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Última atualização: 04/09/2021
Music Video: You Calling My Name - GOT7

Prólogo

O som de você chamando meu nome
Eu quero ouvir a sua voz
Eu não sabia o quanto eu te perderia
Por favor, volte
Por favor, me dê mais uma chance
You Calling My Name — GOT7


Seul, 05 de abril de 2019. Universidade de Yonsei.

As sirenes não estavam emitindo nenhum som, apenas a luz vermelha do giroflex refletindo nos prédios em abundância pela quantia exagerada de veículos parados na rua denunciava que ali, no prédio da biblioteca estudantil, a coisa não estava muito boa. Qualquer um que passasse por aquela área naquele momento, seria atingido pela curiosidade absurda para saber o que estava acontecendo na Universidade de Yonsei naquele horário, com o sol brilhando tão intenso quanto o vermelho das viaturas, deixando em redundância a presença da polícia no lugar.
O clima na grande capital coreana não era tranquilo ou como de costume pela rotina de uma cidade grande e povoada por milhares de pessoas, pelo contrário. Desde o sábado anterior à segunda-feira, as coisas estavam estranhas e cercadas por um luto incerto. Incerto porque ainda não se tinha uma resposta exata quanto ao desfecho do desaparecimento de Jeon-Sulkin, a herdeira da maior rede hoteleira de toda a Ásia.
A comoção causada em todo o país e no resto do mundo, por consequência da tecnologia e como a informação consegue alcançar o outro lado do mundo com tamanha facilidade, estava beirando ao surreal. Por mais que fosse filha de um grande empresário, não era tão famosa e nem sua família vivia em holofotes, aquela cobertura toda da imprensa estava acentuando o caso como mais um assassinato — como estavam tratando o fato dela ter desaparecido sem nenhuma prova de vida — a uma mulher.
O que não era um crime, vivendo em um século com seres humanos tão avançados e evoluídos, era cansativo ter que lembrar diariamente princípios básicos uns para os outros. Mas o caso com estava estranho por um outro ponto de vista, pelo menos para quem a via mais de perto e conhecia o mínimo da mulher misteriosa e de atos um tanto quanto inconsequentes.
Em resumo, todos queriam a resposta para apenas uma pergunta: “O que aconteceu com Jeon-Sulkin?”. Não era “onde está” ou “quem a matou”, mesmo que o tópico mais falado fosse sobre seu caso se tratar de um assassinato, mas sim o quê. Porque parecia tudo muito estranho, nenhum corpo, apenas rastros do próprio sangue dela e uma cena de crime muito bem montada, sendo tudo dela e nada de alguém que pudesse ser incriminado.
Porém, como tudo tem um ponto de partida, o da investigação do caso “” iria começar ali, na universidade. E havia dois indivíduos que, no momento em que passavam pelo campo para chegarem à biblioteca, sentiram o frio na espinha, se entreolhando, tendo noção de que quanto mais próximos estavam do local, mais real aquela situação toda se tornava.
não saberia dizer como tudo aquilo havia se iniciado, em que ponto exatamente havia colocado sua amizade com à prova por conta de um interesse comum de ambos na mesma pessoa. Não conseguiria firmar qualquer coisa coerente se fosse questionado sobre o que fazia na noite que a falta de foi dada e seu quarto fora encontrado em completo caos pelos pais na enorme e luxuosa mansão. Assim como não saberia dizer ao certo todas as questões, rodando sua mente apenas como diria aos pais que iria precisar de um advogado dos bons para ajudar ele a se livrar de uma acusação de um crime que, com certeza absoluta, ele não havia cometido. Ele ao menos sabia como convencer os próprios pais daquilo antes que levasse algum sermão.
A única coisa que estavam compartilhando naquele momento era o desejo por saber se estava viva e se a encontrariam para que tudo ficasse bem no final. Do ponto de vista infeliz, inclusive, porque naquele momento a amizade dos dois que vinha desde a infância parecia ser inexistente. O que era bem trágico.
— Vocês dois estão loucos? Não é porque foram chamados que devem ir sem advogado!
A voz ofegante de ecoou entre o silêncio de ambos naquela caminhada. Os dois viraram-se para trás em sincronia, encontrando o outro parado, com as mãos nos joelhos e curvado para frente, controlando a respiração. Sair correndo do prédio em que estava para alcançá-los foi uma coisa que ele fez sem pensar muito, até porque eram seus dois amigos de infância no meio daquela confusão toda. Custaria acreditar que qualquer um deles teria tido coragem ou maldade o suficiente para cometer qualquer ato cruel contra só por não concordarem com as relações dela.
, fica fora disso. É melhor. — A voz de foi a primeira a ecoar de volta.
— Não tem como ficar de fora disso, seu idiota. Você esteve comigo desde sexta à noite até domingo. Qualquer coisa que você diga lá irá me envolver e eu serei chamado também para ser interrogado — disse, revirando os olhos e se colocando ereto.
Mesmo sem trocarem uma palavra sequer, e se encararam. Suspiraram com a ideia conjunta de que não teria como tirar qualquer um dos outros cinco amigos daquela situação. O álibi deles envolvia , , , e , o que não seria incomum para quem os ouvisse, já que os sete eram tão grudados quanto cola de sapateiro em tênis.
— Mas, de qualquer forma, vocês dois são loucos de irem lá sem um advogado — continuou, caminhando os três passos restantes para cessar aquela distância.
Os três olharam em direção ao prédio da biblioteca, hipnotizados com as luzes vermelhas intensas que brigavam com o sol pelo local de reflexo.
— Eu prefiro acabar com isso logo e sem precisar do meu pai, respondeu ao amigo, fazendo um vinco em sua testa. Ele estava sendo sincero; ser filho de pais completamente conservadores era um tanto complicado, não podia simplesmente dizer que estava em um problema como aquele. Perguntas seriam feitas e muitas revelações poderiam ser chocantes.
— E não temos o que esconder, então não tem por que enrolar ou fazer cena — completou o raciocínio.
— Não tem nada a ver com o seu pai ou fazer cena. — Olhou de um para outro. — Vocês estão sendo dois idiotas.
— Mais uma vez! — afirmou, aparecendo com ao seu lado, pelo lado em que eles estavam de costas. — E por que não me surpreende isso ser por causa de Jeon-Sulkin? — Enquanto vocês estão aí, discutindo desculpas, eu só consigo pensar como ninguém ainda se perguntou qual foi o ponto que levou a investigação a chegar aos dois simplesmente do dia para a noite.
Os quatro pares de olhos miraram a direção da fala, encarando e seu café em mãos, como se ele estivesse trazendo uma luz no fim do túnel para qualquer um deles naquele exato momento e não mais um questionamento o qual não saberiam lidar e muito menos encontrar respostas. Naquele círculo sendo formado, que se completou com a chegada de e , só havia um assunto e Jeon-Sulkin com seu desaparecimento trágico era um tópico, mas a consequência do que ela causou na vida dos dois amigos era o principal.
— Aposto na brasileira que vivia andando com ela pelos corredores — respondeu ao que disse , com extremo tom casual. — O quê? — Deu de ombros quando o encararam céticos. — É algum pecado duvidar de alguém?
— Não deveria. Acho que isso seria um bom ponto para que esse tipo de coisa aqui — gesticulou, apontando e referindo-se ao que estavam fazendo ali — não aconteceria.
— E você diz como se fosse a pessoa mais cética do mundo quando se trata de mulher, !
— Pelo menos eu sou um pouco mais seletivo e escuto meus amigos quando eles dizem que não têm bom pressentimento quanto a alguém que estou louco para enfiar meu carrinho, .
Todos ficaram em silêncio e os dois principais protagonistas daquela situação toda se encararam novamente, para em seguida suspirarem e, vendo que eram observados pela investigadora que estava na escadaria do prédio, decidir que deveriam ir logo. Foram acompanhados pelos amigos, obviamente, e quando chegaram ao ponto de encontro com a mulher elegante e carrancuda, a cumprimentaram cordialmente.
— Quem vai primeiro? — ela perguntou, bebendo seu café e os olhando incisiva. e se olharam, não chegando a nenhuma decisão.
— Quem é ? — questionou, vendo que não teria resposta, e ele a olhou imediatamente, se denunciando. — Vamos pela ordem dos fatos. Quem se envolveu com a senhorita Jeon-Sulkin foi você… — Mesmo que não fosse uma pergunta, ele assentiu. — Me acompanhe.
A investigadora se virou, caminhando em passos tranquilos e deixando o café no lixo no meio do caminho que fez da escadaria até a porta, tendo o mais jovem atrás dela.
Antes de passar pela enorme passagem que o levaria para o interior do prédio, olhou para trás, sentindo as mãos dentro dos bolsos de seu sobretudo preto suarem como nunca antes, e encarou os amigos uma última vez. Receber um gesto de força de teria tido o efeito certeiro de cortar aquele clima tenso, mas em uma ocasião diferente. Naquele momento, só o fez limpar a garganta e seguir o caminho. Enquanto observava as costas do amigo se distanciando no corredor extenso, só conseguia pensar e se cobrar por fazer o certo mais uma vez em sua vida. De forma alguma sua família poderia saber sobre ele ter algum grau de ligação com e seu sumiço. Estar sendo ligado a um crime logo no primeiro ano da faculdade seria, no mínimo, de se sentar e ouvir sua mãe o recriminar por horas.
E mesmo que os dois tivessem preocupações um tanto distintas quanto às suas participações naquele caso, inconscientemente eles queriam saber o que havia acontecido não só com , mas também com a amizade de anos que haviam construído, que chegou a ser frágil àquele ponto de não conseguirem trocar palavras de boa sorte para um momento complicado que estavam vivendo.


Capítulo 1

Seul — Coreia do Sul, horário local: 7am.

— O motorista já te aguarda, senhorita Jeon. Devo dizer ao senhor Harang que irá passar na casa de Tuan durante o caminho?
ergueu o rosto para a direção de onde vinha a voz, engolindo seu iogurte com muita dificuldade. Já havia pedido inúmeras vezes para que Minah não falasse uma palavra sequer envolvendo o nome citado, ao menos não perto de seu pai ou qualquer membro da família. Pelo canto do olho, o viu abaixar o jornal e encará-la com o olhar curioso.
— Tuan? Está dando caronas para ? — ele perguntou.
Novamente, lançou um breve olhar para Minah e a empregada apenas se curvou, saindo da sala de jantar em que o café da manhã estava sendo servido.
— O senhor tem algo contra isso? — devolveu com outra pergunta, levando a xícara de chá para a boca, porém sem desviar o olhar. Seu pai torceu os lábios, não era o assunto que ele não gostava, mas aquele tom desafiador de sempre vindo de sua única filha.
— Não tenho nada contra a família Tuan.
— Ah, claro, entendi. Com eles não, mas com a sua filha… — riu fraco, virando o olhar para frente e bebendo o líquido quente.
— Não seja tola, . — Seu pai revirou os olhos, abandonando de vez o amontoado de papéis em sua frente. Poderia ler o jornal depois. — Você sabe que tem o perfil bem diferente do .
— Perfil diferente? — Virou o rosto para ele. — Essa é a sua nova forma de dizer que eu não sou o que você espera que eu seja? Fique tranquilo, senhor Jeon, ou melhor, appa, não irei colocar em risco sua relação com a família de .
Ela não se deu o trabalho de esperar o pai dizer qualquer coisa, já se levantava na segunda pergunta lançada, não olhando para trás ao finalizar sua indignação tão comum e caminhar rumo à saída da mansão. Era mais uma segunda-feira em que e o pai não conseguiram passar ilesos por aquele momento do dia, sendo algo tão comum. Não importava quantos anos ela fizesse a cada primavera, se enxergava como a via de dúvida daquele que a colocou no mundo ao lado de sua mãe, porque, para o senhor Jeon, ter sido criada fora dos costumes coreanos a influenciou em muita coisa, além de desviá-la do propósito: assumir a rede hoteleira da família.
Na verdade, sabia que não tinha nada a ver com ter crescido em um internato europeu, até porque esse pensamento poderia ser auto acusatório para seu pai, uma vez que fora ele mesmo quem a mandou aos treze anos para o colégio interno internacional, Brillamont, na Suíça. E isso foi decidido porque a mãe dela havia desaparecido e nessa situação seu pai se viu tão perdido ao perder o amor de sua vida que chegou ao ponto de não conseguir sequer olhar para a sua garotinha. Então era uma corda bamba em argumentos, se recusava a abaixar sua cabeça porque na história as coisas não foram decididas com base no que ela mesmo queria ou acreditava, a começar por seu pai se apaixonar por uma mulher suíça, sobre isso ela também não tinha culpa nenhuma. Ele simplesmente não poderia puni-la pelas escolhas dele não terem resultado em consequências dentro do mundinho e costume o qual ele fora criado.
Os dois lados, de fato, tentavam escapar pelas beiradas de enfrentar que uma hora ou outra deveriam se entender ou pelo menos dizer o que lhes incomodavam. Mas nem e muito menos seu pai se sentiam dispostos, era sempre a mesma coisa, qualquer comentário feito gerava aquele mal-estar e vinha carregado com uma nuvem escura. Terminava com ela batendo portas no rosto dele, ou saindo sem sequer olhar para trás com um rumo não tomado, pelo menos ainda não tinham alcançado a fase de gritos. não tinha paciência para passar por mais de cinco minutos em uma discussão e também gastar sua voz com gritos, fosse com qualquer pessoa, não era uma de suas atividades favoritas; enquanto seu pai ficava sempre sem saídas, sentindo-se culpado demais para ser mais severo, mesmo que tentasse sustentar seus pontos. No fim, era como se andassem em círculos e não saíssem do lugar.
Ela não dizia e ele também não.
Acontecia o que mais uma vez aconteceu por aquela manhã: saindo apressada em direção à saída, pegando seu material da faculdade com pouco caso e dispensando o motorista, enquanto seu pai permanecia sentado à mesa, tentando concentrar-se novamente no jornal. Enquanto isso, os funcionários tentavam ao máximo não demonstrar a eles o julgamento que faziam, comentando como o “patriarca” — na visão mais conservadora e retrógrada, claro — não tinha uma mão firme com a filha e que ela era tão mimada quanto uma patricinha de Beverly Hills no outro lado do mundo, assim como mostravam os filmes.
Porém não se importava, ela tampouco ligava para o que o próprio pai iria dizer ou fazer, sempre o desafiando, certamente.
— Senhorita Jeon, me perdoe — Minah a dizia, acompanhando-a pela saída da enorme mansão. — Eu não tive a intenção de causar um-
— Minah! — Ela se virou bruscamente, chocando-se com a outra, que estava em seu encalço. Vendo a feição medrosa de Minah, suavizou a sua própria, respirando fundo. — Fique tranquila, você não teve culpa de nada. — Suas mãos foram para os dois ombros dela, uma em cada, e dizia calmamente. O toque, porém, mais uma vez deixou Minah petrificada; não era de seu costume ter o espaço pessoal tão “invadido” assim.
abaixou suas mãos, recolhendo-as na altura de seu peito, fechando-as em punhos. Comprimiu os lábios e sorriu com eles fechados, assentindo.
— Se meu pai perguntar, diga que hoje não volto para casa.
Deu a volta para entrar no carro, do lado do motorista, ouvindo de Harang, parando ao lado de Minah na beira da escadaria da varanda de entrada, que “mais uma segunda-feira estava sendo iniciada com as coisas em órbita”. Resolveu ignorar, ela, de fato, não podia dizer que ele estava errado, já que, tão certo quanto o amanhecer, era seu café da manhã terminar — ou não, já que ela não tinha se alimentado por completo — como começou.
Ao dar a partida no motor do veículo, seu celular emitiu o som da notificação tão comum e ela pôde ler o nome de sua mãe, com a mensagem que ela menos gostava de ler: “estarei em Seul no final de semana”. Mais um motivo para que saísse dali a toda velocidade.


🔍


O intervalo na Universidade de Yonsei era comum, talvez um pouco fora do que se via nas instituições mais tradicionais de Seul que não eram voltadas também para o ensino internacional, com uma grande massa de alunos estrangeiros, porém, ainda assim, uma universidade igual às outras, com calouros e veteranos como todos os outros lugares. Com grupo de amigos, pessoas menos próximas, aqueles que se odiavam, os que julgavam ou até mesmo os que não se importavam com o alheio. E de bônus uma grande quantia de diversidade, o que poderia ser dado como a variante, o diferencial de Yonsei.
Mesmo que o ensino fosse acima da média e reconhecido a nível mundial por sua qualidade, ainda possuía seus núcleos como todos os outros, afinal não é possível controlar uma grande massa de pessoas, principalmente jovens da nova geração. E, a partir disso, a universidade tinha, sob os olhos de muitos alunos, aquele perfil menos robotizado, ainda que tivesse o padrão “normal” de categorias conhecidas.
Tuan era o nerd um tanto introvertido em seu grupo de amigos que, depois de anos estudando no mesmo colégio, conseguiram entrar também na mesma instituição universitária. Depois dele, tinha e , ambos com o jeito mais solto e extrovertido, eles, por exemplo, tiveram mais facilidade e foram mais populares com as garotas na época escolar, mas não tanto quanto , esse sim era o grande nome de sucesso no flerte, mesmo que não estivesse tentando. Enquanto, e eram os mais tranquilos, talvez estivessem em cima de uma própria linha tênue que delimitava um pouco de todos os extremos de personalidade. E, por último, tinha e, bem, ele possuía um jeito tanto peculiar, mais subjetivo, não era tão extrovertido, nem mesmo igual Tuan, recluso; em resumo, era .
E, dentro desse formato, em todo intervalo de aula eles se reuniam. Ainda eram calouros, no primeiro ano de seus respectivos cursos, sendo estudante de administração de negócios, e do curso de música, de bioquímica, de bioengenharia e e em ciências computacionais. Então, como em todos os dias, estavam se unindo em algum lugar do campus aos poucos, assim que o início daquela pausa entre uma grade de aulas e outra começava.
Dentre todos ali, era o mais observador, por seu jeito próprio, e podia jurar que naquela segunda-feira estava diferente, não que fosse incomum ele estar quieto e focado em alguma leitura de qualquer matéria complexa de seu curso, mas porque ele realmente parecia distante. A todo momento, desviava o olhar para os lados, como se procurasse por alguém e, se não o conhecesse tão bem, poderia dizer que estava ansioso pela chegada de com , que sempre iam comprar algo para comer naquele período. Porém, não parecia estar esperando os dois.
— De repente você fica ansioso por e ? — perguntou para o amigo, tomando sua atenção.
— Não. Estou apenas pensando — respondeu, bloqueando a tela de seu Kindle.
— Pensando sobre o que exatamente?
Respirou fundo, sabendo que não teria como se livrar dos questionamentos de . Ele não era tão insistente, mas seu olhar e seu jeito eram incisivos, até mesmo nas coisas mais simples. Se ajeitou na cadeira em que estava, cruzando os braços e encostando mais a coluna no encosto, com as pernas esticadas abaixo da mesa e cruzadas. Seus pés se moviam em um ritmo frenético, denunciando uma ansiedade. o encarava com certa expectativa, mesmo que tivesse paciência para esperar pelo tempo do outro.
— Você não acha — olhou para os lados, vendo que , e conversavam sobre algum jogo novo que o computador de mesa deles poderia suportar — estranho Jeon-Sulkin ainda estudar aqui?
— E por que seria? — O amigo franziu o cenho.
— É uma universidade com estudo internacional e renomada. — Ele apresentou seus pontos, ainda na mesma posição. — Além do nível, o qual não está nenhum pouco dentro.
— Você está julgando alguém, Tuan? — questionou incrédulo. — O que aconteceu para, de repente, você passar a ser cético com a herdeira da maior empresa hoteleira de toda a Ásia?
revirou os olhos com tal pergunta. De fato, era muito estranho ele assumir uma postura de julgamento, sabia disso, mas não conseguia limitar os pensamentos desde que ajudou com alguns conteúdos de matemática, os quais ela precisava de uma boa melhorada por conta das provas que se aproximavam. Sabia que isso foi enfrentado por ela de forma mais obrigatória, já que ela não parecia muito interessada e quem fez o pedido fora um professor em comum que tinham. Na primeira vez que ela chegou à sua casa e prestou atenção, ele achou que estava certo sobre como o julgamento em cima dela era excessivo, mas, dois dias depois, quando ela já estava um pouco menos interessada em sua ajuda, notou que algumas coisas faziam sentido. E passaram a fazer mais depois da última semana que tiveram.
Não saberia dizer com certeza quando e muito menos como, mas em algum momento, ele estava dentro de um círculo com Jeon-Sulkin lhe fazendo se sentir diferente do que normalmente sentia-se, não só com ela, mas com o todo. De uma forma fora do comum e esperada, ele parecia próximo dela. Recebeu caronas, almoçaram juntos algumas vezes e até mesmo passaram tardes na casa dela assistindo filmes, porém tudo sendo feito sempre em segredo, já que ela não queria que as suas famílias entrassem no meio daquela nova amizade com nenhum olhar de interesse, uma vez que seu pai sempre expressava o interesse de comprar um dos grandes e mais majestosos terrenos da família Tuan a fim de construir mais um hotel em Seul. No fim, de um dia para outro, não o respondia mais e ele não sabia o porquê. Ela muito menos teve o bom senso em mandar uma mensagem para ele, cancelando os planos que tinham feito juntos de acampar no final de semana.
Então talvez, pela sua perspectiva, não devia ser de fato tão estranho que estivesse julgando os comportamentos tão conhecidos de . Da que todos conheciam e ele achou que fosse um exagero de padronização, até ter sua própria experiência. Entretanto, seus amigos não sabiam sobre isso, então não podia simplesmente jogar naquele momento para eles a informação sobre os últimos quinze dias em que viveu a montanha-russa de Jeon. Não era sobre ela ter tido uma criação fora da cultura de seu pai, até porque sua mãe era suíça, e isso muito menos deve servir como parâmetro para diferir o caráter das pessoas — pelo menos no ponto de vista dele —, se tratava de como em um momento ela pareceu ter total responsabilidade com o que estava fazendo com ele e de repente ter jogado tudo isso para o vento.
Era sobre observar as situações.
— Não é julgamento, é uma observação. — Deu de ombros, desviando o olhar para um ponto qualquer. — Veja só, ela sequer veio para as aulas do primeiro turno.
— Mas isso não cabe a você julgar. Veja só — repetiu o que o amigo disse, olhando para a mesma direção —, em nosso grupo de sete pessoas, temos três não coreanos. E aqui é uma universidade de estrangeiros. Se você está falando sobre isso, deve lembrar que a exceção foi aberta não só para ela por ser quem é.
ficou em silêncio, perdido em seus próprios pensamentos. Ele não iria dizer exatamente como o julgamento em cima de estava lhe assombrando, não podia externar como que estava se frustrando ao começar a notar que esteve errado por um bom tempo e que, de fato, o julgamento alheio era o correto — embora odiasse esse padrão das pessoas de umas julgarem as outras.
— Esquece isso — disse, por fim, em seguida sentindo duas mãos serem colocadas em cima de seus ombros.
— Esquecer o quê? — A voz alta de foi ouvida.
disse com indiferença. O que era comum, se fosse feito um levantamento dos sentimentos de cada um dos alunos de Yonsei, ele seria um dos únicos a não possuir qualquer empatia por ela ou coisa parecida; para ele, era uma pessoa qualquer como todos e não tinha nada nela que o chamasse a atenção.
— Ah… Qual é o motivo da vez? — disse, sentando-se ao lado deles. — Desde que você a ajudou com aquela coisa de matemática, está diferente.
— O que ela fez para nosso ? — questionou, sentando-se na outra cadeira, do lado direito de . — Falando nisso, ela não veio outra vez para a aula e justamente a de matemática. — Levou um de seus cookies à boca, dizendo enquanto mastigava: — Você foi o encarregado de fazê-la gostar de números, não o contrário.
Ele abriu a boca para dizer algo, mas foi cortado pela voz de , que se sentava ao lado de .
— Como se alguém fosse capaz de educar . Se os pais dela não fizeram isso, como teria que se responsabilizar? — Deu de ombros. Enquanto tinha indiferença por ela, já dizia aos quatro ventos que não gostava mesmo e pouco se importava de esconder isso.
— E por que de repente estamos gastando nosso intervalo para falar sobre uma pessoa que não agrega em nada na nossa vida? — questionou.
Os seis trocaram olhares, partindo dele para uns aos outros e então, depois do breve silêncio e um estalar de língua de , a voz de ecoou:
— Podemos falar sobre como ainda é segunda-feira e eu não vejo a hora de ir embora desse lugar na sexta e poder beber até esquecer meu nome-
— Na festa do nosso querido ? — , até então concentrado em seu celular, ergueu o rosto para cortar o amigo, animado.
— Obviamente. — sorriu.
Os sete assentiram com a única concordância daquele momento: a festa que faria em sua casa no final de semana, aproveitando a viagem de seus pais. Sua mãe e seu pai não eram tão rígidos, eles sabiam muito bem dos planos do filho para a sexta-feira e que poderia se estender pelo sábado, a única exigência deles era que ele tentasse não chegar com a festa-barra-bagunça até o domingo, pois seria o dia de retorno dos dois e também o momento de descanso até mesmo para , devido ao dia letivo na próxima segunda-feira. Para muitos, esse modo parecia liberal demais, mas quem conhecia a família mais de perto ou tinha um certo contato maior com , sabia que era a consequência de uma criação fundada na confiança e respeito. Tanto ele, quanto a irmã dois anos mais nova, tinham essa relação sólida com os pais.
O que enfatiza a existência da diversidade em tudo.
, por exemplo, era filho de pais conservadores que tinham horror a qualquer termo existente na nova geração. Ainda era bem limitado, mesmo com sua maioridade, no primeiro ano da universidade, e totalmente independente, depois do sucesso em sua criação de uma plataforma de armazenamento seguro de dados para empresas, criada pouco antes do final de seu ensino médio.
No momento em que estavam concordando, os olhos dos que estavam sentados de frente para a saída do prédio captaram a entrada muito bem observada e acompanhada de . Ela estava da mesma forma de sempre: sorridente, óculos de sol mesmo no dia nublado, roupas pretas e com a tão comum calça jeans de rasgo no joelho, os cabelos poucos bagunçados e caminhava em direção à mesa que tinha suas amigas.
— Pelo menos ela não vai perder o segundo turno — disse, mordendo o primeiro pedaço de uma maçã. Seu comentário trouxe a atenção de todos de volta.
— Alguém sabe me dizer desde quando a vida de se tornou nossa preocupação? — perguntou, levantando-se após checar seu relógio e notar que faltava pouco tempo para cruzar o campus e chegar ao prédio de suas aulas.
Seguindo os passos dele, os demais também começaram a se levantar e organizar as coisas para partirem para o mesmo rumo.
— Espero que não se importem, mas foi exigência dos meus pais que a Jeon fosse convidada para sexta.
Todos pararam com o comentário de e travaram em seus respectivos lugares, encarando-o de forma cética.
— O que foi?
— Ei! ! — apareceu ao lado dele, vindo por trás, antes mesmo que sua pergunta fosse respondida. — Espero que não se importe, mas eu convidei algumas pessoas para a sua festa na sexta, ok? — ela disparou, pendurada nos ombros dele e sorrindo. — Bom dia, rapazes. Vejo vocês sexta à noite, certo?
deixou um beijo na bochecha de e, tão rápido quanto chegou, saiu. Mais uma vez, eles se entreolharam, buscando alguma reação uns dos outros, sem sucesso. Somente a voz de fez eles retornarem à órbita.
— Eu não me importo nem um pouco em ter na sua festa sexta à noite, muito menos dela levar algumas pessoas.
— Ah, por favor. Tenha decência e me poupe desse sorrisinho, ! — reclamou, com uma careta. — Seja seletivo, cara, pelo seu próprio bem. quebraria seu coração em pedacinhos sem ao menos se esforçar — finalizou, movendo a cabeça negativamente, iniciando sua caminhada.


🔍


Não era comum as festas de durarem mais do que um ou dois dias, até mesmo porque normalmente a quantidade de pessoas que iam à sua casa não passava de no máximo vinte ou vinte e cinco. Porém, graças a , sua festa teve mais do que o comum e, consequentemente, durou muito mais. O sábado acabou por emendar o que se iniciou na noite de sexta e o domingo inteiro ainda não foi o suficiente para que descansasse. O resultado disso bateu extremamente forte não só nele, mas em todos, no domingo. Era mais uma dia de aula com a manhã nublada e carregada de cansaço; em silêncio, os sete foram se juntando no mesmo lugar de sempre, na entrada do campus. Talvez o único deles que ainda tinha um pingo de energia possível para emanar fosse .
— Vocês já foram melhores — comentou, jogando uma balinha para dentro de sua boca. Dentre todos, ele fora o único a ir embora ainda na sexta-feira para casa.
— Diz o cara que foi para casa às onze da noite porque queria tomar um chá.
— Meu caro, iniciou, passando um braço pelo ombro dele, enquanto segurava o pacote de balas com a outra mão. — Eu disse que iria tomar um chá, mas não te disse qual. Quer mesmo saber?
— Credo, não. Definitivamente, ninguém aqui quer saber — se intrometeu, com careta. — Nos poupe, por gentileza.
Novamente, o silêncio se fez presente. , entretanto, prestava muita atenção em como e sequer trocaram qualquer palavra de cumprimento. Era totalmente incomum os dois não conversarem, não só por serem da mesma turma e estarem sempre juntos nas manhãs de aulas, até mesmo conversando sobre matérias e coisas que tinham bem em comum. Talvez ele tiraria o restante do tempo juntos em Yonsei para analisar mais como os dois iriam tratar um ao outro, já que, em seu breve retrospecto do final de semana, o tempo que esteve junto a no sábado e domingo, não soube sobre nenhum acontecimento entre eles.
A não ser que não tenha o contado sobre.
— Ninguém vai compartilhar como foi o final de semana? — tentou iniciar o assunto para que alguma coisa fosse dita entre eles.
— Não.
A resposta conjunta de e , que se entreolharam e desviaram o olhar, foi o suficiente para que tivesse a certeza de que tinha algo acontecendo. Porém não seria ele a entrar como mediador dos amigos naquele momento, também estava cansado e com pouca paciência para qualquer assunto sobre isso. Se tratava de dois homens adultos que sabiam muito bem o que faziam, não tinha que entrar no meio e querer abraçar uma causa como se fosse um salvador da pátria.
O horário para início das aulas deu a eles o aviso de que deveriam juntar toda e qualquer energia restante, mesmo que distante e quase intocável, para se moverem em direção ao interior do prédio. e seguiram para o segundo prédio, enquanto os demais foram para o primeiro; a caminhada deles era mais longa, porém fora feita em completo silêncio. Naqueles poucos metros que andavam, se despediu do amigo e parou em uma máquina de café, comprando o seu descafeinado de sempre. Notou, pelo canto de olho, parado ali, ainda na entrada do prédio, que do lado de fora algumas viaturas da polícia se movimentavam do outro lado do campus, parando em frente à biblioteca estudantil. Franziu o cenho, pegando seu copo e mantendo o olhar na direção das sirenes. Do outro lado, diretamente da porta do primeiro prédio naquele terreno, pôde ver e saindo, iniciando uma caminhada pelo gramado em direção à biblioteca.
— Mas que…
— Ah, que bom que você está aqui ainda! — parou logo atrás dele, o assustando e cortando seu devaneio.
— O que é aquilo? — apontou com a mão que segurava o café.
— Alguma coisa aconteceu na sua festa para os dois serem suspeitos no desaparecimento de — o amigo disse, um tanto ofegante, provavelmente por ter saído de sua sala correndo.
— Como assim? Desaparecimento? — Franziu o cenho, totalmente confuso.
foi dada como desaparecida no final de semana, depois da sua festa. A polícia está tratando isso como um possível homicídio.


Continua..



Nota da autora: Olá, primeira att no ar! Já sabem: deixem o comentário aqui, é muito importante saber a opinião de vocês! E até a próxima. Aqui embaixo tem os links para acompanhar nas redes sociais e também o grupo de leitoras :)



Nota da beta: Mas, gente, lógico que eu já amei e estou louca para desvendar esse assassinato. Meu Deus, quantas tretas! Eu tô louca por mais hehehe. Você arrasa sempre, meu bem.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.
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