Última atualização: 21/11/2021
Music Video: willow - Taylor Swift

chapter one: the more that you say, the less i know

I'm like the water when your ship rolled in that night
Rough on the surface, but you cut through like a knife
And if it was an open-shut case
I never would have known from the look on your face
Lost in your current like a priceless wine

A encarou o velho piano cor de chocolate, um exemplar moderno do significado de clássico. Mesmo depois de tantos anos naquela casa, tocado por gerações dos e moldado como a vida da festa em diversos cenários, o instrumento musical — que mais se assemelhava a um membro da família, realmente — ainda possuía uma fragrância amadeirada e brilhava como se fosse um diamante recém polido. Um sorriso discreto surgiu nos lábios de ; era tão simples assistir as memórias de dias mais calmos ao redor daquele piano no fundo da sua mente. A infância sentada no topo dele com seus irmãos, sua mãe desferindo notas de maneira ágil o suficiente para fazer alguém acreditar que seus dedos eram uma extensão do teclado, enquanto suas tias se aglomeravam na sala de estar, com seu pai na cozinha junto da sua avó, alguns primos mais velhos correndo selvagens pela casa e tudo embalado perfeitamente em uma melodia.
E sempre o cheiro da madeira no ar, como se os troncos que caíram para criar o piano não tivessem morrido, apenas encontrado outra maneira de serem belos . Adicionando algo natural a essa beatitude, que só tornava a música mais cativante e livre; principalmente livre.
Pessoalmente, essa era a parte que mais gostava, e a razão principal porque quis aprender a tocar. Claro, ela era uma criança, quis saber por ver a mãe tocando elegantemente através dos dias, mas não era só isso. Quando tocava, algo dentro dela corria pelas suas veias junto ao sangue, embrulhado em uma adrenalina que as pessoas só encontram ao fazer algo que amam.
Todavia, um bom folclore não começa com as coisas míticas. Elas são a descoberta arfante ao desenrolar do conto. Então, esse não é o ponto agora. Vê esse botão de rebobinar? Enrole o tempo só dessa vez e clique nele.
Garanto que ela logo tentará essa façanha também.
A jovem observou as marcas de unhas na madeira com divertimento, lembrando das brincadeiras e rastros causados ali quando era mais nova com as outras crianças. Seu pai havia ficado tão furioso quando viu o primeiro arranhão, — afinal, era o objeto mais caro e chique em casa — mas sua mãe só riu e chamou aquilo de cicatrizes de guerra.
— Qualquer coisa bela requer um pouco de imperfeição — repetiu as palavras da mãe como uma crença materna para si mesma, à medida que as pontas dos seus dedos acariciavam as teclas com gentileza. A suspirou, reintegrando tal reminiscência às suas inseguranças e medos atuais. — Espero que esteja certa, mãe.
Assim que a jovem mulher começou a tocar, sua feição suavizou e seu coração pareceu bater em sintonia com cada nota proferida. O sorriso de canto dos lábios agora era aberto e cheio, e sua boca cantarolava como se não houvessem preocupações no mundo inteiro. O sentimento de o amanhã não existir e ao mesmo tempo ser prometido quando ela estava tocando, cada som formando uma sinfonia e dançando sobre sua pele. Ela tinha certeza de que aquele era o seu lugar, embora ultimamente estivesse sentindo um vazio. Não um buraco negro completo, mas sim uma parte de si que havia escapado em algum momento e que ela precisava achar. Parecia muito com sentir falta de alguém que ela nunca tinha conhecido. A até cogitou ser a saudade dos pais, que haviam partido para uma viagem ao redor do mundo três dias atrás, ou até dos seus irmãos: uma que havia decidido pelo glamour das peças há poucos meses, tentando alguns papéis em teatros e ascendendo o suficiente para estar ocupada, e o outro que encontrou o amor nas margens da praia da sereia e estava esperando o segundo filho com a esposa. Entretanto, aquela sensação de falta acumulava tantos anos quanto a própria mulher, e não parecia ir embora. Era solitário.
Ainda assim, ela tomou quaisquer chances de preencher aquele espacinho dentro do seu coração. Viagens, homens mais velhos e vinho não foram muito úteis a longo prazo, mas a música, sim. Sempre. Então ela continuou tocando, acertando as notas precisamente ao reconhecer o piano como um velho amigo, o prazer de criar sendo o suficiente e a preenchendo com magnitude.
Até que, de repente, o dó não tocou. A mulher de olhos franziu o cenho, tentando novamente empurrar aquela tecla. Apenas um reverberado som oco veio à tona, como se algo estivesse prendendo a nota.
Ela suspirou, levantando-se e subindo no banco, se equilibrando nas pontas dos pés ao abrir o piano e encarar os fios retilíneos dentro deste. Tudo parecia em ordem, exceto por um envelope amarelado, preso embaixo da nota defeituosa. Enrugando o nariz, se inclinou, agarrando firme a borda do piano e emergindo dentro dele até alcançar o papel. Essa era uma das coisas legais do piano, um instrumento musical tão grande que dá para se afogar tanto nele quanto na música. Assim que seus dedos tocaram a carta, ela empurrou o corpo para fora dele e sentou na cadeira.
Não conhecida por sua paciência, a mulher apressou-se em analisar o objeto em mãos. Ela inclinou a cabeça e cheirou o envelope, espirrando logo em seguida.
— Isso não foi tão inteligente — resmungou para si mesma, esfregando o nariz irritado pelas partículas de poeira.
Sem mais delongas, ela se apressou para abrir a carta, ansiosa ao rasgar um pedaço e ver que tinha algo escrito na caligrafia dos seus pais, mesclando os parágrafos como se eles tivessem escrito aquilo juntos.

Querida ,

Sei que está revirando os olhos pelo clichê, mas sua mãe se recusa a começar uma carta de outro jeito. Eu tentei dizer para ela deixar um bilhete ou a gente te dizer pessoalmente, mas sabe que ela ama um drama.
De qualquer maneira, sabe essa sensação de ter crescido com um pedaço faltando? Nós também sentimos isso. A maioria das pessoas sentem, até encontrar algo, alguém, ou algum lugar que preencha esse espacinho aberto dentro delas. Assim como bebês não nascem completos, nosso amadurecimento também não é uma conclusão imediata.
Nós conversamos e decidimos que você já tem idade suficiente para descobrir o que, onde, ou quem é o amor da sua vida. Gostaríamos de estar aí com você, mas esse é o tipo de coisa que deve ser feita sozinha.
Vá até o salgueiro mais antigo da cidade, perto da catedral. Você encontrará o rio primo de Narciso. Lembre-se, não cometa os mesmos erros ancestrais.
Com todo o amor do mundo, que logo você também encontrará,

Mãe e pai.

A mulher lembrava claramente das histórias envolvendo o rio primo. Diziam que, se você olhasse dentro dele, veria o presente do destino para o tempo de uma vida eterna. Traduzindo, o que seria o amor da sua vida. Algumas pessoas viam um lugar, outras um animal, e mais raramente outra pessoa. Platônico ou não, seria a resposta para a pergunta inquieta: o que você ama mais do que a própria vida?
Assim como citado anteriormente, era apaixonada pela liberdade. E, para perseverar na liberdade, era preciso confiar em seus instintos igual um caçador. Então, sim, embora ela não achasse que as lendas sobre o rio primo fossem reais, parte sua gritava e esperneava como uma criança para que ela seguisse as instruções. Que mal iria fazer, de qualquer maneira? Era uma chance de se livrar da sensação de algo ter fugido das suas mãos, de sempre estar tentando agarrar algo. Aliás, ela cogitava que seu destino fosse um lugar, ou até algo, não uma pessoa. era suficientemente feliz sozinha.
Suspirando em derrota aos seus próprios pensamentos, ela se pôs de pé e caminhou até o seu quarto, jogando o velho cardigan sobre a cama e colocando um vestido de mangas compridas e botas pretas. A catedral se localizava a poucos metros de distância, e seu corpo enchia-se de animação singela, um excitamento hesitante. Seria possível encontrar algo tão grandioso assim, moldado só para ela? Era possível ser ainda mais feliz? Era possível?
Dúvidas positivistas se enrolaram em seus passos quando ela saiu pela porta de madeira, apressando-se pela floresta familiar e se esgueirando pela catedral sagrada até encontrar o rio primo de Narciso.
Os padres e os adultos não deixavam as crianças brincarem por lá, clamavam ser perigoso demais. Uma pessoa deve saber quem ela é por si antes de declamar devoção a outro além de Deus. Ela nunca perguntou muito, havia outros lugares mais interessantes... Entre uma praia e um lago, o oceano sempre era mais curioso.
Todavia, nesse segundo, ela trocaria toda a costa leste por aquele rio. A visão do litoral era linda, mas aquele salgueiro guardando o pequeno monte de água como um guarda-chuva, enquanto musgo deitava distraidamente nas rochas e uma para de água caía ao longe na cachoeira igual? Aquilo era surreal, de uma força magnética inigualável. Ela precisava estar lá.
Colocando as botas de lado para não machucar o tapete de flores rosa, arriscou andar até a beira do rio, sem pensar antes de ajoelhar-se e olhar nas águas. As pessoas deveriam escutar mais a Siken quando ele diz que as histórias requerem paciência.
Ela nunca esteve tão aterrorizada e ansiosa para ver seu reflexo quanto estava naquele instante. Suas mãos estavam apoiadas na rocha estranhamente quente e seus cabelos caiam como cortinas quando seus olhos assistiam as águas sábias. Dizer que a primogênita estava surpresa seria bobagem para o seu nível de atordoamento, mas a alegria certamente superava qualquer outra. Suas sobrancelhas arquearam e ela arfou. Conseguia se ver claramente, mas havia um homem ao seu lado. Cabelos negros, assim como suas orbes, lábios cheios e uma fisionomia que gritava em quietude para ser tocada. E ela estava lá, do seu lado no reflexo das águas calmas, enquanto ambos a encaravam do outro lado, tipo uma fotografia antiga a ser admirada. A sensação de ausência, de que seu corpo tinha espaço para um órgão que nunca esteve lá, ou como se ela tivesse caído e ralado o joelho quando era criança e agora sentia falta do sangue jorrado e esquecido, lavado com chuva no asfalto, foi simplesmente substituída por algo místico que a fazia querer gritar todas as palavras bonitas que havia aprendido.
Ela não se sentia completa. Era outra palavra que ela ainda não conseguia colocar um nome.
As imagens na água se moveram. Seu 'eu' do rio aninhou-se no ombro do homem, e ela jurou que podia sentir o seu perfume. Era como ar salgado e lavanda, seus cheiros prediletos. Ele, por sua vez, encostou a bochecha em sua cabeça com um sorriso. Era um bom reflexo, o tipo de imagem que ela queria ver em espelhos.
O problema é que uma visão de ouro pode ser só uma ilusão. Quando virou para o lado, em uma boba procura pelo homem no reflexo do rio, ela não encontrou nada além da natureza e de si mesma. Ela franziu a testa e encarou a água novamente. A imagem havia mudado: ele estava tão sozinho quanto ela, mas sua mão estava estendida. A não desperdiçou um segundo antes de tentar agarrá-la, faminta por aquele sentimento ainda sem nome. Entretanto, tudo que ela segurou foi água, a miragem sumindo enquanto o rio respingava pelo toque brusco. Todavia, aquele encontro havia deixado um brilho literal ali. Algo dourado que cintilava e chamava a garota para as águas.
Era burrice, inconsequente e até meio idiota. Ela nem podia acreditar que estava cogitando aquilo. Mas se alguém não está disposto a ser essa junção, não está aberto a riscos. Todo risco é uma idiotice ao primeiro relance.
Encarando o salgueiro, ela dedilhou a água mais uma vez, o brilho reluzente ainda mais chamativo. levantou e respirou profundamente, aquietando sua racionalidade momentaneamente ao pular no rio.
Embora o céu estivesse colorido em um azul profundo, repleto de estrelas e uma brisa gélida soprasse as folhas do salgueiro, não sentiu frio, nem mesmo sentiu que estava molhada quando mergulhou no rio. Pelo contrário, todo seu corpo foi embalado em um calor reconfortante que se estendia até seu interior e, assim que ela abriu os olhos, ela se viu residindo em uma memória esquecida: era ela mesma, uma década mais jovem, entrando em uma tenda feita de lençóis. Um menino, aproximadamente da sua idade, residia lá dentro com um sorriso contagiante, de pernas cruzadas e brincando com uma corda dourada brilhante. Era o mesmo homem do rio, ela tinha tanta certeza que apostaria seu coração nisso. E, de certa maneira, já estava. A mulher não se acanhou ao sentar dentro da tenda e começar a brincar com a corda, encarando suas mãozinhas que a enrolaram de maneiras diversas antes de levantar o olhar para ele. O menino sumiu de novo. Parecia algo típico dele. Quando ela poderia alcançá-lo? Uma tristeza quintessencial se alastrou pela sua expressão inocente.
Mais uma coisa que devemos saber sobre : ela é irrevogavelmente teimosa.
O medo pode ser o alimento da esperança se você souber como cozinhá-lo. A agonia e o desespero somente a impulsionaram a se levantar e andar até a porta da barraca, destemida e decidida a encontrá-lo.
Mas, você sabe, o folclore não é um conto de fadas.

Eu sou como a água quando seu navio chegou naquela noite
Dura na superfície, mas você atravessou como uma faca
E se era um caso fácil de resolver
Eu nunca saberia pela expressão em seu rosto
Perdida em sua corrente como um vinho inestimável


chapter two: wherever you stray, I follow

wait for the signal, and I'll meet you after dark
show me the places where the others gave you scars


— Não entendo como coisas tão poderosas sempre acabam quase morrendo afogadas. — Um homem alto e musculoso resmungou para seus irmãos ao puxar a para fora do rio. Ele não sabia qual criatura ela era, mas uma consulta rápida com sua chefe logo responderia à questão. Não era sua responsabilidade, de qualquer maneira. Ainda assim, era no mínimo curioso como seres tão místicos eram capturados com a facilidade de um coelho e uma cenoura.
— Quem liga? Ganhamos dinheiro com a burrice deles. — O homem mais alto do trio deu de ombros com desinteresse.
— Eu sei — respondeu ele, colocando a moça sobre seu ombro. — Mas por que eles continuam com essa maluquice ao ar livre? Não sabem que dá pra notar que são seres mágicos quando olham nos rios primos de narciso?
— Talvez não. O chefe disse que a maioria é descuidada e alguns nem sabem que tem poderes.
— Vamos logo. — O mais jovem bufou, impaciente com a demora dos outros. Quem se importava com a burrice alheia quando isso lhe rendia dinheiro? — A cerveja sempre acaba quando chegamos depois das nove.
Os três irmãos caminharam sem muito falar, apenas resquícios de dúvidas que logo seriam esquecidas com o pagamento e goles alcoólicos. De vez em quando, davam a mulher desmaiada para o outro segurar e comentavam sobre o clima úmido dentro da floresta. O caminho era demorado o bastante para que estivesse seca quando eles chegaram lá. Nesse sentido, “lá” era o vilarejo de Evermore, onde existia uma feira corriqueira, repleta de atrações para as pessoas ricas.
Simplificando: as atrações eram seres mágicos feitos de reféns por Wondertale.
Pareceu impossível. Sinceramente? Era mais uma lenda do que uma crença. O tipo de coisa que gera mais perguntas do que respostas, a informação arremessada pelo narrador que necessita de mais explicação. De repente, todos confusos e atordoados, igual você. E como , que acordava em um galpão, na companhia de uma mulher com olhos pesados encarando-a. Sua pele era beijada pelo sol, um tom caramelado de bronze. Ela ofereceu uma expressão amigável a , o canto dos seus lábios levemente arqueados e sobrancelhas relaxadas. Tudo nela girava em tons de conforto, mas algo não parecia certo. Um sentimento peculiar de hesitação mordia seus ossos.
— Qual seu nome? — A moça questionou com gentileza. Apesar disso, continuou em silêncio, assustada demais para olhar ao redor ou tentar entender se ela era uma aliada ou o perigo iminente. A última recordação em sua mente era de ter pulado no rio primo, e depois acordar ali. Parecendo notar sua desconfiança, a dona dos cabelos encaracolados pousou a mão em seu peito, sua expressão denunciando um sentimento pesaroso, como se dissesse “pobre menina”. O tipo de simpatia que as mulheres tendem a manter guardada no fundo do seu ser, reservada apenas para outras mulheres que parecem ter sofrido nas mãos de homens casualmente cruéis. Ao menos, era o que achava; ela costumava dar esse mesmo olhar a mulheres trêmulas nos abrigos em seu vilarejo. — Não precisa ter medo de mim, querida.
A mulher entregou um copo de água a , aquela gentileza sútil a fazendo soltar o ar que nem notou que estava segurando.
— Tenho alguma comida, se estiver com fome.
Ela não podia ser má se estava disposta a ajudá-la, certo? Se a situação fosse contrária, não iria machucá-la. Ela merecia o benefício da dúvida. Além disso, que outra escolha podia ser feita?
A bebeu um pouco da água antes de responder:
. — Ela disse baixinho, o mais baixo que já havia falado na vida. O sorriso da outra mulher cresceu um pouco mais. — .
— Nome bonito. Eu sou Este. — A moça mexeu nos cabelos ondulados e levantou da cadeira de madeira onde estava sentada, causando uma confiança momentânea em , apenas o bastante para que ela olhasse ao redor. O lugar não fedia, mas certamente não era uma casa. As paredes gélidas e machadas, a falta de uma janela, o espaço de vinte passos. Tudo naquele lugar gritava calabouço, exceto por panos brancos límpidos sobre o colchão encardido, que contrastavam com os arredores. Como ela havia ido parar ali? Onde era ali? O que estava acontecendo? Este apontou para as roupas e se virou. — Pode se trocar, esse vestido molhado vai te causar uma gripe.
— Obrigada. — Ela respondeu, colocando o copo de água meio cheio ao seu lado e se levantando. rapidamente tirou o vestido azulado e colocou as vestes brancas, rindo em sua própria mente com o quão similar àquela roupa era à camisola que ela estava usando na visão do lago quando criança, ao menos em tonalidade. Parecia um pouco formal demais para uma estranha, todavia, imaginou que esse fosse o estilo da mulher, já que a mesma usava um vestido vermelho sangue que esbanjava dignidade e classe, sem mencionar a tiara de flores brancas em sua cabeça, que certamente provinha dos mais altas árvores. — Pronto.
Este virou-se para encará-la.
— Então, o que você é?
— Uma camponesa. Uma pianista. Uma mulher? — A cada resposta, uma carranca se constituía na cara da outra, mas não conseguiu fazer outra coisa naquele momento, a não ser dar de ombros com confusão estampada nos seus traços. — Não entendi sua pergunta.
— Qual era a cor?
uniu as sobrancelhas.
— Como assim?
— Qual era a cor que apareceu antes de você pular no rio? — Dessa vez, Este parecia mais impaciente do que prestativa, e algo dentro da arranhava suas entranhas ao olhar para a moça. Ainda assim, aquela questão tão direta encheu de esperança. Talvez ela pudesse explicar o que estava acontecendo!
— Dourado! — Exclamou animadamente, inclinando a cabeça para outra. — Você também já foi no rio primo?
— Se eu já fui no rio primo? Querida... Você não sabe o que é, sabe? Uma pena. Na maioria das vezes, a ignorância só é uma benção para os homens. — Por um mero segundo ela olhou para com empatia. Os mesmos olhos cansados se destacando novamente quando ela bateu as palmas das mãos. — Vamos logo antes que Wondertale apareça.
pressionou os lábios em uma linha, seu cérebro rangendo tanto quanto a porta que agora era aberta por dois homens que claramente respondiam ao chamado da mulher.
— Olha, moça. Obrigada pela ajuda, mas eu preciso ir para casa. — Ela deu um passo para trás, aterrorizada pelo que podia acontecer. tentou moldar um plano em uma questão de segundos: talvez se ela empurrasse o homem? Ainda teria o outro, e eles eram o dobro do seu tamanho. A porta estava escancarada, mas um deles estava posicionado na frente dela. Se ao menos conseguisse chegar até a porta, ela poderia gritar por ajuda ou correr. Quem poderia garantir que não teriam mais pessoas assim do outro lado? O que mais ela poderia fazer para salvar-se? Agarrar alguma coisa! Isso, pegue algo pesado e jogue neles. A loira varreu o quarto com o olhar, apenas para encontrar suas roupas molhadas em um canto. O que mais ela poderia pensar? O que mais ela poderia fazer? Por que aquilo estava acontecendo? Sua cabeça girava e sua racionalidade apontava todas as falhas de cada micro plano criado no meio daquela conversa, enquanto a adrenalina apostava uma corrida com o medo em suas veias.
— Querida, aqui é sua casa agora. — Este riu com descaso quando um dos homens agarrou a jovem pelo braço. — Um lugar com mágica é tudo que qualquer mulher precisa.
— O quê? Não, pare! Por que está fazendo isso? Eu não fiz nada! — puxou seu corpo para longe dele, mas isso só fez ele apertar com mais intensidade. Tudo que ela queria era chorar, dar um escape ao desespero excruciante e se entregar aos anos da infância, quando chorar resolvia quaisquer problemas que ela não conseguia. Porém, ela não daria esse gostinho para eles, quem quer que fossem. Eles teriam que entrar em combate se a quisessem. — Me solta, seu babaca!
Do outro lado da sala, a mulher suspirou, assim como quando viu pela primeira vez. Ela parecia mais acostumada do que animada com a situação. Entretanto, um sorriso plástico logo surgiu em seu rosto jovial.
Algumas pessoas se acostumam a coisas horríveis.
— Quem você pensa que é? Está insano se acha que eu vou deixar você me levar para sabe-se lá onde sem lutar! — esperneava e gritava, chutando qualquer coisa ao seu redor, lutando em nome da resistência até que o outro homem a segurou. Viva ou morta, ela iria deixar cicatrizes em todos que ousassem tocar nela. Como uma mulher louca, como uma mulher barulhenta: assim como a mãe natureza, sua raiva seria uma força. Ela gritou, chutou, socou e mordeu qualquer coisa, e se perdeu entre os grunhidos de dor dos seus oponentes. — O quê? Não aguenta um soco de uma garota, babaca? — Seu medo tinha dado lugar a sua ira. Apesar disso, eles ainda tinham o dobro do seu tamanho, e ainda eram dois. segurou nas paredes, as marcas das suas unhas enfeitando o lugar com um ar ainda mais sombrio.
Os dois homens reclamaram com uivos de dor, seus braços arranhados. Um deles tinha o olho socado, e o outro, o lábio estourado. A mulher não se moveu, assistindo com surpresa quando eles conseguiram controlar a moça momentaneamente. tinha uma lutadora dentro de si, e ela não podia esperar para ver qual tipo de poder aquela jovem teria.
Este simplesmente se aproximou e colocou sua própria tiara de flores na cabeça de .
— Ainda bem que não manchou seu vestido. — Ela piscou para a , qualquer resquício de doçura em sua voz havia ido embora.
— O que você quer de mim? — questionou, tentando se soltar do aperto dos homens. Ao invés de responder, Este apenas andou até a porta.
— Está na hora do show.
Agora que nossa protagonista parece menos atordoada, acho que devemos deixá-la dizer algo.

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Às vezes, eu sinto como se estivesse em uma caixa. Não aquelas marrons úmidas, escuras demais para qualquer um ver qualquer coisa e que são identificadas apenas por um nome com marca texto na frente, não. A minha caixa é alta, mais alta que eu. Suas hastes são amadeiradas e ela é revestida em vidro; todos podem me ver e eles querem isso. A plateia está ansiosa para assistir meu próximo passo, almejando observar minhas mãos tocando o violão e fazendo algo útil e belo da dor, como cacos quebrados de uma garrafa de champanhe ao pôr do sol. Eles querem presenciar a mágica, estar lá quando meus dedos arrancarem com delicadeza brilho dourado mítico das cordas instrumentais, acompanhadas pelas minhas palavras que tenho a sorte de serem bem colocadas.
Sempre me senti assim, desde pequena. O membro da família que todos encaravam no jantar de ação de graças, esperando por um discurso. A filha próspera que todos tinham certeza que tomaria um bom rumo desde a maternidade. Aquela que esperavam levantar e lutar por alguma coisa.
Como eu disse, uma caixa de vidro. E eles querem te aplaudir, mas não vão medir esforços para vaiar se você errar uma nota ou desafinar. E se você tiver sorte e esse não for o caso, não tem lá tanta diferença. Eles vão bater palmas como se você fosse um cachorro que fez um truque certo, irão se embebedar e ir embora pela matina. E você vai ficar lá, na caixa. Sentada com seu violão e se perguntando quando fazer algo bonito deixou de ser o suficiente. Ainda sozinha, devastadoramente, inteiramente, e profundamente sozinha.
E então alguém se aproxima e toca o vidro da caixa e seu chefe grita para ele se afastar, como se você fosse um tipo de animal enjaulado. E todo o pessoal rico aplaude e ri, bebendo whiskey, mas eles realmente estão bêbados com a sua dor.
É um tipo de felicidade egoísta, aquela que recebe o nome de contente, como quando alguém sofre um acidente e as pessoas ao redor até estão tristes pelo machucado, mas aliviadas por não serem elas ali, ou quando você diz a um cara rico de herança que ele é honesto e conseguiu tudo por mérito. É uma mentira, mas ele vai apertar sua mão e sorrir contente. As pessoas gostam de fingir que sentimentos bons são, bem, bondosos. Até parece óbvio, mas não. Emoções não se importam com altruísmo. Então, eles batem seus copos amarelos e me assistem.
É peculiar imaginar que sempre descrevi esse cenário sobre mim mesma, como uma maneira palpável de descrever um sentimento abstrato, como os poetas costumam fazer ao usar metáforas, ou como o Pequeno Príncipe adicionando detalhes em seu desenho, mesmo que sua mente soubesse o que cada linha significava de verdade.
Não me entenda mal, eu amava aquele livro. Só que nunca pensei que estaria na mesma situação do herói de Antoine de Saint-Exupéry, que minhas emoções pintadas em escapismo ganhariam um quê de realidade.
Ainda assim, lá estava eu: presa em uma caixa de vidro, na frente de uma plateia. A única diferença é que eu tinha um violino e não um violão.
Encarei todas aquelas pessoas perdidas em bebidas e risos, elas pareciam estar felizes. Ou bêbadas. Alguns amantes nos cantos mais escuros com a luz diurna, outros grupos maiores conversam e fazem brindes apressados e cheios. Era como uma das diversas feiras que eu já tinha visitado, todavia, tinha uma pessoa sequestrada em uma caixa, e aquelas pessoas não pareciam se importar com isso. Gastei um tempo incontável com súplicas de socorro, tentei bater no vidro e almejei ver ele quebrar. Não funcionou, eles não pareciam me ouvir.
Estava tão exausta, tão oca de esperança. Tentei me agarrar à fúria que senti antes, contudo até a raiva dera espaço para uma melancolia de respeito. Deus, se ainda me escuta, o que será de mim? Por favor, me dê a força necessária para me salvar. Eu preciso sair desse lugar e ir para casa. Quem eram aquelas pessoas? Por que Este disse que eu não sabia o que eu era? Onde eu estava? O que era essa espécie de feira? Quem era Wondertale? O que essa plateia alheia estava esperando? O que eu deveria fazer para viver?
Parte de mim queria se arrepender de entrar na floresta, clamando em racionalidade que eu devia apenas ter dado as costas e ido embora. Mas, então, o que a racionalidade é, senão o contrário da loucura? E seria loucura ignorar aquela sensação, olhar em outra direção que não fosse iluminada pelo brilho dourado que eu vi no lago, fechar os olhos para o meu futuro, lutar contra o destino e simplesmente desistir. Nunca poderia ter feito isso, enquanto tivesse um coração pulsante e uma alma inquieta.
Mesmo que eu tenha parado aqui, com nada além de um violino e a incerteza da sobrevivência.
Suspirei em desalento, parada em pé em frente a pessoas que não pareciam me enxergar. Me perguntando como eu poderia ser vista, encarando suas situações sociais se unindo aos poucos. Olhei para o violino e ele pareceu me olhar de volta, um pequeno sorriso em inércia ao começar a puxar as cordas.
Não pude acreditar no que meus olhos me mostravam: o mesmo brilho dourado que encontrei no rio estava saindo das minhas mãos toda vez que eu tocava. A esperança se emaranhou na minha fé, crescendo a cada acorde, a cada segundo. Eu não consegui parar um riso aliviado, enquanto me movia dentro do pequeno espaço, que não parecia mais tão minúsculo assim. Eu ergui a cabeça com uma confiança recém encontrada entre as minhas estranhas, e quase engasguei em todos os sentimentos bons que me agarraram: a plateia parecia me enxergar, seus rostos refletindo uma alegria de cinema.
As palavras de Este abocanharam meus pensamentos: um lugar com mágica. E se a gaiola de vidro fosse enfeitiçada e só pudesse ser vista quando eu fizesse algo… mágico? Ela tinha dito que eu não sabia o que eu era. Talvez se eu pedisse ajuda, eles poderiam ser bondosos.
Abri a boca para gritar, porém nada saiu da minha boca. Tentei com tanta força que podia jurar que minhas cordas vocais sangrariam a qualquer momento. Eles não pareciam ouvir, e eu estaria desolada, mas algo teimoso dentro de mim não me deixou cair aos prantos. Algo que me fazia continuar, prosseguir.
Por mais que assistir aquela cena insultasse a injúria, eu não parei de tocar, rastejando para a morfina que o poder de criar algo maravilhoso proporcionava. A minha primeira mágica: arte.
No meio daquela multidão, uma pessoa se destacou. Um homem de cabelos negros, que parecia estranhamente alheio à multidão em que estava inserido. A maioria das pessoas sempre parecia perdida em meio a muita gente, como se estivesse tentando encontrar alguém que estava segurando a sua mão e se perdeu no mar de pessoas. É quase um paradoxo, tanta gente e não é possível distinguir um rosto na multidão, igual as células que formam o nosso corpo. Porém, aquele homem sem nome e com uma presença tão forte quanto uma cultura aparentava saber para onde ia, ele se destacava em meio a todos. Eu queria tocá-lo, eu queria memorizar ele. Qual seria seu nome? Qual seria sua história?
Então, um clique se deu em minha mente.
Era ele, o homem das minhas visões do rio!

espere pelo sinal e eu te encontrarei depois que escurecer
me mostre os lugares onde os outros te deixaram com cicatrizes




Continua...



Nota da autora: Quem está surtando com red (taylor’s version)? A att atrasou, mas chegou! E o próximo capítulo já está sendo escrito. Obrigada pelos comentários no primeiro cap e não se esqueçam de comentar aqui! XOXO.
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