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Última atualização: 16/07/2021

Prólogo

— Por acaso eu estou te pagando para ser incompetente, Ravi?
Batendo a porta do carro com força, o homem jogou a pasta de couro no banco do passageiro e afrouxou a gravata. Apoiou o celular no suporte instalado no painel, e ativou o viva-voz.
, eu sou seu agente, e não um milagreiro.
— E que espécie de agente você é, que não consegue me arranjar um contrato decente? — Furioso, descontou no volante, dando-lhe um soco que ativou o botão da buzina. Recebeu outra buzina em retorno, e um gesto indelicado do motorista que passava ao seu lado.
Seria mais fácil conseguir bons contratos se você fizesse a sua parte e não brigasse com cada editor com quem nós conversamos.
— A minha parte é escrever livros que vão encher aqueles filhos da puta de dinheiro, e isso eu faço muito bem. — Girou a chave e deu a partida no Audi prateado que combinava com o Armani grafite que o escritor vestia. — Você sabe disso, Ravi. As listas de best sellers do Times penduradas na sua parede estão aí graças a mim.
ouviu Ravi suspirar alto do outro lado da linha, e podia visualizar o agente literário apertando a ponte do nariz enquanto andava de um lado para o outro da pequena sala onde ficava seu escritório. Mal tirou o carro da vaga e parou outra vez, agora no semáforo que brilhava vermelho.
Nenhuma editora quer publicar um babaca arrogante feito você, , não importa o quão bom você seja.
O som do metal batendo no vidro indicava que Ravi havia colocado os óculos sobre a mesa. O indiano, portador de cinco graus de miopia no olho esquerdo e quase quatro no direito só tirava os óculos quando estava muito estressado, e ele estava exausto dessa ladainha de . Mais um surto de grandeza do escritor que tivesse que aguentar, e Ravi jurava que mudaria sua profissão no lattes de agente literário para aupair: estava em outro país, cuidando de uma criança, afinal de contas.
Nós já conversamos sobre as críticas, , e você sabe que eu não discordo dos editores. Suas histórias estão ficando repetitivas.
virou uma esquina, pegando um atalho para casa. Morava sozinho num belo imóvel em South Kensington, que abrigava uma banheira muito agradável no banheiro da suíte principal, no segundo andar, e era nela em que o escritor estava pensando desde que saíra de mais uma reunião fracassada com um editor.
Estavam, ele e Ravi, há alguns meses, tentando fechar um contrato de publicação para o último romance de , mas todas as repostas até o momento haviam sido negativas. Também, pudera: não havia nenhum exagero na fala de Ravi; o sangue frio alemão do escritor dava lugar ao sangue quente irlandês quando se irritava, e irritá-lo era tarefa fácil. Bastavam duas palavras mais ácidas sobre suas obras para que aumentasse o tom da voz e começasse uma discussão que lhe renderia o banimento permanente das editoras londrinas.
— Repetitivas! Que seja, droga. São bes—
— Best sellers, eu sei. Você já disse isso. Mas , já tem quase dez anos desde que um livro seu entrou nas listas dos mais vendidos.
— A última vez foi em 2007, Ravi, faça as contas.
Se estivessem cara a cara, teria visto o agente revirar os olhos com força.
Eu disse “quase”, , revise sua gramática.
Ravi não se surpreendia com o fato de que o escritor se lembrava dos dois recortes de jornal na parede do escritório do agente, mas ignorava todos os certificados, medalhas e troféus de competições de matemática que o indiano já tinha ganhado, e que emolduravam as malditas listas do Times.
parou em mais um semáforo vermelho, tamborilando os dedos no volante e murmurando xingamentos ao sinalizador de trânsito. Queria encerrar aquela conversa, chegar em casa e fingir que aquele dia nunca aconteceu — e eram só 11h. Ravi era um imbecil por ainda estar ao lado de todo esse tempo, e o escritor era grato por isso; não queria discutir e afastar o indiano, também.
— Eu não sei por que você se preocupa tanto com essas datas. Douglas Adams levou 12 anos para completar aquela porcaria espacial e é aclamado até hoje.
Ouviu a cadeira de madeira do agente ranger do outro lado da linha, indicando que Ravi havia se sentado com bastante raiva.
Aquela porcaria é um ícone da ficção científica. Adams poderia levar vinte, trinta anos para completar a série que os fãs estariam lá, esperando por ele, da mesma forma. Agora me diz, , quantos fãs esperariam tanto tempo por um livro seu?
— Você está começando a soar como a minha mãe, Ravi, e foi por causa dela que eu saí da Alemanha.
Acho que ela conhece bem o filho que tem.
A luz verde se acendeu e o germano-irlandês pode, finalmente, estacionar, depois de virar uma esquina e avançar alguns metros. Tirou o celular do suporte no painel do carro, pegou a pasta de couro com os manuscritos da última obra em que trabalhara e abriu a porta de casa. No aparador do hall de entrada colocou a pasta e o blazer, pegando apenas a carteira e a chave da porta da frente. Antes do banho de banheira, precisava de uma dose forte de café na cafeteria da esquina.
— Quando foi que essa conversa deixou de ser sobre a sua incompetência como agente literário e passou a ser sobre aquela mulher? — fechou a porta da frente novamente, com mais força do que de costume, e começou a caminhar. A cafeteria era perto, estaria lá em menos de cinco minutos.
Como é que eu vou saber? O mestre das palavras aqui é você, meu amigo.
— Mas que merda, Ravi! Em todos esses anos nós tivemos liberdade para falar sobre tudo, exceto sobre a minha família, e disso você sabe muito bem.
Se havia um assunto que desestabilizava completamente, era a sua família. Por quatorze anos, desde que saíra da Alemanha, deixando para trás todos os recursos da família e indo atrás do sonho de viver da escrita, havia mantido apenas o mínimo de comunicação necessária com a mãe e o irmão mais velho. Deixou para trás, também, as obrigações que tinha para com o nome da família e as cobranças da mãe, que tinha um plano para a vida do filho bem diferente do dele próprio.
fechou os olhos e balançou a cabeça infantilmente, tentando afastar da memória as brigas e punições. Sem perceber, colocou uma mão sobre as costelas da esquerda, sentindo a saliência sob a pele e uma fisgada perto do encontro dos ossos.
Talvez seja exatamente esse o problema, . Você devia fazer uma terapia para tratar esses traumas com a sua família. Quem sabe você não deixa de ser tão arrogante? — Ravi ouviu uma buzina longa soando pelo telefone, seguido de um som abafado e o barulho de pneus cantando. — , está me ouvindo? ? — ... — , o que aconteceu? ?!
Tu tu tu tu
A ligação estava muda.

Capítulo 1

— À !
— À !
Quatro taças se juntaram à que estava levantada, propondo o brinde. As pessoas ao redor da mesa sorriram e beberam o champanhe em uma comemoração modesta em família. Alice, e Ariel haviam preparado um belo jantar, enquanto Maurice e Eric cuidavam da mesa e da louça. precisava admitir: sentiria falta dessa dinâmica quando se mudasse, enfim, para a casa nova.
A vida da filha mais velha dos estava tomando um rumo que ela jamais imaginara. Dedicada às salas de aula há mais de uma década, poder buscar inspiração para finalmente terminar seu primeiro livro era um sonho se tornando realidade. Não tinha ideia do que aconteceria em seguida, e era exatamente essa a graça.
— Eu não acredito que a nossa menina vai embora, Maurice — Alice choramingou, com um sorriso orgulhoso nos lábios.
— Mãe, não é a primeira vez que eu saio de casa, e você não ficou assim quando eu me casei.
Alice deu de ombros.
— Não parecia que você estava realmente saindo de casa daquela vez. Parecia que... parecia que você estava só indo ali e já voltava, como quando você ia dormir na casa de uma amiga quando era criança. Não parecia definitivo.
— E realmente não foi, né?
— Ariel!
— O que?! — a mais nova encarava o pai contrariada, as bochechas volumosas com o pedaço de carne que ela havia acabado de morder. Sob o olhar bravo de Maurice, Ariel revirou os olhos e dirigiu a atenção à irmã. — Desculpa, . São os hormônios.
riu. Conhecia a irmã o suficiente para não se ofender com sua sinceridade afiada.
— Não precisa se desculpar, Ari, você não disse nenhuma mentira. — Ariel deu a língua ao pai, brincalhona. Maurice balançou a cabeça para os lados, em óbvia negação. — Mas olha aqui, mocinha! Se você continuar usando a minha sobrinha contra mim, eu arranco esse cabelo ruivo da sua cabeça, fio a fio.
— Isso é inveja porque eu nasci com as madeixas do papai e você, com esse loiro chumbrega.
— O loiro chumbrega que ela puxou de mim, você quer dizer? — Alice inquiriu, com os braços cruzados e as sobrancelhas arqueadas em direção à caçula.
Um silêncio desconcertante tomou a sala de. Sobre a mesa, os olhares viajavam de Ariel para Alice, que se encaravam sem piscar, mas não levou dois minutos para que os cinco explodissem em gargalhadas. Por mais que tentassem, não conseguiam ficar bravos uns com os outros.
— Agora, minha filha, — Maurice alcançou a mão de , ainda recuperando o ar — brincadeiras à parte, como você está se sentindo? O divórcio, uma nova carreira e agora uma casa nova... são muitas mudanças.
— Estou bem, pai, de verdade. Ansiosa, até. — sorriu, agradecida pelo cuidado de Maurice. — Phillip não era exatamente um príncipe encantado, não é? Não foi uma decisão fácil, mas passar a vida ao lado de alguém que não me apoiava estava fora da minha lista de opções.
— Pegou o recado, não é, Eric, meu amor? — Ariel disparou, retórica, para o marido, que lançou as mãos ao ar em rendição.
— Você quis chamar a nossa filha de Melody em homenagem à uma sereia de desenho animado e eu não reclamei!
— Justo.
— Ok, chega vocês dois, também — Alice interferiu. — Hoje é dia de celebrar, e não de arranjar picuinha sem sentido. , do nosso jeito meio torto, nós estamos todos muito orgulhosos de você. Que você seja feliz, minha filha.
Tentando impedir os olhos de marejar, sorriu para a mãe. Verdade seja dita, ela também sentia que aquela era a primeira vez que deixaria a família e passaria a viver por conta própria em outro lugar, e a sensação era libertadora.

se arrependeu de não ter saído com o carro assim que pegou as sacolas de compra no mercado. O único ponto negativo da casa nova era esse: o mercado era perto o suficiente para fazer você se sentir culpado por ligar o carro e poluir o ambiente com gases tóxicos e gastar combustível fóssil, mas longe demais para carregar qualquer coisa mais pesada que um pacote de pães e um pote de manteiga nos braços.
Já cansada do longo dia desempacotando coisas e arrastando móveis, tudo o que a professora queria era se jogar na bela banheira da suíte principal, aproveitar o sistema de som instalado na casa — o antigo dono merecia os parabéns — acompanhada de uma grande taça de vinho. Por algum motivo, imaginava que boa parte de seu livro seria escrito exatamente dessa forma. Que inspiração poderia ser melhor?
Trancou a porta da frente com esforço e deixou uma anotação sobre o aparador para se lembrar de ligar para o chaveiro na segunda-feira e trocar as fechaduras das portas e janelas. Além do receio de que alguma cópia das chaves tivesse ficado perdida na imobiliária, aquela porcaria estava emperrando! Guardou as compras na cozinha sentindo o sangue voltar a circular nos braços. Enquanto colocava a quinta lata de atum no armário, se perguntou se havia exagerado, mas afastou aquela ideia tosca como se afasta uma mosca impertinente. Atum nunca era de mais.
— Lar, doce lar!
Com as mãos na cintura, finalmente deu uma boa olhada no lugar que agora exibia seus bibelôs nas prateleiras, os quadros da mãe nas paredes e a coleção de CDs e DVDs montada com a ajuda do pai. Mais prendada nas artes manuais do que gostava de admitir, Ariel era responsável pelos dois belos tapetes em fios mostarda e dourados que decoravam a sala de estar e o estúdio, em harmonia com o papel de parede esverdeado desenhado com uma estampa floral delicada também em tons de ouro. Normalmente acharia o estilo bastante brega, mas a casa tinha um toque daquela beleza antiga, quase nobre, requintada.
— É melhor ir se acostumando, casinha. Enquanto eu não arrumar um gato ou um cachorro, é com você que eu vou conversar. Agora, para o chuveiro, digo, para a banheira!

colocou o pé na água quente e sentiu um arrepio correr por todo o seu corpo. A temperatura estava ideal e o óleo essencial de eucalipto perfumava todo o banheiro e limpava os pulmões de .
Lonely days are long. Twilight sings a song. All the happiness that used to be... — cantarolava, acompanhando a voz suave de Joe Brown nos versos de “I’ll See You In My Dreams” que saía das caixas de som embutidas no teto.
Bebericou o vinho deitada no meio de toda aquela espuma, se sentindo uma rainha. E quer saber? Era isso mesmo que ela era. Daquele momento em diante, era a rainha de todo o reino de lândia, e escreveria sobre seus súditos em suas aventuras. Narraria as histórias cheias de reviravoltas das princesas que não precisavam de príncipes encantados — e nem queriam; preferiam outras princesas —, de humanos tentando quebrar uma terrível maldição para voltar à sua forma original como grandes e poderosos dragões e piratas saqueadores que queriam roubar as adegas do castelo.
Antes de se lembrar que seu livro contava, na verdade, uma história sobre alienígenas e dimensões artificiais, caiu no sono. Acordou quase uma hora mais tarde, com o vento gelado da noite entrando pela janela do banheiro, então enrolou-se num roupão fofinho, enquanto pensava em como consolar o estômago revoltado, e quanto de atum enlatado usaria para isso. Abriu a porta que levava para o quarto e deu de cara com um homem, de costas para ela, xeretando na penteadeira.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — gritou a plenos pulmões.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! — O homem gritou de volta, virando-se para ela e derrubando um pote de creme no chão.
Tentando não escorregar, correu de volta para o banheiro e trancou a porta, derrubando a chave duas vezes até acertar o buraco da fechadura.
— Quem é você? — gritou para o sujeito através da porta ainda com a respiração entrecortada e o coração querendo saltar para fora do peito. Fechou os olhos com força ao ouvir o barulho de mais um pote caindo no chão, e rezou para não estar na sua própria versão de “O Iluminado”, de Stephen King.
— Quem sou eu? Você que está invadindo a minha casa — o homem respondeu. Não gritava mais, mas a voz forte e acelerada mostravam que estava bastante irritado.
Eu estou invadindo a sua casa?! — A única coisa que passava pela cabeça de enquanto ela andava de um lado para o outro dentro do banheiro com as mãos na cabeça e o olhar vidrado na porta era que ela precisava achar um chaveiro que atendesse aos domingos.
— Moça, eu não sei quem você é, se é alguma espécie de fã descontrolada ou se só é louca, mas essa casa é minha! Isso já está ficando ridículo.
— Fã? Pelo amor de Deus, eu nunca vi a sua cara. Essa casa é minha e, se você não sair, eu vou chamar a polícia — tentou soar autoritária, mas estava certa de que se parecia com uma menininha vendo os primos mais velhos jogando sua boneca favorita pelos ares (e essa era uma sensação que ela conhecia bem e da qual não gostava de se lembrar).
— Nunca viu a minh– Eu sou , escritor best-seller e dono dessa maldita casa! — Do outro lado da porta, o tal respirava fundo e brigava com os potes caídos no chão. Não sabia quando tinha feito sua última refeição, mas estava se sentindo fraco e continuava derrubando os cosméticos.
Ouviu o som da porta se abrindo. botou a cabeça por uma fresta aberta da porta, analisando o sujeito, confusa.
— Espera. ?
suspirou, concordando com a cabeça. Já era hora daquela palhaçada chegar ao fim.
— Como escritor “best-seller”, senhor , eu acho que o senhor precisa rever seus tempos verbais. Você era dono dessa casa. Agora eu sou. Eu sou . Imagino que você tenha visto meu nome nos documentos de compra da casa, no começo da semana.
travou os olhos na moça. Os lábios estavam entreabertos e as pálpebras piscavam duro, e se se concentrasse bem, poderia ouvir as engrenagens girando na cabeça do escritor.
— Mas que porra... Isso é coisa do Ravi, não é? Aquela calculadora humana de uma figa! Essa foi a brincadeira de mais idiota que ele já inventou. — Com o dedo em riste, foi a vez dele andar em círculos pelo cômodo. Notando o rosto vermelho e as narinas infladas do homem, deu dois passos para trás e agarrou a primeira coisa que encontrou no banheiro. Não se sentia muito segura com o desentupidor de vaso escondido atrás das costas, mas era melhor do que nada. — Ele colocou alguma coisa no meu café, não foi? Eu saí por cinco minutos para ir na esquina comprar um café...
Murmurando palavras desconexas, saiu do quarto sem sequer olhar para a moça. jogou o desentupidor num canto do banheiro e correu para trancar a porta e trocar de roupa antes que o sujeito levasse metade de seus pertences embora. Enfiou a mão no armário e enfiou pela cabeça a primeira peça que encontrou, enquanto deslizava os pés para dentro dos chinelos ao lado da cama.
! — gritou, saindo pelo corredor em direção à escada. — Volta já aqui. !
Encontrou o homem parado na frente da porta de madeira, brigando com a maçaneta.
— Há! Boa sorte — recostou-se na parede, com os braços cruzados à frente do peito e um sorriso desafiador nos lábios, acompanhado da sobrancelha arqueada. — Devia ter trocado essa porcaria velha antes de vender a casa.
Os ombros de se encolheram conforme os músculos dos braços retesavam. A vermelhidão do rosto agora se estendia por todo o tronco do homem. Girou a cabeça de leve, se dirigindo a sem de fato encará-la.
— Eu não vendi a minha casa. — As palavras saíram baixo e pausadamente. Foi o suficiente para fazer se lembrar de que não estava em uma comédia romântica com o Mark Ruffalo, e que tinha um desconhecido dentro da sua casa.
— Olha, eu não sei se você se arrependeu da venda, mas eu visitei essa casa quase todos os meses pelo último ano até conseguir assinar os papéis, na semana passada. Essa casa é minha, e se você não sair agora, eu vou chamar a polícia.
respirou fundo, apertando com força a ponte do nariz. Os exercícios que aprendeu nas duas sessões de terapia forçada que fez viriam a calhar, agora.
— Se o Ravi pensa que essa merda toda vai me dar inspiração, ele está muit—
— Não existe nenhum Ravi aqui! — cansada do falatório sem pé nem cabeça do invasor, fechou os dedos na boca do vaso de cerâmica sobre o aparador e atirou na direção de . Encurralado entre a moça e a porta, o escritor se encolheu, e respirou aliviado ao ouvir o barulho do vaso se estilhaçando sem sentir nada.
— Como você consegue ser tão ruim de mira? — Soltou uma risada aguda e entrecortada, ainda sentindo o coração disparado. — Nós estamos a dois metros de distância. Não tem como errar um arremesso desses.
— Eu não errei.
— Como é?
virou-se para , pronto para continuar seu discurso depreciativo, mas ficou quieto ao encontrar os olhos da moça. O rosto de não tinha cor, e até mesmo o azul brilhante das íris ficou cinzento ao assistir o vaso se quebrar, deixando uma mancha de água na porta de madeira, à altura do peito de .
— Sai da minha casa — ordenou entre dentes trincados, cerrando os punhos.
, eu não vou repetir tudo o que eu já diss—
— Sai da minha casa! — a mulher gritou, atirando-se na direção de com os braços esticados para expulsá-lo dali a socos e pontapés, se fosse necessário. Gritou outra vez, quando a única coisa que seus punhos encontraram foi a madeira pesada.
— O que... O que foi... O que aconteceu...?
— Eu acho que vou vomitar — o escritor tampou a boca com uma das mãos, enquanto a outra segurava o abdome tentando controlar o enjoo repentino.
— Eu... eu atra— eu atravessei vo– você…
esticou as mãos, agora trêmulas, sem saber bem se estava apontando para ou criando uma distância segura entre eles.
— Pelo amor de Deus, agora isso já está passando dos limit—
— Eu atravessei você!! — gritou mais uma vez, recuperando os sentidos depois do choque. — Eu comprei uma casa mal-assombrada!



Continua...



Nota da autora: O que será que rolou, hein? Será que tem dedo do Ravi nessa história?




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