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Finalizada em: Maio/2024

Prólogo

Hazel

A dor queimava como o inferno. Gritei, mas era como se eu estivesse sozinha no escuro e ninguém pudesse me ouvir. Tentei me debater, mas era como se meus músculos estivessem atrofiados. Então, por que eu não morria? Assim a dor passaria e eu poderia descansar.
Hazel! — Escutei a voz de uma mulher no escuro. — Corre!
Tentei correr, mas não consegui mexer um músculo. De repente, uma luz azul muito forte apareceu, me cegando.
Hazel! Por favor! Não!
A voz soltou um grito agudo e...
Hazel! — Abri meus olhos e vi Allan segurando meus ombros. Ele estava com os olhos arregalados e parecia assustado.
— A-Allan... O que...
— Você estava chorando, gritando e se debatendo na cama — disse, me ajudando a sentar. — O que houve?
Estávamos numa pousada em uma cidadezinha pequena do interior do Texas. Havíamos acabado de queimar um ninho inteiro de vampiros e queríamos descansar antes de procurar a próxima caçada.
— Eu não sei, eu... — Senti algo muito estranho dentro de mim, como um aperto no coração. — Tinha uma... uma mulher, me chamando e ela... Ela começou a gritar e... eu...
Comecei a chorar incontrolavelmente. Allan me abraçou e eu molhei a camisa dele com lágrimas. Mas não importava o quanto eu chorasse, a dor continuava dentro de mim e eu não sabia nem explicar o que aconteceu.
— Tudo bem, Hazy — disse Allan, me dando um beijo na testa. — Você está acordada, já passou.
A sensação passou assim que ele beijou minha testa. Consegui me acalmar e me sentar direito na cama, secando as lágrimas do meu rosto, ainda soluçando um pouco. Coloquei a mão sobre a cicatriz prateada que saía do lado direito do umbigo e terminava na metade das costas. Dei um gemido de dor e me joguei pra trás.
— Está doendo? — Allan perguntou.
— Um pouco — menti. Doía mais do que nunca. — Deve ser porque estava me debatendo na cama...
Allan concordou com a cabeça. Não queria preocupá-lo disseendo que a dor era infinita. Ele me trouxe um copo d'água e eu comecei a me sentir um pouco melhor, tentando ignorar a dor.
— Me sinto o Harry Potter — falei. Sempre fomos fãs. — Sonhos estranhos com uma mulher berrando e uma cicatriz que eu não sei de onde veio.
— Fora os pais que você não conhece — disse Allan, sem pensar.
— Obrigada — eu disse, com voz irônica.
— Me desculpe, escapou. — A reação dele me fez rir e senti mais uma pontada do lado direito, mas fiz o possível pra não demonstrar aquilo.
O que estava acontecendo comigo?


Capítulo Um

Allan

Que estranho... Hazel nunca foi de ter pesadelos. Na verdade, quanto a isso, ela sempre foi mais forte do que eu.
Enquanto estávamos no carro, notei que ela encarava a janela sem realmente olhar pra fora, como se estivesse com o pensamento longe.
— Hazy — chamei. Ela nem piscava. — Hazel!
— Oi! — ela falou, se assustando.
— Onde você está? — perguntei. — Pensando em mim?
— Engraçadinho. Não, eu... Estou só um pouco distraída.
— Quer falar sobre alguma coisa?
Estávamos na cidade de Denver, no Colorado. Vimos num jornal, dois dias antes, que uma adolescente morreu engasgada com as teclas do computador. Depois, uma amiga da garota ficou inchada porque as entranhas explodiram dentro dela quando ela foi eletrocutada pelo MP3.
Não era o tipo de coisa que acontecia todos os dias, então fomos ver o que estava acontecendo.
Mas Hazel estava esquisita desde que chegamos. Sempre olhando para o nada e o pesadelo daquela manhã não foi o primeiro. No dia anterior, ela me disse que sonhou que segurava uma faca cheia de sangue preto e esfaqueava um homem enquanto uma mulher gritava em desespero.
O estranho era a coincidência.
Estávamos em Denver. A cidade em que meu pai encontrou Hazel quando éramos crianças. Foi lá que tudo aconteceu. Ela perdeu seus pais e ganhou uma cicatriz misteriosa. Será que uma coisa tinha a ver com a outra?
— Será que eles ainda estão por aí? — ela perguntou, interrompendo meu monólogo interno.
— Quem?
— Meus pais.
Eu não tinha resposta. No nosso trabalho, sabíamos que não era nada estranho duas pessoas simplesmente desaparecerem de forma sobrenatural. Mas já fazia quase vinte anos. A chance de eles estarem mortos era grande.
— Não sei, eu...
— Allan — ela disse, ficando séria. — O que você acha? Acha que eles estão vivos?
Eu olhei pra ela e suspirei. Não podia mentir pra ela, mesmo que eu quisesse.
— Eu acho difícil de acreditar — disse. — Você disse que viu uma luz forte e eles desapareceram. Não acho que eles ainda podem estar por aí.
— Achei que você fosse disseer isso. — Ela baixou a cabeça e se acomodou no banco.
— Me desculpe.
— Tudo bem... — ela disse. — Eu também acho difícil eles ainda estarem vivos.
Ela se esticou e ligou o rádio para encerrar o assunto. Estava tocando Billie Jean, do Michael Jackson. Ela começou a bater nas pernas no ritmo da música, mas eu percebi que ela ainda estava triste.
— ..."be careful of what you do" — comecei a cantar. Quer disseer... Eu tentei. — "And don't go around breaking young girls' hearts"! Iiiiih! Mother nanana, "be careful of who you love, and be careful of what you do, 'cause nananananana" Ehey! Eu não me lembro da letra, Hazy!
Ela me olhou torto e tentou disfarçar que estava me achando ridículo, mas acabou entrando na brincadeira e me humilhou, cantando com uma voz meiga — e que sabia a letra inteira.
Billie Jean is not my lover, she's just a girl who claims that I am the one! — cantamos. Eu tentei acompanhar com alguns "nãnãnã", o que fez ela rir mais do que cantar. — But the kid is not my son. She says I am the one, but the kid is not my son! Ih, ih, ih!
Ela não continuou porque não conseguia parar de rir. Eu fingi que sabia cantar até chegarmos à casa da vítima. Eu queria parar e recuperar minha dignidade, mas se eu parasse de cantar, Hazel ia parar de rir e eu não queria que ela parasse.


Capítulo Dois

Hazel

— É aqui — eu disse, tentando respirar direito após um ataque de riso.
Allan desligou o carro e nós descemos. A casa era branca e pequena. Batemos na porta e uma menina jovem — mais ou menos uns quinze anos — atendeu.
— Posso ajudar? — Ela era baixa, tinha cabelos e olhos escuros e parecia abatida e cansada.
— Somos os agentes Potter e Prior — disse Allan, mostrando a identidade falsa. — Estamos investigando as mortes de Sara Key e Lily James. Será que podemos entrar?
Ela permitiu e nós entramos e nos sentamos no sofá que ela indicou.
— Você é irmã de Sara? — perguntei.
— Sim. Meu nome é Carly — ela disse, com a voz triste.
— Pode nos descrever o que houve com a sua irmã? — perguntou Allan.
— Bom... — Lágrimas começaram a escorrer dos olhos dela. — Eu estava no meu quarto, então ouvi Sara tossir muito alto e fui ver se ela queria um copo d'água, ou algo assim... E, quando a vi, ela estava...
Eu olhei para Allan e ele respirou fundo antes de ouvir a continuação da história.
— Ela estava caída no chão, com os olhos esbugalhados e com... sangue... escorrendo pela boca. — Ela desabou num choro escandaloso. — As teclas do teclado estavam em volta dela, todas sujas de sangue e ainda tinha uma... es... escorregando pelo canto da boca!
— Eu sinto muito — falei, um pouco impressionada.
— Onde estão seus pais? — perguntou Allan.
— Minha mãe está em tratamento pós-traumático e meu pai está trabalhando. — Ela secou as lágrimas, soluçando.
— Será que podemos ver o quarto da sua irmã? — perguntei. Ela fez que sim com a cabeça.
O quarto era azul e tinha pôsteres de vampiros góticos, bandas de música ruim e de um garoto que não parecia ter mais de doze anos. O chão branco ainda estava manchado de sangue e havia placas e faixas indicando que a polícia esteve ali mais cedo. Carly não quis entrar.
Allan pegou o EMF e procurou por algum sinal de qualquer coisa. Eu comecei a revirar as coisas da menina para ver se encontrava um saquinho de bruxa, enxofre ou ectoplasma.
Olhei em baixo da cama, nas gavetas, no guarda-roupa...
— Nada — disse Allan, desligando o EMF.
Concordei, frustrada.


Capítulo Três

Allan

Como não encontramos nada na casa de Sara, decidimos passar para a próxima. Mas eu não me sentia muito otimista.
— Saindo de lá, podemos ir ver o corpo delas no necrotério. Pode ser que a gente encontre alguma pista — falei, saindo da casa de Sara.
Hazel concordou, entrando no carro.
Quem nos recebeu na casa da outra adolescente era um garoto de mais ou menos uns dezoito anos. Ele era alto e tinha um cabelo escuro jogado na cara. Se parecia muito comigo quando eu tinha essa idade, na verdade.
Ele encarou Hazel de cima a baixo e sorri.
— Posso ajudar?
— Você conhecia Lily James? — perguntei, fazendo o pivete olhar pra mim.
Pivete? Acho que estou ficando velho...
Ele ficou sério e me olhou.
— Depende de quem pergunta.
— Somos os agentes Potter e Prior, do FBI. Estamos investigando as mortes dela e de Sara — disse Hazel, mostrando o distintivo falso.
— Ah, sim... — disse ele, encarando Hazel. Ela nem mudou de expressão. Parecia ignorar a forma como ele olhava para ela.
— Conhece a garota ou não? — perguntei, ficando irritado com a pose do moleque. Estava tentando diminuir a minha vontade de meter um soco na cara dele.
— Ela era minha irmã caçula — ele disse. — Entrem.
Nós o acompanhamos até a cozinha, onde sentamos e ele nos serviu copos com água.
— Seus pais não estão? — perguntou Hazel.
— Minha mãe está no quarto e não fala com ninguém desde a morte da Lily... E meu pai... Bem, eu também gostaria de saber onde ele está.
— Sabe explicar o que houve com a sua irmã? — perguntou Hazy.
— Foi um acidente, não foi? — ele disse, confuso, mas sem parecer acreditar nas próprias palavras. — Quer disseer... Ela foi eletrocutada pelo MP3! Essas coisas acontecem o tempo todo, não é?
— Bom, já que a melhor amiga de Lily morreu de uma forma estranha, talvez não tenha sido um acidente — falei. — Temos que considerar todas as opções. Lily tinha algum inimigo? Na escola, talvez...
— Talvez. Ela era o tipo "garota popular". — Ele fez aspas com o dedo e revirou os olhos. — Sempre saía com os jogadores de futebol, era líder de torcida e era muito bonita. Mas tinha problemas com uma garota da sala dela... Marta... Maria... Sei lá! Uma garota esquisita. A mãe dela ligou alguns dias antes de Lily morrer. Queria que ela deixasse a menina em paz.
— Acha que essa menina ia querer fazer algum mal pra sua irmã?
— Não sei. Pode ser — disse.
Depois de investigar o quarto da menina, fomos embora. Sem EMF, sem saquinho de bruxa... nada. Assim como a casa da outra garota.
O necrotério não ficava muito longe, então decidimos ir direto para lá. Queríamos examinar o corpo de Sara e o que sobrou de Lily.


Capítulo Quatro

Hazel

Estávamos sentados em um banco na sala da recepção do necrotério. A sala cheia de azulejos brancos, pessoas de jaleco que passavam de um lado para o outro e cadeiras desconfortáveis de metal. Eu estava concentrada em arrancar pedaços da minha unha, quando Allan resolveu puxar assunto.
— Então... — começou.
— Então...? — perguntei.
— Estou entediado — ele disse, dando de ombros. Eu sorri.
— Por que não vai dar em cima da balconista?
Ele olhou para a mulher concentrada no computador. Uma mulher que aparentava uns vinte e poucos anos, de cabelos curtos e louros. Ela já havia dado algumas espiadas em Allan por trás da pilha de documentos no balcão.
— Não estou no clima — ele disse, sorrindo. — E você Hazel? Há quanto tempo não...?
— O doutor Lewis vai atendê-los agora. — A recepcionista se levantou e nos encaminhou até uma sala ao lado.
A sala era branca, longa e tinha gavetas grandes e quadradas por toda a parte, onde eles guardavam os corpos. Tinha umas três macas para exames e uma mesa do outro lado com vários arquivos, onde um homem estava sentado, assinando alguma coisa. Assim que nos viu, se levantou e veio até nós.
Ele era alto, tinha cabelos negros e olhos verdes. Não devia ter muito mais de trinta anos. Ele sorriu e estendeu a mão para nos cumprimentar. Não vou negar que ele chamou minha atenção. O sorriso dele era lindo e deu pra notar que ele escondia um corpo muito bonito embaixo daquele jaleco. Não que eu estivesse pensando naquio.
Allan o cumprimentou primeiro, com uma cara de poucos amigos, e eu tentei não o encarar diretamente enquanto ele estendia o braço pra me cumprimentar. O tal doutor Lewis me olhou e abriu um sorriso de parar o trânsito, mas eu fiquei envergonhada demais pra devolver.
— São os agentes Prior e Potter, do FBI, não é? — Concordamos com a cabeça. — Sou o doutor Thomas Lewis.
— Prazer — disse Allan, soando meio falso.
— Vieram ver o corpo de Sara Key, não é? Estão lá atrás, venham comigo.
Nós o seguimos pelo longo corredor branco e paramos em frente a duas gavetas numeradas. Ele abriu a primeira e revelou o corpo da garota. Estava coberta com um lençol branco, mas, quando ele tirou, pudemos ver que era Sara. Sua boca estava machucada e roxa, o pescoço estava inchado e havia um corte próximo à clavícula.
— Ela engasgou mesmo com as teclas do computador? — perguntei, sem olhá-lo.
— Sim — disse Thomas. — Achei muito estranho o que houve com ela. Tirei tecla por tecla da garganta, estavam todas presas na laringe. Não consigo imaginar como elas foram parar lá. Não havia nenhuma substância tóxica no organismo... Nem álcool, nem drogas... Estamos começando a cogitar suicídio. Por mais absurdo que pareça...
Ele puxou o lençol mais para baixo, revelando o tronco nu da garota. O tórax dela ainda estava inchado, com outra cicatriz no peito. Reparei que havia uma marca acima do seio esquerdo dela. Era o desenho de uma chama dentro de um círculo. Antes de eu fazer alguma pergunta, o legista a cobriu de novo.
— Eu também examinei o corpo da amiga dela, Lily. Querem ver? — ele falou, sério.
— Ãh... Acho que sim — disse Allan, estranhando a pergunta.
Nós o acompanhamos até uma das macas onde o corpo de Lily estava à mostra. Ele ainda a estava examinando. O corpo estava inchado, meio arroxeado e cheio de feridas, como se estivesse prestes a explodir.
— Achei muito estranho as entranhas explodirem assim após um choque por MP3 — Dr. Lewis explicou. — Principalmente porque, ao que tudo indica, ele nem estava ligado a um computador, tomada, ou qualquer fonte de energia.
— Acha que a bateria pode ter entrado em curto? — perguntou Allan.
— Talvez, mas um choque desses não faria um estrago tão grande dentro dela — respondeu. — Os órgãos estavam completamente liquefeitos.
Ele começou a explicar algo sobre a intensidade necessária para fazer os órgãos da menina explodirem daquela forma e Allan fingia entender. Enquanto isso, eu reparava em uma marca no braço inchado do cadáver: a mesma da outra garota.
Depois disso, colocamos as luvas e começamos a procurar por pistas no corpo das vítimas, mas encontramos um grande nada.


***


Lewis nos acompanhou para fora do necrotério e parecia muito interessado na investigação. Parecia frustrado por não entender o que havia acontecido com as garotas.
— Acho que entendo o motivo do FBI estar interessado nessas mortes — ele disse. — São realmente esquisitas as formas como essas garotas morreram. Brutal e bizarro.
— Também achamos — disse Allan, mal-humorado.
— Vocês já têm alguma ideia do que pode ter acontecido?
— Ainda não — falei. — Mas se o senhor achar mais alguma coisa estranha em um dos corpos, entre em contato com a gente, ok?
Peguei um cartão escrito "Hazel Prior – FBI" e meu celular. Ele pegou, leu e sorriu.
— Pode deixar, Hazel. — Ele sorriu e voltou para a sala.
Com cara de boba, olhei para Allan, que me encarava emburrado.
— Posso atirar nele?
— O quê? Por quê? — perguntei, sem saber se dava risada ou não.
— Não viu o jeito como ele olhava pra você?
— Ele não estava olhando pra mim! — Fiquei vermelha.
— Meu Deus, Hazy! — Ele soltou uma risada sarcástica.
— O que foi?
— Vai dizer que nunca repara quando os caras olham pra você? Em todos os lugares por onde passamos? Sério?
Ele abriu a porta do carro e me encarou antes de entrar.
— Eu não. Eu reparo em você me olhando. — Ergui uma sobrancelha e cruzei os braços. Ele pareceu surpreso com meu comentário, mesmo nunca tendo feito o menor esforço para não ser notado.
— Certas coisas são difíceis de não olhar. — Ele piscou pra mim e entrou no carro, rindo.
Revirei os olhos, ignorando.


Capítulo Cinco

Allan

Decidimos ir até a biblioteca. Eu estava rindo de Hazel, que dava pulinhos pra alcançar a prateleira de livros. Me aproximei dela e peguei sem nem esticar o braço. Ela revirou os olhos e pegou o livro da minha mão, bufando.
— Certo, vamos ver com o que estamos lidando — ela disse, jogando o livro em cima de uma mesa próxima. Criaturas do submundo.
— Por que não vamos até a casa das meninas e procuramos saquinhos de bruxa? — perguntei. — São essas merdas que gostam de engasgar gente com objetos inusitados.
— Eu sei, mas fiquei intrigada com aquele símbolo marcado no corpo das meninas — ela respondeu. — Estavam marcadas a fogo... bruxas não costumam deixar essas marcas. A não ser que elas tenham sido marcadas antes de morrerem, o que não acho que foi o caso.
— E foi o Thominhas quem te disse isso? — perguntei, fazendo uma voz de bebê.
— Thominhas? — Hazel ergueu a sobrancelha. — Não, eu mesma deduzi. Estavam vermelhas e parecia que o sangue ainda não tinha coagulado. Duvido que o Dr. Lewis tenha dado muita atenção pra isso... eram marcas do tamanho de moedas.
Nos sentamos e Hazel começou a folhear o livro. E já que eu não sabia exatamente o que ela estava procurando, fiquei apenas observando-a ler durante vários minutos.
Eu não costumava encarar, mas me distraí olhando pra ela e, quando voltei à realidade, Hazel estava me olhando com cara de poucos amigos.
— O que foi? — Tentei disfarçar.
— Eu é que pergunto! — Ela deu um sorriso sem graça. — Você fica aí me encarando enquanto eu faço todo o trabalho!
— Ah! — falei, constrangido. Espera. Constrangido? — Desculpa.
Decidi me levantar e procurar algum outro livro. Encontrei um com o título semelhante ao que Hazel estava lendo e me sentei ao seu lado pra ler.
Uma hora...
Duas horas...
Três...
Chega, eu não aguentava mais.
— Hazy... — comecei. Antes que eu conseguisse reclamar da minha fome sem tamanho, ela jogou o livro do tamanho de um elefante em cima de mim.
Encarei as páginas. Na primeira, havia um símbolo, o mesmo marcado nas garotas. Na segunda, havia um desenho de uma menina nova — que devia ter uns doze... treze anos — em cima de uma carruagem guiada por cabeças decapitadas. Ela usava um kimono vermelho, tinha cabelos pretos, lisos e longos e olhos vermelhos. Havia fogo em volta dela. Logo abaixo da imagem lia-se:
"Nós livraremos seu rancor."
No topo da primeira, tinha o título "A Dama do Inferno" e abaixo, preenchendo cada pedaço das duas páginas, havia um texto enorme.
Peguei o livro da mão dela e comecei a ler:

"A Dama do Inferno é uma entidade espiritual com um passado trágico, que vive em um mundo de crepúsculo eterno e sua tarefa é enviar almas para o inferno, uma tarefa que ela tem realizado há mais de 400 anos. Embora esta tarefa seja apresentada como castigo, se desconhece se alguma vez ela vai ser libertada.
Há 400 anos, em uma aldeia camponesa, havia um ritual para dar boa colheita, onde uma menina de sete anos devia ser sacrificada a cada sete anos como oferenda para os Deuses. Enma Ai foi escolhida para o sacrifício e, mesmo depois de morta, jurou amaldiçoar toda a vila, então entregou sua alma ao Senhor Do Inferno, jurando fechar seu coração para qualquer sentimento.
Em troca disso, se vingaria da vila e vingaria o rancor dos outros. Se ela não cumprisse sua tarefa, as almas de seus entes queridos vagariam no Inferno para sempre.
Ela saiu do seu túmulo depois de um tempo e se vingou de toda a vila com seu ódio, reduzindo-a às cinzas.
Agora a tarefa de Enma era levar 8 mil almas para o Inferno em 1000 anos, realizando as vinganças daqueles que a pediram."


Encarei o livro por alguns segundos. Hazel parecia empolgada.
— Acha que é isso que estamos caçando?
— Acho que é tudo o que temos por enquanto — disse Hazel. — Se esse símbolo estava nas duas meninas, pode significar que elas se envolveram com isso de alguma forma... Mesmo que seja apenas alguma bruxaria burra de adolescente, acho que vale a pena perguntarmos ao Mestre dos Magos.
Saímos da biblioteca e fomos comer um x-qualquer-coisa num restaurante ao lado. Lá, decidimos que Hazel iria para a escola das meninas conversar com alguns adolescentes e eu iria para o hotel tentar falar com o "Mestre dos Magos" e passar mais algumas horas fazendo pesquisas na internet sobre a pirralha vingativa.


Capítulo Seis

Hazel

— Olá. Posso ajudá-la? — disse a mulher. Ela era alta, magra e velha. Usava um crachá escrito "diretora Parker" no terninho.
— É a diretora, não é? — perguntei, tirando o distintivo do bolso. A senhora concordou com a cabeça. — Sou a agente Prior, do FBI.
— O que o FBI faz aqui? — ela perguntou, depois revirou os olhos e suspirou. — O Kevin anda vendendo drogas de novo?
— Bom, não…, mas com certeza eu vou querer dar uma olhada nesse garoto — menti. — Estou investigando a morte de Sara e Lily.
— Ah sim — ela disse. — As garotas do terceiro ano...
— Será que posso falar com alguns alunos? — perguntei.
— Claro, me acompanhe.
Andamos por um corredor longo, gelado e vazio. Então chegamos até ao laboratório, de onde se ouviam risinhos e conversinhas.
— É aqui — ela disse, abrindo a porta.
A conversa parou no momento em que entramos. Notei que a turma estava dissecando sapos.
— Com licença, professor Lewis — disse a diretora.
Então eu olhei para o professor. Sim, era o legista gostoso. Thomas Lewis. Ele sorriu pra mim e eu tentei não corar quando reparei que ele ficava muito melhor sem aquele jaleco branco e a toquinha de hospital. Agora ele usava uma camiseta azul escura e uma calça jeans. Acho que perdi o ar por alguns segundos. Tentei sorrir de volta, mas saiu uma coisa tão torta que eu senti que ele daria muita risada da minha cara se não estivéssemos trabalhando.
— Alunos, professor, essa é a agente Prior, do FBI — disse a diretora, me apresentando. — Ela está investigando as mortes de Lily e Sara.
Comecei a ouvir uns cochichos e duas alunas começaram a chorar — ou a fingir choro, não tive certeza.
— Só quero fazer algumas perguntas — falei, tentando soar formal. — Vou tentar ser rápida para não interromper a aula do professor.
— Tudo bem, quem você vai chamar primeiro? — perguntou a diretora.
— Eu gostaria de conversar com os amigos. Se tiver uma lista com os nomes deles, vai me ajudar bastante.
— Ok, você pode usar a sala 123, que está desocupada hoje — disse ela.
Então lá vamos nós.
Jeremy disse que ninguém jamais machucaria duas garotas tão legais quanto elas. Anna disse que achava tudo isso um absurdo e chorava o tempo todo. Lucy disse que as duas eram fofoqueiras e populares. Victor disse que ficava com Lily de vez em quando, mas que não imaginava que alguém pudesse fazer algo tão absurdo com ela. Tiffany, a melhor amiga das duas, chorou o tempo todo e disse que, se alguém pudesse querer machucar Lily e Sara, seria Mary Wilkerson.
— Mary Wilkerson — chamei, na porta da sala. Todos me olharam com os olhos arregalados e se voltaram para o fundo do laboratório. Uma garota de moletom cinza, cabelos loiros bagunçados e cabeça baixa estava cutucando seu sapo com um lápis. Ela me olhou assustada e se levantou, devagar. No meio do caminho, um garoto colocou o pé e fez Mary tropeçar. A sala toda começou a rir e Thomas se levantou de sua mesa, fazendo todos calarem a boca.
— Não entendo o que você vê de tão divertido em ficar na detenção, Caleb — disse Thomas, ajudando Mary a se levantar. Ela veio até mim, contendo lágrimas.
— Tudo bem? — perguntei a ela. Ela soluçou e fez sim com a cabeça.
Olhei feio para o garoto que a fez tropeçar e ele devolveu um olhar apavorado. Quase me fez rir.
Na sala onde eu fazia os interrogatórios, Mary mantinha a cara de choro. Não parecia ser o tipo de menina que machucava os outros, mas parecia ter motivos pra querer vingança.
— Eles pegam muito no seu pé, Mary? — perguntei.
Ela acenou com a cabeça.
— Por quê? — Ela me respondeu dando de ombros. — Lily e Sara também?
Ela ergueu o rosto e me olhou com dois olhos azuis arregalados. Mary era uma garota muito bonita e tinha um rosto meigo.
— Mary, preciso que fale comigo.
— Elas... — ela falou, com uma voz rouca. Vi lágrimas escorrendo pelo seu rosto e ela voltou a soluçar. — Elas... Elas...
Eu passei o braço por cima de seu ombro e ela desabou. Dava soluços altos e não reprimia um choro bem escandaloso. Parecia que ela guardava isso há muito tempo.
— Tudo bem, pode chorar. É bom botar tudo pra fora — falei. Ela foi se acalmando aos poucos e enxugando lágrimas que não paravam de escorrer.
— Elas me b-batiam às ve-vezes — ela falava, soluçando. — Tiraram fotos minhas no vestiário... Colocavam coisas no meu armário... para me assustar...
— E agora elas estão mortas.
— E tudo só piorou — ela disse, voltando a chorar. — Eu não vou negar que fiquei aliviada quando soube da morte delas. Me senti mal por isso depois, mas achei que as coisas mudariam. Mas todos estão colocando a culpa em mim! Agora eles me machucam mais e colocam bilhetes no meu armário me chamando de... de assassina e... dizendo que eu vou para o inferno...
Fiquei com muita pena de Mary. Ela parecia uma boa garota. Ninguém merecia passar por aquele tipo de coisa. Às vezes adolescentes são tão imbecis!, pensei.
— Já falou com alguém sobre isso? — perguntei.
— Não... Da última vez que tentei, colocaram alfinetes no meu agasalho para me machucar quando eu vestisse.
*INSIRA QUALQUER PALAVRÃO AQUI*.
Quero bater em algumas crianças.
— Sabe de alguma coisa que pode me ajudar? — perguntei, sem querer prolongar a conversa.
— Bom, elas... elas tinham um blog... — Ela esticou o braço, pegou uma folha de papel de cima da mesa e começou a escrever. — Elas falavam muita coisa ruim nele... sobre muitas pessoas. Pode ser que encontre alguma coisa lá.
Peguei o papel e li o nome do site: "As Diabinhas". Não fiquei surpresa.
Mary ia se levantando, mas eu a parei antes de sair.
— Não conte a ninguém que eu te dei isso, tá legal? — falei, tirando do bolso uma arma de choque que ganhei de Allan no meu aniversário de 12 anos. — Você precisa mais do que eu. É só apertar aqui. Quando quiser carregar, abra essa tampa e coloque na tomada, entendeu?
Ela pareceu relutante no início, mas pegou a arma e me deu um sorriso muito bonito.
— Obrigada.
— Por que eles te provocam tanto? — perguntei.
— Não sei. Desde o primário é assim — ela disse. — Acho que eles só precisam de alguém para fazer com que se sintam superiores, ou não gostam de quem é diferente.
— Devia contar para alguém. Um cara que eu admiro muito sempre me ensinou que ninguém pode te fazer sentir inferior sem a sua permissão. Esse cara era o pai de Allan, James.
Ela sorriu e eu retribuí. Então escondeu a arma de choque no bolso, enquanto saía da sala. Fui atrás dela e notei que os corredores estavam cheios de adolescentes correndo para todos os lados. Acompanhei Mary com os olhos e ela foi em direção à sala da diretora.
— Hazel! — Ouvi alguém me chamar.
Olhei para trás.
— Dr. Lewis — falei, sorrindo.
— Pode me chamar só de Thomas — ele disse. — E então, como está indo com o caso?
— Bom, ainda é cedo pra dizer — falei, caminhando pelo corredor, com ele ao meu lado.
— Você não me diria se houvesse algo, não é? — ele perguntou, rindo.
— Hum, não — falei, rindo também. — Mas você não me disse que conhecia Lily e Sara. Nem que era professor.
— Bom, é mais um passatempo. Gosto de dar aulas. E eu não disse nada porque você não perguntou. — Ele parecia sem graça. — Mas eu posso te contar muita coisa sobre esses alunos.
Nós paramos em frente à sala dos professores — vi a inscrição na porta.
— Hazel, eu não quero parecer atrevido, mas... — ele começou. — Se não estiver muito ocupada com o caso, quer sair para fazer alguma coisa hoje à noite? Podemos ir jantar ou só dar uma volta por aí...
— Adoraria — falei. — Eu estou hospedada no hotel Misuree.
— Legal, então... Às oito?
— Perfeito — falei, sorrindo.
Ele devolveu o sorriso e entrou na sala.
Fazia tempo que ninguém me convidava para qualquer tipo de encontro. Então fiquei bem empolgada.
Saindo da escola, consegui ver Mary no pátio. Ela estava parada em frente a um menino caído no chão, agonizando.
— E fique longe de mim! — ela gritou. Notei que ela segurava a arma de choque.
Com um sorriso que dava pra ver até de costas e cheia de orgulho, fui embora.


Capítulo Sete

Allan

— Vai sair com ele? — eu falava mais alto do que gostaria.
— Qual é o problema? — Hazel dizia, enquanto escolhia alguma roupa na mala. — Você não me vê escolhendo as mulheres com quem você transa, Allan. Eu tenho todo direito de sair com quem eu quiser.
— Mas... — Eu não tinha argumentos. Apesar de Hazel não gostar, eu sempre ficava com quem eu queria e nunca pedi a opinião dela. — Você nem...
— Não tem nada de "mas" — ela disse. — Eu vou sair com ele e pronto! Só quero me divertir um pouco, como você faz! Não vou me casar com ele! Nem fazer algo de que me arrependa no dia seguinte! Não precisa se preocupar!
— E o que eu vou ficar fazendo até você voltar? — falei, querendo puxar briga.
— Sei lá — ela disse, calma. — O mesmo que eu faço enquanto você sai com outras pessoas. Eu trabalho, durmo, vejo televisão...
Eu olhei para ela, indignado.
— Tudo bem, faz o que quiser — falei, enquanto ela entrava no banheiro pra se arrumar.
Algum tempo depois, ela apareceu, pronta, usando um vestido que eu nem sabia que ela tinha. Era preto e discreto, mas deixava evidente cada curva do corpo dela. Ela deixou os cabelos ruivos soltos e colocou um sapato preto de salto alto. Não colocou muita maquiagem e passou um perfume incrível com cheiro de morango com chocolate. Perfeita. Cada detalhe nela me tirava o fôlego. Eu devia estar ficando louco, mas doeu em mim poder olhar sem poder tocar.
Hazel estava perfeita. E para outro cara.
Ela sentou na cama e, como uma adolescente indo para o baile da primavera, esperou ele ligar. Uns minutos depois, o celular tocou. Ela me deu um beijo na testa e saiu, sorridente. Não me surpreendeu que estivesse tão animada, ela nunca saía com cara nenhum.
Antes que as imagens de como seria o encontro dos dois começassem a aparecer na minha mente, eu me sentei na frente do computador e comecei a fazer algumas pesquisas. Sabíamos quem era a Dama do Inferno, mas aquilo não era o suficiente. Não havia casos parecidos na América. Pelo menos nada recente.
Decidi entrar no site que Hazel me deu. As Diabinhas.
O site era horrível. Rosa, com desenhos de flores, corações e ídolos adolescentes por todos os lados... Tinha uma foto de Lily, Sara e mais uma garota que eu não reconheci. Mas o foco eram as coisas escritas. Palavrões, xingamentos, desabafos... Elas contavam ali literalmente tudo sobre a vida delas. Sobre as garotas que elas odiavam, os caras com quem transaram, as fofocas sobre todos na escola... Deviam ser pessoas bem desagradáveis. Para não usar palavras piores.
Bobby — o Mestre dos Magos — ainda não tinha dado retorno sobre a Dama do Inferno, mas disse que ia dar uma procurada. Decidi descobrir quem era a terceira garota. O site dizia que o nome dela era Tiffany Torn.
Depois de um tempo, cheguei à conclusão de que ela podia ter alguma razão pra querer as amigas mortas. Pelo que estava escrito em uma postagem antiga no blog das Diabinhas, Tiffany estava afim de um tal de Peter. E alguns dias depois, Sara postou um texto enorme falando sobre como foi a noite que passou com Peter e, no final, agradecendo a Lily por tê-los apresentado. Do jeito que aquelas garotas eram fúteis e idiotas, era bem capaz de Tiffany ter ficado com ciúmes e feito alguma coisa pra se vingar das outras duas.
Cara, eu passei tempo demais nesse blog adolescente cor-de-rosa. Precisava fazer alguma coisa de macho.


Capítulo Oito

Hazel

Resolvemos jantar. O lugar era simples, mas bem aconchegante. Nos sentamos de frente um para o outro e perto de uma parede, longe da parte mais movimentada do restaurante. Ele tentou ser um cara de classe e pedir um vinho e um prato que ele não sabia pronunciar o nome, mas ficou aliviado quando eu pedi cerveja e lasanha, pedindo o mesmo para ele.
Thomas era um cara simples. Morava sozinho com seu cachorro, trabalhava o tempo inteiro, assistia futebol aos domingos enquanto comia pizza e gostava de viajar. Ele também era divertido e inteligente. Era o tipo da pessoa com a qual eu não estava acostumada, mas gostei de conversar com ele. Não fiquei entediada nem por um instante.
— … então eu acabei passando o final de semana preso na enfermaria da universidade — ele contou, rindo.
— Tudo por causa de uma iniciação de uma irmandade? — Perguntei, rindo também.
— Ah, eu tinha dezoito anos e tinha acabado de entrar na faculdade. A gente faz coisas idiotas nessa idade — ele disse, dando de ombros. — Mas e você? Eu narrei quase toda a minha biografia, mas você não me disse muita coisa sobre você.
— Bom eu... Nasci aqui em Denver — falei, tentando bolar algumas mentiras. — Perdi meus pais quando era criança e fui criada por um cara muito legal. Eu, ele e o filho dele nunca ficamos num lugar só. Sempre viajando... A trabalho, claro. Então, eu não tenho muita coisa para falar da minha vida.
— Mas se vocês viajavam muito, deve ter muitas histórias boas pra contar — disse.
Tenho, mas acho que você não vai querer saber, pensei. Falar que caçava monstros toda semana não era uma boa ideia num primeiro encontro.
Simplesmente dei de ombros em resposta.
— Aquele cara que está trabalhando no caso com você... Ele é seu amigo há muito tempo?
— É sim, por quê?
— É que... No início, eu achei que vocês tinham uma... Bom, uma relação fora do trabalho — ele disse, meio sem graça.
— Sério?
— Deve ser o jeito como ele olhava para você lá no necrotério — disse Thomas.
— Não, deve ter sido impressão sua. — Eu tentei rir também. — Eu conheço o Allan e ele não é esse tipo de cara.
Thomas concordou com a cabeça e ficou me olhando, sorrindo, por alguns segundos.
— Sei que não viemos aqui a trabalho, mas... — comecei, cortando o silêncio. — Eu interroguei aqueles jovens hoje e não encontrei nada de útil. Você não tem nada pra mim?
Ele suspirou.
— Bom, eu não sei nada além do que eu contei a você no necrotério — ele disse. — Mas tem um boato idiota correndo o colégio e eu soube que é por isso que estavam botando a culpa em Mary Wilkerson.
— Que boato?
— É um site que executa vinganças — ele disse. — Você entra, digita o nome de uma pessoa que perturba você e uma mulher aparece pra te vingar. Dizem que o site só abre a meia-noite
— Seria um tipo de espírito? De alguma lenda japonesa? — perguntei, sem pensar.
— Eu não sei — ele falou, rindo da minha pergunta. — Eu não fui atrás para saber, só ouvi os alunos falarem sobre isso alguns dias antes das meninas morrerem. Agora estão dizendo que, porque Lily e Sara incomodavam Mary, ela entrou nesse site e o usou para se vingar delas.
— Entendi... Coitada da Mary — falei, cortando o assunto.
Depois disso, nós falamos sobre outras coisas... filmes, livros, coisas engraçadas que aconteceram... Me diverti muito conversando com Thomas e ainda consegui uma informação sobre o caso que poderia ser bem útil. É claro que ele não levou minhas perguntas a sério, mas foi porque ele não acreditava. Se soubesse as coisas com as quais eu e Allan lidamos todos os dias...
Pouco antes da meia-noite, ele me levou até o hotel. Foi comigo até a porta e eu não o convidei para entrar por razões óbvias: Allan estava lá. Eu pensei em sugerir que fôssemos ao apartamento dele — se o Allan pode, por que eu não? —, mas um pequeno detalhe me fez perder a coragem e eu pedi que ele me acompanhasse até o hotel.
Eu parei na porta do hall e ele parou uns dois degraus abaixo, sorrindo.
— Foi divertido, Thomas — falei.
— Vamos sair de novo? — ele perguntou. — Quanto tempo vai ficar na cidade?
— Não muito tempo... Assim que resolvermos o caso, vamos embora.
— Hum... — Ele franziu a testa. — Será que é muito errado eu querer que demore para vocês resolverem?
— Um pouquinho — falei, rindo. Ele devolveu aquele sorriso que... misericórdia. Senti um aperto no peito. Gostei de passar aquelas horas com o Thomas. Se não fosse o meu trabalho, ele era o tipo de cara que eu ia querer namorar. Mas meu estilo de vida não era aquele que você poderia simplesmente largar, não é?
Me virei para entrar no hotel, mas Thomas segurou meu braço com gentileza e me puxou para um beijo um tanto quanto inesperado. Eu retribuí o beijo e ele colocou os braços em volta da minha cintura, me abraçando com firmeza. E nós ficamos ali até eu precisar de uma pausa para respirar. Uau!
Me afastei, sorrindo que nem uma adolescente boba, e entrei no hotel. Então, ele foi embora.


Capítulo Nove

Allan

Hazel entrou sem dizer nada e se jogou na cama com um suspiro alto. Eu estava cochilando em cima do notebook e acordei assustado com o barulho da porta. Faltavam alguns minutos para meia-noite em ponto.
— E aí? Como foi? — perguntei.
— Foi ótimo.
— Ele beijou você?
— Como é que é? — ela perguntou, se levantando e me encarando.
— Quero saber até onde esse cara foi.
— Isso não é da sua conta — ela disse. — Aliás, eu consegui uma informação pro caso. Aproveite que o notebook tá ligado e pesquise aí o site da Dama do Inferno.
— O quê? — perguntei.
— Rápido, antes que passe da meia-noite! O site só funciona à meia noite! — Ela parou atrás da minha cadeira e eu pesquisei o que ela pediu, ainda meio grogue por causa do sono.
Apareceu, logo de primeira, um site com um nome japones... "Jigokutsushin". O título do site era "Hotline to Hell".


Capítulo Dez

Hazel

Assim que Allan abriu o site, apareceu uma chama e, em seguida, uma barra pra escrever alguma coisa. Em cima, se lia "Nós livraremos seu rancor."
— Mas isso... — ele começou.
— Acho que já sabemos como as pessoas entram em contato com ela — falei.
— Fala sério... Agora demônios da encruzilhada usam a internet para fazer pacto? — Ele deu um suspiro e um sorriso, mas num segundo fechou a cara e me encarou. — Espera! Foi ele quem lhe falou sobre isso? — Allan pronunciou a palavra "ele" com tanto desprezo que me fez rir.
— Foi sim — falei.
— Não fui com a cara dele desde o início. Vai saber se não é ele mesmo que está invocando aquela vadia para matar um monte de adolescentes? Numa dessas, foi ele mesmo quem criou esse website!
Ri ainda mais alto.
— Allan, percebe o absurdo que está dizendo? — falei, me controlando para não rir ainda mais. — Por que ele ia querer...?
— Vai defendendo o Thommy, vai... Até ele te...
Thommy? — Eu comecei a chorar de rir. O apelido em si não foi nada perto da cara de criança birrenta que Allan estava fazendo.
— Ué, o cara colocou as mãos em você e nem te pediu para chamá-lo de Thommy? Chuchu? Benzinho?
Eu sentei no chão para rir e minha barriga começou a doer. Allan me encarava sério. Quando finalmente me acalmei, ele apenas levantou as sobrancelhas.
— Já acabou? — ele perguntou.
— E você? — perguntei, me levantando. — Por que acha que ele colocou as mãos em mim?
— Ah, não se faça de inocente... — ele disse.
Ele parou e me olhou. Levantei as sobrancelhas com um sorriso desafiador.
Já sei onde ele quer chegar.


Capítulo Onze

Allan

Fiquei encarando Hazel por alguns segundos antes de criar coragem para perguntar.
— O que foi? — Ela tentou disfarçar, mas estava ficando vermelha.
— Não, é que... Você já ficou com vários caras nas nossas viagens, não ficou?
— E por causa disso eu tenho que ir para a cama com todos eles? — Ela me olhou feio. Acho que se ofendeu. — Eu não gosto da ideia de sair com um cara sendo que no dia seguinte vou estar saindo da cidade para nunca mais voltar, Allan.
— Eu entendo..., mas você já...? — Sentia alguma coisa subindo pela minha garganta. Achei que ia vomitar. Ela era a pessoa mais importante na minha vida. A imagem de alguém tocando nela era assustadora. Só de pensar nisso já sentia o sangue ferver.
— Claro que sim, Allan. Não seja idiota. — Ela interrompeu meus pensamentos. Tentei ignorar a imagem mental que surgiu quando ela disse que já transou com alguém. — E eu não me importo. Diferente de você, eu não sinto prazer em levar qualquer um para a minha cama.
— Tudo bem, mas... Por quê?
— É que... — ela começou, notei seu rosto ficando vermelho. Então notei sua mão pousando em cima da barriga, exatamente no lugar da cicatriz prateada.
— É a cicatriz?
— Eu não quero ter que ficar respondendo perguntas para cada um que tirar a minha blusa, entende? — Ela parecia envergonhada.
— O último cara fez isso? Quem foi? — Por instinto, conferi se a minha pistola estava presa na calça.
— Não..., mas o último cara era... você sabe, ele entendia. Só que eu nunca tive coragem de mostrar para outra pessoa. Alguém de fora. Por isso, eu prefiro me envolver só até certo ponto. Se for para ir mais além, prefiro que seja com alguém que eu conheça e confie... — De repente, eu que fiquei irritado.
— Não entendi — falei.
Ela quis dizer que não confia em mim, era isso? Ela confiou em outro caçador, um cara qualquer... Ela fez uma expressão de alguém que acabava de levar um susto.
— Deixa para lá. — Sem me deixar responder, ela foi até o banheiro. Não ouvi barulho de chuveiro ligando ou qualquer coisa.
Como assim "deixa para lá"? Eu a conhecia há anos e ela nunca escondeu nada de mim. O que era aquilo agora?


Capítulo Doze

Hazel

... — Eu prefiro me envolver só até certo ponto. Se for para ir mais além, prefiro que seja com alguém que eu conheça e confie! — Então eu engasguei, mas acho que ele não percebeu.
— Não entendi — ele disse, sério.
— Deixa para lá — respondi. Ele parecia irritado. Me virei e me tranquei no banheiro. Pensando na conversa estranha que tivemos, encostei na porta e fechei os olhos por alguns instantes. Não achei que fosse chegar a esse ponto. Eu nunca havia me preocupado com esse tipo de assunto. Sempre fui mais do trabalho do que de romances passageiros. De repente, o Allan simplesmente começou a me interrogar, querendo saber da minha vida sexual! Eu tentei parecer firme, mas estava nervosa. Nunca tínhamos conversado sobre isso antes... claro que eu já me envolvi com outro cara. Como ele era caçador, não ficou apavorado ou fazendo perguntas sobre a minha cicatriz.
O Allan sempre foi a pessoa mais importante na minha vida. Por isso eu travei depois de me ouvir falando que só me envolvo com quem eu conheço e confio. Só existe uma pessoa que se encaixa nessa categoria, e essa pessoa é o Allan.
Decidi tomar um banho para me ajudar a pensar. Não demorei muito. Mais relaxada, saí do banheiro e, sem olhar para Allan, guardei minhas coisas na mala e deitei na cama, virada de costas para ele. Ele não pareceu se importar. Simplesmente entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Alguns minutos depois, ele saiu, vestido, jogou a toalha em cima da cadeira, pegou o celular, a arma e saiu do quarto sem dizer nada.
— Idiota — falo. Então fechei os olhos.


Capítulo Treze

Allan

Peguei as chaves e olhei pro carro, mas guardei as chaves de volta no bolso e fui andando mesmo. Não demorei muito pra encontrar um bar. Entrei e já me sentei no balcão, com as mãos no rosto.
— Aposto que o problema é mulher — disse o barman.
— Pior. É uma caçadora — respondi. Ele não pareceu entender, mas riu. — Me vê algo forte.
Ele trouxe um copo e encheu de Whisky. Virei e senti a garganta queimar. Ele encheu de novo e eu repeti o gole.
— Então, qual é o problema com a tal caçadora? — perguntou, enchendo o copo de novo.
— Acho que eu tô ficando maluco — falei. — Parece que, se eu não encher a cara e arrumar briga ou... — Eu ia dizer "matar alguma coisa", mas repensei. — Caçar... ela é tão irritante e agora resolveu ficar toda apaixonadinha por esse doutor qualquer coisa. Meu estômago tá embrulhado, acho que vou ficar doente.
O barman soltou uma risada alta. Olhei pra ele com cara de idiota.
— Garoto, nunca se apaixonou na vida? — disse. Continuei com a cara de idiota, como se ele estivesse falando grego. Ele riu ainda mais alto e encheu meu copo mais uma vez. — Beba.
Virei o copo e fiquei esperando-o continuar.
— Então, há quanto tempo conhece a garota?
— A vida toda — respondi.
— E se importa com ela? — Ele encheu o copo de novo e eu fiz que sim com a cabeça. — Quanto?
— Eu morreria por ela — respondi, automaticamente. — Não sei o que seria capaz de fazer se alguém a machucasse. Da forma que fosse.
— Seria capaz até de matar? — perguntou.
— Matar? — Dei risada. — Não é nada perto do que eu faria.
Ele me encarou por um segundo.
— Você me lembra muito um cara que veio aqui beber as mágoas há uns vinte e poucos anos. Ele tinha uma história e tanto. Nunca me esqueço de uma boa história. Esse cara tinha pinta de cowboy... não me lembro o nome dele, mas ele também disse que caçava. Você se parece um bocado com ele.
Não pode ser.
— Ele disse que havia uma moça que não saía de sua cabeça. Que ele faria o que fosse preciso pra mantê-la segura e feliz. Mas que, em pouco tempo, ele precisou ir embora porque seu trabalho não permitia que ele se envolvesse.
— E o que disse a ele?
— Disse que a gente só se apaixona uma vez. — Ele sorriu. — Mas não o convenci a voltar pra ela. Pelo que sei, ele foi embora.
Ele me encarou por alguns segundos.
— Que coisa... — Foi tudo o que consegui dizer. Acho que esse tipo de problema com mulheres devia ser hereditário.
— Mas e a garota? — disse o barman, enchendo meu copo pela última vez antes de guardar a garrafa. Notei que ele havia trazido um copo pra ele e um para um homem que se sentou do meu lado. Este já estava muito bêbado.
Vote dissê uma coissa, gagoto — disse, com uma voz arrastada e grogue. — Muguegues só traguem pgobemas. A xente se paixona e elas foxem com nosso caforro.
— O quê? — falei, rindo.
— Suzan foi embora de novo, Billy? — perguntou o barman. Enquanto o homem desabafava seus problemas amorosos, eu olhava em volta. Notei que o bar estava quase vazio. Tentei ver as horas, mas estava zureta demais pra enxergar.
Então foisso — concluiu o tal Billy. — Mas quano eu supear isso, vopa farra com vodka, poker e postutas.
Engasguei com a bebida quando fui rir.
— Bom, garoto... — disse o barman, se voltando pra mim. — Devia dizer pra essa moça o que sente por ela. A parte toda.
— E por que você acha que ela ia acreditar em mim? — Eu já não pensava direito, só respondi o que me veio à mente.
— Já lhe deu razões pra não acreditar em você?
Isssssaí, gagoto... — disse Billy. — Seje home. Chega nela e dix que quer o cassogo de volta.


Capítulo Catorze

Hazel

Acordei e olhei o relógio. Eram cinco da manhã. Olhei pro lado, procurando por Allan, mas ele não estava na cama.
— Allan? — chamei. Mas ninguém respondeu. — Cadê aquele idiota...?
Me levantei, fui até o banheiro, me arrumei e saí sem tomar café. Não tinha nenhuma ligação no meu celular e o recepcionista do hotel me disse que Allan não voltou. Fui até o lado de fora e notei que ele não levou o carro, mas estava com a chave, então tive que ir procurar por ele a pé.
Andei umas cinco quadras. Perguntei para as pessoas na rua, lojistas e ninguém sabia de nada. Andei mais um pouco. Até que...
You know I caaaan't smiiile withoooout yooou. — Escutei a voz de Allan, cantando, com um pequeno acompanhamento. Segui as vozes até chegar a um bar. A porta estava aberta, mas não tinha nenhum cliente.
— Ai, meu...
Allan estava abraçado a dois homens, segurando garrafas de whisky, e eles balançavam o corpo de um lado para o outro, dançando.
I feeel glaaad when yoooou're glad, I feel saaad when yooou’re saad... If yooou only knew... Dadaan dadadaaan I just cant smiiiile...
— Allan! — eu gritei, interrompendo a música.
Allan olhou para mim, sorrindo, e se aproximou cambaleando, com a garrafa na mão.
— Hazy! — ele gritou. Senti o cheiro forte de álcool. O idiota devia ter passado a noite toda bebendo.
É essa a moxinha? — perguntou um dos homens.
— Vejo que falaram bastante sobre mim, não é?
— Fala pra ela, cara! — disse um dos homens.
— Hazel... — Allan olhou para mim, levantou uma sobrancelha e aproximou a boca da garrafa na sua, como um microfone.
You came along just like a song, And brighten my day... — Allan começou, com a voz embargada. Se não fosse o ritmo, eu não reconheceria a música. Era mais uma estrofe de Can't Smile Without You, do Barry Manilow. Os dois homens atrás dele assobiavam no ritmo da música, descompassadamente.
— Eu vou te matar.
And now you know I can't smile without you, I can't smile without you, I can't laugh and I can't sing... — Allan apontava pra mim. Então os homens atrás dele se abraçaram e começaram a dançar algo parecido com um can-can, jogando as pernas de um lado para o outro, e os três começaram a cantar juntos, embolando um pouco a letra.
Antes de eles chegarem à metade do trecho, eu agarrei o braço de Allan, largando a garrafa em cima de uma mesa e o puxando para fora do bar.
— Acho que já é o bastante, não acha? — falei. Ele passou um braço por cima do meu ombro e fomos cambaleando para fora do bar.
Mas é xério, Haxy... — ele disse, com uma voz arrastada. — If you only knew what I'm going through, I just can't smile without... — Antes de terminar, ele vomitou no meio da calçada e desmaiou. Me desequilibrei com o peso dele, mas consegui segurá-lo.
— Porra, Allan! — gritei.
Arrastei ele até chegar ao hotel. Demorou um bom tempo pra isso, já que ele é muito pesado. O recepcionista me ajudou a carregá-lo até o quarto e me perguntou se precisava que ele chamasse um médico, mas eu neguei. Com dificuldade — e nojinho — apenas troquei as roupas vomitadas dele.
— Allan, você me dá muito trabalho — disse, olhando pra ele, desmaiado na cama.


Capítulo Quinze

Allan

Minha cabeça dói. A luz do sol na minha cara dói. Minha garganta arde. Tenho um gosto horrível na boca. Não quero abrir os olhos.
— Allan. — Ouvi a voz de Hazel. A voz dela fez minha cabeça doer mais.
— Para de gritar — falei.
Ela riu e eu senti que meu cérebro ia explodir. Me levantei com dificuldade e percebi que estava só de cueca.
— Hazel! — falei. — O que aconteceu?
— Fui atrás de você hoje cedo porque você não estava na cama — ela disse, ligando o notebook. — Você estava num bar aqui perto e eu consegui te trazer pra cá. Você vomitou no meio do caminho e depois desmaiou.
Coloquei a mão no rosto.
— Eu te disse alguma coisa estranha? — perguntei, me lembrando de alguns pedaços.
— Fora o que você já disse normalmente? — Ela riu. — Não, só cantou pra mim. Eu deveria ter filmado.
— Eu fiz o quê?
— Cantou pra mim. — Ela se aproximou, rindo e parou na minha frente com as mãos na cintura. — Foi ridículo.
— Ah é? — falei. Então a agarrei e puxei para a cama, ficando em cima dela. Ela ria, mas colocou as mãos no rosto, como sempre.
— Allan, você está fedendo! — ela gritou, entre o riso.
Eu segurei suas mãos e as afastei do rosto dela, a fazendo olhar pra mim. Ela sorriu e eu aproximei meu rosto do dela.
De repente, meu sorriso sumiu e eu me afastei.
Me levantei e fui ao banheiro, nem sei exatamente o porquê.


Capítulo Dezesseis

Hazel

Fiquei ali deitada com cara de idiota por alguns segundos depois que Allan entrou no banheiro. Será que ele ainda estava chateado pelo que eu falei na noite anterior? Foi muito estranho.
— Allan, você está bem? Precisa de alguma coisa? — perguntei, batendo na porta do banheiro.
— Não, eu... Eu só preciso de um banho — disse, mas eu conhecia a voz dele quando estava mentindo.
Decidi ligar para o Bobby, ver se ele descobriu alguma coisa sobre a coisa que estávamos caçando.
— Alô?
— Bobby! É a Hazel!
— Ah, oi, Hazel! — ele disse. Pela voz, ele parecia mais cansado que o normal.
— Descobriu alguma coisa sobre a Dama do Inferno? — perguntei.
— Descobri, vou pegar o livro, só um minuto. Estive ajudando os Winchester com uns problemas e minha casa está ainda mais bagunçada do que o normal. Quase não tenho dormido.
O nome "Winchester" me causou um arrepio.
— Ah, é? E no que vocês estão trabalhando?
— Problemas com anjos e o apocalipse, algo assim.
— Anjos? Apocalipse? — perguntei, colocando as mãos na cintura. — Anda deixando a gente de fora da festa, senhor Singer?
— É uma longa história — ele bufou. — Coisa deles com o Castiel.
— Castiel? — Aquele nome... — Ele é um anjo?
— Sim.
— É um nome apropriado — falei, tentando me lembrar de onde conhecia aquele nome.
— Acho que sim — disse Bobby, bufando. — Ele fica dizendo que o Dean vai impedir alguma coisa, a gente ainda não sabe o que quer dizer… tem um demônio chamado Lilith, ela está rompendo os selos que prendem Lúcifer na jaula.
— Se pudermos ajudar, Bobby… — falei, sentindo o estômago revirar.
— Bom, eu acredito que vocês esbarraram em um dos selos, na verdade — disse.
— A Dama do Inferno?
— Aqui está. “A Dama correu pela terra carregando as oito mil almas levadas no sangue da vingança e, assim, quebraram o próximo selo” — Bobby lia no telefone. — Ela é uma menina que realiza vinganças para as pessoas. Ela aparece em todos os lugares em que a invocam, dá a boneca de palha com um cordão vermelho e, se a pessoa o puxar, a Dama realiza a vingança. É bem simples.
— E como eu faço pra matá-la?
— Não há como matá-la. Apenas quando ela alcançar as 8 mil almas que ela precisa para quebrar o selo ela vai parar de matar.
— Ótimo, então só temos que esperar ela matar mais umas 7997 pessoas e tudo vai se resolver.
— Bosta.
— Você tem certeza absoluta disso?
— Claro que tenho! — ele quase gritou ao telefone.
— Tá legal, Bobby, desculpa — falei, rindo. — Obrigada pela ajuda! Se cuida.
— Vocês também. As coisas estão ficando perigosas pra pessoas como nós — disse. Então desligou o telefone.
— Allan! — chamei.


Capítulo Dezessete

Allan

Saí do banheiro devagar. Havia tomado um banho rápido e escovado os dentes pra tirar o gosto horrível da boca. Olhei para Hazel, sentada em frente ao notebook, encarando a tela desligada.
— O que foi? — perguntei, enquanto me vestia.
— Bobby disse que não há como matar essa menina — ela disse, séria. — E que isso tudo não passa de um ritual pra quebrar um dos selos que vai tirar Lúcifer da jaula.
Eu a encarei por uns segundos, tentando absorver a informação.
— Isso não existe — falei.
— Eu também achava que não, mas parece que é nisso que Bobby está trabalhando com os Winchesters. Anjos, apocalipse… — Ela deu de ombros, mas parecia pálida.
— Quer dizer que vamos ter que deixá-la matar até "atingir sua meta"? — Fiz aspas com o dedo, indignado.
— E se nós invocarmos ela? — ela perguntou. — Podíamos chamá-la e quando ela vier...
— O que a gente faz? — interrompi. — Divide um McLanche Feliz?
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Tem razão, é uma ideia burra — ela disse. Então se levantou da cadeira e se jogou na cama, suspirando alto. — O que a gente faz?
— Sei lá — falei, encarando o nada. — Podíamos ir embora e esquecer que ela existe. Vamos pra Las Vegas aproveitar a vida, já que o mundo vai acabar.
Hazel riu. Então o celular dela começou a tocar. Ela se esticou pra atender, enquanto eu ia até o frigobar.
— Alô? — disse Hazel. Após alguns segundos, ela arregalou os olhos, assustada. — Onde você está? Tudo bem, já estou indo.
Hazel desligou o celular e levantou correndo.
— O que houve?
— Lembra da Mary, a garota da escola? — Fiz que sim com a cabeça. — Ela disse que estava sendo seguida por uma garota e agora tem alguém na casa dela. Mesmo que não seja nada, eu preciso ajudá-la!
Pegamos as armas e corremos até o carro, com Hazel dirigindo até a casa da menina. Mas tudo parecia quieto.
— Mary! — Hazel chamou, batendo na porta. Como não houve resposta ela bateu de novo, e de novo, cada vez mais forte. — Mary!
Então ouvimos um estrondo, como algo caindo. Hazel tirou a arma do bolso e atirou na fechadura, abrindo a porta. Entramos e subimos as escadas, procurando pela garota. Eu fui para um lado e Hazel para o outro. Ouvi um gemido baixo vindo de um quarto no fim do corredor. Segui o som e vi uma garota loura caída no chão, olhando para a parede com os olhos arregalados.
— Hazel! — chamei. — Ela apareceu, correndo.
— Mary! — Hazel se abaixou ao lado da garota e olhou para onde ela apontava, em pânico. — O que você está vendo?
Então um vulto de vermelho surgiu. Era ela. Uma garota japonesa, baixa, de cabelos lisos e muito negros, usando um kimono vermelho e cheio de flores, olhava fixamente para Mary e mantinha uma expressão séria, ignorando totalmente que eu e Hazel estávamos ali. A Dama do Inferno abriu a boca e começou a falar, com uma voz meiga e sonolenta.
Pobre sombra perdida na escuridão, suas ações trazem dor e sofrimento para os outros. Sua alma maculada afoga-se na culpa.
— Por... F... vor...! — a garota tentou dizer.
Como deseja ver a morte?
Então Mary soltou um grito e começou a se contorcer diante de Hazel, que assistiu em choque.
— Para! — Hazel gritou, tentando segurar Mary.
Fui até ela e a segurei.
— Hazel, você não pode fazer nada! — falei.
— Ela vai morrer! — Hazel gritou, com lágrimas se formando em seus olhos. — Para! Ela não fez mal a ninguém.
A Dama apenas encarou a cena, inexpressiva. De repente, surgiram arranhões profundos nas pernas e nos braços de Mary, como se algum animal a estivesse atacando. Ela mal conseguia gritar. Enquanto Hazel tentava, sem sucesso, fazer a Dama do Inferno parar, eu, sem querer, olhei em direção à janela e vi Tiffany parada perto do nosso carro, esperando pra ver Mary morrer. Demorei pra decidir se ela estava sorrindo ou chorando, mas eu notei que ela segurava um boneco de palha com força.
Saí do quarto e ignorei quando Hazel gritou meu nome. Corri até Tiffany, tirando a arma do bolso. Ela me olhou, assustada, e eu apontei a arma pra ela. Rezei pra que ninguém estivesse me vendo ameaçar uma garota de dezesseis anos.
— Me dá o boneco — falei.
Tiffany jogou o boneco no chão, chorando.
— Ela merece! Ela merece!
Sem dar a menor atenção a ela, eu tirei o isqueiro do bolso, me abaixei e queimei o boneco de palha, rezando para dar certo.


Capítulo Dezoito

Hazel

Mary estava se contorcendo enquanto os cortes aumentavam e derramavam muito sangue em volta dela. Eu não sabia o que fazer e tentei não me desesperar.
Mas, de repente, ela parou. Estava desacordada, mas ainda respirava, mesmo que devagar. Olhei para a menina flutuando diante de nós e ela estava com uma expressão assustada. Então, a Dama do Inferno sumiu.
— Hazel! — Ouvi a voz de Allan do lado de fora da casa e me levantei para olhar pela janela.
Ele estava parado diante de algo pequeno que pegava fogo. Tiffany estava ao lado dele, chorando. Mas havia alguém ali. A Dama do Inferno surgiu atrás de Tiffany, que nem percebeu a presença dela.
— Allan! — gritei. Ele me olhou confuso, então se assustou com um grito de Tiffany, que caiu no chão e começou a se contorcer exatamente como Mary.
Corri até eles, deixando Mary no quarto. Assim que cheguei à porta, percebi que era tarde demais. Allan estava parado, com os dedos no pescoço do corpo imóvel de Tiffany cheio de arranhões profundos. Ele me olhou, suspirou e veio até mim. Eu o abracei aliviada.
— Ligue para a emergência, rápido — falei. Allan obedeceu enquanto subimos até o quarto de Mary para tentar controlar o sangramento antes que fosse tarde.
Usei uma camiseta que estava em cima da cama e consegui estancar alguns ferimentos da perna e do braço. Então Allan entrou no quarto, com o celular na mão. Ele tinha um sorriso aliviado no rosto.
— Temos que sair daqui antes que eles cheguem e vejam... — Antes que ele terminasse a frase, eu senti uma dor forte no peito e caí do chão.
— Hazel, o que foi?
Não conseguia falar. Vi Allan mexer a boca, mas não escutei uma palavra do que ele dizia. Então minha visão ficou embaçada.
E tudo ficou escuro.


Capítulo Dezenove

Allan

Hazel estava tendo uma convulsão bem na minha frente. Calma, Hazel, os paramédicos já devem estar chegando!
A Dama do Inferno estava parada na minha frente e parecia satisfeita.
— O que você está fazendo? — comecei a gritar. — Ela não é parte da sua vingança!
— A última — ela disse, num sussurro.
— Como é que é?
— O selo. Só falta uma alma — ela disse, sem tirar os olhos vermelhos de Hazel.
Então eu lembrei de todas as pesquisas que fizemos durante aquela semana, mais o que Bobby havia dito e entendi o que ela queria dizer.
— 8 mil... E aí acaba? Você nunca mais vai matar? Só precisa de mais uma alma?
Ela finalmente me olhou e hesitou antes de balançar a cabeça, concordando.
— Então, eu vou com você. Deixa a Hazel.


Capítulo Vinte

Allan

Qual foi o melhor dia da sua vida?
Tá, eu sei, é difícil pra caralho pra maioria das pessoas achar uma resposta pra essa pergunta. Muitos não sabem, outros tem vários e outros ainda não chegaram lá. Eu sou um dos poucos que tem uma resposta na ponta da língua pra essa pergunta.
O melhor dia da minha vida.
Dia 18 de Janeiro de 2000.
Era um dia quente e estávamos em Fresno (CA), ajudando o meu pai numa caçada a um vampiro. Eu havia passado a noite toda planejando algo para o dia seguinte. Acordei às três horas da manhã sem que meu pai percebesse e fui ao quarto ao lado, onde Hazel estava dormindo.
Bati na porta e, após um tempo esperando, ela finalmente atendeu.
— Allan... — ela disse, numa voz sonolenta e irritada. — São três da manhã, o que você...
— Feliz aniversário, Hazy — falei baixo, pra que meu pai não acordasse.
— Não podia esperar até umas dez pra me dizer isso?
— Se troque, rápido, e venha comigo — falei. — Não faça barulho!
Apesar do horário e do mau humor, ela obedeceu. Saiu do quarto usando uma camisa xadrez azul, uma calça jeans surrada, um all star e tinha os cabelos ruivos presos numa trança. Eu lembro de cada detalhe.
Ela manteve a cara de sono e raiva por um bom tempo. Entramos no carro e ela me encarou, séria.
— O que está fazendo, Allan?
— Estou sequestrando você.
— Tudo bem, senhor sequestrador, me acorde quando chegarmos ao nosso destino — ela disse. Então encostou a cabeça na janela e capotou. Acordou três horas depois, na mesma posição.
— Bom dia! — falei.
Ela olhou em volta e percebeu que estávamos na estrada.
— Meu Deus, Allan! — ela gritou. — Eu achei que fosse um sonho! O que você pensa que está fazendo?
— Relaxa, Hazy! — falei. — Você está completando dezoito anos hoje! Acho que merece um dia legal, como uma adolescente normal e com o cara que você mais ama no mundo!
— Jura? Cadê ele? — ela perguntou, rindo.
Dei um empurrãozinho no ombro dela e coloquei o braço para trás pra pegar o café da manhã que estava no banco traseiro. Comemos juntos e ela me ajudou com o meu, já que eu estava dirigindo. Depois de um tempo, ela finalmente resolveu perguntar pra onde iríamos.
— Bom, que lugar fica a seis horas de Fresno e um cara de 21 pode levar sua aniversariante de 18 para um dia de bagunça, poker, festas e muito álcool? — perguntei, a encarando com um sorriso safado.
— Ai, meu Deus. — Ela arregalou os olhos.
— Quero ouvir você dizer. — Dei risada.
— Nós vamos pra Las Vegas?
— Isso aí, baby! — gritei. Eu estava esperando ela dizer isso. Liguei o rádio com a fita do Elvis cantando "Viva Las Vegas!".
Hazel estava radiante. Sorria o tempo todo e cantava com o Elvis no rádio. Deixei os celulares no hotel e tentei não pensar na raiva que meu pai sentiria quando acordasse e percebesse que sumimos. Chegamos a Vegas mais ou menos umas dez horas. Nós almoçamos e fomos ao cassino mais próximo, com identidades falsas. Meu pai nos ensinou poker aos 8 anos, então nós sempre fomos muito bons! Ganhamos mais de 500 dólares naquele dia e gastamos tudo com comida, muuuuita bebida e baladas. Fomos a três baladas diferentes, tiramos fotos com drag queens, covers, fomos a hotéis com piscina e Hazel desfilou no meio de outras mulheres de biquíni. Quase morri, aliás. Eu cantei no karaokê no meio de duas strippers e arrumamos briga num bar. Fizemos tudo isso naquele dia. Só paramos à meia noite em ponto.
Me lembro que estávamos sentados em frente a uma capela. O carro estava estacionado por perto e nós apenas observávamos os casais de bêbados que entravam e saíam dali.
— Foi o melhor aniversário que eu já tive, Allan — Hazel disse, meio sonolenta.
— Eu sei que foi — falei. — Vamos entrar ali na capela e nos casar?
Eu estava brincando.
— Não vou me casar com você. — Ela riu.
— Quem sabe um dia — debochei.
— Nem dei meu primeiro beijo e você já quer que eu me case — ela falou pra si mesma, rindo com timidez.
— O quê?
— O quê?
— Você nunca beijou ninguém? — perguntei, indignado. — Dezoito anos?
— Ah, a gente tá sempre caçando... — Ela começou a ficar vermelha. — Mas eu não me envergonho disso.
Fiquei em silêncio encarando-a por alguns segundos.
— Bom, você está sob as estrelas de Las Vegas — falei. — É seu aniversário e você acabou de encher a cara. Acho que não vai ter momento melhor pra isso.
— Eu não vou beijar você — ela falou, com vergonha.
— Por que não? Assim você garante que seu primeiro beijo vai ser com alguém legal, sexy e que gosta de você. Sem contar que você é apaixonada por mim.
Ela riu alto. Sempre amei essa risada.
— Não sou apaixonada por você. E eu não acho que sou boa nisso.
Eu ignorei o comentário dela e me aproximei, ficando com o rosto a centímetros do dela. Ela me olhou e ficou vermelha. Então eu segurei o rosto dela e a beijei, devagar. Ela foi retribuindo aos poucos e parecia estar achando tudo aquilo muito esquisito, mas foi conseguindo me acompanhar. Diferente do que ela achava, aquilo não foi ruim. Pelo contrário, foi incrível e ela nem sabia.
De repente, ela cortou o beijo, com vergonha. Abri os olhos e notei que ela tinha saído do vermelho para o roxo e mantinha os olhos fechados.
— Eu disse que não era boa nisso.
— Então eu vou te beijar até você ficar boa — falei, voltando a beijá-la, agora com mais vontade. Ela retribuiu de novo e ficamos ali a noite toda, revezando entre conversas e mais alguns beijos.
Eu vou te poupar da parte em que voltamos para o hotel e meu pai fez um escândalo, ameaçando atirar em mim e em Hazel porque, no fundo, você já sabe que isso aconteceu.
Mas não importa. Aquele dia foi, de longe, o melhor de todos. Acredito que, se existia um Paraíso, o meu era voltar e viver aquele dia novamente todos os dias. Nunca seria o suficiente.
E agora você sabe qual foi o melhor dia da vida de Allan Carter. O melhor dia da minha vida.
Quanto açúcar, meu Deus... Que merda. Quando foi que eu virei um vampiro de romance adolescente? Ainda bem que eu estou morrendo.


Capítulo Vinte e Um

Hazel

Abri meus olhos e puxei o ar com toda a força. Meu peito doía e eu não conseguia me lembrar do que havia acontecido. Olhei para os lados, procurando Allan.
Então meus olhos pararam num corpo caído perto da porta do quarto de Mary.
Não.
Me aproximei do corpo e vi um buraco pouco abaixo do peito.
Não.
Uma faca dourada estava na mão dele.
Não.
Allan ainda respirava e sorria pra mim.
— A... — Não consegui falar uma palavra sequer. Senti a dor no meu peito aumentar como se estivessem arrancando o meu coração. — Não... Você...
— Tudo bem, Hazy... — ele disse, com a voz fraca. — Ela só... precisa de mais uma e aí... ela... para...
— Allan! — consegui gritar. — Não faz isso! Fica comigo!
Peguei o celular e disquei o 911.
— Ela cumpriu... você está... bem... — ele disse. — Ela vai... parar agora...
— 911, qual é sua emergência?
— Por favor! Ele vai morrer! Manda alguém, rápido! — As palavras saíam em soluços e eu chorava desesperada.
— Tudo... bem... Haz... — Allan segurou a minha mão. — Eu posso... morrer por...
— Qual a sua localização, senhora?
— Allan, não... — O choro ficava cada vez mais intenso.
Não vai, Allan. Não vai.
Fica aqui. Comigo.
Não me deixe aqui sozinha.
Ele deu um sorriso de canto e deu um suspiro. Então seu olhar ficou vazio.
— Sua localização, por favor, senhora.
Deixei o telefone cair e me joguei em cima do corpo imóvel de Allan.
— ALLAN! SEU IDIOTA! VOLTA! VOCÊ NÃO VAI MORRER, ALLAN! NÃO VAI! EU TE PROÍBO! Allan...
Minha voz foi perdendo a força. Assim como tudo dentro de mim.
— Eu não posso... sozinha, não... Allan... Não me deixe aqui... Por favor... Volta, Allan... Eu...
Então eu desabei. Eu nunca havia chorado assim.
Já levei tiro. Facada. Soco na cara.
Mas isso dói mais. Muito mais.
É isso o inferno?
Não imagino nada pior.
Allan.
Volta.
Por favor.
Por favor...


Epílogo

Hazel sumiu. Não atende mais minhas ligações e eu estou preocupado que ela tenha feito alguma idiotice.
Allan... não acredito que esteja morto. Aquele menino me chamando de tio Bobby. Cresceu como um herói. Mas de que vale um herói morto? Todo ano esse trabalho tira um pedaço de mim... minha família.
Só espero que Hazel esteja bem. Entrei em contato com outros caçadores e todos vão ficar atentos e me manter informado.
— Posso tentar encontrá-la para você — disse Cass. — Só pra ver se ela está bem. Você se sentirá melhor?
Pode mesmo? Seria bom... Ela já perdeu os pais, James e agora o Allan... Ela é muito forte. Mas não sei se é o bastante pra isso.
O nome dela é Hazel Green.
— Hazel Green? — ele perguntou, ficando agitado. — Ela ainda está viva?


FIM



Entre Monstros - Livro Três

Prólogo - Hazel

— Acorda, Hazy! — Ouvi a voz de Allan me chamando. — Vai ficar na cama o dia todo?
Abri os olhos e o vi sorrir pra mim. Ele estava apoiado nos cotovelos, deitado na cama, ao meu lado. Não estava pálido e com uma expressão vazia, como da última vez que o vi. Pelo contrário. Seus olhos brilhavam e seu sorriso parecia mais bonito do que nunca.
— Você tem que levantar! — ele disse, rindo.
— Estou com saudades — Falei. Seu sorriso sumiu e ele deitou ao meu lado, me abraçando com força. Senti seus dedos acariciando meus cabelos e quase consegui sorrir.
— Eu sei — falou, suspirando. — E eu morri sem te comer. Não sabe o quanto isso dói...
Dei um tapa em sua cabeça e ele riu. Droga, como sentia falta daquela risada.
— Cafajeste — falei.
— Vadia.
Então ele começou a cantar uma música pra mim. Eu me encolhi no abraço, sentindo um aperto no peito. Essa era a única música que ele sabia cantar inteira... "I don't wanna miss a thing" do Aerosmith. Uma das minhas favoritas.
Ele não era muito afinado, mas, naquele momento, isso era o que menos importava. Eu fechei os olhos pra escutar.

I could stay awake just to hear you breathing
Watch you smile while you are sleeping
While you're far away and dreaming
I could spend my life in this sweet surrender
I could stay lost in this moment forever
Well, every moment spent with you Is a moment I treasure
Don't wanna close my eyes
I don't wanna fall asleep 'Cause I'd miss you, babe
And I don't wanna miss a thing
'Cause even when I dream of you
The sweetest dream will never do I'd still miss you, babe
And I don't wanna miss a thing...


De repente, sua voz foi se afastando. Devagar, até parar. Abri os olhos e ele se foi. Não tinha ninguém ali comigo. Sentei na cama e coloquei uma das mãos no rosto, suspirando. Notei que devia ter chorado durante a noite, porque meu rosto estava molhado e parecia um pouco inchado. A luz da tela do meu celular piscava e eu soltei um suspiro alto enquanto me esticava pra atender.
— Alô?
— Anna! — disse uma voz aguda e preocupada. Anna era meu novo nome. — Perdeu a hora?
— Me desculpe, Clair... — falei. — Não estou me sentindo muito bem hoje e acabei dormindo demais...
— Quer que eu peça para alguém cobrir seu turno? — Ela soltou uma risadinha. — Aposto que o Michael não vai negar.
— Não, tudo bem... — falei, com um gemido. — Já estou levantando.
Desliguei o telefone e me levantei da cama devagar.

Hora de trabalhar.


Nota da autora: E voltamos em breve com Entre Monstros III!! Estou muito feliz de trazer meus bebês — de novo — para o FFOBS! Espero que vocês amem minha dupla de caçadores! Não esqueçam de deixar aquele comentário amorzinho e de me seguir no instagram pra acompanhar as novidades e spin-offs: @jack_ally_autora!





Outras Fanfics:
Entre Monstros - Livro Um.


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