epifania

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Última atualização: 23/02/2021

epígrafe

epifania:
1. manifestação de uma divindade;
2. sensação súbita de compreensão, insight, contemplação de uma essência, realização;
3. momento espontâneo e inspirador em que se encontra o significado para uma questão substancial.

um

it's harder and harder to get you to listen
more I get through the gears
incapable of makin' alright decisions
and havin' bad ideas



Tudo começou numa sexta feira.
Quer dizer, se for para ser mesmo honesto, provavelmente tenha começado antes — quando e Louis conheceram , lá pelos seus dez ou onze anos. Sendo gêmeos e nutrindo uma relação calorosa e fraternal à sua própria maneira, estavam acostumados a dividir as coisas, inclusive o melhor amigo. Mas essa história não precisa ser tão longa assim, afinal, os contos entre as famílias Tomlinson e que se misturavam pelos fins de semana e férias de verão eram intermináveis e detalhados demais para que fossem pincelados tão rapidamente; o que nos leva de volta àquela sexta feira específica do fim de janeiro. Acredito que é um bom ponto para se começar.
O dia da famosa festa da fogueira. Acontecia todos os anos para marcar o fim dos jogos internos em Londres, no início da primavera, seja para comemorar a vitória do time de futebol feminino — que era o maior foco de investimento esportivo da Universidade de Londres, graças ao feminismo —, seja para afogar as mágoas. Esta era, no entanto, uma festa de celebração: haviam ganhado a medalha de ouro pelo terceiro ano consecutivo. Todo mundo, e isso inclui várias turmas de vários cursos e períodos diferentes, havia se deslocado logo após o jogo para Bournemouth, o lugar onde aconteceria o luau de comemoração organizado pela comissão de formatura e eventos.
Outro fato importante sobre aquela sexta feira era que no dia seguinte, como boa aquariana com ascendente em aquário, celebrariam o aniversário de — e o de Louis, de quebra. sempre fingia não ligar para o seu aniversário, mas posso dizer com toda certeza que era um dos seus dias favoritos no ano. Apenas entrava na lista das inúmeras coisas que ela não diria em voz alta.
Seus amigos haviam se juntado para cumprir a tradição de passar o fim de semana de aniversário dos Tomlinson numa casa de frente para a praia logo depois da festa. se sentia bem feliz, feliz pra caramba, mais feliz do que estivera por boa parte do ano anterior. Seu peito poderia explodir em alegria e arrisco dizer que até um pouquinho de esperança de que aquele seria um ano melhor. Pelo jogo, pela festa, pelo aniversário, pelo fim de semana, pela faculdade que estava cada vez mais perto de terminar, por saber que haviam aqueles momentos específicos que faziam uma existência inteira valer a pena. A decoração era típica de um luau: várias folhas e cocos, alguns lenços e tochas espalhadas com a fogueira no centro. Tinha bastante gente, todos a cumprimentavam. Parabéns pelo jogo, . O seu gol foi foda. dava de ombros, levantava a cerveja, agradecia ao tentar disfarçar o orgulho com um sorriso tímido que não mostrava os dentes. Sentia-se gloriosa, imbatível. Concordava com eles. Dois a um na Kings College. Esse também era um daqueles pensamentos que estavam no topo daquela mesma lista, a que ela não contava pra ninguém.
Mas aquela não era uma noite para que se preocupasse, aquela sexta feira era de comemorações, e elas começaram cedo. Tomava um shot de vodca pura quando Louis e Niall a reencontraram pelas dez e meia.
— E aí, capitã — Louis a abraçou de lado e espremeu seus rostos um no outro. Ela fez uma careta ao se afastar. — Começou sem a gente?
— Vocês demoraram demais — reclamou, mas pegou outros dois copinhos e entregou pra eles. A garrafa de vodca já estava em mãos, então, só preencheu novamente os copos para que eles pudessem participar desse momento com ela. — Vamo!
E beberam. O gosto da vodca descia como brasa que queimava sua garganta, mas ela não se importava. Ao contrário, queria mais. Estava animada, eufórica, queria sentir cada mínima parte de seu corpo. Encararam-na com uma careta ao engolir o conteúdo e Niall até balançou a cabeça um pouco.
— Não tem uma Tequila por aqui? Eu acho que isso aí que você me deu era gasolina ou sei lá — disse, fazendo rir. — Vamo de novo?
Ela assentiu, e quando estava prestes a preencher o copinho de seu amigo irlandês mais amado, Louis os interrompeu. Sorriu debochada para o irmão.
— Calma lá, aos poucos. Não vou ficar de babá pra ninguém hoje. E sim, , isso foi uma indireta pra você. O Niall normalmente dorme antes de pôr os bofes pra fora.
E lá estava ele, a comissão da moral e dos bons costumes, mas na maior parte do tempo ela não se incomodava. Louis sempre parecia saber a coisa certa a fazer — e não só isso, parecia sempre disposto a fazê-la. Pensava ser a parte boa de tudo que havia dentro dela, como um termômetro ou uma bússola, fazia questão de cuidar de todo mundo ao seu redor e parecia saber o que ela estava pensando antes mesmo que ela chegasse a falar. Chame do que quiser, justificaria ao falar sobre, não sou das mais espiritualistas, mas tenho certeza que é uma telepatia bizarra de gêmeos.
O fato é que sim, ele estava certo, havia uma pequena possibilidade de exagerar um pouco na bebida eventualmente. Não toda vez, claro, mas as festas da fogueira são eventos conhecidos por sua imprevisibilidade. Essa em específico que o diga.
, não se preocupe, você é minha companheira de bebida. Essa é a sua noite. Eu cuido de você.
— Ei, é a minha noite também!
Louis quem virou os olhos dessa vez ao pegar uma cerveja de garrafa do cooler cheio de gelo ao lado e abrir com a camiseta. Niall passou o braço pelo ombro dela que expressou todo o seu escárnio numa piscadela para o irmão.
Uma das coisas que mais gostava sobre Niall era o fato de que ele sempre sabia como se divertir, sempre estava disposto a divertir todas as outras pessoas ao seu redor. Com o sotaque forte e uma gargalhada expansiva, a presença de Niall era sempre fácil de perceber. Estava sempre à vista. — Você merece, capitã. Eu sempre gosto de ver seus jogos, mas cacete, hoje foi bem acirrado.
Havia, no entanto, uma perguntinha na ponta de sua língua que estava coçando para sair. Queria perguntar sobre . Onde ele estava, com quem estava, o que estava fazendo. Queria que ele estivesse lá para comemorar com ela, passar a virada juntos, como faziam todos os anos. Ele era o seu melhor amigo, no fim das contas. Queria compartilhar aquele momento com ele, estava ansiosa para que ele chegasse, mas não perguntou nada. Engoliu em seco e deixou que o orgulho tomasse as rédeas.
Você pode estar se perguntando o porquê de tanto fuzuê numa situação tão boba como perguntar sobre alguém. Ou você não está se perguntando nada, o que não vai me impedir de explicar mesmo assim: qual seria o problema de perguntar sobre se éramos tão próximos? A pergunta provavelmente não teria tanto significado assim para as duas que estavam ao seu lado. Por algum motivo se enraizou em um medo corrosivo de que as pessoas notassem o quanto ela realmente se importava com . Um pavor de que descobrissem o tanto cada detalhe sobre ele se tornava tão interessante pra ela. Nas suas talvez falhas tentativas de manter-se por cima mesmo quando não havia nenhuma competição, ela só precisava que pelo menos os outros pensassem que ela não dava tanta bola assim.
Mas no fundo ela dava. Ela sabia que dava. Por isso, principalmente com Louis por perto, ela calculava cada mínima vez que mencionava seu nome. Media os comentários e espremia goela abaixo a involuntária vontade de falar sobre ele que sempre surgia. Aleatória e insistente, em reflexos impensados, guardava o impulso consigo como um segredo trancado a sete chaves e esperava pelo momento que alguém fizesse a pergunta por ela.
Abraçou Niall pela cintura e deu uma discreta olhada ao redor. A música era alta, a praia estava cheia, ele já deveria ter chegado àquela altura. tentou fingir prestar atenção na conversa.
— As meninas da Kings são boas pra porra.
— É. Elas são ótimas.
— Você tá muito deboísta, . O que foi? A bebida já bateu? — Louis perguntou com os braços cruzados. Ela deu de ombros — Você odeia as meninas da Kings.
Sorriu.
— Ah, é difícil pra mim ter paciência com gente chata. Elas enchem muito o saco, ficam provocando, tentando chamar atenção. Chatas.
— Você podia ter terminado a frase no “paciência”, — Niall retrucou, apertando um pouco o braço ao seu redor ao rir. — Tudo bem, a gente gosta de você assim mesmo.
— Qual é, Nialler, fala logo, o que você quer? — Louis foi quem perguntou e deu uma risada ao jogar à cabeça para trás. — Você quer que ela faça teu nome pra alguém, é isso? Dinheiro emprestado? O quarto vago com a cama de casal? Você pode só falar logo, cara.
— Não preciso que ela me apresente ninguém, idiota, não tenho quinze anos — ele revirou os olhos. — Mas, já que tocamos no assunto, aquela menina, a meio campo…
— A Hailey.
Sorriu pela piada. O rolo de Niall e Hailey já era antigo.
— Isso, a Hailey! Qual a probabilidade de ela ficar com a gente pelo fim de semana?
balançou a cabeça em negação ao ouvir Louis resmungar ao seu lado, colocando sua longneck contra o peito e falando com muitos gestos, mas ela tinha certeza de que Niall estava brincando. Eles entraram numa discussão patética sobre colocar mais gente na casa ou não colocar, sobre ser muito em cima da hora e tal, nada que ela se importasse muito e naquela hora talvez a bebida já tivesse batido o suficiente para que misturasse as informações exatas em sua cabeça e lembrar o que eles realmente decidiram — mas eles com certeza decidiram alguma coisa, segundo o Louis. Eles a perderam na conversa quando, em uma das suas olhadas sorrateiras pelo ambiente, encontrou de longe.
Quando saíram de Londres e seguiram para a viagem de duas horas para Bournemouth, dividiram-se em carros e foram direto para a casa de praia da família de Liam onde se arrumaram para a festa. Em um carro foram ela, Louis, Niall e Brook, que estava aos amassos com um cara aleatório da Administração enquanto tudo se iniciava bem ali, numa conversa aparentemente inofensiva com os outros dois. No outro carro, Liam e Chloe, o casal do grupo. não havia entendido até então o motivo de querer ir em seu próprio carro, mas ao vê-lo na festa, tudo fez sentido. Quis desviar o olhar e não conseguiu, quis disfarçar a expressão de descontentamento que seu rosto independente moldou ao encontrá-lo na multidão.
Ele estava com Hanna. Adentrava a festa com o braço ao redor de sua cintura enquanto sussurrava algo no ouvido dela que a fazia rir com os olhos abaixados. Batia o pé insistente na areia.
Vou contar uma parte da história que eu realmente não posso confirmar por puro desencargo de consciência. tem a mais absoluta certeza que não aconteceu, mas ela estava bem bêbada e talvez seja um erro confiar tanto assim em sua versão boêmia e totalmente parcial ao discorrer sobre o seu lado da história. Ao perguntar a Louis ou Niall sobre, no entanto, eles vão insistir com diligência e determinação que isso aqui aconteceu:
— (...) Eu fico de boa se a ficar de boa.
— Porra, cara. Aí você me quebra. Sem ofensa, capitã, é só que você é meio resistente a pessoas novas no grupo.
Louis diz ter rido nesse momento.
— Tô achando que ela nem te ouviu.
— E aí, ? Tudo bem por você se a Hailey ficar com a gente?
Ao que ela, teoricamente, mesmo sem saber sobre do que se tratava, respondeu:
— Aham.
Eles inclusive dizem ter feito a seguinte pergunta, logo depois de qualquer coisa sobre o Niall rir da cara do Louis e ambos se surpreenderem com seu posicionamento acolhedor.
— Tem certeza?
Ao que ela supostamente continuou:
— Aham, é.
não se lembra disso. Tem, até hoje, a mais absoluta convicção de que não aconteceu. Sempre deixava seu bairrismo aflorar quando se tratavam de eventuais casinhos de seus amigos, nada pessoal. Ao se justificar, explica que uma pessoa diferente e aleatória pode mudar a dinâmica de um grupo inteiro, principalmente se for por todo um final de semana, um em que acontecia todos os anos desde o fim do colégio e o início da faculdade. Funcionavam bem juntos, conheciam-se por anos. Era íntimo, acolhedor, nada parecido com as interações ansiosas e desconfortáveis que estabelecia com desconhecidos. De repente tinha que medir as histórias vergonhosas e as piadas de mal gosto. Não sabia muito bem se portar perto deles sem querer provar alguma coisa.
Enquanto a discussão se passava ali, travava uma batalha interna sobre como reagir ao que acontecia do outro lado do luau, tentando respirar fundo e lembrar-se que não precisava ser dominada por seus sentimentos. O vento chicoteava um pouco seu cabelo enquanto ela observava a interação dos dois com a sua visão perfeita para longe. Quis ser míope.
sempre foi extremamente cuidadoso com as pessoas que ele estava, gostava de demonstrar o carinho com o toque e com os olhos. Se inclinava para ela, atento ao que ela dizia, sorria interessado e mantinha a mão na parte mais baixa de suas costas. Não podia negar, e isso ela confirmaria bêbada ou sóbria: qualquer mulher que estivesse com ele, esta sim seria uma puta sortuda. Se a vingança era um prato que se comia frio, o ciúme incoerente e impulsivo era uma refeição azeda, um refrigerante sem gás. Andavam entretidos em sua direção como dois anjos castos, refletidos em um brilho de glória, belos e inalcançáveis que flutuavam por entre as pessoas e pareciam encontrar-se em perfeita sintonia. No momento em que o seu olhar cruzou com o dele, desviou. Decidiu que precisava sentir a sua garganta queimando em mais um shot porque desde aquele momento ela soube que jamais sobreviveria aquela noite sóbria.
E mal tinha começado.
Quando voltou sua atenção para a conversa, Louis a encarava com as sobrancelhas levantadas de quem pega alguém no flagra, mas não comentou nada por Niall que tagarelava ao seu lado. Ela devolveu o olhar discretamente, como quem responde para ele parar de encher o saco. Ele negou com a cabeça como quem tenta explicar que não sabia, e ali, bem ali, sua intuição a atentou de que havia algo a mais acontecendo.
— .... E cadê todo mundo?
— A Brook me deu um perdido pouco antes de vocês virem pegar bebida. Chloe e Liam devem estar se atracando no carro ou numa parte vazia da praia.
— Eles não desgrudam? — Niall perguntou com uma careta. — A Brook passa a festa toda sumida agora que é solteira também...
— Será que a gente não pode passar cinco minutos de paz sem mencionar a Brooklyn?
Niall deu uma gargalhada honrosa.
— Caralho mano, você já devia ter superado. Cinco meses que vocês terminaram. A Brook já rodou a cidade inteira e você nessa. Fica suave aí.
— Vai se foder.
Ela tentava evitar pensar no fato de que estava se aproximando. Se forçava a prestar atenção na conversa que Louis mantinha com Niall para manter-se distraída. Focava em conter seus primeiros sinais de embriaguez para tentar permanecer em compostura.
Não deve ser muito difícil deduzir que havia dado totalmente errado quando os dois pararam bem na frente dela. Não precisava olhar para saber que Niall sorria largo, mas ao voltar seus olhos para Louis, por um segundo, pensou ter encontrado um resquício de incômodo no jeito que fincou a testa. Por um segundo. Bêbada demais para estranhar, observou a expressão em seu rosto se aliviar num olhar cordial e um sorriso simpático.
— Finalmente apareceu!
— A gente pegou um engarrafamentozinho perto de Winchester — se explicou com os lábios alongados num sorriso de lado. Olhava pra , intencional, atento, a media de cima abaixo discretamente e fazia aquecer seu corpo. Sabia que a elogiaria se não estivesse com Hanna. Não esperou por seu elogio, mesmo que gostasse muito de ouvir quando o fazia. Seus olhos carregavam uma mistura de alegria, orgulho e confusão. Acredito que seja importante deixar claro que provavelmente não estava fazendo muita questão de disfarçar seu descontentamento com a aproximação. — Assim que cheguei vim correndo te ver, . Vamo comemorar hoje, né? Você merece. Eu tô rouco de tanto que gritei seu nome!
A camisa estampada tinha botões, mangas curtas e estava entreaberta. O cabelo que mantinha o comprimento pouco acima do queixo o fazia parecer um príncipe. Era quase maldoso não corresponder ao carinho exacerbado e explícito no seu tom de voz, mas por dentro, se sentia traída — era egoísta e infantil, sim, mas dividir a atenção de com outra pessoa fodia o seu ego. Ela diz não sentir necessidade de se explicar quanto a isso.
Tentou ao máximo sorrir. Jura que tentou, de pé junto. Se esforçou, lutou contra seus instintos animalescos, mas não deu muito resultado pelo jeito que ele parecia esperar por uma reação mais calorosa.
— Ah… É. Vamo comemorar sim.
Um vácuo sufocante e constrangedor se instalou por dois segundos, mas aparentemente, só e notaram. Não tiravam os olhos um do outro num encontro silencioso que só eles perceberam. Como se não tivesse mais ninguém por perto. Só os dois ali, enquanto ele mantinha o braço envolto no torso de outra mulher, mas os olhos perdidos e petrificantes nos seus.
Era sempre incômodo o jeito que ele olhava para . Parecia convocar alguma coisa mesmo sem notar, como se pudesse ler seus pensamentos mais sombrios e atravessar seus segredos puramente vergonhosos, acessar partes de sua consciência que ela nem lembrava que existiam. A maneira que direcionava os olhos para fazia com que ela sentisse um impulso incontrolável de retribuir. Permanecer. Encarava sem saber como desviar.
— Você que é a famosa Hanna, então? Tava curioso pra conhecer você. Espero que não se assuste com a gente durante o fim de semana, a gente pode ser bem maluco quando quer. Principalmente a nossa capitã aqui. Né, ?
Famosa. Conteve o revirar de olhos. havia comentado uma coisa ou outra sobre ela, sim, mas pensava nela como famosa entre o grupo de amigos. Niall a balançou pelo ombro que ainda dava suporte ao seu braço e ela virou o rosto completamente para ele ao expressar toda a sua surpresa. Pigarreou, piscando algumas vezes ao virar o rosto para ela também, quase tão espantado quando ela com o fato de que ela não sabia.
— É? — perguntou, mas ele sabia o que realmente perguntava. Deu um beijo em sua bochecha para se livrar da culpa e ela limpou com a mão numa careta ofendida.
não direcionou os olhos de volta para . Era o seu jeito de demonstrar insatisfação: ela fingia que ele não estava ali para ser olhado. Em sua telepatia bizarra de gêmeos, Louis a repreendeu. Não pese o clima, . Fique tranquila. Depois conversamos sobre isso, ele disse com os olhos, mas a sua língua coçava em busca de uma explicação. Sentia-se no direito de receber uma justificativa.
— Bom, se vocês são tão legais quanto o fala, vai ser muito divertido. É um prazer conhecê-la, .
Quando desviou as íris de Louis e direcionou-as para Hanna, notou que ela retribuía, mas não nos olhos; em algum lugar do seu rosto, talvez, próximo ao pescoço. Os seus olhos, Hanna evitava. Achou-a inquieta. Os dedos das mãos brincavam um com o outro num ritmo frenético, as orbes passeavam pelos três rápidas e levemente ansiosas. Sua roupa era elegante em tons neutros, talvez um pouco elegante demais para uma festa na praia, o sotaque italiano carregado e o cabelo longo em um loiro claro. A mão de ainda repousava em sua lombar enquanto ela mantinha a postura tensa, mas ereta. Apesar disso, não podia negar que seus traços pareciam ter sido cuidadosamente decalcados por algum deus mitológico. contemplava a sua beleza angelical e galharda com uma pontada de inveja que ela recusava em se deixar sentir.
Assentiu. Pegou a garrafa de cerveja da mão de Louis e deu um grande gole ao responder:
— Claro. O prazer é todo meu.
diz ter sido cordial nesse momento.
— O Louis você já conhece, né? — perguntou. Ela ainda sentia o olhar dele sobre si, mesmo que estivesse direcionando a fala para Hanna.
— Nós temos algumas aulas juntos.
— Ela é a preferida do Gillian.
A italiana abaixou a cabeça levemente e negou, soando envergonhada.
— É o professor de Literatura Inglesa Contemporânea — explicou para . — E ele está mentindo.
pôde sentir a sua mente desassociar da conversa enquanto, ao desviar o olhar para o mar, absorvia o fato de que ela era a única pessoa de seu grupo de amigos que não sabia sobre os planos de de levar a sua possível namorada — ela não sabia, também, do nível de envolvimento entre os dois até então — para passar o fim de semana inteiro em sua costumeira viagem para a casa de praia, em que celebrariam o seu aniversário. E o de Louis, também, claro, mas não era com isso que ela se importava no momento. Era irritante ser a última a saber das coisas; era mais irritante ainda ser a última a saber de algo sobre . Gostava de disfarçadamente se vangloriar da prioridade que ele lhe concedia, como ao contar sobre uma situação simples e deixar ali a informação, solta, só para que soubessem. É, o me contou, é, ele conversou comigo sobre isso. As pessoas costumavam pedir sua opinião sobre as preferências dele ou algum de seus posicionamentos e ela sentia uma secreta satisfação em saber respondê-las. Não, não acho que o faria isso, diria, ou sim, nossa, isso é a cara dele.
Normalmente não era tão difícil assim vê-lo com outra pessoa, não se importava muito, mas Hanna a incomodava por algum motivo. ainda não saberia dizer o que era. Desde a primeira vez que a havia visto, rondando pela faculdade e lendo algum livro, o jeito que ela eventualmente a estava encarando a fazia ter calafrios. Nunca nos olhos. Inegavelmente bela, meio retraída, sempre perambulando sozinha. Olhar para ela fazia a intuição de espernear que havia algo de errado.
Mas como não queria ser implicante, o medo de soar maluca a impediu de qualquer surto que ela normalmente daria, porque sim, ela era meio surtada mesmo na época. Ainda assim, precisava de uma garrafa de vodca inteira e algum tempo longe para acostumar-se com a ideia de que o seu fim de semana ideal estava arruinado.
Mais um gole de cerveja e devolveu a garrafa para Louis, desvencilhando-se de Niall e pegando sua garrafa de bebida barata. Interrompeu sem muita cerimônia qualquer coisa que eles estivessem conversando e forçou-se a dar um sorriso largo ao dizer:
— Gente, a Brook tá me chamando. Vou ali. Depois a gente se encontra. Boa festa a todos.
— Mas a Brook…
Ela não chegou a ouvir o resto. Talvez seu tom de voz tenha saído mais embriagado e caricato que o que ela esperava, talvez devesse usar o nome de alguma pessoa que estivesse realmente à vista, mas tentou não se importar. Não deu oportunidade para ninguém reclamar e poupou-se do trabalho de fazer sala quando sua cabeça passou a borbulhar em outras órbitas. Precisava de um espaço para descarregar o que estava sentindo — mesmo que nem ela mesma soubesse o que se passava dentro de sua consciência confundida.
Confessou a si mesma naquele momento. Sentia ciúmes. Também sentia raiva, uma raiva quase descontrolada, era um sentimento amargo e intenso. Tentava não se importar, sem sucesso, tentava se esquecer e deixar para lá, mas a sua mente fazia questão de relembrá-la a cada segundo que se passava. Uma música eletrônica meio irritante soava nas caixas de som e ela decidiu andar pela praia até se afastar o suficiente da festa logo após se perder por entre as pessoas. Quando parou, sentou-se perto do mar. O vento era meio frio, ainda era início da primavera. Seu vestido branco e veronil tinha uma fenda na perna e um tecido fino, quase transparente. Com a certeza de que tinha molhado um pouco o pano ao se acomodar na areia, decidiu que não era tão importante assim. Bebeu um grande gole no gargalo da garrafa e fechou os olhos, orgulhosa de seu próprio autocontrole. Em outros momentos ela teria rodado a baiana, bem ali, na frente da desconhecida. E ela queria, mais que tudo, ter rodado.
Descontar a intrínseca frustração numa garrafa de destilado sozinha no meio do nada enquanto a festa de comemoração rolava longe, no entanto, pareceu-lhe uma ideia melhor.
Não era das mais organizadas, mas aquela mudança de planos em específico parecia irritá-la mais que o normal. Quem era Hanna, afinal? Não a conhecia. De repente, sentiu o celular vibrar onde estava escondido na lateral do peito, e ao ver que era quem ligava, fez o que não se deve nunca fazer num momento de pico: deixar-se levar. Levantou-se num impulso, gritou bem alto, o mais alto que pode, gritou até rasgar a garganta e jogou o celular no mar.
Arregalou os olhos, sem reação, já arrependida. Deixou a garrafa de vodca na areia e foi até lá, disposta a reencontrar o aparelho, e foi só nesse momento que ouviu uma risada nervosa pelo nariz e levantou os olhos para descobrir quem estava por perto. Ele tinha uma expressão que se misturava entre choque e fascinação no rosto. Tudo aconteceu muito rápido.
Era o novato de Ciência Política, tinha acabado de se transferir para a sua turma de Direito Internacional. Havia trocado de curso no último semestre, pelo que ela havia entendido de sua distância.
Nunca haviam trocado uma palavra até aquele dia.
— Puta merda, puta merda, puta merda...
Ele a ajudou a procurar sem dizer nada, e enquanto ela girava em busca do aparelho como uma barata tonta, Zayn entregou-lhe em mãos o celular molhado e desligado, aparentemente sem mais funcionar. Olhou para o telefone com a mistura de todos aqueles sentimentos intensificados e culpou por seu próprio ímpeto. Um turbilhão de pensamentos estressados corriam por sua consciência e faziam com que ela quisesse chorar. Seu coração, taquicárdico, parecia querer alertar que havia algo de errado com seu corpo. Ele não precisava alertar. estava ciente.
Zayn, então, passou a fumar um cigarro com os pés ainda na água do mar e uma camiseta de banda. sabia de uns boatos que ele namorou com uma menina da Arquitetura no início da faculdade.
— Eu não sou louca — sentiu a necessidade de explicar porque precisava dizer alguma coisa. Provavelmente estou vivenciando a fase hipomaníaca, quis completar, o transtorno de bipolaridade pode ser uma merda às vezes. Mas não o fez. Não queria que ele soubesse.
As pessoas passam a te olhar diferente quando descobrem que você tem um transtorno.
— Eu não achei que fosse.
Assentiu, olhando para ele como quem agradece, mas não acreditou nele. Era óbvio que ele achava. Por qual outro motivo alguém jogaria um celular em perfeito estado no mar? Quis chorar, mas não queria que ele a visse chorando. Suas mãos tremiam. Queria pedir para que ele não contasse a ninguém, mas não queria parecer frágil. Faltavam uma ou duas horas para o seu aniversário e ela nem mesmo queria encontrar com os seus amigos. Preferia ficar sozinha para não fazer mais besteira e se arrependeu de não ter trazido várias cervejas ao invés de uma garrafa de vodca porque o gosto era horrível e ela odiava. Sempre odiou. Pegou mesmo assim, no entanto.
O transtorno bipolar, no caso de , se dividia entre a fase hipomaníaca e a fase depressiva. A fase de hipomania era mais fácil de vivenciar, acreditava. A sensação de grandiosidade, a euforia, a disposição, a ideia de que se pode tudo no mundo eram grandes incentivadoras. Mas também contava com os impulsos degradantes e a inabilidade em filtrar as palavras e os impulsos. Por algum tempo, viveu a gloriosa satisfação que era ter uma resposta concreta aos seus devaneios egocêntricos em ganhar uma colocação importante com o time, manter a compostura com Hanna, sentir que aquela festa era sua, que aquele fim de semana era seu, que era genial em suas estratégias em campo. E deveria admitir: era difícil para resistir às suas pulsões involuntárias, por isso, caiu mais uma vez em sua própria cova. Pensava sobre como jogara tudo pro alto na mínima frustração, mais uma vez. A onda de culpa assolava e martelava em sua mente e, de repente, viu-se completamente confusa. A irritação, a impaciência e a agitação também eram coniventes com essa fase.
Tentou respirar fundo e ter paciência consigo mesma, como dizia a Doutora Francesca, pelo menos agora ela conseguia identificar seus atos de loucura. Algum tempo atrás nem mesmo teria chegado ao arrependimento.
Levantou-se e virou de costas, pronta para encontrar um outro lugar. Um lugar onde ela pudesse ficar sozinha e abraçar seus ideiais feministas mais radicais ao quebrar a garrafa de destilado na cabeça do próximo homem que lhe enchesse o saco, mas Zayn deu mais uma risadinha e bufou. — Do que porra você tá rindo agora?
— Sua bunda tá molhada. Com todo respeito.
não saberia dizer o motivo pelo qual ela também riu daquela interação desnecessária com o cara aleatório da turma do Fitz. Mas ela riu, sim, sem mais dignidade para recobrar.
— Me dá um cigarro.
— Meu nome é Zayn, prazer em conhecê-la.
Revirou os olhos e amarrou a barra molhada do vestido. Seu tom havia sido irônico. Estava ansiosa. Conversar com desconhecidos sempre a deixava ansiosa. Por isso, assumia uma postura arrogante.
— Eu sei seu nome, você sabe meu nome, a gente não tem que fingir que não se conhece.
— Eu não te conheço.
— A gente pegou o Fitzgerald juntos esse semestre. De novo. Cala a boca.
Quis não tê-lo mandado calar a boca, quis ter sido mais gentil, mas afastou o pensamento logo depois.
— Nunca tinha te visto antes na minha vida — ele sorriu, debochado, e ela sabia que era mentira. Os debates em Direito Internacional eram calorosos e Zayn não gostava de participar deles, estava sempre calado; mas Fitzgerald frequentemente demonstrava interesse na opinião de e ela havia pego monitoria, então, em momentos eventuais, ele a perguntava o que você acha sobre isso, Tomlinson, e ela respondia qualquer coisa sobre embates territoriais palestinos ou outro evento político de menor porte, os quais ela era obsessivamente interessada. — Mas claramente você precisa de um cigarro pra acalmar os nervos, então aqui está.
Entregou-lhe um cigarro, ela pôs na boca e ele acendeu com o isqueiro. Havia tirado as sandálias e deixado ao lado da garrafa, portanto, seus pés também tocavam o mar e a sensação era boa dessa vez, mesmo que a água estivesse bem gelada. Respondeu com um tom debochado:
— De onde você tirou isso?
— Acho que sou uma espécie de médium ou vidente.
— Eu estou bêbada.
— Concordo.
Ela se permitiu dar uma risada pelo nariz, de novo, mas não era uma risada simpática, era uma risada desacreditada e espontânea de quem não se continha em sua sobriedade fajuta e ansiedade social. Estava dando certo, mesmo que ela não soubesse. Ali, distraía-se sem perceber. Tragou e soltou a fumaça antes de continuar:
— Por que você fuma?
— Pra morrer. Mas morrer sem ter que morrer tanto assim.
gostou daquela resposta. Quis que alguém lhe perguntasse sem que ele estivesse por perto para usá-la como se fosse sua, porque de certa forma era. Zayn riu, como se dissesse uma piada, como se não descrevesse a crueldade da vida num emaranhado de palavras e ela continuou a olhá-lo porque passou a achá-lo bonito naquele momento.
Ele era. Uma fina mecha de seu cabelo saltava pela testa. Tinha um piercing no nariz, a barba crescida e aparada, cílios longos. Sempre soava distante. Sempre parecia inerte e desinteressado, como se nada o pudesse abalar. Também tinham os boatos que ele fumava maconha sozinho embaixo da arquibancada durante os treinos. — E você?
— Eu parei de fumar faz tipo um mês.
Era mentira. Ela, agora, fumava escondido, mas ainda tentava sustentar a versão.
— Anda motivada, pelo visto.
Encolheu os ombros. Quis não querer mais conversar com ele, mas não pode se conter:
— Por que você está sozinho?
— Porque eu não quero ver os meus “amigos”. Você faz muitas perguntas pra quem parece ter todas as respostas do mundo sobre as relações diplomáticas estadunidenses com opiniões antiimperialistas.
gostava do fato de que ele não perguntou sobre o que havia acabado de acontecer. Quando pensava no assunto, achava que ela mencionaria. Qualquer pessoa mencionaria.
Zayn não.
Chutou água em sua perna com uma expressão de choque.
— Eu sabia que você lembrava de mim!
— O Fitzgerald não deixa ninguém esquecer que você existe. Acho que ele tem uma obsessão maluca por você.
Pigarreou ao fazer uma careta e rapidamente mudou o assunto:
— Eca — ela disse, mas num daqueles pensamentos que se guarda com cuidado, concordava com ele. — Vou pegar minha garrafa. Não olha pra minha bunda molhada.
Ele riu. se repreendeu novamente pelo que disse, mesmo sem demonstrar, temia soar boba. Deu um gole e voltou segurando.
— Vodca? Por que você se odeia?
Eu sou uma pessoa meio desprezível.
— Eu sou movida a ódio. Pelo governo, pelo capitalismo, pelos homens, pela Itália, por essa música chata pra porra…
Algum remix de música eletrônica ecoava longe na festa.
— Por que você odeia a Itália?
— Os italianos são inconvenientes.
— Me soa específico demais.
Suspirou. Não podia mais falar sobre si mesma. Voltava a ficar nervosa.
— Você colocou aspas em amigos.
— Minha melhor amiga está transando com a minha ex no Airbnb que eu paguei pra gente ficar pelo fim de semana — ele deu de ombros. — e você?
Abriu levemente os olhos e, num ato robótico, entregou para ele a garrafa de vodca. Ele deu um grande gole.
— Eu não quero mais falar.... Agora eu tô me achando meio patética.
— Não tem como te achar mais patética do que com essa bunda molhada. Com todo respeito.
— As coisas não ganham respeito porque você fala “Com todo respeito”.
— Eu discordo. Com todo respeito.
Sorriu, mas não estava sendo irônica naquela vez. não era muito de contar coisas pessoais para desconhecidos, mas talvez aquele momento pedisse para que ela baixasse um pouco a guarda depois de sua última confissão. Quando olhou para Zayn enquanto ele sintetizava os eventos recentes e catastróficos de seu tão esperado fim de semana, ele não parecia decepcionado; soava apático e distante, meio quebrado. se sentia assim também, quase sempre, meio quebrada, com defeito de fábrica. Sentiu-se próxima dele pela segunda vez naquela noite. — Acho que não sou uma boa pessoa para os meus amigos. Talvez eu seja uma daquelas pessoas tóxicas que os psicólogos alertam sobre.
— Ah, qual é. Você não pode ser tão ruim.
Quis explicá-lo que podia, sim, e que era, mas não disse. Ao invés disso, entoou:
— Amanhã é meu aniversário e eu… — queria que não estivesse lá com outra pessoa porque sei que não vai ser a mesma coisa e é egoísta que eu o culpe por estar com outra pessoa porque gostaria que ele estivesse completamente disponível pra mim como ele sempre esteve mas não consigo evitar os meus sentimentos por ele. Quase disse, mas se manteve calada. Meus amigos mentiram pra mim porque não queriam que eu surtasse. Não disse. Estou cansada de sentir que as pessoas que dizem me amar são obrigadas a me aguentar. Continuou em silêncio por um tempo, para só depois continuar: — Sei lá.
Ele olhou no relógio.
— Faltam só cinco minutos pro seu aniversário. Você não quer encontrar com seus amigos na virada?
— Você não pode fingir que a gente é amigos só por um pouquinho?
— Tô fazendo isso faz um tempo já.
fechou os olhos e sorriu um pouco. O vento de Bournemouth era frio, mas não tão frio para um londrino. A água do mar era gostosa nos seus pés, era gelada e a lembrava de que estava viva. Ela poderia sair correndo naquele momento, pensou, se mudar. Seu celular não funcionava, ninguém sabia onde ela estava. Teria seus vinte e um anos em pouco tempo e a maioridade batia em sua porta como um convite. Trocaria seu nome para o de alguma mulher relevante, como a Elena Gorolova ou María Corina Machado, e então assumiria essa nova personalidade: a mulher muito inteligente, irreversivelmente estável, sem jamais deixar alguém descobrir seu segredo. Zayn parecia não se importar com o silêncio que dividiam tanto quanto ela se importava. Ele parecia gostar da música que tocava. Perguntou-se se ele gostaria de fugir para longe, também, para algum lugar onde ninguém o conhecesse, e pensou que talvez sim.
— Você as pegou no flagra?
— Sim. Aparentemente faziam isso por alguns meses quando eu não estava por perto.
— Você achava que tinha algo de errado?
— Eu tentava me convencer que não. Acho que todo mundo tem essa fase em que finge não ver.
— Eu nunca namorei — confessou, mas esperou que ele não notasse que isso era uma confissão.
— Sorte a sua — ele deu de ombros. — Feliz aniversário, . Vou te dar um abraço de presente.



não tinha muito como ter certeza da hora, afinal, não podia mais contar com seu celular, mas por suas contas alcoolizadas eram umas duas da manhã. Depois de mais alguns goles direto do gargalo, confissões deprimidas e ideias erradas, ela e Zayn decidiram que entrar no mar era uma oportunidade única que a vida lhes havia dado. Conversaram muito, para a estranheza de , que nunca sabia como conversar com outras pessoas senão os seus amigos, principalmente quando estava sozinha. Riram bastante também de suas próprias situações calamitosas e, por uma boa parte daquele tempo, ela se esqueceu de todo o resto. Foram abraçados de frio, corridos e risonhos, até o carro de Zayn que estava no estacionamento da praia e ele lhe emprestou um sobretudo grande e preto para que ela voltasse à festa e pudesse se reencontrar com seus amigos sem congelar. Você vai dormir aí, ela perguntou da janela com a voz embargada e os cabelos molhados, e ele disse que sim, com os olhos baixos, que era melhor voltar para casa no outro dia. Você pode passar o fim de semana com a gente, ela o convidou, ele riu desacreditado. Você está muito bêbada, , tenho certeza que vai se arrepender disso amanhã, mas obrigada pelo convite. Me dá um cigarro então, ela pediu, e ele deu e acendeu.
deu de ombros, irritada pela rejeição, e foi perambulando de volta à concentração da festa sem se despedir muito. Tragou o seu cigarro todo e passou por várias pessoas sem reconhecer nenhum rosto íntimo. Estava voltando a ficar nervosa.
Olhou ao redor, abraçada com o sobretudo que tinha um perfume gostoso e procurou seus amigos com os olhos. Sua cabeça girava um pouco, o frio também chicoteava o seu cabelo molhado. Enquanto andava, pensava bastante sobre os vinte e um anos e sobre . Foi pega de surpresa quando, depois de um tempo, alguém segurou o seu braço.
— Onde porra você tava? — Louis perguntou. — Por que desligou o celular?
Ele estava criteriosamente bravo. Encarava como se ela tivesse cometido absurdos. — Que roupa é essa?
— É do Zayn, a gente entrou no mar e ele me emprestou o casaco.
— Você nunca falou dele.
— Você nunca perguntou.
Virou os olhos levemente, percebendo que estava na defensiva. Ela sabia que ele queria perguntar o que tinha acontecido, mas que a conhecia o suficiente para entender que aquele não era um bom momento para pressioná-la, então se aproveitou disso para dar-lhe poucas respostas.
— Eu te procurei pra caralho, fiquei com medo de não te encontrar mais. A gente nunca comemorou separado. Eu… senti falta. Foi estranho. Você saiu sozinha...
Ela suspirou, mas não se arrependeu. Ele a abraçou e se sentiu amada pela primeira vez na noite. Fechou os olhos ao dizer:
— Feliz aniversário, Lou. Você é a minha pessoa preferida.
Ele respondeu. Feliz aniversário, . Eu amo você tanto.
Ficaram abraçados por um tempo porque algo o comunicou que ela precisava. Mas continuou: O também tá te procurando faz um tempo.
Seus membros se contorceram. As sensações voltaram. Era difícil controlar a irritação. Precisava ficar sóbria. — Acho que quero voltar pra casa.
— Já? Mas a gente nem comemorou junto...
Louis sabia que tinha algo de errado. Era fácil discernir pelo jeito que ele a olhava.
— É.
— Só por causa da Hanna?
— Sim, Louis, só por causa da Hanna — permitiu-se dizer, por mais que não fosse totalmente verdade e virou os olhos destilando ironia. — Tenho sua permissão para ir embora agora?
— Ninguém vai embora — o tom de Niall soou meio embargado quando ele entrou na conversa ao encontrá-los e colocar os braços em seus ombros, deixando-os de frente para . Afastou Louis e a girou no ar entre gritos de felicidade e felicitação. — Feliz aniversário pra minha artilheira preferida! — ela não conseguiu conter uma risada ao se desprender do chão por alguns segundos que a deixaram meio tonta: — Uh, você tá molhada.
Niall beijou sua bochecha. tentou se convencer de que eles só haviam pego a última parte da conversa.
— Eu tenho que ir...
— Primeiro de tudo, feliz aniversário, . — , finalmente, se pronunciou ao puxá-la para perto num abraço que julgou ser rápido demais. Perguntou-se se era porque ela estava molhada, mas decidiu que não deveria se atentar tanto assim aos detalhes para não pensar demais e ficar ainda mais chateada. Inicialmente, seu tom de voz era carinhoso, cheirou o seu pescoço e a fez arrepiar. — Por que você tá molhada?
Decidiu, então, alterar para um tom curioso e debochado. achou que a pergunta fosse óbvia e se sentiu na liberdade de ser tão passivo-agressiva quanto pelo jeito que ele a olhava ao se afastar.
— Porque eu entrei no mar. Onde estão os outros?
— Brook está ali no banheiro com a Hailey e a Hanna. O Liam e a Chloe nunca mais apareceram. Tenta ligar, ele sempre atende.
Fez uma careta ao engolir em seco para Niall. Ela não podia ligar. Na verdade, precisaria esconder o fato de que seu celular não funcionava mais, pelo menos até o outro dia. Decidiu focar na parte da sentença que a permitiria fugir do assunto: — A Hailey?
— É, ué. A Hailey. Meio campo do seu time. Vai passar o fim de semana com a gente.
fez uma expressão surpresa.
— A Hailey também?
— Qual é, , você quem concordou de início — Louis defendeu Niall, meio impaciente, e fez uma careta. Não concordei não, respondeu. Eles dois se entreolharam e Louis arqueou a sobrancelha. — Eu te falei que ela não tava ouvindo.
— Eu disse o que?
— Enfim, agora já era, eu já convidei a menina, não tem mais o que fazer.
Um silêncio criterioso se formou entre os quatro. a encarava, mas dessa vez, ela não o encarava de volta; pelo contrário. Os olhos de ardiam em irritação em direção a Louis. Ela estava pouco se fodendo para Hailey ou não, no fim das contas, mas precisou canalizar a raiva para não soar tão patética. Era melhor que pensassem que era por Hailey.
Louis a observava em alerta por uma reação. Niall tentava convencê-la com os olhos. Ela apenas sorri, com o coração acelerado e encolheu os ombros.
— Tudo bem, Nialler, eu também convidei o Zayn.
Mais alguns segundos de silêncio em que os três a encaravam com expressões espantadas e caricatas, cada um à sua própria maneira. Surpresos.
Provavelmente não sabiam muito bem como reagir.
— Porra, , mas sem falar com ninguém?
— Eu falei com o Liam, Louis. Somos todos da mesma turma.
mentiu pela segunda vez na noite na maior cara de pau sem ao menos conter as palavras que saíam por sua boca. Sabia que Liam cobriria suas peripécias no fim das contas e que ele realmente não se importava, mas mesmo assim, sentiu-se ansiosa para encontrá-lo antes de todos os outros. Liam também cursava Direito com , desde o primeiro período, saíram juntos do colégio para a faculdade. Ela já o tinha visto trocar uma ou duas palavras com Zayn em Direito Tributário no semestre anterior.
— Pronto, virou patifaria.
— Você quem começou, — Louis defendeu, porque no fim das contas, ele sempre a defendia. O tom era quase um corte.
— Ué, achei que você e a Hanna fossem amigos de curso.
— É, ela é legal, mas aí você meio que perde o veto.
— Você foi a primeira pessoa a reclamar. Por que tá falando sobre isso assim do nada?
— É a porra do aniversário dela, — Louis deu de ombros. — Dá um desconto. A gente deu pra você.
Observou Louis travar sua batalha quase como algo pessoal, mesmo depois de ter reclamado, e suspirou fundo ao vê-los debater a questão como se ela não estivesse presente e piscar algumas vezes ao tentar assimilar as informações.
— Me preocupo com você — ele disse para . Quis revirar os olhos, mas não o fez. Ela sabia o porquê daquilo, por mais que nenhum dos dois admitissem.
— Não precisa se preocupar.
Respondeu, por fim.
— O ex da Denn?
Niall quem perguntou. teve que pensar rápido, afinal, não fazia ideia de quem era Denn ou do verdadeiro nome da ex-namorada de Zayn, mas decidiu dar vez a sorte ao assentir para Niall.
— Aham. Ele acabou de terminar o namoro…
— E desde quando você é Madre Teresa?
— Desde que concordei com a Hailey, Niall.
— Você acabou de dizer que não se lembrava.
— Eu estava fazendo piada — deu de ombros. notou que havia se embolado nas informações ao ouvir a risada do amigo irlandês, que decidiu apenas deixar para lá e balançar a cabeça em negação. Havia desistido de entendê-la fazia algum tempo.
— Era com ele que você estava antes?
quem perguntou. Sim, ela respondeu. Pensou ter encontrado qualquer resquício de incômodo em sua voz, mas por algum motivo, sempre se convencia de que ele não se importava tanto assim.
— E onde ele tá, então? — Niall perguntou.
— Ele… Passou mal. Eu tenho que ir ver como ele tá, inclusive, vim pegar água e eu... Eu ligo pra vocês, mas não se preocupem. Tudo bem? Me desculpem, eu me perdi nas pessoas, fiquei muito bêbada, também queria ter passado a virada com vocês, mas aí não rolou e eu… Enfim. Eu dou notícias.
engoliu em seco, arrependendo-se, mas já era tarde demais. Apertou-se contra o sobretudo, pensando nos tipos de chantagem ou ameaças ou propostas que poderia fazer para Zayn aceitar um convite já rejeitado. Nervosa, logo depois de tagarelar coisas que achou que eles gostariam de ouvir, fez o caminho de volta até o carro de Zayn e bateu na janela. Ele mexia no celular, deitado, quase dormindo. Fez uma expressão engraçada antes de baixar o vidro da janela.
— De novo, ?
Ela sorriu largo. Ele suspeitou.
— Eu preciso que você me empreste o seu celular.



Continua...



Nota da autora: olá pessoinhas :)))) se você leu até aqui, muito obrigada. essa história é completamente diferente das coisas que já escrevi até então e eu espero que tenham gostado desses personagens que estão tirando meu sono porque, apesar de problemáticos, eu sou apaixonada por eles. o que acharam do Harry? do Zayn?? do LOUIS????? eu pessoalmente amo muito todos eles. o Liam já já aparece :) e a Brook também. tem muita água pra desenrolar ainda dessa festinha sonsa que parece inofensiva mais que vai explodir os bo tudo HAHAHAHAHAH esse fim de semana ainda vai render muito! ME CONTEM! beijo!

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