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Última atualização: 23/05/2021
Music Video: Befour - Zayn

Capítulo Um

O vidro transpirava na minha mão, o gelo estava derretendo daquele terceiro ou quarto copo de whiskey. Ouvia vozes ao meu redor, a televisão estava ligada e eu estava no último andar. Minha cobertura. Não tão minha, já que onde eu morava deveria ser onde eu encontrasse paz, mas naquele lugar nunca havia encontrado essa paz. Os empresários que achavam saber tudo sobre mim discutiam aquela repercussão que Befour havia causado na mídia. Mais um prêmio. Mais um troféu. Mais seguidores nas redes sociais.
Deveria estar feliz, deveria estar comemorando, eu sabia bem disso. No entanto, não sentia a mínima vontade. A verdade era que eu adoraria ficar sozinho. Fazia muito tempo que não sentia paz comigo mesmo. Meus olhos subiram daquele copo e rodearam toda aquela sala lotada de pessoas mandando o que eu deveria ou não fazer. As entrevistas marcadas. Insistiram para uma tour ou pelo menos algumas apresentações ao vivo daquela música. O que eles não sabiam era que a única pessoa à qual eu me apresentaria e cantaria aquela música era a porra de um covarde.
Um covarde que ainda tinha controle absoluto da minha vida. Um covarde que ainda era dono das minhas letras.
Meus olhos se fixaram na televisão e meu rosto estava nela, o famoso . O destaque do ano, o mais ouvido da droga de lista da Billboard. Peguei meu celular e vi tantas notificações que acabei ficando ainda mais perdido naquilo tudo. Eu já tinha feito isso antes, mas não dessa forma. Não sabia se queria voltar. Não sabia se queria continuar. Então fechei meus olhos e me vi naquele carro com a galera, naquele bairro perto da casa dos meus pais, com o cheiro da batata frita com bacon da lanchonete do Bill na esquina.
E o sorriso dele…
Abri meus olhos novamente e me levantei do sofá, ouvindo o pessoal me chamar, gritarem meu nome. Mas apenas virei aquela dose de whiskey e então segui para o elevador. Coloquei o capuz do moletom da cabeça, simplesmente me desligando para aquela gritaria atrás de mim. Apertei para subir até o telhado do prédio. Então, quando cheguei lá, senti vontade de berrar. Porque sentia que estava no telhado e o mundo estava atirando balas contra mim.
Puxei o ar com toda força e senti até meus pulmões arderem pra caralho, mas, mesmo assim, estava respirando com muita força, segurando toda aquela tempestade que estava acontecendo dentro de mim. Sentia minhas mãos tremendo enquanto a esquerda apertava o celular dentro do bolso da minha calça com pressão. Ainda conseguia ouvir os flashes, os entrevistadores, os paparazzis, os empresários, conseguia ouvir a voz de todos e ao mesmo tempo não conseguia ouvir exatamente nada. Então deixei minha mente mergulhar para a primeira apresentação daquela música e toda a raiva que estava sentindo.


Flashback:

Apesar de não conseguir ouvir, sabia que estavam gritando meu nome, o público era grande, mas, mesmo assim, meus olhos não estavam absolutamente focados no público, e sim nas batidas fortes do meu coração. A cada passo que dava pelo enorme palco até o microfone, sentia meu coração bater ainda mais forte. Todos gritavam, levantavam placas com meu nome, me idolatravam de uma forma que não achava mais que merecia tanto amor e admiração daquelas boas pessoas.
Estava naquele palco com tanto amargor em meu peito que minha garganta estava seca, sentia o gosto amargo descer juntamente da minha saliva. Então segurei no microfone com as duas mãos, o apertando com certa tensão e abaixei minha cabeça por alguns segundos antes de começar a música e eu cantar as primeiras notas. Naquele instante eu senti seus olhos em mim, os olhos dele e soube que ele estava ali de alguma forma extremamente bizarra.
Meus olhos subiram até os camarotes que ficavam na parte de cima do local e então, ao passar com o olhar por ali, o encontrei. O mesmo encostado enquanto me assistia com intensidade. Sabia que poderia estar delirando naquele momento, simplesmente imaginando coisas porque não tinha como realmente saber se era ele ali mesmo porque estava longe e ele estava de boné, óculos de grau, completamente disfarçado. Mas meu coração dizia que era ele e meu coração não costumava se enganar quando o assunto era ele. Não quando nos conhecemos pela vida toda.
Conforme fui cantando cada parte da letra da música, podia sentir a tensão que me envolvia vindo exatamente daquela parte do lugar onde ele estava e podia sentir o quanto aquelas palavras poderiam estar o machucando. Era para machucar como ele havia me machucado. Era isso que eu queria.
Ele era um covarde. Isso que ele era.
E também a minha maior decepção.
Ele não ficou até o final da música, meus olhos não encontraram mais os dele naquele lugar e eu soube que ele tinha pegado o recado. Mas, mesmo assim, aquilo não me deixou bem, não fez eu me sentir melhor, apenas fez aquele rasgo no meu peito ficar ainda maior, sangrar ainda mais.
Assim que terminei a apresentação, saí do palco e recebi os parabéns, dizendo que os prêmios já eram meus, todos estavam comentando a apresentação. Era a primeira Hashtag mundial no Twitter e a segunda Tag era o meu nome. Isso já fazia alguns dias porque dias atrás meu nome estava envolvido com um escândalo envolvendo drogas, bebidas e outras coisas que adoravam falar sobre mim.
— De quem fala essa letra, ? — meu empresário e produtor perguntou enquanto caminhava ao meu lado.
— Sobre um covarde — respondi de forma ríspida, pegando a toalha que tinha me entregado e enxuguei meu rosto, já pegando um copo de bebida que tinha no meu camarim.
Tudo era sobre aquele covarde.


Flashback off.


Soltei o ar de forma extremamente pesada enquanto ainda estava naquele telhado, lendo tudo que falavam sobre mim naquela droga de mundo. Era realmente como balas me acertando enquanto estava parado naquele telhado, procurando alguma fuga. Bebendo sem ser para ficar realmente bêbado, aceitando todos os meus acertos e erros. Mas, mesmo assim, sendo julgado por todos eles como se todos pudessem realmente me julgar.
Fechei meus olhos de novo, voltando anos atrás, antes disso tudo, quando todo o meu sonho estava apenas em um estúdio de bairro. Uma gravadora independente, um sonho que realmente poderia não dar certo e estava tudo bem. Onde meu trabalho era ser recepcionista de uma academia de luta. Um passado que eu achava ser pouco para mim, mas estando aqui nesse telhado dessa cobertura chique eu vi que tudo que eu tinha lá atrás era o suficiente.
Então me peguei sorrindo naquela recepção, vendo os caras treinando, enfaixando suas mãos e lutando, fazendo o que amavam, se divertindo e levando aquilo bem a sério. Os treinadores em época de campeonatos sempre eufóricos, fazendo de tudo para que nossa academia fosse a campeã e então tinha as festas, as chopadas e os churrascos. Os rapazes naquele carro velho do meu pai implorando para que eu conseguisse os convites para as festas e eu sempre conseguia. E no banco de trás, do lado esquerdo, estava sempre ele, pois ele sempre fez parte da minha vida e sempre foi considerado a melhor parte dela.
O sorriso extremamente largo, os olhos com aquele brilho de admiração, a forma como ele me olhava dizia de forma escancarada o quanto eu era importante para ele, especial e único. Ele me olhava com uma admiração que eu jamais tinha sentido antes. Sentia-me especial com ele, recebendo aquele olhar, sendo o dono daquele sorriso tão bonito.

— Você viria comigo para qualquer lugar mesmo? — questionei naquele mesmo carro, anos atrás.
— Iria contigo para qualquer lugar. Sempre vou ser seu maior fã e a pessoa a quem você sempre vai poder confiar — ele respondeu com aquele mesmo sorriso, aquele mesmo olhar.


Ele não mentiu naquela época. Mas hoje em dia minhas letras não combinavam mais com os acordes dele, ou suas letras nem sequer conseguiam se encaixar com os meus acordes. A pessoa mais importante para mim tinha virado um completo estranho. O meu melhor amigo era alguém que não conseguia dizer as coisas que queria na minha própria cara e colocava em músicas de forma mais suja. Então eu apenas devolvi.
Voltei a abrir meus olhos, sentindo minhas pálpebras molhadas enquanto encarava tudo lá embaixo, meu corpo cambaleava para frente e para trás, talvez pular não seria tão doloroso assim se era para viver daquela forma. Sentia-me entorpecido pelo meu próprio passado. Bêbado sem estar de fato bêbado. Machucado sem estar com hematomas, mas rasgado por dentro.
— Covarde! — berrei com toda a minha voz, toda a minha força, e grunhi de ódio logo em seguida.
Apertei meus dedos em volta do meu iPhone e olhei novamente para baixo, sentindo tudo dentro de mim me impulsionar para frente, pular de uma vez, porque não tinha mais nada para mostrar ao mundo. Aquele talvez fosse meu fim. Talvez as balas que atiravam finalmente tivessem me acertado. Então decidi jogar aquela droga de celular primeiro, mas antes que eu fizesse isso, vi a tela dele acendendo com uma única mensagem que me chamou atenção.
Pisquei meus olhos várias e várias vezes, então desbloqueei a tela, vendo que era uma DM no twitter. Abri o aplicativo rapidamente e assim que apertei na DM, vi que a mensagem era dele. O próprio o qual a letra da música mais premiada do ano era sobre. Uni as sobrancelhas ao abrir o chat e soltei o ar de forma pesada.

“Me chamar de covarde em uma música como indireta não te torna corajoso.”
Travei meu maxilar com aquela mensagem, sabendo que o correto seria jogar aquela droga longe e nunca mais responder, nunca mais ouvir o nome dele, falar dele, pensar nele. Queria que ele não existisse mais dentro de mim. Mas eu sabia o quanto aquilo era impossível quando todas as memórias boas que eu tive em toda minha vida eram feitas por ele.
compunha a minha vida como uma melodia feita e escrita apenas por ele. era o compositor da minha história, ele tinha feito o trajeto de toda a minha vida até aqui nesse telhado, onde pareceu ter colocado o ponto final nela.

: “O que é que me torna então?”
Foi o que respondi, sentindo meu peito ainda doer com aquela falta de ar. Por que eu ainda me dava ao trabalho de dar ibope para ele?

: “Exatamente tudo para mim.”
Neguei com a cabeça com aquela resposta.
Mentiroso. Ele não passava de um mentiroso.

: “Deixa eu te falar tudo que tenho para lhe dizer olhando em seus olhos então.”
Bloqueei a tela do meu celular e respirei fundo.
O que ele realmente tinha para me dizer?


Continua..



Nota da autora: Minha música preferida do patrão Malik sempre foi Befour e não mudou até hoje em dia, então pensei nesse plot mais em relação à letra do que ao clipe desde o ano passado e venho trabalhando nele. Será uma shortfic dividida em capítulos pequenos, contando a história desses dois que não é novidade alguma que eu escrevo realmente usando Zarry.
Enfim, espero que gostem e sintam-se à vontade para comentar comigo, please!



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