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Última atualização: 19/05/2022

Capítulo oito — Do i wanna know?

"Você não faz ideia de que é minha obsessão?
Sonhei com você quase todas as noites essa semana [...]

Eu meio que esperava que você ficasse
(Querida, nós dois sabemos)
Que as noites foram feitas principalmente
Para dizer coisas que não se pode dizer no dia seguinte [...]

Talvez eu esteja muito ocupado sendo seu para me apaixonar por outra pessoa."
🎵


A hora mais importante não chegava nunca.
inclinou a cabeça para trás, fechando os olhos enquanto tentava relaxar. Aquela dor incômoda sempre aparecia nos piores momentos, mesmo em seus dias finais. A tortura aguda em forma de uma cólica terrível que já durava por três dias, o que muitas vezes a impedia de pensar direito. Não dava exatamente para fazer isso também quando Yoona não parava de falar um minuto sequer do seu lado, passando e repassando os mesmos tópicos que tinham sido abordados todos os dias da última semana — inclusive, a informação inútil de que tinha comprado um terrier. Sua parceira tratava o assunto como vital, ignorando o fato de que também estava levando tão a sério quanto ela, talvez até mais. Se o projeto fosse recusado, seria visto como um sinal, e um sinal nada bom. Como a desistência de seu sonho, ou mais um adiamento dele, e nenhuma das duas opções eram satisfatórias.
— E precisamos dizer que as alternativas variam e que podem ser adaptadas a qualquer hora, tudo bem? Mas não importa o que sugiram, nossa ideia é a base e não vamos negociar conceitos radicais, pelo menos não dentro do nosso. Você trouxe o portfólio?
— Claro — ajeitou a postura novamente, pegando a pasta na bolsa e apontando para o pen drive muito bem guardado na palma da mão. Yoona abriu a pasta no colo, mesmo já tendo feito a mesma coisa há 30 minutos atrás. Era impossível medir quem estava mais nervosa. Seria melhor que alguém as distraísse com qualquer assunto desnecessário, como as funcionárias da limpeza que falavam sobre pêlos nas pernas e essas coisas.
— Uau — a garota soltou um grande suspiro, alisando a imagem das tartarugas marinhas completando sua jornada até o mar de Malibu — Nunca tinha notado, mas essa foto é simplesmente incrível. Aliás, todas são. Parece uma série de TV — ela parecia admirada. soltou um pequeno sorriso — Você é muito talentosa, . Isso me deixa ainda mais confiante. Onde trabalhava mesmo na América?
piscou os olhos e abaixou a cabeça por um momento.
— Era um trabalho independente — não era uma resposta muito digna, mas não importava, Yoona não perceberia isso.
— Legal! Vendia suas fotos para alguma revista? — perguntou de novo, e limpou a garganta.
— Basicamente — sussurrou. Com um suspiro, Yoona se afastou da parede e apontou com o queixo para o material em suas mãos.
— Mas não essas, não é?
esboçou um sorriso de canto, assentindo levemente.
— Não, não essas.
E por esse motivo, elas nem deveriam estar aqui, pensou. Era pessoal demais para ser apresentado em uma pequena reunião. Não tinha nada a ver com o conceito que pensaram. Yoona havia pedido um portfólio simples de seus últimos trabalhos recentes, nada mais. Mas simplesmente trouxe a pasta que guardava no fundo do armário.
Ponto para Jungkook. Ele a fez ficar pensando que as fotos eram boas o suficiente depois daqueles elogios baratos em sua casa e agora ela estava ali, pensando que impressionaria alguém com seu olhar razoavelmente sensível. Se tudo desse errado, ela tinha carta branca para odiá-lo por uma semana inteira.
— Ei, vocês — uma mulher de meia idade colocou a cabeça para fora, encarando as duas garotas sentadas nas poltronas — Podem entrar agora.
olhou imediatamente para Yoona. Era agora. Não dava mais tempo de voltar para casa. Não dava mais tempo nem de fingir um desmaio. Agora ela só tinha como se levantar e manter aquela turbulência de nervosismo em silêncio. Agarrando a Panasonic, desviou os olhos e tentou respirar pelo diafragma.
Você se deve essa, . Pode dar certo e pode não dar. Não aja como uma amadora. Não aja como se ainda estivesse na Califórnia.
As duas se levantaram ao mesmo tempo, permanecendo paradas por um minuto inteiro antes de Yoona dizer, em voz baixa e hesitante:
— Você começa?
— Como quiser — respondeu , e deu seus primeiros passos para dentro da sala.

📸💔


afundou o hashi no arroz, mexeu na sopa, encarou a carne borbulhando no centro da mesa, suspirou, engoliu uma ponta do kimchi e repetiu todos os movimentos de novo. A comida parecia estar gostosa, mas não tinha como ter certeza absoluta disso quando sua atenção estava tão desfalcada do presente, e seu corpo ainda se recuperava gradativamente de mais uma sessão de dor pélvica tremenda, misturada com ombros tensionados pela espera infinita de uma resposta.
Fazia dois dias desde a apresentação com Yoona. E, a cada brecha, aquela coisa silenciosa de ansiedade a fazia querer voltar para cama toda vez que acordava, mesmo que ela não faria isso, nunca. Era traumatizante demais acreditar em promessas, ainda mais acreditar em algo que era puramente um teste. Se ela recebesse um não, pelo menos podia dizer que já estava esperando por isso.
Quando estendeu a mão para pegar o copo de água, sua mente estava tão aérea que seus dedos esbarraram no metal e a metade do líquido caiu sobre a mesa, molhando parte das unhas de Candice logo à frente. Seu celular não estava ali, o que foi um alívio. pareceu ter acordado de seu devaneio, puxando o copo e murmurando um pedido de desculpas.
Ela ouviu a amiga bufar em tom cansado e irritado.
— Fala sério, ! — Candice revirou os olhos, e parecia saber exatamente o que diria — Não quero brigar sobre isso de novo, mas vou te levar ao médico por causa dessas malditas dores. Olha como você fica, já passou da hora.
revirou os olhos enquanto puxava um guardanapo do centro da mesa.
— Já falei que não precisa. Por que eu iria ao médico por causa de uma cólica?
— Não é uma cólica comum! Faz 3 dias que você fica capegando pelos lugares, por mais que disfarce bem, fora essa palidez doente e essas olheiras de quem não tem uma noite de sono decente há eras. Já viu seus lábios? Parece aquela garota de Lost. Se tivesse um médico por aqui, iria te oferecer uma consulta de graça por puro desespero — ao dizer isso, ela realmente olhou ao redor do restaurante. manteve a concentração na limpeza de seu estrago — Você parou de tomar seu remédio, não é?
Ela entortou a boca em busca de uma resposta convincente, ou qualquer coisa que fizesse Candice esquecer do assunto e não agir por conta própria, que com certeza incluiria ligações desnecessárias e caronas no meio do expediente.
— Eles não vendem aquele remédio por aqui — respondeu, e Candice baixou seus próprios hashi, levantando os ombros com uma expressão enorme de “e daí?”.
— E isso lá é um problema?! Pois então vamos procurar outro por aqui. Não acredito que não foi atrás de outro anticoncepcional desde que pisamos nesse país porque “não é o mesmo”.
— Não tive tempo para nada disso, Candy. Essas coisas precisam de exames, idas e vindas ao hospital, testes e perguntas, fora que ainda não sei me deslocar muito bem por essa cidade enorme sem pedir informação a casa esquina. Mas juro que vou dar um jeito no mês que vem, antes do próximo ciclo, eu só…
Candice não estava mais olhando para ela. Com os dedos rápidos, digitou algo no celular e voltou a baixá-lo na mesa, pegando seus palitos de metal de volta.
— Já era, acabei de fazer isso.
Algo dentro de estufou até fazê-la arquear as costas, aumentando o tom de voz sem querer:
— Você fez o quê? — A surpresa tirou sua capacidade de perguntar qualquer coisa devidamente. De repente, ela nem parecia mais tão faminta como quando chegou ali.
— Marquei uma consulta com meu ginecologista pra você. Ele é ótimo, um dos melhores de Seul, o plano de saúde da Vogue quase não deu para cobri-lo, é sério. Eles são mais miseráveis do que eu pensava, fico carente com a falta de inclusão dos meus procedimentos estéticos — ela respondeu sem a menor preocupação do estado espantado de — Mas fiz isso porque não quero mais te ver mancando pela casa de madrugada com suas náuseas e emitindo essa energia negra de dor e sofrimento. Você vai ao médico e ponto final.
pressionou os lábios, olhando para Candice com um leve aborrecimento. Ela pensou nas órbitas escuras dos olhos esqueléticos daquela carta da Morte no tarô, o tipo de coisa que Candice gostava de guardar na penteadeira do quarto, e pensou que fazia sentido colocá-la para funcionar naquela amizade: aprender a se desprender das coisas, começando por Candice Chaperman e seu cuidado excessivo.
É claro que não faria nada disso. Não era de hoje que sabia perfeitamente seu papel na vida da amiga: uma irmã mais nova, uma confidente e um tesouro, como vivia repetindo.
Optando por não discutir, ela apenas apoiou um cotovelo na mesa e olhou para um inseto que zunia na janela ao lado de seus ombros. O jeito como Candice reparava em alguns mínimos detalhes apenas superficialmente tornavam-na esperta, mas não o suficiente. Se reparasse melhor, perceberia que mais coisas deixavam acordada à noite, e isso incluía o projeto, seu futuro, sexo esporádico e mensagens não respondidas de um cara que estava do outro lado do oceano.
Esta última situação estava azucrinando mais do que o zunido daquela coisa na janela, e tomando um certo tamanho que não deveria tomar de jeito nenhum.
Mas logo recuperou a postura, comendo sua refeição em vez de simplesmente olhar para ela e torcendo para ter o mínimo de adrenalina para enfrentar uma aula de duas horas durante a tarde e se afundar na cama o mais cedo possível.
Candice bufou novamente, alheia aos verdadeiros pensamentos de , que estavam bem longe dali.
— Você poderia agir como um ser humano normal e me agradecer por isso. Eu me preocupo com você.
mastigou devagar, estreitando os olhos.
— Claro, obrigada por ser sempre tão enxerida, Chaperman. Deveria me agradecer também por jogar os cigarros que esconde no porta-luvas do carro fora.
Os olhos de Candice abriram mais que o necessário. Antes que pudesse responder qualquer coisa, uma vibração estrondosa partiu do bolso de trás de , que suspirou e puxou-o para fora, achando ser um momento mais do que útil para atender e não ouvir as explicações gaguejadas de Candy sobre seus hábitos autodestrutivos.
Mas quando viu o nome do remetente de sua notificação, era melhor ter ignorado o toque.
Se estava pálida antes, agora sua cor tinha mudado para verde. Era como se uma mosca tivesse pousado em seu cérebro. Os dedos se enrijeceram em volta do aparelho e um grande nó se formou na garganta.
Candice levou um minuto inteiro para reparar no estado anormal da garota.
— O que foi? Isso é uma crise nova? Parece que vai desmaiar.
— C-Candice… É um e-mail… — ela não continuou. Seus lábios tremiam ligeiramente, mas Candice apenas arqueou uma sobrancelha.
— Sim? Que foi? É um spam? Clonaram seu cartão de crédito? Links da deep Web?
— É da Hybe.
A outra endureceu o corpo imediatamente. Agora seu rosto estava parecido com o de : estático, apreensivo. Não sabia o que sentir. Quanto mais ficava ali, mais considerava a ideia de que poderia fechar o celular e fingir que não viu nada.
— O que tá esperando? Abre logo! — grunhiu Candice.
— Não consigo.
— Como assim?
queria explicar, mas provavelmente não conseguiria, então apenas não tentou.
O resultado importava mais do que pensou. Ela estava sendo tomada por emoções sabotadoras que sempre eram contidas, mas ali, agora, pareciam infestar todo aquele espaço.
Abrindo ainda mais os olhos, ela estendeu o telefone para a loira do outro lado, dizendo com a voz falha:
— Abre você.
— Mas…
— Abre logo! É da proposta. Só abre.
Candice engoliu em seco e inclinou-se para ler o conteúdo. Sua expressão era claramente a mesma: surpresa, cabisbaixa. Fez entender tudo antes que dissesse uma palavra.
, eu sinto muito… — falou cuidadosamente. sentiu o peito afundar, os olhos agora se cravando no piso, vendo a sombra daquele inseto no vidro, que agora parecia um monstro elegante no chão.
Ela deveria saber. Talento não é a única coisa que dita sucesso, em nenhum lugar do mundo. De qualquer forma, seu status não passava de uma novata, com ideias mirabolantes e razoáveis, igual as mais de três mil pessoas que estavam tentando a vida nessa indústria. Era novata porque não podia simplesmente revelar seu antigo trabalho. Que agência coreana contrataria uma ex-paparazzi? Eles eram uma analogia de sasaengs, pelo amor de deus!
Pensar nisso fez toda a alegria dela desaparecer mais ainda.
— Acho que não vamos mais tomar sorvete assistindo a documentários por um tempo.
precisou de um momento para erguer a cabeça e franzir o cenho.
— Porque imagino que o trabalho de uma diretora de fotografia vá te roubar definitivamente de mim! — sorrindo, Candice virou o celular — Parece que estou falando com a mais nova aquisição do full album do TXT!
paralisou, pegando o celular automaticamente com o coração na boca, sentindo algo se rastejar por sua nuca em um suor frio. Ela leu e releu a mensagem, os olhos girando para cima e para baixo, para a frente e para trás, certificando-se de ter entendido cada palavra, cada caractere. Era difícil até se mexer. Parecia algo inacreditável demais.
Quando sentiu os braços de Candice em volta de seus ombros, foi como receber o apito da vida real.
— Parabéns, ! Eu sabia que você conseguiria, eu nunca duvidei, nem por um segundo! — ela a apertava com tanta força que normalmente tinha que fazer um esforço para escalar para fora da constrição, mas naquele momento, tudo parecia tão dormente que isso não importava.
— Não acredito… — sua voz era tão baixa e facilmente afogada pelas felicitações de Candice. Ela continuava lendo o e-mail, e as mensagens de Yoona começaram a chegar sem parar, em uma mistura de emojis e pontos de exclamação. Tudo que conseguia se atentar agora era nos dizeres do corpo do email: “Gostamos muito do conceito analógico… [...] O efeito da Panasonic foi engenhoso e inteligente… [...] Quantas cenas você estaria disposta a criar?”.
Era como se todas as luzes da cidade estivessem formando uma sombra ligeira de seu corpo inteiro. Um destaque inesperado, mas essencial, imprescindível. teria o nome estampado junto com uma das maiores empresas de entretenimento coreano da atualidade, e a responsabilidade não a assustava nem um pouco.
— Você é genial, ! Você merece, precisamos comemorar! — agora Candice levantava seu corpo curvo, que ainda parecia meio mole, tanto pelos abraços apertados quanto pela notícia — Seu primeiro contrato com uma agência! Minha nossa! Vou ligar agora mesmo e dizer que não vou trabalhar amanhã.
se deixou sorrir, mas achava que já estava fazendo isso há um tempo. Os olhos de Candice brilhavam tanto que a faziam acreditar que não estava sonhando.
— Sim, preciso… Nós precisamos, e vamos! Deus, não sei nem o que dizer! — Arfou, sentindo os dedos frágeis segurarem o celular com mais força — Tenho que ir pra lá agora, não tenho?
— Vou levá-la o mais rápido possível! — com um gritinho, Candice se virou saltitante até o caixa, sem receber qualquer advertência sobre pagar a conta sozinha.
Agora parada, soltou uma risada mais alta, ainda encarando o celular. Duas narrativas coexistiam em sua cabeça. Uma era a imagem real: seu currículo com o nome da Hybe, a denominação “diretora” em letras altas e todas as portas que poderiam ser abertas com aquilo. A subida próspera e o início de uma carreira, quem sabe. Uma carreira alheia à invasões de privacidade e destruição de relacionamentos felizes.
A outra era uma imagem falsa, uma possibilidade: Jill Tiefenthaler ou Mara Dell, os grandes nomes da National Geographic, descobrirem o novo álbum no ar, se interessarem pelas imagens que ainda nem existiam, mas que já dava vida na imaginação, encontrarem o contato dela e todo o processo que se seguiria até que seu nome fosse inserido na equipe que sonhava estar antes mesmo de aprender a fotografar.
Em um segundo, ela deu logo um jeito de fazer essas ilusões desaparecerem, ficando apenas com a imagem real. Sonhos podiam ser uma arma mortal para quem se esquecia de usar o lado racional.
Seu coração pulsava de tanta felicidade que abriu a conversa dele sem perceber, digitando a novidade sem pensar duas vezes. Mas então, antes que apertasse o botão de enviar, ela encarou a data da última mensagem respondida, muito tempo atrás.
Sentiu a pele ser tomada por um arrepio ridículo de constrangimento e apagou toda a linha da mensagem em um impulso horrorizado. Não vou perturbá-lo com esse tipo de coisa, não vou, não vou.
Era louco pensar que mandaria uma mensagem para Jaehyun imediatamente naquela situação, e que as asas das borboletas bateriam com força em seu estômago quando ele respondesse. Mas agora, isso não parecia muito pertinente. não aparentava mais ser um elemento válido que mantinha Jeong Jaehyun entretido — muito menos interessado.
Mas tinha outra pessoa a quem pudesse contar. Pensando bem, esta fazia até mais sentido. E em vez de borboletas batendo asas, ela sentiu seu coração bater ainda mais rápido pela empolgação quando digitou:
“Parece que vou ter que alugar sua Panasonic por mais um tempo! 🥳”

📸💔


O Texas inteiro parecia estar gritando do lado de fora quando Jaehyun entrou no camarim compartilhado, retirando os in-ears dos ouvidos e pegando sua garrafa de água por conta própria.
O suor tomava sua testa e nuca, junto com a adrenalina de praxe que sentia a cada performance. As últimas eram sempre as mais agitadas, demoradas e, pela grande liberação de endorfina, também mais prazerosas.
Dabin entrou logo em seguida, trazendo seu sorriso tímido e estendendo o celular apitando para o rapaz.
— É um número desconhecido. Preciso bloqueá-lo?
Ela estava insegura de novo. Uma staff com mais experiência não precisaria perguntar uma coisa daquelas mas, na situação específica, foi melhor que perguntasse.
Jaehyun tomou o telefone e leu a mensagem seguida de duas ligações perdidas, agora sentindo a garganta apertada e obstruída.
“Sabe onde fica o meu hotel, não sabe? Estou esperando.”
Engolindo em seco, ele apenas bloqueia a tela e o coloca em cima da penteadeira.
— Obrigado, Dabin, não precisa se preocupar. Não é nada demais.
A mulher concordou e observou quando ele se retirou rapidamente para os fundos, direto para os chuveiros improvisados e seus demais pertences guardados.
Quando voltou, depois de um tempo, ele ainda secava os cabelos apressadamente enquanto começava a juntar seus pequenos objetos espalhados pela penteadeira, ou até mesmo no chão, como quando se trocava com menos de 5 minutos para a próxima entrada e não se atentava com a integridade dos adornos. No momento seguinte, o camarim não estava mais vazio, e distraidamente ele conseguiu ouvir seu nome ser chamado:
— Jae?
A voz de Taeyong soou logo atrás dele, com um timbre extravagante e inicialmente irreconhecível. Jaehyun não se virou imediatamente.
— Mandou bem hoje, Jaehyun. Você está tão bom que estou quase mediando seu próximo solo pra já.
Jaehyun acabava de mover seu carregador de celular para dentro de uma mochila quando disse:
— Ainda não terminei de escrever a música, você sabe.
— Eu sei, mas isso é uma questão de tempo. Do jeito que eu acho que você tá apaixonado.
— Jaehyun apaixonado? Essa é nova — Johnny soltou uma risada alegre e desacreditada, quase alçando voo. Parecia ter acabado de tomar uma garrafa inteira de soju. Aliás, duas garrafas.
Ele não reagiu ao comentário. Apenas estreitou os olhos por cima do ombro e continuou focado na tarefa.
— Você é cego? Não vê o jeito que ele fica idiota quando alguém só toca no nome de ? — Taeyong tocou no nome, e isso fez com que Jaehyun travasse os dedos no zíper. Cara, que merda, você não consegue segurar a língua?, disse ele através do espelho para o líder, revirando os olhos pela frustração — Eu não disse?
Johnny fez cara de quem não tinha entendido. Ouviram-se três passos bem próximos da porta, o chão estalando como um tiro, mas ninguém mais entrou, o que foi um alívio, porque Johnny era a melhor pessoa para criar um show inconveniente de zombarias.
? A fotógrafa? — a pergunta de Johnny foi respondida com um assentir de cabeça de Taeyong. Jaehyun permaneceu calado, respirando fundo em busca de coisas essenciais que coubessem em um espaço pequeno de uma bolsa e nada que envolvesse falar daquele assunto agora, naquele momento, não quando estava evitando pensar em e de como andava sendo um tremendo idiota no seu ridículo tratamento de silêncio. — Isso é sério?
E então, Johnny caminhou até ele e puxou a corrente de prata que Jaehyun se preparava para guardar no bolso da frente, fazendo o amigo grunhir.
— O que ‘tá fazendo?!
— Claro, por que não pensei nisso antes? É com ela que foi se encontrar aquele dia?
— O que? — perguntou Taeyong — Que dia?
Jaehyun empurrou Johnny para o lado até puxar os sapatos de debaixo da poltrona e desabou em cima dela tão forte que o suporte quase quebrou, começando a calçar seus tênis em silêncio.
— O dia que me perguntou da cafeteria em Chicago. Você saiu por algumas horas, disse que ia encontrar alguém, pediu um lugar discreto. — Johnny frisou a última palavra com um sorriso sugestivo. Taeyong sufocou uma risada. Jaehyun comprimiu os lábios, desejando que ele bebesse mais algumas garrafas naquela noite e deixasse o corpo cair com tudo sobre a madeira daquele hotel e só acordasse no fim da turnê.
— Não era ninguém importante, e está na Coreia, vão querer mesmo fritar a cabeça com esse assunto?
— Mas foi um encontro casual ou…
— Não enche, Taeyong — ele ergueu o olhar duro ao responder. Não queria falar do assunto, era óbvio. Ele só servia para lembrar de suas atitudes desagradáveis, e que ele acreditava que precisavam ser tomadas. Só por garantia, antes de chegar ao hotel de Ali Dalphin dentro de um carro alugado, ele procuraria esse sentimento de culpa no escuro e o esmagaria mais uma vez para que não interferisse em seus planos.
Merda. Como esmagaria algo que não parava de crescer?, pensou de novo.
Taeyong ergueu os braços em defesa pela resposta ríspida, puxando os cantos da boca para baixo de um jeito cômico.
— Eu não ligo com quem você sai, acha que eu sou idiota? Juro. Só tome cuidado com as câmeras, você sabe. Seria bem ruim se algo desse errado por aqui.
— Claro, eu sei disso — murmurou, puxando o último cadarço e se levantando em seguida, tirando a corrente das mãos de Johnny e conferindo os últimos itens da pequena bagagem — Tenho algumas coisas no hotel, mas você pode dar um jeito nisso, não é? Pelos velhos tempos — com um tapinha nos ombros de Johnny, ele começou a caminhar para a porta.
— Que tipo de coisas? E pra onde você vai? — a pergunta também era redirecionada para Taeyong, que normalmente sabia tudo e mais um pouco de todos os membros - tinha que saber. A resposta do líder foi apenas um giro de palma no ar e Jaehyun suspirou, tentando não gesticular tanto com as mãos e fazer algo que demonstrasse que estava nervoso.
— Vou para Los Angeles por um momento. Volto em 2 dias, não se preocupe.
— Uau. Eu gosto de LA. Por que não me convidou? — Johnny torceu as sobrancelhas. Taeyong o lançou seu melhor olhar de “você precisa que as pessoas desenhem pra você sempre? Sério?”.
Jaehyun não sabia dizer como se sentia ao passar uma impressão tão errada para os amigos.
— Talvez uma próxima vez.
Antes que Johnny pudesse perguntar de novo, Taeyong falou na frente:
— Claro, claro, vai logo. E não se esqueça que semana que vem sai o anúncio da extensão da turnê.
A culpa de merda voltou com tudo, rastejando sempre a centímetros dele. A mídia ainda não sabia que os 2 meses de turnê do NCT 127 iriam se transformar em 3, ou até mesmo 4, se resolvessem dar uma passadinha na América do Sul. As malditas bilheterias estavam indo estupidamente bem, o público tomava cada assento disponível das arenas e só o que se lia era esgotado, esgotado, esgotado. Lógico que a SM se aproveitaria disso.
E ficaria sabendo disso por um site na internet, e não por ele.
Ela ainda estava esperando por ele? Era difícil acreditar nisso quando, em poucos dias, passou de “um futuro namorado promissor” para “cara esquisito além da salvação”.
Ele se vira para Taeyong, limpando a garganta antes de dizer:
— Beleza. Vejo vocês depois.

📸💔


bateu o copo com força na mesa, fazendo careta para a mistura forte que, sinceramente, era melhor não saber. Pelo menos o copo ficou inteiro. Aquela noite tinha começado com doses em copos pequenos de shot, depois passando para canecas grandes com formato de asas que se quebraram muito fácil e, agora, Yoona deu um jeito de conseguir utensílios de plástico de algum lugar da recepção do pub. Ou seja lá onde era aquela sala privativa em que estavam bebendo.
Quando se pisa em um lugar cheio de luzes negras e com um grande tablado em frente a uma enorme tela projetada de um data show escondido na parede com microfones despencando de um suporte, só podia ser um pub. Um pub com seu famigerado karaokê.
Não havia um único lugar nesse país que não tivesse karaokês.
Candice e Yoona vibraram em palmas e gritos enquanto jogava a cabeça para trás, forçando a náusea a passar e ficar bem quieta onde estava, no fundo do estômago.
— Muito bem, ! Era isso que a gente queria! Eu sabia que você no fundo era boa de beber! Agora vamos, mais uma! — Yoona puxou mais recipiente descartável, juntando a cerveja e o soju na mistura coreana mais famosa do mundo.
— Não sei… Devo? — ela perguntou grogue, rindo de um jeito desnorteado, balançando a cabeça para enxergar a bebida embaixo daquelas luzes escuras — Yoona. Isso… — apontou para o lado do copo, onde não tinha nada — Isso aqui é broxante. Cadê minha tangerina?
— O quê?! — demandou Yoona. Candice soltou uma gargalhada alta — Isso é soju e cerveja, não um drink de garotas frescas, cadê o seu…
— Eu quero a tangerina! Minha tangerinaa! — ela bateu a palma da mão na mesa, juntando as sobrancelhas em uma expressão raivosa — Candy, fala pra ela!
— Que cacete! Cadê a porra dessa tangerina? — Candice tropeçou até a mesa ao lado, pegando a fruta já meio descascada e jogando no colo de , que gemeu e depois soltou outra risada alta.
Quando puxou um gomo e jogou dentro da bebida, sua expressão foi de eufórica para frustrada em menos de um minuto.
— Ah. — suspirou tristemente, baixando os ombros — Não ficou bonito como eu esperava.
— Ah, Deus! — Yoona bufou, virando sua própria bebida. Candice grunhiu, espalmando a mesa com força, que já parecia frágil o bastante.
, ou você bebe isso ou vou te dar um motivo pior pra beber! Anda logo.
Com um piparote, ergueu um pouco o tronco, um pouco desengonçada, e sentiu o piso molhado por debaixo dos pés protegidos apenas com meias.
— Não gosto quando manda em mim, Chaperman.
— Mas hoje nós temos que comemorar! Vocês duas são as mulheres mais fodas dessa cidade hoje! E mais importante: você vai ganhar um crachá! Agora vamos, mais uma!
a encarou de um jeito débil, como se sua mente bêbada não tivesse conseguido captar todas as palavras, mas captaram as mais importantes porque logo em seguida ela enlaçou os dedos ao redor do copo e puxou o pedaço de tangerina para fora, lançando-a no cesto de lixo ao lado da porta fechada.
Bem, pelo menos aquilo parecia uma lata de lixo.
— Você está certa — gritou, estendendo o plástico para a frente — Agora!
As três garotas gritaram palavras incompreensíveis e, então, com um movimento rítmico, viraram seus copos garganta adentro, esboçando as mesmas caretas depois e soltando as mesmas risadas altas.
Era genuinamente um momento feliz. Só de pensar que suas noites viradas e seu lixo do quarto transbordando de papéis amassados de ideias e mais ideias descartadas chegaram naquele resultado de hoje, ela merecia ter uma noite divertida e completamente transtornada.
Depois de mais algumas doses, era como se aquela sala particular não fosse mais uma sala, e sim uma fenda onde cada uma das 3 estava viajando em seu próprio universo. não fazia ideia de que horas eram, e isso não importava. Quando se levantou da cadeira, cambaleou até o palco, rindo de nada, pensando de forma assustadoramente consciente que estava gastando uma fortuna naquele lugar e não tinha usufruído de tudo.
Quem pensava em uma coisa dessas naquele estado de embriaguez?
De qualquer forma, quando alcançou a plataforma, ela puxou o microfone e encarou a tela projetada, que exibia uma foto muito bonita de uma praia com areias brancas e céu azul.
— Não consigo me lembrar da música… — murmurou para si mesma. Então, virou-se para as garotas na mesa, gritando no alto falante ligado — Ei! Preciso de uma música!
— Que música? — Yoona gritou de volta. Candice riu e moveu as palmas no ar.
— Canta qualquer coisa!
continuou parada, e esperou que elas a dessem uma resposta específica, mas isso não aconteceria. Revirando os olhos, apoiou um braço mole no suporte, estalando a língua com força no agudo do microfone.
— Uma. Música! Qual é mesmo o nome daquela mús… — ela parou, os olhos se abrindo exponencialmente até soltar um sorriso — Lembrei! Lembrei!
Com os dedos rápidos e mais um tropeço, caminhou até a tela touch e quadrada onde digitou o nome da música, com vários erros que foram consertados pelo corretor automático. Em um minuto, as luzes não eram mais apenas baixas e azuis, mas vários pontinhos coloridos em rosa e roxo tomaram as paredes quando a melodia de Euphoria começou a ecoar pelo ambiente inteiro.
deu um gritinho, engatando seu canto em uma desafinação terrível, mas ninguém ligava. Yoona e Candice berraram seu apoio seguido de mais uma dose extra de soju.
— Vai, , arrasa! Não importa que esteja parecendo um gato apanhando, você ainda está linda! — Candice gritou enquanto Yoona gargalhava e colocava os pés em cima da mesa, recostando-se no banco acolchoado.
mexeu o corpo de um jeito desengonçado, vocalizando a melodia de uma forma totalmente torta e errada, mas feliz, porque aquela era a primeira música que veio à sua cabeça para cantar.
Como a música daquele imbecil podia ser a primeira quando existia, sei lá, Daniel Caesar como escolha?
A porra de Daniel Caesar.
Yoona vibrava tanto quanto a garota no palco, levantando as mãos no clímax do refrão, rindo quando cambaleou para o lado e se segurou a tempo no suporte.
— Ela é uma garota e tanto, não é? — comentou, falando mais alto pelo som que tomava o lugar.
Candice bebeu mais um gole farto de soju. Quando finalmente falou, deixou de olhar para e se virou para Yoona com convicção:
— E como! E merece tudo que está acontecendo com ela. Na verdade, vocês duas merecem. — Ela ergueu o copo plástico para Yoona, que logo brindou com o seu — Mas é que o caminho pra chegar aqui foi tão fodido que quero beijar e abraçar o Bang, por mais ranço que eu tenha.
— Todo mundo tem ranço de CEOs de agências de entretenimento, isso não é novidade. Mas dessa vez até eu me surpreendi. Qual é, desde quando duas novatas apresentam uma proposta e não as mandam caírem fora? Ainda mais uma estrangeira. O povo desse país pensa que tudo que vem de fora é maconha ou pornografia.
Candice deu de ombros. Seu próprio dia-a-dia mostrava essa dura realidade por si só. Ela nunca esperou que fosse ser vista como uma mulher vulgar só por ter um fenótipo diferente, mas também nunca se preocupou em dar alguma importância pra isso.
— Ele deve estar a ponto de renunciar, vai saber. Foi a chance que ele viu de ter algo novo antes de finalmente se mandar.
— E nós realmente vamos fazer algo novo! Vamos fazer algo novo, ! — Yoona gritou e cantou mais alto, agora pulando na segunda metade da canção — Ela é demais! Nada disso teria acontecido sem o talento dessa garota. Há quanto tempo se conhecem mesmo?
Candice riu, estreitando os olhos enquanto tentava se lembrar.
— Hmm… Desde que vi esse rostinho nada sorridente em Los Angeles. Deve ter uns 4 anos. Vi uma foto dessa garota de um lugar chamado Bahia e me apaixonei, assim como o dono da revista, que logo convocou ela para o serviço. Foi tiro e queda. Amo ela como alguém da minha família.
Daebak! Você também trabalhava em uma revista? Que legal, fazia photoshoots?
— Que? Não… — as próximas palavras de Candice são interrompidas por um grito agudo e desafinado de no vocal contínuo de “euphoriaaaa” que fez as amigas cruzarem as sobrancelhas. Mas serviu para puxar Candice por um instante para a vida real e se tocar da pergunta que Yoona fazia. A garota ainda esperava uma resposta, e ela não tinha certeza de como falar sem revelar coisas demais. Por fim, abanou as mãos novamente no ar e decidiu dispersar o assunto — Essa garota sempre foi muito centrada no trabalho. É o que importa. Nada tira o foco dela, é sério.
— Verdade? Nem o namorado?
— Namorado?! — Candice engasgou com a resposta.
— É, esses dias quando almoçamos juntos ela estava trocando mensagens com um Jeong e…
— Argh! Ela não namora aquele protótipo de príncipe encantado do Jeong Jaehyun! Fala sério! Não depois de tudo que ele anda fazendo… — um estrondo cadenciado surgiu de novo das paredes, trazendo de volta a luz azul e escura com os pontos brilhantes dançando no teto enquanto o som pesado de Punch começava, e o rosto de Jaehyun surgia junto de Taeyong e os demais do 127 nas roupas de couro como uma coincidência terrível. Outra coisa terrível era ter recomeçado a cantar de novo.
Candice revirou os olhos e Yoona encarou o MV que passava na parede com as letras embaixo ao mesmo tempo em que olhava para gritando animada. Ela abriu a boca em um ‘o’ perfeito, tendo a súbita certeza de que Candice não podia estar mentindo sobre isso.
— Espera, está dizendo que anda mesmo se encontrando e trocando mensagens com Jaehyun do NCT?
— Bem…
— Jeong Jaehyun, o cara que é tipo top 5 da Coreia? Quietinho, fofo, moda dândi e cavalheiro? Minha nossa! — ela vibrou, incapaz de acreditar no que ouviu — Desde quando isso está acontecendo? Até onde eles foram? Deram as mãos, abraços? Beijo…
Candice avançou para perto da garota, tapando sua boca imediatamente com uma mão enquanto colocava o indicador na frente dos lábios.
— Shiu! Fala baixo, ela vai nos ouvir! — disse, gritando, mesmo que fosse impossível que escutasse alguma coisa naquela batida ensurdecedora de Punch — Ela não pode saber que te contei isso, aliás, ninguém pode…
— Então é verdade! Puta merda! — era difícil abafar qualquer entusiasmo naquele lugar apertado, mas Yoona teve sucesso em cobrir a própria boca antes que Candice fizesse — Não acredito que ela tá namorando um idol escondido, como vocês duas são sortudas!
— É, e não é nada fácil, sabia? Tem a multidão, essas fãs malditas que reclamam na internet, sasaengs que compram staffs, e… espera aí, você disse duas?
— Você está namorando com alguém do BTS, não está? — Yoona ergueu uma sobrancelha, como se fosse algo totalmente e claramente óbvio.
Candice paralisou por um momento, sentindo a música ao redor de repente ficar mais baixa. Sua primeira reação de desespero soava como balançar Yoona enquanto perguntava: quem te contou? Quem diabos te contou uma coisa dessas?
— Vamos lá, pode me dizer, sei que você está saindo com um deles! Quem é? Posso tentar adivinhar? É o Namjoon, não é? Apostei com Seojun que era, mas não…
— Shiu! Do que está falando? Não! — Candy interrompeu novamente, os olhos arregalados de susto — N-não é isso, eu não tenho namorado! Quem te disse uma coisa dessas? Vocês desse país não podem dar um beijinho de língua que já intitulam como namoro?
— Então está só dormindo com ele?
Candice esperou quase um minuto inteiro para começar a rir, mais desperta do que jamais esteve depois de tanta tequila, pensando que se fosse embora agora poderia se livrar daquelas perguntas, mas infelizmente Yoona iria junto com ela. E então, as duas estavam rindo de novo, Candice com mais sinceridade do que o começo, porque reparando agora, a risada de Yoona era engraçada. Parecia o Muttley daquele desenho, Corrida Maluca.
— Ei, do que vocês estão rindo? Quero participar! — se infiltrou no meio das duas no banco, deixando que o ciúme se infiltrasse na sua voz de uma forma divertida. Candice passou os braços por seus ombros, puxando-a para um abraço desajeitado.
— Não é da sua conta, , só estou fazendo novas amigas.
Amigas, gostei! Sabe, , nós estávamos falando de você e do…
— Agora é a minha vez de cantar! — Candice gritou, falando de forma mais fria do que se esperava e virando mais uma grande dose de soju porque talvez não estivesse tão bêbada assim quanto gostaria. O assunto anterior se dispersou como uma nuvem, e e Yoona gritaram a plenos pulmões quando a loira se ergueu no palco.
— Qual eu canto?
— Aquela! Candy, canta aquela! — gritou, batendo as duas mãos na mesa, tentando cantarolar a melodia da música que saiu mais como um ruído desconexo.
Candice aguardou alguns segundos até soltar um grito pelo microfone e dar um pulinho de felicidade ao se lembrar. Imediatamente, correu até o aparelho e selecionou MAGO do Gfriend para tocar.
— Essa música! Eu amo essa música desde que pisei aqui, e eu vou cantar!
— Isso, vai, Candy! — e Yoona gritaram.
Quando a música começou, já era muito claro que não tinha como ser a pessoa neutra que não queria favorecer ninguém. Candice era um milhão de vezes melhor do que as duas garotas na sala, tanto em timbre quanto em dança, mesmo que estivesse em cima de um salto de 10cm. E ainda, coincidentemente, usava uma calça flare muito parecida com a que Sowon usava no MV.
O problema era quando Candice tentou fazer a parte de Sowon na coreografia.
Ao levantar um pouco mais a perna, seu corpo se desequilibrou para o lado, sendo escorado pelo aparelho de som. Yoona explodiu em uma risada, e sufocou uma enquanto bebia mais uma dose do que quer estivesse na mesa. Quando Candice se virou, estava rindo tanto quanto as amigas enquanto a música rolava.
— Eu consigo, você vai ver…
Ela voltou a tentar fazer os passos, e reparou por um momento a garota linda de cabelos longos pretos e mechas em verde do MV. O rosto não lhe era estranho. O nome estava na ponta da língua.
— Minha nossa, muitas garotas sortudas essa noite — Yoona murmurou, balançando a cabeça enquanto bebia mais um grande gole. sentiu a cabeça girar quando se virou para a garota, fazendo uma expressão de quem não tinha entendido — Ninguém nunca te disse?! Olha ali — apontou para o MV passando na tela — A garota linda de mechas no pole dance? Yuju. Pegação mais do que confirmada do Jungkook. Mas aquela loira maravilhosa no vestido brilhante? Eunha. Foi uma noite certeira do JK, e com certeza uma do Hoseok também. A Yerin, acho que saiu com o Taehyung uma vez, mas ela não é bem o tipo dele…
O grito de Candice dispersou a atenção das duas. Ela quase caiu de novo, e estava rindo ainda mais. balançou a cabeça, com um esforço visível para gritar para a amiga, sentindo os músculos ainda mais moles.
— Você está bêbada demais e não temos um pole dance, cacete! — gritou, se atentando ainda mais à moça do pole que, na cena nova em questão, estava em cima de um globo brilhante gigante, no melhor estilo Miley em Wrecking Ball. Ela era tão estonteante que precisou parar uns segundos e recostar no banco, se recompondo de uma constatação estranha para se ter no momento.
Acho que ele é mais louco do que eu pensei. Acho não, tenho certeza. Por que como pode gostar tanto de transar comigo se já transou com uma mulher dessas?! Ela não tem cara de quem tem uma experiência mediana ou trava para novas posições. Na verdade, ela parecia ser o tipo de mulher que não gostava de parecer qualquer outra coisa que não totalmente selvagem e decidida, o tipo que faz os caras se rastejarem aos seus pés.
Será que eu vou ser assim um dia?
Jaehyun vai me ver assim um dia?
Jaehyun vai querer me ver? Falaria comigo depois que chegasse à Coreia? Se não falasse, isso sim seria decididamente cruel. Jungkook conversaria com ele sobre isso?
Jungkook se afastaria também? Sumiria por um tempo? Vou estar trabalhando na Hybe até lá?
Ele continuaria falando comigo depois que Jaehyun voltasse? Ou toda essa loucura não tem mesmo importância e tanto faz?
Bom, não o vejo falando com Yuju por aí. Nem com garota nenhuma.
Meu Deus, estou bêbada.
Mais um grunhido de Candice veio quando tentou levantar as duas mãos para cima no refrão, deixando seus pés livres para sofrerem mais um tropeço, que a aproximou da margem do palanque.
bufou, voltando à realidade.
— Já falei pra tomar cuidado!
Em vez de responder, Candice balançou os braços, mais animada do que nunca com a música.
— Você quer ver a melhor parte? Eu sei a melhor parte!
— Cacete, pelo menos tira esses saltos, você vai…
E então, Candice girou os quadris para balançá-los ao modo das meninas quando, em um passo em falso, seus pés desencontraram o resto da plataforma e seu corpo se desequilibrou em direção ao nada, caindo com tudo no chão, há quase um metro e meio de altura. Seu berro foi intensificado pelo microfone ainda em mãos.
Algo atingiu o peito de , mas não era desespero. Foi seu copo pela metade que caiu com tudo em cima de seu peito quando os pés de Candice bateram na base da mesa, balançando e desequilibrando tudo em cima.
— Porra, Candice! Puta que pariu! Vai se foder! — grunhiu, se levantando ao mesmo tempo que Yoona, que colocava as mãos na boca para não rir. Revirando os olhos, se aproximou da amiga no chão a passos lentos e grogues, encontrando a loira caída a plenas gargalhadas.
— Você tá xingando em português de novo! — Candice balançou a cabeça enquanto ria.
— Foda-se! Olha o que você fez! Caiu igual uma jaca! Por isso não posso te levar a qualquer lugar comigo! — disse enquanto se abaixava, o que pareceu mais um tropeço e a gravidade fazendo o resto do serviço.
— Uma o que? — Yoona perguntou.
— Uma jaca!
Um minuto de silêncio perdurou por um momento, enquanto as luzes faziam esculturas nos rostos das garotas até que todas elas de repente explodiram em gargalhadas altas e tremendas. Yoona se debruçou sobre as bordas do palco, fechando os olhos de tanto rir enquanto empurrava de forma debilóide os ombros de Candice, que ainda permanecia deitada no mesmo lugar.
— Jaca! — repetiu ela, sentindo as lágrimas no canto dos olhos enquanto era empurrada.
— Caramba, Candice, levanta daí, a noite mal começou. — murmurou, agora balançando os joelhos para chutar as pernas da amiga.
— Acho que não consigo levantar — ela respondeu, soltando um gemido forte quando tentou se mover — Acho que quebrei o pé.
— ‘Foot’ o que? — se aproximou, fazendo uma careta — Repete, essa palavra é engraçada.
— Acho que precisamos de um hospital — Yoona grunhiu, totalmente aérea — Hos.Pi.Tal. Falei certo? Em inglês, essa merda de língua que todo mundo precisa saber…
— Fala sério, não acredito… — assumiu um semblante duro, mas que não durou por muito tempo porque toda a atmosfera era muito mais engraçada do que preocupante. O álcool mudava a percepção sobre toda uma situação. A fuga da realidade era real. Saber que Candice caiu de uma altura significativa e com força considerável, provavelmente batendo a cabeça e quebrando o pé, não parecia tão desesperador assim; e nem um motivo forte de compaixão. Só era hilário — Hospital, certo. Onde está o telefone? Temos que ligar…
— Não! Não quero hospital, a noite mal começou! , não!
— Shiu! Escuta! Vamos roubar as bebidas e levar na ambulância — deu uma piscadinha antes de gargalhar de novo e se levantar aos tropeços, precisando se segurar no palanque e observou a mesa, com alguns copos caídos e o chão molhado, sem fazer ideia de onde estava sua bolsa, ou a bolsa de Candice, ou a bolsa de qualquer pessoa que tivesse trazido uma bolsa — Telefone! Onde você está? Telefone… cadê o telefone?
— Que telefone? — Yoona fechava o olho devagar, mas sem tirar o sorriso do rosto.
Eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, eh, stop telephoning me... — Candice cantarolou, e por mais que estivesse bêbada, ainda poderia dividir um microfone com Lady Gaga.
inspirou pesadamente e soltou o ar de leve, sentindo a visão embaçada e a cabeça ainda mais zonza.
— Telefone, dá pra parar com isso e aparecer? Não posso perder um presente tão caro, dá pra entender? Não esse. Vem cá…
— Que presente? Você disse que comprou… — Candice tentou se mover de novo, mas o gemido de dor a fez voltar a se deitar — À vista! Você comprou à vista! Nem acreditei nisso, mas comprou! Você comprou, não é?
— Claro que comprei, Chaperman, assim como você compra seus cigarros! Tem orgulho disso? — caminhou até o corpo da amiga e pulou por cima dele e das pernas de Yoona até chegar à porta pesada à prova de som, tentando abri-la com sua força ridiculamente inferior — Vou buscar um telefone! Vocês! A fofoqueira e a fumante, não saiam daqui! Ouviram? Não saiam!
Após uma pausa, as três riram de novo e conseguiu puxar a porta com mais força, saindo para fora aos tropeços.
O corredor era enorme, para não dizer o quanto era estreito. não precisou pensar muito para adivinhar que já era noite, ou algo parecido com isso. Arrastando os pés pela superfície lisa, ela começou a gritar e bater nas outras portas adjacentes.
— Ei! Tem algum telefone aí? Minha amiga se estabacou no chão feito uma jaca! Uma jaca! — A gargalhada veio de novo, e ela ficou impossibilitada de dizer mais alguma coisa ao se lembrar da palavra. Também não percebeu que estava falando em português e que ninguém jamais ouviria suas batidas quando lá dentro o som estava nas alturas — Já viram uma jaca cair? Ela se quebrou toda, ei…
Avançando por mais alguns metros, ela tropeçou de vez e foi ao chão em uma parada completa. Sentiu os joelhos arranharem junto com os cotovelos, mas quem diria, ela também acabou de cair como uma jaca. E isso era ainda mais engraçado!
Um homem surgiu do fim do corredor de portas, se aproximando da garota no chão com rapidez.
— Meu Deus! Você está bem? — perguntou enquanto se abaixava ao lado dela. tentou enxergá-lo pelos olhos quase fechados, e só conseguiu ver que ele usava uma boina brega e um colete cheio de botões dourados, igual a um segurança.
— Eu sim, mas ela não! Acho que ela quebrou o pé — e riu de novo.
— O que? Eu não falo a sua língua, moça — ele gesticulou com as mãos enquanto tentava explicar. Ela revirou os olhos, apoiando-se no joelho flexionado do homem para conseguir levantar o tronco.
— Oh merda! — ela estalou a língua e voltou ao vocabulário coreano, falando mais devagar desta vez e se aproximando dele para sussurrar: — Minha amiga quebrou o pé, e vamos roubar bebidas para levar na ambulância. Pode chamar uma pra nós, por favor?

📸💔


Jungkook encarou a embalagem de novo pelo canto do olho.
O silêncio no estúdio estava tendo o efeito completamente contrário ao que servia. Ele devia estar tão concentrado quanto Yoongi, sentado do outro lado da mesa, encarando sua partitura com os olhos cravados na letra, balançando os lápis entre os dedos de forma totalmente focada, mas não.
O papel de Jungkook continuava em branco. As outras folhas rasgadas espalhadas pelo tampo não tinham nada além de rabiscos toscos. Até mesmo a pasta com o cronograma de seus próximos compromissos estavam intocados, sem a fila de post-its coloridos que ele mesmo colocava quando os avaliava melhor.
Mas aquela embalagem de papelão com o café e seu celular logo ao lado pareciam encará-lo com certa raiva. Raiva por estarem sendo completamente ignorados.
— JK! — uma bola de papel atingiu sua bochecha direita. Jungkook ergueu a cabeça com um susto — Ouviu alguma coisa que eu disse?
— Não, desculpa — ele ajeitou a postura, limpando a garganta rapidamente, uma atitude que era associada totalmente a segredos e culpa — O que você disse?
— Acha que esse trecho vai ficar bom em uma harmonização entre você e o Jin? É uma opção mais melódica, mas o álbum novo vai mostrar mais nossas raízes familiares e individualistas. Ou foi algo assim que Namjoon disse na reunião daquele dia. — ele estendeu o caderno para o garoto. Jungkook passou os olhos rapidamente por cima, assentindo com a cabeça, sem prestar atenção totalmente.
— Claro, vai ficar ótimo — respondeu, fitando a caixa novamente enquanto voltava o olhar para o papel em branco.
Yoongi acompanhou aquele olhar e, vendo que ele não tinha qualquer interesse em confessar por conta própria, baixou o papel e expirou pesadamente.
— Qual é o problema? É só jogar fora — apontou para o café embalado, em um tom explícito — Se não ia aguentar tomar tanto café, por que comprou um segundo? — agora ele inclinou o queixo para recipiente vazio ao lado do cotovelo estendido de Jungkook, que engoliu em seco e deu uma risada engasgada.
— Achei que demoraríamos demais aqui. Estamos fazendo isso desde o quê? Meio dia? — ele balançou os ombros, indiferente. — Talvez eu ainda tome, vamos continuar.
— O gelo já derreteu há horas, deve estar horrível.
— Eu ainda posso tomar — Jungkook respondeu entre os dentes. Yoongi ergueu uma sobrancelha, sem muito interesse em tentar desvendar os comportamentos estranhos de Jungkook àquela hora. Eles andavam bem recorrentes nos últimos dias.
Por fim, o garoto suspirou, aliviado pela desistência de Yoongi em continuar. Sabia perfeitamente que o lugar daquele café não era ali, do seu lado na mesa, mas no final, sua boca e culpa o traíram e ele acabou recuando a segundos de chamar alguém. Qualquer pessoa que levasse a bebida para a nova diretora de fotografia do CB do TXT, com um bilhete em post it escrito com os devidos parabéns.
Àquela altura, o bilhete e as palavras tinham escorrido junto com a água na caixa. A prova clara do quanto ele era covarde e temia mais coisas do que pensava.
Uma garota que você conhece é aprovada em uma parada foda e tudo que você consegue é pedir para alguém lhe entregar um café? Ah, vire homem, por favor.
Desde que saiu da casa dela há alguns dias, depois de uma noite inteira de frenesi e um banho matinal, parecia um ultraje passar a evitar , mas era exatamente o que ele estava fazendo: evitando. Sentindo culpa. Sentindo como se tivesse tatuado “filho da puta” bem em cima da testa.
Tinha que admitir: ele estava ficando louco. Alguma merda estava muito errada e não pareciam nem existir culpados pra apaziguar esse inferno astral. Porque era completamente inadmissível o jeito como ficou naquela noite, o controle que deixou pensar que tinha ou ser tomado por um desejo tão grande que não conseguia mover as pernas para ir embora.
Ele arrancou mais uma folha, murmurando algo incompreensível enquanto sacudia o cesto de lixo com mais uma bola de papel. Estava louco. Era a única explicação. A ligação de Jaehyun continuava sendo um sinal e esse lance entre ele e precisava acabar urgentemente, antes que ele se fodesse ainda mais, como querer continuar se encontrando com ela por mais tempo, e só a ideia já soava ridícula. Não tinha nem que ser cogitada.
— Você preparou alguma coisa, não é? — Yoongi cortou seus pensamentos, inclinando o queixo para a folha desbotada e o caderno habitual de Jungkook logo ao lado.
Ele apenas respondeu, em voz baixa:
— Ainda não está pronto.
Yoongi franziu os lábios.
— Entendo. Mas se continuar fingindo que aquele caderno não existe, nunca vai ficar pronto.
Tinha um adesivo colado em frente ao caderno fechado, intitulado de “Motosserra”. Parecia estranho para a maioria, mas o significado oculto fazia sentido para Jungkook. Todas as letras que escreveu ali, que eram quase como um diário, eram palavras que lhe cortavam o coração a cada vez que relia — quando decidia fazer esse tipo de coisa. Tão destrutivas quanto uma motosserra de verdade.
— Tá me espionando agora?
— Pior que não. Mas quando você deixa de fazer algo que antes era tão comum, é estranho de qualquer maneira. Sabe que não precisa se sentir pressionado a entregar algo bom, não sabe?
— Também não quero entregar algo ruim.
— É só entregar algo seu. Como não entendeu isso ainda? — Yoongi falou com paciência, mas frisando o tom óbvio da voz.
Jungkook revirou os olhos e ficou calado, puxando o celular e reiterando ainda mais o quanto algo estranho estava acontecendo. Admitindo: ele não era um cara com muitos problemas graves; muitas coisas em sua vida ganharam uma importância mais cedo do que na vida de outros caras da sua idade, mas isso não era um incômodo. Mas se sentir em uma corda bamba, preso em um dilema insensato por causa de uma garota que nem gostava era insano. E era cada vez mais difícil esconder a exasperação de sua voz se alguém se atrevesse a tocar no assunto.
A tentação de tinha se estendido para o celular, porque era absurdo a forma como tinha vontade de responder qualquer mísera mensagem que ela mandava, mesmo que não fosse nada importante. Depois daquele dia, sua frequência telefônica diminuiu bruscamente porque aquela pontada de culpa não saía de sua cabeça. E, mesmo que estivesse estranho com ela, não parecia estar ajudando na missão de afastá-la. Estranho não significava nada. Ela continuava mandando mensagens esporádicas.
Inclusive hoje, quando falou da Panasonic. Quando ele entendeu tudo bem rápido e ficou mais contente do que pensou que ficaria. Quando foi correndo comprar um café e pediu dois de uma vez, porque não tinha certeza de qual sabor ela gostava. Quando chegou no estúdio de novo e olhou o pacote com um súbito pesar, como se aqueles dois copos estivessem desafiando-o a fazer o que pretendia fazer. “Expresso com canela e expresso com baunilha, qual ela gostaria mais? Será que gostaria dos dois? Será que jogaria um deles no lixo? Será que o agradeceria? Ou…”
E travou. Aquilo era ridículo. O que poderia interpretar daquela besteira? O que pensaria que ele queria dizer? Não era nem um pouco prudente sair comprando cafés para alguém toda vez que assinavam um contrato.
— Algum problema agora? — perguntou Yoongi, um pouco menos ansioso por uma resposta. Jungkook balançou a cabeça em negação, bloqueando o aparelho.
— Nada, nenhum. Só uma matéria sobre os benefícios de se fazer um detox dos eletrônicos.
Foi a única resposta plausível que não fosse: eu não sei, cara, acho que estou meio maluco. De repente, desaprendi a me controlar. Desaprendi a dar um fora em alguém, ou até dizer não. Eu não sei o que te dizer.
Yoongi riu, como se tivesse escutado os pensamentos do garoto.
— Quem faz detox, quer se livrar de alguma coisa. Ou fugir. É o seu caso?
— Não, não é.
Sua voz saiu estranha, mas Yoongi apenas estreitou os olhos e deixou que Jungkook acreditasse que tinha sido convincente. As tentativas de Min terminaram quando uma vibração intensa cobriu a mesa grande, vindas de seu telefone. Ele observou o número de apenas 3 dígitos e ponderou por alguns segundos antes de atender.
— Alô… — respondeu, cauteloso, voltando a se concentrar no papel, mas parou logo em seguida e arqueou todo o corpo — O que?! Onde? Quebrado?
Jungkook prestou atenção no momento em que Yoongi arrastou a cadeira para trás com força, levantando-se apressado.
— Segundo número de emergência? Quem é o primeiro? — ele perguntou enquanto tateava o sofá para pegar casaco e chaves — Ah, o primeiro está aí. Minha nossa, tudo bem, estou indo.
Ele desligou, agora começando a limpar o máximo possível de sua bagunça de papéis da mesa.
— O que houve? Finalmente descobriram uma filha sua perdida por aí? — Jungkook perguntou com ironia, sem tirar os olhos do papel em branco, que agora era rascunho para um desenho aleatório.
Yoongi bufou, um tanto desorientado.
— A Candice… Parece que ela caiu de um palco no karaokê, quebrou o pé e bateu a cabeça, e agora está no hospital com a e uma tal de Yoona e elas…
?! — Jungkook largou a caneta. As coisas pareciam um pouco maiores agora, e nada tinha a ver com Candice ter Yoongi como número de emergência — Aquela desmiolada se machucou também?
— Não sei, parece que as três estão completamente alucinadas e não vão sair de lá sozinhas sem a liberação de alguém sóbrio. Talvez elas só precisem de um hambúrguer, vai saber. Vou ir lá.
Yoongi começou a se afastar para a porta.
— Espera, vai conseguir lidar com as três sozinho?
— Bom, eu não…
Jungkook revirou os olhos, fechando a pasta e puxando suas chaves.
— Vamos lá.
Yoongi franziu o cenho enquanto o garoto se aproximava, desconfiando que ele não sabia bem o que estava dizendo. Jungkook reparou na atitude e revirou os olhos mais uma vez.
— Eu ia pra casa mesmo depois daqui, então… Sei lá, parece ser engraçado. Vamos, eu dirijo.
— JK, você não precisa…
— E perder a tropeçando nas próprias pernas? Sem chance. Anda, conheço um atalho pra fugir do trânsito. Vamos chegar em 10 minutos.
Confuso, Yoongi o seguiu, apagando as luzes ao sair.


Capítulo nove — R U mine?

"Acho que o que quero dizer é que preciso do fundo do poço
Fico imaginando encontros, desejados por vidas inteiras
Injusto não estarmos em algum lugar nos comportando mal por dias
Em uma grande fuga, perdendo noção do tempo e do espaço
Ela é um raio de esperança, escalando meu desejo."
🎵


Jungkook as escutou antes mesmo de chegar à recepção.
E quem dera fossem apenas gritos.
Antes que Yoongi completasse o sobrenome Chaperman com a senhora de meia idade atrás do balcão, um estrondo veio da curva do corredor à esquerda, não muito longe dali, que levava à ala de emergência. Um cômodo grande entulhado de macas, separadas por cortinas finas e patéticas. Risadas estrondosas foram seguidas por um pedido de silêncio. Levou apenas um segundo para a mulher revirar os olhos e apontar na direção do caos como resposta.
— Qual a diferença disso pra um hospício? — Jungkook perguntou em sua melhor voz de deboche enquanto apontava para o corredor em que estavam prestes a seguir. Yoongi o fitou com os olhos cerrados e passou a ficha agora assinada pelo balcão.
— Cala a boca.
JK segurou uma risada e seguiu o amigo até a direção indicada, chegando no que deveria ser a ala de contingência menos lotada de um fim de semana em pleno verão.
Não deu pra ver tudo, já que, quando finalmente curvaram para a sala, as garotas pareciam bem envolvidas em seu próprio mundo alcoolizado. já estava sentada no chão, ao lado de uma Candice gargalhando em uma cadeira de rodas com uma bolsa de gelo no pé e… Não tinha uma terceira garota?
Yoongi não esperou nada para sair correndo em direção à loira, ignorando todas as outras macas espalhadas e todas as outras pessoas gemendo de dor ou completamente adormecidas pela infusão de algo forte o bastante pra isso.
Jungkook deu um passo, mas uma enfermeira chegou primeiro até , que se agarrava à cadeira de Candice enquanto murmurava palavras agitadas em… Que língua era aquela?
— A senhorita tem que se levantar daí agora — disse a mulher, em tom calmo e com gesticulações e misturas de idiomas — Por favor, antes que eu…
— Não! Candy, ela quer que eu fique longe de você! Olha pra esse lugar, é bizarro! — misturava ainda mais as línguas, mesclando agora uma metade em inglês e outra em português. A mulher de pé a encarou com olhos arregalados, mas com o maxilar trincado de aborrecimento, como se estivesse nessa tentativa de controle há um tempo. Ainda assim, Candice não estava muito melhor; simplesmente começou a rir e soltou um grande berro quando viu quem se aproximava.
Babe! Você veio! — a voz foi aguda até mesmo para , que fez uma careta com o grito. Candice imediatamente tentou se levantar da cadeira, mas Yoongi travou seus ombros antes que fizesse isso e teve o quadril envolvido pelos braços da garota logo em seguida — Senti tanto a sua falta!
— Você é o responsável por elas? — a pergunta da enfermeira tinha um leve tom de desespero e torcida.
— Sim. Quer dizer… Responsável não soa muito bem, mas…
— Ah, pois vai ver que elas precisam de um responsável — ela ralhou em resposta, puxando um bloquinho do bolso da frente da calça azul e emitindo uma respiração pesada antes de dizer: — Sua amiga tentou me morder antes de eu conseguir colocá-la em uma cadeira, essa aqui no chão estava tentando roubar álcool em gel porque disse que cobram muito caro nas lojas de conveniência, e a outra… Bem, ela apagou tão cedo que nem me lembro mais onde está. Você sabe o que é não se lembrar onde um paciente está? Eu também não sabia, mas só porque tive que ficar de olho nessas duas — um grunhido alto escapuliu da garganta dela, e Yoongi permaneceu parado, piscando os olhos. A mulher apenas se recuperou rápido e ajeitou a postura, falando em um tom mais calmo: — Vou chamar minha supervisora e procurar a outra garota.
Ela deu as costas muito rápido, antes que Yoongi tivesse a chance de responder em agradecimento. Candice e exibiam expressões como quem tivesse escutado um zumbido vindo de muito longe, como se pássaros tivessem mencionado seus nomes e agora evaporaram no ar.
— Mas o que aconteceu com você?! — Yoongi se virou para a loira, soltando os braços de seu quadril e se abaixando até a altura dela — Como você foi fazer isso… — seus dedos tocaram o gelo levemente.
— Ah! — gritou, dando um leve sobressalto. pousou a cabeça no braço da cadeira e riu alto — Você tocando assim parece mais real, mas na verdade não é nada, daqui a pouco vou conseguir levantar sem ela precisar me dar aquela coisa na veia que deixou tudo girando…
— Candy. Ei. Psiu — chamou a amiga em um sussurro, olhando para Yoongi de soslaio — Não vai me dizer que esse aí é o Yoongi. Com boné e máscara a gente não reconhece ninguém, você ficou maluca? E se for outro cara!
Yoongi revirou os olhos. Candice enrugou a testa, olhando para como se visse uma louca.
— Por acaso você está bêbada? É claro que é o Yoongi!
— Na verdade, vocês duas estão. Pra onde foi a enfermeira? Por que vocês duas não estão em um quarto? — Yoongi tentou puxar a cadeira de Candice, mas firmou os dedos em volta do braço.
— Candice!
— Está se divertindo, ? — Jungkook murmurou ao chegar perto de , que desfez rapidamente a careta de antes, quando viu a cadeira de Candice ser afastada dela.
A voz foi reconhecida imediatamente, mesmo que ele também estivesse debaixo de um boné e uma máscara preta, que foi arrancada assim que se aproximou o bastante.
— Jungkook! É você mesmo? — disse, animada. Os olhos brilharam como a chama de uma vela.
— Sou, e seria bem melhor se ninguém mais soubesse disso — ele deu um sorrisinho sem humor, indicando as demais pessoas ao redor com o dedo indicador. Em seguida, estendeu a mão para que ela pegasse e se levantasse do chão. Reparou rapidamente que um dos joelhos dela exibia uma rodela de sangue pela queda que ele ainda não tinha conhecimento, e seus dentes trincaram por um momento.
Quando fez isso, a garota agarrou o braço dele por inteiro e pendurou-se enquanto apoiava a cabeça em seu ombro. Jungkook tentou se afastar, mas percebeu rápido que era inútil.
— Você trouxe até o Jungkook? Não me lembro de ter chamado ele — Candice murmurou em confusão.
— Bom te ver também, Candice querida. Pelo visto não sabe beber tão bem quanto vive falando por aí.
— Muito engraçado. Eu estava tentando fazer o seu trabalho e experimentando coisas bem mais fortes do que você seria capaz — ela cerrou os olhos com ironia. Yoongi vasculhou o ambiente ao redor na mesma hora em que uma mulher com a mesma roupa da enfermeira de antes usava, fazendo um sinal para que se aproximasse.
— Aí que você se engana porque faço isso muito bem feito. Pelo menos consigo beber sem cair de palcos ou em poças de água igual você e sua amiga — ele balançou o braço novamente para que o soltasse, mas não colocou força o suficiente nisso.
— Você foi muito específico na parte do palco, não gostei disso. Yoongi, seu…
— Com licença, vocês dois não podem ficar aqui — a outra funcionária se aproximou, deduzindo o pior com a situação que via: duas garotas embriagadas, dois caras claramente disfarçados e o grande índice de violência sexual na Coreia do Sul.
Yoongi não considerou nenhum desses pensamentos.
— Por que ela ainda está aqui? Por que ainda não foi atendida? — perguntou com um tom maior de aborrecimento. Fez Jungkook erguer uma sobrancelha pela falta de tato inesperada do amigo que era muita paz e calmaria.
A mulher sentiu frio em algum lugar muito profundo de si com a voz, mas esboçou uma risadinha de nervosismo e respondeu:
— Senhor, temos uma fila, e ela não informou os códigos do plano de saúde, e precisaríamos verificar se cobre emergências desse tipo…
— Pois então eu cubro. Quanto custa um quarto decente aqui? E um médico, claro — ele puxou a carteira imediatamente. afrouxou o aperto em Jungkook, que agora sim parecia um pouco mais surpreso; não pela atitude, mas o tom, o tom de voz de Yoongi era a parte mais assustadora.
A enfermeira pareceu sentir o mesmo. Engolindo em seco, ela encarou o cartão de crédito black entre os dedos dele e tentou não gaguejar quando disse:
— Me acompanhe.
Antes de se retirar, ele encarou Jungkook com certa apreensão, mas apontou para as duas garotas e murmurou:
— Pode ficar de olho nelas por um minuto?
— Claro, hyung. Qualquer coisa, tenho o número de centro de zoonose — respondeu com uma piscadinha. Yoongi apenas assentiu e seguiu a mulher de uniforme azul.
— O que foi aquilo? — disse para si mesma, em voz baixa, com os olhos grudados nas costas de Yoongi.
— Não sei… — Candice também tinha o olhar na mesma direção.
— Ele ficou tão bravo…
— Isso foi tão sexy, Jesus Cristo!
— Pelo amor de Deus — Jungkook revirou os olhos e estalou a língua, conseguindo finalmente se livrar dos dedos de e virando-se de frente pra ela — E então, como você está?
— Água — ela respondeu de imediato.
— O que? Você quer água?
— Não — ela segurou uma risada, e Candice escondeu o rosto para rir de novo — É que você disse que eu caí em uma poça de água… — e não conseguiu terminar a frase graças ao fato de imaginar em como seria engraçado cair em uma poça de água — E não foi assim! Candy caiu, eu saí da sala e tropecei em algum lugar onde um moço muito simpático, que acho que era o segurança, me ajudou a chegar aqui…
— Simpático? Pfff! — Candice juntou os lábios para fazer o barulho. Aquilo também era engraçado e também fez as duas rirem de novo — Ele era um gato! Mesmo com aquela roupa horrorosa de botões.
— Enfim, ele me ajudou a chamar a ambulância, mesmo depois de ter me visto caindo como uma jaca — a menção da palavra fez com que as duas se olhassem e gritassem ao mesmo tempo “JA-CA” e batessem um hi-five automático, o que fez Jungkook olhar para os lados e notar a atenção ser migrada para eles de novo.
— Tá, tá, já entendi — ele puxou os ombros de , encarando-a com as sobrancelhas juntas — Quem era esse cara? Como tem tanta certeza que ele era um segurança?
— Ele tinha cara de segurança — fez um bico. Jungkook bufou com exasperação, imaginando cenas desagradáveis e irreais que começaram a ativar uma ira fora de contexto, fora de qualquer imaginação. Felizmente, antes que dissesse alguma coisa que nem mesmo ele entenderia, Yoongi estava de volta com a mesma mulher e mais duas enfermeiras ao seu lado, que prontamente agarraram a cadeira de Candice para guiarem a garota para o outro andar.
— Ei! Candy… — estendeu um braço para a frente, mas Yoongi falou primeiro.
— Relaxa, ela vai ficar bem, só precisa fazer uns exames básicos que ainda não fizeram como a porra de um raio-x, porque ela não mostrou a droga do plano! O sistema de saúde da Coreia sempre foi tão ruim assim? — ele falou mais para si mesmo, e Jungkook apenas deu de ombros.
— Eles parecem bem ruins agora — respondeu sugestivo, ainda abismado em como o amigo não percebia o quanto estava dando todas as bandeiras do mundo.
— Enfim, tanto faz. De qualquer forma, disseram que só podem fazer isso daqui há duas horas e enquanto isso ela precisa ficar de repouso porque pode ter uma concussão escondida no meio de tanto álcool misturado com os anestésicos e já é quase meia noite. Isso vai durar a madrugada toda — ele falou baixo na última parte, adiantando o que diria a seguir: — Vou ficar com ela.
Yoongi encarou Jungkook com firmeza antes de desviar os olhos para baixo, engolindo várias vezes antes de começar:
— Olha, já que estamos aqui, preciso te contar…
— Relaxa, cara. Eu já sei — o garoto interrompeu, esboçando um pequeno sorriso de canto. Yoongi ergueu a cabeça em um jato — O número de emergência foi a gota d’água, mas vocês não são exatamente discretos.
Yoongi abriu e fechou a boca, embasbacado, e então soltou uma pequena risada, sacudindo os ombros com a certificação daquele fato.
— É. Pois é, quem diria.
— Fico feliz por você. Mas e aquela ali? — Jungkook inclinou a cabeça para , que ria de alguma careta que Candice fazia direto da cadeira — Como ela está?
— Acho que só bêbada mesmo — Yoongi deu de ombros — Na verdade, ela é a melhor das três. A tal da Yoona parece que apagou na ala geriátrica e entrou em um estado letárgico de embriaguez, uma coisa muito doida com muitos nomes difíceis, mas vou colocá-la no quarto ao lado da Candice. Ela já tá levando todas as provisões no braço e tudo isso que vai fazê-la acordar amanhã nova em folha — ele suspirou e olhou no fundo dos olhos de Jungkook, um olhar inquebrantável que poderia durar uma eternidade — Pode levar pra casa, não pode?
Jungkook quase concordou na mesma hora, mas era fácil se esquecer que, aparentemente, andar por aí com deveria ser um tormento, então primeiro fez um gesto de padecimento e só então balançou a cabeça que sim.
— Claro. Já que vim de bom grado — deu de ombros e levantou os braços em mímica teatral, que destilava seu sarcasmo — Vou ser muito legal e não largar ela em um banco muito fedido do parque caso vomite no meu carro.
— Isso é mesmo muito legal da sua parte — Yoongi foi sincero. — Tudo bem, então o endereço…
O som de um baque surgiu das costas dos garotos quando alcançou o chão mais uma vez. Desta vez, a culpa de tudo veio justamente do que Jungkook esperou tanto ver: seus próprios pés, desencontrando-se entre si na tentativa de se aproximar de Candice. O barulho foi tanto de seu quadril batendo no piso liso, quanto de seu gemido agudo, que foi substituído muito rápido por mais uma sessão de risadas intensas da dupla. As duas enfermeiras de pé reviraram os olhos, claramente impacientes e zangadas, e Jungkook fez o mesmo, evidenciando um suspiro que era de cansaço, mas também de embaralho. Ele com certeza estaria rindo da situação se não tivesse visto mais arranhões na parte de trás dos cotovelos de e, com certeza, se não tivesse ouvido sobre a história do segurança.
Cerrando os dentes, ele puxou os braços dela para cima de novo, direcionando um sorrisinho de desculpas para as funcionárias.
— Será que vou ter que te amarrar em uma cadeira? — disse apenas para ela, e agarrou seus braços daquele jeito grudento de novo, como se fosse um bicho-preguiça no galho de uma árvore. Jungkook já tinha desistido de tentar afastá-la, e agradeceu por Candice estar bêbada demais para zombar e Yoongi preocupado demais para notar qualquer coisa.
— Eu estou bem, foi só um escorregão! Elas querem… Candice! — ela gritou quando viu agora, claramente, Candice ser conduzida para outro corredor, acenando para ela, um pouco mais feliz que antes.
— Não se preocupe, , vão me dar aquela coisa na veia de novo! Jungkook, seu moleque, se não cuidar bem da minha amiga eu juro que vou… — e sua voz desapareceu pela curva. Yoongi revirou os olhos e se apressou para segui-la, mas antes virou-se para o mais novo.
— Tá legal, eu vou nessa. O endereço é em Seongdong-gu, um prédio grande que é vizinho de outro maior, tem um estacionamento pra bikes e uma barraca de frutas na frente, você vai encontrar.
— Não tem como não encontrar aquela barraca… — Jungkook disse, distraído, enquanto tentava manter parada, sem brincar com os próprios calcanhares.
— O que? — Yoongi uniu as sobrancelhas, confuso. Jungkook girou a cabeça em súbito.
— Perdão, o que você dizia? — tentou manter a voz firme, travando todo o maxilar.
— A casa delas, JK! Presta atenção, tô tentando explicar…
— Ah, sim, sim, não faço ideia da onde elas moram, mas essa aqui pode dizer o caminho, fica tranquilo. Agora vai antes que Candice morda mais alguém.
— Ei, não fala assim da minha amiga. — deu um chute sem forças nos calcanhares do garoto — E é muito engraçado você fingindo que não sabe onde eu moro, pode fazer isso de novo… — Jungkook arregalou os olhos e levou as mãos à boca de antes que ela completasse a frase, e ficou aliviado por Yoongi já ter se afastado o suficiente.

📸💔


— Tá legal, senta. — Jungkook resmungou ao guiar para cima de uma das macas altas, tomando a liberdade de afastar seu cabelo do rosto e entregar a garrafa de água já aberta em suas mãos — Toma isso. Alguma daquelas enfermeiras já vai chegar pra cuidar desses machucados e espero que você torça pra que elas não estejam mais com tanta raiva assim.
— Por que alguém estaria com raiva hoje? — perguntou em toda a ingenuidade embriagada do ser humano. Jungkook bufou, fazendo sinal para que ela bebesse o líquido, e assim o fez, colocando a garrafa de água no armário logo depois.
Por causa do desequilíbrio fraco de seus dedos, faltou muito pouco para que toda a água não caísse nos pés de Jungkook, que segurou o plástico antes que o acidente acontecesse.
— Ops — ela riu em um ronco, colocando as mãos na boca porque parecia, finalmente, ter chegado em sua consciência de que estava mais escandalosa do que o permitido em um hospital.
O garoto a encarou com o olhar duro, mas também com tédio, uma das muitas expressões que usava no dia-a-dia, mas que hoje não era mais tão comum assim. Existia um outro Jungkook há algumas portas de distância do tempo que tacharia aquela feição como exclusiva de .
Outra coisa exclusiva de era aquele sorriso bobo e dormente de quando relaxava, o que provavelmente o trouxe memórias e nostalgia de uma festa que nem tinha tanto tempo assim, mas deu logo um jeito de afastar esses pensamentos.
— Tá legal, que porra vocês beberam? — perguntou, puxando o queixo dela para cima para que fosse plenamente entendido. Em outra época, ele não se preocuparia com isso. Em outra época, ele nem estaria ali — Ainda por cima sozinhas? Tem ideia de como isso foi burrice? Os homens daqui são mais do cretinos, você assiste o jornal?
estalou a língua, totalmente imperturbável, captando um Jungkook que estava sendo o que ela esperava que não fosse nessa situação: um chato.
— De que isso importa? Burrice seria não comemorar meu dia. Aliás, você sabe que dia é hoje? Se deu ao trabalho de ler a minha mensagem?
Ele hesitou por um momento antes de responder:
— Andei ocupado. Mas fiquei sabendo sim — disse com um umedecer de lábios, e torcia para que não soasse tanto como “um dos garotos mais ricos de Seul que não tem tempo pra essas coisas”. Inconscientemente, um sorriso veio à tona — Você mandou bem, . Não acredito que pensou que não conseguiria.
Ela também sorriu, e aquele sorriso era tão puro e honesto que Jungkook teve certeza do porquê poderia ter todos os amigos e carreira que quisesse. Era algo muito vivo e magnético.
— Eu só podia pensar isso, Jungkook. Afinal, eu sou de fora, não tenho tantas aptidões, não tinha nem uma câmera…
— Sua falta de confiança é uma merda. É claro que você ia conseguir. É uma artista tanto quanto a gente, tanto quanto qualquer um.
A fisionomia séria de Jungkook mostrava mais autenticidade do que 90% das atitudes que mostrava por aí. O tipo de coisa que chamou a atenção de , e olhar bem no fundo de seus olhos quando disse:
— Acha isso mesmo?
— Acho — ele balançou a cabeça com vontade — Mas não importa, você…
Mais uma gargalhada explosiva de interrompeu o diálogo, e Jungkook olhou para o lado na mesma hora, agradecendo pela cortina que os separava do mundo externo, mas que não valia de nada quando o lance era barulho. Ele pensou se sentiria algum arrependimento em fazer uma doação extra ao hospital para fingirem e apagarem da mente toda a perturbação que estavam tendo naquela noite - e, quem sabe, fazerem o mesmo com sua presença.
— Uau. Acho que seu elogio me deixou excitada — disse quando se recuperou — Ou com uma vontade louca de te abraçar.
— Nem pense em fazer isso — ele respondeu imediatamente.
— Eu vou fazer.
— Não, você não vai…
E ela fez. Na cama alta, passou os braços pelo pescoço dele, que teve que se aproximar para que ela não caísse para a frente, o que juntou ainda mais seus corpos e o deixou explicitamente paralisado.
Jeon ansiou pelo seu carro lá fora. Podia fazer uma ligação e dizer a Yoongi que andar por aí com se tornou uma tarefa mais difícil do que se imaginava e que o amigo deveria lidar com seu pico embriagado com as outras enfermeiras, seguranças, até mesmo policiais, mas que ele não ficaria ali, não deveria ficar, seria mais inteligente se não o fizesse, porque a droga daquela queimação na boca do estômago tinha voltado com tudo, alertando-o para correr, mas o cheiro e o toque dela não o deixaram mover um músculo. Completamente desorientado, ele nem se deu ao trabalho de afastá-la.
— Fala sério, … — ele começou, mas a voz facilmente se perdeu. Elas não achavam espaço para sair contra toda a tribulação agitada de sua cabeça.
Mas ele também não se deu ao trabalho de parar seus próprios braços quando subiram para abraçá-la de volta. Apenas um, que rodeou suas costas e encaixou seus corpos de um jeito muito mais intenso do que já tinha acontecido em cima de uma cama.
— Obrigada, JK. Eu disse que te agradeceria antes e vou agradecer de novo. Você me emprestou um item raro, acreditou que eu podia fazer um bom uso dele e principalmente confiou no meu potencial. Você foi muito legal — ela soprou na curva de seu pescoço, na base de sua orelha, e Jungkook sentiu o coração saltar como um louco.
E isso é errado, errado pra caramba.
Mas antes que se martirizasse ainda mais, a cortina da cabine foi aberta repentinamente, e a mulher de azul ali parada encarou a cena com surpresa evidente.
Jungkook se afastou de em um impulso, que não pareceu perceber nada demais, ainda divagando no rosto do rapaz. Ele limpou a garganta várias vezes, apontando para a maleta de primeiros socorros na mão da enfermeira.
— Os curativos dela. É. Certo — desconcertado, ele se afastou para que ela entrasse, tentando calar as vozes internas que insistiam em rotulá-lo como o rei dos babacas.
Ele sabia que era um babaca, mas no momento não estava sabendo como usar essa condição. Aquela com certeza era a hora certa de ser um, e ele simplesmente tinha se deixado delirar no aroma daquele cabelo.
— Pode esperar lá fora, se preferir — disse a mulher, pousando o conjunto em cima da mesinha ao lado, virando-se para , que fez mais uma careta diante das gazes e do cheiro de ácido.
Ele apenas assentiu e se preparou para sair da cabine.
— Jungkook! — literalmente gritou seu nome, o que fez com que a enfermeira levantasse os olhos de um jeito ágil, desviando-os logo em seguida e piscando várias vezes em uma luta intrínseca para disfarçar o reconhecimento. Se ninguém ainda sabia que um idol super famoso estava fazendo uma visita ao hospital naquele dia, agora certamente sabiam — Você vai voltar, não vai?
JK comprimiu os lábios e anuiu levemente com a cabeça, sem se importar com os olhares furtivos da enfermeira, que tinha tomado uma certa coloração pálida. Graças ao código de honra que aprendeu com os seus amigos mais velhos, ele não a fuzilaria com os olhos e pediria gentilmente para mostrar o celular.
— Claro que sim. Vou estar bem aqui.
E com um último sorriso de , ele apenas fechou a cortina e respirou fundo até se sentar em uma pequena poltrona ao lado de um equipamento de infusão de soro, torcendo para que a enfermeira não perguntasse de menos e respondesse demais. Surpreendentemente, aquela garota bêbada tinha menos trancas na língua do que ele imaginava.
Com pouco mais de 10 minutos, a mulher puxou o cortinado de novo, e Jungkook se colocou de pé, vendo-a mais tranquila do que antes.
— Você vai levá-la pra casa?
— Sim. E então? — perguntou ele, sem cerimônias.
— Ela ‘tá legal, só precisa se certificar de que ela não molhe os curativos e principalmente não beba mais uma gota de álcool — frisou, puxando um pacote de plástico de dentro do bolso superior da blusa — Aqui. Acho que ela vai precisar disso amanhã.
Ela estendeu os comprimidos de Tylenol com um sorriso de canto, e Jungkook os pegou com uma expressão desentendida.
— Só para o caso de você não precisar entrar em nenhuma farmácia.
Ele arqueou as sobrancelhas e ficou imóvel, sem saber o que dizer. Normalmente, agradeceria sem problemas e a desejaria uma ótima noite, mas a cena de antes…
— Tudo bem, tudo bem, isso não é da minha conta — a moça balançou as duas mãos na frente do peito, agitada de repente com aquele olhar desconfiado — Acho que estou há quase 48 horas sem dormir e tudo que acontece aqui dentro é tão frenético e rápido que esquecemos na primeira oportunidade. Não se preocupe — ela deu uma risada nervosa, e Jungkook forçou um sorriso, concordando.
— Tudo bem, é… Obrigado, eu acho.
A garota sorriu e se preparou para sair, mas de repente se virou e se aproximou a vários passos dele, sussurrando quando disse:
— Pode dizer ao Jin que ele ficou simplesmente magnífico naquele novo solo? — os olhos dela brilharam em sequência — Na verdade em todos os solos, e também naquela performance do Japão onde ele mandou o beijo pra câmera — ela juntou as duas mãos, e Jungkook sufocou uma risada de zombaria porque era só o que faltava acontecer naquela noite: encontrar uma fã por acaso que devia guardar vários photocards e pôsteres empoeirados em algum lugar ali perto.
Com um sorrisinho, ele apenas balançou a cabeça e respondeu:
— Tenho certeza que ele já sabe disso, mas vou passar o recado.
— Obrigada — a respiração dela saiu em uma lufada pesada de ar, como se estivesse se segurando por vários minutos e se curvou duas vezes antes de erguer as costas e finalmente sair.
Jungkook deixou uma nota mental de que hospitais não eram uma zona tão neutra assim.
Entrando novamente no cubículo, ele inspirou e disse rapidamente:
— Tá bom, beleza, de nada, mas agora é de verdade, precisamos ir embora — pontuou, vendo-a sentada no mesmo lugar, agora lendo um folheto amassado sobre um produto de inseticidas contra baratas. Jungkook pegou o papel e observou seus curativos com cuidado; um no joelho e outro no cotovelo — Se sente melhor pra andar?
Ela riu com perplexidade.
— Acha que eu sou tão fraca assim? — estreitando os olhos, tentou pousar os pés no chão, mas se pensava que estava melhor do que há duas horas atrás, tinha se enganado totalmente. A perna esticada com o curativo se desequilibrou por um instante antes que Jungkook a segurasse pela cintura.
— É, e não ‘tô errado em achar isso — revirando os olhos, ele a ergueu para cima outra vez.
suspirou cansada. Os neurônios estavam muito desativados para examinar uma maneira melhor de andar sem que a sobriedade avisasse que algo estava errado em seu joelho.
— Já sei. Podemos fazer uma coisa. Vira de costas.
— O que?
— Vira de costas e se abaixa. Vi isso em um drama que Candice tava assistindo. A menina bêbada, o cara cavalheiro, etc etc. É ridículo mas achei que vocês fizessem sempre isso, não fazem?
Jungkook abriu bem os olhos, juntando as sobrancelhas em um disparate.
— Você tá brincando, não é? — perguntou, mas ela não respondeu. Jungkook revirou os olhos tão fundo que suas órbitas quase desapareceram — Depois que eu digo que os dramas estão enganando o ocidente, me chamam de maluco. Não sei o que é pior: você morar aqui há mais de 3 meses e ainda acreditar nisso ou achar que eu sou um cavalheiro — fez mais um bico. Ele arquejou, falando calmamente: — Não vamos fazer isso, tá bom? É só se manter de pé que vamos chegar no estacionamento mais rápido.
— Mas e as enfermeiras? — agora ela sussurrou, olhando rapidamente para onde a mulher tinha entrado — As pessoas podem te reconhecer. Aquela que estava aqui tremeu as mãos, tenho certeza que vi isso, e se suas fãs pararem e me notarem, minha nossa, e Candice me mataria se eu aparecesse numa foto de sasaeng com esse cabelo, mesmo que eu ache que ele esteja OK, mas pra ela nada nunca está OK, você entende…
Jungkook prendeu o lábio entre os dentes, se vendo obrigado a concordar com , mesmo que ela estivesse falando daquele jeito embolado e torto de embriaguez.
— Tudo bem, vamos ser rápidos.
Respirando fundo, ele puxou o zíper do moletom, tirando-o e passando-o para os ombros dela, ficando apenas com a camiseta branca e larga com as mangas que batiam quase no cotovelo.
— Veste isso — em uma dinâmica rápida, ele enfiou seus braços pelas mangas, fechando o zíper como antes e puxando o capuz para cobrir o máximo de seu rosto. Em seguida, deslocou a garota delicadamente em cima do azulejo intacto — E agora… — Jungkook tomou sua mão, entrelaçando os dedos dela nos seus.
Foi uma ação tão rápida e impensada que ele jamais pensaria que teria algum efeito. Mas quando juntou suas mãos daquele jeito, Jungkook sentiu novamente aquela sensação estranha de alguns dias atrás, o pico de adrenalina misturado com medo, mas também o frenesi que o deixava incapaz de correr. , mesmo no torpor empoeirado da bebida, se lembrou de quando fez isso involuntariamente na cama naquela mesma situação, e em como tinha gostado do contato. Seus olhos foram impulsionados um para o outro subitamente, e ele adicionou uma nova percepção à lista daquela loucura: o formigamento enxerido que subiu pelo braço, se encontrando com as batidas frenéticas de seu coração de novo, algo tão incompreensível quanto inconveniente.
Se todos os seus amigos de repente brotassem ao seu lado naquele momento, ele não perceberia. Nem ela. A redoma formada era impenetrável.
— Consegue andar sem cair desse jeito? — perguntou com a voz ligeiramente abafada, a garganta ainda mais seca do que quando ela o abraçou. levou um tempo considerável até molhar os lábios e reagir.
— Aham — diz, desconcertada. JK desvia os olhos, sem dizer mais uma palavra e começa a conduzir a garota para fora.

📸💔


percebeu naquele dia que, ultimamente, Jeon Jungkook não era mais um cara tão obcecado pela privacidade como tinha sido um dia. Pelo menos não quando estava andando sozinho por aí, sem ninguém para puxarem uma setinha de fofoca depois.
Entretanto, naquela noite, as coisas tinham sido um pouco diferentes.
Ele parecia decidido a colocar em uma concha e escondê-la de qualquer olhar externo, mesmo que todo o trajeto até o carro tenha sido surpreendentemente quieto e vazio. Algo a respeito de todo o processo que envolvia mãos juntas, passos lentos e ritmados pela perna machucada e várias frases variando entre “tá tudo bem mesmo, não é?” e “não vou te colocar nas minhas costas, não viaja!” parecia um tanto… frenético. Mas ninguém iria culpá-lo por ser totalmente traumatizado com paparazzis e, principalmente, não querer ser visto com um deles.
Abrindo a porta do carona, ele a colocou no assento com a delicadeza que se usa com idosos e eletrônicos novos. Com cuidado, arrumou seus joelhos para baixo e fechou a porta, andando até a sua e se acomodando no volante. Antes de arrancar, ele alçou o tronco para , puxando o cinto de segurança para que ela não tivesse que fazer.
O que há de errado com esse garoto?, perguntou-se. Foi o primeiro pensamento de ao ser tratada como uma inválida, mas não discutiu. Jungkook se afastou de novo e colocou seu próprio cinto, tirando o boné e finalmente girando a chave e seguindo em frente.
— Você deve estar velho de tanto fazer isso — murmurou, recostando a cabeça no vidro e também abaixando seu capuz, encarando o movimento do lado de fora. Foi mais como se sua cabeça escorregasse por conta própria.
— Do que tá falando agora? — ele riu sem humor, parando por um momento para devolver o cartão de estacionamento na máquina falante, liberando os dois bastões de madeira.
— Sair por aí escondendo garotas dentro do seu casaco. E você tem pernas muito longas, sabia? Não andamos no mesmo ritmo. E se eu estivesse de salto alto?
— Por favor, você usando salto alto? — ele a encarou de soslaio, com toda a ironia característica. abriu a boca para falar, mas acabou rindo.
— Verdade, não uso salto alto. Mas são lindos… — sua voz divagou assim que ele virou em uma avenida. Seus pensamentos estavam soltos, meio dormentes, o que a fazia perceber coisas aleatórias ao redor, como o aroma de café que vinha de algum lugar daquele carro, que hoje em específico parecia maior do que realmente era — A Candy vai ficar legal? — uma parte de seu cérebro estava começando a acordar a ponto de notar a ausência da pessoa que havia começado a noite — Não queria deixar ela para trás.
Jungkook passou para a marcha seguinte e assentiu.
— Vai. O Yoongi vai ficar com ela e amanhã ele chama um carro, não se preocupa.
franziu os lábios, tentando se lembrar de algo.
— Hmm. E a Yoona? Aquela pilantra que me deu aquela tequila horrível. Não sabia que as pessoas daqui curtiam essa vibe México…
— O gosto por questões históricas e culturais é muito particular, . E ela te deu a tequila, mas ela que vai passar a noite hidratando o corpo e se desintoxicando daquelas misturas que não tô interessado em saber.
Ela riu de um jeito intenso, agora levantando o queixo para encarar o teto.
— Vou ser uma pessoa horrível se disser bem feito? Quer dizer, ela pegou aquele cardápio do karaokê e folheou, folheou, folheou, até achar alguma coisa que se relacionasse com noite de comemoração, mas no fim todas as bebidas eram, então… — ela parou, fazendo uma careta como se um bolo tivesse subido na garganta. Jungkook diminuiu bruscamente qualquer risada que iria dar.
— Inclina a cabeça — grunhiu, agora revezando o olhar inquietamente entre a estrada e o rosto de — Sério, , se vomitar mesmo aqui dentro, não vou te defender de jeito nenhum.
Ela esperou quase um minuto até engolir e recomeçar a rir, dessa vez mais animada e alto, fazendo Jungkook revirar os olhos e se sentir ligeiramente mais aliviado.
— Você tinha que ver a sua cara! — ela bateu duas palmas, contorcendo o corpo com a risada. O garoto franziu os lábios, se segurando ao máximo para não participar da diversão — Ai. Essa coisa tá me apertando.
mexeu no cinto de segurança, uma linha grossa demais que perpassava em diagonal pelo seu corpo, e Jungkook apenas deu de ombros.
— Que pena, essa coisa vai ficar em você até chegar na sua casa.
Como você é chato, comparsa disse em português, e Jungkook franziu o cenho, confuso, mas não teve chance de perguntar porque ela recomeçou a rir porque a palavra “comparsa” era muito engraçada — O que você acha que eu vou fazer? Colocar a cara na janela igual um lulu da pomerânia? Sair gritando que tô no carro de um idol? Ou não, sair gritando que estou no carro do Jungkook? Acha que consigo vender bem essa história? Mas acima de tudo: eu pareço um golden retriever?
— Se eu disser que sim, você vai ficar ofendida?
Ela estreitou os olhos, trincando os dentes.
— Fala sério, você é um… Olha só, o rio Han! — a expressão dela se transformou em um sorriso admirado, virando quase todo o corpo para a janela para assistir a ponte imensa estendendo-se lá na frente, o que fez Jungkook rir baixo porque, naquele momento, concentrada em um único ponto, ela parecia mesmo um cachorro com as patas na janela.
. As patinhas — ele tentou falar sem rir, mas não conseguiu.
— Ah, por favor. Eu nunca fui naquele parque ali do lado, como é mesmo o nome dele? Não me lembro… Mas é verdade que ali fica a passarela das cerejeiras na primavera?
— Sim, é verdade — Jungkook respondeu enquanto fechava os dedos no braço dela, puxando-a de volta para o banco — E eu não tenho visão ilimitada. Se me deixar prestar atenção no trânsito, eu respondo às suas perguntas. Agora sossega.
Ela revirou os olhos como uma criança. Pendendo os braços de um lado a outro, sentiu como se aquele banco enorme pudesse sugar seu corpo de um jeito sobrenatural. Aparentemente, pessoas alcoolizadas tinham a tendência de se entediar muito fácil.
— Você ‘tá um saco, Jeon Jungkook — e afundou ainda mais no banco, suspirando em descontentamento, erguendo o queixo para cima. Estava tão engraçada e, ao mesmo tempo, tão fofa naquela posição que ele quis rir, mas não podia demonstrar que sua alegria era recíproca porque ela podia interpretar errado e tentar colocar a cabeça na janela de novo — Sabe, as pessoas colocam uma música decente quando carregam outras no carro. E não, eu não vou tocar nessa coisa cara e chique cheia de botões. Você desaprendeu a ser gentil?
— Gentil? O que isso quer dizer? — ele esboçou um de seus melhores sorrisos sarcásticos. riu sem humor. Jungkook estendeu os dedos para o aparelho de som, e mais coisas aconteceram além de, mais uma vez, a voz de Daniel Caesar encher o carro.
Uma intensa iluminação vermelha em neon se espalhou pelo veículo como se tivessem entrado em um túnel mágico. O corpo de se ergueu imediatamente, abrindo a boca em surpresa absoluta. Seus dedos até mesmo agarraram o cinto, como se ela temesse ser separada do mundo real. Jungkook nunca havia se preocupado com as reações e o resultado final de quando colocou aquelas luzes, mas ali, agora, encarando a feição espantada e vívida de enquanto We Find Love pela metade vibrava no fundo, fez parecer que foi uma boa ideia.
— Uau! Quer dizer: uau! Puta merda, Jungkook!
— Sabia que luzes prendem a atenção das crianças. O que você achou?
— A princípio, parece um motel, mas acho que você gosta disso. Em quantos fluidos corporais eu tô sentada nesse exato momento?
Jungkook riu, não se preocupando com a careta graciosa que a garota fez.
— Nesse banco? Em nenhum. Agora aqui atrás, acho que a sua memória não é tão péssima assim.
Ele não a encarou quando disse, e não existia nenhum enigma naquele meio sorriso patife que era palpável pelo retrovisor. pareceu pensar nas palavras dele até, então, arregalar os olhos e estalar um dedo.
— Ah, é verdade. Entreguei minha pseudo virgindade pra você nesse banco lindíssimo, e foi super gostoso. Acho que posso passar uma tarde falando de como foi estranho, desconfortável pelo espaço e diferente, mas acima de tudo: gostoso. Que droga, o que meu pai diria sobre mim?
Agora ele riu abertamente, franzindo um pouco o cenho pelo lampejo das palavras de . Parecia algo muito inevitável não entrar na onda dela, mesmo que estivesse só soltando frases que faziam parcialmente sentido.
— Espera aí, você nunca disse que foi gostoso. Essa é bêbada? Dizendo as verdades que nunca diria sóbria.
— Você gostou disso? Pois então é assim que funciona: eu estou parada nesse exato momento dentro de um círculo com pedras em volta que estão carregadas com franqueza extrema. Pronto, você tá presenciando esse momento. Mas eu tenho uma regra: você precisa fingir amanhã que eu não disse nada. Se não fizer isso, vai ser como se tivesse empurrado uma das pedras fora do lugar, e isso seria humilhante, entendeu? Preciso poder manter meus segredos guardados o máximo possível, Jeon.
Jungkook fez a típica expressão de quem não entendeu uma palavra do que ela disse, mas mesmo assim, assentiu.
— Verdade? Vai revelar seus segredos? Quem diria, . Tem certeza que você é mesmo uma pessoa ou uma aparição de uma mulher normal?
— Cuidado, ainda te posso te jogar no chão fora daqui.
— Tudo bem, então. O que seu pai diria sobre a vida agitada que você anda levando ultimamente?
A energia inexplicável de CYANIDE não foi o suficiente para evitar que diminuísse um pouco o sorriso, mesmo que não o perdesse totalmente. O carro foi freando aos poucos até parar em um sinal vermelho, o que deu tempo para Jungkook avaliar o rosto dela em uma atitude já incontrolável. A constatação veio bruta do mesmo jeito: ficava assombrosamente linda debaixo daquelas luzes, e Daniel não ajudava, nunca ajudava.
Mas Jungkook não demorou a notar a fisionomia mudando com a pergunta.
— Sabe que eu não sei? — ela finalmente respondeu, levantando os ombros — Ele morreu tão rápido. Um dia estava aqui, e depois não estava mais. Acho que não deu tempo de eu conhecê-lo muito bem, ou de chegar na fase em que se conversa sobre garotos — ela deu uma piscadinha zombeteira. Jungkook não sorria mais. O vocal em ‘you make me weak, make me thristy for release’ preencheram um silêncio apropriado, até que uma luz verde piscasse na lateral de seu rosto e ele voltasse a olhar para a frente.
— Sinto muito — disse, porque não conseguia pensar em outra coisa para dizer. agora abriu um sorriso maior, balançando as mãos no ar como se não fosse relevante.
— Pensando bem, sei de algo que ele com certeza diria: nunca se envolva com um rockstar! Ou com qualquer personalidade que as pessoas consideram lendárias. Nunca, jamais! Esse tipo de homem não presta.
Jungkook tentou não rir, mas era um pouco difícil se controlar perto do clima radiante dela naquela postura descontraída, com as pernas agora cruzadas em borboleta no banco.
— Então acho que você tá honrando os desejos dele muito bem.
— Tá brincando? — ela arfou em exasperação, os olhos abrindo-se mais a cada segundo — Você só não tem a parte do quebrar quartos de hotel, xingar atendentes ou arrebentar os instrumentos que você já toca, pelo menos não em cima de um palco pra milhares de pessoas, mas fora isso? Por favor, rockstar é mais um estado de espírito do que um trabalho em si.
Agora ele desatava em uma gargalhada, relaxando as costas no assento como se tivesse escutado a piada do ano.
— Sério isso? Você vai mesmo me chamar de rockstar?
— Vou! Um rockstar mais bonzinho do que a maioria, que ninguém aspira em ser, é claro, mas fecha a cara fora do palco e é um puta de um galinha. Fora que os piercings, as tatuagens e a jaqueta de couro reforçam um pouco mais a imagem, senhor international playboy.
— Não acredito que tô ouvindo isso…
— E os cigarros. Não vamos esquecer dos cigarros.
— Como você sabe dos cigarros?
Todo mundo sabe dos cigarros, Jeon. — ela respondeu em um tom explicitamente óbvio, mesmo que demonstrasse ao mesmo tempo que não se importava com nada disso, não de verdade — Mas ninguém comenta sobre isso. As pessoas querem te montar como um modelo perfeito de cidadão, o que é bizarro porque você é um ser humano, sabe? E não acredito que ainda pensem isso mesmo depois de toda aquela baderna que você aprontou na semana das fotos da Ali…
Foi a vez de Jungkook perder o sorriso. se calou e se frustrou na mesma hora. Ela não era a pessoa mais sem ambição e doce que alguém já vira na vida, mas sabia ser agradável e não tocar na ferida dos outros ocasionalmente. Beber daquele jeito transformava sua língua em algo sem travas porque seu lado racional, o que sempre vencia e estava presente no dia-a-dia, se encolhia e se calava em algum canto.
— Ah, merda, falei a coisa errada de novo! — murmurou, olhando para Jungkook pelo canto do olho — É nessa hora que você me joga pra fora do carro e nunca mais anda comigo?
— Se achar uma lata de lixo vazia, pode começar a se despedir — respondeu simplesmente, com um levantar de ombros.
revirou os olhos, um pouco surpresa com o indício de um sorriso da parte dele. Jungkook nunca sorria quando falavam de Ali. Ele não se importava em mostrar que ainda não estava bem, que não era a melhor pessoa do mundo em superar decepções. Mas agora, parecia contente o bastante em acompanhar embriagada até sua casa, o que já ditava outro grande ponto errado do dia.
Ultimamente, isso não era mais tão ruim assim.
— Você sente falta? — perguntou ele após mais um minuto de silêncio enquanto a música escapava do álbum já findado de Daniel para um mehro e toda a sua melancolia romântica em the same — De casa. Do seu país.
tentou se confortar pensando que ele não sabia. Ele não sabia. Ele, assim como todos, eram cordeirinhos de fora dessa história de lobos violentos e permaneceria assim.
— Às vezes — respondeu em voz baixa, puxando as pernas para cima — É aquela coisa, não há nada como nosso lar e bláblá. Nunca gostei de pensar assim, mas no fim até que faz sentido. Tive vidas muito diferentes em todos os países que morei, e mesmo que as coisas só tenham melhorado desde que fui embora, ainda sinto falta de alguns detalhes. É, coisas específicas, como clima, praia, terra batida, comida, principalmente a comida — seu sorriso desatinou quando apoiou a lateral do rosto no banco — Sabia que existe um jeito brasileiro de fazer tudo? É sério, é muito peculiar. O kimchi daqui com certeza ganharia milho, queijo e presunto e mais alguns temperos por lá. Viraria uma bagunça, mas ficaria muito mais gostoso — ele ergueu uma sobrancelha para uma gargalhada. sacudiu a cabeça e pareceu se lembrar de outra coisa — Você ainda não comeu paçoca, não é?
— Até hoje não sei do que você tá falando — respondeu, se lembrando automaticamente do dia daquela mesma festa.
— Típico. Aposto que também não sabe o que é coxinha.
— É um nome engraçado. Eu gostaria?
— Não existe nenhum ser humano que não goste de coxinha.
— Então por que não me apresenta? — ele desafiou, com uma sobrancelha erguida — Tenho uma cozinha grande e essas coisas. E seria bom, sabe, mostrar um pouco de lealdade ao seu país.
— Ah, então vamos discutir sobre patriotismo? Tudo bem, me faz pensar um pouco. Ou você foge totalmente do padrão dos homens daqui ou os dramas realmente estão enganando o ocidente.
Jungkook riu alto.
— As duas coisas são verdadeiras, mas em qual parte você diz exatamente?
— A parte específica de estar transando com uma garota sem pedi-la em casamento no dia seguinte.
Os olhos dele se arregalaram quando virou-se para ela, a expressão divertida e chocada ao mesmo tempo.
— Jesus Cristo, parem de assistir dramas, é sério — riu com o comentário, e ele bagunçou um pouco o cabelo — O tipo real e o da tela é muito diferente, mesmo que não seja uma generalização. E se a garota em questão for você, eu nunca te pediria em casamento seja qual fosse minha nacionalidade.
Os cantos da boca dela foram repuxados para baixo, criando um semblante levemente afetado. Sinceridade acima de tudo, não é?
— Justo. É sempre bom separar as coisas.
O concordar rápido dela fez Jungkook libertar uma risada seca.
— É, é sempre bom contar com você pra isso, senhorita certinha.
— Claro que eu sou — disse em voz alta, os olhos cerrados — A humanidade precisa de regras. Mesmo que as suas sejam uma completa porcaria às vezes.
— Em que parte?
— Beijar.
não estava testando a palavra. Ela ecoou pelo carro inteiro, quente e metálica. A forma como saiu da própria boca da garota foi espontânea e rápida, como algo que estivesse guardando há muito tempo. Jungkook sentiu os músculos superiores paralisarem por um momento, mas não teve muito tempo para refletir sobre o assunto. No mesmo momento, ele girou o volante para o lado em uma curva fechada, ultrapassando corretamente o sinal verde e freando bruscamente quando um carro surgiu do nada pelo outro lado na contramão, buzinando e arrancando como um louco.
— Porra! Babaca do caralho — Jungkook olhou para trás, arfando com o susto e a raiva, o carro parado agora há centímetros do meio fio — Você tá legal?
Quando virou para ela, estava com as costas eretas no banco, agarrando o braço que, automaticamente, voou para a frente de seu tronco, impedindo que ela disparasse para a frente com violência, mesmo que estivesse presa pelo cinto. O braço dele.
Jungkook notou a ação involuntária com o mesmo abalo, e se perguntou o que ele tinha de tão estranho e desesperado para pensar em fazer uma coisa dessas. Aliás, pensar foi a última coisa que fez. Ele tratou logo de se afastar, observando agora tomar uma cor pálida e esverdeada, muito pior do que antes.
— Porra, , prefiro você tagarelando do que vomitando no meu carro, apoia a cabeça em algum…
agarrou seu braço de novo, agora aproximando o corpo até abraçá-lo como fez no hospital, apoiando a cabeça em seu ombro. Jungkook engoliu em seco pela proximidade novamente, sentindo o nervosismo que o impedia de formar as famosas palavras desagradáveis de esquiva.
— Quando eu disse apoiar, não quis dizer pra fazer isso em mim.
— Relaxa, JK, é só fingir que nada disso aconteceu amanhã. As pedras, lembra das pedras.
Ele pensou em pedir, por favor, que ela o soltasse, porque era muito incômodo estarem perto desse jeito depois de tanto toque na última hora e, ainda por cima, com a recente lembrança do que ela tinha dito antes sobre as regras, mas ele apenas revirou os olhos, cansado.
— E desde quando hoje é um dia de carta verde?
— Desde quando você me recolheu daquele chão gelado. Agora só finja que é, por favor.
Jungkook respirou fundo e voltou a colocar as mãos na direção. A cabeça dela descansava muito suavemente em seu ombro, e mover a marcha era um pouco complicado, mas ele se via incapaz de mandá-la sair. Levaria alguns minutos para chegarem, apenas alguns minutos, era um martírio temporário.
— Como você se sente? — perguntou, girando a chave.
— Como se eu pudesse dormir a qualquer momento, mas também liberar as tripas a qualquer momento. Qual o nome que se dá pra isso?
Ele riu pelo nariz e aquiesceu, sentindo uma ideia bizarra tomar seu cérebro a cada minuto, e se alguém perguntasse, ele diria que a culpa era de e sua bebedeira, e que ela e seu estado caótico praticamente tinham pedido para que ele fizesse aquilo.
Se Jungkook encontrasse o eu dele de cinco meses atrás, pediria o que estava desejando agora: controle-se. É sério. Não tenta ser legal, isso não tem nada a ver com você. Tem certas coisas que só se fazem por amigos, e vocês dois definitivamente não são amigos, pode entender isso?
Mas aquele cara de meses atrás não tinha força nenhuma sobre os desejos do presente.
— Tudo bem. Minha casa está mais perto.


Capítulo dez — You probably couldn't see for the lights, but you were staring straight at me.

"Bem, estou tão tenso, mais tenso que nunca, eu vou dar uma de Frank Spencer
E eu já estou falando nada com nada, está na ponta da língua mas eu não consigo falar direito
Tudo está me enchendo o saco
E se não estivesse tão escuro você teria visto como meu rosto ficou vermelho, yeah
[...] Aqueles que juram não estarem se exibindo estão se afogando em contradições
Mas eles não são tão ruins quanto eu, diga qualquer coisa e eu vou concordar
Pois quando o assunto é atuação, com certeza eu poderia escrever um livro."
🎵


Do jardim até o hall de entrada, tropeçou pelo menos três vezes.
O trajeto parecia uma montanha, pelo menos foi o que ela disse quando apontou para a decoração de pedras ornamentais no gramado e também quando esbarrava nelas. Jungkook tentava manter seu corpo o mais ereto possível, mas as pernas cambaleantes de transformavam seu corpo em chumbo e a cada inclinação o fazia frear os passos e esperar que ela se recuperasse.
Era inacreditável. O plano era terminar a noite rindo de , e não servindo de babá para suas incorrências e seus papos sobre helicópteros.
Porque isso estava definitivamente acontecendo.
— Qual a sua opinião a respeito de helicópteros? — perguntou assim que chegaram ao pé das escadas que os levaria à porta. Houve uma longa pausa enquanto Jungkook apertava sua cintura com mais força e erguia seu corpo para cima.
— O que você quer dizer? O degrau — ele a segurou rapidamente no menor sinal de falha de seus pés. não pareceu perceber — Eticamente falando?
— Como um meio de transporte — ela conteu os passos, esperando uma resposta. Seriamente esperando. Jungkook revirou os olhos, balançando a cabeça levemente.
— Mais rápido que camelos, mas menos sustentáveis. Agora vamos — ele voltou a conduzi-la devagar. Suas mãos, ainda juntas, tornavam a tarefa um pouco mais fácil, mesmo que não menos desconfortável - ou tão confortável a ponto de ser desconfortável. Quando colocou as mãos em frente à fechadura eletrônica, Jungkook digitou os números com rapidez até ouvir o estalo da abertura.
— Acho que acabei de ver a senha da casa de Jeon Jungkook — balbuciou, ainda um pouco aérea. Ele revirou os olhos.
— Se lembrar dela de manhã, vou mandar fazer cadeados à prova de .
Os olhos dela se arregalaram por completo.
— Existe isso?
Jungkook piscou algumas vezes antes de responder, ainda mantendo a expressão séria:
— É claro, como não sabe disso? Deve ter um montão deles em Los Angeles, instalados nas casas de todas as pessoas que você já flagrou — deu de ombros. O vinco nas sobrancelhas da garota foi perceptível, realmente refletindo sobre o assunto. Jungkook bufou, puxando-a para dentro devagar, procurando dispersar o tópico, que tinha absolutamente tudo para lhe arrancar muitas risadas em dias que não existisse a possibilidade de que ela vomitaria no piso — Não vai me dizer que fica com vontade de andar de helicóptero quando está bêbada.
— Tenho — ergueu com o queixo com os olhos minguados, esquecendo-se completamente da outra linha de raciocínio que tentava manter — Sempre procuro superar os meus medos, e a altura é um deles. Que coisa louca, não acha? Como vou trabalhar na National Geographic se tenho medo de voar? Não, não responde, isso não vai acontecer, eu já venci esse receio. Porque as coisas mais bonitas são mais fáceis de serem vistas do ar.
— É claro — ele murmurou, fechando a porta e inclinando-se para acender as luzes e tirar os sapatos na entrada. fez o mesmo instintivamente, o hábito completamente já implantado. Depois, ele já guiava em direção ao sofá retrátil, agora sentindo os ombros dela baterem na metade de seus braços, fruto de sua caminhada zonza — Você simplesmente fala pelos cotovelos depois de algumas misturas, é um ótimo trunfo para usar numa discussão depois.
não pareceu ter ouvido. Seus olhos eram tão vagos e a expressão relaxada era tão frágil que não era divertido nem fazer piadas.
— Será que eu vou ter uma sala? — a pergunta veio do nada, dita para o vento enquanto Jungkook a sentava delicadamente no estofado — Ou aquelas plaquinhas transparentes com o meu nome? Ou uma poltrona confortável…
— Do que você ‘tá falando agora?
— Da Hybe! Além do crachá, mesa própria, reuniões e relatórios, vou poder pedir para alguém trazer o meu café? Ou melhor, vou poder arrumar um helicóptero? — as mãos de Jungkook foram apertadas com ainda mais força — Minha nossa, eu vou?!
— Eu não sei, mas… Ai, as unhas! — grunhiu, quebrando o contato de seus dedos de um jeito rápido desta vez. Talvez fosse o único jeito de se livrar do aperto obstinado de , que tinha unhas grandes demais para quem não sabia o que era um esmalte direito — O que você é, um siri? Vou ter que passar a usar luvas toda vez que você beber?
Houve outra longa pausa. Uma pausa para que estreitasse os olhos em sua direção e refletisse, pensasse sobre o porquê de a imagem de Jungkook ter começado a ficar cada vez mais duplicada e borrada, e como ele simplesmente não interrompia aquele frenesi maluco em sua cabeça, que pareceu ter piorado depois da chacoalhada no carro.
Por fim, ela piscou os olhos várias vezes até desistir de ponderar sobre qualquer coisa e deixou o corpo desabar no sofá, arrancando o casaco dele e jogando-o para qualquer lado. Puxou uma das almofadas pequenas de encontro ao peito e disse:
— Hmm. Até aqui tem o cheirinho de cranberry. Eu amo esse cheiro.
Jungkook revirou os olhos novamente. Ok, ela vira uma completa maluca que não diz nada com nada, posso lidar com isso.
— Ouvi 300 coisas que você ama hoje, tenho a opção de dizer que não aguento mais? — perguntou ele.
— Quer saber uma coisa que eu odeio?
— Não.
Você.
— Quer ouvir uma coisa engraçada? Eu não ligo — ele curvou as costas para junto de seu tronco, pegando em seus ombros novamente — Anda, você precisa de um banho.
— Ah, não. Me deixa ficar aqui com a almofadinha. Nãoooo, JK! — ela gemeu, agarrando-se ao tecido com desespero, mesmo que ele não fosse garantia nenhuma de manter seu corpo ali. Jungkook bufou e passou uma das mãos pelo cabelo.
, qual é, isso é um absurdo. Você precisa de um banho e um café, e de qualquer coisa que te deixe sóbria. Dá pra entender?
— Não, acha que eu não sei o que é isso? Você vai me dar um banho gelado, eu não quero! Não!
Seria bom que Jungkook não desse uma resposta com tanta sinceridade no momento, e sua língua coçou por isso, mas deixou apenas escapar uma respiração pesada do nariz e falou com paciência:
— Não faço ideia de qual é a temperatura do chuveiro, se isso ajuda. Agora dá pra parar com isso? Vem.
Nãoo…
— Como quer andar de helicóptero se tem medo de um banhozinho gelado? — Jungkook ergueu as sobrancelhas em desafio — Assim não tem como te dar credibilidade, .
remoeu por um momento e repuxou os lábios, permitindo-se ter o corpo alçado para cima como se fosse uma caixa. Era extraordinariamente fácil obedecer a Jungkook naquela pose de cara de 30 anos, e era ainda mais odioso ser provocada por ele.
Jungkook tinha pouca experiência em “disciplinar” os amigos bêbados porque, na grande maioria das vezes, estava muito ocupado sendo um deles, mas não podia negar que os olhos baixos de , misturados com seus cabelos bagunçados e os erros constantes na pronúncia de coreano estavam sendo um pacote mais divertido do que imaginou.
também tinha pouca experiência em ser a pessoa que precisava de uma babá, mas admitiria mais tarde que foi um alívio ter sido cuidada por Jeon. O toque dele a fazia se sentir estranhamente segura, o cheiro dele e de sua casa eram os mesmos, ainda que ele não soubesse disso — e amava ambos os aromas.
— Eu não gosto de banho gelado! — repetiu, com a voz grogue e sonolenta. Não havia mais nada que a impedisse de ir junto com ele para o banheiro, mas as reclamações ainda estavam na ponta da língua.
— Adivinha só? Não me importo com o que você gosta — ele retrucou, e nem sentiu culpa quando deu o sorriso debochado, sem mostrar os dentes, enquanto virava no corredor que levava ao banheiro do térreo. Jungkook também não tinha muita experiência em ser amável e cordial com .
— Você é realmente um babaca — ela tentou erguer um dedo para apontá-lo na rota dele, mas seu senso de direção também estava desfalcado.
— Essa é a coisa mais extraordinária da situação — ele se soltou de , abrindo a porta do banheiro. A garota permaneceu parada e frustrada; tanto pela falta do contato quanto pelo que ele dizia — Você não ficar esperançosa sobre mim mesmo depois de hoje. Agora entra.
Ela piscou os olhos algumas vezes e arfou de exasperação.
— Quer dizer que amanhã você vai continuar sendo o mesmo crápula de sempre?
— Ah, pode ter certeza disso, senhorita. Talvez até pior do que antes, apesar de todas as probabilidades — um sorriso canalha nasceu em seus lábios. Aquele mesmo sorriso bonito e atraente que fazia ficar tonta por alguns instantes — Agora que tal você começar a tirar a roupa?

📸💔



Jungkook estava indo contra todas as regras da associação ‘cura de ressacas amadoras’ ao regular o chuveiro para o morno.
Tudo culpa de . Quando entraram no banheiro, aquela garota o olhou com o pesar de alguém sentado no corredor da morte. Era muito provável que saísse correndo na primeira oportunidade, e a última coisa que ele merecia hoje era ter caindo mais uma vez.
Quando deixou a área do box, viu que ela continuava estática no meio do cômodo, encarando seu reflexo no espelho grande em cima da pia como se estivesse tentando se decidir se era uma mulher mesmo ou um corvo, com aquele cabelo disperso e a pouca maquiagem borrada, concentrada logo abaixo dos olhos.
Pelo menos, não estava mais tão pálida ou verde como quem queria vomitar, o que o fez deixar de temer a situação por alguns minutos.
— Falei sério sobre tirar a roupa, — ele falou, caminhando até o armário há alguns metros para alcançar algumas toalhas da gaveta debaixo.
revirou os olhos, começando a abrir o zíper de seus shorts. Por um momento, era muito difícil imaginar que teria todas as travas possíveis para fazer tal coisa até na frente de Candice. Mas ali, com Jungkook, era algo tão natural quanto um cumprimento entre duas pessoas.
— Não é só porque a gente transa que eu queira tirar a roupa pra você em qualquer ocasião — balbuciou, com os olhos semicerrados.
— E não é só porque a gente transa que eu tenha que ser gentil, mas olha só que loucura — ele respondeu, propositalmente sarcástico. Ela deu uma risada irônica, puxando os bolsos para baixo e chutando a peça para a frente.
— Falar assim comigo em uma situação íntima vai contra todo o cavalheirismo que você não aprendeu. Em tempos antigos, você teria que se casar comigo só por estar nesse banheiro.
— Achei que eu estava fazendo uma boa ação, por que eu teria que ser punido dessa forma? — Jungkook apoiou uma toalha grossa de cor escura em cima da pia, virando-se para observar a garota de ombros baixos ainda encarando seu reflexo caótico no espelho — Quer ajuda?
— Não precisa.
Jungkook assentiu e murmurou algo sobre buscar uma camisa, saindo do banheiro e subindo apressadamente até o quarto, torcendo para que o que imaginava estar guardado em uma das gavetas do closet, ainda estivesse lá e não ter ido parar no lixo ou na caixa de doações em suas noites de bebedeiras solitárias.
Abrindo um dos últimos repartimentos em cima, onde ele entulhava tudo e mais um pouco do que não sabia se usaria ou se ainda pudesse ser útil algum dia, ainda mantendo um odor empoeirado de sândalo e flores de laranjeira, Jungkook puxou a caixa que guardava mais caixas pequenas dentro. Era um amontoado de coisas antigas e, por isso mesmo, mais desagradável de se olhar. Abriu uma delas, retirou um pacote, apanhou uma das camisetas do Buzz Lightyear penduradas avulsamente ao lado e voltou a descer, sem pensar muito.
Assim que chegou novamente no banheiro, encontrou com os braços para cima, a cabeça presa dentro de sua própria blusa e, claro, gargalhando por isso.
— Você está ótima — disse ele, revirando os olhos mais uma vez. Ela riu ainda mais ao constatar a presença dele. Largando a camiseta e o outro pacote em cima da bancada, ele se aproxima e puxa o tecido para cima, libertando e seu sorriso frouxo — Você seria o tipo de mulher alcoolizada que dorme na calçada.
— Não sei se você ‘tá falando sério ou não — ela fez mais um bico. Ele suspirou, puxando-a para mais perto.
— Fica parada por dois segundos — e levou as mãos para suas costas, abrindo o fecho de seu sutiã com agilidade, descendo-o por seus braços. Ela usava uma peça azul escura com uma estampa pesada que encontrara em um bazar de segunda mão em Los Angeles. Parecia que uma linha de bordado estava atacando e matando todo o design do modelo. Com certeza era o tipo de coisa errada para se mostrar a um cara, mesmo que não fosse dormir com ele.
Se estivesse sóbria, talvez se preocuparia com isso. Mas nem ela, e muito menos Jungkook pareceram dar importância. Nada do que usava o incomodava, muito pelo contrário; ele gostava de sua autenticidade de ‘estilo básico universitário by bazar’ que caíam muito bem nela, mesmo que demonstrasse uma atitude contraditória a isso quando zombou de seu vestido florido há dois meses antes, e quando a viu usar sandálias abertas há algumas semanas, e piorava ainda mais quando a via usando batom.
Ficava bonita. Ficava tão bonita que ele precisava dizer algo engraçado para disfarçar.
A calcinha parecia a mistura de vários pedaços diferentes de tecidos verdes. Alguns deles listrados, outros de crochê e outros transparentes. Fez parecer bastante conservadora no quesito de que tudo poderia ser utilizado, até mesmo para criar vestimentas bizarras.
Subindo o olhar para suas bochechas, ele estalou a língua e passou o polegar debaixo de seus olhos, limpando os resquícios de rímel que tinham manchado a pele da região. O toque repentino causou um arrepio incompreensível nos braços de . Jungkook passou o outro pelo segundo olho e, sem querer, se deixou ser raptado pelo rosto da garota e por seus detalhes que sempre pareciam novos e surpreendentes.
Hoje ele reparou que ela tinha um conjunto de pintinhas perto da boca. Que a ponta de seu nariz era mais avantajada vista de tão perto, e as maçãs de seu rosto eram cheias e bem desenhadas. Seu queixo também combinava com o caminho até o lábio inferior; não tão cheio, não tão fino, mas muito, muito chamativo. Era sedutor, vistoso. Talvez por isso ficava tão bonito de batom. Talvez por isso não quisesse ficar olhando tanto para ele no meio do sexo porque fazia-o querer beijá-la. Talvez quisesse mesmo beijá-la. Algumas vezes. Mais vezes do que gostaria.
Poderia beijá-la algum dia sem que isso nos tornasse um casal, pensou. Eles definitivamente não seriam um casal.
Instintivamente, ele passou um dedo pelo cabelo revolto e perdido da garota, meditando inquieto sobre como ainda poderia ficar tão bonita em um estado tão desordenado e natural. Tão bonita que chegava a ser injusto. Era inacreditável pensar que aquela garota era a responsável por uma das noites mais incríveis de sua vida, e que jamais ficaria sabendo disso.
— Eu espero muito que esse olhar não seja de tesão — a voz dela soou divertida, puxando-o de volta para a realidade. Jungkook recolheu a mão rapidamente, os olhos arregalando-se de uma surpresa genuína. Quando ela riu novamente, ele se viu obrigado a repuxar os lábios com irritação, sentindo a base da nuca queimar.
— Não viaja — respondeu, afastando-se a dois passos. Não era tesão. Era pior, muito pior. Era admiração — Vai, vou fazer um café pra você. Tenta não molhar o curativo, ainda não sei onde guardei a caixa de primeiros-socorros — e então, ele começou a andar para a porta, mas parou antes de chegar ao limiar, tomado por uma ideia inesperada. Antes que perdesse a coragem, virou-se para ela e perguntou: — Como você gosta do café?
— Puro e com muito açúcar.
Ele quis rir, mas apenas assentiu e se retirou. Expresso com canela ou baunilha eram apenas as primeiras opções menos luxuosas que pensou, mas conseguia ser cada vez menos do que ele esperava.

📸💔



Ela estava demorando mais do que o normal.
Enquanto o café era feito pela máquina, Jungkook separou os remédios dados pela enfermeira, digitou um pedido de Juk 죽 no telefone, ajeitou o termostato, as luzes e esperou. Mas um banho não demorava tanto assim, e aquela espera se tratava de bêbada no banheiro, o que, mesmo sendo uma situação nova, já explicava bastante coisa. Bufando, ele seguiu caminhando para o corredor vizinho, indo de encontro à porta que tinha deixado meio aberta.
Um fio de água invadia a metade do corredor. O barulho do chuveiro estava a todo vapor. As possibilidades do que estava acontecendo o fizeram apressar o passo e abrir a porta em um jato.
? — só a luz acima do espelho estava acesa, iluminando apenas metade do lugar, desnecessariamente grande. Quando avançou para entrar, seus pés descalços deslizaram acidentalmente no piso molhado não visto, fazendo-o segurar na maçaneta, mas não impedindo que seu tronco se desequilibrasse e sua cabeça batesse na madeira, bem do lado esquerdo onde o piercing transpassava sua sobrancelha.
— Meu deus! Jungkook! — finalmente gritou, cambaleando para desligar o chuveiro, mas não durou muito tempo na expressão de desespero. Sua garganta roncou quando tentou segurar o riso — Não acredito…
Xingar foi a primeira reação do rapaz. Com os dentes cerrados para segurar a dor, ele levou um dedo para a sobrancelha. Estava molhada e quente. Alguma coisa certamente tinha dado terrivelmente errada na região. Por fim, ele revirou os olhos, agora reparando por toda a extensão do espaço: inundado.
— Mas que merda você fez aqui? — arfou, sinceramente estupefato. , enrolada na grande toalha que estava em cima da bancada, deu alguns passos trôpegos à frente, quase caindo de novo.
— Eu achei que tinha perdido a toalha. Aí acho que vomitei em algum lugar? — sua resposta parecia ser tímida, desengonçada, mas então depois não era mais — Eu só quis limpar…
Ela levantou os ombros no final, alheia à destruição. Ele observou os estragos latentes: a roupa dela jogada ao chão, tomada pela água, junto com a camiseta que ele tinha trazido. O vaso sanitário estava aberto e a pia em um estado catastrófico. Jungkook bufou, fechando os olhos com força, que doeu mais do que o normal por causa da sobrancelha e o único pensamento coerente era: Puta que pariu.
— Minha nossa, isso tá sangrando — o corpo dela de repente estava colado no seu, e seus pés levantaram para que ela alcançasse a ferida para observá-la melhor, o que a deixava centímetros insanos mais perto dele. Além de deixá-lo nervoso, serviu para reforçar o cheiro de shampoo e sabonete emanando de sua pele, mostrando que, apesar do desastre de ter seu banheiro transformado no Mar do Norte, ela pelo menos tinha tomado banho — Tá doendo? Minha nossa, por que essa porta iria querer te machucar? Eu juro, eu vou…
— Eu ‘tô legal — aquelas pintinhas recém descobertas estavam muito perto, então ele as afastou. Pegou pelos braços, notando brevemente que seu rosto estava mais pálido do que antes, aquele tipo de palidez que não o deixava entender errado — O que mais você fez além de vomitar?
— Escovei os dentes com uma das escovas na gaveta — respondeu , apontando para a gaveta semi-aberta do armário, sentindo as bochechas um pouco quentes — Mas estava lacrada em um pacote, eu juro. Vinha até com aqueles acessórios de proteção. Se quiser, posso pagar por ela.
Jungkook olhou para ela e seu sorriso amarelo, como quem não consegue acreditar nas ações e nas palavras que ela dizia. Era um absurdo transformar seu banheiro social em uma piscina infantil e sair pegando coisas nos armários, mas era ainda mais absurdo pensar que ele se descontrolaria por causa disso.
— Você… — ele começou, zangado; talvez porque esteve fazendo a droga de um café enquanto ela passava mal; talvez por tê-la deixado tomar banho sozinha sem supervisão; talvez pela dor na sobrancelha; por fim, a conversa não precisava avançar mais. Ele suspirou, cansado — Vem, depois eu dou um jeito nisso.
sorri, interpretando o recado como mais uma oportunidade de segurar nas mãos de Jungkook. O rapaz já nem olhava mais a atitude com raiva; apenas revirou os olhos, apagou as luzes e guiou a garota de volta para a sala. Algo o dizia que também se martirizaria amanhã quando se lembrasse que deu uma de bicho-preguiça várias vezes para cima dele, e, pensando bem, isso também poderia ser muito engraçado, essencialmente pelo motivo que ela veria a impossibilidade de voltar atrás.
Na sala, ela se soltou apenas para despencar no sofá de novo, ainda enrolada na toalha grossa e macia. Era de se esperar que ela se sentisse mal com a nudez iminente a cada movimento, mas aquele era Jungkook. E uma ponta em renda preta escapou para fora na parte debaixo quando fez uma virada brusca para se deitar de lado. Os seios estavam devidamente cobertos pela toalha.
Quando a máquina de café apitou em sinal de trabalho concluído, Jungkook voltou para a cozinha e despejou o líquido numa caneca transparente, dosando uma quantidade razoável de açúcar por pura pena de , já que, em situações normais, não se colocava nenhuma. Antes de sair, deu uma olhada no vidro espelhado do microondas embutido na parede, acima do forno. Aconteceu o que temia: a batida foi mais intensa do que pareceu e o sangue na sobrancelha, ainda brilhante, se condensava em torno do metal um pouco torto, causando dor e incômodo.
Infelizmente, Jungkook precisaria se livrar dele o mais rápido possível.
A verdade era que ele também precisava se livrar de , mas cada coisa no seu tempo.
Ela tinha os olhos fechados e agarrava a mesma almofada de antes, pateticamente inebriada. Ele se senta na ponta do sofá, apoiando a caneca na mesinha de té à frente e começa a puxá-la para cima.
— Ei. O que te faz pensar que vou deixar você dormir no meu sofá? — resmunga em protesto. Os cabelos molhados tinham um aspecto amassado — Olha aqui, seu café. Bebe um pouco.
Seria mais fácil se ela apenas dissesse um “tudo bem” e bebesse, mas ao sentir o cheiro do copo quando erguido para cima, sua expressão de asco foi a reação imediata.
— Não quero isso, vou vomitar de novo.
— Isso vai te acordar. Vamos — ele estende a caneca com cuidado. afunda as costas no sofá, pegando a cerâmica e bebendo o líquido devagar. O sabor quente e forte estremeceu todas as suas células. Tossindo uma vez, ela balbuciou: — Isso tá horrível.
Jungkook sorriu.
— Eu sei.
— Não me acha bonita o suficiente nem para fazer um café decente para mim?
— Não te acho bonita. Ponto.
— Sua cabeça de baixo discorda…
— Bebe o café — cortou, incisivo. Ela estalou a língua e olhou para a bebida escura com sofrimento, não de uma maneira que deixava pensar que gostava de qualquer outro tipo de café.
— Você fez, não é? — a pergunta foi tristonha. Jungkook apoiou os cotovelos nos joelhos, assentindo com um sorrisinho debochado, vendo-a estudar a bebida mais um pouco antes de tomar mais um gole grande — Minha nossa, isso tá mesmo muito ruim, parece aquela água suja que serviram em De volta pro Futuro 3 — disse, devolvendo a caneca imediatamente — Você só me traz cilada, Jeon. Tira essa coisa daqui.
Ele não parecia satisfeito com a recusa, mas também não estava afim de lutar para que aceitasse seu café, como talvez Candice faria. Com um suspiro, ele apenas se levanta de novo e caminha de volta para a cozinha, trazendo água e os comprimidos.
— Sei que não sou sua pessoa favorita, mas seus problemas de hoje não tiveram minha mão no meio. Toma — estende o copo.
— O que é isso agora?
— Uma poção para te deixar mais bonita — disse ele, trazendo novamente o sorriso plácido. vira os olhos e engole o remédio rapidamente; sem caretas ou reclamações.
— Não falo só dos problemas de hoje, Jungkook. Falo de tudo — repentinamente grogue, ela deitou novamente, esticando o corpo desengonçadamente pelo sofá — E isso é uma piada, porque as coisas estão começando a dar certo para mim, e aí, de repente, uma coisinha só… Começa a ficar estranha e eu não entendo porquê, e odeio não entender as coisas.
Quando ela disse isso, Jungkook ouviu seu sotaque ainda mais carregado do que nunca, pendendo bastante para trocar os idiomas de novo, mas não chegou a acontecer. Ele suspirou e apoiou o copo ao lado da caneca em cima da mesa, chegando perto do corpo tombado da garota e agarrando outra almofada próxima de seus pés.
— Devo perguntar do que você tá divagando agora? Levanta a cabeça — falou, dedilhando sua nuca até erguê-la o suficiente até apoiá-la no algodão. levantou um dos dedos para começar a falar, rindo logo em seguida, uma risada estranha que mais parecia com um cardeal, e logo abriu bem os olhos, focando em qualquer parede.
— Ah, não cheguei a te contar isso, não é? Seu amigo Jaehyun não fala comigo há dias — declarou, com uma risadinha vagarosa — Sabia disso? Tipo dias. Muitos dias pra quem costumava mandar mensagens a cada hora.
Os pés de Jungkook estavam prontos para se arrastarem de novo até a cozinha, mas pararam bruscamente com a informação.
— O quê?
— Pois é. Viu sua cara agora? É a cara que eu ando fazendo, só que não tão assustada assim porque não é lá uma coisa que eu não estava esperando.
O rapaz considerou o que ela havia dito. Foi como se genuinamente tivesse sido atingido por um soco no estômago. Ou um soco na área machucada bem em cima de seu piercing, algo que chacoalharia sua cabeça em um vórtice. Quando viu, já estava sentado em cima da mesinha novamente, considerando a questão um pouco mais.
, como assim? Isso não faz sentido — afirmou com convicção. Estavam falando de Jaehyun, caramba! Não tinha cabimento! — Ele gosta de você — ele gosta realmente de você, fiquei sabendo disso em alto e bom tom na semana passada, cara-a-cara, então me diga que você só pode estar muito bêbada mesmo.
Blé — exclamou — E daí? Por que vocês insistem em dar tanto valor à palavra gostar? Ele pode gostar de mim e mesmo assim sair com outras mulheres, não foi isso que você fez questão de me falar naquela festa?
Jungkook se sente como se tivesse levado outro murro, desta vez certeiro na outra sobrancelha, tão doído quanto. A culpa. Ela escapou de novo, trazendo flores e um cartão.
, não é isso… — ele começou e parou, estranhamente desconcertado — Tá bom, olha, sei o que eu disse, e sei que eu estava com muita raiva naquele dia, mas sério, se existe algum cara que eu não vá atribuir essa frase é o Jaehyun, então…
— Ok, ok, sério, não ‘tô preocupada com isso — ela olhou para ele, levantando os ombros. Sua voz parecia mais branda e estática, mesmo que ainda sonolenta. Jungkook parou com a boca entreaberta, ansioso de repente para explicar. Era como se as palavras dela tivessem fiado uma espécie de linha entre eles, onde não receberia qualquer tentativa de argumentos — Pelo menos é o que eu digo para Candice e o que eu vou dizer pra você: não ‘tô preocupada. Minha condição agora pode ser resumida em: sexualmente satisfeita, mentalmente confusa e emocionalmente desnorteada, talvez? Pois bem, não importa. É o que eu disse: ‘tô bem. E acreditem nisso, porque ficar preocupada com essas coisas não vai me ajudar em nada.
Ela riu mais uma vez, mas não passava de uma cena. Uma média para que pudesse ser otimista sobre as coisas, mas Jungkook notou seu tom amargo e sentiu que devia aliviar a tensão de algum modo.
— De nada pela parte do sexualmente satisfeita — tentou, mas a frase divertida não combinava com seu rosto. Ainda era sério, confuso, absorto. Não é verdade, ele me disse na ligação. Por que estava dizendo essas coisas? Por que Jaehyun sumiria? Não existia a menor possibilidade de ele magoá-la; ou melhor, de que magoasse alguém.
— Obrigada, international playboy. Você é bem bonito e prestativo, como todo rockstar bonzinho — mais uma gargalhada e ela virou o corpo para cima, encarando o teto alto com as luzes baixas — Mas seria engraçado, não é? Se ele voltasse e tudo aquilo não tivesse passado de um interesse momentâneo. Odeio admitir o quanto eu ficaria chateada, mesmo que não surpresa. Mas acima de tudo, se isso acontecer, qual é o sentido de tudo isso que eu e você estamos fazendo?
Jungkook engoliu em seco, odiando em partes a lógica do raciocínio. Ele e estavam metidos naquilo por causa dos planos dela com Jaehyun. Porque gostava dele a ponto de querer dormir com ele, porque pensava que ele queria a mesma coisa, e não era preciso lhe fazer perguntas para saber que sim, ele queria.
Era uma distração sem compromisso que tinha ficado divertida no meio do caminho, mas que ainda tinha data de validade e uma promessa implícita de ser jogada no mar do esquecimento logo depois. Os dois disseram isso. Os dois concordaram com isso. E os dois, naturalmente, estavam preparados para isso.
Mas sem o denominador comum Jaehyun, o que aquilo virava? Sem uma data de término, sem previsões, sem regras…
Ele se lembrou repentinamente da última coisa que Jaehyun disse naquela ligação: “É só que a é uma garota muito especial e sinto que não tô fazendo as coisas direito, então, se eu não puder dizer a ela o que eu sinto algum dia, pelo menos deixei outra pessoa saber.
Naquele dia, tinha soado tão confuso e absurdo que não valia a pena para Jungkook e sua mente bêbada tentar adivinhar os enigmas. Mas sua expressão naquela sala se tornou pesarosa; deixou claro o quanto tinha entendido tudo e nada ao mesmo tempo.
Porra, Jaehyun, o que você tá fazendo? O que eu ‘tô fazendo?
girou o corpo novamente, sorrindo com os olhos pesados.
— Seria hilário, muito hilário — ela continuou, rindo novamente, mais engasgada desta vez, desatando um nó na garganta — O primeiro cara que me levaria em um encontro não me levar mais em um encontro — então, gesticulou abertamente com os braços, como se desenhasse um letreiro no ar — Fiquei imaginando como ele ficaria se soubesse da minha promoção. Pensei em contar pra ele na mesma hora, mas nem isso consegui fazer. Isso é tão ridículo, não é? Essa apreensão, esse medo de incomodar, o receio do que a outra pessoa pode pensar… Descobri que pode ser cansativo, igual diziam naqueles filmes antigos que ninguém quer ver. Acho que eu devia aceitar o convite de encontro às cegas da Candice.
Respirando fundo, Jungkook não se manifestou. Mesmo que a última frase o tenha pego de supetão. Mesmo que tenha se sentido instantâneamente ridículo com isso. Nenhuma palavra no dicionário descreveria o quanto ele estava confuso no momento.
Alguma coisa estava errada, muito errada. Muito mais estranha do que errada. A ligação existiu. Jaehyun era um dos caras mais honestos que já tinha conhecido. Tinha se abrido sobre seus sentimentos, mesmo que Jungkook dissera implicitamente que não o ajudaria em nada disso. Em contrapartida, estava ajudando ela. E assim, aqueles dois ficariam juntos no final. Ele não. Ele só estava se divertindo um pouco, se vingando, sofrendo dezenas de realizações pessoais ao ver a garota que tanto detestava implorar em centenas de linguagens corporais e verbais diferentes o quanto o queria, e isso por si só era uma vitória. A situação estava sob controle, mesmo que, após Jaehyun ter ligado, Jungkook talvez tenha rabiscado um mapa impreciso para algum lugar sem nome que se parecesse muito com “estou-louco-por-uma-sentada-específica” e seguido para ele sem pensar, mas não seria por muito tempo. Seu amigo queria ? Então que tenha .
Mas porra, se não quisesse, por que todo aquele discurso? Por que não dizer alguma coisa que não o fizesse se sentir um merda de um filho da puta?
Mas se não quisesse, por que Jungkook continuaria com o acordo? Ele existia por causa de Jaehyun. e Jungkook eram apenas as duas linhas paralelas que indicavam o caminho principal. Sem ele, as duas coisas se dispersavam e sumiam por ruas laterais da vida, com nomes complicados demais.
Caralho, que merda. Que confusão.
Ele sentiu desejo de fazer mais perguntas, mas os olhos de já tinham se fechado completamente e seu busto iniciava o ritmo lento de sono: cima, baixo, cima, baixo.
Por fim, ele dispersou os pensamentos e tocou o braço da garota de novo, puxando-a para cima.
— Você devia acordar, se vestir e ir pra cama. Vem, vou te levar.
choramingou, abrindo os olhos com aversão, rotulando Jungkook de todos os piores nomes em que conseguia imaginar.
— Não, eu quero esse sofá, eu gosto dele! Me deixa ficar nele.
— Esse sofá não foi feito pra dormir, e amanhã você vai estar insuportável se mais alguma coisa doer além da sua cabeça. Vem — ele se põe de pé, inclinando o queixo na direção da escada. geme mais uma vez em busca de socorro, mas Jungkook não estava disposto a ceder. Ela, então, estreita os olhos e estende a mão, passando para ele uma aura de desafio inconsciente.
Uma risadinha escapou de seu nariz. Revirando os olhos, ele agarrou sua mão, levantou-a do sofá e entrelaçou seus dedos mais uma vez.

📸💔



Aquele quarto era, de longe, o menos chamativo em relação a toda a arquitetura bem planejada do restante da casa de Jungkook.
No entanto, quando se viu dentro dele de novo, foi como se finalmente tivesse chegado no melhor destino de uma tour. Em um minuto, ela entrava pela porta e, no outro, soltava as mãos de Jungkook e corria para a cama grande e confortável, sentindo-se abraçada e protegida, como na noite dos raios.
— Isso é tão, tão bom — seus braços agarraram a colcha grossa, que carregava o mesmo cheiro de todo o andar debaixo. Então, puxou e abraçou um dos travesseiros, parecendo mais do que pronta para fechar os olhos e apagar de vez.
— Você é tão simples de agradar? — ele ergueu uma sobrancelha em sarcasmo. não lhe deu ouvidos; um sorrisinho contente tomava seu rosto à medida que se aninhava nos cobertores — Não dorme ainda, vou buscar outra camiseta para você.
Ele saiu para o corredor novamente, entrando na suíte principal e indo direto para o closet semi organizado. Desta vez, preferiu não procurar a roupa nos cabides. Eles estavam abarrotados com camisetas grandes, variando entre preto, branco e cinza, e outra metade tomada por camisas e casacos brilhantes, moletons de tour e sua coleção inteira da Balenciaga e Louis Vitton. Não tinham tantas, como era teorizado por aí. Jeon Jungkook era um cara que não via problema em repetir as mesmas roupas publicamente, mesmo que, essencialmente, não precisasse fazer isso.
Ele puxou outra caixa do mesmo compartimento da última vez. Pegou uma peça grande de dentro de uma sacola com a etiqueta ‘para doação' e voltou a guardar o papelão. Ela não tinha nada demais — a ideia de pegá-la veio do nada. O tecido nem era tão bom e a estampa era autoral; um desenho seu, aleatório, sem graça. Pelo menos era o que Ali dizia - que ele podia fazer melhor que aquilo. E talvez podia mesmo, hoje em dia. Mas, assim como compor, fazia um bom tempo que não desenhava nada.
Amar aquela camiseta se tornou insignificante diante do 'não gostar’ de Ali, e assim, se tornou fácil deixá-la de lado. Não era tão importante assim. Era só um desenho de céu, mar e areia escura. Ele tinha 16 anos e sentia falta de Busan. Sentia falta de casa. E, olhando para ela de novo, sentiu ainda mais.
Voltando ao quarto, ele a encontrou parada no mesmo lugar, balançando os pés lentamente para fora das cobertas. Aproximou-se e sentou na beirada da cama, tocando seu ombro devagar.
, não dormir. Lembra? — tentou virá-la para cima, e ela contorceu o rosto, sem abrir os olhos.
— As luzes — balbuciou — Quero as luzes.
Ele suspirou por um longo momento e, então, esticou o corpo na direção da mesa de cabeceira há alguns metros, agarrando o pequeno controle característico.
Em um instante, as paredes foram invadidas novamente pela galáxia colorida e pelos traços da via láctea em cada ponto do quadrado. Foi o motivo suficiente para que abrisse os olhos, mesmo que com pouca intensidade, e desse um sorriso satisfeito, maravilhado.
— Quer ouvir alguma música? — perguntou ele, também exultante diante da reação. Esperou enquanto ela franzia o cenho diante da questão e se achegava para mais perto dele.
— Hoje eu quero ouvir Lauv. E um pouco de Arctic Monkeys. Mas também quero ouvir Daniel. Sempre o Daniel.
Jungkook prensou os lábios, segurando o aparelho com muito cuidado enquanto verificava as opções em sua conta vinculada do Spotify. Pensou em pedir para que ela dissesse uma música específica, ou um álbum específico, porque a noite seria longa e era cansativo ir selecionando uma a uma em uma fila de reprodução. Um pouco de organização era importante para ele.
Foi então que a playlist “drunk paparazzi” foi criada.
Naquela noite, não tinha nada de importante além de uma seleção aleatória de músicas. Paris in the Rain foi a primeira a preencher o ambiente, jogando mais cor e harmonia ao redor.
Era uma música boa. Uma música que a fazia se lembrar de desejos antigos e a vontade desesperada de realizar um monte de sonhos ao mesmo tempo, esquecendo-se de aproveitar e respeitar o processo.
E ela podia dizer que eles estavam começando a se realizar.
— Você conhece o Lauv, não é? — perguntou depois de alguns minutos, ainda dormente. Jungkook ainda segurava a camiseta no colo e, pela expressão no rosto dele enquanto ainda selecionava as músicas, não sabia no que prestar atenção primeiro: na vibe tranquilizadora do som que achava que combinasse com ela ou em seu rosto imersivo e simplório sob as luzes, que nunca era uma imagem tediosa. Ele não podia passar mais tempo ali, se não encostaria na cabeceira sem compromisso e amanheceria com ela de novo.
— Conheço.
— Ele é legal?
— Com certeza. Deixou isso bem claro quando nos convidou para a parceria e trabalhou mais pesado ainda no estúdio. Acho o conceito dele brilhante. Um dos maiores cantores dessa geração.
— Eu gosto muito dele — ela disse rapidamente, suspirando — Deve ser muito bom dizer por aí que conhece um cantor legal.
Jungkook riu pelo nariz, finalmente depositando o controle em cima da mesinha e se levantando outra vez, antes que começasse outro monólogo como se fosse um diário de sua vida ou coisa parecida.
— Você também conhece muitos artistas legais — falou enquanto puxava o cobertor de cima dela. A garota gemeu em protesto quando teve os ombros erguidos para cima, obrigando-a a se sentar — Agora é sério, você precisa se vestir.
Arr, chato — revirou os olhos, desatando o nó já frouxo da toalha na área dos seios — Tudo bem, vou devolver todos os seus pertences, Jeon — com um resmungo, a toalha é atirada com um impulso fraco para o outro lado da cama. O movimento fez rir e enroscar uma perna em cima do colo dele, distraidamente. A nudez superior de seu corpo estava totalmente à mostra — Quer que eu devolva a calcinha também?
Baixando os olhos, ele viu a renda preta que contornava sua pelve de um jeito mais perfeito do que imaginou. Um jeito insanamente lindo. Como se estivesse esse tempo todo esperando por ela, guardada dentro daquele pacote que pegou mais cedo, ao lado de vários outros que tinha comprado há muito tempo atrás, para alguém que pretendia dividir o teto, as refeições, os planos e uma vida inteira.
O rosto de não o deixava se lembrar disso. Debaixo daquelas luzes, seu corpo desnudo beirava a uma beleza quase etérea. Algo muito, muito difícil de explicar. Fez com que ele prendesse a respiração para não arfar, não soltar pela boca toda a agitação que tomava a base de seu estômago e a corrente sanguínea enlouquecida que corria para o meio de suas pernas. O olhar dela era sugestivo, seu meio sorriso era sacana e ele sentiu o peito apertar de saudade. De falta. De necessidade brusca de se encaixar nela porque, de todas as coisas loucas e imprevistas de sua trajetória, aquela era a que mais fazia sentido.
Era tesão. Era muito, muito tesão. Mas não era só isso, não era só isso, droga, não era só isso!
Engolindo em seco, ele balançou levemente a cabeça e voltou ao cerne da razão.
— Sai dessa, — murmurou, puxando seus braços para a frente e colocando a camiseta em seu colo — Adoraria terminar a noite te fodendo pra ver se para de contar histórias, mas minha mãe me deu modos. Só transo com alguém bêbado se eu também estiver, então acho que você entende bem porque vai manter essa calcinha no mesmo lugar.
piscou os olhos, como se tentasse assimilar as palavras dele, que pareceram complicadas por um momento, até sorrir e dar de ombros, passando os braços pela camiseta.
— Mas você a viu, ela é tão bonita… — puxou debilmente o tecido para cima da cabeça, demorando mais do que o normal pelo tamanho da peça e pela fraqueza dos braços. Uma nova onda de risadinhas fracas escapou da garganta — Normalmente isso seria muito humilhante…
Revirando os olhos, Jungkook se aproximou de seu busto, puxando a camiseta para baixo, desobstruindo a cabeça da garota e afastando o excesso de fios na frente dos olhos.
Os olhos dela eram bonitos. Tinham uma cor meio amendoada, meio fosca. Refletia um pouco das luzes ao redor. Abria um portal de viagem cósmica enquanto ILYSB de LANY chegava à primeira estrofe, e os detalhes de seu rosto - de novo, notados de repente - pareciam únicos e impecáveis. parecia mais do que bonita. Parecia singular.
Normalmente, ele não ficava olhando tanto para garotas bonitas no geral. Mas não sabia o que pensar. Só estava acontecendo. Acontecia e acontecia e acontecia.
E o delay momentâneo, que sabe-se lá quanto tempo durou, parou bruscamente quando sentiu sua respiração perto da boca, quando seu nariz tocou o dela e suas bochechas roçaram uma na outra.
Mas Jungkook não tinha se mexido. Nenhum centímetro. A questão era ter se aproximado devagar, os olhos cravados nos lábios do rapaz, a excitação do momento fervendo em cada célula do corpo. O garoto acordou do torpor, agarrando firme a lateral do colchão.
— O que você tá fazendo? — Jungkook cerrou os dentes, assustado. A voz estava rouca de temor. Ela estava tão perto, mas tão perto, de um tipo que o deixava pequeno. Fraco. O sorriso dela foi se aproximando cada vez mais.
— O que você acha? — passou uma das mãos livres para a nuca de Jungkook, e era perceptível a aura estranguladora acontecendo naquele espaço ínfimo.
Ele sentiu raiva. Uma vontade de correr, um desespero irado para que a afastasse e só saísse, sem gritos ou críticas. Era fácil fazer isso com as outras, sempre foi. Jungkook não distribuía beijos desnecessários. Não beijava. Não abria esse tipo de brecha.
beijava. Queria beijar. Sentia falta de beijar. Mais do que tudo, sentia curiosidade de saber como era o beijo de Jungkook.
Ela estava tão perto. O corpo dele inteiro queimava com aquela aproximação, e isso só trazia mais raiva. Raiva e agonia. Raiva dele por não querer sair dali; raiva dela por lhe causar tanto interesse, tanta imaginação; raiva dele, de novo, por querer ver mais daquele rosto, e sentir o gosto, aquele gosto ainda não experimentado que devia ser tão ou melhor que as outras partes de seu corpo. Devia também ser tão viciante quanto, e é por isso, exatamente por isso!
Ficar parado significava permissão. Uma permissão que seu corpo estava dando, e apenas ele, completamente congelado ao ver a cabeça dela começar a tombar para o lado, encarando sua boca com divertimento.
— Se você me beijar, acabou — a voz dele ecoou no tom mais firme que conseguiu, ainda desorientado pelo cheiro, pelo nariz dela tocando no seu, pelo hálito quente em sua bochecha — Sabe disso, não sabe?
, com os olhos já fechados e inertes, apenas sussurrou, bem em cima de sua boca:
— Então por que você ainda está aqui?
A pergunta passeou pelas frestas dos milímetros que os separavam, junto com a música. Jungkook não a escutava. Os olhos pesavam, os braços perdiam a força e tudo ardia, inflamava, todo o corpo implorava por aquilo, calando todo o lado racional.
Não existia mais acordo. Não existia mais noites e noites de sexo sem compromisso. Não existiam mais ex-namoradas ou carreiras de sucesso. Não existia rancor ou culpa. Só existia e seus lábios, que imploravam para ser beijados, imploravam por sua língua, imploravam pelo contato. E existia os seus próprios lábios, tão desesperados de repente, estrategicamente agoniados pelos dela. Só isso. Mais nada.
Que se foda. Que se foda que se foda que se foda que se foda que se foda que se foda droga que se foda que se foda…
Quando seus lábios roçaram um no outro, Jungkook avançou definitivamente em sua direção. Então, uma gargalhada quebrou a hipnose do momento.
se afastou, despencando em cima dos travesseiros altos, colocando as mãos na boca para abafar as risadas.
— Meu deus! Tinha que ver a sua cara! — ela bateu uma palma, enquanto ele voltava aos poucos ao mundo real. Era como ser sacudido depois de um sono profundo. Primeiro vinham as imagens turvas e as perguntas sem sentido do cérebro: onde eu estou? Que horas são?
Era impossível não se sentir ridículo. Aturdido, perdido. As luzes não a deixariam ver seu rosto em brasas, e nem o pouco de suor acumulado nas palmas das mãos, como se fosse um adolescente. O coração ainda batia tão forte de furor que ele precisou suspirar forte, travando o maxilar com todo o aborrecimento da frustração.
— Você é algum tipo de maluca? — ele se colocou de pé, escondendo as mãos nos bolsos, e depois passando-as pela nuca, rosto e cabelo, totalmente desorientado. Todos os músculos de seu corpo doíam pela força que fizeram para se manterem paralisados no que quer que tenha sido aquilo.
— É brincadeira, Jungkook. Não vou usar a noite da carta verde para isso — murmurou, com um sorriso entusiasmado, confiante. Bocejando uma vez, ela puxou o cobertor até se cobrir, acomodando-se em seu lugar até fechar os olhos — Mas tinha que ver a sua cara. Eu sou maluca por tentar ou você por querer também?
A alegria foi sumindo aos poucos à medida em que ela apagava. E ele se mantinha ali, de pé, olhando para aquele inferno de mulher e se perguntando por quê? Por quê?!
Ao sentir as pernas funcionando de novo, ele não perdeu tempo e saiu de vez do quarto, fechando a porta devagar, recostando-se nela no momento seguinte.
Jungkook poderia mentir para os outros, mas com ele mesmo não havia outra opção a não ser a verdade, admitida da maneira mais simples possível. Sua mente estava um completo turbilhão. Ele chegou tão, mas tão perto de beijá-la. E doía saber disso. Doía saber que só não fez porque ela se afastou, e não porque não queria. Porque queria, minha nossa, queria demais. Não se lembrava de querer tanto beijar alguém desse jeito antes.
E essa verdade era errada. Perturbadora. Inaceitável. Algo que precisava ser afastado urgentemente antes que o deixasse completamente louco.
Precisou repetir a si mesmo que não. Ele não beijava. Não beijava porque entendia a profundidade daquilo. Porque era muito diferente de sexo. Porque tinha se apaixonado por Ali depois de um maldito beijo. Porque não tinha nada mais perigoso do que querer ficar com alguém só por querer ficar.
Beijos eram a arma mais suicida que existia em relação a duas pessoas. Prazerosos e destrutivos. O caminho para uma desgraça iminente.
Jungkook nunca precisou refrear a maioria de seus desejos. E essa lista tinha ganhado um novo item de prioridade.
Quando viu, ele já estava rondando a sala, a cozinha, o jardim até, enfim, sentir que o sono o tinha abandonado de vez e abrir a porta do estúdio, sabendo exatamente como descarregar o redemoinho de insanidade que tinha plantado em sua cabeça.
Ainda bem que “Motoserra” aceitava qualquer coisa.



CONTINUA 🔥


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Nota da autora: Olá amores! Novamente: não tenho palavras KKKK essa é a última att de Focus por um tempinho até eu terminar Murphy, mas não vai demorar, prometo KKK se houver muita NECESSIDADE e muito surto eu volto antes, podem ter certeza. Por enquanto, deixo aqui meu até breve <3

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