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Última atualização em: 07/06/2021

Prólogo

8 de Maio de 2019.
Natasha zapeava os canais da televisão aleatoriamente na tentativa frustrada de encontrar algo para assistir e distrair a mente. Estava frio aquela noite e por causa disso a loira estava embolada nas cobertas de sua cama completamente quente. Ela se assustou com o barulho de algo quebrando e por isso sentou-se na cama, engatinhando até a ponta, de onde podia enxergar melhor o banheiro em que o marido estava.

- Amor? - Chamou.
- Oi.
- O que aconteceu? O que quebrou? - Questionou e logo viu a silhueta do homem aparecendo no batente da porta. estava com um conjunto de moletom escuro, os óculos ainda no rosto.
- Fui escovar os dentes e derrubei o vidro com sabonete líquido. - Explicou ele. - Já juntei os cacos maiores, mas vai ser preciso limpar melhor.
- Amanhã Marta fará isso. - A esposa sorriu. - Vem para cama, está tarde e frio.

O diretor chefe da Mercedes assentiu e fechou a porta antes de caminhar até a cama, quando se sentou no colchão bateu os pés e tirou os óculos. Natasha já estava com a coberta levantada para o marido se enfiar debaixo delas. Assim que o corpo de encostou no colchão, Natasha deitou-se sobre o peito dele.

- Você está assistindo canal de esportes? - Arqueou a sobrancelha.
- Não de propósito. - Nath riu. - Eu estava mudando quando escutei o barulho e então ficou onde está. - Ela não gostava de nada relacionado ao esporte, o marido sabia, por esse motivo quase não falavam sobre os acontecimentos em meio a esse mundo.
- Me dê o controle. Vamos procurar algo para assistir. Que tal Netflix? - Sugeriu enquanto a esposa se esticava para alcançar o controle que ficou jogado em meio as cobertas.
- Eu apoio. - Natasha entregou o controle para e quando esse voltou seus olhos para a televisão, viu algo totalmente incrível.

Estava passando uma reportagem sobre a fórmula um e sua mais nova contratação.
O título que estampava a tela em letras garrafais escuras era: “Nova era na Fórmula Um: FIA anuncia contratação de equipe de saúde mental. ”
abriu a boca um pouco surpreso, jamais imaginou que finalmente aquilo aconteceria, já não era sem tempo, enfim a federação parecia reconhecer a necessidade das equipes e pilotos. Ele desistiu de trocar de canal e toda sua atenção foi captada pelo que a jornalista falava na tela.

“ Temos novidades na Fórmula Um, não é, Louise? - O âncora do jornal perguntou a comentarista.

- Amor, vamos mesmo assistir isso na hora de dormir? - Natasha resmungou segurando o rosto do marido virando para que a olhasse.
- Baby, espere só um minuto. Essa informação é importante para meu trabalho.
-Sério, )? Até em sua folga e na cama, você quer ver coisas de trabalho? – O tom de voz subiu alguns oitavos de irritação.
-Nath, meu amor, não estou trazendo trabalho para casa, é só uma reportagem sobre uma profissional que vai trabalhar diretamente com a minha equipe. – Explicou com a calma que lhe era característica. – Eu peço só um minuto, por favor.

A russa bufou e não respondeu mais o marido, optou por ver a televisão com ele ainda irritada. Detestava tudo que fosse ligado a fórmula um, já que seu marido dedicava todo seu fôlego para o automobilismo, era ausente em sua vida por causa disso e ela sentia sua falta, de sua companhia. E descontava toda a raiva no esporte que ele amava.

- Pois é, Steve. Hoje a Federação Internacional de Automobilismo anunciou a contratação de uma equipe especial e específica para acompanhar os pilotos e demais membros das equipes. Segundo Todt, presidente da FIA, essa iniciativa busca criar um ambiente mais saudável e evitar futuros agravos quanto à saúde mental dos pilotos. A equipe, que é quase uma força tarefa, foi anunciada na manhã de hoje e conta com nomes muito conhecidos e de grande prestígio na psiquiatria e psicologia mundial. – A jornalista de cabelos castanhos, responsável pelos comentários sobre o esporte contou. Era um dos principais nomes do jornalismo mundial, Louise Rosseau-Render. – O principal nome dessa equipe é a doutora Namaka , a psicóloga nigeriana atuou em função parecida junto a NBA, ao UFC feminino e a times de futebol, como Bayern de Munique. também é embaixadora da boa vontade da ONU e ativista de direitos humanos e das crianças. A contratação dela marca uma nova era da Fórmula Um, por enfim o foco à saúde mental dos pilotos e pela escolha de , uma mulher preta para um cargo de tanto destaque num esporte de hegemonia masculina e branca.
- Louise. – Steve chamou. – Seria esse talvez um sinal de que estamos próximos a ter pilotos mulheres e mais negros no esporte? – O âncora quis saber a opinião da jornalista esportiva.
- Eu acredito que esse movimento seja inevitável, daqui alguns anos teremos pilotas mulheres e mais diversidade entre as equipes e os pilotos. Com certeza a contratação da , com todo seu currículo em obras sociais e ativismo abre os caminhos para isso. E a notícia foi recebida pelas escuderias com muito agrado, muitos pilotos e equipes já se pronunciaram quanto a essa nova equipe e, todos demonstraram muito contentamento com a novidade. Sem dúvidas a Federação acertou muito com a iniciativa.
- Obrigada, Louise. – Steve assentiu sorrindo. – E essa foi Louise Rousseau, nossa comentarista de Fórmula Um.


- Isso é incrível. – Ele vibrou animado. – Finalmente os garotos vão ter o cuidado que merecem.
- Ela é essa? - Apontou a mulher que aparecia na tela, com um sorriso aberto e um lenço colorido no cabelo.
- Parece que sim. – Observou a mulher saindo da sede da FIA e sendo escoltada por alguns seguranças.
- Ela é negra. – Observou e no mesmo momento o austríaco virou o rosto para encarar a esposa, com as sobrancelhas arqueadas e um olhar duro.
- Qual o problema nisso?
- Nenhum. – Respondeu rápido. – Achei que fosse o único preto da fórmula Um.
- O único que está com a cara a tapa, mas nos bastidores tem muitos, que ajudam o sistema funcionar. São extremamente importantes.
-Entendi. - Sorriu. - Pelo visto, agora eles têm outro preto para estampar a cara.
- É, parece que agora eles têm mais uma voz bem poderosa.


Capítulo 1

Barcelona, 11 de Maio.
se olhou no espelho mais uma vez antes de recolher todas as suas coisas, jogar dentro da bolsa e sair do quarto do hotel em que estava hospedada. Colocou os óculos escuros no rosto e bagunçou mais os cachos crespos do cabelo deixando-os ainda mais selvagens como ela adorava, volumosos , empoderados e cheios de vida.
Quando as portas do elevador se abriram ela saiu pelo hall do hotel, os saltos do scarpin preto ecoavam sobre o piso e fazia com que cabeças se virassem para encarar de onde o barulho vinha e todos olhavam embasbacados a graciosidade e leveza que levava consigo a cada passo.
Conforme ela caminhava o barulho de seu salto ditava o ritmo das batidas de seu coração, a ansiedade gritava dentro dela e seu consciente totalmente acostumado com as ordens da psicóloga tentava buscar um equilíbrio para que nada desencadeasse gatilhos negativos nela, principalmente no momento em que estava prestes a dar uma entrevista coletiva sobre seu mais novo cargo.
Chefe do departamento de saúde mental da federação internacional de automobilismo.
Tinha sido convidada pelo próprio Jean Todt, ex-chefe da Ferrari e atual presidente da Federação Internacional do Automobilismo para cuidar intimamente da saúde mental dos vinte pilotos das escuderias participantes da maior categoria da área.
Para a mulher nigeriana lidar com tamanha responsabilidade não era um problema, sua carreira perfeitamente sólida e sua profissionalidade totalmente incontestada lhe davam segurança total de que era a mulher certa para o trabalho, ainda mais quando levava em consideração todo o esforço de sua vida para construir uma imagem de respeito mediante a sociedade, principalmente por causa de sua origem: uma negra nascida em um campo de refugiados na Síria.
tinha todo o poder em suas mãos e ela sabia exatamente como usá-lo.
Quando chegou à porta do hotel um carro preto já a esperava, o motorista em seu perfeito terno escuro tinha um sorriso simpático nos lábios e assentiu quando a mulher se aproximou.

- Sra. ! – Cumprimentou abrindo a porta.
- Bom dia! - A psicóloga sorriu e entrou no banco de trás do carro o homem segundos depois já estava ao volante novamente para guiá-los ao seu destino.

Ela se recostou no banco escorregando o corpo para relaxar, sabia que o trajeto duraria pouco pelo fato do autódromo estar perto de onde escolheu se hospedar, justamente para que conseguisse dormir até mais tarde um pouco já que passou a noite em viajem da Alemanha até a Espanha.
Era um percurso tranquilo, porém detestava altura e sempre se sentia desconfortável por precisar entrar em aviões, por isso ficava exausta já que não dormia em suas madrugadas de viagens.
Como já imaginava, poucos minutos depois o carro parou.

- Obrigada! Tenha um bom dia. – Sorriu e escorregou para fora do carro sentindo o calor de Barcelona inundar seu corpo e agradeceu pela escolha da roupa mais fresca já que pretendia passar o dia todo no paddock, após sua coletiva.

entrou na sala de coletiva de imprensa e percebeu que já havia muitos jornalistas e fotógrafos que pareciam cães famintos pelo alimento que tinha acabado de chegar, ela era quem iria alimentar todas aquelas pessoas interessadas em destrinchar todos os pormenores que corriam por trás da contratação da mulher no meio do automobilismo.
Ela deu alguns passos para dentro da sala e correu os olhos para encontrar alguém que a orientasse no que deveria fazer, antes que pudesse prosseguir um homem se aproximou. A pele clara estava em contraste com o terno escuro, o sorriso aberto em seu rosto denunciava a felicidade em estar naquele local, o homem estendeu os braços para a psicóloga e a saudou.

- . É uma honra estar na sua presença.
- Obrigada. - Sorriu e estendeu a mão direita em um cumprimento. – Qual seu nome?
- Montil Denvers. - soltou a mão dela e olhou no relógio dourado em seu pulso. – Eu sou o assessor de imprensa responsável pela sua coletiva de hoje e vou te preparar para o momento.
- Me preparar? – Questionou incerta.
- Sim, para as perguntas. Por favor, venha comigo. – Deu um passo para o lado e estendeu o braço direito para frente dando total passagem a que assentiu e iniciou a caminhada.
Pararam em frente a uma porta de madeira e Denvers abriu-a revelando uma aconchegante sala equipada com uma mesa farta de alimentos e sucos de todos os tipos, em frente à mesa tinha uma cadeira e logo seus pés caminharam até lá colocando sua bolsa. – Fique à vontade, coma alguma coisa.
- Obrigada, mas não estou com vontade. – Agradeceu educada. – Por que eu preciso ser preparada?
- Paras as perguntas maldosas que podem aparecer, questionando algumas coisas que não são do interesse deles e você precisa saber exatamente o que dizer para que eles não tenham qualquer informação para te atacar. – Pescou uma uva na mesa e colocou na boca saboreando o gosto da fruta.
- Saber o que dizer? – Arqueou a sobrancelha. – Está me dizendo que eu vou responder o que você me disser?
- Claro, meu papel é te orientar.
- Me dê um exemplo de algum tipo de pergunta. – Cruzou as pernas e recostou o corpo na cadeira com os olhos fixos em Danvers esperando para ver o que ele falaria.
- Nessa altura todos os jornalistas e comentaristas da fórmula um sabem quem você é. Sua jornada, origem e história. Nós queremos garantir que eles não questionem nada que te pegue de surpresa e acabe te abalando. - Respondeu sob o olhar inquisidor de .
- Não se preocupe com isso, construí minha história nessa profissão debaixo de muito suor, sangue e trabalho duro. Eu não me abalo com facilidade. - Claro que ela sabia o que viria a seguir, iriam falar de seu gênero, sua raça, religião e origem familiar. Tudo que ela já estava acostumada, depois de anos sendo alvo de preconceito.
- Eu sei que sim, nós só estamos preocupados com seu bem estar.
- Eu entendo. - Ela esticou as duas pernas se espreguiçando e depois as cruzou novamente. - Eu nasci em um campo de refugiados, vi mulheres e crianças morrerem. Passei fome, frio e vivi um inferno pulando de orfanatos em orfanatos, escolhi uma área de trabalho que é dominada por mulheres brancas, eu sei me virar. Conheço a minha história. - Ela deu um sorriso confiante e Denvers procurou, mas não achou qualquer indício de vacilo em seu rosto.
- Você está mesmo segura, parece que finalmente Jean acertou quando disse que se não fosse você, não era ninguém.
- Eu disse a ele e estou repetindo para você e quem mais quiser ouvir. Tenho amigos nesse esporte, conheço e me importo com pessoas nesse meio, sei como todos aqui fecham os olhos para muita coisa. Mas eu não estou à venda, tenho direitos e princípios que não vou abrir mão, façam ou falem o que quiser.

Batidas soaram na porta e não desviou o olhar de Denvers, tinha sido dura com Jean quando esse a procurou. Aceitaria o emprego caso pudesse ter a liberdade de trabalhar e defender o que acredita, mas ela sabia que a princípio Jean não estava sendo sincero ao concordar. Ela sabia que eles tentariam a encurralar para que cedesse e fizesse a vontade deles, porém mal sabiam que ela já havia enfrentado coisa pior.
Ainda sem desfazer a conexão com Denvers, pode ouvir a porta sendo aberta.

- Estamos prontos para ela. - Anunciou a jovem e o homem assentiu.
- Vamos. - A psicóloga e se colocou de pé e endireitou o corpo. - Lembre-se que eles sempre que tem acabar com a imagem, eles querem te destruir.
- Deixa que tentem.

XXX
- Acha que o motivo de terem trazido finalmente uma psicóloga para o automobilismo é uma boa escolha? Por que um profissional da mente deve estar no meio de pilotos, eles já são centrados e tem treinamento para aguentar a zona perigosa do autódromo. - A primeira pergunta que ouviu a fez querer furar seus tímpanos. Que espécie de pergunta era aquela?
- Eles não são máquinas. - Iniciou raspando a garganta mediante a fala. - São seres humanos e pensantes. Precisam de suporte emocional assim como qualquer outro ser humano.
- Você irá fazer sessões com eles baseado no que aconteceu na corrida ou treino? - Outro jornalista questionou.
- Não exatamente. Eu coordeno uma equipe com profissionais competentes e nós estamos aqui para cuidar da saúde dos pilotos, avaliando a necessidade de cada um e montando uma estratégia de demanda em cada contexto. Alguns uma vez na semana, outros no mês. Quem é que sabe ao certo? – Sua expressão se tornou questionadora à medida que ela franzia o cenho e arqueava a sobrancelha.
- Nós olhamos seu histórico profissional e você tem feitos incríveis na carreira. Acredita que pode ajudar mais aqui do que em seu antigo trabalho? - Meu papel é cuidar de vidas, onde tem umas pessoas que precisam de ajuda, ali deve ter um psicólogo. - Levou as mãos às têmporas novamente massageando-as e se questionando onde aquele loucura pararia?
- Qual é a “utilidade” de uma psicóloga dentro do esporte? – Quando escutou a pergunta imediatamente cravou os olhos no jornalista que a questionou, principalmente pelas aspas em que a palavra foi encaixada.

Rolou os olhos e expirou o ar com força se concentrando na resposta que estava se formando em sua mente. Não queria e não podia ser grossa, era sua primeira coletiva e necessitava ter controle emocional para lidar com aquele tipo de baboseira.

- Você se questiona sobre a “utilidade” de médicos no esporte? – Devolveu a pergunta e o jornalista titubeou um pouco antes de responder.
- Não, pois eles são fundamentais para o funcionamento da estrutura, quando eles machucam os médicos estão lá.
- Eu concordo. – Ela fez jóia com as mãos. – Então me diga, se um piloto tem uma crise de pânico após um acidente e não quer mais correr, você pede ajuda para quem?
- Para os médicos.
- Então quando tem dor de dente você vai ao neurologista ou ao dentista?
- Dentista. – A esse momento todos estavam em silêncio, sequer as lentes dos fotógrafos disparavam, estavam totalmente vidrados na psicóloga que iniciava um método diferente de coletiva.
- Então por qual motivo se tem problemas emocionais procura um médico e não um terapeuta? As pessoas costumam achar que é a mesma coisa, mas deixa eu dizer: não é a mesma coisa. – Falou ainda calma mantendo o tom de voz baixo expressando uma leveza que era surreal. – As pessoas costumam achar que saúde é não estar doente , mas não. Saúde é o bem estar do corpo e da mente. Esses caras têm uma arma na mão, um carro e dirigem a trezentos quilômetros por hora, colocando a sua vida e a de outros em risco, correndo o risco de deixar pessoas que amam para trás? Realmente se questionam se é importante ter psicólogos na fórmula Um?

já sabia que a questão da saúde mental passava batido e era sempre negligenciada na sociedade. Mas ela jamais esperava que dentro da fórmula um era um nível tão estratosférico ao ponto de ser questionarem a utilidade de um profissional e que sequer os jornalistas eram capazes de direcionar uma coletiva com perguntas pertinentes.

- Todo mundo conhece Ayrton Senna? – Perguntou e as cabeças de todos assentiram, tendo em vista que era praticamente impossível conhecer aquele esporte e não saber quem Senna foi. – Ótimo. Alguém aqui acha que a corrida de Ímola deveria ter acontecido? Eu não acho, tendo em vista que Roland Ratzenberger havia morrido no dia anterior, quem concorda? – A grande maioria levantou a mão e assentiu. – Como um piloto entra na pista no dia seguinte em que um amigo morreu? Como uma mãe vê um filho morrer pela televisão? Quantos pilotos já morreram? Quantos perderam amigos pilotando? Encarar isso de forma banal só os joga em um nimbo que adoece. Esse esporte é extremamente agressivo e mortal! Um acompanhamento emocional traz a eles segurança, confiança e acima de tudo esperança, para que após um dia péssimo possam voltar para suas famílias. Mais alguma pergunta pertinente? – Arqueou mais uma vez a sobrancelha esperando mais questionamentos.

Ninguém se pronunciou a sala ficou em total silêncio, Fayola olhou para Denvers e o mesmo assentiu dando permissão para que fizesse o que desejava.

- Então se não tem mais perguntas, eu já vou. – Arrastou a cadeira e se colocou de pé. – Quero assistir o Qualify*, pois além de ser extremamente útil eu ainda amo esse esporte.

XXX
< se olhou no espelho mais uma vez antes de recolher todas as suas coisas, jogar dentro da bolsa e sair do quarto do hotel em que estava hospedada. Colocou os óculos escuros no rosto e bagunçou mais os cachos crespos do cabelo deixando-os ainda mais selvagens como ela adorava, volumosos , empoderados e cheios de vida.
Quando as portas do elevador se abriram ela saiu pelo hall do hotel, os saltos do scarpin preto ecoavam sobre o piso e fazia com que cabeças se virassem para encarar de onde o barulho vinha e todos olhavam embasbacados a graciosidade e leveza que levava consigo a cada passo.
Conforme ela caminhava o barulho de seu salto ditava o ritmo das batidas de seu coração, a ansiedade gritava dentro dela e seu consciente totalmente acostumado com as ordens da psicóloga tentava buscar um equilíbrio para que nada desencadeasse gatilhos negativos nela, principalmente no momento em que estava prestes a dar uma entrevista coletiva sobre seu mais novo cargo.
Chefe do departamento de saúde mental da federação internacional de automobilismo.
Tinha sido convidada pelo próprio Jean Todt, ex-chefe da Ferrari e atual presidente da Federação Internacional do Automobilismo para cuidar intimamente da saúde mental dos vinte pilotos das escuderias participantes da maior categoria da área.
Para a mulher nigeriana lidar com tamanha responsabilidade não era um problema, sua carreira perfeitamente sólida e sua profissionalidade totalmente incontestada lhe davam segurança total de que era a mulher certa para o trabalho, ainda mais quando levava em consideração todo o esforço de sua vida para construir uma imagem de respeito mediante a sociedade, principalmente por causa de sua origem: uma negra nascida em um campo de refugiados na Síria.
tinha todo o poder em suas mãos e ela sabia exatamente como usá-lo.
Quando chegou à porta do hotel um carro preto já a esperava, o motorista em seu perfeito terno escuro tinha um sorriso simpático nos lábios e assentiu quando a mulher se aproximou.

- Sra. ! – Cumprimentou abrindo a porta.
- Bom dia! - A psicóloga sorriu e entrou no banco de trás do carro o homem segundos depois já estava ao volante novamente para guiá-los ao seu destino.

Ela se recostou no banco escorregando o corpo para relaxar, sabia que o trajeto duraria pouco pelo fato do autódromo estar perto de onde escolheu se hospedar, justamente para que conseguisse dormir até mais tarde um pouco já que passou a noite em viajem da Alemanha até a Espanha.
Era um percurso tranquilo, porém detestava altura e sempre se sentia desconfortável por precisar entrar em aviões, por isso ficava exausta já que não dormia em suas madrugadas de viagens.
Como já imaginava, poucos minutos depois o carro parou.

- Obrigada! Tenha um bom dia. – Sorriu e escorregou para fora do carro sentindo o calor de Barcelona inundar seu corpo e agradeceu pela escolha da roupa mais fresca já que pretendia passar o dia todo no paddock, após sua coletiva.

entrou na sala de coletiva de imprensa e percebeu que já havia muitos jornalistas e fotógrafos que pareciam cães famintos pelo alimento que tinha acabado de chegar, ela era quem iria alimentar todas aquelas pessoas interessadas em destrinchar todos os pormenores que corriam por trás da contratação da mulher no meio do automobilismo.
Ela deu alguns passos para dentro da sala e correu os olhos para encontrar alguém que a orientasse no que deveria fazer, antes que pudesse prosseguir um homem se aproximou. A pele clara estava em contraste com o terno escuro, o sorriso aberto em seu rosto denunciava a felicidade em estar naquele local, o homem estendeu os braços para a psicóloga e a saudou.

- . É uma honra estar na sua presença.
- Obrigada. - Sorriu e estendeu a mão direita em um cumprimento. – Qual seu nome?
- Montil Denvers. - soltou a mão dela e olhou no relógio dourado em seu pulso. – Eu sou o assessor de imprensa responsável pela sua coletiva de hoje e vou te preparar para o momento.
- Me preparar? – Questionou incerta.
- Sim, para as perguntas. Por favor, venha comigo. – Deu um passo para o lado e estendeu o braço direito para frente dando total passagem a que assentiu e iniciou a caminhada.
Pararam em frente a uma porta de madeira e Denvers abriu-a revelando uma aconchegante sala equipada com uma mesa farta de alimentos e sucos de todos os tipos, em frente à mesa tinha uma cadeira e logo seus pés caminharam até lá colocando sua bolsa. – Fique à vontade, coma alguma coisa.
- Obrigada, mas não estou com vontade. – Agradeceu educada. – Por que eu preciso ser preparada?
- Paras as perguntas maldosas que podem aparecer, questionando algumas coisas que não são do interesse deles e você precisa saber exatamente o que dizer para que eles não tenham qualquer informação para te atacar. – Pescou uma uva na mesa e colocou na boca saboreando o gosto da fruta.
- Saber o que dizer? – Arqueou a sobrancelha. – Está me dizendo que eu vou responder o que você me disser?
- Claro, meu papel é te orientar.
- Me dê um exemplo de algum tipo de pergunta. – Cruzou as pernas e recostou o corpo na cadeira com os olhos fixos em Danvers esperando para ver o que ele falaria.
- Nessa altura todos os jornalistas e comentaristas da fórmula um sabem quem você é. Sua jornada, origem e história. Nós queremos garantir que eles não questionem nada que te pegue de surpresa e acabe te abalando. - Respondeu sob o olhar inquisidor de .
- Não se preocupe com isso, construí minha história nessa profissão debaixo de muito suor, sangue e trabalho duro. Eu não me abalo com facilidade. - Claro que ela sabia o que viria a seguir, iriam falar de seu gênero, sua raça, religião e origem familiar. Tudo que ela já estava acostumada, depois de anos sendo alvo de preconceito.
- Eu sei que sim, nós só estamos preocupados com seu bem estar.
- Eu entendo. - Ela esticou as duas pernas se espreguiçando e depois as cruzou novamente. - Eu nasci em um campo de refugiados, vi mulheres e crianças morrerem. Passei fome, frio e vivi um inferno pulando de orfanatos em orfanatos, escolhi uma área de trabalho que é dominada por mulheres brancas, eu sei me virar. Conheço a minha história. - Ela deu um sorriso confiante e Denvers procurou, mas não achou qualquer indício de vacilo em seu rosto.
- Você está mesmo segura, parece que finalmente Jean acertou quando disse que se não fosse você, não era ninguém.
- Eu disse a ele e estou repetindo para você e quem mais quiser ouvir. Tenho amigos nesse esporte, conheço e me importo com pessoas nesse meio, sei como todos aqui fecham os olhos para muita coisa. Mas eu não estou à venda, tenho direitos e princípios que não vou abrir mão, façam ou falem o que quiser.

Batidas soaram na porta e não desviou o olhar de Denvers, tinha sido dura com Jean quando esse a procurou. Aceitaria o emprego caso pudesse ter a liberdade de trabalhar e defender o que acredita, mas ela sabia que a princípio Jean não estava sendo sincero ao concordar. Ela sabia que eles tentariam a encurralar para que cedesse e fizesse a vontade deles, porém mal sabiam que ela já havia enfrentado coisa pior.
Ainda sem desfazer a conexão com Denvers, pode ouvir a porta sendo aberta.

- Estamos prontos para ela. - Anunciou a jovem e o homem assentiu.
- Vamos. - A psicóloga e se colocou de pé e endireitou o corpo. - Lembre-se que eles sempre que tem acabar com a imagem, eles querem te destruir.
- Deixa que tentem.

XXX
- Acha que o motivo de terem trazido finalmente uma psicóloga para o automobilismo é uma boa escolha? Por que um profissional da mente deve estar no meio de pilotos, eles já são centrados e tem treinamento para aguentar a zona perigosa do autódromo. - A primeira pergunta que ouviu a fez querer furar seus tímpanos. Que espécie de pergunta era aquela?
- Eles não são máquinas. - Iniciou raspando a garganta mediante a fala. - São seres humanos e pensantes. Precisam de suporte emocional assim como qualquer outro ser humano.
- Você irá fazer sessões com eles baseado no que aconteceu na corrida ou treino? - Outro jornalista questionou.
- Não exatamente. Eu coordeno uma equipe com profissionais competentes e nós estamos aqui para cuidar da saúde dos pilotos, avaliando a necessidade de cada um e montando uma estratégia de demanda em cada contexto. Alguns uma vez na semana, outros no mês. Quem é que sabe ao certo? – Sua expressão se tornou questionadora à medida que ela franzia o cenho e arqueava a sobrancelha.
- Nós olhamos seu histórico profissional e você tem feitos incríveis na carreira. Acredita que pode ajudar mais aqui do que em seu antigo trabalho? - Meu papel é cuidar de vidas, onde tem umas pessoas que precisam de ajuda, ali deve ter um psicólogo. - Levou as mãos às têmporas novamente massageando-as e se questionando onde aquele loucura pararia?
- Qual é a “utilidade” de uma psicóloga dentro do esporte? – Quando escutou a pergunta imediatamente cravou os olhos no jornalista que a questionou, principalmente pelas aspas em que a palavra foi encaixada.

Rolou os olhos e expirou o ar com força se concentrando na resposta que estava se formando em sua mente. Não queria e não podia ser grossa, era sua primeira coletiva e necessitava ter controle emocional para lidar com aquele tipo de baboseira.

- Você se questiona sobre a “utilidade” de médicos no esporte? – Devolveu a pergunta e o jornalista titubeou um pouco antes de responder.
- Não, pois eles são fundamentais para o funcionamento da estrutura, quando eles machucam os médicos estão lá.
- Eu concordo. – Ela fez jóia com as mãos. – Então me diga, se um piloto tem uma crise de pânico após um acidente e não quer mais correr, você pede ajuda para quem?
- Para os médicos.
- Então quando tem dor de dente você vai ao neurologista ou ao dentista?
- Dentista. – A esse momento todos estavam em silêncio, sequer as lentes dos fotógrafos disparavam, estavam totalmente vidrados na psicóloga que iniciava um método diferente de coletiva.
- Então por qual motivo se tem problemas emocionais procura um médico e não um terapeuta? As pessoas costumam achar que é a mesma coisa, mas deixa eu dizer: não é a mesma coisa. – Falou ainda calma mantendo o tom de voz baixo expressando uma leveza que era surreal. – As pessoas costumam achar que saúde é não estar doente , mas não. Saúde é o bem estar do corpo e da mente. Esses caras têm uma arma na mão, um carro e dirigem a trezentos quilômetros por hora, colocando a sua vida e a de outros em risco, correndo o risco de deixar pessoas que amam para trás? Realmente se questionam se é importante ter psicólogos na fórmula Um?

já sabia que a questão da saúde mental passava batido e era sempre negligenciada na sociedade. Mas ela jamais esperava que dentro da fórmula um era um nível tão estratosférico ao ponto de ser questionarem a utilidade de um profissional e que sequer os jornalistas eram capazes de direcionar uma coletiva com perguntas pertinentes.

- Todo mundo conhece Ayrton Senna? – Perguntou e as cabeças de todos assentiram, tendo em vista que era praticamente impossível conhecer aquele esporte e não saber quem Senna foi. – Ótimo. Alguém aqui acha que a corrida de Ímola deveria ter acontecido? Eu não acho, tendo em vista que Roland Ratzenberger havia morrido no dia anterior, quem concorda? – A grande maioria levantou a mão e assentiu. – Como um piloto entra na pista no dia seguinte em que um amigo morreu? Como uma mãe vê um filho morrer pela televisão? Quantos pilotos já morreram? Quantos perderam amigos pilotando? Encarar isso de forma banal só os joga em um nimbo que adoece. Esse esporte é extremamente agressivo e mortal! Um acompanhamento emocional traz a eles segurança, confiança e acima de tudo esperança, para que após um dia péssimo possam voltar para suas famílias. Mais alguma pergunta pertinente? – Arqueou mais uma vez a sobrancelha esperando mais questionamentos.

Ninguém se pronunciou a sala ficou em total silêncio, Fayola olhou para Denvers e o mesmo assentiu dando permissão para que fizesse o que desejava.

- Então se não tem mais perguntas, eu já vou. – Arrastou a cadeira e se colocou de pé. – Quero assistir o Qualify*, pois além de ser extremamente útil eu ainda amo esse esporte.

XXX
caminhava pelo paddock observando distraidamente, estava com o celular na orelha em uma ligação com o irmão mais novo, Alphonso , ele contava sobre um jogo qualquer que seria muito importante, e a psicóloga se esforçava para prestar atenção, estava cansada e de saco cheio, queria ir embora e precisava de um banho.
Aquela coletiva tinha drenado seus neurônios e ela poderia se considerar em ponto total de ebulição.
também estava distraído, olhando a pista, pensando no que poderia melhorar para a corrida do domingo. Quando de repente vislumbrou a figura de sua antiga psicóloga caminhando distraída. Estava com o mesmo traço de roupas alegres que sempre foram características de sua personalidade, os tons de laranja de seu vestido destacavam sua pele negra e brilhante, assim como o piercing em seu nariz.
Sem pensar duas vezes, se pôs a frente dela, atrapalhando a passagem da mulher que voltou os olhos para ele confusa.

-Olha o que os ares de Barcelona trouxeram. - Cumprimentou sorrindo.
- , oi. - Ela sorriu para o piloto e colocou o dedo em riste pedindo um minutos. - Alph, eu te ligo depois. Beijos, se cuida. Eu te amo. - Despediu-se mandando beijos para o telefone e então olhou novamente para o piloto. - Desculpe, . Estava conversando com meu irmão.
-Claro, você é uma mulher ocupada, mais ainda agora, não é?! Acompanhei a entrevista, você mostrou quem manda, como sempre.- Ele disse inclinando um pouco a cabeça sobre o ombro.
-Nem me fale de tempo. - Ela rolou os olhos. - Não lembro a última vez que dormi uma noite inteira. - Disse finalmente encarando os olhos dele. - Obrigada, eu fico feliz que tenha conseguido assistir. - Sorriu doce.
-Eu não perderia a chance de ver você, principalmente assumindo uma posição dessas. - endireitou a coluna e se aproximou alguns passos da mulher. - Todos estamos melhores com a sua presença aqui, eu com certeza estou.
- Não é nada mal ter você por perto também. - Ela passou as mãos no cabelo, um pouco nervosa. - Me conta, como você está?
- Tudo bem, fui pole* hoje. Amanhã prevejo uma corrida bonita de ver, você deveria assistir, como nos velhos tempos. Sabe, eu sempre gostei de encontrar sua beleza pelo paddock, vai ser bom ver isso amanhã. - esticou o braço sobre a grade de proteção, diminuindo a distância entre eles. - E você?
- Estou bem, acabei de sair de uma coletiva infernal que me deixou toda tensa e nervosa. - Balançou o pescoço para os dois lados, estralando-o. - Eu estarei lá amanhã, para ver como sempre você brilhando e subindo naquele pódio.
-Seria bom, me ajudaria saber que tem você lá torcendo por mim. Eu sei, péssimas coletivas, não é?! Mas você se saiu muito bem, no final das contas todo mundo adora apanhar de uma mulher bonita como você, até mesmo aqueles repórteres abutres.

estreitou os olhos e piscou duas vezes antes de responder.

- Você também adoraria apanhar de uma mulher bonita e inteligente como eu? - Mordeu o lábio inferior por instinto ao ver que tinha olhos sobre ela. maneou a cabeça para o lado, sorriu de canto prendendo o lábio inferior entre os dentes e olhou nos olhos da psicóloga.
-Sonho com isso quase sempre. - Confessou sorrindo ladino e olhando para a boca da mulher.
-Ah, é? - Questionou sem quebrar a conexão dos olhos.
-Sim. - Assentiu devagar unindo as sobrancelhas. - Desde as nossas sessões, apanhar de uma mulher inteligente tem se tornado um fetiche especial meu.
- Felizmente não temos mais sessões e eu sou uma mulher extremamente inteligente. - agora quem deu um passo para frente se aproximando do homem.

Anos atrás, teve alguns problemas envolvendo abuso de álcool, ele a procurou por indicação do casal Louise e Tony que eram amigos em comum dos dois.
Conforme iniciaram o tratamento terapêutico, e foi se estabilizando algo a mais começou a surgir entre eles, o que jamais poderia prosseguir devido a ética que a psicóloga detinha, antes que ambos perdessem o controle e acabassem fazendo algo que os padrões profissionais não permitiam, deu alta a , o indicou para uma colega de trabalho para fazerem a manutenção do processo terapêutico, e por causa de alguns trabalhos precisou se mudar para a Alemanha, dando fim a todo qualquer contato que tinham.

-Sua sinceridade sempre me surpreendeu, , mas hoje conseguiu me deixar sem palavras. Cuidado em alimentar meus sonhos, nunca dá para saber qual desejo pervertido mora neles.
-Como você mesmo disse a sinceridade é uma das minhas maiores características, não tenho problema em alimentar seus sonhos, afinal sou uma mulher que sabe o que quer, .
-Ah, é? E o que você quer, ?

Ela deu um sorriso malicioso e logo após umedeceu seus lábios da forma mais sexy que conseguiu e percebeu que surtiu efeito ao ver a expressão que pintou no rosto dele.

-Você é um homem inteligente, . Deve saber ler as entrelinhas. - Pontuou de maneira perspicaz.

sorriu de canto e abriu a boca para dizer algo, mas antes que pudesse, um homem com uniforme da François-Render equipe que o negro corria, o chamou.

-Parece que agora você quem está ocupado. - Ela sorriu e aproximou seu rosto para chegar perto do ouvido. - A gente se esbarra por aí, . - Lhe deu um beijo na bochecha, mas foi tão rápido que o piloto mal teve tempo de reagir e logo os barulhos dos saltos foram o indício que ela estava longe.

XXX
estava sentado com seu fone de ouvido em frente ao computador em seu quarto de hotel . Sua concentração estava totalmente na tela, onde enxergava as planilhas desenvolvidas para a corrida daquele final de semana. Precisava ler e validar todas as páginas antes da corrida do dia seguinte, seu corpo estava pesado e cansado, os olhos mal conseguiam ler debaixo das lentes dos óculos.
O dia não havia sido de todo tranquilo, devido a todos os problemas que Heitor Correa de Macedo, teve com o carro no classificatório. Heitor era brasileiro, e estava em sua primeira temporada na fórmula um, veio no início da temporada para substituir William Reed, que optou por voltar para a escuderia que o revelou a François - Render.
Heitor era um bom piloto, mas a primeira temporada sempre é difícil e por causa disso várias coisas precisavam ser acertadas, apesar de não pilotar aqueles carros, era totalmente responsável por tudo.
Quando dava certo era elogiado, quando os problemas surgiam todos olhavam para ele querendo uma solução.
amava seu trabalho, mas às vezes detestava estar naquele posto e por várias vezes se perguntava se valia a pena tanto stress.
Sua esposa ,Natasha, discordava totalmente dos argumentos que o marido explanou sobre manter o cargo que ocupava.
Aquele fato em questão era o maior motivo de brigas e desentendimentos entre o casal, Nath, sempre pedindo ao marido que largasse o trabalho e se aposentasse e sempre respondia que amava seu trabalho e que não se sentia preparado para largar.
A russa sempre fazia chantagens usando Hannah, a filha de cinco anos do casal, alegando que não estava sendo um bom pai e que a garotinha sentia falta do pai.
O diretor por outro lado, chamava a esposa para o acompanhar em sua rotina durante a temporada, ela recusava e dizia detestar aquele ambiente.
Os insultos por parte dela eram enormes e por mais que ele tentasse amenizar a situação com sua calma extrema, ela não cedia e saia com raiva. Permanecia assim até o dia seguinte onde exigia uma conversa civilizada, após choro e gritaria as coisas se acalmavam, até o próximo Grand Prix, onde começava tudo de novo.
O inglês não tinha certeza se o trabalho de diretor chefe da Mercedes era o único motivo de seu esgotamento emocional.
Ainda faltavam pelo menos umas dez páginas quando escutou batidas na porta, empurrou o computador e tirou os óculos deixando -o sobre a cama, se espreguiçou e estralou suas articulações enferrujadas pela posição que permanecia sentado à horas.
Quando abriu a porta não se surpreendeu ao ver que era a comida que tinha pedido minutos atrás, deu um passo para dentro dando espaço para que o funcionário entrasse com seu jantar.

- Obrigada. – Deu um sorriso educado, esperou o rapaz se retirar e iniciou o movimento de fechar a porta, porém uma voz irritada se pronunciou e ele saiu do quarto encarando o corredor para verificar.

Umas quatro portas à frente da sua, estava uma mulher tentando incessantemente entrar em seu quarto, porém por algum motivo o cartão não estava fazendo a leitura correta e destravando a mesma.
A mulher proferiu alguns palavrões baixo e respirou fundo, escorando a cabeça na porta e sustentando o peso do corpo em uma das pernas.
Os cabelos crespos e volumosos entravam em contraste com a cor brilhante de seu vestido claro, uma combinação que o empresário achou perfeita, já que o tom de pele era tão brilhante que o lembrava a bela noite escura e iluminada apenas pela lua. Ele raspou a garganta antes de falar.

– Boa noite. Está tudo bem?

A mulher não moveu a postura corporal, somente girou a cabeça olhando em direção a voz. Os olhos de encontraram com os do homem em sua frente, ela sabia quem ele era, , chefe e acionista da Mercedes.
Jamais o viu tão de perto, somente pela televisão ou quando estava no autódromo e era impossível não perceber a beleza do homem de longe, mas nada se comparava com a visão que naquele momento enxergou.
Os olhos azuis estavam fundos e cansados, mas que não destoava em um milímetro a simetria de seu rosto, os cabelos escuros e despenteados, que ainda assim eram um charme completo. O moletom que vestia marcava os músculos do corpo alto e forte que possuía e ao mesmo tempo lhe passava uma simplicidade encantadora.

-Olá, boa noite! – Sorriu em cumprimento. – Eu não consigo abrir essa bendita porta, eu sai hoje cedo com esse mesmo cartão. – Disse balançando cartão, riu.
- Se importa se eu tentar? – Perguntou cauteloso e ela assentiu, esticou a mão esquerda para pegar o cartão magnético. A aliança no dedo anelar brilhou intensamente. , se afastou e o homem se aproximou para tentar abrir a porta, após duas vezes liberou um resmungo frustrado, de fato a porta não abria. - Realmente não abre, parece ser algum problema de magnetismo.
- Droga. - respirou fundo. - Terei que descer na portaria de novo e esses sapatos vão me matar.
- Não precisa ir até lá. - passou às mãos no cabelo que caía sobre sua testa, jogando-os para trás com o movimento de seus dedos - Você pode ligar na recepção do quarto em que estou hospedado. - Apontou a porta à frente. - Eu posso esperar aqui fora, enquanto vai. - Explicou de forma educada, não queria ser desrespeitoso com a mulher.
- Não, que isso. - abanou com a mão. - Não precisa ficar no corredor, eu agradeço a gentileza em oferecer ajuda.
- Claro, é o mínimo. - Ele esticou o braço para frente em uma cortesia muda de permitir que ela fosse em sua frente e quando ela começou a caminhar, ele a seguiu. - Eu sou . - Esticou a mão.
- . - Cumprimentou.
- Sim, . A psicóloga que irá cuidar das escuderias esse ano. - Sabia da contratação de alguém que supervisionaria os pilotos para que estivesse sempre em condições de correr e que lutaria para melhorar as condições das pistas. - Seja muito bem vinda.
- Essa sou eu. - Ajeitou a bolsa sobre o ombro. - Eu agradeço, acho que foi as primeiras palavras gentis que ouvi hoje em relação ao meu trabalho.
- Primeiro dia difícil? - Questionou enquanto empurrava a porta do quarto e mais uma vez de forma cavalheiresca deu passagem a ela.

assentiu e adentrou o quarto primeiro e observou o ambiente. Extremamente arrumado, sem uma roupa fora do lugar, objetos jogados ou mala aberta.

- Pode se dizer que as pessoas não acreditam muito na utilidade de psicólogas, com “ a” no final. - se aproximou do telefone ao lado da cama, percebeu que o notebook estava aberto.
- Não estamos acostumados a ter mulheres no poder. - deu de ombros. - Mas nós sabemos que vocês ainda vão dominar o mundo.
- Estamos lutando para que sim. - Discou o ramal da recepção e olhou por cima dos ombros para o diretor. - Você estava indo jantar, me desculpe. - Percebeu envergonhada.
- Está tudo bem. - Deu de ombros e caminhou até o carrinho para servir-se de um pouco de chocolate quente. - Você aceita tomar alguma coisa?
- Não, obrigada. Eu já comi.- Umedeceu os lábios para continuar falando, porém foi atendida e iniciou o relato de seu problema aos funcionários do hotel.

se afastou um pouco com a xícara em mãos e sentou-se na poltrona perto da porta, observando enquanto a psicóloga gesticulava ao telefone.
Era importante ter alguém para dar suporte emocional aos pilotos, cuidar para que não enlouqueçam com os perigos e fatores estressores que giravam em torno deles e de suas famílias
. O fato de ser uma mulher o agradava mais ainda, era incrível ver o mundo se curvando ao poder feminino e tê-las no poder era somente um indicativo que jamais sairão dele.
sabia que aquela mulher que conversava ao telefone à sua frente tinha tudo para mudar os rumos do esporte. E ele, como espectador, adoraria aplaudir de pé as mudanças que ela provocaria.

- Obrigada, . - Ela esfregou as mãos para esquentar devido ao vento das janelas abertas. - Já estão mandando outro cartão.

O homem se levantou e assentiu, enquanto levava a xícara mais uma vez aos lábios.

- Que isso! Só cuide bem dos meus pilotos, queremos o campeonato esse ano. - Brincou e ela gargalhou.
- Eu cuidarei. - Eles caminharam até a porta e saiu para o corredor. - Boa noite, desejo um bom resultado a vocês amanhã.
- Obrigado. - Ele sorriu e antes de entrar viu o funcionário do hotel se aproximando. - ? - Chamou antes de entrar.
- Sim.
- Não se preocupe com os dias ruins, depois deles, vem sempre os ensolarados.

XXX

Barcelona, 12 de Maio.


O domingo em Barcelona amanheceu ensolarado, ventava um pouco e tinha um clima totalmente ameno e descontraído. Era totalmente o oposto do clima que se encontrava a garagem da FR a escuderia onde e Michael Madden corriam.
Na garagem da Fraçois - Render, Michael Madden o piloto mais novo da escuderia enfrentava a intensidade de seus pensamentos.
Às vezes pilotos se esquecem o quanto estavam sujeitos aos riscos, o quanto era perigoso ser um piloto, do quanto era complicado, difícil e o quanto suas vidas estavam por um fio toda vez que entravam naqueles carros.
Bater há mais de duzentos quilômetros por hora, Michael já havia experimentado a sensação, mas na época aquilo pareceu não lhe causar nenhum questionamento. Em uma pista com tantos carros em alta velocidade, um erro poderia ser a diferença entre voltar ou não para a casa.
Talvez esse fosse o motivo para que várias mães detestasse tanto a ideia de ter um filho piloto.
Entrar em um carro daquele tamanho e correr na mais alta velocidade era perigoso demais, nunca se sabe quando vai ser a última vez. Madden estava com aquela coisa estranha, aquele medo.
Enquanto encarava seu reflexo no espelho do banheiro, antes da corrida, todas essas coisas invadiam sua mente como um filme, só conseguia pensar no acidente do dia anterior ,no classificatório, quando um dos pilotos bateu e o carro explodiu e também nas sensações que aquele piloto devia ter experienciado.
O que será que passou pela cabeça dele? Será que achou que fosse morrer? Será que sentiu medo? Dor?
Michael não podia controlar sua imaginação, pensava no acidente e então de repente era ela quem estava no carro, gritando e tentando sair do fogo sem sucesso.
Balançou a cabeça mais uma vez, tentando limpar os pensamentos e jogou água no rosto, se dirigindo em seguida a garagem para o início da corrida.
O piloto escocês estava completamente ansioso e agitado naquele dia, incomodado como se alguém ou algo estivesse o furando com um alfinete o tempo todo.
Já vestido e paramentado, havia retirado o macacão duas vezes pensando que algo estava preso por dentro, o espetando, machucando.
Enquanto fechava o macacão, pousou os olhos rapidamente em uma foto de Anthony Render, que foi um piloto da FR que faleceu em 2017 em um trágico acidente na pista de Monte Carlo.
Aquela foto sempre esteve ali, um retrato dele na parede dos fundos da garagem da François-Render que a equipe sempre levava para todos os Grandes Prêmios.
Ficava sempre naquela mesma parede porque as histórias eram de que ele também adorava se escorar na parede dos fundos e cochilar um pouco entre um treino e outro, entre uma corrida e outra.
Aquele quadro pareceu assustador a Michael daquela vez, algo mórbido. Nunca havia dado atenção para ele, mas naquele momento ele só conseguia se lembrar do acidente do dia anterior e das imagens horrendas que sua própria imaginação havia criado.
Anthony no fogo, tentando sair de seu carro em chamas e não conseguindo, seu desespero e angústia. Michael podia sentir, e então, novamente ele estava no fogo tentando sair e não conseguia.
Gritava, tentava arrancar o volante, mas não conseguia me mover, estava prestes a morrer ali, queimado vivo. Podia sentir o cheiro da fumaça, seus olhos ardiam, estava sufocando com aquele gosto amargo de fuligem enchendo a minha boca.
E então, travou, simplesmente não conseguindo se mover ou sair do lugar.

– Michael , vamos. Você já devia estar dentro do carro. – Alguém disse.
– Não. Eu não...– Michael tentou falar, abriu a boca algumas vezes, mas nenhum som podia ser ouvido.
- Michael, vamos, por favor. – Insistiu outra pessoa.
– Michael , qual é o problema? – Jacques, mecânico da escuderia e amigo do mesmo, quis saber se aproximando do piloto.
– Eu...– Michael perdera a cor, não conseguia falar, toda vez que abria a boca sentia a fumaça alcançar a garganta, como em um episódio de paralisia no sono, não podia mover um músculo. – Eu não consigo, estou travado aqui. Eu simplesmente não posso entrar, não.
– Não pode? – , do outro lado da garagem perguntou enquanto colocava a balaclava e Michael apenas balançou a cabeça negativamente, devagar.

O piloto apertava os lábios com os dentes e apertava as mãos em punho, visivelmente nervoso e agitado.

– Michael , é sério. Você precisa entrar no carro. – Rakin pediu se levantando, tentando se aproximar do piloto escocês.
– Não dá, gente. É sério, não dá. Tem fogo, vocês não vêem? Eu não consigo...eu...eu...se eu entrar, eu...eu vou morrer. Se eu entrar, posso morrer. Não vou entrar, eu não quero entrar. – Respondeu nervoso.
– Michael , você precisa entrar agora. – Lewis, o chefe de equipe, ordenou aumentando um pouco o tom de voz.
– Por favor, gente. – O piloto pediu desesperado. – Não dá, não dá. Eu não posso. Eu morro, como ontem.
– Do que é que ele está falando? – perguntou a Jacques que apenas levantou os ombros, confuso.

Michael tinha os olhos cheios de lágrimas e vermelhos, se sentia apavorado, mudo. Será que ninguém ali o ouvia? Será que ninguém estava vendo aquilo? Sua equipe estava insistindo para que fizesse algo que com certeza o mataria, se entrasse no carro morreria e aquelas pessoas o estavam forçando a isso, mesmo avisando o que aconteceria e que tudo estava em chamas.

– Michael , você precisa. Do que está falando? Não vai acontecer nada. – Jacques tentou argumentar.
– Vai sim, eu sei que vai. Vocês não acreditam, mas vai. Eu tenho certeza que se eu entrar nesse carro, vou morrer. – Falou nervoso. – Eu tenho que sair daqui. Agora. Você não viu o que aconteceu ontem? Você não viu? Eu vou morrer.
– O que? Não, você não vai. – Jacques se aproximou, tentando manter a calma.
– Michael , o que você está sentindo? Está tudo bem? – quis saber. – Alguém devia chamar apoio médico. – Ele pediu a Lewis, chefe de equipe.
– Não, eu não quero ir. Eu não posso ir. Vou desistir.
– Você não pode desistir, não é assim que funciona. – François falou irritado.
– Michael , como você está se sentindo? Por que está dizendo essas coisas? – insistiu.
– Eu não posso entrar, eu não quero. Eu não posso. – Respondeu o piloto, ele estava trêmulo, enjoado, sem ar, em pânico por pensar em ter que entrar naquele carro.

estava do outro lado da garagem, mas caminhou até o companheiro.

– Michael , o que você está sentindo? – Ele perguntou apertando o ombro do ruivo.
– Aí. – Michael reclamou da dor de seu apertão. – O fogo, mas não posso entrar. Acho que vou morrer se entrar, eu não consigo, . Você precisa acreditar em mim, eu vou morrer se entrar.
– Cara. – chamou enquanto tirava o capacete e balaclava e colocava sobre o carro, segurou e apertou os ombros de Michael novamente e olhou em seus olhos. – Michael , você está seguro aqui. Você não vai morrer, o que aconteceu ontem foi só um acidente e não foi com você. – Ele explicou com paciência.
– Mas eu vou morrer, sei que é perigoso...e se eu entrar nesse carro pode acontecer tanta coisa, eu tenho certeza que eu vou morrer. – Michael tentou falar de novo.
– Não, Michael não vai. Está tudo bem, você só está tendo uma crise, não é real. – avisou. - Você é um piloto de Fórmula Um, assumir riscos é sua responsabilidade. Nós demos duro, eu e você, nós dois demos muito duro para estarmos aqui, onde estamos hoje. O quanto nós passamos, quantas dificuldades nós enfrentamos para estarmos aqui, quantas pessoas enfrentamos, quantos momentos tristes e doloridos...é um risco e sempre vai ser. O que nós fazemos é perigoso e é por isso que é tão valorizado, o que aconteceu ontem foi uma fatalidade e já está tudo bem, não aconteceu nada com aquele piloto. Você precisa ter coragem, não vai acontecer com você.
– Mas é aqui que eu tenho esses flashes de...os acidentes...eu tenho que sair do fogo...eu...o Tony não achava que aconteceria com ele. – Contou Michael , ainda estava mal, nervoso e pálido.
– Michael as pessoas morrem o tempo todo, elas morrem quando chega a hora. Se o Tony não fosse piloto, provavelmente morreria de outra forma. Mas isso não tem nada a ver com você. – falou. – Isso não é real, você está aqui e está seguro. Está vendo essas pessoas aqui? São sua equipe, você está seguro aqui dentro e no carro eles vão estar com você.
– Por favor, não...– Negou novamente.
– Esqueça o carro agora, eu quero que você respire comigo. – requeriu. – Inspire...expire...inspire...expire...inspira...expira, isso devagar.

Michael tentava imitar os movimentos e a respiração do amigo, mas seus olhos sempre pousavam no carro, como se seu bólido estivesse prestes a atacá-lo e ele precisasse se defender. Estava agitado, suado, os suaves cachos ruivos grudaram na nuca e testa.

– Nós precisamos ir. – Lewis avisou a alguém.
– Michael não tem condições de ir a lugar nenhum hoje. – disse sem desprender os olhos do companheiro.
– Que merda. – Lewis chutou alguns pneus. – Onde está Faggion? Vamos precisar dele.
– No motorhome. – Alguém avisou.
– Eu...eu...como? – Michael olhou para os lados, atordoado.
– Você precisa ficar hoje, parceiro. – piscou enquanto digitava algo no celular. – Estão vindo cuidar de você, você vai ficar bem. – Disse batendo no ombro do amigo.
– Aí, se afasta um pouco. – Jacques pediu puxando Michael sutilmente para trás.
– Onde está o Faggion! – François gritou.
– Avisem que teremos mudança. – Lewis disse para alguém e encarou Michael , com raiva. – Já que o Michael não quer correr hoje.
– Não fale assim, não é culpa dele. – gritou enquanto vestia a balaclava. – Não fale assim com ele de novo. – Ameaçou com o dedo em riste.

Em seguida, piscou novamente para o piloto escocês e pulou para dentro do carro, o substituto fez o mesmo caminho, como um vento. Michael estava confuso e atordoado.


XXX

estava no autódromo para assistir mais uma corrida, adorava assistir mesmo ficando extremamente apreensiva e irritada.
Seu contato com a Fórmula um veio anos atrás quando conheceu Louise Rousseau, ambas ainda faziam faculdade, a morena estudava jornalismo e anos depois veio a se tornar uma das maiores da área esportista e acabou se casando com um dos grandes pilotos da história, Anthony Render.
Por causa da proximidade com o casal acabou mergulhando nesse meio, se apaixonando pelo esporte e depois até atendeu em seu consultório particular algumas pessoas que estavam bem enraizadas na Fórmula Um.
A negra gostava do clima do paddock. Era sempre descontraído e leve, muitas pessoas andando para lá e para cá se misturando em meio tudo que acontecia que às vezes era incapaz de definir quem é parte da equipe, convidado ou imprensa.
Estavam todos sempre juntos e embolados. Pilotos de equipes diferentes lado a lado, os chefes de equipe e mecânicos em um canto qualquer enquanto as mulheres em outro, sempre acompanhando os cônjuges.
Por causa do calor, , amarrou um lenço em seus cabelos era estampado com flores em tons de verde, amarelo e vermelho, para que os cachos não soassem e grudassem em sua pele, escolheu uma calça jeans branca, uma regata de alças e jogou por cima um blazer, ambos de cor nude. Nos pés um tamanco marrom de salto baixo, ajudava no conforto e em aliviar a umidade de seus pés em sapatos fechados.
Caminhou até um dos quiosques e decidiu que precisava de um café, entrou na fila enquanto ajeitava os óculos de sol sobre o rosto e passava as mãos pela testa limpando as gotas de suor que já a incomodavam profundamente.
Havia poucas pessoas na fila e por isso, logo sua vez chegou.

- Bom dia! – Sorriu. – Quero um café preto e sem açúcar, por favor. – Abriu a bolsa e tirou algumas notas da carteira e pagou pelo café, deu um passo para o lado, esperando seu pedido.
O toque de seu celular chamou sua atenção, no visor mostrava a foto de Alphonso , seu irmão que ligava através de chamada de vídeo.
- Oi, Alph. - Cumprimentou o mais novo.
- Oi, irmã*. Estou te atrapalhando? - Questionou o o
-Você nunca atrapalha, estou esperando um café e vou assistir a corrida. - Explicou. - Onde você está?
- Estou indo para Ibiza com a Jordyn, vamos passar uns dias lá. Isso se ela não demorar o domingo inteiro arrumando as malas. - Rolou os olhos e emitiu uma gargalhada.
- Até parece que você não demora horas se arrumando, garoto. - A Mais velha apoiou o peso do corpo sobre a perna direita.
- Não como a Jordyn. Não sei qual a dificuldade em colocar shorts e biquínis em uma mala. - Rebateu, balançando a cabeça de um lado para o outro. - Você está em Barcelona, certo?
- Sim, tenho algumas coisas para resolver aqui, então só volto para Mônaco na segunda.
- Estava pensando em jantarmos juntos essa semana, o que acha? Eu volto para a Alemanha para me apresentar ao Bayern em duas semanas. - Pediu e soltou um suspiro aliviado ao ver a namorada saindo com os cabelos soltos e óculos de sol.

O atendente bateu um sino indicando que os pedidos estavam prontos, um homem loiro que estava em sua frente foi o primeiro a guardar o celular e virar para o balcão pegando seu café, soprou e logo tomou um gole sentindo a cafeína invadir seu corpo.

- Acho perfeito. - Disse. - Espera um pouco que vou pegar meu café. – Pediu e colocou o celular sobre o balcão pegando um guardanapo e logo o café. O telefone que estava no balcão vibrou três vezes em mensagem, observou a tela lendo o conteúdo e arregalou os olhos, soltou o café sobre o balcão, resgatando o celular. – Alph, te ligo depois. – Desligou o telefone sem esperar uma resposta e abriu a conversa para ter certeza do que estava acontecendo.

: Preciso de você. Problema. Garagem da François –Render. Agora”

A negra colocou o celular no bolso e olhou para os dois lados tentando identificar onde ficava a garagem da escuderia, mas não fazia a menor ideia.
Ao seu lado direito, um homem uniformizado com roupas azuis e laranja, terminava seu café e caminhava para frente procurando uma lixeira para jogar o copo.
Sem pensar duas vezes, correu atrás do homem, segurou em seu ombro direito, o loiro se assustou e arregalou os olhos levando a mão ao peito para controlar as batidas de seu coração.

- Você me assustou. – Disse.
- Onde fica a garagem da François –Render? – Perguntou direta, os olhos fincados sobre o loiro esperando uma resposta.
- O quê? Como você sabe... Onde? – Ele estava confuso e também um pouco preocupado com a expressão afobada que carregava o rosto dela.
- A garagem da François –Render. – Enfatizou. – É para que lado?
- Ah, sim. Segue direto na área do motorhome é a quarta.

sequer agradeceu, somente agilizou os passos esperando chegar a tempo.

Poucos segundos depois ela entrou na garagem, correu os olhos pelo local procurando , mas não teve sinal algum. Só que ela sabia que ele não a chamaria atoa e quando seus olhos bateram em dois homens no canto direito, soube exatamente o motivo de estar ali.

– Com licença. – Firme, forte e tranquila. – Recebi uma mensagem de , dizendo que precisam de mim, o que houve? Como posso ajudar?
– Oi, eu sou o Jacques. É com ele aqui. – Jacques apontou com o queixo o amigo que o encarava confuso, sem talvez se dar conta de que haviam pessoas diferentes na garagem. – Ele está estranho...acha que vai morrer.
– Está bem. – A mulher assentiu e se aproximou com cautela. – Qual é o seu nome? – Questionou ao homem ruivo.
– Ei, parceiro. – Jacques tocou o braço do piloto quando percebeu que ele não responderia. – A moça aí está falando com você.
– Eu não quero falar com ninguém, eu só quero ir embora. Vamos, por favor. – Michael , pediu mais uma vez, nervoso.
– Eu compreendo. – Ela sorriu e ajeitou o lenço nos cabelos. – Você conhece o ? Ele é meu amigo e me pediu para vir te ver, ele se importa com você, o que acha de falar só um pouco comigo? Pelo .
está aqui? – Michael girou o rosto para encará-la, os olhos azuis estavam vermelhos, a testa suada. – Ele te mandou para me levar?
– Não, ele está na corrida. – A mulher sorriu docemente. – Ele me pediu para vir te ver antes de você ir. Meu nome é , qual é o seu?
– Michael .
– Michael . – Ela repetiu o nome. – Eu posso me aproximar de você?
– Por que? – Michael perguntou incerto e alarmado. – O que você quer fazer?
– Eu só quero conversar. – Ela levantou as duas mãos mostrando-as como em uma revista policial. – E eu gostaria de estar mais perto de você, mas se você não quiser, não tem problema. Você pode fazer o que quiser.
– Eu só quero ir para casa. – Pediu triste e choroso. – Eu não quero ficar aqui, mas ninguém entende...o fogo. É perigoso, eu não quero ficar aqui mais. O ...ele estava aqui...acho que ele ia me levar.
– Eu entendo que você quer ir para casa. – Dizendo isso ela se aproximou mais dois passos curtos e calculados. – Mas o está na corrida agora, precisamos esperar ele terminar para te levar. Por que ficar aqui é perigoso?
– Mas eu não quero esperar...o acidente, tem fogo também, aqui. Eu...parece que só eu vejo. – Contou assustado e atordoado. – Ninguém me escuta, eu disse que se entrasse no carro eu ia morrer, se eu ficar aqui eu vou morrer. Não está sentindo o cheiro do fogo? O foi embora por isso?
– O não foi embora. Ele está na corrida, olhe ele naquela tela, daqui a pouco estará aqui. – Ela negou e apontou o televisor atrás do ruivo que não se moveu, a mulher olhou para o outro homem na garagem. – Nós acreditamos em você, não é?
– Nós…– Jacques titubeou por alguns segundos. – Sim, claro. Claro que eu acredito em você.
– Então porque não vamos embora? – Michael quis saber e tentou passar por Jacques indo em direção a porta, mas o mecânico o segurou. – Me deixa ir. Por favor. Jacques! Por favor, eu quero ir embora...
– Mas e o ? Não vai esperar ele? – tirou os sapatos de salto rapidamente e deu passos rápidos parando ao lado de Jacques. – Michael , vamos esperar o para irmos todos juntos. – Disse e fixou seu olhar no piloto mostrando a ele que estava lhe dando sua total atenção.
– Por que o foi correr? Está tudo em chamas. Por que ele foi? Ele vai morrer...ele pode...acidente. – Michael tentou se desvencilhar do aperto dos braços de Jacques. – Eu tenho que ir avisá-lo. Me deixa ir, Jack.
– Ele sabe. – contou e se posicionou na frente de Jacques. – Ele foi por você, para te proteger, porque ele se importa com você, por isso devemos esperá-lo. Michael , segure minhas mãos, por favor. – Ela pediu e estendeu as mãos ao piloto.
– Ele...por mim? Se sacrificou por mim? – Michael tinha a respiração descompassada e estava visivelmente agitado, tentando se desvencilhar de Jacques de qualquer maneira. – Segurar suas mãos por quê? Você está com medo do fogo?
– Sim, estou. Por favor, Michael . – Mexeu os braços chamando a atenção dele, que relutante segurou, ela percebeu que estava com a pele suada e gelada, através do toque de suas mãos, sentiu a pulsação do homem. – Michael , você está com calor? O que acha de tirar esse macacão? Jacques. – Chamou sem desviar os olhos do ruivo e intensificando o aperto passando a ele conforto. – Chame nossos amigos médicos, avise a eles sobre o fogo e que precisam vir para cá agora. – Jacques assentiu.
– Por que você quer tirar meu macacão? Não vai. Eu quero ir para casa, quero sair daqui. Não vou tirar o macacão. – Em uma distração de Jacques, Michael correu e se enfiou atrás dos monitores da garagem, assustando toda a equipe que observava a cena.
– Tire tudo que ele possa usar para se machucar de perto. – A mulher pediu a Jacques, que estava no celular. – Michael , eu falei do macacão, porque você está suando, não está com calor? Eu estou. – Ela retirou seu blazer, ficando apenas com uma regata. – Olha, tirei, estava suando assim como você.
– Eu quero sair do fogo. Só isso. – Disse chorando. – Ninguém me deixa sair, por que vocês não me deixam sair? Por favor. – Gritou. – E minha mãe? Cadê ela? Eu quero sair daqui...por favor. Por favor. Louise. Pede para eles me deixarem ir, Jack, por favor...
– Eu deixo. – assentiu observando a equipe médica chegar.
– O que está acontecendo? – O médico responsável, dr. Marcus, se pronunciou ao deparar–se com a cena. – Vamos precisar ir para o hospital?
– Fique quieto. Não assuste ele. – ordenou sem desviar os olhos de Michael .
– Quem é ele? Por que está aqui? O que vocês vão fazer? Hospital? Não, não. Não quero ir, quero ir para casa.
– Está bem! – Ela assentiu. – Eu e Jacques podemos ir com você?

Michael balançou a cabeça positivamente devagar, enquanto tentava enxergar a mulher por de trás das telas.

– Então venha. – Estendeu as mãos. – Está vendo aquele carro? – Ele vai levar a gente, preciso que você saia daí, Michael , não é, Jacques?
– Mas e o ? Você disse que era para a gente esperar ele? – Michael indagou enquanto saia devagar de onde estava escondido, mas assim que viu a ambulância, correu para os fundos da garagem de novo. – Eu não vou entrar. Não vou. Eu vou morrer. Não, não vou. Por favor, não. Por favor, moça.
– O me mandou uma mensagem. – Ela pegou o telefone do bolso da calça e balançou para Michael. – Ele me pediu para te levar lá. Você não quer entrar no carro, certo? – Michael assentiu ainda em lágrimas. – Mas quer ir embora, certo? – Assentiu novamente.– Então, como vamos embora sem entrar no carro?
– Andando. Me deixa ir andando, eu sei onde é. – Michael respondeu enquanto passava as costas da mão sob o nariz, tentando limpar o rosto, agora ele estava sentado ao chão, encostado na parede. – É perto, eu sei ir sozinho.
– Eu deixo, Michael . – Ela sorriu novamente com calma. – Eu posso antes avisar o que vamos a pé? – Mostrou o celular.
– Pode. Ele vai embora também? Todo mundo vai? – O ruivo quis saber.
– Claro, vamos todos. – Ela se afastou com o celular na orelha fingindo ligar e então dando passos para trás se aproximou da equipe médica. – Preciso que ele acalme, pode prescrever alguma coisa? – Sussurrou e o médico assentiu.
- Eu vou introduzir um calmante para ele dormir.
– Sim, . – Ela falou alto, fingindo estar em uma ligação. – Nós já estamos indo, o Michael quer ir andando. Está bem, Tchau. – Pôs o telefone no bolso e se aproximou de novo. – Pronto, Michael . Vem, vamos para sua casa. – Estendeu a mão chamando-o.

Jacques ofereceu o braço para que o amigo se levantasse, Michael ainda estava desconfiado e tinha o olhar agitado, mas deu alguns passos na direção da mulher, receoso.

– Ótimo, Michael . Obrigada por nos deixar ir com você. – Ela enlaçou seu braço no dele. – Eu vou calçar os meus sapatos antes, está bem? – Apontou o par de tamancos marrons que estavam jogado mais à frente deles perto dos médicos.

Michael assentiu e ambos começaram a caminhar, mas o escocês não olhava para frente, tinha os olhos em Jacques para certificar-se que o amigo estava os seguindo e não ficando sozinho no fogo. A mulher olhou para o médico e maneou a cabeça positivamente e no instante seguinte estava com uma seringa em mãos.
– Michael , nós queremos cuidar de você, quando acordar tudo estará mais calmo e me desculpe por isso.– Imediatamente inseriu a seringa sobre a pele do pescoço do ruivo, injetando todo o conteúdo dentro dela, Michael não teve tempo de raciocinar, no segundo seguinte seu corpo sucumbiu e ele desabou sobre os médicos devidamente preparados para o segurar.

– Cuidado com ele, pessoal. – pediu aos paramédicos.
– Isso era mesmo necessário? Qual é! – Jacques protestou com as mãos na cabeça quando viu o corpo do amigo cair desfalecido.
– Eu sinto muito, Jacques. – Ela se ressentiu enquanto assistia colocarem o piloto na maca e então dentro da ambulância. – Eu sei que é pesado de se ver, mas ele precisa dormir e descansar. Estava claramente tendo um surto e nós não poderíamos só deixá-lo aqui, com medo, angustiado. Foi o melhor para ele no momento.
– Surto? Quer dizer...ele...ele enlouqueceu. – Um homem ruivo, com uniforme da escuderia perguntou. – Sou Lewis Whiting, muito prazer. Chefe de equipe.
– Oi, Lewis. Eu sou a , sou psicóloga e estou trabalhando com a equipe médica da Federação. - A mulher passou as mãos sobre o lenço e ajeitou os pés dentro do tamanco, resgatando o blazer e vestindo-o. - Ele não enlouqueceu, não existem loucos, existem pessoas que passam por alguns estágios de surto. Eu não posso dizer muita coisa agora, preciso analisar o caso, mas pelo que vi aqui, tudo indica que foi um ataque de pânico. - olhou para Jacques. - Ele tem histórico de ansiedade?
– Na última corrida ele passou mal. Teve uma...uma...situação estressante depois da corrida, ele saiu da órbita...o encontrei caído no chão, confuso, suado, perdido… - Jacques lembrou. - Disseram que podia ser isso. Ele sempre fica ansioso, às vezes não dorme direito, tem dias que não quer sair de casa...essas coisas.
– Precisamos investigar mais. Vamos logo. - chamou.
– Vocês deviam sair daqui logo, os jornalistas já estão cheirando a notícia. Não quero outro escândalo. – François bufou.
– Que isso...ele ainda está aqui. O Michael está ali...respeitem ele. – Jacques disse nervoso.
– Jacques, nós não podemos expor o Michael – A psicóloga tentou acalmar o mecânico. – Para o bem dele, precisamos nos encaminhar para um hospital, sei que parece dureza, mas é o melhor para ele. – Ela desviou os olhos do mecânico e olhou o homem de terno, François. – E você, devia se preocupar com seus pilotos ao invés de escândalos, uma escuderia se faz com bons pilotos e não somente com uma boa imagem, é por isso que esse lugar decaiu tanto. Se Tony estivesse vivo, você não estaria mais aqui. Jacques. – Voltou seu olhar ao mecânico negro. – Você quer acompanha-lo? Eu vou mandar uma mensagem para o dizendo que estamos no hospital.
– Claro. Eu vou sim. – Jacques assentiu depressa.
– Ótimo. – Ela sorriu e digitou algo rápido. – Vamos! – Chamou entrando na ambulância, seguida por Jacques que sentou ao lado do amigo segurando sua mão.
XXX

Jacques Olivier quem havia acompanhado Michael Madden até o hospital. Já estava ali havia muitas horas, não suportava mais aquele quarto, decidiu sair um pouco, esticar as pernas, fazer algumas ligações. Sua cabeça fervia, não conseguia raciocinar direito, por isso, agradeceu a Deus quando vislumbrou e sua calma budista. Ele com certeza saberia o que fazer naquela situação, assim, foram juntos conversar com a psicóloga.
O mecânico guiou o piloto pelo labirinto de corredores até o quarto de Michael, quando abriu a porta, encontrou a psicóloga entretida, anotando algumas coisas. As paredes brancas do hospital destacavam a pele de deixando um lindo contraste naquele quarto. Ainda trajava as mesmas roupas do resgate, a maior diferença era que um jaleco cobria o corpo, deixando-a paramentada para o ambiente hospitalar.
A negra observava Michael sobre a cama, estava com semblante mais calmo e sereno, a vestimenta do hospital não lhe caía bem, mas era necessário o deixar de maneira extremamente confortável.
A psicóloga anotava na prancheta os últimos dados coletados e já era nítida a melhora do piloto, pressão estável, nível de oxigenação em padrões normais, algo que deixava a mulher totalmente satisfeita.

- Oi. Desculpe a demora, fui encontrar ele aqui. Esses corredores me dão medo, parece que a qualquer momento vai aparecer algum médico zumbi ou coisa assim. - Jacques deu de ombros, arrepiado.
- Acho que eu não tenho a aparência de um médico zumbi, ou tenho? - disse em tom brincalhão, sabia que o ambiente de hospitais tinha sempre o clima pesado e acreditava ser importante deixar o clima sempre mais leve.
- Não, não mesmo. - sorriu. - Olá, . Como vai?
- Olá, ! - Ela acompanhou o sorriso. - Tudo bem e você?
-Vou ficar. - Ele assentiu apertando os lábios em um sorriso tranquilo e fechado. - Como ele está? -Eu sinto muito por precisarmos estar passando por isso mais uma vez. - Ela lhe lançou um olhar empático. - Ele está estável, passou por momentos turbulentos, mas agora está tudo controlado. Ele está sob efeito de sedativos, precisava descansar a mente.
-Mas o que foi isso? Quer dizer, eu soube que ele se sentiu mal depois de…- expirou pesadamente. - Depois de brigarmos. Na última corrida. Mas isso? Foi assustador. Era como se ele não nos enxergasse, só visse fogo e o medo. Foi tudo tão repentino... Foi assustador vê-lo assim. - O piloto sorriu fraco e apertou os pés de Michael, que estava coberto por uma manta grossa. - Eu não estou acostumado a ver essa figura daquele jeito, ele devia estar rindo, implicando com alguma coisa, surtando por estar ficando famoso e fazendo piadas péssimas nos momentos mais inapropriados.
- Isso é um fato importante já que eu não conheço o Michael. - Ela anotou algo na prancheta em mãos e depois voltou seu olhar para . - Ele costuma ser sempre alto astral e tranquilo? Ele passou mal após vocês discutirem? Defina o passar mal, por favor.
- É, sabe. - sorriu. - Ele conversa com absolutamente todo mundo, desde os mecânicos, engenheiros, fiscais de prova... Sempre sabe de todas as fofocas. Seu whatsapp não para, milhões de mensagens, sempre. Ele é comunicativo, alegre, livre, inteligente, curioso. Bem folgado, às vezes.
- Ele também é impulsivo, não pensa muito antes de agir. Mas é engraçado, te faz rir, até me faz rir. - Jacques completou e assentiu. - Ele é o tipo de cara que você vê e pensa, nossa, eu queria ser amigo dele. Ele é tão divertido e pode fazer qualquer coisa, se você quiser ir ao cinema, em uma palestra sobre sementes, em uma balada.
- Ele é reclamão também, nunca fica de boca fechada. Acho que toda essa ansiedade seja por ser o primeiro ano dele, Michael só quer mostrar que é bom. - encarou o piloto escocês de novo. - Mas esquece de que isso todos já sabem.
- Quantas informações. - A mulher caminhou até o suporte de mediações e apoiou a prancheta escrevendo mais algumas coisas, depois soltou a caneta e voltou-se aos dois negros. - Vocês me deram vários indícios que podem desencadear ansiedade, o humor sempre ativo, muitas pessoas ao redor, o primeiro ano no automobilismo. Tudo isso tem grande importância e fatores determinantes para desenvolver algum transtorno. O que precisamos agora é confirmar se de fato estamos falando de um possível transtorno, após identificarmos os gatilhos. Por isso, vou perguntar mais uma vez: ele passou mal após vocês discutirem? E como foi esse passar mal? - Ela tornou a segurar a caneta pronta para anotar mais informações.
- Eu não posso dizer bem, não estava com ele na hora. - estava visivelmente envergonhado, se sentia mal pela situação e mal em precisar dizer em voz alta. - Nós nos desentendemos por... Enfim, uma situação, um mal entendido, culpa minha. Nós brigamos, fisicamente falando. - olhou para Jacques, como se pedisse cobertura.
- É, socos e tudo mais que tem em uma briga, você sabe como é. Depois disso eu o deixei sozinho por alguns minutos e quando voltei ele estava no chão, suando, não falava comigo, parecia fora de órbita.... Eu não sei explicar. Depois, ele pareceu voltar, ficou tonto, não sabia direito o que tinha acontecido.... Quando eu contei, dos detalhes... Ele não quis falar disso, ficava com vergonha.
- Espere um minuto. - levantou os olhos escuros e os fincou sobre o piloto inglês. - Você brigou com ele de socos? Você, ? - Questionou totalmente surpresa. - Como ele conseguiu te irritar assim, você é tipo a reencarnação do Buda.
- Como assim? - Jacques arqueou uma sobrancelha. - Vocês se conhecem?
- Eu fiz terapia com a quando tive meus problemas, você sabe...os problemas com álcool. - contou ao mecânico. - Olha, isso não é algo de que me orgulho. Foi um momento estranho, por motivos estranhos, todos estávamos à flor da pele. Aconteceu.
- Aconteceu? - Ela respirou a palavra. - As coisas não somente acontecem, . As coisas são feitas mediante escolhas, mas não vem ao caso o motivo da briga. Fato é que ela foi um gatilho para uma possível crise de ansiedade e hoje ele teve outra, precisamos descobrir qual o denominador comum. - Ela começou a fazer traços mais fortes sobre o papel, tentando juntar os fatos do que ouviu. Cada informação importava. - Aconteceu algo parecido que possa ter sido um gatilho?
- No sábado, aconteceu um acidente, um carro capotou ao lado dele, depois pegou fogo. Michael saiu da pista, teve um apagão que durou alguns segundos, depois vomitou. - Jacques confidenciou e o encarou surpreso.- Ouvi ele contando ao Stroll, quando perguntei ele negou, disse que estava bem e que isso era mentira...mentira da oposição, ele disse na minha cara e gargalhou. - O mecânico contou. - Depois ele ficou bem, distraído, achei que estivesse preocupado, mas ficou bem.
- Eu também notei. No domingo ele parecia incomodado, estava calado, muito, isso é quase impossível quando se trata dele. Lembro-me de vê-lo tirar e colocar o macacão umas duas vezes, tinha cismado que algo dentro o estava espetando. Depois foi ao banheiro e quando voltou, já disse que não conseguia entrar no carro. Ele dizia que estava tudo em chamas, que ele morreria se entrasse, como ele tinha morrido ontem, mas o acidente não foi com ele…- expirou balançando a cabeça. - Foi do nada, sem avisar. E então ele estava em total desespero.
- Entendido. Gatilho encontrado. - Sorriu satisfeita. - Quando discutimos com alguém que gostamos, isso nos gera mal-estar. Quando chega ao ponto de agressões físicas, muda um pouco de proporção …
- Teve outra coisa, já que você disse sobre brigas com pessoas que gostamos. - Jacques interrompeu a psicóloga. - Na semana passada ele brigou com Louise Rousseau.

o encarou chocado.

- É, eu entendo o sentimento. Eles brigaram, discutiram feio, ela o acusou de se aproximar por interesse e isso deixou ele fora de órbita também. Me evitou o fim de semana todo, não quis sair de casa, quando a assessora de imprensa foi até lá, ele nem se incomodou em atendê-la. Eles discutiram porque o Michael, com seu talento de se meter onde não é chamado, teve umas conversas com o Alex, filho da Louise, sobre ele voltar a correr depois da morte do pai.
- Ok! - A mulher soltou a caneta e a prancheta caminhando para perto deles. - Vocês não podem estar falando sério. O Michael brigou de socos com e depois discutiu com a Render? Claramente um ponto de desequilíbrio emocional que pode ser gerado pela ansiedade.

Ela respirou fundo procurando palavras certas para que os dois homens entendessem onde queria chegar.

- Vocês precisam começar a colaborar. A partir de hoje nada de ambiente estressor sobre ele, o trabalho de vocês já é estressante o suficiente. E o medo é um dos sintomas da crise de ansiedade, medo após uma briga com alguém que gosta, medo após um acidente feio. Gatilhos gerados por medo de estar só, na vida ou na morte. É muito importante que ele não tenha mais stress do que já tem, conseguem me entender? - Perguntou como se falasse com crianças de seis anos em uma aula de expressão numérica.
- Sim. - assentiu. - Eu não sabia dessa briga.
- Claro que não, você saberia se não estivesse rompido com ele. - Jacques rolou os olhos. - Moça, eu não sei se você lembra, mas ele é um piloto de corridas. Como é que se pode ter uma vida sem estresse?
- Por isso eu disse mais stress do que ele já tem. - Ela repetiu calma. - Jacques, você já viu uma panela de pressão?
- Claro. - Respondeu ele de má vontade.
- O aparelho psíquico é como uma panela de pressão. Quando aumenta a pressão e não se alivia, ela explode. Por isso ele precisa controlar, não quer dizer que não vai ter stress, já que como você mesmo pontuou ele é um piloto, já vive em meio a stress e fatores de risco, precisa liberar essa pressão para que não surte e para ter condições disso precisa controlar os fatores externos. E por favor, me chame de . - Pediu educada.
- Como assim liberar a pressão? - perguntou quando Jacques apenas rolou os olhos e se aproximou mais do leito de Michael em silêncio.
- Ele precisa de tratamento, . Liberar pressão é como colocar algo para fora, tudo que ele absorve. Assim como todos que têm problemas. - respondeu. - Vocês precisam encontrar uma terapeuta para iniciar sessões, provavelmente um psiquiatra também. Esse diagnóstico precisa ser confirmado, para que ele inicie o tratamento. - Ela se afastou pronta para recolher suas coisas e deixar os dois com o amigo.
- Como assim encontrar? Você não pode? - perguntou endireitando a coluna.
- Eu vou trabalhar com vocês por causa da FIA, mas não quer dizer que precisa se tratar comigo. Ele tem direito de escolher e vocês como amigos devem concordar e apoiar a escolha dele.

olhou o relógio em seu pulso e sorriu, antes de voltar a encarar .

- É uma coincidência meio estranha.- coçou a nuca. - Há alguns dias, depois que ele...depois da briga. Ouvi a assessora dele falar no celular, ela estava atrás de indicações de outros psicólogos para ele. Michael fez algumas sessões, Tony Render sempre colocou isso como pré-requisito para se estar na equipe, mas ele não se identificava muito, faltava algumas sessões. Então quando a ouvi no telefone, já estava me sentindo mal com tudo aquilo, acabei indicando você. Ele devia marcar um horário nos próximos dias.
- Tive um contato com uma assessora de algum esportista mesmo, alguma coisa com D, mas não tenho certeza. - Ela sorriu ajeitando os cabelos. - Se esse for o desejo de vocês, estou pronta para ajudar.
- Você sabe de tudo que eu passei, com o álcool e depois...quando o Anthony morreu. Quando eu vi o Michael ali, só consegui pensar nisso e no quanto eu queria que ele não passasse pela mesma coisa. Eu rezei a corrida toda, implorei para que ele não precisasse viver aquele inferno. - respirou fundo. - Eu sei que se tem alguém que pode ajudá-lo, esse alguém é você, .
- .

Ela se aproximou dele com um sorriso amigável e tocou seu ombro direito.

- Você é um cara incrível, que passou por muita coisa e venceu todas essas coisas, eu acompanhei de perto. - Abriu mais o sorriso e acompanhou. - Eu fui até aquela garagem, por que você me chamou lá. Não se sinta culpado ou triste, você é humano e está sujeito a errar, como todos os outros. Não se cobre demais, você fez o melhor que podia. - Deu uma batidinha no ombro em que segurava. - Você pode ter se sentido mal por causa da briga, mas hoje, ele está bem porque me chamou para ajudá-lo. Devia se orgulhar disso. - Ela aproximou mais o rosto, chegando seus lábios nos ouvidos dele e sussurrando. - Você é um homem incrível, . - Se afastou novamente voltando à postura original. - Tudo que vocês precisarem, estou à disposição.
- E você sempre me ajudando a encontrar o melhor de mim. - sorriu e segurou discretamente a mão da psicóloga. - Obrigada, por tanto, por tudo. Eu não sei como agradecer. Espero que talvez um jantar sirva de início, já que seu paciente é o Michael agora. - piscou, umedeceu os lábios com a língua devagar e olhou dos olhos para a boca da mulher, devagar.

sentiu um rubor atingir seu rosto e um formigamento em seu baixo ventre surgiu de imediato trazendo sensações extraordinárias e lembranças que envolviam de várias formas e jeitos, agora de uma forma diferente já que, de fato, seu paciente era Michael. Sem saber o que responder ela somente sorriu olhando nos olhos do piloto, respondendo com o olhar o convite dele.

- Eu preciso ir, tenho coisas para fazer. - respondeu desconcertada. - Eu posso ajudar vocês em mais alguma coisa?
- Eu. Se o casal já parou de flertar, eu gostaria de saber uma coisa. - Jacques apontou. - Você falou sobre o humor sempre ativo e muitas pessoas ao redor, isso pode ser um...como se diz? Gatilho? Por que se for, agora fodeu.

Antes de responder se permitiu uma gargalhada, aquele homem, Jacques, era muito engraçado.

- É uma questão de contexto. Geralmente pessoas que são muito comunicativas, extrovertidas tendem a ter muitas pessoas ao redor, mas isso pode ser somente um disfarce para uma solidão interna.- Iniciou uma explicação de forma didática.- E isso gera o medo de perder pessoas, desenvolve estima baixa, desconfianças e para chegar em ansiedade é um pulo. São fatores de risco, quando associados a gatilhos certeiros, vira uma bomba e explode. A crise de ansiedade é caracterizada por uma profunda sensação de insegurança, medo e descontrole. - Ela olhou para Jacques antes de prosseguir e percebeu que ele a observava com cuidado e atenção. Ela ergueu seus dois dedos indicadores e logo os uniu mostrando uma linha reta. - É como um curto-circuito gerado no corpo e na mente, provocando uma descarga de noradrenalina e adrenalina pelo organismo. Essas substâncias são responsáveis, junto com outros processos, pelas manifestações físicas da crise, que duram poucos minutos em alta intensidade.
- Mas o Michael não é solitário. - Jacques observou. - Quer dizer, ele conversa com umas mil pessoas e têm uns quatro amigos que pode contar de verdade, mas isso não é ser solitário, é?
- Eu não sei dizer. - Respondeu. - As pessoas são muito mais que aparentam ser, talvez ele demonstre que não é, mas seja. Você em algum momento da vida já olhou para o lado precisando de ajuda e não teve ninguém? - Tornou a questionar, a melhor forma de explicar algo dentro da psicologia era com exemplos.
- Claro, olha para mim. Você é preta, conhece bem a solidão que é pertencer ao nosso povo. - Jacques expirou pesadamente.
- Exatamente. - Assentiu. - Sou preta e refugiada, sei bem o que significa isso, já me senti sozinha em alguns momentos, porém, nunca fui solitária. Como podemos afirmar que alguém é ou não? - Ergueu os ombros em sinal de indecisão. - A resposta quem tem é o Michael.


XXX

jogou o corpo na poltrona aconchegante do hospital. Deitou a cabeça para trás e fechou os olhos, totalmente exausta. Tirou os tamancos e afundou os pés no estofado, tentando relaxar o máximo que aquele ambiente a permitia.
Estava no hospital desde às três da tarde, quando chegou acompanhando Michael após uma crise de ansiedade em que ela socorreu, não havia necessidade de permanecer no hospital por todo aquele tempo, já que seu grande amigo e companheiro de trabalho Brandon Flynn, estava com total controle da situação com a medicação e monitorias do quadro, entretanto, ela não queria se afastar.
Conhecia a história daquela escuderia e tinha carinho pelos donos, optou por segurar mais algum tempo seu desejo de voltar para o hotel, até que ele permanecesse estável. O pedido de teve um pouco de influência também, o desejo para que ela tratasse pessoalmente seu amigo mexeu com ela, sabia que era excelente no que fazia, e que seus referencias profissionais a dariam total credibilidade para assumir o caso, mas o pedido de uma pessoa próxima mexia completamente com seus sentimentos, é totalmente voltada para seus princípios de amizade e família.
Estava totalmente distraída com seus pensamentos que não escutou as batidas na porta, saiu de seu transe somente no momento em que sentiu uma mão tocando seu ombro. Abriu os olhos e encontrou a figura da recepcionista com seus olhos brilhantes e sorriso aberto, sorriu e passou as duas mãos no rosto na tentativa de espantar o sono.

- Me desculpe, doutora. – Estava envergonhada. – Eu bati na porta e a senhora não ouviu.
- Está tudo bem, querida. – Ofereceu um sorriso. – Aconteceu algo?
- Chegou essa encomenda para você. – Mostrou uma enorme caixa vermelha e os olhos de se abriram um pouco.
- De quem?
- Senhorita Antonella Cornello. – Respondeu educada e entregou a caixa nas mãos da psicóloga. – A senhora precisa de mais alguma coisa?
-Não, querida. Obrigada pela gentileza em trazer. – Segurou a caixa com um pouco de receio, conhecia muito aquela cantora italiana e tinha um pouco de medo do humor dela.
Respirou fundo, desfez o laço da caixa e depois destampou a mesma. Prendeu o lábio entre os dentes contendo uma gargalhada. Com cuidado ela retirou duas garrafas Maker's, um Bourbon de origem escocesa.
No recipiente tinha também um bilhete e quando leu não conseguiu conter a gargalhada.

“ Mandei duas garrafas, pois uma só seria pouco. Espero que comemore tomando uma bebida decente, já que seu gosto é péssimo para bebidas, quase mandei um consolo também, mas o Paddock tem belos homens para te ajudar. Ops, me esqueci tem a tal da ética profissional, droga, vou ser obrigada a te mandar outra caixa. Até lá beba essas garrafas. Estou orgulhosa de você, eu te amo. “

relaxou o corpo conforme emitia as gargalhadas, empurrou a caixa para o lado, resgatou a bolsa branca que estava jogada no canto oposto ao seu e pescou o próprio celular. Destravou com a face e ligou para Antonella, por chamada de vídeo, três toques depois a cantora apareceu na câmera.

-Alguém resolveu lembrar de mim, já que não responde minhas mensagens mais. – A italiana ralhou em uma falsa raiva e pela segunda vez, , foi capaz de gargalhar.
-Não seja dramática, eu respondi sua mensagem ontem. – Defendeu-se.
-Depois de me ignorar por doze dias. Doze. – Enfatizou.
-Em minha defesa, eu mal tenho tempo para dormir, ainda mais ficar respondendo mensagens. – apoiou o celular nas pernas para estralar os dedos da mão.
-Você me ignora e ainda tem coragem de dizer que me ama. – Balançou a cabeça negativamente. – Eu só perdoo se formos tomar uma cerveja em Mônaco.
-Cerveja? – Franziu o cenho. – Estou com tanto trabalho que mal consigo dormir uma noite inteira, quem dirá sair para beber. – Deu um suspiro.
-Você precisa abrir uma exceção para mim. – Disse com um sorriso enorme e logo atrás de si a figura do marido apareceu em vídeo.
-Oi, . – Cumprimentou o piloto australiano com quem a mulher era casada.
-Olá, senhor P1*. Como você está? – O sorriso do outro aumentou drasticamente.
-Bom, bonito e gostoso. Como sempre. – Respondeu animado iniciando uma massagem nos ombros da esposa. – Estou feliz com a vitória, depois de largar em décimo chegar em primeiro é incrível.
-Parabéns, mister Australia. – Sorriu.

Gostava muito do relacionamento dos dois, conheceu Antonella alguns anos antes quando estava saindo de um relacionamento abusivo e opressor, fizeram algumas sessões de terapia e logo Antonella conheceu o sorriso gigante do piloto, poucos meses depois estavam juntos.

era a maior apoiadora do casal Dantonella – Shipper ridículo que a psicóloga inventou e jamais desistiu dele. – Estou feliz que tenha conseguido.
-Eu também fico. – Daniel beijou o topo da cabeça da cantora. – Aliás, parabéns pelo trabalho, . Mostra para eles quem é que manda.
-Mulheres mandam na porra toda. - Antonella ergueu os punhos em comemoração.
-Calma lá, Bambola*. Em tudo também não. - Protestou o homem.
-Daniel, quem manda aqui? - Estreitou a sobrancelha olhando o marido.
-Eu. A última palavra sempre é minha. - Bateu no peito com um sorriso gigante e não pode deixar de gargalhar da expressão de Antonella, quase cuspindo fogo.
-É mesmo, Ricciardo?
-Sim. - Tornou a afirmar. - A última palavra sempre é minha e eu digo: sim senhora! - Bateu continência e Antonella se permitiu um sorriso fofo.
-Idiota.
-Agora vou deixar vocês a sós. Beijo, . - Jogou beijo para a psicóloga que retribuiu. - Eu te amo. - Despediu-se da esposa com um beijo na bochecha.
- Como está sendo a nova rotina de trabalho? – Antonella deu um bocejo em meio à fala, sinônimo do sono que a atingia naquele momento.
- Não tive tempo para fazer muita coisa, mas essa semana tenho três reuniões programadas com a equipe para o planejamento de tudo. – Ela sorriu. – E por aí, como está tudo?
-Estamos bem, Daniel está ajeitando as coisas para embarcarmos, vamos para Londres hoje ainda. – Coçou os olhos. –Tenho um compromisso essa semana, depois vamos para Mônaco.
- Que bom, Anto. Gosto de ver vocês juntos, têm uma química incrível. – tombou a cabeça. – Aproveitem esse tempo juntos.
- Eu estou planejando ficar mais perto dele, sinto muita falta de estar com ele. - Enquanto falava ela desviou os olhos para o marido que iniciou uma dancinha de acordo com as batidas que saia em seu fone de ouvido. – Por falar em marido, e seu coração como está?

rolou os olhos com a pergunta, mas sorriu.

- Perfeitamente bem sendo ocupado pelo meu amor próprio. – Disse e piscou.
- Não há nada mais poderoso que o amor-próprio, pois ele nos mostra o nosso verdadeiro valor. – Antonella respondeu. – Uma excelente psicóloga me disse isso uma vez.
- Essa mulher é muito sábia.
- Sim, ela é! – Antonella se levantou e passou as mãos no cabelo. – Eu preciso ir, . Eu te mando mensagem quando chegar, espero que me responda.
- Eu respondo. Vão com Deus, eu te amo!
- Eu te amo! Aproveite meu presente! – Mandou beijos e apertou o send encerrando o contato.

Permaneceu sorrindo por mais alguns minutos e então guardou as duas garrafas que a cantora lhe deu, ajeitou todas as suas coisas e voltou com os pertences para o armário, colocou os pés nos sapatos e saiu. Iria encontrar com Brandon, o médico com quem trabalhava, para conversarem um pouco.
Mandou uma mensagem para ele para saber onde se encontrava, a resposta chegou poucos segundos depois com a informação que o médico estava na cantina, tomando um cappuccino. Girou nos calcanhares para seguir em direção ao ambiente em que o amigo estava. Poucos minutos após iniciar a caminhada encontrou as várias mesas distribuídas pelo refeitório.
No canto superior da porta de vidro que lhe permitia o acesso, tinha um recipiente com álcool em gel, apertou duas vezes para que o líquido gelatinoso caísse em suas mãos e então espalhou nas palmas, enquanto corria os olhos pelo ambiente à procura do médico. Deu um sorriso involuntário ao encontrar o homem sentado em uma das mesas mais ao fundo, imediatamente seus pés se moveram naquela direção.
Os saltos faziam barulho pelo local fazendo que as pessoas percebessem a presença da mulher, juntamente com uma aura forte que a acompanhava a cada passo, tornava impossível o movimento das cabeças não seguirem a mesma de acordo com que passava. Brandon estava concentrado no notebook em que digitava fortemente cada letra do teclado, sendo caracterizado pelos espectadores como movimento brutal. parou em frente ao homem e puxou a cadeira sentando-se à mesa com graciosidade cruzando as pernas imediatamente.

- O que foi que o computador te fez? – Foi só quando a mulher abriu a boca que Flynn percebeu sua presença. Ele soltou o ar e afastou os dedos do teclado, fitando a mulher que o encarava curiosa.
- De onde você saiu?
- Cruzei a lanchonete toda para chegar aqui, você foi o único que não percebeu minha chegada. – Pontuou.
- Desculpe, estou irritado com o que ando lendo. – Ele bufou e tirou os óculos redondos do rosto, jogando-os sobre a mesa. Os olhos azuis estavam fundos em claro sinal de cansaço, os cabelos um pouco grisalhos estavam levemente despenteados, sabia que era pelo fato dele ter a mania de viver passando os dedos por seus fios.
- Que seria? – Endireitou a postura e colocou os cotovelos sobre a mesa.
- A repercussão da nossa chegada à fórmula um. – O médico girou o notebook para que a outra pudesse ver a página que estava aberta, , entretanto sequer desviou os olhos para a tela. Com um sorriso calmo nos lábios, esticou a mão direita e abaixou a tela branca.
- Por que deveríamos ler isso? Não irá ajudar em nada a mudar a opinião da imprensa.
- Eu concordo. – Assentiu tomando em mãos a xícara branca com café. – Porém não é a imprensa. São os próprios funcionários das equipes, o chefe da Hass, Gunther Steiner, disse que acha uma besteira gastar dinheiro com isso, que para ser um vencedor, precisa-se de bons carros. Não de psicólogos e médicos de cabeça, palavras dele. - emitiu uma gargalhada contida pela expressão no rosto do amigo. – Nós estamos em pleno mundo moderno, as pessoas continuam achando que estamos na época do Barroco, chamando as pessoas de loucas e as tratando como bizarras.

Não havia nada que irritava mais o médico psiquiatra do que a maneira como sua profissão era tratada. Você cuida de loucos? Quem cuida de loucos é mais louco ainda? Eu não preciso ir ao psicólogo, isso é coisa de pessoas loucas. Eu não sou louco.
Os dizeres mais comuns eram totalmente intragáveis aos olhos dele e se as pessoas soubessem a quantidade de besteiras que sempre falavam, se esconderiam em cavernas escuras pela eternidade. A saúde emocional é mais importante, tendo em mente que conseguindo manter o controle de seu aparelho psíquico, tem o controle da vida, dificilmente sofrerá de transtornos e doenças somáticas.
Para Flynn, a ignorância era a maior doença da humanidade.

- Nós já sabíamos disso, Brend. – levantou a mão direita chamando a garçonete. – Desde que aceitamos vir, não seria fácil. Assim como não foi fácil em lugar nenhum por onde passamos.
- Aqui é diferente. Eu nunca vi um lugar com tanta gente preconceituosa como a Fórmula Um, e olha que eu estudei medicina em Harvard. – Estava indignado.
- Então vamos mudar a opinião deles. – lançou um sorriso para a atendente que se aproximou. – Oi, querida. Eu gostaria de um café preto e sem açúcar, por favor.
- Deseja comer algo?
- Não, obrigada. – A jovem assentiu e se retirou. – Como eu estava dizendo...
- Você é muito otimista, . Acha que é fácil assim? Você pretende mudar anos de história. Nós dois sabemos que essa filosofia é linda, mas na prática muda.
- Acha que se Franco Basaglia* tivesse pensando como você, nós dois estaríamos aqui? Acha que se ele tivesse desistido, a saúde mental seria o que é hoje? De que adianta cruzar os braços diante do sistema, nós precisamos mostrar a eles que estão errados.

Brandon analisava a expressão da psicóloga conforme as palavras saiam de sua boca, sempre quando falava sobre algo que envolvia lutar para conquistar, suas feições tomavam uma proporção contrária ao de costume. Os olhos endureciam, a postura corporal se fortificava e mentalmente em vestia sua armadura pronta para o combate, era uma guerreira e adorava declarar guerras para vencer.

- Foi diferente, ele se rebelou contra a maneira como os enfermos eram tratados nos manicômios. Você quer que lutemos contra a elite bilionária dos carros velozes e homens que acham que podem comprar o mundo? Às vezes me pergunto se não fizeram um transplante de cérebro em você.
- Nós estamos aqui dentro, Brend. Nos colocaram aqui dentro esperando algo de nós, para que ...
- Não foi bem assim. – Ele recostou o corpo na cadeira passando as mãos de maneira agitada pelos cabelos. – Nós dois sabemos que o Todd, quer permanecer no cargo e dizer para o mundo que ele se importa com esse esporte, mas na verdade ele só quer mais dinheiro.
- Sim, eu sei que ele quer isso. Não sou idiota. – parou de falar e se afastou um pouco dando espaço que a atendente colocasse seu café na mesa. Agradeceu com um sorriso e esperou a mesma se retirar para retomar a fala. – Mas se viemos para cá, precisamos fazer eles enxergarem quem somos e o que podemos fazer.
- Você sabe que vai comprar briga com muita gente, não sabe? - resgatou a xícara do pires e mexeu a mesma misturando o café, depois soprou levemente e então bebericou devagar.

Ela tinha plena consciência do que tinha ido fazer, do motivo por trás do convite do presidente da FIA, as intenções dele estavam longe de serem limpas. Ela só não se importava, aprendeu com o decorrer de sua vida, com todas as batalhas que travou por si mesma, por sua família e povo, que valia a pena guerrear. Não importava o quanto optassem por fazê-la parar, jamais desistiria. Tinha comprado a guerra quando aceitou cargo, e com toda certeza soaria sangue para mostrar a sua importância para aquele esporte.

- Eu sei, vim disposta a lutar. Até pintei as unhas de vermelho. – Balançou os dedos mostrando os dedos para o homem. – Qual é, Brand? Acha mesmo que não vamos conseguir?
- Claro que vamos. –Abriu a face em um sorriso. – Precisamos iniciar uma estratégia, pois eles não fazem a menor ideia do que realmente fazemos, ouvi alguns rumores que eles acham que vamos impedir os pilotos de correr, sair ditando as regras de como tem que fazer as estratégias. O que é bizarro já que sequer entendo de corridas, mal consigo dirigir meu carro com 1% de potência - O médico rolou os olhos e bebeu um pouco de seu café, ao mesmo tempo em que resgatava os óculos de grau devolvendo-os ao rosto.
- Então a primeira coisa que precisamos fazer é mostrar que estão errados.
- Como?
- Deixando que eles nos perguntem. – resgatou o celular e abriu o aplicativo de mensagens a procura de Montil Denvers. – Vamos agendar uma reunião com os pilotos e chefes de equipe do Grid. Quero todos lá, sem exceção. Se eles querem pensar e palpitar sobre nosso trabalho, iremos permitir com que façam em nossa frente.
- Assim podemos ser cordiais e mostrar o que de fato fazemos. – Concordou com a cabeça. – Você é brilhante.
Brandon e iniciaram uma parceria há seis anos, quando se conheceram em uma conferência de saúde mental na Califórnia. Iniciaram uma conversa amigável e combinaram de trocar materiais de estudo e quando se deram conta já eram totalmente amigos, e compartilhavam casos de seus pacientes e debatiam a melhor forma de tratamento. Sendo assim decidiram por se declaram como Batman e Robin, uma dupla oficial. Dali em diante, qualquer lugar que passassem, iam juntos, por todos os esportes que contribuíram, pelos pacientes que trataram em conjunto, artigos e livros que escreveram.
Quando veio o convite para , imediatamente ela contatou Flynn, e condicionou sua aceitação com a contratação dele, ambos conversaram e decidiram que juntos tinham muito para contribuir.

- Eu sei, sou bem mais que um lindo rosto e cabelos hidratados. – Ela sorriu, mas logo desviou os olhos para o pager que estava sobre a mesa, pertencia a Brandon e tinha acabado de apitar. – O que foi?
- Tenho que dar uma olhada no piloto da FR. – Colocou-se de pé, tirando a carteira do bolso e colocou algumas notas sobre a mesa, o pagamento pelo consumo de ambos ali.
- Vou com você, depois vou para o hotel, estou exausta. – A mulher imitou o movimento do homem também se erguendo.
- Então vamos. – Ele resgatou o jaleco que repousava sobre o encosto da cadeira, vestindo-o. – Como ele estava a última vez que o viu?
Iniciaram a caminhada juntos, lentamente enquanto conversavam baixo e de maneira discreta, evitando qualquer tipo de atenção.

XXX

foi quem bateu na porta, escutou uma voz masculina responder, trocou um olhar com Brandon e então adentrou o quarto. Michael permanecia deitado sobre a cama e dormindo, estava com o semblante sério e sereno.
Ao lado da cama estavam dois jovens, , sabia quem eram. Lance Stroll e Charles Leclerc, dois pilotos de fórmula um, atualmente compunham o grid com as equipes Racing Point e Ferrari, respectivamente.
Os dois garotos se entreolharam curiosos enquanto os dois mais velhos se posicionavam dentro do quarto.

-Olá, boa noite! - O homem se pronunciou primeiro. - Eu sou Brandon, não iremos atrapalhar vocês, será uma consulta rápida.
-Ah…- Eles disseram juntos, confusos e se afastaram um pouco do leito.
- Ele está bem? - Charles Leclerc quis saber.
-Sim. - respondeu educada. - Ele passou por momentos difíceis, mas agora está melhor. Desde a hora que eu o trouxe, as coisas se estabilizaram.
- Ele...o que aconteceu? - Lance perguntou coçando a nuca.
- ?- Brandon chamou e a negra levantou o dedo indicador pedindo um minuto e se aproximou do médico. - Qual foi o horário que deram entrada? Preciso introduzir outra medicação.
-Chegamos exatamente às três e vinte e três. - O médico olhou no relógio de pulso. - O que vai administrar?
-Líquidos e soro. - Respondeu enquanto receitava. - Precisa se hidratar. - A psicóloga assentiu e voltou para perto dos dois jovens pilotos.
-Ele teve uma crise. - Iniciou. - Tudo indica que foi ansiedade, mas ainda não temos todas as peças para fechar um diagnóstico.
-O Michael vai ficar muito tempo assim? Apagado? - Charles perguntou. - Ele vai poder correr em Mônaco? Não sei se sabe, ele é piloto... Nós somos pilotos de Fórmula um. Tem o Grande Prêmio de Mônaco, será que ele vai correr? Ele vai ficar muito bravo se não puder…
-Oh, sim! Eu sei quem é, Charles. E você também, Lance. - Correu os olhos de um para o outro. - Eu sou a psicóloga que vai trabalhar ao lado de vocês. - Ela contou e os dois se encararam, olhos arregalados e boca aberta, surpresos e envergonhados pela gafe.
-Não tem fator nenhum que o impeça de correr daqui a duas semanas. - Brandon também se aproximou para participar.
-Além do fato de outra crise, é claro. - completou. - Quem pode afirmar algo é o próprio Michael, após acordar.
-Isso é muito importante. Vocês são amigos íntimos dele? - Perguntou o médico apertando os óculos no rosto.
-Se depende dele, então ferrou…- Lance pensou alto distraído. - Sim, somos. É quase como... Melhores amigos.
-Por que ferrou?
-Ele não é de contar quando está mal. - Contou o piloto canadense.
-É verdade. Ele fala muito, mas não sobre ele. - Charles concordou.
- Mas vai começar a falar. - Brandon sorriu empático. - Ainda mais pelo fato de que se ele não conseguir iniciar um tratamento, não conseguirá mais correr.
- É como dissemos: tudo depende dele. - tornou a sorrir. - Ansiedade é normal, todos temos. Entretanto o amigo de vocês teve uma crise, pelo que eu soube foi a segunda, em um espaço curto de tempo. Se ele desejar permanecer nessa carreira, precisamos trabalhar as crises dele. - Finalizou o discurso e olhou para o homem ao seu lado.
-Exatamente. - Meneou a cabeça colocando as duas mãos no bolso do jaleco. - Nós entendemos que parece difícil e complicado, mas tudo vai se ajeitar.
- Difícil é a palavra que define esse ano. - Lance suspirou e voltou para perto do leito.
- Nós vamos deixar vocês à vontade. - Ela sorriu para dois e se encaminhou para a porta.
- Qualquer coisa, é só chamar. - Brandon concluiu.
- Ah, meninos. - voltou-se para os dois. - Tem algum membro da família que possamos contatar?
- Er…- Charles e Lance se entreolharam incertos antes de responder. - Acho que não, melhor não. Quando Michael acordar, ele te diz isso. - Lance respondeu na defensiva.
- Tudo bem então. Respeitamos os desejos do Michael. - Acenou e os dois saíram por completo da sala.

XXX

estava embolada nas cobertas em um sono tranquilo, tinha acabado de deitar e adormecer, seu corpo exausto entrou em rápida combustão e cedeu ao cansaço gigante. O colapso de seu aparelho psíquico era uma cratera para conseguir entrar em sono REM*, por esse motivo em específico não teve dificuldade em acordar com as batidas incessantes na porta.
Ainda sonolenta ela levantou, coçando os olhos, colocou os pés nas pantufas e andou lentamente até a porta. Quando destrancou e abriu a mesma, encontrou Louise Rousseau-Render, a jornalista francesa tinha a expressão endurecida, olhos frios e vazios, nariz vermelho e parecia ansiosa e agitada.

- Louise? - Questionou. - O que está fazendo aqui? O que aconteceu? - Ficou claramente preocupada com a visão da morena em sua porta.
- Michael. Você está tratando dele, não é? Posso entrar? - Perguntou sem sequer parar para respirar.
- Claro. Vem aqui. - Deu um passo para o lado deixando a passagem livre para ela. - Você quer uma água?
- Seria bom, obrigada. - Louise assentiu e caminhou para dentro. - Senta um pouco, Louise. - Apontou a poltrona no canto do quarto, e foi em direção ao frigobar retirando uma garrafa com água, quando voltou encontrou a jornalista sentada com a bolsa ao lado da poltrona. - Tome, beba devagar. - Disse entregando um copo com água.
- Obrigada, . - Louise tomou metade do conteúdo do copo de uma vez.- Mas podemos ir direito ao ponto? Michael Madden, estou aqui para saber dele. Você está com o caso, não é? Soube pelas minhas fontes.
- Estou com o caso. - Assentiu puxando outra poltrona para perto de Louise. - Mas nós não vamos direto ao ponto até você se acalmar, primeiro respire fundo e se acalme. Depois falamos do seu piloto. - Ela sentou-se em frente à jornalista e lhe ofereceu um sorriso terno, logo inclinou o corpo para frente tocando os joelhos da jornalista. - Lou, respire.
- Eu estou bem. - Ela sorriu amarelo. - Estou bem, mesmo. Só preciso mesmo saber sobre ele, sobre o Michael. Desculpe te incomodar a essa hora, você devia estar na cama.
- Está bem? - Arqueou a sobrancelha. - Você está claramente agitada, com a respiração acelerada e ainda quer me dizer que está bem? Vou lhe pedir mais uma vez, respire e se acalme. Você não deveria estar no estúdio, em Mônaco? - Mudou um pouco o assunto para fazer Louise falar e controlar o ritmo de respiração.
- Eu voei para cá assim que soube. - Louise se levantou bruscamente e deu alguns passos, de costas para e com as mãos na cintura. - É por isso que estou aqui. O que quer que eu diga? Que estou triste? Preocupada? Ansiosa? Eu só...só…
- Sim. Exatamente isso que eu quero. - A psicóloga não se moveu, somente manteve seus olhos fixos na mulher em sua frente. - Quero que coloque para fora, assim evitamos que eu precise te colocar em um leito ao do Madden.
- Desculpe, , mas precisaria de bem mais que uma noite para te dizer tudo que eu sinto. Será que você não poderia apenas me contar, contar sobre como ele está? - Louise voltou a se sentar ao lado da psicóloga e a encarar com olhar ansioso. - Só queria... Mas eu entendo, seu sigilo com seus pacientes e tudo mais, entendo que não possa. - Ela concluiu e levou a mão ao chão, tateando em busca da bolsa.
- Você está perguntando ou afirmando sobre meu sigilo? - Cruzou as pernas e levou a mão ao queixo. - Pois em momento nenhum disse que não falaria, mas você parece empenhada em querer saber e ao mesmo tempo arrumar desculpas para não saber. Então, eu preciso que decida.
- Eu só preciso saber, mas ninguém parece conseguir me contar o que está acontecendo. - Louise apoiou os cotovelos nos joelhos e apertou as mãos no rosto, depois suspirou profundamente. - Eu estou bem, não vou me acalmar enquanto não souber o que aconteceu com ele. Mal pude vê-lo por causa do horário, e ninguém me diz nada. Estou perdida.
- Eu entendo, Louise. - Meneou a cabeça positivamente. - Fico feliz que tenha me falado, sei que está preocupada, mas o Michael está bem. Eu conversei com e Jacques mais cedo, eles não te contaram?
- Não consegui falar com eles, ninguém atende a droga do celular. - Ela bufou. - Está bem. Ele está bem. Por favor, , você me conhece tempo suficiente para saber que preciso de mais que isso. - Encarou a psicóloga arqueando uma sobrancelha.
- Eu conheço mesmo a tempo demais. - Confirmou sustentando o olhar da outra. - Sei que não é suficiente, mas eu respondo a perguntas corretas, você me perguntou como ele está, e eu respondi: ele está bem. - Sorriu marota.

Louise riu sem humor e se recostou na poltrona.

- Eu não senti falta dessa parte. - Ela expirou e encarou a amiga. - Sendo assim, gostaria de pedir um relatório detalhado quanto ao quadro de saúde do meu piloto. - Louise estreitou o olhar.
- Agora eu gostei. - se permitiu uma risada alta. - Você já está até mais relaxada. - Apontou com a cabeça para a mulher. - Michael estava tendo uma crise de ansiedade quando cheguei à garagem, de maneira bem forte, precisei encaminhar direto para o hospital, nesse momento está dormindo e estável. Estava precisando descansar um pouco.
- Relaxada é uma palavra forte demais... Eu só deixei certos modos de lado. - Louise sorriu de canto, sem humor e fechou os olhos. - Com dormindo você quer dizer dopado, não é? Conheço o método, , já passei por isso algumas vezes, caso tenha se esquecido.
- Não, ele não está dopado. Ele está sedado. - Explicou. - O que você passou é um quadro diferente, tinha problemas com álcool, Tony tomava ritalina por causa do TDAH*, mas o Michael não. - Negou com a cabeça e respirou fundo. - Michael teve uma crise de ansiedade, possivelmente a segunda em menos de um mês, podemos estar lidando com uma hipótese diagnóstica de ansiedade generalizada.
- Ele vai ficar bem?
- Isso depende. - Encaixou uma das mãos por entre as pernas e tombou o corpo. - Se for realmente esse o diagnóstico, ele vai iniciar o tratamento para que fique algo sob controle.
- Tem alguma coisa para beber aqui? - Louise perguntou encarando a psicóloga de soslaio. - Sei como você funciona, me fazendo contar tudo sem perceber e, no final, fazer o que você pediu. Pelo menos espero que tenha algo aqui mais forte que vinho ou um bom remédio para enxaqueca. - A jornalista cruzou as pernas e fechou os olhos. - Mas gostaria que soubesse que não estou totalmente contente em ceder.
- Eu não sei do que está falando, ou melhor, insinuando. Eu não faço as pessoas falarem as coisas, geralmente falam por desejo próprio. - Ergueu o corpo caminhando novamente até o bar do quarto. - Sorte sua que a Cornello me mandou duas garrafas de bourbon de presente pelo novo trabalho, caso contrário só teria vinho. - Pegou dois copos, a garrafa de vidro e voltou até a amiga que a aguardava.
- Você não faz as pessoas falarem e eu nunca fiz nada ilegal para conseguir uma boa matéria. - A jornalista recebeu o copo com a dose da bebida, cheirou e bebeu de uma vez. - Escocês, que sutil coincidência. - Expirou e esticou o braço, num pedido silencioso por outra dose. - Tem razão, ... Sobre isso de falar. Vou beber e depois tentar burlar a segurança para chegar ao quarto dele.
- É por isso que somos profissionais extraordinárias, fazemos nosso trabalho com excelência, eles sequer sabem o que os atingiu. - Louise riu abafado enquanto também bebia um gole da bebida e servia mais uma para Louise. - Qual a necessidade de burlar a segurança? Pode esperar até amanhã cedo para vê-lo, ou não pode? - Fixou seus olhos na jornalista buscando ler todos os sinais que viriam.
- Posso, mas não quero e não vou. - Louise respondeu com firmeza. - Sabe como são essas coisas, ainda sou dramática e um pouco escrava das minhas próprias vontades.
- Não tenho dúvidas disso. - Recostou o corpo e voltou a cruzar as pernas. - Quem sou eu para dizer a sua consciência pesada o que fazer. Só não seja presa, pelo amor de Deus.
- Consciência pesada? - Louise inclinou o corpo na direção da amiga. - O que te faz pensar isso?
- Eu poderia fazer um discurso sobre as características de quando uma pessoa fica assim, mas vou poupar tempo. Jacques e me contaram que brigou com seu piloto, logo após seus dois pilotos se socarem. - Deu um sorriso irônico. - Aliás, sugiro colocar sacos e deixar luvas disponíveis na garagem, pois se alguém foi capaz de irritar o Buda que o se parece, mais socos podem vir.
- Claro…- Louise balançou a cabeça negativamente e sorriu irônica. - Claro que eles não perderiam a chance de contar a você. A caráter de curiosidade, não foram eventos seguidos. e Michael brigaram, depois nós até saímos juntos e só então brigamos. - Louise mordiscava o interior das bochechas pensativa. - E eles não te contaram a razão da briga, não é? Suponho.
- Não serem eventos seguidos, não muda o fato de você estar achando que tem culpa. - passou a mão no cabelo tirando o cacho que escorregou para sua testa.
- Culpa? - Louise arqueou uma sobrancelha.
- Sim. Inclusive, preciso falar sobre isso. Fiquei sabendo das duas brigas, francamente, Louise. Você brigou com seu piloto e mandou ele se afastar de você? É sério?
- Sim, mas eu tive…- Louise mal pode completar a frase.
- Não importa nesse momento. Ele é seu piloto, ele vê em você segurança, conforto, liderança. O cara está na primeira temporada da carreira dele, e por motivos pessoais e totalmente subjetivos, a chefe dele diz para ele não se aproximar mais? Onde acha que essa frustração irá se manifestar? Onde acredita que ele vai procurar ajuda? A resposta é: não vai. Você o impediu disso, fechou as portas para qualquer pedido de socorro que poderia vir. E ainda vem aqui me pedir o relatório de saúde do seu piloto? Onde estava quando ele precisou de você?

Louise mordeu os lábios com força e abaixou a cabeça, sabia que sua atitude fora péssima, embora no momento, o motivo tivesse sido genuíno.

- Você tem razão, eu estraguei tudo. Me odeio por pensar que pode ter sido minha culpa. - Ela fungou e esfregou as costas da mão no nariz. - Há alguns dias ele foi me procurar na emissora, disse que se fosse para nos afastar, que devia ser por um motivo justo. Michael disse que não queria falar com a chefe, mas com a amiga…- Louise riu sem humor.
- Louise, ele foi te pedir ajuda. Está claro que o motivo dele ir até você é um incômodo por não ter você por perto. - se curvou e mais uma vez tocou os olhos da mulher, olhando-a com ternura e empatia. - Eu não sei quais foram seus motivos, mas precisa repensar essas atitudes, Michael claramente passa por problemas sérios, se não pensar sobre a relação de vocês, pode começar a procurar outro piloto.
- Por que diz isso?
- Izzie.- Chamou e a outra arqueou os olhos fazia tempo não ouvia esse apelido, era a forma íntima que o marido, Anthony, a chamava. - Sabe quando você ficou ao lado do com seus problemas de bebida? - Ela assentiu. - É a mesma coisa com o Michael, ele precisa de apoio, de cuidado. Ter crises de ansiedade é doloroso, angustiante, vergonhoso. Imagina se as pessoas que eles confiam não estão lá? Acha que tendo a profissão tem, ele vai conseguir continuar correndo se permanecer tendo crises?
- Eu entendo, de verdade. - Louise garantiu passando as mãos pelo cabelo. - Eu só não entendo porque sou tão importante nisso, porque tenho tanta importância no processo.
- Essa é mais uma das respostas que só o Michael tem. - Sorriu. - O que eu posso dizer é que essas brigas com , com você ou pessoas da equipe precisam ser controladas. Essa profissão já é estressante por si só. Os desentendimentos só pioram e afloram mais os gatilhos. Inclusive, preciso falar com , ele não pode mais brigar com Michael também.
- e Jacques te contaram a razão? Porque brigaram? - Louise questionou tentando se recompor.
- Não contaram, essa ficou para você.
- Não, não ficou. Não é por isso que não te contaram, é por ser vergonhoso, principalmente para ele, depois de tudo. - Louise tomou o resto da bebida que estava em seu copo e suspirou, fechando os olhos em seguida. - se empolgou em sua última vitória, nas comemorações, me beijou. Michael viu e. Percebeu meu desconforto. - Contou.

não conseguiu esconder a surpresa que cruzou seu rosto. A menos de duas semanas, tinha beijado Louise, e na noite anterior tinha insinuado seus desejos para ela. Não adiantava pensar em defender, só mudavam mesmo de endereço. Homem é sempre homem. Quando ela percebeu o que poderia estar acontecendo, levou as mãos ao rosto e levantou.

- Você e o estão…tipo…juntos? - Questionou afobada. - Eu vou matá-lo. - Murmurou a última frase acreditando que Louise não tivesse ouvido.
- É impressão minha, ou você ficou...frustrada? - Louise arqueou uma sobrancelha. - É, sério? Você e o ? Sabe, vocês fariam um casal interessante, são parecidos em muitos sentidos. - Louise apontou.
- O quê? Frustrada? Não. - Abanou a mão. - Chocada talvez, e preocupada também já que ele poderia estar traindo você. - Ela respirou fundo e se recompôs. - Não temos nada, não pense essas coisas. - Deu de ombros. - Não me surpreende, eu também te beijaria, você é uma mulher foda.

Louise gargalhou jogando a cabeça para trás.

- Sabe que sou ótima jornalista investigativa, não é? Você já se contradisse pelo menos três vezes no último minuto. - A jornalista sorriu. - Tudo bem você e o , . Em outras situações, eu mesma já teria cedido a ele. E quanto a me beijar, bom, talvez eu pense sobre isso. - Louise brincou mordendo a ponta da língua.
- Eu não cedi a ninguém, ok? - Pontou. - Eu também não me contradisse em nada, pare de falar besteiras. Não tem o que pensar, olhe para mim, se tem alguém que merece seu beijo, sou eu. - também gargalhou e ficou feliz por perceber a leveza que havia se instalado no ambiente.
- Desculpe, mas prometi a mim mesma que se algum dia voltasse a me relacionar com alguém, não seria qualquer ser humano ligado à Fórmula Um. - Louise piscou ladina.- Mas dependendo da quantidade de álcool no meu sangue, posso abrir uma exceção ou duas.
- E mesmo se prometendo isso, ainda vai invadir o quarto de um piloto? Essa promessa me parece as que eu faço de ressaca. - tornou a sentar-se e cruzou as pernas, era mania adquirida pela profissão.
- Eu me arrependi de ter dito isso assim que percebi que você voltaria nessa questão. - Louise balançou suavemente os pés, desencaixando os sapatos e dobrando as pernas sobre a poltrona. - Eu não sinto nada por ele. Michael é um menino...eu nunca me apaixonaria por ele.
- Menino? - Arqueou a sobrancelha. - Ele não é um menino, seu filho é um menino. Ele é um homem, Louise. Um belo homem, por sinal.
- Você estava atendendo uma emergência psiquiátrica ou o que? Quando teve tempo para isso? - A jornalista franziu o cenho e torceu o nariz. - Eu sei que ele não é um menino, estou querendo dizer, figurativamente. Ele é jovem, cheio de vida, um menino.
- Eu estava tomando um café. me mandou uma mensagem e fui até a garagem, quando cheguei ele estava em meio à crise, porém, consegui perceber todos os detalhes dele. Assim como você é uma ótima jornalista investigativa, ou sou uma ótima psicóloga e completamente observadora. - Apontou firme. - Jovem? Cheio de vida? Quantos anos você tem, Louise? A última vez que chequei tinha 37, mas fala como se fosse uma múmia histórica.
- Você vai ter que escolher, ou o Michael. - Louise encarou a mulher com firmeza. - , só entre nós, me diga a verdade e tem toda liberdade para ser sincera. Se algum dia, eu estivesse disposta a me envolver novamente com alguém, acha que seria com alguém como ele?
- Eu estava pronta para fazer uma piada sobre seu ciúme explícito, mas sua pergunta final me impediu disso. - Raspou a garganta. - A pergunta não é se seria, é por qual motivo não seria. Quer descobrir?
- Certo, me conte suas teorias. - Louise sugeriu e se serviu de mais bourbon.
- Eu quero mais também, por favor. - Pediu e a outra prontamente a serviu. - Certo. Minutos atrás me disse que em outras circunstâncias teria cedido ao , certo? - Louise assentiu contra sua própria vontade. - Me fale quais seriam essas circunstâncias. - Pediu, mas soou como uma ordem.
- Ah, nada muito específico... talvez seja aquele acontecimento, sabe? A morte do meu marido e grande amor da minha vida. - Louise ironizou fingindo inocência. - Até porque, em quais outras circunstâncias eu dispensaria e Michael Madden.
- Mas quem foi que falou em Michael Madden? Eu perguntei do .
- Que droga, . - Louise bufou.
- Você quer que eu prossiga ou já posso parar? - A negra gargalhou e bebeu um longo gole do Bourbon.
- Eu realmente não entendo porque todos têm a insistente e irritante mania de achar que estou interessada por ele.- Louise rolou os olhos e se levantou, ainda com o copo em mãos. - Eu não consigo pensar assim, pensar nele ou em qualquer homem desse jeito...é estranho e é errado. Errado com o Tony.
- O Tony morreu, Louise. - foi direta, mas não perdeu a leveza na voz. - É horrível dizer isso, mas ele se foi. Não é errado com ele, pois ele não está mais aqui, você quem está. Você pretende viver em luto mais quanto tempo? Pretende acreditar que não merece seguir sua vida, por mais quanto tempo? - flexionou os joelhos e os trouxe para a poltrona, sentando em pernas de índio.
- , ele se foi...eu sei, não estou em negação, já passei pelos estágios do luto, eu acho. - Louise suspirou. - Mas o espaço à direta na cama, é dele. As caixas no porão, são dele, os carros na garagem, tudo ainda é dele. Não posso substituí-lo, como se fosse uma peça qualquer. Você me fez perguntas essa noite, me permita fazer apenas uma. Nos conhecendo como nos conhece, a nossa história e tudo que passamos, o que você acha, sinceramente, que ele faria no meu lugar?
- Eu não tenho essa resposta, Lou. - Ela ergueu os ombros em defesa. - E jamais passei por essa dor, meu conhecimento é totalmente teórico e não vou ser hipócrita em dizer que te entendo, pois não entendo. - Suspirou. - O que eu sei é que vocês viveram um amor perfeito, eram felizes, apaixonados e tiveram uma história linda. Nada no mundo vai conseguir apagar a história de vocês. Existem algumas coisas que simplesmente acabam, ninguém sabe o motivo, razão ou explicação, somente acontece. O lugar da cama, da garagem, as caixas sempre serão do Tony, ninguém jamais tirará esse lugar dele. Acredito que falta a você entender que não precisa tirar essas coisas do Anthony, mas também não pode impedir que talvez você tenha o seu próprio lugar em mais alguém.
- Talvez eu só não queira. - Disse em um suspiro.
- Ou talvez não aceita que possa querer.


XXX




13 de Maio


O quarto era iluminado pela luz do sol que acabara de nascer, alguns raios tocavam o chão e o rosto de Michael, intensificando o ruivo de seus cabelos. Louise Rousseau estava sentada no corredor, em uma cadeira dura e muito desconfortável, se recusara a ir embora, tinha viajado para Barcelona justamente para ver o piloto, não iria embora tão facilmente.
Charles e Lance, os dois pilotos e amigos de Michael, ficaram no hospital até que o horário de visitas acabasse, e Jacques também. Dentro do quarto, quem havia ficado como companhia, era Duny. Que era a assessora de imprensa de Michael, além de amiga pessoal, assim que soube do acontecido correu para o hospital e em momento algum saiu do lado do amigo.
Duny brincava com as mãos, fazendo sombras no chão, sentindo os primeiros raios da manhã aquecerem sua pele.
Enquanto isso, Michael aos poucos ouvia os passos no corredor, carros na rua, o bip irritante de alguma máquina chata, sentia o cheiro de álcool coçar seu nariz, o tecido fino que cobria suas pernas. O piloto sentia os olhos e o corpo pesados, queria dormir mais, estava tão relaxado, como depois de uma bebedeira, quando acordava sem ressaca.
Devagar, abriu os olhos, mas os fechou de novo, a luz branca no quarto era forte demais. Piscou repetidamente algumas vezes até se acostumar com a claridade. Perfume cítrico, cheiro de chiclete e café: Duny.
Michael girou o pescoço lentamente e encontrou a amiga balançando a mão em um feixe de luz solar que invadia o quarto, Duny, depois de alguns segundos, percebeu que o amigo estava desperto, sorriu mostrando todos os dentes e se levantou para um abraço.

-Michael, você acordou. - Duny celebrou ao abraçar o amigo. - Que susto, hein, filho da puta. Quer me dar problema, me compra um bode.
-Quê? - Michael riu fraco, não por não achar engraçado, mas sim por estar relaxado demais. - O que foi? O que eu fiz? Onde é isso?

Duny mordeu o lábio inferior, pensando no que fazer, se devia contar e o que devia contar.

-Você não se lembra? - Perguntou para se certificar de até onde poderia ir.
- Me lembrar? - Michael repetiu, mas em seguida suas feições se anuviaram, parecia estar focado num filme que só ele podia ver. E então ele franziu o cenho confuso e piscou algumas vezes. - O que foi? A corrida, porque eu estou aqui e não corri? O que aconteceu? Onde está o Tony?
-Eu ...eu…- Duny não soube o que dizer. - Eu vou chamar alguém. Espera, tá. Já volto.

Duny pediu e correu para fora do quarto, sentindo os olhos curiosos e confusos de Michael a seguirem. Andou depressa pelo corredor vazio, despertando e chamando atenção de Louise que passou a segui-la, confusa e atordoada.

-Duny. - A francesa chamou. - Duny, o que houve? Duny! Ele acordou? Está bem?
-Louise, agora não. - A assessora cortou enquanto continuava a andar com pressa pelos corredores atrás de alguma viva alma que pudesse ajudar.
-O que foi? Por que está aqui fora correndo assim? Por favor, o que foi? - Louise continuou a insistir.

Duny ignorou sem pudor, não queria responder perguntas ou falar com mais ninguém, além das pessoas certas. Seus olhos se prenderam na psicóloga negra, que assinava alguma coisa em um posto de enfermagem, distraída. Duny apressou o passo e correu até ela, com Louise ao seu encalço.
Quando enfim chegaram, as observou surpresa e voltou o olhar para as duas mulheres, Louise tinha os braços cruzados sobre o peito e estava nitidamente afetada, confusa e curiosa. Duny, que estava esbaforida e preocupada, disse:

-Eu preciso de ajuda.
-O que aconteceu? - Questionou .
-O Michael. Pode vir comigo? Por favor. - Duny pediu enquanto caminhava de costas, voltando ao corredor.
-Mande o Flynn para o quarto 1023 - Pediu a enfermeira que assentiu tirando o telefone do gancho.

seguiu Duny, não com tanta rapidez já que usava saltos, e a assessora estava mais confortável em suas vestimentas.

-Espera! - Louise protestou seguindo as duas. - O que foi? Me fale.
-Louise, fica calada! - Duny ralhou se olhar para a jornalista, que empacou no lugar um pouco chocada.

Duny continuou rapidamente até o quarto, quando alcançou a outra, viu Michael acordando em seu leito.

-Michael, que bom vê-lo acordado. Como sente?
-O que foi? Quem é você? - O piloto tinha um olhar confuso.
- Michael, meu nome é . - Ela sorriu passando as duas mãos no tecido da calça rosa que usava. - Eu sou psicóloga e fui eu quem trouxe você para o hospital.
- Hosp...porque eu estaria num hospital?- Michael quis saber confuso e seu olhar se encontrou com o de Louise mais uma vez, a jornalista deu um passo à frente, mas recuou incerta, mantendo um sorriso aliviado no rosto. - A corrida? Eu tenho que ir.
- Michael, a corrida foi ontem. - respondeu enquanto colocava um pouco de álcool nas mãos e se higienizava. - Você passou mal antes da corrida de ontem, por isso está no hospital. Louise? - Chamou a jornalista que levantou seu olhar para ela. - Será que pode sentar-se ao lado do Michael, nessa poltrona? - Apontou a poltrona cinza.
-Eu? - Louise titubeou incerta e surpresa, mas se aproximou, com o olhar fixo no piloto. - Eu...eu posso, Michael? - Pediu permissão antes de se sentar e o piloto assentiu balançando a cabeça, mantendo os olhos nela por alguns segundos, mas voltou-se bruscamente a psicóloga em seguida.
-Eu perdi a corrida? Mas e o acidente? O ? Onde o está? Meu pai e o Tony? Onde?- Michael perguntava confuso e sem pausa.
-Seu pai? - Duny sussurrou para si mesma.
-Tony? Que Tony? - arqueou a sobrancelha confusa. - daqui a pouco deve estar aqui, foi tomar um café.
-O Anthony Render. Eu estava com o Anthony, com meu pai também, mas ele já tinha ido. - Michael explicou atordoado.
-Michael, meu bem. - Duny se aproximou. - Seu pai não estava aqui, nem está agora.

arqueou a sobrancelha e emitiu um sorriso de leve, parecendo captar o que poderia estar acontecendo com Michael. Era muito comum que pacientes que eram sedados, quando acordavam relatavam alguns episódios diferentes, como sonhos lúcidos, alucinações e até delírios.*

-Onde você estava, Michael? Que viu seu pai e Tony? - manteve o sorriso curioso e percebeu o olhar arregalado e rosto sem cor de Louise.
-Eu estava no autódromo...em casa...onde eu estou agora? - Ele perguntou levantando a cabeça, tentando olhar pela janela.
-Está no hospital …. - Tornou a responder calma. - Você os viu? Falou com eles?
-Mas por que estou aqui? O que eu tive? Sofri algum acidente? Porque eu me lembro de um acidente... E de fogo. - Michael disse olhando para ninguém.
-Teve um acidente com fogo, mas não foi com você, outro piloto se acidentou. - caminhou para frente de Michael. - Você teve uma crise de ansiedade, precisou vir ao hospital para ser medicado.
-Ansiedade? - Michael deixou a cabeça cair no travesseiro e suspirou. - Não, não. Eu apaguei de novo, como da outra vez?
-Você foi apagado. - Suspirou. - Você apagou outra vez? Em outra crise de ansiedade?

A psicóloga já tinha esses detalhes graças a conversa com e Jacques, porém era sempre importante obter detalhes do próprio paciente, a visão dele sobre o ocorrido sempre continha detalhes imprescindíveis para a construção do caso.

-Eu não sei...eu fiquei meio fora de órbita. - Michael cobriu os olhos com o antebraço. - Eu…- Bufou. Estava nitidamente confuso e envergonhado.
-Michael, está tudo bem. - rodeou a cama e ficou mais próxima ao piloto. - Nós podemos falar sobre isso mais tarde, o importante agora é que você está bem, perto de pessoas que gostam de você, certo Louise? - Olhou a jornalista e depois Duny. - Certo, Duny?
-Claro. - Duny assentiu depressa.
-Está, nós estamos aqui. Eu não vou sair, prometo. - Louise declarou se inclinando um pouco na direção do piloto.
-Michael, você sente alguma coisa? Dor? Náuseas? Corpo estranho? - A psicóloga voltou a questionar, se preparando para tomar nota de suas respostas, porém foi interrompida pela abertura brusca da porta.

Lance Stroll e Charles Leclerc entraram distraídos, sem sequer bater na porta, mas quando se deram conta da situação, arregalaram os olhos e os dois enrubesceram, em seguida, olharam para o leito e sorriram largo ao descobrir que Michael estava acordado.

- Até que enfim. - Celebraram indo em direção ao piloto escocês e abraçando juntos, cada um de um lado.
- Ai. - Michael riu, esquecendo um pouco do que fora dito antes. – Tô contente em ver vocês, mas não precisam me esmagar.
-Você quer me matar do coração? Acha que não foi suficiente um susto na semana? Precisa de dois? Eu poderia matar você agora, com minhas próprias mãos. - Rangeu os dentes cerrando as duas mãos em direção ao pescoço do amigo.
- Eu devo pedir desculpa? - Michael soprou piscando um olho. - Para de me apertar, vocês dois. - Pediu rindo.
- Cara, que bom que você está bem. - Lance disse aliviado. - Fiquei preocupado.

deu um leve sorriso e um passo para trás na tentativa de deixar o grupo mais à vontade. O semblante de Michael já estava mais tranquilo e parecia mais leve no ambiente, parecia mais alegre até. De fato, deixar ele ao lado das pessoas que gostava trazia um resultado positivo, acalmando totalmente os ânimos para depois prosseguir com o assunto sério.
Minutos depois da chegada Charles e Lance, e Jacques surgiram porta adentro, ambos sorriram ao ver o amigo. Jacques se inclinou sobre as pernas de Michael e as apertou, o abraçou, em um abraço longo e cheio de significado.

- Que bom que está aqui. - Michael disse, apertando o amigo.
-Eu tô, claro que estou. - disse calmamente. - Somos parceiros, lembra?
- Ainda somos? - Michael quis saber, tinha os olhos fechados e uma sobrancelha arqueada, se afastou e olhou nos olhos do ruivo.
- Irmãos. - Enfatizou e apertou o ombro dele.
- Ninguém supera esse menino. - Jacques vibrou.
- Pessoal. - chamou e todos viraram seus rostos para olhá-la. - Vocês querem ficar a sós com ele, eu posso voltar mais tarde? - Sugeriu observadora, talvez pelas situações conflituosas que Michael tinha enfrentado com pessoas que estavam ali, seria interessante eles terem um momento para conseguirem se organizar.
- Claro, a gente tem muito para conversar. - Jacques anunciou. - Aliás, como vamos fazer? O tratamento?
- Não, ela não precisa ir. - Charles falou. - Se vamos falar do tratamento ela precisa estar.
- Verdade. - Lance asseriu. - Você é quem vai cuidar dele, certo?
- Vai, claro que vai. - afirmou.
- É, eu conheço a há muito tempo, ela é a melhor. - Louise concordou.

Michael permanecia em silêncio, olhando para Duny que tinha a boca torcida em uma careta empática, o piloto encarava o teto, depois a amiga, depois o teto de novo.
respirou fundo observando a movimentação das pessoas no quarto, quase como se fosse uma guerra fria, onde todo mundo falava ao mesmo tempo. Antes de responder desviou seus olhos para Michael, a expressão de visível desconforto pintava o rosto do piloto, as mãos estavam segurando o lençol com força, e não focava seus olhos nos amigos. Seus instintos disseram que era hora de intervir.

- Gente. - Chamou, mas todo mundo continuou entretido em sua própria discussão. - Pessoal! - Precisou subir a voz alguns oitavos, algo que era tão raro que Louise franziu o cenho estranhando. - Mudança de planos. - Colocou as mãos dentro dos bolsos do jaleco. - Eu sei que estão todos muito felizes e empolgados com a melhora do nosso amigo. - Caminhou até a porta abrindo-a com um sorriso educado. - Mas eu vou precisar de um minuto a sós com o Michael, pode ser? - Estendeu o braço dando passagem.
- O que? Não, não vou sair não. Vocês vão dopar ele de novo. - Jacques acusou cruzando os braços.
- Fazer o que? - Michael arregalou os olhos.
- Não, ninguém vai fazer nada. - Duny pôs-se de pé. - Michael, meu bem, nós nos falamos depois. - Disse em um tom calmo e doce, que se transformou assim que ela se dirigiu aos outros. - Vocês, tico e teco, anda, não ouviram? É para sair. - Ordenou a Lance e Charles, que arregalaram os olhos e se despediram rapidamente de Michael. - Você, Olivier, não me faça ir aí e bater na sua cara com essa bolsa Chanel, caríssima. Louise, . Andem logo! - Ordenou e começou a guiá-los para a porta.
- Calma, já estamos indo. - Lance reclamou. - Tchau, Michael.
- Você acha que está onde Danielle? Para falar assim comigo? - Jacques retrucou. - Para, não empurra, não.

Um a um, eles saíram do quarto, Louise sorriu fechado e saiu com os olhos nos pés, mas parou ao lado de antes de sair.

-Que bom que você está aqui. - agradeceu.
-É bom te ver também, ...apesar das circunstância.
-É, eu adoraria que fosse num momento melhor. - se aproximou um pouco mais para que pudesse falar mais baixo, e disse olhando nos olhos da psicóloga. - Aliás, isso me lembra que nós deveríamos sair, conversar, rir como nos velhos tempos, mas no lugar de um divã, podemos ter a companhia de um bom vinho.
-Você não bebe. Isso significa que deseja me embebedar?
-Eu não bebo, tem razão. - riu. - Mas você adora um bom vinho, eu posso fazer o sacrifício de te assistir tomar algumas taças. - Dizendo isso, ele piscou e sorriu assentindo, logo ele seguiu e deixou a sala.

A psicóloga fechou a porta e segurou a mesma com as duas mãos, certificando-se que ela havia mesmo fechado.

- Melhor assim, não acha? - Ela se virou para o ruivo.
- É. - Michael suspirou incerto e olhou para o lado, desviando-se da psicóloga.- Todos eles sabem? Sabem do que aconteceu comigo?
- Sim. - Ela assentiu. - Eles se preocupam com você, vieram atrás de notícias. - Caminhou até ele, sentando-se na poltrona ao lado da cama. - Como se sente?
- É, eu sei. Eu vi eles aqui essa noite. - Michael deu de ombros distraído. - Eu não sei...eu me sinto leve, mas ao mesmo tempo meio pesado, como se estivesse com sono. Mas eu acho que não estou, estou com fome. Quero sair daqui, mas também quero saber o que houve...e ignorar que eu surtei na frente de todo mundo de novo. - Ele riu amargo. - Eu tenho uns flashes, lembro-me de algumas coisas e só consigo pensar que quero morrer.
- Você quer morrer ou tem medo de morrer? - Tornou a questionar e como de costume cruzou as pernas. - Está se sentindo assim por causa das medicações que tomou, daqui a pouco passa.
- Eu quero morrer de vergonha…- Michael parou de falar e pareceu pensar, ficou assim por longos segundos. - Mas alguém me disse que se as pessoas que me amam e que eu me importo não ligam, eu não devia me envergonhar. Posso fazer uma pergunta?
- Claro, Michael. Fiquei à vontade. - Endireitou a postura.
- Você acha que...essas coisas que vocês me deram...eu posso ter alucinações? - Indagou com os olhos curiosos sob .
- Sim, podem. - Respondeu. - Mas alucinações se tem quando se está acordado, ou seja, antes de dormir ou depois que acordar. Posso perguntar o motivo do questionamento?
- Ah…- Michael correu os olhos pelo ambiente. - Eu...isso pode causar sonhos...estranhos?
- Quando sonhamos nosso cérebro constrói uma realidade que é completamente separada do mundo real. Então, talvez, possa ser algo estranho. - Mesmo que ele não estivesse com os olhos fixados nela, jamais tirou os seus dele.
- Você...você tem alguma fé? - Michael indagou depois de expirar pesadamente.
- Sim, tenho. Todo ser humano tem algum tipo de fé, mesmo que de maneira deturpada. - Ela soltou o ar com calma e relaxou o corpo. Michael não estava com os muros erguidos, ao contrário do que pensou.
- Eu não tenho. - Ele riu. - Sabe, achava que a religião, que a fé fosse uma venda, que o mundo era mais que isso. Que só servia para controlar, uma forma medieval de controle sobre o povo, que inclusive já matou muita gente. Tudo em nome da fé. - Michael disse. - Desculpe, tem muita coisa se passando aqui e eu quero falar, mas não sei se está fazendo sentido, eu só...só quero falar com alguém antes que enlouqueça de vez. - Ele bateu duas vezes com o indicador na testa. - E não sei se quero falar sobre isso com eles.

iria abrir a boca para tranquilizar o ruivo, porém batidas na porta foram ouvidas, ergueu o dedo indicador para ele, e se colocou de pé, para averiguar quem estava na porta. Ao abrir a mesma, viu os olhos claros de Brandon do outro lado, com vestimentas brancas e impecáveis. Saiu do quarto fechando a porta atrás de si, para que Michael não ouvisse a conversa.

- Você me pediu para vir? – Questionou o psiquiatra.
- Sim, mas eu preciso te pedir para voltar depois. Eu preciso de alguns momentos a sós com ele. – Brandon assentiu com a cabeça olhando o relógio no pulso.
- Mas está tudo bem com ele?
- Sim. É só uma questão terapêutica. – O médico observou a amiga com cuidado, as roupas de sempre tinham um tom mais vivo, ele sabia o motivo por trás da escolha de cores tão alegres, porém mesmo com todos os anos de convivência sempre se surpreendia com as escolhas feitas pela psicóloga.
Ela trajava uma calça rosa escuro, na cintura havia um laço feito com o próprio tecido, a peça tinha o corte reto e as bocas largas, exalava classe e charme.
A blusa de seda branca tinha as mangas cumpridas, havia um decote em V, mas não mostrava muita coisa, era exatamente o limite entre a sensualidade e a vulgaridade. Ela sempre gostava de usar o jaleco aberto, não era a maior fã do apetrecho, Flynn sabia que ela usava por pura obrigação.

-Você está bonita, ! - Sorriu divertido. - Tem haver com um certo piloto que não é mais seu paciente?

arqueou a sobrancelha e mordeu o lábio inferior, Brandon só podia estar de sacanagem com sua cara. Preparou-se para proferir vários palavrões ao homem, mas não conseguiu impedir uma gargalhada, ao ver que a expressão do médico era de puro divertimento.

-Tchau, Dr. Flynn.
-Você não está negando. - apontou perspicaz, mas não se manteve no assunto. - Qualquer coisa me chama. - O médico avisou antes de se afastar. - A mulher assentiu e viu o médico se afastar, certificou-se que não havia mais ninguém para então voltar para dentro. Michael permanecia do mesmo jeito, mas os saltos que usava nos pés, faziam barulho conforme ela caminhava, foi isso que fez com que Michael desviasse os pensamentos.
sentou novamente na cadeira e consertou a coluna.
- Michael. - Ela chamou de maneira doce. - Não precisa ter receio ou vergonha de falar comigo, estou aqui para te ajudar. Às vezes em nossa cabeça tudo parece confuso, mas quando colocamos para fora pode fazer sentido. - Sorriu. - Não precisa falar se não quiser, mas se desejar, estou aqui para ouvir.
- Eu...você acha que alguém que morreu...pode falar com a gente se quiser? Ou que as coisas? Tipo aquele filme do Will Smith em que ele conversa com o amor, tempo e morte, acha possível? - Perguntou fitando a mulher com incerteza.
-Eu acredito em muitas coisas. - não pode deixar de perceber como Michael estava voltando a ficar confuso. - Existem milhares de crenças que falam sobre isso. Quando alguém que amamos morre, algumas pessoas permanecem conversando com seus entes queridos, é útil para muitas pessoas que processam o luto. Com quem você conversou?
- Não foi só...conversar. - Michael se esforçou um pouco e se sentou na cama. - Eu juro que não sou louco, tá bem? Eu sei o que eu vi, sei o que houve. Eu estava com o Tony, Tony Render. - Michael contou e esperou ansioso pela reação da psicóloga.
-Eu sei que não é louco, Michael. Existem vários significados errôneos para essa palavra. Ela tombou a cabeça sobre o ombro. - Anthony Render? Que interessante. Como foi o encontro? - Ela levou os dedos ao queixo.

achou curioso Michael ter sonhado com Anthony Render, já que o contato que tiveram foi pouco. Dois anos atrás, em 2017, o grande piloto de F1, Tony Render, sofreu um acidente no grande prêmio de Mônaco, o americano corria pela François - Render e de maneira drástica foi a óbito deixando para trás a esposa Louise e o filho Alex. Ele foi um dos maiores da história e até hoje o mundo do automobilismo sentia falta dele, foi seu pupilo e Jacques seu melhor amigo.

- Está bem. Eu abri os olhos e ele estava comigo em Inverness, eu sou de Inverness caso não saiba. O Anthony começou a falar sobre um tempo para aprender com ele, depois me chamou para jogar futebol, jogamos futebol juntos. - Michael contava sem pausas, gesticulando muito, quase não respirava. - Então, ele quis que eu me sentasse com ele, me serviu suco e me ofereceu doce de abóbora. Inclusive, eu queria muito comer isso, se eu puder, agora.
- Doce de abóbora? - Questionou a psicóloga. - Acho que posso convencer o Brandon para liberar um pouco para sua dieta. - Michael deu um sorriso de aprovação. - Mas então conte-me sobre sua conversa.
- Ele começou a me falar do meu pai...sabe aquele livro do Dickens, que os fantasmas dele levam para o natal passado, presente e futuro? Então, ele me levou para o meu passado, para o dia que meu pai foi embora, me deixou consolar meu eu criança, mas eu que fui consolado...quer dizer, o meu eu do presente...depois disso, fomos até uma pista que eu corria, eu acho, para me ver correr de novo, depois viemos para cá, não lembro se a ordem foi essa. - Michael fez uma pequena pausa para respirar. - Aí, eu vi todos eles aqui, todas aquelas pessoas, passamos a noite aqui, ele abraçou a Louise e eu fiquei vendo como ela ficava bonita ao lado dele. Depois eu fui ao autódromo em Mônaco, ele me levou lá. Então me fez correr de olhos fechados, quando viu que eu conseguia, ele correu comigo. Foi incrível, sabe? Eu corri com o Tony Render!
- O que você acredita que o Tony representou no sonho lúcido? - Questionou pensativa. - Por que ele apareceu para você e te levou nesses lugares.

Ela questionava tentando entender, pois sabia que todo sonho lucido tinha um propósito, como se o inconsciente quisesse lhe passar alguma informação, ou liberar algo que foi reprimido. No caso de Michael, em específico, acreditava serem as duas coisas.

- A morte.- Respondeu com simplicidade. - Me deixe reformular. Ele representou a morte, mas em um sentido de renovação. Ele me disse para deixar o menino ir e permitir que o homem nascesse. Ele foi o que me conduziu, ele precisava me mostrar esses lugares, para me ensinar. Não me pergunte porquê, só sei que tive essa chance. - Contou sorrindo.
- E você aproveitou? A chance? Deixou o menino ir, conseguiu renascer.
- Eu acabei de acordar. - Falou como se fosse óbvio. - Não tive tempo ainda.
- Teve sim. - Observou a negra. - Você teve o seu sonho lúcido inteiro para isso. As escolhas que você tomou no sonho, ditarão suas escolhas daqui para frente. Quando você estava lá, no sonho, houve um momento em que precisou tomar essa decisão? De renascer?

Uma das formas de aprendizado do ser humano era através das escolhas, precisava que Michael entendesse o significado de cada momento que passou no sonho que teve, para que quando fosse a hora fizesse as escolhas que precisasse.

- É...você está simplificando, com todo o respeito. Mas tive, quer dizer, foi mais uma autorização. Deixar o tempo fluir, sem tentar controlar tudo. Mas também meio que me reconciliei com meu pai, com Anthony e comigo mesmo.
- Você acredita que o tempo precisa da sua autorização para fluir?
- Não, não mesmo. Aprendi que não. -Michael sorriu de canto. - Mas passei tempo demais acreditando nisso.
- Então você concorda comigo, que a autorização não foi para o tempo, foi para você mesmo? Para que você se autorizasse e parasse de cobrar o que, como e onde as coisas devem acontecer? Ou melhor, para sua ansiedade.

Um dos maiores questionamentos e sentimentos que afloram mediante um padrão de ansiedade era o tempo. O desejo de controlar, de modificar e de fazer com que ele passe da maneira com que o indivíduo quer, mas o tempo é totalmente incontrolável, para um ansioso essa é a maior dificuldade.

- Eu entendi como um tipo de aceitação. Como se eu aceitasse as minhas limitações, sei lá. - Disse em um suspiro. - Mas eu ainda não sei bem o que pensar, foi tudo muito rápido e aqui, eu acabei de acordar. Acho que preciso de tempo para entender tudo o que aconteceu e para acreditar no que os meus olhos viram.
- Isso é totalmente plausível. - Ela fez sinal de jóia com os dois polegares. - Mas gostaria de deixar uma reflexão, se me permite. - Ele assentiu mesmo confuso. - O tempo nunca é algo que podemos controlar, então pense e depois em outra oportunidade me diga, por que acredita que precisa ou precisava controlar o tempo?
- Você vai ser...sabe, minha terapeuta? - Perguntou inclinando a cabeça sobre o ombro.

esticou as pernas e apoiou os braços sob o encosto da poltrona. Ficou em silêncio alguns minutos para que Michael entendesse o peso da pergunta que foi feita e o impacto que aquilo traria para sua vida dali para frente.

- Isso é você quem me diz, Michael. - Ela passou as mãos pelos cabelos, tomando uma postura mais relaxada. - Você precisa tomar uma decisão, quanto ao seu tratamento, quanto a necessidade de procurar ajuda para identificar o que de fato tem acontecido com você, mas se serei eu ou não, é uma decisão sua.
- Eu sei disso...conversei um pouco com Anthony sobre esse assunto. - O piloto expirou pesadamente. - Eu já tive uma crise assim antes, dentro da garagem. Eu sei que se continuar não vou poder correr, mas eu não imagino a minha vida sem isso, sem as corridas, sem a velocidade. Eu não sei como lidar com tudo isso, mas vou precisar fazer alguma coisa. Eu já fiz terapia, é uma exigência da FR, mas não deu certo, não sei se agora seria diferente.
- A diferença sempre está na importância que colocamos nas coisas. Não adianta você fazer um tratamento, só porque as pessoas querem que faça. Você tem que fazer terapia, porque entende que precisa dela, aí as coisas serão diferentes. - Ela respirou fundo, - Anthony era um homem sábio, entendia a necessidade, mas você também precisa entender.

Fazer terapia é algo totalmente voluntário. Qualquer paciente que fosse iniciar um tratamento sem desejo real de mudança estaria investindo tempo em algo que teria um retorno mínimo. O tratamento terapêutico é uma via de mão dupla, onde psicólogo e paciente vão juntos encontrar métodos eficazes para a resolução dos problemas. O ponto chave para o tratamento de Michael era o entendimento que o trabalho dependia muito dele.

- Não me entenda mal, eu sei que é importante. Não sou um daqueles babacas que achava que terapia é para louco. É só que eu já tentei com alguns, na adolescência e depois que entrei na FR, mas nunca deu certo. Talvez só tenha tido terapeutas ruins, ou não sirvo para isso. - Michael suspirou.
- Todo mundo serve para terapia. - conseguia enxergar o receio que exalava de Michael, como se não conseguir frequentar a terapia fosse um divisor de águas a respeito de sua carreira. - Mas você não precisa decidir nada disso agora, analise suas questões, converse com seus amigos, mas entenda que quanto mais rápido decidir, mais rápido começa a se tratar, mais rápido vêem os frutos. - Sorriu. - Mas termine de me contar, depois que correu com Tony, o que mais viu?
- Eu vi meu pai...melhor dizendo, vi meu pai como a representação dos meus medos, do medo, principalmente, de repetir o que ele fez. - Michael continuou depois de algum tempo em silêncio, pensando sobre a proposta da mulher. - Depois vi um amigo, ele era a representação do tempo, te contei sobre isso. E então, encontrei o Anthony de novo e tudo acabou. - Michael finalizou.

Já se sentia desconfortável, não conhecia a mulher à sua frente e, se tudo fluísse como ele imaginava que fluiria, logo estaria contando toda sua vida a ela. Aquela ideia o assustava, Michael sempre tivera a máxima de que conhecimento é poder, assim, quanto mais conhecimento alguém tivesse a seu respeito, mais poder sobre ele aquela pessoa teria.
nada disse por alguns longos segundos. Analisava as falas de Michael. Era incrível o relato que ele lhe transmitia. Durante sua carreira teve alguns pacientes que presenciaram a experiência, Michael, porém foi diferente. Os detalhes e o lugar que foi, pareceu ter um significado extremo para ele. nunca se cansava de ser surpreendida pela maneira como o aparelho psíquico trabalhava, por isso amava demais o que fazia.
Aquele homem em sua frente, teve um experiência extraordinária e que poucos tinham, as oportunidades estavam sendo jogadas em sua frente, mas diferente de como acontecia em outras ocasiões, estava sendo destrinchada é mostrada a ele, exatamente o que fazer e quando fazer.

- Você tem uma experiência impressionante, Michael. - constatou após algum tempo. - A maneira como tudo foi abordado no seu cérebro é impressionante. A morte, o medo, o tempo. Como esses três fenômenos se manifestaram a você, através de pessoas que você gosta muito, que conhecem a sua história e que conseguiram abrir os olhos para algo que estava ao seu redor. 3 fenômenos que tem total ligação com a ansiedade que muitas vezes te paralisa, que te faz ter medo, que te fazer se lembrar da morte, que te fazer querer controlar o tempo. E no meu ponto de vista, o mais interessante é que eles se revelaram a você para te mostrar, que na verdade, a gente quando não se conhece, não tem controle de nada. Para que possamos assumir o controle da nossa vida, das nossas escolhas e atitudes, precisamos saber quem de fato somos.
- É. - Michael sorriu sereno e apertou os lábios. - Eu tive uma ótima chance. Não vou desperdiçar o que aconteceu.
- Não devia mesmo, poucos têm a oportunidade que você teve. - Ela deu um sorriso aberto e se levantou. - Acho que você precisa descansar mais um pouco, comer alguma coisa. Eu vou indo, mas estarei por aqui, qualquer coisa que precisar é só chamar que eu venho correndo.

Michael sorriu fechado e assentiu, se despedindo da mulher. Realmente precisava descansar, sentia como se não dormisse a dias, e ao menos para ele, havia mesmo passado a noite acordado.


XXX


saiu do banheiro após um belo banho, apesar de a água quente ter massageado seus músculos, ela não sentia que o cansaço havia se esvaído.
Seus músculos latejavam em todos os órgãos do corpo e sabia que só conseguiria de fato relaxar, quando Michael recebesse alta, que ela retornaria a sua casa e dormiria tranquilamente.
Graças a Deus, o piloto já estava bem e com alta prevista para a manhã seguinte, pensar nisso lhe causava alívio, pois não gostava de ter pacientes hospitalizados, ainda mais os que tinham vínculo com seus amigos, como Michael tinha com Louise e .
A psicóloga terminou de secar água do corpo e caminhou até sua mala, tirou de lá um pote de creme hidratante e também uma camisola rosa de seda, gostava de dormir com roupas confortáveis.
Voltou para a cama e sentou na beirada, apoiou a perna direita no colchão e colocou um punhado de creme nas mãos, espalhou o conteúdo pela perna e iniciou a hidratação, após terminar passou para a outra perna, braços até finalizar o corpo todo. Depois colocou sua camisola e então jogou o corpo com força para trás, sentindo a maciez do colchão.
O telefone que estava no criado mudo vibrou, captando a atenção de , havia desligado sua atenção do aparelho a muito tempo, prova disso era a quantidade de notificações na tela. Instagram, WattsApp, Twitter, duas ligações perdidas de seu irmão.
Franziu o cenho com a informação, Alphonso quase não ligava, geralmente quem fazia o contato por vídeo, o mais novo era mais adepto as mensagens, por vezes ela quem insistia em vê-lo pela câmera, já que a rotina dos dois era extremamente conturbada e mal se viam pessoalmente.
Alphonso era mais novo que quase dez anos, os dois eram africanos e refugiados, já que nasceram em um campo na Nigéria. Da família biológica só os dois estavam vivos, os pais faleceram cedo e ambos acabaram sendo adotados. criou o irmão e tem muito orgulho do homem incrível que ele se tornou, optou por investir no futebol e se tornou um ótimo jogador, hoje ele atuava pelo Bayern de Munique, um time da primeira divisão do futebol alemão.
A negra desbloqueou o telefone com o IdFace e antes de qualquer coisa retornou a ligação de Alph, certa preocupação invadiu seu peito, para ele ter ligado alguma coisa havia acontecido. Esperou com o telefone erguido e escutou todos os toques que rajaram pelo aparelho, mas nada dele atender.
Apertou o verde mais uma vez e a chamada se repetiu, chamou até cair, mas o que é que estava acontecendo?
Ainda não convencida a desistir, foi até o aplicativo de mensagens, abriu a conversa com o irmão e se preparou para enviar uma mensagem, apertou o dedão no microfone e deslizou para cima, iniciando a gravação de áudio.

“Alph, vi que me ligou e desculpe por não ter atendido. Te retornei, vou ficar esperando você me ligar. Beijos, te amo! “

Ela não tinha intenção de dar confiança para as outras mensagens, mas havia uma em especial que lhe chamou atenção, era de Jordyn Huitema, namorada de Alphonso. As duas não eram as mais próximas do mundo, já que Jordyn também era atleta e o tempo não permitia, mas sempre que era possível as duas conversavam um pouco e se viam. Abriu a conversa da cunhada e se assustou com a mensagem.

, você já falou com seu irmão? Ele me disse que está bem, mas sei que ele se abalou. “
enrijeceu o corpo confusa, mas que diabos aquilo significava? Digitou uma mensagem para a outra perguntando o que havia acontecido, mas só teve um pauzinho, sinal que ela sequer havia recebido o conteúdo. Ainda preocupada, fez a única coisa que poderia, ligou para a cunhada, e assim como com Alphonso, não foi atendida.
Ainda curiosa decidiu abrir a internet, para ver se havia alguma notícia extrema do irmão, já que jornalistas viviam atrás dele e divulgavam qualquer ação que o mesmo praticava, por mais simples que fosse. Digitou rapidamente o nome dele e vários links carregaram de forma rápida, o título do primeiro a fez franzir a testa, um calor percorreu seu corpo e a fúria tomou conta de seu corpo por completo.
Que porra!
Clicou no link e mordeu o lábio por causa da ansiedade que estava sendo gerada, por causa da demora em carregar a página, mas assim que abriu por completo ela quis socar o telefone, tamanha indignação que ferveu em seu sangue.

Alphonso é vítima de racismo ao aparecer em foto com namorada branca

rolou o dedo para baixo procurando o restante da matéria, mas no instante que iniciou a leitura jogou o telefone com força na cama. Cerrou os punhos sentindo as unhas fincarem em suas palmas, até quando aquilo permaneceria acontecendo?
Racismo é um sistema de opressão e, para haver racismo, deve haver relações de poder. Negros não possuem poder institucional para serem racistas. A população negra sofre um histórico de opressão e violência que a exclui.
Mesmo com o passar dos anos, mesmo com a inovação de sistemas sendo implantados, nada mudava.
As pessoas continuavam se importando com a cor da pele. Com o significado que a pele mostra. sentiu seus olhos lacrimejarem, doída pelas palavras que lera, pela dor que imaginou que o irmão sentiu, de como queria poder impedir que o mesmo vivesse o que ela já viveu.

O jogador Alphonso , do Bayern de Munique, foi vítima de racismo nas redes sociais depois que a namorada do futebolista, a atleta do Paris Saint-Germain Jordyn Huitema, postou uma foto do casal.
Nela, Alphonso e Jordyn aparecem em um momento de descontração na ilha de Ibiza, na Espanha, durante um passeio de lancha. Contudo, diversos comentários de cunho racista podem ser vistos na publicação.
“Seus ancestrais te odeiam por jogar fora milhares de anos de genes brancos puros” e “você vai virar uma mãe solteira de um nojento bebê sujo”, foram algumas das frases deixadas.


mais uma vez jogou o telefone longe, dessa vez não o pegou novamente. Não iria permanecer lendo aquilo, não iria destruir seu estômago lendo coisas tão intragáveis, tão desastrosas. se perguntava como as pessoas conseguiam defecar pela boca dessa forma, como um ser humano é capaz de abrir a boca e falar tanta asneira.
O pior mal da humanidade é o próprio ser humano.
Quem não era negro, jamais entendia o que eles sentiam, para piorar ainda estava na época dos dizeres racismo reverso, que os negros cometiam racismo com os brancos. Como se aquilo fosse possível. Jamais era plausível aquela ideologia, a começar pela história.
Para haver racismo reverso, deveria ter existido navios branqueiros, escravização por mais de 300 anos da população branca, negação de direitos a essa população.
Brancos são mortos por serem brancos? São seguidos por seguranças em lojas? Qual é a cor da maioria dos atores, atrizes e apresentadores de TV? Dos diretores de novelas? Qual é a cor da maioria dos universitários? Há uma hegemonia branca criada pelo racismo que confere privilégios sociais a um grupo em detrimento de outro.
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela, não permitiu que outras seguissem o caminho, então secou. Já havia derramado lágrimas demais por tudo que sofreu, pelas palavras e ações que recebeu por quase toda a sua vida.
Mas Alphonso não! Saber que seu amado irmão estava passando por aquilo, a destruía. Como se cada célula de seu corpo fosse esquartejada lentamente. Em seu interior sabia que não tinha como proteger o irmão daquilo, que cedo ou tarde essas manifestações começariam, mas em seu coração, gostaria de poder blindar o irmão daquele sofrimento que era totalmente injustificado.
O sofrimento injustificado é o sofrimento que não pode ser justificado por nenhum argumento racional ou instrumental. Certas formas de discriminação como a separação de banheiros masculinos e femininos, por exemplo, ou a exigência de habilidades específicas para disputar certas funções podem ser justificadas, enquanto a discriminação racial não tem nenhuma razão objetiva além do próprio racismo.
Do prazer em ferir a outra pessoa. Da necessidade sádica de rebaixar a honra do outro, reduzindo qualquer estima e confiança a zero.
Como profissional da saúde mental, , entendia que o conjunto de emoções sentidas por pessoas como, naquele momento Alphonso, vão desde emoções reativas como a indignação, tristeza, a raiva até emoções de caráter cognitivo mais forte, pois envolvem um juízo acerca do tipo de consideração que será dada ao ato, como o perdão.
Ela precisou aprender a lidar com suas próprias emoções no decorrer de sua vida, sua força vinha das cicatrizes que guardava de momentos muito dolorosos.
Batidas na porta captaram sua atenção, ela passou mais uma vez as mãos sobre o rosto antes de verificar quem era. Procurou pelo quarto seu robe, não iria atender e porta naqueles trajes, avistou a peça sobre a poltrona perto de sua mala, caminhou até lá e então rumou para a porta.
Antes de abrir ficou na ponta dos pés e olhou pelos olhos mágicos para descobrir quem estava lhe procurando. Tomou o maior susto ao identificar a figura do irmão mais novo. Ele deveria estar em Ibiza com Jordyn. Destrancou e abriu a porta.

-Alph! - O mais novo rolou os olhos com aquele apelido, detestava que a mais velha fizesse o uso dele. - Não adianta me olhar com essa cara, eu vou te chamar assim para sempre.
-Não vou gastar minha saliva com você mais, já te disse trilhões de vocês, que eu odeio esse apelido. - Rosnou o lateral, ele não gostava mesmo, parecia que a irmã estava o chamando de Alce, o animal cervídeo com chifres e dois metros de altura.
-Olha minha cara de preocupação, Alph! - fez sua melhor expressão de cara de paisagem, sempre usava no consultório em terapia.

Ela abriu os braços para que o mais novo se encaixasse em seu corpo. Ele rodeou a cintura dela e a mesma rodeou seu pescoço, deram início a um abraço longo, somente pela forma como o jogador de futebol a abraçava, sabia que não estava tudo bem.
Ambos se afastaram e a psicóloga deu espaço para que ele entrasse. O negro trajava roupas simples, moletom preto, calça jeans e tênis. Ele não tinha o hábito de vestir roupas muito extravagantes, mas de maneira nenhuma era tão simples como naquele momento.
Ela o olhou e Alphonso sorriu, mas mesmo com os lábios estirados em um sorriso, conseguiu identificar traços de tristeza em seus olhos.
Estavam opacos e secos, sem qualquer brilho ou vida, feições que viu muito dentro do campo de refugiados, principalmente nas mulheres que eram constantemente violentadas pelos soldados.
Pela milésima vez naquela noite, a psicóloga sentiu o coração se comprimir.
Notas resquícios de tristeza nos olhos de alguém que amava tanto, era pavoroso.

-Você é insuportável. - O jogador balançou a cabeça negativamente. - Como está tudo por aqui? - Questionou caminhando até a cama.
-Está uma correria danada, um piloto teve um episódio e precisou ser hospitalizado. - Suspirou. - Precisamos ficar mais na cidade e isso está me deixando exausta.

sentou na cama ao lado do irmão, observando enquanto o mesmo retirava os tênis.

-Sinto muito por isso, mas agora já está tudo controlado?
-Graças a Deus, ele está com alta prevista para amanhã, mas não vou conseguir descansar, vou para Mônaco com Brandon, tenho uma reunião enorme para planejar. - Durante essa correria do dia acabou se esquecendo que precisava planejar a pauta da reunião, só de imaginar o trabalho que aquilo daria, sua cabeça doía.
- , não se esqueça de descansar, você precisa repor suas energias, não deixe seu sistema dar pane. - Advertiu o mais novo e o coração de se entupiu de orgulho, aquelas palavras ela disse ao irmão meses atrás, pelo visto ele havia absorvido.
-Não vou, prometo! - Beijou os dois dedos indicadores, como se formasse uma promessa. - O que está fazendo aqui? Não deveria estar em Ibiza?

Alphonso ficou em silêncio observando a expressão da irmã, conhecia todas as feições que cruzavam o rosto dela desde a surpresa ao amor, todavia, a que mais o irritava era a que estava estampada no rosto dela naquele exato momento.
O significado era: Eu já sei, não adianta mentir.

-Eu odeio quando você faz essa cara. - Respirou fundo. - Eu não consigo sequer montar uma desculpa decente, pois sua cara de psicóloga fodona me desconcentra.
-Mas eu sempre sei, eu só quero que me conte. - Alphonso inclinou o corpo para frente, repousando os cotovelos nos joelhos. - E eu sei que veio aqui me contar algo.
-Como sabe? Não sabia que psicólogos leem mentes. - Gozou e a irmã lhe estapeou o braço.
-Você detesta ligações e me ligou duas vezes seguidas, e já tinha me ligado antes da corrida para marcar o jantar, cota máxima quinze dias. - Ergueu dois dedos como ilustração. - E você está aqui? Saiu de Ibiza e veio parar no meu hotel. Se isso não é querer falar, não sei o que é.

Alphonso emitiu um gemido frustrado e coçou a nuca, procurando um meio de se comunicar. consertou o corpo na cama, apoiando os braços para trás firmando seu corpo.
Não tinha pressa para que o irmão falasse, estava acostumada a lidar com o silêncio, para a maioria das pessoas era algo constrangedor, mas em meio ao silêncio tantas coisas eram ditas.
Alphonso sentiu o corpo pesar baqueado pelo cansaço. Seu primeiro desejo após ler todos os comentários na foto que a namorada postou, era o colo da irmã. era a pessoa que mais lhe transmitia confiança, em meio a todo mar agitado ela era sua calmaria.

- Mas você realmente já sabe? – Levou os dedos ao cabelo, mexendo nos cachos crespos na ponta.
- Sei. Eu não vou perguntar como você está. - Alphonso jogou o corpo para trás na cama, alinhando o mesmo ao lado do da irmã, que imitou seu gesto.
- Eu já sofri racismo antes, a vida toda, mas dessa fez foi pesado. Falaram da minha namorada, que ela seria mãe solteira, que eu a abandonaria. – Comentou. – Eu não estou sabendo reagir.
- Onde ela está?
- No hotel. Eu disse que precisava dirigir um pouco, para espairecer a mente. Quando eu assustei já estava entrando em Barcelona, para vir até você.
- Vamos avisar ela que você está aqui, se não ficará preocupada. – A mais velha virou o corpo no colchão, ficando de frente para o irmão, apoiando a cabeça no cotovelo. – Eu ainda consigo me lembrar da primeira vez que fui ferida pelo racismo dentro da minha profissão.

Alphonso virou o rosto para olhar a psicóloga.

- Eu estava indo para o hospital, era meu estágio. Eu lembro que tinha lavado meu cabelo e ele estava volumoso, cheio de vida. Cheguei ao hospital e me apresentei na portaria, a médica que me acompanharia era loira, quando me olhou, disse: Onde você pensa que vai com esse cabelo? No meu hospital, você não entra, prende essa vassoura. Foi como se tivesse levado uma surra, rapidamente fiz um coque no meu cabelo para que eu entrasse e conseguisse o estágio, para formar. – Explicou com um sorriso triste. – Foi um dos piores dias da minha vida, foi quando percebi que minha trajetória não seria fácil, mas depois que chorei até dormir, foi quando eu decidi que ali era meu lugar.
- Por quê, , por que precisamos passar por isso? Qual a necessidade das pessoas nos agredirem por causa da cor da minha pele? O que eu fiz para essas pessoas? – O mais jovem tinha os olhos marejados e o semblante triste, a voz baixa denunciava o pequeno desabafo.
- Você não fez nada, meu amor. Existem pessoas que não tem o menor sentimento de empatia, não entendem como funciona. A cor da sua pele não diz nada, você é o que é aqui. – Levou o dedo indicador ao coração do irmão. – Você é o que as pessoas que te amam acreditam.

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Alphonso, abriu o braço direito para que o irmão deitasse em seu peito, o jovem ergueu o pescoço e então se aninhou no corpo dela.

- Eu estou me sentindo um idiota por estar abalado com isso. Um dia para de doer?
- Não. Mas um dia você aprende a administrar, a responder e até sentir pena dessas pessoas.
- Eu queria saber o que fazer.
- Viva, Alph! – mexia nos cabelos dele. – Ame, realize seus sonhos, acredite em si mesmo. É assim que vencemos o preconceito. Quando entendemos quem somos, quando as palavras dos outros perdem o poder. Eu parei de sofrer, quando entendi que é um problema das pessoas. Que eu sou a , e sempre vou ver. O que eles pensam de mim, não pode mudar o que eu sou.
- Eu fico pensando na Jordyn. Eu sinto muito por ela precisar ouvir essas coisas, pois por mais que eles falem de mim, ela também é atingida. E eu amo tanto ela, detesto saber que ela sofre. - detectou na voz do irmão o medo, talvez do fim do relacionamento, de que a namorada não suportasse tamanha situação.
-Você não tem esse direito, Alph! - Protestou a irmã, o mais novo franziu o cenho sem entender. - Não coloque a Jordyn como vítima de uma história que ela não é. Ela não é a maior afetada aqui, você é. Ela é branca, jamais soube o que é sofrer discriminação pela cor da pele.
- Mas ela sofre por mim, eu vi isso.
- Eu sei que ela fica magoada, ela te ama. - Sorriu. - Mas não é ela quem precisa ouvir, é você. É do seu cabelo, da sua pele, da sua roupa, da sua origem. Não é ela quem é atingida, é você.

O jogador levantou-se do colo da irmã e a encarou perplexo, estava chocado com a fala dura de em relação a namorada.

- Isso é cruel. Do jeito que fala parece que eu não devo me importar com ela.
-Não, não é isso! - Sentou na cama e pegou as duas mãos do jovem para si. - Estou dizendo que eles se colocam como vítimas, os brancos, que eles quem são atingidos por estarem perto dos pretos. Por serem obrigados a conviver com uma raça inferior. Quanto você disse que está triste por que ela sofreu, está colocando ela em um lugar que é seu, que é nosso. - Bateu no peito - Eu já fiz muito isso, meu amor, senti pena dos outros, acreditando que mereciam algo, por sofrerem com alguma resposta ou palavra, mas a verdade é que quem sai ferido, machucado, com cicatrizes na alma, somos nós. - Ela levou uma das mãos ao rosto dele, iniciou um carinho com o polegar. Comovido pelo gesto, Alphonso não conseguiu evitar o pranto que rolou sobre sua face.
-Eu não... eu ... Só não queria ouvir que meus filhos serão sujos, aqueles insultos, palavras de tanta ofensa. - Alphonso chorou copiosamente. - Está doendo, Fayo! Está doendo muito. - Sussurrou em meio às lágrimas, abraçou o irmão.
-Eu sei que está. Dói mesmo, destroça a gente por dentro, fere nossa alma. Os apelidos, as brincadeiras, as piadas. As vezes em que somos tratados como se não fôssemos nada, mas sabe qual a parte incrível dessa história? - Ela afastou-se do irmão, para olhar em seus olhos marejados. - A gente supera. - Vai doer tanto, mas tanto, que sua alma vai sangrar. Sua alma vai ser ferida, despedaçada, você vai acreditar que é impossível superar. - Ela secou uma lágrima da bochecha dele, abriu um enorme sorriso lhe oferecendo conforto. - Mas o mesmo motivo que faz com que as pessoas te discriminem, é o motivo que vai lhe trazer forças.

Alphonso não desviava seus olhos da irmã mais velha. Conseguiu sentir a emoção das palavras dela, da força que suas expressões transmitiam e acima de tudo da superação que era capaz de enxergar no fundo de seus olhos.

-A cor da minha pele?
-Sim. Quando você olhar para a história do seu povo. Da sua vida, família e ancestrais, quando você entender a nossa origem, vai entender que nascemos para ser fortes. - Bateu no peito carregado de orgulho. - Eles podem dizer o que quiserem, pensar o que quiserem, nada muda quem a gente é. Quem nós nascemos para ser.
- Eu não quero viver isso, não quero que meus filhos passem por isso. - Resmungou.
-Eu também não quero. Por isso eu luto, por isso defendo meu povo, para que quando meus filhos nascerem, talvez o mundo esteja melhor para eles.
- Isso é tudo surreal. - Passou as mãos sobre a face, secando as lágrimas e deu passos para trás. - Eu espero que um dia consiga entender o motivo deles.
-Não precisa entender, Alph! - A negra caminhou até o bar, ainda tinha um pouco do Bourbon que ganhou de Antonella, precisava saborear uma boa bebida naquele momento. - Melhor que entender, sempre é sobreviver. Nós somos sobreviventes. Me escondi por muito tempo, acreditando que eles eram melhores que eu, o dia que entendi que eu seria quem eu quisesse, ninguém jamais me parou. - Ela serviu a dose no corpo e andou até a janela, observando a vista da noite espanhola.

Bebeu um pouco do líquido e sentiu ele rasgando sua garganta e aflorando sua memória, tantos pensamentos e experiências que tinha adquirido ao decorrer da vida, gostaria que todos os negros do mundo soubessem o que ela sabia, sem precisar sofrer o que ela sofreu, porém, entendia a necessidade de cada um construir sua história.
Alphonso precisava de erguer, caminhar com suas próprias pernas e entender quem era através dos tropeços e sofrimentos que teria, sairia mais forte, totalmente inabalável.

-Eu tenho orgulho de ser seu irmão. - Observou o jovem, virou-se para olhá-lo e então bebeu um pouco da bebida.
-Eu tenho tanto orgulho, Alph! Nossos pais também estariam entupidos de orgulho. - Sorriu, Alphonso tornou a se aproximar e abraçar a irmã, agradecido a Deus por ter aquela mulher em sua vida, como parte de sua família. - Amo você.
-Eu também te amo. - Lhe beijou a testa.
-Eu sempre vou estar aqui por você, em qualquer momento, mato e morro por você. - Desceu uma lágrima, porém, secou. - Acho que você deveria voltar para sua namorada, com toda certeza, está preocupada com você.
-Eu vou, mas antes, me diga. O que aconteceu com a médica do seu primeiro estágio, teve notícias dela?

Antes de responder ela abriu um sorriso enorme, virou o conteúdo do copo em um só gole.

-Eu estudei muito, me esforcei dia e noite. Me formei e me tornei chefe no hospital em que ela trabalhava. A preta do cabelo de vassoura, virou chefe.


XXX




14 de Maio


O sol incomodava os olhos e esquentava a pele, Michael sentia a nuca e as costas suadas, atazanado com a sensação desagradável, ele abriu os olhos e se espreguiçou. Devia ser algo perto das dez horas da manhã, Jacques havia passado a noite com ele, mas saíra cedo para fazer as malas.
Michael decidiu dormir mais um pouco, fechou os olhos, cobriu o rosto com o antebraço e empurrou os lençóis para os pés. Não teve êxito, logo ouviu a porta ser aberta e alguns cochichos fizeram seus tímpanos coçarem.

- Não estão falando baixo o suficiente, ainda posso ouvir vocês. – Disse zangado sem abrir os olhos.
- Desculpe. – Louise e riram juntos.
- Como você está hoje? – quis saber se aproximando.
- Suado, com calor, com fome e com sono. – Listou emburrado.
- É, você não está cheirando muito bem. Tomara que te deixem tomar um banho hoje. – Louise provocou inclinando o corpo sutilmente sobre o leito, fingindo torcer o nariz.
- Quem deixou essa mulher entrar aqui? – Michael arqueou uma sobrancelha e franziu o cenho enfezado.
- Eu não preciso de permissão. – Louise deu de ombros. – Conversei com Brandon, ele acha que você deve receber alta hoje. Já providenciei tudo, voltaremos todos de jatinho para Mônaco.
- Que chique. – Michael sorriu.
- Lance precisou voltar antes, mas mandou um abraço para você. Disse que encontra você em Mônaco. – contou.
- Que bom. – Michael assentiu. – Eu ouvi alguns boatos, parece que não posso me estressar. Acho que vou ter que sempre ir e voltar de jatinho em todas as corridas.
-Mas que folgado. – Louise acusou.
- Ele voltou! – comemorou levantando os braços.

A atenção dos três foi capturada pelo som dos passos de Brandon que caminhava em direção a eles com os olhos presos em uma prancheta. O médico trajava um jaleco branco e tinha um estetoscópio preso ao pescoço pelas hastes de cima. Os óculos no rosto davam um ar de seriedade ao homem, algo que sempre arrancava piadas de , já que ele não tinha nada de um homem sério.

- Bom dia! - Cumprimentou. - Estão todos bem?
- Bom dia. - Louise respondeu e sorriu fechado.
- Oi. Eu estou com calor, suado. - Michael alarmou.
- Eu vim para te liberar e poder resolver seu problema. - Cruzou os braços sobre a prancheta que segurava. - Peço desculpas em nome da Dra. , ela teve um imprevisto com o carro, talvez não chegue a tempo de estar presente. - Tossiu um pouco e ajeitou os óculos com o dedo indicador. - Você tem alguma queixa para fazer? Sente alguma coisa?
- Não. Eu estou bem. - Michael suspirou. - Só preciso mesmo sair daqui, tomar um banho gelado e comer um boi.
- Como? - encarou o escocês com o cenho franzido.
- Rúcula. Uma salada de rúcula com soja. - Michael corrigiu sem olhar para ele.
- Fico feliz que tenha se corrigido. - Brandon sorriu. - Por falar em alimentação, a , me pediu para lhe entregar algo. - Retirou do bolso direito do jaleco, um pote de vidro pequeno, nele tinha um conteúdo meio laranja, ninguém na sala conseguiu identificar o que era. O médico se aproximou do ruivo e lhe entregou o pote em mãos. - Só não exagere, a alimentação é muito importante para ter controle da nossa saúde, mas segundo a , foi um presente que veio de outra vida para você.
- Ah! - Michael exclamou com os olhos brilhando. - Eu não acredito nisso! - Comemorou abraçando o pote com os olhos fechados.
- O que é isso? - quis saber.
- Doce de abóbora. - Michael contou girando a tampa e pescando um pedaço. - Ah, eu esperei tanto por esse momento. Não acredito que ela lembrou.
- Ela sabe como conquistar as pessoas -Flynn sorriu orgulhoso da companheira e amiga. - Sem qualquer queixa? Dor, náuseas, tontura?
- Não, eu só quero um banho mesmo. - Disse com a boca cheia. - Eu tenho algu …

Batidas soaram na porta.

- Licença. - A voz de rolou no quarto e todos olharam para porta, onde só a cabeça da psicóloga estava dentro do quarto. - Posso entrar?
- Eu não acredito que você lembrou-se do meu doce. - Michael gargalhou. - Eu sei o que está fazendo. Parabéns, agora você me tem.

Seu corpo se fez presente e foi impossível não notar a relevância que sua pessoa trouxe ao ambiente. Ela estava com um macacãolongo na cor vermelha, lembrava o tom de sangue, algo totalmente perfeito quando colocava em pauta o tom de sua própria pele.
Na cabeça os cabelos volumosos estavam presos em um rabo de cavalo, porém, estavam envoltos por um lenço que tapava toda a sua cabeça, um apetrecho totalmente diferente, mas que era uma marca registrada da negra, ela enxergava naqueles lenços e turbantes, uma maneira de estar mais próxima de seu povo.
O tom do vermelho foi quebrado pelo jaleco branco, que ela trajava sobre o corpo, algo totalmente comum nos agentes de saúde.

- Então agora, você é oficialmente meu? - Perguntou ao piloto, seus olhos, porém estavam fixos em Louise.
- Inteirinho. - Michael provocou cruzando os braços sobre o peito, endireitando a coluna e lançando a ela um olhar sedutor.

Louise e observavam a cena perdidos, tinha a testa enrugada e cabeça inclinada sobre o ombro, Louise encarava o chão e tinha os lábios numa linha fina.

- Ótimo, gosto de prioridade. - Ela estava retirando um anel e colocou no bolso do jaleco, obviamente se esqueceu da peça. - Como você está se sentindo hoje, Michael?
- Suado, foi uma noite agitada. - Ele piscou. - Mas estou de bom humor depois desse doce.
- Nossa, você é todo oferecido, não é? - riu.
- Isso é bom. - colocou as duas mãos no bolso, e deu alguns passos para frente, se aproximando da cama. - Sinal que não teremos problemas, se por acaso viermos a nos ver com frequência não é, Michael? - Piscou marota.
- Olha ela. - Michael riu abafado e balançou a cabeça. - Já quer sentar na janela, eu sei aonde você quer chegar. Não teremos problemas se quiser tomar uma cerveja comigo, quanto à terapia, tenho que pensar. - Piscou ladino.
- Quem foi que falou em terapia? Teoricamente vamos nos ver, já que eu trabalho na FIA e você também- Arqueou a sobrancelha. - Saiba que eu prefiro vinho, se por acaso quiser beber comigo.
- E quanto a alta? Temos um jatinho pronto para voltar para Mônaco. - Louise falou de repente atraindo atenção do grupo.

riu observando a amiga.

- Dr. Flynn, já fez suas considerações? - Questionou ao médico.
- Estava indo fazer isso quando você chegou. - Olhou a prancheta. - Michael, fico feliz que esteja se sentindo melhor, mas preciso solicitar algumas restrições. Nos próximos dois dias evite situações estressantes, situações que vão lhe causar desconforto emocional, quando sentir dúvida sobre algo, não faça, é importante pensar em você primeiro. Se alimente bem, durma bem, pelo menos 12 horas por noite. Isso aqui é uma receita. - Desprendeu o papel da prancheta e estendeu a Michael, ele, porém não segurou, Louise tomou a frente e pegou o papel em mãos. - Tem um remédio para ansiedade, é importante começar a pensar nos medicamentos, porém como não sou seu médico, escrevi alguns profissionais de alta qualidade para te atender, se assim preferir. É de extrema importância que você pense sobre isso.
-Ele vai, vamos acompanhar isso de perto. - Louise garantiu e Michael baixou a cabeça depois de sorrir sem mostrar os dentes para o médico.
- Michael. - disse e ele ergueu seus olhos para ela.

A psicóloga passou por e se posicionou ao lado do ruivo em sua cama.

- Muitas informações, isso tudo é demais não é? - Ele assentiu.
- Para um caralho. - Disse sorrindo.
- Mas eu preciso que você tenha um pouco de atenção nos sintomas que eu te falar, acha que consegue? - Pediu educada.
- Claro. - Michael cantarolou depois de respirar fundo e trincar os dentes. - Acho que isso eu ainda sei fazer.
- Eu tenho certeza que sim. Os mais importantes são: Alterações do sono, tensão ou dor muscular, falta de concentração, dificuldade para relaxar, dor na nuca, no pescoço e rigidez muscular, problemas de hiperatividade mental; sensação de tontura e desmaios; tremor nas mãos e nos pés; problemas de estômago; desajustes intestinais; sudorese excessiva; náuseas e vômitos; dores de cabeça;inquietação;diarreia.
- Pouca coisa. - Michael resmungou.
- Eu sei que não é. - tirou do bolso do jaleco um papel dobrado. - Anotei todos eles, caso sinta mais de três desses sintomas ao mesmo tempo, chame alguém. Qualquer pessoa, se não tiver alguém por perto, me liga, eu vou sair de onde eu estiver, seja com quem for, para ir até você.
- É, ela faz isso mesmo. - riu.
- Posso contar que não vai permanecer sozinho?
- Quando for para Mônaco, vou te levar para conhecer a minha casa. Eu não fico sozinho lá nem se quiser. - Sorriu de canto. - Pode deixar, . Meus fiéis escudeiros vão estar comigo.
- Vai ser um prazer conhecer sua casa. - Ela sorriu animada, sentia que Michael estava mais maleável e aberto, e mesmo que isso não fosse um indicativo que ele iria de fato iniciar um tratamento com ela, era pelo menos um sinal que ele estava melhor. Isso bastava. - Vocês tem alguma dúvida? - Olhou para e depois para Louise.
- Não, por enquanto não. - Louise sorriu educada. - Se precisar, sei onde te encontrar.
- Só não esqueça a bebida dessa vez- Piscou e se levantou da cama de Michael. - Mais alguma coisa, Flynn? - Questionou ao amigo.
- Se cuide, Sr. Madden. - O médico olhou para o ruivo, se aproximou e esticou a mão para o piloto apertar. - Está aqui os papéis de sua alta. - Assinou e retirou do bolso um carimbo, colocando sobre sua rubrica, esticou para o homem o papel. - Você está liberado.
- Ah...okay. Adeus. - Michael se despediu sem jeito.
- Apesar das circunstâncias, foi muito bom rever vocês. - andou primeiro em direção a Louise e tomou a amiga para seus braços, depositando um beijo estalado em sua bochecha. Logo após, andou até que estava ajudando Michael com suas coisas. - Até mais, . -

O homem a olhou com cuidado e sorriu vendo que o braço direito dela estava aberto, lhe oferecendo um abraço. Sorriu de canto e abraçou a mulher, colocando seus braços firmes ao redor de sua cintura, inalando com firmeza o cheiro de lavanda de seus cabelos. percebeu como o toque de tinha reação em seu corpo, por isso tratou de se afastar. Trocou um rápido cumprimento de mãos com Michael e junto com Brandon saiu da sala.


XXX


Ao assistir a psicóloga deixar o quarto, resolveu tomar, enfim, a atitude que tanto protelava. Devia seguir em frente, devia se movimentar e dar sequência a sua vida. Por isso, rumou a passos rápidos atrás de , que a essa altura já estava no corredor.

- . - Chamou atraindo a atenção da mulher que voltou-se para ele e parou de andar, permitindo que ele a alcançasse. - Será que nós dois podemos conversar?
- Oi, . - Ela sorriu. - Claro, vamos à sala dos médicos, eu realmente preciso pegar minhas coisas lá. - Ela deu um passo para o lado e se juntou a ela na caminhada, estavam a poucos passos do local. - Aconteceu alguma coisa? - Era inevitável não se preocupar, principalmente com o histórico que os envolvia.
- Não. - Respondeu rápido. - Sim, quer dizer. Sim, aconteceu. - sorriu se corrigindo.
- Então venha, vamos conversar. - Ela destravou a porta com o cartão magnético que tinha grudado no crachá que estava preso ao bolso do jaleco. Abriu a mesma e deu passagem para que o piloto entrasse primeiro, assim que passou pela porta, fechou a mesma. - Senta, . Fique à vontade.
- O que eu tenho para falar é bem rápido, não preciso me sentar. - Ele disse. - Eu tenho pensado...tudo isso que aconteceu me mostrou algumas coisas. Eu acho que cansei de insistir em certas coisas, me cansei de perseguir alguns objetivos que não vão me levar a lugar algum. - Contou em um suspiro aliviado. - Eu quero buscar, perseguir coisas que me completem e que me impulsionam para frente, entende?
- Entendo. É um passo importante. - Ela assentiu com a cabeça. Deu alguns passos para o lado, escorando o corpo na mesa que estava atrás de si, colocando o peso sobre os saltos em seus pés. - Estamos falando de que coisas? Exatamente.
- Sobre a vida. - sorriu colocando as mãos nos bolsos e arqueando as sobrancelhas. - Eu prestei atenção nas coisas ao meu redor, na vida acontecendo. Eu não quero tentar ocupar espaços de ninguém, quero construir meu próprio espaço. Já faço isso profissionalmente, quero fazer em outros âmbitos da minha vida também.
- Profissionalmente não temos o que questionar, você é o melhor, vai ser o maior, acredito que esteja totalmente realizado. - Ela cruzou os braços em frente ao peito. - Os outros âmbitos da sua vida que precisam ser conquistados, como eu posso te ajudar?
- Ainda não totalmente, mas isso é conversa para outro capítulo. - se aproximou dois passos. - O que eu quero dizer é, eu quero seguir em frente e seria ótimo se o meu seguir em frente envolvesse um jantar com você.
- Ah, sim! - Ela desencostou da mesa e endireitou a postura, levou as mãos até a cabeça para ajeitar o lenço que cobria seus cabelos. - Eu sou uma mulher muito decidida, sei muito bem o que desejo da vida. E se tem uma coisa que eu não quero, é me envolver com homens que desejam outras mulheres. Então sugiro que você tenha total certeza dos novos ares que está procurando, pois se tem uma coisa que eu não sou, é tapa buraco. .
- É claro... - riu entredentes. - Às vezes esqueço que vocês duas são amigas. Eu passei tempo demais tentando sair com a minha terapeuta, depois me apaixonei pela viúva do meu melhor amigo. Sou meio intenso, não desisto fácil, mas também sei admitir que perdi. Você é tão observadora quanto eu, já percebeu o que está acontecendo ou o que vai acontecer. Mas não é por isso que estou aqui. - se aproximou mais um pouco, segurou as mãos da mulher e olhou em seus olhos. - Eu me lembrei das sensações, do quanto você sempre despertou meu melhor lado assim que te vi no paddock. Não fazia ideia do quanto sentia falta das nossas conversas, da sua energia...eu adoraria sair com você, conhecer sua mais nova versão. Eu estou sendo sincero, totalmente. Não existe buraco para ser coberto, não existe uma vaga a ser preenchida, porque ela simplesmente nunca foi criada.
- Se vocês não se esquecessem de que mulheres conversam, muitas coisas poderiam ser evitadas- ficou desconcentrada mediante a proximidade de , o cheiro de seu perfume inundou suas narinas a ponto de deixá-la parcialmente embriagada. - Só para constar e mesmo não sendo o assunto principal aqui, eu já percebi o que está rolando, e olha que não precisamos de mais do que uns dois copos de Bourbon escocês. - Ela sorriu. - Eu acredito no poder de mudança das pessoas, acho que deve seguir seu caminho mesmo. Eu me lembro de quando você cantava sua terapeuta, ela se fazia de durona e imune ao seu charme, será que ela ainda consegue?
- Eu estou torcendo para que não. - Ele sorriu.

se afastou um pouco de e retirou seu jaleco, abriu a primeira gaveta da mesa atrás de si, e retirou alguns objetos pessoais do receptáculo, brincos, cordão e relógio, adereços que não poderia usar enquanto estava dentro do hospital.

- Eu espero não me arrepender disso. - Abotoou o brinco na orelha direita, depois curvou o pescoço para adicionar na orelha esquerda. - Eu acredito na sua sinceridade, e confio na sua habilidade em dirigir carros ao final da noite, pois eu gosto de jantares regados a bastantes vinhos. - Ela sorriu aberto, observando se aproximar novamente.
- Vai ser um jantar regado a bem mais que vinho. - Ele umedeceu os lábios e piscou sugestivamente.
- Tipo o quê? - Ela mordeu o lábio insegura.

não respondeu, somente sorriu e se aproximou mais de . Os olhos escuros emitiam desejo e luxúria, liberando um brilho que combinava perfeitamente com o piercing em seu nariz, causando uma sensação estranha no corpo da psicóloga. era um colírio para seus olhos.
Não satisfeito, o piloto esticou as duas mãos as encaixando na cintura de , a curva de seu quadril se encaixou perfeitamente em suas palmas, ele sempre imaginou que tudo nela seria um encaixe perfeito com o dele. E agora que conseguiu tocá-la, era ainda melhor que sonhou.
Com apenas um puxão ele a trouxe para perto, sem condições de impedir o corpo entregue da negra foi de encontro ao seu, e com o choque ela encaixou as mãos nos ombros largos e fortes dele.
Sua respiração se acelerou e um calor preencheu seu corpo, deixando-a totalmente desnorteada, sem sequer saber o que pensar, em seu peito o coração esperava ansioso pelo que viria a seguir. sorriu e curvou a cabeça em direção ao pescoço de , assim que os lábios carnudos dele soltaram a respiração sobre o pedaço de pele, as unhas dela se fincaram sobre o pano da jaqueta, mas não impediu que perfurassem a pele e por isso, gemeu e foi exatamente o mesmo momentos em que alguém entrou na sala e soltou um barulho com a boca.

- Louise. - espalmou as duas mãos sobre o peito de , o empurrando e consequentemente se afastando do inglês. - O que você? Ai meu Deus! - estava totalmente desconcertada, ela piscou e já não estava mais longe, como as mãos dele foram para sua cintura? Qual foi o momento em que toda a cena se modificou?
- Não. Me desculpe, eu entrei sem bater. Sinto muito. Volto depois. - Louise se desculpou tentando ao máximo não olhar para o casal e pôs-se a se afastar andando de costas, devagar.
- Não tem que se desculpar.- se adiantou e viu sorrir com as mãos no bolso do jeans. - Você não precisa ir, não atrapalhou nada.
- tem razão. - concordou se afastando alguns passos. - E acho que essa é a minha deixa. - O piloto voltou o olhar para e piscou, depois acenou para Louise saindo da sala sorrateiramente.

Louise continuava a encarar tudo perplexa demais para dizer qualquer coisa, sua boca estava aberta e a cabeça inclinada para o lado. Quando percebeu que um pouco de saliva escapava pelo canto de seu lábio, a jornalista balançou a cabeça e endireitou a postura.

- Uau. Agora tudo faz sentido. - Comentou rindo.
- O que faz sentido? - Questionou a psicóloga andando até o filtro, retirando um copo e enchendo com água gelada.
- Ontem...nós conversamos sobre seguir em frente...ele disse. - Louise se aproximou da mulher, escorando-se na mesa e cruzando os braços pensativa. - Aliás, como se fosse algo que quisesse fazer. Agora tudo faz sentido. Ele está mesmo interessado em você. - Comentou sorrindo.
- Isso te incomoda? - Bebeu toda a água do copo em um só gole, o líquido gélido refrescou seus órgãos internos, trazendo certo alívio. - Tipo, ele está interessado em mim? Eu não quero me meter nessa confusão, Louise, então fala logo o que pensa, que aí nem me permito ter fantasias com as mãos enormes, fortes e firmes e como eu pens… Ai meu Deus, que merda estou falando. - A psicóloga piscou rapidamente procurando recobrar o controle de suas ações, tirou rapidamente o lenço do cabelo e esfregou os olhos.
- Eu estou sentindo seus feromônios daqui. - Louise zombou.- Fique tranquila, eu e o ...sempre foi e sempre será amizade. Nunca consegui ver ele desse jeito, do jeito que você acabou de dizer. - A jornalista francesa suspirou. - Acho que depois que ele se frustrou com você, pensou que eu precisaria de alguém...essas coisas que os homens pensam ter dever...como se na falta do melhor amigo dele, devesse me proteger e ser meu esposo. - Riu abafado.
- Estou em uma fase delicada. - admitiu sorrindo. Aquela fase em que ela só trabalhava, trabalhava e trabalhava. Homens? Bobagem. - Eu sempre consegui enxergar ele dessa forma, a gente só não podia. Eu entendo que ele se frustrou comigo, por eu não ter podido ceder, ou por dizer muitas vezes que não queria, quando optei por não ser mais a terapeuta dele, já estava com receio de não conseguir resistir a ele, isso acabaria com meu trabalho, com a reabilitação dele e com tudo que havíamos construído profissionalmente. - Explicou pensativa é caminhou até o espelho para ajeitar o lenço em seus cabelos novamente. - Ele sempre quis ser o melhor para você, Izzie, acreditou que deveria ser como homem, mas na verdade foi como amigo, acredito que ele talvez esteja começando a enxergar as coisas dessa forma.
- Ao mesmo tempo você explicou para mim quanto aos motivos de não ter ficado com ele e, também justificou as ações dele para comigo. - Louise observou. - Será que você está falando isso para a Louise ou está apenas dizendo em voz alta os teus argumentos para não ter se envolvido antes e para se envolver agora? - A francesa tentou investigar.

mordeu o lábio pensativa. Será que de fato estava procurando encontrar meios para que tirasse da cabeça que ainda desejava estar com Louise? Talvez, não podia negar que existia uma voz em sua cabeça que estava berrando sobre a rejeição de estar ligada ao fato de ter lhe procurado.

- Acredito que talvez seja um pouco das duas coisas. - Respondeu finalmente. - Por trás de uma psicóloga incrível, existe uma mulher que deseja ser a primeira opção de alguém e não um tapa buraco, sabe? - Amarrou o lenço sobre os cabelos, observou o resultado e sorriu em aprovação. - Entretanto, entendo que na verdade o que aconteceu entre nós, o fato de não conseguirmos estar juntos, foi um dos principais motivos para que ele se enfiasse na fixação de ser Tony Render para você.
- Minha relação com o Anthony fazendo vítimas desde dois mil e três. - Louise suspirou tristemente e sorriu.
- E a próxima é Michael Madden? - Arqueou a sobrancelha se aproximando da amiga, tomou um lugar na poltrona em frente a jornalista. - O que? O que o Michael tem a ver com isso? - Louise arqueou uma sobrancelha confusa.
- Sério, Render? Achei que já tivéssemos da fase de: não sei por que todo mundo acha que vou me envolver com aquele menino? - Zombou com um sorriso aberto.
- , eu realmente não entendi. - Louise dirigiu um olhar sério para a amiga. - Eu não estou interessada nisso. Gosto do Michael, é uma boa pessoa e me faz bem, assim como tantas outras. Mas eu não me vejo com outra pessoa, com outra mulher ou com outro homem…- Concluiu.
- Entendi. - Assentiu com a cabeça. - Você por acaso se viu no espelho ontem? - Questionou.
- Eu sei o que vai dizer, mas como eu deveria ficar? Michael é um amigo. E eu estava tão culpada…- Louise riu ao confessar.
- Já te vi assim outras vezes. - Pontuou. - Com , inclusive. - Sabe qual a grande diferença para mim? O tempo. Quando ficou ao lado do na crise, já tinha muito tempo que se conheciam, que eram amigos. Há quanto tempo que conhece o Michael?
- O Anthony mencionou ele algumas vezes, quando descobriu o maior talento da Fórmula Um do mundo. - Louise sorriu saudosa. - Mas o conheci no final do ano passado. Lembra como eu, Jacques e Tony saímos a noite na Austrália, depois das corridas? Esse ano Jack achou que seria uma boa ideia para mim voltar a sair, nós três fomos juntos, Michael, eu e Jacques. Eu fiquei tão bêbada...fizemos todo o tour pelos bares e depois fomos à praia assistir o nascer do sol. Acho que nós nos tornamos amigos ali. - Louise contou.
- Deixa eu ver se compreendi. - Cruzou as pernas. - Aquele tour da Austrália, que você, seu marido e o melhor amigo de vocês, o Jacques, sempre faziam, esse ano vocês repetiram, mas o Michael estava? E vocês repetiram todos os passos de sempre? Isso mesmo?
- É, foi ideia do Jacques. O Michael tinha feito uma péssima corrida, precisou abandonar, uma estreia marcante. - Louise contou distraída e gargalhou. - Jacques e eu não estávamos numa fase boa, ele pensou que se o Michael fosse junto, eu aceitaria. Foi ideia dele.
- Por que ele achou que se o Michael fosse junto você aceitaria? Por que não o ? - Tornou a questionar.
- O ? Tá brincando? - Louise balançou a cabeça. - Jacques odiava o até pouco tempo atrás. Com certeza ele iria preferir arrancar a própria cabeça a sair com . Além disso, já tinha voltado para casa. Eu penso que ele achou que se fossemos só nós dois, eu não aceitaria e o Michael é o chiclete do Jacques.- Louise deu de ombros.
- Sei bem. Michael parece ser um cara legal. - Observou a negra. - O tipo de cara que a gente quer sempre estar perto. -
- É, ele é. É agradável, engraçado e leve. Te faz rir. Eu sinto que às vezes fico tão carregada de toda essa dor e luto, sempre. É bom ter amigos assim por perto. - Desabafou distraída.
- Esse seu jeito quando se refere ao Michael, me faz lembrar de uma Louise que eu senti saudade, nos últimos anos. Seja qual for seu verdadeiro interesse no Michael, ou dele em você. Ele extrai uma parte de você, que com certeza, nós sentíamos falta.
- É, eu sei disso. - Louise sorriu grande encarando o chão, depois olhou para e suspirou. - Estou inclinada a acreditar que ele não só provoca o melhor de mim, mas também uma parte boa, mais pura, que nem mesmo o Anthony conseguiu invocar.
- Isso é extraordinário, sinal que através do Michael iremos conseguir conhecer um lado novo de Louise Rosseau-Render? - O tom de voz era animado, como uma criança ao ganhar doces.
- Quem sabe o que o destino nos reserva?
-Agora que estou de volta, não vou querer perder nenhum capítulo dessa história. Acho que todos vamos gostar de conhecer sua nova versão. - Piscou com um sorriso maroto.
- Por que todo mundo aqui fala como se estivessemos num sitcom? - Louise brincou. - Eu vim aqui apenas me despedir e agradecer, acabei me expondo e agora você parece que está anunciando o que veremos nos próximos episódios de uma série com audiência duvidosa e roteiristas fracos. - Louise gargalhou.
- Talvez nós estejamos, não tem como saber. - Deu de ombros e se levantou. - Se a audiência é duvidosa, problema das pessoas, elas quem estão perdendo uma história incrível. Agora não critique nossas roteirista, elas são incríveis, foram capazes de criar mulheres como nós. - Gargalhou. - Mas se estamos em um sitcom e tem alguém escrevendo nossa história, esse povo bem que podia pegar mais leve, parece que o povo gosta mesmo de ver a gente sofrendo. - Ainda gargalhando se aproximou de Louise, para abraçá-la.

Ter a amiga por perto novamente, era um dos melhores presentes que aquele novo emprego poderia proporcionar a .

- As boas histórias sempre são dramáticas. - Abraçou a amiga sorrindo.


XXX


detestava hotéis. Odiava ter que fazer check in ou mais ainda o check -out, totalmente cansativo e surreal, mas precisa cumprir as normas.
Correu os olhos pelo quarto mais uma vez para ter a certeza que não havia esquecido nenhum objeto, já que era mestre em largar carregadores e escova de dentes pelos locais que passava, depois da terceira vistoria teve a certeza que poderia prosseguir.
Saiu pelo corredor do quarto puxando a pequena mala de rodinha e segurando a bolsa entre o braço e antebraço, tinha optado por colocar sapatos baixos para facilitar sua locomoção com os dois pesos, fato que foi constatado ser de suma importância ao perceber que o elevador estava para sair, não conseguiria correr, então optou por usar a voz.

- Por favor, segura o elevador. - No mesmo instante uma mão segurou as portas, impedindo-o de seguir. suspirou aliviada e sorriu quando viu a cabeça de aparecer porta a fora.
- Oi, ! Precisa de ajuda? - Ofereceu o empresário ao perceber a mala que a negra carregava. Não esperou que ela respondesse, logo pegou a mala que a mesma empurrava e colocou na caixa metálica.
- Obrigada pela ajuda. - Passou as mãos no cabelo enquanto via o diretor - chefe da Mercedes ajustar suas próprias coisas.

Ele vestia uma camisa social branca que tinha os dois primeiros botões abertos, a calça era social e preta, exatamente a mesma cor dos sapatos nos pés. Os cabelos escuros estavam perfeitamente alinhados e no momento em que ela adentrou ao elevador e se postou ao lado do homem, foi embriagada pelo perfume de aroma amadeirado.

- Como foi o primeiro final de semana pelo autódromo? - apertou no painel o botão que mandava o elevador se mover. - Fiquei sabendo do incidente que precisou socorrer.
-Foi uma bela recepção. - Ela sorriu e encostou-se a parede atrás de si. - Foi um momento complicado, mas agora já está tudo bem com o Michael.
-Que bom! Eu fico feliz por agora termos vocês aqui conosco, os bastidores de uma corrida são sempre causadores de pânico. - Ele sorriu e ajeitou os óculos sobre o rosto. - Aliás, fiquei sabendo da reunião com os pilotos e chefes de equipe em Mônaco.
-Já ? - Ela arqueou a sobrancelha surpresa, não era atoa que Devers estava à frente da equipe de comunicação, ele sabia o que estava fazendo.
-Sim. Ontem de noite recebi o e-mail.
-Nós decidimos conversar com vocês pessoalmente, para que não fique nenhuma dúvida do nosso papel aqui. - cruzou os braços em frente ao corpo adotando uma postura mais relaxada.
-Achei uma ótima ideia. Devem estar falando cada coisa sobre o fato de estarem aqui. - Ele observou assentir.
Diferente da primeira vez que se encontraram nos corredores do hotel, dessa vez ele conseguiu reparar na mulher. Ela tinha cabelos extremamente volumosos e cacheados, de uma maneira tão bela que não se lembrava de ter visto tão de perto. Os olhos escuros quase se misturavam ao tom de sua pele, escura como a noite que emitia um brilho dourado de alma que só quem estava perto percebia com veemência.
Nos lábios o batom vermelho cintilante fazia jus ao enorme sorriso que moldava a face, era forte e singular. Como poucos eram. De maneira discreta ele desceu os olhos para o corpo, a blusa! de manga azul claro deixava um pouco da barriga à mostra, um pedaço de pele mínimo, mas que era totalmente chamativo, a calça jeans apertada marcava as pernas e quadris, totalmente deslumbrante.
O inglês não era acostumado a ver mulheres como , olhando para ela com cuidado, tinha certeza absoluta que o mundo precisava apreciar mulheres como ela.

- Nada que a gente não possa resolver. - A psicóloga tornou a sorrir.
- Esse esporte tem tudo para mudar o mundo, sabe? Mas precisamos pensar fora da caixa. O impacto que esses carros têm na vida de crianças é absurdo, deveríamos fazer mais pela população do mundo e não colocar uma barreira milionária entre nós e eles.
- Sabe que escutar isso do diretor da escuderia mais rica do grid é um pouco hipócrita. - mexeu o dedo indicador e polegar e iniciou um ritmo constante com os dedos iniciando uma análise ao homem em sua frente.
- Por que é hipócrita? Pessoas com dinheiro não tem direito de falar sobre ele?
- Claro que tem. - Respondeu rápido. - Me diga, o quanto você abriria mão do dinheiro para derrubar essa barreira?
- Do que me fosse possível. - Rebateu - Mas a questão não é abrir mão do dinheiro, é que para viver aqui se precisa de dinheiro. Não tem como competir nos lugares da frente, sem ter dinheiro.
- O dinheiro move o mundo, não só esse lugar. Pessoas passam fome nas ruas, e vocês gastam bilhões em um carro. A diferença não é só aqui. A desigualdade que o dinheiro causa é real.
- Eu sei que é real. - Virou-se de frente para encarar os olhos dela. - Não digo que não é, mas aqui dentro é diferente. Para chegar à fórmula Um, você precisa de dinheiro. Por isso as pessoas daqui são escravas do dinheiro.
⁃ Você só é escravo do dinheiro quando tem ele, quando perde, passa a mandar nele. - deu um passo para frente, colocando a mão sobre a alça de sua mala. - O problema não é o esporte, são as pessoas que mandam no esporte.
- É por isso que eu apoio sua vinda, . As pessoas aqui precisam identificar um pouco de realidade. A realidade que você viveu.
- Você precisa de pessoas que foram pobres a vida toda, para entender que o mundo lá fora é mais que dinheiro? - Arqueou uma sobrancelha de forma desafiadora.

. Quantos pilotos de fórmula Um, você conhece que tiveram a vida difícil? De famílias que não eram ricas?
- .
- E quem mais?
- Que eu saiba, só ele.
- E no futebol, quantos tiveram? - não precisou pensar para responder, sabia muito bem, a começar por dentro de sua própria casa, seu irmão mais novo havia se dedicado ao esporte, hoje Alphonso era lateral do time alemão Bayern de Munique.
- Mais do que eu posso contar.
- Sabe qual a diferença? - Ela negou e pintou ergueu o dedo indicador gesticulando os demais conforme falava. - A acessibilidade. O futebol, o basquete, e tantos outros são esportes do povo. Você vê em praças, escolas e vários garotos sonham com os diversos ídolos. - Pontuou o diretor. - A fórmula Um não é acessível, o dinheiro que é necessário para fazer isso aqui funcionar, torna esse esporte inacessível. - O bipe das portas soou indicando que haviam chegando ao hall.

puxou sua mala e saiu do elevador. Segurando gentilmente a porta para que a mulher saísse também.

- Está me dizendo que eu preciso tornar esse esporte acessível, ? - Questionou pensativa.
- Sabe a importância de para a fórmula Um? - observou pensar, mas não deixou a mulher se pronunciar. - Ele leva uma mensagem para o resto do mundo que é possível, ele diz para as crianças pobres e negras que elas podem sonhar. - sorriu, sentindo orgulho a invadir por conhecer o homem incrível que o piloto inglês era, por ser amiga dele. - Agora, pense comigo. Se ele sendo o único desse lugar já tem essa voz tão potente, imagina se ele tiver ajuda? Imagina quando olharem para você, mulher, negra, pobre. Qual é a mensagem que você quer passar estando aqui?
- Eu não estou ouvindo isso. - Ela balançou a cabeça negativamente olhando incrédula para o homem em sua frente. - Você é branco, rico, está aqui e provavelmente tem mais influência que quase todos e sou eu quem tem que romper as barreiras? Por que sou pobre e negra? E você, em cima de todos os seus privilégios, o que está fazendo para mudar as coisas?
- , vejam bem, acho que você está se equivocando...
- ... - Ambos olharam quando o nome do diretor foi chamado, quem se aproximava a passos rápidos era um jovem, ele tinha os cabelos brilhantes e alinhados, sem um fio fora do lugar e olhos verdes intensos
O uniforme branco da Mercedes emoldurava seu corpo, uma calça jeans e tênis impecavelmente brancos. Quando alcançou o chefe fez uma pausa para respirar, já que estava ofegante devido ao trajeto que precisou fazer de maneira apressada.
- Respire, Macedo. - O chefe colocou a mão no ombro do rapaz. - Está tudo bem?
- Sim. - Ele respirou fundo. - Mas eu preciso de ajuda, tive um problema. - Informou o jovem.

Ele desviou os olhos de e encarou que estava parada observando a cena, deu um sorriso sem mostrar os dentes e um leve cumprimento com a cabeça.

- Heitor, essa é . - percebeu que ambos não se conheciam. - Ela fará parte dos nossos cuidados primordiais. - esse é o Heitor Correa de Macedo, ele é Brasileiro e hoje é atual piloto da Mercedes junto com Valtteri, subiu de categoria após o optar por mudar de escuderia.
- É um prazer, Heitor. - Ela sorriu e estendeu a mão.

Heitor permaneceu parado observando a mulher em sua frente com a mão estendida para ele. Ela era totalmente diferente de tudo que estava acostumado a ver, homens e mulheres negros eram exóticos para sua realidade e seu pai sempre disse que eram inferiores a eles, por causa da cor de sua pele.
O jovem brasileiro deu um sorriso fraco e de forma rápida apertou a mão de , sem olhar para ela, gesto que não passou despercebido pela negra, que sorriu e balançou a cabeça negativamente.

- Pode me ajudar, ? - Heitor estreitou os olhos na direção do mais velho.
- Eu já vou indo. – Informou e ajeitou a bolsa no antebraço.
- Só um minuto, Heitor. – Virou – se para a mulher. - Espere, . – segurou seu braço de maneira gentil, a maciez da pele dela foi notada rapidamente pelo homem. – Eu não quero que pense que eu disse algo para te ofender.
- Não pensei nada, . – Olhou a íris de que pareciam cheias de brilho, assim como uma noite iluminada pela lua cheia. – Palavras sempre podem ser entendidas de maneira errônea, não sou responsável pelo que você fala, sou responsável pelo que eu entendo.

não soltou o braço da mulher e também não pareceu com vontade alguma de fazer. A voz dela cuspia seriedade e leveza, como se fosse capaz de lhe passar o maior dos sermões com a maior cautela do mundo, ato que geralmente era incomum, tendo em pauta que a maioria das pessoas não tinha controle, mas tinha, parecia que cada palavra que proferia era minimamente pensada e calculada, para ser usada no momento adequado.

- Eu não vou correr o risco, mesmo assim. – Ele respondeu devagar. – O que eu disse foi que sua voz é mais potente que a minha, pode alcançar pessoas que eu não posso.
- Que tipo de pessoas? – O contato entre os olhos permaneceu sendo sustentado por ambos, Heitor franziu o cenho com a cena que presenciava.
- As que precisa de ouvir da sua boca, o que elas podem fazer. Minha voz tem efeito sim, eu posso dizer para várias pessoas, porém o exemplo delas, o espelho delas não serei eu. Será você.

não respondeu, permaneceu medindo por mais alguns segundos os olhos do diretor chefe, não teve qualquer alteração em sua expressão facial, nada que desse a ela qualquer único indício do que estava por detrás de suas ações.
Desviou os olhos do rosto dele e olhou para o contato físico que mantinham, a mão dele que ainda segurava seu pulso, o toque firme e ao mesmo tempo leve, sem qualquer malícia embutida. acompanhou o olhar de e encontrou o contato de suas peles, por impulso soltou o braço dela, no mesmo instante em que sua palma formigou e reclamou da falta dele.

- Estou indo, agora. Tenha um bom dia, . – Assentiu para ele e então direcionou seus olhos para Heitor. – Foi ótimo te conhecer, nos vemos em breve.
- Bem vinda, . - Ele sorriu vitorioso. - Nós precisamos de você, mais do que imagina. - Sorriu e esticou a mão para a mulher. - Foi um prazer te ver novamente. Nos vemos em Mônaco.
- Até Mônaco. - Ela apertou a mão do homem e sentiu firmeza de seu toque, ele assentiu, e virou o corpo na direção oposta, encarando Heitor que o aguardava ansiosamente.

fechou a mão sentindo um formigamento do toque ainda presente na pele. Estava encucada com aquele homem, a postura séria e firme indicava uma liderança nata, talvez o segredo para a hegemonia da escuderia não estivesse somente nos pilotos que corriam por ela.


Capítulo 3

Hannah estava dormindo no banco traseiro e aproveitou-se da situação para acelerar o carro, já que a filha não gostava muito de quando o pai corria, o homem chegou ao prédio em menos de vinte minutos, estacionou o carro na sua vaga pegou Hannah no colo, Natasha, sua esposa, pegou a bolsa que carregava com os pertences da garotinha e caminhou na frente para chamar o elevador enquanto a menina era carregada pelo pai.
Ambos entraram no elevador e Natasha se encaixou nos braços do marido, iniciando um carinho nas costinhas da filha. A garota soltou um bocejo e coçando um dos olhos, acordou.

- Já é dia, papai? – Perguntou, sonolenta, soltando um suspiro e apoiando uma das bochechas no ombro do pai.
- Ainda não, querida – Ele sorriu, e deu passos para chegar a porta da frente, Natasha enfiou a chave na mesma e destrancando-a, abriu-a sem muitas dificuldades e, então, parou na frente da porta do quarto da menina entrou com ela. – Venha, vamos deitar na sua cama.
- Estou com sono. – Resmungou a garotinha.
- Deixa que eu a coloco na cama, amor. – A russa se pronunciou da porta, onde observava a cena. – Vá tomar um banho e descansar, você teve uma semana agitada.
- Não, mamãe. Eu quero que o papai fique. – Protestou a mais nova e assentiu.
- Vá você querida, eu fico com a tampinha hoje. – Natasha assentiu e beijou a testa da filha, depois os lábios do marido e então se retirou, indo em direção ao seu quarto.
- Papai, eu só vou trocar de roupa. – Avisou, escorregou para o chão e saiu correndo até o guarda-roupa, voltou alguns segundos depois com sua camiseta de dormir e Harry, seu inseparável urso de pelúcia. recostou-se contra a batente da porta, observando Hannah, enfiar-se debaixo das cobertas, com um dos braços firmes em volta de Harry.
- Papai? – Ela chamou-o, hesitante, observando o mais velho. – Será que você pode cantar uma música para mim?

riu, concordando com um aceno de cabeça, enquanto tirava seu sapato e abria o dossel, deitando-se por cima da coberta, seus pés caindo para fora da pequena cama.

- Que música você quer? – ele perguntou, afinal – Já aviso, não vou cantar nem Jonas Brother, nem Justin Bieber, pode esquecer.
- Miley Cyrus? – Ela sugeriu.
- Por que é que eu não escolho? – Ele soltou, finalmente, movendo-se, buscando por uma posição mais confortável, enquanto começava a cantarolar “I Don’t Wanna Miss a Thing” do Aerosmith. – Eu te amo, pequenina. Durma com os anjos.
- Eu também te amo, papai. Gosto quando você está em casa.
- Eu também, filha. – Lhe beijou a testa. – Eu também.


XXX


olhou sua imagem no espelho mais uma vez, apenas para constatar que havia adorado a escolha do vestido para a ocasião. Horas mais cedo recebeu uma ligação de convidando-a para um jantar em um dos belos restaurantes da cidade de Monte Carlo.
Pensando na ocasião optou por um modelolongo, as cores predominantes eram preto e amarelo em estampas geométricas, era cruzado no busto e havia uma fenda na perna esquerda. Deixou os cabelos soltos como gostava já que com a hidratação feita aquela tarde, estavam sedosos e brilhantes.
Se afastou do espelho e caminhou em direção a cama onde sua bolsa de mão estava aberta para que seus objetos pessoais fossem guardados, e assim o fez, colocou o batom, carteira e logo que saísse acrescentaria a bolsa, também o celular. Instantes depois o celular vibrou em sua mão, na tela a conversa de piscou, indicando que era o mesmo que lhe enviara uma mensagem, abriu e constatou que o ele já estava na porta, para buscá-la.
Rapidamente catou suas coisas e caminhou para fora do quarto, desceu as escadas com cuidado e então chegou até a sala, tirou a chave da parte interna da porta e posicionou na externa, para ao sair trancá-la.
Chamou o elevador e durante a espera percebeu que seu coração acelerava e as pernas balançavam em ansiedade pelo que viria a seguir, ela e tinha uma história muito longa de repressão, a expectativa do primeiro encontro sempre se passou em sua cabeça, e agora conhecia a realidade, isso a assustava um pouco.
Mas, diferente de muitas pessoas, adorava o desconhecido.
O elevador chegou em seu andar e com dois passos entrou na caixa apertando o térreo, digitou uma mensagem para o homem dizendo que estava chegando e então guardou o celular na bolsa preta.
A chegada foi anunciada pelo barulho, ela soltou o ar mais uma vez e antes de sair amassou os lábios, firmando mais o batom vermelho. Cumprimentou com um aceno o porteiro que estava no plantão naquela noite e passou pelas portas giratórias.
Assim que saiu, encontrou a esperando encostado ao carro, um shelby cobra preto conversível, com um sorriso de canto. O piloto usava um terno xadrez vermelho, sapatos pretos brilhantes e, surpreendentemente, os cabelos estavam soltos, coroando e brilhando com o reflexo das luzes noturnas.

- Valeu a pena esperar todo esse tempo para sair você agora. - Ele correu os olhos pela psicóloga, sorrindo. - Você é a mulher mais linda que meus olhos já enxergaram.
- Obrigada, . - Ela sorriu para o homem. - Você também está belíssimo, gosto dos cabelos soltos. - Observou os cachos, e se aproximou mais, para cumprimentá-la, passou o braço por sua cintura e a puxou em um abraço, trocaram um beijo rápido na bochecha. abriu a porta do carro para , que com um sorriso aceitou a gentileza, tomando o assento.
- Eu achei que ficou bom, também. - Ele disse passando as mãos pelo cabelo e sorrindo de maneira infantil, enquanto se ajeitava no banco do motorista. - Não costumo sair assim, mas eu sinto que com você posso ser eu mesmo, sem me importar com que você vai pensar de mim. Não que eu não me importe com sua opinião, claro que me importo, é só que…- se aproximou dela, ao ponto de sentir a respiração da mulher se chocar contra seu rosto. - É só que eu me sinto tão à vontade com você que sinto que posso ser eu mesmo, ser verdadeiro.
- Você pode, vou adorar conhecer você de verdade. - Cruzou as pernas e deixou a bolsa em seu colo, segurando as próprias mãos, pois não tinha muita certeza do que fazer com elas. - Eu já gostava das tranças, mas ele ao natural é ainda mais belo, parece que estou te vendo pela manhã ao acordar, antes de precisar se vestir e usar os estereótipos para encarar a vida.
- Me vendo acordar pela manhã? - Ele sorriu de canto enquanto engata a marcha para dar partida. - Te garanto que não fico tão bem assim de manhã, pode parecer que não, mas isso aqui - Disse ele enquanto sinalizava com o indicador, mostrando o rosto. - Fica tão amassado quanto a carinha do meu cachorro.
- Eu também acordo com o rosto amassado. - Deu de ombros e mordeu o lábio inferior, discretamente. - Mas meu cabelo fica mais lindo de manhã, você vai ver, quando acordo é o momento que mais adoro ele. - Tocou nos cachos, amassando-os com as mãos.

riu entredentes, mordeu o lábio e depois encarou a mulher ao seu lado, aproveitando o sinal vermelho para observá-la com calma.
- Então eu mal posso esperar por esse momento. - Falou.


XXX


rastejou de volta para o seu quarto, Hannah finalmente adormeceu e eram quase duas horas da manhã. Tirou a calça e camisa, mas, exausto, não se deu ao trabalho de colocar seu pijama, simplesmente rastejou para debaixo das cobertas.
Permitiu-se, enquanto afundava a cabeça em seu travesseiro, relembrar o dia incrível que teve ao lado da família, o quanto se divertiram juntos e como era delicioso ouvir as gargalhadas da filha enquanto brincavam, piscou e esticou o braço para retirar o criado mudo os documentos que recebeu da Mercedes mais cedo, empurrou os óculos para o rosto e quando iria abrir a gaveta para guardar o papeis.
Escutou a porta do banheiro destrancando, o cheiro de sabonete inundou suas narinas e ele virou a cabeça para o lado, vendo a esposa escorada no batente, os cabelos estavam úmidos.

- Oi, amor. – Sorriu para a esposa, que deu alguns passos para frente. – Essa camiseta é minha. – Arqueou sobrancelha e segurou os papéis perto do corpo, esquecendo-se do que iria fazer em primeiro momento.
- Eu sei. – Sorriu, passando os dedos pelas mangas da camisa social que escolheu no closet do marido.
- Você está tentando me seduzir, Sra. ?
- Não sei, Sr. ! - Deu de ombros. - O gênio aqui é você. – Subiu na cama de joelhos e começou a se aproximar do homem.
- Eu digo que não precisa me seduzir, já sou todo seu. – Deixou com que Natasha subisse em seu colo, uma perna de cada lado do corpo, os cabelos caíram para frente tapando um pouco os olhos.
- Eu digo que estou morrendo de saudades. – Inclinou o corpo para frente beijando de leve os lábios do marido.
- Eu também, querida, eu também. – Se deixou ser beijado pela esposa, Nath tirou os óculos de e também os papéis que estavam em suas mãos, jogando-os em qualquer lugar.
Estava exausto, mas sabia que não seria aquela noite que descansaria.


XXX


O carro estacionou em frente um hotel bastante sofisticado, desceu primeiro e entregou a chave para o manobrista, após cumprimenta-lo com um aperto de mãos, rodeou o carro até o lado de , para com um gesto cavalheiresco, abrir a porta.
A psicóloga sorriu aceitou a mão esticada para ajudá-la, após estendeu o braço para a mesma e os dois caminharam em direção a entrada, onde não teve muita cerimônia já que não precisaram solicitar a reserva, somente cumprimentou o recepcionista com um aperto de mãos e mais um de seus vários sorrisos.
acompanhava o inglês e também sorria para a pessoas que passavam por eles, gostava daquele tratamento se sentia mais normal ao lado do piloto e ao seu ver, ele também, já que todos cumprimentavam e riam para , pareciam o conhecer intimamente.

- Você vem muito aqui? - Questionou ao perceber os sorrisos que ele dava com muitos acenos aos funcionários, sempre muito cordial.
- Dá para notar? - Ele sorriu tímido. - Eu amo esse lugar, toda vez que que termino de visitar todos os restaurantes, eles se renovam ou criam novos menus e eu tenho que começar tudo de novo. - Contou sorrindo.
- Sim, dá para perceber. - Assentiu olhando o homem. - É um local interessante, jamais estive nos restaurantes deste hotel, se o vinho for incrível, posso colocar entre os meus locais preferidos em Mônaco. - Piscou e tornou a observar o local.

Estavam em um saguão enorme, onde havia alguns funcionários na recepção e uns sofás combinando com a decoração clara e que realçava a fineza do ambiente, jarros de flores com luzes ao redor eram o ponto alto do local.

- Você vai amar, tenho certeza. - Ele piscou, colocou a mão em sua coluna, conduzindo a mulher ao elevador.. - Para hoje, pensei num restaurante italiano dentro do cassino. O que me diz?
- Repito, se o vinho for bom, posso colocar entre os meus lugares preferidos. - Se acomodou dentro do elevador perfeitamente ao lado de . - Eu gosto muito de vinhos, acabo definindo alguns lugares pelo gosto do vinho, o que me diz dos vinhos daqui?
- Há algum tempo não tenho opinião sobre isso, já não bebo há alguns anos. - Ele disse enquanto saíam do elevador. - Mas sempre ouvi coisas boas dos vinhos daqui, mas posso dizer que o suco de uva e a água com gás são excelentes.
- Caramba, ! Me desculpe, não devia ter falado. - Ela tocou o ombro dele com firmeza, revelando quando a fala foi imprópria, ainda mais sendo ela quem o tratou do álcool.
- Relaxe. - Ele riu. - Não é um tabu. Você gosta de comida italiana?
- Adoro. - Percebeu a deixa em mudar de assunto.
- O chefe é o Thierry Saez-Manzanares, você vai amar. - Ele contou animado enquanto adentravam ao restaurante. - Está vendo como ele se parece com o interior de um trem? - perguntou e a psicóloga assentiu. - No início do século dezoito o único jeito de se chegar a Mônaco era de trem. Eles tentaram ser o mais fiel possível, retratando como era o ambiente dentro desses vagões luxuosos. - contou empolgado enquanto os dois eram guiados até uma mesa. - Além disso, é dentro do cassino, o que já é uma maravilha.
- Eu adoro andar de trem. - Ela aguardou enquanto o funcionário do hotel puxava a cadeira para que se sentasse, ocupou o lugar à sua frente. - É um ambiente bastante agradável, esse ambiente mais histórico me agrada ao extremo, e confesso que nunca estive em um cassino. - Contou. - Sempre me imaginei ganhando nas mesas de poker.
- Não sabia de seu gosto para jogos, . - piscou enquanto recebiam a carta de vinhos. - Agora teremos mais coisas para fazermos juntos.
- Eu adoro alguns jogos específicos. - Sorriu marota. - Teremos mesmo, vou adorar te desafiar para alguns, descobrir onde o campeão tem fraqueza. - Correu os olhos pela carta em mãos, decifrando qual vinho poderia lhe agradar mais.
- Cuidado, , posso entender que está flertando comigo e levar isso a sério demais. - Ele disse a encarando por sobre a carta de vinhos. - Deve saber que não costumo jogar para perder.
- Talvez eu esteja, mas me desculpe caso você não curta alguns flertes. - Sorriu com falsa inocência. - Vamos começar o jogo agora, então. - Colocou a carta de vinho sobre a mesa. - Escolha o vinho para mim, se o sabor me agradar, será ponto para você. - Desafiou enquanto cruzava as pernas, pela fenda do vestido de seda, era possível enxergar o brilho de sua pele negra, nos tons claros em que se encontravam.
- E o que eu faço com esses pontos? - Quis saber ele.
- Será como em suas corridas, acumula, para no final ganhar o troféu e o título de campeão. - Recostou o corpo na cadeira, adotando uma postura mais relaxada.
- Gostei, o que é difícil sempre vale mais, a pena. - piscou. - Domaine Leroy Musigny Grand Cru*, a Louise ama esse.
- Sim, conheço bem, era um dos preferidos do marido dela. - O olhou nos olhos, com as sobrancelhas arqueadas. - Não faz muito tempo que degustei ele em um jantar.
- Pois é, eu preciso me agarrar às sugestões de amigos, já que não bebo vinho a anos. - Ele apertou os lábios em um sorriso.
- Sim, faz bem em aceitar essas sugestões, a última que recebi acatei. - Juntou as mãos em seu colo. - Esse será o meu vinho da noite então?
- Que sugestão? - Perguntou curioso. - Sim, senhora.
- Talvez eu te conte, após algumas taças de vinho. - Piscou. - Gosto deste vinho, acho que já tem um ponto.
- Vou cobrar, tenha certeza. - piscou devolvendo a carta e recebendo o menu. - Me conte, , como tem andado, o que tem feito?

prendeu os lábios e mordeu o interior da bochecha, pensando no que dizer.

- Estou cansada, . - Confessou em um suspiro. - Tenho trabalhado muito e por causa do trabalho e pouco tempo hábil, acabei deixando ONG um pouco de lado, optei por me aproximar novamente, já que vou permanecer somente com FIA, deixei outros trabalhos de lado. Sinto falta de estar com minhas crianças. - Abriu um enorme sorriso ao se lembrar do trabalho que fazia. - Todavia, acreditei que nesse primeiro momento, eu não teria tanta demanda na F1, mas já cheguei com milhares de pepinos para resolver. Inclusive tenho uma reunião com vocês na semana que vem.
- Eu sei que você consegue, tudo tem sido uma loucura, mas você consegue. Mas eu me referi a sua vida pessoal, , até porque, agora não tenho mais restrições quanto a ela, não é?
- Não, você não tem. - Respondeu. - Não tenho muito o que falar da minha vida pessoal, nunca fui de dar muita atenção para ela, pelo menos até agora.
- Pensei que você sempre fugisse do assunto por conta da nossa antiga relação. - Ele sorriu. - Mas é claro que tem, todos temos o que falar, nossas individualidades. Sabe, , eu tenho muita curiosidade sobre você, os seus gostos, suas manias, curiosidade de saber tudo sobre você.

sorriu sem graça ,passando as mãos pelos cabelos e então sorriu aberto, pronta para finalmente romper as barreiras de quem representava antes e de quem ele era agora.

- Eu fugia do assunto, porque eu não podia querer o que eu estava querendo. - Foi sincera, entrelaçando os dedos das mãos. - Mas agora eu posso querer. Eu conto, . - Interrompeu a fala quando o garçom se aproximou com o vinho em mãos.

Sentiu uma agitação em seu paladar ao observar o funcionário preencher sua taça com o líquido vermelho. Sorriu em agradecimento antes de pegar o objeto e sacudir, para só então levar aos lábios.

- Divino. - Estralou os lábios e então ergueu os olhos novamente para o inglês. - Eu adoro esportes, apesar de odiar praticar eles. Choro em filmes românticos, mas não conte para as pessoas, tenho uma pose de durona. Não gosto de doces, tenho medo de morrer de diabetes. - Deu uma gargalhada contida, com a revelação. - Adoro usar cores alegres,acho que a vida já é difícil demais para permanecer no pretinho básico, tenho vontade de fazer um mochilão pelo mundo, esquecendo totalmente minha profissão. Minha bebida preferida é vinho, tenho hábito de beber uma ou duas taças, enquanto estou lendo um livro, que por sinal, adoro os de fantasia.
- Nossa, isso foi profundo e...verdadeiro. - sorriu grande. - Eu achava que não podia gostar mais de você, mas percebi que quero muito conhecer e me aprofundar nesse outro lado.
- Você vai, não se esqueça que está juntando os pontos. - Pontuou. - Qual a comida vegana que vai me apresentar hoje? - Com o queixo apontou para o cardápio que segurava de maneira distraída.
- Está mesmo querendo comer comida vegana em um restaurante italiano? - Ele perguntou surpreso.
- Sim, não é o que você come? Por que não? Gosto de experimentar coisas novas.
- Fico lisonjeado, de verdade. - Ele riu, inclinando-se sobre a mesa para mostrar o menu a mulher. - Eu sugiro fior di zucchini com papa al pomodoro*, é basicamente a flor da abobrinha frita, recheada com uma sopa de tomate e pão, mas se você quiser ela pode ser recheada com mussarela de búfala, ou linguiça, caso desista de se juntar a mim. - Falou ansioso.
- Fico com a abobrinha frita, recheada com sopa de tomate e pão. - Assentiu. - O objetivo é comer da sua comida hoje.
- Ótimo. - Ele sorriu empolgado. - Eu sugiro então, o risoto de açafrão Erdre, vegetais mistos da estação. Você gosta de risoto, certo?
- Gosto, e estou adorando ver seu esforço em me agradar essa noite. - Bebeu mais um gole do delicioso vinho, mas não tirou seus olhos nas órbitas de .
- É o que você merece, menos até. - Ele sorriu devolvendo o menu a um garçom depois de recitar os pedidos. - Eu estou feliz por estarmos aqui, por estar em uma companhia tão agradável. - Piscou enquanto esticava o braço sobre a mesa para segurar a mão de .
- Sei bem. - Permitiu com que ele segurasse sua mão e iniciasse um carinho leve. - Me conta você agora, o que está por trás do pentacampeão de fórmula um?
- Por trás?
- Sim, tudo que tem para saber de nas pistas, eu já sei. Quero saber o que existe por trás, conhecer além do eu já sei. . - Sanou a dúvida.

O piloto fez um bico enquanto pensava na resposta, apoiou a taça na coxa para ter mais mobilidade.

- Eu não mudei tanto desde as nossas últimas conversas, só o que precisava ser mudado. Agora não bebo mais, consequentemente estou bem mais caseiro, mais focado na realidade, não só na bolha que a fama te coloca. Acho que isso tem um pouco a ver com a maturidade também. - sorriu. - Estou mais centrado, mais focado, a minha carreira não é tanto minha obsessão, acho que hoje também consigo entender meu lugar no mundo, sabe?
- Se eu fosse sua psicóloga diria que estou totalmente orgulhosa da maneira como amadureceu e modificou tudo que foi necessário. - Sorriu satisfeita com a revelação.
- Mas você não é. - Ele piscou. - Pode ficar feliz apenas por eu ser um homem focado e calmo que está aos teus pés hoje.
- Está aos meus pés? Não me lembro de você ter mencionado que estava. - Descruzou as pernas, somente para cruzar novamente, invertendo a posição de qual fica por cima, discretamente acompanhou o movimento.
- Você sabe que sim, desde o primeiro dia, quando encontrei você pela primeira vez. - Ele sorriu.
- Eu sabia que estava, em uma época. - Se fez de rogada. - Agora nós estamos em outra época, as coisas podem mudar.
- Certas coisas, intensas e reais assim, nunca mudam. - Ele piscou. - Você sabe que o que liga nós dois é muito maior do que só desejo, sentimento, vontade, afeição...é muito maior que isso.
- Eu só sei do que me contam, se quer que eu saiba, precisa me contar. - Piscou e mordeu o interior da bochecha, sinal de ansiedade.
- Eu gosto desse jogo. - Ele riu jogando a cabeça para trás e se recostando na cadeira. - Gosto de ver você em ação assim, sempre tive muita curiosidade para saber do que era capaz. Mas se é disso que precisa, , se precisa que eu diga como me sinto e quais são as minhas intenções, eu digo.
- Eu não leio mentes, . Nunca li. - Sorriu abertamente. - Reconheço atitudes, consigo fazer algumas leituras de comportamento, mas jamais consigo ter a certeza de algo. Se não me dizem, uma pergunta certa , e tenho as respostas que preciso.
- E o que você quer saber de mim, ? - Ele perguntou.
- Quando você está interessado em uma mulher, como a conquista? - Questionou com os olhos no inglês.
- É sério? - Ele sorriu inclinando-se um pouco sobre a mesa. - Quer que te conte como faço para que você consiga me ler? Entender os sinais?
- Não, os sinais eu já posso ver. - Mais um gole do vinho, dessa vez levou o dedão ao canto da boca para se certificar que nada escapasse. - Consigo ver um carro caro, um restaurante refinado e um terno totalmente feito sob-medida. - Destacou as atitudes do homem até ali e ele sorriu. - Eu quero que me fale, quero escutar você dizer. - Ela também se inclinou dando a visão do decote que trajava no vestido.
- Por que quer saber como conquisto alguém? Isso é irrelevante agora. Você deveria querer saber como eu faço para manter alguém por perto, além disso, eu não costumo errar e sem querer ser arrogante, acho que a essa altura você é a melhor pessoa entre nós para dizer como eu conquisto alguém. - umedeceu os lábios devagar, concentrando-se inteiramente nos olhos dela.
- Não. - Ela balançou a cabeça negativamente. - Eu sei como eu conquisto alguém, conheço as formas como eu gosto de ser conquistada. Não como você conquista alguém, além do mais, não aja como se eu fosse a primeira mulher que traz para um jantar, sabemos que não é. E a essa altura já começo a me questionar o motivo de estar se esquivando da minha indagação. - Finalizou estreitando os olhos e imitando o movimento dele, olhos fixos e lábios em um sorriso malicioso.
- Uau. - Ele riu entredentes. - Eu achei que já tinha te conquistado...pelo menos um pouco. Mas tem razão, não é a primeira mulher e eu não estou fugindo, só não tenho o que dizer, só procuro ser eu mesmo. Ainda não entendi sua curiosidade nesse assunto.
- Já me conquistou um pouco, mas se contenta só com esse mínimo? - Arqueou a sobrancelha. - Estou com curiosa com você, minha maneira de descobrir as coisas é através das perguntas, geralmente as pessoas respondem. - Sorriu, passando as mãos no cabelo. - Mas já que parece não ter entendido, posso refazer, como pretende me conquistar… mais?

E lá estava ela, a mulher controladora e centrada que sempre tentava moldar, e que sempre nos momentos mais relaxados aparecia para atazanar a mente da psicóloga brilhante. Esse era um dos motivos que a impediram de ter um relacionamento estável, sua péssima mania de querer controlar a situação e prever o futuro, tinha pavor de não saber o que estava por vir.

- Por que essa necessidade em prever? Em saber exatamente o que te espera, como vai ser e o que vai acontecer? Às vezes, só às vezes, vale a pena se deixar surpreender pela vida. - O piloto cruzou os braços sobre a mesa e encarou a psicóloga. - Eu posso listar milhões de coisas que posso fazer para conquistar você, mas não funciona assim, nada é tão previsível. Eu posso dar tudo, te levar para conhecer minha família, tocar para você, te ouvir, fazer massagens durante horas e então você se apaixonar por um cara que conheceu enquanto tomava café. As coisas acontecem, e eu pretendo tentar todos os dias fazer o que puder para conquistar você, e no momento isso é o que eu posso te dizer, o resto seria mentira e enrolação.

recostou o corpo na cadeira, relaxando mais uma vez a postura, observando a expressão no rosto do piloto em sua frente. estava sério e calmo, um sorriso brilhava nos lábios confiança exalava dele.

-Gosto do controle, gosto de planejar exatamente todos os meus passos, só não conte isso para a doutora ), talvez ela me mande segurar um pouco a barra. - Abriu um sorriso com a colocação de si mesma na terceira pessoa. - Mas acima de tudo, sou uma mulher totalmente auditiva, gosto de ouvir as coisas, até mesmo as que eu já sei, talvez você acredite que não vá fazer tanta diferença, mas palavras são gatilhos impressionantes.
- Eu sei disso, sei bem. - Ele sorriu. - O que posso dizer no momento, com absoluta certeza, é que estou feliz por estar com você agora e quero continuar, me surpreendendo com o destino e com nós dois. - aproximou mais o rosto da mulher e sussurrou. - Para ser sincero, também queria pedir para que eles levassem o jantar para o quarto e que nós fossemos para lá, aproveitar a noite da forma que merecemos e que eu sei que queremos.
- Tentador. - Se aproximou dele mais, seus lábios quase se tocaram, conseguia sentir a respiração de em seu nariz. - Eu estava esperando esse convite, estou precisando mesmo de uma massagem.

foi o primeiro a se levantar, fechou o botão do blazer e esticou a mão para que também se colocasse sobre seus pés, trocaram mais um sorriso antes de iniciarem a caminhada, fez um gesto para o funcionário do hotel indicando que iriam subir.
O Inglês colocou a mão na base da coluna de , a guiando em direção ao elevador. O toque quente fez com que sua pele se arrepiasse e por isso ela mordeu o lábio inferior não querendo demonstrar ao homem o que sentia.
Quando ambos entraram no elevador, apertou o número 25, o último andar e então as portas do elevador se fecharam. A mão que repousava na cintura de subiu lentamente por suas costas até chegar em sua nuca, onde enrolou os dedos levemente nos cachos.
A psicóloga fechou os olhos ao sentir os movimentos que ele iniciava. se aproximou da mulher, colocando seu corpo atrás dela e com a mão livre enlaçou sua cintura, puxando-a para que seus quadris se chocassem, levou a boca até o ouvido dela, antes de falar qualquer coisa, mordeu o lóbulo levemente e depois soprou o local.
sorriu levemente, sentindo um calor que há cinco minutos tinha plena certeza de não sentir.

-Já imaginei colocar minhas mãos sobre você tantas vezes, . - Sussurrou. - Mal posso acreditar que você será minha.
- Sim. - A respiração se intensificou conforme ele descia os beijos por seu maxilar e pescoço, ele puxou levemente os cabelos dela trazendo a cabeça para trás, quase tombada em seu próprio ombro.
- Sim, o quê? - Perguntou, passeando com o nariz pela curva do maxilar da mulher e abocanhando o lóbulo da orelha dela, a fim de arrancar um gemido, que veio feito música para os seus ouvidos.
- Só sim. - Mordeu o lábio inferior freando suas palavras. As portas do elevador se abriram revelando o último andar, o piloto inglês iniciou a caminhada, a mão direita firme na cintura de , conduzindo-a ao local certo.
- Cartão magnético no bolso direito da calça, pegue, por favor, não quero tirar minhas mãos de você. - A voz saiu inundada de desejo e luxúria, , não controlou um gemido quando o pedido de veio acompanhado de um puxão leve em seus cabelos

tateou os bolsos do homem, indo além do necessário e esbarrando a mão na virilha do homem, que deixou um gemido escapar pelos lábios, sorriu satisfeita e só então resgatou o cartão, levando-o imediatamente até a fechadura eletrônica, que fez um barulho ao destravar.
Assim que passaram pela porta, fechou a mesma com os pés e então sacolejou o corpo e conseguiu se esquivar dele, para então se virar novamente e encará-lo.
sorriu de modo quase angelical, os olhos cheios de malícia e lentamente abriu a fenda do vestido para os lados, deixando as pernas a mostra, se abaixou devagar e levou as duas mãos a perna esquerda para desabotoar a sandália, sob os olhos atentos e desejosos de que parecia hipnotizado com a cena que se desenhava sob seus olhos.
Depois que soltou a presilha do salto nude, balançou o pé para desencaixar o mesmo. Ainda com os olhos cravados no piloto, repetiu o ato com o pé direito, depois subiu o corpo lentamente, as mãos passearam da canela até a coxa em um movimento sensual que mostrava o quanto reprimiu seus desejos diante daquele homem.

-Vai ficar só olhando?
- Estou apreciando sua beleza. - Caminhou em sua direção, abrindo os botões do blazer. - Já disse hoje e vou repetir quantas vezes eu conseguir, você é a mulher mais bela que meu olhos já viram. - Encaixou as duas mãos em sua cintura e subiu as suas por ambos os braços, saboreando os músculos desenhados no trajeto, enfiou-as por debaixo no blazer na parte superior e abaixou a peça, com a intenção de retirá-la, desfez o toque sobre a mulher para permitir que ela cumprisse o que iniciou.
As mãos foram para a barra da camisa preta, mordeu o lábio inferior em expectativa e então começou a subir a peça escura.
- Está com pressa? - Disse assim que passou a blusa pela cabeça, olhou para o homem fixamente e então desceu os olhos, demorando-se em cada músculo daquele abdome impecável, passando pelas entradas invejáveis e a barra da calça social.
- Eu sempre te quis assim, sem camisa, de calças e me olhando com todo desejo do mundo. - Mordeu o lábio inferior e passou a unha do dedo indicador sobre os gomos de sua barriga. - Então acho que sempre desejamos a mesma coisa, pois sempre quis tocar você, saborear você. - A mão direita encaixou em seu pescoço, fez um carinho com o polegar na bochecha e então escorregou para baixo, até chegar ao vale de seus seios. - Não suportava estar perto sem tocar você. - Não precisa mais só apreciar, você agora pode me tocar, . Pode me tocar onde quiser. - Levou o dedo indicador aos lábios do homem, contornando sua extensão com a unha. - Eu vou, vou te tocar a noite inteira. - Aproximou seus rostos para finalmente beijar a mulher que por anos desejou, antes que conseguissem concretizar o ato, a campainha soou na porta. - Acho que é o nosso jantar. - Sussurrou. - Eu não estou com fome. - Disse por fim, antes de acabar com a distância entre suas respirações.

XXX


- Bom dia, papai. –Hannah desejou, entrando na cozinha já de uniforme enquanto o homem fritava dois ovos em uma frigideira, a garotinha abriu a porta da geladeira e pegou uma cenoura fresca – Já deu café da manhã para o Max? – Ela perguntou.
- Já conversamos sobre isso. – disse, sem erguer os olhos da frigideira que chiava.
- O Max é minha responsabilidade, eu sei. – A garotinha revirou os olhos verdes – Pode cortar uns pedacinhos da cenoura para mim?
- Assim que terminar aqui, eu corto. Enquanto isso, troca a água dele. – Sugeriu.

Hannah saltitou até a gaiola de Maxwell e abaixou-se, abrindo-a, afagou o coelho um pouquinho, e então pegou a tigela de água dele. Jogou a água antiga na pia da área do banheiro e encheu-a novamente com água da torneira.
br> - Aqui está, Max. Água novinha para você – Cantarolou Hannah, acariciando o focinho do bichinho – Já vou trazer o seu café da manhã, tá bom?
Hannah ficou observando o pai transferir os ovos fritos da frigideira para os pratos com uma espátula, prestativa; obediente, afastou-se enquanto ele manuseava a frigideira quente e a colocava dentro da pia, abrindo a torneira e deixando que a água esfriasse o utensílio.
cortou algumas raspas de cenoura e entregou-as a Hannah que, rapidamente, colocou-as na tigela de comida de Max.

- Hannah, lave as mãos antes de vir comer. – Lembrou-a, enquanto colocava a mesa do café da manhã.
- OK! – Ela berrou do banheiro e ele ouviu o barulho da torneira sendo aberta e, momentos depois, fechada.
- Com sabão! – Ele acrescentou.
- Ah. OK! – Ela berrou, de novo, e ele ouviu a torneira ser aberta de novo, riu sozinho, enquanto colocava dois pães de forma na torradeira.

Quando Hannah chegou, já tinha lhe servido leite no seu copo favorito da Lola, de Charlie e Lola. Colocou a torrada com manteiga e metade do ovo frito em seu prato de plástico.
- Obrigada, papai, pela comida – Hannah estava com as mãos juntas, como se estivesse orando.
- Hannah, o que está fazendo? – Ele perguntou, perplexo.
- A irmã Greta, lá do colégio, disse que a gente tem que agradecer todos os dias aquele que coloca comida na nossa mesa. – A garotinha respondeu, já dando uma mordida em sua torrada. jogou a cabeça para trás e gargalhou.
- Acho que a irmã Greta não se referia a mim, Han. – Ele disse, assim que conseguiu falar.
- Eu não vi ninguém mais colocar comida na mesa – A menina retrucou, franzindo o cenho.
- É complicado explicar isso – Ele disse, com sinceridade, sobretudo porque nunca fora um homem muito religioso – Mas ela queria falar de Deus, tenho certeza.
- Bem. Ela claramente cometeu um equívoco, porque Deus cria mundos, não coloca comida em mesas – Ela revirou os olhos.
- Equívoco? – Arqueou as sobrancelhas.
- É. Significa erro. – Sorriu, orgulhosa – A professora explicou para a gente, na aula de ontem.
- E você aprendeu direitinho. – Pontuou bebendo seu café. – Termine de comer, senão iremos nos atrasar para o colégio.
- A mamãe não vai me levar hoje? – Questionou.
- Não, vamos deixar a mamãe descansar. – Sorriu. – Hoje é o dia do papai.


XXX


despertou lentamente, sentia uma fresta de luz sobre seu rosto que estava a incomodando bastante, por conta disso, envolveu as duas mãos no pano que cobria seu corpo, puxou para cima e girou o mesmo, mudando sua posição, na tentativa de fugir da claridade e então continuar seu sono.
Ao completar o movimento, seu corpo esbarrou em algo, duro e firme, uma confusão se plantou em sua mente e por isso foi obrigada a abrir os olhos, e assim o fez, lentamente procurando com o que havia colidido.
dormia ao lado, estava deitado de bruços e com a cabeça em sua direção, somente um lençol cobria a parte debaixo de seu corpo deixando a mostra suas costas fechadas em músculos e tatuagens.
Mordeu o lábio inferior ao se lembrar do acontecimento da noite anterior, da bolha de prazer em que ambos entraram e em como havia superado qualquer expectativa sobre o desejo que os rondou por muitos anos. Passou as duas mãos no rosto esfregando os olhos por completo, não queria levantar, mas com a luz não voltaria a dormir, com essa intenção, correu os olhos pelo quarto e identificou de onde vinha.
Chutou os lençóis, se colocou para fora da cama e se arrastou, devagar, até a janela, aproximou das cortinas puxando as duas na mesma direção, unindo-as para que o escuro se instalasse novamente.
Com a movimentação ao seu lado, despertou e logo girou a cabeça para o lado à procura da mulher com quem havia compartilhado a noite, seus olhos não captaram na cama, mas sim em sua frente, caminhando preguiçosamente até ele. Com a visão encantadora que teve, não foi possível esconder o sorriso, era deslumbrante e agora que a teve em seus braços, só teve mais certeza da contestação.

- Bom dia, ! – Ela sorriu ao perceber que o piloto estava acordado.
- Com essa visão pela manhã, com certeza será um bom dia. – Sorriu de volta vendo subir novamente na cama, estava completamente nua e seus cabelos emolduravam seu rosto.
- Eu também não posso reclamar da minha visão. – Murmurou ao vê-lo sentar. – Inclusive bela tatuagem. – Apontou o desenho abaixo da costela e sentou-se, para conseguir se enfiar debaixo dos lençóis e então deitar.
- Belos seios. – Piscou safado e gargalhou.
- De fato são lindos. – Passou as duas mãos nos seios e os ergueu, como se analisasse os órgãos, soltou um murmúrio baixo com gesto da psicóloga. – Você é um cara de sorte por ter conseguido tocá-los.
Ela soltou os seios e levantou a perna direita colocando-a debaixo do lençol branco, e depois a esquerda, mexeu o corpo se aproximando dela.
- Eu não só toquei eles. – Iniciou, os olhos já inundados de luxúria. – Fiz tudo que eu sempre quis com eles.
- Hm, eu não me lembro disso. – Colocou o dedo indicador no queixo, fingindo esquecimento e mordeu o lábio antes de gargalhar, seu corpo já dava sinais de excitação somente com o sorriso que ele a brindava.
- Não é um problema. – Comentou, o dedo indicador iniciou um traçado por seu braço direito. – Eu posso passar o dia inteiro te lembrando.- Conforme subia o toque sutilmente pelo braço da psicóloga, sentia uma fagulha de ansiedade aparecendo em seu baixo ventre, necessitando de mais do carinho por menor que ele fosse. Sono? Bobagem.
- Hm, eu tenho um compromisso. – Murmurou quando alcançou seu pescoço com os lábios, deixando uma trilha de mordidas leves que causaram arrepios por todo o seu corpo. - Devíamos tomar café, antes de eu sair. Eu não posso demorar.

não respondeu, por que, finalmente alcançou seu seio direito, concentrando uma força crucial para arrancar um gemido delicioso de seus lábios.

- Sinto muito, querida, eu sou incapaz de te deixar ir embora antes de você se desmanchar novamente para mim.
concordou com um aceno de cabeça, quando o inglês abocanhar seu seio direito enquanto massageava o esquerdo, e quando a trilha de beijos desceu pelo vale de seus seios e barriga, ela soube, não sairia dali no horário que planejou.

XXX


mexeu na cama, mudando a posição de seu braço e então se virando para o outro lado, ao mesmo tempo que puxava o lençol e tapava a cabeça. Com o movimento do homem ao seu lado, despertou. Ainda sem abrir os olhos por completo, a psicóloga tateou debaixo do próprio travesseiro à procura do celular, mas o aparelho não estava, um gemido frustrado escapou de seus lábios, por ser obrigada a abrir os olhos.
O quarto estava escuro, motivo que a fez não ter certeza sobre quantas horas era. Coçou o olho direito e girou a cabeça para o lado, vendo que dormia tranquilamente. Sorriu sozinha lembrando-se da noite passada, quando ele bateu em sua porta, educadamente, para lhe devolver o brinco que ficou perdido entre os bancos de seu carro, quando os dois saíram juntos a primeira vez.
O piloto foi convidado a entrar e ali permaneceu, conversaram, ela bebeu um pouco de vinho, escutaram música, jantaram e pela segunda vez terminaram a noite embolados na cama.
Estavam vivendo uma loucura, já que não era adepta a relacionamentos, quase não se envolvia com homens e quando acontecida não passava de algumas noites. Com tendia a ser diferente, e ela gostaria que realmente fosse, estava com certo receio, mas combinou consigo mesma que esperaria para ver o curso das coisas.
Determinada a saber o horário a negra se esforçou para sair da cama, nada cobria seu corpo, somente o lençol, por isso se encaminhou em direção ao closet, resgatando um conjunto de lingerie, não ousaria acender as luzes ou abrir cortinas para procurar suas coisas pelo chão daquele quarto, tinha intenção de voltar para a cama.
Na suíte do quarto, ela pode ver pela janela que o sol já brilhava com certa intensidade em Mônaco, constatou que deveria ser pelo menos umas dez da manhã. O tempo que havia para compartilhar com estava curto, de tarde, ela precisava comparecer em um encontro terapêutico, não gostava de atrasar.
A negra lavou o rosto e aproveitou para escovar os dentes, secou o rosto com a toalha e passou as mãos no cabelo, amassando seus cachos. Caminhou em direção a porta e então um barulho a fez franzir o cenho, provável que estivesse despertando, mas outra voz preencheu o quarto, uma que conhecia bem. E ao chegar à porta, não conseguiu esconder o sorriso.
Antonella Cornello estava sentada sobre o corpo de que ainda estava sonolento e coçava os olhos, imediatamente, reconheceu à mulher que estava sentada sobre si, os cabelos de Antonella estavam mais curtos, o rosto mais pálido que o normal, mas sem sombra de dúvidas era ela. De novo. A esposa de seu amigo.

- De novo não. – Ele resmungou inconformado fechando os olhos e enrugando o semblante em lamúria.
- De novo? Isso já aconteceu antes? – se permitiu falar, Antonella girou o pescoço na direção do som e encontrou a psicóloga parada na porta de seu banheiro.
- ! – Berrou e logo saiu de cima de , caminhando em direção à amiga, tomando seu corpo em um abraço apertado. – Que saudade! – Murmurou entre os cabelos da psicóloga, se afastou e olhou nos olhos dela, deu mais um sorriso e então colou seus corpos novamente, totalmente entusiasmada com o encontro, até que sua mente pareceu lhe alertar sobre a cena anterior. - Espera um pouco. – Antonella se afastou novamente e voltou seus olhos para que permanecia deitado na cama coçando os olhos, depois voltou seu olhar para a amiga e pelos trajes que a mesma usava. – Vocês... – Apontou os dois, coçou a nuca e sorriu.
- Pois é. – Respondeu curta. – E o que significa de novo? – Perguntou se remetendo ao comentário do piloto proferido ao ver a cantora.
- Já estivemos nessa posição antes, eu entrei no quarto dele, acreditando ser do meu marido, foi constrangedor, já que eu fiquei mandando ele me foder. – Antonella respondeu com naturalidade, já tinha superado o acontecido de tempos atrás, sua vergonha já tinha ficado pelo caminho.

desviou os olhos de Antonella para e viu que o homem estava um pouco envergonhado.

- Tem alguma amiga minha que você não beijou, ? – Direcionou a pergunta ao piloto, se afastou de Antonella e foi em direção a poltrona branca perto da cama, gostava de sentar nela durante as noites para ler, sobre a mesma repousava um robe de seda, a psicóloga jogou a peça por sobre os ombros, encaixando os braços nas saídas e deu laço na parte da frente.
- Eu não beijei a Antonella. – Respondeu em protesto, era óbvio que aquela brincadeira de Ricciardo, viria à tona.
- Que outra amiga ele beijou? – A cantora questionou curiosa, enquanto observava sua imagem no reflexo do espelho.
- Louise.
- Você beijou a Render? – Virou bruscamente em direção a cama, os olhos tão arregalados que corriam o risco de não voltar para o lugar.
- O quê? Não. – Exclamou levando as duas mãos ao rosto, em uma tentativa de esconder o constrangimento.
- Você não beijou a Render?
- Não foi bem assim que aconteceu. – Direcionou o olhar para , implorando pelo fim daquele assunto.
- Ah, não me importo. – Antonella abanou a mão, dando de ombros. – Isso é um problema totalmente da , agora. Por falar nisso, trouxe vinho, vamos para a cozinha? – Com o dedão ela apontou para trás de si, em direção à porta. Correu os olhos para os dois e não obteve qualquer resposta, então permaneceu os encarando.

Os dois exalavam uma simetria incrível, que ia além de todos os aspectos físicos que tinha em comum, mas os dois pareciam ter sintonia de almas, que a fazia lembrar-se do próprio relacionamento, onde ela achava no marido o mais incrível dos cúmplices, e o mais perfeito dos amantes, não podia dizer muito sobre os dois que estavam em sua frente, mas sem a mínima dúvida eles eram interessantes, para dizer o mínimo.

- Eu não bebo, obrigado, Anto! – respondeu com toda educação.
- São 10 da manhã. Vamos ingerir bebida alcoólica essa hora? – tomou o assento na cadeira, correndo os olhos pelo local ainda a procura do celular, tinha jurado que a última vez que o viu estava sentada naquela cadeira.
- Em algum lugar do mundo são dez da noite. – Respondeu dando de ombros, ainda aguardando a amiga responder, com os lábios presos entre os dentes, ela teve o vislumbre da cena que se iniciava em sua frente, onde e trocaram olhares cúmplices e desejosos, deu um sorriso divertido, porém permaneceu onde estava, mesmo sentindo que eles queriam privacidade.
- Vai na frente ajeitar a mesa, eu te encontro em 5 minutos. – Pediu com cautela e Antonella balançou a cabeça positivamente, trocou um olhar divertido com a psicóloga e não conteve uma gargalhada que escapou dos lábios.
- Pode ir em 15, tudo bem que ele é pentacampeão, mas cinco minutos é rápido demais até para ele. – Caçoou e deu alguns passos para trás, com a intenção de sair do quarto e deixar o casal por mais algum tempo sozinhos. Passou pela porta do quarto e fechou a mesma.

Ao escutar o barulho da mesma se fechando e com uma rapidez absurda, puxou o corpo de de encontro ao seu, deixando ela deitada sobre seu corpo. A mulher espalmou as duas mãos no peito nu dele, balançou o rosto para tirar um pouco do cabelo que deslizou para sua face.

- Saiu da cama cedo. – Ele resmungou.
- Fui ao banheiro. - Ela respondeu com os olhos fechados, quando sentiu o carinho dele sobre sua pele. - Mas quando saí, já tinha outra mulher em sua cama.
- E por incrível que pareça, não tive absolutamente nada a ver com isso. - Ele riu.
- Ainda bem que não sou uma mulher ciumenta então. - Lhe deu um beijo nos lábios e totalmente contra sua vontade, saiu dos braços do homem. - Vou me vestir e encontrar a Anto, se quiser dormir mais, fique totalmente à vontade.
- Até porque, aparentemente só isso me resta. - reclamou sorrindo.
- Claro, pois você não fez isso de madrugada. - foi até o closet e resgatou uma calça jeans e uma camiseta, tirou o robe e vestiu as roupas, colocou os pés em uma pantufa e voltou ao quarto, já estava deitado novamente e embolado nas cobertas, resgatou o celular e se direcionou para encontrar a amiga.

Deixou o quarto e desceu as escadas, já conseguia sentir o cheiro de algo que a italiana preparava, Antonella cantarolava alguma música e a psicóloga sorriu ao escutar a voz da outra.
Colocou o celular sobre a bancada da cozinha e escorou o corpo, Antonella estava preparando panquecas, o celular estava ao lado junto com uma taça de vinho, e logo uma voz conhecida soou pelo cômico.

- Caramba, Louise, demorou um tempão para atender. Precisei ligar três vezes. - Resmungou a cantora ao erguer o celular para enxergar a face de Louise Rousseau - Render.
- Sexta-feira, alguém ainda precisa trabalhar para sustentar as crianças. - Louise resmungou. - O que houve? Alguma emergência?
- Nenhuma, Lou. - respondeu encostando o corpo na bancada- A Antonella que gosta de invadir a casa das pessoas cedo assim mesmo.
- Quanto drama, gente. - A cantora abanou com a mão, dando de ombros e seguindo o exemplo de encostando o quadril sobre a pia. - Eu só liguei para conversar com você, Render. Te falar que estou na cidade.
- O que trouxe o furacão Cornello para nosso querido principado? - Louise sorriu. - Alex, eu não vou repetir, tire seus tênis da sala. E por que você foi para a casa da primeiro? - Quis saber.
- Engraçado eu repito as mesmas palavras que você fala com seu filho, só que com meu marido de 32 anos. - Antonella observou sorrindo, se lembrando exatamente da mesma fala que disse para Daniel no dia anterior quando chegou em casa e quase se espatifou no chão, por tropeçar no tênis do australiano. - Eu vim a casa dela primeiro, pois era mais perto que a sua, e vocês sabem que eu detesto dirigir. - Tomou um gole do vinho e se aproximou tomando conta do fogão, caso contrário as panquecas queimariam. - Vim convidar vocês para um jantar, só às mulheres.
- Você se casou ou adotou? Alex, venha cumprimentar Anto e . - A jornalista chamou o filho. - Agora. - Gritou. - Vocês estão bebendo a essa hora? Certas coisas nunca mudam.
- Oi, tia Anto, oi tia . - O garoto cumprimentou, tinha os cabelos loiros bagunçados e o rosto um pouco amassado. - Oi, padrinho.
- Padrinho? - Louise arqueou uma sobrancelha e trouxe o celular para mais perto do rosto. - ? está aí também?
- Pois é, deveria ter ido para sua casa primeiro, já que aqui eu empatei a trepada do casal. - Apontou com o dedão para a psicóloga que arregalou os olhos surpresa, que parecia um pouco atônito, piscou algumas vezes para entender o ambiente que estava.
- Antonella! - Louise a repreendeu. - Criança na sala.
- Oi. - acenou para a câmera. - E aí, carinha. - O inglês se inclinou para mais próximo da tela, tentando enxergar melhor o afilhado.
- Você também conhece a tia , padrinho? - Alex perguntou.
- Sim.- tossiu, tentando limpar a voz. - Sim, conheço.
- Se despeça, passarinho. - Louise pediu ao filho. - Você precisa tomar banho.
- Tchau todo mundo. - O garoto acenou. - Padrinho, você ainda está lembrando que vamos sair domingo, não é?
- Claro, eu não esqueci. Tchau, Alex, obedeça a sua mãe. - aconselhou e o garoto desapareceu do foco da câmera.
- Tchau, Alex. - se despediu mesmo após perceber que o menino havia ido.
- , tem panquecas. Você gosta? - Antonella ofereceu, bebendo mais vinho- Foi eu quem fiz, não foi a , então está comestível, já que ela é péssima na cozinha.
- Não sou obrigada a ser dona de casa. - A psicóloga deu de ombros. – E eu faço ótimas panquecas.
- Fica para outra oportunidade. - Ele sorriu amarelo. - Tive um imprevisto, preciso ir trabalhar. - O piloto explicou enquanto balançava o celular para exemplificar, Antonella girou os olhos na direção à morena, como se pedisse uma explicação por estar indo embora tão cedo.
- Nem adianta olhar para mim, Antonella, sou acionista e jornalista, não tenho nada a ver com isso. - Louise rolou os olhos.
- Nós nos vemos depois? - Ele sussurrou para a psicóloga.
- Claro, de tarde vou ao consultório, se quiser podemos fazer alguma coisa de noite. - Ela sorriu para o homem, os olhos tinham certo brilho. - Quer que eu te leve até a porta?
- Não, não é necessário. - sorriu abraçando a mulher pela cintura. - Estamos combinados, então. Te pego às oito e depois a noite inteira. - Piscou. - Antonella. - O piloto acenou com a cabeça, e Anto mexeu os dedos da mão em despedida. - Te vejo na fábrica, Petit. - Piscou para Louise e então as deixou.
- Te pego a noite inteira? - Antonella respaldou com firmeza, tinha um sorriso safado nos lábios. - , me devolve meu Bourbon, você não precisa mais dele, agora você tem um homem gostoso na sua cama.
- Meu Deus, você ouviu isso? - colocou as duas mãos no rosto envergonhada, tinha falado baixo.
- Claro, eu sou cantora, tenho audição feroz. - Bebeu mais um gole do vinho, se deixasse beberia a garrafa inteira.
- Eu não vou devolver nada, pergunta para a Louise o que ela fez com a garrafa? – rebateu pegando um pedaço das panquecas em frente a Antonella.
- Só foi constrangedor para mim ouvir o falar isso? Anto, nenhuma imagem se materializou na sua cabeça? Eca. - Louise fez careta, teatralmente. - O bourbon estava bom, aliás, no ponto certo para curar vergonha alheia e falta de noção.
- Eca? - Antonella questionou perplexa. - Eu já vi o em um momento íntimo, está muito bem servida, pega a noite inteira mesmo, até perder as forças. - Incentivou a cantora, era o que gostaria de fazer caso o marido estivesse na cidade.
- Meu Deus, Antonella. Você é tão safada. - sorriu.
- Sim, e meu marido ama. - Deu de ombros. - Render, nosso jantar sábado? Virou seus olhos para a jornalista.
- Eu quase vomitei com essas falas de vocês . - Louise fez careta. - Claro, acho que não tenho nenhum compromisso, só preciso de uma babá.
- Perfeito. - Antonella bateu palmas. - Você escolhe o local, já que é mais refinada e você, - Apontou para . - Me busca, vocês sabem que eu odeio dirigir e como é só de mulheres, Ric não pode ir.
- Você conhece algo chamado táxi? É uma invenção nova, mas funciona. - desdenhou.
- O tempo passa, mas a folga de Antonella Antonella, nunca. - A jornalista riu. - Tony dizia que era por isso que devíamos sempre te visitar e nunca o contrário.
- Que abuso. Como se Tony não fosse um folgado, ele ia beber cerveja com Daniel e deixava a gente na cozinha. - Se defendeu a cantora.
- Você não muda mesmo, Anto. - disse. - Então fica marcado, certo? Anto a Lou precisa ir trabalhar.
- Obrigada por lembrar. - A jornalista sorriu. - Marcado.
- Ainda bem que eu já não me ofendo com o jeito que vocês me tratam. - Antonella deu a língua. - Tchauzinho, Render. Bom trabalho.
- Adiós! - Louise sorriu e acenou para as amigas. - Até mais

Antonella desligou a chamada após a saída da jornalista francesa.

-Me conta como foi que acabou na sua cama em plena sexta feira? - Antonella resgatou a garrafa de vinho da bancada, catou o celular e a taça para se direcionar até o sofá.
-Você não perde a oportunidade mesmo. - sorriu acompanhando a cantora no caminho pela sala. - Nós jantamos, dormimos juntos, depois jantamos e dormimos juntos na noite seguinte. - A psicóloga sorriu, tomando o assento do sofá. Antonella deixou a taça e a garrafa no chão, no mesmo movimento tirou as sandálias de salto dos pés, para se acomodar melhor no sofá.
-Vão levar isso adiante? - Anto resgatou a garrafa e a taça mais uma vez, trazendo consigo para o sofá, sentou com a perna esquerda debaixo do corpo e a direita em um ângulo de noventa graus, onde conseguia apoiar o cotovelo no joelho. - Digo, qual foi à última vez que esteve em um relacionamento?

demorou alguns segundos para responder, estava pensando verdadeiramente na pergunta da amiga, nunca fora de muitos relacionamentos, sempre se doou para sua carreira e não havia muitos homens que entendiam o que de fato era estar ao lado de uma mulher determinada e que lutava por seus ideais.
Talvez possa ser o momento certo para se permitir pensar em algo, mas sabia que mesmo adorando a companhia de e vivendo com esse o quis por muito tempo, era besteira pensar no que poderia acontecer dali em diante, era mestre em planejar as coisas, tinha um pé rendido em controle, mas não podia deixar que essa parte prevalecesse.

-Acho que não é o momento para pensar nisso. - Confessou com total certeza de ser a melhor opção. - Como você decidiu levar as coisas adiante com o Daniel? - Rebateu a pergunta, estava curiosa, nada que fosse por causa da situação com , era somente uma curiosidade de amigas.
- Hm. - Antonella bebeu mais um gole do líquido e estalou os lábios, pensativa. - Era algo parecia ser predestinado. - Iniciou a fala após alguns segundos. - A gente só sabe, , quando eu beijei o Daniel pela primeira vez, eu soube que jamais teria forças para me afastar dele. Eu me lembro de quando trocamos o primeiro beijo. - Sorriu, os olhos brilhando pela lembrança que dançava em sua mente. - Assim que o beijo acabou, ele sorriu e disse: Antonella, eu vou te dar uma chance, vai embora agora, some da minha vida, pois se você ficar hoje, eu jamais vou te deixar ir embora da minha vida. - Contou com o maior sorriso que poderia caber em seu rosto, conheceu a história de Antonella antes dela se envolver com Daniel, não havia a menor comparação entre o que ela viveu antes e o amor que encontrava com o piloto. - E aqui estamos anos depois.
- O relacionamento de vocês me encanta. - A psicóloga cruzou as duas mãos em frente ao corpo. - Acredito que qualquer relacionamento deveria ser como o de vocês, cúmplices.
- Com total certeza. - Assentiu com a cabeça. - Se eu cometer um assassinato, a primeira pessoa que chamo é meu marido, e sei que ele vai me ajudar a esconder o corpo. - Essa era a base do relacionamento dos dois, não havia nada que não fizessem um pelo outro.
- Eu acho interessante a maneira como você se refere a ele: meu marido.
- Ele é meu marido. - Confirmou, mudando a posição no sofá e ajeitando a postura para ficar mais confortável, deixando as duas pernas em ângulo de noventa graus, com elas conseguindo ter mobilidade de mexer ambas. - Ele quem fica nessa neura de casarmos, mas para mim, Daniel Ricciardo é meu marido.
- Se você já o considera assim, qual o motivo que te faz negar o pedido de casamento do homem? – juntou as duas mãos como se fizesse uma oração. – Quantas vezes o Daniel já te pediu em casamento?
- Quatro.
- Antonella, meu Senhor, por quê? – Questionou com a sobrancelha arqueada.

Antonella se calou por alguns segundos, a cabeça se entupiu de pensamentos em uma fração de segundos, tão rápido como um relâmpago que cruza o céu em noites nubladas. Por que negava os pedidos de casamento de Daniel, se eles eram casados? As pessoas pareciam não entender quando ela explicava, que as precisava daquela formalidade toda, já viviam juntos e se amavam como tal, talvez até mais, fazer uma cerimônia para as pessoas, pelo motivo delas serem testemunhas de algo que já é real entre eles, era uma insanidade aos olhos de Antonella.
Anos atrás, para Antonella Cornello, a opinião das pessoas era de suma importância, por causa disso, se deixou ser e fazer muitas coisas, foi ferida mais vezes do que podia contar, e precisou tanto de ajuda para se erguer, que em algum momento, por um mísero momento, realmente acreditou que não conseguiria voltar a se mover.
Hoje, depois de anos de tratamento com , investindo em si mesma, na sua carreira, jurou para si mesma que jamais se colocaria em posição de escutar e se importar com a opinião alheia. E o casamento era isso, era precisar provar para as pessoas que eles têm um relacionamento, sendo que eles já tinham.

- Não tem motivo para casarmos, , nós já somos casados. – Enfatizou – Nós irmos para um igreja é somente pelas pessoas, não é por nós, pois nós nos amamos e sabemos que somos casados. – Explicou, já havia perdido as contas de quantas vezes repetiu esse discurso para o próprio Daniel. – Eu quero que ele permaneça me olhando com a mesma paixão, como uma eterna namorada, com fogo, com tesão, com o mesmo olhar apaixonado que ele sempre me olha. – Era exatamente assim que necessitava que fosse, já escutara muitos relatos sobre um casal ser muito apaixonado e após os casamento as coisas mudaram. Antonella não estava disposta a correr o risco.
- Anto. – respirou fundo e então chamou, quando a cantora desviou os olhos para a amiga, reconheceu a expressão, era a mesma que ela fazia quando estavam em terapia e precisava e iria iniciar um sermão com muita classe. – Já parou para analisar que se ele pede para vocês se casarem, pode ser que para ele não esteja tão claro que já são casados?
- O quê? – Estava perplexa. – Está querendo dizer que ele duvida do nosso casamento?
- Eu não disse nada. – Ergueu as mãos para cima, em sinal de inocência. – Disse para você pensar sobre o que Daniel entende sobre isso, pois se para ele fosse da mesma maneira como é para você, ele não teria te pedido em casamento quatro vezes. – A voz de estava baixa e cautelosa, como em todos os momentos.
- Acha que pode ser insegurança? – Questionou com os lábios preso entre os dentes. – Que ele acha que não oficializamos, muda algo?
- Anto, eu não sei. – Disse. – Acho que existem alguns pontos que você precisa pensar, ele te pediu em casamento quatro vezes, isso mostra um desejo gritante, que você precisa observar. Não quer dizer que ele não entenda que estão casados, mas quer dizer que talvez ele queira uma cerimônia social.
- Isso é besteira. – Rolou os olhos.
- Não é, Anto. – Negou com um sorriso. – Nós vivemos de conveniências sociais, as pessoas casam, criam família e seguem uma vida. O Daniel é um homem romântico, talvez seja importante para ele reunir as pessoas que ama e jurar amor a você. – esticou as pernas no sofá. – Talvez ele queira que você assine o sobrenome dele, tem tanta coisa envolvida que talvez valha a pena você analisar com calma.
- Acha mesmo? Que eu deveria pensar sobre me casar? Tipo, me casar de verdade? – Antonella tinha uma expressão amedrontada no rosto.
- Você disse que já é casada de verdade. – Rebateu a outra.
- E eu sou. Daniel é meu marido.
- Então qual o problema, o real problema, da igreja? Quando você descobrir, saberá por que de fato não quer casar.

Antonella desceu as pernas do sofá, sentindo seus calcanhares tocarem no tapete felpudo da sala da amiga, fechou os olhos para evitar encarar , não estava entendendo por que aquelas simples frase a deixou tão pensativa, tinha convicção de seus pensamentos e sentimentos, amava Ricciardo mais que tudo, e sabia que nada faria com que o amasse menos, eles era felizes ao extremos e não enxergava sua vida sem ele, todavia, não queria pensar sobre aquele assunto, era desgastante demais e ela não estava sequer bêbada o suficiente.

-Então, o que vamos comer no almoço?


XXX


apagou a luz antes de sair do banheiro, puxou a porta antes de seguir para dentro do consultório, caminhou lentamente e sentou-se à sua mesa. Aquele dia em específico não estava se sentindo muito bem, possuía rinite alérgica e toda vez que ficava exposta há uma mudança de clima, suas vias áreas eram comprometidas, seus olhos sempre lacrimejavam e espirros eram constantes em seu dia.
Ela coçou o nariz mais uma vez antes de colocar mais soro e tomar outra dose do anti alérgico que para amenizar seus sintomas e assim conseguisse prosseguir com o trabalho.
Naquela sexta-feira estava no consultório oficial que a federação havia montado em Monte Carlo, onde seria a sede oficial da equipe médica quando não estivessem em semana de grande prêmio.
Ela iria ter dois encontros importantes naquele dia, veria o chefe de equipe da Mercedes, para que eles conversem um pouco e logo depois dele teria seu primeiro encontro com Michael e Madden e com esse seria uma conversa um pouco mais delicada.
pegou um comprimido dentro do frasco e foi em direção ao filtro para tomar o remédio com água. Assim que engoliu aproveitou para verificar como estava sua roupa. Tirou um pouco os pés de dentro do Scarpin caramelo e sentiu os pés quentes contra o chão frio, emanando choques térmicos. A camisa que vestia era branca e estampada com coqueiros, as mangas estavam esticadas até os cotovelos, mas optou por dobrá-las mais, depois ajeitou o cinto sobre a calça pantacourt mostarda, ajustando-a sobre o corpo. Por fim, passou as duas mãos no lenço estampado em sua cabeça, encaixando um cacho que escapou da arrumação. Ainda observava sua imagem no espelho quando escutou batidas na porta. Encaixou novamente os pés dentro do sapato e se encaminhou até lá.

-Sim. - Abriu e encontrou Dallas, a secretária com seu sorriso e rabo de cavalo em perfeito estado.
-O Senhor já está aqui. - Informou a moça e sorriu.
-Peça para que entre, por favor! - Pediu educadamente e aguardou na porta, enquanto a outra foi chamar o homem.

Alguns segundos depois, a figura de se materializou em sua frente. Estava com os cabelos arrumados e óculos de sol sobre os olhos que pareciam ser desenhados perfeitamente para seu rosto másculo, deixando-o ainda mais atraente que o normal.

-Doutora ! - Estendeu a mão para a mulher que imitou o gesto, apertando sua mão.
-Boa tarde, ! Por favor, entre e fique a vontade. - Deu um passo para trás e esticou a mão mostrando a sala, dando espaço para que o executivo entrasse.
-Obrigado.- Tirou os óculos do rosto ajeitando-os na gola da camisa social escura, logo tomou o assento em uma poltrona de cor clara, sentou-se em sua frente na cadeira. - É um ambiente bem bonito. - Elogiou correndo os olhos pelo local, demorando um pouco mais na estante de livros atrás de si, acompanhou o olhar dele até os livros e sorriu.
-Sim, ficou do jeito que solicitei, estou satisfeita. - Concordou.
-Confesso que não imaginava algo assim. - Girou o dedo mostrando a sala. - Tem tons claros e uma ótima vista, nada amedrontador.
- Você achava que seria amedrontador? Isso é um consultório médico não um cenário de filme de terror. – Disse e soltou uma gargalhada.
- Digamos que tenha um pouco de medo de psicólogos. – Explicou, finalmente desviando os olhos dos detalhes aconchegantes da sala e encarando a negra.
- Posso te perguntar o motivo?
- Vocês fingem que não sabem nada, mas na verdade ficam analisando nosso comportamento e tentando saber o que pensamos e depois contam tudo para nossos pais. – Contou com um sorriso divertido indicando que não passava de uma brincadeira, e arqueou a sobrancelha com o exemplo citado. – Quando eu tinha quatorze anos fui a uma psicóloga por que meus pais estavam se separando, ela me prometeu que era seguro e que não contaria nada aos meus pais, mas na verdade ela contou tudo e eu fiquei de castigo dois meses, por tudo que ela contou para minha mãe, sobre tudo que eu aprontava. – Explicou com e mesmo que o relato fosse verdadeiro e não escondeu um sorriso, esse era um erro terrível que infelizmente vários psicólogos cometiam, violar o sigilo com seus paciente menor de idade, diante de seus pais.
- Sinto muito por isso. – Cruzou as pernas. – Saiba que não é um comportamento comum e é errado, não se deve quebrar o sigilo.
- Eu já superei isso, mas ainda não confio em psicólogos. – Encostou o corpo na poltrona, relaxando a postura.
- Espero que eu consiga mudar o seu conceito sobre psicólogos então, e que eu seja capaz de provar a você e sua equipe que mereço a confiança de vocês. – Disse e com o dorso da mão coçou levemente o nariz.
- Vou te dar uma chance, doutora. – Abriu um enorme sorriso e observou os traços detalhados de seu rosto, os imensos e cativantes olhos azuis tinham um brilho diferente, o sorriso que dançava nos lábios a fazia se lembrar de uma criança bagunceira prestes a aprontar algo errado. Era um homem muito bonito, um típico padrão de beleza social, que geralmente não concordaria, mas com ele parecia ser diferente, não conseguia entender ao certo, mas era extremamente atraente, fosse pelos olhos, corpo ou sorriso, mas era e não conseguia negar. – Do que precisa de mim?

meneou a cabeça positivamente e soltou um pouco do ar.

- Nós vamos iniciar um monitoramento das equipes. A cada quinze dias seus dois pilotos irão se reunir com minha equipe para um balanceamento de como estão. Não estamos aqui para julgar ou para ditar qualquer regra, meu papel aqui é somente ajudar vocês e terem mais equilíbrio emocional para continuarem competindo.
- E se eles não quiserem? Digo, se não se sentirem confortáveis em vir? – Perguntou, ele conhecia seus pilotos e os dois eram extremamente fechados, acreditava que Heitor Correa de Macedo e Valtteri Bottas teriam certa dificuldade em se adaptar ao novo esquema da federação.
- Nós iremos fazer de tudo para que se sintam confortáveis, mas infelizmente eles não têm a opção de negar.
- Serão obrigados? Achei que isso fosse contra os princípios da confiança com o terapeuta. – Abriu as duas mãos e franziu o cenho, surpreso com a resposta que os obrigaria.
- De fato não é o protocolo correto, mas eles precisam aderir esse costume. Me diga, , quando sofrem um acidente durante a corrida ou o treino, qual é o procedimento padrão? – Juntou as duas mãos sobre o colo e fixou seus olhos sobre ele.
- Eles precisam passar no centro médico.
- Mesmo que não seja nada grave? Mesmo se saírem andando do carro, por exemplo?
- Sim, é o protocolo, eles não podem fugir.
- Vai ser a mesma coisa aqui, será um protocolo e que eles não podem faltar. No início será mais complicado, mas com o passar das semanas se tornará um hábito. É muito importante que eles participem, que aprendam a importância da equipe, que saibam que é para seu próprio bem.
- Eu entendo isso, Doutora , sei que é muito importante por causa de todos os riscos que correr oferece, porque a pressão é enorme e que eles podem ter diversas crises e desestabilidade, todavia, eu me preocupo com meus pilotos, sou responsável por eles e não quero que o fato de serem obrigados a te ver, faça com que eles percam o rendimento ou se fechem ainda mais, acredito que a senhora sabe melhor que eu que isso pode acontecer.
- Sim, de fato seria muito prejudicial, mas eu preciso me certificar que eles têm condições de praticar esse esporte, que não vão se ferir ou ferir aos outros. Seus pilotos não são máquinas , são seres humanos e sentem medo, angústia, desespero, tristeza, é injusto não proporcionar a eles um suporte. Mesmo que não queiram falar, eles precisam saber que tem alguém aqui por eles. Que serão ouvidos sem julgamentos ou ameaças de não ter assento na próxima temporada. – Explicou calmamente e sem alterar o tom de voz, a face serena e o sorriso doce nos lábios que faziam com que jamais desviasse seus olhos dela.
- Eu não os trato como máquinas, pelo contrário, eu me aproximo deles, escuto suas lamentações e procuro sempre ser o melhor que posso a eles. – Conforme dizia, enumerava nos dedos cada item citado, como em uma petição.
- E por causa disso comanda uma das maiores hegemonias do esporte. – Completou referindo-se aos cinco títulos seguidos que a escuderia possuía. – Porém, isso não é o suficiente, eles precisam de suporte psicológico, assim como precisam de preparador físico e engenheiro. Negligenciar a saúde mental deles não é mais uma opção.
- Você vai impedir que eles corram se não estiverem bem emocionalmente? – Tornou a questionar, após alguns segundos de silêncio.
- Você acha correto que eles corram se não estiverem bem? Acha que o esporte vale a vida deles? – Arqueou a sobrancelha e encostou o corpo em sua poltrona, apoiando os pés nos saltos.
- Eu não acho, mas eles talvez acreditem que sim. – estava há tempo demais nesse esporte para conhecer os sacrifícios que todos estavam dispostos a fazer para permanecerem na categoria principal do automobilismo mundial.
- Então precisam desacreditar, qualquer coisa que se torna mais valiosa que a própria vida, não é mais um amor, é uma obsessão. – Repreendeu pontualmente e não respondeu, fixou seu olhar em um ponto neutro da sala, por um motivo qualquer se lembrou de seu casamento, a maneira como a esposa se referia a eles, e em como sua vida perderia qualquer sentido, se encaixou na fala da mulher em sua frente.
Seu casamento era conturbado por diversas razões, a instabilidade de sua esposa era uma delas, a maneira como o idolatrava e usava de artimanhas para convencê-lo a largar a fórmula um e se concentrar somente nela, assim como Natasha fazia questão de jogar em sua cara que acontecia. Mas o que mais lhe causou preocupação foi que nos últimos tempos a esposa estava com comportamentos ameaçadores à própria vida, cogitando perdê-la, caso não ficasse mais em casa.

O que pensava em sua cabeça era: será que já passaram do ponto somente do amor?
passou as mãos no cabelo e bufou frustrado, colocando-se em pé, deu alguns passos em direção a enorme janela que dava vista para uma parte da cidade, apoiou suas duas mãos e inclinou o corpo um pouco.
acompanhou seus movimentos e identificou determinada tensão em seus músculos, mas não disse nada, esperou que ele completasse o raciocínio de seus pensamentos.
O diretor chefe, depois de mais alguns segundos, virou-se de costas apoiando-as na janela e cruzou os braços sobre o peito.

- Como consigo identificar comportamentos obsessivos em alguém? – Falou rápido e arqueou a sobrancelha surpresa com o questionamento, girou a cadeira para ficar novamente de frente para ele.
- Ainda estamos falando de seus pilotos? – Olhou incisivamente para ele, que não conseguiu sustentar o olhar nela, sentindo- se desconfortável com tamanha intensidade que geravam.
- Estamos falando de seres humanos no geral, então eles se encaixam na categoria, pelo menos, eu acho. – Descontraiu sua tensão com uma piada boba , coçou o queixo e trocou a posição das pernas antes de responder.
- É complicado dizer sem um contexto envolvido, as pessoas não tem um manual, mas se estamos falando de alguém que ama algo e esse amor se desenvolve em uma obsessão, é possível…
- Não algo, mas alguém. Quando se ama alguém e passa a ser obsessivo. – Interrompeu a linha de raciocínio, o que faz com que a psicóloga estranhasse mais ainda a pergunta. E quando ergueu seus olhos para ele mais uma vez, enxergou um olhar penetrante em sua direção, capaz de queimar seus ossos.
- Acho que definitivamente não estamos mais falando de seus pilotos. – Observou perspicaz, voltando a ficar seu olhar incisivo sobre ele, que mais uma vez não sustentou, estava explícito em seu comportamento regrado a necessidade da pergunta, assim como a vergonha em precisar fazê-la.
- Por favor, pode me responder à pergunta, é importante. – O tom de voz em súplica, corroborou a identificação da hipótese em cima da conduta demonstrada anteriormente, por isso não se opôs.
- Em geral, os indivíduos que desenvolvem obsessão por alguém são aqueles que nutrem um medo muito grande do abandono e da rejeição, um temor que normalmente está associado à vivência de situações de rejeição durante a infância. Tendem a exigir muito e não deixar espaço para outros interesses e necessidades. Cobra-se muita atenção e faz chantagem emocional com frequência, são pessoas dependentes e inseguras, mas como eu disse não existe um manual, cada caso é diferente. – Explicou da melhor maneira que pode, tentando captar qualquer reação da expressão fácil do homem, mas este não revelou nada, permaneceu serio e imparcial com o que ouvia.
- Entendo. - Respondeu prontamente. Dessa vez olhando a mulher, que estava seria que o observava com paciência outra resposta. Os lábios estavam presos um no outro, como se mordesse o interior da bochecha e tal atitude em conjunto com a postura corporal elevada e ao mesmo tempo relaxada, os olhos escuros cativantes e os ossos da clavícula ressaltados pelo modelo da camisa, era uma imagem bonita demais para não querer olhar por vários e vários minutos. - Os meninos, Valtteri e Heitor, eles serão bem cuidados e você fará o melhor por eles? – Voltou ao assunto principal, achou uma graça a maneira preocupada que ele se referiu aos meninos.
- Eu farei o meu melhor por eles, coloquei em prática tudo que sei para que eles sejam ainda melhores. – assentiu e voltou para sua posição inicial, sentado em frente a ela.
- Está bem, eu vou conversar com eles e dizer que apoio a vinda deles, darei a vocês toda ajuda que eu puder. – Concordou com a cabeça, e abriu um enorme sorriso, se todos os chefes de equipe apoiassem seu trabalho, o retorno seria tão mais rápido e eficiente.
- Eu agradeço pelo voto de confiança.
- Eu disse que te daria o benefício da dúvida doutora. – Colocou-se de pé mais uma vez, olhando em seu relógio de pulso. – Há algo mais que eu possa contribuir hoje?
- Não, é somente isso que eu precisava lhe falar. – Passou as duas mãos na coxa e também se levantou, caminhando em direção a porta. – Eu agradeço por ter vindo, .
- Foi um prazer, Doutora . – Esticou a mão mais uma vez em sua direção que prontamente, aceitou e então se cumprimentaram. Os olhos estavam fixos um no outro, e permaneceram por alguns instantes, como em um jogo para descobrir o que havia atrás das pupilas, para enxergar a alma. O contato somente entre seus olhos somente se desfez no momento em que Dallas chegou até a porta e deu duas rápidas batidas, piscou desfazendo a ligação e também desfez o cumprimento inicial, uma corrente elétrica passou de um corpo para o outro, e apertou a própria mão para ignorar a falta da maciez da pele do outro.
Deu um passo para frente e abriu a porta do consultório.

- O senhor Madden já se encontra. – Avisou e se retirou, assentiu.
- Mais uma vez, obrigada, .
- De nada, a gente se vê logo mais. – Acenou com a mão, colocando novamente os óculos no rosto e deu um passo para o lado saindo da sala, o seguiu e encontrou em sua sala de espera: Charles Leclerc piloto da Ferrari, Heitor Correa de Macedo que dirigia pela Mercedes, Lance Stroll representando a Racing Point e por fim Michael Madden o estreante da equipe François- Render.
Charles Leclerc deu um passo para o lado, abrindo um pouco a roda deixando com e se aproximassem deles.
A negra estava elegantíssima com seu lenço amarrado na cabeça, as duas mãos estavam no bolso na calça marrom que usava, e os cordões e brincos dourados, destacavam e emolduravam sua brilhosa pele.

- Olá, meninos! – Ela sorriu para os quatro.- Que bom ver todos vocês!
- Garotos! - levou os dois dedos até a testa e os cumprimentou de maneira informal, batendo um continência.
- Mercedes. - Michael sorriu, acenando com a cabeça para o homem e ignorando , e Lance sorriu fechado ao perceber a atitude do amigo.
- , DeLuca. - Lance cumprimentou, levantando-se para apertar as mãos dos dois.
- Olá! - Heitor cumprimentou baixo.
- Doutora, De Lucca. - Charles sorriu cruzando os braços. - Eu já fui libertado pela doutora, podemos ir, Macedo? - dirigiu a palavra para seu piloto e este se colocou de pé.
- Claro que sim. - Assentiu. - Até mais. - Acenou para os outros pilotos.
- Foi ótimo te ver, doutora. - Lançou-lhe um olhar fixo e revelador, demorando alguns segundos analisando a mulher, não se acanhou em primeiro momento e sustentou o olhar do chefe, porém, acabou desviando seus olhos das orbes de , que eram tão azuis que facilmente eram confundidas com uma pedra de turquesa.
- Até mais, . Heitor. - Os dois se afastaram e seguiu os dois até que desaparecerem porta a fora. - E então meninos, vieram acompanhar o Madden? - Voltou sua fala aos que ficaram.
- Só nos certificamos que ele chegaria até aqui. - Lance sorriu fechado.
- Um pouco de companhia sempre é bom. - Charles concordou e sorriu.
- Então fiquem a vontade. - Voltou seus olhos para Michael. - Vamos, Michael?
- Não tem mais ninguém antes? - Perguntou ele, ainda sentado com os braços cruzados e cenho franzido.
- Nenhum outro paciente, mas se quiser podemos esperar um pouco mais até você entrar, mas não acho que prolongar isso seja interessante. - Respondeu ainda de pé e com as duas mãos no bolso.
- Não. - Negou, pondo-se de pé. - Vamos acabar logo com isso, retirar o band-aid de uma vez. Hoje o Boston Red Sox* vai jogar, quero assistir de casa. - Disse, pronto para seguir a mulher e lançando um olhar firme e rápido na direção dos amigos.
- Meninos, fiquem a vontade. - Também olhou os dois, deu um passo para o lado e esticou a mão esquerda para frente, dando espaço para que Michael caminhasse, e assim que ele deu o primeiro passo, ela o seguiu. - E por aqui… - Direcionou e então entrou primeiro na sala, alguns segundos depois, Michael a acompanhou entrando na sala e fechou a porta atrás de si. - Fique à vontade, Michael. - Ainda em pé na porta, ela permaneceu e esperou ele decidir o próximo passo.
- Onde eu devo me sentar? - Ele perguntou, esfregando as mãos na calça.
- Onde você quiser, pode escolher. - Apontou para a sala em si, onde tinha vários pontos para ele escolher, logo em frente a eles, havia duas cadeiras de rodinha, e uma mesa. Ao lado destas um mini sofá quadrado enfeitado com algumas almofadas e outra cadeira, essa mais inclinada e com braços aconchegantes. Uma enorme janela estava meio aberta, brindando com a luz solar.
- Certo. - Ele deu de ombros, sentando-se no pequeno sofá quadrado, apoiando os braços nos encostos laterais e correndo olhos pela sala.
- Tudo bem. - o seguiu e sentou-se na cadeira em sua frente e deixou as duas mãos sobre seu colo. - Foi difícil chegar até aqui hoje?
- Não, Charles dirigiu, tudo certo. - Respondeu sorrindo.
- Que bom então, eu fico feliz. Achei uma graça os meninos te acompanharem até aqui, você tem bons amigos, Michael. - emitiu um sorriso.
- É, eu tenho. - Assentiu. - Posso fazer uma pergunta?
- Pode fazer quantas quiser.
- Há quanto tempo você e o chefe da Mercedes estão juntos? - Indagou arqueando uma sobrancelha.
- Não estamos juntos. - Respondeu sincera. - Não entendi o sentido da pergunta, Michael.
- O olhar de vocês, eu vi. - Ele deu de ombros. - Tenho fama de ser observador. E tinha uma certa tensão no ar, se é que me entende...
- Eu acredito que você pode ter se enganado, o s é um homem casado e eu tenho alguém também. - Ela permaneceu com o sorriso doce nos lábios, porém dentro de si um ponto de interrogação surgiu, o que Michael acreditou que havia visto? De que tensão falava?
- Claro…- Ele sorriu sarcástico. - Se você diz…
- Claro que sim, e ele será meu paciente, assim como vários outros pilotos e chefes, por isso ele estava aqui, assim como você. - Esticou a mão apontando para ele.
- Quem é a sua pessoa, então? - Ele perguntou de repente. - Você disse ter uma. - Acusou.
- Quem sabe você descubra um dia.. - Respondeu, e mesmo que um frio lhe percorreu com a pergunta, usou sua melhor cara de paisagem. - Por que não falamos de você, você tem uma pessoa? - Voltou a pergunta para ele, não era certo deixar que ele conduzisse a conversa deles.
- Não sei, o que é ter uma pessoa? - Michael apoiou o rosto em uma das mãos, observando a mulher. - Ter alguém é um jeito forte de descrever, posse...não acha?
- Na verdade não acho, quando se diz ter é uma pessoa, estamos falando de um companheiro ou companheira, mesmo que indique verbalmente algum tipo de posse, o significado que eu enxergo não é voltado para possuir alguém , mas possuir um sentimento voltado para alguém. Ter uma pessoa é ter alguém do lado, que se escuta, que te faz carinho ou até mesmo não diz nada, que desperta desejo de vida em nós, necessidade de constituir família, se casar, ou ir na padaria comprar a comida preferida dessa pessoa. - Explicou. - Mas se o verbo te incomodou, posso refazer, você compartilha momentos especiais com alguém?
- Talvez...como você mesmo disse, doutora…- Ele estreitou o olhar, a encarando fixamente. - Tenho muitos amigos.
- Eu também tenho amigos. - Sorriu - Construir vínculos afetivos é muito importante, seus amigos estiveram com você durante a última semana? - Questionou apoiando o corpo no encosto da poltrona.
- Estiveram, como sempre. Morando na minha casa como se não tivessem uma. - Contou sorrindo. - Sabe, doutora, você devia usar mais lenços assim, ficou linda.
- Você pode me chamar de , Michael. Não gostaria que desenvolvêssemos qualquer tipo de paradigmas aqui. - Solicitou, não gostava dessa nomenclatura, parecia ser algo tão frio e ela não desejava uma relação dessa forma. - Muito obrigada, eu gosto muito de usar, me lembra das minhas origens africanas e além do mais, me liberta um pouco do calor. - Balançou a cabeça de um lado para o outro, se mostrando.
- Uma pena, doutora soa bem. - Ele deu de ombros, projetando o lábio inferior. - Entendo o que diz do calor, Mônaco parece mais quente a cada dia, . - Ele enfatizou a última palavra, diminuindo um pouco o tom e tornando sua voz um pouco mais rouca que o normal.
- Como foi sua semana? Cumpriu as ordens médicas de maneira correta? - Mudou drasticamente o assunto, era necessário que uma intervenção acontecesse.
- Vai ficar orgulhosa, não bebi e até me neguei a participar de uma corrida clandestina. Acho que mereço até uma medalha. - Piscou.
- Você está falando de um racha? - Arqueou a sobrancelha e balançou a cabeça negativamente. - Não me diga que… - Pensou um pouco, se negava a acreditar que Louise e chamariam para um racha, ainda mais quando ela foi bem clara quanto ao repouso dele. - Quem te chamou para um racha, Michael?
- Não vou te dizer isso, . - Ele riu, franzindo o nariz. - Basta saber que eu não fui e até enfrentei umas pessoas para defender meu ponto, do quanto isso era terrivelmente ilegal. - Ironizou.
- Algumas pessoas ligadas às François-Render no passado, nesse momento devem estar chorando. - Ela comentou, Michael fez bem em não contar, ela talvez precisasse chamar a atenção de algumas pessoas se assim ele o fizesse. - Fez muito bem, não deveria ser exposto a qualquer tipo de fator de risco. Estou mesmo orgulhosa, mas nada de medalhas, só um parabéns por ter feito o certo.
- Eu não sou como eles. - Michael desviou o olhar dela, encarando os joelhos e ajeitando a postura, mudando o tom sarcástico, tornando-se mais sério. - Não gosto das mesmas coisas ou tenho os mesmos costumes, não sou um deles.
-Claro que não é. - Ela meneou com a cabeça. - Você é você, com seu costumes e crenças, e eu fico feliz que em seu primeiro ano não tenha se perdido no mundo dos bastidores da fórmula um!
- Eu sou muitas coisas, mas me orgulho de fazer burrices segundo a minha cabeça e somente. - Michael sorriu de canto, mas sem qualquer traço de humor.
- O que significa fazer burrices para você?
- Cometer os erros que às vezes cometo, o de sempre. O que é considerado burrice para qualquer pessoa.
- Não exatamente, para alguns sim, para outros não, jamais tem como saber. - esclareceu o ponto. - Da última vez que nós vimos, falamos que conversaríamos sobre sua crise depois, você se lembra disso?
- Me lembro, infelizmente. - Michael concordou, sorrindo abafado. - Quer a descrição por ordem cronológica ou a mais vergonhosa?
- Eu gostaria que me dissesse como se sentiu essa semana? - Pediu calmamente e cruzou as pernas.
- Claro, a parte que me humilho e exponho. - Ele riu entredentes. - Vamos lá, . - Michael girou o corpo, para que pudesse enxergar melhor a mulher. - Me senti envergonhado, com raiva do que houve e confuso com tudo. Me afastei da internet e me concentrei em me esconder em casa, com meus livros e o silêncio. Enquanto não estava ignorando mensagens e ligações, ou treinando o que me era permitido, ou caminhando durante as manhãs, eu estava em casa lendo. Li dez livros, sou a pessoa certa para indicações. - Disse de uma vez, num tom um pouco mais ácido que antes.
- Entendo. - Você se sentiu envergonhado por ter tido uma crise de ansiedade ou pela repercussão que tudo gerou?
- Por ter sido fraco.
-Fraco com o quê, Michael? - Arqueou a sobrancelha, lançando a ele um olhar empático. - Fraco por sentir demais? Por ser humano? Ter sentimentos? - Questionou com veemência.
- Não funciona, isso não funciona comigo. - Negou balançando a cabeça negativamente. - Eu sei disso tudo, desse bla bla bla sobre ter sentimentos não ser uma fraqueza. Eu não faço a linha durão insensível, não mesmo. Mas sabemos que o mundo não é um castelo cor de rosa e com cheirinho de morango. Fiz coisas que nunca imaginei fazer para chegar até aqui, coisas que não me orgulho, para então surtar com uma crise de ansiedade e colocar tudo isso a prova. - Falou elevando um pouco o tom de voz. - Devia ter resolvido isso tudo comigo mesmo, sem que o mundo descobrisse. E eu sei, podem dizer o contrário, mas eu sei…- Michael apontou para si mesmo. - Sei que Louise, , todo mundo me apoia por serem meus amigos, mas que profissionalmente se preocupam com meu estado e sou maduro o suficiente para saber que amizade e eu ser engraçado não vai fazer com que eu mantenha meu assento.
- Respire, Michael, só respire. - Pediu iniciando uma respiração mais forte, ilustrando suas palavras. - Então deixa eu ver se compreendi certo. - Raspou a garganta. - Você está com vergonha das pessoas terem descobrido que sofreu uma crise de ansiedade, está acreditando que é culpa sua, pelo fato de não ter resolvido isso sozinho e está com medo de perder seu lugar como piloto da escuderia? É isso mesmo? - Enumerou com os dedos os pontos identificados em sua fala, esperando a confirmação dele sobre suas pontuações.
- Entre outras coisas. - Ele rolou os olhos, balançando a cabeça negativamente, tentando se recompor.
- Então nós vamos dividir isso em três pontos, para facilitar o entendimento. Você entende que a vida que escolheu de ser piloto, te expõe ao público? Entende que agora tudo que você faz as pessoas têm acesso? - Girou o corpo na cadeira, arrumando a postura.
- Entendo, entendo muito bem. Mas o fato de ter surtado...não é com o público que me preocupo, nem me importo com isso na verdade. Só quero...eu só…- Michael balançou a cabeça negativamente, expirando.
- Michael, precisa respirar para organizar as ideias, caso contrário você vai se embolar nelas e não conseguirá explicar o que deseja. Adote o exercício de sempre respirar fundo antes de falar. - Era normal em pessoas ansiosas, a dificuldade de controlar e coordenar as falas e sentimentos. - Sobre a vergonha, eu te perguntei se sentiu vergonha das pessoas terem descoberto sobre sua ansiedade, e você disse que sim, agora me disse que não se importa com isso, eu acredito que existe uma contradição, pode me explicar novamente?
- Não é por não conseguir organizar minhas ideias, . - Michael assumiu, cerrando os dentes. - É por não querer falar. Eu...eu achei que conseguiria, que seria fácil falar, como é com Lance ou Jacques ou meus outros amigos. Mas eu não consigo. Não quero falar. - Confessou balançando a cabeça negativamente, não sustentava mais o olhar armado, agora parecia mais vulnerável, assustado. - Eu me sinto...exposto...não quero falar disso.
- Você não é obrigado a nada, Michael. - Disse séria. - Se você não quiser falar não precisa falar, mas precisa entender que existem fatores que estão diretamente ligados em não querer, e a primeira delas é não resolver nosso problema. Se você não quer falar, se não quer estar aqui, isso não vai funcionar, o primeiro passo para que as coisas se ajeitem, é querer estar aqui. - Completou explicando sobre o entendimento mútuo da psicoterapia. - Você não quer mais fazer terapia, quer parar? - Jogou a pergunta mais preciosa de todas.
Michael apoiou os cotovelos nos joelhos e cobriu o rosto com as mãos, depois puxou os cabelos.
- E eu tenho escolha? Eu tenho a droga de uma escolha aqui? - Explodiu, pondo-se de pé. - Eu sei que preciso disso, que tudo que eu sempre quis está condicionado a eu vir aqui e falar sobre essas coisas...e a contar tudo…- Falou exaltado, atropelando as próprias palavras e sentindo a voz embargar. - Que tenho que vir aqui contar como me sinto...mas eu só consigo me sentir exposto. Tudo que eu tenho...a única coisa que consigo proteger está aqui dentro. - Disse batendo com dois dedos na testa, nervoso e exaltado o suficiente para não notar a lágrima solitária que escorria. - Só isso, e agora não consigo proteger nem meus pensamentos. Tenho que ter alguém aqui, revirando tudo, me analisando como se eu fosse um livro...eu me sinto exposto, nu...violentado…- Michael cuspiu as palavras com certo nojo. - Eu não quero isso...eu nem sei quem é você, não confio em você e não confio em ninguém para dizer tudo que está na minha cabeça...eu não...porra! - Xingou, passando as mãos nos cabelos nervosamente e depois limpando o nariz com o dorso de uma delas. - Eu nem sei porque estou sendo um idiota, não sou agressivo...não sou assim...que droga.

nada respondeu, sua primeira atitude foi arrastar a cadeira um pouco para trás e se colocar de pé. Andou calmamente até a mesa, abriu a primeira gaveta e pegou uma caixa de madeira pequena, destampou a mesma e voltou com ela em mãos para a cadeira que estava.
Na pequena caixa, haviam lenços de papel, que seus pacientes usavam para secar as lágrimas diante dos relatos na sessão de terapia. Ela deixou a caixa sobre o sofá onde antes o piloto estava sentado. E depois andou até ele, que permanecia parado, em pé, com o semblante confuso.
-Michael, eu vou tocar você. - Não foi um pedido, se pedisse, ele provavelmente negaria. Por isso deu mais dois passos para frente, seu salto de treze centímetros a ajudou a conseguir ter acesso aos seus ombros, e por isso tocou o direito com firmeza.

Ele estava triste e confuso. Já tinha dito como se sentia, e não teria qualquer efeito positivo se ela o questionasse mais, o sofrimento estava estampado em seus olhos claros, assim como sua voz que se alterava e sua postura corporal que se enrijecera.
Um toque afetuoso não era comum entre terapeuta e paciente, mas em muitas vezes era necessário. Era oferecer apoio, dar afeto e dizer em um gesto que estava tudo bem, era alcançar um efeito que as palavras jamais conseguiriam. Era dizer a ele que mesmo com toda a dor e sofrimento que sentia, e preso em uma sala com uma mulher estranha, tudo ficaria bem.
Michael não a olhava ou tocava , somente ela que tinha a mão direita sobre ele, o apertando de maneira empática, colocando um pouco de sua alma no gesto.

- Tudo vai ficar bem, meu querido, tudo ficará bem. - Michael não disse nada, apenas ficou imóvel, estranhando aquele toque que não entendia a motivação e nem tinha certeza se queria mais alguém o tocando.
-Eu estou bem. - Disse tentando afastar-se dela com gentileza, e dando-lhe as costas, para respirar fundo e controlar seus nervos.
- Está bem. - entendeu o pedido que lhe fora feito e se afastou sem qualquer receio. Voltou para a cadeira que estava sentada, e cruzou as pernas novamente, aguardando com cautela e paciência o próximo passo que ele daria. A grande maioria das vezes, o silêncio falava muito mais que palavras.
- Desculpe. - Pediu ainda de costas. - Não quis ser grosseiro.
- Não há motivos para pedir desculpas. - Disse. - Aqui, dentro dessas paredes, você pode fazer o que quiser, não há julgamentos, não há paradigmas, não há nada. Você faz o que quiser, e estou aqui se quiser me incluir em seus planos. - Encolheu os braços com um sorriso nos lábios.
- Isso não me dá o direito de gritar e ser rude com você. - Michael suspirou passando a mão pelo rosto e apertando entre os olhos com os dedos polegar e indicador, enquanto olhava para o chão e escorava-se em uma parede. - Você está só fazendo seu trabalho...não é nada pessoal. Talvez seja, não sei. Não gosto de médicos ou psicólogos ou de pessoas que tentem me invadir. - Ele contou.
- Acredite em mim quando digo que isso não foi nada, pessoas já gritaram e fizeram coisas bem piores comigo, Michael. - Contou. - Não é só o meu trabalho, é mais que isso, e eu não me incomodo que não goste desse tipo de pessoas, eu gostaria que entendesse que é um processo muito além de te invadir, mas temo experiência o suficiente para entender que você não está pronto, e que está tudo bem por isso. - Inclinou o corpo para frente e apoiou as suas mãos nas coxas, a fim de vê-lo melhor.
- Acha que é possível que um dia eu esteja? - Ele perguntou levantando o olhar, mas ainda sem direciona-lo a mulher. - Porque eu odeio, é uma tortura, mas é só mais uma coisa ruim que terei que fazer pra conseguir o que quero. Estou acostumado. E por mais que deteste um pouco a Louise Rousseau agora, por me forçar por contrato a fazer isso, tenho maturidade o suficiente para entender que vou ter que fazer. Cedo ou tarde.
- Eu não tenho essa resposta, Michael. E mesmo se tivesse, não lhe daria assim tão fácil. - Disse com um sorriso sapeca. - O que eu posso dizer é que na vida fazemos as coisas por três motivos. - Levantou os três dedos para demonstrar seu ponto. - Por vontade, necessidade ou por obrigação. Algumas coisas na vida são mais fáceis que outras, mas na minha nada humilde opinião, não existe o impossível.
- Que bom, odiaria surtar toda vez que visse um divã. - Debochou.
- Eu gostaria que você percebesse que não é uma questão de obrigação, é de necessidade. Não somente pelo seu assento na escuderia, mas pela sua saúde. Pela sua qualidade de vida, e também pelas pessoas que estão ao seu redor, quem te ama, se entristece ao te ver sofrer, e não ouse me dizer que você não está sofrendo, está claro que está - Afirmou. ignorando o comentário dele, para não perder o foco e ele se armar novamente. - O controle da sua vida está em suas mãos, não nas minhas, ou da Louise, e , estão nas suas mãos. É até onde você consegue ir para alcançar seus objetivos, se trata do quanto você quer o que diz que deseja e sonha, se trata de sangue, de sacrifício. Se trata de saber o que é preciso, mas existe um processo, e você precisa passar por ele. Novamente, na minha nada humilde opinião é melhor que seja mais cedo, mas se você não está pronto para começar agora, não adianta te obrigar, mas saiba, que o que acontecer daqui para frente, com a sua decisão, será somente uma consequência sua, e certifique-se que estará preparado para lidar com elas, pois elas virão, positivas ou negativas, só você saberá.
- Consequência, sacrifício, sofrimento…- Michael repetiu as palavras dela, fingindo observar um obra de arte que estava pendurada na parede. - Não conheço uma vida que não seja assim, . Só a caráter de curiosidade, não conheço o Michael sem que essas coisas estejam relacionadas a ele. - Deu de ombros.
- Ao mesmo tempo em que sinto muito por isso, entendo que somos quem somos devido a tudo que passamos na vida, e se serve algo, eu realmente desejo que você encontre o que precisa e que consiga chegar ao seu objetivo. - Uniu as duas mãos sobre o colo. - Tem algo mais que eu possa fazer por você?
- Imagino que não vou conseguir uma alta, nem se pedir com jeitinho. - Ele sorriu. - Então acho que não. Eu dou conta, não se preocupe. Sempre dou.
- Já que não posso fazer mais nada por você, tem um assunto que preciso tratar com você e ele é um pouco delicado. - Procurou o olhar dele, querendo que o mesmo olhasse para ela.
- Oba, mal posso esperar. Sobre o que vamos falar agora? - Ironizou, mas ainda sem conseguir encará-la.
- Sobre a sua terapia. - Disse. - O quanto você sabe sabe minha relação com ? - Perguntou e seu conta que não bem essa a pergunta. - Com a Louise? E com todos da François - Render. - Completou.
- Além de que você e ela são amigas e de que você é da mesma turma que eles e Tony Render? - Perguntou. - Ah. - Michael sorriu. - Sei do clima entre você e , mas a essa altura acho que você vai ser mais uma mulher que ele vai perder para o cara novo, de olhos azuis e diabolicamente sexy. - Ele piscou sarcástico, encarando pela primeira vez.
- Clima? Que clima entre eu e ? - -Questionou um pouco surpresa, Michael jamais a viu próxima de .
- Tenho um outro defeito que também é famoso, adoro fofoca. - Ele sorriu levantando as sobrancelhas. - Jacques e eu nos vimos essa semana, tomamos café como nos velhos tempos e conversamos sobre minha estadia no hospital. Você se surpreenderia com o quanto ele pode falar do sem parar e sem se cansar. -Michael voltou a se sentar no pequeno sofá, sentia-se bem fofocando. - Aliás, ele contou que vocês já foram íntimos e que pareciam dispostos a acender a fogueira da paixão mais uma vez. Mas confesso que me surpreendi com aquele chefe de equipe aqui, alguém tem que avisar a ele que tem um rival...ou melhor dois. Já que você já tem alguém...ou o alguém é o inglês tatuado? - Sondou.

- Entendi. - Cruzou as mãos sobre o joelho que estava cruzado. - Primeira coisa, eu e nunca tivemos nada, não existe clima ou paixão para acender a fogueira. E também jamais fomos íntimos como o Jacques disse. Anos atrás ele foi meu paciente um tempo e nós compartilhamos o mesmo grupo de amigos. - Apontou séria e calmamente, tudo bem que era uma mentira, mas ele não precisava saber disso, não agora pelo menos. - Outra coisa. - Levantou o dedo indicador. - Eu também já te disse isso hoje, a fofoca é algo perigoso, Michael, pode levantar rumores que não são verdades, e eu te disse que não existe nada entre mim e o , ele é casado e eu tenho uma pessoa ao meu lado, então por favor, não fale sobre isso, pode gerar uma confusão enorme com fatos que não são verdadeiros.
- Relaxe, eu adoro saber de fofocas, mas não contar fofocas. - Deu de ombros. - Tony gostava de rachas, eu gosto de fofocas. Isso só pode me matar se eu não for esperto, e eu sou. Como você gosta de dizer…- Ele riu abafado. - Na minha nada humilde opinião, eu sou bem esperto.
- Certo. - Assentiu com a cabeça. - Racha e fofoca, dois gostos peculiares, coitada da Louise, escolhendo esses homens. - Disse mordendo o lábio inferior, e emitiu um sorriso.
v - O que? Não me diga que Louise está saindo com Jacques? - Michael tocou o peito, fingindo estar surpreso. - Sempre soube que tanto ódio e rancor tinham um fundo de uma paixão genuína.
- O Jacques? - Arqueou a sobrancelha surpresa e levemente confusa. - Você não sabe? - mordeu a ponta da língua ao perceber que estava entrando em uma área que não era sua. - Esquece. - Abanou com a mão. - Nós dois sabemos que Louise Rosseau- Render, não está saindo com Jacques e que não perdeu uma mulher para ele, mas isso realmente não é o ponto aqui. O ponto é que você sabe que sou ligada a eles de maneira íntima, certo?
- Do que eu não sei? Me conte. - Michael pediu, inclinando-se para perto da psicóloga. - Eu acho que vamos ser bons amigos. Tem uma coisa que tento descobrir desde que conheci Louise. Por que e não o Jack é o padrinho do Alex? E por que não você? Ou sei lá?
- Michael, eu não participo de fofocas sobre celebridades, tente com outra pessoa, comigo não vai funcionar. - Deu um sorriso sem mostrar os dentes. - Pergunte ao ou para a Render, enfim.Por favor, podemos voltar ao foco inicial, eu preciso terminar de explicar sobre o tratamento e como estou ligada a eles. - Pediu.
- Okay, alma superior. - Michael piscou. - Compartilhe a vossa sabedoria.
- Obrigada. - Fez uma pequena reverência. - Eu estou ligada a todos eles, tenho um imenso carinho por Anthony Render, uma gratidão gigante por tudo que ele representou. Sou amiga de e compartilhamos momentos difíceis que ele enfrentou ao longo da carreira, mas, acima de qualquer coisa, amo Louise como uma irmã. Ela sabe dos meu segredos mais íntimos e dolorosos, dos meus momentos de maior sofrimento, ela estava lá, assim como eu também estava quando era ao contrário. Bebemos vinho ou optamos por algo mais forte, e adoramos passar as noites sentadas ao ar livre vendo as estrelas, bebendo e escutando Antonella Cornello compor suas mais lindas canções. Conheci um homem chamado Dominique Portinari, não sei se já ouviu falar dele, era um dos melhores amigos do casal Rosseau Render, ele dizia que não tinha amigos, que tinha família. Eu guardo as palavras dele, Louise e Alex, são da minha família, assim como os do meu sangue que perdi. Por causa do meu vínculo com ela, eu não posso ser a terapeuta que vai cuidar de você, sou emocionalmente envolvida com pessoas que te amam, eu não seria de ajuda para você.
- O que? - Michael uniu as sobrancelhas, abriu a boca sem emitir som algum e então bufou, rindo sem humor. - O disse...eu achei que...vocês fizeram propaganda, me convenceram porque seria você, a melhor das melhores, segundo eles. - Michael balançou a cabeça negativamente.
- Eu sou a melhor, mas infelizmente, não para o seu caso. - Raspou a garganta, procurando se lembrar das palavras que escolheu mais cedo em sua mente. - Gostaria que imaginasse um caso junto comigo, eu sou sua terapeuta, para que as coisas funcionem, você precisa confiar em mim de olhos fechados, eu preciso ser a mulher da sua vida. - Sorriu ao se lembrar das palavras que um de seus paciente lhe disse uma vez. - Imagine que você faça alguma coisa ilegal, por exemplo, roube uma loja, e isso que causa angustia, e você compartilha comigo. Consegue compreender?
- Eu sei como a terapia funciona, , o fato de eu odiar, não significa que seja contra e não entenda. - Ele bufou.
- Perfeito, então. - Pigarreou. - E então algum dia você, por algum momento precise ir até a casa da Louise, sua chefe e minha amiga. Quando você chega lá, eu estou embriagada com alguma bebida, falando besteiras e cantando no karaokê com , brincando e contando fofocas para os dois, como você se sentiria? Conseguiria ter confiança em mim? Que não contaria a eles sobre seus delitos? Ou sobre sua vida? Me diga, se eu estiver errada, podemos repensar sobre seu caso, com argumentos plausíveis, é claro.

Michael gargalhou nervosamente, passando a mão pela nuca.

-Se assim, você me contasse quando a Louise fala de mim, não veria problema. - Riu sarcástico.
- Por que o interesse em saber o que ela fala de você? - Rebateu a pergunta.
- Por que sou curioso, e entre todos que você mencionou conhecer, entre os vivos, a única que imagino que possa falar de mim para você é ela. Não que seja algo bom. - Sorriu.
- Então está me dizendo, que isso não é um problema para você? Que não tem receio da minha proximidade com ela? Que está tudo bem para você? É isso, Michael?
- Não, estou te dizendo que não sei o que pensar sobre isso, por isso estou fazendo piadas e jogando contra você. - Piscou. - Mas pensando bem...não sei se conseguiria falar sobre um assunto em específico… - pensou alto, sem perceber que falava.
- Eu entendo, e isso é só mais uma prova que estou certa. - Meneou com a cabeça, deixando um sorriso triunfante aparecer em seus lábios. - Você já tem uma resistência natural com a terapia, se sua terapeuta for uma pessoa que você irá encontrar nas festas que seus amigos vão, isso só irá piorar sua dificuldade de confiabilidade, então eu vou te encaminhar para outro terapeuca, tão competente quanto eu, e nós vamos continuar nos vendo por causa do novos protocolos da FIa, e caso se sinta desconfortável com o novo terapeuta, procuramos um até que consigamos te ajudar.
- Que maravilha, em vez de um, vou ter que falar com duas pessoas. Realmente uma troca favorável. - Ironizou.
- Três, na verdade. Você irá ver Brandon Flynn também, o psiquiatra da minha equipe, mas não se preocupe, felizmente todos os pilotos passarão pelo mesmo processo.
- Olha, por mais estranho que possa parecer, eu não me ligo muito em drogas, remédios e essas coisas. Não vou tomar nada. - Disse, com o tom sério disfarçado de sarcasmo.
- Ninguém está dizendo que vai, até porque eu não sou médica, então não me intrometo quanto a medicações. - Disse baixo, como se fosse um segredo. - Outro ponto, Louise e , eles não sabiam de tudo isso! Não sabem que decidi não permanecer com você, eu optei por contar para você primeiro, pois é um homem adulto e responde por si mesmo, eles não sabiam então não estavam te enganando, vou tentar marcar uma reunião para conversar com eles sobre o assunto.
- Obrigada por isso. - Ele a olhou com curiosidade e um pouco de surpresa. - Mesmo.
- Se você me permite, eu gostaria de selecionar alguns profissionais para te indicar, os melhores. Eu não quero que você acabe com qualquer terapeuta, pois assim como em toda profissão infelizmente tem profissionais não qualificados. Você permite que eu te ajude com isso?
- Tudo bem, até porque, se não fizer, Louise e vão querer fazer. - Ele disse.
- Exatamente. Eu espero e desejo de todo meu coração, que você consiga se ajustar, você é talentoso e tenho certeza que será um grande campeão. - Incentivou. - Quanto a Louise e , não se preocupe, eu cuido deles. - Piscou.
- Eu agradeço? - Ele riu. - Brincadeira. É isso? Estou hipoteticamente livre?
- Está livre dessa tortura que foi falar comigo, senhor Madden! - A mulher ficou de pé diante dele, esperando que ele fizesse o mesmo e então caminhou até a porta. - Posso fazer algo mais por você? Precisa de alguma coisa?
- Não, tô bem. - Ele assentiu, seguindo-a até a porta. - Obrigada por hoje, de alguma forma sei que tentou. Então obrigada e desculpe pelo jeito que te tratei, mais uma vez.
- Não precisa me pedir desculpas, já te disse que vivi coisas piores. Eu já sabia que não iríamos poder permanecer. Tentei falar e saber como você estava, mas entendi o momento de parar. - Ela abriu a porta ainda sorridente e o acompanhou até a sala de espera, onde Charles e Lance esperavam o amigo. Assim que chegaram os dois amigos se levantaram, para recebê-lo. - Ele está entregue,meninos. - Deixou com que Michael se juntasse aos amigos. - Tenham uma boa tarde, e desejo ótimos resultados no final de semana que vem. - Foi cordial.
- Lar doce lar. - Michael sorriu sarcástico para os amigos.



XXX


saiu do closet com o par de scarpins em mãos, sentou na cama para bater os pés e eliminar qualquer poeira, para então encaixar os sapatos, primeiro o esquerdo e depois o direito.
Ficou em pé e sacudiu ambos para que alcançassem a simetria perfeita, depois caminhou até o espelho para observar mais uma vez sua imagem. Escolheu apostar em vinho, era sua cor favorita, escolheu um cropped! de mangas cumpridas e uma saia lápis de tamanho mídi, havia um cinto que marcava sua cintura. Os cabelos estavam soltos e volumosos como ela gostava, havia os hidrato aquele dia pela tarde, isso elevava sua estima em níveis catastróficos.
Olhou o relógio no pulso e percebeu que estava a poucos minutos de se atrasar, por isso pegou sua bolsa, colocou o que iria precisar e se direcionou para a saída. Trancou a porta do apartamento e se direcionou ao elevador, quando o celular apitou mostrando uma nova mensagem.
Desbloqueou o mesmo e foi direto na notificação, quem havia escrito.

: Vou ficar com Alex hoje, para que Louise vá jantar com vocês! Já estou esperando.
: Eu já estou de saída também, quase atrasada. Que bom que vai ficar com Alex, assim terei a consciência limpa para me embebedar com a Lou em paz.


Respondeu com um sorriso, logo as portas se abriram e a mulher entrou na caixa metálica, colocou o andar e então encostou o corpo na parede atrás de si.

: Gosto da ideia de ver você bebada, na próxima pode acabar a noite bêbada comigo.
: Eu vou adorar, podemos tomar um vinho amanhã, o que acha?
Aliás, você pode beber água com gás, enquanto me faz uma massagem.
: Essa é minha garota!


acreditou que sentiria algo gigante em seu peito com a mensagem de , mas foi apenas ... normal. Igual vinha sendo essa semana, nenhum sentimento diferente, ou emoção arrebatadora, imaginou que seria totalmente diferente quando finalmente estivesse nos braços de , mas, de qualquer forma, ainda era cedo para pensar.
Aproveitou que já estava com o celular em mãos e mandou uma mensagem para Antonella, certificando-se que ela não se atrasasse, já que era mestre em furar os horários.
A resposta veio no exato instante em que saia do elevador, caminhou um pouco pela garagem, até achar sua vaga e então entrar em seu carro. Tirou os saltos e jogou no banco de trás, não gostava de dirigir com eles.
Ligou o som do carro, escutando a voz incrível de Bryan Adam tomar sua audição, e então pode se deslocar para buscar Antonella.
Cerca de trinta minutos depois, estava estacionando em frente a mansão de Cornello, pegou o celular e mandou uma mensagem pedindo para a cantora sair. Passou alguns minutos e uma respostas não veio, por isso decidiu ligar. No terceito que, Antonella atendeu.

- Oi. – Respirou ofegante.
- Você está bem?- Questionou preocupada querendo entender o que poderia estar acontecendo, já que ela parecia respirar com certa dificuldade. – O que aconteceu?
- Está tudo bem. Eu só.. eu só... – Procurou controlar a respiração, tentando não oferecer qualquer indício do que estava acontecendo.
- Antonella, você estava transando. – Pontuou a psicóloga e Antonella não conseguiu controlar a gargalhada, suas amigas a conheciam bem demais.
- Culpada. – Deu a língua e sorriu mais uma vez quando viu Daniel se aproximar com um copo de água em mãos.
- Se você não sair em dois segundos, te deixo para trás. - Rebateu irritada, enquanto Antonella bebia toda a água do copo.
- Estou na porta. – respondeu rápido, devolvendo o copo ao marido e lhe beijando nos lábios uma última vez.

Saiu porta a fora apressada e agradeceu por Daniel ter fechado a porta atrás de si, caminhou o mais rápido que suas sandálias permitiam, sendo cuidadosa para não se esborrachar no chão e ao invés de uma ótima noite com as amigas, contrair um hematoma na face.
estava dentro do carro, uma Land Rover branca, quando se aproximou por completo, abriu a porta do veículo e tomou o assento do carona.

– Oi, .
- Meus olhos quase deram pane com essas lantejoulas, em sua roupa. – A psicóloga comentou fingindo seriedade. Antonella optou por um vestido dourado com paetês, o modelo de blazer, ela tinha mangas compridas e um decote que realçava os seios da italiana, o corte era em V fazendo com um pequena fenda se instalasse em sua perna direita ressaltando os músculos da coxa. Os cabelos estavam soltos e ondulados.
- São paetês. – Rebateu a outra. – E eu saio de causa para brilhar, sempre. – Disse rápido e logo levou as mãos para a testa, sentindo uma pontada. – E você que está vestida de de macacão, porém, em versão feminina. - Antonella apontou com a cabeça para a roupa que a psicóloga vestia, eram os mesmo tons da escuderia François-Render.

estava belíssima com os tons de vinho escolhidos para aquela noite, um cropped de mangas cumpridas, que estavam dobradas até o cotovelo, a saia lápis que marcava todas as curvas da negra, e o cinto que dava um toque feminino e sutil para a combinação.

- Ridícula. – Antonella viu girar a chave e dar partida no carro.


XXX


deixou o carro na porta do restaurante, pegou seus sapatos e os calçou, depois desceu do mesmo, resgatando todas as suas coisas. Ofereceu um sorriso gentil ao manobrista lhe entregando a chave, deu alguns passos para frente e esperou Antonella lhe alcançar, assim que a cantora o fez, as duas amigas trocaram um abraço rápido antes de seguirem para a entrada.
Um recepcionista estava guardando a porta, devidamente uniformizado e carregava um belo sorriso.

- Boa noite, senhoritas. – Cumprimentou. – Reserva em nome de quem?
- Cornello- – Rosseau. – Respondeu e Antonella olhou a amiga a expressão divertida no rosto, que tipo de nomenclatura para reserva era aquela?
- Mesa para três. – O homem completou, após vasculhar o tablet em mãos. – As senhoras gostariam de ir direito ao restaurante, ou preferem apreciar uma bebida na área das piscinas. - As duas mulheres se entreolharam para decidir o que seria melhor.
- A piscina, até por que a Render ainda não chegou. – Antonella se pronunciou e assentiu, um garçom se posicionou para guiar as mulheres ao local.

O restaurante tinha um índice de sofisticação que era invejável. Era dentro de um hotel, o Odyssey*, era composto por dois ambientes. O salão de jantar, onde várias mesas eram distribuídas em tons claros e vívidos, a área da piscina era equipada com várias poltronas confortáveis que davam vista para a enorme piscina aquecida, e também o céu estrelado de Mônaco que brilhava lindamente, algumas árvores rústicas com flores belíssimas, enfeitavam o ambiente.
Antonella sentou de frente para a piscina, tomou o assento oposto, preferindo olhar para as árvores.

- Você pode, por favor, me trazer a carta de vinhos. - recostou o corpo e cruzou as pernas. - Argh, não! - Antonella fez uma careta, olhando para o homem. - Eu quero um, Negroni,* Por favor! Com bastante Vermut.
- Algo mais, senhoritas? - Perguntou solícito.
- Não, muito obrigada. - respondeu e sorriu ao ver o funcionário se afastar. - Será que está tudo bem com a Lou? - Questionou olhando Antonella com certa preocupação.
-Sim, olha ela bem ali. - Apontou com o queixo para o lado direito.

virou o rosto na direção que a cantora olhava, e teve o vislumbre da jornalista sendo encaminhada por algum funcionário, um sorriso moldou a face da francesa conforme se aproximava das amigas. Louise estava vestida de maneira arrebatadora, os cabelos presos em um coque alto, brincos grandes e prateados nas orelhas, a blusa branca de mangas ¾ com um pequeno botão nas laterais, a calça de alfaiataria preta ressaltava sua altura, assim como o scarpin da mesma cor que mostrava toda a elegância que a francesa possuía, a bolsa em mãos fechava o estilo matador.

- Ainda bem que chegou, , já estava tecendo motivos psicológicos para seu atraso de um minuto e quinze segundos. - Antonella se colocou de pé para cumprimentar a outra, mas foi incapaz de não fazer uma piada.
- Que exagerada! - também se colocou sobre os pés, porém, rolou os olhos para o comentário da italiana. - Diferente de você, eu fiquei preocupada. - Se explicou.
- Desculpe o atraso, o trânsito estava horrível. - A francesa cumprimentou as amigas com um abraço. - Precisei cortar caminho para deixar Alex com o .
- virou sua babá? - A Italiana voltou a sentar-se. - O que um homem não faz para agradar uma mulher, está vendo, ? Aceitou ficar com a criança para que você pudesse ter um jantar.
- Eu? - tocou o próprio peito com o indicador, um pouco surpresa. - Ele é padrinho do Alex, não está fazendo mais que a obrigação.
- Exatamente. - Louise se sentou, chamando com o olhar um garçom. - passa muito tempo com o Alex, e eu sinto que isso só vai aumentar. Um uísque sem gelo. - A jornalista pediu ao garçom, que aproveitou e entregou a a carta de vinhos solicitada.- E então, como estão as coisas? Novidades?
- A Antonella deve estar cheia de novidades, já que deu um tempo dos palcos. - apontou a amiga, que balançou a cabeça com um sorriso.
- Eu tenho transado bastante, ando muito bem, obrigada. - Abriu um sorriso sacana. - E acompanhado o Daniel nas corridas, eu tinha esquecido como gostava de assistir as corridas dele, estou contente com isso. - Completou.
- Ele venceu a última, soube, porque essa eu não pude ver. - Louise lembrou. - Foi uma loucura. Mas fiquei muito feliz pela quebra de jejum.
- Sim, e por falar nisso, como estão as coisas? Soube que seu piloto passou mal, e foi muito bem cuidado pela nossa brilhante , mas e agora, como ele está?
- Estive com ele ontem pela tarde, aparentemente tudo sob controle. Você já o viu depois da crise, como anda? Espero que esteja seguindo as recomendações médicas. - direcionou o olhar para a jornalista.
- Se eu o vi...claro. - Louise hesitou. - Vi, tivemos treinos com algumas atualizações para a próxima corrida. Ele está bem, centrado,bem. - Disse rápido, e em seguida sorriu ao garçom que trazia sua bebida, dando um longo gole antes mesmo que o homem se afastasse. O garçom em seguida entregou a Antonella sua bebida e virou-se para , com a intenção de recolher seu pedido.
- Eu quero o Jean Bouchard Vosne Romanée*. - Entregou a carta de vinho, e depois que se assegurou da distância do homem, virou seus olhos para Louise. - Eu percebi um pouco de hesitação com a resposta ou foi impressão minha?
- Hesitação? Não. - Louise negou franzindo nariz e sorrindo. - Michael está bem, até onde soube, muito bem. - Garantiu e bebeu mais um pouco de seu uísque.
- Daniel ficou preocupado com ele, me disse que é bom rapaz, jovem e engraçado, e que lembra um pouco o Tony. - Antonella bebeu mais um pouco do drink e sentiu seu estômago reclamar, que reações estranhas eram aquelas? - Eu confesso que fiquei pensando em como a Render tem carma para atrair caras como Tony para perto.
- Engraçado com certeza ele é, eu precisei segurar a gargalhada várias vezes quando nos encontramos no consultório, umas piadas bem estilo Anthony mesmo. - sorriu ao se lembrar.
- Não, o humor é diferente. - Louise disse sem pensar. - Michael é mais puro, o Tony fazia piadas para provocar as pessoas, o Michael faz piadas consigo mesmo e é engraçado naturalmente. - Explicou dando de ombros. - E quando você o conhece melhor, percebe que ele e o Anthony são opostos.
- Talvez se eu o conhecer melhor perceba a diferença, a única coisa que posso constatar é que ele me fez rir muito. - cruzou as pernas. - E pelo que soube, é muito talentoso, talvez a François-Render volte a revelar um grande campeão.
- Eu não o conheço para concordar ou não, espero ter a oportunidade.
- Ele é bem bonito também, os olhos são um charme, conta para a Anto, Lou. - mais uma olhou a amiga que estava finalizado seu recém chegado copo.
- O que? Querem que eu mostre o Michael? Não precisa, Anto, já assiste às corridas, não precisa disso. - Louise desconversou, apoiando as costas na cadeira e desviando o olhar para as outras mesas. - Por que temos que falar dele? Tantas outras coisas, como o por exemplo.
- Você está parecendo o Ricciardo quando faz alguma coisa errada e não quer me contar, tipo o dia que ele colocou minha jaqueta de couro na máquina de lavar. - Antonella cerrou os olhos para a jornalista e não conseguiu conter a gargalhada. - O que rola com o Michael? Desembucha, Render.
- Ele deixa ela assim mesmo, Anto. - Observou psicóloga. - Faz ela viajar às pressas, bater em nossa porta de madrugada e querer invadir quartos de hospital. - Louise arregalou os olhos ao ouvir a amiga contar aquelas coisas.
- Estamos falando dessa Louise Render? - Antonella fingiu sussurrar para apontando o dedo descaradamente para a jornalista.
- ! - Louise a repreendeu. - O que houve com o sigilo com seus pacientes? E não é assim, Anto. Ela está exagerando. - Louise tentou explicar. - Eu estava em Mônaco, iria narrar a corrida, mas soube que Michael não correria, da mesma forma que os espectadores, então viajei para a Espanha. O que eu devia fazer? Fiquei preocupada, profissionalmente falando.
- Que paciente? Você está longe disse, Lou. - comemorou a chegada de seu vinho, esperou o garçom lhe servir e após dar o primeiro gole, voltou a falar. - Você bateu no meu quarto às duas da manhã, e imagino que não entrou lá da maneira correta e queria invadir o quarto do Michael, igual uma adolescente. Qual é, Lou? E depois parece que ficou dias sem tomar banho de preocupação.
- Eu não estou acreditando nisso. - Antonella gargalhou. - Pelo jeito que ela está falando está insinuando que você está tendo alguma coisa com esse piloto. - A cantora estava desacreditada. - Me diz que não é isso que estou entendendo? - Olhou para buscando uma explicação, mas esta não respondeu, apenas olhou para Louise e voltou a beber seu delicioso vinho.
- Eu me importo com meu piloto...é isso. - Louise declarou.
- Seu piloto?- Antonella coçou o queixo. - Esse cara, o Michael, é mesmo gato? Pois você, . - Apontou para a psicóloga que agora cruzava as pernas. - Está muito bem servida com o , quero saber sobre o Michael. Ele tem instagram?
- Ele é muito gato. - sorriu, e manteve seus olhos em Louise.
- Vou procurar. - Anto se remexeu na poltrona procurando sua bolsa para encontrar o celular e fazer sua pesquisa.
- Procura mesmo, você vai adorar ver.
- Uau! - Antonella exclamou ao achar o instagram do piloto, desviou os olhos da tela e deu um sorriso safado para Louise. - Amiga, eu entendo a preocupação com seu piloto. - Com o dedão Antonella rolava as fotos do piloto, algumas dava um close para averiguar com mais detalhes, gostava de ter a certeza que as amigas estavam em boa companhia. - Sério, Louise, é um baita gostoso, já era para você estar sentando no seu piloto. - Antonella analisava uma foto em específico, Michael estava em pé em uma pose séria, o queixo em pé e o olhar estreito, o maxilar bem marcado destacava na foto, assim como a boca bem desenhada. Antonella deixou a foto aberta e jogou o telefone na direção da jornalista para que a mesma compartilhasse da divindade que estava em sua tela. - Eu estou chocada, muito gato.
- Ele é escoces, também é ruivo...é claro que seria bonito. - Louise fingiu não se importar, mas diante os olhares inquisidores das amigas, percebeu que não teria alternativa. Bufou e pousou o copo sobre a mesa. - Okay, vamos lá. - Respirou fundo, tentando procurar as palavras certas. - Nos beijamos. Algumas vezes. Em alguns lugares.
- É o que? - Antonella exclamou perplexa. - Você está pegando o piloto? Per Dier*
- Eu sabia que daria nisso. - mordeu o lábio inferior contendo um sorriso maior. - Eu tinha razão, você está apaixonada pelo escoces.
- Acho que você vai tirar as teias de aranha da perereca em breve. - Antonella estava estarrecida de felicidade, , porém conteve a comemoração e direcionou um olhar empático a amiga, entendia a possível situação ali.
- Como está sendo isso para você?
- Primeiro, eu não estou apaixonada, não sei ainda como me sinto sobre isso. É diferente. - Louise confessou. - Antes da crise que ele teve, havíamos brigado, no hospital eu pedi desculpas e fizemos as pazes, fui sincera. Depois disso, na próxima vez que nos encontramos pessoalmente, brigamos mais uma vez e foi um pouco mais tenso. E então, de repente ele se declarou, disse que se importava comigo e que gostava de mim. Mas é confuso, eu acho que gosto disso, mas ao mesmo tempo tem o Tony e eu sei que ele também pensa nisso.
- Onde tem o Tony? No céu? - Antonella se sentiu confusa e a olhou feio.
- É complicado mesmo, Lou. - A psicóloga sorriu. - Mas é como te disse aquele dia, você viveu um amor perfeito, mas Tony se foi e você merece ser amada, merece sentir todas essas emoções de novo. Não tem uma receita para seguir, é só seguir.
- Eu nunca...nunca olhei para outra pessoa. Mas o Michael sempre mexeu comigo de um jeito estranho, talvez por isso eu tenha relutado tanto em ceder espaço a ele. - Louise sorriu fraco. - É estranho para mim, não sei se estou pronta para gostar de verdade de outra pessoa e seguir em frente, mesmo sabendo que posso. Mas o Michael...tem sido...não é como se isso acontecesse há meses, também. Isso foi essa semana.
- Nós sabemos que nunca olhou para outra pessoa, que o diga. - Antonella brincou mais uma vez e então lançou um olhar gentil. - Mas é assim que acontece Lou. - Com a pronúncia do apelido, Louise voltou sua total atenção para a mulher, raramente Antonella a chamava assim. - Eu lembro quando eu conheci o Daniel, estava ferida, sangrando e morrendo dia após dia, jurei para mim mesma que jamais entraria em outro relacionamento e no primeiro beijo que demos, eu soube que estava apaixonada. - Contou sorrindo. - É claro que são situações totalmente diferentes, mas o que eu quero dizer é que só acontece, mesmo que não seja o nosso desejo. Olha a doutora e o , fugiu e negou ele por tanto tempo e hoje está rolando nos lençóis de seda dele.
- E você não precisa pensar tanto, as vezes precisar sentir. - completou.
- Eu sei, não analisar o sentimento, só sentir. Eu juro que estou tentando. - Louise sorriu. - Quem sabe, no momento certo...quando me sentir pronta. E além disso, foram só alguns beijos, Michael é solteiro, livre, isso é comum para ele, não existe motivo para eu bancar a emocionada. - Louise sorriu, levantando o copo e bebendo o resto de seu uísque.
- Você está no caminho certo. - Anto piscou. - E só para dizer, talvez realmente não tenha sido nada demais, mas eu estou feliz por você, você merece sentir a vida de novo.
- Com toda certeza, e saiba que o quer que aconteça, ou qual seja sua decisão. Eu estou aqui com você e por você.
- Isso mesmo, se quiser a gente também pode esconder o corpo, aprendi vários truques na série* que o Daniel está vendo, ele assiste e finge que entende o que a advogada lá ensina. - Antonella gargalhou.
- Não, não acho que vá ser preciso. - Louise gargalhou. - Só lamento frustrar os planos de um encontro de casais, já que imagino que a senhorita esteja ansiosa para esfregar na cara do universo que ela é a dona de . - Provocou a amiga com o olhar.
- Eu não sou a dona de ninguém, mas confesso que adoraria participar de encontro com Michael, e de quebra o Ricciardo.
- Não conte com isso, amiga. - Louise gargalhou.
- Para de agir como se você não estivesse trepando igual uma louca com , aposto que está toda roxa e dolorida. - balançou a cabeça negativamente, mordendo o interior da bochecha, de fato estava com algumas marcas pelo corpo, não era um amor entre quatro paredes e gostava, porém, jamais diria isso em voz alta. - Vamos falar do . - Direcionou o olhar para que quase engasgou com o vinho. - Me conta, como está sendo a vida sexual?
- Às vezes eu me esqueço do quanto você é sem noção. - Louise balançou a cabeça negativamente.- Mas é uma boa pergunta, não sabia que as coisas estavam tão sérias a ponto de dormirem na casa um do outro.
- Eu não sou sem noção. - Antonella tapou a própria boca. - Sou sincera. - Deu de ombros.
- Ah, Claro. - rolou os olhos e mexeu o pescoço para os dois lados, a fim de estralar. - Até você, Lou? Achei que não gostava de ouvir coisas do dessa forma.
- E tem razão, não gosto, mas não perguntei como é sexo entre vocês. - A francesa mordeu a ponta da língua. - Perguntei sobre o status da relação. Aliás, não vamos comer nunca?
- Eu estou faminta, parece que não como há dias. - Antonella passou a mão no ventre, sentindo um incômodo pela falta de comida. - Apoiou os dois pés nos saltos, para se colocar de pé. - Mas o fato da gente levantar agora para comer, não diminui o impacto da minha pergunta e eu quero as respostas.
- Não tem o que saber. - Ela encolheu os ombros, se dando por vencida. - Ele é um cara legal, me trata bem, gentil, carinhoso quando tem que ser e sabe a hora de não ser. É inteligente, compartilhamos gostos iguais, mas ainda estamos nos conhecendo. - Explicou com o olhar longe, não tinha certeza sobre suas expectativas, não achava que era o momento. - E sim, Antonella, o sexo é fantástico, não sei como pode odiar pilotos com as mãos que eles possuem.
- Okay, agora você já está enveredando para um assunto constrangedor e desnecessário. - Louise sacudiu a cabeça, acompanhando as amigas para dentro do restaurante, enquanto o trio era guiado para sua mesa. - Eu não entendi, você disse boas qualidades, mas sem emoção...nada daquelas sensações que realmente movem o mundo.
- Eu não disse esses sentimentos, já que ...- Interrompeu a fala quando o telefone em sua bolsa iniciou um toque, geralmente ela não atenderia, mas reconheceu que aquele era o toque de Flynn, e para ele estar ligando aquela hora em pleno final de semana, poderia realmente ser algo. - Só um minuto, eu preciso atender.

Se afastou das amiga, apertando a tecla verde em seu telefone, logo levando a orelha.

- Oi, Brand. – Cumprimentou o amigo.
-, desculpe te ligar essa hora. – Ressentiu-se o outro, o que faz a psicóloga ficar ainda mais alerta. – Temos um problema.
- O que aconteceu? – O tom de voz preocupado tomou suas cordas vocais, se afastou um pouco mais de onde estava e encostou o corpo em uma pilastra.
- É que deveria ter te enviado os documentos de anamnese dos pilotos e meu computador teve um problema e não consigo enviar.. – respirou fundo. – Eu vou precisar te entregar ou que você busque. .
- Qual a data final?. – Resmungou. - Até amanhã às 23:59, para dar tempo de protocolar.
- Está Bem, dará tempo. Eu busco em sua casa amanhã cedo. Muito obrigada por me ligar.
- Até mais, , Boa noite.

respirou fundo totalmente incomodada, se irritava quando alguma coisa acontecia que poderia afetar de alguma forma seu trabalho, mas ainda estava na primeira semana oficial de trabalho, daria tempo para que tudo fosse acertado e que os prazos não se perdessem.
A psicóloga desencostou da pilastra após um longo suspiro, optou por enviar uma mensagem para Michael, em seu número particular, talvez ele não pedisse ajuda, mais se ela fosse oferecida, ele aceitasse, assim que o texto foi enviado, a barra de notificações que havia se pronunciado mais uma vez naquela noite. Abriu a conversa com o inglês.

: Dando comida para a criança.

E também um anexo, onde os dois, Alex e estavam sentados no sofá com pratos em mãos. O loirinho tinha um sorriso aberto nos lábios, a expressão mostrava uma tremenda felicidade, ao seu lado, , não estava diferente, tinha o mesmo sorriso e a mesma expressão.
Sorriu com a imagem, gostava de saber o quanto os dois se davam bem, pois sabia o quanto Tony confiou a lhe entregando o filho para apadrinhar.
Estava distraída observando celular, iniciando a resposta para o negro, que sequer percebeu que outra pessoa se encaminhava em sua direção, o choque foi inevitável já que ambos não olhavam para o caminho. sentiu o impacto contra seu corpo e pela força acreditou que iria para o chão, porém mãos firmes e com ótimos reflexos se ocuparam de sua cintura, impedindo-a de despencar.
Imediatamente suas mãos foram para o ombro da pessoa, por conta do movimento, percebeu que mesmo em seus saltos era maior que ela, então levantou a cabeça para enxergar a pessoa que a impediu de cair, seus olhos encontraram os escuros e brilhantes de .
O dirigente da escuderia alemã deu um sorriso aberto quando olhou para a mulher entre seus braços, os olhos dela estavam brilhando, quase tanto quanto a noite de Monte Carlo.

- , olá! – Cumprimentou e sorriu consertando o corpo. – Devíamos parar de nos encontrar assim.
- Oi, ! De fato, parece que sempre acabamos nos esbarrando. – Ela ainda mantinha os braços sobre seus ombros, e suas mãos formigaram adorando o contato com os músculos do americano.
- Amor, encontraram nossa me... – A voz morreu no exato instante que seus bateram na cena, onde seu marido segurava outra mulher. Uma mulher de cor. Uma mulher escura estava com os braços sobre seu marido.

Natasha esquadrinhou a outra com os olhos como se tivesse um raio –x no lugar das órbitas, não agradou por nenhum segundo de ver as mãos do marido sobre ela, como se fossem íntimos, detestou mais ainda ver que ela tinha as mãos escuras sobre a camisa caríssima que havia lhe presenteado alguns dias antes.
desviou os olhos de e encarou a esposa, identificando chamas de fúria nas pupilas claras, soltou as mãos da cintura da psicóloga e depois as tirou por completo, acompanhou o movimento e desfez o toque sobre o homem.
- Amor, essa é a , ela é a responsável pela equipe de saúde mental da FIA. – Correu a mão de uma para a outra. – , essa é minha esposa, Natasha!

- Olá, Natasha. – Esticou a mão em cumprimento. – É um enorme prazer.
- Olá! – Forçou um sorriso e não cumprimentou a outra manualmente, deu dois passos para o lado e colocou o braço direito na cintura de . – Nós precisamos ir, amor. Já encontraram nossa mesa. Se despeça de sua colega de trabalho.

deu um sorriso e abaixou a mão de maneira tranquila, não era a primeira vez que se recusaram a cumprimentá-la e com a quantidade de coisas que rodaram sua cabeça, não ser cumprimentada era o menor de seus problemas.

- Claro, eu também preciso ir. – Deu o sorriso mais educado que conseguiu e acompanhou o movimento e acrescentou um aceno com a cabeça.
- Foi muito bom revê-la, , até a reunião semana que vem. – Passou o braço pelos ombros da esposa, que batia os dedos em sua cintura, totalmente impaciente e louca para sair dali.
- Até mais! – Desviou seus olhos para a ruiva, conseguiu captar em Natasha certo receio, sentimento que sempre vinha junto com racismo e preconceito, e ela não deixaria que as coisas ficassem naquela maneira, deu dois passos em direção a mulher, esticou o braço direito e tocou em seu ombro, com um sorriso moldado nos lábios. – Foi um prazer te conhecer, espero que a gente se veja mais vezes. – Esperou por uma resposta, todavia, ela não veio, somente recebeu o olhar repreendedor da russa em direção ao toque que recebia em seu ombro.
Antes de se afastar, olhou para o chefe da Mercedes e sorriu, para só depois tirar a mão dos ombros da esposa.
Seguiu seu caminho até onde Louise e Antonella a esperavam, em seu interior ela soube que instantes atrás fora vítima de um preconceito totalmente velado, hoje em dia, após anos de reafirmação jamais se deixaria abalar por aquele olhar, mas, também jamais abaixaria sua cabeça.
voltou para perto das amigas e tomou o único assento vazio na mesa, colocou a taça na mesa e ajeitou os cabelos que caiam no rosto, colocou a bolsa sobre o colo e sorriu para as amigas.

- O que o queria? Sexo por telefone? Espero que o Alex já esteja dormindo.
- Meu Deus, Antonella! - Rolou os olhos.
- Está tudo bem? - Louise a olhou.
- Sim, coisas de trabalho. - Sorriu bebendo mais vinho. - Por falar nisso, preciso encontrar você e em uma reunião, quando você pode, e precisa ser antes de quinta.
- Apareça na segunda, estarei no autódromo, lá as coisas são mais tranquilas. Michael e também estarão. - Louise falou.
- Mas não gostaria que o Michael participasse, somos só eu, você e ? Dá para ser?
- O que está acontecendo? - Antonella perguntou curiosa.
- Não é nada demais, é sobre o tratamento do Madden. - Explicou .
- Como assim? -Louise quis saber, um pouco preocupada.
- Nada demais, eu te disse que encontrei com ele ontem, e tivemos nossa primeira sessão e eu preciso conversar com vocês. Já que são peças fundamentais no tratamento. - Explicou com calma e sem dar qualquer alarde.
- Eu vou ao banheiro rápido, já volto. - Levantou, puxou o vestido para baixo e se encaminhou para o banheiro.
- É impressão minha ou ela está mais estranha que o normal? - Louise perguntou, indicando com o olhar Antonella.
- O que achou de estranho nela? - Questionou olhando na mesma direção que Louise.
- Além da ansiedade e agitação além do nível normal? Reclamou de enjoos, seios doloridos…- A jornalista soprou com um olhar sugestivo. - Mas jurou que não está atrasada.
- Eu percebi que estava agitada mesmo, mas quando fui a buscar em casa, estava com Daniel, acho que eles estão aproveitando bem o momento. - contou. - Eu não consigo imaginar a Cornello grávida, será um furacão ainda maior com todos os hormônios. Você já falou algo sobre bebês?
- Não, ela surtaria. Perguntei sobre o atraso, ela negou...preciso investigar mais. Assisti a entrevista dela, quando falou sobre não querer nenhum bebê. - Louise piscou e indicou novamente com o olhar que a cantora estava regressando à mesa.
- Voltei. - Anto sorriu se ajeitando novamente na mesa. - Já escolheram o que vão comer? - Voltou a analisar o cardápio com precisão, e Lou trocaram olhares curiosos, como se a chegada da outra, somente corroborasse o assunto que estavam tendo segundos atrás.
- Sim. - Louise chamou o garçom com um aceno. - Abacate, tomate e burrata com pimenta-do-reino e folhas de manjericão, e um salmão grelhado com tagliatelle de manga, de sobremesa um sorvete de frutas. E por favor, um champanhe muito, muito bom. - A francesa sorriu para o funcionário.
- Eu aceito o mesmo que ela. - Anto concordou, não estava com a mínima condição para pensar. - Eu quero uma água com gás, por favor!
- É o que? - arqueou a sobrancelha.
- Meu estômago está meio ruim. - Explicou. - Por isso vou beber água com gás, para comer e depois beber mais.
- Você está bem? - Antonella assentiu e voltou o olhar para o garçom, pronta para fazer seu pedido. - Eu quero: Legumes sazonais com ricota ralada e manjericão, e eu vou ficar no vinho mesmo. Obrigada.
- Só isso? - Louise arqueou a sobrancelha, olhando para as duas mulheres a sua frente. - Você devia pedir uma carona para algum hospital, Antonella. Você, comendo só peixe, queijo e frutas?
- Isso é saudável, certo? - Perguntou para a amiga. - Faz o seguinte então, me dá igual o das duas, vou comer um pouco de cada. - Olhou para o garçom que assentiu se retirando. - Eu estou bem, quando chegar em casa vou tomar um bom banho, Daniel me fará uma massagem nos pés e eu terei sono de princesa.
- Anto. - chamou. - Devia cuidar mais da sua saúde, eu entendo que sua vida é corrida, mas ingerir álcool ao extremo e comer pouco, vai te gerar problemas de saúde no futuro.
- Eu pensei em não falar, mas não consigo, desculpe. - Louise bufou. - Você tem se cuidado? Ido ao médico? Essas coisas?
- Me cuidado, como, tipo em que sentido? - Franziu o cenho. - Faço meus exames de sangue de rotina, cuido da pele e essas coisas.
- Antonella! - rolou os olhos. - Estamos falando sério, você está se cuidando mesmo? Tem ido ao ginecologista?
- O quê? Isso é uma pergunta séria? - Correu os olhos de uma para a outra, buscando uma explicação.
- Não quero fazer suposições infundadas, mas...da última vez que senti enjoos, dor nos seios e perdi a fome, um garoto nasceu. - Louise piscou.
- Não! - Antonella balançou a cabeça negativamente com tanta força que sentiu as articulações do pescoço reclamarem. - Isso é impossível, impossível. - Deu uma risada alta. - Quanto a isso não tenho com o que me preocupar, zero chances.
- Você tem vida sexual ativa? - recostou o corpo na cadeira e girou o mesmo, mudando a posição em direção a amiga.
- Com toda certeza. Todos os dias, várias vezes ao dia. - Sorriu orgulhosa.
- Então não tem zero chances. - rebateu.
- Eu mando as fraldas para o seu endereço? - Louise debochou.
- Em dez anos, com certeza! Antonella ralhou um pouco irritada com o assunto. - Eu não quero ter bebês agora, eu e Daniel não estamos preparados, ele deixa os tênis jogados na sala até hoje, é mais bagunceiro que o Alex. Eu não estou grávida e nem pretendo engravidar.
- Eu compreendo que planos são traçados, mas as vezes, Anto, as coisas não saem como nós planejamos, e eu me preocupo em como você lidaria com a frustração. - tinha o olhar sereno e doce, assim como as palavras que saíram de sua boca.
- Eu amo vocês, mas estou bem! - Foi curta, não queria mais aquela conversa, por isso deu um pulinho e algumas palminhas de felicidade, quando os pedidos chegaram. - Enfim, comida!
- Qual é a próxima pauta? - Louise quis saber, se preparando para comer sua entrada. - Alguém tem alguma notícia bombástica, alguma ameaça de crise...é lado jornalista. - A francesa deu de ombros.
- Eu estou escrevendo uma nova música. - Começou a cantora e Quando os pratos foram destampados, o cheiro de manjericão foi direto às narinas de Antonella, causando uma sensação repentina de tontura, seus olhos perderam um pouco o foco, ao mesmo tempo tudo aconteceu. Seu corpo repuxou, e todas as células vivas que existiam dentro do mesmo, se reuniram como se combatessem um invasor, nesse caso, a presa foi seu estômago que levava socos de dentro para fora, exigindo que Antonella lhe obedecesse e liberasse o que ele mandava. - Eu… - Levou as mãos a boca. - Eu… banheiro. - Levantou em um rompante, como se sua vida dependesse de chegar até o toalete, sentia seus músculos pesados por algo que não conseguia identificar.
- Aposto quinhentos euros que é um menino. - Louise propôs, levantando a taça de champanhe e propondo um brinde.
- Céus, Antonella e um bebê. -Murmurou para si mesma, incrédula. - Vou lá ver como ela está. - avisou a jornalista francesa.

A frustração que poderia corroer as veias da amiga, foram mais um ponto de preocupação da psicóloga, em seu interior esperava que a cantora tivesse certeza das palavras ditas segundos atrás, ou mais um incêndio se instalaria.

- Te acompanho, o que é uma pena já que estava realmente interessada nesse jantar. - Louise sorriu para a amiga.
- Vamos. - As duas se levantaram. - Se lembra de algum jantar nosso que não teve um episódio estranho? Me pergunto se algum dia conseguiremos.
- Na verdade, uma gravidez é o menos estranho que já aconteceu. - A francesa gargalhou quando entraram no corredor de acesso aos banheiros.
- Me pergunto qual será a próxima bizarrice que vamos enfrentar. - empurrou a porta com cuidado, verificando o que poderia enfrentar. - Antonella? - Chamou e a resposta que teve foi um gemido em dor. - Anto, estamos aqui, querida! Me diga qual cabine você está. -Pediu mais uma vez e não precisou aguardar mais segundos pela resposta, pois logo o barulho de um trinco foi ouvido, a porta aberta revelando Antonella com seu rosto pálido.
- Estou viva. - Disse baixo se encaminhando em direção a pia para se lavar.
- Viva é uma palavra forte demais. - Louise se aproximou dela. - Lave o rosto, vou pagar a conta e vamos te devolver para o Daniel, talvez ele te convença a procurar um médico. - A jornalista sorriu sem mostrar os dentes.
- Não há motivos para preocupar o Daniel. - Antonella resmungou, enquanto passava um pouco de água no rosto.
- Eu já mandei mensagem, ele está vindo te buscar. - balançou o celular. - Ele é seu marido, é isso que significa ter alguém, contar e confiar. -A psicóloga tocou o ombro da amiga, fazendo-a se virar para olha- lá. - Seja racional Anto, tem que coisas que estão diante de nossos olhos e não vemos, só pelo fato de não querermos ver.
- Pense com a cabeça, independente de qual seja a causa disso, você é uma artista, seu corpo é seu trabalho.
- Obrigada, mulheres da minha vida! Talvez eu escreva uma música sobre vocês. - Anto riu abraçando as duas amigas - Eu vou pagar a conta e nem adianta argumentar, hoje é por minha conta.
- Não vou, é nos detalhes que se continua rico. - Louise deu de ombros.
- Vamos então. - Ainda com certa dificuldade Antonella saiu do banheiro, cruzando o espaço do corredor com lentidão e então se aproximou da mesa, onde minutos atrás estavam sentadas. Sentou-se e chamou um garçom com olhar, antes do mesmo se aproximar, já pegou o cartão na bolsa, para que houvesse agilidade no pagamento. Assim aconteceu, já que meio minuto depois, ele retornava para que a mulher batesse sua senha e então a noite fosse encerrada por completo. -
- Apesar da intercorrência tivemos uma noite agradável. - bebeu o restante de seu vinho para deixarem o lugar.
- Devíamos marcar alguma coisa...spa, quem sabe salão? - A francesa sorriu.

Assim que as três mulheres cruzaram a porta de saída, Antonella encontrou os olhos de Daniel, ansiosos e preocupados, quando o homem localizou a cantora, um sorriso enorme brincou em seus lábios, e Antonella sentiu o peito aquecer em amor.
O piloto se desencostou do carro e andou rapidamente ao encontro de Antonella, tomando a mulher em um abraço apertado.

- O que aconteceu, amor? - Resmungou em meio ao abraço, a voz exalava preocupação.
- Só um mal estar. - Sorriu com os braços ao redor da cintura do australiano. - Eu já estou bem!
- Oi, ! Oi, Render! - Acenou com a mão para as duas mulheres.
- Como vai, Daniel? - cumprimentou. - Cuide dessa teimosa e se precisar de algo, pode me chamar.
- Oi, Ricciardo. Faço das palavras da , as minhas, estamos às ordens.
- Obrigada! - Antonella olhou para as duas. - Amo vocês! - Jogou beijos no ar e então entrelaçou os dedos aos do marido e saíram andando.
- Álcool ou coisa mais forte, na minha casa? - Louise propôs enquanto as duas assistiam o casal de afastar.
- Com toda certeza. - A psicóloga riu. - Acho que vou preferir coisa mais forte.


XXX


Hanna já estava dormindo, quando Natasha e abriram a porta do apartamento. Jessie a babá da noite estava sentada na sala vendo televisão e sorriu, colocando-se em pé assim que viu os dois patrões.

- Oi. – Cumprimentou.
- Onde está minha tampinha? – perguntou e menina apontou com o queixo indicando o quarto, o empresário acenou com a mão e seguiu até o quarto da filha, enquanto Natasha pagava a moça e a colocava em um uber para ir embora.

entrou devagar no quarto e sorriu com a imagem que pequena dormindo profundamente em sua cama, subiu mais a coberta e beijou a testa da filha, lhe desejando uma boa noite.
Fechou a porta e marchou até seu quarto, já abrindo os botões da manga da camisa. Natasha também já estava no quarto, sentada na cama enquanto desabotoava as tiras de sua sandália vermelha.

- Hannah está apagada. – Ele sorriu, caminhando até ela, sem perceber o ódio no olhar da mulher. – Gostei da comida daquele restaurante, devíamos voltar mais vezes.
- Quem era aquela mulher, ? – Ela sibilou.
- Mulher? Que mulher? – Ele ficou confuso, de que mulher Natasha falava?
- A escurinha do restaurante. Ela estava com as mãos em você, aquelas mãos feias. Quem é ela? E por que ela estava tocando em você, ? – Se colocou de pé chutando as sandálias e colocando as mãos na cintura, ficando os olhos no marido, esperando uma resposta.
- Você está falando da ? Da psicóloga? Isso é sério? – Arqueou as sobrancelhas.
- Não desvie do assunto, você está me traindo com a preta?
- Escurinha? Preta? – Repetiu perplexo. – Você sabia que racismo é crime, Natasha? Você não pode se referir as pessoas dessa forma, isso é discriminação e você pode ser presa. – Respondeu calmo, abrindo os botões de sua blusa e arrancando-a do corpo.
- Você está falando sério, ? Vocês está defendendo sua amante? – Soltou depressa cruzando os braços sobre o peito, e abriu a boca pasmo, sem conseguir expressar qualquer som.
- Amante? – Repetiu e então gargalhou. – Você está louca, Natasha. não é minha amante, eu não tenho uma amante. Pare de falar asneiras.
- Asneiras? Ela estava com as mãos em você, e você segurava na cintura dela. Na frente de todos, aposto que amanhã estará em todos os jornais a minha cara, e a palavra corna em letras gritantes. – Berrou enraivecida. Aquilo era uma palhaçada, e quem e quem era o palhaço central, levando a torta na cara, enquanto todos da plateia riam e aplaudiam?
Ela.
- Natasha, o que está acontecendo? – perguntou, novamente, parecendo preocupado agora. – Você está enxergando coisas, amor. Ela tropeçou e eu segurei, para que caísse. - A ruiva lançou um olhar furioso e ressentido na direção do homem, como um animal acuado que teme e despreza o seu predador.
- Você está me chamando de louca? Dizendo que eu não sei o que vi? As mãos imundas dela estavam sobre você. – Berrou. Não suportava pensar em outra mulher tocando o marido, uma raiva absurda tomava conta de seu sangue, somente de imaginar a possibilidade de uma vida sem o americano.

piscou os olhos azuis algumas vezes, enquanto absorvia aquela acusação em silêncio.

- Natasha. – Chamou e deu alguns passos para frente, tocando os ombros da esposa. – Você não pode falar assim das pessoas, racismo é crime, a pode te processar, não fale assim dela e nem de qualquer pessoa. Eu não sabia que você era preconceituosa desse jeito.
- Eu não sou preconceituosa, eu trato todas as pessoas da mesma maneira. – Respondeu com um sorriso. – Eu só não quero que ela toque em você novamente.
- Natasha, ela não me tocou, ela não é minha amante. – Disse calmamente e então Natasha abraçou o homem pelo pescoço, ficando na ponta dos pés para deitar a cabeça nos ombros do marido. – Amor, o que está acontecendo? Eu não estou entendendo essas crises de ciúmes absurdas.
- Eu tenho medo de perder você, ! – Apertou mais os braços e lágrimas começaram a rolar por seu rosto, expostos pelos gemidos que escapavam dos lábios. afastou a mulher para olhar em seus olhos.
- Nath, você não vai me perder. Pare de chorar. – Secou as lágrimas dela com o polegar. – Não repita isso e nem se refira a qualquer pessoa pelo tom de pele, isso é errado.
- Promete que nunca vai me deixar? Promete que não vai trocar por ela? E nem por ninguém? Eu não suportaria viver sem você, você é minha vida, . Eu não posso viver longe de você. – Abraçou o homem novamente, voltando a chorar em seus ombros.

apertou os braços sobre a cintura da esposa, um pouco chocado e sem compreender o que fato acontecia. Como em poucos segundos uma expressão de raiva se tornou tão serena e calma, como palavras agressivas viraram súplicas? Não estava conseguindo compreender as recentes atitudes de Natasha.

- Eu não te trocaria por nenhuma mulher, eu amo você. Escolhi me casar com você. – Lhe beijou a testa.
- Eu te amo mais que tudo, . Mais que tudo nessa vida. – A mulher começou a beijar seu rosto, em vários lugares. Beijos estalados que molhava o rosto do homem.
- Eu também te amo, Nath. – Disse calmamente.

Natasha desceu os beijos pelo pescoço do homem, e logo estava correndo as mãos pelo abdômen estampado. Ele não conseguia sentir as sensações que as mãos da esposa lhe faziam sentir, porque sua mente lhe trazia à memória as palavras que escutou de no dia anterior.

“Em geral, os indivíduos que desenvolvem obsessão por alguém são aqueles que nutrem um medo muito grande do abandono e da rejeição.... Cobra-se muita atenção e faz chantagem emocional com frequência, são pessoas dependentes e inseguras... “


XXX


agradeceu ao funcionário da escuderia que foi verificar a liberação de sua entrada, ela permaneceu alguns segundos parada no mesmo lugar, até que o homem se aproximasse novamente, lhe dando permissão para entrar, liberando a porta de vidro, com outro sorriso ela agradeceu.

- Como eu chego lá? Faz tempo desde a última vez que estive aqui. – Perguntou ao homem que saiu de seu posto se aproximando dela.
- Siga direto por esse corredor, suba a escada e vire a esquerda, é a segunda porta. – Lhe deu a direção e a psicóloga assentiu tomando o caminho.

Enquanto caminhava, segurou o pano do vestido longo que vestia, para evitar tropeçar na barra e cair, não queria passar qualquer tipo de vergonha dentro do local.
Não demorou muito para chegar à escada e subiu os degraus, o barulho dos saltos ecoou por todo o corredor, denunciando sua presença. Terminou de subir os degraus e virou a primeira esquerda, encarando uma enorme porta de vidro escuro.
Antes de bater, observou ser reflexo, soltou o vestido azul e ajeitou o turbante na parte cima da cabeça, apertando os cachos que estavam soltos, respirou fundo e então bateu na porta.
Louise foi quem abriu a porta, trajava calças jeans e blazer, os cabelos estavam soltos e brilhantes.

- , bom te ver. - Louise sorriu , abraçando a amiga. – Entre, está lá dentro.
- Oi, Lou! - Respondeu o cumprimento entrando na sala, estava sentado em uma cadeira no canto oposto da sala. Assim que viu a psicóloga entrar na sala, se levantou e caminhou em sua direção. - Olá, !
- Oi, ! - Lhe deu um beijo rápido nos lábios e arregalou os olhos pelo gesto, porém nada disse somente lhe lançou um sorriso.
- Como vocês estão?
- Bem, na verdade muito curiosa também. - Louise confessou sorrindo, sentando-se atrás da mesa e assentiu, segurando a mão da psicóloga enquanto se sentavam junto no sofá perto da mesa de Louise.
-Então vamos direto ao ponto. - Correu os olhos de um para o outro. - Sexta feira eu estive com Michael, nós conversamos sobre o tratamento e sobre várias coisas, porém, eu analisei friamente o caso dele e tudo que está envolvido e cheguei à conclusão que infelizmente não posso tê-lo como meu paciente. -Soltou as palavras rapidamente, não tinha necessidade de rodeios.

Louise não conseguiu dizer nada, apenas soltou o corpo na cadeira, com a boca aberta.

- ? Mas...não, tem que ser você. - aproximou o rosto da mulher, tentando entender o que estava acontecendo.
-. -Ela tocou seu rosto e depois deu outro sorriso. -Eu escolhi vir aqui justamente porque sabia que vocês teriam dificuldades em compreender, assim como muitas dúvidas. Eu não posso prosseguir com o caso, mas vou encaminhar ele para o melhor terapeuta e com toda certeza será muito bem tratado. -Respondeu novamente, olhando para os olhos do inglês.
- Ética profissional…- Louise pensou alto, encarando a mesa, tentando entender a situação. - É compreensível...é só que…- Ela suspirou, passando as mãos no cabelo. - Me pegou de surpresa.
- Eu prometi a ele que seria você, que daria certo porque seria você. - argumentou, balançando a cabeça negativamente e encarando o vazio a sua frente.
- Exatamente, ética profissional. - assentiu. - Eu disse que cuidaria do caso, e realmente iria assumir com todo cuidado do mundo, porém, isso foi antes da gente, . -Cruzou as pernas e lançou um olhar compadecido, tocando o ombro do homem. - Eu não posso ser terapeuta do Michael, enquanto fico bêbada com a chefe dele e durmo com o companheiro de equipe, isso foge totalmente aos padrões de vínculo terapêutico. - Olhou para a amiga. - Eu sinto muito, Lou! Mas com tudo isso, não posso prosseguir, eu precisava fazer uma escolha. Ou eu cortava os vínculos com vocês dois, ou deixava o caso.
- Como ele reagiu? - Louise apertou os lábios, entendia a amiga, mas não conseguia não se preocupar com Michael.
- Isso é algo que vocês precisam perguntar para ele. - Ela mordeu o lábio inferior. - Infelizmente não cabe a mim contar, é algo dele e que ele quem precisa responder. Eu vou permanecer sempre por perto, conversando com ele, monitorando possíveis gatilhos para crises, mas realmente prosseguir, eu não posso. - Olhou para o que permanecia em silêncio e depois voltou seus olhos para a expressão aflita de Louise, sabia quem reações como aquelas viriam, afinal, foi depositado uma confiança no tratamento que ela assumiria e sabia o quanto os dois confiavam de em seu trabalho e competência.
- Espera, você...você não contou a ele sobre isso? - Louise franziu o cenho, inclinando-se um pouco para frente e fitou a psicóloga, curioso com a resposta.
- Claro que não. - Negou com a cabeça e encostou o corpo na poltrona, relaxando o mesmo. - Eu falei sobre nós duas, sobre nossa amizade, sobre o vínculo e gratidão que tinha com o Tony e também falei do , sobre nossa amizade de anos, que foi meu paciente também, mas minha vida pessoal, eu não disse, era somente o que ele precisava saber.
- Desculpe, ...mas eu não consigo entender como seria melhor se nós falássemos com ele sobre isso e não você. Michael e eu já nos desentendemos antes por isso, ele gosta de ter autonomia nesses assuntos. Não acha que ele pode se sentir traído ou sei lá...como se precisasse um de responsável para resolver isso? - Louise indagou preocupada.
- Ele não vai gostar disso, definitivamente. - respirou fundo, apoiando os cotovelos nos joelhos. - Vai ser difícil convencer a seguir com a terapia.
- Eu vim aqui contar para vocês, pelo carinho que tenho por vocês dois. - Levou as duas mãos à cabeça, ajeitando o lenço. - Vocês dois depositaram a esperança do tratamento do amigo de vocês na profissional e não em outro profissional qualquer, eu vim aqui por vocês e não pelo Michael. Eu estive com ele semana passada, expliquei o que era necessário e ele está ciente que não será meu paciente, ele tem capacidade de escolher o que quer, e como será. Já é adulto e está em perfeitas faculdades mentais, mas como amiga de vocês, eu precisa dar explicação. - Olhou para o . - Ele já tinha começado a aceitar a ideia de se tratar comigo, mas ele é adulto, , se escolher não se tratar é uma decisão só dele, mas eu acredito que ele seguirá o caminho certo.
- Eu entendo seu lado, completamente, . - Louise garantiu, sorrindo para a amiga. - Mas ao mesmo tempo, é como se...me sinto estranha por isso.
- Como se o tivesse enganado. - completou e a francesa assentiu.
- Eu compreendo, mas eu me vi sem essa escolha e eu deixei claro para ele que vocês não sabiam, até porque é a verdade. Nós nos envolvemos depois da crise dele e eu e Lou voltamos a nos ver com frequência depois da crise dele, vocês não tem qualquer culpa. – Sorriu doce para os dois. - Mas eu fiquei pensando, imagina se mantenho o tratamento e ele desenvolve um vínculo de confiança comigo, e acontece algo e um dia o Michael chega de supetão na sua casa e me vê lá, na sua cama, igual aconteceu com a Antonella? Já pensou em como seria a reação dele? Ou se ele tivesse alguma outra crise e logo após me encontrasse tomando vinho com a Lou, não acham que ele se sentiria da mesma forma que agora? Ou talvez, até pior? - A medida que falava corria os olhos de uma para outro, que pareciam extremamente preocupados.
- Você tem razão, querida. - assentiu. - Mas é que é complexo. Entendo os riscos e que provavelmente ele não se sentiria bem em falar com você sobre certas coisas, e também que está totalmente fora de cogitação que você rompa os vínculos comigo e petit. - O inglês explicou.
- Eu estou com , entendo tudo. Acho que só não esperava, foi uma surpresa. - Louise expirou pesadamente. - Desculpe se fui indelicada. - Sorriu para a amiga, esticando-se para segurar sua mão.
- E talvez…- ponderou. - Michael está diferente, talvez nós dois estejamos subestimando ele, achando que ele não consegue resolver isso.
- Não ouse me pedir desculpas por qualquer coisa, Lou. - apertou a mão da amiga. - Eu quem sinto muito, você me pediu pessoalmente para cuidar dele, assim como fiz com Anthony e , mas eu estou muito envolvida nessa história e jamais seria a melhor escolha para ele, eu sinto muito de todo meu coração. - Sua fala estava carregada de sentimentos. - E, tem razão, eu realmente acredito que o Michael vai lidar muito bem com tudo isso, talvez quando vocês conversarem com ele, ficarão surpresos. Eu estou aqui para sanar qualquer dúvida, insegurança e tudo que vier de vocês, me perguntem o que quiserem e eu falarei.
- É, eu...talvez estejamos subestimando, ele não é um menino, é um homem. - Louise sorriu fraco, lembrando do escocês.- Mas, você ainda terá algum contato com ele? Junto a Fia?
- Normalmente, eu não teria. - Soltou a mão de Louise e voltou a encostar o corpo na poltrona, gentilmente colocou a mão sobre a perna de . - Eu chefio uma equipe, então infelizmente não consigo acompanhar todos de perto, por isso tem toda a equipe para dar suporte. Eu vou sempre mantendo mais contato com os chefes de equipe, mas o Michael, em específico, passará por mim, então a cada quinze dias, ele terá uma sessão comigo, eu saberei do tratamento, da evolução e regressão, se houver, e acima de tudo se precisar que eu interfira de alguma forma no tratamento com o atual terapeuta, farei sem excitação.
- Vai ser alguém bom, não é? Ético e responsável. - Louise mordeu o lábio.
- Eu disse ao Michael que o encaminharia, mas ainda não escolhi, estou analisando e vendo qual a melhor opção, eu jamais vou mandar ele para qualquer pessoa, será o melhor. Assim que eu souber aviso vocês quem será, ou até o próprio Michael, avise antes de mim.
- Certo. - Louise respirou fundo e pôs-se de pé. - Michael já deixou bem claro que não queria ser tratado como uma criança, então acho que é hora de nós dois deixarmos essa mania de controle de lado. - Suspirou, apontando para si mesma e , enquanto caminhava para junto dos dois. - Ele sabe se cuidar, chegou até aqui sozinho, ele dá conta. Vamos...só parar de tentar controlar tudo. Eu vou tentar.
- Aí, as crianças crescem tão rápido. - sorriu, tocando o peito teatralmente. - Ontem ele estreou e hoje já é um homem feito.
- Você está certa, Lou. Só precisam continuar incentivando e apoiando ele, o resto ele faz sozinho. - estava orgulhosa dos dois, com certeza uma reação melhor do que previu. - Acostume-se e abra os olhos, se continuar olhando pra ele como criança, vai ganhar o título de você esse ano, talento nós sabemos que ele tem.
- É impressão minha ou a voz rouca e o cabelo ruivo também conquistou você? - estreitou o olhar, encarando a psicóloga.
- Pior que conquistou, a voz rouca é tentadora. - respondeu e então olhou para Louise, se preocupando mais em implicar com a amiga que de fato dar atenção ao sentido atrás das palavras de . - E não posso deixar de mencionar o senso de humor, minha qualidade preferida dele. - Ainda com os olhos em Louise completou.
- O que? Achei que preferisse um pouco mais de cor...seriedade. - inclinou a cabeça, correndo os olhos pela mulher, enquanto Louise observava a cena, assistindo como espectadora.
- Sim, a melanina é meu ponto fraco. - Abriu um enorme sorriso. - Mas o Michael é interessante, esse jeito de menino dá vontade de pegar no colo. - estava com tom de brincadeira e em todo momento mesclava o olhar entre o inglês e a francesa. - Me surpreende estar solteiro.

Louise mordeu o lábio e baixou a cabeça rindo abafado e atraindo o olhar dos outros dois.

- Se não te conhecesse, diria que está tentando me provocar, . - Louise estreitou o olhar. - Mas você não faria isso, não é? Não bem na frente do seu namorado.
- Provocar? Eu? Jamais.
- Talvez devêssemos jantar, . Aparentemente tem passado muito tempo pensando nas características do Madden, e eu odiaria vê-lo triste…- Louise fingiu, aproximando-se de e pousando suas mãos nos ombros do inglês, massageando-o e assentiu, segurando uma mas mãos da francesa.
- Talvez pudéssemos ir em um encontro duplo? O que acham? Talvez possamos resolver o problema dele estar solteiro, vai ser um prazer. - se colocou de pé e sorriu abertamente para os dois, com uma feição doce e angelical, estava se divertindo com eles.
- Desculpe, , mas eu não vou a encontros duplos. - deu de ombros. - Exclusividade em tudo, não sei se Madden pode entrar nos lugares que frequento. Mas quem sabe, tente com os outros amigos dele, mais jovens, quem sabe você descobre que adora jogar videogames e essas outras coisas que garotos de vinte anos gostam.
- Que gracinha, , você está atacando a maturidade do Madden, mas tudo bem, sem encontros duplos.. - Sorriu e deu de ombros. - Eu já estou indo para casa, tinha outros planos para finalizar a noite, mas como vocês vão jantar, terei que ir pra casa e tomar um relaxante banho de banheira sozinha, mas é a vida. - Sorriu presunçosa olhando com malícia para o piloto, que ainda permanecia na mesma posição e com os braços de Louise sobre seus ombros.
- É golpe baixo…- sorriu.
- É melhor vocês dois saírem daqui antes que comecem a descrever o que farão. - Louise rolou os olhos, fazendo uma careta de nojo, enquanto empurrava os ombros de para frente.
- Lou, meu amor, é sempre incrível te ver. - Abriu os braços para a mulher, lhe oferecendo um abraço. - Devíamos marcar um vinho ou coisa mais forte qualquer dia desses.
- Depois de Mônaco. - Louise sorriu para a amiga. - Na verdade, durante a corrida se quiser.
- Não vai assistir esse ano? De novo? - perguntou, levantando-se e a jornalista apenas balançou a cabeça negativamente, sorrindo fraco.
- Infelizmente, durante a corrida eu não posso, preciso ficar de olho nas crianças de capacete. - Lamentou. - Mas após a corrida, acho super válido, vou precisar relaxar um pouco depois que essa semana acabar.
- Me ligue, estarei em casa com Alex, isolada da civilização. - Louise sorriu, depois abraçou mais uma vez e acariciou rapidamente o ombro de . - Divirtam-se casal, e, por favor, , deixe meu piloto inteiro, é semana de corrida.
- Não prometo nada. - Sorriu e deu alguns passos em direção a porta, porém parou no caminho e olhou a amiga. - Lou, você é uma mulher forte demais para ter medo da pista de Mônaco, sei que não é um local que lhe dá esperança de dias melhores, mas está na hora de vender seus fantasmas do passado, fugir de lá, só vai te amargurar e limitar ainda mais, está na hora de vencer, Rosseau. Eu te amo. - Piscou para a amiga.
- Eu tenho milhões de corridas para acompanhar, e preciso passar por aquelas ruas todos os dias. - Ela franziu o nariz e levantou um dos ombros, como se não se importasse. - Sobrevivo bem sem assistir essa. Mas não se preocupem, tenha uma boa noite e como diria Antonella, transem muito. - Piscou sorrindo e acenando para o casal.
- Como diria um velho amigo seu, chamado Dominique Portinari, as ruas são diferentes das pistas, mas tudo bem, terá o momento certo. Você também devia fazer como Antonella. - Piscou marota e voltou a caminhar para a porta, onde a esperava.
- Cala a boca, . - Louise mostrou a língua e acompanhou com o olhar o casal que deixava a sala sorrindo e acenando.
Assim que a porta atrás deles se fechou, os dois seguiram caminho pelo corredor escuro. Já era tarde e muito provável que havia poucos funcionários no local, talvez nenhum.
-Estou tentando pedir comida, mas meu celular acabou de desligar, -Bufou frustrada. - Droga, estou faminta e … - Ela percebeu que seguia a direção oposta a dela. - Onde você vai? - Arqueou a sobrancelha chamando a atenção do homem.
-Elevador. - Ele respondeu.
-Eu vim pela escada. - Exclamou. - Não acredito que subi esse monte de escada tendo elevador.
- Vem. - Ele chamou assim que as portas se abriram, segurou as mesmas para que a mulher passa-se, assim que ela entrou, deixou com que o elevador fechasse. - Hoje vamos para minha casa. - Informou o piloto, cruzando os braços sobre o peito e encostando-se em uma das paredes.
- Eu não posso, . Amanhã eu vou almoçar com a Anto e preci… - não foi capaz de terminar a fala, pois seu corpo foi arremessado na parede atrás de si, e o corpo de pressionou o seu.
- Depois de toda essa provocação sobre o Madden, acha mesmo que vou te deixar ir para casa? Passamos na sua casa, você pega o que precisa e depois você vai para minha casa. - O timbre estava duro, com uns receios de raiva, as duas mãos dele prendiam as suas próprias acima de sua cabeça.
- O que vai fazer comigo na sua casa? - Buscou o contato visual com ele, estavam embargados de desejo e luxúria.
- Vou fazer tudo que eu quiser. - Respondeu, pressionado a virilha contra a de , e roçando lentamente para que ela sentisse com precisão o volume que crescia em suas pernas. - Vou te fazer engolir os malditos elogios que fez ao Michael em minha frente, vou fazer você se desmanchar embaixo de mim, depois na minha boca. De costas para mim e sentando em mim. - Conforme as palavras saiam de sua boca, passava com o nariz pelo pescoço e clavícula de , liberando por seu corpo gatilhos deliciosos demais.
- Você ficou mesmo sentido com meus elogios ao seu amigo? Caramba, eu estava somente brincando. - O inglês não respondeu, enquanto ela terminava de falar ele alcançou seu pescoço distribuindo beijos molhados e excitantes por extensão de sua pele, soltou as mãos da mulher e apertou sua cintura, pressionando para cima e então ergueu a pernas enrolando-as na cintura do piloto.
As mãos habilidosas se firmaram em suas coxas que estavam bastante expostas devido a fenda enorme que a peça exigia. colocou as duas mãos nos ombros dele, sentindo o corpo relaxar sobre o toque, que se tornava cada vez mais ousado, subindo pelo interior de sua coxa e caminhando para chegar a sua intimidade.

No exato instante em que roçou a intimidade da psicóloga, ela gemeu baixo e seus lábios procuraram com urgência os de , ela não recuou e aprofundou o beijo.
Poucos segundos e o elevador apitou, havia chegado na garagem, soltou um sorriso soberbo ao perceber o gemido frustrado que escapou pelos lábios da mulher.

-Vamos logo sair daqui. - Soltou suas mãos dela deixando que firmasse os pés no chão. – Pense na roupa que quer pegar já para gente não demorar, nós temos muito que fazer essa noite.

XXX


revirou-se na cama antes de abrir os olhos e suspirou audivelmente. Não lembrava da última vez que havia acordado tão disposto e alegre em uma terça-feira, mas o sorriso alegre que estava plantado em seu rosto fora logo substituído para uma expressão confusa e também, temerosa.
não estava na cama com ele e logo se colocou de pé, sem se preocupar em vestir uma roupa mais adequada, permanecendo apenas de cueca. Encontrou o banheiro vazio, mas aproveitou para escovar os dentes, lavar o rosto e ajeitar os cabelos. Seguiu para a sala e o barulho de panelas chamou sua atenção. Em poucos passos já estava na porta da cozinha, escorado no batente e observando fazer panquecas, de costas para ele e totalmente alheia a sua presença.
O celular estava ao seu lado no enorme balcão, de lá sai a doce e agradável voz de Nina Simone cantando Blackbird*, ela cantava a música baixinho, enquanto mexia o corpo lentamente, a atenção de fixa em seu corpo.
Na noite anterior, eles não haviam tido muito tempo para conversar, tão entretidos em experimentar um ao outro diversas e diversas vezes como estavam. não via uma possibilidade em fingir que não haviam transado e jantado juntos mais uma noite, dormido abraçados e que agora fazia panquecas em sua cozinha, vestindo uma camiseta dele. Não existia a mínima possibilidade de ele fingir que isso não havia acontecido.
Simplesmente porque ele queria que isso se repetisse no final de semana seguinte. E no posterior e assim sucessivamente.
Ela colocou a última panqueca no prato e desligou o fogo, juntando os utensílios sujos e os organizando na pia. Seguiu para o armário e pegou um pote de Nutella e outro de pasta de amendoim, se virando para o balcão e encontrando o olhar de fixo nela. sorriu, colocando o celular e os potes com doce em cima do balcão. Mais dois passos e ela estava em frente a , um sorriso esperto brincava em seus lábios e o piloto inglês descruzou os braços, envolvendo a cintura dela e puxando-a para perto de si, colando seus corpos.

– Bom dia. – Murmurou, a boca muito perto da de . Ela o abraçou pelo pescoço e uniu seus lábios em um beijo intenso, que logo evoluiu para algo mais quando empurrou contra a parede e ela envolveu a cintura dele com as pernas. Se beijaram por incontáveis minutos com as mãos percorrendo todo espaço dos corpos, quando percebeu que aquilo poderia render, finalizou o beijo com alguns selinhos e colocou a psicóloga no chão.
– Você tem alguma coisa contra fazer refeições antes de transar? – questionou, divertido. Organizou as panquecas no balcão e serviu dois copos de suco de laranja para eles. Sentou-se e puxou pela mão para ela sentar ao seu lado.
– Eu gosto de sexo matinal. – Deu de ombros, ignorando o banco e sentando no colo de . Ocupou-se em passar pasta de amendoim em uma panqueca, enquanto bebia o suco, com o braço direito envolvendo a cintura de , para ela não cair. - Mas quando foi que fizemos sexo antes de comer?
-Ontem. – Murmurou, fazendo-a rir. - E também em nosso primeiro jantar.
-Como se você tivesse reclamado. - Retrucou, lançando um olhar divertido para o homem, mordendo a panqueca e murmurando alguma coisa inteligível em aprovação.
– Eu não reclamo, eu adoro. – falou por fim, roubando uma das panquecas com pasta de amendoim de . – Está maravilhosa. – Elogiou, após a primeira mordida.
– Eu sempre estou. – Ela devolveu. - Eu não cozinho muito bem, somente panquecas, isso eu sei fazer bem!
-Você sabe fazer muita coisa bem! - lhe roubou um selinho, gargalhou e soltou o garfo na mesa, para conseguir levar as mãos em seus cachos, prendendo-os em um coque frouxo. - Como será seu dia hoje?
- Vou almoçar com a Cornello, e depois estou cheia de trabalho - Revirou os olhos. - Por falar nisso, eu preciso ir até ela. - Olhou o relógio do celular, aproveitou e mandou uma mensagem para Antonella, certificando-se da necessidade do horário e local que se encontraria.
-Tem certeza? - Fez um mini bico frustrado com a notícia, talvez ele gostaria de passar o dia com ela.
-Sim.- Ela beijou os lábios dele, uma, duas, três vezes e por fim lhe afagou as tranças, adorava sentir o movimento delas contra seus dedos. – E você precisa ir para François- Render, depois vão dizer que a culpa é minha.
- Sim, eu preciso, e gostaria de ter a oportunidade de conversar com o Michael também. – Contou fazendo um carinho em sua cintura.
- Você está preocupado com ele, não está? – o questionou bebendo mais um pouco de suco e ele assentiu com a cabeça. – Ele vai conseguir, . Dê um tempo para ele, no momento certo, vai desabrochar. - Levantou-se do colo dele e recolheu os copos e talheres, colocando-os na pia. resgatou os itens que faltavam sobre a bancada e seguiu a mesma direção da mulher.
- Você acredita mesmo? Acredita que ele vai ficar bem? - Sorriu de canto, abriu a torneira e começou a ensaboar os utensílios usados.
- Com toda certeza, eu jamais duvido do potencial de mudança do ser humano, se duvidasse estaria na profissão errada. – A psicóloga sorriu e olhou para o homem postado ao seu lado, com o semblante preocupado. – Hey, querido. – O empurrou com o quadril. – Fique tranquilo, ele vai ficar bem. Mesmo não estando como terapeuta oficial, prometo que vou passar o olho nele, e sempre que conseguir e não for comprometedor, te falo sobre ele.
-Obrigado. – Ele abriu um sorriso e se postou atrás do corpo da psicóloga, as duas mãos espalmadas na lateral da pia, deixando presa entre seu corpo e a mesma. – Que horas precisa ver Antonella?
- Marcamos meio dia. – Respondeu.
- Então temos algum tempo antes de nossos compromissos.
-Ah é? - Ela sacudiu as duas mãos para se livrar da quantidade de água. - O que pretende fazer com ele tempo que ainda nos resta? – Questionou ao sentir enfiar as mãos por dentro de sua camisa.
- Tenho várias maneiras de fazer isso acontecer. – Lhe beijou o ombro, e a girou fazendo com que ficassem de frente, para então tomá-la em seus braços e a beijar.


XXX


- Estou começando a ficar verdadeiramente preocupada, Antonella não responde, não atende o celular. – bufou frustrada, após a quinta tentativa de falar com a cantora.
- Se acalme, , provável que esteja se arrumando e deixado o telefone de lado. – desviou os olhos minimamente das ruas para encarar a negra ao seu lado.
- Ela é muito pontual, . – Explicou. – Dificilmente se atrasa, ou perde a hora. Sempre fica irritada com o Ricciardo, por causa da demora dele em arrumar. E mesmo que estivesse atrasada, ela teria me avisado. Eu me atrasei, e ela não surtou com meu atraso, ela teria me ligado e xingado toda a minha geração. – olhou para o piloto, e depois ajeitou os cabelos com as duas, mãos deixado o celular no colo, esperando alguns segundos para tentar novamente.
- Você atrasou trinta minutos, não foi nada demais. – Retrucou o homem e lhe deu um tapa no ombro.
- Atrasamos uma hora e meia, já são quase duas da tarde, . – mostrou o celular, para que ele enxergasse as horas.
- Eu peço desculpas, me empolguei. – Tomou a mão direita da mulher para si e levou aos lábios, dando um pequeno e simples beijo em seu dorso. – Mas quanto a Cornello, ela está bem, é somente um desencontro. - Deve ser. – Forço um sorriso. – O que acha de ir lá para casa depois do treino? A partir de amanhã eu não existirei, tenho reuniões a semana inteira, provável que a gente se esbarre somente pelo paddock e olhe lá. Então como é minha última noite decente, o que acha de me fazer companhia?
- Eu chego às seis. – Respondeu prontamente e animado, no mesmo instante em que parou o carro em frente a mansão dos Ricciardo. – Quer que eu vá até lá com você?
- ´Não tem necessidade. – Sorriu, soltou o cinto e então se esticou até ele lhe dando um selinho rápido. – Eu te vejo de noite, bom treino!
- Bom almoço e até mais tarde. - Roubou outro beijo e então a viu abrir a porta e sair do carro, assim que ela atravessou o jardim, arrancou o carro seguindo para a escuderia.

voltou a tentar falar com a amiga e pela décima vez dentro das últimas duas horas, foram a trilhões de mensagens que digitou nos últimos minutos. Cruzou toda a enorme entrada da casa, seguiu até a entrada principal, tocando o interfone.
Na noite anterior, combinou de se encontrarem para almoçar, mas como estava com e seu carro em casa, disse que iria para na residência da Cantora e as duas saíram juntas, para facilitar a vida de e está no precisar de um táxi, e Antonella não precisar dirigir.
Postou-se diante a porta e tocou o interfone, esperou alguns segundos e nada de resposta. Antes de tentar outra vez, discou o telefone de Antonella e colocou no viva-voz, e enquanto chamava mandou uma mensagem, dizendo que estava em sua porta. A ligação não foi atendida, e nem a porta.
bufou mais uma vez e apertou novamente o interfone, exatamente o mesmo momento em que ligou mais uma vez para Cornello, e quando mais uma vez não foi atendida, constatou certeiramente que alguma coisa estava errada.
Colocou o celular dentro da bolsa e levou os dedos para massagear suas têmporas, tentando pensar em algo que pudesse fazer, até que uma luz piscou no fundo de seu cérebro, lembrando-a de Ricciardo, com certeza o marido saberia do paradeiro de Antonella, e daria a psicóloga qualquer resposta que acabasse com a angústia em seu peito.
Pescou o telefone do bolso e procurou em sua agenda o telefone de Daniel Ricciardo, sorriu sozinha quando descobriu que o número do celular de Daniel estava gravado como: Bello, gustosa e profumata*,que significava bonito, gostoso e cheiroso. Franziu o cenho em confusão tentando recordar o motivo por trás da nomenclatura, e constatou que fora Antonella que lhe enviou o número do marido e salvou da maneira que recebeu.
O telefone chamou, enquanto esperava tocou mais uma vez o interfone com esperança que Cornello atendesse, nada dela ou de Daniel. Respirou fundo mais vez e rediscou, alguém precisava aparecer, um alívio cruzou seu coração no momento em que ouviu a ligação sendo atendida.

-Olá, . – Cumprimentou.
- Daniel, como vai? – tentou não parecer preocupada.
- Tudo bem e com você?
- Estou muito bem, obrigada. – Puxou o ar. – Você está em casa? Eu vim buscar a Anto para almoçarmos, mas ela não me atende.
- Hm, não. – Sentiu o peito palpitar de leve. – Mas a Anto está, hoje cedo ela disse que vocês iriam almoçar. Já ligou para ela?
- Sim, eu vim até aqui para ver se estava tudo bem. Desde cedo ela não responde minhas mensagens e não atende as ligações, imaginei que ela poderia ter esquecido, por isso vim mesmo assim.
- Ela não esqueceu, estava ciente quando eu saí de casa. –Daniel contou e sentiu o aperto em seu coração, procurou em sua mente os motivos que fizeram Antonella sumir, mas nada, absolutamente nada, fazia sentido em sua cabeça. - , eu estou indo. Chego em dez minutos, continue tentando falar com ela, por favor.
- Não venha correndo, não é nada demais, às vezes ela só dormiu. – tentou confortar o homem tudo que não precisava que de desespero.
- Estou chegando, me espere. - Ele disse, com firmeza, desligando o celular.

fez como ele pediu e continuou tentando falar com Antonella pelo celular e também através do interfone. Não soube exatamente quanto tempo se passou, em sua cabeça pareceram dez minutos, mas soube que não foi tão pouco, já que o potente carro de Ricciardo estava sendo estacionado.
Ele escorregou do carro rápido, o semblante estava preocupado e a forma como procurava as chaves de casa em seus bolsos, mostraram como estava angustiados.

- Ainda sem notícias? – Questionou o piloto a amiga, assim que encaixou a chave na fechadura.
- Não, ninguém sabe e sequer tem notícias dela. – Respondeu a negra, vendo a tensão estampada no rosto do piloto. Tinha convicção do quanto eram apaixonados e a possibilidade de ter algo errado com Antonella apavorava Ricciardo
-Amor. – Gritou finalmente quando abriu a porta. Correu os olhos pelo hall de entrada procurando vestígios da cantora, mas não havia absolutamente nada. – Antonella? – Tentou outra vez caminhando em direção a cozinha também verificando o cômodo.

também entrou em casa e foi em direção ao escritório que era fixado na parte inferior da casa, Antonella gostava de compor no local e a amiga sabia. Também não tinha qualquer vestígio dela, a psicóloga saiu afobada do escritório e encontrou o homem voltando à sala, após olhar na parte de trás, onde tinha a área gourmet.
Ele balançou a cabeça negativamente ao cruzar o olhar com , aquele momento o coração explodindo no peito, precisava encontrar Antonella.
Subiu os degraus de dois em dois, afobado, sem qualquer desejo de esperar. Se tivesse acontecido algo, jamais se perdoaria. Saiu de casa horas mais cedo e deixou a mulher dormindo, era para ela estar em casa, ela não tinha o hábito de desligar o celular e era precavida sempre andando com o carregador portátil, raramente ficava sem bateria.
Chegou ao corredor principal de acesso e seguiu direto para o quarto que dividia com a mulher, já que por si só verificava os outros quartos e banheiros.
No quarto ela não estava, algumas peças de roupa estavam espalhadas sobre a cama, sinal que ela estava escolhendo o que vestir. Daniel respirou fundo, puxando ar com força sentindo o desespero se apossar de seu corpo. Levou as mãos ao cabelo, desesperado, e puxou os fios, soltando o ar que inalou segundos antes, até que seus olhos bateram no par de pantufas em frente à suíte. Correu até lá e quando colocou seus pés dentro do enorme banheiro. A encontrou .

- ! – Berrou o mais alto que pôde, chegando perto do corpo. Ela estava desmaiada perto da banheira, tinha um roupão branco enrolado no corpo e a testa escorria sangue, provavelmente acontecera uma queda. Seus olhos embargaram com a visão, seu cérebro parou de receber seus comandos, já que não suas pernas não se moveram mais. – Ai, meu Deus! Amor, acorda. – Encaixou as duas mãos no rosto da esposa, chacoalhando a mesma em uma tentativa nula de fazê-la abrir os olhos. – Antonella, pelo amor de Deus, amor, abre os olhos. – Permaneceu mexendo com a mulher, enquanto lágrimas molhavam seu rosto e cada célula de corpo parecia estar congelada.
- Se acalma! Ela está respirando, olhe. – A voz de tomou o ambiente, ela se aproximou dos dois e apontou com o dedo indicador para o peito da cantora, que subia e descia. – Ela está respirando. – Se aproximou mais da amiga, analisando a mesma deitada. Tinha marcas de lágrimas na bochecha, analisou a pupilas e as viu não reativas, contou a respiração com seu próprio pulso, e também os batimentos cardíacos, lhe beliscou duas vezes, sem reação a dor, e por fim o machucado em sua testa, um pequeno corte, talvez alguns pontos fossem dados. – Chama uma ambulância.
- Bambola. – Pronunciou com a voz falhando enquanto pegava mais uma vez o celular, mas suas mãos tremiam em desespero e ao perceber isso, se levantou segurando as duas mãos do homem lhe dando firmeza ao toque.
- Ela está bem, Daniel. Caiu e bateu a cabeça, ela vai ficar bem. – Anunciou com toda a calma que possuía, Daniel estava em choque e ela sabia que não era fácil para ele presenciar essa cena. – Eu vou ligar para a emergência. – Ele assentiu sentindo lágrimas descerem por seu rosto.

Enquanto discava para uma ambulância, fixou seus olhos sobre o homem que estava abraçado ao corpo da esposa e chorava copiosamente. O coração partiu em dor com a cena, e como em poucas vezes em sua vida, não sabia o que dizer.
Não sabia como consolar o homem apaixonado que segurava o corpo de sua esposa nos braços, pedindo para que ela acordasse. Não havia palavras para pronunciar e nem gestos afetuosos que o fariam melhorar, por isso optou por suas orações, pediu em silêncio ao Senhor que estava no céu, para que o amor deles não acabasse por causa de uma tragédia.



XXX


subiu pelas escadas até o terceiro andar, não tinha tempo para esperar o elevador. Seus saltos barulhentos na escada a deixava incomodada, sentiu uma vontade irritante de tirá-los, e assim os fez, arrancou os sapatos Armani do pé e continuou subindo as escadas, ela parecia flutuar com a sensação que causava leveza em seu corpo.
Abriu a porta que dava acesso ao corredor principal e se apoiou na parede para calçar novamente os sapatos. No bolso de sua calça o celular vibrou com a notificação de uma mensagem, não se surpreendeu ao perceber que era Louise Rousseau-Render, pedindo por mais notícias, havia sido informada assim que chegaram ao hospital, quarenta minutos atrás.
Digitou rapidamente uma resposta informando o andar e dizendo que sua entrada estava liberada na entrada.
A psicóloga avistou Daniel sentado no chão, seu joelho estava entre as pernas e do jeito que os ombros balançavam parecia chorar. Não havia mais ninguém no corredor, por causa da imprensa eles pediram que fosse exclusivo o andar para o conforto da família e amigos.
respirou fundo e se direcionou até o amigo. Encostou-se à parede e escorregou o corpo até estar sentada no chão, junto Daniel. Tocou o ombro do homem e este levantou os olhos, procurando saber quem era. Sentiu alívio em seus olhos quando encontrou o rosto sereno da amiga que lhe ofereceu um sorriso sem dizer qualquer palavra.
Ricciardo entendeu o gesto e assentiu com a cabeça. Os olhos estavam tão vermelhos que poderia ser confundido facilmente com um usuário de drogas, os cabelos estavam bagunçados pela quantidade de vezes que os puxava em desespero. Sua respiração descompassada era assustadora assim como a tremedeira que se apossou se seu corpo.
Se não conhecesse bem o amigo, diria claramente que poderia estar enfrentando uma crise de abstinência, e se analisasse calmamente talvez ele estivesse mesmo.
A falta de Antonella, para Daniel , era semelhante ao um usuários de drogas sem seu objeto de maior ligação e vício.
A negra esticou o braço direito e passou pelos ombros do australiano trazendo o corpo dele para perto, deixando com que se apoiasse em seu próprio corpo.
O homem relaxou o corpo junto ao de e logo chorava novamente, os movimentos do ombro balançando assim como os gemidos que escapavam de seus lábios, eram torturantes. E nem ele podia explicar a dor que parecia sentir. Não havia notícias, não tinha nada que indicasse que ela estava bem, que estava viva. A falta de informação era torturante e deixava o homem ainda mais desesperado.
O carinho e apoio de o faziam sentir-se melhor, mas ainda assim era extremamente insuportável ficar sem ela.
O telefone de tocou, e assim que pegou no celular xingou mentalmente quando percebeu que a ligava.

- Droga, me esqueci do . – Murmurou. – Um minuto, Daniel eu já volto. – Se colocou de pé e prontamente atendeu a ligação. -Oi, !
-Oi,! - O piloto inglês saudou. – Eu já estou no caminho, vou comprar um vinho para você, o que você quer jantar? Eu já vou levar . - Anunciou.
-, meu Deus, me desculpe! - Encostou o corpo em uma parede atrás de si. - Aconteceu tudo tão rápido que eu me esqueci de te avisar. - Lamentou.
-O que aconteceu? - O tom expressou preocupação e por isso não deixou de sorrir.
-Antonella, eu não estava consumindo falar com ela. Acabei ligando para o Ricciardo, então nós a achamos desmaiada no banheiro. - Contou angustiada.
-Como assim desmaiada? Vocês estão no hospital? Precisa de alguma coisa?
-Estamos, e ainda não tivemos notícias. Pelo jeito que eu a vi, imagino que ela caiu e bateu a cabeça. Eu sinto muito, , mas eu não consigo ir para casa. - Lamentou profundamente, gostaria de estar com mais uma vez,porém, jamais sairia daquele hospital sem notícias da amiga e tendo a total certeza que ela está bem.
-Claro,, não precisa explicar. Você quer que eu leve alguma coisa para você? Precisa de algo? - Questionou mais uma vez.
-Não, . Eu estou bem, muito obrigada. Como você está? Como foi o treino? - Sorriu sozinha, começando a se dirigir para a cantina, começava a sentir o estômago reclamar.
-Foi tudo muito tranquilo. - Respondeu. - Testamos as atualizações do carro e nós estamos com expectativas boas para o final de semana.
-Eu fico muito contente por isso, , estou na torcida por você. Tenho certeza que vai ser mais um grande espetáculo seu. - Chegou a cantina e solicitou para a moça 2 cafés, levaria um para Daniel, ele precisava comer alguma coisa.
-Mas com essa torcida tão especial com certeza terei um ótimo final de semana.
-E uma ótima comemoração também. - completou e sorriu para a garçonete que lhe entregou seu café, soprou e logo provou o líquido.
-Pode apostar que sim. - recostou o corpo no banco do carro. - A gente não consegue se ver antes do final de semana mesmo, certo?
-Infelizmente não, . - Terminou seu café, pagou pelo consumo e voltou a caminhar levando para Ricciardo. - Eu não seria sequer uma boa companhia também, eu tenho que planejar a reunião de quinta feira, e preciso continuar com os atendimentos no consultório também.
-Eu entendo, querida. - Foi compreensivo. - Eu estarei na reunião e quero ver você brilhar. Mas no domingo, assim que acabar a prova, você é minha e eu não tenho previsão para te libertar.
-Claro, como eu disse teremos a melhor comemoração. - gargalhou. - Eu preciso ir, , preciso cuidar do Daniel, ele está um caco.
-Eu imagino que esteja mesmo, eles são loucos um pelo outro.
-Ao extremo, ele só chora, coitado. - Chegou ao andar e o esperou uns instantes para entrar.
-Me dê notícias da Anto assim que tiver, e se precisar de alguma coisa, me avise. - Pediu o piloto, já ligando seu carro para retornar a sua casa.
-Eu te mando mensagem, me desculpe mais uma vez.
-Não tem que pedir desculpas. Está tudo bem, não se esqueça de comer alguma coisa no hospital.
-Bom descanso, ! Um beijo!
-Outro.

desligou a ligação e colocou o telefone no bolso da calça usava. Empurrou a porta com o quadril com cuidado para não derramar café quente em si mesma, e então pisou novamente no corredor, viu de longe a figura alta e elegante de Louise Rosseau-Render, com trocava algumas palavras com Daniel.

- Olá, Lou! – Sorriu abraçando a amiga e depois se direcionou para Daniel. – Eu trouxe um café, sei que não quer comer e nem beber nada, mas eu preciso que você tome pelo menos esse café, não pode ficar aqui todo esse tempo e acabar passando mal também.
- Eu não quero, estou bem.
- Ricciardo, não é uma opção. – Louise interferiu, às vezes ele tinha comportamentos semelhantes ao de Alex, seu menino. – Tome dois goles do café e a te deixa em paz.
- Exatamente. – Esticou a caneca mais uma vez, insistindo e Daniel aceitou contrariado.

As duas mulheres sorriram satisfeitas e fizeram menção de se afastar para conversarem, todavia, foram interrompidas por uma porta se abrindo, um homem baixo se aproximou devidamente paramentado. Daniel saltou do chão em um pulo e cercou os médicos como a polícia se faz com um bandido, secava as mãos na bermuda totalmente ansioso.

- Responsável por Antonella Cornello?- O médico perguntou conferindo algo na prancheta.
- Eu sou o marido dela. - Respondeu afoito. – Como ela está? Eu possa vê-la? - O médico empurrou os óculos no rosto e tornou a olhar a prancheta.
- Na ficha não consta que ela é casada. – Observou levantando uma folha para verificar a informação.
- Nós não somos casados no papel. – Pronunciar as palavras foi doloroso, e ele odiava falar sobre o assunto. – Por favor, me diga como ela está?
- Infelizmente eu só posso dar informações para a família. – O médico respondeu friamente. – Como vocês são casados, eu não po...
- Você está maluco? – O tom de voz frio de Ricciardo fez se assustar. – está me dizendo que eu não posso ter noticias da minha mulher, por causa de um papel que nós não temos? – Questionou perplexo e deu um passo para frente em direção ao médico, que deu alguns para trás, claramente fugindo do piloto.
- Senhor, eu entendo que está frustrado, mas são as regras...
- Foda-se as regras, eu quero saber da minha mulher agora, e você trate de me dizer, caso contrario, eu vou...
- Daniel. – l correu até o homem segurando seu braço fazendo-o parar e então ficou entre o médico e o piloto, Louise também deu um passo para frente. – Se acalme, Daniel. Violência só vai piorar tudo aqui. – Pediu séria e girou para encontrar o homem. – Doutor... – Correu os olhos até encontrar o nome no jaleco. – Parker, eu entendo que existem protocolos, eu também trabalho na área da saúde, mas olhe para esse homem. Está preocupado e desesperado por noticias da mulher, nós somos a família da Antonella Cornello, peço que tenha um pouco de empatia por esse homem, caso o senhor não possa nos ajudar, eu vou precisar falar com o chefe do hospital. – completou a fala com tanta classe que Louise Rosseau-Render acreditou que ela estava somente informando seu pedido para uma garçonete.
- Eu sou a chefe do hospital, o que está acontecendo? – Mas uma voz pintou naquele imenso corredor. Uma voz feminina que veio de uma médica que acabara de sair do quarto de Antonella. Era alta, loira e tinha lindos olhos azuis, estava com um tablet em mãos e sorriu ao se aproximar dos presentes.
- Eles estão querendo informações sobre a senhorita Cornello, mas não são da família, eu não posso passar qualquer notícia. – Explicou o homem sobre o olhar atento da médica.
- Pelo amor de Deus, eu sou o marido dela. – Daniel praticamente berrou, irritado, triste e confuso. Só queria escutar que ela estava viva, que estava bem.
- Eu entendo senhor, mas como eu disse, na ficha não consta que ela é casada e eu não permitir que o senh..
- Eu vou te mostrar o que você não pode fazer. – Passou pelo corpo de e segurou os dois lados do jaleco do doutor Parker, trazendo-para frente e deixando seus rostos muito pertos. – Você tem três segundos para me dizer como minha mulher está, caso contrário, precisará de um quarto nesse hospital.
- Ricciardo, pelo amor de Deus. – Louise se pronunciou tocando o ombro do piloto que sequer a olhou. – Ricciardo, solte esse homem.
- Daniel, isso não ajuda em nada. – se junto a Louise e as duas conseguiram puxar o australiano que estava possesso e prensando um médico na parede.
- Senhor, por favor, se acalme. – Pediu a médica ao ver o piloto se afastando dois passos. – Noah, por favor, pode deixar que eu assumo daqui. – Sua voz estava calma, mas a ordem fora clara, e sem pensar duas vezes o médico se afastou em passos rápidos sem olhar para trás.
- Doutora, nós só queremos notícias da Cornello. – Pediu Louise. – Entendemos o protocolo, mas não podem ocultar informações sobre a esposa de um homem.
- Eu compreendo, e peço desculpas pelo doutor Parker, existem protocolos, mas precisamos entender onde eles precisam ser aplicados. – A médica ofereceu um sorriso. – Meu nome é Emmanuelle Perez, eu sou a diretora chefe do hospital e também do departamento de Ginecologia e obstetrícia.
- Como a minha mulher está? – Daniel repetiu a pergunta, entupido pela raiva.
- Nós fizemos uma tomografia e radiografamos a cabeça, por causa da queda. – Iniciou uma explicação. – Está tudo limpo e correto, nós precisamos suturar o corte da lateral da testa, foram apenas três pontos, tudo indica pela posição e profundidade, o que aconteceu foi uma queda onde bateu a cabeça.

Suspiros aliviados foram ouvidos.

- Ela está bem então?
- Sim, está tudo bem. – Respondeu contente. – Eu sou ginecologista e fui chamada por causa da situação gestacional, mas nós fizemos todos os exames e tudo me parece em perfeita ordem, tanto como o b...
- Situação gestacional? – Arqueou a sobrancelha e piscou um pouco confuso, sem conseguir entender o que fato aquilo significava.
- Sim, a senhorita Cornello está grávida de cinco semanas. – Respondeu simples e a expressão espantosa que surgiu no rosto de Daniel fez a médica franzir o cenho. De uma expressão de possessão absurda ele assumiu uma surpresa absurda. Levou a mão a boca, e deu alguns pulinhos em puro êxtase.
- O quê? Grávida? Meu Deus. – O piloto girou o corpo e encarou as duas mulheres que trocavam olhares cúmplices após a notícia. Louise balançou a cabeça negativamente e deu um sorriso, ela sabia, só Antonella e Ricciardo não perceberam do que se tratava. – Eu vou ser pai, vocês ouviram isso? Eu vou ser pai. Caralho, caralho, ai meu Deus. – Explodiu em lágrimas e a médica se aproximou do homem, preocupada.
- O senhor precisa de um copo com água? – Questionou observando-o.
- Ele só está emocionado. – tomou a palavra enquanto Louise tocava o ombro de Ricciardo.
- Ele não sabia da gestação? – A médica andou até a parede e apertou o recipiente que continha álcool em gel e os espalhou pelas mãos, higienizando-a.
- Eu não sabia de nada. – Secou as lágrimas com as costas da mão. – Ela estava passando mal, vomitando, dormindo muito e comendo pouco, mas como ela toma remédio jamais imaginamos que poderia ser um bebê. Meu Deus, é um bebê.

- A Antonella também não sabe que está grávida?
- Não, doutora. Ela não sabia de nada. – Afirmou .
- Isso explica muita coisa, realmente os exames mostravam um pouco de anemia, pode ser pela falta de alimento e também o excesso de vômito. Mas o ideal é que se inicie um pré-natal para mantermos a saúde dela e do bebe em perfeito estado.
- Nós podemos vê-la? – Louise perguntou.
- Ela permanece dormindo, está com soro e medicamentos para se hidratar. Eu vou deixar que a visitem, mas peço que se contenham com as emoções. – Olhou para Daniel que encarava o nada com uma expressão abobada no rosto. Ele sequer percebeu que havia falando com ele, então não respondeu.

riu e Louise rolou os olhos, Daniel estava embasbacado.

- Nós cuidaremos disso, doutora. – Respondeu a jornalista.
- Obrigada. – esticou a mão e cumprimentou a médica, está lhe ofereceu um sorriso e se aproximou do piloto.
- Parabéns pelo bebe. – Disse e se afastou.

Daniel não esperou a médica caminhar muito e foi totalmente afoito em direção ao quarto da mulher, Louise e olharam a cena e depois se entreolharam, incertas do que fazer, não tinham tanta certeza quanto à reação de Antonella sobre essa gravidez.

- Eu disse que era um bebê. – A jornalista deu de ombros e gargalhou.





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E o grupo do whatsapp: LorenaUniverse.



Glossário:
Negroni: O negroni é um coquetel feito de uma parte de gim, uma parte de vermute rosso, e uma parte de Campari, enfeitado com casca de laranja. É considerado um aperitivo. O coquetel é de origem italiana e sua receita deriva-se da receita do clássico americano.
Jean Bouchard Vosne Romanée: É um vinho produzido na Borgonha, é lembrado pela sua marca picante, aroma de frutas vermelhas e violeta. Com coloração vermelho claro, harmoniza com massas e molhos de ervas finas. Os vinhos produzidos na região de Borgonha são considerados os mais elegantes do mundo e sua safra de 1985 fez sucesso.
Odyssey: Restaurante em Monâco..
Per Dio: Por Deus, em Italiano.
Boston Red Sox: O Boston Red Sox é um time americano profissional de beisebol.
A série que Antonella se refere no jantar é : How to Get Away with Murder
Blackbird: Nina Simone foi uma pianista, cantora, compositora e ativista pelos direitos civis dos negros norte-americanos. É bastante conhecida nos meios musicais do jazz, mas trabalhou com diversos estilos musicais na vida, como música clássica, blues, folk, soul, R&B, gospel e pop. Blackbird é uma das músicas mais famosas dela.




Continua...



Nota da autora: The Good Place era escrita com Totó Wolff o chefe da Mercedes, porém, eu estava com muita dificuldade de encaixar ele no personagem que eu tinha imaginado.
Então decidi criar um personagem original, que se chamará Andrew DeLucca. Ele é inspirado no meu amor intenso por Sebastian Stan e ele se tornou meu PP principal, mas vocês podem continuar lendo com que quiserem.
Segunda coisa, eu amei escrever esse capítulo. Tivemos a sessão de terapia da PP com o Michael, piloto da FR, e também o encontro dela com o chefe e com as amigas? Quantas novidades.
Mas o que eu mais adorei foi esse amorzinho que o PP2 está lhe oferecendo, convenhamos que toda mulher adora um romance seguro e que não tenha milhares de problemas.
Acho que ela terá um problema muito em breve com esses dois homens.
Digam-me o que estão achando dessa história?

Lembrando que: William Reed, Michael Madden e Louise Rosseau- Render, não são meus personagens, são única e exclusivamente personagens da linda da Carmen, que além de uma grande amiga, é um autora foda, vocês conseguem conhecer mais da escuderia François-Render lá em: The Curve of a Dream.

Além disso, você ainda conhecer a história da filha de Dominique Portinari e sua oficina em: Merci Pour Les Voituires Rapides


Sem contar na história de Antonella e Daniel, que acabaram de descobrir um filho, vá conhecer o drama deles em: Having everything Means nothing


Meus agradecimentos as minhas princesas, Carmem, Carol e Mari, eu amo vocês. Obrigada por tudo e por tanto!
Lembrando que o Disqus está com problema, então se quiser deixar uma autora feliz, é só clicar AQUI