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Última atualização: 21/05/2021
Music Video: A Million Pieces – Kyuhyun

Prólogo

Tudo ficou embaçado de novo. Parece um cochilo, uma piscada de olhos mais longa. Estou aqui e, de repente, não estou mais. Estou tão cansado, mas não me assusto. Não mais. Já sei o que acontece a partir daqui, são anos sendo levado para esse mundo ao qual não pertenço. Ou talvez lá seja o meu lugar de verdade e todo o tempo que passei nessa vida tenha sido uma ilusão.
Conheço essa ponte, estive aqui outras vezes. Algumas pessoas que passam por mim me encaram com certo estranhamento. Tão diferentes de mim. Os olhos grandes e cabelos claros na certa são um contraste significativo com meus fios escuros e olhos apertados. No fim das contas, nem sei como pareço para eles. Essas mãos não são minhas, o anel não está no dedo indicador. Não sou exatamente o que elas esperavam que eu fosse, pelo visto. Há doze anos enxergo esse mundo, caminho por ruas que me eram desconhecidas, ouço um idioma que não é o meu, desfruto de uma paisagem completamente diferente da do meu país. Sou uma pessoa que não conheço, que não me recordo de ter sido. Depois de um tempo, me acostumei a chamá-lo de ele. Nunca quis dar um nome ao que pode ser um delírio, um defeito de fábrica que me levaria ao manicômio. Ele está de bom tamanho. Pelo menos tenho a certeza de ser um homem. Ele não está aqui o tempo todo. Melhor dizendo, eu não estou n’ele o tempo todo. Na maior parte do dia, sou só um garoto. Não diria normal, mas um garoto.
É como estar preso em um filme mudo para o qual não comprei ingressos e não me contaram quando começa nem quando termina. Só é preciso um instante de distração e já era, sumo dentro d’ele. Minha consciência, pensamentos e sentidos estão todos ali, porém os passos, o jeito e as ações não me pertencem. Pode acontecer a qualquer momento, principalmente em situações de estresse. Nesses casos, tudo é amplificado: o filme ganha som por alguns minutos e posso ouvir conversas entrecortadas em alemão, às vezes em francês; o vento balança o cabelo d’ele e refresca a pele que não é minha.
Não houve uma semana sequer em que não fosse sugado pelo nevoeiro que me levava diretamente àquela cidade. Meus pais não acreditavam muito no que eu dizia, nas “histórias” que o menino de sete anos contava sobre um lugar de céu azul, com um grande rio, prédios que pareciam casas esticadas pela ponta dos telhados e pessoas que falavam coisas que não conseguia entender. Ao longo dos anos, me levaram a psicólogos, psicopedagogos, neurologistas e todo tipo de médico que pudesse fechar um diagnóstico. O melhor que conseguiram foi um atestado de que o filho deles tinha uma imaginação muito fértil. Os flashes continuaram sendo frequentes, mas eu já não fazia alarde sobre, eles não acreditavam mesmo... Aos treze, uma figura num livro da escola trouxe a tão esperada luz. Era a mesma ponte, sobre o mesmo rio, vistos de cima. Embaixo, a legenda dizia ser Zurique, na Suíça.
Era lá que ele me mantinha preso. Lá estariam as respostas.
Enquanto os garotos da minha idade estavam ocupados com clubes e namoricos, eu seguia sozinho, focando meu tempo em aprender o máximo possível de alemão, francês e inglês. Se as explicações de que eu precisava estavam na Suíça, eu iria atrás delas, custe o que custasse. Na época do vestibular, minha atenção não estava voltada para ser aprovado pela tríade SKY, eu queria a Universidade de Zurique. “Muito ambicioso”, os orientadores educacionais diziam. Mesmo com as boas notas, a probabilidade de ser aprovado para uma universidade na Europa era baixa para um aluno como eu. Entenda-se por “como eu” um aluno que não era presidente de classe nem metido com a elite da escola, tampouco tinha interesse em se misturar. Se não fosse por Hongjoong ser insistentemente meu fiel escudeiro, teria me formado no Ensino Médio sendo o cara esquisito que só abria a boca para fazer um comentário estranho que arrancaria risos dos colegas. Ser palhaço nunca foi minha intenção, porém, frequentemente eu voltava à tona confuso após me perder em mais um flash no meio da aula e precisava fingir que estava tudo bem. Apenas Hongjoong sabia que quando meus olhos se fechavam e minha expressão se tornava opaca, eu havia sido sequestrado por ele. As noites em claro debruçado sobre os livros deixavam-me ainda mais exposto à intensidade das visões, o que antes parecia durar menos de dois minutos passou a me arrancar da realidade por quase dez. Finalmente eu era minimamente capaz de entender o que as pessoas ao redor d’ele falavam quando seja-lá-quem que controlasse essa loucura abria o áudio. Foram meses assim, utilizando meus minutos de cárcere desbravando lentamente o mundo em que aquele cara estava inserido pelos seus passos.
Me manter pensando e questionando o que era concreto e o que era parte daquela ilusão ajudava a não sucumbir mesmo depois de tantos anos. A última coisa da qual me recordo era ouvir Ed Sheeran cantar Castle on the Hill nos meus fones de ouvido. Agora, ele caminha por uma feira livre, mexe nos objetos expostos em algumas barracas, cumprimenta uma senhora de cabelos brancos pouco antes de desviar o olhar para uma mulher parcialmente oculta entre uma pilha de chapéus de couro. Ela. Não era a primeira vez que eu a via. Ela tinha traços como os meus, se destacava facilmente na multidão de estranhos. Nunca ouvi sua voz, tampouco tive a oportunidade de saber algo sobre ela que fosse além dos cabelos pintados de castanho e dos olhos sinuosos. Quase sempre de longe, ele a observava em silêncio. Quando ele se aproximava, a cena embaralhava, tudo saía do eixo e me via sentando em um banco de madeira na beira de um lago. Uma tristeza inexplicável tomava conta do lugar, tão densa que era palpável. Não partia de mim, afinal, eu mal compreendia o que tinha o levado de repente até aquele lugar. A tristeza provinha d’ele. Aquela mulher era uma das respostas que eu buscava.
— Ei, cara, acorda.
A voz estava longe, baixa, como o vento que movia suavemente as folhas das árvores.
“Senhores passageiros, última chamada para o voo TA3568 com destino a Zurique. Por favor, dirijam-se à sala de embarque.”
! Não é hora de apagar assim não.
Meu ombro foi sacudido repetidamente. Calma, Hongjoong. Estou voltando.

“Senhores passageiros, dirijam-se à sala de embarque.”

— Vou te dar um so-
Abri os olhos e encarei meu amigo com o rosto tão vermelho quanto seus cabelos.
— Hyung? — chamei por ele, ainda instável pela quebra do flash.
— Anda, ! Vamos perder o voo! — me puxou pelo braço, me obrigando a levantar.

“Senhores passageiros do voo com destino a Zurique, dirijam-se à sala de embarque.”

Segurei firmemente a alça da mochila, tomando fôlego para seguir em frente. Chegou o momento de juntar as peças.



Continua...



Nota da autora: Oi, que bom que você chegou até aqui! Yunho é um menino de ouro, espero que goste de acompanhá-lo pelos próximos capítulos dessa jornada.
Do meu coração pro seu,
Nimuë





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