto na internet. Nem acredito que tô digitando essa N/A. Isso é real?!?! A Margo de 2011 emburradíssima com o ensino médio nunca ia acreditar numa coisa dessas. Escrever ainda é meu hobby ultrassecreto, por isso precisei de muita coragem pra compartilhar essa história aqui no site (uma ideia que eu carrego já há alguns anos, e depois de tantos rascunhos, revisões e reescritas, finalmente resolvi botar a cara no sol 🤧). E eu só tenho a agradecer às autoras lindas do meu coração que conheci enquanto beta-reader, porque vcs não fazem IDEIA do quanto me inspiram, vocês e suas histórias que eu amo muitoooooo acompanhar.
Atenção, momento tô na Xuxa e vou mandar um beijo pro meu pai, pra minha mãe e pra minha melhor amiga da vida e autora MAIS MARAVILHOSA DO MUNDO que vai receber o link dessa fic em primeira mão, como também sempre leu minhas historinhas secretas e inacabadas da adolescência. Pode entrar, Lan!!!!!! Obrigada por tudo desde sempre, sua bandida ❤️🥺

Clica aí embaixo já que o lixo do Disqus tá bugado:
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