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Última atualização: 18/10/2021

Prólogo

“Catarse refere-se à libertação do que estava reprimido; sentimento de alívio causado pela consciência de sentimentos ou traumas anteriores (...) Ato de liberdade produzido por certas atitudes, principalmente representado pelo medo ou pela raiva.”


Grace Bridgerton nunca fora uma criança calma.
Sempre estava escorregando pelos corrimões, se pendurando em algum móvel, janela ou até mesmo, — como seus pais presenciaram uma vez — nas selas dos cavalos, fazendo-as de balanço. Kate e Anthony, com exceção das vezes que colocavam a vida de sua pequena garotinha terrorista em risco, nunca viram isso como algo ruim. Apesar das dores nas pernas e coluna por viverem correndo atrás dela, viam os joelhos ralados e as barras dos vestidos sujas de terra de como sinônimo de uma infância feliz e livre, como a de toda criança deveria ser.
Entretanto, eles não sabiam dizer se podiam dizer o mesmo agora que completara nove anos e que Mary, sua caçula de apenas um, aprendera a correr e parecia seguir os mesmos passos da irmã mais velha.
Fora em uma tarde de sol fraco no Hyde Park, que, enquanto Mary corria de um lado a outro atrás dos patos — enlouquecendo a mãe e as criadas que temiam que a bebê caísse no lago — ouviu um dos patos grasnando em sua direção enquanto brincava com uma de suas bonecas, sentada sob a grande toalha vermelha de piquenique estendida na grama úmida.
O susto fez com que a menina soltasse a boneca abruptamente sobre a toalha suja, fazendo com que os cabelos de lã daquela que ela decidira nomear como “Dixie” se enchessem de farelos de pão, biscoitos e o que mais tivesse restado ali.
Fora tudo absolutamente rápido, já que na hora que o bando de aves se amontoou sobre o brinquedo, a pequena Bridgerton concluira que era sua vida ou a de Dixie. Mas, como citado anteriormente: ela era uma Bridgerton, e, assim como seus pais, era extremamente competitiva e não desistiria assim fácil de sua boneca preferida.
Logo, corria na direção contrária da mãe atrás da boneca que, agora, estava no bico de um pato seguido por dezenas de outros. E então, milagrosamente, no mesmo instante que a garotinha parou para respirar, o bando parou; fazendo com que o ar que prendia nos pulmões saísse repleto de alívio por seus lábios e um pequeno sorriso se formasse nestes.
Sorriso que não durou, visto que, agora as aves bicavam impiedosamente a pobre Dixie, fazendo com sua dona soltasse um grito agoniado ao assistir a cena, sentindo-se completamente impotente frente às inúmeras aves furiosamente sedentas por um farelo que fosse.
— Dixie! — ela choramingou, fechando os olhos firmemente a fim de não ver o pavoroso cenário que estava a sua frente. Mesmo com os olhos fechados, sentiu as lágrimas se formando em desespero por perder Dixie. Um assobio ressoou e, então, os grandes olhos castanhos se abriram.
O amontoado de patos, agora focados em um petisco provavelmente muito maior, estava um pouco distante do lugar de antes, que, agora era ocupado por um garoto segurando Dixie —, ou ao menos o que restara dela.
Ele usava uma camisa de botões azul e calças curtas da mesma cor em um tom mais escuro. Seus cabelos eram perfeitamente penteados e ele a olhava com preocupação.
— Creio que isso é seu. — ele tentou dar seu melhor sorriso para confortá-la, lembrando das palavras da mãe, de que ele nunca podia deixar uma mulher chorando. caminhou devagar e ergueu a mão trêmula em direção a boneca.
— Minha Dixie… — seus dedos passearam pelo rosto sujo e cabelos arruinados da boneca enquanto seu rosto abrigava uma expressão pesarosa. — Minha boneca preferida. O que direi ao tio Colin?
— Não foi sua culpa. — o garoto de cabelos dourados disse.
— Foi sim, eu não a salvei. Tenho Dixie desde quando era bebê, foi um presente do meu tio, eu a amava tanto… — tagarelou em meio ao choro.
— Por favor, não chore… Eu… Eu… — ele se aproximou, articulando com as mãos — Você pararia de chorar se eu te desse outra boneca?
— Não é só uma boneca — resmungou inconformada —, é a Dixie!
— E o que quer que eu faça? Meu pai geralmente dá joias para minha mãe quando ela está triste ou brava… E, bem, eu não sei onde posso encontrar diamantes pra você. — ele suspirou pensativo — E mesmo que soubesse, não sei se venderiam para um garoto de onze anos…
— Eu não quero diamantes! Mamãe diz que homens só dão diamantes quando vão te pedir em casamento ou quando fazem algo errado, não te vi fazendo nada errado e muito menos quero casar com você, eu nem te conheço! EU SÓ TENHO NOVE ANOS! — Bridgerton tagarelou aos berros, dessa vez fazendo com que a reação do garoto fosse arregalar os olhos azuis em completo pânico.
— Pelo amor de Deus, não! Eu só quero que você pare de chorar! Não quero me casar… Nunca! — ele berrou em resposta — Garotas são pegajosas.
— Os garotos que são nojentos! — ela rebateu, cruzando os braços.
— Gostam de abraçar e ter filhas bonecas e nos fazem ficar pobres de tanto comprar diamantes!
— Vocês que são burros, se não fizessem tanta coisa errada com as mulheres não teriam que comprar tantos diamantes! E você certamente não conhece meninas, eu não sou assim!
— Vocês vivem com esses vestidos cheios de babados e não podem brincar que nem nós, não sabem brincar de amarelinha, nem… — uma risada da pequena Bridgerton interrompeu a fala do garoto.
— Arrume uma vareta que eu mesma desenho a amarelinha e te provo que você não sabe de nada.
Logo ambos pulavam dentro dos riscos improvisados na terra, ambos foram e voltaram três vezes. dera uma quarta volta, pulando até o “céu” e voltando com tamanha desenvoltura, equilíbrio e um sorriso convencido preso aos lábios.
, que, até então, não havia se apresentado para a garota, assistiu enquanto a mais nova pulava fazendo com que os babados de seu vestido e seus cabelos ondulados se movessem com graciosidade. Engoliu seco. O nível de dificuldade aumentando a cada rodada e aquilo mal parecia afetá-la, como era possível?
Ele segurou a pedrinha que a menina lhe entregara e então a jogou. Casa número sete. Depois de respirar fundo, o mais velho começou seu circuito, quando estava quase terminando, o grito da garota o desconcentrou completamente, levando-o ao chão.
— Aaaaaah! Eu ganhei, você perdeu! Eu ganhei, você perdeeeeeu! Você pisou na linha! — ela cantarolou apontando enquanto apenas grunhiu no chão. Só então, chamando a atenção da menina com o vestido verde de babados. — Meu Deus! Você se machucou?
Ela o ajudou a se sentar e em seguida, sentou-se à esquerda dele, olhando-o com atenção.
— Foi só um tombinho. — ele deu de ombros — Parabéns, você ganhou.
— Agora retira o que disse?
— Não. — ele sorriu, desafiando-a.
— Como ousa…
— Calma, calma! — ele ergueu as mãos em prol da própria defesa — Você é exceção, as outras meninas continuam chatas.
— Eu não sou diferente das outras meninas! — ela retorquiu ranzinza, arrancando risadas do garoto.
— Você sempre tem uma resposta para tudo?
— Papai disse que é coisa das mulheres da nossa família. — ela deu de ombros.
— Você é diferente, mas considere isso um elogio. — explicou o garoto de cabelos loiros.
— Obrigada?
sorriu. Em toda a sua existência nunca conheceu uma criança tão desconfiada e tagarela como ela. Aquilo era diferente. Ela era uma menina diferente. E aquilo era estranho e inexplicavelmente adorável.
— Eu já sei um jeito de consertar a Dixie. — ele disse depois de alguns segundos em silêncio, feliz por ver a expressão de esperança e alegria da garotinha. Seus olhos grandes cintilavam. — É esse o nome dela, certo?
Ela assentiu esperando o garoto contar o que havia planejado.
— Minha mãe pode restaurá-la. — ele observou a expressão confusa da garota, só então, lembrando-se que ela era mais nova e provavelmente não sabia o significado daquela palavra. — Digo, ela pode deixar Dixie novinha em folha. Minha mãe é incrível, não há nada no mundo que ela não possa fazer…
— Jura? Uau! Muito obrigada! Eu adoraria! — ela deu pulinhos empolgada e então parou, encarando-o. — Posso te perguntar algo?
— Claro!
— Você disse que não há nada que sua mãe não possa fazer. — assentiu orgulhoso, sob a fiscalização de um olhar sonhador da garotinha, afinal era verdade. A rainha podia fazer tudo o que quisesse. — Ela pode ir para a escola? Meus irmãos disseram que só os meninos podem ir e eu achei isso muito injusto… Sou mais inteligente que os dois juntos, acho que seria legal ir para a escola, sabe?
— Nunca perguntei se minha mãe foi. — ele franziu o cenho, realmente confuso — Mas também acho isso injusto, vou para a Eton em breve e seria legal se você fosse também.
— Seria… — ela murmurou triste — Minha tutora disse que há muitas coisas que meninas não podem fazer.
— Sabe, eu tive outra ideia.
— Você pensa rápido, em?
— Sim, papai diz que tenho uma mente ágil e que isso é algo muito bom.
— Não sei, deve ser mesmo, se ele diz. Mas e então, qual é sua ideia?
— Meu irmão disse uma vez que o mundo está mudando e sempre há coisas que deixam de ser certas ou erradas. — ele explicou, gesticulando com o resto de boneca em mãos — Podemos ser amigos e, então, se as coisas não evoluírem podemos nos casar. Mamãe sempre diz que mulheres casadas podem fazer mais coisas, vai ser bom para você e para mim; já que seremos amigos, não vou precisar ser preso a você e nem sofrerei como os adultos. Afinal, você nunca se apaixonaria por mim, não é?
— Claro que não! Eu sou uma criança, e crianças não se apaixonam. — ela disse como se fosse óbvio. — Se eu puder ir para a escola e usar calças como meus irmãos, eu topo.
— Por mim tudo bem. — deu de ombros estendendo a mão.
— Fechado então.
Ambos se encararam sorrindo até que, um grito desesperado pode ser ouvido.
— ALTEZA! Já está na hora de irmos para casa, vamos! — uma das criadas de gritou e então eles soltaram as mãos. Eles sorriram um para o outro e então o garoto correu em direção a mulher que o chamava, com Dixie em mãos; que, mais tarde quando no castelo, a rainha aceitou restaurar de bom grado.
Alexander achava que crianças não podiam ter problemas que não fossem quando não faziam as lições passadas pelos tutores ou quando quebrassem algo importante para os pais.
Mas ele estava enganado.
Somente quando chegou em casa que ele entendeu que tinha dois grandes. Não tinha a mínima ideia de como faria para entregar a boneca à menina do Hyde Park, de como poderiam ser amigos e de como poderiam cumprir o trato firmado. O segundo problema, e talvez o maior de sua existência até então, que o perturbaria por anos; era que ele ao menos sabia o nome dela.
E isso arruinava tudo.


Capítulo 01

Viajar e conhecer os mais diversos cantos do mundo era, sem sombra de dúvidas, algo encantador. Entretanto, nem os monumentos, oceanos e as mais diversas paisagens a qual os olhos humanos são capazes de observar e na memória prazeres incomparáveis guardar, poderiam exemplificar o alívio que era voltar para casa.
Os ombros relaxam, os olhos se atentam buscando detalhes de memórias confortáveis, o ar escapa dos pulmões até sair pelos lábios em um longo e delicioso suspiro de paz, e junto com ele, traz um sorriso de prazer e familiaridade. O príncipe mais novo da família poderia rodar o mundo atrás da liberdade, mas nenhum outro lugar o fazia se sentir tão livre e tão em paz como seu próprio lar.
Liberdade.
Era tudo que buscara em toda sua vida. Tratava-se de sua meta, seu propósito, seu estilo de vida. Mais que tudo isso, o rapaz de cabelos dourados e sorriso encantador encarava como sua missão na vida: mostrar que não precisava de ninguém para ser feliz, que não precisava se casar para atingir o auge de sua existência, que a liberdade, sim, era a resposta para tudo.
O que, claro, ia contra todas as expectativas depositadas em um príncipe e tratava-se de um dever. Afinal, um membro da realeza — como ouvira em toda sua existência vindo de sua mãe, a rainha Elle — deve ser uma figura exemplar para seu povo e o casamento deveria ser o principal dos exemplos a serem passados.
Mesmo que fosse o segundo na linha de sucessão ao trono. Errônea a percepção de quem acha que o fardo é menor para o filho caçula, pelo menos não quando se tem uma mãe como a rainha Elle Josephine , que tinha como principal objetivo ver seus filhos casados com boas moças.
Ele achava completamente errado que o casamento fosse de valorização primordial e que a educação, que era um ponto importantíssimo já que o conhecimento é o maior bem que alguém pode adquirir e que é essencial para viver, fosse tão banalizada, negligenciada e que somente os mais favorecidos tivessem acesso.
Mas era óbvio que isso nunca entraria na cabeça de seus pais, que eram só um reflexo da sociedade inglesa de mente fechada. Já tivera inúmeras discussões e costumava implicar com a mãe em relação a isso. Mas, assim como qualquer pessoa, cresceu e aprendeu que precisa escolher as batalhas que deve lutar e as que deve ignorar.
Bem, na opinião dele, essa era uma das discussões que preferia ignorar. Nesse intuito, passara os últimos dois anos viajando pelo mundo.
Era evidente que sentia falta de casa, dos pais, do irmão e de toda a sua vida em seu país de origem. Mas claro que, em consequência da luta incessante pela própria liberdade, aprendera a viver sozinho e aproveitar a própria companhia.
Por anos aquilo realmente bastara. gostava de não ter toda a atenção que tinha em Londres, gostava de conhecer lugares novos e gostava de não ter que comparecer a bailes sem graças com debutantes e suas mães que se atiram como se um casamento fosse a resolução de todos os seus problemas.
E na realidade, era. Já que o fracasso ou ascensão de uma mulher na sociedade se resumia ao fato dela ser ou não casada.
Entretanto, nos últimos meses o príncipe mais novo começou a sentir falta de casa. As águas marítimas não lhe chamavam tanta atenção já que sentia falta das águas escuras e tranquilas do Tâmisa, nenhuma bebida era como seu uísque preferido que era produzido somente em sua Londres de céu acinzentado e até mesmo o silêncio se tornara perturbador sem o falatório incessante da rainha Elle, conversas animadas com o rei Joseph ou simplesmente a presença de seu irmão mais velho, o príncipe .
O estopim para sua volta fora exatamente a carta dele, contando que o rei não se encontrava em boas condições de saúde e que, em momentos assim, a família deveria ficar unida. Além do apelo especial do herdeiro de que precisaria do apoio do irmão para assumir suas responsabilidades com a coroa.
O palácio continuava da mesma forma que na última vez que o vira, desde os jardins repletos das habituais glicínias, rosas, camélias e magnólias até a pintura clara das paredes. Assim que os grandes portões se abriram e a carruagem tornou a andar, suspirou, aliviado por finalmente chegar em casa depois de uma extensa e cansativa viagem e, de certa forma, preocupado, visto que algo dentro de si dizia que seu retorno era definitivo.
Era chegada a hora de retornar e encarar as responsabilidades de que ele tanto tentara se afastar.
Assim que adentrou o hall principal fora tomado pelos braços da mãe em um abraço quente e energizante, algo que ele nem sabia que precisava até receber de fato. fechou os olhos, aproveitando o afago nos cabelos que recebia e inalando o cheiro inconfundível do perfume da rainha.
— Ah , meu filho… — a rainha murmurou, o apertando ainda mais e então desferindo-lhe um tapa forte no ombro assim que se separaram — Nunca mais fique tanto tempo fora de casa. Um dia ainda me mata de tanta preocupação, seu desmiolado!
— Também senti sua falta, mamãe.
— Depois de dois anos tenho direito a receber um abraço? — a voz de se fez presente, fitou o irmão por alguns instantes enquanto este se aproximava — Ou é uma demonstração de afeto muito sofisticada para vossa alteza?
— Cala a boca. — retrucou, tomando o irmão em um abraço forte. — E o papai?
O príncipe notou a sua mãe e irmão mais tensos.
— Está nos aposentos reais. — explicou, tentando sorrir enquanto caminhavam na direção da sala de jantar — Fica o dia todo lá devido à dificuldade na marcha. Podemos almoçar e depois subimos para vê-lo, o que acha?
— Acho que o rei se sente muito solitário fazendo todas as suas atividades no leito. — murmurou, observando os criados correndo para colocar a mesa devido a sua chegada inesperada. — Podemos pegar os pratos e subir para fazer companhia a ele, o que acham?
— Não é o adequado, meu filho… — a rainha comentou receosa.
— Não é o adequado, mas o deixaria feliz. — o príncipe caminhou até a mesa, pegando um dos pratos postos para si e outro para o pai — Já é ruim demais estar doente, mas se sentir sozinho e abandonado é mil vezes pior.
— Faz sentido, mãe. Acho que ele ficaria feliz de ter a família reunida para uma refeição agradável. — concordou com o irmão.
A rainha ponderou por alguns segundos sob os olhares atentos dos filhos. Elle sorriu e caminhou pegando um prato pra si.
— Vamos logo.
Os três subiram as escadas em silêncio, foi por último, para surpreender o pai com sua chegada. Assim que a rainha abriu a porta, uma tosse seca e alta ressoou pelo cômodo.
— Querida… ? — perguntou com dificuldade em meio a crises de consecutivas tosses — O que fazem aqui?
— Viemos fazer um almoço em família. — adentrou o quarto, com os pratos em mãos.
O rosto de Joseph se iluminou, concluiu que se estivesse em perfeita forma, talvez ele tivesse saltado da cama.
— Meu filho! Ah, … — o rei Joseph murmurou com a voz fraca quando foi abraçado pelo filho — Senti tanto sua falta.
— Também senti falta de vocês, pai. — o mais novo respondeu enquanto ainda era segurado pelos ombros.
— Vamos comer, sentem-se. Enquanto isso você nos conta sobre suas viagens,
— Não creio que posso explicar tudo que vi com simples palavras, pai. — sorriu, enquanto sentava-se sobre o lençol de seda que cobria o pai e toda a extensão da cama em que ele se encontrava. — O mundo é muito belo para que passemos a vida inteira em um único lugar. Não conheço tudo, claro, mas Itália, Grécia e Egito foram amostras espetaculares.
— Você precisa sossegar, . — Elle retrucou, a voz esbanjando insatisfação enquanto assistia o filho rolar os olhos.
— Eu jurava que ia demorar pelo menos um dia para tocar nesse assunto, mãe. — ele fez uma careta, arrancando risos baixos e discretos dos outros dois homens enquanto a rainha continuava discursando.
— Não é em lugares como esse que encontrará uma esposa digna, além disso, não é adequado ficar longe da sua família… O que fará quando tiver uma esposa e filhos? Está na hora de crescer e assumir suas responsabilidades, não?
— O purê está gostoso, não? — perguntou ao pai que assentiu rapidamente, segurando o riso. Já não estava bem de saúde, não queria acabar de ser morto pelas mãos da esposa.
— Falando nisso, quais são seus compromissos para hoje? — questionou a rainha.
apenas deu de ombros.
— Não é como se eu tivesse outra opção que não ir ao compromisso que você já planejou. — respondeu sem nenhum resquício de ânimo na voz.
— Achei mesmo que não teria nenhum plano. — ela sorriu, como se não tivesse escutado a provocação dele — Hoje é o baile de aniversário da filha do visconde, ela é considerada o diamante da temporada. Como o boato da sua volta já se espalhou por toda Londres seria uma tremenda indelicadeza não aparecer.
— Realmente, meu irmão, uma descortesia. — colocou fogo na fogueira, sendo fuzilado pelo mais novo como resposta.
— Seria compreensível, na verdade. Eu cheguei hoje! — murmurou nervoso, mas suspirou dando-se por vencido, não queria brigar com a mãe e indispor ainda mais o pai. — Mas tudo bem, estarei lá.
— Ótimo, vou pedir que providenciem sua máscara e uma fantasia.
— Ah não! Aí não, majestade! — olhou a mãe, implorando por piedade enquanto o cretino de seu irmão ria baixinho, acompanhado do pai, que parecia se divertir com a discussão familiar. — Eu já estou fazendo o favor imensurável de ir, agora me fantasiar é pedir demais. Um traje formal já servirá, já tenho um.
— Feito, mas ainda precisa de uma máscara. — A matriarca ergueu uma sobrancelha e o rapaz bufou, Elle adorava quando os filhos recorriam a ela como a única opção para ajudá-los.
— Certo, mãe. Preciso que providencie isso para mim, por favor. — deu-se por vencido, mas ergueu o dedo como se avisasse a mãe — Mas, por favor, algo preto, simples e que não chame atenção.
A mulher bateu palmas repetidamente, animada e então saiu dos aposentos reais. soltou um suspiro alto e sôfrego contrastante com as gargalhadas do príncipe e do rei.
— Fez bem em não implicar, ela vê como se você estivesse em dívida com ela pelo tempo que passou fora. — explicou, dando-lhe tapinhas no ombro.
— Eu não quero me indispor com ela, mas ela torna essa missão completamente fadada ao fracasso. — praguejou o mais novo.
— Se os planos dela de casar seu irmão funcionarem logo ela te esquecerá. — fora a vez do rei de tentar confortar o filho que riu, irônico.
— Ou pior… Depois que ela casar se sentirá ainda mais determinada a fazer com que eu me case também. — os outros dois o encararam, como se refletissem acerca da conclusão de . Era exatamente isso que aconteceria, mas eles não diriam nada para não desanimar o mais novo, então apenas se entreolharam e caíram na gargalhada mais uma vez. O mais novo dos bufou, não conseguindo controlar a seriedade por tanto tempo e deixando-se levar pela onda contagiante de risadas.
Apesar dos pesares, era bom estar de volta ao lar.

🐝🐝🐝


Bailes de máscaras costumavam ser comuns na família Bridgerton, ainda mais depois que a história de Benedict e Sophie se tornou uma lenda, uma espécie de meta de romance a ser atingida. , a terceira filha do visconde Anthony Bridgerton e de sua esposa Kate, era uma das mais fiéis admiradoras da história dos tios e fora por esse motivo — e outros como ser extremamente curiosa e apaixonada por um bom mistério — que escolhera essa temática para o baile que celebraria seus vinte e um anos.
Evento esse que também daria início a alta temporada.
Mas a garota já se arrependia amarguradamente a cada puxada que recebia em seus longos cabelos ou a cada espetada acidental de um alfinete mal posicionado em seu vestido.
Seria perfeito, na percepção dela, se pudesse usar simplesmente os cabelos longos e castanhos soltos e que o vestido viesse sem haver necessidade de ajustar em seu corpo. Isso sem mencionar a quantidade de maquiagem que, por sorte, conseguira negociar com sua camareira Claire para que fosse algo sutil.
Diferente do que as moças costumavam usar em eventos como esse.
gostava de pensar que, antes de um evento para arranjar um bom marido, o baile de hoje era para celebrar sua existência, para rever os tios e primos que ela não via com tanta frequência e, principalmente, para se divertir.
Quando finalmente o relógio marcou às 19h50 (dez minutos antecedendo o início da festa), Claire sorriu para a garota e a liberou do que a mesma considerava uma sessão de tortura. relaxou os ombros, completamente aliviada e então dirigiu-se ao espelho adornado de ouro para verificar o resultado. Seus cabelos estavam presos em uma trança volumosa que caía por seu ombro esquerdo com graciosidade e tinha algumas mechas onduladas soltas emoldurando seu rosto a fim de dar um ar descontraído ao penteado, além das pequenas flores vermelhas e brancas colocadas despretensiosamente ao longo do comprimento de seus fios castanhos. Sua maquiagem era como pedira: sutil e delicada; destacava seus traços mais bonitos e a deixava iluminada, com um ar luxuoso.
E o vestido… Ah, o vestido. soltou um suspiro satisfeita e rodopiou lentamente a fim de observar cada detalhe. Era um pouco mais ousado do que estava acostumada a usar, mas era uma ocasião especial. A peça de seda era em um tom de salmão, sua saia tinha um volume moderado, as mangas longas eram bufantes em um tule do mesmo tom e tinha um decote sutil que ia de ombro a ombro e formava um pequeno “V” no centro que era contornado por flores semelhantes às de seus cabelos.
, filha, você está pronta? — pode ouvir-se a voz de Kate pelo corredor — Está na hora de descer para cumprimentar alguns convidados e seus tios que já estão lá embaixo… Uau!
A viscondessa parou de falar e abriu um grande sorriso ao admirar a filha, caminhou até ela e segurou suas mãos.
— Você é perfeita, querida. Mas hoje está especialmente linda. — os olhos da matriarca brilhavam. — Modéstia à parte, seu pai e eu somos artistas com belíssimas obras em exposição.
— Com sua contribuição majoritária, claro. — piscou.
— É óbvio, mas não diga isso perto dele. — as duas riram juntas — Sabe como seu pai pode ser sentimental quando quer.
— Como sei, mamãe… Podemos descer, então?
— Vou chamar seu irmão para acompanhá-la, só um instante.
Logo Miles, o segundo da prole não tão extensa de Anthony e Kate, adentrou o cômodo, com um sorriso debochado nos lábios.
— Quer matar o pai e o Edmund do coração, mana? — elogiou, oferecendo-lhe o braço.
— E você também.
— Eu não, querida irmãzinha. — ele piscou enquanto eles caminhavam pelo corredor que dava até as escadas do salão. — Quero distância da sua vida amorosa, obrigado.
— Eu também fico grata. — ela fez uma careta. — Alex, Will e Let já chegaram?
— Sim, com o tio Benedict e a tia Sophie. — Miles deu de ombros.
— Está muito cheio lá embaixo? — perguntou nervosa, não era muito favorável a multidões. Mas calhara de seu aniversário ser o primeiro evento da alta temporada social, então, por mais que seus pais não ligassem, segundo sua avó Violet Bridgerton aquele deveria ser um evento grandioso.
— Claro que está. Só nossa família já enche o salão… — ironizou tentando tranquilizar a irmã, mas tudo que recebeu em troca fora uma careta angustiada da mesma. — Certo, o que posso tentar fazer para ajudá-la?
— Uns copos de conhaque resolveriam. — quem dava de ombros agora, tentando parecer confiante.
— Posso surrupiar uma garrafa para mais tarde. Agora, sorria para esse bando de gente desocupada e fofoqueira como a recatada moça que nossos pais te ensinaram a ser.
segurou o riso enquanto apertava o braço do irmão. Era impossível não se sentir confortável quando Miles estava por perto. E então, pôs-se a descer a enorme escadaria enquanto ajustava a máscara dourada no rosto.
A decoração do salão principal estava tão digna quanto a garota imaginara, tinham camélias e lírios brancos assim como tecidos vermelhos e dourados por todas as partes e as inúmeras velas que tornavam a atmosfera romântica e aconchegante. Melodias de Brahms tocavam ao fundo e os criados andavam de um lado para o outro para servir os convidados que já haviam chegado, que no final de contas, nem eram tantos assim.
Quando Miles e chegaram ao final da escadaria, seus pais os aguardavam com Edmund.
— Você parece uma princesa, querida. — Anthony sorriu abobado para filha, como se não estivesse sendo observado. Nem se importava, na realidade.
era sua menininha, a que tinha um sorriso iluminado, que o deixava com os cabelos em pé desde o dia que nascera, a que o tinha como porto seguro, a que gostava de dançar sendo guiada por seus pés, a que pedia colo quando as tempestades vinham exatamente como a mãe fazia e, em outros vários quesitos, dos quatro filhos, a que mais se assemelhava a Kate. Era incrível ver o quanto o bebê que ele embalou incontáveis noites até o sono chegar havia crescido e se tornado uma mulher forte e decidida acerca de seus ideais.
— Sinto que precisarei manter os olhos em você a noite toda. — o visconde declarou enquanto beijava-lhe a testa.
— Papai!
— E eu vou ajudar! — Edmund apoiou.
— Mãe! — protestou em busca do apoio da mãe que riu.
— Pode deixar, querida. — a viscondessa piscou para a filha — Manterei os dois devidamente ocupados e bem longe de você.
— O que é isso? Anthony voltou a ser fiscal dos pretendentes alheios? — Eloise Crane chegou encarando o irmão na companhia de seu marido, Phillip.
— E o meu irmão sem um pingo de noção ou personalidade se tornou um belíssimo aprendiz, tia. — abraçou os tios.
— Se não fizer isso, não é ele. Mas a conheço o suficiente para saber que você é capaz de driblá-los, querida. — Eloise piscou na direção da sobrinha que sorriu em resposta.
Os minutos seguintes passaram da mesma forma, cumprimentou os tios Gregory e Lucy, Hyacinth e Garreth, Daphne e Simon, Francesca e Michael, sua avó Violet e sua avó Mary, sua tia Edwina e o marido — céus, só de pensar em toda essa quantidade de gente ela se cansava — , e então agora, conversava animadamente com os tios Colin e Penelope quando Benedict, Sophie e os primos se aproximaram.
— Sei que não aguenta mais dar oi para a família, mas tem um tempinho para seus tios e primos favoritos? — Benedict brincou enquanto abraçava a sobrinha.
— Todos nós sabemos que eu e Penelope somos os tios favoritos dela, meu caro irmão. — Colin entrou na brincadeira, fingindo estar sério até a bandeja de aperitivos passar.
— Certo, e é na casa de quem que ela passa mais tempo mesmo?
— Claro, ir para a roça é um evento. Isso não justifica!
— Adianta eu tentar falar alguma coisa? — murmurou enquanto abraçava a tia.
— Nem perca seu tempo, querida. — ela abanou a mão ao se separarem, só então a garota pode notar as vestes da tia.
— Tia! Esse vestido…
— É aquele vestido… — Violet completou
Sophie sorriu dando uma pequena volta com o vestido prateado, aquele que, mesmo sem nunca ter visto de fato, reconheceria em qualquer lugar. Ela e Violet — a caçula deles, que levava o nome da avó — pediam que a história da noite em que Benedict e Sophie Bridgerton se conheceram fosse contada praticamente todas as noites em que passavam juntas.
— Pedi à costureira que fizesse três réplicas… Essa que estou usando, uma para Violet e… — Sophie ergueu uma caixa decorada para a sobrinha — Uma para você.
Os olhos de marejaram de imediato. Sentia-se sortuda por ter uma família tão especial, que — mesmo de maneira peculiar — fazia todos se sentirem únicos.
— Eu só desejo que um dia, você encontre alguém tão bom quanto seu tio é para mim, . E que esse vestido te dê noites maravilhosas, assim como aquela que eu tive.
— É o hoje que morro diabético com tanto doce, céus. — resmungou Will com Alex e Charles.
— Ah, calem a boca. — Violet lhe deu uma cotovelada e então virou-se para a prima para cumprimentá-la de fato.
Depois de bons minutos imersa na conversa com os primos, notou que o salão começara a encher cada vez mais. Fora a deixa perfeita para que a avó paterna a arrastasse para cumprimentar os convidados.
O primeiro a ser escolhido — não por mera coincidência do acaso — fora o príncipe , que, mesmo sem demonstrar interesse algum em se casar desde que debutara no ano anterior, se tornou o desafio pessoal da predecessora dos Bridgertons. O que resultou, é claro, em alguns diálogos monossilábicos e só.
recebeu muitos pedidos, mas nenhum que lhe despertasse a vontade latente de se casar. Não apreciava nenhum cavalheiro tanto assim para tal, e não era como se Anthony e Kate cobrassem dela um casamento imediato, o que a deixava mais livre ainda para levar o tempo que achasse necessário para escolher.
— Majestade. — a aniversariante curvou-se na direção da rainha, repetindo o mesmo gesto com o príncipe.
— Senhorita Bridgerton, muito obrigada pelo convite. — a rainha cumprimentou. — Já conhece meu filho e logo conhecerá meu filho mais novo, o príncipe .
— É um prazer tê-los aqui. — sorriu.
— Felicitações, senhorita Bridgerton. — o príncipe tomou uma das mãos da mais nova, depositando um sutil beijo por cima do tecido fino da luva. — Ficaria honrado se a senhorita reservasse uma dança para mim.
— Claro, alteza. — ela tentou não parecer desconfiada ao sorrir, mas fora impossível. Grace Bridgerton era completamente transparente quando queria. — Se me permitem, vou cumprimentar os outros convidados para depois procurar meu pai para abrirmos a, ahn, pista...
— Claro. — a rainha disse sorrindo, assim como o filho.
Não era novidade alguma para que pessoas do sexo masculino, na maioria das vezes, são esquisitas e imprevisíveis. Seu pai e seus irmãos eram ótimos exemplos disso, viviam mudando de ideia, fazendo coisas sem pensar e depois vindo recorrer a ela ou a mãe. Mas, ainda assim, a aproximação do príncipe a deixou curiosa. Não era um sinal claro de que ele planejava cortejá-la, mas era algo a mais do que as conversas curtas que tornavam a palavra diálogo algo utópico e inatingível, então ela se deixou devanear acerca do assunto enquanto caminhava pelo salão e dizia a pessoas que sequer havia visto na vida que era ótimo tê-las ali.
Assim que, a grosso modo, grande parte dos convidados — lê-se os considerados bons pretendentes para a neta de Violet Bridgerton — foram devidamente recebidos, as duas caminharam até Anthony que já esperava a filha para a habitual primeira dança.
Aos olhos dos outros era algo ultrapassado para a idade que completava, mas ela não renunciava às tradições instauradas pela própria família, que eram de grande valia para ela. Era completamente compreensível que, com uma família tão numerosa e proporcionalmente afetuosa, ela se importasse e valorizasse tanto a todos, sobretudo seus pais.
Sua primeira dança sempre seria com o pai e, mesmo depois que se casasse prezaria sempre por guardar uma dança para aquele que era sua figura preferida do sexo masculino em todo o mundo. Aquele que, independentemente do que ela fizesse, certa ou errada, estaria do lado dela para ajudá-la.
— Pronta, querida? — Anthony questionou, enquanto posicionava-se para iniciar a dança com a filha, que assentiu sorrindo.
— Sempre, pai.
Quando a música soou pelo salão, deixou-se ser guiada pelo pai, enquanto valsavam ao redor do salão.
— Sua avó não desiste de tentar te jogar para o príncipe mesmo.
— Eu não ligo. — a menina deu de ombros — Não pretendo me indispor com ela e sei que, mesmo que eu escolha alguém que não seja de uma classe privilegiada, ela ficará feliz. Assim como você e a mamãe.
— Às vezes é melhor só escutar e concordar com sua avó, você até que aprendeu rápido.
— Vinte e um anos é rápido? — ela sussurrou ao ver que casais já se juntavam a eles na pista de dança.
— Eu demorei vinte e oito… E devo salientar que alguns de seus tios até hoje não aprenderam. — foi a vez de ele dar de ombros, com uma careta engraçada e logo acompanhou a filha na risada.
A música terminou e então a menina cumprimentou o pai curvando-se e movimentando levemente a saia do vestido com uma das mãos. Enquanto o patriarca apenas sorriu, satisfeito e repleto de orgulho da mulher que a filha se tornara enquanto depositava um beijo carinhoso no dorso de sua mão.
— Visconde Bridgerton. — uma voz saldou, levando o par de olhares de pai e filha até a figura do príncipe que, sabe-se lá quando materializou-se na frente deles. Anthony acenou com a cabeça, murmurando a saudação adequada em resposta. — Gostaria de ter a honra de dançar com sua filha.
— Perdoe-me, alteza, mas não é a mim que deve pedir. — o senhor Bridgerton meneou levemente a cabeça em direção à filha, com uma expressão séria que quase fez com que a garota gargalhasse.
— Ele já pediu, pai. — comunicou — Se me der licença.
aceitou a mão que o príncipe lhe estendia educadamente, e meneou levemente a cabeça em um diálogo mudo com o pai, que fez uma careta engraçada enquanto parecia considerar e então, fez um aceno afirmativo em seguida. Era o suficiente, ela sabia que o pai não tinha nenhuma ressalva em relação ao rapaz.
Quando a música tornou a tocar, era chegada a hora de dançar com o príncipe . No fundo, a aniversariante só pedia que não ficassem no habitual silêncio constrangedor.
— Sei que minha aproximação repentina pareceu estranha, senhorita Bridgerton. — o rapaz sorriu incerto, também parecia pisar em ovos quando estava com ela.
— Sem querer soar indelicada, mas pareceu sim, alteza. — soltou em um tom de voz divertido, observando-o relaxar mais.
— Gostaria de ser seu amigo, senhorita. — declarou simplesmente, os olhos verdes a encarando com cuidado. — E devo ressaltar que com a senhorita me chamando de alteza, isso parece algo, hm, inalcançável?
não conseguiu evitar o riso.
— Nunca ninguém pediu para ser meu amigo, alteza. — ironizou ela — As pessoas geralmente não fazem isso. Mas eu apreciaria uma amizade entre nós, sim. Claro, se deixar de me chamar de senhorita!
Ele a acompanhou dessa vez, cada vez mais o riso tornando-se mais leve e fácil, e deixando claro para ambos que, não era tão difícil assim estar na companhia um do outro.
— Como prefere que eu o chame? — perguntou, arqueando a sobrancelha, como sempre fazia quando estava curiosa.
— Pelo nome, ou simplesmente como .
— Ótimo, . — frisou, observando a expressão de agrado dele — Me chame de , então.
A partir dali, parecera que nunca na vida ambos se sentiram tão desconfortáveis na presença um do outro. Era extremamente fácil gostar do príncipe , o que tornava agradável estar diante da presença dele.
— Acho que gostaria de uma limonada antes da próxima música. — ela disse, subitamente, depois de uma agradável conversa sobre Shakespeare. — Mas antes, devo lhe dizer que me surpreendi positivamente com você.
— Sério? — ele levantou a sobrancelha direita, em uma apreciável expressão confusa.
— É, digo... Você quer ser meu amigo, não veio me cortejar com cantadas baratas como o enxame de homens solteiros geralmente faz. E eu aprecio sua sinceridade, de verdade.
— Eu fico lisonjeado , mas isso não significa que eu não tenha a intenção de cortejá-la. — ele deu de ombros com uma feição descontraída enquanto a garota semicerrou os olhos, curvando-se ao final da melodia.
— Vou buscar minha limonada, então. — ela o mediu descaradamente com o olhar e então tombou a cabeça levemente para o lado — Mas ponto para você, alteza.
E então Bridgerton, se retirou, deixando o príncipe com um sorriso gentil e inesperadamente roubado nos lábios.

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rondou o salão com o olhar, observando a decoração e o habitual cenário que sabia de cor. As conversas forjadas, quando, claramente ninguém gostaria de estar ali; os olhares de desespero vindos dos rapazes desconfortáveis quando uma mãe arrastava sua filha debutante em direção a ele e, então os rostos conhecidos de alguns rapazes Bridgertons que conversavam animadamente em um canto perto das limonadas.
— Ora se vossa alteza não resolveu voltar para casa. — Miles verbalizou, alto demais para o considerado adequado e então, seu irmão Edmund, William, Charles e Oliver. Os conhecia de sua época em Eton e também na Universidade.
— Vocês não têm ideia do alívio que é encontrar pessoas conhecidas nesse mar de gente estranha.
— Ah nós temos, sim. — William deu tapinhas em seu ombro.
— Não acho que seja complicado quando metade dos rostos que você encontra aqui faz parte da sua família. — debochou.
— Ainda pretende continuar negando que sua mãe no final sempre tem razão? — Oliver questionou, recebendo uma careta em resposta.
— Eu ainda pretendo fingir que tenho algum controle da minha vida, obrigado.
— Se casar não pode ser tão ruim quanto parece. — Edmund concluiu, pensativo.
— Você diz isso por que está completamente de quatro pela senhorita…
— Primeiramente, vai se foder Miles. — Edmund bateu no irmão, o interrompendo.
— Espera, espera… Você? Apaixonado?
— Não eu…
— Não é como se você precisasse de um casamento. É só uma forma de ter alguém completamente dependente de você ou, na pior das hipóteses, você ser o dependente. — começou seu habitual discurso em meio a risadas dos outros rapazes.
— Fora esse cenário pavoroso que temos que enfrentar para conseguir uma esposa. — William fez careta.
— Cada ano que passa eu concluo que as mulheres, de todas as idades, se tornam cada vez mais desesperadas por um casamento. Sejam as mães ou as debutantes... Por Deus, um casamento não vai salvar a vida de ninguém! — ele argumentou, notando os olhares estranhos dos outros cinco para algo atrás dele.
Então o tilintar da concha batendo na travessa de cristal que abrigava a limonada fez com que ele virasse e a encontrasse. A garota de vestido rosado, muito bonita por sinal, o encarava esperando que o discurso dele continuasse, com uma carranca clara de desaprovação.
— Típico. — ela riu, levando o copo até os lábios enquanto seus olhos castanhos pareciam congelar o cenário em volta na medida que encaravam , que engoliu seco sentindo-se acuado e em, partes atraído por ela. — Agradeça por ter o privilégio de não precisar que um casamento salve sua vida e por favor, me procure quando tiver o gosto não poder estudar como um homem, andar sozinho como um homem, festejar livremente como um homem, beber como um homem ou ser libertado de qualquer julgamento exatamente pelo simples fato de ser a droga de um homem.
Ela o olhou com severidade e então abriu um sorriso forçado.
— Sério, me procure. Faço questão de ver se o seu relato de pobre coitado macho sofrido continuará o mesmo.
piscou. Várias vezes, dando-se conta de que a garota já havia dado as costas apenas quando escutou as risadas e sentiu, mais uma vez, tapinhas nas costas.
Dessa vez vindos de Miles, que esbanjava um sorriso orgulhoso.
— Encantadora minha irmãzinha, não?


Capítulo 02

Se a música no salão não soasse tão alta seria provável que o som dos saltos de pudessem ser ouvidos por todo o ambiente. Ela marchava para longe dos rapazes com raiva, fulminando nenhum ponto específico e bebendo a limonada como se fosse um amargo e revigorante copo de álcool.
— Ei! — a Bridgerton ouviu uma voz familiar e então sentiu um toque suave em seu antebraço.
Florence Nightingale¹, sua melhor amiga, a encarava em um misto de diversão e preocupação. Afinal, ela sabia que poucas coisas deixavam daquela forma, muito menos no dia em que fazia aniversário, que era claramente seu dia favorito do ano, onde praticamente nada abalava seu bom humor.
— Vai cometer um assassinato ou vai abraçar sua melhor amiga depois de tantos dias?
A mais nova nada disse, apenas jogou seus braços ao redor da amiga a apertando em um saudoso abraço. Ela não esperava que a amiga voltaria de viagem a tempo do baile, visto que estava na Itália há quase um mês.
— Deus! Eu não acredito! — murmurou, aliviada enquanto se separavam do abraço demorado. — Eu pensei que você não conseguiria chegar… Céus! Estou tão aliviada que tenha chegado! Senti tanto sua falta…
Florence riu enquanto a amiga tagarelava sem parar.
— Desci do barco, passei em casa para um banho e vim. — Nightingale sorriu, parecendo tudo menos cansada. Quando pensou em ralhar e mandá-la para casa para descansar ela murmurou um “shh” — Meus pais te mandaram felicidades e pediram desculpa pois estavam exaustos demais para vir, então permitiram que eu viesse com minha dama de companhia e que eu dormisse aqui para matar a saudade. Isso é, claro, se estiver tudo bem para você e seus pais. — Peça isso a minha mãe e ela vai te estapear. — riu — Você é de casa, garota! Onde já se viu não estar tudo bem em você dormir aqui…
— Eu sei, idiota. Estava sendo educada. — Florence acompanhou a amiga na risada e então deu de ombros. — Ainda bem que cheguei a tempo de te impedir de cometer um crime de ódio. Anda, me conta o que houve.
bufou, sabendo que não conseguiria não contar nada a Florence. A amiga com certeza a faria falar, de qualquer forma.
— Um homem estragou meu dia.
Grace Bridgerton! — Florence ralhou indignada — Você está se ouvindo?
— Eu sei, é patético… — ela começou enquanto ambas caminhavam juntas para um dos cantos do salão.
— É claro que é patético, onde já se viu… Você? Abalada por conta de um homem estúpido?
— Não estou abalada! — quase gritou em ultraje — Estou indignada, para ser sincera. Como deixei que convidassem um sujeito como esse para minha festa?
— Quem é? — quis saber Florence, com as sobrancelhas erguidas em curiosidade.
— Graças a Deus eu não sei. — respondeu a mais nova em um suspiro enquanto terminava seu copo de limonada — E tenho a doce esperança de nunca saber.
Quando Florence e começaram a conversar brevemente sobre a viagem que a mais velha fizera, Violet apareceu para carregar a neta pelo salão mais uma vez.
— Ande, querida! — ela a cutucou sorrindo — A rainha quer te apresentar ao príncipe .
— Ah, claro… — a garota murmurou desconfortável, estava com saudades de Nightingale e queria colocar as fofocas em dia. Mas respirou fundo, sorrindo da forma mais agradável que pode, era a rainha, afinal. E ela e a amiga teriam a noite inteira para conversar se assim optassem.
O tal príncipe estava de costas, conversando com a mãe. Assim que a rainha avistou a aniversariante, ela sorriu e então a indicou com a cabeça para o filho. Quando o príncipe se virou, desejou com todo o seu ser que houvesse um buraco para se enfiar.
Por que diabos Edmund, Miles e os primos não a avisaram que ela ofendera o príncipe? Não que agora ela desejasse retirar o que havia dito, afinal, sua opinião não mudara nos poucos minutos que passaram desde o fatídico encontro dos dois, mas nunca era bom conquistar a inimizade de um membro real. Ela era sincera, mas ainda não era maluca.
— Senhorita Bridgerton! — a rainha saldou mais uma vez, enquanto ela se aproximava no encalço da avó.
— Majestade. — ela reverenciou com a voz fraca sob o olhar curioso e debochado do rapaz com a máscara preta. Mesmo com um anteparo cobrindo parte considerável de seu rosto, mesmo sem sequer conhecê-lo a fundo, sabia que ele ria dela internamente.
— Gostaria de lhe apresentar meu filho mais novo, príncipe Alexander .
— Ah! Claro… É um prazer alteza. — a garota reverenciou ressabiada, tentando não demonstrar sua raiva e altamente tentada a pisar nos impecáveis sapatos reais.
O príncipe ergueu uma das sobrancelhas sorrindo vitorioso por ter a oportunidade de descontar o desconforto que ela o causara a altura.
— Igualmente, senhorita Bridgerton. Estou encantado de finalmente conhecê-la. — disse levando o dorso da mão da garota aos lábios, plantando ali um beijo sutil por cima do fino tecido da luva enquanto mantinha os olhos fixos na imensidão das orbes castanhas que transbordavam irritação.
O sorriso de Bridgerton poderia parecer dócil na visão de qualquer outro ali, mas não para ele. conseguia enxergar com clareza que, se estivessem a sós, certamente as mãos dela estariam apertando seu pescoço.
E definitivamente não era no sentido bom do ato.
— Ah, que belíssima melodia! — a rainha comentou em harmonia com o olhar mal-intencionado da antiga viscondessa. — Por que não a tira para dançar, ?
Ele costumava aceitar pedidos desses por livre e espontânea pressão, mas não naquela noite. estava determinado a esbanjar seu sorriso convencido e irritar ainda mais a aniversariante, então assentiu de bom grado.
— Seria uma honra. Aceita minha companhia por alguns minutos, senhorita?
o fuzilou. Sob os olhares de expectativa das mulheres ali presentes e um pedido tão graciosamente forçado vindo do príncipe, a única opção que lhe restava era juntar sua própria mão a do príncipe e caminhar até onde outros casais dançavam.
— Que belíssima coincidência, não? — disse o príncipe enquanto segurava com delicadeza a cintura da garota. Ela não respondeu.
Não importava se ele a mandasse para a forca ou para o inferno. Que fosse, não estava acostumada a abaixar a cabeça, e não faria isso para quem não merecia sequer um pingo de sua tão valiosa educação.
— Deve ser complicado procurar rapazes que não sejam seus familiares por aqui… — provocou assistindo-a umedecer os lábios e perder a batalha que travava internamente.
— Isso seria complicado se eu fosse burra. — rebateu afiada.
— Ah! — ele fingiu estar encantado — A senhorita fala? Então creio que poderei me defender das palavras tão gentis que me disse agora a pouco…
A garota depositou a palma da mão nos ombros largos dele, ainda o fuzilando. O que fez com que o sorriso dele ficasse ainda maior e mais convencido. Só aí ela entendeu.
Ele queria irritá-la. Mas ele não esperava que , treinada pelo convívio com dois irmãos, soubesse exatamente como atingir um homem: ferindo seu orgulho.
— Muito obrigada, alteza, mas creio que já escutei o suficiente. — ela sorriu, observando a feição do rapaz se tornar confusa enquanto iniciavam a dança — Não tenho interesse em ouvir suas desculpas esfarrapadas.
— Belo modo de falar com uma figura da realeza, . — ele assentiu, enquanto ainda ria incrédulo. Ela era decididamente espirituosa.
— Por favor, alteza, me chame de senhorita. — Bridgerton disse entredentes — O que quer? Que eu peça sua piedade a minha pobre alma?
Ao constatar que ele não conseguiria dizer nada e a encarava intensamente com suas orbes azuis, não conseguiu fazer nada que não fosse rir.
— Você parece ser bonzinho, príncipe . Até mesmo com quem não tem paciência para massagear o seu ego. Agora podemos, por favor, ficar em silêncio até a música acabar?
— Você parece ser tagarela, senhorita Bridgerton. Creio que não conseguirá ficar tanto tempo calada… — ele manteve o tom convencido — Até mesmo com quem seu orgulho sufocante não te deixa conversar.
— Ora, seu… — ao investir toda sua raiva no tom de voz, não contava que seus pés a traíssem devido a quantidade de ações que executava ao mesmo tempo. Dentre essas, claro, ela podia destacar pensar em xingamentos, ter vontade de estrangular e ter que dançar com o príncipe .
Ela tropeçou, o que levou seu rosto a ficar extremamente perto do rosto do rapaz que a segurou de maneira ágil e firme. Tão firme que, se a ocasião e a pessoa fossem mais agradáveis, ela com certeza soltaria um suspiro e suas pernas vacilariam novamente.
— Viu? — ela o ouviu soltar assim que fora reposicionada devidamente no lugar — Apenas não consegue ficar calada.
E então, dentre as inúmeras e inesgotáveis coincidências da noite, as badaladas do relógio marcaram meia noite e a música parou naquele momento. Os convidados vibravam enquanto tiravam as máscaras e, decidida a não deixar que um idiota estragasse seu aniversário, o ignorou e sorriu.
Agora era oficial, ela tinha vinte e um anos. Levou as mãos habilidosamente até o laço feito na parte posterior de sua cabeça e desfez o laço da máscara que lhe cobria o rosto. Assim que reposicionou a visão para reverenciar e sair correndo para o mais longe possível do príncipe, ela travou.
Não podia ser.
Um arrepio lhe perpassou por toda a espinha e ela amaldiçoou a si mesma por ter uma memória tão boa. Mesmo assim ela continuava mentalizando que estava louca e que aquilo era completamente impossível. Mas não era. tinha o rosto completamente visível agora, então ela pôde ver com clareza o formato e os detalhes de sua face, de seus cabelos dourados e de seus olhos.
Os mesmos olhos que, anos antes, haviam lhe ajudado e olhado com ternura. Os mesmos olhos que a desafiaram e então se renderam logo em seguida quando ele confessou que ela era diferente. Porque ele era o garoto que havia simplesmente se tornado seu amigo naquela calorosa tarde no Hyde Park.
Ele era o garoto que havia prometido arrumar sua boneca preferida.
Era o garoto pelo qual ela sonhara por anos. O qual ela achava ter tido uma conexão instantânea. Aquele cujo ela prometera nunca se apaixonar.
Bridgerton estava surpresa e calada, como poucas vezes ficara em sua vida. Ela não conseguia acreditar que aquele garoto encantador e gentil se tornara um homem tão irritante e odioso. Não podia ser realidade.
Depois de o encarar assustada, fazer reverência e correr dali, a garota se trancou no banheiro pelo que pareceu ser uma eternidade, despertando parcialmente de seu transe apenas quando uma voz feminina esmurrou a porta de maneira desesperada para que ela liberasse o cômodo.
Assim ela o fez, caminhando atordoada por entre a multidão enquanto travava uma batalha com seu próprio pulmão em busca de ar. Até trombar com Edmund, que a olhou preocupado.
— Ei! Onde você estava? Estamos todos te procurando há uns dez minutos. — ele começou, a observando com cautela — Está tudo bem?
— Sim, sim. — disse mais como uma tentativa de se convencer do que de fato para informar o irmão — Só estou com dor de cabeça. Mas por que estão me procurando?
— Por que você é a aniversariante? — o mais velho retorquiu com uma careta esbanjando obviedade que fez com que a garota rolasse os olhos. — Na verdade, a mamãe quer servir o bolo, algumas pessoas já desejam ir embora.
A caçula assentiu, sendo acompanhada pelo rapaz até o bolo para que as convenções típicas de uma festa de aniversário acontecessem. Ser o motivo da celebração, de alguma forma, animou a garota e distraiu temporariamente seus pensamentos.
Por mais que no fundo ela estivesse pensativa acerca do rumo ao qual o garoto do parque havia tomado, decidiu esquecer aquilo. Estava chocada? Sim, afinal, tinha idealizado o garoto por todos esses anos. Mas não o conhecia o suficiente, sabia que pessoas raramente mudavam suas ações e pensamentos. Talvez ele sempre tenha sido assim, mas, de qualquer forma, ela não planejava descobrir.

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Aos poucos os convidados do salão foram se dissipando até que somente , seus pais, Miles e Florence restassem ali. Como imaginado, os Bridgertons não tiveram nenhuma objeção ao fato de que Florence dormiria lá. Já estavam acostumados, visto que e ela eram inseparáveis e porque muitos familiares optaram por dormir por lá também. Então os planos das duas incluíam ir imediatamente para o quarto e fofocar até pegar no sono, mas assim que os mais velhos se retiraram do cômodo, o olhar cúmplice de Miles fez com que ambas permanecessem paradas.
— Consegui as garrafas que me pediu, irmãzinha. — ele sorriu vitorioso, recebendo um olhar agradecido de . — Estão todos no antigo escritório de Eddie.
— Estão? — resmungou confusa enquanto os três subiam as escadas — Quem?
— Nós, Edmund é claro, Charles, Alex, Will e Let. — Miles parecia esforçar-se para lembrar quem estava faltando enquanto enumerava nos dedos — E ah, nosso amigo.
Florence deu de ombros, já franziu o cenho. Que amigo era esse, afinal? No fim ela decidiu parar com o interrogatório. Não importava, tudo que ela queria era beber bons copos de conhaque ou uísque e conversar sem toda a formalidade exigida socialmente, já que estava — em maior parte — com a família.
Não era nenhum esforço seguir as normas de etiqueta, mas, assim como qualquer outra jovem, Bridgerton preferia o conforto de ser ela mesma.
Eles andaram sorrateiramente pelos corredores e então, Miles, que ia na frente, abriu a porta do escritório do irmão e gesticulou rapidamente para que as duas entrassem. O escritório era iluminado por luzes fracas e tinha um sofá pequeno com uma mesinha de centro antes da mesa de Edmund, que estava sem os papéis, penas e tinteiros espalhados por toda parte, já que agora o primogênito não morava mais ali e já não usava mais o cômodo.
Eddie e sua bagunça, pensou enquanto rolava os olhos.
Agora, a mesa continha apenas alguns petiscos surrupiados da festa, três garrafas de uísque, duas de vinho e uma solitária de conhaque dourado e envelhecido em barris de carvalho por cerca de vinte anos. sorriu, o reconheceria em qualquer lugar, afinal, era seu preferido.
— Até que enfim vocês subiram! — Eddie reclamou bebericando seu uísque.
— A maldita velha Dungrey não queria ir embora de jeito nenhum. — retorquiu Miles cansado só de se lembrar da senhora com mais vitalidade que todos os jovens presentes ali juntos que estava extremamente animada por ter um evento diferente em sua rotina corriqueira e entediante.
— Ela ainda está viva? — outra voz se fez presente, instantaneamente deixou o copo na mesa e fechou os olhos com força. Não era possível.
— Ah está. — Miles fez uma careta enquanto ria com — E como está…
— Quem é esse? — cochichou Florence curiosa enquanto se servia com alguns canapés. Let estava ao lado delas, também havia notado o desconforto da prima.
— O sujeito desprezível que eu mencionei mais cedo, Flora. — murmurou.
— Desembucha, . — pediu Violet.
— O que ele te disse, afinal? — perguntou Florence ao mesmo tempo.
— Posso contar quando estivermos a sós?
Florence e Violet se entreolharam e então assentiram. sorriu fraco em agradecimento e então tornou a encher o próprio copo.
— Hey, Flora. — cumprimentou Eddie.
— Olá Edmund. — a garota sorriu. bebericou o líquido dourado enquanto segurava o riso. Era nítido o quanto ambos se gostavam, a garota não se lembrava de ter visto o irmão mais velho tão abobalhado antes. Flora era mais centrada, ela nunca diria nada, mas também não era preciso.
— Como foi a viagem?
Quando a Bridgerton menos notou, Let já havia se sentado ao lado dos irmãos no sofá para iniciar uma partida de pôquer, deixando-a de vela perto do irmão e da amiga. soltou um risinho baixo e então pegou seu copo e alguns canapés, direcionando-se até o parapeito para observar a noite.
Depois do calor graças a multidão no salão mais cedo, o vento da área externa era revigorante. apoiou o copo no parapeito e então, soltou os cabelos — como desejava ter feito desde o início da noite —, deixando que as ondas castanhas caíssem por suas costas até a altura da crista ilíaca. O vento os balançou por alguns segundos e então ela tornou a beber o conhaque que tanto queria.
Nada era tão bom como aproveitar o silêncio e uma brisa refrescante. Mas é claro que o destino estava adorando brincar de contradizê-la naquela noite, então o silêncio durou pouquíssimos segundos.
O príncipe encostou-se ao batente da porta que levava ao parapeito e começou a observá-la. Os cabelos ondulados parecendo cortinas de seda dançando com o vento, o tecido que cobria lhe o busto delimitava perfeitamente a cintura e o tórax de forma justa até a altura do quadril onde o tule fazia com que a saia tivesse volume, o que deixava a mente livre para imaginar como seria colocar as mãos ali e tê-la sobre si. Ele não se surpreendeu nem um pouco ao se pegar tendo esses tipos de pensamento, podia ter uma língua afiada, mas era uma mulher com uma beleza indiscutível.
Ficara a observando durante toda a noite, ela sorria e tudo parecia se iluminar com sua presença. Todos pareciam felizes em tê-la por perto, ela exalava alegria e um calor humano que era diferente da típica frieza londrina. Era como se ela brilhasse.
— Eu achei que fosse uma boa garota. — o príncipe disse em um tom divertido, tentando não transparecer a insegurança enquanto se posicionava ao lado dela.
Nem ele sabia bem o porquê de insistir tanto em ficar perto dela, era só automático, involuntário. Quando ele se dava conta, lá estava ele.
— Boas garotas também bebem conhaque. — ela franziu o cenho, deixando claro que mais uma vez naquela noite ele tinha dito a coisa errada.
— Claro, isso não foi uma crítica, eu…
— Perdoe-me, alteza. — ela interrompeu sorrindo, dessa vez despida de ironia, apenas com um tom franco — Mas, sinceramente, eu não me importo. Ficou claro que nós não gostamos um do outro, não precisa se esforçar tanto.
— Isso não é verdade…
— Você é inteligente o suficiente para entender que é sim. — ela o interrompeu mais uma vez, enquanto tirava alguns fios de cabelo do rosto — Está tudo bem, ninguém é obrigado a se dar bem com todo mundo. Pessoas podem ser diferentes umas das outras…
— Eu não tenho nenhuma objeção em relação a você, senhorita Bridgerton. — quem a interrompeu dessa vez, assumindo o mesmo tom de franqueza enquanto aproximava-se perigosamente. Ela tombou a cabeça para o lado, analisando-o com a expressão indecifrável enquanto passava a língua pelos lábios úmidos de conhaque.
O príncipe engoliu a seco pensando como seria saboreá-los, mas manteve-se impassível enquanto a fitava.
— Eu tenho várias ressalvas em relação a você, alteza.
— Tudo bem. — sorriu verdadeiramente, só então se dando conta de que suas percepções sobre ela estavam tomando rumos errados.
Grace Bridgerton era extremamente interessante, seria um delicioso desafio continuar nesse jogo que os dois travaram inconscientemente se o prêmio fosse os lábios dela nos seus e seu corpo mergulhando no dela. Mas a garota fazia parte de uma categoria altamente perigosa e proibida, apenas um toque em seu corpo tentador e teria que ir contra tudo o que acreditava, visto que ela esperava se casar um dia e as convenções ditavam que isso era errado.
Ela não parecia do tipo de garota que desrespeita as regras, mesmo que agora ela finalizasse seu copo em um único gole sem qualquer delicadeza expressa nas normas de etiqueta. Estranhamente achou aquilo muito instigante, então pigarreou recobrando seus sentidos. Não podia mais ficar ali, terminaria a noite no clube ou na primeira taberna que encontrasse no caminho. Mas não podia continuar na Casa Bridgerton, desejando uma mulher que nunca poderia ter.
— Não me importo com as conclusões errôneas que tirou sobre mim, senhorita . Pense o que quiser, mesmo que isso signifique que está sendo injusta.
A acusação a fez abrir a boca indignada.
— Você que… Eu não…
— Pense o que quiser. — repetiu ele, sarcasticamente dessa vez — Se me der licença, vou me despedir dos seus irmãos. Na verdade, só permaneci pela insistência dos mesmos, afinal, fazia anos desde a última vez que nos vimos... Mas foi um prazer conhecê-la senhorita Bridgerton.
engoliu a seco enquanto lançava um olhar indignado as costas do príncipe, que já cumprimentava Eddie. Ridículo. Quem disse que ela havia pensado que ele estava ali por outro motivo? Céus, precisava de mais um copo.

🐝🐝🐝


A luz da manhã invadiu os aposentos de assim todos os outros dias. Joana, sua dama de companhia, sabia como a garota detestava ser acordada aos berros ou cutucões, então todas as manhãs ela ia meia hora antes do horário até o quarto da mais nova para abrir as cortinas e deixar que a claridade matutina se encarregasse de acordá-la.
Pontualmente às oito abriu os olhos, analisando tudo ao seu redor a fim de ganhar consciência de tempo e espaço. Florence dormia a sua esquerda, parecia um anjo, enquanto Let estava à direita, com os cabelos ainda desgrenhados pelo penteado da noite anterior e a boca ligeiramente aberta.
Ah, o equilíbrio. riu antes de acordá-las. Florence decidiu ir para casa, descansar mais algumas horas enquanto as Bridgertons começaram a se arrumar com a ajuda das criadas e camareiras para o almoço que teriam naquele dia.
Afinal, não era fácil reunir toda a família Bridgerton, agregados e primos sem que fosse Natal, um casamento ou algo do tipo. E, mesmo que a festa tenha sido no dia anterior, era oficialmente aniversário de , ou seja, já era motivo suficiente para se reunirem.
Depois que os cabelos estavam devidamente penteados e os vestidos presos, as garotas caminharam, entretidas em uma conversa animada, até a sala onde a mesa do café estava posta.
— Bom dia! — desejou em um tom de voz ligeiramente mais alto, para que todos pudessem ouvi-la. Recebeu alguns sorrisos e murmúrios como resposta e então ela se sentou para o desjejum.
— Você está péssimo, Miles. — cochichou Let ao primo, fazendo com que o grupo da noite anterior começasse a rir baixinho.
— Vocês duas têm sorte de terem maquiagem para cobrir a cara de ressaca. — cochichou ele de volta enquanto levava a xícara de café até os lábios e sorria para algo que sua tia Eloise afirmava há algumas cadeiras de distância.
— Algum benefício tínhamos que ter, irmãozinho. — deu de ombros ao pegar uma maçã. O café ocorreu tranquilo em grande parte, até que o mordomo da Casa Bridgerton entrasse correndo pelo cômodo.
— A senhorita tem visitas. — ele disse enquanto tentava recuperar o ar, logo Mary, a caçula da casa entrou correndo com os olhos arregalados.
— Não são só visitas, . São muitas visitas! O hall de entrada está parecendo até uma floricultura, vem. — Mary quase gritou.
franziu o cenho, embora sua vontade fosse cuspir o chá que bebia.
Não que fosse completamente inusitado ela receber uma ou duas visitas de pretendentes após algum evento importante nas últimas temporadas. Mas era isso, estritamente um ou dois. Aquilo a fez olhar imediatamente para mãe em um pedido silencioso de “socorro!”. Ela com certeza saberia o que fazer, afinal era Katharine Bridgerton, sempre sabia o que fazer.
Mas tudo que a matriarca fez fora ralhar com Mary, para que essa tivesse modos, e lançar um olhar engraçado para a mais velha, enquanto sinalizava para essa se levantar. O primeiro a fazer isso, entretanto, fora o visconde, quase derrubando as louças e indo na frente dos quatro filhos e da esposa. Os seis andaram às pressas até a escadaria que dava ao hall de entrada da Casa Bridgerton, que nunca estivera tão perfumado antes, afinal, estava infestado de rosas, lírios, tulipas, cravos e margaridas de todos os tipos e cores que conseguia pensar naquele momento — e eram muitos, mesmo que o raciocínio desta estivesse completamente deturpado pelo choque.
— Viu só? — Mary cutucou a costela da irmã e então sorriu, achava aquilo tão romântico. Edmund estava vermelho e Miles ria da situação, que englobava o pai e o irmão surtando e a irmã à beira de um troço.
— Dançar com dois príncipes certamente te tornou ainda mais disputada, mana. — Miles recebeu um tapa no braço nada discreto da irmã e um olhar severo vindo da mãe, o que foi suficiente para fazê-lo prensar os lábios em uma única linha em uma tentativa de segurar o riso.
avistou algumas faces conhecidas da noite anterior, agarrou o braço da irmã mais nova para que ambas descessem as escadas que levavam ao hall. Precisava mandá-los embora dali educadamente, nada no mundo a faria perder um dia em família. Seria tão mais fácil se papai simplesmente os despachasse daqui, afinal ele tem cara e licença poética para tal… Pensou ela, olhando para o pai dessa vez.
Mas Anthony não faria aquilo, claro. Não com a esposa ali o coagindo.
— Comemorei cedo demais quando Gareth pediu a mão de Hyacinth. — murmurou o visconde, enquanto Kate lhe acariciava o ombro com um sorriso reconfortante. — Pensei que nunca mais teria que passar por isso…
— Ah querido… — ela riu baixinho, assistindo as filhas caminharem até os sete rapazes ali presentes. — Não se esqueça que daqui há alguns poucos anos será a vez de Mary.
A viscondessa lembrou, para o desespero do marido, que fechou os olhos agoniado.

🐝🐝🐝


Poesias, gracejos e diálogos rápidos depois, se dirigia ao último rapaz. Miles arrastou o irmão mais velho de volta para a mesa do café e Kate e Anthony foram ao socorro da filha, que agora era agraciada com uma canção sobre seus cabelos longos e escuros que poderia facilmente estourar um tímpano ou quebrar o mais resistente tipo de vidro.
Já o seu sorriso… — o rapaz cantou em plenos pulmões enquanto tentava sorrir educada para o mais novo tópico da canção.
— Ah claro, meu sorriso... Pensei que já tinha acabado. — murmurou ela desesperada, mais daquilo e ela teria o mesmo destino de Mary, que correu escadaria acima assim que o lorde Davies começara sua performance para explodir em risadas.
Aquilo precisava acabar, sentiu que morreria ali mesmo de vergonha alheia.
Ah, e seu sorriso, então… —ele tornou a cantar em um tom muito mais que desafinado — Parecem navalhas contra meu tão indefeso coração!
A garota arregalou os olhos, o rapaz considerava mesmo que aquilo era um elogio?
— Ok, rapaz. Já chega… — o visconde bateu palmas, embora sua expressão fosse de terror.
— Senhor Davies, certamente se encontra incapaz de expressar sua gratidão para o seu gesto de tamanha criatividade e afeição. — Kate sorriu para o mais novo, embora sua vontade fosse gargalhar. assentiu, incapaz de opinar qualquer outra coisa que não soasse como uma piada.
— Sim, nós estimamos sua… Ahn… Coragem. — Anthony acenou com a cabeça, enquanto as outras duas acenaram em concordância — Mas estamos apreciando um dia em família e não podemos recebê-lo.
A senhora Bridgerton deu uma cotovelada no marido, que soou em um tom impaciente.
— O que meu esposo está querendo dizer é que nós vamos adorar recebê-lo em outro dia.
— Mamãe, pelo amor de Deus! — murmurou entredentes em um tom desesperado. Mais uma canção daquela e ela poderia dar adeus a sua tão necessária e apreciada audição.
— Certamente virei, Lady Bridgerton. — o rapaz sorriu para a viscondessa e então para , que se mexeu desconfortável com o olhar lançado em direção a ela — Faço questão de demonstrar minha mais sincera estima e admiração por sua filha.
— Ok, rapaz, quem sabe outro dia. — Anthony saiu do lado da esposa para aproximar-se de Davies, enquanto empurrava e dava tapas nada amigáveis em seu ombro — Vamos, eu mesmo te levo até a saída.
No entanto, para complementar o desespero, o mordomo ainda estava ali e com a mesma expressão de antes.
— Sim, Flint? — Kate questionou o mordomo, que agora estava pálido.
— A senhorita tem mais uma visita… — revelou ele, tirando um lenço do paletó e secando previamente o suor que corria por sua testa.
— Diga que não posso recebê-lo, Flint. Por favor… Estamos em um momento familiar.
— Só que… Bem, senhorita … É que… — Flint indicou a figura que adentrava o cômodo, o que fez com que a garota arregalasse os olhos e levasse a mão ao peito pelo susto.
— O que faz aqui?

¹ Florence Nightingale (1820-1910) ou “A Dama da Lâmpada”, como é conhecida, é considerada a precursora da enfermagem moderna. Aqui, algumas referências a sua vida aparecerão na história como acontecimentos secundários, alinhados, mas não totalmente fiéis aos originais. Ela foi inserida nessa história como uma homenagem a minha tão amada profissão e também por ser uma mulher empoderada, forte e leal a seus ideais, ou seja, a melhor amiga perfeita para nossa Bridgerton.


Capítulo 03

soube que havia exagerado na noite anterior quando abriu os olhos e a dor de cabeça o tomou. Assim que a claridade passou por suas pupilas, ele fechou os olhos com força, tentando lembrar parte por parte de sua noite. Primeiro fora ao aniversário da filha do visconde Bridgerton, depois ficara poucos minutos em um “pós-festa” organizado pelos irmãos dela. Ali, começou a questionar os próprios conceitos e então, amedrontado pelos próprios pensamentos, seguiu até o clube e bebeu… Tudo o que podia e até o que não podia, como se já não estivesse alterado o suficiente quando chegou.
Quando entrou no castelo às sete, faminto e irritado pela dor latejante em sua cabeça depois da noite animada com uma das moças do clube, fora direto para a sala de jantar, onde provavelmente a mesa do café estaria posta. Mas estava enganado, havia apenas algumas criadas retirando as louças e as sobras. Estava atrasado.
— Bom dia Williams, onde estão minha mãe e meu irmão? — perguntou ele para o mordomo.
— Bom dia alteza. A rainha e o príncipe já seguiram para seus compromissos matinais na sala da rainha e no escritório, respectivamente.
— Certo, hm, obrigado. Meu pai já tomou café?
— Janet, a criada, acabou de levar a bandeja com o café do rei, alteza.
— Obrigado, vou ir vê-lo então… — coçou a nuca, enquanto mantinha os olhos firmemente fechados.
Williams o analisou.
— Quer que eu mande alguém levar uma bandeja para o senhor também, alteza?
Vira o príncipe nascer, correr por todo aquele castelo, seria um ultraje se o velho homem não o reconhecesse depois de uma noite de farra. sorriu sem mostrar os dentes, agradecido por isso, sentia que sua cabeça explodiria se mais uma palavra lhe escapasse da boca.
— Você é o melhor, Williams. Obrigado.
O homem de cabelos grisalhos assentiu com a cabeça disfarçando um sorriso discreto. Era bom ter o garoto de volta em casa. E então ele observou o príncipe subir as escadas arrastando-se até os aposentos do pai.
! — o rei disse com a voz fraca assim que o filho abriu a porta. — O que faz aqui tão cedo?
— Bom dia pai. — o mais novo plantou um beijo na testa do pai antes de se sentar um pouco mais a sua frente. — Acho que já passei tempo demais longe do senhor, não?
— Foi por uma boa causa… Viajar tanto assim engrandece o ser humano e o faz valorizar mais ainda as próprias raízes.
O príncipe assentiu, sentia-se contemplado pela fala do pai.
— E como foi o baile?
— Nada de interessante, só a mesma coisa de sempre. — fez uma careta, tentando ignorar as lembranças da noite passada.
— Ah, filho vamos lá... — o rei tentou rir, mas acabou tendo uma breve crise de tosse, sendo acudido prontamente pelo príncipe que também ria — Deitado nesse leito, um bom mexerico é o único passatempo que me resta.
— Certo… Descobri que a senhora Dungrey ainda está viva, que os Nightingales voltaram da Itália. — parou um pouco para recordar-se de mais detalhes — Inclusive, meu amigo Edmund, filho do visconde Bridgerton, parece bem interessado na filha dos Nightingales.
— Ah, isso todos já notaram! — Joseph riu, abanando a mão no ar — Creio que irá desposá-la em breve.
— O mesmo acontecerá com se ele deixar a mamãe no comando da vida dele. — o rapaz comentou com uma careta e o rei negou com a cabeça.
— Ela não forçaria nenhum de vocês, ela só… — o pai fez uma careta, mas logo se rendeu a um sorriso carinhoso ao falar da esposa — Quer estar por dentro das opções, entende?
O príncipe assentiu, embora achasse que isso já era uma forma indireta da mãe comandar, mas a última coisa que faria seria contradizer o pai.
— Às vezes acho que você deveria ao menos se permitir mais. — Joseph o olhou com cautela, sabia que o filho odiava aquele assunto. — Digo, tentar conhecer as moças que sua mãe o apresenta e dar a si mesmo a chance de, quem sabe, ter no mínimo afeto ou respeito por uma delas.
— Não, pai… Até você? levou as mãos ao rosto, apertando-as sobre os olhos, em seguida levando-as para as têmporas e então massageando a região. — Você, mais do que ninguém, sabe como o amor aprisiona, como as pessoas ficam estúpidas e abdicam de suas próprias personalidades. Até eu sei! Vi você e a mamãe passarem por isso e foi o suficiente para que eu entendesse a lição, não desejo fazer o teste.
Joseph suspirou, triste. Sentia-se péssimo por ter sido responsável pelo incessante sentimento de repulsa por compromissos do filho. Mas seu corpo doente e sua mente exausta ainda lhe davam a oportunidade de tentar conversar com o caçula e aquilo confortava, em partes, o rei.
eu errei muito com a sua mãe. Me dói lembrar o tanto que eu a fiz sofrer com minha irresponsabilidade. — ele disse, pesaroso enquanto olhava para os olhos do filho, que nada mais eram do que a cópia perfeita dos seus. — Eu não a amava quando nos casamos, é verdade… Mas lhe devia respeito e consideração. Não me orgulho de tudo que fiz e lamento por tê-la feito passar por tanto sofrimento para entender o quanto eu a amava e aprender a dar-lhe o devido valor.
O príncipe olhou ressabiado para o pai. Certamente sua condição o deixava completamente sentimental, o que fazia o mais novo se questionar se, em condições saudáveis, o rei diria o mesmo. Ele não o questionaria, claro. Então só assentiu enquanto abaixava a cabeça e segurava a mão do pai. Batidas na porta se fizeram presentes, permitiu a entrada e então uma das criadas apareceu com a bandeja de café do príncipe em mãos, o que fez com que pai e filho terminassem suas refeições em silêncio.
— Vou procurar a mamãe. — o mais novo anunciou, enquanto se levantava, minutos depois. — Volto mais tarde para vê-lo, pai.
plantou um beijo na testa do mais velho, que assentiu e o olhou mais uma vez, procurando guardar na mente os detalhes do filho. O amor que sentia por seus garotos era algo vívido, quase palpável e sempre que podia transbordava isso em seu olhar.
— Não estou pedindo para que se case com a primeira que achar mais tolerável só para honrar com seus compromissos. Acho, inclusive, que nesse caso é melhor ficar sozinho do que viver infeliz com um relacionamento medíocre. — a voz de Joseph falhou por estar levemente embargada. — Se um dia você encontrar uma garota que faça seu mundo parecer um lugar mais bonito e melodioso, que faça tudo parecer mínimo perto da dor de não tê-la em seus braços, não hesite, meu filho. Você merece um relacionamento extraordinário, só tem que se permitir viver isso.
— Vou me lembrar disso, pai. — prometeu, sem entender muito as reações que a fala de seu pai causaram dentro dele. assentiu mais uma vez, desconcertado, mais para si mesmo do que para o mais velho enquanto caminhava em direção a porta e então saiu, em busca da rainha.

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— Ok, mas se é o quem vai cortejá-la porque eu tenho que ir?
— Para não parecer algo planejado, . Por Deus! — Elle revirou os olhos, como se fosse óbvio, enquanto a encarava confuso. — Seu irmão é o herdeiro do trono, vai parecer muito desesperado se aparecer lá sozinho, se você for vai parecer que é algo mais casual. Estavam passando por Mayfair e então passaram lá para que ele deixasse algumas flores para a senhorita Bridgerton.
— Uau, que coincidência do acaso! — ironizou o príncipe, enquanto jogava-se no sofá da sala da rainha, que o repreendeu de imediato. — Isso é um ato planejado e desesperado, mãe.
— Não é, não! — ralhou a mais velha enquanto andava de lado a outro do cômodo, demonstrando que estava ansiosa para colocar seu plano-não-exatamente-plano em prática. — Vai fazer com que ela note que o príncipe se lembrou dela e também confundi-la, visto que, por mais simples que pareça o ato casual, é algo que não fez com nenhuma outra moça…
A rainha juntou as mãos e as encostou no queixo, em expectativa.
Que ela saiba… — completou com uma careta, recebendo nada mais que um “psiu” da mãe como resposta para que se calasse. — A senhora sabe que e eu não precisamos que pegue em nossas mãos e nos ensine a conquistar mulheres, não sabe?
— Mas não significa que vocês façam isso do modo correto. — argumentou a rainha, sorrindo convencida — Nessa temporada tomei como minha missão arrumar uma esposa para o seu irmão e se tudo der certo, isso acontecerá com você também, em breve.
— Ah, claro... — a mulher não pareceu notar o deboche presente na voz do filho, então tornou a se sentar para dar seguimento a sua, agora devidamente intitulada, missão.
— Então vocês irão para Mayfair, em um compromisso com um secretário real e seu irmão levará flores do jardim do palácio, pois achou que viria a calhar passar na Casa Bridgerton e presentear , já que era parte do trajeto. E você estará lá como prova de que não foi uma visita intencional, estamos entendidos?
deu de ombros servindo-se de chá.
— Vai ser engraçado ver isso.
— Ótimo, comece a rir para parecer mais simpático mesmo, todo mundo sabe que quando você se casa com uma pessoa, hipoteticamente se casa com a família dela também… vai levar em consideração que terá um cunhado apropriado.
O príncipe se engasgou. Seria ótimo ter uma cunhada que poderia matá-lo a cada momento somente com o olhar, pensou com ironia enquanto pigarreava, disfarçando o desconforto. Aquilo fez o rapaz refletir brevemente e temer pelo próprio irmão, Bridgerton era inegavelmente bonita e inteligente, mas isso correspondia proporcionalmente a seu sarcasmo, sua agilidade de encontrar as respostas corretas e seu olhar perversamente severo. O que também era esquisito e o fez parar alguns segundos para pensar sobre, fora o fato dele ter percebido tudo aquilo em meros minutos de conversa com a moça.
Esquisito ainda era pouco, ora. Aquilo era assustador!
Que raio de garota era aquela, afinal?
virou a xícara de chá em goles rápidos e desesperados, visto que já tinha se queimado no primeiro engasgo e agora já não sentia mais a língua, de qualquer forma.
! Tenha modos! — Elle desferiu um tapa no braço do rapaz em tom de advertência — Bem agora que já terminou o chá como um futre, ande! A carruagem estará pronta em alguns minutos, vá chamar seu irmão.
A rainha o dispensou com as mãos, parando apenas quando seu caçula deixava o cômodo. caminhou, atordoado pelas conversas movimentadas que tivera em uma manhã de ressaca, até o escritório do irmão.
— Eu só posso ser um tipo de piada nessa casa. — bufou antes de abrir a porta.
ergueu o olhar da papelada para o irmão e riu abertamente.
— Bom dia, querido irmão… — desejou, tombando a cabeça para a esquerda enquanto ainda sorria e assinava os documentos que estavam à sua frente. O príncipe parecia descansado e revigorado. Como o contraste necessário para a cena, forjou uma risada com a expressão fechada, típica de quando era contrariado.
— Só se for pra você, alteza.
— Você está péssimo! — constatou o mais velho, assim que se jogou no sofá a poucos metros de distância dele.
— E você me deve uma, seu bastardo filho da put…
— Sei que você queria dormir para curar a ressaca, mas não precisa liberar seu mau humor xingando a mamãe. — o interrompeu com um tom de voz divertido. — Por mais que a culpa de você ser obrigado a ir seja dela…
— Não me importa de quem é a culpa. — bradou o príncipe mais novo, enquanto tapava os olhos para impedir que a claridade vinda da grande janela em sua frente o cegasse. — Eu estou puto por ter que sair e ser um cavalheiro simpático às onze da manhã!
— Me desculpe por tamanha crueldade para com vossa alteza. — debochou o mais velho, largando a caneta em cima dos papéis e sentando-se no braço do sofá onde o irmão resmungava. — E ah, ainda são nove e meia.
— Eu não poderia me importar menos. — decretou a contragosto, enquanto se sentava e esfregava os olhos com as mãos — Eu vou tomar um banho... Já arranjou as flores, pelo menos?
apenas sorriu amarelo.
— Não tive tempo, mas estou despreocupado, pois o meu incrível e piedoso irmão…
o olhou indignado com a boca ligeiramente aberta. Já sabia exatamente o que viria a seguir.
— Há algum tipo de maldição onde o filho mais novo só se fode? Ah! Entendi, é só a vida se encarregando de me fazer de idiota mesmo. — ele se levantou indo até a porta e então saiu a batendo. Ainda assim fora possível ouvi-lo resmungando pelos corredores. — Você que quer uma noiva e eu que escolho as flores? O que vem depois? Eu escolho a cor dos guardanapos da festa do casamento?
guardava para si, embora fosse algo que seus familiares tivessem pleno conhecimento, a sensibilidade que tinha para associar flores e cores às pessoas. Ele fazia isso desde pequeno, vivia presenteando a mãe com lírios laranjas e a avó com magnólias brancas. Certa vez até mesmo trouxera de uma de suas viagens para a Grécia sementes de orquídeas azuis. As plantou pessoalmente no jardim do castelo. Estas em particular tornavam viva e permanente em sua memória a garota do parque que encontrara anos atrás.
Mesmo que ainda insatisfeito com a missão que lhe fora atribuída, caminhou pelos jardins olhando atentamente para as flores.
— É só pegar qualquer uma. — dizia a si mesmo, mas era inevitável, natural... Quase como uma mania dele. Então, mesmo em meio ao péssimo humor, o príncipe fechou os olhos, pensando na senhorita Bridgerton, em seus cabelos escuros e seu sorriso desafiador até que, automaticamente, a cor azul lhe veio à mente, mas ele negou com a cabeça rindo incrédulo.
A única espécie de flor azul que tinha dentre o jardim da rainha eram as orquídeas que ele mesmo plantara, anos atrás. Mas ele definitivamente não as colheria para Bridgerton, por mais que as flores parecessem ter sido uma criação divina exclusiva para ela. Não aquelas, não quando justamente essas flores levavam seus pensamentos a outra pessoa, que significava muito mais do que a garota desagradável da noite anterior.
— Rosas são bregas e genéricas... Vão servir. — murmurou consigo mesmo, abaixando para apanhar a quantia necessária para um buquê. — Que inferno, !

👑👑👑


Nem mesmo o banho havia feito o milagre que necessitava para parecer menos cansado. Encontrou o irmão pontualmente às dez na carruagem e então ambos partiram para Mayfair, que era um trajeto curtíssimo, mas ainda assim suficiente para que o mais novo conseguisse tirar um pequeno cochilo de cinco minutos.
— Chegamos, . — bateu levemente no ombro do irmão, que endireitou a postura de imediato, levando a mão aos lábios para limpar qualquer vestígio que denunciasse sua soneca.
Os príncipes desceram e então caminharam até a fachada da Casa Bridgerton que passava longe do palácio em questão de tamanho, mas era tão majestosa e imponente quanto.
— Príncipe ! — um dos membros do conselho real, que provavelmente fora a vítima da mentira da rainha Elle, o saudou de imediato. — Que coincidência encontrá-lo aqui, eu estava agora mesmo indo até o palácio para resolver um assunto urgente com vossa alteza…
No mesmo momento o mordomo dos Bridgertons abrira a porta da mansão, dando passagem a um homem que não era um total desconhecido para . Provavelmente estava presente no baile da noite anterior e agora fazia o mesmo que o irmão: uma visita para a gentil e encantadora senhorita Bridgerton. Subitamente aquilo o fez torcer o rosto em uma careta, que não passou despercebida pelo mais velho.
— Acompanhe o mordomo, eu entrarei depois que resolver a pendência com o lorde Adams.
— Eu posso esper…
— O mordomo já está ali, não seria nada cortês. — murmurou, indicando a entrada da Casa Bridgerton com a cabeça.
o fuzilou com o olhar, antes de seguir até a porta, onde o mordomo se curvava.
— Bom dia vossa alteza, vou levá-lo até a sala de visitas.
O príncipe meneou a cabeça discretamente, e então seguiu os passos do mais velho.
— O senhor pode aguardar aqui? Irei anunciar sua chegada ao visconde… — o mordomo dos Bridgertons apontou para um pequeno sofá e o príncipe assentiu, sentando-se.
— Claro.
Até mesmo a pequena antessala era decorada com um extremo bom gosto, aquilo fez com que o príncipe fizesse um lembrete mentalmente para se atentar de elogiar o bom gosto da viscondessa. Ele concentrou-se em olhar cada pétala de cada rosa que segurava enquanto pensava em insultos para o irmão.
Odiava ter que esperar, ainda mais em um lugar em que não desejava estar. O melhor que podia fazer seria fechar os olhos e aproveitar o tempo sozinho para cochilar mais um pouco. No entanto, um berro desafinado fez com que o príncipe se assustasse em um sobressalto que fez com que algumas pétalas de rosas voassem por todo o chão e sofá. Sorte que eram muitas flores e que o buquê ainda parecia apresentável.
arqueou a sobrancelha, confuso pela cantoria na sala de visitas, isso o fez levantar e esgueirar-se pela parede que separava os cômodos a fim de entender o que se passava do outro lado. Mesmo que fosse algo completamente indiscreto, ele não morreria por espiar um pouco, não? Só seria considerado bisbilhotagem se ele fosse pego, de qualquer modo.
— Já o seu sorriso… — a voz o assustou novamente. Ele pode ver que as bochechas de assumiram um tom escarlate gracioso enquanto seus olhos ligeiramente arregalados iam dos pais para o rapaz, que havia sido apresentado como lorde Davies para o príncipe na noite anterior, em claro desespero.
— Ah claro, meu sorriso... Pensei que já tinha acabado. — murmurou ela sem ânimo, mas ainda assim com a voz contida em uma clara atitude de respeito.
— Ah, e seu sorriso, então… —ele tornou a cantar em um tom muito mais que desafinado que antes, fazendo o príncipe encarar a cena com uma careta devido a dor que lhe atingia os ouvidos — Parecem navalhas contra meu tão indefeso coração!
precisou de todo seu autocontrole para não gargalhar assim que viu a moça arregalar os olhos e prensar os lábios em uma linha fina, claramente segurando a risada.
— Ok, rapaz. Já chega… — o visconde bateu palmas, encarando o performista com nada além de pavor nos olhos.
— Senhor Davies, certamente se encontra incapaz de expressar sua gratidão para o seu gesto de tamanha criatividade e afeição. — a viscondessa disse em um tom contido enquanto sua filha apenas assentiu freneticamente.
suspeitava que se não estivesse na frente dos pais, certamente estaria roxa de tanto rir, ou apenas dizendo algo para deixar lorde Davies constrangido a ponto de deixá-la em paz.
— Sim, nós estimamos sua… Ahn… Coragem. Mas estamos apreciando um dia em família e não podemos recebê-lo. — Lorde Bridgerton disse impaciente e então sua esposa lhe deu uma cotovelada. Era engraçado ver como um homem respeitável como o visconde era facilmente dobrado pela esposa.
— O que meu esposo está querendo dizer é que nós vamos adorar recebê-lo em outro dia. — a viscondessa Katharine disse e então murmurou algo, provavelmente resmungando sobre o convite.
— Certamente virei Lady Bridgerton. Faço questão de demonstrar minha mais sincera estima e admiração por sua filha.
— Ok, rapaz, quem sabe outro dia. — o visconde saiu do lado da esposa para aproximar-se de Davies, enquanto empurrava e dava tapas nada amigáveis em seu ombro — Vamos, eu mesmo te levo até a saída.
deu um salto, sentando-se no sofá e então voltando a encarar as flores. O visconde passou pelo mordomo e então pelo príncipe.
— Vossa alteza. — disse o visconde, acenando com a cabeça na direção do mais novo.
retribuiu o gesto.
— Lorde Bridgerton.
E então o visconde voltou a empurrar o homem para fora.
— A senhorita tem mais uma visita… — ouviu a voz do mordomo dizendo as mulheres da sala ao lado e então se levantou de prontidão.
— Diga que não posso recebê-lo, Flint. Por favor… Estamos em um momento familiar.
— Só que… Bem, senhorita … É que…
O príncipe sentiu-se péssimo por estar ali enquanto praguejava mentalmente o irmão. Mas não tinha mais volta, o visconde já tinha o visto e o mordomo já tinha avisado sobre a presença de mais alguém, então ele simplesmente adentrou a sala. Os olhos da mais nova foram do mordomo para o príncipe e então ela se segurou no braço da mãe por conta do susto.
— O que faz aqui? — esboçou toda sua surpresa e, de certa forma, isso refletiu-se em sua voz ríspida, que fora imediatamente corrigida por um pigarro discreto vindo da mãe — Digo, qual o motivo pelo qual nos presenteia com a honra de sua ilustre presença, alteza?
A voz dela agora continha um sarcasmo contido, que só ele conseguira notar. abriu a boca para dizer algo no mesmo tom, mas quando os olhos da garota vagaram de seu rosto para o buquê de rosas brancas que ele segurava tudo que ele conseguiu fazer fora arregalar os olhos e olhar para ela, para as próprias mãos e para sala infestada de flores ao redor deles.
— NÃO! — ele disse imediatamente, embora sua voz saísse em um tom alto e de mágoa. Ele não estava a cortejando, nunca em toda sua vida faria aquilo. Mas, se o fizesse, seria tão desagradável assim para ela? — Definitivamente eu não vim aqui para… Você sabe… Cortejá-la. Vim acompanhar meu irmão.
— E onde está o príncipe ? — a viscondessa verbalizou desconfiada.
— Ele encontrou um membro da corte e ficou lá fora para resolver um assunto importante, mas certamente já está…
— Ele está aqui. — a voz do visconde fez-se presente, enquanto retornava à sala com o príncipe em seu encalço. — O encontrei prestes a bater na porta quando fui enxotar… Enfim, quando fui lá fora.
O olhar da viscondessa foi suficiente para que o visconde se explicasse. Bem, agora sabia de quem havia herdado o olhar intenso e o gênio forte.
cumprimentou a viscondessa com um sutil aceno de cabeça e um sorriso e então foi até , segurando uma de suas mãos e depositando ali um beijo sutil por cima da luva que ela usava.
— Eu e meu irmão estávamos passando por aqui para resolver algumas pendências com um dos membros da corte e então decidi aproveitar a viagem para lhe entregar essas flores que colhi no jardim do palácio.
sorriu, embora estivesse pensando na contradição nos discursos dos príncipes. Ela assistiu mesmo assim, enquanto o príncipe entregava o buquê de rosas para o irmão que, por sua vez, a entregou sorrindo.
— Isso foi muito gentil de sua parte, alteza. — meneou a cabeça em forma de agradecimento — Muito obrigada.
observou o irmão e a senhorita Bridgerton se encarando com intensidade e tudo que conseguiu fazer fora pigarrear constrangido.
— De qualquer forma, como a senhorita disse que vocês estão aproveitando um dia em família, nós já estamos de saída. — sorriu para com ironia e então olhou para o irmão, sinalizando que deveriam ir.
— Ah, mil perdões lorde e lady Bridgerton por atrapalhar a programação de vocês… — se curvou rapidamente.
— Não se desculpe alteza, se assim desejarem, meu marido e eu não vemos problema de vocês ficarem para o almoço, não é querido? — a viscondessa sorriu, olhando para o esposo.
— Claro! — o visconde quem pigarreou dessa vez — Edmund e Miles ficarão felizes de ter seus amigos no almoço. Eles disseram que se conhecem desde a época em Eton.
— Ah, sim! Mesmo com a diferença de idade, nós costumávamos frequentar os mesmos clubes durante o colégio e depois em Oxford, na universidade. — disse sob o olhar desconfortável de , que só almejava pela oportunidade perfeita para ir embora.
— Nós apreciamos o convite, mas… — fora interrompido por Lady Katharine.
— Vocês não vão incomodar, se é isso que está pensando, príncipe . — ela disse de imediato — Venham, vamos subir… Estão todos nos aguardando lá em cima.
lançou um olhar mortal para o irmão, antes de acompanhar a viscondessa. Aquilo não passou despercebido por que soltou um riso baixinho, enquanto era acompanhada pelo pai e pelo príncipe .
A garota também não deixou de notar que alguém parecia ainda sofrer pelos efeitos do álcool da noite passada, visto que olheiras leves haviam surgido em seus olhos e é claro, o desconforto certamente era o responsável pelo humor ácido do rapaz.

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Não tão diferente do que o príncipe havia imaginado, somente os Bridgertons reunidos pareciam ser a quantidade suficiente de convidados de um baile. A sala de jantar estava cheia, o som de conversa era agradável e a alegria de todos ali por estarem reunidos era perceptível e, de certa forma, contagiante.
— Meus irmãos já são conhecidos para ambos… — , que ficara responsável pelas apresentações, começou apontando para os dois idiotas que riam de algo que Will e Alex falavam. — Meus primos Charles, Will, Alex, Violet, Oliver e David também.
Ela deu de ombros e então tornou a falar.
— Aquelas são minhas primas Agatha e Penelope. Alguns primos não puderam vir, pois ou estão com seus filhos pequenos, ou são novos demais e estão em Eton ou na universidade. — disse ela, ressentida na última parte — Ainda tem a minha irmã Mary que vive xeretando por aqui quando consegue fugir da ala infantil e lá também estão meus outros primos mais, ahn, novos. Mas como os nomes são repetidos e provavelmente vocês não vão lembrar, vou poupá-los desse martírio.
seguiu caminhando, agora na direção dos tios.
— Esses são meus tios Michael e Francesca, conde e condessa de Kilmartin. Eles moram na Escócia em um lugar realmente encantador onde eu vivia visitando quando pequena. — ela disse com ternura enquanto acariciava os ombros da tia e do tio respectivamente com cada uma de suas mãos.
— Ela esqueceu de mencionar que sou o tio mais legal que ela tem, não é querida? — o conde piscou e então ela riu assentindo discretamente.
— Vocês vão ouvir muito isso, meus tios costumam disputar por esse cargo. — ela cochichou, seguindo adiante, enquanto os príncipes a admiravam sorrir verdadeiramente confortável por estar com a família. — Esses são meus tios Benedict e Sophie, que também moram um pouco longe daqui…
— Nós já o recebemos lá em casa antes. — Sophie sorriu, apontando para , que realmente já havia ido visitar os amigos no campo uma vez. A mulher parecia muito com os filhos — É um prazer revê-lo príncipe .
— Igualmente senhora Bridgerton. — o príncipe sorriu e meneou a cabeça na direção de Benedict — Senhor Bridgerton…
O mais velho meneou a cabeça e então voltou a apresentar os outros.
— Esses são meus tios Colin e Penelope…
— Os verdadeiros tios preferidos dela. — interrompeu o senhor Colin, arrancando risadas dos demais. — Ora, , fui eu quem te dei os melhores presentes. Inclusive aquela boneca q…
— Acho que essa não é uma história legal para contar para as visitas, tio! — ela riu, levemente constrangida. umedeceu os lábios, estranhando, mas seguiu os passos do irmão e de em silêncio.
Assim que todas as apresentações foram feitas — por mais que, como ela mesmo havia dito, se recordasse de talvez dois ou três nomes —, os príncipes se dirigiram até as cadeiras prontamente providenciadas pelos criados. fez o mesmo, sentando-se entre a prima e o irmão. Foram momentos agradáveis ao lado daqueles que tanto amava, a não ser é claro pelos olhares que, vez ou outra, estavam queimando sobre ela. Assim que todos finalmente haviam acabado a sobremesa, fora a vez de, aos poucos, os convidados irem se dispersando em outros cômodos da casa Bridgerton.
— Porque não apresenta o jardim para os príncipes, querida? — a avó de sugeriu, fazendo com que a mais nova arregalasse os olhos e observasse os dois rapazes. — Violet também deveria acompanhá-los.
Violet olhou para a prima, contendo o riso, e então assentiu apenas para fazer a vontade da avó diante da falha tentativa de juntar casais da mesma.
— Se a senhorita me permite... — começou , erguendo o braço para , que não pode fazer nada a não ser aceitar. Enquanto Violet fazia o mesmo com , logo atrás.
— O jardim nem tem tanto assim para ser visto, — anunciou com um sorriso fraco assim que os quatro deixaram a casa. — mas acho que a luz do sol compensa a caminhada.
— É um belo jardim, sim. — disse enquanto apreciava a vista, olhando do gramado repleto de árvores, pequenos arbustos e glicínias para a belíssima dama cuja pele ganhava um tom lindo quando a luz solar lhe iluminava.
— Tudo graças ao nosso jardineiro. — caçoou olhando para os lados, certificando-se de que a mãe não estava por perto, visto que com certeza seria repreendida caso a viscondessa a escutasse. — Mamãe e eu até tentamos por um tempo, mas foi melhor recorrer a alguém que sabe do assunto antes de estragar os anos de trabalho que minha avó teve.
— Costuma passar muito tempo aqui fora? — o príncipe questionou, enquanto caminhavam um pouco mais atrás de de Violet.
— Menos do que eu gostaria… — confessou . — Mas sempre que posso estendo uma toalha na grama e venho ler aqui fora na companhia da natureza. Posso ser péssima regando e podando, mas creio que admirar também seja uma forma de cuidar delas.
assentiu, ainda admirando-a.
— Mas nada se compara ao jardim da minha avó em Aubrey Hall… — a mais nova suspirou, com um sorriso saudoso nos lábios — Acho que nunca vi um tão bonito.
— Perdoe-me senhorita Bridgerton, mas creio que não conhece os jardins do castelo. — brincou — São a verdadeira paixão da minha mãe e do meu irmão.
tentou, da melhor maneira que pode, controlar sua expressão de descrença. Desde quando uma pessoa tão desagradável como o príncipe tinha sensibilidade e gostos tão parecidos com o dela?
— Isso é sério? — nem todo autocontrole do mundo conseguira manter a mais nova completamente indiferente ao assunto, visto que ela franziu o cenho e verbalizou um tom alto e agudo demais. riu, assentindo. — Digo, eu nunca tive oportunidade de conhecer o castelo.
— É verdade que meus pais não têm dado tantos bailes assim. — o príncipe abaixou a cabeça desconfortável. Não era como se a rainha tivesse tantos motivos para comemorar desde que partira em sua extensa jornada pelo mundo e que o pai adoecera. Pelo contrário, Elle vivia em um inacabável estado de preocupação. — Mas minha mãe quer mudar as coisas agora que meu irmão está de volta… Em uma dessas novas oportunidades eu adoraria te mostrar os jardins.
— Eu adoraria, alteza.
O olhar de vagou até a prima e o príncipe que caminhavam e riam de algo mais à frente. Como Let podia estar se dando tão bem com ele? Ele só se esforçava para ser idiota quando estava perto dela? Afinal todos se referiam a ele como alguém tão agradável e divertido, o que, para a Bridgerton não passava de mera lenda urbana.
De qualquer forma, ela não se importava.
— A visita foi ideia da rainha? — ela tornou a olhar o mais velho, que arregalou os olhos.
— Não, digo… Sim. — ele se enrolou, fazendo-a rir. Sentindo nada mais do que patético decidiu que a melhor forma de lidar com a situação sem parecer mais idiota ainda era com a mesma leveza que ela, rindo. — Ficou tão óbvio assim?
— É um plano bom, digo... A rainha teve uma esperteza incrível, eu realmente acreditaria se vocês dois não tivessem se contradito. Mas acho que vossa majestade esqueceu que homens não se atentam a pequenos detalhes como nós.
Touche. — prensou os lábios em um semi sorriso — Mas eu realmente queria vir.
— Eu nunca duvidei disso, alteza. — ela, que ao contrário dele não tinha constrangimento algum, sorriu abertamente — Mas aconselho que aja mais como você mesmo se quiser me cortejar. Não preciso de planos mirabolantes, só de uma conexão sincera.
Ele sorriu assentindo. Não poderia dizer mais nada, ainda se sentia um idiota. Eles ficaram por mais algum tempo ali, conversando sobre seus gostos em comum. nunca se considerou como alguém firme em suas convicções, como o irmão mais novo era. Costumava pensar muito bem antes de tomar suas decisões, em absolutamente todos os quesitos de sua vida. Mas naquele início de tarde em Mayfair, a certeza de que Bridgerton seria sua noiva em breve lhe atingira em cheio, como poucas coisas haviam conseguido em seus vinte e seis anos de vida.

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No sábado seguinte, os irmãos decidiram fazer algo que costumavam fazer muito com o pai quando eram mais novos: navegar pelo Tâmisa no majestoso iate real. Eles não mencionaram em momento algum que a ausência do pai era um fato doloroso, mas nem precisavam. Mesmo com o clima agradável e a companhia um do outro, a dor e preocupação eram verdades absolutas ali. Ainda que o otimismo aparecesse vez ou outra, os Brassards simplesmente sabiam que o estado do rei era grave e que bastavam dias — ou, com muita fé, meses — para que ele partisse.
No entanto, naquela manhã, o rei Joseph fora o primeiro a incentivar o passeio dos filhos, pedindo que eles se divertissem e que voltassem cedo para contar se as águas do Tâmisa estavam tranquilas ou agitadas, se a viagem havia sido agradável e até mesmo as possíveis intercorrências na navegação, que, costumavam ser a parte que eles mais riam e se lembravam dos passeios.
decidiu apoiar-se no parapeito para aproveitar a brisa refrescante que lhe bagunçava os cabelos enquanto o irmão acertava alguns detalhes da viagem com o capitão. O vento lhe abraçando era a sensação mais próxima do que ele conseguia definir como liberdade. Não havia sentimento melhor e mais libertador no mundo que o vento soprando e levando consigo parte dos problemas e preocupações que lhe rondavam.
Claro que, assim que seus pés alcançassem terra firme novamente tudo voltaria a lhe tirar o sono como antes, mas apreciava a falsa sensação de poder contra os próprios pensamentos, de ser o verdadeiro dono de sua vida e não apenas uma marionete do destino.
Ele permanecera com os olhos fechados, naquela mesma posição, apreciando a brisa até que seu irmão aparecesse novamente, abraçando-lhe pelo pescoço e bagunçando seus cabelos dourados em uma risada contagiante.
— Falei para o capitão que hoje não desejamos demorar. — disse, enquanto eles se recuperavam da crise de risadas e da pseudo luta corporal que haviam travado por alguns minutos. — Mesmo que o pai não esteja aqui, estou feliz de estarmos fazendo algo que gostamos tanto juntos.
— Eu também estou... Estive pelos oceanos por muito tempo, mas não era a mesma coisa sem você e suas idiotices. — respondeu enquanto batia com o próprio ombro no do irmão, arrancando-lhe risadas.
— Senti sua falta. — soltou depois de alguns minutos em silêncio. — Confesso que te convidei por que queria passar um tempo com você, mas também queria te contar algo que decidi.
assentiu quando o irmão disse e então seus olhos claros dirigiram-se ao céu, que estava escurecendo rapidamente em um aviso de que uma baita chuva se aproximava.
— É por isso que o céu fechou… — o mais novo sorriu, sacana — Você decidindo algo e falando sobre isso com facilidade? Com certeza vai chover!
— Eu sei, é esquisito pra mim também. — coçou a nuca, enquanto alguns pingos finos começavam a ser sentidos por ambos. — Mas me parece certo pedir a mão de Bridgerton em casamento em breve…
não direcionou seu olhar para o irmão a princípio, apenas fixara sua atenção nas águas escuras e calmas se tornando agitadas na medida que o barco as deixava para trás enquanto navegava em alta velocidade e que a chuva começava a engrossar. Sua garganta parecera seca, mas então uma gargalhada alta lhe tomou.
— É sério? — ele riu ainda mais quando o mais velho assentiu. — Você é muito corajoso ou muito maluco.
— A senhorita Bridgerton é uma moça agradável, bonita e muito inteligente. — recitou o que todos sempre diziam a respeito dela ao rebater, mas apenas rolou os olhos.
— Nossa mãe conseguiu finalmente fazer sua cabeça, então?
— Eu não diria que isso foi culpa da nossa mãe… Ela ajudou, claro. Mas é como eu te disse, eu quem decidi. — finalmente olhou diretamente para o irmão que batia no peito. Seus olhos esbanjavam um brilho tão verdadeiro que o mais novo pode sentir o estômago embrulhando. — Eu, , quero isso.
— Bem… É isso que importa então. Fico feliz por você! — ele disse sincero, mesmo que não parecesse certo fazer algo que não sorrir e concordar. Mas na verdade, lá no fundo, se perguntava se aquela era a vontade verdadeira do irmão. Em meio a um mundo de imensas possibilidades, tantos lugares para conhecer, tanto a se desfrutar, se casar era a maior vontade dele naquele momento?
Isso que ele nem adicionara na equação. Era óbvio que ela era bonita e inteligente, o que, a grosso modo, bastava para uma esposa considerada excelente. Mas sua língua afiada estava muito longe de ser uma qualidade procurada em uma futura rainha. Repentinamente, os sentimentos conflituosos de tornaram-se somente pena do irmão. Aquela garota o enlouqueceria, com toda certeza.
A chuva, ou melhor, o temporal não permitiu que o passeio dos príncipes durasse muito mais do que aquilo. Ambos já estavam encharcados, sem mencionar o fato de que tudo que menos queriam era correr o risco de se acidentar gravemente.
Era esquisito que o tempo tivesse se fechado tão rapidamente. O céu estava tão bonito e limpo, descartando qualquer possibilidade de chuva, ainda mais uma tão forte quanto a que se iniciara. Era inevitável não se sentir agoniado, o aperto no peito de só fazia com que este almejasse cada vez mais chegar em casa, tomar um banho quente e contar sobre o passeio para os pais com uma xícara de chá em mãos.
O caminho pareceu durar uma eternidade, o rapaz até mesmo cogitou em pensamento que parecia que o rio não queria que ele e o irmão chegassem em casa. Quanto mais ele queria estar em casa, mais longe parecia de conseguir chegar e aquela sensação de ansiedade era tão inquietante a ponto de lhe roubar todo o ar.
Depois de levar o dobro do tempo do trajeto de ida no caminho da volta, finalmente conseguira sentir a firmeza do solo enlameado abaixo de seus pés. Ele e o irmão correram até a carruagem, em meio a uma crise de espirros do mais velho. Ótimo. Para melhorar, recordou-se da saúde extremamente frágil do irmão, e aqueles espirros só podiam significar que um intenso resfriado já começara a atingi-lo.
Assim que chegaram no palácio, soube que algo estava errado e aquela sensação de inquietação o tomara novamente. O olhar repleto de pesar e compaixão que os criados lançavam para ele e o irmão só serviram para confirmar a teoria, que fez com que o mais novo corresse na direção dos aposentos reais com em seu encalço.
Ele, que sempre havia se considerado privilegiado por ter tido uma infância majoritariamente feliz, não se lembrava como era presenciar algo que lhe partisse o coração. Sequer havia presenciado a morte de algum ente querido anteriormente. nunca sentira como se o chão sumisse diante de seus pés até o momento que seus olhos testemunharam aquela cena. Seu pai, o rei Joseph, aquele homem poderoso e imponente, que sempre lhe confortava apenas com o olhar, estava pálido e sem vida nos braços da rainha. Essa, por sua vez, estava deitada ao lado dele e chorava copiosamente.
Sem sombra de dúvidas não poder contar para o pai sobre o passeio conforme havia prometido naquele mesmo dia mais cedo, muito menos dizer que o amava uma última vez fora a situação mais dura que tivera que encarar em toda sua vida.




Capítulo 04

Aquela era a primeira vez que enfrentava o luto. Ele já estivera em funerais antes, já havia confortado amigos que perderam seus entes, mas nunca havia passado pelo processo completo com alguém de sua família. Era como se estivesse caindo de uma grande altura, desesperado por não poder sentir o chão ou que uma parte de si tivesse sido levada embora. Se sentia atordoado, estressado e pressionado.
sabia que uma hora ou outra teria que assumir o lugar do pai, mas parte de si ainda alimentava a esperança de que o mais velho sairia daquela situação e ainda seria o dono do trono por uns bons anos. Entretanto, nunca, em hipótese alguma, imaginava que seu pai morreria tão jovem.
É claro que o príncipe havia sido treinado para isso durante toda sua vida, mas ainda assim era como se estivesse em um cômodo escuro e, de repente, fosse jogado em plena luz do dia, sem ter a oportunidade de acostumar os olhos a mudança abrupta de iluminação. Tinha dois meses para assumir o trono e já havia recebido de mais de uma pessoa — e claro que sua mãe estava inclusa nessas — o conselho de se casar o mais rápido que conseguisse. Afinal, era uma grande responsabilidade que, certamente, seria mais fácil quando compartilhada com alguém. Além do fato de que “certas atividades só podem ser realizadas por uma rainha”, segundo a matriarca.
E não era como se ele estivesse em posição de negar algo a sua mãe, que era quem mais estava sofrendo a perda do rei.
Haviam se passado pouco mais de duas semanas desde o dia da morte do rei Joseph, e desde então o príncipe mais velho se encarregara de todas as responsabilidades que envolviam a perda como o velório, a missa e a cerimônia, o enterro e as inúmeras reuniões com a corte. A temporada retomou a frequência de eventos e celebrações assim que o período de luto oficial se findou e com isso os convites começaram a chegar no palácio. A família já havia deixado de comparecer em vários eventos, mas as desculpas de estavam acabando e hora ou outra ele teria que os frequentar novamente, afinal, ele ainda precisava de uma esposa. Mesmo que sua mente estivesse completamente turbulenta e incapaz de lidar com tais coisas.
Era como se voltar aos bailes tornasse seu destino ainda mais real, palpável e próximo. E, diferente do que a mãe e o irmão imaginavam, aquele nunca havia sido seu sonho, sua vontade principal. tinha um senso imenso de cumprir tudo que lhe fora determinado, não pela possibilidade de ser recompensado ou punido, apenas pela honra e pureza de suas intenções. Desde o início de sua existência, a coroa lhe fora incumbida e ele nunca fugiria de tal responsabilidade.
Bastavam alguns segundos sem que sua mente estivesse atarefada demais para que os pensamentos surgissem. Desejara inúmeras vezes que sua vida fosse diferente, que os s fossem parte de qualquer posição nobre que lhe possibilitasse viver o que sempre sonhou.
Tudo que ele queria era uma vida boêmia, que lhe deixasse viajar pelo mundo e escrever suas poesias, queria que a natureza fosse sua musa inspiradora, que pudesse falar sobre a forma que o vento bagunçava lhe os cabelos ou sobre o cheiro que a brisa marítima exalava. Ser político era a vocação de , o mais novo sim era quem deveria ser rei, ele era racional e sensível na medida certa, sabia lidar com qualquer tipo de problema repentino que surgisse com assertividade e calma, além de, é claro, ser uma figura que todos gostavam de ter por perto, alguém que é facilmente admirável.
respirou fundo enquanto endireitava a postura e assinava alguns documentos relativos às terras de um duque sem descendentes que havia falecido recentemente. Seus músculos tensos só relembravam o quanto ele tinha trabalhado nos últimos dias, somado ao estresse que todo o contexto lhe presenteava, claro. Batidas na porta despertaram sua atenção, mas definitivamente não foram o motivo para ele tirar os olhos da papelada.
— Com licença, — Williams apareceu depois do murmúrio do mais novo permitindo sua entrada. — o senhor Edmund o espera na sala de visitas na companhia da irmã, a senhorita , alteza.
Aquilo sim fez o príncipe encarar o mordomo.
— Diga que descerei em alguns minutos, por favor. — pediu ao mais velho que assentiu e se retirou. bufou passando as mãos pelos cabelos, nervoso. Não estava preparado para mais uma sessão de condolências pela perda, tocar no assunto ainda o machucava demais para que ele só retribuísse com um sorriso forçado e aquilo bastava para que seu humor se fechasse. E, dado ao fato de que todos os dias pelo menos uma pessoa mencionava a morte do rei, era claro que os últimos dias não foram nada fáceis para ele.
Mas ele precisava se esforçar, precisava descer e parecer minimamente feliz, pelo menos na frente do amigo e daquela que era a única moça com quem conseguira estabelecer uma conversa cujo assunto não fosse completamente fútil ou que não lhe tratasse como uma divindade, pisando em ovos. Bridgerton agia com honestidade na frente de quem quer que fosse, era inteligente, educada e muito bonita, seria fácil gostar dela e aquilo lhe trazia uma sensação quente e confortável no peito. não gostava de pensar como se ela fosse uma “opção”, mas a verdade era que, por mais errado que isso soasse, ela era realmente a melhor e única opção. Ele sabia que poderia facilmente se apaixonar por ela, só gostaria de mais tempo. Gostaria de cortejá-la, conhecê-la e não apenas lhe fazer um pedido de casamento vazio de sentimentos e acrescido de uma responsabilidade imensa para com a coroa. Era tão engraçado que naquele momento o único pedido de alguém que sempre tinha tudo o que queria desde que nascera era mais tempo.
Tempo era tudo que ele precisava e infelizmente, o que menos tinha.

🐝🐝🐝


nunca havia ido ao palácio, embora soubesse de toda potência e esplendor do mesmo, o encanto não fora algo que ela conseguiu disfarçar. Era tudo aquilo que já tinha ouvido falar e ainda mais, era de roubar completamente o fôlego. Algo que não poderia ser ricamente descrito nem pelo melhor dos escritores e que poderia ambientar qualquer um dos romances que já tinha lido.
— Eu preciso mesmo participar da conversa? — questionou ela, hipnotizada demais com a vista dos jardins da rainha pela grande janela da sala de espera. Eddie riu baixo, completamente acostumado à curiosidade da irmã.
— Espere alguém aparecer para perguntar se pode ir, enquanto converso com os príncipes Joana pode acompanhá-la. — o mais velho sugeriu, recebendo um sorriso empolgado da mais nova como resposta.
Não demorou para que aparecesse na sala, sorrindo e negando as formalidades quando os Bridgertons fizeram menção em se curvar. Os três se sentaram e então as criadas surgiram para servir o chá.
— Parece que se passaram meses desde a última vez que nos vimos. — comentou o príncipe direcionando o olhar de Edmund para e então oferecendo a essa um sorriso. Sem saber direito porque se sentia tão estranha a moça assentiu, retribuindo o gesto.
— Sim, essas semanas pareceram se arrastar. — Edmund concordou, entretido com os biscoitos servidos.
— Ah, inclusive, nós lamentamos muito por sua perda, alteza. — notou que assim que as palavras terminaram de soar por seus lábios, o príncipe umedeceu os lábios e engoliu seco. Quando ela pensou em se desculpar por mencionar o assunto, o rapaz voltou a sorrir e assentiu. decidiu beber o conteúdo de sua xícara, sem saber ao certo se analisava o príncipe ou se cutucava o irmão mais velho, que parecia nunca ter visto biscoitos na vida.
parecer alguém inabalável era algo que a intrigava, Bridgerton não era a maior entusiasta da perfeição e o fato do rapaz tentar parecer indiferente mesmo diante de um período difícil era no mínimo assustador. Era como se ele estivesse em uma redoma de vidro que não pudesse ser aberta, que a impedia de se conectar com ele por mais que ela tentasse.
Nada a incomodava mais do que pessoas que não se permitiam se sentir fracas, que pareciam inalcançáveis. Mas, como aquilo era apenas uma análise pessoal e infundada de sua própria cabeça, decidiu corrigir o irmão, que comia feito um desesperado, com um chute discreto na canela por baixo da mesa.
O mais velho engasgou de susto, mas logo se recompôs.
— Exatamente, lhes prestamos condolências e oferecemos todo o apoio que precisarem nesse momento difícil.
— Eu agradeço, Eddie. — sorriu para o amigo, agradecendo mentalmente por ele não prolongar mais o assunto.
— Onde o está? Vim aqui para fazer um convite para vocês... — Edmund entendeu o recado, mudando o rumo da conversa.
— Deve estar perambulando pelo palácio, é algo que ele tem feito com bastante frequência... — balançou os ombros e voltou a olhar para o amigo — O que gostaria de falar?
— Bem, eu não quero atrapalhar a conversa, então gostaria de ir conhecer o jardim… — disse ao príncipe — Se não se importar, é claro.
— De maneira alguma, . Sinta-se à vontade. — e somente naquele momento ela soube que ele estava realmente sorrindo.
— Com licença. — ela sorriu e então entrelaçou seu braço ao de Joana, direcionando-se para a grande porta pela qual haviam entrado.
— Pode falar, Eddie. — riu da careta de pânico do amigo.
— Eu gostaria de convidá-los para um brunch na minha nova casa e também gostaria da sua ajuda para planejar um pedido de casamento. — Edmund disse de uma só vez, nervoso enquanto o amigo apenas riu e começou a pensar no que podia sugerir.

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nunca vira tantas espécies de flores e árvores em um mesmo local. Se um dia achou que Aubrey Hall tinha muitas, o palácio tinha provavelmente o triplo. Ela e Joana caminharam por cerca de dez minutos e ainda assim havia um vasto caminho a ser percorrido. Tinham árvores enormes com várias frutas e flores de todos os tipos e cores, algumas ela não conhecia e buscava se atentar aos detalhes para perguntar a alguém quando pudesse.
Um cheiro doce delicioso surgiu subitamente no local, a garota se permitiu fechar os olhos por alguns segundos, na expectativa de decifrar de qual fruta o aroma era… Amoras, talvez? Não, definitivamente não! Mirtilos também não eram. Mas quando o vento soprou, balançando alguns fios de cabelo que escapavam do penteado o cheiro pareceu extremamente claro.
Eram definitivamente framboesas.
Assim que abriu os olhos, a jovem inspecionou brevemente ao seu redor e sorriu quando avistou a framboeseira com várias frutas caídas na grama. Entretanto, assim que a mais nova se desvencilhou brevemente de sua dama de companhia para pegar algumas, soluços altos se fizeram audíveis.
se ergueu imediatamente, procurando com o olhar de onde os soluços vinham. Bastaram alguns segundos para que ela avistasse os cabelos dourados do príncipe brilhando contra a luz do sol.
Ele estava… Chorando?
Ele estava de costas, completamente alheio a presença dela ali. Sua cabeça estava encostada no tronco da árvore, uma de suas mãos estava repousada na grama, uma de suas pernas estava esticada enquanto na outra o joelho elevado servia de apoio para seu antebraço.
Fora inevitável não se compadecer da dor do rapaz, sabia que ele chorava a perda do pai e, mesmo que fosse um idiota, não merecia estar passando por um momento tão difícil. Ela não precisava encará-lo para perceber o quão abatido e arrasado ele estava.
— Senhorita Bridgerton, se importa se eu me sentar ali por alguns minutos? — Joana cochichou, apontando para um banco de madeira a poucos metros de distância. — Parece uma conversa delicada demais para que eu permaneça por perto.
assentiu e então caminhou lentamente até ele. Assim que a luz do sol fora tampada pela sombra de seu corpo, os olhos de travaram um longo caminho pelo vestido azul escuro até focar nos olhos escuros dela. O príncipe se levantou rapidamente, secando e escondendo o rosto. Assim que considerou que parecia menos patético, ele se virou e acenou brevemente com a cabeça em forma de comprimento.
— Sinto em desapontá-la senhorita Bridgerton, mas não estou em condições de discutir hoje… — sua voz parecia mais magoada do que áspera e repleta de ironia como o habitual.
— Eu não me aproveitaria da fraqueza de um adversário para vencer uma batalha, alteza. — a voz dela era baixa, incerta.
desviou os olhos dos dele, encarando os próprios sapatos e então ela ergueu a cabeça novamente, para apreciar a vista. Sua garganta parecia seca, se arrependia de ter caminhado até ali por conta de um impulso empático repentino. Naquele momento, algo em lembrava o garoto que ela conhecera anos atrás, não o homem irritante que ele demonstrou ter se tornado.
— Eu… — ela quebrou o silêncio momentâneo, sentindo a necessidade de falar algo para parecer menos ridícula — Eu sinto muito por sua perda, não consigo imaginar a dor que está sentindo.
— Essa foi a primeira vez que me permiti chorar em todos esses dias, senhorita Bridgerton. — agora ele parecia cansado e, em partes, aliviado. não sabia por que estava falando algo tão particular a alguém que o odiava, mas aquela era a primeira vez que a verdade parecia menos dura de se digerir e ela parecia uma ouvinte à altura. Era como se eles já tivessem conversado sobre seus sentimentos e medos antes. — Eu senti ódio de Deus, me senti traído, desamparado… Mas só agora percebi o quanto eu fui egoísta. Meu pai estava sofrendo, definhando em cima de uma cama, impossibilitado de ser a pessoa ativa e alegre que ele era. Mas na verdade, agora, me sinto aliviado por ele ter se libertado de toda essa agonia… Isso faz sentido?
— Claro que faz… — murmurou, sorrindo fraco — Ninguém gosta de ver alguém que ama sofrendo. Mas não acho que isso te torna alguém egoísta, é um processo normal do luto demorar a entender que o melhor para ele infelizmente não era continuar vivendo. De que adiantaria ele ficar com vocês sofrendo por não conseguir ser ele mesmo? Com dores e se sentindo um fardo…
— Ver a minha mãe chorando sob o corpo morto do meu pai foi a pior cena que já vi em toda minha vida. — confessou baixinho. — Não creio que isso seja algo que eu vá esquecer.
— E de fato não vai, mas a dor vai se transformando em saudade com o passar do tempo. Você só vai se lembrar do seu pai com saudade dos momentos bons. Seus pais se amavam, parecia aquele tipo de amor que vai além da vida, sabe? Sua mãe com certeza vai ficar melhor com o tempo.
tencionou a mandíbula e comprimiu seus lábios.
— Você é tão inteligente, Bridgerton. Me admira que acredite em algo tolo como o amor.
— Só alguém tolo não compreende a grandeza e a beleza do amor. Eu me enganei em relação a você, . Achei que fosse inteligente… — ela zombou com um risinho irônico enquanto olhava os próprios sapatos.
— Se acorrentar a alguém e depositar toda sua felicidade nessa pessoa é tolice. Todos podem ser felizes sozinhos sendo livres e se descobrirem o que lhes faz bem. — deu de ombros e riu, dessa vez desprovida de sua habitual armadura de sarcasmo. Era só ela rindo enquanto tinham uma conversa agradável, era intrigante, quase como se ela se sentisse confortável perto dele e vice-versa.
— Eu concordo com você, alteza. Mas a sua percepção sobre o amor está completamente errada. — Bridgerton sentenciou com uma voz calma. — Isso que disse não é amor, é insensatez. O amor liberta, colore o que não tem cor e faz as coisas até então inexplicáveis finalmente fazerem sentido… Nenhuma pessoa nesse mundo pode te completar, príncipe . Mas certamente existe alguém que te complemente, que seja a soma da equação e não o valor total, o resultado ou solução de todos os problemas.
retesou os ombros sentindo-se desconfortável. Não tinha aversão completa ao que dizia, porém ainda parecia fácil demais que algo tão puro e bonito fosse real. Claramente ninguém que conhecia aparentava viver o amor, o que o tornava ainda mais utópico para ele. Mas a moça falava com tanta empolgação que era impossível não admirá-la falando algo com tanta segurança.
— É como naquele soneto¹. Amor é um marco eterno, dominante, que encara a tempestade com bravura. É astro que norteia a vela errante, cujo valor se ignora, lá na altura… Amor não teme o tempo, muito embora seu alfange não poupe a mocidade. Amor não se transforma de hora em hora, antes se afirma, para a eternidade. Se isto é falso, e que é falso alguém provou…
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou. completou e ela sorriu acenando com a cabeça. — É um belíssimo soneto, realmente, mas é claro que Shakespeare ia falar bem do amor, era o que lhe enchia a barriga e pagava as contas!
o encarou por alguns segundos e então riu sem pudor algum, alto e melodiosamente. soltou uma lufada de ar pelas narinas e acabou por acompanhá-la. Eles só pararam quando Joana se aproximou, avisando que era hora de ir.
— Continua sendo um idiota, alteza. — ela disse, o cumprimentando com um último aceno de cabeça — Mas pelo menos é um idiota engraçado.
riu um pouco mais e meneou a cabeça.
— Obrigado pela conversa e pelo elogio, senhorita Bridgerton.
Enquanto observava a moça de vestido azul se afastar com sua dama de companhia, não pôde deixar de lembrar da última conversa que tivera com o pai e que talvez ela se tornasse uma cunhada tolerável e pudesse realmente ser uma boa esposa para . E, por ora, isso devia bastar.

¹ O trecho mencionado faz parte do soneto 116 de William Shakespeare.



Capítulo 05

A nova casa de Edmund era bem menor que a Casa Bridgerton, mas, definitivamente, não menos graciosa. Tinha um belíssimo terraço, um bom espaço para bailes, uma sala de jantar consideravelmente grande, que acomodaria tranquilamente sua família, e um jardim modesto e bem cuidado. A pequena reunião que organizara naquele final de manhã não era nada grandiosa e nem para muitos convidados. Além de seus pais, irmãos e avó, os únicos presentes eram os Nightingales e os príncipes . Após a pequena caminhada onde apresentou as acomodações aos convidados, Edmund pediu que a comida fosse servida e não demorou para que todos estivessem acomodados, apreciando o delicioso brunch preparado pelas criadas recém-contratadas.
sentou-se ao lado do irmão, estava se sentindo melhor após a conversa com dias atrás, mas suas feições ainda transpareciam com clareza a dor do luto. Era inegável que a moça havia dado a ele muito a pensar com toda aquela baboseira sobre o amor, mas, ao mesmo tempo, era como se eles fossem velhos amigos e, por mais que detestasse admitir isso, sentira-se confortável com ela por perto. Tudo o que precisava era ser ouvido e compreendido e era no mínimo cômico que alguém que o detestasse tivesse feito isso com maestria.
Ele podia conversar com o irmão e a mãe, mas ambos preferiam não tocar no assunto se não houvesse extrema necessidade. Não podia julgar a dor dos outros, afinal, cada pessoa lida de uma forma e aquela, definitivamente, não era a dele. precisava conversar, jogar as palavras fora antes que essas se tornassem pensamentos dolorosos. E ele havia conseguido fazer isso, com Bridgerton.
É claro que aquilo o tinha perturbado por alguns dias, mas agora parecia menos bizarro. Estava até mesmo considerando agradecê-la.
Talvez fosse esse sentimento de gratidão que o deixara como um tolo com os olhos fixos nela. Naquela manhã a garota parecia ainda mais bonita, se é que aquilo era possível. Usava um vestido rosa claro esvoaçante que lhe dava um ar leve e angelical, seus cabelos eram trançados na parte da raiz e presos por uma fita da mesma cor rosada do vestido, de forma que as ondas caiam por seu ombro. Ele até mesmo se questionou se o sorriso dela era tão bonito das outras vezes que o vira ou se a “gratidão” estava o deixando louco. Só podia ser a gratidão, tinha que ser.
— Devo dizer que a decoração ficou muito bonita, senhor Bridgerton. — a senhora Frances Nightingale disse a Edmund, que soltou uma risada espontânea, tirando o príncipe mais novo de seus próprios devaneios.
— Tudo graças a minha mãe, senhora… — Eddie confessou olhando para a mãe que, por sua vez, sorriu agradecida para a mulher.
— Tentei deixar a casa a mais neutra, apresentável e aconchegante possível, Frances. — a viscondessa explicou — Assim, quando Edmund tiver uma esposa, ela poderá redecorar como preferir.
Edmund se engasgou com o vinho e recebeu ajuda do irmão que estava mais próximo. Do outro lado da mesa, e Mary trocaram risinhos discretos enquanto Florence continuava com o olhar fixo em seu próprio prato.
— E como está sua filha mais velha? — questionou o visconde, mudando de assunto para ajudar o filho. O senhor Nightingale sorriu orgulhoso.
— Ela está em Nápoles, fizemos uma breve visita durante nossa viagem e ela e o baronete parecem estar aproveitando bem a vida de recém-casados. — William Nightingale respondeu; era quase como um triunfo que sua filha mais velha tivesse arranjado um bom marido.
segurou-se para não revirar os olhos. Por baixo da mesa, ela segurou a mão da melhor amiga e lhe ofertou um sorriso consolador, visto que aquele não era o assunto preferido de Florence. Depois que Parthe, sua irmã mais velha, se casara e fora embora para a Itália, toda a atenção dos pais se transferira para ela e aquilo a deixava claramente desconfortável, visto que se sentia pressionada. O resto da refeição fora permeada por mais conversas do tipo, mudando de foco para cada um dos jovens presentes ou para algum evento ou notícia que valiam a pena ser comentadas.
Assim que a refeição se encerrou, Edmund convidou os príncipes, a irmã e Flora para conhecer melhor os jardins e a área externa da casa, afinal precisava criar a atmosfera perfeita para que seus planos fossem bem-sucedidos, o que de forma alguma aconteceria perto das conversas constrangedoras que os mais velhos puxavam hora ou outra.
— Gostaria de mostrar o espaço que montei para atirar, praticar esgrima e arco e flecha. Poderíamos até mesmo fazer uma competição saudável como nos tempos da faculdade — Edmund disse aos príncipes enquanto caminhava pelos jardins e logo sentiu o olhar da irmã brilhar sobre si. — Nem comece,
— O que? — a mais nova fingiu não entender, entre risos enquanto caminhava alguns passos atrás, ao lado de Florence e Miles.
— Você sabe o que. — Miles acusou e a moça ergueu as mãos em rendição. — Se ela for participar, eu não vou!
— Ah Miles… — sorriu meiga o que inexplicavelmente fez o príncipe mais novo engolir a própria saliva em seco. Desde quando o tempo fica seco no verão? Céus, precisava de água urgente. — Você já foi um perdedor melhor.
Os dois mais velhos imediatamente fecharam suas expressões. Florence não deixou de rir baixinho enquanto e pareciam entender melhor a situação.
— Não tenho a intenção de participar e ferir seu ego, irmãozinho. — sorriu para Edmund, que parecia desesperado para chamar a atenção de Florence. O que era inútil na opinião da mais nova, visto que Florence já o vira perder para ela no tiro com arco e flecha inúmeras vezes, mas como o mais velho parecia ansioso, ela resolveu não o importunar. — Não hoje.
soltou uma risada, finalmente entendendo a situação.
— Está brincando, ela sabe sequer segurar um arco? — questionou , incrédulo, recebendo quatro olhares muito apreensivos praticamente rogando para que ele ficasse quieto, mas já era tarde. O desdém fora imediatamente detectado por , que cerrou os olhos enquanto virava-se para encarar o príncipe.
— Sei sim, alteza. — a moça levou as mãos até a cintura, parecendo irritada.
Ele devia se arrepender segundo os olhares desesperados de Eddie, Miles e Flora, mas vê-la irritada era divertido e, além do mais, agora ele estava realmente curioso.
— Eu duvido… — o rapaz riu, inflamando mais ainda a ira da mais nova.
A Bridgerton não podia acreditar que a primeira palavra que o rapaz lhe dirigia naquele dia era com desdém, não quando a última conversa que tiveram fora tão agradável e tivesse lembrado tanto a primeira que tiveram no Hyde Park, anos atrás. odiava que duvidassem de suas capacidades, mas aquela não era a primeira vez que isso acontecia com . continuava achando ser melhor que ela, mas assim como fizera na amarelinha daria tudo de si e o venceria naquela manhã também.
Imaginando como seria uma vitória saborosa ter como prêmio vê-lo se sentir um estúpido, ela sorriu.
… — olhou para o irmão com censura, mas o sorriso do mais novo apenas se alargou ainda mais quando a senhorita Bridgerton caminhou até a frente dele.
— Desafio aceito, alteza. — falou com o mesmo tom de desdém sustentado por ele enquanto apertavam as mãos — Será uma honra vê-lo perder.
— Tente não se chatear tanto quando eu ganhar, senhorita Bridgerton.

👑👑👑


Minutos depois Edmund já havia preparado tudo, Miles e observavam a cena do outro lado do gramado e Florence conversava com sua dama de companhia. estava ao lado de , admirando-a pelo canto dos olhos. Surpreendentemente — ou não, para aqueles que já a conheciam perfeitamente bem —, a moça parecia calma e inabalável e isso sim o deixava irritado e determinado a ganhar, só para vê-la bufar irritada.
— Os alvos já estão preparados. — Edmund disse, ainda ressabiado com a disputa — De quantas flechas precisam?
— Senhorita Bridgerton? — deu de ombros e indicou para que ela escolhesse, em um tom de falsa gentileza. , em contrapartida, sorriu maldosa.
— Uma para cada, Eddie. — o mais velho assentiu, indo atrás do que a irmã lhe pedira enquanto lançou espontaneamente um olhar assustado para a moça. — O que? A menos que precise de mais… Embora eu ache que quem é bom só precisa de uma oportunidade, alteza.
— Está ótimo, como preferir. — pigarreou e sorriu — Ainda assim vou vencê-la.
— Claro que vai… — ela riu irônica, indo até Edmund para pegar seu arco e observá-lo deixar o espaço junto com Flora e sua dama de companhia. Não demorou para que os dois estivessem em suas marcas, ambos segurando seus arcos e olhando para o alvo numerado de um a dez das extremidades ao centro, respectivamente. foi primeiro, posicionou-se e mirou da melhor maneira que pode e, então, atirou a flecha, acertando no oito e lançando a um sorriso presunçoso.
— Ela tem chance? — enquanto observava de longe, perguntou a Miles, que lançou uma risada irônica e meneou a cabeça para onde a irmã se posicionava ignorando completamente o príncipe , que a olhava como se fosse impossível que ela o vencesse. Coitado, pensou Miles, comprimindo os lábios em uma tentativa de conter a risada.
juntou os pés em cima da marca feita no chão, endireitou a postura e ergueu o arco com calma até a altura de seus olhos, puxando a flecha até as penas desta roçarem na asa de seu nariz. Seus olhos buscaram cuidadosamente pelo centro do alvo e então ela a soltou, abaixando o arco e passando pelo príncipe com um risinho baixo escapando-lhe pelos lábios. Não precisou olhar o alvo para concluir que havia ganhado, não quando já lhe presenteava com o prêmio que ela tanto desejava: vê-lo se sentindo um imbecil e com o ego em caquinhos.
No entanto, quando voltou seu olhar para a frente, não esperava ver seu pai a olhando sério ao lado de e Miles.
— Bela vitória, filha. — o visconde murmurou baixo, mas não sorria como sempre fazia depois que ela ganhava de seus irmãos.
— O que aconteceu, pai? Por que está tão sério? — ela franziu o cenho, procurando pelos outros convidados — Onde estão os Nightingales e a mamãe?
— Seu irmão pediu a senhorita Nightingale em casamento. — Anthony disse de uma vez, sem responder nenhuma das perguntas da filha.
— Isso é ótimo? — ela arriscou, ainda confusa. Mas a expressão do pai não melhorara, muito menos a dos outros dois. notou a movimentação e, mesmo bravo com a derrota, seguiu para perto do grupo, chegando a tempo de ouvi-la repetir a pergunta — Isso é ótimo, não é papai?
Seria... Se ela tivesse aceitado.

🐝🐝🐝


Edmund estava se esforçando para não demonstrar, mas era óbvio que estava péssimo. sabia dos sentimentos do irmão por sua melhor amiga desde quando eram apenas crianças; Eddie era um território conhecido que ela sabia percorrer até mesmo de olhos fechados. E, foi exatamente por conhecê-lo tão bem, que ela não o procurou. Sabia que o mais velho precisava apenas de espaço para lidar com as próprias frustrações e entender sozinho tudo que havia ocorrido para então digerir a rejeição e seguir em frente. Ao contrário de Florence que, com certeza, precisava conversar, o que explicava o motivo que levou a mais nova a se dirigir tão cedo até a casa dos Nightingales.
Não conseguira trocar sequer uma palavra com a amiga no dia anterior já que, pelo que sua mãe lhe contara, o Sr. Nightingale parecia constrangido, furioso e completamente desgostoso com a decisão da filha, o que justificava a família ter saído tão rapidamente de lá. A perspectiva de sua melhor amiga — na melhor das hipóteses — tendo que ouvir um sermão longo do pai foi mais do que suficiente para que perdesse completamente o sono, preocupada. Então, quando abriu a porta do quarto da amiga, seus olhos rapidamente a encontraram encolhida na cama e ela sentiu como se uma ferida estivesse aberta em seu próprio peito. Odiava vê-la tão mal. Assim que viu , Florence imediatamente se levantou e a abraçou forte, enquanto um soluço alto reverberou pelo cômodo.
— Eu não achei que viesse… — sua voz era rouca e fraca, certamente por ter chorado a noite toda. a ajudou a se sentar e em seguida acomodou-se em sua frente, levando os polegares até o rosto da mais velha para que pudesse enxugar suas lágrimas.
— Não chore mais… É claro que eu viria. — a Bridgerton sussurrou com um meio sorriso.
— Achei que me odiasse pelo que fiz.
— Tem noção da tolice que está dizendo? — interrompeu horrorizada e a abraçou forte mais uma vez — Por Deus… Eu nunca poderia odiá-la!
— Me perdoe, eu nunca imaginei que Edmund estava planejando isso, embora soubesse que o mesmo nutria sentimentos por mim. Pensei que era algo bobo e passageiro! — Nightingale desatou a dizer, enquanto secava o resto das lágrimas — Ele é um rapaz bom, generoso e perfeito… Mas para outra moça. Juro que se eu pudesse ter alguém, seria, sem sombra de dúvidas, ele. Mas não posso aceitar.
— Como assim não pode? — preocupou-se a Bridgerton, enquanto segurava as mãos da amiga. Sua cabeça latejou com a possibilidade de alguém estar a ameaçando ou algo pior. — Tem algo acontecendo? Sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
Florence ofereceu um sorriso a e afagou a pele do dorso de sua mão.
— Ainda não contei aos meus pais, mas pretendo ir embora para estudar. — Nightingale revelou. Não chorava mais e até parecia… Feliz?
— Mas você sabe que não precisa abrir mão de se casar se não quiser, não sabe? Não é como se você fosse escolher um marido que dita o que pode ou não fazer…
— Eu sei… — cochichou a mais velha em um tom compreensivo — Não posso me casar porque tenho que me dedicar a minha missão, . Isso requer toda a minha dedicação e tempo, não acho que darei o meu melhor se tiver outras preocupações para lidar. E, honestamente, eu nem quero ter um marido ou filhos, mas quero com todo o meu coração ser enfermeira.
, que olhava a amiga com atenção, não conseguiu conter o choque expresso através de seus olhos arregalados e boca levemente aberta. Amava Florence, a apoiaria em qualquer que fosse sua decisão, mas não podia deixar de pensar que aquilo tudo era loucura. Estava orgulhosa por vê-la correr atrás de seus sonhos, mas temia, visto que mesmo com um trabalho necessário e louvável, as enfermeiras não eram mulheres respeitadas e ela poderia sofrer muito por isso.
— Nós sempre falamos em como seria incrível estudar e eu acredito que todos nós temos uma missão, que nascemos para fazer algo no mundo. — adiantou Nightingale, recebendo um sorriso desconfortável da amiga — Eu sei o que está pensando… Mas eu sinto que nasci para fazer isso. Não sei explicar, pareceu um chamado divino e não, coisas assim não se recusam, além do fato de eu querer fazer isso mais que qualquer outra coisa… Nunca pensou em qual é a sua missão, ?
— Eu nunca pensei nisso, mas o ponto aqui é você. — , que fingiu não ter se importado com a pergunta direcionada a ela, murmurou chorosa e preocupada, abraçando mais uma vez a amiga — Não pense que não a apoiarei. Estou orgulhosa! Você está correndo atrás do seu sonho e isso é admirável, Flora! Só me preocupo com as possíveis dificuldades que você pode encontrar no caminho e…
— Você já disse tudo, : possíveis dificuldades. E as coisas mais difíceis são aquelas que valorizamos mais. Sei que não é uma profissão respeitada, mas eu farei com que me respeitem, custe o que custar. — Flora tranquilizou a amiga e suspirou e lhe ofereceu um sorriso franco, que significava que estava dando-se por vencida.
Florence sorriu agradecida. Era reconfortante saber que existia alguém no mundo que nunca desistiria dela e a encorajaria sempre que precisasse de um empurrão. A verdade é que conversar com tornou as coisas mais reais do que ela podia acreditar e a perspectiva de estar longe de sua melhor amiga era assustadora.
— Confio em você. — a encorajou, como se pudesse ler seus pensamentos — Sei que tem conhecimento, força de vontade e espírito suficientes para mudar esse cenário e conseguir o respeito que merece… E, no fim, eu sempre estarei aqui para te aplaudir ou para te confortar.
saiu da casa dos Nightingales algum tempo depois, despida da preocupação que tinha quando chegou, sentindo-se orgulhosa de Florence e levando embora consigo a semente plantada pela melhor amiga durante a conversa que tiveram. Ela havia respondido com sinceridade quando dissera que nunca havia pensado naquilo. Florence parecia ter concluído qual era sua missão em minutos, então por que ela não conseguia pensar em nada? Afinal, se todos tinham um propósito no mundo, qual diabos era o dela?
Bastaram horas para que a simples colocação feita não intencionalmente por Florence se tornasse uma dúvida inquietante para . A amiga tinha razão quando dizia que ser mãe e esposa não era uma missão e a simples menção à ideia de passar o resto de sua vida apenas sendo o protótipo de mulher ideal imposto pela sociedade deixava a Bridgerton enojada. Não que ela não quisesse isso, mas almejava mais por saber que podia ser mais que aquilo. Seu tio Benedict, por exemplo, era um exímio pintor reconhecido. Já seus tios, Colin e Penelope, eram ótimos escritores. Miles fazia belíssimas esculturas. Enquanto ela… Simplesmente existia.
E então, quando se deitou à noite e parou para pensar sobre o que ela fazia bem, só quis se esconder entre os travesseiros e lençóis e chorar. Não sabia pintar, apenas misturar tintas e formar borrões esquisitos. Quando bordava, vivia espetando os dedos e manchava tudo com gotas de sangue, transformando o que era para ser gracioso em algo nojento e pavoroso. Cantar? Só se fosse para uma plateia de surdos. Ela até sabia tocar piano, mas não era como se fosse algo que lhe fizesse verdadeiramente feliz. Sabia recitar poesias e lia muito, mas parecia patético que o propósito de alguém fosse apenas ler. Argh, aquilo era frustrante!
Como podia ser tão difícil assim descobrir o que ela nascera para fazer?
Quando o dia amanheceu, ainda se sentia péssima, mas tentava se conformar pensando que, com certeza, ela tinha um propósito e que hora ou outra ela saberia. Depois de não dormir quase nada durante a noite, assim que os primeiros raios de sol surgiram ela conseguiu finalmente cochilar, o que não durou muito tempo, pois logo Mary estava pulando em cima dela.
— Vamos, ! Levanta! — a mais nova pulou mais uma vez, recebendo um resmungo como resposta — Mamãe prometeu que vai me dar um vestido da Madame Montpellier!
— E o que eu tenho a ver com isso? — se sentou irritada e a mais nova pulou uma última vez, caindo sentada na frente da irmã.
— Ela disse que nós só iriamos quando você estivesse precisando de mais vestidos e, bem… Você está! — Mary afirmou.
— Não estou não. — a mais velha rebateu, voltando a se deitar. — Agora sai daqui e me deixa dormir.
— Você está precisando, sim! — deitou-se em cima da irmã, recebendo murmúrios enfurecidos como resposta. — Por favor, zinha... Você sabe como eu te amo e é meu primeiro vestido bonito, eu estou ansiosa! Vamos, por favoooooooooor?
— Tá! — rugiu, a empurrando para o outro lado da cama. — Mas preciso dormir mais alguns minutos antes.
— Aaaaaaaa! Obrigada, obrigada, obrigada! Eu te amo tanto, irmãzinha! — Mary pulou da cama e saiu saltitando atrás da mãe enquanto a mais velha voltou a se cobrir, bufando.

🐝🐝🐝


Madame Matilde Montpellier era dona de um ateliê de costura famoso por vestir as damas mais relevantes da alta temporada. Era uma mulher discreta e rica, o que dava margem para os boatos maldosos acerca de sua vida, como o de que envenenara o marido e fugira para Inglaterra com sua fortuna. Mas o que se sabia ao certo era que Matilde era francesa, viúva e que tinha uma filha, Eleanor Montpellier.
Não demorou para que seus modelos únicos conquistassem o coração das inglesas, mesmo que não estivesse tão bem localizado assim. O local era próximo ao vilarejo chamado pejorativamente de Scurvy Purlieu, que mais se assemelhava a um grande cortiço do que qualquer outra coisa, onde vivia grande parte da população mais pobre.
Ainda assim, o ateliê era bem bonito, iluminado, com paredes claras e espelhos por toda parte. Também tinha o chá delicioso de maçã com especiarias e os sofás mais confortáveis para pessoas que não se interessavam em comprar — lê-se pessoas que não queriam estar lá — como Miles, que era sempre escalado para acompanhar a mãe e as irmãs nesse tipo de programa.
era sempre mais objetiva, escolhia rápido o que queria e ficava esperando a mãe junto com Miles. Naquele dia não foi diferente, experimentou um vestido vermelho e outro bege claro e decidiu levar os dois. Mary estava deslumbrada e era até divertido ver seus olhos brilhando, mesmo que sua indecisão demorasse horrores. Eleanor, que estava organizando algumas caixas, prontificou-se a trazer alguns biscoitos para tornar a espera dos irmãos Bridgerton menos desagradável.
— Será que ela está tirando leite da vaca para fazer os benditos biscoitos? Que demora… — murmurou Miles desgostoso. o lançou um olhar de censura antes de lhe estapear o ombro.
— Miles, por Deus! A senhorita Montpellier interrompeu as próprias atividades para te oferecer biscoitos e você ainda reclama? Nós recebemos a mesma educação ou nossos pais te acharam no lixo e te vestiram com um terninho?
— Puxa, mas eu jurava ter ido junto com eles te buscar no meio dos entulhos… — Miles sorriu e levou o indicador até o nariz da irmã, fazendo cócegas no mesmo até ela o enrugar graciosamente. A garota deu um último tapa no irmão e percebeu que Eleanor tentava equilibrar a bandeja de biscoitos em uma das mãos e seu caderno embaixo do braço. Quando ousou abrir a boca para oferecer ajuda, o tilintar da prata da bandeja batendo no chão se fez presente e biscoitos voaram para todos os lados.
— Por Deus, Eleanor! Qual o seu problema? — a voz alta e o sotaque carregado de Madame Montpellier puderam ser ouvidos claramente de dentro dos provadores até as Américas, com toda certeza.
— Já resolvi, mamãe! Désolé! — a mais nova respondeu desesperada, pegando os biscoitos do chão. Então olhou para os dois irmãos que já estavam a ajudando com a bagunça — Me desculpem e não se incomodem, por favor… Posso fazer isso.
— Três resolvem mais rápido que um. — sorriu, abaixando-se para apanhar os biscoitos quebrados que estavam embaixo de uma arara de vestidos.
— E não queremos que ouça outro grito daquele… Nos preocupamos com sua saúde, senhorita Montpellier. — ela ouviu Miles dizer a Eleanor quando percebeu que havia dois pequenos pés descalços e sujos no meio dos vestidos. ergueu uma das sobrancelhas e imediatamente certificou-se de que o irmão e a senhorita Montpellier estavam distraídos o suficiente.
Suas mãos afastaram devagar dois dos vestidos e, entre eles, seus olhos encontraram uma garotinha com cabelos tão ruivos que se assemelhavam a chamas de fogo e que aparentava ter pelo menos uns três anos de idade. Ela levou o indicador aos lábios e murmurou um “shh!” com um sorriso travesso. A mais velha assentiu, erguendo um biscoito e repetindo o pedido de silêncio. Não podia nem imaginar o escândalo que a dona da loja faria se visse a pequena criança ali, então ofereceu a mão para ela e silabou silenciosamente um “vem” com os lábios. A ruivinha pegou o biscoito e se aproximou de , que a guiou pelo ombro até sua frente de modo que sua saia a escondesse.
— Miles, pode vir aqui fora? Não me sinto bem, preciso tomar um ar…
O mais velho, preocupado, não hesitou em pedir licença para Eleanor e seguiu para fora do ateliê com pressa. Seus olhos buscaram por passando mal, mas encontraram apenas a mais nova abaixada na frente de uma criança.
— Mas que porr…
— Shh! — franziu o cenho e voltou a olhar a criança, que ria — Não está vendo que tem uma criança aqui?
— Eu acho que ela entendeu o que eu ia dizer. Precisamos chamar a polícia…
Mas a pequena garota se escondeu atrás da mais velha, assustada.
— Está tudo bem, ele está brincando, nós não vamos chamar ninguém… Onde está sua mamãe? — ignorou Miles e perguntou à pequena, que simplesmente apontou para Scurvy Purlieu. — E qual o seu nome?
— Alice. — ela respondeu simplesmente, mordiscando o biscoito.
olhou para o irmão mais velho e não precisou dizer nada para que ele negasse repetidas vezes com a cabeça.
— De jeito nenhum! Não é nada aceitável que você entre lá e…
— Não sei quem decide o que é ou não aceitável, mas sei que não é nada aceitável deixar uma criança sozinha. — rosnou a mais nova, segurando a mão de Alice. Sabendo que aquela era uma batalha perdida, Miles bufou lançando um último olhar para o ateliê.
— Enrole sua echarpe na cabeça, pelo menos não a reconhecerão se formos vistos. E se passar de trinta minutos nós procuraremos a pol… As autoridades, tá legal?
assentiu e, quando começou a caminhar com Alice e Miles, pela primeira vez na vida torceu para que sua mãe demorasse na escolha dos vestidos.



Capítulo 06

apertou Alice contra o próprio peito assim que adentraram a área de Scurvy Purlieu, como se aquele gesto simplório pudesse proteger a criança. Em seguida, a moça prendeu a respiração por alguns segundos a fim de evitar sentir o cheiro intenso e nauseante; nunca estivera em um lugar tão pútrido como aquele antes. O pensamento dominante em sua mente era: como que tantas pessoas conseguiam viver ali em meio a condições tão precárias de higiene e saneamento básico? Como a sociedade conseguia fechar os olhos frente às condições caóticas e desumanas que todas aquelas pessoas viviam? Como ninguém fazia nada a respeito?
Era desumano, revoltante.
A rua era formada de uma espécie de barro espesso e grudento que se misturava ao lixo e tornava a caminhada dos irmãos Bridgertons mais lenta e cautelosa, em um contraste paradoxal e doloroso com as crianças que passavam por eles correndo descalças. Algumas pessoas olhavam para os jovens extremamente bem-vestidos com curiosidade, outros com malícia e suspeita, mas todos eles caminhavam em uma única direção.
O destino era uma espécie de bar, que parecia sediar uma reunião importante lotada por todo tipo de gente: de homens a mulheres, de jovens a idosos, dos mais conservadores aos mais devassos… Todos falando ao mesmo tempo como em uma discussão acalorada. Miles engoliu seco e levou o braço até os ombros da irmã, conduzindo-a para o lado contrário ao do estabelecimento, longe de qualquer perigo como uma garrafa de vidro voadora ou até mesmo uma agressão física, por exemplo. Os moradores de Scurvy Purlieu pareciam desolados, indignados, como se definitivamente houvesse um equívoco gravíssimo ali.
virou seu olhar do tumulto para a pequena garotinha ruiva em seu colo, que tinha uma de suas mechas de cabelo escuro em meio aos dedinhos, brincando com os fios, completamente absorta ao seu redor. Era melhor assim, pensou a Bridgerton, aliviada. Talvez toda aquela confusão assustasse Alice, e também não era como se eles quisessem chamar atenção ou como se soubesse o que fazer para acalmá-la se aquilo acontecesse.
Fora então que, repentinamente, passos apressados se fizeram audíveis na direção de Miles e . Há uma distância considerável dos dois, uma mulher de vestes surradas e rosto magro corria desajeitadamente gritando algo que ambos não conseguiam decifrar. As palavras proferidas pela mulher ruiva — seja lá quais estas fossem — chamaram a atenção de Alice, que começou a se mexer de forma agitada no colo de .
— Mamãe!
— Alice, minha filha! — os irmãos conseguiram entender assim que a distância entre eles e a mulher se encurtou.
apressou o passo na direção da mãe da garotinha com o irmão em seu encalço. Assim que a ruiva recebeu a filha do colo da Bridgerton, a mulher se ajoelhou no chão e começou a chorar copiosamente enquanto verificava a filha cuidadosamente.
— Ah, filha… — ela abraçou Alice mais uma vez assim que concluiu que tudo estava bem — Eu pensei que ele tinha te levado.
O olhar da menininha se tornou assustado e então ela começou a chorar e pedir desculpas para a mãe.
— Desculpa, mamãe, desculpa… Alice só quis ajudar quando ouviu que mamãe não vai ter mais dinheilo para compar nossa comida. — choramingou a pequena enquanto tirava do bolso do vestidinho surrado um biscoito quebrado pela metade. — Eu trouxe pra mamãe, olha.
— Alice… — a mulher disse num tom de advertência, mesmo com o carinho explícito na voz — Nunca mais faça isso, tudo bem? A mamãe vai dar um jeito, isso é coisa para adultos se preocuparem, tudo bem?
Alice assentiu cabisbaixa. sentiu os olhos arderem e apertou a mão do irmão, rogando com o olhar para que pudessem fazer alguma coisa para ajudá-las.
— Mas mamãe develia comer o biscoito… Eu quase comi, mas lembrei do barulhinho que a barriga da mamãe faz e achei que a mamãe melece mais que eu.
— Você pode comer o biscoito, meu amor. — a mais velha declarou chorosa e abraçou a filha, dessa vez em um misto de preocupação e orgulho da ingenuidade e bondade do pequeno coração da menina. — Só prometa que não vai fazer mais isso, ok? Mamãe não sabe o que faria se algo tivesse acontecido com você...
Alice assentiu e parecia mais animada dessa vez, por poder comer o resto do biscoito. Quando se levantou, a mulher pareceu se lembrar dos dois que assistiam a cena meio atordoados pela realidade tão distinta da que viviam.
— Ah senhores… Que Deus abençoe… Muito obrigada por trazerem minha menina em segurança. — ela fez menção em se ajoelhar, dessa vez aos pés dos dois para agradecer; mas impediu ao se abaixar e a segurar pelos antebraços, erguendo-a para cima.
— Não há de que… Não foi nada... — foi Miles quem disse, ainda chocado.
— O que posso fazer para retribuir? Eu poderia me oferecer para lavar as roupas de vocês, mas como fui demitida, não posso mais fazer isso… Mas é só me dizer o que posso fazer que eu faço e…
— Não é necessário. — sorriu — Alice estar segura com a mãe novamente já nos deixa feliz.
— Eu insisto, por favor… — rogou a ruiva, enquanto acariciava a cabeça da filha.
— Certo, já sei o que pode fazer… — Miles começou sob o olhar furioso da irmã, mas franziu o cenho por não saber como chamar a moça — Perdoe-nos pela desatenção, mas como é o seu nome mesmo?
— Beatrice. — a ruiva respondeu rapidamente — Beatrice Fernsby, senhor. Pode dizer o que deseja e eu faço!
— Miles… — rosnou enquanto cutucava o irmão.
— Quero convidá-las para uma refeição em nossa casa. — Miles ignorou a irmã que, agora suspirava aliviada pelo pedido dele — E não aceito não como resposta, senhorita Fernsby. A propósito, sou Miles Bridgerton e essa é minha irmã .
Beatrice olhou os irmãos com espanto. Ela, assim como qualquer alma vivente em Londres, já ouvira falar sobre a poderosa família e agora sentia-se péssima. Será que pareceu que ela estava tentando se aproveitar deles? Céus… Maldita hora em que seu desespero a tomara a ponto de fazer com que ela contasse as desgraças de sua vida na frente de dois desconhecidos. Miles e esperavam sua resposta enquanto Alice a olhava com expectativa frente a perspectiva de comer algo que não fosse pão seco com geleia. Ela queria dizer não, mas não era como se pudesse negar uma refeição para a filha, então assentiu concordando em segui-los até a casa Bridgerton em Mayfair.

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A brisa fresca da manhã bagunçava os cabelos dourados de assim como levantava as pétalas das flores caídas das árvores pela abundância destas graças à primavera. Era uma dança lenta e visualmente hipnotizante que deixava o Hyde Park ainda mais bonito sob os raios dourados-alaranjados do sol.
O príncipe ergueu a mão para alcançar uma pétala rosa que caía rodopiando graciosamente em uma forma elíptica. Era macia e leve, e o aroma do lugar — que deveria ter o cheiro floral graças as pétalas, mas na verdade tinha o cheiro cítrico e energizante de tangerina — era tão confortável que o fizera fechar os olhos para senti-lo melhor. No entanto, o som de uma risada melodiosa fez com que ele os abrisse rapidamente. Não de uma forma assustada, mas sim despertando sua curiosidade; afinal, de alguma forma, até nos cantos mais escondidos de sua mente aquele som lhe era estranhamente familiar.
Há uma distância média de onde o caçula se encontrava, ele conseguiu ver as costas de uma mulher de cabelos longos e escuros que usava um vestido verde oliva e acariciava um belíssimo cavalo colorado. Sua risada ainda podia ser ouvida e franzia o cenho enquanto se aproximava dela em passos lentos.
Assim que estava perto o suficiente para se atentar a mais detalhes, o príncipe observou que na outra mão a moça tinha uma flor. piscou algumas vezes atordoado enquanto sentia a cabeça pesar com tantas informações; foi confuso até o momento que ele entendeu, enquanto o corpo tornava-se mais leve e mais ansioso até.
Eles estavam no mesmo lugar de anos atrás, com um clima perfeitamente idêntico ao daquela manhã. A garota não segurava uma flor qualquer… Era a orquídea pela qual fora tão longe atrás a fim de plantar no jardim real, aquela cuja associara diretamente a ela. A moça desconhecida também usava um vestido verde com babados, muito parecido com o que ela usava naquela manhã.
Só então que percebeu que segurava uma pedrinha em uma das mãos enquanto na outra mão estava a boneca restaurada há anos pela rainha, ainda havia uma amarelinha desenhada no chão ao longo da distância que os separava. A desconhecida, que na verdade não era tão desconhecida assim, fez menção em se virar enquanto brincava com o caule da flor por entre os dedos. Fora então que sua voz, também familiar, soou suave e energizante como a brisa que os envolvia:
— Achei justo pegar uma das suas flores quando você ainda está com algo que me pertence, alteza…
Aquilo foi tudo que conseguiu ouvir antes da face de sua garota do parque dissolver-se em uma névoa clara até se tornar o dossel de sua cama quando seus olhos abriram abruptamente. O príncipe até fechou os olhos mais algumas vezes, desejando ser transportado novamente até o sonho que lhe levara a ela, mas já era tarde. Tudo que lhe restava ao abrir os olhos eram as memórias frescas de tudo que vira há segundos e a vontade enlouquecedora de ir atrás de respostas.

🐝🐝🐝


A viscondessa Kate já não olhava mais como se fosse matar os dois filhos pelo susto que eles a haviam dado ao sumir mais cedo e ir até um lugar duvidoso; na verdade, seu olhar parecia se prender na forma com que Beatrice e Alice pareciam felizes em comer uma refeição depois do que parecia ter se passado muito tempo sem uma que lhes satisfizesse.
Os três Bridgertons presentes na sala de visitas só olhavam as duas com sorrisos, a pequena Alice já havia os cativado completamente e Beatrice também já começava a demonstrar se sentir mais à vontade frente a eles.
— Estava tudo maravilhoso, viscondessa Bridgerton. — a ruiva sorriu, curvando a cabeça em um agradecimento sincero. Assim que ela voltou a encarar, Kate, e Miles nos olhos, os três puderam perceber que os olhos da mulher estavam cintilantes. — Eu nunca poderei expressar o quão grata eu sou... Muito, muito obrigada.
— Muito obrigada! — Alice imitou a mãe, arrancando risadas dos mais velhos. Miles que estava mais perto da garotinha apenas apertou-lhe a bochecha suavemente.
— Não há o que agradecer, senhorita Fernsby. Ficaremos felizes que ajudá-la no que pudermos. — a viscondessa tratou de dizer, recebendo um sorriso da visitante.
— Desculpe parecer intrometida ou insensível em perguntar, Beatrice. Mas eu realmente gostaria de entender o que estava acontecendo lá no vilarejo quando nos encontramos… O clima não parecia muito amistoso. — observou a ruiva se remexer desconfortável no sofá e sentou-se ao lado dela para pegar uma de suas mãos — Não precisa nos contar se não se sentir à vontade, mas nós gostaríamos muito de entender para saber como exatamente podemos ajudar.
Fernsby pareceu ponderar por alguns segundos, mas concluiu que aquela talvez fosse sua melhor chance de dar oportunidades melhores a sua pequena filha. Não era como se ela ainda tivesse o que perder, então podia ao menos tentar.
— As terras do vilarejo pertencem a um duque que faleceu recentemente e não existem descendentes que possam herdá-las. Elas já eram abandonadas de qualquer forma e acabam servindo de abrigo para as pessoas que vocês já devem imaginar. Pessoas renegadas, esquecidas e invisíveis...
Ela soltou uma risada sem humor e deu de ombros.
Pessoas como eu.
sentiu a garganta se fechando em vontade de chorar, mas apenas apertou mais a mão da mulher a sua frente, ouvindo-a com atenção. Beatrice sentiu uma conexão tão grande quando olhou nos olhos da garota que sentiu, mesmo que não a conhecesse direito, que podia confiar nela e em sua família.
— Os moradores estavam reunidos hoje para tentar procurar uma solução porque o lorde… — sua voz falhou e ela parecia enojada ao tocar o nome do homem, ela se encolheu e recebeu um olhar encorajador e reconfortante da senhorita Bridgerton — Porque o lorde Abercrombie está pensando em demolir as terras e desapropriá-las para vender pelo triplo do preço depois. Acontece que as pessoas lá não têm para onde ir, a situação que vivemos já é de completa miséria, sem um lugar para ficar então…
Beatrice finalmente se permitiu chorar, sendo abraçada por de imediato. A garota sabia que existiam mais coisas ali, notara a forma que Beatrice se encolhia quando falava do tal lorde, sem mencionar o fato de que ela não conseguia parar de tremer. Alice já parecia ficar agoniada ao ver a mãe chorando, então Kate pediu para que Miles a levasse para brincar com Mary enquanto elas conversavam.
— O pior de tudo é que esse homem… — recomeçou ela, ainda com o tom de voz desgostoso — Algumas pessoas sabiam que ele e eu tínhamos certo grau de… Parentesco? Não sei… A história é bem mais complicada que isso. Minha mãe faleceu quando eu nasci e meu pai, Sir Thomas Fernsby decidiu se casar novamente com uma mulher completamente desagradável. Minha madrasta, Lucila. Ela sempre pareceu meio indiferente em relação a mim, mas na frente do meu pai fingia ser um doce… Quando ele faleceu deixou tudo que tinha para mim, mas como eu só tinha quinze anos quem ficou responsável pela minha herança e dote foi ela, Lucila. Assim que ela terminou de torrar todo o dinheiro do meu pai, se casou novamente…
— Com lorde Abercrombie… — deduziu a viscondessa, afinal já os tinha visto em alguns poucos eventos sociais, sempre com os narizes empinados e as carrancas de nojo. Kate também lembrava-se vagamente do Sir. Thomas e de sua esposa que também se chamava Alice, eram pessoas gentis que realmente não mereciam ter morrido tão cedo.
— Exato. Ele… Esse homem… Ele… — a voz de Beatrice começou a falhar e ela fechou os olhos com força respirando fundo — Ele me tocava sem minha permissão.
levou as mãos aos lábios, sentindo seus olhos arderem em lágrimas de ódio. Já havia conversado abertamente sobre isso com sua mãe, principalmente com o efeito contrário ao da situação de Beatrice.
Kate e Anthony preferiram conversar com a filha assim que a menarca da mesma aparecera pela primeira vez nos lençóis e, de certo modo, sempre tentaram tratar o assunto com certa naturalidade perto de para que ela entendesse e pudesse se proteger — Deus a livrasse! — caso tentassem algo. Por mais que a Bridgerton soubesse que infelizmente tais coisas aconteciam com mulheres em todo lugar, Beatrice era a primeira que ela tinha oportunidade de conversar e a verdade lhe parecera tão crua, fria e intragável que era impossível não se sentir enojada.
apertou-lhe a mão mais uma vez, tentando passar por aquele simples gesto, todo seu respeito, empatia e afeto. Beatrice por sua vez, respirou fundo e forçou-se a continuar. Fazia aquilo principalmente por Alice, mas, de certo modo, sentia que fazia por si mesma também. Era libertador conversar com alguém sobre aquilo depois de anos e mais anos em silêncio.
— Ele… Me ameaçava e eu não podia contar pra ninguém e nem tinha alguém que pudesse acreditar em mim. Então um dia Lucila viu tudo e como eu era a intrusa ali, não tinha mais serventia alguma pra ela depois de todo o meu dinheiro acabar, foi o motivo perfeito pra eles me expulsarem. Uma parte de mim ainda acreditava que ela ia se colocar no meu lugar, eu era só uma criança, afinal… Uma menina que nem sabia o que estava acontecendo.
— Beatrice… Meu Deus… Eu… Eu sinto muito. — murmurou depois de alguns minutos digerindo tudo o que fora dito. — Não consigo mensurar o quão dolorido é passar por algo assim, fico feliz que, de alguma forma, você sentiu que pode acreditar em nós. Muito obrigada por isso.
— Ele foi até lá e eu o vi de longe… Foi horrível, senhorita . Todo meu corpo tremia e eu não conseguia nem me mexer. Eu acabei contando tudo para uma das minhas colegas lavadeiras, achei que ela era minha amiga. Na primeira oportunidade ela disse que eu era parente daquele homem asqueroso e que eu podia estar metida com tudo aquilo. A comunidade não foi nada generosa ao considerar minha situação e estão querendo nos expulsar de lá, e assim como eu mencionei mais cedo, acabei sendo demitida também. Aí a Alice sumiu e… Eu só conseguia pensar que ele podia ter feito algo com ela...
— Graças a Deus foram meus filhos que a encontraram, Beatrice. — a viscondessa se levantou, sentando ao lado da filha e da moça e unindo a mão as delas em um momento solene. — E eu não vou deixar que você e Alice fiquem desamparadas. Te oferecerei emprego e moradia.
— Que Deus a abençoe, lady Bridgerton… Eu… Muito obrigada. Eu faço o que for preciso, o que a senhora precisar. — Beatrice se ajoelhou aos pés de Kate, que imediatamente a ajudou a se sentar novamente.
— Não há de que, eu farei o que for preciso para que você e Alice consigam viver melhor de agora em diante, nunca mais aquele homem chegará perto de vocês, nós não deixaremos!
assentiu prontamente sorrindo para Beatrice. Seu coração doía menos agora que sabia que a mãe ajudaria a ampará-las. Mas ela não podia deixar de pensar nas outras pessoas, em condições tão, senão até mais, caóticas que a de Fernsby. O ódio parecia fazer com que seu sangue circulasse mais rápido e ela podia jurar que suas bochechas estavam vermelhas. Ela iria deter aquele maldito homem e o faria pagar tudo que devia a Beatrice, tomara como uma batalha pessoal e já tinha tudo perfeitamente arquitetado em sua mente.
— Eu tenho uma ideia… Receio que não poderei ficar para ajudá-las a se acomodar, mas mamãe e Mary farão isso.
Grace Bridgerton, o que você está tramando?
— Eu… Preciso falar com meu pai e meus irmãos e depois com a rainha. Ou o maldito lorde Abercrombie acha mesmo que pode se apropriar de uma terra sem consultá-la?
A viscondessa a olhou receosa, mas sabia desde que pegara a filha pela primeira vez nos braços que não havia muito o que pudesse fazer para detê-la quando seus olhos brilhavam em determinação. Então ela a assistiu correr para o escritório do pai e tratou de cuidar para que Beatrice e Alice fossem bem instaladas.

👑👑👑


Tão rápido quanto um abrir de olhos, chegou ao Hyde Park naquele fim de manhã. Seus cabelos ainda estavam longe de estar disciplinados conforme o que era socialmente aceito, ele nem ao menos se lembrava de como ou quando conseguira tirar o pijama e colocar a roupa que usava agora — na verdade considerava-se até sortudo por estar usando um par de sapatos corretos. Não dera respostas quando passou às pressas pela rainha Elle; apenas cavalgou instintivamente, na mesma velocidade em que um raio caía em uma árvore, até o local onde sua mente fazia questão de lhe lembrar com riqueza de detalhes todos os dias desde o dia que conhecera a dona da boneca de pano guardada em um de seus bolsos.
Não havia pétalas dançando com o vento, nem o cheiro inebriante de bergamota… Muito menos a garota que lhe roubara parte do sono naquela noite. Mas havia ali duas pessoas conhecidas que se assustaram com o relinchar do cavalo.
— Ah, céus! — exclamou Edmund Bridgerton assim que o príncipe parou. A senhorita Nightingale estava ao seu lado, tão assustada quanto. — Que susto, !
O rapaz desceu do cavalo, cumprimentando o amigo e a moça rapidamente.
— Minhas mais sinceras desculpas. — curvou-se com as mãos erguidas impedindo que os dois se curvassem na direção dele. — Não pretendia assustá-los nem atrapalhar sua caminhada.
Os dois concordaram. Florence parecia perfeitamente bem enquanto Eddie ainda ostentava uma expressão cansada e visivelmente abatida. Não era preciso perguntar para entender o que os levava até ali, eles precisavam mesmo conversar depois do fiasco que fora o pedido de casamento.
— Não se sinta mal, príncipe . — a dama sorriu, olhando do Bridgerton para ele — Mas devo acrescentar que fora impossível não perceber que o senhor parecia estar preocupado e com pressa, aconteceu algo grave?
— Não! Não… — o príncipe corrigiu-se imediatamente após negar com um tom mais alto e agudo que o habitual pela primeira vez. — Na verdade eu estava apenas precisando tomar um ar… Cavalgar para me sentir revigorado, sabe?
Edmund franziu o cenho enquanto Florence assentiu de imediato, a fim de encerrar o assunto.
— Sei… Sei sim. — acrescentou ela, mesmo que não soubesse ou sequer pudesse sair para cavalgar livremente daquela maneira.
— Bem... Eu... Preciso mesmo ir agora. Me desculpem pelo susto e um ótimo passeio para vocês. — tentando esconder sua frustração, sorriu e se despediu dos dois seguindo de volta para o castelo da mesma forma que fora: rápido e sem nenhuma novidade.
decidira pensar que toda sua esperança em encontrar a garota do parque era unicamente para devolver-lhe a boneca. Não tinha nenhum tipo de sentimento atrelado a isso, jamais! Era só mais um assunto inacabado que lhe incomodava como uma pedrinha no sapato. E justamente por ser um algo pendente que ele tinha memórias tão vívidas, parecia que seu cérebro estava se empenhando em sempre lhe enviar sonhos, sinais e detalhes extremamente ricos para que ele nunca se esquecesse dela.
Assim que deixou o cavalo com um de seus criados do estábulo, o príncipe caçula voltou em passos lentos para o castelo, onde encontrou Williams o esperando.
— Bom dia, alteza. O senhor pareceu apressado ao sair, está tudo bem? — questionou.
— Bom dia, Williams. Tinha um compromisso importante e acordei atrasado… — mentiu o mais novo, coçando a nuca. — E mamãe e , onde estão?
— Seu irmão saiu para uma reunião com o conde de Devon e a rainha Elle está na sala de visitas, ela estava preocupada com a forma que vossa alteza saiu correndo… Pediu para que assim que o senhor chegasse que fosse até lá avisá-la. — alertou o velho mordomo, recebendo um aceno do mais novo.
— Obrigado Williams, vou até lá para tranquilizá-la.
O velho senhor assentiu e curvou-se para o príncipe antes de se retirar. franziu o cenho desconfortável, não estava com um bom humor naquela manhã para ser agradável com visitas; mas sabia que se fosse direto para seu escritório para ler acabaria recebendo um sermão da rainha e, na atual conjuntura, mais lhe valiam minutos de desconforto com desconhecidos do que horas ouvindo a mãe em toda sua fúria.
Não podia ser de todo ruim, era só sorrir e concordar e ainda desfrutaria de um chá e biscoitos quentinhos.
O príncipe bateu na porta da sala de visitas e recebeu um murmúrio da mãe em resposta, permitindo que ele entrasse na sala de decoração cor lavanda e repleta de vasos adornados em ouro branco. sentiu o aroma do chá de gengibre e especiarias que sua mãe tanto gostava e, junto a esse, ele achou ter enlouquecido quando sentiu o mesmo de bergamota aroma que sua mente fizera questão de lembrá-lo mais cedo, quando acordara assustado e enlouquecido por respostas, preenchendo seus sentidos.
Só podia ser um delírio.
— Ah querido, que bom vê-lo sem tanta pressa! — a rainha se levantou assim como seus convidados que eram, nada mais, nada menos que Miles e Bridgerton.




Continua...



Nota da autora: Olá! Bem-vindas mais uma vez!
Eu demorei um pouquinho, mas voltei com uma att quentinha! Eu disse que daqui pra frente era só eita atrás de vish ahahaha, confesso que abordar um pouco da história da Beatrice me deixou um pouco receosa, foi o motivo principal pra demora da att.
Espero que tenham gostado do capítulo que fiz com muito carinho, então não deixe de me dizer o que achou aqui nos comentários, no grupo do face ou lá no insta @juscairp. Em breve volto com mais hehehe.
Até a próxima!
Com amor, Ju. 🤍





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