Contador:
Atualização: 23/06/2021

Prólogo

18 de setembro de 2020


Quando tirou o capacete seu corpo estava inundado de sensações. As mãos estavam duras, os nós das juntas dormentes por causa da força que colocou no volante.
Seu corpo parecia em transição do estado líquido para em ebulição, devido à quantidade de calor que emanava por sua pele, jamais se lembrava de ter transpirado tanto na vida.
Talvez fosse por causa do macacão ou pela proteção em volta de sua cabeça, mas desconfiava que estivesse ligado a todos os sentimentos entorpecentes que a embriagavam.
Tristeza.
Medo.
Amor.
Saudades.
Tudo que a envolvia ao mesmo tempo, tudo relacionado à mesma pessoa.
Seu pai.
Em todos os anos nada nunca mudou, sempre chorava de saudade, sempre se perguntava o motivo de sua morte, quantas pessoas ruins ainda permaneciam vivas no mundo e ele teve que partir tão cedo. Costumava sentir a presença dele consigo em todos os lugares que ia, mas nunca como naquele exato momento.
No autódromo, dentro de seu carro.
Aquele era o lugar preferido de seu pai em todo o planeta terra, em todos os seus diários e relatos ele sempre dizia o quanto esta naquele ambiente lhe trazia paz. E agora sabia o motivo.

- Ah pai, sinto que está aqui comigo. - Murmurou de olhos fechados com a mão no coração - Eu sinto saudades. Te amo, paizinho! Obrigada por me proteger hoje.

A mulher caminhou ainda com o capacete em mãos, estava indo em direção ao motor home da McLaren, queria tirar aquela roupa quente, beber bastante água e descansar, estava exausta.
Parecia que tinha escalado uma montanha a pé, e não dado algumas voltas em um carro. Agora entendia a necessidade de pilotos terem preparador físico, e talvez devesse ter se alongado direito antes de entrar no carro, bem que Lale avisou que não podia simplesmente vestir uma roupa e pilotar o carro, deveria ter escutado a melhor amiga, afinal ela tinha estudado para aquilo.
Já podia prever o tanto que a fisioterapeuta lhe encheria os ouvidos quando lhe pedisse uma massagem relaxante.
Seu caminho foi interrompido pela figura que Alain Prost* estacionado em sua frente. assustou-se e tropeçou com a aparição do ex-piloto em sua frente, mas de onde ele havia saído?
Fazia algum tempo que ela não o via, mas ainda era a mesma coisa que se lembrava, talvez a exceção fosse os cabelos estarem mais grisalhos e a pele com um pouco mais de rugas, marcas que o tempo deixava.

-Você foi incrível. - Elogiou - Ver aquelas curvas perfeitas, a velocidade, a segurança. Foi quase como se o tempo não tivesse passado. - O tom de voz era saudoso e podia imaginar como era para ele ver tudo aquilo.
- Obrigada. Foi uma sensação incrível.
- Sua mãe sabe que está aqui, ? - Questionou arrumando os óculos escuros no rosto. - A Vivian surtaria se soubesse que colocou os pés em um autódromo.

respirou fundo levando as mãos aos cabelos presos em um coque, estralou o pescoço na tentativa de fazer o corpo relaxar.

- Eu já sou bem grandinha Alain. - Respondeu. - Minha mãe está no Brasil, muito ocupada não há necessidade de preocupar ainda mais aquela mulher. - Prost deu um sorriso e balançou a cabeça negativamente.
- Você fala exatamente como ele. – sorriu com a comparação.
- Nossa genética é abençoada. - Deu de ombros. - Não está falando comigo enxergando o fantasma dele, está?
- Não. Seu pai me assombra de várias maneiras, não através de você. - O ex-piloto passou o braço esquerdo pelos ombros da mais nova, gesto explicito do carinho que nutria pela mulher. - Venha, você precisa descansar e Ron deseja falar com você.
- Sim, como vocês conseguem fazer isso por horas sem beber água? - Questionou enquanto voltavam a caminhar. - E sem ir ao banheiro? Eu achei que fosse fazer xixi na roupa, acho que nas corridas deveriam ter a pausa para o xixi.

Prost gargalhou divertido observando o senso de humor dela, e o tipo de questionamento que quase todas as pessoas faziam. Na voz dela, porém era quase que uma piada, devido ao sorriso moleca que brincava em seus lábios.

- É tudo uma questão de costume, pequena gafanhota. - Usou apelido que tinha aprendido com o pai da mesma, que adorava chama-la assim. – E nós temos alguns meios para resolver esses dois problemas, mas isso eu te conto outra hora. Eu já quase fiz xixi no carro uma vez, não espere, eu realmente fiz.
- Eu me lembro, ficamos uma semana rindo da sua cara. E você fugiu de todas as entrevistas, pós-corridas. - A voz estrondosa de Ron Dennis fez se ouvir. - Depois disso sempre ia ao banheiro antes de sentar no cockpit*.
- Vivendo e aprendendo. - Deu de ombros.
- , querida, precisamos conversar. - O homem estreitou a voz para um tom sério, o que fez arquear a sobrancelha preocupada. - Tome uma ducha, coma algo. Estaremos te esperando no escritório.
- Tudo bem. - Concordou sorrindo. - Espero que pelo menos tenha água quente aqui.


XXX


sentiu os músculos do corpo se endureceram novamente, quando abriu a porta do escritório do diretor da McLaren. Agora já estava de banho tomado, de fato a água estava quente, também pudera, Londres estava gelada, totalmente diferente do clima do Brasil, motivo que fez a brasileira se agasalhar.
Na sala, Prost estava escorado na janela com uma xícara de café em mãos, Ron por sua vez estava mais sério sentado na confortável cadeira de couro detrás da enorme mesa.
O clima estava pesado, ela podia sentir. A energia exposta no ar insinuava que a conversa tinha conteúdo sério, o que fez a brasileira se perguntar mentalmente, o que tinha haver com aquilo?

- , querida, entre. Fique a vontade - Ron chamou-a com a mão. - Quer um café ou algo do tipo?
- Não, obrigada.
- Sente-se. - Alain se deslocou da janela aproximando-se da mulher e arrastando a cadeira para ela.
- O que está acontecendo? - Questionou incerta. - Você sabe que eu não sou mais o diretor da McLaren, certo? – assentiu. - Mas as coisas na escuderia estão horríveis, alguns patrocinadores desistiram de nós. E eu fui consultado sobre o que pode ser feito, eu não tinha ideia do que fazer, até hoje quando eu te vi na pista.

franziu o cenho sem entender, Ron parecia ter jogado as palavras sem sequer as escolher e a maneira como os dois homens a olharam com expectativa, entretanto a morena não tinha sequer começado a entender.

- O que tem eu na pista? Eu estava homenageando meu pai. Não fiz nada demais.
- Foi tudo demais. - O ex-diretor da escuderia respondeu. - Foi a primeira vez que dirigiu esse carro e fez um tempo tão incrível como se o conhecesse como a palma da mão. As curvas fechadas em perfeita sincronia, um controle do carro que vi poucos fazerem.
- Meu pai me deixou os macetes do carro dele com os diários que escreveu. Tudo que fiz naquele carro foi o que ele me disse para fazer.
- , eu gostaria que você fosse piloto da McLaren nessa temporada. - Ele pediu, mas soou como uma ordem.

O som das palavras dele não foram claros aos ouvidos da brasileira, pareceram somente um monte de borrões confusos que se embaralham em seus tímpanos causando uma péssima sensação em seu corpo.
E de repente, as imagens de seu pai vieram à tona. Quando os dois corriam de Kart, brincavam no quintal de casa, nos almoços em família e após as corridas de domingo.
Tudo que conseguia enxergar eram as lágrimas que se formaram nas pupilas a impedindo de ver qualquer coisa que não fosse à imagem de seu pai batendo naquele muro.
Uma mão invisível apertou seu pulmão, tirando toda capacidade de puxar o ar que conseguia, trazendo dificuldades para respirar.
Ela tossiu uma, duas, três vezes chamando para o corpo todo oxigênio que havia se perdido, precisava respirar com calma para evitar que seu corpo entrasse em apneia.

-Tome beba um pouco de água. – Prost lhe entregou o copo com o líquido e quase engasgou ao levá-lo a boca, ao contrário do que pensou a água não lhe trouxe qualquer tipo de alívio físico.
- Eu não posso fazer isso. – Disse – Eu não quero correr. Eu amo a fórmula um, amo a McLaren, meu pai amava vocês. Mas eu não sou um piloto, eu não corro e não posso ajudar vocês, existem bons pilotos que podem ajudar vocês.

Ron suspirou e tomou mais um gole de seu café antes de falar.

- Eu lembro quando seu pai descobriu que Vivian estava gravida. Ele disse que desejava ter um menino, para que corressem nas pistas juntos. E que levasse o legado dele a frente. - O relato iniciado fez com que o coração de se apertasse pelo que viria a seguir. - Quando soubemos que era uma menina, a emoção dele foi tripla e disse: minha filha andará pelo Paddock como uma deusa intocável, arranco com um alicate os dedos de qualquer engraçadinho que se meter com ela. - A mulher riu.
-Correr não é meu plano de vida. Eu só queria homenagear meu pai no que ele mais amava. – Ela enrugou a testa, os olhos dançando em brilho sobre o rosto.
- Eu convivi muito com seu pai. É muito egoísta eu ter vivido tanto e você tão pouco. – concordava plenamente, era uma tremenda maldade seu pai ter ido tão cedo de sua vida. - Seu pai tinha luz, um legado para seguir. Você tem a mesma luz. Seu pai não teve um menino, mas ele tem um piloto. Leve adiante o legado de seu pai , corra na próxima temporada da fórmula um, seja campeã. Coloque mais uma estrela no legado do seu pai.
- Eu sinto muito. – largou o copo sobre a mesa, pegou a bolsa e colocou-se de pé. - Eu não posso fazer isso.

No encosto da janela estava Alain, com os olhos fechados e uma sensação estranha gelando seu corpo, como se um sopro de vento sussurrasse palavras soltas em seu ouvido que chegava ao coração e faziam frases conexas antes de proferir.

-Sabe a diferença de um bom piloto para um piloto extraordinário? – balançou a cabeça de um lado para o outro, negando. – Dom. Algumas pessoas nascem para fazer isso, outras aprendem a fazer isso. Seu pai nasceu para isso. Um gênio do automobilismo, que corria na chuva e jamais era derrotado, que calculava cada milímetro da curva, que andava pelas pistas como se quisesse sentir elas.- Prost sorriu com os lábios presos entre os dentes, os olhos fechados e uma expressão de tristeza no rosto.
-Você herdou dele, . – Afirmou. – A vocação das pistas está em você. - Se o seu pai estivesse vivo, ele te incentivaria a ser um piloto. – Ron se levantou para rodear a mesa e se aproximar de .
- Se meu pai estivesse vivo, ele ainda seria um piloto. – Andou até a porta, assim que seus dedos tocaram a maçaneta gelada, a voz de Prost rajou mais uma vez.
- . – A mulher não se virou ao escutar seu nome, o ex-piloto, entretanto, não se importou com a postura dela e continuou a falar. – Eu não sei onde seu pai está, mas tenho certeza que ele está enchendo a paciência de alguém lá. – Os dois homens riram juntos identificando a nostalgia daquela fala. – Eu tenho certeza que ele está entupido de orgulho da mulher incrível que você se tornou.
- Obrigada.
-Espero que você encontre seu objetivo de vida Senna, eu estou de olho em você. E lembre-se: Forte é quem, depois de tanto perder, reergue-se e segue lutando.

A bolsa que estava em sua mão caiu, a força se esvaiu de seu corpo abandonando toda a concentração necessária para permanecer de pé, a combustão que seu peito entrou era como a erupção de um vulcão derramando larva para todos os lados, na tentativa de se livrar de todo sentimento sufocado preso em suas entranhas.
Virou-se bruscamente para o ex - companheiro de equipe de seu pai, o rosto já tomado pelas grossas e dolorosas lágrimas que representavam a confusão de seus sentimentos.

-Repete o que você disse. – Andou apavorada até o homem. – Repete. – Enfatizou emocionada segurando com força a camisa social de Prost, os punhos embolados no pano branco puxando o francês para perto de si.
-Espero que você encontre seu objetivo de vida Senna, eu estou de olho em você. E lembre-se: Forte é quem, depois de tanto perder, reergue-se e segue lutando.. – Alain repetiu calmo, no mesmo instante que uma brisa entrava na sala varrendo todo o ambiente e levantando os papéis da mesa, tornando o local uma bagunça, meio a tudo que se misturou conseguiu enxergar um objeto na prateleira de troféus, antes que pudesse raciocinar soltou Prost e seus pés arrastaram seu corpo mole até lá.

Era um dos colecionáveis de seu pai.
A miniatura da Lotus Honda amarela 99T, o carro que seu pai mais era apaixonado. Estendeu a mão para segurar o pequeno carro, porém não teve forças para prosseguir, todos os comandos que seu cérebro emitia não eram obedecidos por seu sistema nervoso, suas células entraram em rebeldia e juntas decidiram não cooperar com a brasileira.
Tantas lágrimas desciam por seu rosto, que se perguntou se era possível morrer de tanto chorar, a respiração estava falhando conforme o coração batia em descompasso dentro de si.
E ela sabia o motivo.
Na noite anterior, teve um sonho com seu pai. Os dois estavam no autódromo de Interlagos, caminhavam de mãos dadas sentindo o sol escaldante da cidade queimar suas peles, o sorriso de felicidade quem brilhava no rosto de Ayrton encantava de uma maneira surreal, todas as vezes que olhava o progenitor o via com lábios curvados em sorrisos doces e gentis.
Em determinado momento da caminhada, os dois tomaram seguimentos diferentes, as mãos entrelaçadas iam se soltando a medida que os pés levavam os corpos para longe, chorava e tentava impedir o distanciamento, Ayrton por outro lado, permanecia sorrindo embora sentisse os olhos marejarem. Ele abriu a boca, a voz saiu como um sopro que presenteou a audição da mais nova.
Eu preciso ir espero que você encontre seu objetivo de vida Senna, estou de olho em você. E lembre-se: Forte é quem, depois de tanto perder, reergue-se e segue lutando.
Ela acordou soada e com o peito amargo de saudades, e agora Alain repetiu as mesmas palavras de seu pai, era como um aviso. Durante seus anos de vida, procurou honrar seu pai através de suas atitudes, era a diretora financeira do instituto Ayrton Senna, cuidava das crianças e ajudava famílias.
Acreditou piamente que era isso que seu pai desenhou para que ela seguisse com tudo que ele havia construído, toda via jamais se sentiu plena, estava cansada e parecia que andava em círculos já que nunca parecia sair do lugar, sentia-se fraca e não uma sobrevivente como era.
Com tudo que estava acontecendo naquele momento em sua mente, chegou a conclusão que nunca foi aquilo que seu pai havia preparado para ela, ele estava pedindo para que ela ressurgisse e movesse todas as montanhas que a prendiam no solo.
Finalmente, conseguiu tocar no carro em miniatura, e o trouxe para o peito abraçando o objeto como se fosse um pedaço de sua alma. E era.
- Eu vou. – Disse entre sussurros. – Eu vou correr com o carro do meu pai e levar o sobrenome dele as alturas novamente.

Os dois homens na sala sorriram e vibraram em alegria, indo abraçar a mulher que chorava copiosamente sobre o objeto no peito.

No lado oposto da sala, Ayrton Senna estava encostado na janela bem onde Alain Prost estava segundos atrás. Como em todos os momentos tinha um sorriso aberto nos lábios, o punho esquerdo estava erguido como sempre fazia ao vencer um grande prêmio, era seu gesto característico.
Tinha conseguido mais uma vitória, dado a direção de vida para sua garotinha e agora permaneceria guiando seus passos toda vez que entrasse nas pistas.


XXX


estacionou o carro rente ao meio fio e segurou o volante com firmeza, o pescoço tombou para frente totalmente pesado, sentindo o cansaço liberar todos os pensamentos de sua mente.
A música que saía do carro era um pagode qualquer e ela não conseguia prestar atenção na letra, somente o ritmo ecoava em seus tímpanos, fazendo seus pensamentos odiarem a concorrência e aumentarem o fervor dos questionamentos.
O principal deles era: Que merda ela tinha aceitado fazer? Sua mãe iria matá-la.
Correr na Fórmula Um?
Mudar de país?
Deixar o instituto para viajar o mundo, vivendo em autódromos?
Estava fodidamente ferrada e agora não conseguiria voltar atrás.
Uma das coisas que tinha aprendido com o pai era honrar sua palavra, uma vez dada, não poderia voltar atrás. Era um princípio e agora teria que entender os meios para continuar com aquilo que propôs.
Ao mesmo tempo em que o medo corria por seu corpo, uma sensação de satisfação era o seu companheiro. Cada centímetro de seu coração estava encantado com a possibilidade de viver os sonhos de seu pai, de reproduzir o que mais amou na vida e conseguir reviver em todas as pessoas a felicidade que o herói brasileiro despertava.
soltou o volante e massageou as têmporas, relaxando o pescoço para que conseguisse fazer o que planejava. Estava em São Paulo e precisava contar para sua mãe qual seria seu novo emprego.
Três dias atrás, havia dito sim para Ron Dennis e Alain Prost, concordando com a proposta maluca de pilotar na próxima temporada. Em menos de 24 horas os dois homens mobilizaram um arsenal de coisas para ela, acharam um apartamento para que morasse, foi apresentada ao departamento jurídico da escuderia e até um carro já tinha ganhado.
Em menos de um dia toda a sua estrutura foi modificada. Isso porque ela vivia reclamando da vida ser monótona.
No dia seguinte voltou ao Brasil para ajeitar as coisas, primeiro iria conversar com sua mãe e depois iria ao instituto, pedir sua demissão. Caso não fosse morta por sua mãe, sua tia Viviane Senna a mataria. Pensar nisso arrancou um sorriso de seus lábios, estava ferrada de qualquer maneira, então não adiantaria ficar preocupada.
Foi despertada dos pensamentos pela batida na janela do carro, assustou-se e levou à mão direita a boca para conter o grito, olhou para o vidro e viu a cabeleira loira de sua mãe do lado de fora. balançou a cabeça negativamente e emitiu um sorriso, desligando por completo o carro, tirou a chaves da ignição, pegou a bolsa no banco do carona e saiu do carro.

- O que aconteceu, filha? Tem uma hora que está parada olhando para o nada. - A mais velha questionou com as mãos na cintura, permaneceu sorrindo e abriu os braços para abraçar o corpo da mãe.
- Estava pensando um pouco. - Murmurou sentindo o cheiro agradável do shampoo de amora de Vivian. - Benção, mãe?
- Deus te abençoe. Está tudo bem? Venha, vamos entrar. - Enlaçou os dedos com os da filha e saiu a puxando em direção à porta de casa que estava aberta esperando as duas entrarem. - Como foi de viajem?
- Foi tudo bem, eu dormi o voo inteiro. - Respondeu. - E a senhora, como está? - Tudo bem. Acabei de tirar do forno um bolo de laranja, vou fazer um café e você me conta o que está acontecendo. - Os olhos da progenitora fixaram em esquadrinhando cada pedaço de sua expressão, franziu o cenho e arregalou os olhos.
- Como assim, o que está acontecendo? - Questionou com os ombros encolhidos, enquanto colocava sua bolsa no sofá.
- Sou sua mãe há 33 anos, quando você está preocupada com alguma coisa aparece uma ruguinha bem aqui. - Tocou entre a testa da filha. - Você fica olhando para o nada e fala sozinha. - Finalizou caminhando para a cozinha, vendo pelo canto dos olhos se a filha estava lhe seguindo.
-Não consigo esconder muitas coisas mesmo. – passou as mãos no cabelo cacheado e foi direto para o filtro, enchendo um corpo com água gelada. - Nós precisamos conversar mesmo, mãe.
- Nós vamos, mas primeiro o café. - Apontou o bule que estava colocando sobre o fogão, o recipiente já estava cheio de água e pó de café. - Me conte, como estava o clima em Paris esse final de semana?

piscou, puxou fundo o ar e virou-se para encarar a mãe que permanecia de costas para ela, olhando o café que começava a borbulhar, terminou de beber sua água, caminhou até a pia abriu, a torneira e lavou o copo transparente.
Ao perceber a demora da filha em responder Vivian virou-se para olhar a jovem e percebeu a tensão nos ombros da filha.

- ?
- Eu não estava em Paris, mãe. - Respondeu secando as mãos na calça jeans. - Eu estava em Londres.
- O que foi fazer em... Céus. - Interrompeu a fala quando viu o líquido preto do café derramar sobre o fogão. Ela pegou as luvas penduradas no gancho da parede, resgatou a vasilha e começou a passar o café. andou até a mãe para ajudá-la, o coração começava a disparar no peito. - Como sou desastrada, esqueci que estava fervendo.
- Está tudo bem, mãe. – pegou duas xícaras no armário e colocou sobre a mesa da cozinha, adicionou o bolo de laranja que sua mãe tinha feito e esfriava sobre o forno, esperou –a terminar de passar o café e somente quando a mais velha caminhou para a mesa com a garrafa preta em mãos que as duas se sentaram. – Delícia. – Esfregou as mãos enquanto Vivian servia na xícara branca o café primeiro para a filha e depois a si mesma.
- O que foi fazer em Londres, ? E por que mentiu para mim?
- Eu fui até a sede da McLaren. – Ela respondeu com os olhos fixos no líquido da xícara e não viu que Vivian parou o braço que iria completar o movimento de levar o café até a boca e os olhos se arregalaram.
- Foi onde?
- Na sede da McLaren. – A Senna mais nova repetiu. – Liguei para o Prost, pedi para ele me levar até o carro do meu pai, eu queria correr nele para homenagear meu pai, então eu cor... – Vivian não esperou que a filha terminasse o relato.
- Você entrou em um carro de Fórmula Um? Com Alain Prost? – Perguntou em um tom mais alto. – Você enlouqueceu?
- Mãe, por favor, eu preciso que se acalme. – Pediu. – Eu preciso terminar de contar.
- Eu não quero ouvir, . – Vivian se levantou, o rangido da cadeira soou como um trovão no céu. – Não continue. Não quero saber de você ligada a nada de Fórmula Um. – A loira tremia as mãos e por causa disso precisou apertar as palmas buscando um equilíbrio próprio que não veio.

A cabeça de Vivian pareceu rodar e seu chão afundou quando tentou dar um passo, rapidamente se levantou amparando a mãe para que a mesma não caísse.
puxou todo ar que conseguiu e então expirou com calma, contando todos os números que conseguia, procurando equilibrar seu sistema nervoso e não entrar em colapso. Se ao saber que deu apenas umas voltas no carro de seu pai, sua mãe agiu daquela forma, imagina quando descobrisse o resto?

- Mãezinha, vem aqui você precisa sentar de novo. – Guiou a mais velha até a sala e sentou-se no enorme sofá com a mãe ao seu lado. – Você quer um pouco de água?
- Não. Eu quero que me prometa que não vai mais entrar em um carro de Fórmula Um. – Pegou as duas mãos da filha apertando e levando ao peito, lágrimas já tilintavam nas órbitas. – Promete, , promete que não vai mais fazer isso, essa coisa de correr como loucos é bizarro, você não pode fazer isso, não como seu pai.

fechou os olhos com força, me ajude pai, pediu em pensamentos, enquanto tentava organizar a situação crítica que se encontrava seu coração, no momento que a mãe começou a chorar, iniciou-se o esquartejo do órgão que bombeava sangue por uma faca totalmente cega.
Precisava entender e achar as palavras corretas para se comunicar com a mãe, infiltrando-se na penumbra da dor dela, dor que compartilhava, mas acima daquilo precisava conseguir expressar para a mãe o que aquilo significava.

- Eu não posso prometer isso, mãezinha. – Sussurrou aproximando o corpo da mãe. – Eu decidi fazer parte desse mundo e eu preciso que você tente entender os meus motivos para tomar a decisão de correr.
- Correr? Não, , não. – Balançou a cabeça negativamente. – Eu estava certa que se você não se enfiou nessa loucura mais nova, não faria mais isso. Isso é um pesadelo.
- Mãe, eu preciso fazer isso. Eu preciso sentir o meu pai. – Lágrimas também começavam a dar sinal no rosto jovem da brasileira, a necessidade de pronunciar palavras parecia ser nula, seu maior desejo era chorar, como se aquilo fizesse o aperto em seu peito diminuir. – Eu preciso que meu pai...
- Seu pai está morto! – Vivian exclamou irritada. – Esse esporte matou seu pai, você quer morrer também? Quer fazer como ele e deixar pessoas para trás? Quer triturar meu coração de novo? – Ela colocou-se de pé andando para longe de evitando cruzar seu olhar com o dela.
- Não se trata das pessoas mãe, se trata de mim. – A executiva pronunciou. – Do vazio que existe no meu peito. Nesse buraco onde meu pai costumava viver. – Bateu no peito com força, exemplificando de onde a pronúncia vinha. – Passei a minha vida inteira vazia, oca por dentro. Tentando achar situações, pessoas que me fizessem entender o que eu faço nessa terra. – Ficou de pé, seu sangue começou a esquentar na medida em que seu coração batia mais rápido. – Eu nunca me senti como naquele carro, jamais senti a presença dele daquela forma, eu preciso descobrir a vida, mãe.
- Você está viva, . – A loira andou até a filha e segurou seus ombros. – Seu coração bate e você respira. Se isso não é viver o que é então?
- Existir mãe. Eu não vivo, apenas existo. Desde que meu pai morreu, desde que partiu e...
- Eu o vi morrer. O país perdeu o piloto, eu perdi o marido, o homem que amei. As pessoas choraram pelo Senna do Brasil, eu chorei pelo Beco*, pela cama que ficou vazia, pela casa que ecoava a voz dele, pelo maldito carro na garagem... Eu não vou suportar isso de novo. – Ela suspirou pesadamente desejando que aquela conversa fosse um pesadelo e sua menina não estivesse pensando naquela insanidade, piscou os olhos várias vezes e em todas que abriu permanecia na mesma sala ainda vivendo dentro daquela conversa. – Você acordava a noite perguntando que horas ele chegaria, eu segurava minha dor e ninava você. Acha que não sei o que é perder a vida?

E lá estava a faca cega novamente penetrando as entranhas de em forma de dicção, conforme as lágrimas corriam pelas bochechas rosadas de Vivian e palavras voavam de sua boca, mais a jovem sentia seu peito inflar e mais parecia doer.

- É isso que você deseja para mim, mãe? Que eu passe a minha vida inteira existindo e sentindo a falta dele?
- Eu quero que você respire. Quero que seu coração continue batendo. – Vivian ainda estava incrédula com as palavras da filha, depois de tantos anos mostraria seu lado mais parecido do pai, cada traço do rosto da filha a lembrava o marido.

Por anos chorou ao olhar dormir, conseguindo identificar traços físicos que a ligavam a Ayrton, questionando a Deus o motivo cruel que estava por trás da morte de um homem tão bom.
Vivian havia deletado de sua memória o momento em que se viu sem ele, em que acordou e a cama estava vazia, que a casa não estava barulhenta com o som do rádio nas músicas que mais amava ou quando tudo de repente ficou preto e branco e morreu.
Até que sorriu, junto do sorriso mais puro veio uma caixa de lápis de cor e trouxe novamente a vida para a sua própria vida. Dali em diante, a única coisa que pediu foi para que não ficasse mais sem aquele sorriso.
Conforme a menina foi crescendo as orações de Vivian eram para que ela não se apaixonasse pelas mesmas coisas que o pai, que o mundo do automobilismo não fosse atraente, mesmo aos 15 anos quando recebeu uma caixa com todos os diários de seu pai, que ele havia deixado para que ela conhecesse um pouco mais dele, manifestou um breve desejo de pilotar, chegou a competir em alguns campeonatos, porém optou por estudar e assumir o instituto feito em homenagem ao pai.
Mas agora, parecia que o espírito de Ayrton estava cutucando e soprando caraminholas em sua cabeça, para aceitar estar perto de qualquer coisa que a ligasse aquele maldito esporte.

- Ele vai continuar batendo, mãe. Só que agora será muito além de bombear sangue, ele vai bombear a vida. – Andou até a mãe segurando suas mãos. – Eu não suporto mais viver assim, eu ando em círculos, não chego a lugar nenhum, trabalho para caramba, saio com as minhas amigas, me divirto e eu permaneço sem vida.
- Você não vai. Eu te proíbo, Senna da Silva. Você não vai correr, não vai nunca mais chegar perto de nada relacionado a esse caos que chamam de esporte, apague o número de Alain Prost de sua agenda e nunca mais fale com esse homem. – A voz já estava alta e cortante atingindo em cheio o coração da morena, a ordem de sua mãe era clara, dura e a viúva de Senna parecia acreditar que a filha seguiria o comando, entretanto passou as mãos no cabelo exalando uma calmaria que havia herdado do progenitor, o sorriso que pintou seus lábios fez a mãe se irritar por ser idêntico ao do ex-marido.
- Achei que tinha combinado com meu pai que jamais me impediria de fazer minhas escolhas. – Foi como se um soco invisível atingisse o estômago de Vivian, não soube decifrar se o motivo fora a fala da mais nova ou a memória que acompanhou suas palavras.

São Paulo,1987


Vivian Senna estava sentada no sofá confortável de sua casa, os cabelos faziam cascatas sobre o encosto do móvel e o vento que entrava pela janela balançava a saia de seu vestido e também a impedia de morrer de calor naquele dia ensolarado da cidade paulista.
Mesmo que estivesse no inverno o seu estado fisiológico esquentava sozinho as células de seu corpo, que juntando ao peso de sua barriga enorme de sete meses de gestação completavam o cenário infernal que exalava de seus poros.

- Trouxe mais um ventilador para ajudar a refrescar. – A voz de Ayrton a fez abrir os olhos enxergando a face serena do marido que estava de fato com um ventilador em mãos e logo conectou na tomada, virando em direção a loira todo o vento que saia do objeto. – Está melhor assim, querida?
- Sim, obrigada, amor. – Forçou um sorriso tentando aliviar a preocupação que estampava o rosto do piloto. – Sente-se aqui comigo. Ayrton assentiu tomando o lugar ao lado da mulher e passou o braço direito por sobre os ombros dela trazendo-a para repousar em seu peito, pousando a mão esquerda sobre a barriga onde estava bem quietinha, algo que não era comum já que a bebê se mostrava agitada desde o inicio da gravidez.
- O que foi, Senninha? Qual o motivo de estar tão quietinha? – O homem começou a fazer um carinho no ventre de Vivian enquanto conversava com a filha. - Pode chutar sua mãe, o papai deixa. – Vivian sorriu se aninhando melhor no peito do amado.
- Ela está quietinha desde cedo, deve ter sentido o clima pesado da conversa com meus pais. – Resmungou e Ayrton soltou o ar com força, tentando controlar a raiva que sentia pelas atitudes recentes dos sogros se opondo totalmente a mudança da filha para a Europa com Senna, alegando que devia deixar o piloto ir sozinho e ficar no Brasil cuidando de junto com eles, já que a profissão do homem era perigosa e ela acabaria viúva cedo demais.
- Não fique triste querida. sente quando você não está bem. - Meus pais me deixaram, Beco. Disseram que não aprovam minha decisão. Pediram-me para escolher entre eles e você. – Uma lágrima correu de sua bochecha, Ayrton sentiu-se mal detestava ver a mulher chorar. – Eles não aceitam que eu vá com você, que sua profissão é perigosa e eu posso ficar sozinha, eles realmente acreditam que ficarei melhor ser você.
- Querida, seus pais te amam e te querem por perto, eles desejam sua felicidade.
- Longe de você? Com a crescendo longe do pai?
- Eu te amo Vivian, amo nossa família. Jamais seria egoísta e te obrigaria a me seguir, se deseja ficar com seus pais, nós daremos com a distân...
- Não. – Ela desencostou de seu peito e segurou seu rosto lhe beijando os lábios. – Eu amo você, Beco e não vou ficar longe, eu e vamos com você, não importa para onde ou como será, eu vou com você.

Ayrton sorriu e beijou os lábios da mulher mais uma vez e então beijou sua barriga.

- Nós seremos incrivelmente felizes. Nossa filha vai nascer em meio ao amor e isso que importa.
- Sim, eu quero que seja feliz. - Tocou a barriga e Ayrton colocou sua mão por cima da dela enlaçando seus dedos. – Jamais vou impedir que ela faça suas escolhas e prometo sempre criar e educa-la para que tenha autonomia e consiga traçar seu próprio caminho.
- Sempre. Nossa pequena será muito forte como nosso amor e tenho total certeza que será grande nessa terra. – No mesmo instante a barriga de Vivian tremeu em chute e o casal sorriu entendendo que a pequena concordava com a conversa deles. – Agora voltou a aparecer, Senninha?
- Claro. Ela sabe como sou feliz em ter escolhido você.

Ayrton beijou mais uma vez os lábios da mulher, colocou-se de pé puxando as duas mãos de Vivian para que o acompanhasse, deixou-a sozinha por um instante e ligou o rádio. A música que inundou o ambiente foi “Roupa Nova Linda Demais” o piloto era completamente apaixonado por aquela música e vivia cantando ela para a amada.
Aproximou-se novamente e abraçou a mulher iniciando alguns passos ao som da música, começaram a dançar para comemorar a felicidade em que viviam e como a chegada da filha contemplaria mais o momento do casal, a batida do coração de ditava o ritmo do amor deles.

Vivian piscou e novamente estava em 2020, ainda em sua frente com os olhos marejados aguardando uma resposta da mãe, por um breve segundo Vivian teve a certeza que era Ayrton que estava diante dela. Os mesmo olhos brilhantes, o mesmo sorriso aberto.
Ah, merda!
Aquele homem ainda tinha completo poder sobre suas vidas, mesmo após a morte.

- Como estar lá te fará sentir mais viva? – Questionou por fim, começando a sentir que não tinha como impedir que a filha fosse, de fato ela e Ayrton tinham um combinado quanto às escolhas de vida da filha.
- Ele estará lá. Parece que em cada canto daquelas pistas, meu pai vive. Aquele carro tem o cheiro dele, o mesmo cheiro que me lembro dos cabelos dele. O volante foi o mesmo que ele segurou, quando toquei nele senti as mãos dele sobre as minhas. Pisar no mesmo lugar que ele reinou, me faz estar caminhando para ele.
- Que merda, . Eu tenho medo de perder você, por isso não quero que vá. – Vivian enquadrou o rosto magro de , o calor do toque da mãe irradiou sobre o corpo dela fazendo suas pernas fraquejarem. – Eu não suporto perder você, é tudo que eu tenho.
- Eu sempre estarei aqui. – Encostou sua testa na da mãe. – Mas estarei vivendo, não só existindo.
- Você está mesmo decidida, já vi que não vou conseguir te fazer mudar de ideia.
- Não vai mesmo.
- Você é como seu pai. Quando coloca uma coisa na cabeça, ninguém te faz mudar de ideia. – Vivian iniciou um carinho na bochecha da filha.
- Não é só dele que puxei isso. Eu sei que não será fácil me ver correr, mas eu preciso do seu apoio, quero que torça por mim.
- Eu vou torcer por você sempre. – Ela era incapaz de acreditar que estava concordando com aquela insanidade.

Era impossível que iria viver de novo aquela agonia aos domingos, porém amava mais que a própria vida e desejava que sua filha encontrasse a felicidade, mesmo que significasse correr naqueles malditos carros.

- Você é uma Senna, vai sempre brilhar onde quer que esteja. Tem certeza que essa é a única saída? Tem certeza que só assim sua vida fará sentido?
- Eu não tenho certeza de nada, a única coisa que sei é que não aguento mais essa vida. Eu sinto que meu pai iria querer isso, que ele está me direcionando para essa nova jornada. – sorriu saudosa e uma lágrima solitária brincou na bochecha, Vivian estendeu a mão para secar.
- Me promete que vai tomar cuidado?
- Eu prometo. – Beijou a bochecha da mãe. – Prometo que vou me cuidar e que sempre vou voltar para você.
- Eu amo você, pequena gafanhota. – Usou o apelido que Ayrton a chamava e abraçou a filha com força, parecendo querer fundir seus corpos.

repousou a cabeça sobre o ombro da mãe deixando-a afagar seus cabelos, os músculos do braço de Vivian estavam duros e rígidos mesmo que quisesse jamais seria capaz de conseguir soltar a jovem, esperava conseguir dar abraços como aquele pelo resto da vida em .
A cada batida de seu coração pedia que Ayrton estivesse mesmo olhando pela garota deles, que a protegesse e guiasse para que nada lhe acontecesse e ela sabia que minucioso como aquele homem era, sequer tiraria seus olhos dela.
Ela está sem suas mãos, cuide bem dela. – Falou em seus próprios pensamentos sentindo um sorriso involuntário surgir, ele nunca deixou de cuidar.
sentiu algumas lágrimas escorrerem por seu rosto, a mente tilintava na projeção de seu futuro, uma luz estava começando a nascer em seu coração, uma luz que brilhava na escuridão que sua vida antes se encontrava, o fulgor que agora iluminaria sua alma, trazendo paz e amor.
Para onde aquela cintilância a levaria?
Por instinto abriu os olhos e suas pupilas enxergaram a fotografia na estante da sala, o registro de sua família. Ayrton e Vivian posavam lado a lado, estavam em algum momento importante da carreira dele, já que ex-piloto vestia um terno antigo e a esposa um vestido azul. Ambos sorriam para a câmera e os olhos pareciam escapulir das orbitas tamanha intensidade que a felicidade exalava deles.
Sentiu o coração aquecer conforme uma leve brisa corria pelas células do corpo, as mãos se firmaram ainda mais ao redor do corpo da mãe aproveitando ao máximo o sentimento de amor que moldava o gesto de afeto.
Ela não sabia para onde aquela luz a guiaria, mas iria seguir seu caminho acreditando nela.


XXX


26 de setembro de 2020


O vento gélido de Londres parecia cortar a pele de Nicolas, mesmo com um casaco grosso, tocas e luvas o homem permanecia sentindo frio, motivo que estava o deixando irritado pela demora do irmão mais velho em abrir a porta. Tinha exatos sete minutos que o irmão respondeu a mensagem dizendo que estava indo e Nicolas se perguntava o que aquele “estar indo” de fato significava.
Quanto tempo uma pessoa demorava em sair do quarto andar até a sala e apertar um botão?
Aparentemente uma eternidade para o irmão mais velho e olha que ser rápido era característica determinante em sua profissão já que o mesmo era piloto de Fórmula Um.
Quando o barulho do portão sendo destrancado moldou seus tímpanos, mais rápido que pôde pensar se arrastou para dentro, fechando com força e convicção a porta certificando-se que o frio ficasse lá fora. Bem longe dele.
Cruzou a enorme garagem emoldurada por vários carros em passos rápidos, indo para o elevador onde apertou o número para subir ao primeiro andar, meio segundo depois as portas metálicas se abriram e o britânico escorregou para fora, entrando finalmente em casa.

- Que bom que chegou. – A voz do pai soou seus ouvidos enquanto o filho mais novo se livrava das luvas e casacos, colocando-os pendurados no cabideiro.
- Oi pai. – Sorriu e abraçou o mais velho. – Senti saudades, onde está a mamãe?
- Essa é uma noite só de garotos. – Respondeu dando um gole na cerveja. – Seu irmão está colocando mais cerveja no freezer. O jogo está para começar, vamos.

Os dois andaram juntos para sala de cinema, era enorme e continha um gigantesco sofá de couro e um monitor de televisão de 110 polegadas que já estava ligada em um canal de esportes, onde em instantes os homens assistiriam a final da NBA entre Los Angeles Lakers e Miami Heat, era o quarto jogo da série que poderia chegar a sete, para definir o campeão de 2020 da maior liga de basquetebol do planeta.

- Como estão os preparativos para o campeonato? – Anthony perguntou ao filho mais novo, que atualmente compete no campeonato Britânico de Carros de Turismo.
- Muito bem. O carro está ficando incrível e da maneira que pedi. Será uma grande temporada. – Respondeu com um sorriso enorme nos lábios, o progenitor acompanhou o gesto totalmente orgulhoso. Tinha dois filhos incríveis.
- Estou orgulhoso, garoto. Você vai brilhar.
- Obrigada pai. Cadê o dono dessa casa? Me convida e não aparece para me receber? – Nicolas falou alto para que o irmão conseguisse ouvir e surtiu o efeito desejado já que em poucos instantes a figura do outro cruzou a porta.

Com um pote de petiscos na mão direita e na esquerda algumas cervejas. Os cabelos com tranças estavam presos em um rabo de cavalo, ao seu lado estava o cachorro e fiel companheiro bulldog que mais parecia uma parte do corpo do outro.

- Estava pegando cervejas para te receber, irmão. – Ele sorriu se aproximando, colocou o que carregava sobre a mesa de madeira e então abraçou com ternura o outro. – Como você está?
- Muito bem. E você, como está? – Pegou uma cerveja, desenroscou a tampa e tomou um gole, vendo o irmão sentar no sofá e o acompanhou.
- Estou muito bem. Estou onde sonhei em estar, não tenho nenhum motivo para reclamar. – O negro sorriu tirando os chinelos da Tommy Hilfiger colocando-os sobre o sofá.
- Nessa próxima corrida, tenho certeza que vai conseguir as 91 vitórias. – O pai bateu os ombros do filho. – Nas corridas passadas devia ter conseguido, mas sei que será nessa e por ser na Alemanha será duplamente incrível.
- Eu concordo. Não vou ficar pensando nisso, vou trabalhar duro e eventualmente a vitória chegará. – O piloto de Fórmula Um respondeu com sinceridade, de fato não vivia seus dias pensando quando se tornaria o maior vencedor da história do esporte, ele somente trabalharia para fazer um bom trabalho e seria recompensado.
- Mas eu não posso deixar de comentar como fiquei irritado com... – Nicolas foi interrompido pelo nome citado na televisão, eles não estavam prestando atenção, mas ao escutar o nome do maior ídolo do irmão, parou de falar.– O que aconteceu que têm relação com Ayrton? – Perguntou ao irmão mais velho.
- Não sei. – Respondeu sem desviar os olhos da tela.

- Boa noite, hoje viemos trazer em primeira mão a maior notícia do automobilismo dos últimos anos. – O apresentador, James, iniciou sua fala. Ao seu lado havia uma bancada com mais dois homens que eram comentaristas do esporte. – Acabamos de receber em primeira mão de fontes seguras que a escuderia McLaren assinou um contrato de um ano para a temporada 2021 com Senna, vamos chamar o repórter Eric, que está neste momento em frente à escuderia e trará maiores informações.- Boa noite, Erick! Como assim terá uma mulher como piloto principal da escuderia e mais ainda, novamente o sobrenome Senna às pistas?

O Apresentador chamou e o foco da câmera mudou para um homem jovem loiro que estava em frente a sede da McLaren, era possível perceber a multidão de jornalistas aglomerados no local.

- Boa noite , James. Boa noite para quem está em casa. – O jovem arrumou os óculos de grau sobre o rosto e passou os olhos no papel em sua mão lendo as informações. – É isso mesmo que você disse, hoje por volta das seis da tarde a McLaren assinou o contrato por duas temporadas com Senna, a filha do tricampeão do mundo Ayrton Senna que será a primeira mulher a pilotar pela escuderia inglesa. – Começou a falar e conforme pronunciava o conteúdo em seu lugar começaram a aparecer imagens de mais cedo quando a mulher deixava a escuderia. – Ela saiu daqui acompanhada por Alain Prost e Ron Dennis, dois dos principais companheiros de Ayrton nos tempos de McLaren e agora às nove horas teremos a coletiva de imprensa aqui na sala de reunião da escuderia onde perguntas serão respondidas a respeito dessa decisão.

O piloto sentado no sofá estreitou os olhos para conseguir enxergar a figura da mulher que passava em sua tela. Estava com cabelos soltos e eram levemente cacheados, vestia um, sobretudo preto e botas de salto, em alguns momentos parecia sorrir para as pessoas, mas era nítido seu desconforto ao estar rodeada por muita gente. Alain Prost segurava em seus ombros e a guiou a entrar em um carro preto enquanto eram escoltados por enormes seguranças.

- Como foi acontecer , Erick? Não há histórico dela correndo em nenhuma das categorias de base. Até onde sabemos ela é diretora financeira do instituto Ayrton Senna no Brasil.
- Nós ainda não temos maiores informações, tudo aparentemente será esclarecido na coletiva. – O jovem repórter respondeu. – Mas é verdade, nós não sabemos de qualquer histórico relacionado às categorias de base, a única coisa que sabemos é que ela foi campeã mundial de Kart em 1990 quando disputou o torneio e seu pai era seu treinador, depois disso não existe qualquer registro de Senna em carros profissionalmente. O trabalho oficial dela era no instituto fundado em memória ao pai em São Paulo, Brasil.


Uma foto de estampou a tela. Ela estava sentada em uma enorme mesa no instituto Ayrton Senna, atrás dela havia um enorme quadro do piloto em uma das pistas de Mônaco no inconfundível carro branco e vermelho da McLaren.
A mulher tinha um sorriso aberto e os cabelos cacheados estavam soltos e volumosos, a face era serena e os olhos emitiam um brilho fora do comum, era possível perceber as semelhanças entre a mulher e o progenitor. Detalhes que não eram gritantes, mas visíveis para pessoas que eram observadoras.
era um cara extremamente observador e detalhista.
Ele conhecia , já a tinha visto muitas vezes, tinham fotos juntos e conversas marcantes. Todo ano quando corria no Brasil visitava o instituto de Senna em São Paulo, era sempre recebido com carinho por todos os funcionários e pela família Senna, já que todo o planeta sabia como ele era o maior fã de Ayrton Senna, que foi sua maior inspiração nas pistas.
Em 2017, quando bateu o mesmo número de pole positions* na carreira recebeu das mãos de Senna, a réplica do capacete amarelo que seu pai corria, foi um presente da família para . Nunca imaginou que veria aquela mulher doce e gentil na fórmula Um, aquilo sim era a maior surpresa do ano de 2020.

- Você sabia disso, Lew? – O irmão perguntou curioso.
- Não. Estou bem surpreso. – Permaneceu sem tirar os olhos da televisão enquanto mais fotos de mesclavam na tela, algumas de Ayrton também brilhavam com os carros que correu e segurando os troféus do GP’S que foi campeão. – Muito surpreso mesmo. – Uma pontada foi dada em seu coração enquanto corria as fotos de seu maior ídolo, não soube dizer o motivo ao certo, mas algo dentro dele se alegrou ao saber que veria um sobrenome que amava tanto tão perto de si.

- Nós vamos sair do ar e deixar a programação seguir com o final da NBA, a entrevista coletiva será transmitida nas redes sociais e você pode acompanhar os comentários por lá, até mais. – O apresentador se despediu e logo a imagem da quadra dos Lakers apareceu em destaque onde o grande astro do time, Lebron James, aquecia seus arremessos.

- Que loucura. Eu vivi para ver uma mulher na fórmula um. – O pai de comentou embasbacado. – Esse esporte vai mesmo mudar o mundo.
- De fato. O jogo já vai começar, vamos às apostas? – Nicolas bateu palmas animado com a disputa do título que veriam a seguir.
- Vocês podem ficar à vontade. – calçou novamente os chinelos e colocou-se de pé. – Eu já volto.
- Aonde você vai? O jogo já vai começar. – O irmão caçula levantou as mãos surpreso com a atitude do outro que sequer o respondeu, somente saiu desesperado pela porta em direção às escadas que davam ao segundo andar.

subiu dois degraus por vez em direção ao seu quarto, seguido por Roscoe que não se afastava em nenhum momento do dono. Abriu a porta do quarto com certa brutalidade correndo os olhos pelo cômodo atrás do controle da TV, levantou as cobertas emboladas da cama onde estava deitado pouco tempo antes de seu pai chegar e encontrou o aparelho jogado por ali.
Ligou a televisão e conectou a internet procurando onde conseguiria ver a coletiva de imprensa, clicou no primeiro link e enquanto esperava carregar sentou-se na ponta da cama, mordendo o lábio ansioso.
Assim que abriu por completo ele conseguiu enxergar o tão conhecido salão da McLaren, várias vezes deu entrevista ali durante o início de sua carreira.
Estava lotado de pessoas e a enorme mesa já estava composta por alguns integrante famosos da escuderia como Ron Dennis ex- diretor, Alain Prost ex- piloto, Marianne Dauphiné * atual diretora da escuderia, advogado e também relações públicas da escuderia, e por fim, , que estava centralizada e naquele momento tomava com gole de água.
aumentou o volume do aparelho e arrastou o corpo até estar no topo da cama em seus confortáveis travesseiros, Roscoe deitou a cabeça em sua perna e ambos começaram a assistir a coletiva que já estava sendo iniciada com a primeira pergunta.

- Aqui, Mark Zalik do Guardian – Um jovem moreno levantou a mão. – Boa noite , tudo bem? – A mulher assentiu. – Foi uma surpresa para todos sua chegada à fórmula um, sendo a primeira mulher nessa escuderia e também filha de uma dos melhores pilotos da história. Como acha que vai ser correr já que você não tem experiência nas categorias de base?
- Boa noite. – respondeu em inglês que tinha um pouco de sotaque devido a sua língua materna ser totalmente diferente. – Ele não era um dos melhores, ele era o melhor. – Afirmou séria e Prost ao seu lado balançou a cabeça negativamente com um sorriso aberto nos lábios. – Eu não corri na fórmula 3 ou 2, mas já disputei campeonatos e tenho experiência dentro de carros de corrida. De fato não passei a vida inteira em carros e autódromos como a maioria dos pilotos, mas com certeza vou trabalhar duro para melhorar. - Gostaria de saber o que te motivou a tomar essa decisão? Por que não fez isso mais cedo quando ainda era nova e tinha mais chances de se desenvolver nesse esporte? – O mesmo jornalista tornou a perguntar.

pareceu pensar um pouco, ela levou as duas mãos aos cabelos bagunçando-os, fechou os olhos e soltou o ar com força.

- Amor. – Ela respondeu com um sorriso aberto. – Existem coisas que começamos a fazer porque amamos, com o tempo esquecemos o motivo que nos fez começar. Vim para descobrir o verdadeiro amor, o amor que muda a vida de crianças, amor que tira pessoas do crime, amor que nos transforma e faz ser melhor. Meu pai deixou um legado, plantou sementes em um jardim que não viu os frutos, compôs uma canção para outras pessoas cantarem por ele, mostrou que até mesmo imigrantes órfãos podem deixar suas digitais, ascender e ressurgir. As fotos dele serão esquecidas com o tempo, os títulos, as vitórias, recordes e feitos, um dia todo mundo vai se esquecer, mas quando as pessoas encontram seu caminho por ter se inspirado em alguma atitude ou ação, vale a pena todo e qualquer esforço. Eu vim para sentir o que ele sentiu e saber o que fazia ele feliz nesse esporte. Vim por amor. Amor ao meu pai. Amor ao meu povo. Amor às crianças sonhadoras que veem esses carros na televisão. Amor pela vida. Amor pela liberdade. Amor por amor. Puro e simples.

Quando terminou de falar sentiu o corpo entrar em ebulição, todas as células de seu fisiológico tremiam e por um instante se esqueceu como se respirava. As palavras dela acenderam um fogo diferente, fogo que ele já teve um dia quando viu Ayrton correr e decidiu que queria ser como ele.
Aquela mulher tinha luz ao seu redor, ele podia enxergar sem qualquer esforço a energia que rondava seu corpo e alma, não era possível que mais uma vez estivesse sendo tocado por um Senna.
Dessa vez em circunstâncias diferentes, não mais como a criança que chorava nas vitórias do ídolo, mas como o homem que colhia os frutos da influência que ele causava.
Ele correria com uma Senna afinal, teria o privilégio de aprender mais uma vez com aquele sobrenome que era a representação do sonho. O sonho que virou realidade.

- Senna. - pronunciou o nome sentindo que tinha muita coisa para aprender com aquela mulher, mal podia esperar pelo momento em que estariam frente a frente.

O piloto pegou o celular que estava ligado na tomada e abriu o aplicativo do instagram, procurando pelo user de . Assim que o encontrou, abriu o link de mensagens e rapidamente mandou algo para ela, voltando a prestar atenção na coletiva. Foi então que viu quando a mulher pegou o aparelho que estava sobre o balcão enquanto Dauphiné respondia algumas perguntas.
No mesmo instante apareceu em seu próprio celular que ela havia acabado de ler sua mensagem e abriu um enorme sorriso. Tão puro. Tão lindo. Tão nostálgico. Tão mágico. Tinha algo além daquele sorriso e quando ela digitou uma resposta e o telefone em suas mãos apitou, ele soube que os céus estavam mesmo lhe preparando uma enorme surpresa.

" : Seja bem-vinda a sua nova morada, Senninha. Tenho certeza que seu pai está orgulhoso te ter inspirado você!"
" : Obrigada, . Ele sente orgulho de ter te inspirado também."


Glossário


Alain Prost* Ex – piloto da Mc-Laren, correu junto com Ayrton Senna. McLaren* Um escuderia inglesa que compete na primeira divisão do automobilismo.
Ron Dennis* Ex – Diretor na McLaren, era quem comandava a equipe na época que Ayrton e Prost correram pela escuderia.
Pole position*- É a primeira posição do grid de largada da Fórmula Um, o acontecimento descrito na cena, se refere a quando igualou o mesmo número de pole positions que Ayrton Senna, ambos com 65.
Marianne Dauphiné – Atual chefe de equipe da McLaren, mas é fictícia o chefe da McLaren se chama Zac Brow.
Cockpit: Local do assento de pilotos.

Capítulo 01

19 de novembro de 2020*


Monte Carlo era uma cidade linda. Exatamente como viu em fotos e vídeos por toda a internet, a arquitetura mais antiga e totalmente romântica dava um ar prazeroso ao local. conhecia Mônaco, inclusive tinha fotos com o pai no circuito de Monte-Carlo, tendo em vista que era o preferido dele e também onde era o maior vencedor.
Todavia naquele exato momento, ela estava detestando estar naquele principado, abriria mão de toda aquela luxuosa estrutura e da cama confortável daquele hotel, para estar relaxando em um pagode na lapa, com chinelos havaianas e um copo de cerveja bem gelada. Sentia saudades de seu país, das músicas, lugares e pessoas e olha que não tinha duas semanas desde a sua mudança.
Pelo menos em Mônaco não fazia frio ao extremo, e ela não precisava colocar quilos de roupa para ficar confortável, era o único fator positivo de estar naquele local, naquele momento.
Foi obrigada por Marianne e Prost a viajar para assistir à festa de premiação que a FIA* oferecia para consagrar a escuderia campeã do último ano.
Será bom para você se enturmar com os pilotos. Você precisa se acostumar com esse mundo, a conviver nessas festas. Foi o que eles disseram, antes de empurrá-la voo adentro. E ali se encontrava ela em frente ao espelho do hotel Gran Mônaco* observando sua imagem criando coragem para descer.
O cronograma da festa dizia que o inicio seria às oito e meia da noite, onde todos deveriam chegar ao salão, confraternizar e fingir que eram todos amigos e felizes, , porém decidiu que não iria naquele horário, iria mais tarde depois que todos estivessem chegado e não haveria mais milhares de reportes e fotógrafos plantados na porta observando todos que chegavam. Em sua cabeça quando ela chegasse, não teria tanta importância.
O celular despertou sobre a cama, no exato horário que programou o mesmo as dez horas da noite. Olhou mais uma vez no espelho, aprovou sua imagem, resgatou todas as suas coisas e por fim saiu do quarto.
A descida para o salão foi tranquila, não havia pessoas circulando no local, então não precisou cumprimentar e sorrir para ninguém, a primeira vitória de seu dia, não havia nada pior do que precisar acenar para as pessoas quando estava de mal humor. A segunda vitória do dia veio quando chegou à entrada do salão e de fato não havia uma quantidade absurda de pessoas, alguns poucos se encontravam por ali e mesmo tentando abaixar a cabeça e passar despercebida, não obteve resposta.

- , por favor, uma palavra. – O repórter se aproximou e antes de responder ela pensou se poderia somente ignorar e seguir seu caminho, mas o homem foi mais esperto e parou em frente a ela bloqueando sua passagem.
- Claro. – Tentou dar o seu melhor sorriso.
- , nós sabemos o peso que seu sobrenome tem, o quanto o seu pai é importante e fez por esse esporte. Será praticamente impossível você fazer o mesmo que ele fez. Como você lida com a pressão de saber isso?

Ela não respondeu de imediato, controlou o impulso de socar a pessoa que estava em sua frente. O homem mantinha o microfone erguido em frente ao rosto da brasileira, esperando por sua resposta. Não conseguia formular uma frase compacta na cabeça, as palavras que o jornalista cuspiu sobre ela, ainda estava sendo digeridas. Ela sabia quem Ayrton tinha sido, sabia dos recordes, títulos e do talento que o mesmo tinha. Em nenhum momento ela acreditou que superaria o pai, não esse o motivo que a fez escolher correr.

- Ninguém nunca vai fazer o que ele fez. – Respondeu. – Ele foi o melhor que já existiu, ninguém jamais vai se comparar a ele. - Estava preparada para se afastar, o jornalista não permitiu.
- Você não tem receio de destruir o nome que ele construiu? De envergonhar a história dele?

Mais uma vez não conseguiu pensar em uma resposta, permaneceu seria encarando o homem em sua frente, imaginando formas dolorosas de executar sua morte lenta e dolorosa. Jamais havia pensado naquilo, pensando em como as pessoas estariam falando dela, do pai dela e criando teorias de conspiração para que ela desistisse. Inventando situações problemáticas para derrubar os sonhos que estavam sendo formulados em seu coração.

- A história do meu pai jamais será envergonhada, tenho certeza disso.
- Estão dizendo por aí que você só está querendo se aproveitar do nome do seu pai para fazer sucesso e que você não é uma Senna verdadeira? O que tem a dizer sobre essas críticas? Como você...

Ela não esperou que ele falasse, deu as costas e seguiu para a entrada do salão, não olhando quem estava ao seu redor. As lágrimas aglutinavam em suas pupilas conforme seu coração se apertava e a mente trazia à tona as palavras que foram proferidas instantes atrás.
O salão estava abarrotado de pessoas, várias mesas espalhadas em uma decoração escura e elegante, exatamente como a imaginou que seria. Não permaneceu parada muito tempo para identificar maiores detalhes da festa, seus olhos iniciaram uma procura incansável pela porta mais perto, para que conseguisse sumir dali. No canto esquerdo havia uma porta, na parte superior da mesma estava escrito sala de jogos, era a única saída que a morena conseguiu encontrar, antes que pudesse raciocinar seus pés estavam se movendo para lá.
Sua caminhada foi interrompida quando seu corpo esbarrou em algo, imaginou que pelo baque fosse despencar no solo, porém, foi impedida de conhecer o chão quando mãos seguraram sua cintura a firmando tronco e consequentemente seus pés nos saltos.
Senna ergueu a cabeça para ver quem estava por perto e reconheceu os cabelos loiros e olhos azuis de Sebastian Vettel, piloto da Ferrari, a feição do alemão estava fechada em susto e preocupação.

- Você está bem?

A mulher não respondeu, sua cabeça girava e o corpo tremia, lágrimas grossas caíam por suas bochechas e queimavam sua pele pela dor que representavam. Todas as palavras ainda rondavam seu coração, atingindo sua alma e dilacerando lentamente. Aproveitadora do nome de seu pai? Falsa Senna? Envergonhar sua história? Eram rótulos demais, palavras duras demais e doía demais. A memória de seu pai era tudo que mais prezava e zelava. Tinha apresso por todos os troféus em sua casa, do carro que por anos permaneceu na garagem, das roupas que ainda usava para dormir, a mínima menção de fazer qualquer coisa que desonrasse seu pai, era como perfurar sua pele com facas, insuportavelmente doloroso.

- Você é a , certo? – O loiro tornou a perguntar, com um aceno rápido ela confirmou. – Você está precisando de alguma coisa? Está machucada? -As mãos de Vettel seguravam os cotovelos de e ele procurava decifrar o que estava acontecendo, mas a mulher não parecia estar em seu estado normal, estava agitada e chorando muito, sua respiração agitada deixava explicito uma possível dificuldade de se acalmar.
- Eu ... não... eu – Levou as duas mãos ao rosto para secar as lágrimas, tentativa em vão. – Odeio todos, jamais deveria ter aceitado entrar nessa furada.
- Do que está falando? Vamos pegar um pouco de água.
- Eu... eu.. não – Mais lágrimas, mais dor.

Ela se desvencilhou dos braços dele e seguiu o caminho que iria percorrer no início, não dando a menor importância ao homem que deixou para trás. Seu instinto a guiou até a sala fechada, onde ela poderia liberar através do choro, toda a mágoa que a preenchia.

Sebastian permaneceu parado observando sair apressada, mesmo após a mulher entrar na sala de jogos ele não se moveu, olhava a porta como se fosse capaz de enxergar o que havia atrás da mesma.
Ela parecia chorar, mas o que poderia ter acontecido? Quem choraria em uma festa? Era estranho olhar para aquela mulher e saber que em poucas semanas estaria disputando posições com ela na pista, era extraordinário que mulheres frequentassem aquele lugar, torcia para que agora, sua esposa, Emily, fosse mais ao paddock, o incentivo de mulheres sempre chamava umas às outras.
Ainda com os olhos na porta, Vettel pensou no que deveria fazer, será que estava passando mal? Que precisava de algo? Pensou alguns segundos no que seria o certo a se fazer, não teve uma resposta correta, então optou por chamar alguém.
Deslocou seus pés alguns poucos centímetros, antes de aparecer em sua frente, as tranças estavam presas, o pirceng brilhava intensamente sobre o terno escuro que usava.

- Grande . – Cumprimentou o loiro.
- E ai, Vettel? Cadê a Cassie? – Respondeu com um sorriso.
- Você bem sabe que minha querida esposa não gosta muito de vir a essas festas, e ela está com as crianças. - Respondeu o loiro
- Isso é verdade. - Sorriu – Aproveitando a festa?
- Não. – Disse sério e os dois gargalharam. – Você?
- Já estive em lugares piores. – Deu de ombros.

Sebastian passou as mãos sobre os cabelos e abriu um sorriso enorme. Foi sorte ter encontrado naquele momento, precisava mesmo falar com alguém o que tinha presenciado.

- O que acha de pegarmos uma bebida? – Ofereceu apontando com o dedão para o bar a direita deles, assentiu prontamente e seguiu o colega de profissão. – Eu quero um Whisky, com duas pedras de gelo. – Pediu se apoiando no balcão e olhou para esperando para saber o que ele pediria.
- O mesmo para mim. – Assentiu ao ver o garçom colocar os dois copos quadrados sobre o balcão.
- . – Chamou o alemão e logo teve os olhos do negro voltados para ele. – Você conhece a , certo? A Senna.

arqueou a sobrancelha com a pergunta, por algum motivo estranho sentiu a garganta fechar com a menção ao nome da brasileira.

- Sim. Não somos íntimos, só nos vimos algumas vezes. Digo, tem tempo que não vejo ela, desde o Brasil. – Respondeu rápido, mas qual era a necessidade de explicar algo? Era só responder sim ou não.
- Ok, isso já serve. – Sebastian franziu o cenho com a resposta, mas resolver ignorar. – Viu ela hoje? – Coçou a nuca.
- Não, acho que não deve vir. – não tinha a informação, gostaria de ter na verdade, estava querendo conversar com , ainda não havia tido oportunidade.

Sebastian bebeu um gole da bebida para disfarçar o nervosismo, estava se sentindo um fofoqueiro.

- Ela veio. - arqueou a sobrancelha confuso, sem entender o motivo daquela conversa, Vettel era um homem reservado e quieto, dificilmente tinha informações pessoais vazadas, quase não se envolvia com outras pessoas e agora estava compartilhando informações? Havia algo errado.
- O que está acontecendo?
- Como assim?
- Você está falando da para mim, você não fala de ninguém. O que aconteceu? Sebastian respirou fundo e decidiu ser direto.
- Eu a vi alguns minutos atrás chorando. Ela entrou na sala de jogos. – Disse rápido. Rápido demais para entender prontamente. ? Chorando? Como assim?
- Ela estava chorando? A ? – Franziu o cenho. – Eu não estou entendendo nada.

Sebastian riu, estava nervoso e isso era algo incomum.

- Ela esbarrou em mim alguns minutos atrás, estava chorando. Eu perguntei se estava tudo bem e ela disse que odiava todo mundo, mas não tive tempo de responder mais nada, ela saiu correndo em direção a sala de jogos.

não raciocinou o que estava acontecendo, Sebastian permaneceu explicando, porém ele só compreendia duas palavras: e chorando. Seu estomago revirou com a notícia e seu corpo reagiu de imediato com um frio cruzando seus
poros. O que havia acontecido? Ele precisava descobrir. Desde que descobriu que ela estaria presente na Fórmula Um, um desejo gigante cresceu em seu peito para se aproximar dela. Não sabia como acontecia, só sentia necessidade de estar perto.
- Onde é a sala de jogos?
- A primeira porta a direita. – Apontou a direção com o queixo. – Espero que ela fique bem.
- Espere. – O negro pegou o colo do balcão olhando o companheiro. – Por que você me disse isso? - Sebastian balançou os ombros.
- Eu não sabia o que fazer. Você apareceu na minha frente na hora, parecia que alguém te mandou. – Explicou o loiro e não proferiu nenhuma palavra, somente apertou o ombro do piloto ferrarista e saiu andando.

De fato, ele não sabia como havia chegado até aquele lado do salão, já que sua mesa residia no canto oposto. Suas pernas formigaram e ele precisou se colocar em pé, iniciou uma caminhada sem rumo e quando deu por si, estava conversando com Vettel e colhendo informações sobre , sem sequer perguntar.
O que vinha acontecendo com frequência nos últimos dias, todas as pessoas acabavam falando de , seja um comentário ou uma notícia, foto de algum momento.
Nas últimas duas semanas era noticia constante em sua rotina. Ele se aproximou da porta da sala de jogos e sacudiu o braço direito, para aliviar o nervosismo que se apossou dele. Bebeu mais um gole da bebida antes de girar a maçaneta e abrir a porta.
A sala de jogos estava com meia luz, sua concentração era somente na mesa de bilhar no meio do local. Outros movéis estavam espalhados, assim como outros meios de jogos, como mesa de pôquer e roleta.
No canto esquerdo ele viu a silhueta da brasileira, de costas para ele, estava com as duas mãos sobre o rosto e seus ombros pareciam tremer um pouco, ela chorava. Respirou fundo e chamou.

- . – Firmou a voz. – Está tudo bem?
- Sim. - Ela forçou um sorriso. - Tudo bem, Obrigada.

Antes de virar para olhar o piloto, levou as duas mãos ao rosto para enxugar o rosto que estava molhado pelas lágrimas do choro pesado de seu coração carregado pelas palavras duras que ouviu. Precisou se afastar para estar só, não gostava que a vissem chorar, por sua vontade teria ido para casa, mas ainda precisava estar no hotel para concretizar a apresentação de início daquela temporada da qual ela já estava começando a se arrepender de ter aceitado participar.
estaca com as mãos no bolso do terno azul marinho,arqueou a sobrancelha surpreso ao perceber a mentira da mulher, sabia que não estava tudo bem, por aquele motivo havia chegado ali.
trajava um vestido preto e longo de mangas curtas, um decote discreto e uma fenda pequena, somente era possível ver quando ela andava, era simples em comparação a todos os outros que viu durante toda a noite, mas aos olhos dele era o mais lindo, mesmo que em seu rosto tinha pouca maquiagem e nenhum batom forte, ele poderia afirmar que a beleza que enxergava nela era exorbitante.

- Engraçado que geralmente as pessoas não choram quando está tudo bem. – Ele pontuou certeiramente e emitiu um suspiro. – Eu não quero ser intrometido, me desculpe.
- Está tudo bem. – levou as mãos ao cabelo certificando-se que seus fios estavam intactos no lugar. – O que está fazendo aqui? - Eu levantei para caminhar um pouco e parei aqui, eu não gosto dessas festas. – Ele bebeu um gole do líquido que estava no copo quadrado em sua mão, arqueou a sobrancelha incrédula.
- não gosta de festa? – O tom surpreso em sua voz fez balançar a cabeça negativamente.
- Você não devia acreditar em tudo que escuta na mídia, Senninha. Eles conseguem deturpar todas as verdades e transformar em ruim tudo que existe de bom. – O piloto britânico bebeu o último gole de seu copo e colocou o mesmo na beirada na mesa de bilhar, percebeu como ele ficou incomodado com seu comentário.
- Por que me chama de Senninha?
- É o seu nome, não? – Fez a pergunta que mais repetia para si mesma nas últimas horas, ela e também o resto do mundo.

Senna? De fato era seu sobrenome, mas o peso que as pessoas colocavam eram enorme, e vários questionamentos surgiam em sua cabeça conforme as pessoas seguiam perguntando e fazendo comparações com ela e seu pai.
Ela era tão boa quanto ele? Será que traria desonra ao legado que ele construiu? O que estava indo fazer naquele esporte? Seu pai foi o melhor deles, nunca se compararia a ele em talento e conquistas, usar aquele sobrenome nas pistas era um risco, era colocar em dúvida todo o conteúdo de seu pai e não relacionar seu talento com o dele.
E sabia que perto de seu pai tudo sobre ela era um fiasco, ela nunca seria como seu pai foi, nunca ganharia o que ganhou e jamais seria Senna do Brasil. Nunca.

- É o que diz na minha certidão de nascimento, mas para todo mundo lá fora não. – Deu de ombros fingindo naturalidade, mas aos olhos dele estava mais que claro o incomodo dela.
- Não deveria se importar tanto com o que as pessoas pensam, no mundo que está prestes a viver se ligar para isso vai acabar enlouquecendo. – deu mais um passo se aproximando de que estava do outro lado da mesa de bilhar, os olhos inchados e semblante triste brincavam na moldura do rosto, a dor que era estampada fez o coração do homem se apertar compartilhando cada sensação que poderia se passar em seu físico.
- Não me importo. – Disse rápido, apoiando as mãos sobre a mesa para de alguma forma disfarçar a verdade que suas palavras escondiam.
- Isso é mentira. – riu.
- Como tem certeza? Ser heptacampeão te deu o poder de ler mentes? – A ironia reinou fazendo com que ele gargalhasse alto.
- Eu já vivi isso, . – Comentou. – Sei o que está sentindo, não precisa ter vergonha ou se esconder.

rolou os olhos indignada, não imaginava sua noite acabando em um papo de autoajuda com .

- Você joga? – Questionou já caminhando até onde os tacos estavam posicionados. – Esse papo está é muito Paulo Vieira* para mim, o que acha de jogarmos?
- Quem é Paulo Vil.. Voi ... Vireia? – Tentou imitar as palavras que representavam a língua materna do país de , arrancando uma gargalhada dela.
- Vieira. – Repetiu devagar. – É um escritor brasileiro. Escreve livros de autoajuda.
- As pronuncias são complicadas no Brasil. – O homem se deslocou de onde estava e caminhou até onde os tacos estavam, pescou o pote onde guardavam giz e levou até a mesa. – E eu não estou fazendo um papel de alguém que sabe sobre autoajuda, estou falando do que vivi e ainda vivo.

Ele escolheu o taco com base no peso, gostava do mais pesado para desenvolver equilíbrio.

- O que você viveu, que acha que é parecido em alguma coisa comigo? – A mulher começou a ajeitar a bolas coloridas na mesa, sob o olhar de que segurava o taco com a mão direita e a outra estava no bolso da calça social.
- Comparação. – Uma palavra que proferiu foi o suficiente para fazer a brasileira paralisar no ato de arrumar as bolas, ela virou a cabeça para encará-lo e essa foi a deixa para que o homem continuasse. – No meu caso o questionamento, no seu, ambos. O questionamento sobre quem eu sou e o que posso fazer aqui, não é exatamente assim que se sente, Senninha?
- Você está falando demais, vamos jogar. – Tirou o triângulo de madeira após as bolas estarem perfeitamente alinhadas.
- Do que você tem medo, ? – Ainda com a mão no bolso, ele caminhou em passos lentos, com os olhos totalmente vidrados nela. – Tudo bem, já que você quer tanto jogar, cada bola que eu encaçapar, você responde uma pergunta minha. não foi capaz de controlar sua curiosidade, precisava saber mais sobre ela.
- Céus! É assim que campeões agem? Não conseguem fazer nada de maneira amistosa? – Rolou os olhos.
- Sou um homem competitivo, não disputo coisas para perder. – pontuou enquanto se posicionava sobre a mesa para iniciar a jogada. – Só jogo se for assim.
- Isso é porque você não queria ser intrometido?
- Eu não quero, mas não posso deixar você sair daqui acreditando nas mentiras e notícias tóxicas que rodeiam esse mundo. – Passou à língua pelos lábios umedecendo-os, entendeu naquele momento o motivo das mulheres ao redor do planeta serem loucas pelo britânico.
- Por que você se importa?

Antes de responder o piloto mirou na bola branca, e fez a jogada com força e precisão espalhando o conjunto de bolas coloridas, a bola número quatro foi encaçapada ao lado direito de .

- Por amor. – Ele soltou o taco antes de fazer a próxima jogada, tirou o paletó do terno que usava cuidadosamente e colocou sobre a poltrona de couro atrás de si. A parte de cima da roupa social limitava o movimento de seu corpo, permaneceu somente com a camisa de botões branca.
- Amor? – Arqueou a sobrancelha.
- Não é esse o seu discurso? Você não veio aqui por amor? – Se posicionou sobre a mesa novamente mirando outra bola par, já que como a primeira que ela encaçapou foi de número par, o jogo seguiria com aquele ritmo, ele com as bolas pares e no domínio das ímpares.
– Eu também estou aqui por amor. Amor por esse esporte. E é por causa desse amor que eu não posso deixar você acreditar no que a impressa fala. - O que tem haver uma coisa com a outra? – Questionou incerta.

errou a jogada, passando a vez para a mulher.

- Eu amo esse esporte. – Ele fechou os olhos e suspirou. – Fui inspirado por seu pai, como o mundo inteiro já sabe. O amor me motivou, o desejo de ser inspirador como ele foi, era o meu maior desejo. Quando cheguei à fórmula um me deparei com um ambiente totalmente diferente do que eu imaginava. Nesse meio só vivem pessoas corruptas, preconceituosas, sujas e racistas. Esse esporte antes era dominado por adrenalina, por emoção, por inspiração hoje é dominado por quem tem mais dinheiro. - levantou o rosto para olhar o coração saltando de compaixão no peito.
- Se eu deixar você sair daqui acreditando neles, estarei contribuindo para a corrupção do meu amor. Para a destruição do esporte que eu amo.- Ela piscou para recobrar a atenção, o peso das palavras dele a fez se perder em algo muito intimo. Amor que exalava dele parecia com o que o seu pai um dia transmitiu, pelo mesmo esporte.
- Pretende me fazer acreditar em quê? – Ela também fez sua jogada e como ele acertou uma bola a vermelha com o número 3, rodeou a mesa buscando outra posição para continuar seu jogo.

Quando passou na frente de conseguiu sentir o cheiro de seu perfume que era a fragrância mais gostosa que se lembrou de ter sentido.

- Eu preciso que você continue acreditando no motivo que te fez vir até aqui, para que permaneça vivo o fiapo de esperança de que as coisas voltem a ser como antes. – Fincou seus olhos sobre a mulher debruçada na mesa, sua concentração depositada na bola laranja, o lábio inferior preso entre os dentes, os olhos em um brilho gigante que eram uma combinação quase tão perfeita como a lua cheia em uma noite escura.
- Você fala como se não estivesse aqui para acreditar. Deixou de acreditar com tudo o que sofreu? – Errou a mira e a bola acabou mais longe do que deveria por causa da concentração da força na tacada.
Afastou- se da mesa quando foi em direção a mesma, caminhou alguns passos para o lado sentindo vestido deslizar por suas pernas e talvez os pés começarem a reclamar do salto agulha, martelando em sua cabeça que no outro dia teria calos por seus dedos.
Malditos sejam esses sapatos Christian Louboutin.
A brasileira olhou pelo ambiente a procura de alguma coisa alcoólica, precisava beber. Será que em Mônaco tinha cerveja? Só o que conseguia ver no tempo que estava na cidade eram bebidas sofisticadas, não eram suas preferidas.
Entretanto ao lado da mesa de Poker, havia um pequeno bar, sorriu satisfeita com a descoberta, e caminhou até o local.

- Sofri um pouco por aqui. Primeiro e único piloto negro da história, as pessoas tentam calar minha voz, limitar minhas ações, mas mesmo com todo preconceito disfarçado, eu ainda acredito. Acredito que devemos usar nossa posição para influenciar outras pessoas, para deixar algo de positivo plantado no coração da sociedade. O dia em que deixarmos de acreditar nas coisas boas, estamos perdidos por completo.

A Senna encontrou várias garrafas de Whisky, mas optou por Jack Daniel’s, recolheu dois copos e os serviu com doses generosas.
colocou um dos copos ao lado dele e encostou o quadril na outra ponta da mesa, ficando em diagonal com o piloto em uma posição que permitia olhar os movimentos que ele fazia e sem atrapalhar suas ações. De repente ela perdeu a vontade prosseguir com o jogo.

- Eu ainda acredito nas coisas boas, . Mesmo que as pessoas fiquem dizendo por aí sobre eu ser uma mulher aproveitadora, que está usando o nome do pai genial para ficar famosa. – Bebeu um longo gole da bebida, como se ingerir o líquido fosse digerir todos os pensamentos confusos que ecoavam em sua mente.
- Então é esse seu medo? De ser considerada uma suposta aproveitadora do seu próprio nome? – Franziu as sobrancelhas ignorando a bola que iria tacar, para focar na figura da mulher que bebia o líquido do copo de maneira rápida e desesperada, soltou o taco sobre a mesa, pegou o copo destinado a ele e andou até ela.
- Não sei. Quando começou a correr não tinha medo do preconceito?
- Eu já sabia que era algo que iria acontecer. – Se encostou ao lado dela. - Eu sofri discriminação a minha vida inteira, quando escolhi viver de um esporte que é dominado por brancos e ricos sabia que viria o preconceito, não tinha como evitar, meu plano sempre foi fazer o que eu amo pelo maior tempo possível, então me preparei para isso. – provou o gosto amargo da bebida e sentiu o estomago reclamar. – Me diga, . Do que tem medo?
- Tenho medo de usar o sobrenome dele e perder. De colocar em ruínas tudo que o nome Senna significa. De me chamarem de fraude, de falsa Senna. – Cuspiu de uma vez virando o resto do conteúdo do copo, deixou o mesmo ao seu lado e espalmou as duas mãos na mesa erguendo seu corpo para cima, sentado por completo na mesa.
- Devia pensar no que é verdadeiro. No amor pelo seu pai, no seu amor pelos carros, no amor do seu povo. Estar aqui te faz feliz? – desencostou o corpo da mesa para se postar diante dela conseguindo assim reparar nos olhos que aglomeravam água e resplandeciam sobre a luz daquela sala no hotel de Monte Carlo.
- Sim, estar aqui me faz feliz. Sinto-me perto dele.
- E você é filha do Ayrton Senna, não é?
- Sim.
- Então usa o nome, . Ele é seu. Seu por direito, seu por herança, seu porque seu pai quis que fosse. – sorriu, os dentes brancos tinham luz que permitiu com que tivesse um tremor nas pupilas.

Ele tinha razão, Ayrton era seu pai. O homem que tinha escolhido lhe presentear com seu sobrenome, o primeiro homem que a amou na vida. sabia que o maior motivo de orgulho era quando a ela falava o sobrenome do pai, dizendo para todos de quem era filha. Se ele ainda permanecesse vivo, jamais permitiria que ela abrisse mão de usar o sobrenome.

- Ele é meu, é meu nome. – Repetiu as palavras e por um impulso puxou o piloto em sua frente o abraçando com força.
O homem de maneira gentil passou seus braços pelo corpo magro da brasileira, tentando mostrar todo e qualquer respeito que sentia por ela e que emendando a falta de intimidade deixava o momento constrangedor, mas ele sentiu a necessidade de apoio que ela exalava.
A necessidade ter alguém para lhe passar força e dizer que tudo ficaria bem, assim como queria ter tido no início. Dentro daquele abraço, sentindo toda a tensão corporal dela, decidiu que seria para o que ela precisasse que ele fosse, daria suporte, ajudaria em todas as áreas que ela apresentasse necessidade. Ser um porto seguro para ela, era sua mais nova meta.
apertou as mãos sobre os braços de com a necessidade de juntar seus corpos, de uma maneira que fizesse com que ele entendesse o que o abraço significava, que era a forma de agradecer o apoio do piloto que estava tendo o primeiro contato verdadeiro em anos. Alguém que ela admirava e reconhecia o tamanho que representava para o esporte mundial.

- Obrigada, !
- Bem-vinda, Senninha. Tudo que precisar, qualquer coisa eu estarei aqui. Serei e farei qualquer coisa que precisar. – Ele se afastou, levou as duas mãos ao rosto dela e com os polegares secou as lágrimas que molhavam as bochechas rosadas. - Você tem um simulador? - Ele gargalhou.
- Claro que tenho. Não deixe que ninguém mude seu pensamento, você brilhará nas pistas.
- Obrigada de novo. Posso ir embora dessa festa?
- De maneira nenhuma, eu preciso fazer um discurso e você vai assistir. - Ela rolou os olhos e assentiu, com a ajuda dele desceu da mesa, resgatando a bolsa de mão preta que estava jogada na poltrona perto da porta.
- Preciso me olhar no espelho, me dê um minuto. – Pediu e ele assentiu vendo ela se afastar para entrar em outro cômodo da sala de jogos.

Ainda com um sorriso caminhou para a poltrona, resgatando seu paletó para vestir novamente, ajeitou o terno sobre o corpo e permaneceu olhando para onde ela havia ido, aguardando a mulher.
A conversa que acabara de ocorrer teve um marco gigante, era como jogar tinta em uma tela totalmente branca, trazendo cor e vida a mesma. Os dois tinham uma bela trajetória pela frente.
era o maior piloto da historia, Senna, tinha em suas veias o sangue do melhor que já existiu, eles eram uma combinação incrível e seriam imbatíveis juntos.
A brasileira saiu da sala com o semblante mudado, os poucos segundos que permaneceu ali foram de suma importância para acalmar seu coração, agora dentro dele havia paz, onde antes um completo caos. Sorriu ao ver que ainda aguardava sua volta, totalmente alinhado com todas as peças de seu corpo.

- Podemos ir, Senninha?
- Vai ficar me chamando assim agora? - Soltou enquanto dia lhe estender o braço para que caminhassem.
- Eu gosto de te chamar assim, afinal, você é a Senninha. - Explicou e pareceu pensar, seu pai sempre se referiu a ela como Senninha, em sua casa, ninguém jamais permaneceu usando o apelido.
- Como sabe que eu sou a Senninha? - abriu um sorriso e deu de ombros.
- Não sei. Me deu vontade de te chamar dessa forma, parece certo te chamar assim.

Ao fechar a boca, um vento percorreu a espinha de , todos os seus pelos se arrepiaram, a boca ficou seca e a sensação de estar sendo observada se apossou de sua mente. Os olhos se arregalaram e imediatamente parou de andar e olhou para trás, esperando encontrar alguma janela aberta que explicasse a brisa doce que sentia.
Não encontrou nada. Não havia uma misera saída de ar que explicasse a erupção de seus pelos. também parou de andar e olhou a mulher estagnada olhando assustada para trás.

- O que foi, ?
- Eu não sei, senti algo estranho, como se tivesse alguém observando a gente. acompanhou o olhar dela e verificou todos os cantos da sala com os próprios olhos, não duvidava da audácia de paparazzis, mas de fato não havia ninguém ali.
- Não tem ninguém, deve ser somente uma impressão. - O homem disse com a voz doce, e sem responder ela assentiu, mesmo que em sua alma ela captasse uma presença familiar. Deu as costas e voltou a caminhar lado a lado com o heptacampeão.

Toda via, havia uma presença. Sentado na cadeira de couro preta, Ayrton estava com um sorriso aberto e os olhos brilhantes. Trajava uma camisa branca, escrito Seninha de vermelho. O ex- piloto brasileiro recostou o corpo na poltrona sentindo a maciez do material, soltou o ar que prendia aliviado.
Como em todas às vezes, ele tinha razão, sabia que era o cara certo para a missão de cuidar de , não precisou sequer de muito esforço para que ele chegasse aquela sala, ele tinha feito mais uma vez um excelente trabalho. Ergueu o punho para caracterizar a vitória daquela noite, confiava em , deixou para ele o titulo de maior da historia e agora estava deixando sobre os cuidados dele, a maior preciosidade que adquiriu em seus anos de vida.
Sua .


XXX


abriu a porta de casa com um sorriso nos lábios, os olhos estavam expressivos. Ele vestia uma bermuda escura, uma blusa branca com o símbolo da Mercedes, estava somente com uma meia nos pés.

- Oi, . Que bom que veio! – Saudou animado e a brasileira sorriu.
- Você parece pronto para sair. – Soltou apontando com o dedo o uniforme.
- Na verdade, cheguei há pouco tempo. – Deu um passo para trás, deixando passagem para que a mulher entrasse em sua casa. – Entra.

Com o agradecimento de cabeça, ela entrou no local.
Há uma ambiência quente no apartamento, no entanto, o alto nível de sofisticação prevalece em sua propensão para gostos singulares e objetos cuidadosamente selecionados, permanecendo descaradamente luxuoso.
O lustroso piso de mármore do apartamento dá acesso ao espaço contínuo da grande sala. A primeira coisa que ela percebeu foi o sofá Minotti Seymour Serpentine Vis a Vis, um torso esculpido de Richard MacDonald e um piano de cauda Fazioli, ela sabia que gostava de música, mas foi surpreendida pela beleza do piano que o homem possuía.
Ao seu lado direito havia uma enorme janela de vidro, onde ela podia enxergar a cidade de Londres por completo, quase como se estivesse pisando sobre os enormes prédios.
Nas paredes havia várias pinturas famosas, uma em especial chamou a atenção de , era o quadro de Gustav Klimt*, conhecido como beijo. Totalmente atônica caminhou para perto do quadro, a seguiu ao perceber o interesse dela.

- É ainda mais extraordinária de perto. – Balbuciou lentamente enquanto corria seus olhos pela tela.
- Você gosta do Klimt? – acompanhou os passos da mulher. - Um dos meus preferidos. – Os olhos ainda estavam presos na imagem, reparando cada mísero detalhe da tela. – Esse quadro, beijo*, foi o primeiro que eu vi dele, por esse motivo que gosto tanto. – Ela sorriu.
- Foi o primeiro que conheci também. – colocou as duas mãos atrás de seu corpo. – Foi por isso que escolhi esse para pôr na sala.
- É uma réplica, certo? – Ele assentiu com um sorriso fraco. - O original está em um museu em Viena, foi uma das coisas mais lindas que já vi na vida. – Encolheu os ombros e colocou as duas mãos no bolso.
– Por que gosta dos quadros dele?
- Por causa da ambiguidade. Eu sou apaixonada pela ambiguidade, elas me entretêm, me fazem pensar e raciocinar, me fascina. – percebeu que os olhos brilhavam conforme as palavras eram proferidas. - Todas as obras do Klimt têm essa questão, várias teorias são criadas e ninguém jamais consegue saber o que de fato representa.

virou o rosto e encarou a expressão da mulher, ela tinha um rosto tão sereno e transmitia a ele uma paz sem entendimento, como se a aura que a rodeava fosse a própria paz. Algo tão surreal que era incapaz de acreditar.

- O que você acredita que é?
- Acredito que está ligado ao sofrimento dele.
- Interessante, e por qual motivo? – Indagou a mulher com um sorriso divertido, levou o dedo indicador ao queixo para pensar.
- A pintura não está propriamente centralizada horizontal e verticalmente. A cabeça do parceiro aparece quase cortada e praticamente não se vê o rosto do homem, apenas o seu perfil. O movimento da cabeça e do pescoço, no entanto, transparecem virilidade. – Deu um passo para frente e tocou na imagem, passando os dedos no desenho conforme falava sobre os detalhes. - O pano de fundo da tela é um prado verde com flores à beira de um precipício ou de um abismo, parece que a mulher está desacordada.

assentiu e observou a imagem, conseguindo enxergar totalmente o que ele disse, era nítido como ele conhecia bem a arte e entendia o que ela representava.

- Eu vou ficar com a opção do casal apaixonado. Que foi um auto retrato dele com o amor de sua vida, Eu vejo que um gesto protetor, quando ele curva o pescoço por cima, pode ser um sinal de proteção. A aura do quadro e a sua beleza sedutora devem tanto ao seu preciosismo ambíguo, como à representação do casal de amantes, encarnação de uma tranquila felicidade. - assentiu com um sorriso nos lábios, por uns segundos permaneceu em silêncio prestando atenção na imagem para captar o que havia falado, de fato fazia total sentido a opinião da brasileira.
- Ele gostava de pintar gestos afetuosos, sempre com a ambiguidade estampada. – se afastou do quadro e virou-se novamente para
- O meu livro preferido tem essa ambiguidade. É de um autor brasileiro, se chama Dom Casmurro*. Nós precisamos descobrir se a personagem traiu ou não traiu o companheiro, eu já li umas dez vezes, sempre chego em uma conclusão diferente que no final das contas, não significa coisa nenhuma.

girou o pescoço e endireitou a coluna, não havia pregado o olho de noite, por isso seu corpo estava dolorido.

- Sabe que tem um livro que se tornou uma série, que tem um enredo parecido. – percebeu que estar de pé estava trazendo algum incômodo para mulher, por causa disso, deu um passo para o lado e sentou- se na poltrona acolchoada, dando liberdade para que a mesma imitasse seu gesto. – Chama Alias Grace*, é sobre um assassinato que acontece, a menina é presa, mas não dá para identificar se é culpada ou inocente. Extraordinário.- sorriu e olhou ao seu redor para conseguir sentar, enxergou a poltrona e jogou seu corpo sobre ela, ficando lado a lado com o piloto inglês.
- Incrível, são sempre os meus preferidos. Você leu o livro ou assistiu a série?
- Fiz os dois.
- Ah que chato. Se não iria assistir com você, é sempre bom outra pessoa para compartilhar as teorias. – Passou as mãos nos cachos, amassando-os com os dedos para que se enrolasse mais.
- Sim, penso da mesma forma. Não me importo de assistir de novo, quero saber qual a sua opinião.

O sorriso dele estava aberto, a perna direita estava cruzada sobre a esquerda, revelando sua postura relaxada com a presença de . Os olhos se estreitavam um pouco quando o sorriso abria.
Ela estava se sentindo tão confortável na presença do piloto, que seus pés estavam na poltrona e sequer percebeu, a tratava com tanta naturalidade que fazia com que ela se sentisse em casa, esquecendo por completo das diversas palavras e atitudes ofensivas que recebia desde que foi anunciada como a piloto da escuderia naquela temporada.
Estava perdendo o hábito de bisbilhotar na internet, já que mesmo que sem ter a intenção acabava vendo os sites de esporte, canais no Youtube ou perfis no Instagram, todos eles proferiam informações falsas sobre a intenção real que a levou com que ela fosse inserida naquele mundo.
Menos , ele a acolheu. Deixou com que ela se sentisse confortável, deu suporte para que não desistisse.

- Obrigada. – A única palavra que foi capaz de pronunciar deixou claro para o homem o que povoava os pensamentos silenciosos da mulher.
- Por te indicar uma série? – Sorriu maroto.
- Por tudo. Pelo apoio, pelo acolhimento, pela ajuda. Você é um dos poucos que não me atirou pedras, até me cedeu seu simulador.
- Por falar nisso, vou te levar lá. Vem. – Colocou-se de pé e puxou para cima o cós da bermuda, já que a mesma estava caindo. – Não precisa me agradecer, eu entendo completamente o sentimento, jamais vou te julgar.
- As pessoas não sabem de nada, eu não vim parar aqui porque quis, na verdade ainda não tenho certeza de nada. – Ela acompanhou os passos de em direção à escada.

Em seguimento ao restante da casa, a escada de madeira rústica explanava brilho e elegância, os tons rajados de preto e dourado desenhavam cada degrau mostrando eficiência e galanteria.

- Não tem certeza do que?
- Eu não planejei isso. Um dia decidi que queria homenagear meu pai e no outro estava em uma coletiva de imprensa. – encolheu os ombros e viu abrir uma porta piovante de vidro com detalhes pretos, quase toda a decoração da casa de era com tons escuros.
Assim que o piloto passou pela porta, foi agraciado por latidos de felicidade, Roscoe, latia e pulava nas pernas do negro. emitiu um sorriso ao vê-lo pegar o animal nos
braços. - Hey, amigo. Não fique bravo comigo, foi você quem não quis descer para recebermos a Senninha. – Fazia um carinho delicado na face do cachorro.

Assim que parou o carinho, o animal esbugalhou os olhos para que parada observava a cena, o cão foi em direção à mulher que se agachou para recebê-lo em seus braços.
O carinho que iniciou foi recebido de bom grado, Roscoe, latia em gratidão aos dedos dela que massageavam seu pelo.

- Você é uma delícia, Roscoe. – Proferiu as palavras e riu. - E você acaba de conquistar o coração desse rapaz. – Ainda observando a cena dos dois, deu alguns passos para frente abrindo uma porta que residia a sua esquerda. – Venha, .
- Vamos lá no seu pai, bebê. – Pegou o cachorro nos braços e distraidamente caminhou até onde ele a esperava, não prestou atenção no caminho feito. a esperava com a porta aberta.
- Bem-vinda ao meu lugar. – Deu espaço para que ela passasse e depois entrou pela porta. estacionou no lugar em estava, observando a sala. Em ampla, as paredes tinham tom claro e pouca decoração. Bem no centro da sala havia um simulador. A tela tinha 180 graus, a poltrona era como o assento dos carros reais de fórmula um, deitada em um ângulo de noventa graus. Na parte de baixo era possível enxergar os pedais do acelerador. Em cima tinha o volante com todos os botões. – Esse é o meu simulador particular, tem todos os detalhes que mais gosto dentro do carro, você pode estranhar um pouco.
- É muito bonito. – Colocou Roscoe no chão e se aproximou do aparelho. – Não tem problema, eu vou iniciar o treino com um especifico da McLaren em alguns dias. - Isso é muito importante, já que as configurações do simulador tem que ser como as do carro que você vai pilotar. Já estão pensando no carro, certo?

não conseguiu prestar total atenção nas palavras dele, estava perplexa com a beleza que enxergava. Seu pai teria adorado poder treinar em um daqueles, era totalmente a cara de Ayrton fazer testes no simulador e criar estratégias e apresentar para a equipe no dia seguinte.

- O carro do meu pai. – Foi à única coisa que disse e arqueou a sobrancelha. - O que tem o carro do seu pai?
- Eu vou pilotar o carro do meu pai essa temporada.
- Isso é impossível, . – Ela virou-se para olhá-lo.
- Por quê?
- A tecnologia dentro da F1 avançou muito, os motores, o câmbio de marcha, a maneira de pilotar, não tem como usar o carro dele. – Explicou pausadamente de maneira tranquila para que ela conseguisse compreender, já que parecia meio avoada naquele momento.
- Sim, eu sei. – Abanou a mão para ele. – Eu falo do desenho, foi uma das minhas condições para aceitar a proposta. Tem que ser exatamente como o carro dele era, as cores, o número, a estética toda. É tudo por ele.
- Que extraordinário. – Abriu um sorriso empolgado, a próxima temporada da fórmula um teria muitas surpresas.
- Como se liga essa coisa? – Falou já tomando o assento da cadeira. andou até o lado da sala e deu plug em uma tomada, imediatamente a tela em frente à se ascendeu.
- Você já esteve em um simulador antes? – Ela assentiu.
- Com meu primo. O Bruno.
- Bruno? - Ela falava como se o inglês o conhecesse.
- Sim, o Bruno Senna. Ele correu na fórmula um, com você.
- Verdade, desculpe. Não assimilei o nome.- Se consertou - O simulador é exatamente como o carro funciona nas pistas. O simulador que você vai receber é como seu carro será.

Estar ao lado dela era completamente acolhedor e parecia que se conheciam fazia muito tempo e quando se lembrava que não era bem assim, tentava controlar suas ações para que ela não se assustasse, mas na verdade muitas vezes era ele quem se assustava com a naturalidade que ambos se tratavam.

- Eu quero começar no circuito de Monte Carlo. – tocou no volante e começou a busca pelos circuitos disponíveis no simulador.
- Ele não é um dos mais fáceis.
- Eu sei, por isso quero ela. Quero começar a descobrir quais serão minhas dificuldades nas curvas. – mordeu o lábio e assentiu com um meio sorriso. – Eu ia ficar aqui para te movimentar, mas acho que você se vira. – Completou vendo a desenvoltura dela em descobrir todos os detalhes ocultos do simulador até achar o que queria.
- Eu me viro. – Sequer olhou o homem para responder, mais uma vez ele riu.
- Eu vou tomar um banho, pois cheguei em casa a pouco tempo. Essa sala fica no meu quarto, qualquer coisa que precisar estarei lá fora. Tem banheiro e um frigobar, para você beber alguma coisa, se quiser. Qualquer coisa me chame. – Ela assentiu ainda sem olhá-lo, ele deu de ombros e se afastou dela, deixando-a sozinha curtindo seu início nos treinos para se habilitar para a próxima temporada.


XXX


desceu correndo do carro assim que o estacionou o mesmo, sequer trancou o veiculo, somente saiu em desespero até a porta que dava acesso a entrada do apartamento de Brianna.
Quarenta minutos atrás recebeu uma mensagem dela dizendo que estava precisando dele com urgência, extremamente preocupado com o bem estar dela, colocou a primeira roupa que encontrou em sua frente, avisou que iria sair rápido e pediu que ela passasse o olho em Roscoe e que ficasse a vontade. Se que bem ela já estava bem acomodada e o homem desconfiou que ela sequer o ouviu. < br> Após sair dirigiu a toda velocidade para o centro da cidade, onde Brianna residia. Os dois tinham um rolo fazia uns dois anos, estavam juntos, mas não oficialmente e não em um relacionamento. Somente juntos.
Sem cobrança, sem compromisso ou rótulos.
Eram livres para se envolver com outras pessoas, apesar de que não fazia mais isso, ultimamente andava tão ocupado com sua carreira e compromissos profissionais que sequer havia tempo para iniciar uma nova conquista, não que ele não tivesse ficado com outras mulheres, pelo contrario.
Toda via, nos últimos meses acaba sempre indo para a cama de Brianna no final de quase todas as noites. Pegou no bolso de sua calça as chaves que a mulher lhe entregou algumas semanas atrás, para facilitar a entrada do piloto em sua casa. destrancou a porta e entrou em casa.
Correu os olhos delicadamente pela sala procurando qualquer indicio da tragédia que o esperava, mas não havia nada.
Para ter certeza que seus olhos não estavam lhe enganando piscou algumas vezes e depois repetiu o movimento de observar a sala, e da mesma maneira da primeira, não havia nada.
Colocou as chaves na porta e decidiu andar pela casa, na tentativa de descobrir o que estava acontecendo. Passou pelo corredor e escutou um barulho que vinha da sala de televisão, arrastou seus pés até lá. Empurrou a porta devagar receoso do que encontraria, entretanto nada que poderia ser assustador foi o que seus olhos captaram.
Brianna estava sentada de maneira relaxada em seu enorme sofá de couro, estava com os cabelos ruivos presos em um coque frouxo, seus olhos verdes estavam um pouco fundos devido às maratonas intensas de trabalho, naquela noite estava confortável em seu moletom da Miney.

- Brianna, você bem? – Sua voz saiu preocupada conforme se aproximada da mulher, a ruiva sorriu ao ver o homem.
- Oi, - Se colocou de pé. – Que bom que veio.
- Você está bem? – Tornou a perguntar, não estava acreditando que não havia nada de errado.
- Sim, estou bem.
- Eu dirigi a 200m km por hora. – Disse perplexo. – Acreditei que você estava mal, você disse que estava precisando de mim com urgência. - Você sempre dirige a 200 km por hora. – Pontuou rapidamente, e errada de fato ela não estava. – De fato estou precisando de você com urgência.

soltou um barulho pela boca, parecido com um murmúrio de irritação. Encostou o corpo na parede atrás de si, totalmente derrotado. Não havia acontecido nada. Deveria ser um alivio saber que ela não estava machucada, mas o que sentiu foi irritação de ter deixado em casa com Roscoe para socorrer e ao chegar não havia nada.
Brianna se aproximou de por completo, colocando as duas mãos em seus ombros, um sorriso malicioso brincando nos lábios.

- Estava com saudades, faz três semanas que não te vejo. – Enlaçou os braços ao redor do pescoço dele deixando um beijo no pescoço.
- Eu fiquei preocupado, Brianna. Achei que tinha acontecido alguma coisa, você não devia ter feito isso. – estreitou os olhos, o semblante estava sério e duro.
- Me desculpe, mas eu queria que viesse.
- Eu estava ocupado.
- Mas agora já está aqui. E eu vou te fazer uma massagem. – Iniciou uma trilha de beijos no pescoço dele, subindo pela bochecha e chegando a orelha, onde mordeu o lóbulo devagar.
- Brianna. – havia alerta em sua voz. – Eu não posso ficar aqui, eu tenh...
- Shiii... – O indicador pousou em seus lábios, impedindo-o de prosseguir. Segurou as duas mãos do homem e andou passos para trás, levando- o consigo. Girou o corpo até ficar de frente para o sofá e de costas e então empurrou o corpo do homem que caiu sentado, a ruiva encaixou uma perna de cada lado e então se sentou em seu colo. Rebolou lentamente enquanto levava os lábios mais uma vez até o pescoço, voltando a beijá-lo. - Você vai ficar um pouco aqui comigo não vai, ?
- Você tinha dito algo sobre uma massagem.


XXX


entrou em casa e se direcionou direto para o segundo andar, não teve condições de perceber em nada, principalmente o fato que Roscoe não veio recebê-lo, como fazia em todos os dias. Subia os degraus de dois em dois para chegar mais rápido e se jogar sobre a cama.
Após entrar no quarto, se livrou do sobretudo e jogou sobre a poltrona, depois as botas tomaram o mesmo destino, ainda de meias caminhou até o banheiro para fazer sua higiene antes de tomar banho e por fim se deitar. Estava exausto, sua mente já tinha desligado e a total capacidade de raciocínio o havia abandonado.
Adorava estar com Brianna, a modelo tinha uma companhia agradável e quase sempre batiam papo além de suas profissões, tomavam um bom vinho e excelentes risadas eram liberadas, em vários momentos pensava em levar adiante o que tinham e estabelecer um relacionamento sério.
Já não era mais um garoto e dentro de si existia o desejo de constituir uma família e Brianna era uma mulher incrível, tinha um trabalho também midiático, entendia a necessidade de estarem presentes em festas e eventos que o torturavam com sorrisos que deveriam sempre ser abertos apesar de quase nunca sinceros, o sexo era estupendo, também era vegana e amava os animais.
Praticamente tudo que um homem desejava. Mas não sentia liberdade para tomar aquela decisão, tudo que conseguia enumerar de positivo nela ainda não era o suficiente, gostava dela, mas para concretizar um relacionamento sério com alguém precisava de algo superior ao gostar, e até que tivesse total certeza não se enfiaria em algo que pudesse fracassar e machucar pessoas.
O piloto jogou água sobre o rosto e escovou os dentes, terminou de tirar suas roupas e ligou o chuveiro na água quente, se enfiou debaixo dela apoiando as mãos na parede de porcelana para que a concentração dos jatos ferventes fosse nos músculos do dorso, para aliviar sua tensão muscular. Fechou os olhos pelos próximos segundos e quase perdeu a consciência entrando em sono profundo, estava necessitado de um descanso. Foi então que desligou o chuveiro, enrolou a toalha na cintura e foi para o closet.
Pegou o conjunto de moletom que gostava de dormir por ser confortável, vestiu a calça e com a blusa nos ombros voltou ao quarto, quando sentou na cama para calçar as meias foi que percebeu que Roscoe estava deitado na porta da sala de simulação. Franziu o cenho sem entender o motivo do cão estar ali e não deitado em sua própria cama como em todas as noites, algo estava o incomodando.
finalizou a vestimenta das meias e colocou os pés no chinelo ao lado da cama. Cruzou o espaço do quarto, com um sorriso nos lábios e se abaixou fazendo um carinho na cabeça do animal.

- O que foi, amigo? Por que está aqui? - O cão levantou a cabeça aproveitando o afago do homem e lambeu sua mão. - Vem, vamos para cama.

Tentou puxá-lo pela coleira, Roscoe, porém não teve intenção de se mover e para sinalizar o motivo, latiu e cheirou a porta pivotante. arqueou a sobrancelha e levantou curioso, mas o que Roscoe queria ali dentro? já não estava mais ali, ou pelo menos não deveria mais estar.
Ele girou o pino da porta e a empurrou, tendo a visão da sala. Estava escuro, somente a tela do simulador ligada em uma corrida na pista de Cingapura, ele conseguia enxergar a curva seis que naquele momento fazia com maestria. Ela não podia estar naquela sala, ele saiu horas atrás e a mulher já estava no simulador havia horas.

- . - Ele chamou e não teve resposta. – ! - Repetiu mais alto. Também não houve resposta, o homem bufou indignado e levou a mão até o interruptor ao lado da parede acendendo as luzes.
- Ah, merda! - exclamou irritada quando perdeu o controle do carro e rodou na pista. - Eu não acredito que fiz isso.
- , estou te chamando. – Escorou o corpo na parede atrás de si, cruzou os braços sobre o peito. - O que ainda faz acordada aqui?
- Oi, ! Desculpe, não te responder estava concentrada tentando não rodar. - Disse sem desviar os olhos da tela, estava levando o carro lentamente para a pista novamente.
- Você está treinando desde que horas?
- Sei, lá. Desde de a hora que cheguei aqui. - Deu de ombros e arregalou os olhos.
- Isso foi às onze horas da manhã! - Exclamou. - São três da madrugada. - Ergueu três dedos para ilustrar o que falava.
- Está tudo bem, eu estou bem. Estou melhorando meu tempo a cada volta, a última virei 1m:23S:01. Olha que incrível. - Ela ainda não tirou os olhos do simulador e as mãos seguravam de maneira firme o volante.
- Incrível mesmo. Mas o que você comeu? Que horas descansou?
- Não estou cansada e nem com fome, ainda consigo ficar aqui. - respondeu convicta, sentia o corpo pesado e algumas dores no pescoço e braços, mas ela não se importava.
Já tinha sentido dores piores na vida como cólica renal e menstrual, um desconforto muscular não a derrubaria. Além do mais, precisava usar todo o tempo que tinha treinando, ela precisava melhorar precisava acertar os pontos fracos e ser melhor. Não se renderia. Não desistiria. A mensagem que mandava para seu cérebro incansavelmente era: Descansar é não era necessário. E Senna, era uma muralha.

- , não. - se irritou, caminhando para perto dela - Desligue esse simulador, vá dormir. Amanhã você continua treinando.
- Não, amanhã eu vou treinar na pista. Não tem como treinar no simulador e na pista ao mesmo tempo. - Disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. respirou fundo passando as duas mãos no cabelo prendendo-os com o elástico que repousava em seu punho.
- Não precisa ser ao mesmo tempo, Seninha. - Passou as mãos no rosto esfregando os olhos, espantando o sono. - O dia tem vinte e quatro horas, dá tempo de fazer as duas coisas.
- Não quero. Eu vou perma... Uhul. Rápida mais volta. 1M:21S:052.- Deu um grito animado e um soco no ar acompanhado de uma gargalhada, não conseguiu evitar o sorriso com a felicidade dela. Ficava feliz ao participar das conquistas da mulher.
- Parabéns, você está tendo reflexos rápidos e tempo de raciocínio. - Elogiou se aproximando mais, colocou a mão direita na poltrona onde ela sentava, e visualizou os movimentos que fazia.

A coordenação era incrível, ela conseguia trocar a marcha quase que em instinto automático e a forma como girava o volante transmite ao piloto segurança e conforto, algo totalmente atípico para quem não tinha experiência. tinha mesmo um dom, precisava de retoques mínimos para alcançar o máximo da perfeição nas pistas.

- Quando a curva é mais fechada, contenha mais a forma como segura o volante, Seninha. Se você girar por completo abre demais e dá espaço para ultrapassar. - Orientou ao perceber o espaço liberado para o carro de trás.
- Mesmo sendo para a direita?
- Sim, as curvas mais fechadas, que são as mais estreitas. Exatamente como essa. - Apontou na tela indicando a curva oito, a mulher assentiu apressada esticando o corpo para frente e piscando os olhos demoradamente. Eles reclamavam da claridade da tela.
- Você pode, por favor, apagar a luz? A claridade dói meus olhos. – Pediu , franziu o cenho e rodeou a poltrona, saindo da parte de trás e se posicionado diante dela.

A feição da brasileira era a representação do caos. Os olhos estavam fundos e avermelhados, o rosto suado, a pele pálida e amarelada, a exaustão gritava nas expressões de , ele se preocupou quando ela abriu e fechou a boca duas vezes, procurando achar saliva, pois estava com lábios secos.

- Não é a luz que faz seus olhos doerem. Qual foi a última vez que bebeu água?
- Não sei, Pode apagar a luz, e ir dormir, você está me atrapalhando. - Pediu mais uma vez, estava lhe enchendo de perguntas e fazendo com que ela perdesse segundos importantes de concentração.
- De jeito nenhum. Você vai desligar esse simulador, tomar um banho e descansar. - O tom de voz era paternal.
- Não, eu já disse que estou bem.- Ele rolou os olhos bufando irritado, ô mulher difícil. Vendo que não tinha outra alternativa, o piloto caminhou até o lado oposto da sala, ficou de cócoras diante da fonte de energia que mantinha o funcionamento do aparelho de simulador, sem qualquer resquício de indecisão puxou a tomada.

arregalou os olhos e abriu a boca surpresa, conseguiu desviar os olhos da tela para encarar o homem. Ele estava sem camisa, os braços fortes cruzados sobre o peito, o piercing prateado no nariz destacava sobre a pele negra, assim como as tatuagens que eram um destaque fabuloso em seu corpo. Nesses dias que vinham convivendo mais de perto, não tinha reparado como daquela forma, não tivera muito tempo e talvez nem muita oportunidade, sabia da beleza que ele tinha, não era cega. Mas sem camisa, com a feição preocupada, era ainda mais belo.

- Não, eu quero continuar.
- Não vai. - Disse sério. - São três da manhã, você precisa comer algo, beber água e dormir. Amanhã você continua o treino.
- , daqui a poucas semanas o campeonato começa. Eu preciso melhorar. - Baixou à voz exalando preocupação, os olhos deram uma escurecida pela falta de brilho
- Eu te entendo, Seninha. Admiro sua determinação e empenho, mas você precisa descansar, senão vai adoecer e não adianta nada, pois ninguém conquista vitórias doente. - Ele deu um sorriso doce e estendeu a mão direita para ela. - Vai tomar um banho quente eu vou te emprestar uma roupa, vou fazer um chá e você vai dormir.
- Não, eu vou para minha casa. Não precisa fazer nada.
- Você vai dormir aqui essa noite, está tarde e é perigoso. Amanhã quando acordar e estiver descansada, pode dirigir até sua casa. Agora vamos logo, vou pegar um moletom para você dormir.

Contra sua vontade e totalmente preparada para questionar, abriu a boca, porém a expressão séria de a fez fechar a boca, não havia uma linha que deixasse abertura quanto a decisão do homem sobre mudar de ideia. Os segundos que parou para raciocinar, fez seu sangue iniciar um processo de resfriamento, permitindo com que sintomas que antes não conseguia prever se revelassem.
puxou o ar com força e balançou a mão novamente, em mais uma tentativa de chamativa, repetiu o gesto dele e soltou o ar pela boca lentamente e então ergueu seu braço, entregando sua mão para que ele segurasse. Com o movimento de elevação do membro superior a brasileira sentiu o braço formigar em dor e fez uma careta mínima contendo a expressão para não demonstrar o quanto estava desconfortável, deu um sorriso e com todo cuidado passou o braço por detrás, sustentando-a para que firmasse os pés.

- Obrigada, ! – Ofereceu um sorriso.
- Não precisa se esgotar ao extremo, . Você terá tempo para aperfeiçoar tudo que é necessário. – soltou o corpo de , deixando com ela iniciasse a caminhada sozinha, mas os passos eram lentos.
- Eu não sei se concordo. – Ela fechou os olhos e parou de andar, sentiu as pernas tremerem e não soube como não desabou, puxou o ar com um pouco mais de força, concentrando toda sua vitalidade nos passos que precisava dar. – Meu pai sempre disse que para chegar a perfeição é necessário muito treino e dedicação, ele se entregava nessas pistas, suava sangue, não posso fazer menos que isso, se quiser usar o sobrenome dele. – Os olhos iluminaram quando lágrimas se acoplaram, sempre que falava o refletia sobre algo que remetia a lembrança paterna, a faca cega aparecia cortando lentamente seu coração.
- Sim, e foi com razão que se tornou o melhor piloto da história. – deu mais um passo, acompanhando que voltou a caminhar, estava com nítida dificuldade, a cada passo que dava, ele percebia a alteração em sua respiração.

Ela mais uma vez parou de caminhar, sentiu tudo rodar e abriu as duas mãos procurando equilibrar o corpo, mas que diabo estava acontecendo? Parecia embriagada e totalmente sem controle das reações de seu corpo. rapidamente esticou o braço esquerdo colocando na cintura de , amparando-a.

– Você consegue andar? Eu posso te levar no colo. – Ofereceu pronto para colocar a outra mão debaixo de suas pernas, e assim erguê-la. A mulher não permitiu, espalmou a mão no ombro dele, impedindo-o de continuar.
- Obrigada, . Eu consigo ir sozinha. Meu corpo dói um pouco, mas não é nada demais. – Sorriu novamente, o piloto britânico permaneceu observando-a, capturando cada detalhe da feição doce dela, o olhar totalmente preocupado dele, fez com que sentisse um leve tremor sobre o peito, não sabia qual foi a última vez que recebeu aquela intensidade totalmente representada através de gestos.
- Tem certeza que consegue? – Afastou um pouco as mãos dela, dando alguns centímetros de espaço, ela assentiu e deu um tapa de leve na mão dele.
– Dói um pouco. – Arqueou a sobrancelha voltando a caminhar, ainda em posição preparado para segurá-la.
– Eu já fiz isso também, fiquei horas e horas no simulador, sei que não dói só um pouco.
- Em mim dói só um pouco.
- Claro, você é diferenciada. – Gozou.
- É uma coisa de sangue, infelizmente você não deve ter. – passou pela porta do simulador primeiro e logo atrás dela, , que foi o responsável por fechar a mesma.
-Eu vou preparar um chá para você relaxar. - guiou para sua própria cama e assim que a mulher se sentou, Roscoe a acompanhou pulando no em seu colo, animado por estar perto dela.
- Não precisa , eu não quero te dar trabalho. Na verdade, mais trabalho. - Corrigiu em meio a sorrisos, vendo entrar no closet e segundos depois sair de lá com um conjunto de moletom branco.
- Não é trabalho, faço com muito gosto. Toma um banho e eu já volto com seu chá.
- No seu banheiro? Uau, quanta honra, tomar banho na suíte de , preciso fazer uma selfie do momento. – Sacou o telefone, destravou com a identificação facial e imediatamente abriu a câmera, virando na direção do homem para capturar o momento.

deu um sorriso aberto e fez o sinal de jóia com as duas mãos fazendo uma mini careta, fez um bico e fechou um dos olhos em uma piscadela. Quando uma imagem foi gerada, ela apertou para ver como tinha ficado e então, olhou para o britânico ao seu lado.

– Todas as mulheres do planeta vão ficar com inveja dessa foto, vou começar a te fotografar pelado por aí e leiloar na internet. - A gargalhada estrondosa dele soou como eco no quarto, ela se perdeu por alguns instantes em como o som de sua risada era contagiante e bela.
- Isso não me parece interessante para os dois lados, você vai ganhar dinheiro em cima do meu corpo e eu não terei lucro nenhum. – deu de ombros.
- Quem foi que disse que a vida é justa?
- Vai tomar um banho logo. Vamos Roscoe. - Chamou o cão com palmas, antes de se afastar o animal cheirou , e só então seguiu o dono para fora do quarto e ambos desceram para a cozinha, deixando a vontade.

A mulher sorriu em um agradecimento mudo e jogou o corpo para trás na cama. Sentido a maciez do colchão abraçar seu corpo e mandar uma mensagem para seu cérebro clamando para que não se levantasse. Fechou os olhos e levou os braços até a cabeça, gesto que sempre fazia quando estava cansada. Para ela, colocar os braços por cima dos olhos, a isolava do resto do ambiente, o que quase sempre era seu objetivo.
O moletom de que estava em sua mão caiu sobre seu rosto, adentrando suas narinas o perfume incrível que a peça exalava, puxou o ar sugando mais do cheiro e ficou embriagada por leves segundos, o cheiro de era forte e marcante, assim como ele.
Na verdade, a sensação que tinha era que cada vez que se aproximava dele, a fragrância era diferente da anterior, os traços mais marcantes não destoava muito, ela acreditava ser a representação de sua forte personalidade. Era estonteante como tudo perto de era diferente e extraordinário.
- Pai, o é um cara extraordinário, obrigada pela oportunidade de conhecer um amigo tão incrível, o senhor teria gostado dele. - Murmurou baixo, sempre antes de dormir ela conversava com o pai, acreditava realmente que ele pudesse ouvi-la.
A brasileira tentou abrir os olhos novamente para tomar seu banho, seu corpo, porém não obedeceu ao comando e permaneceu em repouso, a exaustão do aparelho psíquico se alinhou ao fisiológico e então, juntos sucumbiram, entregando por completo ao sono.

No andar debaixo estava escorado na bancada da cozinha esperando o bule terminar de ferver a água para colocar o sachê de ervas na xícara, aos seus pés, Roscoe, estava deitado também aguardando o dono finalizar o procedimento. Fechou os olhos se concentrando em não dormir, apesar do cansaço sentia o desejo gritante de cuidar de . Não entendia bem o sentido ou motivo daquilo, mas era como se cada pedaço de suas células dissesse a ele que era importante auxiliar ela, era estranho sentir-se responsável por uma mulher que mal conhecia, mas ele se sentia.
O motivo? Não sabia. Propósito? Menos ainda.
Ele só precisava. Assim como um dia precisou correr na fórmula um, assim como precisou se movimentar pela sua gente, assim como começou a defender seus ideais, se revelava a ele de maneira totalmente natural, assim como essas coisas, a necessidade de estar perto gritava e sua presença aquecia seu coração, lhe proporcionando sensações que por muito tempo não sentia.
Estar perto dela enchia seu coração de esperança, trazia a sua memória momentos em que vivenciou no esporte que amava, em sua grande maioria no início da carreira, quando o único motivo de sua felicidade era correr e ser abraçado pela sensação da velocidade. Dentro de seu peito, algo gritava que através dela, poderia voltar a ter momentos extraordinários no seu esporte.
A chaleira apitou indicando que a água estava preparada para ter o complemento do sabor do chá. Desencostou da bancada e pegou o pequeno sachê, com a mão direita abriu a primeira gaveta, resgatando a tesoura para cortar a parte de cima e despejar todo o conteúdo dentro da água fervente, devolveu a tesoura e em seu lugar pegou uma colher, que usou para misturar deixando o conteúdo homogêneo.
Deu alguns passos e chegou até o armário de louças, na parte superior havia um conjunto de porcelana Wolf, trabalhado em preto e dourado, eram a preferidas de sua mãe, tanto que escolheu várias para deixar equipada a cozinha de seu primogênito, resgatou o pires e xícara colocando sobre a mesa, e então segurando cuidadosamente o bule quente, derramou o chá. Acrescentou alguns biscoitos amanteigados e também água, após ajeitar tudo em uma bandeja, segurou com as duas mãos pronto para voltar ao segundo andar.
No momento em que chegou a porta de seu quarto, equilibrou a bandeja em uma só mão, para bater e não somente entrar, corria o risco de pegar a mulher em algum momento que poderia ser considerado constrangedor. Após bater duas vezes, percebeu que algo poderia estar errado, então girou a maçaneta empurrando a porta, a visão que encontrou fez seu coração entrar em pane.
estava dormindo, o tronco estava repousado na cama e os membros inferiores caiam para fora. Ele sorriu fraco e balançou a cabeça de um lado para o outro, aquela mulher extrapola os limites da sanidade mental e se esgota sem a mínima preocupação do que poderia acontecer consigo mesma.
O homem colocou a bandeja na mesinha ao lado da porta e se aproximou de . Abaixou diante dos pés dela e delicadamente retirou as sapatilhas que usava, deixou ao lado da cama e quando levantou, levou consigo as pernas dela, ajeitando na cama e tentando ao máximo deixá-la confortável. O controle do ar estava entre as cobertas, resgatou o aparelho e reajustou a temperatura do quarto, para que ela dormisse de maneira agradável e tivesse seu descanso merecido.
O moletom que estava com , pegou de volta e passou pela cabeça, ajeitando-o pelo corpo. Rodou a cama e pegou o travesseiro que estava do lado oposto ao que ela dormia, se preparando para se deitar no quarto de hóspedes. Antes de sair, observou o rosto calmo e sereno que ela tinha, o peito subia e descia de acordo com que respirava, os cabelos cacheados estavam embolados e se misturavam ao travesseiro da cor preta, era tão incrivelmente linda que parecia surreal.
Totalmente fora de todos os padrões e com uma força inabalável, era apaixonado pela história do pai de , pelo sobrenome dela, pela família, era maravilhoso conviver com ela, desde o dia da festa em que conversaram e ela lhe pediu ajuda, os dias que compartilhou ao lado dela foram diferentes e com um tom de brilho incomparável.
O homem terminou de pegar suas coisas e se direcionou para a saída de seu quarto, acreditou que Roscoe estava o seguindo, mas surpreendeu-se quando olhou para trás e viu que o cão estava deitado preguiçosamente ao lado da mulher na cama, emitiu um sorriso e balançou a cabeça negativamente, apagando as luzes do quarto e seguindo para onde dormiria. A alma de brilhava tanto, que nem o animal queria sair de perto dela.


XXX


- Você está com dor no corpo? – Encostou-se à bancada tendo uma visão perfeita dos movimentos que ela fazia ao se alimentar.
- Não. – Ela respondeu rápido, mas ela estava. Seus braços pareciam pesados e toda vez que fazia o movimento mínimo que fosse, sentia o membro latejar.
- Você está mentindo. – Pontuou certeiramente e virou-se de costas abrindo a primeira gaveta da bancada, retirou um vidro laranja e colocou em cima da mesa, empurrando em direção a ela. – Tome um comprimido, vai aliviar a dor.

emitiu um sorriso maroto e não respondeu nada, somete destampou o vidro, colocando um comprimindo em lábios.

- Obrigada, !
- Esse remédio é ótimo para quem não está sentindo dor. – Emitiu uma gargalhada e deu a língua. – Você não pode continuar fazendo isso, Seninha.
- Te expulsando da sua cama? Eu sei. Sinto muito. – Encolheu os ombros.
- Não, ficar se matando no simulador, você precisa ter cautela. – Se aproximou da mesa com o copo em mãos. – Eu compreen..

Antes que completasse a fala o telefone de apitou indicando o início de uma ligação. O braço dela parou no meio do caminho para levar um pedaço de panqueca na boca. Rolou os olhos ao ver que no visor havia o telefone de Alain Prost, era uma chamada de vídeo.

- Oi, Alain!
- , graças a Deus! Você está bem? Estou atrás de você desde ontem. Não atende o celular, não responde as mensagens. Quase coloquei a polícia atrás de você.
- Eu estou bem. – Terminou de levar o garfo com panquecas na boca. – O que você precisa de mim?
- Preciso que você vá à McLaren hoje de tarde. Temos uma reunião para planejamento e temos que te entregar algumas coisas, resolver sobre seu carro.
- Hoje? – Arqueou a sobrancelha.
- Sim, tem algum problema?
- Anteontem você me disse que iria demorar alguns dias ainda, para que eu consiga ter acesso a tudo.
- Sim, mas em nosso mundo as coisas funcionam assim. Um minuto será daqui alguns dias, no minuto seguinte, é agora. Isso é o mundo do automobilismo, querida !

se remexeu na cadeira, girando o pescoço e sentido o corpo latejar. Soltou o garfo e encostou o próprio telefone em um copo oferecendo suporte ao aparelho para que não precisasse segurar e forçar mais ainda seu pulso. Prost que observava a mais nova pela tela, observou que ela parecia incomodada, correu os olhos pelo rosto dela lentamente procurando buscar traços do que estava errado. Os olhos estavam um pouco fundos, indicando cansaço. A maneira como ela segurava o pescoço com as duas mãos demonstrou que sentia dor na região.

- Está bem, eu estarei lá.
- Você está com dor?
- Por quê? – Questionou rápido.
- Seu pescoço. – Pontuou. – Você está com dor.
- Não, eu...
- , fui atleta muitos anos. Sei quando alguém sente dor, sei identificar o processo. O que aconteceu?
- Eu treinei no simulador. – Respondeu de maneira de simples.
- Que simulador? McLaren não mandou nenhum para você ainda.
- De um amigo? – Arqueou a sobrancelha curioso, sabia que ela não tinha amigos na cidade.
- Um amigo, Prost! – Rolou os olhos mais uma vez, estava parecendo uma conversa com seu pai.
- Por que você fez isso? Não é assim que treinamos, .
- Achei que demoraria mais, eu não queria ficar esperando vocês.
- Até que horas ficou no simulador?
- Não foi até tarde. - Mentiu e que ouvia a conversa atentamente, mas estava querendo parecer desinteressado não conseguiu conter a gargalhada alta que emitiu dos lábios, não gostava de dizer a verdade sobre o que sentia, principalmente quando sabia que iria ser alvo que reclamação e correção.
- Que está aí? Quem está rindo?
- Olá, Prost! – cumprimentou.
- ? – Estava boquiaberto. – Você usou o simulador dele?
- Sim, como eu disse: achei que iria demorar mais.
- Para você estar com dor devido ao simulador, foi porque exagerou. Até que horas ficou no simulador? – Tornou a questionar, mas antes que ela pensasse em responder, tomou a frente.
- Até de madrugada. .
- O quê? – Seus olhos se arregalaram tanto, que achou que eles fossem sair das orbitas. – Você está louca? .
- Claro que não gente, não foi nada demais. .
- Não é assim que as coisas funcionam, pequena gafanhota. – estremeceu com o apelido, ultimamente as pessoas ao seu redor viviam falando coisas que somente seu pai falava. – Você não pode permanecer até a exaustão na primeira vez que você entra em um simulador profissional. .
- Compartilho da mesma opinião. – assentiu, olhou para ele pelo canto dos olhos e viu que o homem estava sentando na cadeira ao seu lado.
- Vocês dois estão exagerando. – Passou as mãos no cabelo, nervosa. – Olha só, a gente conversou na festa e você disse que iria demorar mais para as coisas se ajeitarem, que eu deveria esperar. Só que eu não quero esperar, eu precisava treinar, precisava de um simulador, de entrar em uma pista.

ajeitou o relógio em seu braço, estava um pouco nervoso com aquela conversa, quando acordou naquele dia, sabia que precisava conversar com , não podia deixar com ela seguisse com aquele ritmo intenso em que estava, mas sempre precisava medir com cautela cada palavra, magoar as pessoas era algo extremamente ofensivo para ele.

- Exatamente isso que eu ia falar, antes da ligação do Prost. – Pigarreou. – Você precisa se cuidar.
- Então como eu vou fazer? Eu preciso treinar. Vocês se esqueceram de que estou sendo falada por ai? Que estão me questionando, falando sobre eu ser falsa e estar aproveitando do nome do meu pai. – Se levantou, foi capaz de perceber como suas feições de endireitaram e suas irias se escureceram.

- . – Prost massageou as têmporas olhando a mais nova cruzar o braço sobre o peito. – Eu entendo como você está se sentindo, porém nós estamos aqui para te ajudar. Para te dar suporte. Você vai competir por uma equipe profissional, uma equipe de peso, que tem história nesse esporte. Nós vamos te fornecer treinamento, você não vai estrear na F1 daqui a quatro meses sem treinamento, sem preparo físico, não tem necessidade de você treinar sozinha.
- Mas eu não tinha mais o que fazer, foi gentil e me ajudou. Vocês estão tratando isso como se fosse um crime gravíssimo eu treinar no simulador.
- Você ficou no simulador de meio dia até às três da manhã. Você não comeu, não dormiu, não descansou, aposto que nem água bebeu. – Ela mordeu o interior da bochecha ao escutar , seu tom de voz era baixo e calmo, transmitindo a ela total segurança. – Você vai entrar em combustão assim, do que adianta morrer de treinar e daqui a quatro meses no inicio da temporada, a McLaren precisar anunciar que você não vai conseguir competir, pois entrou em exaustão.

rolou os olhos irritada, andou em direção ao filtro e colheu um pouco de água, dando goles longos, como se através da água conseguisse engolir também a raiva que estava sentindo, por levar um sermão as 10 da manhã.

- Vocês estão exagerando. – Deixou o copo na pia e encostou-se à mesma, estava longe do telefone, onde Alain estava, e também de que permanecia sentado na cadeira. – Parece que eu faço isso todos os dias, foi só uma vez. Não vou morrer por isso.

Prost observa não conseguia enxergar a silhueta de , sua voz saia ao longe por causa do celular. Entretanto por alguns momentos parecia que havia rebobinado a fita e que era com Ayrton que ele conversava.
A teimosia eminente, a simplicidade com que queria resolver problemas, mas acima de tudo à determinação, o empenho. Pareciam querer se doar pelo que faziam, sem se preocupar com o quanto aquilo seria prejudicial. Ayrton sempre se doou para a formula um, aquele esporte era como sua vida, Alain acompanhou de perto, entretanto, não imaginou que fosse seguir exatamente os passos de seu pai. Estava curioso sobre o que tinha para apresentar, nos últimos anos jamais viu um talento tão natural como , de fato ela era mesmo filha de seu pai.

- Você é igualzinha ao seu pai. – Após os segundos de silêncio Prost se pronunciou, preferia que não tivesse feito. – Ele achava que não precisava dormir, achava que não era ser humano, que deveria treinar e treinar e treinar.
- Mas precisamos treinar.
- Claro que precisamos. – Concordou. – eu já cansei de ver ele não conseguir levantar o braço de dor, de precisar ser carregado do carro. Só que os tempos mudaram. A fórmula um que eu corri, que seu pai correu. É diferente da que o compete e da que você vai.
- Disse isso ontem. – ofereceu um sorriso, estava percebendo como a conversa estava incomodando-a, não queria que ela se irritasse, mas ela precisava entender a gravidade da situação.
- A tecnologia avançou, os motores, desenhos e métodos. É um esporte muito mais seguro. As chances de ocorrer um acidente, uma lesão, ou pior, uma morte, são menores do que em minha época. Hoje não tem necessidade de você se matar dessa forma, principalmente pelo fato disso ser um risco.
- Eu sei dos riscos, não se esqueça de que meu pai morreu em uma pista. – Disparou irritada, aquela conversa já estava passando as estribeiras. – Eu me lembro de todos os dias de como esporte tirou muita coisa de mim, não venha me dizer que não preciso me matar de treinar, pois eu preciso treinar, preciso dar o meu melhor aqui para honrar a memoria dele. – Quando lagrimas se acoplaram em seus olhos, se levantou e entendeu que talvez fosse o momento daquilo se encerrar.
- Quando eu te coloquei nessa, e eu ainda não sei como você veio até mim, não consigo entender como tudo aconteceu, parece que cada vez que eu pisco, um turbilhão acontece. – O homem passou o dedo indicador no nariz e fungou um pouco. – Eu prometi diante das memorias que compartilhei com seu pai, que te colocaria dentro somente se você ficasse segura. Eu preciso que você que segura.
- Eu estou segura. – Murmurou sentindo o impacto das palavras. Se Prost não entendia como aconteceram as coisas, ela menos ainda, será que poderia acreditar em destino? Ou talvez, carma? – Foi um dia que fiquei no simulador até mais tarde, todo mundo já fez isso.

Não era assim mesmo que as coisas aconteciam, sabia disso. Não era todo piloto que na primeira vez fazia daquela forma, até por que ele tinha acompanhamento em todo momento, então nem brecha para aquilo tinham. Ela não se importava mesmo, seu foco estava totalmente em honrar a memoria do pai, em não ser aquilo que estavam dizendo, que não se importava com o quanto poderia sair machucada, aquilo não era um ponto positivo somente, sempre havia o outro lado, ela precisava descobrir.

- Não é bem assim, eu já estive em um simular pela primeira vez, Pros também. Não é normal na primeira vez você ficar como estava ontem. – se aproximou dela. – Você ficou lá com dor, sem condições de permanecer. Eu te tirei de lá você não conseguia andar, você vai fazer isso sempre.
- Não vou.
- Vai sim.- Tornou a pontuar. Pela câmera Prost conseguia ver os movimentos de e conforme ela se aproximava dele, enxergou a silhueta dela também. Um sorriso brilhou em seus lábios quando foi confrontada por ele, rolou os olhos em uma falsa irritação e cruzou os braços sobre o peito, um mini bico. Era interessante assistir, pareciam amigos de muitos anos. – Você acordou com dor, te perguntei se estava com dor e você negou, te dei remédio e você bebeu.
- Você tem uma mania de falar que estamos mentindo, pelo amor de Deus. Isso não é nada ético. – Resmungou irritada.
- Eu só não quero que faça o que não é necessário, eu já passei por muitas coisas na carreira, não quero que cometa erros que eu já cometi. – Se explicou cauteloso e abraçou a moça pelos ombros.
- Ele está certo, . – Prost tornou a se pronunciar, interrompendo o momento entre eles. – Eu vou organizar algumas pessoas para você, vamos montar uma equipe para te acompanhar. Vou pegar alguns nomes e te mando, para escolhermos.
- Está bem! – Ela concordou. – Obrigada.
- Nós vemos mais tarde na escuderia. Tchau, .

A chamada se encerrou e correu até o celular fechando a tela, sentou-se novamente á mesa voltando a comer suas panquecas, tentando pelo menos terminar a refeição que se iniciou.

- Não fique irritada, ele só quer o melhor para você. – O piloto voltou para perto dela e se serviu com um pouco de café.
- Eu sei que sim, e eu entendo. – Sorriu. – Eu vou aceitar os protocolos de treinamentos.
- Está certíssima, Senninha.
- Eu tenho dois campeões do mundo ao meu lado, confio que farão o melhor por mim!
- Isso me faz ter um questionamento. – cruzou os braços em frente ao corpo e encarou , que ergueu o olhar para o homem o incentivando a continuar. – Eu acreditei que sua família e o Prost não se davam tão bem assim, mas ele te trata com tanto carinho, fiquei surpreso, vocês são todos amigos?

ainda mastigava um pedaço de panqueca, mas balançou a cabeça negativamente para o piloto, esticou o braço para segurar seu copo com água, e, após um gole se dirigiu ao homem.

- Eles se tornaram amigos. – Respondeu. – Nos diários do meu pai ele fala, que ele Prost eram muito amigos, que sempre se falavam ao telefone mesmo com o Prost aposentado. – Contou. – Durante os anos da morte do meu pai, ele sempre foi membro doador do instituto e também próximo da família, sempre me visitava e a minha mãe, me contava histórias sobre e ele meu pai.
- Espera um pouco. – Ergueu o dedo indicador, pedindo tempo. – Que diários do seu pai?
- Meu pai deixou 128 diários, . – Tinha um sorriso nostálgico nos lábios, achou fascinante. – Contando tudo sobre a vida dele.
- Como assim, ? Como assim diários da vida dele? – O tom de voz subiu alguns oitavos e ele inclinou o corpo para frente.
- Sim, conta tudo, sobre os maiores desafios da carreira, sobre os bastidores da formula um, os macetes do carro, como ele conseguia pilotar e extrair o melhor do carro, tem tudo, literalmente tudo. – Colocou mais pasta de amendoim na panqueca cortou mais um pedaço para degustar.
- Isso é extraordinário, Seninha. Esplendido! – Vibrou com muita animação, jogou a cabeça para trás, em uma gargalhada solta.
- Sim, ele falou muito sobre o Alain nos diários, são relatos que ninguém sabe, é tão intimo, parece um pedaço da alma dele. – A voz soava emoção.
- Eu posso ler?
- Claro. – Concordou com um aceno de cabeça. – Mas eu só empresto um de cada vez, depois que me devolver poder pegar outro.
- Isso é demais, eu sempre quis conhecer mais do Ayrton, sempre quis saber quem ele era além das pistas, jamais imaginei que iria conseguir. – Sorriu e pegou a mão da amiga. – Obrigada, Seninha.
- De nada, ! – Terminou de comer a panqueca, juntou todos os pratos e talheres reunindo-os para acoplar na pia. – Eu estou indo para casa, vamos comigo e então te empresto o primeiro. – Abriu a torneira para ensaboar os utensílios.
- Não precisa fazer isso, . – O negro se aproximou para impedir que a brasileira completasse a tarefa.
- Me deixa, homem. – O afastou com o corpo. – Eu gosto de fazer e não é nada demais.
- Está bem. – Deu de ombros e se encostou ao seu lado na pia, ainda tentando absorver a conversa que estavam tendo, ele entraria na intimidade de Ayrton, aquilo era surreal demais. – Eu mal consigo acreditar que ele deixou diários e que eu vou ler.
- Se me devolver esse diário com uma orelha em qualquer página, vai passar o resto da vida comendo de canudinho. – Ameaçou firme e prendeu uma gargalhada, pelo fato dela não ter nada de ameaçador. – Eu juro que a única coisa que vai pilotar é uma cadeira de rodas.
- Eu prometo, Seninha. – Ergueu as duas mãos no alto da cabeça e depois beijou os dois dedos indicadores, em sinal de promessa. – Eu vou cuidar dos diários do seu pai com a minha vida.


XXX


estacionou o carro e não saiu dela imediatamente, puxou o ar com força e olhou pela janela, conseguindo enxergar a parte de fora do prédio onde um enorme brasão com o nome da McLaren se destacava em laranja.
O coração batia rápido em seu peito e somente depois que muitos minutos conseguia controlar a pequena arritmia que se instalou sobre seu ser, não podia passar mal, não naquele momento. Por isso reuniu sua coragem e abriu a porta do carro, deslocando-se para fora dele.
Com todas as suas coisas em mãos, travou o carro e seguiu em direção ao prédio. Sorriu e acenou para algumas pessoas e quando chegou a porta de acesso, mostrou o crachá que retirou da bolsa e sua entrada foi permitida.
Ela deveria esperar no hall de entrada, até que alguém viesse busca-la, agradeceu por isso, pois seria incapaz de dar um passo quando seus olhos bateram com a homenagem aos campeões lendários da escuderia, o fato lançou arrepios por todo o corpo da piloto: Lauda, Hunt, , Fittipaldi, Prost, e por fim, Ayrton Senna. O que sentiu ao se imaginar ali, ao lado deles, fez com se recordasse dos domingos em que assistia as corridas e quando em vários momentos desejou estar exatamente onde estava, dentro da escuderia e orgulhando seu pai.

- Vamos nessa, paizinho. Eu cheguei aqui. – Murmurou de olhos fechados e suspirou para conter um possível choro.

Barulhos de salto chamaram sua atenção e então a cacheada abriu os olhos conseguindo enxergar a figura de Marianne Dauphiné. sorriu e encarou a atual chefe da McLaren que estava com olhos brilhando em direção a ela. Os cabelos cacheados estavam soltos, a expressão era serena e dócil, assim como o sorriso plantado em sua face.
Poder exalava daquela mulher, tudo ao redor dela gritava empoderamento. A classe com que andava, a roupa que vestia, as unhas em tom vermelho e o batom pintado nos lábios. Ate a maneira como ela assinava alguns papeis fazia com a mais nova pilota sentisse as vibrações eu vinham dela.
Seria extremamente prazeroso aprender e trabalhar ao lado daquela mulher, que batalhou tanto para assumir o posto de chefe, após uma temporada de fracasso com o atual mandato de Zac Brow, Marianne foi escolhida a dedo para assumir o cargo.
Não foi uma surpresa para a impressa, já que por detrás dela havia anos de experiência e conhecimento do esporte. O espanto por parte das pessoas veio do conjunto que a escuderia inglesa estava preparando para a próxima temporada: a piloto principal era uma mulher, a chefe de equipe, outra mulher, e a engenheira principal? Advinha? Mais uma mulher.
Burburinhos corriam nas manchetes de esporte do mundo, algumas apostas sobre o tempo que demoraria para fracasso chegar já estavam firmadas. Dauphiné, entretanto, não via o exato momento em que o novo conjunto fariam todos engolirem as próprias palavras.
A francesa terminou de assinar os papeis que sua assistente pessoal lhe amontoou e só então levantou o olhar para sua nova pilota.

- , que bom te ver. - Abriu os braços para cumprimentar a brasileira. - Seja bem-vinda, agora, de maneira oficial.
- Obrigada, Dauphiné. - Apertou a mão da fecha e logo colocou as duas mãos no bolso da calça. - Desculpe o atraso, eu ainda não me acostumei com o trânsito.
- Eu estava em uma reunião, não se preocupe. - Iniciou a caminhada em direção ao elevador mais próximo. - Eu vou te levar para a sala de reuniões, para iniciarmos os trabalhos.
- Obrigada! – Colocou um cacho atrás da orelha. – Reunião? Achei que iriamos para a garagem.

Mariana soltou uma gargalhada totalmente contagiosa.

- Se nosso trabalho fosse somente o das pistas tanta coisa seria mais prazerosa. – entraram no elevador e Marianne apertou o botão que daria acesso ao último andar. – Mas não, temos reuniões e mais reuniões.
- Que chato. – Sacou o telefone do bolso. – Me deixa olhar aqui no contrato se me avisaram dessa parte, caso contrário eu me demito agora.
- Eu jamais aceitaria sua demissão, mulher. – Abanou com a mão. – Eu preciso da sua presença nessa escuderia. Além do mais você muitas exigências e eu consegui todas elas, tem certeza que não quer ver?
- Conseguiu autorização para remontar o design do carro? – Questionou perplexa com um sorriso aberto.
- Sim, em homenagem aos trinta anos do tricampeonato do Senna. – Explicou, vendo as portas se abrirem e então um enorme corredor aparecer.

As duas mulheres saíram e seguiram em direção à única porta do corredor, onde algumas pessoas a esperavam. A chefe abriu a porta primeiro e deu passagem para , esta sorriu em agradecimento e entrou.
Na sala estavam Alain Prost que era o atual chefe de equipe, posto que aceitou recentemente no lugar de Andreas Seidl, James Key diretor técnico, Alice Grey diretora de Marketing e Stella Seins a responsável pelo departamento jurídico.
O salão de reunião era enorme, cm detalhes em preto e branco e decoração neutra. Prost foi o primeiro a seguir em direção a mulher, abriu os braços e tomou o corpo dela em um abraço terno, sorriu e retribuiu.

- Você está melhor? Tomou um remédio? – Questionou preocupado.
- Sim, estou. Obrigada pela preocupação. – Afastou do homem e colocou seus olhos nos outros presentes. – Boa tarde!
- É um prazer, Senna. – James estendeu a mão para a mulher que o cumprimentou com um aperto de mão. – Fique a vontade. – Apontou a cadeira em seu frente, uma das poucas que estavam vagas na mesa. – Estávamos ansiosos para finalmente estarmos em sua presença.
- Sim, eu também. Estou feliz que chegou a hora. – Assentiu e viu Prost colocar uma xícara de café em sua frente e sentar-se ao seu lado.
- , nós sabemos que essas reuniões não são nada agradáveis para os pilotos, sabemos que vocês gostam de ficar na garagem. – A voz do Alice preencheu o local. – Mas nós precisamos pontuar coisas que são de extrema importância.
- Está tudo bem. – Cruzou os braços em frente ao corpo. – Eu detesto o serviço burocrático, sempre fui da que gosta de colocar a mão na massa rápido, mas eu entendo a necessidade.
- Alguém sabe do Norris? – Dauphiné questionou em voz alta para os presentes. – Ele está atrasado.
- Me conta uma novidade. – Stella forçou um sorriso ao falar do outro piloto que a McLaren tinha, o jovem Lando Norris. - Vamos esperar mais uns minutos, ele deve estar perdido pelos corredores.
- Quem está perdido nos corredores? – Mais uma voz, girou a cabeça na direção da porta e encontrou os olhos castanhos de Lando a encarando. – Me desculpem o atraso, tive um imprevisto. – Cumprimentou a todos com um aceno de mão e caminhou especialmente até . – Boa tarde, Senna! É um prazer finalmente te ver.
- O prazer é todo meu, Norris! Fico feliz em te ver também, espero que a gente consiga se dar muito bem.
- Iremos. – Rodeou a mesa cumprimentando todos até chegar a outra cadeira vazia, postada bem a frente de .
- Já que estão todos aqui, podemos começar. – Marianne tomou a palavra. Primeiro que quero o departamento jurídico apresentando, depois markenting, e depois falamos sobre a parte técnica e da equipe. – Ditou as ordens e encostou o corpo na cadeira e procurou uma posição confortável, depois bebeu um pouco de café, aquela seria uma longa tarde.


XXX


sentou no chão com as costas no encosto do sofá, colocou a xícara de café ao lado de seu corpo e pode visualizar Roscoe dormindo em sua almofada totalmente tranquilo, mesmo com o frio que parecia querer rasgar a terra naquela noite em Londres.
A vida de cachorros era muito incrível e era prazeroso para poder proporcionar isso ao seu tão amado amigo e cão.
O piloto estralou as articulações do pescoço e pegou o diário que estava no sofá, antes de abrir passou os dedos sobre a capa gasta de couro e sentiu o farelo do couro se misturar em seus dedos, deu um sorriso involuntário quando as palavras de gritaram em sua cabeça: “ Se me devolver esse diário com uma orelha em qualquer página, vai passar o resto da vida comendo de canudinho.
Depois que fora ameaçado pela herdeira do conteúdo de vida do melhor piloto da historia, teve medo de estragar qualquer coisa, por isso dobrou seu cuidado com aquele livro, para era um pedaço de sua alma.
Quando abriu a capa a letra caprichosa de Ayrton se destacou nas folhas amareladas, parecia uma daquelas obras de arte que se encontra em museu, algo valioso que as pessoas não têm permissão para tocar e mais uma vez se sentiu privilegiado, por ser uma das poucas pessoas do planeta que tinha acesso aquele tesouro de Ayrton.
Segurou o diário com a mão esquerda, firmando o polegar no meio na pagina para impedir que as mesmas voassem e com a esquerda pegou seu café levando- o aos lábios iniciando a leitura.

25 de Março de 1984


Olhei no relógio da cabeceira da cama e constatei que eram cinco da manhã, era domingo de prova na F1, e eu não sei como consegui dormi até essa hora, já que fiquei até tarde estudando os pontos da pista para conseguir ter um melhor desempenho.
Vivian dormia ao meu lado tranquilamente, o peito subia e descia de acordo com que respirava, e eu sorri vendo seu rosto sereno, ela é meu ponto de paz. Beijei sua testa e depois a ponta de seu nariz, e então sentei na cama, me espreguicei e logo estava de pé, para responder ao bom dia dado pela telefonista.
Eu estava animado com a corrida, mesmo a classificação não sendo tão promissora, esperava uma boa posição, mesmo competindo com grandes nomes como Niki Lauda, Alain Prost (McLaren), Keke Rosberg (Williams), Nelson Piquet (Brabham) e Nigel Mansell (Lotus), e contra a força dos motores Porsche-TAG, Honda, Renault, BMW e Ferrari, superiores ao Hart, que embalava o seu Toleman. Mas, eu estava com uma incômoda vibração na suspensão dianteira, consegui apenas a 16a posição no grid, na oitava fila. A pole position ficou com o italiano Elio de Angelis, a primeira dele na carreira. Eu acreditei que em breve a minha chegaria.
Mesmo partindo apenas na oitava fila, eu era o melhor colocado entre os estreantes. Os outros pilotos que também viviam a expectativa de realizar o primeiro GP eram: Martin Brundle, 18º, o Francois Hesnault largava em 19º, Stefan Bellof em 22º e Phillipe Alliot partia da 25ª posição. O grid estava composto por 27 carros.
Eu sempre sonhei com esse dia, era a concretização do meu sonho, eu não podia me deixar abalar pela classificação, precisava me focar na corrida para extrair o melhor que eu conseguiria, e caso não desse certo, procuraria saber o motivo e então melhorar.
Eu já sabia que havia limites para mim, no que diz respeito ao carro, o Toleman é um carro forte, resistente, mas atualmente, é um modelo de certa forma ultrapassado em termos de velocidade. Isso vai refletir na tomada de tempo, as possibilidades de a gente partir em uma posição de melhor destaque eram muito difíceis e mesmo assim eu jamais me deixei abalar, lutei muito para estar aqui e por isso não vou desistir.
Eu tomei um banho e me arrumei, logo Vivian acordou e então formo juntos para a minha primeira corrida formula um, eu estava tendo privilegio de poucos, minha estreia na Fórmula 1 estava acontecendo no Rio de Janeiro, eu nunca tinha competido em Jacarepaguá. E estava ansioso para o meu primeiro dia.
Eu estava focado, sabia dos pontos baixos e altos do meu carros e precisava me focar na estratégia que se formava em minha mente, seria da seguinte forma: devido ao baixo consumo do meu motor Hart e da resistência do meu carro, as possibilidades de a gente ir ganhando posições volta a volta são muito grandes.
Eventualmente, ao final de uma hora e meia ou duas horas, em meus cálculos terei conseguido uma colocação até surpreendente, mas mesmo que as coisas se tornem o imprevisíveis, eu pensava a todo momento: O importante é manter a calma e dar o máximo de si dentro daquela uma hora e meia ou duas horas, e encarar o resultado, seja ele qual for – bom, muito bom ou negativo – como uma nova fase na minha carreira, onde eu vou ter que adquirir muita experiência.
Com esse pensamento eu fui para meu cockpit.
Eu larguei bem e depois de uma boa primeira volta, subi para 13º. Mas o motor Hart começou a falhar, e eu logo vi Stefan Bellof (Tyrrell), Jacques Laffitte (Williams) e Nelson Piquet (Brabham), passando por mim, eu avisei no rádio que: O turbo compressor quebrou, parece. Alguma coisa aconteceu, porque o carro começou a vibrar bastante. Foi de uma hora para a outra. Ele ainda tentaram me manter na corrida, mas ao fim de oito voltas, fui obrigado a recolher o carro aos boxes: o turbo havia pifado. Ali estava acabada minha primeira corrida na formula um.
Eu fiquei irritado, totalmente irritado. Lutei muito para estar aqui, isso não podia estar acontecendo. Senti-me frustrado, como se todos os meus sonhos estivessem escapando por entre meus dedos e eu me permiti sentir assim, por apenas dois minutos. Depois levantei minha cabeça e tentei entender o que poderia ter acontecido, e se havia como nos prepararmos para não acontecer de novo. O que aconteceu, já foi, não adianta eu me lamentar por isso, preciso ter foco para alcançar o meu objetivo. Como consolo, o dia foi realmente lindo e ensolarado no Rio de Janeiro.
A prova foi vencida por Alain Prost. Keke Rosberg e Elio de Angelis completaram o pódio. Não foi a estreia que eu esperava, mas terei outras provas e tenho certeza que em poucos GPs o mundo da F-1 vai conhecer meu nome, eu sou, Ayrton Senna da Silva e pode ter certeza que não vou desistir até conquistar as pistas desse esporte.


finalizou a leitura totalmente imóvel. Estava estarrecido com o que seus olhos pescaram, era a narração da primeira corrida de Ayrton, e o sentimento que moldava o coração do heptacampeão era saudades.
Quando assistia Ayrton correr, não vivia uma vida fácil, muito pelo contrário, estava começando no Kart e não era bem aceito pelas outras crianças e famílias, mas ele encontrava esperança todos os domingos quando via o brasileiro correr, hoje, mesmo após tantos anos e sendo o maior dominante do esporte, ainda conseguia ter o mesmo sentimento quando lia sobre o ídolo, o legado de Ayrton ainda era vivo, e ele conseguia enxergar bem diante de seus olhos.
Não contendo sua curiosidade, passou algumas paginas, lendo os títulos e tentando achar mais relatos. Tinha intenção de ler cada letra de todas aquelas folhas, porém, estava procurando uma data especifica para ser sua próxima.
Ayrton era considera o rei de Mônaco, e era uma das pistas que o paulista mais amava, por isso destino de era encontrar o primeiro relato daquelas pistas, e não conseguiu contar o enorme sorriso quando encontrou exatamente o que procurava.

03 de Junho de 1984


Hoje estou escrevendo de um local diferente, estou sentado na mureta do box de Monte Carlo. Meu cabelo ainda está molhado e consigo sentir a textura do volante pressionando meus dedos. Não voltei para casa, após essa corrida, não quis sair do autódromo antes de engolir essa corrida de hoje, apesar saber que esse gosto vai ficar negativo em minha boca, por muito tempo.
Ontem eu estava com uma enorme confiança, na classificação fiquei em décimo terceiro, mesma posição da África do sul e da Bélgica, eu estava acreditando que 13 seria meu número, já que era a 3 vez que eu cravava essa posição.
A primeira fila foi composta por Alain Prost da McLaren e Nigel Mansell da Lotus. A segunda fila tinha as Ferrari de Rene Arnoux e Michele Alboreto. Na terceira largaram Derek Warwick e Patrick Tambay, ambos da Renault.
Amanheceu chovendo e eu gostava da chuva, tinha confiança nela. Quando era mais novo e decidi que queria ser piloto, eu tinha medo de correr na chuva, era claramente meu maior medo nas pistas, então, toda vez que chovia, eu corria, pois precisava me fortalecer e trabalhar meus pontos fracos, só assim eu superaria minha fraqueza e seria melhor.
A direção de prova decidiu adiar o início da largada em 45 minutos devido ao temporal que caía em Monte Carlo. A prova foi iniciada ainda sob forte chuva, palco perfeito para o primeiro show que eu sabia que conseguia fazer na chuva.
Eu sabia que precisava ter cautela na corrida, estava chovendo e a largada em Monte Carlo sempre era complicada, pois a primeira curva era logo em cima, por isso eu optei por ter cautela e esperar a formação no grid nas pistas, para evitar que eu enfrentasse qualquer problema, e foi o que aconteceu.
As duas Renaults ficaram na primeira curva, e dois carros ficaram presos com a barreira do acidente, precisando manobrar para sair, mas eu, por ter largado devagar, consegui passar por fora, e já na segunda volta estava em nono lugar.
Cadenciei o ritmo da corrida e quando me dei conta já estava na volta 8, já era o sétimo colocado. Poucas voltas depois, Michele Alboreto enfrentou problemas e teve que abandonar a prova, e eu, entrei na zona de pontuação. De agora para frente, eu sabia que podia avançar na estratégia para ir subindo de posições.
Em minha frente estava, o campeão mundial de 1982, Keke Rosberg, mas eu n ao podia me acuar com o titulo mundial, precisava conseguir ultrapassar ele. Calculei os espaços que eu conseguia enxergar para ultrapassar, mas me afobei e acabei passando na zebra, precisei tirar o pé e segurar o volante para não bater no guard-rail, com isso perdi alguns segundos.
Isso me irritou, mas eu não podia deixar isso me desconcentrar, iria construir minha vantagem de novo. Algumas voltas depois, eu já estava encostando de novo, e então visualizei minha brecha, na próxima volta, ultrapassei por Keke, me coloquei na quinta posição. Na parte da frente, Prost foi ultrapassado por Nigel Mansell que abria dois segundos de vantagem por volta sobre o francês.
Eu estava em quinto, mas mirava a quarta posição, acelerei e encostei em Arnoux, eu estava mais rápido e por isso não foi difícil alcançar a próxima posição, eu sentia que estava voando, como se o carro flutuasse na água e eu me sentia exausto, mas com um nível de confiança muito maior.
Saindo da ultrapassagem, já me encostei em Nikki Lauda que era o terceiro colocado, e eu queria aquela posição, logo depois, na volta 16, o líder da prova, Mansell, mostrou como eram difíceis as condições para manter um F-1 na pista: o britânico perdeu o controle de sua Lotus e encontrou o guard-rail na subida para a Curva do Casino. Com isso, eu já estava na posição de pódio, em terceiro.
Era o meu momento, finalmente eu estava conseguindo pilotar como gostava, rápido, firme e total feroz, a diferença era pouca, mas eu precisava tirar, um piloto de formula um sempre precisa diminuir a diferença, ou não era um piloto de formula um.
E eu sou um piloto de formula um.
Eu diminuía vertiginosamente sua diferença para Lauda, e, no início da volta 19, na curva Saint Devote, ele fez a curva e abriu demais, e era minha oportunidade, acelerei o máximo e vi as gotas molharem meu capacete, mas a ultrapassagem era minha e eu a fiz, por fora ultrapassei Niki Lauda, e naquele momento, gritei para o mundo, meu nome é Ayrton Senna e cheguei na Fórmula um.
A segunda posição era minha, e agora Alain Prost era meu próximo alvo. Eu queria o primeiro lugar, meu coração estava disparado e eu mal podia acreditar no que estava acontecendo, finalmente, meu anos de esforço estavam sendo recompensados.
Na 23 volta, decidi que não tinha mais o que cadenciar, segurei firme no volante e acelerei e senti meu carro vibrar e tremer sobre minhas mãos, foi a minha melhor volta nessa prova, inclusive a melhor da prova, esse titulo saiu comigo das pistas hoje.
Eu não queria a volta mais rápida, ou o segundo lugar, queria a vitória, ela era o que importava o resto era só consequência.
Eu conseguia ir tirando a vantagem volta a volta, um segundo a cada volta, algumas voltas mais que isso, depois me disseram que nas últimas voltas, eu estava tirando 3 segundos por volta, isso é surreal. Eu não conseguia ver o que estava acontecendo ao meu redor, eu só conseguia enxergar a carro da McLaren em minha frente e meu foco era em me aproximar e vencer.
Estava aumentando a chuva e eu me sentia em casa, correndo no quintal do meu Brasil, como fiz em tantas noites chuvosas, e eu sentia que estava chegando, que meu momento estava chegando.
Na volta 29 , Prost solicitou a interrupção da prova por meio de acenos aos fiscais, me avisaram pelo rádio que mais duas voltas eu estaria encostando e pronto para assumir a ponta, e então continuei guiando para que me aproximasse ainda mais e eu finalmente encostei, conseguia ver a traseira de seu carro, e então percebi que Prost diminuiu e parou, encostando no canto, mas eu não, passei por fora e segui com tudo pela bandeira quadriculada, ao lado da vermelha.
E em minha cabeça, eu havia ganhado, a vitória era minha. Ergui meu punho em comemoração, eu adoro comemorar assim, comemorando aos céus a realização dos meus sonhos.
Até que jogaram um balde de gelo em meio à chuva sobre minha cabeça, deram a vitória para Alain Prost, justificando que antes da bandeira vermelha ele liderava a prova, eu fiquei destroçado.
Foi o meu primeiro pódio, mas meu semblante denunciou que eu não estava ligando para o segundo lugar, eu queria a vitória. Ele me cumprimentou e eu o abracei, foi um grande passo para mim, mas eu estava longe do que esperava conquistar.
Ainda vou sentir por muito tempo esse gosto da injustiça, mas agora, as pessoas sabem que eu vim para esse jogo para vencer.

Puta merda! Era única coisa que conseguia pensar, seu corpo estava em êxtase demais para que seu cérebro raciocinasse e criasse frases conexas.
Tudo que conseguia explanar, era em como aquilo extraordinário demais para ser real, como era incrível ler palavras de um Ayrton totalmente diferente de como o mundo conhecia, o inicio da carreira, a necessidade de vitória, o foco, a determinação. Era claro como ele conseguia associar todos esses traços em , Prost tinha razão à mulher era a cópia do pai.
Ayrton teve um inicio de carreira conturbado até chegar a ser o melhor piloto da história, e ver esses detalhes pelo próprio homem, era estonteante.
Sentindo a necessidade de colocar para fora, largou o diário ao seu lado e buscou seu celular em frente mesa do canto esquerdo, rapidamente procurou em seus contatos o telefone de , sabia que era mais tarde que o comum, mas, optou por correr o risco, esperava que ela atendesse.
Após o terceiro toque, soltou um suspiro aliviado quando escutou a voz da Senna mais nova.

- Oi, !
- Te acordei, Seninha? – Caminhou novamente para onde estava sentado.
- Não, eu estou tomando uma taça de vinho e lendo um livro. Aconteceu algo? – Ela sentou na cama e esticou as pernas, estava exausta.
- Eu li umas cenas do diário do seu pai. – Confessou, enquanto equilibrava o celular entre o ombro e a orelha, para resgatar o diário de onde estava. – Eu fiquei impactado e queria conversar, como foi seu dia na McLaren?
- Um Inferno. – Jogou o corpo para trás, sentindo a maciez do colchão. - Quanta burocracia, tive uma quarenta reuniões com o jurídico, com a equipe de marketing e assessoria de imprensa. Acho que alguém se esqueceu de me avisar como essa parte é insuportável. – Reclamou e gargalhou.
- É horrível mesmo, eu detestava fazer isso no inicio, mas depois eu descobri que ainda pior é quando eu preciso dar entrevista depois de ter perdido, isso me deixava muito irritado. – Roscoe percebeu que o dono andava de um lado para o outro no quarto e começou a segui-lo, andando em círculos.
- Deixava irritado, no passado, pois agora tem tempo que não perde. – Caçoou a outra. – Mas além das 40 reuniões, me reuni com o engenheiro, andei na pista, foi a melhor parte. – Sorriu. – O que você leu do diário?
- A estreia na formula um e depois a corrida de Mônaco. – Contou, ao perceber que Roscoe o seguia, o inglês tomou o assento em uma poltrona e bateu em seu colo, para que o cão subisse em seu colo. – Dá para acreditar que ele estava tirando três segundos por volta, ele ia ganhar a corrida, se não tivesse sido interrompida.
- Sim, e sem contar que o Alain parou antes da bandeira e ele passou direto, e comemorou como campeão. Minha mãe fala que ele ficou remoendo aquela corrida uma semana, relembrando que poderia ter tirado mais que três segundos nas voltas para conseguir passar antes do final.
- Ele ficou louco, e eu no lugar dele me sentiria injustiçado da mesma forma, a FIA não devia ter tomado aquela decisão, vence quem passa primeiro na bandeia quadriculada.
- A FIA é um lixo, deviam ser mais justos com as situações. – Murmurou em meio a um bocejo, e percebeu.
- Nós temos várias lutas enormes e uma delas é contra a federação. – Passou as mãos nos cabelos, bagunçando-os. – Eu imagino que esteja com sono, Seninha. Vá descansar, amanhã começa tudo de novo.
- Estou mesmo. – Concordou. – Estarei cedo na fábrica.
- Eu só liguei para agradecer. – Mordeu o lábio inferior, receoso. – Obrigado por dividir sua alma comigo.
- É um prazer, , se meu pai fosse vivo, vocês seriam grandes amigos. Boa noite, bom descanso.
- Bom descanso, Seninha.

Desligou o aparelho e deixou o mesmo cair ao seu lado, olhou para o diário em mãos e depois ergueu os olhos para os céus, em forma de agradecimento, também tinha certeza que ele e Ayrton seriam grandes amigos, assim como tinha certeza que seu caminho, por algum motivo, estava se entrelaçando ao de .





19 de novembro de 2020* - Essa data é totalmente fictícia, pois essa data foi a penúltima data do calendário de 2019 e não de 2020, mas ela foi inventada por causa do contexto da história. Então na história não teve pandemia em 2020 e a temporada acabou antes de 19 de novembro.
Paulo Viera* - Um escritor brasileiro. Escreve livros de auto-ajuda.
Dom Casmurro*. – Livro mais famoso do escritor brasileiro, Machado de Assis.
Alias Grace* - Um livro de Margaret Atwood, virou uma série da Netflix.
Gustav Klimt* - Gustav Klimt (1862-1918) foi um pintor e desenhista austríaco simbolista e um dos grandes nomes da art nouveau. Foi precursor do movimento vienense moderno, denominado “Movimento da Secessão de Viena”.
O beijo* - O beijo é um quadro do pintor austríaco Gustav Klimt. Executada em óleo sobre tela, medindo 180x180 centímetros, entre 1907 e 1908, é uma das obras mais conhecidas do Klimt, graças a um elevado número de reproduções.



Capítulo 02

estava com o corpo encostado no carro, os óculos escuros brincavam em seu rosto a protegendo do pouco sol daquela manhã. Em todo o corpo havia roupas de frio, casaco, touca, cachecol, e ainda assim conseguia sentir a brisa fria de Londres sobre seu corpo.
Em seu interior, se perguntava quanto tempo ainda demoraria para se acostumar com o clima inglês e sabia que a resposta seria muito, muito tempo. era tropical, do pagode, do chinelo e cerveja, agora, estava transitando de meia para todos os lados, sempre com uma touca na cabeça e o hábito de viver apertando as mãos para se aquecer, era quase uma mania,sentia falta do sol aberto e quente e da sensação de colocar os pés descalços no chão.
Naquele dia, em específico, não estava tão frio. Algumas poucas nuvens estavam no céu e raios de sol brilhavam sobre a cabeça dos londrinos, de fato, era um belo dia. Um dos poucos que fazia com que a brasileira se lembrasse de sua terra natal.
Estava no aeroporto da cidade de Londres, para buscar Luiza, sua melhor amiga e que além disso era também um excelente fisioterapeuta e que tinha topado embarcar na jornada de prepará-la para a próxima temporada.
Luiza era a melhor fisioterapeuta da cidade de São Paulo, não haveria ninguém além dela ,em que confiaria sua nova trajetória.
O voo estava atrasado, por causa disso já estava por longos minutos a espera da fisioterapeuta. Seu corpo já estava cansado de permanecer na mesma posição, por isso trocou o peso das pernas para que descansasse a outra, e pegou o celular do bolso da calça.
Logo na tela já havia uma mensagem de , assim que clicou na mesma para verificar o conteúdo, escutou a movimentação de passos e ergueu os olhos para frente tentando visualizar se era referente ao desembarque de passageiros.
Sorriu com a confirmação positiva e voltou com o celular para o bolso, ao ver a cabeleira ruiva da amiga, que olhava para todos os lados a procura de um rosto conhecido.
Deu alguns passos para frente a fim de entrar no campo de visão de Luiza, e funcionou já que a amiga abriu um enorme sorriso, onde era possível verificar as covinhas em seu rosto.

- Então essa é Londres? – Comentou, ao se aproximar o suficiente.
- Bem-vinda, Luiza. – Abriu os braços para a amiga e sorriu com o corpo dela entrando em choque com o seu. – Foi bem de viagem?
- Sim, mana, tomei um dramin* e dormi metade do voo. – A ruiva ajeitou melhor o cachecol ao redor do pescoço, puxando sua bagagem conforme caminhavam.
- Isso é ótimo. – Assentiu . – Obrigada por vir me socorrer, Luiza, eu não confiaria em mais ninguém para isso.
- Não é todo dia que sua melhor amiga vai correr na fórmula um e te oferece um salário de seis dígitos.
- Foram cinco dígitos, o sexto é por sua conta. - rolou os olhos, enquanto apertava o alarme do carro para destravar o mesmo.
- Você não me contou que iria para a fórmula um, eu descobri vendo sites de fofoca, um salário de 6 dígitos é o mínimo que mereço.- Luiza empurrou a mala em direção a traseira do carro, as duas fizeram força e então colocaram as duas malas no bagageiro.
- Quando eu tiver um salário desse, você também terá. - abriu a porta do motorista e tomou seu assento.
- Achei que pilotos de fórmula um ganhassem rios de dinheiro. – Luiza imitou o movimento da amiga e também tomou seu assento, assim que fechou a porta, tirou a touca da cabeça e levou os dedos ao aquecedor para se libertar um pouco do frio que a cobria. – Por que você não ganha rios de dinheiro ainda?
- Deve ser por que eu não corro ainda. – Ligou o carro e deu seta para saírem do aeroporto. – E mesmo que eu ganhe, você sabe que não é pelo dinheiro. – Olhou a amiga.
- Eu sei que não. – O tom divertido de Luiza foi anulado, agora a fisioterapeuta estava mais séria. – Sei que as coisas para você não têm a ver com dinheiro, você valoriza demais sua família e suas memórias. – Recostou o corpo no banco, encaixando as duas mãos entre as pernas. - Sua mãe surtou, não surtou? Minha mãe me disse que elas conversaram sobre isso.
- Completamente. – Assentiu com a cabeça, enquanto reduzia para fazer uma curva para a esquerda. – Mas depois o Senna se apossou da mente dela e então ela disse que vai me apoiar, mas com certeza ainda vai tentar me fazer mudar de ideia.
- Eu imagino que deva ser difícil para ela, Auro, eu acompanhei todos esses anos, não foi fácil para ela.- Luiza olhou a amiga, seu tom de voz era baixo.
- Ainda não é. – Deu um riso fraco. – Ela aprendeu a esconder bem, mas ainda chora sozinha de saudade. – Parou no sinal e aproveitou para virar o corpo em direção a amiga.

Mesmo com o passar dos anos, sua mãe, Vivian, jamais conseguiu se desprender das memórias do antigo marido. Nas datas comemorativas ainda se escondia no quarto e chorava baixinho, por vezes ao passar na porta de onde a mãe dormia, a Senna mais nova escutava seus gemidos e as palavras de lamúria. A dor da morte do genitor, jamais se afastou de sua casa.

- Meu pai também. – Luiza observou. – Outro dia vi que ele estava olhando umas fotos antigas e bebendo cerveja, acho que o Zanotti jamais se conformou com a morte do melhor amigo.

Assim como as duas mulheres eram melhores amigas, foi um laço herdado por suas famílias, algo que para elas era inevitável de não prosseguir. Ayrton Senna, pai de e Henrique Zanotti pai de Luiza, eram amigos de infância, cresceram juntos e jamais se separaram, com o passar dos anos conforme a família foi crescendo o vínculo entre ele foi aumentando até que não se consideravam mais somente amigos, eram irmãos.
Vivian e Rose, as mães, se envolveram nesse vínculo e todas as manhãs iam para a academia juntas, e compartilhavam receitas de comida para o almoço aos domingos, e por diversas vezes Rose havia sido o colo que Vivian procurava para chorar a falta que o marido fazia.

- É incrível como o tempo passa e todo mundo ainda é marcado por ele. – escorou o cotovelo na porta e a mão na cabeça. – Todo mundo em todo momento me lembra da morte dele.
- Seu pai é uma lenda, Auro, é impossível as pessoas se esquecerem dele. – Comentou a amiga. – Ainda mais com você entrando na fórmula um, e isso me lembra, como foi que essa loucura aconteceu?

deu uma gargalhada, voltando a acelerar o carro.

- Nem eu sei, Luiza, nem eu sei. – Suspirou. – Eu sempre quis fazer isso, você bem sabe, desde que eu corria com o meu pai no kart, ou depois da morte dele quando eu corria nas categorias de base, e nas corridas ilegais do Rio de Janeiro. Eu abri mão acreditando que era o melhor para mim, que eu deveria estudar e assumir o instituto, pois era isso que meu pai iria querer. – Virou à direita para entrar no bairro em que morava, mais alguns raios de sol se abriram no céu. – Mas eu estava enganada, não era isso que meu pai queria para mim, e hoje eu tenho certeza que meu lugar é na fórmula um.
- Isso é a maior loucura que já ouvi na vida. – Luiza passou as duas mãos no cabelo, sentindo as madeixas se embolarem em seus dedos. – Mas eu sei que é o certo, conheço sua história, sou sua amiga há anos e já te tirei de mais furadas que posso me lembrar. – As duas gargalharam com as lembranças das aventuras que compartilharam juntas. – Mas isso é o certo, , você sempre olhou para o automobilismo de maneira diferente, sempre amou os carros de maneira diferente, sempre desejou estar mais perto e tudo isso veio do seu pai. Você valoriza o legado, valoriza sua família e acima de tudo valoriza o amor. Seu lugar é nas pistas e eu estou ao seu lado. – Contou emocionada pelas palavras que brotaram em seu coração, sabia a representação daquilo para a melhor amiga e estava sentindo a necessidade de participar daquela nova aventura.
- Você vai me preparar?
- Com total certeza.
- Eu preciso de um treinamento pesado, onde eu não tenha tempo para respirar e que eu consiga estar à altura de todos os outros homens que pilotam carros. – As duas entraram no condomínio e Luiza sorriu observando a construção era excepcionalmente bonita, e com todos os arranjos florais que rodeavam o ambiente, só deixavam Luiza mais à vontade para compartilhar da morada.
- Você estará, eu só preciso de umas horas de sono e estou pronta para iniciarmos, pois se eu bem te conheço não quer deixar para começar depois.
- Não, Luiza, eu já mandei prepararem um estúdio com todo o equipamento, com tudo que vamos precisar e até coloquei uma bandeira do Santos lá, para te incentivar. Você pode descansar, eu vou para a fábrica, quando você estiver pronta iniciamos. – pegou o controle do portão eletrônico no porta luvas e abriu o portão da garagem, logo estava guiando o carro para a vaga.
- Obrigada pelo incentivo do meu peixão. – Vibrou a amiga. – Vamos nessa, Senna, vamos te preparar para a vitória.


XXX


Kira Devlin se via perdida em um mar de planilhas e desenhos de modelagem, procurando suas anotações acerca dos últimos testes no motor do carro que a McLaren havia desenvolvido para aquela temporada, apenas para conferir pela décima vez os números que sabia de cor.
Pelo fato de toda a sua vida ter sido uma das poucas mulheres a trabalhar com situações com nomenclaturas masculinas, ela estava acostumada a ter que se provar todos os dias. Foi assim na escola, na faculdade, mestrado, doutorado e depois nos lugares em que trabalhou, sabia que agora não seria diferente.
Era exaustivo, frustrante, e absurdo, e lhe deixava puta da vida vezes demais para que fosse saudável, mas não podia negar o amor que sentia ao estar naquele lugar.
Assim que achou o documento, vibrou animada e então se levantou caminhando em direção ao elevador, enquanto encarava o próprio reflexo em uma parede de vidro que dava vista para a imensa área verde no meio da qual ficava a pista de teste que ninguém conhecia como ela.
O elevador chegou ao nono andar e a mulher entrou, apertando o botão que dava acesso ao primeiro andar, mas antes que as portas se fechassem uma mão de postou entre as mesmas, longas unhas vermelhas se destacaram no metal, e logo a engenharia reconheceu as covinhas de sua chefe, ao seu lado outra mulher, tinha os cabelos cacheados e olhos brilhantes, era sua nova piloto, a mais nova joia e aposta da escuderia.

- Devlin, que bom te ver! Estávamos indo justamente até você. - Saudou a chefe com um tom de voz animado.
- Oi, chefa. - Bateu uma contingência nitidamente exagerada e arrancou uma risada da outra. - Eu estava indo encontrar vocês na sala de reuniões.
- Reuniões? Não pelo amor de Deus! - Murmurou a outra mulher presente. - Eu quero os carros, nada de reunião.
- E agora eu senti total vantagem. - Kira olhou para a mulher e estendeu a mão. - Eu sou Kira Devlin, sua nova engenheira.
- Você é a mulher que manda na minha vida então. - A brasileira respondeu animada.
- E nas vitórias da minha escudeira também. - Marianne completou cruzando os braços sobre o peito. - Estão querendo desfazer o meu sistema perfeito de reuniões, certo?
- Claro que não. – As duas mulheres responderam juntas, abismadas pela simetria e se entre olharam e depois sorriram juntas. – Nós entendemos a necessidade do trabalho burocrático, porém, queremos ver o carro. – Continuou explicando a engenheira.
- Exatamente! – Exclamou a piloto. – Além do mais eu fiquei a semana inteira frequentando reuniões, Mari, acho que estou cansada daquelas cadeiras.
- Mari? – Questionou o chefe com as sobrancelhas arqueadas.
- Sim, é um diminutivo de Marianne, que por acaso é seu nome. – Informou com um sorriso divertido nos lábios e a outra mulher de cabelos cacheados deu uma gargalhada.
- Essa mania dos brasileiros de encurtar palavras. – Meneou a cabeça negativamente.

Kira aproveitou que as duas estavam distraídas na brincadeira e se esgueirou entre elas, indo até o painel do elevador e tocando o número 0 que correspondia a garagem, para onde elas estavam seguindo agora.

- Me desculpe, pai paulista e mãe mineira, como tudo como algumas palavras com angu mesmo. – Encolheu os ombros e a feição desentendida de Marianne não surpreendeu a mulher, de fato ela não tinha como saber do que estava falando, referente aos estados que nasceu no Brasil. – Para onde está nos levando? – Olhou para a engenheira.
- Para a garagem, vamos para os carros. – Virou seu olhar para a diretora do McLaren. – A primeira temporada de um piloto sempre é mais complicada, principalmente quando tem tanto tempo que não pilota carros de corrida, se ela se enfurnar em reuniões nossos resultados demorarão aparecer, eu não estou disposta a passar aperto.
- Eu concordo. Preciso treinar o quanto antes e mais rápido. – viu as portas abrirem e logo as três caminharam para fora. – Isenta a gente dessa reunião, eu sei que você consegue.
- Esperem. – A diretora- chefe colocou a mão direita na porta para impedir que se fechassem e então encarou as duas mulheres em sua frente. – Eu entendo a preocupação de vocês, mas existe um protocolo além de entrar em carros e correr, eu preciso que você exponha seu rostinho bonito nas entrevistas, . E você, Devlin, eu preciso de relatórios. –Trocou o peso do corpo de uma perna para a outra. – Eu vou liberar vocês, mas, não se acostumem.
- Nós agradecemos, chefa. – A inglesa mais uma vez bateu continência. – Aqui dentro a gente vai se garantir. – Girou o corpo mostrando a oficina. – Te daremos vitórias.
- Eu espero mesmo, Devlin.
- Relaxa, Mari. – Piscou. – Eu serei campeã correndo com seu carro.
- Eu não tenho qualquer dúvida, Senna. – Deu tchau para elas e se enfiou no elevador, traçando qual desculpa daria para o não comparecimento de sua piloto e engenheira.

As outras duas seguiram caminhando pela oficina, até chegar a um protótipo estabelecido em um canto durante o caminho, percebeu algumas peças de carro e pessoas trabalhando nela.

– Eu não faria isso se fosse você – Kira parou brutalmente e direcionou sua fala para um mecânico, antes que o homem desparafusasse uma parte do lado direito do motor. – Tire isso aí e você não vai conseguir repor o óleo que sairá. Dependendo do dano, estará perdido. – Ele pareceu não ouvir e então continuou a desparafusar. Não precisou de mais três voltas antes de um óleo negro começar a jorrar furiosamente, sujando a roupa já não muito limpa do barbudo. – Eu avisei, agora trate de limpar a bagunça. – Rolou os olhos e continuou caminhando, chegou a mesa onde queria e colocou os papeis que segurava sobre a mesma. – Eu não sei por que eles ainda no me escutam, idiotas. – Resmungou e puxou uma cadeira tomando seu assento.
- Se sentem intimidados. – Olhou ao redor observando o trabalho dos mecânicos.
- São uns imbecis. – Rolou os olhos e prendeu os cabelos em um rabo de cavalo. – Por que está sentada? Deveria estar se trocando.
- Por quê? Qual o problema com minha roupa? – Olhou para si mesma, enfiando o dedo indicador em um dos buracos de seus jeans.
- Nenhum, se estivesse indo tomar uma cerveja, mas como vai correr, recomendo um macacão. – Foi irônica e franziu o cenho, aquela mulher conhecia bem o jogo.

colocou-se de pé e olhou minuciosamente a engenheira. Os cabelos escuros estavam soltos e sedosos, as unhas pintadas de preto se destacavam ao tocar a armação clara do óculos em seus rosto, o sorriso irônico e forme em seus lábios, mostrou para a brasileira que de fato ela não brincava.

- Sim, senhora chefa! – Bateu continência seguindo o exemplo visto minutos atrás. – Vou trocar de roupa e te vejo na pista de treino.
- Sim, minha voz será a do rádio. – Caçoou e mais uma vez as duas gargalharam.


XXX


tomava um banho animadamente, seus cabelos estavam cheios de shampoo e a espuma branca se acumulava na lateral de sua cabeça. Seu corpo se movia no ritmo de Xandy de Pilares, que cantava “Tá escrito”*, era uma de suas músicas preferidas, claro, quase todas vinha de uma playlist extensa de pagode, seu estilo musical preferido.
As ondas de som a distraíram do pequeno acidente que acontecia, e ela só foi perceber quando se enfiou debaixo da água para enxaguar os cachos. E percebeu que não tinha água.
Mas como assim não tinha água? Dois segundos atrás, ela cantava e dançava e havia água, e de repente ela acaba?
Era um pesadelo.
E ela não sabia o que fazer! Para quem ligaria? Quem chamaria? Será que tinha número de encanador na lista telefônica? Aliás, na Inglaterra eram encanadores que faziam esse tipo de serviço? Céus, estava perdida.
E para piorar a situação, ainda era um pouco desastrada, a probabilidade de escorrer no próprio rastro de sabão era grotesca, adicionaria alguns roxos a mais em sua coleção, parabéns, , você brilhou.
Ainda tentando se nortear, passou a mão direita no rosto, para tirar o excesso de água e então procurar pela toalha. Olhou ao seu redor e encontrou o roupão branco, sobre os pinos do aparador, devagar andou até lá e pegou vestindo-o imediatamente.
Saiu andando devagar pelo corredor que dava acesso até a sala, iria desconectar o telefone da caixa de som, e ligaria para Luiza. O que a fisioterapeuta faria à distância, não tinha a mínima ideia, mas foi a primeira pessoa que conseguia pensar.
Fazia exatamente três semanas que a melhor amiga estava morando com ela, porém decidiu que queria ter sua própria casa para cultivar suas plantas e escutar Barões da Pisadinha* em paz, sem escutar a chata da reclamar que odiava o som.
A Senna mais nova não gostou da ideia a primeiro momento, a casa que a escuderia alugou para sua instalação era enorme, e a fazia sentir-se sozinha, por isso detestava ficar ali sem a companhia de alguém.
Talvez devesse arrumar um cachorro, como se eu fosse conseguir manter o coitadinho vivo, pensou sozinha enquanto desligava o som, discava o número da amiga e colocava o telefone no ouvido, somente para escutar ir direto para a caixa postal.

- Eu te odeio, Luiza. – Murmurou para o telefone, parecia que a outra fosse capaz de lhe ouvir. Rolou os olhos com a cena e permaneceu parada no mesmo lugar, tentando evitar que um desastre acontecesse, caso seguisse caminhando pela casa.

Lembrou que em seu condomínio havia um porteiro, deveria interfonar para a recepção para informar da tragédia, ele lhe ajudaria. Ainda com passos lentos seguiu a direção do local, no meio do caminho o celular em suas mãos vibrou, o nome de gritou na tela e sorriu com a ligação do amigo, apertou o verde e levou o aparelho ao ouvido.

- Oi, !
- Senninha, estou aqui embaixo. – A voz rouca do inglês soou seus ouvidos.
- Aqui embaixo? – Repetiu confusa.
- Sim, . Na sua casa, você disse que eu poderia vir buscar o segundo diário do seu pai, eu te mandei mensagem, você não viu.
- É eu estava.. - A distração fez com que escorregasse na própria trilha de sabão – Ai, caralho! – Murmurou, sentindo o baque das costas contra o chão duro.
- , está tudo bem? – A voz do piloto soava preocupada, e sorriu involuntariamente pelo tanto que ele conseguia ser uma graça. – O que aconteceu? Escutei um barulho.
- Eu escorreguei na trilha de sabão que eu jurei que teria cuidado. – Resmungou irritada. – Acho que tenho idade cronológica de 30, mas a idade da coluna é de 87. Acho que quebrei uns ossos.
- Que trilha de sabão? Eu não estou entendendo nada. – O outro suspirou na linha.
- Eu estou sem água! – A morena protestou, indignada – E eu não faço a ideia do que fazer, como eu chamo um encanador?- Completou, e precisou controlar as risadas ao perceber toda a braveza da amiga, além da cena cômica que se desenhou em sua mente.
- Eu vou subir, abre para mim. – Avisou o inglês e não teve como questionar, mais uma vez era quem aparecia para lhe salvar.
Esforçou-se e colocou-se em pé, para caminhar em direção a porta e destrancar a mesma, mas antes que completasse o movimento, lembrou-se que estava de roupão, e então andou até a lavanderia para resgatar qualquer peça de roupa e passar pelo corpo molhado.
Após se vestir e secar os pés voltou para a sala, onde abriu a porta. Assim que o fez, não demorou meio segundo e apareceu em seu campo de visão.
O homem estava com uma touca azul tampando os cabelos trançados, um moletom branco cobria o tronco e a calça era preta, assim como os tênis em seus pés. Ao seu lado estava Roscoe, com sua coleira escura, no instante que o cão entrou no apartamento deu vários latidos indo em direção a brasileira.
- Foi daqui que pediram um bombeiro hidráulico? – sorriu seguindo caminho do cão, que a esse momento se desmanchava diante dos carinhos da mulher.
- Você sempre chega no momento certo para me salvar. – Resmungou a outra colocando-se em pé e fazendo uma careta ao olhar o mais velho.
- Parece que você tem o dom de se meter em problemas, e eu sempre estou por perto. – Se aproximou mais dela e a envolveu em um abraço, sem se preocupar com o fato dela estar com os cabelos molhados e que isso poderia molha-lo, sorriu e lhe beijou a testa. Senna sorriu com o carinho
- Obrigada, . Você é um cavaleiro. – Abraçou o homem e encostou o rosto em seu peito. – Sabe aquele filme, um príncipe em minha vida*? – Se afastou do piloto para olhar em seus orbes escuros, ele assentiu com a cabeça, não gostava muito do gênero, mas conhecia os clássicos que faziam as mulheres chorarem. – É tipo você comigo, mas não como um príncipe, está mais para um cavaleiro. – Piscou com o trocadilho e gargalhou.
- Por que não posso ser um príncipe? – Arqueou a sobrancelha.
- Um cavaleiro combina mais com você, Sir* . Um cavaleiro negro. – Fez um mini bico e logo um sorriso apareceu na face de , um tão grande e contagioso que fez se perder por alguns segundos na beleza que exalava dos lábios do homem.
- Me diga, cara donzela, como esse cavaleiro pode resolver seu problema? – Fez uma reverência arrancando outra gargalhada da mulher.
- A não ser que você em outra vida já tenha sido encanador, ou que conseguia fazer chover, não pode. – Encolheu os ombros. – Eu preciso tirar essa espuma da minha cabeça, e terminar meu banho.
- Está bem, Auro, vamos ver o que dá para fazer. – Coçou o queixo e logo cruzou os braços sobre o peito. – O que pode ter dado errado? A conta de água está paga? Manutenção feita? – Começou a enumerar o que poderia ter gerado o problema da paulista, para que assim conseguissem uma solução.

Roscoe subiu no sofá e se acomodou ali, vendo os dois adultos conversarem. Hamilton estava parado pensando sobre o acontecimento e por isso não percebeu como os olhos de Aurora esquadrinharam seu rosto e no sorriso gigante que cresceu seu rosto ao ver o piloto morder os lábios.

- Está tudo pago. – Contou, enquanto secava algumas gotas de água que escorriam do couro cabeludo para o rosto. – Eu não sei da manutenção, pois foi a McLaren quem me colocou na cama, eles alugaram, então eu não sei de nada.
- Pode ser isso então, canos podem estourar às vezes, por infiltração ou coisa do tipo. - Sugeriu ainda pensativo. – Vamos avisar na recepção, eles devem conseguir resolver.
- Eu vou, mas e meu cabelo? – Resmungou. – Se ficar muito tempo com shampoo, será que cai? – Caçoou a outra, passando os dedos pelos fios.
- Acho que você ficaria uma gracinha careca. – Lhe apertou as duas bochechas e a Senna lhe deu um tapa no braço.
- Idiota. – Rolou os olhos. – Eu vou procurar um hotel, e deixar uma mensagem para a Luiza
- De jeito nenhum. – Negou com a cabeça. – Vamos lá para casa, tem quarto de hóspedes, você termina seu banho e fica lá até resolverem seu problema. – Informou e imediatamente negou, jamais aceitaria morar com , era dona de seu nariz e poderia conseguir resolver seu problema, não era dependente de ninguém e se tinha algo que sabia fazer era se virar sozinha, estava convicta da gentileza em lhe ajudar, porém entendia até onde limites eram impostos.
- De maneira alguma. – Estava séria. – Eu vou para um hotel. - O tom de voz dela fez com arqueasse a sobrancelha, e soltasse ar. Estava claro que o gênio complicado dela estava aparecendo para jogo, e que não adiantaria discutir e ele era inteligente demais para saber que iniciarem um debate não os levaria a lugar nenhum.
- Está bem. – Encolheu os ombros e ergueu as mãos. – Então vamos lá para casa agora, você termina seu banho, olhamos um hotel com calma e então você vai. – Sugeriu e ficou em silêncio uns segundos, analisando a possibilidade, por fim aceitou o gesto de afeto.
- Está bem, eu vou pegar algumas coisas. - Concordou. - Mas quero que me alimente, estou faminta.



XXX


- Eu quero panquecas, aquelas da última vez estavam incríveis! – chegou à cozinha com uma toalha na cabeça, ela já vestia um moletom preto e estava de meias.
- Você está bem folgada , Senninha. – bebia um copo com água e escorou o corpo na bancada da pia, olhando-a de frente.
- Amigos servem para essas coisas. – Pegou um impulso e sentou-se no balcão, cruzando as pernas como de índios. – Obrigada pelo banho. – Comentou, enquanto pegava o próprio celular e procurava o contato de Luiza para lhe avisar do ocorrido. – Meus olhos estavam ardendo pela espuma. – Estava concentrada no celular e a observava por cima do copo em que bebia água, estava belíssima com a toalha nos cabelos e a postura relaxada, era uma das coisas que mais gostava nela: a simplicidade como conseguia fazer uma quinta-feira se tornar um momento raro.
- Eu imagino. – Colocou o copo na pia e passou água no mesmo, logo deixando no escorredor. – Você quer comer panquecas de quê? – Se deslocou até a geladeira abrindo a mesma, a procura dos ingredientes, vasculhou o interior e percebeu que não tinha ovos, bufou frustrado e olhou a mulher. – De nada, pois não tem ovos.

gargalhou jogando a cabeça para trás, tão alto que fez arregalar os olhos pelo som da gargalhada, sendo impossível não rir pelo som da bela música que parecia.

- Não tem ovos. – Balançou a cabeça negativamente. – Isso é hilário. – Respirou fundo. – Vamos comprar então, onde achamos um mercado?
- Comprar os ovos? – Repetiu confuso.
- O que foi? – Questionou. – Você não vai ao mercado?
- Vou. – Respondeu. – Mas não precisa, eles entregam. Tem uma coisa chamada tele-entrega, Senninha. – Apontou com queixo para o celular que ela tinha em mãos, ela rolou os olhos.
- Vai providenciar os ovos, eu estou com fome. – Reclamou e balançou a cabeça negativamente, havia criado um monstro com e toda a sua folga. – Vamos disputar uma corrida no F1 2020*? – Pediu a pilota, descendo da bancada e olhando ao seu redor, procurando Roscoe.
- Vamos, eu vou pedir os ovos. – tateou o bolso da calça, a procura do celular o encontrou na frente e logo iniciou o pedido. – Se você quiser pode ir para a sala e já ligar o videogame e quando chegar eu faço as panquecas.
- Não, eu espero os ovos. Vou pentear o cabelo. – Anunciou. – Posso por música? – Olhou a televisão e ele assentiu rapidamente, com os olhos voltados para o Iphone onde fazia o pedido ao mercado.

foi ao banheiro do primeiro andar, soltou a toalha do cabelo e os jogou para frente, deixando os pingos de água caírem na bancada, logo molhou a mão com um pouco de creme e então amassou seus cachos, correndo os dedos por entre as madeixas desembaraçando todos os nós.
Após terminar o ritual com os cabelos olhou no espelho, totalmente satisfeita, sorriu e guardou na bolsa o creme que havia levado, pendurou a toalha e então saiu do banheiro.
Na sala não viu , Roscoe ainda estava deitado no sofá com as pernas para cima, fingindo de morto, era uma brincadeira que os dois compartilhavam, a paulista se aproximou do bulldog e fez um carinho em sua cabeça.

- ? - Chamou a piloto da McLaren, não teve resposta, alguns segundos depois, chamou novamente. - ? - Também não teve resposta. Deu de ombros e pegou o celular para conectar na TV e escutar música.

era totalmente movida a música, sempre estava com um fone de ouvido ou cantarolando alguma letra, a música era uma espécie de calmante, mesmo que outras coisas conseguissem distrair sua mente, a música era como o infinito, jamais se acabará.
Sempre podia se encontrar a música, mesmo com ritmos distintos e desafinados, todas as outras coisas podiam ser perecíveis, entretanto, jamais deixaria de achar notas musicais em algum lugar.
Abriu o Spotify e já colocou em sua playlist de pagode para tocar, aumentou o volume da maneira que pode e então soltou o celular de qualquer jeito, esperando para ver qual seria a primeira a tocar. O segredo para ser surpreendida era sempre deixar no aleatório.
Todas as manhãs fazia isso e então a primeira que tocava, era eleita a música que ditava o ritmo de seu dia.

-Ah, vocês sempre me surpreendem. - Murmurou de olhos fechados ao escutar os primeiros acordes da música “Eu mereço ser feliz, de mumuzinho*” povoarem seus ouvidos.
Conforme o cantor iniciava a letra com a melodia animada, abria os braços para cantar junto.
Roscoe latiu quando a mulher começou a cantar e girar com os braços abertos, pulou do sofá e correu até onde ela se encontrava, saltitando ao seu redor.
A brasileira abriu os olhos e olhou o cão que latia empolgado, abaixou e pegou o cachorro no colo.

- Vamos lá, Roscoe, canta comigo. - Abraçou o cachorro e o girou rente ao corpo. - Não pode faltar tempo para a felicidade, Acorda pra vida, não deixe para amanhã que pode ficar tarde... - Cantava alto e dançava com o animal, totalmente animada. Extravasa toda a energia que estava em seu corpo, todo o cansaço e exaustão de treino intenso que vinha participando todos esses dias.
Permitiu-se sorrir em meio ao caos que se encontrava sua vida, sem conseguir identificar qual seria o destino certo e se conseguiria firmar o desejo de seu coração mediante os sonhos que brindavam sua alma.
Cada vez que copiava as palavras do artista brasileiro e dançava com Roscoe no colo, sentia que um caminhão se afastava de seu peito.

desceu as escadas com o telefone em mãos rastreando o pedido do mercado, o estômago já estava reclamando de fome, por isso decidiu apressar a compra para que talvez chegasse mais rápido.
Havia subido para trocar de roupa e colocar uma bermuda, com o aquecedor ligado a casa esquentava e ele sentia calor.
No terceiro degrau já conseguia ouvir o som tocando, reconheceu o gingado do Brasil e também a voz de ilustrando a melodia.
Entretanto, jamais conseguia imaginar que seus olhos captariam a cena que brilhava em sua sala de estar. A Senna estava com Roscoe no colo e fazia movimentos giratórios sobre seu piso escuro, um sorriso aberto e gigante dançava nos lábios finos, os cabelos cacheados embalavam com os movimentos deixando em sua cabeça uma coroa.
Seus lábios se abriram em um sorriso involuntário observando os passos da mulher e como Roscoe latia animado por estar sendo jogado para o alto e depois segurando com firmeza.
Encostou o corpo no corrimão e relaxou o mesmo, apenas para curtir a visão privilegiada que enxergava. Ele não entendia nada que falava na letra da música, porém sentia a energia positiva flutuando com as palavras que saiam da boca de .
Ela parecia uma deusa envolvida em panos transparentes dançando nos tempos antigos e deixando um rastro de homens debruçados aos seus pés, não pela beleza, mas pela Áurea, aquela que a envolvia e fazia com que tudo fosse puxado para perto dela, assim como um imã com metais, era assim que se sentia em relação a ela.
Em um dos giros, encontrou os olhos do britânico olhando-a com curiosidade, parou imediatamente o que estava fazendo e abriu um enorme sorriso para ele, mas nenhum pouco envergonhada por ser pega naquela situação.

- Vamos dançar, . – Continuou girando com Roscoe em seus braços.
- Eu não danço, . – Respondeu ainda encostado onde estava totalmente satisfeito em ver a felicidade da mulher e também do cachorro.
- Se você quiser posso colocar Anita, tenho certeza que com ela você dança. – Parou os movimentos e virou-se para encará-lo, com um sorriso malicioso nos lábios e um olhar divertido.
- Acho que não entendi sua colocação. – Fingiu-se de desentendido, mediante a suposição da amiga.
- Ah, , me conta, vocês tiveram algo? – soltou Roscoe que foi direto para os braços do dono, caminhou em direção à televisão para abaixar o volume da música – Se não tiveram você é um bobão, pois ela é um mulherão da porra.

ignorou o pedido de e seguiu em direção a cozinha, havia verificado que o pedido estava quase chegando, por isso foi separando mais ingredientes para agilizar o desenvolvimento.

- Continuo não sabendo do que você está falando. – Olhou a mulher por cima dos ombros e viu ela se aproximar. – Eu e Anita somos bons amigos, igual eu e você.
- Mentira. – Acusou a outra. – Você não quer confessar que deixou aquele mulherão escapar.
- Deixa de ser conversadora fiado e pega o leite para mim naquela prateleira de cima. – Apontou com o queixo e assentiu com a cabeça seguindo a direção em que ele apontou, por cima dos ombros viu ela se esticar na ponta dos pés para alcançar, um pedaço da barriga ficou exposta por causa do movimento, não conseguiu desviar seus olhos do mínimo pedaço de pele.
- Você está me enrolando, . – Deixou a caixa de leite sobre a bancada ao lado dele, que preparava uma massa em uma panela. – Me conta do seu lance com a Anita.
- Deixa de ser fofoqueira. – Repreendeu. – Como estão seus treinos com Luiza?
- Ela está me matando. – Com as duas mãos pegou impulso e subiu seu corpo pelo balcão. – Ontem ela fez uma série de exercícios de pescoço, que eu achei que seria a mula sem cabeça*, de tanta dor que senti. – A brasileira levou as duas mãos ao pescoço em ilustração.
- Exercícios de fortalecimento, certo? – Virou-se para encará-la. – Aquele com Arnês* na cabeça?
- Exatamente. – Concordou. – Aquilo me destruiu, ficamos trabalhando o pescoço e os movimentos dos braços.
- O trabalho de pescoço é muito importante, ter músculos fortes do maxilar pode reduzir o risco de lesões. - Iniciou a explicação para a mulher. - Acredite ou não, a força do pescoço também tem um impacto no sistema respiratório e na qualidade da respiração, no carro te ajuda em milhares de coisas. Reflexo, equilíbrio e força. Luiza sabe bem o que está fazendo.
- Ela é a melhor, se formou com honra ao mérito, tem artigos publicados, finalizou o mestrado recentemente e no Brasil é muito bem conceituada. – Elogiou a amiga toda orgulhosa. Escutaram o barulho do interfone, secou as duas mãos em um pano de prato, jogou-o sobre o ombro e foi verificar.
- Vocês se conhecem há muito tempo? - Questionou e mordeu o lábio inferior ao se lembrar da história por trás de sua amizade com a capixaba.
- Desde antes que eu me entendesse por gente. – Contou, escutando o barulho da maçaneta abrindo e logo recebendo o entregador com os ovos, ela olhou a tempo de ver os olhos do rapaz brilhando ao se deparar com em sua frente, o piloto com toda educação e gentileza sorriu e trocou algumas palavras com o jovem, assinando em sua blusa e tirando uma foto.

achou a cena extremamente fofa e sorriu sozinha com o gesto, adorava ver como ele lidava com seus fãs e conseguia achá-lo incrível por isso, e também pelo sorriso extraordinário que brincava em sua face sempre que vivia momentos com seus fãs.
fechou a porta e voltou em direção à cozinha com a sacola em mãos.

- São amigas de infância então? - Colocou a sacola sobre a pia, abriu e iniciou a retirada, se aproximou para ajudar.
- Nossos pais eram amigos de infância. – Contou pegando alguns ovos também para ajudá-lo, deixou com que ela fizesse aquilo e destampou o leite para colocar na xícara. - Nós crescemos juntas, o pai dela foi umas maiores inspirações do meu pai, depois ambos começaram a namorar e as mulheres se tornaram amigas e como consequência eu e Luiza. – Abriu a torneira lavando as mãos. – Nós estudamos juntas, brincamos juntas, ela é minha confidente.
- E agora ela veio com você para essa nova etapa?
- Não tinha outra pessoa para eu chamar, mesmo se ela não aceitasse vir como minha fisioterapeuta, viria como melhor amiga. Ela é minha irmã, em todas as minhas memórias a Luiza está presente, nas felizes e nas tristes. – Se afastou da pia indo em direção à prateleira onde estava o liquidificador, para bater a massa, deixou sobre a bancada até o momento de usarem.
- Eu não tenho amigos de infância, acho incrível quem tem, é um laço muito forte e lindo. Como se uma pessoa pudesse olhar além de você. – O tom de voz ficou aveludado e por isso prendeu seus olhos nele tentando identificar outro sentimento nas palavras.
- Por que não tem amigos de infância? – Observou enquanto ele cortava os tomates com total destreza.
- Eu não tive uma infância comum. – Respondeu, e mesmo que estivesse mexendo com os ingredientes das panquecas, ainda conseguia por seus olhos sobre ela. – Cresci em meio a corridas e na escola eu não era muito querido, sofri muito bullying e preconceito, eles não gostavam de ter a minha companhia, as meninas corriam de mim. – gargalhou.
- E olha a ironia do destino, hoje, elas correm atrás de você. – Comentou indo até a geladeira para guardar o leite.
- Pois é. – Concordou. – Eu não me arrependo de nada, pois conquistei tudo que eu desejava, porém precisei passar por momentos difíceis. Falavam da minha pele, do fato de eu ser pobre, que eu não seria ninguém na vida, por causa da minha origem, as pessoas tem muito rancor no coração. – Completou em um tom suave, não havia qualquer indício de alteração, rancor ou peso de valor.
- Como você lidou com isso?
- Pega o azeite para mim, por favor. – Solicitou apontando o armário na parte debaixo, ela assentiu e se postou de cócoras, e abriu as portas, encontrando o azeite, entregou ao britânico e então prosseguiu sua fala. – Meu pai. Ele sempre disse não nos envolveríamos com as pessoas fora das pistas, e quando eu escutasse algo racista deveria ignorar. E assim eu fiz. – Encolheu os olhos e pegou o liquidificador que trouxe. – Eu continuei ganhando e eles continuaram falando da minha cor. Depois eu tive um amigo, que se tornou meu companheiro de time e depois rival, nós chegamos a níveis extremos e por isso e desde então, meu melhor amigo é o Roscoe. – Apontou por sobre os ombros onde o bulldog estava deitado.
- Eu acompanhei a história com Rosberg.
- Eu já te disse para não acreditar em tudo que lê na imprensa. –Lembrou o homem, se referindo a primeira conversa que eles tiveram na festa. – Tem coisas que nós acreditamos serem reais, mas não são, têm amizades e amizades, alguns têm a sorte de ter outros não.
- Eu tive essa sorte então. Luiza estava no meu primeiro dia de aula ela, minha primeira desilusão amorosa, meu primeiro namorado, a faculdade, a fase das drogas e do álcool, naquele fatídico dia, ela estava comigo enquanto nossas mães cozinhavam algo e meu pai xingava o fiscal de prova. – Sorriu fraco e parou de cortar os tomates e olhou para a mulher em seu lado, sentindo o peito explodir em empatia conforme ela prosseguia com o relato. – Quando a notícia veio, ela me abraçou e disse que estaria ao meu lado todos os dias, e que ela faria de tudo para eu esquecer a minha dor. E nós tínhamos apenas sete anos.
- Isso é muito lindo, a empatia das crianças é estonteante. – Recebeu o pano de prato das mãos dela, seus dedos se esbarraram por milésimos de segundos.
- Sim, por isso acredito que sempre foi muito sincero. Nós temos essa ligação desde a barriga das nossas mães, eu amo o pai dela como se fosse o meu, e ela amava o meu pai, como se fosse o dela.
- Você tem lembranças dele? – Não desviou os olhos dela, mesmo colocando os ingredientes no liquidificador.
- Poucas. – Passou as mãos nos cachos, apertando-os. – As que eu realmente me lembro são mínimas, a maioria das minhas memórias em relação a ele foram construídas através de vídeos e dos diários dele. Ele sempre deixava uma tulipa para minha mãe ao sair de casa e quando voltava trazia duas. Quando ele estava em casa, íamos brincar no jardim para minha mãe dormir, ele falava que ela já tinha muito trabalho comigo. Íamos aos jogos do Corinthians e também tomávamos sorvete todos os finais de semana. - A voz de era um sussurro, metade risada, metade dor. – Sabia que eu ainda imagino que ele vai chegar, por diversas vezes me imagino como teria sido minha vida. Até hoje é muito doloroso pensar na morte dele.
- Eu não tenho palavras para dizer nesse momento, , só que seu pai continua olhando por você mesmo de longe, cuidando do seu caminho e abrindo as portas para você trilhar seu destino. - estava olhando para com uma intensidade tão feroz que era como se arrancasse a carne dos ossos e por mais que acreditasse que deveria se sentir desconfortável, sentia-se totalmente acolhida sobre o olhar intenso dele. – Eu não sei a dimensão da dor e me entristeço em saber que tantos passam por ela.
- Você já sentiu seu coração preenchido por tanta dor a ponto de achar que vai se romper? – ligou o liquidificador por exatos dois minutos, tempo que o barulho do eletrodoméstico gritava em sua cabeça quase sufocando seus pensamentos sobre toda dor que sentiu em sua vida.

pensou em sua infância, nas palavras que precisou ouvir sendo somente uma criança. Na dificuldade que seus pais enfrentaram para concluir seus sonhos e que mesmo após estar dentro do esporte a quantidade de pessoas que o menosprezavam pela cor de sua pele. Ser destratado em lojas ou pedir para revistar a sacola quando saia do mercado.
Das noites dormindo no sofá de seu pai, pela falta de uma cama ou de comerem no mesmo prato pela falta de comida. Fora ferido tantas vezes pelo preconceito que jamais acreditou que hoje olharia para a situação como hoje enxergava.
Desligou o liquidificador e só então respondeu.

- Já. E meu coração já foi rompido várias vezes e por pessoas bem diferentes.
- Acho que temos isso em comum. – Pontuou. – Veronica Shoffstall* disse uma vez: e não importa em quantos pedaços o nosso coração foi partido, o mundo não para para que o consertemos, e o tempo não é algo que volte atrás, então aprendemos que realmente podemos suportar... Que realmente somos fortes e que podemos ir muito mais longe depois de pensarmos que não podemos mais.
- Toda vez que acontece algo que me deixa para baixo, eu penso em armas. – secou as mãos com o pano e virou o conteúdo do liquidificador na frigideira. - Armas, quando quebram e são remendadas, podem ficar mais fortes nos locais remendados – O inglês contou - Talvez aconteça a mesma coisa com o coração.

colocou a mão no peito, sentindo seus batimentos acelerarem e então sorriu com um pouco de tristeza.

- Espero que você tenha razão.


XXX


entrou no hotel ao final do dia exausta, ficou conversando com e brincando com Roscoe durante toda a tarde e por isso sequer viu o tempo passar.
Quando deu por conta, já estava anoitecendo e precisava se retirar e resolver o problema que assolava sua casa.
Luiza avisou que estava em um hotel e que um quarto para foi reservado, então a brasileira aceitou a carona de até o local, e esse fora o caminho inteiro dizendo que era um abuso elas pagarem um hotel com tantos quartos disponíveis em sua casa, fingiu que não estava prestando atenção na provocação do homem, e lhe deu um abraço apertado com dois beijos estalados na bochecha antes de sair do carro.
O inglês esperou que ela entrasse para só então arrancar, a brasileira fez seu check in e subiu para o andar destinado ao quarto delas, estava localizado no décimo e os quartos eram interligados por uma porta interna.
Enquanto esperava o elevador chegar em seu local, encostou-se a parede atrás de si, e logo o celular guardado em seu moletom vibrou, na tela viu que era que havia lhe enviado uma foto.
Destravou o aparelho e já clicou logo na notificação, a fotografia abriu e revelou o banco do carro onde um brilho labial estava, ela arregalou os olhos e balançou a cabeça negativamente, tinha deixado seu gloss para trás.
Deslizou o dedo para cima e iniciou a gravação de um áudio: “Põem esse troço no porta luvas na próxima eu pego. Obrigada, Lew, já te disse que você é meu cavaleiro negro”
Não esperou uma resposta, pois as portas se abriram em seu andar e logo ela já estava destravando a porta com o cartão magnético.
Jogou todas as suas coisas em cima da cama e foi em direção a porta que dava acesso ao quarto da melhor amiga, girou a maçaneta ponto de ouvir algo que não lhe agradou.

-Eu estou chegando, e se prepare, pois eu vou enfiar minha mão nos fios do seu cabelo e puxar, para fazer se curvar e então eu vou apertar...
- Que droga, eu sempre chego na hora errada. – interrompeu, a fisioterapeuta segurava o telefone em frente ao rosto e com um enorme sorriso.
- Portas são feitas para bater, Senna. – Luiza soltou em tom arisco, e uma gargalhada rouca ecoou do altofalante. – Eu estava ocupada.

) deu de ombros e também um passo para dentro do quarto e logo se jogou ao lado da melhor amiga, enxergando o namorado da outra pela tela.

- Oi, Lucas. – Acenou com a mão direita e o homem coçou a barba antes de responder o aceno. – Como estão as coisas?
- Tudo bem e por ai? – Rebateu o jogador para a amiga da namorada, enquanto coçava o brinco da orelha esquerda, com o movimento a brasileira enxergou a tatuagem do terço no músculo externo do braço direito. – Tirando o fato de você não perder o hábito de entrar sem bater na porta.
- Eu continuo linda e plena. – Colocou a mão esquerda debaixo do queixo e forçou um sorriso. – Me desculpe empatar vocês, não sabia que estava no telefone.
- Você já pode ir agora, já nos cumprimentou e o Lucas precisa continuar o que estava falando. – Luiza empurrou o corpo da amiga de leve com o pé direito, e gargalhou ainda mais.
- Agora eu quero conversar com meu cunhado. – Pegou o telefone das mãos da ruiva e olhou o jogador de futebol mais de perto. – Luke, assisti a seu último jogo, parabéns foi incrível. – Luiza rolou os olhos com a atitude da amiga.
- Por que o te devolveu mesmo? – Questionou para si mesma e bufou frustrada ao sentir todo o tesão escapulir de seu corpo, por isso se colocou de pé e foi recolher um copo com água, enquanto o namorado conversava com a piloto.

Luiza e Lucas namoram há quase cinco anos. Ele jogava futebol pelo time do Porto, em Portugal, porém, quando iniciou o namoro com brasileiro ainda era somente um jogador da base do Santos, time que Luiza torcia.
Ela estava desenvolvendo um artigo com tema: “Princípios fisiológicos do aquecimento e alongamento muscular na atividade esportiva”.
Desenvolvendo esse estudo junto ao time de futebol, assim se conheceram e pouco tempo depois já não se desgrudavam mais.
Lucas era um cara maravilhoso, tudo que Luiza esperava para sua vida, conseguia transmitir a ele a segurança para formar uma família e esse era dos principais motivos que a faziam não desistir do relacionamento, mesmo com o empecilho da distância.

- Eu embarco depois de amanhã para Londres. – Lucas anunciou e Luiza sentiu o coração aquecer. – Vou ficar até minha temporada começar, já devíamos pensar no que fazer para o Réveillon.
- Eu ainda não sei se estarei aqui, acho que vou para o Brasil, passar com minha mãe, porém, ainda não decidi nada. – apoiou o telefone nas pernas para arrumar o cabelo, ela adorava conversar com o namorado da outra, sempre foi a maior apoiadora do casal e amava ver o estado em que o jogador deixava sua ruiva.
- Decida então,estou chegando em breve. – Luiza voltou a sentar-se na cama. – Eu vou deixar vocês. , sempre bom falar com você. – Despediu-se e acenou, mandando beijos e logo entregou o celular para a amiga.
- Amor, bom descanso e durma bem.– Luiza suspirou e se afastou deixando os dois se despedirem.
- Eu te amo. Não vejo a hora de te ver. – Respondeu a mulher.- Não durma tarde e não se esqueça de beber muita água.
- Está bem, farei isso. Eu também te amo muito, muito mesmo. A gente se vê em breve, amor. – Luiza beijou a tela do celular e logo a chamada foi encerrada.
- Desculpe atrapalhar. – encolheu os ombros envergonhada.- Eu não sabia que estava conversando com ele.
- Tudo bem, mana. – Conectou o celular no carregador e se ajeitou sobre os travesseiros da cama. – Eu já estou acostumada com essas chamadas de vídeo e confesso, cada dia que passa fica mais cansativo. – Desabafou.
- Eu entendo, amiga. – Se jogou ao lado dela, encaixando um dos travesseiros entre as pernas. – Estão nessa rotina tem dois anos, sei como é cansativo.
- Muito, mas eu não quero falar sobre. – Olhou a cacheada ao seu lado que assentiu, conhecia muito bem a amiga para entender que havia momentos em que ela não gostava de falar e um dos motivos que a faziam se dar tão bem, era justamente o entendimento mútuo. – O que rolou com a água da casa?
- Não faço ideia, eu já reclamei e mandei olharem, e confesso que já estou com vontade de me mudar. – Anunciou coçando os olhos. – A casa é muito grande, preciso algo menor.
- Eu achei uma casa também. – Contou. – Vou esperar o Lucas chegar e então me mudarei.
- Que bom que ele está vindo. – girou o corpo ficando deitada de lado e apoiou a cabeça na mão. – Eu até falei com o hoje, vou iniciar a procura de uma casa menor também, não quero ficar sozinha naquela casa enorme.

Luiza cruzou as duas mãos sobre a barriga e olhou para a amiga, os olhos eram condenadores, já sabia que viria algo.

- Legal a amizade de vocês. – Iniciou com cautela.
- Sim, ele é o máximo. – Um sorriso aberto brincou em seu rosto, ao se lembrar da camaradagem que o inglês proporcionava a ela. – Sempre tão disposto a me ajudar, parece meu irmão mais velho.
- Irmão? – Arqueou a sobrancelha. – Você olha para ele e vê seu irmão?
- Não gostei do seu tom de voz, o que está insinuando?
- Nada. – Levantou as mãos, rendida. – Só disse que vocês são legais um com o outro, nesses dias que estou aqui, vejo que vocês conversam o tempo todo, trocam mensagens e até ligação de vídeo.
- Sim, ele é muito preocupado, vive querendo saber se estou precisando de alguma coisa. – Ainda tinha um sorriso nos lábios. Era mágico ter ele por perto, sempre tão atencioso e preocupado, e ainda assim não pegajoso. Era exatamente como ela imaginava ter um irmão, aquela relação divertida e leve, que fazia o dia parecer ser composto de minutos e não horas, como se quando estivessem juntos, tudo fosse capaz de passar mais rápido. – Tem sido um dos grandes presentes do meu pai.
- Entendo. – Luiza meneou com a cabeça. – Que bom que você tem um amigo assim, para continuar nessa jornada você vai precisar de apoio. – Concluiu e se levantou da cama, caminhando até uma bolsa que estava em cima da poltrona.

A Senna viu que Luiza mexia em alguns papéis e então sentou-se para esperar o que viria.

- O que é isso?- Franziu o cenho.
- Montei um cronograma novo. – Andou até a mesa com uma pilha de papéis, arregalou os olhos. – Nós vamos intensificar tudo focando nos treinos de inverno*.
- Como se você já não estivesse me matando, lentamente.
- Vou te explicar como vai funcionar e nós vamos iniciar amanhã. – Sentou-se com as pernas dobradas e imitou seu gesto, dando espaço para os papéis serem espalhados pela cama.
- Eu vou pedir comida, aproveitar que isso aqui vai demorar. – Esticou –se para alcançar o celular no bolso. – Comida mexicana?
- Nem pensar, marquei uma nutricionista para segunda feira, você não vai comer carboidratos essa hora da noite, está suspenso, a partir de agora somente coisas leves. – Tomou o celular de sua mão, para ela mesma escolher o jantar. – Vou pedir: Macarrão de legumes e suco natural. – Selecionou o item e fez um mini bico, mas concordou, tinha enfiado a cara em panquecas mais cedo, Luiza não precisava saber disso. – Nós vamos cortar a cerveja também, sem álcool até o final dos treinos de inverno.
- É o que? – Arregalou os olhos. – Mês que vem é Réveillon, eu quero ir para o Brasil, como vou para o samba da lapa, sem tomar cerveja, me dá um tiro, vai doer menos. – Estava perplexa e quase ofendida, ficar sem tomar cerveja em seus pagodes era um sacrifício gigante, doía muito, e suas origem da zona leste de São Paulo reclamava.
- Água, bom que você se hidrata. – Erguer os olhos o suficiente para captar o olhar mortal que lhe fora lançado, ela, entretanto não se importou, apenas sorriu.
- Eu te odeio.
- Ok. – Deu de ombros. – Agora o seguinte, terão post –its espalhados pela casa, e quando você se mudar, colocarei novamente.
- Você é a louca dos post-its. – Resmungou ainda irritada.
- Eu sou organizada, e você sabe bem como é preciso termos foco para traçar nosso objetivo. – Uniu as duas mãos como se explicasse para uma criança, era uma de suas qualidades didáticas. - Comunicar através da cor é uma maneira rápida de enviar uma mensagem. E utilizar uma grande variedade de cores é a forma de sinalizar ao cérebro para mudar o foco, oferecendo uma representação visual para passar de uma tarefa à próxima. Então vamos determinar o seguinte: vermelho para o mais urgente, amarelo para talvez amanhã e azul para o que pode esperar.
- O que será vermelho? – Resgatou um papel para ver o que estava escrito.
- Seus horários de treino, sono e alimentação. Está tudo explicado aqui. – Sacou um papel A3 e abriu, revelando uma planilha colorida para todos os dias da semana. – Você acordará todos os dias às sete da manhã e dormirá todos os dias às dez horas. Nada de dormir menos de oito horas por dia. E nós vamos iniciar o treino cedo, com uma caminhada leve, ou um fitdance*. – sorriu com a sugestão da dança, já que adorava. – Depois seu treino será intercalado em membros inferiores e superiores, e demais departamentos, como simulador, os treinos de reflexo. Eu vou te mostrando na prática.
- Está bem, isso será até os treinos de inverno?
- Será constante, mas eu vou intensificar sua preparação física para que você não fique debilitada depois do treino. Nós sabemos como o desgaste físico é enorme, se você não estiver preparada ao necessário, não vai conseguir sair do carro. Meu objetivo é te deixar apta para correr por horas sem maiores danos. – sorriu e concordou com a cabeça.

Nos diários, seu pai falava exatamente sobre isso. Como a preparação para uma corrida ia além de tudo que se podia enxergar, havia uma batalha para se enfrentar, com corpo, mente e alma. Ela devia se empenhar para alcançar resultados e por isso sabia que sacrifícios viriam, e por mais difícil que fosse estava se preparando para todos eles.

- Está feito então, seguirei suas ordens.
- Eu sei que não será fácil, mas nós sabemos que você vai conseguir.
- Obrigada, Luiza, você é fodastica. – Esticou os braços e enroscou no pescoço da outra, trazendo-a para um abraço rápido.
- Já ouvi, falar.
- Eu te amo, Zanotti.
- Eu também te amo, Senna.

Na porta, mais uma vez e a exemplo do que fazia sempre, Ayrton estava com os braços cruzados sobre o corpo. Observando as duas mulheres gargalharem, Ayrton sentiu o peito aquecer com as risadas animadas que preenchiam o quarto.
Ainda era difícil olhar para elas e ver que já não eram mais as garotinhas que deixou, haviam se tornado fortes e corajosas, assim como ele e Henrique um dia sonharam para as duas.
Sabia que não havia necessidade de acompanhar cada passo de , que ela estava na direção certa e fazendo exatamente o que estava escrito para que fosse feito.
Toda vida, ele queria estar ali, durante toda a sua vida o progenitor cuidou dela. Caminhou ao seu lago e protegeu de tudo que conseguia, e agora não seria diferente.
Escolheu as melhores pessoas para compartilhar da caminhada dela, mas seria ele a ir à frente do batalhão, liderando a guerra no qual sabia, que sua preciosa seria a vencedora.

Glossário:

Dramin:O Dramin é um remédio que tem dimenidrinato na composição, indicado para o tratamento do enjoo e vômitos.
Barões da Pisadinha* Os Barões da pisadinha são uma banda de origem baiana e nordestina que possuem um ritmo muito quente e animado que tem atingido o Brasil inteiro.
Um príncipe em minha vida* Um filme de romance.
Sir Lewis Hamilton* Lewis Hamilton recebeu o título de cavaleiro da Ordem do Império Britânico e passará a ser chamado de "Sir", segundo a lista internacional dessa honraria para o Ano Novo do Reino Unido.
Jogo f12020* OFICIAL DO FORMULA ONE WORLD CHAMPIONSHIP™ DE 2020
Mula sem cabeça* A mula sem cabeça é uma das lendas mais populares do folclore brasileiro e fala de mulheres que foram amaldiçoadas com a capacidade de converter-se em uma mula que possui labaredas no lugar da cabeça.
Arnês* Proteção de cordas que era inicialmente usado em cavalos, mas para treinamento físico, se encaixa um peso na corda para exercer o movimento de pescoço.
Veronica Shoffstall* Veronica Shoffstall é uma autora americana do poema "After a While", escrito em seu livro de formatura.
Fitdance* O Fit Dance é um movimento que misture coreografias de dança com exercícios físicos capazes de gastar calorias e definir os músculos. Muito parecido com a famosa Zumba, o Fit Dance é recente em nosso mundo, tendo sido criado há pouco mais de três anos. O sucesso do movimento surgiu através de vídeos que foram colocados no YouTube, onde dançarinos executavam e ensinavam passos de danças com alguns exercícios físicos muito fáceis, chamando a atenção de milhares de pessoas.
Treinos de inverno* Treinos de inverno na fórmula um é o início da temporada. Geralmente são feitos no início do ano e é quando os carros vão para as pistas oficialmente pela primeira vez.

Capítulo 03

desceu do avião ajeitando sua bolsa sobre o ombro, mas sentiu o mesmo reclamar do peso, já que depositou dentro do receptáculo uma quantidade de coisas maior que o recomendado.
Deixou grande parte de suas roupas em Londres, não precisaria delas, já que em sua grande maioria eram agasalhos firmes e grossos, e no Brasil, estavam no verão. A segunda coisa que ela fez quando desembarcou foi se livrar da blusa de frio, para sentir o sol de São Paulo queimar sobre sua pele.
De longe a piloto conseguiu ver a silhueta de Bruno Senna, seu primo mais velho e também grande amigo. O homem estava encostado no carro a sua espera.
Assim que seus olhos encontraram a mulher, descruzou os braços do peito e andou até ela, sorriu e se jogou sobre os braços do ótimo.

-Você está chorando, ? - Murmurou o homem em meio aos cabelos cacheados da prima.
- Não me julgue, estou de TPM. - Rebateu ainda apertando os braços sobre o mais velho. - E não lembro de qual foi a última vez que te vi.
- Foi no seu aniversário. - Soltou os braços da cintura dela. - Quando você tomou um shot de tequila com cada convidado que aparecia, e no final da noite ainda…
- Não me lembre disso, eu fiquei um mês sem beber depois daquilo. - Resmungou e Bruno riu, enquanto pegava a bolsa e colocava dentro do carro.
- Você acha isso muito? - Arqueou as sobrancelhas quando tomou o assento de seu carro.
- Na época, eu achei. - Contou. - Mas agora eu bati esse recorde, Luiza me deixou sem cerveja até os treinos de inverno.
- É importante mesmo. - Deu seta, engatou a primeira marcha e saiu do estacionamento da pista de pouso. - Vocês têm treinado pesado?
- Sim, a diferença de um mês para cá já é enorme, eu consigo treinar no simulador e na pista com mais facilidade. - Explicou sorridente. - E por aqui, como estão as coisas?
- Eu cheguei de Mônaco ontem. - O primo a olhou enquanto virava a direita. - Sua mãe está lá fazendo almoço para você, a vó e o vô estão lá também, só às meninas que ainda não.
- Estou com saudades de todos. Ficar longe da família não me agrada, fico preocupada com minha mãe.
- Sacrifícios são necessários, . - Colocou a mão direita sobre a coxa da mulher. - Acalme seu coração, sua mãe está bem. - apenas sorriu e então colocou sua mão por cima da de Bruno, sentindo o carinho dele.

Sua família paterna não era muito grande. Seus avós tiveram somente três filhos, sendo Vivianne, Ayrton e Leonardo, mas mesmo com poucos membros os momentos em que se reuniam eram sempre divertidos e emocionantes, principalmente pelo fato dos avós sempre ordenarem a presença de todos, a falta de algum familiar era inadmissível, muita coisa mudou depois da morte do filho do meio de Milton e Neyde.
Apesar da vida corrida de todos, os filhos e netos sempre conseguiam tempo para se reunir, para saciar o desejo dos dois mais velhos. Vivian mesmo após a morte do marido jamais se afastou da família do mesmo, permaneceram morando na mesma casa e compartilhando as mesmas lembranças nos dias que seguiram, esse foi o motivo de ter se tornando uma mulher extremamente ligada a família.
Assim que Bruno estacionou o carro, Vivian já esperava na porta e abriu a porta de qualquer forma para logo abraçar a mulher que tinha lágrimas nos olhos.

- Ah, minha filha. – Murmurou em meio ao seu choro, apertando ainda mais sobre seus braços. – Quanta saudade.
- Também senti, mãezinha. – também já chorava, o calor do corpo de sua mãe a confortava. – Como você está?
- Estou esperando você me dizer que desistiu de correr e que voltou de vez. – Desfez o abraço da filha e olhou em seus olhos, procurando a confirmação do que disse.
- Eu não desisti dessa loucura, dona Vivian, mas você pode voltar para Londres comigo e irmos morar juntas de novo. – Respondeu com calma e com os olhos firmes na mãe, que balançou a cabeça negativamente constatando que sua filha continuava com a mesma determinação.
- Eu não quero morar no frio. – Enlaçou seus dedos com a mais nova e saiu puxando para dentro de casa. – O almoço está quase pronto.
- Cadê o vovô e a vovó? – Correu os olhos pela sala.
- Sua avó está com a Viviane, foram buscar a Paula e seu avô está deitado, disse que desce quando tudo estiver pronto.
- Eu vou tomar um banho antes de comer então. – Sorriu colocando um cacho atrás da orelha. – Eu te amo, mãezinha.
- Eu também, filha. –Lhe deu um beijo na bochecha e saiu para a cozinha.
- Eu vou comprar cerveja, quer algo? – Bruno deixou a bolsa de sobre o sofá e lhe ofereceu um sorriso sacana, por saber que a prima não estava bebendo e ele se deliciaria de cervejas bem geladas naqueles dias.
- Eu te odeio. – Estreitou os olhos e fechou a expressão, resgatando suas coisas e subindo a escada, escutando a gargalhada alta de Bruno no andar de baixo.

Abriu a porta de seu quarto com cuidado e não teve qualquer surpresa ao perceber que nada estava diferente. Vivian provavelmente arrumava o quarto da filha todos os dias e sorriu ao sentir o cheiro do limpa piso que a mãe adorava usar.
Fechou a porta atrás de si e deixou as coisas da viajem de qualquer jeito no canto do quarto, se arrastou e então jogou-se na cama, ouviu o barulho das molas reclamarem. Estava cansada do voo longo e queria muito dormir, mas sabia que só realizaria aquela proeza depois que abraçasse a família toda.
Seus olhos repousaram por breves instantes antes de criar coragem para se levantar e ir em direção ao banheiro tomar banho, enquanto se despia , o celular em seu bolso apitou, resgatou o aparelho e viu que Luiza tinha mandado mensagem, perguntando se havia chegado, ao responder a melhor amiga, percebeu que também mandou mensagem.

: Senninha, quando chegar me avisa.
Faça uma boa viagem e aproveite sua família.
Beijos.

Senninha: Oi, Lew!
Acabei de colocar os pés dentro de casa, estou indo tomar banho para almoçar.
Como você está ai?
Beijos.


Bloqueou novamente o aparelho e se enfiou debaixo da água, para se banhar e então encontrar sua família.

XXX


Do outro lado do mundo, um abriu um sorriso nos lábios ao receber a resposta da brasileira. Ele estava em um Iate na França, com Brianna. Não gostaria de ter ido aquela viajem, mas fora vencido pelo cansaço e um pouco de diversão não faria mal a ninguém.
Iria dar umas voltas de jet-ski, beber uma boa cerveja e aproveitar seu descanso merecido, após mais uma cansativa e vitoriosa temporada. Estava na proa do Iate quando a mensagem de chegou, Brianna estava deitada em sua canga tomando um pouco de sol, a inglesa vivia reclamando que precisava ficar bronzeada de maneira natural.

- Baby, pega espumante para mim? – Pediu a modelo abaixando a haste dos óculos para olhar o piloto. , porém pareceu não ouvir estava digitando freneticamente no celular e parecia totalmente alheio em tudo ao seu redor, apenas sorria com a mensagem que recebeu de .

: Minha mãe está fazendo estrogonofe.
Quando você vier ao Brasil, vou pedir ela para fazer para você.
É incrível, você vai amar.
Não pera, você não vai amar. É com frango.
Droga, acho que você vai ter que comer farofa de ovo.

: É verdade, Senninha, eu não vou amar o estrogonofe da sua mãe. Farofa de ovo? Que tipo de comida é essa?..


- . – Brianna chamou mais uma vez, nenhuma resposta. – . – Tentou pela terceira vez, franziu o cenho ao perceber que ele não se moveu. – . – Tirou por completo os óculos, olhando bem para a feição dele, que sorria ao olhar para o telefone, como uma criança quando ganhava o presente que pediu no natal. – ! – Gritou e deu chute nas pernas do britânico e só assim conseguiu chamar sua atenção, fazendo com que ele a olhasse um pouco assustado. – Caramba, estou te chamando há séculos.
- Desculpe, Bri. Me distraí – Mostrou o celular. – O que está acontecendo?
- Percebi, o que é tão interessante nesse telefone? – Ergueu o corpo deixando o peso sobre os cotovelos e estreitando os olhos para o homem.
- Descpulpe.. – Respondeu com simplicidade deixando o telefone ao seu lado e se aproximando mais da modelo. – Você me pediu algo?
- Eu pedi um pouco de espumante.
- Desculpe, eu pego agora para você. – Respondeu e se colocou de pé caminhando até o pequeno bar, para encher a taça da mulher.

Brianna olhou o homem se afastar por cima do ombro e voltou-se para o celular que havia ficado, estava bloqueado, mas ainda assim ela conseguiu ver na tela as notificações do WhattsApp, onde várias mensagens de se aglomeravam.
Olhou mais uma vez para ver onde ele estava, e ao constatar que ainda estava mexendo com as bebidas. Ela limpou as notificações da tela para que ele não visse que respostas haviam chegado, também bloqueou o celular e deixou a tela virada para baixo.

- Prontinho, aqui está. – voltou com a taça em mãos e também uma cerveja para si. – Eu coloquei morango, sei que você gosta.
- Você é maravilhoso demais para ser real. – sorriu e Brianna segurou em seu queixo para beijá-lo, fora apenas um selinho e então o piloto sentou ao lado da ruiva. – Qual festa você vai querer ir no Réveillon? Precisa decidir para que eu pense em uma roupa.
- Como assim qual festa? Eu disse a você que eu passaria com minha família, e que depois eu levaria meus sobrinhos na Disney. - empurrou a haste dos óculos para mais perto do rosto e então cruzou os braços sobre o joelho.
- Você me disse, mas eu achei que mudaria de ideia e iriamos arrasar em algum tapete vermelho desse mundo. – A modelo protestou e balançou a cabeça negativamente. - Eu não estou no clima para festas, Brianna.
- Como assim não? Você é , você é sinônimo de festa. O que está acontecendo? Você está estranho nas últimas semanas, não se parece com meu .
- Seu ? – Arqueou as sobrancelhas para a mulher e está sentou-se por completo, bebeu mais um gole de seu espumante e depois colocou a taça ao seu lado.
-Sim, meu . Ou você já se esqueceu de que frequentamos diversas festas e eventos juntos, você sempre adorou estar nesses lugares. E agora você está todo recluso e quer ficar assistindo séries no Netflix. – Apontou e não respondeu.

O Inglês sabia que estava diferente, nas ultimas semanas seu passatempo preferido era mexer com suas músicas, tocar um pouco de violão, brincar com Roscoe e depois de fato acabar assistindo alguma série nova. Não era um comportamento padrão já que Brianna estava correta, sempre fora um homem baladeiro e que adorava frequentar festas, às vezes mais de uma na mesma noite.
Não sabia exatamente qual foi o ponto em que as coisas começaram a se modificar em sua mente, talvez fosse a idade chegando ou talvez fosse outra coisa que ele não sabia nomear, ou que provavelmente não queria pensar, já que sabia que tudo mudou após a chegada de , onde ele começou a enxergar tudo ao seu redor de maneira diferente, e começou a apreciar esses momentos mais tranquilos.
estava tão focada na fórmula um, em treinar e melhorar seu preparo físico e tudo que poderia desenvolver uma melhora para quando chegasse a hora de iniciar a temporada, que nada tirava seu foco. A única coisa que às vezes topava fazer era assistir uma série qualquer e depois ter uma ótima noite de sono. Brianna não, essa gostava da badalação e queria viver de festa em festa, e em outro momento o piloto jamais reclamou, somente agora, que ele percebeu que queria estar perto de e que sentia prazer em fazer a mesmas coisas que ela, na verdade fazer coisas com ela.

- Eu não sei, Bri. – Encolheu os ombros. – Eu não sei. – Não sentiu vontade em prolongar aquela conversa, somente deixou a mesma morrer.

Briana mordeu o interior da bochecha e respirou fundo tentando controlar a raiva absurda que cruzou seu corpo, jamais esteve tão distante de como naquele momento, os pensamentos e desejos sempre casaram e por causa desses fatores aquele não relacionamento dava tão certo e eles permaneciam se vendo nos últimos anos.
Agora nada fazia sentido e ela odiava estar tão distante dele, mesmo que seus corpos estivessem perto, e precisava descobrir rápido o que estava acontecendo para que interferisse, e ele voltasse para ela.
A modelo girou o corpo para pegar a taça de espumante e por isso foi capaz de ver quando pegou o celular e olhou a tela bloqueada, e ao perceber que não havia mais mensagens de estampadas sobre a visualização previa, ele bufou frustrado.

XXX


estava deitada na grama. Os cabelos cacheados estavam soltos e se embolavam com os fiapos verdes, os olhos estavam fechados curtindo a escuridão daquela noite de 31 de dezembro. O vento que corria por São Paulo era pouco, somente o suficiente para não permitir que esquentasse ao extremo, e ao mesmo tempo deixava como que os habitantes da cidade se sentissem confortáveis.
Mesmo sendo uma data importante e para alguns mostrava necessidade de roupas requintadas, permanecia da maneira que gostava, com os pés descalços. O vestido amarelo batia em sua coxas e era confortável o suficiente para que pudesse cair na roda de samba mais tarde.
Acima de sua cabeça o céu estava estrelado e blindado por uma luz noturna belíssima.

- Desde pequena você sempre gostou de ficar deitada na grama. – escutou a voz de sua avó, e por esse motivo abriu os olhos. A mais velha tinha sentado em um banco que ficava localizado no jardim e que estava bem ao lado de onde a cacheada escolheu deitar.
- Eu gosto mesmo, me traz sensação de liberdade. – Respondeu e então ergueu o tronco, apoiando o corpo nos cotovelos e se sentou aos pés da avó. – E gosto ainda mais de olhar para o céu.
- Hoje ele está particularmente bonito. – Dona Neyde pontuou levantando um pouco a cabeça e observando as estrelas iluminando o céu. – Por muitas vezes eu gosto de ficar sozinha e olhar para o céu estrelado, me atrevo a procurar entender as estrelas, claro que sem qualquer sucesso, então eu só me junto a elas e deixo que elas me iluminem.

sorriu fraco e olhou para o céu mais uma vez, sentindo um pouco da brisa noturna tocar seu corpo.

- Eu me sinto acolhida por elas, como se elas apreciassem minha companhia. – Completou a mais nova.
- Por falar em companhia, eu sinto que você está fugindo de mim, . – Neyde disse com total franqueza e a neta balançou a cabeça negativamente, mas foi incapaz de olhar para a avó.
- Eu não queria que você achasse que estou te evitando, vovó. – Iniciou. – Eu só não sabia o que dizer para você, explicar os meus motivos para decidir fazer o que eu escolhi.
- Eu não quero que me explique seus motivos, querida. – A senhora deu um sorriso e apertou as duas mãos em seu colo, unindo-as. – Eles são só seus, não cabe a mim cobrar qualquer explicação. Você entende os motivos que te fizeram tomar essa decisão?

Essa era a pergunta que valia um milhão de dólares, a única que se esforçava todos os dias para responder, e que mesmo que tentasse, as respostas pareciam não querer frequentar sua mente.

- Eu não sei, vovó. – Confessou entre suspiros. – Eu acreditei que meu lugar era no instituto, que deveria cuidar das crianças, prover educação e saúde, levar tudo que meu pai acreditava adiante. Mas eu nunca fui feliz de verdade, sempre faltou alguma coisa em meu coração. Eu queria ser como ele, queria correr como ele. Eu ainda me lembro da sensação de pilotar, com o meu pai, depois com o Bruno, e quando minha mãe percebeu que eu queria fazer isso, ela ficou com medo e eu podia sentir isso. Então eu só abri mão, e ela ficou tão feliz, mas eu nunca me encontrei depois daquilo
- Foi a mesma coisa com seu pai. – Neyde se pronunciou após alguns segundos e então virou seu rosto para encará-la. – Houve uma época em que ele voltou para o Brasil. Não tínhamos mais como mantê-lo fora e ele veio trabalhar no negócio da família. No momento em que ele colocou os pés no Brasil, meu coração se encheu de alegria, ele estava em meus braços de novo. Perto de mim, em casa. Nos dias que seguiram, o Ayrton parou de viver, ele somente existia. Os olhos não tinham mais brilho, o sorriso não era aberto, ele parecia um morto vivo. Que acordava por obrigação, que vivia por obrigação. Quando voltou a correr, a vida voltou para seu corpo, trouxe alegria e eu o via sorrir todos os dias. – Contou um enorme sorriso e acompanhou. – Algumas pessoas dizem que não existe destino, que as pessoas podem ser o que elas quiserem. Eu discordo um pouco, acredito que todo ser humano tem uma vocação, tem um propósito de vida. Seu pai descobriu o dele na fórmula um, talvez você descubra o seu lá também.
- Você não está chateada? Digo, porque eu estou me arriscando e cometendo uma burrice indo para essa loucura, que eles chamam de esporte. – repetiu as mesmas palavras que ouviu de sua mãe quando contou a decisão que havia tomado. – Eu acreditei que a senhora estaria irritada, porque meu pai morreu e eu posso morrer também.
- Mas é claro que você pode morrer. – A senhora deu uma gargalhada. – Basta estar vivo para se morrer, minha querida. – levantou da grama e sentou-se ao lado da avó, para conseguir tocá-la com mais facilidade. – Eu nunca vou conseguir expressar a dor que é perder um filho, nada no mundo conseguiria explanar de maneira correta. Faz trinta anos e eu ainda olho para porta querendo meu menino de volta, e até que Deus me permita estar nessa terra, eu sentirei essa saudade. Eu jamais desejo para qualquer mãe essa dor, mas nós estamos sujeitos a isso todos os dias. Alguns morrem ao cair da escada, outros de câncer, alguns de velhice e alguns morrem correndo na fórmula um, não tem como saber a nossa hora.
- Eu sinto que meu pai está me protegendo. Parece que a presença dele me acompanha aonde eu vou, e por mais bizarro que seja, eu me sinto segura dentro do cockpit*. – Confessou com os olhos fechados, sentindo a liberdade de pela primeira vez contar a sensação que percorria seus poros.
- Filha, somente trilhe seu caminho. – Neyde pegou a mão da neta e colocou entre as suas. – Os pais sempre querem dizer aos filhos o que fazer, nós não queremos que vocês sofram, se machuquem e comentam os erros que nós cometemos. Com a experiência da vida, nós entendemos que isso é impossível. Não tem como impor que vocês sejam o que nós queremos, cada ser humano precisa voar com suas próprias asas, descobrir seu lugar no mundo. – Olhou para a neta e sorriu. – Seu pai foi o que ele quis ser, e você pode ser o que quiser também. Eu não estou chateada com você, oro todos os dias para que seu pai te proteja, para que ele segure o volante com você, que te diga exatamente onde você deve ir. – Conforme ela falava o coração de acelerava em seu peito, liberando um gatilho que fazia todo seu corpo entrar em êxtase, sucumbindo de emoção. – Eu quero que seja livre, . Quero que seja feliz. Se você entende que é lá que vai ser feliz, então seu lugar é lá. Assim como foi o do seu pai.
- Eu só queria estar mais perto dele. Queria ter mais lembranças. Queria estar tendo essa conversa com ele, escutando o que ele me diria e se me apoiaria. Eu queria que ele se orgulhasse de mim. – Uma lágrima escapou dos olhos. – Estão dizendo que eu posso envergonhar o nome dele, que posso sujar aquilo que ele construiu, mas não é por qualquer outra pessoa que eu quero estar lá, é por causa dele. Para que ele sinta orgulho de mim. – A primeira lágrima foi somente o estopim para que várias descessem, liberando mais um pouco do bolo que morava em sua alma.
- Querida. – Neyde soltou as mãos da mais nova e girou o corpo no banco, ficando de frente para ela, podendo olhar em seus olhos, os olhos que eram idênticos ao filho que partiu. – Segundo vários especialistas Ayrton Senna foi o melhor piloto que já existiu. O mais rápido, o mais desafiador. Fez coisas inimagináveis, conquistou recordes, levantou troféus e acumulou pódios. Seu nome está gravado na mente de cada brasileiro, todos que o viram correr sentiram alegria de pertencer ao mesmo país que ele; o tempo passa e ele jamais é esquecido. Mas, todos os pódios, as voltas mais rápidas, o dinheiro e os três títulos mundiais, não se comparam a você. – Neyde secou as lágrimas que corriam sobre as bochechas da neta. – Para muitos, o maior legado do Ayrton se resume ao extraordinário piloto que foi, para outros são os recordes. Todos estão errados, . O maior legado do seu pai, o grande Ayrton Senna, é você. Ele não amou mais o três mundiais do que amou você, não chorou pelos recordes como chorou ao te ver nascer. Ele está orgulhoso de você. No lugar que ele estiver, seja onde for, está orgulhoso do legado que você é.

fechou os olhos e sorriu, logo puxando o corpo da avó para perto e então iniciaram um longo abraço. Os braços da avó paterna rodearam os ombros de trazendo a neta para seu peito e assim a Senna mais nova apoiou sua cabeça no peito da avó. Neyde foi tomada pelas lágrimas quando sentiu os dedos de apertarem sua cintura, era uma emoção forte demais para ser controlada, e não conseguia explicar o motivo de estar tão emotiva, sempre conversava com a neta sobre o pai, lhe contando histórias da vida do filho.
Mas não era como agora, parecia que Neyde não estava segurando a neta nos braços e sim o próprio filho.
Como se tivesse sido transportada para o passado.
Muitos anos antes naquela mesma casa, naquele mesmo jardim Neyde e Ayrton tinham a mesma conversa, o filho se debulhava em lágrimas no colo da mãe, expondo seus sonhos e pedindo o apoio da genitora e está não lhe virou as costas, lhe disse para ser livre e feliz. Pelo visto a história estava se repetindo, e ela não sabia qual seria o final da vida de , e só restava a ela pediu ao grande Ayrton Senna, a proteção de sua .
A cacheada também chorava, estava aliviada. Desde que tomou a decisão de enfrentar a todos e ir correr não foi capaz de enfrentar os avós, de dizer para os dois que ela estaria onde seu pai morreu. Em seu interior ela não esperava apoio, esperava que eles a pedissem para não ir, para que voltasse a sentar-se à mesa do instituto e vivesse ali até o final de seus dias. Fora surpreendida da maneira mais incrível que poderia ser, aquela mulher que chama de avó era um ser humano grande e puro, que conseguia enxergar acima de todos os paradigmas. Era por isso que seu pai foi um grande homem, ele tinha uma grande mulher lhe apoiando.
Na cabeça da mais nova as coisas começavam a se tornar vivas e iam se encaixando conforme as memórias fluíam, era para estar acontecendo, não havia mais dúvidas em seu interior que fora levada para aquele esporte por uma força muito mais que a dela, por motivos que as pessoas não entendiam, e muito menos ela. só escolheu fechar os olhos e ser guiada, mesmo que não soubesse o caminho, sabia quem a guiava e ela confiava nele com toda sua força.
Acima de suas cabeças uma chuva de fogos explodiu e pintou o céu de dourado. As duas ergueram os olhos e acompanharam o show incrível que dançava sobre elas, enfim mais um ano se acaba e outro batia na porta. Um ano que para seria a chave de sua vida, onde todos os sonhos e esperanças estavam depositados, seria o ano que seu destino estava se desenvolvendo.
No início de cada janeiro, ela escrevia em sua agenda todos os planos que seriam desenvolvidos para a construção de seu objetivo. Em 2021 ela não planejaria muitas coisas, tudo que se conseguia pensar para sua trajetória se resumia a uma coisa: alcançar a fórmula um e seguir o legado de seu pai, ainda mais agora, que ela descobriu que o legado era ela.

- Feliz ano novo, minha neta querida! – Neyde afagava os cachos da neta enquanto essa chorava em seu colo.
- Eu te amo, vovó. Eu te amo. –Murmurou baixo.
- Achei vocês duas. – Vivian escolheu esse momento para chegar ao jardim com uma taça de espumante em mãos. – Já passa da meia noite. Preciso abraçar vocês.

levantou do colo da avó e passou as duas mãos no rosto, secando as lágrimas. Enquanto se ajeitava no banco, Vivian se aproximou da sogra e a tomou em seus braços, beijando duas bochechas e desejando um feliz dois mil e vinte um. Assim que soltou Neyde a loira direcionou seus braços para a filha. abriu um enorme sorriso e se encaixou sobre os braços da mãe.

- Feliz ano novo, mãe. Eu te amo. – Murmurou em meio aos longos cabelos de sua mãe.
- Eu também te amo, minha . – Beijou sua testa com amor.

O resto da família Senna da Silva também se aproximou do jardim, os primos, primas, tios e tios. Todos trocavam cumprimentos alegres e brindavam suas taças, desejando que fosse um excelente ano para todos.
Vivian se afastou da família, após abraçar todos e felicitar com seu maior sorriso. Deu alguns passos para frente e encontrou uma árvore que tinha um balanço de madeira pendurado em um dos galhos, era onde mais gostava de brincar quando criança, Ayrton a empurrava e ela pedia sempre mais alto e mais forte.
Tomou mais um gole de seu champanhe e tocou nas cordas do balanço, uma ventania iniciou e seus cabelos balançavam por completo desorganizando os fios, ela, porém, não se importou. Somente fechou os olhos e permitiu que sua lembrança voasse para alguns anos no passado, onde naquela mesma casa vivia um dos melhores momentos ao lado de sua família.

São Paulo,1993..


- , levante da grama, vai sujar seu vestido todo. – Vivian pediu pela quinta vez naquela noite ao ver a filha de seis anos deitada mais uma vez no jardim da casa.
- Não, mamãe, eu quero ficar. – Protestou a garotinha ainda deitada.
- Minha filha, seu vestido é branco e nós estamos em uma festa. Amanhã você deita na grama de novo. – Se baixou perto da pequena e ajudou a garotinha a se colocar de pé.
- Está bem, mamãe. – Ficou em pé e começou a limpar a grama do vestido.
- , vai chamar seu pai e o tio Henrique, já está na hora da contagem regressiva. – Pediu a mãe indicando a parte de dentro da casa, onde o marido e amigo estavam pegando mais cervejas.

A pequena não esperou a mãe terminar de falar e saiu correndo para dentro da casa à procura do pai. Ayrton estava na cozinha da casa, junto com Henrique Zanotti, seu melhor amigo, os dois seguravam uma cerva em mãos e conversavam animadamente sobre o campeonato paulista e as demais promessas que seu time revelaria.

- Papai. – A garotinha gritou e logo Ayrton soltou a cerveja na bancada e flexionou os joelhos com os braços abertos esperando que pulasse sobre ele e não foi preciso mais que meio segundo até que a garotinha de cabelo cacheado estive sobre os braços do pai.
- É o ataque dos grandes. – Murmurou o mais velho e Zanotti sorriu.
- A mamãe mandou te chamar. – Contou ainda no colo do pai. – Disse que é para você e o tio Henrique ir lá para fora que já vai começar a contagem.
- A dona Vivian chama e a gente vai. – Henrique disse e resgatou sua cerveja, saindo primeiro da sala indo de encontro às filhas e esposa.
- Então vamos lá, Senninha.
- Papai, eu quero ficar bem grande. – A menina ergueu os braços para cima para explicar o desejo e Ayrton abriu um sorriso assentindo com a cabeça. Pegou a filha e ergueu na altura de seus ombros e depois acima de sua cabeça, encaixando-a em volta de seu pescoço. – Isso, agora eu sou a maior de todas.
- Vamos lá para fora antes que sua mãe venha nos buscar. – Anunciou o mais velho iniciando sua caminhada até o jardim, onde a família estava toda reunida para comemorar a chegada de mais um ano.

Ayrton chegou ao local e logo procurou a esposa, a encontrou de pé perto da arvore com o balanço, ela falava no celular e tinha um sorriso aberto nos lábios. Sua esposa era sempre linda, mas naquele dia ela estava iluminada. O cabelo loiro estava solto e tinha leves cachos nas pontas e ela vestia um vestido azul, aquilo era a visão do paraíso para Senna. Vê-la ali, era algo que ele poderia passar séculos assistindo. Vivian era a mulher de sua vida e assim que colocou seus olhos nela pela primeira vez, teve certeza disso.

- Oi, mamãe. – disse quando se aproximaram e a mulher sorriu para os dois, despediu-se de sua mãe, a pessoa com quem falava no celular e voltou sua atenção para o marido e a filha.
- Oi, meus amores. – Ela recebeu um beijo na bochecha do marido e depositou um no dorso da mãozinha da filha. – , está pronta para contar?
- Siiim! – Vibrou animada e então esticou as duas mãos, deixando os dedos abertos e mostrando para a mãe o número 10.
- Não se esqueça de fazer um pedido quando os fogos explodirem, e no decorrer do ano, ele se realizará. – Ayrton instruiu a filha e essa concordou animada.
- Está na hora. – Alguém gritou mais alto e todos os presentes iniciaram um coro em contagem regressiva.

Vivian enlaçou seus dedos aos do marido, e escutou a filha contar animadamente esperando o momento dos fogos. Quando a regressiva chegou em um, o céu foi iluminado pelas luzes dos fogos de artifícios, e todos se abraçaram. Ayrton passou os braços pela cintura da esposa e a trouxe para um abraço terno, depois beijou seus lábios delicadamente.

- Feliz ano novo, querida.
- Feliz ano novo, amor.

Os dois trocaram as palavras e logo pediu para descer do colo do pai e saiu correndo em direção aos tios e avós. Vivian olhou por cima do ombro o exato momento em que filha abraçava Luiza, filha do casal de melhores amigos deles, e sorriu sozinha.

- Você fez um pedido, igual ensinou para a ? – Perguntou ao marido que postava seu corpo atrás de si, puxava sua cintura para ligar seus corpos.
- Eu não preciso pedir nada, Vivi. Eu tenho vocês. Tenho tudo que eu sempre sonhei. – Respondeu apoiando o queixo nos ombros da loira.
- Achei que queria mais campeonatos mundiais, Senna. – Retrucou à mulher o marido gargalhou.
- Eu quero, e esse ano eu serei campeão mundial, mas ter títulos não faria sentido sem vocês ao meu lado.
- Eu amo você, Ayrton Senna. – Ela virou o rosto para trás recebendo um beijo do homem.
- Eu também amo você, Vivian Senna.
Os dois permaneceram ali, abraçados. Vendo os fogos cada vez mais belos no céu, sentindo o corpo aquecer pelo amor que era produzido por suas células a cada segundo que permaneciam perto.


São Paulo,2021..


Vivian secou discretamente a lágrima que beijou sua bochecha, e fechou os olhos respirando fundo. Ela não precisava se esforçar muito para ter lembranças como aquela em vários momentos de seus dias. Os anos passavam e nada mudava, o amor que sentia por aquele homem permaneceu sendo o mesmo nos últimos trinta anos, e ela podia jurar que seria assim por toda a eternidade.

- Feliz ano novo, meu amor. – Disse baixinho e ergueu a taça para o alto em direção às estrelas, onde sabia que a mais brilhante tinha nome e sobrenome.

Ao seu lado, encostado na árvore, estava Ayrton Senna. Sorrindo e com os braços cruzados sobre o peito, os olhos fixados na esposa e em como com o passar dos anos, ela permanecia linda da mesma forma. E da mesma maneira como ela ainda chorava de saudades e nutria um amor profundo pelo marido, assim era o próprio Ayrton, que se estivesse com os pés na terra ainda amaria aquela mulher, como desde a primeira vez que se viram.

- Feliz ano novo, querida. – Sussurrou lhe mandando um beijo e Vivian conseguia jurar que estava sentindo perfume do homem ao seu redor, assustada ela franziu o cenho e puxou mais o ar, como se para certificar que era aquilo mesmo que estava sentindo. E com toda certeza era. Olhou para os lados vendo se alguém a observava, mas ninguém parecia notar que ela estava afastada em sua bolha. E então, mais uma vez, Vivian puxou o ar e novamente o cheiro do marido veio em suas narinas. Ela acreditou que estava enlouquecendo e balançou a cabeça negativamente querendo afastar a sensação, mas mesmo após vários goles do champanhe ela ainda conseguia sentir o mesmo cheiro. E foi quando se deu conta, que talvez, não estivesse sozinha.


XXX


Era um pouco mais de meia noite quando decidiu que era hora de sucumbir aos desejos de seu corpo e se retirar. Não estava com sono, já que durante toda a noite tomou energético e isso deixou seu corpo acesso, mas estava cansada. Luiza vinha fazendo exatamente o que prometera, estava lhe preparando muito bem para o início do campeonato e a maior prova disso era a durabilidade de seus treinos e dores inexistentes, o que inicio acontecia com frequência, dores nos ombros, pescoço e mãos.
Agora, ela conseguia manter religiosamente cerca de três horas por dia treinando no simulador, por ela ficaria mais, muito mais, Luiza, porém, intervinha e dizia que não havia necessidade de se esgotar ao extremo, que duas horas por dia eram o suficiente, e mesmo contrariada a brasileira cedia. A especialista ali era ela, e só agradecia pela incrível profissional que a amiga era.
Por causa dessa rotina, ela entendia que estava na hora de tomar um banho relaxante e se deitar um pouco.
Despediu-se de todos e recolheu suas coisas, para então dirigir para sua casa, sua mãe disse que ficaria mais um pouco na casa dos sogros, gostava de ver a mãe feliz e naquele dia a mulher estava se divertindo com a família e não era direito da mais nova impedir isso, então assentiu positivamente com a cabeça e seguiu para casa.
Chegou à residência em poucos minutos, já que era perto e não havia um trânsito muito grande dentro do mesmo bairro. Entrou em casa e pendurou as chaves, deixando a bolsa sobre o sofá e subindo imediatamente para seu quarto.
Deixou o celular na cama e foi direto tomar um banho, não demorou muito já não lavou os cabelos, e após vestir um pijama jogou-se sobre o colchão. Estava com os olhos fechados quando escutou o celular apitar com uma nova mensagem, ainda com eles fechados tateou a cama a procura do aparelho, demorou alguns segundos para encontrar no meio das cobertas e só então ela conseguiu abrir os olhos e ver que quem enviara a mensagem.

: Feliz 2021, Senninha!
Desejo a você tudo de melhor que se é possível nessa terra.
Que este ano seja de realizações e conquistas, que você possa
cumprir os desejos de seu coração e seguir firme em
sua caminhada rumo ao topo.
O céu é o seu limite e eu tenho certeza que você voara
muito alto e eu com toda certeza, te aplaudirei de pé. Um beijo na sua família!


A mulher abriu um sorriso gigante ao ler a mensagem, e não precisou de mais do que alguns segundos para digitar uma resposta de volta.

Senninha: Feliz ano novo, Sir !
Eu desejo tudo em dobro para você,
Você é um ser especial e iluminado e
Todos os dias eu agradeço ao meu paizinho
Pela oportunidade que me deu em te conhecer
E ter você como amigo.
Desejo a você mais sucesso, mais amor e mais
Felicidade. Você merece o mundo, !
Obrigada por tudo!


:Como foi seu réveillon?

Senninha: Foi tudo bem, passei na casa dos meus avós e agora estou em casa, vim deitar um pouco. E o seu, como foi?
:Também passei com minha família.
Meus sobrinhos brincaram até desmaiar e agora estou escutando as histórias do meu pai.
Quando você volta para Londres?

: Eu vi a foto que você fez com os dois, são uns fofos. E super acho que eles se parecerem com o Vettel
Já está com saudades de mim?


mordeu o lábio inferior ao ler a mensagem, se estava com saudades? De maneira totalmente absurda, sim, ele estava com saudades dela. Titubeou um pouco na resposta, mas não havia motivos para mentir, além de a sinceridade ser uma de suas principais características, ele e eram amigos e não havia nada de errado em amigos sentirem saudades um do outro.
Estava pronto para digitar, mas logo enviou outra mensagem.

: Eu volto dia dez.
Eu gostaria de ir antes, só que a Luiza pediu para eu descansar um pouco mais.
Você está em Mônaco?

:Luiza, como sempre, está certa. Precisa aproveitar e descasar mesmo.
Eu estou em Londres, por quê?


: Eu achei que você morasse em Mônaco, mas sempre está em Londres.
Fiquei confusa.


Outro pergunta certeira. Ele de fato, morava em Mônaco, mas desde que foi a sua casa pela primeira vez e ele precisou tirá-la a força do simulador, o britânico não voltou para o principado. Permaneceu em sua casa em Londres, para estar mais perto dela e ajudar com facilidade no que fosse preciso. E para ser extremamente sincero, ele sequer percebeu que não tinha voltado para sua casa principal, ficou na Inglaterra e somente quando fora questionado por um amigo, que lhe chamara para sair, que se deu conta da localidade em que estava e o motivo que o fizera ficar.

: Eu estou com meus pais, aproveitando um pouco a família.


Sim, imaginei que fosse isso mesmo.
Você vai voltar para Mônaco quando?


girou o corpo na cama, ficando de bruços e apoiando o corpo nos cotovelos enquanto digitava. Estava totalmente à vontade e feliz em estar conversando com , tanto que sequer lembrou que seu objetivo era tentar dormir. Os dois estavam se tornando cada dia mais próximos e amigos, conversavam várias vezes ao dia, mesmo que às vezes fossem mais espaçados por causa do tempo corrido, sempre em algum momento estavam de olho um no outro.
Ela adorava esse contato, como o carinho e atenção que lhe dava, de certa forma ele a fazia sentir-se em casa.

: Ainda não sei.
Tenho mais algumas coisas para fazer na Inglaterra.


: Isso me deixa feliz.
Eu gosto de ter você por perto.
Imagina se você estiver em Monte Carlo e minha luz acaba?
Hahahahaha


: Claro, ou vai que fica presa no elevador.
Hahahahaha
Eu preciso estar por perto para salvar o dia.

: Você sempre está por perto para salvar o dia.

Pretendo continuar estando, Senninha.


XXX


A pré-temporada de fórmula um aconteceria no Bahrein, mesmo local onde seria a primeira corrida da temporada.
O circuito do Bahrein é conhecido por ser um dos circuitos mais modernizados da atualidade e por receber anualmente o grande prêmio desde 2004, com interrupção em 2011. O circuito tem um comprimento total de 5.412 metros, cada corrida de Fórmula UM tem 57 voltas, totalizando 308,232 quilômetros.
Inicialmente, temia-se que o fato do circuito se localizar no deserto traria problemas por causa da areia que se poderia depositar na pista, no entanto, as características do circuito e a utilização de um adesivo ao redor evitam que tal ocorra.
A pista caracteriza-se por ter bastantes escapatórias, o que ajuda a evitar a invasão de areia. No entanto, estas são criticadas por não punir os pilotos que saem da pista.
já havia ganhado duas corridas no circuito do Bahrein, e disputado muitos outras, por isso podia dizer com propriedade que conhecia aquele circuito do início ao fim, e até gostava das corridas por ali, era uma pista boa, que tinha possibilidades de ultrapassagem.
E sua expectativa para o início da pré temporada estava altíssima. Gostava de ver a ação acontecendo e era ali que tudo acontecia, o show, a torcida e as muitas vozes que estudavam para estarem certas.
Para a temporada de 2021 a federação internacional de automobilismo fez algumas mudanças, uma delas era a distribuição dos treinos livres, o classificatório e por fim a corrida. Então os pilotos teriam a agenda organizada da seguinte forma: na quinta-feira, teriam coletiva de imprensa e poderiam passear pelo autódromo. Na sexta-feira teriam dois treinos livres, o que era chamado de TL1 e TL2, no sábado o dia anterior a corrida, pela manhã teriam o terceiro treino livre, o TL3, e depois o treino de classificação onde seria definido o lugar de cada piloto no grid de largada, e então no domingo teriam a corrida. Era uma programação mais apertada, mas que proporcionava uma maior quantidade de corridas durante o ano.
Antes da primeira rodada de entrevistas, os pilotos, engenheiros e sua equipe tinham o costume de caminhar pelas pistas do autódromo, para observar e identificar todas as possibilidades.
E era isso que estava indo fazer, em frente ao box da Mercedes o piloto esperava sua fisioterapeuta, ngela, para fossem dar um volta, a mulher precisou voltar ao motor home para pegar o celular que tinha ficado para trás, e enquanto o inglês esperava, ele colocou seus olhos em .
Ela estava com o uniforme da McLaren, camisa de mangas branca e com detalhes laranja. Usava uma calça jeans e um coturno preto de salto quadrado nos pés. Os cabelos estavam soltos com lindos cachos, ela caminhava devagar já que sua concentração estava no celular, onde parecia digitar alguma coisa, o óculos de sol estava no rosto e o fone de ouvido sem fio enfeitavam sua orelha.
Sem conseguir raciocinar direito, caminhou em direção à mulher, esquecendo-se por completo que segundos atrás estava esperando a loira que o seguiria por um passeio.

- Hey, Senninha. – Cumprimentou o piloto ao se aproximar e Aurora ergueu os olhos do celular para ver o homem parado em sua frente.
- Oi, ! – Sorriu abriu os braços encaixando-os nos ombros de , que abraçou sua cintura e beijou seus cabelos.

Ao redor delas, vários fotógrafos oficiais registravam o momento.

- Como você está? Faz semanas que eu não te vejo. – O piloto cruzou os braços atrás do corpo.
- Eu estive em um intensivo essas últimas semanas, o time de futebol da Luiza perdeu um campeonato no Brasil, ela descontou toda a raiva dela em mim. – Contou divertida.
- Acho que preciso ficar esperto com você na pista então. – Sorriu. – Você estava indo andar pela pista?
- Sim, eu estava, queria sentir como é.
- Posso te acompanhar? – Perguntou com tanta educação que soltou um suspiro achando incrivelmente fofo.
- Claro. – Fez uma pequena reverência e então os dois começaram a caminhar, saindo do boxe e iniciando pelo grid de largada. – Quer um fone? – Ofereceu tirando da orelha direita e estendendo a ele.
- O que você está ouvindo? – Aceitou prontamente encaixando o utensílio em seu ouvido, ele gostava como sempre estava ouvindo música.
- Uma das músicas preferidas do meu pai, se chama: desesperar, jamais. – Ela mexeu no celular dando play na música que havia sido pausada quando ela o encontrou. – Era uma das trilhas sonoras dele.
- O ritmo parece com aquelas que você gosta de escutar, qual é mesmo o nome? – Estalou o dedo procurando em sua memória o nome, já que o havia apresentado o ritmo em algumas ocasiões.
- Pagode. Eu gosto de pagode, mas essa aqui está com o ritmo mais animado, geralmente ela é mais lenta.
- Sabe que eu não entendo nada do que estão falando, certo? Você devia traduzir para mim. – Pediu e os dois chegaram à primeira curva da pista.

parou e observou cautelosamente a maneira como foi desenhada, a acentuação da curva e a distância de uma lateral até a outra. não disse nada, somente observou a movimentação dela, tentando entender o que ela fazia.
A mulher permanecia concentrada observado como a pista fazia uma cobra na primeira curva, o primeiro movimento sendo direita e depois esquerda quase imediatamente, e o que ela tentava perceber era a distancia entre uma e outra, para saber como faria a curva, a velocidade que poderia chegar e também onde e quando trocar de marcha.

- Eu traduzo. – Após alguns segundo ela disse, como a conversa não tivesse sido interrompida. – Essa parte em fala: No balanço de perdas e danos, Já tivemos muitos desenganos Já tivemos muito que chorar, Mas agora, acho que chegou a hora De fazer valer o dito popular. Desesperar jamais.
- Desesperar jamais. – repetiu. – Bonita letra, profunda. – Os dois voltaram a andar na pista.
- Era uma das preferidas do Senna. Ele vivia cantando, era meio que o lema dele.
- Não está errado, desespero não leva a nada. Principalmente dentro das pistas. – Ele empurrou a haste dos óculos no rosto, para o mesmo não escorregasse. – Isso aqui é como um jogo de xadrez, quem tem a maior estratégia ganha.
- É assim que você ganha suas corridas? – Virou o rosto para olhá-lo, o sol escaldante do Bahrein beijava a pele negra deixando-o ainda mais reluzente.
- Quase todas. Uma corrida é longa, têm muitas voltas, a largada não define tudo. Às vezes não tem necessidade de arriscar tudo na largada e causar uma colisão e acabar a corrida. Em alguns momentos é o momento de permanecer mais na pista e trocar os pneus depois. Ou quando se está liderando de maneira confortável não tem necessidade de abrir mais para economizar pneus e depois ter condições de lutar em caso de ataque.
- Entendi. Eu fico pensando nisso, sobre o momento ideal de todas as coisas. Meu pai fala nos diários sobre essa sede de vitória, que em muitos momentos deixava ele cego e acabava tomando decisões erradas.

Os dois passaram por mais uma curva e ela repetiu o movimento, observou a distância entre as curvas e pareceu estudar os pontos de estratégia, permaneceu parado somente observando o que ela fazia, achando incrível como estava montando em sua cabeça maneiras para se sair melhor.

- O que importa é a vitória. Queremos ganhar e acabou, mas eu posso ganhar liderando poucas voltas, posso ganhar em uma ultrapassagem no final da corrida. Ou posso largar de liderar do início ao fim.
- Você está e dizendo isso, por que os novatos da fórmula um tendem a ser idiotas e cometerem muitos erros, como bater na largada e rodar na pista. – Ergueu o dedo em riste e apontou para o homem que deu uma gargalhada alta.
- Erros são comuns, Senninha. Todos estão sujeitos a errar, o que importa é aprender com os erros e trabalhar em cima deles para melhorar. Eu olho para você e só vejo foco e determinação, isso impede que erros sejam cometidos.
- Com certeza, não estou aqui para brincar. Meu objetivo é maior e eu estou preparada para ir até o final. - Ela completou e então deu de ombros, ciente que tinha se preparado ao extremo para o momento. - Agora que já escutamos minha música, quer escolher uma?
-Óbvio, vivemos em democracia. - Assentiu o homem.

tirou o celular do bolso, entregou nas mãos do homem e colocou as duas mãos no bolso traseiro do jeans, enquanto procurava no Spotify algo que o agradava. Alguns segundos depois o som que saiu em seus fones fora: “Nelly ft. St. Lunatics – Ride Wit Me.”

-Toma. - Devolveu o celular para a mulher, que pegou o mesmo.
-É esse o tipo de música que você costuma ouvir? - Questionou com o cenho franzido.
-Eu já escutei muito, então se você olhar meu Spotify essa música está na pasta dos clássicos, e em alguns momentos eu confesso que gosto dos clássicos.
-Está claro que esse tipo de música não é mais para garotos da sua idade. - gozou prestando atenção na letra da música.

parou de andar quando seu próprio telefone apitou com uma mensagem de ngela, que estava a sua procura.

-Oi, Angel! Desculpe, eu me esqueci de você, acabei encontrando a Senninha e vim caminhar com ela. - Ele estava gravando um áudio e então também parou a caminhada voltando-se a olhar para ele.
-O que aconteceu?
-Eu iria caminhar com a ngela, mas eu te vi e esqueci de avisar ela. - Contou e voltou a colocar o celular no bolso, para juntos reiniciarem a caminhada.
-Coitada. Quer voltar e encontrá-la? Eu não me importo de seguir sozinha. - Ofereceu dando de ombros.
-Claro que não, Senninha! - Balançou a cabeça de um lado para o outro. - Vamos continuar caminhando.
-Ah que bom, eu gosto de ter você por perto! - Ela lhe ofereceu um sorriso, mas optou por não dizer mais nada.

Os dois seguiram caminhando lado a lado, vez ou outra um comentava sobre alguma coisa, ou falavam algo sobre a pista.
estava preocupada e ansiosa para o início do treino, e quando decidiu caminhar sozinha queria liberar toda a energia guardada dentro de seu corpo, para que não surtasse e tivesse momentos dificultosos.
Recusou a companhia de Luiza e Kira, disse que preferia ficar sozinha, mas aceitou prontamente que lhe fizesse companhia e sentia-se perfeitamente bem ao lado dele, em paz, como se ele conseguia trazer tranquilidade em meio ao seu caos.


XXX


O primeiro dia de testes estava oficialmente aberto. Era o momento em que as equipes colocariam os carros na pista e dariam voltas para testar todos os equipamentos e inovações que escolheram para complementar o carro.
Os testes tinham duração de quatro horas por dias, e poderia ser dividido da maneira que as equipe quisessem, algumas optando por dividir o dia em manhã e tarde para cada piloto, como foi o caso da Mercedes que decidiu que Valtteri Bottas iria para a pista de manhã e apareceria na parte da tarde. A Red Bull optou por separar os dias por pilotos, deixando um dia somente para o treino de Max Verstappen, o segundo dia para Sergio Pérez, e o terceiro contaria com os dois, um de manhã e outro na parte da tarde.
Se dependesse de , ela ficaria na pista as oito horas que era permitido, mas Kira sua engenheira, sabiamente interviu com sua equipe e adotaram a estratégia de liberá-la no primeiro dia pela manhã, no segundo pela tarde e no terceiro pela manhã, para que a brasileira aproveitasse bastante todos os dias de treino, ao invés de um dia sim e outro não.
A brasileira estava no boxe da McLaren, já com o macacão no corpo e somente esperava os mecânicos terminarem de mexer em seu carro, para que pudesse entrar no cockpit* e iniciar seus treinos. Não queria perder um minuto sequer, seu objetivo era usar todo o tempo com qualidade e descobrir quais seriam os pontos fracos e fortes que seu carro apresentava.
A McLaren optou por não apresentar o carro, esconderam ao máximo o jogo e tudo que colocaram de inovador dele, para que fosse uma enorme surpresa.
Durante seus testes e treinos, se saiu bem, se adaptou ao carro e foi se moldando para encaixar em tudo que era apresentado, Kira Devlin, sua engenheira era uma profissional brilhante e muito focada no trabalho, tanto que por várias e várias noites, as duas permaneceram acordadas trabalhando para extrair o melhor do carro.

- Está na hora, . Sessão liberada. – Alguém gritou e a mulher assentiu com a cabeça colocando os fones e balaclava*, depois encaixou o capacete e subiu sobre o carro para sentar no cockpit, quando se acomodou no assento lhe entregaram as luvas e após calçar, assentiu com a cabeça e então foi autorizada a deixar os boxes e ir para a pista.

Tudo estava tranquilo. A Senna seguiu firme com as duas mãos no volante até chegar a primeira curva e concluiu com maestria, e assim seguiu durante a primeira volta. Totalmente de forma cadenciada e com controle dos pneus, estava aquecendo o motor, freios e entendendo a aderência, precisava identificar com cautela todo o movimento.

- . – Kira chamou do rádio. – Dê mais três voltas, sem abrir voltar rápida, somente para aquecer o carro e me diga como está sentindo o carro.
- Ok. – A piloto concordou e fez exatamente o que a engenheira ordenou.

Seguiu o trajeto do circuito por mais três voltas, sem extrair a maior velocidade do carro, apenas trocando as marchas na hora certa e mantendo o carro dentro dos limites de pista. Ela ainda era a única da pista, nenhum piloto havia saído e ela estava se sentindo livre e com uma energia incrível dentro si, como se fosse capaz de realizar qualquer coisa.

- O que me diz, Senna?
- Está com aderência boa, os pneus estão firmes e eu consigo sentir a estabilidade do carro. – Respondeu ao reduzir uma marcha para fazer a curva seis.
- Acha que consegue me dar um pouco mais de velocidade? – Pelo tom divertido da voz de Kira, soube que ela estava sorrindo.
- É para já. – Assentiu também com um belo sorriso no rosto, completou a volta que estava fazendo e quando chegou ao início do circuito, abriu volta rápida.

Arrancou e segurou firme no volante, ao apertar o acelerador ao máximo e tracionar bem na largada, girou o volante para esquerda e só então reduziu uma marcha, para ganhar mais velocidade ao sair da curva três e após essa, tinha uma imensidade de reta e ela não economizou no acelerador.


245 km/h.
250 km/h.
253 km/h.


As luzes laterais daquela imensa reta no circuito pareciam cometas.

238 km/h.
229 km/h.
215 km/h.


A aproximação da curva dava à motorista um sorriso nos lábios. Adorava sentir o movimento que o carro fazia ao ser guiado para uma conversão e amava mais ainda o barulho que o motor fazia quando voltar a acelerar nas retas.

227 km/h
239 km/h
241 km/h


Voltou a trocar de marcha e sentir a engrenagem do carro mudar de desempenho para mais uma curva, essa era décima primeira, que emendando com as próximas duas faziam mais uma vez, uma cobra. Conseguiu reduzir o mínimo possível e manter a aderência dos pneus ficando estável na pista e assim que saiu da última curva, estava pronta para acelerar mais, em outra grande reta. Apertou a embreagem mais uma vez e aumentou a marcha, com o objetivo de alcançar a quinta, essa, porém, não entrou. Entranhou o acontecido, mas não se deu por vencida, apertando mais uma vez a embreagem, solicitou a quinta marcha, e a resposta que veio foi um barulho altíssimo e um solavanco do carro.

- . – kira chamou pelo rádio.
- Aconteceu alguma coisa com as marchas, estou com dificuldade de controlar a direção e eu perdi potência.
- Fique aí, vamos mandar te buscar. – Ordenou Kira e não respondeu, sentindo uma imensa frustração se apossar de seu corpo, só podia ser uma piada. Aquilo não estava acontecendo.

Decidiu não se desesperar e parou o carro, se retirando dele. Sabia que iriam mandar retirá-lo com um guincho, e optou por não esperar, precisava saber o que estava acontecendo. Iniciou sua caminhada em direção a garagem da McLaren, sentindo corpo ser inundado de raiva e frustração por ter que abandonar o carro em poucos minutos que estava em pista, era como um banho de água fria em um dia de inverno.
Não demorou até chegar ao boxe, não estava tão longe. Ainda de capacete ela se aproximou de Kira que observava as telas de telemetria tentando identificar o que poderia ter acontecido, assim que enxergou a brasileira empurrou os óculos no rosto e voltou-se para ela.

- O que aconteceu, Dev? – Questionou também olhando as telas, querendo as respostas. – Porque não consegui voltar com o carro?
- Estamos com um problema no câmbio. – Explicou calmamente. – Com o solavanco com carro, alguma coisa pode sair e mudar o centro de massa. Também pode vazar líquido que ajuda a resfriar o motor e deslocar peças pequenas do comando de válvulas e o motor não saber como funcionar, não podíamos arriscar que continuasse guiando.
- O que aconteceu com o câmbio? Pelo barulho parece que quebrou alguma coisa. – Ela retirou as luvas e as jogou em qualquer lugar, com os olhos totalmente focados na engenheira à sua frente. - Ainda não sabemos, mas quando se força e a embreagem não funciona, pode quebrar a caixa do motor, ainda mais em alta rotação como você estava, então vamos precisar trocar.
- Está bem. – Assentiu com a cabeça. – Quanto tempo para eu conseguir voltar?
- Auro, eu decidi trocar o componente todo. – Informou ainda com muita cautela. – Eu não sei se vai conseguir voltar para a pista antes do final do primeiro tempo.
- É o quê? – Exclamou irritada. – Por que vão trocar tudo? Só ajusta a antiga. Eu vou perder uma sessão valiosa de treinos, isso não pode, Kira. Troque o suficiente para eu voltar hoje ainda. – Protestou irritada, não estava em condições de perder horas de treino, precisava conhecer a pista, o carro e todos os obstáculos.
- , eu sinto muito. Se não trocarmos todo o câmbio hoje, amanhã você terá o mesmo problema. – Pontuou.- É um problema que não deveria ter acontecido, precisamos descobrir o motivo, mas neste momento, a melhor decisão é trocar tudo agora e amanhã a gente corre atrás do prejuízo. Mexer na unidade de potência causa penalidade da mesma forma que trocar todo o composto do câmbio, além do mais, leva menos tempo para colocar uma unidade pronta do que ajustar a antiga e arriscar que tenhamos mais problemas. Eu não vou colocar todos os dias em risco, vou verificar tudo e amanhã você conseguirá voar nessa pista.
-Que merda, Dev, que merda. – Fechou as duas mãos em punhos e as levou até a cabeça, querendo socar o capacete tamanha raiva que subiu em si.
- Sinto muito, querida. – Tocou o ombro da outra em um gesto de cordialidade e então se afastou, começando a dar ordens aos funcionários sobre o que necessitava ser feito.

mordeu o lábio inferior com força tentando controlar a necessidade impetuosa de socar todas as coisas que estavam em sua frente. Era um grandessíssimo desacerto, logo do primeiro treino e ainda mais com seu carro, não podia acontecer.
A mulher iniciou sua caminhada para dentro do boxe e não deu confiança para qualquer pessoa, até mesmo Luiza que lhe esperava com uma garrafa de água em mãos, não quis dar atenção, somente balançou a cabeça negativamente e seguiu seu caminho até o motor home, a fisioterapeuta respeitou o momento da melhor amiga e deixou que ela seguisse seu caminho.
Só quando teve certeza que não havia mais ninguém perto e que ela estava sozinha dentro de uma sala qualquer, que ela foi capaz de tirar o capacete e jogá-lo longe de si, mesmo destino que a balaclava tomou. Escorregou na porta e enfiou as duas mãos nos cabelos, se afogando em frustração e tristeza, sentindo por não conseguir completar o dia de treinos. Era difícil aceitar que algo havia dado errado, mesmo que não fosse sua culpa, ela sentia-se responsável e sabia do peso negativo que ficar fora do primeiro treino teria.
Significava que ela teria mais trabalho, mais suor e com toda certeza, uma dificuldade maior a ser superada.

XXX


- Droga, ela não responde as mensagens e nem atende minhas ligações. – bufou frustrado e jogou o celular na mesa de jantar, irritado. ngela Cullen, que tranquilamente jantava em sua frente, limpou os lábios com um guardanapo e depois olhou para o homem em sua frente.
- Desde quando você fica irritado quando a Briana não te atende? – Questionou a mulher e arregalou os olhos.
- Quê? Brianna?
- Sim, não é com ela que está tentando falar com essa insistência toda? – Bebeu um gole de seu suco e voltou sua atenção ao prato de comida em sua frente.
- Não, claro que não. – Negou com veemência. – Eu estou tentando falar com a , estou preocupado que ela sumiu o dia todo, e com o que aconteceu no treino deve estar mal.
- Entendi. – Colocou mais um pouco de comida na boca e após mastigar a loira disse: - Deve estar mais reclusa, , você também gosta de ficar sozinho quando acontece alguma coisa errada.
- Eu sei, mas eu não quero que ela fique sozinha. – Apoiou os dois cotovelos na mesa e uniu as mãos. – O que você acha de eu ir até o quarto dela?

ngela franziu o cenho surpresa e balançou a cabeça negativamente, e tomou mais um gole do suco antes de direcionar palavras ao inglês.

- Você sabe que ela não tem quinze anos, certo? – estranhou a pergunta e enrugou a testa, sem entender. – Você está exagerando com toda essa preocupação, e dando toda essa importância. Ela só quer ficar sozinha, não é como se ela fosse fazer alguma besteira.
- Exagerando? Eu só estou preocupado com minha amiga. – Respondeu com os ombros encolhidos.
- Amiga? – A loira arqueou uma sobrancelha. – Eu nunca vi você agindo assim com ninguém, está todo preocupado e frustrado porque ela não te responde. Quando a Brianna tinha as crises de louca dela e fazia doce, não te atendendo, você não se importava tanto, e com a você fica irritado. – Apontou o celular como ilustração de sua fala, e olhou para o celular na mesa e depois para a mulher. – Eu não sei o que está acontecendo com você, mas isso não é só por uma amiga qualquer.
- Não diga besteiras, Angel. – coçou a nuca, um pouco nervoso. – A é uma grande amiga, e eu sou piloto também, sei como é ruim quando acontece algo com o carro e você fica impossibilitado de tudo, eu faria isso por qualquer piloto.

ngela assentiu com a cabeça com um sorriso sarcástico nos lábios, estava preparando para abrir a boca e direcionar uma boa resposta para o amigo, entretanto, Sebastian Vettel escolheu aquele exato momento para passar pela mesa dos dois, o alemão estava vestindo uma camisa verde e usava um boné na cabeça, a aliança no dedo anelar esquerdo brilhava sobre a pele e essa ficou extremamente exposta quando tocou os ombros do cunhado, olhou para cima e sorriu ao ver o marido de sua irmã parado ao seu lado.
Alguns anos atrás, Sebastian Vettel e tiveram um desacerto familiar, já que o piloto alemão estava se envolvendo amorosamente com sua irmã mais nova, Cassidy , mas, hoje depois de tanto tempo os dois já estavam próximos e era o maior apoiador do casal, e um completo apaixonado pelo sobrinho que a irmã lhe deu, fruto do relacionamento com o piloto alemão.

- Hey, cara! Como está? – Sebastian cumprimentou com um sorriso.
- Tudo bem e você?
- Tranquilo. Foi um bom dia de treinos para você, parabéns, ! – Piscou para o amigo e fez jóia com as mãos.
- Obrigada, Sebs. Não desanime no primeiro dia, você logo conseguirá muito mais. – abriu um sorriso gigante ao apertar as mãos no alemão.
-Sebs, posso te fazer uma pergunta? – ngela interrompeu o papo dos dois e olhou a fisioterapeuta com uma feição confusa, e Vettel assentiu com a cabeça. – Quando você tem problemas com o carro, o fica te ligando e mandando mensagens querendo saber como você está? E até vai até seu quarto de hotel lhe oferecer apoio?

Sebastian abriu a boca para responder, mas não saiu som algum. Ele não havia entendia o quesito da pergunta e por isso olhou para ngela e depois para , que tinha uma expressão surpresa no rosto, e depois voltou a olhar para ngela de novo.

- O que?
- Ele faz isso por você, Vettel? – Foi mais firme no questionamento.
- Não, nunca fez. Ele sempre fala alguma palavra de conforto quando nos esbarramos, igual agora. E quando eu saí da Ferrari, ele me ligou. Mas não ao extremo. – Respondeu a pergunta e abaixou a cabeça, por isso não viu o sorriso vitorioso que pintou o rosto da loira. – Eu preciso voltar para o quarto, vou fazer uma vídeo chamada com a Cassie e ver meus pequenos. Boa noite para vocês. – Acenou o piloto da Aston Martin e se afastou.
- Faria isso por qualquer piloto? – Uniu as sobrancelhas no questionamento e soltou ao ar pela boca. – Repito: não sei o que está acontecendo com você, mas isso não só por uma amiga qualquer.

nada respondeu, ficou quieto absorvendo as palavras proferidas pela amiga. Era claro que era só por uma amiga, era uma amiga especial, ele sabia disso.
Será que ele estava exagerando? Será que era somente uma preocupação boba? As coisas com ela eram diferentes, não era como se ela fosse um piloto qualquer, ela tinha histórico, tinha a preocupação com a repercussão por causa da pressão de seu nome, existia também a auto cobrança, milhares que motivos que surgiam na cabeça de que justificava a decisão.
Ela era diferente com ela, porque era uma amiga próxima, porque ele amava o sobrenome dela, era diferente porque era .... Ela. Então sim, talvez não fosse por uma amiga qualquer, era por .

- Angel, não pense besteiras. – Respondeu após alguns segundos. – É uma preocupação normal, você fica assim comigo. Toda vez que acontece algo, você está sempre ao meu lado e me dá suporte, posso fazer isso por ela.
- Isso é verdade. – Meneou a cabeça. – Mas você se abre somente para mim, quando acontece alguma coisa, você afasta as pessoas e comigo sempre conversa. Talvez a tenha outra pessoa para contar, assim como você tem a mim. E essa pessoa, com certeza, tem notícias dela.
- Verdade, a Luiza é a melhor amiga de . – Lembrou o homem como um estalo. – Você tem razão em dizer que devo ligar para a Luiza, ela tem notícias da Senninha.
- Eu não mandei você ligar para ninguém, . – Balançou a cabeça negativamente, mas não completou mais qualquer palavra, o inglês já procurava freneticamente o telefone da melhor amiga de para conseguir notícias.

ngela do outro lado da mesa, voltou a comer, mas estava se divertindo com as reações de , e da maneira como ele possivelmente não conseguia enxergar aquela amizade. Seja como for que ele se sinta em relação à nova piloto da McLaren, ela gostava de ver como ele estava se abrindo para ela. não tinha amigos dentro da Fórmula Um, tinha um bom relacionamento com todos, mas intimamente estava longe de criar vínculos verdadeiros com todos que frequentavam autódromos e paddocks, pelo menos até agora.

XXX


respirou fundo antes de erguer o braço para bater na porta. Não tinha certeza se deveria estar ali, Luiza disse que a cacheada não queria companhia, subiu para o quarto após o jantar e estava trancada lá, provavelmente ouvindo música e se lamentando pelo dia terrível.
A fisioterapeuta de também aconselhou a ir até o quarto dela como essa estava, e disse que também estava preocupada, mediante o conselho o britânico prontamente se direcionou até o andar onde a brasileira estava hospedada.
Sabia que poderia não ser prudente ir até ela mesmo ela não querendo ter contato com ninguém, se quisesse teria respondido suas mensagens, mas precisava ter a certeza que ela estava viva, e somente um “ vai embora, quero ficar sozinha”, seria o suficiente para que ele soubesse que a mulher estava viva.
Soltou o ar mais uma vez e ergueu o braço direito pronto para bater na porta, mas antes que conseguisse exercer o ato, a mesma foi aberta.
O piloto se deparou com a figura da cacheada em sua frente, ela estava com uma toalha amarrada no corpo, e os cabelos também estavam envoltos por uma no topo da cabeça. Era possível enxergar as gotas de água que desciam por seus ombros e escorregavam para debaixo do pano branco.
piscou duas vezes para ter certeza que não estava delirando ao encontrá-la seminua em sua frente, e o sorriso que ela ofereceu para ele foi o suficiente para constatar que ela estava diante de seus olhos.
“Para de encarar, . Ele pensava, mas não conseguia tirar os olhos das pernas longas expostas e do colo molhado que dava o contorno do seios dela na toalha, lhe dando uma bela visão, uma que ele não estava preparado para ver.

- ? – cutucou seu ombro. – Está tudo bem?
- Hm, oi, . – Ele piscou mais duas vezes e deu um passo para trás. – Me desculpe, eu não queria incomodar. Eu só queria saber como você estava.
- Não me incomoda. Você por acaso falou com a Luiza? – Perguntou sorrindo e passou a mão direita na nuca para secar algumas gotas de água.
- Sim, nós conversamos e ela disse que você estava no quarto. – Respondeu focando seus olhos nas orbes castanhas de para não permanecer encarado seu corpo como um tarado.
- Ela me ligou agora, e me disse para abrir a porta para receber minha visita, achei que era ela, mas claramente estava falando de você.. Peço desculpas por te receber assim. – Apontou para si mesma e deu um passo para trás. – Eu vou vestir de roupa. Você quer entrar um pouco?
- Sim, eu quero entrar. – Concordou com um sorriso e entrou para o quarto na frente, deixando com que fechasse a porta.
saiu em passos rápidos na direção do banheiro. No caminho já desfazia o nó da toalha para que penteasse os cabelos e também recolheu a roupa que estava em cima da cama para já usar.
Assim que entrou na suíte pegou um pouco de creme de pentear e deslizou por seus cachos, amassando e passando os dedos entre os mesmos para abrir mais os cachos e dar mais volume.
Se olhou no espelho e sorriu com o resultado, e então desenrolou a toalha do corpo e secou-se, escorregando para dentro da roupa que escolheu, uma camiseta branca e um short jeans preto.
Conferiu-se no espelho e aprovou a roupa, e antes de sair, passou perfume. Não queria que ficasse perto dela sem sentir um cheiro bom.
O homem estava sentado na cama com um livro dela em mãos, e a piloto não pode deixar de sorrir ao vê-lo concentrado lendo o prefácio do livro: Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés.
Estava com os lábios presos entre os dentes e a feição serena e os olhos brilhando mediante a pouca luz que iluminava o quarto, afinal gostava de escuro.

-Voltei. - Anunciou a brasileira e só então ele tirou os olhos do papel para olha-la.
-Estava concentrado olhando esse livro, não te vi. - Levantou o livro para ela e depois voltou a colocá-la na cabeceira ao lado da cama. - Parece interessante, está gostando?
-Muito. -Afirmou com um sorriso. - A autora, conta que os lobos foram pintados com um pincel negro nos contos de fada e até hoje assustam meninas indefesas. Mas nem sempre eles foram vistos como criaturas terríveis e violentas. Na Grécia antiga e em Roma, o animal era o consorte de Artemis, a caçadora, e carinhosamente amamentava os heróis. E Clarissa Pinkola, que é a autora, acredita que na nossa sociedade as mulheres vêm sendo tratadas de uma forma semelhante. Ao investigar o esmagamento da natureza instintiva feminina, Clarissa descobriu a chave da sensação de impotência da mulher moderna. É uma aventura incrível, ela reconta as mais famosas histórias como: patinho feio e barba azul, e analista como a natureza instintiva da mulher foi sendo domesticada ao longo dos tempos, em um processo que punia todas aquelas que se rebelavam.
-Que interessante, depois que terminar que empresta, quero ler. - pontuou com um sorriso lindo e sentou ao seu lado na cama.
-Você gosta de ler?
-Não é meu hobbie preferido, confesso. - Encolheu os ombros e não pode deixar de rir pela inocência do gesto. - Mas quando uma boa pessoa indica, eu leio. Ou quando me interesso pelo tema. No caso desse livro. - Apontou para a capa vermelha. - As duas coisas.
-Pode levar, eu acabei ele hoje pela tarde.
- Eu vim te ver, fiquei preocupado com você durante o dia, eu soube do que aconteceu no treino. - Iniciou com cautela, não queria parecer inconveniente. - Luiza disse que você comeu pouco no jantar e também não atendia as ligações.
-Me desculpe, ! - Deu um sorriso na direção dele e colocou as duas pernas na cama, sentando como os índios. - Eu estou bem, comi o suficiente, Luiza me obrigou. - Sorriu fraco. - Eu fiquei frustrada com o problema não carro, e eu quis socar todas as pessoas do planeta terra, por isso eu vim pro quarto. Eu me preparei muito, , me esforcei dia e noite. Dei duro e fiz tudo esperando esse momento e no primeiro momento, logo quando tudo ia acontecer, o carro dá problema, isso me deixa tão irritada. - Confessou e soltou uma risadinha nasalada e balançou a cabeça positivamente.
-Senninha, eu entendo sua frustração e realmente não é nada agradável, porém, não tem nada que dê para fazer agora, você precisa focar sua mente e amanhã recuperar o tempo perdido. Nós, pilotos de fórmula Um, dependemos de um carro, de uma máquina e várias pessoas para nos auxiliar, é um conjunto e por mais que não estejamos preparados para ver algo dar errado, infelizmente dá. Hoje foi com você, amanhã pode ser comigo, ou com Ricciardo e Verstappen. Amanhã será um dia melhor, tenho certeza. - Soltou palavras de conforto e ficou em silêncio, analisando o que foi dito.

estava certo, não tinha que remoer as dificuldades que enfrentou no dia, isso a deixaria presa e totalmente preocupada com o que poderia acontecer de errado e não com o que daria certo, a poluição de sua sanidade estava diretamente ligado a conseguir tirar de sua mente tudo que aconteceu e focar no que precisava para seguir em frente.

-Eu sei que funciona assim, mas meu lado competitivo acaba me deixando para baixo às vezes. - Respondeu após alguns segundos de silêncio.
-É assim mesmo, mas sempre devemos levantar a cabeça e olhar para frente, aprenda sempre com seus erros, mas deixe eles no passado. - Ele se colocou de pé. - Pense no que aconteceu hoje, somente hoje, analise as possibilidades e veja como pode melhorar, e então amanhã quando acordar tenha sua mente limpa. Não leve para a pista amanhã, o que aconteceu hoje.
-Obrigada, ! Eu vou limpar minha mente. - Sorriu aberto e cruzou os braços.
-Eu já atestei que está bem, então eu já vou indo. - Com as duas mãos arrumou a touca sobre a cabeça e não encarou mais , já que o movimento que fazia para mexer nos cabelos deixava seu colo a mostra e atraia os olhos de para lá.
-O que? Como assim já vai? - Desviou os olhos do cacho que amassava e procurou encontrar os olhos dele. -Eu só vim ver como você estava, fiquei preocupado, eu achei que você poderia estar precisando de um amigo. - Constatou e colocou as duas mãos dentro no moletom.
-Mas você tem compromisso agora? - Pegou o celular e olhou as horas, ainda eram sete e vinte da noite, e por mais que precisasse dormir para o dia seguinte, estava relativamente cedo.
-Não, eu não tenho compromisso. Eu só vou para o quarto descansar. - Deu de ombros e mordeu o interior da bochecha.
-Então fica mais um pouco. - Pediu com naturalidade. - Eu fiquei o dia inteiro presa aqui, remoendo e pensando no que aconteceu, preciso preencher minha cabeça com outras coisas.

não pode evitar o sorriso ao escutar o pedido para que ficasse, e ele queria muito ficar, desfrutar da companhia gostosa dela, por isso não titubeou em responder.

-Eu fico. O que você quer fazer? - Relaxou a postura ao ver o sorriso dela.
-Eu iria assistir alguma coisa, o que acha de começarmos aquela série que me indicou, Alias Grace? - Sugeriu enquanto passava os olhos pelo quarto à procura do controle.
-Ótima ideia, eu estou mesmo precisando ficar mais tranquilo. Hoje no treino, acabei com uma dor nos ombros. - Contou tocando o mesmo e franziu o cenho um pouco preocupada.
-Falou com a ngela?
-Sim, ela resolveu e me disse para ficar quieto. - Contou lembrando as palavras de fisioterapeuta e amiga.
-Isso é bom. - Sorriu quando teve a certeza que estava tudo bem com o amigo. - Eu vou para o Netflix. Como foi o treino para você? Eu nem olhei os resultados. - Ela perguntou enquanto ajeitava as coisas para que ficassem confortáveis.
-Tive um bom resultado. - começou a relatar enquanto observava descaradamente os movimentos dela ao organizar tudo pelo quarto, iria continuar sua fala quando começou a puxar o sofá de dois lugares que tinha no canto da parede, para deixá-lo em frente à televisão. - Espera, deixa que eu faço isso. - Se aproximou a passos rápidos para impedir que ela continuasse pegando peso sozinha, ela, porém, não deu muito importância continuou tentando empurrar o móvel para a posição que queria.
-Não, você não precisa me ajudar, eu aguento empurrar um sofá. - Retrucou.
-Quem disse que não aguenta? - Se postou ao lado dela com as duas mãos, e com muita facilidade empurrou o sofá até onde ela queria, e não se importou com o bico torcido que ficou no rosto da brasileira, somente lhe afagou os cabelos ao final do movimento e está na disse nada.

sentou no sofá com uma coberta e o controle em mãos, pronta para acionar o entretenimento no Netflix, seguindo seu exemplo o piloto tomou o assento ao seu lado e tirou os tênis com os próprios pés, depois passou o moletom por sobre a cabeça e com o movimento a touca saiu junto e o homem precisou arrumar o pano que cobria suas tranças.
A Senna mais nova prosseguiu com o movimento de procurar a série, mas , se distraiu com a imagem despojada dele ao seu lado. Tão natural enquanto se livrava das roupas pesadas e permanecia belo. Sem contar como o movimento exaltava os músculos belíssimos de seus braços e a maneira firme como ajeitou a toca a fez questionar qual seria a intensidade de seu toque… como homem.
Não que fosse algo com que ela se preocuparia, era apenas uma curiosidade pela cena que viu, nada de interesse pessoal.
Entretanto, o que mais a encantava era que o homem ao seu lado não era , o heptacampeão e detentor dos vários recordes da fórmula um, era somente seu amigo, sem qualquer vaidade ou luxo, só um homem que estava querendo assistir uma série boa para descansar a mente.

- Por que você está me olhando com essa cara de serial Killer? – Os ombros de empurraram os de e a despertaram dos pensamentos. – Não me diga que está planejando minha morte.
- Claro que estou, com minha cara de boa moça, ninguém vai desconfiar de mim. – Deu de ombros com um sorriso aberto. – E assim eu posso pegar seu cachorro para mim.
- O quê? – Exclamou perplexo. – A maioria das pessoas iria querer meu dinheiro, você quer o Roscoe?
- Eu sou diferente de todos, não quero o dinheiro, quero o cachorro. – Abanou a mão. – Agora cala a boca que vai começar o episódio. – Empurrou as pernas de e voltou sua concentração para a abertura de Alias Grace.

balançou a cabeça negativamente e deu um sorriso, ele sabia que ela não era como a maioria. E em seu coração, a cada momento que ela exibia uma reação, ou comentava algo, ele se alegrava por Senna fazer parte de seu mínimo círculo de amizade, e mais ainda, por ter o privilégio de compartilhar ao lado dela momentos tão simples, mas de tamanha importância.

XXX


O sábado no Bahrein amanheceu mais uma vez totalmente ensolarado, uma das coisas que mais amou, já que tudo ela pedia era para não precisar se encapotar de roupas.
Ela não demorou cinco minutos para se arrumar, vestiu a camisa da McLaren de mangas e detalhes em laranja, colocou um short de alfaiataria coral e um tamanco de saltinho quadrado com tiras na cor preta, os cabelos estavam cacheados e volumosos, e óculos de sol fechava a produção.
Após sair do quarto, encontrou com Luiza mexendo no celular em frente ao elevador, a fisioterapeuta digitava freneticamente algo e só percebeu a presença da piloto quando está lhe tocou o ombro.

- Bom dia. – Cumprimentou passando o braço pelos ombros da ruiva. – Dormiu bem?
- Bom dia. – Luiza mandou um beijo no ar. – Sim, e você? Como foi a noite com ?
-Como assim à noite com ? – Questionou ao ver a porta do elevador se abrir. – Do jeito que fala parece que nós temos um caso, mas, nós somente conversamos.
- Você quem está falando de caso, eu somente fiz uma pergunta. – Luiza guardou o celular no bolso da calça jeans. – Eu sei que ele foi lá, porque ele me ligou preocupado com você, e por falar nisso como tem o numero do meu celular? Quando ele disse: Sou eu, , eu quase disse: pegadinha do malandro. – Ergueu os dois polegares imitando o ator que por muito anos fez sucesso com essa fala em um programa televisivo do Brasil.
- Eu passei para ele, caso acontecesse alguma emergência. Eu sou uma mulher prevenida. – Respondeu dando de ombros e encostou o corpo na parede metálica atrás de si, enquanto Luiza apertava o número do hall do hotel.
- É nada, você é sagitariana.
- Você tem esse péssimo hábito de achar que somente vocês, os virginianos, podem ser organizados e precavidos. – Apontou com o dedo em riste e Luiza rolou os olhos.
- O problema não são que outras pessoas não podem ser organizadas e precavidas, mas você não é, eu te conheço a minha vida toda. – não pode evitar um sorriso, de fato, errada ela não estava.
- Ah, dane-se. – Abanou com a mão. – De qualquer maneira, nós conversamos e ele me deu umas dicas, nada demais.
- Querida, bateu na porta do seu quarto exalando preocupação, acredite isso é muita coisa. – Constatou a outra. – Mas não vou entrar nesse mérito com você, o amigo é seu. – Deu de ombros.

As portas se abriram e as duas mulheres caminharam lado a lado para fora do hotel, onde pegariam um carro e chegariam ao autódromo onde em poucas horas se iniciaria o segundo dia de treinos.

- Eu dirijo. – Luiza anunciou enquanto destrancava o carro que haviam alugado. – Você tem que poupar os braços.
- Sim senhora. – Concordou a Senna e tomou o assento do carona, logo colocando o cinto e tirando os pés dos tamancos para por na poltrona. – Vou colocar um pagode. – Pegou o celular para conectar no painel, e Luiza assentiu dando seta, engatando a primeira marcha e saindo do estacionamento.
- Por que você está de salto? – Questionou olhando de soslaio para o tamanco jogado no tapete do banco do carona.
- Por que eu posso. – Respondeu simplesmente, colocando sua playlist no aleatório e esperando qual seria a primeira música a tocar. – Não existe uma regra quanto aos meus sapatos, eu preciso estar com a camisa da minha escuderia, mas posso calçar o que quiser, assim como a parte debaixo, calça, short, saia, o que eu quiser.
- Vai ser confundida com namorada de piloto. – Resmungou a outra e bateu as mãos nas coxas no ritmo de Sina, do Revelação que começava a tocar.
- Que nada, eu tenho é estilo, isso sim. – Comentou. – E eu ainda sou uma mulher, mesmo estando no meio de tantos homens, sempre gostei de usar saltos e shorts, não pretendo parar.

Dali em diante nenhuma palavra foi dita, as duas apenas cantarolavam alguma parte da musica e trocavam algum comentário sobre qualquer assunto bobo. Em poucos minutos as duas chegaram ao autódromo, acenaram para os fotógrafos oficiais que ali estavam e com as credenciais entraram no paddock.
Luiza seguiu direito para a garagem, onde guardaria algumas coisas e prepararia uma sessão de aquecimento de , para que esta não tivesse qualquer lesão e tivesse um bom desenvolvimento muscular.
pediu alguns minutos para Luiza e disse que precisava de um café, a fisioterapeuta liberou quinze minutos e a pediu de volta na garagem. A brasileira assentiu e tomou o caminho inverso ao da amiga.
Pediu um café preto e sem açúcar e sentou-se em uma das mesas, que a possibilitava acompanhar a movimentação no paddock. Ela gostava de ver todas essas pessoas andando e trabalhando, era algo incrível de assistir.
Pegou os fones sem fio e plugou na orelha, dando play do Spotify para seguir a lista de pagode e agora tocava: Pimpolho do Artpopular.
Mexia a cabeça no ritmo da música e cantava a letra baixinho, sentindo a positividade da melodia tomar seu corpo.
Estava distraída e por isso não viu alguém tomar o assento em sua frente, foi constatado a presença somente mediante ao cumprimento.

-Hola, Senna! - A voz suave disse e então a brasileira desviou os olhos do café e ergueu para frente e surpreendeu-se ao ver a figura de Mick Schumacher em sua frente.

O alemão estava com um sorriso aberto no rosto, os olhos azuis brilhavam sobre o sol do Bahrein. Ele trajava a blusa branca da Hass, escuderia que pilotava e segurava uma garrafa de água. Mick era filho de Michael Schumacher um ex-piloto de fórmula Um, era uma das grandes lendas do esporte, sendo o detentor de 91 vitórias na e também sete campeonatos, até o ano de 2020 era o maior recordista do automobilismo, hoje, apenas tinha igualado ao seus recordes e superado a quantidade de suas vitórias.

- Tudo bem e com você? – Mick, bebeu um gole de sua água e depois a colocou sobre a mesa, para tirar o celular do bolso da calça escura que usava.
- Tudo tranquilo, tenho a sensação que hoje será um bom dia. – Respondeu positiva, e de fato, tudo que ela imaginava era que aquele treino seria o melhor.
- Isso é importante, pensamento positivo é o início de novas conquistas. – O loiro assentiu de maneira positiva.
- Com certeza. – Soprou e bebericou o café. – Eu ainda não tive a oportunidade de conversar com você, como está sendo finalmente estar na fórmula um, é como você imaginou?

Mick passou a mão direita nos fios loiros, e projetou os lábios para frente como se pensasse sobre o assunto. Depois de alguns segundos de um silêncio confortável, pigarreou para responder.

- É a realização de um sonho, mas está longe de ser o que desejava. – O garoto iniciou o relato. - Planejei tanto estar aqui, e é incrível, mas não se parece com o que imaginei. - Desabafou o jovem, pela primeira vez, sentindo-se confortável em falar sobre suas expectativas naquela categoria.
-É por causa da equipe? Você queria correr pela Ferrari, por causa do seu pai? - Questionou a brasileira, tirando os óculos de sol do rosto para não ter qualquer empecilho quanto ao contato visual com o mais novo.
-A Ferrari é meu sonho, não escondo de ninguém. - Os olhos brilharam. - Mas eu sei que se eu fizer o meu melhor, é inevitável, vai acontecer. Mas mesmo na Ferrari ainda será incompleto.

O coração de bateu mais forte e finalmente ela pareceu captar e entender do que ele se feriria.

-Vai ser incompleto para sempre. - Relatou de olhos fechados. - Eu imagino que você devia idealizar isso aqui com a presença dele, tendo em vista que jamais se afastou do automobilismo mesmo ele não te acompanhando mais. E eu sei como é querer pisar aqui, e tê-lo ao lado. Sei como é doloroso olhar para todas essas pessoas que conviveram com ele, mais do que eu, e que me dizem: você tem os olhos do seu pai. - Soltou um sorriso fraco, carregado de dor.
-Exatamente isso. - Mick concordou. - Todo mundo me para pelo paddock, me deseja boas vindas e dizem: como é incrível ver esse sobrenome de volta às pistas de novo. Eles estão felizes e acreditam que entendem que eu estou aqui por mim e por ele, que sabem como meu sobrenome é importante e que eu não devia me importar com isso. - Respirou fundo e bebeu mais um gole da água sobre a mesa, e só então voltou a falar. - De todas as pessoas que eu converso que estão ligadas ao automobilismo, você é a única que me entende. A única.
-Eu concordo totalmente. - Ela assentiu e esticou a mão direita sobre a mesa para envolver a do mais novo. -Não são passos fáceis, Mick, mas saiba que você não é ele. Michael Schumacher é grande, é incrível e tem uma história cravada nessas pistas, mas você não é ele. Não deixe as pessoas te compararem a ele, dizerem que você tem que ser como ele foi ou fazer o que ele fez, porque você não tem. A única coisa que você precisa fazer é amar esse esporte, e ser o melhor que conseguir. O que acontecerá com o resto, não importa.

Mick estava com os olhos fixos na mão de sobre a sua, e não conseguiu erguer os mesmos para encarar a mulher, somente foi capaz de colocar sua mão por cima da dela.
Era imensurável conseguir expressar seus sentimentos com sinceridade sem qualquer preocupação sobre ser entendido e não ser julgado, pois ele sabia, tinha total convicção que ela entendia.

-Você em algum momento teve dúvida quanto a carregar esse sobrenome? Eu pensei em usar o nome da minha mãe, talvez assim eu sentisse menos o peso. - Confidenciou e fechou os olhos com o impacto das palavras do garoto, exatamente as mesmas que corroeram sua alma por semanas.
-Você deixaria de ser um Schumacher se usasse o sobrenome da sua mãe?
-Jamais. Eu tenho orgulho do meu sobrenome, e com todo respeito ao seu pai, mas para mim o meu pai é o melhor. Porque haveria de me distanciar dele? - Encolheu os olhos e gargalhou com o comparativo entre os dois ex-pilotos. - Só que às vezes, parece difícil demais carregar esse fardo.
-Quando eu compartilhei com um amigo sobre o medo de usar meu sobrenome, ele me disse: Usa o nome , ele é seu. Seu por direito, seu por herança, seu porque seu pai quis que fosse. - Repetiu exatamente a frase que usou com ela meses atrás, jamais se esqueceu dela e sabia que provavelmente a levaria para o resto de sua vida. - Ter medo é normal, mas o nome é seu também, ele escolheu te dar, não há motivos para ter medo e as pessoas não tem direito de te dizer o que fazer com seu nome, afinal ele é somente seu.

Os dois permaneceram em silêncio, apenas apreciando a beleza das palavras de . Para o mundo inteiro, ter dois sobrenomes como os deles na pista novamente, era quase inacreditável. Todo mundo queria ver Senna e Schumacher na pista novamente, e ambos os pilotos precisaram deixar os autódromos de maneira precoce, o mais velho pelo óbito em 1994 e o mais novo devido a um acidente em 2013.
Entretanto, anos depois as pistas encaravam os dois sobrenomes novamente, claro que não da forma como todos desejaram, mas sem sombra de dúvidas as expectativas estavam altas.
Para e Mick, não se tratava sobre os pais, era algo a respeito deles, sobre o que os dois poderia ser no esporte e ainda mais, na vida.
Além do que seus sobrenomes significavam.

-Eu gostaria que ele pudesse me ver. Acompanhar minha carreira e me ver vencer. -Disse baixo o alemão e assentiu com a cabeça.
-Eu também queria. Quando eu era mais nova tudo que eu queria era estar aqui, mas eu fui covarde e desisti de correr depois de ganhar um campeonato de Kart, o próximo passo seria avançar de categoria. - Contou. - Mas você não fez isso, mesmo sem o seu pai, você não desistiu, seguiu seu sonho e hoje está aqui. Seu pai está orgulhoso, Mick, e eu torço para que ele consiga te dizer isso em breve.

O loiro abaixou a cabeça até as mãos dos dois e pousou ali, deixando seus ombros relaxarem por breves instantes.

- O que acha de uma foto? – Sugeriu e abriu o sorriso e se levantou, ainda sem soltar suas mãos e rodeou a mesa para sentar-se ao lado do mais novo. Mick pegou o próprio celular, destravou com a própria face e abriu o aplicativo da câmera. Esticou o braço esquerdo e levantou o celular, se aproximou mais e abriu o maior sorriso que conseguiu, assim como Mick que tinha brilho no olhar, e então o registro foi capturado.
- Deixa eu ver. – Pediu e Schumacher apertou no canto inferior esquerdo, abrindo a pasta de fotos e clicando na ultima que fora gravada, pegou o celular das mãos dele e observou a foto. – Está aprovadíssima, me manda.
- Claro, eu só vou postar e já te encaminho. Me adiciona no WattsApp. – O loiro tinha sua atenção presa na foto e já a encaminhava para o aplicativo do instagram e colocava um efeito na foto. Enquanto isso pegava seu próprio telefone para colocar Mick entre seus contatos.
- Eu preciso ir, já vai começar o treino. – Ela assistia o alemão digitar seu próprio número no celular da mais nova amiga.
- Foto publicada e número salvo. – O piloto da Hass devolveu o Iphone para e está viu a publicação aberta na tela da rede social dele. A legenda era simples: Schumacher e Senna estão de volta à fórmula um. - Essa foto é tão pesada que em vários celulares não vai nem carregar. – A mulher brincou e Mick gargalhou, os dois se colocaram de pé e trocaram um abraço. – Bom treino, a gente se vê por aí.
- Tchau, Senna, mostra para eles quem é que manda. – Os dois começaram a caminhar para lados opostos, porém, após alguns passos parou e girou nos calcanhares, correndo até Mick novamente. – Schumacher, espera. – Pediu e ele parou onde estava e virou-se para olhá-la.
- O que houve?
- No Réveillon, eu estava no Brasil e conversei com minha avó, a mãe do meu pai. – Iniciou a fala sob os olhos curiosos e desentendidos de Mick. – E eu compartilhei com ela todos os meus medos e inseguranças, e como eu desejava intensamente que meu pai se orgulhasse de mim, assim como você deseja. E ela me disse: que o maior legado do meu pai, não está ligado aos títulos e a carreira como piloto. E eu vou dizer a mesma coisa para você: O seu pai, foi um piloto incomparável, vários recordes, sete campeonatos, mais pódios que se pode contar, mas nada se compara com a conquista de te ter como filho. O maior legado do seu pai, o grande Michael Schumacher, é você. Ele não amou nada ligado ao automobilismo mais do que amou você, não chorou pelos recordes como chorou ao te ver nascer. Ele está orgulhoso de você. Ele tem orgulho de você, e jamais, Mick, jamais deixe que qualquer pessoa te faça duvidar disso.


XXX


O segundo dia de treinos da pré- temporada estava liberado. estava dentro carro, somente esperando que um dos mecânicos desse sinal para que essa saísse para a pista. Enquanto esperava, seu coração palpitava dentro do peito, finalmente, o momento estava chegando e ela não poderia estar mais feliz. Os acertos do carro foram feitos e junto com eles, um check-up e somente após constatar que nada estava fora do lugar, Kira Devlin pegou no sono durante a noite. A engenheira tinha certeza que aquele dia , colocaria para fora tudo que sabia e mostraria o que poderia fazer.
Assim que recebeu o sinal, a mulher colocou a primeira marcha e saiu para a pista.

- O jogo está começando. – Disse para si mesma e então entrou na reta, conseguindo liberar mais velocidade. – Vamos lá, pai, vamos nessa comigo. – Pediu e sorriu em seguida, sentindo seu corpo se arrepiar com a adrenalina de colocar cada vez mais velocidade e sem sentir qualquer reclamação do carro quanto ao câmbio de marchas.

Levou cerca de dez minutos para que os outros pilotos saíssem à pista, e Leclerc, Gasly e Stroll abriram os trabalhos após , que foi a primeira, seguidos logo na sequência por Schumacher, que buscava uma sessão mais produtiva que a de ontem, quando deu poucas voltas por problemas no câmbio de seu carro.
Os problemas com os carros começaram a partir do final da primeira hora, com Stroll andando muito lento pela pista e com seu carro soltando muitas faíscas, mas o canadense conseguiu levar sua Aston Martin de volta aos boxes.
Na marca de uma hora, Bottas completou sua primeira volta rápida do dia, mas não sem problemas, quase perdendo o controle do carro na curva 11. Seu 01min36s105 foi suficiente para ocupar a 12ª posição no momento.
Próximo da marca de duas horas, Gasly e Latifi protagonizaram uma mini disputa por posição na pista, com o francês tentando ultrapassar o piloto da Williams na curva final e na reta principal com a ajuda do DRS*.
Com 02h40min de sessão percorrida, a bandeira vermelha foi acionada por conta de um grande número de detritos na pista. O mexicano Perez da RBR tentou ultrapassar Latifi piloto da Williams usando o vácuo, mas o fluxo de ar acabou entrando por baixo da cobertura do motor, arrancando a parte da carenagem da Red Bull. A sessão ficou parada por poucos minutos e logo na sequência tivemos uma sequência de voltas rápidas de Giovinazzi, Stroll e Gasly, enquanto Bottas começava a melhorar seus tempos.
Com três horas de sessão, os melhores tempos do dia começavam a ser também os melhores da pré-temporada até então, superando a marca de Max Verstappen obtida na tarde de sexta. Neste momento, Latifi ainda perdeu o controle da Williams no final da reta e acabou rodando próximo de Leclerc, sem maiores problemas para ambos.


Dê play na música.

estava em oitavo lugar com o tempo de 1m31.682s quando foi chamada para o Box, para colocar os pneus C5 os de faixa vermelha, os macios da Pirelli, com um pitstop* incrível de 2.2 segundos, voltou para a pista. Em momento nenhum no treino tinha liderado com a volta mais rápida, e não era o que todos esperavam dela, já que estava estreando. O que todos pediram era que conseguisse ficar o máximo de tempo na pista e que desvendasse os segredos do carro, e era exatamente isso que estava fazendo.

- Como está ai, Senna? – Kira falou pelo rádio e brasileira pigarreou antes de falar.
- Tudo no lugar. Aderência perfeita, os pneus estão bons, todos os problemas sanados.
- Então abre uma volta para mim, quero ver se consegue me dar velocidade. Mas cuidado com a curva onze quase todos os pilotos rodaram nela.
- Está bem. – Assentiu fazendo a última curva do circuito e então voltando para o início, onde poderia abrir uma volta rápida.
- Dê tudo que têm, .

Segurou o volante firmemente com as duas mãos, sentindo o pano das luvas quase se fundirem com suas palmas, tamanha a força colocada. Era o momento de dar tudo de si, era agora que veria a realidade do que estava fazendo ali, e por isso não pensou duas vezes antes de entregar tudo que tinha dentro do esportivo da McLaren.
Colocou sua alma na ponta de seus dedos e tentou recordar-se dos treinos no simulador daquela pista, identificando onde poderia reduzir mais a marcha, e onde deveria acelerar e dar tudo que o carro tinha, tendo cautela onde deveria, para não sair da pista e também para não girar demais o volante e dar possibilidade para algum outro piloto, conseguir pegar seu vácuo.
Ela conseguia sentir que estava voando, era como se seu corpo estivesse sendo transportado para fora e enxergasse de longe tudo que estava acontecendo. Ela viu as curvas perfeitas que conseguiu fazer, viu como conteve o volante para não vacilar e sentiu o vento perfurar seu capacete nas retas, quase como se fosse possível ser o próprio vento e somente soprar na direção certa. E a direção certa, era exatamente onde estava, seguindo para alcançar tudo que necessitava.
E então ela reconheceu, claro como o sol que estava iluminando o circuito naquela manhã de sábado, Ayrton estava ao seu lado. As mãos dele sobre as dela, os capacetes lado a lado, e os corações batendo no mesmo ritmo, a presença dele estava nítida, e ela poderia achar que estava louca ao constatar isso, mas assim que seu carro cruzou a linha de chegada, ela soube que não.
Ele estava lá. Estava ao seu lado, guiando o carro junto com ela. Como sempre disse que faria.

- Você fez o melhor tempo, , o melhor tempo. – Kira disse no rádio, completamente entupida de alegria quando constatou que na tela mostrava 1m30.289s.
- Nós conseguimos, Dev. Conseguimos.

Kira sorriu da garagem quando viu a que a mulher já estava preparada para tornar a abrir uma nova volta e tentar diminuir ainda mais as viradas e aperfeiçoar seu tempo.

- Você está no jogo, Senna. Você está no jogo.

No final, o 01min30s289 de Senna não foi superado por nenhum dos outros pilotos e o finlandês terminou como o mais rápido do sábado e o mais rápido da pré-temporada até aqui. Completando o Top 5, Gasly com 01min30s413, Stroll, 01min30s460, Perez, 01min30s586 e Giovinazzi, com 01min30s760.

- Obrigada pai, sei que estava lá comigo. – disse sozinha enquanto os mecânicos empurravam seu carro de volta para a garagem. E quando desceu do cockpit os primeiros braços que encontrou foram de Luiza que já a esperava animada, e assim que o corpo se chocou com o da melhor amiga, desabou sobre os braços dela. Sentindo toda a emoção que poderia, Luiza não era somente sua melhor amiga, ela era sua família, e representava todos. Era o abraço de sua mãe, Viviam, no Brasil que assistiu à sessão com os dedos cruzados pedindo a Deus a proteção da única filha. Era o abraço de sua avó, Neyde, que estava entupida de orgulho da neta e vendo cada dia mais, os traços do filho nela. Era o abraço de Henrique Zanoti, que não só era o melhor amigo de Ayrton Senna, mas um dos maiores apoiadores de sua carreira, e sentado no sofá de sua casa em São Paulo estava vibrando ao ver que aquela garota tinha mesmo o sangue do pai. E acima de todos, era o abraço do próprio Senna, que se manifestava a filha através de coisas simples, sempre demonstrando que estava ao seu lado.





Para ficar por dentro das atualizações da fanfic tem duas formas nas redes sociais: O grupo no facebook:


E o grupo do whatsapp: LorenaUniverse.





Continua...



Nota da autora:Que capítulo gostoso esse, confesso que tive que me controlar com Aurora e Lewis, estou doida para saber se eles serão alguma coisa a mais. O que vocês acham?
Além disso, eu amei ter o privilegio de colocar a Senna com o Schumacher, que emoção esses dois juntos, esse legado dos dois parece ainda maior. Esperam muito dessa amizade? Vou confessar que eu sim.
Aurora teve um inicio difícil nos treinos, depois deu uma melhorada, será que ela mantem esse ritmo ou vai ter que lidar com mais frustrações?
Não deixem de comentar, uma autora feliz, sempre atualiza mais rápido!
Como vocês já sabem o Disques está com problema, mas caso queria fazer uma autora feliz, comente sobre essa fic clicando: AQUI.



comments powered by Disqus