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Última atualização: 10/03/2022

Prólogo

A relva outrora verde encontrava–se como um verdadeiro campo de batalha. Os gritos de guerra misturavam-se com os gemidos dos feridos, o sangue escarlate manchava a grama e respingava em todos os que lutavam em busca de sair daquele local com vida. O tintilar das espadas se chocando e dos escudos sendo usados como proteção, faziam parte da trilha sonora da primeira briga entre os escandinavos e os ingleses.
Conde Niels estava na linha de frente, logo acompanhado por a poucos metros de distância, localizado à sua esquerda, empunhando um machado e protegendo–se com um escudo. O conde considerava o jovem guerreiro como o seu braço direito. Niels o conhecia desde de antes dele ganhar a sua pulseira e tornar–se verdadeiramente um homem.
Muito antes de nascer, Niels batalhara ao leste com Jaha, o falecido pai de , em busca de melhorar a situação dos nórdicos com os saqueamentos. Devido a morte prematura do mais velho, assumiu as terras de Byrum pouco antes de completar vinte anos. Niels esteve sempre presente, ajudando–o a ser um bom líder e a criar o segundo maior exército local, perdendo apenas para o do próprio soberano.
E este era o motivo pelo qual o guerreiro estava lutando ao lado do conde.
Os olhos do mais novo brilharam ao ouvir a proposta oferecida por Niels. Eles desbravariam o mar, acabariam com a rotina de saquear apenas ao leste. Iriam finalmente velejar a mar aberto e descobrir o que os aguardava após a imensidão azul.
Buscavam por novidades, ansiavam descobrir se as lendas sobre uma terra próspera e cheia de riquezas era verdade, onde um único Deus era capaz de lhes abençoar.
Com um sorriso sádico nos lábios, esperava que o falso deus protegesse o exército do rei Edward, pois ele tinha certeza que seus deuses estavam ajudando–o naquela guerra.
Avançou contra mais um inglês, usando o escudo preso ao braço direito para se proteger da espada inimiga. Forçou a mão do guerreiro para baixo, rodando o machado em sua mão e decepando a mão do inimigo que empunhava a arma.
Aumentou ainda mais o sorriso.
Por Odin, como era gratificante matar aqueles cristãos.
Aproveitou o desespero do soldado — claramente despreparado — e rodou novamente o machado em sua mão, dando um único corte no pescoço do homem e fazendo com o que sua cabeça rolasse para longe. Não se importou com os jatos de sangue que manchavam sua pele e roupas, aquele era apenas mais um dos diversos tons escarlates espalhados por si. Poderia até mesmo dizer que era revigorante ter a sensação do sangue inimigo contra a sua pele.
Avançou ainda mais contra o exército inglês, a haste de madeira do machado girava em perfeita sincronia em sua mão, chocando–se contra os corpos inimigos sempre que algum deles ousava tentar feri–lo.
Sua mão ardia contra a haste e seu pulso latejava, estava claro que logo mais estaria mostrando claros sinais de fraqueza e que isto seria extremamente gratificante para o exército inglês.
Tinham ido para exploração, levando apenas dois barcos — cujos nenhum dos dois tinham atingido o limite máximo de pessoas —, e não esperavam que já ao pisarem novamente em terra após longos dias no mar, iriam enfrentar uma guerra contra um exército com mais de duzentos homens.
Ouviu a corneta tocar, indicando retirada imediata do campo de batalha.
Tinham chegado à conclusão de que seria impossível vencer os ingleses e que para não perder mais homens, deveriam bater em retirada naquele exato momento.
livrou–se do inglês à sua frente, dando uma certeira machadada em seu peito, fazendo com o que corpo trêmulo do homem caísse sobre outros corpos estirados ao chão.Virou–se para voltar aos barcos, porém, sequer deu um passo em direção ao litoral ao notar a ausência de Niels.
Correu os olhos pelo recente campo de batalha, mas era difícil reconhecer qualquer um que estivesse jogado ao chão.
— NIELS! — Gritou o mais alto que pôde, tornando a correr pelo gramado.
Não tinha notado que acabou se distanciando tanto do conde e agora culpava–se internamente por isso.
Ouviu uma risada irônica ecoar pelo campo que começava a se tornar silencioso, não demorando para localizar a origem do som.
Encontrou o conde com as costas coladas ao tronco de uma árvore, alguns metros distantes do campo onde travaram a batalha.
Livrou–se do escudo e do machado, jogando–o de qualquer jeito na grama e correndo até Niels.
O corpo do conde tremulava e sua boca levemente aberta mostrava os resquícios de sangue que começavam a escorrer por ali. Suas mãos se afrouxaram, caindo ao lado do corpo e mostrando o enorme ferimento aberto em sua barriga.
ajoelhou–se na grama ao se aproximar do corpo de Niels. Sentiu os olhos arderem, odiava perder algum amigo em um campo de batalha, porém, sabia que aquilo fazia parte de suas vidas e que eles seriam recompensados.
. — Niels pronunciou com dificuldade, porém o guerreiro compreendeu que o conde queria que suas palavras fossem passadas para sua filha.
Em um último esforço, o conde aproximou–se de , sussurrando para o guerreiro suas últimas palavras, que apenas concordou com aceno de cabeça.
— Que abençoem sua chegada em Valhalla. pronunciou em bom tom, ao ver o resto de vida esvair–se do conde.
O que os ingleses não sabiam, era que ao matarem o conde, eles tinham despertado uma raiva tão primitiva como os próprios deuses nórdicos.
Conforme o conde dava o último suspiro, Red Spear começava a se formar. E não demoraria para que a lança vermelha clamasse por vingança.

Capítulo Um

O ar pesado pairava sobre o navio viking que se aproximava da região costeira de Kattegat, os guerreiros estavam desolados por suas perdas, porém, entre todos os homens presentes, era — visivelmente — o mais abatido.
Seus olhos possuíam uma leve coloração avermelhada, causado pelas poucas horas de sono em conjunto com a maresia e o choque da morte do conde. Conhecia a herdeira, já tinha trocado algumas poucas palavras com ela sobre as invasões, entretanto, não conseguia se imaginar chegando para a jovem e contando sobre o destino de seu pai.
já estava acostumado com as mortes, os corpos sem vidas e muitas vezes mutilados sequer o amedrontavam, pois sabia que os guerreiros mortos em batalha estariam em um lugar muito melhor no além-vida do que em nossas terras.
Seus problemas não eram os mortos, eram os vivos.
A pior parte, ao voltar de uma batalha com baixas nos exércitos, era comunicar a família sobre o ocorrido.
O guerreiro encontrava-se no início do navio, mas ao ver a embarcação ancorada na costa de Kattegat, deixou que todos os outros companheiros saíssem antes dele, desejava permanecer no navio o máximo de tempo possível. Poderia jurar que se olhasse para o lado contrário da embarcação, conseguia observar o falecido conde recostado à madeira, enquanto contava uma de suas estratégias de guerra.
Não se sentia pronto para encontrar com a filha de Niels. Se a perda do conde fazia com o que se sentisse sem rumo, sequer conseguia imaginar como a herdeira se sentiria.
Respirou fundo, pedindo para que todos os deuses lhe dessem a força necessária para falar com , e nesta prece silenciosa, desceu do barco e seguiu até o local onde sabia que a herdeira estaria.
passava mais tempo em Kattegat, ajudando Niels com as estratégias do que em Byrum, a ilha vizinha onde nasceu. Possuía livre acesso pelos aposentos do conde, o que acabou não sendo um problema para que logo encontrasse .
Os olhos da jovem brilhavam conforme passeavam rapidamente por todos os lados do cômodo, esperando pelo momento em que seu pai entraria pela porta e a abraçaria do jeito que só ele sabia fazer, após passar semanas longe, desbravando novos territórios.
Entretanto, tudo o que encontrou foi , com uma expressão cansada no rosto e com algumas marcas de sangue seco ao longo da face e da roupa.
A expressão animada sumiu rapidamente de seu rosto, contentando-se apenas em descansar o corpo de qualquer modo na cadeira mais próxima de si. Não era ingênua, conseguia ler perfeitamente o que os olhos de tentavam lhe dizer.
Ela sempre conseguia.
A herdeira não poderia dizer que possuía uma relação com o rapaz, talvez conseguisse os definir como algo entre a amizade e a cumplicidade devido ao tempo que passavam juntos por causa de seu pai. era um homem de poucas palavras, preferia demonstrar o que pensava em seus atos, e devido a isto, criou a habilidade de ler seus olhos e suas expressões.
E este era o motivo pelo qual seu coração batia de modo desenfreado. Ela sabia que não receberia boas notícias.
— Diga-me a situação, . — Falou em um tom de voz sem emoção, mantendo o olhar preso no do guerreiro e esperando pelo baque que receberia.
coçou a garganta, desviando os olhos do olhar inquisidor que lhe era direcionado. Conhecia a jovem desde sempre, nunca compartilharam mais do que o básico sobre suas vidas, mas o guerreiro sabia que não conseguiria observar os olhos tão expressivos da herdeira, enquanto contava o que de fato tinha acontecido.
— Seu pai estava certo, existem terras ao oeste. — Contentou-se em falar, voltado o olhar para e a encontrando com a sobrancelha arqueada.
— Não só terra, como também pessoas, devo supor. — murmurou com descaso, fazendo com o que analisasse rapidamente a si mesmo. — O sangue em sua roupa entrega a batalha que participou. Fico feliz que meu pai estivesse certo, porém, preferia estar falando sobre as vitórias dele com ele próprio.
— Temo que isto não seja possível. — fixou seu olhar no rosto de , não conseguindo encarar qualquer outro ponto na sala, e, naquele instante, observou a jovem quebrar.
A mulher à sua frente não era mais a valente herdeira de vinte e três anos, a figura feminina era apenas uma jovem perdida e órfã, com questionamentos sobre o seu futuro e o de sua terra, e com uma dor lancinante tomando conta de seu corpo. Os olhos sempre brilhantes, agora se encontravam escuros e opacos, lutando para que as lágrimas não vazassem de seus olhos e molhassem sua face, enquanto seu corpo tremia levemente e soluços baixos escapavam de sua garganta.
— Eu sinto muito, não desejavas que isto acontecesse. — murmurou com a voz fraca, recebendo apenas um balançar de cabeça como resposta. — Estávamos batendo em retirada, era impossível vencermos eles. Lutamos lado-a-lado, mas quando me aproximei do barco e dei por sua falta, ele já estava abatido.
fechou os olhos com força, deixando que as lágrimas escorressem livremente por seu rosto, enquanto um soluço alto saía de sua garganta. suspirou baixo, perdido no que fazer e aproximou-se da herdeira, ajoelhando-se a sua frente e tocando sutilmente no joelho da jovem.
— Muito obrigada por ser o braço direito de meu pai, serei eternamente grata por toda a lealdade que sempre demonstrou a meu pai e as nossas terras, sua bravura e sua eficiência fizeram com o que um homem do povoado ao lado fosse um guerreiro de Kattegat mais leal, que qualquer um dos homens que cresceram nesta terra. — secou as lágrimas dos olhos, pousando de modo brando as mãos sobre a mão de , que repousava em seu joelho. — Acalenta meu coração saber que pelo menos você estava ao lado dele, não possuo palavras para lhe agradecer.
sorriu sem mostrar os dentes, afinal de contas, não entendia o motivo pelo qual a jovem o agradecia tanto. Ele estava lá quando Niels morreu, se tivesse prestado mais atenção ao redor, poderia ter notado quando o conde foi machucado ou até mesmo o protegido.
Meneou a cabeça em um singelo gesto afirmativo, demonstrando estar agradecido por tudo o que falou e levantou-se, permanecendo no mesmo lugar e mantendo o olhar preso ao da herdeira.
— Seu pai sempre ajudou Byrum e esteve ao meu lado quando eu perdi meu pai, e este é um dos motivos pelo qual minha lealdade a partir de agora está toda depositada em você. — pronunciou-se, causando um pequeno susto na herdeira, que não conteve o suspiro alto.
— Eu agradeço, entretanto, não consigo sequer acreditar ser digna de sua lealdade. — As palavras de saem fracas, mas a sua força usual estava de volta em seus olhos, que se encontravam fixados aos de . — Não sou meu pai e infelizmente não ouso chegar nem perto de ser uma grande comandante tão quão ele era, não saberei liderar meu povo e ainda poderei deixar faltar para Kattegat e Byrum. Sei que é meu dever como a única herdeira, mas não estou pronta para assumir o papel que meu pai desempenhava.
— Acredito que fará o melhor para você e seu povo, e sei que pai acreditava na mesma coisa. — meneou outra vez a cabeça sutilmente. — Porém, precisamos de alguém no comando.
— Peça para que o mensageiro entre, por favor. — arrumou-se na cadeira, mantendo a postura ereta e observou, enquanto afastava-se pelo salão e cruzava a porta.
Fechou os olhos com força, ainda completamente abalada por todos os acontecimentos e sentiu a pontada em seu coração ao pensar que nunca mais poderia recorrer ao seu pai, agora seria apenas ela por si mesma e por seu povo. Não se arrependia de ter chorado na frente de , sabia que ele entendia sua dor e que nunca usaria aquilo como algo que a fizesse ser mais fraca, afinal, lembrava-se do dia que irrompeu por aquela porta — a mesma que ela encarava — e recebeu a notícia de que seu pai tinha falecido. Aquela foi a primeira vez que viu um homem chorar e o momento ficou gravado em sua história. Não como uma imagem relacionada à fraqueza, pois, após aquele dia, tornou-se o melhor guerreiro de Kattegat.
E se um fazendeiro sem a mínima noção de luta, tornou-se o melhor guerreiro de suas terras, usando a vingança pela morte do pai como motivação, ela sabia que tinha todo o treinamento para comandar um exército contra os ingleses e quem mais ousasse cruzar seu caminho.
Afinal de contas, sede por vingança não era o que lhe faltava.
— Vossa senhoria. — A voz do mensageiro ecoa pela sala, despertando de seus pensamentos. — Imagino o motivo pelo qual tenha me convocado, devo eu anunciar o lamento que é a perda de Meu Senhor?
engoliu em seco e observou o olhar de preso ao seu.
— Não, muito obrigada, eu mesma ficarei ao encargo disto. — A voz firme saiu sem que precisasse forçar, foi acostumada a não demonstrar fraqueza na frente de ninguém, deveria portar-se como a herdeira das terras, por mais que fosse passar seu direito a diante. — Chamei-o aqui para que contate meu primo, sei que Ivar lutaria pelos direitos da terra e prefiro que ele apareça aqui por um convite meu.
— Sim, senhora. — O mensageiro acenou com um movimento. — Devo lhe informar apenas que a condessa o chama?
sentiu uma pontada no estômago ao ouvir o modo como foi nomeada, poderia jurar ser capaz de colocar todo o café da manhã para fora, ali mesmo no salão. Compreendia que quando seu pai morresse o título passaria para si, afinal de contas, ela era a herdeira. Mas, enquanto todos a chamavam apenas de herdeira, o peso de seu título não incomodava seus ombros.
— Informe-o o motivo pelo qual estás sendo chamado, viverei melhor sem ver a expressão letárgica ao saber da morte de meu pai, basta-me a sua felicidade irradiante ao poder comandar Kattegat. — meneou a mão ao finalizar a frase, indicando ao mensageiro que o recado estava finalizado. — Boa viagem.
esperou que o homem cruzasse a porta para que retomasse a falar.
— Acreditas que meu pai concordaria? — Questionou de modo indiferente para , guardando para si toda as dúvidas que possuía, fixando de volta o olhar na imensidão azul que eram os olhos do guerreiro.
— Se crês que estás fazendo o melhor por nossas terras, compartilhamos a certeza de que Niels concordaria. — observou o momento em que a herdeira rompeu a troca de olhares e fixou o olhar ao chão.
— Ivar serás um governante melhor, saberás o que fazer. — Murmurou, voltando a encarar .
— Não precisas tentar convencer-me, creio em tua palavra e acredito que farás o melhor para nossos povos. — sorriu de modo reconfortante, precisava demonstrar para que tinha sido sincero, agora ele lhe entregava toda a sua lealdade. — Desejarás aguardar a chegada de seu primo para que comunique a vila sobre o falecimento do conde?
negou com um balançar de cabeça.
— Comunicá-los-ei ao poente, sinto a necessidade de despedir-me propriamente de meu pai uma última vez. — O tom pesaroso era notável na voz feminina. — Seu corpo estás em terras inimigas e seu espírito prontamente atravessou os portões de Valhalla, entretanto, creio que uma cerimônia de despedida seja uma boa coisa. Não só para meu pai, mas para todos aqueles que hoje receberam a notícia de que seus entes queridos não se encontram mais entre nós.
observava o grande navio, cujo tinha passado seus últimos dias dentro, a embarcação de madeira encontrava-se na terra, a poucos metros de distância do mar. O enorme corpo do dragão que enfeitava o lado externo do navio estava virado para a imensidão azul, com a coroa — quase nunca usada — do conde Niels adornando a cabeça da criatura esculpida.
Dentro do navio, uma amarração de madeira e tecidos — feita para que representasse o corpo de Niels — ocupava o centro do interior da embarcação, ao redor da amarração encontravam-se algumas jóias que o conde costumava usar e suas peças de roupas preferidas, além de algumas armas de seu arsenal.
estendeu sua mão na direção de , ajudando-a a sair do barco e aproveitando o curto momento para encarar atentamente a herdeira. A expressão fechada não deixava transparecer nenhum sentimento ou emoção, mas os olhos escuros encontravam-se menores e avermelhados, denunciando que após o momento que se separaram no salão, tinha entregue-se as lágrimas novamente.
Agradeceu a com um sorriso mudo, entretanto, manteve o aperto de sua mão contra a mão do homem. Sentia vontade de ajoelhar-se na areia e molhar a extensão amarela com suas lágrimas até que formasse um canal até o mar, mas sabia que precisava ser forte por seu povo.
Não prestou atenção em quem lhe passou a tocha acesa, mas agradeceu com um murmúrio ao segurar a madeira com a mão livre. Respirou fundo e sentiu o aperto de intensificar-se, sabia que poderia contar com ele se precisasse.
Deu um meio sorriso na direção do homem e soltou sua mão, agora precisava mostrar toda a força que possuía.
Observou atentamente quando as cordas que prendiam o navio em terra firme foram cortadas, permitindo que a embarcação deslizasse até o mar. suspirou fundo e apertou a tocha em sua mão, jogando o pedaço flamejante de madeira no navio preferido de seu pai.
— Seu corpo descansará eternamente em terras inimigas, mas sei que seu espírito fostes recolhido pelas Valquírias, pois, mesmo em seu leito de morte, não abandonastes a bravura. — A voz de não passava de um sussurro, enquanto seus olhos estavam fixados na embarcação que começava a ser inteiramente consumida pelo fogo. — Agora descansarás o resto de seus dias em Valhalla, esperando pelo momento em que lutará em sua última guerra.
Outras pequenas embarcações começaram a ocupar a água e apenas naquele momento deu-se conta de quantas vidas tinham sido ceifadas. A tristeza de seu povo era imensa, mas ela não deixaria que a situação ficasse daquele modo.
Vidar, o segundo mais forte, eu peço para que me abençoe com sua ira e vingança, que assim como vais sobreviver ao Ragnarok, clamo para que me faças sobreviver em minhas batalhas. — Os olhos de queimavam tão quão as embarcações fumegantes que ocupavam o mar. — Týr, patrono da justiça, eu peço que me abençoe com sua coragem, que permaneça ao meu lado durante as batalhas que travarei e que sua decisão paire sobre mim. — O tom de voz era baixo, como a prece pedia, porém, o ódio estava presente em cada palavra falada. — Hela, não deixes que sua ganância cegue meus olhos, em compensação, ceifarei vidas e as entregarei para que você realize seus caprichos ao desfrutar-se com as almas dos adoradores do falso deus.

Capítulo Dois

O amanhecer parecia reproduzir o modo como sentia–se naquela manhã de fim de outono. O céu cinza assemelhava-se com a apatia que a jovem herdeira sentia, a neblina presente por todo o vilarejo era semelhante aos pensamentos turvos que ocupavam-lhe a mente.
Ansiava poder ignorar tudo e todos, queria poder ignorar suas obrigações e passar o dia inteiro trancada dentro do quarto, em busca de realinhar seus pensamentos. Mas era herdeira de Kattegat, não poderia se dar ao luxo de ignorar o problema de sua terra para arrumar os seus. Precisaria lidar com os dois juntos.
Possuía pensamentos conflitantes sobre entregar o reino para o primo, questionava-se se estava de fato fazendo o melhor pelas terras. E o principal, questionava-se se estava realizando os desejos de seu pai. ainda se considerava extremamente jovem para ocupar o lugar de seu pai, mas se até o final do dia Ivar não se provasse digno para ser o novo conde, a herdeira tomaria o seu lugar por direito.
— Vossa senhoria, és de meu conhecimento que não desejavas ser incomodada, não obstante, devo lhe informar que Ivar já se encontra no salão de reuniões á sua espera. — a voz do mensageiro ecoou através da grossa porta de madeira que dividia os cômodos.
não conteve o sorriso desgostoso que beirava ao sarcasmo.
Já era de se esperar que Ivar compareceria o mais depressa possível, visto que o mais velho nunca sequer se deu ao trabalho de esconder ou disfarçar todo o anseio que possuía em herdar o comando de Kattegat.
E agora com o falecimento de seu pai, sabia que Ivar encontrava–se no mínimo contente. A dor e a tristeza provavelmente não existiam em seu consanguíneo, era capaz de que o único sentimento presente em Ivar fosse a felicidade com a chance que se abriu a morte do conde.
— Arvid, avise–o que dentro de pouco tempo juntarei–me a ele no salão. — comunicou–se, ouvindo a concordância do mensageiro segundos depois.
ansiava para que o primo a apoiasse, necessitava que a perda de seu pai não fosse colocada de lado, ela almejava uma vingança, e como — possível — futuro governante, Ivar necessitava apoiar seus planos.
Seu pai merecia ser honrado, e era isto que faria.
A jovem herdeira já encontrava–se pronta e devidamente vestida, motivo pelo qual não demorou muito para que seguisse para o salão de reuniões, onde sabia que encontraria o primo.
— Ivar, encontro–me jubilosa por comparecer tão rapidamente em tempos melancólicos como esse ao qual Kattegat está vivenciando. — procurou usar o seu melhor tom agradável para dirigir-se ao primo, iniciando sua frase ao cruzar o salão.
— Imagino o quão debilitada encontrava–se, vim o mais ágil possível. — o sorriso de Ivar demonstrava uma infinidade de sentimentos, mas nenhum sequer que pudesse ser comparado com a tristeza ou o luto.
apenas conseguia enxergar felicidade, ganância e soberba.
— Necessitamos dialogar sobre o ocorrido, como futuro mandante das terras, almejo que honre a morte de meu pai. — falou prontamente, parando de frente para o primo que encontrava–se sentado em uma das cadeiras. — Meu pai morreu em busca de novas terras, coisas boas para o meu povo, e não deixarei que isto passe impune.
Ivar tombou a cabeça para o lado, analisando o que lhe era dito, preferindo não acreditar nas baboseiras que sua prima queria lhe impunhar a fazer.
— Vingança? — o mais velho questionou, a frase escorrendo ironia e os olhos descrentes encaram a prima.
— Sim, contou–me que a terra é povoada por adoradores do falso deus, podemos nos preparar para um ataque surpresa, encontraremo–nos mais preparados que eles. — a voz da herdeira transbordava euforia, a necessidade de vingança corroía todo o seu ser.
cresceu a vida toda sendo preparada para cuidar das terras, afinal de contas, era unigênita do conde. E como uma boa futura comandante, era uma das melhores em combates.
Sabia se defender muito bem, mas ainda era melhor no ataque, sendo até mesmo elogiada como a melhor guerreira de Kattegat, mas como a única herdeira diretamente de Niels, a jovem era privada de ir em todas as batalhas que seu pai estivesse. Não poderiam correr o risco de perder o conde e a sua sucessora.
E agora, mais do que nunca, ansiava voltar para os campos de batalhas.
— Não compactuarei com essas baboseiras. — Ivar retrucou, levantando–se da cadeira e fazendo com o que se afastasse, dando um passo para trás de modo receoso. — Não colocarei mais guerreiros para morrer por insanidades territoriais, sequer possuímos o conhecimento de que esta terra seria um grande lucro para nós.
— Não são baboseiras! — o tom de voz de tremeu, fazendo com o que respirasse fundo antes de retomar a fala. — É honrar o último desejo de meu pai, o conde dessas terras.
— Eu sou o novo conde dessas terras, e digo que Kattegat e Byrum já são mais do que o necessário para que esse povo viva bem. — Ivar fixou o olhar na mais nova, mantendo–o extremamente firme até o momento em que se sentou na grande cadeira onde Niels costumava sentar–se, abrindo um sorriso cínico na direção da prima. — Se queria aborrecer–me apenas com isso, peço que se retire, tenho muito trabalho a fazer.
As mãos de fecharam–se em punhos. A vontade de gritar e arrastar o primo para longe daquela cadeira corria por todo o seu corpo, mas sabia que aquele não era o momento adequado para fazer aquilo, pelo menos não enquanto estivesse sozinha.
Ali, naquele exato momento, tinha tomado a decisão sobre o futuro de Kattegat.
Respirou fundo, procurando por maneiras de continuar sã — e sem causar mortes — e encarou o primo uma última vez antes de sair da sala. Se ele não iria ajudá–la, ela iria até alguém que a apoiasse e ajudaria.
Seguiu até a pequena área portuária, chegando rapidamente ao local e não demorando muito para encontrar a embarcação que fazia as travessias diárias entre Kattegat e Byrum. Cumprimentou os camponeses que lhe desejavam condolências devido à partida de seu pai, agradecendo–os sinceramente.
sabia que no momento em que revelasse sua sede por vingança, muitos aldeões a acompanhariam em honra a memória de Niels, e isto apenas funcionava como suprimento para o ódio que corroía-lhe o peito.
Ódio dos ingleses e de Ivar, o homem covarde que não macharia em tributo ao seu pai.
A travessia foi rápida, a distância entre os dois povoados era deveras curta. A jovem herdeira apressou–se para sair do barco, se dando conta apenas em terra firme de que não possuía o conhecimento onde de fato morava. Conhecia-o toda a sua vida, mas poucas as vezes que deixou Kattegat para ir até Byrum poderiam ser contadas nos dedos de sua mão, e nenhuma delas era para visitar o homem em questão. Byrum era considerado como uma extensão de Kattegat, seu pai também era considerado conde naquelas terras, mas quem cuidava dos assuntos menores por ali, eram os Einar.
Com essa linha de pensamento em mente, parou o primeiro aldeão que passou próximo a si, apressando-se para falar:
— Apreciaria se soubesse informar-me onde Einar mora.
O aldeão parou ao perceber que a frase era direcionada a si, demorando para respondê-la. Talvez o homem se encontrasse confuso com a presença da jovem herdeira ali, ou poderia apenas estar encontrando uma maneira de poder indicar-lhe o caminho de um modo fácil.
— Será mais fácil encontrá-lo na taberna esta hora do dia.
não se preocupou em agradecer, a pressa para encontrar com era maior do que qualquer ensinamento de boas maneiras que tivesse aprendido ao longo da vida. Sabia onde ficava a taberna — ou pelo menos acreditava que sim —, já que em sua última visita, a pouco mais de um ano atrás, a jovem estava indo para o local com o pai, em busca de recrutarem mais guerreiros.
Adentrou a taberna em um rompante — atraindo a atenção de todos que estavam ali —, instaurando um silêncio por todo o local. Passou os olhos pelo local, encontrando sentado em uma mesa ao fundo, encarando-a com o semblante confuso.
— Está ocupado? — questionou ao aproximar-se da mesa onde o homem estava sentado com mais pessoas.
— Mesmo se estivesse, trataria de abdicar. — respondeu, levantando-se da mesa. — Imagino que não seja algo que irá desejar falar-me aqui.
— Não vejo problemas. — deu de ombros. — Acredito até mesmo que estou necessitada de um bom hidromel.
sorriu, levantando o braço e fazendo o sinal de dois com a mão. Indicou com um menear de cabeça uma mesa vazia e não pensou duas vezes antes de sentar, sendo acompanhada pelo homem.
— O que lhe trouxe aqui? — questionou interessado, sabia que a herdeira não teria ido até ali apenas para comentar sobre o seu dia.
— Quero falar sobre as terras que vocês estavam explorando. — falou diretamente, atraindo ainda mais a atenção de . — Seria vantajoso para nossos povos tentar tomar elas?
O guerreiro coçou a barba rala, deu uma longa respirada enquanto fixava seu olhar calmo em , que o encarava com os olhos ansiosos que pareciam queimar a cada segundo que o homem permanecia em silêncio.
— A questão territorial não é uma das maiores, porém a terra possui campos para plantios melhores que os nossos e as riquezas que poderíamos saquear são o suficiente para que nunca mais precisemos invadir outros territórios. — os olhos de brilhavam ao falar, a animação estava presente até mesmo em seu tom de voz. — Não digo que valha a pena só para buscar vingança por seu pai, contudo, podemos vingá-lo e ainda melhorar o estilo de vida de nossos povos.
molhou a ponta dos lábios com a língua, mordendo-a no momento em que iria falar, mas uma jovem apareceu a sua frente, pousando dois copos na mesa a qual se encontravam. A herdeira adiantou-se em pegar um para si, não demorando para deleitar-se com o gosto de sua bebida preferida.
— Gostaria de questioná-lo se posso confiar em você? — os olhos da mulher estavam fixos nos do guerreiro, encarando-o com uma seriedade que ele nunca tinha visto antes, pelo menos não vindo dela.
assustou-se com a repentina pergunta da jovem herdeira, não pelo fato de que não fosse ser leal a , e sim pois não esperava pela pergunta.
— Clamo minha lealdade por você assim como entreguei-a a seu pai, apoiarei a linhagem dos Scarth até que encontre-me nos grandes salões de Valhalla. — o tom de voz firme de passava para a herdeira toda a confiança que ela esperava que o homem depositasse em si. — Eu estava ao lado de seu pai, , e a partir de agora eu estarei ao seu.
aproveitou a deixa para finalizar sua bebida, esperava que o líquido lhe desse ao menos um pouco da coragem necessária para expor seus pensamentos e transformá-los em ações.
— Convoquei Ivar após o falecimento de meu pai, apesar de eu ser a herdeira, meu primo possui a verdadeira vontade de governar essas terras. — apenas concordou de modo silencioso, preferindo por não interrompê-la. — Esperava que Ivar honrasse a memória de meu pai, mas tudo o que ele fez foi basicamente mandar-me esquecer esta tola vingança.
Os olhos de mesclavam os sentimentos presentes em seu corpo — revolta, mágoa e tristeza. Ela não compreendia como o primo era capaz de deixar que a morte do conde fosse facilmente esquecida, em vez de retaliar os culpados pela morte dos pagãos.
não era de fato íntimo da herdeira, contudo, a conhecia a vida inteira e tinha pleno conhecimento de como era a personalidade de . Se ansiava por algo e era negada, a jovem fazia de tudo — independentemente das consequências — até conseguir o que queria.
— Se formos marchar contra o exército inglês, poderia contar com você? — concordou com um aceno de cabeça.
— Contará comigo não apenas em seu exército, mas sim ao seu lado na linha de frente. — o guerreiro confidenciou, causando um sorriso nos lábios da herdeira. — Convocarei meus melhores guerreiros, que costumavam acompanhar seu pai em batalhas. Todos ficaremos satisfeitos em honrar a morte de Niels.
O olhar de contentamento de agradecia silenciosamente. A herdeira entraria naquela guerra independentemente de quem a apoiasse, mas ter ao seu lado — o braço direito de seu pai — apenas a fazia ansiar ainda mais pelo momento em que estaria realizada após banhar-se com o sangue inglês.
— Clamo por justiça ao conde e aos companheiros perdidos em batalha, mas se marcharemos em direção às terras inglesas, nada mais justo que beneficiarmos nossos povos com isso. — o modo como falava era diferente de qualquer uma das outras vezes que já tinham conversado, o tom de voz do guerreiro era uma mistura de ódio e ganância, e apreciava aquilo, chegando até mesmo a considerar excitante.
— O que propõe? — a herdeira questionou interessada, afinal, sabia que possuía uma visão melhor que a sua naqueles assuntos, já que o homem estava acostumado a lidar com situações similares.
Era um dos melhores guerreiros de seu pai e seu único conselheiro, suas visões estrategistas eram o que tinham feito Kattegat prosperar ainda mais nos últimos quatro anos.
— Tomaremos as terras inglesas e tudo o que conseguirmos, dividiremos igualmente entre Byrum e Kattegat.
não precisou ponderar ou sequer pensou duas vezes, adiantando-se para responder um rápido:
— Certo!
— Então temos um acordo. — sorriu satisfeito, piscando de modo maroto para a herdeira. — Pretende ir contra as ordens de seu primo?
deu de ombros, na atual conjuntura, Ivar era o menor de seus problemas. Ela era a herdeira daquelas terras, e se o primo ousasse continuar em seu caminho, ela retomaria o que era seu por direito.
Era a herdeira daquelas terras e a morte de seu pai seria vingada, nem que fosse a última coisa que fizesse.
— Ivar possui apenas duas opções, apoiar-me ou então abdicar o comando. — falou firme, arrancando um sorriso de lado do guerreiro.
sabia que aquilo era o que Niels desejava, o conde ansiava por ver sua filha seguindo seus passos e comandando as terras de um modo ainda melhor do qual ele tinha governado.
— Passe a noite aqui, montaremos a estratégia à noite e amanhã estarei convocando meus melhores guerreiros para lutarem ao nosso lado. — propôs, recebendo como resposta um balançar de cabeça afirmativo.
O guerreiro sorriu, sentia-se satisfeito por ver seguindo no caminho esperado pelo conde, honrando seu legado.
— Sigrid, traga mais dois. — pediu para a mulher que passava próxima a sua mesa.


Continua...



Nota da autora: Olha só quem chegou aqui e dessa vez é de fato para ficar! A coisas ainda estão meio calmas por aqui, mas logo mais tudo será vermelho. Se você está gostando, não deixe de comentar.



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