Última atualização: 28/02/2024

Prólogo


Bianca Rossi



Quando eu era criança, meu pai costumava me contar histórias fascinantes sobre a grandiosidade de ter irmãos. Ele dizia que ser parte de uma família da máfia era uma benção, um símbolo de lealdade sagrado que transcendia qualquer coisa. Por um tempo, acreditei nisso com fervor infantil. Contudo, à medida que cresci, percebi que ter irmãos Rossi era como dançar na borda de um vulcão: emocionante, mas sempre à beira da destruição.
Caminhei em passos furiosos em direção ao quarto de , e seus soldados, sabiamente, não ousaram me parar. Com apenas um olhar meu, afastaram-se, permitindo que eu seguisse meu caminho sem obstáculos. Minha aura carregava uma mistura de indignação e frustração. A ira estava exposta em meu rosto e eu sabia que qualquer um que me olhasse, saberia pelo estampar de minhas feições que hoje não era um bom dia.
Meu irmão mais velho, Metteo, era brilhante o suficiente para liderar a máfia, mas sua inteligência muitas vezes sucumbia a imprudência, especialmente quando se tratava de mulheres. O maledetto havia se envolvido romanticamente com uma aliada, quase desencadeando uma guerra que poderia arruinar anos de uma estratégia meticulosamente planejada por mim.
Abri a porta do quarto de com força, o rangido das dobradiças ecoaram como uma melodia e o som da porta de madeira contra a parede soou como músicas aos meus ouvidos. Ao adentrar o quarto do meu irmão, fui recebida pela luxuosidade que normalmente eu admirava e lá estava ele, deitado na cama, com uma mulher qualquer ao seu lado. O sorriso convencido dele e a expressão indiferente dela combinavam de uma maneira que fazia o meu sangue inteiro ferver. Ele estava ali, deitado como um rei em seus aposentos, logo depois de quase ter causado uma guerra! Dío mio!
— Bianca, sorellina, que prazer inesperado. — A ironia na voz de era evidente.
— Prazer inexistente, . — Minha resposta foi pontuada pela amargura que borbulhava dentro de mim. A cama que ele compartilhava com qualquer mulher, as alianças perigosas que ele formava sem consultar a mim, a consigliere a família, tudo isso era um lembrete constante de sua imprudência.
A mulher, compreendendo que o seu papel naquela peça já havia se encerrado, vestiu-se apressadamente, lançando-me um olhar amedrontado antes de deixar o quarto. , por outro lado, permaneceu deitado, observando-me com uma serenidade que só aumentava a minha irritação.
— Pelo menos ela sabe quando a festa acabou.
— Alguma vez você já considerou bater antes de entrar, Bianca? — perguntou, seus olhos cintilavam indiferença.
— Você, , é um idiota! Dormir com Agnessa? Você pensa com o quê, exatamente? Certamente não é com a cabeça de cima.
suspirou, provavelmente entendendo que eu não deixaria o assunto morrer facilmente.
— Foi apenas uma decisão estratégica do momento. Agnessa e eu agora somos aliados, nada mais.
— Aliados com base em sexo casual? Que grande lealdade você conquista das pessoas que podem te matar. — O tom irônico saia de minha voz de forma natural, eu não podia conter a minha irritação e tampouco o sarcasmo que vinha dela. — Você ignorou a minha estratégia, fugiu do plano e me deixou em uma posição delicada.
— Você está grávida, Bianca. Pode pegar leve por pelo menos uma vez na vida? — Respiro fundo, tentando manter a calma, mas é impossível mantê-la quando se está diante de um Rossi.
— Estou grávida, não cega. Além disso, minha gravidez não invalida a sua estupidez, . Você não pode ser impulsivo, nossa família não pode se dar ao luxo disso! Você é o Don e eu te respeito, mas isso não te dá o direito de agir sem pensar nas consequências. Seus passos afetam todos nós.
— Eu assumi a responsabilidade de liderar esta família quando nosso pai partiu. Não vejo isso como um privilégio, eu sei que é o meu dever. Você não precisa me lembrar disso a cada passo.
— Então, aja como um líder, não como um adolescente impulsivo. Ou será que vou ter que cuidar da família e do negócio enquanto você brinca de comer a inimiga?
A troca de olhares entre nós dois permaneceu intensa, sentou-se na cama, com o lençol sobre seu quadril e levou as mãos até a cabeça, bagunçando mais dos cabelos escuros.
— A aliança com a Bratva é crucial para a segurança da famiglia. — A forma como ele tentava justificar suas ações mantinha minha expressão endurecida. Eu sabia que a aliança era importante, mas Dmitri poderia ter considerado uma ofensa e ter iniciado uma guerra. Todos sabiam a fama dos Mozorov. O líder da Bratva costumava utilizar sua filha não apenas como uma peça em seu tabuleiro de xadrez, mas como um símbolo de poder e controle, claro que uma interrupção de nos levaria ao caos imediato.
Além disso, os russos mantinham o sexo como uma legitimação do casamento e das alianças provenientes dele. Agnessa e não tinham casado, eles tinham fodido. Por pouco, quase foderam com tudo.
Essa união imprudente poderia ter desencadeado uma reação em cadeia de consequências catastróficas. Os russos eram conhecidos por sua feroz lealdade às tradições e à honra, e uma afronta como essa poderia levar a represálias impiedosas.
— Crucial para a segurança da famiglia ou para a sua libido? Não me diga que agora você confunde uma aliança estratégica com uma noite de prazer passageira. — Os olhos de fixam-se aos meus, impaciente, faiscando com uma teimosia característica. — Você não entende o risco que correu? Dimitri é perigoso.
— Eu sei lidar com os russos, Bianca. Não subestime minha capacidade de negociar. — Ele erguei a sobrancelha, em um tom desafiador e eu ri. Gargalhei.
— Negociar? O que você fez não foi uma negociação, foi uma provocação. Os russos consideram o ato carnal como uma confirmação de compromisso, e você e Agnessa trataram isso como uma simples troca de favores. — Meu tom era impiedoso, eu tentava refletir a gravidade da situação. Por mais que parecesse um exagero meu, não era. Dmitri Mozorov não era apenas um líder sádico da máfia russa, ele seria capaz de desencadear uma guerra que mataria milhares de pessoas, ninguém escaparia, nem mesmo o filho que eu carregava.
Quando estava prestes a rebater, a figura sonolenta de Roman, nosso irmão caçula, apareceu na entrada do quarto.
— Vocês dois podem parar de gritar? Alguns de nós estão tentando dormir, sabem? — Roman murmurou, esfregando os olhos para afastar o sono.
Tanto eu quanto meu irmão mais velho direcionamentos os olhares para o mais novo, a incongruência de Roman, com seus cabelos desalinhados e olhos ainda meio fechados trouxe um certo humor à cena.
— Volte para a cama, pupetto. Estamos tendo uma conversa de adultos aqui. — Murmurei, contendo a raiva em minha voz. Roman tinha vinte e quatro anos e, apesar de não ser nenhuma criança, tanto eu quanto havíamos concordando em poupá-lo de situações que poderiam ser evitadas.
Eu e tivemos um amadurecimento precoce, com sacrifícios além do nosso tempo, prometemos que Roman não teria.
— Conversa de adultos ou guerra civil? Porque a gritaria está elevando o meu nível de estresse pré-sono. — Ele bocejou, esfregando a nuca.
Sorellina, vamos continuar esta conversa mais tarde. — pediu, em um suspiro, o que rapidamente me arrancou uma risada amarga.
— Continuar? Eu mal comecei a expressar minha decepção com suas escolhas, .
— Por favor, se o objetivo é acordar toda a casa, continuem então. Estou pensando em criar uma taxa de perturbação noturna. — Roman bocejou novamente, apoiando-se na porta. Ele nos olhava como se estivesse assistindo a um drama familiar de televisão.
Respiro fundo, acalmando um pouco mais dos meus nervos e caminhei até o loiro, ficando na ponta dos pés para dar-lhe um beijo a testa.
Dio mio, dê mais juízo a este à aqui do que deu ao mais velho. — Roman esboçou um sorriso sonolento, devolvendo-me o beijo na testa.
— Acho que ele só pode fazer milagre com um Rossi por vez.
cruzou os braços, levemente enciumado, enquanto lançava um olhar significativo para Roman.
— Se tem alguém que não tem juízo aqui, Bianca, esse alguém é certamente Roman.
Roman soltou uma risada, aproveitando a provocação.
— Quem diria que o grande Don Rossi tem inveja de mim apenas porque sei me divertir sem gerar uma crise internacional. Você deveria tentar, Fratello.
O mais velho suspirou, olhando Roman com impaciência.
— Cala a boca, Ragazzo. — Resmungou, antes de voltar sua atenção para mim. — Bianca, eu sei o que estou fazendo, confie em mim. Às vezes é preciso agir por impulso, isso se chama intuição.
— Impulso? , estamos na máfia, não em um romance de verão. — Minhas palavras saíram com uma intensidade que refletia a tempestade de emoções dentro de mim.
O olhar desafiador dele encontrou o meu, e por um momento, ficamos ali, em um impasse silencioso. Eu sabia que não podia mudar meu irmão teimoso, mas precisava fazê-lo entender o peso de suas escolhas. Era a minha função, no entanto, sabendo que não adiantaria continuar neste assunto agora, me aproximo dele e o abraço assim que ele põe suas roupas. Ele acaricia minha barriga e beijo-lhe o rosto enquanto ele está sentando, já que em pé eu não o alcançaria em seus quase um metro e noventa.
— Seja mais cuidadoso, mio sole. Eu não posso consertar todas as suas burradas. — Deixei a ameaça pairar no ar antes de me virar e sair do quarto, deixando-o com sua teimosia e inconsequência.
Roman, ainda de pé na porta, murmurou consigo mesmo enquanto se afastava:
— Ah, alegria de ter uma família normal...
A porta se fechou, deixando Roman sozinho no corredor. Ele suspirou, coçando a cabeça, antes de se virar e se dirigir de volta ao seu próprio refúgio noturno.
Eu amava meus irmãos, mas amá-los também significava trazê-los à realidade quando era necessário. Cada palavra dura era um lembrete do vínculo forte, mas complicado, que compartilhávamos como famiglia Rossi. Enquanto eu caminhava pelo corredor, as emoções tumultuavam dentro de mim, uma mistura de preocupação, frustração e, apesar de tudo, um amor inabalável que eu sentia por esses dois idiotas.
Eu sabia que, no final das contas, estava cumprindo meu papel como consigliere e irmã. As decisões de podiam ser impulsivas, mas também eram movidas por uma lealdade feroz à família Rossi. Eu só esperava que essa lealdade, misturada com a impulsividade, não nos levasse a um abismo do qual não poderíamos retornar.


Capítulo 1


Rossi



O som ritmado dos meus passos na esteira ecoava na academia privativa. Gotículas de suor escorriam pela minha testa enquanto eu corria, a monotonia do movimento mecânico contrastava com a turbulência de pensamentos que invadiam a minha mente. A voz de minha consegliera ecoava por minha cabeça, suas palavras eram como punhais afiados.
Ela era insuportavelmente estratégica, meticulosa em suas análises, e eu a admirava mesmo quando discordava. Bianca possuía uma mente afiada que navegava pelo tabuleiro da máfia com uma habilidade impressionante. Eu admirava sua astúcia, embora relutasse em admitir isso. A verdade era que, sob a fachada de indiferença, eu reconhecia a veracidade das suas preocupações.
A conversa recente sobre Agnessa ainda estava em minha mente. Ela era uma russa belíssima, com uma reputação que precedia qualquer tentativa de aliança. A verdadeira questão estava na confiabilidade dela e na aceitação do seu pai em relação a uma aliança que não envolvesse um casamento tradicional. Os russos eram intransigentes em suas tradições, casando-se apenas entre os seus. Russos casavam com russos, italianos com italianos. A verdade doía, e eu sabia que, mesmo que houvesse uma faísca de interesse entre Agnessa e eu, a ideia de uma aliança de casamento era uma quimera.
Eu acelerava o passo na esteira, tentando afastar os pensamentos tumultuados que Agnessa provocava. Uma mulher como ela podia ser um trunfo, mas também uma armadilha.
Aos trinta e dois anos, a expectativa para que eu contraísse matrimonio tornava-se uma sombra crescente em meu caminho. As conversas nos círculos da máfia e até mesmo dentro da minha própria famiglia eram um eco constante sobre a necessidade de uma aliança matrimonial. A escolha da futura donna, no entanto, era um dilema que eu levava com muita incerteza.
Agnessa, a russa que ocupava meus pensamentos, era uma opção impossível. Seu destino já estava traçado, vinculado a um casamento marcado por seu pai para os próximos meses. A máfia russa, impiedosa em suas tradições, não permitiria desvios em seus códigos rígidos.
Casar-se não era apenas uma formalidade; era uma estratégia que moldaria o futuro da famiglia. A escolha errada poderia resultar em desavenças, e a máfia era um terreno fértil para desconfianças e traições.
Enquanto o suor misturava-se às sombras que dançavam na academia, uma certeza se solidificava em minha mente: a decisão sobre meu casamento seria minha e de mais ninguém.
Em minutos a porta da academia se abriu, revelando a figura descontraída de Roman, meu irmão mais novo e capo da famiglia. Seus olhos azuis brilhavam com uma mistura de curiosidade e diversão, como se ele pudesse sentir a tensão dos meus pensamentos no ar.
— Ah, olha só quem está tentando quebrar a esteira novamente. — Roman entrou com um sorriso torto e sarcasmo evidente em sua voz. — Você devia ir mais devagar. Eu não quero ter que explicar para Bianca como me tornei Don depois de você acabar morto debaixo desse troço.
Eu suspirei, desacelerando a esteira e balancei a cabeça, ignorando a provocação.
— Eu sei cuidar de mim mesmo, Roman. Não preciso de um guarda-costas na academia.
Ele sorriu, pegando alguns pesos.
— A propósito, Bianca mencionou algo sobre escolher uma donna para você. Alguma candidata em mente, ou está esperando um milagre?
Suspirei, sabendo que a questão do casamento estava sempre pairando sobre mim. — Estou considerando minhas opções. Não é uma decisão que se toma da noite para o dia.
Roman arqueou as sobrancelhas, fingindo surpresa.
Rossi, o Don, indeciso sobre qual boceta irá foder? Este é um dia histórico.
— Cuide dos seus próprios assuntos, Roman. Eu não preciso de conselhos amorosos de um Capo que evita compromissos como o diabo evita água benta.
Ele riu, erguendo as mãos em rendição.
— Tocou num ponto sensível, irmão. Prefiro deixar os corações para os românticos como você. — O sorriso zombeteiro de Roman desapareceu aos poucos. Seus olhos azuis perderam um pouco da jovialidade enquanto ele suspirava. — Inclusive, temos um assunto a lidar... Amanhã faz três anos que o Lorenzo morreu, e você ainda não colocou ninguém no lugar dele dentro da famiglia. Sei que vocês eram amigos, mas não acha que está na hora de mover a página?
Encarei Roman com uma expressão séria. Lorenzo era um assunto delicado, uma ferida que, mesmo após tanto tempo, não havia cicatrizado completamente. Seu papel na famiglia não podia ser simplesmente substituído, não por mim.
— Eu sei que é um ponto sensível, , mas não podemos deixar esse vazio por muito tempo. A famiglia precisa de alguém para ocupar o lugar dele.
Eu mantive meu olhar fixo no horizonte, relutante em mergulhar nas memórias que a menção de Lorenzo trazia à tona. Ele não era apenas um subordinado; Lorenzo era um amigo, um confidente que compartilhava das mesmas convicções e lealdade à família Rossi.
— Não é algo que eu possa simplesmente substituir. Lorenzo não era apenas um membro da famiglia; ele era um Rossi. Eu não vou colocar alguém no lugar dele apenas por preencher o vazio. A lealdade dele não pode ser replicada.
Roman assentiu lentamente, reconhecendo a verdade nas minhas palavras. Lorenzo era irreplaceável, e qualquer tentativa de substituí-lo seria um desrespeito à sua memória.
— Eu entendo, . Mas a famiglia precisa de um braço direito, alguém para assumir as responsabilidades que Lorenzo desempenhava. Não podemos deixar um vácuo de poder por muito mais tempo.
Meus punhos involuntariamente se cerraram.
— Para isso eu tenho Bianca e você, porra.
A resposta saiu mais áspera do que eu pretendia. Bianca, como minha consigliere, já desempenhava um papel crucial nas decisões estratégicas da famiglia. E Roman, como o Capo, tinha sua própria quota de responsabilidades. A sugestão de Roman tocava em um ponto sensível, e eu não estava pronto para admitir que a dor da perda de Lorenzo ainda reverberava em cada decisão que eu tomava.
Roman manteve o olhar firme, sua expressão era um misto de compreensão e determinação.
— Bianca é brilhante, e eu sou um ótimo Capo, mas não podemos cobrir todas as lacunas, . Lorenzo era único, mas a famiglia não pode se dar ao luxo de ter um vácuo de poder por muito tempo.
Eu respirava fundo, controlando a frustração que ameaçava transbordar. A máfia, como sempre, não esperava por lamentos prolongados. O jogo continuava, e eu sabia que Roman estava certo, mesmo que relutasse em aceitar.
— Eu sei, Roman. Darei um jeito nisso quando for o momento certo. Por enquanto, precisamos focar nos negócios e garantir que a famiglia permaneça forte.
Roman assentiu, parecendo satisfeito com minha resposta. Ele compreendia que a dor da perda de um amigo não podia ser apressada ou resolvida por meio de decisões apressadas. Eu não me permitia demonstrar os sentimentos, mas meus irmãos conseguiam percebê-los sem esforço.
— Você é o Don, . O momento certo é quando você decidir que é.
Agradeço a compreensão do meu irmão com um aceno de cabeça antes de caminhar até o frigobar e pegar uma garrafa de água mineral. Eu gostava da sinceridade que meus irmãos tinham, apesar de encherem o saco, às vezes.
— Vai viajar amanhã? — Roman perguntou, com os olhos curiosos.
— Sim, não negligencio as minhas promessas.
— Quer companhia?
— Não, preciso fazer isso sozinho. — Respondi, fechando a porta do frigobar. A solidão da jornada até o cemitério era uma parte do meu compromisso anual.
Roman assentiu mais uma vez, respeitando a decisão. Os laços familiares entre nós eram fortes, e a confiança mútua permitia que cada um de nós enfrentasse os desafios à sua própria maneira.
Antes de me retirar, Roman deixou escapar um sorriso leve.
— Cuide de si mesmo, irmão. E, se precisar de alguma coisa, sabe onde me encontrar.
— Cuide da Bianca e daquela criança, per Dio.
Um aceno de agradecimento foi a minha resposta enquanto saía da academia. A noite avançava, e eu sabia que as próximas horas seriam dedicadas à preparação para a viagem. A máfia não descansava, mas em meio às sombras dos negócios e do poder, sempre haveria espaço para honrar as promessas feitas no silêncio das lápides. Principalmente quando a morte de um amigo tinha passado por minhas mãos. A culpa pesava sobre meus ombros como um fardo inescapável.
A liderança tem seu preço, mas o custo pessoal é algo que nenhuma posição de poder pode amenizar.


Capítulo 2


Rossi



O eco silencioso da mansão Rossi parecia intensificar-se à medida que eu me movia pela escuridão da noite. Era o aniversário de morte de Lorenzo, um compromisso anual que eu mantinha como uma promessa silenciosa a um amigo perdido. A rotina de arrumar a mala antes do amanhecer tornara-se uma tradição, uma jornada pessoal para honrar a memória daquele cuja a vida fora ceifada por minhas mãos.
O chiar dos zíperes cortava o silêncio enquanto eu organizava minhas roupas e pertences necessários para a viagem ao cemitério. O traje formal era a vestimenta de respeito que eu usava para enfrentar as sombras do passado, enquanto carregava o peso das decisões que me trouxeram até aqui.
Ao sair do quarto, o corredor escuro se estendia à minha frente, cada passo ecoando nas paredes ornamentadas. As sombras projetadas pela luz da lua filtravam-se pelas janelas, dando um tom melancólico à mansão que era, em sua essência, um palco de tramas familiares.
Descendo as escadas com passos medidos, me deparei com Bianca. Seus olhos, penetrantes e perspicazes como sempre, encontraram os meus. Ela conhecia a tradição que me levava para longe na escuridão da noite. O silêncio entre nós carregava a compreensão não dita das responsabilidades e dos fardos que carregávamos como líderes da máfia Rossi.
— disse ela, sua voz contendo uma seriedade que só se intensificava na penumbra da noite.
— Bianca — respondi, no mesmo tom.
Ela estudou-me por um momento, como se pudesse decifrar os pensamentos que eu guardava cuidadosamente atrás de uma expressão imperturbável.
Bianca é uma presença constante e complexa em minha vida. Nascemos no seio da escuridão Rossi, fomos criados sob as mesmas sombras que moldaram o destino do nosso pai, no entanto, ela sempre foi mais firme. Ela é a voz que ecoa em minha mente quando a escuridão ameaça consumir-me. Nossa relação é um emaranhado de conflitos, mas principalmente lealdades.
Bianca é a única que ousa desafiar minhas decisões, questionar meus motivos e, de certa forma, manter-me ancorado à humanidade que a máfia muitas vezes tenta corroer. No entanto, isso não significa que nossos caminhos não tenham sido permeados por tensões.
Lembro-me vividamente do momento em que Bianca me revelou sua gravidez. Uma notícia que, mesmo para um líder como eu, reverberou como uma bomba na tranquilidade aparente da mansão Rossi. Eu não queria minha irmã grávida, menos ainda sem que houvesse um casamento. Mesmo que eu matasse qualquer um que a julgasse, a ideia de tê-la como mãe solteira me abalou profundamente. No entanto, Bianca sempre esteve fora de quaisquer padrões.
A notícia quase me levou à loucura. Lembro-me de ter contemplado a ideia de eliminar todos os homens que se aproximaram dela nos últimos meses, uma reação visceral ao instinto protetor que despertava em mim. No entanto, fui impedido por ela mesma. Bianca sorriu e, com uma calma que contrastava com a tempestade em minha mente, me acalmou.

Antes:

Bianca, com sua típica calma que tantas vezes me desconcertava, decidiu que era o momento certo para compartilhar uma notícia e nos reuniu na sala. Um sorriso sutil curvou seus lábios, como se ela estivesse ciente do impacto que suas palavras teriam sobre mim.
Eu estava sentado em uma poltrona, a tensão no ar se intensificando conforme percebia a seriedade em sua expressão. Roman parecia tenso, como se antecipasse uma tempestade que se formava no horizonte.
— Estou grávida — anunciou ela, sem rodeios, e as palavras pairaram no ar como uma bomba prestes a explodir.
Roman desviou o olhar, sua expressão era uma mistura de apreensão, mas não havia surpresa. Eu, por outro lado, senti uma fúria ardente borbulhando dentro de mim.
Grávida.
— Grávida? — Minha voz soou mais áspera do que eu pretendia. O choque inicial deu lugar à irritação. — Bianca, quem é o pai? Quando vai ser o casamento? — A fúria tomou conta de mim quando ela gargalhou, mantendo-se tão calma que irritava.
— Não terá casamento, irmão.
— O filho da puta te abandonou? Quem é o desgraçado, sorellina?
... — Roman iniciou, mas foi interrompido por Bianca.
— Eu escolhi fazer isso sozinha. Eu não fui abandonada, mas quem abandonou. — respondeu ela, e seu sorriso tranquilo desafiou a tempestade que se formava em meu interior.
A fúria dentro de mim crescia, uma onda implacável que ameaçava engolir tudo em seu caminho. Em um impulso, levantei-me da poltrona, determinado a tomar medidas extremas para proteger a honra da famiglia Rossi.
Sem hesitação, dirigi-me ao lugar onde guardávamos as armas. Pegando duas pistolas, frias e letais, que se tornariam minhas aliadas na busca por justiça, pelo menos aos meus olhos naquele momento. Carreguei-as com munição, meu olhar fixo no objetivo de eliminar qualquer homem que tinha ousado se aproximar de Bianca nos últimos quatro meses.
A sala estava impregnada de tensão quando retornei, as armas em minhas mãos indicando a tempestade que rugia dentro de mim. Minha irmã, no entanto, não demonstrou medo. Ao contrário, ela riu, uma risada que cortava o ar e desafiava a ferocidade que eu sentia.
, per Dio, você não pode resolver isso assim. — Sua voz, embora calma, continha uma força inabalável. Minha ameaça de vingança pairava no ar, mas Bianca, com uma serenidade admirável, aproximou-se de mim. Com determinação, ela estendeu a mão para retirar as armas de minha posse, uma tentativa de acalmar o furor que me consumia. — Você acha mesmo que matar alguém resolveria alguma coisa? — indagou ela, olhando diretamente nos meus olhos. — Isso só traria mais problemas para nossa família. Essa não é a solução.
— Não é a solução? — Minha voz era um rugido, a sala parecia encolher com a intensidade da minha ira.
A resistência de Bianca em aceitar a violência como solução começava a penetrar a névoa de raiva que obscurecia meu julgamento. Ela retirou as armas de minhas mãos, depositando-as em um lugar seguro, e em seguida, com gentileza, segurou meus braços.
— Você é meu irmão mais velho, eu entendo a responsabilidade que carrega. Mas não precisa resolver isso dessa maneira. — Seu tom era calmo. — , eu escolhi trilhar esse caminho sozinha, e não quero que você sufoque essa escolha com raiva e impulsividade. Aceite minha decisão sobre minha gravidez, assim como aceita meus planos, e também aceita que sua vida, muitas vezes, fique em minhas mãos. Se confia em mim para entregar-me sua vida, confie em mim sobre minhas decisões a respeito da minha própria.
As palavras dela ecoaram na sala, desafiando a tempestade interna que rugia dentro de mim. Olhei nos olhos de Bianca, buscando compreender o significado mais profundo de suas palavras. Ela não estava apenas afirmando sua independência, mas também clamando por compreensão e apoio.
Após um breve momento de silêncio, minha expressão endurecida começou a ceder. A raiva que me consumia lentamente se transformava em uma aceitação relutante.
— Bianca, eu... — minha voz saiu mais branda, e percebi que a resistência estava se desvanecendo. — Eu confio em você, sorellina. Se confio minha vida em suas mãos, devo também confiar em suas escolhas.


Agora:

— Cuide-se, mi sole. — As palavras dela carregavam uma preocupação genuína, e eu assenti em reconhecimento, antes de continuar meu caminho rumo à noite sombria que me aguardava. O cemitério, com suas lápides silenciosas, esperava para testemunhar mais uma vez a promessa feita na escuridão.
[...]
O céu noturno estendia-se sobre Montefiori, revelando uma tapeçaria de estrelas que pontuavam o firmamento como testemunhas silenciosas da jornada que me levou ao cemitério da pequena cidade toscana. O aroma fúnebre das flores e a quietude do local eram interrompidos apenas pelo sussurro leve do vento entre as árvores, enquanto eu observava o túmulo de Lorenzo de uma distância respeitosa.
— Espero que, de onde quer que esteja, veja que cumpri minha promessa. Estou cuidando dos seus irmãos, . — Murmurei, afastando-me da lápide em seguida.
Contudo, a serenidade da noite foi abruptamente interrompida pelo estampido de um tiro, um clarão de dor que se irradiou de meu ombro. A emboscada atingira seu alvo, e instintivamente, busquei abrigo atrás de uma lápide robusta, ignorando a dor enquanto conseguia, abri o meu paletó, retirando dali duas armas de pequeno porte, mas o suficiente para minha defesa.
O zumbido do disparo ainda reverberava quando me deparei com a escuridão que escondia meu atacante. A lua, indiferente à violência, iluminava os contornos das lápides, mas o agressor permanecia nas sombras. Cada som se intensificava, o farfalhar das folhas, o ranger distante de uma porta, tudo dificultava os movimentos enquanto eu tentava discernir a posição do inimigo.
As armas pesavam em minhas mãos, minha respiração era controlada, e a dor persistente no ombro servia como lembrança de minha vulnerabilidade.
Os segundos se desdobravam como horas, e a decisão de agir era iminente. Com uma mira precisa, atirei na direção do vulto que se movia sorrateiramente. O som do disparo rompeu o silêncio noturno, ecoando entre as lápides, mas meu adversário, mesmo ferido, conseguiu escapar de minha mira.
Com passos cautelosos, afastei-me do campo de batalha improvisado, guiando-me pela intuição até a casa de Lorenzo. A dor persistia, mas a determinação me impelia adiante. Adentrando o refúgio familiar, mergulhei na escuridão.
Ao me aproximar da casa de Lorenzo, a silhueta imponente de dois cane corso emergiu das sombras, delineando suas formas musculosas e o brilho intenso de seus olhos. Os cães, lançaram um coro de latidos estridentes, como um aviso ressoante que ecoou pela quietude da noite.
A princípio, os rosnados indicavam desconfiança, antecedendo o ataque, uma resposta instintiva à presença desconhecida. No entanto, à medida que meus contornos se tornaram mais visíveis na penumbra, os cane corsos, reconhecendo-me, interromperam abruptamente sua manifestação vocal.
A tensão no ar dissipou-se quando os olhares intensos dos cães se suavizaram. Conheciam-me, sabiam que eu não era um intruso indesejado. Seus corpos majestosos, antes tensos e alertas, relaxaram quando, em um gesto de respeito, deitaram-se no chão.
— Bons garotos. — Sussurrei, mantendo o tom de voz baixo para que ninguém me escutasse.
Caminhei pelo interior da casa, guiado pelo instinto e pela memória dos anos compartilhados com Lorenzo. O caminho familiar me levou até o banheiro, onde a luz, ao ser acesa, revelou a extensão do estrago causado pelo ataque noturno.
Ao fitar o espelho, deparei-me com minha própria expressão séria. O ombro ferido pulsava, latejante com a dor aguda. A camisa manchada de sangue denunciava a intensidade do confronto, mas minha atenção se voltou para o espelho, refletindo a resolução nos olhos determinados.
Com cuidado, retirei a camisa, expondo o ferimento que marcava meu ombro. A ferida, agora visível na luz do banheiro, revelou-se profunda, e a bala alojada nela era uma testemunha do que acontecera. Algum filho da puta tinha tentando me matar. Meu semblante impassível escondia a dor física, mas a mente sempre estratégica já trabalhava para decidir os próximos passos.
Respirei fundo, ciente da necessidade de agir com cautela e eficiência. A bala precisava ser removida para que a cura pudesse começar. Com as mãos firmes, iniciei o processo delicado de extrair o projétil, cada movimento executado com a precisão que a situação demandava.
A luz do banheiro destacava a tensão no meu rosto enquanto eu trabalhava, e a água corrente ajudava a limpar a ferida. O toque da água gelada era um contraste bem-vindo à ardência que persistia.
A bala, agora removida, descansava na palma da minha mão, um artefato que seria guardado como lembrança. Após limpar e cuidar do ferimento da melhor forma possível, permaneci sem camisa.
A sensação de fraqueza era evidente à medida que eu permanecia na casa de Lorenzo. O ferimento em meu ombro, embora tratado superficialmente, ainda pulsava com uma intensidade que denunciava a perda de sangue. Consciente de que não seria seguro sair imediatamente, decidi permanecer no refúgio conhecido, pelo menos até ter certeza da ausência de ameaças externas.
Caminhei pelo corredor da casa, guiado pela memória e pela necessidade de encontrar um local para me recompor. Cheguei ao quarto de Lorenzo. Ao adentrar o quarto, meu olhar percorreu os móveis familiares, agora resguardados pela poeira do tempo. Em um gesto instintivo, dirigi-me ao guarda-roupa e busquei entre as peças de vestuário, procurando uma camisa que pudesse substituir a minha manchada de sangue.
— Coloque as malditas mãos para cima ou irei estourar todos os seus miolos. — A voz feminina cortou o silêncio do quarto com uma ordem firme.
A dor pulsante em meu ombro tornava difícil o movimento, mas ergui as mãos na altura do peito, mais devagar do que a ordem exigia. A presença imponente dos cane corsos, agora lado a lado da mulher, adicionava uma camada extra de tensão à situação.
Ao fechar a porta do guarda-roupa para encará-la, a mulher permaneceu como uma sombra, seus olhos iluminados por uma intensidade feroz sondavam cada movimento meu. A expressão de descontentamento se refletia em meu rosto impassível, enquanto o sangue no meu ombro continuava a ser uma lembrança viva da emboscada anterior.
— Traidores filhos da puta. — Murmurei, mirando fixamente os animais, que agora me encaravam quase com desdém, o xingamento, no entanto, era mais para mim mesmo do que para ela ou para os cães.


Capítulo 3




O cheiro familiar da casa de Lorenzo acolheu-me ao chegar. Havia anos desde que ela fora entregue a mim após a morte do meu irmão, e ainda era difícil lidar com a saudade que aqueles cômodos carregavam. No entanto, a luz acesa no banheiro despertou um alerta dentro de mim, incitando-me a agir com cautela.
Silenciosamente, alcancei a arma que mantinha escondida, preparada para qualquer eventualidade. Os passos eram como sombras na penumbra enquanto me aproximava furtivamente do quarto de Lorenzo. Minha mente reconhecia a importância de sempre estar um passo à frente, de antecipar o inesperado.
Ao empurrar a porta entreaberta, a cena revelou-se diante dos meus olhos. Um homem, sem camisa, permanecia próximo ao guarda-roupa, onde uma poça de sangue denunciava a violência que ali ocorreu. A surpresa estampou-se no meu rosto, mas não hesitei.
Mirando a arma na direção do intruso, fiz-me presente.
— Coloque as malditas mãos para cima ou irei estourar todos os seus miolos. — Ordenei com firmeza, meu olhar expressando a determinação necessária para enfrentar o desconhecido naquele momento tenso. O brilho frio da arma refletia a seriedade da situação, enquanto eu aguardava, pronta para reagir conforme as ações dele moldassem o desenrolar daquele encontro inesperado.
— Traidores filhos da puta. — O ouvi murmurar, direcionando o xingamento para os meus cachorros.
— Três passos para trás. Agora.
O homem ferido permaneceu onde estava, mas obedeceu às ordens, dando os três passos para trás que eu exigira com firmeza. Seus movimentos eram lentos, marcados pela dor que o afligia pelo ombro que ainda sangrava.
O silêncio pesado, interrompido apenas pelo som abafado dos meus passos recuando, dominava o ambiente. A arma permanecia firmemente direcionada ao intruso.
— O que está fazendo aqui? — indaguei, a voz mantendo-se firme e inquisitiva. A necessidade de compreender as intenções daquele homem guiava minha determinação em proteger a casa que um dia fora lar do meu irmão.
A resposta, no entanto, foi uma pergunta inesperada.
— Foi você que tentou me matar no cemitério?
Arqueei uma sobrancelha, surpresa. Neguei com a cabeça, mantendo a arma direcionada.
— Não, mas posso conseguir fazer isso agora.
O homem continuava a encarar-me sem expressão, como se a dor que devia estar sentindo não deixasse transparecer em seu rosto.
— Quem é você? — indaguei, mantendo a voz firme, enquanto o encarava com olhos inquisitivos. Ele demorou um instante antes de responder, como se avaliasse a relevância da informação que estava prestes a fornecer.
.
, hein? — murmurei, mantendo a postura ameaçadora, embora uma pontada de curiosidade tenha se infiltrado em minha voz. — Você deve saber que invadir a casa de alguém não costuma ser bem recebido.
— Essa é sua casa? — Ele perguntou, expressando surpresa pela primeira vez.
— Sua, com certeza, não é. Eu posso atirar em você, sabia? Alegar que você é um tarado, louco, assassino e ladrão.
— Não sou ladrão.
— É só isso que você vai negar?
— É só isso que é mentira.
Sua expressão permanecia inalterada, como se as minhas ameaças fossem apenas zombarias irrelevantes. Era desconcertante como ele parecia não se abalar.
— Então, se não é ladrão, por que estava sendo atacado lá fora? Inimigos? Aposto que tem muitos, considerando seu charmoso comportamento — provoquei, mantendo a postura defensiva, ainda com a arma apontada para ele.
O homem que agora eu sabia que se chamava , olhou-me nos olhos, uma faísca de desafio presente em seu olhar.
— Eu não sou alguém que precisa se esconder atrás de ameaças ou armas. — A voz dele era firme, revelando uma confiança que me irritava profundamente.
— Bem, parece que você está precisando de alguma coisa, considerando o estado em que se encontra. — Ele não respondeu.
— Você ao menos sabe usar essa arma?
Sem pensar muito, direcionei-a ao abajur do lado da cama de Lorenzo e disparei, fechando os olhos com o estrondo antes de voltar a atenção para o homem a minha frente.
— Isso responde sua pergunta?
Minha voz carregava um desafio enquanto direcionava a arma em direção ao abajur. O disparo ecoou no quarto, o som reverberando nas paredes enquanto eu reabria os olhos.
A fumaça se espalhou lentamente, acrescentando um elemento visual ao nosso embate silencioso. No entanto, a expressão de permaneceu inabalável, como se aquela demonstração não fosse mais do que um simples gesto insignificante em sua realidade.
O som do disparo ainda ecoava no ar quando , em um movimento rápido e preciso, se aproximou de mim, desarmou-me e prendeu minha mão contra a parede. O contato brusco fez-me soltar um grito surpreso, mas ele manteve a expressão inexpressiva, advertindo-me a ficar quieta.
Cazzo! O que você está pensando? — Minha indignação escapou em um sussurro furioso enquanto tentava me libertar de seu domínio, mas quanto mais eu tentava me soltar, com mais força ele segurava.
aproximou-se, seu rosto a centímetros do meu, sua expressão inabalável. Ele sussurrou ameaçadoramente:
— Fique quieta. Um tiro pode atrair mais problemas do que você pode lidar.
Engoli em seco, meu desafio se transformando em cautela. A sensação do toque frio da arma ainda persistia, enquanto ele mantinha uma postura dominante.
— Quem diabos é você, e por que alguém estaria atirando em você?
Ele permaneceu em silêncio por um momento, como se estivesse ponderando sobre a resposta adequada. Finalmente, com um tom sério, respondeu:
— Não é da sua conta.
Meu olhar encontrou o dele, uma mistura de indignação e curiosidade.
— Parece que é da minha conta agora. Esta é a minha casa, afinal.
soltou um suspiro audível, como se a minha presença fosse um incômodo.
— Você realmente não tem ideia do que está acontecendo, não é? Uma garotinha brincando com armas.
A raiva ferveu dentro de mim, e minha resposta foi impulsionada por um desejo de desafiá-lo.
— Pelo menos eu sei em qual direção atirar.
O olhar penetrante de intensificou-se, um sorriso sutil brincando em seus lábios.
— O que quer dizer com isso?
— Quero dizer que, ao contrário de alguns, eu sei o que estou fazendo. Se eu atirasse em você, não o acertaria no ombro com uma mira de merda.
O sorriso de desapareceu, substituído por uma expressão mais séria. Ele soltou minha mão, afastando-se com a graça de um predador.
— Você está brincando com fogo, garota. Não sabe com quem está lidando.
Revirei os olhos, ignorando a ameaça não dita. podia ser um mistério, podia também estar com a minha arma agora, mas eu não estava disposta a ceder à sua aura intimidante.
— Eu não tenho medo de você. — Desafiei, cruzando os braços.
Ele se aproximou, seu rosto agora a centímetros do meu. O calor da sua respiração misturou-se ao meu desafio.
— Talvez devesse.
O impacto da sua resposta ecoou em meu íntimo, mas eu não estava disposta a admitir qualquer reação a ele. Em vez disso, decidi mudar o tom da conversa.
— Se você não quer compartilhar quem é, pelo menos me diga por que alguém está atirando em você. Eu não gosto de estranhos feridos entrando na minha casa.
franziu o cenho, ponderando sobre a minha proposta. Parecia que ele estava avaliando o quanto poderia confiar em mim.
— Há pessoas que gostariam de me ver morto. Não é algo incomum na minha linha de trabalho.
— Linha de trabalho? Você é um criminoso ou algo do tipo?
Ele soltou uma risada breve, um som áspero que reverberou no quarto.
Embora a situação estivesse longe de ser apropriada para avaliações físicas, não pude evitar notar a presença marcante de . Seu corpo esguio, mas claramente musculoso, parecia esculpido, cada linha delineada com precisão. Os músculos do seu ombro, onde o sangue escorria, denotavam força e resistência.
Seu rosto, com traços firmes e expressivos, era quase hipnotizante. A barba por fazer adicionava uma intensidade que era difícil de ignorar. Os olhos, por trás da máscara de seriedade, possuíam uma profundidade intrigante, como se escondessem segredos indecifráveis.
O cabelo escuro caía desalinhado sobre a testa, dando-lhe um ar ainda mais selvagem. Era difícil determinar se a desordem era intencional ou resultado da situação em que se encontrava.
Sua altura, evidenciada quando estávamos tão próximos, transmitia uma presença imponente. Eu sempre havia apreciado homens altos, mas ultrapassava qualquer padrão que eu tivesse em mente.
A postura dele, mesmo ferido, era digna e confiante. Cada movimento, cada gesto, emitia uma aura de controle e poder. Mesmo diante de um possível perigo, ele mantinha uma calma perturbadora.
Não pude deixar de sentir um formigamento de admiração diante da figura intrigante que se encontrava diante de mim. Era como se a periculosidade que emanava dele apenas intensificasse sua atração, uma combinação complexa de beleza e ameaça que, de alguma forma, despertava minha curiosidade.
Não de uma forma saudável, ele despertava minha curiosidade da maneira impura que levaria qualquer mulher ao inferno.
— Shh. — Sussurrou em um tom baixo, se mantendo perto demais de mim.
No entanto, antes que eu pudesse pressioná-lo com mais perguntas, um ruído vindo do corredor chamou nossa atenção. Os cane corsos começaram a rosnar, alertando-nos de que algo estava prestes a acontecer.
— Não estamos sozinhos aqui. — murmurou, e ambos direcionamos nosso olhar para a porta.
, ainda ao meu lado, pareceu se movimentar com uma agilidade surpreendente, apesar do ferimento no ombro. Seu olhar se intensificou, a seriedade nele ecoando a gravidade da situação. Ele fez um gesto para que eu ficasse quieta, indicando a necessidade de silêncio.
No corredor, as sombras pareciam ganhar vida, dançando ao ritmo de passos cautelosos. Os cane corsos permaneciam alertas, mas a tensão no ar cresceu à medida que a aproximação se tornou mais evidente.
Foi então que percebemos a figura se materializando na penumbra. Um homem, vestido com roupas escuras e uma expressão determinada, avançava em nossa direção. Seus olhos, frios, fixaram-se em nós com uma intensidade que arrepiou minha espinha.
O desconhecido continuava avançando em nossa direção, seu semblante decidido contrastando com a tensão que preenchia o corredor. Foi quando agiu, com uma rapidez inesperada para alguém com um ferimento no ombro. Ele puxou uma arma escondida em sua cintura e disparou contra o intruso que caiu no chão em um baque surdo. Os cane corsos avançaram em cima do homem caído.
Apesar do tiro que o derrubara inicialmente e das frequentes mordidas, o homem ainda estava longe de se dar por vencido. , no instante seguinte, foi surpreendido por outro disparo, desta vez atingindo-o no abdômen. O impacto o fez recuar, e a dor transpareceu momentaneamente em seu rosto.
Instintivamente, ele revidou, atirando novamente contra o agressor, ouço os cachorros gritarem com o disparo, mas percebo que eles não foram machucados. O silêncio abrupto que se seguiu foi a confirmação de que a ameaça havia sido neutralizada. , embora ferido, manteve-se firme, sua postura revelando uma determinação inabalável. O desconhecido jazia imóvel no chão, a luz do corredor revelando os contornos da cena caótica.
Eu, presa entre o choque e a urgência de agir, fui arrastada de volta à realidade quando , com um semblante tenso, segurou seu abdômen ferido. Sua respiração era forçada, e a expressão de dor estava evidente em seus olhos.
— Pressione aqui. — Ele indicou a ferida em seu abdômen, e eu, superando a hesitação, coloquei minhas mãos sobre o local. O sangue escorria entre meus dedos em uma visão perturbadora que evidenciava a gravidade da situação.
— Maldito seja... — rosnou, mais consigo mesmo do que comigo. A dor parecia arder em cada parte de seu corpo, mas ele não permitiria que isso o enfraquecesse. — Precisamos dar um jeito nisso. Preciso de uma maleta de primeiros socorros, você tem? — Balanço a cabeça rapidamente. — Vá buscar. — Ele pede com o tom de voz duro, mas o obedeço.
Corro pelas escadas em direção à cozinha, onde sei que guardamos um kit de primeiros socorros. O coração acelerado ecoa em meus ouvidos, impulsionado pela urgência da situação. Agarro a maleta e retorno ao corredor, encontrando ainda de pé, mas claramente afetado pela dor.
Ao entregar-lhe a maleta, percebo que seus olhos, normalmente impassíveis, agora carregam uma intensidade que revela a batalha que ele trava consigo mesmo. aceita a maleta com um aceno de cabeça, abrindo-a rapidamente para acessar os suprimentos necessários.
Enquanto ele trabalha em sua própria recuperação, me vejo em um estado de inquietação. O homem desconhecido permanece caído, provavelmente morto. Minha mente oscila entre a preocupação com a segurança de e a incerteza sobre como proceder diante de tudo.
O silêncio tenso é quebrado apenas pelos sons suaves dos suprimentos médicos sendo manuseados. Observo agir com uma destreza surpreendente, sua expressão séria e focada a cada movimento, revela uma habilidade que transcende a mera brutalidade de conhecimentos adquiridos por acaso.
Após alguns minutos, fecha a maleta e se afasta do local onde tratou de seus ferimentos. Seus olhos encontram os meus, e o peso da situação se reflete em sua expressão.
exala um suspiro profundo, como se o fardo da decisão pairasse pesadamente sobre seus ombros. Ele parecia mais pálido agora, a palidez de seu rosto revela a perda significativa de sangue.
— Agora, temos que decidir o que fazer com ele.
Minha pergunta escapou antes que eu pudesse ponderar as implicações.
— O que porra você faz?
não responde de imediato, seus olhos fixos em algum ponto distante enquanto considera as opções disponíveis. Seu silêncio é desconcertante, e o peso da situação nos envolve como uma névoa carregada de incerteza. Finalmente, ele quebra o silêncio.
— Você não gostaria de saber.


Capítulo 4


Rossi



— Vá pegar uma bolsa com roupas. Você vai embora comigo. — Minha voz soou firme. Ela respondeu com um riso desdenhoso, como se a ideia de me seguir ou seguir minhas ordens fosse completamente absurda.
— Não vou a lugar nenhum com você. — Sua teimosia era irritante, mas eu não tinha tempo para argumentar.
— Você não tem escolha. — Minha paciência estava se esgotando, e a urgência da situação exigia ação imediata.
Ela me lançou um olhar desafiador, sua expressão impetuosa deixava claro que ela não seria facilmente controlada. Me pergunto se Lorenzo estaria completamente irritado ou orgulhoso pelo que a irmã dele se tornou.
— Eu sempre tenho escolha. — Sua resposta foi carregada de desafio, e eu senti minha irritação aumentar.
Irritado era a resposta.
— Não agora. — Minha voz era áspera, impaciente.
— Oh, é claro. Porque você é o todo poderoso e todos devem obedecer às suas ordens.
— Acabamos de matar uma pessoa, com certeza tem mais deles vindo. Você não quer ficar aqui quando eles chegarem. Arrume suas coisas, eu não vou pedir de novo.
parecia determinada em desafiar cada uma das minhas decisões, como se estivesse em uma missão pessoal para me provocar. Cada palavra que saía de sua boca era como uma agulha perfurando minha paciência já esgotada. Por mais que eu tentasse manter a calma, sua teimosia e sua insistência em desafiar minha autoridade me faziam sentir como se estivesse à beira de explodir a qualquer momento.
Enquanto eu preparava as coisas para nossa partida, simplesmente parecia encontrar maneiras de dificultar tudo. Cada solicitação que eu fazia era recebida com uma resposta sarcástica ou uma objeção infundada. A impaciência crescia dentro de mim, como uma fogueira alimentada pela irritação constante que ela provocava.
— Eu vou levar os cachorros comigo. — Sua determinação era clara em suas palavras.
Neguei veementemente, sem rodeios.
— Nem fodendo os cães vão entrar no meu carro. — Minha resposta foi direta, sem espaço para discussão.
Ela sustentou seu olhar desafiador, firme em sua decisão.
— Sem os cachorros, eu não vou a lugar algum.
— São dois cane corsos adultos. — Ela me olhou como se não visse problema algum no fato de dois cachorros enormes estarem em um carro, chamando atenção da porra da Itália inteira. —Não temos tempo para isso. Os cachorros não vão entrar no carro, ponto final. — Minha voz ressoou com autoridade, embora eu mal conseguisse conter a frustração que se acumulava dentro de mim.
Ela ergueu o queixo em desafio, seus olhos faiscando de teimosia.
— E quem disse que você tem o direito de decidir isso por mim? — A provocação em sua voz só serviu para aumentar minha irritação.
Respirei fundo, tentando manter a calma diante de sua insolência. No entanto, a impaciência começava a se infiltrar em cada fibra do meu ser.
— Porque eu sou o único aqui que sabe como lidar com essa situação. Você pode levar o que quiser, mas os cachorros ficam. — Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, revelando a crescente exasperação que sentia.
— Sem eles, eu não vou a lugar algum. — Repetiu, me fazendo respirar fundo para não perder o pouco controle que me restava.
A obstinação de em relação aos cachorros era impressionante, quase tão forte quanto sua determinação em desafiar minha autoridade. Por mais que eu tentasse argumentar, ela se recusava a abrir mão da ideia de levá-los consigo.
— Está bem. Leve os cachorros. — Minha concessão foi clara, embora inteiramente contraditória com o que eu queria, no entanto, não adiantaria lutar contra ela nesse momento.
pareceu surpresa por um instante, como se não esperasse que eu cedesse tão facilmente. Mas então, um sorriso de triunfo se formou em seus lábios, como se ela tivesse vencido uma batalha.
— Ótimo. Então, vamos logo.
Enquanto organizava suas coisas, não pude deixar de notar seus movimentos graciosos e a forma como a luz do quarto realçava suas curvas femininas. Apesar de toda a sua teimosia e provocação, era inegável que ela era uma mulher excepcionalmente bonita. Dirigi-me até a janela, lançando um rápido olhar pela rua deserta. Não havia sinal de qualquer carro ou movimento suspeito, o que era um bom sinal. Mas não podíamos nos dar ao luxo de baixar a guarda.
Quando me virei para sair do quarto, encontrei já pronta, com a bolsa nas costas e os dois canes ao seu lado.
Os passos firmes de ecoavam atrás de mim enquanto eu liderava o caminho até o carro. Eu estava decidido a não perder mais tempo e me certificar de que estávamos fora de perigo o mais rápido possível. Os dois cane corsos seguiam obedientemente ao lado dela e eu não conseguia não perguntar como ela tinha conseguido controlar dois cachorros tão grandes.
Ao chegar à porta da frente, abri-a rapidamente e verifiquei os arredores antes de sinalizar para seguir em frente. A brisa fria da noite cortava o ar enquanto nos dirigíamos para o carro estacionado na rua. Eu a vi acomodar os cachorros no banco de trás, certificando-se de que estavam confortáveis antes de entrar no banco do motorista.
Enquanto dirigíamos pelas ruas vazias, meu olhar se fixava na estrada escura à nossa frente. Ela permanecia em silêncio ao meu lado, mas eu podia sentir sua presença mesmo se ela estivesse a mil quilômetros de distância.
— Para onde estamos indo? — Sua voz quebrou o silêncio, e eu resisti à vontade de suspirar.
— Temos um lugar seguro onde podemos ficar por enquanto. — Minha resposta foi breve, mas era tudo o que eu estava disposto a compartilhar naquele momento.
— Você conheceu Lorenzo? — A pergunta de rompeu o silêncio, me fazendo olhar para ela confuso. — Quando você entrou, Bob e Kyle não latiram para você. — Ela explicou, indicando os dois cane corsos no banco de trás.
Balancei a cabeça em confirmação, relutante em compartilhar detalhes sobre o passado com ela. A verdade sobre o envolvimento de Lorenzo comigo era algo complexo demais e eu não estava disposto a dificultar ainda mais. Preferia manter as coisas simples e diretas, falar que o irmão dela havia morrido por minha causa, não era a opção mais viável naquele momento.
— Sim, eu e Lorenzo éramos amigos. — Murmurei, mantendo minhas palavras vagas.
— Então, vocês eram muito próximos? — perguntou, quebrando o silêncio com sua curiosidade inquisitiva.
— Sim, éramos. Lorenzo era como um irmão para mim. — Respondi, deixando escapar um suspiro involuntário e só então percebi que eu o considerava como um irmão, mas para ele realmente era um. — Eu sinto muito pela perda do seu irmão. Eu sei o quanto ele significava para você.


Capítulo 5




Quando estacionou o carro diante da casa de campo, afastada na densa floresta, senti uma mistura de curiosidade e apreensão. A luxuosa construção de madeira erguia-se majestosamente diante de nós, envolta pela serenidade da natureza circundante. Era um cenário impressionante, muito diferente do ambiente urbano ao qual eu estava acostumada.
Desembarcamos do carro, e eu peguei os cachorros, seguindo em silêncio enquanto ele se dirigia à entrada da casa. A cada passo, meu olhar vagava pelo ambiente, absorvendo os detalhes da arquitetura imponente e da paisagem deslumbrante ao redor.
Ao adentrarmos a casa, fui surpreendida pela elegância e pelo conforto que ela oferecia. O interior espaçoso e bem iluminado era decorado com bom gosto, proporcionando uma atmosfera acolhedora e convidativa.
voltou-se para mim e, com um gesto, me convidou a entrar. Segui-o pelo corredor, mantendo os cachorros ao meu lado, enquanto observava cada canto da casa com admiração silenciosa. Na verdade, não entendia o motivo de estar tão surpresa, ele tinha uma elegância que emanava dele. Era um pouco óbvio que sua casa seria assim também.
deixou as malas no chão e se virou para mim, seus olhos escuros me estudando com uma intensidade que me fez sentir um arrepio na espinha.
— Espero que você não se importe em compartilhar a cama. — Ele falou, com uma expressão séria que contrastava com a voz suave. Eu não pude deixar de notar o leve tom de provocação em sua voz.
— Não se preocupe, eu não mordo. — Respondi, mantendo uma expressão neutra, mas uma pontada de diversão brilhava em meus olhos.
Ele arqueou uma sobrancelha, como se não esperasse uma resposta tão ousada, mas não deixou transparecer qualquer sinal de surpresa.
— Veremos. — Foi sua única resposta, antes de se voltar para as malas e começar a desfazê-las.
Observando-o, não pude deixar de notar a tensão em seus ombros, mesmo sob a fachada de controle que ele tentava manter. Era evidente que algo o incomodava, e eu me perguntava o que poderia ser.
— Está tudo bem? — Perguntei, minha curiosidade vencendo minha prudência por um momento.
Ele ergueu o olhar para mim, seus olhos escuros refletindo uma mistura de emoções que eu não conseguia decifrar.
— Está tudo sob controle. — Foi sua resposta breve, mas o tom de sua voz não era totalmente convincente.
— Tem alguma coisa errada. — Ele murmurou, olhando pela cortina da janela. — Preciso que você fique aqui enquanto vou verificar os arredores. — Sua voz era firme, mas havia uma nota de preocupação que não passou despercebida por mim.
— Por que não podemos fazer isso juntos? — Questionei, tentando esconder minha própria apreensão.
Ele hesitou por um momento, como se estivesse considerando minha sugestão, mas então balançou a cabeça de forma negativa.
— É mais seguro se um de nós ficar aqui. Além disso, alguém precisa cuidar dos cachorros. — Ele apontou para Bob e Kyle, que estavam deitados no chão, observando-nos com olhos atentos.
Eu queria argumentar mais, mas algo em sua expressão me fez reconsiderar. estava agindo de maneira estranha desde que chegamos, e eu não queria piorar as coisas insistindo em ir com ele.
— Tudo bem. — Concordei.
Com fora da vista, me vi sozinha naquela casa de campo silenciosa, com apenas os cachorros como companhia. Bob e Kyle pareciam inquietos, seus olhares atentos denunciavam uma sensação de alerta no ar.
Decidi explorar um pouco o lugar enquanto aguardava o retorno de . A casa era espaçosa e bem mobiliada, com móveis rústicos de madeira que adicionavam um charme acolhedor ao ambiente. As janelas amplas permitiam a entrada de luz natural, iluminando os cômodos com uma aura reconfortante.
Caminhei pelo corredor, observando os quadros nas paredes e os detalhes cuidadosamente decorados.
Enquanto explorava, me deparei com uma porta entreaberta no final do corredor. Intrigada, empurrei-a suavemente, revelando um quarto espaçoso com uma cama grande no centro. Os lençóis estavam impecavelmente arrumados, e uma sensação de conforto emanava do ambiente.
retornou à casa acompanhado por uma mulher, cuja presença despertou minha curiosidade imediata. A mulher era bonita, com uma barriga saliente indicando uma gravidez avançada. O olhar cansado de refletia uma certa tensão.
— Quem é ela? — indaguei, mantendo um tom de voz cauteloso enquanto me preparava para qualquer revelação surpreendente.
suspirou, como se estivesse se preparando para uma batalha iminente, e então apresentou a mulher ao meu lado.
— Bianca. Minha irmã.
Bianca me olhou com uma expressão indagadora, como se estivesse avaliando-me cuidadosamente. Ela parecia uma força da natureza, e uma sensação de desconforto se instalou em mim na presença dela.
— Eu não posso te deixar sem supervisão por dois dias, ? — Bianca disparou, sua voz carregada de reprovação enquanto lançava um olhar repreensivo para .
— Isso não é o que você está pensando. — tentou se explicar, mas sua irmã não estava disposta a ouvir desculpas.
— Não? Porque parece exatamente o que estou pensando. Você não deveria estar se divertindo com uma mulher no meio da floresta. Este lugar é para escapar de perigo, não para suas transas casuais. — Bianca retorquiu com firmeza, sua postura rígida e autoritária.
Eu me senti ofendida com o tom de sua voz e a insinuação implícita em suas palavras, e não pude conter minha resposta.
— Não estou transando com o seu irmão. De todos os homens do mundo, esse é o último que me proporcionaria alguma diversão. — Minha voz saiu mais afiada do que eu pretendia.
A troca de olhares tensos entre e Bianca indicava que a disputa entre eles era comum.
— Bianca, é irmã de Lorenzo. — finalmente explicou, cansado da situação, enquanto passava a mão pelo rosto com uma expressão de exaustão.
— Entendo. — Sua voz agora carregava um tom menos acusatório, mais neutro. Ela olhou de para mim, como se estivesse avaliando a situação sob uma nova perspectiva. — Desculpe-me, . Não era minha intenção ofendê-la.
Eu assenti em resposta, agradecendo silenciosamente por sua mudança de atitude. A tensão que pairava no ar começava a se dissipar, substituída por uma atmosfera mais leve
Enquanto Bianca se afastava, dirigindo-se para uma parte diferente da casa, se aproximou de mim.
— Não se deixe enganar pela aparência dela. Bianca é astuta e perigosa. — Ele murmurou.
— Passei cinco minutos com ela e confio mais nela do que em você.
Ele me olhou com um misto de surpresa e desdém, claramente não esperando uma resposta tão direta.
— Seu nível de confiança é um tanto questionável considerando que há poucos minutos ela estava a chamando de vagabunda. — Ele retrucou, sua voz carregada de sarcasmo.


Capítulo 6


Rossi



Estávamos no meio de um emaranhado de preocupações e perigos, e a presença de em nossa casa de campo, longe da agitação urbana, não aliviava minha mente nem um pouco. Enquanto ela alimentava os cachorros, eu me afastei um pouco, buscando um momento de privacidade com Bianca.
A distância que nos separava era insuficiente para bloquear o som da voz inquisitiva de Bianca, que mais parecia uma série de acusações veladas.
— Era você o alvo ou ? — Ela perguntou, sua voz carregada de cautela e desconfiança.
A pergunta acertou em cheio um ponto sensível em mim, e eu hesitei por um instante antes de responder.
— Eu. Parece que alguém está tentando me acertar há algum tempo. — Minha confissão soou mais como um suspiro pesado do que qualquer outra coisa.
Bianca analisou minhas palavras com um olhar afiado, sua expressão se tornando mais séria à medida que processava a informação.
— Você poderia ter sido mais claro sobre os perigos envolvidos quando trouxe para cá. — Ela observou, sua voz tingida de reprovação.
Senti um peso adicional sobre meus ombros ao considerar as implicações de minhas ações, mas não podia mudar o que já havia sido feito.
— Não tive tempo para explicar tudo a ela. E não podia deixá-la lá para enfrentar o perigo sozinha. — Minha defesa soou mais fraca do que eu gostaria, mas era a verdade.
Bianca assentiu, aceitando minha explicação, mas era óbvio que ela ainda estava preocupada com a situação.
— Vamos ter que ter cuidado daqui para frente. Não podemos nos dar ao luxo de baixar a guarda. — Ela comentou, sua voz ecoando determinação. — Ela sabe sobre a morte de Lorenzo? — Perguntou, sua voz carregada de preocupação.
A pergunta me pegou de surpresa, e por um momento, hesitei antes de responder.
— Não, eu não contei a ela. Não queria que ela soubesse dos detalhes da nossa vida. — Respondi, mas na verdade não estava protegendo . Eu estava me protegendo da própria culpa que sentia.
Bianca assentiu, compreendendo a necessidade de proteger da realidade de nossa existência na máfia. Era importante mantê-la afastada do perigo e preservar sua inocência tanto quanto possível.
— Talvez seja melhor assim. Ela não precisa carregar o peso de nossos pecados.
Enquanto eu ponderava sobre os próximos passos a tomar, Bianca desviou o olhar por um momento, parecendo mergulhar em seus próprios pensamentos. Eu sabia que ela estava considerando as possíveis ramificações de nossa situação, buscando soluções antes mesmo que os problemas se manifestassem por completo.
— Você tem algum plano em mente? — Perguntei, buscando o conselho e a experiência de Bianca, sabendo que ela poderia ter insights valiosos sobre como lidar com nossa atual crise.
Ela voltou seu olhar para mim, seus olhos brilhavam com determinação.
— Vou revisar nossos contatos, aumentar nossa segurança e manter uma vigilância constante. E, é claro, precisamos descobrir quem está por trás desses ataques e detê-los antes que causem mais danos. — Sua voz transmitia uma mistura de frieza e preocupação.
Assenti, reconhecendo a sabedoria em suas palavras.
— Faremos o que for necessário para proteger nossa família. — Minha voz soou firme, refletindo minha determinação em enfrentar qualquer desafio que se apresentasse.
, não durma com ela. — Bianca pediu em um tom baixo, como se tivesse uma visão do futuro. — Não se envolva com a irmã do Lorenzo. Você ainda tem fantasmas dele demais em sua vida para se ocupar com mais um. Ache uma esposa e se afaste de .
— Eu não pensei em me relacionar com ela.
— Eu te conheço, irmão. Nenhuma mulher atraente é invisível aos seus olhos.
A observação de Bianca trouxe à tona reflexões que eu preferia evitar. Ela conhecia meu histórico melhor do que ninguém, e suas palavras carregavam um peso que não podia ignorar.
— Bianca, você sabe que meus interesses estão além de romances. Não estou procurando me envolver com ou qualquer outra pessoa neste momento — respondi, tentando dissipar qualquer preocupação que ela pudesse ter.
No entanto, a expressão persistente de Bianca deixava claro que ela não estava convencida.
— Eu sei que você diz isso agora, . Mas as circunstâncias podem mudar. E com a irmã de Lorenzo tão perto, é melhor manter suas intenções bem claras desde o início — insistiu ela, sua voz carregada de preocupação e cautela. — Às vezes o seu coração pode ser mais imprudente do que a sua mente. E você já tem o bastante de Lorenzo para lidar com os fantasmas do passado. Não precisa adicionar mais um a essa lista.
— Você sempre foi a voz da razão, Bianca. — Tentei mudar sutilmente o foco da conversa, desviando daquilo que sabia que ela continuaria a pressionar. — Como está o bebê?
Bianca sorriu, seu rosto se iluminando com um brilho materno.
— Ele está bem, forte como um touro. — Ela colocou minha mão sobre sua barriga, permitindo-me sentir os movimentos suaves da criança dentro dela. — Parece que ele está ansioso para vir ao mundo.
O toque suave da barriga de Bianca e a sensação dos chutes delicados do bebê foram um lembrete reconfortante de que, apesar das turbulências em nossas vidas, ainda havia momentos de serenidade e esperança.
— Ele vai ser tão teimoso quanto nós dois — comentei, sorrindo para Bianca.
Ela riu suavemente, concordando.
— Não duvido disso. Mas com você como tio, tenho certeza de que ele também terá um forte senso de proteção e lealdade.
— Está me elogiando, Bianca? — Perguntei com um ar de desdém, levantando uma sobrancelha com curiosidade.
Ela soltou uma risada suave, sacudindo a cabeça enquanto seus olhos brilhavam com divertimento.
— Ah, , não confunda as coisas. Estou elogiando o meu filho, não você. — Sua resposta foi carregada de humor, e eu não pude deixar de sorrir.
— Você será uma mãe incrível, sorellina. — Comentei, deixando transparecer um pouco de ternura em minhas palavras.
Um brilho de incerteza passou pelos olhos dela antes que respondesse.
— Eu espero que sim.
Apesar de nossas diferenças e das tensões que nos cercavam, havia um laço inquebrável entre nós, uma lealdade que superava qualquer obstáculo. No fundo, eu sabia que poderia contar com ela, assim como ela podia contar comigo, em qualquer situação.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





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