Contador:
Última atualização:05/03/2021

I

Que Calor!
pensava enquanto caminhava a passos rápidos pela estrada de terra batida que a levaria até a casa, o sol estava quente e o vento escasso. As roupas pesadas tornavam a caminhada até a vila mais penosa que o normal, somado a isso, o avançado estágio da gravidez a fazia sentir-se pesada. Parecia um pão fofo, as mãos estavam maiores, o rosto mais redondo, as pernas e braços eram o dobro que antes. Cada dia que avançava tornava a rotina das idas a vila mais difíceis, em breve teria que recorrer a , seu esposo para aquela tarefa.
Caminhava a passos apressados pela grande ponte de pedra, estava perto de casa, já era possível vislumbrar o telhado e parte da copa do velho freixo tão velho quanto aquele país. Aquela era a casa de seus pais, morava ali desde que nascera. Agora, junto a seus pais, seu amado também dividia o espaço entre as paredes de pedra da pequena casa. Casados há quase um ano, estavam à espera ardente e ansiosa do primeiro filho. Fruto de um amor repentino e inesperado, capaz de transformar tudo ao seu redor da forma mais pura e bela.
se recordava perfeitamente da primeira vez que seus olhos redondos se encontraram com o gatuno olhar de . Os cabelos escuros, olhos casatanhos e rosto sujo do trabalho na forja cativaram sua atenção assim que se cruzaram na missa. Enquanto o bispo recitava em latim aquelas coisas bonitas que nenhum dos dois entendiam, desviava de tempos em tempos o olhar dos olhos intensos de que a encarava sem parar. Depois, seguiram-se dias sem que não se encontrassem, mas algo dizia em seu coração que aquele não era o final, que muito ainda havia de acontecer. Sentia profundamente já conhecer aquele olhar, mas falhava em se lembrar de onde.
O mesmo atingiu , o jovem aprendiz de ferreiro não conseguia não pensar nos olhos dóceis e redondos da jovem, o olhar de corsa assustada e curiosa, nem nos lábios avermelhados. Era definitivamente a mulher mais linda que seus olhos já alcançaram.
Junto com a queda da última folha e a chegada violenta do inverno, durante uma ida a vila para comprar um pouco de gordura e farinha, vislumbrara ao longe a mesma jovem. Ao contrário do dia na igreja, em que ela vestia roupas claras e um véu branco, agora a bela tinha sobre si uma capa verde de lá e um vestido cinza, o rosto estava vermelho por causa do frio cortante e ela caminhava apressadamente. Naquele instante tivera certeza que devia fazer o que seu coração mandava desde o primeiro momento que seus olhos tocaram aquela moça.
Depois de se informar com um de seus melhores amigos, o pintor , planejara tudo, numa manhã gélida, onde nada vivo se arriscava a deixar a toca, rumou até a pequena casa de pedra no topo da colina, depois da ponte. Foi recebido com olhares curiosos e ressabiados do ferreiro que ali morava, Isaac, e de sua esposa mau humorada, Mary. A jovem, que soubera na ocasião se chamar , permanecera dentro de casa.
Após de algum tempo de conversa e propostas matrimonias, enfim o velho ferreiro aceitara dar a mão da única filha em casamento ao jovem aprendiz. trabalharia por algum tempo junto ao futuro sogro, afim de que Isaac pudesse comprovar a índole do rapaz.
E assim fora feito, durante todo tempo de noivado, o casal trocara apenas alguns cumprimentos educados, saudações comuns a todos. Mas os olhares eram intensos e ambos sentiam se conhecer completamente, isso por serem meticulosamente atentos ao comportamento um do outro. Mesmo sem conversar ou outro contato mais íntimo, eram tão doutores um do outro quanto casais juntos a uma vida inteira. Por isso, mal podia contar as batidas do coração ao pousar a cesta de vime sobre a velha mesa de carvalho. Ouvia as batidas das ferramentas de na ferraria nos fundos da casa, aumentando ainda mais sua saudade e compassando a ansiedade por vê-lo.
Logo que pôde, apressou o passo para enfim ver o esposo, descendo o pequeno degrau com certa dificuldade devido ao estado da gestação. Quando sentiu a presença da esposa, voltou seu olhar sorridente para ela que igualmente sorria.
– Bela! – Celebrou enquanto afastava das mãos um pedaço retorcido de ferro. – Eu quase não podia mais respirar de saudade.
– Ora, veja só. – sorriu. – Meu senhor, eu apenas estive fora por uma manhã.
– Pois para mim pareceram anos.
disse beijando-lhe a testa com candura.

– Hoje vi um menino na estrada. – contou escorando-se na mesa de forja. – Um lindo menininho de olhos azuis, estava com a mãe e alguns irmãos numa carroça. Era tão bonito, olhos como uma manhã de primavera. Mal consigo esperar para ver o nosso. – sorriu assistindo a esposa contar sonhadora, tocando a barriga.
– Logo, minha bela. Logo teremos nosso bebê bem aqui. – O ferreiro dobrou os cotovelos, aproximando os braços do corpo, como quem segura um bebê de colo junto a si.
– Você já decidiu o nome dele ou dela? – estava curiosa.
– Penso que devemos chama-lo de . Como o pai, que se chama pelo pai, que se chama pelo avô. – Disse. – Eu não conheço nomes de moças que sejam belos o suficiente para chama-la se assim for.
– Nós devíamos chama-la exatamente assim. – sorriu, principalmente pela feição abobada do marido. – Bela. É um bom nome para alguém cujo pai é tão bem provido na aparência.
– É isso que pensa de mim, minha senhora? – perguntou arqueando uma sobrancelha gatunamente e se aproximando alguns passos da esposa.
– É o que penso desde a primeira vez que meus olhos encontraram os teus. – respondeu sorridente.

assistiu o esposo atiçar o fogo com o fole de forja, o bispo havia feito uma grande encomenda de espadas e pontas de lança. Geralmente, pedidos assim eram feitos aos ferreiros do rei, ou para algum de maior nome, mas o bispo sempre simpatizou com as armas feitas por , principalmente pela beleza e qualidade. Muitas vezes, o ferreiro apenas produzia para o clero, principalmente para os pequenos conflitos mais recentes.
– Se esse ladrão continuar promovendo essa desordem, ficaremos ricos. – Isaac, sogro de balbuciou enquanto carregava carvão para a fornalha.

arqueou uma sobrancelha, sorrindo de canto e baixou o rosto para que o sogro não o visse sorrir.
– Na próxima vez, pediremos duas moedas a mais por cada espada. – Anunciou o sogro.
– Talvez não tenha próxima vez. – soprou e a encarou com olhar estreito e sobrancelha arqueada.
– Não diga tolices. É bom que tenha. – O pai ralhou.
– Então quer que o ladrão do capuz pare de atacar os coletores de impostos do rei? – suspirou.
– Eu acho que já é a hora. – Falou olhando nos olhos do marido e tocando a barriga.
– É bom que ele não pare. Se parar, eu mesmo me encarrego de tomar seu lugar. – Isaac segredou antes de deixá-los novamente.

Como ferreiros do bispo, era lucrativo que ladrões incomodassem a arrecadação. Há algum tempo, um ladrão desconhecido e seus seguidores afligiam os ricos e nobres de Nottingham. O bispo e os homens da guarda do rei tentaram sem sucesso sufocar as investidas dos ladrões, porém, com o tempo e a ousadia do bando, os fracassos do bispo começaram a enraivecer os nobres. Surgiu a necessidade da nomeação de um xerife, mas que falhou irremediavelmente, sendo feito de tolo pelo bando e por aquele que era conhecido pelo povo como príncipe dos ladrões, Robin Hood.
Noite após noite, o grupo causava insônia ao bispo e xerife de Nottingham, roubando dos nobres e clérigos para distribuir aos pobres. Robin se fazia ainda mais conhecido por todos, amado pelos pobres e odiado pelos ricos.
E assim se passavam os dias, no topo daquela colina o único sinal de confusão e brigas era o som estalido da forja, os resmungos do pai e as reclamações da mãe. Longe dali, na floresta de Sherwood o bando de Robin Hood confabulava e no castelo, os nobres de Nottingham se reuniam no concelho, junto ao bispo, tramando e planejando a morte do príncipe dos ladrões.
devia levar a grande encomenda ao bispo e viagens assim eram desgastantes, ele geralmente retornava com a aurora do dia. As reuniões com o bispo e o xerife eram demoradas, banquetes quase sempre aconteciam. A noite passava lenta demais quando não estava ao lado de , ela sempre pensava no que ele devia estar fazendo, se estava se divertindo, bebendo demais, ou se estava bem. Temia por ele, por sua saúde, por seu bem-estar. Era difícil, rolava de um lado para o outro, encarava a lua que já não estava mais alta no céu, faltavam poucas horas para que o amanhecer invadisse a casa. Aflita, levantou-se e rumou para fora, a floresta de Sherwood ficava do outro lado da estrada, avançando por sobre a colina. adorava sentir a primeira brisa sentada sobre o muro de pedra, mas naquela madrugada, preferiu caminhar um pouco, sentindo o orvalho molhar seus pés. Os pais ainda dormiam e ainda levaria algum tempo até retornar, isto era o que ela pensava.
De acordo com o que caminhava, além dos barulhos da noite, pode ouvir uma canção que era cantada ao longe, dentro da floresta. Curiosa, olhou para trás por duas vezes, incerta se devia ou não adentrar a mata fechada, porém a comichão dentro dela a fez avançar por entre as árvores, em busca do som.

Eu sou Robin Hood
O príncipe dos ladrões
Preste atenção na minha fé
E nessa nossa dança
Um copo vai subir
Mãe, não se preocupe, eu não vou ser um guerreiro




seguia o som dramático da melodia que era acompanhada por um alaúde, tristemente tocado. A voz do cantor era rouca, talvez de cansaço ou sono, e a cada verso, a melodia se tornava mais lenta, calma e sonolenta.

Enquanto você defende
A lei dos poderosos
Nós gostamos do lado perdedor
Nós gostamos dos ciganos
Contra toda a Nottingham
Se esta vida é um jogo
Eu não vou ficar de guarda




tentou caminhar com mais suavidade, como uma lebre se espreitando por uma moita de morangos silvestres. A luz da lua atravessava a copa de algumas árvores, clareando o caminho de folhas amassadas.

Eu sou Robin Hood
O príncipe dos ladrões
Preste atenção na minha fé
Você é o centro do alvo
No torneio de dardos
Você é nosso herói
Algumas piadas
E como um final feliz, o mito se torna história
E Rei Coração de Leão marcha para a vitória




Quando se percebeu perto o suficiente, se escondeu atrás do tronco de um freixo. A madrugada ainda seguia a passos lentos, sem nenhum sinal dos raios quentes do sol, ou da claridade rosada da aurora. De onde estava, ela conseguia escutar com clareza todos os versos daquela canção. Em seus passeios matinais, quando precisava se ausentar, ouvir aqueles versos era bastante comum. Ora uma canção animada e feliz, ora uma triste e cansada, ora uma apaixonada e doce.

Eu sou Robin Hood
O príncipe dos ladrões
Preste atenção na minha fé
Parará seus...




E então a canção cessou.
– Não era do meu conhecimento que além de malfeitores, moças também gostassem das florestas de Sherwood. – Robin fez ser ouvido e sorriu, saindo devagar de seu esconderijo.
– As florestas de Sherwood eram bem frequentadas antes que ladrões a ocupassem. – Ela respondeu.
– Aposto duas moedas que agora ela está bem melhor. – Robin sorriu cheio de presunção, voltando a se distrair com seu alaúde. – Sabe, se me permite dizer...
– Não permito. – negou, tentava enxergar o homem na escuridão das copas das árvores.
– Não me importa. – Ele expirou em desdém. – Direi mesmo assim. A senhora está especialmente bonita esta noite.
– Não sei como dizes isso...mal podes me ver, a escuridão toma seus olhos. – o provocou, queria que ele se revelasse a ela.
– Eu enxergo sua beleza com os olhos do coração, ora. – Robin sorriu. – Mas sou um privilegiado, a lua tem sobre ti toda sua luz. Certamente está pálida de inveja da vossa beleza. – Ele a gabou, e girou em busca da voz.
– Devia ter cuidado, ladrão. – Ela alertou gatunamente. – Já não basta a você que o xerife e o bispo o persigam? Quer ter inimizade com meu marido? – Sorriu.
– Pois eu enfrentaria mil xerifes, dez mil bispos e cem mil maridos se preciso fosse, desde que como prêmio pudesse me casar com a senhora. – Robin declarou.
– E acaso eu me casaria com um ladrão?
– Se casaria com o ladrão. – Robin corrigiu. – O príncipe deles. Não é do seu desejo ser nobre? – Ser nobre...– fingiu ponderar. – Vestidos luxuosos, muito ouro, bailes e banquetes...contudo, teria que suportar vossa presença.
– Tenho certeza que suportar minha presença seria a parte mais fácil. – Robin disse.
– E qual seria a parte difícil? – quis saber. Em seguida ouviu o som seco de algo pousando atrás dela, sentiu então o corpo arrepiar com a proximidade daquele que estava clandestinamente coberto pelas árvores e que agora estava próximo demais.
– Suportar a minha falta. – Ele sussurrou perto do pescoço dela.

No mesmo instante, sentiu as grandes mãos já tão conhecidas apertarem sua cintura e a girar, pondo-a frente a ele. Quando seus olhos encontraram o olhar doce e ávido, já tão conhecido, seu coração esquentou e a criança dançou em seu ventre.
– Eu já mal posso suportar. – Confessou ela, sorrindo e selando o momento com uma união rápida de lábios. – Você está bem? Se feriu? – Preocupou-se ela, segurando o rosto dele docemente.
– Não, não se preocupe. Tudo está bem. – Ele a acalmou beijando as palmas de suas mãos. – Eu estou bem, inteiro, de volta para você.
– Obrigada. – Ela sorriu. – Está na hora. Logo o bebê chegará, ele ou ela irá precisar de ajuda. Quem poderá ensiná-lo atirar com arco na sua falta?
– Talvez seu marido? – Ele provocou. – Mas soube que ele possui talento apenas para espadas, um desperdício, certamente. – Robin riu quando se afastou dele, empurrando-o levemente contra o tronco de um freixo.
– Decerto, dizes bem. – Ela pôs-se a fazer o caminho de volta para a casa. – Meu marido deve chegar junto a aurora. – Lembrou-o.
– Certamente, certamente. Não queremos deixar vossos pais esperando. – Robin ajeitou a aljava e apressou o passo para acompanha-la.
. – chamou. – Agora, conte-me. Houve um banquete? Foi animado?
– Não depois da minha chegada. – Ele contou sorridente enquanto caminhavam de volta à casa de pedra na colina.

[...]



O sol ia alto, brilhando e iluminando aquela tarde como se não houvesse outra depois dela. O mormaço já adentrava o ateliê de , um francês que há tempos ocupava uma outra casa de pedra, mais perto da vila. era um grande amigo de e assim se tornara amigo também de , o pintor ocupava seus dias pintando as mais belíssimas telas, em várias delas podia-se encontrar o rosto redondo de .
Naquela tarde o motivo de sua visita era justamente aquele, devia terminar a pintura da mulher grávida, segundo ele, uma surpresa para .
– Poderia inclinar o rosto para a esquerda? – pediu com um sorriso e obedeceu.
– Soube de alguma notícia sobre Robin e seu bando? – sondou.
– Soube que o xerife está perto de prendê-lo. Atacar o banquete que o duque ofereceu ao papa, isso foi...– O pintor balançou a cabeça deixando de lado o tom enfurecido. – Nunca em minha vida vi algo de tamanha irracionalidade.
– Bom, ele tem coragem. – soprou e em seguida sentiu o olhar aquecido e bestificado do outro a atingir.
– Coragem? Do que adianta coragem? – deixou de lado os pincéis. – Esses ladrões têm causado histeria, medo...confusão. De que vale a coragem de um homem em meio a todo esse caos que ele causa?
– O caos já existia, senhor. – sorriu. – Apenas não alcançava vossa porta.
– Não me venha você com esses ideais revolucionários. – se aproximou sorrindo. – Um ladrão é um ladrão, não se engane, ele não possui nenhum tipo de honra. Se esse homem realmente se importasse com o povo, ele não roubaria, tentaria mudar tudo, sem violência.
– Se é o que diz...– suspirou irônica.
– É também o que vosso esposo diz. – lembrou, depois voltou-se para trás do quadro e arqueou uma sobrancelha. – Ou prefere adorar e seguir o que pensa este ladrão?
– Eu sigo apenas meu esposo. – Declarou ela encarando o pintor.
– Bom. Muito bom. – Ele assentiu. – Et vous voilà! exclamou sorrindo e largou o pincel, que rolou pelo chão até alcançar os pés de . – Magnifique.
, por favor, eu não falo francês. – resmungou ao se levantar para que pudesse ver também a tela. – Oh! – Ela exclamou. – É lindo! Sou mesmo eu? Essa sou eu?
– Por favor, . – sorriu lançando seu olhar profundo sobre . – Esta tela não faz jus a sua beleza.
– Obrigada, estou profundamente lisonjeada. É realmente linda. – Ela agradeceu. – Mal posso esperar para mostra-lo a meu marido. Ele vai adorar. – comemorou animada.
– Sim, certamente. – respondeu num suspiro desanimado.

De todas as muitas obras de , aquela com certeza era a mais bela. mal podia esperar para mostra-la a , tinha certeza que o marido amaria assim como ela.
Depois de bebericar um refresco, rumou para casa, a barriga pesava muito, em breve passeios como aquele não seriam mais possíveis. Enquanto isso não acontecia, a mulher aproveitava para fazer tudo que tivesse vontade, não se imaginava plantada em casa como uma planta qualquer, esperando os dias passarem. Mal podia esperar para mostrar o mundo ao seu bebê, apresentar a vila, a floresta, Robin Hood. Imaginava o que o filho diria ao descobrir que seu pai era ninguém menos que o príncipe dos ladrões. Imaginava ensinando o pequenino a caçar, atirar com arco, tocar alaúde.
quase tinha certeza de que o bebê que carregava no ventre era um menino, sempre que o imaginava, imaginava um bebê de boca rosada e olhar esperto brincando com o pai.
– Minha bela! – cumprimentou assim que seus olhos encontraram os da esposa cruzando o muro de pedra.
– Eis aí o ladrão. – Ela sussurrou ao se aproximar, tomando cuidado para que só ele a ouvisse.
– Eis aí a senhora do ladrão. – provocou sorrindo.
– Em alguns dias sinto que não vou conseguir alcançar sequer o muro de pedras. Minhas pernas pesam, eu estou grande como uma melancia. – Ela reclamou sorrindo.
– Uma belíssima melancia, devo admitir. – Ele a beijou rapidamente.
. Como vai? – Frei Tuck, conhecido amigo de surgiu por detrás da oficina carregando alguns pedaços de carvão, ao seu lado estava John, outro amigo de seu esposo e a quem cumprimentou com um aceno.
– Tão bem quanto se espera, Frei. – sorriu. – Soube que causaram uma algazarra admirável no banquete. – Ela disse ao lembrar-se da conversa com .
– Como dizem, nossa fama nos precede. – John com seus brilhantes olhos azuis sorriu altivo.
– Tenho certeza que o bispo ainda está procurando o que o atingiu. – riu alto.
– Devia dizer aos seus amigos desmiolados, Frei, para que parem com isso. – pediu. – É hora de levarmos uma vida um pouco mais calma.
– Você tem razão. – Frei Tuck concordou. – Robin terá outras preocupações em breve, talvez seja melhor deixar o capuz e o arco.
– E o que o povo fará sem mim? – questionou.
– Você já plantou a semente, depois disso o mundo nunca mais será o mesmo. – Tuck animou-o batendo duas vezes em suas costas.

A , não era comum fugir de uma batalha. Criado desde pequeno nas ruas da vila, carregando sacos de farinha, correndo pela floresta e assistindo os espetáculos de marionetes e dos inúmeros caixeiros viajantes que apareciam de tempos em tempos. Se lembrava com exatidão de quando Robin Hood nascera, naquele torneio de arcos, quando as leis abusivas e impostos cruéis esmagavam o povo. quase vencera, o prêmio o renderia boas moedas, mas ao se envolver numa briga com um soldado, fora quase condenado a forca. Por sorte, um frei balofo, de meia idade e com um ninho ruivo sobre a cabeça, chamado de Tuck intercedera por ele, livrando-o da morte certa. Mas como o próprio Frei Tuck gostava de repetir, a semente fora plantada. Cheio de revolta, cansado e inconformado com a situação lastimável do povo, o jovem tomara a decisão que já esquentava seu coração nas noites em que o sono demorava a atingi-lo.
E assim nascera Robin Hood, chamado inicialmente apenas de ladrão, a raposa noturna, mas que de acordo com que mais simpatizantes surgiam, a necessidade de um nome fora saciada quando alguém o chamou de Robin. Robin Hood, o ladrão com seu famoso arco que roubava dos ricos e distribuía aos pobres.
Pensou em deixar o ladrão para trás quando conhecera , mas não demorou para que a jovem descortinasse seu segredo. Ao contrário do que esperava, se tornara sua cúmplice mais fiel e seguidora mais devotada, a paixão do esposo pelo povo a motivava a fazer o mesmo e a segui-lo. o amava, amava seu ferreiro, e amava seu ladrão, Robin.
Por isso, por mais contrariado que estivesse seu coração, sabia que ela estava certa. Era hora de Robin partir, seu filho não precisava de um ladrão, não era justo que ele crescesse como o filho de um malfeitor, com o pai constantemente ameaçado, a caminho da forca. e seu filho mereciam e precisavam de , o ferreiro e aquele era quem ele seria.


II

– Puxe mais um pouco. – pediu a John antes de martelar a tábua mais uma vez.
– Espero que esse telhado suporte as próximas chuvas. – John disse secando com o antebraço o suor que escorria por suas têmporas.
– Ele vai. – anuiu. – Depois precisamos ir até a casa do pequeno Tommy. A chuva fez estragos ainda maiores lá.
– E o xerife abastecendo seu estoque de vinhos...– Frei Tuck balançou a cabeça, pensando alto.
– O bispo pediu uma encomenda maior, com o aço mais caro que eu tivesse. – contou. – Ele vai pagar três moedas por cada espada.
– Minha nossa! – John exclamou exasperado.
– O bispo não mede esforços para aniquilar o que ele chama de doença...peste. – Frei Tuck suspirou ao se sentar.
– Se ele usasse o ouro que gasta tentando me matar, para ajudar o povo...Robin Hood não existiria. – exalou com pesar.
– Não devemos nos chatear com isso. – John abraçou o amigo pelo lado, tentando animá-lo com um sorriso. – Quanto mais o bispo e xerife gastam, mas nós distribuímos ao povo.
– John tem razão. – Frei Tuck concordou pondo-se de pé. – Não nos concentremos nas coisas más.
sorriu, naquele clima amistoso, entre seus amigos mais fiéis ele se sentia bem. John era um gatuno, assim como ele, criaram-se pelas estradas de Nottingham, sobrevivendo como era possível. Ambos sempre fortes e airosos, pareciam irmãos, iguais na alta estatura, nos cabelos escuros desalinhados e nos sorrisos largos, John era distinto do amigo apenas pelos estreitos olhos azuis. Formaram-se e cresceram juntos e, quando Frei Tuck ajudou o príncipe dos ladrões, incorporou-se, de certo modo a uma figura paterna para os rapazes. Por isso, sentiu no coração que devia falar o que planejara há tempos.
– Preciso dizer algo. – O ferreiro anunciou.
– Da parte de quem? – John brincou sorrindo.
– Da parte de , o ferreiro. – Disse e os dois assentiram sorrindo. – e eu gostaríamos que Tuck fizesse o batizado do nosso filho, e que John fosse o padrinho.
– Padrinho? Eu? – Ele repetiu surpreso.
– Que maravilha! – Tuck comemorou.
– Claro! Quem mais seria? – riu cumprimentando o amigo com tapinhas nas costas. – Preciso me certificar de que terei alguém bom por perto caso eu falte.
– Eu aceito, é claro. Aceito sim. – John sorriu, mas logo seu semblante fora atravessado por uma sombra preocupada. – Mas não repita isso. Nada vai acontecer a você ou a .
– Não, não vai. – sorriu sem mostrar os dentes e deu de ombros. – Devíamos celebrar!
– Acho que posso abrir uma exceção e tomar um pouco de vinho. – Frei Tuck sussurrou traçando sobre si o sinal da cruz. – E que o Senhor Deus nos perdoe.

[...]



Aos poucos a nova vida do príncipe dos ladrões tomava forma. preparava John para assumir seu lugar, não queria deixar o povo de Nottingham desprovido de auxílio. Ajudando com o enxoval do pequeno bebê que deveria chegar em breve, fizera um berço de ferro que imitava os cipós cor de bronze dos pântanos, pequenos castelos e cavalos de ferro para quando ele fosse maior. A esposa dizia ser exagero, mas não se importava, estava tão ansioso e animado com a chegada do primeiro filho que muitas vezes, antes mesmo do alvorecer do dia, estava na oficina construindo bonecos de mola e outros brinquedos.
Se acostumaria com aquela vida, pacata, calma, ao lado de sua esposa, de seu filho e dos outros que teriam. Mal podia esperar para ter o segundo, o terceiro, o quarto, talvez uma garotinha ou duas. sorria pensando na possibilidade. Ser apenas o ferreiro não seria tão ruim, viver longe da inquietação das fugas noturnas, das lutas de espadas e das flechas que sempre voavam em sua direção.
Por isso precisaria se cercar de pessoas comuns, não queria se sentir só quando os amigos estivessem em ação. Sempre lembrava de , o pintor francês de quem um dia fora aprendiz e que se tornara um de seus melhores amigos. Nos últimos tempos o visitava com mais frequência, ela amava suas pinturas e adorava as histórias que o francês contava, seus livros e suas bebidas adocicadas.
viu o amigo perto da soleira da porta, observava alguns pássaros, possivelmente para pintá-los depois. O príncipe dos ladrões acenou, chamando atenção do pintor que sorriu de volta.
! – sorriu abrindo os braços.
– Ainda está aqui? Achei que já tinham te enviado num barril de volta à França. – zombou.
– Eu até tentei, mas não me deixaram passar do porto. – sorriu abraçando o amigo. – Que bom vê-lo. Que ventos te trazem aqui?
– Só estou gastando o dia visitando velhos amigos. – sorriu.– Ao que parece, segundo meu sogro, não devo ter trabalho suficiente.
– Um homem muito sábio, com toda certeza. – concordou.
– Venha, entre e beba um pouco de vinho comigo. – O pintor convidou.
– Não é muito cedo para vinho? – perguntou alegre, arqueando uma sobrancelha.
– Nunca é cedo para vinho, meu caro. – soltou um riso nasalado e foi acompanhado por .

era um bom amigo, sempre dizia isso a quem perguntasse. Nenhum homem das artes daquela época se prestaria a ensinar alguém como ele, um ferreiro. A humildade do artista era o que mais cativava , o sempre dócil e gentil pintor era de fácil diálogo, inteligente, sempre intenso e apaixonado por tudo.
A paixão pela vida era algo que tinham em comum, pelos prazeres humanos, sempre envolvido em bacanais, participando de festas regadas a vinho e atos que deixariam Tuck de cabelos em pé, oferecidas pelos mais nobres ou por qualquer um nas tavernas. As muitas mulheres e homens que experimentavam os lençóis do pintor estavam estampadas em desenhos e pinturas a óleo, penduradas pelas paredes de pedra do ateliê. Para , a paixão pela vida era manifestada de outras formas, amor por e por seu bebê, pelo povo de Nottingham, a sede por justiça e por tempos melhores para o povo e, claro, a paixão pelas artes.
herdara o gosto pelas tintas e pincéis de sua mãe, lembrava-se pouco dela, mas aquela era uma imagem constante em sua mente. Com a ajuda de , as mãos grossas e enrijecidas do ferreiro se transformavam em mãos leves e ágeis do pintor e, isso era um dos motivos para a adoração que cultivava pelo francês.
– Onde você arruma todo esse vinho? – perguntou ao amigo enquanto ele o servia pela décima vez.
– O bispo me ofereceu, gentilmente, algumas garrafas como pagamento de uma pintura. – explicou.
– Pintura?
– Pediu-me para pintá-lo sob um cavalo, espada em punho como um cavaleiro vitorioso. – zombou tentando imitar a pose do bispo.

falhou em conter o riso escandaloso que se formou em sua garganta, fazendo-o cuspir o vinho que havia tomado, sujando suas roupas e o chão de pedra.
– O bispo continua a me dar prejuízos, mesmo à distância. – balançou a cabeça negativamente. – Eu tenho um lenço em algum lugar por aqui. – Disse enquanto buscava entre as telas um pano seco para que o amigo se limpasse. – Nunca faça bêbados sorrirem, sempre me avisaram. – Zombou sorrindo.
– Quem é que lhe disse que estou bêbado? – questionou pondo-se também a procurar o lenço. – Estou mais sóbrio do que você é nos dias comuns.

correu os olhos por uma mesa, depois por um pequeno armário feito de carvalho e então seus olhos encontraram uma porta entreaberta. Colocando a cabeça dentro do cômodo, ele avistou o lenço jogado sobre uma mesa, mas seus olhos foram capturados pelas várias pinturas e desenhos fixados a parede. estava em todos eles.
Retratos de sorrindo, com expressão fechada, folheando um livro, colhendo uma flor, os olhos dela, o rosto, colo, lábios, por toda parte.
– Eu não consigo encontrar. – reclamou distraído. – Algum diabo deve tê-lo escondido...
– O que é isso? – questionou entredentes quando percebeu que o pintor estava próximo o suficiente para ouvi-lo.
, eu...– A voz de falhou.
– O que significa isso? – gritou girando-se com violência para encarar o amigo. – Por que o rosto da minha esposa está aqui em todas essas telas? Acaso ela é algum de seus troféus?
– Não. – negou de pronto. – Não, .
– Então o que é isso? – tornou a repetir a pergunta.
– São só pinturas. Apenas pinturas. – se defendeu quando se aproximou de forma ameaçadora.
– Pinturas da minha esposa. – Ele acusou. – Você a está vigiando? Está a seguindo?
– Não, eu não. – se afastou, tentando se defender. – é um rosto fácil de pintar...eu apenas...
– Um quarto cheio delas, ! Um quarto cheio de desenhos e telas da minha esposa! O que mais você tem? – tornou a se aproximar do amigo, revoltado.
– Eu não tenho mais nada! – gritou de volta. – Não tenho mais nada.
– Por que está pintando minha esposa? – inquiriu aos berros. – Diga, se tem alguma honra em você. Diga-me porque tem o rosto da minha esposa por todo lugar aqui.
– Por que eu a amo também! – admitiu num suspiro.

sentiu-se como se tivesse sido atingido por um chute no estômago, um golpe forte que o fez recuar dois passos.
– Eu a amo. – repetiu deixando o corpo cair por sobre uma cadeira, sentindo o peso daquelas palavras se esvaírem.
– Não, você...– tentou limpar a mente daquelas palavras. – Como poderia? Você ajudou para que eu me casasse com ela.
– Sim, . – O pintor repetiu numa careta. – Não finja que não sabe, ou que nunca percebeu. Sabes bem que amei antes que você pusesse seus olhos sobre ela.
– Não é verdade, não pode ser. – negou voltando–se para a porta. – Não.
– Eu a amei assim que a vi pela primeira vez. – assumiu.– Poderia dar a ela o mundo, leva-la a França, apresentar o mundo. Ela seria como uma senhora da nobreza. – Ele encarou os próprios pés e suspirou. – Mas ela escolheu você. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, tive minhas mãos atadas. se apaixonou pelo meu melhor amigo.
– Você nunca me disse. Eu teria...eu teria...– tentou se justificar, sentia-se mal pelo amigo.
– Teria? Teria a deixado? Teria deixado o caminho livre para mim? – pôs-se de pé. – Teria desistido de sua esposa por mim?
– Não. – disse a verdade, olhava nos olhos de , gostaria que ele visse como o ferreiro se sentia.
– Como eu supus. – riu tristemente. – No final, não faria diferença, escolheu você assim que soube que existia.

[...]



A relva molhada pela chuva leve que caíra durante o dia era bonita de se ver. observava atentamente as pequenas folhinhas finas e as formigas que andavam sobre elas. A tarde era fria, ventos agitados e frios quase cortavam a pele, choveria muito, uma tempestade, provavelmente. Depois de cansar-se das folhinhas verdes e suas formigas, pôs-se a reparar no céu cinza e pesado que era, de tempos em tempos, cortado por raios brilhantes e estrondosos trovões.
– E se nosso bebê nascer num dia de tempestade? – Perguntou distraída a , que trabalhava afiando uma das facas de Robin Hood. – Minha mãe diz que crianças que nascem durante uma tempestade se tornam pessoas mais fortes que as comuns.

Depois de alguns instantes sem resposta, girou o rosto a procura do esposo.
? – Chamou-o.
– Sim, bela. – Ele respondeu sacudindo a cabeça, como quem deseja dispersar um pensamento ruim.
– O que te perturba, meu senhor? – Ela quis saber, aproximando-se do esposo, acariciou seu ombro com delicadeza.
– Não é nada. – sorriu fraco. – Não se perturbe com isso, não deve ser bom para a criança. – Disse acariciando a barriga dela.
– O que te perturba, me perturba, somos um só. – sorriu.– Acaso se esqueceu das palavras de Frei Tuck durante nosso casamento?
– Jamais me esquecerei daquelas palavras. Nem por um milhão de anos. – beijou-a com doçura.
– Conte-me, por favor.
– Acaso sabia que nutre uma paixão por você? – perguntou de uma só vez.
– Paixão? Por mim? – sorriu atônita. – Não era de meu conhecimento sequer que fosse capaz de se apaixonar por alguém.
– Ele...eu nunca percebi. – se afastou de , apenas para sentar-se onde a esposa estivera sentada antes. – a ama, ele mesmo declarou seu amor para mim.
é seu amigo. – apressou-se em se aproximar do esposo. – Ele é nosso amigo. – Corrigiu. – Não pode ter sentimentos por mim. Me parece conversa de bêbados.
– E se não for? – voltou seu olhar para a esposa, parecia assustado. – E se ele realmente sempre a amou e eu traí sua amizade, roubando-te dele? – Eu não fui roubada, meu amor. – assegurou tomando o rosto do homem nas mãos. – Eu me entreguei de corpo e alma a você no primeiro instante que nossos olhos se encontraram.
– Ontem, pela primeira vez, eu me senti estranho, desconfortável quando estava junto a ele. – confessou. – Tenho me sentido assim nos últimos dias, ademais. Como se algo ruim se aproximasse...é como se meu peito estivesse sendo esmagado por uma rocha.
– Não te preocupes, meu amor. – beijou a fronte do esposo demoradamente. – Nada de ruim vai nos ocorrer, tenho certeza disso tanto quanto tenho certeza que te amo. Não se ocupe pensando coisas ruins. – Pediu e assentiu sorrindo fraco.
– Se não o conhecesse, se não confiasse minha vida a , mesmo ele não sabendo do meu segredo. Se não fosse assim, teria medo, medo de perder-te para ele. – Confessou enquanto acariciava a barriga da mulher.
– Não seja tolo. – sorriu grande. – O único pintor que é de meu interesse é o senhor.
– Mesmo não sendo um dos melhores? Ou nem tão bom quanto ? – gracejou.
– Sempre será você, . – confirmou depois de beijá-lo. – Sempre será você, seja pintando ou fazendo qualquer outra coisa. Meu coração sempre vai amar você.
– Disso eu tenho certeza. – Concordou sorrindo. – Nosso amor é para sempre, sempre vai existir e, eu penso que sempre existiu. É infinito como o céu, como o mar que não se dá para ver o final. – e sorriram juntos, iluminando um ao outro. – Nós vamos nos pertencer para sempre, nem mesmo a morte vai nos separar, e se acaso isso aconteça, vamos nos reencontrar em outras vidas.
– Acreditas mesmo nisso, meu amor? – quis saber aninhando-se nos braços no marido. – Se o bispo escuta palavras como essas, te condenaria a morte de fogueira.
– Pois acredito. – Confirmou sorrindo. – O bispo sempre busca razões para me matar, não fará diferença uma acusação ou outra. – Zombou rindo. – Ouvi, certa vez, uma mulher dizer, mas confio nas palavras dela com o coração. – girou para olha-lo nos olhos. – Concordo por sei que meu amor por você, o amor que eu sinto...uma vida apenas não seria o suficiente.
– E como será isso? – perguntou sorrindo, seu coração transbordava amor.
– Nós vamos nos achar, pode demorar, mas vamos. Eu irei encontra-la e se acaso estiver já casada, te tomarei dele. – Planejou sorrindo.
– Assim será. – Ela riu. – Será que vamos nos lembrar? Vamos nos recordar de quem somos?
– Nosso coração vai, isso será o suficiente. – garantiu selando a promessa com um beijo suave e cheio de amor.

[...]



– Talvez devesse ficar em casa. – A mãe aconselhou irritada. – E não ficar por aí, saltando de pedra em pedra como uma cabra perdida.
– E o que eu vou fazer? Encarar as cenouras? Vigiar os rabanetes crescerem? – zombou tomando em suas mãos um pequeno rabanete e fingindo observa-lo com atenção.
– Fazer companhia ao seu marido. – sugeriu num gracejo ousado, enquanto mordia uma maçã.
– Mas que existência tediosa eu teria. – rolou os olhos e a encarou franzindo os lábios, fingindo chateação.
– Não demora, e perderá a criança pelo caminho. – Mary, a mãe resmungou. – O pobre bebê terá que voltar caminhando sozinho para casa.
– Seria um sinal de sua inteligência, de fato. – provocou a sogra.
– Não tardará para que ela te expulse daqui. – riu quando a mãe deixou o lado do braseiro.
– Então eu teria que construir minha própria casa de pedra. – deu de ombros. – Quem sabe Tuck e os outros me ajudem.
– Talvez eu devesse manda-lo para viver com eles. – provocou.

Antes que pudesse responder, o casal ouviu o som seco das batidas na porta de madeira velha. Era noite, o sol havia se posto a pouco, e uma chuva grossa formava cortinas, impossibilitando qualquer visão para os campos, por isso caminhou lentamente até a entrada, destrancando a porta e a abrindo. Seus olhos encararam o olhar agitado de Frei Tuck, com os cabelos escorridos pelo rosto, molhados de chuva e o hábito marrom ensopado dos ombros aos pés.
– É importante. – Segredou ele.

compreendeu logo se tratar de assuntos da parte de Robin Hood. Havia prometido a esposa não correr mais em direção as flechas e espadas, mas nunca que se oporia a causa ou que daria as costas a seus irmãos, por isso, depois da permissão dela, conduziu Tuck até sua oficina, onde John, Padre Sexton e Skippy já os esperavam.
– O que pode ser tão importante para estejam aqui em meio a esse dilúvio? – perguntou surpreso.
– Perdoe-nos, Robin. – Padre Sexton apertou os lábios ansioso. – Lamentamos incomodá-lo aqui, mas precisamos muito de sua ajuda.
– Certamente. – assentiu. – Diga-me, Padre, como posso ajuda-los.
– Proibiram a caça aos que não são senhores de terra. – John contou. – E agora há uma nova lei de impostos, quem não puder pagar será preso.
– Isso não está certo. – franziu o cenho revoltado.
– Alguns já foram presos, o xerife acorrentou até as crianças. – Tuck disse.

bateu com as mãos espalmadas na pequena mesa da oficina, nervoso, situações como aquela tiravam o príncipe dos ladrões do sério.
– Ainda há mais. – Skippy, o mais jovem do bando lembrou. – O bispo está preparando um banquete para o príncipe John. O maior banquete que Nottinghan já viu, será inesquecível.
– Comida para alimentar todo o povo por dias. – Tuck completou.
– Precisamos agir. – bradou irado. – Convoque os outros, numa assembleia em Sherwood. Vamos ataca-los durante o banquete, certamente ninguém jamais vai esquecer...
– Nós vamos. – John o interrompeu. – Você não. – Corrigiu-o.
– Como disse? – indagou com cenho franzido e sobrancelha arqueada.
– O pequeno John está certo, Robin. – Tuck tocou-lhe o ombro. – Seus tempos de fora da lei passaram, pense em seu filho e .
– Mas como eu posso não fazer nada? – perguntou mais para si do que para os outros, olhando de soslaio para a casa.
– A sabedoria só nos vêm quando já não é mais útil, mas hoje, ouça-nos, Robin. – Padre Sexton aconselhou. – A semente já foi plantada, deixe-nos cuidar disso desta vez.
– Nos ajude com o plano, nos guie, mas deixe-nos. – John pediu.
– Vai sentir orgulho de nós, Robin. – Skippy prometeu e sorriu sereno.

Ainda sentia raiva, revolta, mas seu coração estava quente. Seus amigos tinham razão, devia mesmo deixar o Robin de lado, precisava de e não do ladrão. Era hora de escolher, servir e ficar ao lado do povo, ou do lado de e a escolha era simples e fácil aos seus olhos, mil vezes .


III

– Acho que devíamos construir um castelo, bem ali, de pedras. – pensou alto enquanto desenhava .
– Um castelo? – Ela repetiu.
– Sim. – Ele sorriu. – Onde imagina que ele irá brincar. O filho do príncipe dos ladrões precisa de um castelo só para ele.
– O que acha de deixarmos os problemas de amanhã, para pensar amanhã? – sorriu.
– Não, quero pensar agora. – gracejou fingindo-se afetado. – Quero pensar agora, escolher o nome agora, ver o rosto dele agora.
– Apressar um parto dá má sorte. – alertou rindo.
– Nada nos dará má sorte, bela. – Ele riu. – Já se casou com o ferreiro, que por ironia do destino era um ladrão. Ninguém tem mais azar que isso numa vida só. – Zombou ele.
– Decerto que sim. – confirmou ao se levantar, aproximando-se do marido. – Todas que não se casaram com o príncipe dos ladrões podem se considerar desafortunadas. – Sorriu beijando-lhe a fronte. – Eu preciso andar um pouco, não me sinto muito bem por esses dias. A hora está chegando.
– Deixe-me acompanha–la. – pediu.
– Não é preciso, meu amor. Logo terá que ir até o senhor sabe onde, discutir o senhor sabe o que, com o senhor sabe quem. – Segredou em códigos, afim de que os pais não a ouvissem.
– Certamente. – Ele assentiu sorrindo. – Certamente.
– Por favor, tente não ser preso. – Ela gracejou.
– Farei o que puder. – respondeu numa gargalhada.

amava Nottinghan, crescera naquele lugar e o amava de todo coração. Amava o povo, a vila e tudo que havia nela, desde os mercadores e seus tecidos até os caixeiros-viajantes e os dentes que arrancavam.
Se lembrava perfeitamente de quando ouvira falar, pela primeira vez, do ladrão Robin Hood. Tivera dúvidas sobre sua honra inicialmente, afinal, ladrões eram ladrões, não possuíam honra ou algum tipo de código. Mas tudo mudara quando numa tarde fria, depois de mais uma coleta cruel de impostos, vira a cena de uma família, com algumas crianças, terem até o último farelo de pão tomado de suas mãos pelos coletores de impostos. A revolta é um espírito quente, costumara dizer, e naquele momento o espírito de revolta de fora acesso e a queimava por dentro como ferro quente.
Decidida a procurar o ladrão, que na época já possuía alguma fama, pôs-se a planejar. Uma semana após seu casamento, esperou que partisse para suas viagens rotineiras, levando as espadas até o bispo e então cavalgou até a floresta de Sherwood, numa noite de lua crescente. Primeiro ouviu o caminhar do ladrão por entre os arbustos, como uma fera que espreitava de longe, depois, sentiu o olhar dele preso a si, mas não pode alcança-lo, sentia-se desprotegida, vulnerável. Então tomou coragem e disse em alta voz:
– Procuro Robin Hood. – Disse e pôs-se a espreitar algum sinal de movimento.
– Da parte de quem? – Uma voz masculina, rouca e um pouco conhecida questionou.
– Da parte do povo.
– Estou aqui. – Ele se revelou, sentado em um dos galhos de uma árvore, mas ela não pode ver seu rosto.

não soubera o que dizer, tanto havia ensaiado, mas nada saía de sua boca.
– Estou curioso, senhora. – Robin assumiu. – Nunca uma senhora de...costumo ser procurado pelo xerife e seus homens, não por senhoras. – Corrigiu sem jeito.
– Os cobradores de impostos, eles...estas pessoas não podem viver assim, não lhes resta nada, nem mesmo o pão. – Contou. – Preciso de sua ajuda. – Falou, mas corrigiu-se em seguida. – Precisamos de sua ajuda.
– Por que vir a mim, não acha que o bispo poderia ajuda-la? – Robin indagou após algum tempo em silêncio.
– Vim pois tive esperanças de que o príncipe dos ladrões fosse mais corajoso que o príncipe John, ou mais justo que o bispo. – exalou frustrada. – Mas temo ter me equivocado.

Dizendo isso, apressou o cavalo, para que saíssem da mata fechada. Robin nada disse, apenas assistiu-a deixando a floresta com pressa. Durante o tempo que restara a noite, pensou no que havia feito, pensava que talvez devesse ter dito mais coisas, ou dito algumas verdades para o ladrão.
Ao alvorecer do dia, voltou para casa, gentil e suave como sempre, e o espírito de revolta de , como uma fogueira que não recebia lenha nova, se esfriou. Então, cerca de três noites após sua ida até a floresta, levantou-se com a aurora e, ansiosa pela espera do marido, dirigiu-se ao muro de pedra. Quando se recostou sobre ele, seus olhos se prenderam a algo que brilhava, diferente da frieza cinzenta as rochas. Uma moeda de ouro, uma moeda fria e abandonada, jazia ali, como que perdida. a guardou com cuidado, quando retornou, trazia notícias de outro roubo de Robin Hood, e assim ela entendeu.
Na primeira chance que teve, partiu novamente para a floresta.
– Suponho que a senhora tenha se decidido. – Robin disse entre as sombras assim que avistou . – Se sou eu mais corajoso que o príncipe John, ou mais justo que o bispo.
– Devo dizer, também és um tanto mais ousado. – acusou sorrindo.
– Não é em vão que me chamam príncipe dos ladrões. – Robin divertiu-se.
– E ser o príncipe dos ladrões certamente lhe assegura certa ousadia.
– Acha? – Robin quis saber.
– Sim, senhor.
– Senhor? – Ele admirou-se.
– Perdão? – franziu o cenho confusa, ao mesmo tempo que tentava vê-lo por sobre a sombra das árvores.
– Não há ninguém nesta terra que me chame de senhor. – Admitiu.
– Ajudou necessitados hoje. – falou. – O respeito por isso. Ao que me parece, talvez ladrões possam ser boas pessoas no final.

Dizendo isso ela partiu mais uma vez, deixando Robin um pouco mais alegre. Os dias se passaram e aquela rotina continuou, denunciava a Robin as covardias contra o povo, durante as noites o ladrão agia e pela manhã, uma moeda jazia sobre o muro de pedra. Aos poucos, se apegava ao bom ladrão, sentia-se ansiosa para vê-lo, embora soubesse em seu coração que pertencia a e a ele somente.
Mas quando a mãe a questionara sobre as constantes viagens do marido, pôs-se a pensar. Se orgulhava disso, diferente da maioria das senhoras que conhecia, era uma boa pensadora. Logo tudo fez sentido, devia estar envolvido de alguma forma em tudo aquilo. Talvez servisse ao bispo, mas o ferreiro sempre se revoltara com a crueldade do clérigo, não seria capaz de ajuda-lo, só restava então Robin Hood.
tentou descobrir, usando todas suas ideias, até mesmo as mais ousadas, adoraria saber que conhecia e até mesmo ajudava Robin, assim como ela. Mas com o passar dos dias, a similaridade da voz, as ausências, nunca questionava onde a esposa estivera, mesmo quando regressava de suas viagens e não a encontrava em casa.
Era uma ideia ousada, talvez a mais ousada que já tivera em toda vida, mas sentiu-se verdadeiramente tentada a realiza-la. Quando as moedas que Robin Hood lhe dera eram suficientes para encher um saco de farinha, as separou, pôs um quarto delas numa bolsa e o resto sob o travesseiro do marido. Esperou até que partisse e quando a lua enfeitava o céu negro, partiu para a floresta, esperou até perto do alvorecer, quando o ladrão retornou para a floresta.
– Espero que tenha tido uma noite agradável. – disse.
– Não tanto quanto gostaria, certamente. – Robin reclamou. – Me alegro em vê-la, não esperava sua visita esta noite. – Ele riu.
– Não pude esperar sua moeda, já as tenho em abundância. – contou. – As trouxe de volta, para que faça com elas o que quiser. Doe ou lhe compre algo bom para vestir, o inverno está para chegar.

Dizendo isso, ela arremessou a bolsa com moedas para o homem, que novamente se abrigava nos galhos de uma grande e frondosa árvore. Robin esticou-se para alcançar a bolsa, enquanto dirigia-se devagar para longe, mas ao abri-la, o ladrão percebeu o desfalque.
– Espere, senhora. – Ele chamou. – E quanto ao resto delas?
– O senhor as encontrará sob vosso travesseiro. – Ela disse enquanto deixava-o.

sempre sorria com aquelas lembranças. Sorria ao lembrar-se de no final daquela noite, quando foram se deitar, o marido devolver-lhe a bolsa de moedas, mas desta vez, completa. Sabia amar de todo coração, contudo, saber que dentro do marido vivia também Robin Hood, completara sua paixão pelo ferreiro.
Foi desperta de seus pensamentos pela turbulência da chegada de , que irrompeu pela estrada, galopando em seu alazão em direção a ela. No mesmo instante as palavras de dançaram em sua mente, sobre a paixão proibida que o pintor nutria.
. – Ele a chamou enquanto saltava de seu cavalo. – Procurava por ti, fui até vossa casa.
– E por que? – questionou e continuou a caminhar, não perguntava por interesse, mas por medo de soar rude.
– Bom, eu...ora, minha senhora. – limpou a garganta. – Não voltastes a me procurar, pensei que algo poderia ter-lhe ocorrido.
– Pensei que a pintura...o presente para meu marido estivesse terminada. – piscou.
– É uma má notícia, senhora. – entristeceu-se, seguindo-a enquanto puxava seu cavalo pelas rédeas. – Um infortúnio. Há algumas noites, aquele a quem alguns tem a ousadia e desprezo de chamar príncipe, entrou em minha casa, sorrateiro como uma raposa e oportunista como um guaxinim...– o interrompeu.
– Que mal Robin lhe fez? – Ela indagou, um pouco mais interessada no rumo da conversa.
– Roubou-me a pintura. A vossa pintura. – Contou ele e não pôde conter o impulso, sorriu abertamente, cobrindo o rosto em seguida.
– Perdoe-me, . A gravidez me faz estas coisas...– Ela fingiu.
– Ainda não tive a coragem necessária para contar a . – confessou. – Mas ei de recuperar a pintura, não posso permitir que alguém como ele desfrute de tão imensurável beleza.
– Se me permites, . – disse e ele assentiu. – Por que tanto ódio por Robin Hood? O que ele pode ter lhe feito?

suspirou, depois expirou pesadamente e focou-se nos movimentos que os pés faziam enquanto caminhavam. Depois de tempo considerado, ele disse:
– Muito de minha herança foi transportada em navios até aqui, mas quando os navios chegaram foram saqueados por este covarde e seu bando. – Contou ele, para espanto de . – Se não fosse querido pelo bispo, estaria jogado em alguma poça de lama, comendo junto aos porcos.
– Não, não estaria. – voltou-se para ele. – é seu amigo, ele o tem como um grande amigo.
. . – Ele murmurou chateado. – Até mesmo aqui, falando sobre meu passado, tens que lembrar de ?
– Ele é meu marido, lembro-me dele durante cada tempo dos meus dias. – afirmou.
– Recordo-me de quando a vi pela primeira vez, também de quando meus olhos viram vocês juntos pela primeira vez. – suspirou pesadamente.
– Acaso nos conhecemos antes que nos apresentasse? – Ela perguntou confusa.
– Não. – Negou. – Me faltou a coragem que sobra em . Mas não passa uma noite sequer sem que eu pense, sem que minha imaginação não pinte como seria se ao invés de enviar , eu mesmo não tivesse ido até vossos pais.
– Meu senhor...– sentiu-se desconfortável com aquela ideia.
– Diga-me, . Diga-me, preciso saber. – suplicou. – Não permitas que eu me vá sem saber a resposta para esse dilema que me corrói a alma.
, perdoe-me, mas não sei o que queres que eu lhe diga. – o olhou nos olhos, seu olhar era confuso, suplicante, tinha medo de magoá-lo.
– Diga-me, senhora, se acaso fosse eu. Se fosse eu aquele a reivindicar vossa mão, clamar por seu amor, se acaso eu a quisesse por minha esposa, terias me aceitado?
– Eu sinto muito. – desculpou-se com olhos marejados e coração ferido. – Eu escolheria a . Eu o escolheria em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer vida.

engoliu em seco, amargurado, ferido, recebera a punhalada final. Então, o pintor sorriu, exibindo suas chagas a sua amada, expondo toda sua tristeza.
. – Ele repetiu e rumou de volta a sela de seu cavalo.
– Senhor. – chamou-o quando as palavras do pintor voltaram a ecoar em sua mente. – Dissestes sobre sua partida, acaso vais voltar para seu lar? Acaso voltará para França? – Ela indagou.
– Vou-me para mais longe. – Disse ele com certo pesar na voz. – Encontrarei aquele a quem chamam príncipe dos ladrões e exigirei vossa pintura, nem que para isso sangue tenha que ser derramado. – Ele contou e sentiu-se ferida, um arrepio tomou conta de seu corpo e como no inverno, sentiu sua alma esfriar.

[...]

– E no alvorecer. – Robin continuou. – O bispo verá seus impostos choverem sobre o povo.
– Sabes bem que depois disso, toda floresta será revirada atrás de nós, não sabes? – John quis saber.
– Sinto que não acontecerão outros ataques logo. – Robin confessou recostando-se a um freixo. – Algo me diz, em minha alma, que não iremos nos preocupar com esses assaltos.
– Não sobrará muito do bispo para tomarmos. – Tuck ponderou sorridente.
– Não. – Robin confirmou também sorrindo. – Ainda penso que devia partir junto a vocês.
– É melhor que fique. – Padre Sexton tocou-lhe o ombro. – Uma cabeça pensa melhor quando não está atravessada por uma flecha.

Robin riu, sendo acompanhado pelos outros. – Viva Robin Hood! – Skippy bradou. – Viva Robin Hood, o príncipe dos ladrões!
– Viva! – Ecoaram todos.

John, numa saudação honrosa ao amigo, ergueu-lhe o braço, mas naquele instante, não sorriu, pois sentiu a alma congelar dentro de si. Como se estivesse sendo tocado pelos olhos frios da morte, prevendo algum infortúnio, sendo observado por um animal à espreita na escuridão. Tomado por aquele mal, ordenou que todos fizessem silêncio, desembainhou sua espada e dirigiu-se para onde sentira o mal vir.
Quando estava há menos de cinco passos de distância da escuridão das árvores, um animal fugiu, saltando por sobre um velho tronco caído, do outro lado da clareira. Atraído pelo animal, desviou os olhos da escuridão por um instante e quanto retornou a ela, já não parecia ter ninguém ali.
– Era apenas um lobo. – Tuck disse. – Corajoso e arredio como você.

Apenas um lobo, Robin pensou, apenas um lobo, e então sorriu.

[...]

Durante aquela noite, não pode dormir. Imaginava o que o grupo devia estar fazendo, se o plano corria bem, se estavam todos a salvo. Ao seu lado, dormia profundamente, com o rosto junto a seu peito, respirando o cheiro do marido. A barriga a impedia de ter noites tranquilas de sono quase sempre, mas naquela noite, trouxera ervas enviadas por Frei Tuck, que depois de aferventá-las e tomar o seu chá, garantiram a mulher uma noite em paz.
não tivera a mesma chance, insistira que aquela sensação o perseguiria pelos próximos dias e então diminuiria, até que ele sequer se lembrasse que algum dia tal desconforto existiu. Mas era difícil, impossível desligar-se do que acontecia no castelo.
Tentando descansar os pensamentos, ele se concentrou na sinfonia noturna. Ouviu o coaxar dos sapos, o chirriar de alguma coruja, o chacoalhar dos galhos que batiam com violência no telhado velho, batidas na porta. Os olhos do ferreiro príncipe se arregalaram, pôs-se a prestar atenção ao som que se tornava mais estridente e desesperado.
– Algo de errado. – avisou chamando sua atenção.

a encarou na penumbra noturna, se chocara ao perceber que a esposa também não tivera a noite calma que supunha. Levantou-se depressa, antes que os sogros despertassem e vestiu-se, em seguida correu para porta com seguindo seus passos.
– Padre Sexton. – admirou–se quando a porta fora aberta.
– O que houve, padre? Diga-me, depressa. – pediu ansioso ao perceber o olhar de pesar do padre.
– Fomos traídos. – Disse sem mais delongas. – O bispo sabe quem é Robin Hood.

Ao ouvir estas palavras, tocou a barriga e sentiu o chão sumir sob seus pés.
– Não pode ser. Diga-me que é mentira. – O ferreiro pediu. – Não há traidores entre nós.
– Eles lutaram bravamente, porém, o bispo foi astucioso. – Contou o padre trêmulo. – O xerife capturou John, não tenho notícias de Tuck e...– O sacerdote encarou os pés, vacilante. – Skippy foi morto.
– Não. Não. – choramingou, em negação, depois chutou com toda força que tinha a porta.
– Eles virão até nós? Sabem onde está? – indagou.
– Não creio. – Sexton olhou o casal nos olhos antes de dizer. – Ordenaram para que Robin se entregue, ou John e os outros morrerão. Há uma recompensa por sua cabeça, . Por isso peço-vos, imploro para que fujam o mais rápido possível.
– Fugir? – repetiu.
– Eu não...– Os olhos do ladrão se fixaram na mulher que a tudo ouvia. – O que eu devo fazer? Abandoná-los e fugir? Salvar-me? Mas a que preço?
– Pense em sua família, Robin. – O padre o lembrou.
– Sabes bem o que acontecerá, meu amor. – tocou-lhe a face.
– Como eu poderia fugir e deixar aqueles que amo aqui? A própria sorte? – Questionou-a com voz embargada. – Foi eu quem começou, é justo que em mim termine.
...– chorou.
– Acalme-se, bela. – O ladrão tentou sorrir. – Sinto que não morrerei esta noite. Prometo-te que amanhã, junto ao alvorecer do dia eu retornarei, assim como sempre o fiz.
– E se não voltar? E se teus ideais lhe roubarem a vida? Se te roubarem de mim? – indagou em desespero.
– Confio na força do nosso amor. – Disse a ela, beijando-lhe a testa. – Meu amor por você me trará de volta, me trará para casa. Por favor, permitas que eu vá em paz. Diga que também tens confiança no amor.
– Eu confio. – declarou enquanto abraçava fortemente o marido. – Confio em ti e no teu amor. Vá em paz, se esta é sua missão, que seja cumprida. Contudo, não permitas que eu espere muito por seu retorno.
– Ao alvoreceu do dia, estarei de volta aos teus braços. – Robin beijou-lhe a testa com afeto.

Então, o assistiu a se vestir, jogar a aljava sobre os ombros e partir junto a Padre Sexton, olhando para trás, rumo a mais uma batalha. Então, uma dor lancinante a atingiu e gritou, segurando a barriga, mas já não podia ouvi-la.


IV

Era chegada a hora, seu bebê estava vindo.
Justamente quando caminhava para sua maior e mais perigosa cruzada. Claire segurou a barriga com uma mão e com a outra buscou apoio no velho e frio muro de pedras, nenhum sinal da aurora podia ser visto, ela estava só. A dor a fez gritar mais uma vez, perdeu o ar por algum tempo. Com muita dificuldade, se arrastou até a casa, gritando pela mãe com os sopros que ar que ainda tinha. Doía, como doía, sentia-se ser rasgada por dentro.
Quando alcançou a porta, foi amparada por sua mãe que já a esperava com olhar empático. Mary conduziu a filha até o quarto, auxiliando-a deitar-se na cama, a matriarca também ordenou que o marido saísse em busca da parteira, precisavam de ajuda e depressa.
- Onde está ? Onde está seu marido? – Mary questionou segurando o rosto de , que gritava de dor.
- Ele...ele se foi. – sentia que poderia enlouquecer com todo aquele tormento, mas mesmo com a mais lancinante das dores, não deixou que soubessem do paradeiro do marido.
- Alguém tem que chamá-lo, o filho vai nascer. – Mary disse.
- Ele...ele virá...- suspirou. – Ao amanhecer...ao amanhecer ele virá.

Mary tentava enxugar o suor de , enquanto a fazia tomar um pouco de chá para as dores e a limpava de todo sangue. já ouvira muitas vezes sobre as dores do parto, e se não soubesse que todas passavam por aquilo, teria certeza de que seu fim se aproximava. Doía. Doía muito, mas ela encontrava consolo em pensar em seu bebê, nos dias que passaria ao lado dele e de seu amado . Das tardes longas ao sol, das muitas primaveras, quando brincariam com borboletas, de tudo que fariam juntos. A dor se tornava quase suportável quando se imaginava com o pequeno nos braços, ao lado de , aquele era seu remédio.
Não percebeu quando, mas notou que outra mulher, a parteira, estava em volta a sua cama. estava cega de dor, sentia o ar escapar, as vistas escurecerem, tudo ficar distante e então tudo voltava, em seguida, se repetia todo tormento novamente.
- O bebê. – A parteira sussurrou mais para Mary que para . – Não quer vir. Ele não quer nascer.
- Meu filho. – respondeu em agonia. – Meu filho. Por favor, senhora, salve meu filho.
- Tem muito sangue. – A parteira pensou alto. – Que Deus te dê forças, minha filha.
- Salve meu filho, por favor, salve meu filho. – implorou.

A dor a consumia e já não conseguia pensar boas coisas, tudo que se passava por sua cabeça eram orações para que seu filho nascesse bem.
- Faça força. – A parteira pediu e obedeceu com um grito de dor.
- Vamos, minha filha, vamos. – Mary tentou ajudá-la.
- Eu estou vendo ele. – Avisou. – Faça mais força. Seja forte. – Pediu a parteira.

tentou, fez o máximo de força que pode e não pôde conter o grito gutural que escapou de seus lábios. Sentia a do aumentar, aumentar e aumentar, sentia-se esvair. E doía, doía como nunca.

[...]

Haviam homens do príncipe e do bispo por toda Nottinghan, todos os fortes estavam abarrotados, todos muros e caminhos cercados e cheios de soldados, casas em chamas. Quando alguns viram Robin nas sombras, ao lado do Padre Sexton, se ajuntaram nas estradas, se armando com foices, enxadas, paus e o que quer que encontrassem pelo caminho. A cada passo dado pelo cavalo de Robin, mais e mais pessoas se juntavam a procissão, atrás dele e diante dele. Não demorara para que os soldados notassem a multidão e se preparassem para a batalha.
Era hora de voltar para onde pertencia, era hora de terminar aquilo da forma que começara. Robin desceu do cavalo e se juntou ao povo que caminhava, mas antes que pudesse retirar o capuz que o trouxera tanta fama, foi surpreendido pelo povo que um por um, vestiram capas semelhantes a sua.
Um oceano de capuzes verdes.
- O bispo queria Robin Hood. – Padre Sexton disse. – Agora ele terá vários.

Robin sentiu seu espírito aquecer. Ainda tinha o coração pesado por , preocupava-se com a esposa, com seu estado, temia que o bispo enviasse homens a sua procura e a encontrasse.
Aos poucos, com a pressão da multidão, os homens do bispo foram encurralados e começaram a atacar o exército encapuzado. Os soldados foram facilmente vencidos, mas os homens nos fortes e muralhas atiravam flechas que acertavam alguns dos homens encapuzados, então a batalha começou, ardentemente e violenta, Robin desembainhou sua espada e a ergueu, perdendo a conta de quantos soldados atingira com sua lâmina. Num piscar de olhos, muitos corpos jaziam ao chão e o sangue escorria misturando-se a água das latrinas.
O exército do povo era grande e munido de muita revolta, rapidamente e sem muito esforço as forças reais nas ruas estavam esmagadas e o grande portão arrebentado. Durante a invasão do castelo a multidão se dispersou, mas Robin sabia exatamente a quem buscar. Conhecia o bispo a tempo suficiente para que soubesse onde encontra-lo, um homem como ele jamais estaria lutando ao lado dos seus, mas sim acovardado na mais alta torre, imaginando estar intocável.
Robin conhecia bem o castelo, sabia de cada corredor e escolheu seguir pelo que sentia ser o certo, no caminho fora surpreendido por dois soldados, ferindo-os de longe com seu arco, alguns andares acima, mais soldados, Robin precisou usar sua espada, mas conseguiu se desvencilhar do grupo, mesmo com certa dificuldade. E então, mais um soldado e depois mais dois, vencidos rapidamente, pois além do espírito de justiça, estavam em Robin o desespero por salvar e proteger sua família.
Em seguida, deparou-se com as grandes portas que o levariam ao salão do bispo, principal lugar onde o clérigo se reunia ao príncipe para que tramassem juntos. Robin abriu a porta com um chute, armado com seu arco e a primeira coisa que seus olhos viram foi John, ajoelhado, amarrado e amordaçado, seu rosto estava desfigurado pelos ferimentos, mais ao longe, duas sombras que o príncipe dos ladrões não reconheceu de imediato.
- Eis aí o ladrão. – O bispo ao revelar-se, sorriu. – É uma honra ter a vossa companhia. Devo tratá-lo por vossa graça, suponho, já que estou diante a um príncipe.- O bispo enfatizou.
- Deixe-o ir. – Robin ordenou. – Resolva seus problemas comigo, se acaso tiver honra suficiente.
- Ah, claro. – O bispo se aproximou, saindo das sombras por completo. – Então veio pelo vosso amigo? Nobre, porém, não muito inteligente. Sabe, senhor Hood, eu o admirei até certo ponto. Quero dizer, suas habilidades nas batalhas, inteligência...ousadia, por isso digo que esperava algo mais esperto.
- Creio que precisa ser apresentado ao que a palavra honra significa. – Robin respondeu, mas mantinha os olhos em John, que balançava a cabeça negativamente, cheio de agonia.
- Honra. – O bispo repetiu. – Do que vais lhe adiantar a honra agora? – Questionou ele. – Imagino que saiba que seu fim se dará neste castelo, esta noite.
- O meu, ou o vosso. – Robin garantiu. – E apenas um me deixaria feliz.
- Devo confessar que, por mais prejuízos que possa ter tido, foi bom tê-lo como adversário. – O bispo fez uma sutil reverência.
- Não mereço toda graça, afinal, só existo por suas ações cruéis e injustiças. – Robin devolveu.
- Disponha. – Ele sorriu novamente e Robin precisou conter o impulso de vomitar.
- Deixe-o ir. Deixe que John se vá, como tu dissestes, quer a mim.
- Acaso já plantou algo, senhor Hood? Acaso sabe como sementes agem? – O bispo perguntou, se aproximando de John.
- Pensei que já soubesse quem sou eu. – Robin lembrou-o confuso.
- Sim, já é de meu conhecimento. – O bispo deu de ombros. – Gostaria apenas de explicar-lhe algo antes. Imagino que saibas, e por isso digo, lá fora, todas aquelas pessoas enlouquecidas são os brotos, pequenos rebentos da semente plantada por você. – Ele explicou. – Todos eles, crescendo, crescendo e crescendo...infelizmente, apenas matá-lo já não me é suficiente, Robin. Preciso jogar ao fogo todas as ervas daninhas que estão a crescer em Nottingham. Sei que me entendes, mesmo sendo um ferreiro, sei que sabes bem do que falo.
- Se não existir ninguém para liderá-los, não terá frutos. – Robin tentou apaziguar, sentia no coração o que aconteceria em breve. – Se não os obrigasse a uma vida tão miserável, não precisaria se ocupar com isso.
- Oh, sim. – O clérigo concordou num suspiro entediado. – Mas não seria empolgante. Entendo o apreço que tens por teus amigos, Robin, me diverti com John, nesse tempo que passamos juntos...- Sorriu e Robin trincou os dentes, evitando avançar no homem.- Diga a ele, John, conte como fomos felizes. – O bispo, ainda sorrindo, arrancou sem cuidado a mordaça de John.
- Robin! Fuja! Você foi traído o...- Antes que John pudesse terminar sua fala, o bispo rasgou-lhe a garganta.
- Nunca foi bom em guardar segredos. – O homem observou.
- Não! – Robin gritou em agonia e correu até John, a tempo apenas de amparar seu corpo. – Não. Meu irmão, não faça isso. Não morra, John. Não. – Pedia.
- Desculpe. – John murmurou de maneira quase inaudível. – Perdoe-me.
- Não, não vá. – Robin implorou, tentando sem sucesso conter o sangramento da garganta do amigo. – Por favor, meu irmão. Por favor, não faça isso comigo, não faça isso. Não morra.

Mas nenhum pedido foi suficiente, aos poucos, afogando-se no próprio sangue, a vida de John se esvaiu e ele morreu, nos braços daquele que o considerava irmão. Parte da alma de Robin partiu com John, ali, ajoelhado no mármore frio, coberto de sangue, o ladrão apenas estava presente de corpo. Logo sentiu a lâmina gélida da espada do bispo tocar-lhe a nuca, Robin levantou o olhar, respirou profundamente e quando se voltou ao rosto ferido de John, vislumbrou o reflexo de seu punhal de caça na poça de sangue. No tempo de uma batida de coração, desembainhou o punhal, ferindo o bispo no joelho.
O homem cambaleou até encontrar apoio em uma grande coluna, perdendo sua espada no caminho, e então sorriu.
- Eu não esperava que se rendesse tão facilmente.
- Apenas mais uma pessoa vai morrer hoje. – Robin declarou pondo-se de pé e caminhando em direção ao bispo. – E não serei eu.

Dizendo isso, Robin levantou sua espada e o golpeou, porém, o golpe fora amparado por outra espada, pertencente a outra sombra, que antes que Robin se desse conta o chutou, fazendo-o cair ao chão, ao lado de John.
- Não. – Robin balbuciou boquiaberto. – Não...não pode ser, diga-me que é mentira. Diga-me que estou imaginando coisas.
- Como disse, vossos amigos são pessoas admiráveis, senhor Hood. – O bispo zombou.
- Por que? Por que? – Robin gritou ainda no chão. – Por que, ?
- Não ouse me chamar pelo nome, ladrão. – franziu o rosto com desprezo.
- Eu...eu era seu amigo.
- Não. – O francês negou. – Eu era amigo de , jamais me aliaria a você.
- Eu te amava, te amava. – Robin declarou com lágrimas nos olhos.
- E eu a amo. – também declarou. – Meu dever é poupá-la de você. Eu...eu o odeio. – gritou, então se aproximou e pôs-se a chutar violentamente o corpo caído de Robin. – Odeio-te com todas as minhas forças. – Chutou-o novamente. – Podia suportar que minha escolhesse ao ferreiro, ao estúpido e burro ferreiro...mas a você? – Berrou ainda o chutando. – Escolher o infame ladrão...escolher...eu quase enlouqueci quando soube.
- . – Robin o chamou, tossindo e se contorcendo de dor.
- Não diga nada! – Ordenou o pintor. – Imaginá-la sendo tocada por você, por suas mãos sujas de ferreiro, me consumia todas as noites, mas imaginá-la ao seu lado, sendo tocada por Robin Hood, beijada por Robin Hood. – Lembro com a voz carregada de desprezo. – Não, eu não poderei permitir...não poderei. – E o chutou novamente. – Mas tudo ficará bem, sim, tudo ficará bem. Iremos a Paris, depois que expulsar aquela criatura vil que tem teu sangue de seu corpo, eu a levarei para Paris. – Robin sentiu todo corpo esquentar ao ouvir aquelas palavras. – Ela se esquecerá, se esquecerá de você e de tudo que...

Os planos de foram interrompidos quando Robin o atingiu com um chute, fazendo-o cair. Robin rapidamente se atirou sobre o pintor, acertando-lhe socos em sua face, o quanto pôde, até que conseguisse reunir as forças necessárias para empurrá-lo para longe. Quando o fez, Robin rapidamente resgatou sua espada e pôs-se de pé, assistindo fazer o mesmo, do outro lado. Logo o som agudo do choque das lâminas ecoou pela torre, Robin se defendia bravamente das estocadas de , mas o pintor, por sua vez, falhou em defender-se do golpe mortal que o atingira do lado.
- Eu te amava! – Robin gritou com lágrimas nos olhos. – E estavas a tramar contra mim?
- Eu o odeio! – gritou. – Odeio sempre e o odiarei até o fim dos meus dias.
- Então, hoje eu lamentarei a dor da morte de três amigos. – Robin declarou e golpeou pela última vez , que novamente falhou em defender-se. Contudo, a lâmina do francês também atingira o ladrão.

Os olhos de se arregalaram e, lentamente o pintor caiu prostrado, deixando que sua espada pendesse de sua mão e, Robin, mais uma vez, correra para amparar o corpo de mais um amigo.
- Eu sinto muito, . – Disse ele. – Me perdoe.
- Eu...- abriu a boca algumas vezes, porém mal podia falar. – Eu...odeio você. – Declarou e Robin chorou. – Você...você vai pagar.

E aquelas foram as últimas palavras do pintor ao amigo, Robin, delicadamente, fechou os olhos de e chorou. Chorou pela perda do jovem espirituoso e feliz, Skippy, chorou pelo irmão que a vida lhe dera, John, chorou pelo irmão que a vida lhe tomara, . Ao seu lado estavam dois corpos, um fora leal até o fim, outro nunca fora seu amigo.
Depois de certo tempo, notara que estavam a sós na torre, o bispo havia desaparecido. Robin juntou toda força que ainda tinha, pensava no filho e na esposa, a sua espera em casa, precisava voltar para eles, precisava que tivessem paz e isso só aconteceria se fosse verdadeiramente livre. Por isso, deixou a torre, seguindo o rastro de sangue que o bispo deixara pelo caminho, pelo joelho ferido.
Robin sentia o lado doer e o sangue lhe molhar a roupa, quando enfim vislumbrou o manco clérigo atravessar os salões, tentando escapar.
- Pensei que quisesses me enfrentar. – Robin gritou atirando-lhe uma flecha.
- Não foi de sua vontade permanecer junto a teus amigos? – O bispo zombou enquanto se escondia atrás de uma coluna.
- Minha única vontade é matá-lo. – Anunciou desembainhando a espada. – Lute, Edward! Mostre ao povo toda sua autoridade!

Quando estava próximo da coluna onde o bispo se escondia, Robin parou, sentira um peso no peito, o gélido sopro da morte, o mau presságio, instintivamente o rosto arredondado de o invadira os pensamentos. Era como se uma flecha o atingisse, de repente, seus joelhos já não eram firmes, suas mãos no punho de couro da espada perderam a destreza.
- . – Robin sussurrou.

Antes que pudesse se dar contar do que sentia, o bispo o feriu quase mortalmente com um golpe de espada.
- Estávamos certos quanto a apenas um de nós esta noite. – Edward sorriu, estocando com mais força.

Robin vislumbrou a morte nos olhos castanhos do homem, mas também viu o rosto de , e assim se lembrou de sua promessa, devia voltar pela manhã. Lembrando-se também de todo seu conhecimento nas batalhas, resgatou seu punhal e feriu com ele o bispo, rasgando de sua virilha até o peito, em apenas um golpe. Edward se afastou, largando sua lâmina e apoiando o punho do punhal de Robin, com expressão chocada.
- Não permitirei que minha esposa chore esta noite. – Declarou Robin e então com um chute, fez com que o bispo caísse e o deixou agonizando, enquanto, com muita peleja, buscava uma cavalo para que pudesse voltar para casa, como prometera.

[...]

- Empurre mais uma vez. – A parteira pediu, mas já não possuía forças.
- Salve...eu...- pediu num suspiro sôfrego. – Meu filho...salve meu filho...
- Minha filha...- Mary tentava a acalmar, acariciando seu rosto.
- ...- chamava.- O dia...amanheceu?
- Sim, o sol está nascendo. – A mãe contou e mais uma vez, gritou de dor.

Suava frio, preocupava-se com , temia não o ver nunca mais. Sentia que algo ruim aconteceria em breve, implorava a Deus para que o marido retornasse para casa, precisava vê-lo antes de partir.
- Mais força, . – A mãe pediu e perdendo o resto de suas forças, ouviu a chegada de um cavalo.
- Está aqui! Está aqui! – O bebê está aqui.– A parteira celebrou.
- . – a chamou angustiado, até alcançar o quarto.

Quando o ferreiro se deparou com aquela cena, prostrou-se de joelhos ao lado do leito da esposa e suspirou aliviada, sentia-se feliz que, em seus momentos finais, seria agraciada em ver o grande amor de sua vida uma última vez.
- É um menino. – A parteira disse entregando o bebê a Mary.
- Cuide dele. – pediu a . – Eu te amo.
- Não, você vai cuidar. Não, bela. Não faça isso, não me deixe. – implorou. – Por favor. É o nosso menino, por favor.
- Eu sinto muito. – respirava com dificuldade, os lábios estavam pálidos assim como seu rosto. – Deixe-me...deixe-me vê-lo.

Mary entregou a o bebê, para que ele, mais próximo de pudesse apresenta-lo a mãe. tentou sorrir, mas não tinha mais forças. Então, sua luz fora se apagando, devagar, até que sumisse por completo.
- Não! – chorou. – Não, bela! Por favor! Meu amor, não morra, meu amor. Meu amor, fique comigo. , fale comigo, por favor, meu amor. Não me deixe. – Mary rapidamente resgatou o bebê dos braços do pai, e pôde enfim abraçar , segurando-a junto a seu próprio corpo ferido. – , por favor, não vá. Eu te amo, meu amor, te amo.

chorava copiosamente, de todas as dores no corpo ou na alma que sentira aquela noite, sem dúvidas, a morte de sua era a pior de todas. Ao mesmo tempo, sentia-se angustiado, sabia e pressentia que sua hora também era chegada, o sangue de suas feridas já manchava a pele pálida de , suas mãos estavam trêmulas.
Ele pôs-se a buscar por seu filho, filho tão amado e tão esperado que fora arrancado a chance de ter uma mãe e um pai. Não era justo, pensava, não era justo que os dois partissem aquela noite, jazia morta, em seus braços, sem a chance de sequer segurar seu filho.
- Eu prometo, meu amor. – beijou-a uma última vez. – Vamos nos reencontrar. Eu juro a você, onde quer que esteja, vou ao seu encontro.

E dizendo aquilo, sentiu a paz de seus momentos finais o envolver, olhou para seu menino, nos braços da sogra, sorriu e então permitiu que seu corpo caísse sobre a cama, ao lado de , e enquanto abraçava o maior e eterno amor de sua vida, deu seu último suspiro.


V

– Me diz, tem alguma coisa mais absurda do que o preço das comidas no aeroporto? – perguntou retoricamente e riu rolando os olhos.
– Pode ficar tranquilo, Valverde. – sorriu enlaçando o braço no de . – Logo vai poder comer o quanto quiser.
– Você veio de Portugal até aqui muda, nem reclamou...– sondou. – Tá tão incomodada assim de ir para Rosa branca?
– Incomodada é pouco, eu tô é morrendo de raiva de ter que ir para aquele inferno. – Bufou. – Sabe, qual é a necessidade disso? Por que eles precisam dessa chantagem emocional toda para me forçar a ir até lá? Se quisessem tanto me ter por perto, porque não ir fazer esse tratamento no Rio?
, lá é a casa deles, seus pais não saíam de Minas Gerais antes, agora então...– tentou pesar.
– Engraçado isso, não é? – resmungou. – Agora Rosa Branca é a casa deles. A casa deles é em Petrópolis, comigo e onde eles me largaram atrás dessa ideia idiota de se mudar para uma cidade pequena.
– Escuta, ei, ei. – parou de andar e chamou a atenção de , segurando seu rosto cuidadosamente entre as mãos e olhando em seus olhos. – Falando assim, nem parece a minha noiva linda e madura, a que eu conheço. Relaxa, meu amor. Nós vamos para Rosa Branca, meu avô tá louco de vontade de te conhecer. Além disso, você vai resolver toda essa bagunça, resolver a questão da empresa, ver sua mãe...vai ser bom. – Prometeu beijando a mulher.
– Só você mesmo, não é? Só você para me convencer a entrar nessa loucura. – sorriu, correspondendo ao beijo.
– Isso é porque eu tô ansiosíssimo para chegar em casa, saudades de comida brasileira, sabe? – Ele sorriu e voltou a caminhar, puxando as malas. – Uma coisa com mais sustância.

[...]

Rosa Branca, um quilômetro, leu em uma placa a beira da rodovia, havia pouco mais de duas horas que estavam na estrada, depois da viagem de avião. A dentista não podia descrever como se sentia, uma ansiedade nervosa, estranha, como se pressentisse que sua vida mudaria por completo ao cruzar os limites daquela cidadezinha pequena e isolada. Não conhecia Rosa Branca, nunca sequer pusera os pés lá uma única vez, mas sentia uma familiaridade estranha, talvez pelos relatos do irmão e dos pais.
Não era nada pessoal, o ódio pela cidade era uma coisa completamente trivial, causada apenas por seus pais. se lembrara com detalhes de cada momento, cada palavra que precedera a decisão de se mudarem para Rosa Branca e aquilo, em sua opinião, tinha sido uma decisão sem perdão.
– Aí, chegamos. – avisou.

foi fulminantemente atraída pela cidade, seus casarões, a arquitetura colonial em sua imponência, era tudo tão lindo...e ao mesmo tempo, tão familiar. A jovem mulher fora tomada por uma sensação de déjà vu maior que qualquer outra que sentira na vida.
, por favor, vai mais devagar. – Pediu ao abrir o vidro, prestando mais atenção nas ruas de pedra desregulares.
– O que foi, meu amor? – Quis saber curioso.
– Eu...uma sensação...– contou sorrindo, sentia o coração alcançar a garganta. – Como se eu já conhecesse esse lugar, como se eu já conhecesse essa cidade.
– Seus pais devem ter mostrado alguma foto, meu amor. – racionalizou.
– Não, não é isso. – negou. – É como se eu já tivesse vivido nesse lugar, como seu já tivesse...eu já vivi aqui, . Já vivi em Rosa Branca.

Era estranho e fantasioso para ela também, ter aquela sensação de repente, parecia uma boba, se sentia uma boba, mas era forte demais para ser ignorado. Poderia descrever o que encontrariam nas próximas ruas, tinha segurança o suficiente para aquilo, mas não sabia como. Que tonta, , pensava ela tentando reprimir aquele sentimento, mas logo se entregava aquela sensação deliciosa novamente.
– Para o carro, . Por favor, para o carro. – Pediu com urgência e o noivo obedeceu, temendo que a mulher estivesse se sentindo mal.

Assim que o movimento cessou, saltou do carro depressa e começou a caminhar apressadamente pela cidade, sentia uma energia diferente cada vez que seus pés tocavam o chão, um pertencimento, uma sensação de estar em casa. Aos poucos, a ansiedade a tomou e a dentista passou a correr, sem se importar em estar no meio da rua ou não. Adivinhava a ordem dos sobrados e das casas germinadas, as esquinas, até a cor das casas conseguia prever.
Podia ouvir os gritos de , pedindo para que parasse, mas não se importava, queria correr por todas as ruas, alcançar cada pedacinho daquela cidade. Parou de repente quando errou pela primeira vez, onde esperava encontrar uma igreja, haviam uma praça.
– Aqui. – Acusou quando estava perto o suficiente. – Aqui tinha uma igrejinha, uma igrejinha branca com janelas azuis, as portas também eram azuis. Eu sei, eu lembro.
– Lembra? – riu abafado. – , você não pode lembrar, nunca esteve aqui...ou esteve?
– Eu...eu...– Ela gaguejou confusa. – Não me lembro de ter estado aqui, mas eu me lembro, . Eu juro que me lembro, me lembro como lembro da nossa casa em Lisboa, ou da minha casa do Rio.
– Meu amor, você está tremendo. – Constatou quando segurou as mãos dela. – Tá tudo bem. Isso deve ser algum tipo de déjà vu, você tá muito emocionada...tem a doença da sua mãe, a questão com seu pai...é muita coisa para você lidar. É só um déjà vu, fica calma. – a abraçou tentando acalmá-la.
– É...um déjà vu...deve ser...– repetiu, não era o que sentia, não era apenas a sensação de já conhecer, tinha certeza daquilo. Mas não fazia nenhum sentido, então talvez repetir aquele mantra a acalmasse.

[...]

Quando estacionou, a esposa de seu avô já os aguardava na porta do grande sobrado da família. Uma senhora de cabelos encaracolados e acinzentados, sorriso educado e olhar dócil, vestia roupas leves, mas elegantes, uma camisa de linho, calça cinza e uma pashmina bege com sutis detalhes dourados. pensou que ela tinha feições de avó, feições reconfortantes e gentis e sorriu para ela, já apenas acenou com a cabeça, mantendo o nariz em pé. O professor já havia deixado claro a noiva sua inimizade pela atual esposa de seu avô, segundo ele, uma esotérica maluca e nada confiável.
– Que bom que vocês chegaram. – A senhora os cumprimentou com um sorriso leve. – Fizeram boa viagem?
– Sim, foi tudo tranquilo. – respondeu sorrindo amarelo, depois de cutucar a cintura do noivo quando percebeu desviar o olhar.
– Ah, que bom. – A senhora sorriu. – Eu sou a Margot(Mary - Mãe da Clara na 1ª fase), esposa do Joaquim(Padre Sexton), avô do . – Se apresentou esticando a mão.
, . – também se apresentou enquanto apertava a mão da senhora. – É um prazer conhecer a senhora. – Disse num sorriso.
– Que isso, imagina. – Margot(Mary - Mãe da Clara na 1ª fase) balançou a mão. – Não precisa me chamar de senhora, só Margot(Mary - Mãe da Clara na 1ª fase) já é suficiente. – sorriu. – Vem, entrem vocês. O Joaquim(Padre Sexton) está ansiosíssimo para ver o neto e o almoço já está saindo.
– Oba, que fome. – gracejou, tentando disfarçar a falta de modos do noivo.

Quando entraram na casa, torceu os lábios para ele, numa careta repreensiva, parecia uma criança com birra, sem querer cumprimentar os adultos. Mas as atenções de mudaram de foco quando seus olhos encontraram a decoração antiga e deslumbrante do sobrado dos Valverdes. A sala da casa mantinha a decoração colonial, com móveis de madeira de lei, cortinas pesadas e brancas, um lustre grande pendia sobre o centro da sala.
– Nossa, que lugar absurdo. – comentou num sussurro, aproveitando a ida de Margot até a cozinha. – , olha só para isso, é lindo demais.
– Tá com a sensação de já ter vivido aqui também? – Ele resmungou irônico.
– Para, não debocha do que eu sinto. – endureceu a expressão. – E não desconte essa sua birra infantil com a Margot em mim.
– Mulherzinha sonsa...– segredou. – Chega de mansinho, parecendo ser essa velhinha doce e depois mostra a verdadeira cobra que é.
– Que horror, . – juntou as sobrancelhas. – Que horror. Você mesmo disse que tem mais de dez anos que não vê a Margot, não pode ter tanta certeza disso.
– Tenho, eu tenho. Porque eu conheço o tipo.
– Ahh...será que eu estou tendo uma alucinação? – Um senhor surgiu de repente, falando alto e de braços abertos.
– Vô. – chamou e o abraçou com força.

os observou com um sorriso no rosto, não via o avô a tempo demais, era um reencontro emocionante até para ela.
– E essa moça bonita aqui? – O senhor perguntou, olhando para por sobre os ombros do neto.
– Essa é a mulher da minha vida. – desvencilhou-se do abraço do avô para puxar a noiva para mais perto.– Essa é a , a minha , minha luz. – Declarou com olhos brilhando.
– Esse meu neto tem mesmo um bom gosto. – O mais velho brincou.
– É um prazer conhecer o senhor. – o cumprimentou quando o velho a puxou para um abraço. – O fala muito do senhor, sempre.
– Ah, eu duvido. – Ele deu de ombros. – Esse desnaturado não vem me visitar há tanto tempo que eu achei que ele tinha até esquecido que tem um avô.
– Que isso, vô Joca. Até parece que eu esqueceria do senhor, essa figura ilustríssima. – fingiu-se de ofendido.
– Sei...sei muito bem. – O mais velho piscou e gargalhou abraçando o neto mais uma vez.

Vô Joaquim(Padre Sexton), ou como gostava de chama-lo, vô Joca, era um senhor quase calvo, com um grosso e penteado bigode branco, ar de homem bravo, duro, voz forte e barriga proeminente. Mas com sorriso gentil e risada contagiante, não soube a razão, mas se sentiu bem ao lado dele imediatamente. Joaquim emanava boas coisas, do tipo de pessoa que se quer sempre ter por perto, do que adotamos como avós sem nem entender porque.
– Não é, meu amor? – a cutucou, despertando-a de seus pensamentos. – Estava falando aqui com o vô, que você é .
– Eu conheço o Eugênio(Bispo Edward) e a senhora dele, muito boa gente todos os dois. – Joaquim disse. – O João(John) também é um rapaz muito bom, trabalhador. Gosto muito, não é, Margotinha. – Chamou a esposa, que se aproximava com uma bandeja com chá e biscoitos.
– Ah, é. O João(John) é muito amigo de todo mundo aqui, um amor de rapaz. – Ela confirmou.
– Pois é. – anuiu sem graça.

Não sentia vontade alguma de falar sobre sua família, sobre seu irmão, sobre as atividades que exerciam na cidade, tudo que queria naquele momento era se entupir de biscoitos e chás calmantes, preparando o espírito para mais tarde.

[...]

– Pode entrar, dona . – A funcionária da casa disse num sorriso. – Sua mãe mais seu pai estão lá na varanda esperando.

Era a primeira vez que pisava naquele lugar, a casa da fazenda dos . A fazenda ficava há distância de onze quilômetros da sede da cidade, um lugar bonito, bem cuidado, com grande plantio de café com tudo de mais tecnológico que existia no mercado. A casa colonial era gigantesca, o tipo de casas que você encontra em filmes e novelas de época, imponente, antiga, destoando da caminhonete nova estacionada em frente e da tecnologia das placas de energia solar a beira da estrada principal.
O cheiro de café novo e biscoitos recém-saídos do forno tomou todo ar, sentiu o estômago roncar enquanto seguia a funcionária pela casa. Foi guiada por uma sala de estar com móveis rústicos, sofá de couro, bancos de madeira e um grande berrante dependurado sobre o portal que dava acesso a sala de jantar, que continha uma imponente mesa, com espaço para trinta pessoas pelo menos. A mulher sacudiu a cabeça negativamente, os exageros da família ainda eram capazes de chocá-la.
Na parede da sala de jantar, fotografias dos , do casal, dos filhos, de parentes, debaixo delas um aparador com esculturas delicadas de carros de boi e cavalos. Do outro lado da sala, uma pintura delicada e colorida de um ipê rosa florido contrastava com o ambiente neutro. Da sala de jantar já era possível acessar a varanda grande, de ladrilhos xadrez e parapeito de madeira azul.
respirou profundamente duas vezes, antes de dar os últimos passos que a separavam de sua família.
– Olha, ela chegou. – Seu irmão apontou, avisando os pais e pondo-se de pé.

congelou no lugar, sob o batente da porta, encarando os três rostos que a encaravam de volta, sem saber como agir. A mãe, sentada a olhava ansiosa, com um sorriso contido nos lábios, como sempre, e seu pai(Bispo Edward) tinha o mesmo olhar indecifrável, a mão pousada sobre o peito, tão comum que as vezes desconfiava que todas as camisas dele deviam ter colorações diferentes ali. Seu irmão(John) parecia mais relaxado, correndo os olhos dos pais para a irmã, atento a qualquer coisa que acontecesse ali.
– Oi, . – A mãe rompeu o silêncio.
– Oi, mãe, pai, (John). – Cumprimentou com um aceno de cabeça.
– Vem, senta aqui, a Maura tirou do forno uns biscoitinhos...você vai amar. – A mãe chamou.

expirou pesadamente, assentiu e se direciono lentamente até a cadeira indicada pela mãe, mas antes que pudesse alcançá-la, seu pai a interceptou, pôs as mãos em seus ombros e olhou em seus olhos.
– Minha filha. – Disse. – Minha filha. Minha filha, . – Repetiu e então gargalhou alto, puxando a dentista para um abraço repentino. – Minha filha, minha filhinha. Minha menina. Minha .
– Já está bom, pai. – reclamou.
– É que faz tanto tempo...tanto tempo que não vejo você. – Ele se explicou afastando-se um pouco para observar o rosto da filha. – É bom, muito bom ver você aqui, na nossa casa. Esperamos tanto por isso, pra família ficar unida de novo.
– Eu só estou de passagem, Coronel Eugênio (Bispo Edward) – lembrou enquanto se afastava e se sentava. – Não pretendo me mudar para cá e abandonar tudo no Rio como vocês fizeram.
– Mas o importante é que você está aqui agora, não é, meu bem? – A mãe, Olga, sorriu tentando apaziguar o clima que trouxera.
– Vieram bem de viagem? – João(John) quis saber.
– Sim, foi rápido, uma pena não termos conseguido ir em casa antes de vir para cá. – contou enquanto assistia a funcionária servir o café com biscoitos.
– E o , não quis vir com você? Faz tanto tempo que não nos vemos, não é? Foram poucas vezes no Rio. – Lembrou a Olga.
– Ele quis ficar com a família dele.

A mãe assentiu e então o silêncio se instaurou novamente, tornando o ar sufocante. não costumava ser alguém fria, distante ou grosseira, mas as feridas causadas pela família ainda estavam ali, abertas e vez ou outra ainda sangravam.
Quando no primeiro ano de faculdade, os pais decidiram repentinamente que se mudar para uma cidade pequena do interior de Minas Gerais era o propósito de suas vidas, tudo desmoronou. não podia simplesmente largar tudo e se transferir para um estado diferente, precisava e queria ficar no estado carioca. E assim, ela se viu aos dezoito anos sozinha no Rio, assistindo toda a família se mudar, felizes e empolgados.
Vez ou outra, a dentista pensava no quão imaturo era aquele rancor, afinal, seus pais se mudaram mas continuaram custeando seus estudos e mantendo o mesmo padrão de vida de quando estavam ali. Mas aquele abandono, somado a abandonos pequenos durante a primeira infância, principalmente depois do nascimento do filho caçula, a faziam sentir só, desprotegida. Procurou aliviar aquele buraco, o vazio na alma causado pela família com amores, namorados que por algum tempo representavam proteção ou o que imaginava ser amor e apoio. Mas nada adiantou, o vazio apenas cresceu, cresceu e cresceu.
Até que um professor de história da arte, escritor e absurdamente lindo surgiu em sua vida, com toda sua sensibilidade e adoração pela mulher a conquistou, devagar, com paciência, do mesmo jeito que se adormece, devagar e então completamente. com seus cabelos castanho acobreados bagunçados, seus óculos de grau, sorriso tímido, mente feroz e sedenta a cativava, o tédio nunca existia, sempre era inundada de coisas novas, atividades, viagens, conhecimentos. A àquela altura já se sentia casada, depois de passar uma temporada em Lisboa, enquanto terminava seu livro e seu mestrado, viviam juntos, como um casamento, feliz e sadio.
Tinha certeza absoluta que o amava, de todo coração.
? – A mãe a chamou, tocando seu joelho. – Minha filha, seu pai estava falando com você.
– O que disse? – Quis saber tirando os olhos da mãe e os voltando ao homem grande, de pé ao lado dela.
– Perguntei como vocês estão? Se estão casados, juntos...o que estão.
– Ah, pai...nós estamos juntos. – Repuxou o lábio numa careta e levantou a mão direita, exibindo o anel. – me pediu em casamento em Lisboa.
– Casamento? – Os pais questionaram juntos e Eugênio começou a tossir.
– Mas não é um pouco precipitado, minha filha? – Olga perguntou como quem tenta fazer alguém mudar de ideia, reconsiderar. – Casar assim.
– Dona Olga, eu estou com o há quatro anos. Acho que é tempo suficiente.
– Mas você conhece bem ele? Conhece a família? – Eugênio inquiriu, as pesadas e grossas sobrancelhas pretas estavam juntas, sinal que o pai se sentia contrariado.
– Conheço, pai, conheço sim. – expirou depois de beber um pouco de café. – Só não conhecia a parte que mora aqui.
– Ah, mas isso pode ser bom. – Olga tentou amenizar. – Agora é mais um motivo para você vir para Rosa Branca.

mordeu a língua e pensou duas vezes, poderia dizer que nem se fosse paga voltaria para aquele lugar, mas não faria diferença, só causaria uma briga em que a dentista não tinha interesse nenhum em participar. Flagrou-se então, encarando a mãe, Olga estava sentada com as pernas juntas e inclinadas, elegante como sempre, a cabeça estava coberta por um lenço cor de creme, a pele não estava mais tão vistosa, os cílios e sobrancelhas haviam sumido, o corpo e o rosto estavam ainda mais ossudos e parecia frágil demais.
– Como você está? – quis saber, perceber a mãe num estado daqueles a encheu de compaixão e um pouco de remorso.
– Ah, eu tô bem. – Olga sorriu. – Tem dias que são melhores, outros nem tanto...mas tô tendo forças.
– Que bom. – sorriu apertando os lábios. – O que o médico diz?
– Você sabe como são essas coisas, minha filha, eles estão esperando que essa fase de quimioterapia acabe para depois ver se...se essa doença horrorosa foi embora.– Contou.
– Já foi embora, tenho certeza. – Eugênio sorriu sereno, apertando carinhosamente os ombros da esposa.

– A Margot, esposa do avô do elogiou você, João. – comentou, depois de alguns instantes em silêncio.
– Eu? – Ele franziu o cenho e sorriu em seguida.
– É, disse que você é um amor.
– Aqui é assim, . – Eugênio disse. – As pessoas se conhecem, todos são amigos, essa é a diferença de Rosa Branca para o Rio.
– Não sei se todos me conhecerem é uma coisa que levaria em conta. – Ela deu de ombros. – Muita gente se metendo na vida.
– Mas tem as coisas boas disso também. – João falou.
– Pode até ter, mas não me convence. – desdenhou e pôs-se de pé, caminhando em direção ao parapeito, observando a fazenda. – A cidade é bonita, a fazenda também é, tenho que admitir...mas eu nunca vou morar aqui, nunca vou viver em Rosa branca.



VI

caminhava de mãos dadas com pela rua de pedra, com destino a livraria do avô do noivo. Como sempre, o pesadelo da noite anterior martelava em sua cabeça insistentemente. Não se lembrava exatamente de quando começaram, as vezes achava que nascera com aqueles sonhos confusos e doloridos que só se intensificavam com o passar do tempo. O pesadelo mais recorrente era com um bebê, um bebê recém-nascido que lhe era arrancado dos braços ao mesmo tempo que tudo ficava frio e escuro, nunca entendera porque aquele sonho era tão desesperador, nem com as intermináveis sessões de terapia, havia desenvolvido até claustrofobia por causa dele.
O choro do bebê a assustava, a sensação dos braços e pernas esfriando até que ela quase congelasse, o medo e a dor, eram um dos sonhos mais terríveis, mas haviam outros, um homem ensanguentado, a escuridão solitária e vazia, o homem gritando e a chamando durante uma chuva torrencial e assustadora, ou a casa na árvore, os brinquedos de ferro, o homem que ela nunca podia ver o rosto mais que cantava docemente para ela, nem sempre eram sonhos ruins. Depois da mudança dos pais para Rosa Branca os sonhos mudaram, o sonho com o bebê se tornou cada vez mais raro, enquanto outro tomou seu lugar. Nele, corria, tentando se esconder dentro de uma casa antiga, repetidamente, angustiante e sem fim. Mas pela primeira vez em muito tempo, a dentista havia conseguido mais informações, acordara se lembrando de mais detalhes, os gritos de uma mulher, os sons de uma briga entre dois homens e um ardor no peito.
Havia acordado com aquele ardor, com a angustia e o medo e não conseguira mais dormir, já se passava das dez da manhã mais ainda não conseguia se desvencilhar da recordação do pesadelo.
Enquanto andavam calmamente pelas ruas, tentava afugentar aquelas imagens da cabeça, tentando se concentrar na programação do dia, seria apresentada ao novo projeto que Joaquim havia pensado para o neto, o professor de letras que sonhava em ser um autor premiado no mundo inteiro.
havia recém escrito seu terceiro livro, um sucesso de vendas no Brasil e Portugal, um romance entre dois fora da lei, Bonnie e Clyde modernos. O sucesso fora tanto que em menos de seis meses após o lançamento, já havia recebido alguns convites para adaptações cinematográficas de duas plataformas de streaming mundialmente famosas. O sucesso do livro Cravo Flor fora exponencialmente maior que os dois primeiros, O Atol, suspense sobre um grupo de amigos perdidos numa ilha cheia de maníacos homicidas e Toska, um suspense policial russo sobre uma jovem policial sempre alcoolizada que lutava para superar a corrupção do parceiro e ex-namorado, enquanto desmontava um esquema de corrupção e tráfico humano.
Apesar de Cravo Flor ser o apogeu de , sempre amou mais o suspense russo com seus personagens misteriosos e profundos, cheios de dor e defeitos. Entre os benefícios de ser a noiva de seu autor favorito, a dentista tinha o prazer de ler seus resumos, participar das discussões, das ideias, da criação dos personagens, da descoberta de novos enredos. Parte da viagem para Rosa Branca era justamente sobre isso, Joaquim, avô de era o maior entusiasta da carreira do neto. Apaixonado por literatura, fundara a primeira e única livraria de Rosa Branca, e agora, cheio de expectativas, assegurava ter a ideia perfeita para um best-seller.
E por mais que detestasse a ideia de permanecer em Rosa Branca, o sonho de um livro com financiamento do avô, uma história brasileira e arrebatadora o deixavam balançado. sabia que o noivo enfrentava um dilema gigantesco, suas vontades lutavam dentro de si afim de decidir qual caminho tomar.
– Chegamos! – anunciou ao abrir a porta da livraria, capturando a atenção do avô e de sua esposa.
– Já estávamos preocupados com a demora de vocês. – Margot (Mary - Mãe da na 1ª fase) sorriu.
– O quis vir caminhando, eu adorei a ideia, aproveitar para ver mais um pouco da cidade.
– Ah...e hoje o dia está lindo mesmo. – Vô Joaquim sorriu abraçando o neto.
– Mas como é que estamos, vô Joca? Vai me mostrar o segredo que está escondendo? Esse enredo misterioso ou não? – provocou fingindo estar impaciente.
– Opa! Ouvi alguém falar de mistério? – Uma moça surgiu entre as prateleiras de livros.
– Já estava esquecendo que vocês não foram apresentados ainda. – Margot(Mary - Mãe da na 1ª fase) sorriu ao ser abraçada pela jovem. – Essa é a minha Maia, minha filhota. – Sorriu orgulhosa.
– Eu estava super ansiosa para conhecer esse autor famoso. Imagina, li todos os livros, até a lista de compras do eu leria. – Maia gracejou abraçando o casal.
– Obrigada. – Ele sorriu.
– É um prazer te conhecer, Maia. – sorriu simpática.
– Não sabia que você tinha mais filhos, Margot. – comentou.
– Ah, eu tenho, tenho meus dois amores. Um que agora está longe, mas logo vai voltar aqui para debaixo da minha asa e a minha Maia, minha companheira. – Margot sorria e gesticulava, abraçando com carinho a filha.
– Veja só como são as coisas, eu, com um neto da idade do , virei padrasto. – Joaquim gargalhou.
– O padrasto mais pai que eu conheço na vida. – Maia abraçou o homem com força, erguendo o dedo indicador para enfatizar o que dizia.
– Vamos, meu neto? Vamos, , vamos subir que eu tenho muito para te contar. – O avô chamou, indicando que o neto o seguisse.

, Maia e Margot observaram os homens subirem a escada espiral de madeira aos risos, distraídas cada uma a sua maneira com seus pensamentos sobre aquele momento e aquela situação.
– Então, , comentou da sua sensação de já ter estado em Rosa Branca. – Margot puxou assunto, enquanto se apoiava no balcão da livraria e apertou os lábios.
– Como isso? – Maia quis saber num tom curioso e divertido.
– Não é nada, deve ter sido uma sensação de déjà vu. – sacudiu a cabeça. – Imagina, eu nunca estive aqui, esse tipo de coisa é besteira.
– Você nunca esteve aqui, mas quando chegou teve a sensação de que já conhecia? – Maia questionou e a dentista assentiu. – Parece aquelas coisas, quando você visita o lugar que viveu na sua vida passada, sabe? – Disse ela olhando para a mãe, em busca de aprovação de sua teoria.
– Parece. Parece sim, eu já li relatos de pessoas que...– Margot ia dizendo quando a interrompeu.
– Me desculpem, mas eu não acredito nessas coisas. – Falou, visivelmente incomodada. – Eu respeito a crença de vocês, mas eu não acredito nessas coisas. Eu só tive uma sensação boba, meus pais sempre insistiam em mostrar fotos daqui, deve ser isso.

declarou de forma ríspida e deu as costas, tentando se concentrar nos livros expostos atrás dela. Que besteira, pensou, vidas passas era a teoria mais absurda e boba que já ouvira. Era irritante conversar com pessoas que insistiam em trazer seus esoterismos para o mínimo sinal de conversa, por mais gentil e atenciosa que Margot fosse.
– Meu amor. – chamou do andar de cima. – Vem até aqui, você vai amar ver isso.

assentiu e sorriu sem mostrar os dentes para as duas mulheres, seguindo os passos que os dois homens haviam feito anteriormente. Chegando ao andar de cima, se deparou com e Joaquim sentados em uma mesa que estava repleta de papéis, livros e uma caixa de madeira, talhada delicadamente.
– Mas o que é tudo isso? – Perguntou ela, sorrindo.
– Isso, minha cara, é a história que eu quero que o escreva. – Joaquim piscou.
– Como assim? – franziu o cenho e se sentou em uma das cadeiras vazias da mesa.
– O que o meu avô tá querendo dizer é que aqui estão todas as coisas que ele magicamente reuniu sobre a história. Aqui está o tesouro do meu avô e do meu quase talvez livro. – piscou para a noiva, tocando a caixa com cuidado.
– Alguém pode me contar sobre o que é essa história? – riu.
– É a história da Júlia Fetal, uma moça que viveu aqui há alguns séculos atrás. – Vô Joca contou. – Era uma moça muito rica, filha de um comerciante português, família nobre.
– E o que tem de especial na história dessa Júlia? Não me diga que é um romance calmo e doce. – Ela provocou.
– Tem absolutamente tudo de especial, minha linda, tudo. – respondeu, beijando rapidamente a mulher. – A Júlia, segundo conta a história, foi morta pelo noivo com um tiro no coração.
– Nossa. – sentiu o peito apertar de repente, algo naquela história de repente a causara calafrios. – Que coisa mórbida.
– É, eu concordo, é mórbido mesmo. – assentiu. – A Júlia era noiva do professor de inglês dela, um homem conhecido e respeitado também, mas traiu ele com alguém ou com vários outros homens, e o professor ficou com ciúmes e derreteu as alianças do noivado, fez uma bala de ouro e a matou com um tiro no peito.
– Que coisa horrível, .
– O professor foi preso na época. – Joaquim continuou. – Foi um crime que chocou a cidade, imagine só. Na época até o Imperador veio até aqui tentando soltá-lo, mas ele não quis. Foi réu confesso e pagou pelo crime, deu aulas na prisão e tudo.
– Simples assim? Ele assassina a Júlia e segue em frente? – juntou as sobrancelhas, irritada com o desfecho da história.
– Ah, meu amor, outros tempos...– sorriu. – Além do mais, a Júlia tinha uma personalidade muito instável. Pensa como o professor se sentiu quando virou a chacota da cidade? Sendo traído por ela com todos homens que apareciam.
– Que absurdo, . – pôs-se de pé, revoltada. – Júlia não era essa pessoa, ela não era essa mulher.
– Uai, é isso que os registros aqui falam, meu amor, que a Júlia não era moça para se casar, que era um espírito livre. – argumentou.
– E desde quando você acha que os homens desmoralizam as mulheres para justificar seus erros? – acusou.
– Eu concordo. – Margot se fez ser ouvida, surgindo no andar de cima sem que ninguém notasse sua presença.– Eu concordo com a , não acho que a Júlia foi essa jovem namoradeira, que traía o noivo.
– Mas vocês, hein? É um complô? – pôs as mãos na cintura, teatralmente. – Só falta dizerem que o professor matou a Júlia porque não aceitou que ela terminasse o noivado.
– Pode ser, é uma teoria. – concordou.
– Ou não, talvez eles se amaram até o final e o professor levou a culpa da morte da Júlia. – Margot disse.
– Agora é isso, meu Deus, não acredito que vocês estão questionando os fatos. – balançou a cabeça negativamente e Joaquim sorriu.
– É o mais óbvio, meu amor. – falou enquanto ajeitava o cabelo atrás das orelhas. – Essa mulher que estão pintando não é a Júlia, pelo menos não é o que eu acho, e em nome da solidariedade feminina, eu vou procurar a verdade.

[...]



Tinham exagerado no almoço novamente, se continuassem naquele ritmo, engordariam muitos quilos durante a estadia em Rosa Branca, e estavam deitados na cama, assistindo um seriado qualquer enquanto fingiam cochilar. parecia realmente disposto a tirar a cesta, mas não conseguia desligar, só podia pensar em Júlia e em sua história terrível. Queria saber tudo sobre ela, queria que escrevesse e contasse a todos que ela não era a moça vulgar, de coração inconstante que nascera para ser amante de quem todos falavam.
– Meu amor. – chamou levantando o rosto do peito do noivo. – Você está pensando mesmo em ficar em Rosa Branca e escrever o livro do seu avô, não é?
– Eu, sinceramente, sairia daqui o mais rápido possível. – confessou. – Mas meu avô quase implorou pra que eu ficasse mais, além disso tem essa história do livro, sua mãe também...– O escritor ponderou por alguns instantes. – Por que? Quer voltar pro Rio?
– Não. – respondeu depressa e franziu o cenho. – Eu achei que fosse me sentir mal estando aqui, mas não, eu até estou gostando da cidade e também não digeri isso tudo ainda, não sei se quero ficar com minha mãe ou não. – Ela deu de ombros. – Além disso, tô muito curiosa com essa história nova. – Confessou e ouviu o noivo rir entredentes.
– Eu sabia...vi o jeito que seu olhar mudou quando te contei.
– Você acha mesmo que a Júlia era essa mulher? Acha mesmo que ela trairia o noivo? – questionou.
– É impressão minha ou você já tá defendendo a Júlia? – Ele gracejou. – Sabia que ela tem quase o mesmo nome que você, senhora ?
– Mesmo nome? Como assim? – sentou-se na cama, depressa.
– O nome da Júlia era Júlia Fetal. – Contou. – E ela era linda como você, assim, igualzinha, a diferença é que ela tinha o cabelo preto e você não tem.
– Você viu alguma foto? Tem alguma fotografia da Júlia? , tem alguma coisa? – Desatou a perguntar curiosa.
– Não, calma. – Ele riu. – Segundo os relatos, tudo que meu avô reuniu, a Júlia era uma das moças mais lindas da cidade, tinha cabelos pretos...essas coisas.
– Será que não existe nenhuma foto ou quem sabe algum desenho? Ela era rica, não é? Família influente.
– Se o senhor Joca não encontrou, é porque não existe. – riu, puxando a noiva para perto.
– Eu não consigo ficar confortável com isso, a Júlia não era assim, ela não era desse jeito. – Assumiu.
– Meu amor, não sabia que você era amiga íntima da Júlia Fetal. – riu. – Pode ser que não, pode ser que você esteja certa e a Júlia é uma injustiçada, mas pode ser que esteja errada e a Júlia só quisesse ser livre, aproveitar a vida, mas foi forçada a se casar com o professor. São muitas hipóteses, tenho que estudar bem o material que o meu avô me deu para decidir alguma coisa.
– Eu sei, eu sei. – concordou.

Não que realmente concordasse com aquilo, só queria terminar a conversa, ansiosa para que pudesse mergulhar na caixa de coisas de Júlia e encontrar ela mesma as respostas que precisava.
E assim fez, no segundo em que percebeu que adormecera, juntou a caixa com coisas de Júlia que o noivo havia trago da livraria, espalhando todo seu conteúdo pelo chão. Papéis, bordados, recortes de jornais, escritos aleatórios, cópias de poemas em inglês, francês e português, citações de livros, trechos do julgamento.
Mergulhada em Júlia Fetal, passou quase toda tarde, só percebendo que o tempo havia passado quando suas costas doeram e sentiu câimbra nas pernas, já passava das cinco da tarde, resolvera procurar algo para comer. Sentia o corpo formigar de contentamento e ansiedade para desvendar os mistérios que envolviam a existência de Júlia Fetal.
? Aonde vai com tanta pressa? – Margot, que tomava chá com Maia na sala questionou ao perceber correr até a cozinha.
– Eu? Eu ia procurar alguma coisa para comer. – Confessou sem graça por ser pega em flagrante.
– Estamos tomando um chá e comendo uns biscoitinhos de nata. Não quer? – Maia ofereceu. – Chá de capim cidreira, é calmante.
– Obrigada. – sorriu amarelo. Sabia que estava agitada, mas não que estivesse transparecendo tanto. – Acho que estou precisando mesmo.
– O que foi? Parece que viu um fantasma. – Margot brincou.
– Quase isso. – Ela respondeu bebericando um pouco do chá que fora servido por Maia. – Estava lendo sobre Júlia Fetal. Eu não sei o que aconteceu, eu tô tão curiosa com essa história que parece que eu até conheço a Júlia. – confessou.
– A história da Júlia é tão mórbida, não é? Por isso você está assim, deve fazer até mal ficar lendo aquelas coisas, eu pelo menos sempre me sinto mal. – Maia contou.
– Aí é que está, eu não me sinto mal. – disse ansiosa. – Eu estou curiosa, curiosa para saber tudo sobre a Júlia, para provar que o e os outros estão errados e que a Júlia não era essa mulher que estão pintando.
– E como você pode ter tanta certeza? O Joaquim só contou sobre a Júlia a vocês hoje pela manhã. – Margot interviu.
– Eu não sei explicar, eu só sinto...como se fosse um sexto sentido, uma intuição ou coisa assim. – Disse a dentista.
– E você já conseguiu alguma coisa? – Margot quis saber.
– Não muito, eu percebi que entre todas aquelas coisas que o Joaquim tem da Júlia, por mais que mencionem esse coração livre que ela tinha, não existe mais menção nenhuma a qualquer amante. O único homem mencionado além do professor é um estudante de direito, vizinho da Júlia, chamado Luiz. – Falou empolgada. – Além disso, o próprio professor nunca contou a razão do crime, ele nunca disse se foi realmente por traição, e todos que dizem que a Júlia o traía, não conheceram nenhum dos dois, só contaram a história anos depois.
– E o que o pensa disso? – Margot perguntou.
– Ele acha que eu posso estar certa, mas não senti muita firmeza. – deu de ombros. – Ele acha que a Júlia era uma mulher livre, que queria aproveitar a vida mas que foi forçada a se casar com o professor.
– Ih, eu gosto dessa versão, hein. – Maia riu. – Bem melhor do que a que estávamos imaginando.
– Mas se a Júlia tivesse mesmo amantes, teriam registros e não tem ninguém. – enfatizou. – A Júlia tinha uma amiga, uma amiga íntima chamada Dora, há várias menções a ela e também a outra amiga, acho que o nome era Glória. Eu achei tão estranho, tem vários bilhetes dessa Glória marcando encontros com a Júlia, mas no final de todos eles tem umas letras que não entendi o que significam. L F. – Contou.
– Será que não é o sobrenome dessa moça, Glória L. F. – Maia supôs.
– Eu não sei, mas sei que essas duas devem saber exatamente o que houve com a Júlia, e se eu conseguisse descobrir que fim levou o Luiz...
– O pior é que eu e Joaquim já reviramos aqueles papéis várias vezes, nunca conseguimos encontrar nada de concreto sobre ele. – Margot lembrou. – Só tem aquelas menções de ser o suposto amante.
– Sim, pois é...– concordou enquanto bebia mais um pouco de seu chá. – Margot! – Chamou de repente, fazendo com que as duas mulheres se assustassem. – Eu acabei de me lembrar, a Júlia viveu aqui, não é? Por isso o Joaquim se empolgou tanto com a história, a Júlia viveu aqui há mais de cento e cinquenta anos, mas viveu, não é?
– Sim, ela e a família, todos são daqui. – Margot confirmou. – Ou melhor, eram.
– Eu preciso ir até a casa da Júlia, não sei se ainda tem uma casa ou se já construíram alguma coisa no lugar, mas eu preciso ir até lá. – pediu ansiosa.
– Tem, tem uma casa sim, está em ruínas, abandonada, mas tem uma casa. – Margot disse.
– Eu vou só pegar minha bolsa. – A dentista anunciou.
– Não, imagina, . – Margot negou de pronto. – Nós não vamos até lá a essa hora, imagina.
– É, , por mais que eu ache isso uma loucura interessantíssima, não rola ir até lá durante a noite. – Maia concordou com a mãe. – A casa fica na parte velha da cidade, totalmente abandonada, e tá caindo aos pedaços, como a minha mãe disse.
– Mas eu...
– Amanhã, amanhã nós vamos até lá, podemos convidar o também, mas amanhã. – Margot sorriu. – Hoje vamos ficar bem quietinhas em casa, só confabulando mesmo.

[...]



Desde as seis da manhã já estava de pé, andando em círculos pelo quarto, ansiosa com o passeio, mal podia esperar até conhecer a casa onde Júlia havia vivido. Nem mesmo seus constantes pesadelos, potencializados pela ansiedade conseguiram tirar o foco da visita. Por mais aterrorizante que fosse fugir por entre aqueles cômodos, se mantinha fixa a realidade graças ao plano de visitar a habitação de sua mais nova e maior fixação. Porém, uma dualidade de sentimentos a consumia, queria com todas as forças adentrar e conhecer a casa de Júlia Fetal, mas ao mesmo tempo, tinha pavor do lugar quando se lembrava que ali acontecera o homicídio de Júlia.
Por mais pavor e angustia que sentisse, nada a impediria de visitar a casa dela, por isso, depois de atormentar Maia e Margot para que se apressassem, sem se preocupar em ser insistente além dos limites da elegância, estavam as três no jipe da mais velha, dirigindo-se ao tão esperado local. dispensara o convite assim que o ouviu, não tinha interesse em conhecer ruínas, assim ele dissera.
– Chegamos. – Margot anunciou ao estacionar.

desceu do carro depressa, ficando frente aos portões de ferro da casa de Júlia, um sobrado, com jardim povoado de ervas daninhas e uma mangueira velha. Alguns arcos de ferro dos portões estavam quebrados, assim com a maioria dos vidros das janelas, algumas eram cobertas por tabuas de madeira, as paredes descascavam, tornando impossível distinguir qual era a cor que marcava a casa.
– Esse lugar me dá arrepios. – Maia confessou. – A casa da Júlia está terrível, cenário de filme de terror, mas olha só aquela ali. – Disse apontando para a casa vizinha à esquerda da casa de Júlia Fetal.
– Parece que pegou fogo, não é? – Margot comentou.
– Ela me dá arrepios, eu sempre odiei essa casa, mas confesso que morro de curiosidades para saber o que tem dentro.
– Eu também. – Margot sussurrou. – Naquela casa e na casa da Júlia, a gente sempre ouve falar tanto dela.
– Vocês nunca entraram? – indagou surpresa.
– Não, sempre está trancada. – Maia contou num suspiro.
– Eu...uma sensação estranha, como se fosse familiar, sabe? – confessou.
– Ah, mas é que esse tipo de casarão é bem comum, mesmo. Você já deve ter visto em outros lugares, talvez em livros. – Margot racionalizou.
– Ou pode ter visto na sua vida passada. – Maia gracejou e foi repreendida por Margot e ignorada por .

A dentista não pode se conter, os portões daquela casa a chamavam, pediam por ela como se fossem imãs. Lentamente, caminhou até eles, abrindo-o devagar e caminhou para dentro, sendo seguida a certa distância por Maia e Margot. Havia um caminho de pedras que levava até os degraus da varanda, porém ervas daninhas e espinhos já o haviam tomado por completo.
Vencida a distância, estava diante a porta da casa de Júlia, apenas dois passos de distância a separava do interior da casa, da fonte de todos mistérios e ao mesmo tempo, do local onde a vida daquela jovem fora ceifada de maneira tão violenta e cruel.
– Deve estar trancada, como sempre. – Margot lembrou. – Mas tenha cuidado, .
– Eu...eu preciso ver o que tem dentro, preciso ver. – anunciou sem tirar os olhos da porta.

Devagar, empurrou a velha porta de madeira, que a há princípio ofereceu certa resistência, mas que fora vencida facilmente. Margot exclamou, espantada com a chance que tinham de enfim descobrir os mistérios que envolviam a casa de Júlia Fetal. Assim que as portas foram abertas, vislumbrou rapidamente o interior da casa, que apesar de escuro e empoeirado, era banhado por sutis raios de sol que atravessavam as tábuas de madeira das janelas.
De repente, foi invadida por uma enxurrada de sentimentos, angustia, medo, pavor, dor, confusão, estranheza, sem nem mesmo entender de onde vinham. O grande e cumprido tapete que ligava o hall de entrada até a sala de estar, o móvel com o abajur, o vaso que antes devia guardar flores e que hoje estava jogado ao chão, aos pedaços, os sofás que podiam ser vistos a distância...tudo aquilo...a casa de Júlia...e então ela soube. Soube e mal pode conter o grito que se formou na garganta, mal pode conter o peso do corpo sob seus joelhos. Trêmula e em choque, girou o corpo, afim de encontrar o olhar das duas mulheres, queria se certificar de que não era um sonho e que estavam mesmo ali.
– É aqui. É aqui, Margot. – Anunciou atônita. – É com a casa da Júlia Fetal que eu tenho sonhado todo esse tempo...meus pesadelos...nos meus pesadelos eu corro por essa casa, eu fujo por esse corredor...é aqui. – apontava para dentro, dividida se devia entrar ou não na casa, em dúvida se suas pernas podiam se mover ou não. – Eu sonho com a casa da Júlia Fetal, eu sonho...eu sonho que eu fujo pra cá...eu sonho que eu fujo...todos esses anos e eu sonhava com a casa dela, com a casa da Júlia...

Dizendo isso, ela desabou.




Continua...



Nota da autora:Ai como to ansiosa!
Eu sempre fico de cara em como essa fanfic fluí, em como é fácil contar a história dela, tudo acontece com tanta naturalidade, tão simples.
Depois de toda aquela treta no velho continente, temos nossos Pps vivendo no Brasil e tocando a vida por aqui. Já deu pra ver que várias pessoas do passado estão com eles na vida atual, não é? Mas ainda falta gente...onde está o grande amor da primeira vida? Será que ele era mesmo o grande amor? É a mãe que volta como amiga, o inimigo que volta como pai, o amigo que volta como irmão...são muitas perguntas que precisam de respostas.
E é claro que logo logo, teremos mais perguntas uahsauhs
E agora, José? A Pp sonhando com a casa da Júlia Fetal...

Muito obrigada, Mia Alonso aka Maia, pelo incentivo, parceria e colo.

Obs:.Os acontecimentos da primeira fase se passam originalmente na Ilha de Skye - Escócia e não na Inglaterra.
Obs:.O sobrado onde a verdadeira Júlia Fetal foi morta é diferente do sobrado descrito na história, as personagens Dora e Glória são puramente fictícias.
Obs:.Parte desta fanfic é inspirada no homicídio real de Júlia Clara Fetal, em Abril de 1847, Salvador - BA; em epsódios de regressão; na obra de Howard Pyle, sobre Robin Hood; e na obra de Elizabeth Jhin - Espelho da Vida;




Drive to Survive: Daniel Ricciardo
Drive to Survive: Esteban Ocon
Drive to Survive: Sergio Pérez
Drive to Survive: Valtteri Bottas
Ele
O Destino nos Trouxe a Munique
The Curve of a Dream
The Curve of a Dream:A Tribute


comments powered by Disqus