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Última atualização: 20/05/2021

I don't know how to sum it up because words ain't good enough.

O ano era 2012. Eu tinha viajado com meus pais para as festas de fim de ano, mesmo sabendo que – com sorte – o evento mais importante de nossas vidas estava para acontecer. Não fazia ideia de que dia era. Estava apenas me importando com aproveitar a presença dos meus pais sem preocupações, algo que tinha se tornado raro nos últimos meses. Eu não queria me lembrar da faculdade que começaria no outro ano, não queria me lembrar de que, em semanas, teríamos que voltar para a triste realidade da vida em Nova Iorque. Apenas queria me focar no sorriso que estava nos rostos dos meus pais e de como eles pareciam pessoas perfeitas naquele momento.
A praia estava praticamente vazia. Todos deviam estar se preparando para a festa da noite, mas eu e meus pais ainda estávamos sentados na areia da praia do hotel, conversando sobre o cotidiano e meus planos para o futuro, quando o telefone dele tocou.
– Que ótimo, trabalho... – Falei baixo, achando que ninguém me escutaria, mas minha mãe me deu um tapa com a mão esquerda.
Meu pai escutava o que falavam do outro lado da linha com atenção. Eu e minha mãe o observávamos. O evento mais importante de nossas vidas, eu repetia na minha mente. Alguns segundos bastaram para que ele se despedisse de quem quer que fosse.
– Quem era? – Eu disse.
– Era o Fletcher.
– E então? – Minha mãe perguntou ansiosa, com os olhos brilhando. – Qual foi o resultado?
Meu pai olhou para o mar que se estendia na nossa frente. O sol estava se pondo, tingindo a água com uma cor alaranjada digna de cena cinematográfica. Ele passou a mão nos cabelos e olhou para nós duas, que esperávamos impacientes por uma resposta.
– Vocês estão olhando para o novo presidente dos Estados Unidos da América.


Another night stopped, will it never end?

As pessoas costumavam falar que eu reclamava de boca cheia. Bem, talvez sim, mas não era bem esse o meu ponto de vista. Minha vida, vista pelo resto do mundo, era boa. Para os Estados Unidos, eu era a filha do candidato à presidência que simplesmente não queria nada com nada. Será que ninguém sabia que eu estava lutando para ser aprovada na Texas A&M University? Ninguém estava percebendo que eu queria minha família de volta?
O último ano tinha afastado meu pai de casa. A campanha para a presidência do país mais importante do mundo – embora eu mesma não concordasse com essa classificação – estava tomando todo o seu tempo. Até eu e minha mãe tínhamos nos envolvido no trabalho pesado para poder ajudá-lo e, de certa forma, ficar mais perto dele. Mesmo assim, estar consciente de toda a tensão que nos cercava era preocupante. Mas o que importava naquele momento era que todo esforço, todo problema, tudo havia sido recompensado.
A universidade me chamou assim que soube que meu pai havia vencido as eleições presidenciais, é claro, mas talvez eu quisesse esperar naquele momento. Não queria olhar para mim, queria olhar para os meus pais, principalmente para o meu pai. Ele estava completamente realizado, nunca tinha visto o “homem da minha vida” tão feliz, e a felicidade dele fazia a minha. Eu ia primeiro me mudar para Washington e então, quando as coisas se estabilizassem por lá, iria para a faculdade. Queria acompanhar de perto cada um dos novos sorrisos do senhor Andrew – conhecido pelos demais simplesmente como presidente.
Minha mãe, Ava Robert – eu invejava secretamente seu nome –, era a mulher mais guerreira que eu já havia conhecido. Meu pai sempre havia sido envolvido com política. Eles, inclusive, se conheceram quando ela era secretária de um senador com quem meu pai trabalharia. Um caso de uma noite acabou se tornando a garota de então 18 anos na qual eu me transformara: .
Se ser a filha do presidente dos Estados Unidos era legal? Bem, para mim, eu não era a filha dele. Era a filha do Andy, o cara de quem todo mundo se orgulhava por amar a todos incondicionalmente. Eu nunca pude reclamar de nada dele. Mesmo nos tempos difíceis, eu tinha tudo o que podia querer. Estudei nos melhores colégios, usava as melhores roupas, frequentava os melhores lugares. Tudo porque ele sempre se esforçou para que eu fosse a melhor pessoa do mundo.
Eu tinha tudo a meu favor. Dinheiro, energia e tempo eram coisas que eu tinha de sobra, felizmente. Eu só queria me acostumar com a situação e então ir curtir o mundo do meu jeito.
Era sábado à noite, meio de janeiro. Estávamos na festa da posse do meu pai. A banda 30 Seconds To Mars tinha acabado de se apresentar. Eu havia visto na internet que eles estavam fazendo uma campanha de apoio à candidatura do meu pai, mas me surpreendi quando eles apareceram para parabenizá-lo pessoalmente em uma cerimônia que estava sendo transmitida para o mundo inteiro. Meu pai fez um discurso lindo enquanto era consolidado como novo presidente. Estava na hora da festa. Eu não achei ninguém para dançar comigo, então pedi a um dos seguranças, – um britânico alto e corpulento –, que me acompanhasse para que eu não dançasse sozinha.
– Você fala? – Eu o provocava.
– Só quando permitido. – Ele disse, sério.
– Bem, eu estou lhe permitindo ter uma conversa agradável e saudável comigo. E então?
– Senhorita, não acho que essa seja uma decisão muito sábia.
– Que decisão?
– A senhorita está flertando comigo.
E estava mesmo. Eu não me dava muito bem com os garotos. Também não me dava mal, só tinha o péssimo hábito de atirar para todos os lados na tentativa de conseguir entrar em um relacionamento sério. Se eu não achava que flertar com meu segurança era exagero? A resposta era não.
– E alguém disse que eu não posso?
Com um movimento ágil, me girou, executando perfeitamente movimentos no ritmo da dança.
– Onde você aprendeu a dançar, ? Posso te chamar de , não posso?
– Prefiro que continue me chamando de , senhorita.
– E eu prefiro que me chame de , ou , quem sabe. Mas “senhorita”... Sei lá! Você tem quantos anos? Vinte?
– Vinte e um, senho...
Ele ia falar aquela palavra, eu sabia, mas achei fofo quando ele se conteve.
– Você só é três anos mais velho que eu, novo demais pra esse serviço. Não acha que tá na hora de curtir a vida um pouquinho?
Uma mão apareceu em seu ombro. Qualquer um que estivesse atrás dele se esconderia facilmente, mas não era qualquer um. Era meu pai.
– Com licença, . Posso dançar com minha filha?
– Claro, senhor.
assumiu sua posição ao lado da pista de dança. Meu pai me tomou nas mãos e dançava graciosamente comigo pelo salão.
– Você estava flertando com seu segurança.
– Sim, eu tava.
Todos os olhos da festa estavam em mim ou era impressão minha?
– Não acha ele velho demais para você?
– Ele é três anos mais velho que eu.
– O quê?! – Meu pai disse, demonstrando assombro. – ? Ele tem vinte e um?
– Não parece, né?
Meu pai se virou para dar uma checada rápida nele.
– Não acredito. Mas seja o que for... Eu só quero que você ache alguém que goste realmente de você. – Ele disse e deu um beijo na ponta do meu nariz, o que me fez lhe dar um sorriso largo. – , pode retomar seu lugar.
Eles se cumprimentaram com um aceno de cabeça e eu voltei a dançar com . É claro que, no final da festa, eu estava com a perna doendo porque só dancei. Parava para cumprimentar algumas pessoas, é claro, e isso também causou uma forte dor na minha bochecha. Era desconfortável aquele ambiente, mas meu pai estava radiante. Ele e minha mãe nunca pareceram tão felizes em toda a vida deles. Por qual motivo eu deveria deixar que eles soubessem que eu não estava bem e estragar a noite?
Depois daquele dia, minha vida era resumida a isso: encontros importantes com bochechas e pernas doloridas. Nós viajamos o país inteiro fazendo inaugurações de instituições, visitas em comunidades, festas importantes... E é claro, com uma equipe de segurança absurdamente exagerada. Eu não podia ir ao banheiro sem que antes um grupo de três homens o revistasse e estava começando a me sentir incomodada. Foi quando eu decidi que estava na hora de mudar e ir para a faculdade.
Meus pais já tinham aprendido a viver sem mim. Liguei para o Texas e perguntei quando poderia começar. Ficaria instalada numa casa próxima ao campus – com seguranças de sobra, é claro – e teria todo o apoio necessário da faculdade. Era muita gentileza deles, não era?
Aquele foi um final de semana triste. Os últimos abraços que recebi de meus pais cortaram meu coração. Eu fiz o possível para explicar para eles que aquela vida de filha do presidente não era o que eu queria para mim e eu estava dolorosamente consciente de que isso não era satisfatório para eles.
– Você sabe que, se não se acostumar, se as coisas não estiverem acontecendo do jeito que você planeja...
– Mãe, eu tenho vocês dois na discagem rápida.
– E cuidado com os garotos. – Meu pai disse, quase gritando que, com “garotos”, ele queria dizer “” porque, em algum lugar dentro da sua mente, ele acreditava que estávamos tendo um caso.
Quem dera...
As aulas começaram e, com elas, as festas universitárias. Recebi meu primeiro convite e é claro que não o recusaria. Coloquei uma das minhas roupas favoritas e fui. Foi lá que fiz meus primeiros amigos. Jacob era nerd e epilético, uma combinação perfeita para alguém com quem eu realmente queria passar um tempo. Michael era da Carolina do Norte, tinha um bronzeado bonito e era óbvio que estava na universidade mais pelas festas do que pelo curso em si, mas era uma ótima pessoa – por mais incrível que parecesse. E Emily era a típica menina do interior, filha de fazendeiro, que estava cursando Medicina Veterinária para dar sequência aos negócios da família. Nós quatro, com a convivência de algumas semanas apenas, nos tornamos inseparáveis. Aquilo sim era o que eu queria.
Eu sentava na janela de casa todo dia para ligar para meus pais, saber como estavam as coisas onde quer que eles estivessem e contar sobre as minhas novas conquistas. Tudo podia acontecer, mas eu não podia ir dormir no dia sem fazer aquilo.
Dois toques depois, minha mãe atendeu.
– Filha! Como você está?
– Eu to ótima. E você?
– Estou bem, como sempre. Como foi o dia hoje?
– Foi tranquilo. Uma aula de anatomia que me deu mais sono que documentários sobre a Ásia. Tirando isso, tive um dia maravilhoso. E vocês?
– Bem, seu pai passou o dia inteiro em reunião com o governador de Massachusetts, então eu e a mulher dele estamos passando esse tempo visitando algumas lojas maravilhosas. Seu pai ficou preocupado, você demorou a ligar hoje.
– Eu tava dormindo.
– Ah, sim. Claro. Mas ligue pro seu pai.
– Mas ele ainda tá em reunião?
– Está, mas você sabe muito bem que ele abre mão de tudo por você. E ele me pediu para lhe dizer isso.
– Tudo bem, mãe. Depois você me liga pra gente conversar melhor?
– Claro! Te amo, filha.
– Também te amo, mãe. Até!
Desliguei e fui para o sofá. Sentei por cima das minhas pernas enquanto discava o número do meu pai. Ele demorou um pouco para atender, quase tempo suficiente para que eu desistisse.
– Filha!
– Oi, pai! Como você tá?
– Estou ótimo agora. E você?
– Bem.
– É bom mesmo. Caso contrário, eu mando irem te pegar no Texas agora. Como vão as coisas por aí?
– Nada demais. Uma vida chata de universitária, mas é isso que eu escolhi.
– Você sabe que, se quiser, pode voltar pra casa na hora.
– Eu sei, pai, mas eu quero ficar. Quero me formar.
– Desde pequena, você falava que queria ser médica veterinária, sabia? Eu falava que ia ser presidente e, bem, olha onde seu velho chegou! Você vai mais longe que eu, minha querida.
– Isso é impossível, pai. Melhor que você, só outro de você. Eu tenho que ir. Os meninos tão chegando aqui em poucos minutos pra gente estudar. Eu te amo.
– Eu te amo mais.
– Nunca! Beijos, pai.
– Beijos, minha querida. Mande notícias. Estou muito orgulhoso de você.
Tive que segurar o choro.
– E eu estou mais orgulhosa ainda do homem que o senhor é!
Desliguei na exata hora em que a campainha tocou. Fui abrir e encontrei Michael sozinho com uma pasta debaixo do braço.
– Dor de barriga por causa do almoço de hoje, foi isso que ele me disse. – Ele, obviamente, estava falando de Jacob.
– Então vamos lá nós dois mesmo. Eu preciso entender todos os detalhes da boca dos ruminantes e de hoje não passa. Espero que você esteja confortável, porque vamos demorar aqui.
Ele riu e ajeitou o cabelo comprido atrás da orelha.
– Digamos que eu vim preparado.


And you'll follow your heart even though it'll break sometimes.

O mundo à minha volta estava girando. Fui visitar o hospital da faculdade e um cavalo tinha acabado de morrer. Lembrei-me das palavras da minha mãe.
– Você tem que saber que é isso o que você quer, que você tem um dom natural pra isso. Sem esse sentimento, de nada vai valer você perder anos na faculdade. – Ela disse durante uma das nossas ligações diárias.
Eu queria Medicina Veterinária. Era meu sonho. Na verdade, eu acreditava que toda criança dizia – pelo menos, uma vez na vida – que queria ser veterinária. No meu caso, eu fui um pouco mais teimosa e levei isso para frente. Mas ali, ao ver aquele cavalo morto, na minha frente... Meu mundo caiu. Eu era sensível. Não importava o quanto me dissessem que eu tinha que ficar habituada, eu nunca ia me sentir “normal” vendo um animal sem vida.
– A senhorita está bem? – Scott, outro dos meus seguranças particulares, perguntou.
– Óbvio que não.
– Quer ir embora?
– Também não. “Tenho que me acostumar.” – Disse, abrindo as aspas no ar com os dedos e revirando os olhos.
Scott retomou seu lugar atrás de mim, com cara de mau e braços cruzados. Quem o via, nem imaginava o quanto nós nos divertíamos dentro de um salão de jogos. Esse era um estereótipo que chegava até a ser engraçado. As pessoas de fora olhavam para nossos seguranças como se eles fossem robôs cuja função era atirar nos outros e incomodar. Claro que não era a melhor coisa do mundo ter pelo menos dois homens atrás de você o dia inteiro, mas eu sabia que era necessário. E ter eles por perto fazia com que nós os considerássemos – querendo ou não – membros da nossa família.
e Scott tinham ficado responsáveis por ficarem comigo durante o dia. Em casa, outra equipe com quatro seguranças – Benjamin, Freddie, Daniel e Joe – era encarregada de fazer da casa, onde eu passava a maior parte do tempo, o lugar mais seguro do mundo. Eu me dava muito bem com eles e achava incrível ninguém perceber que eu mal saíra da adolescência e estava dividindo minha casa com seis homens, mas não podia reclamar. Todos eles eram simpáticos, ótimos amigos e respeitosos acima de tudo. Afinal de contas, quem, em sã consciência, não respeitaria a filha do presidente? Bem, a resposta para essa pergunta era “muita gente”.
O pessoal da faculdade olhava para mim com desgosto.
– Não é só porque você é a filha do presidente que tem poder aqui dentro. Você não é melhor do que ninguém. – Uma menina disse uma vez quando eu pedi para o professor tentar falar um pouco mais devagar para que eu entendesse.
É claro que levantou seu corpão e colocou-se entre eu e a menina. O professor atendeu o meu pedido, felizmente, mas depois daquele dia, minha vida na faculdade nunca mais foi a mesma. Em outra ocasião, fizeram um desenho no quadro desdenhando de um menino do quinto período que era gay. Tirei uma foto e enviei para ele, denunciando o ato. No outro dia, a faculdade inteira espalhava boatos sobre eu ter feito aquela “obra de arte”, e eu comecei a ser ridicularizada por onde quer que eu andasse. Mas eu estava lá pela faculdade, não por eles.
A imagem do corpo do cavalo estava tirando o meu sono. Já estava deitada na minha cama e a cena se repetia na minha mente. Eu estava escutando um cavalo relinchando e tudo. Fiquei rolando durante incontáveis minutos, sem conseguir dormir, fazendo uma pergunta crucial na minha cabeça: será que era aquilo mesmo que eu queria?
Três batidas na porta me tiraram do transe.
– Senhorita , está tudo bem?
– Quem é?
– Daniel, senhorita.
– Ah, ok. Tá tudo bem. Por quê?
– Estamos escutando um cavalo relinchando e parece que vem daqui o barulho.
Eu levantei da cama assustada, esquecendo-me de que estava trajando roupas não muito apropriadas para se usar na presença de um homem. Mas que porra estava acontecendo?
– Você tá louco? Eu to ouvindo isso na minha mente, mas é por causa de...
Outra vez, um cavalo relinchando. Merda. O rádio pendurado no ombro de Daniel apitou.
– Tem um cavalo no quintal. Dá pra alguém me explicar isso?
Meu olhar se encontrou com o de Daniel.
– Um cavalo? No quintal? – Falamos ao mesmo tempo.
Nem tive tempo de vestir um roupão. Desci as escadas correndo na frente de Daniel, que seguiu meu ritmo. Quando saí pela porta, um vento frio me recebeu violentamente. Tentei proteger meu corpo, cruzando os braços enquanto fitava o animal gigante que alimentava-se da cerca viva dividindo o meu lote do terreno vizinho. estava do lado dele, tentando enlaçá-lo com o que devia ser uma corda. Andei lentamente na direção deles.
– De onde surgiu esse cavalo? – Fiz a pergunta óbvia.
– Não sabemos, senhorita.
– Para com isso, .
– Não dá.
Olhei para o bicho. Não era um cavalo qualquer. Ele era enorme, bem tratado, com um porte físico de dar inveja. O cavalo, com certeza, tinha um dono e um valor financeiro alto.
– Podemos amarrá-lo na árvore por hoje, não podemos? – Sugeri, apontando para a nogueira-pecã no meio do quintal dos fundos. – Se ninguém vier regastá-lo, quem sabe eu possa...
Eu estava apenas imaginando, como sempre. O dono veio buscá-lo e desmanchou-se em pedidos de desculpas ao ver quem eu era. Ele tinha fugido de uma fazenda muito importante da área, pelo que pude entender, e os proprietários já tinham colocado até a polícia atrás do animal. O cavalo, como todos os sonhos que eu tinha e queria realizar sem ter que colocar o trabalho do meu pai no meio, foi embora com a chegada da manhã.
Depois de um longo período de provas, o fim de semana finalmente chegou. Nós tínhamos um voo marcado para Washington. Meu pai receberia alguns líderes de Estados mas, mesmo assim, fazia tempo que não nos víamos pessoalmente e aquela seria a minha primeira oportunidade de ir para a capital visitá-lo com calma. Fomos até o aeroporto em um jato e, de lá, fui levada para a Casa Branca.
Quando entrei, senti como se estivesse em um hotel. Embora as pessoas que olhassem de fora imaginassem que aquele prédio seria um palácio, a planta baixa da casa em si não era algo tão extraordinário. A residência oficial, a parte central do prédio, era algo mais simples do que parecia. O primeiro andar tinha, de importante, o salão de recepção e a biblioteca, onde eu passava a maior parte do tempo quando estava em casa. O segundo andar era o andar das festas, onde tinha os salões verde, vermelho e azul. Lá, também estava localizada a sala de jantar onde meu pai fazia refeições com pessoas importantes. Era um cômodo bonito, porém não o meu preferido. O salão leste sim era um lugar magnífico, onde ocorriam todas as festas importantes que meu pai realizava e onde, geralmente, eu me sentava ao piano para dedilhar algumas notas.
Então havia o terceiro andar.
Todos os outros eram um exagero. O terceiro andar era o que realmente importava. Era a nossa casa. Lá, nós tínhamos os quartos leste e oeste, que serviam para convidados especiais, o quarto do meu pai, junto com seu escritório. O quarto da rainha, que tinha esse nome devido aos convidados que se instalaram lá – na sua maioria, rainhas, o que é bem óbvio. Uma sala de convivência de cada lado servia para momentos descontraídos que quase nunca existiam lá dentro por falta de tempo. A nossa cozinha pessoal talvez fosse a parte mais divertida da casa para mim. Eu poderia ter o que quisesse, na hora que quisesse, e essa era uma parte boa do “poder” que eu tinha. Ao lado do meu quarto, tínhamos um teatro particular, para onde eu geralmente ia nas noites frias de Washington – quase toda noite. E era lá também que ficava o famoso Salão Oval. Era outro exagero, das pessoas que não viviam lá dentro, falar dele como se fosse o lugar mais importante do mundo.
Assim que cheguei ao andar, corri para o meu quarto. Oficialmente, as pessoas o conheciam como quarto de Lincoln. Sim, Abraham Lincoln. Durante o seu período no poder, foi ali que ele ficou. E então, anos depois, ele era todinho meu.
Deixei minha mala em cima da cama e corri para o quarto do presidente, que ficava na posição oposta. Abri a porta e dei de cara com o vazio. Corri até a cozinha e nada. No corredor, sempre encontrava alguns seguranças. Fui até Archie, um baixinho de aparência franzina mas que faria até mesmo , que era do tamanho de um armário, correr como uma menininha.
– Archie, onde estão meus...?
– Sua mãe está participando de um programa televisivo no momento e só volta depois do horário do almoço. Seu pai está no salão verde conversando com os líderes da ONU para resolver a questão da Guerra Civil Síria. Eu sugiro que a senhorita não os interrompa. É uma reunião muito importante e...
– Obrigado, Archie, era só isso que eu queria saber. – Respondi com um sorriso e uma piscada de olho.
Desci as escadas correndo e, então, notei o grande número de seguranças na porta do salão verde. Além de Luke, Joshua, Eli, Jake e Harry – com Jack, que devia estar dentro do salão, eles formavam a equipe pessoal de segurança do meu pai –, outro grupo de seguranças, provavelmente equipes dos tais líderes que encontravam-se ali, estava conversando de forma descontraída. Eu me aproximei sem fazer alarde. Apenas caminhei até a porta e levei a mão até a maçaneta. Só então olhei para trás e percebi que e Joe estavam na minha cola.
– A senhorita não pode entrar! – Um dos seguranças que eu não conhecia disse com a voz elevada.
Eu me virei para ele e dei-lhe uma boa olhada de cima a baixo.
– Você acha que tá falando com quem?
– O meu chefe está aí dentro e ele ordenou que impedíssemos quem quer que fosse de adentrar o recinto. Então vou pedir educadamente que a senhorita se retire imediatamente ou terei que retirá-la à força.
– Você vai ter que fazer o quê? – gritou, posicionando-se entre eu e o outro segurança, como sempre fazia quando queria montar um circo para mim.
Eu até podia dizer que havia química entre eu e . Uma química fraca, mas existia alguma coisa. Talvez houvesse muito mais interação física do que química entre nós, mas havia. O jeito como ele me defendia quando precisava era másculo demais, até mesmo para um segurança que trabalha para a filha do presidente dos Estados Unidos. Eu sabia que ele forçava.
Por cima do ombro de , pude olhar a cara de decepcionado do forasteiro. Coloquei minha mão na maçaneta novamente, olhando nos olhos dele, e abri a porta. Meu pai se virou na minha direção e, levantando atrapalhado, correu para me abraçar. Aquele não era mesmo o presidente dos Estados Unidos. Era o meu pai, e eu estava feliz por poder sentir seu abraço depois de tanto tempo longe.
Infelizmente, aquele momento não podia ser só meu e do meu pai. Se eu pedisse, tenho certeza de que ele interromperia qualquer reunião para poder ficar comigo, mas eu não era chata a esse ponto. Quero dizer, eu era, mas estava controlando isso e procurando relembrar que ele seria meu pai por menos tempo do que era antes. Minha mãe chegou depois, quase perdeu o jantar. Ela tinha participado de um programa de TV e, depois, foi conhecer a casa da apresentadora.
No mais, o final de semana foi o esperado. Meu pai lutava contra tudo que pudesse atrapalhar nossos curtos momentos juntos e minha mãe não parava de fazer perguntas sobre como estava sendo a vida no Texas. É claro que eles voltaram a insistir para que eu desistisse de tudo e ficasse em casa de vez, mas não.
No domingo depois do almoço, tive que enfrentar a despedida novamente. Eu tinha que voltar para a vida de responsabilidade que eu tinha escolhido no sul do país. Tinha que abrir mão de toda aquela mordomia disponível para um mundo onde eu tinha que fazer minha própria comida, dirigir meu próprio carro e arrumar minha própria casa. Era isso o que eu queria, não era? Então, como sempre, a filhinha mimada do presidente teria o que pediu. Só que não!


You've got everything you need but you want accesories, got to hold it in your hands.

A semana estava passando lentamente. Ainda era terça-feira. As memórias do final de semana com meus pais estavam vivíssimas na minha mente. Eu me tranquei no salão de jogos e pedi um pouco de privacidade, alegando que queria estudar um pouco, mas o que eu realmente fiz foi sentar em cima da mesa de sinuca e começar a considerar minhas opções. Eu queria mesmo continuar na faculdade? Quer dizer, eu seria bem sucedida no que eu escolhesse fazer devido à posição do meu pai naquele época. Mas era isso mesmo a minha primeira opção? Medicina Veterinária era o meu sonho mesmoi> ou era apenas mais um na lista de coisas que eu imaginei para mim? Eu tinha consciência de que meus pais eram minha prioridade – sempre seriam – e a faculdade estava começando a atrapalhar isso.
bateu duas vezes na porta e, abrindo-a lentamente, colocou a cabeça para dentro do salão.
– Estou atrapalhando, senhorita?
– Eu podia dizer que não, mas você me chamando de senhorita realmente me dá nos nervos, cara.
Ele sorriu, entrou e fechou a porta novamente.
– Estou tentando.
– Todo mundo consegue, menos você!
– Talvez seja porque eu sou novo demais. A senhorita está bem? Ah, desculpa! Você está bem?
Eu sorri.
– Por quê?
– Porque não parece.
Respirei fundo e olhei para o quadro na parede à minha frente.
– Ser o segurança da filha do presidente é realmente o seu sonho? – Perguntei séria, o que fez com que sua expressão facial mudasse.
– Você está se questionando se fazer a faculdade vale a pena? Não precisa responder, acho que a resposta é bem óbvia.
se aproximou e sentou-se ao meu lado, também em cima da mesa.
– Se não é a sua prioridade, desista. E não, meu sonho não era ser seu segurança, era ser segurança do seu pai, mas a gente vai aceitando o que o destino coloca na nossa frente. Eu não tive escolha. Era pegar ou largar. Mas você tem tudo.
– Já falamos sobre esse lance de “ter tudo”.
Com um pulo, ele desceu da mesa e ficou na minha frente, olhando nos meus olhos.
– O que é ter tudo pra você?
Devolvi o olhar antes de começar a responder.
– Eu vi como você me defendeu sexta quando eu fui encontrar meu pai.
– Não mude de assunto, .
– Você tá me chamando pelo nome, que bonitinho. – Eu disse com um sorriso que ele retribuiu. – É sério, eu vi. Foi... Diferente.
Ele desviou o olhar.
– Ter tudo, meu caro , é ter tempo pra minha família, ter tempo pra viajar pelo mundo, ter tempo pra entrar num relacionamento sério com um garoto que realmente goste de quem eu sou, ter tempo pra ter amigos, ter tempo, sabe...
– Quanto a esse tópico sobre relacionamento sério...
se aproximou, colocando uma mão em cada um dos meus joelhos. Eu estava com as pernas um pouco abertas na posição em que estava sentada, então ele se aproximou mais ainda, abriu um pouco mais minhas pernas e colocou-se entre elas.
– ... Acho que a gente pode começar a tentar resolver.
Seus lábios roçaram nos meus e coloquei minhas mãos na sua nuca. Scott abriu a porta na hora em que ele me beijaria e eu fiquei com raiva instantaneamente. se afastou rápido e Scott limpou a garganta.
– Freddie quer falar com você. – Ele disse para , que imediatamente retirou-se. – O que você estava fazendo?
– Ah, Scott! É sério, para. Você não é meu pai. Ele mesmo sabe que eu sou afim do e não fala nada. Você não vai querer me dar lição de moral, vai?
! Eu não sou seu pai, mas sou o chefe do . E eu não admito isso. Você não precisa seguir minhas regras, mas ele precisa. Eu vou dispensar o por sua causa, porque você não sabe se segurar quando vê um homem.
Desci da mesa de sinuca com uma postura violenta e posicionei-me bem na frente dele, erguendo a cabeça para olhar nos seus olhos.
– Ok. Você quer brincar? Vamos brincar. Foda-se se você é o chefe dele. Eu sou a sua chefe. Não é porque eu tenho 18 anos que você vai me fazer de boba. Você pode dispensar o ? Pode. Mas eu também posso te dispensar e manter ele no trabalho.
– Se eu for embora, a minha equipe inteira vai junto. E eu não vou deixar o aqui com os equipamentos sobre os quais eu tenho responsabilidade. Você vai ser protegida apenas por um cara desarmado?
– Só nos seus sonhos que você vai levar a arma dele embora. Eu já disse. Eu sou a sua chefe. Você faz o que eu digo.
– Sabe qual é o seu problema? Você é apenas uma adolescente mimada que tem tudo o que quer. Você nunca teve que lutar pra conseguir o que quer, nunca teve que se sacrificar pra colocar comida dentro de casa. Você acha que manda em todo mundo, mas em mim você não manda. Você não merece esse mundinho de merda que você tem.
– Esse mundinho de merda me deu um telefone e esse telefone me dá a capacidade de falar com o presidente dos Estados Unidos de graça. Não demora nada pra ele queimar você em todo tipo de lugar pra você nunca mais conseguir um emprego. E, no caso de eu ser realmente tudo isso que você falou... Foda-se! Você continua sendo um merda, não muda a realidade na qual estamos inseridos.
Eu andei para a porta e gritei por .
– Me dá sua arma. – Pedi quando ele chegou.
– O quê?!
– Sua arma! É sério, não to brincando.
Relutante, ele tirou a pistola do coldre na sua cintura e entregou. Verifiquei que tratava-se de uma arma automática, então imediatamente a apontei na direção de Scott.
– Você vai tirar sua arma do coldre e vai colocar ela em cima da mesa de carteado. Depois, você vai andar até a porta da minha casa e nunca mais voltará. Estamos entendidos?
Os dois se assustaram com o meu ato. Scott olhava assustado para mim e, depois de alguns segundos percebendo que eu não estava brincando, fez o que eu mandei. Quando ele saiu pela porta, fiz questão de falar com todos os outros para que repetissem o que Scott fez, mas é claro que lhes dei tempo de recolher seus pertences pessoais e não os ameacei com uma arma.
Era fim de noite. Eu e estávamos sentados na sala, um de frente para o outro, ainda imaginando como ligar para meu pai e contar o que eu havia feito. Às vezes, ele fazia menção de esticar a mão na direção do telefone fixo, porém desistia em um segundo. Eu mesma já havia feito o mesmo algumas vezes. Então eu me decidi e peguei logo o telefone. Disquei o número do meu pai com uma coragem que eu desconhecia. Coloquei o aparelho no ouvido sob o olhar curioso de . Depois de dois toques, meu pai atendeu.
– Filha! Eu já estava ficando preocupado! Você não nos ligou hoje ainda!
– Hm... Bem... Pai... Eu preciso te contar uma coisa.
– Está tudo bem com você, não está?
– Sim, está. Eu to perfeitamente bem, só tem um problema.
– Qual?
– Bem... Eu só to com o aqui.
– Como assim? Onde estão os outros?
– Foram embora.
– Como assim “foram embora”, ? Deve haver uma justificativa!
Respirei fundo e olhei para . Ele estendeu sua mão, segurando a minha e passando um pouco de confiança. Então respirei fundo novamente e contei – da forma mais resumida possível – o que havia ocorrido naquela tarde. Meu pai ficou em silêncio quando eu terminei, um silêncio que me deixou preocupadíssima.
– Volte para Washington.
– Mas pai...
– Sem mais, ! Você vai voltar para Washington amanhã. Um carro irá buscar vocês dois e os levará ao aeroporto para virem para cá imediatamente. Tenho que desligar.
Era a primeira vez em dezoito anos de vida que eu ouvia meu pai falar comigo rispidamente. O olhar que eu direcionei para o preocupou.
– Arrume suas coisas. Vamos sair pela manhã. – Eu disse e levantei, indo para o meu quarto.
Enquanto eu jogava as roupas de qualquer jeito dentro das minhas malas, lágrimas escorriam pelo meu rosto. Horas atrás, eu estava ponderando se deveria desistir da faculdade. E então estava sendo forçada a arrumar minhas coisas e ir embora, mas não queria de jeito nenhum abrir mão de tudo aquilo que eu tinha aprendido a gostar. O pior era saber que a culpa era inteiramente minha, por realmente ter agido como uma idiota em um surto sem razão. Durante meus devaneios, ouvi duas batidas na porta.
– Entra, ! – Gritei.
Ele colocou seu corpo enorme para dentro do meu quarto e ficou em pé, colado à parede ao lado da porta. Seu olhar gritava um pedido de desculpas silencioso que eu retribuí. Provavelmente, ele seria punido de alguma forma também. Seu corpo estava mais rígido do que sempre. Eu forcei o zíper da última mala algumas vezes, mas não obtive nenhum sucesso.
– Pode me ajudar? – Falei baixo.
conseguiu fechar a mala com facilidade. Depois disso, endireitou o corpo e ficou em pé na minha frente.
, eu queria...
– Não... Não fala isso, tá? Talvez seja o empurrão que eu precisava pra tomar minha decisão.
– Isso não justifica. O erro foi meu.
– Na verdade... , eu que tenho que te pedir desculpas. Quem se irritou fui eu. Quem provocou o Scott fui eu. Quem mandou todo mundo ir embora fui eu. Eu coloquei você nessa furada. Me perdoa.
Ele sustentava meu olhar com seus olhos claros.
– Pode me chamar de ... Se quiser, é claro.
Forcei um sorriso educado enquanto afastava meu corpo para que ele passasse. Nós dois queríamos um envolvimento mais íntimo, mas o momento não permitia. Meus hormônios gritavam por ele e, enquanto se retirava do meu quarto, sabia que essa reação era correspondida. Mas eram apenas hormônios, não eram?
Mais tarde, eles se aquietaram. A parte racional do meu corpo trabalhou com afinco durante as horas da madrugada, tanto que não me deixaram dormir. E, por algum motivo sem lógica, eu imaginava que também passava pelo mesmo problema.


And, girl, you and I... We're about to make some memories tonight.

Nunca, estar perto dos meus pais tinha sido ruim. Não até aquele dia. Eles me tratariam como uma adolescente rebelde? Pois bem. Então, como uma adolescente rebelde, eu agiria.
Quando cheguei em casa, corri para meu quarto, sendo acompanhada fielmente por , que não desgrudara de mim desde que entramos no avião para Washington. Eu acreditava que ele estava com medo de enfrentar meu pai. Ele ficou parado na porta enquanto eu me jogava na cama e respirava fundo. Apoiei o peso do meu corpo nos cotovelos, levantando meu tronco para que eu pudesse olhar em seus olhos.
– O que foi? – Ele perguntou, a curiosidade emanando de sua expressão facial.
– Tive uma ideia.
Dei um pulo da cama e corri até ele, pegando sua mão.
– Vem, estou com fome.
– A gente tá vivendo essa confusão toda e você quer me levar pra cozinha? – Ele perguntou divertido e, mesmo assim, seguindo-me.
Olhei para ele, deixando claro que minhas intenções não eram ligadas a qualquer tipo de alimento. Ele sorriu de lado e colocou a mão na minha cintura, puxando-me de volta e fazendo com que meu quadril se chocasse contra sua pélvis.
– Na cozinha, ? – Ele sussurrou no meu ouvido.
– Sabe que eu adoro quando você diz meu nome? É tão delicioso, cada letra...
Nesse exato momento, meu pai se materializou à nossa frente. Nossos corpos se separaram enquanto o olhar irritado do presidente Andrew caía sobre nós.
– Eu quero conversar com os dois.
– Sim, senhor...
– Nada de “sim, senhor”, . Você tá atrapalhando a gente, presidente. – Respondi grosseiramente.
– Desde quando você não me chama mais de pai?
– Desde quando essa merda que você chama de trabalho não te permite agir como tal.
– Você tá revoltada porque eu não lhe permiti continuar a faculdade?
– Eu só to cansada de ser privada de viver o que a minha idade tem a oferecer porque você acha que tá tudo bem me privar, ok? Eu voltei pra casa. Pronto. Não precisa colocar uma equipe de segurança em cima de mim. pode muito bem fazer o trabalho sozinho.
Meu pai fuzilou com o olhar e, depois de um tempo, apontou um dedo acusador na direção de seu peito.
– Já que você é tão capacitado assim, é melhor que realize seu trabalho com perfeição. Do contrário, mando te matar. Estamos entendidos?
Podia escutar a frequência cardíaca acelerada e a respiração pesada de atrás de mim. Eu não ouvi mais nenhum som, então acreditava que ele tinha acenado com a cabeça. Não demorou para meu pai voltasse sua atenção para mim.
– Não terminamos aqui, mocinha.
Ele foi embora e nós continuamos ali. Eu fui a primeira a sair do lugar, virando meu corpo para que ficasse de frente para ele. Empurrei lentamente de volta para dentro do quarto, fechando a porta e levando-o até a beira da cama. Sem emitir nenhum som, ele me puxou com força e colocou seus lábios nos meus em um beijo completo de paixão. Não era desejo, era paixão mesmo. E a delicadeza com que ele me deitou na cama só deixou mais claro o tipo de sentimento que ele nutria por mim.
– Sabe que eu nunca vou deixar nada acontecer com você, não sabe? – Ele disse, alisando a lateral do meu rosto enquanto seu corpo estava sobre o meu. – Eu tenho te acompanhado por onde quer que você vá por quase um ano e não dá mais pra esconder. , você sabe que o que eu sinto por você vai além do profissional, você deixa claro que sabe.
Coloquei a mão no peito de , fazendo pressão. Ele se afastou como se houvesse a mínima possibilidade de que a minha força fosse maior que a dele.
, é tudo muito... Recente. Você sabe que, no momento, o que eu sinto por você é puramente físico, não sabe? – Eu perguntei e ele assentiu. – Eu não quero te prejudicar de jeito nenhum. Você é um cara legal, eu gosto de você. Então, por favor, tenha certeza do que você tá fazendo.
Ele pareceu ponderar sobre o que eu tinha dito por alguns instantes e, depois, voltou-se para mim e beijou-me tão lentamente quanto da primeira vez.
– Que seja só físico por enquanto. – Ele disse com um sorriso maroto nos lábios, colocando as mãos fortes na minha cintura e puxando-me para um beijo um pouco mais carregado de luxúria, o que guiaria nós dois até a hidromassagem do meu banheiro e ocuparia o tempo de toda a manhã.



– Você está dormindo com o segurança. – Minha mãe disse com assombro.
Eu sentei na poltrona onde estava lendo na biblioteca. Fechei o livro e o depositei na mesa de centro. Olhei para minha mãe como se eu fosse uma psicanalista pronta para começar a analisar minha paciente.
– Por quanto tempo, ?
Desviei o olhar.
– Eu perguntei por quanto tempo! – Ela elevou a voz pela primeira vez. – Eu te fiz uma pergunta, ! Tenha a decência de me responder!
Respirei fundo, controlando todas as emoções e as frases formadas na minha mente para que nada se exteriorizasse.
– Três meses.
– Três... O quê?! Você voltou para casa só para passar a dormir com o seu segurança pessoal, ? O que seu pai diria sobre isso?
– Que ela já é bem grandinha pra ter conhecimento das besteiras que ela está fazendo e dos riscos que ela está correndo. – Meu pai disse ao entrar na biblioteca. – Ava, deixe-a. O recado já foi dado: se der errado, se der algum problema, ela não terá nosso apoio. Simples assim.
Por um momento, achei que minha mãe ia levantar meu pai pelo pescoço.
– Você sabia?
– Ora, Ava! Estava bem claro. Não me venha com essa.
Ele deu a volta na poltrona onde eu estava sentada e colocou as mãos no meu ombro, massageando-os.
, eu te amo, mas você vai ter que aceitar quaisquer que sejam as consequências desse seu relacionamento.
– Eu sei, pai, o senhor já falou isso para mim.
– Viu? Problema resolvido! Agora vamos, Ava.
– Pra onde vocês vão?
– Seu pai tem um compromisso em Oklahoma. Já havíamos conversado sobre isso.
Minha mãe se aproximou e depositou um beijo sem emoção de cada lado do meu rosto. Quando meu pai chegou mais perto, eu me levantei e permiti que ele me desse um beijo na testa.
– Nós te amamos, filha.
– Mas temos que amar menos. Ela não está merecendo isso tudo. Não quero saber de problemas enquanto estivermos fora, entendeu, ? – Minha mãe disse, o que eu respondi com um aceno.
Terminei ler o capítulo de A Sombra do Vento, cuja leitura minha mãe havia interrompido. Quando estava guardando o livro de volta na estante, senti mãos fortes envolvendo minha cintura de um jeito que eu já conhecia perfeitamente. arrastou a barba por fazer na pele exposta do meu pescoço, provocando. Deixei que um gemido baixo escapasse por entre meus dentes enquanto eu fechava meus olhos e imaginava o desfecho que aquela “brincadeira” teria.
– Vá se arrumar. – Ele sussurrou no meu ouvido.
– Ok, você não falou sacanagem, então minha mente ficou meio confusa. – Eu disse e virei para ele, beijando rapidamente seus lábios. – Dá pra repetir? – Pedi, rindo.
– Eu quero que a senhorita vá se arrumar. Vou te levar para jantar fora. – Ele disse com um dos sorrisos mais sinceros que eu já havia visto.
Olhei para ele e reparei que ele não vestia seu uniforme normal. Em vez disso, uma camisa polo de algodão cobria seu corpo e uma calça social o envelhecia, no mínimo, três anos.
– Acho que você já está pronto.
Ele fez que sim com a cabeça, sorrindo.
– Você vai dirigir?
acenou positivamente de novo.
– Ok, então me espere no carro em frente à porta de entrada. Eu estarei pronta em dez minutos, no máximo.
Beijei-o novamente e corri pelas escadas até meu quarto. Foi uma ótima escolha ter tomado banho antes de descer para a biblioteca. Coloquei uma calça jeans e uma blusa de manga comprida, continuando com o All Star que estava usando antes. Como sempre, executei meu ritual de colocar o celular e a carteira nos bolsos da calça e, na mesma velocidade alta com a qual tinha subido, desci os degraus da Casa Branca.
estava parecendo poderoso atrás do volante do Audi R8 V10 blindado que era justamente para ele usar quando saíamos pela cidade. Não era exatamente o disfarce perfeito, mas era dentro dele que eu passava os momentos mais próximos da vida normal.
Nós jantamos no Four Seasons, um hotel maravilhoso cujo restaurante servia pratos incomparáveis. Durante a refeição, ficamos concentrados em conversar sobre assuntos do cotidiano, deixando de lado tudo o que pudesse possivelmente envolver o trabalho dele ou do meu pai. Enquanto esperávamos o garçom trazer a conta, um flash foi disparado na minha direção. Instintivamente, arrastou uma cadeira para o meu lado, cobrindo-me facilmente com seu corpo. O gerente do restaurante, imediatamente, se aproximou e fechou as persianas, que esconderam o interior do aposento. Agradeci a ele com um olhar enquanto se reposicionava.
– O que foi isso?
– Isso é o resultado de você estar saindo com a filha do presidente. – Eu disse com um sorriso, mas não tão feliz quanto aparentava.
– Sobre isso... – Ele disse baixinho, talvez achando que eu nem fosse escutar.
– O quê?
– Nada, me desculpa, eu tava pensando alto.
– Não. Você ia dizer alguma coisa. O que é, ?
Ele suspirou, sorrindo.
– Acho que o que você sente quando te chamo de “senhorita” é algo bem próximo do que eu sinto quando você me chama de , se não é o mesmo sentimento.
Eu sorri e estiquei-me sobre a mesa, alcançando seus lábios por alguns segundos.
– Por favor, me conta.
Ele esticou o braço para, com a ponta dos dedos, acariciar meu antebraço.
– Eu quero te pedir em namoro oficialmente pros seus pais quando eles voltarem de Oklahoma no domingo.



aguardou pacientemente na porta principal da casa desde nove horas da manhã, horário em que meus pais deveriam estar chegando à capital. Eu mantive distância, esperando o pior. Quando a comitiva presidencial estacionou na frente da casa e meus pais saíram do carro, acompanhados por seus respectivos seguranças, avançou na direção deles e eu corri para acompanhá-lo.
– Senhor presidente, senhora primeira dama, eu gostaria de falar com vocês, se possível.
, acabamos de chegar de viagem. Estamos cansados. Isso não pode esperar?
– Na verdade, eu preferiria antecipar o máximo possível esse pedido.
Minha mãe parou contra sua vontade, deixando bem claro que não gostava mais de . Meu pai o olhava com curiosidade estampada em sua linguagem corporal.
– Eu sei que é tardio e que eu deveria ter pedido isso antes, mas quis esperar para que tivesse certeza de que era a decisão certa a se fazer.
– Vamos, , diga.
– Quero pedir permissão para namorar a filha de vocês.
Ela nem tentou disfarçar. Minha mãe bufou, jogou a alça de sua bolsa de qualquer jeito no ombro e, como uma criança fazendo pirraça, afastou em direção à escadaria. Eu ainda olhava esperançosa para meu pai que, depois de quase perder minha admiração como filha, voltou a ser mais atencioso e procurava apoiar-me em tudo, dando sempre conselhos sobre o que eu estava fazendo e encaminhando-me para a independência de verdade. Seus olhos analisavam profundamente , deixando-o completamente tenso.
– Bem... – Meu pai começou a responder lentamente. – Não vejo motivo para não permitir! Sejam responsáveis, jovens.
Ele piscou o olho para nós dois. Eu encarei , surpresa.
– Então é isso? – Ele me perguntou.
– É... – Respondi, ainda olhando para meu pai enquanto ele começava a subir os degraus. – Acho que sim... Namorado.


When you're lost, you'll find a way, I'll be your light.

Eu parecia uma idiota. Estava reclamando de estar sendo forçada a fazer o que todo jovem na minha idade gostaria: absolutamente nada. Comecei a pensar que talvez pudesse ser ridícula ao ponto de aceitar isso, e eu fui. Deixei que meu pai me forçasse a dedicar-me exclusivamente aos seus eventos mais importantes, e o resto resumiria-se a viagens para cidades paradisíacas e horas gastas na biblioteca de casa.
Meu relacionamento com não era dos melhores, mas era de admirar que, mesmo vendo que nós nos dávamos muito bem e que ser meu namorado não impedia de realizar sua função como meu segurança, minha mãe ainda estivesse olhando para ele com cara feia. Nós já tínhamos alcançado um mês e meio de um namoro cheio de sarcasmo, brincadeiras e "pegação" nas horas mais inusitadas. Eu não podia reclamar, podia?
Claro que podia!
Eu queria mais que aquilo. Queria meu pai só para mim. Embora estivesse agindo como uma adolescente rebelde, eu ainda amava meus pais acima de tudo e queria que – não importasse qual fosse a minha decisão – eles me apoiassem, mesmo enchendo de críticas, porque significaria que eles se importavam e isso era o que eu queria. Talvez eu tivesse mesmo que agradecer pela oportunidade que eu estava tendo e parar de reclamar.
Forçada a agir como filha do presidente, decidi então dedicar-me a uma boa causa. No mínimo uma vez por semana, eu visitava o Children’s National Medical Center para fazer trabalho voluntário com crianças vítimas de câncer. Era uma causa nobre e eu comecei a me orgulhar de mim mesma e deixar um pouco de lado o antes tão necessário apoio dos meus pais. Além disso, comecei a dar muito mais valor à minha vida.
– Tia, você pode ler uma historinha pra mim?
Os olhos verdes brilharam na minha direção. Zoe era uma adorável garotinha de quatro anos de idade, vítima de leucemia. Mesmo a doença estando levando-a aos poucos, ela ainda tinha a capacidade de sorrir como se todo dia fosse Natal. Seus pais trabalhavam arduamente para conseguirem pagar o custo do hospital, lutando com todas as suas forças para manter a filha viva.
– Claro, minha linda. Qual você quer que eu leia?
– Aquela com o cavalinho na capa. – Ela disse com a voz infantil, apontando o pequeno dedo para uma das várias mesas onde, em cima, estava minha bolsa e o livro que eu estava lendo, Uma Longa Jornada, do Nicholas Sparks.
– Mas aquele livro é de gente grande, Zoe.
– Eu queria ouvir a história mesmo assim.
– É muito grande pra você, pequena. Que tal escolher uma da estante de livros pra você? Qualquer uma!
– Qualquer uma? – Ela perguntou com os olhos brilhando mais intensamente.
Eu sorri em resposta enquanto observava Zoe correr até a estante e trazer nas mãos um livro pequeno sobre a Cinderela, entregando e sentando-se à minha frente. Então eu me sentei ao seu lado, puxando-a para que ela se sentasse no meu colo. Abri o livro, cuidando para que ela pudesse ver todas as imagens. Em um segundo, um grupo de dez crianças tinha sentado ao nosso redor. Quando terminei a história, uma mão bateu em meu ombro.
– Temos que levar a Zoe para fazer punção. – O doutor Brook disse.
Senti Zoe se encolhendo nos meus braços.
– Eu não quero ir. – Ela gemeu. – Tia , não deixa eles me levarem.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, o que fez com que os meus se encontrassem no mesmo estado.
– Zoe, você tem que ir. Lembra? É pra curar o dodói.
– Mas eu não quero, tia , não quero. Dói muito. Não deixa eles me levarem, tia , por favor.
– Zoe, você tem que ir! A tia não pode fazer você ficar. Se eu pudesse, não ia deixar você fazer isso nunca, mas você tem que ir, Zoe.
– Vem comigo então, tia .
Eu respirei fundo. Será que conseguiria realmente aguentar a cena? Lembrei-me de quando vi o cavalo morto no hospital e quase desmaiei. Eu não tinha condição emocional nenhuma de ir com ela, mas eu precisava. Fiquei de pé e peguei-a no colo.
– Você tem certeza disso, senhorita ? – Brook sussurrou para mim enquanto eu afirmava com a cabeça. – Então vou levá-la para se vestir adequadamente. Zoe, quer vir comigo?
– Não! – Ela disse e enfiou a cabeça entre meu queixo e meu ombro, escondendo o rosto e apertando-me entre seus bracinhos com o pouco de força que restava em seu corpo.
– Zoe, olha pra mim. A tia tem que colocar uma roupa de médico pra poder ir com você. Eu já vou voltar, prometo.
Começamos a andar pelos corredores do hospital até as devidas salas. Eu estava certa em questionar sobre aguentar ou não a cena. Eu segurei as pequenas mãos de Zoe durante todo o tempo mas, quando o doutor Brook colocou a agulha nas suas costas, o grito que escapou de sua garganta fez com que eu sentisse a dor dela. Chorei compulsivamente enquanto assistia a pequena e indefesa Zoe dizendo que não aguentava mais e pedindo para que eu a levasse para longe dali. Eu devia ir embora, mas fiquei até ela adormecer, exatamente o momento em que seus pais chegaram.
– Senhorita . – O pai de Zoe disse, estendendo a mão para me cumprimentar.
, por favor.
– Nós ficamos sabendo sobre o que tem feito com nossa filha. Eu só queria dizer muito obrigado. – Ele disse emocionado.
A mãe de Zoe se lançou na minha direção. , do lado de fora do quarto, observava tudo. Mesmo no hospital, eu tinha sempre um segurança na minha cola. Eu olhei para ele, deixando claro que tudo estava bem. Enquanto ela me abraçava, senti seu corpo tremer com os soluços. Um som estridente saiu da sua garganta enquanto ela chorava. Meio sem jeito, devolvi o abraço, passando a mão de leve em seus cabelos. Quando ela me soltou, colocou uma mão de cada lado do meu rosto.
– Muito obrigada. Muito obrigada mesmo. A Zoe é tudo pra mim e estar longe dela, não poder acompanhar o seu tratamento, tudo tem me causado uma dor horrível.
Com lágrimas nos olhos, sorri e tentei demonstrar confiança.
– Ela vai ficar bem. – Disse com medo de que minhas palavras não virassem realidade.
Fiquei lá durante a noite conversando com Anna e Patrick Donavan, pais de Zoe. Eles me contaram a história da pequena que eu tinha aprendido a amar em instantes. Escutei sobre como Patrick se sentiu a pessoa mais feliz do mundo quando Anna descobriu que estava grávida, sobre como Zoe nasceu perfeita, sobre suas primeiras palavras e seus primeiros passos. É claro que também ouvi sobre o aparecimento dos primeiros sintomas da leucemia e sobre como a doença tinha progredido de forma rápida. A cada momento, eu segurava na mão dos dois e tentava tranquilizá-los, falando palavras de conforto.
Pela manhã, procurei , que havia dormido em um canto da sala de espera enquanto deixava Paul, um integrante da nova equipe de seguranças, tomando conta de mim. Ele se assustou com a minha aparência, cansada por causa da noite que havia passado em claro, levantando-se rapidamente e passando a mão nos lados do meu rosto.
– Eu quero ir pra casa. – Minha voz saiu arrastada.
– Isso tá bem óbvio. Você precisa dormir.
– Não vou dormir. Só vou tomar um banho e trocar de roupa. Vou voltar para cá.
– Mas seus dias aqui não são só às quartas?
– Eu vou ficar com Zoe, . Por favor. Me leva pra casa o mais rápido possível. Tenho que voltar antes de Anna e Patrick irem embora. Prometi isso a eles.
Ele suspirou e abraçou-me.
– Eu to orgulhoso de você. Seus pais também tão, tenho certeza. E devem estar muito mais orgulhosos do que eu estou.
Eu tentei sorrir, mas não encontrei forças. Minha rápida passagem em casa foi exatamente como eu tinha planejado: tomei banho, juntei alguns pertences, deixei um recado para meu pai e voltei imediatamente para o hospital.
– Eu vou lhe pagar isso de alguma forma. Você não sabe o quanto isso significa para nós! Deus lhe abençoe, . – Anna me disse quando estava despedindo-se.
– Eu sou um ser humano. Apenas estou fazendo minha parte como tal. E eu amo a filha de vocês, Anna. No que precisarem, podem contar comigo.
Ela sorriu em gratidão e Patrick fez o mesmo, ambos com semblantes cansados e dirigindo-se com pressa para o trabalho que os ocuparia durante o dia inteiro. Enquanto isso, eu mexia alguns pauzinhos para tentar organizar uma forma de bancar integralmente o tratamento da pequena. Encaminhei-me para o quarto de Zoe com pressa, entrando no exato momento em que ela começava a acordar.
– Tia ? – Ela disse sonolenta. – Já é quarta de novo?
– Não, minha querida. – Eu disse, ficando ao lado dela na cama e acariciando seu braço, já que ela não possuía mais nenhum fio de cabelo. – Eu vou ficar com você aqui agora durante os dias e seu papai e sua mamãe virão de noite.
Ela sorriu e fechou os olhos. A fraqueza estava evidente nela. Constatar isso causou uma pontada de dor no coração, o que já era comum nos dias que eu passava ali no hospital. No mesmo instante, ela adormeceu novamente. E era assim quase todos os dias.
Zoe não tinha mais energia para sair e brincar com as outras crianças. Aua vida era em cima da cama. Um fisioterapeuta aparecia todo dia para realizar alguns exercícios com ela, que dormia durante grande parte da sessão. Todo dia, eu via que a doença a estava levando para cada vez mais longe desse mundo.
Era segunda. O sol havia desaparecido. O dia parecia prever o que estava para acontecer. Brook entrou ofegante no quarto.
– Vamos prepará-la pra cirurgia. O pai é um doador compatível. Não temos tempo. Estamos levando a Zoe agora pra fazer o transplante de medula.
Zoe abriu os olhinhos com dificuldade.
– Você escutou? Eles vão te curar. Você vai ficar bem, Zoe. Escutou isso?
Ela sorriu, coisa que não fazia há muito tempo. Sua mão procurou a minha e ela a apertou levemente. Nós já havíamos conversado sobre como seria esse dia. Eu havia dito que não poderia estar com ela durante a cirurgia, mas que estaria assistindo e seria a primeira pessoa que ela veria quando acordasse. Tinha prometido isso para ela.
– Eu vou ficar te esperando, ok?
Fui para a janela do quarto e liguei para Anna, avisando que iam operá-la, mesmo que fosse claro que aquilo já seria do conhecimento dela. Ela pediu, chorando de felicidade, que eu lhe enviasse notícias assim que possível porque não conseguiria folga do trabalho. Desliguei com pressa e corri para a sala de observação acima do centro cirúrgico, de onde poderia assistir a cirurgia. Meu coração batia forte. Eu estava confiante. Em semanas, Zoe estaria bem, eu a levaria para conhecer minha casa e veria a pequena correr por aí como uma criança, como havia dito que faria.
se sentou ao meu lado e segurou na minha mão, sorrindo e transmitindo mais confiança ainda. Eu apertei sua mão e sorri também.
– Vai dar tudo certo, .
– Vai sim, meu amor. – Ele disse e abraçou o meu corpo.
– Ei... Me desculpa por não estar te dando tanta atenção ultimamente. É que...
– Eu entendo, ok? – Ele sorriu. – Temos coisas mais importantes agora.
apontou para a maca entrando com Zoe, já devidamente anestesiada. Patrick entrou logo depois, também dopado. Os segundos pareciam nunca acabar. Cada procedimento levava séculos para ser realizado. Percebi que estava suando frio. Por alguns instantes, eu me imaginei ali. Talvez não fosse Medicina Veterinária o meu sonho. Talvez fosse Medicina humana. Eu ia amar salvar vidas humanas. Claro que as vidas dos animais para mim tinham o mesmo valor. Mas, naquele momento, eu só conseguia imaginar que podia ser eu, ali, salvando a vida da pequena Zoe.
De repente, a movimentação entre os médicos e enfermeiros se tornou mais intensa. Olhei preocupada, procurando algum sinal de que algo estava dando errado. Quando vi a mesa do desfibrilador sendo empurrada para perto de Zoe, meu coração disparou feito louco. Eu achei que ia ter um infarto. O monitor que era usado para indicar os sinais vitais dela deixava claro que, naquele momento, seu coração não batia. Eu levantei imediatamente, as pernas travadas, indecisas entre ficar ali ou correr até lá.
O pequeno corpo de Zoe pulava na mesa cirúrgica enquanto os médicos tentavam fazer de tudo. Vinte minutos já haviam passado. Eu não precisava fazer faculdade nenhuma para saber que era tempo demais. Brook olhou lá de baixo para mim e eu li seu olhar, confirmando o meu medo.
Abri a porta da sala de observação e desci as escadas correndo. Mesmo sabendo que não estava devidamente pronta para estar em um centro cirúrgico, entrei correndo. Brook me segurou perto da porta, enquanto eu lutava para me aproximar de Zoe.
, saia daqui, você não tá devidamente preparada para estar aqui dentro!
– Eu preciso salvar ela, Brook.
– Não dá, . Olha pra mim. Olha nos meus olhos. Eu tentei. Eu fiz o possível. Todo mundo sabia que era arriscado demais. Ela não resistiu. A chance existia, com o organismo fraco que tinha. , ela descansou.
Eu me afastei de costas lentamente até a porta de entrada, olhando ainda para o monitor com esperanças de que tudo aquilo fosse um pesadelo. Assim que entrei no corredor, caí no chão e deixei um grito alto escapar de dentro de mim. Zoe tinha perdido a luta para a leucemia. Eu não a veria acordar, não a levaria para conhecer minha casa, não poderia cumprir nenhuma das promessas que tinha feito a ela.
Junto com Zoe, parte de mim também se foi.


And it hurts 'cause I know you won't be mine tonight.

Recomeçar, recomeçar, recomeçar. Essa palavra ecoava insistentemente na minha cabeça. Desde que meu pai tinha se tornado presidente, tudo que eu escolhia fazer ou era proibido por meus pais ou dava errado. E sim, estava dentro desse “tudo que eu escolhia fazer”, afinal de contas, estar em um relacionamento sério era um dos itens da minha lista de coisas que eu queria fazer antes de morrer. Para a filha do presidente dos Estados Unidos, não era tão simples assim.
, você nem tocou na comida. – Minha mãe falou quando eu levantei da mesa.
– É, eu sei.
– Isso é pra você se encontrar com o segurança mais cedo?
– Mãe! Primeiro: se fosse, o problema era meu. Segundo: o nome dele é . Se quiser, você pode até chamar ele de . Mas não. Você me conhece por quase vinte anos e deveria saber que eu, sendo do jeito que sou, não deixaria de comer por um garoto.
– Você tem deixado seus pais de lado por causa do . – Ela disse o nome dele com claro desgosto.
– Não, eu não tenho feito isso mesmo! Se você não olha mais na minha cara só porque eu to namorando o “segurança”, – Eu disse, fazendo as aspas no ar com os dedos. – o problema não é meu, mãe. É só perguntar pro meu pai, porque ele não tem agido como criança. Quer saber? Cansei! Vou sair.
– Volte aqui, mocinha. Você não pode falar comigo assim.
Empurrei a cadeira de qualquer jeito e ela caiu no chão. Não me preocupei em voltar e ajeitá-la no devido local. estava subindo quando eu comecei a descer as escadas em alta velocidade. Fiz com que ele se virasse e voltasse a descer. Logo atrás, minha mãe nos seguia, gritando.
Quando cheguei ao primeiro andar, cruzei o hall principal e saí pela porta, pronta para pegar o primeiro carro disponível e ir para longe de casa. Foi tudo muito rápido, eu mal pude pensar no momento. se jogou na minha frente e eu fui derrubada. Em algum lugar na minha mente, eu recordava de ter ouvido um estouro. Olhei para meu ombro e vi sangue. Será que tinha causado um machucado tão grave assim? Mas eu não sentia nenhuma dor. Talvez fosse porque o sangue ainda estava quente.
Sentei no chão mesmo, tentando colocar as coisas em ordem. Minha cabeça girou levemente enquanto eu respirava fundo.
– Merda, acho que bati com a cabeça... , por que você fez aquilo? – Perguntei com os olhos fechados e a cabeça entre os joelhos, fazendo de tudo para melhorar.
Recebi um silêncio como resposta.
– Ei, , você me escutou?
Ao elevar minha voz, minha cabeça girou com mais força, então simplesmente abri os olhos de forma calma e virei a cabeça bem devagar. Quando meus olhos fitaram , ele ainda estava no chão, deitado de bruço, e uma poça de sangue começava a aumentar em volta do tronco dele. Outros seguranças corriam na nossa direção. Minha mãe, ainda na porta, olhava para nós dois, imóvel. Minha reação imediata foi lançar o meu corpo por cima do dele, virando-o de barriga para cima. Seus lábios e olhos cerrados diziam o quanto ele estava sofrendo. No seu peito esquerdo, uma bala havia causado um estrago e era de lá que todo aquele sangue estava saindo.
– O que você fez? – Perguntei assustada com as mãos no seu rosto.
– Se não fosse eu, era você. – Ele disse com extrema dificuldade.
– Mas que merda, ! Você não precisava ter entrado na frente!
– Precisava sim.
Lágrimas começavam a aparecer nos meus olhos enquanto eu ficava consciente de que um grupo grande de pessoas estava à nossa volta.
– Você morreria por mim? – Perguntei com a voz falhando.
– Claro. – Ele sussurrou de volta. – É o meu trabalho.
– Tragam uma ambulância para cá agora! – Tracy, uma das poucas mulheres na equipe de segurança da casa, gritou no rádio em seu ombro.
O vento estava frio, mas tirei meu casado e coloquei em cima da ferida, fazendo pressão para que o sangue não continuasse saindo. Minha mãe ficou ao meu lado, sem reação nenhuma, apenas observando enquanto eu me desesperava cada vez mais. Ele não estava conseguindo mais manter os olhos abertos e meu coração bateu mais forte.
– Ei, fica comigo, .
O peito dele já não subia mais com tanta frequência, sua respiração estava enfraquecendo mais e mais. Tirei uma das mãos de cima do ferimento e alisei a lateral de seu rosto.
– Amor, olha pra mim. Fica acordado, fica olhando pra mim. Não tira os olhos de mim, amor, por favor, eu te imploro. Não fecha esses olhos. Por favor, amor. – Eu falei com a voz suplicante.
Ele apertou os olhos e deu um sorriso fraco mas sincero, sussurrando alguma coisa que eu não consegui entender.
– O que você disse?
– Eu te amo.
Aquelas três palavras só serviram para aumentar ainda mais o aperto que eu já sentia no meu coração.
– Não aja como se estivesse se despedindo, . Para com isso! Você é enorme. Esse sangue que saiu de você... Tem muito mais dele aí dentro. Vamos, , você vai ver que não é nada. Você consegue. – Eu tentava animá-lo a todo custo.
– Se eu não voltar... – Ele disse bem baixinho.
– “Não voltar”? Você enlouqueceu? É claro que você vai voltar!
– Se eu não voltar, – Ele disse com um pouco mais de força, o que exigiu um grande esforço de sua parte. – fique sabendo que não foi só porque é meu trabalho. Eu prefiro morrer mil vezes a perder você, minha . Eu te amo.
O resto de suas forças se esvaiu lentamente de seu corpo. Eu estava certa de que estava morrendo na minha frente e eu não podia fazer nada. Quando a ambulância chegou, o paramédico colocou os dedos no pescoço dele.
– Sem pulso, traga o desfibrilador. – Ele disse para o outro paramédico que estava mais perto do carro.
Eu vi a cena da morte de Zoe repetindo-se na minha frente. Eu faria vinte anos de idade no domingo daquela semana e estava passando por problemas demais para alguém da minha idade. Meu pai, que estava numa reunião importante, largou tudo para voltar para casa. Ele chegou no exato momento em que tentavam ressuscitar . Senti seus braços envolvendo-me e todo meu desespero foi libertado na forma de um choro angustiante.
– Temos pulso! – O mesmo que tinha pedido o desfibrilador gritou.
Por um segundo, eu senti o ar faltando. Ele colocou o dedo novamente no pescoço dele.
– Ele está vivo, mas não está fora de risco. Vamos levá-lo pro hospital agora.
– Eu vou junto. – Disse, imediatamente libertando-me do abraço do meu pai e limpando as lágrimas que rolavam pelo meu rosto.
Minha mãe olhou para mim, repreendendo-me silenciosamente.
– Não importa o que digam, eu vou junto. – Repeti.
Todos os olhares pairaram em mim. Respirei fundo e mantive uma postura ereta, tentando parecer forte em todos os sentidos. Depois de segundos de silêncio, os paramédicos se movimentaram, quebrando a tensão do momento, e foram pegar a maca para colocar dentro da ambulância. Eu entrei logo atrás dele, segurando sua mão, incerta sobre ele estar consciente de que eu estava ali.
Enquanto ele passava nove horas na mesa de cirurgia, eu ficava andando de um lado para o outro na sala de espera. Não me importava que ele fosse “apenas” o segurança. Ele era meu namorado. Eu tinha me envolvido emocionalmente com ele. Precisava que ele ficasse bem, principalmente depois de não ter respondido a tempo o “eu te amo” dele. Se eu o amava? Bem, talvez não. Mas o que eu sentia chegava bem perto.
Quando o médico apareceu, senti todo meu sangue parando de circular. Depois de levantar rapidamente, não consegui mais pensar ou me mover.
– Senhorita . – Ele disse ao se aproximar, cumprimentando-me com um aceno de cabeça.
– Doutor, por favor, diz que ele tá bem.
– Bem... A situação dele é estável e ele não corre risco de vida...
– Graças a Deus.
– ... mas temos um problema.
Meus olhos ficaram mais abertos que o normal enquanto eu encarava assustada o médico que tinha operado .
– A bala perfurou o corpo do senhor na diagonal, da esquerda para a direita. Ela passou muito rente ao coração mas, felizmente, não o atingiu.
– Isso é um bom sinal, não é? Isso não pode ser um problema!
– Senhorita , a bala atingiu a coluna vertebral do senhor . Seu segurança não poderá mais exercer a sua profissão.
– Por quê?
– Senhorita , o senhor perdeu o movimento das pernas.
Meu mundo girou rapidamente. Caí na cadeira, a respiração falhando. Uma dor no meu peito começava a formar-se gradualmente. O médico se abaixou à minha frente, demonstrando-se atencioso ao colocar as mãos nos meus joelhos com cuidado.
– Nós tentamos de tudo. Existe uma pequena possibilidade de esse quadro ser reversível, mas acreditamos que qualquer procedimento urgente pode trazer risco à vida do senhor . É uma região arriscada demais pra se trabalhar.
Levei alguns minutos, com certeza, para assimilar tudo aquilo. Mas o doutor foi paciente e aguardou que eu me recuperasse da notícia.
– Quando eu vou poder vê-lo? – Perguntei com dificuldade.
– Ele está dopado, ainda sob efeito da anestesia. Vai ficar em observação por quarenta e oito horas na Unidade de Tratamento Intensivo e, logo depois, irá para o quarto. Se quiser, volte pra casa. Assim que ele estiver pronto para ser levado para o quarto, eu lhe informarei.
Assenti com a cabeça. Ele olhou para mim mais uma vez antes de sair pela porta que levava para a recepção do hospital. Joguei a cabeça para trás, encostando-a na parede, respirando fundo e tentando manter a calma. Eu sabia que aquela bala era para mim.
Dois dias depois, vi quando chegou ao quarto desacordado mas, mesmo assim, eu me coloquei de pé ao seu lado. A cena me lembrava muito o que eu tinha passado com Zoe. Tratei de afastar aqueles pensamentos da minha mente no mesmo instante em que eles chegaram. estava bem. Ele ia ficar bem, apenas não voltaria a andar. Apenas.
Era manhã do outro dia quando ele finalmente acordou. Seus olhos se abriram lentamente e, por mais que fosse claro que ele estava em um quarto de hospital, ele sorriu.
– Oi. – Ele disse bem baixinho, lembrando a voz que ele tinha usado no outro dia, quando eu quase assisti sua morte.
– Oi. – Eu disse, tentando sorrir o máximo possível. – Como você tá? – Perguntei, segurando sua mão com carinho.
– To achando que eu morri e fui pro céu. – Ele brincou. – O que aconteceu?
– Você levou um tiro. No meu lugar.
– Sim, dessa parte, eu me lembro. E então? Eu to vivo mesmo?
– Tá sim, meu amor. Os médicos conseguiram retirar a bala e...
Toda circulação fugiu do meu rosto. Senti que estava empalidecendo e o olhar de cauteloso sobre mim me alertava de que deveria agir o mais normalmente possível.
– O que houve, ?
– N-nada. – Eu gaguejei. – Enfim, você vai ficar bem.
Tentei sorrir, mas sabia que tinha fracassado.
– Eu não to sentindo nada da barriga pra baixo. Isso é normal?
As palavras dele me atingiram como a bala que ele levou por mim. Dentro da minha mente, eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, alguém teria que contar para ele, mas preferi esconder. Era emoção demais para alguém que estava saindo de uma cirurgia. Então escolhi mentir.
– O médico falou que você ia sentir isso. É temporário.
E durante todos os dias, por uma semana, eu me mantive ali, ao seu lado, insistindo em não contar nem permitir que alguém contasse para o que realmente tinha acontecido. Passei meu aniversário inteiro lá, ao seu lado, pagando uma parcela extremamente mínima da dívida eterna que eu tinha com ele. Eu devia tudo a ele. A culpa era minha de estar naquela situação. Eu tinha deixado meu namorado sem poder andar.
No sétimo dia no hospital, meu pai providenciou uma equipe para que fossem tratá-lo em nossa casa. Ele estava mais preocupado comigo do que com em si, mas aceitei. Assim, ele teria o máximo de conforto possível e eu poderia começar a prepará-lo para receber a notícia.
Noite de terça. O frio em Washington, como sempre, estava acabando com todas as minhas energias. Eu estava deitada ao lado de , acariciando seus cabelos, que estavam mais compridos que o normal. Ele estava lindo daquele jeito. Enquanto eu o apreciava, adormecido como um anjo, meu pai entrou no quarto silenciosamente, apontando com a cabeça para a porta. Saí da cama com cuidado para que ele não acordasse e retirei-me do quarto, fechando a porta lentamente para não fazer barulho.
– Precisamos conversar. – Meu pai disse. – Queriam vir falar o que eu tenho pra te dizer, mas eu acho melhor você escutar isso de mim. Até porque parte do que eu tenho pra dizer envolve uma decisão minha.
– Pode dizer.
– Bem... Nessa situação em que o se encontra, é óbvio que ele não vai mais poder trabalhar como segurança pra ninguém.
Assenti com a cabeça. Meu corpo inteiro parecia pressentir que algo de ruim estava para acontecer.
– Seu namorado foi dispensado, filha. É claro que vocês vão poder continuar se vendo. Eu não vou impedir nada. Acho até saudável que você tenha um relacionamento como o que tem com o , mas tem um problema.
– Qual?
– Ele não pode ficar aqui. , você não come mais. Você parou sua vida pra não sair nenhum instante do lado dele. E vocês não estão em um relacionamento tão sério assim que já o permita morar com você. Eu vou continuar bancando o tratamento dele, mas ele não pode ficar aqui. Aluguei uma ótima casa pros pais dele aqui perto. Eles ficarão lá até que... Bem, até quando quiserem.
Decidi não questionar. Depois, podia até reclamar mas, naquele exato momento, não tinha forças para brigar. Nem era isso que eu queria.
– E ele tem que saber, filha. Eu entendo que você quer que seja você a revelar isso pra ele, mas já passou da hora. Você precisa tomar coragem. Sua mãe quer que você vá almoçar. Ela está te esperando na sala de jantar.
– Mas, pai, se o acordar...
– Eu fico aqui por enquanto. Apenas vá.
Respirei fundo e movi minhas pernas de forma extremamente mecânica para a sala de jantar. Minha mãe estava sentada na ponta. Um prato foi posto para mim ao seu lado, mas comi sem falar nada. Voltei para o quarto com passos largos e rápidos, ansiosa para vê-lo de novo. A cena que encontrei não me agradou nem um pouco. Uma cadeira de rodas foi posta ao lado da cama e um dos enfermeiros ajudava a vestir-se. Olhei confusa para o conjunto de acontecimentos.
– O que...? – Comecei a falar baixo.
olhou para trás, os olhos marejados.
– O que tá acontecendo?
– Eu to indo embora.
– Como assim?
– Eu não vou ficar com alguém só porque esse alguém sente pena de mim.
– Quem te disse que eu sinto pena de você, ?
– Por que você não me contou? – Ele gritou, eu me assustei.
, e-eu... Eu não sinto pena de você. Eu só não queria que você passasse por estresse depois da cirurgia.
– Já se passou mais de um mês. Não acha que tava na hora?
, não tem justificativa isso que você tá fazendo.
– Claro que tem. Você não disse que me amava também no dia. Você não fez questão de responder, mesmo sabendo que eu podia ter morrido.
– Eu tava desesperada. Você ia morrer nos meus braços. Queria que eu pensasse nisso naquela hora? Amor, me desculpa, mas não deu. Eu achei que ia te perder!
– Eu não sirvo mais pra você, ok?
– Quem te disse isso?
– Só me deixa ir embora, ok?
Os enfermeiros empurraram para fora do quarto na sua cadeira de rodas, ignorando totalmente a minha presença, algo com o qual eu não estava acostumada. Eu os segui pela casa.
– Você não pode ir, ! – Gritei quando eles alcançaram a porta de saída, a mesma onde tinha ocorrido o incidente da bala.
– Claro que posso. Até onde eu sei, você era minha namorada.
Era?
, eu não posso mais satisfazer você, ok? Entende isso? Aquela loucura toda na qual nosso relacionamento era baseado... Eu não posso mais. Minha presença aqui não é mais necessária pra você.
Começaram a colocá-lo dentro de um carro grande preto que eu desconhecia. A minha primeira reação foi praticamente cair em cima dele.
– Você não pode ir!
– Você já disse isso e eu já respondi.
Como se sentisse nojo de mim, retirou minhas mãos dele e terminou de ser colocado dentro do carro. Ele partiu e eu fiquei ali, caída no chão, achando que talvez tivesse sido melhor que ele tivesse morrido naquele dia. Não queria acreditar no que tinha acabado de acontecer.
– Senhorita ... – Um dos seguranças me chamou.
Eu estava entorpecida. Todos os sentimentos que eu sentia por tinham sido jogados no chão junto comigo. Jogados no chão por ele. Eu o amava, é claro que o amava. Ele sabia disso, com certeza. Se não, por qual outro motivo teria me dedicado tanto a ele nos últimos dias? Pena que não era sentimento suficiente para que não acontecesse algo daquele tipo.
Levantei sem a ajuda que o segurança tinha oferecido. Bati minhas mãos e ajeitei minha roupa. Respirei fundo e ignorei totalmente a dor da perda dentro do meu peito. Fiquei firme. Um deslize e eu não aguentaria, cairia no chão e choraria ali pelo resto da semana, no mínimo. Mas eu me mantive forte, principalmente quando meu pai apareceu correndo para me ver.
– Foi você, não foi? – Eu gritei, avançando na sua direção.
Ele segurou meus pulsos com facilidade, impedindo-me de acertar um tapa na sua cara.
– Ele precisava saber, .
– Vá se foder! Caralho! Que ódio de você! Eu te odeio, entende isso? Eu te odeio! Aquela bala tinha que ter atingido você! – Gritei enquanto eu me debatia.
– Você tá falando isso no calor do momento. Daqui a uns dias, você nem vai se lembrar dele. Entre, tome um banho e vá dormir, relaxar, ler, seja lá o que quiser. Se ele foi, é porque não te amava.
Meu pai não estava certo. Ele não podia estar certo. Repetia isso na minha cabeça como um mantra.
– E outra. Você devia estar mais preocupada consigo mesma. Aquele tiro foi pra você e... Bem, depois daquele incidente, algumas coisas estranhas andam acontecendo.
– Tipo o quê? – Perguntei, demonstrando uma curiosidade que eu queria esconder.
– Coisas que eu prefiro que você não saiba, mas que se referem a você. Eu te amo e não quero ver você correndo risco algum. Então se proteja. E isso não é um pedido, é uma ordem.


But I know in my heart you're not a constant star.

Eu passei os dias que seguiram-se após término do meu namoro com vivendo a rebeldia tardia com mais intensidade do que antes. Não sabia se tinha raiva dele por ter ido sem me deixar falar nada, se tinha raiva do meu pai por ter me ocupado para que pudesse contar para o que estava acontecendo ou se tinha raiva de mim, por não ter dito antes as consequências do acidente. Talvez eu sentisse os três. E essas três possibilidades me faziam passar dias e dias trancada no meu quarto, solitária, sem ninguém por perto, apenas imaginando como poderia ser diferente.
O dia lá fora apresentava um céu negro, algo de certa forma normal em Washington. Eu olhei pela janela. No meu celular, havia chegado uma mensagem de texto de uma prima, dizendo que ela estava em Washington e queria encontrar comigo a fim de sairmos para almoçar. Não queria aceitar pelo simples fato de que, durante nosso almoço, seria outra pessoa que ficaria ao meu lado a todo instante e não . Eu o amava. Depois de tudo o que aconteceu, eu tinha certeza absoluta de que o amava.
Respirei fundo e peguei meu celular. Passei minutos ponderando sobre o que responder. Decidi que precisava superar. Precisava esquecer , e urgentemente. Então eu iria. Aproveitei e mandei uma mensagem de texto para meu pai também, avisando que ia sair. Coloquei uma roupa reforçada para o frio e saí do meu quarto. Carlson, um segurança tão ridículo que nem nos permitia chamá-lo pelo primeiro nome, estava parado, de braços cruzados, ao lado da porta. Fiz uma anotação mental de pedir para alguém ou forçá-lo a mudar aquele humor metido dele ou tirá-lo do posto de meu segurança pessoal.
– Eu quero um carro. Agora. – Disse com rispidez, algo que eu fazia de propósito para irritá-lo e, com sorte, fazê-lo pedir demissão.
– Para onde?
– Para o Loews Madison Hotel. E eu quero agora.
– Ok, a senhorita já disse isso.
– Só pra confirmar que você vai fazer seu trabalho direitinho, não é?
Ele prendeu a respiração e eu pude ver a raiva transbordando de seus olhos. Estar ali, fazendo aquilo, certamente não era o que ele queria.
Elizabeth me abraçou com força quando eu cheguei.
– Eu estava com tantas saudades, senhorita !
– Ah, para! Você também não! Chega disso!
Ela riu, o que fez com que eu lembrasse de tempos antigos, quando nós nos reuníamos em nossas casas com a família toda.
– Eles têm mesmo que ficar aqui? – Ela sussurrou, apontando discretamente para os seis homens de preto atrás de mim.
Olhei para trás de forma arrogante e fiz um gesto para que eles se afastassem.
– Vão dar um passeio! Dispersem-se!
O restaurante do hotel estava vazio. Claro que a equipe de segurança da Casa Branca tinha dado um jeito de criar aquela situação que devia estar dando prejuízo para o hotel. Mas a filha do presidente podia tudo. Bem... Quase tudo.
– E então... – Ela começou quando nos sentamos. – Como você tá, prima?
Lizzie esticou as mãos por cima da mesa, segurando as minhas. Conversávamos com extrema frequência pelo telefone e ela já estava a par da minha situação emocional.
– Não quero falar sobre isso, ok?
Ela me olhou por um tempo demorado. Então sorriu e largou minhas mãos.
– Isso o quê? Não estávamos falando sobre nada!
Eu ri espontaneamente, com vontade, e eu me senti bem com isso. Conversamos sobre tudo que não envolvesse garotos ou meus pais, e passei três horas agradáveis sentindo como se nada de mal tivesse acontecido comigo recentemente. Estava animada na conversa, até que meu telefone vibrou.
– Pai?
, onde você está?
– Estou com a Lizzie no Loews Madison. Mandei uma mensagem avisando.
– Ah, sim! De qualquer jeito, eu quero que você vá pra casa agora e arrume suas malas.
– Isso é sério?
– É. Um carro vai estar te esperando às 18h. Já mandei fecharem a rodovia.
– Sabe que eu acho isso ridículo, não sabe? Você não precisa fazer um estrago no mundo todo só porque eu vou pegar a estrada.
– É claro que preciso. É pro seu bem e...
– Ok, pai, já ouvi esse discurso antes. Agora me diga: por qual motivo maravilhoso eu deveria seguir suas ordens?
– Porque amanhã de noite haverá uma festa pra homenagear um projeto da sua mãe e seria muito importante pra ela se você comparecesse.
– Seria muito importante pra mim se ela tivesse apoiado meu relacionamento com a tempo, mas ela não apoiou, não é mesmo? Ela não se preocupou se isso era importante pra mim ou não, não é?
, você não vai querer voltar nesse assunto agora, vai?
– Na verdade, pai, eu tenho tentado voltar nesse assunto todos os dias desde que aconteceu.
Podia escutar meu pai bufando do outro lado da linha.
– Quer saber? Eu não vou insistir. Você já tem vinte anos. Faça suas decisões. – E desligou.
Joguei meu celular dentro da bolsa com raiva.
– O que foi? – Lizzie perguntou com sua voz calma, como sempre.
– Meu pai quer que eu vá até onde ele tá pra uma festa que vai ter amanhã pra minha mãe.
– E por que você não vai?
– Porque não! Eu não quero ser a filha do presidente! Não quero!
– Eu acho que você deveria ir.
Não respondi.
– Sabe, lá vai estar cheio de gente importante, e filhos de gente importante, pessoas que tem dinheiro, e ter dinheiro pode significar ter uma beleza relativamente admirável. Isso seria bom pra você, ok? Vai lá, se joga pro primeiro cara bonito que te der mole e tenta esquecer tudo.
Elizabeth era só dois anos mais velha que eu, mas sempre falava com uma sabedoria de quem tinha lá seus setenta anos.
– Quer saber? Tive uma ideia! Você. Vem. Comigo.
Ela olhou para mim fazendo-se de indignada de forma bem falsa, o que arrancou uma gargalhada. Lizzie se levantou e esticou a mão para mim. Eu segurei nela e olhei para trás, para pegar minha bolsa. Foi quando eu o vi. Do outro lado da rua, olhando para mim como se olhasse para uma obra de Leonardo Da Vinci. Meu coração parou por um momento enquanto nossos olhos se encontraram.
A reação que eu tive não teve como ser tomada racionalmente. Eu simplesmente fui. Larguei a bolsa no chão e corri o mais rápido que pude, ignorando todo o alvoroço que podia causar. Quando cheguei à calçada, do lado de fora do hotel, estava sendo colocado dentro do mesmo carro preto no qual eu o tinha visto partir da minha casa. Gritei por ele, mas o carro saiu cantando pneu e eu me senti, mais uma vez, abandonada.
– O que foi? – Perguntou Lizzie atrás de mim, ofegante.
Meus olhos ainda estavam fixados no carro que desaparecia na distância. Por pouco, não tomei a decisão irracional de correr atrás do carro. Mas quem pensava que era? Eu era a filha do presidente. Se eu quisesse sentar em uma sala sozinha com ele para tirar a limpo toda aquela história, eu conseguiria.
– Nada, vamos. – Falei, encaminhando-me para o carro que já estava estacionado na frente do hotel.
– Tenho que pegar minhas malas.
– Eu mando pegarem. Só vem logo.
– Era ele, não era? – Ela perguntou ao entrar e eu não me dei o trabalho de responder. – No que você tá pensando?
– Vou fazer caçarem ele até o fim do mundo. Ele precisa me dar umas justificativas. Não pode ficar assim.
– Mas a gente não vai viajar agora?
– Eu deixo isso pra depois da viagem.
Coloquei apenas um vestido de gala dentro da mala de emergência que eu sempre tinha pronta, para o caso de viagens feitas em cima da hora como aquela. Ajeitei todas as outras coisas que eu podia precisar e fui trocar minha roupa. A viagem de carro até Nova Iorque, onde meus pais estavam, foi tranquila demais, como todas as outras sempre eram. Tudo parava uma hora antes de colocarmos o pé na estrada. Havia polícia e homens de preto do Serviço Secreto para todos os lados. Eu achava aquilo tudo muito desnecessário.
A viagem durou apenas incríveis duas horas até o Plaza, hotel no qual meu pai estava hospedado com alguns líderes de Estado e outras pessoas muito importantes, e no qual eu me hospedaria também. O hotel todo estava tomado por seguranças, é claro. Chegamos à recepção para pegar as chaves dos nossos quartos. A morena pálida que sentava-se atrás do balcão nos olhou assustada.
– Senhorita , me perdoem, me informaram que a senhorita viria sozinha. Só temos uma suíte plaza disponível. Os outros quartos que temos são inferiores.
– Da última vez que eu fiquei aqui, a suíte plaza tinha dois quartos. Ainda é assim?
– Sim, senhorita.
– Então ela pode ficar comigo, não tem problema.
Senti a tensão saindo do seu corpo quando eu não criei problema com aquilo. Outra pessoa certamente abriria a boca para falar alguma maldade para a pobre menina que devia ter a minha idade, talvez até menos. Sorri agradecida quando ela me entregou a chave e dirigi-me ao elevador, sendo seguida fielmente pelos meus seguranças. As pessoas que estavam no saguão principal do hotel me olhavam estranho, fosse pelo fato de eu ser a filha do presidente ou pelo fato de eu estar carregando a minha própria mala. Eu precisava falar em público pelo menos uma vez na vida para criticar o jeito mesquinho com o qual as pessoas que tinham “poder” agiam.
A primeira coisa que fiz ao entrar na minha suíte foi me largar no sofá da sala de estar, jogando a cabeça para trás. Lizzie fez o mesmo, ficando ao meu lado. Ambas encaramos o teto da suíte.
– E então...
– E então o quê, Lizzie?
– Quando a gente vai colocar em ação aquela história que eu disse sobre achar os riquinhos bonitos? Eu to solteira também, querida!
Nós começamos a rir. Por um segundo, tínhamos quinze anos de novo.
– Eu tava pensando... Aqui tem o Caudalíe.
– E isso seria o quê?
– É um spa que tem aqui. Eles são especialistas em vinoterapia. Mas quer saber? Acho melhor a gente ir pra lá amanhã cedo. Passamos o dia lá e, à noite, vamos pra festa. Hoje, eu só quero entrar no meu quarto, deitar na banheira e esquecer que estou no mesmo hotel que... – Fui interrompida por três batidas na porta. – ... meus pais. – Terminei a frase revirando os olhos e fui atender a porta.


I try to forgive you but I struggle 'cause I don't know how.

A orquestra tocava um lindo instrumental de My Way, do Frank Sinatra, quando entrei no salão de festas do Plaza. Olhei para os lados, fazendo minha primeira análise de como seria a noite. Certamente, haviam homens muito bonitos ali, mas todos eles estavam com os braços presos aos braços de suas respectivas mulheres. Poucos passeavam pelo salão sem uma mulher no seu encalço e, quando passeavam, aparentavam ter trinta anos, e nenhum homem com essa idade ia querer um romance proibido com alguém que, além de ser a filha única do presidente, era dez anos mais nova que ele, certo? Bem, eu esperava que não.
O dia no spa tinha descansado todo o meu corpo. A sensação de estar em um lugar cheio de classe e elegância realmente estava fazendo eu me sentir bem, em contraste com os últimos meses da minha vida. Um garçom passou por nós com uma bandeja e ofereceu uma taça de vinho para cada uma, o que aceitamos com um aceno de cabeça e um sorriso educado.
– Já decidiu quem vai ser a vítima da noite? – Minha prima perguntou sutilmente. – Porque eu já sei quem eu quero que você convite pra dançar comigo.
– Eu não vou chamar ninguém pra dançar com ninguém.
– Ah, vai sim! Tem um moreno exatamente agora conversando com seu pai e ele não tem nenhuma mulher por perto, nenhuma aliança nos dedos... Eu acho que você pode ir lá dar uma forcinha enquanto sua prima querida vai conversar um pouco com aquele loiro lindo ali pegando vinho – Ela disse, apontando. – pra descobrir se ele quer dar uma escapadinha com a filha do presidente.
– Se sua intenção é me fazer esquecer o , isso não vai funcionar.
– Ah, qual é! Eu to tentando...
– O problema não é a sua intenção, muito menos você tentar me ajudar. Eu aprecio isso, muito obrigado. Mas é meio complicado você querer me arranjar um homem igualzinho ao último que terminou comigo. – Disse com um sorriso forçado.
Lizzie balançou a cabeça rapidamente de um lado para o outro.
– Claro, desculpa.
De repente, seus olhos se encheram de um brilho que eu nunca tinha visto na minha vida. Tentei encontrar fosse lá o que Lizzie estivesse olhando, mas não consegui achar nada de especial.
– V-você... F-fica aqui, ok? E-eu já v-volto. – Ela gaguejou e saiu quase correndo.
Olhei em volta e terminei de virar o conteúdo da minha taça de vinho dentro da minha boca. Um garçom passou para recolhê-la na exata hora em que meu pai estava aproximando-se de mim.
– Já começou a beber, ?
– Já e continuarei até não poder mais, ok?
Comecei a ficar irritada com a presença dele ali. Não sabia o que Lizzie ia aprontar e não sabia se era algo que meu pai poderia ficar sabendo.
– O senhor pode ir cumprimentar quem você tem que cumprimentar, pai. Eu tenho assuntos a tratar no momento.
– Com quem?
– Com minha prima. Sua sobrinha. Aquela com quem eu estava almoçando antes de você me ligar ordenando que eu viesse pra cá.
– Eu só não permaneço aqui porque simplesmente não aguento mais essa sua crise existencial. – Ele disse e virou-se para ir embora.
– Só não se esqueça de que foi você quem começou essa guerra! – Eu gritei por cima da música alta.
Estávamos ao som de Crazy Little Thing Called Love. Alguns casais bem mais velhos que eu estavam unidos, dançando lentamente e de forma sincronizada. Cruzei meus braços e olhei em volta. Lizzie não estava no meu campo de visão e eu comecei a achar que talvez ela estivesse tentando fazer de mim uma otária quando eu a vi levantar-se do meio da multidão. Pela mão, ela trazia um homem mediano mas de bom porte físico.
– E ela já conseguiu um macho pra noite... – Sussurrei para mim mesma, segundos antes de que ela finalmente se aproximasse de mim com o homem.
, esse aqui é o Paul. Paul, essa é a . O Paul trabalha com um garoto muito bonito com quem eu vou conversar hoje, então vocês poderiam ficar juntos só pra ficarem afastados de nós? Obrigada, de nada.
Lizzie jogou um beijo para mim pelo ar e balançou as pontas dos dedos em um disfarçado gesto de “tchau” para Paul. Quando ela se virou, olhei para o moreno com um sorriso no rosto. Não pude deixar de reconhecer que suas feições eram bonitas.
– Eu acho que não fomos apresentados de forma correta. – Ele disse com sotaque do interior, mas seu tom de voz esbanjava autoridade. – Meu nome é Paul Maddison, sou um dos organizadores da festa.
– Espero que você não seja o Paul Maddison que eu acho que é.
– Sinto te informar que sou eu sim, .
Paul tinha sido meu primeiro namorado, só que tudo o que aconteceu foi parte de uma aposta. Nós frequentávamos a mesma igreja e pertencíamos ao mesmo grupo de amigos. Na época, eu era a garota que nunca tinha namorado e ele era o garoto magricela e feio que não tinha chances com ninguém. Eu ganhei 100 dólares por ficar com ele durante três meses. Estando ali, eu me senti profundamente arrependida. Abaixei a cabeça, arregalando meus olhos e deixando com que minha boca ficasse ligeiramente aberta de surpresa.
– V-você... Você mudou. Muito. E-eu nem te reconheci.
– Espero que tenha sido pra melhor. – Ele disse com um sorriso.
Um garçom passou com taças de vinho. Paul o parou e pegou duas taças, dando-me uma delas. No momento em que desviei meu olhar, vi entrando no local com roupa de gala e em cima da mesma cadeira de rodas com a qual eu o tinha visto no dia anterior. Minha reação foi totalmente instintiva. Puxei Paul pelo pescoço e eu o beijei. Senti que ele se assustou, mas depois passou a corresponder. Abri um pouco meus olhos apenas para certificar-me de que tinha visto a cena. Então, com delicadeza, eu me afastei de Paul, cheia de vergonha.
– Merda! Desculpa. Eu nem sei se você é casado, se tem alguém... Desculpa. Eu realmente sinto muito.
Ele riu.
– Eu to solteiro.
– Ah! Que bom! – Eu disse e, logo depois, percebi que tinha dito as palavras com entusiasmo além do necessário. – Não foi isso que eu quis dizer, sabe? Eu disse “que bom” porque, se você tivesse compromisso com alguém, estaria enrolado, entende? E eu...
– Você ainda se enrola com as palavras quando tá nervosa.
Olhei para ele e acenei com a cabeça.
– Eu adoro isso em você, sabia? E você tá... Magnífica. Dizer que você está linda seria um pecado. Estou muito feliz por ter te encontrado, principalmente em condições tão felizes quanto estas.
O inglês culto que ele usou me surpreendeu. E certamente não havia nada mais atraente do que um homem em um smoking falando bonito. Sorri tímida, mas não tive tempo de reagir. , quem eu não vi aproximar-se, me puxou pelo braço com força.
– Nós precisamos conversar. – Ele disse, firme.
– Dá licença! – Gritei. – Quando eu quis conversar com você, simplesmente não te achei. Agora, eu estou ocupada. Arrume outro momento.
– Nós precisamos conversar. Agora. , vem comigo.
Sua respiração estava pesada e seu olhar estava sombrio. Um arrepio percorreu minha espinha. Uma vozinha dentro da minha cabeça me dizia que o que ele queria falar não tinha nada a ver com “nós dois” e que era melhor obedecer. Respirei fundo. Perto de mim, dois dos meus seguranças estavam em posição de ataque. Acenei com a cabeça para que eles ficassem tranquilos e virei-me para Paul.
– Eu volto logo. Só vou resolver isso.
– Você não vai voltar logo. Você não volta aqui hoje. – disse de forma rude.
– Você não é meu pai, . – Bufei. – Vai querer que eu te empurre pra seja lá onde estivermos indo?
– Olha pra minha cara e vê se eu dependo de alguém pra me locomover.
Ele começou a se afastar em direção à saída do salão. Olhei novamente para Paul e despedi-me com um olhar e um sorriso forçado. Segui até a porta do elevador que levava para os andares dos quartos. Ele entrou e apertou o número quatro.
– Meu quarto é na cobertura.
– Eles já estão lá.
– Eles quem, ?
Ele ficou em silêncio e eu decidi ignorá-lo também. Logo, ele estava saindo do elevador e eu continuei lá dentro.
– Não vai me acompanhar?
– Não. Eu deixei alguém me esperando na festa e, se você não vai me dizer do que está falando, eu não tenho motivo para continuar aqui.
Apertei o botão para que as portas do elevador fechassem, mas imediatamente colocou a mão no sensor, o que fez com que elas voltassem a abrir.
, por favor. Confia em mim.
– Confiar em alguém que não confiou em mim quando eu precisei? É meio complicado, não acha?
, por favor. – Ele repetiu, estendendo a mão para mim.
No exato momento em que eu coloquei meus pés para fora do elevador, todas as luzes se apagaram. Meu coração acelerou quando ouvi a respiração característica de que dizia que algo estava errado. Alguns segundos depois, tudo voltou a acender. Sua expressão facial não era das melhores e eu estava começando a ficar com medo.
– Vem logo. – Ele sussurrou.
O quarto não era longe dali. Ele retirou a chave de dentro do bolso interno de seu terno e abriu a porta. Assim que eu entrei, ele a trancou e colocou a chave de volta no local. Sentei no sofá antes de tudo.
– Você tem trinta segundos pra me dizer quem são “eles” ou, então, eu volto pra festa.
– Tem um grupo de terroristas querendo prejudicar o governo do seu pai. “Eles” são homens que estão me ligando desde o dia em que comecei a trabalhar pra você, te fazendo ameaças. “Eles” são os homens que estão no seu quarto, esperando que você volte, pra fazer sabe-se lá o quê com você.
não brincava. Eu sabia que ele estava falando sério. O ar em meus pulmões começou a pesar. Fiquei presa no olhar desesperado de .
– M-meus pais, minha prima... – Minha voz saiu rouca.
– Eles estão seguros. É você quem eles querem.
– E por que você não falou isso pra minha equipe de seguranças?
– Porque eu já te salvei uma vez. Posso te salvar de novo.
As palavras dele me surpreenderam. De repente, todo o novo problema que tinha surgido parecia não existir.
– Por que você tá aqui, ?
– Pra te proteger.
– Você não é mais meu segurança.
Ele não respondeu. Em vez disso, arrastou-se para o quarto e eu o segui. Com seus braços fortes, ele se levantou da cadeira e colocou-se sentado na ponta da cama.
– Por que você fugiu de mim? – Eu fiz a pergunta de um milhão de dólares. – Não finge que não escutou, por favor.
– Eu não podia mais ser seu segurança.
– E daí? Eu gostava de você! Não queria que você fosse meu segurança. Queria que você fosse alguém com quem eu pudesse contar sempre. Mas, quando eu dei por mim, você não tava mais lá. Fugiu como um covarde.
– Eu sei, tá? Não precisa jogar na minha cara.
– Precisa sim, ! Você não tava lá pra ver o que eu passei por você.
– Me desculpa.
– Não, eu não te desculpo.
, você quer mesmo discutir nossa relação agora?
– Quero! Você não me deu outra oportunidade!
– Se vamos discutir, por que você não fica à minha altura pra eu poder olhar nos seus olhos?
Puxei uma cadeira e sentei de frente para ele, com o rosto fechado. De forma violenta, algo que eu testemunhara pouco com ele, puxou minha nuca e, então, ele me beijou. Por um segundo, eu tentei fugir. Mas não podia enganar a mim mesma. Eu queria aquilo. Queria com todas as minhas forças e nada nem ninguém me faria abrir mão daquele momento.
Com cuidado, levantei da cadeira e sentei em seu colo, sem estar muito certa sobre aquilo ser permitido. Suas mãos estavam um pouco acima da minha cintura e as minhas apertavam o seu cabelo, indicando o quanto tinha sentido falta do seu toque. Quebrando o momento, um estrondo nos separou. Eu me agarrei a com todas as forças que tinha e seus braços me envolveram. Quando um grupo de homens armados e encapuzados entrou no quarto, senti que o aperto de seus braços aumentou. Quis gritar, mas a voz faltou. Colocaram uma arma na minha cabeça.
– Larga a garota ou ela morre. – O homem falou com sotaque extremamente carregado, indicando que o inglês não era seu idioma oficial.
Eles começaram a gritar em uma língua que eu não entendia. Os braços de não cederam e eu não sabia se agradecia por aquilo ou se ficava mais desesperada. Outro homem se aproximou e deu uma coronhada na cabeça de . Ele tentou se virar para acertá-lo, mas fui tirada dele nesse momento. Minhas mãos escorregaram enquanto tentava segurar nele.
No meio da gritaria que eu não conseguia entender, derrubaram no chão enquanto eu era carregada para fora. Achei a voz e comecei a gritar. Não gritava pelos meus pais ou pelos meus seguranças. Gritava por . Queria que ele me tirasse dali como tinha dito que faria. Posso te salvar de novo... Não, ele não podia. Eu tentei sair daquela situação, mas não consegui. Ele já estava no chão, sendo espancado.
– Eu vou te salvar. – Eu o escutei dizer baixinho. – Eu te amo.
O aperto característico no meu coração começou a formar-se enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.
– Eu também te amo.
Pelo menos, daquela vez tive a chance de responder.


Forget all we said that night, it doesn't even matter because we both got split in two.

Minha mente vagava em algum lugar próximo de e seu sorriso tranquilizador. Por um momento, tudo pareceu perfeito. Então eu me lembrei da situação na qual eu me encontrava e meu mundo pareceu cair novamente. Eu estava sentada e em movimento, era tudo o que eu podia discernir claramente. Um saco de pano havia sido colocado na minha cabeça. Tudo o que eu podia distinguir eram as luzes. E, naquele momento, eu me encontrava de olhos fechados, tentando fugir daquela realidade.
A memória de apanhando por mim, por não ter me largado, estava fresca na minha mente. Eu tive certeza de que, se houvesse um acordo, ele teria morrido simplesmente para que ninguém pusesse as mãos em mim. A culpa tomou conta dos meus pensamentos. Nós estávamos distantes e eu estava sofrendo por isso. Quando finalmente achei que íamos recomeçar, eu tive que despedir-me dele com um “eu te amo”, porque era o máximo que eu podia fazer.
Os homens ainda falavam em uma língua que eu não conseguia entender e aquilo só piorava o meu desespero. Balbuciei algumas palavras, mas tudo o que eu ouvi em resposta eram gritos ordenando que eu me calasse. O frio do cano de uma arma estava constante na região das minhas costas. Eu só queria saber qual era a intenção deles em tratar-me daquele jeito. Era claro que eu faria de tudo para colaborar, só queria ver mais uma vez.
Eu podia jurar que havia passado uma semana dentro de sabe-se lá que veículo mas, ao julgar pela oscilação entre claro e escuro, apenas um dia havia passado. Paramos em alguma área extremamente silenciosa e eu fui movida para fora do carro. De forma rude, eles me empurraram até uma escada, que eu subi sem hesitar, o medo tomando conta de mim a ponto de fazer-me obedecê-los instantaneamente. Fui conduzida até outra poltrona, de certa forma confortável. Então escutei um barulho um tanto familiar. Turbinas de um avião estavam sendo ligadas. Eu estava sendo levada para longe.
– Para onde estamos indo? – Perguntei e não obtive nada em resposta. – Eu sei que vocês falam a minha língua!
– Calada! – Um homem qualquer gritou.
Durante o voo inteiro, que durou uma eternidade, eu entrei em momentos curtos de inconsciência, tomada pela exaustão. Quando chegamos sabe-se lá onde, fui tirada do avião da mesma forma rude com a qual fui colocada lá dentro. Jogaram-me dentro de um veículo com cheiro de mofo. A sensação de estar perdida me tomou novamente. Sentia uma pessoa de cada lado, joelhos encostando nos meus conforme o veículo balançava. Respirei fundo e tentei manter a calma. Meus olhos ardiam de tanto chorar, minha garganta estava seca. Eu só queria que tudo aquilo acabasse o mais rápido possível.
Paramos em algum lugar que, estranhamente, parecia limpo. Comparado ao cheiro do veículo no qual eu estava, qualquer coisa seria considerada limpa. Mas eu respirei fundo e senti o ar puro invadindo meus pulmões. Houve mais gritaria e eu continuei perdida, mais desesperada ainda por não entender uma palavra do que estavam dizendo.
Fui forçada a caminhar uma boa distância. Em certo momento, fizeram com que eu parasse, e eu escutei o barulho de grades sendo abertas. Andamos mais – por um corredor, aparentemente. De surpresa, fui empurrada e caí no chão, por cima do meu braço. Soltei um urro de dor e ouvi duas gargalhadas distintas. Retiraram o saco da minha cabeça e a primeira coisa que eu fiz foi olhar em volta. Eu estava em um quarto extremamente pequeno, com apenas uma cama e uma cômoda. No canto, uma cadeira em estado de decomposição descansava. Olhei então para os dois homens com toucas ninjas que olhavam para mim, divertidos.
– É um prazer tê-la em nossos aposentos. – O homem mais alto disse, claramente sendo irônico. – O chefe vem, em breve, falar com você.
Os dois se posicionaram, um de cada lado da porta, com expressões sérias que lembravam meus próprios seguranças. Comecei a questionar-me sobre onde estariam eles quando eu precisei. Ah, claro, eu os dispensara antes de retirar-me do salão com . Mas por que diabos eles não me seguiram? Afinal de contas, era o trabalho deles, não era? Se eles tivessem exercido de forma correta o serviço pelo qual eram pagos, eu não me encontraria em nenhuma situação perigosa.
Fiquei na mesma posição até que outro homem, mais alto e mais corpulento, entrou no quarto. Em silêncio, ele puxou a cadeira até a minha frente.
– Sente-se. – Ele disse.
Eu não me movi nem um centímetro sequer, parte por teimosia.
– Eu mandei sentar. – Ele disse com um sorriso assustador nos lábios.
Com dificuldade para vencer o medo, levantei-me, cuidando para não encostar nele, que estava muito próximo. Sentei na cadeira com a cabeça baixa. Ele apertou meu queixo com força, provocando uma dor severa na minha mandíbula.
– Vou ser rápido e objetivo. Você vai fazer o que eu mandar e tudo vai ficar bem. Se seu pai realmente te amar, você sairá daqui em breve. Não te trouxemos pra cá pra te torturar. Você tem direito a tudo o que necessita para se manter viva. Alimentação, higiene e até entretenimento serão garantidos a você. Você tem cara de quem gosta de ler. Quais são seus livros preferidos?
Não respondi.
– Tudo bem, eu mando trazerem alguns aleatórios. E vou mandar instalar uma TV aqui. TV a cabo. Não seria uma coisa ótima? – Ele riu, irônico. – Só lhe darei um simples aviso, . Não tente nenhuma gracinha. Não me interessa ter você morta, pelo contrário. Não me interessa ter você machucada. Mas isso tudo pode acabar se você tentar se comunicar com alguém, estamos entendidos?
Continuei quieta, mantendo a mesma posição.
– Ótimo. Você terá sempre pelo menos um homem lhe fazendo companhia, se certificando de que está tudo bem. Se precisar de alguma coisa, é só falar com ele.
– Eu preciso de roupas. – Disse de forma rude. – Preciso de um banho e de ir ao banheiro. Preciso saber onde estou e quanto tempo tem desde que me tiraram do Plaza. Preciso de água e comida. E preciso saber o que vocês fizeram com o .
– Ah, seu amiguinho? Não se preocupe. Onde ele se encontra no momento, está melhor que todos nós. – Ele disse com um sorriso.
Minha respiração ficou rápida. Uma dor forte começou a surgir no fundo da minha barriga. Todo meu corpo tremeu enquanto eu recebia a notícia como se fosse um tapa na cara.
– O que você fez com ele, seu filho da puta? – Eu berrei, pulando em cima do homem, enchendo-o de socos que, provavelmente, não surtiram o menor efeito.
Fui empurrada violentamente de encontro com a cadeira, que cedeu, fazendo-me cair no chão mais uma vez. O homem disse alguma coisa no idioma dele para um outro, que saiu com ele, deixando-me apenas com o homem que tinha retirado o saco da minha cabeça.
Fiquei encolhida no chão, com as costas apoiadas na parede, abraçando minhas pernas enquanto derramava mais lágrimas. Uma dor forte tomou conta de todo meu corpo. Ele parecia verdadeiro o suficiente para fazer com que eu quisesse morrer no lugar de . Eu nunca mais poderia vê-lo, nunca mais poderia sentir o gosto dos seus lábios, nunca mais poderia sentir a segurança do seu abraço. estava morto e eu estava quase morrendo junto com ele.
Horas depois – eu não tinha certeza –, um homem que eu ainda não tinha visto entrou no quarto e jogou as roupas que usava em cima de mim. Eu chorei mais ao agarrar-me ao terno dele. Senti uma coisa dura no bolso interno e procurei saber o que era. Achei uma caixa de veludo, com uma aliança dentro. Na sua circunferência, estavam gravados nossos nomes. iria fazer o pedido? Ele tinha morrido antes de pedir a minha mão em casamento? O ar faltou e eu senti a consciência se esvaindo de mim.
Não tinha ideia de quanto tempo havia passado desacordada. O mundo à minha volta girava intensamente. Eu não conseguia abrir os olhos porque a claridade incomodava. Não conseguia mais chorar, não conseguia mais sentir dor. Todas as forças do meu corpo tinham ido embora. Eu só queria que aquilo acabasse logo.
Parecia haver uma organização entre os homens que ficavam dentro do quarto para fazer-me companhia. Eles não abriam a boca para falar meu idioma, apenas comunicavam-se com os outros quando abriam a porta, falando a língua que eu não conseguia entender.
– Ei, você! Você fala inglês?
Ele assentiu com a cabeça de forma arrogante.
– Onde nós estamos?
– No Paquistão. – Ele disse como quem diz que está no McDonald’s.
– O quê? – Eu deixei que minha voz ficasse alterada.
– Princesinha, você acha que nós somos o quê? Burros? Acha que ficaríamos no seu território ou que viríamos para o nosso?
– O que vocês querem comigo, porra?
– Não é o que queremos com você. – Ele se aproximou ameaçadoramente. – É o que queremos de você. Você vai ser a vingança perfeita pro nosso povo. Ou você acha justo seu papai mandar uma porrada de gente do exército pra cá que sai atirando pra tudo quanto é lado e mata qualquer um? Eu não acho.
Ele voltou para sua posição e eu soube que a conversa estava encerrada. Eu ainda não entendia o motivo pelo qual eu devia estar ali. Era apenas a filha do presidente, não tinha ligação nenhuma com o exército e o que eles faziam. Acabei percebendo que a pior parte de estar ali era realmente não fazer ideia do que estava acontecendo.


But, believe me, I'm not trying to deceive you.

Eu não aguentava mais aquilo. Era tortura psicológica. Eu estava lá por uma semana, fiquei sabendo pelas poucas palavras que trocara com o último “sentinela” que tinha estado comigo no quarto. Eu não tinha noção das horas, pois o quarto não possuía janelas. O lugar era refrescado por um ar condicionado ligado 24h por dia, a cama era confortável e a TV tinha acesso a todo tipo de canal – exceto o de notícias, para que eu não soubesse o que estava acontecendo lá fora e o que de fato havia motivado o meu sequestro.
Oitavo dia. Eu ia cometer suicídio se não me libertassem logo. Deitei na cama e enfiei o travesseiro na minha cara. Estava cansada de fazer nada e achei que o sono ia levar a minha consciência para longe. Com o travesseiro ali, talvez eu parasse de respirar durante o sono e morresse sem perceber. Para mim, isso valia mais que qualquer coisa.
Quando finalmente senti que estava apagando, uma mão tocou minha perna. Retirei o travesseiro da cara às pressas para ver um dos “mascarados” – apelido carinhoso – sentado ao meu lado, com um sorriso medonho no rosto. Eu me encolhi na cama, recuando para a outra ponta. Ele ameaçou avançar e eu me levantei imediatamente.
– Nem pense em tocar em mim de novo.
– Qual é, docinho? Vamos nos divertir. – Ele disse com o sotaque que eu aprendera a odiar em pouquíssimo tempo.
O pouco que via de seus olhos e sua boca, já que a máscara tampava o resto do rosto, me dava a impressão de que ele teria, no mínimo, cinquenta anos de idade. Tentei manter certa tranquilidade como nos outros momentos do meu cárcere, mas simplesmente era impossível. Comecei a ofegar antes mesmo que percebesse. Ele levantou da cama e veio até mim, prensando-me contra a parede. Gritei por socorro, mas algo me dizia que não adiantaria de nada. Ele passou sua língua suja pelo meu pescoço. Nesse momento, um outro homem abriu a porta e os dois começaram a discutir em sua língua natal até que – e eu agradeci silenciosamente por isso – o segundo tirou o outro de perto de mim violentamente.
O homem – que, poucos segundos antes, tentara cometer sabe Deus que ato contra mim – se retirou com expressão zangada enquanto o outro assumiu a posição dele ao lado da porta, sério e de braços cruzados, encarando o teto. Pude notar que ele era bem mais jovem que os outros. Também não tinha o mesmo porte físico que todos que eu havia visto até o momento tinham. Ele era magro e as roupas que ele usava estavam largas demais nele. Assustada, constatei que ele devia ter a minha idade, se não fosse um pouco mais.
– Você fala a minha língua? – Perguntei, já que ainda não o havia visto.
Não obtive resposta e ele também não se preocupou em demonstrar qualquer reação.
– Obrigada. – Eu disse.
Eu devia isso a ele, no mínimo. Não sabia se ele tentaria o mesmo enquanto estivesse ali, mas ele havia impedido e isso, naquele momento, significava muito.
Durante os próximos instantes, ele continuou ali. O único movimento que ele fez até ir embora foi encher e esvaziar os pulmões. Quando ele saiu, quase pedi que ficasse mais. Estava com medo do que viria a seguir. De certa forma, ele era meu herói e eu ainda estava interessada em como agradecê-lo do jeito certo. Era estranho sentir aquilo, mas talvez eu estivesse tentando sobreviver e, com isso, agarrando-me a qualquer ponto positivo minúsculo daquela vivência ali.
O homem que entrou era um que eu já tinha aprendido a reconhecer. Tudo o que ele falava era cheio de ironia mas, durante seu turno inteiro, ele se mantinha ao lado da porta – e não calava a boca nem um segundo. Eu simpatizava com ele pois, mesmo nas circunstâncias nas quais nós nos encontrávamos, ele era o mais próximo que eu teria de alguém para conversar.
– Senhorita... – Ele disse com um gesto de cabeça que serviu como cumprimento.
Bufei e olhei para ele, deixando claro que não estava querendo escutá-lo.
– Não sabe como esperei para lhe ver hoje.
Congelei. Achei que ele ia tentar a mesma coisa que o anterior ao homem misterioso havia tentado. Prendi a respiração enquanto encarava o chão, aterrorizada.
– Lá fora, a temperatura está matando todos de calor. Ficar aqui, nessa temperatura agradável, era tudo o que eu desejava.
Senti como se minha alma tivesse saído e retornado ao meu corpo em um segundo. Olhei para ele e vi que seu semblante estava cansado, fora do comum. Esperei que ele começasse a tagarelar como sempre, mas nada aconteceu.
– O que houve? – Perguntei.
– Hoje é aniversário da minha filha. Ela vai fazer 18 anos e o pai dela não passa de um terrorista. Minha própria filha quer que eu morra.
Encarei seu olhar derrotado por alguns segundos.
– Bem... Eu queria te consolar, mas é complicado, sabe...
– Posso confiar em você? – Ele sussurrou.
– Eu sou sua refém, você que sabe.
– Tem gente aqui que só está fazendo isso porque pegaram a família e estão ameaçando matá-los caso não colaboremos. São poucos, mas existem. Eu não tive a oportunidade de me despedir de nenhum deles. Fui proibido de contar o que estava acontecendo. Minha mulher e meus filhos apenas acham que eu me revoltei contra o governo do seu país e entrei para uma espécie de Al-Qaeda moderna.
– Eu... Sinto muito. Eu acho. – Disse sinceramente.
Seu olhar não mentia. Eu entendi que, ao contar aquilo para mim, ele confiou a própria vida a uma estranha que não tinha motivo para protegê-lo. Senti que não merecia aquilo. Comecei a imaginar quantas pessoas passavam por coisas parecidas enquanto eu vivia minha vidinha medíocre de filha do presidente. Ele ganhou meu respeito e confiança imediatamente.
– Por que estão fazendo isso comigo? – Perguntei pela milésima vez, já sabendo qual ia ser a resposta mas com esperança de que talvez ela mudasse.
– Não sei, eu honestamente não sei.
Abaixei a cabeça mais uma vez, sentindo-me derrotada por completo.
– Quem era o garoto que tava aqui antes de você?
Ele enrijeceu. Soube de imediato que não seria respondida.
– Ele fala a minha língua? – Insisti em saber sobre ele.
Continuei sem respostas e comecei a imaginar o pior. Rapidamente, elaborei uma pergunta que fosse cortar o assunto.
– Quanto tempo faz desde que eu estou aqui, afinal de contas?
– Quase nove dias.
A pergunta que fiz sobre o garoto o fez ficar quieto, algo que eu jamais havia presenciado. Fiquei nervosa. Se ele não me respondeu, era porque não havia boa coisa ali. Por um segundo, quis que ele não voltasse mais. Ele não tinha aparecido até aquele momento, quando ele me salvou, então não precisava mais aparecer – a não ser que eu precisasse ser salva de algo tão horrendo novamente.
Quando foi embora, não olhou para mim para despedir-se, como sempre fazia. Eu não sabia seu nome. Caso soubesse, eu o chamaria e pediria desculpas. Não sabia qual era a relação do garoto com toda a bagunça que envolvia-me, mas meu medo aumentou, junto com a minha curiosidade, o que era preocupante.
Dois turnos depois, porém, o garoto voltou. Mascarado, como sempre, e com os olhos denunciando um cansaço intenso. Decidi que, já que não tinha muita coisa para perder, ia tentar puxar assunto.
– Você fala a minha língua. – Em vez de perguntar como da primeira vez, afirmei, porque algo denunciava que ele entendia o que eu falava. – Eu quero beber água.
Era o mínimo que eu podia fazer para testá-lo. Em um segundo, o garoto se virou, abriu a porta, gritou algo no idioma nativo e fechou novamente a porta do quarto. Não demorou muito para levarem um copo de água. Eu bebi, estava realmente com sede.
– Então você entende o que eu digo. – Constatei em voz alta.
Ele continuou parado. Metade de mim me mandava calar a boca, mas a outra metade já estava tão irritada com a situação que queria irritá-lo até não poder mais.
– Você é mais jovem que os outros. O que tá fazendo aqui?
Obtive uma reação. Os músculos do bíceps, embora não muito grandes, se contraíram levemente. Havia algo de muito errado nele. Embora o homem com quem eu simpatizava carregasse a tristeza no olhar, ele possuía algo a mais. Eu me perguntei se ele era mais um cuja família estava sendo ameaçada. Senti vontade de questioná-lo até descobrir.
– Vocês me sequestram e ainda querem me privar de convivência humana sendo que estão comigo o tempo inteiro. Realmente... Vocês são os melhores sequestradores do mundo! – Disse com a voz elevada.
Por um segundo, vi os seus olhos ameaçando rolar. Ele me entendia. E queria responder. Então por que não respondia?
– Se quiser conversar... – Disse com a voz mais baixa, lembrando do que meu “amigo” havia contado mais cedo. – ... Eu posso te escutar. Sem compromissos. Eu to na merda mesmo. Pior que eu, só... Bem, acho que você deve entender.
Tentei parecer compreensiva. A contração de seu bíceps aumentou. Ele estava tentando segurar o quê dentro de si? Tive vontade de tirar a máscara, de decifrar seu rosto. O medo saiu e comecei a sentir insegurança. Sim, tinha algo de muito errado nele e estar ali era torturante para ele tanto quanto era para mim.
Sabia que ele não ia mais abrir a boca, então liguei a TV e sentei na cama. Fechei os olhos algumas vezes, tentando dormir, mas as tentativas foram em vão. Quando eu dormia, o tempo passava mais rápido – ou menos devagar – e era mais fácil manter minha lucidez.
O homem que tentou me violentar não voltou a aparecer. Eu já havia decorado uma espécie de cronograma que eles possuíam quanto aos turnos de quem ia ficar ao meu lado. Depois daquele dia, o garoto misterioso tomou o seu lugar, fazendo-me não querer sair dali enquanto não desvendasse o porquê de ele estar ali.
Tentei puxar assunto milhões de vezes. Voltei a perguntar para o outro sobre ele, mas a reação foi a mesma e não nos falávamos mais durante o turno depois da pergunta envolvendo o garoto.
A tortura de não saber nada sobre ele durou em torno de três semanas. Três longas semanas sem saber o que se passava lá fora, o que meu pai estava tentando fazer por mim e no que consistia a vida daquele garoto. Quis imaginar o que levaria alguém em seus vinte e poucos anos a participar de um grupo terrorista, mas não consegui achar motivo lógico. Bem... Eu estava sendo mantida em cárcere privado, a milhares de quilômetros de distância de casa e estava louca por saber mais sobre um dos meus sequestradores. Lógica não era algo permitido no meu mundo.


Let's have another toast to the girl almighty.


Algum filho da puta bateu a porta justamente quando eu estava começando a pegar no sono. Quando olhei, pronta para xingar, encontrei o garoto que alimentava a minha curiosidade. Ele parou ao lado da porta, adotando sua postura habitual. A vontade de xingá-lo por ter interrompido meu sono não passou, então simplesmente continuei deitada, com a cabeça enfiada no travesseiro. Meu propósito de arrancar uma palavra em inglês da boca dele ainda estava firme e forte, mas senti que não era a hora.
Eu dormi por um bom tempo e acordei com o toque rude de uma mão nas minhas costas. Dei um salto e esbarrei no misterioso, fazendo com que ele se desequilibrasse e quase fosse ao chão. Depois de recompor sua postura, ele me estendeu um prato de comida que provavelmente tinham levado enquanto eu dormia. É claro que ele não respeitaria meu sono.
Peguei o prato e sentei na cama, começando a comer devagar, numa tentativa falha de que a fome fosse embora mais cedo. Eu podia não dar a mínima para estética física do meu corpo, mas ficava ali o dia inteiro e, se comesse todas as refeições que levavam, ia aumentar meu peso e não sabia se aquilo traria consequências ruins para a minha saúde. O risco não valia a pena e, por isso, comia o necessário apenas para manter-me viva.
Coloquei o prato de qualquer jeito na cama. Quando ele se aproximou para pegar, balancei de propósito, fazendo com que o prato de plástico caísse no chão, espalhando toda a comida que ainda restava. Fingi que não vi e, com elegância exagerada, levantei e fui até a portinha no canto do quarto que dava no banheiro minúsculo que eu usava para me manter higienizada, algo que não parecia muito necessário por ali, visto a aparência dos homens que faziam minha “segurança”. Minutos mais tarde, repeti a cena com um copo de água que havia pedido. Depois, falei que estava com fome e queria comer uma fruta. Levaram uma manga descascada para mim. Eu gostava demais da fruta, mas decidi usar ela no meu jogo. Coloquei um pedaço na boca e, depois de mastigar bem e encher de saliva, cuspi bem no meio da blusa dele.
– Vocês me sequestram e ainda só trazem merda pra mim!
De novo, o bíceps se contraiu. Sempre que eu falava sobre eu estar ali, ele fazia aquilo. Ficou bem óbvio que aquilo era um estressor. Uma luz se acendeu sobre a minha cabeça. Então aquele era seu ponto fraco. Eu usaria isso a meu favor.
– Sabe... É um saco ficar aqui o dia inteiro! Eu não fiz nada pra ninguém e sou eu que estou presa aqui. Vocês tão fazendo um mal a mim e são vocês que têm liberdade de ir e vir. São uns completos babacas mesmo.
O músculo ficou mais contraído. Era só eu continuar naquele caminho e conseguiria arrancar uma palavra dele, tinha certeza.
– Quero dizer... Qual é a porra do problema mental que vocês, terroristas, têm?
Vi as veias dos seus braços e do seu pescoço saltarem. Faltava pouco.
– Eu duvido que tenham te perguntado no jardim de infância o que você queria ser quando crescesse e você respondeu “terrorista, professora”.
– Eu não sou um deles! – Ele gritou.
Meu coração disparou. Ele bufava como um touro na minha frente. Minha respiração estava no mesmo ritmo que a dele, mas carregada de medo. Tentei recompor a postura rapidamente. Precisava assumir a liderança. Eu sabia que isso era impossível mas, ainda assim, era esse pensamento que eu devia colocar na minha mente.
– Eu sabia que você falava a minha língua, terrorista.
– Já disse que não sou um deles. – Ele rosnou.
– Então o que tá fazendo aqui, me mantendo trancafiada como todos os outros?
Ele se encostou de novo na parede ao lado da porta.
– O terrorista voltou a se calar então?
– Já disse! Eu não sou um deles!
– A única diferença que eu vi entre você e os outros é o tamanho. Apenas.
– Isso não significa que eu seja um deles. Você é a filha do presidente do país mais poderoso do mundo. Deveria ser inteligente o suficiente pra saber que as aparências enganam.
Fiquei na sua frente, na ponta dos pés, até que fosse possível forçá-lo a olhar nos meus olhos.
– Quando eu te chamo de terrorista, não é raiva que você sente. É tristeza.
No fundo dos olhos castanhos, pude notar que eu estava certa. Eu não disse mais nada. Apenas voltei ao meu lugar, sentada na cama. Liguei a TV, mas não conseguia focar no que estava passando. A tristeza no olhar daquele garoto me incomodava ao extremo.
Parecia ensaiado. Segundos depois, alguém abriu a porta e colocou-se no lugar dele, que saiu com pressa. Olhei, tentando identificar quem era. O homem que estava ali era calado. Não falava uma palavra e, ao julgar pela expressão que ele fazia quando eu lhe dirigia a palavra, ele não entendia inglês. Pelo que ficara sabendo, ele ficava durante o período da noite, que era quando eu estava dormindo e, tecnicamente, não precisaria de nada.
No outro dia, o garoto não apareceu no seu horário habitual. Um homem que já tinha feito seu turno pela manhã, grandão e com jeito de idiota, ficou durante o período que achei que passaria com ele. Dois dias se passaram e aquilo se repetiu. Comecei a estranhar, mas talvez fosse bom. Achei que ocupar minha mente com o mistério aparentemente sem solução do garoto não fosse tão saudável e esquecê-lo seria a melhor opção.
No dia em que completei um mês e meio presa, estava ouvindo Rashad – descobri que esse era o nome do homem tagarela com quem eu simpatizava – reclamar mais uma vez sobre a temperatura alta do lado de fora quando decidi que talvez fosse a hora de voltar no assunto sobre o garoto.
– ... porque eu não sei o que Alá tem contra nós...
– Ei, Rashad, me desculpa, mas... Eu queria te perguntar uma coisa.
– Claro, .
– E também peço desculpas anteriormente pelo que vou perguntar. Acho que não é um assunto muito agradável pra você.
Ele fez que sim com a cabeça e eu respirei fundo antes de continuar.
– Aquele garoto sobre qual eu falei uma vez...
, não. Isso, eu não posso dizer. É arriscado demais.
– Por quê? – Perguntei, sedenta por informação.
– É justamente isso. , prometa-me que irá esquecer esse assunto, pro seu próprio bem e pro bem de todo mundo aqui.
Mil coisas passaram pela minha cabeça no instante em que ele me disse aquelas palavras, mas não quis insistir. Estava nervosa, como um drogado em crise de abstinência.
– Ok, eu nem lembro mais do que eu tava falando. O que você estava dizendo sobre Alá e o calor?
Rashad voltou a tagarelar, mas é claro que eu não tirei o garoto da minha cabeça. Minutos depois de histórias da infância dele, a porta se abriu e lá estava ele. Rashad olhou para mim preocupado e despedindo-se ao mesmo tempo. O garoto entrou e posicionou-se ao lado da porta. Olhei para ele, assustada de certa forma. Depois de respirar fundo algumas vezes, decidi que não queria ficar em silêncio.
– Me desculpa pela última vez.
Ele assentiu com a cabeça e eu me encolhi. Mais uma vez, eu não era a única com problemas no mundo e não sabia reconhecer isso. O almoço chegou. Ele colocou o prato com cuidado do meu lado.
– Espero que você não faça um show dessa vez. – Ele disse com a voz menos tensa.
Meu rosto se iluminou. Olhei para ele e, no reflexo de seus olhos, vi que os meus brilhavam.
– Isso foi uma risada? – Perguntei, sorrindo pela primeira vez depois de ter sido trancafiada ali.
– Só impressão sua. Terroristas não riem. – Ele disse com o mesmo tom de voz.
Ele estava fazendo uma piada. Ótimo. Tinha ganhado sua confiança. Coloquei o prato no colo e decidi que valia a pena investir em uma conversa. Estiquei o prato na sua direção.
– Quer um pouco? Me desculpe mas, pela sua aparência, acho que você passa fome.
O garoto arregalou os olhos. Por um instante, achei que tinha dito besteira e ultrapassado uma barreira que não devia ser nem tocada. Ele se aproximou lentamente. Eu prendi a respiração quando ele esticou a mão na minha direção, pegando um pedaço de frango e colocando na boca. Sua expressão parecia divertida.
– Estava com medo de mim?
Não respondi.
– Sim, você estava.
Ele tomou seu lugar de sempre mas, dessa vez, sua postura não estava tão rígida. Terminei de comer mais leve. Ainda estava presa ali, porém encontrava-me um pouco mais tranquila. Fiquei feliz por ter trocado palavras com ele como se fossemos amigos – que belo tipo de amigo, hein? Ele deixou claro com suas ações e palavras que não pertencia àquele mundo e eu apreciei isso. Quando ele foi embora, despediu-se com uma imitação fajuta de um sorriso, fechando a cara imediatamente para que ninguém visse. Entendi o recado silencioso que dizia para não deixar ninguém saber que estávamos trocando palavras.
– Você precisa de algo? – O homem que tomou o lugar do garoto perguntou, o que respondi com um sinal negativo. – Ótimo.
Ele foi até a cadeira, puxou-a até encostar na parede e sentou, jogando a cabeça para trás. Deitei na cama, certa de que dormiria ao mesmo tempo que ele.
Sonhei com o garoto. Nós estávamos no jardim de casa, ele com aquela touca que impedia-me de ver seu rosto. Eu precisava de um amigo, alguém com quem eu pudesse conversar para não enlouquecer, e achei que podia confiar nele para tal função. Nós observávamos um pássaro beija-flor pousando nas flores. De repente, notei que estávamos de mãos dadas. Não questionei porque gostei da sensação. Estávamos praticamente no paraíso. Eu me virei para olhar em seus olhos. A curiosidade me corroeu por dentro e eu levantei as mãos até seu pescoço, começando a subir a máscara. Ultrapassei o limite de sua boca enquanto sentia-o rígido sob o meu toque.
– Ei, , acorde, seu café da manhã vai esfriar.
Acordei com Rashad me balançando delicadamente, como se eu fosse uma peça de porcelana. Eu o odiei momentaneamente por impedir-me de ver o rosto do garoto misterioso, mas não podia ficar irritada com a primeira pessoa que fez do meu sequestro algo menos torturante. Levantei com um sorriso fraco no rosto e fui comer. Esperei ansiosamente para vê-lo novamente.


Won't you stay until the A.M.?


– No primeiro dia em que eu estive aqui... O cara que disseram ser o chefe disse que eu teria tudo o que precisaria para ficar viva aqui, ou algo do tipo, não sei, nem lembro. Ele falou alguma coisa sobre lucidez? Porque, caso ninguém tenha reparado, eu estou presa aqui por... Quanto tempo mesmo?
– 3 meses.
– Então... Estou presa aqui por três meses e tudo o que eu vi são vocês, todos mascarados, com as mesmas roupas sempre, a TV e esse quarto nojento que nem janela tem. Eu to enlouquecendo.
Ele deixou um riso escapar e rolou os olhos.
– Do jeito que você tá falando hoje, eu não duvido.
– É sério! Eu nem sei como tenho conseguido dormir ainda, nem me pergunte. Eu to enlouquecendo de verdade.
Mais um riso, mais uma revirada de olhos. Eu não aguentei e comecei a rir também.
– O que foi?
– Nada, nada. – Ele disse e fechou a cara. – Não é nada.
– Não parece.
Levantei da cama e peguei o controle da TV. Nessa hora, abriram a porta. Eu sabia que era hora do garoto ir embora, ele já devia estar lá dentro por um bom tempo – eu não tinha como imaginar, minha noção de tempo estava altamente prejudicada. Mas, ao invés de ele ir embora, apenas colocaram dois pratos cheios de macarrão instantâneo para dentro do quarto. Falaram alguma coisa, mas nem me esforcei em escutar pois sabia que não entenderia.
– O que foi? – Perguntei ao voltarem a fechar a porta.
– Sua janta. – Ele disse,esticando um dos pratos.
– Já? Você não tava aqui no almoço?
– T-tava. É que... É que...
Ele ficou em silêncio. Eu não tive coragem para questioná-lo novamente e não soube o porquê. Respirei fundo enquanto deixava meu olhar ficar preso no dele de forma intensa. Um outro mascarado abrindo a porta interrompeu o momento. Ele gritou algo no idioma dele e veio até mim, puxando-me pelo braço. Tentei resistir, olhando desesperada para o garoto, mas tudo o que ele me devolveu foi um olhar parecido com o meu. Ele ainda chegou a esticar um pouco a mão na minha direção mas, depois, deteve-se.
Tudo o que eu vi quando saí do quarto foi um corredor sombrio. Colocaram um saco na minha cabeça e empurraram-me violentamente por um caminho que eu não conhecia. Só voltei a ver a luz quando fui colocada sentada em uma cadeira fria de alumínio no meio de um cômodo que parecia uma cozinha industrial. Fui amarrada e notei a câmera sobre um tripé posta à minha frente.
– Então nos encontramos de novo...
Pelo porte físico diferenciado dos outros que eu tinha encontrado, acreditei que aquele fosse o homem que falou comigo assim que cheguei àquele quarto estranho. O calor realmente estava infernal. Lembrei-me de como Rashad reclamava comigo e podia entender seu sofrimento.
– Isso – Ele disse, tirando um lenço do bolso com uma lentidão exagerada. – vai ser pra eu não ter que aturar seus gritos de forma tão intensa.
A voz na minha cabeça dizia para eu começar a reagir e justamente essa voz me assustava também, a ponto de deixar-me imóvel. Enquanto isso, o homem deu a volta por trás de mim e colocou a mordaça improvisada com força no lugar.
– Agora, se você me permite, – Ele disse e, dessa vez, tirou um objeto metálico pequeno de dentro do mesmo bolso. – eu vou dar ao seu pai um motivo para que ele acelere a retirada das tropas dele do meu território.
Ele ergueu a mão e deixou a lâmina do pequeno canivete à mostra.
– Não se preocupe. Eu fiz a esterilização pessoalmente. Não quero perder você. Seria péssimo para a minha situação. Você gosta de tatuagens? Porque eu estou prestes a te fazer uma, permanente e de graça. Se você for realmente patriota, vai amá-la.
Eu me mexi – ou melhor, tentei –, mas tudo estava muito apertado. Consegui desviar milímetros da lâmina ao chegar para o outro lado, mas nada suficiente para impedir o contado dela com minha pele. De primeira, a dor foi insuportável. Senti a lâmina rasgando minha pele na área próxima ao ombro e gritei, barulho abafado pelo pano em minha boca. O sangue quente escorrendo pelo meu braço fez a sensação piorar. Depois do que eu senti ser uma curva, a lâmina foi retirada da minha pele. Tentei xingá-lo, até porque nada tem maior poder de aliviar a dor do que um palavrão bem usado, mas não consegui. As lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto.
– Ah, , não chore. A imagem que seu pai vai receber não vai ficar boa. Você podia sorrir. Acredito que ele vai adorar vê-la sorrir mesmo tão longe de casa. – Ele disse com a voz mergulhada no sarcasmo.
A lâmina penetrou minha pele novamente e a dor voltou mais intensamente.
– Vou fazer essa bem rapidinho pra gente terminar logo. Não gosto de ver sangue.
Ele a arrastou rapidamente, fazendo o que senti serem duas curvas. Fechei os olhos e deixei um barulho mais alto escapar da minha garganta. Mais sangue escorreu e eu senti que estava desmaiando. Meu corpo começou a ficar mole. Então ele tirou uma seringa do bolso da camisa e balançou na minha frente como se fosse um troféu.
– Você vai ver tudo, querida. Ou acha que eu deixaria você perder o momento? E, respondendo a pergunta que eu tenho certeza de que você está fazendo para si mesma dentro da sua mente... Isso é uma droga que estamos desenvolvendo, na falta de um termo mais apropriado. Ela tem capacidade de manter a pessoa acordada ou impedí-la de dormir, classifique como quiser. E agora, minha cara, você vai ser premiada. Você será a primeira pessoa que usará a droga sem ser apenas um teste.
Ele localizou minha veia e colocou a agulha lá, o que não causou nenhuma dor, obviamente, pois eu tinha um problema maior. Realmente, a sensação do desmaio foi embora e nunca me senti tão viva na vida. A dor aumentou e o tom do meu grito ficou mais histérico ainda. Mais uma vez, a lâmina tocou em mim, fazendo uma nova curva na minha pele. Eu gritei mais e mais, parando apenas para respirar. Parecia nunca acabar e eu comecei a balançar meu corpo com força, mas de nada adiantou.
– Só mais um pouquinho e...
O contato com a lâmina foi rápido. Pelo que senti, foi apenas um corte simples, provavelmente em linha reta. Gritei mais.
– ... Pronto!
Não sabia se agradecia ou não. Queria continuar sangrando rapidamente, para morrer o mais rápido possível. Aguentar aquela dor era a pior coisa pela qual havia passado na vida. Ele devolveu o saco de pano para a minha cabeça e começou a desamarrar as cordas. O cheiro de sangue estava forte e comecei a ficar enjoada. Assim que ele me libertou, caí no chão e, após liberar um grito gutural, vomitei.
– Levante-se! – Ele gritou. – Deve achar que está em um hotel cinco estrelas, mas não está. Você vai voltar andando pro seu quarto e vai fazer isso exatamente agora.
Foi difícil ficar de pé. Parecia que a dor me partiria no meio a qualquer momento. Fui empurrada pelo braço machucado, o que piorou a sensação. Quando cheguei ao meu quarto, fui jogada de qualquer jeito lá dentro. Ele ainda estava lá. Assim que a porta foi fechada, aproximou-se com as mãos no meu rosto.
– O que eles fizeram com você? – Ele sussurrou, totalmente desesperado.
– Como tá o meu braço? – Perguntei de volta.
Ele o analisou e pude ver o terror tomando conta do seu rosto.
– Meu Deus...
– O que foi?
– Eu não...
– Me fala!
O rapaz respirou fundo, parecia capaz de ficar mais nervoso que eu.
– Escreveram USA nele. ... Eu não faço parte disso. Você sabe que, se dependesse de mim, isso nunca teria acontecido.
Sua respiração estava tão ofegante quanto a minha. Ele se estendeu para a cama, pegou o travesseiro e colocou sob a minha cabeça.
– Espera só um pouco.
Observei enquanto ele se levantava para ir até a porta, abrindo-a e gritando coisas no idioma dele. Ele se manteve lá, olhando para mim a todo instante. Depois de um tempo longo, ele voltou, fechando a porta e carregando na mão uma muda de roupas e uma caixa que, pela ilustração na tampa, era de primeiros socorros. Ele colocou as roupas em cima da cama e abriu a caixa, pegando um algodão e um frasco contendo um líquido.
– Vai arder. – Ele sussurrou.
Ao embebedar o algodão com o líquido, vi seu olhar ficar mais calmo. Ele o passou com delicadeza sobre o machucado. Não ardeu tanto quanto o machucado em si tinha doído, então suportei com certa facilidade. Ele deixou o algodão cheio de sangue de lado e fez o mesmo por mais três vezes até parecer satisfeito com seu trabalho. Depois, pegou algumas gazes e cobriu o machucado, fixando-as com esparadrapo. Então ele enrolou a parte superior do meu braço com uma tala simples. Com cuidado, pegou o meu corpo no colo e foi para o banheiro, colocando-se sentada no vaso sanitário.
– O que você vai fazer? – Disse com a fala arrastada, sentindo que, finalmente, a droga estava perdendo seu efeito.
– Vou te dar banho. Você está toda suja de sangue e de algo indefinido.
– Eu não quero que você me veja... Eu não...
– Se você não quiser, tá tudo bem. Só acho que você não tem condição de tomar banho sozinha agora. Quer que eu te leve de volta pro quarto?
Pensei bem. Eu precisava daquilo e não podia recusar tal generosidade. Fiz que sim com a cabeça e observei enquanto ele começava a tirar a minha roupa, deixando-me apenas com o sutiã e a calcinha. Segurando na minha cintura, ele me ajudou a ficar em pé enquanto tirava o sangue e o vômito do meu cabelo. Quando sua mão passou pela primeira vez no topo das minhas costas, um arrepio percorreu meu corpo inteiro e meus pelos se eriçaram. Torci para que ele não tivesse percebido, mas achei impossível.
Ao secar a minha pele, ele tomou todo cuidado do mundo para não invadir minha privacidade, não tocando em nenhum lugar que pudesse ser ofensivo. Ele me entregou a toalha para que eu terminasse de secar o que faltava com o pouco de força que ainda restava em mim. Senti seus olhos queimando a minha pele, o que acarretou em um forte rubor. Com apenas um olhar, consegui mostrar que queria que ele se virasse. Retirei a calcinha e sutiã molhados ao ver que havia outro par na muda de roupas novas. Coloquei-os com dificuldade por poder usar apenas uma mão por conta da dor que irradiava do outro braço, mas eu o fiz da forma mais rápida que pude.
– Se você pudesse me ajudar... – Eu sussurrei, ainda afetada pela proximidade que tinha compartilhado com ele embaixo do chuveiro.
– É claro. Do que você precisa?
– Preciso que você me ajude a vestir a calça e a camiseta.
Ele se virou e tentou disfarçar o olhar que direcionou para mim. Ao aproximar-se, tomou a calça na mão e abaixou-se na minha frente, encaixando as pernas da calça nos meus pés. Sentir suas mãos deslizando a calça para cima das minhas pernas causou um novo arrepio que ele, com certeza, notou ao ficar com a cabeça na direção da minha barriga. Deixando um sorriso escapar, ele pegou a camisa e colocou em mim com cuidado ao escorregar meu braço machucado pelo buraco no tecido. Quando terminou, pareceu observar o resultado final como um artista que aprecia sua obra prima.
– Obrigada. – Eu disse, quebrando o silêncio.
– Não há de quê.
Olhei para o chão, procurando codificar de forma correta as palavras que formavam-se na minha mente.
– Por que você tá fazendo isso? – Perguntei.
– Isso o quê?
– Você tá sendo legal, simpático, me tratando como se eu fosse importante...
Ele abaixou a cabeça em um gesto claro de vergonha.
– Talvez seja porque você merece ser tratada como alguém que é importante. – Ele sussurrou.
As palavras fizeram com que meu corpo se arrepiasse mais uma vez. Que maldita mania ele tinha de fazer com que eu me arrepiasse daquele jeito? Mas eu não podia reclamar, porque sabia que estava gostando daquela sensação.
– Obrigado pelo elogio.
Ele levantou a cabeça. Achei que veria seu sorriso de sempre mas, ao invés disso, ele se aproximou, ficando extremamente próximo de mim. Foi algo que mal pude perceber que estava acontecendo. A máscara causou um incômodo quando seus lábios tocaram os meus. Nós nos beijamos de forma calma, tranquila, algo que causou certo estranhamento a princípio e, posteriormente, dezenas e dezenas de questionamentos na minha cabeça.
O que era aquilo? Qual era o significado daquela ação? Por que eu estava sentindo que podia ficar tranquila na presença dele? Como eu havia permitido que chegássemos àquele ponto? Era sinal de que eu definitivamente estava enlouquecendo? E se eu estava enlouquecendo... Eu deveria ceder à loucura de uma vez por todas? Foi então que eu pensei... Quer saber? Foda-se! Se isso é capaz de fazer com que esse sequestro chegue a um fim, vale o risco.


I figured it out, saw the mistakes of up and down.


Quando ele chegava, meu dia ficava mais alegre. Deixei isso escapar uma vez e ele riu de mim. Minha estadia ali estava ‘menos pior’. Quando eu não estava com Rashad, rindo das piadas que ele contava, estava com ele, encarando os lábios que pensava ser a minha saída daquele lugar. Não havia explicação lógica para o que eu estava sentindo. Provavelmente, estava enlouquecendo mesmo e pronto mas, àquela altura, não fazia muita diferença enlouquecer ou não.
Era hora da troca de turno. Quando ele colocou o pé dentro do quarto, contive o sorriso enquanto estávamos na presença de um terceiro. Assim que a porta fechou, eu me levantei e fui até ele, que continuou encostado na mesma, prendendo-a até que eu chegasse perto o suficiente para depositar um beijo rápido nos seus lábios.
– Oi. – Ele disse com um sorriso.
– Oi. – Respondi de forma rápida e animada.
Observando sua linguagem corporal, notei que ele estava um pouco mais rígido do que de costume, mais parecido com os outros homens que ficavam fazendo a minha “segurança”.
– O que houve?
– Nada.
– Não parece nada.
– Não é nada, é que eu fiz uma bobagem só, mas acho que... Não sei, é melhor deixar pra lá mesmo.
– Eu quero saber! – Gritei, batendo o pé no chão com força.
Ele riu da minha pirraça, mas continuava rígido.
– Acho que fiz besteira.
– Mas eu quero saber, por favor.
– Só se você jurar que não vai me odiar depois disso.
Foi minha vez de rir. Olhei para a cara dele, tentando parecer o mais sincera possível.
– Eu acredito que não seria possível. Seria injusto com essa sua cara de medo.
– Deixa pra lá, você não vai gostar.
Quando ele recuou, eu fui junto.
– Eu quero saber. Já disse isso. Por favor, me mostra.
Minhas palavras fizeram com que seu olhar fixo derretesse. Ele fechou os olhos ao aproximar mais o rosto. Seus lábios roçaram nos meus e eu fechei meus olhos lentamente, ficando anestesiada pela sensação. Seu hálito escapou por entre seus lábios quando ele deu uma risada.
– Não quer saber qual é a surpresa?
Afastei meu corpo, mantendo as mãos em seus ombros. Por alguns segundos, senti os músculos de seus braços escondidos sob a roupa larga e deixei um suspiro escapar. Recuperando meus sentidos, balancei e ergui a cabeça, olhando em seus olhos.
– Quero.
– Então sente-se. – Ele disse, apontando com a cabeça para a cama.
Obedeci sem questionar, a curiosidade saindo pelos meus poros. Ele travou a maçaneta da porta com a cadeira nova que tinham levado para o quarto logo depois do tal chefe me usar para quebrar a antiga. Eu esperei que ele viesse na minha direção como um leão vai até sua caça e beijasse-me violentamente. Em algum lugar da minha mente, eu esperava realmente isso. Mas ele simplesmente sentou ao meu lado, com um sorriso leve, escondido pelo buraco da máscara que não era grande o suficiente para o sorriso.
– Sabe que dia é hoje?
– Me desculpas, mas... É sério que você tá me perguntando o dia?
Ele riu.
– Ok. É... Bem... Eu...
Tentei conter a risada.
– Hoje faz um mês que... Que...
– Pode falar, não tenha medo. – Eu o encorajei.
– Faz um mês que a gente se beijou da primeira vez.
Aquelas últimas palavras me pegaram desprevenida. Era surpreendente escutar aquilo vindo de um garoto, ainda mais na situação em que nós nos encontrávamos. Senti como se eu fosse adolescente de novo e meus sentidos disparassem muito mais facilmente. Ele se lembrava do nosso primeiro beijo. Ele tinha contado os dias. Tudo aquilo provocou um reboliço dentro da minha mente que só serviu pra me deixar mais confusa do que eu realmente já estava.
– Fala alguma coisa. Você tá me deixando nervoso.
Olhei para o chão, como se lá estivessem escritas as palavras que eu desejava usar para respondê-lo.
– De qualquer jeito, eu trouxe isso. Achei que você ia gostar, sei lá. – Ele disse com uma voz claramente desanimada e eu senti que ele tinha jogado alguma coisa na cama.
Quando olhei para o objeto, eu me deparei com uma embalagem de presente completamente amassada. Tomei o pacote nas mãos e desamarrei o laço enorme na frente dela. Ao retirar completamente o papel, constatei que eu segurava na mão uma cópia de Água para Elefantes.
– Eu li em algum lugar que esse era seu livro preferido. – Ele disse, acanhado.
Eu sorri ao deixar os dedos deslizarem pela capa do livro. Percebi que ele estava observando, então virei para ele e sorri mais ainda.
– Obrigado.
– Mas não é esse seu presente.
Devo ter ficado com o rosto claramente confuso e o fiz rir da situação.
– Abra o livro.
Com certo receio, escorreguei meus dedos até a borda da capa e puxei. Ele tinha substituído todas as páginas do livro por páginas de jornais. Eu folheei rapidamente e pude reconhecer alguns deles. The New York Times, The Guardian, The People’s Daily, International Herald Tribune, entre outros. Todas aquelas folhas tinham algo em comum. Em palavras diferentes, todas elas apresentavam notícias informando sobre como os Estados Unidos estava em crise, pois o presidente estava dedicando todo o seu tempo e o seu poder para recuperar a filha que havia sido sequestrada. Meu coração se apertou quando parei em uma manchete do The Independent, que apresentava uma foto minha e do meu pai na minha formatura do colegial. Deixei algumas poucas lágrimas escaparem dos meus olhos que ele fez questão de secar com os dedos.
– Eu não tenho como agradecer... Eu nem sei seu nome! – Constatei.
E eu realmente não sabia. Nunca o tratava pelo nome e, às vezes, ficava enrolada para terminar uma frase. Ele nunca se preocupou em apresentar-se e eu achava estranho. Era como se ele me conhecesse e, ao mesmo tempo, eu nunca tivesse o visto.
– Eu não sei se seria bom te contar.
– Por que não seria?
– Porque...
Ele não terminou a frase.
– Porque...? – Eu incentivei.
– Porque eu não quero te envolver muito nessa história. Você vai sair daqui e nós vamos seguir caminhos diferentes na vida. Não vale a pena você lembrar de mim de um jeito que...
Não aguentei e estiquei-me para beijá-lo. Fui extremamente rápida e acredito que eu o peguei de surpresa. Se tinha um momento para arrancar uma informação boa, era aquele. E por quê não um beijo para estimular? Ele não apresentou nenhuma reação de primeira mas, depois, segurou minhas mãos com carinho. Quando eu me afastei, ele se manteve de olhos fechados e lábios entreabertos.
, eu não quero que você se apegue.
– Eu quero saber seu nome.
Ele suspirou, deixando um ar de derrotado escapar por entre seus lábios.
– Meu nome é Zayn.
– Prazer, Zayn.
– O prazer é todo meu, .
– Seu nome é lindo.
– Fico feliz que tenha gostado.
Ele se virou para frente, ignorando-me totalmente por alguns segundos. Enquanto isso, a sua voz ecoava pela minha mente. Zayn... Tinha sido a voz dele ou o nome realmente era lindo? Eu sentia todas as letras produzindo uma música deliciosa nos meus ouvidos. Sorri involuntariamente, e ele percebeu.
– O que foi?
– Me beija, Zayn?
Seus olhos procuraram os meus, como se o que eu havia dito não fosse normal. Na verdade, não era. Eu nunca havia pedido que ele me beijasse. As coisas simplesmente aconteciam e eu deixava porque sentia que ele podia ser a minha chave para fora dali, mas algo mudou em mim naquele dia. Não sabia que efeito teria meu pedido, mas quis tentar. Talvez desse certo. Eu não fazia ideia.
Quando Zayn se aproximou, senti todos os músculos do meu corpo enrijecendo. Respirei fundo. Esperei que seus lábios tocassem os meus, mas não foi isso que aconteceu. Eu estava de olhos fechados e delirei quando seus lábios tocaram a ponta do meu queixo. Sentia falta desse tipo de contato, então soube de primeira que eu me entregaria completamente a ele. Suas mãos seguraram minha cintura com firmeza pela primeira vez. Seus dedos, ligeiramente rudes, me deixaram extasiada.
Seus lábios foram descendo na direção do meu pescoço e os meus pelos eriçaram. Respirei fundo e deixei um suspiro pesado demais escapar da minha garganta. Minhas mãos subiram lentamente pelos seus braços até chegarem à sua cabeça e apertarem seu cabelo, forçando sua cabeça contra a minha pele. As suas, que estavam na minha cintura, começaram a descer em um ritmo torturante e lento para meus quadris. Ergui meu corpo na sua direção, pedindo por um contato físico mais intenso. Zayn ameaçou jogar seu corpo para cima do meu mas deteve-se rapidamente, levantando para recompor a sua postura.
Meu coração disparou, tanto pela intensidade dos movimentos anteriores quanto pela separação inesperada. Ele retirou a cadeira rapidamente da porta e colocou de lado, sentando nela no exato momento que abriram a porta. Rashad falou alguma coisa com Zayn, que saiu logo depois, despedindo-se com um sorriso travesso no rosto. Olhei pelo canto do olho para o livro que, felizmente, estava fechado sobre a cama.
– Seus olhos estão brilhando. – Rashad disse.
– É o livro que eu to lendo. Me fez chorar.
– É, eu imagino...
Ele sabia. Mesmo que eu estivesse tentando esconder, ele sabia que havia alguma coisa entre eu e Zayn. Zayn... O nome que, com certeza, enlouqueceria meus pensamentos – pelos motivos certos e errados. Eu respirei fundo e coloquei o livro no meu colo. Abri na primeira página, a manchete do The New York Times. Li rapidamente sobre como meu pai tinha perdido nove compromissos em apenas uma semana pois havia largado tudo para dedicar-se à operação que envolvia o meu rapto. Deixei que sorrisos involuntários e lágrimas rebeldes escapassem.
Zayn não voltou naquele dia, o que fez com que eu ficasse mais ansiosa ainda para nosso próximo encontro. Ainda estava curiosa sobre como ele tinha adivinhado que Rashad apareceria para substituir seu turno. Ia perguntar quando ele aparecesse da próxima vez. Fui dormir sorrindo, lembrando de cada palavra que li sobre meu pai. Tentei esconder, mas não consegui. Estava feliz demais. Abracei o livro e peguei no sono, mais louca do que nunca para encontrá-lo novamente e cavar mais ainda sobre o que estava acontecendo no mundo lá fora.


Close the door, turn the key.


O ar condicionado tinha quebrado e – só para variar – era Rashad quem estava dentro do quarto comigo. Tê-lo ali era algo que eu tinha aprendido a amar, de certa forma. Eu já estava ali havia mais de cinco meses. Era quase metade de um ano, coisa demais para que eu ainda mantivesse a chama da esperança viva. Todos os dias, eu pegava o “livro” com o qual Zayn me presenteara, contendo as notícias sobre as tentativas que meu pai estava realizando para encontrar a filha raptada, mas já não era a mesma coisa. Eu já sabia tudo de cor. Queria ir embora, apenas, mas achava que nunca mais iria.
Toda hora, alguém diferente entrava no quarto com ferramentas nas mãos e mexia no aparelho. Eu estava estirada na cama quando Zayn apareceu na porta. Meu corpo inteiro entrou em alerta. Seus olhos fizeram um contato rápido com os meus, que ele disfarçou perfeitamente. Respirei fundo enquanto ele entregava uma ferramenta para o homem que mexia no aparelho. Eles trocaram algumas palavras alteradas que, como sempre, eu não entendi, e Zayn tomou o lugar dele. Em instantes, ouvi um estalo e, então, o barulho costumeiro do ar condicionado funcionando. Suspirei de alívio enquanto Zayn deixava um sorrisinho escapar pelo canto da sua boca.
Depois de outras palavras que eu não pude compreender, todos saíram, menos Rashad. Ele olhou para mim sério, o que fez com que eu me lembrasse das vezes na infância em que eu era repreendida pelos meus pais. Sustentei seu olhar por alguns instantes, mas não aguentei e desviei os olhos, preocupada com o significado que aquilo poderia ter.
– Eu vi o jeito que o garoto te olhou. – Ele disse, mais sério do que nunca.
Não respondi. Encostei na parede e olhei para o chão, como costumava fazer sempre que não queria prosseguir com a conversa.
– Não faça isso, . Eu te avisei. Você está fazendo a coisa mais errada que poderia fazer aqui. Já lhe disse que ele é gente errada.
– Ok, eu já ouvi e já apertei o botão do “foda-se”.
– É assim que você me agradece por tentar te ajudar?
– Não se meta na minha vida! Você não é meu pai! Se quisesse me ajudar mesmo, teria falado com alguém pra me tirar daqui!
– E será que ninguém aqui se perguntou por que ele não fez isso ainda?
A porta abriu e Zayn apareceu de novo, puxando Rashad de forma agressiva para fora. Tomou o lugar dele, ficando sério ao apoiar-se na parede. Sua ação rápida não me deixou raciocinar completamente a pergunta que Rashad tinha feito antes de sair, mas ela ainda ecoava na minha mente, assim como uma voz que dizia que ele tinha razão.
– O que houve?
– Nada. – Ele rosnou.
– Você escutou. – Deduzi.
– O que você acha?
– Já que escutou, por que não responde a pergunta?
– Existem coisas que eu prefiro esconder de você, .
Fuzilei Zayn com o olhar. Sentei na cama e, tomando o livro dele nas mãos, eu o atirei longe.
– O que foi isso? – Ele perguntou com o tom de voz elevado.
– Sai daqui!
– Por que você tá fazendo isso?
– Você não fez nada. Você simplesmente se aproveitou da minha fragilidade. Você me usou. Você não tomou nenhuma decisão que me ajudasse a sair daqui. Você é tão patético quanto todos os outros daqui.
Zayn chegou mais perto violentamente, jogando-me contra a parede. Ele me segurou pelo pescoço e aproximou sua boca do meu ouvido.
– Eu não fiz nada, , porque todo tipo de comunicação no país tá sendo monitorado justamente por sua causa. Eu não fiz nada, , porque não há nada a se fazer que não coloque sua vida em risco. Eu não fiz nada, , porque tenho medo de que, seja lá o que eu faça, possa trazer uma consequência negativa pra você. Então se acalme agora se não quiser que eu desapareça daqui de uma vez por todas.
Quando ele se afastou, eu me segurei em seus braços. Ele ainda tentou libertar-se, mas eu segurei com mais força.
– Me desculpa.
– Desculpas não apagam a memória. Você foi capaz de achar que eu to te usando.
Fechei meus olhos e deixei que o ar entrasse em meus pulmões lentamente. Ele se soltou, mas ainda podia sentí-lo próximo. Eu me sentia mal só de pensar que, na verdade, quem estava usando quem era eu, usando Zayn.
– Eu fiz o que podia, mas não consegui mandar nada pra ninguém sobre você. Tenha certeza de que eu tentei, . Eu tentei e continuarei tentando até te tirar daqui.
Levantei minha cabeça para encará-lo. A maçaneta girou e, incrivelmente, tivemos tempo para recuperarmos nossas expressões. Um qualquer colocou um prato para dentro, que Zayn pegou e esticou para mim.
– Não to com fome.
– Tá na hora de você comer.
– Não faz diferença.
– Faz sim.
– Quem se importa?
– Eu me importo. E pare de agir como criança.
Eu comi contra a minha vontade. Foi uma semana longa, incrivelmente mais longa que as outras. Zayn não chegou perto de mim novamente. As palavras que trocamos foram grossas e secas. Eu senti que estava deixando que ele escorregasse pelos meus dedos e não sabia o porquê de estar tão incomodada com ele não me tratar do mesmo jeito de antes.
O mês se passou e eu ainda sentia que ele estava distante. Zayn não queria falar comigo além do necessário. Rashad continuava irritado e dando sermões a cada oportunidade que tinha. Comecei a desistir. Sentia que meu mundo estava desmoronando com mais intensidade do que antes. Foi então que eu tive a bela ideia de tentar suicídio.
Uma vez por semana – e isso era nojento –, eu tinha direito a tomar um banho e mudar de roupa. Foi durante esse momento que eu me entreguei ao desespero total de uma vez por todas. Peguei a toalha e a enrolei no meu pescoço, amarrando suas pontas por cima da porta do boxe. Pendurei meu corpo enquanto sentia a toalha me segurando. Quando senti o primeiro incômodo pela falta do ar, tossi. A primeira tosse foi o passe livre para todas as outras. Cada vez mais, as tosses ficavam mais frequentes e mais secas, até que escutei uma batida na porta.
– Tá tudo bem aí? – Escutei a voz de Zayn perguntar.
Minha reação não foi exatamente algo planejado. Ao tentar me mover para sair da forca improvisada, a toalha desamarrou e eu levei um tombo. Zayn abriu a porta na hora e eu agradeci por pelo menos ter tentado suicídio depois de ter colocado a roupa.
– O que aconteceu? – Ele perguntou, assustado.
– Nada.
– Não parece nada.
– Mas não é nada. – Eu respirei fundo e segurei mais uma tosse. – Você não é do tipo que se importa, pelo jeito, então continue assim.
Ele ofereceu a mão para ajudar, mas eu levantei sozinha. Zayn olhou para a toalha e para meu pescoço, assimilando tudo rapidamente.
– O que você ia fazer, ?
Era a primeira vez que ele me chamava pelo apelido. O jeito que a voz dele soou tocou meu coração. A falta que – ilogicamente – eu sentia dele fez efeito no momento e eu pulei nele, beijando-o imediatamente. Suas mãos me seguraram e levantaram-me mais. Segurei em seus ombros e fiz um esforço para levantar as pernas até sua cintura.
– O que é isso? – Ele perguntou, sem fôlego.
– Não fala. – Respondi imediatamente.
Quando seus lábios alcançaram os meus de novo, foi puro desejo que eles exalaram. Zayn me apertou contra a parede e eu delirei quando suas mãos apertaram meu quadril.
– Isso tá rápido demais. – Disse com a voz falhando.
Ele não me escutou, saiu do banheiro e levou nós dois para o quarto. Enquanto Zayn me mantinha em seu colo com uma das mãos, ele usou a outra para pegar a cadeira e travar a maçaneta como costumava fazer anteriormente. Quando fui colocada na cama na cama, senti o desejo indo embora e todo cavalheirismo que ele costumava ter quando estava comigo voltou. O seu corpo por cima do meu fez com que todo meu lado feminino florescesse. Sua respiração pesada enquanto olhava para mim de forma intensa fez com que eu tremesse. Ele deixou que sua mão acariciasse a lateral do meu rosto com tanta delicadeza que contrastava com sua pele rústica.
– Tem certeza disso? – Ele perguntou.
– Você tá me perguntando se eu realmente quero fazer sexo com você?
– To.
Levantei um pouco meu corpo e, então, eu o beijei.
– Seja um pouco menos antiquado, Zayn... Qual é o seu sobrenome?
– É um passo e tanto isso. Prefiro que só me chame de Zayn.
Virei o rosto, suspirando claramente desapontada. Ele riu, mas eu não fiz o mesmo.
– Nós já chegamos longe demais, . Eu te disse meu nome e to prestes a tirar sua roupa. Sou seu sequestrador.
– Prefiro te chamar de ‘possível herói’. E... Faz isso de novo?
– O quê?
– Me chamar pelo apelido.
Ele sorriu tão perfeitamente que fez com que meu interior se desmanchasse por completo, mas ele não me chamou de como pedi. Ao invés disso, ele se ajoelhou sobre mim e, ao dobrar-se, alcançou a barra da minha calça. Zayn levantou minha blusa e distribuiu beijos pela minha barriga enquanto entrelaçava seus dedos nos meus.
Se eu tinha qualquer dúvida de que ele era um cavalheiro perfeito, perdi naquele dia. Fizemos amor por um bom tempo e ele, em nenhum instante, deixou que eu desentrelaçasse meus dedos dos seus. Quando não aguentava mais e pedi para parar, ele se deitou e aninhou-me em seu peito, fazendo com que um suspiro escapasse dos meus lábios.
– Não é perigoso alguém chegar?
– É hora da janta. Ninguém vai aparecer aqui.
– Como você sabe?
– Eu não perdi a noção do tempo, meu amor.
Aquelas duas palavras fizeram mais efeito do que qualquer uma jamais havia feito na minha vida. Girei meu corpo até ficar por cima dele e eu o beijei como se sua boca fosse a última do mundo. Quando sorri para ele, seus olhos brilharam. É claro que me incomodava que aquela máscara ainda estivesse ali depois de um momento tão íntimo, então coloquei minha mão em seu pescoço, onde ela começava. De imediato, ele colocou a mão na minha.
– Não. – Ele disse.
– Por quê?
– Eu não quero que...
– Não quer que eu me envolva, já sei. Mas eu quero, Zayn. Por favor.
Sua mão ameaçou libertar a minha, mas não consegui vencê-lo.
, não me deixa te prejudicar mais do que já to prejudicando.
– Você não tá me prejudicando.
Ele sorriu, mesmo aparentando dificuldade em fazer aquilo. Eu me entreguei. Parecia que minha insistência em envolver-me mais com ele provocava dor em Zayn e eu não suportava aquela ideia. Deitei novamente com a cabeça em seu peito.
– Me desculpa. – Pedi.
– Não, meu amor. – Ele disse aquelas palavras novamente. – Eu que te peço desculpas.
Ele depositou um beijo no topo da minha cabeça e, então, passei pela estranha sensação que tinha presenciado pela última vez quando estava com . Eram as famosas borboletas invadindo o meu estômago. Não, elas tinham que ir embora. Mas ao mesmo tempo em que eu sabia disso, sentia que eu mesma estava mantendo-as trancafiadas lá.


Words will be just words until you bring them to life.

Era um daqueles dias em que nada parecia poder dar errado, e eu estava consciente de que isso parecia muito estranho vindo de uma garota mantida em cárcere privado por quase um ano inteiro. Zayn havia adormecido comigo nos braços pela primeira vez e eu respirava seu aroma natural, misturado ao cheiro do que era provavelmente mofo, vinha da máscara. Como ele consegue ficar com isso o dia inteiro grudado no rosto sem vomitar? Seu relógio de pulso marcava 9h30, mas eu não sabia se era da noite ou da manhã, se era no fuso horário deles ou no meu... Não havia nada que eu pudesse deduzir sozinha, tudo trazia dúvidas.
Quando ele se moveu, tentei mudar de posição também com sincronia para que ele não acordasse, mas falhei. Ele esfregou os olhos com as mãos e, quando olhou para mim, sorriu e depois checou as horas no mesmo relógio que eu estava observando anteriormente.
– Bom dia.
– Bom dia. – Respondi, aconchegando-me mais ainda a ele. – Então é dia.
– O quê?
– Nada, desculpa, é que eu tava olhando no seu relógio mas não sabia dizer se é manhã ou noite.
– Seu senso de tempo tá tão danificado a esse ponto?
– Acredito eu que esteja pior do que você pode imaginar.
Zayn se remexeu na cama e apertou-me contra seu corpo, inspirando profundamente quando enfiou o nariz entre meus fios de cabelo.
– Seu cheiro é delicioso. – Ele disse.
– O seu também. Tem seus defeitos, mas é delicioso.
– “Tem seus defeitos”?
– Não é nada. Você vai ficar alterado se eu disser e eu, honestamente, to curtindo demais o momento pra deixar isso acontecer.
Depositei um beijo no seu pescoço e voltei a deitar minha cabeça em seu peito. Pela primeira vez, comecei a prestar atenção em seus batimentos cardíacos. Eles eram lentos e constantes, uma perfeita composição rítmica. Passei a ponta dos meus dedos sobre a pele de sua barriga e senti os batimentos perderem seu ritmo perfeito e ficarem mais frequentes. Ri contra sua pele percebendo que eu havia causado aquela reação com apenas um leve toque.
– Sexo no café da manhã? – Ele perguntou, brincalhão.
– To só checando uma coisa.
Senti sua mão deslizar, tranquila e leve, da mesma forma que eu havia feito com ele, mas pela linha da minha espinha. O contato de sua mão rústica com a pele fina das minhas costas provocou um calafrio delicioso que se espalhou por todo meu corpo. Talvez sexo no café da manhã não seja ideia, pensei.
– Isso é o suficiente pra você me falar quais são os defeitos do meu cheiro?
– Não.
– Quem sabe isso ajude.
Com uma das mãos, ele ergueu meu rosto para que ficasse virado para o seu. Zayn trouxe seu rosto para perto e beijou-me calma e lentamente. Uma de suas mãos, a do braço que ainda estava em volta do meu corpo, me apertou com uma força delicada, enquanto a outra sustentava meu rosto e relaxava-me com uma leve carícia.
– E agora? – Ele perguntou, com a voz mais sedutora do que nunca.
– E agora você só me deixou mais entorpecida do que eu já tava. – Brinquei.
– Aí sim que eu vou ficar alterado. Você sabe que eu não gosto quando você me esconde as coisas. – Ele fez beicinho.
– Isso é jogo sujo, Zayn.
– E vou ficar assim até você me dizer o que é.
– Ok, ok, ok! – Gritei. – Só para com essa careta. Me irrita.
Ele forçou mais uma vez mas, logo depois, colocou um sorriso enorme e contagiante em seus lábios.
– O problema... É a máscara.
– O que isso tem a ver com meu cheiro?
– Ela fede. Você ficaria mil vezes melhor sem ela. Além do mais... É bem estranho estar na cama com alguém cujo rosto você nunca viu por completo.
Assim que pronunciei aquelas palavras, eu me arrependi. Eu tinha falado demais e tive medo da reação de Zayn. Fiquei esperando por uma repreensão e todo aquele papo de “eu não quero que você se envolva demais”. Por um segundo, realmente achei que ia levar um sermão, mas ele simplesmente apertou meu mais ainda e deu um beijo na minha testa.
– Acho melhor nos vestirmos.
Fiz beicinho para ele e Zayn sorriu. Ganhei mais um beijo antes que ele se levantasse e colocasse as roupas que estavam no chão. Eu me enrolei na coberta e comecei a colocar as minhas roupas também.
– Olhando assim, parece que não temos nada além de sexo casual. – Disse, abraçando minhas pernas quando terminei de colocar as roupas.
– Você sabe bem que não é assim, não sabe?
Ele depositou um beijo calmo nos meus lábios.
– Eu tenho que ir.
– Como assim?
– Tá na hora da mudança de turno.
– E quando você volta?
– Hoje de tarde. Tenho algumas coisas pra fazer.
Quando ele pronunciou essa última frase, senti seu olhar ficar triste.
– O que houve?
– Coisas que te atrapalhariam se você soubesse.
Mais daquela conversa que eu detestava. <br>– Tá. Antes de você ir embora... Faz aquilo?
– Dez meses e vinte e quatro dias.
– Obrigada. – Respondi com um sorriso quando ele me disse o tempo que fazia desde que eu chegara ali, algo que ele sempre fazia assim que anunciava que a hora da mudança de turno estava próxima.
Zayn se aproximou para mais um beijo rápido. Logo depois, ele foi até a porta e tirou a cadeira – nossa melhor amiga – da maçaneta.
– Eu to me apaixonando por você. – Ele disse com um sorriso enorme no rosto e saiu.
As palavras me pegaram de guarda baixa. Outro homem, um com quem eu não tinha muita simpatia, entrou no exato momento em que eu me peguei boquiaberta. Fechei os olhos e tentei imaginar que aquilo havia sido apenas um sonho. Mas não havia. A sensação era bem real. A voz dele ainda estava ali no quarto.
Durante uma semana – o que acarretou no meu aniversário de onze meses presa –, tentei evitá-lo. A última vez que eu tinha escutado um homem falar sobre amor para mim que não fosse meu pai, nada tinha dado certo. Zayn perguntava sempre o porquê de eu estar estranha. Eu recuava quando ele me beijava e não cedia aos toques que costumavam ser irresistíveis para mim.
Aquele joguinho durou mais outra semana, e eu senti que não estava sendo bom para nós dois que eu continuasse agindo daquele jeito. Quando comecei a imaginar as possíveis soluções para retomar nosso relacionamento de antes, as palavras se repetiam ainda mais frequentemente na minha cabeça. Imaginei que o certo a se fazer seria dizer que eu me sentia da mesma forma, mas será que era certo mentir para ele? Foi assim que meu maior medo, naquele instante, tornou-se realidade. E se não fosse mentira? E se eu realmente estivesse começando a ficar apaixonada um dos meus sequestradores? Eu tinha ficado totalmente dependente dele para tudo, sentia falta dele demasiadamente e contava os segundos para vê-lo novamente. Era assim com quando tudo começou.
Respirei fundo e balancei a cabeça, tentando mandar a ideia para bem longe de mim. Zayn parecia adivinhar quando eu estava travando lutas no interior da minha mente sobre ele. Nessas horas, sempre era a vez do seu turno. Ele entrou, esperou o outro homem sair, realizou seu ritual de sempre ao travar a porta com a cadeira e foi ao meu encontro. Eu não me afastei como havia feito nos últimos dias, mas também não esbocei nenhuma reação em resposta.
– Isso já é um avanço. – Ele disse com um sorriso.
Forcei um sorriso também, mas algo dizia que eu não havia sido completamente bem sucedida. Ele me olhou preocupado e sentou ao meu lado.
– Eu queria ler sua mente pra saber o que aconteceu.
– Eu prefiro que você não saiba.
– Só queria saber se eu fiz algo de errado. Porque, se eu tiver feito alguma besteira, eu vou até o fim do mundo pra conseguir consertar isso.
Sorri, finalmente, de forma mais sincera.
– Você é um anjo, Zayn. Você não fez nada de errado.
Ele sorriu e eu senti a vontade habitual de beijá-lo. Cheguei mais perto, colocando-me de joelhos na sua frente. Suas mãos me seguraram pela cintura enquanto eu coloquei as minhas, uma de cada lado do seu pescoço, sobre a parte exposta da sua pele. Toquei seus lábios de forma leve. Zayn inspirou profundamente antes de puxar-me para mais perto. Caí sentada em seu colo, o que não me impediu de continuar beijando-o.
– Quero que você faça uma coisa. – Ele disse com a voz rouca.
Assenti com a cabeça.
– Tira.
– Tirar o quê?
– Tira minha máscara.
Como sempre, Zayn me surpreendia. Só que, daquela vez, foi mais intenso que em todas as outras vezes. O “estou me apaixonando por você”, o “meu amor”, nosso primeiro beijo, o jeito como ele me tratou quando eles me machucaram... Nada superava o último pedido que ele tinha feito.
Tentei manter as mãos firmes, sem tremer. Olhava firmemente em seus olhos enquanto começava a desenrolar sua máscara para cima, tal como havia feito no primeiro sonho que havia tido com ele. Notei, pela primeira vez, que seus olhos eram castanho claros, mas não era um simples castanho claro. Eles brilhavam intensamente enquanto eu realizava um dos meus maiores desejos desde que entrara naquele quarto, perdia apenas para a vontade de sair dali.
O tecido ultrapassou a margem da sua boca. Ele deixou um sorriso lindo escapar, sorriso esse que eu podia finalmente apreciar por completo. Passei os dedos pelo seu queixo e pelo contorno externo da sua mandíbula.
– Você fez a barba pra me deixar tirar sua máscara?
Ele deu de ombros, ainda com o sorriso hipnotizador nos lábios.
– Queria ficar bonito pra você.
– Seu sorriso já é o suficiente.
– Eu percebi. Você não para de olhar pra minha boca.
Desviei o olhar de volta para seus olhos e arqueei uma sobrancelha. O sorriso aumentou e ele finalmente permitiu que eu visse de modo perfeito os dentes incrivelmente brancos que ele costumava esconder de mim. Continuei subindo a máscara. Quando descobri seu nariz, dei um beijo rápido na ponta do mesmo e ele riu.
– Sabe o que você está me lembrando?
– Não. O quê?
– Quando eu era pequeno, eu abria lentamente os presentes que eu ganhava. Eu gostava da tortura da curiosidade.
– Não consigo imaginar isso. – Eu disse, rindo.
– É, eu sei. Quanto a isso, eu mudei. – Ele riu também.
Respirei fundo e voltei a ficar séria. Mais alguns centímetros e, então, eu finalmente teria desvendado o mistério completo que envolvia aquele garoto. Fechei meus olhos e retirei completamente a máscara. Quando voltei a o olhar, o homem mais lindo do mundo me encarava de volta. Todas suas feições eram perfeitamente desenhadas. Ele não lembrava em nada um possível paquistanês ou a ideia que eu havia formado de um paquistanês na minha mente. Sem dúvidas, Zayn era perfeito.
– Por que você se escondeu esse tempo todo de mim, Zayn?
– Você sabe a resposta pra essa pergunta.
– Eu to falando sério.
– Eu também. . Não era pra gente ter ido tão longe. Tudo o que a gente fez só vai piorar as coisas pra nós mesmos. Eu não me importo de passar por nenhum problema. Mas me importo se você passar. Eu não quero que você sofra as consequências dos meus erros.
– Você tá falando que o que a gente tá vivendo é um erro?
– Claro que não. Olha pra mim, olha nos meus olhos. – Ele colocou uma mão de cada lado do meu rosto. – Se tudo isso for um erro, eu sinto te dizer que nunca me arrependerei dele. Jamais. É uma promessa minha. Vai ser o erro do qual eu mais me orgulharei durante o tempo que a minha vida durar.
Zayn me beijou do jeito mais apaixonado que eu havia sido beijada a vida inteira. Ele me deitou lentamente na cama, ficando por cima de mim, mas não deixando que nem um grama sequer de seu peso fosse apoiado no meu corpo. Nós nos beijamos pelo que pareceu a eternidade e eu ficaria ali para sempre se pudesse. Tentei dar mais volúpia ao beijo, mas ele se recusou a deixar o beijo ganhar mais intensidade.
– Nós não vamos fazer nada agora.
Nada? – Perguntei, forçando um tom de desapontada e com um sorriso no canto dos lábios.
– Nada. – Ele disse com firmeza. – Porque o erro que eu to vivendo com você é valioso demais pra ser baseado em apenas sexo.
Já não eram mais borboletas que invadiam meu estômago. Eram pterodátilos.


When I close my eyes, all the stars align and you are by my side.

Tempo. A palavra já não possuía mais nenhum significado para mim, é claro. Mas isso não significava que eu não estava consciente de que ele estava passando e de que, conforme o tempo passava, mais perto eu estava de sair dali. Minhas esperanças renasceram, Zayn me ajudou com isso. E quanto aos pterodátilos que ele havia colocado em meu estômago... Bem, eles estavam cada vez mais fortes, e eu estava desconfiada de que eles estavam colocando ovos que eclodiam a cada vez que Zayn se trancava no quarto comigo para fazer de mim mulher como homem algum jamais havia feito.
Rashad estava com um sorriso bem estranho no rosto. Não era um sorriso assustador. Era simplesmente um sorriso. Mas, ainda assim, não era comum.
– Vai demorar muito pra você me dizer por que tá com esse sorriso na cara?
– Isso não depende de mim.
– Ah, claro, você não sabe o porquê de estar sorrindo, sei...
Revirei meus olhos e me joguei na cama. Acidentalmente, bati com a cabeça na parede que ficava logo atrás dela e soltei um grito. Rashad não conseguiu segurar a gargalhada.
– Viu o que dá fazer pirraça como se fosse uma criancinha?
– Vá se foder.
– Não vai ser isso que você vai me dizer depois de hoje, tenho certeza.
– Afinal de contas, o que tem de tão importante hoje?
– Espere e verá!
Sentei na cama lentamente, com as mãos na parte de trás da minha cabeça, massageando meu couro cabeludo para tentar dissipar a dor. A porta se abriu e quem eu queria ver finalmente deu as caras.
– Oi, .
– Oi, Zayn. – Disse, indiferente. – O que você tá escondendo nas suas costas?
– Você podia deixar de ser curiosa.
– Tenho tentado dizer isso pra ela o dia inteiro. – Rashad se intrometeu. – Mas agora acho que finalmente vou parar de enrolar você, não é, Zayn?
– Com certeza. Nós, minha querida, estamos aqui hoje, juntos, em sua homenagem.
– Em minha homenagem? – Perguntei.
– É.
Zayn colocou os braços para a frente, deixando à mostra um cupcake todo marrom com uma cereja por cima e uma vela cor de rosa.
– Feliz aniversário! – Rashad disse com um sorriso largo.
– Foi o melhor que eu consegui fazer, . Vi na internet a data do seu aniversário e... Bem... Não havia ninguém em quem eu confiasse por perto além da minha própria mãe. Ela não sabia fazer nada além disso. Então... Espero que goste do bolinho.
– Eu to fazendo vinte e dois anos?
Senti um leve torpor tomar conta de mim.
– Rashad, arruma um copo de água, o mais rápido possível. , o que houve?
– Zayn, quanto tempo faz que eu to aqui? Você não me diz isso faz um tempo.
Ele esperou que Rashad se retirasse. Então respirou fundo e ajoelhou-se na minha frente, deixando o bolinho de lado, em cima da cama.
– Você não fala mais nada, Zayn. Você tá me escondendo o quê?
– Amor, é complicado.
– Não é complicado. Sempre que eu perguntava se você tinha notícias de fora, você dava seu jeito e cortava o assunto pela raiz. A última vez que você me informou sobre a duração da minha estadia aqui eram só dez meses. Eu entrei aqui antes de fazer vinte e um. Zayn... O que tá acontecendo?
– Na maioria das vezes, era porque eu realmente não tinha notícias. E você tava ficando paranoica com o tempo, isso só ia piorar as coisas.
– Seja honesto comigo, então, sem fugir do assunto. Faz quanto tempo que eu to aqui?
Ele limpou a garganta e engoliu em seco.
– Pouco menos que um ano e meio.
– E eu to longe de casa esse tempo todo? – Sussurrei.
– Ainda não consegui achar nenhuma brecha segura pra tentar alertar alguém de que você tá aqui.
Não consegui fazer mais nada. Não conseguia mover-me e quase não conseguia respirar. Era tempo demais. Perder a noção do tempo era uma coisa, mas mais de um ano... Era demais, simplesmente demais.
– Não vai comer o bolinho?
– Cupcake.
– Perdão. O que você disse?
– Cupcake. É o nome do bolinho.
– Ah, sim, me perdoe.
Por mais que eu estivesse atordoada, só tinha a ele e a Rashad ali. Não queria fazer desfeita com nenhum dos dois. Então tomei o cupcake em minhas mãos e dei uma mordida.
– O gosto está bom?
– Tá parecendo com a última vez que eu tentei cozinhar. Eu ia fazer petit gateau, mas não deu muito certo. Ficou parecendo cupcake.
– Eu não sei o que isso significa, mas espero que você tenha gostado.
– Eu comi dez dos meus pseudocupcakes naquele dia.
– Então isso é um bom sinal.
– Com certeza. – Eu disse, forçando um sorriso triste.
Zayn se aproximou mais ainda e colocou as mãos nas laterais do meu rosto.
– Lembra que eu te prometi que ia te tirar daqui?
Assenti.
– Eu vou cumprir, , nem que isso custe a minha vida.
Passei a mão na barra de sua máscara. Mesmo eu já o tendo visto, era perigoso que ele ficasse ali sem máscara quando a porta não estava travada pela cadeira. Ainda assim, retirei-a rapidamente. Ajeitei alguns fios rebeldes do seu cabelo e sorri.
– Faz quanto tempo desde que nos beijamos pela primeira vez? – Perguntei calmamente.
– Eu respondo assim que você devolver minha máscara.
Sorri e, percebendo a besteira que havia feito, a coloquei novamente na sua cabeça.
– Nós estamos juntos, minha querida , por doze maravilhosos meses. Os melhores da minha vida.
Rashad abriu a porta no exato momento em que eu ia ficar sem palavras, como geralmente Zayn me deixava. Nunca agradeci tanto por ele interromper algo que eu estivesse fazendo.
– Tão te chamando lá fora. – Ele disse. – E você, ? Já melhorou?
Fiz que sim. Zayn se levantou, ainda com o inabalável sorriso no rosto.
– Te vejo mais tarde. – Ele se despediu.
– Até lá.
Bebi a água que Rashad havia trazido para mim e, daquele jeito, permanecemos. Não recebi nenhum sermão sobre como Zayn era errado para mim e eu realmente fiquei surpresa. Ainda não tinha tirado da minha cabeça que fazia tempo demais que eu estava ali, mas eu tinha um problema maior. Na verdade, eu tinha três problemas maiores: Zayn, o que ele sentia por mim e o que eu sentia por ele.
Os dias se passaram lentamente, como sempre, mas pareciam mais lentos que nunca. O turno entre meus “guardas” se resumia a doze horas com Rashad enquanto estava acordada e doze horas com Zayn enquanto eu deveria estar dormindo. É claro que meu sono ficou um pouco prejudicado e eu já estava completamente enrolada só de pensar em que horas seriam nos Estados Unidos. Mas eu estava o mais perto possível do que seria gostar daquela vida e comecei a castigar-me mentalmente por isso.
– Rashad, eu queria te perguntar uma coisa. – Disse, acanhada.
– É a primeira vez que eu vejo suas maçãs do rosto ficarem avermelhadas. É claro que você pode. Pergunte o que quiser.
– Na verdade, é mais de uma pergunta. A primeira... Como vocês falam inglês? Quero dizer... A maioria das pessoas com quem eu falei desde que cheguei aqui fala comigo fluentemente.
– Claro, você conversa com todos. – Ele ironizou.
– Você entendeu. Continuando... Nós estamos no Afeganistão...
– Paquistão, .
– Ok, Paquistão. Mas tudo é a mesma coisa pra mim. Enfim... Todo mundo fala inglês.
– Engano seu. É que as pessoas do nosso, nosso... Nosso grupo! As pessoas do nosso grupo que falam inglês foram designadas pra estar em contato direto com você.
– Olha só! Um grupo de terroristas organizados! Sem ofensas, nada pessoal.
– Não me ofendeu. Mas to feliz de te ver tagarelando assim novamente. Aquela foi a sua época mais feliz aqui. Fazia uns três meses que você havia chegado e você não parava de falar, tava sempre feliz...
– Foi quando eu e o Zayn...
– Ah, sim, entendi, não precisa continuar. Então? Qual é a outra pergunta?
– Bem... Eu queria saber como você e sua mulher se conheceram, se isso não for me intrometer demais na sua vida pessoal, é claro.
– Você sabia que a maioria dos casamentos aqui são arranjados? – Ele perguntou.
Isso , , você sabendo tudo de cultura.
– Desculpa, não pensei nisso.
– Não tem problema.
– Mas do jeito que você falou da sua família algumas vezes... Você a ama. – Afirmei.
– Claro que a amo. Com todas as forças do meu coração. Depois de longos anos de convivência forçada, a gente começa a amar obrigatoriamente, de certa forma. O tempo se encarregou de lapidar isso e transformar em um amor sincero. Mas por que você quer saber sobre eu e minha mulher?
– Não é nada.
Deitei na cama e cobri minhas pernas, ligando a TV em um canal de filmes. Achei lindo o jeito como ele falou sobre o amor que sentia pela esposa e quase deixei uma lágrima cair.
– Isso é sobre o garoto, não é? Se você gosta dele, diga isso. Esquece tudo o que eu te disse sobre ele e corre atrás do que te faz minimamente feliz aqui, .
– Você tá agindo como o irmão mais velho super protetor que eu nunca tive.
– Só tenho o dobro da sua idade, nada muito exagerado.
Nós dois rimos. Olhei para ele e adotei uma expressão mais séria.
– Obrigada, Rashad. Obrigada mesmo. Quando eu sair daqui, vou te tirar dessa também.
Ele assentiu, um gesto solene e silencioso de gratidão.
Naquela noite, quando Zayn chegou, eu o recebi com o melhor sorriso que consegui. Ele elogiou o brilho dos meus olhos e disse que eu jamais havia estado tão bonita. Quando nós nos deitamos para dormir – para dormir mesmo –, enquanto ele acariciava meu cabelo, pensei em finalmente retribuir o “eu te amo” que tinha recebido dele algumas vezes nos últimos dias. Ao invés disso, eu me virei e beijei-o. Talvez demonstrar fosse mais fácil do que dizer.
Sim, eu o amava.


You stole my heart with just one look.

A luz forte cegou meus olhos. Era a primeira vez em mais de um ano em que eu via a luz do sol. É claro que o contraste com a pele de Zayn, principalmente, deixava bem óbvio que eu necessitava de um banho de luz solar. Na época em que eu morava em Washington, viajava constantemente para o sul do país para poder curtir o calor do sol. Mas depois do que pareceram ser séculos, senti-lo na minha pele novamente parecia completamente estranho para mim.
– Eu quero voltar pro meu quarto. – Disse para Zayn.
– Eu consegui que me deixassem te trazer pra um banho de sol e você já quer ir embora?
Olhei para o céu azul e apertei meus olhos. Um pássaro solitário passou por cima de nós e do bando de outros caras encapuzados que rodeavam-nos. O asfalto estava quente demais e a poeira ocupava o maior espaço possível no ar. O ambiente era exatamente o que eu imaginava: cenário de guerra. Eu diria que estava em uma cidade fantasma de um antigo filme de faroeste. Senti Zayn se aproximar mais, porém ainda hesitei um pouco e continuei olhando em volta. Era um deserto.
Quando entrei de novo no prédio onde estava presa – pelo menos, sabia que tratava-se de um prédio –, mantive minha cabeça baixa. Não me colocavam o saco de pano fedorento na cabeça havia algum tempo e eu agradecia por isso. Subi algumas escadas com Zayn me segurando pelos pulsos, como se realmente quisesse tratar-me como prisioneira. Ao chegarmos no quarto, ele até fez uma cena exagerada, empurrando-me para dentro dele. Senti uma vontade instantânea de xingá-lo, mas esperei que ele entrasse também.
– Precisava disso tudo, senhor ator de Hollywood?
– De nada por ter te levado lá fora.
– Não faz muita diferença. Eu to aqui por tempo demais pra fazer diferença, Zayn. Desculpa.
Ele travou a porta com a mesma cadeira de sempre, tirou a máscara e passou a mão pelos cabelos. Naquele dia, ele estava com a barba para fazer, mais lindo do que nunca.
– Quantos anos você tem, Zayn? – Perguntei do nada.
– Eu? Vinte e três.
– Você é só um ano mais velho que eu?
– Tem algum problema?
– Não, claro que não, é só que... Deixa pra lá.
– Por que você quis saber a minha idade?
– Sei lá. Você nunca fala muito sobre você.
– Podia ter perguntado antes.
– Sempre que eu te perguntava algo pessoal, você fugia do assunto e ficava mal humorado. Eu não gostava disso. Também não gostava daquela sua desculpa pronta de “eu não quero te envolver”. Preferia continuar curiosa.
– Ai, essa doeu.
– Desculpa.
Zayn passou novamente a mão nos cabelos e coçou o queixo. Depois, olhou para o relógio, não demonstrando muita satisfação. Ele se aproximou de mim, sentada na cama, e ajoelhou-se na minha frente, segurando em minhas mãos.
– Meu turno acaba agora. No próximo, eu sento ao seu lado e respondo todas as perguntas que você quiser fazer sobre mim ou qualquer outra coisa.
Todas?
– Todas, meu amor. Mas agora eu tenho que ir. – Ele disse e beijou-me rapidamente.
– Sobre isso... Por que agora só você e o Rashad ficam aqui no quarto?
– No próximo turno, .
Revirei os olhos enquanto eu o assistia sair e dar lugar a Rashad. Eu o recebi com um sorriso aberto que ele devolveu depois de um tempo. Aceitar que eu estava com Zayn não parecia muito fácil para ele. Presos àquela vida, eu substituía sua filha e ele substituía meu pai. Era uma relação simples a que tínhamos e eu não sabia o que fazer sem ele. E a semelhança dele com meu pai era tanta que até a falta de apoio no que eu decidia fazer era uma característica pertinente aos dois.
Um almoço e conversas aleatórias mais tarde, Zayn voltou. Acenou com a cabeça para Rashad e fechou a porta com a cadeira, vindo depois direto para mim. Às vezes, ele tinha esses ataques. Chegava e nós nos beijávamos, simplesmente. Eu o segurei pela cintura enquanto suas mãos deslizavam pelas minhas coxas.
– Eu acho que você tá fugindo do assunto. – Brinquei. – Eu não esqueci sobre as perguntas e sobre você respondê-las.
Ele riu, o som mais gostoso que eu havia escutado nos últimos meses ali.
– Eu não posso beijar minha namorada?
– Eu sou sua namorada?
Não sabia dizer qual pergunta tinha feito maior efeito, a dele em mim ou a minha nele. Nós não nos olhamos por alguns segundos. Eu encarei o chão, perdida nas palavras dele. Tudo o que estava acontecendo, mesmo que já tivesse passado mais de um ano, era muito confuso para mim. As palavras de Zayn pioravam tudo, na maioria das vezes. Era o que me deixava mais confusa.
– Desculpa. – Eu disse primeiro.
– Não peça desculpas. Não há razão pra isso. – Ele disse com um sorriso forçado que eu devolvi na mesma intensidade.
Cheguei mais perto dele e coloquei as mãos em seu rosto. Quando eu o beijei, fiz de forma delicada. Minha conversa com Rashad sobre contar para Zayn como eu me sentia ainda não tinha obtido resultados efetivos, mas tentava dizer que eu o amava em tudo o que fazia quando estava com ele. E, se eu o amava, qual era o problema de ele me chamar de namorada? Independente de qualquer situação, amor era amor, não havia diferença.
– As perguntas. – Ele disse e sentou ao meu lado, ajeitando a postura da forma mais correta possível. – Vamos lá.
– A única coisa que eu realmente quero saber é o porquê de você estar aqui se esse claramente não é o seu mundo.
Ele empalideceu.
, essa é uma história meio complicada.
– Eu aguento. – Tentei estimulá-lo.
– Mas eu não tenho coragem. Podemos deixar essa pra outro dia? Eu juro que vou conversar com você sobre isso. Eu preciso conversar. Só que, exatamente agora, eu não to preparado.
Ver Zayn com medo era realmente assustador. Ele parecia sempre tão firme, tão forte, tão confiante. Quando via-se uma pessoa como ele insegura, você começava a imaginar o pior. Mas eu não queria imaginar o pior. Só queria afugentar aquele assunto e deixar para quando ele quisesse falar, mesmo ele tendo dito que iria responder todas as perguntas que eu fizesse.
– Ok, então... Qual é o seu sobrenome?
– Meu sobrenome? – Ele perguntou, rindo. – Como o meu sobrenome é interessante?
Eu olhei para ele séria e observei enquanto ele engolia em seco.
– Ok, desculpa. É Malik. Zayn Malik.
Zayn Malik... Você fica mais perfeito a cada segundo, achei o sobrenome lindo.
O arrependimento veio logo depois das palavras. Zayn ficou vermelho, eu fiquei também, foi uma vergonha geral.
– Próxima. – Ele cortou o momento.
– Qual é a sua cor preferida?
– Fácil demais. Preto.
– Hm... Seu tipo de garota?
– Essa é uma pergunta injusta.
– Responda! – Ordenei.
Ele sorriu despreocupado.
– Gosto das morenas, com cabelo não muito curto nem muito comprido, americanas, com olhos castanhos enlouquecedores, de preferência que seja a filha de um presidente.
– Você acabou de me descrever, Zayn. Não é uma pergunta injusta, sua resposta que é!
– Não é justo você ser meu tipo de garota? Você é a primeira que eu vejo desde que nasci que tem um brilho diferente nos olhos, que faz meu coração bater mais rápido, que fica na minha mente o dia inteiro, que faz tudo de ruim na minha vida parecer que não existe. Na verdade... Você não é o meu tipo de garota. Eu gostaria que fosse, mas não é.
– Mas você acabou de dizer que...
, eu não te mereço.
Mais palavras que atacavam-me. Zayn era profissional nisso. Pela primeira vez desde que eu tinha chegado ali, lágrimas se formaram nos meus olhos e não eram sobre nada ligado ao meu país ou minha vida antes de ser raptada.
– Não diz isso, por favor.
, você sabe que é verdade. Você é uma garota sensacional e eu sou um terrorista, como você mesma já disse.
– Você não é isso.
– Sou sim, meu amor.
– Adoro quando você faz isso. – Deixei escapar, mas decidi que era hora de deixar a conversa com Rashad alcançar seus devidos objetivos.
– O quê?
– Me chama de “meu amor”.
Ele corou e eu sorri, achando a cena fofa.
– É sério, Zayn. Adoro. Adoro porque, assim, você diz que eu sou sua. E amor é um sentimento bem forte. São duas coisas que não são simples de se dizer e, ouvindo isso de você, aqui... Faz meu mundo parecer o paraíso.
– Mas você nunca me chamou assim. E eu não to te julgando, pelo contrário! Mas...
– Eu nunca te chamei assim porque eu morro de medo de entender o que eu to sentindo! – Interrompi. – Eu tenho vinte e dois anos, to longe de casa, não vejo meus pais faz mais de um ano, tenho uma cicatriz no ombro em forma de U.S.A. e não tenho esperança nenhuma de sair desse lugar. Mas sabe o que me confunde mais? Eu não quero, Zayn. Eu não quero sair daqui sem você.
– Não tem motivo nenhum pra você querer sair daqui comigo, .
– Você sabe muito bem que você é o motivo, e isso basta.
Ficamos em silêncio. Parecíamos dois adolescentes de quatorze e quinze anos prestes a dar o primeiro beijo, sem saber o que fazer. Respirei fundo, tentando recuperar a calma e a lucidez, mas era impossível. A presença dele ali me entorpecia. Ele era minha droga favorita e eu precisava dele para viver. Quis beijá-lo, mas não consegui reagir. Eu estava perdida nas minhas próprias palavras.
– Sobre sua primeira pergunta... Eu vou responder. Essa semana ainda. Se eu não conseguir responder, se eu não conseguir criar coragem a tempo, eu vou embora daqui.
– Zayn!
– Você não merece isso, . Não merece o que eu faço com você.
– Me diz o que você faz comigo então.
Ele não disse nada e achei a oportunidade perfeita para beijá-lo. A coragem apareceu e eu me aproximei dele, deixando que lágrimas escorressem pelo meu rosto.
– Por que você tá chorando? – Ele perguntou, transbordando cautela.
– Porque eu te amo, Zayn Malik. Eu te amo. Você é a minha única esperança atualmente.
... Não.
– Não o quê?
– Não faz isso com você mesma. Não me ame.
– Então me impeça!
– Você sabe muito bem que eu não posso.
– Por quê?
– Porque eu te amo também, . Eu te amo mais do que amo meus pais, mais do que amo meus irmãos, mais do que amo qualquer um que eu já conheci. E não quero que você sinta o mesmo por mim.
As lágrimas ainda rolavam, já com mais frequência. Eu acariciei a lateral do seu rosto e sorri para ele.
– Você me ama?
– Claro que amo, .
– Então eu não preciso de mais nada.
Sorri mais ainda e beijei-o novamente, o primeiro de muitos beijos naquela noite.


My kiss can mend your broken heart, I might miss everything you said to me.

– Preciso falar com você.
Essas quatro palavras colocariam medo em qualquer pessoa, seja qual fosse a situação na qual o indivíduo em questão estivesse. Zayn ter dito aquelas quatro palavras para mim tornava tudo bem pior.
– Sobre o quê?
– Sobre umas coisas aí.
– Pode falar.
– Agora não. Vou passar o dia fora. Ordens de cima. Rashad vai ficar com você.
– Vou escutar sobre a previsão do tempo o dia inteiro. Vai me deixar sofrer essa tortura? – Brinquei, tentando arrancar dele um sorriso, mas não funcionou. – Zayn, o que aconteceu? Você tá me assustando.
Ele fechou mais ainda a cara – se é que era possível àquela altura.
– Você não faz ideia do que pode ser assustador, . – Ele disse, colocou a máscara e ameaçou abrir a porta.
– Não vai nem me dar um beijo de despedida? – Tentei pela última vez.
– Isso já foi longe demais. – Ele disse e saiu.
Qual era o motivo daquela revolta toda que surgiu do acaso? Tudo parecia tão bem. Zayn estava andando mais romântico que nunca e, do nada, isso. Rashad entrou logo em seguida, com um sorriso no rosto, mas mudou assim que colocou os olhos em mim.
– O que houve?
– Nada. – Eu respondi, grossa, e joguei-me na cama, percebendo instantaneamente o quanto havia sido grossa com ele. – Desculpa. Problemas.
– Com o Zayn?
Não respondi, mas ele já sabia qual era a resposta.
– Quer conversar?
– Só quero saber o que aconteceu.
– Você já disse pra ele que o ama?
– Disse.
– E como ele reagiu?
– Como o mais perfeito homem do mundo, como sempre. Mas hoje... Sei lá. Ele tem dito durante uns dias que tem algo pra conversar comigo, mas que nunca cria coragem. Eu desconfio que seja alguma coisa relacionada a isso que tenha mudado tão repentinamente o humor dele.
Rashad enrijeceu.
– Você sabe o que é? – Perguntei e ele não respondeu. – Você sabe.
Olhei para o lado, para a cômoda vazia, onde repousavam os livros que eu havia ganhado. O livro falso de Zayn era o primeiro. Levantei e o tomei em minhas mãos. Folheei as páginas que eu já havia decorado só para torturar ainda mais meu psicológico. Rashad se sentou na cadeira e tirou uma soneca enquanto eu passei horas e horas com a cabeça imaginando o que Zayn tinha para falar comigo.
Durante esse tempo, recebi quatro refeições, todas dispensadas e dadas de presente para Rashad, que aceitou com relutância. Aquilo não era normal e eu só conseguia pensar nisso. Levaram roupas novas para que eu pudesse tomar banho, mas nem isso eu quis fazer. Não levantei da cama para nada, só duas únicas vezes em que precisei ir ao banheiro porque não aguentava mais segurar.
Zayn finalmente voltou. Eu dei um salto na cama, o coração batendo forte e minha mente cultivando esperanças de que talvez tudo tivesse sido apenas um dia que ele não havia começado com o pé direito. Mas quando Rashad saiu e ele se virou para mim, seus olhos ainda eram os mesmos, profundos e escuros, como eu jamais havia visto. Ele puxou a cadeira e sentou na minha frente, ainda com a máscara.
– Não vai me deixar ver seu rosto enquanto você fala comigo? Voltamos à estaca zero? É isso? – Perguntei.
– Se você tem algo para falar comigo, é melhor falar agora, .
– Você me chamou de “” e de “meu amor” por uma eternidade. É bem estranho ouvir meu nome saindo dos seus lábios agora.
– Esqueci que você tem um gênio maravilhoso que vai dificultar tudo.
– Quem tá dificultando as coisas aqui é você, Zayn! O que foi que eu fiz?
– Ótimo. Quer saber o que foi que você fez? Você se envolveu! Eu disse que não, mas você insistiu até arrancar cada palavra de mim.
– Eu o quê?
– Você sabe muito bem do que eu to dizendo.
Olhei para ele, realmente assustada. É claro que eu não fazia ideia do que ele estava falando. Levantei da cama, fui até o banheiro e joguei uma água no rosto. Depois, molhei as mãos e fui até ele, espirrando um pouco de água na sua cara e estalando os dedos.
– O que você tá fazendo? – Ele perguntou.
– Sei lá, tentando fazer você voltar ao normal. Porque, honestamente, eu to odiando seu comportamento.
– Ótimo. Ódio. Esse sim é um sentimento que você deve nutrir por mim. Estamos presenciando um grande progresso aqui.
– Para! – Gritei o mais alto que pude. – Para! Agora!
– Seu namoradinho ainda está vivo. Aquela historinha toda dele ter morrido foi só meu pai indo mais longe do que o planejado.
– Espera. O quê?!
– Seu namoradinho! , , sei lá, não dá pra entender quando você fala.
Eu falo?
– Você fala nele sempre que dorme, . Você ainda o ama, depois de todo esse tempo. Ele tá atrás de você também, junto com seu pai. Não se preocupe, ele te ama também. E em breve vocês dois vão estar juntos de novo, prontos para construir uma família feliz. Vai ser um conto de fadas perfeito, como você já sabia que seria.
– E o que tem seu pai no meio disso? Eu nem conheço seu pai.
Ele deixou um risinho sarcástico escapar. Seu comportamento estava exatamente igual ao dos primeiros homens que permaneceram no quarto comigo, zombando de mim a cada oportunidade. Meu coração acelerou tanto que começou a ficar difícil de respirar.
– Meu pai é quem manda nisso tudo. De outra forma, como você acha que eu teria te concedido tantos privilégios?
– Seu pai? – Sussurrei, um buraco negro começando a nascer dentro de mim.
– É, meu pai, o cara que me colocou no mundo e me ensinou tudo o que eu sei. O cara que planejou seu sequestro desde o começo, o cara que quer a cabeça do presidente dos Estados Unidos numa tigela, o cara que fez cortes em você pra mandar pro seu pai. Meu pai.
Nada parecia fazer sentido. Como tudo tinha desmoronado tão depressa? Eu podia não ter a vida perfeita que queria, era pedir muito talvez, mas aquilo era demais, além do sofrimento que eu podia suportar.
– Eu to indo embora hoje. Da mesma forma que eu pude decidir ficar aqui e fingir pro meu pai que tava interessado nos negócios dele só pra fazê-lo se orgulhar do filho, eu posso decidir fazer o que ele quer longe de você. Não se preocupe. Eu sou um homem de palavra. Na primeira oportunidade que eu tiver, vou dar um jeito de deixar escapar a sua localização. Rashad e um cara em quem eu confio ficarão com você a partir de hoje. Provavelmente vão me matar quando vierem te encontrar, então foi um prazer ter te conhecido.
– Você não pode ir embora, Zayn.
Eu sabia que devia odiá-lo com todas as minhas forças depois do que ele havia dito, mas não conseguia. Foi mais de um ano da minha vida que eu gastei entregando-me de corpo e alma para ele. Não podia terminar daquele jeito, sem uma explicação mais lógica. Eu não ia deixar que ele fosse assim.
– Zayn, olha pra mim. Tudo o que você disse, o que você fez... Não pode ser mentira. Não tem como ser mentira.
– Eu não desmenti nada, em nenhum momento. Apenas estou expondo verdades sobre as quais você já deveria ter tomado conhecimento há algum tempo. Se você soubesse, nunca teria se envolvido comigo.
– Eu não me importo! – Gritei, já desmanchando em lágrimas. – Eu te amo, porra. Você sabe disso. Eu não to nem aí pra nada. Tudo o que você disse não muda o que eu sinto por você.
– Não insista no mesmo erro, por favor. Você não me ama. Você só tá carente de atenção. Quando sair daqui, tudo vai voltar ao normal e você nunca mais vai lembrar de mim novamente. Se isso é o que você acha que sente, em breve vai perceber que é tudo muito diferente.
Zayn se levantou e caminhou até a porta. É claro que eu corri e entrei no meio do caminho. Não ia deixá-lo ir, não podia. Eu dependia dele ali.
– Você não vai sair. Ainda não terminamos. Olha nos meus olhos e diz que não me ama. Aí eu deixo você ir na hora.
, não me faça te tirar da minha frente à força. Saia, por favor.
– Você não teria coragem.
Eu duvidei e errei. Zayn me empurrou de forma violenta, mas nada que machucasse tanto quanto as palavras que ele tinha proferido para mim.
– Eu te amo! Já disse isso mais de uma vez! Eu não to enganada sobre o que eu sinto por você, Zayn!
, eu tentei te matar. Era pra eu ter te matado, na verdade. Só que aquele filho da puta do seu segurança entrou na frente e estragou todos os planos.
Eu estava com aquela familiar sensação de que estava perdendo a consciência.
– O que você disse? – Perguntei, incrédula ainda.
– O tiro que o tal do levou na frente da sua casa, que deixou o cara paralítico. Fui eu, minha cara , que atirei. Nunca fui bom com armas de qualquer jeito. Era pra ter te acertado. Agora você entende que isso nunca deveria ter acontecido, não entende?
Ele saiu e bateu a porta, o estrondo fazendo com que meu corpo todo começasse a tremer. Rashad entrou logo em seguida, jogando-se ao meu lado. Minhas forças foram embora junto com Zayn.
– O que ele fez, ? – Rashad perguntava insistentemente.
Tudo o que eu fazia era balançar a cabeça negativamente e chorar, compulsivamente. Não me importava que estivesse vivo, não me importava estar longe de casa, não me importava que o pai de Zayn tivesse organizado tudo, nem que fosse por culpa dele que o meu relacionamento com tivesse ido pelos ares. Eu só não conseguia escolher o que doía mais: se era saber que ele tinha tentado acabar com a minha vida ou ele ter ido embora. Ainda não conseguia odiá-lo e isso só piorava tudo.


Everything she never had, she's showing off.

Eu não dormia desde que Zayn tinha ido embora. Também não comia nem falava nada. Não havia motivo para que eu demonstrasse que estava viva.
– Você tá parecendo um zumbi. – Rashad disse uma vez, e isso foi tudo o que eu assimilei durante aquele período.
Eu não me movi, na verdade. Continuei sentada na cama, completamente imóvel, e só estava lá porque Rashad havia pegado o meu corpo irresponsivo no colo e colocado ali. Do contrário, não me daria esse trabalho. As costas doíam, os olhos ardiam, a cabeça estava explodindo, a garganta implorava por água, mas nada, nada disso tirava minha mente de Zayn e a imagem dele batendo a porta com força ao sair pela última vez.
Troca de turno. Rashad entrou no lugar do tal outro em quem Zayn confiava. Não fiz questão de demonstrar nenhuma emoção, como sempre. Ele se aproximou pela primeira vez desde o ocorrido e ergueu meu rosto. Eu não olhei em seus olhos, o que parecia ser seu objetivo.
– Você tá tentando se matar de inanição. Eu não vou deixar que aconteça isso, . Você não pode se deixar derrotar apenas por um cara que não merece nem seu respeito, quanto mais seu amor.
Ele abriu a porta e falou com alguém próximo. Alguns minutos depois, dois caras grandes entraram no quarto, cada um com uma corda na mão.
– Me desculpe, . – Rashad sussurrou.
Um dos grandões se aproximou de mim, pegando-se no colo com facilidade. Até quis debater-me, mas não encontrei energia suficiente para isso. Quando pensei em gritar, a voz falhou e, da minha garganta, não saiu nada além do som do vento. Fui colocada sentada na cadeira. Enquanto um segurava, o outro amarrava. Rashad saiu e voltou com duas caixas, uma pequena feita de metal e outra maior, de papelão.
– Um dia, você ainda vai me agradecer por isso.
– O que você tá fazendo? – Sussurrei tão baixo que eu mesma quase não ouvi.
– Soro. – Ele disse, tirando um saco de dentro da segunda caixa. – Eu não vou deixar nada de ruim te acontecer, .
– Me deixa morrer. – Implorei.
– Não, senhora. Você vai sair daqui, ouviu o que eu disse? Você vai.
Ele limpou a parte de trás do meu cotovelo com algodão umedecido em álcool. Depois, ele apalpou a área até achar uma veia e colocar a agulha dentro dela com perfeição. Os mesmos homens que tinham amarrado-me levaram um cabideiro. Com um cabide de metal, Rashad improvisou um gancho e pendurou o saco com soro fisiológico, ligando o tubo que saía dele na agulha que estava no meu braço.
– Rashad, por favor...
– Não, , me peça qualquer coisa, menos isso. Eu não vou permitir.
– Se você tentar fazer minha condição física melhorar, eu vou resistir.
– E eu vou continuar tentando até as tropas americanas te acharem aqui. Promete que você vai me deixar cuidar de você. Pelos seus pais, que com certeza tão loucos, te procurando desde o dia em que você sumiu. Prometa, por eles.
Eu virei a cara como se o ato fosse transformar aquilo em um argumento péssimo quando, na verdade, era o melhor deles. Até o último segundo, Zayn havia prometido que ele me tiraria dali mas eu, honestamente, não sabia se podia continuar confiando nele.
Observei o líquido descer lentamente, gota após gota, para dentro de mim. Minha cabeça vagueava por cenas da minha infância. Na maior parte delas, eu estava com meus avós, que haviam falecido no ano da campanha eleitoral do meu pai. Quando o soro acabou, Rashad tirou uma seringa de dentro da caixa de metal, enchendo-a com uma substância que estava em um frasco pequeno.
– O que é isso? – Perguntei com a voz já um pouco melhor.
– É um remédio pra você dormir.
– Vai me drogar?
– Você precisa descansar, .
– Eu não quero dormir agora.
– Não disse agora. Antes, eu disse pro pessoal lá fora que você tá pedindo comida italiana.
– Também não to com fome.
Rashad bateu forte com as mãos nas suas próprias coxas. Ele se lançou na direção da cômoda e começou a espalhar os livros, deixando até que alguns caíssem no chão, voltando para mim com o livro de Zayn nas mãos. Depois de procurar alguma página específica, ele o virou para mim. Quis recuar, mas os olhos do meu pai, cansados, na manchete do The Times me prenderam. Eu já havia visto aquela foto milhares de vezes, mas ela sempre fazia uma dor forte nascer no meu peito.
– Você faz ideia de quando foi isso? Faz mais de um ano, ! Se ele já tava assim naquela época, imagina agora! Então você vai comer por ele, por todo amor que você sente por ele. Ouviu o que eu disse?
Claro que eu não respondi, mas comi quando o prato imenso de spaghetti chegou. No fim do turno de Rashad, eu me sentia outra pessoa, fisicamente falando, é claro. Ainda estava com um vazio no meu peito. Ainda sentia as dores, mas eu me sentia viva. Ele se foi e eu continuei olhando para a foto do meu pai. A imagem me causava mais sofrimento, mas eu precisava mesmo tirar Zayn da minha cabeça. Precisava focar nele, como Rashad estava tentando forçar-me a fazer, para poder ficar bem até irem ao meu encontro. Eles iriam ao meu encontro, não iriam?
No outro dia, eu tomei um banho e comi sem ser forçada – pouco, mas já era um progresso. Liguei a TV e assisti aos tipos de filme que eu pude – com exceção dos românticos, é claro. Cansei minha mente, livrei-a de tudo que pudesse perturbar e impedir as esperanças de continuarem sondando a minha mente. Passava a maior parte do tempo deitada na cama, mas com a certeza, então, de que eu precisava aguentar. Rashad me ajudava, levava minha mão até onde eu devia segurar e prendia lá – metaforicamente falando. Ele seria a minha força e eu ia recompensá-lo, primeiramente fazendo tudo o que ele pedia.
Não voltei a ser a mesma pessoa. Tentava associar a ida de Zayn com a de . Foram dois relacionamentos totalmente frustrados. Muito diferentes entre si, eu percebia, mas terminaram do pior jeito possível. Até ali, eu mantinha na minha cabeça a ideia de um morto, espancado até o óbito ou qualquer coisa do nível. Talvez, se eu colocasse na cabeça que tinha acontecido o mesmo com Zayn, eu pudesse superar.
– Você tá muito pensativa hoje. – Rashad disse depois de passar um século dentro do quarto sem abrir a boca, coisa que ele não estava fazendo muito nos últimos dias.
– Eu tenho estado pensativa sempre.
– E no que está pensando especificamente hoje?
– No .
– Seu ex?
– Ele mesmo. O Zayn disse que ele tava com meu pai, me procurando.
– Não tínhamos combinado que não falaríamos mais do Zayn?
– Você sabe que eu não posso simplesmente esquecê-lo, Rashad. – Disse com desapontamento. – Mas eu to tentando.
Ele olhou para o chão, tomando a posição de quem queria fugir do assunto.
– Sabe uma coisa da qual eu sinto falta? De quando você ria das minhas histórias. Era muito divertido, pra ser sincero. Fazia esse trabalho valer a pena. Adoraria que minha família te conhecesse.
– É uma coisa que eu pretendo fazer um dia, promessa minha.
Rashad se aproximou e sentou ao meu lado na cama, pegando na minha mão e lembrando exatamente o que meu pai costumava fazer quando eu estava com algum problema.
– Você só sorria daquele jeito por causa dele. Talvez eu esteja errado em querer que você o esqueça.
– Não, Rashad. Eu tenho que esquecer. Eu vou. E é isso que eu pretendo fazer.
Depois de um tempo, ele sorriu.
– Lembra quando você me perguntou sobre a minha mulher? Eu era apaixonado por outra na época. Mas eu casei com ela, mesmo assim. Fui forçado a conviver com ela por meses, assim como você foi forçada a conviver com o Zayn. Foi assim que meu sentimento cresceu. Eu fiquei dependente da presença dela que, no começo, não significava muita coisa pra mim. Nós quase nos separamos um pouco depois de eu realmente começar a amá-la, mesmo o divórcio não sendo algo permitido na nossa cultura. , foi a época mais triste da minha vida. Você não faz ideia do quanto eu me sinto bem por ter dito a ela tudo o que eu realmente sentia no momento. Disse cada palavra, fiz de tudo pra ela não me deixar. Acho que ela só ficou comigo porque não queria sofrer vergonha perante a sociedade. – Ele deixou escapar uma risada. – Mas eu lutei pelo que eu queria, . Eu corri atrás dela o mais rápido que pude. Sabe por quê?
– Por quê, Rashad?
– Porque eu tinha certeza de que eu a amava e de que eu era correspondido quanto a isso. Você não precisa ter certeza de que ele te ama ou de que você o ama. Eu tenho certeza por você. Por mais que eu queira socar aquele filho da puta até a morte, é ele quem você ama. Corra atrás dele, não o deixe ir embora tão fácil assim.
– Como eu vou correr atrás dele presa aqui? Você acha que, nos primeiros dias, eu não quis? Era tudo o que eu queria! Pelo menos, sentar e discutir tudo o que aconteceu. Mas eu não tenho como, Rashad, não tenho.
– É aí que você se engana. – Ele disse com um sorriso. – Não tem o cara do outro turno?
Quando eu assenti com a cabeça, ele olhou firme para mim.
– Preste atenção no que eu vou lhe dizer: é o irmão mais velho de Zayn. Ele não concorda com os hábitos do pai, da mesma forma que Zayn também não concorda. O inglês dele é péssimo, então você vai ter que improvisar. Eu não posso fazer isso porque não seria tão eficiente. Você vai falar com ele assim que ele entrar, que deve ser em... – Ele parou para olhar no relógio. – ... Dez minutos. Como esse tempo passa rápido!
– O que eu vou falar com ele?
Rashad limpou a garganta antes de continuar.
– Faça gestos, tudo pra ser o mais clara possível. Dê-lhe um motivo para falar com Zayn sobre você. E que esse motivo seja bom o suficiente pra fazê-lo voltar correndo pra cá a fim de te encontrar, .
Olhei para meus pés, perdida em um universo paralelo. Sorri de leve ao imaginar que poderia ver Zayn mais uma vez. Mas era errado, como ele mesmo já havia dito. Eu precisava impedir aquele sentimento de crescer dentro de mim novamente antes que ele aparecesse, se é que o plano de Rashad daria certo.
O brutamonte irmão de Zayn entrou no quarto. Rashad foi embora com um olhar de esperança. Levantei da cama e fui até o banheiro. Fechei a porta, lavei meu rosto e respirei fundo algumas vezes antes de voltar para o quarto. Nunca havia trocado uma palavra sequer com ele e não fazia muita ideia de como poderia começar um diálogo.
– Você fala a minha língua? – Perguntei e fui respondida com o balanço de sua mão esquerda.
– Um pouco.
– Preciso falar com seu irmão.
– Zayn?
– Exatamente.
– O que tem ele?
Pense, , pense, arrume uma desculpa plausível.
– Eu to grávida. – Disse a primeira coisa que veio à minha mente.
– Desculpe-me, não compreendi.
Respirei fundo e decidi usar minhas habilidades fracas com relação à mímica. Apontei com o dedo indicador para o meio dos meus seios.
– Você... – Ele disse.
O próximo passo foi simples. Envolvi minha barriga com os braços depois fingi que ninava um bebê.
– Você vai ter um bebê? – Ele perguntou, assustado.
Fiz que sim com a cabeça.
– Zayn?
Fiz que sim novamente. Os olhos dele se arregalaram. Ele fez sinal para que eu esperasse e colocou a cara para fora do quarto, gritando alguma coisa na língua dele. Rashad apareceu ofegante na porta alguns instantes depois e o irmão de Zayn foi embora.
– O que houve?
– Fiz o que você mandou.
– E então?
– Se ele não aparecer... Acho que matei o Zayn à distância com um ataque cardíaco.


This must be fake, my lips start to shake.


Existem momentos na vida em que a ansiedade pode dominar a ponto de você ter certeza de que enlouqueceu. A primeira vez em que você chama alguém para sair, o primeiro dia em uma escola diferente, a primeira entrevista de trabalho... Todas essas possibilidades possuem uma coisa em comum: a palavra “primeira”. Significa que nunca aconteceu. Eu estava mais ansiosa que esses três casos juntos, mas eu já tinha visto Zayn antes.
Rashad ofereceu o relógio de pulso para que eu ficasse observando a hora, mas isso seria um ato masoquista. O que eu não comi nos primeiros dias depois da briga com Zayn foi reposto em poucas horas, enquanto Rashad me observava pedir mais e mais comida.
– Quem é você e o que você fez com a ? – Ele brincou. – Parece até que você tá realmente grávida.
– Cala a boca, Rashad!
– É sério. Quando minha mulher tava grávida, ela comia toda hora.
– Só que eu não to grávida. Existe essa pequena diferença.
Peguei um pouco da batata frita que estava no prato e coloquei na boca. Acidentalmente, sentei em cima do controle remoto da televisão e ela ligou. O filme que estava passando era, ironicamente, Água para Elefantes. Encarei a TV, um pouco assustada.
– O que foi, ? Parece que você viu um fantasma.
Continuei olhando fixamente para a tela antes de responder.
– Esse filme é baseado no suposto livro que o Zayn teria me dado de presente.
– E daí? Você acha que é um sinal de Alá ou coisa parecida?
– Você se lembra de que eu sou cristã, não lembra? Eu acredito em Deus, não em Alá.
– Foi só pra descontrair, acho até que são a mesma coisa. Mas você fez a coisa certa, ok? – Ele disse com a mão no meu ombro. – Vai dar tudo certo.
E deu. Exatamente quando ele terminou a frase, deu certo. Zayn, sem a máscara, entrou no quarto, seguido pelo irmão. Ofegante, ele gritou algumas palavras no idioma deles com Rashad e, em poucos instantes, estávamos apenas nós dois no quarto, olhando um para o outro em completo silêncio. Meu peito subia e descia lentamente, mas eu sentia dificuldade em manter essa constância. Todo o meu corpo pesou durante os momentos em que permanecemos ali sem dizer nenhuma palavra.
– Como você constatou isso? – Ele falou primeiro.
– Isso o quê?
– Que você tá... – Ele não terminou a frase, parecendo lutar com as palavras dentro de si. – Que você tá grávida.
Fechei os olhos e inspirei profundamente antes de encará-lo.
– Eu não to grávida. Nem se eu quisesse, eu poderia.
– Você não pode ter filhos?
– Não. Eu só tenho um implante subcutâneo que incrivelmente ainda está na validade.
– Eu não sei o que é isso.
– Vamos dizer que eu tenho uma pílula dentro de mim que me impede de ficar grávida.
– Mas você já tá aqui faz mais de um ano.
– O efeito dela dura 3 anos, então acho que to em vantagem. Mas eu duvido que você queira saber sobre isso.
Zayn passou a mão nos cabelos. Comecei a perceber que ele estava desviando os olhos de mim desde o momento em que eu disse que não estava grávida.
– Não tem coragem de olhar nos meus olhos? – Perguntei.
– Por que você disse pro meu irmão que estava grávida?
– Não responda a minha pergunta com outra, Zayn.
Ele não respondeu e começou a andar em círculos pelo pequeno espaço livre do quarto. Senti meu lado impaciente queimar dentro de mim e decidi responder logo.
– Eu só queria te dar um motivo pra vir aqui. A gente precisa conversar.
– Nós não temos nada pra conversar, .
– Claro que temos! Mais de um ano da minha vida, Zayn! Foi disso que você fez parte!
– Você tem outros vinte e um para se lembrar. E terá muitos outros, com certeza.
– Você disse que me amava!
Seus olhos voltaram aos meus, me analisando com cautela.
– Você emagreceu. Tá pálida. Seus olhos tão fundos
– É no que se resulta passar alguns dias sem comer porque a única pessoa com quem você se importava te deixou sozinha, sem apoio nenhum. Talvez porque essa pessoa não se importou com você como você se importava com ela, e isso dói.
– Minha intenção nunca foi te machucar.
– Eu duvido! – Gritei.
Tentei devolver estabilidade à minha respiração, mas não consegui.
– Honestamente, eu preciso te fazer uma pergunta. Depois de tudo o que eu fiz... Como você ainda foi atrás de mim?
– Se você mentiu quando disse que me amava, eu não sei dizer. Mas eu não menti. Eu realmente te amava.
Pela primeira vez, o jogo estava revertendo. Eram as minhas palavras que estavam pegando-o desprevenido, finalmente.
– Eu não menti. – Ele sussurrou.
– Então por que você foi embora?
, você não entende.
– É, eu realmente não entendo, acho que isso eu já deixei bem óbvio.
– Você me enlouquece, garota. Sinceramente... Você me enlouquece.
– Estamos quites, então.
Zayn olhou para mim e começou a aproximar-se lentamente, ajoelhando-se na minha frente. Ele passou as mãos pelo comprimento dos meus braços. Quis sorrir, quis dizer o quanto tinha sentido a falta dele, mas eu me mantive séria.
– Você deu sorte.
– Eu não vejo sorte nenhuma nos últimos acontecimentos que eu vivi.
– Então me deixe mostrá-la a você. Você disse pro meu irmão que tava grávida de mim. Se ele, por acaso, em vez de ir até mim, fosse falar com nosso pai... Até você explicar, ele já teria te aberto com a primeira faca que achasse pra tirar o suposto bebê de dentro de você.
– Quanto mais você fala do seu pai, mais medo eu tenho de você.
– Eu não tenho nada a ver com ele. Eu o respeito por ser meu pai, mas somos pessoas totalmente diferentes.
Ele continuou ali por alguns segundos.
– Como você consegue me perdoar depois de tudo?
– Quem disse que eu te perdoei?
– Seus olhos. Você deixou claro que me perdoou ao me procurar através dessa história ridícula e arriscada que você inventou. ...
Ouvir sua voz me chamando pelo apelido reacendeu tudo dentro de mim. Eu me estiquei na direção dele e comecei um beijo. Suas mãos me puxaram para mais perto na hora. Ele me apertou contra seu corpo, não como demonstração desejo, mas como posse, e eu gostei do que senti. Enlacei seu pescoço com meus braços e chorei contra seu ombro.
– Eu te perdoei porque eu te amo. Simples assim.
Zayn segurou meu rosto entre suas mãos e vi que lágrimas haviam se formado em seus olhos também.
– Não me deixa cometer o erro estúpido de te deixar de novo, nunca mais. – Ele pediu.
Sorri para ele rapidamente. Meu coração palpitava dentro do meu peito. Zayn havia voltado. E era para sempre, pelo que eu havia acabado de escutar. Todos os conflitos interiores que haviam crescido dentro de mim desapareceram quando eu o vi sorrir. A paz tinha voltado para mim de uma forma que fez tudo parecer muito mais belo do que realmente era.
Eu estava quase adormecendo em seus braços. Ele olhava atentamente a televisão que retratava um documentário sobre tubarões.
– Eu to no lugar mais seguro do mundo. – Deixei escapar. – Merda. Eu e minha habilidade de pensar alto exatamente quando não devo.
Olhei para ele, que parecia divertido.
– Desculpa.
– Não se desculpe. Eu gostei do que ouvi. – Ele disse e beijou-me mais uma vez. – Mas parece bem irônico se levarmos em conta que você está sequestrada.
– A questão é que eu estou com você.
Ele me deu o melhor sorriso dele, aquele que fazia com que eu derretesse como manteiga no fogo. Cheguei mais perto e ele me apertou, dando um beijo na minha testa.
– Faz isso de novo? – Pedi.
Zayn me deu outro beijo.
– Não, não o beijo. Me abraça mais forte?
Seu sorriso era outro agora, tão lindo que deu vontade de chorar. Ele me apertou e eu o envolvi com meus braços também, apertando-o contra mim da mesma forma.
– Eu te amo, . Me desculpa por...
– Fecha os olhos e dorme, Zayn Malik.
– Ah, é assim? – Ele disse, rindo. – “Fecha os olhos e dorme” significa “eu te amo também” em qual língua?
– Na língua “você é muito engraçadinho”.
Rimos e ele me apertou mais ainda, quase esmagando as minhas costelas, e eu queria mais.
– Senti saudades desse seu lado implicante, minha .
Sua ?
– Sim. Minha. Pra sempre.
– Promete?
– Claro que prometo.
Ele beijou meu cabelo e eu me preparei para pegar no sono, mas tudo o que eu consegui fazer foi pensar em como eu havia sido tão sortuda de inventar aquela loucura e de ela ter dado certo. Zayn dormia profundamente enquanto eu simplesmente fiquei sentada na cama, observando. Lembrei da vida que estava levando nos Estados Unidos e comecei a perceber que ele estava certo sobre eu estar com sorte. Muita sorte, na verdade. Tudo estava indo bem demais, então eu estava no fundo do poço. Mas talvez o fundo do poço fosse a minha saída para a felicidade verdadeira. Não era mais questão de tentar a sorte. Eu queria aquilo. Queria mais que tudo. Não continuar ali, mas continuar com ele. E lutaria até o fim, se preciso fosse, para defender quem eu amava.


Ain't no way you're walking out.


Os lábios de Zayn percorreram toda a extensão do meu braço esquerdo e, depois, pousaram na pele do meu pescoço, exposta quando ele colocou meu cabelo de lado.
– Não foi você quem disse que não queria um relacionamento baseado em sexo?
Ele riu e puxou-me para mais perto.
– Não tem mais nada pra fazer aqui, . Se você quiser, eu faço qualquer outra coisa. Mas, no momento, minha mente só consegue pensar nisso.
Nós dois rimos enquanto eu me virava para ele e depositava um beijo em seus lábios no exato momento em que o rádio dele apitou. A voz do outro lado da linha disse algumas palavras e Zayn levantou da cama com um pulo.
– O que foi? – Perguntei, já agarrando minhas roupas e começando a colocá-las.
– Meu pai quer me ver.
Rapidamente, ele terminou de abotoar a calça e colocou a camisa. Zayn veio até mim na exata hora em que eu encaixava a camiseta nos braços para terminar de vesti-la e deixou um beijo nos meus lábios.
– Volto assim que puder, meu amor. Te amo, tá?
– Também te amo.
E, como sempre, Rashad tomou o seu lugar assim que ele saiu. Eles se cumprimentaram brevemente e, logo depois, ele se virou para mim, encarando-o curiosa.
– Você sabe o que aconteceu? – Perguntei.
– Como sempre, mais curiosa do que o mundo inteiro junto. Não, , eu não sei o que aconteceu. Mas não imagino que seja algo grave. O chefe tá calmo hoje.
Bufei e liguei a televisão.
– Tem notícias da sua família, Rashad?
– Zayn me mantém informado do que pode. Eles tão bem, dentro do possível.
Ele virou o tronco, buscando alguma coisa no bolso de trás de sua calça. Rashad esticou o papel dobrado na minha direção. Eu o peguei. Ao abrir, deparei-me com um casal com três crianças, provavelmente seus filhos, todos sorrindo. Acabei sorrindo também, passando os dedos por cima da fotografia.
– Essa foto foi tirada antes da minha querida ficar grávida do nosso quarto filho.
– Você tem quatro filhos, Rashad? – Perguntei, assustada.
– Cinco, na verdade. – Ele respondeu e meu queixo caiu. – O último tem doze anos. Não o vejo desde os oito.
Senti meu coração pesar naquela hora. Meu ato não foi algo planejado. Eu simplesmente levantei e tomei Rashad em um abraço.
– Se eu sair daqui, eu juro que vou dar a minha vida para reconstruir a sua família e fazer tudo ser como era antes.
– Você vai sair daqui, , eu tenho certeza.
– Eu também. – Zayn disse na porta, com o maior sorriso que eu já havia visto no rosto. – Rashad, pode me dar licença?
– Claro. Obrigado, .
– De nada. – Respondi com um sorriso e assisti enquanto ele ia embora. – O que foi?
– Você vai sair daqui.
– Eu o quê?!
– Você vai sair. A garota com quem eu deveria ter casado está perto de ter o filho. Na nossa cultura, quando uma criança nasce, realizamos uma cerimônia chamada Akikát. É pra celebrar o nascimento da criança e deve ser feita antes que se completem dez dias de vida, se eu não me engano. Os parentes e amigos mais próximos são chamados e é desrespeito não comparecer.
– Tá, Zayn. Duas coisas. Primeira: respira fundo e fala mais devagar. Segunda: vá direto ao ponto.
– Não, não vou direto ao ponto, . Quero explicar tudo. Lembra que eu disse que deveria ter casado com ela? Eu não fui chamado porque recusei. A família dela considerou isso como um desrespeito, então eu não posso comparecer à festa. Mas meu pai vai. E todo mundo que fica aqui no prédio também.
– E isso significa o quê?
– Vamos passar praticamente um dia inteiro sozinhos aqui. Meu pai disse que tá orgulhoso de mim e do envolvimento que to tendo com o trabalho dele. , eu vou te tirar daqui, meu amor. Eu não te disse que ia te tirar daqui?
Meu coração desacelerou lentamente. Achei que ia ter um infarto. Minha primeira reação foi olhar fixamente para Zayn enquanto não conseguia inspirar ar. Quando as primeiras lágrimas caíram, eu pulei em seus braços, segurando os gritos de felicidade. Ele me girou no ar e tocou os meus lábios apaixonadamente.
– Você vai voltar pra casa, meu amor. Eu disse que ia te tirar daqui. Eu disse!
– Como vamos fazer?
– Eu não sei, mas vou resolver isso. – Ele disse sem tirar aquele sorriso do rosto.
Passei a mão no rosto dele e sorri mais ainda, mordendo meu lábio inferior. Depois de tanto tempo, ouvir aquilo era praticamente a mesma coisa que estar realmente em casa.
A semana se passou lentamente. A cada vez que Zayn entrava no quarto, eu perguntava se a criança já havia nascido e se ele já havia acertado os planos para a minha fuga. A resposta era sempre negativa, mas eu ainda sorria com vontade porque ele estava sorrindo. E, se ele estava sorrindo, tudo estava dando certo. Eu voltei a confiar plenamente nele e não me preocupei com o resto das coisas.
O tempo me assustava. Rashad estava olhando no relógio, literalmente contando os segundos para que seu turno acabasse e Zayn tomasse seu lugar. Quando isso aconteceu, eu me sentei na cama de forma ligeira.
– Tenho notícias.
– Você disse que tem notícias antes de eu fazer qualquer pergunta. O bebê nasceu, não é? – Perguntei, provavelmente com os olhos brilhando de excitação.
– Não, mas consegui um helicóptero pra te tirar daqui.
– Com quem?
– Meu irmão. Não é bem um helicóptero. Quer dizer, ele só tem dois lugares. Ele vai te levar pra uma cidade aqui perto, fora do país. De lá, você vai conseguir ir pra casa.
– Espera. Ele vai me levar? E você?
Zayn olhou para mim de forma que preocupou. Eu conhecia aquele olhar. Era daquele jeito que ele me olhava quando eu fazia alguma pergunta que ele não queria responder.
– Não, Zayn. Eu não vou embora sem você.
, eu não posso ir com você.
– Claro que pode!
– Não posso! Eu vou chegar lá nos Estados Unidos e a primeira coisa que vão fazer é questionar se eu devo pegar prisão perpétua ou pena de morte. Ou você esqueceu que, mesmo depois de tudo, eu faço parte do grupo que te sequestrou, que te manteve longe de casa por mais de dois anos?
– Eu falo que você não tem nada a ver com o que aconteceu.
– Não é tão simples assim.
– Na verdade, é sim. Eu sou a filha do presidente. A minha palavra é a palavra do meu pai. E, se ele fala, aquelas palavras são a verdade, pronto. O país funciona assim.
– Não é uma boa hora pra eu aparecer lá. As eleições vão ser por esses dias. A filha do presidente chega com um árabe esquisito...
– Você não é esquisito! – Tentei interrompê-lo.
– ... Depois de passar meses sequestrada no Paquistão. E se isso afetar a campanha do seu pai?
– Você disse que me amava.
– E te amo.
– E me pediu pra não deixar você ir embora nunca mais. Zayn, eu não vou sair daqui se não for com você. Entendeu o que eu disse? Você vai comigo. Eu vou dar minha vida, mas ninguém vai te acusar de nada. Só me promete que vai comigo.
, eu não...
– Prometa, Zayn! Se você me ama, isso é simples. Só prometa!
Ele respirou fundo e passou a mão nos cabelos, notavelmente nervoso.
– E se der algum problema pra você? Se descobrirem que você tá mentindo?
– Eu vou negar até a morte, se for preciso. Eu não vou deixar você ir embora, nunca mais. Escutou o que eu disse?
– Escutei, mas...
– Sem “mas”, Zayn. Acabou aqui o assunto. Mude seus planos. Eu não vou voltar sozinha pra casa.
Os ombros dele caíram e eu tive medo de, talvez, ter sido dura demais na escolha das palavras. Logo depois, ele me puxou para si, levantando o meu corpo do chão e beijando-me da forma mais doce que ele já havia usado comigo.
– Então acho que vou pilotar um helicóptero.
– Você sabe pilotar um helicóptero? – Perguntei curiosa, mas ficando assustada ao olhar em seus olhos. – Zayn, sem brincadeiras. Se eu for sair daqui, é pra viver. Não pra entrar em um bicho de metal com meu namorado em uma missão suicida.
Ele soltou uma gargalhada.
– É claro que eu sei pilotar um helicóptero. Ou você acha que eu poria em risco a vida da pessoa que eu mais amo no mundo?
Ele sorria do jeito perfeito de sempre, fazendo com que eu não me sentisse apta o suficiente para retribuir à altura.
– Eu sou a pessoa que você mais ama no mundo?
– Você fala como se não soubesse disso.
– Mas eu não sabia.
– Então, minha querida e amada , saiba que você é a pessoa que eu mais amo no mundo. Você é tudo o que eu preciso, tudo o que eu quero... Você é meu tudo, . Eu te amo. – Ele disse e depositou um beijo nos meus lábios.
Eu me estiquei, pedindo por mais, e ele me correspondeu. Se eu já havia estado tão certa sobre o amor que eu sentia por ele? Não, nunca. E durante os outros dias que passaram, tudo só ficou mais confirmado ainda. Até o dia em que eu simplesmente estava sentindo que era a pessoa mais feliz do mundo, sem explicação nenhuma. Estava conversando com Rashad animada. Não fazia muito tempo que ele havia chegado quando Zayn apareceu na porta.
– O bebê nasceu. – Ele disse, ofegante. – Vamos embora amanhã.


You will never fell like you're alone, I'll make this feel like home.


– Rashad, são que horas?
– O que você quer saber é quanto tempo falta pro seu herói entrar por essa porta e te tirar daqui. Faltam dezesseis minutos.
– Eu não aguento mais esperar.
– Imagino.
– É sério. E o que eu falei sobre a sua família... Rashad, eu vou reconstruir tudo pra você como forma de agradecimento por tudo o que você fez por mim aqui. Eu vou contar pra eles como você falou de cada um, como você foi simpático comigo desde o primeiro instante em que me viu, como você se manteve fiel até o meu último dia aqui... Zayn pode estar me tirando daqui, e é claro que esse é meu maior desejo, mas você é mais meu herói do que ele. Eu ia me matar se não fosse por você. Ia mesmo. Eu posso estar loucamente apaixonada pelo Zayn, reconheço isso, mas foi você meu herói. Mesmo que eu reconstrua sua família, isso não vai ser suficiente pra agradecer por tudo o que você fez por mim. Zayn não seria nada se não fosse por você.
Os olhos de Rashad ficaram marejados. Depois daquele tempo todo, ele tirou a máscara e permitiu que eu visse seu rosto. Uma grande cicatriz formava uma linha que ia de sua têmpora até seu queixo.
– Alá foi muito generoso comigo ao me permitir conhecê-la, .
Eu levantei da cama e dei-lhe um abraço. Ficamos juntos por alguns segundos até que eu funguei, respirei fundo e ergui a cabeça.
– Acho que tá na hora de eu começar a me preparar, não é?
– É sim.
– Rashad... Muito obrigado. Por tudo.
Ele assentiu com a cabeça e sorriu. Eu fiz o mesmo, então virei e peguei a muda de roupas que estava em cima da cama.
– Foi muita sorte terem escolhido logo hoje pra te trazer roupas novas, não foi?
– É... Com certeza.
Dei um último abraço nele e entrei no banheiro. O sangue corria velozmente pelas minhas veias enquanto eu tomava meu último banho naquele lugar que tinha desenvolvido claustrofobia em mim. Eu já havia lavado-me completamente, mas ainda deixei que a água escorresse pelo meu corpo. Estava quase entrando em um transe quando duas batidas na porta me despertaram.
– Posso entrar, amor? – A voz de Zayn veio do outro lado da parede.
Fechei o registro e enrolei meu corpo na toalha imediatamente.
– Pode sim.
Quando ele abriu, seu rosto estava transbordando felicidade e tensão ao mesmo tempo. Ele se aproximou de forma cautelosa e beijou-me, pegando na minha cintura.
– O grande dia chegou, não é?
– É. Mas você não parece estar bem. O que houve?
– Você sabe.
– Não, Zayn, eu não sei. O que houve, amor? – Repeti.
Ele coçou a cabeça.
– E se der errado? E se não acreditarem em você e nos separarem? Se for pra me separarem de você, prefiro ficar por aqui.
– Zayn, eu não vou deixar ninguém te tirar de mim, meu amor, ninguém. Ouviu o que eu disse?
Seu semblante se transformou e ele sorriu, um pouco mais calmo. Nós tocamos nossos lábios rápida e delicadamente. Ele afastou seu rosto do meu, ainda de olhos fechados.
– Não me distraia, .
Eu ri e acariciei seus braços.
– E quando vamos? – Perguntei.
– O mais cedo possível. Meu pai e todos os outros já se foram.
– Eu só vou colocar minha roupa então.
Não sabia identificar o que era o lado avesso, o que era para ser colocado para trás, o que era calça e o que era blusa. Eu simplesmente estava com o coração batendo forte demais para que meu raciocínio não fosse afetado. Zayn me observava com um brilho nos olhos que eu não havia observado até aquele dia. Quando eu terminei, passei o dedo pelos meus cabelos, ajeitando-os da forma que imaginei ser a melhor possível. Eles já estavam longos demais, porém a minha parte favorita do corpo não havia deixado de ser linda, nem poderia.
Zayn começou a tirar a roupa assim que eu terminei.
– O que você tá fazendo?
De dentro da própria calça, ele tirou duas sacolas. Ao abrir uma delas, ele deixou que eu visse a roupa que ele colocaria, uma calça jeans e uma camisa polo azul escuro. Nunca havia visto Zayn tão lindo, então sorri, o que acabou em um segundo quando ele abriu a outra sacola e entregou uma arma para mim.
– É uma automática, é só atirar.
– Zayn, pra quê eu preciso disso?
– Pra alguma emergência. Melhor prevenir do que remediar. Eu espero honestamente que não tenhamos que usá-las.
– Você falou no plural.
Ele se abaixou e tirou mais uma, exatamente igual, da mesma sacola.
– Uma pra mim e uma pra você. Agora nós temos que ir, . O tempo tá curto.
– Pra onde nós vamos?
– Nós estamos em Turbat. O Irã é logo aqui do lado. Tem uma base militar norte-americana em Negour, que é perto da fronteira também. De carro, nós levaríamos em torno de quatro horas e meia. De helicóptero, nós vamos seguir em linha reta. O trajeto deve durar duas horas, é o que eu calculo. Vamos pra perto de lá. Vou sobrevoar a área e pousar no lugar mais próximo da base que eu encontrar. Se formos diretamente pra lá de helicóptero, pode ser que atirem na gente, e esse é um risco que eu não quero nem posso correr. Vamos nos aproximar a pé, pela mata. Tá pronta?
– Não tenho muita certeza.
Ele sorriu, mas manteve seu olhar preocupado preso ao meu.
– Meu amor, se não fosse uma coisa tão complicada e difícil, eu falaria pra gente deixar pra outra hora, pra um momento em que você estivesse pronta. Mas, me entenda, é a melhor chance que nós vamos ter, .
– Eu sei, amor. E eu confio em você. Vou fazer da sua segurança, a minha.
– Não, minha querida. Eu vou ser a sua segurança.
Ele me beijou rápido, segurando minhas duas mãos.
– Agora vamos. Onde tá sua arma?
Peguei a pistola e coloquei por dentro da minha calça, na parte de trás. Ele fez o mesmo, beijou minha mão e abriu a porta. Antes de sairmos, Zayn olhou para os lados, para o corredor imenso e desolado. Peguei em sua mão enquanto ele me guiava pelo labirinto nos quais os infindáveis corredores haviam transformado-se. No final de um deles, uma porta diferente continha o desenho de uma escada. Nós subimos lances que pareciam não acabar nunca. Olhei pelo vão e ainda havia muita coisa para subir.
– Zayn, não to aguentando mais. – Disse ao parar, colocando as mãos nos meus joelhos.
– Vem, eu te levo.
– Me leva como?
– No colo.
– Eu não vou fazer isso com você.
, nós precisamos ir logo. Eu consigo te carregar. Me deixa te levar.
– Não, Zayn, eu não...
Ele não deixou que eu terminasse a frase e pegou meu corpo no colo como se eu fosse um bebê. O esforço que ele fazia para continuar subindo os degraus enquanto eu era carregada parecia quase palpável, mas ele não desistiu.
– Eu acho que já consigo andar. Pode me colocar no chão.
– Eu te levo, amor. – Ele disse com dificuldade.
Finalmente, chegamos ao topo. O sol forte bateu em meus olhos e eles arderam. No mesmo instante, Zayn pegou um óculos escuro que eu não tinha visto antes e entregou para mim.
– Eu já imaginei que a claridade seria forte demais pra você. – Ele disse com um sorriso.
Só então pude olhar em volta. Um helicóptero pequeno estava parado na nossa frente. Zayn foi à frente enquanto eu tentava convencer meu corpo a destravar e seguir seu caminho.
– Quer ajuda pra entrar? – Ele perguntou, já subindo no veículo.
– Não, obrigado.
Dei a volta e sentei ao seu lado dentro do helicóptero. Ele apertou alguns botões e as hélices do lado de fora começaram a girar, fazendo um barulho ensurdecedor.
– Podemos ir? – Ele gritou.
Assenti com a cabeça e levantamos voo. Eu não tinha medo de altura. Seria meio contraditório, já que eu vivia em aviões, indo de um lado do país para o outro com meus pais. Mesmo assim, sobrevoar o lugar onde estive trancafiada por tanto tempo me causou calafrios na espinha.
Zayn pilotava com agilidade enquanto eu deixava minha mente escapar para memórias maravilhosas. Eu ia rever meus pais. Toda tensão que eu antes sentia era reposta pela total esperança que eu tinha de que, em breve, eu estaria abraçando-os novamente, recebendo as mesmas broncas de sempre, as mesmas reclamações... Eu ia detestar aquilo tudo de novo, eu tinha certeza, mas mal podia esperar.
A paisagem era linda. O mar, mesmo distante, ainda estava ao alcance do meu campo de vista. Eu olhei, calma, enquanto ignorava completamente os perigos que nós estávamos correndo. Só de saber que eu não estava mais no quarto em que fiquei por meses demais, minha alma parecia estar recebendo uma massagem. O ar puro foi até estranho para meus pulmões em um primeiro instante mas, logo depois, eu estava respirando e sorrindo como se todo aquele trauma nunca tivesse acontecido. Zayn sorriu ao olhar na minha direção e segurou minha mão por um momento.
– Como você tá se sentindo?
– Bem.
– Só bem? , você tá indo pra casa. Lembra que eu te disse que ia te tirar de lá, não lembra, meu amor? Eu consegui cumprir minha promessa. Essa é a minha forma mais sincera de dizer que te amo.
Olhei para ele e mordi meu lábio inferior, sorrindo.
– Se você não tivesse pilotando um helicóptero, eu te beijaria.
– Isso não te impede de me beijar.
– Impede sim.
Como um raio, Zayn se moveu e estalou os lábios nos meus. Ri e devolvi o beijo, mas eu o afastei rapidamente.
– Você tá querendo matar a gente? – Eu gritei e ri. – Mas eu também te amo, meu amor.
Depositei um beijo em sua bochecha. Foi quando ele começou a olhar para baixo, extremamente concentrado.
– O que houve?
– A base militar é logo ali. – Ele disse apontando para frente. – Tem uma clareira aqui embaixo. Vamos pousar.
Aguardei ansiosamente enquanto ele fazia as manobras necessárias. A cada segundo que se passava, o chão ficava mais próximo. Pousamos definitivamente com um tranco, o cinto de segurança desempenhando seu papel ao segurar-se presa ao banco do helicóptero ainda. Como num passe de mágica, vários soldados com suas roupas camufladas surgiram do mato, cada um segurando uma arma grande apontada na nossa direção. Respirei fundo, mas o ar não entrou. Busquei a mão de Zayn, que também procurava a minha. Nós seguramos um no outro enquanto mais armas eram apontadas para nós.
– Vai ficar tudo bem. – Ele sussurrou.
Um dos soldados se aproximou com a arma preparada para atirar. Não sabia dizer que tipo de arma era. Só sabia que, pelo tamanho, o estrago que ela poderia fazer era algo que eu não queria testemunhar. O dia já estava escurecendo, então ele tirou uma lanterna do bolso e ligou na minha direção. Vi seu rosto passar de seriedade completa para assombro total.
– Senhorita ? – Ele perguntou. – ?
Meu coração bateu mais forte ainda, parecia que ele sairia do meu peito a qualquer hora. Balancei a cabeça com gestos afirmativos. Ele abaixou a arma e fez sinal para que todos os outros fizessem o mesmo. Outro se aproximou também e abriu a porta do helicóptero. Ainda segurando a mão de Zayn e puxando-se para que ele viesse comigo, pisei na terra firme. Ao olhar em volta, constatei que não havia um rosto sequer que não parecesse assustado.
– Senhorita , vou levá-la até o nosso coronel imediatamente.
Um jipe chegou. O mesmo soldado que apontara a lanterna para meu rosto nos levou até um acampamento próximo. Todos os soldados pelos quais passávamos nos olhavam boquiabertos. Eu não conseguia falar nada. Zayn acariciava meus cabelos e sussurrava palavras de conforto no meu ouvido, abraçando-me.
Paramos em frente a uma cabana grande. Vindo de lá, um cheiro forte de café inundava o ar. Andei até uma mesa onde estava reunido um grupo de homens que, pelos seus uniformes, não possuíam patente baixa. Quando viraram, recebi mais olhares iguais aos outros.
– Senhorita ? – Um senhor de cabelos brancos se levantou e veio na minha direção. – Onde a senhorita esteve?
Não consegui responder. O pânico, misturado ao choque, fez com que todas as funções do meu corpo se tornassem inúteis.
– Tá tudo bem? – Zayn perguntou, e eu sabia que ele estava com mais medo que eu.
Depois de respirar fundo, fiz que sim.
– E o senhor? Quem é? – O mesmo homem perguntou a Zayn.
– Ele me tirou do meu cativeiro. – Finalmente falei.
O homem ponderou por alguns instantes e esticou a mão para cumprimentá-lo.
– Qual o seu nome, meu filho?
– Malik. Zayn Malik. – Ele disse nervoso.
– Zayn Malik, em nome do governo dos Estados Unidos, eu lhe agradeço muito. O senhor é daqui?
Zayn olhou para mim como se perguntasse o que responder. Eu apenas assenti com a cabeça e torci para que ele entendesse o meu recado e falasse a verdade.
– Sou paquistanês.
– Ok, providenciaremos um modo de levá-la de volta aos Estados Unidos, senhorita . E senhor Malik, nosso país tem uma dívida com o senhor. Pedirei a um dos meus soldados que o leve para casa em segurança.
– Não! – Eu gritei e imediatamente lembrei de que não havia formulado uma mentira concisa ainda. – Ele vai comigo.
– Por quê?
– Ele foi mantido em cárcere privado no mesmo lugar que eu. Foi uma promessa minha. Eu vou levá-lo pra casa comigo. – Falei a primeira coisa que veio à minha mente que, no fundo, não deixava de ser verdade.
O homem nos analisou mais uma vez e balançou a cabeça.
– Ok. Senhorita , senhor Malik... estarão indo pros Estados Unidos na primeira oportunidade que surgir.


Out loud, someone is calling my name, and it sounds like you.


Tudo parecia novo para mim. O ar, as luzes, os prédios... A única coisa familiar era a sensação da mão de Zayn segurando a minha. Na verdade, era a única coisa da qual eu estava completamente consciente desde que saímos de Negour. Chegamos ao aeroporto de Washington e eu sabia que devia sentir-me em casa, mas não conseguia. Zayn apertou minha mão, tentando transmitir confiança, quando o avião finalmente pousou e as portas se abriram para que saíssemos.
– Vai ficar tudo bem, meu amor. – Ele sussurrou para mim.
Passamos pela porta de desembarque e lá estavam eles, os dois motivos pelos quais eu estava mantendo viva a esperança dentro de mim. Minha mãe foi a primeira a aproximar-se rapidamente, entregue às lágrimas. Ela me abraçou com força e eu instantaneamente despertei do transe. Agarrei-a com meu braço livre, deitando minha cabeça em seu ombro e chorando tudo o que eu não tinha chorado enquanto estava fora. Ainda assim, minha outra mão se mantinha presa à de Zayn e eu não pretendia tirá-la de lá tão cedo.
– Meu amor, é você mesmo? – Minha mãe disse, passando as mãos pelo meu rosto e pelos meus braços.
– Sou eu sim, mãe.
– Eu não consigo acreditar que você finalmente voltou. – Ela disse e abraçou-me de novo.
Minhas lágrimas, a essa altura, corriam livremente pelo meu rosto. Quando ergui meu rosto, encontrei o olhar desolado de meu pai. Pela primeira vez em mais de vinte e quatro horas, soltei a mão de Zayn e corri para o encontro dele. Nós nos abraçamos por um longo tempo, minutos que pareceram horas. Ele alisou meu cabelo e, quando nossos olhares se encontraram novamente, nós nos comunicamos sem dizer uma palavra sequer.
Logo depois, meu pai passou as costas da mão nas bochechas e limpou a garganta. Estiquei minha mão para Zayn, que aceitou depois de muito hesitar.
– Mãe, pai... Esse homem é Zayn Malik. Pode-se dizer que ele esteve em cativeiro junto comigo e... Pai, você não sabe o que ele fez por mim. Eu só to aqui hoje por causa dele e... E...
Eu me virei para Zayn e coloquei a mão em seu peito. Respirei fundo e fitei seu rosto. Ele estava com aquele sorriso tranquilizador de sempre e eu me derreti por completo mais uma vez.
– Digamos que, depois de tudo o que nós passamos, eu simplesmente não quero nunca mais me separar dele.
Meus pais avaliaram Zayn da cabeça aos pés e, surpreendendo a todos nós, minha mãe se lançou na direção dele, abraçando-o.
– Nós nunca poderemos agradecê-lo de forma equivalente. Nunca poderemos devolver-lhe o bem que você nos fez.
– Não há nada a ser feito, senhora . O sorriso da sua filha é o melhor agradecimento que eu posso imaginar.
Eu sorri e aproximei-me mais de Zayn, deixando que ele me enlaçasse pela cintura.
– É o que eu estou pensando? – Meu pai perguntou.
Olhei para ele preocupada, mas não vi nada que pudesse assustar-me em sua leitura corporal. Fiz que sim com a cabeça, então ele submeteu Zayn a uma outra análise, mais detalhada.
– Imagino que você vá querer que ele se mude lá pra casa.
– Pai, eu não vou a lugar nenhum sem ele. – Disse, firme e inflexível.
Ele pareceu relutante mas, logo depois, estendeu a mão e cumprimentou Zayn.
– Filho, você pode pedir qualquer coisa, o que você quiser, e eu lhe darei. O presidente dos Estados Unidos lhe deve a vida.
Os dois assentiram com a cabeça e, quando olhei para Zayn, trocamos um sorriso caloroso. Ele me virou e apertou-me contra seu peito, limpando minhas lágrimas com sua mão.
– A gente pode ir casa? – Pedi. – Eu simplesmente to morrendo de saudades de tudo. Da cama, do chuveiro, das minhas roupas...
Meu pai sorriu e deu-me mais um abraço.
– Você não mudou nada. Nem sei como me surpreendo.
– Mas eu to aqui, pai. – Eu disse com um sorriso calmo. – Não vou embora de novo.
A Casa Branca estava impecável, como sempre. Desci do carro com o pé direito tocando o chão primeiro. Olhei para cima e depois em volta. Zayn não parecia surpreso atrás de mim, mas seu corpo ficou rígido quando passamos pela entrada onde, anos atrás, ele havia estado presente na tentativa de homicídio que o grupo de seu pai cometeu contra mim.
– Esquece isso. – Sussurrei para ele.
– Não é tão simples assim. Você pode me perdoar, mas eu não sei se sou capaz de me “autoperdoar”.
Ergui sua mão e beijei os nós de seus dedos.
– Eu tenho uma coisa que vai te distrair. – Disse, sorrindo.
A maior parte dos funcionários que vi, não reconheci. Não eram os mesmos de quando eu fui levada. O trajeto para o quarto que foi meu por mais de dois anos foi a única coisa que eu senti ser familiar. Zayn me acompanhava finalmente curioso, olhando cada detalhe do interior da casa. Ao pararmos na porta do quarto, fiquei apreensiva. Olhei para as escadas e meu pai estava terminando de chegar ao terceiro andar.
– Tá tudo como você deixou ao ir embora, minha querida filha. – Ele disse e encaminhou-se para seu quarto. – Descanse, as coletivas de imprensa serão exaustivas.
Girei a maçaneta. Realmente, tudo estava exatamente como eu me lembrava. Quando avistei minha cama, olhei automaticamente para Zayn. Ele riu e empurrou-me para dentro, fechando a porta depois de também entrar. Conduzi-o até a cama, onde ele me deitou e colocou seu corpo sobre o meu.
– Não acredito que eu finalmente to em casa de novo. – Eu disse depois de um breve beijo. – Meu amor, como eu posso te agradecer?
– Não precisa agradecer e você sabe disso. Você é minha vida, .
Eu sorri com as palavras. Fechei os olhos e deixei a cabeça pesar no travesseiro.
– Dorme comigo? – Pedi.
– Mas eu faço isso sempre.
– Não, amor, é sério. Deita aqui comigo pra dormir. Agora.
Ele riu a minha risada favorita e deitou ao meu lado.
– Sabe, não to me sentindo muito seguro.
– Por quê?
– Eu não sei muito bem o que é dividir uma cama pra dois com você. – Ele brincou, fazendo-me rir.
– Você ainda pode me abraçar como se fosse uma cama de solteiro, Zayn.
Quando ele me puxou para mais perto, olhei para o teto.
– Eu vou sentir saudades do nosso quartinho. – Ele sussurrou.
– Com todas as ironias possíveis... Ser sequestrada me deu a melhor coisa que podia ter me acontecido: você. – Eu disse antes de fechar os olhos e entregar-me ao sono.
No outro dia, quando acordei, Zayn não estava na cama. Acordei desesperada, procurando-o em todo lugar, para encontrá-lo conversando amigavelmente com meu pai na sala de jantar. Os dois sorriram ao fitarem-me e meu corpo todo relaxou. Sendo meio mentira ou meio verdade o que eu tinha dito, estava tudo dando certo.
Depois da imensidão de coletivas de imprensa e entrevistas sobre o que eu tinha vivenciado, passamos uma semana fazendo o que eu mais gostava no mundo: compras. Enchi Zayn de presentes que ele quis recusar a todo custo.
– Não é certo a garota bancar o garoto. – Ele disse quando eu o empurrei para dentro de mais uma das dezenas de cabines de prova onde ele havia passado o dia.
– Ainda bem que nós somos um casal bem distante da normalidade, não é?
Quando ele saiu, usando a calça jeans escura e a camisa polo branca que eu tinha escolhido, mordi o lábio inferior e sorri para ele.
– Você precisa me levar pra cama ainda hoje. – Eu disse baixo ao levantar e ir em sua direção.
Zayn me puxou pela cintura para mais perto e beijou-me, puxando-me na direção da cabine. Claro que eu conhecia suas intenções – e até aprovava, na verdade –, mas coloquei as mãos em seu peito e afastei-me, completamente sem fôlego.
– Não existem lojas de roupas no Paquistão? – Perguntei, brincando. – Entra e tira essa roupa, vou levar.
– Eu já tenho roupas o suficiente. E sim, existem lojas de roupa lá, mas você só existe aqui, meu amor.
Ele se aproximou novamente quando eu me sentei no sofá em frente à cabine. Estiquei meu pé na sua direção, impedindo-o de chegar mais perto.
– Zayn! Vai logo! – Gritei.
Ganhei aquele sorriso irresistível antes de ele ir trocar-se para irmos embora. Duas semanas depois, meus pais embarcaram em uma viagem de três dias para a Califórnia. Eu decidi não ir e ganhei a casa inteira para eu, Zayn e um punhado de seguranças que cismavam em circular pelo lugar errado na hora errada.
A chuva caía em Washington, o de sempre. Nós dois estávamos dentro da hidromassagem do meu banheiro. Seus lábios tocavam minha nuca de forma delicada e romântica enquanto eu ficava sentada entre suas pernas. Suas mãos repousavam nas minhas, nossos dedos entrelaçados. Joguei a cabeça para trás, apoiando-a em seu ombro.
– Essa mentira de eu estar em cativeiro com você... Quanto tempo você acha que vai durar, ?
– Sério que você quer estragar o momento com esse assunto, amor?
– Foi o que você disse pros seus pais.
– Eu me lembro muito bem do que eu disse. Eu falei que pode-se dizer que você esteve em cativeiro comigo.
– Mas eu faço parte do grupo que organizou todo o seu sequestro.
– Contra a sua vontade. De certa forma, você tava preso àquela vida sem querer estar lá, não é?
– Bem... Olhando por esse lado, você tá certa.
– Então não toca mais nesse assunto, tá? Meu amor, o que importa é que você tá aqui, comigo, longe de tudo, e que nós temos todo tempo do mundo pra nós dois.
Eu não vi, mas sabia que Zayn estava sorrindo. Ele me apertou mais contra seu corpo.
– Se eu te pedisse uma coisa... – Ele começou.
– O que quiser.
– Eu queria conhecer a casa. Sempre morri de curiosidade quanto a isso.
Olhei para ele e ri. Levantei com cuidado, pegando a toalha para secar-me. Zayn me seguiu, depois enrolando a toalha na cintura. Vesti um roupão de algodão e peguei em sua mão. Dispensável dizer que molhamos a casa inteira, mas mostrei para ele todos os cômodos, começando pelo andar de cima. As poucas pessoas que cruzaram nosso caminho olharam de forma repreensiva para nós mas, quando eu devolvi o olhar de forma mais repreensiva ainda, eles trataram de fingir que não haviam visto nada.
O último cômodo que eu fui mostrar para Zayn era a biblioteca. Assim que abri a porta, um calafrio percorreu minha espinha. Não tinha estado ali desde que voltara para casa. Mesmo depois de tanto tempo, as memórias dos momentos que eu passara ali com ainda estavam vivas em minha mente. Lembrei-me das palavras que Zayn havia dito no dia da nossa briga sobre ele ainda estar vivo e estar ajudando meu pai a procurar-me.
– Amor, o que houve? – Zayn perguntou com a mão tocando meu braço.
– Nada, foi só um...
Ouvimos o barulho de alguém limpando a garganta. Virei meu corpo imediatamente para ter a maior surpresa da minha vida.
– Oi, . – disse à porta, em pé e segurando-se em duas muletas.


Continua...



Nota da autora: Apenas um gostinho do que vem por aí! Espero que possa agradar a quem quer que seja e que nos vejamos em breve!







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